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As cinco pessoas que encontramos no céu

As cinco pessoas que encontramos no céu

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  • MITCH ALBOM
  • As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu
  • Página de rosto
  • Tradução de Tânia Ganho
  • Ficha Técnica
  • Hoje é o aniversário de Eddie
  • A primeira pessoa que Eddie encontra no Céu
  • A primeira lição
  • A segunda pessoa que Eddie encontra no Céu
  • A segunda lição
  • SEGUNDA-FEIRA, 7 HORAS E 30 MINUTOS DA MANHA
  • A terceira pessoa que Eddie encontra no Céu
  • A terceira lição
  • QUINTA-FEIRA, 11 HORAS DA MANHA
  • A quarta pessoa que Eddie encontra no Céu
  • A quarta lição
  • SEXTA-FEIRA, 3 HORAS E QUINZE MINUTOS DA TARDE
  • A quinta pessoa que Eddie encontra no Céu
  • A última lição
  • Epílogo

Capa MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Pergaminho Badana da capa Mitch Albom é jornalista e comentador

desportivo. É também autor de vários livros, de entre os quais se destaca As Terças com Morrie, um best-seller internacional com mais de cinco milhões e meio de exemplares vendidos que ocupou os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times durante quatro anos seguidos. As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é o seu primeiro romance. Desde a sua primeira edição, em Setembro de 2003, que tem ocupado os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times. O sucesso que tem tido junto do público tem-se reflectido na crítica: "Esta é a fábula que lemos de uma assentada quando nos apaixonamos. É o conto que temos sempre à mão quando nos sentimos perdidos. É a história que queremos escutar vezes sem conta, pois tem aquela capacidade rara e mágica de nos dar a ver a nós próprios e ao mundo sob uma nova perspectiva. Este livro é um presente para a alma." Amy Tan Badana da contracapa "O leitor encontrará aqui ecos dos grandes clássicos - como a Odisseia - e isso faz com que esta obra de Mitch Albom esteja em muito boa companhia." Frank McCourt "Uma história cheia de sabedoria acerca do valor da vida humana." Los Angeles Times "As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é um livro poderoso." Time Magazine "Um livro doce e animador, sem vestígios de sentimentalismo." Booklist "Uma obra sincera que tem o poder de comover e reconfortar os leitores." The New York Times Contracapa Eddie é um veterano da Segunda Guerra Mundial que sente que a sua vida não tem qualquer sentido ou importância. Aos 83 anos, trabalha ainda como responsável de manutenção num parque de diversões. Passa os dias a fazer trabalhos rotineiros e não consegue afastar a sensação profunda

de solidão e de arrependimento por não ter vivido mais intensamente. Mas é precisamente no dia do seu 83.° aniversário que Eddie morre num acidente trágico, ao salvar a vida a uma criança. A última coisa que sente são duas mãozinhas a segurar as suas - e depois um imenso silêncio. É então que tudo começa. Eddie desperta no Céu. À sua espera estão cinco pessoas - umas são perfeitos desconhecidos, outras são-lhe muito próximas – que, de uma forma ou de outra, determinaram o percurso da sua vida. Cada uma destas pessoas fez parte da vida de Eddie por uma razão especial, embora ele não compreendesse na altura. O Céu é o lugar para onde vem para o compreender. Através destas cinco pessoas, Eddie vai descobrir as ligações invisíveis que constituíram o padrão da sua vida. Será que passou 83 anos insignificantes na Terra? Ou que passou teria a sua vida tido, afinal, algum sentido? Página de rosto MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Tradução de Tânia Ganho Pergaminho Ficha Técnica As Cinco Pessoas que Encontramos no Céu Mitch Albom Tradução de: The Five People You Meet in Heaven Hyperion, 2003 copyright © 2003, by Mitch Albom Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado — além do uso legal como breve citação em artigos e críticas — sem prévia autorização do editor. copyright © 2004, da tradução e editoração portuguesas by Editora Pergaminho, Lda. Direitos reservados para a língua portuguesa (Portugal) à Editora Pergaminho, Lda. Cascais, Portugal l.a edição, 2004 l.a reimpressão, 2004 ISBN 972-711-587-X Este livro é dedicado a Edward Beitchman, o meu querido tio, que me deu o meu primeiro conceito de Céu. Todos os anos, à volta da mesa festiva do Dia de Acção de Graças, ele contava a história de uma noite que passou no hospital, em que acordou e viu as almas dos seus entes queridos, que já haviam falecido, sentados à beira da cama, à sua espera. Lembrar-me-ei sempre dessa história.

Lembrar-me-ei sempre dele. Toda a gente tem uma ideia do Céu, como a tem a maioria das religiões, e todas devem ser respeitadas. A versão que aqui apresento é apenas um palpite, um desejo, de certo modo, de que o meu tio e outras pessoas como ele — pessoas que se sentiram pouco importantes aqui na Terra — percebam, finalmente, o quão importantes e amadas foram. Fim Esta é a história de um homem chamado Eddie e começa pelo fim, com Eddie a morrer sob o Sol. Pode parecer estranho começar uma história pelo final. Mas todos os finais são também começos. Só não o sabemos no momento... A última hora de vida de Eddie foi passada, como quase todas as outras, em Ruby Pier*, um parque de diversões à beira de um vasto oceano cinzento. O parque tinha as habituais atracções, uma ampla marginal para as pessoas passearem, uma roda gigante, montanhas-russas, carrinhos de choque, uma banca de doces e uma galeria de máquinas de jogo, onde se podiam disparar jactos de água para a boca de um palhaço. Tinha também uma atracção nova, chamada Queda Livre, e seria aqui que Eddie acabaria por morrer, num acidente a que os jornais de uma ponta à outra do estado dariam destaque. Aquando da sua morte, Eddie era um homem de idade, baixo e de cabelos brancos, sem pescoço, com o peito em forma de barril, braços fortes e uma tatuagem descorada do exército no ombro direito. As pernas eram magras e cheias de varizes, e o seu joelho esquerdo, * À letra, o Cais da Ruby. (N. da T.) ferido na guerra, sofria de artrite. Eddie apoiava-se numa bengala para andar. O seu rosto era largo e enrugado pelo sol, com um bigode desleixado e o maxilar inferior ligeiramente protuberante, que lhe dava um ar mais orgulhoso do que ele realmente era. Tinha sempre um cigarro preso na orelha esquerda e um chaveiro pendurado no cinto. Calçava sapatos com sola de borracha. Usava um velho boné de linho. O seu uniforme castanho claro lembrava o de um operário e Eddie era precisamente isso, um operário. O trabalho de Eddie era «assegurar» as atracções, o que significava que estava encarregado de zelar pela segurança. Todas as tardes, percorria o parque, examinando cada máquina, desde o Corropio à Montanha-Russa Oleoduto. Verificava se havia tábuas partidas, parafusos soltos, aço gasto. Por vezes ficava parado, de olhos fixos e turvos, e as pessoas que passavam por ele pensavam que estava a sentir-se mal. Mas estava simplesmente à escuta, nada mais. Depois de tantos anos, Eddie conseguia ouvir os problemas, dizia ele, no ranger, percutir e gaguejar do equipamento. Restando-lhe apenas cinquenta minutos de vida na Terra, Eddie fez a sua última ronda por Ruby Pier. Passou por um casal de velhinhos. — Boa tarde — murmurou ele, levando a mão ao boné. Eles acenaram com a cabeça educadamente. Os clientes conheciam Eddie. Pelo menos, os clientes habituais. Viam-no Verão após Verão, uma daquelas caras que se associam a determinado lugar. A sua camisa de trabalho tinha uma etiqueta no peito com o seu nome, Eddie, por cima da palavra Manutenção, e por vezes diziam-lhe: «Olá, Eddie Manutenção», embora ele não visse onde estava a graça. Hoje, curiosamente, Eddie fazia oitenta e três anos. Na semana passada, um médico dissera-lhe que

ele tinha zona. Zona? Eddie não conhecia a doença. Antigamente, tinha força para levantar um cavalo de carrossel em cada braço. Mas isso fora há muito tempo... 10 — Eddie!... Leva-me, Eddie!... Leva-me! Quarenta minutos até à sua morte. Eddie dirigiu-se para a frente da fila da montanha-russa. Costumava dar uma voltinha em cada atracção, pelo menos uma vez por semana, para ter a certeza de que os travões e engrenagens eram seguros. Hoje era o dia da montanha-russa — a MontanhaRussa Fantasma, chamavam-lhe — e os miúdos que conheciam Eddie chamavam-no para ele os levar. As crianças gostavam de Eddie. Não os adolescentes. Os adolescentes davam-lhe dores de cabeça. Depois de tantos anos, Eddie achava que já tinha visto todo o tipo de adolescente mandrião e maleducado. Mas as crianças eram diferentes. As crianças olhavam para Eddie — que, com o seu maxilar inferior protuberante parecia estar sempre a sorrir, como um golfinho — e confiavam nele. Aproximavam-se de Eddie como umas mãos frias se aproximam de uma lareira acolhedora. Agarravam-se às pernas dele. Brincavam com o seu chaveiro. Eddie pouco falava, dizia qualquer coisa entre dentes. Estava convencido de que gostavam dele precisamente por isso, por falar pouco. Eddie deu uma palmadinha nos dois miúdos de bonés de basebol virados ao contrário. Eles correram para a cabina e instalaram-se no banco. Eddie entregou a bengala ao funcionário da montanha-russa e, lentamente, sentou-se entre os miúdos. — Aqui vamos nós... Aqui vamos nós!... — guinchou um deles, enquanto o outro agarrava no braço de Eddie e o punha por cima dos seus ombros. Eddie baixou a barra sobre o colo e claqueclaque-claque, lá foram eles. Corria a história sobre Eddie. Quando era miúdo, criado ali mesmo, naquele cais, meteu-se numa briga de rua. Cinco rapazes de Pitkin Avenue tinham encurralado o irmão dele, Joe, e estavam a preparar-se para lhe dar uma sova. Eddie encontrava-se a um quarteirão de distância, num banco, a comer uma sanduíche. Ouviu o irmão gritar. Correu para o beco, pegou na tampa de um latão do lixo e deu tanta pancada nos rapazes, que eles foram parar ao hospital. Depois disso, Joe não falou com ele durante dois meses. Tinha vergonha. Joe era o mais velho, o primogénito, mas fora Eddie quem lutara. 11 — Podemos dar mais uma volta, Eddie? Por favor? Trinta e quatro minutos de vida. Eddie levantou a barra de protecção, deu um chupa-chupa a cada um dos miúdos, pegou na sua bengala e coxeou, até à oficina da manutenção, para se refrescar um pouco do calor de Verão. Se soubesse que a sua morte estava iminente, talvez tivesse ido para outro lugar. Em vez disso, fez o que todos fazemos. Prosseguiu com a sua rotina entediante, como se tivesse todo o tempo do mundo pela frente. Um dos empregados da oficina, um rapaz esgalgado de cara chupada, chamado Dominguez, encontrava-se junto do lavatório dos solventes, a limpar o óleo de uma roda. — Olá, Eddie — cumprimentou ele. — Olá, Dom — respondeu Eddie. A oficina cheirava a serradura. Era escura e apertada, com o tecto baixo e paredes forradas de pegas para pendurar brocas, serras e martelos. Por toda a parte, viam-se peças do esqueleto das máquinas do parque: compressores, motores, correias, lâmpadas, o cimo da cabeça de um pirata. Empilhadas contra uma parede estavam latas de café com pregos e parafusos, e contra outra, um sem-fim de tubos de óleo. Olear um trilho, dizia Eddie, não exigia mais esforço intelectual do que lavar um prato; a única diferença era que a pessoa ficava mais suja quando o fazia, e não mais limpa. E era esse o tipo de

apertar porcas. deu por si a ficar grisalho. ajustar travões. Muitas vezes desejara abandonar aquele emprego. — Apanhámos alguma coisa? — gritou Dominguez. a partir de segunda-feira. — Onde? — Ao México? Eddie soltou o ar pelo nariz. tirou um maço de notas do bolso e escolheu as de vinte. pá. Deu um puxão no fio de nylon de vinte e cinco metros. — Não há festarola? Eddie fitou-o como se o rapaz tivesse enlouquecido. vamos apanhar um mero! — Pois — murmurou Eddie. Eddie. Os seus planos nunca se concretizaram. sorriu de orelha a orelha e disse: — Eh. Ruby Pier era o lugar para onde toda a gente ia no Verão. A rapariga da banca de doces estava apoiada nos cotovelos. Um pequeno «buraco de pesca» fora aberto há anos nas tábuas do passeio da marginal e Eddie levantou a tampa de plástico. num mundo de riso mecânico e salsichas no churrasco. — Olha. que voltou para o lavatório. ou como os miúdos por vezes lhe chamavam: «o homem das voltinhas de Ruby Pier». miúdo. Grande festança.trabalho que Eddie fazia: pôr óleo. 12 Trinta minutos de vida. inspeccionar painéis eléctricos. Depois. voltou para a zona do armazém. preferiam os parques temáticos. Por instantes. a usar calças largueironas e a mergulhar num estado de resignação cansada. Tal como o seu pai antes dele. Antigamente. sabendo que nunca um peixe tão grande passaria por um buraco tão pequeno. Tinha elefantes e fogo-deartifício e maratonas de dança. — Eu e a Theresa. ele era assim e assim seria sempre. nunca fui a lado nenhum para onde não me mandassem de espingarda atrás. Com o tempo. — Ei. a fazer balões com a pastilha elástica. onde pagavam setenta e cinco dólares para entrar e ficavam com uma fotografia . Vamos ver a família toda. Estendeu-as. Aquela linha de pesca nunca tinha nada. — Já alguma vez lá foste? — perguntou Dominguez. O negócio andava fraco. Dominguez olhou para o dinheiro. Pensou por instantes. tal como a etiqueta na sua camisa. Eddie resmungou qualquer coisa entre dentes. Mas as pessoas já não procuravam os cais à beira-mar. — Diz-me que apanhámos um peixe! Eddie perguntou-se como é que o rapaz conseguia ser tão optimista. Eddie atravessou para o extremo sul da marginal. Eddie acenou com a cabeça e Dominguez fez uns passinhos de dança. — Compra uma coisa bonita para a tua mulher — disse Eddie. que descia até o mar. não te esqueças de que para a semana não estou cá. arranjar outro trabalho. um homem com areia nos sapatos. Vou para o México. 13 — Um dia — gritou Dominguez —. — O Eddie. construir uma vida diferente. Depois. Vinte e seis minutos de vida. pensou o quão estranho era envelhecer num lugar que cheirava a algodão doce. ouvi dizer que fazes anos — disse Dominguez. Observou Dominguez. Parou de dançar quando reparou no olhar de Eddie. também Eddie fazia parte da manutenção — o chefe da manutenção —. Mas veio a guerra. Ainda tinha um pedaço de isco agarrado. duas delas. Tens a certeza? Eddie enfiou o dinheiro na mão de Dominguez.

Na verdade. que tinha uma madeixa cor de laranja no cabelo. numa velha cadeira de praia de alumínio. Ninguém perguntou. quando se afastou. Eddie abanou a barreira com tanta força. Os adolescentes entreolharam-se. acenando para os jovens condutores. Nessa noite. Eddie — resmungou o irmão. O seu rosto largo de maxilares bem marcados podia ter sido atraente. — Não é seguro — repetiu Eddie. Aquele era o seu lugar habitual na marginal de Ruby Pier. devido às muitas fracturas provocadas pelo manuseamento de máquinas. — Vamos. — Vá.. Com a bengala. fitou Eddie com um sorriso escarninho e passou para a barreira do meio. Todas as vidas contêm uma imagem fotográfica de verdadeiro amor. Demonstrara coragem. os seus cabelos negros caindo sobre um dos olhos. por causa dos pais. Ela disse que tinha de ir embora. sobre o peito. Eddie pouco falou. Os adolescentes lançaram-lhe um olhar de desafio. ela a acenar-lhe por cima do ombro. Dançaram ao som da grande banda. com uma boina cor-de-rosa nos cabelos. Ela envergava um vestido amarelo de algodão. Long Legs Delaney e a sua Everglades Orchestra. Eddie sentou-se pela última vez. Ele comprou-lhe uma limonada. Eddie passou a coxear pelos carrinhos de choque e fixou os olhos num grupo de adolescentes pendurados na barreira de protecção. e sentia a mesma explosão arterial de amor. pensou ele para os seus botões. O nariz fora partido várias vezes naquilo a que ele chamava «brigas de saloon». foi numa noite quente de Setembro. que antes disso fora a Concha da Banda do Estrelato.. grande parte do corpo de Eddie sugeria que ele era um sobrevivente. Os seus dedos formavam estranhos ângulos. zzzap zzzap. virou-se para trás e disse-lhe adeus. Foi assim que Eddie ficou ferido. 15 — Vê mas é se dormes. Eddie tinha um ar simplesmente cansado. Lindo. As suas pernas estavam vermelhas do sol e o joelho esquerdo ainda tinha cicatrizes. Um miúdo. Os seus braços curtos e musculosos dobraram-se. Mas. como as barbatanas de uma foca. Para o resto da sua vida. batendo na barreira com a bengala. como o de um pugilista antes de ter levado demasiados socos. depois de uma trovoada. Só me faltava isto. que nos anos sessenta foram os Baloiços Chupa-Chupa. até recebera uma medalha. Quando era soldado. que isso não é seguro. estivera na frente de combate. 14 Com dezanove minutos de vida na Terra. que nos anos oitenta fora o Trovão. Ninguém sabia o que acontecera ao outro tipo. sempre que pensava em Marguerite. — Saiam daí — ordenou Eddie. que nos anos setenta fora a Enguia de Aço. Agora. Eddie voltou para casa e acordou o irmão mais velho. — FORA DAQUI! Os adolescentes fugiram a correr. Corria outra história sobre Eddie. Os postes dos carrinhos zumbiam de electricidade. . que quase a partiu ao meio. atrás da atracção do Coelho Saltador. que nos anos cinquenta fora o Ri no Escuro. — Atropelem-m. envolveu-se numa escaramuça com um dos seus próprios homens. Era essa a imagem. Disse-lhe que tinha conhecido a rapariga com quem ia casar. Estava tão nervoso. Para Eddie. em que a marginal estava ensopada de água. mais para o fim do seu tempo de serviço. Eddie revia esse instante. um dia. Mas. que parecia que tinha a língua colada aos dentes. malta. atropelem-me! — gritou.tirada ao lado de uma personagem peluda em tamanho gigante. Que foi onde Eddie conheceu Marguerite.

E esticaram as mãos para o alto. de aproximadamente oito anos. Passara muitas tardes ali. Eddie limpou a testa com um lenço. «Fizeste-me amar-te. a tapar-lhe o sol. Nicky levou a mão ao bolso do casaco.. as histórias encontram-se ao virar da esquina e por vezes encobrem-se umas às outras completamente. voltaram para o parque de estacionamento..» Uuussshhh. Catorze minutos até à sua morte. Portanto. Era como uma ferida por baixo de uma velha ligadura. Dezasseis minutos de vida. fizeste-me amar-te e eu não queria fazê-lo. O que seria a tal doença chamada zona? Uuussshhh. Eddie ainda era gracioso.Uuussshhh. Eddie tossiu uma coisa que não quis ver. como as pedras no fundo de um rio... Amy ou Annie. Rebentou uma onda na praia..» liiiiiiiii! «. aquela que a Judy Garland cantava no filme. sempre o soubeste e sempre. a Queda Livre.. tirou a chave do carro e pô-la dentro do bolso do casaco. embora Eddie nunca tivesse visto nem mãe. Tinha caracóis louros e usava sandálias e calções de ganga e uma T-shirt verde-lima com um desenho animado estampado na frente.» Splaaassshhh.» liiisssshhhh. Fechou os olhos com força. meses antes — numa noite enevoada. Uuussshhh. Desde a guerra que não sentia firmeza nas pernas.. diamantes de sol dançavam nas águas e Eddie observou o seu movimento delicado.. Nenhuma história vem só. «..» Eddie sentiu as mãos de Marguerite nos seus ombros. Uuussshhh... quando já era noite. Agora já não tanto. a Montanha-Russa Fantasma. Ao largo. depois atou o casaco à cintura. amar-te. «. bebendo cerveja dentro de sacos de papel pardo. Nas horas que se seguiram.. pensou ele que se chamava.. Uma menina. ... O jovem. para tornar a recordação mais vívida. Praguejou. Cuspiu-a para longe. em que um jovem chegou a Ruby Pier com três amigos. a Queda de Água. Doze minutos de vida. no oceano. Amy. exaustos e a rir. «. O fim da história de Eddie foi tocado por outra história aparentemente inocente. aí. — Faz favor. nem pai. Por vezes.. — Mãos ao alto! — gritou um deles. Fechou os olhos e permitiu-se recordar a canção que os aproximara. nesse Verão. acabara de aprender a conduzir e ainda não se sentia confortável a andar de chaveiro na mão... com Marguerite. Perdera a chave. e ele habituara-se à ligadura. Mais tarde. Costumava pensar muito em Marguerite. que se chamava Nicky. soube. estava diante dele. Procurou. 16 Mas na Concha da Banda do Estrelato. Misturava-se agora na sua cabeça com a cacofonia das ondas e das crianças aos gritos. ele e os amigos andaram em todas as diversões velozes: o Falcão Voador...

— Fazzzz favor — repetiu ela. — Eddie Man’tenção? Eddie suspirou. — Eddie só — disse ele. — Eddie? — Sim? — Podes fazer-me... Ela uniu as mãos, como que numa prece. — Vamos, menina, despacha-te, que eu não tenho o dia todo. — Podes fazer-me um animal? Podes? 17 Eddie olhou para cima, como se tivesse de pensar no assunto. Depois, levou a mão ao bolso da camisa e tirou três limpadores de cachimbo amarelos, com que andava sempre para essas ocasiões. — Siiim! — exclamou a menina, batendo as palmas. Eddie começou a retorcer os arames. — Onde estão os teus pais? — A andar nas diversões. — Sem ti? A garota encolheu os ombros. — A minha mãe está com o namorado. Eddie levantou os olhos. Ah... Dobrou os arames em várias argolas pequeninas, depois torceu as argolas umas nas outras. As mãos tremiam-lhe agora, por isso demorava mais tempo do que era hábito, mas daí a pouco os limpadores de cachimbo pareciam uma cabeça, orelhas, corpo e cauda. — Um coelho? — perguntou a menina. Eddie piscou o olho. — Obrigaaaada! Ela deu meia-volta, perdida naquele mundo de distracção onde as crianças nem sequer sabem para que lado vão os seus pés. Eddie tornou a limpar a testa e depois fechou os olhos, afundado na cadeira de praia, e tentou retomar a velha canção na sua cabeça. Uma gaivota guinchou ao voar por cima dele. Como é que as pessoas escolhem as suas derradeiras palavras? Terão noção do seu peso? Estarão destinadas a ser sábias? Pelo seu 83° aniversário, já Eddie perdera praticamente todas as pessoas de quem gostava. Algumas tinham morrido jovens e outras haviam tido a oportunidade de envelhecer, antes de uma doença ou um acidente as levar. Nos seus funerais, Eddie ouvia as pessoas de luto recordarem as suas últimas conversas. «Era como se ele soubesse que ia morrer...», diziam algumas. Eddie nunca acreditara nisso. Na sua opinião, quando chegava a hora, chegava e ponto final. Tanto se podia dizer uma coisa muito inteligente antes de partir, como uma coisa estúpida. 18 Para que fique registado, as derradeiras palavras de Eddie foram: «Afastem-se!» Aqui ficam os sons dos últimos minutos de vida de Eddie. Ondas a rebentar na areia. A batida distante de música rock. O ronronar de um pequeno bimotor, arrastando um cartaz pendurado na cauda. E isto. — OH, MEU DEUS! OLHEM! Eddie sentiu os olhos moverem-se rapidamente por baixo das pálpebras. Ao longo dos anos, aprendera a reconhecer todos os sons de Ruby Pier e conseguia dormir embalado por eles. — OH, MEU DEUS! OLHEM!

Eddie endireitou-se muito depressa. Uma mulher de braços gordos às covinhas, com um saco das compras na mão, apontava e gritava. A sua volta, juntara-se uma pequena multidão, de olhos postos nos céus. Eddie viu-o de imediato. No cimo da Queda Livre, a nova torre-atracção, um dos carrinhos estava todo inclinado, como que prestes a despejar a sua carga. Quatro passageiros, dois homens e duas mulheres, presos apenas pela barra de protecção, tentavam agarrar-se freneticamente a qualquer coisa. — OH, MEU DEUS! — gritava a mulher gorda. — COITADAS DAS PESSOAS! VÃO CAIR! Uma voz berrou roucamente no rádio preso ao cinto de Eddie. «Eddie! Eddie!» Eddie premiu o botão. — Estou a ver! Chamem a segurança! Vieram pessoas a correr da praia, apontando como se tivessem ensaiado para aquele momento. Olhem! Lá em cima, no céu! Uma diversão que vai acabar em tragédia! Eddie pegou na bengala e caminhou o mais depressa que pôde para a vedação protectora, na base da plataforma, o seu molho de chaves a tilintar contra a anca. O coração parecia querer saltar-lhe do peito. A Queda Livre devia deixar cair dois carrinhos de cada vez, numa descida de dar a volta ao estômago, e só se detinha no último instante, 19 com um jacto de ar hidráulico. Como é que um carrinho se soltara daquela maneira? Estava inclinado a uns metros de distância da plataforma superior, como se tivesse começado a descer e, de repente, tivesse mudado de ideias. Eddie chegou à cancela e teve de parar para recuperar o fôlego. Dominguez apareceu a correr e quase esbarrou nele. — Ouve! — disse Eddie, agarrando Dominguez pelos ombros. Apertou-o com tanta força, que Dominguez fez um esgar de dor. — Ouve! Quem é que está lá em cima? — O Willie. — Está bem. Ele deve ter activado a paragem de emergência. E por isso que o carrinho está pendurado. Sobe a escada e diz ao Willie para soltar manualmente a barra de segurança, para que aquelas pessoas possam sair dali. Percebeste? Como fica na parte de trás do carrinho, vais ter de segurá-lo enquanto ele se debruça para o fazer. Percebeste? Depois... depois, vocês os dois... vocês os dois, percebeste?... vocês os dois tiram as pessoas de lá! Um segura-se ao outro! Percebeste?... Percebeste? Dominguez apressou-se a fazer que sim com a cabeça. — Depois, manda o raio do carrinho para baixo, para ver se descobrimos o que aconteceu! A cabeça de Eddie latejava de dor. Embora o seu parque nunca tivesse sido palco de grandes acidentes, conhecia as histórias de horror da sua profissão. Uma vez, em Brighton, uma porca soltara-se numa gôndola e duas pessoas caíram para a morte. Outra vez, no Wonderland Park, um homem tentara atravessar a pé o trilho de uma montanha-russa; caiu e ficou preso pelas axilas. Ficou entalado, aos gritos, e os carrinhos a virem acelerados na direcção dele... bom, é escusado contar o resto. Eddie afastou esse episódio da mente. Havia muita gente à sua volta, agora, com as mãos a taparem as bocas, a verem Dominguez trepar a escada. Eddie tentou lembrar-se das entranhas da Queda Livre. Motor. Cilindros. Hidráulica. Selos. Tampões. Cabos. Como é que um carrinho se soltara? Seguiu o trajecto visualmente, das quatro pessoas assustadas no cimo da torre, passando pela conduta, até à base. Motor. Cilindros. Hidráulica. Tampões. Cabos... 20 Dominguez chegou à plataforma superior. Fez o que Eddie mandou, segurando Willie, enquanto

Willie se debruçava na direcção da traseira do carrinho, para libertar a barra de segurança. Uma das mulheres lançou-se para Willie, quase o derrubando da plataforma. A multidão susteve a respiração. — Espera... — disse Eddie para si mesmo. Willie tentou de novo. Desta vez, conseguiu libertar o mecanismo de segurança. — Cabo... — murmurou Eddie. A barra levantou e a multidão fez «Ahhhhh». Os passageiros foram rapidamente puxador para a plataforma. — O cabo está a desenrolar-se... E Eddie tinha razão. No interior da base da Queda Livre, escondido da vista, o cabo que puxava o carrinho n.° 2 tinha, nos últimos meses, estado a roçar contra uma roldana presa. Como estava bloqueada, a roldana começara gradualmente a raspar os fios de aço do cabo — era como tirar os fios a uma espiga de milho —, até que vários ficaram à beira de partir. Ninguém reparou. Como poderiam tê-lo feito? Só uma pessoa que tivesse rastejado para dentro do mecanismo teria visto a causa improvável do problema. A roldana estava presa por um pequeno objecto entalado, que devia ter caído pela abertura exactamente no momento certo. A chave de um carro. — Não soltes o CARRINHO! — gritou Eddie, a esbracejar. — EI! EEIII! É O CABO! NÃO SOLTES O CARRINHO! O CABO VAI PARTIR! A multidão afogava os seus gritos, a aclamar desenfreadamente Willie e Dominguez, enquanto eles recolhiam o último passageiro. Os quatro estavam sãos e salvos. Abraçaram-se no cimo da plataforma. — DOM! WILLIE! — gritou Eddie. Alguém embateu contra a sua cintura, fazendo cair o seu walkie-talkie. Eddie baixou-se para o apanhar. Willie dirigiu-se para a cabina de controlo. Levou o dedo ao botão verde. Eddie olhou para cima. — NÃO, NÃO, NÃO, NÃO FAÇAS ISSO! Eddie virou-se para a multidão. 21 — AFASTEM-SE! Algo na voz de Eddie deve ter chamado a atenção das pessoas; pararam de aclamar e começaram a afastar-se. Abriu-se uma clareira na base da Queda Livre. E Eddie viu o último rosto da sua vida. Ela estava estendida na base de metal da diversão, como se alguém a tivesse derrubado, com o nariz sujo, os olhos cheios de lágrimas, a menina com o animal feito de arames para limpar cachimbos. Amy? Annie? — Ma... Mamã... Mamã... — soluçava ela, quase ritmicamente, o seu corpo prisioneiro daquela paralisia típica das crianças quando choram. — Ma... Mamã... Ma... Mamã... Os olhos de Eddie saltaram dela para os carrinhos. Ainda iria a tempo? Ela e os carrinhos... Vuuum. Demasiado tarde. Os carrinhos estavam a cair — Meu Deus, eh soltou o freio! — e, para Eddie, tudo se dissolveu em movimento subaquático. Largou a bengala e puxou pela sua perna doente, sentindo uma descarga de dor que quase o deitou ao chão. Um passo grande. Mais um passo. Dentro da conduta da Queda Livre, o último fio de aço partiu-se e roçou contra o cabo hidráulico. O carrinho n.° 2 estava agora em queda livre, sem nada para o deter, um pedregulho a cair de um penhasco. Nesses derradeiros instantes, Eddie pareceu escutar o mundo inteiro: gritos distantes, ondas, música, uma lufada de vento, um som grave, forte e desagradável que ele percebeu ser a sua própria

voz a explodir do seu peito. A menina levantou os braços. Eddie precipitou-se para ela. A sua perna doente cedeu. Ele quase voou, quase tropeçou em direcção a ela, aterrando na plataforma de metal, que rasgou a sua camisa e lhe fez um corte na pele, mesmo abaixo da etiqueta que dizia Eddie e Manutenção. Sentiu duas mãos nas suas, duas mãos pequeninas. Um impacte atordoante. Um clarão cego de luz. E depois, nada. 22 Hoje é o aniversário de Eddie Estamos nos anos vinte, num hospital cheio de gente, num dos sectores mais pobres da cidade. O pai de Eddie fuma na sala de espera, onde fumam também os outros pais. A enfermeira entra com uma tabela na mão. Chama o nome dele. Pronuncia-o mal. Os outros homens expelem o fumo dos cigarros. Então? Ele levanta o braço. — Parabéns — diz a enfermeira. Ele segue-a corredor abaixo, até à ala dos recém-nascidos. Os sapatos dele fazem barulho ao bater no chão. — Espere aqui — diz ela. Pelo vidro, ele vê-a consultar os números nos berços de madeira. Passa por um, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele. Ela pára. Ali. Por baixo da manta. Uma cabecinha coberta por um barrete azul. Ela volta a consultar a tabela, depois aponta. O pai tem a respiração pesada, acena com a cabeça. Por um instante, o seu rosto parece desmoronar, como uma ponte a ruir sobre um rio. Depois, som. É o dele. 23 A viagem Eddie não viu absolutamente nada no seu derradeiro momento na Terra. Não viu o cais, nem a multidão, nem o carrinho estilhaçado de fibra de vidro. Frequentemente, nas histórias sobre a vida depois da morte, a alma sai do corpo no instante da despedida e paira sobre os veículos da polícia, no caso de um acidente na auto-estrada, ou agarra-se como uma aranha ao tecto de um quarto de hospital. Estas são histórias de pessoas a quem é dada uma segunda oportunidade — de algum modo, por algum motivo — de retomarem o seu lugar no mundo. Eddie, aparentemente, não ia ter essa segunda oportunidade. Onde...? Onde...? Onde...? O Céu era de um tom enevoado de abóbora, depois turquesa, depois um lima garrido. Eddie flutuava e os seus braços ainda estavam esticados. Onde...? O carrinho estava a cair do cimo da torre. Disso ele lembrava-se. A menina — Amy? Annie? — chorava. Disso ele lembrava-se. Lembrava-se de se precipitar para a frente. Lembrava-se de cair

incapaz de sentir outra coisa que não a calma. depois viram-no de cabeça para baixo. Joe. De repente. de amarelo-toranja para um verde-floresta. Sentia as mãozinhas dela nas suas. Que se tornou cor de melão. O seu irmão mais velho. — Bang. as mãos enormes de Mickey enfiam-se por baixo dos braços de Eddie e levantam-no do chão. alguns homens das pescas. pendurado pelos pés. Depois safira. bang — grita Eddie. Não se sentia em agonia. Sentia apenas uma calma profunda. no entanto. depois um rosa que Eddie associou de repente a — imagine-se — algodão doce.. Não se sentia triste. Os funcionários do cais passam atarefados. Começou a cair. zelando pelos equipamentos do parque. bang!» — Vem cá. Agua. os domadores de animais. usa suspensórios e está sempre a cantar canções irlandesas. Onde. Há um bolo de baunilha com velas de cera azul. Deixa-me dar-te as pancadinhas dos aniversariantes — anuncia ele. Apercebeu-se de um movimento de torvelinho. faz flexões à frente de um grupo de senhoras de idade. É gordo. Levanta-se e corre de um grupo para outro. precipitando-se em direcção à sua superfície. os artistas de rua. debruçadas sobre a extensa praia branca. estava debaixo de água. A seguir.. Por baixo dele. toda a dor que suportara haviam desaparecido como um último fôlego. está a minha preocupação? Onde está a minha dor? Era isso que faltava. . A uma velocidade inimaginável e. tudo ficou imerso em silêncio. Mesas de piquenique alinham-se ao longo do passeio da marginal. que se fingem divertidas e aplaudem educadamente. Flutuava por cima de um vasto mar amarelo. em Ruby Pier. Viu a areia de uma costa dourada. a xarope para a tosse. Mickey Shea trabalha com o pai de Eddie. sacando da arma de brincar e fazendo: «Bang.? O céu à sua volta mudou novamente. um chapéu vermelho de cowboy e um coldre. Um oceano. E depois? 24 Salvei-a? Eddie só conseguia recordá-lo à distância..sobre a plataforma. rapaz — chama Mickey Shea.. está embrenhado num jogo de cartas. como uma criança aninhada nos braços da mãe. O pai de Eddie. É uma tarde de domingo. não sentia sequer uma brisa no rosto. Salvei-a? Ela sobreviveu? Onde.. — Como fazemos na Irlanda. O chapéu de Eddie cai. as cores voltaram a alterar-se. como habitualmente. Eddie brinca aos seus pés. Há um jarro de sumo de laranja. Depois. Mais estranho ainda era o facto de não sentir qualquer emoção associada a essa lembrança. os pregoeiros. Eddie enverga a sua prenda de anos. — Vem cá. Eddie acha que ele tem um cheiro esquisito. etérea.. nem medo. Toda a mágoa que ele sofrera na vida. Onde está a minha preocupação? Onde está a minha dor? 25 Hoje é o aniversário de Eddie Tem cinco anos. . sentado num banco. A sua consciência parecia esfumada. como se tivesse acontecido há muitos anos.

