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Livro Gestão dos Recursos Hídricos - Editora UFPB 2010

Livro Gestão dos Recursos Hídricos - Editora UFPB 2010

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Juliana Maria Oliveira Silva

Edson Vicente da Silva
Giovanni Seabra
José Manuel Mateo Rodriguez
(organizadores)















Gestão dos Recursos Hídricos e
Planejamento Ambiental
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
2



Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento
Ambiental






Juliana Maria Oliveira Silva
Edson Vicente da Silva
Giovanni Seabra
José Manuel Mateo Rodriguez
(organizadores)






















Editora Universitária da UFPB
João Pessoa – PB
2010






Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
3







Universidade Federal da Paraíba
Reitor
RÔMULO SOARES POLARI
Vice-Reitora
Maria Yara Campos Matos


EDITORA UNIVERSITÁRIA
DIRETOR
José Luiz da Silva
Vice-diretor
José Augusto dos Santos Filho






























Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
4































ISBN 978-85-7745-555-3


Nota: Este livro é resultado do II Workshop Internacional sobre Planejamento e
Desenvolvimento Sustentável em Bacias Hidrográficas realizado pelo Departamento de
Geografia, da Universidade Federal do Ceará; no período de 24 a 29 de agosto de 2009.

As opiniões externadas nesta obra são de responsabilidade exclusiva dos seus autores.










G393 Gestão dos recursos hídricos e planejamento
ambiental / Juliana Maria Oliveira Silva... [et al.]
(Organizadores).- João Pessoa: Editora
Universitária da UFPB, 2010.
xxxp.
ISBN: 978-85-7745-555-3
1. Recursos hídricos – gestão. 2. Recursos
hídricos – plane-jamento ambiental. 3.
Desenvolvimento sustentável. I. Silva, Juliana Maria
Oliveira. II. Silva, Edson Vicente da. III. Seabra,
Giovanni. IV. Rodriguez, José Manuel Mateo.


Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
5

Sumário
Resenha do II Workshop Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável em
Bacias Hidrográficas...........................................................................................................
José Manuel Mateo Rodriguez
Edson Vicente da Silva

11
Experiências de planejamento ambiental en Brasil usando la concepción de la
Geoecologia de los Paisajes..............................................................................................
José Manuel Mateo Rodriguez
Antônio César Leal
Maira Celerio Chaple
Edson Vicente da Silva

14

GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS

28
O rio Longá e os territórios: cocais e carnaubais como forma de uso econômico......
Accyolli Rodrigues Pinto de Sousa
José Luis Lopes Araújo
Roberta Celestino Ferreira
29
Modelagem dinâmica de escoamento superficial: bacia hidrográfica do Pontal –
Pernambuco..........................................................................................................................
Ailton Feitosa
José Alegnoberto Leite Fechine

36
Aplicação da metodologia do DFC na microbacia do Município de Luís Gomes – RN.
Alexsandra Bezerra da Rocha
Paulo César Moura da Silva
Ramiro Gustavo Valera
34
As enchentes na BHRP – bacia hidrográfica do rio do Peixe, os sistemas
atmosféricos e os eventos climáticos intensos................................................................
Aloysio Rodrigues de Sousa
53
Gestão territorial em bacias hidrográficas e sua importância para a sustentabilidade
ambiental...............................................................................................................................
Andréa Bezerra Crispim
Marcos José Nogueira de Souza

61
Poços jorrantes do vale do rio Gurgéia (PI): caracterização de um espaço marcado
pelo desperdício hídrico......................................................................................................
Antônio Joaquim da Silva
Alex Bruno Ferreira Marques do Nascimento
Daniel César Meneses de Carvalho
Reuryssom Chagas de Sousa Morais

68
Estuário do rio Acaraú (CE): aspectos ambientais e condições de uso e ocupação...
Aurilea Bessa Alves
Lidriana de Souza Pinheiro
Morsyleide de Freitas Rosa
76
Contexto hidroclimatológico da bacia do médio Jaguaribe – CE...................................
Cleuton Almeida Costa
Lidriana de Souza Pinheiro
83
A bacia do baixo Poti e as hortas comunitárias da zona norte de Teresina (PI):
sistemas multifuncionais e desenvolvimento local.........................................................
Daniel César Meneses de Carvalho
Alex Bruno Ferreira Marques do Nascimento
Antônio Joaquim da Silva
Charlene de Sousa e Silva
Maria do Socorro Lira Monteiro

92
Balanço hídrico do alto curso do rio Acaraú – CE............................................................
Ernane Cortez Lima
99
Aplicação do geoprocessamento em cenários de inundação na bacia hidrográfica
do rio Anil, São Luís – MA...................................................................................................

106
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
6
Fabíola Geovanna Piga
Tatiana Cristina Santos de Castro
Paula Verônica Campos Jorge Santos
Franceleide Soares Conceição
Avaliação da eficiência do uso da água em sistema de irrigação no Perímetro
Irrigado Baixo Acaraú, Ceará..............................................................................................
Fernando Bezerra Lopes
Nayara Rochelli de Sousa Luna
Francisco Antônio de Oliveira Lobato
Maria Jorgiana Ferreira Dantas
Elinelton de Sousa Mesquita

114
Gestão de bacias hidrográficas e dinâmica hidrológica no nordeste do semi-árido
brasileiro................................................................................................................................
Flávio Rodrigues do Nascimento

122
Caracterização morfométrica da sub-bacia hidrográfica do rio Boa Hora, Urbano
Santos – MA..........................................................................................................................
Franceleide Soares Conceição
Tatiana Cristina Santos de Castro
Fabíola Geovanna Piga
Suzana Araújo Torres
Irlan Castro Reis

128
Discussão sobre modelo tarifário pelo uso da água bruta..............................................
Francisco Wellington Ribeiro
José Carlos de Araújo
133
O rio Apodi e a inundação de 2004 na área central da cidade de Pau dos Ferros –
RN...........................................................................................................................................
Franklin Roberto da Costa
Raquel Franco de Souza Lima

140
Açude Santo Anastácio: um estudo de caso.....................................................................
Helena Becker
Daniele Bras Azevedo
Renata de Oliveira Silva
148
Uso do IQA – CETESB na gestão da barragem Ayres de Souza.....................................
Jean Leite Tavares
Maria Vânisse Borges de Matos
Vicente Lopes de Frota
153
Análise da qualidade da água do riacho Maceió em Varjota – Fortaleza/CE:
implicações na gestão ambiental e formas de uso...........................................................
Judária Augusta Maia
João Capistrano de Abreu Neto
Mariana Monteiro Navarro
160
Análise dos indicadores de sustentabilidade dos perímetros irrigados das bacias
do baixo Acaraú e Curu.......................................................................................................
Kelly Nascimento Leite
Rochelle Sheila Vasconcelos
Luís de França Camboim Neto
Raimundo Nonato Farias Monteiro

167
Diagnóstico das condições ambientais do rio Parnaíba – PI...........................................
Laryssa Sheydder de Oliveira Lopes
Livânia Norberta de Oliveira
175
A importância do gerenciamento dos recursos hídricos no município de São João
da Fronteira – Piauí..............................................................................................................
Livânia Norberta de Oliveira
Laryssa Sheydder de Oliveira Lopes

182
Estudos integrados em micro bacias hidrográficas da região do Jaguaribe: contexto
geoambiental.........................................................................................................................
Maria Araci Mendes
Flávio Rodrigues do Nascimento


187
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
7

A sub-bacia do médio vale do rio Jaguaribe: fatores do potencial ecológico e da
exploração biológica...........................................................................................................
Maria Daniely Freire Guerra
Marcos José Nogueira de Souza
Jacqueline Pires Gonçalves Lustosa

192
Estimativa de escoamento superficial na bacia do rio Granjeiro, Crato – CE................
Maria Jorgiana Ferreira Dantas
Fernando Bezerra Lopes
José Vidal de Figueiredo
Francisco Antônio de Oliveira Lobato
José Carlos de Araújo
201
Degradação ambiental e impactos da salinização dos solos: desertificação nos
perímetros irrigados Araras Norte e Baixo Acaraú, na bacia hidrográfica do rio
Acaraú – CE...........................................................................................................................
Maria Losângela Martins de Sousa
Flávio Rodrigues do Nascimento


209
Aspectos do uso do solo e impactos ambientais na bacia hidrográfica do rio do
Peixe......................................................................................................................................
Paulo Victor Paz de Sousa
Marcelo Henrique de Melo Brandão

217
Avaliação morfométrica de um trecho do médio curso do rio Pacoti – CE....................
Pedro Henrique Balduino de Queiroz
Mara Celina Linhares Sales
226
Condições de uso e ocupação e degradação ambiental do rio Apodi – Mossoró no
trecho urbano da cidade de Mossoró – RN........................................................................
Rodrigo Guimarães de Carvalho

234
Teores de alumínio trocável e percentual de saturação em uma área inserida na
bacia Coreaú.........................................................................................................................
Raimundo Nonato Farias Monteiro
Adrissa Mendes Figueiró
Kelly Nascimento Leite
V. da S. Lacerda

242
Messejana: uma discussão dos problemas sócioambientais........................................
Raimundo Rodrigues dos Santos Júnior
Paulo Roberto Silva Pessoa
Auriela Bessa Alves
246
Contribuições da análise geoambiental integrada ao gerenciamento de recursos
hídricos em micro-bacia hidrográfica – Região Jaguaribana, Ibicuitinga – CE............
Rosilene Aires
Flávio Rodrigues do Nascimento

252
Índice de degradação ambiental da bacia hidrográfica do arroio do Padre Ponta
Grossa – PR.........................................................................................................................
Sérgio Ricardo Rogalski
Karina Dolazoana
Thiago Felipe Schier de Melo
Sílvia Méri Carvalho

259
Avaliação temporal do processo de expansão urbana na bacia hidrográfica do rio
Anil, São Luís – MA.............................................................................................................
Suzana Araújo Torres
Tataina Cristina Santos de Castro
Franceleide Soares Conceição
Fabíola Geovanna Piga
Janaína Mendes Barros

269
Caracterização do relevo e sua influência no escoamento superficial na bacia
hidrográfica do rio Bacanga, São Luís – MA....................................................................
Tatiana Cristina Santos de Castro
Franceleide Soares Conceição

274
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
8
Suzana Araújo Torres
Janaína Mendes Barros
Carla Danielle Paixão Melo

PLANEJAMENTO AMBIENTAL

278
Estuário do rio Paraíba: dinâmica ambiental e ocupação territorial...............................
Giovanni de Farias Seabra
279
Avaliação de fatores de produção com uso de tensiômetro em uma área
pertencente a bacia do Coreaú – CE.................................................................................
Adrissa Mendes Figueiró
Raimundo Nonato Farias Monteiro
Kelly Nascimento Leite
V. da S. Lacerda

290
O aterro sanitário de Aquiraz e o lixão de Cascavel sob o ponto de vista da gestão
ambiental.............................................................................................................................
Alan Ripoll Alves
Claúdia Maria Pinto da Costa
Clayton Tapety do Carmo
Edson Vicente da Silva
Francisco Leonardo Tavares

294
Análise de co-relação entre o tamanho da frota de ônibus de transporte público e os
índices de poluição atmosférica entre 2000 e 2001 em Fortaleza – Ceará.....................
Alan Ripoll Alves
Claúdia Maria Pinto da Costa
Clayton Tapety do Carmo
Edson Vicente da Silva
Francisca Ione Chaves

302
Caracterização de impactos ambientais na lagoa do Acaracuzinho – Maracanaú /
CE..........................................................................................................................................
Alana de Aquino Cajazeira
Juliana Felipe Farias

308
O currículo escolar e a relação sociedade-natureza no desenvolvimento do semi-
árido......................................................................................................................................
Alexandra Maria de Oliveira
Edson Vicente da Silva
Raimundo Castelo Melo Pereira
Maria Elia dos Santos Vieira
Francisco Davy Braz Rabelo

315
O processo de urbanização e implicações ambientais sobre os recursos hídricos
em Teresina – Piauí.............................................................................................................
Antônio Joaquim da Silva
Charlene de Sousa e Silva
Daniel César Meneses de Carvalho
Reuryssom Chagas de Sousa Morais

324
Desenvolvimento local e planejamento ambiental: extrativismo sustentável em área
de babaçual piauiense........................................................................................................
Antônio Joaquim da Silva
José Luís Lopes Araújo
Charlene de Sousa e Silva
Daniel César Meneses de Carvalho
Reuryssom Chagas de Sousa Morais

330
Avaliação da dinâmica de macronutrientes e sua influência na biomassa algal do
açude Acarape do Meio – Região Metropolitana de Fortaleza – CE...............................
Carlos Henrique Andrade Pacheco
Sâmara Kersia Melo Sales
Raimundo Bemvindo Gomes
Beatriz Susana Ovruski de Ceballos
Walt Disney Paulino

338
Análise das alterações climáticas em Manaus no século XX......................................... 348
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
9
Carlossandro Carvalho de Albuquerque
Francisco Evandro de Aguiar
Edson Vicente da Silva
Análise integrada em bacias hidrográficas......................................................................
Cícera Angélica de Castro dos Santos
Edson Vicente da Silva
362
Fatores Abióticos e Bióticos que influenciam o planejamento ambiental da área do
Parque Nacional da Serra da Capivara – PI......................................................................
Christiane Carvalho Neres
Jorge Luís Paes de Oliveira Costa
Agostinho Paula Brito Cavalcante

368
Praia do Icaraí (RMF) – um diagnóstico urbano ambiental.............................................
Claúdia Wanderley Pereira de Lira
375
Impactos sócioambientais na vila Irmã Dulce – Terezina / Piauí....................................
Denílson da Silva Rocha
Luzia Ferreira Cavalcante
Marcos Daniel Neves da Silva
380
Os impactos sócioambientais no Parque Estadual do Cocó em Fortaleza – Ceará:
especulação imobiliária, lazer e turismo..........................................................................
Eudes André Leopoldo de Souza
Frederico de Holanda Bastos
Luzia Neide Menezes Teixeira Coriolano

384
Identificação de áreas susceptíveis à desertificação em bacia intermitente sazonal
no semi-árido brasileiro......................................................................................................
Flávio Rodrigues do Nascimento

390
Geoprocessamento aplicado na caracterização do uso e ocupação do solo na sub-
bacia hidrográfica do rio Boa Hora, Urbano Sanots, MA.................................................
Franceleide Soares da Conceição
Tatiana Cristina Santos de Castro
Suzana Araújo Torres
Fabíola Geovanna Piga
Irlan Castro Reis

398
Análise do Sítio Urbano e subsídios ao planejamento de uso do solo de Pacoti – CE.
Francisca Leiliane Sousa de Oliveira
Frederico de Holanda Bastos
Maria Lúcia Brito da Cruz
403
Critérios para a criação e implantação de unidades de conservação no Estado do
Ceará......................................................................................................................................
Helena Stela Sampaio
Edson Vicente da Silva

408
Consequências sócioambientais da urbanização de Maranguape (CE): usos e
consumos dos ambientes hídricos.....................................................................................
Ícaro Cardoso Maia

416
Avaliação do fluxo dos nutrientes inorgânicos dissolvidos no exutório do rio
Paciência, São Luís – MA.....................................................................................................
Janaína Mendes Barros
Odilon Teixeira de Melo
Tatiana Cristina Santos de Castro
Raíssa Neiva Martins
Suzana Araújo Torres

422
Aplicação da análise estrutural da cobertura pedológica nos estudos de
desertificação na microbacia hidrográfica do rio Missi – Irauçuba – CE.......................
Jacqueline Pires Gonçalves Lustosa
José Gerado Beserra de Oliveira

426
Identificação de áreas irrigadas com águas subterrâneas nos aquíferos Açu e
Jandaíra com o uso de GIS e Sensoriamento Remoto.....................................................
João Sílvio Dantas de Morais
Zulene Almada Teixeira

430


Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
10
José Alves Carneiro
Léo Ávila França
Luciana Souza Toniolli


Caracterização faunística, florística e impactos ambientais – Parque Nacional da
Serra da Capivara – Município de São Raimundo Nontato – Pauí...................................
Jorge Luís Paes de Oliveira Costa
Agostinho Paula Brito Cavalcanti

439
Zoneamento Ambiental para o Monumento Natural das Falésias de Beberibe –
Ceará......................................................................................................................................
Juliana Maria Oliveira Silva
Edson Vicente da Silva

446
Estação Ecológica do Castanhão – CE: Proposta de Gestão Ambiental......................
Liana Mara Mendes de Sena
454
Análise dos principais fatores potenciais de degradação das unidades de
conservação de Sabiaguaba (Fortaleza – Ceará)..............................................................
Lílian Sorele Ferreira Souza
Edson Vicente da Silva

459
Vulnerabilidade Ambiental da bacia do baixo Mundaú (AL)............................................
Maria Cléa B. de Figueiredo
Vicente de P.B.B. Perreira
Suetonio Mota
Morsyleide de F. Rosa
Samuel Antônio Miranda de Sousa
467
Oficinas Geográficas no contexto da formação docente: em debate a
interdisciplinaridade no curso de licenciatura em Geografia da UFC.............................
Maria do Céu de Lima
Adriana Marques Rocha
476
Estudo integrado dos fatores geoambientais da bacia do rio Cocó – CE......................
Maria do Socorro Pereira Diógenes
Edson vicente da Silva
486
Perfil socioeconômico de famílias inseridas nas áreas de risco da bacia do rio Cocó
(CE) como subsídio ao planejamento ambiental...............................................................
Paulo Henrique Gomes de Oliveira Sousa
Antônio Augusto de Camargo Neves
Carlos Anselmo e Silva

493
Indicadores de sustentabilidade dos Municípios de Mossoró, Areia Branca e
Grosso/RN a partir do modelo Pressão – Estado – Resposta.........................................
Edna Margareth Santos de Sousa
Rodrigo Guimarães de Carvalho

500
Políticas Públicas e Participação Social: uma análise sobre a gestão ambiental no
bairro Pirambu – Fortaleza / CE..........................................................................................
Rosane Morais Falcão Queiroz
Edson Vicente da Silva

510
Alternativas para um turismo sustentável no litoral do Iguape – CE..............................
Tatiane Rodrigues Carneiro
Edson Vicente da Silva
519
Compartimentação Geoambiental da sub-bacia do alto curso do rio Acaraú – CE.......
Ticiane Rodrigues de Castro
Marcos José Nogueira de Souza
Maria Lúcia Brito da Cruz
526
Gestão ambiental e turismo: uma análise integrada da Praia de Morro Branco –
Beberibe – Ceará..................................................................................................................
Terezinha Cassiano de Souza
Edson Vicente da Silva

534
Diagnóstico dos recursos hídricos do município do Crato – CE....................................
Ana Cristina Torres Arraes
Elvir Batista da Silva
Edson Vicente da Silva
545
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
11

PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÀVEL EM BACIAS
HIDOGRÁFICAS: RESENHAS DO II WORKSHOP INTERNACIONAL SOBRE
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM BACIAS HIDROGRÁFICAS

Edson Vicente da SILVA
Jose M. MATEO RODRIGUEZ

I.-Introdução:

O presente artigo tem como propósito fazer uma discussão às questões relacionados com
o Planejamento no contexto da construção de processos de Desenvolvimento
Sustentável, particularmente em Bacias Hidrográficas, tendo como referencia a
apresentação dos trabalhos e conferencias do II Workshop Internacional sobre
Desenvolvimento Sustentável em Bacias Hidrográficas realizado pelo Departamento de
Geografia da Universidade Federal do Ceará. O objetivo do Workshop foi debater as
concepções e experiências de planejamento para a construção do desenvolvimento
sustentável em Cuba e no Brasil. No evento foram apresentadas 20 conferencias, por
profissionais de Brasil (representando os Estados de Ceará, São Paulo, Paraíba, Bahia, e
Distrito Federal) e os países Espanha e Cuba. O evento foi organizado em 8 atividades
que se resenharam a continuação:

Conferência da abertura: Planejamento e Sustentabilidade ambiental, ministrada pelo
professor Jose Mateo Rodriguez da Universidade da Havana em Cuba. Na conferência o
professor Mateo apresentou as idéias fundamentais de Planejamento e particularmente
de ordenamento ambiental, baseado na concepção da Landscape Planning “
(Planejamento da Paisagens), e como tem sido desenvolvida em Europa desde o século
XIX. Apresentou sua aplicação ao caso de América Latina, com estudos de caso em
Brasil e Cuba, pelo equipe formada pela Universidade da Havana e várias universidades
do Brasil, em particular dos estados do Ceará, São Paulo, Acre, Amazonas, Piauí e Mato
Grosso do Sul.

Mesa Redonda “Experiências de Gestão e Planejamento em Bacias Hidrográficas”.
O palestrante Dr. César Leal fez uma apresentação sobre as experiências
deplanejamento e gestão de Bacias Hidrográficas no Estado de São Paulo e do Paraná,
em particular na Bacia do rio Paranapema. Foram colocadas pelo apresentador as
concepções e os métodos de gestão em colaboração com os diferentes órgãos de
governo. O debatedor Prof. Jeovah Meireles colocou a idéia da importância de se estudar
os níveis de instabilidade das bacias metropolitanas. Também assinalou a importância da
contradição entre a utilização econômica e as propriedades dos sistemas ambientais. O
debatedor Prof. Jose Mateo falou da importância da analise política do uso das águas.
No debate foram analisadas as seguintes questões: o problema da privatização das
águas, a relação da hidrologia com a questão da água como bem comum, os problemas
do “stress” hídrico, falando de questões como “bacia social” e pacto das águas, para a
solução da contradição entre a água como valor de uso e a água como valor de
intercambio. Foi discutida a questão da gestão das bacias e sua descentralização como
base para o empoderamento dos grupos sociais. Sob essa ótica foi analisada a questão
da transposição do rio São Francisco. Em relação a esta questão colocaram-se duas
posições: alguns pensam que o projeto é viável e favorece a grande maioria da
população; outros acham que o projeto vai ter como consequência catástrofes ambientais
e o projeto será usado pelo grande poder econômico e não favorece a população. Em
resumo a mesa colocou que o problema de planejamento deve ter em conta as
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
12
propriedades dos sistemas ambientais naturais, as bacias como sistemas hidrológicos,
mas também as questões relacionadas com a propriedade da terra e das águas, e as
formas de gestão.

Mesa Redonda “Gestão do das unidade de conservação”.

Marcos Nogueira falou do zoneamento como base para a elaboração dos planos de
manejo das unidades de conservação. Colocou os princípios teóricos e os métodos
utilizados, e em particular referiu-se a tipologia das unidades no zoneamento ambiental.
O debatedor Giovanni Seabra discutiu a ideia de que a gestão deveria levar em conta os
conflitos sociais e as formas de ocupação das bacias pelos diferentes atores sociais e
agentes econômicos. Flavio Rodrigues Nascimento explanou o uso da analise estratégica
para o planejamento do manejo das unidades de conservação. No debate foi colocado
com clareza que o grande problema das unidades da conservação é a questão da
implementação, porque essa questão entra na esfera de poder. O problema então está
nos órgãos gestores que muitas vezes não querem aplicar os planos porque, entram em
contradição com o poder. A conclusão da mesa foi a necessidade de um maior
involucramento da sociedade, da academia e das universidades para a implementação
dos planos de manejo.

Mesa Redonda “Gestão de Bacias Hidrográficas” :

O palestrante Julien Burt explicou o problema do uso e planejamento de recursos
hidrográficos nos vales dos rios e dos açudes. Falou da importância do semi árido da
disponibilidade de água subterrânea e do lençol freático dos vales, para o uso e gestão
dos recursos hídricos. Neste sentido considerou a importância de conhecer a relação dos
diferentes grupos sociais e as formas de propriedade com a gestão destas águas, e em
particular a dinâmica temporal. Lançou o conceito de território das águas como o mesmo
comportamento dos agricultores, com o mesmo tipo de uso. Segundo ele existem três
tipos de território das águas nos vales do Ceara: ao longo dos grandes reservatórios, ao
longo do aqüífero aluvial e aqueles dos habitats dispersos. Foi colocada a existência de
grandes conflitos do uso da água, já que a grande propriedade controla os recursos, e a
maioria da população que é pobre, não tem recursos para a irrigação e a exploração
eficiente da água, e também o Estado não pode garantir a exploração de todos os
açudes. A debatedora Eunice Maria de Andrade, falou da importância das barragens
subterrâneas e dos problemas da degradação da água no processo de exploração dos
açudes. Vicente Lopes de Frota, explicou os procedimentos do Estado para o controle de
regulamento do uso da água. No debate o expositor colocou que a experiência do Brasil e
os arranjos entre os diferentes atores sociais e agentes econômicos, e destacou-se que a
solução dos problemas não ocorre de cima para baixo, mas começando desde as
comunidades. A platéia assinalou as experiências de processos sociais na América
Latina (Venezuela, Equador, Nicarágua, Cuba) do empoderamento da sociedade, e da
luta contra a privatização da água. Foi colocada a necessidade de que seja a comunidade
o ator principal do uso da água e não só o parceiro passivo. Como conclusão foi
assinalada a necessidade do papel da educação no empoderamento da sociedade , para
conseguir a quebra das dominações, a delegação do poder para as maiorias
despossuídas

Mesa Redonda Analise integrada e manejo de bacias hidrográficas:
O apresentador Jose Carlos de Araújo falou dos problemas ambientais que existem no
processo de gestão das bacias hidrográficas. Isso é devido a carência do planejamento e
da gestão, pela irracionalidade e pela falta de controle social. O professor fez uma
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
13
comparação entre os processos de formação e exploração de recursos hídricos em Cuba
e no Ceará. Em Cuba existe 10 vezes mas água nos rios que no Ceará, mas a
exploração e a gestão desenvolvida pelo Estado e com a participação da sociedade, e a
água é assim um bem que é explorada como uma concepção social, a água e
considerada como um direito humano. No Ceará existem os conflitos sociais porque a
água é explorada com uma concepção de propriedade particular. Assim no Ceará para
resolver o problema da água são necessárias mudanças estruturais, e mudanças nos
padrões de ocupação. A debatedora Maira Celeiro Chaple do Ministério de Meio Ambiente
de Cuba, colocou os desafios que Cuba tem em relação com a exploração e gestão dos
recursos hídricos, e a importância das mudanças globais e regionais incluindo as
mudanças climáticas, na criação de novos padrões de recursos hídricos e de
configurações espaciais na exploração das águas. Destacou as medidas que o governo
cubano junto com a sociedade está implementado para reduzir a vulnerabilidade das
águas nas mudanças climáticas. O debatedor Marcos Garrido da Universidade de Sevilla,
Espanha, colocou que o que está predominando na exploração das águas são os
problemas sociais e que os políticos não gostam de fazer mudanças estruturais que são
necessárias para otimizar a exploração dos recursos hídricos. No debate foi colocado
que no semi-árido o modelo do grandes açudes falhou, que a exploração tem que ser em
mini açudes, e com a participação direta dos pequenos proprietários rurais e que a gestão
da água tem que sair dos reservatórios e ir para a bacia como unidade maior de gestão.

Considerações Finais:

O debate demonstrou vários enfoques importantes:

1.- Foi reforçada a idéia de que Planejar o Meio Ambiente e o Território, constitui um
exercício acadêmico e intelectual, encaminhado a pensar de forma racional a ocupação e
o uso das diferentes partes da superfície do planeta Terra, tendo em conta um
instrumental cognitivo e um arcabouço de métodos, técnicas e procedimentos.
2.- Demonstrou-se a necessidade de pensar o Planejamento Ambiental e Territorial para o
Desenvolvimento Sustentável,como um processo real, necessário, complexo e
contraditório.
3.-Destacou que a questão da gestão dos recursos hídricos não é só um problema
técnico, mas um problema político e de poder. A questão está em definir quem vai ter o
rol protagônico na exploração, quem vai ficar com os custos e quem fica com os
benefícios. Existem assim duas modalidades de exploração e gestão dos recursos
hídricos: a modalidade elitista, com o poder da grande propriedade, ou a modalidade da
exploração das águas em benefício da maioria da população.
3.- Considerou a necessidade da promoção das novas idéias de Planejamento
Participativo, no empoderamento social e na construção de novas variantes de construção
cidadã.
4.- Ressaltou que a universidade não pode ficar de costas aos processos verdadeiros de
revolução silenciosa, de empoderamento social que estão acontecendo na América
Latina. Se a Universidade tomar o caminho da exclusão intelectual, de ser só um
instrumento das elites e das multinacionais, a ela corre o risco de desaparecer. Se optar
pela participação política e científica ela poderá ser absorvida pelos novos processos de
emancipação e libertação que já estão acontecendo na América Latina.






Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
14

EXPERIENCIAS DE PLANEJAMENTO AMBIENTAL EN BRASIL USANDO LA CONCEPCIÓN
DE LA GEOECOLOGIA DE LOS PAISAJES ( “ LANDSCAPE PLANNING”)

Por:
José M. MATEO RODRIGUEZ
1

Antonio Cezar LEAL
2

Maira CELERIO CHAPLE
3

Edson Vicente DA SILVA
4


En el presente articulo se presentan los presupuestos teóricos y metodológicos de la
concepción de la Geoecologia de los Paisajes, que desde hace unos 20 años se esta
tratando de incorporar por medio de la colaboración de la Universidad de La Habana de
Cuba, la Universidade Estadual Paulista y la Universidade Federal de Ceara, en varios
trabajos en Brasil. Se expone como ejemplo algunos resultados obtenidos en la Bacia del
río Paranapanema, en los Estados de Sao Paulo y Parana. La concepción de la
planificación de Paisajes se ha incorporado además en todo el Brasil (a escala del Marco
Federal), y en otros estudios en la cuenca del río Amazonas (Estados de Acre, y
Amazonas), en Ceara, en Piaui. En Mato Grosso do Sul, y en otras regiones y estados de
Brasil.

La concepción de la Planificación de los Paisajes (Landscape Planning).

La Planificación del Paisaje puede ser definida como el conjunto de métodos y procedimientos que
se usan para crear una organización espacial de la actividad humana en particular de los paisajes.
Ello está dirigido a asegurar la gestión y el manejo de la naturaleza sostenible y la preservación de
las funciones básicas del paisaje que soportan la vida. (ANTIPOV, ET AL, 2006).

La Planificación del Paisaje, es una parte componente de la política ambiental y territorial,
encaminada a establecer a la organización espacio – temporal de la actividad vital de la sociedad
en el paisaje , espacio y territorio concreto, conservando o multiplicando sus propiedades útiles.
Es la máxima adaptación de las zonas de uso funcionales a la estructura paisajística y espacial
regional local y la creación de nuevas estructuras antropógeno – naturales. (DIAKONOV, 2008)

El objetivo general de la planificación del paisaje, es garantizar el uso racional y sostenible de la
naturaleza conservándose las funciones principales de los paisajes naturales y de sus
componentes como sistema de la biosfera, la geoesfera y de la humanidad en su
conjunto.(Diakonov, 2008). Constituyen objetivos específicos de la Planificación del Paisaje:


• La Sistematización, que implica sistematizar y articular el análisis de la información
concerniente al estatus principal, el significado y la vulnerabilidad de los medios ambientes
y complejos naturales.
• La evaluación comprensiva, que significa evaluar y valorar de la tierra en un sentido
amplio, incluyendo la posición geopolítica de las tierras, los rumbos estratégicos para su
uso, y la adaptación y las estipulaciones para el uso de la tierra en concordancia con las
normas internacionales

1
Facultad de Geografía, Universidad de La Habana, Cuba
2
Universidade Estadual Paulistas, Campus de Presidente Prudente (SP), Brasil
3
Instituto de Geografía Tropical, Ministerio de Ciencia, Tecnología y Medio Ambiente, Cuba.
4
Departamento de Geografia, Universidade Federal de Ceara, Fortaleza, Ceara, Brasil.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
15
• La negociación para la gestión, dirigida a articular a través de mecanismos de interacción
eficiente, a las varias agencias, instituciones, organismos y los diseñadores de política a
los diferentes niveles
• La involucración, encaminada a incorporar de manera extensiva a la población en el
proceso de planificación a través de la participación en la tomada de decisiones y en la
colección y elaboración del contenido de información de los documentos generados
• Balance , para contribuir a la búsqueda de las decisiones óptimas a partir de la selección
de diversas opciones en competencia, relacionadas con la utilización de los recursos y
complejos naturales, especialmente en el proceso de establecimiento de las relaciones de
mercado.
• Transparencia, debido a que el proceso de planificación conduce a la elaboración de varios
escenarios, evaluables de acuerdo a parámetros de costo/beneficio (económico, social y
ambiental) y a las diferentes categorías de sostenibilidad alcanzados a los mismos,
sirviendo de base clara y científicamente fundamentada para la toma de decisiones por
parte de las autoridades gubernamentales y os inversionistas.

En los momentos actuales a nivel mundial, está consolidándose cada vez más el proceso de la
planificación, del espacio, o sea de la superficie terrestre, como base fundamental de todos los
procesos de gestión ambiental y territorial La planificación de los sistemas espaciales se convierte
cada vez más en una exigencia como respuesta al incrementado impacto de los factores de
mercado . Esta planificación de espacio, exige de los siguientes requisitos:

• Los procedimientos de planificación se hacen más flexibles.
• Se implementa paulatinamente la Planificación “transversal” en todos los tipos de
sistemas
• La descentralización de los procesos de planificación
• Incremento del significado de las áreas urbanizadas para los proceso de planificación
encaminados a la construcción de procesos de desarrollo sostenible.
• El papel protagónico por el Estado como la instancia más alta en el diseño de los
procedimientos de toma de decisiones.

En este sentido, la Planificación del Paisaje tiene ventajas particulares, entre las cuales se pueden
distinguir las siguientes: (Antipov et al, op.cit.)

1. El concepto base de paisaje permite entender la articulación compleja entre el espacio o
paisaje natural, su transformación por las practicas sociales y productivas en espacio
geográfico (funcional, de hábitat, social), y su visualización como espacio o paisaje cultural,
en el que se imprimen las características afectivas, perceptivas en la morfología del
espacio.
2. El reconocimiento de la naturaleza y el paisaje como un sistema integral dinámico.
3. Asegura una visión holística sobre la especificidad del paisaje y la delineación de sus
elementos y valores ecológicos , históricos y estéticos sujetos a la protección especial
4. El carácter “transversal” y abarcador general.
5. Incorporar todos los componentes principales del paisaje (incluyendo los componentes
antropogénicos) y sus funciones interrelacionadas, así como la estructura espacial del
paisaje.
6. Se basa en la estructura del paisaje del territorio, y, simultáneamente tiene en cuenta el
patrón de uso de la tierra.
7. Se basa en la estructura del paisaje del territorio, y, simultáneamente tiene en cuenta el
patrón de uso de la tierra.
8. Incluir los objetos de las diferentes escalas, en las cuales se realizan diferentes tipos de
gestión de la naturaleza.
9. La posibilidad de establecer diferentes niveles de escala en la planificación, que se
incluyen espacialmente desde la categoría superior (el nivel federal y el programa del
paisaje) a la inferior (la elaboración de proyectos ejecutisov), teniendo en cuenta diferentes
visiones de generalización y de detalle de las informaciones y subsidios de partida, y los
resultados y productos a obtener.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
16
10. Autoriza y recomienda mas que limita y prohíbe
11. La articulación del proceso de planificación, con el de diseño, arquitectura e ingeniería del
paisaje.


La Planificación del Paisaje, parte de un concepto fundamental, que es el reconocimiento de la
naturaleza y el paisaje como un sistema integral dinámico. De tal manera, la Planificación del
Paisaje está dirigida a la identificación y descripción, basada en estudios, de la capacidad del
medio natural para resistir las tensiones (stress); a la investigación de las relaciones y nexos entre
el agua, el suelo, el aire y el clima, la vegetación y el mundo animal, la diversidad, la unicidad y
belleza de los paisajes, o sea de los valores escénicos y estéticos.

La planificación del paisaje incorpora todos los componentes principales del paisaje (incluyendo
los componentes antropogénicos) y sus funciones interrelacionadas, así como la estructura
espacial del paisaje. La planificación del paisaje incluye los objetos de las diferentes escalas, en
las cuales se realizan diversas formas de la gestión de la naturaleza.

La planificación del paisaje deberá enfocarse en la preservación de la salud de la naturaleza. Ello
deberá tener un carácter “transversal” y abarcador general. La determinación de los efectos sobre
ese sistema de las propuestas de planificación y las prácticas de gestión planificada de la
naturaleza, así como de las reacciones del sistema a las actividades humanas constituyen en este
sentido una cuestión fundamental. .

Cuando se generan los conceptos del desarrollo espacial, es importante la definición de los
criterios particulares de calidad de la naturaleza y el paisaje, cuales criterios deben de seguirse
para asegurar la conservación a largo plazo para los fundamentos de la vida humana. En este
caso, es importante precisar que medidas deben tomarse para el cumplimiento de las tareas
generales de conservación, así como para cumplir los requerimientos de los planes sectoriales, y
las necesidades de los actores de la gestión de la naturaleza.

Los planes del paisajes deberán de determinar los criterios de calidad ambientad para servir como
guía base para el desarrollo espacial y para la construcción y otros proyectos, así como las
medidas dirigidas a la regulación de los impactos ambientales y la modificación ecológicamente
basada de la modificación de los proyectos.

La Planificación de los Paisajes deberá sumariar y sintetizar los requerimientos ambientales, y las
medidas para el mantenimiento del paisaje, y proveer la reconciliación entre esos requerimientos y
los propósitos para el desarrollo de los proyectos en las áreas respectivas. Deberá asegurar la
base necesaria para el diseño de la toma de decisiones concerniente a la permisibilidad de los
proyectos


Relación entre la Planificación de los Paisajes y la Planificación Territorial:

La planificación de los paisajes constituye una etapa preliminar en la aplicación e integración de
los resultados obtenidos en los planes para el desarrollo socio económico de las áreas, que en
general es la tarea de la Planificación y el Ordenamiento Territorial. El Ordenamiento Territorial
tiene que ver con la búsqueda de otro nivel cualitativo para la implementación de nuevas
concepciones teóricas y nuevas tecnológicas y practicas en el desarrollo económico y social de
las diferentes unidades territoriales . En el Ordenamiento Territorial deberá lograrse un desarrollo
balanceado, determinado por la combinación de factores socio económicos y ecológico naturales.
Para las áreas de alto valor natural, se debe tener en cuenta los requerimientos ecológicos. En
este contexto, en la etapa actual del desarrollo del sistema social y ecológico, es de especial
significancia lograr una organización espacial del paisaje que sea coherente (ecológico) , y que
constituya un fundamento para la planificación socio económica, estratégica, y coherente. Este
concepto se enfoca en lograr el objetivo de regular los conflictos entre los interés económicos, y
sociales de acuerdo a los limites ecológicos del área. Las tareas a lograr en este caso son:
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
17

• El modelamiento de la utilización balanceada y racional de los recursos
• El desarrollo de las vías para la coordinación de las acciones enfocadas en la optimización
de las relaciones de los sistemas sociales y naturales (regulación normativa y legal del uso
de la tierra geoecológicamente orientado)
• El logro de un balance de los intereses nacionales, y la búsqueda de nuevos recursos
alternativos para el desarrollo de las áreas (la distribución del ingreso de la utilización de
los recursos naturales)
• El pronostico para la implementación de las experiencias de la planificación del paisaje
(geoecológica) y socio económica en las regiones modelo de los municipios y Estados .
• Garantizar el suministro de la información científica a las autoridades de los territorios por
medio de la elaboración de materiales educacionales y de procedimientos.

El municipio es el nivel primario de la gestión espacial. También representa un sistema
económico- natural espacial complicado, cuyo desarrollo en gran parte se determina por el grado
de madurez de las relaciones integrativas intra sistémicas entre el ambiente natural, el económico
y el social, y las autoridades. Un análisis de los patrones del desarrollo espacial da una
perspectiva y un diagnostico de la respuesta de los sistemas al nivel de distrito y de municipio y
de sus elementos (las comunidades rurales, los sectores del complejo económico etc.), para
prever los impactos a partir del ambiente económico combinado. De este modo pueden ser
pronosticadas las situaciones de crisis, y a partir de ello se pueden tomar las medidas para
eliminarlas, lo cual a su vez es una de las tareas de adaptación de la gestión del desarrollo
espacial.

La planificación espacial del desarrollo territorial está estructurada de acuerdo con los principios
generalmente aceptados del pronóstico espacial y se basa en las siguientes estipulaciones:

• Las características generales del municipio . Ello incluye la evaluación de la situación
económica geográfica del distrito, la lista de los índices técnico económicos que
caracterizan el rango del municipio en la entidad Estadual y Federal, y la situación general
de las esferas económicas y sociales del distrito.
• El análisis y la evaluación del potencial laboral y productivo, del nivel de involucramiento de
las fuerzas productivas y de su utilización, la caracterización y evaluación del nivel de
desarrollo de las infra estructuras sociales, de ingeniería y de transporte, y la evaluación
geoecológico – paisajística del uso de la tierra.
• La confección de mapas sectoriales comprensivos que reflejan las condiciones de ingreso,
el potencial, las atracciones a las inversiones y el pronostico del desarrollo económico y
social y de gestión del área.
• La elaboración de una estrategia para el desarrollo socio – económico = ambiental . Este
bloque incluye el determinar la posibilidad de escenarios para el desarrollo socio –
económico de los Estados y municipios y las recomendaciones para reconciliar las
estrategias sectoriales, el desarrollo de la agricultura y la industria, las inversiones, los
aspectos sociales y técnicos de la infraestructura del transporte, las relaciones de la tierra,
y la elaboración de los presupuestos locales y los flujos financieros.



Dificultades y problemas en la implementación de la Planificación del Paisaje

A nivel mundial, y en particular en América Latina, la concepción de paisaje, y en articular la
Planificación del Paisaje aun no se ha reconocido de manera institucional y legal, a pesar de las
evidentes ventajas que tiene dicha concepción.. La historia muestra que la planificación del
paisaje como una concepción peculiar geografía constructiva a nivel mundial no ha sido una tarea
muy fácil. Ello se debe a las siguientes causas:

1.- El paisaje ha sido simplemente ignorado, aun en los campos en que se ha enfocado a la
protección de la naturaleza. El “enfoque de paisajes” se ha introducido en muchas ramas de la
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
18
gestión de la vida silvestre (por ejemplo la gestión de los bosques), pero frecuentemente no se
ha incorporado porque las iniciativas en esa esfera no han requerido de cambios radicales en los
conceptos comunes y en las practicas convencionales de gestión (KOLBOWSKY, 2007)
2.- Los arquitectos e ingenieros perciben al paisaje no como un organismo vivo con una
diferenciación interna compleja, sino solo como un lugar más o menos conveniente para la
construcción.
3.- Los documentos de la planificación de paisajes, incluyendo los espacios urbanos son
desarrollados muy lentamente y de este modo no sirven como respuesta a la brusca intrusión de
las inversiones. Como resultado de ello, la selección de un sitio se resuelve con anterioridad a la
propuesta del papel especifico que debe de cumplir el mismo en el mosaico ecológico y en el
mosaico de funciones dentro de su localización particular.
4.- El procedimiento de la evaluación de impacto ambiental (que acompaña a la planificación
urbana) originalmente entendido como un proceso de “ contra balance” del desarrollo, cuando es
posible, no ha sido nada mas que un procedimiento formal. El uso de tales rutinas rígidamente
normadas y establecidas no influyen significativamente en los proyectos debido a la pobre
atención que se le da a los fenómenos y la estructura especifica del paisaje.
5.-Las rutinas de investigación de la ingeniería ecológica de pre factibilidad han ocurrido de
manera desfasada y no pueden establecer las diferencias en el carácter y la intensidad de la
presión en el paisaje. Esto a su vez, se revierte en el dominio de vías primitivas y mayormente
incorrectas de preparación ingenieríl
6.-Los investigadores siguen las decisiones de diseño y reducen la investigación ingeniero
ecológica a los niveles de la ingeniería geológica.
7.-Los ingenieros recomiendan vías normadas para la planificación de cualquier territorio (por
ejemplo la plantación, la eliminación de los lentes de turba) encaminados a nivelar el relieve como
una matriz de la memoria de la estructura del paisaje.
8.-El arreglo del paisaje de los sitios desarrollados prácticamente no es reflejado en la parte
dedicada a la evaluación del impacto ambiental dentro del plan.

Para tratar de lograr la implantación efectiva de la Planificación del Paisaje como una concepción
privilegiada en las tareas de Ordenamiento Ambiental y Territorial, se considera pertinente sugerir
las siguientes acciones: (KOLBOWSKY,2007)

1.-Tratar de incluir la Concepción del Paisaje en las regulaciones jurídicas y administrativas y en la
práctica de la gestión ambiental y territorial . Para introducir los procedimientos crucialmente
importantes de la LP en la legislación, los expertos deben antes de todo analizar los documentos
normativos existentes.
2.-Reforzar la dimensión educativa e instructiva, incluyendo materiales sobre la concepción del
paisaje en programas educativos de todos los niveles, en la Educación Ambiental, y la Educación
Geográfica y de Ciencias Naturales y Sociales.
3.- Debe ser identificado, el propio nicho para los planificadores del paisaje dentro del dominio de
la planificación moderna.
4.-La planificación del paisaje deberá continuamente incorporar todos los logros del diseño del
paisaje, particularmente en relación con el ambiente urbano. Es extremadamente importante
considerar y concentrarse en la experiencia constructiva del arreglo del territorio usando las ideas
ecológicas del paisaje. Eso será absolutamente necesario para vencer la indeferencia ecológica
de muchas personas.

Para hacer más factible la incorporación de la Planificación del Paisaje, en calidad de fundamento
para los trabajos de Ordenamiento Ambientad, se deberá trabajar en las siguientes líneas
fundamentales de carácter científico y académico:

1.-Perfeccionar la descripción de la estructura del paisaje de un territorio como operación básica
para la LP., con el uso de los SIG y el sensoramento remoto
2.-Desarrollar de manera operativa un conjunto de nociones básicas de la Geoecología del
Paisaje, en particular la noción de estabilidad del paisaje.
3.- Las actuales condiciones socio – económicas, desempañan un papel significativo en la
transformación del desarrollo del patrón de la tierra, y de la dinámica y evolución de los sistemas
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
19
ambientales. Es este un factor externo de cambios en el mosaico del paisaje regional a escalas
del tiempo características comparable con el periodo de la perspectiva normal de la Planificación
del Paisaje, o sea, de 15 años. Todo ello planeta como desafió introducir en la Planificación del
Paisaje conceptos novedosos sobre la evolución y el desarrollo del paisaje. Ello plantea la
pregunta principal: ¿Es necesario considerar el componente tiempo en los planes de paisaje? Si la
respuesta es si, ¿como debemos de tener en cuenta ese concepto? De tal manera esas
transformaciones deberían ser consideradas en la planificación ambiental y territorial.
4.-El paisaje cultural, su preservación y desarrollo debería ser, al menos, uno de los propósitos de
los procedimientos del Planificación del Paisaje. . El mosaico espacial de un paisaje regional
cultural, si es cuidadosa y adecuadamente estudiado sirve como matriz con elementos culturales e
históricos que deberá ser un sujeto de la planificación. La metodología moderna de la Planificación
del Paisaje casi no considera las propiedades y los valores del paisaje cultural (histórico, étnico).
El paisaje como reflejo de una experiencia histórica de valor en la interacción entre el etnos y la
naturaleza está fuera de los fundamentos de los procedimientos de la Planificación del Paisaje.
5.-La estética del paisaje deberá ser considerada en el nivel de la planificación regional y local .
Las concepciones sobre la estética del paisaje, los símbolos del paisaje y el código del paisaje
están también estrechamente relacionados con las realidades del paisaje cultural, y en general
son poco incorporados a las tares de la planificación, y cuando se hace, se introduce de manea
aislada y fragmentaria, sin estar en articulación con las diferentes categorías paisajísticas y
espaciales.

Niveles de la Planificación de los Paisajes:

En la actualidad se acepta la existencia de cinco niveles de trabajo en la planificación del paisaje:
el marco federal, el programa del paisaje, EL Plano regional, el plan local y el proyecto ejecutivo.
Cada uno de ellos niveles se diferencian de acuerdo a la escala, la unidad territorial estudiada, el
objetivo a cumplir, la unidad de la clasificación e individualización del paisaje con que se debe
trabajar y las propiedades del paisaje que deben de estudiarse. En la tabla Numero 1, se resumen
las informaciones mencionadas.


Tabla Numero 1.- CONTENIDO DE LOS TRABAJOS REALIZAR EN LA PLANIFICACIÓN DEL
PAISAJE A LOS DIFERENTES NIVELES

NIVEL DE LA
P.P.
ESCALA UNIDAD
TERITO-RIAL
OBJETIVO UIDAD DEL
PAISAJE
PROPIEDADES DEL
PAISAJE
MARCO
FEDERAL
1:4 000
000
-País
-Grupo de
países
-Directrices
generales de
uso y
protección
-Unidades
superiores
de la
regionalizaci
ón y la
tipología
-Estructura espacio –
funcional regional
PROGRAMA 1:1000000 -País/ Estados -Zonas
funcionales
-Prioridades de
gestión
-
Agrupacione
s de
localidades
-Aptitud o potencial,
tipo y valor de
recursos naturales y
culturales del paisaje
-Calidad del paisaje
-Organización
espacial
PLANO
REGIONAL
(PLAN
DIRECTOR)
1:250000 -Regiones o
agrupaciones
de municipios
-Funciones
ambientales
-Intensidad de
uso
-Modelo
ambiental
(espacial/territ
orial)
-Articulación
con planes
sectoriales
-
Localidades
-Problemas
ambientales
-Estado Ambiental
-Capacidad de carga
-Pronostico de
escenarios
-Evaluación del
Programa de Gestión.
-Estado de la
organización espacial
PLAN LOCAL 1:50000 Municipio -Propuesta de
medidas para
- Comarcas - Diagnostico
ambiental y de la
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
20
el
funcionamiento
ambiental
óptimo:
búsqueda de
soluciones
concretas
-Implantación
de programas
y proyectos
para la gestión
ambiental
organización
espacial: aptitud,
problemas, estado,
intensidad de uso
-Impacto ambiental
-Peligros, riesgos y
vulnerabilidad
-Banalización,
obsolescencia y
disfunción
Evaluación de
sistemas de gestión..
PROYECTO
EJECUTIVO
(DISEÑO)
1: 1000 - Distritos - Diseño
ambiental del
sitio
- Diseño de
sistemas de
objetos
-Elaboración
del programa
de gestión
- Facies - Pre factibilidad y
factibilidad ambiental
; Estructura funcional
-Eficiencia del uso
-Análisis de la
identidad del : paisaje
cultural del lugar:
coherencia, armonía,
singularidad
- Percepción de la
población
- Expresión visual y
estética del lugar.



La experiencia de la Bacia de Paranpanema (Estados de Sao Paulo y Parana, Brasil) ;

La Bacia do río Paranapanema, se encuentra ubicada en la región suroeste del Estado de São
Paulo abrangendo unos 105 000 kilómetros
2
sendo compartida por os Estados de São Paulo y de
Paraná .Presenta una gran regulación de su caudal y no es posible soslayar este hecho, siendo el
soporte de uno de los sistemas hidroeléctricos mas importantes del país (contándose un total de
11 hidroeléctricas).


Sus recursos hídricos superficiales presentan un amplio desarrollo en toda el área, ya que ésta
cuenta con una red hidrográfica bien definida. Encontra-se dividida em seis Unidades de
Gerenciamento de Recursos Hídricos, três no Estado de São Paulo: Alto Paranapanema, Médio
Paranapanema y Pontal do Paranapanema y três no Estado de Paraná:
Itararé/Cinzas/Paranapanema I e II, Tibagi Alto e Baixo y Pirapó/Paranapanema III e IV

Com relação ao setor primário da economia predominam as atividades do setor agropecuário,
agroindústria e agricultura voltadas tanto para o consumo interno como externo. Os maiores
cultivos, tanto em valor como em área, são Cana- de açúcar, soja e milho, trigo, café, tomate,
cebola, uva, pêssego, maças, algodão, frutas de clima atemperado.Essa intensa atividade
econômica es garantida pela existência de potentes recursos hídricos superficiais y subterrâneos;

Justificación de las investigaciones ejecutadas :

La Bacia de Paranapanema es una de las mayores áreas de distribución y expansión de la cana
de azúcar y de usinas de azúcar y etanol, y en ella se expanden unas de los mayores superficies
de pasto para leche y carne, de granos y cultivos de diverso tipo. En ella se difunde una amplia
red de ciudades de tamaño medio, entre las que se distinguen Londrina, Maringa, Ponta Grossa y
Castro en el Estado de Parana, y Presidente Prudente, Ourinhos y Assis en el Estado de Sao
Paulo. En la misma viven y trabajan un total de 19 millones de personas habitantes, dedicada a
una bien diferenciada actividad económica.

Esa intensa actividad económica y social es garantizada por la presencia de recursos naturales de
amplio valor y significancia. En primer lugar sus recursos hídricos superficiales y de aguas
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
21
subterráneas; el predominio de suelos de alto y medio potencial agrícola, relieve plano a poco
inclinado, excepcionales condiciones climáticas. Desde hace unos 200 años en el Estado de Sao
Paulo, y desde hace unos 60 - a 100 años en el Estado de Parana, los esfuerzos humanos han
estado dirigidos a ocupar, y asimilar los recursos naturales, y construir lugares y espacios en los
cuales de forma racional se ejerce una actividad social de producción del espacio.(LEITE, 1998).

Sin embargo, tanto por condiciones naturales, como por los rigores de su evolución socio
histórica, se han presentado allí un conjunto de problemas ambientales que atentan contra la
capacidad productiva, a partir de lo cual se hacen palpables diversas afectaciones en el ámbito de
la calidad de vida humana (PASSOS, 2006, 2007)

Ese impacto humano intenso, esta conduciendo a la presencia de procesos que están degradando
el stock de recursos naturales, están deteriorando la calidad ambiental de los espacios, lo que se
manifiesta en una mayor tensión para mantener estándares adecuados de calidad de vida de la
población. Los ríos de la cuenca, manifiestan procesos de deterioro tales, como la falta de
drenaje, la contaminación, el asoreamiento, el aumento del nivel de las inundaciones es bastante
generalizado; la vegetación y la biodiversidad han decrecido de manera significativa debido al
desmatamiento generalizado, se difunden ampliamente procesos de erosión laminar y
concentrada (surcos, vocorocas, ravinas), se notan algunas tendencias a los cambios climáticos
(tales como el aumento de los picos de los fenómenos extremos), se ha perdido gran parte del
patrimonio natural. En los sistemas rurales, es significativo el daño de las estradas de todo tipo y
en particular las rurales, en los sistemas urbanos es perceptible con más clareza la presencia de
esos procesos negativos. La calidad ambiental urbana esta en diferentes grados de degradación,
debido a problemas en la coleta de lixo, la alteración del drenaje, la contaminación hídrica y
atmosférica; la población ha perdido de manera clara la capacidad de convivir con el medio y el
entorno en el que viven, y del cual viven.

Si bien las prefecturas, y diversos órganos de los Estados y la Federación (en particular los
consejos de cuenca) llevan a cabo proyectos y acciones para la protección y el mejoramiento de la
cuenca es significativa la falta de una articulación entre los diversos órganos. Ello es debido antes
de todo, a la carencia de un sistema de información básica sobre la situación de la cuenca a nivel
de todos los espacios, y en particular a la carencia de una planeación estratégica que sirva de
base para ejecutar acciones y llevar a cabo proceso de gestión coordinadas y articuladas. Menos
aun esos proyectos y acciones de articulan de manera coherente para conducir a un proceso de
desarrollo sustentable a nivel de toda la cuenca. Son perceptibles la falta de articulaciones entre
los diversos municipios, y en particular entre los dos Estados en los cuales se comparte la cuenca.
También es perceptible la falta de coordinación entre los diversos componentes de la gestión a
nivel de cuenca (el manejo de cuencas, la gestión ambiental urbana, la planificación ambiental, la
educación ambiental, etc.).

Todo ello conduce a afirmar que los problemas ambientales, institucionales y sociales generados
por el crecimiento económico incontrolado en la bacia del río Paranapanema exigen de una
decidida planificación de sus espacios, ambientes y territorios.(ITESP, 1998)

La elaboración de los mapas de paisajes naturales, constituyen un punto de partida esencial para
la aplicación de la Concepción de la Geoecologia y la Planificación de los Paisajes en los trabajos
de Ordenamiento Ambiental.

El Ordenamiento Ambiental se considera a nivel internacional como una herramienta de
planificación dirigida a sugerir la manera en que deberán ser utilizados, mejorados y
transformados los sistemas ambientales naturales. Implica al menos la obtención, para áreas de
tamaño relativamente grande (municipios, estados, países) de los siguientes productos (MATEO,
2008):

- Zoneamento Funcional
- Zoneamento Ambiental
- Medidas para la implementación del zoneamento
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
22
- Prioridades para la implementación del zoneamento
- Intensidad de uso a través de la capacidad de carga
- Diseño y evaluación de los escenarios del ordenamiento.

La Planificación del Paisaje puede ser definida como el conjunto de métodos y procedimientos que
se usan para crear una organización espacial de la actividad humana en particular de los paisajes.
Ello está dirigido a asegurar la gestión y el manejo de la naturaleza , la preservación de las
funciones básicas del paisaje que soportan la vida y la incorporación de la sostenibilidad ambiental
a los procesos de desarrollo (ANTIPOV, ET AL, 2006).

En esta concepción el paisaje se considera como una totalidad sistémica, que soporta
determinadas estructuras, funciones, dinámicas, tendencias evolutivas, estabilidades y
sustentabilidades, portadores de determinados potenciales y t tendencias a reaccionar a los
impactos y acciones humanas.(Monteiro, 2000) El enfoque de paisajes, permite ver la articulación
sistémica entre el espacio o paisaje natural como punto de partida para la construcción , a través
de prácticas productivas en espacios funcionales (sociales y productivos) y de paisajes culturales,
a través de sus características morfológicas, preceptúales y afectivas. (MATEO, DA SILVA E
CAVALCANTI, 2004).

Es esta una operación científica, que permite esclarecer las maneras en que el paisaje se ha ido
construyendo como espacio, lo cual constituye el primer paso para re pensar y enrumbar de una
forma diversa las prácticas para la edificación de la organización espacial. De eso, justamente se
ocupa la Planificación del Paisaje como contribución en el Ordenamiento Ambiental: constituir un
camino científicamente fundamentado para valorar las potencialidades y limitantes de los paisajes
y espacios creados, y sugerir las vías para su organización racional que conduzca a la conquista
de la sostenibilidad, a la incorporación de la sostenibilidad a los procesos de desarrollo.
(DIAKONOV E MAMAI, 2008)

Los resultados obtenidos en esta fase de la investigación, permiten de tal modo constituir un punto
de partida, para a través de un conjunto de investigaciones coordinadas y articuladas, obtener el
conocimiento necesario para implementar en la Bacia los diversos instrumentos de Planificación
Ambiental, que permitan optimizar y hacer más eficiente los procesos de gestión ambiental y
territorial.



Métodos de trabajo usados para la elaboración de los mapas de paisaje de la Bacia de
Parnapanema y la región de Pontal.

La elaboración de los mapas de paisajes se sustentó en la sobre posición de mapas de
componentes, en particular de carácter natural. Dicha sobre posición se llevo a cabo partiendo de
un análisis de las peculiaridades de la diferenciación del espacio natural, y sobre la base de
criterios de distinción de unidades taxonómicas, que en lo fundamental siguen los indicadores
adoptados para la elaboración del Mapa de Paisajes del Brasil (MATEO, DA SILVA, CAVALCANTI
E LEAL, 2004). En ambos casos se han realizado recorridos generales con el propósito de
fundamentar las distinciones obtenidas.

Para, mejorar y perfeccionar los mapas elaborados, se precisara en un futuro de la realización de
las siguientes actividades:

• Perfeccionamiento de la sobre posición, con el uso de los procedimientos de los Sistemas
de Información Geográfica.
• Detallamiento y perfeccionamiento de las unidades distinguidas, a partir de la
interpretación de fotos satelitales y áreas.
• Trabajos de campo para conferir los limites y las características de las unidades
distinguidas.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
23

Descripción de las características de las unidades distinguidas

En los mapas se asume como concepto de paisaje (o espacio natural), la combinación dialéctica
de los componentes naturales, en dos escenarios:

- considerándose el tipo de formación vegetal original
- -considerándose el tipo de uso de la tierra actual.

Se uso el siguiente sistema de unidades taxonómicas: tipo, sub tipo, clase/subclase, grupo,
especie. Para el caso de Pontal se agregó la categoría de sub grupo.

La clasificación de los Paisajes de l a Bacia de Paranapanema:

En la bacia de Paranapanema se distinguen dos tipos de paisajes: el tropical y el sub tropical. Los
mismos se presentan como si fueran fajas geográficas, de acuerdo fundamentalmente al
predominio del régimen térmico. Dentro de cada Faja se distinguen las zonas geográficas o
paisajísticas, que dan lugar a la categoría de sub tipo de paisajes. En la faja tropical se distinguen
los subtipos: seco y sub seco; en la subtropical, los subtipos umido y super umido. Cada faja y
zona en la bacia se manifiestan de manera clara de acuerdo a las diferencias en latitud (en el
estado de Sao Paulo donde predominan las latitudes de 21 a 23 grados predominando de tal
modo la faja tropical; En Paraná predomina la faja subtropical, porque está entre las latitudes mas
meridionales que abarcan de 23 a 26 grados.

La descripción de las características de las fajas y las zonas para todo Brasil se presenta en el
libro sobre Geoecología de los Paisajes, publicado en el 2004 por Mateo, da Silva y Cavalcanti .
En líneas generales el subtipo tropical seco corresponde con la vegetación zonal de floresta
estacional semidecidual y el sub seco con la floresta estacional semi decidual y cerrado. El sub
tropical umido corresponde con el cerrado e floresta estacional semidecidual y, en tanto que la
super umida con floresta ombrofila mista.

A nivel de clase y sub clase, se distinguen cinco taxones, estos se determinaron de acuerdo a las
variantes altitudinales de planaltos y de montaña. Los mismos se dividieron en grupos que
correspondieron con especies, ésta distinción es determinada por factores azonales, en particular
las grandes variantes del mega relieve dentro de cada planalto, y el conjunto de las formas de
relieve. Se determinan las siguientes unidades taxonómicas:

• Planalto muito baixo, abarca la parte inferior de la bacia, fundamentalmente en el Tropical
seco. Se dividen en dos grupos/especies el plano aluvial y las colinas baixas e medias
(planalto muito baixo de arenito).
• Planalto Baixo: abarca la parte inferior y media de la bacia con el tipo tropical, sub tipo
semi seco, se divide en tres grupos/especies: a parte media, a parte alta e a parte muito
alta, cada una con tipos de litologías diferentes.
• Planalto Medio, abarca la parte media de la bacia en el sub tropical umido. Se divide en
tres grupos/especies: las cuestas de basalto, las colinas de la depresión periférica, a
colinas do planalto.
• Planalto Alto: abarca la parte superior de la bacia en el subtopical super umido, se divide
en tres grupos/especies: a parte baixa a alta e as vertentes.
• Montanha: las cabezadas de la bacia en el sub tropical súper umido, com un grupo/especie
de los topos de las montanha.

La distinción de estas unidades, y su clasificación taxonómica, responde a las regularidades de la
diferenciación físico geográfica de la bacia. La bacia esta enclavada en un macizo montañoso
que puede clasificarse como asimétrico, el frente atlántico de la macro vertiente oriental se
levanta de manera abrupta, ya que en solo unos 50-100 kilómetros, se pasa desde el nivel del mar
hasta alrededor de 1500 metros de altitud.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
24
La vertiente occidental, se extiende por unos 700 – 800 kilómetros, desde unos 200 a unos 1000
metros de altitud. En la literatura brasilera el Planalto, corresponde con la definición internacional
de llanuras altas, diseccionadas, con una clara ,manifestación de la zonalidad latitudinal y la
sectorialidad, y un comienzo de la manifestación de la zonalidad altitudinal, al constituir realmente
unidades de transición entre las planicies y las montañas. En realidad, a partir del topo de las
montañas se distinguen cuatro niveles de planaltos: el alto (más de 800 metros de altura), el
medio (de 600 a 800 metros), el baixo (de 400 a 600 metros), y el muito baixo (de 300 a 400
metros). Esos niveles por lo visto coinciden con superficies de planeación que corresponden con
el diferenciado rebajamiento y profundización de la superficie en el transcurso de un largo período
geológico.

En realidad la parte alta de la bacia, formada por los planaltos medio u alto se conforman por
depresiones (llamada de periférica en el estado de Sao Paulo, y de primeiro planalto en el Estado
de Parana) contorneadas por cuestas basálticas (en Sao Paulo) o por chapadas en el Estado de
Paraná. Hasta cierto punto, estas partes superiores del planalto coinciden con los llamados anillos
de alturas pre montañosos de los sistemas montañosos. Esta parte alta de la bacia, esta bastante
influenciada por el papel de la altura sobre el clima, y una determinada diversidad litológica
(arenitos, sialiticos y carbonatados ,basaltos, rocas ígneas y metamórficas).

Los planaltos medios, baixo y muito baixo, se distinguen de acuerdo a la composición litológica
(en arenitos y basaltos principalmente) que es muy homogénea. La diversa influencia de la altura
sobre el clima y la diversa profundidad de la yacencia del nivel freático.(SANTOS , 2006).

La clasificación de los Paisajes de la región de Pontal de Paranapanema:

La clasificación de los Paisajes de la región de Pontal de Paranapanema: siguió los mismos
principios de la clasificación de los paisajes de la bacia como un todo. Sin embargo, en realidad
se procedió a un mayor detallamiento del sistema de unidades taxonómicas al nivel de grupo y se
incluyó el nivel taxonómico de sub grupo. Para el sub grupo se consideraron las agrupaciones de
las meso formas del relieve. En el caso de las especies se colocó, además del suelo y la
vegetación (tal y como se había hecho para la bacia de Paranapanema como un todo), las meso
formas del relieve.
Se distinguieron 5 grandes grupos de paisajes:

• Planície aluvial do planalto muito baixo, divididos em duas espécies
• Vales do planalto muito baixo, divido do vale do rio principal e vales dos afluentes.
• Parte alta do planalto baixo divididos em colinas medias, morretes es espigões e em
colinas amplas (em espigões o em depressões).
• Parte media do planalto baixo, dividas em planicie aluvial, em colinas medias e em colinas
amplas. Estas dividerom se em dependência das características do conjunto de
mesoformas: diferentes posiciones dos espgioes, em depressões. Encostas, e planícies
pré aluviales.
• Parte media do planalto baixo de basalto, na planície aluvial em forma de colinas amplias.

La diferenciación morfológica del relieve, dada por su altitud, el grado de declividad, y la disección
vertical y horizontal, constituyen los principios rectores para la distinción de las unidades de
paisaje al nivel mas inferior. Esas características del relieve determinan el carácter y tipo de
drenaje, las variantes del tipo de suelo, la aptidao y potencial agrícola principalmente, y la
susceptibilidad a los procesos erosivos y la disponibilidad de los acuíferos. Para ello hay que
tener en cuenta que el papel de la litología en la diferenciación de los sub grupos y especies de
paisaje es casi inexistente, solo existe ese papel al nivel de grupos (divididos en arenitos o
basaltos).





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
25
La situación ambiental de la región de Pontal de Parnapenama:


Tomando como punto de partida el Mapa de Paisajes elaborado para la región de Pontal de
Paranapanema, se ha logrado elabora a nivel de hipótesis los mapas de compatibilidade de uso y
de situación ambiental , a escala 1: 250 000..

Para la elaboración del mapa de compatibilidad de uso se ha partido del siguiente procedimiento:
:
- Se tomó como punto de partida cada unidad de paisaje natural distinguida en el mapa.
- Se calculo para cada unidad la aptidao agrícola, tomado del Zoneamento Ecológico –
Económico de Pontal elaborado por el Governo del Estado de Sao Paulo en noviembre
del 1998.Las 5 categorías establecidas en el mencionado mapa se unificaron en tres
categorías: aptidao alta (básicamente caña), regular (pasto), baixa ( uso natural e
florestamento).
- Para cada unidad se calculó la relación entre el uso y el potencial, cruzando de acuerdo a
la matriz correspondiente el uso con el potencial, obteniéndose tres gradaciones:
compatible (cuando el uso corresponde con el aptidao), incompatible (cuando el uso o el
potencial difieren claramente), muito incompatible (cuando hay una significativa diferencia
entre el aptidao y el uso).

Para la elaboración del mapa de situación ambiental se ha partido del siguiente procedimiento:

- Se tomó como punto de partida cada unidad de paisaje natural distinguida en el mapa.
- Se calculo para cada unidad la susceptibilidad a los procesos erosivos tomado del
Zoneamento Ecológico – Económico de Pontal elaborado por el Governo del Estado de
Sao Paulo en noviembre del 1998. Las 5 categorías establecidas en el mencionado mapa
se unificaron en tres categorías: alta, media y baja.
- Para cada unidad se calculó la situación ambiental, cruzando de acuerdo a la matriz
correspondiente la compatibilidad de uso con la susceptibilidad a los procesos erosivos.
Obteniéndose tres gradaciones: situación ambiental favorable, situación ambiental regular,
situación ambiental crítica.

Estos mapas elaborados, deben considerarse a nivel hipotético, y deberán ser corregidos y
profundizados, con la ulterior elaboración del mapa de estado ambiental de unidades de paisajes
(de acuerdo a la extensión e intensidad de la manifestación de los problemas ambientales por
cada unidad de paisaje), y el cálculo mas detallado y de acuerdo de varios criterios del potencial
de recursos y servicios ambientales de cada unidad de paisaje.

Los resultados obtenidos sobre la compatibilidad de uso y de situación ambiental, pueden servir
de base para una evaluación preliminar de las formas en que han usado los paisajes en la región
de Pontal de Paranapanema.

En relación a la compatibilidad de uso prácticamente el 60 % del territorio de Pontal se encuentra
en una situación incompatible (con potencial bajo, y uso alto). Eso está aconteciendo
prácticamente en todas las colinas amplias y medias de la parte media del planalto baixo. Eso es
en particular crítico para las colinas amplas en los espigues principales (unidade numero 14).Ello
se manifiesta fundamentalmente por el hecho de que unidades que deberían según el potencial o
aptidao de ser usados de forma restrita para lavouras, son usadas para cana con una altísima
intensidad de uso. De acuerda a esa situación la expansión de la cana en la parte central y el
extremo occidental de la región de Pontal no está de acuerdo con su potencial, o sea que es
incompatible con su aptidao.

Se consideran como compatible o medianamente compatible fundamentalmente las areas de
pastagem e de floresta. Ellas corresponden con la parte alta del planalto baixo y con el planalto
de basalto. Se considera que la cana esta bien localizada en dichas unidades ,o sea el extremo
este y el extremo noroeste.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
26

En relación a la situación ambiental, el panorama es bastante semejante. De nuevo
prácticamente el 60 % del territorio de Pontal se encuentra en una situación ambiental critica. Se
encuentran en una situación ambiental favorable aproximadamente el 20 % del territorio
(unidades 12, 16, 19 y 22). Estas unidades usadas para cana y pasto son poco sensibles a
procesos erosivos, al corresponder con áreas planas o muy poco inclinadas. El 30 % restante esta
en una situación regular. Son áreas de declividad algo acentuada, usadas principalmente por
pasto.

Los resultados obtenidos, lleva a la necesidad de pensar seriamente en la organización espacial
del uso de la tierra en la región de Pontal, ya que los resultados obtenidos muestran de manera
preliminar que predomina un carácter irracional en la asimilación , ocupación y construcción de
los espacios geográficos en la región. Por ello se hace imprescindible en tomar medidas urgentes
para corregir la incompatibilidad de uso, y pensar la forma en que debe de expandirse la cana.

Consideraciones Finales:

Los resultados obtenidos constituyen solo el punto de partida para la aplicación de la concepción
de Planificación de los Paisajes, para su incorporación en los trabajos de Planificación y Gestión
ambiental y territorial de la Bacia de Paranapanema y de la región de Pontal.

Eso es particularmente importante para la región de Pontal, donde es perceptible una inmensa
presión por parte de empresas nacionales y transnacionales para implementar el agro negocio
como un modelo de uso muy intenso de los recursos naturales, en particular de la tierra y del
agua. (CBHPP, 2006).

En este sentido es de subrayar que la región de Pontal, se encuentran en espacios donde los
suelos arenosos, y de textura fina, junto con la marcada declividad, los hacen mas sensibles a los
procesos erosivos. Ello se refuerza por el carácter de salida de estos paisajes en el contexto del
sistema de la bacia como un todo. Ello significa que , la emergencia sistémica, el resultado de la
intensificación del uso en las partes altas y medias de la cuenca, se refleja de manera sistémica
en la salida de la cuenca, que es justamente la posición que ocupa la región de Pontal. En la
entrada de la bacia, el desmatamento, la construcción de hidroeléctricas, la compactación de la
tierra, la perdida de las matas filiares, conducen todos ellos a un aumento del escurrimiento, a una
disminución de la infiltración, y a un inmensa carga de sedimentos sólidos. Todo ello se refleja en
la región de Pontal, que constituye la salida del sistema. Aquí, se intensifica la erosión, el
assoramento, las oscilaciones bruscas del escurrimiento como resultado en gran parte de los
procesos de degradación y transformación que acontecen en la parte media y alta del sistema.

De tal manera, un trabajo dirigido a entender, planear , manejar y gestionar la bacia como un
todo, deberá remitir a verla como una totalidad, a re establecer sus funciones, su estabilidad, y
tratar de conciliar el uso con el potencial. Esa es una tarea que exige de ingentes esfuerzos
académicos e intelectuales, que pueden ser acometidos con ayuda de la realización de
investigaciones futuras dirigidas a cumplimentar todas las fases de la Planificación del Paisaje.



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Ambiental dos assentamentos do Pontal do Paranapanema; Cadernos ITESP 2; IESP, 1998, 80
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KOLBOWSKY,E.Y.- Landscape approaches to Russian provincial planning: prolbems, mission,
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LEITE,J.F. - A ocupação do Pontal do Paranapanmea: Hucitec- Fundação UNESP; São Paulo,
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MATEO, J., E. VICENTE DA SILVA y A.P.B. CAVALCANTI).; A.C.LEAL.- Paisagems do Brasil; IV
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MONTEIRO, C.A. de F.- Geossistemas: a historia de uma procura; São Paulo, Conteto, 2000, 127
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PASSOS, M.M.dos.- A Raia Divisória. Geossistema, Paisagem e Eco – Historia; Vol.I., Editora da
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PASSOS, M.M.dos.- A Raia Divisória.Eco Hisoria da Raia Divisória São Paulo – Paraná – Mato
Grosso do Sul, Vol.2., Editora da Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2007, 310 pgs.


















Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Gestão dos Recursos Hídricos Gestão dos Recursos Hídricos Gestão dos Recursos Hídricos Gestão dos Recursos Hídricos






















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O RIO LONGÁ E OS TERRITÓRIOS: COCAIS E CARNAUBAIS COMO FORMA DE
USO ECONÔMICO.

Accyolli Rodrigues Pinto de Sousa
Mestrando do PRODEMA/UFPI e- mail: accyolli.p@hotmail.com

Dr. José Luis Lopes Araújo
Profº do departamento de Geografia e História- UFPI e- mail: jlla@ufpi.edu.br

Roberta Celestino Ferreira
Mestranda do PRODEMA/UFPI e- mail: robertacelestino_the@hotmail.com

RESUMO
A bacia hidrográfica do rio Longá representa nos dias atuais um importante fator para o desenvolvimento do estado do
Piauí. Nessa bacia ocorrem atividades econômicas que ainda são de grande importância para as comunidades que vivem
ao longo da área da bacia que é de 22,900 Km
2
. O extrativismo vegetal do babaçu e da carnaúba ainda são praticados
sendo que a extração do pó e da cera continuam a ser um dos principais produtos da pauta de exportação do Piauí nesta
primeira década do século XXI, pois o município de Campo Maior é o maior produtor de pó e cera do Estado sendo
que esse município se encontra localizado no alto curso do rio Longá. Além das tradicionais atividades econômicas
presentes na bacia do Longá desde os primórdios da colonização, neste início de século já se observa a utilização de
técnicas modernas de produção como o uso da irrigação, o que reforça a importância dos recursos hídricos ali presentes,
especialmente o rio principal, que é o Longá. Assim esse estudo desenvolveu-se com o objetivo geral: O presente
trabalho tem como objetivo geral: Analisar os diversos usos da bacia hidrográfica do rio Longá a partir dos territórios de
Cocais e Carnaubais. Objetivos específicos: 1) identificar as atividades econômicas mais expressivas que são
desenvolvidas nesses territórios e 2) caracterizar a atividade turística mais preponderante nessa bacia. A metodologia
caracteriza-se basicamente com uso de material bibliográfico referente ao tema como livros e a utilização da Codevasf
(2006) para uma melhor compreensão a cerca desses territórios aliada as consultas na internet. Sendo que ainda foram
utilizados dois programas de geoprocessamento para a elaboração dos mapas como: carta linx e o arc view


Palavras chaves: Bacia Hidrográfica. Atividades econômicas. Municípios


INTRODUÇÃO

A bacia hidrográfica do rio Longá situa-se na porção norte do estado do Piauí. Esse rio
constitui-se um dos principais afluentes do rio Parnaíba pelo lado do Piauí. A drenagem do rio
Longá é composta por rios e riachos de caráter intermitente, entre os quais se destacam: Matos,
Piracuruca, Surubim e Jenipapo. Uma bacia hidrográfica para se melhor compreendida se faz
necessário um entendimento acerca das suas potencialidades hídricas relacionando com as
atividades econômicas que melhor se adéquam as suas características sociais e naturais, ou seja,
essa compreensão é de grande valia para ações eficazes de empreendedores e principalmente do
poder público. Diante desse contexto, a bacia do rio Longá possui atividades econômicas que foram
organizadas na bacia a partir dos territórios Cocais e dos Carnaubais. Convém salientar que no rio
Longá situa-se a Cachoeira do Urubu um importante ponto turístico do estado localizado entre os
municípios de Esperantina e Batalha. As atividades econômicas que se destacam na área dessa bacia
são: pecuária, agricultura e extrativismo vegetal sendo que há alguns projetos de irrigação nessa
bacia em alguns municípios como: Buriti dos Lopes, Barras e Campo Maior.
O presente trabalho tem como objetivo geral: Analisar os diversos usos da bacia
hodrográfica do rio Longá a partir dos territórios de Cocais e Carnaubais. Objetivos específicos: 1)
identificar as atividades econômicas mais expressivas que são desenvolvidas nesses territórios e 2)
caracterizar a atividade turística mais preponderante nessa bacia. A metodologia caracteriza-se
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
30
basicamente com uso de material bibliográfico referente ao tema como livros e a utilização da
metodologia da Codevasf (2006) para uma melhor compreensão a cerca desses territórios aliada as
consultas na internet. Sendo que ainda foram utilizados dois programas de geoprocessamento para a
elaboração dos mapas como: carta linx e o arc view

A BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO LONGÁ: CARACTERÍSTICAS

A bacia do rio Longá está localizada na área da bacia hidrográfica do rio Parnaíba formando uma
das grandes sub-bacias do Parnaíba no lado piauiense. A bacia do rio Longá abrange uma área de
22.900km² representando cerca de 6,67% da área da bacia hidrográfica do Parnaíba (LIMA, 2006)
conforme se observa no Mapa 01.


Mapa 01 – Bacias Hidrográficas do Estado do Piauí
Fonte: SEMAR, apud LIMA, 2006.


A bacia do rio Longá localiza-se no baixo curso da bacia hidrográfica do rio Parnaíba e
configura-se como uma importante bacia para a região norte do estado do Piauí, com uma
capacidade hídrica de 5,4 bilhões de metros cúbicos (RIVAS, 1996). É importante salientar que na
classificação vigente do relevo piauiense segundo Lima (1987), a bacia do rio Longá se localiza em
duas feições geomorfológicas: 1- planalto oriental da bacia sedimentar do Piauí/ Maranhão e 2-
baixos planaltos do médio baixo Parnaíba. De acordo com Baptista (1981), a bacia do rio Longá
possui uma declividade de 0,4m e uma extensão de 320 km. O Mapa 02 apresenta a rede de
drenagem dessa bacia.










Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
31






















Mapa 02: Bacia hidrográfica do rio Longá
Fonte: SEMAR apud LIMA, 2006.


É importante ressaltar que na bacia do rio Longá há um predomínio de uma vegetação de
transição, com espécies de cerrado e de caatinga sendo um bom exemplo dessa realidade o
município de Campo Maior onde se localiza o “Complexo de Campo Maior”, no qual, existem as
chamadas ‘playas’ que são terrenos alagadiços formados em razão de possuírem uma camada ‘B’
praticamente impermeável no seu perfil de solo.


ATIVIDADES ECONÔMICAS NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO LONGÁ

Ao analisar uma determinada bacia hidrográfica é de suma importância um entendimento
dos tipos de atividades econômicas presentes nesse espaço. Dessa forma para uma melhor
compreensão dessas atividades será tomado como parâmetro a compreensão dos territórios dos
cocais e dos carnaubais de acordo com Codevasf (2006). É importante ressaltar que território dos
cocais compreende os municípios de Barras, Batalha e Esperantina que nessa parte dessa bacia têm-
se as seguintes atividades econômicas: extrativismo vegetal, apicultura, ovinocaprinocultura,
cajucultura sendo que para um melhor uso desses recursos a psicultura deve ser uma tendência de
atividade econômica para essa parte da bacia, pois os municípios citados ocupam o médio curso do
rio. Por exemplo, o município de Batalha apresenta um grande rebanho de caprinos e anualmente
promove o Festival do Bode que já virou uma tradição nesse município. É importante ressaltar que
nesse território ocorrem diferentes formas de extrativismo vegetal como o babaçu e a carnaúba
sendo que a atividade apícola começa a ser desenvolvida no município de Esperantina através de
uma cooperativa sendo que para a Codevasf (2006) esse município já possui uma consolidação
dessa atividade, mas que pode aumentar ainda mais atuação na economia local.
O território dos carnaubais é outra forma de organização sócio-econômica da bacia do rio
Longá sendo que nessa parte da bacia tem- se como atividades preponderantes a extração dos
produtos da carnaúba como pó e cera sendo que também ocorre a criação extensiva de gado. A
extração da carnaúba é uma atividade de respaldo desde o final do século XIX e início do século
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
32
XX ocorre de uma maneira constante em razão da sua importância econômica para os diversos
sujeitos envolvidos nesse processo. Na primeira metade do século XIX, “a elevação dos preços da
cera de carnaúba no mercado internacional (final da década de 1930 até meados da década de
1940), intensificou as atividades que envolviam a sua produção com consequente forte circulação
monetária naquele estado” (ARAÚJO, 2008, p. 198). É preciso ressaltar que esse período áureo não
conseguiu manter uma estabilidade para todos os envolvidos nesse processo, pois o mercado da cera
era muito dependente do mercado externo continuando ainda cíclico e instável (SOUZA et al.,
2006). É importante destacar que em todos os municípios presentes na bacia do rio Longá há
extração da palha de carnaúba (Tabela 01).


Tabela 01: Produção de pó de carnaúba nos municípios da bacia do rio Longá – 2007

Municípios Produção
Pó (t)
Campo Maior 1.275
Barras 188
Esperantina 160
Batalha 395
Buriti dos Lopes 325
Coivaras 109
Nossa Senhora de Nazaré 133
Boqueirão do Piauí 126
Cabeceiras do Piauí 101
Boa hora 03
São José do Divino 160
Caraúbas 123
Caxingó 213
Murici do Portelas 170
Alto Longá
57
Fonte: IBGE, 2007


É importante ressaltar que o município no município de Campo maior há uma grande
quantidade de pó produzida. Diante desse contexto é preciso que ocorram medidas de conciliação
entre a extração do pó e da cera e o desenvolvimento social e econômico, pois é sabido que os
carnaubais dessa cidade recebem um processo de degradação preocupante. Essa discussão é
interessante, pois segundo o planejamento da Codevasf (2006) o extrativismo da carnaúba tem uma
forte tendência para expansão nessa bacia do rio Longá fazendo assim necessária a implementação
de ações para amenizar os efeitos negativos dessa atividade. É importante ressaltar que ao longo da
bacia do rio Longá existem outras atividades econômicas relacionadas ao extrativismo vegetal como
a extração de madeira e o babaçu dessa forma é preciso um planejamento ambiental para o uso
eficiente desse recurso e a conservação do meio natural nessa parte da bacia do rio Longá. É
importante ressaltar que aliada à extração vegetal também existe a criação de bovinos, suínos,
caprinos e ovinos nesse território. Na Foto 01 mostram-se animais pastando em campos de
pastagem natural, típicos da área no período chuvoso.


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Foto 01 Criação extensiva de gado na bacia do rio Longa.
Fonte: Araújo (2008)

Na Foto 01 é possível verificar uma grande variedade de animais que são criados na sua
grande maioria por pequenos e médios proprietários que utilizam esses animais como uma forma de
subsistência e para a comercialização da carne e do couro. Ao analisar a Foto 01 é possível afirmar
que esse tipo de criação acaba por trazer algumas conseqüências para o meio natural em razão do
intenso pisoteamento o que pode trazer em uma compactação do solo. Essa forma de criação já era
feita há muitos séculos atrás, conforme visto nas páginas anteriores. Para Rivas (1996), a pecuária
no seu conjunto é em alguns casos realizada com técnicas rudimentares pela falta de assistência do
governo juntamente pela inexistência de um manejo apropriado para as pastagens. Diante desse
contexto essa atividade possui uma grande área de atuação nessa parte da bacia do rio Longá
fazendo necessária uma melhor organização dessa atividade, pois do pouco uso de manejo do solo e
de tecnologias para o melhoramento da criação. Na Tabela 02 tem-se a distribuição desses rebanhos
pelos os municípios:

Tabela 02: Rebanho de bovinos, caprinos, suínos e ovinos nos municípios da bacia do rio Longá –
2007

Rebanhos
Municípios Bovino
(cabeças)
Suíno (cabeças)
Caprino
(cabeças)
Ovino (cabeças)
Campo Maior 30.629 25.528 33.458 29.480
Barras 18.642 33.841 22.428 7.979
Esperantina 14.528 15.888 18.713 6.521
Batalha 22.731 23.340 33.297 18.760
Buriti dos Lopes 15.275 4.045 2.338 2.015
Coivaras 3.946 3.439 4.838 5.024
Nossa Senhora
de Nazaré

5.024

8.061

4.853

11.233
Boqueirão do
Piauí
3.671 4.381 3.699 3.535
Cabeceiras do
Piauí
7.917 7.126 13.410 13.410
Boa hora 2.045 5.189 2.192 2.192
São José do
Divino
8.226 3.344 7.065 6.548
Caraúbas 9.442 4.212 2.720 2.623
Caxingó 5.985 2.412 2.372 1.991
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Murici do
Portelas
5.909 8.146 5.703 1.434
Alto Longá 11.737 17.005 22.526 25.194
Fonte: IBGE, 2007

Diante dos dados apresentados é possível afirmar que os municípios que compõem a bacia
do rio Longá possuem uma variedade importante na criação de animais para oferta de carne e de
matéria-prima para a indústria do couro. No município de Campo Maior ainda há um predomínio
na criação de bovinos talvez seja em razão do seu passado que detinha uma grande de quantidade de
cabeças de bois para o mercado interno na época do Brasil Colônia. Assim, a atividade pecuária
ainda tem uma forte função social, pois esses rebanhos tais como: suínos, ovinos e caprinos têm um
caráter de subsistência para as pessoas de baixa renda principalmente nas zonas rurais desses
municípios. Aliada a pecuária os projetos de irrigação configuram-se como um importante
instrumento econômico em alguns municípios ao longo do seu curso como é o caso de Barras no
cultivo de melancia e Alto Longá e Buriti dos Lopes no cultivo do arroz.

ATIVIDADES TURÍSTICAS NO RIO LONGÁ.

Ao abordar sobre o uso do rio Longá na atividade turística é de grande importância ressaltar
o Parque Ecológico Cachoeira do Urubu. Esse parque localiza-se entre os municípios de
Esperantina e Batalha. Essa Unidade de Conservação possui uma área de 7,54ha sendo que a área
do parque ecológico possui uma diversidade de espécies vegetais em razão do caráter ecotonal ali
existente. No período chuvoso devido ao aumento das águas do rio é formada uma bela paisagem
através de um desnível no leito rochoso do rio na área do parque e que segundo Baptista (1981) essa
queda d’água possui uma altura de 13,40m formando um belo espetáculo natural, o qual pode ser
verificado na Foto 02.


Foto 02: Cachoeira do Urubu no rio Longá (Esperantina/Batalha-PI)
Fonte: Araújo (2008)

O desenvolvimento do turismo ecológico, no Parque Ecológico Cachoeira do Urubu, é de
suma importância para as cidades de Esperantina e Batalha e também para o Estado do Piauí, na
medida em que ressalta nos visitantes o interesse pelas questões ambientais, transmitindo uma
consciência ecológica, pautada na gestão racional dos recursos naturais. Dessa forma, a gestão
racional dos recursos naturais requer a conscientização de que os elementos que constituem o
ecossistema devem ser objetos de políticas harmônicas no âmbito de uma visão sistêmica. A
discussão a respeito da atividade turística é de grande valia em razão desse processo ainda ter uma
grande utilidade para um maior desenvolvimento da região que compreende a bacia do Longá, pois
segundo a Codevasf (2006) é necessário que se promovam estudos para se verificar os potenciais
turísticos como forma também de planejamento para essa parte da bacia. Dessa forma, o governo
estadual começa a desenvolver o projeto do ‘Pólo das águas’ que por sua vez abrange vários
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
35
municípios da bacia do Longá com o objetivo de um melhor uso das águas desse rio para a
promoção do turismo atrelado há um planejamento mais eficaz para que isso ocorra de uma maneira
mais satisfatória. A cachoeira do Urubu é considerada um dos grandes atrativos turísticos do estado
do Piauí, pois a cada ano reúne uma grande quantidade de turistas. Na década de 1990 já se faziam
estudos sobre o seu uso como atrativo turístico. Feitosa (1995, p. 45) enfatizava que os “turistas ao
visitarem o local causavam degradação, como pisoteamento da vegetação rasteira e de outras
espécies, pássaros são sacrificados, das rochas são retiradas amostras sem fins que justifiquem tais
atitudes”. Existem outras conseqüências relacionadas ao turismo praticado na cachoeira do urubu
como, por exemplo: lixo de vários materiais como: vidro, papel e restos de comida, sendo que é
muito comum no período de alta estação alguns turistas acenderem fogueiras para o preparo do
peixe. O certo é que a degradação não ocorre exclusivamente em razão do turismo, mas também
pelo fato da existência de outras atividades antrópicas. Assim, fica evidente uma realidade
preocupante no Parque Ecológico Cachoeira do Urubu, pois são verificadas ações antrópicas como
desmatamento, caça, pesca predatória, fogueiras e entre outras formas que comprometem
principalmente a biota presente nesse espaço. Faz-se necessário, então adotar medidas para reverter
essa situação através da educação ambiental e ainda um melhor planejamento para o turismo nessa
área.

CONCLUSÃO

Diante dos fatos apresentados, a bacia do rio Longá possui várias atividades econômicas,
mas que as mesmas devem ter maiores estudos para que se possa compreender com mais clareza
sobre às suas reais funções para uma melhor organização espacial da bacia hidrográfica do rio
Longá. É preciso ressaltar que o poder público deve realizar estudos para descobrir os potenciais
dessa bacia aliado a implantação do comitê de bacia desse rio para um uso eficaz das águas para o
uso industrial bem como pelas comunidades tradicionais. Esse aspecto é importante, pois faz com
que a bacia seja utilizada de uma forma racional em razão de se adequar as atividades econômicas
com o meio natural e ainda com as populações locais para um fortalecimento do desenvolvimento
sustentável ao longo dessa bacia. Sendo que deve existir uma maior fiscalização dos órgãos
competentes para atenuar os impactos ambientais que existem ao longo dessa bacia, por exemplo, o
corte de carnaubais próximo as margens do rio.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, José Luís Lopes. O rastro da carnaúba no Piauí. Revista mosaico. V. 1, n.2, p198-
205, jul/dez. 2008.
BAPTISTA, João Gabriel. Geografia física do Piauí. 2. ed. Teresina: Comepi, 1981, 361p.
Companhia de desenvolvimento dos vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF). Plano de
ação para o desenvolvimento integrado da Bacia do Parnaíba- PLANAP. Brasília: TDA, 2006.
CD- ROM
FEITOSA, Maria Suzete Sousa. Caracterização geoambiental da região da Cachoeira do Urubu
- PI. Carta Cepro, Teresina. V. 16, p. 32-46, 1995.
IBGE (Instituto brasileiro de geografia e estatística) censo 2007- cidades@. Disponível em: www.
Ibge. gov.br. Acesso em: 30 maio. 2009, 11:30
LIMA, Iracilde Maria de Moura Fé. Elementos naturais da paisagem. In: ARAÚJO, José Luís
Lopes. (Coord.). Atlas escolar do Piauí: espaço geo-histórico e cultural. João Pessoa: Grafset, 2006.
p 39- 77.
RIVAS, Margarete Prates (Coord.). Macrozoneamento geoambiental da bacia do rio Parnaíba.
Rio de Janeiro: IBGE. 1996, 111p.
SOUZA, Gildênio Assenço de et al. Os canais de comercialização internacionais da cera de
carnaúba do estado do Piauí. In: GOMES, Jaíra Maria de Alcobaça; SANTOS, Karla Brito dos;

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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MODELAGEM DINÂMICA DE ESCOAMENTO SUPERFICIAL: BACIA
HIDROGRÁFICA DO PONTAL - ESTADO DO PERNAMBUCO


Ailton Feitosa
(1)
.Professor Assistente da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) e Doutorando do Programa
de Pós-Graduação em Geografia da UFPE
a.feitosa@bol.com.br

José Alegnoberto Leite Fechine

Doutorando em Geografia no Departamento de Geografia na UFPE
fechini02@yahoo.com.br

RESUMO
O objetivo deste trabalho foi identificar os principais fluxos de escoamento superficial, através de
uma simulação computacional com os dados de precipitação efetiva na bacia hidrográfica do rio
Pajeú no trecho que compreende o município de Serra Talhada/PE, com a finalidade de identificar
as áreas sujeitas aos processos erosivos mais atuantes sobre os solos. Para a determinação do
escoamento superficial foi adotado o Modelo Hidrológico Curve Number – MHCN. Os resultados
obtidos na simulação do escoamento superficial contribuíram na identificação das áreas mais
susceptíveis ao escoamento dinâmico, cujas conseqüências podem ser observadas na erosão efetiva
dos solos a partir da declividade do terreno. Comparando-os com as correspondentes condições de
uso, cobertura da terra e tipos de solos, variando desde uma cobertura muito impermeável (limite
inferior), observada para os solos do GHS “D”, até uma cobertura muito permeável (limite
superior), como se observa para os solos do GHS “A”. No caso dos solos pertencentes ao GHS “B”
e “C”, observou-se que o comportamento do escoamento superficial é muito irregular, pois são
solos mal drenados e rasos, localizados nos Topos e Altas Vertentes do relevo ondulado.
PALAVRAS-CHAVE: Modelagem, SIG, escoamento superficial.

INTRODUÇÃO

A idéia de modelagem vem de um processo empírico, no qual os princípios de uma ou mais
teorias são aplicados para se reproduzir o comportamento de um fenômeno numa escala de tempo
estimada, através de um modelo sob uma ótica de uma determinada realidade (Ross, 1994).
A integração de modelos hidrológicos com sistemas de informação geográfica (SIG) tem sido
discutida, analisada e utilizada por muitos pesquisadores, tais como Ross (1994), Montoya (1999),
Tucci et. al (2000), Paiva et. al (2001), Druck et. al. (2004), entre outros, principalmente ligados as
ciências exatas e ambientais, a exemplo da engenharia, da hidrologia, da meteorologia e da
geomorfologia, cuja tendência é um reflexo da grande capacidade dos SIG de armazenar,
manipular, analisar, recuperar e visualizar informações geográficas.
O presente estudo teve como objetivo principal realizar uma simulação computacional do
escoamento superficial da água no município de Serra Talhada, a partir dos dados de precipitação,
drenagem, relevo e solos para identificar as áreas mais sujeitas aos processos erosivos,
transformando um Sistema de Informações Geográficas em uma representação realista dos
processos espaços-temporais para a área. Através do processo de Modelagem Ambiental é possível
avaliar os riscos de processos erosivos na área estudada, a partir da indicação da declividade e dos
solos mais susceptíveis à erosão, por conta da sua capacidade de retenção da água (Bertoni e
Lombardi Neto, 1993).
Neste estudo, a modelagem do escoamento superficial foi realizada utilizando o modelo
hidrológico Curve Number (CN) (SCS, 1972) para estimar o escoamento superficial da área, com
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
37
base nos dados de precipitação efetiva e nos valores obtidos para a vazão dentro da bacia do rio
Pajeú no município de Serra Talhada.

