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Resenha - Dos Delitos e Das Penas

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Published by: Mauricio Krzesinski Júnior on Nov 02, 2011
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Dos Delitos e Das Penas – Cesare Beccaria, Uma Obra Contextualizada

Mauricio Krzesinski Júnior. Universidade Estadual de Ponta Grossa Inicialmente se faz importante destacar a época em que Beccaria escreveu sua obra. Escrito na segunda metade do século XVII, Dos delitos e Das Penas mostra um sóbrio caráter filosófico, mais voltado às sensibilidades humanas e fazendo severa crítica às penas com caráter cruel, muito superior ao delito em si. Beccaria trata do início da sociedade e da origem do direito de punir. Em sua visão estritamente contratualista, o pacto social que ligou os homens entre si, lhes garantido segurança em troca de suas liberdades, detém o direito de punir, fundamentado sob todas essas liberdades parceladas. Ainda nessa linha, a obra indica que os crimes devem ser punidos na medida em que estejam previstos na legislação, e que seu peso não extrapole o tamanho do delito. Tal exagero ocasionaria uma injustiça e um rompimento do contrato social. Se os crimes devem ser julgados e punidos na medida da lei, não deve o magistrado deliberar sobre a mesma, uma vez que essa é a função do legislador. Ao juiz cabe apenas fazer o silogismo entre as leis e o ato praticado contra as mesmas, sendo que qualquer raciocino que exceda tal prerrogativa tornará a conclusão incerta. É certo afirmar que a visão positivada e forma dispositiva de comportamento que o autor delega ao magistrado pareçam deveras deslocadas nos dias atuais, porém, levando em conta o contexto absolutista e tirano em que a obra foi concebida tal raciocínio me parece muito conveniente, uma vez que uma lei bem escrita e justa se mostre como ferramenta confiável a favor do povo e útil na tentativa de refrear as ações criminosas e déspotas de quem detém o poder. Assim como a deliberação sobre as leis causam o mal, sua obscuridade e falta de clareza se apresenta igualmente prejudicial. Na visão de Beccaria isso impõe ao juiz a necessidade de interpretar o dispositivo. Também deve ser levada em conta a forma como são redigidas as normas

as instruções contidas no código “Felizes as nações entre as quais o conhecimento das leis não é uma ciência. sempre possibilitada por consenso unânime. As testemunhas. capaz de suportar a tortura e assim ser absolvido. uma vez que por medo da dor corporal ou pelo cansaço da mesma. 25). Para ele. p. umas vez que deveriam ser de alcance de todos. cuja mesma é suficiente em si para a condenação do suspeito. A obra defende também a possibilidade da evolução da norma em paralelo com a evolução da sociedade.positivadas. Existem para Beccaria duas formas de provas: a prova perfeita. um homem inocente pode facilmente admitir culpa ou participação em crime nunca por ele sabido. A condenação de um réu deve basear-se em provas do delito. não restando ao inocente aprisionado qualquer forma de injúria e contando para o condenado como tempo de pena já cumprida. as acusações secretas. Em segundo abre-se a discutição sobre a utilidade de tal pratica. pois não foi julgado nem condenado ainda. caem em descrença pela máxima de que o ser humano tem em si o impulso natural da alta preservação e vai contra as leis naturais que ele cumpra um juramento que vá contra a sua própria vida. os interrogatórios sugestivos e os juramentos mereceram pouca credibilidade por parte da obra. Na face oposta do mesmo problema tem-se um criminoso fisicamente forte. Muito comum na época eram as torturas aplicadas previamente ao julgamento em busca de informações e confições. Dois problemas advêm de tal pratica: Em primeiro lugar temos a tortura de um homem talvez inocente. As acusações secretas revelam um abuso protegido por uma constituição fraca assim como os interrogatórios sugestivos revelam uma inconstitucionalidade. Os juramentos. Relacionado às prisões. A forma que a mesma é utilizada deve ser baseada em critérios objetivos. é certa e irrefutável. Para isso deve-se utiliza vernáculo comum. Nada delibera o autor sobre torturas como forma de castigo em um condenado.” (BECCARIA. Em outro pólo avistam-se também indícios que são as provas imperfeitas. a mesma é tida na obra como uma forma de pena imposta anteriormente ao julgamento. Dos Delitos e Das Penas. as junções de várias provas imperfeitas formam uma prova perfeita e um indício em contrario não desmerece os demais que apontaram em outra direção. por sua vez. Os primeiros gozam de confiabilidade a medida que não tenham interesse algum na causa. .

