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Xamanismo Universal

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Palestra apresentada dia 16 de março de 2005 no Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo, organização Léo Artése/ Associação Lua Cheia

- Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005. (**) Conta uma lenda siberiana que no princípio viviam dois povos celestiais na terra. O povo que vivia no Ocidente era bom, e o povo que vivia no Oriente era mau. Os deuses criaram os homens e tudo vivia em paz e harmonia, mas o Povo Mal enviou para os homens as doenças e a morte. Nesse momento caótico, os Deuses enviaram uma Águia para transmitir poderes medicinais aos homens. A Águia foi até os homens, mas os homens não entendiam sua linguagem, de forma que ela não conseguiu transmitir a ciência e o dom da medicina. A Águia voando, com a firme decisão de cumprir sua missão, viu das alturas uma bela mulher, dormindo nua, nas sombras de uma árvore. A Águia pousou, fez amor com essa mulher, e do fruto desse amor, nasceu o primeiro xamã da Terra. O organizador do caos. Fundação da ABRAX – Associação Brasileira de Xamanismo O Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo está dando origem a ABRAX - Associação Brasileira de Xamanismo, que será fundada oficialmente em 20 de março de 2.005. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos dedicada a preservação, ao desenvolvimento, à pesquisa e a disseminação de práticas xamânicas no Brasil. A falta de sentido de pertencimento, a ausência de rituais, o distanciamento da natureza e de si mesmo ocasionados pela sociedade moderna são elementos que estão na origem do interesse crescente pelas práticas ancestrais nos últimos anos. A fundação da ABRAX é a demonstração inequívoca de uma manifestação maior acontecendo numa dimensão mais sutil do inconsciente coletivo. A força do xamanismo, como um sistema de práticas ancestrais, agora vem juntar sua tribo, respeitando as especificidades de crenças e métodos. Unindo os corações, as almas afins, subtraindo as diferenças, somando talentos, dividindo esforços e multiplicando o amor nessa corrente universal, neste "Caminho da Beleza, do Autoconhecimento e da Cura" que é o Xamanismo. A ABRAX tem como objetivo trazer os benefícios do xamanismo, garantindo aos praticantes um ambiente de confiabilidade, identificando e mapeando os condutores de práticas xamânicas no território brasileiro e afirmando a ética nos atendimentos, vivências, jornadas e oficinas entre os condutores e espaços filiados. A associação terá o papel histórico de permitir a formação de uma rede de trabalho entre os condutores de práticas xamânicas brasileiras e agir coletivamente em nome deles, estabelecendo contato com comunidades internacionais, condutores de outras partes do mundo, promovendo congressos, simpósios, conferências, mesas, seminários, feiras, encontros e cooperativas, assim como apoiar movimentos ambientais, anti-proibicionistas, indígenas, e outros afins. Tem em vista preservar as raízes ancestrais e compartilhar conhecimentos com os vários condutores de práticas no Brasil e em outros países. Procurando documentar as atividades de xamanismo no Brasil, deverá criar um banco de imagens e textos para fins de estudos. Buscará defender legalmente os condutores de praticas filiados de calúnias e difamações publicados nos meios de comunicação, obtendo reconhecimento social para que os condutores possam praticar livremente seu ofício. No xamanismo ao redor do mundo podemos ver similaridades que definem várias práticas: busca por estados alterados de consciência – vôo da alma/êxtase. O xamã é um especialista e um mestre da viagem extática; viagem por mundos paralelos (reino dos espíritos) para executar cura, guiar espíritos, obter conhecimento espiritual; interação com espíritos da natureza; utilização de instrumentos de poder para induzir ao transe/estados alterados de consciência (tambores, maracás etc); conhecimento sobre o fogo; utilização de plantas (enteógenas, de purificação, medicinais, magnéticas); canções de poder; danças; respiratórios e dietas; contação de histórias, preleções. O Chamado O xamã não se autoproclama. Ele é chamado para suas tarefas espirituais, passa por treinamentos e é então reconhecido pelas pessoas de sua comunidade. Trata-se de um sacerdócio. Muitas pessoas querem se tornar xamãs sem conhecerem a entrega e obrigações inerentes a essa função. É uma missão de utilidade pública. O xamã compreende o Círculo Sagrado da vida. Recomenda ajuda na cura e ensina o que é necessário para o bem comum da comunidade. Isto significa freqüentemente colocar a comunidade em primeiro plano. O caminho xamânico conduz a um relacionamento de amor com a Mãe Terra. Não é possível praticar o verdadeiro xamanismo sem incluir os cuidados com a preservação da vida de todos os reinos (animal, mineral, vegetal, espiritual) em nosso planeta. O xamanismo aparece

