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Analise Completa Da Obra Morte e Vida Severina

Analise Completa Da Obra Morte e Vida Severina

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Análise completa da obra Morte e Vida Severina
Podemos subdividir o livro Morte e Vida Severina basicamente em 18 partes distintas.

parte 1 A peça é aberta com a explicação de Severino que se apresenta e diz a que vem: O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mais isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem falo ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia. Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta.

assumindo diferenças próprias em cada uma das cenas. para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida. com faca ou bala? — Este foi morto de bala. a de tentar despertar terra sempre mais extinta. irmão das almas. mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta. matar para tomar posse da terra e jamais são discriminados. — E quem foi que o emboscou. passo a ser o Severino que em vossa presença emigra. morremos de morte igual. a morte não é única. as peregrinações do protagonista servem para revelar seus diferentes encontros com a morte. irmão das almas e com que foi que o mataram. Severino trava um diálogo com dois homens que carregam um defunto embrulhado na rede. Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima. de emboscada antes dos vinte de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade. irmãos das almas. mas garantido é de bala. Na primeira parte da obra. é diversificada. saindo quase plangente ( triste ) o estribilho " irmãos das almas ". Na cena acontece a denúncia daqueles que abusam do poder. Ao mesmo tempo desperta a solidariedade do andarilho: — E o que guardava a emboscada. parte 2 A primeira morte é a da emboscada. quem contra ele soltou essa ave-bala? . a de querer arrancar alguns roçado da cinza. e até gente não nascida). No entanto. mais longe vara.E se somos Severinos iguais em tudo na vida. Mas.

irmãos das almas. de pedra e areia lavada que cultivava. irmãos das almas. mas então por que o mataram com espingarda? — Queria mais espalhar-se. plantava palha. e o que havia ele feito contra a tal pássara? — Ter um hectares de terra. tão cobiçada? — Tinha somente dez quadras. irmãos das almas que podia ele plantar na pedra avara? — Nos magros lábios de areia. nenhuma várzea. — E o que havia ele feito irmãos das almas. irmão das almas. — Mas que roças que ele tinha. o Capibaribe. queria voar mais livre essa ave-bala. — E era grande sua lavoura. irmão das almas. todas nos ombros da serra. irmão das almas. irmão das almas. parte 3 A Segunda forma de morte encontrada é a própria natureza agreste do sertão. lavoura de muitas covas. sempre há uma bala voando desocupada. os intervalos das pedras. parte 4 . irmão das almas.— Ali é difícil dizer. — Mas então por que o mataram. seco. O retirante vê o seu rio-guia.

indo em direção do som de uma cantoria e Severino depara com um velório.. parte 6 Novo diálogo é estabelecido desta vez com uma mulher. etc. decerto pela aparente beleza do lugar: . Enquanto Severino vai desafiando o que sabe fazer. dois homens começam a imitar o som das vozes dos que rezam. poucos existe o que lavrar mas diga-me. lavrador de terra má não há espécie de terra que eu não possa cultivar. o leitor percebe que o conhecimento adquirido por ele não pode ajudá-lo. No momento das excelências. parte 5 O retirante cansado interrompe a viagem e procura um trabalho. retirante. tenta esconder sua própria vida. parte 7 A caminhada prossegue e o retirante chega á Zona da Mata. Em contato com a terra mais branda e macia. -Finado Severino.. já próxima do litoral e com rios que não secam. Severino percebe que aí pode se estabelecer. e justamente são estas coisas que ironicamente revelam quem ela é: Muito bom dia senhora. vê uma leve esperança balançar. Isso aqui de nada adianta. ultrapassar os trinta. Em solilóquio Severino retoma os motivos que o fizeram partir: está à procura da vida. que nessa janela está sabe dizer se é possível algum trabalho encontrar? Trabalho aqui nunca falta a quem sabe trabalhar o que fazia o compadre na sua terra de lá? Pois fui sempre lavrador. pois o que ele precisa saber para trabalhar com a mulher é pouca coisa. o que mais fazia por lá? Também lá na minha terra de terra mesmo pouco há mas até a calva da pedra sinto-me capaz de arar. catando as migalhas que lhe permitem a sobrevivência.Temeroso de perder o rumo segue a viagem. de certa maneira.

