ALÉM DO GOLPE, CARLOS FICO

O livro de Carlos Fico tem cinco capítulos, mas pode ser dividido em quatro partes: a campanha americana de desestabilização feita contra Goulart; a concretização do golpe concebido, estimulado e fomentado pela CIA pelos traidores de farda; o apoio incondicional aos EUA durante a era Castelo Branco; o afastamento dos EUA após a morte de Castelo Branco e o recrudescimento da ditadura. A obra lança luz sobre um dos períodos mais negros e nojentos da história das relações Brasil/EUA. Com base em documentos liberados pela Casa Branca o historiador conseguiu traçar o roteiro completo das operações secretas que culminaram na derrubada de João Goulart a mando de Lyndon Johnson e pelos traidores brasileiros, dentre os quais se destaca Castelo Branco. “O então tenente-coronel Castelo Branco, por exemplo, estabeleceu fortes laços de amizade nos campos de batalha italianos com o militar norte-americano Vernon A. Waters. Essa relação de confiança seria fundamental para que Walters obtivesse informações privilegiadas dos militares na época do golpe de 1964, então como adido militar da embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro.” Nos final dos anos 1930 o Brasil havia sido sistematicamente cortejado pela Casa Branca. Consoante Moniz Bandeira (O MILAGRE ALEMÃO E O DESENVOLVIMENTO DO BRASIL, editora ensaio, 1994) durante o governo de Getulio Vargas a Alemanha de Hitler havia se tornado um grande parceiro comercial do Brasil. O distanciamento do nazismo ocorreu lentamente. Este fenômeno foi investigado satisfatoriamente por Antonio Pedro Tota (O IMPERIALISMO SEDUTOR, compnahia das letras, 2000). Após o final da II Guerra Mundial as relações Brasil/EUA voltaram a esfriar. Os americanos descartaram rapidamente o aliado pobre do qual não precisava mais. Nas palavras de Fico “... a avaliação sobre a desimportância estratégico-militar da América Latina consolidou-se desde os anos 1950.” Em consequencia a URSS resolveu preencher o espaço deixado pelos americanos “...desde meados dos anos 1950, após a queda de Stalin, a União Soviética do premiê Nikita Khrushcev adotara uma nova estratégia de atuação, apoiando países em desenvolvimento, inclusive na América Latina, tendo em vista a expansão de seu poderio.” À medida que o EUA se distanciava e a URSS tentava se aproximar os paises latino americanos começaram a esboçar alguma pretensão à autonomia. Foi assim, que, segundo Carlos Fico, “... em agosto de 1960, na Costa Rica, com os ministros das relações exteriores latino-americanos, ficou estabelecido uma condenação a quaisquer interferências extracontinentais (ou seja, as da União Soviética), mas também se definiu que uma intervenção dos Estados Unidos em qualquer república americana seria censurada.” A mudança de orientação na política externa brasileira somente ocorreria depois do golpe de 1964. Depois que os traidores de farda tomaram o poder Brasil rompeu relações com Cuba e apoiou a adoção de sanções econômicas contra a ilha de Fidel. Durante o governo Kennedy a interferência americana na América Latina se concentrava na propaganda da democracia e na ajuda humanitária com vistas à superação da miséria (Aliança para o Progresso). Com a morte de