como o reflexo de um “Grande Espírito” que pode ter vários nomes. É honrando o Criador e todas as suas criaturas, sejam pedras, animais, aves, plantas, peixes, insetos, águas, ventos que compartilhamos a existência nesta vida. Essa consciência, esse alinhamento com as forças da natureza, transforma-se em poder de cura e expande habilidades psíquicas através da reconexão com a vida, com o sagrado, com o mistério da criação. O foco das práticas do xamanismo centra-se nos ritmos cíclicos da natureza (nascimento, morte e renascimento), na complementaridade entre masculino e feminino, no contato pessoal com o ambiente imediato da terra, com as forças da terra, do sol, da lua e das estrelas. O xamã é aquele que enfrentou suas sombras. É aquele que enfrentou e venceu o medo da insanidade, da solidão, o orgulho, a vaidade e os vícios, ao passar por várias mortes em vida. Escolhe tornarse curador, profeta, visionário a serviço das pessoas. O Xamanismo é Universal “Xamanismo Universal” não significa uma classificação nova no xamanismo. O xamanismo é universal. A premissa básica é o reconhecimento de que todos fazemos parte da família universal e que tudo está interligado. O praticante compreende o “Espírito Essencial” que está dentro dele mesmo, na natureza e em todos os seres. Ele sabe quem é e como se relaciona com o universo. O reconhecimento do caminho da verdade vem da expansão da consciência e da compreensão de que o verdadeiro poder está dentro de cada praticante e provém do desenvolvimento de seus próprios dons. Inspirados na sabedoria dos povos ancestrais temos o desafio de resgatar o conhecimento acumulado das práticas xamânicas das diversas tradições do planeta para os dias atuais. Assim pretende-se contribuir para a saúde, autoconhecimento e o bem-estar geral do nosso povo, bem como resgatar valores para uma vida mais harmônica e ecologicamente correta. Como práticas tão arcaicas sobrevivem em nosso tempo? Ao longo da história da humanidade, conquistamos a terra, o espaço, a informação. O processo iniciado há dez mil anos, onde paulatinamente se foi consumindo o planeta, produziu um enorme saldo negativo através da extinção de inúmeras espécies animais, vegetais e minerais. A neurose por proteção de divisas fez os governos investirem fortunas em armas, na indústria da destruição, colocando em risco a segurança de todo o planeta. Se todo esse arsenal fosse aplicado em produção de alimentos seria possível acabar com a fome do mundo. O homem foi se afastando de sua origem sagrada com o correr do tempo, foi crescendo tão desordenadamente que criou novas doenças, aumentou a miséria, a exclusão, o medo, a insegurança e a fome. Diminuiu a saúde, a qualidade de vida. As conquistas só satisfazem uma pequena minoria. Cresceram as pestes e as doenças. O mesmo homem que criou toda uma tecnologia para facilitar a sua própria vida, hoje não tem tempo para si mesmo, para sua família. Nunca a natureza se revoltou tanto! O mundo tornou-se muito ameaçador. A agonia do planeta se expressa através de crises ecológicas. Muitos vivem, atualmente, com uma sensação de separação, de isolamento, um sentimento de que deveria existir um sentido maior na vida. A população brasileira duplicou em aproximadamente trinta e cinco anos. Nosso meio ambiente está sendo contaminado por substâncias químicas, chuvas ácidas, destruição da camada de ozônio etc. Os desertos estão ganhando mais espaços no mapa do que as florestas. As grandes religiões não se ocupam da ecologia. O homem foi negando seu relacionamento com a natureza. As religiões se preocupam em exaltar crenças inspiradoras e em preparar seus fiéis para uma vida após a morte num mundo melhor. Não situam a Mãe Terra como o melhor lugar para vivermos; não valorizam a importância do uso sustentável dos recursos naturais para não comprometer a qualidade de vida para as futuras gerações. Os ancestrais xamânicos viviam em harmonia e equilíbrio com todos os seres, sejam eles pedras, plantas, animais, pássaros, peixes, e até insetos. Para garantir a sua sobrevivência em ambiente hostil os homens primitivos interpretavam os sinais e as mudanças da natureza a seu redor. Viviam de acordo com os ciclos do sol e da lua, das mudanças das estações, das manifestações da natureza, dos ventos, das chuvas e assim por diante. O xamanismo como a mais antiga prática espiritual da humanidade baseia-se no respeito à natureza, no reconhecimento do sagrado, na necessidade de expandir a consciência, na busca de respostas em mundos paralelos e na prática do amor incondicional. As práticas estabelecem contatos com outros planos de consciência a fim de obter conhecimento, poder, equilíbrio e saúde. Propiciam tranqüilidade, paz e profunda concentração; estimulam o bem estar físico, psicológico e espiritual. Em diversas situações do cotidiano podemos observar a presença de elementos relacionados ao xamanismo. As pessoas falam com seus animais de estimação. Representam animais em camisetas, escuderias. Recorremos a atributos dos animais em nosso vocabulário: “– ele é um cobra nos esportes!” As pessoas falam com as plantas. Alguns falam com pedras, com cristais. As pessoas falam com os santos! Falam consigo próprias, através dos pensamentos. No xamanismo aprendemos, além disso, a ouvir as respostas. No xamanismo encontramos a verdadeira origem do Papai Noel, das bruxas, das fogueiras de São João. De costumes como bater na madeira para afastar o azar ou de levar uma árvore de natal para dentro de casa. Muitos elementos do xamanismo persistem até hoje.