Mickey! — grita a mãe de Eddie. as suas faces cheias e macias. com um banco almofadado e uma porta com dobradiças de aço. desequilibra-se e cai. ao fundo. A sua cabeça está a ficar pesada. rapaz? — pergunta Mickey. uma pancadinha de aniversário por cada ano de vida.. onde foi assaltado por três rápidos pensamentos. — Quatro!.. Ela põe-lhe o chapéu na cabeça. Todos se riem. Três! De pernas para o ar. e ele sentirá que o mundo está novamente de cabeça para cima. Levanta-se. — Uma! 26 Mickey torna a puxar Eddie para cima. Toda a gente bate as palmas.. feita de madeira escura e polida. de cabedal de sapatos castanho a um escarlate profundo. guardava-a sempre junto da cama. — Agora. Fez força e saltou facilmente da beira da chávena.. Em primeiro lugar. Em segundo. Em terceiro. ou a ver os pescadores recolherem as redes ao cair da noite.— Cuidado. — Eu vi — responde a mãe. O pai de Eddie levanta os olhos. O céu continuava a mudar de cor. conseguia ver o paredão lodoso. Eddie não sabe ao certo quem é quem. Mais tarde. Mas era um Ruby Pier diferente. Mas agora não encontrava a bengala. os peixes pulando como reluzentes moedas molhadas. O seu instinto inicial foi pegar na bengala. — Ele virou-me de cabeça para baixo — diz ele. Isto deixava Eddie embaraçado. aterrando desengonçadamente no chão. até a cabeça do menino roçar no chão. no mar. Eddie pega no chapéu. Mickey baixa Eddie suavemente. rindo em coro. as ondas do seu cabelo acobreado. ainda se encontrava em Ruby Pier. Ela dar-lhe-á a mão e dir-lhe-á que Deus está orgulhoso dele. 27 A chegada Eddie acordou dentro de uma chávena de chá. porque havia manhãs em que já não tinha forças para se levantar sem o apoio dela. Os outros juntam-se a ele. Havia tendas de lona e áreas relvadas vazias e tão poucas obstruções que. — Ho. Gritam: — Duas!. ela há-de passear com ele ao longo do cais. sentia-se óptimo. Eddie dá meia volta e foge a correr. Nos últimos anos. Surpreendentemente. avança tropegamente para Mickey Shea e dá-lhe um murro no braço. — gritam. por se ter portado tão bem no dia do seu aniversário. ho. meu querido aniversariante? — Ela está a uns meros centímetros do rosto dele. Era uma antiga máquina do parque de diversões: uma enorme chávena de chá. talvez o leve a dar uma volta no elefante. — Estás bem. sorri e retoma o seu jogo de cartas. apanhei-te!— diz Mickey. As cores das diversões eram vermelhos ardentes e brancos cremosos — nada de azuis-esverdeados nem 28 . portanto suspirou e tentou levantar-se. A perna não latejava. não lhe doíam as costas. pois era o tipo de homem que costumava cumprimentar os outros com uma palmada nos ombros. — Cinco! Eddie é virado de cabeça para cima e colocado no chão. Ele vê o seu batom vermelho-escuro. Os braços e pernas de Eddie pendiam dos bordos da chávena. só tem tempo de dar três passos antes de a mãe o apanhar e abraçar. estava sozinho. — Ho-ho! Para que foi isso.

por mais velho que seja. fascinado com aquela engrenagem nova. Aquele era o Ruby Pier da sua infância. passou por uma banca de venda de anzóis e iscos para os pescadores (cinco cêntimos) e uma banca de aluguer de fatos-de-banho para nadadores (três cêntimos). que conseguia tocar nos tornozelos e levantar a perna à altura da barriga. Passou por uma diversão chamada Ziguezague. mas a sua voz não passava de ar áspero. E. de boné. Eddie parou de correr. com cordas de secar roupa penduradas nas janelas. Ouviu qualquer coisa. com os seus cavalos de madeira esculpida. o parque de há setenta e cinco anos. estava igual ao Eddie que se levantara nessa manhã: um homem velho. Ali. saltava. no verdadeiro sentido da palavra. de cabelos brancos. Correu ao longo da marginal. só que novinho em folha. mas agora estava a correr. Há apenas uma hora. O cartaz era feito de contraplacado. pensou ele. por detrás dela. de repente. baixo e entroncado como um barril. onde os adivinhos do peso. Uma voz metálica. como o miúdo que corria nos seus tempos de juventude. um homem de borracha a esticar-se de uma ponta à outra. ficava o Loop-a-Loop — que fora desmantelado há décadas — e acolá. na esperança de que a corrida se transforme em voo. Eddie tentou gritar. «Então e esta criatura. mas nada lhe saiu da boca. esquecera o que era andar sem sentir uma pontada ou sentar-se sem precisar de arranjar uma posição confortável para as costas. 29 há mais de sessenta anos. minhas senhoras e meus senhores? Já alguma vez viram um ser tão horrendo?. apinhados de gente. Ha-ha! Correr! Eddie não corria. a seguir acelerando a trote. de tantos em tantos passos. Ali ao fundo. Encostou o queixo ao peito e esticou os braços como um planador e.. Por fora. cada vez mais depressa. acabado de lavar. Nos últimos dez anos. ficava a roda-gigante original — com a sua tinta branca imaculada — e. poderia achá-lo ridículo. Passou pelo Carrossel Parisiense. Tocou nos braços e nas pernas. Depois. calções e casaco castanho da manutenção. Mas era ágil. a fingir que era um avião. aquele empregado da manutenção.. Saltou. Caminhou. correu. Se alguém estivesse a ver. Nenhuma dor. que foram encerradas nos anos cinquenta. com espirais e minaretes e cúpulas em forma de cebola. desde a guerra. Explorou o seu corpo como uma criança. Correu ao longo da marginal de Ruby Pier. Correu pelo centro da antiga rua principal. tudo novinho e reluzente. sentia-se incrivelmente bem. as cartomantes e as bailarinas ciganas trabalhavam outrora. começando com uns quantos passos ousados. Tão ágil. A chávena em que acordara fazia parte de uma diversão muito antiga. depressa. 10 cêntimos! Dê uma volta no Chicote — A sensação do ano! Eddie pestanejou com força. completamente sozinho. Mas qualquer homem tem um menino que corre dentro de si. Quis dizer "Ei!".» . os balneários e as piscinas de água salgada.castanhos-avermelhados — e cada atracção tinha a sua própria bilheteira de madeira. as ruas do seu antigo bairro e os telhados dos edifícios de tijolos. À parte a sua falta de voz. como as crianças fazem. chamada Chávena Voadora. erguendo-se para o céu. andara a tirar ferrugem das peças armazenadas na sua oficina. tal como todos os outros letreiros baixos. pendurados nas fachadas das lojas que se alinhavam ao longo da marginal: Charutos El Tiempo! Isto é que são charutos! Guisado. espelhos e um órgão Wurlitzer. à sombra de edifícios magníficos de estilo mourisco. como se proviesse de um megafone. descrevendo um círculo.

Eddie encontrava-se junto de uma bilheteira vazia. Havia homens que engoliam espadas.. Um pregoeiro zombava da aberração e foi a voz de um pregoeiro que Eddie ouviu agora. — Estava à tua espera... à frente de um grande teatro.» Vinha do outro lado de um palco.. A barriga transbordava-lhe do cinto.» Eddie afastou a cortina. Há muito que Eddie o teria esquecido. sozinho no palco. Edward — disse o homem. «Só um terrível azar do destino poderia ter deixado um homem neste estado lamentável! Dos recantos mais longínquos do mundo. 31 Os lábios eram finos e o rosto comprido e chupado. não fosse por uma característica peculiar. erguendo-se lentamente da sua cadeira.. sentado numa cadeira. incrédulo. cuja pele parecia borracha de tanto ter sido esticada e untada com óleos. — disse o Homem Azul. A atracção de Ruby Pier! Meu Deus! São gordos! São magricelas! Veja o Homem Selvagem! A atracção do parque. rindo e apontando. na época em que a televisão se popularizou e as pessoas deixaram de precisar de espectáculos de feira para espicaçar a sua imaginação. Eram obrigados a sentar-se em cabinas ou em estrados. E Eddie deu um passo atrás. que pesava para cima de duzentos e cinquenta quilos e precisava que dois homens a empurrassem para conseguir subir as escadas. «Somente aqui. Tinha o cabelo cortado muito curto. nu da cintura para cima. mulheres de barba e um par de irmãos indianos. O cartaz pendurado no topo dizia: Os cidadãos mais estranhos do mundo. presas pela coluna dorsal e que tocavam instrumentos musicais. — Olá.. «Esta trágica alma foi alvo de uma perversão da natureza. 32 A primeira pessoa que Eddie encontra no Céu — Não tenhas medo. A voz tornou-se mais forte. nascido com um defeito ultrapeculiar. nos Cidadãos Mais Estranhos do Mundo. Uma era a Jane Gira.» A voz do pregoeiro desapareceu.. O teatro sensacionalista. enquanto as pessoas passavam por eles. Eddie tinha pena dos figurantes da feira....» Eddie espreitou para a entrada.. Ali.. podem ver tão de perto esta. «Regozijem-se com a criatura mais invul. — Não . Eddie lembrava-se de que o tinham encerrado há pelo menos cinquenta anos. estava um homem de meia-idade com os ombros estreitos e curvados. Quando era miúdo. por vezes atrás de barras. de tal modo que pendia aos bocados dos seus membros. Já ali vira gente muito estranha. A sua pele era azul. trouxemos esta criatura para as senhoras e os senhores puderem examinar. Havia duas gémeas siamesas. A feira das aberrações.» Eddie entrou na penumbra da sala. 30 «Olhem bem para este selvagem.

NÃO! O Homem Azul parecia divertido. O cais estava vazio.. Onde estou? O Homem Azul franziu os lábios e. O céu estava cor de limão. todas as atracções do velho parque de Ruby Pier ganharam vida: a roda-gigante girou. Como é que eu morri? — Num acidente — disse o Homem Azul. Mas o Céu encontra-se nos lugares mais inesperados. como se tivesse ouvido a pergunta. A sua pele era de um grotesco tom de amora acinzentada. Começamos pelos sentimentos que tínhamos em crianças.tenhas medo. A praia estava vazia.. mas Eddie estava estupefacto a olhar para ele. Os seus dedos eram engelhados. Um milhar de anos. pensou Eddie. Aqui?. Aqui. as pessoas têm a mania de depreciar a terra onde nasceram. Mal conhecera aquele homem. — O Chicote. O Homem Azul levantou o queixo. Estaria o planeta inteiro vazio? — Diz-me uma coisa — pediu o Homem Azul. não parece? Eddie assentiu com a cabeça. que se encontrava ao fundo. — É porque eras miúdo quando me conheceste. O Homem Azul sorriu. onde os tolos perdiam todos os seus tostões. feita de madeira. a montanha-russa subiu estrepitosamente e os cavalinhos do Carrossel Parisiense cavalgaram nos seus postes metálicos. E para ti. antes de existirem rodas de subfricção.. — Bom. Uma hora. . ainda é «a montanha-russa mais rápida à face da terra»? 33 Eddie olhou para a velha máquina ruidosa. em seguida. na manhã seguinte. Apontou para uma montanha-russa com duas lombas. pensou Eddie. — Foi o que eu pensei. em tom pensativo. Tocou no ombro de Eddie e este sentiu uma onda de calor. E lamento. Fora construída nos anos vinte. Começamos o quê?. O Chicote. como nunca sentira na vida. — Onde é que haverias de estar? — perguntou o Homem Azul. que fora demolida há anos. Os seus pensamentos jorraram numa catadupa de frases. dizemos: «Nem imaginam com quem eu sonhei esta noite!» — O teu corpo parece o de uma criança. Ele levantou-se e saiu da sala. ao som da música animada do órgão Wurlitzer. O mar estendia-se diante deles. — O Homem Azul fez um sinal de assentimento. — Porquê? Porque foi aqui que tu cresceste? Eddie mexeu a boca como quem diz Sim. para mim.. o que significava que os carrinhos não podiam virar muito depressa — a menos que a ideia fosse vê-los sair disparados dos trilhos. os carrinhos de choque embateram uns nos outros. Este. A sua voz era tranquilizadora. Abanou a cabeça em sinal de negação. nada muda. muitas vezes. E 34 o próprio Céu tem muitos degraus. — Não? Não pode ser o Céu? — disse ele. — No Céu. o primeiro. — Onde estás? — Virou-se e levantou os braços. é o segundo. mas também não podemos espreitar por entre as nuvens e ver o que se passa lá em baixo. Há quanto tempo estou morto? — Há um minuto. Não! Eddie sacudiu a cabeça violentamente. Seria possível estar a vê-lo agora? Era uma daquelas caras que nos aparece em sonhos e. passando pelas lojas de charutos e bancas de salsichas e bares de apostas. — Ah. Eddie seguiu-o. — Ah — fez o Homem Azul. De repente. repetiu a pergunta. O Homem Azul conduziu Eddie pelo meio do parque.

para te contar a minha história. Eddie arrancou um som do peito. — Qual foi. a causa. Quando morri. depois. da tua morte? O Homem Azul pareceu ligeiramente surpreendido. tentando recuperar a voz. Lança a bola. pelo menos. Passara a maior parte da sua vida adulta a tentar afastar-se de Ruby Pier. um lugar onde podem flutuar nas nuvens e espreguiçar-se nas montanhas e rios. — Foste tu — disse ele. A sua voz pareceu quebrar uma casca. Era um parque de diversões. — Cada uma delas fez parte da tua vida. — Qual foi.. — Esta é a maior bênção que Deus nos pode oferecer: dar-nos a compreender o que aconteceu na nossa vida.. — A tua voz há-de voltar. — Atira-a — diz o seu irmão. Aperta-a com cada uma das mãos. a causa. com todas as suas forças. 36 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem sete anos e a sua prenda é uma bola nova de basebol.. Todos passamos pelo mesmo. — Há cinco pessoas que vais conhecer no Céu — disse subitamente o Homem Azul. Que ridículo. se molhavam e trocavam dólares por bonecos. ouviu um pequeno grunhido sair-lhe do peito. talvez o grande jogador Walter Johnson. Eddie fez um ar perplexo. nada mais. pensou Eddie. que se tornará 35 parte da tua. O Homem Azul esperou pacientemente. Tentou novamente falar e. — A bola é minha! — grita Eddie. Sorriu. — Qual foi. sentindo uma onda de poder subir-lhe pelos braços. É a paz de espírito que todos desejamos. podes não ter percebido qual era esse motivo e é para isso que serve o Céu. — Eu sou a tua primeira pessoa. a minha vida foi iluminada por outras cinco pessoas e. O Homem Azul virou-se. Algumas já conhecidas.. Para compreendermos a nossa vida na Terra. por um motivo específico.. Mas uma paisagem magnífica sem conforto espiritual não tem sentido.O Céu?. Joe! . um lugar onde as pessoas gritavam. Eddie tossiu. consegues ouvir. Sorriu para Eddie. Mas todas elas se cruzaram contigo antes de morrerem. Eddie — diz Joe. Na altura. Estava farto de não conseguir falar. — resmungou finalmente.. passam pela cabina de jogos. — Anda. — Vai-te lixar. Imagina que é um dos seus heróis da colecção de cromos dos amendoins Crackerjack. como um pintainho acabado de nascer. E alteraram a tua vida para sempre. — As pessoas imaginam o Céu como um jardim do paraíso. A ideia de aquele ser um local de descanso abençoado estava para lá da sua imaginação. — Partilha a tua prenda comigo. onde quem derrubar mais de três garrafas verdes ganha um coco com uma palhinha. Explicar-nos a nossa existência. Terás outras pessoas à tua espera. O irmão encolhe os cotovelos e baixa-se. desta vez. outras talvez não.... Correm pela alameda principal da feira. Joe. Eddie pára e imagina-se num estádio.. — Mas. vim para aqui esperar por ti. — Atiraste com demasiada força! — grita Joe. Edward. Ninguém consegue falar assim que aqui chega.

Um dia. Viemos para a América em 1894. ó espertinhos? — pergunta o homem peludo. Quando fiz dez anos. numa voz rouca —. o meu pai dizia: «Baixa os olhos. com um sorriso divertido. — Isto é meu — murmura. Sorriu. Levanta-se de um pulo e foge a correr. ele tirou-me da escola e eu fui trabalhar com ele. a abanar os braços. e suponho que o fiz. senti uma coisa molhada na perna. levava os lençóis à socapa para a pia e lavava-os. Corre atrás dela. eu não tive nada a ver com a sua morte. Caem ambos ao chão. . Mas. de acordo com os parâmetros do mundo dele. Eu era demasiado novo para estar ali. O meu pai foi obrigado a arranjar emprego numa fábrica de roupa. Depois. o meu pai a implorar-lhe como se fosse um mendigo de rua. não dês nas vistas para ele não reparar em ti». A minha mãe debruçou-me sobre o varão do navio e essa tornou-se a minha recordação mais antiga de infância: a minha mãe a balouçar-me ao sabor da brisa de um novo mundo. também nós não tínhamos dinheiro. Eddie observou o rosto encovado do Homem Azul. De manhã. caindo depois numa pequena clareira por detrás das barraquinhas. a coser botões em casacos. Ainda hoje me lembro desse instante. »Depois disso. Aberrações da feira de aberrações. que se esparramaram no chão. »À semelhança da maior parte dos imigrantes. um dia. Eddie também se levanta. As crianças ficam petrificadas. O capataz gritou que eu não servia para nada. como se quisesse quebrar os laços de vida que nos ligavam. por natureza. O pior de tudo é que. Eddie permaneceu de pé. filho de um alfaiate. Eddie e Joe levantam os olhos. Sentia que eu o tinha envergonhado. Fita o homem sem camisa e aproxima-se lentamente da bola. numa postura defensiva. — O que é que vocês estão afazer aqui. estamos entendidos? Nem sequer o conheço! O Homem Azul sentou-se num banco. criado numa pequena aldeia polaca. limpando o nariz às costas da mão. a praguejarem e a queixarem-se. pensou Eddie. os seus lábios finos. Eu era muito pequeno. — Andam à procura de sarilhos? O lábio inferior de Joe começa a tremer e ele desata a chorar. A porta de lona de uma tenda abre-se. ainda fazia chichi na cama. o peito caído. Ele viu os lençóis sujos e fitou-me de uma maneira que nunca hei-de esquecer. O capataz apontou para as minhas calças sujas e riu-se. Porque é que ele me está a contar isto?. »Sempre que o capataz se aproximava de mim. e o barulho da fábrica piorou o meu estado. era uma criança inútil e tinha de me ir embora. entre aqueles homens todos. mas depois vê a bola junto de um cavalo de pau. 37 — Ouça lá — disse Eddie. levantei os olhos e deparei com o meu pai. Vêem uma mulher gordíssima e um homem sem camisa com o corpo completamente coberto de pêlos ruivos. à noite. — Não. Mas os pais podem dar cabo dos filhos e. de certa maneira. fiquei de rastos a seguir a isso.Eddie vê a bola tocar nas tábuas do chão e ir bater num poste. 38 o capataz a insultá-lo. — Vês onde ela está? — pergunta Eddie. — Fui baptizado com o nome Joseph Corvelzchik. Agarra na bola e corre atrás do irmão. e os outros empregados desataram a rir também. — Vou começar pelo meu nome verdadeiro — anunciou o Homem Azul. como se fosse um anfitrião a tentar pôr um hóspede à vontade. Senti o estômago contorcer-se de dor. Era uma criança nervosa e transformeime num jovem ainda mais nervoso. »Eu era uma criança nervosa. na cozinha do meu tio. Joe segue-o. eu tropecei e deixei cair um saco de botões. o meu pai recusou-se a falar comigo. Dormíamos num colchão. São interrompidos por um barulho de pano a rasgar.

O Homem Azul fez uma pausa. Consegui. até uma pedrada pode ser bem-vinda. um tipo pequeno com uma perna de pau. E assim começou a minha vida de objecto. Tomava dois goles. O capataz disse que eu metia medo aos outros operários. Sem trabalho. A minha pele estava a ficar cor de cinza. eu fiquei muito orgulhoso. Peguemos numa manhã chuvosa de domingo. jogava às cartas com os outros empregados do espectáculo. em Julho. Ruby Pier. para mim. A sua voz esmoreceu. Eddie reparou no olhar resignado do Homem Azul. nem que fosse num mero cartaz pintado à mão. Vivia num quarto por cima da loja de salsichas. — Os artistas de feira deram-me os meus vários nomes. que parecia ter sido ensopada em líquido azul. ou o Homem Azul da Nova Zelândia. — Não nasci assim. Portanto. mas era agradável ser considerado exótico. Muitas vezes se interrogara qual seria a origem dos figurantes do espectáculo de feira. fazia pregas em pequenas camadas de gordura à volta da cintura. um efeito secundário do veneno. uma aberração — explicou ele. — Despediram-me da fábrica. assim. . sem água. as pessoas começaram a olhar para mim de uma maneira estranha. por triste que pareça. Uma vez. Nitrato de prata! Mais tarde foi considerado tóxico. em vez de andar a saltitar de terra em terra. comecei a tomar doses maiores. quando deixou de resultar. Às vezes. — Estás a compreender porque é que estamos aqui? Este não é o teu paraíso. se vestisse uma camisa de manga comprida e pusesse uma toalha na cabeça. Mas era tudo o que eu tinha e. aceitei juntar-me ao seu grupo de feira. no final dos anos vinte. »Daí a pouco tempo. Edward. Deduziu que devia haver uma triste história por detrás de cada um deles. Por fim. Ele deu-me um frasco de nitrato de prata e mandou-me misturá-lo com água e tomá-lo todas as noites. vista de duas perspectivas diferentes. depreendi que era por não estar a tomar o suficiente. com os latoeiros. A noite. o gerente chamou-me «a melhor aberração» do seu estábulo e. Quando se é marginalizado pela sociedade. »Esta tornou-se a minha casa. por vezes três. Um deles. A sua pele. podia passear pela praia sem assustar as pessoas. não parava de olhar para mim. procurar qualquer coisa para os nervos. Eu sentava-me no palco. um grupo de artistas de feira sentou-se nos fundos do bar. essa liberdade era um luxo. O Homem Azul deteve-se. Edward. a medicina ainda era muito primitiva. Bebi ainda mais nitrato de prata. Eddie não conseguia tirar os olhos daquele corpo. acabou por vir ter comigo. Gostei da ideia de permanecer num lugar. Claro que eu nunca tinha visitado aqueles lugares. um lugar escuro onde podia esconder-me atrás de um sobretudo e de um chapéu. »Depois de falar com ele. »Fiquei envergonhado e ansioso. O parque de diversões ia abrir uma feira chamada «Os Cidadão? Peculiares». até que a minha pele passou de cinzento a azul. enquanto as pessoas passavam por mim e o pregoeiro lhes dizia que eu era uma lástima. eu era o Homem Azul do Pólo Norte. arrecadar umas moedinhas. ou o Homem Azul da Argélia. em que Eddie e os seus amigos estavam a fazer passes de basebol com a bola que Eddie recebera no seu aniversário. em desconfortáveis carroças de circo. Pode não parecer grande coisa mas. como é que eu ia arranjar dinheiro para comer? Onde é que eu ia viver? 39 «Encontrei um bar. a fumar charutos e a rir. De manhã bem cedo. vim para este cais. Fui a um farmacêutico. semidespido. O «espectáculo» era simples. »Num Inverno. — Naqueles tempos. Uma noite. É o meu. às vezes até com o teu pai. 40 Peguemos numa história. O Homem Azul interrompeu-se e fitou Eddie.

sem olhar para cima —. sem 41 ninguém o ver. Tem o braço a latejar. Eddie. Ele ali fica. com um mecanismo tipo garra. respira fundo. 42 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem oito anos. — Eu sei — responde a mãe. — murmurou. Sente-se tonto e a cabeça cai-lhe por um instante. A estrada está molhada da chuva matinal. Passa uma hora. até que choca contra a traseira de um camião estacionado. — Mas é o meu ANIVERSÁRIO. Peguemos no momento em que a bola voa por cima da cabeça de Eddie e vai parar à rua. Um polícia encontra-o. a apertar a gravata. de braços cruzados num gesto de raiva. Eddie olha com tristeza para o jogo colocado a um canto da sala. uma pilha de barras de metal e . De repente. A mãe está agachada aos seus pés. apanha a bola e volta a correr para junto dos amigos. O impacte faz com que o homem seja atirado contra o volante. Ele sai do modelo A. O segundo condutor apita. É uma manhã de domingo. o homem volta a guinar. — Eu NÃO quero ir — diz Eddie. vista de duas perspectivas diferentes. O carro trava a fundo. O jogo termina daí a pouco e os miúdos vão para a galeria de jogos brincar na máquina t que. O carro patina. mas o corpo do homem continua afectado. O homem não tinha familiares. Os faróis estilhaçam-se.. virando o volante e pondo o pé a fundo no travão. O homem consegue controlar o carro e o modelo A prossegue caminho. na galeria de jogos. temos de fazer coisas menos agradáveis quando acontecem situações tristes. Agora. narrada do seu ponto de vista.há quase um ano. a pensar que foi por um triz que evitou uma tragédia. peguemos nessa mesma história vista de outra perspectiva. como esse coração não é forte. apanha pequenos brinquedos de dentro de uma grande caixa de vidro. A criança desapareceu do espelho retrovisor. Dói-lhe o peito. A sua testa está a sangrar. que pediu emprestado a um amigo para treinar a condução. Peguemos numa história. O veículo continua a andar. encolhido junto do carro. de calças castanhas e um barrete de lã. depois. na morgue da cidade. guina para o lado e consegue evitar o atropelamento. — Estás a ver? — sussurrou o Homem Azul. onde um funcionário chama outro funcionário para contemplar a pele azul do cadáver recém-chegado.. Ouvese o som discreto de um pequeno embate. — Oh não. A causa da morte é «ataque cardíaco». É o mesmo dia. O condutor trava a fundo e dá uma guinada no volante. Eddie treme. uma bola de basebol pula a meio da estrada e aparece um miúdo a correr atrás dela. o mesmo instante. mas uma perspectiva termina bem. As vezes. O sangue das suas artérias coronárias deixa de afluir ao coração. e a outra termina mal. A injecção de adrenalina deixou-lhe o coração aos pulos e. — Menino? Eddie sentiu um arrepio. Está um homem ao volante de um Ford modelo A. a apertar-lhe os sapatos. com o menino de calças castanhas a enfiar moedinhas na máquina de brinquedos. vira para um beco. os pneus chiam. O médico-legista declara-o morto. tendo terminado a história. O beco está vazio. vê os estragos. O automóvel quase colide com outro. Desliza ao longo de uma avenida e. O pai observa-se ao espelho. o homem ficou esgotado. mas temos de ir. corre atrás dela e atravessa-se à frente de um automóvel. Está sentado na beira de um sofá axadrezado. depois desmaia no pavimento molhado. um Ford modelo A.