ÁREA DE ESTUDO

A área de estudo está inserida na bacia de drenagem da microrregião do Rio Pajeú na porção
norte do Estado de Pernambuco, com uma área de 2.959 km
2
, localizada na região conhecida como
Serra Talhada que faz parte do chamado semi-árido pernambucano (Figura 1). O município de
Serra Talhada está inserido na unidade geoambiental da depressão sertaneja, que representa a
paisagem típica do semi-árido nordestino, caracterizada por uma superfície de pediplanação
bastante monótona, onde o relevo predominante é suave-ondulado, cortado por vales estreitos, com
vertentes dissecadas. A cobertura vegetal da área é composta basicamente por caatinga hiperxerófila
(em sua maior parte).

Figura 1 – Mapa de localização da área de estudo, no município de Serra Talhada-PE.

MÉTODO
BASE DE DADOS

Os dados de solos utilizados neste trabalho foram extraídos do mapa de solos do ZAPE
(Zoneamento Agroecológico do Estado de Pernambuco, 2001) na escala 1/100.000 e comparados
com o mapa de solos dos levantamentos da EMBRAPA (2000) para o município de Serra Talhada
(Figuras 2), com a finalidade de estabelecer uma classificação única para suas ocorrências e,
depois, agrupá-los de acordo com suas capacidades de infiltração (Figura 3)

Figura 2 – Mapa de solos do município de Serra Talhada – PE, na escala 1/100.000. RF – Neossolo
Flúvico; - RQ – Neossolo Quartzarênico; C – Cambissolo; T – Luvissolo; PA – Argissolo Amarelo;
PE – Argissolo Vermelho; S – Planossolo; PVA – Argissolos Vermelo-Amarelo; RL – Neossolo
Litólicos; RR – Neossolos Regolítico .
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
38
Fonte: ZAPE (2001)



Basicamente o município de Serra Talhada é composto por quatro tipos de solos dominantes:
Planossolos, Luvissolos, Argissolos, Neossolos Litólicos. Esses solos, com exceção dos Argissolos,
se apresentam rasos ou com pouca profundidade, sendo encharcados rapidamente durante eventos
pluviométricos intensos. Além disso, no caso dos solos Argilosos, a infiltração da água é
dificultada, se tornando extremamente lenta. Essas duas características dos solos, pouca
profundidade e textura argilosa contribuem para o aumento do escoamento superficial das águas.
Em função dessas características particulares dos solos na área de estudo, foi necessário uma
classificação dos mesmos de acordo com o GHS (Grupo Hidrológico dos Solos) proposto por
Lombardi Neto et al (1991) (Tabela 1).

Tabela: 1 – Classificação dos Grupos Hidrológicos dos Solos e características e capacidade de
infiltração correspondentes.
GHS Características Capacidade de
A Solos arenosos e argilosos, profundos e bem
drenados.
> 3,4 mm h-1
B Solos arenosos, com pouca argila e orgânico. 2,5 e 3,4 mm h-1
C Solos mais argilosos que o GHS B, com baixa
permeabilidade
1,4 e 2,5 mm h-1
D Solos com pouca argila, rasos, pouco
desenvolvidos e muito impermeáveis.
< 1,4 mm h-1
Fonte: Elaborado com base nos grupos hidrológicos conforme Lombardi Neto et al. (1991).

Na figura 3, têm-se os Planossolos, que são solos mal drenados, de fertilidade natural média
e problemas de sais e foram localizados nos Topos e Altas Vertentes de relevo plano e suave
ondulado; os solos Luvissolos, que são solos rasos a pouco profundos e de fertilidade natural alta,
que foram localizados nos Topos e Altas Vertentes do relevo ondulado; os Argissolos, que são
acentuadamente drenados e de fertilidade natural média, localizados nos relevos planos e nas
baixadas dos vales; e os solos Neossolos Litólicos rasos, pedregosos e de fertilidade natural média,
localizados nas Elevações Residuais.

Figura 3 – Mapa da Classificação dos Grupos Hidrológicos dos Solos para o município de Serra
Talhada – PE, na escala 1/100.000. Fonte: Elaborado com base no ZAPE (2001).

Os dados de precipitações foram obtidos a partir das séries do LAMEPE (2008) e os dados de
vazões associadas a essas precipitações, foram obtidos dos dados das séries históricas hidrográficas
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
39
da ANA (2007) coletados nos postos pluviográficos e fluviográficos localizados na bacia do rio
Pajeú.




O MODELO HIDROLÓGICO CURVE NUMBER (MHCN)

Na aplicação do MHCN, as características físicas da bacia hidrográfica, tais como o grupo
hidrológico do solo (GHS) (Tabela 1), uso, condição hidrológica do solo e umidade, foram de
fundamental importância, para combinar as características da área de estudo e determinar a Curve
Number mais dinâmica, um parâmetro que representa e estima o escoamento superficial gerado por
uma chuva.
A chuva efetiva foi determinada a partir da equação proposta pelo SCS, cujos resultados
obtidos permitem determinar a precipitação efetiva da área que irá influenciar no escoamento
superficial, considerando-se como único parâmetro, a Curve Number (CN) (SCS, 1972). A equação
abaixo foi utilizada para medir o escoamento superficial (S) definida pelo modelo CN:

Onde: Q = o escoamento superficial (em mm); P = a precipitação; S = o potencial de infiltração
máximo após o início do escoamento superficial. O parâmetro S está relacionado ao solo e a
condição de cobertura da bacia de drenagem, através do parâmetro CN, conforme a equação a
seguir:

O parâmetro CN depende de três fatores: umidade do solo, tipo de solo e ocupação de solo.
Diante dos dados de precipitação e de solos da área de estudo, foi possível associar a classificação
hidrológica dos solos (Tabela 1) com os valores de CN (Tabela 2), comparando-os com as
correspondentes condições de uso e cobertura da terra, variando desde uma cobertura muito
impermeável (limite inferior da CN), observada para os solos Neossolos Litólicos, até uma
cobertura permeável (limite superior da CN), que é o caso observado para os solos Argissolos. No
caso dos solos Luvissolos e Planossolos, foi constatado que o comportamento do escoamento
superficial é muito irregular, pois são solos mal drenados e rasos (Figura 3).
Para a determinação da lâmina d’água gerada para uma precipitação efetiva na área, foi
utilizado o Método da Curva Number (SCS, 1972). Para a aplicação desse método se faz necessário,
inicialmente conhecimento do GHS dos Solos (Tabela 1), a determinação do valor correspondente
às condições de uso, cobertura da terra e tipos de solos da bacia hidrográfica (Tabela 2) e ao
escoamento superficial para a determinação da Curva Number. A definição do GHS foi feita a partir
do conhecimento dos tipos de solos correspondentes a área de estudo no trecho que compreende a
bacia do rio Pajeú, associado às suas características e à capacidade de infiltração (Figura 3). Com
essa informação, considerando o tipo de cobertura vegetal do local, o tratamento, a condição
hidrológica e o GHS, foram obtidos os valores da Curve Number para três condições específicas,
denominadas: CN-I, CN-II e CN-III. A condição CN-I representa os valores médios
correspondentes ao escoamento superficial para uma precipitação efetiva na condição CN-II, que
representa uma estimativa de valor percentual de 10 % a 100% para a precipitação efetiva ou para a
cobertura vegetal. Na condição CN-III, os valores máximos do escoamento superficial estão
diretamente relacionados com o percentual da cobertura vegetal para os fluxos anuais da
precipitação na condição CN-II (Tabela 3).



equação 1
equação 2
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Tabela 2 – Valores médios do parâmetro Curver Number (CN) para bacias hidrográficas rurais
(Tucci, 2000).


Tabela 3 – Condições da chuva e Curve Number para uma perda inicial (Ia) de 0,2S (SCS,
1972) a partir da cobertura do solo.

Fonte: SCS (1972)

A partir dos dados gerados com os valores da Tabela 1 e considerando os tipos de cobertura
dos solos correspondente a área com base na Tabela 2, verificou-se que a média da CN
correspondeu a 77. Esse valor representa um escoamento superficial de 83,25% da precipitação
efetiva na área, que se justifica pela cobertura vegetal e o GHS dos solos da área estudada. Então, a
partir dos valores da Tabela 3, foi feita a interpolação dos valores e foi determinado o valor da
CN na condição I igual a 0,772. Utilizando esses dados e sabendo que a precipitação média
histórica anual na região é de 639 mm (LAMEPE, 2008), foi determinado o potencial de infiltração
máximo (S). Com esses dados foi determinada a lâmina d’água escoada nos limites mínimos e
máximos das CN-I e CN-III para uma chuva efetiva nas condições da CN-II, através da Equação do
Escoamento Superficial, logo:
CN
s(área)
= CN-II.CN-I = 77 x 0,772 = 59,44


Uma vez feita à identificação da dinâmica dos fluxos do escoamento superficial mínimo e
máximo a partir da CN nas condições da CN-I e CN-III, para cada categoria de cobertura do solo,
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
41
foi necessário proceder com a transformação da chuva em vazão. Para isso, foi utilizado o Método
do Hidrograma Unitário (HU) da GPRH (2000). Ao usar o Método do HU determinou-se um
hidrograma sintético (Figura 4), que representa as estimativas da vazão na área para um período
de chuva efetiva média de 1 hora.

Figura 4 – Hidrograma para uma precipitação efetiva no município de Serra Talhada.

Para definir o HU do GPRH, foi necessário determinar algumas características físicas da
bacia, relacionadas com o intervalo de tempo da precipitação efetiva, o tempo de concentração e a
declividade da área da bacia hidrográfica.
Para simplificar todos os resultados obtidos, foi gerado um fluxograma representando todas as
etapas trabalhadas na modelagem dinâmica do escoamento superficial, para determinar sua
influência na suscetibilidade à erosão dos solos na área estudada (Figura 5). Na primeira parte do
estudo buscou-se conhecer os dados de precipitação do ano de 2008, para então estimar o
escoamento superficial d’água sobre diferentes tipos de solos, levando-se em consideração as
características físicas da bacia hidrográfica (solos, declividade, uso e cobertura da terra). Em
seguida, sabendo-se que parte da precipitação sofre a evaporação e a evapotranspiração, buscou-se
conhecer as características físicas dos solos para então determinar os seus respectivos GHS
(Tabela 1). Com as características físicas da bacia hidrográfica e os parâmetros superficiais
considerados para cada tipo de cobertura da terra na área (Tabela 2), estimou-se o escoamento
superficial e a vazão gerada a partir da precipitação efetiva anual (Equações 1 e 2, Figura 4).
Os resultados obtidos foram transformados em dados e utilizados na geração dos mapas de
declividade e drenagem (Figura 6) com o emprego do software ArcGIS, para então finalizar o
processo da modelagem dinâmica do escoamento superficial com a identificação das áreas dos solos
susceptíveis à diferentes tipos de erosão (Figura 7).

Figura 5 – Fluxograma do modelo da dinâmica do escoamento superficial dos solos de Serra
Talhada, município do semi-árido de Pernambuco.

Para se chegar aos resultados do modelo, foram aplicados o método do MHCN (SCS, 1972) e
o método do HU (GPRH, 2000) para fins de comparações com as características físicas da bacia
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
42
hidrográfica do rio Pajeú (área, declividade, tipos de solos, cobertura da terra) identificadas no
trecho que compreende o município de Serra Talhada (Figura 3 e 6).
Ajustado a aplicação das metodologias e seus resultados com as respectivas etapas do projeto
foi feita à delimitação das áreas propensas ao escoamento superficial com base nas informações
topográficas plani-altimétricas do Modelo Digital do Terreno (MDT). A partir do MDT foram
retiradas as curvas de nível da área de estudo utilizando recursos específicos do software ArcView.
Como resultado foi gerada a carta de curvas de nível, que serviu como base para a representação da
declividade da área estudada (Figura 6). Esta mesma carta foi utilizada para definir as direções de
fluxo da drenagem na área, permitindo determinar também, os locais onde o escoamento é mais
dinâmico.

















Figura 6 - Mapa indicando o potencial da drenagem em solos de Serra Talhada, município do
semi-árido de Pernambuco.

Durante este processo foi possível identificar a ocorrência de diferentes tipos de solos em
uma mesma sub-bacia, o que permitiu uma determinação ponderada do valor da CN para identificar
os seus domínios, que de acordo com o processamento dos dados no computador, foi gerado o mapa
das áreas propensas a maior escoamento superficial (Figura 7). A imagem gerada representa as
maiores altitudes da área e, é nestes locais onde o escoamento superficial é mais atuante
influenciando a susceptibilidade à erosão dos solos. Cabe ainda observar que nas áreas mais
rebaixadas, o escoamento é lento e os solos são mais desenvolvidos e mais profundos.


Figura 7 - Mapa indicando as áreas propensas ao escoamento superficial em solos do município de
Serra Talhada, localizado no semi-árido de Pernambuco.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
43

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O método da CN tem sido muito utilizado para o dimensionamento das correlações entre a
drenagem, o escoamento superficial e os tipos de solos. Com esses objetos de referência é possível
fazer uma análise das áreas com solos susceptíveis à erosão. Nesse sentido, o escoamento
superficial das águas da precipitação efetiva anual no município de Serra Talhada-PE tem
contribuído para a erosão, principalmente em função dos grupos de solos predominantes, que em
sua maioria são rasos ou com pouca profundidade e textura argilosa. Essas características
contribuem para o aumento do escoamento superficial das águas, com arraste da fração
granulométrica mais fina do solo, trazendo prejuízo para sua fertilidade.
A partir dos valores obtidos para a CN com os dados das precipitações do ano de 2008 e de
solos nas condições CN-I e CN-III, foi possível identificar as áreas de maior fluxo e recarga d’água,
bem como as mais susceptíveis à erosão, como resultado da influência do escoamento superficial
para uma precipitação efetiva. Essas áreas apresentam um baixo potencial de infiltração e
permanência da umidade do solo. Porém, estão mais susceptíveis ao transporte de sedimentos e, por
extensão, para o empobrecimento e perda dos nutrientes do solo.
Quanto aos resultados obtidos na simulação do escoamento superficial, pode dizer que sua
contribuição está na identificação das áreas mais susceptíveis ao escoamento dinâmico, cujas
conseqüências podem ser observadas na erosão efetiva dos solos a partir da declividade do terreno,
aqui identificados, por extensão, como lento, baixo, médio, moderado, difuso e alto.

REFERÊNCIAS

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ANAIS XI SBSR, Belo Horizonte, Brasil, 05 – 10, abril, 2003, INPE, p. 2427 - 2434.
CHRISTOFOLETTI, A., Modelagem de Sistemas Ambientais. Editora Edgard Blücher, São Paulo, 1999,
236p.
DRUCK, S.; Carvalho, M.S.; Câmara, G.; Monteiro, A.V.M. (eds) "Análise Espacial de Dados
Geográficos". Brasília, EMBRAPA, 2004.
EMBRAPA - Centro Nacional de Pesquisa de Solos. Sistema brasileiro de classificação de solos. 2. ed. Rio
de Janeiro, 2006. 306p.
GENOVEZ, A. B. Vazões máximas. In: PAIVA, J. B. D.; PAIVA, E. M. C. D. (Org.). Hidrologia aplicada à
gestão de pequenas bacias hidrográficas. Porto Alegre: Associação Brasileira de Recursos Hídricos, 2001.
cap 3, p. 33-112.
GPRH - Grupo de Pesquisa em Recursos Hídricos. Universidade Federal de Viçosa, 2000.
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MACK, M. J., HER-Hidrologic evaluation of runoff; the soil conservation service curve curve number
technique as an interactive computer model. Computer & Geosciences, vol 21, 8:929-935, 1995.
MONTOYA, M. A. P.; Claros, M. E. A. C.; Medeiros, J. S. de. Identificacion de lãs áreas con riesgo de
inundacion y deslizamiento en la cuenca del Rio Buquira en el Municipio de São José dos Campos – SP
utilizando las tecnicas de sensoriamento remoto y geoprocesamiento. São José dos Campos. INPE.
Deciembre. 1999. Trabalho do Curso Internacional em Sensoriamento Remoto do INPE.
LAMEPE – Laboratório de Meteorologia de Pernambuco. Disponível em: http://www.itep.br/LAMEPE.asp.
Acesso em 14/12/2008.
LOMBARDI NETO, F.; Junior, R. B.; Lepsh, I. G.; Oliveira, J. B.; Bertolini, D.; Galeti, P. A.; Drugowich,
M. I., Terraceamento Agrícola. Boletim téc. 206, Secretaria de Agricultura e Abastecimento, CATI,
Campinas, 1991, 39 p.
ROSS, J. L. S. Análise Empírica da Fragilidade dos Ambientes Naturais e Antropizados. Revista do
Departamento de Geografia - FFLCH-USP, N.9. 1994. pp. 63-74.
SCS, Soil Conservation Service, National Engineering Handbook, USDA, 1972.
TUCCI, C. E. M. Modelos hidrológicos. Porto Alegre: Ed.UFRGS, 2000.
VILLELA, S. M.; MATTOS, A. Hidrologia aplicada. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1975.
ZAPE – Zoneamento Agroecológico do Estado de Pernambuco, 2001.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
44

APLICAÇÃO DA METODOLOGIA DO DFC NA MICROBACIA DO MUNICÍPIO DE
LUIS GOMES - RN

Alexsandra Bezerra da Rocha – (UERN)
Mestranda em Dinâmica Territorial e Ambiental – UFC. alexsandrarocha2@gmail.com

Paulo César Moura da Silva (UFERSA)
Profº. Dr. em Recursos Naturais, pesquisador do Departamento de Ciências Ambientais - –
paulo.moura@ufersa.edu.br

Ramiro Gustavo Valera Camacho (UERN)
Profº. Adjunto Dr. em Botânica, pesquisador do Departamento de Biologia
ramirogustavo@uern.br


RESUMO
Este trabalho é parte de uma monografia desenvolvida junto ao programa de especialização em
Geografia do Nordeste: Desenvolvimento Regional e Gestão do Território da Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte – UERN com o objetivo de apresentar a metodologia desenvolvida
para análise do Diagnóstico Físico Conservacionista – DFC, que teve como finalidade, determinar o
potencial de degradação ambiental existente na área, bem como, a confecção de mapas sínteses da
evolução do uso e ocupação do solo e das áreas com diferentes riscos ambientais, além de mapas
geológico, geomorfologico. Desta forma, o presente estudo se propõe a testar, com algumas
adaptações, o Diagnóstico Físico Conservacionista – DFC na microbacia do Município de Luis
Gomes. A área de estudo situa-se na Messoregião do Alto Apodi e na microrregião da Serra de São
Miguel entre as latitudes 06° 24’ 50’’ sul e a longitude 38° 23’ 19’’ oeste, limitando-se com os
municípios de Coronel João Pessoa, Riacho de Santana, José da Penha, Major Sales e Venha Ver
(RN) e com o Estado da Paraíba, abrangendo uma área de 181 km². A metodologia parte da
definição de sete parâmetros: grau de semelhança entre a cobertura vegetal original e a atual, grau
de proteção fornecido ao solo pela cobertura vegetal atual, declividade média, erosividade da chuva,
potencial erosivo dos solos, densidade da drenagem e o balanço hídrico. A microbacia do município
de Luis Gomes foi subdividida em 4 setores (1, 2, 3 e 4), Os dados coletados e as informações
geradas representam uma importante base de dados necessários às tomadas de decisões para os
programas de extensão rural e/ou projetos que visem à recuperação ambiental da área, cujos
resultados qualitativos são transformados em quantitativos, espacializando as áreas mais degradadas
através do Mapa de Degradação Ambiental por setor.

Palavra Chave: DFC, Bacia Hidrográfica, Degradação e Uso do Solo


INTRODUÇÃO

Os problemas enfrentados quanto a utilização dos recursos hídricos, induziram à concepção
de utilização de bacias hidrográficas em pesquisas ambientais. Inicialmente, a prioridade era o
controle de enchentes, secas, abastecimento público, tanto residencial quanto industrial.
Atualmente, o enfoque é bem mais abrangente, onde todos os elementos que compõem este
ambiente são considerados como inter-relacionados.
Com o crescimento dos estudos envolvendo bacia hidrográfica surgiram novas
metodologias e novos termos: sub bacia, Zoneamento Ambiental, Planejamento Ambiental, Sócio-
Ambiental ou Ecológico-Econômico, DFC e microbacia.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
45
A criação do Programa Nacional de Microbacia Hidrográfica (PNMH), através da lei
94.074, de 05 de março de 1987, expandiu o uso do termo, que foi definido como sendo uma área
drenada por um curso d’água e seus afluentes, a montante de uma determinada seção transversal,
para a qual convergem as águas que drenam a área considerada (BRASIL, 1987). Portanto, o termo
microbacia esta relacionado com a dimensão para uma determinada área, o tamanho dessa área,
contudo não esta fixado. Mas as pesquisas mostram que a microbacia deve abranger uma área
suficientemente grande, para que se possam identificar as inter-relações existentes entre os diversos
elementos do quadro sócio-ambiental que a caracteriza, e pequena o suficiente para estar compatível
com os recursos disponíveis. Já o termo sub bacia esta relacionado ao número de bacias menores.

CARACTERÍSTICAS DA ÁREA DE ESTUDO

A área em estudo situa-se na Messoregião do Alto Apodi e na microrregião da Serra de São
Miguel limitando-se com os municípios de Coronel João Pessoa, Riacho de Santana, José da Penha,
Major Sales e Venha Ver (RN) e com o Estado da Paraíba, abrangendo uma área de 181 km².
Distando da capital do estado, cerca de 444 Km, sendo seu acesso, a partir de Natal, efetuado
através das rodovias pavimentadas BR 304 e BR 405(Figura 1).
Assim como a maior parte do território do Nordeste do Brasil, a morfologia da região é
resultado da erosão diferencial e da atuação de tipos climáticos sendo predominante o semi – árido.
A área de estudo é sustentada por rochas cristalinas e cristalofilianas dos grupos Serra de São José,
Suíte do Deserto e Complexo Jaguaretama. Já as principais unidades Geomorfológicas da área de
estudo são: Relevos Residuais e Depressão Sertaneja. Estas foram classificadas por Ab’ Saber
(1953, 1969), Andrade (1968), Bigarella e Andrade (1964), Salim, Lima e Mabesoone (1975);
Mabesoone e Castro (1975); Radam (1981) no que se refere a característica e classificação.
A temperatura anual varia de 28° a 30° C. A baixa latitude e o relevo com cotas que
ultrapassam 800m, são os principais agentes influenciadores na distribuição desta temperatura. A
umidade relativa do ar é em média 66%. A precipitação pluviométrica média de 909,4 mm,
possuindo máxima precipitação de 1.731,5 mm e mínima de 192,3 mm (IDEMA, 2001).
Quanto à cobertura vegetal, o Município de Luis Gomes possui floresta Caducifólia –
Vegetação que apresenta espécies e folhas caducas que caem no período mais crítico da seca. Nas
áreas com altitude acima de 600 m apresenta grande porte, e uma considerável devastação, por
queimadas ou derrube de árvores, com graves conseqüências para o ecossistema.
A rede hidrográfica esta representada principalmente pelo Rio Apodi – Mossoró, sendo
banhado apenas por cursos d’água secundários e intermitentes. Os mais importantes são: o Rio
Angicos e os riachos Pintada, Panela, do Saco e dos Oitis. Existem três açudes de médio porte:
Arapuá (4.295.000m
3

/ público), Luís Gomes (1.286.000m
3

/ público) e Major Sales (1.316.100m
3

/
comunitário).
Os principais tipos de solos / associações pedológicas que ocorrem na área, segundo a
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – (EMBRAPA, 1999), são Argissolos Vermelho
Eutrófico (antes designado como Podzólico Vermelho - Amarelos Eutróficos) e Luvissolos
Crômicos (antes conhecido como solos Bruno não Cálcico). São pouco profundos, com 40 a 60 cm
de solo acima da rocha, relativamente rico em nutrientes e frequentemente apresentam uma camada
de pedras e cascalhos à superfície.
As principais atividades econômicas: agropecuária, extrativismo e comércio. Estas
atividades são importantes fontes de renda para o município de Luis Gomes. Segundo o Censo
agropecuário de 2006 as áreas dos estabelecimentos agropecuários eram de 11.247 hectares, sendo
que a área equivalente das lavouras era de 2.020 hectares, as pastagens naturais 3.240, áreas de
matas e florestas 3.999 (IDEMA, 2001).
As atividades referentes a este trabalho foram desenvolvidas dentro do âmbito dos projetos
Rio Apodi-Mossoró (Petrobrás Ambiental – Integridade Ambiental a Serviço de Todos-2008) e
Zoneamento Ambiental das bacias hidrográficas do RN – (FAPERN-2006-2007).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
46
Buscou-se a sistematização do objetivo acima por meio da estruturação dos elementos
físicos, bióticos e socioeconômicos responsáveis pela dinâmica da microbacia do município de Luis
Gomes e da análise do estado ambiental da bacia.


Figura 1: Localização da área de estudo, Fonte: as imagens foram retiradas do site ambiente brasil, com
exceção do Mapa de NDVI do município de Luis Gomes, elaborado pela autora.



OBJETIVO

O objetivo deste trabalho é utilizar a metodologia do Diagnóstico Físico Conservacionista –
DFC a fim de determinar o potencial de degradação ambiental existente na área, através do
cruzamento dos mapas da evolução do uso e ocupação do solo, além de mapas geológicos,
geomorfológicos, hipsográfico e Drenagem.

REFERENCIAL DO DIAGNÓSTICO FÍSICO CONSERVACIONISTA - DFC

A partir da década de 1960 modelos estrangeiros de estudos ambientais são estudados na
intenção de se buscar adaptações destes à situação brasileira. Em 1978 foi estruturado um Comitê
Especial de estudos Integrados de Bacias Hidrográficas – CEEIBH, cuja linha de pesquisa
classificou os cursos d’água da união e a utilização racional dos recursos hídricos, não avaliando os
demais recursos naturais.
No Paraná, o Serviço de Extensão Rural desenvolveu vários projetos no âmbito de bacias e
microbacias, visando principalmente diagnósticos gerais, plano de ação e metas físicas,
cronograma, construção de terraços e recuperação de matas ciliares. As principais propostas tinham
por base: identificação dos problemas críticos (solo, água, florestas, transporte, uso e manejo do
solo, etc.); priorização dos problemas críticos, propostas envolvendo a comunidade, elaboração de
mapas temáticos, implantação e execução do plano proposto.
Esta proposta de DFC também foi objeto de estudo no trabalho realizado por Beltrame
(1994) na bacia do rio do Cedro, Município de Brusque – SC, por Ferreti (1998), na bacia do rio
Marreca - PR, Ferreti (2003), na bacia do rio Tagaçaba - PR, Carvalho (2004), na bacia do rio
Quebra – Perna, Ponta Grossa - PR, dentre outros.
Em Honduras O DFC foi utilizado na bacia Concepcion, abrangendo os municípios de
Lepaterique, Reitoca e Santa Ana. Segundo Beltrame (1994), os resultados foram objetivos
reforçando a viabilidade da metodologia como padrão para futuros planos de manejo de bacias
hidrográficas.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
47
Da mesma forma, o presente estudo se propõe a testar, com algumas adaptações, o DFC na
nascente do rio Apodi – Mossoró – RN, no Município de Luis Gomes, apoiando-se no
embasamento teórico dos trabalhos citados anteriormente.
O DFC tem como meta, determinar o potencial de degradação ambiental da bacia, a partir de
fatores naturais, como subsídio ao planejamento e manejo dos recursos naturais. Para isso é
necessário indicar os parâmetros potenciais que serão expressos em forma numérica, estabelecendo
o risco de degradação e possibilitando uma análise qualitativa e quantitativa quanto à preservação
desses recursos.

METODOLOGIA GERAL

O desenvolvimento da presente pesquisa consistiu em uma série de atividades de
fundamentação teórica e procedimentos técnicos para a aplicação do DFC na microbacia
hidrográfica do Município de Luis Gomes (Figura 2). Como ferramenta de auxilio utilizou-se o SIG
e o Geoprocessamento, o primeiro servindo sobremaneira no levantamento de campo, e o segundo
no processamento destas informações para estabelecer comparações da paisagem entre dois ou mais
períodos de tempo. Dentro do Geoprocessamento utilizou-se o sensoriamento remoto para indicar
as formas de uso e ocupação do solo e o GPS modelo Garmim 3 plus, referenciado em coordenadas
UTM, datum SAD 69, na freqüência L1 e cartas digitalizadas da Secretária Estadual de Recursos
Hídricos do Estado do Rio Grande do Norte - SERHID.
O Sistema Gerenciador de Informações Geográficas-SGIG
5
utilizado foi GvSig 1.1.1. Esse
programa é desenvolvido pela empresa Generalitat Valenciana Conselleria d'Infra estructures e
Transport, é um software livre, disponível no site www.gvsig.gva.es e permite ao usuário
“visualizar, explorar, examinar e analisar dados geograficamente”.
De acordo com os estudos de Beltrame (1994) o DFC pode ser aplicado em qualquer bacia
hidrográfica, desde que sejam feitas as adaptações necessárias, pois cada bacia tem características
peculiares.

MÉTODOS DE TRABALHO

I – Setorização da bacia do Município de Luis Gomes: Constitui - se na digitalização das cartas
temáticas básicas e cálculos da morfometria para definição dos setores da bacia e elaboração da
Carta de setorização da Bacia.

II - Determinação dos parâmetros do DFC: com base nas atividades desenvolvidas na fase anterior,
fotointerpretação e classificação de imagens orbitais, foram determinados os parâmetros da
metodologia para cada setor da bacia.

III – Fórmula descritiva por setor – Aplicação da fórmula para determinar o grau de degradação
ambiental de cada setor da bacia.

IV – Cálculo e avaliação do valor crítico da degradação por setor: aplicação da equação da reta.
Desenvolvido a inter – relação do Mapa de Uso do Solo e o Mapa do Potencial Erosivo do Solo,
para gerar o Mapa de Degradação da área de estudo.


RESULTADOS


5
Sistema para designar o software utilizado, por exemplo: ARC/INFO, MGE (Intergraph), SPRING (INPE), Matias e
Ferreira (apud Matias, 2001).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
48
Com base nas informações de solo, clima, geologia, geomorfologia, hidrografia, hipsografia
e formas de uso e ocupação do solo a microbacia do município de Luis Gomes foi dividida em 4
Sub Bacias, denominadas de setores, logo em seguida, cruzou-se essas informações gerando o Mapa
de Degradação. Na Tabela 1 tem-se a setorização (1,2,3 e 4) da microbacia do Município de Luis
Gomes.

Tabela 1: Setorização da Microbacia do Município de Luis Gomes - RN
SETORES HECTARES PORCENTAGEM
SETOR 1 7.394 56%
SETOR 2 3.339 25%
SETOR 3 1.400 11%
SETOR 4 1.118 8%
TOTAL 13.251 100%
Fonte: Elaborada pela Autora, 2008

A partir dos parâmetros determinados (Tabela 2) utilizou-se a fórmula descritiva da equação
da reta, adaptando-se os índices de cada parâmetro para a microbacia do município de Luis Gomes,
neste trabalho optou-se para determinar a degradação levando em consideração apenas quatro
parâmetros, uma vez que os sete parâmetros proposto pelo DFC não foi possível, pois o município
não detém de dados suficientes para o cruzamento das informações, mas os parâmetros selecionados
mostraram-se altamente satisfatórios para determinar o grau de degradação da microbacia. Cada
categoria foi divida em pesos, estes seguiram metodologia de Rocha (1997) adaptada por Kurtz et al
(2001):

Tabela 2: Parâmetros e valores ambientais utilizados no estudo da deterioração ambiental.
Parâmetros
Drenagem CATEGORIA Solo CARTEGORIA Relevo CATEGORIA
Cob
Vegetal CATEGORIA
PESO PESO PESO PESO
1 PLANO 1 ARBOREA
1 INEXISTENTE 3 MÉDIA 2
D. FUND
VALE 2
ARBUSTIVA
ARBOREA
2 ATÉ DUAS 5 FORTE 3 SUAVE OND 3 ARBUSTIVA
3 ATÉ TRÊS 4 FORT ONDUL 4 ARB RALA
4 ATÉ QUATRO 5
MONTA E
ESC 5 HERBACEA
>5 > QUE QUATRO 6 SOLO ESPOSTO
Fonte: Elaborada pela Autora, 2008

Portanto na equação da reta os parâmetros foram analisados a partir das seguintes categorias
classificadas por Beltrame(1990) :
E (f):
,
CO
a
+ CA
b
+ DM
c
+ E + PE
e
+ DD
f

Descrição da fórmula:
E (f): É o estado físico – conservacionista do setor que é proporcional aos parâmetros
COa : grau de semelhança entre a cobertura vegetal original e a atual; a é o índice específico.
CA: proteção da cobertura vegetal atual ao solo; “b” é o índice especifico do parâmetro, que varia
entre 1 (proteção máxima) e 7 (nenhuma proteção).
DM: declividade média, “c” é o índice especifico deste parâmetro, que varia entre 1 ( relevo
plano) e 5 (erosão excessiva).
E : Erosidade da chuva;
PE: potencial erosivo dos solos; “e” é o índice especifico do parâmetro, que varia de 1 (baixo) a 10
(muito alto).
DD: densidade de drenagem; “f” é o índice especifico do parâmetro, que varia de 1 (baixa) a 4
(muito alta).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
49
De acordo com as classificações utilizada e/ou elaborada, o valor mínimo possível de ser
obtido na fórmula descritiva é 6 (somatório de todos os índices iguais a 1), o que representa o
melhor estado físico – conservacionista de que o setor poderia apresentar; o valor máximo possível
de se obter na fórmula descritiva para a microbacia do município de Luis Gomes é 22 (somatória de
todos os índices com valores máximos) representando o pior estado físico – conservacionista que o
setor poderia apresentar. Com estes valores mínimo de 6 e máximo de 22, tem-se o ângulo de
inclinação da reta. Geocodificando os valores, obtêm-se os índices de degradação ambiental dos
setores. Portanto após todos os cálculos chegou-se a equação da reta do município:
y = 6,25 - 37,5

Para o processo de geocodificação foi necessário distribuir pontos na área de estudo através
do GPS e em locais de difícil acesso os pontos foram retirados de uma imagem ortoretificada do
ano de 2002 e adequados aleatoriamente de modo a cobrir uniformimente toda a área de estudo,
sendo que cada ponto corresponde a uma área de 3,14Km
2
ou 314 ha, equivalente a um raio de 1Km
para cada ponto determinado. Esta representação foi gerada na forma de mapa temático, tendo os
seguintes cenários:
Percebe-se que o setor 1 apresenta todos os valores de degradação ambiental sendo mais
característico o valor 52-67, portanto média degradação ambiental, equivalendo a 6.000 hectares.
No entanto o valor com alta degradação aparece em quatro ponto equivalente a 667 hectares.
A degradação no setor 2 mostra que 1.600 hectares apresentam média fragilidade e 230
hectares apresentam alta degradação. Este é o setor mais explorado da microbacia, todas as
atividades partem deste setor. O grau de degradação nos topos de morros varia entre 67 a 81
O setor 3 mostra média degradação em 4.500 hectares e baixa degradação em 300 hectares,
no setor 3 algumas projetos futuros pode comprometer esta área, como a ampliação do complexo
turístico mirante e a construção de um conjunto de apartamentos.
No setor 4 três pontos foram separados chegando ao resultado de média fragilidade
ambiental em 600 hectares, e degradação entre 50 a 62 esta área passa por intensas queimadas
todos os anos, as encostas da Serra de São José são bastante utilizada para agricultura de
subsistência. A figura 6 espacializa a deterioração ambiental indicando as áreas de maior incidência
de degradação.



























Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
50


































Figura 6: Mapa da Setorização da microbacia com o grau de degradação do município esta varia entre 44 menor
degradação e 81 maior valor de degradação aparecendo nos setores 1 e 2.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para a área de estudo, conseguiu-se identificar a problemática ambiental da microbacia,
avaliando o potencial dos recursos. Para isso, cruzou-se algumas informações e após o cruzamento
confeccionou-se o Mapa de Degradação Ambiental do Município, fundamentando a análise para
espacializar as regiões mais problemáticas.
Verifica-se que as áreas a serem mantidas com o mesmo uso são as que apresentam uso
correspondente, ou seja, adequadas às características do ambiente onde se encontram, como por
exemplo, cultivo em áreas de médio e baixo potencial erosivo, em ambientes que não sejam áreas
de proteção permanentes. Na microbacia de Luis Gomes encontram – se em todos os setores.
As áreas que devem ser otimizadas são aquelas que têm baixo potencial erosivo, áreas estas
que já existe algum tipo de ocupação, mata e outras (edificações), havendo a possibilidade de
exploração econômica como pastoreiro (com vegetação nativa) e cultivos nunca dissociados das
práticas conservacionistas recomendadas, além de atividades como visitação pública, turismo rural
e ecológico, obedecendo sempre parâmetros norteadores, como por exemplo, a capacidade
respectiva dos ambientes naturais, a partir da combinação da capacidade material, psicológica e
ecológica. Na microbacia do município a área da nascente do Apodi-Mossoró, a Serra de São José,
a Serra do Croatá, o complexo turístico mirante, a cachoeira do rela e o sítio de fruteiras.
As áreas que devem ser preservada no município são aquelas que apresentam vegetação
nativa em áreas de proteção permanentes – APP’s como nascentes (50m) margens dos cursos
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
51
d’água, ainda que intermitentes (30m) áreas com declividade acima de 45º, os topos de morros, ao
redor das lagoas e sítios de excepcional beleza ou de valor cientifico e histórico além das reservas
legais (20% das propriedades).

AGRADECIMENTOS

Ao laboratório de Geoprocessamento da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte –
UERN, departamento de biologia, por todo apoio logístico e pela confiança no uso dos
equipamentos, e pela ajuda financeira durante as viagens de campo especialmente ao professor e
amigo Dr. Ramiro Gustavo Valera Camacho e ao professor e amigo Dr. Paulo César Moura da Silva
pelas orientações e discussões durante a realização deste trabalho e do trabalho monográfico.



REFERENCIAS

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CARVALHO, Silvia Méri O Diagnóstico Físico-Conservacionista –DFC como subsídio à
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Tese (programa de Pós Graduação em Geografia) - Unesp – Universidade Estadual Paulista.

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de 2001 - acesso em 09/08/2007.















Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
53

AS ENCHENTES NA BHRP - BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO DO PEIXE, OS
SISTEMAS ATMOSFÉRICOS E OS EVENTOS CLIMÁTICOS INTENSOS.

Aloysio Rodrigues de Sousa
Doutorando em Geografia – UFC – alorodriguesousa@gamil.com


RESUMO
O texto em epígrafe trata de analisar a ocorrência de enchentes derivadas de precipitações intensas
conjugados com outros fatores de ordem topográficas e antrópicas causando intensos prejuízos à
população das cidades de São João do Rio do Peixe, Sousa e Aparecida localizados na Bacia do rio
do Peixe, no extremo oeste da Paraíba.
Palavras chave: Enchentes; Bacia Hidrográfica; Sistemas atmosféricos; Sertão

INTRODUÇÃO

Compondo a rede hidrográfica do Nordeste, o Rio do Peixe forma uma sub-bacia que integra
a drenagem do Alto curso da Bacia do rio Piranhas-Açu, localizada no extremo noroeste do semi-
árido paraibano, que tem como característica principal ser uma pequena área sedimentar interior e
por isso apresentar solos propícios à agricultura irrigada, incrustados dentro do cristalino que a
rodeia.
A localização da BHRP no Alto Sertão Paraibano inserem-se dentro das latitudes de 06° 20
e 7° 06 S e de 37° 57´ e 38° 46´W de Greenwich, portanto ocupando a parte noroeste do Nordeste
Brasileiro – NEB, que por sua vez se localiza entre os paralelos de 1° S e 18° S e os meridianos 35°
W e 47° W, com uma área aproximada de 1,5 milhões de Km
2
, sendo mais conhecida como região
problema do ponto de vista climático.
Regionalmente, a bacia do rio do Peixe encontra-se em uma zona deprimida, a Depressão
Sertaneja, que é limitada pelos “ombros de rifts” (os relevos altos da Serra do Padre em Bernardino
Batista) e que se elevam a NW, nas fronteiras com os estados do Rio Grande do Norte e Ceará,
respectivamente. Estas serras apresentam cotas variantes em torno de 700 m, formando os grandes
divisores regionais de bacias hidrográficas.
As serras ao S/SW formam o denominado Patamar Sertanejo, são os “ombros de rifts” da
linha de falha do Lineamento de Patos constituintes da Serra de Santa Catarina, que embasa parte
do alto curso do rio Piranhas, inclusive os divisores com a bacia hidrográfica do Rio Pajeú. Na
altimetria exibida pela imagem SRTM, este patamar apresenta cotas de 300 a 350 m, nas partes
mais baixas elevando-se para 600 a 700 m, quando se vincula a serra de Santa Catarina. (ver mapa
SRTM e perfis longitudinais). É um relevo de intensa dissecação em formas convexas e aguçadas.
Finalmente, formando os leitos e margens dos cursos de água das bacias do Piranhas e do Peixe,
ocorre a chamada Planície Interiorana, unidade de idade atual a subatual, correspondente aos
depósitos aluviais.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
54


Mapa plani-altimétrico da Bacia do Rio do Peixe e adjacências
Fonte: Imagem SRTM disponível em http://srtm.csi.cgiar.org

O relevo da bacia sedimentar do rio do Peixe caracteriza-se por ser uma superfície de
aplainamento com altitude média em torno de 230 m, situado em nível mais baixo do que a área do
embasamento cristalino circundante, rochas que por serem muito mais resistentes, formam
elevações em torno da bacia sedimentar formando um leque aberto, em um dos lados pelo vale do
rio Piranhas.
Em relação às áreas de exposição dos sedimentos da bacia do rio do Peixe, o relevo
apresenta-se plano com pequenas variações nas diferentes unidades litológicas. Observa-se que os
arenitos apresentam-se em relevos irregulares enquanto os siltitos e argilitos formam um relevo de
aspecto mais suave.
Nessa depressão sedimentar, marcadas por nítidos níveis de erosão, em virtude das suas
características climáticas predominam os processos físicos de intemperismo, provocando ocorrência
de solos rasos, drenagem intermitente e canais fluviais semi-anastomosados ou anastomosados,
controlados pelo arcabouço estrutural de linhas de falhas.
Os processos físicos de intemperismo predominam sobre os processos químicos e biológicos,
provocando a ocorrência de feições idiossincráticas. As diáclases de descompressão que evoluem
para uma rede de diaclasamento ortogonal originam blocos que sob a ação de sua própria massa,
aliada à ação do clima local, provoca uma forma específica de desagregação, em forma de pétala.
É possível se identificar os processos físicos de degradação da rocha, a partir da
fragmentação gradual do corpo rochoso, que sob a ação de agentes intempéricos origina os
sedimentos que através da ação de agentes geomórficos locais, serão depositados nas cotas mais
baixas, originando assim a superfície pediplanada de Sousa; o mesmo processo ocorre na bacia de
Triunfo.
Ao longo do tempo geológico, estes materiais vão sendo gradativamente desagregados,
formando sedimentos cada vez menores que por sua vez serão transportados e depositados nas áreas
mais baixas do relevo, dando origem aos pedimentos.
Uma forma característica dessas áreas são os Inselbergues, termo alemão que significa
literalmente “monte ilha”, que, de acordo com DRESCH (1957) constitui uma forma típica de
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
55
condições climáticas de savana. As vertentes dos inselbergues sofrem alteração da rocha através de
2 processos de erosão : downwearing e backwearing, ambos resultando em exumação de blocos
graníticos intrudidos que evoluem por etchplanation, que por fim ascendem a superfície durante os
processos de formação do pediplano.
Especificamente na bacia do Rio do Peixe, os solos resultantes do intemperismo que ocorreu
nas rochas sedimentares e nos sedimentos quaternários inconsolidados são os Luvissolos, que, de
acordo com a Classificação de Solos da EMBRAPA (1999), compreendem solos minerais não
hidromórficos, com argila de atividade alta, saturação de bases alta e horizonte B textural ou B
nítico imediatamente abaixo de horizonte A fraco, ou moderado. Esta classe de solo abrange os
solos Bruno Não Cálcicos e os Podzólicos Vermelho-Amarelo Eutróficos (BRANDÃO, 2005).
O processo pedogenético que ocorreu nas rochas das formações Antenor Navarro, Sousa e Rio
Piranhas, compostos por conglomerados, arenitos, siltitos e folhelhos originam os Vertissolos e os
Neossolos (BRANDÃO, 2005 op. cit).
Os Vertissolos são constituídos por material mineral, apresentando horizonte vértico e pequena
variação textural ao longo do perfil. Estes solos apresentam variação de volume com o aumento da
umidade do solo, ocorrendo o fendilhamento nos períodos secos. São solos que se desenvolvem nas
áreas aplainadas e pouco movimentadas da bacia do Rio do Peixe. Esta classe de solos abrange os
Vertissolos e os Vertissolos com fase pedregosa (BRANDÃO, 2005 op.cit).
A BHRP localiza-se em uma área de 3 443 Km
2
sendo aí reunidos 18 municípios que são:
Aparecida, Bernardino Batista, Bom Jesus, Cachoeira dos Índios, Cajazeiras, Lastro, Marizópolis,
Poço Dantas, Poço de José de Moura, Santa Cruz, Santarém, Santa Helena, São Francisco, São João
do Rio do Peixe, Sousa, Triunfo, Uiraúna e Vieirópolis.
As nascentes do Rio do Peixe localizam-se na Serra do Padre, município de Bernardino
Batista. Ao longo de seu curso recebe significativas contribuições de onze sub-bacias; sete delas à
margem esquerda: Riacho Poço Dantas, Riacho Morto 2, Riacho das Araras, Riacho da Serra,
Riacho Boi Morto, Riacho do Açude Chupadouro, Riacho Morto 1; as outras quatro à margem
direita: Riacho Condado, Riacho Jussara, Riacho Cacaré, Riacho Zé Dias, desaguando finalmente
na confluência com o Rio Piranhas, município de Aparecida.
A ordem, dos cursos d´água, se constitui numa classificação que reflete o grau de
ramificações ou bifurcação da rede hidrográfica. O Rio do Peixe é um rio de 7ª ordem na
Classificação de STHRALER (1957), com o exutório na confluência com o Rio Piranhas nas
proximidades da cidade de Aparecida. Sua rede de drenagem obedece ao substrato geológico das
falhas de Portalegre e de Malta e do Lineamento de Patos, encaixando- se o traçado dos canais de
drenagens a essas linhas de falhas.
Na classificação bioclimática de Gaussen, a área da bacia do Rio do Peixe apresenta um
clima do tipo semi-árido quente mediano, com 7 a 8 meses secos e uma má distribuição anual da
precipitação, correspondendo às regiões bioclimáticas 4ath e 4bth, tropical quente de seca
acentuada e tropical quente de seca média, respectivamente. Aliado as altas temperaturas e a
elevadas taxas de evapotranspiração a estiagem ocasiona sérios problemas de ordem sócio-
econômica peculiares à região (BRANDÃO, 2006).
O período chuvoso se estende por três ou quatro meses. As precipitações nesta região se
efetuam em torno de 3 a 4 meses, concentrando-se nos meses de dezembro a março, eventualmente
podem chegar a abril e excepcionalmente podem chegar a junho, quando se tratam de anos atípicos.
Sempre de distribuição irregular, as precipitações ocorrem de forma concentrada por vezes com
índices entre 100 e 200 mm em apenas um dia. Essas precipitações provocam o aparecimento de
algo inusitado na região seca dos sertões da Paraíba: as inundações observadas com maior
freqüência nos últimos 10 anos, conforme quadro abaixo.
Nas precipitações dos anos de 1977, 1985, 1996, 2000, 2008, todas superando mais que
1000 mm, ocorreram enchentes e inundações das cidades do Médio e Baixo curso do rio do Peixe.
Entretanto, também se verificou que em 2002, 2004, 2006 as precipitações também foram maiores
que 1000 mm, mas as enchentes alcançaram menor proporção e não acarretaram os transtornos e
perdas materiais de grande volume. Todavia, não é demais reafirmar que não houve nestes últimos
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
56
30 anos, um índice pluviométrico médio de 1700 mm, e nem tantos desabrigados e perdas maiores
que este ano de 2008.
Os prejuízos à população, como perdas de residências, de plantios e de animais, e aos órgãos
públicos com recolhimentos da população para lugares seguros e perdas de prédios escolares, de
estradas vicinais, além do ônus econômico do socorro aos desabrigados e vitimados pelas
enchentes, se constitui numa calamidade pública de um evento que tem vinculações naturais.
Igualmente, provoca o isolamento de partes e localidades distanciadas das sedes municipais,
dificultando o acesso e transporte de alunos as cidades circunvizinhas, bem como fornecendo as
condições básicas para o aparecimento de doenças vinculadas a água, tais como a dengue, a cólera e
diversos tipos de epidemias provocados por via hídrica.
As enchentes do rio do Peixe são reflexos de anos de precipitações atípicas para a região do
semi-árido paraibano, e presumisse conjugados com as das atividades sobre os solos (má condução
dos tratos culturais, irrigação ineficiente, procedimento agrícolas danosos ao ambiente) e com o
armazenamento d`água pelos açudes, construídos na bacia, (Lagoa do Arroz, Paraíso, Caldeirão e
vários pequenos açudes) que podem ter interferido na elevação do nível freático e ainda da
conjugação do incremento das precipitações pelo fenômenos La Nina e do desmatamento e
ocupação provocados pela ocupação da planície fluvial nas cidades supra citadas.






















Figura 01 – Enchente nas cidades de São João do Rio do Peixe, Sousa e Aparecida (30 de março de 2008)

OS SISTEMAS ATMOSFÉRICOS
Para o NEB existem pelo menos 06 (seis) sistemas atmosféricos que interferem nas
condições de tempo, e quando sua ação conjunta ou não podem produzir precipitações na região. Os
principais sistemas atuantes para o NEB são: A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT); as
bandas de nebulosidades associadas as Frentes Frias, os Distúrbios de Leste, os Ciclones na média e
alta troposfera do tipo baixa fria conhecidos como Vórtice Ciclônico de Ar Superior (VCAS), as
Brisas terrestres e marinhas e um mecanismo de escala planetária como a Oscilação 30-60 dias.
(ALVES et al, 2006).
Esses sistemas atuam na região causando ora secas extremas, ora inundações e ainda uma
intensa variabilidade climática anual e mesmo sazonal, podendo em alguns casos se verificar
variabilidades em nível locais, fruto de conjugações de atuações do sistema em grande escala com
eventos de meso escala produzidos em níveis regionais com interferências locais tais como a
altimetria e vegetação.
Na Paraíba, essa variabilidade interanual é tão intensa, que chega a ser observado em alguns
anos poder existir precipitações no litoral superiores a 1500 mm e os Sertões, Curimataú e Agreste
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
57
apresentarem índices irregulares entre 800 mm decrescendo para o interior da isoeta de 300 mm,
como é o caso de Cabaceiras – PB.
Nas precipitações do NEB a ZCIT é o principal sistema atuante, ocorrendo nos meses de
fevereiro a maio, sendo que a distribuição se faz de forma desigual entre as regiões da faixa
litorânea, do Setor norte do NEB e Centro Oeste e do setor Sul já em transição para o Sudeste.
A ZCIT é a resultante principalmente da confluência entre os alísios de sudeste e alísios de
nordeste, se constituindo de bandas de nuvens circundando a faixa equatorial. O choque entre os
ventos alísios, em baixos níveis, faz com que o ar quente e úmido ascenda e provoque a formação
de nuvens, baixas pressões, altas temperaturas e intensa atividade convectiva e precipitações. Esse
sistema atua de fevereiro a maio, principalmente para os estados do Ceará, oeste do Rio Grande do
Norte e interior da Paraíba e Pernambuco.
Essa atividade convectiva sofre efeitos positivos (negativos) com o deslocamentos da ZCIT,
normalmente localizada aproximadamente entre 14° N em agosto-outubro para 2° a 4° S entre
fevereiro a abril. Esses deslocamentos estão relacionados aos padrões de temperaturas da superfície
do mar (TSM) do Atlântico Norte e Sul, da influência remota das anomalias das TSM`s do Pacífico
e ondas de Leste, denominados de ENOS (El Niño e Oscilação Sul).
Os Vórtices Ciclônicos de Ar Superior – VCAS são sistemas irregulares em termos de
posicionamento, que atuam de novembro a fevereiro, podendo produzir tanto chuvas intensas
quanto estiagens. As chuvas se localizam em bandas de nuvens que estão na sua periferia, enquanto
que o centro inibe e a formação de nuvens causando estiagens, ambos de atuação de meses. Os
VCAS estão relacionados com a circulação geral da atmosfera, com a Alta da Bolívia (AB), com a
posição da ZCAS e a penetração de Frentes Frias do Sul.
As frentes frias são para o NEB, o segundo principal mecanismo de produção de chuvas,
atua no sul e sudeste do Brasil, Minas Gerais e também no sul da Bahia, nos meses de novembro a
fevereiro com máximo em dezembro. Sua atuação é muito limitada por não possuírem o gradiente
térmico que é característico da sul e sudeste do Brasil.
Os Sistemas Frontais e a penetração das Frentes frias no NEB são importantes sistemas
produtores de chuvas, atuando na região sul nos meses de novembro a fevereiro com máximos em
dezembro e decrescendo para o norte (Bahia) e o segundo principal mecanismo, as frentes,
ocorrendo no sul e sudeste do Brasil, Minas Gerais e sul da Bahia.
Os Distúrbios de Leste atuam desde o Rio Grande do Norte até a Bahia, durante interstício
de maio a agosto, têm como principal características serem estes distúrbios existentes tanto no
Atlântico Norte e Atlântico Sul e estão intrinsecamente dependentes da TSM, do cisalhamento dos
ventos e dos efeitos das brisas marítimas e terrestres e da orografia que podem intensificar ou
dissipar seus efeitos.
Essa região também pode apresentar eventos pluviométricos intensos resultantes de
conjugações entre os sistemas atmosféricos Complexos Convectivos de Meso Escala - CCAS e da
Zona de Convergência do Atlântico Sul - ZCAS, que por sua vez já é resultante do posicionamento
dos VCAS e da persistência de frentes frias. Segundo NOBRE (1998), nos anos considerados
chuvosos (secos) no NEB a ZCAS situa-se mais ao norte (sul) de sua posição climatológica, durante
o mês de verão austral (Dezembro, Janeiro e Fevereiro).
Os fenômenos mencionados atuam em sub-regiões do NEB e algumas vezes sofrem
influências do albedo da orografia. Portanto, os sertões onde as áreas são aplainadas e onde a
vegetação é escassa, têm como resultante um decréscimo do balanço de radiação no topo da
atmosfera induzindo a subsidência que inibe a convecção e as precipitações.
A partir do mês de fevereiro é a ZCIT o principal sistema causador de chuvas no NEB,
sendo o mês de fevereiro o inicio do período chuvoso para o setor norte do NEB. As chuvas
intensas ou chuvas máximas têm uma distribuição irregular tanto temporal quanto espacialmente.
BUZZI et al. (1995) afirmaram que eventos de chuvas intensas são favoráveis pelas condições
meteorológicas de meso e grande escala, atuando na intensificação e tempo de duração dos
sistemas.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
58
EVENTOS ATMOSFÉRICOS INTENSOS NO ALTO E BAIXO SERTÃO PARAIBANO
Eventos atmosféricos intensos ressaltam a importância do aprofundamento na pesquisa da
gênese do tipo climático da BHRP e do setor do Baixo Sertão da Paraíba inseridas dentro de micro
regiões homogêneas de precipitações e que estão conjugadas com as enchentes nas cidades do Alto
Sertão e Baixo Sertão Paraibano representadas aqui pelas cidades de Poço Jose de Moura, Uiraúna,
São João do Rio do Peixe, Sousa e Aparecida para o Alto Sertão e Patos e região circunvizinhas,
para o Baixo sertão Paraibano.
Esses eventos demonstram a difícil tarefa de entender geneticamente os sistemas produtores
de tempo nestas áreas e abrem perspectivas de estudos detalhados sobre o recurso água para as
regiões supracitadas, de modo que as relações no ciclo hidrológico do oeste da Paraíba permitam o
entendimento das enchentes para aquelas áreas.

Os eventos de 30 de março de 2008 e 12 de abril de 2009 ocorridos na BHRP e no
município de Patos são resultantes de conjugações entre a ZCIT e a ocorrência de CCAS, presença
da ZCAS e ainda com variáveis locais como a presença de relevos de altitude na parte norte da
BHRP.
As precipitações de 2008 para o NEB e especificamente para a BHRP situaram-se acima da
média dos últimos 30 anos resultado de conjunções de diversos fatores tais como a incidência de La
Nina, do GRADIENTE positivo para o Atlântico Sul e ainda de CCAS que protagonizaram
precipitações entre 190 a 270 mm na área que compõe os municípios da Bacia do Rio do Peixe.
As imagens abaixo permitem analisar a ocorrência para o dia 30 de março de 2008, em que essas
precipitações fizeram com que o açude Lagoa do Arroz construído a mais de 20 anos viesse a
sangrar pela primeira vez e que o rio do Peixe recebendo os volumes dos seus afluentes a partir do
açude Pilões causasse inundações em São João do Rio do Peixe, Sousa e Aparecida.


Figura 02 – Nefanálise de Imagens do satélite GOES de 30 de março/2008 (Fonte: INPE/CPTEC)

Observa-se que a conjunção de massas de ar onde a presença dos sistemas da ZCIT
conjugada com um CCVC na Alta troposfera, pode-se observar que há o surgimento e mesmo uma
forma ciclônica em que o centro permanece sem nebulosidade, marcando a presença das massas
vinda do Atlântico sul e ainda das massas oriundas da Amazônia. Outra componente local, o relevo
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
59
da serra do Padre em torno de 800 metros (ver mapa), influiu sobremaneira na formação das chuvas
orográficas que somando-se a essa situação atípica para área contribuiu para que esse evento
tomasse proporções catastróficas.Nesse contexto verificou-se a ocorrência entre 20h00min às
23h:45min de precipitações da ordem de 270mm, com inundações das cidades de São João do Rio
do Peixe, Sousa e Aparecida.
Na imagem abaixo, o quadro registrado no dia 12 de abril de 2008, que resultou em
precipitações de 286 mm praticamente em 5 horas de chuvas intensas e continuas e resultando em
enchente na cidade e desalojando um grande número da população da cidade de Patos no Baixo
sertão da Paraíba.
Na análise dos sistemas conjugados é possível observar a ZCIT e as massas de ar do
Atlântico sul, em contato com as massas da Amazônia exibindo a forma ciclonal, claramente
presente, onde o estado da Bahia situando-se ao centro sem nebulosidade e toda a periferia
sustentado intensa nebulosidade e precipitações.

Figura 03 – Nefanálise de Imagens do satélite GOES do dia 30 de abril/2009 (Fonte: INPE/CPTEC)

Esse quadro de sistemas de massas de ar sofreu a influência das condições locais de altas
temperaturas e evaporação intensa, contribuindo para isto a localização geográfica, além da
incidência da ZCIT entrando em contato com relevo elevado do conjunto da Borborema, nesse caso
servindo de barreira orográfica, provocou precipitações intensas na área da cidade de Patos e
circunvizinhanças.

REFERENCIAS

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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
61
GESTÃO TERRITORIAL EM BACIAS HIDROGRÁFICAS E SUA IMPORTÂNCIA PARA
A SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Andrea Bezerra Crispim
Mestranda em Geografia (Universidade Estadual do Ceará). crispimab@gmail.com
Marcos José Nogueira de Souza
Prof° Doutor em Geografia Física (Universidade Estadual do Ceará).

RESUMO

A importância dada aos estudos ambientais em bacias hidrográficas nos últimos anos tem sido
acompanhada pela crescente preocupação com a qualidade e a forma de uso dos recursos naturais.
Partindo do entendimento da dinâmica e relacionamento entre os sistemas ambientais integrantes de
uma bacia hidrográfica, pauta-se pela necessidade de propor um planejamento territorial levando
em conta os riscos inerentes à maneira como o uso e ocupação do solo é gerida. É neste contexto,
que o presente artigo tem como principal objetivo ressaltar a importância dos estudos geoambientais
integrados em bacias hidrográficas para o planejamento e gestão do território.

Palavras-Chaves: Gestão Territorial, Bacias Hidrográficas, Análise Geoambiental Integrada.

INTRODUÇÃO

As relações estabelecidas entre sociedade e natureza diante dos novos modos de produção
capitalista, perpassam por uma série de discussões sobre o modo de utilização dos recursos naturais
e seu envolvimento no processo de desenvolvimento socioeconômico.
O desenvolvimento industrial, bem como o intenso processo de urbanização verificado nas últimas
décadas, ocasionou uma série de mudanças paisagísticas intrinsecamente relacionadas à forma de
como se deu a ocupação do espaço geográfico. Nessa perspectiva, tornou-se nítido que a relação
entre sociedade e natureza está calcada antes de tudo, na consideração dos recursos naturais como
fatores de produção e suas implicações na relação sociedade e natureza.
Com o processo de uso e ocupação da terra e o desenvolvimento das atividades
socioeconômicas, foram desencadeadas uma série de problemas, tais como o desmatamento de
áreas verdes, poluição dos mananciais, processos erosivos acelerados, poluição atmosférica
decorrente da intensa emissão de gases poluentes e outros impactos relacionados à falta de
planejamento voltados para a gestão do território e ocasionando, na maioria das vezes, o desgaste
dos componentes físico-ambientais. Esse problema também torna-se presente quando se discute
temas relacionados à sustentabilidade ambiental. O uso e ocupação da terra presumem discussões
muito mais complexas e que vão além da forma pragmática de como o uso do solo é regido. A
crescente demanda pelo uso dos recursos naturais leva a refletir em novas formas de pensar em um
modelo de desenvolvimento que siga os pressupostos do desenvolvimento sustentável. Desta forma
é que nos últimos anos, estudos voltados para as bacias hidrográficas têm sido consideravelmente
enriquecidos devido à enorme demanda pelos recursos hídricos e sua ligação com as atividades
humanas.
A falta de políticas ambientais conservacionistas sem considerar a capacidade de suporte do
ambiente, passa a causar desequilíbrios nos sistemas ambientais. As questões voltadas para a
implementação dessas políticas, torna-se um desafio, principalmente nas áreas onde as populações
socioeconomicamente vulnerabilizadas, ficam dependentes de decisões políticas, que, muitas vezes,
não condizem com a realidade local.
Partindo dessa concepção é que os estudos direcionados a bacias hidrográficas como unidade de
planejamento ambiental, ganham importante papel devido às suas peculiaridades ambientais.
Os recursos hídricos, bem como outros recursos naturais, são desestabilizados devido aos
impactos ambientais negativos decorrentes de práticas indevidas. É nesse contexto que as bacias
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
62
hidrográficas se inserem em um quadro físico-ambiental de extrema importância para as práticas de
manejo ambiental, adequadas à capacidade de suporte própria de cada um dos sistemas ambientais.
Diante do exposto, o presente artigo tem como principal objetivo, ressaltar a importância dos
estudos geoambientais integrados em bacias hidrográficas para o planejamento e gestão do
território.

A ANÁLISE GEOAMBIENTAL INTEGRADA EM BACIAS HIDROGRÁFICAS

As bacias hidrográficas se caracterizam por serem constituídas por um rio principal e seus
afluentes, que transportam água e sedimentos ao longo dos seus canais (ARAÚJO E GUERRA,
2005). Para Cunha (2004) o sistema de drenagem então formado, é considerado um sistema aberto
onde ocorrem entrada e saída de energia.

Sob o ponto de vista do auto-ajuste pode-se deduzir que as bacias hidrográficas
integram uma visão conjunta do comportamento das condições naturais e das
atividades humanas nela desenvolvidas uma vez que, mudanças significativas
em qualquer uma dessas unidades, podem gerar alterações, efeitos e/ou
impactos à jusante e nos fluxos energéticos de saída. (CUNHA, 2004, p.353).

Segundo Botelho (2007) o estado dos elementos que compõem o sistema hidrológico (solo,
água, ar, vegetação, etc.) e os processos a eles relacionados (infiltração, escoamento, erosão,
assoreamento, inundação, contaminação, etc.), viabilizam a possibilidade de avaliar o equilíbrio do
sistema ou ainda a qualidade ambiental nele existente.

A bacia hidrográfica, portanto, pressupõe múltiplas dimensões e expressões
espaciais (bacias de ordem zero, microbacias, sub-bacias) e que não
necessariamente guardam entre si relações de hierarquia. Acredita-se que a
funcionalidade implícita na escolha de uma bacia hidrográfica para a realização
de determinado estudo é o grande beneficio advindo de uma seleção criteriosa.
(BOTELHO, 2007, p.153).

As alterações ambientais verificadas nos recursos hídricos, bem como as ocupações
indevidas ocasionadas pelas atividades, sejam de cunho turístico, ou de ocupações residenciais por
parte da população que habita a região, destaca a necessidade de se pensar em estudos de caráter
integrativo, levando-se em consideração a análise dos componentes geoambientais da bacia
hidrográfica estudada.
Enquanto unidade de gestão e planejamento ambiental, Nascimento (2002) enfatiza a
importância de estudar as bacias hidrográficas sobre a égide sistêmico-holística, permitindo o
estudo de suas paisagens, tornando possível identificar os impactos ambientais ocasionados pelas
ações sócio-ambientais. Estudos sobre erosão, manejo e conservação do solo e da água e
planejamento ambiental são aqueles que mais têm utilizado a bacia hidrográfica como unidade de
análise (BOTELHO E SILVA, 2007, p.155). Desta forma, a importância da bacia hidrográfica
como célula de estudo ambiental, será melhor avaliada quando apoiada na análise integrada dos
sistemas ambientais e no entendimento da relação sociedade-natureza. A análise sistêmica
preconiza o entendimento das interações ambientais existentes em um sistema ambiental, em sua
dinâmica e estrutura, fortalecendo a ligação entre os elementos existentes em um mesmo sistema,
cada um com suas próprias características, mas com interdependência entre os mesmos.
Para tanto, a partir da Teoria Geral dos Sistemas proposta por Bertalanffy (1973), é que os
estudos voltados à análise ambiental ganharam suportes de outras metodologias baseadas no modelo
sistêmico.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
63
Na abordagem sistêmica, diversas noções realizadas com os atributos e análise
dos sistemas surgem como implicitamente básicas, orientando as formulações
teóricas e a estruturação dos sistemas. (CHRISTOFOLLETTI, 1979, p.29).

Os elementos do ambiente seriam melhor estudados em uma escala temporo-espacial
determinada, possibilitando aprofundar os estudos relacionados à área, e avaliando sua capacidade
de suporte para intervenções humanas.
Considerando que as interferências sociais sobre os sistemas ambientais são fatores
preponderantes para a modificação da paisagem, Bertrand (1972) propõe um esboço de
hierarquização e classificação dessa paisagem, em unidades superiores: zona, domínio e região; e
unidades inferiores: Geossistema, Geofácies, Geótopos.

A principal concepção do geossistema é a conexão da natureza com a
sociedade, pois embora os geossistemas sejam fenômenos naturais, todos os
fatores econômicos e sociais influenciando sua estrutura e particularidades
especiais são levadas em consideração durante sua análise.
(CHRISTOFOLETTI, 1999, p.42).

Essa metodologia passou a desenvolver um trabalho onde predomina o estudo organizado
dos elementos que compõem o geossistema, passando a um significado importante para o
planejamento ambiental e territorial. Para Monteiro (2000) citado por Vitte (2007) os geossistemas
apresentariam uma grandeza espacial que resultaria de sua própria dinâmica ao longo do tempo,
tendendo a ser cada vez mais complexos, na medida em que, ao longo da história, se intensificasse a
ação humana na superfície da terra.
Tricart (1977) analisa os processos morfodinâmicos partindo da uma análise integrada dos
componentes geoambientais.

As contribuições de Tricart (1977) se completam quando este propõe que a
paisagem seja analisada pelo seu comportamento dinâmico, partindo da
identificação das unidades de paisagem que denomina de unidades
ecodinâmicas. (ROSS, 1999, p.46).

A fragilidade dos ambientes naturais, segundo Ross (2006) deve ser avaliada quando se
pretende considerá-la no planejamento territorial e ambiental, tomando-se o conceito de unidades
ecodinâmicas preconizadas por Tricart (1977).
O fato é que as intervenções humanas afetam sobremaneira a estabilidade do ambiente, e
dependendo da forma de como o ambiente é utilizado, a capacidade de suporte da área passa a
sofrer danos às vezes irreversíveis. Na metodologia proposta por Tricart (1977), o grau de
estabilidade e instabilidade do relevo é de suma importância para nortear o uso e ocupação da terra
na elaboração de zoneamentos ecológico-econômicos, que segundo Souza (2009) é necessário
considerar a ecodinâmica da paisagem associada ao uso e ocupação como critério básico para
definição da fragilidade ambiental existente nos diferentes sistemas ambientais.
Os aspectos físico-ambientais que englobam uma bacia hidrográfica passam a ser
caracterizados de formas interdependentes, ou seja, analisando seus componentes geoambientais
sempre de maneira integrada, considerando os aspectos geológicos, geomorfológicos, climáticos,
hidrológicos, pedológicos e a cobertura vegetal de cada sistema ambiental. O estudo das paisagens,
a partir da análise integrada, enfatiza as relações socioambientais que passariam a modificar
gradativamente e com intensidades diferenciadas para cada um dos sistemas ambientais passiveis de
delimitação.

A análise geoambiental é uma concepção integrativa que deriva do estudo
unificado das condições naturais que conduz a uma percepção do meio em que
vive o homem e onde se adaptam os demais seres vivos. (SOUZA, 2005,
p.127).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
64

O estudo do uso e ocupação da terra a partir da análise geoambiental tem fundamental
importância para avaliar o estado de utilização dos recursos naturais nas bacias hidrográficas e de
que modo a sustentabilidade econômica dos mesmos passa estar comprometida pelo uso
desordenado.
A análise geoambiental dá ênfase ao conhecimento integrado e à delimitação dos espaços
territoriais modificados ou não pelos fatores econômicos e sociais (SOUZA, 2009). Segundo o
autor, os sistemas ambientais de uma bacia hidrográfica devem ser identificados e hierarquizados
conforme a inter-relação dos seus componentes, dimensões, características de origem e evolução.
Assim, a problemática ambiental passa a ser entendida não de forma fragmentada, em que
normalmente as informações são levantadas a respeito do meio natural ou apenas do meio
socioeconômico (PINTO, 2007, p.94).


A GESTÃO DO TERRITÓRIO COMO INSTRUMENTO À SUSTENTABILIDADE

A ordenação do território é uma expressão das políticas econômicas, sociais, culturais e
ecológicas da sociedade, cujo objetivo é o desenvolvimento equilibrado entre políticas voltadas ao
desenvolvimento socioeconômico e a preservação dos componentes físico-ambientais do espaço
(CHÁVEZ, 2008, p.56).

Conforme as finalidades e de acordo com a sua implementação, o ordenamento
territorial deve constituir um instrumento de planejamento que coleta, organiza
dados e informações sobre o território, propondo alternativas de preservação
e/ou recuperação da biodiversidade e a manutenção da qualidade ambiental
(SOUZA, 2006, p.12).

A principal finalidade de estudos voltados à gestão do território, do ponto de vista teórico-
metodológico, tem sido o estudo baseado em abordagens de caráter sistêmico-holístico. Souza
(2006) baseia o estudo territorial em três níveis de abordagem, conforme o Quadro 01.



Quadro 01: Níveis de abordagens para gestão territorial.
Analítica Decorre da identificação e caracterização dos componentes
geoambientais e socioeconômicos.
Sintética Visa à caracterização dos arranjos espaciais dos sistemas ambientais
produtivos.
Dialética Análise das potencialidades e limitações de uso de cada sistema
ambiental e os problemas que se afiguram em função do uso da terra.
Fonte: Souza (2006).

A própria concepção de gestão territorial, parte do pressuposto de estudos realizados tanto a
níveis socioeconômicos, quanto relacionados ao uso dos recursos naturais de forma a compatibilizar
desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental. O desenvolvimento de políticas
ambientais remonta a uma série de indagações sobre o uso da legislação ambiental e urbanística e
suas aplicabilidades.
O gerenciamento de políticas públicas voltadas à gestão territorial tem se configurado diante
de um quadro onde as decisões, na maioria das vezes, não condizem com a realidade da população
local e nem são seguidos do estudo e análise das potencialidades e limitações dos sistemas
ambientais configurados em uma bacia hidrográfica. Seu caráter integrador compõe um quadro de
extrema importância no disciplinamento do uso do solo.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
65
Partindo dessas indagações, o estudo dos componentes geoambientais torna-se um mecanismo
eficaz para o conhecimento do território no que condiz com os fatores estruturantes da capacidade
de suporte dos sistemas ambientais, definindo as vulnerabilidades ambientais de cada sistema
ambiental (SOUZA, 2006, p.124).
Esses estudos alinhados ao Sistema de Informações Geográficas (SIG) colocam alternativas
concretas no gerenciamento de atividades relacionadas à gestão do território.
A utlização do SIG permite empregar uma cartografia sobre o território de grande qualidade
podendo ser integrada posteriormente a estudos regionais e nacionais, e possibilitar sua atualização
e compilamento de informações sobre o uso do solo (CHÁVEZ, 2008).
Para Christofoletti (1999) os estudos dos padrões e fluxos espaciais, exibem as diferenças espaciais
em diversas dimensões podendo ser mostradas por representações estatísticas ou por resultados
gerados pelos SIG’s.

As perspectivas de análise espacial são importantes para as aplicações nos
estudos ambientais e socioeconômicos porque a distância entre os locais e os
eventos sempre é fator relevante para determinar as interações entre eles, de
maneira que as ocorrências distribuídas espacialmente não são independentes
(CHRISTOFOLETTI, 1999, p.29).

O Quadro 02 traz um esquema metodológico para a utilização do SIG aplicado em estudos voltados
a gestão territorial.
Quadro 02. Esquema metodológico do SIG para gestão territorial.

Fonte: Adaptado de Christofoletti (1999).

Como parte dos procedimentos técnicos, o uso do sensoriamento remoto para o mapeamento dos
sistemas ambientais e dos diversos tipos de ocupação da bacia hidrográfica em estudo, leva a
informações ambientais que passam a ser armazenadas, manipuladas e processadas, servindo de
subsídios para a tomada de decisões complexas direcionadas à gestão territorial.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao tratar do planejamento territorial, devem ser levados em conta os aspectos físico-ambientais da
bacia hidrográfica, bem como as condições socioeconômicas da população que habita a região.
Como descrito anteriormente, a análise geoambiental e o estudo da capacidade de suporte dos
sistemas ambientais, são peças chaves para se entender como planejar de forma sustentável o
território.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
66
A bacia hidrográfica é o espaço de planejamento dos recursos hídricos e onde ocorrem as maiores
modificações ambientais devido aos variados usos da terra. A gestão e recuperação dos recursos
hídricos devem ser feitas pelos órgãos responsáveis, implementando políticas públicas concretas e
planos de gerenciamento e monitoramento de bacias hidrográficas. É preciso, entretanto, que a
legislação ambiental, como a própria política nacional dos recursos hídricos, sejam postas em
práticas.
No entanto, as atividades abaixo devem ser seguidas como um dos eixos estruturantes para o
gerenciamento de bacias hidrográficas:

• Monitoramento qualitativo e quantitativo dos recursos hídricos;
• Participação da população local nos comitês de bacias hidrográficas;
• Elaboração de diagnósticos geoambientais integrados para subsidiar os diversos tipos de
usos nas bacias hidrográficas;
• Atualização de dados socioeconômicos e ambientais;
• Operação e manutenção hidráulica dos recursos hídricos;
• Criar Unidades de Conservação seguindo as diretrizes do Sistema Nacional de Unidades de
Unidades de Conservação (SNUC);
• Elaboração e execução do Zoneamento Ecológico-Econômico;
• Maior articulação entre gestores municipais, estaduais e federais para execução de políticas
públicas concretas.

O aumento da consciência ecológica, a participação da sociedade civil organizada, ONG’s e
entidades voltadas para a questão ambiental através de políticas de planejamento e gestão
ambiental, remetem ao planejamento territorial voltado para a sustentabilidade ambiental e a gestão
participativa.

REFERÊNCIAS

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Bertrand Brasil, 2005.
BERTALANFFY, Ludwig Von. Teoria Geral dos Sistemas. Petrópolis: Vozes, 1973.
BERTRAND, G. Paisagem e geografia física global: esboço metodológico. In: Caderno de
Ciências da Terra, v.13, p. 1-21. São Paulo, 1969.
BOTELHO, Rosângela Garrido Machado e SILVA, Soares da Silva. Bacia Hidrográfica e
Qualidade Ambiental. In: VITTE, Antonio Carlos & GUERRA, Antonio José Teixeira da org.
Reflexões sobre a Geografia Física no Brasil.2ª Ed. Bertrand Brasil, 2007. Rio de Janeiro.
CHÁVEZ, Eduardo Salinas. El Papel De La Geografia Em La Ordenacion Del Território En
America Latina. In: Lemos, A.I.G. Ross, L.S.R. Luchiari, A. America Latina: sociedade e meio
ambiente. 1ª Ed. Expressão Popular: São Paulo, 2008.
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1979.
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GUERRA, Antonio José Teixeira e CUNHA, Sandra Baptista da org. Geomorfologia e Meio
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Fortaleza, 2003. 154p
PINTO, A. L. Riscos Naturais e Carta de Riscos Ambientais: Um Estudo de Caso da Bacia do
Córrego Fundo, Aquidauana/MS. Climatologia e Estudos da Paisagem. Rio Claro, v. 2, n.1, p. 91-
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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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In: Souza, M.J.N. Moraes J. O. de e Lima, Luiz Cruz. Compartimentação territorial e gestão
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VITTE, Antonio Carlos. Da Metafísica Da Natureza À Gênese Da Geografia Física Moderna.
In: GREGORY, K.J. da org. A Natureza da Geografia Física. Ed. Bertrand Brasil, 1992. Rio de
Janeiro.



































Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
68
POÇOS JORRANTES DO VALE DO RIO GURGUÉIA (PI): CARACTERIZAÇÃO DE UM
ESPAÇO MARCADO PELO DESPERDÍCIO HÍDRICO

Antonio Joaquim da Silva
Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/TROPEN/UFPI
joakim.ufpi@yahoo.com.br

Alex Bruno Ferreira Marques do Nascimento
Bacharel em Administração, pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI
alexadministracao@gmail.com

Daniel César Menêses de Carvalho
Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/TROPEN/UFPI
danielcmc@ymail.com

Reurysson Chagas de Sousa Morais

Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/TROPEN/UFPI
reurysson@yahoo.com.br



RESUMO
Este trabalho propõe analisar a dinâmica das águas subterrâneas na região do Vale do Rio Gurguéia
– PI, caracterizado pelo grande desperdício de recursos hídricos, através da má utilização e falta de
administração, contextualizado através dos poços jorrantes Violeta I e II, localizados no município
de Cristino Castro – PI. Considerou-se a inter-relação com a Bacia Hidrográfica do Rio Parnaíba,
sua análise geohidrológica, caracterizando os sistemas de aqüíferos locais, relacionando com o
sistema hidrológico maior ou fechado – como o ciclo hidrológico – contemplando a conservação
dos recursos hídricos e o planejamento ambiental voltados ao vale do Rio Gurguéia. A metodologia
utilizada deu-se através de referencial bibliográfico, além de visita aos poços jorrantes Violeta I e II.
Concluiu-se que a região dos poços, localizados no vale do Rio Gurguéia e em destaque os poços
Violeta I e II necessita ser melhor aproveitada, através do apoio público, em todas as esferas:
federal, estadual e municipal, para a devida conservação dos mesmos e a necessidade de um
estímulo ao Desenvolvimento Sustentável local.

Palavras-Chave: Águas subterrâneas, Ciclo hidrológico, Conservação ambiental, Poços jorrantes.

INTRODUÇÃO

Desde as últimas décadas do século XX, a humanidade defronta-se com uma série de
problemas, que, de certa forma, associam-se à Revolução Industrial, mundialização do capitalismo,
Revolução Verde, urbanização e à grande densidade demográfica, aumentando a carga de uso dos
recursos naturais, que visam atender as necessidades consumistas da sociedade contemporânea.
Consequentemente, os problemas globais mais evidentes relacionam-se à economia, às finanças, às
relações sociais, culturais, religiosas e ambientais.
Nessa perspectiva, este trabalho analisa o processo de uso e gestão dos recursos hídricos,
através da análise de planejamento ambiental voltados à hidrografia, interpolados através de um
estudo de caso dos poços jorrantes Violeta I e II, localizados no município de Cristino Castro – PI.
É exposto o problema do desperdício, a pouca estrutura para o aproveitamento deste recurso natural,
salientando uma maior necessidade de apoio político e da sociedade local.
A metodologia utilizada baseou-se em referências bibliográficas e visita aos poços jorrantes,
caracterizando a dinâmica mundial e local das águas superficiais e subterrâneas, relacionando à
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
69
Bacia Hidrográfica do Rio Parnaíba, sua análise hidrogeológica, com perspectivas de uma melhor
conservação desse recurso ambiental como forma de desenvolvimento sustentável.

CARACTERIZAÇÃO HIDROLÓGICA DO PLANETA

Nos últimos anos, as preocupações com o aquecimento global tomaram grande impulso,
através dos meios de comunicação, das Ong’s, da comunidade científica, entre outros. Porém, há
um problema que ganha cada vez mais a atenção dos mesmos atores citados acima e, que em épocas
diferentes da história da formação social do homem foi o centro de conflitos e guerras: a água. A
mesma está intrinsecamente contida na história de evolução da Terra, na origem e evolução das
espécies, como fonte essencial para a vida.
Segundo Rebouças (2002) ao longo da história geológica da Terra, as erupções vulcânicas,
associadas à tectônica de placas lançaram na sua atmosfera grandes quantidades de oxigênio,
hidrogênio e gases tais como dióxido de carbono, nitrogênio, dióxido de enxofre e monóxido de
carbono. Portanto, é a água que mantém a vida no planeta, através da fotossíntese, que produz
biomassa através da reação entre CO2 e H2 O, além de evidenciar no contexto biológico que 80 %
do corpo humano é composto por água (KARMANN, 2003).
Rebouças (2002, p.4) acrescenta que essa parte líquida da Terra concentra o maior
percentual, pois:
Da mesma perspectiva cósmica, a água existente na Terra forma também uma
esfera, a assim chamada hidrosfera. A água é de longe a substancia mais abundante
da Terra, cobrindo cerca de 77% da sua superfície, assim distribuído: 361,5
milhões km² de oceanos e mares, 17,5 milhões km² de calhas de rios e pântanos,
16,3 milhões km² de calotas polares e geleiras, e 2,1 milhões de lagos (...)
(REBOUÇAS, 2002, p.4)


Conti e Furlan (2005) descrevem o papel dos oceanos no clima como muito importante, com
71% de massa líquida cobrindo a superfície do Planeta. No hemisfério sul, 81% da superfície é
coberta por água; no hemisfério norte, essa porcentagem cai para 51%. A variável porcentagem
hídrica distribuída nos estados sólido, líquido e gasoso é também comentada por Silveira (2001),
pois a circulação da água na superfície terrestre e na atmosfera sistematiza o ciclo hidrológico.

Tabela 01: Áreas, volumes totais e relativos de água dos principais reservatórios da Terra
RESERVATÓRIO
ÁREA
(10³ KM²)
VOLUME
(10
6
KM³)
% DO VOLUME
TOTAL
% DE VOLUME DE
ÁGUA DOCE
OCEANOS 361.300 1.338 97,50 -
SUBSOLO 134.800 23,40 1,70 -
ÁGUA DOCE - 10,53 0,76 29,90
UMIDADE DO SOLO - 0,016 0,001 0,08
CALOTAS POLARES 16.227 24,10 1,74 68,90
ANTÁRTICA 13.980 21,60 1,56 61,70
GROENLÂNDIA 1,802 2,30 0,17 6,68
ÁRTICO 226 0,084 0,006 0,24
GELEIRAS 224 0,041 0,003 0,12
SOLOS GELADOS 21.000 0,300 0,022 0,86
LAGOS 2.059 0,176 0,013 0,26
ÁGUA DOCE 1.236 0,091 0,007 -
ÁGUA SALGADA 822 0,085 0,006 -
PÂNTANOS 2.683 0,011 0,0008 0,03
CALHA DOS RIOS 14.880 0,002 0,0002 0,006
BIOMASSA - 0,001 0,0001 0,003
VAPOR ATMOSFÉRICO - 0,013 0,001 0,04
TOTAIS 1.386 100 -
ÁGUA DOCE 35,00 2,53 100
Fonte: IHP/UNESCO, 1998
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
70


Na tabela 01, são caracterizados os volumes totais e relativos de água dos principais
reservatórios da Terra. A análise confere que a distribuição das águas, de um total de 1.386 milhões
km³ é: 97,5% água salgada; 2,53% água doce; 68,90% estão nas calotas polares e geleiras; 29,90%
água subterrânea doce; 0,3% de água doce nos rios e lagos; e 0,9% outros reservatórios.
De acordo com Rebouças (2002), as águas da Terra encontram-se em permanente
movimento, caracterizando o ciclo hidrológico. Efetivamente desde os primórdios dos tempos
geológicos, a água em forma líquida ou sólida que é transformada em vapor pela energia solar
atinge a superfície terrestre e a transpiração dos organismos vivos, subindo à atmosfera, resfriando-
se, originando as nuvens.
Temos no ciclo a precipitação meteórica – condensação de gotículas a partir do vapor de
água presente na atmosfera, originando a chuva, associando-se à evapotranspiração (KARMANN,
2003). Há, portanto, três variáveis regionais que caracterizam a gênese local das águas: as
precipitações, o escoamento superficial e a recarga dos teores de umidade dos solos (REBOUÇAS,
2002). O mesmo autor também acrescenta que a maior mudança de chuvas no mundo é verificada
nas regiões intertropicais e temperadas.
O sistema terra, água e ar estão intrinsecamente ligados pela influência da insolação; esta é
difundida principalmente por moléculas de ar, vapor d’água e partículas naturais dentro da
atmosfera (AYOADE, 2003). Portanto, a terra e a água apresentam diferentes propriedades
térmicas, e reagem de modo diferente à insolação, com diferenças de temperatura entre ambos,
influindo na continentalidade (AYOADE, 2003) e no clima.
A origem da água na Terra relaciona-se à própria formação da atmosfera, a degaseificação
do Planeta (KARMANN, 2003), fenômeno de liberação de gases por um sólido ou líquido quando
este é aquecido ou resfriado, processo atuante até hoje, que iniciou-se na fase de resfriamento geral
da Terra, após a fase inicial de fusão parcial.
De acordo com o tempo geológico, o ciclo hidrológico divide-se em dois sub-ciclos: o ciclo
“rápido”, que opera em curto prazo, envolvendo a dinâmica externa da Terra (movido pela energia
solar e gravitacional) e o ciclo “lento”, movido pela dinâmica interna (tectônica de placas), onde a
água participa do ciclo das rochas – intemperismo químico (KARMANN, 2003).

DINÂMICA DA ÁGUAS SUBTERRÂNEAS

Desde os primórdios das civilizações antigas, a água subterrânea é bastante utilizada como
fonte de abastecimento de grandes populações nas zonas áridas e semi-áridas. Durante a Revolução
Industrial, suas demandas aumentaram para o abastecimento das nascentes atividades industriais e
crescimento acelerado dos centros urbanos.
No Brasil, o uso da água subterrânea, sua captação para o abastecimento das populações
vem sendo realizada desde os tempos da colonização, com evidências de “cacimbões”, existentes
em fortes militares, conventos, igrejas e outras construções (REBOUÇAS, 2002). As águas
subterrâneas apresentam uma parcela significativa na Terra, tendo três origens principais: Meteórica
(97% dos estoques de água doce encontradas em estado líquido nas terras emersas), ocorrendo pela
infiltração de uma fração das precipitações; Conatas ou água de formação, pois estão retidas nos
sedimentos desde as épocas de formação dos depósitos; e Juvenil, a água gerada pelos processos
magmáticos da Terra.
Os maiores níveis de conhecimento hidrogeológico no Brasil, são encontrados nas áreas com
densidades demográficas mais elevadas, em especial nos domínios metropolitanos. No Nordeste do
Brasil, os principais trabalhos sobre a hidrogeologia da região foram desenvolvidos pela SUDENE
durante as décadas de 1960-1980, resultando no Inventário Hidrogeológico Básico do Nordeste
(REBOUÇAS, 2002).



Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
71
POTENCIAL HÍDRICO SUBTERRÂNEO NO ESTADO DO PIAUÍ

O Estado do Piauí, com 250.934 km², apresenta na sua base litológica dois grandes grupos
de rochas: as rochas cristalinas e as rochas sedimentares; aproximadamente 83% da superfície do
Estado está no contexto da Bacia Geológica Sedimentar do Parnaíba (REBOUÇAS, 2002). As
rochas cristalinas são impermeáveis fazendo com que as águas das chuvas escoem pelas encostas e
serras, morros e também pelos rios, porém, as rochas sedimentares são permeáveis, permitindo que
a água das chuvas infiltre até grandes profundidades (LIMA, 2006).
O regime hídrico superficial e subterrâneo do Estado é condicionado pelo clima, pois,
Baptista (1975), utilizando a classificação de Köppen, define os climas no Estado em: Tropical –
AW, AW’ (Tropical com chuvas de verão retardadas) e Semi-árido – BSH (Quente, com inverno
seco). As temperaturas médias são superiores a 18° C, com pluviosidade média acima de 600mm,
apresentando apenas duas estações anuais, uma chuvosa e uma seca.
A Bacia do rio Parnaíba situa-se na porção ocidental da região Nordeste do Brasil, estando
75% de sua área no Estado do Piauí, 19% do Maranhão e 6% do Estado do Ceará (IBGE, 1996). As
seções geológicas permitem constatar dois sistemas genéticos de aqüíferos (águas localizadas em
grandes profundidades) de características distintas: o sistema fissural e o sistema intergranular. O
fissural envolve todas as rochas do embasamento cristalino do Cambriano, compondo a faixa norte-
nordeste e sudeste da Bacia Sedimentar do Maranhão-Piauí, com um volume de água de 17.500 km³
(ARAÚJO, 2006), e mais as vulcânicas basálticas datadas em diferentes períodos. O sistema
intergranular reúne sedimentos não consolidados e consolidados, onde o caminho de percolação das
águas subterrâneas é estabelecido de acordo com a permeabilidade e a porosidade.
Geologicamente, distinguem as seguintes unidades que formam os diferentes aqüíferos:
Formação Serra Grande, Pimenteiras, Cabeças, Longá, Poti, Piauí, Pedra-de-Fogo, Motuca,
Sambaíba, Pastos Bons, Cordas, Areado, Urucuía, Santana, Exu e Itapecuru, Grupos Barreiras e
sedimentos recentes (aluviões, coluviões e dunas); em ordem decrescente de potencialidade, têm-se
os principais aqüíferos: Serra Grande, Cabeças, Poti, Piauí, Motuca, Sambaíba, Corda e Itapecuru,
isto em extensão regional. Em âmbito local, os demais aqüíferos satisfazem pequenos projetos
agrícolas, com grande destaque à área aflorante e de melhores condições de exploração, aos
aqüíferos Cabeças, Serra Grande e Poti (IBGE, 1996).
De modo geral, o potencial hídrico subterrâneo para as rochas cristalinas e sedimentares
apresenta-se de muito fraco a fraco. Contudo, abaixo do paralelo 7° nos vales dos rios Parnaíba,
Uruçuí-Preto e Gurguéia (Micro-bacia do Rio Parnaíba) predomina um potencial que vai de fraco a
médio, apresentando áreas de forte a muito forte potencial (as regiões do alto Parnaíba, a área de
Tasso Fragoso, Gilbués e parte de Jerumenha).

A figura 01 caracteriza a Bacia do Rio Gurguéia e suas classificações do potencial hídrico
subterrâneo da região.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
72

Figura 01: Potencial Hídrico Subterrâneo da Bacia do Rio Gurguéia
Fonte: Adaptado do PLANAP, 2006.

A área do Vale do Gurguéia, situa-se em uma faixa de transição de climas tropical AW e
semi-árido BSH. Essas características climáticas influenciam a composição dos solos no Vale do
Rio Gurguéia, pois, segundo Baptista (1975) os principais solos encontrados na região são: Bruno
não-cálcicos, laterítico bruno avermelhado eutrófico, brunizem avermelhados, podzólicos
vermelho-amarelo equivalente eutrófico, areias quartzosas e vertissolos tipo A (solos aluviais
eutróficos e solos hidromórficos indiscriminados).
As influencias climáticas e de solos refletem-se nas vegetações do Vale, encontrando desde
a caatinga arbórea arbustiva ao cerrado campo e cerradão. Segundo Baptista (1975), 82,50% da área
do estado está inserido no Polígono das Secas, abrangendo 208.326 km² da área piauiense. Esses
dados são fatores que permitem caracterizar as políticas de combate à seca (que objetivaram a
construção de poços jorrantes, açudes, etc) orientadas pela SUDENE.
Nosso enfoque principal compreende o vale do rio Gurguéia, caracterizado pelas maiores
condições para captação de água subterrânea na Bacia, com ênfase no sistema intergranular
Cabeças, o mais explorado da região, apesar de sua superfície aflorante reduzida. Segundo
ARAÚJO (2006), as formações Serra Grande, Cabeças e Poti-Piauí, formam uma grande reserva de
água subterrânea, a terceira maior do Brasil, podendo ser utilizado um volume de 10 bilhões de m³
por ano, sem que haja um rebaixamento das águas dos aqüíferos, em um prazo de cinqüenta anos
seguidos.
De acordo com o IBGE (2006), vários poços já foram perfurados, alguns dos quais estão
jorrando centenas de m³/h há mais de trinta anos, esperando que haja bom senso e decisão político-
administrativa para o uso efetivo, tal como ocorre na região do Vale do Gurguéia.
Os poços jorrantes mais conhecidos no Estado encontram-se no município de Cristino
Castro, destacando-se os poços Violeta I e II, perfurados pela Petrobrás, com 1.000 metros de
profundidade, adentrando 250m na formação Serra Grande, como principais entradas de água na
formação Cabeças (PESSOA, 1979 apud IBGE, 2006).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
73

Figura 02: Localização do Município de Cristino Castro – PI
Fonte: CPRM, 2004.

O grande desperdício hídrico nos poços Violeta I e II é criticado por ARAÚJO (2006),
acrescentando a falta de uso econômico, tornando o poço um símbolo de grande potencial
econômico e também de desperdício. A altura do jorro da água chega a mais de 60 metros e uma
vazão aproximada de 600 m³/h (ARAÚJO, 2006); a vazão dos poços é também discutido por Neto
(2003), admitindo uma vazão de 930.000 litros/h e jorrando mais de 60 metros de altura.