Os conflitos que rodeiam o mundo habitam a consciência da humanidade. As atuais ameaças humanas, assim como o bem estar, são sintomas de uma Mente Coletiva. Observando as rápidas mudanças, as pessoas se preocupam cada vez mais com o autoconhecimento e fazem a si mesmas uma pergunta: “– O que realmente devo fazer na vida?". Nesta busca deparam-se com barreiras, sejam de relacionamentos, trabalho, saúde ou outras. O xamanismo resgata o poder pessoal e o desenvolvimento de nossos próprios dons. Praticando nossos talentos é que podemos viver a vida com poder e excelência, como líderes, técnicos, atletas, educadores, religiosos, comerciantes, voluntários. Podemos decidir o modo que usaremos a energia que dispomos. Podemos ter equilíbrio entre olhar para dentro e agir para fora quando sabemos quais são os verdadeiros propósitos de nossas vidas. Através do xamanismo, praticado na atualidade, também podemos ler a “magia dos elementos”. A Terra é relacionada ao corpo físico e às sensações. A Água é relacionada à alma, às emoções e aos sentimentos. O Ar é relacionado à mente e aos pensamentos e às idéias. O Fogo, relacionado ao espírito, é associado à consciência, a claridade, a inspiração. A interação harmônica dos elementos equilibra a jornada da nossa alma, faz girar a roda da vida.

O Desafio do Xamanismo nos Tempos Atuais O maior desafio para a mulher/homem deste milênio é o de harmonizar as relações com a família, os amigos, os clientes, os funcionários, os amores, com Deus, com o cosmos, com a natureza. Nos relacionamos com nossos pensamentos, crenças, personalidade, com o que acontece no planeta. Também temos um relacionamento transcendental com nossos guias, com os espíritos da natureza, com os elementais e as divindades. Assim como aprendemos coisas nesses relacionamentos que nos fizeram evoluir, também trazemos marcas de registros das frustrações, das perdas emocionais, dos fracassos. Temos registros que nos impulsionam na jornada da nossa alma e vamos nos defrontando com os obstáculos no caminho. Iniciamos a jornada da nossa alma quando estamos no útero de nossa mãe. Nós captamos as mensagens do meioambiente, das emoções vividas na família, sonhamos, chutamos, nos manifestamos. Quando nascemos nos comunicamos pelo choro. Vamos sendo programados com o conjunto de crenças que recebemos. Gosto muito de uma analogia entre um computador e o nosso bio-computador, ou seja, nosso cérebro. Quando compramos um computador adquirimos o hardware e os softwares. Um não funciona sem o outro. O que é o hardware? O hardware é a parte física do equipamento, que já vem pronta da fábrica. Podemos comparar o hardware com os nossos instintos. Não tem muito que fazer, nós já nascemos com nossos instintos. O software são os programas; podemos compará-lo ao conjunto de crenças que recebemos, que representam a forma de lidar com os nossos instintos. Os programas contêm as regras e os paradigmas que nos foram transmitidos, principalmente de nossa família e primeiros orientadores da infância à puberdade. Como na memória de um computador, podemos excluir aqueles programas que não são úteis e só tomam espaço, adicionar novos, atualizá-los e manter o que está bom. Inclusive aquele programa que faz com que você se sinta tímido quando tem que expressar suas idéias, quando falta a coragem para enfrentar seus medos, quando falta a energia para tomar atitudes, a resistência de corrigir comportamentos. Pesquisas mostram que até os oito anos de idade ouvimos mais de cento e cinqüenta mil vezes a palavra “não”. Somos condicionados a saber mais do que não queremos do que a entrar em contato com nossos desejos. Somos educados pelo medo. Ser criança é muito difícil. Seja qual classe social for, vivem num mundo governado por regras que não fizeram, mas para as quais são domesticadas. Ainda que façam o melhor na educação dos filhos, os pais, e me incluo nessa lista, acabam transmitindo a seus filhos medos, limitações, dúvidas, regras e preconceitos. Como diz a música: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”... Tudo isto começa, na verdade, quando estamos no útero de nossa mãe. Nós captamos as mensagens do meio ambiente, das emoções vividas na família. A mamãe e o papai nos cantam cantigas para ninar. É inegável o valor da educação musical logo nos primeiros dias de infância, mas vejam o que ouvimos: Dorme nenê que a Cuca vem pegar...