mas estarás mais ancho que estavas no mundo. é uma cova grande para teu defunto parco. Por onde andará a gente que tantas canas cultiva? Feriando: que nesta terra tão fácil. Uma raiva até então contida vai crescendo. só folhas de cana fina somente ali à distância aquele bueiro de usina somente naquela várzea um bangüê velho em ruína. nem largo nem fundo. acompanhada do ritmo da poesia que salta em versos de redondilhas menores até versos eneassílabos.Mas não avisto ninguém. um trabalhador da lavoura. Por que não havia gente no lugar? Os trabalhadores levam um morto ao cemitério. é a terra que querias ver dividida. porém mais que no mundo te sentirás largo. é de bom tamanho. não é preciso trabalhar todas as horas do dia. sofrendo cortes rápidos. . com palmos medida. é uma cova grande para teu pouco defunto. os meses todos da vida parte 8 A oitava cena vem em resposta aos versos que finalizaram a anterior. os dias todos do mês. é a parte que te cabe neste latifúndio. o que dá a impressão de tumulto: Essa cova em que estás. Não é cova grande. é cova medida. é a cota menor que tiraste em vida. Severino-observador ouve o que dizem os amigos do finado. tão doce e rica.

Fique-se por aí um momento e não tardarão a aparecer os defuntos que ainda hoje vão chegar (ou partir. De trabalhar no de Santo Amaro deve alegrar-se o colega porque parece que a gente que se enterra no de Casa Amarela está decidida a mudar-se toda para debaixo da terra. com promoções e gorjetas. mas para defender sua própria vida. não sei). As avenidas do centro são melhores. Nesta cena. e ainda mais cenografia. porque em qualquer lugar a morte é sua sempre companheira: parte 10 Chegando ao Recife. protocolo. Somente os retirantes são a " massa " da morte e morrem sem classificação: O dia hoje está difícil não sei onde vamos parar.parte 9 O retirante apressa o passo afim de chegar mais rapidamente ao Recife. hierarquizado. ele reitera o motivo de sua retirada: não foi pela cobiça. onde se enterram os ricos. pois eu me daria por contente se me mandassem para cá. . Severino pára para descansar e ouve a conversa de dois coveiros. As avenidas do centro. são como o porto do mar não é muito ali o serviço: no máximo um transatlântico chega ali cada dia. é que o colega ainda não viu o movimento: não é o que se vê. No entanto. Ambos discutem a possibilidade de arrematar bens com a morte. ao menos aos deste setor de cá. seu lugar depende de sua classe social em um cemitério também dividido. A morte carrega as características do morto enquanto vivia. mas são para os protegidos: há sempre menos trabalho e gorjetas pelo serviço e é mais numeroso o pessoal (toma mais tempo enterrar os ricos). as esperanças vão se rareando. Se trabalhasses no de Casa Amarela não estarias a reclamar. com muita pompa. Deviam dar um aumento.

o enterro espera na porta. mestre carpina.Mas este setor de cá é como a estação dos trens: diversas vezes por dia chega o comboio de alguém. sabes me dizer se o rio a esta altura dá vau? sabe me dizer se é funda Severino. jamais o cruzei a nado . que habita este lamaçal. Só que sem querer descobre. num jogo contínuo de antíteses em que se opõem as desesperanças severinas à esperança. recebe uma resposta. Seu José. um otimismo contido. possível em tais circunstâncias da vida. filho do mestre carpina. O anúncio do nascimento do filho-esperança. da conversa dos coveiros que seguia seu próprio enterro: adiantado de uns dias. O retirante trava um diálogo com José. Trata-se do encontro de Severino com a primeira forma de otimismo exterior ao personagem. No entanto esperava que melhorassem suas condições de vida. que " saltou para dentro da vida ". pois tinha a consciência de que a vida não seria diferente na cidade. confessa não ter esperado muita coisa. parte 13 A mulher de José anuncia a chegada do filho. o morto ainda está com vida. o que dizer de Casa Amarela onde não para o vaivém? Pode ser uma estação mas não estação de trem: será parada de ônibus. parte 11 O retirante se aproxima de um cais de rio. farinha e um pouco mais de expectativa de vida. parte 12 A décima segunda cena estabelece uma ruptura e ao mesmo tempo anuncia a próxima parte. com filas de mais de cem. Mas se teu setor é comparado à estação central dos trens. mestre carpina. retirante. Enquanto vai dando forma às suas angústias através de perguntas. com água.