Não é justo.. No cemitério. 44 A primeira lição — Por favor. todo aperaltado. Em vez disso. Eddie estava a construir um camião. Acredite em mim. — Mas MAGOAM-ME! — queixa-se Eddie. — Pára de te mexer — diz a mãe. — Esses sapatos eram meus e estão velhos — diz Joe. 43 Eddie observa um homem a deitar pazadas de terra numa cova. de repente. Eddie mostrou-se céptico e manteve os punhos cerrados. O irmão. Juro por Deus que não sabia. — Eu não sabia. Foi estupidez minha desatar a correr pelo meio da estrada daquela maneira. como se a preparar-se para uma luta. Eras tão pequeno. O homem diz qualquer coisa sobre cinzas.. Eddie cala-se. Dá-lhe uma pancada com força. — Que nada é aleatório. — Os meus sapatos novos são bem melhores. estavam ambos num cemitério. Porque é que você teve de morrer por minha causa? Não é justo. — Já chega! — grita o pai. Tem jeito para montar coisas. — Estávamos a brincar à bola. como o seu pai. da mesma maneira que não se pode separar a brisa do vento. na festa de aniversário. — Mas agora tenho de pagar — disse.. Que não se pode separar uma vida de outra. quando chegar a mil. É por isso que aqui estou. Os homens. Joe. Eddie mal reconhece as pessoas do cais.três pequenas rodas de borracha. Eddie estremece. Todas as pessoas que encontras aqui têm algo para te ensinar. Eddie deu um passo atrás e retesou o corpo. pensa. Eddie não conseguia . na esperança de que. sabe disso. lançando um olhar furioso a Eddie. nenhuma pessoa boa morreria jovem. tem de ir nem sabe onde.. Edward. pelo meu pecado. As mulheres parecem envergar todas o mesmo vestido preto.. estão agora de fato preto. Um padre lia passagens da Bíblia. que normalmente usam lamé dourado e turbantes vermelhos. — Não podias ter adivinhado. — Pagar? — Sim. 45 — A justiça — disse ele — não comanda a vida e a morte. não é? Para que seja feita justiça? O Homem Azul sorriu. mas está secretamente a contar a partir de 1. Eddie abanou a cabeça. Devia estar triste. O Homem Azul fez um sinal de assentimento com a cabeça. Que estamos todos ligados uns aos outros. algumas cobrem a cara com um véu. Virou a palma da mão para cima e. Se o fizesse. Faz uma careta a Eddie. — suplicou Eddie. Detesta andar com as coisas velhas de Joe. junto de uma sepultura. entra em casa com uma luva de basebol na mão esquerda. Eddie segura na mão da mãe e semicerra os olhos por causa do sol. — O quê? — perguntou. possa ter o seu aniversário de volta. Estás aqui para eu te poder ensinar uma coisa. atrás de um pequeno grupo de enlutados. O Homem Azul estendeu a mão. Estava com esperanças de o mostrar aos amigos. vestido de calças de lã e laço ao pescoço.. — Não.

— Diz-me só uma coisa. outra qualquer escapa e. Quando a morte leva uma pessoa. — Este patamar do Céu já terminou para mim. — Virou-se para as pessoas enlutadas. vestidos e casacos. há tantos anos. mas vieram. mas foi subitamente levantado do chão por um torvelinho e levado para longe do cemitério. 3 HORAS DA TARDE . — O meu funeral — disse o Homem Azul.. tudo isso deslizou para dentro de Eddie. um menino pequeno. — Espera — disse Eddie. Eddie deixou cair os ombros. 47 DOMINGO. E dito isto. Mas tu ainda vais encontrar outras pessoas. puxando-o. na pequena distância que existe entre partir e escapar. »É por isso que os bebés nos cativam. os nervos. Uma pessoa definha.. 46 — Mas mal nos conhecíamos. pensou Eddie. tal como a minha vida. Acontece todos os dias. bem lá no fundo. — E os funerais. Eddie sentiu imediatamente tudo o que o Homem Azul sentira na sua vida a invadi-lo. também houve pessoas que morreram em vez de mim. O nascimento e a morte fazem parte de um todo. a pele mais perfeita que já vira em toda a sua vida. E. as bandeiras a adejar ao vento. Porquê? Já alguma vez te perguntaste isto? Porque é que as pessoas se reúnem quando morre alguém? Porque é que as pessoas se sentem na obrigação de o fazer? »É porque o espírito humano sabe. que todas as vidas se intersectam. viu os telhados do velho Ruby Pier. pairando por cima de um vasto oceano cinzento. Mas existe um equilíbrio em todas elas. — Nenhuma vida é um desperdício — disse o Homem Azul. a atravessar o seu corpo — a solidão. a vergonha. Eu bem podia ter sido um perfeito desconhecido. como uma gaveta a ser fechadas» — Vou-me embora — sussurrou o Homem Azul ao seu ouvido. — Que bem adveio da tua morte? — Tu continuaste vivo — respondeu o Homem Azul. Perguntou-se se alguém teria comparecido. E. ao fazê-lo. Eddie estivera lá. — Os únicos momentos que desperdiçamos são aqueles que gastamos a pensar que estamos sozinhos. — Os desconhecidos — disse o Homem Azul — são familiares que ainda não conheces. »Dizes que devias ter morrido em vez de mim. a minha morte foi um desperdício. como se fosse derreter.. apenas as costas de chapéus. ou quando se despenha um avião em que poderias ter viajado. Eddie voltou a olhar para o grupo reunido ao redor da sepultura. Quando um relâmpago cai num lugar de onde acabaste de sair. irrequieto durante a cerimónia toda. Este sentiu aquela sensação de calor. Perguntou-se se teria tido um funeral. Mas. — Olha para os enlutados. Quando o teu colega adoece e tu não. sem fazer a menor ideia do papel que desempenhara naquela situação. O Homem Azul recuou na direcção da sepultura e sorriu. salvei-a? O Homem Azul não respondeu.. tudo desapareceu. — Continuo sem compreender — sussurrou Eddie. depois.ver caras. as espirais e torreões. Eu salvei a menina? No cais. outra cresce. Viu o padre a ler a Bíblia e as pessoas de cabeça baixa. o Homem Azul puxou Eddie para si. Lá em baixo. Foi naquele dia que o Homem Azul fora sepultado.. Pensamos que essas coisas acontecem ao acaso. há vidas que se alteram. — Espera! — gritou Eddie. durante a minha estadia na terra. mas que hás-de conhecer um dia. a sua pele transformou-se num magnífico tom de caramelo — macia e imaculada. o ataque cardíaco.. — Então. Alguns nem sequer me conheciam bem. Era. O Homem Azul pousou os braços nos ombros de Eddie.

Dominguez irrompeu por entre a multidão. É recebido com um coro de saudações e copos de cerveja no ar pelas visitas. mas ainda gosta daqueles heróis coloridos. A morte encontrava-se aos seus pés. É muito grave? Soaram as sirenes. Mãe. — Ontem à noite. Vindo de trás. Eddie consegue sentir o cheiro dos bifes que a mãe está a grelhar com pimentos verdes e cebolinhas. como se pudessem resolver o problema. que lhe aperta o pescoço musculoso. Empurraram as pessoas para trás. ele entrou no quarto com uns olhinhos apaixonados e disse: Joe. ao pôr do Sol. — Cala-me essa matraca — diz Eddie a Joe. Joe. — Aaah. assim que lá chegaram. mas gostam de banda desenhada. Vários homens corpulentos de camisola de alças abriram caminho até à frente. Os primos não sabem falar inglês. quer saber a última? — grita Joe. numa pequena nuvem defumo de charuto. dessa maneira Eddie tem uma desculpa para não se desfazer dos livros. obrigando as pessoas a porem as mãos em forma de pala sobre os olhos. impotentes. Senhoras de idade levavam a mão ao pescoço. Puseram faixas amarelas a delimitar o perímetro do acidente. mas. afogueado. 48 Hoje é o aniversário de Eddie Dentro do quarto. — Aqui vem o aniversariante — cantarola a mãe. a lutarem contra os maus para salvarem o mundo. — Onde estás? Já chegaram todos! Ele rola para fora da cama e amima o livro de banda desenhada. como se estivessem a fazer continência. A família de Eddie foi buscá-los ao porto e eles mudaram-se para o quarto que Eddie partilhava com o irmão. Ruby Pier estava vazio. à espera das ambulâncias. Chegaram os funcionários da segurança. que vieram para a América há uns meses. Mas também eles baixaram os braços impotentes. Mães puxavam as crianças para longe. um cheiro intenso e silvestre que ele adora. Eddie! — gemeu. O pai de Eddie está a jogar cartas a um canto. de mãos na cintura. como uma canção de carnaval tocada pelos altifalantes do parque. faz dezassete anos. Joe ignora-o. a sério? Eddie sente-se corar até à raiz dos cabelos. Eddie traz uma camisa branca de botões nos colarinhos e uma gravata azul. — A sério. O Sol queimava. Chegaram os homens de farda. A notícia de que acontecera uma tragédia espalhou-se pela praia e. — Ohhh não. não. Ofereceu a sua colecção aos primos pequenos da Roménia. Diz que vai casar com ela. A galeria de jogos fechou os portões. Era como se todos eles — as mães. agarrando a cabeça com as duas mãos. está demasiado velho para esse tipo de coisas. familiares. — Oh. É muito grave?. os pais. — Eddd-diii! — grita ela da cozinha. mesmo com a porta fechada. também eles se limitaram a observar. Hoje. conheci a rapariga com quem vou casar!» Eddie começa a ferver de irritação. com a camisa da manutenção encharcada em suor. as crianças com os seus copos gigantescos de refrigerante — estivessem demasiado atordoados para olhar e demasiado atordoados para ir embora. assim que ele entra na sala. como o Fantasma. — É. sussurravam as pessoas. adelgaçando as sombras. a multidão amontoava-se em silêncio à volta dos destroços da torre. Seja como for. Viu a carnificina. As atracções do parque foram encerradas por tempo indeterminado.No cais. 49 . amigos e trabalhadores do parque de diversões. o Eddie conheceu uma rapariga.

deixando o sofá livre. — Mostra-me como dançaste com a tua nova amiga — diz ela. Uma das tias sussurra: — Ele deve gostar mesmo da tal moça.. girando em círculos exagerados. se a situação piorar. — Laaa laa liii — canta ela. pára com isso! Agora. com o seu bonito rosto redondo.... uma orquestra a tocar uma melodia swing... Já é uns bons quinze centímetros mais alto do que a mãe. Ela despe o avental. daí a nada... a acompanhar a melodia — . . a debicar os últimos bocadinhos de bolo.— Já te mandei calar! — Como é que ela se chama.. quando os dois irmãos se agarram um ao outro ao murro e ao pontapé.. — Fico feliz por ti.! Murro. Mais tarde. Rodopiam até à mesa e a mãe de Eddie pega em Joe e põe-no de pé. lala. ou levam os dois um par de estalos! Os irmãos separam-se. mãe! — Anda lá. Eddie fica especado como um prisioneiro a caminho da sua morte. Há notícias sobre a guerra na Europa e o pai de Eddie faz um comentário sobre a dificuldade que vai ser arranjar madeira e fio de cobre. Dão as mãos e dançam. — Que notícia horrível — diz a mãe de Eddie.. quando estás comigo. Dançam à volta da mesa. O irmão sorri... gostas dessa tal moça? Eddie falha o passo. até os primos da Roménia levantam os olhos — de lutas eles entendem —. — Não é assunto para um aniversário. la. la. ofegantes e carracundos. Dançam pela sala de estar.. para deleite da mãe.. dobra-o numa cadeira e. até que o pai de Eddie pousa o charuto e berra: — Parem já com isso. 50 — Oh.. fá-lo levantar-se. a mãe de Eddie liga o rádio. Eddie? — pergunta alguém. pegando nas mãos de Eddie.. continua a cantarolar e a dar um passinho de dança. depois de comidos os bifes especiais e apagadas as velas e de a maior parte das visitas ter ido embora. mas ela fá-lo rodopiar com toda a facilidade. — Com ele? — Mãe! Mas ela insiste e eles cedem e. Será quase impossível fazer a manutenção do parque nessas circunstâncias. Alguns dos parentes mais velhos sorriem. — Ela costuma ir a igreja? Eddie dirige-se ao irmão e dá-lhe um murro no braço. até que Eddie a acompanha. la. — Agora dancem vocês os dois — diz ela. e ela sorri e cantarola baixinho. — Aaau! — CALA-TE! — Eddie. — Aaau! — Eddie! — Eu mandei-te calar! Joe anuncia: — E ele dançou com ela na. aproxima-se de Eddie. — Não faz mal — diz ela. que está esparramado na cadeira. Mas a mãe. em Junho. Roda o botão do rádio até encontrar música. Joe e Eddie estão a rir e a tropeçar um no outro. — Então — sussurra ela —. trocista.. Depois. as estrelas e a lua. até que Eddie se desmancha e ri.

Era esse o seu objectivo: queria construir coisas. de azul-cobalto a cinza-carvão.enquanto os clarinetes conduzem a melodia da rádio. um leão ou uma girafa. aterrou sobre o estômago e rastejou pelo solo. Os seus músculos estavam tesos como os arames de um piano. por causa das tristes histórias multifacetadas da vida. Ouviu trovejar — ou um som parecido com o de um trovão. depois rastejou apressadamente para uma parede porosa de vinhas fibrosas. Eddie começou a treinar na galeria de tiro de Ruby Pier. Joe. E. Também ele lutaria. que pendiam de uma 52 árvore colossal. numa manhã chuvosa. Já não tinha aquela sensação infantil de ser feito de borracha. com os passos rígidos e ritmados de um soldado. Escondeu-se na sua escuridão. Como nunca disparara uma arma a sério. O céu explodiu num amarelo flamejante. Já havia quem estivesse a lutar. Pestanejando por entre a chuva. O céu tornou a mudar. Umas vezes. A mãe não quis que ele fosse. Por fim. Eddie andara a trabalhar para poupar dinheiro. uma chuva espessa e acastanhada. e Eddie estava agora rodeado de árvores tombadas e destroços enegrecidos. com umas carruagens pela altura da coxa de um homem adulto. Sentia-se mais forte do que antes. Ruby Pier acrescentara umas atracções novas. Eddie ia lá todas as tardes. com um capacete em cima e uma série de chapas penduradas no punho. Tentou recobrar o fôlego. O caminho-de-ferro Liliputiano era precisamente o que o nome indicava. Pagava-se uma moeda de cinco cêntimos e a máquina zumbia e a pessoa premia o gatilho e disparava balas de metal contra imagens de animais selvagens. Olhou em volta para o terreno sem vida. que ao longo dos séculos confundiram a coragem com o pegar em armas. nos ombros. Quando o seu país entrou na guerra. 51 A segunda pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie sentiu os pés tocarem no chão. Eddie. explosões ou bombas — e atirou-se instintivamente para o chão. O nome inscrito nas chapas era o seu. Encolheu-se. penteou o cabelo para trás e alistou-se. quando foi informado da notícia. Eddie sentiu um vento quente fustigarlhe o rosto. quando tentou tocar nos pés.» . Antes de se alistar. mesmo que o seu irmão. acendeu um cigarro e exalou o fumo lentamente. já não conseguia. Eddie desatou a correr. apalpou as chapas. A elasticidade desaparecera. fez a barba. O medo encontrara-o. Eddie acordou bem cedo. depois da Depressão. nas coxas e canelas. Os jovens vão para a guerra. Eddie baixou a cabeça e rastejou pela lama. sentiu a cabeça roçar numa coisa sólida. porque. até mesmo no céu. não tens miolos para tanto. cuspindo a água suja à volta dos lábios. os primos romenos batem as palmas e os últimos resquícios de bife grelhado se evaporam no ambiente festivo. A sua corrida era diferente. O pai. à força. outras vezes como voluntários. O céu abriu-se e caiu um aguaceiro. as montanhas-russas se tinham tornado demasiado dispendiosas. encontrava-se uma carroça desconjuntada e os ossos em decomposição de um animal. uma vez mais. ao parque. agora. insistisse em dizer: «Deixa-te disso. e a cobardia com o depor das armas. levando os joelhos ao peito. depois do seu turno de manutenção no caminho-de-ferro Liliputiano. Levantou os olhos e viu uma espingarda enterrada no chão. mas. ainda que pequenas. Numa colina ali perto. Mas sentem sempre que o devem fazer. — Quando? — foi só o que ele perguntou. na esperança de tirar um curso de Engenharia. Tocou nos braços.

— A guerra não é uma brincadeira. soltou uma longa e profunda expiração. De repente. Lembrava-se da razão por que os soldados faziam aquilo: para assinalar as sepulturas dos mortos. como os leões e as girafas? Pang! Pang! — Estás a treinar-te para matar. pondo fim à sua vida de olear trilhos e testar alavancas de travões. quando Eddie lhes fazia a vontade. — É o pensar que mata. Em breve. Se tiveres de disparar. Por vezes. Mas Mickey arrotou e cambaleou para trás. . Disparas e disparas sem pensar em quem estás a alvejar ou a matar ou porquê. Ele conhecia-o. como o pneu de uma bicicleta a ser enchido com a ajuda de uma bomba. mas o par de braços errados. encontravam-se os restos de uma aldeia.Mas assim que começou a guerra. — Pfff — grunhiu Mickey. Febre tifóide. Depois. estás a ouvir? Sem culpa. O seu cabelo era da cor dos gelados de baunilha franceses. Eddie pegou numa mochila e deixou o cais para trás. mais alto do que 53 a cabeça dele. instintivamente. profundamente concentrado a disparar. sentiu um aperto no peito. A arma mecânica parou de zumbir. olhou para 54 Eddie como se fosse chorar. rapaz. Afastou as vinhas e viu a espingarda e o capacete ainda espetados na terra. Vinha de cima. Aquele lugar. Assombrara-o em sonhos. Eddie encolheu os ombros e voltou a disparar. agora. Eddie estava debruçado sobre a pequena arma da banca de tiro. Pang! Pang! Tentou imaginar-se a alvejar o inimigo. via os sorrisos tristes das mães: era o gesto certo. disparas. por baixo de um pequeno cume. Febre amarela. — Varíola — disse uma voz. algures na árvore. Eddie continuou a disparar. Eddie ficou especado a olhar. Depois. Sem hesitação. o assobio nasal a cada inspiração e expiração. Os jovens vão para a guerra. Pang! Fariam barulho quando ele os atingisse — pang! — ou tombariam simplesmente. A moeda de Eddie já não dava para mais disparos. a tremer e todo molhado debaixo da árvore colossal. mulheres sozinhas com crianças. Apertou o ombro de Eddie com mais força ainda. — Varíola. as crianças pediam a Eddie para as levantar bem alto. de boca entreaberta. pensava Eddie. Sentia o velho bêbado atrás de si. A maior parte dos clientes de Eddie eram. Uns dias depois. Eddie. rapaz? Mickey Shea estava parado atrás de Eddie. cujos pais tinham partido para a frente. Eddie deu meia volta. devastada pelas bombas e reduzida a pouco mais do que cinzas. — A voz de Mickey era um rosnar grave. às vezes como voluntários. Rastejou de joelhos para fora do seu refúgio. A guerra era o seu ritual de passagem para a idade adulta. — Ouve uma coisa. Eddie juntar-se-ia àqueles homens distantes. Ao longe. Eddie levantou o punho para retaliar. sentiu um apertão doloroso no ombro. os olhos a tentarem focar o cenário. A chuva parou. Numa dessas últimas noites. Pang! Outro tiro certeiro. molhado de suor. Eddie desejava que Mickey se fosse embora e o deixasse treinar a pontaria. Pang! Mais um. Ouvia a sua respiração trabalhosa. Talvez alguém também sentisse a sua falta. disparas e não pensas. Eddie virou-se e cravou os olhos em Mickey. Por instantes. o negócio do parque decaiu. estás a ouvir? Se queres voltar para casa. como um homem que acabava de receber más notícias. Tétano. subitamente. Mickey deu-lhe um estalo na cara e. e o seu rosto corado da bebida. e.

em que os homens batem nas costas uns dos outros e sorriem como se tivesse acabado — Já podemos voltar para casa. como quem diz: «Já alguma vez tinhas imaginado que se podia fumar aqui em cima?» Depois. que ficava tão alto como um edifício de vários andares. não fosse acertar numa árvore e ferir-se com o ricochete. hã? Eddie aprendeu muitas coisas durante a guerra. Viu a terra lá ao fundo. que fora morto em combate. A voz era forte. Aprendeu a fumar. agora! — e aprendeu a depressão profunda do segundo combate de um soldado. mesmo assim. também nunca conheci quem a tivesse tido. Caíram uns pequenos frutos aos pés de Eddie. Aprendeu a andar num tanque. — Desce — disse ele. — Capitão? — sussurrou. Ouvira dizer. — Gostas de maçãs? — perguntou a voz. morri aqui. tudo de uma vez. . — Explicaram-te as regras. a minha segunda pessoa? O Capitão levantou a mão que segurava o cigarro. Os seus olhos reluziam como pequeninas gambiarras vermelhas. — E o senhor também está morto. — Fui vacinado contra todas essas doenças e. soldado? Eddie olhou para baixo. uma carabina. — Sobe — respondeu a voz. Por entre 55 os ramos mais pequenos e as grossas folhas de figueira. Lutaram nas Filipinas e despediram-se nas Filipinas.. A árvore abanou. puxou uma longa fumaça e expirou uma pequena nuvem branca. sentado contra o tronco da árvore. Eddie conseguiu distinguir a figura sombria de um homem de camuflado. saudável como um touro. Que raio. O Capitão era o comandante de Eddie. — É o senhor. Aprendeu a aclamação nervosa do primeiro combate sobrevivido por um soldado.. como se o homem tivesse estado a gritar durante horas. um tripé para a metralhadora. — Aposto que não estavas à espera que fosse eu. um sobretudo. em que ele percebe que a luta não acaba depois de uma batalha. Aprendeu a beber o pior café do mundo. com um ligeiro sotaque sulista e um toque de rouquidão. Aprendeu a barbearse com água fria dentro do capacete. um rádio. Aprendeu a ter cuidado quando disparava de dentro de uma cova. 56 Aprendeu umas quantas palavras numas quantas línguas estrangeiras. quase até ao cimo. capitão? Estiveram juntos no exército. uma mochila e várias bandoleiras ao ombro. mais tarde. a queda pareceu-lhe grande. Prendeu as pernas num ramo grosso e. Aprendeu a cuspir a uma grande distância. Sorriu. — Nisso acertaste. — E o senhor é. e Eddie nunca mais o vira. Eddie engoliu em seco. mas sabia que não podia cair. olhando para baixo. — Também acertaste. Aprendeu a marchar. O seu rosto estava coberto por uma substância negra como carvão. E Eddie subiu à árvore.— Nunca descobri o que é a febre amarela. — Estou morto — disse. Aprendeu a atravessar uma ponte de corda enquanto carregava. Uma nuvem de fumo pairou no ar. que outras se seguirão depois dessa. Eddie levantou-se e pigarreou. uma máscara de gás.

. — Os homens do teu pelotão. — Ouça.. a segredar que se está cheio de fome. Eddie engoliu em seco.. Deve haver um engano. numa ilha das Filipinas. cuspiu por cima do ramo da árvore. às vezes. Era mais velho do que os homens do pelotão de Eddie. Aprendeu que. O que estou a querer dizer é que. da roda-gigante. amarelados do tabaco. especialmente depois de usar as mesmas roupas imundas durante uma semana. E a comida incrível. — Capitão. de maneira que se lhe via os dentes todos. quando o avião de transporte está prestes a largá-los. apesar de perder facilmente a cabeça e ter a mania de gritar na cara de uma pessoa. reparou na expressão perplexa de Eddie. da montanha-russa. que até os homens fortes e musculosos vomitam nos sapatos. caso fosse encontrado morto pelos seus companheiros de luta. depois de ter estado com o Homem Azul: também teria matado o Capitão? — Tenho andado a pensar numa coisa — disse o Capitão.Aprendeu a assobiar por entre os dentes. E também não vomitamos. Tive uma vida de nada. O Capitão apagou o cigarro. quando rompem a pele.. — Afirmativo. sabe? Trabalhei na manutenção de um parque de diversões.. De repente. à medida que um ano se transformou em dois e dois anos em três. Aprendeu que os ossos de um homem são realmente brancos. A maior parte dos soldados gostava bastante dele. Ocupava-me das máquinas. que o tornava parecido com um actor de cinema da época. porque havia um soldado inimigo de pé junto dele com uma espingarda apontada à cabeça. — Com o mesmo aspecto com que me viste pela última vez? — Sorriu e. Capitão. Aprendeu que a sarna são pequeninos bichos que fazem comichão e que se enterram na pele. um militar de carreira com um andar presunçoso e 57 um queixo proeminente. — Tens razão. Apesar disso. — voltou Eddie a dizer. coçando o queixo. Vivi no mesmo apartamento durante anos. mas muito obrigado. também. Aprendeu.. uma noite. daqueles navios estúpidos em forma de foguetão. o seu grupo foi apanhado sob fogo pesado e dispersou em busca de abrigo. O senhor está. o que reconfortava os homens. eles mantiveram-se em contacto? O Willingham? O Morton? O Smitty? Voltaste a vêlos? 58 . O hálito é sempre o mesmo. acontecesse o que acontecesse. — Que faço eu aqui? O Capitão olhou para ele com aqueles olhos vermelhos cintilantes e Eddie resistiu a fazer a outra pergunta que agora o atormentava. o Capitão prometia sempre que nunca «deixaria ninguém para trás». se está sentado ao lado de um colega numa trincheira. Nada de que me orgulhasse. Aprendeu a capturar um prisioneiro. — Sir. a chorar como uma criança e gritou-lhe: «Cala-te!» e percebeu que o homem estava a chorar. e que até os oficiais falam durante o sono. Aprendeu a dormir em terreno rochoso. embora nunca tivesse aprendido a tornar-se um.. e no instante seguinte ouve-se um uuusssh e o colega cai para o lado e a fome deixa de ser importante. — Isso é escusado. É escusado cuspir aqui em cima. a seguir.. Aprendeu a rezar muito depressa. do fundo de uma trincheira. Aprendeu em que bolso guardar as cartas para a sua família e para Marguerite. e Eddie sentiu uma coisa fria no pescoço e havia um atrás de si... A comida? Eddie não estava a perceber nada. na véspera do combate. Depois. ainda estupefacto. os céus iluminaram-se e Eddie ouviu um dos seus amigos. Limitei-me a ir andando. Eu continuo sem saber por que estou aqui. — Passou tanto tempo.

poderia voar para longe daquele erro.. depois cair sob uma saraivada de balas. tal como um íman. A sua alimentação consistia de bolas de arroz cheias de sal e.. eram apenas quatro e o Capitão achava que também eles se tinham afastado de um pelotão maior e que. As coisas que viram. tudo o que conseguisse orientar —.° 1. Os seus captores não pareciam saber ao certo o que fazer com eles. a curta distância entre a liberdade e o cativeiro. — E tu? Voltaste para o parque de diversões onde todos nós prometemos ir. Uma jarra de barro servia de retrete. com as mãos na cabeça. Mas. ninguém apareceu. Eddie. os guardas inimigos rastejavam por baixo das barracas e escutavam as suas conversas. É a tortura interna de todo o soldado capturado. O Capitão chamava-lhes Louco n. rugia um avião. Louco n.. também podia afastá-los. uma vez por dia. como se já estivesse à espera daquela resposta. acima do solo lamacento. Se Eddie pudesse saltar e agarrar-se à asa do avião. — Ainda fazes malabarismo? — perguntou. Ao longe. obrigados a dormir em sacos de serapilheira cheios de palha.. à espera de respostas. iam improvisando de dia para dia. Viam-se-lhes as costelas — até as de Rabozzo.° 3 e Louco n. um caldo acastanhado com ervas a flutuar. Tu vais!. As barracas erguiam-se sobre estacas. Smitty. O que todos disseram. explodiam morteiros. Tentou fixar imagens mentalmente. se sobrevivêssemos? Bilhetes à borla para todos os soldados? Duas raparigas por soldado no Túnel do Amor? Não foi isso que tu disseste? Eddie esboçou um sorriso.. nunca de lá saí. A medida que o tempo ia passando. — Não queremos saber os nomes deles — disse ele. Os seus rostos eram encovados e ossudos. À sua volta. Semicerrou os olhos e baixou a voz.° 2. . O Capitão acenou com a cabeça.. enchendo Eddie com uma súbita onda de náusea e desespero.. enquanto marchavam na escuridão — cabanas. meses. Eddie encolheu os ombros. como tantas vezes acontece numa guerra a sério. — Sinceramente. Rabozzo e o Capitão foram conduzidos em rebanho e obrigados a descer uma colina íngreme. A noite. Os outros pararam de comer. Tentei. A verdade é que não tinham mantido o contacto. TU VAIS! Os soldados inimigos gritaram e espicaçaram-nos com as baionetas. acabámos por nos afastar uns dos outros. e ali permaneceram durante dias. voltei — disse Eddie. Uma noite. — E não queremos que eles saibam os nossos. Não sei. Tanto quanto Eddie sabia. Um parecia demasiado novo para ser soldado. — E? — E.Eddie lembrava-se dos nomes. Outro tinha os dentes mais tortos que Eddie já vira na vida. Ao fim do dia. sabendo que essa informação seria preciosa em caso de fuga.° 4. Eddie viu um vulto correr por entre as árvores. Mas esta maldita perna. com cabelos pretos retintos. semanas. Faltavam-lhe as asas.. — Sim. falavam cada vez menos. entravam na cabana com as baionetas e abanavam as lâminas diante do nariz dos americanos.. — Encolheu os ombros. Ficaram magros e fracos. O Capitão perscrutou o seu rosto. ele e os outros soldados foram amarrados pelos pulsos e tornozelos e atirados para dentro de barracas de bambu. mas. quando a guerra acabou. que era um rapaz robusto quando se alistara.. 59 Em vez disso. Morton. Nunca obtinham resultados. estradas. Eddie tirou uma vespa morta de dentro da taça. Louco n. — Lamento muito. as coisas que fizeram. Fiz planos. A guerra unia os homens como um íman. Nada resultou. — Vais!. gritando numa língua estrangeira. Fora isso que ele dissera. só queriam esquecê-las. por vezes.