Bicho Papão sai de cima do telhado... Boi da Cara Preta..,pega essa criança que tem medo de careta.... Depois quando crescemos um pouquinho, a mamãe com medo que saiamos na rua diz: “— cuidado que o homem do saco vem e te pega...” Quando ávida por se comunicar escuta dos pais: “– Cala a boca! Fica quieto! Agora não posso ouvir”, o que será que fica para ela? Também ouvimos mensagens duplas e informações confusas. Os pais ensinam os filhos a não mentir e mentem, descaradamente, na frente deles. A criança, brincando, equilibra-se em cima de um muro e vai indo muito bem, até que a mãe a vê e grita: “— menino, você vai cair!” E aí ele cai, é lógico. O seu software vai sendo formatado pela seguinte crença estabelecida pela sua mãe: “você não tem competência para subir no muro. Se você subir vai cair mesmo”. E assim a criança adota essa crença, estabelecendo um limite corporal. Tal como o elefante que é amarrado quando pequeno em uma pequena corda desde o nascimento e que quando cresce nem tenta se soltar, pois criou essa regra em sua memória, foi condicionado. As crianças nativas sobem em árvores de grande altura e não caem, porque não tem ninguém debaixo delas fazendo-as acreditar que não tem competência, que não podem. Na infância vamos aprendendo que não podemos sentir as coisas. Não podemos sentir medo, dor, não podemos nos apaixonar e nem sentir raiva. Nós adotamos tanto os traços positivos quanto os negativos de nossos pais e primeiros orientadores. Também criam-se programas em função de determinadas experiências de vida. Um sentimento de perda de parte da alma por alguma decepção amorosa, perda de entes queridos, de emprego e outras. O importante é saber que esses programas negativos podem ser atualizados e corrigidos para garantir uma expressão livre, natural, eficaz. São os programas negativos de infância e experiências do passado que geram auto-estima baixa, auto-imagem negativa, pensamento pessimista, bloqueio em relação à autoridade, ansiedade, timidez, insegurança, dificuldades no relacionamento social. As práticas ancestrais alinhadas aos conhecimentos atuais fornecem ferramentas para ir em direção ao bem estar em nossas vidas. Para que possamos atravessar com mais consciência, entendimento, força e coragem os desafios que a vida vai nos trazendo. Cada planta, cada pedra pode nos transmitir ensinamentos de cura, a decifrar as mensagens que vêm dos ventos, a medicina e sabedoria de cada animal. O Xamanismo e a Saúde No xamanismo compreende-se espiritualmente as relações entre corpo, mente, emoções e alma. O xamanismo não é religião. Ele nos religa a uma fonte de sabedoria superior. É a busca da excelência espiritual, é enxergar a realidade existente por trás dos conceitos. É trilhar um caminho sagrado. No xamanismo, "medicina” não é apenas uma forma para melhorar a saúde e sim de obter energia, poder, dons, talentos. A nossa medicina é o nosso poder pessoal. No xamanismo considera-se a doença como originária do mundo espiritual. A maior atenção não é dada aos sintomas ou à doença em si, mas à perda de poder pessoal que permitiu a invasão da doença Sabe-se que o sistema imunológico é violentamente agredido por muitos tipos de comportamentos e pensamentos. De acordo com pesquisas, imagens específicas, sentimentos positivos, sugestões, aprender como reagir a fatores estressantes de modo relaxado são elementos que têm poder de aumentar a capacidade do sistema imunológico para combater a doença. Os rituais têm efeito terapêutico direto sobre o paciente ao criar imagens vívidas e induzir estados alterados de

consciência que conduzem a autocura. Na medida em que adquirimos conhecimento deste sistema de defesa podemos treinar nosso sistema imunológico a funcionar com eficácia. Os cientistas já comprovaram que o sistema nervoso central não sabe diferenciar uma vivência real de uma vivência imaginária. Sentimentos, pensamentos e imagens podem, na realidade, causar liberação de substâncias químicas. Um equilíbrio químico é essencial à manutenção da saúde. No livro a Imaginação na Cura, de Jeanne Achterberg (Summus, 1996), ela relata a influência de fatores psicológicos e emocionais sobre o sistema imunológico. As imagens e visões são usadas como instrumentos para re-estruturar o significado de uma situação de modo que ela deixe de criar sofrimento. As imagens transmitem mensagens compreendidas pelo sistema imunológico. Elas ligam os pensamentos conscientes aos glóbulos brancos. Saúde é estar em