Figura 03: Poços jorrantes Violeta I e II
Fonte: Os autores (2006)


Na proposta de conservação dos recursos ambientais, e nela inserida as águas subterrâneas,
verifica-se a necessidade de planejamento para a utilização do ambiente. O manejo dos recursos
naturais tem sua melhor expressão no conceito de “Produção Sustentada” ou sustentabilidade dos
recursos. A conservação ambiental pode ser traduzida pela maximização das aptidões dos recursos e
pela minimização do impacto produzido. O planejamento ambiental deve adotar um enfoque
ecológico-holístico, no qual o homem integra esse sistema, devendo buscar o uso múltiplo do
território e a reutilização, como forma lógica de maximizar o aproveitamento dos recursos naturais,
como é o caso aqui citado das águas subterrâneas, para satisfazer as necessidades da produção,
lembrando que a sociedade deve ter participação intrínseca no processo.
Portanto, faz-se necessária maior atenção por parte do poder público e da sociedade local
para o grande desperdício de recursos hídricos, verificado nos poços jorrantes Violeta I e II. Há
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
74
necessidade, pois, da elaboração de projetos para o aproveitamento hídrico local com uso da
irrigação, principalmente para agricultura familiar e incentivos de orientação a pequenos
produtores.
Rebouças (2002) admite a necessidade de uma nova lei sobre águas subterrâneas,
substantiva, com normas gerais sobre o aproveitamento, avaliação, controle, proteção, utilização
racional de direitos e obrigações de seus usuários e não de gerenciamento das águas subterrâneas
que já está disciplinado pela lei 9.433/97 e pelas leis estaduais correspondentes.
A Gestão das Bacias Hidrográficas relacionam-se diretamente à Gestão dos recursos
hídricos no país (CUNHA, 2003). Portanto, vários esforços estão sendo feitos para a organização do
setor através da criação de comitês de bacias, priorizando uma política sustentável para o
desenvolvimento sócio-ambiental.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Brasil possui grandes potenciais de águas subterrâneas, seja na forma de umidade do solo,
seja como água que flui no subsolo. As reservas de águas subterrâneas móveis são estimadas em
112.000 km², sendo cerca de 5.000 m³/hab/ano poderiam ser extraídos de forma racional
(REBOUÇAS, 2006).
A globalização, através da sociedade consumista, torna o meio ambiente mais propenso à
explorações, ao uso exagerado dos recursos naturais, desequilibrando assim o ambiente. No Brasil,
a falta de vontade político-administrativa concorre para o agravamento dos grandes problemas da
sociedade, estendendo-se a várias áreas, como: saúde, educação, transportes, moradia,
abastecimento de água, etc.
As águas subterrâneas constituem-se em um dos insumos mais importantes do nosso
Planeta, sendo utilizada de forma inadequada e rapidamente apropriada pelos setores econômicos
dominantes do mercado. O exemplo dos poços jorrantes Violeta I e II no Estado do Piauí revelam a
falta de estrutura e bom senso do poder público para o uso adequado e correto desse recurso,
principalmente pela falta de projetos de aproveitamento, evitando assim o desperdício.
Mesmo com a criação de instituições como Agencia Nacional de Águas (ANA) e Conselho
Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), voltadas à gestão e manejo da água e problemas
ambientais no Brasil, é necessária maior proteção jurídica e institucional, com a participação local
da sociedade no controle, uso e aproveitamento das águas subterrâneas, principalmente as
localizadas no Vale do Gurguéia, para que se garanta o direito de uso às gerações futuras.

REFERÊNCIAS

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subterrânea, estado do Piauí: diagnóstico do município de Cristino Castro. Fortaleza: CPRM -
Serviço Geológico do Brasil, 2004.
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Pessoa. Editora Grafiset, 2006.
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BRASIL, Codevasf. Planap: Atlas da Bacia do Parnaíba. Brasília, DF: TODA Desenho & Arte
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KARMANN, Ivo. Ciclo da Água: Água Subterrânea e sua Ação Geológica. In: TEIXEIRA,
Wilson et all. Decifrando a Terra. São Paulo: Oficina de Textos, 2003


Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
75
LIMA. Iracilde M. de. M. F.; ABREU, I. G. de. O Semi-Árido Piauiense: Vamos conhecê-lo?
Teresina-PI, Editora: Nova Expansão, 2006.
MARGARETE, P. R. (coord.). Macrozoneamento Geoambiental da Bacia Hidrográfica do Rio
Parnaíba/Primeira Divisão de Geociências do Nordeste. Rio de Janeiro: IBGE, 1996.
NETO, Adrião. Geografia e História do Piauí para estudantes: da Pré-História à Atualidade. 2.
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REBOUÇAS, A. da C. Água Doce no Mundo e no Brasil. In: REBOUÇAS, A. da C. et all (org).
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SILVEIRA, André L. L. O Ciclo Hidrológico e Bacia Hidrográfica. In: TUCCI, Carlos E. M.
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VESENTINI, José Willian; VLACH, Vânia. Geografia Crítica: O Espaço Natural e a Ação
Humana. São Paulo. Editora: Ática, 2002.





































Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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ESTUÁRIO DO RIO ACARAÚ/CE: ASPECTOS AMBIENTAIS E CONDIÇÕES DE
USO E OCUPAÇÃO

Aurilea Bessa Alves
Mestre em Geografia – UECE, leabessa@yahoo.com.br
Lidriana de Souza Pinheiro
Profª. Drª. Instituto de Ciências do Mar – UFC, lidriana.lgco@gmail.com
Morsyleide de Freitas Rosa
Pesq. Drª. EMBRAPA – Agroindústria Tropical, morsy@cnpat.embrapa.br

RESUMO
O processo de uso e ocupação do solo no Ceará e particularmente na bacia do Acaraú tem
sido realizado ao longo dos anos sem muito controle e planejamento. Na região circundante ao
estuário do rio Acaraú isso se repete, de modo que por vezes as formas de uso do solo e da água são
conflitantes. Este trabalho visa identificar as principais formas de uso e ocupação da região
estuarina do rio Acaraú, apontando suas condições atuais e suas interferências no ambiente. O local
encontra-se nos municípios de Cruz e Acaraú, na porção Norte do Estado. Para tanto a pesquisa
contou com um levantamento detalhado da região estuarina, reconhecimento dos atributos
ambientais e identificação das tipologias de uso. Dessa forma, acredita-se que estes resultados
possam servir como subsídios para o planejamento e a gestão do ambiente, buscando uma maior
eficiência dos usos do território dentro dos princípios da sustentabilidade.
Palavras-chave: rio Acaraú, uso e ocupação, problemas ambientais.

INTRODUÇÃO
Considera-se que o processo de uso e ocupação ocorre mediante a atuação dos agentes
organizadores do espaço, sendo eles os grupos políticos, econômicos e da sociedade em geral, que
passam a construir um determinado espaço local em função de suas práticas cotidianas e das suas
atividades econômicas (ALVES, 2008). A ação desses agentes gera inúmeras
contradições/problemas ambientais em virtude da apropriação inadequada da terra.
Na região estuarina do Acaraú, os principais agentes organizadores do espaço são o Estado,
os empresários industriais e comerciais, os pequenos e grandes proprietários agrícolas, as
comunidades de pescadores, os carcinicultores e a sociedade.
Estes agentes convivem em meio a conflitos e tensões fruto do crescimento de inúmeras
atividades econômicas, com destaque para a agricultura, pesca e carcinicultura. Os primeiros são
atividades realizadas com pouca infra-estrutura e o seguinte possui uma boa organização, inclusive
econômica. O somatório destas ações reflete em problemas ambientais.

METODOLOGIA
Para a realização da pesquisa o levantamento das informações de campo foi fundamental ao
entendimento e análise geral da área do estuário e suas particularidades, possibilitando a
identificação das tipologias de uso.
A classificação das formas de uso e ocupação da região estuarina do rio Acaraú resultou na
identificação dos seguintes tipos: recursos hídricos com ênfase nas formas de uso e problemas
correlatos, além de carcinicultura; ocupação urbana, comercial e industrial; e os agroecossistemas,
que congregam o extrativismo vegetal e agropecuária. As tipologias de uso utilizadas foram
adaptadas do trabalho do IBGE (2006) que realiza uma classificação hierárquica.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
77

RESULTADOS E DISCUSSÕES

TIPOLOGIAS DE USO E OCUPAÇÃO ADOTADAS

USOS DOS RECURSOS HÍDRICOS
As formas de uso da água em uma bacia hidrográfica podem ser diversificadas segundo
interesses de cada usuário. Diante disso, torna-se necessário que estes usos obedeçam a uma
hierarquização de acordo importância/prioridade de abastecimento. Daí, a relevância da adoção da
bacia hidrográfica como unidade de planejamento e gestão, o que pode resultar na organização dos
tipos consumos.
A dificuldade de planejamento para estes usos múltiplos é recorrente. Cada forma de
utilização da água possui uma demanda de quantidade e qualidade necessária para a sua
sustentação. Na bacia do Acaraú, por exemplo, a atividade agrícola realizada a partir da irrigação,
representa a maior parcela de consumo de água da bacia, cerca de 85% (PLANERH, 2000).
Particularmente, no estuário do rio Acaraú existem alguns locais estratégicos de reserva
hídrica como os açudes Piranhas e Bal que se encontram localizados no limite Norte da zona urbana
de Acaraú, próximo à margem direita do rio.
Estes açudes estão interligados, com caimento da drenagem do açude Piranhas para o açude Bal, e
deste para o rio Acaraú. Os açudes cruzam terrenos tabulares da Formação Barreiras, onde seus
usos principais estão associados ao abastecimento, pequenas irrigações, culturas de subsistência,
lazer e recreação, estes últimos, mais intensamente no açude Bal.
No açude Bal, a recreação da comunidade ocorre sem controle, provocando o acúmulo de
resíduos sólidos como garrafas plásticas e de bebidas alcoólicas, sacos plásticos e outros restos
orgânicos, que são jogados tanto no açude como nas áreas marginais. Vale destacar a existência de
uma significativa plantação de coco nas margens do manancial. Considerando que este tipo de
cultura normalmente necessita de agrotóxicos e fungicidas, o resultado é a possível alteração na
qualidade da água e por conseqüência aos usos.
No açude Piranhas os usos estão mais relacionados às pequenas atividades agrícolas, pesca,
abastecimento local e recreação. Contudo, não existe um disciplinamento dessas atividades. A
ausência de rede de esgotamento sanitário nas proximidades deste açude é também um elemento de
possível contaminação de solos e águas superficiais e subterrâneas. Esta carência de infra-estrutura
de saneamento, é uma das principais dificuldades ressaltadas pela população residente nas margens
do Acaraú, sobretudo no que diz respeito à ausência de rede geral de esgoto, coleta e disposição
adequada de lixo.
O reflexo de ocupações inadequadas dentro de Área de Preservação Permanente (APP) deve
ser destacado, pois correspondem a um dos maiores problemas ambientais percebidos na região.
Pode-se identificar facilmente em alguns trechos do estuário problemas decorrentes do
desmatamento de vegetação que margeia o rio, como a intensificação de processos erosivos, e que
por conseqüência resulta no assoreamento de determinados trechos do canal. Este assoreamento é
percebido a partir da presença de ilhas de pequeno a médio porte, além de bancos de areia que
dificultam a pesca e a navegação. Isso evidencia um grande aporte sedimentar ao longo do canal
estuarino e que diminui a capacidade de vazão do rio. (Figuras 1 e 2).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
78

Figura 1 – Atividades desenvolvidas e formação de
bancos de areia próximos à ponte de acesso entre
os municípios de Cruz e Acaraú.

Figura 2 – Formação de bancos de areia em à
montante do porto de Acaraú.

Em vários trechos do estuário a comunidade utiliza do local como forma de lazer, isso se
intensifica nos finais de semana, onde as pessoas se reúnem levando consigo para as margens do
rio, bebida alcoólica e alimentos, ou optam pela pesca artesanal e ali permanecem durante várias
horas do dia. Os banhistas disputam o lugar com as demais atividades que são incompatíveis com a
balneabilidade. São exemplos, o comércio pesqueiro de considerável tamanho, a criação de gado e o
lançamento de esgoto da lagoa de estabilização situada também no bairro Mucunã.
Destaca-se ainda, como fator de comprometimento da qualidade dos recursos hídricos, o
lançamento inadequado de efluentes de abate animal. Dois são os locais oficiais de abate, os
matadouros dos municípios de Cruz e de Acaraú. Ambos os matadouros não oferecem nenhum tipo
de tratamento e destinação adequada ao efluente do abate, tampouco às fezes e chifres dos animais
mortos. A situação é grave, pois esses líquidos são ricos em nutrientes e podem comprometer a
qualidade da água através da infiltração no subsolo, chegando até a alcançar um manancial de
abastecimento.
Outra questão que deve ser ressaltada é a atividade de carcinicultura que ocupa uma área
representativa das margens do estuário, com aproximadamente 50 fazendas de camarão
(SUCUPIRA, 2006). Estimou-se uma área de aproximada de 69,47 km² correspondente aos tanques
de criadouros. A atividade conta com grandes estruturas de tanques e captação de água, juntamente
com canais artificiais para sua distribuição.
Em alguns empreendimentos estes lançamentos ocorrem com pouco controle, podendo
colocar em risco algumas espécies do sistema estuarino, e não apenas o local de instalação do
empreendimento, uma vez que o estuário é um ambiente onde ocorre mistura de água e dispersão de
outras substâncias, provocando danos até difíceis de mensurar em termos de escala temporal e
magnitude.

Ocupação urbana, comercial e industrial
A região estuarina encontra-se com aproximadamente 62.500 habitantes (Tabela 01), sendo
que a zona urbana conta com maior número de residentes, em torno de 32.000, representando
51,2% do total (IBGE, 2000).
(Tabela 01) – distribuição da população no estuário
Local Urbana Rural
Acaraú 24.243 22.318
Cruz 7.830 8.250
total 32.073 30.568
Agricultura
de
subsistência

Exploração
de
carnaúba

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
79
No que diz respeito à atividade comercial local percebe-se uma diversificação de atividades
presente, sobretudo, em Acaraú (Tabela 02). O município possui uma variedade de comércios,
predominando os bares e restaurantes, postos de gasolina, pequenos mercados e lojas. O setor é
importante, pois movimenta a economia local a partir da geração de emprego e renda.
Tabela 02: Atividades comerciais em Cruz e Acaraú.

Atacadista Varejista Outras
Acaraú
5 534 2
Cruz
1 283 -

Fonte: Estados, IBGE (2005)
A exploração mineral é amplamente pronunciada nas proximidades da ponte de acesso à
Cruz. Correspondendo a uma importante atividade econômica, especialmente para a população de
baixa renda já que a maior parte da atividade é realiza de maneira quase artesanal. A indústria do
ramo aparece com apenas 02 estabelecimentos nas sedes municipais.
Em período de estiagem “verão” e por meio de técnicas rudimentares os trabalhadores
cavam imensos buracos no solo a fim de encontrar material argiloso, que posteriormente será posto
sob forma de telhas e tijolos nos fornos das pequenas olarias construídas às margens do rio (Figura
3). Esta prática causa dano ao ambiente, pois contribui para a degradação da paisagem,
favorecimento a processos erosivos, além do comprometimento dos microorganismos existentes no
solo ocasionando o empobrecimento deste.

Figura 03 – Olaria artesanal com retirada de argila da planície fluvial

Ainda próximo ao rio, a retirada de sedimentos arenosos da calha é prática comum
principalmente como matéria-prima na construção civil. Estes sedimentos possivelmente
encontram-se depositados nas margens e canal do rio neste trecho por conta da redução da descarga
fluvial à montante do local, em virtude dos constantes barramentos realizados em setores da bacia
do Acaraú.
De acordo com os dados do IPECE (2005), os municípios do estuário possuem apenas 55
indústrias, predominando a atividade de transformação (Tabela 03). Esta atividade se dedica à
transformação de matérias-primas em produtos intermediários ou em produtos finais.

Tabela 03 – Atividades industriais segundo tipo
Extração
mineral
Construção
civil
Transformação
Acaraú 02 02 29
Cruz 00 01 21

Fonte: IPECE (2005)

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
80
São exemplos empresas deste ramo como as de produtos de minerais não metálicos,
metalurgia, material de transportes, madeira, indústria química e de plástico, produtos alimentares,
dentre outras.

AGROECOSSISTEMAS

EXTRATIVISMO VEGETAL
Uma das principais formas de extrativismo vegetal na região estuarina do rio Acaraú é a
exploração de lenha. Esta prática é comum, pois o material é necessário e empregado
principalmente no cotidiano das populações de baixa renda, utilizado na alimentação de fogões a
lenha, e ainda como matéria prima de cercas, obras civis, artesanato e demais usos.
A extração de lenha nos municípios de Cruz e Acaraú quantificam 42.130 m³. Deste total,
aproximadamente 78% corresponde à Acaraú (IPECE, 2005). Comparando com o Ceará, este
número é cerca de 10% de toda a exploração de lenha do estado. Valor alto considerando que o
Ceará possui 184 municípios que também extraem lenha.
Não se pode deixar de mencionar a produção de carvão vegetal, os municípios de Cruz e Acaraú
alcançaram cerca de 36 toneladas produzidas.
Outra forma de extrativismo que merece destaque é a exploração de carnaúba. Na área de
estudo, a planície fluvial se apresenta na transição de Acaraú e Cruz, onde se observa um extenso e
vistoso carnaubal.
Esta abundancia de carnaúbas possibilita a ampla exploração da espécie. Vale destacar que a
atividade é característica do baixo curso da bacia do Acaraú, e fornece emprego e renda para os
moradores locais.
A exploração da árvore é realizada de forma sustentável. Ocorre normalmente na estiagem,
período em que as folhas se encontram mais secas, onde é realizada sua retirada sem que haja
maiores danos à carnaúba. Juntos, os municípios de Cruz e Acaraú produzem cerca de 103
toneladas distribuídas entre fibra e palha de carnaúba (IBGE, 2006).

AGROPECUÁRIA
A produção agrícola no local se restringe praticamente às planícies fluviais e aos tabuleiros.
Nos tabuleiros o cultivo é normalmente permanente e encontram-se as seguintes plantações: banana
(Musa sapientum), coqueiro (Coco nucifer) e manga (Mangifera indica).
Já nas planícies as culturas desenvolvidas são temporárias e constituem-se de batata doce
(Ipomoea batatas), feijão (Phaseolos vulgaris), mandioca (Manihot esculenta), melancia (Citrillus
vulgaris) e milho (Lea mais). Estes tipos de culturas estão sumarizados na tabela 04.
Em virtude das condições pedo-climáticas, a localização destas áreas de cultivo é
normalmente próxima aos recursos hídricos, esta prática acaba por intensificar o problema de
degradação da qualidade da água, uma vez que, grande parte dos produtores se utilizam de
fertilizantes, pesticidas e outros agroquímicos para a melhor produção das culturas.
Tabela 04 – Tipos de culturas e sua produtividade
Cultura permanente Cultura temporária
Banana Coco- da-
baía
Manga Batata
doce
Feijão Mandioca Melancia Milho
Área 124 4.721 46 125 5.710 5.800 761 4.930
Produção (ton) 2.378 21.886 305 757 1.603 38.161 25.442 893
Rendimento
médio (Kg/ha)
19,18 4,64 6,63 6,06 0,28 6,58 33,43 0,18

Fonte: Adaptado de IPECE (2005)

Segundo os dados apresentados, a cultura que possui a maior produção na região estuarina é
a mandioca, seguida pela melancia e o coco-da-baía. No entanto, na relação área plantada e
produção, a melancia é fruto que possui a maior produtividade.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
81
É relevante destacar a vasta plantação de coco observada em vários setores dos municípios.
Trata-se de uma cultura de fácil manejo e adaptação a condições adversas.
Sobre a atividade pecuarista, esta é realizada no local com pouco desempenho. A criação dos
animais normalmente é feita de forma extensiva (Tabela 05). Tal fato que constitui um problema,
pois a soltura dos animais resulta em disposição de fezes locais diversos, podendo ocasionar o
comprometimento da qualidade da água.
No total, a menor quantidade de cabeças corresponde ao gado eqüino com 2.667 unidades e
o maior número é de bovinos com 15.544 cabeças. No entanto, a criação de aves no estuário
desempenha maior destaque, visto que é de fácil criação e possui um curto período de tempo para o
abate, a população totalizou 164.195 aves.
Tabela 05 – Quantidade de gado existente em Cruz e Acaraú.
Bovinos Suinos Eqüinos Ovinos Caprinos Aves
Acaraú 11.370 7.871 1.846 6.511 1.772 84.639
Cruz 4.174 4.975 821 5.859 1.185 33.172

Fonte: IPECE (2005)

Destaca-se que a criação de ovinos e caprinos é bem menor, devendo ser estimulada. Estes
animais são criados de forma simples, não requerem maiores cuidados e se adaptam às condições
naturais do ambiente. Além de representarem melhor os hábitos culinários e culturais do Nordeste
brasileiro

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A identificação das tipologias de uso possibilitou uma maior análise dos problemas
ambientais correlatos aos tipos de uso. Dessa forma, estes problemas resultantes da ausência de
planejamento territorial serão mencionados a seguir.
A incompatibilidade da balneabilidade com as formas de uso atual é algo que merece
destaque. É comum perceber a população banhando-se nas proximidades do porto, de áreas de
criação de animais e da lagoa de estabilização.
Sobre a questão dos matadouros e seus efluentes e resíduos, deve-se pensar em uma
imediata modificação do atual sistema, pois sabe-se que este tipo de efluente é rico em material
orgânico e que ao alcançar um corpo hídrico pode causar o empobrecimento da qualidade da água,
além de proliferar doenças.
Em virtude da grande exploração mineral clandestina, deve-se haver a atuação efetiva dos
órgãos ambientais competentes para promover a conscientização, fiscalização e punição deste tipo
de atividade.
Com relação à exploração de lenha é necessário cautela em sua retirada pois trata-se de uma
prática degradante e causadora de muitos impactos ambientais, como a erosão, assoreamento e o
empobrecimento do solo entre outros.
A produção agrícola no local se restringe praticamente às planícies fluviais e aos tabuleiros,
em virtude desta proximidade com os cursos d’água existe uma maior possibilidade de
comprometimento da qualidade desses mananciais. Dessa forma o uso de defensivos agrícola,
fungicidas e outros deve ser utilizado com cuidado.
A partir da análise dos resultados por meio do emprego dos procedimentos metodológicos
seguidos na execução deste trabalho, tem-se a compreensão de sua utilidade não somente
acadêmica, mas também na aplicação de ações para o ordenamento do território e planejamento
ambiental e dos recursos hídricos.






Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
82


REFERÊNCIAS

ALVES, A. B. Estuário do rio Acaraú – CE: Impactos ambientais e implicações na qualidade
dos recursos hídricos. 2008. 131p. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Geografia) –
Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2008.
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISAS AGROPECUÁRIAS – EMBRAPA: Agroindústria
Tropical. Contexto geoambiental das bacias hidrográficas dos rios Acaraú, Curu e baixo
Jaguaribe – estado do Ceará. Fortaleza. 52p. Documentos 101, 2005.
I BGE (2001). Censo Demográfico 2000. Rio de Janeiro: IBGE, 2001.
IBGE. Manual técnico de uso da terra. Rio de Janeiro, 2006.
IPECE. Anuário estatístico. IPECE, 2005.
SUCUPIRA, P. A. P. Indicadores de degradação ambiental dos recursos hídricos superficiais
no médio e baixo vale do rio Acaraú – CE. 2006. 242 p. Dissertação (Mestrado em Geografia) –
Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2006.




































Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
83
CONTEXTO HIDROCLIMATOLÓGICO DA
BACIA DO MÉDIO-BAIXO JAGUARIBE, CE.

Cleuton Almeida Costa
Mestre em Geografia/UECE – Cleutonalmeida@yahoo.com.br

Lidriana de Souza Pineiro
Profª. Dra. da UFC/ Profª. do Mestrado em Geografia da UECE - lidriana.lgco@gmail.com


RESUMO

A situação hídrica do Estado do Ceará reflete as influências de suas condições naturais, em especial
as ligadas a litologia e à irregularidade pluviométrica. No entanto, foi nos ambientes fluviais que se
iniciou a colonização de suas terras, devido as melhores condições de solos e disponibilidade
hídrica. A área em estudo situa-se na porção leste do Ceará, mais precisamente na área de transição
do médio para o baixo curso da Bacia do Jaguaribe. O recorte espacial da bacia de drenagem possui
uma área de aproximadamente 3.556 Km². Nesta pesquisa, busca-se conhecer o comportamento
hidroclimatológico da Bacia do Médio-Baixo Jaguaribe, fornecendo subsídios relevantes às formas
de uso/ocupação desse espaço. O entendimento da dinâmica fluvial a partir de uma visão integrada
da paisagem, implicou na utilização do método sistêmico como referencial desta pesquisa. A
sazonalidade das precipitações associados às condições litológicas, conferem a bacia do Jaguaribe
picos de altas vazões em um curto período de tempo. As médias mensais de vazão do rio Jaguaribe
na estação de Peixe Gordo para o intervalo de 41 anos (1961-2002), mostram que a descarga líquida
é maior entre os meses de março, abril e maio, sendo em abril registrada a maior vazão média (460
m³/s). Já a última década (1998-2008), denota uma vazão de 100 m³/s para o mês de maior
intensidade do escoamento, sendo inferior à média dos últimos 40 anos, reflexos do início de
operação do Açude Castanhão em 2002. A artificialidade imposta à bacia do Jaguaribe,
principalmente a partir da construção do Açude Castanhão implica no retardamento de vazões
máximas para setores a jusante deste reservatório. Apesar do controle hídrico exercido por grandes
açudes na bacia do Jaguaribe, em anos em que as chuvas excedem a média histórica como ocorridos
em 2008 e 2009, as cidades jaguaribanas são atingidas por inundações gerando prejuízos população
local.
Palavras-chave: Rio Jaguaribe, Açudes, Enchentes.


INTRODUÇÃO
A situação hídrica do Estado do Ceará reflete as influências de suas condições naturais,
em especial as ligadas a litologia dos terrenos e à irregularidade e má distribuição das chuvas. “A
distribuição da precipitação dentro do território cearense relaciona-se com a atuação de diferentes
sistemas atmosféricos sobre os fatores geográficos locais e regionais.” (ZANELLA, 2005).
Nas regiões serranas, a exemplo do Planalto da Ibiapaba e nas áreas que ficam a
barlavento da serra de Baturité, as precipitações chegam a ultrapassar 1700 mm anuais. No litoral
apesar das chuvas não acompanharem o mesmo padrão das registradas nas serras, as precipitações
ficam na casa de 1000 mm a 1350 mm por ano. Contrastando com o perfil pluviométrico observado
noutras unidades ambientais, no sertão, que possui maior dimensão territorial no Ceará, a
pluviometria varia de 550 mm a 850 mm, e em alguns locais é inferior a 550 mm, a exemplo de
Irauçuba e do sertão dos Inhamuns (ZANELLA, 2005).
Apesar das chuvas serem razoáveis em comparação com outras regiões semi-áridas do
mundo, a alta taxa de evaporação que chega a ultrapassar 2000 mm (TEIXEIRA, 2004), associado
ao domínio de terrenos cristalinos, reflete na intermitência dos rios. Isto reduz o armazenamento
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
84
natural da água no subsolo, sendo necessária a sua acumulação artificial, nos diversos barramentos
distribuídos no espaço cearense.
Os maiores açudes do Estado datam da década de 1960, a partir da construção do açude
Orós com 1,94 bilhões de m³ (1961), e do Arrojado Lisboa (Banabuiú) com 1,7 bilhões de m³ em
1966, ambos na bacia do Jaguaribe. Atualmente o Ceará possui aproximadamente 5 mil açudes,
entre públicos e particulares, onde 131 são monitorados pela COGERH (Companhia de Gestão dos
Recursos Hídricos do Ceará), e dentre os quais o Castanhão merece destaque, pois, é o maior do
Estado do Ceará com capacidade de acumular 6,7 bilhões de m³ de água.
A açudagem e o controle de vazões têm papel relevante na evolução geomorfológica
dos canais, processos erosivos e de sedimentação no vale do Jaguaribe, e que por sua vez controlam
a disponibilidade e a qualidade dos Recursos Hídricos. Portanto, nesta pesquisa objetiva-se
conhecer o comportamento hidroclimatológico da Bacia do Médio-Baixo Jaguaribe, fornecendo
subsídios relevantes às formas de uso/ocupação desse espaço.

CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ÁREA

A bacia hidrográfica do rio Jaguaribe ocupa uma área de 74.621 km², representando
48% da área do Estado do Ceará (SOUZA; OLIVEIRA; GRANGEIRO, 2002). Esta bacia é
subdividida em cinco sub-bacias (Baixo, Médio e Alto Jaguaribe, Banabuiú e Salgado).
A área em estudo situa-se na porção leste do Estado do Ceará, mais precisamente na
área de transição do médio para o baixo curso do rio Jaguaribe (Figura 1). O recorte espacial da
bacia de drenagem possui uma área de aproximadamente 3.556 Km², englobando pequenas bacias a
exemplo da bacia do rio Figueiredo, que contribui para o aumento da vazão do rio Jaguaribe no
período de chuvas.
A partir do açude Castanhão, limite escolhido dentro da bacia do médio curso, o rio
Jaguaribe recebe a contribuição de pequenos tributários drenando território dos municípios de Nova
Jaguaribara, Alto santo, São João do Jaguaribe, Tabuleiro do Norte e Limoeiro do Norte.
Esses tributários e canais secundários percorrem e bordejam rochas do Pré-cambriano e
do Cretácio, no entanto, com menor expressão as dos Tércio-Quaternários e Quaternários. Os
terrenos aluviais (Quaternário) assumem destaque principal. A partir do encontro das águas do
Figueiredo com o Jaguaribe, no município de São João do Jaguaribe, a deposição do material
transportado ao longo do rio, associado à morfologia local propiciara condições para o surgimento
de vasta planície, ganhando maiores proporções ao adentrar os municípios de Tabuleiro do Norte e
Limoeiro do Norte.








Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
85








.























MATERIAIS E MÉTODO

A necessidade do entendimento da dinâmica fluvial a partir de uma visão integrada dos
elementos naturais, associada ao estabelecimento do conjunto de atividades desenvolvidas na área,
requer o método sistêmico como referencial desta pesquisa. Segundo Christofoletti (1999, p.1), a
abordagem sistêmica é fundamental para compreender como as entidades ambientais, expressando-
se em diferentes organizações espaciais, se estruturam e funcionam.
Bertrand (1971) entende a paisagem, como resultado da dinâmica instável de elementos
físicos, biológicos e humanos que reagem simultaneamente uns sobre os outros, sendo a mesma um
conjunto indissociável em contínua evolução. Portanto, “A paisagem é o reflexo e a marca impressa
da sociedade dos homens na natureza.” (Bertrand, 2007, p. 262).

Peixe Gordo

Rio Jaguaribe
R
i
o

F
i
g
u
e
i
r
e
d
o

Fig.1- Localização da área de estudo
Fonte: Organizado por Costa & Pinheiro, 2009.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
86
Objetivando conhecer as condições hidroclimatológicas do Médio-Baixo Jaguaribe,
foram realizados levantamentos bibliográficos e cartográficos da área, em consulta nas bibliotecas
da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Superintendência Estadual do Meio Ambiente do
Estado do Ceará (SEMACE), Secretaria de Recursos Hídricos (SRH), Fundação Cearense de
Meteorologia e Recursos Hídricos (FUNCEME), Universidade Federal do Ceará (UFC),
Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), Faculdade de Filosofia Dom Aureliano
Matos (FAFIDAM), Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (COGERH) e do Departamento
Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS).
Os dados de vazão foram cedidos pela Agência Nacional de Águas (ANA), onde na área
estudada encontram-se duas estações fluviométricas, uma localizada no Distrito de Peixe Gordo
município de Tabuleiro do Norte (Rio Jaguaribe), e outro no município de Alto Santo (Rio
Figueiredo). Os dados de chuvas foram obtidos em quatro postos pluviométricos monitorados pela
FUNCEME, conforme mostra o quadro abaixo. Vale ressaltar que apesar da existência de outros
postos na bacia, apenas estes apresentam uma uniformidade das leituras nas ultimas décadas.

CONTEXTO HIDROCLIMATOLÓGICO

O escoamento superficial, na qual dá origem à formação de rios, sofre influência das
condições climáticas. No Estado do Ceará, predomina o subtipo climático denominado de tropical
equatorial, também tipificado de semi-árido com 9 a 11 meses secos. (MENDONÇA; DANNI-
OLIVEIRA, 2007).
Ao estudar fatores que influenciam na determinação do clima da região Nordeste do
Brasil, Ferreira e Mello (2005) menciona alguns mecanismos que está ligado diretamente a
ocorrência de chuvas ou estiagens nessa região. Dentre eles, a Zona de Convergência Intertropical
merece destaque especial. Formada pela confluência dos ventos alísios do hemisfério norte e alísios
do hemisfério sul, sua migração da posição 14º N em agosto-outubro para a posição mais ao sul (2º
a 4º S) entre os meses de fevereiro a abril influencia a ocorrência de precipitações nesse período
(FERREIRA & MELLO, 2005).
O clima semi-árido que predomina no território cearense, influencia diretamente as
condições hidrológicas da bacia em estudo. Observando os dados de precipitações registrados em
quatro postos pluviométricos na bacia estudada, percebe-se a irregularidade das chuvas para período
de 30 anos (1979 - 2008).






Conforme expressa a figura 2, a variabilidade interanual das precipitações contribui para
a sazonalidade do escoamento fluvial do rio Jaguaribe e seus afluentes. Os totais anuais
pluviométricos variaram de 120 mm a 1.800 mm, com mínimas e máximas, observadas nos anos de
1993 e 1985, respectivamente. Os maiores índices de precipitação foram observados nos seguintes
anos: 1984, 1985, 1986, 1989, 2004 e 2008.
QUADRO 1 – LOCALIZAÇÃO DE TODOS OS POSTOS PLUVIOMÉTRICOS DA BACIA
Posto Município Latitude Longitude Altitude(m)
IRACEMA Iracema 549 3818 140
ALTO SANTO Alto Santo 531 3815 79
SÃO JOÃO DO JAGUARIBE São João do Jaguaribe 517 3816 51
TABULEIRO DO NORTE Tabuleiro do Norte 515 3808 40
Fonte: FUNCEME, 2008 (http://www.funceme.br/DEMET/Index.htm)
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
87

















No ano 2008, as chuvas registradas na região jaguaribana durante os quatro primeiros
meses foram de 773,1 mm, apresentando um desvio de 30,7% em relação à média histórica que é de
591 mm (FUNCEME, 2008). A irregularidade espaço temporal das precipitações em 2008 pode ser
percebida, quando se observa a variação das precipitações dos quatros postos (Figura 3).
A distribuição temporal foi semelhante às verificadas nas médias históricas, com valores
máximos de 410 mm, entre os meses de março e maio. As chuvas se tornam intensas a partir da
segunda quinzena de março. Em abril as precipitações são maiores no início do mês, levando
grande parte dos açudes a sangrarem. A partir de agosto as precipitações são nulas na região e o
escoamento fluvial é controlado exclusivamente pela vazão regularizada pelo Açude Castanhão.











A evaporação é muito elevada na região com totais de 1500 mm por ano. No período
chuvoso a média da evaporação é de 77 mm, enquanto no período de estio a perda média de água
das drenagens, solos e outros sistemas chegam próximas de 174 mm. As maiores perdas são
observadas no mês de setembro, pico da insolação nessas regiões, conforme mostra a figura 4.

Fig. 2 – Distribuição das chuvas no intervalo de 30 anos (1979-2008) em quatro postos pluviométricos na bacia
estudada
Fonte: FUNCEME, 2008 (http://www.funceme.br)
Variação da Precipitação no ano de 2008
0
50
100
150
200
250
300
350
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450
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ç
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o

(
m
m
)
Iracema
Alto Santo
Tabuleiro do Norte
São João do Jaguaribe
Fig. 3 - Variação mensal das precipitações na bacia hidrográfica em estudo em 2008.
Fonte: Banco de dados da FUNCEME (2008).
0
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600
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(
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m
)
IRACEMA ALTO SANTO TABULEIRO DO NORTE SÃO JOÃO DO JAGUARIBE
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
88












De porte dos dados da ANA, foram realizados gráficos que denota a sazonalidade da
vazão na bacia do médio e baixo Jaguaribe. No que tange ao rio Figueiredo, cuja área de drenagem
é de 2.448,9 Km² (BRASIL, 1996), foi observado a vazão média mensal para o intervalo 2000-
2007, além do ano de 2008, conforme mostra a figura 5. Sendo um rio intermitente, que ainda não
possui regularização de sua drenagem, é percebido que o escoamento fluvial é restrito ao primeiro
semestre do ano. Ressalta-se que a predominância de terrenos impermeáveis, associado a alta
temperatura não permite a concentração de água nesta bacia que proporcione um escoamento mais
uniforme. Para este intervalo, as maiores vazões são evidenciadas no mês de abril e maio.











Em relação ao ano de 2008, é perceptível o pico de sua vazão máxima em fevereiro,
declinando a partir de março. Esse retrato mostra que as altas vazões registradas no rio Jaguaribe
Figura 4. Variação mensal das precipitações e evaporação na bacia
hidrográfica do Rio Figueiredo.
Fonte: Banco de Dados da FUNCEME (2008).

Fig. 5 - Vazão média mensal do Rio Figueiredo no período de 2000-2007 e no ano de 2008.
Fonte: Banco de dados da ANA, 2008.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
89
durante esse ano não tem relação com as águas escoadas da bacia do Figueiredo, pois, a média de
vazão girou em torno de 3 m³/s.
Em relação ao rio Jaguaribe, a Figura 6 mostra as médias históricas de vazão na estação
de Peixe Gordo para três situações: intervalo temporal de 41 anos (1961-2002), antes do inicio de
operação do Açude Castanhão; o decênio (1998-2008); e 2004, na qual a vazão do rio Jaguaribe
nessa seção foi bem significativa.
As médias mensais para o intervalo de 41 anos (1961-2002), mostram que a descarga
líquida é maior entre os meses de março, abril e maio, sendo abril encontrado a maior vazão média
que gira em torno de 460 m³/s.
A última década (1998-2008), denota uma vazão média muito baixa em relação a média
dos últimos 40 anos. A diminuição da descarga líquida está associada ao início de operação do
Açude Castanhão que mantém o controle sobre o escoamento fluvial, liberando apenas uma vazão
mínima para os múltiplos usos a jusante. Uma média de 100 m³/s para o mês de maior intensidade
do escoamento, mostra a eficiência desta obra na regularização da drenagem.













Quando se observa o ano de 2004, primeiro ano em que o açude castanhão teve suas
comportas abertas é percebido o escoamento intenso do rio Jaguaribe em curto espaço temporal.
Portanto, a vazão registrada no mês de março é comparável a média mensal dos anos em que não
existia esse barramento.
As chuvas em 2004 começaram no início do ano, ocorrendo assim um retardamento das
maiores vazões em relação a média registradas nos outros anos. Dos 123 açudes monitorados pela
COGERH em 2004, 95 sangraram, equivalendo a 77,2% (COGERH, 2007).
.Quatro anos depois, em 2008, o rio Jaguaribe novamente proporciona cheia. Os dados
fornecidos pela ANA através de curva-chave, denotam vazões muito altas na seção de Peixe Gordo,
ultrapassando 1600 m³/s. As vazões máximas são registradas a partir dos últimos dias do mês de
março, além do mês de abril e maio conforme indica a figura 7.



0
100
200
300
400
500
Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Período
V
a
z
ã
o

(
m
3
/
s
)
1961-2002
1998-2008
2004*
Fig.6. Médias históricas da vazão do Rio Jaguaribe na localidade de Peixe-Gordo no período de 1961-
2002, 1998-2008 e em 2004. * a vazão deste ano não foi computada nas médias históricas em virtude de
ter sido considerada um evento anômalo.
Fonte: Banco de dados da ANA, 2008.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
90














Na tabela 1, pode ser observado o controle exercido pelo Açude Castanhão na vazão do
rio Jaguaribe no ano 2008. Quando as chuvas se intensificaram, a vazão liberada era muito pequena,
como as verificadas entre os dias 26 de março a 1º de abril (2 m³/s). No entanto, a partir do dia 2 de
abril a vazão liberada foi de 588 m³/s devido o açude ultrapassar a cota 100. No dia 10 de abril as
comportas novamente são fechadas e a vazão liberada diminui (3 m³/s).








A alternância entre vazões máximas e mínimas, principalmente durante o mês de abril e
início do mês de maio, teve por objetivo controlar as cheias à jusante desse açude, já que a montante
o nível das águas estavam bastante elevado provocando inundações. Portanto, o regime de
escoamento do rio Jaguaribe, é o reflexo não somente da dinâmica dos elementos naturais (clima,
geologia, geomorfologia, pedologia, etc), mas, também da artificialidade imposta a esse ambiente
através da construção de grandes açudes.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A irregularidade pluviométrica associada às condições litológicas, conferem a bacia do
Jaguaribe picos de altas vazões em um curto período de tempo. As médias mensais de vazão do rio
Jaguaribe na estação de Peixe Gordo para o intervalo de 41 anos (1961-2002), mostram que a
descarga líquida é maior entre os meses de março, abril e maio, sendo abril encontrado a maior
Tabela 1 - Vazões liberadas pelo Açude Castanhão (2008)
Data Vazão m³/s Data Vazão m³/s
21/02/08 - 25//03/08 8 30/04/08 -01/05/08 169
26/03/08 - 01//04/08 2 02/05/2008 375
02/04/08 - 09//04/08 588 03/05/08 -04/05/2008 509
10/04/08 3 05/05/2008 500
11/04/08- 16/04/08 15 06/05/2008 330
17/04/08 800 07/05/2008 500
18/04/08 400 08/05/08 -13/05/08 660
22/04/08-29/04/08 9 14/05/08 - 19/06/08 9
0
400
800
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1600
2000
1 31 61 91 121 151 181 211 241 271 301 331 361
Dias (2008)
V
a
z
ã
o

(
m
3
/
s
)
Peixe-Gordo
Fig. 7 - Vazão diária do Rio Jaguaribe na localidade de Peixe-Gordo no ano de 2008.
Fonte: Banco de dados da ANA, 2008.
Fonte: Banco de dados da COGERH, 2008.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
91
vazão média que gira em torno de 460 m³/s. Já a última década (1998-2008), denota uma vazão de
100 m³/s para o mês de maior deflúvio, reflexos do início de operação do Açude Castanhão em
2002, que mantém certo controle sobre o escoamento fluvial.
A artificialidade imposta à bacia do Jaguaribe na área pesquisada, principalmente a
partir da construção do Açude Castanhão implica no retardamento de vazões máximas para setores
a jusante deste reservatório. O retrato deste fenômeno foi observado em 2008, pois, apesar de
inundações nas áreas montantes o fluxo liberado pelo açude não correspondia à intensidade das
precipitações que caíram na bacia.
Apesar do controle de vazão exercido por grandes açudes na bacia do Jaguaribe, em
anos em que as chuvas excedem a média histórica como ocorridos em 2008 e 2009, as cidades
jaguaribanas são atingidas por inundações gerando prejuízos e transtornos a população local.

REFERÊNCIAS

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de Ciências da Terra, V.3, p.1-21, São Paulo, 1971.

BERTRAND, George; BERTRAND, Claude. Uma Geografia transversal e de travessias: o meio
ambiente através dos territórios e das temporalidades. In: PASSOS, Messias Modesto dos.(Org.).
Maringá: Massoni, 2007.

COGERH. Anuário do Monitoramento Quantitativo dos Principais Açudes do Estado do
Ceará. Fortaleza:Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (COGERH), 2007.

BRASIL. CPRM. Avaliação das Potencialidades Hídrica e Mineral do Médio-Baixo Jaguaribe
- CE. V.4 (Série Recursos Minerais), Fortaleza-CE, 1996.

CHRISTOFOLETTI, A. Modelagem de Sistemas Ambientais. Editora: Edgard. Blücher Ltda.
1ed, São Paulo, 1999, 236p.
FERREIRA, Antonio Geraldo; MELLO, Namir Giovanni da Silva. Principais sistemas atmosféricos
atuantes sobre a região Nordeste do Brasil e a Influência dos Oceanos Pacífico e Atlântico no clima
da região. In: Revista Brasileira de Climatologia. N.1, V.1. Presidente Prudente, 2005, p.15-27.

FUNCEME. Avaliação de previsão de estação chuvosa de 2008. Disponível em: <
www.fuceme.br >Acesso em: 30 Out. 2008.

MENDONÇA, Francisco; DANNI-OLIVEIRA, Inês Moresco. Climatologia: Noções básicas e
climas do Brasil. São Paulo: Oficina de Textos, 2007.

SOUZA; M.J.N; OLIVEIRA, V.P.V; GRANGEIRO, C.M.M. Análise Geoambiental. In: ELIAS, D.
(org.). O Novo Espaço da Produção Globalizada: O Baixo Jaguaribe. Fortaleza: Funece, 2002,
p.23-89

TEXEIRA, Francisco José Coelho. Modelo de Gerenciamento de Recursos Hídricos: Análises e
Proposta de Aperfeiçoamento do Sistema do Ceará. 1ª ed. Brasília, 2004.

Zanella, Maria Elisa. As características climáticas e os recursos hídricos do Estado do Ceará. In:
José Borzacchiello da Silva; Tércia C. Cavalcante; Eustógio Wanderley Correia Dantas. (Org.).
Ceará: Um Novo Olhar Geográfico. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2005, v. Único, p. 169 –
188.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
92
A BACIA DO BAIXO POTI E AS HORTAS COMUNITÁRIAS DA ZONA NORTE DE
TERESINA (PI): SISTEMAS MULTIFUNCIONAIS E DESENVOLVIMENTO LOCAL

Daniel César Menêses de Carvalho

Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/TROPEN/UFPI
danielcmc@ymail.com

Alex Bruno Ferreira Marques do Nascimento
Bacharel em Administração, pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI
alexadministracao@gmail.com

Antonio Joaquim da Silva
Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/TROPEN/UFPI
joakim.ufpi@yahoo.com.br

Charlene de Sousa e Silva

Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/TROPEN/UFPI
charmenegeo@gmail.com

Maria do Socorro Lira Monteiro
Professora do Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/TROPEN/UFPI
socorrolira@uol.com.br


RESUMO
A agricultura em pequena escala é muito eficaz para o atendimento da classe menos favorecida da
população, pois essa parcela da população não tem poder aquisitivo e logístico suficiente para
acompanhar o mercado global. O Piauí, que se configura de acordo com a ocupação econômica do
território brasileiro, teve seu povoamento baseado na pecuária extensiva, na agricultura de
subsistência e no extrativismo vegetal. Seguindo esse mesmo caminho, verifica-se, na agricultura
familiar, em todo o estado e em sua capital, que essa prática (sem a devida acessória técnica e dos
poderes públicos), é na maioria das vezes danosa ao meio ambiente. As gerações posteriores irão
ser lesadas com o comprometimento dos recursos ambientais. As hortas comunitárias da zona norte
de Teresina – PI, que são abastecidas pela bacia do Baixo Poti, visam atender aos requisitos de
sustentabilidade das famílias que necessitam diretamente da produção, ao passo que promove a
conscientização e educação ambiental. O estudo de tais hortas teve como objetivos analisar a
estrutura do programa das Hortas Comunitárias na zona em questão, evidenciar os principais
problemas estruturais e aplicar os conceitos de multifuncionalidade e ecodesenvolvimento para a
produção agrícola regional.

Palavras-chave: Multifuncionalidade. Hortas Comunitárias. Rio Poti.

INTRODUÇÃO
A produção agrícola, nos parâmetros econômicos atuais, procura ofertar insumos que
promovam o acúmulo de capital. Entretanto, contrastando com a força produtiva da agroindústria, a
agricultura familiar mostra-se bastante eficaz para o atendimento da população mais carente, ao
passo em que esta forma de produzir não tem poder logístico suficiente para competir no mercado
global.
O Brasil, historicamente, apresenta-se como um país que tem sua economia fortificada pela
agricultura, que visa atender tanto o mercado interno quanto o externo. Essa estrutura provém da
sua colonização, onde a formação nacional foi pautada em princípios capitalistas; percebido nos
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
93
mais diversos setores econômicos, esse modo de produção é responsável, principalmente, pela atual
distribuição de terras e configuração do trabalho rural, tanto em pequena, quanto em larga escala.
O Estado do Piauí, que se configura economicamente em consonância com a ocupação do
território brasileiro, teve seu povoamento baseado na pecuária extensiva, na agricultura de
subsistência e no extrativismo vegetal (ARAÚJO, 2006). Dando ênfase à agricultura familiar
piauiense (mais precisamente na capital Teresina, foco do trabalho), verifica-se que essa prática,
sem a devida acessória técnica e dos poderes públicos, é na maioria das vezes predatória. As
gerações posteriores serão afetadas, pois haverá o comprometimento dos recursos ambientais.
Sendo assim, as hortas comunitárias de Teresina – PI visam atender aos requisitos de
sustentabilidade das famílias que necessitam diretamente da produção, ao passo que promove a
conscientização e educação ambiental. Para tanto, observa-se que o conceito de sistema
multifuncional agrícola pode ser aplicado nessa situação, contribuindo largamente para o
desenvolvimento local.
As Hortas Comunitárias da zona norte de Teresina, localizadas na porção da Bacia do
Baixo Poti caracterizarão esse estudo, que tem como objetivos analisar a estrutura do programa das
Hortas Comunitárias na zona em questão, evidenciar os principais problemas estruturais e aplicar os
conceitos de multifuncionalidade e ecodesenvolvimento para a produção agrícola regional.
A metodologia empregada foi a revisão bibliográfica acerca do assunto, pesquisas de
campo no local das hortas e visita aos órgãos competentes (Superintendência de Desenvolvimento
Urbano, IBGE, Prefeitura Municipal de Teresina).
AS HORTAS COMUNITÁRIAS DA ZONA NORTE DE TERESINA E SUA
MULTIFUNCIONALIDADE
CONCEITO DE MULTIFUNCIONALIDADE
No encontro realizado no ano de 1999, da Organização Mundial do Comércio (OMC), a
agricultura abre discussões sobre seu teor multifuncional. Mas, antes disso, na ECO-92, sediada no
Rio de Janeiro – em 1992 – houve a preocupação em ressaltar que a agricultura em pequena escala
apresenta aspectos multifuncionais muito importantes, particularmente quando se trata de
desenvolvimento sustentável e segurança alimentar.
Em um contexto geral, além de ser economicamente viável, a agricultura familiar também
assegura uma eficaz preservação ambiental. Essa importância, ressaltada na ECO-92, concede à
agricultura o seu caráter multifuncional; esse caráter de multifuncionalidade, segundo Soares
(2001), é oriundo do conceito de Agricultura e Desenvolvimento Rural Sustentável (ADRS).
Soares (2001) afirma que, além de sua função primária (produção de alimentos, fibras,
entre outros), a atividade agrícola pode também alterar a paisagem, prover benefícios ambientais e
contribuir para a gestão sustentável dos recursos naturais. Nesse caso identificam-se aqui as quatro
funções-chave da agricultura familiar: contribuição à segurança alimentar; função ambiental; função
econômica e; função social.
Assim, a partir das funções-chave da multifuncionalidade da agricultura familiar, podemos
fazer uma análise da aplicabilidade do conceito de sistema multifuncional para as Hortas
Comunitárias da zona norte de Teresina, podendo-se evidenciar a real contribuição desse tipo de
empreendimento para a sociedade e para o ambiente.
PERFIL SOCIOECONÔMICO E AGRÍCOLA DO MUNICÍPIO DE TERESINA – PI
Teresina, capital do estado do Piauí, está localizada na Mesorregião Centro-Norte
Piauiense e na Microrregião Teresina. Com uma área de 1.775,698 km², tem uma população de
793.915 habitantes. Seu Produto Interno Bruto (PIB) gira em torno de R$ 6.000.490,00, com uma
renda per capita de R$ 7.482,00 (IBGE, 2006/2008).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
94

Figura 01: Localização do município
de Teresina–PI
Fonte: Adaptado do IBGE, 2009.

Segundo dados do Censo Agropecuário de 2006, Teresina conta com 7.026
estabelecimentos agropecuários (que totalizam uma área de 51.931 hectares). Deste montante, 1.864
estabelecimentos são destinados a lavouras permanentes (8.179 hectares), e 4.518 são locais de
lavouras temporárias (8.205 hectares).

CARACTERÍSTICAS DA BACIA DO RIO POTI
A Bacia hidrográfica do Rio Poti abrange uma área total de 52.202 km², sendo que destes,
37.750 km² inserem-se em território piauiense e 12.480 km² no estado do Ceará (SEMAR, 2007).
Abrange, total ou parcialmente, 81 (oitenta e um) municípios.
Consoante aos dados da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMAR,
2007), a vazão média da foz do Poti é de 153,4 m³/s; sua precipitação média anual gira em torno de
1.250 mm e sua evapotranspiração potencial varia entre 2.500 e 1.800 mm.
A população urbana que encontra-se inserida na região da Bacia do Poti gira em torno de
150.000 habitantes, ao passo que a população rural estimada é de mais de 170.000 habitantes. A
demanda de água estimada para abastecimento humano urbano é de 247,96 l/s, enquanto verifica-se
uma demanda de apenas 198,31 l/s para o abastecimento humano rural.



Figura02: Bacia hidrográfica do Rio Poti
Fonte: Adaptado da SEMAR, 2009




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Em termos de produção, o rio Poti demonstra sua importância quando constatamos que
existem 544 produtores em seus limites, sendo a demanda por água para a produção agropecuária
elevada, em torno de 1.543,82 l/s (SEMAR, 2007).
Na região de Teresina, é observado um processo de eutrofização das águas do Poti,
causado, principalmente, pelo excesso de produtos químicos oriundos de indústrias e efluentes
agrícolas.
CARACTERIZAÇÃO DAS HORTAS COMUNITÁRIAS DA ZONA NORTE DE
TERESINA
O artigo 15º do Plano Diretor de Teresina se direciona para o uso e ocupação do solo
urbano; o objetivo, mostrado aqui, é de ampliar o Projeto de Hortas Comunitárias, visando atender
uma maior parcela da população (PLANO DIRETOR DE TERESINA, 2002). Esse objetivo
governamental, ao nos reportarmos aos dados estatísticos, mostra-se crível acerca da quantidade de
famílias que o programa atende. De acordo com a Prefeitura Municipal de Teresina, as Hortas
Comunitárias atendem cerca de 1.450 famílias das zonas periféricas, em uma área de mais ou
menos 177,2 hectares (dados de 2007).
Do ponto de vista histórico, o Programa de Hortas Comunitárias em Teresina teve seu
início em 1986. Tinha como principal objetivo, segundo Monteiro e Monteiro (2006), inserir na
prática agrícola crianças e adolescentes em situações de risco, a fim de coibir a marginalidade.
Ao passar do tempo, na medida em que as hortas cresciam, observou-se a inserção, na
agricultura, dos outros membros da família do menor horticultor. Dessa forma, o Programa cresceu
para abarcar as famílias da periferia da cidade, e tem atualmente como foco atender as pessoas
carentes que anseiam por uma fonte de renda.
Segundo Monteiro (2004), o desenvolvimento das Hortas tomou impulso ao se constatar a
favelização de algumas localidades teresinenses; com esses pontos da cidade aumentando
quantitativamente, houve a necessidade imediata de um programa assistencial, que atendesse a essa
“explosão” das favelas.

Faz-se necessária a adoção de políticas públicas de combate à pobreza e à miséria a
fim de reverter o efeito negativo produzido pelas altas taxas de crescimento
registradas ao longo de várias décadas, do fluxo migratório campo/cidade, além da
baixa oferta de trabalho, gerando piora nos níveis de distribuição da renda. Nessa
perspectiva, em Teresina, destacam-se as Hortas Comunitárias, implantadas pela
Prefeitura Municipal, as quais apresentam, na última década, o objetivo de gerar
emprego e renda às famílias carentes da periferia da cidade, bem como melhorar o
padrão alimentar dessas famílias e aumentar a oferta de hortaliças no Município.
(MONTEIRO, 2004, p. 02).

Seguindo essa premissa, a Prefeitura Municipal de Teresina segue a idéia de
desenvolvimento sustentável das famílias carentes e, em contrapartida, desenvolve a atividade de
forma que tais famílias (e o município) fiquem menos dependentes de outras localidades no que
tange o abastecimento de produtos cultivados pelos horticultores. Aqui, o ponto de vista do poder
municipal corrobora com o conceito de multifuncionalidade, onde as Hortas Comunitárias são
instrumento de seguridade social e alimentar.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Figura 02: Horta Comunitária da zona norte de
Teresina - PI.
Fonte: O autor, 2008

A segurança alimentar que as hortas comunitárias promovem (uma das funções-chaves do
sistema multifuncional agrícola) assegura, para os trabalhadores, condições que lhe conferem uma
maneira de fazer seu próprio abastecimento alimentício.

A BACIA DO BAIXO POTI E AS HORTAS COMUNITÁRIAS DA ZONA NORTE DE
TERESINA
Na zona norte teresinense, as Hortas Comunitárias se multiplicaram, consideravelmente,
com o surgimento de vilas e favelas. Com o crescimento urbano desordenado nessa região, os
problemas administrativos cresceram. Um bom exemplo disso é o tamanho dos lotes destinados ao
cultivo das hortaliças: eles, que deviam der padronizados, apresentam, segundo Bezerra et al (1996)
uma instabilidade. Comparando-se o tamanho dos lotes apresentados nas figuras 02 e 03, vemos a
ausência de padrão no tamanho.


Figura 03: Cultivo de hortaliças em horta
comunitária de pequeno porte.
Fonte: O autor, 2008.

Na pesquisa de campo realizada em janeiro de 2008, constatou-se que a maioria dos
agricultores das Hortas da zona norte é do sexo feminino (cerca de 60%). Grande parcela das
horticultoras divide o trabalho nas hortas com os afazeres de casa. Já os homens, para incrementar a
renda familiar, trabalham em outro lugar, quase sempre informalmente (subemprego).



Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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PRODUÇÃO DAS HORTAS
Ao observar os produtos cultivados na zona norte teresinense, a variedade é modesta:
Cerca de 10 variedades são destaque de produção, segundo os horticultores. Os beneficiados pelo
programa comentam que a produtividade muda de acordo com a estação.
As pessoas que tiram o seu sustento das hortas comunitárias reportaram que a maioria dos
agricultores passou cerca de um ano sem produzir, por conta de cheia do Rio Poti, que ocorreu no
ano de 2004, causando assim perdas consideráveis de hortas.
Nesse período de tempo, a Prefeitura, segundo os beneficiados pelas hortas, não deu
suporte para revitalizar o empreendimento. Segundo a pesquisa, os próprios beneficiários tiveram
que bancar a revitalização dos lotes, mesmo sem ter produzido por um ano.
Em 2009, em outro aumento das águas do Rio Poti, toda a extensão ribeirinha das hortas
comunitárias da zona norte (como demais zonas teresinenses) sofreu perdas do ponto de vista
edáfico, produtivo e ambiental (figura 03).


Figura 04: Horta comunitária alagada pelo Poty
Fonte: O autor, 2009.

Uma das premissas do sistema multifuncional da agricultura – a integração social – é bem
visualizada no programa das hortas. No entanto, um problema apontado pelos que ali trabalham é a
falta de articulação social por parte de muitos horticultores. Alguns lotes, que deveriam ser geridos
por uma quantidade pré-determinada de famílias são subdivididos, para que cada unidade familiar
cuide de uma área específica.


Figura 05: Porcentagem de cultivo dos principais produtos das hortas
comunitáriasda zona norte de Teresina – PI
Fonte: Pesquisa direta, 2008.

Acerca das hortaliças, como observado na figura 05, as que têm maior produção são: a
cebolinha (42%), o Coentro (35%), a alface (15%) e o quiabo (6%). Outros alimentos giram em
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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torno dos 2%. O motivo da alta produtividade desses produtos, tornando-se maior em relação a
outros, se deve ao fato de estarem inseridos na dieta alimentar da população local, além de serem
produtos de rápida comercialização (CAMARGO, 2002).
CONCLUSÃO
Os programas governamentais, que visam amenizar os problemas sociais existentes, estão
se expandido quantitativamente em todo o território nacional, levando principalmente às famílias
mais necessitadas uma amenização dos problemas mais visíveis (nas esferas da saúde, moradia,
saneamento, entre outros). Contudo, concomitante a esse crescimento exponencial, o modelo
estrutural ideal de tais iniciativas (viés qualitativo) está longe de ser o preferível.
Ao nos reportamos ao conceito de sistema multifuncional da agricultura, percebemos que,
inserir as hortas comunitárias nessa categoria, mais do que um simples enquadramento científico,
estamos contribuindo para expandir os benefícios – a curto e a longo prazo – desse programa,
aumentando a área de atuação para a sociedade que não depende diretamente da agricultura familiar
na região em estudo.
A pesquisa entre os trabalhadores das Hortas da zona norte de Teresina só vêm a salientar
que os poderes, não só Municipal, mas também Estadual e Federal, devem incrementar os auxílios
econômicos e administrativos para que haja uma nova roupagem desse tipo de programa, aliando
desenvolvimento econômico e preservação ambiental, tão discutida, atualmente, no meio científico.
Dessa maneira, no futuro, as condições de uma vida digna podem estar cada vez mais perto do
conceito de ecodesenvolvimento.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, José Luis Lopes. (Coordenador). Atlas escolar do Piauí: Geo-histórico e cultural. João
Pessoa/PB: Ed.Grafset, 2006.
BEZERRA, A.M.E.; SOUSA A.A.G.; FARIA, G.S.; MACHADO F.A.; MENDES, J.B.S.
Panorama Geral das Hortas Comunitárias de Teresina – PI. Universidade Federal do Piauí –
UFPI. Teresina, 1999.
CAMARGO, L. de S. As hortaliças e o seu cultivo. Campinas: Fundação Cargill, 1992.
IBGE. Censo Agropecuário 2006. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/>. Acesso em 05 fev.
2009.
IBGE. Produção da extração vegetal e da silvicultura: Piauí em números. 7 ed, Teresina:
Fundação CEPRO, 2006-2008.
SOARES, Adriano Campolina. A multifuncionalidade da agricultura familiar. Rio de Janeiro:
Action Aid Brasil, 2001.
LEAL, Adão Firmino. Condições do extrativismo e aproveitamento das frutas nativas da
microrregião de Teresina – Piauí. Teresina, PI: UFPI, 2005. Dissertação (Mestrado
Desenvolvimento e meio ambiente).
MONTEIRO, Juliana Portela do Rego. Análise Sócio-Econômica e Ambiental das Hortas
Comunitárias de Teresina. Universidade Federal do Piauí – UFPI. Teresina, 2004.
______; MONTEIRO, Maria do Socorro Lira. Hortas comunitárias de Teresina: agricultura
urbana e perspectiva de desenvolvimento local. Revista Iberoamericana de Economía Ecológica
Vol. 5. 2006.
POPPER, K. A Lógica da pesquisa científica. 9ª ed. Tradução Leônidas Hegenberg e Octanny
Silveira da Mota. São Paulo. Cultrix, 1993.
PREFEITURA MUNICIPAL DE TERESINA. Plano diretor de teresina. Disponível em:
< http://www.ufpi.br/downloads/uploads/noticias/plano_diretor.rtf>. Acesso em 05 fev. 2009.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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BALANÇO HIDRICO DO ALTO CURSO DO RIO ACARAÚ - CE

Ernane Cortez Lima
Doutorando em Geografia –UFC
Professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
ernaneclima@bol.com.br


RESUMO

Este texto é uma pequena explanação sobre estudos do balanço hídrico realizados na Serra das
Matas, mais precisamente no alto curso da bacia hidrográfica rio do Acaraú – CE, servindo de dado
técnico para pesquisas sobre trabalhos ambientais e aplicação em planejamentos de cunho
econômico e social.
Palavras chave: balanço hídrico, semi-árido, rio, bacia hidrográfica, alto curso.

INTRODUÇÃO

O ciclo hidrológico da região norte do estado do Ceará é condicionado pela semi-aridez que
rege as condições climáticas ambientais e que, nitidamente, apresenta um período de deficiência
hídrica mais elevada temporalmente e espacialmente em relação ao excesso hídrico.
O estudo do balanço hídrico é de fundamental importância para se definir a disponibilidade
hídrica de uma região, no entanto, além da precipitação, deve-se admitir o retorno da água à
atmosfera através da evaporação e transpiração das plantas, pois a água disponível no solo é
proveniente da interação desses dois fatores.
O balanço hídrico consiste no confronto entre as necessidades hídricas das plantas e a
quantidade de chuva de uma determinada área, representando, portanto, a contabilidade de entrada e
saída de água no solo.

METODOLOGIA
Para a avaliação da disponibilidade hídrica do alto curso do rio Acaraú, foi efetuado o
balanço hídrico dos municípios de Monsenhor Tabosa e Tamboril, ambos parcialmente inseridos na
área em estudo. Utilizou-se o programa Balanço Hídrico - Varejão Silva (1990), com base em
Thornthwaite e Mather (1955), que traz informações também sobre índices climáticos - índice de
aridez, de umidade e hídrico, além de tipo climático.
O Programa em questão utiliza os valores de temperatura do ar (TºC) e a precipitação
pluviométrica (Pmm). Com base nesses valores, estima - se a quantidade de água consumida através
do processo de evapotranspiração em milímetros (ETP); a água no solo é contabilizada enunciando
os períodos de seca (DEF) e também os períodos de excesso hídrico (EXC). O conceito de balanço
hídrico propõe o solo como um reservatório fixo, onde a água armazenada, até o máximo da
capacidade de campo, só será removida através das plantas.
O balanço hídrico, além da evapotranspiração potencial, permite estimar a evapotranspiração
real (ETR), o excedente hídrico (EXC), a deficiência hídrica (DEF) e as etapas de reposição
(ARM), e retirada de água no solo. Pode-se aferir para a área da pesquisa a seguinte análise:
• A retirada hídrica corresponde aos meses de junho a agosto representando o período em que
a evapotranspiração gradativamente vai superando a precipitação, ou seja, o início da
estação seca (inverno);
• A deficiência hídrica corresponde aos meses de setembro a janeiro, representando o período
em que a precipitação é inferior a evapotranspiração real e potencial na estação seca
propriamente dita (primavera);
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
100
• A reposição hídrica corresponde aos meses de fevereiro a março representando o período de
reabastecimento das perdas hídricas, em que a precipitação gradativamente vai superando a
evapotranspiração no início da estação chuvosa (outono);
• O excesso hídrico corresponde ao mês de abril representando o período após a reposição do
déficit hídrico, em que a precipitação é superior à evapotranspiração real e potencial
corresponde ao ápice da estação chuvosa (verão).


ANÁLISE DO BALANÇO HÍDRICO DO MUNICÍPIO DE MONSENHOR TABOSA

Em Monsenhor Tabosa, os valores significativos de precipitação ocorrem de janeiro a maio.
No entanto, em janeiro, as precipitações de 62,5mm são inferiores ao potencial de
evapotranspiração, que é de 109 mm, com conseqüente déficit de água no solo. Em fevereiro, a
curva de precipitação ultrapassa a da evapotranspiração potencial, suficiente apenas para suprir a
necessidade das plantas ver tabela 1 e figura 1 .
Em março, apesar do índice pluviométrico de precipitação apresentar 161,0mm, não houve
excedente hídrico. Apenas em abril, que com um índice pluviométrico de 141,4mm ocorreu
excedente hídrico de 20 mm.
A partir do mês de maio, há um decréscimo das precipitações e o balanço hídrico sofre uma
alteração, ou seja, torna negativa a precipitação efetiva, que é de -4 mm. Inicia-se a estação de
deficiência de água, que irá se estender até janeiro, perfazendo um déficit anual de 523 mm, em
média.
A estação de precipitação efetiva negativa P-ETo inicia em maio e se estende até janeiro.
Por existir estoque de água nos solos ao início desta estação, o referido mês (maio) não possui
déficit hídrico, embora não seja caracterizado por excesso. Apesar das reservas hídricas do solo
esgotarem-se em setembro, a partir de junho e julho, os déficits de água para as plantas são
significativos, provocados pela drástica redução das precipitações pluviométricas.
Conforme o constatado, considera-se que Monsenhor Tabosa apresenta uma longa estação
seca, com 8 (oito) meses, de junho a janeiro, de elevado déficit hídrico, com 523 mm e índice de
aridez de 45,42 .
Conforme Vieira (2002) No semi-árido, com disponibilidade hídrica problemática e escassa,
a caracterização da água, como bem econômico, é complexa e diferenciada. Dentre os fatores que
colaboram para determinação de seu valor econômico, estão: tipo de uso, qualidade, forma de local
de oferta, nível de garantia, sazonalidade, e condições climáticas.
Os rigores da semi-aridez estão ainda condicionados a outros fatores climato-
meteorológicos, como temperatura, balanço hídrico, ventos e insolação. Conforme Pinheiro (2003),
no sertão cearence a insolação apresenta valores médios representativos, influenciados pelo efeito
da latitude, por situar-se entre latitudes onde os raios solares incidem com maior verticalidade e
maior intensidade durante mais de oitenta dias initerrúpitos de solstício, ou aproximadamente 2.800
horas.












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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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ANÁLISE DO BALANÇO HÍDRICO NO MUNICÍPIO DE TAMBORIL

Em Tamboril, as precipitações apresentam índices mais elevados de janeiro a maio. Contudo,
observa-se que em janeiro as precipitações de 75,7 mm são
inferiores ao potencial de evapotranspiração, que é de 147mm, resultando em déficit de água no
solo. No mês de fevereiro, a curva de precipitação ultrapassa a de evapotranspiração potencial,
bastante apenas para suprir a necessidade das plantas. Em março, o índice pluviométrico foi de
192,4mm, mas não houve excedente hídrico, apenas em abril, com um índice pluviométrico de
161.1mm, ocorreu um excedente hídrico de 21mm.
A partir do mês de maio, há um decréscimo das precipitações e o balanço hídrico sofre
alteração, torna negativa a precipitação efetiva com -58mm, dando início a estação de deficiência
hídrica, que se estende até janeiro, perfazendo um déficit de 882mm, em média.
Percebe-se que o déficit hídrico inicia-se logo no mês de maio, com 11mm, demonstrando
baixíssimo estoque de água devido aos índices acentuados da evapotranspiração potencial ETo.
A estação seca de Tamboril é de 9 (nove) meses, de maio a janeiro, e profundamente
deficitária em água, cerca de 882mm em média. Sua aridez é marcante, 57,03, e o clima local é
considerado semi-árido ver tabela 2 e figura 2 .
De acordo com SOUZA (2005), em razão das condições semi-áridas, com défict hídrico
superficial, o desenvolvimento de uma vegetação mais exuberante é dificultada, bem como o
acúmulo d´agua. Com pouca proteção vegetacional do solo que chega a ser exposto possui albedo
elevado, o que provoca, á noite, redução de temperatura, por conta da refletância solar incidente
durante o dia. Somente nas áreas próximas aos açudes Araras, Edson Queiroz, Ayres de Souza e
outras, na costa a partir da massa d´água do Atlântico, através do alto calor específico da água, a
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energia solar recebida durante o dia e durante a noite, deslocada por ventos locais, mantendo mais
constante a radiação natura e, assim variação dia e noite.





























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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A área em estudo está sob o domínio morfoclimático semi-árido que, por sua vez, vincula-se
a limites críticos de precipitação pluviométrica. Trata-se do Nordeste seco que, segundo Ab’ Saber
(1980) constitui uma região de condição climática marcadamente azonal, ao cinturão próprio das
faixas áridas tropicais e subtropicais do globo. No entanto, os climas do Nordeste caracterizam-se
como uma exceção referente aos climas zonais próprios às faixas de latitudes homogêneas.
De acordo com AOUAD (1986), a região climática semi-árida do Nordeste brasileiro não se
reveste de ocorrência espacial nitidamente contínua e definida, como sugere a delimitação oficial do
“Polígono das Secas” estabelecida pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas –
DNOCS, mas varia espacialmente sob o efeito indiscutível dos compartimentos morfológicos.
Monsenhor Tabosa apresenta uma longa estação seca, com 8 (oito) meses, de junho a
janeiro, de elevado déficit hídrico, com 523mm e índice de aridez de 45,42 .
A estação seca de Tamboril é de 9 (nove) meses, de maio a janeiro, e profundamente
deficitária em água, cerca de 882mm em média. Sua aridez é marcante, 57,03, e o clima local é
considerado semi-árido.





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REFERENCIA

AB’SABER,A.N. O Domínio Morfoclimático Semi-Árido das Caatingas Brasileiras.
Geomorfologia, Nº 43, SP, IGEOG, 1974.
AOUAD, M. dos Santos. Tentativa de Classificação climática para o Estado da Bahia.
Dissertação de Mestrado apresentada no Departamento de geografia da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da USP. 1978 (inédito).
LIMA, Ernane C. Análise e Manejo Geoambiental das Nascentes do Alto rio Acaraú: Serra das
Matas CE. Fortaleza: UECE (Dissertação Mestrado). 2004 187p.
PINHEIRO, Rosângela. M.P Microbacias Hidrográficas do Alto Jaguaribe (Tauá-CE) :
Vulnerabilidade ante a incidência de degradação/desertificação (Dissertação Mestrado) UFC
Fortaleza 2003. 179p.
SOUZA. Marcos J.N. Diagnóstico Geoambiental da Bacia Hidrográfica do rio Acaraú-
Relatório Preliminar Fortaleza: UECE/ EMBRAPA/UFF/COGEHR, 2005 P99.
VIEIRA, Vicente P.P.B. Água Doce no Semi-Árido In: Águas Doces no Brasil: capital ecológico,
uso e conservação. 2ª edição. São Paulo: Escrituras editora, 2002.p.507-530.
SOUZA. Marcos J.N. Diagnóstico Geoambiental da Bacia Hidrográfica do rio Acaraú-
Relatório Preliminar Fortaleza: UECE/ EMBRAPA/UFF/COGEHR, 2005 P99.
VICENTE DA SILVA, E. Geoecologia da Paisagem do Litoral Cearense:uma análise em nível
de escala regional e tipológica. 1998.256 p. Tese de Professor Titular Universidade Federal do
Ceará, Fortaleza, 1998.
VAREJÃO SILVA, M, A. Programa balanço hídrico. Recife: UFRPE / FUNCEME, 1990.




























Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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APLICAÇÃO DO GEOPROCESSAMENTO EM CENÁRIOS DE INUNDAÇÃO NA BACIA
HIDROGRÁFICA DO RIO ANIL, SÃO LUÍS-MA

Fabíola Geovanna Piga
Universidade Federal do Maranhão
fabipiga@gmail.com
Tatiana Cristina Santos de Castro
Paula Verônica Campos Jorge Santos
Franceleide Soares Conceição

RESUMO
O presente trabalho teve como objetivo elaborar cenários de inundação na bacia hidrográfica do
Anil a partir de futuras projeções do aumento do nível do mar, feitas por especialistas e estudiosos
da área. Essas projeções foram definidas através de modelos onde o fator principal desse aumento
do nível do mar seria o aquecimento global, que acarretaria o derretimento das geleiras continentais
e expansão térmica da água do mar. Este estudo gerou essas projeções baseadas na topografia da
bacia. Através do geoprocessamento foram geradas curvas de nível em diferentes cotas,
constituindo assim cinco diferentes cenários de inundação. Sabe-se que a bacia hidrográfica do rio
Anil é uma bacia altamente urbanizada, com cerca de 58% de sua área ocupada e cerca de 300.000
pessoas instaladas. O crescimento desordenado da urbanização em áreas próximas a corpos d’água,
permite inferir a possibilidade da ocorrência de enchentes. Cerca de 42.828 pessoas podem ser
atingidas caso o nível do mar aumente até 6 metros. Além disso, a bacia possui uma das maiores
faixas de mangue do município de São Luís que, considerando esses cenários, estaria quase que
totalmente comprometida.

Palavras-chave: Aquecimento Global, Topografia, Geoprocessamento, Rio Anil.

INTRODUÇÃO
Segundo Nieuwolt e McGregor (1998), as “mudanças climáticas podem ser consideradas em
duas escalas temporais: mudanças de longa duração que são superiores a 20.000 anos, e mudanças
de curta duração que podem ocorrer entre 100 e 20.000 anos. A variabilidade climática refere-se a
mudanças de década a década e de ano a ano”. Para esses autores, as mudanças climáticas teriam
suas origens relacionadas a causas externas, fatores internos e às atividades humanas.
A criação de cenários futuros concernentes às mudanças climáticas ainda é bastante
especulativa, sobretudo devido à dificuldade da compreensão completa e satisfatória do dinamismo
da atmosfera na sua condição de corpo movente (MONTEIRO, 1991), como também à quase
imprevisibilidade da evolução das atividades humanas, sujeitas que são a fatores políticos, culturais,
econômicos e mesmo de intervenção natural na sua realização.
Este tipo de diagnóstico pode ser estudado através dos recursos oferecidos pelo
geoprocessamento, após a criação de um modelo digital de terreno, e de modelos hidrológicos, os
quais são capazes de quantificar e dinamizar numericamente os principais parâmetros da
precipitação e do escoamento superficial de determinada bacia hidrográfica (XAVIER-DA-SILVA,
2000).
A influência do processo de ocupação urbana, devido à expansão de áreas
impermeabilizadas, segundo Christofoletti (2001), se faz sentir diretamente no ciclo hidrológico
local, provocando redução da capacidade de infiltração, redução no escoamento subterrâneo,
favorecimento do escoamento superficial, interferindo na estocagem hídrica e na trajetória das
águas na bacia hidrográfica, produzindo efeitos adversos e imprevistos no que diz respeito ao uso
do solo.
Dessa forma, o uso do geoprocessamento nestes trabalhos tem se mostrado bastante eficaz
devido, à disponibilidade de softwares, de sistemas de informações geográficas (SIG) e banco de
dados cartográficos digitais, tornando-se assim uma forma rápida e barata de pesquisa.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Na ilha de São Luís, a bacia hidrográfica do rio Anil concentra a maior área urbanizada
relativa, além de ser a mais densamente urbanizada. A expansão demográfica nessa área tem
resultado na ocupação por habitações em áreas baixas como várzeas inundáveis, propícias a futuras
inundações. A urbanização diminui a capacidade de infiltração do solo e compromete o escoamento
da água, aumentando as chances de enchentes no local. A projeção de elevações do nível do mar
torna-se assim indispensável para o planejamento e estruturação urbana, assim como a qualidade de
vida da população local.

MATERIAL E MÉTODOS
A bacia hidrográfica do rio Anil está localizada na porção NW da ilha de São Luís,
Maranhão entre as coordenadas 02°29”S, 44°12”W e 02°34”S, 44°18”W (Figura 01). Fazendo
limite com a bacia Litorânea, ao Norte; com a bacia do rio Bacanga ao Sul; com a bacia do rio
Paciência; a Leste e com a Baía de São Marcos, a Oeste (LABOHIDRO, 1980).
A bacia do rio Anil ocupa uma área da ordem de 4.384 ha, com uma densidade demográfica
em torno de 6.833,11 hab/km². Esta é uma bacia fortemente urbanizada, resultado do seu processo
histórico de ocupação, caracterizado pela ausência de planejamento e deficiência nos sistemas de
abastecimento hídrico e na infra-estrutura sanitária.























Figura 01. Mapa de localização da área de estudo.











Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
108

A base cartográfica utilizada é composta de mosaico de fotos áreas AEROCONSULT
(2001) de resolução de 5 metros, um mosaico de imagens satélite de 2008 georreferenciadas,
extraídas do software Google Earth com resolução de pixel de 1,0 metro, utilizado para a
interpretação visual e extração das informações sobre uso e ocupação do solo na área da bacia
hidrográfica do rio Anil, assim como para identificação das áreas supostamente afetadas por cada
cenário.
Foi elaborada a intersecção dos limites de bairros com setores do censo (IBGE, 2000) para
gerar o banco de dados georreferenciado do censo demográfico 2000. Para estimar o contingente
populacional instalado no local adotou-se o padrão do IBGE, que considera uma média de quatro
pessoas por domicílio.
Para a criação dos diferentes cenários de elevação do nível do mar levou-se em consideração
diversas projeções.
Cenário 1: baseado a partir do modelo INQUA (Comission on Sea Level Changes and
Coastal Evolution) abordado pelo especialista no assunto, o Prof. Nils-Axel Mörner, baseado nas
observações, do futuro nível do mar no ano 2100 chegou-se a um valor de 10 a 20 cm.
Cenário 2: baseou-se nas projeções do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change),
uma rede de cientistas patrocinada pela ONU. É apontado que o nível do mar se elevará muito
provavelmente no mínimo entre 20 e 60 centímetros (média de 40 cm) nos próximos 100 anos,
graças, principalmente, à expansão térmica do mar.
Cenário 3: projeções com a possibilidade de elevação de até 1,50 metros (em média) do
nível do mar, tal como aponta o climatologista Jim Hansen.
Cenário 4: uma elevação do nível do mar a partir da projeção do ambientalista e ex vice-
presidente dos Estados Unidos, Al Gore, no documentário “Uma Verdade Inconveniente” que alerta
para um possível aumento de 5,5 metros.
Cenário 5: Francisco Ferreira, da Quercus ANCN (Associação Nacional de Conservação da
Natureza, uma ONG portuguesa) Prevê-se o degelo da Groelândia e do Pólo Sul, o aumento do
nível do mar de 4 (cenário 5a) a 6 metros (cenário 5b).
A partir dos levantamentos altimétricos com curvas de eqüidistância de 1 metro, pode-se
determinar a cota representada por cada cenário. Determinadas as cotas, foram geradas as curvas de
nível com elevação referente a cada cenário e estas lançadas na base cartográfica para avaliação da
área e população possivelmente atingida e os danos causados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Devido ao fato das bacias hidrográficas integrarem uma visão conjunta do comportamento
das condições naturais e das atividades humanas nelas desenvolvidas, mudanças significativas em
qualquer dessas unidades, podem gerar alterações, efeitos e/ou impactos a jusante e nos fluxos
energéticos de saída (descarga, cargas sólidas e dissolvidas) (GUERRA & CUNHA, 2000).
Toda a área atualmente inundável por maré (abaixo da cota 4 metros IBGE) da bacia
hidrográfica ocupa aproximadamente uma área de 779 ha (17,76 % do total).
Como já mencionado, a bacia hidrográfica do rio Anil é fortemente antropizada,
confirmando-se isto pelo fato que cerca de 2.583 ha correspondem a área urbanizada, representando
58,92 % do total da área da bacia.
De acordo com Guerra & Cunha (2000), mudanças ocorridas no interior das bacias de
drenagem podem ter causas naturais, porém, nos últimos anos o homem tem sido um agente
acelerador dos processos modificadores e de desequilíbrios da paisagem.
O alto grau de urbanização não planejada na Bacia do Anil é preocupante, implicando em
modificações do uso do solo, diminuição da qualidade da água, impacto das obras hidráulicas sobre
o meio ambiente aquático e terrestre, e comprometimento da capacidade do ecossistema local em
escoar ou infiltrar a água que recebe.
A cota 4 metros IBGE representa o nível máximo da maré, sendo assim, para uma elevação
do nível do mar temos os seguintes cenários:
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
109



Tabela 01. Cenários de inundação na bacia do rio Anil.
Cenários
Projeção de
elevação do
nível do mar
Área
inundada
(há)
Edificações
atingidas
N° de pessoas
afetadas
Cenário 1 20 cm 18,9 823 3.292
Cenário 2 50 cm 26,7 1.145 4.580
Cenário 3 1,50 m 53,7 2.459 9.836
Cenário 4 5,5 m 299,1 9.862 39.448
Cenário 5a 4,0 m 199,1 7.663 30.652
Cenário 5b 6,0 m 338,8 10.707 42.828

Considerou-se que o limite do cenário 1 é a cota 4,2 metros, ocupando uma área de cerca
18,9 ha. Dentro desse limite contabilizou-se que cerca de 823 edificações afetadas, ou seja, 3.292
pessoas seriam atingidas caso o nível do mar subisse 20 cm. O cenário abrange os bairros do
Centro, Liberdade, Camboa, Fé em Deus, Alemanha, Vila Palmeira, Conjunto de Maio, Santa
Eulália, Vila Independente e Renascença como demonstra a figura 02.


















Figura 02. Mapa do cenário 1 na bacia do rio Anil.

Esse aumento de 20 cm é insignificante se levado em consideração a amplitude de maré que
a ilha de São Luís possui e as áreas atingidas neste cenário provavelmente já recebem um fluxo nas
marés de sizígia.
No cenário 2 a curva de nível utilizada foi de 4,5 metros. Nesse cenário o número de pessoas
atingidas seria 4.580, abrangendo uma área em torno de 26,7 ha. Além dos bairros já mencionados,
os bairros São Francisco, Santa Cruz, Anil, Rio Anil e Japão também seriam afetados.







Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
110


















Figura 03. Mapa do cenário 2 na bacia do rio Anil.

Já no cenário 3, que levou em consideração uma elevação de 1,50 metros com uma cota de 5,5
metros, foi observado que cerca de 2.459 edificações, ou seja, 9.836 pessoas seriam atingidas pela
maré.
O cenário em questão abrangeria uma área de aproximadamente de 53,7 ha e atingiria mais os
bairros: Diamante, Barreto, Bequimão, Jaracaty, Vinhais IV e Belo Horizonte.


















Figura 04. Mapa do cenário 3 na bacia do rio Anil.

No caso do nível do mar atingir uma altura de 5,5 metros como descrito no cenário 4, cerca
de 9.862 edificações e 39.448 pessoas seriam prejudicadas, abrangendo uma área de cerca de 299,1
ha. Na figura 05 podemos observar a situação deste cenário e os bairros atingidos como: Fabril,
Caratatiua, Ivar Saldanha, Sacavém, Santo Antonio, Ipase, Conjunto do Ipês, Jardim Monterrey,
Vinhais Velho, Vila Roseana, Cohafuma e Parque Olinda.


Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
111

















Figura 05. Mapa do cenário 4 na bacia do rio Anil.

De acordo com o cenário 5a com o nível do mar aumentando de 4 metros, os efeitos dessa
projeção abrangeram uma área de 199,1 ha, colocando em risco cerca de 7.663 edificações com
aproximadamente 30.652 pessoas. Além dos bairros já mencionados, este cenário atingiria os
bairros: Cutim Anil e Radional.


















Figura 06. Mapa do cenário 5a na bacia do rio Anil.








Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
112
No cenário 5b, a cota considerada foi de 10 metros. De acordo com essa projeção, uma área
cerca de 338,8 ha seria atingida pela maré, pondo em risco cerca 10.707 edificações, afetando
aproximadamente 42.828 pessoas e mais o bairro do Monte Castelo.


















Figura 07. Mapa do cenário 5b na bacia do rio Anil.

Além de todas as pessoas que seriam desabrigadas caso esses eventos ocorressem, há ainda a
problemática da estruturação urbana que seria prejudicada, não só pelo fato de que ruas e avenidas
seriam tomadas pelas águas, mas também pelo fato de que na área da bacia encontra-se um grande
número de palafitas e quase toda a área de mangue localizada nas margens do rio Anil seria
inundada.
Segundo Tonello (2005), a declividade média de uma bacia hidrográfica tem importante
papel na distribuição da água entre o escoamento superficial e subterrâneo, dentre outros processos.
A ausência de cobertura vegetal, classe de solo com perfil pouco desenvolvido, alta intensidade de
chuvas, dentre outros, associados à maior declividade, conduzirá à maior velocidade de escoamento
superficial, menor quantidade de água armazenada no solo, resultando em enchentes mais
pronunciadas, sujeitando a bacia à degradação.

CONCLUSÃO
A bacia hidrográfica do rio Anil é uma bacia altamente urbanizada, com cerca de 58% de
sua área ocupada e cerca de 300.000 pessoas instaladas, tornando-se susceptível ao risco de
enchentes e degradação por causa do baixo escoamento e infiltração em razão não só da alta taxa de
urbanização, mas também por ser uma bacia de baixo declive.
A população mais atingida será a de baixa renda, contudo não significa que a população de
maior renda não será afetada, implicando que todos estão sujeitos ao risco de enchentes,
independente de sua condição social.
De acordo com o que foi observado, as inundações causariam impactos significativos apenas
em caso de elevação extrema. No cenário mais provável de 50 cm, em torno de 5.000 pessoas
seriam afetadas. Contudo isto seria um impacto a ser mitigado ao longo de décadas, o que
descaracteriza, portanto, o nível emergencial ou de significância do mesmo.





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
113

REFERÊNCIAS
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Municipal de São Luís, 2001.
BRASIL, IBGE. Anuário estatístico do Brasil. Rio de Janeiro. IBGE, 2001.
CHRISTOFOLETTI, A. Aplicabilidade do conhecimento geomorfológico nos projetos de
planejamento. In: GUERRA, A. T. (org); CUNHA, S. B. Geomorfologia: uma atualização de
bases e conceitos. 2 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
GUERRA, A.J. T. & CUNHA, S. B. Geomorfologia e Meio Ambiente. 3 ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil. 372 p, 2000.
IPCC/ONU. Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança
Climática. Novos Cenários Climáticos. Paris, 2007. Disponível em:
www.ecolatina.com.br/pdf/Relatorio-IPCC2.pdf. Acesso em: nov. 2008.
LABOHIDRO. Estudos Biológicos nos Estuários dos Rios Anil e Bacanga – Ilha de São Luís –
MA. (Relatório parcial), 1980.
MCGREGOR, G. R. & NIEUWOLT, S. Tropical climatology – an introduction to the climates of
the low latitudes. 2. ed. Chichester/England: John Wiley and Sons, 1998.
MONTEIRO, C. A. F. Clima e excepcionalismo – conjecturas sobre o desempenho da
atmosfera como fenômeno geográfico. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1991.
RIO DE JANEIRO, Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos, Prefeitura da cidade do Rio
de Janeiro. Cenários de elevação do nível do mar no Rio de Janeiro em função das mudanças
climáticas. Ata N° 50. Rio de Janeiro, RJ. 2007. Disponível em:
www.rio.rj.gov.br/ipp/download/ata_29ago2007.pdf. Acesso em: set. de 2008.
TONELLO, K. C. Análise hidroambiental da bacia hidrográfica da Cachoeira das Pombas,
Guanhães, MG. 2005. 69 p. Dissertação (Mestrado em Ciência Florestal) – Universidade Federal
de Viçosa, Viçosa.
XAVIER-DA-SILVA, J. Geomorfologia, análise ambiental e geoprocessamento. Revista
Brasileira de Geomorfologia, v. 1, n.1, p.48-58, 2000.
An Incovenient Truth. Dirigido por Davis Guggenheim. Produzido por Lawrence Bender, Scott
Burns, Laurie Lennard e Scott Z. Burns. Elenco: Albert Arnold Gore Júnior. Estados Unidos:
Lawrence Bender Productions / Participant Productions, 2006. Filme (100 min), DVD, color, 35
mm.




















Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
114

AVALIAÇÃO DA EFICIÊNCIA DO USO DA ÁGUA EM UM SISTEMA DE IRRIGAÇÃO
NO PERÍMETRO IRRIGADO BAIXO ACARAÚ, CEARÁ

Fernando Bezerra Lopes
Doutorando em Engenharia Agrícola, Departamento de Engenharia Agrícola – UFC, lopesfb@yahoo.com.br
Nayara Rochelli de Sousa Luna
curso de Irrigação e Drenagem do Instituto Federal do Ceará - FFCE, Campus de Sobral, CE -
nayararochelli@hotmail.com
Francisco Antonio de Oliveira Lobato
Mestrando em Engenharia Agrícola, UFC, lobatt18@yahoo.com.br
Maria Jorgiana Ferreira Dantas
Mestranda em Engenharia Agrícola, UFC, jorgianaferreira@hotmail.com
Elinelton de Sousa Mesquita
Graduado em Recursos Hídricos e Irrigação, elineutonsousa@yahoo.com.br

RESUMO
O crescimento populacional acelerado aliado à busca por uma melhor qualidade de vida leva à
supressão dos recursos naturais, a exemplo da água. O objetivo do presente trabalho foi avaliar o
desperdício de água em um lote, localizado no Perímetro Irrigado Baixo Acaraú,estado do Ceará,
por meio da avaliação do desempenho do sistema de irrigação, bem comocomparar a real
necessidade hídrica da cultura com o volume de água aplicado pelo irrigante. O estudo foi realizado
em uma área de 4 ha, implantada com a cultura do coqueiro-anão no espaçamento de 6 m x 6 m. As
vazões foram medidas em quatro pontos ao longo da linha lateral, ou seja, o primeiro emissor, o
emissor a 1/3, o emissor a 2/3 do comprimento da linha e o último emissor. As linhas laterais foram
selecionadas da mesma forma. O sistema de irrigação avaliado apresenta um baixo desempenho
com relação a distribuição da água, apresentando um Coeficiente de Uniformidade de Christiansen
– CUC de 74,85%, Coeficiente de Uniformidade de Distribuição – CUD de 72,70% e uma
eficiência de aplicação da água de 64,43%. No Perímetro Irrigado Baixo Acaraú, o desperdício de
água em um hectare de coqueiro-anão, a cada dia, variou de 9 a 28 m
3
, com um valor médio, ao
longo da estação seca, de 16 m
3
ha
-1
dia
-1
. A cultura do coqueiro-anão está sendo irrigada em
excesso, mesmo com o sistema funcionando com uma baixa eficiência de aplicação. O sistema
apresenta um CUC classificado como razoável e um CUD classificado como regular. A água está
sendo usada de forma inadequada, apresentando um grande desperdício.

Palavras-chave: Irrigação localizada. Eficiência de aplicação. Desperdício de água.

INTRODUÇÃO
O crescimento populacional acelerado aliado à busca por melhor qualidade de vida leva à
supressão dos recursos naturais, a exemplo da água. No século passado, enquanto a população
mundial dobrou, o consumo mundial de água aumentou em seis vezes. Em termos mundiais, a
tendência é que os recursos hídricos venham a se tornar mais escassos, devido à intensificação do
seu uso aliada a crescente poluição, caso não sejam tomadas medidas sérias no que diz respeito a
gestão da oferta e demanda. Manter o abastecimento d’água, não apenas em quantidade, mas
também em qualidade para atender à demanda dos múltiplos usos, será o maior desafio a ser
superado pela sociedade.
As regiões áridas e semi-áridas do globo caracterizam-se por verões longos e secos, alternados
por estações chuvosas de curta duração com alta variabilidade espacial e temporal. Por outro lado, a
produção agrícola dessas regiões depende, em parte, da dotação artificial da água (ANDRADE et
al., 2002). Em muitas situações, a irrigação é o único meio de garantir a produção agrícola em bases
sustentáveis e com segurança (AYERS; WESTCOT, 1999).
A agricultura irrigada é uma atividade imprescindível nos dias atuais, onde são observados
crescimentos contínuos da demanda de alimentos, devido ao crescimento populacional e a busca
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
115
incessante por uma melhor qualidade de vida. Esta atividade vem despontando no Nordeste
brasileiro como uma expressiva atividade de mercado acarretando produções e rendimentos mais
elevados ao setor, com destaque para a fruticultura que tem assumido lugar de destaque em tal
cenário (MOREIRA et al., 2005).
A utilização de sistemas de irrigação mais eficientes é uma busca constante na agricultura
irrigada, pois, existe tendência de aumento no custo da energia e de redução da disponibilidade
hídrica dos mananciais (BARRETO FILHO et al., 2000). Dentre os sistemas pressurizados, a
irrigação localizada é a que propicia a maior eficiência de irrigação, uma vez que as perdas na
aplicação da água são relativamente pequenas. Para que se obtenha sucesso com a técnica da
irrigação é necessário que o manejo seja bem efetuado. Vários são os parâmetros que auxiliam na
realização de uma irrigação eficiente. A uniformidade de distribuição é parâmetro importante para a
avaliação de sistemas de irrigação localizada, tanto na fase de projeto, quanto no acompanhamento
do desempenho após a implantação (FAVETTA; BOTREL, 2001).
O uso da irrigação é importante para viabilizar a exploração comercial da cultura do coqueiro,
principalmente na região Nordeste, devido as irregularidade das chuvas (MIRANDA; GOMES,
2006), mas, por não adotar um método de controle da irrigação, o produtor usualmente irriga em
excesso, temendo que a cultura sofra um estresse hídrico, o que pode comprometer a produção. Um
melhor manejo da irrigação tem sido objetivo de pesquisas de vários autores (BARRETO FILHO et
al. 2000; MOREIRA et al.; PEIXOTO et al., 2005; SOARES et al.; CHAVES et al.; CARVALHO
et al., 2006).
O objetivo do presente trabalho foi avaliar o desperdício de água em um lote irrigado no
Perímetro Irrigado Baixo Acaraú no Estado do Ceará, através da avaliação do desempenho do
sistema de irrigação e fazer uma comparação entre a necessidade hídrica da cultura e volume de
água aplicado pelo irrigante.
O objetivo do presente trabalho foi avaliar o desperdício de água em um lote, localizado no
Perímetro Irrigado Baixo Acaraú, estado do Ceará, por meio da avaliação do desempenho do
sistema de irrigação, bem como comparar a real necessidade hídrica da cultura com o volume de
água aplicado pelo irrigante.

MATERIAL E MÉTODOS

ÁREA EM ESTUDO
O trabalho foi desenvolvido no Perímetro Irrigado Baixo Acaraú (PIBAU), que apresenta uma
área de 12.407 ha, e está localizado na região Norte do Estado do Ceará (Figura 1). O estudo foi
realizado em uma área de 4 ha, implantada com a cultura do coqueiro-anão, no espaçamento de 6 m
x 6 m. A avaliação foi conduzida em uma sub-área de 0,63 ha, contando com 16 linhas laterais de
diâmetro de 16 mm, cada uma com 22 emissores, sendo dois emissores por planta. A vazão nominal
do microaspersor é de 36 L h
-1
. O produtor usa turno de rega (Tr) de dois dias, com um tempo de
irrigação de 12 horas. O lote avaliado é qualificado como de pequeno produtor, ou seja, apresenta
uma área de 8 ha.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
116

Figura 1 – Localização da área de estudo

O clima da região, de acordo com a classificação de Köppen, é Aw’, tropical chuvoso com
precipitação anual de 900 mm (Tabela 1).