Eddie adormecia com a fotografia de Marguerite dentro do capacete..» até os outros o mandarem calar. coçava o queixo e murmurava: «Ai porra. Havia outros prisioneiros. depois. batia na palma da mão e pensava em todas as brigas em que se envolvera no seu antigo bairro. mas à noite acordava frequentemente aos gritos: «Eu não! Eu não!» Eddie fervilhava. estavam desesperadamente pretos e os seus pescoços e ombros latejavam de tanto estarem dobrados. inventando as palavras e contando cada noite. ai porra. mantinha uma cara impassível durante as horas de vigília. sonhava que estava de regresso ao parque de diversões. Era proibido falar. Depois. Alguns usavam as pás. portanto ele dormiu nu sobre a serapilheira. No dia seguinte. outros carregavam pedaços de lousa e construíam triângulos para suportar o tecto.. Eddie caiu.° 2. mas ainda assim rezava. colocada à sua frente. aconteceu uma coisa.Os homens adaptam-se ao cativeiro. o mais cruel dos captores. Não conseguia comer. um rapaz magricela e falador de Chicago. e os quatro Loucos mandaram-nos levantar. Eddie e os outros soldados foram obrigados a arrancar carvão das paredes. Depois. Os anos e anos de espera no cais — que uma corrida acabasse. filho de um bombeiro de Brooklyn. Dou-te estes dezasseis dias. Os quatro Loucos não mostraram qualquer indício de compaixão. como o jogador de basebol ansioso que fora na sua juventude. O chão estava frio. O Louco n.. ou com Marguerite. estava calado a maior parte do tempo. ao fim do dia. no carrossel dos Cavalos de Corrida. . Mas ele queria ir embora e queria vingança. ai porra. estrangeiros que não sabiam inglês e que olhavam para Eddie com olhos vazios. durante o quarto mês. uns melhor do que os outros. Mas. Não havia luz. Dou-te estes nove dias. se eles não tivessem armas. Rabozzo. mas muitas vezes parecia estar a engolir qualquer coisa. Davam-lhes um copo de água de umas quantas em quantas horas. Imaginava o que faria àqueles guardas. Sujou as calças.. os prisioneiros acordaram ao som de gritos e baionetas ameaçadoras. Não havia roupa limpa para lhe dar.. Cerrava um punho e batia na palma da mão durante horas a fio.. Não era muito dado a rezas. Ele fazia uma corrida com os amigos. Smitty. A partir desse dia.. se me deres dezasseis dias com ela. o sonho mudava e nos outros cavalos estavam os quatro Loucos a espicaçá-lo. A noite. para ajudar nos esforços de guerra do inimigo. Morton. que as ondas recuassem. Oregon. dizendo: «Senhor. Havia pás. atingiu Eddie com o punho da baioneta. Rabozzo mal se aguentava de pé. transpirou tanto dentro das suas roupas imundas. se me deres seis dias com ela. Eddie descobriu mais 60 tarde que estava a morder a língua. à laia de cobertor. na mina.». Os rostos dos prisioneiros. Cerrava os maxilares. outros raspavam. a sua maçã de Adão mexia para cima e para baixo. a fazer troça. se me deres nove dias com ela. estremecia sempre que ouvia barulho lá fora. dou-te estes seis dias. enxadas e baldes de metal. 61 Durante os primeiros meses de cativeiro. amarraram-nos e conduziram-nos para dentro de uma conduta. que elas ficarem completamente encharcadas. o jovem ruivo de Portland. onde cinco clientes voavam em círculos até a campainha tocar. — É uma mina de carvão — disse Morton. — Deixem-no em paz — grunhiu Eddie. picaram-no com paus para continuar a raspar as paredes. o dia em que mandara dois miúdos para o hospital com a tampa de um caixote do lixo. uma manhã. Rabozzo apanhou uma alergia cutânea grave e uma terrível diarreia. os nós dos dedos contra a pele. Quando ele abrandou o ritmo. ou com o irmão. e o Capitão tapou-o com o seu saco.. que o seu pai falasse consigo — haviam treinado Eddie na arte da paciência. À noite.

pareciam cada vez mais próximas. apanhava-as. como se estivesse a rezar. — Está pronto para a acção? O Capitão levantou a cabeça. e arrastaram-no ao longo do chão da mina. O Capitão achava que os esforços de guerra do inimigo eram desesperados.sentindo uma pontada de dor espalhar-se entre as omoplatas. na mina. havia menos corpos. a seguir. Eddie.° 2 atirou terra preta para cima do corpo. — Capitão — sussurrou. Tinha duas grandes pedras. parecia óleo derramado. — Eu sei fazer malabarismo — segredou Eddie. irritado com o barulho das pedras a bater no chão. Depois.° 2 debruçou-se sobre Rabozzo.° 4 levantaram lentamente o corpo de Rabozzo. para ter a certeza de que o estavam a ver. depois fixou Eddie e cuspiu-lhe para os pés. atirava-as bem alto e deixava-as cair novamente. Deixava-as cair. mas finalmente decidiu levantar-se devagar. pegou na pistola. — O que é que estás a pensar fazer? 63 — As pedras — disse Eddie. Vira covas abertas por detrás das barracas dos prisioneiros e grandes barris de óleo colocados no cimo da íngreme encosta. O Capitão semicerrou os olhos.° 4. para raspar carvão. enquanto o rosto de Rabozzo mergulhava numa poça de sangue.° 3 e o Louco n. O Capitão baixou os olhos. até dos moribundos. Estava a tentar dormir. antes que tivessem todos o mesmo destino. o Louco n. sob um céu de Lua fosca. Riu-se a olhar para todos eles. na escuridão. — Para teu próprio bem. O Louco n. Eddie ouvia bombas a deflagrar. Ninguém se mexeu. fitando cada um nos olhos. Morton levou as mãos à boca. entediado. Levantou-lhe as pálpebras. O Louco n. — Estão a cavar as nossas sepulturas. de pálpebras fechadas e os lábios a moverem-se furiosamente. — O quê? Mas já Eddie gritava ao guarda: — Ei! Tu aí! Estás a fazer tudo errado! . Rabozzo raspou mais uns pedaços de carvão e.° 3 abanou a cabeça e murmurou entre dentes. Depois disso.° 3 estava dentro da barraca. Focou os olhos. Eddie parou de rezar. Eddie sentiu o seu corpo rasgar-se em dois. — Cala-te. coberto de cinza preta. — Ele está doente! — gritou Eddie. O Louco n. Parou de contar os dias. enfiou-a no ouvido de Rabozzo e deu-lhe um tiro na cabeça. deixando ura trilho de sangue fresco. Rabozzo gemeu. — O óleo é para queimar as provas — sussurrou o Capitão. o Louco n. Mas o Louco n. de vigia. Deixaram-no cair junto de uma parede. o Capitão calculava que os seus captores fugiriam. pelos pés. com as quais. Por instantes. Fez «Ahh» e riu-se. Os seus olhos turvaram-se e o cérebro entorpeceu. tentava fazer malabarismo.° 2 fez um sorriso exagerado e pôs-se a fazer barulhinhos reconfortantes como se faz com os bebés. Se a situação piorasse drasticamente. destruindo tudo. pondo-se de pé a custo.° 3 e o Louco n. quase do tamanho de tijolos.° 2 gritou para ele se levantar. Três semanas depois. 62 O Louco n. À noite. e o Louco n. — Que têm as pedras? — perguntou o Capitão. Todos os dias. O eco do tiro perdurou na mina. Gritou qualquer coisa para o Louco n. Eddie — sussurrou Morton. Sentiu os nervos encherem-se de vida.° 2 voltou a bater-lhe. apontando com a cabeça para o guarda. Ele e o Capitão falavam em fugir. que. desmaiou. O Louco n. que pareciam tão atordoados como os prisioneiros. ao lado de uma picareta. levantou os olhos. por isso necessitavam de todos os prisioneiros.° 2 abanou a arma e voltou a gritar.

partindo-lhe o nariz. Eddie voltou a fazer o movimento circular e sorriu. — Eu sei fazer malabarismo. depois entregou as duas pedras a Eddie. Atirou uma pedra bem alto.. — Ahhh — fez o Louco n.° 3.° 1. Dá-me as pedras. deteve-se.° 3 fitou-o. Cantou: «La. como quem diz «Têm de ver isto». o tipo da esqueeeerda. depois contou: — Um. fingindo que as palavras faziam parte da melodia.» Os guardas riram-se.». deu um passo atrás. «La.. o Louco n. depois.° 3 abriu a porta de bambu e fez o que Eddie esperava que ele fizesse: chamou os outros guardas. — Qual é a ideia? — murmurou Smitty. pedaços de pão aos prisioneiros. enquanto eles seguiam a pedra. A meio de um passe de malabarismo. A sua postura descontraiu-se. O Louco n. la-la-la laaaaa. ele atirava as pedras ao ar. cada vez mais depressa. para impressionar o guarda. sem querer.° 3 aproximou-se. mas Eddie sorriu como os malabaristas de Ruby Pier costumavam sorrir.. — Olhem. Eddie achava que. — e atirou uma pedra muito mais alto do que antes. — Aproxiiimem-se — cantarolou Eddie..» O Louco n. Morton e Smitty aproximaram-se discretamente. à socapa. depois apanhou a terceira e repetiu o gesto. A maior parte dos miúdos do cais sabia fazer malabarismo. Aprendera-o quando tinha sete anos. dois. Depois parou.. Eddie apanhou a segunda pedra e atirou-a.° 3 atirou a pedra a Eddie e gritou qualquer coisa. — Três.° 3 entregava. O Capitão aproximou-se. A seguir. O seu malabarismo era cada vez mais rápido.. — Gostas? — perguntou Eddie.° 1 apareceu com uma pedra grande e o Louco n. olhem. O Louco n. Os guardas estavam a gostar do entretenimento. este era o que lhe daria mais hipóteses. voltou atrás para ir buscar a sua baioneta. Não era nada de especial.. Os Loucos observaram-na a subir. já Morton e Smitty estavam sentados. Mas.Fez um movimento circular com as palmas. Por essa altura. — O maior espectáculo do mundo. Ocasionalmente. Atirava uma pedra bem alto e observava os olhos dos seus captores..° 2 seguiu-o.. que caiu para 65 . em cheio contra o queixo do Louco n. desconfiado. desconfiado. Eddie riu-se. Eddie passara horas a fio a treinar no parque de diversões — com seixos. tudo o que encontrasse.° 2.. «Capitão.. — Três pedras. arremessou-a com força contra a cara do Louco n. Riso forçado. fingindo-se interessados no malabarismo.° 2 franziu o sobrolho. Eddie atirou as pedras num movimento rítmico. Só mais um pouco. O Louco n. — Assim — disse Eddie e começou a fazer malabarismo sem qualquer dificuldade. vês? — Eddie esticou três dedos. lala-la laaaa. com a mão esquerda. 64 O Louco n. Cada uma era do tamanho da palma da sua mão. — sussurrou Eddie entre dentes.. enquanto lançava as outras duas. meus caros! Eddie acelerou os gestos. agora. O Louco n.° 3 grunhiu. — Assim! Tens de fazer assim! Dá cá as pedras! Esticou as mãos. para empatar. furiosamente. como o bom jogador de basebol que sempre fora. Cantou uma musiquinha de feira. quando o interesse do público começava a esmorecer. bolas de borracha. — Se ele me der mais uma pedra. O Louco n. sorriu para os outros e fez-lhes sinal para se sentarem. — Agora! — gritou Eddie. O Capitão riu-se. mostrou as pedras e disse: — Dá-me mais uma. agarrou numa pedra e. alerta. de todos os guardas. Eddie tentou controlar a respiração. com um italiano da feira que fazia malabarismo com seis pratos de uma vez. olhem! — cantarolou Eddie. atirando-os pelo pequeno buraco da cabana que servia de janela.

° 2 e esmurrou a cara dele com muito mais força do que alguma vez batera em alguém. o Capitão. colocou o seu único par de sapatos bom. apoderando-se da sua baioneta. Eddie — diz Marguerite. enquanto eles tentam dar-lhe murros no estômago. Ela sacode a chuva dos cabelos e sorri. — Vamos queimar tudo — disse. todos misturados — depois. com a pistola do inimigo na mão. A porta abriu-se de rompante e o Louco n. — Somos o único grupo que sobrou. ao longo da cobertura de baunilha. quando ouviram as bombas — sussurrou o Capitão. ou seja. até hoje. Havia uma cabana de abastecimentos ali perto e Morton certificou-se de que estava vazia. que ambos caíram pela porta fora. Pegou numa pedra solta e esmagou-a contra o crânio do louco. em Pitkin Avenue. bom. na entrada da cozinha. «Regressa depressa filho».° 4 com tanta força. maravilhosa.trás quando o Capitão lhe saltou em cima. sujando as têmporas com o muco viscoso. mas nada aconteceu. até olhar para as suas mãos e ver um repugnante muco arroxeado. momentaneamente petrificado. espingardas e dois lança-chamas com ar primitivo. Em poucos minutos.° 2 tornou-se mole. — Cavalos! — exclama a criança. Estava a sangrar do peito.° 4 entrou a correr e Eddie atirou a última pedra contra a cabeça dele e falhou por centímetros. Eddie perguntou-se há quanto tempo estariam ali sozinhos com os quatro Loucos. enquanto Morton e Smitty se lançavam contra as suas pernas. que percebeu ser sangue e pele e cinzas de carvão. e Eddie sente as habituais cócegas no peito. ficava a entrada da mina de carvão. Pergunta-se se essa não será uma fraqueza que não deveria levar para a guerra. descalços e cobertos de sangue. correram para a encosta íngreme. mas. e por baixo. mais guardas para enfrentar. A mãe de Eddie já limpou e passou as roupas a ferro. antes de lá entrar a correr.. Aliás. para a tua partida.° 3. mas os Os de «soon» («depressa») estão colados e mais parecem a palavra «son» («filho»). levou a mão à pistola e disparou-a ao acaso. Eddie. — Trouxe-te uma coisa... As outras cabanas estavam vazias. O Louco n. que ele vestirá no dia seguinte. alguém acrescentou as palavras «Regressa depressa a casa» em letras azuis floreadas. A menos de cem metros. o acampamento inteiro estava vazio. Traz uma pequena caixa nas mãos. . que está iluminado para receber os clientes da noite. — Pelo Rabozzo — murmurou Smitty. 66 Hoje é o aniversário de Eddie O bolo diz «Boa sorte! Luta muito!» e. Um aponta pela janela para o Carrossel Parisience. saiu com os braços cheios de granadas. a brincar com os seus primitos romenos.. repetidas vezes. Eddie está na cozinha. Para o teu aniversário e. de lado. cheio de adrenalina. Os barris de óleo estavam empoleirados no primeiro degrau da colina. — Os outros devem ter fugido. Levantou os olhos e viu Smitty de pé junto dele. ouviu um tiro e levou as mãos à cabeça. que se encontrava à espera junto da parede. Os prisioneiros. o seu coração dar um pulo. na maçaneta do guarda-fatos do seu quarto. Pendurou-as num cabide. A porta da rua abre-se e Eddie ouve uma voz que faz. quando ele se baixou. magros. com as mãos atrás das costas. Eddie estava a contar com mais tiros. os quatro guardas estavam mortos. O corpo do Louco n. E ali está ela. — Olá. saltou sobre o Louco n. espetou a baioneta nas costelas do Louco n.

— Vem. Eddie sente um desejo tão forte de a abraçar. Os dias e noites que perdeu. Eddie gostaria de poder parar o tempo. embora Eddie não saiba ao certo se são gotas de chuva ou lágrimas. Eddie puxa um manipulo enforma de mão de gesso e a seta passa por «gelado». Imbuídos de uma nova sensação de controlo. do que algum dia julgou ser possível amar alguém. com os braços cheios de armas roubadas. Salvo da pergunta que teve presa na garganta a noite toda. que ficou na reserva por ter pés chatos. aproximando-a de si. Só se quer recordar dela. — Ele aproxima-se. um velho trapeiro construiu uma pequena fogueira com gravetos e toalhas rasgadas e está agachado junto dela. — Quente — diz Eddie. a tortura e a humilhação que sofreu — tudo clama por uma vingança feroz. — Não é preciso pedires-me para esperar — diz Marguerite. — Vem apagar as velas.. Mais tarde. Como acontece sempre que vê Marguerite. todos lhe desejam boa sorte. Depois outra. nessa noite. Ele levanta os olhos para o amontoado de nuvens. Na praia. — Que bom — diz ele. como se fosse lógico. cala-te! — Mas é verdade! Há bolo e cerveja e leite e charutos e um brinde ao êxito de Eddie. — Não te deixes matar. tornando-a sua. Sal. nesse instante. que estamos cheios de fome! — Ai. numa pose saída dos filmes. — És mesmo forte — comenta Marguerite. Eddie passeia com Marguerite ao longo da marginal. encostados à balaustrada. Marguerite e Eddie compram guloseimas. Eddie engole em seco. Tiram os doces do saquinho branco. que já partiram para a guerra. diz aos outros «Vamos queimar tudo». — Ainda nem sequer a abriste. de repente. Ela ri-se. 69 Um soldado que acaba de ser libertado sente-se frequentemente furioso. No final da noite.Volta a sorrir. quando Morton. que pensa que vai explodir.. «morno» e sobe até «quente». 68 — Ei. Sorri. sente como se um fio se tivesse soltado do seu coração e embrulhado em volta dos ombros dela. Não se importa com o que está dentro da caixa. está bem? — diz ela. fortalhaço! — diz Marguerite. Conhece os nomes de todos os porteiros. Na galeria de jogos. os homens dispersaram com o armamento do inimigo. Algumas das senhoras mais velhas ficam com os olhos rasos de lágrimas e Eddie deduz que também elas têm filhos. a acomodar-se para passar a noite. Joe. a oferecer-lhe aquela prenda. mas depois deixa cair o sorriso e pestaneja para a chuva não lhe entrar nos olhos. e há um momento em que a mãe dele começa a chorar e abraça o outro filho. — Queres. detêm-se na marginal. mostrando os bícepes. Ama-a mais. Smitty para a entrada da conduta . Eddie sorri. Uma gota de chuva cai na testa de Eddie. de mãos dadas. «frio». — Eddie! — grita alguém da sala. os seus dedos atropelam-se. melaço e refrigerantes de fruta. — Não? Ela abana a cabeça. Por isso. todos concordaram de imediato. um ajuste de contas. arrumadores e vendedores de comida. 67 — Ouve.

deixando cair o lança-chamas para se aproximar mais. veria as chamas. — Os bombardeamentos vão recomeçar daqui a nada e temos de ir embora antes disso. dos miúdos na praia. Ao longe. o ruído que tinham ouvido todas as noites. vindos do céu.da mina. Talvez fosse uma sombra. das montanhas-russas. mas não podia ser pior do que aquilo por que já tinham passado. despejando faúlhas e chamas. zombou. Eddie e Morton empurraram dois barris para o complexo das barracas. O Capitão foi procurar um veículo de transporte. Morton deu um pontapé no barril. — EU . atearam os seus recémadquiridos lança-chamas e viram as cabanas pegar fogo. correu para o ponto de encontro. Todas essas semanas e 70 meses nas mãos daqueles sacanas. — Encontramo-nos aqui. e desecandeou uma explosão de chamas em série. Smitty largou as granadas na conduta da mina e fugiu a correr. Os seus olhos começaram a lacrimejar. Não conseguia ouvir. cumprida a sua missão. Smitty. Eddie ouviu o retumbar de um motor — o Capitão encontrara um veículo de fuga — e. Eddie premiu o gatilho. depois desceu o carreiro até à última cabana. mas parecia-lhe ter visto um vulto a correr no meio do fogo. O bambu estava seco e. Era maior. Da entrada. alguém! Morton abanou a cabeça. O tiro saiu veloz. Vuuum. Acabou. saiu uma nuvem de fumo preto. O calor era intenso e tapou os olhos com a mão livre. Morton levou a mão à orelha. — Ardam! — gritou Morton. abriam-nos e. O que era aquilo? Pestanejou. Empunhou a arma.. dando um passo em frente. Os olhos de Eddie ardiam. — EI! MOSTRA-TE! — gritou. Não tinha a certeza. quem quer que fosse. as paredes do celeiro derreteram em chamas laranja e amarelas. A conduta da mina explodiu desde lá de baixo. depois. do cais e do caminho-de-ferro Liliputiano que costumava vigiar. um a um. — Ardam! — gritou Eddie. — Ei! — gritou Eddie. de Marguerite e da fotografia dela e de tudo o que bloqueara na sua mente durante tantos meses. Eddie tentou focar a visão. — O quê? — Está. num minuto. ali. para dentro de uma das cabanas. a acenar para que Eddie fosse ter com ele. Não sabia o que lhes ia acontecer a seguir. ali. A sua respiração era ofegante. — EI! — O telhado do celeiro começou a ruir. baixando a arma.. um vulto do tamanho de uma criança.. Perceberam? Cinco minutos! Que foi o tempo necessário para destruírem aquela que fora a sua casa durante quase meio ano.. aqueles guardas sub-humanos de dentes estragados e caras ossudas e vespas mortas na sopa. dentro de cinco minutos! — rugiu. disse ele para com os seus botões. O que era aquilo? Viu uma coisa passar veloz pela porta. — EDDIE! VAMOS EMBORA! Morton estava ao cimo do carreiro. e Eddie apercebeu-se de que. Talvez voltassem para casa! Virou-se para o celeiro a arder e. Eddie deu um salto para trás. Estava ainda mais perto. Apontou e gritou: — Acho que está ali alguém. Morton e Eddie para os barris de óleo. a rastejar dentro do celeiro em chamas.. Eddie virou-se e teve quase a certeza absoluta de que voltara a ver. Acabou. Talvez fossem resgatados. de repente. uma espécie de celeiro. Há mais de dois anos que Eddie só via homens adultos e aquela forma na 71 sombra fê-lo subitamente lembrar-se dos seus primos.. agora. os primeiros sons de bombardeamento. Eddie observou.

Nesse instante. — Nem por isso — disse Eddie. aos berros: — EDDIE! Temos de ir embora JÁ! Eddie abanou a cabeça. Ali? Será aquilo? Ali. De repente. fracturando-o verticalmente. O sangue espirrava abaixo do joelho. Eddie moveu-se como se estivesse em transe. a bala nunca fora completamente retirada. uma situação que acabaria por se agravar com a idade. ao relembrar esses últimos instantes. alguém o puxou para trás.. caiu no chão. lançando uma chuva de faúlhas como poeira eléctrica sobre a sua cabeça. Eddie só sabia que acordara numa unidade médica e que a sua vida nunca mais voltara a ser a mesma. Os aviões rugiam lá em cima e os tiros das suas armas soavam como tambores. — Não está ninguém lá dentro! Vamos embora JA! Eddie estava desesperado. Gritou uma longa praga saída do fundo das suas entranhas e.. — Mas safámo-nos — disse Eddie. Pior ainda. rolou como um saco de feijões. de olhos fechados para se proteger do calor insuportável e. um pedaço de si. à medida que os ossos se fossem deteriorando. a sangrar e a arder. estava dentro de um veículo de transporte e os outros encontravam-se à sua volta.. repulsa pelo sangue e pelo muco a secar nas suas têmporas. Naquele instante. em seguida. Virou-se de novo para as chamas. Uma mão agarrou-lhe no ombro. puxando-o com força para trás. O Capitão fez um lento aceno de cabeça. se aguentar.. sentiu-se pronto para morrer.. O céu iluminou-se de clarões azulados. qualquer coisa. — Lembras-te de como saíste de lá? — perguntou ele. Passou por uma poça de óleo ardente e as suas roupas pegaram fogo por trás. espera. . e cambaleou para os destroços em chamas.. Virou-se novamente para o celeiro.. As suas costas estavam queimadas. pela coxa.NÃO TE FAÇO. — Demorámos dois dias. — Aquela bala atingiu-te em cheio. o resto do telhado ruiu com um estrondo. Eddie foi submetido a duas operações. «Fizemos o melhor que pudemos». Eddie deu meia volta e. de punho cerrado. a dizer-lhe para se aguentar. tão cansado. acho que está alguém ali dentro.. loucamente convencido de que havia uma alma dentro de cada sombra negra. Nenhuma delas resolveu o problema. o joelho perdera a sensibilidade e Eddie estava cada vez mais tonto e cansado. Desta vez. um pedaço de Rabozzo. e ele sentiu-se demasiado atordoado e fraco para resistir. De repente. Daí a nada. — Pois foi. Sentiu repulsa pelo cativeiro e pelos assassínios. a totalidade da guerra invadiu-o como bílis. repulsa pelos bombardeamentos e pelo fogo e pela futilidade daquilo tudo. Seria verdade? Quem sabe. pela primeira vez na sua vida. O médico disse que ele ficaria a coxear. só queria salvar alguma coisa. não. Morton tornou a agarrá-lo. atrás de uma parede? Ali? Deu um passo em frente. informaram-no. — O Capitão pontuou as palavras com um suspiro. — Não. de olhos semicerrados. Estiveste metade do tempo inconsciente. Cortara vários nervos e tendões e estilhaçara-se contra o osso. Acabaram-se os bailes. Era Morton. rebolando-o na terra para apagar as chamas. espera. Os motores dos aviões rugiam. espera. furioso. Levantou os braços e gritou: — EU AJUDO-TE! MOSTRA-TE! NÃO TE FAÇO MAL! Uma dor lancinante perpassou a perna de Eddie. convencido de que algum inocente estava a morrer carbonizado diante dos seus próprios olhos. puxou o braço atrás e acertou-lhe no peito... depois. Na verdade. O seu rosto contorcido de raiva.. Uma chama 72 amarela subiu-lhe pela canela e. Perdeste muito sangue.... Acabaram-se as correrias. Morton caiu de joelhos. Eddie tinha a cabeça a latejar. Ficou ali deitado. Eddie deu meia volta.

na sua perna e na sua alma. Mas. a cada soco. E a dor também. — Porquê? Seu sacana! Porquê? PORQUÊ? Lutaram no solo lamacento. — Porque fui eu — disse ele — que te dei um tiro na perna. deixando Eddie descarregar a sua raiva. Semicerrou os olhos e fitou o Capitão. »Até entrar para a tropa. pendurada no ramo da árvore. — É verdade.73 por algum motivo. Achavam que eu podia garantir-lhes a vida. jovens como tu. podia pelo menos manter-vos unidos. Eddie acenou com a cabeça. só . agarram-se a ela como um soldado se agarra ao crucifixo. na verdade. O Capitão soltou uma baforada. — Força — sussurrou o Capitão. Eddie imobilizou o Capitão. Ninguém fica para trás. Durante os tempos de paz era uma coisa. As cicatrizes da operação estavam novamente presentes. começou a guerra e apareceram novos homens. rezando numa trincheira. — Isso era muito importante para nós — disse. Retraíu-se. se não podia garantir a vossa sobrevivência. comecei eu a dá-las. passei a vida a receber ordens. como se soubesse o que ia acontecer a seguir. Também eu me limitava a receber ordens. chegava ao ponto de atirar uma moeda para cima dos lençóis e ver se ela saltava. Apercebia-me do medo nos olhos deles. o meu pai inspeccionava a minha cama. Regressou a casa um homem diferente. Sentiu um turbilhão de emoções dentro de si. De repente. tirou outro cigarro e acendeu-o. Deixou o cigarro cair dos dedos. Apanhava muitos recrutas armados em chicos-espertos. O Capitão fitou-o. — Mas é claro que eu não podia. Mas. Limitou-se a rebolar de um lado para o outro. — Para mim — prosseguiu o Capitão —. Aprendi a disparar uma arma aos seis anos. O Capitão não sangrou. que o olhou com uma expressão vazia. — Sabias — disse o Capitão — que descendo de três gerações de militares? Eddie encolheu os ombros. depois. Por fim. — Por que é que diz isso? — perguntou Eddie. Tudo lhe parecia disparatado ou inútil. a lutar o caminho todo até lá baixo. essa pequena coisa era aquela que eu vos dizia todos os dias. A guerra alojou-se dentro de Eddie. que não sentia desde antes de morrer. O Capitão nem pestanejou. Eddie gritou e precipitou-se com toda a força. de raiva e um desejo de bater em alguma coisa. Eddie olhou para a sua perna. No meio de uma grande guerra. Levou a mão ao bolso do peito do casaco. Agiam como se eu estivesse na posse de informações sigilosas sobre a guerra. que não sentia há muitos anos: uma onda feroz. Todas as manhãs. não pensaste? Eddie teve de admitir que sim. fazendo com que os dois homens caíssem da árvore por entre ramos e vinhas. assoladora. 74 — Espero que sim — retorquiu. à espera que eu lhes dissesse o que fazer. sentando-se em cima do peito dele. Eddie abanou-o pelos colarinhos e bateu com o crânio dele contra a lama. A mesa do jantar era sempre «sir» para cá e «sir» para lá. e todos me faziam a continência. depois apontou com a ponta do cigarro para a perna de Eddie. Aprendeu muitas coisas enquanto soldado. e agrediu-o repetidamente com murros no rosto. Assim que a encontram. as pessoas procuram uma pequena coisa em que acreditar. Também pensaste o mesmo. acabara-se também a maneira como ele costumava sentir-se em relação às coisas. O Capitão levou a mão ao pescoço e esfregou-o.

. Viu os dentes manchados de amarelo. aquele erro. Tínhamos um minuto para sair dali e. Eu não podia deixar-te morrer carbonizado. A respiração de Eddie esmurrava-lhe o peito como um martelo. — Os outros? — repetiu Eddie. com uma lua fosca no céu. — A minha. mas sempre pensara que morrera num qualquer combate posterior.. que mudara toda a sua vida. querias entrar no celeiro desse por onde desse.com um braço. — A minha. meses depois. com outro pelotão. Tirámos-te de lá e os outros levaram-te para um posto médico. passaste-te à frente de um incêndio. os aviões a aproximarem-se. Eddie largou-o e caiu para trás. Doíam-lhe os braços. 75 — Estavas obcecado. peeeerna! — gritou Eddie. Achei que um ferimento na perna acabaria por sarar. Os bombardeamentos . «os outros»? O Capitão levantou-se e sacudiu um graveto que estava preso à sua perna.. quando ele tentou impedir-te de lá entrar. Um homem sai da tenda e começa a andar. Eddie nunca mais o vira... Quase deixaste o Morton sem sentidos. Aproximou-o de si. 76 — Voltaste a ver-me? — perguntou. baixinho — para te salvar a vida. Fora transportado de helicóptero para o hospital militar e. Eddie estava estendido no banco de trás. E. como se fosse para casa. Tinha a cabeça suja de lama e folhas. — Como. chegou uma carta com uma medalha lá dentro. por fim. fora desmobilizado e enviado para casa. Com o tempo. que o Capitão não sobrevivera. — Porque é que eu não morri? — Ninguém podia ficar para trás. Apontou numa direcção por cima do ombro de Eddie e Eddie virou-se para olhar. à conta da tua força. O que viu. semiconsciente. já vi acontecer a tantos outros. hora? O Capitão prosseguiu. — Não havia ninguém dentro da cabana. enquanto Morton atava um torniquete acima do seu joelho. Que raio de ideia me passou pela cabeça? Se eu não tivesse entrado lá.. Às vezes. Terias morrido.. — A minha vida! — Eu dei-te cabo da perna — explicou o Capitão. Os meses depois da guerra foram negros e depressivos. Está farto. O Capitão conduzia o veículo que transportava Smitty. Tinha a cabeça a andar à roda. é a meio da noite. ferido. descalço. um minuto antes de sairmos daquele lugar. — Às vezes é a meio de um combate. — No teu caso. com o cotovelo a prender o peito de Eddie — te teríamos perdido naquele incêndio. lembras-te? — perguntou o Capitão. Ouvira dizer. Um soldado chega a um determinado ponto em que não consegue continuar. ninguém conseguiria lutar contigo. Um homem larga a arma e fica com um olhar vazio. Morton e Eddie.. — Foi como te disse — continuou o Capitão. Precisou de um minuto para compreender o que o Capitão acabara de dizer. Durante tantos anos. — Porque — disse ele calmamente. não tinha o mínimo interesse em relembrá-los. seminu. ao virar da esquina. as cabanas a arder. Um dia. — A sua voz esmoreceu e tornou-se um sussurro. mas a noite da sua fuga. mudou de endereço. Eddie sentiu uma última onda de raiva e agarrou no Capitão pelos colarinhos. mas Eddie pô-la de parte. exausto. fora assombrado por aquele instante. — Tétano? Febre amarela? Aquelas vacinas todas? Não passaram de um enorme desperdício do meu tempo. Eddie estava ofegante. de repente. pegou em Eddie e deitou-o por terra. geralmente. agitado. E não era chegada a tua hora. esqueceu-se dos pormenores. por causa do seu ferimento. acaba por levar um tiro. como se vivesse ali mesmo. do tabaco. não foram as colinas áridas. sem a abrir sequer. Não. queimado. — O que te aconteceu a ti. Não consegue lutar mais.

78 A segunda lição — Ai. não é? Não sabe o que é o sono. enquanto estava a olhar para o céu. O Capitão pegou numa espingarda e saltou do carro. Mas o que acontece na Terra é apenas o começo. certo? — Mas não está — prossegue o Capitão. — Morrer? Não é o fim de tudo. Eddie baixou os olhos. Apenas o seu esqueleto destroçado e a terra lamacenta. Sempre o imaginara tão mais velho. num sussurro. O céu negro iluminava-se de uns tantos em tantos segundos. soldado. Capitão. — Acorda na manhã seguinte e tem todo um mundo novo à espera dele. indicando que ia inspeccionar o caminho. — Acho que é como diz a Bíblia. O veículo guinou ao chegar ao cimo da colina.estavam cada vez mais perto. que se ouviu um pequeno clique por baixo do seu pé direito. Fez sinal a Morton para se pôr ao volante. sem as cinzas de carvão a mancharem-lhe o rosto. Atirou o Capitão a seis metros no ar e desfê-lo em pedaços. O lugar onde fazemos com que o nosso ontem tenha sentido. um amontoado ardente de ossos. Sem funeral. As colinas haviam regressado ao seu estado de aridez. — Estava à tua espera. Um avião aproximou-se no céu e ele levantou os olhos para ver se era do inimigo. depois detevese. Foi nesse instante. Eddie reparou nas poucas rugas do seu rosto e na melena de cabelo escuro. uma coisa improvisada de madeira e arame. Tem o dia de ontem. — Está aqui desde que morreu — disse Eddie —. O Capitão fez um sinal de assentimento. Devia ter apenas trinta e poucos anos. Que horror! Que tragédia! O Capitão acenou com a cabeça e desviou o olhar. cartilagem e centenas de bocados de pele carbonizada. como uma chama arrotada pelo centro da terra. Sem caixão. meu Deus! Eu não fazia ideia. — disse o Capitão. 77 A mina terrestre explodiu imediatamente. Achamos que é. 79 O Capitão sorri. É isso o Céu. — A primeira noite de Adão na Terra? Quando ele se deita para dormir? Ele julga que acabou tudo. meu Deus — disse Eddie. Puxou da cigarreira de plástico e bateu nela com o dedo. Correu o melhor que pôde. como se o sol estivesse a acender e a apagar. — Estás a perceber? Nunca tive muito jeito para ensinar. — O tempo — respondeu o Capitão — não é o que tu pensas. Mas agora. fechando os olhos e deixando cair a cabeça para trás. Fez sinal aos soldados. que serpenteava por entre o arvoredo. — Tem estado este tempo todo aqui. com os braços. é isso mesmo que se passa aqui. — Ai.. Disparou contra o trinco e abriu o portão. mas tem também outra coisa. . alguns dos quais voaram por cima da terra enlameada e foram aterrar nas árvores. — Sentou-se ao lado de Eddie. descalço. como o solo caía a pique de ambos os lados. Eddie observou o Capitão atentamente. a história de Adão e Eva. — A meu ver. Eddie ficou com um ar perplexo. à espera? — perguntou Eddie. O caminho estava livre.. a carroça desconjuntada e os restos queimados da aldeia. meu Deus! Ai. depois apontou para os olhos. Havia um portão. Eddie percebeu que aquele era o local onde o Capitão fora enterrado. cinquenta metros para lá da curva do carreiro. com os ossos de animais. Sente os olhos a fechar-se e pensa que está a deixar o mundo. mas. não podiam contorná-lo. mas isso corresponde ao dobro do seu tempo de vida.