harmonia com a própria visão do mundo. É uma percepção intuitiva do universo e de todas as suas relações. Expandimos para além do estado ordinário de consciência para experimentar as vibrações do universo. Os Estados Especiais de Consciência Os caminhos do xamanismo são espirituais. A prática xamânica compreende a capacidade de entrar e sair de diferentes estados de consciência. Os estados alterados de consciência não envolvem apenas o transe, mas também a capacidade de viajar na realidade incomum com o objetivo de encontrar com espíritos animais, plantas, mentores e obter insights para curas. Os estados alterados de consciência incluem vários graus. Stanley Kryppner, no livro O Mais Elevado Estado da Consciência (co-organizado com John White, Cultrix/Pensamento, 1972) chega a classificar vinte diferentes estados de consciência. Eliade fala do “êxtase”, Castañeda do “nagual”. Nirvana, samadhi, alfa, transe, satori, consciência cósmica, supraconsciência são também são nomes para a mesma manifestação. Através desses estados conseguimos nos conectar com nossos mitos, nossos símbolos, nossa verdade interior. Através desses estados especiais alcançamos uma experiência divina, acessamos uma fonte de sabedoria superior, curamos o corpo, nos conhecemos melhor através das visões, expandimos a nossa consciência. Conseguimos expandir a percepção para os mistérios que estão guardados em nós mesmos. Aprendemos a sentir, a ver e capturar a energia. Nos religamos com o sagrado e com a fonte criativa de tudo que nos acontece. Através da consciência ordinária geralmente não conseguimos alcançar níveis profundos do nosso ser. Existem diversas técnicas ou rituais para se chegar a estados mais profundos de consciência, dentre elas: tambores, danças, jejuns, plantas de poder (enteógenos), respirações e posturas corporais, entre outras. Aprendemos a reconhecer as influências e as forças da Terra e como as energias naturais afetam nossas vidas. Os nativos reconhecem, por exemplo, o círculo como o principal símbolo para o entendimento dos mistérios da vida. Observaram que ele estava impresso em toda a natureza. O homem olha o mundo através dos olhos, cujo formato é o de um círculo. A terra, a lua, o sol, os planetas, são todos circulares. O nascer e o por do sol acompanham um movimento circular. As estações formam um círculo. Os pássaros constroem ninhos em círculos, animais marcam seus territórios em círculos. As cabanas, as ocas e as tipis são circulares. Os povos antigos consideravam a viagem circular da terra ao redor do sol uma roda, representando o eterno ciclo de nascimento e desabrochar, crescimento e florescimento, maturidade e frutificação, envelhecimento e decadência, morte e decomposição e, novamente, renascimento, refletido na vida humana e na natureza. Um sagrado horizonte divide Terra e o Céu. Damos ao mundo uma dimensão sagrada, consagramos as quatro direções, as quatro estações, os quatro elementos. Acompanhamos e celebramos a movimentação das luminárias – o Sol, a Lua, e as Estrelas fazendo a sua eterna renovação, ciclo que é conhecido como a Roda do Ano, a Roda da Vida ou Roda Medicinal. Estar em harmonia com o fluxo da natureza possibilita obter maior equilíbrio físico, emocional, mental, sexual e espiritual, aspectos da nossa própria natureza. Relacionamento Terra-Sol

Aprendemos que o inverno é tempo para nós e a Mãe Terra descansarmos. É quando nos preparamos para mudar mundos e formas. Depois, entramos na primavera, época do anunciar da iluminação, do lugar da consciência, do nascimento. Representa o nascimento dos humanos começando a viver. O tempo do verão é o período de frutificar, de rápido crescimento. E, quando chegamos no outono, vem o tempo da introspecção, quando colhemos resultados, quando obtemos o conhecimento necessário para centrarmos a nós mesmos. E o ciclo se repete em círculo, no movimento de rotação da terra. Ao receber inspiração das estações entramos em sintonia com a ecologia dentro e fora de nós, trabalhando o ambiente espiritual/planetário acessando o "Livro da Natureza". Onde quer que estejamos no mundo seremos afetados pelo balanço das estações. A disciplina mental gerada numa cerimônia permite que o corpo, a personalidade e a psique se harmonizem para que as manifestações possam ocorrer em sintonia com cada estação. Praticar festivais sazonais permite ao buscador compreender melhor a linguagem do inconsciente, obter uma comunicação num nível mais profundo de seu próprio