em cena que reconstitui no lamaçal (presépio) ribeirinho o milagre da vida.quando a maré está cheia vejo passar muitos barcos. por um tempo a dura realidade que carregam. Severino. como mero observador em contato com a pequena alegria. retirante pois não sei o que lhe conte sempre que cruzo este rio costumo tomar a ponte quanto ao vazio do estômago. muitas de grande calado. Seu José. de ar. mestre carpina. se cruza quando se come. Minha pobreza tal é que coisa alguma posso ofertar: somente o leite que tenho para meu filho amamentar aqui todos são irmãos. fazem predições. tecem loas. parte 14 Esperança Aparecem para visitar o recém-nascido amigos. vizinhos e duas ciganas. alvarengas. que faz o povo esquecer. reis magos da miséria repartem a pobreza: Minha pobreza tal é que não trago presente grande: trago para a mãe caranguejos pescados por esses mangues mamando leite de lama conservará nosso sangue. de lama. trazem presentes. Severino é colocado fora da cena. barcaças. de leite. parte 15 Presentes são levados à criança. Ao tomarem a palavra os elementos de cada grupo-coral. para cobrir corpo de homem não é preciso muito água: basta que chega o abdome. basta que tenha fundura igual à de sua fome. Minha pobreza tal é que não tenho presente melhor: .

as videntes tiram lições de sobrevivência. parte 16 Ao tomarem a palavra. . Minha pobreza tal é que grande coisa não trago: trago este canário da terra que canta sorrindo e de estalo. senhores. a Segunda cigana prediz um destino. as duas ciganas tecem suas previsões. como goiamuns. trago aqui água de Olinda. com aratus. Minha pobreza tal é que pouco tenho o que dar: dou da pitu que o pintor Monteiro fabricava em Gravatá. Minha pobreza tal é que melhor presente não tem: dou este boneco de barro de Severino de Tracunhaém.trago este papel de jornal para lhe servir de cobertor cobrindo-se assim de letras vai um dia ser doutor. antecipa para a criança o mesmo destino de seu pai. água da bica do Rosário. Minha pobreza tal é que não tenho presente caro: como não posso trazer um olho d'água de Lagoa do Cerro. Minha pobreza tal é que minha oferta não é rica: trago daquela bolacha d'água que só em Paudalho se fabrica. que levará o menino às máquinas e a paragens nos mangues melhores do Beberibe: Primeira Cigana à mesmo destino do pai Atenção peço. lemos a sorte futura. aprenderá a caminhar na lama. para esta breve leitura: somos ciganas do Egito. A primeira cigana toma a palavra. Vou dizer todas as coisas que desde já posso ver na vida desse menino acabado de nascer: aprenderá a engatinhar por aí. Num processo de perfeita identidade do homem ao meio em que ele vive.

na ilha do Maruim. vestido negro de lama. é graxa de sua máquina. pelo que será anfíbio como a gente daqui mesmo. Cedo aprenderá a caçar: primeiro. Minha amiga se esqueceu de dizer todas as linhas não pensem que a vida dele há de ser sempre daninha. aprenderá com outras espécies de bichos: com os porcos nos monturos. Não o vejo dentro dos mangues. tenha embora precipícios. vejo coisa que o trabalho talvez até lhe conquiste: que é mudar-se destes mangues daqui do Capibaribe para um mocambo melhor nos mangues do Beberibe. E mais: para que não pensem que em sua vida tudo é triste. com os cachorros no lixo. ainda maior. com as galinhas. pelo imenso lamarão fazendo dos dedos iscas para pescar camarão Segunda Cigana à um novo destino Atenção peço. coisa mais limpa que a lama do pescador de maré que vemos aqui vestido de lama da cara ao pé. que é catando pelo chão tudo o que cheira a comida depois. Outras coisas que estou vendo é necessário que eu diga: não ficará a pescar de jereré toda a vida. também para minha leitura: também venho dos Egitos. Enxergo daqui a planura que é a vida do homem de ofício.e a correr o ensinarão o anfíbios caranguejos. vou completar a figura. bem mais sadia que os mangues. voltar de pescar siris e vejo-o. uns anos mais tarde. . vejo-o dentro de uma fábrica: se está negro não é lama. Vejo-o. senhores.

E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio. o deserto. Criança magra. a respondeu com sua presença viva. Com oásis. Os atributos que distinguem a criança são os mesmos que marcam toda a população restante. severina mas se responder não pude à pergunta que fazia. franzina mesmo quando é a explosão de uma vida severina . dialoga com Severino. a calmaria. o mestre carpina toma a palavra. pequena. Belo porque corrompe com sangue novo a anemia. teimosamente. a vida. com ventos. pálida. que também se chama vida. vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida mesmo quando é assim pequena a explosão. após a valorização da vida. ela. só com palavras. como a ocorrida como a de há pouco. a vida. mas criança que vai fazer minar um pouco de vida: E belo porque o novo todo o velho contagia. que é chamado mas permanece mudo: É difícil defender. parte 18 No último segmento da peça. ver a fábrica que ela mesma.parte 17 Chegam os vizinhos e cantam a beleza do recém-nascido. franzina. Infecciona a miséria com vida nova e sadia. se fabrica. ainda mais quando ela é esta que vê.

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