Voou pelos céus e desapareceu. Não chegou a aterrar. Colocou o capacete e as chapas debaixo de um braço. mas ele contou-te e agora está longe daqui e. limpou os restos de cinza do rosto. Não te deves arrepender deles. Grandes sacrifícios. dentro de poucos instantes. porquê este lugar? . O Capitão dirigiu-se para o capacete. — Tu fizeste um sacrifício. — Capitão? — disse Eddie. não podia? Foi o que disse o Homem Azul. É algo a que as pessoas devem aspirar. Ele sacrificou-se pelo seu país e a sua família percebeu isso. Eddie abanou a cabeça.— Foi o que disse o Homem Azul. Portanto.. Naquela noite. »Um homem vai para a guerra. O Capitão virou-se. parte da história que precisavas de saber. parte do motivo por que viveste e como viveste.. Não te deixei ficar para trás. — Baixou a voz. Não paravas de pensar no que tinhas perdido. Estamos apenas a passá-la a outra pessoa. Estendeu a mão. Estendeu a mão. Fez parte da tua vida. não a perdemos realmente. como se já estivesse à espera que aquilo acontecesse. ouve-me com atenção. — Perdoas-me pelo tiro na perna? Eddie pensou por um instante. E assim que as coisas são. De repente. — Mas o Capitão. a espingarda e as chapas. todos nós podíamos ter pisado aquela mina terrestre. Eddie sentiu as suas costas endireitarem-se. 81 — Sim? — Porquê aqui? Podia ter escolhido qualquer lugar para esperar por mim. Eu também ganhei uma coisa. O Capitão olhou de relance para cima. — Rabozzo não morreu em vão. O Capitão estalou a língua contra os dentes. Então. — Mas é isso mesmo que importa. Mas tu estavas irritado com o teu. Ramos novos e viçosos despontaram como bocejos. — Bom. ele também estava à tua espera. Eu fiz outro. — Perdeu a vida. — Sacrifícios — disse o Capitão.. As vezes. — É verdade que te alvejei — disse ele — e que perdeste qualquer coisa. Pequenos sacrifícios. Eis o que tens de saber de mim. porque se sentiu inspirado pelo exemplo de Rabozzo. mas também ganhaste algo em troca. com as palmas das mãos abertas. teríamos morrido os quatro. quando sacrificamos uma coisa preciosa. O Capitão apertou-a com firmeza. Uma filha regressa a casa para tomar conta do pai doente. Depois. com um assobio. »Eu também não morri em vão. »Não percebeste que os sacrifícios fazem parte da vida. ainda espetados no chão. — O quê? — Cumpri a minha promessa. Pensou na amargura que sentira na sequência do seu ferimento. Nesse caso. a sepultura simbólica. e o irmão mais novo tornou-se um bom 80 soldado e um grande homem. Só ainda não te apercebeste disso. também eu estarei longe daqui. Em seguida. na raiva por tudo o que tinha perdido. — Era disto que eu estava à espera. cobertos de folhas macias e verdejantes e bolsas de figos. em seguida arrancou a espingarda da lama e arremessou-a como uma lança. as vinhas grossas caíram dos ramos da árvore e derreteram-se no solo. Todos nós os fazemos. Uma mãe trabalha para que o seu filho possa ir para a escola. pensou no que o Capitão perdera e teve vergonha.. Deteve-se por um instante e olhou para o distante e enevoado céu cinzento.

»O meu desejo — explicou o Capitão — era ver como era o mundo sem guerra. rodeavam a ilha. . A seguir. Atirou-lhe o capacete e as chapas. — Não consegui dormir — disse Dominguez. — Isto — disse o Capitão. As nuvens turvas afastaram-se como cortinas. — Para ti. — Que se passa? Willie encontrava-se à porta da oficina. 7 HORAS E 30 MINUTOS DA MANHA Na manhã após o acidente. — São teus. 83 SEGUNDA-FEIRA. — Porque morri num campo de batalha. Fitou Eddie com olhos de compaixão. Dentro da aba do capacete estava a fotografia amarrotada de uma mulher. A minha morte. Também isso foi visto só pelos teus olhos. por cima do horizonte. Eddie deixou cair a cabeça.O Capitão sorriu. reflectido em oceanos cintilantes que.. Mas os nossos olhos são diferentes — disse o Capitão. O Capitão coçou a pele atrás da orelha. levantando os braços — é o que eu vejo. já o Capitão tinha desaparecido. Dominguez entrou bem cedo na oficina.. Antes de começarmos a matar-nos uns aos outros. — Já agora. — Mas há alguém que pode. é só isso — murmurou entre dentes. Vestia uma camisola verde e calças de ganga largueironas. Os destroços derreteram. O parque estava fechado. O título dizia: «Tragédia no parque de diversões». planos militares. envergonhado por estar a fazer aquela pergunta. mas ele foi trabalhar à mesma e ligou a água da pia. — Não te posso responder. Quando voltou a levantar os olhos. — Espere — gritou Eddie. agora. luxuriante. Salvei a menina? Senti as mãos dela. Deixei este mundo sem conhecer muito mais do que a guerra: linguagem militar. Fui morto nestas colinas. — O que tu vês não é igual ao que eu vejo. dada a maneira terrível como o Capitão morrera. — Deu uma gargalhada. Ergueu uma mão e a paisagem chamuscante transformou-se. Era uma beleza imaculada. — Porque é que eu haveria de fumar no paraíso? Começou a afastar-se. Parecia tudo ainda mais silencioso do que há um minuto. a absorver o cenário. as árvores cresceram e propagaram-se. tendo abdicado do seu ritual de ir buscar um pãozinho e uma bebida para o pequeno-almoço. pensando que ia limpar algumas peças das máquinas. cujo rosto estava limpo e a farda subitamente passada a ferro. o solo passou de lama a relva verde. — Só queria saber. mas não me consigo lembrar. uma família militar. Eddie olhou à sua volta. brilhante. que novamente lhe trouxe dor ao coração. Eddie olhou para baixo. revelando um céu azul safira. — Preciso de saber uma coisa. pura. Eddie levantou os olhos para o seu antigo comandante. Trazia um jornal na mão. intocada. desligou a torneira e pôs a ideia de lado. Ficou parado durante uns instantes. — Mas isto é a guerra. No cais. Uma ténue névoa branca desceu sobre as copas das árvores e um sol cor de pêssego empoleirou-se. deixei de fumar. soldado. 82 O Capitão virou-se e Eddie engoliu as suas palavras. Passou as mãos pelo jorro.

Perguntou-se. que engoliu o seu corpo numa torrente de cores. e uma fileira de janelas com pequenos painéis em toda a fachada. Subiu os degraus cobertos de neve que conduziam à porta de painel duplo. depois da sua conversa com o Capitão. estava um edifício em forma de vagão com uma fachada de aço inoxidável e um telhado vermelho como um barril. se não havia mais ninguém à sua espera. Tornou a pestanejar. em vez disso. De repente. do lado de fora. Onde estou eu agora?. pensou Eddie. depois deu um beliscão no joelho esquerdo. — Pergunta à polícia. 84 A terceira pessoa que Eddie encontra no Céu Um vento súbito levantou Eddie do chão e ele rodopiou como um relógio de bolso na ponta de uma corrente. Estava nas montanhas. O letreiro no topo piscava a palavra: «RESTAURANTE». nem molhados. Ao fundo. Eddie sentiu uma pontada lancinante e contorceu-se de dor. Os músculos dos seus braços continuavam fortes. Estavam à espera que o velhote aparecesse e desse início ao dia de trabalho. de incredulidade. o ferimento desapareceria. — Willie deixou-se cair num banco de metal. Atravessou a neve e contornou uma rocha enorme. Os flocos soltaram-se. com cicatrizes. reluzindo com um brilho dourado.. com cumes cobertos de neve. Levantou o pé e sacudiu-o com vigor. Eddie passara muitas horas em lugares como aquele. Foi envolto por uma explosão de fumo. Deu meia volta no banco. entre duas cristas. se teria terminado. Hesitou. Num planalto. Era segunda-feira. A paisagem austera e silenciosa era de cortar a respiração. Eddie conseguiu distinguir várias pessoas através das janelas. parecia que se estava a tornar no homem que fora na Terra. se o Capitão estava errado. mas o seu ventre estava mais mole.— Eu sei. Ficaram sentados. Eddie reparou numa luz colorida e trémula que mudava ritmicamente de tantos em tantos segundos. como um cobertor reconfortante. Eram todos iguais: mesas com tampos brilhantes e bancos de correr de costas altas. Era de manhã. que. durante algum tempo. uma cordilheira sem fim. desta vez. tocou no seu corpo. afastou-se a alta velocidade e explodiu em tons de jade. a mudarem de posição um de cada vez. em silêncio. Apareceram estrelas. Deu um passo nessa direcção — e percebeu que tinha neve pelos tornozelos. uma imagem mais semelhante à que ele fazia do paraíso. — Quando é que achas que voltam a abrir o parque? Dominguez encolheu os braços. completamente isolado. gordura e tudo o mais. Porque é que o Céu nos faria reviver a nossa própria decadência? Seguiu as luzes trémulas ao longo do estreito. Dominguez suspirou. faziam com que os clientes parecessem viajantes numa carruagem de comboio. no campo coberto de neve. fitando o jornal com um olhar vago. interminável. até chegar a uma extensa clareira de onde partiam as luzes. Uma vez mais. encontrava-se um vasto lago negro. levou as mãos aos ombros. Quando lhes tocou. à procura de uma pastilha elástica. como que por turnos. O céu parecia puxá-lo e ele sentiu-o tocar-lhe na pele. A Lua reflectia-se reluzente nas suas águas. Estava 85 convencido de que. — Eu também não consegui. mais flácido. Espreitou lá . rochas agrestes e encostas absolutamente roxas. mas eram as montanhas mais espantosas que já tinha visto. Um típico restaurante americano. agora. Willie levou a mão ao bolso da camisola. não estavam nem frios. por instantes. à barriga. pessoas a falar e a gesticular. Mas. como sal espargido sobre o firmamento esverdeado. milhões de estrelas. . ao peito. Ali. Eddie pestanejou.

.. O que viu. dos anos sessenta. Inspirou fundo várias vezes. vamos — diz ela. finalmente se formar na sua garganta. Uma rapariga adolescente exibia um corte profundo de um lado ao outro do rosto. então. a mãe de Eddie abre a caixa branca da pastelaria e reordena as velas no bolo. a cantar baixinho. não poderia ter visto.. Mas a figura dentro da cabina. A perna dentro do gesso. a outra a segurar um charuto. Eddie senta-se. A mãe de Eddie acende as velas. não lhe ligaram. parabéns a. por mais vezes que Eddie a gritasse. Havia outros clientes sentados em bancos giratórios junto ao balcão de mármore ou dentro das cabinas das mesas. sem nunca levantar os olhos. — Alguém tem um fósforo? Palpam os bolsos. A canção. Os outros — o pai de Eddie. Estacou. — Está pronto. Mickey retira uma carteira de fósforos de dentro do bolso do casaco. O grupo entra no quarto de Eddie. Um homem negro de camisa de operário não tinha um braço. encostado a uma almofada. aproximando-se umas das outras. Virou as costas para a porta. — Não — ouviu-se a si mesmo sussurrar. Viu cozinheiros com chapéus brancos de papel 86 e pratos de comida fumegante em cima do balcão. Tem um par de muletas junto da cama. sem se aperceber da presença de Eddie. . tatuado no braço. deixando cairão chão dois cigarros soltos. — Não! — Continuou a gritar até a palavra que queria.para dentro. gritou-a tão alto. no canto direito. sentada à mesa. Deu meia volta e tornou a olhar. consegue continuar. Mickey Shea — estão de pé à volta dela. cremes de manteiga amarela. colocando-as em números pares. O soldado na cama ao lado acorda aos gritos: — QUE RAIO? — Percebe onde está e deixa-se cair na cama. Muitos dos clientes pareciam ter sido feridos. quando Eddie bateu na janela. a tremer na sua solidão. a palavra que não pronunciava há décadas. As suas queimaduras estão enfaixadas. a comer uma tarte. Gritou essa palavra. interrompida. muito depressa — muitosanosdevida. Nenhum deles olhou. Pareciam pertencer a décadas diferentes: Eddie viu uma mulher com um vestido de colarinho alto.. As pequenas chamas serpenteiam. Marguerite. partiria o vidro. — Não! Não! — Bateu até ter a certeza de que. Joe. — Não! — gritou Eddie. Um elevador pára ao fundo do átrio.. As portas abrem-se e sai uma maca. envergonhado. que a sua cabeça começou a latejar. estava sentado um casal de idade. Olha para aqueles rostos e sente-se consumido por um desejo tremendo de fugir. com uma mão pousada em cima do tampo. e um rapaz de cabelos compridos com o sinal da paz. com os casacos pendurados em cabides. parece demasiado pesada para voltar a erguer-se no ar e só a voz de Eddie. A sua direita. se continuasse. dos anos trinta. à espera de serem servidos — comida das cores mais suculentas: molhos de um tom vermelho intenso. — Para o menino Ed-die. Sentia o coração aos pulos no peito. a observar. doze do outro.. depois bateu desvairado nos painéis da janela. continuou debruçada. doze de um lado. Os seus olhos deslizaram até à última mesa. — Parabéns a você. uma e outra e outra vez: — Pai! Pai! Pai! 87 Hoje é o aniversário de Eddie No átrio sombrio e estéril do hospital militar. — depois.

agarrada ao roupão e tão indefesa como ele. Eddie retesa todos os músculos do corpo e tenta. Fica parado contra a parede do fundo. o pai encontrava uma cara conhecida e dizia: «Olhas-me pelo miúdo?» Até o pai voltar. 90 «Pára de respirar por cima do meu ombro!». A juventude. com o casaco no braço. de manhã. na oficina. garrafas. Uma vez. sem reparação possível. calejadas e vermelhas de . A mãe de Eddie dá um passo em frente. Ela olha em volta. frequentemente embriagado. atirando-os contra a parede. É inevitável. Eddie murmura: — Obrigado. Eddie raramente ia para o colo do pai e. em cima de caixas de ferramentas. cigarros e regras. Eddie ficava à guarda de um acrobata ou de um domador de animais. Muito boa cara. eu posso ajudar!». — Onde é que havemos depor isto? Mickey pega numa cadeira. Pelo menos quatro noites por semana. a olhar para a perna de Eddie. tentou pôr-se ao lado do pai e olhar para as cartas. para apanhar as moedas que tinham caído dos bolsos dos clientes na noite anterior. antes de o parque abrir. Eddie costumava rezar para que a mãe acordasse. Eddie esperava pela atenção do pai. Muitas vezes. duras. A regra de Eddie era simples: não incomodes. Eddie saía de casa com visões de carrosséis e pedaços de algodão doce. absorve as impressões de quem a manuseia. Eddie desfez-se em lágrimas e a mãe puxou-o para si. a todo o custo. Eddie repara no olhar dele. O pai baixa os olhos e passa a mão pelo parapeito da janela. dizia «Eu posso ajudar. então. Os outros apressam-se a concordar. dando um estalo na cara de Eddie com as costas da mão. A mãe de Eddie dava-lhe carinho. passada uma hora. Alguns pais deixam manchas. como se fosse a sua vez. outros provocam brechas.Joe pigarreia. que as lágrimas regressem às bolsas lacrimais. em criança. A mesa tinha dinheiro. mas. alguns estilhaçam por completo a infância em ínfimos cacos. Ainda assim. lançando um olhar fulminante ao marido. em que o jogo de cartas corria mal e as garrafas estavam vazias e a mãe já dormia. Sim. o pai avisava-a para «não se meter». estás com boa cara — diz ele. o pai de Eddie levava-o ao cais. na cama. mas. disse. enfiada em gesso da coxa até ao tornozelo. aos gritos de que andavam a esbanjar o seu dinheiro em porcarias. Joe arranja espaço em cima de uma pequena mesa. durante horas incontáveis da sua juventude na marginal. 89 Todos os pais prejudicam os filhos. o pai levava os seus trovões para o quarto de Eddie e Joe. sentado nas balaustradas ou empoleirado. Mãe. Óptimo aspecto. mas o velho pousou o charuto e rebentou como um trovão. — A tua mãe trouxe-te um bolo — sussurra Marguerite. — Et. geralmente ao fim da tarde. Apenas o pai não se mexe por mexer. Os estragos causados pelo pai de Eddie foram. Eddie nunca mais se aproximou. Quando era bebé. os estragos da negligência. obrigava os filhos a deitarem-se de barriga para baixo. costumava ser agarrado pelo braço mais com irritação do que com amor. Vê-la no corredor. Vasculhava os poucos brinquedos. como um vidro cristalino. Marguerite afasta as muletas de Eddie. As mãos que tocavam o vidro da infância de Eddie eram. Aos sábados. Noutras noites. o pai jogava às cartas. o pai encarregava-se da disciplina. piorava ainda mais a situação. mas a única tarefa que lhe confiavam era rastejar para debaixo da roda-gigante. 88 Mostra-lhe a caixa de cartão. Depois. mesmo quando ela o fazia. no início. enquanto ele tirava o cinto e lhes batia.

Os estragos estavam feitos. um rapaz dedica-se ao pai. Tu é que és forte. Tudo devia ser feito internamente. tarde. junto do pátio da escola da Avenida 14. No início.raiva. «só tem resistência para a água. limitava-se a ocupar-se das diversões mais simples. depois de terminada a sua tarefa. Eddie corria de base em base. deixaram de falar.» Ainda assim. quando Eddie voltava para casa depois de uma briga de beco. pelo soar dos passos no corredor. — Mostra que tiveste um dia de trabalho duro — disse ele. antes de enrolar os dedos à volta de um copo de cerveja. Sem tomar consciência disso. na Avenida Beachwood. à mesa do jantar. mesmo que não faça sentido. o irmão. E de todas as vezes. E. o pai reparava nos punhos arranhados ou no lábio cortado. estalos e chicotadas. Nessa altura — já um adolescente bem constituído — Eddie limitava-se a fazer que sim com a cabeça. O pai tinha estado a beber no pub do bairro e. Eddie limpava-as com a unha do polegar. Não deixes que ninguém lhe toque». a força com que ia ser espancado. Sabiam o que sentiam e ponto final. Perguntava «Em que estado ficou o outro tipo?» e Eddie dizia que o tinha amassado bem. uma vez. Esse foi o segundo estrago. de vez em quando. a falar pelos cotovelos. Eddie ouviu-o falar com a mãe acerca de Joe. tão bronzeado e limpo. Joe. Quando Eddie começou o liceu. o pai fazia um sinal de assentimento com a cabeça e. como as do seu pai. Recusa de afecto. depois da negligência. porque os filhos adoram os pais mesmo quando eles se portam da pior maneira possível. levantando-se antes de raiar o Sol e trabalhando no parque até ao cair da noite. uma noite. deparou com Eddie a dormir no . como lhes chamava a mãe —. e mostrou as suas próprias unhas sujas. abdicando de palavras ou 92 de afecto físico. mas o pai de Eddie disse: «Não lhe ligues. então. imitava o horário de Verão do pai. apesar de tudo. A noite. Ao longo desse tempo todo. E. Antes de poder dedicar-se a Deus ou a uma mulher. quando ele o fazia. Davalhe um volante estragado e dizia: «Conserta-o». manobrando as alavancas dos travões. quando Eddie teve alta do hospital e tirou o gesso da perna e voltou para o apartamento da família. com os cabelos e a pele a cheirarem a água do mar. Entregava-lhe um pára-choques enferrujado e um pedaço de lixa e dizia: «Conserta». fazendo os carrinhos parar suavemente. o pai de Eddie deixava uma ruga de orgulho estalar o verniz do seu desinteresse. «Aquele». quando voltou para casa. O estrago da violência. Joe tornara-se um bom nadador e o seu emprego de Verão era trabalhar na piscina de Ruby Pier. Anos depois. Eddie tinha inveja da maneira como o irmão aparecia ao jantar. iniciara um ritual de sinalização com o pai. Eddie adorava secretamente o pai. Joe ficou envergonhado e escondeu-se no quarto. Outras vezes. Uma vez. como que para alimentar as brasas mais fracas de uma fogueira. o seu dinheiro. Apontava para uma corrente enredada e dizia: «Conserta-a». reuniam-se à volta da mesa do jantar. a mãe rechonchuda e transpirada. e ele passou os seus anos mais tenros a levar murros. Se Eddie lançava a bola para a parte mais distante do campo. mesmo que não haja explicação para tal. tentando retirar a sujidade. Foi depois da guerra. o pai postava-se atrás da vedação a ver Eddie jogar. Apanhou o pai a observá-lo. O pai de Eddie testava-o com problemas de manutenção. Eddie levava o objecto ao pai e dizia: «Está consertado». foi trabalhar para a oficina. Tens de tomar conta do teu irmão. O pai de Eddie não ficava impressionado. Joe falava sobre todas as pessoas que por lá via. Também 91 isto recebia a aprovação do pai. Quando Eddie atacou os miúdos que estavam a chagar o irmão — os «rufias». No campo de basebol. As unhas de Eddie. Atingiu proporções tais que Eddie conseguia adivinhar. e o velho sorriu. os seus fatos-de-banho. estavam manchadas de gordura e. a cozinhar ao fogão. disse ele.

Eddie mexeu-se ligeiramente. tão ralos em alguns pontos que se via o crânio rosado por baixo. um vestido de seda e chiffon. Eddie levantou a cabeça num gesto brusco. assim. As suas roupas pertenciam a uma época anterior à dele. Sentiu o hálito a álcool e cigarros. Lançou um olhar fulminante ao pai. em vez de aguentá-la como se a merecesse. era sinal de fraqueza.. Usava uns óculos de aros metálicos sobre uns olhos pequenos.. Os estragos estavam feitos. e soltou o braço das garras de Eddie. suspenso no ar. Era a primeira vez que Eddie se defendia.. Ela implorava. ARRANJA UM EMPREGO! Eddie apoiou-se nos cotovelos.. proferindo as palavras com dificuldade — e arranja um emprego. Negligência. O velho arregalou os olhos. Recuou um passo e fez menção de lhe dar um murro. mas o pai de Eddie limitava-se a dizer. a esfregar o joelho ferido. pondo-se de pé e ignorando a explosão de dor no joelho. A mãe sussurrava que «ele precisa de tempo para recuperar» mas. silêncio no casamento de Eddie..sofá. e. mas Eddie moveu-se instintivamente e agarrou o braço do pai em pleno ar. a face flácida. Para ele. — Não fiques irritado — disse uma voz feminina. Baixou a voz e grunhiu: — Vês? Não. Esta foi a sua vida juntos. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e. — CHEGA! — gritou Eddie. quase inexplicavelmente. mesmo com Marguerite. ele ainda desejava. O seu pai remeteu-se ao silêncio quando Eddie saiu de casa e foi morar para o seu próprio apartamento. Fitou Eddie com os olhos de um homem que vê um comboio a afastar-se. a primeira vez que fazia qualquer coisa para impedir uma sova. — Levanta-te — gritou. os 93 dentes rangeram e ele recuou. Não saía de casa. estava uma velhinha. Passava horas a olhar pela janela da cozinha.. por entre os maxilares cerrados. Eddie não se lembrava dela.. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te. na neve.. Nunca mais voltou a falar com o filho. segurando uma sombrinha com ambas as mãos. O seu pai. O velho olhou para a perna de Eddie. remeteu-se ao silêncio quando Eddie arranjou emprego como motorista de táxi. Nao compreendia o conceito de depressão. o mesmo que dizia a todas as outras pessoas que lhe faziam o mesmo pedido: «O rapaz levantou-me a mão». Esta foi a marca final no vidro de Eddie.. as suas narinas adejaram. Diante dele. agora. para que deixasse o rancor para trás. E assunto encerrado. azuis. e arranja um emprego! O velho estava trôpego. Violência.. A saia tinha uma fivela a imitar um brilhante. O silêncio. a cada dia que passava. novamente ferido pela recusa de um homem cujo amor.. Assombrou os seus restantes anos de vida. — Ele não te consegue ouvir. cosido com missangas brancas e encimado por um laço de veludo mesmo abaixo do pescoço.. até no Céu. silêncio quando Eddie vinha visitar a mãe. O pai baixou os olhos para o seu próprio punho cerrado. A sua postura era elegante. Todos os pais prejudicam os filhos. com molas e ganchos de cada lado. Silêncio.. tão ferido. algures para lá da morte. com um corpete tipo bibe. O seu rosto era encovado. E. o pai estava cada vez mais agitado. As trevas do combate tinham mudado Eddie. .. o seu rosto a escassos centímetros do dele. batom cor-de-rosa e os cabelos brancos puxados para trás. — Levanta-te. chorava e suplicava para que o marido mudasse de ideias. mas aproximou-se de Eddie e deu-lhe um empurrão. a ver o carrossel. estás. Eddie deixou-se cair contra uma parede de aço inoxidável e afundou-se num banco de neve. cambaleante. O pai voltou a gritar. Raramente falava. um homem que o ignorava.

Tocou na neve que não era fria. outrora. Ela sorriu. antes de fazer a pergunta seguinte.. Quem era aquela mulher? Pelo menos..» Onde estavam eles. «todos nos reencontraremos no Reino do Céu. — Posso voltar? Ela semicerrou os olhos. O seu amigo Noel. — Porque é que o meu pai não me consegue ouvir? — perguntou. Ela abanou a cabeça. — É lindo. Tu é que estás.. O irmão. faz parte da minha eternidade. Porquê um desconhecido? Porquê agora? Eddie desejara. como uma estrela que caíra numa ravina. algures. Havia qualquer coisa na velha senhora que o intrigava. sabe? Queria desviá-la do caminho e devo ter pegado nas mãozinhas dela e foi então que eu. sim — respondeu ela. tinha uma lembrança do lugar que eles ocuparam na sua vida. Todos os tostões que ganhávamos iam para a família.. Não queria ouvir mais uma história. De repente. estavam no sopé da montanha. Só me lembro daquelas mãozinhas. então. Porque não sinto que tenha percebido tudo. num tom peremptório. não é? — comentou a velhinha. dizia o padre. Não. são e salvo. — Porquê? — repetiu Eddie. Eddie interrompeu-a.. com a mão nua que não sentia a humidade. sorrindo como se o tivesse ouvido. voltar — insistiu Eddie. Nem sequer me lembro da minha própria morte. — Porque o espírito dele. Marguerite. — Porquê? Porque este lugar não faz sentido para mim. Não me lembro do acidente. . polira os seus sapatos pretos de cerimónia. — Fui criada como tu. Já fora a tantos funerais.Eddie calculou que devia ter sido rica... — À minha vida. aquela menina que eu estava a tentar salvar. pegara no seu chapéu e postara-se num cemitério com a mesma pergunta exasperante: Porque é que eles partiram e eu continuo aqui? A mãe. nos confins de uma cidade. a minha terceira pessoa? — Sou. «Um dia». Porque não me sinto um anjo. — Vem — disse ela. Há alguma coisa que eu possa fazer? Posso prometer ser boa pessoa? Posso prometer ir à missa todos os dias? Qualquer coisa? — Porquê? — Ela parecia divertida. Eddie coçou a cabeça. Ele hesitou. se é assim que me devia sentir. se aquilo era o Céu? Eddie examinou a estranha mulher. 95 — Posso ver a Terra? — sussurrou. — Voltar? — Sim. 94 — Nem sempre fui rica — disse ela. — Porque é que o meu pai tem de estar a salvo para si? Ela hesitou. — Posso falar com Deus? — Podes sempre falar com Deus. Sentiu-se mais só do que nunca. Àquele último dia.. no caso do Homem Azul e no caso do Capitão. Fui uma rapariga trabalhadora. Mas ele não está aqui. Eddie seguiu o olhar dela. obrigada a abandonar a escola aos catorze anos. Tias e tios. que a morte significasse o reencontro com aqueles que haviam partido antes dele. como se já a tivesse visto numa fotografia. A luz do restaurante não passava agora de um mero pontinho. — A senhora é. E as minhas irmãs também.