ser. O festival cria uma atmosfera sagrada que nos faz ir além do racional e nos modificarmos profundamente através do amor e da gratidão. Relacionamento Terra-Lua A lua controla as marés, movimentando toneladas e toneladas de água; imagine o que ela pode fazer com as águas do nosso corpo! A lua simboliza a energia feminina em muitas culturas do mundo. A lua produz um imenso efeito sobre a terra, e em todos os seres vivos. Por aproximadamente vinte e nove dias ela circunda a terra. Este ciclo é a origem do mês. O poder magnético da lua, combinado com o movimento da terra, movimenta oceanos e rios. Ela influencia o fluxo da seiva das árvores, das plantas e dos fluidos corporais, incluindo o ritmo do sangue, a menstruação, os ciclos de gestação, e mesmo o cérebro. As três luas do inverno trazem o tempo de contemplar o crescimento do ciclo anterior e preparam o crescimento do novo ciclo. Nosso meio ambiente é afetado pelo poder da lua. No xamanismo, nós reconhecemos que é a Lua quem domina a Terra, portanto, a estudamos e a reverenciamos. Zonas Cósmicas No xamanismo sempre saúdo o Mundo Subterrâneo, o Mundo Intermediário e o Mundo Superior. Os xamãs são os viajantes capazes de atravessar essas zonas cósmicas, de uma para a outra. A viagem que me refiro é o vôo da alma, alcançado através do transe. Nessas viagens os xamãs recuperam almas perdidas, buscam poder e conhecimento, encontram-se com espíritos. Segundo Mircea Eliade, em O xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase (Martins Fontes, 1998) a técnica xamânica, por excelência, consiste em passar de uma região cósmica para a outra. Essa comunicação é possível porque as três regiões são unidas entre si por um eixo central. Nesse eixo há uma abertura onde os mortos baixam às regiões subterrâneas, os Deuses descem a Terra e a alma do xamã em êxtase sobe ou baixa ao céu ou aos infernos. Este eixo central ou centro representa o espaço sagrado. Nas minhas jornadas inicio relaxando meu corpo físico e me desprendendo dele com a visualização do local de poder. Um espaço sagrado da nossa mente. Lugar de repouso e tranqüilidade. Com meus olhos internos vejo meu corpo mental passeando pelo local de poder até encontrar um lugar para repousar. Aos poucos vou visualizando e sentindo que meu corpo espiritual vai se desprendendo do meu corpo mental e vai caminhando até encontrar uma abertura na terra. Entro por essa abertura que dá num túnel até a entrada de um outro mundo. Um mundo paralelo. Para os incas, o Mundo Subterrâneo é representado pela Serpente, de onde parte a energia; o Mundo Intermediário era representado pelo Puma, que simboliza a Terra, é a força e poder, o mundo em que vivemos; e

há o Mundo do Alto, o Mundo Celestial, representado pelo Condor. Essas zonas são simbolizadas pelo conceito da Montanha Cósmica: a base, o meio e o cume equivalem ao Eu Básico, Eu Médio e Eu Superior. Gosto da simbologia da árvore, onde nas raízes localiza-se o Mundo Subterrâneo, o local dos ancestrais, onde nos ligamos aos arquétipos. Neste mundo conectamo-nos com os espíritos das plantas, dos animais, dos minerais e com espíritos humanos. É onde residem os mistérios da Mãe-Terra. Nesta viagem podemos aprender sobre a utilização de ervas medicinais, cristais e sobre o talento dos animais. Também encontramos com a nossa sombra, a parte mais obscura do nosso ser, onde estão também os nossos instintos. É o mundo dos símbolos, dos arquétipos. Os troncos significam o Mundo Intermediário, relacionado com a realidade ordinária. Aí é possível viajar no passado e no futuro. Respostas para diversas questões da realidade ordinária, nossas questões do dia-a-dia, podem ser obtidas nessa zona. É nela que reconhecemos a nossa própria existência, onde estão a razão e a habilidade de raciocínio. E, nos ramos, está o Mundo Superior, que é o lugar da inspiração, da união com a divindade. É onde nos conectamos com os mestres, é o local da inspiração, da criatividade, da liberdade. Ritos de Passagem – As Iniciações Por milhares de anos nossos ancestrais tiveram consciência da vida e da morte como um fluxo contínuo. Compreendiam que era importante marcar os ciclos de renovação como, por exemplo, solstícios e equinócios. Acreditavam que fazendo isso ajudavam o cosmos a crescer e a mudar. Resgatando essas celebrações nos tornaremos, novamente, unos com a terra e com o cosmos. Recuperaremos a sensação de equilíbrio dentro de nós e de nosso mundo. Os rituais de passagem mostram que