Violado o contrato social se perde o sentido da colocação “sociedade”.Sobre o processo e sua duração. Em segundo plano têm-se os olhos da sociedade sobre o crime. Beccaria é claro que o andamento do mesmo deve ser o mais breve possível por duas razões: A primeira dirige-se a figura do réu. Quando discorreu sobre os cúmplices. e os menos hediondos. maior tempo de instrução processual e rápida prescrição. Para o condenado. Para a primeira espécie. ele acredita que homem algum se privaria de sua liberdade enquanto ainda corresse risco de vida. Para ele sua utilidade é contestável e sua constitucionalidade duvidosa. como o homicídio. que uma vez estando sendo investigado pode ser inocente e por isso a brevidade de seu suplício ser algo plausível. uma vez que se colocados em igualdade cúmplices e autores não haveria temeridade entre comparsas para se definir quem seria o autor principal do crime. A obra relata como eficaz e justa a pena proporcional ao delito. aplicada em conformidade com as leis e após um processo justo. É justa pra com o punido e também útil como exemplo para a sociedade. a pena pode ser um alivio maior do que qualquer outra forma de condenação. Qualquer excesso de severidade torna a pena déspota e extrapola o entendimento do homem. A pena de morte é fortemente criticada por Beccaria. A impressão certa causada pela punibilidade é arma poderosa no refreamento de crimes do mesmo gênero. o texto trás dois tipos de crime descritos: os horrendos. uma vez que provar tal tipo de crime é mais complicado e o interesse social em sua solução é maior. Relacionado à prescrição do processo. uma vez que se mostram mais temidos os males que o homem conhece de própria experiência. sucinto foi o autor em defender uma pena mais branda sobre os mesmos. É notório que uma impressão causada pelo castigo que possa ser forte e diretamente ligada ao crime deve ocorrer com o Maximo de proximidade temporal do ato. Para o segundo tipo invertem-se a ordem. abaixo disso. A inocência do réu é menos provável e a impunidade menos prejudicial à sociedade. Havendo tal separação muito mais difícil seria tal decisão e isso certamente é um modo de coibir certas ações por parte de almas fracas. A demora processual e conseguinte condenação do réu nada mais são do que um espetáculo aos olhos do povo. mais ligados aos bens sociais. Como contratualista. uma vez que seu tormento duraria muito pouco e ainda existe a chance do mesmo ver na . mas prolongado o tempo de prescrição. Beccaria leva em conta a maior probabilidade de inocência do acusado para acelerar a instrução do processo.

Mais uma vez o autor relata a observância das leis positivadas. o que certamente fere todos os princípios do Direito de Punir. acima mesmo da vítima.” (BECCARIA. Muito já se discutiu aqui sobre a proporção das penas. tal pratica é vista como utilidade de nações fracas e com leis ineficientes. são crimes graves.. Estes estão divididos em delitos que destroem a sociedade e delitos que afetam diretamente a terceiro. Sobre os asilos. rapidamente a população esquece-se da força da força da pena e os crimes passiveis de tal condenação voltam rapidamente a serem praticados Uma alternativa bastante lógica e bem discorrida por Beccaria à pena de morte é a prisão e escravidão perpétua. 65). que é a maior interessada no delito. Dos Delitos e Das Penas. A fim de combater o despotismo. que sejam os seus executores inflexíveis. portanto inexoráveis. os crimes lesa-majestade são crimes que afetam a sociedade. Na visão de Beccaria a certeza da punição é o que realmente previne os delitos “Que as leis sejam.morte uma forma de solução e liberdade. mas. Há também a categoria dos crimes lesa-majestade. Com uma impressão breve. que devem ser espelhadas no próprio delito. Dos Delitos e Das Penas. 54). o que tornaria a pena um ganho. p. preferiu o autor não expor opinião tácita. Quanto . Completando. Para a sociedade. uma vez que o Estado está delegando sua função punitiva.. Porem não foge à legislação. é necessário que os homens tenham sempre sob os olhos os efeitos do poder das leis.” (BECCARIA. p. Segundo ele o asilo se mostra como uma forma de não punir o crime e incitar sua prática. que além de não retirar a vida de nenhum cidadão ligado ao pacto social ainda tem um exemplo eterno para ser observado pela sociedade “. A infalibilidade das leis é pregada como uma forma justa e eficaz de combater os delitos. que o legislador seja indulgente e humano. a pena de morte não passa de um espetáculo de carnificina de impacto momentâneo e pouco eficiente. ou seja. é também estabelecida certa divisão para os delitos. porém é perceptível certa aversão ao costume. Muito comum era o engano da sociedade absolutista da época que via no rigor da pena a solução para os crimes. Mas como ocorreria tal comparação? Para Beccaria a medida exata do tamanho do delito é o tamanho do prejuízo que este causou a sociedade. Quando ao uso de por cabeças a premio o texto é claro: Trata-se de uma prática amoral. Mesmo vendo a sociedade como um todo no pólo passivo do crime.