A saia comprida formava pregas ordeiras à sua volta. — Como já disse. Deve ter sido isso que o atraiu para uma rapariga pobre como eu. investindo em madeira e aço. »O nosso namoro foi maravilhoso. com as costas muito direitas. apanhadas e sem fuga possível. a incapacidade de sentir entusiasmo fosse pelo que fosse. abanando a cabeça. fui uma rapariga trabalhadora. que as minhas irmãs nunca mais teriam de me aborrecer para eu tomar uma decisão. comprava-me roupas lindas. Encher-se de gordura. embora não houvesse um lugar onde o fazer. orgulhosa. isto. quando morrem? — Todos temos paz de espírito — disse a velhinha —.Encolheu os ombros. naquele preciso 97 instante. . — Servia café aos trabalhadores das docas e peixe frito e bacon aos marinheiros. O meu emprego era servir às mesas. Era um gastador. de repente. — Morreste? — disse a velhinha. Aquele lugar. diziam elas. Ficava perto da costa onde cresceste. Eddie suspirou. contendo o riso.» »Então. antes que seja demasiado tarde. Sentou-se no ar e cruzou as pernas. — Mas eu conheço-te — anunciou ela. numa pose de senhora elegante. 96 Mas calou-se e disse: — Não me leve a mal. Emile fizera fortuna rapidamente. Soprava uma brisa e Eddie sentiu um ligeiro perfume. as vezes que fora passear sozinho para as docas e vira os peixes a serem puxados em redes de malha larga. então. num restaurante chamado Seahorse Grille. na minha vida pobre e limitada. os pesadelos. Ela sentou-se. o cavalheiro mais bem-parecido de sempre entrou pela porta do restaurante. oferecia-me refeições que eu nunca provara. Talvez te lembres? Ela apontou para o restaurante e. soltando o ar. depois da guerra. envergonhado por se identificar com aquelas criaturas indefesas a contorcerem-se na teia. eu era uma moça jeitosa. Ele costumava ir lá tomar o pequeno-almoço. — Ah. — Não — teimou Eddie. «Quem é que tu julgas que és?». — Faleceste? Passaste para o outro lado? Foste ao encontre do teu Criador? — Morri — disse ele. Tinha os cabelos pretos muito bem cortados e o bigode escondia um sorriso constante. se tiveres um instante. E eu soube. »Devo acrescentar que. Pensou em contar-lhe o tumulto que sentia todos os dias. Fez-me sinal para eu o servir e eu tentei não ficar embasbacada a olhar para ele. As pessoas não deviam ter paz de espírito. eu conto-te. os outros. ouvi o seu riso forte e confiante. um dia de manhã. Eddie lembrou-se. — A senhora era empregada do Seahorse? — É verdade — respondeu ela. Mas quando falou com o colega. — E não me lembro de mais nada. naquela época — prosseguiu a velhinha —. basta procurá-la dentro de nós. porque Emile era um homem de posses. «Pára de ser tão selectiva e arranja um homem. Depois apareceu a senhora. Tinham-no deitado abaixo há anos. — A senhora? — disse Eddie. Apanhei-o duas vezes a olhar para mim. Levava-me a lugares onde eu nunca tinha estado. mas eu nem sequer a conheço. Claro. Quando pagou a conta. sim? De onde? — Bom — disse ela —. As minhas irmãs ralhavam comigo. não é verdade. com um sorriso. — Não. como costumavam dizer. Usava um fato às risquinhas e um chapéu de feltro. Recusei muitos pedidos de casamento. um aventureiro. Detestava as pessoas que já nasciam ricas e adorava fazer coisas que «uma pessoa sofisticada» jamais faria. disse que se chamava Emile e perguntou se me podia visitar. era capaz de tudo quando metia uma ideia na cabeça.

os ciganos. eram meras oportunidades de negócio para as empresas de caminhos-de-ferro. Um dia. Uns anos depois. ia construir um parque de diversões só para mim. O seu cabelo negro e espesso está acamado de suor. No fim da linha. como se estivesse desapontada. Adorava os parques de diversões. Disse-lhe que sim e ouvimos o riso das crianças a brincar à beira-mar. à noite. que os erguiam no final das suas rotas. Um passo e uma hesitação trôpega. na aldeia. com uma venda a tapar-me os olhos. com o mar a roçar os nossos pés. Foi assim que nasceu a maior parte dos parques de diversões. para que os trabalhadores tivessem um motivo para andar de comboio ao fim-desemana. E adorávamos ambos o mar. A velhinha deu um passo atrás. eu pude ver com os meus próprios olhos o que ele fizera. Eddie começa todas as manhãs da mesma maneira. Depois. Pensavam que os parques de diversões eram construídos por duendes com varas de doces. para evitar a inevitável rigidez da perna esquerda. qualquer coisa que lhe indique que ele está ali.. tão intensas que. quando estávamos sentados na areia. em breve. Na verdade. Aquele pesadelo. por hábito. os nós dos dedos. sabias? Eddie acenou com a cabeça. ele pediu-me em casamento. costumava perguntar Eddie. Sabia. Pousa primeiro a perna direita. ergueu as diversões mágicas: as corridas e montanhasrussas. Não vale a pena voltar a adormecer. Depois. examina os seus olhos raiados de sangue e lava a cara. A entrada foi a última coisa a ser feita e era verdadeiramente grandiosa. Toda a gente o dizia. as cartomantes. levou-me lá. no apartamento por cima da padaria. Havia torres e espirais e milhares de luzes incandescentes. no incêndio. depois sai lentamente da cama.. que andava à procura de uma maneira de aumentar o número de passageiros no fim-desemana. fez uma pequena vénia. — Não te lembras? Nunca pensaste no nome do parque? Onde trabalhavas? Onde o teu pai trabalhava? Ela tocou ao de leve no peito. »Emile contratou centenas de trabalhadores. tentando não acordar a mulher. — Emile cumpriu a sua promessa. «Fiquei delirante de alegria. Emile meteu uma nova ideia na cabeça e jurou que.»Uma dessas coisas era visitar as estâncias de veraneio. fez um acordo com uma empresa de caminhosde-ferro. os adivinhadores do peso e as raparigas do mundo do espectáculo. tentando desesperadamente focar o braço. com falta de ar. Na casa de banho. Mandou vir animais. Sabem onde trabalho?. com a sua mão coberta por uma fina luva branca. Espera que a sua respiração acalme. um cais enorme feito com a madeira e o aço das suas empresas. Acabará um dia? São quase quatro da manhã. se via o parque do convés de um navio no mar alto. — Eu — disse ela — sou a Ruby. as viagens em barcos a fingir e os caminhos-de-ferro em miniatura. É aí que eu trabalho. Quando ficou pronta. A velhinha sorriu. Quando retirou a venda. Fitou-o com uma expressão estranha. 98 — Emile — continuou a velhinha — construiu um lugar maravilhoso. operários municipais e artistas de feira e estrangeiros. 99 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e três anos. Importou um carrossel de França e uma roda-gigante de uma das feiras internacionais da Alemanha. para ser eternamente jovem. embora a maior parte das pessoas não o soubessem. a comida salgada. afastando-se de Eddie. — A entrada? — disse ela. como se estivesse a apresentar-se formalmente. É sempre o mesmo . para captar a felicidade daquele instante. Acorda bruscamente. Pestaneja com força na escuridão. acrobatas e palhaços. e não na guerra.

sente uma coisa agarrar-lhe nas pernas. estaciona o táxi à esquina. ele sente-se oprimido. ele acabou por desistir de tudo. A suar. na sua última noite na guerra. com o vestido estampado de que Eddie gosta. — Queres lutar comigo pelos doces? — sussurra ela. Algo invisível atinge a perna de Eddie e ele bate-lhe. a cantarolar na sua doce voz meiga. estou só cansado» e deixa o assunto ficar por aí. De sua casa. Ela acenou com a cabeça. nos fundos da loja. atado com uma fita. — disse Eddie..» Abre a porta e vê um bolo em cima da mesa e um pequeno saco branco. Nunca fala com Marguerite sobre a escuridão.pesadelo: Eddie a vaguear por entre as chamas das Filipinas. Parece preocupado. da garganta sai-lhe um guincho muito agudo. Nathanson.. vive no apartamento do rés-do-chão. As chamas tornam-se mais intensas. a gritar por Eddie.. mas. Ofegante.. — Querido? — grita Marguerite do quarto. Tens um telefonema. O pior é a escuridão total em que o sonho o deixa. Doces. quando Eddie regressa do trabalho. e depois aparece Smitty. Do cais. «Deixa-me sentir isto como devo. Nessa noite. E ali permaneceu. Batem à porta. até que. Acho que aconteceu alguma coisa ao teu pai. algures nos fundos da oficina da manutenção. E a seguir. a gritar: «Vamos! Vamos!» Eddie tenta falar. — Marguerite aparece. Até nos seus momentos felizes. ele está parado à entrada. Quando Eddie abre a porta. Debate-se com a escuridão dentro de si: «Deixa-me em paz». Só sabe que houve alguma coisa que se interpôs no seu caminho. no seu lugar habitual. quando ela supostamente o faz feliz? A verdade é que nem a si próprio ele é capaz de o explicar. — És tu? Ele levanta o saco branco. Eddie tem necessidade de inspirar fundo. Está linda. Veste-se sem fazer barulho e desce as escadas. e Eddie limpa a humidade do pára--brisas. O táxi está parado à esquina. quando abre a boca. volta a bater e volta a não acertar. a barrar-lhe a passagem. de cabelo arranjado e lábios pintados. Depois. o padeiro. De repente. Tem um telefone. As cabanas da aldeia estão imersas em fogo e ouve-se um constante ruído. — A velha entrada. acorda. — Eddie — diz ele. rugem como um motor. Sempre o mesmo. diz ele à escuridão. A entrada primitiva de Ruby Pier fora uma espécie de marco . uma canção conhecida. Eddie percebeu porque é que a senhora lhe parecia conhecida. agudo como um guincho. mas não acerta. com o tempo. Acomodou-se à sua vida. Vira uma fotografia dela. O pior não é a insónia. um véu cinzento que lhe turva o dia.» Marguerite acaba de cantar e dá-lhe um beijo na boca. Ele aproxima-se para voltar a beijá-la. Sobe as escadas lentamente. — Parabéns a você. de roupão... Como é que ele lhe pode explicar tanta tristeza. desistiu de estudar engenharia e desistiu da ideia de viajar. 101 — Sou a Ruby. — Eddie! Estás em casa? Eddie? O Sr. como se não fosse digno daquele momento. puxando-o para baixo do chão lamacento. — Desce. entre os antigos manuais e a papelada do primeiro proprietário do parque. satisfeita. Eu não queria fazê-lo. chega-lhe uma música. «Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo. Ela acaricia-lhe 100 os cabelos e pergunta «Que se passa?» e ele responde «Nada.

A velhinha sorriu. — Pois foi. só para esse fim-de-semana. Deteve-se. — Que Emile nunca tivesse construído aquele parque. Por baixo dessa cúpula. — Houve um grande. Deteve-se. para aquecer comida.. começaram a beber e a fazer uma grande pândega. de raiva e medo. que quem quer que tivesse construído Ruby Pier pudesse ter feito outra coisa qualquer com o seu dinheiro. Acabou por perder a cabeça. Contratou inclusivamente mais operários. — Ela deixou cair o queixo e os seus olhos espreitaram pelos óculos. O fogo propagou-se à avenida central. — Que desejo? — perguntou Eddie. a entrada com o meu nome e o meu retrato. e tempos depois reabriu o parque. Contratou uma banda. Ouvimos os cascos dos cavalos e os motores dos carros dos bombeiros. vendeu o terreno carbonizado a um empresário da Pensilvânia. vimos aquelas terríveis chamas cor de laranja. quando uma coluna caiu sobre ele. com colunas estriadas e uma cúpula no cimo. já Ruby Pier estava a arder. era tudo feito de alcatrão e madeira. Emile fizera um seguro básico para o parque. às bancas de comida e às jaulas dos animais. por muito menos do que valia. Desta mulher. Se o Dia da Independência corresse bem. Tinha de ir para o meio daquele incêndio horrível tentar salvar os seus anos de trabalho. Acenderam uma fogueira num barril de metal. Estava a atirar baldes de água para a entrada. — Numa só noite. Pegaram nuns foguetes do fogo-de-artifício e rebentaram-nos. sob a qual passavam todos os clientes do parque. «Implorei para que Emile não fosse até lá. — Mas isso foi destruído há tanto tempo — disse Eddie. — Incêndio — disse a velhinha. onde vivemos uma vida modesta. em silêncio. «Desesperado. Estava muito calor. atrás das barracas dos operários. A magnífica prenda que me oferecera fora consumida pelas chamas. »O espírito de Emile ficou destroçado como o seu corpo. Mudámo-nos para uma terra longe da cidade.. para um pequeno apartamento. Quando alguém foi a nossa casa avisar-nos.. mesmo depois de o Sol se pôr. Só passados três anos é que conseguiu andar pelo seu próprio pé. Emile mandou lançar fogo-de-artifício. Esse empresário manteve o nome. As pessoas saíram à rua. baseada num templo francês. dizia ele. talvez o Verão inteiro fosse bom. uma gigantesca estrutura em forma de arco. e quando a entrada pegou fogo. ele perdeu a noção de onde se encontrava. Da nossa janela. aconteceu uma coisa. »Mas. encontrava-se o rosto pintado de uma bela mulher. Eddie perscrutou o vasto céu cor de jade. Aventureiro como era. Um incêndio terrível. Ruby juntou os dedos e levou-os à boca. as faúlas espalharam--se pelo parque. Perdeu a sua fortuna. «São óptimos para o negócio». Portanto. eu a tratar do meu marido ferido e a alimentar silenciosamente um só desejo. acima de tudo por não saber o que mais dizer. — O resto aconteceu muito depressa. a maior parte estivadores. — Lamento pelo seu marido — disse Eddie. Mas já não era nosso. Ruby Pier.histórico. e alguns dos estivadores decidiram dormir ao relento. o Quatro de Julho. as nossas vidas mudaram para sempre. mas foi em vão. Ela abanou a cabeça. como se estivesse a ler algo que se encontrasse no seu colo. um feriado. Naquele tempo. O Emile adorava feriados. Soprava um vento forte. . Os estivadores fugiram. Ruby. à noite. É claro que ele tinha de ir. Pensou na quantidade de vezes que desejara a mesma coisa. na véspera.. 102 »À medida que a noite foi avançando. 103 A velha senhora ficou sentada. — Foi no Dia da Independência.

Deixou-me viúva aos cinquenta e poucos anos. Mas eu não. 104 Eddie coçou a cabeça. longe daquele oceano. — Nunca mais quis ver aquele parque. que nunca teriam existido. O pai de Eddie costumava dizer que passara tantos anos à beira-mar.. Agora.. nessa tarde. Devia ter feito alguma coisa. tu não terias acabado por ir trabalhar para lá. — Conquistei cada uma delas. Se não fosse pelo nosso casamento. Surgiram complicações. Criámos três filhos. Estava com uma febre altíssima. — Portanto. Está a ver esta cara. Se não houvesse o parque. Eddie — disse a mãe. — Não compreendo. — Se não fosse por Emile. mas à noite recusou-se a comer e. — E as pessoas que nascem antes da nossa época também nos afectam. onde passamos tantas horas. O seu estado passou de estável a grave. — O médico disse que é pneumonia. Eddie era capaz de apostar que cheirava a álcool.. nos conhecemos? Alguma vez foi ao parque de diversões? — Não — disse ela. que não passava de um bêbado. Faltava-lhe um sapato. Ele fora trabalhar nesse dia. passava a vida a entrar e a sair do hospital.. todos os dias. Contou-lhe que uma noite. Estava furioso por ela querer assumir a responsabilidade. Mas vivemos muitos anos depois daquele incêndio. eu devia ter feito alguma coisa. O pai tivera um colapso nessa tarde. — Vinha a tossir muito — explicou a mãe. Eddie esfregou as têmporas.. Ai.— Obrigada. Os nossos locais de trabalho. O telefonema era da mãe de Eddie. como sempre. encharcado até aos ossos. Emile andava mal. Não é verdade. com o cinto de ferramentas e o martelo. — Passamos por lugares. se não fosse pelas pessoas que viveram antes de nós. Quando expirou. — Estou com medo. Bateu com as pontas dos dedos umas nas outras. na ponte leste da marginal. formou-se uma bruma de condensação. ouviu-a a chorar. E agora. naquele restaurante buliçoso em que a minha vida era simples. O dia seguinte foi pior ainda. também. muitas vezes pensamos que eles começaram a existir assim que nós lá pusemos o pé. o seu corpo começou a definhar como um peixe que deu à costa. Eddie franziu a testa. Nós alguma vez. explicou ela. O seu peito encheu-se de expectoração. Pelo telefone. Tinha as roupas cheias de areia. — O que é que podia ter feito? — perguntou Eddie. A culpa era do pai. Os amigos insistiam em dizer: «Amanhã ele . Disse que ele cheirava a mar. na cama. — Até as coisas que acontecem antes de nós nascermos nos afectam — explicou ela.. — Vim dizer-te porque é que o teu pai morreu. num tom de voz mais suave.. meu querido. não haveria um parque de diversões. perto do Foguetão Júnior. — E a tosse piorou. — Então. — A sua história. eu não teria sido casada. não parou de tossir e suar dentro do pijama. tivera um colapso. tudo isso acontece» antes de eu nascer. veio falar-me sobre o meu emprego? — Não. estas rugas? — Ela levantou o rosto. doente como estava. o incêndio.. o seu pai regressara a casa de madrugada. e os netos. no início dessa semana. meu querido — respondeu Ruby. nos confins de uma cama de hospital. quando Emile andava a fazer-me a corte. Os meus filhos iam lá e os filhos deles também. porque é que eu aqui estou? — perguntou ele. A minha ideia de paraíso ficava o mais longe possível do mar. Devíamos ter chamado imediatamente um médico… — A sua voz esmoreceu. que respirava água salgada. com a voz a tremer.

como se pudesse encontrar um pedaço do pai dentro de uma delas. a pedido da mãe. encontrou um baralho de cartas. que durante anos se recusara a falar com Eddie. quando sugerira que Eddie arranjasse emprego no parque. uma pequena garrafa de conhaque de maçã. Eddie quase desatara a rir e o pai tornara a dizer: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E antes de Eddie ir para a guerra. Gritava para ele baixar o volume do rádio. foi a casa dos pais. Os proprietários do parque reconheceram o seu esforço e pagaram-lhe metade do salário do pai. no cais. trabalhava ao serão. o que estava a fazer era a assegurar o emprego do pai. apesar de apenas um dos lados estar ocupado. Observou o filho por detrás de umas pálpebras pesadas. Uma noite. pedra sobre pedra. Só muito mais tarde. Eddie viu-a a empilhar pratos em cima da banca. depois de se esforçar em vão por dizer uma só frase que fosse. Quando chegou a notícia de que o seu pai morrera — «partira». entrou no quarto deles e abriu todas as gavetas. ali estava ele. não — respondeu a mãe —. rapaz — disseram os outros empregados da manutenção. Como a maior parte dos filhos de operários. No fundo. Meteu-o no bolso.já estará em casa» ou «Daqui a uma semana. uma noite. É o sacana mais duro que já vimos. Eddie deu uma ajuda na oficina do parque. depois de terminar o liceu. o seu pai retorquira: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E agora. Eddie. é que os filhos compreendem. inclusivamente a reparar as peças avariadas. como se ele tivesse partido numa curta viagem —. um alfinete de gravata. a olear os trilhos. o pai. Falava com o marido como se ele ainda estivesse presente. sempre que se queixava ou parecia farto do cais. Eddie sentiu a raiva mais vazia do mundo. as suas histórias e todos os seus feitos e conquistas assentam sobre as histórias dos seus pais. canetas e um isqueiro com uma sereia de lado. o assentimento de um pai — são substituídos por momentos marcados pelos seus próprios feitos e conquistas. que ia para o hospital todos os dias e dormia lá a maior parte das noites. Eddie visitou o pai no hospital. Ajeitava as almofadas de ambos os lados da cama. Eddie imaginara para o seu pai uma morte heróica. fez a única coisa que lhe passou pela cabeça: levantou as mãos e mostrou ao pai as suas unhas manchadas de óleo. para contrabalançar a vulgaridade da sua vida. Na ausência do pai. Eddie e Marguerite limpavam-lhe a casa e faziam-lhe as compras de mercearia. — Eu ajudo-a — disse ele. — Não te preocupes. mais tarde. — O teu velho vai resistir. nem sequer tinha forças para tentar. No dia seguinte. contas de electricidade. Mudam de casa. Agora. portanto os filhos libertam-se deles. o pai irritava-se: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E. a verificar as pastilhas dos travões. Vasculhou por entre moedas. Ele entregou o dinheiro à mãe. Nas semanas que se seguiram. ele volta para casa». apesar de tudo. quando falara em casar com Marguerite e estudar Engenharia. disse-lhe uma enfermeira. a testar as alavancas. . Quando Eddie era adolescente. sob as águas das suas vidas. O funeral foi modesto e breve. Não havia nada de heróico numa bebedeira na praia. o teu pai depois arruma-os. elásticos. Os momentos que costumavam defini-los — a aprovação de uma mãe. — Não. Os pais raramente se libertam dos filhos. aquele tipo de raiva que anda em círculos dentro da sua jaula. Por fim. Entrou devagarinho no quarto. quando a pele começa a 106 ficar flácida e o coração se suaviza. Eddie pousou a mão no ombro dela. Cozinhava para duas pessoas. Por fim. a fazer o trabalho do pai. depois 105 de largar o táxi. Mudam. a mãe de Eddie viveu num estado de atordoamento.

Ouviu a notícia. baixinho. — Toma — murmura ele. Eddie põe a língua entre os dentes. A manhã já está quente e pegajosa de humidade. Noel fecha a revista. — E verdade. Eddie abana o saleiro com força. ao sábado de manhã. — Onde é que ele foi? No dia seguinte. com a boca cheia de salsichas. Baixa o tom de voz. Houve qualquer coisa que se partiu. ouve histórias daquelas. Eddie ajudou-o a arranjar o contrato de limpeza das fardas da manutenção de Ruby Pier. como se uma vespa tivesse passado a zumbir junto da sua orelha. — Feliz aniversário. Noel. 108 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e sete anos. — É mais ou menos da nossa idade. nem a ninguém —. — Será assim tão difícil manter os saleiros cheios? — Que bicho te mordeu? Estás armado em gerente do restaurante ou quê? — pergunta Noel. O pequeno-almoço está a arrefecer. . Mãe e filho sofreram uma queda de vinte metros. onde os corredores eram estreitos e a janela da cozinha tinha vista para o carrossel. uma vida que — e Eddie conseguia ouvir o pai rir-se na sepultura —. Uma gôndola. onde Eddie aceitara um emprego que lhe permitiria 107 zelar pela mãe. Duas semanas depois. que lhes provocou a morte. levantando uma sobrancelha. Beberica o café. Eddie encolhe os ombros. — Mas nós somos mais velhos — murmura Eddie. Não há dia que passe sem que ele tenha medo que o mesmo aconteça ali. Eddie nunca o disse — nem à mulher. Aquela é a rotina de ambos: pequeno-almoço uma vez por semana. debruça-se sobre outra mesa e pega no saleiro. Noel trabalha no ramo das lavandarias. agora era suficientemente boa para ele. Um parque de diversões. um posto para o qual ele se preparara Verão após Verão: empregado de manutenção de Ruby Pier. De vez em quando. — Pensei que uma pessoa tinha de ser mais velha para se candidatar a presidente. — O pai já cá não está. pelos vistos. nem à mãe. apartamento 6B —. ouviste o que aconteceu em Brighton? Eddie faz um sinal de assentimento com a cabeça. 109 — Conheces alguém que trabalhe lá? — pergunta Noel. um acidente num parque qualquer. — Que me dizes deste tipo todo bem-parecido? — diz Noel. no seu turno. levanta-se da mesa. antes de o parque se encher de clientes. mas amaldiçoava o pai por ter morrido e por o ter aprisionado na mesmíssima vida da qual tanto tentara fugir. — Como é que um tipo destes se pode candidatar a presidente? É um puto! Eddie encolhe os ombros. — A sério? — diz Noel. ele e Marguerite mudaram-se para o edifício onde Eddie crescera — Avenida Beachwood. e estremece.— Mãe — disse ele. — Tens aí o sal? — pergunta Eddie a Noel. Tem um exemplar da Life aberto na fotografia de um jovem candidato político. Eddie dirigiu-se à central e pediu a demissão. em Ruby Pier.

demasiado frio. que não devia ter mais do que quatro anos.. Ontem. — Não conheço ninguém em Brighton. Pergunta-se quem será o encarregado da manutenção do parque de Brighton. Eu acabei por nunca sair de lá. Os anos foram passando. Costumas estar sempre assim tão animado quando fazes anos? Eddie não responde. As pessoas deviam ter mais cuidado. apanhei um puto. Sabe como é: habituamo-nos a uma coisa. 111 A terceira lição — O parque era assim tão mau? — perguntou Ruby. — E daí. Transportam toalhas. feitas de alumínio leve. Começa logo a arder. Verão. tem de encomendar mais cola. para o interessar. — Anda lá. — Como o teu pai? Eddie não respondeu. A velha escuridão instalou-se dentro dele. agora. São os produtos químicos que põem na madeira.. — Está bem — cede. — Sim. — E daí? Eddie vira-se para o lado. chapéus de sol. cestos de verga com sanduíches embrulhadas em papel. vai pegar fogo. exactamente como. Uma coisa levou a outra. num grupo de veraneantes à saída da estação de comboios. prestes apor uma beata de charuto na boca. às seis. — Podíamos ir às corridas. — Ele era muito duro contigo — disse a velhinha.. Pensa sempre em Marguerite. as pessoas dependem de nós. dandolhe espaço como quem cede o lugar a um passageiro num autocarro à cunha. — Não foi uma escolha minha — disse Eddie. um dia acordamos e não conseguimos dizer que dia da semana é. Eddie espeta o garfo no ovo. Novos pára-choques para os carrinhos. recorda a si mesmo. Pensa naquelas pobres pessoas de Brighton. Um espelho partido na Casa do Riso. Eddie solta o ar. Noel faz uma careta. Alguns trazem inclusivamente a última novidade: cadeiras de armar. Eddie baixou os olhos. — Aposto em como vai deitar o charuto para o chão. 110 — A que horas sais hoje? — pergunta Noel. e daí? . fazes anos. com um suspiro. quando Noel fala das corridas de cavalos. Agora. Sábado. Nunca vivi noutro lugar. Noel enfia uma garfada de salsichas na boca. Noel levanta uma sobrancelha. Nunca ganhei dinheiro a sério. Sabes como é. é só isso. nada. — Vai ser um dia cheio. Eddie pensa em Marguerite. Fazemos o mesmo trabalho entediante dia após dia. sim? — diz Noel. Cola. Eu era um homem da manutenção. Pensa na carga de trabalho que tem hoje. hoje — diz Noel.. Sente-se logo o cheiro. — És uma anedota. a fumar um charuto. já se habituou a ela. — Ah. — Olha para aquele tipo — diz Eddie. — E daí? — Se cair por entre as brechas.— Não — responde. Fixa o olhar para lá da janela. Passa um velhote de panamá. — A minha mãe precisava de apoio.

— Duvido. com um martelo pendurado no cinto. e enterrou o rosto por barbear abaixo da face dela. hã? A velhinha cerrou os lábios. Mickey detevese. virar-se. Pegou numa blusa e numa saia. Viu Mickey Shea. Ela tapou-se com um roupão. Arranjaste um rumo. segurando-a pela cintura. Estava novamente a cair. derrubando o pai de Eddie. As imagens tornaram-se definidas. sentada à mesa da cozinha. O marido agarrou-a pelos ombros. molhado da chuva. Viu Mickey na cozinha. O roupão caiu. sempre agarrada ao roupão. A mãe de Eddie trouxe-lhe um copo de água. 112 — Ouça — disse ele. até outro momento no tempo. Encharcado até aos ossos. Eddie podia ver todos os quartos. Depois. levantou-se e cambaleou até ao quarto. Empunhou o martelo. — A senhora não o conhecia. sentiu que os seus olhos lhe caíam das órbitas e viajavam sozinhos. por um instante apenas. Mickey aproximou-se. — Ela pôs-se de pé. O céu era preto azulado. Quando Eddie olhou para o círculo. a porta da rua abriu-se e o pai de Eddie parou na ombreira. mas não conseguiu conter-se. Mickey estava trôpego. Ela estendeu instintivamente a mão. a tirar um frasco de dentro do casaco e a beber um gole. irritado. — É verdade. Mickey estava com um aspecto terrível. — Mas sei uma coisa que tu não sabes. Depois. mas não conseguia ouvir o que eles os dois estavam a dizer. a seguir gritou e empurrou o peito de Mickey. não passava de um ruído indistinto. De repente.— Talvez também tu fosses muito duro com ele. o pai de Eddie saiu do apartamento. A mãe de Eddie começou a chorar. Eddie tentou não olhar para baixo. Eddie sentiu um estremecimento de raiva. e não parava de esfregar as mãos na testa e ao longo da cana do nariz. O pai de 113 Eddie gritou. surpreendida. chamavamlhe —. Abanou-a violentamente. Voou escada abaixo e correu para a noite chuvosa. a caminho da rua. agarrou na mãe de Eddie e encostou-a à parede. o seu peito ofegante. Eis o que viu: Viu a mãe. a ignorar o copo de água. — E sabe qual foi a última coisa que ele me disse? «Arranja um emprego. Mickey levou as mãos à cabeça e precipitou-se para a porta. semivestida. lentamente. — Que raio foi ISTO? A velhinha manteve-se calada. de frente e de trás. Era há muitos anos. na antiga casa. Conseguia ver de cima e de baixo. debruçando-se sobre ela. depois pegou na mão dela. incrédulo. para o afastar. cobrindo-lhe o pescoço de lágrimas. o seu rosto coberto de lágrimas. Tirou os sapatos e o vestido de andar por casa. Correu para o quarto e viu Mickey a agarrar a sua mulher. Eis o que viu: Viu uma tempestade no extremo mais longínquo de Ruby Pier — «o extremo norte».» Belo pai. — Começaste a trabalhar depois disso. Sabe quando foi a última vez que ele falou comigo? — Aquela vez em que tentou bater-te. desfazendo um candeeiro com o martelo. Ela contorceu-se. um molhe estreito que se estendia pelo mar adentro. Ele era maior e mais forte. Eddie lançou-lhe um olhar irritado. Fez-lhe sinal para esperar e foi até ao quarto e fechou a porta. Começou a soluçar. Abriu a porta. A chuva caía . — Que raio foi isto? — gritou Eddie. sentado à frente dela. Deu um passo para o lado do círculo na neve e desenhou outro. até ao fundo de um buraco. tornando-se testemunha de uma cena. Estavam ambos aos gritos. E está na hora de ta mostrar. Ruby apontou com a ponta da sombrinha e desenhou um círculo na neve. Eddie viu a mãe. com ar preocupado.

de boca aberta. a esbracejarem. os dois homens a grunhirem. e o pai de Eddie soltou-se de Mickey e conseguiu enfiar os braços por baixo dos de Mickey e segurá-lo. Os céus estalavam de trovões. todas as certezas que sempre tivera sobre o seu pai deixaram de existir. carrancudo.. por baixo da balaustrada de madeira. Pegaram-se e esbracejaram. a cambalear na direcção da beira do molhe. quando o pai de Eddie lhe pegou no braço e o prendeu sobre o seu ombro. a dar às pernas. Mickey Shea apareceu. rumando para a costa. Mickey gemeu e tentou sorver golfadas de ar. As suas roupas estavam encharcadas e o cinto de cabedal estava preto. enquanto a chuva os massacrava. em tom de tristeza. Depois para a frente. a vasculhar as águas. — O que é que lhe passou pela cabeça? — sussurrou Eddie. Sabia quem Mickey era. Sentia a cabeça pesada. mas o pai de Eddie continuava entalado debaixo do braço de Mickey. Ficou estendido durante um instante. arrancou um sapato. De repente. »Mickey tinha sido despedido nessa tarde. O vento soprava a chuva de lado. agachou-se por baixo da balaustrada e saltou. não foi capaz.. a espuma branca a fustigar-lhes a cara. O mar retumbava e explodia. uma velha amizade era uma coisa muito séria. — O teu pai também teve vontade de o fazer — disse a velhinha. a correr de um lado para o outro. Mickey balouçava no ondular agitado das águas. Se eu soubesse o que ele tinha feito. gritando contra o vento. de tão ensopado.em lençóis de água. O pai de Eddie foi ao fundo. Por fim. »Mas. que não . 114 Mickey tossiu com força. no fim. tinha deixado o coiro dele afogar-se naquelas águas. talvez até para o matar. tentou desatar o outro. furioso. E quando tu nasceste. Viu movimento nas ondas. quando o teu pai andava à procura de trabalho. Avançaram. Para o teu pai. Caiu ao chão. ainda de martelo em punho. O pai de Eddie cuspiu água salgada. — Alto aí. Sabia que o seu juízo falhara naquele dia. — Fora atrás de Mickey para o magoar. — Belo amigo. na areia molhada. Agarrou-se ao corrimão. Apanharam a crista de uma onda e fizeram um súbito avanço na direcção da costa. como se ele próprio tivesse mergulhado naquele mar. e deixou-se cair ao mar. e a seguir caiu na praia. Deteve-se. derreado. Uma onda atirou-os para trás. Parecia uma eternidade. a pestanejar violentamente para conseguir ver. tirou o cinturão. O pai de Eddie deu-lhe outro. Conhecia os seus defeitos. Quando as ondas recuaram. com as suas últimas forças puxou Mickey para a frente. semi-inconsciente. com o rosto virado para o céu escuro. para que a rebentação não o arrastasse para o mar. Estava exausto. — Foi errado. Faltara ao seu turno. Bateu os pés. veio novamente à tona e contrapôs o seu peso ao do corpo de Mickey. na rebentação violenta. foi Mickey quem se dirigiu ao proprietário do parque e deu a sua palavra de honra sobre a integridade do teu pai. para ajudar a alimentar mais uma boca. muitos anos antes disso. foi Mickey quem emprestou aos teus pais o pouco 115 dinheiro que tinha. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. desistiu. com o peito a arfar. com um líquido amarelo esponjoso a sair-lhe da boca. Sabia que ele bebia. mergulhando desajeitadamente no mar revolto. bebera tanto na véspera. A visão de Eddie regressou ao seu corpo. uma grande onda ergueu-os e atirou-os para a areia. com a chuva a cair. — Salvar um amigo — disse Ruby. Eddie fitou-a. Mickey deu-lhe um soco. depois rodou o corpo. O pai de Eddie surgiu instantes depois. Agarrou Mickey. O pai de Eddie nadou para ele. minha senhora — interrompeu Eddie. Mas. — Viu o que aquele pulha fez à minha mãe? — Vi — disse a senhora.

a sua reacção final foi salvar a vida de um homem. — Bebeu até morrer de cirrose. — O quê? — disse Eddie. e os patrões mandaram-no embora. atravessou o quarto e arranjou forças para levantar a janela. Talvez tenha sentido a luz da morte a aproximar-se. Já ia nos cinquenta e muitos. — Depois disso. — Mais vale — disse ela — sermos leais uns aos outros. Nunca conseguiu perdoar-se a si próprio pelo que aconteceu. Um mau impulso. por ele próprio. No hospital. na manhã seguinte. Mais um telefonema para casa do Sr. eu devia ter feito alguma coisa. uma noite. Nathanson.. a pedido dos médicos. Naquele momento. à deriva. — Mas o meu pai. e o que fez foi um acto de solidão e desespero. estava perdido. 116 Depois disso. — disse Eddie. Sentia-se envergonhado por ela. — No parapeito da janela? Ruby fez que sim com a cabeça. — Cinquenta e seis — repetiu a velhinha. o teu pai acordou. a Eddie assim pareceu. a tua mãe passou o tempo todo no hospital. Mais uma pancada na porta a horas tardias. Chamou pelo nome da tua mãe num fio de voz e chamou pelo teu.. Ficou ali deitado na praia durante horas. mas não era má pessoa. Joe. — Por uma questão de lealdade — contrapôs ela. estava a cair de bêbado. O silêncio foi o seu escape... semicerrando os olhos. O teu pai estava a fazer serão. Dias e noites. morreu completamente só — respondeu a velhinha. o seu coração estava a transbordar de culpa e remorsos. até ter forças para se arrastar para casa. O teu pai também agiu por impulso e. — Ai não? — Ela sorriu. — Ele nunca mais voltou a falar sobre aquela noite. ela foi dormir a casa. — Ele nunca disse nada. deixou de falar por completo. uma enfermeira encontrou o teu pai caído no parapeito da janela. — Passados uns anos. ficaram os dois durante muito tempo no vale da montanha nevada. Levantou-se da cama.conseguira levantar-se de manhã. Eddie lembrava-se dessa noite. também. Queria recuperar o emprego. — Foi assim que ele adoeceu. como se estivesse a rezar: «Eu devia ter feito alguma coisa. — Cinquenta e seis — disse Eddie inexpressivamente. — Durante a noite. Os médicos disseram que tinha entrado em coma. Os pensamentos continuavam a atormentá-lo. Já não sabia calcular a duração fosse do que fosse. a pneumonia atacou-o e. Agiu por impulso. Pelo menos. Talvez soubesse apenas que 117 . o mar deixou-o vulnerável. — Por causa do Mickey? — disse Eddie. — E a religião? O estado? Não somos leais a essas coisas. — Ninguém morre por lealdade. — Que aconteceu ao Mickey Shea? — perguntou Eddie. por Mickey. mas raramente o silêncio serve de refúgio. encharcado e exausto. Ele lidou com o problema da mesma maneira que lidava com todos os problemas: bebeu ainda mais e. os olhos fecharam-se e as enfermeiras não conseguiram despertá-lo.» »Por fim. e pelo do teu irmão. com o tempo. O teu pai já não era um jovem. nem com a tua mãe. ele morreu. »Uma noite. a respiração dele tornou-se lenta. E chamou Mickey. Bem cedo. nem com ninguém. »Mickey era grosseiro. por vezes até à morte? Eddie encolheu os ombros. Gemia baixinho. quando chegou a casa da tua mãe. Ela cruzou as mãos sobre a ponta da sombrinha. claro. A tua mãe ia levar Mickey até ele. Parece que nesse instante. A implorar ajuda. à beira da cama dele. embora a sua reacção inicial tenha sido matá-lo. — O corpo estava fraco. esfregando a testa.