somos parte de algo maior, que podemos chamar de Deus ou Universo. Essa ligação com o sagrado traz um sentimento de unidade com o todo, nos dá uma sensação de pertencimento. Através do ritual criamos uma atmosfera especial, invocamos ajudas espirituais que nos dão poder para obtermos resultados. Os rituais comunicam-se com níveis profundos do nosso ser, o que a nossa mente consciente não consegue fazer. Passamos assim pela morte simbólica, marcamos aquilo que deve acabar para que seja possível nascer o novo, as novas possibilidades. Todos os principais estágios da vida precisam ser claramente marcados: puberdade, casamento, menopausa, morte e assim por diante. Além disso, muitas situações que não existiam em sociedades mais simples, como a aposentadoria, precisam agora ser reconhecidas. A iniciação tem um fundamento nas bênçãos recebidas pelos instrutores que nos passam essa "autorização espiritual" para conduzirmos cerimônias. Isso é honrar o conhecimento. Não usurpar e nem banalizar o processo de iniciação espiritual. As tradições, as escolas iniciáticas, as religiões, as organizações, garantem que o trabalho do ego fique contido. Ou seja, é somente após uma busca incansável e muita dedicação para obter a legitimidade dos seus instrutores, e não da cabeça de cada um, que vem o conhecimento essencial para ser compartilhado e a possibilidade de continuidade do trabalho espiritual. Ocorre desta forma nas escolas iniciáticas, nas artes marciais, nas escolas de formação educacional, nos esportes e na vida profissional. Que ninguém se engane disso! Alguns mestres espirituais já vieram prontos, com um nível de consciência mais elevado, como Jesus, Buda, Lao Tse e outros.... Mas mesmo eles passaram por iniciações, tiveram seus instrutores, passaram suas provações. Eles tinham a consciência de sua missão. Obedeciam a suas leis sagradas, tinham disciplina, não tinham dúvida de sua missão. A medicina da terra é derivada de conhecimentos passados pelos ancestrais, que são honrados por aqueles que recebem a iniciação. O clichê mais ultrapassado é aquele em que o iniciado tenta “matar” simbolicamente seu iniciador, ao invés de honrá-lo. Isso significa enfraquecer a raiz na qual ele foi formado, uma auto-sabotagem espiritual. Este entendimento permite que o buscador crie conscientemente o movimento que traz harmonia nos

resultados, crescendo sem desmerecer os instrutores que teve em seu caminho. Quando percebemos a conexão universal entre nós, compreendemos que todas as histórias fazem parte da nossa história. A consciência da conexão é vital ao aprendizado da convivência mútua. Ninguém triunfa sozinho. Todos temos a necessidade de nos conectar com algo fora de nós – com companheiros de caminhada e com algo maior que nós todos. No xamanismo, procuramos aprender com as vozes dos ancestrais, dos velhos, das tradições, das crenças. Esse aprendizado é básico para podermos traçar o mapa de nosso caminho, de acordo com o livre arbítrio. O "conhecimento" é para todos, mas "sabedoria" é para alguns. Sabedoria é quando "aprendemos", ou seja, aplicamos o conhecimento em nossas vidas. Acho importante a divulgação do conhecimento, mas ainda assim é uma minoria que se transforma através dele. Infelizmente é a minoria que coloca em prática o aprendizado, e esse é o grande segredo. Por outro lado existe um outro fenômeno. Algumas pessoas se lançam em determinadas práticas sem o devido conhecimento e sem as "bênçãos espirituais”. Ou seja, ação sem conhecimento – o que pode ser mais problemático ainda. Muitos iniciam a caminhada, mas poucos atingem alturas maiores. O acesso não está limitado aos grandes sábios e santos, é disponível para todos nós em maior ou menor grau, dependendo da sinceridade com que empreendemos nossa busca. O pensamento xamânico nos ensina que tudo acontece através de uma vontade soberana. E cada evolução vem a seu tempo. Não se deve apressar o rio, mas aprender a desenvolver a tolerância e a paciência. Não mudamos as forças do universo, aprendemos a viajar nos ventos. O Amor à Mãe-Terra Os praticantes de xamanismo defendem a Mãe-Terra, guerreando silenciosamente, através de preces e vibrações, procurando plantar uma semente de amor nos corações daqueles que não percebem as belezas da criação. Sabemos que a melhor maneira de agradar ao Criador é respeitando, honrando e preservando a sua criação. A terra é um ser vivo. A Mãe que alimenta todas as criaturas. Ela supre, com suas substâncias, o nosso corpo