precisamente. universo da política era avaliado com rigor e a imprensa brasileira vista com desprezo.. Foi indevidamente ligado ao comunismo pela CIA pelo fato de ter ameaçado o monopólio de algumas empresas americanas que operavam no Brasil (como o da ITT no ramo de telefonia. organizações e políticos’.” . na verdade. comprados e pagos pelos interesses de companhias. dois generais muito chegados ao presidente. Nessa linha Fico afirma que “. afinal resolveu aderir ao golpe.Kennedy. Os jornais responsáveis seriam minoria. Oromar Osório e Cunha Mello. p. Nossas próprias deficiências ajudaram o trabalho do Tio San e de seus corrompidos prepostos fardados brasileiros. Naquela época o “.” Esta explicação só tem validade se considerarmos João Goulart comunista. Johnson mudaria o paradigma.. o general comandante do II Exército (São Paulo). mesmo que fossem autoritários ou ditatoriais. a Aliança para o Progresso e. Amauri Kruel. poderia produzir obstáculos aos negócios.a problemática cubana ensejou. na visão norte-americana. como ‘Doutrina Mann’. Além disto.” No Brasil as iniciativas golpistas da CIA encontraram solo fértil. na verdade. não conseguiram evitar que as forças legalistas aderissem aos revoltosos e. pois poderia ser preso.” Tudo bem pesado. algo que ampliaria a órbita de influência comunista. Jango era nacionalista e reformista. quando o então ministro do Planejamento. disse-lhe que os jornais brasileiros eram incapazes de se manter sem chantagem. indigna de confiança. abandonando Goulart.” O autor parece endossar tese de que o golpe de 1964 foi uma conseqüência necessária da Guerra Fria.. Jango era tudo murelhengo. justamente no maior país da América do Sul. além das tropas de Mourão estarem próximas da fronteira do estado do Rio de Janeiro. castraram os sindicatos e permitiram aos gananciosos capitalistas americanos uma lucrativa temporada de caça predatória em solo brasileiro. no dia 1º. Obter espaço para notícias favoráveis era fácil para qualquer um . em direção a Brasília. de quem era compadre. A atividade jornalística no país era considerada irresponsável. oportunista e frequentemente venal: ‘centenas de artigos que se pretendem notícias honestas são. desde que dispostos a pagar pelos ‘suplementos especiais’. como já foi visto. pode-se chegar a conclusão de que os militares traidores fizeram bem o serviço sujo do Tio San: silenciaram a oposição. Avaliação tão negativa já havia chegado ao embaixador Tuthill.. Nesse sentido. O general Morais Âncora. oportunista. Apesar de suas vacilações aparentes e concretas. no caso brasileiro.. segundo a qual os Estados Unidos deixariam de questionar a natureza dos regimes que estavam recebendo sua assistência militar e econômica. três anos antes. inclusive para governos estrangeiros. Esse cuidado explica a campanha de desestabilização de Goulart e o apoio ao golpe. desde que se mantivessem anticomunistas. populista. comandante do I Exército (Rio de Janeiro). ‘nacionalismo’ brasileiro. Roberto Campos. mas nunca foi comunista. me parece mais plausível a tese de que os EUA utilizaram a Guerra Fria como uma cortina de fumaça para estimular o golpe de 1964 de maneira a manter e ampliar o lucro das empresas americanas no Brasil. Oromar nem voltou para relatar seu fracasso. tornou simplesmente inadmissível para os Estados Unidos a hipótese de um regime com qualquer pretensão esquerdista.e. recomendou a Goulart que deixasse o Palácio das Laranjeiras.. “A ausência de apoio militar foi a razão pela qual Goulart deixou o Rio de Janeiro. Esse temor sempre esteve presente nas avaliações dos Estados Unidos. especialmente em relação aos empresários que demandavam medidas protecionistas.). Realmente não havia outra saída já que. Fofocas e boatos seriam publicados como notícias. O próprio autor admite que o “. “A principal acusação contra Johnson em relação à América Latina dirigia-se ao que ficou conhecido.

querendo fazer bobagem’. Ele tinha sido excluído da lista de promoções de 25 de novembro de 1963 e odiava Goulart por isso e pelo perfil político do presidente. Nada disto é novo. ultrapassando. Depois do sucesso do golpe esta estratégia não foi abandonada. o general-de-brigada José Pinheiro de Ulhoa Cintra. é que.. havia (como. não poderia deixar de ser) um contato brasileiro cuidando da entrega das armas e munições e do combustível. ao contrário das negativas de envolvimento de brasileiros na ‘Operação Brother Sam’. Fico reproduz na integra o texto do Plano de Contingência para o Brasil formulado pelos americanos (Operação Brother Sam) e demonstra como os golpistas seguiram a risca as recomendações dadas por mestres estrangeiros.. etc. Antes de ler esta obra eu desconhecia que logo após a decretação do AI-5 os americanos removeram do Brasil em sigilo um equipamento que era empregado para detectar os níveis de gases raros na atmosfera. Enteado do ex-presidente Eurico Dutra. Goulart resignou-se. aliás. enaltecendo os costumes norte-americanos e defendendo o capitalismo contra o comunismo. Segundo Fico foi “. Talvez soubesse que “... ‘um dos grandes revolucionários do Exército’.” . “. Sob orientação da CIA as agências americanas de “ajuda humanitária” distribuíram dinheiro aos candidatos da oposição. em muito. segundo Castelo Branco.O comandante em chefe das Forças Armadas não teve condições de resistir ao golpe militar. “O dado novo.” . no contexto da campanha para as eleições parlamentares de 1962 que a intervenção norte-americana no processo político brasileiro intensificou-se. selecionaram a dedo os órgãos da imprensa que receberiam verbas para propaganda.” Carlos Fico foi rigoroso na seleção e interpretação dos documentos. 2008) aborda temas espinhosos.” A campanha de desestabilização de Goulart a partir de 1962 foi sistemática e diversificada. forneceram passagens aéreas para brasileiros influentes viajarem para os EUA. Além disto... . O GRANDE IRMÃO (civilização brasileira. na verdade foi intensificada.capaz de monitorar testes ou explosões nucleares no mundo. pelas Forças Armadas dos EUA. como a utilização. segundo o general Costa e Silva. de quem era homem de confiança por ter sido seu cadete na Escola Militar de Realengo e subordinado nos campos da Itália. Sem qualquer apoio entre os militares.. nunca houve na história brasileira um presidente da República que tenha enfrentado uma campanha externa de desestabilização tão grande.. que ainda não foi destacado por outros analistas. os níveis ‘normais’ de propaganda ideológica que os Estados Unidos habitualmente faziam em qualquer país. Ulhoa Cintra era tido como um homem ‘violento. de bases secretas no Brasil. traduziram e imprimiram livros para os militares.

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