A raiva é um veneno. Mas o ódio é uma lâmina curva. E quando morremos. porque ninguém nasce com raiva. Pensou naquela derradeira imagem. Era a primeira vez que o tratava pelo nome. nas ruas por baixo daquela janela. Eddie deixou-se cair para trás. O seu pai. O parque tinha o meu nome. A versão do hospital foi que ele morreu enquanto dormia. Não conseguia parar de pensar na morte do seu pai. — Aprende uma coisa comigo. — O teu pai não tinha dinheiro para pagar um quarto particular no hospital. baixinho. Ruby deu um passo para ele. Estava uma noite fria. E ficou ainda pior quando cresci. — Vi. Senti a sua sombra amaldiçoada e voltei a desejar que nunca tivesse sido construído. Nunca falámos. Eddie pareceu confuso. quando eu era miúdo. E queria que todos aqueles que sofreram em Ruby Pier. à minha vida simples mas segura. Debruçou-se sobre o parapeito. em cada escorregadela. — Está ali. O vento e a humidade foram demasiado agressivos para o estado em que ele se encontrava. Ruby levantou-se e Eddie imitou-a. — Então. no refúgio de um lugar acolhedor. a tentar rastejar para fora de uma janela. »Perdoa. para poderes avançar. Mas depois da morte do teu pai. Ela fez uma pausa.vocês estavam todos algures. Quando soube onde o teu pai trabalhara. »Esse desejo seguiu-me até ao céu. Mas agora. Queria-os a todos como queria o meu Emile. mesmo enquanto esperava por ti. como se ele tivesse acabado de resolver um mistério. 118 — O restaurante? — disse ela. — Emile. Ela tocou-lhe na mão. longe do mar. Apontou para o pontinho de luz nas montanhas. quando chegaste ao céu? Eddie lembrava-se. bem alimentado. senti uma pontada de dor. em cada briga. em cada queda. ou uma morte? — Como é que sabe tudo isso? — perguntou Eddie a Ruby. atordoado. ficassem sãos e salvos. — Era um inferno para mim. Onde está a minha dor? — Sentiste-te assim. . como se tivesse perdido eu própria um ente querido. — Eu odiava-o — murmurou ele. »As enfermeiras que o encontraram arrastaram-no de volta para a cama. e porque é que não tens necessidade de continuar a senti-lo. aqui. E o mesmo se passou com o homem que estava do outro lado da cortina. lá fora. em cada acidente. viu o meu pai. portanto nunca contaram o que se passou. Edward. porque eu queria regressar aos meus anos de juventude. Aonde iria? O que é que teria pensado? O que seria pior deixar sem explicação: uma vida. A sua cabeça pendeu para trás. — Ouvi-a gemer naquelas noites solitárias. — E a minha mãe. O meu marido. Lembras-te da leveza que sentiste. A velhinha acenou com a cabeça. Devora-te por dentro. — Edward — disse ela. quente. tens de compreender por que motivo sentiste o que sentiste. Tiveram medo de perder o emprego. Perdoa. rijo com um velho cavalo de guerra. Morreu antes de amanhecer. — Tens de perdoar o teu pai. E o mal que infligimos. Ela suspirou. em cada incêndio. Eddie levantou os olhos. Pensamos que o ódio é uma arma que ataca a pessoa que nos fez mal. a alma liberta-se dela. infligimolo a nós próprios. perguntei pela tua família.

Já sei o que aconteceu. os nós dos dedos ossudos e os ombros largos 120 de um operário. Começou a afastar-se. pai. Ele estava novamente no cimo da montanha. a morrer sozinho a meio da noite. Mas é o meu pai. não sabia o que tinha acontecido. Eddie sentiu as lágrimas virem-lhe aos olhos. a conversar uns com os outros. Fiquei encurralado depois disso. Porque é que o fez? Porquê? — Inspirou fundo. Sentiu o cheiro a comida quente — pão. O pai não conseguia ouvi-lo. a perda de uma carreira. Virou-se para a direita. Odiava-o. Ficou ali postado durante muito tempo. E. depois. — Quando ele morreu — disse Eddie —. Sentiu um arrepio. a comer. — Eu não sabia. Endireitou os óculos. nunca fora a parte alguma. — Eu estava irritado consigo. Continuo sem compreender. Sentiu um estremecimento no peito. Eddie tentou dizer «Espere». Eddie avançou. Viu os papos por baixo dos seus olhos cansados. até perceber que a velhinha não ia voltar. Ruby desapareceu. — O pai batia-me. tudo ficou negro. . Pensou no velhote pendurado na janela do hospital.Eddie pensou nos anos que se seguiram ao funeral do pai. sozinho no silêncio. penosamente. Nunca se elevara acima do trabalho sujo e cansativo que o seu pai deixara para trás. levou consigo uma parte de mim. Eddie imaginara uma determinada vida — uma vida que «podia ter sido» —. — Então. Vou libertar-me da raiva. Ouviu o tilintar de talheres e o empilhar de pratos. — Ainda tens de falar com mais duas pessoas — disse ela. parado na neve. Em seguida. qual foi? Ela ajeitou a saia. percebe? Não conhecia a sua vida. que já não controlava. Pensou que não conquistara nada. Ao longo dos anos. que Eddie conseguia ver os pêlos do seu rosto e a ponta queimada do charuto. Mantinha-me à distância. mas um vento frio quase lhe arrancou a voz da garganta. — Pai. Eddie levantou os olhos. a beber e a falar. Ruby abanou a cabeça. carne e molhos. que era agora mais velho do que o seu pai. virou-se para a porta e abriu-a lentamente. Caiu de joelhos ao lado da mesa. para o fantasma do seu pai. Eu não compreendia. Os espíritos daqueles que haviam morrido no parque encontravam-se à sua volta. Sentiu um aperto no peito. ele 119 glorificara essa vida imaginária e responsabilizara o pai por todas as suas perdas: a perda de liberdade. à porta do restaurante. está bem? Está bem? Podemos esquecer o que se passou? A sua voz tremeu até se tornar aguda e implorante. o nariz adunco. Não o conhecia a si. — Pai? — sussurrou Eddie. Uma torrente a querer sair de dentro de si. Olhou para os seus próprios braços e percebeu no seu corpo terreno. uma voz que já não era a sua. para a mesa do canto. — O teu pai não foi a razão pela qual nunca deixaste o parque. Durante todo esse tempo. sabendo o que tinha de fazer. que teria existido se não fosse pela morte do pai e pela subsequente depressão da mãe. a perda de esperança. a fumar um charuto. hesitante. Eddie aproximou-se. O pai estava tão perto. Sobrevivera-lhe em todos os sentidos.

Não se sentia à vontade na presença de clérigos. que durante a conversa com o Capitão parecera dura como borracha retesada. Eddie não bateu com a cabeça no tecto baixo de gesso. Entrelaçou os dedos uns nos outros. pagou a conta. à excepção de um banco de madeira e um espelho oval pendurado na parede. 122 A quarta pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie pestanejou e deu por si num pequeno quarto redondo. que aconteceria? Tinha uma dor nas costas. Uns minutos antes do serviço religioso. com a flacidez da velhice. uma tosse profunda e cavernosa. Soltou os dedos e acrescentou rapidamente: — Claro está que eu nunca cheguei a conhecê-la. pensou Eddie. O ataúde era uma simples caixa de madeira. como achava que se devia falar numa situação como aquela. o pastor pediu a Dominguez. dissera Ruby. viu Ruby parada à sua frente. Eddie girou sobre os calcanhares. que de repente se alargou e passou a incluir uma fileira de portas. a aliança. que envelhecera desde o seu encontro com Ruby. agora. O seu corpo não apareceu reflectido. — Está consertado. pai? Debruçou-se para ele.— ESTÁ BEM? ESTÁ A OUVIR-ME? — gritou. O quarto era castanho — tão singelo como papel pardo — e estava vazio. Eddie postou-se à frente do espelho. Bullock. A igreja foi escolhida em termos de localização — era a mais próxima do parque —. No fim. para entrar no seu gabinete. Depois. — Eddie — disse ele. abriu a porta e levantou voo em direcção ao céu cor de jade. uma vez que a maior parte dos convidados tinha de voltar para o trabalho. O seu corpo ficou na morgue municipal. Tornou a tossir. Eddie deu um murro na mesa. tossiu. e falou baixinho. Por pouco. depois caiu para o chão. o Sr. Estava mais fina. uma moinha incómoda. a sua camisa da manutenção. todos à espera que alguém os reivindicasse. como se tivesse saído de outra pessoa qualquer. As montanhas haviam desaparecido. E depois. Não deixara instruções. bem como o céu cor de jade. 11 HORAS DA MANHA Quem pagaria o funeral de Eddie? Ele não tinha família. estava agora mole. O som apanhou-o de surpresa. Ela baixou a cabeça. mais baixo: — Está a ouvir-me. A sua perna estava cada vez mais hirta. Viu as mãos sujas do pai. De onde é que saiu isto?. Ainda tens de falar com mais duas pessoas. — Pode dizer-me algumas das qualidades do falecido? — perguntou o pastor. Quando voltou a levantar os olhos. — Sei que o senhor trabalhava com ele. jovem e bela. como se o seu peito estivesse cheio de coisas que precisassem de assentar. Viu apenas o lado oposto do quarto. 121 QUINTA-FEIRA. Percebeu o que . o boné de linho. como se estivesse a reflectir. o proprietário do parque. e mais seca. usando para isso o dinheiro que poupara por não ter de pagar o salário de Eddie no fim do mês. juntamente com as suas roupas e objectos pessoais. Depois. as meias e sapatos. Proferiu as derradeiras palavras num sussurro. A sua barriga. de casaco azul-escuro e o seu melhor par de calças de ganga preta. Dominguez engoliu em seco. os cigarros e arames para limpar cachimbos. por fim — amava profundamente a mulher. Tocou na pele. ansioso.

desta vez. na outra. porque acontecia a cada nova fase no Céu. O relvado estava cheio de convidados. de cerimónia em cerimónia. como acontecera 124 em tantos casamentos a que ele assistira na Terra. Os convidados conversavam uns com os outros e Eddie foi absorvido como sendo um deles. parecia africano. em que as famílias despejavam vinho no chão e o casal. na opinião de Eddie. Eddie ouvia as vozes deles. Todos pareceram sorrir e os sorrisos assustaram Eddie. Alemão? Sueco? Tornou a tossir. Muitos dos homens tinham cabelos pretos e . sozinho. deu por si a meio de outro casamento. mas a língua era-lhe estranha. tornou a recuar pela porta e a entrar noutra cena de casamento. Usava uma casaca preta e empunhava uma espada e. estavam demasiado recheados de momentos constrangedores. onde se acenderam foguetes perante os convidados a aplaudir. durante um longo período. Era considerado um «velho». como quando os casais tinham de dançar ou ajudar a erguer a noiva numa cadeira. estava ao ar livre. alguém a quem todos sorriam mas com quem nunca falavam. As encostas estavam cobertas de vinhas e quintas de travertino. encontrava-se no centro do grupo. sempre que o fotógrafo vinha à mesa. Preferia que assim fosse. um bolo e um tipo de música para outra língua. Estava a apodrecer. e ele sentia que as pessoas conseguiam aperceber-se disso do outro extremo da sala. Outra passagem pela porta levou-o a um casamento chinês. 123 Dirigiu-se para uma das portas e abriu-a. de mãos dadas. depois outra porta para outra cena qualquer — talvez francesa? —. Por causa disso. Quanto tempo mais é que isto vai durar?. não houve casamentos. Em cada cerimónia. Só nos últimos anos da sua vida. nem carroças. Fosse como fosse. ficava a porta que ele acabara de transpor. junto de Eddie. quando vários convidados levantaram os olhos. Ele baixou-o na direcção da noiva e os convidados aclamaram-na. e ninguém esperava que ele fizesse muito mais além de sorrir. pensando que assim voltaria ao quarto redondo. os ossos fracturados da sua perna já estavam deformados. Por essa altura. por conseguinte. ficava muitas vezes no parque de estacionamento. nas suas roupas da manutenção. dispensado de todos os momentos participativos. nesses instantes. O que não percebia era o que tinha ele a ver com aquilo. pensou Eddie. Sempre achara que os casamentos eram todos iguais. calculou Eddie. Em vez disso. não havia vestígios de como é que as pessoas lá tinham chegado. A uniformidade não surpreendeu Eddie. Os casamentos. como os bailes ou o acender de velas. Eddie evitava a maior parte das cerimónias e. havia um arco coberto de flores vermelhas e ramos de vidoeiro e. A sua perna ferida parecia atearse. num grande salão. dentro de paredes. nem autocarros. a fumar um cigarro. onde o casal bebia em simultâneo de uma chávena com duas asas. se por acaso ia. à espera que o tempo passasse. nem cavalos. é que ele tivera de retirar o fato puído do armário e vestir a camisa de colarinho engomado que lhe apertava o pescoço grosso. Eddie tossiu novamente — não conseguia evitar — e. enquanto ela retirava o anel. O noivo era esguio. de uma língua. Foi dançando com cada um dos convidados e todos lhe entregaram um pequeno saco com moedas. O grupo levantou os olhos. sem família. com pratos nas mãos. De repente. Coxeava muito e era. passou de casamento em casamento. numa terra que não reconhecia. A partida não parecia ser relevante. Recuou rapidamente para a porta por onde entrara. agora. Numa ponta. saltava por cima de uma vassoura. A artrite atacara-lhe o joelho. na extremidade da espada estava um anel. quando algum dos seus colegas adolescentes crescera e resolvera casar. a retirar um alfinete dos seus cabelos cor de manteiga. a meio do que parecia ser uma cerimónia de casamento. jovem e bonita.estava a acontecer. no quintal de uma casa que nunca tinha visto. nem carros. Aqui. outro bolo e outro tipo de música. onde as pessoas pareciam espanholas e a noiva usava flores cor de laranja nos cabelos. Transpôs a porta uma vez mais e deparou com uma aldeia que lhe pareceu italiana. A noiva.

— Ó da casa! Está aí alguém? Marguerite aparece à porta. no rosto dela.. — Para os momentos amargos e doces — disse ela.. hã? — grita Joe. violinos e guitarras — e os convidados começaram a dançar a tarantela. Joe veste um casaco de xadrez e sapatos pretos e brancos de cunha. Eddie fica irritado. nos seus olhos cor de café escuro. olhos escuros e feições marcadas. porque é que não ficas tu com este emprego e eu com o teu?» Mas não o fez. orgulhoso. passando-lhe a broca. parecia ter vinte e poucos anos. Os seus olhos desviaram-se para os confins da multidão. Os olhos de Eddie pousam. como sempre. e as mulheres. Depois. — sussurrou. Nessa manhã.. Algo dentro de si lhe disse para fugir. Eddie nunca dissera nada que sentisse com tanta convicção. Os lábios dele demoraram a abrir-se e o som precisou de uns instantes para lhe sair da garganta. uma pequena coisa chamada cádmio de níquel. o que é que ele entende do assunto? — Sim.grossos. pegando na broca — é o modelo mais recente. Eddie tivera vontade de responder: «Se é assim tão bom.. com um cesto de amêndoas doces.. que era encimado por um bouquet de flores de papel. e enverga a farda oficial de Ruby Pier: uma camisa branca. Começou a suar. — Per l'amaro e il dolce?'. 125 Uma dama de honor. na sua pele de azeitona. Eddie caiu de joelhos.. Arranjou emprego nas bilheteiras. Ao longe. Joe dissera a Eddie que recebera um aumento. — Per l'amaro e il dolce? — dizia ela. Per l'amaro e il dolce?. um boné vermelho e uma etiqueta com o nome presa com um alfinete abaixo do pescoço. passara entre os convidados. Joe é vendedor de uma empresa de ferramentas e Eddie usa o mesmo fato há anos. 126 Hoje é o aniversário de Eddie Eddie e o irmão estão sentados na oficina da manutenção. encontraram-no. Havia música — flautas. portanto. oferecendo os doces. — Liga-a — diz Joe. mas houve qualquer coisa que o impediu de arrancar os pés do chão. e vê só. nesse Verão. mas. Ao vê-la assim vestida. Ao ouvir a sua voz. calças pretas de montar. — Trabalha bem. — Este — diz Joe.. oferecendo-lhe as amêndoas. Eddie prime o gatilho e ouve-se uma explosão de barulho. — Per l'amaro e il dolce? — disse ela. Ela aproximou-se dele. — Marguerite. o antigo posto do seu pai. . Eddie segura na bateria entre os dedos. — Para os momentos amargos e doces? Os seus cabelos negros caíram-lhe sobre um dos olhos e o coração de Eddie quase explodiu. penteados para trás com brilhantina. um colete encarnado. envergando um longo vestido cor de alfazema e um chapéu de palha debruado. Custava a acreditar. senhor — diz Joe —. mas juntaram esforços para proferir a primeira letra do único nome que alguma vez o fizera sentir-se assim. Trabalha a bateria. Eddie acha que o irmão está demasiado bem vestido — e bem vestido é sinónimo de fajuto —. com um maço de bilhetes cor-de-laranja na mão. com uma serra de dois punhos. Eddie recuou uns passos. O seu salário era três vezes maior do que o de Eddie. Os olhos dela escondidos pela aba do chapéu. sorrindo.. o corpo de Eddie estremeceu da cabeça aos pés. agora. Joe dera os parabéns a Eddie pela sua promoção: chefe da manutenção de Ruby Pier. num ritmo louco e rodopiante. Eddie encontrou um lugar encostado a uma parede e observou os noivos a cortarem um tronco em dois.

É uma Polaroid. Marguerite faz o enquadramento da foto. Com o passar do tempo. A cobertura do bolo está uma lástima.especialmente à frente do seu irmão armado em importante. Eddie! Apague lá as velas. rezingão. a admirar as trinta e oito pequeninas chamas. Como acontece sempre que está na companhia de Marguerite e de crianças. — A Charlene emprestou-me. Sorriu. pousado em cima de uma mesinha de armar. — PARABÉNS. — Não podes ser mesmo tu — repetiu Eddie. está bem? Eddie baixa os olhos. um instantinho? — pergunta ela. junto do bolo. entristecida. Eddie dizia que eram demasiado velhos. SR. — Estou a trabalhar. — Podes vir ali fora. Marguerite debruça-se para Eddie e segreda: — Prometi-lhes que apagavas as trinta e oito velas de uma vez. espera. espera. sente-se comovido pela relação fácil que ela tem com os miúdos e entristecido pela incapacidade de ela os ter. Ai. Um médico disse que era demasiado nervosa. A volta deles. — Está bem — diz Eddie. Ia à biblioteca.. Eddie solta o ar. — Despache-se. Ela baixou o cesto com as amêndoas. 127 — Mostra-lhe a broca — diz Joe. que esperara demasiado tempo para engravidar. cheia de inúmeras marcas de dedinhos. — Enfia a mão dentro de um saco e tira uma máquina fotográfica. — É rápido. envergonhado. meninos. Fazia agora quase um ano que ela falava em adopção. ficaram sem dinheiro para ir ao médico. Eddie agarrou-a rapidamente. Vira-se para Marguerite: — Trabalha a bateria. que o devia ter feito antes dos vinte e cinco anos. depois segue-a porta fora. Uma criança espeta o dedo em Eddie e diz: — Apaga as velas todas. 129 Eddie olhou fixamente para a jovem Marguerite. um aparelho complicado com manípulos e botões e uma lâmpada redonda de flash. Ela estendeu-lhe a mão. Eddie acena com a broca. Trazia jornais para casa. como se apanhasse um . As coisas eram como eram. instintivamente.. Eddie disse que ia pensar no assunto. — Ha-ha! — grita Joe. anda lá. Eddie prime o botão. Sr. Observa a mulher a organizar o grupo. Os bailarinos gritaram: «Olééé!» Tocavam tamborins. — Quem diria? — diz Eddie. — Não podes ser mesmo tu — disse ele. — Ha-ha! Com esta é que ela te arrumou! Eddie baixa os olhos. Ela respondia: — Uma criança não sabe o que é ser velho. as crianças amontoadas à volta dele. Outro. mas está a olhar para a mulher. Eddie levanta-se devagar. a rir. ponham as velas no bolo! As crianças correm para o bolo de baunilha às camadas. dançava-se a tarantela e o Sol esmorecia por detrás de uma faixa de nuvens brancas. Eddie junto do bolo. depois vê a mulher a sorrir. Marguerite grita: — Vá. 128 — Está bem — grita ela. — Faz mais barulho do que tu a ressonares — diz ela. Marguerite tapa os ouvidos. O Sol incide-lhe no rosto. EDDIE! — grita um grupo de crianças em uníssono.

Sammy. Eddie não conseguia mexer a língua. um amor que ele sabia. O homem do acordeão sentou-se num banco. As pessoas dizem que «descobriram» o amor. Agora. fizeram um brinde final e o homem do acordeão arrumou o instrumento. Marguerite costumava dizer. a camisa a apertar-lhe o pescoço. ser insubstituível. não és tu. pois as suas últimas recordações dela eram as de uma mulher mais velha. chamado Sammy Hong’s. O seu coração tornou-se dormente. um amor profundo mas discreto. no segundo andar de um restaurante chinês de luzes suaves. Ela estava exactamente como ele a recordava — ainda mais bonita. Ela ajoelhou-se junto dele. mas o seu joelho ferido cedeu. que a única coisa que faltara no seu casamento «foram os cartões do bingo». a brincar. — Já te tinhas esquecido da minha cara? Eddie engoliu em seco. — Vem comigo — disse ela. olhando para a cicatriz quase invisível com uma familiaridade afectuosa. Eddie e Marguerite saíram pela porta da rua. como se se estivesse a formar uma pele por cima da sua própria pele. Anos mais tarde. — Eddie — disse ela. Olééé! — Não és mesmo tu. vinho do Porto e um homem com um acordeão. As cadeiras usadas na cerimónia foram necessárias para o jantar. quente e macia. até que ela semicerrou os seus olhos escuros e entreabriu os lábios com uma expressão maliciosa. em sofrimento. uma vez que ficava a apenas uns quarteirões de distância. quase a rir. Estava a chover ao de leve. Só conseguia ficar parado. Tudo à sua volta parecia estar no seu devido lugar. — A tua perna — disse ela. O proprietário. não és tu — murmurou Eddie. Caminharam de mãos dadas. . como se este fosse um objecto escondido atrás de uma rocha. deixando cair a cabeça no ombro dela e. onde ficavam as mesas. portanto. — Não és mesmo tu — disse ele. pensando que teria poucos clientes se não o fizesse. ali estava ela novamente. E Eddie encontrou uma certa forma de amor com Marguerite. os empregados pediram aos convidados para se levantarem e. feitos os votos. transportaram 130 as cadeiras para o andar de baixo.objecto em queda. levantou os olhos e tocou nos tufos de cabelo por cima das orelhas dele. mas os noivos foram a pé para casa. juntos. Marguerite envergava o vestido de noiva por baixo de uma grossa camisola cor-de-rosa. que quase lhe fazia cócegas. Quando ela morrera. jovem como no dia do seu casamento. pela primeira desde a sua morte. uma chuva fria. O que as pessoas encontram é uma certa forma de amor. Eddie pegou no parco dinheiro que lhe sobrara do exército e gastou-o no copo-d'água: frango assado com legumes chineses. especado a olhar. Ficou junto de Marguerite. em seguida. acima de tudo. um amor grato. sorrindo. O seu próprio casamento realizou-se na véspera de Natal. alugou-lhes o seu estabelecimento por uma noite. Mas o amor assume muitas formas e nunca é igual para todos os homens e mulheres. começou a chorar. Passaram entre as poças de luz dos candeeiros de rua. — Está branco — disse ela. ele deixara que os seus dias se tornassem vazios. Eddieie tentou levantar-se. Eddie levava o seu casaco branco. Terminada a refeição e entregues algumas prendas. — Sou eu — sussurrou ela. Ela ergueu-o sem esforço. Depois. Os seus dedos encontraram-se e ele nunca sentira uma sensação como aquela. 131 em silêncio.

sempre que o noivo levanta o véu e a noiva aceita a aliança.. sei tudo o que aconteceu enquanto estivemos juntos. muito veloz. Agora. Seja como for. — Desde que morreste. Ele perscrutou os olhos dela... que correu para uma das atracções do parque e corria perigo. — E agora sei porque é que aconteceu. 132 — O que é que tu sabes... isto é. ainda não percebi como. — E explicaram-te tudo? E mudou alguma coisa? Ela sorriu. Pegou. Eddie pensou por instantes. Ela voltou a acenar. — Cinco pessoas diferentes — disse ele. mas ele não me conseguia ouvir e a tal menina estava sentada ali e eu tentei agarrá-la. por fim. por detrás de todas as portas. Afastaram-se do copo-d'água e subiram um carreiro de cascalho. nada muda. Não sabia por onde começar.. as expectativas que vemos reflectidas nos olhos de ambos são iguais em qualquer parte do mundo. — O parque tem atracções novas. Perguntou-se se a espera de Marguerite teria sido parecida com a sua. Ai. uma menina pequena. Parecia tão jovem. Eddie sentiu o calor derretê-lo. Levou as mãos ao peito. disse ao Dominguez.. mas o cabo partiu-se. não tem nada a ver com o parque de antigamente. sobre mim? O que é que sabes desde que. Ela tirou o chapéu de palha e afastou os caracóis grossos da sua testa jovem.. não foi culpa dele. O sorriso dela. havia uma atracção que deixava cair uns carrinhos do cimo de uma torre e tinha um sistema hidráulico de travagem.. depois. feliz. — Eu também não sei ao certo — respondeu. Queria perguntar-lhe tudo e mais alguma coisa. — Casamentos — disse ela. — Não sei como é que tu morreste — disse ela.. esperei por ti. porque eu lhes disse para o soltarem.. Tentei salvá-la. — Também passaste por isto? — disse ele. Senti as mãozinhas . Sentia uma agitação dentro de si. Eddie queria dizer-lhe tudo o que vira. Marguerite apontou para a aldeia e para os convidados a dançar. Ela tocou ao de leve no rosto dele e o calor espalhou-se pelo corpo de Eddie. que me amaste muito. A música fundiu-se no ruído de fundo.. — Achas que tivemos isso? Eddie não soube o que responder. Um mundo de casamentos.— Nunca esqueci a tua cara. na mão dele. Era mais difícil do que ele pensava contar à sua mulher como é que morrera. — Bom. — Tocou-lhe no queixo. — Foi essa a minha escolha.. e caiu. eu é que lhe disse e depois tentei avisá-lo. Acreditam verdadeiramente no amor e que o seu casamento vai quebrar todos os recordes. que fazia os carrinhos parar lentamente. — E também sei. Marguerite arregalou os olhos. tudo o que acontecera. um miúdo que trabalha comigo agora. — Mudou tudo.. então. Ele ainda tinha dificuldade em dizê-lo. — Havia uma menina. é tudo muito rápido. Apertou os lábios. uma ansiedade aos solavancos.. Sorriu. Eddie. um dos carrinhos soltou-se.. — Também encontraste cinco pessoas? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. — Tivemos um acordeonista — disse ele. — E.