As falências seguem o principio da honestidade. a pena acompanhará castigos corporais. é visto o contrabando. comuns na época. A observação feita por Beccaria a cerca do mesmo pode ser tranquilamente transposta para os tempos atuais. apenas com a aplicação de uma multa pecuniária. Para ele os roubos praticados sem violência devem ser punidos de forma mais branda. que consistem em crime contra o soberano. uma idéia inovadora para a época. O texto não faz clara exposição da tendência do autor. Ainda contra as penas pecuniárias. mas nem tão utilizada nos tribunais. este responderá por seu crime. Levantando o caso de pobres que roubam para não morrer de fome. Na visão limitada dos homens esse crime não os aflige e por isso poucas revoltas causam. a justiça cega. Parece-me que a idéia era demais avançada para a época e ainda se fazia sombria. Beccaria atenta para as penas aplicadas por casta social. Ainda nesse tema a pena proposta é a apreensão das mercadorias encontradas. O livro trás também reflexões sobre os crimes de cunho material. tão enaltecida e glorificada doutrinamente. É notória uma tendência a justiça como vemos hoje. É o caso do contrabando. Segundo ele o homem tem dificuldade em assimilar as infrações que não o afligem diretamente. mas sim um desejo do devedor de não pagar seus débitos. Para ele isso é inválido. Beccaria se intercala de mais ao esbarrar na sua afirmação anterior de que as opiniões não são passiveis de culpabilidade e o texto não consegue abordar com clareza a distinção entre “opinião” e “calunias”. Quando por outro lado a falência é declarada de forma duvidosa e possivelmente não exprime a realidade. Em caso . Beccaria propõem a distinção de punição entre ambos. ou seja. Ainda na espécie de crimes de cunho material. Se a falência aberta for honesta não caberá pena ao falido a não ser a possível compensação de seus credores. o autor reflete sobre a possibilidade de a pena gerar novo delito. Já os crimes de roubo utilizando-se de violência merecem pena mais severa. o texto alerta para o risco das penas tornarem-se meros negócios civis.aos outros tipos de crime. O capítulo trás clara distinção entre roubo e furto. Com uma sucinta apresentação o ato foi mais exposto que criticado ou contestado. Visto dessa maneira é proposta como única pena justa uma espécie de escravidão e quando o crime acompanha violência. As injúrias pertencem aos crimes que afetam a moral do sujeito. Tal capítulo foi seguido pelo assunto dos duelos. devendo a medida da pena ser unicamente o reflexo do prejuízo causado pelo delito. visto que o ladrão no possuirá como arcar com a pena.

Ainda vale ressaltar que a utilização de modelos patriarcais . A ociosidade aparece como crime difícil de ser definido e consequentemente punido. Sua eficácia seria de mais valia. Sua praticamente impossível prevenção torna o crime impunível. Outra instituição muito poderosa da época eram as famílias e o poder patriarcal. Tal crime será punido apenas por Deus após a morte. O autor considera indispensável que as pessoas tenham conhecimento das leis a que estão submetidas. Apesar de não nominar a instituição ou suas atividades. Beccaria faz alusão à “boa ociosidade” que produz conhecimento. o criminalista desaprova a condenação por crime moral baseada em outras verdades que não as exploradas pela filosofia. Para o autor. Uma alusão às leis que prendem os cidadãos em seus países é utilizada como comparação para demonstrar a inutilidade de se punir o suicídio. Para ele as duas coisas não podem coexistir. o poder patriarcal fazia um paralelo juntamente com o ordenamento vigente. Enquanto a tutela de um filho. uma vez que os mesmo não são os causadores do delito e certamente um suicida. não deve dar maior valor a vida de seus familiares.de duvida será inocentado o réu. devem ser prevenidos pelo legislador e não reprimidos. uma vez que castigar um corpo morto também afligiria o povo e não serviria como exemplo duradouro. mais uma vez sem deliberação do magistrado. Crimes difíceis de serem constatados. uma vez que suas formas são tão distintas. Castigar seus familiares também aparece como uma alternativa sem sentido e abusiva. Uma terceira espécie de crime observada são aqueles que perturbam a tranqüilidade pública onde o autor é direto ao indicar a aplicação das normas vigentes. O suicídio é tido como crime na época. quando o homem pássara a ser um cidadão igualmente ao seu pai. evitando assim a tirania. mas destaca como crime aquilo que muito tempo vigorou em nossa legislação como crime de “vadiagem”. essa tutela dura até certa idade. para o poder patriarcal. dura a vida toda. que para ele também merecia punição. como o adultério. pois para Beccaria é muito mais custoso para a sociedade punir um inocente a absolver um culpado. Muito astuto foi Beccaria ao tratar dos crimes cometidos pela Inquisição do Santo Ofício. com pouco apego a sua vida. para a República.

Sua obra ainda foi decisiva para a reforma das legislações vigentes da época. .ocasiona certo desmembramento de poderes. Mesmo assim é importante dar destaque a tal obra. Uma sociedade caminhando para o esclarecimento também é vista por Beccaria como parte da prevenção. Muitas coisas podem ser vistas ainda nos dias atuais. Inspiremo-nos em sua obra para buscar soluções que trascedam nosso tempo e assim rumar ao futuro. como destacado anteriormente. que mostra uma voz se revelando em nome da humanidade contra as injustiças. que foram importante passo para chegar ao patamar atual. que mesmo evoluído se mostra precário e incompleto. como se a república fosse formada por várias monarquias. Vendo dessa forma é importante refletirmos sobre o nosso sistema penal. Dos delitos e Das Penas destaca em sua conclusão a importância da clareza das leis para a prevenção de crimes aliada à pronta punição para quem não as respeitar. A obra em si comporta uma evolução para o padrão da época. Porem é fato que hoje seus princípios não mais se aplicariam na sociedade em que vivemos.

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