Tabela 1 – Características climáticas para a Região do Perímetro Irrigado Baixo Acaraú, Ceará
Parâmetros Valores Unidade
Evapotranspiração (tanque classe A) 1.600 mm ano
-1

Insolação média 6.650 h ano
-1

Precipitação 900 mm ano
-1

Temperatura máxima anual 34,7 ºC
Temperatura média anual 28,1 ºC
Temperatura mínima anual 22,8 ºC
Umidade relativa média 70 %
Velocidade média dos ventos 3,0 m s
-1

Fonte: Adaptada de DNOCS (2008).

Os solos, em geral, são profundos, bem drenados, de textura média ou média/leve e muito
permeáveis (DNOCS, 2008). O suprimento hídrico ocorre através de uma vazão contínua de
aproximadamente 1,15 L s
-1
ha
-1
para pequeno produtor e técnico, e, de 1,3 L s
-1
ha
-1
para o irrigante
tipo empresário. A água é liberada pela Barragem Santa Rosa. Essa é classificada como C
1
S
2

(LOBATO et al., 2008).


Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
117
AVALIAÇÃO DO SISTEMA DE IRRIGAÇÃO
Utilizou-se a metodologia proposta por Keller e Karmeli (1974), a qual recomenda a obtenção
das vazões em quatro pontos ao longo da linha lateral, ou seja, do primeiro emissor, do emissor a
1/3 e 2/3 do comprimento e do último emissor. As linhas laterais são selecionadas da mesma forma:
primeira, 1/3, 2/3 e última (Figura 2). Com esses valores foram determinados os seguintes
coeficientes:
Coeficiente de Uniformidade de Christiansen (CUC) pela Equação 1.
_
n
1 i
q n
q qi 1 x 100
CUC
|
|
¹
|

\
|
− −
=

=

(1)
em que: CUC – em %; qi - é a medida da vazão em cada emissor, L.h
-1
; q - é a media das vazões de
todos os emissores, L.h
-1
; n - números de emissores.
Para sistemas que estejam em operação por um ou mais anos, a ASAE (1996) apresenta o
seguinte critério geral para interpretação dos valores de CUC: maior que 90% - excelente, entre 80 e
90% - bom, entre 70 e 80% - razoável, entre 60 e 70% - ruim e menor que 60% - inaceitável.
Coeficiente de Uniformidade de Distribuição (CUD) pela Equação 2.
100 x
q
qn
CUD
_
|
|
|
¹
|

\
|
= (2)
em que: CUD – em %; qn - média dos 25% das vazões, com menores valores, L h
-1
;
Merriam e Keller (1978) apresentaram o seguinte critério geral para interpretação dos valores
de CUD, para sistemas que estejam em operação por um ou mais anos: maior que 90% - excelente,
entre 80 e 90% - bom, entre 70 e 80% - regular e menor que 70% - ruim.


Figura 2 – Esquema de amostragem dos emissores para a determinação dos coeficientes

Calculou-se a eficiência de aplicação (Ea) sob irrigação completa estimada por Merrian;
Keller (1978) pela Equação 3.

CUD x Ks Ea = (3)
em que: Ea – eficiência de aplicação,%; Ks - coeficiente de transmissividade. Para este trabalho
utilizou-se o valor de 90%.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
118

VOLUME DE ÁGUA APLICADO PELO IRRIGANTE
O volume de água aplicado (Va) pelo irrigante pode ser calculado pela Equação 4.

Va = Ti * Nep * qa * Ea (4)

em que: Va = volume de água a ser aplicado por planta, L; Ti = O tempo de irrigação, h; Nep =
número de emissor por planta; qa = vazão média dos emissores L h
-1
; Ea = eficiência de aplicação
do sistema de irrigação, decimal.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na Figura 3 são apresentadas as vazões dos emissores ao longo das linhas laterais do lote
avaliado. Nota-se uma maior uniformidade das vazões ao longo das linhas, a 1/3 e na última. As
linhas no início e a 2/3 apresentam uma maior desuniformidade das vazões. Tal fato está associado
à forma manual de desobstrução dos emissores, o que provoca uma descaracterização hidráulica dos
mesmos, e ao uso de diferentes modelos de emissores na mesma parcela irrigada.

0
10
20
30
40
50
60
70
80
1 2 3 4
Posição dos emissores
V
a
z
ã
o

(

L

h





-
1

)






.
Primeira linha Linha a 1/3 do total Linha a 2/3 do total
Último linha Média no setor
Início 1/3 2/3 Último
0
10
20
30
40
50
60
70
80
1 2 3 4
Posição dos emissores
V
a
z
ã
o

(

L

h





-
1

)






.
Primeira linha Linha a 1/3 do total Linha a 2/3 do total
Último linha Média no setor
0
10
20
30
40
50
60
70
80
1 2 3 4
Posição dos emissores
V
a
z
ã
o

(

L

h





-
1

)






.
Primeira linha Linha a 1/3 do total Linha a 2/3 do total
Último linha Média no setor
Início 1/3 2/3 Último

Figura 3 – Vazão dos emissores ao longo das linhas laterais avaliadas

Os coeficientes indicadores do desempenho do sistema de irrigação em campo encontram-se
dispostos na Tabela 2.

Tabela 2 - Coeficientes resultantes da avaliação do sistema de irrigação por microaspersão
Coeficientes Unidade Valor
Vazão média no setor L h
-1
34,94
CUC % 74,85
CUD % 72,70
Ea % 65,43

A partir dos resultados obtidos (Tabela 2), verifica-se que CUC foi de 74,85%. De acordo
com a classificação de ASAE (1996), o sistema funciona sob razoável condição de uniformidade de
distribuição. Peixoto et al. (2005), avaliando um sistema de irrigação por microaspersão em área de
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
119
coqueiro anão, encontraram valores de CUC superiores a 93%. Santos et al. (2005) obtiveram
resultados entre 70,99 e 86,21% para microaspersão.
Para o CUD, observa-se na Tabela 2, que o mesmo apresenta valor de 72,70%. Segundo
Merriam e Keller (1978) a performance do sistema em questão, classifica-se como regular. Barreto
Filho et al. (2000) encontraram resultados diferentes, com valores de CUD da ordem de 89 a 94%
em um sistema de irrigação por microaspersão. SOARES et al. (2006) encontraram resultados
semelhantes, os quais variaram de 69,32 a 94,81%.
Bernardo et al. (2006) recomendam, como faixa ideal, eficiência de aplicação (Ea) acima de
90%, mas, acima de 80% é aceitável para sistemas de irrigação localizados. O lote em estudo
apresenta Ea de 65,43%, encontrado-se em funcionamento ineficiente. Esta baixa eficiência deve-se
à obstrução dos emissores, cortes nas mangueiras, vazamento em conexões e uso de deferentes
modelos de emissores na mesma parcela irrigada, o que pôde ser verificada durante a avaliação.
Carvalho et al. (2006) encontraram resultados semelhantes (Ea igual a 61,28%), avaliando um
sistema de irrigação localizado por gotejamento, localizado no Sítio Almécegas pertencente à
Escola Agrotécnica Federal, situada no município de Crato – CE.
Observando a Tabela 3, verifica-se que a cultura do coqueiro-anão está sendo cultivada sob
excesso hídrico, mesmo com o sistema de irrigação funcionando com uma baixa eficiência de
aplicação (65,43%).

Tabela 3 - Comparação entre a necessidade hídrica do coqueiro-anão para o quinto ano em diante e
a realmente aplicada pelo produtor para o período de junho a dezembro (estação seca na
região)
Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Va (L planta
-1
dia
-1
) 275 275 275 275 275 275 275
NRC* (L planta
-1
dia
-1
)** 173 186 227 240 244 237 217
Excesso (L planta
-1
dia
-1
) 102 89 48 35 31 38 58
Excesso (%) 59 48 21 14 13 16 27
Desperdício de água (m
3
ha
-1
dia
-1
) 28 25 13 10 9 10 16
* Necessidade Real da Cultura**; Lopes et al. (2007).

O desperdício de água em um hectare de coqueiro-anão, por dia, no PIBAU variou de 9 a 28
m
3
(Tabela 3), com um valor médio, ao longo da estação seca, de 16 m
3
ha
-1
dia
-1
.

CONCLUSÕES

A cultura do coqueiro-anão está sendo irrigada em excesso, mesmo o sistema funcionando
com uma baixa eficiência de aplicação. O sistema apresenta um CUC classificado como razoável e
um CUD classificado como regular. O sistema funciona com baixa eficiência de aplicação. A água
está sendo usada de forma inadequada.

REFERÊNCIAS

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concentração de íons no extrato de saturação do solo, na região da chapada do Apodi. Revista
Ciência Agronômica, Ceará, v. 33, n.2, p.5-12, 2002.


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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
122
GESTÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS E DINÂMICA HIDROLÓGICA NO
NORDESTE SEMI-ÁRIDO BRASILEIRO
Flávio Rodrigues do Nascimento
Prof. Adjunto do Depart° e do Prog. de Pós graduação em Geografia da UFF-RJ.

RESUMO
O presente texto tem por objetivo discutir aspectos da gestão de bacias hidrográficas
intermitentes sazonais e suas dinâmicas hidrológicas no semi-árido nordeste. Neste caminho,
partindo-se do princípio de que uma dada bacia hidrográfica pode ser tomada enquanto unidade de
estudo, foram consideradas o contexto geoambientais das bacias do nordeste seco do Brasil,
apresentadas as últimas atualizações classificações para estudos sobre bacias hidrográficas como
subsídio à gestão, consideradas pelo Governo Federal, com destaque a Bacia Hidrográfica Atlântico
Nordeste Oriental – no bojo do conceito de Região Hidrográfica, isto é um conjunto de grandes
bacias hidrográficas limítrofes e com características hidrológicas e ambientais similares. Foram
ainda tratas das necessidades de gerenciamento dos recursos hídricos conforme disponibilidades per
capita, considerando a demanda de águas renováveis e o grau de necessidade de gestão e
investimento no gestor de gestão de bacias e gerenciamento de recursos hídricos. O trabalho foi
finalizado com a discussão que destacou as vantagens da concretude base análise das bacias
hidrográficas, como importante subsídio a gestão integrada dos recursos naturais e ao planejamento
ambiental.
Palavras-chave: Gestão de bacias hidrográficas, dinâmica hidrológica e semi-árido Brasileiro.

BACIAS INTERMITENTES SAZONAIS DO NORDESTE SEMI-ÁRIDO

O Brasil é o detentor do maior volume de águas doces do planeta, formando, segundo Cunha
(2001) uma das mais extensas e densas redes hidrográficas do mundo, com descarga média total da
ordem de 5.619 km³/ano. Isto representa aproximadamente 14% dos 41mil km³/ano de deflúvio dos
rios no mundo. Este montante chega a ser reduzido, proporcionalmente na região Nordestina seca.
A rigor, dentre os exemplos nacionais em que os recursos hídricos são controlados pelas condições
naturais, têm-se a bacia Amazônica, a região semi-árida do Nordeste e a região do pantanal, onde a
interação de litosfera, biosfera e atmosfera define o equilíbrio dinâmico para o ciclo hidrológico, o
que influenciará nas características e vazões das águas. O semi-árido é um típico caso com
criticidade de falta de recursos hídricos, onde a quantidade e a qualidade das águas doces estão em
função das condições climáticas, geológico-geomorfológicas do manejo e gestão de bacias
hidrográficas.
Os rios do Nordeste Brasileiro (NEB), em épocas do ano, atingem o mar tratando-se de um
dos fatores de originalidade dos sistemas hidrográficos e hidrológicos regionais, que ao contrário de
outras regiões semi-áridas do mundo, onde drenagens convergem para depressões fechadas, os rios
dessa região vão ter com o Atlântico. Os rios são de caráter intermitente – a exceção dos
perenizados por açudagens/barramentos -, com drenagem exorréica, que em grande escala não
permite a formação de solos originalmente salinos, principalmente nas vertentes e interflúvios. Os
sais dissolvidos da litologia cristalina, predominante na meso-estrutura, e aqueles provenientes das
chuvas carregadas de águas evaporadas do oceano, vão ter com o nível de base após arraste pelo
fluxo hídrico das torrentes.
A despeito da dinâmica hidrológica de bacias semi-áridas no NEB, uma dos estudos
referências foi o elaborado por Filho et. al., (1994). Sobre esta região, das 24 unidades hidrográficas
de planejamento (bacias integradas), consideradas por Filho et. al., (1994), em uma área total de
1.429,900 km², 19 são compostas por rios intermitentes sazonais, com uma superfície de 837.700
km², ou 58,58% do total. A disponibilidade hídrica, ”permanente” ou duradoura, é função da
regularização interanual dos deflúvios naturais por volumes constantes provenientes de
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
123
reservatórios (VIEIRA 2002). Para efeitos de exemplificação a Tabela 01 compara as principais
características de potencialidades e disponibilidades das regiões hidrográficas aludidas.da
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE).

Tabela 01 - Potencialidades, disponibilidade e demanda das regiões hidrográficas da Superintendência de
Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE)
Potencial (hm³/ano) em milhões Disponibilidade (hm³) Unidade de
Planejament
o
Área (km²)
Escoam
.
Superfi
cial
Escoamento
Subterrâneo
Total
(hm³/
ano)
em
milh
ões
Superficia
l
Subterraneo
Total
(hm³/ano)
Total
Nordeste da
SUDENE
1.663.230 148.62
5
58.405. 0207.
830
92.929.38
1
4.372.300 97.301.68
1
Disponibilidades e evolução das demandas hídricas, até o ano 2020, em hm³/ano
1991 2000 2010 2020 Unidade de
Planejament
o
Disponibil
i-dade
Demanand
a
Disponibil
i-dade
Demanda Dispon
i-
bilidad
e.
Demanda Disponib
ili-dade
Demanda
Total
Nordeste da
SUDENE
97.301,68 27.872.91
4
100.189,7
1
25.975.30
8
100.74
6,35
29.793,20
3
101.225,
61
33.428,527
Fonte: Filho et. al., (1994).

No que condiz a disponibilidade hídrica de rios, a maioria dos estados nordestinos situa-se na
classe regular (1000-2000 m³/hab/ano). O Nordeste apresenta 1.657,601 m³/hab/ano, ou 4,6% da
disponibilidade hídrica social a partir de um potencial hídrico de 186,2 km³/ano (REBOUÇAS,
2002).
Segundo o Plano de Aproveitamento Integrado dos Recursos Hídricos do Nordeste do Brasil
– PLIRHINE - (FILHO et. al., 1994), a vulnerabilidade natural, em grande parte, pode provocar o
surgimento de conflitos e calamidades nas áreas econômicas e sociais. As bacias predispostas a
situações críticas no Nordeste são em número de nove (09), demonstrando o fato de que a
vulnerabilidade natural dessas bacias refere-se à semi-áridez e às secas periódicas, podendo ter seus
efeitos magnificados pelo não gerenciamento adequado das águas. Quando o Índice de
Regularidade Fluvial, “IRF”, (vazão mínima/vazão máxima) é igual a zero e o déficit de
evapotranspiração potencial relativo, “DETPR”, for maior do que 1, a bacia hidrográfica é
predisposta a situações críticas. Quer dizer, a bacia é naturalmente vulnerável com níveis de
criticidade. Esse plano ressalta que, na precipitação regional, apenas 12% do volume são escoados.
A média pluviométrica correspondente a uma área de 1.663.200km² é de 1.140mm (1.730 bilhões
m³/ano), distribuídos do seguinte modo: 1,523 bi m³ (88%) evaporam e/ou evapotranspiram, 149 bi
m³ (8,6%) escoam superficialmente e 58 bi m³ (3,4%) infiltram, fazendo parte do escoamento
subterrâneo.
Já na década de 1990, Segundo Cunha (2001), o Departamento Nacional de Águas e Energia
Elétrica (DNAEE) classifica o Brasil em oito (08) Bacias Hidrográficas: Amazônica; Tocantins;
Atlântico Sul, trecho Norte/Nordeste; São Francisco; Atlântico Sul, trecho Leste; Paraguai/Paraná;
Uruguai e Atlântico Sul, trecho Sudeste. No entanto, devido às particularidades de cada bacia em
função das características ambientais dominantes - como a distribuição espaciotemporal das
precipitações, fatores estruturais refletindo na importância e características de drenagem e
dissecação do Planalto Brasileiro (um importante dispersor de drenagem), tipo de solo e as formas
de uso e ocupação -, aquela autora as reclassificou a partir de 10 unidades, dentre as quais pode ser
destacada a Bacia do Atlântico Nordeste, comportando regimes fluviais temporários e intermitentes
(semi-áridos).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
124
Esta bacia apresenta uma área de 953 mil km², com rios intermitentes sazonais que vertem
para o Oceano Atlântico. Administrativamente drena por completo as áreas dos Estados do
Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. E parcialmente o Amapá, Pará,
Pernambuco e Alagoas. Destacam-se como drenagem principal os rios Pindaré, Grajaú Mearim e
Itapecuru, que vão ter com o Golfo Maranhense, e o rio Parnaíba. Desconsiderando estes rios, que
são perenes, pode-se afiançar que os demais drenam setores concentrados e difusos do semi-árido
nordestino, marcando entre os interflúvios sertanejos paisagens que sofrem com as vicissitudes
climáticas e com vulnerabilidade as secas, intensificando a instável do meio físico e a distribuição
no tempo e no espaço das chuvas e das águas superficiais, promovendo a formação de rios que
cortam durante as estiagens.
Foram registrados valores de 600 mm anuais de chuvas no centro da Bacia do Atlântico
Nordeste, aumentado para suas extremidades. Embora a chuva média seja de 1.328mm/ano, o
regime fluvial é semi-árido, com vazão média de 5,7 l/s/km². As enchentes ocorrem na quadra
chuvosa de verão-outono, e as vazantes na primavera ou verão. No Maranhão, o regime tropical
austral mostra-se perene, com enchentes no outono e vazante na primavera marcam o regime fluvial
(CUNHA, op Cit.). Como tentativa de mais bem dedilhar informações sobre o NEB seco, alguns
dados relevantes que foram sintetizados a seguir (Quadro 01).
Quanto ao potencial hidrogeológico nas bacias semi-áridas, usualmente, constitui
reservatórios subterrâneos diversos desde zonas fraturadas ou de rochas intemperizadas do substrato
geológico pré-cambriano até depósitos quaternários aluviais, com dimensões variadas, geralmente
não grandes, contendo volumes de água acumulado que podem remontar às origens de suas
formações geológicas. Em regra, as águas subterrâneas do domínio cristalino são limitadas.
Segundo Rebouças (1997) a vazão média em poços tubulares é ínfima, da ordem de 5 m³/h, e
salinidade média da ordem de 2 mil mg/L, o que pode comprometer sua potabilidade.
Com índices de evaporação críticos na região favorecedores de balanço hídrico deficitário, as
águas subterrâneas se encontram mais bem protegidas, com uma parcela de perda hídrica
consideravelmente menor do que aquela perdida por mananciais de superfície. Esses poços
comportam-se como reservar hídricas que podem ser importantes principalmente durante as
estiagens para o aproveitamento prioritário humano, dessedentação de animais e outros. As
demandas para tal fim devem ser garantidas, em qualquer cenário considerável, conservando e
distribuindo equilibradamente aportes deste recurso vital, em quantidades e qualidades mínimas, em
consonância com as coleções hídricas de superficiais em planos de gerenciamento de bacias
hidrográficas.
Tabela 02 – Principais dados hidrológicos das bacias hidrográficas brasileiras,
período de 1961 a 1990
Bacias
hidrográficas
Área (km²)
Chuva Média
(mm/ano)
Vazão Média
(m³/s)
Vazão Média
Específica
(l/s/km²)
Evapotranspiração
Real (mm/ano)
Produção
Hídrica (mm³/s)
Amazônica 6.112.000 2.460 209.000 34 1.382 120.000
Atlântico
Nordeste 953.000 1.328 5.390 6 1.150 9.050
Paraná 877.000 1.385 1.290 13 959 12.290
Tocantins 757.000 1.660 11.800 16 1.168 11.800

São Francisco 634.000 916 2.850 5 774 2.850
Atlântico Leste 551.000 1.062 2.175 8 827 4.350
Paraguai 368.000 1.370 11.000 4 1.259 12.290
Atlântico
Sudeste 224.000 1.394 4.300 19 789 4.300
Uruguai 178.000 1.567 4.150 23 832 4.150
Atlântico Norte 76.000 2.950 3.360 48 1.431 9.050
Brasil 8.512.000 1.954 257.790 24 1.195 168.770
Fonte: DNAEE, 1994 in Cunha (2001).




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
125

Quadro 01 - Comparação entre aspectos hidrológicos no Mundo, Brasil e Nordeste seco
Discriminação Características
Escoamento
mundial e
Fluxo hídrico
subterrâneo
Cerca de 50% do total mundial ocorrem na zona intertropical (22.000 km³/ano), acrescidos mais 2% (800
km³/ano) das zonas áridas e semi-áridas, dentro daquela faixa ou não. Com evapotranspiração da ordem de
38.000 mm/ano e 6.20 km³/ano. Águas subterrâneas no semi-árido oscila entre 10 a 100 mm/ano.
Déficit hídrico Regiões áridas e semi-áridas precipitação menor que evapotranspiração.
Precipitação e
excedente
hídrico
América do Sul apresenta a maior precipitação anual entre os continentes, com 1.600 mm/ano em média,
ou 28.400 km³/ano. A evapotranspiração também é a maior com 910 mm/ano/média. Por isto, promove o
maior excedente hídrico do Planeta, com 690mm/ano, ou 30,9% do total que é de 2.229 mm/ano.
Descargas dos
rios
No mundo é de 41.000km³/ano, quando as demandas estimadas para o ano 2000 foram de 11%. Na
América do Sul esses montantes representam 10.377 km³/ano ou 3% dos potenciais em uso. Tais valores
são relativizados no espaço e tempo, com as zonas intertropicais úmidas e temperadas detendo 98% das
descargas mundiais.
Água per
capta
Em 1995 a América do Sul era a mais rica neste crivo, enquanto os países africanos eram os mais pobres.
As reservas sociais permitem corrigir a influência das grandes diferenças de densidade populacionais.
Elaborado a partir de Rebouças (1997) e Nascimento (2006).

ATUALIZAÇÕES DE ESTUDOS SOBRE BACIAS HIDROGRÁFICAS COMO SUBSÍDIO
À GESTÃO

Para fins de implementação da gestão compartilhada dos recursos hídricos no plano federal,
foi efetivado Governo Federal no Ano Internacional da Água Doce, por meio do Decreto
Presidencial n° 4.755, de 20 de junho de 2003, o Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH).
Trata-se de documento-guia para orientação das decisões de governo e das instituições que
compõem o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos – SINGREH (Lei 9.433, de
08/01/1997). O PNRH tem como base a Divisão Hidrográfica Nacional, aprovada no Conselho
Nacional de Recursos Hídricos (Resolução N° 30/11/2002), com orientações do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) e de outras instituições federais, que definem metodologia de
codificação e procedimentos de subdivisões em agrupamentos de bacias e regiões hidrográficas, a
partir de 12 regiões hidrográficas. Estas regiões hidrográficas servem para implantação de base de
dados referenciadas por bacia, com fins a integração de informações sobre recursos hídricos
(BRASIL, 2004). Observemos a Tabela 03, que mostra a divisão hidrográfica do Brasil.

Tabela 03 – Divisão Hidrográfica Nacional Atual
População e Área Regiões Hidrográficas Constituição
Habitantes km²
Amazônica Bacia homônima situada no território nacional constituída também pelas bacias
dos rios existentes na ilha de Marajó, além das bacias dos rios situados do
Amapá que deságuam no atlântico norte.
7.609.424 6.974.410
Tocantins/
Araguaia
bacia hidrográfica do Tocantins até a sua foz no oceanoa atlântico 7.890.714 967.059
Atlântico Nordeste
Ocidental
bacias hidrográficas de rios que deságuam no Atlântico – trecho norte-
nordeste, estando limitada a oeste pela região hidrográfica do
Tocantins/Araguaia, e a leste pela b.h do Parnaíba.
4.724.431 254.100
Parnaíba bacia hidrográfica homônima 3.630.431 344.112
Atlântico Nordeste
Oriental
bacias hidrográficas intermitentes de rios que deságuam no Atlântico – trecho
nordeste, estando limitada ao oeste pela bacia do Parnaíba, ao norte e ao leste
pelo Atlântico e ao Sul pela região hidrográfica do São Francisco.
21.606.881 287.348
São Francisco bacia hidrográfica homônima 12.823.013 638.324
Atlântico Leste bacias de rios que deságuam no Atlântico – trecho Leste, estando limitada ao
norte e ao oeste pela bacia do São Francisco e ao Sul pelas bacias do
Jequitinhonha, Mucuri e São Mateus.
13.641.045 374.677
Atlântico Sudeste bacias hidrográficas de rios que deságuam no alântico – trecho sudeste,
estando limitada ao norte pela bacia do rio Doce, inclusive, a oeste pelas
regiões hidrográficas do São Francisco e do Paraná, e ao sul pela Bacia do rio
Ribeira.
25.644.396 229.972
Paraná bacia do rio Paraná situada no território nacional. 54.639.523 879.860
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
126
Uruguai bacias do rio Uruguai situada no território brasileiro, estando limitada ao norte
pela região hidrográfica do Paraná, a oeste pela Argentina e ao sul pelo
Uruguai.
3.834.654 147.612
Atlântico Sul bacias hidrográficas com rios que deságuam no atlântico –trecho sul, estando
limitada ao note pelas bacias dos rios Ipiranguinha, Iririaia Mirim, Candapuí,
Serra Negra, Tabagaça, e Cacnhoeria, inclusive, a oeste pelas regiões
hidrográficas do Paraná e do Uruguai e ao sul pelo Uruguai.
11.592.481 185.856
Paraguai bacia hidrográfica do rio Paraguai situada em território nacional. 1.887.401 363.445
Fonte: Brasil, 2004; MMA/SRH, 2004.

A despeito das bacias intermitentes sazonais, assinala-se a região hidrográfica do Atlântico
Nordeste Oriental, que verte suas águas por meio das bacias que deságuam no Oceano Atlântico.
Esta região hidrográfica é a 3ª mais habitada do País, com uma população superior a 21 milhões de
habitantes, comportando-se como a 8ª em área, com 287.348 km². Em seu contexto, existem cinco
importantes capitais do Nordeste (Fortaleza, Natal, João Pessoa e Recife), dezenas de grandes
núcleos urbanos e um representativo parque industrial MMA/SRH, (2004). Em conjunto com outras
bacias intermitentes, a unidade em foco drena setores concentrados e difusos do semi-árido
nordestino, marcando entre os interflúvios sertanejos paisagens que sofrem com as vicissitudes
climáticas e com vulnerabilidade às secas, produzindo irregularidades na distribuição
espaciotemporal das chuvas, com reflexos nas águas superficiais, promovendo a formação de rios
que cortam durante as estiagens.

GESTÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS INTERMITENTES SAZONAIS

A crise de água no país, sobretudo no Nordeste, decorre no geral de: um crescimento rápido e
desordenado das demandas; degradação da qualidade dos mananciais normalmente utilizados em
níveis inimagináveis; e pela baixa eficiência dos serviços de saneamento básico. Nesta perspectiva
as potencialidades e limitações hidro-ambientais merecem destaque especial, como alternativa de
acesso a água (REBOUÇAS, 1997, e NASCIMENTO, 2006). A rigor, os recursos hídricos devem
ser estudados em um contexto amplo de planejamento e gestão ambiental, extrapolando a visão
exclusivamente limnológica, atinando a bacia hidrográfica como unidade físico-territorial, para que
possam ser mais bem entendidos no domínio do ciclo hidrológico, como elemento fundamental à
vida ou como recurso natural nas mais variadas etimologias da relação sociedade x natureza.
Por conta da crescente demanda por água para consumo humano e atividades produtivas, há
que se adequar a relação água/sociedade (cada habitante da bacia hidrográfica) a um processo de
gerenciamento integrado, o qual Rebouças (ibid) chamou de disponibilidade hídrica social dos rios.
Por que à proporção que a demanda por água aumenta, alcançando determinados níveis de
disponibilidade social – disponibilidade per capita –, a demanda por gerenciamento é fundamental.
Em nível global, a Tabela 04 afere sobre esse assunto os seguintes preceitos:

Tabela 04 - Necessidade de gerenciamento dos recursos hídricos conforme disponibilidades per capita

Demanda de águas renováveis: vazões totais
médias (fluxos superficial + subterrâneo)
Grau de necessidade de gestão e investimentos

≤ 5%
Baixo: água como bem livre, sob respeito ambiental e legal
5% a 10%

Moderado: pode ocorrer a necessidade a partir de um pequeno investimento
para solucionar os conflitos locais
10% a 20% Alta: indispensável. Investimentos médios
> 20% Altíssima: situação crítica. Investimento e gerenciamento intensivos

Fonte: Elaborado com base em Falkenmark e Lindh, 1976 in Rebouças (1997).

Enquanto na maioria dos países desenvolvidos o consumo per capita de água oscila entre 24%
e 92%, em quase todo o Nordeste estes valores são inferiores a 10% dos potenciais de águas dos
rios (REBOUÇAS, 1997), portanto com necessidade de gerenciamento hidro-ambiental. Alternativa
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
127
histórica buscada para esta questão são os sistemas de barramentos, porém estes enfrentam
problemas em relação ao seu uso ótimo no contexto hidroclimático semi-árido (alta evaporação e
salinidade), além de produzir modificações ambientais a montante ou a jusante das barragens. De
pronto, alteram o ciclo hidrológico. Cabe ressalva que muito do que se debate hoje sobre o
abastecimento de água no Nordeste, mormente nos Estados setentrionais do Ceará, Rio Grande do
Norte, Paraíba e Pernambuco, concentra-se na conveniência, ou não, de promover a transposição
nas águas do São Francisco, questão polêmica e até o momento não consensual, cuja problemática
foge ao escopo desse ensaio.
Porquanto, é inquestionável que qualquer uso dispersivo da água afeta o equilíbrio
hidrológico da própria bacia, sobretudo em regiões de altas vulnerabilidades ambientais como os
sertões semi-áridos do NE. Amiúde, a vocação econômica, os aspectos geoambientais e o uso
cultural de cada bacia tornam-nas singulares. Por estes fatores, a bacia hidrográfica é a unidade
natural mais adequada para a gestão dos recursos hídricos. No entanto, a administração de uma
bacia não é uma tarefa fácil. Apenas um pequeno detalhe neste domínio: além de unidades naturais,
as mesmas ainda sofrem injunções enquanto unidades político-administrativas.
Enquanto últimas observações cabem registrar que muitos fatores concorrem para se destacar
a bacia hidrográfica como unidade referencial de planejamento e gestão ambiental, com prioridade
aos recursos hídricos. Finalmente é possível registrar que:
Em seu âmbito, é possível subsidiar o desenvolvimento de parcerias e resolução de conflitos
para usos dos recursos naturais; como ainda analisar a degradação ambiental a partir de sistemas
fluviais;
Estimula e permite a participação popular, democraticamente, com relação ao poder público,
Organizações Não Governamentais (ONG’s) e entidades privadas. No que descentraliza os
trabalhos de conservação e proteção ambiental, estimulando as integrações comunitária e
institucional;
Comporta-se como uma unidade fisiográfica indissociável passiva de ser
geocompartimentada em trabalhos geoambientais integrados;
Possibilita uma forma racional de organização de banco de dados, além de garantir
alternativas para o uso dos mananciais e de seus recursos;
Evidencia o estado de degradação ambiental pela eutrofização, bem como pelo assoreamento
dos corpos hídricos;
Apresenta um arcabouço jurídico-ambiental bem consubstanciado (Lei n° 9.433/97).

REFERÊNCIAS
BRASIL Recursos Hídricos: conjunto de normas legais. 3ª ed., Brasília: Ministério do Meio
Ambiente/Sec. dos Recursos Hídricos, 2004b. p.149-158.
NASCIMENTO, Degradação ambiental e desertificação no Nordeste Brasileiro: o contexto da
Bacia Hidrográfica do rio Acaraú – CE. (Tese de Doutorado) UFF: Rio de Janeiro, 2006. 325p.
FILHO, Joaquim G.C. (Org.). Projeto Áridas: uma estratégia de desenvolvimento sustentável
para o Nordeste. GTII. Recursos Hídricos: II.2 – Sustentabilidade do Desenvolvimento do
Semi-árido sob o ponto de vista dos Recursos Hídricos. Brasília, 1994. 102 p.
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE (MMA) e SECRETÁRIA DE RECURSOS HÍDRICOS
(SRH). Documento de Introdução. Plano Nacional de Recursos Hídricos. Iniciando um processo
de debate nacional. Brasília: MMA/SRH, 2004. 51p.
VIEIRA, Vicente P.P.B. Água Doce no Semi-árido. In: Águas Doces no Brasil: capital ecológico,
uso e conservação. 2ª edição. São Paulo: Escrituras Editora, 2002. p. 507-530.
REBOUÇAS, Aldo da C. Água na região Nordeste: desperdício e escassez. In: Revista Estudos
Avançados. 11(29). São Paulo: Edusp, 1997. p.127-152.
___. Água Doce no Mundo e no Brasil. In: Rebouças, A. da C.; Braga, B.; e Tundisi, J. G. (orgs.).
Águas doces no Brasil: capital ecológico, uso e conservação. 2ª edição. São Paulo: Escrituras
Editora, 2002. p 01-37.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
128
CARACTERIZAÇÃO MORFOMÉTRICA DA SUB-BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO
BOA HORA, URBANO SANTOS-MA

Franceleide Soares Conceição
Universidade Federal do Maranhão, leda.soares@yahoo.com.br
Tatiana Cristina Santos de Castro
Universidade Federal do Maranhão
Fabíola Geovanna Piga
Universidade Federal do Maranhão

Suzana Araújo Torres
Universidade Federal do Maranhão
Irlan Castro Reis
Universidade Leonardo Da Vinci

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi elaborara a caracterização morfométrica a partir de alguns parâmetros
físicos da sub-bacia hidrográfica do rio Boa Hora, Urbano Santos-MA . Através do software de
computador SPRING 4.3 foi criado um projeto de banco de dados SIG’s (Sistemas de Informações
Geográficas) para a sub-bacia, definido pela projeção UTM/SAD-69. A área de drenagem
encontrada foi de 559,637 km² e o perímetro, de 139,633km. A Sub-bacia hidrográfica do rio Boa
Hora tem formato alongado, fator de forma de 0,360. A densidade de drenagem obtida para a bacia
foi de 0,411km/km². A forma mais alongada da bacia hidrográfica indica que a precipitação
pluviométrica sobre ela se concentra em diferentes pontos, concorrendo para amenizar a influência
da intensidade de chuvas, as quais poderiam causar maiores variações da vazão do curso d’água.

Palavras-chave: Morfometria, Rio Boa Hora, Urbano Santos.

INTRODUÇÃO
O comportamento hidrológico de uma bacia hidrográfica é em função de suas características
geomorfológicas (forma, relevo, área, geologia, rede de drenagem, solo, dentre outros) e do tipo da
cobertura vegetal (LIMA, 1986). Desse modo, as características físicas e bióticas de uma bacia
possuem importante papel nos processos do ciclo hidrológico, influenciando, dentre outros, a
infiltração, a quantidade de água produzida como deflúvio, a evapotranspiração e os escoamentos
superficial e sub-superficial.
Muitas dessas características físicas da bacia hidrográfica, por sua vez, são, em grande parte,
controladas ou influenciadas pela sua estrutura geológica. Para investigar as características das
diversas formas de relevo, as bacias hidrográficas se configuram como feições importantes,
principalmente no que se refere aos estudos de evolução do modelado da superfície terrestre. Assim,
é evidente a necessidade do emprego de métodos quantitativos para estudos dessa natureza (ALVES
e CASTRO, 2003).
Em estudos das interações entre os processos, do ponto de vista quantitativo, utiliza-se o
método de análise morfométrica através dos seguintes parâmetros: densidade de drenagem,
coeficiente de compacidade, índice de circularidade e forma da bacia, dentre outros (ALVES e
CASTRO, 2003; GUERRA e GUERRA, 2003; POLITANO e PISSARRA, 2003; POLITANO et
al., 2004). Esses parâmetros podem revelar indicadores físicos específicos para determinado local,
de forma a qualificarem as alterações ambientais (ALVES e CASTRO, 2003).
Para VILLELA & MATTOS (1975), as características físicas de uma bacia constituem
elementos de grande importância para avaliação de seu comportamento hidrológico, pois, ao se
estabelecerem relações e comparações entre eles e dados hidrológicos conhecidos, podem-se
determinar indiretamente os valores hidrológicos em locais nos quais faltem dados.
CHRISTOFOLETTI (1970) ressaltou ainda que a análise de aspectos relacionados a drenagem,
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
129
relevo e geologia pode levar à elucidação e compreensão de diversas questões associadas à
dinâmica ambiental local.
Diante do exposto, o objetivo deste trabalho compreendeu a obtenção e análise das
características morfométricas da sub-bacia hidrográfica do rio Boa Hora, Urbano Santos-MA.

MATERIAL E MÉTODO
A sub-bacia do rio Boa Hora está situado entre as coordenadas geográficas: 03°12’47”;
03°29’17” de latitude Sul e 43°24’34”; 43°07’04” de longitude Oeste, abrangendo os municípios de
Urbano Santos, Anapurus e Santa Quitéria do Maranhão é o principal afluente do Rio Mocambo,
apresentando uma área de 559,63 km² .



Figura 1: Localização da área de estudo, Sub-bacia do rio Boa Hora, Urbano Santos-MA, Brasil.

De posse da delimitação da área da sub-bacia, obtiveram se diferentes características físicas,
como: área da bacia, perímetro, fator de forma, índice de circularidade, altitude, densidade de
drenagem e ordem dos cursos d’água., sendo que o fator de forma da sub-bacia hidrográfica da Boa
Hora foi calculado através do índice de circularidade onde tende para a unidade à medida que a
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
130
bacia se aproxima da forma circular e diminui à medida que a forma torna alongada. Para isso,
utilizou se a seguinte equação:
Ic=A/Ac
Onde:Ic = índice de circularidade; A = área da bacia considerada; Ac = área do circulo de perímetro
igual ao da bacia considerada.
Os procedimentos adotados para o estabelecimento da hierarquia da rede fluvial da sub-
bacia em questão consistiu em organizar a ordem dos cursos d’água, onde foi determinada seguindo
os critérios introduzidos por HORTON (1945) e STRAHLER (1957).
Nesse trabalho a classificação apresentada por STRAHLER, em que os canais sem
tributários são designados de primeira ordem, os canais de segunda ordem são os que se originam
da confluência de dois canais de primeira ordem, podendo ter afluentes também de primeira ordem,
os canais de terceira ordem originam se da confluência de dois canais de segunda ordem, podendo
receber afluentes de segunda e primeira ordens, e assim sucessivamente (SILVEIRA, 2001).
O sistema de drenagem, formado pelo rio principal e seus tributários, indica a maior ou
menor velocidade com que a água deixa a bacia hidrográfica e representa o grau de
desenvolvimento do sistema de drenagem, ou seja, fornece uma indicação da eficiência da
drenagem da bacia, sendo expressa pela relação entre o somatório dos comprimentos de todos os
canais da rede – sejam eles perenes, intermitentes ou temporários – e a área total da bacia.
O índice foi determinado utilizando a equação:
Dd = L
t
/A
Sendo: Dd a densidade de drenagem (km/km²), Lt comprimento total de todos os canais (km) e A a
área de drenagem (km²).
As informações sobre altitude média, máxima e mínima do relevo da sub-bacia foi
determinado pela função “GEOESTATÍSTICA – ANÁLISE EXPLORATÓRIA” executando a
função “ESTATÍSTICAS DESCRITIVAS” no SPRING 4.3, tendo como base os dados altimétricos
(SRTM, 2004).

RESULTADOS DISCUSSÃO

O Quadro 1, apresenta os resultados da caracterização da sub-bacia hidrográfica do rio Boa
Hora. A área de drenagem encontrada na sub-bacia foi de 559.637 km² e seu perímetro, de 139.633
km, sendo considerada uma bacia pequena, a maior parte da área de estudo está ocupada por
agroecossistemas com culturas anuais diversificadas.
De acordo com os resultados, pode-se afirmar que a sub-bacia hidrográfica do rio Boa Hora
mostra-se pouco suscetível a enchentes em condições normais de precipitação, excluindo-se eventos
de intensidades anormais. Tal fato pode ainda ser comprovado pelo índice de circularidade,
possuindo um valor de 0,360 considerando uma bacia do tipo alongada.
Em bacias hidrográficas com forma circular, há maiores possibilidades de chuvas intensas
ocorrerem simultaneamente em toda a sua extensão, concentrando grande volume de água no
tributário principal. Em estudo realizado em Teixeira de Freitas na Bahia, constatou-se que em uma
bacia com área igual a 0,589 km2, 67,3% ocupada por floresta e outra com área de 0,257 km2, com
ocupação de 100% de pastagem, foram encontrados índices de circularidade de 2,96 e 2,01,
respectivamente. Observou-se que picos de vazão com aumento da precipitação proporcionaram a
saída rápida da água dessas bacias logo após a precipitação (AZEVEDO, 1995).
A densidade de drenagem encontrada na sub-bacia hidrográfica do rio Boa Hora foi de
0,411, considerando a sub-bacia com drenagem muito pobre. De acordo com VILLELA &
MATTOS (1975), esse índice pode variar de 0,5 km/km², em bacias com drenagem pobre a 3,5
km/km2 ou mais, em bacias bem drenadas, indicando, assim, que a sub-bacia em estudo possui
capacidade baixa de drenagem.
A densidade de drenagem é um fator importante na indicação do grau de desenvolvimento
do sistema de drenagem de uma bacia. Esses valores ajudam substancialmente o planejamento do
manejo da bacia hidrográfica. O sistema de drenagem da bacia em estudo, de acordo com a
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
131
hierarquia de STRAHLER, possui ramificação de sexta ordem, o que significa que a sub-bacia é
bem ramificada.
A maioria dos canais são intermitentes durante quase todo ano, cerca de 206,3 km, e os
canais permanentes, inclusive o rio principal, é de aproximadamente 24,1 km, totalizando 230, 4 km
de comprimento dos canais, a intermitências dos canais é indicada pela pobreza de drenagem em
que a sub-bacia se encontra. A sub-bacia apresenta como ponto mais elevado na parte sul com
altitude máxima de 114 m e altitude mínima ao norte de 36 m, chegando a uma média de altitude de
36m.


CONCLUSÃO
A caracterização morfométrica de bacias é de grande importância para estudos ambientais
principalmente quando o ambiente em questão está sofrendo alterações em parte de seu curso
d’água, pois eles desempenham papéis importantes dentro do ecossistema e contribuem para futuras
ações de conservação e recuperação da mesma. A análise dos dados e a interpretação dos resultados
obtidos nas condições atuais da bacia hidrográfica permitiram concluir que a sub-bacia do rio Boa
Hora possui a forma alongada, evidenciando menor risco de cheias em condições normais de
pluviosidade anual. O padrão de drenagem indica que essa bacia é mal drenada, consequentemente
pela elevada permeabilidade ou preciptação escassa, possui sexta ordem e, é bastane ramificada.

REFERÊNCIAS

LIMA, W.P. Princípios de hidrologia florestal para o manejo de bacias hidrográficas. São
Paulo: Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, 1986. 242p.

ALVES, J.M.P.; CASTRO, P.T.A. Influência de feições geológicas na morfologia da bacia do
rio Tanque (MG) baseada no estudo de parâmetros morfométricos e análise de padrões de
lineamentos. Revista Brasileira de Geociências, v. 33, n. 2, p. 117-127, 2003.

POLITANO, W.; PISSARRA, T.C.T.; FERRAUDO, A. S. Avaliação de características
morfométricas na relação solo-superfície da bacia hidrográfica do córrego rico, Jaboticabal
(SP). Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 28, p. 297-305, 2004.

GUERRA, A.T.; GUERRA, A.J.T. Novo dicionário geológico-geomorfológico. 3. ed. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 652p.

CHRISTOFOLETTI, A. Análise morfométrica de bacias hidrográficas no Planalto de Poços de
Caldas. 1970. 375 f. Tese (Livre Docência) – Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 1970.
Características Morfométrica Valores e Unidades
Área 559, 637 (km
2
)
Perímetro 139,633 (km)
Comprimento da bacia 43,917 (km)
Fator de forma 0.360
Comprimento total dos canais 230,450 (km)
Canal Permanente 24,125 (km)
Canais Intermitentes 206,325 (km)
Densidade de drenagem 0.411
Altitude máxima 114 (m)
78 (m)
Altitude média
Altitude mínima 36 (m)
Ordem do curso 6º
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
132

VILLELA, S. M.; MATTOS, A. Hidrologia aplicada. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil,1975.
245p.

CRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia Editora Edgard Blücher, 2º Edição, São Paulo,1980.

SANTOS, A.R. Caracterização morfológica, hidrológica e ambiental da bacia hidrográfica do
rio Turvo Sujo, Viçosa, MG. 2001. 141f. Tese (Doutorado em Recursos Hídricos), Universidade
Federal de Viçosa, Viçosa, 2001.

EUCLYDES, H.P. Regionalização de vazões máximas e mínimas para a bacia do rio Juatuba –
MG. 1992. 66 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Agrícola) – Universidade Federal de
Viçosa, Viçosa, 1992.

AZEVEDO, E.C. Vazão e características físicas e químicas do deflúvio de microbacias
hidrográficas cobertas com mata nativa, pastagem e Eucalyptus grandis. 1995. 92 f.
Dissertação (Mestrado em Solos e Nutrição de Plantas) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa,
1995.


































Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
133
DISCUSSÃO SOBRE MODELO TARIFÁRIO PELO USO DA ÁGUA BRUTA

Francisco Wellington Ribeiro
Mestrando em Engenharia Hidráulica - UFC
José Carlos de Araújo
Prof. Departamento de Engenharia Agrícola

RESUMO
A discussão sobre modelos tarifários pelo uso da água bruta é questão muito recente no Brasil.
Apesar do estabelecimento da cobrança no marco legal federal e das unidades federativas, este
instrumento ainda é pouco formulado e utilizado na gestão das águas no território brasileiro,
especialmente pela dificuldade de definição de um modelo de aferição de valores de tarifas que
tenha possibilidades efetivas de aplicação. O presente trabalho tem como objetivo a apresentação e
discussão de um modelo tarifário – CPS –, o qual apresenta uma formulação que considerada o
contexto da realidade socioeconômica e institucional da região Nordeste. As conclusões apontam o
modelo, proposto e discutido, como aplicável ao contexto nordestino atinente à cobrança pelo uso
(consuntivo) dos recursos hídricos por diversos setores usuários.
Palavras-chave: modelo tarifário, recursos hídricos, região Nordeste.

INTRODUÇÃO
A água é considerada um bem imprescindível para a vida humana e o desenvolvimento
da sociedade. Pelo seu caráter de escassez deve-se fazer imperativa sua boa gestão para que se
possa sempre ter disponível em quantidade e qualidade este recurso elementar à reprodução social.
Nesse sentido o Brasil institui a Política Nacional dos Recursos Hídricos (PNRH) em 1997,
admitindo a cobrança como instrumento de gestão das águas. Apesar do estabelecimento da
cobrança na legislação pertinente, são poucas as experiências de efetiva implantação de tal
instrumento. Um dos motivos encontra-se na dificuldade de formulação de modelos tarifários que
tenham aceitabilidade pública (ente estatal, usuários e sociedade civil), que sejam aplicáveis aos
contextos das diferentes partes interessadas.
Os objetivos deste trabalho são a proposta e a discussão de modelo tarifário pelo uso da
água bruta por setores usuários. Tem-se como intuito apresentar a formulação de um modelo que
seja aplicável ao contexto da região Nordeste do Brasil. Considera-se para tanto, entre outros
elementos, os diferentes níveis de capacidade de pagamento dos diversos setores usuários,
admitindo inclusive isenção tarifária, bem como a prestação de serviço de oferta de água bruta pelo
sistema de gestão dos recursos hídricos, assim como limitações desse sistema de gestão.
São apresentadas, primeiramente, algumas considerações sobre o referencial teórico
acerca da cobrança pelo uso da água bruta. Aborda-se de forma introdutória a cobrança como
instrumento de gestão dos recursos hídricos, o marco institucional que respaldar a cobrança e
modelos de cobrança pelo uso da água bruta. Em seguida apresenta-se o modelo tarifário proposto,
finalizando com uma discussão de pontos atinentes ao referido modelo.

REVISÃO DA LITERATURA
Instrumento Econômico de Gestão dos Recursos Hídricos
Um recurso só assume a característica de econômico quando existe uma demanda por
tal, tornando-o um recurso escasso. Quando não há problema de escassez relativo a determinado
recurso, este não é objeto da ciência econômica, logo, não é lógico falar de desperdício ou de uso
racional do mesmo. A água constitui-se como um bem escasso, portanto, econômico. Não podendo,
sobretudo, ser tratada como uma mercadoria, sob a égide da lei de oferta e demanda do mercado.
A formação de preços para os recursos hídricos deve ser balizada tanto pelos aspectos
econômicos como pelos aspectos sociais, políticos e ambientais. A definição de preços, para o uso
das águas, dificilmente expressa o pleno custo pelo seu uso. Desta forma Pearce e Turner (1990),
colocam que expressar pelo menos parte desse custo já é algo válido. Realmente é objetivo muito
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
134
difícil expressar o valor da água, mas vários governos já incorreram na prática dessa aferição. Para
Pessoa, Fontes e Souza (2001) o Instrumento Econômico (IE) tem a função de minimizar o custo
social, tentando internalizar as externalidades, mas não é apenas função deste a promoção do uso
mais racional, devendo ser considerado outros instrumentos, como a outorga. Segundo Correia
(2005), o IE tem dois objetivos: o primeiro e mais nobre consiste na indução ao uso mais racional; o
segundo concerne à obtenção de recursos financeiros para suprir a infraestrutura hídrica,
especialmente para as regiões que são carentes nesse aspecto. É crível admitir o Nordeste como uma
dessas regiões, devido a determinantes ambientais, bem como contextos socioeconômicos.
A legislação vigente no Brasil, ao caracterizar a água como um bem econômico e
escasso, enuncia que seu uso envolve impreterivelmente custo e disponibilidade do recurso hídrico.
Esses dois aspectos assumem grandes dimensões. Em especial no Nordeste brasileiro, a
disponibilidade de água, em sua grande maioria, é função de serviços prestados pela infraestrutura
hídrica pública, sem a qual a escassez do bem natural, ocasionada especialmente pela irregularidade
pluviométrica (inter e intra-anual), não poderia ser mitigada, conforme Fontenele e Araújo (2001) e
Araújo et al (2005). Basta lembrar que maior parte do território nordestino encontra-se sobre
substrato cristalino, com pouca disponibilidade de águas subterrâneas. Logo, faz-se imperativo o
uso de águas superficiais, as quais são disponibilizadas e distribuídas via infraestrutura de
reservação e adução, já que os corpos fluviais da região não são perenes.
A falta de precificação dos recursos hídricos pode ocasionar uso perdulário pelos seus
usuários. Entretanto, a precificação da água não implica em sua venda e compra, mas em um
elemento da cobrança pelo uso, que se pretende induzir ao uso racional. Também se admite que a
precificação da água fundamentada na eficiência econômica de sua utilização possa não ser a
melhor forma de aferição de um valor cobrado pelo seu uso, por tratar-se de um bem natural e
constituído de grande valor socioambiental, portanto, não comportado por sistemas de preços de
mercado.
Com efeito, a aplicação do IE na gestão das águas tem fundamento pela escassez do
bem (quantidade e qualidade). Por considerar-se a água como um bem escasso, esta adquire valor
econômico, ao mesmo tempo em que seu uso implica em custo social. Logo, dados a escassez e o
custo social, a externalidade incorrida pelo seu uso deve de algum modo ser internalizada pelo
usuário. No entanto, a cobrança deve constitui-se como um instrumento de gestão e deve considerar
as diversas dimensões que envolvem seu uso, não apenas a racionalidade econômica.
O marco institucional configura-se como elemento legitimador da aferição do valor
econômico da água e da cobrança pelo seu uso. Reconhece-se, também, que para além do valor
econômico, a água é dotada de valor social e ambiental. Mesmo antes dos marcos legais brasileiros
admitirem a água com bem econômico, este bem já o era, e tinha custo zero. Continua sendo a custo
zero na maioria dos estados da nação, bem com na maioria dos países.

MARCO INSTITUCIONAL
A PNRH é instituída pela Lei 9.433/97, tendo como alguns fundamentos a consideração
da água como um bem público, escasso e dotado de valor econômico, além de admitir a gestão
compartilhada entre poder público, usuários e sociedade civil. Apresenta, ainda, alguns
instrumentos de gestão, entre eles, a cobrança. Os instrumentos de gestão previstos na lei são: (i)
planos de recursos hídricos, (ii) enquadramento dos corpos hídricos, (iii) outorga do direito de uso
da água, (iv) cobrança pelo uso da água e (v) sistema de informações dos recursos hídricos
(BRASIL, 1997).
Vários estados anteciparam-se à PNRH e instituíram instrumentos de gestão das águas
em suas políticas. São Paulo foi o primeiro estado a editar sua Política Estadual dos Recursos
Hídricos (PERH) em 1991, o Ceará foi o segundo em 1992 e como esses mais oito estados
anteciparam-se à lei federal de 1997. O último estado a editar sua política das águas foi Roraima em
2006. Atinente à cobrança poucos estados implantaram tal instrumento de gestão. Em 1996 o Ceará
foi o precursor na aplicação da cobrança. A segunda experiência dada de 2003, em águas de
domínio da União, na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul (São Paulo, Minas Gerais e Rio de
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
135
Janeiro). Outras experiências de cobrança são: bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (águas
de domínio da União em São Paulo e Minas Gerais) em 2006; Rio de Janeiro em 2004; Bahia em
2006; e São Paulo em 2007.
Entende-se que a boa gestão das águas dá-se com implantação conjunta dos vários
instrumentos previstos na legislação. A integração dos instrumentos de gestão ainda é desafio para o
Estado e a sociedade. A adoção de um instrumento isoladamente, sem consonância com os demais,
tem grandes chances de desvirtuar o objetivo maior da política de gestão, o uso da água de modo
sustentável (social, econômico, político e ambientalmente). A interação dos instrumentos dar-se-ia
fundamentalmente com a elaboração de um plano dos recursos hídricos que teria como suporte um
sistema de informações das águas; desta forma, definir-se-ia a outorga pelo uso da água, a qual
serveria como componente de definição da cobrança, com base em critérios como o enquadramento
dos corpos d’água.
Em grande parte do Brasil há uma limitação na implantação conjunta dos instrumentos
de gestão, especialmente na região Nordeste. Alguns estados limitam-se à realização de planos de
recursos hídricos, à produção de informações e à emissão de outorgas. A cobrança é incipiente e
pontual e o enquadramento praticamente inexiste.

MODELOS DE COBRANÇA PELO USO DOS RECURSOS HÍDRICOS
Estudos atinentes à cobrança no Brasil são realizados mesmo antes da Lei das Águas de
1997 instituir tal instrumento como um componente da gestão dos recursos hídricos. Carrera-
Fernandez e Garrido (2000) apresentam vários exemplos de estudos brasileiros e admitem as
controvérsias de se aferir valores pelo uso da água e grande diversidade de metodologias. Ribeiro e
Lanna (1997) em análise de diversas práticas estrangeiras e propostas brasileiras afirmam que os
modelos tarifários, em sua maioria, são norteados para viabilizar os investimentos nos sistemas de
gerenciamento.
Carrera-Fernandez (2005) e Kelman e Ramos (2005) discutem que a tarifa não é aferida
com base na eficiência econômica (alocação ótima), sendo esta um verdadeiro incentivo ao uso
racional. Carrera-Fernandez (2005) admite que, sendo a água um bem público, não está sujeita ao
interesse do mercado. Pessoa, Fontes e Souza (2001) reconhecem a problemática de gestão das
águas utilizando-se de mecanismos de regulação baseados em sistemas de preços que reflitam a
lógica do mercado.
Na literatura sobre modelos tarifários de cobrança pelo uso da água existem dois
conjuntos: modelos econômicos e modelos ad hoc. Os primeiros primam pelo uso fundado na
eficiência econômica, na alocação ótima dos recursos hídricos. Já os segundos consideram várias
dimensões para aferição de tarifas, como os custos do sistema de gestão ou as capacidades de
pagamento dos usuários. Reconhece-se que há dificuldades de se formular modelos tarifários que
afiram tarifas ótimas (que internalizem as externalidades), por se tratar de um recurso natural e
público. Ainda assim, a aplicação dessas tarifas poderia excluir segmentos menos capitalizados das
atividades produtivas, por não alcançarem os níveis de eficiência econômica. É imprescindível a
consideração da alocação eficiente do ponto de vista social, sobretudo pelos níveis de disparidade
socioeconômica existentes no Nordeste, assim como no Brasil. Conforme Correia (2005), os custos
associados à água estabelecidos por sistemas de preços eficientes não têm verificação empírica no
mundo real, não sendo os cálculos econômicos determinantes exclusivos dos valores cobrados.
Vários modelos tarifários formulados em estudos no Brasil consideram a cobrança pelo
uso pleno dos recursos hídricos, ou seja, admitindo tanto os usos consuntivo e não consuntivo como
o uso diluidor, conforme os modelos propostos por Forgiarini, Silveira e Cruz (2008), Silva e
Ribeiro (2006) e Fontes e Souza (2004). A aplicabilidade de modelos de cobrança que consideram o
uso diluidor requer um aparato de monitoramento dos corpos d’águas de modo que haja
informações sobre lançamento de efluentes. Do contrário, modelos com essa característica tornam-
se pouco aplicáveis. Nas regiões Sudeste e Sul do país já existem infraestruturas de monitoramente
capaz de subsidiar a formulação e aplicação da cobrança por poluição. No Nordeste, assim como no
Norte, há uma ausência desses mecanismos de modo a tornar aplicável um modelo tarifário que
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
136
contemple a cobrança por lançamento de cargas poluidoras.

PROPOSTA METODOLÓGICA

ÁREA DE ESTUDO
A formulação e discussão do modelo tarifário no presente estudo tomam como base o
Nordeste brasileiro. Essa região tem características que são admitidas pelo modelo: grande
assimetria de capacidade de pagamento inter e intrassetorial; oferta de água é derivada da prestação
de serviço da rede hídrica estatal; não há monitoramente de cargas poluidoras nos corpos d’água.

MÉTODO DE ANÁLISE
Alguns aspectos são considerados para dimensionar o modelo tarifário: (i) a base de
cálculo da tarifa média é a capacidade de pagamento (CP) dos setores; (ii) admite-se discriminação
de tarifas em nível inter e intrassetorial; e (iii) o somatório das cobranças é referenciado pelos
custos de Operação, Administração e Manutenção (OAM), tomados como o montante a arrecadar
pelo sistema de gestão.
DESCRIÇÃO DO MODELO
O modelo tarifário proposto e discutido no presente estudo foi concebido por Araújo
(2002) e denomina-se CPS (Capacidade de Pagamento e Subsídio Cruzado). A formulação do
cálculo da tarifa unitária pelo CPS é determinada conforme a Equação (1).
( )
k i
T r T ⋅ + = 1 (1)
sendo: T
i
= tarifa unitária do setor usuário ou da classe de usuário de um setor (R$/m
3
); r = fator de
subsídio cruzado; T
k
= tarifa média do setor usuário k (R$/m
3
).
Um dos preceitos do modelo é a relação da tarifa média (T
k
) com a capacidade de
pagamento média do setor usuário, ou seja, o modelo admite a tarifa média como sendo uma fração
da capacidade de pagamento média, expressa por um parâmetro como demonstrado na Equação (2).
k k
CPU T ⋅ =τ (2)
sendo: τ = parâmetro que define a fração da capacidade de pagamento a ser tarifada (em que: 0 < τ <
1); CPU
k
= Capacidade de Pagamento Unitária do setor usuário k (R$/m
3
).
A formulação do modelo admite ainda a utilização de um fator de subsídio cruzado (r)
que irá expressar a aplicação de subsídio ou de sobretarifa. Esse fator pode ser utilizado nos casos
em que há grande assimetria de capacidade de pagamento entre usuários de um mesmo setor ou
entre localização de atividades de usuários de referido setor, ver Equação (3).
γ
α
β

+
=
⋅ −
2
1
E
V
e
r (3)
sendo: α, β e γ = parâmetros; V
E
= volume utilizado ou volume declarado (m
3
/ano).
Os parâmetros α, β e γ da Equação (3) são calibrados com os dados obtidos pelas
Equações (4) a (6), que são condições de contorno do modelo, decisões políticas.
( )

⋅ =
E i
V T S (4)
1 ) ( − =
i
V r (5)
0 ) ( =
k
V r (6)
sendo: S = montante a arrecadar (R$/ano); r(V
i
) = fator de subsídio cruzado para volume de isenção;
r(V
k
) = fator de subsídio cruzado para volume de tarifa média.
Atinente às três equações apresentadas anteriormente, observe que: (i) o montante a
arrecadar (S) deve ser igual à soma do produto das tarifas (T
i
) e volumes (V
E
); (ii) para o cálculo da
tarifa de isenção deve-se admitir o fator de subsídio cruzado igual a menos um (r = –1), de modo
que a tarifa seja igual a zero (T
i
= 0); e (iii) para o cálculo da tarifa média admite-se o fator de
subsídio cruzado igual a zero (r = 0), implicando no cálculo de tarifa média (T
i
= T
k
).
Ressalta-se que o tipo de uso admitido no modelo toma com referência apenas a
cobrança pelo uso consuntivo (consumo), apesar de se compreender que a cobrança por poluição é
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
137
igualmente importante na perspectiva do uso racional. No entanto, pelo atual estágio da estrutura
institucional no Nordeste, não se verifica a existência de aparato de monitoramento de poluentes
para subsidiar a cobrança sobre efluentes.

DESCRIÇÃO DE VARIÁVEIS
As variáveis exógenas, consideradas básicas, utilizadas e necessárias para a aplicação
do modelo tarifário proposto são: (i) produto (R$/ano) dos setores usuários, expresso pela Renda
Bruta (RB); (ii) volume demandado (m
3
/ano) pelos setores usuários; e (iii) montante a arrecadar
(R$/ano) pelo sistema de gestão para cobrir os custos de OAM.
Atinente ao volume demandado e ao montante a arrecadar, como são variáveis sobre as
quais o sistema de gestão tem controle, consideram-se as suas obtenções com base em dados
fornecidos pelo próprio sistema. No caso do produto dos setores usuários, adotam-se os valores
disponíveis em fontes de sites oficiais do governo. E para obtenção da CPT como uma fração da RB
por cada setor, aplica-se o seguinte método, conforme Equação (7):
( ) RB CPT ⋅ − ⋅ =
2 1
1 η η (7)
sendo: CPT = Capacidade de Pagamento Total (R$/ano); η
1
= expressa a capacidade de pagamento
em relação ao custo de oportunidade; η
2
= expressa os riscos do setor; RB = Renda Bruta.
Os parâmetros η
1
e η
2
indicam a relação custo de oportunidade e riscos com o uso da
água. Assim, adotam-se os critérios: (i) setor que tem a água como um fator de produção e baixo
risco sistêmico, η
1
.(1–η
2
)=1%; (ii) setor que tem a água como bem final ou amplamente extensivo
na atividade e apresenta riscos sistêmicos relativamente baixos, η
1
.(1–η
2
)=4%; e (iii) setor que tem
a água como insumo amplamente extensivo e apresenta elevados riscos sistêmicos, η
1
.(1–η
2
)=1%
No caso (i) pode-se considerar a indústria, pois seu custo de oportunidade de uso da
fonte hídrica original é baixo devido às grandes possibilidades de uso de fonte alternativa, como o
reuso. Além disso, tem suas atividades associadas à baixa probabilidade de sofrerem riscos
sistêmicos, como estiagem/inundação. Portanto, η
1
e η
2
diminuem, implicando em CPT = 1%RB.
No caso (ii) pode-se admitir setores que apresentam alto custo de oportunidade: saneamento básico
(água é bem final), e aquicultura (uso extensivo da água). Além disso, as atividades destes são
associadas a baixos riscos sistêmicos. Portanto, o aumento de η
1
é compensado pela diminuição de
η
2
, implicando em CPT = 4%RB. No caso (iii) pode-se tomar a agricultura irrigada, por ter alto
custo de oportunidade pelo uso da água e por não dispor de fonte hídrica alternativa. Logo, com os
altos riscos sistêmicos inerentes à atividade, η
1
e η
2
elevam-se, implicando em CPT = 1%RB.
Ressalta-se que alguns estudos já adotaram 1% da RB para aferir a CPT, como: trabalho
sobre cobrança pelo uso da água em São Paulo, CORHI (1997); estudo sobre tarifa de água bruta no
Ceará, Araújo e Souza (1999), estudo de impacto da cobrança na irrigação no Ceará, Barbosa,
Teixeira e Gondim (2006).
Com efeito, de posse da CPT (R$/ano) e do volume demandado (m
3
/ano), calcula-se a
CPU (R$/m
3
), que servirá de base para o cálculo da tarifa média (ver Equação 2). Observe a
formulação da CPU conforme a Equação (8).
E
V
CPT
CPU = (8)
A capacidade de pagamento unitária dos usuários dos recursos hídricos é um indicador
relevante para o cálculo das tarifas unitárias pelo uso da água.








Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
138

DISCUSSÕES E CONCLUSÕES SOBRE O MODELO TARIFÁRIO

A tarifação pelo uso da água bruta constitui-se como um importante instrumento de
gestão dos recursos hídricos. Apesar de este instrumento ter respaldo legal, a mais de uma década,
são poucas as experiências de aplicação da cobrança. Uma das dificuldades de sua implantação é a
formulação de modelos tarifários que sejam aplicáveis aos reais contextos dos atores sociais.
O modelo CPS é capaz de aferir tarifas pelo uso da água considerando a capacidade de
pagamento (CP) dos diversos setores usuários, admitindo que as tarifas cobradas sejam
comportadas pelos diferentes setores. Ao considerar a CP setorial, incorre-se na prática de
discriminação tarifária entre setores usuários, tarifando mais quem tem maior CP e vice-versa. A CP
é de fundamental importância na formulação de um modelo de aferição de tarifas.
O modelo admite ainda a utilização de subsídios cruzados entre usuários de um mesmo
setor. Esse mecanismo é bastante válido em um contexto de assimetria de CP entre usuários,
podendo-se isentar, subsidiar ou sobretarifar determinadas categorias de usuários. No caso de
setores como a agricultura irrigada esse mecanismo pode ser utilizado para isentar pequenos,
subsidiar médio e sobretarifar grande irrigantes. Ou ainda, no caso do setor de saneamento básico,
subsidiar tarifas nas localidades mais longínquas e sobretarifar nas regiões metropolitanas.
Evidencia-se, portanto, um caráter de justiça social do referido modelo.
Algumas experiências de tarifação no Brasil admitem a diferenciação de tarifas
conforme o setor usuário e a CP (como ocorre no Ceará), outras aferem tarifas iguais para os
diferentes setores da economia, discriminando tarifas apenas para os tipos de usos (como acontece
no Sudeste). Considera-se equivocada essa uniformidade de tarifas para setores com características
tão diferentes, como a agricultura irrigada, o saneamento básico e a indústria, por exemplo.
O CPS tem o princípio de discriminação tarifária, mostrando uma tendência de
subvenção entre usuários, o que é extremamente plausível pelo contexto de disparidades
intersetorial e intrassetorial, tendo ainda como base da cobrança os custos de Operação,
Administração e Manutenção (OAM) do sistema de gestão. Essa referência dá-se principalmente
pelo fato de no Nordeste, especialmente, a oferta hídrica ser derivada de serviços de reservação e
adução. Esse parâmetro também é importante pelo fato de se arrecadar apenas o necessário para
cobrir os custos com a oferta de água, não incorrendo em viés arrecadatório da cobrança.
O modelo tarifário CPS é denominado na literatura como modelo ad hoc por não se
inserir dentro da categoria de modelos econômicos, ou seja, modelos que se fundamentam na
eficiência econômica. O CPS considera que a aferição de tarifas não deva ser respaldada na
alocação ótima da água, a qual visa sempre maior retorno econômico para o uso. Dentro dessa
lógica haveria grandes chances de se usar a água apenas em atividades de maior rentabilidade em
detrimento daquelas com menor rentabilidade. Incorrer-se-ia, assim sendo, em um processo de
segregação, no qual todos seriam estimulados, por exemplo, a plantar apenas alimentos com alto
valor econômico (como a uva) em detrimento de alimento com baixo valor (como a banana).
Ressalta-se, ainda, que o modelo CPS foi formulado no âmbito da discussão da política
tarifária pelo uso da água bruta no estado do Ceará, tendo servido de base para a aferição da matriz
tarifária cearense. Matriz a qual apresenta elementos enunciados pelo referido modelo, como
discriminação de tarifas entre setores usuários, considerando CP setorial; além da aplicação de
subsídios cruzados, com estabelecimento de isenção de tarifa e de tarifas subsidiadas e
sobretarifadas para determinadas categorias de usuários.







Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
139

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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XIX do art. 21 da Constituição Federal, e altera o art. 1° da Lei n° 8.001, de 13 de março de 1990,
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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
140

O RIO APODI E A INUNDAÇÃO DE 2004 NA ÁREA CENTRAL
DA CIDADE DE PAU DOS FERROS – RN
Franklin Roberto da Costa
Professor Auxiliar III da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte –UERN/CAMEAM Pau dos Ferros e
mestrando do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFRN.
E-mail: franklincosta@uern.br.
Raquel Franco de Souza Lima
Professora Doutora do Departamento de Geologia/UFRN - PRODEMA/UFRN.
e-mail: raquel@geologia.ufrn.br




RESUMO
Drenagens da bacia do Rio Apodi atravessam a área urbana de Pau dos Ferros, RN.
Inundações eventuais ocorrem durante o período chuvoso, em áreas indevidamente ocupadas. As
drenagens do curso superior desta bacia serão perenizadas com o advento da integração do Rio São
Francisco às bacias setentrionais do nordeste. Este trabalho objetiva delimitar as áreas de inundação
e analisar a relação entre áreas inundáveis e crescimento urbano. Para efeito de delimitação das
áreas de inundação, foram considerados os dados do ano de 2004, quando a precipitação foi acima
da média regional. Os resultados preliminares permitem visualizar o adensamento populacional com
maior intensidade na porção centro-sul da cidade, em áreas inundáveis e não inundáveis. A
expansão urbana nos moldes atuais, sem planejamento adequado, pode ocasionar a ocupação
inadequada de áreas inundáveis. Este fato, acoplado à maior geração de resíduos,
impermeabilização do solo e retirada de vegetação, são fatores que contribuem para a intensificação
das cheias na área. Esta situação pode ser agravada pela Integração do São Francisco, que
perenizará o rio principal da bacia, a partir do eixo norte do Projeto.

Palavras chave: geotecnologias, transposição do Rio São Francisco, inundações


INTRODUÇÃO
O processo de ocupação das cidades começou próximo às margens dos rios. Este
processo se deu pela necessidade de utilização do rio como fluxo de pessoas e mercadorias e pela
proximidade das melhores terras agrícolas. Com o avanço tecnológico, a cidade passou a ser o
espaço da produção econômica e social, seja pelo comércio ascendente, como também pelos
serviços básicos, tais como saúde, educação e lazer. Neste caso, os impactos gerados por este
avanço refletiram (e ainda refletem) sobre a infra-estrutura urbana, ocasionando impactos sociais,
econômicos e ambientais em função do uso inadequado do meio físico na qual se instalaram.
No caso das áreas ribeirinhas brasileiras, pode-se dizer que o processo de ocupação vem
se realizando de forma contínua, tendo como justificativa a realização, com custo menor, da
captação das águas para o consumo humano, como também para o escoamento dos resíduos
produzidos pelas indústrias, comércios e residências. Também é ocasionado pelo processo de
exclusão das classes mais baixas, que se vêem obrigado a habitar em lugares insalubres, geralmente
nas periferias da cidade, e tem como conseqüência, o aumento dos casos de impactos ambientais
urbanos.
Segundo Tucci (2004), a falta de um planejamento urbano coerente com as normas de
ocupação do solo pode ser considerada um dos responsáveis pelas inundações existentes
atualmente, pois este vem sendo realizado no Brasil, apenas para partes das cidades ocupadas pela
população de média e alta renda, enquanto que para as áreas de baixa renda e de periferia o
processo se dá de forma irregular ou clandestina.
No município de Pau dos Ferros - RN a situação não é diferente. Localizado na parte
oeste do Estado do Rio Grande do Norte, o município é considerado um dos Pólos Regionais do
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
141
Estado, por agregar os principais serviços públicos prestados pelo Estado na Região denominada
Alto Oeste Potiguar. A implantação destes serviços gerou como conseqüência, um processo de
urbanização crescente e desordenado, fazendo com que o fluxo migratório também seguisse o
mesmo caminho. O resultado foram construções em áreas inadequadas, como vale de rios, próximos
à rede de energia e lugares insalubres, o que acarretou diversos impactos ambientais, além de perdas
econômicas e sociais com certa freqüência.
A inundação em Pau dos Ferros aparece neste cenário como um dos impactos
decorrentes deste processo de ocupação indevida, às margens do Rio Apodi e em um dos seus
afluentes, o riacho Cajazeiras, os quais circundam a cidade de Pau dos Ferros, à leste e à oeste
respectivamente. Todos os anos, durante o período chuvoso na Região, nos meses de fevereiro a
maio, parte do centro urbano, assim como bairros periféricos sofrem com a inundação decorrida do
transbordamento das águas do rio Apodi. Como conseqüência, casas são invadidas pela água, parte
da população fica desabrigada, e há dificuldade de acesso em determinados bairros, pelo
alagamento das vias rodoviárias.
O processo de inundação em Pau dos Ferros pode vir a se agravar pela inserção das
águas provenientes da Integração da Bacia do São Francisco. A conseqüência direta deste projeto
será a perenização do Rio Apodi, modificando a realidade local nos setores econômicos, políticos,
sociais e principalmente ambientais, uma vez que o rio principal da bacia, antes intermitente, terá
um volume constante, tornando-se perene. Com as chuvas, a tendência deste rio será a expansão da
área de inundação.
Neste sentido, este trabalho tem como proposta a identificação das principais áreas de
inundação do município de Pau dos Ferros provenientes da cheia do Rio Apodi, a partir da
produção de cartas temáticas. Até onde se sabe, este trabalho é pioneiro na Região do alto curso do
rio Apodi. Para tanto, já foram realizadas atividades em campo e laboratório, assim como obtenção
de informações com a população local, além de uma revisão bibliográfica a partir dos conceitos e
metodologias aplicadas no cenário nacional e internacional. Acredita-se que esta identificação
ajudará na construção da carta de risco de inundação municipal, subsidiando os gestores na
implementação de políticas públicas voltadas para a amenização destes problemas.

MATERIAIS E MÉTODOS
Área de Estudo

A Bacia Hidrográfica do Rio Apodi faz parte de uma das mais importantes para o Estado,
abrangendo, segundo SERHID (2000), uma área de 14.276 km² de superfície, correspondendo
acerca de 26,8% do território norteriograndense. Esta bacia, localizada a oeste do Estado, limita-se
ao sul com o Estado da Paraíba, a oeste com o Estado do Ceará, ao norte com o Oceano Atlântico e
a leste com os municípios pertencentes à Bacia Hidrográfica do rio Piranhas-Assú. (ALMEIDA et
al, 2006). Segundo Almeida et al (2006), a Bacia Hidrográfica do Apodi engloba o total de 48
municípios, que abrange o total de 579.211 habitantes, de acordo com o censo do IBGE 2000.
O município de Pau dos Ferros – RN, que faz parte desta bacia, possui uma população de
26.728 habitantes (IBGE, 2007), e está localizado na porção oeste potiguar, tendo como
coordenadas geográficas a latitude 6º 06’ 33” Sul e longitude 38º 12’ 16” Oeste. Sua área total é de
259,96 km², equivalente a 0,52% da superfície estadual. (Figura 01).









Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
142














Figura 01: Localização Geográfica de Pau dos Ferros – RN

O municipio de Pau dos Ferros é caracterizado por um clima muito quente e semiárido, com
estação chuvosa atrasando-se para o outono. Segundo IDEMA (2009), a precipitação pluviométrica
anual possui uma média de 721,3 mm sendo o periodo chuvoso entre os meses de fevereiro a junho.
No ano de 2009, até o mês de junho, a média foi de 748,0 mm, ocorrendo um desvio de +26,7 mm
(EMPARN, 2009). Como o periodo de chuvas está chegando ao seu término para o ano, este valor
não deve sofrer grandes alterações.
Ainda em relação à precipitação, de acordo com EMPARN (2009), março foi considerado o
mês mais chuvoso em 2008, enquanto novembro aparece como o menos chuvoso. O acumulado do
ano de 2008 manteve-se na média entre os 600 e 800 mm de chuvas anuais.
A temperatura média anual para o municipio é de 28,1º C, sendo a máxima de 36º C e a
mínima de 21ºC em 2008. (Figura 05)
Em relação a umidade relativa do ar, Pau dos Ferros possui um percentual baixo, em torno
de 66%, sendo o mês de abril o mais úmido, com valor entre 70 e 80% e o de novembro o menor,
com menos de 60%. Figuras 06 e 07. (EMPARN, 2009)
A vegetação característica do municipio é a Caatinga Hiperxerófila - vegetação de caráter
mais seco, com abundância de cactáceas e plantas de porte mais baixo e espalhadas. Entre outras
espécies destacam-se a jurema-preta, mufumbo, faveleiro, marmeleiro, xique-xique e facheiro.
(IDEMA, 2009)
O município de Pau dos Ferros encontra-se inserido, geologicamente, na Província
Borborema, sendo constituído pelos litotipos do Complexo Jaguaretama, das Suítes Poço da Cruz
(PP3 pc) e Calcialcalina de Médio e Alto Potássio Itaporanga (NP3 2cm), da Formação Antenor
Navarro (K1an) e pelos depósitos Colúvio-eluviais (NQc), como pode ser observado na figura 09
(CPRM, 2005).
Geomorfologicamente predominam formas tabulares de relevos, de topo plano, com
diferentes ordens de grandeza e de aprofundamento de drenagem, separados geralmente por vales
de fundo plano (IDEMA, 2009).
Limites municipais
Pau dos Ferros
Rafael Fernandes
Francisco Dantas
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
143
O município de Pau dos Ferros é formado por três tipos de solos: podzólico vermelho-
amarelo, bruno não cálcico e rendizna, como pode ser visto na figura 10 (CPRM, 2005). Dentre eles
o predominante é o podzólico vermelho-amarelo. Segundo o IDEMA (2009), este tipo de solo
possui fertilidade alta, textura média e média cascalhenta, acentuadamente drenado, relevo suave.
Em relação ao uso, este tipo de solo é restrito a culturas resistentes a seca, recomendando o uso
intensivo de práticas de controle de erosão.

INUNDAÇÕES EM PAU DOS FERROS – O CASO DE 2004.

O município de Pau dos Ferros está totalmente inserido na Bacia Hidrográfica do Rio
Apodi, e seu centro urbano foi edificado nas proximidades do rio principal da Bacia, o Apodi, e de
seu afluente Riacho Cajazeiras. Como os rios são intermitentes, a necessidade de moradia faz com
que as áreas ribeirinhas sejam ocupadas pela população. No período de estiagem, os leitos secam.
Durante e posteriormente ao período de chuvas na região algumas áreas da cidade são inundadas em
função da sangria dos açudes que se encontram à montante (Açudes Pau dos Ferros e 25 de Março).
O resultado são áreas que inundam no período de cheia do rio, já que algumas
construções foram inseridas no seu leito maior. Casas e lojas são tomadas pelas águas, ruas tornam-
se intransitáveis, gerando perdas econômicas e sociais neste período do ano.
Nos primeiros dias de fevereiro de 2004, fortes chuvas ocorreram nas nascentes e no
alto curso da Bacia, inundando parte do centro da cidade de Pau dos Ferros e os bairros de Riacho
do Meio e São Geraldo. Nos primeiros 05 dias do mês foram registradas grandes precipitações
pluviais, que totalizaram 99,8 mm apenas em Pau dos Ferros (EMPARN, 2009).
Registros destes fatos são encontrados nos jornais locais, conforme reportagem do
Jornal de fato, de 05 de fevereiro (Jornal de Fato, 2004):
[...] “Para os comerciantes que trabalham na Rua Devenuto Fialho, localizada no centro da
cidade, o dia de ontem foi de transtornos devido à inundação que ocorreu logo nas primeiras horas
da manhã. O alagamento foi causado devido às chuvas que caíram terça-feira, 3, o que
proporcionou a sangria da barragem de Pau dos Ferros com a lâmina de 1m30cm, suficiente para
causar grandes prejuízos.Diversos comerciantes tiveram que proteger seus objetos e produtos para
evitar perdas. Assim também agiram os moradores da região que já retiraram móveis e
eletrodomésticos de suas casas. Muitos temem que o nível da água possa aumentar com a
continuidade das chuvas. Segundo o técnico do Departamento de Obras Contra as Secas (DNOCS),
Euzamar Marinho, o nível da água que inundou casas e pontos comerciais foi de meio metro e
atingiu desde o Açougue Público até o Posto de Combustível Segundo Melo.”

Nos municípios a montante do rio que passa por Pau dos Ferros, houve grandes
precipitações, como afirma o Engenheiro Fausto Magalhães, na mesma reportagem (Jornal de Fato,
2004):
[...]“O engenheiro e também técnico do Dnocs, Fausto Magalhães, diz que a inundação aconteceu
devido às chuvas que caíram nas cidades de Major Sales (83 mm); José da Penha (52 mm); Luis
Gomes (53 mm) e Riacho de Santana (50 mm). Fausto explica que os rios existentes nestes
municípios após receberem as águas das chuvas deságuam na bacia do açude público de Pau dos
Ferros, o que acarretou o aumento para 1m30cm. Ele diz que a situação dos moradores do Centro
é instável e alerta que os moradores fiquem atentos, caso ocorra fortes chuvas, pois a situação
tende a se agravar.”

Verifica-se que os moradores e lojistas do centro da cidade foram os mais prejudicados
com as chuvas deste período.




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
144

METODOLOGIA
Os recursos básicos para a definição das áreas de inundação em Pau dos Ferros foram as
imagens do satélite CBERS 2B com instrumento imageador High Resolution Panchromatic Camera
- HRC, que possui uma resolução espacial de 2,7 metros (obtida em 11 de outubro de 2008) e
fotografias aéreas do município obtidas em agosto de 1987 com escala de imageamento 1:17.000,
além da base cartográfica da Secretaria de Recursos Hídricos do Rio Grande do Norte – SERHID e
pontos obtidos em campo via aparelho GPS . Estes dados foram trabalhados em laboratório via o
software SPRING 5.0. Tal software possibilitou armazenar os dados obtidos, permitindo um
reconhecimento suficiente das unidades geoambientais da área em estudo, além da realização do
mosaico e georreferenciamento das fotografias aéreas. Juntamente ao tratamento digital das
imagens, os trabalhos de reconhecimento de campo em algumas áreas do Rio Apodi permitiram
resolver problemas relacionados ao processo de identificação de objetos geográficos observados nas
imagens.
A imagem do satélite refere-se às órbitas 149 a 107 no canal pancromático HRC.
Utilizou-se o sistema de projeção UTM, datum horizontal SAD-69, meridiano central 39°,
hemisfério sul, enquadrado no retângulo envolvente para georeferenciamento da base cartográfica
da SERHID com coordenadas planas:X1: 577.332 e X2: 607.755 e Y1:9.309.395 e Y2: 9.337.725.
Após a obtenção dos dados, o próximo passo foi organizar o Banco de Dados no
software, a partir da construção do Projeto chamado Projeto Rio Apodi. A tabela 1 exemplifica esta
organização.
Tabela 1: Organização das categorias utilizadas no trabalho
Categorias Modelo de Dados Plano de informação Classes
Hidrografia Cadastral Hidrografia_cad
Açude 25 de março
Barragem Pau dos Ferros
Rios
Açudes
Altimetria MNT Mapa Altimetria
Amostras
Grade retangular
Localidades Cadastral Limites
Limite municipal Pau dos
Ferros
Localidades menores
Pontos GPS MNT Pontos GPS Mapa pontos GPS
Imagem Imagem Imagem
CBERS 2B HRC 2008
Fotos aéreas 1987
Área urbana Área urbana Mapa da área urbana Área urbana

Após a criação dos planos de informação, foi realizada a importação dos dados de
altimetria, hidrografia, divisões municipais e limite da bacia, em formato .SHP, que foram
transformados em formato *.SPR para se tornar compatível com o software utilizado para o
presente trabalho. Tais dados foram obtidos via Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos
Hídricos – SEMARH/RN.
Após a importação dos vetores, o próximo passo foi a importação das imagens. A
imagem do satélite CBERS era ortoretificada. Neste caso foram utilizados poucos pontos de
controle para o georreferenciamento da imagem, a partir da base vetorial já instalada.
As fotografias aéreas foram digitalizadas para posterior georreferenciamento. Neste
caso foram necessários mais pontos de controle para que as fotografias pudessem ser inseridas no
SPRING com as coordenadas compatíveis com os demais produtos já presentes no projeto.
Utilizou-se a imagem do satélite CBERS como base cartográfica, já que na análise visual percebeu-
se uma maior facilidade de identificação dos objetos existentes no município.
Com as imagens inseridas no software SPRING 5.0, deu-se início ao processo de
identificação da área urbana nos anos de 1987 e 2008. A vetorização da área urbana de 1987 foi
realizada a partir das fotografias aéreas mosaicadas no Projeto, sendo possível identificar toda a
área urbana no período, desde a parte central da cidade (mais antiga) à parte da periferia.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
145
A área urbana de Pau dos Ferros no ano de 2008 foi vetorizada a partir da imagem
CBERS 2B na faixa pancromática, com resolução 2,7 metros abrangendo quase a totalidade da
cidade. A cobertura por nuvens de uma pequena parte da cidade dificultou sua identificação. A
solução para este problema foi a identificação em campo, tendo como ferramenta de auxílio o
Sistema de Posicionamento Global – GPS. Estas informações permitiram complementar o processo
de vetorização da área urbana de Pau dos Ferros para o período atual (ano 2008).
Além da área urbana, foram realizadas correções e melhorias na vetorização referente à
hidrografia municipal, com vistas a delimitar as principais áreas de inundação na cidade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

INUNDAÇÃO X CRESCIMENTO URBANO EM PAU DOS FERROS: RESULTADOS
PRELIMINARES


A partir das reportagens encontradas em anos distintos, além de consultas informais a
moradores e lojistas desta parte da cidade, juntamente com a análise da imagem de satélite e das
fotografias áreas trabalhadas no Software SPRING 5.0, foi possível definir preliminarmente, o
curso principal do rio Apodi durante o período das cheias, delimitando assim as áreas passíveis de
inundação.
Além da delimitação do percurso do rio nos períodos de cheia, cada ponto assinalado na
figura 02 identifica locais na cidade atingidos pela inundação com a elevação do nível das águas
durante o ano de 2004. Verifica-se que áreas que sofreram inundações estão localizadas onde já
existiam residências e comércios locais na delimitação de 1987 (Pontos 1, 2, 3, 4, 5 e 6). Esta área,
por estar mais próxima ao centro, sofreu um adensamento populacional que propiciou um aumento
no número de famílias e proprietários de comércios, principalmente feirantes que desenvolvem suas
atividades neste local aos sábados. O mercado público também funciona nesta área. Durante o
período da cheia, as lojas, feira e mercado público são invadidos pelas águas do rio Apodi.















Figura 02.
Carta do percurso do rio na cheia e pontos de
inundação em Pau dos Ferros – RN.





1
2
3
4
5
6
7
8
Centro
da
cidade
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146

Outra área de inundação, ainda no centro, localiza-se nas proximidades da prefeitura
(pontos 7 e 8). Neste caso, as águas pluviais descem por gravidade para o leito do rio; a velocidade
e o volume das águas aumentam e estas não conseguem seguir seu curso natural pela deficiência na
rede de drenagem ali existente, inundando consequentemente toda a área próxima ao rio.
A população ocupa de forma irregular as margens do Rio Apodi, em função da
expansão urbana desordenada. Fatores como a impermeabilização do solo, aliado a retirada da
vegetação nativa e a emissão de resíduos clandestinos tem gerado como conseqüência a inundação e
alagamento de diversas residências construídas nas proximidades do rio. Isto provavelmente ocorre
em função do aumento do volume e da velocidade de escoamento da água, advinda dos bairros a
montante, através da vias públicas e galerias pluviais, dos afluentes do Rio Apodi, e do próprio Rio
Apodi. O aporte hídrico das fontes citadas, acrescido do volume proveniente da sangria da
Barragem de Pau dos Ferros acarreta um transbordamento maior, com conseqüente aumento das
áreas alagadas, atingindo locais anteriormente não inundados, como ocorrido no início de fevereiro
de 2004.
A complementação deste trabalho deve ser feita através de levantamento topográfico
que permita a definição das cotas de inundação, o que possibilitará a elaboração das manchas de
inundação municipal com maior precisão no SIG SPRING 5.0.
É necessário que estas informações sejam levadas em consideração na elaboração do
planejamento urbano da cidade (p. ex. plano diretor, plano de limpeza urbana, defesa civil), para
que o processo de ocupação do solo seja organizado de forma a amenizar as perdas decorrentes
deste fenômeno natural.

CONCLUSÕES

O objetivo principal deste trabalho foi a identificação preliminar das áreas de inundação
em Pau dos Ferros – RN, a partir do rio principal da Bacia Hidrográfica do Rio Apodi. A
metodologia utilizada permitiu a visualização dos locais atingidos na área central da cidade de Pau
dos Ferros, no início do mês de fevereiro de 2004.
A expansão urbana desordenada ao longo dos últimos 22 anos tem sido responsável
pelo o aumento de águas pluviais durante o período chuvoso, principalmente pela deficiência de
uma drenagem urbana com capacidade para permitir o fluxo das águas para o seu curso natural, sem
causar maiores impactos e problemas à população.
Os resultados preliminares deste estudo permitiram visualizar a rápida expansão da área
urbana de Pau dos Ferros, que duplicou em um período de 22 anos. A expansão ocorre em áreas
periféricas anteriormente não ocupadas. O adensamento populacional verifica-se com maior
intensidade na porção centro-sul da cidade, em áreas inundáveis e não inundáveis. A expansão
urbana nos moldes atuais, sem planejamento adequado, pode ocasionar a ocupação inadequada de
áreas inundáveis. Este fato, acoplado à maior geração de resíduos sólidos, impermeabilização do
solo e retirada de vegetação, são fatores que contribuem para a intensificação das cheias na área.
Esta situação pode ser agravada pela Integração do São Francisco, que perenizará o rio principal da
bacia, a partir do eixo norte do Projeto.










Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
147

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, S. A.; CUELLAR, M.D.Z.; AMORIM, R. F; COSTA, A. M.B. Caracterização das
Bacias Hidrográficas dos Rios Apodi/Mossoró e Piranhas/Assú (RN): mapeamento do uso do solo
através das imagens do satélite CBERS 2 e análise sócio-econômica. Revista Fapern. Natal, v.1,
n.2, p.5-9, out./nov. 2006.
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subterrânea. Diagnóstico do município de Pau dos Ferros, estado do Rio Grande do Norte.
Organizado [por] João de Castro Mascarenhas, Breno Augusto Beltrão, Luiz Carlos de Souza
Junior, Saulo de Tarso Monteiro Pires, Dunaldson Eliezer Guedes Alcoforado da Rocha, Valdecílio
Galvão Duarte de Carvalho. Recife: CPRM/PRODEEM, 2005.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Cidades – Dados
referentes ao município de Pau dos Ferros. Disponível em: www.ibge.gov.br. Acesso em maio de
2009.
INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E DO MEIO AMBIENTE DO RIO
GRANDE DO NORTE – IDEMA. Perfil do seu município. Natal – RN. 2003. Disponível em:
www.idema.rn.gov.br. Acesso em maio de 2009.
SECRETARIA DE RECURSOS HÍDRICOS DO RIO GRANDE DO NORTE – SERHID. Bacia
hidrográfica do rio apodi. Disponível em: www.serhid.rn.gov.br. Acesso em ago. 2007.
TUCCI, C.M. Gerenciamento Integrado de Inundações Urbanas no Brasil. In: Revista de Gestão
da Água na América Latina, Vol.1, nº1, jan/jun/2004.













Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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AÇUDE SANTO ANASTÁCIO: UM ESTUDO DE CASO.
Helena Becker
Laboratório de Química Ambiental. Departamento de Química Analítica e Físico-Química.
Universidade Federal do Ceará. becker@ufc.br

Daniele Brás Azevedo Farias
Renata de Oliveira Silva

RESUMO
O açude Santo Anastácio faz parte da bacia do Maranguapinho, está localizado no campus do
Pici/UFC e a população utiliza esse açude para irrigação, pesca e agricultura, e lazer. A análise das
águas e sedimentos desse açude mostra que ele está contaminado por coliformes, assoreado e
hipereutrófizado, além da poluição visual devido ao aporte de lixo.

PALAVRAS CHAVE: Eutrofização, Assoreamento, Metais, Sedimentos.

INTRODUÇÃO
A bacia do Maranguapinho, situada a oeste do município de Fortaleza, apresenta os rios
Maranguapinho, como principal e Ceará, bem como as lagoas da Parangaba, do Mondubim, do Sítio
Urubu e o açude Santo Anastácio (PICI). Esta bacia corresponde a 28,7% do total do município de
Fortaleza, correspondendo a uma área de 86,8 km
2
. O açude Santo Anastácio está localizado,
parcialmente, no campus do Pici, em Fortaleza, Ceará, Brasil, onde 42% da área inundada estão
dentro da Universidade Federal do Ceará. A densidade demográfica dessa bacia é a maior de
Fortaleza, com uma população de 1.007.190 habitantes (IBGE, 2000). O Açude Santo Anastácio foi
construído em 1918, pelo represamento do riacho oriundo da sangria da Lagoa de Parangaba, sendo
parte do Rio Maranguapinho. O represamento foi feito com a construção de uma barragem de terra,
tendo um sangradouro em concreto na ombreira esquerda sobre o qual foi construída a ponte de
acesso ao campus (OLIVEIRA, 2001). Segundo Araújo (2000), o valor de acumulação inicial ao
final de sua construção, em 1918 é estimado em 508.000 m
3
. O fundo do açude, em 1975, era
composto basicamente por lama (60%) e areia fina (25%) e na superfície existia um grande banco
de macrófitas que funcionava como um filtro retendo os sólidos em suspensão (OLIVEIRA, 2001).
Geograficamente, a localização do açude fica compreendida entre os pontos de 3°44’36” de latitude
S e 38°34'13" longitude W (Figura 1), envolvendo uma bacia hidráulica com cerca de 12,8 hectares
e uma bacia hidrográfica com aproximadamente 143.400 m
2
(FAUSTO FILHO, 1988) com uma
barragem de 182 m de comprimento. O Açude Santo Anastácio é um exemplo de corpo hídrico
superficial situado em uma grande cidade sofrendo grande pressão antrópica. Suas águas são
reabastecidas tanto por chuvas como pelas águas de drenagem da lagoa da Parangaba, as quais
circulam por um canal que atravessa os bairros do Panamericano, Bela Vista e Amadeu Furtado,
recebendo efluentes domésticos sem tratamento e razoável aporte de lixo. Até o momento não
existiam estudos sistemáticos sobre a situação e nem monitoramento da água desse açude, o qual é
usada pela população circunvizinha, para balneabilidade, pesca e agricultura, assim sendo, este
trabalho tem como objetivo efetuar o diagnóstico sobre as características físicas e químicas nas
águas e metais nos sedimentos do açude Santo Anastácio visando compreender sua dinâmica e obter
informações básicas que possibilitem subsidiar tanto programas de gerenciamento, proteção e
aproveitamento adequado desse recurso hídrico.