físico. Como toda Mãe, provê as necessidades de suas crianças, generosamente. As criaturas que andam, nadam, rastejam, correm, voam, pedras e plantas também são suas crianças. Todas as coisas vivas dividem a vida na terra com os humanos, nascendo na mesma Mãe Terra, concebidos da mente do Criador. Devemos honrá-las, estando conscientes de sua missão no plano universal e nos harmonizarmos para estarmos em equilíbrio na nossa mãe. Nós, praticantes de xamanismo, verdadeiramente amamos a terra e todas as suas crianças. Quando baseamos nossa vida nesse entendimento, quando reconhecemos as plantas, animais e minerais como nossos parentes restabelecemos nossa conexão natural com todos os seres vivos, e experimentamos a terra como um lugar sagrado. Quando adquirimos a sabedoria da natureza, nos alinhamos com a magia natural e somos fortalecidos pelo seu poder. Nós recebemos a sabedoria ancestral da Mãe Terra, podendo ser amigos dos espíritos que vivem na natureza. Quando nos conectamos com essa extensa família da natureza, aprendemos a alinhar nossas energias para receber sua sabedoria e nos transformamos. Transformamos nossa relação com os outros e com o mundo. Os praticantes de xamanismo assumem papéis de guardiões da Mãe Terra. Resgatam a profunda conexão do homem com a terra, aprendem a honrar todas as formas de vida, pois onde há vida está Deus. Por sentirmos Deus nas diferentes formas de energia consideramos sagrada cada uma delas. Cada planta, cada pedra pode nos transmitir ensinamentos de cura. Aprendemos a decifrar as mensagens que vêm dos ventos, reconhecemos que fazemos parte de uma Grande Família Universal, que a Terra é nossa Mãe, nos nutrindo, nos sustentando, nos recebendo a cada vida e acolhendo nossa carne a cada morte. Várias tradições xamânicas esperam por um novo tempo que virá com o retorno dos antigos xamãs que

reencarnariam em outros povos, com outra linguagem, outra cor de pele, transmitindo a linguagem do amor universal, promovendo o reencontro do homem com o sagrado para podermos juntos caminhar na beleza e na harmonia com cada ser vivo. No xamanismo busco minha verdade na criação divina. O mapa do caminho está escrito em cada vegetal, nas mudanças de estação, nas portas de cada direção cardeal, no movimento dos ventos, nos hábitos e talentos de cada animal, nas gravações de cada pedra, com a iluminação e calor do sol, nos mistérios das fases da lua, nas trilhas das estrelas. Procuro harmonizar-me com a criação para poder alcançar o Criador. Assumimos a responsabilidade de zelar pela Mãe Terra e por todas as suas crianças, temos a missão da cura planetária, tanto no tocante à qualidade ambiental, como energética e espiritual. Jamais poderemos ser absolutamente saudáveis se vivermos num planeta doente. Nunca teremos paz enquanto irmãos estiverem em guerra, não evoluiremos se não fizermos a parte que nos cabe. Quantas pessoas não confundem felicidade com sucesso? Buscam oportunidades de riquezas e outros falsos valores para esconder a depressão, a falta de um sentido para a vida. Na reconexão com o sagrado, aprendemos a apreciar o mistério e a beleza das coisas simples, que geralmente passam despercebidas. Precisamos aprender a sentir a religação entre todas as coisas vivas e as que já passaram sobre a terra. Apenas assim compreenderemos que todas as histórias fazem parte da nossa história. Tudo está conectado. Deus criou o mundo em sete dias, mas a obra da criação se perpetua através do homem. A cada dia estamos criando um mundo novo através da cadeia de pensamentos, palavras e atos. O que estivermos fazendo à Terra estaremos fazendo a nós mesmos e a nossos filhos. Respeitar a Terra é respeitar seu Criador. Agora estamos no limiar das jornadas pelo espaço, das tecnologias, da realidade virtual e de um xamanismo universal. Que essa corrente de consciência se expanda cada vez mais na linha da Luz, para que possamos influenciar pacificamente os líderes e governantes de nosso querido planeta. Estamos diante do grande desafio de viver e preservar as realidades ecológicas sagradas de nossas comunidades locais. No início do terceiro milênio, assistimos à tradição xamânica reafirmar o seu valor no despertar do homem que busca a sua essência. Amor – Paz e Luz! Léo Artése "Texto originalmente publicado no site Alto das Estrelas, da antropóloga Bia Labate em: 30/08/2005 (**) A antropóloga Bia Labate realizou uma consultoria para o evento

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