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
149
MATERIAL E MÉTODOS
Foram realizadas quatro campanhas de coleta de água e sedimentos, realizadas em junho e
novembro de 2007, novembro de 2008 e maio de 2009, em quatro pontos diferentes do açude,
sendo o ponto 1 em frente a uma comunidade, o ponto 2 localizado no ponto de descarga de
efluentes sem tratamento, principalmente domésticos, o ponto 3 na parte mais profunda do açude e,
o ponto 4, em frente a barragem (Figura 1). As seguintes variáveis foram analisadas na água: pH,
temperatura, salinidade, condutividade, cloreto, material particulado em suspensão, oxigênio
dissolvido, demanda bioquímica de oxigênio, sulfeto, sulfato, dureza, alcalinidade, nutrientes
(NH
3,4
, NO
2
-
, NO
3
-
, PO
4
3-
, N e P total), clorofila, metais (Na, K, Mn, Fe, Ni, Cr, V, Zn e Pb),
potencial elétrico e análise microbiológica (coliformes totais e termotolerantes). Os parâmetros
temperatura (T), potencial hidrogeniônico (pH), condutividade elétrica (C), salinidade (S), oxigênio
dissolvido (OD) foram determinados no campo, por uma sonda multiparamétrica de marca YSI
INCORPORATED, modelo 556 MPS. Os demais parâmetros foram analisados segundo APHA
(2005).

Figura 1. Localização do açude Santo Anastácio, em Fortaleza-CE.

Os sedimentos foram coletados utilizando uma draga do tipo Van Veen, transferidos para
sacos plásticos, mantidos em isopor com gelo até a chegada em laboratório e congeladas até a
realização da análise, quando as amostras foram secas a 60°C e peneiradas (<63 µm). A
determinação dos metais potencialmente biodisponíveis foi feita por lixiviação com HCl 0,1mol.L
-1
,
sob agitação por 2 horas e filtradas; A concentração total dos metais foi determinada utilizando-se
água régia e ácido fluorídrico concentrado, em bombonas de teflon e aquecimento por 4 horas, em
bloco digestor; os metais Mn, Fe, Ni, Cr, V, Zn e Pb foram determinados por espectrometria de
emissão em plasma (ICP-OES Perkin Elmer, modelo Plasma 4300 DV). O teor de matéria orgânica
foi obtido por gravimetria e as concentrações das frações de fósforo total (PT), fósforo inorgânico
(PI) e fósforo orgânico (PO) foram analisadas segundo Berner&Rao (1994).As análises foram feitas
em triplicatas e a concentração do ortofosfato resultante foi determinada por espectrofotometria
UV-Vis, em 880nm, utilizando-se o método de Murphy & Riley.





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
150

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Pelos resultados obtidos (Tabela 1) constata-se que as águas do açude Santo Anastácio são
uniformes quanto a maioria das variáveis físicas e químicas analisadas, com a água sendo doce, no
período chuvoso (salinidade menor que 0,5) e tendendo a salobra (salinidade 0,57), na época de
estiagem, de dureza moderada, com baixa razão de adsorção de sódio e média tendência de
salinização dessa água para o solo. Os altos valores obtidos nas análises microbiológicas (mínimo
de 9.300 e máximo de 240.000 NPM/100 mL) inviabilizam todos os usos da água, descritos na
Resolução CONAMA 357, para água doce classe 3, inclusive balneabilidade. O teor de sulfeto (em
média 0,67 mg.L
-1
), bem acima do VMP da legislação brasileira, confere um forte odor de “ovo
podre” à água. A concentração dos metais foi sempre abaixo do valor máximo permitido pela
legislação anteriormente citada, mas, a análise dos nutrientes (NH
3,4
, NO
2
-
, NO
3
-
, PO
4
3-
, N e P total)
juntamente com a da clorofila mostraram que o açude já está hipereutrófico, sendo que para calcular
esse grau de trofia foi aplicado o clássico Índice de Estado Trófico (IET) desenvolvido por Carlson
e modificado por Toledo et al (1983). Também é verificada a poluição visual do açude onde,
quebrando a harmonia paisagística, observa-se uma grande quantidade de lixo, principalmente
plástico, boiando ou soterrado, animais em estado de decomposição e móveis velhos em suas
margens, gerando um visual de descaso. Apesar da Prefeitura do Campus do Pici da UFC efetuar
periodicamente a retirada das macrófitas e limpeza das margens do açude, a situação volta a se
repetir, principalmente no relativo ao lixo descartado pela população, nas margens do mesmo. Num
mapeamento batimétrico feito pela Prefeitura Municipal de Fortaleza em conjunto com o
Laboratório de Ciências do Mar, da UFC, nas lagoas de Fortaleza, que incluiu o açude Santo
Anastácio, em 2006, foi verificado que ele possuía, em uma profundidade média de 2,29 m e
máxima de 4,97 m. Neste presente estudo verificou-se que a profundidade máxima não ultrapassou
os 4 metros.

Tabela 1. Concentração das variáveis analisadas nas amostras de água do açude Santo Anastácio.
Parâmetros VMP Média Coeficiente de variação (%)
pH 6 a 9 8,04 4,76
T (ºC) - 27,49 1,27
Salinidade Até 0,5 0,46 26,48
OD (mg/L) > 5 4,29 93,88
Profundidade Secchi (cm) - 31,67 18,14
Alcalinidade (mg de
CaCO
3
/L)
- 146,48 17,00
Condutividade (mS/cm) - 0,99 24,47
Dureza (mg de CaCO
3
/L) - 132,43 17,68
MPS (mg/L) - 45,78 25,35
Cloreto (mg/L) 250 138,63 69,88
Sulfato (mg/L) 250 89,37 53,01
Sulfeto (mg/L) 0,002 1,34 51,98
Clorofila (µg/L) até 30 37,69 89,17
Feofitina (µg/L) - 30,69 114,06
Namoniacal (mg/L) 2,58 1,19 120,25
Nitrato (mg/L) 45 5,66 92,10
Nitrito (mg/L) 3,29 1,37 34,53
Fosfato (mg/L) 0,061 1,11 90,34




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Os resultados obtidos nas análises dos sedimentos mostraram altas concentrações, para todos
os metais estudados (Fe, Ni, Cr, Cu, V, Zn, Pb e Mn) e estão apresentados na figura 2.

Figura 2. Distribuição de metais nos sedimentos do açude Santo Anastácio.

Coeficientes de correlação superiores a 0,9 foram obtidos para todos os metais com a matéria
orgânica. Em relação aos metais totais, o ponto 2 foi o que apresentou concentrações mais altas,
seguido do ponto 1; os menores valores foram obtidos no ponto 4, com exceção do Pb, que teve seu
menor valor no ponto 3. A variação dos metais biodisponíveis foi semelhante as dos metais totais.
As concentrações obtidas, para todos os metais totais, nos pontos 1 e 2, são comparáveis as
existentes em lodos de esgoto (FERNANDES et al, 1997), embora não ultrapassem os limites
máximos de metais estabelecidos pela Environmental Protection Agency (EPA) para esses lodos.
Segundo os valores orientadores para solos da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo
(CETESB, 1995), as concentrações ultrapassam o valor de prevenção (VP), o qual indica a
qualidade de um solo capaz de sustentar as suas funções primárias, protegendo-se os receptores
ecológicos e a qualidade das águas subterrâneas. Analisando-se as altas concentrações de metais
fracamente adsorvidos, fica a preocupação de que esse corpo hídrico, se sofrer variação do pH da
água (atualmente de 7,7), possa liberar esses metais para a coluna d’água.
O P é considerado o responsável pelo processo de eutrofização e os sedimentos são
importantes na avaliação da intensidade e formas de impacto dos sistemas aquáticos, pois são fontes
e sumidouros de P. Nos sedimentos estudados, a concentração de fósforo total foi extremamente
elevada, variando de 57 a 130 mg.g
-1
, sendo que 85,8% era, em média, de fósforo orgânico. Essas
altas concentrações já eram esperadas, uma vez que o açude é classificado como hipereutrófico,
com a qualidade da água ruim, destacando-se a presença de coliformes nas amostras analisadas.
As piores condições encontradas, para todas as variáveis analisadas, foram no ponto 2,
localizado na descarga do canal da lagoa de Parangaba, o qual atravessa vários bairros, onde são
liberados esgotos domésticos in natura, além de resíduos sólidos; o ponto 1, localizado em frente a
uma comunidade, apresenta condições semelhantes ao ponto 2; o ponto 4, situado na descarga do
açude, apresentou condição ligeiramente melhor, devido a dinâmica de sua localização.

CONCLUSÃO
Os resultados obtidos mostram que os principais impactos sofridos pelo açude Santo
Anastácio são: contaminação por coliformes, assoreamento, eutrofização e aporte de lixo,
ressaltando-se que deve ser dado um enfoque a essa questão, que envolve problemas de natureza
não só ambiental mais também social, política, econômica e sanitária.








Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
152

REFERÊNCIAS

American Public Health Association. 2005. Standard methods for examination of water and
wastewater. 20ª Ed.
Araújo, J. C. de. 2003. Assoreamento em Reservatórios do Semi-árido, Modelagem e
Validação. Revista Brasileira de Recusos Hídricos, v. 8, p. 39-56.
Berner, R. A.; Rao, J. L.; Geochim. Cosmochim. Acta. 1994, 58, 2333.
CETESB. 2005. Decisão de diretoria nº 195-2005- E, de 23 de novembro de 2005.
Fausto-Filho, J. 1988. Aspectos Bioecológicos do açude Santo Anastácio do Campus do Pici da
Universidade Federal do Ceará. Dissertação de Graduação, 84p.
Fernandes, F; Anreoli, C.V.; Domaszak, S.C. 1997. Sanare. p. 15-21
Fernandes, E. G. 1978. Contribuição ao estudo limmnológico do Açude Santo Anastácio
(Fortaleza, Ceará, Brasil), no período de setembro a novembro de 1978 – Estudos físicos e
químicos. Dissertação de graduação do DEP-UFC1, 978. 22 p. (mimeografado).
IBGE – Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censos Demográficos. 1991-
2000.
Oliveira, M. A. 2001. Eutrofização antrópica: aspectos ecológicos e uma nova abordagem para
modelagem da cadeia trófica pelágica em reservatórios tropicais de pequena profundidade.
Tese (Doutorado em Engenharia Civil) – Centro de Tecnologia, Universidade Federal do Ceará,
Fortaleza, 2001.
Toledo, Jr., A.P.; Talarico, M.; Chinez, S.J.; Agudo, E.G. 1983. Anais do 12° Congresso
Brasileiro de Engenharia Sanitária. 34p.














Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
153

USO DO IQA - CETESB NA GESTÃO DA BARRAGEM AYRES DE SOUZA.

Jean Leite Tavares
Professor Efetivo do Curso Superior de Tecnologia em Saneamento Ambiental – IFCE – Sobral, :
jeanltavares@ifce.edu.br.
Maria Vânisse Borges de Matos
Graduanda do Curso Superior de Tecnologia em Saneamento Ambiental – IFCE - Sobral.
Vicente Lopes de Frota
Gerente da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos – COGERH na Bacias Acaraú e Coreaú.


RESUMO
A gestão das águas deve envolver o acompanhamento dos fatores quantitativos e
qualitativos. O presente trabalho utilizou o índice de qualidade de água (IQA) estabelecido pela
National Sanitation Foundation e adaptado pela Companhia de Tecnologia de Saneamento
Ambiental de São Paulo – CETESB. Foi aplicado no açude Ayres de Souza, inserido na bacia
hidrográfica do Rio Acaraú, localizado entre as coordenadas geográficas 3°47’39’’ S e 40°30’10’’
W, distrito de Jaibaras, zona rural do município de Sobral – CE. A pesquisa objetivou apresentar o
uso do IQA – CETESB como ferramenta útil na gestão dos conflitos gerados pelos múltiplos usos
no citado manancial. O monitoramento da qualidade da água foi realizado no período de outubro de
2008 a abril de 2009, as amostras foram coletadas com freqüência mensal em duas estações
amostrais situadas em pontos estratégicos, a primeira localizada a montante do cultivo de peixes
(03°47.0”S e 040°030’08”W) e a segunda localizada a jusante do sistema de captação de água para
o abastecimento do distrito (03°46’43.6’’ S e 040°30’03.0’’ W). Foram analisadas nove variáveis
(pH, oxigênio dissolvido e seu percentual de saturação, Demanda Bioquímica de Oxigênio, fósforo
total, nitrogênio total, temperatura, turbidez, sólidos totais e coliformes fecais). Para cada dia de
coleta, nas duas estações amostrais, foi calculado um índice de qualidade da água (IQA), através do
método produtório (IQA
M
). Através do IQA
M
foi possível classificar a água do açude Ayres de
Sousa como boa e ótima. Em contrapartida, a análise individual de parte das variáveis envolvidas,
notadamente o fósforo total e o oxigênio dissolvido, indicaram um sério avanço das pressões
antrópicas, com marcante indício de forte processo de eutrofização do ambiente aquático. Estes
dados indicam a necessidade de modificações no gerenciamento integrado do manancial, com
ênfase no controle do uso do solo no entorno e da atividade de piscicultura realizada em seu
interior.
Palavras-chaves: Índice de Qualidade da Água; gestão dos recursos hídricos; múltiplos usos.

INTRODUÇÃO

A diversificação dos usos múltiplos dos recursos hídricos depende evidentemente do grau
de concentração da população humana, do estágio de desenvolvimento econômico regional e da
intensidade das atividades nas bacias hidrográficas. Aproximadamente 90% dos recursos hídricos
do Brasil são utilizados para produção agrícola, produção industrial e consumo humano (TUCCI et
al, 2000; in TUNDISI, 2003). A gestão dessas demandas envolve o controle quantitativo e
qualitativo dos mananciais hídricos.
A preocupação com a qualidade da água e não somente com sua quantidade, inseriu entre as
ferramentas de gestão dos recursos hídricos, os índices indicadores ambientais como ferramenta
para responder de forma inteligível à população sobre a água utilizada em seus múltiplos usos,
principalmente o voltado à potabilidade.
O açude Ayres de Souza pereniza o rio Acaraú a montante do município de Sobral,
principal pólo urbano do norte do Ceará. O citado manancial além do uso para abastecimento
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
154
humano, tem importância vital na economia local, com suas águas sendo utilizadas para a
sustentação do incipiente processo de industrialização local, atividades agrícolas e com bastante
ênfase a piscicultura de água doce.
Como forma de acompanhar a variabilidade qualitativa das águas do citado manancial,
aplicou-se ao mesmo uma das técnicas mais usuais para a avaliação da qualidade da água o IQA -
Índice de Qualidade da Água. O índice adotado na pesquisa foi originalmente desenvolvido pela
National Sanitation Foundation Institution, dos Estados Unidos e posteriormente adaptado pela
Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo-CETESB às
condições climáticas tropicais. Consiste em uma média harmônica ponderada de um conjunto de
indicadores específicos, tendo como determinante principal a utilização da água para seu uso mais
restritivo, o abastecimento público.
A adaptação trazida pela CETESB ao IQA resumiu sua base de cálculo a nove variáveis,
consideradas as mais importantes na qualificação da água a ser utilizada para abastecimento
humano e para cada uma definiu-se um peso significativo da sua importância na determinação do
índice. Na tabela 1 estão sumarizados os componentes do IQA, bem como seus respectivos pesos. A
interpretação dos resultados é feita com base na tabela tabela 2 que indica a qualidade da água em
função da faixa representativa do IQA. Há duas possibilidades para o cálculo do IQA, para este
trabalho foi realizado o método produtório resuntante da multiplicação dos resultados das diferentes
análises e que em trabalhos anteriores mostrou resultados mais rigorosos que o do método
somatório.
Tabela 1: Variáveis e Pesos para cálculo do IQA.
N° Variáveis Unidade Peso (w)
01 Coliformes Fecais NMP/100 mL 0,15
02 pH - 0,12
03 DBO
5
mg/L 0,10
04 Nitrogênio Total mg/L 0,10
05 Fósforo Total mg/L 0,10
06 Temperatura °C 0,10
07 Turbidez UNT 0,08
08 Sólidos Totais mg/L 0,08
09 Oxigênio Dissolvido % saturação 0,17
Fonte: CETESB, 2009
Tabela 02 - Classificação da qualidade das águas segundo o IQA – CETESB.
Índice – IQA Qualidade
80-100 Ótima
52-79 Boa
37-51 Aceitável
20-36 Ruim
0-19 Péssima
Fonte: CETESB, 2009
A retirada de amostras da água foi realizada em dois pontos escolhidos de acordo com os
usos preponderantes realizados na represa: retirada para abastecimento de água e piscicultura. A
figura 1 a seguir apresenta uma foto de satélite com a indicação das duas estações amostrais.









Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
155



















Figura 1 – Distribuição dos pontos amostrais no interior do açude Ayres de Souza
Fonte: Adaptado do programa livre google earth.

A estação amostral 1 foi localizada à montante do cultivo de piscicultura, com referência
geográfica: 03°47.0”S e 040°030’08”W. A figura 2 a seguir apresenta o referido ponto.


Figura 2 – Ponto amostral 1 nas proximidades da atividade de piscicultura - Foto dos autores.

A estação amostral 2, apresentada na figura 3 a seguir, foi localizada à jusante do sistema
de captação de água para o abastecimento da Companhia de Água e Esgoto do Ceará - CAGECE,
com referência geográfica: 03°46’43.6’’ S e 040°30’03.0’’ W.
Estação
Amostral 2
Estação
Amostral 1
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
156

Figura 3 – Ponto amostral 2 nas proximidades do ponto de captação de águas

As coletas de águas ocorreram no período de 22/10/2008 a 22/04/2009, com freqüência
mensal e eram realizadas no período matutino no intervalo de 7h 30mim às 8h 30mim e processadas
em triplicata. Durante as coletas foram realizadas medidas in situ de temperatura da água. As
demais análises foram realizadas nos Laboratórios do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Ceará – IFCE - Campus Sobral e também no laboratório do Serviço Autônomo de
Água e Esgoto - SAAE, de Sobral. A tabela 3 a seguir apresenta as metodologias empregadas nas
análises.
Tabela 3: Variáveis analisadas e suas respectivas metodologias e referências
Análise Metodologia Fonte
Temperatura (ºC) - Temp Termômetro de Mercúrio APHA, 1998
pH Potenciométrico APHA, 1998
Demanda Bioquímica de Oxigênio (mg/L) - T Respirometria BODfast
Oxigênio Dissolvido (% sat) - OD Winkler Modificado APHA, 1998
Nitrogênio Total (mg/L) - NT Nesslerização Direta APHA, 1998
Fósforo Total (mg/L) - FT Espectofotométrico APHA, 1998
Sólidos Totais e frações (mg/L) - ST Gravimétrico APHA, 1998
Turbidez (UT) - Turb Nefelométrico APHA, 1998
Escherichia coli (NMP/100 mL) - EC Membrana Filtrante APHA, 1998

Os resultados médios, máximos e mínimos obtidos para as variáveis nas duas estações
amostrais são apresentadas na tabela 4 a seguir.
Tabela 4 - Valores médio, máximo, mínimo das variáveis analisadas nas estações amostrais 1 e 2.
Estação Amostral 1 Estação Amostral 2 Análises
Méd. Máx. Mín. DP Méd. Máx. Mín. DP
EC 7 28 0 11,313 8 28 4 8,225
pH 7,6 7,8 7,4 0,1733 7,5 7,7 7,3 0,1202
DBO 3,6 7 2 2,8867 4 8 2 3,464
NT 0,12 0,13 0,12 0,0075 0,11 0,15 0,03 0,0386
FT 0,5 0,8 0,1 0,2053 0,3 0,8 0,1 0,3212
Temp 25,8 29,3 23 1,8804 25 28 24 1,5584
ST 114 140 94 18,551 78 112 30 28,632
Turb 6,2 9,3 3,7 2,356 6 8,3 3,8 1,498
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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OD (%sat.) 58,6 76,9 39,8 - 47,7 55,7 41,1 -

A tradução dos resultados obtidos a partir do IQA
M
é apresentada graficamente nas figuras
4 e 5 a seguir.

Figura 4 - Variação temporal da qualidade da água (IQA
M
) na estação amostral 1.


Figura 5 - Variação temporal da qualidade da água (IQA
M
) na estação amostral 2.

A partir da análise dos resultados do IQA calculado nas sete campanhas realizadas,permite-
se inferir que o pior índice encontrado foi 63,4 (janeiro de 2009 na estação amostral 2) e melhor
índice 82,1 (dezembro de 2008 na estação amostral 1). Apesar dessa variação, conforme pode ser
observado nas figuras 4 e 5, acima, a qualidade das águas do açude Ayres de Souza foram
classificadas entre boa e ótima, resultado também encontrado por LOPES et al (2007) aplicando a
metodologia do IQA em diversos corpos aquáticos na bacia do Rio Acaraú. No entanto, ressalta-se
que a estação amostral 2, ponto nas proximidades do núcleo urbano do distrito de Jaibaras e locado
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
158
a jusante de onde há captação para abastecimento humano, apresenta-se mais próximo das margens,
sofrendo maior impacto das ações antrópicas do entorno.
É importante destacar que os maiores valores para o índice foram identificados na estação
amostral que fica localizada na parte central do açude, concluindo-se que apesar da intensa
atividade de piscicultura, esta ainda não foi suficiente para alterar a qualidade da água em níveis
que comprometam os usos mais exigentes.
Algumas das variáveis qualitativas analisadas no decorrer da pesquisa apresentaram
valores bastante dispersos conforme observação dos desvios padrões, entre elas a DBO foi a que
apresentou valor máximo de 8mg/L na estação amostral 2, indicando a presença de um aporte
considerável de material orgânico biodegradável, proveniente do mau uso que é feito das margens
do manancial em estudo.
A maioria dos valores de oxigênio dissolvido esteve abaixo da média estabelecida para
consumo humano e para a prática da piscicultura, apresentando valor mínimo de 3,0 mg/L. Este
valor se torna preocupante, principalmente quando comparado aos dados obtidos para a mesma
variável na pesquisa de RIPARDO (2004), ano em que ocorreu uma grande mortandade de peixes
no açude Ayres de Souza.
O fósforo total também se apresentou fora do padrão de potabilidade e com concentrações
que indicam que o quadro de enriquecimento nutrivo do reservatório se encontra evoluindo para a
hipereutrofização, um fenômeno que, a longo prazo, pode trazer sérias complicações ao uso das
águas para abastecimento humano.
Os resultados obtidos indicam haver uma disparidade entre a classificação da qualidade da
água apontada para o IQA
M
e os valores de algumas das variáveis, principalmente aquelas
relacionadas ao processo de eutrofização, caracterizado por ESTEVES (1998) como o
“envelhecimento” do corpo aquático.
Há a necessidade de aprofundamento dos estudos de modo a estabelecer uma massa de
dados que permita configurar com maior exatidão as evidências mostradas na presente pesquisa.
No entanto, já é marcante a importância da utilização do índice IQA como ferramenta na gestão
dos recursos hídricos, ocorre que o citado índice deve ser avaliado em conjunto com as análises
específicas, inclusive comparado com outros índices como os relacionados ao estado trófico do
corpo aquático.
Uma recomendação importante é a de que a captação de água para abastecimento do
distrito de Jaibaras, ocorra em outro ponto do açude, no qual o impacto das atividades do entorno
seja menor.
Recomenda-se o combate mais incisivo ao lançamento de despejos domésticos e uma
coleta mais eficaz dos resíduos sólidos gerados pelo núcleo urbano de Jaibaras. Outro ponto que
deve ser avaliado é a possibilidade de um maior controle das agências ambientais e gestora dos
recursos hídricos quanto à quantidade de ração lançada aos peixes. Esta preocupação tem base nas
elevadas concentrações de fósforo total observadas nos pontos de análise, tendo como principal
fonte observada a atividade de piscicultura local.


REFERÊNCIAS

APHA; AWWA; WPC. Standard Methods for the Examination of Water and Wasterwater.
American Public Health Association. 20ª Ed. – Washington D.C. 1998.

CETESB, Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado
deSãoPaulo,2009.Disponívelem:<http://www.cetesb.sp.gov.br/Agua/rios/indice_iap_iqa.asp>.
Acesso em 04 Abril. 2009.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
159
CONAMA, Resolução n° 357, de 17 de março 2005. Dispõe sobre a classificação dos corpos de
água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelecido as condições e
padrões de lançamentos de efluentes, e da outras providências. Ministério do Meio Ambiente,
2005.

DUARTE, M. A. C.; CEBALLOS, B. S. O.; FREITAS, E. B. P.; MELO, H. N. S.; KÖNIG, A.
Utilização dos Índices do Estado Trófico (IET) e de Qualidade da Água (IQA) na
Caracterização Limnológica e Sanitária das Lagoas de Bonfim, Extremóz e Jiqui/RN - Análise
Preliminar. In: 19 Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, 1997, Foz do
Iguaçu-PR. 19 Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, 1997.

ESTEVES, F. A. Fundamentos de Limnologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Interciência, 1998.

LOPES, F. B. ; AQUINO, D. N ; ANDRADE, E. M. ; PALÁCIO, H. A. Q . Enquadramento das
águas do Rio Acaraú, Ceará, pelo uso de um índice de qualidade de água. In: 24º Congresso
Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, 2007, Belo Horizonte - MG. Saneamento
Ambiental: Compromisso ou Discurso?, 2007. p. 1-7.

RIPARDO, MARIA JANIELLE COSTA. Avaliação preliminar da influencia da piscicultura
intensiva na qualidade da água da represa Ayres de Sousa - Sobral-Ceará. Sobral, 2004.
Monografia. (Graduação em Tecnologia em Saneamento Ambiental). Instituto de Ensino
Tecnológico – Centec unidade Sobral.

TUNDISI, J. G. Água no Século XXI: Enfrentando a Escassez. São Carlos: RIMA, 2003.























Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
160





ANÁLISE DA QUALIDADE DA ÁGUA DO RIACHO MACEIÓ EM VARJOTA
FORTALEZA-CE: IMPLICAÇÕES NA GESTÃO AMBIENTAL E FORMAS DE USO.

Judária Augusta Maia
Universidade Estadual do Ceará, judariamaia@yahoo.com.br
João Capistrano de Abreu Neto
Universidade Estadual do Ceará, joaoabreuneto@gmail.com
Mariana Monteiro Navarro
Universidade Estadual do Ceará, marimn@gmail.com


RESUMO
As atividades humanas têm causado grandes impactos nos sistemas aquáticos, sobretudo pela
remoção da mata ciliar, visando especulação imobiliária. Além disso, o descarte de efluentes
industriais e domésticos causa significativas mudanças no sistema natural, através da entrada de
evidentes quantidades de substâncias tóxicas ao corpo hídrico, alterando as características químicas
da água, bem como suas características biológicas. Os rios, riachos e lagoas urbanas enfrentam
constantes problemas devido à falta de ações de preservação ambiental e preocupação com
problemas futuros, tais como doenças, alagamentos, soterramentos, dentre outros. O Riacho Maceió
nos últimos anos vem sendo alvo de diversas agressões ambientais, por descartes efluentes
domésticos, deposição de lixo, tornando suas margens acúmulos de lixões, as comunidades
ribeirinhas que por sua vez se alocam nas margens, ocasionando o assoreamento do riacho. O
presente trabalho pretende realizar uma breve avaliação ambiental e caracterização química da água
do Riacho Maceió, mais precisamente próximo a sua foz, localizada na Praia do Mucuripe. No
intuito de produzir, a partir dos resultados realizados, indicadores de desempenho ambiental para
avaliação da eficiência de medidas mitigadoras, para recuperação e preservação dos corpos hídricos
urbanos.

Palavras chaves: Riacho Maceió, Indicadores de Poluição e Agressões Ambientais.

INTRODUÇÃO
De acordo com o quadro atual que o planeta, relacionando às mudanças climáticas, escassez
de água, desmatamentos, dentre outros. A degradação ambiental tem sido de tal ordem que vem
comprometendo a possibilidade das futuras gerações virem a usufruir desses recursos, e ameaçando
o próprio presente provocando desastres ecológicos, contribuindo para o agravamento das
condições sociais e levando mesmo a possibilidade de escassez de algumas matérias primas (Merico
et al., 1997).
A urbanização e o crescimento acelerado das cidades tornam os sistemas de saneamento
muitas vezes ineficazes e, portanto responsáveis por inúmeras alterações nos meios físicos e
biológicos. Tais alterações vêm atingindo de forma cada vez mais intensiva os corpos hídricos,
como as lagoas, rios e riachos, localizados nos centros urbanos. Vale salientar que essas alterações
também interferem diretamente na qualidade de vida das comunidades que vivem em suas
proximidades, tornando-as alvo de doenças respiratórias e de pele, dentre outros problemas, a
exemplo dos deslizamentos de terras devido a construções indevidas e de risco.
As atividades humanas têm causado grandes impactos nos sistemas aquáticos, sobretudo pela
remoção da mata ciliar, visando especulação imobiliária. Além disso, o descarte de efluentes
industriais e domésticos causa significativas mudanças no sistema natural, através da entrada de
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
161
evidentes quantidades de substâncias tóxicas ao corpo hídrico, alterando as características físico-
químicas da água, bem como suas características biológicas.
Os rios, riachos e lagoas urbanas enfrentam constantes problemas devido à falta de ações de
preservação ambiental e preocupação com problemas futuros, tais como doenças, alagamentos,
soterramentos, dentre outros. O Riacho Maceió está diretamente inserido dentro desse contexto,
tendo em vista que nos últimos anos vêm sendo alvo de diversas agressões ambientais, tanto pelo
descarte de efluentes domésticos, deposição de lixo, tornando suas margens verdadeiros acúmulos
de lixões, como também devido as comunidades ribeirinhas que por sua vez se alocam nessas áreas
por falta de melhores condições de moradia, desmatando as margens, ocasionando
consequentemente o assoreamento do riacho.
O presente trabalho pretende realizar uma breve avaliação ambiental e caracterização química
da água do Riacho Maceió, mais precisamente próximo a sua foz, localizada na Praia do Mucuripe.
Procedeu-se uma análise por meio de estudo, observação, monitoramento e identificação dos
parâmetros ambientais, objetivando diagnosticar o comportamento do ecossistema, definindo
indicadores de degradação ambiental da qualidade das águas do Riacho Maceió. Assim como as
principais fontes de poluição, através de analises da qualidade da água em pontos estratégicos de
monitoramento, no intuito de produzir, a partir dos resultados realizados, indicadores de
desempenho ambiental para avaliação da eficiência de medidas mitigadoras, para recuperação e
preservação dos corpos hídricos urbanos.

CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA

GEOMORFOLOGIA
O contexto geomorfológico da área em estudo pode ser considerado por agrupar dois
principais domínios os glacis pré-litorâneos e planície litorânea. Segundo Ribeiro (2001) essa
compartimentação geomorfológica está associada diretamente à litologia dos fatores eustático e
morfodinâmicos, podendo essas feições se configurar como área de recarga e de descarga. De
acordo com Brandão et.al (1995), os Glacis Pré-litorâneos são formados por sedimentos
miopleistocênico pertencentes a Formação Barreiras que distribuem-se com uma largura variável,
formando relevos tabulares, dissecados por vales alongados e de fundo chato, evidenciado por
baixas e suaves cotas altimétricas em direção ao mar.
A Planície Litorânea está comprometida pelos campos de dunas, planícies fluviais, flúvio-
marinhas e praias. As dunas são formadas por cordões contínuos e paralelos a linha de costa, sendo,
algumas vezes, interrompidos pela interferência de planícies aluviais e flúvio-marinhas. De acordo
com Silva (2000), as planícies flúvio-marinhas são formadas pela ação conjunta de processos
continentais e marinhos, com a predominância de sedimentos argilosos deposicionados, ricos em
matéria orgânica, caracterizada por vegetação de manguezal.
É considerada região estuarina onde se encontra a mistura das águas salgadas do mar com as
águas doces dos rios e riachos, fortemente dinamizados pela a ação das marés. Este é o caso do
Riacho Maceió, predominante de grande vulnerabilidade e instabilidade ambiental, ocasionando
diversos impactos, dentre eles a descaracterização das margens, flora e fauna local, bem como o
comprometimento da balneabilidade no litoral devido o descarte de efluentes, os quais são levados
pelo curso do riacho em direção ao mar.

LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO
O Complexo Hídrico Papicú\Maceió, encontra-se delimitado ao sul e oeste de Fortaleza,
respectivamente ao norte com o Oceano Atlântico. O referido sistema é parte integrante da Bacia da
Vertente Marítima, formado pela Lagoa do Papicu, riachos Papicu e Maceió com sua foz localizada
na Praia do Mucuripe, ocupando uma área de 6km² drenando o bairro do Papicu, Varjota, Mucuripe,
e Vicente Pinzon. Vale salientar que a área em recorte apresenta dados da sua foz, já na praia do
Mucuripe (Figura01).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
162






















Figura 01. Localização dos Pontos de Monitoramento. Fonte: Maia,2009.


METODOLOGIA
O referente trabalho partiu de um levantamento bibliográfico da área em estudo em
bibliotecas universitárias, tais como da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Laboratório de
Estudos do Mar (Labomar - UFC), no intuito de enriquecer o contexto histório-temporal das
principais formas de uso do Riacho Maceió. As amostras de água foram coletadas através de Van
Dorn e acondicionadas em garrafas esterilizadas e apropriados para coleta, as quais logo foram
refrigeradas para diminuição do metabolismo.
As amostras de água foram encaminhadas e realizadas em duplicata no Laboratório de
Geologia e Geomorfologia Costeira e Oceânica da Universidade Estadual do Ceará – UECE. Os
procedimentos de análises corresponderão às orientações da APHA (1998) e da Resolução
CONAMA N° 357/2005.

ATIVIDADES EM CAMPO
Os pontos de monitoramento foram estabelecidos e georrefenciados, através do uso de um
GPS (Sistema de Posicionamento Global) (Tabela 01), onde foram demarcadas quatro seções de
monitoramento, as quais foram estabelecidas de forma estratégica de acordo com a maior
concentração de fontes poluidoras associadas aos principais usos locais.
Tabela 1. Localização Geográfica dos Pontos.








Pontos Latitude Longitude
1 9588576 0557341
2 9588480 0557321
3 9588376 0557503
4 9588309 0557529
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
163
Foram feitos registros fotográficos e realizada coleta de 6 amostras de água no meio e nas
margens do riacho distribuídas em pontos demarcados no período chuvoso, onde foram coletadas
com o uso de uma garrafa do tipo Van Dorn. Todas as amostras foram etiquetadas com a descrição
de cada secção e condicionadas em garrafas próprias para tal experimento e levadas ao laboratório
de análise.

EXPERIMENTOS EM LABORATÓRIO
As amostras foram levadas ao laboratório, as quais foram analisadas através de um kit de
reagentes para as análises de qualidade de água abordando os seguintes parâmetros químicos:
amônia e nitrito os quais mostram os índices e grau de poluição das fontes de efluentes em
determinado corpo hídrico. Tal processamento foi realizado no Laboratório de Geologia e
Geomorfologia Costeira e Oceânica (LGCO-UECE). As analises avaliaram os indicadores de
poluição de acordo com a presença de componentes químicos no referente corpo hídrico.

QUALIDADE DA ÁGUA ASSOCIADA ÀS FORMAS DE USOS

FORMAS DE USOS
As características hidroquímicas e geoquímicas dos ambientes flúvio-estuarinos e praiais são
influenciados pelo tipo de ocupação e escoamento da bacia de drenagem. O levantamento das fontes
de poluição nos rios, riachos, lagoas, estuários e praias se dão pelo gerenciamento e controle da
qualidade das águas.No estudo de caso do Riacho Maceió utiliza-se esse principio.

No Trecho em estudo foram identificadas diversas atividades de uso por comunidades
ribeirinhas locais (Figura 02 e03). As quais vivem as margens do riacho sujeitas à enchentes,
desabamentos de suas casas, fazendo uso do riacho para deposito de lixos e descartes de fluentes,
tendo em vista que boa parte das casas não possuem saneamento básico.















Figura 02 e 03. Casas às margens do riacho e acumulo de lixos domésticos

Também é evidenciado o problema relacionado a doenças causadas pelo acúmulo de
verdadeiros lixões e claras evidências do descaso de investimentos por parte da prefeitura da cidade
no que tange a coleta seletiva de lixo. Com isso vem causando um aumento de problemas de saúde
principalmente em crianças que moram nas localidades. Por falta de saneamento básico, as galerias
pluviais acabam fazendo o papel de valas de escoamento de esgotos domésticos (Figura 04 e 05).




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
164
















Figura 04 e 05. Galerias Fluviais transportando efluentes domésticos

Dentre outras atividades, a pesqueira se enquadra na mais antiga, contudo devido ao seu
manuseio arcaico, desenvolve papel significativo na contribuição da poluição pelos restos dos
animais pescados no mar, pois os mesmo são tratados em local e jogados à praia sem nenhum
tratamento prévio. As barracas turísticas também poluem, pois algumas não possuem sistema de
esgoto regulamentado e outras até mesmo usam as galerias fluviais para descartes dos mesmos,
contaminando assim o lençol freático e comprometendo a balneabilidade local (Figura 06 e 07).












Figura 06 e 07. Atividades pesqueiras e barracas turísticas.

O descarte de efluentes acarretado pela vazão do riacho deságua a céu aberto da Praia do
Mucuripe, considerado fator degradante em relação à qualidade de água, tanto no regime fluvial,
como nas águas das praiais adjacentes, tendo em vista a intensa dinâmica costeira (Figura 08 e 09).











Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Figura 08 e 09. Galerias Fluviais e foz do Riacho Maceió

PARÂMETROS QUÍMICOS
Foram monitoradas 03 seções onde se obteve os resultados químicos de amostras de água
coletadas. Os parâmetros químicos da água referente à amônia, nitrito e cloro foram observados no
período chuvoso. Tais parâmetros são indicadores de poluição em corpos hídricos, onde na seção 01
a amônia variou de 0,75 mg\L a 1,5 mg\L, o nitrito variou de 0,20 mg\L a 1,0 mg\L, enquanto que
o cloro 0 mg\L. Já na seção 02 a amônia permaneceu a 1,5 mg\L, o nitrito 0 mg\L, enquanto que o
cloro permaneceu 0 mg\L. Na seção 03 a amônia predominou a 1,5 mg\L, o nitrito 1 mg\L, já o
cloro continuou 0 mg\L.
Esses resultados evidenciam a demanda constante de efluentes domésticos no complexo
hídrico do Riacho Maceió, principalmente por comunidades que vivem às suas margens. Os
resultados mostram que os valores obtidos pelas análises químicas da água estão em desacordo com
o limite da presença de tais componentes químicos estabelecidos pela Resolução 357\CONAMA
(Gráfico 01).















Gráfico 01. Amostragem de parâmetros químicos da água.




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com os parâmetros químicos analisados, a qualidade da água do Riacho Maceió
apresentou-se com o uso inadequado para os parâmetros de qualidade que envolve os recursos
hídricos. Tendo em vista que os mesmos vêm sofrendo agressões diversas, desde o despejo de
efluentes domésticos, industriais, até o despejo de efluentes provenientes de barracas turísticas a
beira mar e da atividade pesqueira que se desenvolve há muito tempo no litoral fortalezense.

Podemos então concluir que o Riacho Maceió apresenta um quadro bastante preocupante e
comprometedor não somente em relação ao contexto ambiental, mesmo em período chuvoso, onde
as concentrações de componentes químicos tornam se mais dispersos.

Assim faz se necessária a implantação de um programa de recuperação do Riacho Maceió,
bem como da implantação de um sistema de saneamento eficaz. Também se torna necessário o
controle de lançamento de efluentes das barracas turísticas e pesqueiras, de certa forma em que as
condições estabelecidas se enquadrem dentro dos parâmetros exigidos pela resolução
357\CONAMA. Sugerindo uma elaboração de um instrumento de planejamento que permita
estabelecer a qualidade do complexo hídrico de forma a atender seus usos específicos. No intuito de
fazer a utilização dos recursos hídricos de tal forma, a qual não venha a comprometer o meio
ambiente, para o uso do mesmo em gerações futuras.

REFERÊNCIAS
APHA (American Public Health Association).(1989). Standard methods for the examination of
water and waste water. 17. ed. New York: Ed. APHA, 1989. 685p.

BRANDÃO, R. L. Diagnóstico Geoambiental e os Principais Problemas de Ocupação do Meio
Físico da Região Metropolitana de Fortaleza. Fortaleza: Companhia de Pesquisa de Recursos
Minerais, 1995.88p. (Projeto SINFOR).

MERICO. et al. Avaliação do Desenvolvimento Econômico através de Indicadores Ambientais:
Proposta Metodológica para uma experiência piloto em Blumenau- SC. In: Revista Brasileira
de Ecologia (1), p. 152-155,1997.

RIBEIRO, A. C. A. Análise e Planejamento Ambiental do Sistema Hidrográfico
Papicu/Maceió, Fortaleza-CE, 2001. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento e Meio
Ambiente), Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2001.

RIBEIRO, J. A. P. Características Hidrogeológicas e Hidroquímicas da Faixa Costeira Leste
da Região Metropolitana de Fortaleza-Ceará, 2001. Dissertação (Mestrado em Geologia),
Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2001.

SILVA, J. G. – Hidrogeologia da Faixa Costeira de Aquiraz-CE, 2000. 90p. Dissertação
(Mestrado em Geociências e Meio Ambiente) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas,
Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2000.





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
167



ANÁLISE DOS INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE DOS PERÍMETROS
IRRIGADOS DAS BACIAS DO BAIXO ACARAÚ E CURU

Kelly Nascimento Leite
Mestranda em Engenharia Agrícola/Irrigação e Drenagem, do Curso de Pós Graduação da
Universidade Federal do Ceará. email: kellyleite14@hotmail.com
Rochele Sheila Vasconcelos
rochelesheila17@hotmail.com.
Luiz de França Camboim Neto
rayyar19@hotmail.com.
Raimundo Nonato Farias Monteiro
Doutor em Engenharia Agrícola, camboim@ufc.br.



RESUMO
O trabalho objetivou analisar os indicadores de desempenho de auto- sustentabilidade, levando em
conta seu potencial de produção, nos perímetros irrigados localizado na bacia do Baixo Acaraú
(perímetro Baixo Acaraú) e Curu (Curu-Pentecoste, Curu-Paraípaba). Realizou-se o levantamento
de informações disponiveis sobre os perímetros estudados, reunindo-se as bibliografias existentes e
materiais com dados estatisticos disponíveis. Avaliou-se seu desempenho, através da análise dos
valores dos indicadores para o ano de 2008, apartir de dados fornecidos pelo site DNOCS, e pela
associação dos distritos de irrigação dos perímetros. Para o perímetro Curu-Paraípaba encontrou-se
indicador de auto-sustentabilidade de 1,0. O desejável é que este valor seja igual ou o mais próximo
possível de 1.0, representando assim, que o perímetro está conseguindo arrecadar valores
suficientes para cobertura total dos custos de operação e manutenção, o perímetro de irrigação.
Curu-Pentecoste, comporta-se da mesma forma. Devendo-se o indicador de 1,05, o perímetro teria
condições de pagar as despesas com operação e manutenção a partir do valor de K
2
arrecadado, os
sistema organizacional do perímetro, observado na literatura, mostra que a cobrança é feita de
forma coerente, ou seja, por volume de água utilizado no lote. Concuindo-se que os três perímetros
possui capacidade de auto-sustentabilidade, noentanto há problemas com inadiplência da tarifa do
K
2 .
O perímetro Baixo Acaraú apresenta-se com o indicador de custo de um hectare em produção
mais elevado que os demais. Os três perímetros de irrigação apresenta-se com o indicador referente
a taxa de ocupação médiano.

Palavras-chave: Indicadores de auto-sustentabilidade. Tarifa K
2
. Perímetros irrigado.

INTRODUÇÃO

A decisão de interligar as bacias hidrográficas do Ceará, foi de fundamental importância
para o desenvolvimento do mesmo, o estado conta com um dos perímetros irrigados mais modernos
do país , que é o Baixo Acaraú, estando mais avançado que os outros estados em relação a gestão
dos recursos hídricos.
Segundo a Companhia de Gerenciamento dos Recursos Hídricos, o Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal investirá até 2010 R$ 482 milhões em cinco
perímetros de irrigação do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), órgão
vinculado ao ministério da integração nacional, sendo três no Ceará e dois no Piauí, na expansão da
área irrigada em mais 25 mil hectares. Os projetos irrigados do Ceará que têm segunda etapa em
obras até 2010 são o Tabuleiros de Russas, com adição de 3.600 hectares, beneficiado com
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
168
investimento de R$ 84 milhões; o Baixo Acaraú, que terá expansão de 4.140 hectares na qual são
investidos R$ 102 milhões e o Araras-Norte, com ampliação de 1.619 hectares e com investimento
inicial de R$ 14,1 milhões.
Hoje a responsabilidade pela administração e condução dos perímetros é do ministério
da integração nacional (MI), vinculado a Codevasf – Companhia de Desenvolvimento do Vale do
São Francisco e Parnaíba e ao DNOCS.
Os perímetros irrigados implantados pelo DNOCS desde 1970 não atingiram sua
autonomia, necessitando de recursos financeiros da União, para despesas de gestão e manutenção. A
idéia do ministério da integração nacional é que esses perímetros tornem-se auto suficientes na
perspectiva de desenvolvimento sustentável, nas dimensões sociais econômicas e ambientais.
Tornado-se assim, cada vez mais, necessário a observação dos orçamentos operacionais
governamentais. por mais de 40 anos têm-se comprovado a incapacidade dos dirigentes para cobrar
dos usuários dos perímetros de irrigação as despesas efetuadas com obras, manutenção de canais e
adução de água, necessitando-se de estudos relacionados a indicadores de desempenho do
perímetro, assim como alocação de recursos para cobrança de tarifas, que contribuam com a
independência do perímetro.
Diante essa problematica este trabalho teve como objetivo analisar os indicadores de
desempenho de auto-sustentabilidade, levando-se em conta o potencial de produção dos perímetros
irrigados, localizado na bacia do Baixo Acaraú (perímetro Baixo Acaraú) e Curu (Curu-Pentecoste,
Curu-Paraípaba).

OS PERIMETROS IRRIGADOS NO ESTADO DO CEARÁ

Os distritos de irrigação, no estado do Ceará, foram criados com o objetivo de produzir
alimentos e matérias primas, gerar empregos em atividades rurais e urbano-rurais, aumentar e
melhorar a distribuição de renda e criar condições para a conquista da cidadania. (LIMA;
MIRANDA, 2000)
Os indicadores do DNOCS mostram que o crescimento da economia entre 1975 e 2000
dos municipios contemplados com os perímetros irrigados teve um aumento de 6,43% a.a e a taxa
de alfabetização da população com mais de 15 anos em 2000 foi de 79,5%. (PERÍMETROS....,
2008).
A irrigação agrícola, têm-se mostrado importante seja em função da necessidade de
produzir alimentos, seja para a preservação do solo e recursos hídricos. Além disto, tem
influênciado no uso da mão-de-obra, estimulando a substituição do trabalho temporário pelo
permanente. (PINO, 2003).

PERÍMETRO IRRIGADO BAIXO ACARAÚ.

Segundo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (2009), o projeto Baixo
Acaraú tem sua localização privilegiada, sendo um ponto estratégico para a exportação de produtos,
encontra-se assente em terras dos municípios de Marco, Bela Cruz e Acaraú, na região noroeste do
estado do Ceará, no trecho final da bacia do rio Acaraú, em um percurso total de Fortaleza/Acaraú
de aproximadamente de 220 km.
O perímetro irrigado é considerado um modelo de referência. Localizado na região
norte do estado, o Baixo Acaraú, iniciado em 2001, está dotado de moderna infra-estrutura,
idealizada, primordialmente, para produção de melão, tendo em vista o mercado internacional.
Problemas prematuros na produção e comercialização evidenciaram a histórica perpetuação das
dependências dos recursos estatais. Como estratégia para promover a emancipação dos produtores,
o DNOCS, em 2004, celebrou uma parceria com a Embrapa para implantação de um projeto de
transferência de tecnologia, visando à emancipação dos irrigantes. A substantiva alteração nas
relações sociais e de trabalho. (VASCONCELOS, 2008).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
169


PERÍMETROS IRRIGADOS VALE DO CURU.

As operações trabalhistas na Bacia do Curu, no que se refere à gestão de recursos
hídricos, refletem as ações tomadas em nível de Nordeste para o combate as secas, sendo essa
região visada a nível estadual. Ações tomadas pelo governo federal remontam ao ano de 1877, ano
em que a região foi assolada por uma grande seca. (STUDART, [199-]).
Até a metade do atual século, a política de combate às secas contemplava,
principalmente, a formação de uma infra-estrutura hidráulica e a implantação de postos agrícolas
como indutores da irrigação na região. (MAGALHÃES; GLANTZ, 1992).
A irrigação foi introduzida no Vale do Curu nos anos 60, quando o DNOCS implantou
um posto agrícola, com o propósito de transmitir experiência e incentivos para a agricultura irrigada
da região. Na mesma propriedade, pouco tempo depois, o DNOCS construiu o projeto de irrigação
Curu-Pentecoste para irrigantes particulares. (STUDART, [199-]).

INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE:

Segundo Brito e Bos (1997), os indicadores tendem a avaliar o desempenho dos
perímetros de maneira detalhada, entretanto, o nível de detalhes dentro do processo de desempenho
depende do propósito da avaliação.
O desempenho de um sistema engloba as atividades de aquisição dos insumos e a
transformação dos mesmos em produtos finais e intermediários e os efeitos destas atividades no
próprio sistema e no ambiente externo (SMALL; SVENDSEN, 1992). A gestão da água gera custos
de funcionamento (energia, salários, manutenção de rotina) e investimento (renovação periódica dos
equipamentos), que a gerência do distrito tem de assumir para garantir a perenidade de sua
atividade. Para fazê-lo, a gerência implanta um sistema de tarifa de água, que assumirá formas
variáveis conforme sua estrutura, sua base de cálculo e seu montante. (MONTGINOUL; RIEU,
1996).
Contudo os indicadores de desempenho para perímetros irrigados, segundo Oliveira et
al. (2004), devem ser divididos em (a) indicadores de desempenho do serviço de operação e
manutenção, (b) indicadores de desempenho da atividade agrícola, (c) indicadores sócio-
econômicos.

SISTEMAS DE CALCULO PARA INDICADORES TÉCNICOS.

Brasil (2002), o Tribunal de Contas da União-TCU utiliza para monitoramento dos
perímetros irrigado, indicadores que são utilizados como ferramenta de avaliação sistemática,
constituindo-se como subsidio para determinar as deficiências de programação e de execução.
Costa et al. (2007), define as variáveis utilizadas no Tribunal de contas como:

a) Auto-sustentabilidade
Definido pela relação entre custo de operação e Manutenção (O &M) necessário para
manter o perímetro irrigado, e os recursos financeiros arrecadados da tarifas de água (K).
arrecadado K
O CustoM
IAS
2
&
=
Onde:
IAS: indicador de auto-sustentabilidade (R$.R$
-1
)
Custo O&M: custo anual de operação e manutenção do perímetro (R$);
K
2
arrecadado: recursos arrecadados no perímetro no ano (R$).
A tendência de desenvolvimento sustentável implica no aproveitamento racional dos
recursos naturais com base na capacidade de suporte do ambiente. Porém, agregados aos problemas
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
170
ambientais, existem os desafios sócio-econômicos, geralmente caracterizados pela
operacionalização dos produtores agrícolas. (MELO 1999; LUIZ; SILVEIRA, 2000).

b) Custo de um Hectare em Produção
Definido por Costa et al. (2007), como sendo o valor necessário para operar e manter
um hectare cultivado em produção, a despesa anual realizada para aduzir a água necessária para
irrigação normal do hectare cultivado, nas condições do perímetro irrigado, sendo expresso pela
relação entre o custo de O&M pela área cultivada:
ada áreacultiv
O CustoM
ICHP
&
=
ICHP: indicador do custo de um hectare em produção (R$ ha
-1
)
Custo O&M: custo anual de O & M do Perímetro Irrigado (R$)
Área cultivada: área anual cultivada no perímetro (ha).

c) Percentual da Produção necessária a O & M.
È importante avaliar vários indicadores a fim de comparar sistemas tarifários que difere
tanto no equilíbrio entre as partes fixa e variável quanto em sua estrutura, no caso das tarifas
opcionais. (MAGALHÃES; GLANTZ, 1992).
VBP
M O
IVPBNM
&
=
Onde:
IVPNM: percentual do valor bruto da produção necessária à operação e manutenção do perímetro
(R$ R$ ).
VBP: valor bruto de toda produção do perímetro no ano (R$).
Custo O&M: custo anual de O & M do perímetro (R$).

d) Geração de Receita por Hectare (IGCH)
Um índice ou indicador é uma ferramenta que permite a obtenção de informações sobre
uma dada realidade, sendo como principal característica o poder de sintetizar um conjunto
complexo de informações, retendo apenas o significado essencial dos aspectos analisados.
(SILVEIRA; ANDRADE, 2002; FOSSATTI; FREITAS, 2004).
AC
VBP
IGCH =
IGCH: índice de geração de receita por hectare (R$ ha).
VBP: valor bruto de toda produção do perímetro no ano (R$).
AC: área colhida (ha).
e) Produtividade da Água (IPA)
ua volumedeág
VBP
IPA =
IPA: índice de produtividade da água (R$ m
-1
)
VBP: valor bruto de toda produção do perímetro no ano (R$).

f) Coeficiente de Utilização da Terra (CUT)
Este indicador tem como definição a ocupação anual da terra com culturas no espaço e
no tempo, podendo apresentar variação de acordo com o ciclo da cultura explorada, expresso pela
relação.
daentregue areairriga
da areairriga
CUT =
em que:
CUT: Coeficiente de Utilização da Terra (ha ha
-1
)
Área irrigada: Área irrigada no perímetro (ha).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
171
Área entregue ao irrigante: Área total do perímetro que foi entregue ao irrigante (ha).
Essa variável indica a importância de determinar a destinação de novos investimentos,
incrementando o retorno por real investido.

METODOLOGIA

Realizou-se levantamento de informações disponiveis sobre os perímetros Baixo
Acaraú, Curu-Pentecoste, Curu-Paraípaba. Nessa fase, reuniram-se as bibliografias existentes e
materiais com dados estatisticos disponíveis, assim como informações fornecidas pelo DNOCS,
propiciando uma visão global das condições gestacionais dos perímetros de irrigação. Em seguida
procedeu-se com a segunda etapa do trabalho, avaliando-se o desempenho dos perímetros irrigados,
sendo realizado através da análise dos valores dos indicadores para o ano de 2008, apartir de dados
existentes.
O processamento dos dados obtidos na pesquisa foram realizados com o auxilio de uma
planilha confeccionada no programa computacional Excel, foram avaliados três indicadores, (a)
auto-sustentabilidade, (b) custo de um hectare em produção, (c) coeficiente de utilização da terra -
CUT. onde utilizou-se como referência os calculos utilizados pelo Tribunal de contas da união.
(BRASIL, 2002), conforme descrito no item 2.4 desse trabalho.
Foram adquiridos os dados referentes ao ano de 2008 dos perímetros Baixo Acaraú
Curu-Paraípaba e Curu-Pentecoste, através dos sites dos distritos de irrigação e em trabalhos
realizados no local, sendo importante ressaltar que os indicadores obtidos neste trabalho foram
estimados potencialmente, ou seja sem levar em conta a inadiplência da tarifa de K
2
. A Tabela 1
mostra os dados de produção dos perímetros irrigados adiquiridos na literatura, nos site e através do
relatório anual de operação e manutenção do perímetros irrigados fornecido pelo Departamento
Nacional de Obras Contra as Secas-DNOCS.

Tabela 1: Dados de produção do Perímetro de Irrigação para o ano de 2008
Area
cultivada
(ha)
Área
colhida
(ha)
Area
entregue
(ha)
Area
utilizada
(ha)
Dias
trab(ano)
Custo anual
de O&M
(R$)
K
2
arrecada
do(R$)
Curu-
pentecoste
538
1
520 743,0
2
569

150 156.217
5

148.576
5

Curu-
Paraipaba
2.794,00
1
2.634 3.279,00
2
2.864,00
3
150 777.073
5

775.976
5
Baixo
Acaraú
790
1
700 1.388,22
2
598
4
150 1.264.742

1.471.326
5

1
(SOUZA, 2008),
2
(PERÍMETROS...., 2009),
3
(ASSOCIAÇÃO... 2009),
4
(BAIXO ACARAÚ, 2009),
5
(DEPARTAMENTO NACIONAL DE OBRAS CONTRA AS SECAS, 2008).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela 2 descreve os indicadores de sustentabilidade dos perímetros estudados.
Tabela 2: Indicadores dos Perímetros de Irrigação.
Baixo Acaraú Curu-Pentecoste Curu-Paraípaba
Auto-sustentabilidade 0,85 1,05 1,00
Custo de um Hectare em Produção(R$) 1.600,93 290,37 278,12
Coeficiente de Utilização da Terra CUT 0,724 0,873 0,583

A idéia de tornar o perímetro auto-sutentável não é um perspectiva isolada, e vem sendo
discultida a tempos. Conforme descreve Companhia de Gerenciamento de Recursos Hídricos
(2002), o objetivo de ações conjuntas para despertar os irrigantes, os órgãos públicos e toda a
sociedade para a necessidade urgente de implementar conjunto de ações que possam assegurar o
processo de sustentabilidade do perímetro irrigado Curu-Paraipaba.
De acordo com o indicador de auto-sustentabilidade calculado 1,0. Este indicador dá
indícios da capacidade do perímetro irrigado em gerar recursos necessários à sua auto-gestão.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
172
Segundo Costa et al. (2008), o desejável é que este valor seja igual ou o mais próximo possível de
1,0, representando assim, que o perímetro está conseguindo arrecadar valores suficientes para
cobertura total dos custos de O & M, ficando a inadimplência desta tarifa próxima de zero. Neste
caso, o nível de organização da comunidade apresenta-se elevado e a auto-sustentabilidade estaria
possivelmente garantida (BRASIL, 2002). A pesquisa mostra que se não houvesse inadimplência da
tarifa de K
2
, o distrito teria potencial de emancipação o que não é possível no momento devido ao
elevado índice de inadimplência.
Para o perímetro do Baixo Acaraú, o mesmo teria condições de pagar as despesas com
operação e manutenção a partir do valor de K
2
arrecadado, os sistema organizacional do perímetro,
observado na literatura, mostra que a cobrança é feita de forma coerente, ou seja, por volume de
água utilizado no lote. Conforme Costa et al. (2008), uma situação em que não ocorra
inadimplência na taxa mensal de água K
2
a gerência do distrito pode, a partir deste indicador,
ajustar as despesas de administração, operação e manutenção ao seu nível de gasto médio, buscando
uma alternativa racional de conduzir e controlar as despesas extras, ou alternativamente em
consonância com os produtores e promover um incremento médio na taxa mensal de água K
2,

tomando como base o resultado deste indicador.
O perímetro de irrigação Curu-Pentecoste, comporta-se da mesma forma do Curu-
Paraípaba, apresentando um valor de indicador de sustentabilidade de 1,05, sendo ainda a melhor
forma a de cobrança do K
2
por água consumida, conforme cobrada no perímetro Baixo Acaraú. A
gestão da água gera custos de funcionamento (energia, salários, manutenção de rotina) e
investimento (renovação periódica dos equipamentos), que a gerência do distrito tem de assumir
para garantir a perenidade de sua atividade. Para fazê-lo, a gerência implanta um sistema de tarifa
de água, que assumirá formas variáveis conforme sua estrutura, sua base de cálculo e seu montante
(MONTGINOUL; RIEU, 1996). Essa dimensão econômica impõe uma segunda questão estratégica,
fonte freqüente de tensões entre o gerente e seus clientes agricultores (DINAR; SUBRAMANIAN,
1997).
Os demais indicadores mostra que o maior custo de um hectare em produção é no
perímetro irrigado Baixo Acaraú, atribuindo-se ao fato do perímetro proporcionar uma alta
tecnologia para produção e pós-colheita. Conforme descrito por Pimentel (2007), no Baixo Acaraú
existem quatro “packing house” estando em plena atividade destinando-se a seleção e embalagem
do fruto produzido.
Para o indicador de utilização da terra os três apresentaram um índice mediano sendo
ele quanto mais próximo de 1 melhor, o coeficiente de utilização da terra constitui uma variável de
avaliação da assistência técnica e extensão rural (BRASIL, 2002), refletindo a consciência do uso
racional e intensivo da área irrigada como veículo de desenvolvimento e gerador de receita,
considerando que o valor arrecadado é proporcional à área efetivamente em operação. Contudo,
valores elevados de CUT têm demonstrado criar um ambiente promissor junto às organizações de
produtores que atuam nos perímetros. (MANTOVANI et al., 2006).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concuiu-se que os três perímetros possui capacidade de auto-sustentabilidade, no
entanto há problemas com inadiplência da tarifa do K
2 .
O perímetro Baixo Acaraú apresenta-se com
o indicador de custo de um hectare em produção mais elevado que os demais. Os três perímetros de
irrigação apresenta-se com o indicador referente a taxa de ocupação mediano.







Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
173
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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
175

DIAGNÓSTICO DAS CONDIÇÕES AMBIENTAIS DO RIO PARNAÍBA

Laryssa Sheydder de Oliveira Lopes
UFPI
sheydder@yahoo.com.br
Livânia Norberta de Oliveira
UFPI
livaniageo@hotmail.com


RESUMO

O Parnaíba é um dos mais importantes rios da região nordeste, contribuindo principalmente para o
desenvolvimento dos estados do Piauí e Maranhão. No entanto, o processo de ocupação
desordenada, tanto no campo quanto nos aglomerados urbanos, o desmatamento, o extrativismo
mineral e as atividades agropecuárias têm causado a degradação ambiental e o esgotamento deste
recurso natural. O presente trabalho tem por objetivo detectar os problemas enfrentados pelo rio
Parnaíba e apresentar algumas ações governamentais como meios de reverter a situação de
degradação em que ele se encontra atualmente. O tema foi escolhido após algumas atividades de
campo realizadas às nascentes do rio Parnaíba, à Barragem de Boa Esperança, ao município de
Gilbués e ao Delta do Parnaíba, onde foram observados, além da degradação ambiental, o potencial
e a importância que o rio tem para a região. Coletados os dados em campo, fotos e mapas, foi
também realizado um levantamento bibliográfico. De posse desses instrumentos, os dados foram
organizados e analisados com informações suficientes para subsidiar a realização desta pesquisa.
Espera-se com este trabalho chamar a atenção para a necessidade que se tem de se adotar um
planejamento ambiental com urgência à este recurso tão valioso.

Palavras-Chave: Bacia hidrográfica. Degradação. Planejamento.


INTRODUÇÃO

O Parnaiba, segundo maior rio do Nordeste, nasce na Chapada das Mangabeiras e percorre
1.485 km até desembocar no Oceano Atlântico, em forma de delta. Em todo o seu percurso,
constitui o divisor territorial e geográfico entre os estados do Piauí e Maranhão sendo um
importante recurso natural para a população destes dois estados porém sofre sérios problemas de
degradação ambiental.
O presente trabalho tem por objetivo detectar os problemas enfrentados pelo rio Parnaíba e
apresentar algumas ações governamentais como meios de reverter a situação de degradação em que
ele se encontra atualmente.
Inicialmente faz-se uma caracterização da área de estudo desde sua nascente até a foz. São
apresentadas sua área, os estados que o compõe e seus respectivos municípios, suas sub-bacias e sua
importância econômica, principalmente quanto à geração de energia na Usina Presidente Castelo
Branco, instalada na Barragem de Boa Esperança.
Foram diagnosticados os principais problemas que atingem ao rio Parnaíba em virtude da
ocupação desordenada e da falta de adoção de técnicas de manejo nas atividades antrópicas
realizadas ao longo do seu curso. Dentre as atividades que causam impactos negativos ao rio estão:
a pecuária extensiva, a agricultura mecanizada, a exploração de diamantes, o extrativismo
madeireiro e a deposição de resíduos sólidos e esgotos sem tratamento em suas águas.
Apesar de existirem leis que protegem os recursos naturais e programas que visam a
conservação, preservação e a sustentabilidade do rio Parnaíba, ainda é necessário uma maior
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
176
conscientização tanto do poder público quanto da sociedade dos efeitos que as atividades antrópicas
causam ao rio e do quanto é importante manejá-lo de forma ambientalmente correta.
O tema foi escolhido após algumas atividades de campo realizadas às nascentes do rio
Parnaíba, à Barragem de Boa Esperança, ao município de Gilbués e ao Delta do Parnaíba, onde
foram observados, além da degradação ambiental, o potencial e a importância que o rio tem para a
região. Coletados os dados em campo, fotos e mapas, foi também realizado um levantamento
bibliográfico. De posse desses instrumentos, os dados foram organizados e analisados com
informações suficientes para subsidiar a realização desta pesquisa. Espera-se com este trabalho
chamar a atenção para a necessidade que se tem de se adotar um planejamento ambiental com
urgência à este recurso tão valioso para o nordeste.

CARACTERÍSTICAS GERAIS DO RIO PARNAÍBA

O Rio Parnaíba e seus afluentes constituem a Bacia Hidrográfica do Parnaíba (figura 01), a
segunda mais importante do Nordeste, possuindo 330.020 km
2
, dos quais, 75% correspondem ao
estado do Piauí, 19% correspondem ao estado do Maranhão e 6% ao estado do Ceará. Dentre todas
as suas subbacias, as que mais se destacam são: a do rio das Balsas, no Maranhão; e no Piauí, as dos
rios Uruçuí Preto, Gurguéia, Longá, Poti e Canindé. (CEPRO, 2003)



Figura 01: Mapa da Bacia Hidrográfica do Parnaíba
Fonte: codevasf.gov.br (2009)


A Bacia do Parnaíba é formada por 278 municípios dos estados do Ceará, Maranhão e Piauí.
No estado do Ceará, 20 municípios compõem a bacia, ocupando uma área de 23.126,92 km
2
; no
Maranhão, 36 municípios compõem a bacia, ocupando uma área de 88.173,57 km
2
; e o Piauí
abrange a maior área, um total de 251.129,5 km
2
, abrangendo todos os seus municípios, com
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
177
exceção do município Cajueiro da Praia, correspondendo a um total de 222 municípios (BRASIL,
2006).
O rio Parnaíba nasce nos contrafortes da Chapada das Mangabeiras, numa altitude de 709 m,
ainda com o nome Riacho Água Quente e só recebe o nome de Parnaíba quando se encontra com a
foz do rio Uruçuí Vermelho. Há uma divergência quanto à esta informação, alguns autores afirmam
que o rio só recebe o nome de Parnaíba quando há o encontro do riacho Água Quente coma foz do
rio Curriola (figura 02). Com um percurso de 1.485 km, o Parnaíba desemboca no Oceano Atlântico
formando cinco bocas: Tutóia, Caju, Carrapato, Canários e Igaraçu (ARAÚJO, 2006).


Figura 02: Encontro do Riacho Água Quente com a foz do rio Curriola
Fonte: Lopes, 2007.


Divisor natural entre os estados do Piauí e Maranhão, o Parnaíba possui um regime
semelhante ao do Rio São Francisco. É um rio de curso perene, recebendo em sua margem
esquerda, afluentes perenes e pela margem direita, afluentes temporários, em sua maioria. A
perecidade do rio, independente de dois terços de sua bacia hidrográfica estar contida no polígono
das secas e sofrerem problemas de disponibilidade hídrica, devem-se aos seus tributários do alto
curso e da sub-bacia do rio das Balsas, na porção maranhense. Entre os meses de janeiro a março
ocorrem as cheias do rio e cada vez mais frequentes, as inundações (ARAÚJO, 2006).
O Rio Parnaíba é dividido em: Alto, Médio e Baixo Parnaíba:
Alto Parnaíba: vai de suas nascentes até a foz do Gurguéia; com 784 km, é nesse trecho que fica a
Barragem de Boa Esperança. Seus principais afluentes pelo Maranhão são: Balsas, Parnaibinha,
Medonho, Pedra Furada, Curimatá, Pedra de Fogo e mais 52 riachos; pelo Piauí: Uruçuí Preto,
Gurguéia, Taguara, Riosinho, Volta Cataporas, Prata e mais 92 riachos. Os municípios piauienses
banhados pelo alto curso são: Gilbués, Santa Filomena, Ribeiro Gonçalves, Uruçuí, Antônio
Almeida, Guadalupe e Jerumenha (RODRIGUES, 2004).
Médio Parnaíba: com 312 km, estende-se da confluência do Gurguéia ao Poti. Seus afluentes mais
importantes são, pelo Maranhão: Rio Riachão e 7 riachos; pelo Piauí: Itaueira, Canindé, Mulato,
Poti e mais 25 riachos. Os municípios piauienses banhados neste trecho são: Floriano, Amarante,
Palmeiras e Teresina (RODRIGUES, 2004).
Baixo Parnaíba: estende-se do Poti até a foz no Oceano Atlãntico. Este trecho tem 389 km. Pelo
Maranhão, os principais afluentes são riachinhos em numero de oito; pelo Piauí, são: o rio Raiz,
Piranha, Pirangi e mais 10 riachos. Os municípios piauienses banhados pelo baixo Parnaíba são:
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
178
Teresina, Miguel Alves, Porto, Matias Olímpio, Luzilândia, Joaquim Pires, Burití dos Lopes,
Parnaíba (RODRIGUES, 2004).
No período chuvoso, a navegação é viável em praticamente todo o seu curso e apenas em
pequenas embarcações. A possibilidade de navegação até há tempos atrás, facilitou o povoamento e
as comunicações.
O rio Parnaíba contribui para o progresso do Estado do Piauí e um grande exemplo é a
geração de energia pela Usina Presidente Castelo Branco, instalada na Barragem de Boa Esperança.
A construção da Barragem de Boa Esperança no município de Guadalupe possibilitou a navegação,
em corrente livre, à cerca de 350 km à montante da barragem, entre as cidades de Uruçuí e Santa
Filomena e nos 669 km à jusante da barragem (MARTINS, 2003).

A DEGRADAÇÃO AMBIENTAL
Os problemas enfrentados pelo rio não são recentes. Desde o início da colonização do Piauí,
o modelo de desenvolvimento adotado foi a criação extensiva de gado, que durante muitos anos,
destruiu o solo por causa do pisoteio e compactação, propiciando o transporte de excessivo volume
de terra pelas águas das chuvas até o leito do rio (MARTINS, 2003).
Atualmente os rebanhos que mais vêm assumindo importância no estado do Piauí são os
ovinos, caprinos e bovinos; os dois primeiros servem principalmente como uma poupança para as
adversidades enfrentadas pelo pequeno produtor rural, enquanto o bovino é mais voltado para o
corte. As pecuárias bovina, caprina e ovina, embora sejam de grande interesse econômico para o
estado, passam por limitações decorrentes principalmente do sistema de criação extensivo e da
fragilidade das políticas governamentais de apoio (MARTINS, 2003).
Grande parte dos bancos de areia, facilmente avistados no período de seca, tem origem
nestas atividades, hoje reforçadas pela agricultura desprovida de técnicas conservacionistas. A
devastação das matas, principalmente nas margens do rio para a prática da agricultura, torna o solo
vulnerável à ação das águas de enchente (BRASIL, 2006).
No Maranhão e Piauí, principalmente na região dos cerrados, tem sido alvo da expansão da
cultura mecanizada da soja e outras culturas vinculadas ao seu processo de expansão, como o arroz
e o milho. Apesar de movimentar a economia, a agricultura mecanizada e em larga escala, quando
não dotadas de técnicas de manejo, geram sérios problemas ambientais, principalmente quando se
trata de perca da biodiversidade, assoreamento de rios e riachos e a erosão dos solos (ARAÚJO,
2006).

Verifica-se um abundante transporte de material carregado pelo rio, em
conseqüência da intensa erosão que vem se processando em suas
margens, relacionada ao seu regime torrencial e à própria natureza
arenosa do material que se encontra nos terrenos sob ação da corrente. A
ocupação predatória de sãs margens vem acelerando o processo de
desmatamento e assoreamento, formando um cenário preocupante quanto
à sobrevivência do rio (BRASIL, 2006).

Outro fator que gerou impactos negativos ao rio Parnaíba foi o garimpo de diamantes no
município de Gilbués (figura 03). São cerca de 958 km
2
de área no estado do Piauí que apresentam
um acelerado processo de desertificação, apresentando alterações na paisagem, com percas de
vegetação e de solos, assoreamento da drenagem, e isto se deve, em partes, aos efeitos da
garimpagem de diamante, da ocupação desordenada e predatória do território, além das causas
naturais (ARAÚJO, 2006).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
179

Figura 03: Leito seco de rio no município de Gilbués
Fonte: Lopes, 2007

Outras atividades relacionadas ao extrativismo vegetal e que são fontes de arrecadação e de
renda no estado são as relacionadas à carnaúba e ao babaçu, ambas com um papel social, de
conservação e preservação ambiental; e o extrativismo madeireiro, onde a exploração de matas
nativas para a produção de carvão e lenha, muitas vezes ocorre de forma ilegal, sem manejo
adequado, ocasionando grandes impactos ambientais (MARTINS, 2006).
Mas não só as atividades rurais geraram impactos negativos. Em Teresina, principalmente
nos trechos de mais urbanizados, o grande inchaço populacional, provocado pelo desenvolvimento
econômico da capital, acarretou problemas graves ao rio, principalmente em relação ao despejo de
esgoto e lixo em suas águas e nas suas margens (PREFEITURA MUNICIPAL DE TERESINA,
2002).
Nos maiores aglomerados urbanos como Teresina, Parnaíba, Picos, Floriano e Timon, a
disposição e o tratamento dado aos resíduos sólidos são críticos, acarretando problemas como a
poluição dos solos e das águas subterrâneas e superficiais por meio do chorume. O tratamento dado
ao esgoto, na maioria dos municípios, não existe, ou passa apenas por uma desinfecção por
cloração. Em Teresina, apenas 13% do esgoto é tratado, o restante é jogado livremente no rio
Parnaíba (PREFEITURA MUNICIPAL DE TERESINA, 1993).

INTERVENÇÕES GOVERNAMENTAIS PARA A PRESERVAÇÃO DO RIO PARNAÍBA

Em termos gerais, a degradação do rio Parnaíba não tem um espaço localizado e limites definidos;
ela ocorre ao longo de todo o rio, desde sua nascente até a foz. Melhorar as condições não
representaria grandes dispêndios de dinheiro e tempos se fossem adotadas medidas preventivas e
ambientalmente corretas (MORAES; VELOSO FILHO, 2005). É necessária a ação do poder
público no sentido de proteger determinadas áreas consideradas importantes, e para isto existem
leis, que embora muitas vezes não sejam cumpridas, podem garantir a preservação e conservação
das margens dos rios, assegurando às gerações futuras, os benefícios que suas águas propiciam. Um
bom exemplo é a Lei de Recursos Hídricos do Estado do Piauí n° 5.165 de 17 de agosto de 2000,
que define em seu capítulo II, seus objetivos:
Art. 2 – São objetivos da Política Estadual de Recursos Hídricos:
I. Assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de
água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos;
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
180
II. Propiciar a utilização racional e integrada dos recursos hídricos, com
vistas ao desenvolvimento sustentável;
III. Buscar a prevenção e a defesa contra eventos hidrológicos críticos de
origem natural ou decorrentes do uso inadequado dos recursos naturais;

Ainda na mesma Lei, em seu artigo 3, dispõe as diretrizes gerais que constituem a ação de
implementação da Política Estadual de Recursos Hídricos:

I. A gestão sistemática dos recursos hídricos, sem dissociação dos
aspectos de quantidade e qualidade;
II. A adequação da gestão de recursos hídricos às diversidades físicas,
bióticas, demográficas, econômicas, sociais e culturais das diversas
regiões do Estado;
III. A integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental;
IV. A articulação do planejamento municipal, estadual, regional e
nacional;
V.A articulação da gestão de recursos hídricos com o uso do solo;


Em janeiro de 2000, com a criação da Lei 9.954, a Companhia de Desenvolvimento dos
Vales do São Francisco e Parnaíba – CODEVASF passou a atuar também no vale do Parnaíba,
passando a atuar em colaboração com os demais órgãos públicos federais, municipais e estaduais
(BRASIL, 2006).
Em setembro de 2003, ocorreu na cidade de Teresina, o seminário para a elaboração do
Plano de Ação para o Desenvolvimento Integrado do Vale do Parnaíba, o PLANAP. Este projeto
visa o desenvolvimento de ações integradas para o desenvolvimento integrado da bacia do Parnaíba.
Consta de um inventário dos diagnósticos e estudos técnicos já realizados na bacia por diversas
instituições e utiliza em sua formulação uma metodologia de planejamento ambiental e participativo
(BRASIL, 2006).
Apesar da legislação brasileira sobre a proteção do meio ambiente ser rígida para os
chamados crimes ambientais, ela vem sendo descumprida em toda a bacia do rio Parnaíba.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O rio Parnaíba, apesar de ser um recurso natural de grande importância para o nordeste, em
especial para os estados do Piauí e Maranhão, vem sofrendo sérias agressões ambientais desde sua
nascente, na Chapada das Mangabeiras, até sua foz, no Delta do Parnaíba.
Foram observados formas de uso e ocupação sem nenhuma técnica de manejo adequada. A
agricultura mecanizada; a pecuária extensiva; o extrativismo, seja de metais metálicos ou não-
metálicos e madeireiro; e o despejo de resíduos sólidos e esgoto ao longo do rio, causaram impactos
negativos ao meio ambiente como o desmatamento, queimadas, compactação do solo, erosão,
desertificação, perca da biodiversidade, assoreamento do leito dos rios, contaminação edáfica e
hídrica, dentre outros.
Faz-se necessário estudos mais detalhados, o cumprimento das leis de proteção aos recursos
naturais e práticas de educação ambiental para que tomem medidas de proteção mais eficientes ao
rio Parnaíba, devendo estas serem adotadas pela população, garantindo o uso sustentável daquele
espaço.





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
181

REFERENCIAS

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CODEVASF. Plano de Ação para o Desenvolvimento Integrado da Bacia do Parnaíba,
PLANAP: relatório final: Plano de Ações Estratégicas da Bacia do Parnaíba. Brasília: TDA
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rev. Teresina: CEPRO, 2003.

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MARTINS, A de S. Piauí: evolução, realidade e desenvolvimento. 3°ed. Teresina: CEPRO, 2003.

MORAES, A. M. de. VELOSO FILHO, F. A. A gestão ambiental no município de Teresina.
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PREFEITURA MUNICIPAL DE TERESINA. Perfil de Teresina: aspectos e características.
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RODRIGUES, J. L. P. Geografia e História do Piauí: estudos regionais. Teresina: Halley, 2004.














Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
182

A IMPORTÂNCIA DO GERENCIAMENTO DOS RECURSOS HÍDRICOS NO
MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO DA FRONTEIRA – PIAUÍ

Livânia Norberta de Oliveira
Universidade Federal do Piauí - UFPI
livaniageo@hotmail.com

Laryssa Sheydder de Oliveira Lopes
Universidade Federal do Piauí – UFPI
sheydder@yahoo.com.br



RESUMO
O município de São João da Fronteira está localizado na microrregião do Litoral Piauiense
compreendendo uma área de aproximadamente 1.086 km2 distanciando 226 km de Teresina. Com
população de 5.008 habitantes e densidade demográfica de 4,50 hab/km2. Em termos de domínio
hidrogeológico, predominam as rochas da Bacia Sedimentar do Parnaíba, que possuem porosidade
primária e boa permeabilidade, proporcionando boas condições de armazenamento e fornecimento
de água. A precipitação pluviométrica média anual é entre 800 a 1.600 mm, com cerca de 5 a 6
meses chuvosos e período restante do ano de estação seca. Embora este município se encontre na
região semi-árida, apresenta condições favoráveis a ocorrência de água subterrânea, com um
potencial considerado de médio a forte num estado onde a maioria dos municípios sofre com altas
temperaturas e escassez de água. Daí a gestão integrada desses recursos hídricos se tornarem tarefa
indispensável ao desenvolvimento sustentável local, devendo seguir um modelo que reconheça a
necessidade de descentralizar o processo decisório, e não somente as diversidades e peculiaridades
físicas, sociais, econômicas, culturais e políticas, tanto regionais como estaduais e municipais. A
contribuição deste trabalho reside no aspecto de elaborar um estudo sobre o gerenciamento dos
recursos hídricos existentes em São João da Fronteira, além identificar as condições geoambientais
deste, enfatizando os aspectos e aproveitamento, uso e manejo desses recursos em favorecimento da
população. Usando-se como metodologia, o levantamento bibliográfico e documental referente ao
potencial hídrico fluvial e subterrâneo do município, bem como uma análise do gerenciamento de
abastecimento d’água para sua população pelo poder publico, apoiada em pesquisas feitas aos
órgãos competentes a este abastecimento, além do levantamento de dados estatísticos
socioeconômicos.

Palavras-chave: Semiárido. Águas subterrâneas. Desenvolvimento sustentável.

INTRODUÇÃO

O Semi-Árido brasileiro constitui-se em uma das sub-regiões que mais dependem de uma
intervenção estatal eficiente, voltada para a eliminação dos efeitos desestruturadores decorrentes das
adversidades climáticas a que está submetido. De acordo com o (PDSA) Plano de Desenvolvimento
para o Semi-árido (2005), dificuldades para a criação de condições que assegurem seu
desenvolvimento durável são persistentes. A coexistência de relações sociais de produção arcaicas e
o avanço tecnológico restrito mantêm a desigualdade, a pobreza e a exclusão social de boa parte da
população desta região.
O gerenciamento da rede de drenagem de uma Bacia Hidrográfica nesse contexto, torna-se
imperativo para o enfrentamento do problema a articulação dos diversos programas de combate à
pobreza, de segurança alimentar e de combate à fome, de segurança hídrica, saúde e educação com
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
183
os diversos programas de desenvolvimento regional, na implementação de ações que conduzam a
sustentabilidade das atividades econômicas e à inserção produtiva da população local.
Considerando os estados do Nordeste pertencentes ao semi-árido, apenas o Piauí está em
situação confortável (considerando um Estado rico em ofertas hídricas, pelo fato de fornecer
volumes superiores a 5.000 m3/hab/ano) fato este advindo de riqueza significativa pertencentes a
água em seu subsolo e da existência de um grande rio perene – o Parnaíba, que faz fronteira com o
Estado do Maranhão. Porém este conforto não é socializado com quem mais precisa da água como
fonte de sobrevivência (ÁGUA: FONTE DE VIDA, 2005).
No entanto é preciso entender que no paradigma da globalização econômica-financeira,
como fator competitivo dos mercados, as águas subterrâneas representam um insumo mais
importante do que o petróleo, na medida em que a água é um recurso insubstituível, devendo,
portanto ser bem gerenciado para evitar desperdícios (REBOUÇAS, 2002).

IMPORTÂNCIA DO GERENCIAMENTO DOS RECURSOS HÍDRICOS NO PIAUÍ

Para um desenvolvimento socioeconômico em níveis local e regional aconteça, é necessário
que sejam preservados os recursos naturais e hídricos tanto em quantidade como em qualidade. Para
que assim as futuras gerações tenham as mesmas necessidades fundamentais que as nossas para a
sua manutenção, embora provavelmente venha desenvolver técnicas mais adequadas para o manejo
e a utilização dos recursos hídricos.
Estima-se que 70% do volume da água do subsolo nordestino estejam localizados na
bacia sedimentar do Piauí/Maranhão (REBOUÇAS, 1997). Com isso a água subterrânea está se
tornando cada vez mais importante no gerenciamento e desenvolvimento de recursos hídricos, em
especial nas regiões áridas e semi-áridas, devendo seu gerenciamento ser integrado ao
gerenciamento da água de superfície das bacias hidrográficas. Devendo-se também dar ênfase aos
programas baseados no uso da terra que utilizem as melhores práticas de manejo, e custo mais
efetivo, para proteger a qualidade da água subterrânea nas áreas geológicas vulneráveis, em áreas de
bombeamento e nas áreas de recarga de água.
As águas subterrâneas representam 97% da água doce liquida do planeta, o que por si só
mostraria seu valor, desempenhando um papel fundamental no abastecimento público e privado do
mundo. No Piauí ainda apresenta níveis de atendimento muito inferiores à média brasileira, mesmo
dispondo de um rico potencial hídrico. Sendo este recurso de grande valor econômico, pois o uso
agrícola na irrigação de pequenas e grandes propriedades tem aumentado, permitindo a
regularização no suprimento de água em épocas de seca (TEXEIRA, 2003).
Entre as regiões brasileiras o Semi-Árido é a região que mais requer atenção do Governo
Federal em razão de suas características naturais peculiares e seus fatores históricos que fragilizam
sua economia. Em vista disso, acredita-se que políticas públicas voltadas para o estímulo ao
potencial econômico endógeno da região e ao fortalecimento da estrutura social em bases sub-
regionais compõem um caminho viável para a promoção do desenvolvimento econômico e social
desta.
Através de um estudo a ser realizado espera-se chegar a dados que nos leve a demonstrar a
realidade do gerenciamento do aproveitamento hídrico feito no Estado do Piauí e principalmente no
que concerne ao município de São João da Fronteira, onde mesmo pertencendo à região semi-árida,
se encontra a principio um rico potencial hídrico, tornando-se necessário um estudo sobre o
aproveitamento desses recursos hídricos para se buscar um meio de fortalecimento e
restruturamento da base econômica e social para a população local.
Pois possibilitando a otimização dos investimentos do poder público em intervenções
hídricos com critérios definidos para a captação de água para consumo final, inclusive
abastecimento público, e para qualquer outro uso que implica alteração no regime, na quantidade e
na qualidade dos corpos d'água, beneficia o gerenciamento tanto para acompanhar a quantidade e a
qualidade das águas, que a população utiliza e tira sua sobrevivência.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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ASPÉCTOS SOCIOAMBIENTAIS DE SÃO JOÃO DA FRONTEIRA

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2007), o município de São
João da Fronteira (Figura 01) possui uma população de aproximadamente 5.008 habitantes e uma
densidade demográfica de 4,50 hab/km2, onde 66,99% das pessoas estão na zona rural. Com
relação à educação, 55,40% da população acima de 10 anos de idade é alfabetizada. Nesse cenário,
a má distribuição de água no município constitui um forte entrave ao desenvolvimento
socioeconômico e, até mesmo, à subsistência da população mais carente.





Figura 01: Mapa de localização do município de São João da Fronteira
Fonte: MME, 2004.

Este município pertence a Bacia do rio Longá (Figura 02) que está totalmente contida no
domínio da Bacia Sedimentar do Parnaíba, a qual constitui a principal bacia sedimentar da região
nordeste brasileira. A Bacia do Longá possui uma área da ordem de 22.634 km2, e corresponde a
9,02% da área total do Estado do Piauí, contendo 41 municípios. Os principais cursos d’água que
drenam este município são: rios Lontra e Jaburu, que correm na Chapada da Ibiapaba e vão
desaguar no rio Piracuruca, pertencente também a esta Bacia (MME, 2004).










]]
Figura 02: Mapa das Bacias do Poti e Longá.
Fonte: ANA, 2008.




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
185

Também no município de São João da Fronteira podem-se distinguir dois domínios
hidrogeológicos distintos: rochas sedimentares e os depósitos colúvio-eluviais. Sendo que as rochas
sedimentares pertencem à Bacia do Parnaíba são representadas pela Formação Serra Grande e
Formação Pimenteiras. A Formação Serra Grande é composta por arenitos e conglomerados que
normalmente apresentam um potencial médio, no que diz respeito à ocorrência de água subterrânea,
tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo. Essa formação ocorre em cerca de 70% da
área do município (MME, 2004).
Diante deste contexto de potencial dos recursos hídricos vale ressaltar a falta de acesso a
água que a população do estado do Piauí vem sofrendo sem, contudo poder reaproveitar as riquezas
existentes dentro de nosso próprio estado e especificamente no município em análise. Conforme um
levantamento realizado pelo MME (2004) no município, registrou a presença de 101 pontos d’água,
sendo todos poços tubulares para abastecimento da população local. Porém quanto à propriedade do
terreno onde se encontram, os poços foram classificados em: 37 públicos, quando estão em terrenos
de servidão pública e; 64 particulares, quando estão em propriedades privadas. A situação dessas
obras, levando-se em conta seu caráter público ou particular, é apresentada em números absolutos
no quadro 1, onde percebemos um exemplo de mau gerenciamento do poder público quanto a esse
recurso de abastecimento a população, pois os poços desativados e não instalados devem entrar em
programas de recuperação e instalação de equipamentos de bombeamento, visando o aumento da
oferta de água à região.

Quadro 1 - Situação atual dos poços cadastrados com relação a finalidade de uso da água
Natureza do
poço
Abandonado Em Operação Não Instalado Paralisado

Público 0 16 16 5
Particular 1 39 15 9
Total 1 55 31 14
Fonte: MME, 2004

Sabendo-se da dificuldade de abastecimento de água que a maioria dos municípios do
Estado do Piauí passa durante o ano, aonde se chega a alguns há passarem até dez meses sem chuva.
O presente trabalho vem abordar a abundância das águas subterrâneas neste estado principalmente
no que concerne ao município de São João da Fronteira, de um potencial hídrico considerado de
médio a forte (ARAUJO, 2006), enfatizando a importância do gerenciamento desse potencial para
minimizar os problemas de acesso, uso e manejo pela população local como condição para seu
desenvolvimento.
Propondo-se assim a redução dos problemas decorrentes das condições climáticas no
município de São João da Fronteira, bem como, estimular investimentos produtivos locais e em
infra-estrutura, fortalecendo e reestruturando a base econômica e social com a geração de trabalho,
emprego e renda, e incentivar a convergência de políticas públicas multissetoriais para um
desenvolvimento socioeconômico local.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É de extrema importância um gerenciamento dos potenciais hídricos no estado do Piauí e
especificamente no município de São João da Fronteira, bem como em qualquer município do semi-
árido brasileiro, onde as condições de acesso aos recursos hídricos para um manejo adequado é
muitas vezes impossibilitado por falta de conhecimento, ou quando ocorre, acontece de maneira
inadequada para preservação dos seus recursos hídricos. Espera-se, portanto sensibilizar a
otimização dos investimentos do poder público em intervenções hídricas, além de demonstrar a
importância do gerenciamento tanto para acompanhar a quantidade e a qualidade das águas, que a
população do município utiliza e tira sua sobrevivência. O alcance desses resultados envolve o
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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equacionamento dos desafios e dos problemas citados e relaciona-se com as perspectivas de
consolidação e continuidade das iniciativas voltadas para o desenvolvimento regional e local como
prioridade no âmbito maior da administração pública.

REFERÊNCIAS

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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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ESTUDOS INTEGRADOS EM MICRO-BACIAS HIDROGRÁFICAS DA REGIÃO DO
JAGUARIBE: CONTEXTO GEOAMBIENTAL

Maria AracI Mendes
Graduação do Curso de Geografia da Universidade Estadual do Ceará – UECE/FAFIDAM,
aracimendess@yahoo.com.br
Flávio Rodrigues do Nascimento
Prof. Dr. do Dept° de Geografia Universidade Federal Fluminense – UFF,
frngeo2001@yahoo.com.br

RESUMO
O trabalho que segue refere-se a uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Ceará, em
parceria com a Embrapa Agroindústria Tropical, através do programa Vigilantes da Água, em três
micro-bacias da região do Jaguaribe, Muquém, Riacho das Pedras e Neblina, no período de agosto
de 2007 a julho de 2008. Trata-se de uma análise geoambiental com o intuito de caracterizar
ambientalmente as áreas de drenagem em questão e evidenciar processos de degradação ambiental
na bacia como um todo. A partir desse estudo, foi possível conhecer melhor a realidade das micro-
bacias, através da sistematização de dados a respeito de suas características ambientais e
socioeconômicas, objetivando a obtenção de informações suficientes para identificar e caracterizar
as áreas degradadas afim de elaborar propostas de recuperação e aproveitamento das mesmas.
Contudo, os resultados da pesquisa subsidiaram o Programa Vigilantes da água, com fins a gestão
participativa dos recursos hídricos.

Palavras-chaves: Análise Geoambiental; Bacia Hidrográfica; Comunidades Rurais

INTRODUÇÃO
Esse trabalho tem como objetivo diagnosticar as principais características geoambientais
de micro-bacias semi-áridas realizado em parceria com a Embrapa Agroindústria Tropical, através
do Programa, Vigilantes da Água, no intuito de encontrar evidências de degradação do ambiente
para servir de subsídio à gestão comunitária dos recursos hídricos nas comunidades de Santa
Bárbara (micro-bacia de Riacho das Pedras), Neblina (micro-bacia de Neblina) e Muquém (micro-
bacia de Muquém).
Nada obstante, o Programa Vigilantes da Água objetiva contribuir para a melhoria da
qualidade de vida, a sustentabilidade, o despertar da consciência crítica e a organização social de
comunidades rurais, por meio da gestão comunitária das condições ambientais que reflete na
qualidade das fontes hídricas.
O estudo geoambiental é imprescindível para conhecer um ambiente em toda sua
complexidade, considerando-se todos os aspectos físicos e socioeconômicos em uma dada bacia,
por exemplo, para que possa servir de base ao estudo integrado da mesma, especialmente
destacando as potencialidades e limitações dos recursos naturais frente aos usos e ocupações da
terra. Neste contexto, a desertificação como conseqüência da degradação ambiental pode emergir
com uma forte problemática em bacias intermitentes sazonais, como as destacadas em seguida.
O Ceará detém 136.328 km² de áreas semi-áridas, tendo a maior área proporcional do
Nordeste seco (cerca de 92,1% de seu território). Esse território possui características climáticas que
podem evidenciar a degradação do ambiente, que, juntamente com as atividades humanas e as secas
eventuais, podem provocar o surgimento de áreas desertificadas (NASCIMENTO, op. Cit).
A bacia hidrográfica do rio Jaguaribe, a mais importante em tamanho e volume de água no
Ceará, apresenta uma grande diversidade de ambientes com potencialidades e limitações ligadas às
condições de semi-aridez, denotando vulnerabilidades geoambientais (SOUZA, 2000). Deste modo,
se justifica o presente trabalho para o tratamento de micro-bacias hidrográficas, enquanto unidades
de estudo, no contexto da vulnerabilidade de ambientes semi-áridos. A rigor, a pesquisa foi
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realizada em três micro-bacias da região do Jaguaribe: Riacho das Pedras (Médio Jaguaribe);
Neblina (Banabuiú) e Muquém (Baixo Jaguaribe) - Figura 01.



Figura 01: Localização das micro-bacias estudadas.

Tais unidades foram selecionadas pela Embrapa Fortaleza para o desenvolvimento do
Programa Vigilantes da Água, tomando como critérios: problemas severos de degradação ambiental
comprometedores, especialmente, dos recursos hídricos e boa articulação social das comunidades e
localização geográfica na Bacia do rio Jaguaribe. Isto para que, o referido programa conseguisse
trabalhar os seguintes objetivos:
• Realizar um diagnóstico geoambiental, identificando e avaliando as fontes hídricas
das comunidades atendidas;
• Capacitar pessoas das comunidades na metodologia dos Vigilantes da Água para
monitorar de forma participativa a qualidade da água de abastecimento humano.
• Implementar alternativas de acesso, qualidade e racionalização do uso da água.
• Divulgar os resultados do projeto em palestras, cursos, comitês de bacias e eventos
científicos.

METODOLOGIA
Para determinar as condições geoambientais em qualquer área de planejamento, como por
exemplo, em uma bacia hidrográfica é imprescindível a realização de estudos multidisciplinares,
geralmente baseados em um modelo sistêmico, evitando-se dessa forma, estudos setoriais.
A bacia hidrográfica pode ser entendida como um espaço territorial, independente de
limites político-administrativos, delimitada por divisores de água, onde toda a água que nela
precipita é drenada por cursos d’água secundários até um curso d’água principal e deste até outra
bacia ou o oceano.
O uso dessa unidade natural possibilita uma visão sistêmica e integrada devido,
principalmente, à possibilidade de sua delimitação e a natural interdependência de processos
climatológicos, hidrológicos, geológicos e ecológicos. Sobre esses subsistemas atuam as forças
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antropogênicas, em que interagem as atividades e sistemas econômicos, sociais e biogeofísicos
(AB’SABER, 1987).
O estudo em micro-bacia hidrográfica possibilita trabalhos em escala de detalhe, onde o
estudo integrado pode demonstrar com mais propriedade as potencialidades, limitações dos recursos
naturais e as formas de uso e ocupação da terra dando, portanto, mais subsídios para o tratamento da
desertificação.
De acordo com Nascimento et al (2007), um dos enfoques base nos estudos geoambientais
é a consideração do conjunto como elemento indispensável na análise ambiental integrada, por meio
dos elementos e aspectos naturais e sociais, em face de sua diversidade e heterogeneidade.
Ademais, também se faz necessária à eleição de uma metodologia e de procedimentos que reúnam
possibilidades de entendimento e integração dos elementos e fenômenos que indiquem as
potencialidades/limitações para o uso e ocupação dos recursos naturais.
Para Souza (2000), os objetivos da análise geoambiental devem contemplar alguns
aspectos fundamentais, os quais podem ser relacionados à questão da desertificação. A saber:
conhecer e avaliar os componentes geoambientais e os processos desenvolvidos no meio natural;
levantar e avaliar o potencial de recursos naturais das regiões; executar mapeamentos temáticos
setoriais ou integrados que tratam dos recursos naturais e do meio ambiente; identificar as
condições de uso e de ocupação da terra e as implicações ambientais derivadas; cenarizar as
perspectivas da evolução ambiental em função de impactos que têm sido produzidos; promover
zoneamentos geoambientais e/ou socioambientais; utilizar produtos de sensoriamento remoto para
executar mapeamentos, levantar problemas em áreas vulneráveis visando recuperá-las ou conservá-
las e promover avaliações integradas do meio físico natural.
O reconhecimento da área é imprescindível, pois possibilita retificar e ratificar
mapeamentos assim como verificar as características do meio e suas formas de uso e ocupação.
Dessa maneira foram realizados trabalhos de campo para reconhecimento da área de drenagem,
assim como a observação de suas características geoambientais, registros fotográficos e de
coordenadas UTM e ratificação dos mapas elaborados, assim como a análise de dados
geocartográficos como, por exemplo: folha plani-altimétrica da Sudene (SB.24-x-IV- Jaguaretama)
na escala de 1:100.000; Mapa Geológico do Estado do Ceará, do Governo do Estado, na escala de
1:500.000; mapas de levantamento de recursos naturais do projeto RADAMBRASIL (folhas
SB.24/25 Jaguaribe/Natal) na escala de 1:1.100.000; mapa de infra-estrutura hídrica do estado do
Ceará, na escala de 1:700.000; assim como mapas das micro-bacias os quais encontram-se em
elaboração.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir desse estudo foi possível conhecer melhor a realidade geoambiental das micro-
bacias através das comunidades que as representam – Santa Bárbara (micro-bacias de Riacho das
Pedras, Neblina (micro-bacia de Neblina) e Muquém (micro-bacia de Muquém). Com isto, ter
informações suficientes para identificar e caracterizar as áreas degradadas a fim de elaborar
propostas de recuperação e aproveitamento das mesmas, interagindo com as comunidades no intuito
subsidiar elementos para que haja uma convivência harmoniosa com o meio ambiente,
considerando as questões biofísicas, sociais e políticas nos contextos em que se insere cada micro-
bacia estudada.
No trabalho de campo, foi possível observar em cada micro-bacia, variações de mosaicos
de solos, de complexos vegetacionais – com destaque as caatingas –, de relevo, bem como dos
recursos hídricos. Trabalhos com mapeamentos retificaram e ratificaram informações sobre
levantamentos bibliográficos dos recursos naturais feitos em gabinete. Ademais foram feitos
diversos registros fotográficos sobre unidades de paisagens. Desse modo, foi possível apresentar
alguns resultados, os quais serão expostos a seguir:
Na micro-bacia do Riacho das Pedras registra-se a ocorrência de diferentes tipos de
sistemas ambientais, os quais compreendem a planície fluvial e quatro tipos de sertões, nota-se
também a presença significativa de afloramentos rochosos em meio aos solos das classes
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Planossolos, Neossolos Regolíticos, Neossolos Litólicos e Neossolos Flúvicos. O principal curso
d´água existente é o riacho das Pedras, afluente do riacho do Sangue, um dos principais tributários
do rio Jaguaribe, sendo o responsável pelo fornecimento de água para abastecimento do município
de Jaguaretama. A vegetação predominante é a caatinga arbustiva e herbácea, que se apresenta com
maior porte nas áreas dos sertões de pé de serra, e mais aberta e esparsa, nos sertões rebaixados.
A comunidade situa-se às margens do açude de mesmo nome o qual recebe contribuição de
esgotos sanitários da Escola de Ensino Fundamental Lar Fabiano de Cristo, construída às margens
do reservatório, e de outras fontes de poluição difusas, geradas principalmente por atividades
agropecuárias, como por exemplo, um estábulo, situado a montante do açude. A fonte de captação
de água para consumo humano é o açude Alegre, situado a 8 km já em outro assentamento rural,
denotando assim a perspectiva integrada de manejo de bacias hidrográficas.
A maioria das casas possui cisternas, e atualmente as águas do açude Santa Bárbara são
utilizadas para irrigação de pequenas lavouras de feijão e sorgo, para dessedentação de animais e
banho. Como principais atividades econômicas citam-se: a agricultura, a pecuária e a extração
vegetal.
Na micro-bacia de Muquém, já nota-se uma maior variedade de sistemas ambientais, com
maior desnível topográfico a par da ocorrência de sertões da depressão sertaneja, planície fluvial e
serras. Encontra-se como principal açude, o de mesmo nome, que apresenta em sua margem
esquerda, vegetação bastante conservada. Um dos principais riachos da micro-bacia é o Timbaúbas,
o qual indica seu potencial de escavar vale com a presença de afloramentos rochosos no seu leito.
Os solos encontrados são das classes planossolos, argissolos vermelho-amarelos e
neossolos litólicos. A vegetação aparece com uma mata de carnaúbas, além das caatingas arbustivas
de porte denso, que em certos trechos transicionais encontram a mata de tabuleiro. Observa-se
também as Serras de Palhano, que ocasionam chuvas orográficas, recobertas pela mata seca bem
conservada.
A comunidade de Muquém localiza-se na margem direita do açude, suas principais
atividades consistem na agropecuária e mineração, que ocorrem principalmente nos tabuleiros.
Também é praticada a pesca artesanal no açude. Os produtores cultivam feijão, milho, forragem e
caju. Os animais (ovinos, bovinos, aves e suínos), são criados soltos à margem do açude.
Na micro-bacia de Neblina pôde-se também perceber a presença de diferentes sistemas
ambientais, tais como: planície fluvial, planície flúvio-lacustre, depressão sertaneja, tabuleiros
interiores e áreas de transição. Os desníveis topográficos têm pouca variação, já as feições de relevo
dos tabuleiros e dos sertões se intercalam com mudanças tênues percebidas através da cor e
aspectos texturais dos solos e nas feições da vegetação, que se permutam entre vegetação de
tabuleiros interiores e as caatingas nos sertões rebaixados.
Ocorrem luvissolos em pequenas porções dessa micro-bacia, sua principal característica é a
presença de cascalhos, ou pavimentos desérticos mostrando que sua gênese se deu sob fortes rigores
de intemperismo mecânico.
Tem como principal recurso hídrico o açude Chico Vieira, um açude de pequeno porte,
com a qualidade da água muito influenciada por atividades agrícolas, pocilgas, criação de ovinos,
caprinos e de outros animais que vivem ao longo de sua margem. A água desse pequeno
reservatório é utilizada para dessedentação de animais e lavagem de roupas. Foi possível observar
amplas áreas de uso agrícola ocupadas por plantações de cajueiros e a atividade da apicultura.
Seu principal riacho, sem denominação, apresenta leito fluvial como um filete de água,
com presença de inúmeros seixos, nota-se também a presença de afloramentos rochosos e mata
ciliar bastante degradada. Seu processo de formação foi alterado pelos barramentos construídos a
montante.
Suas principais atividades econômicas são a agricultura de sequeiro (caju, milho, feijão,
mandioca, sorgo), a apicultura e a agricultura de vazante, no leito do açude principal, com o cultivo
de hortaliças, feijão, milho e capim.


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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do exposto, pôde-se concluir que a interferência humana nos ambientes vem
propiciando condições favoráveis à degradação, principalmente do solo, dos recursos hídricos e da
vegetação. Através da parceria com a Embrapa com o Programa Vigilantes da Água, já se pode
perceber algumas mudanças de comportamento dos habitantes das comunidades em questão.
A partir da organização comunitária eles estão aos poucos se conscientizando de que é
melhor conviver harmoniosamente com o ambiente do que realizarem atividades que o agridam,
sendo assim se sentem sujeitos históricos participantes da produção do espaço que ocupam e
passam a se organizar socialmente pela luta de melhores condições de vida em comunidades rurais,
em micro-bacias semi-áridas.
Todavia, é urgente que o governo coloque em prática políticas públicas voltadas para a
proteção ambiental e melhoria da qualidade de vida da população afetada, para que assim, essas
ações de preservação sejam legitimadas.



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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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A SUB-BACIA DO MÉDIO VALE DO RIO JAGUARIBE: FATORES DO POTENCIAL
ECOLÓGICO E DA EXPLORAÇÃO BIOLÓGICA

Maria Daniely Freire Guerra
Universidade Estadual do Ceará (UECE/FAFIDAM)
danielyguerra@hotmail.com
Marcos José Nogueira de Souza
Universidade Estadual do Ceará (UECE)
mestgeo@uece.br
Jacqueline Pires Gonçalves Lustosa
Universidade Federal de Campina Grande campus Cajazeiras – PB (UFCG)
jacque.gaya@gmail.com

RESUMO
Este artigo propõe-se à análise dos fatores do potencial ecológico e da exploração biológica da sub-
bacia do médio Jaguaribe, a luz da teoria geossistêmica, como subsídio ao entendimento dos
cenários de desertificação inscritos nas áreas sertanejas desta sub-bacia.
Palavras-chave: Sub-bacia do médio Jaguaribe – teoria geossistêmica – desertificação


INTRODUÇÃO
Toda a dinâmica econômica tecida no vale do Jaguaribe, no contexto histórico do Brasil-
colônia e nos dias de hoje, sempre esteve influenciada aos componentes da natureza, aqui chamados
de fatores do potencial ecológico e da exploração biológica.
Em decorrência da relação entre o potencial ecológico e a exploração biológica,
originaram-se os sistemas ambientais, que possuem em seu interior subcompartimentos
homogêneos, denominados de subsistemas ambientais.
São provindos de um esforço pretérito, impulsionados pelos processos paleoclimáticos e
paleobotânicos, emersos de um contexto fisiográfico de grandes potencialidades naturais dentro do
domínio do semiárido (AB’SABER, 1974).

O CONTEXTO NATURAL DA SUB-BACIA DO MÉDIO JAGUARIBE
A bacia hidrográfica do Jaguaribe é um das áreas mais representativas no contexto do
semiárido regional, pois abrange uma conjuntura típica do semiárido nordestino, tanto do ponto de
vista natural quanto econômico e cultural.
Trata-se, sobretudo, de uma superfície morfologicamente recente, que teve o Pleistoceno
como período-chave de sua evolução e o clima como elemento fundamental. Como resultado, têm-
se hoje os relevos pediplanados esculpidos como testemunho desta evolução.
Em virtude desta evolução essencialmente transfiguradora, dotada de alto potencial
erosivo, as áreas compostas de rochas tenras foram sendo desagregadas e entulhadas em depósitos a
jusante, nas áreas mais rebaixadas da superfície.
Simultaneamente, vão sendo instaladas as redes hidrográficas, bastante ramificadas com
padrão dendrítico, nascendo nos altos dos maciços a barlavento e canalizadas para o oceano
Atlântico (SOUZA et. al., 1998b).
Como expressão desse contexto, há os solos predominantemente rasos e pedregosos, com
exceção para as áreas de planícies fluviais, de tabuleiros interiores e no topo dos maciços residuais a
barlavento. Há predominância de associações de Neossolos Litólicos, Neossolos Flúvicos (Solos
Aluviais), Luvissolos (Bruno não-Cálcicos), Planossolos (Planossolos Solódicos + Solonetz
Solodizado), Vertissolos (Solos Vérticos), Argissolos Vermelho-Amarelos (Podzólico Vermelho-
Amarelos) e afloramentos rochosos (SOUZA et. al., 1998b).
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Da interação dos componentes naturais, surge a diversificação da vegetação, ocorrendo
desde Caatinga arbórea, Caatinga arbustiva, subarbustiva e herbáceas; Matas Ciliares e Mata Seca;
revestindo as depressões sertanejas, as planícies fluviais, encostas e topos serranos.
No conjunto, a sub-bacia do médio Jaguaribe forma um ambiente complexo, característico
do semiárido. Em virtude das potencialidades naturais abrigadas por este contíguo, fixaram-se os
primeiros povoamentos, mais tarde fortalecidos pelas atividades econômicas.
Esta sub-bacia possui uma extensão de 10.509 km² por onde escoam o rio Jaguaribe e seus
afluentes, apresentando alta densidade de canais, com expressão fiel de um padrão dendrítico, em
alguns pontos obedecendo ao controle estrutural, desenvolvendo uma estreita planície fluvial,
encravada nas extensas colinas sertanejas que se avultam, embutidas entre os maciços, cristas
residuais e inselbergs. Estes últimos possuem presença marcante, merecendo destaque o maciço do
Pereiro e a disposição das cristas e inselbergs paralelos a este e ao canal principal do Jaguaribe.
Evidencia-se, desse modo, um mosaico de compartimentos ambientais naturais. Trata-se,
todavia, de uma herança morfogenética que deu origem a este complexo de sistemas ambientais
(figura 1).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Figura 1: Mapa de Sistemas Ambientais da Sub-bacia do Médio Jaguaribe
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A cada compartimento registra-se uma dinâmica particular, impulsionada pela herança
morfogenética, aliada às contingências atuais do clima, da ação da sociedade, influenciando
diretamente sobre a vegetação e os solos, resultando na morfodinâmica atual e na configuração dos
cenários tendenciais, conforme o mapa de cenários.
Para tanto, traçam-se brevemente as características dos componentes naturais da sub-bacia
do médio Jaguaribe, atentando-se para o que foi posto anterior, relativamente à formação territorial
do vale do Jaguaribe.

Fatores do potencial ecológico
Os fatores do potencial ecológico correspondem à geologia-geomorfologia, clima e
hidrografia. Para tanto, pautam-se as características principais destes componentes na sub-bacia do
médio Jaguaribe e suas repercussões para o processo de desertificação instalado nessas áreas.
LITOESTRATIGRAFIA
A geologia regional aponta para o domínio das rochas cristalinas, predominantemente
metamórficas, com grande variedade litológica, onde prevalece o domínio dos escudos antigos,
segundo CPRM (1974), com eventuais coberturas sedimentares correspondentes aos depósitos
aluvionares.
O embasamento é constituído de rochas do Grupo Ceará – sequência de rochas
metamórficas pré-Cambrianas, constituída de xistos argilosos e quartizitos; Complexo Caicó –
constituído de biotita-gnaisses, gnaisses-fracoidais, gnaisses quartzo-feldspáticos, gnaisses
leptoniticos, migmatitos variados, incluindo lentes de anfibolitos e corpos granitóides (augen
gnaisses) -; e Complexo Nordestino – compreende migmatitos, gnaisses, gnaisses migmatizados e
granitóides, anfibolitos, quartzitos, metarcóseos, calcários cristalinos, xistos, itabiritos,
calcossilicatadas e rochas cataclásticas (RADAMBRASIL, 1981, p.43-62-98).
De maneira sintética pode-se asseverar que a geologia do médio Jaguaribe é representada
pelo Complexo Caicó/Nordestino de Idade Arqueana (620 m.a), seguido do Grupo Orós, de Idade
Proterozóica Média e capeado por coberturas sedimentares não metamorfizadas Tércio-
Quaternárias nas áreas periféricas do rio Jaguaribe (RADAMBRASIL, 1981, p.45).
As coberturas sedimentares são pouco representativas do ponto de vista de sua abrangência
espacial. São os Tabuleiros Interiores da Formação Faceira e os sedimentos aluvionares que formam
os baixos níveis de terraços e as planícies fluviais. São representados por sedimentos argilosos,
sendo estes tabuleiros penecontemporâneos aos Tabuleiros da Formação Barreiras. Ambos têm
idades provavelmente plioQuaternárias.
No conjunto, têm-se nesta área grandes evidências de movimentos diastróficos passados,
representados pelo arcabouço da estrutura regional.
RELEVO
Exprime-se a ocorrência de superfícies de aplainamento escalonadas, oriundas de uma
herança que, grosso modo, corresponde a três condicionantes: eventos tectônicos remotos, evolução
paleoclimática Quaternária e a morfodinâmica atual.
Os eventos tectônicos foram responsáveis pela formação de estruturas fortemente
deformadas, em vastos anticlinais e sinclinais em litotipos, predominantemente metamórficos. Essas
deformações plásticas são acompanhadas de deformações oriundas da tectônica ruptural,
mascaradas pelos processos de pediplanação e pela ocorrência eventual de pedimentos detríticos
com clásticos grosseiros frutos da morfogênese mecânica.
Seguidamente, a evolução paleoclimática foi determinante para a morfoesculturação e a
instalação de largas depressões embutidas nas periferias dos planaltos sedimentares, ora embutidas
entre estes e maciços e cristas residuais, localizando-se nas áreas de sombra destas e daquelas
estruturas. Constituem superfícies pediplanadas ou moderadamente dissecadas em colinas rasas.
A morfodinâmica atual é fortemente influenciada pelos processos de morfogênese
mecânica impostos pela semiaridez. Há também esculturações impostas por processos erosivos
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presentes, bem como as tensões motivadas por atividades socioeconômicas que têm repercussões na
incidência e expansão dos processos de desertificação.
É importante salientar que, na transição destas fases – tectônica, paleoclimática e
morfodinâmica – é deixado um legado que repercute nas condições ambientais da atualidade,
principalmente no comportamento climático de hoje, nas expressões dos solos e da vegetação, além
do modelado do relevo. Justifica-se, portanto, a diversidade de unidades geomórficas, que se
penetram ou compõem resíduos contínuos resultante dos efeitos das referidas fases evolutivas.
Cumpre salientar que os quadros pedológicos e fitogeográficos são peculiares em cada
compartimento. Para Souza (2000, p.42, 43), “os solos do Ceará têm uma distribuição estreitamente
relacionada com a compartimentação morfológica”. E completa, “a vegetação representa a resposta
última que deriva do complexo das relações mútuas entre os componentes do potencial ecológico”.
CLIMA
Impera sobre a sub-bacia do médio Jaguaribe a rusticidade do clima semiárido, com grande
variabilidade e imprevisibilidade, justificadas pela atuação dos sistemas atmosféricos, denotando
uma característica azonal de semi-aridez com expressão regional (SOUZA et al., 1996).
Os principais sistemas atmosféricos que atuam no Nordeste brasileiro são impulsionados,
fundamentalmente, pelas oscilações da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT); pelas condições
termodinâmicas dos oceanos Atlântico e Pacífico tropicais; por invasões das frentes polares, além
das influências dos alísios e dos anticiclones do Atlântico Sul (sistemas de alta pressão) (SOUZA,
2003).
No Estado do Ceará, a ZCIT (Zona de Convergência Intertropical) é o principal sistema
atmosférico, cuja migração define chuva ou seca. Quando a migração dá-se ao sul do equador, as
nuvens carregadas trazem chuvas para o semiárido nordestino. Quando a migração é ao norte, os
períodos de estiagem ocorrem de modo evidente.
Além do mais, o fator topográfico também interfere no deslocamento das massas de ar,
funcionando como verdadeiras barreiras orográficas e diversificando micro e mesoclimas. Este fato
agrava, em especial, as áreas sertanejas situadas a sotavento dos níveis serranos. As precipitações,
além de irregulares e mal distribuídas no tempo, ficam também subordinadas à má distribuição
espacial, gerando o ressecamento sazonal das fontes hídricas, dos solos e condicionando o
xeromorfismo às espécies das caatingas.
As influências da ZCIT associada aos demais sistemas atmosféricos imperantes no
Nordeste, como El Niño, La Niña, entre outros, trazem influências diretas nas precipitações e na sua
distribuição espacial, elevando as temperaturas e originando uma evapotranspiração superior às
índices pluviométricos.
HIDROGRAFIA
Em virtude dos condicionantes já mencionados – litoestatigrafia, relevo e clima –,
desenvolve-se uma rede hidrográfica complexa, como já referido, que possui padrão dedrítico e alta
ramificação, exceto na porção do maciço do Pereiro, que figura um padrão retangular, assumindo
um controle estrutural (SOUZA, 1998). O grande papel é da litologia, pelo fato de sua rigidez não
propiciar grandes potenciais de armazenamento, fazendo com que haja maior escoamento
superficial e pequeno armazenamento sub-superficial.
Em geral, ocorrem nesta área os aquíferos classificados como fissurais. Souza et.al. (1998)
definem estes pela “permeabilidade muito baixa, as águas em geral são salinas, implicando baixa na
qualidade e são aqüíferos de pequena importância hidrogeológica”. (P.119).
Em proporções menores, ocorrem os aquíferos Aluviões, Faceiras e Açu. Os aluviões
apresentam boas vazões, são classificadas como livres, pois não são confinadas como as fissurais;
“[...] encontram-se resguardados dos prejuízos da evaporação direta sob a lâmina d’água aflorante”.
(SOUZA, et.al. 1998, p. 121).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
197
Relativo à capacidade total de acumulação de águas superficiais, até o ano de 1998, atingia
802,13 hm³, totalizando 1210 açudes (SOUZA et.al., 1998). Atualmente, com o açude Castanhão,
este total passou para 6.860.905 hm³.
No total, a sub-bacia do médio Jaguaribe detém 7,09% das águas superficiais do Estado do
Ceará. Deste total, no tocante à sub-bacia, corresponde a 83,99% de águas superficiais, em relação a
16,01% de águas subterrâneas, fato amplamente expresso pelos frequentes barramentos ao longo do
rio, como por exemplo, a figura 29. Os principais afluentes do rio Jaguaribe nesta área são os
riachos Figueiredo e o do Sangue (www.cogerh-srh.gov.br).
No conjunto, verifica-se, com base nos fatores do potencial ecológico, a conformação de
áreas rebaixadas embutidas entre maciços e cristas residuais, onde seus relevos foram moldados em
estrutura geológica bastante rígida de Idade pré-Cambriana, atualmente subordinados ao clima
semiárido, marcado pela sazonalidade e imprevisibilidade. Tais fatores concorreram para uma
hidrologia essencialmente de superfície, desenvolvendo redes hidrográficas excessivamente
ramificadas e de baixo volume.
O resultado de tudo isso é a formação de um ambiente natural com baixo potencial hídrico,
onde é dificultado o desenvolvimento dos fatores da exploração biológica, condicionando a um
baixo potencial de suporte destes ambientes naturais, aliados a um baixo potencial de resiliência,
expressando, desta forma, a susceptibilidade à desertificação.

Fatores da exploração biológica
Os fatores da exploração biológica correspondem a solos, vegetação e fauna.
SOLOS
Embora apresente as limitações ora mencionadas, “os solos nordestinos possuem um
“stock” global de solos muito mais ricos em massa e em importância agro-pastoril do que a média
das regiões semi-áridas conhecidas” (AB’SABER, 1974, p.17).
Na área do médio Jaguaribe, conforme Souza (2000) tem-se nas planícies fluviais e
terraços associações de Neossolos Flúvicos (Solos Aluviais) + Planossolos (Planossolos Solódicos)
+ Vertissolos. Nos Tabuleiros interiores predominância de Argissolos Vermelho-amarelo
(Podzólico Vermelho-amarelo) com associações eutróficas e distróficas.
Nos maciços residuais, há diferenças entre as vertentes, sendo a barlavento solos mais
profundos, essencialmente Argissolos vermelho-amarelo (Podzólico vermelho-amarelo) e nas
vertente a sotavento associações de Neossolos litólicos (solos litólicos) + afloramentos rochosos
(SOUZA 2000).
As depressões sertanejas dividem-se em níveis rebaixados e elevados. Nos níveis
rebaixados, há uma preponderância para as associações de Planossolos (Planossolos + Solonetz
Solodizado) + Vertissolos + Neossolos Litólicos (Litólicos) + afloramentos de rochas. Nos níveis
mais elevados dos topos e vertentes de colinas rasas, os Luvissolos (Bruno não-Cálcicos), nas
vertentes altas Argissolos Vermelho-Amarelos (Podzólico Vermelho-amarelos) + Neossolos
Litólicos (Litólicos) + afloramentos rochosos (SOUZA 2000).
Capeando esse mosaico de solos, existem as Caatingas que, segundo Fernandes (1990,
p.69), “se instalaram nas depressões interplanálticas do Nordeste brasileiro durante o Terciário”.
VEGETAÇÃO
No Nordeste brasileiro, com um recobrimento florístico formado por um conjunto
vegetacional individualizado por um padrão generalizado pelas Caatingas, conferidas pela
caducifolia de seus fundamentais elementos botânicos, encontra-se num espaço ecologicamente
caracterizado pela depressão sertaneja, com a vegetação xerófila.
Caatinga, de etimologia indígena (caa= mata e tinga= clara, branca), significa mata
aberta ou clara, pela fácil penetração do sol, em contraste com as matas úmidas sempre fechadas e
escuras (FERNANDES, 2006).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
198
A vegetação xerófila possui composição heterogênea quanto à sua fisionomia e estrutura,
embora apresente certa conformidade na sua composição, em virtude do expressivo conjunto de
plantas arbóreo/arbustivas.
Desse modo, confere-se à Caatinga o caráter tropofílico, caracterizado pela caducifolia,
como forma de vitalidade ou sobrevivência das plantas na estação seca, que se mantêm em virtude
da água armazenada no seu sistema subterrâneo, como visto, formando as raízes tuberosas (batatas)
ou os xilopódios (FERNANDES, 2006).
Trata-se, evidentemente, de uma vegetação adaptada às condições de climas semiáridos,
com expressão particular de uma formação xérica, como bem enfatiza Fernandes (2006). Sua
fisionomia é garranchenta, por vezes com plantas afilas, espinhosas e até suculentas. “Todas as
particularidades se consubstanciam no natural xerofilismo, expresso nos regulares ajustamentos e na
seletividade taxinômica correspondentes principalmente aos componentes regionais”.
(FERNANDES, 2006, p. 144).
De modo específico, contatam-se, no interior das Caatingas, tipos de representação
florística não originários desta vegetação, mas que estão ali, por vezes, como testemunho de uma
evolução pretérita transfiguradora que conservou tal flora, ou, por outras vezes, também como
testemunho de que, em condições de ajustamento ecológico, é possível que haja adaptação de
espécies pioneiras, em outros tipos climáticos. Ainda, em faixas com grandes potencialidades
naturais, ante outras com maiores limitações, quer seja por ordem topográfica ou pedológica,
desenvolve-se uma flora peculiar, mostrando uma feição de exceção. Um bom exemplo desse
quadro de exceção é constituído pelas planícies fluviais, que se destacam com flora verdejante em
meio à flora das Caatingas.
Deve ser acrescida a ocorrência das matas ciliares, em regra, com uma cobertura
diferencial, em relação ao padrão geral, por sua origem procedem das matas serranas vizinhas,
tendo como exemplo as espécies Hymenaea velutina (Jatobá), Erythrina velutina (Mulungu),
Copernícia prunífera (Carnaúba) (FERNANDES – comunicação oral).
Outro quadro específico é marcado pela vegetação mesófila (Mata Seca) que se distingue
das Caatingas pelas condições ecológicas e florísticas, embora seja enriquecida por espécies da
caatinga. Encontra-se recobrindo encostas subúmidas/secas ou serras isoladas com níveis
altimétricos entre 500-600m, fazendo-se presente no maciço do Pereiro, limítrofe ao Município de
Jaguaribe (FERNANDES, 1990, p.176).
Assim como as matas de tabuleiro, que são um complexo vegetacional de significados
pouco precisos dentro da terminologia fitogeográfica brasileira. “[...] É marcado por um complexo
florístico, pela cooparticipação de elementos da vegetação vizinha: mata, caatinga e formação
esclerofila – Cerrado e Cerradão”. (FERNANDES, 2006, p. 89). Este conjunto vegetacional tem
pouca expressão na sub-bacia do médio Jaguaribe, apenas nas áreas limítrofes do médio para o
baixo Jaguaribe.
Eis, portanto, o contexto vegetacional da sub-bacia do médio Jaguaribe, mantido por
respostas de natureza comportamental e de expressão regional.
FAUNA
Sobre a fauna não há muitas considerações a fazer, haja vista os escassos trabalhos sobre as
espécies dos sertões. Encontram-se facilmente estudos relacionados à fauna do maciço de Baturité,
da Chapada do Araripe, da Serra Grande, de áreas litorâneas, mas dos sertões não foram localizadas
as devidas referências.
Um ensaio, porém, foi dado pelo naturalista George Gardner (1836-1841), que descreve
sua passagem pelo vale do rio Jaguaribe, e nas áreas entendidas como pertencentes hoje ao médio
Jaguaribe, ele registra, inclusive, a existência de avestruzes.
Ouviu-se relato do grupo de trilheiros do Município de Jaguaribe, que traçam seus
caminhos a pé pelas serras (maciços e cristas) da região do médio Jaguaribe, fazendo alusão à
pequena existência de espécies faunísticas. Em alguns pontos observaram até a quase inexistência
de aves.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
199
No conjunto, os fatores da exploração biológica correspondem às respostas do potencial
ecológico e refletem diretamente a configuração dos cenários tendenciais. No tocante ao médio
Jaguaribe, como expresso, os fatores do potencial ecológico condicionaram à formação de fatores
da exploração biológica, sujeitos ao baixo potencial de capacidade de suporte e de resiliência,
configurando um ambiente natural susceptível à desertificação, haja vista as contingências impostas
pelos fatores retrocitados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nota-se, portanto, que a sub-bacia hidrográfica do médio Jaguaribe resguarda múltiplos
compartimentos morfológicos e, portanto, diversos quadros geológico-geomorfológicos,
vegetacionais, hidroclimáticos e pedológicos, originando cenários complexos, submetidos aos
processos morfodinâmicos atuais.
Para tanto, traçou-se a análise dos sistemas ambientais, que indicam, dentre outros fatores,
os agrupamentos de áreas particulares quanto às relações mútuas do potencial ecológico e da
exploração biológica, sobretudo, na identificação de áreas susceptíveis à desertificação na sub-bacia
do médio Jaguaribe.
Contatou-se, por meio destes, a existência de ambientes favoráveis aos efeitos
degradacionais, impulsionados por uma herança natural, no entanto, a ocorrência da
degradação/desertificação advém da participação da sociedade sobre esses espaços, aqui
denominados de sistemas ambientais.
Daí a importância de discutir sobre a formação territorial do vale do Jaguaribe. Esta área
que foi celeiro produtivo dentro do semi-árido regional nos fins do século XVIII a início do século
XX, hoje apresenta extensas áreas dilapidadas, com fortes evidências de desertificação.
Dos municípios mais degradados da sub-bacia do médio Jaguaribe, merece destaque o
município de Jaguaribe, abrigando um total de 37,76% dos 1.876,79 km² da extensão municipal
(GUERRA, 2009, p. 157).
No conjunto, a sub-bacia do médio Jaguaribe apresenta um quadro ambiental fortemente
alterado. Os componentes naturais colaboram para a formação de ambientes naturalmente
susceptíveis à desertificação, mas é a sociedade que tem intensos encargos, sobretudo no
desencadeamento dos processos de desertificação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AB’SABER, Aziz Nacib. O Domínio Morfoclimático Semi-Árido das Caatingas Brasileiras.
Geomorfologia (43), IGEOG/USP. São Paulo, 1974.
BRASIL, PROJETO RADAMBRASIL. Levantamento de Recursos Naturais. Folha SA-24/25
Jaguaribe/Natal. MME-SG: Rio de Janeiro, 1981, p. 40-98.
CEARÁ/FUNCEME. Degradação ambiental e susceptibilidade aos processos de desertificação
na microrregião do Médio Jaguaribe e parte das microrregiões do Baixo Jaguaribe e Serra do
Pereiro. Fortaleza, 2005.
DNPM/CPRM. Projeto rio Jaguaribe – relatório de fotointerpretação. Ministério das Minas e
Energia/Dep. Nacional da produção mineral/ Convênio DNPM/CPRM. Recife, 1974.
FERNANDES, Afrânio. Fitogeografia brasileira: províncias florísticas. 3. ed. Fortaleza: Realce
editora e indústria gráfica, 2006, p.131-165.
GEORGE GARDNER, M. D. F. L. S. Viagens no Brasil: principalmente no Norte e nos Distritos
de Ouro Preto e Diamantina durante os anos de 1836-1841. Tradução: Albertino Pinheiro. São
Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre: Companhia Editora Nacional, 1942, p. 121-209.
GUERRA, Maria Daniely Freire. A problemática da desertificação nos sertões do médio
Jaguaribe, Ceará: o contexto do município de Jaguaribe.

170f. Dissertação (Mestrado em
Geografia) – Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2009.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
200
SOUZA, Marcos José Nogueira de; OLIVEIRA, José Gerardo B.; LINS, Raquel Caldas; JATOBÁ,
Lucivânio. Condições Geo-Ambientais do Semi-Árido Brasileiro. Notas e Comunicações em
Geografia, série B: Textos Didáticos, nº 15: Recife, 1996.
______. (et.al). Diagnóstico e Macrozoneamento Ambiental do Ceará – Diagnóstico
Geoambiental – Volume 1. Fortaleza, 1998 (inédito).
______. Bases geoambientais e esboço do Zoneamento ecológico-econômico do Estado do Ceará.
In: LIMA, Luiz. C. (Org.) Compartimentação territorial e gestão regional do Ceará. Fortaleza:
FUNECE, 2000. p 6-105.
______. Limitações Geoambientais ao Desenvolvimento Sustentável no Semi-árido brasileiro. In:
LUZÓN, J.L.; STADEL, C.; BORGES, C. Transformaciones Regionales y Urbanas em Europa y
América Latina. Barcelona: Publications Universitat de Barcelona, 2003. p. 143-152.



















Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
201

ESTIMATIVA DO ESCOAMENTO SUPERFICIAL NA
BACIA DO RIO GRANJEIRO, CRATO/CE.

Maria Jorgiana Ferreira Dantas
Mestranda em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC, Fortaleza – CE, ,
bolsista CNPq, jorgianaferreira@hotmail.com.
Fernando Bezerra Lopes
Doutorando em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC, Fortaleza – CE
José Vidal de Figueiredo
Mestrando em Engenharia Agrícola, UFC, Fortaleza- CE
Francisco Antonio de Oliveira Lobato

Mestrando em Engenharia Agrícola, UFC, Fortaleza- CE
José Carlos de Araújo
Professor Doutor, Departamento de Engenharia Agrícola, DENA/UFC, Fortaleza- CE

RESUMO
O escoamento superficial é considerado, entre as fases do ciclo hidrológico, a mais importante
devido a maioria dos estudos hidrológicos está ligado ao aproveitamento da água superficial.
Alguns procedimentos são disponíveis para o cálculo da chuva excedente, ou seja, daquela que
efetivamente contribui para o escoamento superficial. Nesse trabalho, objetivou-se calcular a
precipitação efetiva pelos métodos das abstrações usando a equação de Green-Ampt e do Serviço de
Conservação do Solo (SCS) e obter os hidrogramas pelo método das isócronas de Clark e pelo
hidrograma unitário de Snyder para a bacia do rio Granjeiro, Ceará que possui uma área de
drenagem de 18,59 km
2
, perímetro de 23,61 km, comprimento do rio principal de 9,51 km,
declividade média de 11 %, apresentando coeficiente de compacidade de 1,53 e fator de forma de
0,20. O tempo de concentração calculado foi de aproximadamente 1 hora. O método unitário
sintético de Snyder gerado a partir da CN aplicado subestimou a vazão de pico e superestimou o
tempo de descarga, esse método, portanto, não pode ser aplicado de forma generalizada sem que se
obtenha medidas de campo para se promover ajustes para situações locais. O método de Clark por
apresentar maior vazão de pico seria mais indicado para projetos de obras hidráulicas, por dar uma
maior margem de segurança. O pico de descarga do método do hidrograma unitário sintético de
Snyder ocorreu quatro horas após o término da chuva, o que pode ser atribuído ao fato de que o
método não se aplica a bacia estudada.

Palavras-chave: Precipitação efetiva. Hidrograma. Bacia hidrográfica.


INTRODUÇÃO
Dentre as fases básicas do ciclo hidrológico a do escoamento superficial talvez seja a mais
importante, por tratar da ocorrência e transporte de água na superfície terrestre, tendo em vista que a
maioria dos estudos hidrológicos está ligado ao aproveitamento da água superficial e à proteção
contra os fenômenos provocados pelo seu deslocamento (VILLELA e MATTOS, 1975).
O escoamento superficial pode ser dividido em componentes, com destaque para o
escoamento superficial direto e o escoamento de base ou subterrâneo. O primeiro componente
resulta da parcela da precipitação que excede a capacidade de infiltração do solo e escoa sobre a sua
superfície, gerando cheias; é freqüente quando ocorrem precipitações muito intensas e/ou quando o
solo já está muito umedecido e com capacidade de infiltração reduzida. Esta parcela do escoamento
é conhecida como precipitação efetiva ou deflúvio superficial e sua importância está diretamente
associada a dimensionamentos hidráulicos, como barragens, terraços, bacias de contenção e
controle da erosão hídrica (TUCCI, 2001 e PRUSKI et al., 2003 apud SILVA et al., 2008).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
202
O hidrograma representa a resposta da bacia hidrográfica em função de suas características
fisiográficas que regem as relações entre precipitação e escoamento. Um hidrograma unitário (HU),
por definição, é um hidrograma de escoamento superficial direto, resultante de uma chuva efetiva
com intensidade e duração unitárias (PORTO et al, 1999).
A determinação do hidrograma de projeto de uma bacia hidrográfica depende de dois
componentes principais, a separação do volume de escoamento superficial e a propagação deste
volume para jusante. Este último componente dos modelos hidrológicos geralmente utiliza da teoria
de sistemas lineares, ou seja, o hidrograma unitário (TUCCI, 2002).
O presente trabalho objetivou calcular a precipitação efetiva pelos métodos das abstrações
usando a equação de Green-Ampt e do Serviço de Conservação do Solo (SCS) e obter os
hidrogramas pelo método das isócronas de Clark e pelo hidrograma unitário de Snyder para a bacia
do rio Granjeiro, Ceará.

CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA
A bacia do rio Granjeiro, localizada no município de Crato, Ceará (Figura 1). Seu rio
principal é o Granjeiro e a rede drenagem apresenta cursos de terceira ordem. O clima da região,
segundo a classificação de Köppen, é do tipo Aw’ – tropical chuvoso com precipitação média anual
de 1.033 mm (DNPM, 1996 apud MENDONÇA et al., 2009).

Figura 1 – Localização da área de estudo

MATERIAL E MÉTODOS
Na delimitação da bacia foram usados dados de SRTM com resolução espacial de 92 m. A
partir desses dados foi gerada a rede de drenagem da bacia utilizando a extensão ArcHydro do
software ArcMap 9.2.
Após a delimitação, usando a extensão X Tools do ArcMap 9.2, foi calculado: a área e o
comprimento do rio principal. Determinou-se também a ordem dos rios por meio da ferramenta
Spatial Analyst Tools do ArcMap 9.2.
O tempo de concentração da bacia (tc) foi calculado pela equação de Kirpich (1940 apud
CHOW et al, 1988) (equação 1).
385 , 0 77 , 0
0078 , 0

= S L tc (1)
Em que: L – comprimento do rio principal (ft) e S – declividade média da bacia (m m
-1
)
Em seguida foram feitos os hidrogramas pelo método das isócronas de Clark e o hidrograma
unitário sintético de Snyder. Para o primeiro método, a precipitação efetiva foi calculada pelo
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
203
método de abstrações usando a equação de infiltração de Green-Ampt e para o segundo utilizou-se o
método SCS.
3.1 – Precipitação efetiva pelo método das abstrações usando a equação de infiltração de Green-
Ampt e o hidrograma das isócronas de Clark
A bacia foi divida em sub-áreas e depois foi feita uma translação destas para que todas
contribuíssem na vazão. As sub-áreas são limitadas por linhas denominadas isócronas que são
formadas por pontos que têm o mesmo tempo de translação até o exutório da bacia.
Para delimitar as isócronas foi feito um grid dos tempos de viagem (tv). Em seguida foi feita
uma interpolação desses tempos pelo método da krigagem, obtendo assim, as sub-áreas definidas
pela isócronas.
O tempo de viagem é o somatório dos tempos de viagem na encosta (tve) e no rio (tvr). O
tve foi calculado pela equação 2.
m
v
x
tve

= (2)
em que: ∆x – comprimento do escoamento (m) e v
m
– velocidade média do escoamento (m s
-1
)
obtido pela equação 3.
0
S k v
m
= (3)
em que: k – coeficiente de velocidade (tabelado) e S
0
– declividade da encosta (%).
Já o tvr foi calculado usando a equação 4.
v
L
tvr

= (4)
em que: ∆L – comprimento de cada trecho de rio (m) e v – velocidade do escoamento no rio (m s
-1
)
obtida por meio da equação de Manning (equação 5).
2
1
3
2
1
S R
n
v = (5)
em que: n – coeficiente de Manning (tabelado); R – raio hidráulico (m) e S – declividade do rio (m
m
-1
).
O raio hidráulico foi estimado a partir de dados de vazão do exutório da bacia e da largura
do rio.
Vale ressaltar que um trecho do rio é canalizado com alvenaria, que corresponde à parte que
passa por dentro da cidade de Crato. Por esse motivo foi usado dois coeficientes de Manning.
Tendo as isócronas, foram calculadas as áreas limitadas por elas e usados os dados de
intensidade de uma precipitação de tempo aproximadamente igual ao tempo de concentração.
Foi estimada a infiltração acumulada pela equação Green-Ampt (equação 6), considerando
que o solo se encontrava empoçado. O solo foi classificado como franco areno argiloso (61% de
areia, 32,88% de argila e 5,67% de silte) a partir de uma amostra de solo coletada na região. Os
parâmetros de Green-Ampt utilizados se encontram na Tabela 1. Foi também considerado a
interceptação nos quinze minutos iniciais da precipitação. A precipitação efetiva é o resultado da
diferença entre a precipitação acumulada e os valores de infiltração acumulada e interceptação
acumulada.
|
¹
|

\
|
Ψ∆
+ Ψ∆ + =
θ
θ
) (
1 ln ) (
t F
Kt t F (6)
em que: F(t) – infiltração acumulada (mm); K – condutividade hidráulica (mm h
-1
); ψ – potencial
matricial (mm) e ∆θ – variação de umidade (equação 7)
e e
s θ θ ) 1 ( − = ∆ (7)
em que: S
e
– saturação efetiva do solo e θe – porosidade efetiva




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
204
Tabela 1 – Parâmetros de Green-Ampt para a classe de solo utilizada
Se K (mm h
-1
) ψ (mm) θe ∆Ө
0,7 1,5 218,5 0,33 0,099

A vazão (Q) foi encontrada pela equação 8.
i i i
I A Q =
em que: A
i
– área de cada isócrona (km
2
) e I
i
– intensidade da precipitação efetiva para cada
isócrona (mm h
-1
)

3.2 – Precipitação efetiva pelo método SCS e vazão pelo método do hidrograma unitário sintético
de Snyder
Inicialmente foi calculada a precipitação efetiva pelo método SCS. Para isso foi necessário
encontrar a Curve Number (CN) que é função do tipo de solo e de seu uso. Para se saber a CN da
bacia, foi feita a classificação de uma imagem do satélite LANDSAT 5 TM por meio do software
Erdas Imagine 8.5. Após classificada a imagem, obteve-se três classes de ocupação: urbana (41,4%
da área), vegetação rala (18,6%) e vegetação densa (40%). A CN da bacia foi obtida pela
ponderação das curvas das três classes de ocupação. O tipo de solo se enquadrou no tipo B (TUCCI,
2000).
A CN tabelada corresponde ao valor para solo de umidade moderada. Como para o método
de Greem-Ampt foi considerado que o solo estava empoçado, a curva foi corrigida para solo úmido
[CN(III)] por meio da equação 8.
) ( 13 . 0 10
) ( 23
) (
II CN
II CN
III CN
+
= (8)
em que: CN(II) – CN para solo com umidade moderada
Em seguida foi calculado o armazenamento potencial da bacia (equação 9), as abstrações
inicial (equação 10) e continuada (equação 11).
4 , 25 10
1000
|
¹
|

\
|
− =
CN
S (9)
em que: S – armazenamento potencial da bacia (mm)
S Ia 2 , 0 = (10)
em que: Ia – abstração inicial (mm)
S Ia P
Ia P S
Fa
+ −

=
) (
(11)
em que: Fa – abstração continuada (mm) e P – precipitação acumulada (mm)
A precipitação efetiva foi encontrada pela equação 12.
Fa Ia P Pe − − = (12)
Por último, foi calculada a vazão pelo método do hidrograma unitário sintético de Snyder,
admitindo o Ct igual a 2 e o Cp de 0,625. Para definir o hidrograma foram calculados o tempo de
retardamento (t
p
) e vazão de pico (q
p
) por meio das equações 13 e 14.
3 , 0
1
) (
c t p
LL C C t = (13)
em que: t
p
em horas; C1 = 0,75; C
t
– coeficiente numérico, variável de 1,8 a 2; L – comprimento do
rio principal (km) e L
c
– distância do centróide da bacia ao seu exutório (km)
p
p
p
t
C C
q
2
= (14)
em que: q
p
em m
3
s
-1
km
-2
por cm de chuva efetiva; C
2
= 2,75; C
p
– coeficiente numérico variável
entre 0,56 e 0,69



Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
205

RESULTADOS E DISCUSSÃO
As características fisiográficas da bacia em estudo foram: área de drenagem de 18,59 km
2
,
perímetro de 23,61 km, comprimento do rio principal de 9,51 km, declividade média de 11 %,
apresentando coeficiente de compacidade de 1,53 e fator de forma de 0,20. O tempo de
concentração calculado foi de 52 minutos, ou seja, aproximadamente 1 hora.
4.1 – Precipitação efetiva pelo método das abstrações usando a equação de infiltração de Green-
Ampt e o hidrograma das isócronas de Clark
A Tabela 2 apresenta os valores calculados para o hietograma de excesso de precipitação
(Pe) e a Tabela 3 se refere aos parâmetros para o cálculo das vazões para geração do hidrograma de
Clark.
Tabela 2 – Cálculo do hietograma de excesso de precipitação de acordo com a equação de
infiltração de Green-Ampt
Tempo Precipitação Acumulada F
1
Interceptação Acumulada Pe
2

(h) ----------------------------------------- (mm) ---------------------------------------
0.00 0,0 0,0 0.0 0,0 0,0 0.0
0.08 9,5 9,5 2.4 1,4 1,4 5.7
0.17 9,9 19,4 3.5 2,9 4,3 11.6
0.25 8,9 28,3 4.3 4,2 8,6 15.4
0.33 12,2 40,5 5.0 0,0 8,6 27.0
0.42 3,8 44,3 5.6 0,0 8,6 30.1
0.50 4,1 48,4 6.2 0,0 8,6 33.6
0.58 2,5 50,9 6.7 0,0 8,6 35.6
0.67 4,4 55,3 7.3 0,0 8,6 39.4
0.75 2,8 58,1 7.7 0,0 8,6 41.8
0.83 2,8 60,9 8.2 0,0 8,6 44.1
0.92 2,3 63,2 8.7 0,0 8,6 46.0
1.00 0,8 64,0 9.1 0,0 8,6 46.3
1
Infiltração acumulada obtida pelo método do Green-Ampt
2
Precipitação efetiva acumulada

Tabela 3 – Parâmetros usados no cálculo do hidrograma de Clark
Isócronas
Tempo (min)
0 - 15 15 - 30 30 - 45 45 - 60
Pe (mm) 15,4 18,2 8,2 4,6
Intensidade (mm/h) 61,8 72,7 32,6 18,2
Área (km²) 0,8 6,8 3,3 7,6

As vazões parciais e totais do hidrograma de Clark são apresentadas na Tabela 4.
Tabela 4 – Cálculo das vazões pelas isócronas de Clark, para geração do hidrograma
Tempo Vazão parcial (mm km² h
-
¹) Q total Q total
(min) A1 A2 A3 A4 (mm.km². h-¹) m³ s
-1
0 0,0 0.0 0.0
15 47,5 0,0 47.5 13.2
30 56,0 422,8 0,0 478.7 133.0
45 25,1 497,8 206,6 0,0 729.5 202.6
60 14,0 223,4 243,3 471,0 951.7 264.4
75 0,0 124,9 109,2 554,6 788.6 219.1
90 0,0 61,0 248,9 309.9 86.1
105 0,0 139,1 139.1 38.6
120 0,0 0.0 0.0
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
206

3.2 – Precipitação efetiva pelo método SCS e vazão pelo método do hidrograma unitário sintético
de Snyder
A Tabela 5 apresenta os valores calculados para o hietograma de excesso de precipitação
pelo método SCS.

Tabela 5 – Cálculo do hietograma de excesso de precipitação pelo método SCS
Tempo Precipitação
Precipitação
Acumulada
Abstrações
Acumulada (mm)
Pe
Excesso
de chuva
(min) (mm) (mm) Ia Fa (mm) (mm)
0 0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
5 9,5 9,5 5,2 3,7 0,6 0,6
10 9,9 19,4 5,2 9,2 5,0 4,4
15 8,9 28,3 5,2 12,2 10,9 5,9
20 12,2 40,5 5,2 14,9 20,4 9,5
25 3,8 44,3 5,2 15,6 23,5 3,2
30 4,1 48,4 5,2 16,2 27,0 3,5
35 2,5 50,9 5,2 16,5 29,2 2,2
40 4,4 55,3 5,2 17,1 33,0 3,9
45 2,8 58,1 5,2 17,4 35,5 2,5
50 2,8 60,9 5,2 17,7 38,0 2,5
55 2,3 63,2 5,2 17,9 40,1 2,1
60 0,8 64,0 5,2 18,0 40,8 0,7

Para os cálculos da precipitação efetiva por esse método utilizou-se os parâmetros de acordo
com a Tabela 6.
Tabela 6 – Parâmetros método SCS
Parâmetros Valores Parâmetros Valores
He (mm) 40,83 Tp (h) 5,22
Área da bacia km² 18,59 qp ((m³/s).km²)/cm 0,36
C
1
0,75 qp' (m³/s).km² 1,48
Ct 2,00 qp'' m³/s 27,64
Cp 0,625 CN (II) 81,00
L (km) 9,51 CN (III) 90,74
Lc (km) 4,80 S (mm) 25,90
tp (horas) 4,72 Ia (mm) 5,18

Na Tabela 7 são apresentados os tempos e as vazões obtidos pelas abstrações para obtenção
do hidrograma unitário sintético de Snyder.
Tabela 7 – Cálculo das abstrações (método SCS)
t/Tp t(h) q/qp q (m³/s)
0,0 0,0 0,0 0,0
0,5 2,6 0,5 13,8
1,0 5,2 1,0 27,6
1,5 7,8 0,6 16,6
2,0 10,4 0,3 8,3
2,5 13,0 0,2 5,0
3,0 15,7 0,1 2,2
3,5 18,3 0,1 1,4
4,0 20,9 0,0 0,7
5,0 26,1 0,0 0,0

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
207

A Figura 2 mostra os hidrogramas obtidos pelos métodos de Clark e Snyder
0
50
100
150
200
250
300
0 5 10 15 20 25 30
Tempo (horas)
Q

(
m
³
/
s
)



.
Green-Ampt e Clark SCS e Snyder

Figura 2 - Hidrogramas gerados pelos métodos das isócronas de Clark e unitário sintético de
Snyder
Os valores obtidos no hidrograma gerado pelo método das isócronas de Clark apresentam
maiores valores estimados do pico de descarga do que o hidrograma gerado pelo método unitário
sintético de Snyder.
Pode-se inferir que o método unitário sintético de Snyder gerado a partir da CN aplicado
subestimou a vazão de pico e superestimou o tempo de descarga, esse método, portanto, não pode
ser aplicado de forma generalizada sem que se obtenha medidas de campo para se promover ajustes
para situações locais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O método de Clark por apresentar maior vazão de pico seria mais indicado para projetos de
obras hidráulicas, por dar uma maior margem de segurança;
O pico de descarga do método do hidrograma unitário sintético de Snyder ocorreu quatro
horas após o término da chuva, o que pode ser atribuído ao fato de que o método não se
aplica a bacia estudada.













Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
208
REFERÊNCIAS

CHOW, V. T.; MAIDMENT, D. R.; MAYS, L. W. Applied Hydrology. New York: McGraw-Hill
Book Co., 1988, 572 p.

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tipos de manejo. Engenharia Sanitária Ambiental, v. 14, n. 1, p. 89-98, 2009.

SILVA, P. M. O et al. Modelagem da hidrógrafa de cheia em uma bacia hidrográfica da região
Alto Rio Grande. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v. 13, n. 3, p. 258-265,
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TUCCI, C. E. M. Parâmetros do Hidrograma Unitário para bacias urbanas brasileiras. Artigo
submetido à RBRH. 2002. Disponível em: <http://www.iph.ufrgs.br/
corpodocente/tucci/publicacoes/arthu.PDF> Acesso em: 21 maio 2009.

VILLELA, S. M.; MATTOS, A. Hidrologia Aplicada. São Paulo – SP: McGraw Hill, 1975,
245 p.
















Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
209
DEGRADAÇÃO AMBIENTAL E IMPACTOS DA SALINIZAÇÃO DOS SOLOS:
DESERTIFICAÇÃO NOS PERÍMETROS IRRIGADOS ARARAS NORTE E BAIXO
ACARAÚ, NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO ACARAÚ (CE)


Maria Losângela Martins de Sousa
UECE-FAFIDAM – losangela.tab@hotmail.com
Flávio Rodrigues do Nascimento
UFF-RJ – frngeo2001@yahoo.com.br

RESUMO

A degradação ambiental se apresenta como um dos mais fortes impactos sofridos pelos recursos
naturais a partir das intervenções humanas no meio físico. As sociedades humanas vêm
contribuindo através das suas formas de uso e ocupação desordenadas como uma das principais
causas da degradação ambiental. As conseqüências são inúmeras, sendo que a desertificação ganha
destaque pela sua severidade e grau de abrangência. A mesma é conceituada e publicada na Agenda
21 como sendo a “degradação da terra nas regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas,
resultante de diversos fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”. A Bacia
Hidrográfica do Rio Acaraú, área de estudo deste trabalho, vem enfrentando problemas de
desertificação principalmente a partir do uso e ocupação do solo inadequada e da salinização pela
agricultura irrigada, especialmente nos agropólos Araras Norte e Baixo Acaraú. Os impactos
provocados pela salinização do solo são baixo rendimento das culturas, podendo provocar morte
generalizada das plantas; contaminação química, decorrente da incorporação de fertilizantes ao
lençol freático; contaminação dos cursos fluviais; degradação do solo e abandono de terras. As
sociedades humanas também são atingidas por esse processo, sendo que as condições sociais,
econômicas, políticas, culturais são fortemente alteradas. As análises pedológicas realizadas na
Bacia do Acaraú dão conta do risco de salinidade que a bacia possui tanto nas áreas irrigadas quanto
nas áreas de mata nativa.

Palavras-chaves: Bacia Hidrográfica, Desertificação, Salinização do solo.

INTRODUÇÃO

A degradação ambiental no Brasil, assim como no mundo, se apresenta de diversas
formas. Embora possa ter origem natural, pode ser produto da relação conflituosa entre a sociedade
e a natureza possuindo assim inúmeras causas e conseqüências. Uma das principais causas é o
manejo inadequado dos recursos naturais, enquanto que entre as principais conseqüências estão à
erosão do solo, o desmatamento e a desertificação. Esta se apresenta não somente como um fator
ambiental, mas também como um fator social.
A porção semiárida do Nordeste brasileiro se apresenta susceptível ao desencadeando da
desertificação do ponto de vista ecoclimático e socioeconômico, pois é uma região pobre, marcada
por ações depredatórias contra os recursos naturais ali disponíveis ao longo de sua história de
ocupação.
No Ceará, o processo de desertificação vem aparecendo de forma bastante representativa
nos sertões semi-áridos. Os mesmos apresentam características que possibilita a degradação, como
as condições ambientais vulneráveis e as atividades humanas degradantes. A primeira se refere às
irregularidades pluviométricas e as secas freqüentes, enquanto a segunda se dá pelo mau uso dos
recursos naturais, como queimadas, extrativismo, etc. Em algumas partes do sertão cearense a
degradação já atinge condições irreversíveis, exibindo marcas nítidas de desertificação. Para
Nascimento (2006) de modo geral as causas da desertificação estão associadas a dois grandes
conjuntos de problemas: a agricultura tradicional, descapitalizada e com nível tecnológico e
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
210
agricultura irrigada, quando manejada de forma inadequada pode provocar diversos problemas,
inclusive a salinização dos solos.
Alguns municípios cearenses apresentam graves problemas de conservação, a despeito de
Jaguaribe e Jaguaretama (Bacia do Médio Jaguaribe), Irauçuba (Bacia do Litoral), Caridade (Bacia
do Curu) Santa Quitéria e Sobral (Bacia do Acaraú) e outros na zona Norte do Ceará. Nesse
contexto a salinização dos solos pela irrigação é uma possibilidade real de degradação ambiental
que pode convergir para a desertificação, ultrapassando a capacidade de suporte dos recursos
naturais, o que afeta dentre outros aspectos, os solos e a vegetação.
O Ceará se converteu rapidamente em uma referência na produção e exportação de frutas e
flores (Sabadia, et al., 2006) a partir da agricultura irrigada. A Bacia Hidrográfica do rio Acaraú,
possui diversos projetos de irrigação, onde se destacam para o presente trabalho dois perímetros
irrigados: o Baixo Acaraú e o Araras Norte (Figura 1).

















Figura 1: Localização do DIPAN e do DIBAU, Bacia do Acaraú, Ceará
Fonte: Lopes et al, (2006)

Por consequência, em função de manejo inadequado a irrigação acaba trazendo inúmeros
prejuízos ambientais com preocupantes reflexos socioeconômicos, em face de um desenvolvimento
econômico voltado ao enriquecimento de empresas agroindustriais, em detrimentos ao pequeno e,
por vezes, ao médio produtor rural. Esses fatores geram impactos que vão desde a ordem social,
traduzidos na desestruturação familiar, agravamento das desigualdades sociais, até a ordem física, a
degradação ambiental propriamente dita.
Desta feita, o presente trabalho tem como objetivo principal identificar os processos de
degradação dos recursos naturais que provocam desertificação na Bacia Hidrográfica do Acaraú, a
partir da salinização dos solos por irrigação nos perímetros irrigados Araras Norte e Baixo Acaraú.
Com relação aos objetivos específicos se destacam três, são eles: Esboçar os aspectos
geoambientais da Bacia Hidrográfica do Rio Acaraú, com ênfase nos perímetros irrigados Araras
Norte e Baixo Acaraú; Estudar os principais impactos emergentes da degradação ambiental na
Bacia do Acaraú; e Avaliar os riscos de salinização/degradação dos solos devido ao manejo de
irrigação nos agropólos Araras Norte e Baixo Acaraú.

BASES CONCEITUAIS E ASPECTOS METODOLÓGICOS

O processo de desertificação é estudado por muitos autores sendo que cada um deles
aborda o tema a partir de viés diversificado. As mais diversas conceituações sobre desertificação
apresentam idéias ambíguas, concordantes ou discordantes. Entretanto todas as definições possuem
pontos em comum, as ecozonas climáticas (NASCIMENTO, 2006).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
211
O termo desertificação foi usado pela primeira vez por Albert Aubreville, em 1949, mas o
fenômeno não foi exatamente definido, foi apenas conceituado como a conversão de terras férteis
em desertos conseqüentes da erosão do solo vinculada às atividades humanas. A partir de 1972
muitas conferências internacionais contribuíram para as discussões da temática, como a Conferência
das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no ano de 2002 (CNUMAD), em
Johannesburgo na África do Sul (DIAS, 2006 e NASCIMENTO, op Cit.) e Conferência
Internacional sobre Variações Climáticas e Desenvolvimento Sustentável no semi-árido (ICID), em
Fortaleza.
Contudo, foi durante a conhecida Rio-92, que se definiu o conceito oficial de
desertificação, apresentado na Agenda 21: “degradação da terra nas regiões áridas, semi-áridas e
subúmidas, resultantes de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”
(Brasil, 2004).
Nessa perspectiva a desertificação pode acontecer mediante dois vieses, as variações
climáticas, na qual a seca se destaca como um fenômeno típico das regiões semiáridas; e a
degradação das terras induzidas pelo homem. As ações humanas degradantes podem ser entendidas
a partir da degradação de vastas áreas semiáridas, do solo, provocada por fatores físicos (erosão e
compactação do solo) e químicos (sodificação/sodicidade ou salinização); das águas superficiais e
da qualidade de vida dos assentamentos humanos.
Para Nascimento (2006), o conceito que melhor contempla a problemática se refere ao
processo de degradação das terras áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultantes de diversos
fatores entre eles as atividades humanas e/ou as mudanças climáticas. A diferença entre o conceito
da ONU e do referido autor reside em afirmar que as atividades humanas são fundamentalmente as
responsáveis pelo fenômeno, enquanto que as mudanças climáticas podem ou não acontecer de fato.
Para Araújo, et al, (2005), a degradação das terras acontece mediante dois fatores, os
diretos e os facilitadores, diante de condições naturais e ações do homem. O primeiro se refere ao
uso de máquinas, a condução de gado, o encurtamento do pousio. O segundo diz respeito ao
desmatamento, o sobrepastoreio, o uso excessivo da vegetação. Concomitante a estes, estão à
topografia, a textura e composição do solo, entre outros elementos naturais, que favorece a
degradação. Vale ressaltar que o Nordeste possui fatores de degradação colocados pelo autor, e que
o Ceará e a Bacia do Acaraú não fogem a essas características.
O Ceará se encontra vulnerável do ponto de vista ambiental, uma vez que a ocupação
desordenada aliada aos fatores de vulnerabilidade climática do Estado potencializam cada vez mais
a degradação ambiental, e desencadeia os processos de desertificação. Detém 136.328 km²
submetidos à semi-aridez (92% do território), com 117 municípios totalmente incluídos nessas
condições (OLIVEIRA, 2006).
As áreas de agricultura irrigada, quando manejada de forma inadequada provoca enormes
prejuízos, e pode causar entre tantos problemas a salinização do solo. Esta por sua vez, aumenta a
vulnerabilidade ambiental à desertificação, podendo esgotar a capacidade de suporte dos recursos
naturais disponíveis (NASCIMENTO, 2006).

METODOLOGIA:

A pesquisa se dividiu em duas etapas: o gabinete e o campo. Em gabinete, foram
desenvolvidos estudos bibliográficos sobre degradação ambiental, desertificação, agricultura
irrigada, salinização dos solos, agronegócio, recursos hídricos, semiárido, análise ambiental.
Levantamento de mapas sobre o Nordeste, o Ceará e a Bacia do Acaraú, pesquisas na Internet,
análise do relatório parcial do Projeto de pesquisa - n° 545 do Banco do Nordeste: Análise
geoambiental e mapeamento das áreas degradadas susceptíveis à desertificação na Bacia
hidrográfica do Acaraú (Ce) –documento base para o trabalho-, além de outros trabalhos também
foram desenvolvidos em gabinete.
Entre as atividades realizadas no campo, destaca-se o reconhecimento dos sistemas
ambientais da bacia (Planície Litorânea, Planície Fluvial, Tabuleiros, Serras e Cristas Residuais,
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
212
Planalto da Ibiapaba e Sertões), visitas aos perímetros irrigados Araras Norte e Baixo Acaraú, aos
canais de água que abastecem os perímetros e ao sistema de tratamento de água, na cidade de
Varjota.
Estudos de salinização dos solos foram aplicados em duas partes da Bacia. No perímetro
irrigado Araras Norte (Área A) e no Baixo Acaraú (Área B). A seleção das duas áreas se deu em
função da necessidade de se identificar à interconexão dos recursos naturais entre as duas porções
da Bacia. As identificações dos pontos de coleta de solos foram realizadas sobre uma linha
transversal a área irrigada.
As amostras foram coletadas mediante trado holandês de 3” nas profundidades de 0 a
30cm, 30 a 60cm, 60 a 90 cm, 90 a 120 cm de maneira a avaliar o acúmulo de sais na profundidade
do sistema radicular da maioria das culturas. Além da realização da amostragem de solos na mata
nativa para se ter conhecimento do status salino das áreas não irrigadas. As amostras reuniram
dados de 2003, agregados a dados de 2004 a 2007, havendo assim um enriquecimento de nosso
banco de dados. Tal metodologia foi elaborada e executada por Andrade, et al, (2006) através de
análises de solos realizadas no Laboratório de água e solos da Embrapa Agroindústria Tropical, em
Fortaleza.

IMPACTOS EMERGENTES DA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL

O desenvolvimento da agricultura moderna e a introdução do meio técnico científico
informacional no campo trouxeram uma série de mudanças para os sistemas de cultivos e
consequentemente uma série de impactos ao meio físico e social. A saber.

MUDANÇAS NO MEIO SOCIAL DE PRODUÇÃO

A agricultura irrigada vem transformando as áreas agrícolas em pólos de desenvolvimento
através de tecnologias modernas. Entretanto, os impactos negativos causados pelo implemento da
modernização são fortes. Provoca de imediato uma dicotomia, pois de um lado gera riqueza e
acumulação de capital, e de outro impulsiona fatores que alimentem o êxodo rural dos pequenos
produtores. Como consequencia essas populações modificam não somente os hábitos alimentares,
mas também as condições de trabalho, de saúde, de educação, de lazer, de habitação, enfim, de
vida.
Diante disso, o meio social sofre uma profunda desestruturação, como foi verificado nos
perímetros estudados. Araújo et. al., (2005) comentam a cerca dos impactos da degradação e
argumentando que a mesma se reflete no meio social, uma vez que provoca a limitação da
produtividade, o que induz a possível regressão das condições de vida humana e conseqüentemente
o agravamento da fome e da pobreza.

DEGRADAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS E SALINIZAÇÃO DO SOLO

A salinização consiste no acréscimo de sais solúveis de sódio, cálcio e magnésio ao solo
advindo de muitos fatores e pode ultrapassar a capacidade de suporte de todos os recursos naturais
ali disponíveis. Esse processo depende da qualidade da água aplicada na irrigação, das
características físico-químicas do solo e das técnicas de manejo do solo, segundo Andrade e
D’Almeida (2006).
São nas áreas de agricultura irrigada que a salinização do solo acontece com mais
freqüência. Principalmente quando a irrigação ocorre de forma mal manejada, a drenagem é
inadequada. Nesse caso os sais que estavam distribuídos nos horizontes mais profundos são trazidos
para a superfície do solo através do movimento ascendente da água capilar ou do lençol freático, o
qual sobe devido à água adicionada com a irrigação.
Dentre os impactos provocados pela salinização do solo está o baixo rendimento das
culturas, que em caso mais graves provoca a morte generalizada das plantas. Gheyi (2000)
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
213
considera que os efeitos da salinidade para as plantas podem ser divididos em osmótico, tóxico e
indireto. Os osmóticos acontecem quando aumenta a concentração de sais no solo e
conseqüentemente a pressão osmótica do meio, diminuindo a absorção de água pelas plantas. O
segundo efeito se refere à toxidade dos solos, o que reduz a germinação e causa anormalidades no
desenvolvimento das plantas. Os efeitos indiretos se referem ao desequilíbrio nutricional que as
plantas podem sofrer prejudicando o crescimento e o desenvolvimento das mesmas.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

O Distrito de Irrigação Baixo Acaraú (DIBAU), está localizado no trecho final da Bacia do
Acaraú, abrange áreas dos municípios Acaraú, Bela Cruz e Marco (vide Figura 1). Possui
microclima tropical chuvoso com precipitação média anual de 900mm, insolação muito forte com
aproximadamente 2.650 horas anuais, a evaporação média anual é da ordem de 1.600 mm (DNOCS,
2007). O DIBAU possui uma área desapropriada e irrigável de 12.407,00 ha, com 8.816,61 ha
implantadas.
Seus solos, em geral, são profundos e bem drenados, de textura leve e muito permeáveis.
Pertencentes às classes dos Argissolos, Latossolos e Neossolos, possuem fertilidade baixa - segundo
Andrade et. al, (2006). Os usuários do DIBAU se dividem em pequenos produtores, profissionais da
área das ciências agrícolas e empresários. A sua produção varia da cultura de abacaxi, manga,
melão, melancia, cajú, até feijão e milho, (DNOCS, 2007).
O sistema de irrigação do perímetro se dar por micro aspersão e por gotejamento. É um
dos perímetros que possui atualmente uma das tecnologias mais avançada de todo o Nordeste
(NASCIMENTO, 2006).
O Distrito de irrigação Projeto Araras Norte (DIPAN) está localizado nos municípios de
Varjota e Reriutaba, influenciando, também, o município de Cariré (LOPES et al., 2006). Com
estação chuvosa de fevereiro a abril, possui temperatura média anual é de 28,2°C, evaporação
média anual de 1.942mm e precipitação média anual de 797 mm, (ANDRADE et.al, (2006).
Os solos do DIPAN são de textura média a leve e fertilidade entre natural e baixa.
Predomina os argissolos que apresentam melhores condições para a irrigação, podendo se
identificar os planossolos aluviais e coluviais, regossolos e litossolos, (DNOCS, 2007).
O projeto possui uma área de 6.407,39 ha sendo que desta, somente 3.200,00 ha estão
implantadas. Diferentemente do DIBAU, os usuários são irrigantes, pequenos produtores, técnico
agrícola, engenheiro agrônomo e empresas (DNOCS, 2007). Oferece boa variedade de frutas, como
mamão, cajú, banana, etc. A aspersão convencional predomina com aproximadamente 89%,
enquanto o restante fica com a micro-aspersão. Embora o DIBAU também apresente suas
dificuldades quanto a pagamentos de financiamentos e de manutenção infra-estrutural, está em
condições melhores que o DIPAN, é considerado o maior projeto de irrigação do Estado, do ponto
de vista da engenharia, é um dos mais modernos do mundo.
No DIPAN e no DIBAU, foram avaliadas as concentrações de sais no solo no período de
2003 a 2007. Essas análises fornecem um panorama geral da situação dos solos em setores do
médio e do baixo curso da Bacia com relação ao risco de salinização tanto em áreas irrigadas como
em áreas de mata nativa.
Verificou-se que o DIPAN tem maior risco de salinidade em relação ao DIBAU, devido à
diferença de seus solos. Enquanto o DIPAN apresenta solos com horizontes de textura média a
argilosa (Luvissolos), o DIBAU possui solos bem drenados e de textura leve. Quanto ao risco de
sodicidade o DIBAU apresenta risco maior que o DIPAN, pois contém baixos teores de cálcio e
magnésio.
As Figuras 2 e 3 (a seguir) se referem à análise de solos do DIPAN e do DIBAU, com
relação a adição de sais. A figura 2, referente ao DIPAN, mostra a existência de um acúmulo de sais
em todas as camadas nas áreas irrigadas em relação à mata nativa; Nas camadas superficiais esse
acúmulo é mais significativo. Tal fato se deve a fortes evaporações das áreas semiáridas, ocorrendo
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
214
assim à ascensão da água capilar e conseqüentemente as deposições dos sais nas camadas
superficiais, informa Andrade et al (2006).







































Figura 2: Análise da Condutividade elétrica do solo no DIPAN.
Fonte: Andrade et, al (2006).


A Figura 3 mostra que houve um incremento na concentração de sais totais da área irrigada
em relação à mata nativa no DIBAU. Ocorreu uma redução nos valores da condutividade elétrica
(CE) no período chuvoso de 2004, tanto da área irrigada quanto da mata nativa, chegando a
praticamente igualares seus valores. Isso se justifica pela lixiviação dos sais adicionados ao solo da
área irrigada, decorrentes das precipitações naquele ano ultrapassando a média anual da região. Nos
anos seguintes os valores da CEes voltaram a crescer, tal fato pode ter ocorrido devido o manejo da
irrigação, ou pelos adubos químico introduzidos na área.



Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
215












































Figura 3: Análise da Condutividade elétrica do solo no DIBAU.
Fonte: Andrade et, al (2006).









Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
216

REFERÊNCIAS

ANDRADE, E. M. de. D’ALMEIDA. D. M. B. A. A irrigação e os riscos de Degradação dos
Recursos Naturais. IN: ROSA, M. de F.; GONDIM, R. S; FIGUEREDO, M. C. B. de. Gestão
Sustentável no Baixo Jaguaribe, Ceará. Fortaleza: - Ceará. Embrapa Agroindústria Tropical,
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ANDRADE, E. M. de. CHAVES, L. C. G. LOPES, F. B. LOPES,J. F. B. O manejo da irrigação e
a sustentabilidade dos solos na Bacia do Acaraú, Ceará, 2006.

ARAÚJO, Gustavo Henrique de Sousa, ALMEIDA, Josimar Ribeiro de, GUERRA, Antonio José
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DIAS, Reinaldo. Gestão Ambiental: Responsabilidades Social e Sustentabilidade. São Paulo:
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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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ASPECTOS DO USO DO SOLO E IMPACTOS AMBIENTAIS NA BACIA
HIDROGRÁFICA DO RIO DO PEIXE-PB

Paulo Victor Paz de Sousa
Aluno do Mestrado em Geografia -UFC.(paulovictorpaz@hotmail.com)
Marcelo Henrique de Melo Brandão
Prof
o
Adjunto - UFCG/CFP/UACS. (mhmb64@gmail.com)


RESUMO

A área onde se desenvolve este trabalho é a bacia hidrográfica do Rio do Peixe, localizada no
extremo noroeste do Estado da Paraíba. Esta bacia é constituída por 18 municípios; a população é
estimada em 215.787 habitantes, distribuídos em uma área de 3.991 km². Nele descreve-se a
situação atual do uso do solo da referida bacia hidrográfica identificando os principais processos de
degradação ambiental. Ao final elabora-se uma série de propostas que podem minimizar o atual
processo de degradação, onde através destas propostas seria possível recuperar a qualidade
ambiental da bacia hidrográfica do Rio do Peixe.

Palavras-Chave: Uso do Solo, Degradação, Rio do Peixe.


LOCALIZAÇÃO DA ÁREA

Ocupando o extremo noroeste do semi-árido paraibano, a bacia hidrográfica do Rio do Peixe
é uma sub-bacia do rio Piranhas; representa uma das áreas mais promissoras para a expansão agro-
pecuária do Estado da Paraíba.
Com uma extensão de aproximadamente 3.453,61 km², abrange 18 municípios; localiza-se
entre os paralelos de 6°20’ e 7°06’ Lat. S e os meridianos de 37°57’ e 38°46’ Long. W de
Greenwich.
Observa-se nesta área uma grande vocação para as atividades agropecuárias e até industriais,
com o beneficiamento e agregação de valores aos seus produtos. A bacia tem importância
estratégica para o abastecimento alimentar e oferta de serviços, não apenas para os municípios que a
compõem bem como para os estados vizinhos do Ceará e Rio Grande do Norte.
As duas cidades mais próximas, Sousa e Cajazeiras atuam como pólos regionais,
centralizando a oferta de serviços e centro de abastecimento das demais cidades de sua hinterlândia.

MUNICÍPIOS QUE COMPÕEM A BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO DO PEIXE
Dezoito municípios integram a bacia hidrográfica do Rio do Peixe: Aparecida, Bernardino
Batista, Bom Jesus, Cachoeira dos Índios, Cajazeiras, Lastro, Marizópolis, Poço Dantas, Poço de
José de Moura, Santa Cruz, Santarém, Santa Helena, São Francisco, São João do Rio do Peixe,
Sousa, Triunfo, Uiraúna e Vieirópolis.
A Tabela 1 apresenta os municípios com as respectivas áreas, população e Índice de
Desenvolvimento Humano Municipal, relativo ao ano 2000 (IDH-M/2000).





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Tabela 1. Municípios que compõem a Bacia Hidrográfica do Rio do Peixe




Fonte: Dados demográficos do Censo 2000 (IBGE).


A população total de 215.787 habitantes representa 6,11% da população total do Estado. De
acordo com o censo demográfico de 2000, a população total do Estado era de 3.444.794 habitantes.
Com uma área de 3.991 km², a bacia do Rio do Peixe apresenta uma densidade demográfica
de 54,07 hab/km². O declínio do ritmo de crescimento populacional verificado nos municípios
mencionados é um fenômeno que ocorre em todo o país, devido a queda da taxa de fecundidade.
Segundo a classificação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),
valores que estejam contidos no intervalo de 0,5 a 0,8, correspondem a municípios inseridos em
regiões de médio desenvolvimento humano.

USO E OCUPAÇÃO DO SOLO NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO DO PEIXE
Entende-se como uso do solo a forma como o homem ocupa o espaço geográfico. Esse uso
vem sendo feito de diferentes formas ao longo dos séculos, nesse sentido, o conhecimento dos
ciclos econômicos regionais foi imprescindível para a realização deste trabalho. A partir deste
estudo foi possível analisar como tem sido processada a ocupação da área.
Historicamente, a bacia do Rio do Peixe é considerada como uma das áreas que compunham
o subsistema gado-algodão. Silva (1982) diz:

“... o sistema produtivo que caracteriza a área se baseia no binômio algodão-
pecuária. O algodão, além de ser o produto de maior expressão na agricultura
desse subespaço é, também, aquele que tem participação mais significativa na
produção agrícola do Sertão Norte e do próprio Nordeste. Dados referentes ao ano
de 1974 indicam que, naquele ano, a participação da área na produção algodoeira
desses espaços foi de 81,1 e 48,9% respectivamente.”
Nos dias atuais, ainda é possível perceber a ocorrência desse subsistema na bacia do Rio do
Peixe. Porém, ocorreu o declínio na produção do algodão em decorrência da praga do “bicudo”.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
219
Em substituição ao algodão, incentivou-se a fruticultura irrigada, a exemplo das áreas de
São Gonçalo, distrito de Sousa, com a produção de culturas perenes como o coco da bahia e a
banana. Além dessas culturas ainda é possível perceber um acréscimo na produção de goiaba e caju,
para fins industriais. A rizicultura também é de grande importância na agricultura local.
Sazonalmente, ainda resiste o consórcio milho-feijão, plantados nos períodos invernosos.
O segundo componente mais importante do sistema produtivo é a pecuária, daí a existência
de áreas destinadas à formações herbáceas, formadoras de campos de pastagem para suporte ao
rebanho.
Para a elaboração do cartograma de uso do solo, tomou-se como base a imagem do sensor
LANDSAT (agosto/2002). Para auxiliar o processo de identificação das informações extraídas da
imagem foram preparadas chaves de interpretação através de um processo de comparação entre as
características dos alvos identificados em campo com as características contidas na imagem.
Baseados nestas informações foram definidas as categorias de uso do solo, agrupadas quanto as
suas semelhanças. Para o mapeamento do uso do solo foi proposta a seguinte tipologia:
• Solo Desnudo
• Formação herbácea
• Caatinga Arbustiva
• Caatinga Arbustivo-arbórea
• Caatinga Arbórea
• Cultura temporária
• Cultura Permanente
• Lâmina d’água

Na tabela 1, quantificam-se as áreas de cada uma das classes de uso do solo, por km
2
. Estas
áreas estão determinadas por sub-bacia. No cartograma 2 é possível visualizar o uso do solo.
A ocupação urbana não foi quantificada em virtude da escala da imagem utilizada ser muito
pequena, não proporcionando uma visão adequada das áreas urbanas.
O estudo possibilitou a identificação e o efetivo reconhecimento proporcional do atual uso
do solo nas sub-bacias e na bacia do Rio Peixe.
Na sub-bacia do Riacho Cacaré há grande ocorrência de caatinga arbórea, o que se dá em
virtude da influência topográfica; a ocorrência deste tipo de vegetação ainda prevalece nas áreas
serranas da região. Já as caatingas arbustiva e arbustivo-arbórea, por se localizarem freqüentemente
nas porções médias e na baixa encosta, são mais facilmente exploradas, conseqüentemente são
percentualmente menos ocorrentes.
Na sub-bacia do Açude Chupadouro, apresenta-se uma forte ocorrência de caatinga
arbustiva em detrimento das outras formações vegetais. Além disso, é possível destacar a ocorrência
das formações herbáceas que associadas à caatinga arbustiva, servem de suporte alimentar à
pecuária regional.A sub-bacia do riacho da Serra, de uma forma semelhante às outras, caracteriza-se
pelo binômio “formações herbáceas e caatinga arbustiva” que também suportam a atividade
pecuária da região. Na sub-bacia do Riacho das Araras, segue o comportamento das sub-bacias
anteriores.
Na sub-bacia do Boi Morto, a baixa declividade favorece o cultivo de pastos, a vegetação
natural tem sua maior representação na caatinga arbustiva, que associada aos pastos são utilizadas
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
220
como pastagem para as atividades pecuárias. Na sub-bacia do riacho Morto I, o sistema formação
herbácea (pastos) e caatinga arbustiva atuam dando suporte às atividades pecuárias da região.
De acordo com os dados gerais do uso e ocupação do solo na área em estudo, constata-se a
forte presença das formações herbáceas, constituídas por espécies forrageiras, para o pastoreio. São
áreas onde houve a retirada da vegetação natural ou onde a pastagem foi formada conservando
espécies arbóreas dispersas com o objetivo de sombreamento para o gado: ocupam cerca de 29% da
área total da bacia hidrográfica do Rio do Peixe.
A presença da caatinga arbustiva, que ocorre em 27% da área, está totalmente antropizada e
descaracterizada. Representa uma vegetação secundária, historicamente depredada para o
fornecimento de lenha a carvoarias, padarias, caieiras, cerâmicas e uso doméstico.
Esta mesma caatinga arbustiva, associada aos pastos, serve de suporte alimentar à pecuária local,
processo que caracteriza a existência de uma pecuária nos moldes extensivos, bastante danosa ao
meio ambiente.
A caatinga arbórea é representativa de apenas 13% da área estudada. Só nas áreas serranas é
possível ainda encontrar algumas espécies remanescentes. Porém, pesquisas de campo detectaram
algumas áreas serranas sendo invadidas para o cultivo agrícola e pastoreio, o que pode levar a uma
diminuição ainda maior dessa categoria.
Já a caatinga arbustivo-arbórea, ocorrendo em apenas por 11% da área, apresenta-se
fortemente degradada, devido a sua exploração ser mais fácil e por possuir espécies lenhosas de
grande calorimetria.
Um fato preocupante é a ocorrência de 10% da área total da bacia hidrográfica com solos
desnudos. Especificamente, em algumas sub-bacias é possível detectar valores de até 15% da área
das sub-bacias (sub-bacias do riacho morto 1 e 2) com solos desnudos.
As características pedo-climáticas, associadas ao mau uso do solo e a um forte processo de
desmatamento, estão provocando impactos ambientais, agravando ainda mais a qualidade de vida da
população local. Este processo pode ser progressivo se não forem tomadas algumas medidas
preventivas que minimizem esses impactos.
Dorst (1973) ao comentar sobre a erosão em seus diferentes tipos diz:
“Existe uma erosão natural, inevitável, evidentemente. Efetua-se em ritmo
lento. O desaparecimento de uma parte das matérias que constituem o solo é
compensado, pari passu, pela decomposição da rocha mãe e por elementos alóctones
carreados por forças físicas. Assim, os solos encontram-se geralmente em equilíbrio,
pelo menos nas condições médias que reinam atualmente à superfície do globo.
Paralelamente, porém, a esse fenômeno geológico normal, que faz parte da própria
evolução da Terra, existe uma erosão acelerada, fenômeno artificial, conseqüência dos
maus cuidados dispensados aos solos pelo homem; nesse processo acelerado as
perdas já não são compensadas pelas transformações locais do substrato geológico ou
pelas contribuições aluviais. Essa forma brutal da evolução dos solos é a
conseqüência direta da modificação profunda, ou mesmo da destruição total, dos
habitats originais, que já não estão protegidos por uma cobertura vegetal suficiente.”
Este processo acelerado de erosão já pode ser visto em diversos pontos da bacia hidrográfica
do Rio do Peixe, alguns deles passíveis de evoluir para um efeito irreversível.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
221

ATIVIDADES ANTROPOGÊNICAS
A área da bacia hidrográfica do Rio do Peixe, reiteramos, insere-se no sistema produtivo
gado-algodão, onde a pecuária e a cotonicultura - em menor proporção -, são os elementos
representativos nas formas de produção do espaço. Apesar de predominantes, essas atividades não
são exclusivas. Juntamente com o algodão associam-se outras culturas, sobretudo o milho e o feijão.
Outra forma de produção no contexto agrícola da bacia hidrográfica do Rio do Peixe é a
fruticultura. Os processos de irrigação permitem obter uma produção representativa, a exemplo da
banana, caju, goiaba, e outras espécies frutíferas.
Tanto na pecuária como na agricultura, prevalecem os processos produtivos extensivos, que
por sua vez caracterizam-se pela baixa produtividade e provocam grande impacto ambiental, tanto
no desmatamento para implantação de pastos e lavouras, como no uso das espécies da caatinga
como suplemento alimentar dos rebanhos.
Especificamente na produção agrícola, as práticas danosas ao ambiente ainda prevalecem:
broca, derrubada, aceiramento, encoivaramento, queimada, ainda bastante usuais na região.
Normalmente, antes das chuvas, final do mês de novembro e início de dezembro, intensificam-se
essas atividades na preparação do solo para a implantação das lavouras.
O setor industrial, ainda incipiente, apresenta algumas atividades tradicionais como a
produção de rapadura, queijos, doces, fiação, beneficiamento de grãos, olarias e caieiras. Essas duas
últimas utilizam como matriz energética em sua produção a lenha retirada da caatinga, agravando
ainda mais os impactos ambientais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No contexto do espaço semiárido nordestino, as bacias sedimentares representam áreas de
exceção, em função de suas características mesológicas que repercutem na diferenciação dos graus
de limitações condicionantes nas atividades produtivas e em seus aspectos geo-sócio-econômicos.
Esses espaços, as bacias sedimentares, possuem características geoambientais que os
individualizam. São áreas que, em virtude de suas características ambientais possuem uma
potencialidade produtiva maior que as áreas circunvizinhas.
Mesmo sob o domínio do clima semiárido, existe um aporte de precipitação bastante
considerável, além disso, as águas superficiais e os aqüíferos estão disponíveis para o uso racional.
A própria vegetação natural, sendo recuperada, pode servir de suporte a outras atividades
produtivas, a exemplo da apicultura.
Deve ter ficado claro que o modelo de desenvolvimento atual está ultrapassado, dado que
não leva em consideração o equilíbrio entre as potencialidades e as limitações do quadro natural:
daí as conseqüências danosas que resultam inexoravelmente na degradação ambiental.
A falta de proteção às nascentes, o desmatamento indiscriminado da vegetação natural e das
matas ciliares, os processos de salinização dos solos decorrentes da falta de drenagem, as práticas
agrícolas inadequadas, podem levar ao processo de desertificação. Razão suficiente para se postular
um novo modelo de apropriação do espaço, contribuindo para um uso adequado dos recursos
oferecidos pelo meio ambiente e conseqüente melhoria na qualidade de vida da sociedade.
Urge a implantação de ações mitigadoras que atenuem o quadro vigente. A ação efetiva no
âmbito da bacia reclama um comitê de bacia hidrográfica atuante, que identifique os problemas e
proponha formas alternativas de produção do espaço semiárido fora de palanques políticos, que
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
222
assegurem efetivamente o equilíbrio da própria dinâmica ambiental e a proteção aos recursos
naturais.
As ações mitigadoras dos problemas ambientais atuais podem ser de diversas ordens:
o Recuperação das matas ciliares e de espécies arbóreas diversificadas;
o Incentivo à pequena produção familiar;
o Extensão rural;
o Educação ambiental em todos os níveis;
o Uso racional das águas superficiais e dos aqüíferos;
o Controle na perfuração e cadastramento dos poços artesianos;
o Agricultura de xerófitas e a caprinocultura;
o Fruticultura irrigada.
Estas seriam algumas das ações que poderiam atenuar os problemas sócio-ambientais na
bacia hidrográfica do Rio do Peixe. Entre a realidade que se apresenta e a realidade que se imagina,
existe a necessidade de uma ação efetiva do poder público na gestão do espaço semiárido.
Desta forma a bacia hidrográfica do Rio do Peixe pode atuar como espaço polarizador,
dinâmico na economia regional, produzindo e gerando trabalho e renda, promovendo a cidadania de
uma forma sustentável.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
223



Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Tabela 1. Classes de Uso do Solo na Bacia Hidrográfica do Rio do Peixe.
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Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
226


AVALIAÇÃO MORFOMÉTRICA DE UM TRECHO DO MÉDIO CURSO DA BACIA
HIDROGRÁFICA DO RIO PACOTI-CE.

Pedro Henrique Balduino de Queiroz
Mestrado em Geografia – UFC –
pedrobalduino@ hotmail.com
Prof.ª Dr.ª Marta Celina Linhares Sales- UFC
–mcls@uol.com.br.


RESUMO
O uso dos recursos hídricos e sua conservação é um dos principais desafios do desenvolvimento
sustentável, devido ao aumento da população e a falta de controle dos impactos das atividades
humanas sobre o espaço natural. A Agenda 21, documento emanado da Conferência das Nações
Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento,dedicou o Capitulo 18 à proteção da qualidade e
do abastecimento dos recursos hídricos. O documento aborda temas como a integração de medidas
de proteção e conservação dos mananciais; o desenvolvimento de técnicas de participação do
público na tomada de decisões; a mobilização dos recursos hídricos, especialmente em zona áridas e
semi-áridas; o desenvolvimento de novas alternativas de abastecimento de água,reúso e reposição
de águas subterrâneas,etc.Nesse sentido a gestão de bacias hidrográficas vem assumindo uma
importância cada vez maior no Brasil, à medida que aumentam os efeitos da degradação ambiental
sobre a disponibilidade de recursos hídricos e sobre os corpos d’água em geral. Este artigo é parte
da pesquisa de mestrado intitulada “Caracterização Geoambiental e Morfométrica de um trecho do
médio curso da Bacia Hidrográfica do rio Pacoti”, desenvolvida junto ao Programa de Pós-
Graduação em Geografia da Universidade Federal do Ceará. (UFC), com apoio da Fundação
Cearense de Apoio a Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico (FUNCAP).Pretende-se abordar
apenas dois objetivos da pesquisa; um referente à caracterização geoambiental da área e outro
relativo à análise morfométrica deste trecho da bacia hidrográfica. Pretende-se direcionar os
resultados para uma política mais eficaz de planejamento ambiental que leve a um manejo adequado
dos recursos naturais da bacia.

Palavras- chave: Rio Pacoti, Morfometria, Planejamento Ambiental


INTRODUÇÃO

O uso dos recursos hídricos e sua conservação é um dos principais desafios do
desenvolvimento sustentável, devido ao aumento da população e a falta de controle dos impactos
das atividades humanas sobre o espaço natural. Nesse sentido, a gestão de bacias hidrográficas vem
assumindo uma importância cada vez maior no Brasil, à medida que aumentam os efeitos da
degradação ambiental sobre a disponibilidade de recursos hídricos e sobre os corpos d’água em
geral.
O estudo da dinâmica ambiental de bacias hidrográficas destaca-se como uma importante
ferramenta no que tange o manuseio dos recursos naturais de uma determinada área. Os fatores que
compõem este ambiente interagem entre si, originando processos inter-relacionados, definindo
paisagens geográficas que apresentam potencial de utilização de acordo com as características de
seus componentes; substrato geológico, formas e processos geomorfológicos, mecanismos
hidrometereologicos e hidrogeologicos (CHRISTOFOLETTI, 1980).
O objetivo deste trabalho é realizar a caracterização morfométrica de um trecho do médio
curso da bacia hidrográfica do rio Pacoti, direcionando os resultados para a elaboração de uma
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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política de planejamento ambiental mais eficaz, no que diz respeito ao manejo dos recursos naturais
da bacia.

LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO E CARACTERIZAÇÃO DOS COMPONENTES
GEOAMBIENTAIS

O rio Pacoti tem um curso de cerca de 112,5 Km com uma área aproximada de 1.257 km²
estando suas nascentes localizadas, na vertente setentrional do Maciço de Baturité, em nível
altimétrico entre 700m e 900m, abrangendo os municípios de Pacoti e Guaramiranga, na Latitude de
S 4º 12’ e Longitude de W 38º 54’ e sua foz localiza-se no município de Aquiraz na faixa costeira
delimitada pelas coordenadas geográficas S 3° 49’ 05’’e W 38° 23’ 28’’. O rio banha os municípios
de Pacoti, Redenção, Acarape, Pacajus, Guaiúba, Horizonte, Itaitinga, Fortaleza, Eusébio e Aquiraz.
A área escolhida para o estudo trata-se de um trecho do médio curso da bacia hidrográfica do
rio Pacoti, abrangendo aproximadamente 247,6km², abrangendo maior parte dos municípios de
Redenção e Acarape, com acesso realizado através das rodovias CE- 060, BR-116 e CE-354. Para
delimitação da área de estudo foram utilizados os critérios hidrográficos, divisor de águas, bem
como as cotas altimétricas da área. Para isso foram analisadas as cartas topográficas da SUDENE,
na escala de 1:200.000, em meio digital – Folha Baturité – SB.24-X-A-T MI-751 (DSG,1977).




















Figura 01: Mapa de Localização da área de estudo

É uma região composta essencialmente por rochas cristalinas representadas no atual mapa
tectônico do Brasil, dentro do complexo de estruturas brasilianas não diferenciadas (550 a 900
M.A.), sua maior parte no pré-cambriano indiviso, rejuvenescido no Ciclo Brasiliano, representado
por gnaisses, quartzitos e migmátito.
De acordo com o Mapa Geológico do Estado do Ceará- CPRM (2003), nesse trecho da bacia
afloram três unidades litoestratigráficas: Unidade Canindé e Unidade Independência do Complexo
Ceará (de idade Paleo-proterozóica), e a Formação Barreiras- Indiviso ( de idade Cenozóica)
A área em estudo é formada por três unidades morfoestruturais: os maciços residuais (á área
serrana), o pé-de-serra e a depressão sertaneja (sertão periférico). Os maciços residuais são
definidos por Oliveira (2002) com sendo formas residuais formadas sobre litologias diversas do
complexo cristalino que resistiram aos processos de erosão diferencial, e foram modificando o
relevo das superfícies antigas até dar lugar à sua forma atual.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
228

Ás áreas que margeiam a região serrana, conhecida por pés-de-serra, são ambientes de
transição entre o maciço residual e a depressão sertaneja. Atingem níveis altimétricos entre 200 e
400m, possuem um relevo de forma conservada, formado por depósitos de cobertura de sedimentos
coluvial, colúvio-eluvial ou aluvial, sofrendo manifestações do escoamento superficial difuso. Por
sua vez a depressão sertaneja agrupa todo conjunto de planícies e depressões interplanálticas que se
concentram, em sua maioria, no setor centro-sul dos sertões da região nordestina. Trata-se de
superfícies de erosão desenvolvidas em rochas cristalinas, eventualmente sedimentares, constituídas
por amplos pedimentos de topografia geralmente plana, e que desde a base dos maciços, se
estendem com inclinação suave em direção aos fundos de vale e planície periféricos.
Com relação às condições climáticas, a região apresenta valores máximos mensais no período
de agosto a dezembro, enquanto que o valor mínimo mensal corresponde aos meses de março a
abril. Em média as temperaturas máximas são da ordem de 34º a 36º C, de setembro a dezembro,
enquanto a média das temperaturas mínimas atinge 23º a 24º, após o final da estação chuvosa. O
clima pode ser classificado como do tipo Bshw de Koppen, onde se obtêm índices pluviométricos
compreendidos entre 800 e 1000 milímetros por ano.
De acordo com estudo realizado pela SUDENE (1972), as principais classes de solos da área
são: Argissolos Vermelho-amarelo Eutrófico, Luvissolos, Planossolos, Neossolos Quartzarênicos.
Os principais tipos vegetacionais da área são: Floresta úmida Semi-perenifólia, Floresta Úmida
Semi-Caducifólia, Floresta Caducifólia, Caatinga Arbustiva Densa e Mata Ciliar. (CPRM, 2003).

METODOLOGIA

REFERENCIAL TEÓRICO.
As diferentes formas de relevo presentes na superfície terrestre são oriundas da interação entre
processos tectônicos, pedogenéticos e intempéricos, que atuam de forma diversificada nos
diferentes materiais rochosos. As bacias hidrográficas, como um sistema individualizado, podem ser
consideradas como fontes de dados relevantes para a obtenção de informações sobre a evolução do
modelado da superfície da Terra.
As análises morfométricas em geomorfologia, com a preocupação de mediar às formas de
relevo através de processos sistemáticos e racionais, tiveram grande impulso no final do século
XIX. Esta fase inicial dos estudos morfométricos acabou sendo suplantada pela expansão das novas
concepções geomorfológicas oriundas do continente americano, e por outras tendências
geomorfológicas já existentes na própria Alemanha (HENRI apud CHRISTOFOLETTI, 1969).
Cabe à morfometria, segundo Cooke e Doornkamp (1992) ‘....a mensuração e análise
matemática da configuração as superfície terrestre e da forma e dimensões de sua paisagem”. Tais
autores afirmam que as características morfométricas podem ser usadas na inferência sobre
prováveis efeitos da interferência humana no sistema e nas estimativas das características de um
rio da bacia numa área remota, fundamental ao levantamento de recursos naturais, ou em partes não
monitoradas de áreas já desenvolvidas (RAFAELI NETO ,1994).
Os parâmetros quantitativos em bacias hidrográficas constituem um meio de análise das
condições hidrológicas que, associados a outros elementos de sua estrutura, permitem a
compreensão das dinâmicas naturais e evolução dos fenômenos decorrentes das intervenções
antrópicas.
De acordo com Christofoletti (1980):

Os aspectos morfométricos de bacias hidrográficas refletem algumas das
interrelações mais significativas entre os principais fatores responsáveis pela evolução e
organização do modelado, em particular a geomorfologia. O cálculo de parâmetros
relacionando caracteres espaciais, lineares e hipsométricos da drenagem contribui para
melhor caracterizar as unidades geomorfológicas, evitando a descrição puramente
verbal, cuja qualidade e precisão variam conforme a especialidade redacional do
pesquisador e de acrodo com a conceituação dada à nomenclatura utilizada (p.).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
229

Leal (2000) relata que a análise morfométrica da drenagem tem como objetivo subsidiar o
disciplinamento do uso e ocupação do solo, pois as medidas de controle do escoamento das águas
superficiais, de proteção da vegetação e de controle da erosão têm reflexo na proteção dos recursos
hídricos tanto quantitativa como qualitativamente. A morfometria das bacias de drenagem fornece
indicadores para a compreensão dos recursos hídricos que serão utilizados para a viabilização de um
desenvolvimento sustentável a partir das potencialidades dos recursos naturais existentes na bacia
hidrográfica do rio Pacoti.

PROCEDIMENTOS TÉCNICOS

Os índices adotados neste trabalho são abordados em três itens: hierarquia fluvial, que
abrange basicamente a classificação dos cursos d’água dentro da bacia, a análise linear, envolvendo
ás medições efetuadas ao longo das linhas de escoamento (comprimento do rio principal) e análise
areal, que corresponde ás medições planimétricas e lineares (área da bacia no trecho, forma,
densidade de rios e densidade de drenagem). No que se refere a hierarquização dos canais fluviais
foi utilizada a proposta de STRALHER (1952), onde os segmentos de canais formadores, sem
tributários, são denominados de primeira ordem; da confluência de dois canais de primeira ordem
surgem os segmentos de canais de segunda ordem que só recebem afluentes de ordem inferior. Da
confluência de dois segmentos de canais de segunda ordem surgem os segmentos de terceira ordem
que recebem afluentes de ordens inferiores (no caso, segmentos de primeira e segunda ordens).










Figura 01- Os dois casos demonstram o procedimento para
determinar a ordem ou hierarquia das bacias hidrográficas,
conforme Horton (A) e Strahler (B).
Fonte: Christofoletti,1980


Para o cálculo de tais parâmetros foram utilizadas as ferramentas do software GVsig1.1. A
seguir estão destacados os parâmetros utilizados para caracterização morfométrica da área:














Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
230


Quadro 01: Parâmteros Mofométricos utilizados na pesquisa
Elaboração:Queiroz,2009.


RESULTADOS

Para este trecho da bacia foram encontrados os seguintes resultados: a área da bacia, no trecho
é 247,61 km² e o perímetro 84,13km. O comprimento verdadeiro (projeção ortogonal) do rio
principal é da ordem de 30,18 km ,e a distância vetorial que representa o comprimento em linha
reta entre os dois pontos extremos do canal é da ordem de 25,55 km. No que abrange a hierarquia
fluvial foram identificados um total de 54 canais com um comprimento total de 140 km. Desses 54
canais, 42 segmentos são de1ª ordem, 9 de 2ª ordem, 2 de 3ª ordem, e 1 de 4ª ordem. Os segmentos
de primeira ordem possuem 81,7 km ,os de segunda 26.5km ,os de terceira 19,5 km ,e o de quarta
ordem 12,3km. Obteve-se que os canais de primeira ordem têm comprimento médio em torno de
1,94 km, os de segunda ordem 2,94 km , os de terceira 9,75 km e o de quarta ordem 12,3 km..
Segundo Christofolleti (1980), no sistema de ordenação de Strahler (1952), verifica-se que o
resultado obtido na relação de bifurcação nunca pode ser inferior a 2, sendo que valores padrão,
Padrão e Forma da bacia
Parâmetro Fórmula Descrição Significado


Densidade de
Drenagem(Dd)

Dd = Lt
A
Lt= comprimento total
dos canais.

A= área da bacia
Os valores elevados
indicam áreas de pouca
infiltração e melhor
esculturação dos canais
(Christofoletti, 1968)

Densidade
Hidrográfica(Dh)

Dh = Nt
A
Nt = Nº total de canais

A= área da bacia
Indica a capacidade em
gerar novos cursos
d´água
(Christofoletti,1969)
Coeficiente de
Compacidade (Cc)

K= 0,28 P
√A

P= Perímetro da área

A= área da bacia
Relaciona a bacia a uma
forma circular. Valores
próximos da unidade 1,0
a bacia tende a ser circular
Índice de
Circularidade
Ic = 12,57 .A

P= Perímetro da área

A= área da bacia
Relaciona a bacia a uma
forma circular. Valores
próximos da unidade 1,0
a bacia tende a ser circular
Coeficiente de
Manutenção (Cm)

Cm= 1 . 100
Dd

Dd = Densidade de drenagem.
Indica a área mínima necessária
Para existir um metro de canal
de escoamento = a capacidade de
manter cursos perenes.
(Schumm, 1956).
Índice de
Sinuosidade (Is)


Is = Lv
Lr
Lv= comprim. verdadeiro do
canal principal.
Lr = comprim. em linha reta
do canal principal
Indica a tendência do canal
principal em ser retilíneo e/ou
tortuoso,transicionais
Extensão do
Percurso
Superficial (Eps)


Eps= 1
2Dd

Dd= Densidade de drenagem.
Representa a distância média
Percorrida pelas águas pluviais
(Horton,1945).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
231

variam entre 3 a 5. Nesse trecho da bacia a relação variou de 2 a 4,6, tendo uma média de 3,72
,sendo considerado um canal normal.






















Figura 02: Mapa de Hierarquização Fluvial.


A densidade de rios é de 0,21 rios/km² e a densidade de Drenagem foi de 0,56 km/km², De
acordo com Villela e Mattos (1975), esse índice pode variar de 0,5 km/km
2
em bacias com
drenagem pobre a 3,5 km/km
2
, ou mais, em bacias bem drenadas, indicando, assim, que o trecho em
estudo possui média capacidade de drenagem. Quando o valor de (Dd) é superior ao (Dr), reflete
um acentuado controle estrutural, alongando o comprimento dos canais, o que reflete num menor
número de canais, no entanto, com comprimento mais elevado.
Foi determinado o Coeficiente de Manutenção, que indica a área mínima necessária para
existir um metro de canal de escoamento, ou seja, indica a capacidade de manter cursos perenes.
SCHUMM apud LANA (2001) destacam este índice como um dos valores numéricos mais
importantes para a caracterização do sistema de drenagem, limitando sua área mínima necessária
para o desenvolvimento de um canal. Para a área o Coeficiente de Manutenção é de 1785 m²/m,
sendo área mínima necessária para a manutenção de um metro de canal de escoamento nesse trecho
da bacia.
Um terceiro índice analisado refere-se a Extensão do Percurso Superficial, (Eps),que
representa a distância média percorrida pelas enxurradas entre o interflúvio e o canal permanente
(HORTON, 1945). O valor obtido pela determinação da extensão do percurso superficial é similar,
quanto à interpretação, ao coeficiente de manutenção. Na área esse índice é em torno de 892,8 m de
extensão. Segundo Rocha (1997), em termos ambientais, a determinação deste parâmetro é de
fundamental importância, podendo ser relacionado ao indicativo de erosão. Dessa maneira, quanto
maior o resultado, mais forte é a predisposição à erosão, e vice-versa, pois o sistema está buscando
ajustamento às condições naturais.
De acordo com Lima (1968), a forma geométrica de uma bacia hidrográfica está diretamente
ligada a interação de fatores fisicos-ambientais como clima e geologia. Em geral, é representada em
plano semelhante a uma pera, em razão do alargamento dos interflúvios,com direcionamento da
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
232

rede de drenagem para o exultório comum, onde se verifica o afunilamento,mas,em qualquer
situação, a bacia hidrográfica é côncava determinando o direcionamento geral do fluxo.
A interpretação visual da geometria de bacias hidrográficas é muito subjetiva. Nesse sentido
foram elaborados uma série de parâmetros morfométricos com propostas de processos diferentes
para a caracterização da forma de uma bacia hidrográfica, por meios quantitativos, dentre eles:
Fator de forma (Ff) , índice de circularidade (Ic), e o Coeficente de Compacidade (Kc). Por esta
razão, neste estudo, foram aplicados os dois últimos parâmetros (Ic e Kc), na perspectiva de atenuar
tal subjetividade.
A mensuração da forma de bacias hidrográficas conforme o procedimento estabelecido por
D.R. Lee e T. Salle. No exemplo abaixo, o valor do índice para o circulo é de 0,313; de 0,367 para o
retângulo e de 0,22 para o triângulo.










Figura 03: Formas Geométricas de Bacias Hidrográficas.
Fonte: Christofoletti,1980

Tanto o Coeficiente de Compacidade (Kc) como o índice de Circularidade (Ic) relaciona a
forma da bacia com um círculo. Constitui a relação entre o perímetro da bacia e a circunferência de
um círculo de área igual à da bacia. De acordo com Villela e Mattos (1975), esse coeficiente é um
número adimensional que varia com a forma da bacia, independentemente de seu tamanho.
Quanto mais irregular for a bacia, maior será o coeficiente de compacidade. Um coeficiente
mínimo igual à unidade corresponderia a uma bacia circular e, para uma bacia alongada, seu valor é
significativamente superior a 1. Uma bacia será mais suscetível a enchentes mais acentuadas
quando seu Kc for mais próximo da unidade. Já um índice de circularidade igual a 0,51 representa
um nível moderado de escoamento; maior que 0,51 indica que essa bacia tende a circular; menor
que 0,51 a bacia tende a ser mais alongada , o que favorece um maior escoamento.
De acordo com os resultado obtidos (Kc = 1,50 e Ic = 0,43 ), pode-se afirmar que esse trecho
da bacia hidrográfica do rio Pacoti mostra-se pouco suscetível a enchentes em condições normais de
precipitação (ou seja, excluindo-se eventos de intensidades anormais) pelo fato de o coeficiente de
compacidade apresentar o valor acima da unidade e o índice de circularidade ser menor que 0,51.
Assim, há uma indicação de que a bacia não possui forma circular, possuindo, portanto, uma
tendência de forma alongada. De um modo geral numa bacia alongada com Ic e Kc que se distância
da unidade, os tributários atingem o curso d’água principal em vários pontos ao longo do mesmo.
Em bacias com forma circular, há maiores possibilidades de chuvas intensas ocorrerem
simultaneamente em toda a sua extensão, concentrando grande volume de água no tributário
principal
Entende-se ainda que, em condições naturais de equilibrio hidrológico, esse trecho da bacia
do Pacoti, ao apresentar a forma irregular, favorece a movimentação mais lenta para os fluxos, e
dessa maneira aumenta o tempo de formação para o deflúvio. Enquanto que na forma regular,
ocorre de maneira mais rápida com deflúvio.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
233

Por fim foi calculado o Índice de Sinuosidade (Is), que determina a tendência do canal
principal do rio em ser retilíneo, sinuoso ou transicional De acordo com Schumm (1952), valores
próximos a 1,0 indicam que o canal tende a ser retilíneo, já valores superiores a 2,0, indicam que os
canais tendem a ser tortuosos e os valores intermediários indicam formas transicionais, regulares e
irregulares. A sinuosidade dos canais é influenciada pela carga de sedimentos, pela característica
litológica, estrutura geológica e pela declividade dos mesmos (LANNA,2001) . Para Schumm apud
Cunha e Guerra (1996), as diferentes sinuosidades dos canais são determinadas muito mais pelo
tipo de carga detrítica do que pela descarga fluvial. O índice de sinuosidade encontrado para a área
foi de 1,18 (adimensional). Este valor informa que o canal principal da bacia tende a ser transicional
entre canais sinuosos e retilíneos.

REFERÊNCIAS

CPRM- ATLAS DIGITAL DO ESTADO DO CEARA- 2003.
HORTON, R.E. Erosional development of streams and their drainage basians: hidrophysical
approach to quantitative morphology. Geol. Soc. America Bulletin,1945.
LANA,C.E; ALVES,J.M. de P; CASTRO, P.T.A. Análise Morfométrica da Bacia do Rio do
Tanque, MG-BRASIL.REM. Ouro Preto- MG,2001.
LIMA,W.P. Príncipios de Hidrologia Florestal para o Manejo de Bacias Hidrográficas. São
Paulo: Universidade de São Paulo.1986.242p.
OLIVEIRA,V.P.V.de. Prospección, Caracterización y cartografia edafopaisajística em uma
región montañosa del semiárido brasileño: la Sierra de Uruburetama (Sertão Nordestino- Ceará-
Brasil). Almería: Universidad de Almería,2002 (Tese de Doutorado).
ROCHA,J.S.M. Manual de Projetos Ambientais. Santa Maria:Imprensa Universitária,1997.423p.
SCHUMM,S.A. Evolution of drainage systems and slopes in badlands of Perth Amboy. Bulletin
of Geological Society of America, n.67,1956.
STRAHLER, A. N. Hypsometric (area-altitude) analysis of erosional topography. Geol. Soc.
America Bulletin,19520
SUDENE, Mapa Exploratório. Reconhecimento de Solos do Estado do Ceará. Recife, 1972.
VILLELA,S.M.; MATTOS, A. Hidrologia Aplicada. São Paulo,ed. Mcgraw- Hill do Brasil,1975.





















Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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CONDIÇÕES DE USO E OCUPAÇÃO E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DO RIO
APODI/MOSSORÓ NO TRECHO URBANO DA CIDADE DE MOSSORÓ - RN

Rodrigo Guimarães de Carvalho

Departamento de Gestão Ambiental da Universidade do Estado do
Rio Grande do Norte/UERN, Mossoró (RN) – Brasil
rodrigo.ufc@gmail.com

RESUMO
Os recursos hídricos existentes em áreas urbanas no Brasil, em sua maioria, têm sido
progressivamente degradados em função de atividades de uso e ocupação de alto impacto ambiental
que se desenvolvem à revelia de qualquer planejamento ou fiscalização por parte do poder público.
A cidade de Mossoró, no estado do Rio Grande do Norte, tem apresentado uma significativa
expansão de sua área urbana nos últimos anos, alavancada sobretudo pelo incremento de atividades
econômicas como a produção de petróleo e de sal marinho. O rio Apodi-Mossoró, no trecho que
corta a área urbana de Mossoró, apresenta um grave quadro de degradação ambiental, objeto de
análise da presente pesquisa. Através de fotointerpretação de imagens aéreas e visitas de campo foi
possível compartimentar as atividades de uso e ocupação do solo em três tipos: a zona de uso pouco
adensado, a zona de ocupação urbana adensada e a zona de intenso uso agrícola. Entre os processos
de degradação ambiental identificados, merecem destaque a ploriferação da espécie Prosopis
juliflora, a supressão da vegetação para diversos usos, o uso e ocupação de APPs, a descarga de
esgoto doméstico no leito do rio e o despejo de resíduos sólidos no rio e em suas margens.

Palavras chave: recursos hídricos; áreas urbanas; uso e ocupação do solo; rio Apodi-Mossoró.

INTRODUÇÃO

O aumento significativo da população urbana no Brasil a partir de 1940 e o forte crescimento
do parque industrial, a partir da década de 50, foram acompanhados da ocupação de áreas sem infra-
estrutura de saneamento básico, o que contribuiu para a rápida degradação da qualidade das águas
(BOTELHO; DA SILVA, 2004). Fatores como a degradação das áreas de preservação permanente,
ocupação de áreas de várzea para a produção agrícola e a falta de saneamento com descarga de
efluentes in natura em cursos d’água, fazem das atividades humanas as principais promotoras de
degradação dos recursos hídricos a despeito de todo arcabouço legal existente no Brasil com intuito
de manter a integridade ecológica desse importante componente ambiental e dos ecossistemas
associados.
Para Tucci (2006), com o crescimento populacional, fatores como a poluição doméstica e
industrial se agravam, alterando a qualidade ambiental e propiciando o desenvolvimento de doenças
de veiculação hídrica, a contaminação da água subterrânea, entre outros problemas. Esse processo
mostrou que o desenvolvimento urbano sem qualquer planejamento ambiental resulta em prejuízos
significativos para a sociedade.
A bacia hidrográfica do rio Apodi/Mossoró, encravada no semi-árido nordestino é a maior
bacia e única inteiramente situada dentro dos limites do estado do Rio Grande do Norte ocupando
26% deste território. As nascentes do rio estão nas serras próximas do município de Luís Gomes, no
alto oeste potiguar, a uma altitude de 831 m aproximadamente, na região da Serra de São José,
Parati e Serra Negra. Possui uma extensão de 210 km até sua foz, no Oceano Atlântico, em forma
de estuário (IDEMA, 2008).
O município de Mossoró conta com uma população de 234.390 habitantes e área de 2110 Km
quadrados (IBGE, 2007). A cidade vem passando por um momento singular com crescimento
virtuoso, alavancado em grande parte pelo aumento da produção de petróleo. No entanto, Mossoró,
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
235

do ponto de vista econômico, é bem mais diversificada, com atividades ligadas ao setor salineiro,
fruticultura irrigada, comércio e serviços. Esse crescimento tem um reflexo direto na expansão da
área urbana com a construção de novas estruturas, verticalização e ocupação de áreas de risco pela
população de baixa renda.
A cidade tem sua área urbana seccionada pelo Rio Apodi-Mossoró. Nesse setor, podem ser
observados vários problemas ambientais com impacto direto à qualidade ambiental do rio como o
desmatamento e ocupação das áreas de preservação permanente regulamentadas pela resolução
CONAMA 303 de 2002, existência de diversos barramentos muitas vezes construídos pela própria
população e a descarga direta de efluentes urbanos. Sazonalmente, no período de maior
pluviosidade, são comuns as inundações das áreas marginais atingindo vários equipamentos
urbanos, desalojando famílias e mais uma série de transtornos para a população de Mossoró. Tucci
(op cit.) considera que as enchentes em áreas urbanas são devidas a dois processos, que ocorrem
isoladamente ou de forma integrada: enchentes devido à urbanização, que é provocada devido a
ocupação do solo com superfícies impermeáveis e redes de condutos de escoamento; enchentes em
áreas ribeirinhas, que são enchentes naturais que atingem a população que ocupa o leito maior dos
rios.
O rio Apodi-Mossoró, no trecho que drena a área urbana do município, sofreu intervenções
para a alteração do seu curso natural, sendo construídos canais artificiais. Um canal maior, chamado
de Canal Dix-Huit Rosado, construído em 1976 e outro menor, denominado Canal de
Tricotomização, construído em 1986. Além desses canais de desvio do leito principal, o rio possui
um sistema de quatro micro-barramentos sucessivos que controlam a vazão da água, principalmente
durante o período de baixa pluviosidade, que são: barragem do Genésio, barragem do Centro,
barragem de Baixo ou das Barrocas e barragem Passagem de Pedras (VARELA, 2008).
Considerando todas essas intervenções antrópicas sobre o rio e as atividades de uso e
ocupação do solo, a presente pesquisa teve como objetivo geral avaliar os processos de degradação
ambiental impulsionados pelo uso e ocupação desordenados do rio Apodi-Mossoró no trecho
urbano da cidade de Mossoró. Foram objetivos específicos:

- Avaliar os diferentes tipos de uso e ocupação desenvolvidos na planície fluvial;
- Elaborar um mapa de compartimentação do uso e ocupação do solo;
- Descrever os processos de degradação ambiental instalados;
- Analisar o estado de conservação das áreas de preservação permanentes;

LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

A área geográfica a ser estudada corresponde à planície fluvial do rio Apodi-Mossoró, no
trecho em que este secciona o núcleo urbano da cidade de Mossoró no estado do Rio Grande do
Norte. A área delimitada para o estudo tem aproximadamente 3.000 ha com um perímetro de 29
km. Já a área urbana total possui 14.700 ha com um perímetro de 47 km. A área pode ser
visualizada na figura 1.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
236


Figura 1 – Localização da área de estudo

METODOLOGIA

Esta pesquisa, de acordo com os parâmetros estabelecidos em Gil (2002), pode ser
considerada como descritiva. Buscou-se alcançar os objetivos propostos por meio de técnicas de
interpretação de imagens aéreas associadas a visitas de campo. A cartografia digital também
auxiliou na sistematização dos resultados possibilitando mensurações territoriais e a construção de
mapa temático.

ROTEIRO METODOLÓGICO

Para o alcance dos objetivos foram seguidas as seguintes etapas operacionais:

• Levantamento bibliográfico, onde foram consultados livros, trabalhos científicos como
dissertações e teses, periódicos e demais produções científicas relacionadas à temática.
• Investigação documental, com a coleta de documentos na Gerencia Municipal de Gestão
Ambiental de Mossoró acerca de dados sobre a área estudada como mapas, quantidade e
distribuição de habitações e o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano;
• Análise de fotografias aéreas de 2005 disponibilizadas pela Prefeitura Municipal de
Mossoró. A fotointerpretação gerou informações acerca dos limites da área a ser estudada,
estrutura da cobertura vegetal e condições de uso e ocupação das margens.
• Etapa de campo para a visualização das condições ambientais in loco. Foi utilizada uma
caderneta para anotações e máquina fotográfica digital para a tomada de imagens de
interesse desta pesquisa.
• Etapa de gabinete onde foram trabalhados os dados coletados, estruturados os mapas e
redigido o relatório final desta pesquisa.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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RESULTADOS E DISCUSSÃO

USO E OCUPAÇÃO DO SOLO NA PLANÍCIE FLUVIAL

A planície fluvial do trecho urbano da cidade de Mossoró apresenta um uso e ocupação
diversificado, apresentando atividades relacionadas a agricultura, extrativismo, ocupação urbana,
pastagem de rebanhos, entre outras. A partir da análise das fotografias aéreas e de checagens de
campo, foi possível estabelecer critérios para o agrupamento de determinadas atividades e
delimitação de zonas de uso e ocupação do solo. Foram definidas três grandes áreas de uso e
ocupação: a zona de uso pouco adensado, a zona de ocupação urbana adensada e a zona de intenso
uso agrícola (FIGURA 2).


Figura 2 – Uso e ocupação na planície fluvial do rio Apodi-Mossoró
Fonte: Elaboração própria







Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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A área territorial das zonas é mostrada na tabela 1:

Tabela 1 – Área territorial das zonas
Zona Tamanho aproximado em
hectares
Zona de uso pouco adensado 1190
Zona de ocupação urbana adensada 732
Zona de intenso uso agrícola 1153
Fonte: Elaboração própria

A zona de uso pouco adensado possui mínimas edificações em seu perímetro. Apresenta
algumas lagoas isoladas residuais dos períodos de maior pluviometria e maior vazão do rio, quando
este extravasa seus limites marginais atingindo áreas de inundação sazonal. Dentro dessa zona está
situada a Ilha da Coroa, mais ao sul, que apresenta um contexto de uso e ocupação de subsistência.
A população que mora no entorno costuma acessar a ilha por meio de pontes de pedra que são
construídas durante os períodos de baixa pluviometria e destruídas quando do aumento da vazão do
rio. Outras formas de acesso são por meio de barcos ou até mesmo a nado. Varela (2008)
pesquisando sobre o uso e ocupação dessa ilha constatou um uso agrícola de baixo impacto, uso
para pastagem de gado e rebanho suíno, extração de areia e o que provoca mais impacto que é a
extração de madeira para diversos fins. As áreas de preservação permanente encontram-se bastante
degradadas e, em muitos trechos, com predomínio da Prosopis juliflora, conhecida popularmente
como algaroba, uma espécie invasora que se adaptou muito bem a região. Nesta zona também são
encontrados os maiores remanescentes da Copernicia prunifera, conhecida tradicionalmente como
carnaúba, vegetação que ocupa normalmente as margens inundáveis das bacias hidrográficas
inseridas no bioma caatinga (FIGURA 3).


Figura 3 – Aspectos da zona de uso pouco adensado. Foto do autor, 2008.

Dentro do contexto de uso e ocupação de toda a planície fluvial da zona urbana de Mossoró, é
nesta área que se encontra a maior potencialidade para a conservação a partir da implementação de
instrumentos de gestão ambiental como a criação de unidades de conservação, recuperação
ambiental e paisagística, manejo agrícola de subsistência, entre outros.
Na zona de ocupação urbana adensada encontramos a situação de maior degradação ambiental
com a supressão quase que total da vegetação natural e vasta degradação das áreas de preservação
permanente. Entre os principais problemas ambientais podemos citar o lançamento, através de
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
239

galerias subterrâneas, de esgoto in natura diretamente no leito do rio e o despejo de resíduos sólidos
de diversas naturezas no leito e nas margens (FIGURA 4).


Figura 4 – Poluição no leito e margens da zona de ocupação urbana adensada. Foto do autor, 2008.

Outro ponto importante que deve ser abordado é que parte da população que está inserida
nessa zona tem sofrido de forma recorrente com as inundações gerando problemas sociais e
ambientais. Das três zonas consideradas nesse estudo, esta é certamente, a mais problemática e que
precisa de mais investimentos para a recuperação. Entre as medidas que devem ser adotadas estão o
saneamento ambiental, retiradas de edificações das faixas de preservação permanente e recuperação
da mata ciliar.
A zona de intenso uso agrícola está situada em uma área relativamente distante da ocupação
urbana. As atividades agrícolas são favorecidas pela existência de neossolos flúvicos com boa
fertilidade natural. A vegetação de porte arbóreo e arbustiva foi quase que completamente
suprimida para dar lugar às culturas, sobrando apenas alguns exemplares remanescentes (FIGURA
5). A degradação da vegetação natural, principalmente nas áreas de preservação permanente, é um
fator que favorece o transporte de sedimentos para dentro do canal principal aumentando os
problemas de enchentes de uma forma gradativa. Como medidas de contenção dessa degradação
deve haver um controle maior do poder público no sentido de fiscalizar e negociar a recuperação
das matas ciliares. Outro fator preocupante é a possibilidade de uso de fertilizantes que podem
deteriorar a qualidade ambiental da água e provocar impactos para a fauna aquática, bem como,
para as populações que ainda praticam a pesca nesse setor do rio Apodi-Mossoró.
A tabela 2 apresenta uma síntese dos principais processos de degradação ambiental
distribuídos nas três zonas de uso e ocupação consideradas neste trabalho.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
240


Figura 5 – Padrão poligonal das áreas com uso agrícola. Fotografia aérea, 2005.

Tabela 2 – Síntese dos processos de degradação ambiental
ZONA PRINCIPAIS PROCESSOS DE
DEGRADAÇÃO AMBIENTAL
Zona de uso pouco adensado Ploriferação da espécie Prosopis
juliflora;
Supressão da vegetação para diversos
usos;
Uso e ocupação de APPs.
Zona de ocupação urbana
adensada
Ploriferação da espécie Prosopis
juliflora;
Supressão da vegetação para diversos
usos;
Uso e ocupação de APPs;
Descarga de esgoto doméstico no leito
do rio;
Despejo de resíduos sólidos no rio e
em suas margens;
Microbarramento do curso natural do
rio.
Zona de intenso uso agrícola Supressão da vegetação para uso
agrícola;
Uso e ocupação de APPs;
Risco de contaminação por
fertilizantes e agrotóxicos.
Fonte: Elaboração própria





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dentro das três classes de uso e ocupação identificadas nesse trabalho foi constatado elevado
grau de degradação dos recursos naturais. A zona que mais apresenta modificações no sistema
hidroambiental natural em função de intervenções antrópicas é a zona de ocupação urbana
adensada. O comprometimento da qualidade ambiental dos recursos hídricos se dá pela inexistência
de políticas de planejamento e gestão que tragam garantias de conservação das águas e das matas
ciliares, responsáveis por proteger o rio de assoreamentos e de manter o suprimento nutricional da
fauna limnológica. Essa zona é considerada de intervenção urgente com o objetivo de recuperar as
funções ecossistêmicas do rio e associações vegetais. Nas zonas de intenso uso agrícola e de uso
pouco adensado, as intervenções devem ser menos complexas em face da existência de poucas
edificações. Notadamente na zona de uso pouco adensado, são encontradas potencialidades para a
recuperação ambiental e implementação de instrumentos de maior controle do uso e ocupação do
solo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS


BOTELHO, R. G. M.; DA SILVA, A. S. Bacia hidrográfica e qualidade ambiental. in: VITTE,
A. C.; GUERRA, A. J. T. Reflexões sobre a geografia física no Brasil.Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2004.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4
a
Ed. São Paulo: Atlas, 2008.

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1. Acesso: 15/11/2008.

IDEMA - Instituto de Desenvolvimento Econômico e do Meio Ambiente. Disponível em:
www.idema.rn.gov.br/perfildoseumunicipio-censo de 2007. Acesso: 15/11/2008.

VARELA, M. C. Viabilidade ambiental para a criação de unidades de conservação na Ilha da
Coroa, Mossoró. Trabalho de conclusão de curso. Curso de Graduação em Gestão Ambiental –
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, 2008.

TUCCI, C. E. M. Água no meio urbano. In: REBOUÇAS, A. da C. et al. Águas doces no Brasil:
capital ecológico, uso e conservação . 3
a
Ed. São Paulo: Escrituras Editora, 2006.






Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
242


TEORES DE ALUMÍNIO TROCÁVEL E PERCENTUAL DE SATURAÇÃO EM UMA
ÁREA INSERIDA NA BACIA COREAÚ

R. N. F. Monteiro
Mestrando em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC, rayyar19@hotmail.com

A. M. Figueiró
Mestranda em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC,
drissamendes@hotmail.com

V. da S. Lacerda
Mestranda em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC,
vivi.esam@hotmail.com

K. N. Leite
Mestranda em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC,
kellyleite14@hotmail.com





RESUMO
O presente trabalho teve como objetivo fazer um levantamento do número de amostras e dos teores
de alumínio trocável e percentagem de saturação por alumínio, encontrados em solos analisados
pelo laboratório de análise de solo, água para irrigação e tecido vegetal da FATEC-Sobral, de
Ibiapina - Ceará no ano de 2007. Foram analisadas e avaliadas trinta e nove amostras. Dentre elas
observou-se que em relação ao alumínio trocável (mmol
c
/dm
3
) quatro apresentaram valores alto,
entre 13,5 e 10,0, quatro médio, entre 7,5 e 5,5 e as demais baixo com valores entre 4,0 e 0,0, destes
somente quatro não apresentaram alumínio. Em relação a percentagem de saturação por alumínio
(m%), constatou-se que duas amostras apresentaram valores muito alto, 64 e 53, quatro valores
entre 41, e 55, considerado alto, sete entre 12 e 33 considerado médio e os demais baixo, onde em
cinco a percentagem foi zero e os demais variando de 1 a 15. A presença de alumínio trocável no
solo é um fator indesejável ao tratar-se de agricultura tecnificada e todo esforço deve ser aplicado
para que os valores dessa determinação sejam zero.

Palavras-chave: Levantamento de dados, percentagem de saturação, agricultura tecnificada.


INTRODUÇÃO

O teor de alumínio trocável é importante na avaliação da capacidade de troca de cátions
(CTC) dos solos, ou da saturação da CTC efetiva em alumínio. Em algumas regiões do Brasil, o
teor de Al trocável no solo é utilizado como referência para o cálculo da necessidade de calagem
dos solos. Como o alumínio é considerado o cátion predominante da acidez trocável na maioria dos
solos brasileiros, o resultado obtido na titulação do extrato de solo em KCl 1 mol L
-1
com NaOH
0,025 mol L
-1
é considerado como sendo o teor de Al (EMBRAPA, 1997).
Solos ácidos são comuns em vários partes do mundo, de fato, a toxicidade de Al limita a
produção muito mais que qualquer outro estresse abiótico, exceto a seca. Os solos brasileiros, em
sua maioria, são velhos e intemperizados, apresentando acidez e elevados teores de alumínio, o que
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
243

traz sérios problemas para o desenvolvimento do sistema radicular das plantas, as quais limitam o
aproveitamento da água e nutrientes adicionados ao solo por meio dos fertilizantes.
Para uma agricultura tecnificada, com alta produtividade, é inaceitável a presença de
alumínio trocável no solo. Todo esforço deve ser aplicado para que os valores dessa determinação
sejam zero. Por outro lado, apenas o teor de Al trocável nem sempre e suficiente para caracterizar
sua toxidez para as plantas, pois esta depende também da proporção que o Al ocupa na CTC efetiva.
A tolerância de várias espécies vegetais ao alumínio tem sido atribuída à capacidade das
plantas manterem em suas raízes ou na parte aérea níveis adequados de certos nutrientes essenciais
(Mendonça et al., 2003). A toxicidade provocada pelo alumínio manifesta-se inicialmente pela
redução da taxa de elongação radicular após o contato com a solução contendo alumínio (Custódio
et al., 2002) e drástica redução no crescimento da parte aérea (Beutler et al., 2001).
O município de Ibiapina localiza-se no Estado do Ceará na região serrana do Planalto da
Ibiapaba. A região da Ibiapaba está a norte do Estado do Ceará, abrangendo áreas dos municípios de
Tianguá, Ubajara, Viçosa, Ibiapina, São Benedito, Guaraciaba do Norte, Carnaubal, Croatá e Ipú. O
valor bruto da produção agrícola na região movimenta anualmente cerca de R$ 33 milhões, numa
área de 862 hectares com culturas diversas gerando algo em torno de 1.300 empregos diretos.
Baseado no exposto o presente trabalho teve como objetivo fazer um levantamento do
número de amostras e dos teores de alumínio trocável e percentagem de saturação de alumínio,
encontrados em solos analisados pelo laboratório de análise de solo, água para irrigação e tecido
vegetal da Faculdade de Tecnologia CENTEC - FATEC Sobral, de Ibiapina, município do Planalto
da Ibiapaba - Ceará no ano de 2007.


MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi desenvolvido no Laboratório de análises de solo, água para irrigação e tecido
vegetal da Faculdade de Tecnologia CENTEC – FATEC Sobral. Pretendeu-se avaliar o teor de
alumínio trocável dos solos das amostras enviadas ao laboratório por produtores de hortaliças do
município de Ibiapina em 2007. Foram analisadas e avaliadas trinta e nove amostras.
O método analítico utilizado para determinação do alumínio encontra-se descrito em Silva
(1999) e a classificação para os teores de alumínio trocável foram os indicados no Manual de
Recomendação de Adubação e Calagem para o Estado do Ceará (Fernandes 1993). Para o teor de
saturação por alumínio (m%) a classificação deu-se pelo Manual para Interpretação de Análise de
Solo.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela a seguir mostra a distribuição dos valores de alumínio trocável e o percentual da
saturação do Al, classificando em não prejudicial, levemente prejudicial, prejudicial e muito
prejudicial. De acordo com esses parâmetros encontram-se os resultados alcançados.
Tabela 1 - Interpretação dos valores de alumínio trocável e m%.
Classificação
Determinação Unidade
Baixo Médio Alto Muito Alto
mmol
c
/dm³

0-5 06-10 >10
Alumínio
Trocável m
%
0-15 (não
prejudicial)
16-35 (levemente
prejudicial)
35-50
(prejudicial)
> 50 (muito
prejudicial)
Fonte: Tomé Jr., 1997.



Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
244

Conforme a Figura 2, das trinta e nove amostras avaliadas observou-se que em relação ao
alumínio trocável (mmol
c
/dm
3
) quatro apresentaram valores alto, entre 13,5 e 10,0, quatro médio,
entre 7,5 e 5,5 e as demais baixo com valores entre 4,0 e 0,0, destes somente quatro não
apresentaram alumínio. Dos pontos de Al trocável 10% foram classificados em alto e médio e 80%
foi considerado baixo.
Foram detectados valores nulos de Al trocável nos solos analisados. Segundo Pavan (1983) e
Alcântara (1997) esse fato ocorre provavelmente devido aos valores de pH, reduzindo a
solubilidade de Al, e também pela provável reação de complexação de Al com compostos
orgânicos.
A solubilidade do alumínio no solo e, conseqüentemente, sua toxidez são influenciadas por
diversos fatores, incluindo o pH, tipo de argila predominante, concentração de sais na solução e teor
de matéria orgânica do solo. Solos com toxidez de alumínio representam altos índices de Al
trocável, recomenda-se o processo da calagem onde é feita com base em indicadores de acidez do
solo e na resposta das culturas à elevação de pH.















Figura 2 - Valores dos teores de alumínio trocável e percentagem de saturação por alumínio.

Em relação a percentagem de saturação por alumínio (m%) apresentados na mesma figura,
constatou-se que duas amostras apresentaram valores muito alto, 64 e 53, quatro valores entre 41, e
55, considerado alto, sete entre 12 e 33 considerado médio e os demais baixo, onde em cinco a
percentagem foi zero e os demais variando de 1 a 15. Sousa et al 2005, estudou 149 amostras
enviadas para analise desta região e observou que apenas 1,4% apresentavam valores altos de
Alumínio trocável. Do percentual de saturação por alumínio foi considerado 5% muito alto, 10%
alto, 18% médio e 67% baixo.
Foy (1974) relata que, em solução nutritiva, baixas concentrações de alumínio (0,25 a 0,30
mg L
-1
) estimularam o crescimento de milho. Os mecanismos pelos quais pequenas quantidades de
alumínio beneficiam o crescimento das plantas ainda não são bem claros, e pode ser diferente para
cada cultivo e para cada meio de crescimento.
A determinação do teor de Al é importante na avaliação da capacidade de troca de cátions
(CTC) dos solos, ou da saturação da CTC efetiva em alumínio. Quanto ao alumínio (Al), os valores
toleráveis para que não ocorra, ou favoreça a acidez do solo, são da ordem de 0,50 mmol
c
/dm
3
. Na
análise constatou-se valores acima e abaixo dessa ordem, demonstrando que, em relação a esse
elemento químico, não foi necessário delinear qualquer alteração no teor observado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos resultados obtidos com os solos em condições de estudo aqui apresentados, pode-
se concluir que a presença de alumínio trocável no solo é um fator indesejável ao tratar-se de
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
245

agricultura tecnificada e todo esforço deve ser aplicado para que os valores dessa determinação
sejam zero.
A partir destas observações deve-se procurar estudar as causas que estão contribuindo para o
aumento crescente do número de amostras com teores de alumínio acima de 0,5, na da Ibiapaba.


REFERÊNCIAS

ALCANTARA, E. N. Efeito de diferentes métodos de controle de plantas daninhas na cultura
do cafeeiro (Coffea arabica L.) sobre a qualidade de um Latossolo Roxo Distrófico. 1997. 133f.
Tese (Doutorado em Fitotecnia) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, 1997.

BEUTLER, A.N.; FERNANDES, L.A.; FAQUIN, V. Efeito do alumínio sobre o crescimento de
duas espécies florestais. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 25, p.923-928, 2001.

CUSTÓDIO, C.C.; BOMFIM, D.C.; SATURNINO, S. M.; MACHADO NETO, N.B. Estresse por
alumínio e por acidez em cultivares de soja. Scientia Agricola, Piracicaba, v. 59, n.1, p.145-153,
2002.

EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de Solos (Rio de Janeiro, RJ). Manual de métodos de
análise de solo. 2.ed. Rio de Janeiro, 1997. 212 p. (Embrapa – CNPS.
Documentos, 1).

FERNANDES, V.L.B. Recomendações de Adubação e Calagem para o Estado do Ceará.
Universidade Federal do Ceará, Centro de Ciências Agrárias, Departamento de Ciências do Solo,
Fortaleza-Ceará, 1993, 248p.

FOY, C. D. Effects of aluminum on plant growth. In: CARSON, E. W. (Ed.). The plant root and
its environment. Charlottesville: University Press of Virginia, 1974. p. 601-642.

MENDONÇA, R.J.; CAMBRAIA, J.; OLIVEIRA, J.A.; OLIVA, M.A. Efeito do alumínio na
absorção e na utilização de macronutrientes em duas cultivares de arroz. Pesquisa
Agropecuária Brasileira, Brasília, v. 38, n.7, p.843-846, 2003.

PAVAN, M. A. Alumínio em solos ácidos do Paraná: relação entre alumínio não-trocável,
trocável e solúvel com pH, DTC, porcentagem de saturação de Al e matéria orgânica. Revista
Brasileira de Ciência do Solo, v. 7, n. 1, p. 39-47, 1983.

SALET, R.L. Toxidez de alumínio no sistema plantio direto. Porto Alegre, 1998. 109p. Tese
(Doutorado em Ciência do Solo) – Programa de Pós-graduação em Agronomia, Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1998.

SILVA, F. C da (org.) Manual de Análises Químicas de Solos, Plantas e Fertilizantes. Brasília:
EMBRAPA – Comunicação para Transferência de Tecnologia, 1999. 370p.

SOUZA, M. C. M. R. et al. Avaliação da Fertilidade dos Solos do Planalto da Ibiapaba – Ceará.
XXX Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, Julho de 2005, Recife – PE. Anais. TOMÉ
JÚNIOR. J. B. Manual para interpretação de análise de solo. [Guaíba]: Livraria e Editora
Agropecuária 1997. 247 p.

TOMÉ Jr., J. B. Manual para interpretação de análise de solo. Livraria e Editora Agropecuária,
Guaíba-RS, 1997, 247p.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
246


MESSEJANA: UMA DISCUSSÃO DOS PROBLEMAS SOCIOAMBIENTAIS

Raimundo Rodrigues dos Santos Júnior
Graduando em Geografia – UECE, rodriguesjuniorgeo@yahoo.com.br

Paulo Roberto Silva Pessoa
Prof. Msc. Geografia – UECE, paulorpessoa@gmail.com

Aurilea Bessa Alves
Mestre em Geografia – UECE, leabessa@yahoo.com.br


RESUMO
Este estudo trata de uma análise atual sobre os principais mecanismos de impacto socioambientais
que atingem a Lagoa de Messejana e sua área adjacente, considerando também o crescimento
urbano que possibilitou a reestruturação socioespacial do local. A área está localizada na região
sudeste de Fortaleza e possui grande valor histórico, social e econômico, afirmando-se como um
bairro que concentra atividades econômicas importantes em ascensão neste setor da cidade de
Fortaleza. Esta análise busca apontar e compreender as principais causas da degradação
socioambiental e analisar o grau de comprometimento na área. Como referencias teóricas deve-se
destacar a análise de outros autores, a partir das definições de ambientes e vulnerabilidade
ambiental como as propostas por SOUZA (2000), estudos sobre a qualidade de vida da população e
meio ambiente de MENDONÇA (2005), os impactos ambientais urbanos abordados nos estudos de
GUERRA & CUNHA (2001) e a história do bairro relatada por AMARAL (1996), além da
discussão de MOTA (2006), sobre avaliação e quantificação de impactos. A pesquisa bibliográfica
foi construída com assuntos relativos ao tema, posteriormente realizaram-se análises dos impactos
no campo, complementadas por comparações e classificações obtidas através do estudo de registros
fotográficos e fotografias aéreas. O trabalho mostrou claramente que no bairro a falta de infra-
estrutura contribui fortemente na forma e organização espacial dos usos no entorno da lagoa, o que
associado ao processo de ocupação imobiliário recente, que se consolidou nos últimos 20 anos, são
os principais fatores que contribuíram para a ocorrência e agravamento de uma série de impactos
identificados. A essa condição deve ser somado também o pouco envolvimento da comunidade que
culmina com e desconhecimento e falta de cobrança de políticas públicas e ambientais corretas e
adequadas neste setor da cidade de Fortaleza, o que evidencia que grande parte do bairro encontra-
se em estado de comprometimento elevado.
P
Palavras- chave: Messejana, organização socioespacial, problemas ambientais


INTRODUÇÃO
O bairro Messejana está situado na porção sudeste de Fortaleza, no início de sua ocupação
era marcado por áreas de grande recobrimento vegetacional em virtude da elevada quantidade de
sítios e chácaras encontrados no local. O ambiente natural abrigava ainda, importantes corpos
lacustres como identifica AMARAL (1996), que podiam proporcionar abastecimento humano,
animal e recreação. Com o passar do tempo sua condição espacial sofreu várias transformações e o
bairro foi se reestruturando socioespacialmente.
O desenvolvimento urbano ao longo dos anos além de benefícios sociais e econômicos
trouxe uma grande quantidade de impactos, estes por sua vez foram se intensificando, e a
diversidade de uso do território se consolidando.
SOUZA (2000) destaca que certos ambientes são muito vulneráveis ao uso e a ocupação
antrópica. No caso particular de Messejana, o desequilíbrio socioambiental atingiu de forma grave
vários locais no bairro.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
247

À medida que a urbanização foi se afirmando, Messejana sofreu e ainda sofre com o
descaso, desconhecimento, descumprimento e/ou com a omissão da legislação ambiental. Um dos
maiores problemas diz respeito à infra-estrutura no caso precária, estes são problemas encontrados
freqüentemente em espaços urbanos brasileiros relatados nos trabalhos de GUERRA & CUNHA
(2001).

METODOLOGIA
A pesquisa trata do estudo de caso do bairro Messejana a partir dos principais impactos
socioambientais ocorridos no local em decorrência do crescimento urbano, dentro de uma análise
atual. Os procedimentos metodológicos da pesquisa foram feitos considerando um levantamento
bibliográfico inicial, mas que encontra-se presente em todas as fases da pesquisa, além dos estudos
realizados a partir das incursões de campo, considerando também a análise de fotografias aéreas.
Com o auxilio dos referenciais bibliográficos adotados passou-se a identificar e delimitar
melhor os objetivos a alcançar na pesquisa, cabendo referências a SOUZA et al.(2000) que
demonstra os critérios de definição das categorias ambientais e da tipologia da vulnerabilidade
ambiental, cabendo adequações para atender os objetivos. Em MENDONÇA (2005), buscou-se as
devidas contribuições sobre os estudos ambientais e os casos da qualidade de vida da população.
GUERRA & CUNHA (2001) e MOTA (2006), como referencia aos estudos dos impactos
ambientais urbanos no Brasil. AMARAL (1996), contando de maneira didática a história do bairro
Messejana e QUINTILIANO & LIMA (2008), descrevendo a reestruturação socioespacial do
estado do Ceará.
As verificações em campo possibilitaram identificar, descrever, registrar com fotografias e
comparar as áreas mais vulneráveis e degradadas, auxiliando na compreensão sobre a temática
abordada, a identificação dos principais causadores dos impactos, relacionando com a qualidade de
vida da população e a segregação social presente no cotidiano do espaço local.
Foram utilizadas fotografias aéreas multitemporais (Figura, 01), para facilitar a identificação
dos ambientes degradados, para uma comparação com a atualidade apontando o processo de
reestruturação socioespacial do bairro. Diante desta condição os dados coletados foram
organizados, comparados e sistematizados para favorecer o desenvolvimento e a compreensão do
objeto em estudo. Por fim, ocorreram análises detalhadas das fotografias aéreas para identificar e
evidenciar as principais modificações presentes atualmente no bairro.


Figura 01 – Fotografia aérea do bairro Messejana







Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
248

RESULTADOS E DISCUSSÕES
A partir da metodologia empregada até esta etapa da realização da pesquisa, pode-se apontar
os seguintes resultados e elementos de discussão:
O rápido crescimento urbano sem planejamento adequado, acompanhado pela falta de infra-
estrutura física e social em Messejana torna evidente as precárias condições e quase inexistência de
saneamento básico. Este problema atua como veículo no comprometimento dos recursos hídricos,
acúmulo de lixo, aterramento de uma parcela importante da lagoa e o aumento do processo de
favelização, como exemplos de grandes favelas no bairro: a favela do Pau do gato, Pôr do Sol,
Mangueira, São Miguel, dentre outras;
Contraditoriamente, a procura por lucros desperta o interesse de grandes investidores no
ramo de imóveis, reforçando a especulação imobiliária, fato notado no local em foco. Por
conseqüência da valorização do bairro, com construção de obras civis, como apartamentos,
condomínios, casas, mercados, lojas e outras atividades comerciais, houve a necessidade de retirada
da cobertura vegetal, ocasionando o desmatamento e em alguns casos o desrespeito à legislação
ambiental, impactando e gerando a desapropriação de famílias carentes que já habitavam o local.
Esta condição é percebida na leitura de CARLOS (1999), quando afirma que:
“As necessidades da sociedade estão relacionadas com a capacidade de
produção da sociedade pois a relação que se estabelece entre o homem e o
meio é mediada pelo processo do trabalho, através do qual a sociedade produz
o espaço no momento em que produz sua própria existência”.

Contudo os problemas socioambientais das grandes cidades atingem muito mais as classes
sociais de menor poder aquisitivo, de vez que estas se instalam, muitas vezes, em locais com
condições precárias e insalubres com falta de saneamento, segurança e planejamento, já que as de
maior poder aquisitivo podem usufruir de áreas mais seguras e melhor estruturadas. A área objeto
deste trabalho não está fora desta discussão, ao contrário, é palco de todas estas questões
construindo a dialética do contraditório urbano e ambiental.
Assim, as alterações no ambiente como o empobrecimento da qualidade da água, (figura 02),
o desmatamento indiscriminado e a poluição, representam problemas ambientas comuns na
atualidade, observados e discutidos também na leitura de MENDONÇA (2005) que afirma:
“Essa degradação têm comprometido a qualidade de vida da população de
várias maneiras, sendo mais perceptível na alteração da qualidade da água e
do ar, nos “acidentes” ecológicos ligados ao desmatamento, queimadas,
poluição marinha, lacustre, fluvial e morte de inúmeras espécies animais que
hoje se encontram em extinção”.
Os variados impactos sobre os recursos hídricos (lagoas e afluentes) como poluição e
contaminação da água, podem contribuir para a proliferação de doenças de veiculação hídrica no
local. Estes problemas são decorrentes, muitas vezes, da grande quantidade de esgotos clandestinos
que deságuam na Lagoa e em seus afluentes e da falta de políticas que orientem e eduquem a
população que esta mais diretamente associada à área.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
249


Figura 02 - Riacho Canaã, uma das fontes de recarga da Lagoa de Messejana
Fonte: Junior (2009)

Para ALVES (2008) essas modificações da natureza estão relacionadas às formas de uso do
solo no caos o urbano, quando afirma que:
“a velocidade de transformação da natureza varia na medida em que se
processam os diversos tipos de usos, e quando considerada a atuação do
homem com a satisfação das necessidades individuais e coletivas, constata-se
que os efeitos se traduzem em modificações da paisagem”.

Em Messejana percebe-se um estado de desorganização socioespacial, onde se verifica que
as formas contribuem negativamente de maneira a comprometer a estrutura socioambiental do
bairro. Como retrato desta condição, verifica-se que a lagoa de Messejana é bordejada por um
calçadão, onde existe uma praça e uma estátua da personagem Iracema do escritor José de Alencar,
ambos construídos pela prefeitura com o intuito de promover o turismo e o lazer, entretanto, este
equipamento a exemplo de outros encontra-se em total abandono, impossibilitando o caráter
turístico e de lazer proposto inicialmente.
É fato que somente a compreensão do ambiente como elemento intrínseco a vida e as
atividades do homem, pode levar ao zelo deste também nos ambientes urbanos, como destaca
MOTA (2006), quando afirma que:
“O surgimento de problemas ambientas graves, com reflexos sobre o próprio
homem, levou-o a procurar compreender (...) e a entender que deve agir como
parte integrante do sistema natural”.

Diante disso, reflexões sobre este estado atual, considerando as condições de uso, podem
indicar ações no sentido de mitigar estes impactos ambientais, podendo ser apontadas algumas
ações principais, temporais e de reorganização espacial com baixo custo e que envolvam de certo
modo a comunidade local. São elas:
Ações de curto prazo:
- Limpeza do bairro com poda de árvores e limpeza de terrenos baldios;
- Coleta seletiva de lixo;
- Manutenção de áreas verdes como Áreas de Preservação Permanente (APP);
- Palestras com sensibilização para ações de educação ambiental e cidadania.

Ações de médio prazo:
- Revitalização da Lagoa;
- Reordenamento da área urbana;
- Restauração e arborização das ruas mais degradas;
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
250

- Revitalização e manutenção dos principais pontos turísticos, implementando segurança e estrutura
adequada.

Ações de longo prazo:
- Despoluição dos corpos hídricos;
- Implantação de infra-estrutura sanitária;
- Construção de centros que promovam cursos de educação ambiental.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo possibilitou o conhecimento de vários pontos dentro da área estudada, pontos estes
que se encontram comprometidos devido aos fortes impactos socioambientais existentes no espaço
do bairro Messejana.
A análise dos resultados nos permite concluir que:
- O bairro encontra-se altamente impactado em decorrência do crescimento urbano
desordenado;
- Os recursos hídricos (lagoa e afluentes) estão poluídos e contaminados e há a proliferação
de doenças de veiculação hídrica;
- A Lagoa de Messejana teve boa parte de sua área aterrada em decorrência do crescimento
urbano;
- Existe um acumulo de lixo nas margens e no leito da lagoa;
- Grandes áreas são desmatadas como conseqüência da especulação imobiliária;
- Várias ruas carecem de reparos e serviços para tapar buracos, valas e recolher a grande
quantidade de lixo que se acumula nas calçadas e nos terrenos baldios;
- Falta planejamento urbano e infra-estrutura adequada às necessidades dos moradores
tornando precário, principalmente, o saneamento básico e a segurança da população.
- O bairro apresenta grandes índices de violência e criminalidade
- A segregação social fica evidenciada quando percorremos os locais mais críticos do bairro,
como por exemplo, favelas e pequenas vilas amplamente desestruturadas.

Com a pesquisa foram obtidos resultados satisfatórios, levando-nos a crer que estes são de
fundamental importância já que demonstram a situação atual do bairro e exibem os principais
pontos por onde se deve começar a trabalhar na melhoria da estrutura física, social e ambiental de
Messejana. Sugerimos ações a curto, médio e longo prazo, citadas nos Resultados e Discussão, com
o sentido de mitigar os problemas identificados no bairro.
Referências
REFERÊNCIAS

ALVES, A. B. Estuário do rio Acaraú – CE: Impactos ambientais e implicações na qualidade
dos recursos hídricos. 2008. 131p. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Geografia) –
Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2008.

AMARAL, Ernesto Gurgel do. História de Messejana. Fortaleza: Ensaio publicado pela Sociedade
Educadora de Messejana, 1996.

CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE (CONAMA). Resolução N° 357 de 17 de
março de 2005, publicado no D.O.U. de 28/04/2005. Brasília – DF. Disponível em:
www.conama.gov.br

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
251

GUERRA, Antonio José Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista da. (Orgs.). Impactos Ambientais
Urbanos no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

MAGALHÃES, Jomali Lima. Vocabulário Geográfico. Teresina: Ibiapina, 2008.

MENDONÇA, Francisco de Assis. Geografia e meio Ambiente. 8 ed. São Paulo: Contexto, 2005.

MOTA, S. Introdução à Engenharia Ambiental. 4a Ed. Rio de Janeiro: ABES, 2006. 388p.

QUINTILIANO, Aridenio Bezerra; LIMA, Luiz Cruz. Reestruturação Socioespacial do Ceará:
Ações do Estado. Fortaleza: EdUECE, 2008.

SOUZA, Marcos José Nogueira de. et al. Compartimentação Territorial e Gestão Regional do
Ceará. Fortaleza: FUNECE, 2000.






































Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
252

CONTRIBUIÇÕES DA ANÁLISE GEOAMBIENTAL INTEGRADA AO
GERENCIAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS EM MICROBACIA HIDROGRÁFICA -
REGIÃO JAGUARIBANA, IBICUITINGA - CE.

Rosilene Aires
Mestre pela Universidade Estadual do Ceará. Email: rosileneaires@yahoo.com.br
Flávio Rodrigues do Nascimento
Doutor em Geografia professor da Universidade Federal Fluminense. E-mail:
flaviogeo@bol.com.br

RESUMO
A busca de maior eficiência no uso dos recursos hídricos tornou-se crescente no Ceará dada a
importância ambiental que este elemento resguarda aos diversos agrupamentos humanos em face
dos seus usos múltiplos e gerenciamento integrado. Neste sentido, este trabalho mostra as principais
contribuições da análise ambiental integrada da microbacia hidrográfica do rio Palhano, para gestão
integrada de seus recursos naturais, notadamente, os hídricos. Para tanto, caracteriza-se o histórico
de ocupação da comunidade rural de Muquém, bem como alguns dos seus principais problemas
sociais e ambientais. No segundo momento, relaciona-se alguns problemas ambientais identificados
nas unidades de paisagens existentes com as possibilidades que a comunidade rural tem de utilizar
as informações levantadas para o uso sustentável dos recursos naturais. Esta comunidade rural
localiza-se no município de Ibicuitinga, é atendida pelas ações do Programa Vigilantes Globais da
Água desde 2006. Este programa tem motivado a formação de agentes locais de transformação e a
gestão participativa das águas nessa comunidade. Acredita-se que os resultados do levantamento
geoambiental da microbacia hidrográfica do rio Palhano, forneça informações sobre os atributos
naturais dos sistemas ambientais, os seus estados de conservação ou de degradação, bem como suas
potencialidades e restrições para o uso e ocupação do solo pela população e que sirva de subsídios
ao planejamento do território pelos tomadores de decisão política. Além disso, soma-se a
incorporação dos resultados obtidos as ações do programa supracitado, na medida em que os dados
gerados poderão ser utilizados no desenvolvimento de ações que ampliem a gestão das águas e dos
demais recursos naturais que compõem a microbacia.

Palavras chaves: análise geoambiental; microbacia hidrográfica; Muquém; semiárido;Ceará;

INTRODUÇÃO

Os processos degradacionais que comprometem as unidades geoambientais nas
microbacias hidrográficas sertanejas é função da relação sociedade-natureza, muito embora seja
crescente o movimento pela busca de maior eficiência no uso dos recursos hídricos, dada a
importância ambiental que eles tiveram ao longo da formação dos diversos agrupamentos humanos
com seus traços culturais e históricos característicos.
As comunidades rurais nordestinas e cearenses vivem em meio à ocorrência de processos e
conflitos que refletem um quadro caótico das suas demandas sociais e ambientais atuais. Dentre os
principais processos geradores de conflitos, cabe ressaltar o desigual acesso à água e à terra, bem
como a ínfima, ou inexistente, participação efetiva da maioria da população na gestão dos recursos
hídricos.
Nesse sentido, algumas instituições governamentais e não-governamentais têm orientado
ações direcionadas a conservação e gestão dos recursos hídricos, o despertar da consciência crítica e
da organização de comunidades rurais, por meio de programas educativos com oficinas, projetos de
monitoramento, campanhas de conscientização ambiental, entre outros.
Nesta égide, a EMBRAPA – Agroindústria Tropical, a Universidade de Auburn, no
Alabama (EUA), e demais entidades parceiras, como o Centro Federal de Educação Tecnológica -
CEFET, a Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte e o Grupo Espírita Paulo Estevão – GEPE, a
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
253

Universidade Estadual do Ceará – UECE/Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos -
FAFIDAM, as quais desenvolvem ações que compuseram o Programa Vigilante Globais da Água,
junto às comunidades rurais do rio Jaguaribe-Ceará.
O Programa busca motivar a gestão participativa das águas em comunidades rurais e a
formação de agentes locais de transformação, para o uso e a gestão adequada das fontes hídricas.
Para tanto, escolheu comunidades rurais para desenvolver suas ações mediante alguns critérios
socioeconômicos e ambientais. A comunidade rural de Muquém que localiza-se no município de
Ibicuitinga, atendeu aos propósitos do programa citado e constitui-se um dos focos de sua atuação
desde o ano de 2005.
O objetivo deste trabalho é de subsidiar e levantar informações goeambientais sobre a
microbacia hidrográfica do rio Palhano, em Ibicuitinga - CE. A perspectiva de estudar esta
microbacia hidrográfica na ótica da análise ambiental integrada com reais benefícios à comunidade
de Muquém necessitou de estudos setoriais e integrados. Tais estudos, segundo Souza (2000),
compõem o diagnóstico geoambiental que é o levantamento integrado de todos os elementos
componentes de um determinado ambiente, etapa fundamental à avaliação dos recursos naturais.
De acordo com Aires (2009) a microbacia hidrográfica pode ser considerada como:

[...] paisagens complexas, dados os seus diferentes arranjos e atributos naturais
característicos. Ao mesmo tempo, constitui paisagens dinâmicas, pois tais atributos mantêm
certas conexões e interações funcionais. Essas conexões entre os elementos são comumente
alteradas, modificadas e até transformadas pelas ações dos seus agentes organizadores do
espaço. (AIRES, 2009 p.36-37)


De acordo com Aires e Nascimento (2007), os estudos de análise ambiental integrada de
microbacias hidrográficas oferecem vantagens, pois nomeiam ou reconhecem os atributos naturais
dos geossistemas e permitem revelar os seus estados de conservação ou de degradação e suas
potencialidades e limitações.
Nesse sentido, caracteriza-se o histórico de ocupação da comunidade rural de Muquém,
bem como alguns dos seus principais problemas sociais e ambientais. E, tendo em vista que a
microbacia hidrográfica do rio Palhano, a qual banha a comunidade de Muquém foi adotada como
unidade de estudo, busca-se no segundo momento, relacionar os problemas ambientais da relação
sociedade-natureza nos sistemas físicos ambientais existentes na microbacia, com as possibilidades
que a comunidade rural têm de utilizar as informações levantadas para o uso e a gestão sustentável
dos seus recursos naturais.

METODOLOGIA
Realizou-se levantamento bibliográfico sobre: análise ambiental integrada, microbacias
hidrográficas e o modelo teórico do Programa Vigilantes Globais das Águas. Em seguida, escolheu-
se a comunidade rural de Muquém por ser área de atuação desse programa delimitando-se,
conforme os critérios geomorfológicos, a microbacia hidrográfica do rio Palhano que banha a
comunidade.
Na etapa seguinte, procedeu-se com a análise integrada dos componentes ambientais da
microbacia do rio Palhano. Por fim, as informações sobre os recursos naturais foram
correlacionados aos problemas ambientais encontrados na comunidade bem como na forma de
minimizá-los. Estas informações foram sintetizados em mapeamentos da microbacia.

A COMUNIDADE RURAL DE MUQUÉM E AS CARACTERISTICAS GEOAMBIENTAIS
DA MICROBACIA DO RIO PALHANO

A microbacia do rio Palhano, localiza-se na porção norte do Município de Ibicuitinga e na
porção centro-oeste do Município de Morada Nova, pertencendo aos limites da sub-Bacia do Baixo
Jaguaribe, conforme demonstra a Figura 1.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
254

A microbacia drena uma área de 60km
2
e seu principal curso d’água é o rio Palhano, que
possui 12 km de extensão longitudinal e dista cerca de 135 km de Fortaleza. Abrange dois
municípios cearenses, ficando cerca de 45 km
2
de sua área na porção norte do Município de
Ibicuitinga (75% da área total) e cerca de 15 km
2
de sua área na porção centro-oeste de Morada
Nova (25% dos 60km
2
da microbacia).
Os principais povoados que estão na sua área de drenagem são Muquém e Jardim,
atendidos pelo Programa Vigilantes Globais das Águas, além de Melancias e Pedra Branca,
visualizados na Figura 2. Os núcleos rurais de Jardim e Muquém ficam situados no Município de
Ibicuitinga e distam cerca de 20km da sua Sede.
O nome da comunidade Muquém, de acordo com Brasil (2008a), é de origem indígena e
deriva de uma vegetação típica que era abundante na época em que viviam os índios na região.
Trata-se de uma árvore que hoje é conhecida por canafistula (Cassia ferrugínea), uma leguminosa
com alto valor nutritivo, utilizado como alimento para o gado no período de seca. Essa vegetação
distribuía-se nas margens do rio Palhano e nas fazendas da região, formando uma mata densa, a
qual foi diminuindo no decorrer dos anos, ficando restrita a algumas porções de terras na
microbacia.































Conforme apontou o trabalho de Aires (2009), nos mapeamentos realizados sobre os
sistemas ambientais encontrados em Muquém, as Serras Palhano e as superfícies de pedimentação
dissecadas, aplainadas e levemente onduladas são vulneráveis aos problemas de degradação
ambiental a exemplo das queimadas e dos desmatamentos. Entretanto, ao mesmo tempo,
resguardam em algumas áreas vegetação secundária moderadamente conservadas com espécies de
Figura 2: Mapa básico da Microbacia do rio Palhano.
Fonte: Elaborados por Nascimento, F.; Santos, J., com
base na carta da SUDENE em escala 1: 100.000, sendo
a folha BONHU, 1960.
Adaptação: Sérgio Fuck e Samuel Miranda.
Figura 1: Localização da microbacia do rio Palhano na
sub-bacia do baixo Jaguaribe.
Fonte: Elaborado por Aires, R. Guerra, M. D. F.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
255

mata seca na serra e de caatingas esparsa e arbustiva nos sertões. O que reflete diretamente, as
formas de usos da terra relacionada a agricultura itinerante pelas comunidades rurais desses
sistemas ambientais da microbacia ao longo do seu processo de ocupação.
Segundo lideranças comunitárias, a ocupação inicial do local onde hoje se encontra a
comunidade de Muquém, se deu em 1903, quando José Monteiro de Lima comprou as terras e
construiu sua fazenda. Mais tarde, por volta de 1940, João Lopes comprou outras terras na região e
constituiu sua propriedade.
Atualmente essas terras estão legalmente divididas e pertencem às famílias dos Lopes e
dos Monteiros. São pequenas e médias propriedades essencialmente encontradas no sistema
ambiental dos tabuleiros interiores, caracterizando-se uma área plana com solos arenosos que
compõem os agroecossistemas em que se encontram atividades agrícolas, agropastoris e
extrativismo vegetal.
Em razão das inúmeras áreas transicionais entre as unidades de deposição recente dos
tabuleiros interiores e os terrenos antigos das superfícies de pedimentação, que totalizam 2,3km
2
da
área total da microbacia, essas superfícies distribuídas de maneira dispersa e descontinua resultam
em um mosaico de interação dos ambientes, o que a tornou heterogênea quanto às condições
pedológicas. Nestas áreas transicionais há, também, a comunidade rural de Jardim.
Entretanto, apesar dessas potencialidades em Muquém são restritas as condições de
emprego e renda, haja vista a baixa qualificação profissional da população, os poucos investimentos
financeiros, baixos rendimentos econômicos e desempregos, bem como o baixo nível tecnológico
empregado na agropecuária, que é uma das atividades econômicas existentes que oferece condições
precárias de trabalho.
A população que habita esse núcleo rural, segundo a associação de moradores, é de 102
pessoas, que compõem 31 famílias. Existe na comunidade um grupo de voluntários com cerca de 20
pessoas que monitora a qualidade da água, atuando em defesa do meio ambiente. Esse grupo são os
Vigilantes da Água na microbacia e atuam desde 2006 com o apoio da EMBRAPA/CNPAT, Cáritas
e de outras entidades
Essa população vive em meio às condições de saúde, educação, de saneamento básico e
outros serviços que são ofertados precariamente pela Prefeitura do município. Todas as famílias da
comunidade mencionada têm acesso à rede elétrica e apenas um telefone público. Usufruem do
mesmo posto de saúde, da mesma escola e da mesma capela, que é também a sede da associação
dos moradores.
Cabe sublinhar, entretanto, que a infraestrutura de saúde e educação ofertada pela
Prefeitura não atendem todas as demandas da comunidade mencionada, sendo necessário buscar
atendimento de saúde na Sede municipal. É registrada, também, a ausência de vagas em escolas
próximas à comunidade; sem contar com o fato de que apenas um telefone público instalado não
atende as demandas e dificulta o acesso a comunicação com os moradores, sendo necessária a
instalação de outros aparelhos públicos.
Segundo os dois agentes de saúde que cadastram e realizam o acompanhamento das
famílias, quase todas têm o cartão-cidadão e são assistidas por programas sociais, como o Bolsa
Escola e o Bolsa Família. Quanto às enfermidades e os problemas de saúde, os mais evidenciados
são diarréia, verminoses e micoses, rubéola, reumatismo e pressão arterial (BRASIL 2008ab).
A ocorrência de algumas dessas doenças, segundo Brasil (2008ab), decorre, provavelmente
dos focos de contaminação hídrica, os quais estão associados à inexistência de saneamento básico,
pois, de acordo com a associação de moradores, cerca de 90% dessa população tem fossa séptica, e
10% fazem suas necessidades de dejeção a céu aberto. Não há coleta de lixo, nem abastecimento de
água tratada, significando dizer que as famílias dessa comunidade padecem de saneamento.
Além disso, a ausência de saneamento básico contribui para a poluição hídrica e
possivelmente agrava as condições de saúde dos moradores, pois, conforme os depoimentos de
moradores, não há coleta dos resíduos sólidos pela Prefeitura. Os resíduos sólidos da comunidade
são, geralmente, queimados nos quintais, gerando poluição do ar, do solo e das águas, pois quando
acumulados no solo, os resíduos sólidos produzem o chorume, que pode infiltrar e contaminar os
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
256

rios e o lençol freático, tornando a água um foco transmissor de doenças e imprópria para consumo
humano e animal.
Em se tratando das condições de educação, existe na comunidade uma unidade escolar,
porém, está desativada desde 2004 e os alunos foram transferidos para a escola da comunidade de
Melancias - Escola de Ensino Fundamental José Vitorino da Silva, no Município de Ibicuitinga.
Esta escola atende a um universo de 153 alunos vindos de Muquém e dos povoados de Jardim e
Pedra Branca. Seu abastecimento hídrico é feito por uma cisterna com capacidade de 20 mil litros,
que é insuficiente para a demanda, principalmente no período seco.
Segundo os moradores, a luta atual é pela construção de uma cisterna de placa com
capacidade de armazenar 100 mil litros para esta escola, além de campanhas educativas com
moradores, alunos e funcionários pelo manejo adequado das águas da cisterna.
O bebedouro da Escola de Melancias é outro foco gerador de doenças por veiculação
hídrica aos alunos e funcionários, porque oferece sérios riscos de contaminação caso a água não seja
devidamente tratada. A comunidade enfrenta outros problemas, como: a desorganização e a falta de
planejamento comunitário, a produção de alimentos que é pequena e dependente das condições
climáticas, as condições precárias da estrada que dá acesso à comunidade, a falta de apoio ao
crédito na agricultura, a dificuldade de transporte das pessoas para a cidade, o roubo de animais, a
dificuldade de acesso a medicamentos e a poluição da água do açude; sem esquecer a pequena
participação na Igreja, a elevada concentração de terra, a falta de renda para os jovens e mulheres e
a falta de áreas de lazer (Brasil, 2008ab).
O sistema ambiental mais importante dessa microbacia, de acordo com Aires (2009), é a
planície fluvial do rio Palhano, pois é nela que as populações realizam os usos múltiplos dos
recursos naturais encontrados tendo em vista a oferta de água, a existência de vegetação e de solos
férteis.
A maior disponibilidade hídrica superficial acumulada da microbacia é representada pelo
açude Muquém, com área de 0.3km
2
, o qual atende, ainda que minimamente, as diversas demandas
de uso das comunidades de Muquém e Jardim, pois não se tem estação de tratamento de água e
esgoto e nem se tem volume de água suficiente para as demandas durante todo o ano.
Notou-se que a potencialidade e a disponibilidade das reservas subterrâneas são baixas em
virtude: da pouca oferta de água dos aqüíferos fissurais predominantes na área; da incipiente
quantidade de poços instalados utilizados; e da qualidade adequada das águas, uma vez que, só
poderá ser aproveitada em solos bem drenados irrigando plantas com elevada tolerância à
salinidade.
Dos cinco poços identificados, deveriam ter sido instalados mediante estudos geológicos
prévios e consistentes, com monitoramento constante da qualidade de suas águas e assistência
funcional para que não se tenham águas salinizadas nestas reservas.
A cobertura vegetal da planície fluvial deveria ser de mata ciliar conservada, no entanto,
essa mata apresenta diferentes padrões e estados de conservação, uma vez que as áreas marginais da
planície fluvial são utilizadas com lavouras e pastagem para os animais, promovendo assim a
remoção das espécies vegetais típicas das margens fluviais, o que resultou na dispersa presença das
Copernicia prunifera (carnaúbas) associadas às caatingas de estrato arbustivo denso e aberto.
A intensa ocupação das margens fluviais por atividades econômicas voltadas a subsistência
das famílias da comunidade de Muquém, ocasionam problemas de degradação ambiental das
margens fluviais, sobretudo, no que se refere a sua ocupação, a degradação de sua mata ciliar e a
poluição das suas águas.
Vale ressaltar que tais práticas decorrem tanto das condições socioeconômicas precárias
das famílias, que vêem nos recursos naturais suas principais ou únicas fontes de alimento ou de
renda, quanto do fato de essa população não ter acesso a formas sustentáveis de exploração desses
recursos mediante políticas de crédito rural e políticas públicas adequadas, sem esquecer da devida
organização social para tal fim.


Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
257

PROGRAMA VIGILANTES DA ÁGUA NA MICROBACIA
Em virtude da ocorrência dos problemas de degradação ambiental advindos dos usos da
terra realizados as suas margens, este ambiente é alvo de monitoramentos realizados pelo Programa
Vigilantes Globais das Águas, desde o ano de 2006, com coletas da água nos pontos escolhidos pela
comunidade, conforme mostra a Figura 3
Os monitoramentos realizados pela EMBRAPA junto com os membros da comunidade
desde o ano de 2006, junto a comunidade rural de Muquém e suas imediações, detectaram que as
águas se tornaram contaminadas, contendo micro-organismos patogênicos ou substâncias químicas
causadoras de doenças, oferecendo, assim, riscos à saúde das populações nas comunidades rurais.
Os resultados dos monitoramentos tiveram elevados percentuais do organismo patogênico
mencionado, conforme visto em Girão e Fuck Júnior (2007), Brasil (2008b), Figueirêdo et al
(2008).
Segundo estes autores os reservatórios de superfície dessa microbacia denominados açudes
Melancias, Jardim e Caboco foram os que apresentaram elevados índices de E.coli. Destacaram
também, a contaminação no bebedouro da escola que foi de 900 em cada 100ml e reduziu para 33
em cada 100ml na última coleta realizada em 2007.
























No entanto, observou-se que os pontos monitorados, são insuficientes para avaliar a
potabilidade das águas dos mananciais de toda a microbacia, uma vez que, existem áreas ainda não
monitoradas e que o controle desses poluentes deve ser buscado. Além disso, há que se atentar para
o manuseio e gestão das águas para além dos reservatórios considerando a planície fluvial como
principal unidade de monitoramento e manejo adequado dos solos, das águas e da vegetação.
Diante do quadro apresentado os Vigilantes da Água de Muquém organizaram, com o
apoio da EMBRAPA e da Cáritas, reuniões com os demais membros da comunidade a fim de
mostrar os resultados encontrados nas análises da água, para conscientizar a todos sobre os
problemas diagnosticados e promover assim campanhas e ações, visando a recuperar e proteger as
fontes de água.
Em decorrência, algumas ações de caráter corretivo e ou preventivo foram introduzidas,
tais como: incentivos ao manejo adequado das águas das cisternas das residências e da escola;
Figura 3: Pontos de monitoramento na microbacia em Ibicuitinga e Morada Nova - CE.
Fonte: Vigilantes Globais da Água, EMBRAPA 2008. Adaptação: Sergio Fuck.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
258

reuniões periódicas para mostrar os resultados dos monitoramentos às outras comunidades;
estabelecimento dos usos permitidos para as águas do principal açude público; limpeza e coleta dos
resíduos sólidos das margens do açude Muquém; campanhas educativas junto aos barraqueiros e
aos freqüentadores do reservatório para o seu manejo adequado.
Faltam realizar, no entanto, algumas ações necessárias para a melhoria da qualidade de
vida dessa comunidade rural: ampliar os pontos de monitoramento e o número de vigilantes;
disciplinar a construção das fossas sépticas e a instalação de poços e implantar um sistema de coleta
e tratamento de esgotos e de resíduos sólidos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acredita-se que este estudo com a geração de informações e as sugestões para o plano de
ações, possibilitou repensar a prática dos Vigilantes da Água, seus pontos positivos e desafios a
serem enfrentados junto à comunidade de Muquém que padece de inúmeras carências sociais e
econômicas. Neste sentido, a caracterização e mapeamento das unidades geoambientais contribui
para o tratamento holístico e integrado da bacia.
Este levantamento revelou ainda que os usos múltiplos das águas são realizados sem o
manejo adequado, e constituem os principais focos da poluição hídrica, uma vez que, o volume de
detritos e rejeitos despejados nos cursos d’água supera sua capacidade de depuração, tornando as
águas inadequadas para o uso e consumo humano e animal causando doenças na população.
Além disso, o levantamento geoambiental considerou os aspectos naturais e sociais da
comunidade que é banhada pela microbacia; revelou alguns dos problemas de degradação ambiental
nos sistemas ambientais e mostrou as ações sustentáveis que foram realizadas pela comunidade de
Muquém na busca da divulgação das informações e da gestão das águas.

REFERÊNCIAS

AIRES, R . NASCIMENTO, F. R.; A análise ambiental integrada e estudo de microbacias
hidrográficas em áreas rurais do Ceará. In: XV Encontro Nacional de Geógrafos-ENG. São
Paulo: USP, 2007b 10p.
AIRES, R. Análise ambiental integrada de microbacias hidrográficas no Vale do Jaguaribe
como subsídio ao Programa Vigilantes Globais da Água. (Dissertação de Mestrado) Fortaleza:
UECE 2009. 209p.
BRASIL/EMBRAPA AGROINDÚSTRIA TROPICAL. Revista do Centro Nacional de Pesquisa
Agropecuária Tropical n0127 (Julho - Setembro). Fortaleza: EMBRAPA, 2008a p.8-10.
_______/EMBRAPA AGROINDÚSTRIA TROPICAL. Características das comunidades rurais
e monitoramento participativo dos recursos hídricos em Muquém e Riacho das Pedras.
Fortaleza: EMBRAPA, 2008b. Disponível em www.embrapa.cnpat.gov.br/vigilantesdaagua.
Acesso em10/10/20008.
FIGUEIRÊDO, M. C. B.; VIEIRA, V. P. P. B.; MOTA, S.; ROSA, M de F.; ARAÚJO, L de F. P.;
GIRÃO, E. G.; DUCAN, B. L.; Monitoramento comunitário da qualidade da água: uma ferramenta
para a gestão participativa dos recursos hídricos. In: Revista de Gestão da Água – REGA, V.5, nº
1, jan/jun. Porto Alegre, 2008, 22p.
GIRÃO, E.; FUCK JÚNIOR, S. O Programa Vigilantes da Água no Ceará: Monitoramento
Participativo da Qualidade da Água em uma Comunidade Rural da Bacia Hidrográfica do Rio
Jaguaribe In: Simpósio: Experiências em Gestão dos Recursos Hídricos por Bacia Hidrográfica
(ANAIS). São Pedro - SP , 2007, 13p.
SOUZA, M.J.N. Bases Geoambientais e Esboço do Zoneamento Geoambiental do Estado do Ceará.
In: Lima, L. C. (Org) Compartimentação Territorial e Gestão Regional do Ceará. Fortaleza:
FUNECE, 2000a p. 06- 98.


Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
259


ÍNDICE DE DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA BACIA HIDROGRÁFICA DO ARROIO
DO PADRE, PONTA GROSSA, PR

Sérgio Ricardo Rogalski
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia – Mestrado em Gestão do Território –
Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG (sergiorogalski@yahoo.com.br).
Karine Dalazona.
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia – Mestrado em Gestão do Território –
Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG (karine.bio@ibest.com.br).
Thiago Felipe Schier de Melo
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia – Mestrado em Gestão do Território –
Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG (tigo_geo@hotmail.com).
Michele do Nascimento

Aluna especial do Programa de Pós-Graduação em Geografia – Mestrado em Gestão do Território –
Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG (michelegeo01@hotmail.com).
Silvia Méri Carvalho
Docente do Departamento de Geociências e do Programa de Pós-Graduação em Geografia -
Mestrado em Gestão do Território - Universidade Estadual de Ponta - UEPG
(silviameri@brturbo.com.br).




RESUMO
As bacias hidrográficas ao longo das décadas vêm sofrendo degradação por falta de planejamento
urbano ou ambiental, acarretando em ocupação irregular e no uso inadequado do solo. Essa
combinação é a principal fonte de problemas ambientais e indicadora das desigualdades sociais,
geralmente resultantes em condições precárias de moradia, saúde pública, qualidade de vida e
custos à gestão pública. Assim, como na grande maioria das cidades brasileiras, o município de
Ponta Grossa apresenta problemas com relação ao planejamento urbano, principalmente se tratando
da sua topografia peculiar, que de certo modo influenciou o desenvolvimento urbano. O processo de
expansão urbana de Ponta Grossa partiu de um espigão central, de onde irradia uma rede de
drenagem radial, com 12 bacias hidrográficas urbanas convergidas por quatro principais arroios,
cujas nascentes seguem para o perímetro urbano da cidade. Existem diversas metodologias
aplicadas no diagnóstico e mensuração da degradação ambiental dos ecossistemas, incluindo bacias
hidrográficas, contudo a maioria dos modelos não considera o fator antrópico em relação ao
contexto ambiental. Para tanto, esse trabalho tem como objetivo identificar o grau de degradação
ambiental da Bacia Hidrográfica do Arroio do Padre, município de Ponta Grossa - PR, considerando
aspectos do meio físico, biológico e o fator antrópico por meio da aplicação do Índice de
Degradação Ambiental (IDA) proposto por Brandão (2005).


INTRODUÇÃO

Muitos dos atuais problemas ambientais ocorrem devido aos efeitos combinados das
pressões demográficas e da crescente necessidade tecnológica da sociedade. De acordo com o IBGE
81,2% da população brasileira concentra-se nos centros urbanos, e segundo a Organização das
Nações Unidas (ONU) no ano de 2005 esse número atingiu uma taxa de urbanização de 84,2% no
Brasil (IBGE, 2000). Essa realidade aponta uma série de problemas de ordem sócio-econômica e
ambiental, que é resultado do grande número de ocupações em áreas inadequadas, sendo a
degradação ambiental uma das evidências da iniqüidade das áreas urbanas, visto que, os riscos
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
260

ambientais, a poluição hídrica e alteração da paisagem estão concentradas, invariavelmente, nas
áreas onde se encontram as camadas mais pobres da população urbana (GUSMÃO, 2001).
Neste sentido, as bacias hidrográficas vêm sofrendo degradação ambiental em virtude,
principalmente da ocupação irregular, seja em áreas de preservação permanente (APP) ou de risco
geoambiental. Esse fenômeno constitui uma das principais fontes de problemas ambientais e é
indicador das desigualdades sociais, geralmente demonstradas por precárias condições de moradia,
saúde pública e qualidade de vida, acarretando em custos à gestão pública.
O conceito de degradação ambiental é entendido como conseqüência dos modos de uso e
ocupação do espaço que, sendo utilizado sem um devido planejamento ou na ausência de política
pública para ordenamento, tem a sua qualidade ambiental degradada (BELTRAME, 1994). Deste
modo, a degradação ambiental refere-se a “qualquer alteração adversa dos processos, funções ou
componentes ambientais, ou como alteração adversa da qualidade ambiental” (SÁNCHEZ, 2006, p.
27). Na esfera legislativa, a Lei da Política Nacional de Meio Ambiente define degradação
ambiental como “alteração adversa das características do meio ambiente” (BRASIL, 1981).
A Política Brasileira sobre as Águas instituiu a Lei 9.433/97 de 08 de janeiro de 1997, na
qual em seu primeiro artigo estabelece a bacia hidrográfica como unidade territorial para
implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de
Gerenciamento dos Recursos Hídricos. Tendo isto como um ponto de partida, “a bacia hidrográfica
como unidade de estudos pode ser considerada como a expressão, em diversas escalas, da interação
da sociedade e natureza na produção do espaço” (CARVALHO, 2004, p. 36).
A escolha da bacia hidrográfica como unidade de estudo decorre do fato de ser considerada
uma unidade ambiental que constitui características singulares, com entrada e saída de energia bem
definidas. Numa bacia hidrográfica os elementos do quadro natural e social interagem e evoluem no
espaço e no tempo. A necessidade de uma abordagem geossistêmica nos estudos ambientais remete
a uma visão integrada do ambiente físico e dos processos antrópicos que se desenvolvem na área.
Sendo assim, é possível observar a qualidade ambiental de uma bacia hidrográfica através da
paisagem circundante, elaborada pelo homem e desenvolvida em função de seus próprios interesses.
Do mesmo modo que a grande maioria das cidades brasileiras, o Município de Ponta
Grossa apresenta problemas em relação ao planejamento urbano, principalmente quanto se a sua
topografia peculiar, que influenciou seu desenvolvimento urbano. A expansão urbana do Município
de Ponta Grossa aconteceu a partir de um espigão central, de onde se propaga uma rede de
drenagem radial, com 12 bacias hidrográficas urbanas, que convergem em quatro principais arroios,
cujas nascentes estão localizadas em diversas direções dentro do perímetro urbano, seja no centro
comercial da cidade ou em suas imediações (MEDEIROS e MELO, 2001).
Para tanto, esse trabalho tem como objetivo identificar o grau de degradação ambiental da
Bacia Hidrográfica do Arroio do Padre no Município de Ponta Grossa, PR, considerando aspectos
do meio físico, biológico e o fator antrópico, por meio da aplicação do Índice de Degradação
Ambiental (IDA) proposto por Brandão (2005).


CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

A Bacia Hidrográfica do Arroio do Padre encontra-se na porção sudoeste do espaço urbano
de Ponta Grossa (PR) e é um dos afluentes da margem esquerda do Arroio da Ronda que deságua
no Rio Tibagi (Figura 01). Seguindo os critérios definidos por Strahler (1957) a bacia do Arroio do
Padre, é uma bacia de terceira ordem, apresentando 24 canais, sendo 18 de primeira ordem, 5 de
segunda ordem e um de terceira ordem (BARBOSA, 2006).
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
261


Figura 01. Localização da Bacia Hidrográfica do arroio do Padre, município de Ponta Grossa – PR.
Fonte. Laboratório de Geoprocessamento da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG.

Os solos que compõem essa bacia hidrográfica são principalmente os latossolos,
cambissolos, solos hidromórficos, solos litólicos arenosos e solos com textura areno-argilosa
(Figura 02). Sua vegetação é representada predominantemente por campos limpos, com áreas de
gramíneas, com arbustos isolados ou em grupos, além da presença de capões de Floresta Ombrófila
Mista, que formando corredores ripários constituem a mata ciliar da Bacia, em diferentes estados de
sucessão vegetacional.
Quanto aos aspectos geológicos inclui Formações Furnas e Ponta Grossa o Grupo Itararé
(Figura 03), e, ainda, uma seqüência de falhas e fraturas, algumas preenchidas por diques de
diabásio. Segundo Melo e Godoy (1997) a Formação Furnas constitui a unidade basal do Grupo
Paraná, possuindo uma transição para unidades sobrepostas gradual, ao passar para Formação Ponta
Grossa, ou erosiva, quando rochas do Grupo Itararé sucedem o arenito Furnas. A Formação Ponta
Grossa assenta-se sobre a Formação Furnas, com um contato gradual, e é sobreposta por rochas do
Grupo Itararé, através de contatos erosivos (MEDEIROS e MELO 2001).















Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
262






























METODOLOGIA

Existem diversas metodologias possíveis de aplicação para o diagnóstico e mensuração da
degradação ambiental tanto em ecossistemas como em bacias hidrográficas. Contudo esses modelos
de análise, como por exemplo, de Ross (1994) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais -
INPE, (1996), não consideram a pressão antrópica sobre o contexto ambiental.
Visto isso, o IDA (Índice de Degradação Ambiental), se apresenta como uma valiosa
ferramenta metodológica proposta por Brandão (2005) pelo fato de não se restringir apenas aos
elementos do quadro natural, passando a incluir o fator antrópico, diferencia-se dos demais índices.
O Índice de Degradação Ambiental (IDA) é baseado nos estudos geossistêmicos, correlacionando
às variáveis do quadro natural (solo, vegetação, declividade) com o fator antrópico (densidade
populacional).
A fórmula proposta para geração do Índice de Degradação Ambiental é apresentada
abaixo.







Figura 02. Mapa de solos da bacia
hidrográfica do arroio do Padre.
Fonte: Material disponibilizado da
disciplina Gestão de Bacias
Hidrográficas do Mestrado – UEPG.

Figura 03. Mapa da geologia da bacia
hidrográfica do arroio do Padre.
Fonte: Medeiros e Melo, 2001.




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
263

2
2
P D
2
S V
1
IDA
|
¹
|

\
| +
+
(
¸
(

¸

|
¹
|

\
| +

=

Onde:
V: Vegetação (percentual de cobertura vegetal);
S: Características do horizonte A do solo;
D: Declividade;
P: Pressão Antrópica (Densidade Demográfica).

Para aplicação do método IDA no Arroio do Padre utilizou-se o programa de
geoprocessamento Arcview GIS ® 3.2, disponibilizado pelo Laboratório de Geoprocessamento da
Universidade Estadual de Ponta Grossa (LABGEO/DEGEO/UEPG), para a combinação das
variáveis e elaboração do diagnóstico através da sobreposição dos parâmetros do meio físico e
antrópico. Foram elaboradas matrizes com o fim de sintetizar as informações obtidas a partir das
variáveis, permitindo gerar um mapa síntese que demonstra o Índice de Degradação Ambiental para
as diferentes situações ambientais da bacia hidrográfica do Arroio do Padre.
Com relação a variável solo, baseada nas características do horizonte A, a metodologia
propõe que solos com textura arenosa recebam valor 0, com textura mais argilosa valor 1,0 e com
textura média recebam valor 0,5. A textura dos solos na região é bastante variável, principalmente
em relação ao embasamento geológico e lito-pedologia predominantes na área de estudo. Devido a
esse fato, foi elaborada uma matriz de correlação (Tabela 01) quanto à textura das associações
identificadas, levando em consideração trabalhos já realizados na área, consulta a profissionais
especializados e literatura.

Solos
Geologia
Associação
Neossolo + Gleissolo
Associação
Latossolo + Cambissolo
Associação
Cambissolo + Neossolo
Itararé 0,5 0,5 0,5
Ponta Grossa 1 1 1
Quartenário 1 1 0,5
Serra Geral 1 1 1
Tabela 01: Matriz de correlação quanto à textura dos solos.

Para estruturação da variável vegetação na bacia hidrográfica estabeleceu-se que apenas as
áreas com presença de vegetação nativa como floresta, campos, brejos em seus diferentes estágios
sucessionais seriam consideradas como cobertura vegetal nativa e, posteriormente calculadas as
suas proporções em cada polígono estudado. Calculadas as devidas dimensões ocupadas pela
vegetação, ou seja, porcentagem das áreas do polígono dividido por 100, cada polígono recebeu um
índice que varia de 0 a 1, onde 0 representa ausência total, e 1 seria a presença de vegetação
ocupando 100% do polígono.
O parâmetro declividade seguiu os intervalos de classe (Quadro 01) propostos por Brandão
(2005). Gerou-se um mapa de declividade, expresso em porcentagem, com o fim de estabelecer a
correlação deste fator com os demais parâmetros da análise.

Porcentagem % Característica Valor considerado no IDA
0 – 2,5 Plano 0,025
2,5 – 12 Suave ondulado 0,12
12 – 50 Muito ondulado 0,5
50 – 75 Montanhoso 0,75
75 – 100 Escarpado 1
Quadro 01: Características da declividade para o método IDA.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
264

A pressão demográfica foi estabelecida a partir do valor da densidade demográfica da bacia
hidrográfica dividido por 100. Este valor poderá variar de 0 a 1, onde valores próximos deste
indicam pressão demográfica superior a 100 hab/km², e próximos àquele indicam uma baixa
pressão demográfica exercida no local. A bacia hidrográfica do Arroio do Padre possui uma área de
378,65 ha e uma população de 15.431 habitantes, resultando numa densidade demográfica
representada pelo valor 1 em toda a sua extensão.
Foi realizada uma saída de campo na área de estudo a fim de observar a realidade local,
com o intuito de identificar in loco os padrões espaciais exibidos na imagem de satélite.

RESULTADOS

De acordo com as observações em campo pode-se citar dentre as principais espécies
vegetais encontradas no Arroio do Padre, as arbóreas nativas Bauhinia forficata Link. (pata-de-
vaca), Mimosa scabrella Benth. (bracatinga), Tabebuia alba (Cham.) Sandw. (ipê), Syagrus
romanzoffiana (Cham.) Glassman (jerivá) e Schinus terebenthifolius Raddi (aroeira). Também
foram encontradas as lianas como Smilax brasiliensis Spreng. (cipó de beira de capão) e
Pithecoctenium crucigerum (L.) A.H.Gentry (pente-de-macaco).
Dentre as espécies exóticas observadas, as mais freqüentes foram Eriobotrya japonica
Lindl. (nêspera ou ameixa amarela), Ricinus communis L. (mamona), Impatiens walleriana Hook
(beijinho) e Melia azedarach L. (cinamomo). Nos ambientes mais alterados, encontravam-se as
espécies ruderais Bambusa taquara L. (taquara), Pennisetum purpureum Schum. (capim-elefante) e
Brachiaria errecta Hack. (capim-braquiária) com bastante frequência.
A bacia hidrografica do arroio do Padre, de modo geral, apresenta alguns segmentos
relativamente conservados, apesar que, em alguns trechos apresentar situações de assoreamento,
contaminação por lixo doméstico, ocupação irregular, lançamento indevido de esgoto e invasão de
espécies exóticas e ruderais.
Com relação ao Índice de Degradação Ambiental (IDA), foram identificadas três das
quatro classes propostas pela metodologia (Figura 3). A porção norte da bacia apresenta uma menor
qualidade ambiental devido ao fato de englobar uma área fortemente urbanizada, com um solo
variando entre argiloso e médio arenoso, com relativa declividade. Nessa área observam-se também
ocupações irregulares, sobretudo nas áreas de preservação permanente (APP), sem as menores
condições sanitárias e de segurança. Contudo alguns setores na porção norte da bacia ainda exibem
qualidade ambiental moderada e alta por apresentar cobertura vegetal, com matas de galeria e áreas
de preservação ambiental, como o Parque Municipal Marguerita Massini.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
265





Ao longo do leito do arroio as condições ambientais demonstram-se aparentemente
constantes, sendo favorecidas pelo tipo de solo que é bastante argiloso, pelo embasamento
geológico e pela relativa presença de matas de galeria (Floresta Ombrófila Mista Aluvial), campos
nativos (Estepe stricto sensu) ou brejos (Estepe Higrófila ou Várzeas).
A Porção Sul da bacia é ocupada por agricultura e por trechos de reflorestamento com
espécies exóticas, pressões antrópicas estas que acarretam na diminuição da qualidade ambiental da
área. A maioria das áreas agricultadas goza ainda de um solo frágil de textura média arenosa,
favorecendo a erosão no local, que apresenta relevo suave ondulado. Contudo nas áreas de
reflorestamento a declividade varia entre 12% e 50%, significando que as áreas apresentam elevado
potencial erosivo. Deve-se considerar ainda o fato que as espécies utilizadas na silvicultura, (Pinus
spp e Eucalyptus spp) apresentam alelopatia, não permitindo o desenvolvimento de outras espécies
nas áreas em que se desenvolvem, deixando o solo descoberto e por conseqüência vulnerável à
erosão.
A tabela 02 apresenta os parâmetros utilizados, para cada setor, na determinação do Índice
de Degradação Ambiental da bacia hidrográfica do Arroio do Padre.










Figura 03. Mapa do índice de degradação ambiental
da bacia hidrográfica do arroio do padre, PR.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
266

Setor Vegetação Solo Declividade
Densidade
Demográfica
Valor IDA
1 0,98 1 0,5 1 0,38
2 1 1 0,5 1 0,38
3 0,02 1 0,12 1 0,53
4 0,97 1 0,5 1 0,38
4.1 0,98 1 0,5 1 0,38
5 0,96 1 0,5 1 0,39
6 0,98 1 0,5 1 0,38
7 1 1 0,5 1 0,38
7.1 0,19 1 0,12 1 0,48
8 0,98 1 0,5 1 0,38
9 0,72 1 0,5 1 0,45
10 0,99 1 0,5 1 0,38
11 0 1 0,12 1 0,53
12 0,92 0,5 0,5 1 0,52
13 0 0,5 0,025 1 0,63
14 0,03 0,5 0,12 1 0,65
15 0 0,5 0,5 1 0,75
16 0,98 0,5 0,5 1 0,51
17 0,96 0,5 0,5 1 0,51
18 0,91 0,5 0,5 1 0,52
19 0,05 0,5 0,5 1 0,74
20 0,04 0,5 0,12 1 0,65
21 0 1 0,5 1 0,63
22 0 1 0,025 1 0,51
23 0,09 1 0,12 1 0,51
24 0 1 0,12 1 0,53
25 0,03 0,5 0,5 1 0,74
26 0,02 0,5 0,12 1 0,65
27 0,01 0,5 0,5 1 0,75
28 0,58 1 0,5 1 0,48
29 0,89 1 0,025 1 0,25
30 0,94 0,5 0,12 1 0,42
31 0,04 0,5 0,12 1 0,65
32 0,74 0,5 0,12 1 0,47
33 0,11 0,5 0,025 1 0,60
34 0,98 0,5 0,5 1 0,51
35 1 0,5 0,5 1 0,50
36 0,94 0,5 0,12 1 0,42
37 0,05 0,5 0,5 1 0,74
38 0,02 0,5 0,12 1 0,65
39 0,87 0,5 0,12 1 0,44
40 0,99 1 0,5 1 0,38
41 0,89 1 0,025 1 0,25
42 0,3 0,5 0,12 1 0,58
43 0,21 0,5 0,12 1 0,60
44 0,34 0,5 0,12 1 0,57
45 0,29 0,5 0,025 1 0,56
46 0,43 0,5 0,12 1 0,55
47 0,69 0,5 0,025 1 0,46
48 0,04 0,5 0,12 1 0,65
49 0,03 0,5 0,025 1 0,62
Tabela 02. Índice de Degradação Ambiental (IDA) para cada situação ambiental identificado na
Bacia Hidrográfica do Arroio do Padre, Ponta Grossa, PR.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
267


CONSIDERAÇÕES FINAIS


No contexto do espaço urbano do município de Ponta Grossa, as bacias hidrográficas vêm
sendo degradadas ao longo de décadas, seja pela falta de planejamento urbano, pela especulação
imobiliária ou pela inépcia política dos gestores municipais.
A bacia hidrográfica do Arroio do Padre apresenta características particulares, como por
exemplo, a presença de fragmentos de vegetação nativa relativamente conservada em plena área
urbana. Existem trechos em que a situação é aviltante, a ocupação irregular chega literalmente à
margem do arroio, o solo descoberto é assoreado, há lixo por todo lugar, e a pouca cobertura vegetal
existente é formada por espécies indicadoras de perturbação ambiental.
Considerando a crescente expansão urbana no município de Ponta Grossa, é necessário que
haja regulamentação nos processos de expansão e fiscalização por parte da gestão municipal em
relação ao cumprimento das determinações locais e da legislação ambiental vigente, visto que é
notório o aumento das áreas ocupadas por condomínios fechados e loteamentos na área de estudo.
A metodologia empregada neste estudo pode ser considerada uma ferramenta de grande
valia tanto para os profissionais da gestão ambiental e do território quanto aos gestores municipais,
uma vez que considera as variáveis ambientais aliadas ao fator antrópico, subsidiando assim um
melhor planejamento para o município. Sendo assim, a metodologia IDA mostrou-se viável para
uma bacia menor e inteiramente urbana, como a bacia hidrográfica do arroio do Padre.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBOSA, Y. B. Análise morfométrica da bacia do arroio do Padre, Ponta Grossa, PR. Caminhos
de Geografia. Uberlândia v. 10, n. p. 160 – 173. 30 Mar/2009.

BELTRAME, A. V. Diagnóstico do meio físico de bacias hidrográficas: modelo e aplicação.
Florianópolis: Editora da UFSC. 1994. 111 p.

BRANDÃO, M. M. H. Índice de Degradação Ambiental na Bacia Hidrográfica do Rio do Peixe
– PB. 2005. 110 f. Tese (Doutorado em Geologia Sedimentar e Ambiental). Universidade Federal
de Pernambuco, Pernambuco, 2005.

BRASIL. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio
Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Diário
Oficial da União, 02 de setembro de 1981. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil/Leis/L6938org.htm>. Acesso em: 20 jul. 2009.

CARVALHO, S. M. O Diagnóstico Físico-Conservacionista – DFC como subsídio à Gestão
Ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Quebra-Perna, Ponta Grossa – PR. 2004. 165 f. Tese
(Doutorado em Geografia: Produção do Espaço Geográfico). Universidade Estadual Paulista,
Presidente Prudente, 2004.

Curso de sensoriamento remoto aplicado ao zoneamento ecológico-econômico. São José dos
Campos: INPE, 1996. 18p. (INPE-6145 - PUD/028).

IBGE, Censo Demográfico 2000 - Resultados do Universo. Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br/censo/>. Acesso em: 14 de jul. 2009.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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MEDEIROS, C. V.; MELLO, M. S. de. Processos erosivos no espaço urbano de Ponta Grossa. In:
DITZEL, C. H. M. e SAHR, C. L. L. (Org.). Espaço e cultura: Ponta Grossa os Campos Gerais.
1 ed. Ponta Grossa: EDUEPG, 2001. P. 109-126.

GUSMÃO, P. P. Meio ambiente local: A gestão ambiental urbana. In: MAGRINI, A.; SANTOS, M.
A. dos. Gestão ambiental de bacias hidrográficas. Rio de Janeiro: UFRJ; COPPE; Instituto
Virtual Internacional de Mudanças Globais, 2001.

MELO, M. S.; GODOY, L. C., Geologia, Geomorfologia e Riscos Geológicos na Bacia do Olarias,
Ponta Grossa, PR. Publicatio UEPG – Ciências Exatas e da Terra, Ponta Grossa, v. 3(1), p. 33-59,
1997.

ROSS, J. L. Análise empírica da fragilidade dos ambientes naturais e antropizados. In: Revista
do departamento de geografia n.º 05, FFLCH-USP, São Paulo, 1994.

SÁNCHEZ, L. H. Avaliação de impacto ambiental: conceitos e métodos. São Paulo. Oficina dos
textos, 2006. 495 p.

STRAHLER, A. N. Quantitative analysis of watershed geomorphology. Trans. Am. Geophys.
Un., v. 38, p. 913-920, 1957.
































Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
269


AVALIAÇÃO TEMPORAL DO PROCESSO DE EXPANSÃO URBANA NA BACIA
HIDROGRÁFICA DO RIO ANIL, SÃO LUÍS-MA

Suzana Araújo Torres
Universidade Federal do Maranhão
Tatiana Cristina Santos

de Castro
Universidade Federal do Maranhão
Franceleide Soares Conceição
Universidade Federal do Maranhão
Fabíola Geovanna Piga
Universidade Federal do Maranhão
Janaína Mendes Barros
Universidade Federal do Maranhão


RESUMO
A expansão urbana representa parte do processo de desenvolvimento socioeconômico e cultural de
um povo. A população do Brasil encontra-se em sua maioria localizada nas zonas urbanas,
ocasionando aumento na utilização dos recursos naturais o que acelera consideravelmente o
processo de degradação ambiental. A bacia hidrográfica é considerada a principal unidade territorial
em estudos sobre o processo de expansão urbana. A bacia hidrográfica do rio Anil destaca-se, entre
as demais bacias da Ilha de São Luís, como a mais densamente urbanizada resultado do seu
processo histórico de ocupação, caracterizado pela ausência de planejamento e deficiência nos
sistemas de abastecimento hídrico e na infra-estrutura sanitária esse trabalho tem como objetivo
efetuar uma avaliação temporal do processo de expansão urbana na bacia hidrográfica do rio Anil e
desenvolver uma análise sobre as condições ambientais na região.
Palavras-chave: Urbanização, Bacia hidrográfica e rio Anil.

INTRODUÇÃO
A expansão urbana representa parte do processo de desenvolvimento socioeconômico e
cultural de um povo. De acordo com CÔRTES (2000), durante esse processo o qual ocorre em
escala temporal e espacial, diversos impactos promovem alterações na paisagem e perdas das
funções ecológicas do sistema ambiental.
A população do Brasil encontra-se em sua maioria localizada nas zonas urbanas,
ocasionando aumento na utilização dos recursos naturais o que acelera consideravelmente o
processo de degradação ambiental.
A bacia hidrográfica é considerada a principal unidade territorial em estudos sobre o
processo de expansão urbana. De acordo com ALCÂNTARA (2003), as conseqüências do processo
de expansão urbana em bacias hidrográficas, no sentido hidrológico, provocam alterações
significativas no balanço hídrico, resultando em alterações na qualidade ambiental devido o
crescimento desordenado das populações nessas áreas.
De acordo com DAMAZIO (1995) a bacia hidrográfica do rio Anil destaca-se, entre as
demais bacias da Ilha de São Luís, como a mais densamente urbanizada resultado do seu processo
histórico de ocupação, caracterizado pela ausência de planejamento e deficiência nos sistemas de
abastecimento hídrico e na infra-estrutura sanitária.
Nesse sentido, esse trabalho tem como objetivo efetuar uma avaliação temporal do processo
de expansão urbana na bacia hidrográfica do rio Anil e desenvolver uma análise sobre as condições
ambientais na região.



Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
270


MATERIAL E MÉTODO

A bacia hidrográfica do rio Anil ocupa a porção noroeste da Ilha do Maranhão, fazendo
parte do município de São Luís, entre as coordenadas 02º 35’ 12”S a 02º 28’ 27”S e 44º 20’ 33”w a
44º 11’ 12”W (Figura 1). Apresenta como limites: ao norte pequenas bacias costeiras; ao sul e a
leste, o divisor de águas que a separa da bacia do rio Paciência; e finalmente, a oeste pelo divisor de
águas que a separa da bacia do rio Bacanga (DAMAZIO, 1995).


Figura 1. Localização da área de estudo, Bacia Hidrográfica do Rio Anil, São Luís-MA.

A avaliação temporal do processo de expansão urbana na bacia hidrográfica do rio Anil foi
realizada através da vetorização de imagens de satélite LANDSAT TM5, adquiridas gratuitamente
no site do INPE (Instituto de Pesquisas Espaciais) para duas épocas distintas, com o auxilio do
software SPRING (versão 4.2).
Para a vetorização das imagens de satélites foram adotadas as seguintes classes temáticas:
curso d’água, manguezal, áreas verdes (vegetação secundária), solo exposto e urbanizado. As
imagens de satélites utilizadas foram: LANDSAT TM 5, órbita 220, ponto 62, de 10 de junho de
1984 e LANDSAT TM 5, órbita 220, ponto 62, de 17 de setembro de 2008, além de arquivos
digitais em formato SHAPE (limite da bacia, limite da Ilha de São Luís e Estados do Brasil).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A avaliação do processo de urbanização da bacia hidrográfica do rio Anil, realizada através
do mapeamento temático no intervalo de 24 anos, constatou uma diminuição das áreas com
cobertura vegetal e um aumento significativo da área urbanizada na região. De acordo com
ALCANTARA (2003), o desmatamento da cobertura vegetal (manguezal e áreas verdes) para o
provimento do desenvolvimento e urbanização, influênciam nas etapas do ciclo hidrológico,
causando a redução da evapotranspiração, maior escoamento superficial, e alterações no microclima
na bacia do rio Anil.
Para o ano de 1984 observa-se que a ocupação da bacia caracteriza-se de forma
desordenada, onde as diferentes ocupações, especialmente a concentração de palafitas instaladas ao
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
271

norte na região do baixo curso e em direção ao sul, a construção de conjunto habitacionais
apresenta-se bastante significativo, inclusive provocando o assoreamento e aterro dos canais
fluviais, assim como nas demais regiões da bacia.
Para o ano de 2008 observa-se uma redução significativa das áreas verdes na região da bacia
(vegetação secundária). O que antes representava 1.137 hectares, com 25,72% do território,
atualmente representa 732 hectares, com 16,56% da região, ou seja, uma perda de aproximadamente
405 hectares de áreas verdes, substituídas por áreas densamente urbanizadas, com solos
impermeáveis.
Com relação às demais classes temáticas adotadas nesse estudo notaram-se redução nos
cursos d’água, uma perda de aproximadamente 34 hectares, pois antes o que recobria 278 hectares,
com 6,29%, atualmente representa 224 hectares, com 5% do território. Notou-se também redução
nas áreas de manguezal, uma perda de aproximadamente 115 hectares, antes essa região
representava 569 hectares, hoje representa 454 hectares, com 10,2% do território. As áreas de solo
exposto tiveram um aumento, o que antes representava 21 hectares, no ano de 1984, atualmente
representa 75 hectares, o que corresponde a 1% da área total da bacia.
O processo de ocupação na bacia continua com o padrão desordenado dos 24 anos atrás, a
população na região aumentou rapidamente, além de perdas na região de manguezal para dar lugar a
mais palafitas e casas as margens do rio. Segundo CARDOSO (2007) mais de 66% da bacia do rio
Anil encontra-se ocupada com áreas urbanas, variando desde aquelas densamente ocupadas, até
áreas com baixa densidade de urbanização (pequenas porções do território na região leste). Essa
redução da vegetação nativa ocasiona alterações dos processos que ocorre dentro desse ecossistema.
De acordo com TUCCI (2002) a ocupação urbana sem planejamento entre outros fatores, é
responsável pela destruição das matas ciliares e zonas ripárias proporcionando assim a erosão, o
carreamento de sedimento e conseqüentemente à piora da qualidade da água e principalmente a
diminuição da capacidade de armazenamento das bacias hidrográficas, levando a redução da vazão
do lençol freático.

Tabela 1:Unidades de paisagem identificadas na bacia do rio Anil nos anos de 1984 e 2009.
Ano de 1984 Ano de 2008 Unidades de
Paisagem
Área (ha) Porcentagem (%) Á
rea (ha)
Porcentagem (%)
Curso D’água 278,457 6,29 224,855 5,04
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
272

Manguezal 569,952 12,89 454,549 10,27
Áreas verdes
(vegetação
secundária)
1.137,175 25,72 732,398
6,56
Solo Exposto 21,131 0,47 75,654 1,69
Urbanizado 2.413,942 54,60 2.931,829 66,31
Total 4.420,659 100 4.420,659 100

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O mapeamento das Unidades de Paisagem no estudo de avaliação temporal do processo de
urbanização na bacia hidrográfica do rio Anil permitiu observar que na região da bacia o processo
de uso e ocupação do solo permanece em constante desenvolvimento, estendendo-se lateralmente
por todo o espaço disponível, principalmente pela margem esquerda da bacia.
A bacia hoje, caracteriza-se fortemente urbanizada, resultado do seu processo histórico de
ocupação, caracterizado pela ausência de planejamento e deficiência nos sistemas de abastecimento
hídrico e na infra-estrutura sanitária. Atualmente, acredita-se que a população esteja acima dos
300.000 habitantes, totalizando um recobrimento da ordem de 65% de sua superfície disponível.





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
273

REFERÊNCIAS

ALCÂNTARA, E. H.; SILVA, G. C. 2003. Consequências Ambientais da Intensa Urbanização
da Bacia Hidrográfica do Rio Anil, São Luís – MA. In: VI Congresso de Ecologia do Brasil.
Fortaleza – CE, Vol. VI p.271-271-273.

CARDOSO, Gisele Martins. Uso de Geotecnologias como subsídio a plano diretor de
drenagem: estudo de caso de bacias hidrográficas dos rios Anil e Paciência – MA. São Luís.
Monografia graduação em Ciências Aquáticas curso de ciências Aquáticas. Universidade Federal do
Maranhão, 2007.

CÔRTES, M.R. et al. Uso e ocupação da terra na área urbana. In: Espínola, E.L.G. et al. A bacia
hidrográfica do Rio Monjolinho; uma abordagem ecossistêmica e a visão interdisciplinar. São
Carlos: RiMa editora, 2000. 114-132p.

DAMÁZIO, Eduardo. Aspectos Geo-Ambientais da Bacia do Rio Bacanga, Ilha do Maranhão,
1995.



































Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
274


CARACTERIZAÇÃO DO RELEVO E SUA INFLUÊNCIA NO ESCOAMENTO
SUPERFICIAL NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO BACANGA, SÃO LUÍS-MA

Tatiana Cristina Santos de Castro
Universidade Federal do Maranhão
castro_tatiana@hotmail.com
Franceleide Soares Conceição
Universidade Federal do Maranhão
Suzana Araújo Torres
Universidade Federal do Maranhão
Janaína Mendes Barros
Universidade Federal do Maranhão
Carla Danielle Paixão Melo
Universidade Federal do Maranhão

RESUMO
A bacia hidrográfica do rio Bacanga, localiza-se na região noroeste do município de São Luis,
capital do Estado. A caracterização do relevo na bacia foi realizada a partir da geração automática
da amplitude altimétrica, curvas de nível e a declividade do terreno, através de softwares com
aplicação em Sistemas de Informações Geográficas (SIG). A bacia apresenta amplitude altimétrica
de aproximadamente 56 metros, relevo suave e plano, em cotas acima de 40 metros e relevo
ondulado a fortemente ondulado, assentados em cotas inferiores a 40 metros, que representam as
maiores porções do território na região da bacia do rio Bacanga.

Palavras-chave: Relevo, Escoamento superficial, Bacia hidrográfica.

INTRODUÇÃO
A caracterização do relevo em uma bacia hidrográfica apresenta grande relevância, pois
permite conhecermos como se comporta o escoamento superficial e sub-superficial, ou seja, o
tempo de duração que leva a água para atingir e concentrar-se nos canais fluviais.
A bacia hidrográfica compreende uma área definida topograficamente, cujo escoamento,
superficial ou subterrâneo, alimenta o deflúvio em determinada seção transversal do curso d’água,
compõe-se, basicamente, de um rio principal e seus afluentes GARCEZ & ALVAREZ (1988).
Em uma bacia hidrográfica urbana o modo de ocupação humana reflete na qualidade dos
recursos naturais, principalmente os recursos hídricos, pois todos os processos de intervenção do
homem conseqüentemente têm no corpo d’água o seu destino final. E, quase que inevitavelmente
provocam alterações na qualidade e quantidade dos recursos hídricos da bacia.
De acordo com SANTOS (2004), a bacia hidrográfica é considerada a principal unidade do
espaço a tratar assuntos ambientais, de abastecimento de água e outros. Segundo este autor o
planejamento e gerenciamento ambiental de bacias hidrográficas devem incorporar, além dos
recursos hídricos, os demais aspectos ambientais, físicos, sociais, econômicos e políticos de uma
região.
Desse modo esse estudo tem como objetivo caracterizar os aspectos físicos a partir do estudo
do relevo e sua influência no escoamento superficial na bacia hidrográfica do rio Bacanga, São
Luís, Maranhão.






Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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MATERIAL E MÉTODO
A bacia hidrográfica do rio Bacanga, localiza-se na região noroeste do município de São
Luis, capital do Estado. Está compreendida entre as coordenadas geográficas 2° 31’ 30’’ a 2° 39’
13’’ de Latitude Sul e 44° 14’ 25’’ a 44° 20’ 27’’ a Oeste do Meridiano de Greenwich (Figura 1).
Apresenta como limites: ao Norte Baía de São Marcos; ao Sul o Tabuleiro Central da Ilha na região
do Tirirical; a Leste as bacias dos rios Anil, Paciência e Tibiri e a Oeste as bacia litorâneas
(Cachorros, Irinema, Araporaí e Anjo da Guarda).

Figura 1. Localização da área de estudo, Bacia hidrográfica do rio Bacanga, São Luís-MA.

A caracterização do relevo na bacia hidrográfica do rio Bacanga se deu através do estudo
hipsométrico e da declividade do terreno, gerados automaticamente a partir do uso de software com
aplicação em Sistema de Informações Geográficas (SIG).
De acordo com GUERRA (1993) apud SILVA (2001) a declividade do terreno indica as
áreas de maior ou menor inclinação em relação ao horizonte. Para TONELO (2005) a declividade
do terreno é expressa como a variação de altitude entre dois pontos do terreno em relação à
distância que os separa.
O estudo hipsométrico representa análise do relevo por curvas de nível, ou seja, a variação
na elevação do terreno de uma bacia hidrográfica com referência ao nível do mar (SANTOS, 2004).
A partir do modelo digital de elevação do terreno, grade regular de pontos altimétricos em
formato ASCII, dados aerofotogramétricos (SEMTHURB, 2001), escala 1:35.000 foi gerado a
amplitude altimétrica, as curvas de nível e a declividade do terreno na região da bacia hidrográfica
do rio Bacanga.
A declividade do terreno apresenta-se distribuído em classes, consideradas em função das
características morfológicas da área, apresentadas em porcentagem. A Tabela 1 apresenta a
distribuição das classes de declividade adotas para a bacia do rio Bacanga que seguiu a classificação
de ROSA & BRITO (2003).
As curvas de nível foram geradas em classes, com intervalos de 5 metros e apresentadas com
variação de atitude em intervalos de 20 metros. As classes adotadas foram contabilizadas
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individualmente em termos de área e em porcentagem quanto à área total da bacia. Assim pode-se
observar a representação da variação de altitude na área de estudo.

Tabela 1. Distribuição das classes de declividade adotadas para a bacia do rio Bacanga.
Classes Características
0 a 3% Áreas de relevo suave ondulado ou quase plano com escoamento superficial
lento a muito lento
3 a 8% Áreas de relevo suave ondulado com interflúvios extensos a aplainados
8 a 12% Áreas de relevo mediamente ondulado com as mesmas características
apresentadas pela categoria 3 a 8%
12 a 20% Áreas de relevo ondulado com escoamento superficial rápido
> 20% Áreas de relevo fortemente ondulado formado por morros com declives fortes
Fonte: ROSA & BRITO (2003).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A bacia hidrográfica do rio Bacanga apresenta amplitude altimétrica de 56 metros. As áreas
mais elevadas dessa bacia, com cotas altimétricas acima de 40 metros, concentram-se na região
sudeste bacia e em pequenas regiões a sudoeste. Essas áreas representam 8,2% do território,
aproximadamente 846,7 hectares. Essa região destaca-se por estar assentada sobre o Tabuleiro
Central da Ilha de São Luís, na região do Tirirical, cuja declividade varia entre 0 a 3% o que
caracteriza a área como regiões altas e planas, com escoamento superficial lento a muito lento.
De acordo com a Lei n
0
4.669/06, as regiões do Município de São Luís, assentadas em cotas
acima de 40 metros, representam as áreas de recarga de aqüífero. Na bacia do Bacanga, essa região
apresenta solo poroso e bastante permeável e embora esteja inserida em área antropizada, ainda
apresenta boa cobertura vegetal, devido a Presença do Parque Estadual do Bacanga.
As áreas com altitudes intermediárias, acima de 20 metros e inferiores a 40 metros, ocupam
4.487 hectares, correspondente a 43.8% do território. Essas áreas concentram-se a oeste, com
declividade de 0 a 3%, com escoamento superficial lento a muito lento, em pequenas áreas na
região sul e leste, com declividade de 3 a 8% o que caracteriza essas regiões com relevo suave a
ondulado e escoamento superficial lento a acelerado.
As cotas inferiores a 20 metros em relação ao nível do mar ocupam 4.879 hectares,
correspondente a 47,7% da região da bacia. Essas regiões distribuem-se em pequenas áreas na
região oeste e leste, com declividade acima de 20%, o que caracteriza áreas de relevo fortemente
ondulado, constituído por morros com declives fortes e escoamento superficial muito rápido.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na bacia hidrográfica do rio Bacanga a amplitude altimétrica é relativamente pequena e
indica que a área está assentada sobre cotas baixas o que permite a influência da maré atingir a
região média da bacia.
A declividade na área caracterizou-se bastante variável com diferentes inclinações do
terreno em uma mesma região, com destaque para as áreas altas, cotas acima de 40 metros, ao
sudeste e sudoeste da bacia, de relevo suave e plano, com escoamento superficial lento a muito
lento, que apresentam forte potencial para infiltração, contribuindo para a recarga do Aqüífero
Barreiras na região.
As áreas de relevo suave a ondulado, com escoamento superficial lento a acelerado e áreas
de relevo fortemente ondulado, constituído por morros com declives fortes, com escoamento
superficial muito rápido, ocupam respectivamente as maiores poções do território e estão assentadas
em cotas inferiores a 40 metros.



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REFERÊNCIAS

COELHO, Cristiano Jackson da Costa. Aspectos da Disponibilidade e dos Usos da Água na
Bacia do Bacanga/Ilha do Maranhão (Ilha de São Luis)-MA. São Luis, 2006, 125 p. Monografia
(Curso Ciências Aquáticas). Departamento de Oceanografia e Limnologia, Universidade Federal do
Maranhão.

GARCEZ, Lucas Nogueira; ALVAREZ, Guillermo Acosta. Hidrologia. 2ª ed. São Paulo: Editora
Edgar Blucher LTDA, 1988, 291p.

Lei Nº 4.669. Macrozoneamento Ambiental. Prefeitura Municipal de São Luis. Plano Diretor do
Município de São Luis, 2006.

ROSA, Roberto; BRITO, Jorge Luis. Mapa de hipsometria e declividade do terreno da bacia
hidrográfica do rio Araguari-MG. Urbelândia, 2003. II Simpósio Regional de Geografia. Instituto
de Geociência. Universidade Federal de Urbelândia.

SANTOS, Rozely Ferreira dos. Planejamento Ambiental: teoria e prática. São Paulo: Editora
Oficina de Textos, 2004. 184 p.

SEMTHURB – Secretária Municipal de Terras, Habitação, Urbanismo e Fiscalização Urbana.
Prefeitura Municipal de São Luís. Levantamento Aerofotogramétrico do Município de São Luís,
2001.

SILVA, Quésia Duarte da. Proposta de Zoneamento Geoambiental da bacia hidrográfica do
Tibiri, São Luis-Ma. Fortaleza, 2001, 154 p. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento e Meio
Ambiente). Universidade Federal do Ceará.

TONELLO, Kelly Cristina. Análise hidroambiental da bacia hidrográfica da Cachoeira das
Pombas, Gunhães-Mg. Viçosa, 2005. Dissertação (Mestrado de em Ciências Florestais).
Universidade Federal de Viçosa.















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Planejamento Ambiental Planejamento Ambiental Planejamento Ambiental Planejamento Ambiental

























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ESTUÁRIO DO RIO PARAÍBA
DINÂMICA AMBIENTAL E OCUPAÇÃO TERRITORIAL

Giovanni de Farias Seabra
6


RESUMO
Situado no extremo oriental do Estado da Paraíba, o Estuário do Rio Paraíba está inserido na
Microrregião de João Pessoa, ocupando parte dos municípios de Bayeux, Cabedelo, João Pessoa,
Lucena e Santa Rita. O objetivo deste trabalho é suscitar reflexões em torno dos elementos que
atuam na paisagem estuarina do Rio Paraíba e propor medidas conservacionistas, evitando
desequilíbrio ainda maior do ecossistema. Aplicando a metodologia geossistêmica nas diversas
representações espaciais, é possível propor um melhor direcionamento para análise mais ampla e
integrada dos elementos que estão inseridos no ambiente estuarino.
PALAVRAS-CHAVES: Estuário; Recursos Hídricos; Unidades de Conservação; Gestão
Ambiental.
Os estuários são vales fluviais afogados pelo mar, e por isso constituem ambientes de
transição entre o fluvial e o marinho, sendo, portanto, influenciados tanto pelas correntes fluviais,
como pelas correntes de maré. Os ambientes estuarinos são encontrados, freqüentemente, em costas
planas e baixas, comumente associados à vegetação de mangue. Apesar da quantidade de material
detrítico transportado pelo rio ser considerável, o sistema de circulação marinho não favorece, nesse
caso, a formação de deltas, consequentemente apresentam poucas ilhas entremeadas de canais
livres.
Segundo SUGUIO (1980), os estuários constituem corpos de água rasa e salobra, situados na
desembocadura de vales fluviais afogados, formados pela submergência do continente ou da
elevação do nível do mar. O afogamento dos estuários deve-se às transgressões marinhas
provocadas pelos movimentos epirogenéticos e elevação do nível do mar resultante do aquecimento
global. Na maior parte das vezes, os estuários atuais são vales fluviais afogados (rias) que ainda
não se recuperaram da rápida ascensão do nível do mar, após a última fase glacial ocorrida no
Pleistoceno. É uma região onde ocorre dinâmico encontro ambiental, onde os rios desembocam no
oceano, diluindo a água do mar nas proximidades. A permanente influência das marés oceânicas faz
a sua salinidade variar, e esta é a característica mais evidente de um estuário.
Como o ambiente estuarino é diretamente influenciado pelas marés, as águas marinhas
salgadas, ao penetrarem nesse ambiente, formam a chamada maré de salinidade. A maré de
salinidade se distingue da maré dinâmica, em que ocorre a propagação de ondas de maré, rio acima,
sem que ocorra invasão de águas salgadas. O alcance continental da maré dinâmica é bastante
variável, dependendo do volume da massa hídrica e da força da maré. As marés dinâmicas penetram
apenas doze quilômetros no rio Capibaribe, em Pernambuco, enquanto no rio Amazonas ocorre o
bloqueio das águas doces pela ação das marés até 1.500 quilômetros foz. Quando as correntes de
maré dinâmica se antepõem ao fluxo fluvial do Amazonas, ocorrem violentas vagas denominadas
pororoca.
Os mangues estão localizados nos estuários e expandem-se para o interior da planície até
onde se façam presentes as influências das marés. Constituem uma formação vegetal perenifólia,
com espécies altamente adaptadas ao tipo de ambiente flúviomarinho, de salinidade elevada e solos
instáveis, pantanosos, com alto teor de matéria orgânica em decomposição. As raízes suportes e
respiratórias são expedientes usados pelas plantas para existirem e sobreviverem nesse tipo de
ambiente.

6
Doutor em Geografia Física, Professor Associado da Universide Federal da Paraíba.
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A influência da globalização nos ambientes costeiros
A globalização compreende uma nova ordem econômica e geopolítica que ocorre em
nível mundial. Este novo modelo econômico e social é fundamentado nas teses neoliberais,
implicando na conquista de novos mercados de consumo, quebra das barreiras alfandegárias,
redução ou eliminação de mercados pouco rentáveis – a exemplo do continente africano e o sudeste
asiático - e estímulo aos novos mercados em expansão, como a China, a Rússia e a Coréia do Sul.
Como resultado desse processo, tem-se a padronização de hábitos, costumes e dos bens
de consumo, redução da vida útil dos produtos e grande aumento na produção de resíduos sólidos e
químicos, causando danos ao meio ambiente nunca vistos.
A consequência mais imediata da globalização é a mundialização dos problemas
ambientais associados, principalmente, ao grande volume de poluentes e materiais descartáveis
agregados aos produtos comercializados de forma compulsiva, e que atingem, inclusive a camada
social formada pelos excluídos. O lixo acumulado nos continentes, nos lixões a céu aberto e
depositado nos rios e córregos tem como destino final os estuários, a partir dos quais são
distribuídos nos diferentes ambientes costeiros pela ação dos ventos e correntes marinhas,
agravando a poluição e comprometendo a estética da paisagem.
A poluição e o acúmulo de lixo, antes restritos aos grandes centros urbanos, tornaram-se
grandes ameaças aos pequenos lugarejos, à qualidade da água e as praias. As comunidades
tradicionais, habituadas outrora a conviverem com um ambiente dotado de baixos níveis de
poluição, são agora vitimadas pela quebra de fronteiras dos problemas ambientais.
As chamadas sociedades tradicionais, existentes e resistentes no mundo globalizado, em
virtude de barreiras sociais, culturais e naturais, expõem-se com uma velocidade impressionante às
intempéries da modernidade, sobretudo em função da abertura e pavimentação de estradas,
facilitando a ocupação dos territórios mais remotos. O resultado imediato do impacto provocado
pela facilidade dos acessos e modernização de áreas isoladas, é a consequente descaracterização
cultural, remoção e empobrecimento das populações indígenas, ribeirinhas, caboclas e quilombolas,
que constituem as sociedades tradicionais do Brasil, alvos últimos do desenvolvimento sustentável e
da educação ambiental.
Por outro lado, os grandes empreendimentos hoteleiros também estão comprometidos pelo
acúmulo do lixo nas praias. As redes hoteleiras nacionais e internacionais têm escolhido ambientes
praiais e estuarinos para construção de grandes meios de hospedagem tipo resort, contudo os
lugares destinados a este fim estão comprometidos pelos impactos ambientais continuados.
Comparados à mundialização dos problemas ambientais, os programas de educação
ambiental parecem destinados ao fracasso em função, principalmente, do consumo compulsivo e a
alarmante produção de resíduos. Educação ambiental somente é possível a partir da renúncia aos
produtos e reciclagem dos resíduos, com a gradativa substituição por produtos biodegradáveis e
pouco poluentes.
Conjuntamente à globalização, surgiu o meio informacional e o espaço relacional. Assim,
a rede de informática e de comunicações que reduz as distâncias e permite comunicar-se, em
segundos, com os cantos mais remotos da Terra, tem a função de padronizar hábitos, costumes e
cultura, causando o extermínio de grupos étnico-culturais, dando lugar a pesadas estruturas
empresariais, fundamentadas não na produção de bens-de-consumo, e sim com função comercial e
de serviços.




Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Metodologia

As mudanças ocasionadas no ambiente como efeitos da ação antrópica refletem as
alterações significativas no equilíbrio dos sistemas naturais, principalmente no decorrer do
crescente aumento da população e o acelerado processo de urbanização, intensificando-se os
impactos da interferência humana na paisagem. Estes processos transformaram toda a estrutura
ecológica e social, provocando, assim, uma maior fragilidade e vulnerabilidade do ambiente.
A abordagem geossistêmica dos sistemas ambientais físicos revela uma organização espacial
complexa e individualizada, segundo os variados elementos componentes da natureza. De acordo com
SOTCHAVA (1977), os geossistemas possuem formações naturais que atuam na esfera terrestre de um
sistema em que os valores sociais e econômicos estão vinculados ao geossistema em nível planetário.
Por outro lado, a concepção de BERTRAND (1971) apresenta o elemento antrópico mais
vinculado aos geossistemas do que a definição de Sotchava. Bertrand redefiniu o geofácies como
um setor fisionomicamente homogêneo, onde se desenvolve uma mesma fase da evolução geral do
geossistema com algumas centenas de metros quadrados. O geótopo constitui os setores internos do
geofácies, sendo a menor unidade geográfica homogênea que possui maior interrelação dos
elementos componentes.
Para o desenvolvimento desta pesquisa, que busca analisar unidades da paisagem com
enfoque na geografia física, torna-se pertinente a utilização do conceito de geossistema. Em estudo
ambiental na Chapada Diamantina, SEABRA (1991) empregou a classificação geoambiental
baseada na teoria dos geossistemas, na qual identificou, classificou e analisou os elementos
componentes do Sistema Cárstico da Região do Andaraí. A metodologia utilizada neste estudo parte
da análise de características físicas e sociais da região estuarina, sendo desenvolvida em várias
etapas. Os procedimentos utilizados na pesquisa seguem os critérios abaixo mencionados.
A primeira fase consistiu no levantamento bibliográfico sobre os conceitos e questões
referentes ao estuário, envolvendo os assuntos abordados no tema da pesquisa. No segundo
momento, ocorreu a pesquisa de campo, com observação direta da região estuarina, para coleta de
dados in loco.
A etapa posterior consistiu na elaboração de mapas digitais, na qual foi necessário um
período de treinamento com a mesa digitalizadora e utilização do programa AutoCAD 2000, no
Laboratório de Ensino e Pesquisa em Análise Espacial do Departamento de Geociências.
O levantamento do material cartográfico incluiu a seleção de cartas topográficas da
SUDENE, nas escalas de 1:100.000 e 1:25.0000 e imagem de satélite SPOT de 1995. Além de
diversos mapas temáticos relacionados ao Estuário do Rio Paraíba.
Através de cartas topográficas e de imagens que cobrem a área em estudo, foram
elaborados mapas com zoneamento das planícies flúviomarinhas, tabuleiros costeiros e restingas,
para delimitação dos sistemas naturais.

O Estuário do Rio Paraíba

Os ambientes estuarinos encontram-se entre os ecossistemas costeiros de maior fragilidade
ambiental, principal motivo para a preservação dessas áreas, e também em virtude de sua
importância ecológica, econômica e social. É neste contexto que se insere o Estuário do Rio
Paraíba, sobretudo por representar um santuário ecológico de inestimável valor, passível de
utilização sustentada dos recursos fluviomarinhos, terrestres e culturais.
O rio Paraíba nasce no Planalto da Borborema, na serra de Jabitacá, no município de
Monteiro, sendo o mais extenso do Estado da Paraíba. O seu comprimento total compreende cerca
de 380 km e a bacia hidrográfica correspondente drena uma área de 19.375 km², estando
predominantemente disposta sobre terrenos do complexo cristalino.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
282

O Estuário do Rio Paraíba possui uma área aproximada de 345 km² e as feições tipicamente
estuarinas, como a salinidade da água e a vegetação de mangue, ocorrem desde a desembocadura do
rio, até a cidade de Bayeux, numa distância aproximada de 24 km. Dados censitários revelam uma
população correspondente a 782.224 habitantes e a densidade demográfica é de 2.227 hab./km²
(IBGE,2000).
Figura 1. Estuário do Rio Paraíba

O ambiente é constituído por planícies arenosas, com solos indiscriminados de mangue
e a presença dos baixos planaltos costeiros no seu entorno. O clima da região é tropical-úmido com
chuvas de outono/inverno (março a agosto). As condições ambientais asseguram a ocorrência de
vegetação predominantemente perenifólia, cuja distribuição fitogeográfica ocorre em mosaicos,
segundo fatores geomorfolóficos, topográficos, edáficos e antrópicos. Merece destaque a vegetação
típica de praia, a mata de restinga, o mangue e a vegetação florestal das encostas orientais do baixo
planalto costeiro. Esta formação arbórea constitui um dos últimos testemunhos regionais da Mata
Atlântica.

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
283

Figura 2. Praia do Jacaré, Estuário do Rio Paraíba.

A estratigrafia da região estuarina apresenta pacote sedimentar assentado sobre o
embasamento cristalino. Trata-se da cobertura sedimentar do Grupo Barreiras com alguns
afloramentos de calcários da formação Gramame.
A gestão dos recursos hídricos compreende ações objetivas para redução ou eliminação dos
principais problemas de natureza ambiental e sociocultural. Dentre os problemas relacionados à
degradação ambiental no Estuário do Rio Paraíba, podem ser apontados o uso indiscriminado de
agrotóxicos na lavoura de cana (Santa Rita); despejos domésticos e sanitários in natura nos corpos
d’água superficiais (João Pessoa, Cabedelo, Santa Rita, Bayeux e Lucena; saneamento básico
ineficiente nos municípios envolvidos; coleta e destino final do lixo; nascentes e margens dos rios
desprotegidas; uso indevido de embarcações; destruição da vegetação de mangue e de matas
ciliares; pesca predatória, especulação imobiliária e ocupação desordenada, entre outros.

Figura 3. Porto de Cabedelo, Estuário do Rio Paraíba.

Esses fatores de desequilíbrio ecológico são agravados pela falta de conhecimentos
básicos sobre os ecossistemas locais, associada à insuficiência de instrumentos reguladores da
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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ocupação do solo e uso dos recursos naturais, tendo como agravante o descumprimento da
legislação federal, estadual e municipal.
Os mecanismos controladores do uso e gestão dos recursos naturais são melhor
definidos a partir das diretrizes fundamentadas no zoneamento ambiental do espaço geográfico em
questão. O zoneamento ambiental é definido como sendo a

definição de setores ou zonas em uma unidade de conservação com objetivos de manejo e
normas específicos, com o propósito de proporcionar os meios e as condições para que todos os
objetivos da unidade possam ser alcançados de forma harmônica e eficaz (SNUC, 2000).

O Estuário do Rio Paraíba, embora seja um território protegido pela legislação federal e
estadual, não possui normatização de uso dos recursos naturais e nem mecanismos disponíveis para
monitoramento dos ecossistemas locais. Contudo, existem categorias de unidades de conservação
(SNUC, op. cit.) que podem ser adotadas, para utilização sustentável dos recursos naturais do
Estuário, como a Área de Proteção Ambiental – APA e a Reserva Particular do Patrimônio Natural
– RPPN, além da aplicação pura e simples do Código Florestal e da Lei de Crimes Ambientais.
Ambas as categorias de unidades de conservação adotadas, devem ser precedidas pela
caracterização sócio-ambiental e sócio-econômica, através de levantamentos expeditos de campo e
pesquisas em gabinete, por equipes multi e transdisciplinares. Esse procedimento conduz ao
zoneamento ambiental, ou seja, a associação entre o ordenamento do espaço físico e econômico de
uma dada região, baseada na definição de áreas homogêneas, e as diretrizes a serem implementadas
em cada área proposta, de forma a respeitar-se a vocação ecológica e econômica de cada uma delas.
As estratégias e ações para o ordenamento territorial do Estuário do Rio Paraíba devem
incluir programas de educação ambiental, saneamento básico para as populações ribeirinhas, como
também o recolhimento sistemático, depósito do lixo em local apropriado e o seu tratamento
adequado.
O desenvolvimento de atividades turísticas em áreas de preservação, como os estuários,
requer a realização de estudos ambientais, necessários à definição, caracterização e gestão das zonas
de uso econômico, visando harmonizar o desenvolvimento com a sustentabilidade ecológica, social
e cultural.
O diagnóstico e zoneamento ambiental da Região Estuarina do Rio Paraíba, compreende:
• Estruturação e operacionalização de um sistema de informações sobre o Estuário,
fundamentadas nos dados biofísicos e sócio-econômicos levantados;
• Realização de inventário e diagnóstico ambiental integrado dos ambientes natural e sócio-
econômico;
• Identificação de impactos ambientais e sócio-ambientais e sugestão de medidas para reduzi-los
ou eliminá-los;
• Definição e caracterização das zonas geoambientais, considerando as variáveis físico-bióticas e
sócio-econômicas;
• Identificação de áreas com aptidão para expansão urbana e riscos em consequência do processo;
• Análise da situação atual e potencial do turismo, os programas e modelos oficiais e privados
implantados, e seus reflexos no meio ambiente natural, cultural e social.
As estratégias de ocupação do solo e o uso dos recursos naturais devem ser implementadas
em obediência aos princípios da sustentabilidade, mediante a elaboração do Zoneamento Ecológico
- Econômico e a execução do Plano de Gestão Ambiental Integrada para a Região Estuarina do Rio
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Paraíba. As metas somente poderão ser atingidas, com a participação dos diversos atores sociais,
incluindo os setores público e privado.
Assim, o estabelecimento de parcerias para a operacionalização dos programas definidos no
Projeto Rio Paraíba, possibilitará o desenvolvimento regional com equidade social e controle
ambiental, inclusive quanto à viabilidade econômica e ecológica do ecoturismo, turismo rural e
turismo histórico e cultural.

A dinâmica estuarina do Rio Paraíba

A relação do homem com a natureza atingiu uma situação crítica, na medida em que as
mudanças realizadas tornaram-se irreversíveis, trazendo consigo imprevisíveis alterações nos
sistemas ambientais. De acordo com Drew (1986),

em qualquer região que o homem chegue, como espécie animal que é, ele introduz mudanças e
variações no habitat (...). O homem já deixou de ser um mero aspecto da biogeografia (simples
unidade de um ecossistema), para se tornar cada vez mais um elemento afastado do meio físico e
biológico em que vive (Drew, 1986:04).

Ambientalmente, o Estuário do Rio Paraíba encontra-se em estado regular de conservação,
com algumas áreas ainda em razoável estados de conservação. Contudo, a franca expansão urbana
denota um caráter de destruição de um habitat que mantém e preserva muitos organismos
necessários à sobrevivência da população local. O desmatamento associado á especulação
imobiliária e à ocupação irregular das margens do estuário, põe em risco a existência de inúmeras
espécies da fauna e da flora, como também da população local. A degradação da vegetação e o uso
indiscriminado do solo estão alterando a dinâmica ecossistêmica, comprometendo todo o equilíbrio
ecológico desse ambiente.
Os estuários são um dos principais ecossistemas da biosfera, apresentando uma grande
diversidade de vida, sendo responsáveis pelo recebimento de nutrientes para o ambiente fluvio-
marinho. Esses ambientes litorâneos se caracterizam por apresentar alto grau de fertilidade, sendo
considerados como berçário de peixes e outros animais que procuram refúgio para o seu
desenvolvimento inicial. Odum destaca a importância dos estuários como

locais de criação para espécies que permanecem nesses ambientes durante todo o seu ciclo vital e
espécies que iniciam a sua vida nos estuários, onde o alimento é abundante e a proteção contra os
predadores aumenta a capacidade de sobrevivência e o seu rápido crescimento (Odum, 1983:380).

Contudo, os estuários constituem ambientes frágeis que estão sendo agredidos e destruídos
pela ação antrópica.
Os fragmentos de Mata Atlântica na região estuarina do rio Paraíba apresentam três grupos
faunísticos, compreendendo aves, insetos e pequenos mamíferos. As aves são o conjunto mais
representativo com cerca de 66 espécies.
Entre os impactos ambientais mais evidentes são apontados o depósito de resíduos sólidos
à margem dos rios, sendo transportados pela maré e acumulados nas croas ou nos manguezais;
despejo de esgoto no rio Paraíba e afluentes; e a erosão na margem do canal de Forte Velho,
ocasionada pela ocupação indevida e pela retirada da vegetação ciliar e do mangue. Este processo
associado ao crescente desmatamento nas margens dos rios e córregos estuarinos fornece grande
quantidade de sedimentos, causando assoreamento e alargamento da lâmina de água no canal de
Forte Velho e no leito do rio Sanhauá.
Os vários elementos geográficos que caracterizam a área em estudo foram enfocados nos
seus respectivos compartimentos, integralizando todas as singularidades para melhor compreensão
das relações e conexões entre eles, permitindo o norteamento das ações de planejamento futuras.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Unidades geoambientais

A análise de componentes do sistema estuarino evidencia uma compreensão mais integrada
de todos os seus elementos que formam esta unidade da paisagem. Assim, na compartimentação
geoambiental da área são destacados os elementos que compõem o sistema Estuário do Rio Paraíba
e suas relações com o ambiente.
Figura 4. Compartimentação Geoambiental do Estuário do Rio Paraíba.

A partir da abordagem geossistêmica foi definida a compartimentação do ambiente
estuarino do Rio Paraíba. Como primeira unidade geoambiental, delimitou-se a Planície Flúvio-
marinha, que compreende uma superfície plana, com altitude inferior a 10 metros. O clima atua
como fator preponderante nos tipos de solo da região, com presença de areias quartzosas de
granulometria fina a média e solos indiscriminados de mangue, cuja cobertura vegetal é
caracterizada por manguezais e vegetação típica de praia. A rede de drenagem é bastante densa e
significativa. Nessa unidade da paisagem o Rio Paraíba recebe o maior número de tributários da
área em estudo, com destaque para os rios Paroeira, Guia, Sanhauá, Mandacaru e Jaguaribe.
Os Tabuleiros Costeiros formam a segunda unidade. Apresentam cobertura sedimentar do
Grupo Barreiras de origem do período Terciário. As altitudes nesta unidade apresentam-se em dois
níveis topográficos. Ao sul do estuário, onde se localiza a malha urbana de João Pessoa, as altitudes
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
287

médias variam entre 40 e 60 metros, configurando vales encaixados em forma de V, com uma área
relativamente dissecada em virtude da erosão fluvial.
A parte norte do estuário apresenta altitudes próximas a 100 m. Neste setor ocorre a maior
expansão de áreas cultivadas, com predomínio da monocultura de cana-de-açúcar. O tipo de solo
predominante é o Podzólico Vermelho-Amarelo. A formação vegetal de Mata Atlântica apresenta-
se em alguns setores isolados da área em estudo, como a Mata do Gargaú e a Mata do Buraquinho.
A primeira localiza-se a sudoeste do estuário, no topo do tabuleiro em Santa Rita; já a segunda está
inserida na área urbana de João Pessoa, a qual passou a ser denominada Jardim Botânico Benjamin
Maranhão.
A terceira unidade delimitada constitui a Planície de Restinga, que é formada por uma
faixa litorânea entre o Rio Paraíba e o oceano, de aproximadamente 15 quilômetros, desde o
município de Cabedelo até o bairro de Manaíra, em João Pessoa. Sua configuração morfológica é
extremamente plana com altitudes médias de 6 metros que indicam um lençol freático bastante
denso. A presença de sedimentos arenosos predomina nesta unidade, as suas praias são protegidas
por recifes de arenitos que se apresentam de forma retilínea.
A vegetação de Restinga é compreendida em três áreas dessa unidade: Mata da AMEM,
Reserva Florestal do Estado e um pequeno trecho próximo à faixa litorânea, denominada Ponta de
Campina.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
288

Figura 5. Impactos ambientais no Estuário do Rio Paraíba.

Verificamos que a área estudada possui grande diversidade morfológica e fitogeográfica.
Contudo, a região estuarina que no início do ano 2000 apresentava forte descontinuidade de
vegetação, com vazios demográficos e imobiliários, sofre atualmente intenso processo de
urbanização, como resultado da conurbação entre as cidades de João Pessoa e Cabedelo.
A partir deste estudo analítico propomos medidas para minimizar os impactos ambientais
sobre o estuário do Rio Paraíba, incluindo a conscientização da população e ações de gestão
pública, como necessidades urgentes para sua conservação. A universidade através da pesquisa
acadêmica cumpre o papel social fornecendo subsídios para o ordenamento territorial de modo a
propiciar mais equilíbrio ambiental diante das intervenções humanas.





Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
289

Referências

CÂMARA DOS DEPUTADOS/COMISSÃO DE DEFESA DO CONSUMIDOR, MEIO
AMBIENTE E MINORIAS. Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC. Projeto Lei
Nº 2.892, de 2000.
BERTRAND, G. Paisagem e Geografia Física Global – Esboço Metodológico. Cadernos de
Ciências da Terra, 13. São Paulo: IGUSP, 1972.
ODUM, Eugene P. Ecologia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986.
DREW, David. Processos Interativos Homem Meio Ambiente. Trad. João A. dos Santos. São Paulo:
Difel, 1986.
SEABRA, Giovanni de F. Pesquisa Científica: O Método em Questão. João Pessoa: Editora
Universitária / UFPB, 2009.
____________________. Estudo geomorfológico da região cárstica de Andaraí: uma
contribuição à conservação de cavernas (Dissertação de Mestrado). Recife: Departamento de
Geografia/UFPE, 1991.
_______________. Do garimpo aos ecos do turismo: O Parque Nacional da Chapada Diamantina.
(Tese de Doutorado). São Paulo: FFLCH/USP, 1998.
_______________. (coord.) Projeto Rio Paraíba: Gestão Ambiental Integrada da Região
Estuarina. Departamento de Geociências/CCEN/UFPB. João Pessoa, 2000.
SOTCHAVA, V. B. O estudo de geossistemas. Trad. Carlos A. F. Monteiro e Dora Romariz.
Métodos em Questão, 16. São Paulo: IGUSP, 1977.
www.ibge.gov.br






























Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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AVALIAÇÃO DE FATORES DE PRODUÇÃO COM O USO DE TENSIÔMETRO EM
UMA ÁREA PERTENCENTE À BACIA DO COREAÚ - CEARÁ


Adrissa Mendes Figueiró
Mestranda em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC
drissamendes@hotmail.com

R. N. F. Monteiro
Mestrando em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC
rayyar19@hotmail.com

V. da S. Lacerda
Mestranda em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC
vivi.esam@hotmail.com

K. N. Leite
Mestranda em Engenharia Agrícola, Depto. de Engenharia Agrícola, UFC
kellyleite14@hotmail.com



RESUMO
Este trabalho foi desenvolvido, em área de cultivo de pimentão, do Sitio Santa Maria, localizado no
município de Tianguá – CE, e teve como objetivo avaliar a perda de insumos e de água ocasionada
pela falta de um uso e/ou manejo racional da água. Observa-se que a falta do mesmo pode acarretar
excessivo gasto de energia e lixiviação de nutrientes e água para fora do sistema radicular da
cultura. Ao contrário da maioria dos perímetros irrigados em funcionamento, cujo um dos maiores
problemas é a salinização do solo pela baixa freqüência de irrigação, na serra da Ibiapaba pela
abundancia hídrica disponível, um dos maiores problemas é o excesso de irrigação. Na área
avaliada foi determinado à curva de retenção de água do solo através do uso do tensiômetro em
amostra indeformada. Com um tensiômetro instalado em campo foi determinado o excesso na
irrigação e consecutivamente o desperdício de água energia e nutrientes. Com isso observou-se a
necessidade não só do tensiômetro, mas de qualquer método que consiga o correto manejo da
irrigação, pois esse vem a ser um fator decisivo no agronegócio como ferramenta essencial para
aumentar o lucro e controlar a degradação ambiental.

Palavras Chave: Serra da Ibiapaba, desperdício, economia de insumos.

INTRODUÇÃO

O manejo adequado da irrigação consiste na aplicação de água em momento oportuno e em
quantidade suficiente para atender às necessidades hídricas das culturas. Procedimento esse que é de
fundamental importância para obtenção de altas produtividades com economia de água e energia
(FARIA; COSTA, 1987).
Instrumento desenvolvido em 1922, por Gardner e colaboradores, o tensiômetro fornece de
forma direta o potencial ou a tensão de água no solo e de forma indireta a umidade. O tensiômetro
utilizado por RICHARDS & NEAL (1936) citado por TEIXEIRA (2003), era composto,
basicamente, por uma membrana porosa, a qual consiste na parte sensível do equipamento, e de um
medidor de pressão capaz de medir a energia com que a água é retida no solo, conectados por uma
tubulação em um sistema vedado para a atmosfera.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
291

O princípio de funcionamento do tensiômetro baseia-se na formação do equilíbrio entre a
solução do solo e a água contida no interior do aparelho. O equilíbrio ocorre quando a cápsula
porosa entra em contato com o solo e a água do tensiômetro entra em contato com a água do solo.
Caso a água do solo esteja sob tensão, ela exerce uma sucção sobre o instrumento, retirando água
deste, fazendo com que a pressão interna diminua. Como o instrumento é vedado, ocorre a
formação do vácuo; a leitura dessa pressão negativa fornece o potencial matricial da água no solo
(TEIXEIRA, 2003).
Saad & Libardi (1992) e Libardi (1999) enfatizaram a importância do tensiômetro com
manômetro de mercúrio, o qual apesar da sua limitação de funcionamento na faixa de 0 a 85 kPa de
tensão se adapta bem ao manejo da irrigação, pois normalmente o solo é irrigado antes dessa tensão
ser atingida.
Schmugge et al. (1980) destaca como vantagens do tensiômetro a facilidade de construção e
o seu baixo custo. No entanto algumas limitações como: o problema com a possível contaminação
do solo e da água com derramamento do mercúrio metálico; a barreira física que o manômetro
mercúrio representa em áreas mecanizadas e a necessidade freqüente de manutenção.
O adequado suprimento de água às plantas é um dos fatores mais importantes para o pleno
desenvolvimento dessas, potencializando a eficiência dos insumos aplicados. O manejo correto de
água deve proporcionar condições adequadas de aeração do sistema radicular além de disponibilizar
essa água (solução do solo) com o mínimo de tensão. Se excesso de água for aplicada o solo poderá
ficar encharcado dificultando a troca de gases além de ocorrer perda de água por escoamento
superficial ou por drenagem profunda.
O presente trabalho teve por objetivo, contabilizar mediante técnicas de tensiometria os
gastos excessivos que podem ser acarretados com o excesso de irrigação com insumos do tipo
fertilizantes aplicados via fertirrigação, energia elétrica e desperdício de recursos hídricos mediante
o mau manejo da irrigação localizada do tipo gotejamento.


MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa foi realizada no Sitio Santa Maria, no município de Tianguá – CE. Localizada na
serra de Ibiapaba, um dos principais pólos de produção de hortaliças do Ceará, com altitude de 776
m, longitude 40º59´30"W, latitude 3º43´55"S (IBGE, 2000).
A área estudada apresentava o cultivo de pimentão, utilizando-se um sistema de irrigação localizada
por gotejamento.
O Rio Coreaú nasce na confluência dos Riachos Jatobá e Caiçara, oriundos do sopé da Serra
da Ibiapaba, e desenvolve-se por 167,5 km até o oceano Atlântico, possui uma área de drenagem de
10.657 km², correspondente a 7,19% do território Cearense (COGERH, 2009)
Na região em estudo escolheu-se, uma gleba aleatoriamente a fim de determinar o volume
de água bombeado e a capacidade de campo. Determinou-se as dimensões da área cultivada,
calculou-se a vazão aplicada na área utilizando a equação de Bernolli e Equação da continuidade,
obtendo-se um grau de precisão maior e a vazão foi confirmada por medições diretas no emissor.
Na área foi coletada uma amostra indeformada de solo em um cilindro de alumínio, que foi
levado para laboratório, para determinação da curva de retenção de água com o auxílio do
tensiômetro. Os dados obtidos foram transformados respectivamente em potencial matricial e
umidade do solo. Para confirmar o valor da capacidade de campo achada pelo valor literário foi
feito o teste da trincheira o que da um valor confiável e prático.
Em campo foi instalado um tensiômetro de acordo com as especificações indicadas para a
cultura do pimentão, 15 cm de profundidade, durante uma semana foram coletadas as alturas da
coluna de mercúrio e diariamente a área escolhida foi irrigada. Sendo que durante a realização do
experimento não ocorreu precipitação natural. Obtendo-se a altura da coluna de mercúrio, potencial
matricial, lâmina aplicada, lâmina necessária, e lâmina excedente.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
292

O desperdício de água foi alcançado através da lâmina aplicada em excesso multiplicada
pela área irrigada, que indicou o volume de água que era bombeada mais ficava indisponível para a
planta em m
3
/ dia.
Os adubos eram aplicados via fertirrigação, considerando que ficam todos diluídos ou
dissolvidos na água e desconsiderando possíveis precipitações dentro das tubulações, o percentual
de adubo perdido é igual ou aproximado do percentual de água que fica indisponível para a planta.
Estimando a eficiência de aplicação em 90%, que é o mínimo desejado para uma irrigação
localizada, e que a potência elétrica gasta pelo motor e de 10% maior que a potência nominal do
motor que tem uma eficiência de 80%, baseada na curva da altura manométrica versus a vazão
calculada.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A vazão foi encontrada através da equação da continuidade com a equação de Bernolli,
tendo as pressões de dois pontos distintos próximos de mesma altura e com diâmetros diferentes, foi
possível constatar que a vazão da área é de 18,84 m
3
/h, o que é confirmada pelo método de medição
direta nos emissores com 18,63 m
3
/h, sendo uma lâmina aplicada de 11,78 mm/h na área analisada
que tem 1600 m
2
. Com uma vazão desta neste sistema hidráulico o motor ligado por 1 h e 55 min
que é o tempo em que ele funciona na área por dia já daria uma lâmina de 22,31 mm que nos dados
históricos da cidade que tem uma média evapotranspiratória de 9 mm daria para irrigar 2,5 áreas
iguais analisadas ou uma perda por lixiviação ou percolação de 21,8 m
3
/dia (área irrigada).
Com a coleta de dados obtida com as pesagens da amostra e medição da coluna de mercúrio,
transformada respectivamente em umidade (θ) e potencial matricial (ψ
m
) interpoladas em um eixo
(X, Y), foi conseguida a curva de retenção, que apresentou um coeficiente de correlação de 0,9308,
tendo assim um grau adequado de retenção de água.
A água desperdiçada foi avaliada com base no sistema de irrigação que é diariamente ligado
por 1h e 55 min dando uma lâmina aplicada de 22,32 mm que multiplicada pela área irrigada dará
uma perda em 35.71 m
3
/dia.
Foi observada que em todas as vezes que a área foi irrigada a umidade do solo estava acima
ou bem próxima da capacidade de campo indicando que não era necessária a irrigação. No
tensiômetro instalado a 30 cm de profundidade foi observado um grande movimento no fluxo de
água, pois ele sempre estava com a coluna de mercúrio bem próxima a ponto de saturação, sendo
esta área radicular já indicada como uma área que tem baixa influência para essa cultura.
A percentagem média da lâmina de água lixiviada é de 50% portanto o percentual de adubo
perdido por lixiviação e bem próximo deste, sem considerar as possíveis perdas de adubos por
volatilização ou precipitação dentro da tubulação. Por semana estavam tendo uma perda de 32,5 kg
de adubo com isso sendo impossível contabilizar as perdas na produção.
Como na maioria das vezes a área era irrigada com a sua umidade acima da capacidade de
campo, fica disprósio o cálculo do tempo excedente de irrigação, mais baseado na
evapotranspiração, se consegue uma base da energia elétrica perdida com o excedente bombeado. O
motor tem uma capacidade de 10 CV uma potência útil de 8 CV e uma potência de consumo em
média de 11.5 CV o que resulta em um gasto 8.464 kw/h, tendo como base que o motor funciona
108 minutos a mais por área desnecessariamente, por dia isso daria uma economia de 9.6 kw.









Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
293


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A baixa divulgação dos métodos de manejo de irrigação prejudica não só os agricultores que
perdem insumos e diminuem seus lucros, mais também a todos que utilizam energia elétrica.
A utilização de tensiômetro ou de outros métodos de manejo da irrigação é indispensável na
agricultura moderna, que tende a ter áreas com maiores produtividades e menores custos.
É essencial que a lâmina de irrigação seja bem controlada principalmente quando o produtor
se utiliza de fertirrigação, pois as perdas de adubos já são grandes por precipitação na tubulação e
por volatilização no solo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

COMPANHIA DE GESTAO DE RECURSOS HIDRICOS, COGERH. Dados da bacia
hidrográfica do Coreau – CEARÁ. Disponível em: < http://portal.cogerh.com.br/eixos-de-
atuacao/gestao-participativa/comites-de-bacias/comite-da-bacia-hidrografica-do-coreau>. Acesso
em 05 de julho de 2009.

FARIA, R.T.; COSTA, A.C.S. Tensiômetro: construção, instalação e utilização; um aparelho
simples para se determinar quando irrigar. Londrina, IAPAR, 1987, 24p. (IAPAR, Circular, 56).

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA ESTATÌSTICA, IBGE (2000). Dados do
município de Tianguá – CEARÁ. http://www.tiangua.ce.probrasil.com.br/. Acesso: 15 de maio de
2009.

SAAD, A.M. & LIBARDI, P.L. Uso prático do tensiômetro pelo agricultor irrigante. IPT 2002.
São Paulo, 1992. 27p.

SCHMUGGE, T.J.; JACKSON, T.J.; MCKIM, H.L. Survey of methods for soil moisture
determination. Water Resources Research. 16:.961-979. 1980

TEIXEIRA, A.S.; COELHO S.L. Desenvolvimento e calibração de um tensiômetro eletrônico
de leitura automática. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA AGRÍCOLA, 32.,
2003, Goiânia. Anais. Jaboticabal: Sociedade Brasileira de Engenharia Agrícola, 2003.


















Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
294



O ATERRO SANITÁRIO DE AQUIRAZ E O LIXÃO DE CASCAVEL SOB O PONTO DE
VISTA DA GESTÃO AMBIENTAL

Alan Ripoll Alves
Universidade Federal do Ceará. PRODEMA. alanripoll@gmail.com

Cláudia Maria Pinto da Costa
Universidade Federal do Ceará. Departamento de Geologia. claudinhapc@gmail.com

Clayton Tapety do Carmo
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. ITQMA. ctcarq@hotmail.com

Edson Vicente da Silva
Universidade Federal do Ceará.
Departamento de Geografia.
cacau@ufc.br
Francisco Leonardo Tavares
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. ITQMA. leo.tavares@hotmail.com




RESUMO
A disposição inadequada dos resíduos urbanos gera impactos ambientais e sociais que demandam
uma análise integrada e sistêmica dos problemas, levando à proposição de novos sistemas de gestão.
Tanto os aterros sanitários quanto os lixões recebem resíduos de natureza diversa, os quais estão sob
responsabilidade diferenciada de acordo com os materiais considerados. A transformação do Aterro
Sanitário de Cascavel em um lixão caracteriza a alteração do mecanismo administrativo adotado no
local. O Aterro Sanitário de Aquiraz, mesmo ainda em funcionamento, não dispõe de nenhuma
usina de triagem para segregação de resíduos. Dessa forma, a construção de um equipamento de
apoio como esse, contendo atividades relacionadas à compostagem, traria grandes benefícios, a
citar: aumento da vida útil do aterro e o envolvimento da população local em cooperativas de
reciclagem, propiciando melhores condições de vida a essas pessoas. A expansão urbana
desordenada nos arredores do aterro e do lixão constitui um sério quadro que traz desdobramentos
sociais, econômicos e ambientais altamente danosos. Frente ao atual caos no Lixão de Cascavel,
uma possível solução para torná-lo um aterro seria inicialmente fazer estudos de contaminação das
águas subterrâneas, do solo e do ar na área, associando-se ao estudo geológico e topográfico da
região. Ao mesmo tempo, seriam criadas trincheiras sanitariamente corretas e devidamente
controladas, permitindo a sua operação de forma legal e eficiente. O Aterro Sanitário de Aquiraz,
por sua vez, para melhorar o seu padrão de funcionamento, necessitaria rever os atuais parâmetros
de gestão adotados.

Palavras-chave: Gestão de resíduos; Organização territorial; Resposabilidade social.







Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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INTRODUÇÃO
A disposição inadequada dos resíduos urbanos gera impactos ambientais e sociais que
demandam uma análise integrada e sistêmica dos problemas para a proposição de novos sistemas de
gestão.
Além da disseminação de conceitos e práticas sustentáveis é necessário mudar também
a maneira de conceber e administrar os resíduos urbanos, considerando uma ampla participação das
áreas de governo responsáveis no âmbito estadual e municipal, dos cidadãos e dos catadores de
forma integrada.
Dentro desse contexto é necessário conhecer a dinâmica de geração dos resíduos e os
tipos diferenciados de resíduos, já que para cada tipo existem formas específicas de
acondicionamento, coleta, transporte, disposição final e tratamento. E para todas essas ações deve-
se estar atento às normas legais que as regulamentam.
O poder público tem a sua responsabilidade na coleta, no transporte, na disposição e no
tratamento adequado de resíduos para promover o acesso universal aos serviços de limpeza pública
e à inclusão social, através de um sistema efetivo de coleta seletiva. Os municípios precisam
elaborar alternativas que possam agregar políticas de redução, reciclagem e reuso dos resíduos – os
3 R’s, com a adoção de uma logística que incorpora a presença de unidades de transbordo e
tratamento, visando à redução dos custos de transporte e ao apoio ao reaproveitamento de todos os
resíduos possíveis (MOTA, 1997).
Portanto, a gestão adequada dos resíduos urbanos envolve uma série de ações em
cadeia, interligadas e interdependentes, que se iniciam na origem da geração dos resíduos, passando
pela quantidade gerada, tipos e formas de coleta, áreas disponíveis para transbordo, recursos
humanos, técnicos e financeiros viáveis para as municipalidades.
De modo a especificar este estudo, tendo inicialmente os locais de destino do lixo
determinados por este relatório, procede-se à seguinte diferenciação:

Lixão Aterro Sanitário
Nenhuma preparação anterior do solo Terreno preparado previamente através do
nivelamento de terra e do selamento da base
com argila e mantas de PVC
Nenhum sistema de efluentes líquidos – o
lixiviado
Com a impermeabilização do solo, o lençol
freático não será contaminado pelo lixiviado
Lixiviado penetra pela terra, levando
substâncias contaminantes para o solo e
lençol freático
O lixiviado é coletado por meio de drenos
Moscas, pássaros e ratos convivem com o
lixo
O lixiviado acumulado é encaminhado para a
estação de tratamento de efluentes
Lixo fica exposto Prevê a cobertura diária do lixo
Fonte: Resíduos sólidos (2008)

A comparação supracitada permite compreender a distinção dos dois espaços, muitas
vezes confundidos na sociedade de uma maneira geral. Enquanto o primeiro representa um local de
disposição inadequada de resíduos urbanos, o segundo se trata de um ambiente controlado e dentro
dos padrões tidos como ambientalmente aceitáveis.
A transformação do Aterro Sanitário de Cascavel em um lixão caracteriza a alteração do
mecanismo administrativo adotado no local. A manutenção operacional acompanhada da
fiscalização periódica são dois elementos imprescindíveis para a existência de um aterro sanitário.
Tanto os aterros sanitários quanto os lixões recebem resíduos de natureza diversa, os
quais estão sob responsabilidade diferenciada de acordo com os materiais considerados. O quadro
abaixo expõe as divisões básicas segundo o lixo em questão:

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Origem do lixo Responsável pelo manejo/
tratamento
Leis e normas federais
Domiciliar

Comercial

Poder público municipal/
prefeitura
Lei Federal Nº 11.445/07
Decreto Federal Nº 5.940/06
Constituição Federal 1988
Público
Industrial Resolução CONAMA Nº 313/03
Resolução CONAMA Nº 06/88

Serviços de saúde


Gerador do resíduo
Resolução CONAMA Nº 358/05
Resolução ANVISA RDC Nº
306/04
Entulho/ RCC Resolução CONAMA Nº 307/02
Portos, aeroportos e
terminais ferroviários
Resolução CONAMA Nº 313/02
Resolução ANVISA RDC Nº
342/02
Fonte: Resíduos sólidos (2007)

O destino correto dos resíduos acima é de fundamental importância para o
funcionamento correto de um aterro sanitário. A desobediência das leis e normas implica em
punições aplicadas por órgãos federais e estaduais.

ASPECTOS TÉCNICOS E ADMINISTRATIVOS


ATERRO SANITÁRIO DE AQUIRAZ

PARÂMETROS TÉCNICOS

Localizado em Aquiraz, município pertencente à Região Metropolitana de Fortaleza
com forte vocação turística, encontra-se o Aterro Sanitário Metropolitano Leste (Figura 1).
Acessado pela CE-040, o aterro foi construído na década de 80, período em que ainda
não havia grandes conhecimentos na região com relação a esse tipo de equipamento.

Figura 1 - Imagem de satélite do Aterro Sanitário de Aquiraz, revelando a proximidade da área
urbana

Erguido com verba estadual, suas obras foram executadas através de processo
licitatório, tendo como ganhadora a Construtora Queiroz Galvão. Atualmente, os direitos de
operação pertencem à Construtora Marquise (RESÍDUOS SÓLIDOS, 2007).
Recebendo resíduos domiciliares, entulhos de obras e podas dos municípios de Eusébio
e Aquiraz, um total estimado em 200 ton/ dia, o aterro funciona em dois turnos. O mesmo utiliza
um contingente de 16 funcionários, incluindo o administrador, o fiscal, o vigilante, o balanceiro, os
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
297

motoristas e os tratoristas. No momento, são utilizados nos trabalhos diários de transporte,
deposição e compactação dos resíduos equipamentos como uma pá carregadora, um trator esteira e
uma caçamba.
Implantado em terreno arenoso – com alta taxa de permeabilidade, portanto –, de
topografia suavemente inclinada, com cota mais alta próxima à entrada. O aterro apresenta-se
organizado espacialmente de forma linear, possuindo na sua entrada uma guarita de controle de
acesso, áreas destinadas à administração e a pesagem dos caminhões, bem como uma pequena
bomba de combustível. Contém única via de acesso central, ladeada por trincheiras, e ao fundo as
lagoas de estabilização de líquido percolado formado por uma lagoa aeróbia, duas anaeróbias e uma
de maturação. Vale salientar que o conjunto mencionado se encontra cercado por um cinturão
verde, constituído predominantemente por eucaliptos.
Através da organização em trincheira e em área, o aterro apresenta alguns maciços terra-
lixo já selados, sendo sua estabilidade reforçada pela introdução de vegetação rasteira em suas
laterais e na parte superior.
Na ocasião da visita, notou-se que uma trincheira estava sendo aberta, possibilitando
evidenciar parte do seu sistema horizontal de drenagem do “chorume”, com disposição em espinha
de peixe, e do sistema vertical para captação dos gases provenientes da decomposição anaeróbia dos
resíduos orgânicos. O metano é o principal componente dessa eliminação (MOTA, 1999).
O aterro é composto de 34 trincheiras nas dimensões de 70 m x 40 m x 2 m (método da
trincheira) e 70 m x 40 m x 6 m (método da superfície), correspondendo a um volume total de
761.600 m
3
. Ressalta-se ainda que a inclinação da base é da ordem de 1%.

RECOMENDAÇÕES

A partir da visita feita ao local, verificou-se que na atualidade não existe uma usina de
triagem para segregação dos resíduos (Figura 2). Dessa forma, a construção de um equipamento de
apoio como esse, contendo ainda atividades relacionadas à compostagem, traria grandes benefícios,
a citar: aumento da vida útil do aterro, uma vez que boa parte dos resíduos depositados poderia ser
reciclada reduzindo o volume nas trincheiras; redução dos custos de coleta, permitindo a aplicação
de recursos públicos em outros setores; envolvimento da população local em cooperativas de
reciclagem, propiciando melhores condições de trabalho e vida a essas pessoas.

Figura 2 - Espaço compreendido por trincheiras supersaturadas

Embora tenha sido observada a existência de drenos verticais para a captação e exaustão
de gases, não há um sistema de coleta dos mesmos. Poderia se pensar em formas de captação dos
gases gerados (principalmente metano) a partir da decomposição anaeróbia dos resíduos. Esses
gases poderiam ser usados para o funcionamento das instalações da usina de triagem, bem como
para iluminação de vários ambientes do aterro, reduzindo-se gastos. Além disso, os riscos de
explosões nas células seriam reduzidos.
A expansão urbana desordenada nos arredores do aterro constitui um sério quadro que
traz desdobramentos sociais, econômicos e ambientais altamente prejudiciais. Problemas ligados à
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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saúde pública, ao conflito dos administradores do aterro com invasores, à desvalorização imobiliária
dos terrenos próximos e às possibilidades de contaminação do solo, ar e dos corpos hídricos são de
preocupação constante. Faz-se necessária uma fiscalização que coíba a fixação de pessoas nas
proximidades do aterro.
Durante a visita, constatou-se a abertura de uma trincheira que não apresentava
impermeabilização tanto de seu fundo como de suas canaletas destinadas à captação e condução do
percolado. Tomou-se a informação de que esse tipo de tratamento não foi realizado em nenhuma
das trincheiras, inclusive naquelas já seladas e estabilizadas. Agrava mais a situação o fato de o solo
local ser arenoso, em consequência, extremamente permeável, e de não existir nenhum sistema de
monitoramento geotécnico e ambiental contra possíveis contaminações do solo e das coleções
subterrâneas de água (Figura 3).


Figura 3 - Solo arenoso selado e de baixa estabilidade

Problemas foram levantados no que condiz à operação do aterro. Algumas células de
lixo não eram recobertas com terra ao final do dia, o que atraía vetores de doenças. A presença de
mau-cheiro e a sensação de instabilidade no terreno prejudicam sobremaneira o trabalho dos
operadores do aterro e a circulação do maquinário sobre os resíduos. Notou-se ainda uma possível
instabilidade do aterro em decorrência da deficitária forma de compactação dos resíduos, uma vez
que o maquinário existente (uma pá carregadora, um trator-esteira e uma caçamba) não seria
suficiente para o porte do aterro.
Percebeu-se certo descaso nos aspectos limpeza e pavimentação do acesso central que
cruza toda a área de trincheiras, dificultando a circulação do maquinário e criando uma visão
desagradável (Figura 4).

Figura 4 - Parte do acesso central do aterro comunicado a uma área selada

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
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Seria interessante pensar-se no aumento da densidade da vegetação no entorno do
equipamento com o intuito de minimizar odores desagradáveis, criar uma barreira contra os ventos
mais fortes e fixar um elemento demarcador do espaço, atuando contra as invasões do local.
Ainda que o aterro possa receber entulhos e podas, a sua disposição não está
acontecendo de forma correta, pois não há uma segregação efetiva dos mesmos em função dos
resíduos domiciliares.
Nos maciços terra-lixo já selados não foi encontrado sistema de drenagem superficial,
fato este que aumenta as chances de erosão e desestabilização do maciço como um todo. Notou-se
de modo bastante reduzido a utilização de vegetação para estabilizar as laterais dos maciços já
selados. Tal medida deveria ser tomada de maneira mais expressiva.

LIXÃO DE CASCAVEL

PARÂMETROS TÉCNICOS

Concebido inicialmente para funcionar como aterro sanitário, o atual equipamento
apresenta-se em total desconformidade com o uso o qual se prestaria, tendo se transformado em um
imenso lixão, a exemplo do que infelizmente acontece em vários municípios brasileiros (Figura 5).
Facilmente identificado pela presença de sacos plásticos voando, mau-cheiro e urubus
que reforçam o desagradável aspecto paisagístico e estético daquela região, encontra-se o lixão. Os
resíduos, lançados de forma clandestina, são jogados diretamente ao solo sem nenhum tratamento
ou acondicionamento adequado. Há uma diversidade de resíduos, que vão desde os domiciliares até
os hospitalares, o que torna a situação mais crítica.


Figura 5 - Ex-sede administrativa do Aterro Sanitário de Cascavel com parte do espaço destinado à
balança, à esquerda

Poças formadas pela chuva são comuns, aumentando-se perigosamente a produção de
chorume que corre a céu aberto nos pontos mais baixos da área (Figura 6).

Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
300



Figura 6 - Lixo disposto irregularmente associado a poças de água de chuva e chorume

O acesso, totalmente coberto pelo lixo, dificulta deslocamentos na área. Uma vez que
não há cobertura, problemas relacionados a deslizamentos, atração de vetores, espalhamento dos
resíduos e proliferação de maus odores se intensificam.
Atualmente restam apenas as ruínas da antiga administração, assim como a plataforma
da balança para pesagem dos caminhões. Próximo do espaço é possível evidenciar a existência de
precários barracões em madeirite e papelão, onde habitam catadores, que vão desde crianças até
idosos. Os mesmos convivem com jumentos, cachorros, porcos, urubus, ratos e insetos,
contribuindo para um cenário mais desolador (Figura 7).



Figura 7 - Membro de uma família que trabalha cotidianamente no lixão

O cheiro do metano que emana diretamente das pilhas de resíduos úmidos é um
perigoso sinal, pois não se vê os drenos verticais coletores de gases. Esse descaso aumenta
consideravelmente as chances de explosão. É comum se observar alguns focos isolados onde há
pouco tempo foram feitas queimas de resíduos.

RECOMENDAÇÕES

Frente ao atual panorama, uma possível solução para tornar o lixão em aterro seria
inicialmente fazer estudos de contaminação das águas subterrâneas, do solo e do ar na área,
associando-se ao estudo geológico e topográfico da região.
Uma vez constatada que a área suportaria equipamento de tal tipo, autorizado por órgão
ambiental estadual competente, seria realizada a limpeza do terreno, criando-se maciços que
passariam por uma segregação prévia, infra-estrutura básica com acessos, setor de pesagem e lagoas
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
301

de estabilização do chorume e usina de triagem. Paralelamente, seria iniciado um programa
socioambiental de conscientização e de produção de fontes alternativas de renda com os atuais
catadores e invasores. Atrelada a essa política, a identificação e devida aplicação de penalidades aos
principais depositantes de resíduos no lixão consistiria em uma ação primordial. Nesta fase, iniciar-
se-ia o processo de desapropriação daqueles que se encontrassem em área de risco ou de expansão
do aterro.
Ao mesmo tempo, seriam criadas trincheiras sanitariamente corretas e devidamente
controladas que receberiam os resíduos já segregados por classes. À medida que essas trincheiras
alcançassem seu limite, as mesmas seriam seladas e estabilizadas, devendo-se redobrar os cuidados
no monitoramento.
Concluído o processo, o aterro começaria a operar de forma legal e eficiente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS


A análise final do relatório será formulada conforme a legislação vigente, amparada
pelas observações e pelos dados levantados na visitação.
Segundo o estabelecido pela Resolução CONAMA nº 404, de 11 de novembro de 2008,
é possível citar os seguintes critérios e diretrizes para o licenciamento ambiental de aterro sanitário
de pequeno porte de resíduos sólidos urbanos (RESÍDUOS SÓLIDOS ..., 2008):

- A disposição inadequada de resíduos sólidos constitui ameaça à saúde pública e agrava a
degradação ambiental, comprometendo a qualidade de vida das populações;
- As dificuldades que os municípios de pequeno porte enfrentam na implantação e operação de
aterro sanitário de resíduos sólidos, para atendimento às exigências do processo de licenciamento
ambiental; e
- A implantação de aterro sanitário de resíduos sólidos urbanos deve ser precedida de
Licenciamento Ambiental por órgão ambiental competente, nos termos da legislação vigente.

O município de Aquiraz apresenta controle contínuo sobre o seu aterro, ainda que
possua falhas estruturais e no seu funcionamento. Em contrapartida, Cascavel, por questões
políticas, não conseguiu assegurar a condição de aterro ao seu empreendimento, que foi
transformado em lixão. As causas dessa mudança são provenientes, em especial, do descaso político
e da deficiência de medidas públicas para garantir a manutenção do aterro.

REFERÊNCIAS


MOTA, Suetônio. Introdução à Engenharia Ambiental. Rio de Janeiro: ABES, 1997.

MOTA, Suetônio. Urbanização e Meio Ambiente. Rio de Janeiro: ABES, 1999.

RESÍDUOS SÓLIDOS: processamento de resíduos sólidos orgânicos: guia profissional em
treinamento: nível 02/ Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (Org.). Belo Horizonte:
ReCESA, 2007. 68 p.

RESÍDUOS SÓLIDOS: processamento de resíduos sólidos urbanos: guia profissional em
treinamento: níveis 01 e 02/ Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (Org.). Salvador:
ReCESA, 2008, 73 p.


Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
302

ANÁLISE DE CO-RELAÇÃO ENTRE O TAMANHO DA FROTA DE ÔNIBUS DE
TRANSPORTE PÚBLICO E OS ÍNDICES DE POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA
ENTRE 2000 E 2001 EM FORTALEZA-CE

Alan Ripoll Alves
Universidade Federal do Ceará. PRODEMA.
alanripoll@gmail.com
Cláudia Maria Pinto da Costa
Universidade Federal do Ceará. Departamento de Geologia.
claudinhapc@gmail.com
Clayton Tapety do Carmo
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. ITQMA.
ctcarq@hotmail.com
Edson Vicente da Silva
Universidade Federal do Ceará.
Departamento de Geografia.
cacau@ufc.br
Francisca Ione Chaves

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. ITQMA.
ionechaves@hotmail.com

RESUMO
O principal contribuinte para a poluição atmosférica nos centros urbanos é o setor de transporte. Os
ônibus, no geral, produzem poluição atmosférica mais do que deveriam. No caso brasileiro, em
primeiro lugar, porque consomem um combustível de má qualidade, com excesso de enxofre, entre
outros fatores que impedem uma combustão eficiente, produzindo excesso de fuligem. Em segundo
lugar, porque muitos motores que equipam os ônibus nacionais são de concepção mecânica
defasada e com pouco ou nenhum mecanismo de proteção ambiental, como catalisadores. O
propósito deste trabalho foi de apontar a existência ou não de relação entre os índices de medida da
qualidade do ar e a quantidade de ônibus que circularam mensalmente em Fortaleza durante os anos
de 2000 e 2001, com o uso das técnicas estatísticas fornecidas pela co-relação e regressão. O
interesse em averiguar a relação qualidade do ar com a quantidade de ônibus fez com que a
pesquisa se concentrasse nos dados poluentes de fumaça e nas partículas totais em suspensão, pois
os mesmos estão vinculados à emissão dos veículos automotores. Após a apresentação dos
resultados, verificou-se que não foi possível realizar uma análise de regressão múltipla precisa
devido à inexistência de dados para alguns meses. Detectou-se que a co-relação entre as variáveis
era baixa, não existindo, portanto, uma relação consistente entre elas, par a par. Determinou-se,
finalmente, que havia relação entre a qualidade do ar e a quantidade de ônibus que circulava em
Fortaleza no intervalo de 2000 a 2001. Estudos mais apurados, isto é, com um maor número de
observações, deveriam ser realizados pelos órgãos de controle responsáveis, porque através desta
investigação foi possível afirmar que as empresas locais de transporte coletivo urbano possuíam
uma parcela de contribuição na garantia da qualidade do ar de Fortaleza.

Palavras-chave: Poluição atmosférica; Transporte público; Qualidade do ar.








Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
303

INTRODUÇÃO

Existe no mundo uma demanda crescente por recursos que possam acompanhar as
novas mudanças. A velocidade com que as relações sociais tem se dado eleva a necessidade de
deslocamento do homem. O ônibus, neste contexto, está entre os principais meios para a realização
de tal processo.
A descarga de gases de combustão dos veículos automotores leva ao ar, óxidos de
carbono (CO e CO
2
), hidrocarbonetos diversos, alguns considerados cancerígenos, partículas de
carbono em suspensão com gases, produtos químicos vaporizados, entre outras substâncias – de
toxicidade variável (SALA, 1999).
O principal contribuinte para a poluição atmosférica nos centros urbanos é o setor de
transporte. Os ônibus produzem poluição atmosférica mais do que deveriam. No caso brasileiro, em
primeiro lugar, porque consomem um combustível de má qualidade, com excesso de enxofre, entre
outros fatores que impedem uma combustão eficiente, produzindo excesso de fuligem. Em segundo
lugar, porque muitos motores que equipam os ônibus nacionais são de concepção mecânica
defasada e com pouco ou nenhum mecanismo de proteção ambiental, como catalisadores.
Segundo Dias (2006), apenas os modelos mais recentes de automotores começam a
apresentar recursos para a redução da emissão de poluentes, seguindo as normas do Programa de
Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (PROCONVE) do Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
De acordo com o PROCONVE (apud Dias (2006)), a cada ano as montadoras
brasileiras deveriam apresentar ao mercado modelos com índices decrescentes de emissão de
poluentes, até atingirmos os padrões europeus, ou seja, 2 g/km de monóxido de carbono, 0,6 g/km
de óxidos de nitrogênio, 0,3 g/km de hidrocarbonetos, dentre outros. Os valores atuais da nossa
frota estão doze vezes maiores para o monóxido de carbono, três vezes maiores para os óxidos de
nitrogênio e sete vezes maiores para os hidrocarbonetos.
A falta de harmonia entre o Departamento Nacional de Combustíveis, que altera as
especificações dos combustíveis, e a indústria automobilística gera um atraso nas medidas práticas
para promover a melhoria da qualidade do ar nos centros urbanos.
Atrelada a esse aspecto, a incongruência das responsabilidades dos órgãos públicos e
privados envolvidos na questão da poluição do ar produz consequências ambientais irreversíveis.
Na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), os veículos automotores (veículos
leves e pesados, incluindo ainda as motocicletas e similares) correspondem à principal fonte de
emissão de poluentes, com um contribuição de cerca de 95% das emissões de CO, 94% das
emissões de HC, 96% das emissões de NO
x
e 65% das emissões de SO
x
(CETESB, 1999). Os
veículos leves, que são movidos a gasool (gasolina com adição de álcool) e álcool, contribuem com
63% das emissões de CO, 28% das emissões de HC, 32% das emissões de HC evaporativo, 17%
das emissões de NO
x
e 17% das emissões de SO
x
. Já os veículos pesados, que são movidos a diesel,
contribuem com maior emissão de SO
x
(48%) e NO
x
(78%) (CETESB, 1999).
Convém considerar que boa parte do CO despejado na atmosfera pelos veículos ocorre
em decorrência de uma ineficiente de combustão. Em um ônibus à gasolina, a reação química
esperada seria:
2 C
8
H
18(l)
+ 25 O
2(g)
→ 16 CO
2(g)
+ 18 H
2
O
(g)

Porém, como os motores se comportam melhor quando há um excesso de gasolina e
uma deficiência de oxigênio no carburador, tem-se combustões incompletas, com formação de CO
em lugar do gás carbônico (CO
2
), bem menos perigoso:
2 C
8
H
18(l)
+ 17 O
2(g)
→ 16 CO
2(g)
+ 18 H
2
O
(g)

No caso do óleo diesel, combustível mais comumente empregado nos ônibus de
transporte público da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), há um efeito poluente superior ao
da gasolina, pois sua combustão é menos eficiente.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
304

Na cidade de Fortaleza, o único documento publicado em relação ao combate de fumaça
negra proveniente dos transportes coletivos movidos a óleo diesel data dos anos 1990 e 1991,
produzido pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Ceará (Semace).
Atualmente, segundo o Núcleo de Análises de Monitoramento (Nuam), não vem sendo
realizada nenhuma medida de controle sobre a qualidade do ar na cidade de Fortaleza.
A Lei 11.411/87 cria o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema), a Semace e dá
outras providências. Em seu artigo 9º, item VIII – revela que esses órgãos criados devem exercer o
controle das fontes de poluição, de forma a garantir o cumprimento dos padrões de emissão
estabelecidos.
O Decreto Nº 20.764/90 dispõe sobre os padrões de qualidade do ar no território
cearense para fins de preservação e controle da poluição atmosférica de veículos automotores do
ciclo diesel.
A Resolução Conama Nº 03, de 28/06/90, cita a definição dos padrões de qualidade do
ar para os parâmetros: Partículas Totais em Suspensão (PTS); SO
2
; CO; ozônio (O
3
); e NO.

OBJETIVOS

O propósito deste trabalho é apontar a existência ou não da relação entre os índices de
medida da qualidade do ar e a quantidade de ônibus que circularam mensalmente em Fortaleza
durante os anos de 2000 e 2001, com o uso das técnicas estatísticas fornecidas pela co-relação e
regressão. Optou-se em adotar essas técnicas porque são consideradas ferramentas adequadas à
análise das variáveis em estudo, como também, fornecedoras de dados substanciais à predição de
relação das mesmas.
Com base no aumento do número de ônibus de transporte público em circulação na RMF,
buscou-se, especificamente:

a) Co-relacionar o tamanho da frota de ônibus no município com os índices de poluição do ar
em três estações da cidade, a saber: Centro, Maracanaú e Leste; e
b) Estudar, cronologicamente, a ação que a poluição do ar vem desempenhando no ambiente e
na qualidade de vida dos habitantes da RMF.


METODOLOGIA

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA

Existem dois tipos de amostradores: os passivos e os ativos. Os amostradores passivos
são classificados em desenvolvidos ou em desenvolvimento para a maioria dos poluentes urbanos
gasosos, entre eles: NO
2
, SO
2
, NH
3
, COV (Compostos Orgânicos Voláteis) e O
3
. Os amostradores
ativos são mais utilizados para medir o SO
2
e o Material Particulado (MP). No presente, o
monitoramento de gases vem sendo realizado principalmente por amostradores automáticos
(LISBOA; KAMANO, 2007).

AMOSTRADOR DE SO
2


Para medir a concentração de dióxido de enxofre (SO
2
) no ar atmosférico, existem,
entre outros, dois métodos: método da pararosanilina (NBR 9546 – Dióxido de enxofre no ar
ambiente – Determinação da concentração pelo método de pararosanilina) e o método do peróxido
de hidrogênio (NBR 12979 – Atmosfera – determinação da concentração de dióxido de enxofre,
pelo método do peróxido de hidrogênio). Em ambos os métodos, para a coleta dos poluentes é
utilizado um sistema de borbulhadores, onde um determinado volume do ar ambiente, mediante o
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
305

uso de uma bomba de vácuo, é succionado e borbulhado em solução de reagentes específicos para
cada poluente por um tempo de normalmente 24 horas.
Posteriormente, a amostra é analisada em laboratório, sendo então estabelecida a
concentração do poluente.


AMOSTRADOR DE MATERIAL PARTICULADO (FUMAÇA)

Segundo Lisboa e Kawano (2007), há dois métodos para quantificar a “nuvem de
fumaça” gerada pelo Material Particulado (MP): o opacímetro e a bomba de sucção. O opacímetro
mede a atenuação da luz em uma coluna de gás através de métodos fotoelétricos e registra o
máximo valor do processo de aceleração descrito anteriormente. A bomba de sucção utiliza um
filtro de papel, o qual muda de cor (torna-se negro) em função da qualidade do gás. A mudança de
cor é conseguida através da passagem dos gases, provenientes do escapamento durante a aceleração,
pelo filtro. O tempo de sucção, neste caso, é de 6 segundos.
A metodologia para as medidas foi baseada na Escala de Ringelmann, que é utilizada
para a medição da cor do fluxo de fumaça emitido em cada veículo. A Escala de Ringelmann – da
NBR 225 – consiste em uma escala gráfica para avaliação calorimétrica de densidade de fumaça,
constituída de seis padrões com variações uniformes de totalidade entre o preto e o branco. Os
padrões numerados de 0 a 5 são apresentados por meio de quadros retangulares, com redes de linhas
de espessura e espaçamento definidos sobre o fundo branco. O padrão Nº 0 é inteiramente branco e
Nº 5 é inteiramente preto.

AMOSTRADOR DE MATERIAL PARTICULADO EM SUSPENSÃO (PARTÍCULAS
TOTAIS EM SUSPENSÃO)

Para a amostragem de partículas totais em suspensão existe o método do amostrador de
grandes volumes – Hi Vol (NBR 9547). Este método é o mais utilizado no Brasil. Nele o ar
ambiente é succionado para o interior de um abrigo, através de uma bomba, passando por um filtro
de fibra de vidro de 8” X 10”, a uma vazão de 1,1 a 1,7 m
3
/min e por um período de 24 horas
corridas (cerca de 2000 m
3
.dia
-1
). O material particulado com diâmetro entre 0,1 e 100 micra é
retido no filtro. Um medidor de vazão registra a quantidade de ar succionada. A concentração de
partículas em suspensão no ar ambiente (mg/m
3
) é, por sua vez, gravimetricamente determinada,
relacionando-se a massa retida no filtro com o volume de ar succionado.

PADRÕES DA QUALIDADE DO AR

Os padrões de qualidade do ar estabelecidos pela Portaria Normativa Nº 348/90 do
Ibama e utilizados nacionalmente são os que se encontram discriminados no quadro:

POLUENTES PADRÃO (µS.m
-3
) OBSERVAÇÕES

80

Concentração média geométrica anual.


Partículas em Suspensão

240
Concentração máxima diária a não ser
excedida mais de uma vez por ano.


Dióxido de Enxofre

80

Concentração média aritmética anual.
Gestão dos Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental, 2010.
306


365
Concentração máxima diária a não ser
excedida mais de uma vez por ano.

10.000
Concentração máxima de 8 horas a não ser
excedida mais de uma vez por ano.


Monóxido de Carbono

40.000
Concentração máxima horária a não ser
excedida mais de uma vez por ano.
Oxidantes Fotoquímicos 160 Concentração máxima horária a ser excedida
mais de uma vez por ano.
Fonte: Conama (1986)


CO-RELAÇÃO E REGRESSÃO

A co-relação ou co-relacionamento tem como objetivo medir o grau de relação entre
duas ou mais variáveis, partindo das hipóteses apresentadas por Kazmier (1982), nas quais “(1) as
variáveis envolvidas na análise são aleatórias, (2) as relações são todas lineares, (3) as variâncias
condicionais são todas iguais, e (4) as distribuições condicionais são todas normais”. Essas
hipóteses são muito restritivas e difíceis de serem satisfeitas por completo, mas, no caso de violação
de alguma delas, a validade dos resultados não se colocará em risco. A co-relação pode ser simples,
quando trabalhamos com duas variáveis, ou múltipla, quando trabalhamos com mais de duas
variáveis. Neste trabalho utilizar-se-á a co-relação múltipla, sendo os conceitos aqui mencionados
também voltados para a mesma.
A análise de regressão está intimamente ligada ao conceito de co-relação. A regressão
linear entre duas ou mais variáveis procura determinar a equação que melhor explica o
comportamento das variáveis e as formas de se fazer previsões de uma variável com base em
valores conhecidos da outra. A regressão é considerada simples quando se trabalha com duas
variáveis, e múltipla, quando mais de duas variáveis estão envolvidas na análise.
De acordo com Kazmier (1982), a regressão múltipla se baseia nas seguintes hipóteses:
“(1) a variável dependente é aleatória, enquanto as variáveis independentes não necessitam ser
aleatórias, (2) a relação entre as diversas variáveis independentes e a variável dependente á linear, e
(3) as variâncias das distribuições condicionais da variável dependente, dadas as várias
combinações de valores das variáveis independentes, são todas iguais”.

METODOLOGIA APLICADA AO TRATAMENTO DE DADOS

Inicialmente, foram coletados os dados relativos à qualidade do ar na Semace.
Como este trabalho está voltado para a cidade de Fortaleza, foram consideradas as
medições d