A sua pele arrepia-se. disse o que roda a gente diz. pôs o dinheiro todo num cavalo a ganhar na sexta. desde que aqui cheguei — explicou. no Daily Double*.. lamento tanto. que não é uma má aposta. era a primeira vez que isso lhe acontecia. Não consigo exprimi-lo. a sua única mulher. 134 Hoje é o aniversário de Eddie As corridas estão à cunha com os clientes de Verão. por entre uma carpete de bilhetes usados. Um cavalo destaca-se na dianteira do grupo. Os cavalos são largados. o 39. vais ter dinheiro para o miúdo. Eddie apostou no n.) 135 Jersey Finch! Agora. a sua alma caíra na armadilha das velhas emoções. porque. a sua mulher perdida. Jersey Finch afasta-se para o lado de fora e alonga a sua passada. Noel grita. Estava a olhar para a sua mulher. — Tenho de ir para casa — diz ele. Ela fez que sim com a cabeça e sorriu. mas depois eu. um sorriso meigo. As mulheres usam chapéus de palha e os homens fumam charuto. A campainha toca. Ela inclinou a cabeça para o lado. Eddie e Noel saem mais cedo do trabalho. — Tive tantas saudades tuas. o seu pêlo colorido a esbater-se a cada movimento ondulante. sendo as probabilidades de quatro para um. Não consigo.da T. Eddie ganhou a primeira corrida do dia. . Sentam-se em cadeiras de ripas. um cavalo chamado Jersey Finch. Amparou a cabeça com as mãos e disse-o de qualquer maneira. Porque é que estava a falar sobre aquilo? O que é que estava a fazer? Estaria realmente com ela? Como uma mágoa escondida que se ergue e lhe agarra o coração.dela. a sua mulher morta. nem a multidão à qual ele tinha gritado «Afastem-se». Está mais nervoso do que gostaria de estar. Aquele dinheiro vinha a calhar. Nem consigo dizer. As aclamações fundem-se com os cascos retumbantes. Aos seus pés. — Praticamente ainda não tinha falado. Depois de perder duas vezes em apostas mais pequenas. * Sistema em que se aposta no cavalo vencedor em duas corridas consecutivas (N. se ele chegara praticamente de bolsos vazios. Eddie tem quase oitocentos dólares. se ganhares — diz Noel —. — Vais estragar tudo — diz Noel. nem o parque. pedindo-lhe para continuar.° 8. Há pouco. nada lhe pareceu importante. Deram-lhe duzentos e nove dólares. meu Deus. estão copos de papel de cerveja. de repente. como ele e Noel concordaram. e ao vê-lo os olhos dele encheram-se de lágrimas e sentiu-se invadido por 133 uma onda de tristeza e. Marguerite — sussurrou. — Ai. Porque é que ele fazia coisas daquelas? A multidão levanta-se. com o assento de baixar. para irem jogar no número do aniversário de Eddie. os seus lábios começaram a tremer e Eddie foi arrastado pela corrente de tudo o que perdera. numa lógica exuberante. a sua jovem mulher. e não queria olhar mais. Os cavalos entram no troço final.. Apostou metade dos lucros na segunda corrida e voltou a ganhar. Eddie aperta o bilhete entre os dedos. que mal tinha voltar para casa da mesma maneira? — Pensa só que. — Lamento muito. nem a sua morte. Ele soltou o ar. mas o que Noel acabou de dizer sobre «o miúdo» —— a criança que Eddie e Marguerite tencionam adoptar — enche-o de culpa. Amontoam-se na recta distante. Deteve-se.

— Estás a desafiar-me? — pergunta um deles. nessa noite. Volta para junto de Noel. tinham saído fugidos de uma loja. Noel tinha razão. ó cobardolas. passavam por cima da estrada e voltavam a descer as escadas. Eddie coxeia para a cabina telefónica e deixa cair uma moeda. Eddie desliga o telefone com um calor atrás das orelhas. — Estamos à espera de um bebé — repreende ela. E como a pista de corridas fica apenas a dez minutos de distância. não estava deserto. Albergava dois adolescentes que não queriam ser encontrados. enquanto ainda tem algum dinheiro no bolso. Eddie tira o dinheiro do bolso. estica o braço que segura na garrafa e escolhe a faixa da direita. O Sol já se pôs e o céu está em transição. que está a comer amendoins junto da balaustrada. jamais lhe ocorre que possa estar a acontecer alguma coisa no viaduto por cima de si. ela pega na carteira e conduz o Nash Rambler. dois rapazes de dezassete anos que.— Que raio de conversa é essa? — Vais contar a alguém e vais estragar a tua maré de sorte. — Não o faças. a maior parte das vezes. Mas. Ela está arrependida de lhe ter gritado. Levanta as sobrancelhas. estão a morrer de tédio e balouçam as garrafas vazias por cima do corrimão enferrujado. como se aquilo fosse uma espécie de arte e ele uma espécie de artista. Ela vai ficar contente. Uma parte dele já não o quer fazer. está bem?» Noel observa-o a empurrar as notas pela abertura da janela. A garrafa passa de raspão por um automóvel e estilhaça-se na estrada. não vai. Abana a garrafa para trás e para a frente. a outra parte quer a dobrar. ainda por cima no dia do aniversário dele. Esboça um sorriso. horas antes. tendo terminado o álcool e fumado muitos dos cigarros. tentando que ela caia no intervalo entre dois veículos. o que fazia com que o viaduto estivesse. com menos trânsito. O que ele não sabe é que Marguerite. — Estou — diz o outro. Ele diz —le ara ela parar de lhe dar ordens. O primeiro deixa cair a garrafa e escondem-se por trás da chapa metálica. quer também que ele pare de fazer apostas. — Vou telefonar-lhe. que costumava ser a via de acesso à pista: os clientes subiam as escadas. O segundo põe-se de pé. Ela não fica contente. Marguerite pensa em tudo menos em olhar para cima. para que ele possa atirá-lo para cima da cama quando chegar a casa e dizer à mulher: «Toma. Diz-lhe para voltar para casa. ao longo de Ocean 136 Parkway. — Não. Sabe. como não lhe podia ligar. — Deixa-me adivinhar — diz Noel. Eddie conta-lhe a novidade. Solta os dedos. Marguerite atende o telefone. — Uaaaau! — grita o segundo. com base em serões anteriores. e quer pedir-lhe desculpa. Vira à direita em Lester Street. — É louco. Agora. Está a . — Viste aquilo? — Atira a tua agora. eu sei — diz Eddie. a observar. deserto. decidiu meter-se no carro e ir procurá-lo às corridas. que Noel vai insistir para ficarem até ao fim. — Não podes continuar a comportar-te dessa maneira. depois de terem roubado cinco maços de cigarros e três garrafas de whiskey Old Harper. compra o que quiseres. Ela aproxima-se do viaduto de Lester Street. Dirigem-se para a janela da bilheteira e escolhem outro cavalo. até que os proprietários da pista pagaram para que a câmara municipal instalasse uns semáforos. porque Noel é assim e não há nada a fazer. em segunda mão. a única coisa que a preocupa é tirar Eddie da pista de corridas. A maior parte do trânsito flui na direcção contrária. Quinze metros abaixo deles. — Eu sei.

no fim. e. A sombra ocupava o seu lugar à mesa e comia na presença deles. marido e mulher recomeçaram a falar e. mantendo-se a si mesmo vivo. uns barcos feitos de troncos. O seu fígado lesado acabou por recuperar. através das raízes. Eddie não percebia porque é que as pessoas gostavam tanto de se molhar. as montanhas-russas. embora nunca tivessem chegado a receber uma criança em sua casa. apesar disso. Eddie afundou-se em trabalho. tornou-se extremamente popular. voltaram a estar na moda. no instante em que a garrafa de whiskey Old Harper se estilhaça contra o seu pára-brisas. construíram uma atracção nova. quando o mar ficava a apenas trezentos metros dali. trabalhando descalço na água. Bullock. impossíveis de conseguir em madeira — e. que agora os miúdos consideravam piroso. pode alimentar-nos vindo do céu. Eddie nunca mais voltou a apostar nas corridas de cavalos. E ao Túnel do Amor. O mesmo aconteceu à atracção chamada Isqueiro. Ficou confinada a uma cama durante quase seis meses. Uns anos depois. Passaram-se anos. E. Os clientes flutuavam ao longo de canais de água e despenhavam-se. ambos incapazes de conversar ao pequeno-almoço. falavam de coisas triviais. De manhã. Fosse como fosse. ela fazia-lhe café e torradas e ele deixava-a na casa onde ela fazia . para espanto de Eddie. perfura o fígado. porque tudo lhes pesava. inspeccionando o mais pequeno gesto que eles faziam. Eddie até mencionou o tema da adopção. mas os custos e a demora impediram-nos de avançar com o processo de adopção. Um parque de diversões da Califórnia apresentou os primeiros trilhos tubulares feitos de aço — contorcidos em ângulos profundos. por vezes. Quando falavam. O carro guina para a divisória de betão. Ângulos de sessenta graus? De certeza que alguém ia acabar por se magoar. Com o passar do tempo. As suas visitas à pista com Noel acabaram gradualmente. de repente. A subsequente culpa implícita nunca encontrou refúgio — moviase simplesmente como uma sombra entre marido e mulher. O acidente em Lester Street fez com que Marguerite fosse parar ao hospital. o amor seca à superfície e alimenta-nos por baixo. o proprietário do parque. Berrava com os trabalhadores. parte um braço e bate com a cabeça com tanta força. Eddie retorquiu: — Uma criança não sabe o que é ser velho. estamos demasiado velhos.pensar em que parte das bancadas o há-de procurar. O corpo dela é atirado como se fosse o de uma 137 boneca. Mas. 139 O palco da orquestra foi deitado abaixo. andava entretido. numa explosão de vidros partidos. O Sr. 138 O amor. encomendara um modelo de aço para Ruby Pier e Eddie supervisionou a sua construção. A água do seu amor estava escondida por baixo das raízes. para se certificar de que os barcos nunca se soltavam dos trilhos. Marguerite esfregou a testa e disse: — Agora. à semelhança da chuva. Não ouve as buzinadelas frenéticas. ela é arremessada contra a porta. Mas. Não confiava em nada que fosse tão veloz. sob o calor enraivecido da vida. ensopando os casais com a sua alegria molhada. numa grande piscina. que praticamente haviam caído no esquecimento. uma noite. a sua ferida sarou lentamente e o seu companheirismo preencheu o espaço que estavam a guardar um para o outro. Não ouve o som de retirada dos ténis de sola de borracha a correrem pelo viaduto de Lester Street e a fugirem pela noite dentro. que perde a noção dos ruídos nocturnos que a rodeiam. A criança que esperavam foi entregue à guarda de outro casal. Marguerite remeteu-se ao silêncio durante muito tempo. Não ouve a chiadeira de pneus dos outros automóveis. contra o tabliê e o volante. zelou pela sua manutenção. por entre o solitário tilintar de garfos e pratos.

os dedos da sua mão direita abriram-se incontrolavelmente. E. Olharam em volta e perceberam que eram as pessoas mais velhas da praia. pela marginal. mas. Não fechavam. a quem deveria Eddie telefonar. quando um deles sugeriu «pôr as suas coisas em ordem». Era. já ela estava desmaiada no chão. os médicos disseram apenas: «Descanse. enquanto Marguerite dava uma volta pela casa. nenhum homem olharia para qualquer outra mulher. a olhar para aquela mão de dedos presos que parecia pertencer a outra pessoa qualquer. Ela percebeu que era o protocolo. ela acordou aos gritos. Dois dias depois. eles acenavam com a cabeça. o cabelo a cair às mãos-cheias. à tarde. como se os seus acenos fossem medicamentos ministrados em gotas. Queria cozinhar. um tumor cerebral e o declínio de Marguerite seria como o de tantas outras pessoas. ela pediu para lhe darem alta do hospital. quando o cancro foi anunciado vencedor. cheios de compaixão. leve a sua vida com calma. começou a ver tudo a andar à roda. andou atarefado como uma abelha a gerir um jantar para vários amigos e colegas convidados. porque Marguerite dizia que lhe lembrava o tempo em que eram miúdos e gostava de ver o velho carrossel pela janela. agradeceu a Eddie do fundo do coração e observou o seu nariz adunco 140 e os maxilares largos. e regressava ao parque. no silêncio da madrugada. Comeram puré de batata pré-preparado e bolachas de manteiga e caramelo e. Ela tinha o braço a latejar. Eddie pegou na garrafa e serviu-lhe uma terceira dose. na cozinha de sua casa. porque. os pés descalços a afundarem-se na areia. Numa noite de Julho. — Eddie? — chamou. por um instante. Esticaram-se para trás. embora naquela época Marguerite já andasse na casa dos quarenta e tivesse as coxas mais grossas e uma teia de pequenas rugas à volta dos olhos. Três anos depois. a comer chupa-chupas de uvas. como se aquele jantar fosse uma festa para celebrar um regresso a casa e não uma despedida. Falaram em frases curtas. A sua respiração acelerou. mas ele obrigou-a a sentar-se e ferveu água para preparar um 141 chá. sem qualquer aviso. Marguerite fez um comentário sobre os biquinis que as raparigas usavam agora e como nunca teria coragem de vestir uma coisa daquelas. qual dos médicos estaria de serviço. Comprara costeletas de borrego na véspera e. quando ele chegou a casa. Fez mais afirmações do que perguntas. Eddie ajudou-a a subir as escadas e pendurou o casaco dela no cabide. deram por si a passear à beira-mar. Ficou parada. quando Marguerite terminou um segundo copo de vinho. As águas do seu amor tornaram a chover do céu e encharcaram-nos com a mesma certeza com que o mar lhes lambia os pés. se ela o fizesse. Por vezes. enquanto Eddie lhe explicava tudo sobre rotores e cabos e ouvia o zumbido dos motores. A seguir. a maneira de eles serem simpáticos enquanto impotentes e. a maior parte dos quais cumprimentou a pálida Marguerite com frases do género: «Vejam só quem cá está!». Ele levou-a para o hospital. ela estava a passar filetes de frango por pão ralado e ovo. E .» Quando ela fazia perguntas. ela saía mais cedo e fazia o caminho a pé com ele. Eddie disse que as raparigas tinham sorte. nessa noite. com tratamentos mais dolorosos que a doença. Subitamente. acompanhando-o nas suas rondas. manhãs ligada a máquinas ruidosas de radiações e tardes passadas a vomitar numa casa de banho de hospital. disseram os médicos. muito tempo depois da morte da mãe de Eddie. a verificar os cavalos do carrossel e as conchas pintadas de amarelo. Nos derradeiros dias. a mesma casa onde moravam há tantos anos. alguém a segurar num grande frasco invisível.limpezas. O pedaço de frango escorregou-lhe da mão e caiu para a pia.

com carrinhos vermelhos pendurados como decorações de uma árvore de Natal. já saber. a sua voz parecia ainda mais ténue quando voltou a falar. sem pôr do Sol nem marés vivas. Ouvia todos os sons. Marguerite lembrou as muitas noites que ele passara furioso com o pai. Numa cerimónia sueca. — Tens o cartão? — perguntou ela. o tilintar das chaves. Numa cerimónia ao ar livre numa aldeia libanesa. Os cabelos voavam-lhe para o rosto. apenas um mês depois de ter comprado um novo apartamento na Florida. inexpressivo. Quando mencionou o pai. Subitamente. — Do seguro — disse ela. e falou sobre o Capitão e a sua história de sacrifício. numa voz rouca.embora ela estivesse sentada ao lado dele. Todos os gestos que ele fazia eram uma maneira de se agarrar a ela. Ela desviou os olhos. Marguerite tinha quarenta e sete anos. Mas. Pararam no parque de estacionamento e Eddie desligou o motor. como é que ele havia de saber ao certo? Em relação a Marguerite. como se aquela inspiração lhe tivesse sido penosa. pensando melhor. porque é que algumas pessoas morrem e outras vivem. Como ainda não dormira no Céu. como uma criança enregelada.. — A nossa casa.. noites e dias e mais noites. o clanque da maçaneta da porta. — O cartão. Ela inspirou fundo e fechou os olhos. no volante. Abriu a porta dela e ajudou-a a sair do automóvel. estavam agora cheias de ecrãs de vídeo. e ela disse que isso a deixava contente. estava tudo demasiado sossegado e silencioso. de um ataque cardíaco. — A roda-gigante? — perguntou ele. 142 — Vê-se daqui — disse ela. a corrente de ar lá fora. Uma noite. tudo o que Eddie queria era tempo — mais e mais tempo — e foi-lho concedido. que antigamente tinham recortes de 143 cowboys pintados com tinta reluzente. Numa cerimónia russa. era como ver . Eddie disse-lhe que tinha feito as pazes com o pai e ela arqueou as sobrancelhas e abriu a boca num sorriso. as montanhas-russas tinham agora voltas em parafuso e carrinhos que ficavam pendurados de cabeça para baixo nos trilhos. Eddie tinha a sensação de que não passara mais do que um punhado de horas com qualquer uma das pessoas que encontrara. Fez sinal a Eddie e apontou para o cimo distante de uma atracção do parque de diversões. no pedal do acelerador. o simples acto de fazer a sua mulher feliz. a velha melodia suave da galeria de jogos fora substituída por um ruidoso rock’n’roll. — Ah. os seus pés no chão. Transpuseram as portas dos vários casamentos e falaram de tudo o que desejavam falar. sem dormir nem acordar. ele falou sobre o que lhe acontecera ali no Céu e ela pareceu ouvir e. Ela tinha os ombros puxados para o queixo. Ela fungou e levantou os olhos para o horizonte. o ranger do seu corpo no banco de cabedal. no seu pigarrear. Eddie sentia-a em tudo. Ele contou a história do Homem Azul. estupefacto com o seu silêncio. ela perguntou-lhe se ele tinha mantido a antiga casa e ele disse que sim. ao mesmo tempo. sim — apressou-se ele a responder. Eddie falou sobre as mudanças que haviam ocorrido em Ruby Pier — as antigas atracções tinham sido desmanteladas. — repetiu ele. sem refeições nem horários. no pestanejar dos seus olhos. as corridas «no escuro». — Eu tenho o cartão. Eddie contou-lhe que o seu irmão Joe morrera há dez anos. e Eddie sentiu aquela antiga sensação de calor que lhe faltara durante tantos anos.

— Desculpa-me por nunca termos saído daqui. Lembrou-se do sangue nas suas mãos.televisão o tempo todo. Em vez de dormir. — Não. no tempo de Eddie. — Durante a guerra. Ele viu uma expressão de tristeza passar pelo rosto dela. faziam o que tinham a fazer e não falavam no assunto. Ela sorriu e disse: — Claro que sabe — mesmo quando Eddie admitiu que passara uma parte da sua vida a esconderse de Deus e o resto do tempo convencido de que Lhe passava despercebido. depois da guerra. A minha perna. que eu te abandonei demasiado cedo. não é? — perguntou Eddie. disse Marguerite. Senti-me sempre um inútil. — Ficaste zangado comigo. Ela virou-se para ele. Ficara sempre implícito. O vestido cor de alfazema de Marguerite estava estendido diante dele. não tiveste? Eddie ficou calado. quando regressavam a casa. perguntou-lhe se Deus sabia que ele ali estava. Já não havia as montanhas-russas Ursa Maior ou as Tartarugas. — Houve uma razão — disse ela. Marguerite conduziu Eddie por outra porta. Eddie percebeu que era precisamente isso que sentia há anos. melancólica — a descrição do Verão de outra pessoa qualquer. Perguntou-se se algum dia seria perdoado. este pode ser um momento maravilhoso. Na Terra. A dada altura. Lembrou-se dos homens que matara. — Sim — sussurrou ele e ela não acrescentou mais nada. depois de longas conversas. passando os dedos pelos cabelos. — Sentiste que te foi roubado. mas não o seu. Agora chamavam-se todas Tempestade. Tinhas quarenta e sete anos. Se estiver certo. Voltaram ao pequeno quarto redondo. — É este o momento em que pensa no que está a fazer. Os soldados. Top Gun e Vórtice. — O que é que aconteceu? — perguntou ela. — Tu partiste demasiado cedo — disse ele. Virou-se para o espelho e Eddie reparou no reflexo. — Está bem. Por vezes. Ele nunca lhe contara. fiquei. Explicou-lhe os nomes novos. Dela. Eddie abraçava-a e cheirava os cabelos dela e inspirava fundo com a cabeça enterrada no pescoço de Marguerite. não havia razão para esses sonhos. Eras a melhor 145 . — É estranho. quando as pessoas adormeciam. Quem escolhe. O meu pai. Mas não dormiam. — Tiveste de viver sem amor durante muitos anos. — É aqui que a noiva espera — disse ela. — Que razão? — replicou ele. 144 A quarta lição Por fim. agora. — Eu devia ter ido trabalhar para outro lugar — confessou ele. absorvendo a sua imagem. Ela sentou-se num banco e uniu as mãos. às vezes sonhavam com o Céu e esses sonhos ajudavam a formálo. ali no Céu. Ela lançou-lhe um olhar repreensivo. — Como é que pode ter havido uma razão? Morreste. Quem amará. — Parece — respondeu ela. mas dando a sensação de se afastar. Mas. — Não — retorquiu a sua mulher. os dois deitavam-se juntos. Contorcionista. Ele agachou-se lentamente. Lembrou-se dos guardas. — Perdi-me — disse ele. Eddie.

Perdi a única mulher que amei na vida. — Não. Não conseguimos ver o sorriso da pessoa amada. — Eu sei — disse ela. ou mexer-lhe nos cabelos. Dançamos com ela. no fundo. Mas quando esses sentidos enfraquecem. Ela baixou os braços.. O homem do acordeão tocou as notas conhecidas. com cadeiras de armar e um acordeonista sentado a um canto. não perdeste. Apenas assume uma forma diferente. Ela entoou a melodia ao ouvido de Eddie e começaram a mover-se juntos. aproximou-se dela. à música e aos casamentos. Eddie lembrou-se dos anos depois de ter enterrado a sua mulher. A memória. há outro que se sublima. Alimenta-nos. O amor perdido não deixa de ser amor. como que a dizer que não era verdade. Eu estava aqui. — No fim. ou levar-lhe comida. — Eu sei. — Importas-te? Ela deteve-se um instante. que até aqui o sentimos. eu não estava lá muito bonita. Ele sorriu e enlaçou-a pela cintura. — Aqui? — perguntou ele. — Um amor perdido pode ter tanta força. Eu perdi tudo. — Podes. Ela pegou nas mãos dele. — Continuava apaixonado por ti.pessoa que qualquer um de nós conhecia e morreste e perdeste tudo. apesar de saber que nunca faria parte dele. lentamente. 146 — Como é que estás com a mesma aparência do dia em que casei contigo? — Achei que ias gostar. ou rodopiar com ela numa pista de dança. ele deu o primeiro passo. pela primeira vez no Céu. — Posso perguntar-te uma coisa? — perguntou. num ritmo recordado que um marido partilha somente com a sua mulher. Fizeste-me amar-te E sempre soubeste . — Inclusivamente aqui — respondeu ela. Estendeu os braços. — Podes alterá-la? — Alterá-la? — Ela pareceu divertida. sorrindo. e Eddie pestanejou ao transpô-la atrás dela. E. não passavam de expressões da solidão. Eddie abanou a cabeça. Estava ciente de outro tipo de vida lá fora. — Mas o amor não. — E queres que a transforme em quê? — No aspecto que tinhas no fim. A vida tem um fim — rematou Marguerite. — Sentia-o. baixinho. Tratava-se de um quarto imerso na penumbra. Agarramo-nos a ela. E continuaste a amar-me. — Estava a guardar este para último lugar — disse ela. Ela levantou-se e abriu uma porta. Eddie. — Só faltam — sussurrou Marguerite. Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo Eu não queria fazê-lo. ignorando a perna. — Eu nunca quis outra pessoa — disse ele. apercebendo-se agora de que.. Ele reflectiu por uns instantes. A memória torna-se nossa companheira. depois voltou para os braços dele. Era como espreitar por cima de uma cerca. — Ela fez um sinal de assentimento. pousando a mão no ombro dele — os cartões do bingo. ignorando todas as coisas terríveis que associava à dança.

Queria a casa vazia para um novo inquilino. o quão estranho era não o ter no parque. Dominguez debruçou-se sobre a mesa e espreitou pela janela da cozinha. Nada de apólices de seguros. O homem ao seu lado. ela tinha novamente quarenta e sete anos. 3 HORAS E QUINZE MINUTOS DA TARDE Dominguez carregou no botão do elevador e a porta fechou-se com estrondo. Quando abriu os olhos. limpando a testa com um lenço. Franziu a testa. Empurrou os pares de meias para o lado. o quê?. — Está muito arrumado. uma dentro da outra. onde estavam. Deixaram os pertences dele na oficina.. a gritar ordens. Nada de importante. Via-se o antigo carrossel. Quando ele afastou a cabeça. Meu Deus. 147 SEXTA-FEIRA. O advogado abriu a gaveta de cima da cómoda. — Uau! — exclamou Dominguez. novamente com estrondo. — Papelada financeira? — pediu o homem. Abriu-a.E sempre soubeste. Ainda nem sequer tinham esvaziado o seu 148 cacifo. e eles viraram-se para o apartamento 6B. Mais um e podia ir para casa jantar. Ela sorriu e ele sorriu e. os seus braços ainda estavam moldados ao corpo dela.. um velho baralho de cartas. As bancas limpas. — Hum — fez o homem. — Não sei. A cabina subiu e. a sua casa nunca estava assim tão arrumada. — Nem acredito que este elevador ainda funciona — comentou Dominguez.. viu o átrio desaparecer. com a teia de finas rugas aos cantos dos olhos. O átrio ainda tinha os antigos mosaicos em xadrez preto e branco dos anos sessenta e cheirava a comida — alho e batatas fritas. o cabelo mais fino. do século passado. Enfiado debaixo delas estava uma velha caixa de cabedal. Apenas um laço preto. a pele mais flácida por baixo do queixo. — O lava-louças estava lavado. . — Extractos bancários? Jóias? Dominguez imaginou Eddie a usar jóias e quase desatou a rir. Uma portinhola interior alinhada com uma portinhola exterior. para um velhote. ela estava mais bonita do que nunca. Ninguém tivera coragem. Era o seu terceiro compromisso do dia. Consultou o relógio. O elevador parou com um salto e a porta abriu-se. assim que abriu a porta e entrou na cozinha. Pode ver naquela coisa do quarto? — Na cómoda? — Sim. juntamente com tudo o resto. um advogado do ramo imobiliário. através do vidro martelado. mas ela desaparecera. — O Eddie tinha poucas coisas — disse Dominguez. Quero ficar aqui.. pensou para consigo. uma coisa com ar sério. não deve demorar muito. Apercebeu-se das saudades que tinha do velhote. todas cuidadosamente dobradas. Só conhecia o Eddie do trabalho. Nada de extractos bancários. uma ementa de um restaurante chinês. na esperança de encontrar logo a papelada. aos olhos dele. como se ele voltasse no dia seguinte. O zelador do prédio dera-lhes a chave e um prazo. fingindo-se interessado. empilhadas pelos elásticos. Até à próxima quarta-feira. — Deve ser. e Eddie fechou os olhos e disse pela primeira vez o que sentia desde que voltara a vê-la: — Não quero avançar. assentiu discretamente com a cabeça. Por falar em trabalho. Tirou o chapéu — estava abafado e ele suava — e observou os números que se iluminavam no painel de latão. É que eu próprio só cá vim uma vez.. — Nesse caso. a observar tudo e todos como uma mãe-galinha.

é disto que precisa? Apareceu com um maço de envelopes tirados de uma gaveta da cozinha. um troar livre e incessante — o som de um rio a correr — e a brancura reduziu-se a um ponto de luz. títulos e plano-poupança reforma. Quando vivo. Ouviu novamente o som. pressentiu que agora se tratava de algo completamente diferente. Nem terra. da cozinha —. Ficou pendurado. melhor do que acabar como aquele pobre coitado. de a chamar. 149 A quinta pessoa que Eddie encontra no Céu Branco. o seu corpo estava próximo do fim. como se suspenso num cabide. Só à chegada de um pequeno mas insistente ruído é que ele se mexeu. A sua mulher fora-se embora. saíra da sua própria garganta quando tentara falar. mas não havia maneira de a alcançar. nem horizonte entre os dois. cerrou os punhos. Desviou o olhar da sua decadência crescente. no vazio. Podia ali ter ficado um dia ou um mês. como se assim pudesse acabar com o barulho. Eddie ouvira esse som nos seus pesadelos e estremeceu ao evocar a recordação: a aldeia. Não tinha impulsos. Tudo o que ouvia era a sua própria respiração ofegante. mas descobriu que a sua mão direita estava a segurar numa bengala. nem céu. Em termos terrenos. aquela cacofonia chiante que. inerte e sem vida. o som estridente deslocou-se para o fundo e. alguns de um banco da zona. no final. As suas pernas nuas mostravam os sinais vermelhos da zona que o atacara nas suas derradeiras semanas na Terra. que reflectia as ondas cintilantes. Inspirou fundo e ouviu uma inspiração ainda mais forte. Smitty e aquele barulho. já encontrara quatro pessoas e. como se todos os fluidos tivessem sido arrancados de dentro de si. O silêncio é pior quando sabemos que não vai ser quebrado. 150 O ruído voltou a fazer-se ouvir. como um alarme imparável. Era. mais alto agora. o incêndio. Depois. Cerrou os maxilares. só mais um minuto. tão silencioso como um forte nevão ao raiar do dia mais sereno do mundo. ao fundo. levantou pesadamente as pálpebras. rodeado de crianças. Apenas um branco imaculado e silencioso. sem levantar os olhos. — Ei — chamou Dominguez. Branco era tudo o que Eddie via. O advogado folheou-os e. As unhas eram pequenas e amareladas. Já estivera em quatro recantos do Céu. seguida pelo eco dessa mesma respiração. sem dúvida. Podia ter sido um século. juntou-se uma segunda camada de barulho. A sua alma estava vazia. disse: — Isto chega. e Eddie. até que Eddie gritou para a brancura asfixiante: — O que foi? O que é que queres? Assim que proferiu estas palavras. meio minuto. só havia branco. — Retirou um extracto bancário e tomou mentalmente nota do saldo. com pouco mais para apresentar além de uma cozinha arrumada. congratulou-se silenciosamente pela sua própria carteira de acções. como tantas vezes acontecia nesse tipo de visitas. mais cinco segundos. embora cada uma tivesse sido intrigante no início. Expirou e ouviu outra expiração. Os seus braços encontravam-se salpicados de manchas de velhice. mas continuou. um ondular estridente de guinchos e quietude irregulares. . com o instinto de defesa de uma vida inteira. de lhe acenar ou sequer de contemplar o seu retrato. Agora. outros da Administração de Veteranos. Eddie fechou os olhos com força. Aos pés de Eddie. a ele. Ele queria-a desesperadamente. e Eddie sabia. Sentiu-se como se tivesse caído por umas escadas abaixo e estivesse amachucado.um envelope com uma medalha do exército e uma Polaroid esbatida de um homem junto de um bolo de aniversário.

No emprego. a mergulhar no rio e a gritar de riso inocente. Joe deseja-lhe feliz aniversário. aquele rangido tamborilante. Nem sequer adolescentes. vê televisão em casa. dizendo: «Por que é que me têm de lembrar esse dia?» Era Marguerite quem insistia. Fazia um bolo. o irmão. a fonte daqueles gritos assombradores e foi inundado pelo alívio de um homem que descobre. a acenar-lhe. Eddie tenta esquecer a data. todas elas. aquele assobiar. Eddie baixou a bengala para se apoiar. Uma menina esguia estava em pé. enquanto descia a encosta. Prepara um café instantâneo num copo de papel e come dois pedaços de tosta com margarina. É o seu primeiro aniversário sem Marguerite. no rio. crianças pequenas. sentiu um súbito sopro de vento nas costas e foi empurrado para a frente e colocado de pé. o seu joelho ferido a ceder sob o seu peso. Mas. outros a rebolarem na erva alta. Um sábado. «Não podes abdicar do teu dia de anos». Espalha os comprimidos em cima da banca. Prende-o a um anzol e deita a linha pelo buraco de pesca. Nada de convidados. Abre o saco de papel pardo que contém o almoço e arranca um pedaço de salsicha de uma sanduíche. que não há nenhum intruso dentro de casa. engolido pelo mar. É Joe. Faz setenta e cinco anos. Nos anos que se seguiram ao acidente da mulher. Faz sessenta anos. Fez-lhe sinal com as duas mãozinhas. Estava no cimo de uma das margens. as pernas a fraquejarem. Eddie rejeitava toda e qualquer festa de aniversário. Joe fala sobre o neto. outros a nadar. pensou. Nada de bolo. Ela sorriu. Chega bem cedo à oficina. alguns a saltar. agarrado ao taco de basebol. O telefone toca. Comprava sempre um saquinho de doces e atava-o com uma fita. parado diante da menina como se ali tivesse estado o tempo todo.apareceu o solo. e ali estava ele. Escorregou. Vê-o flutuar. era apenas a cacofonia de vozes infantis. Agora que ela partiu. destituída das brigas habituais entre crianças. uma segunda-feira. 152 Hoje é o aniversário de Eddie Faz cinquenta e um anos. desaparece. Reparou que havia uma certa tranquilidade naquela cena. tu. a ligar da Florida. milhares de crianças a brincar. com a pele da cor de madeira escura. A sua bengala tocou em qualquer coisa sólida. antes de tocar o solo. Era com isto que eu sonhava?. alguns com baldes nas mãos. Suspira e retira um placard da . Nunca é difícil agir como uma pessoa vulgar. onde soprava uma brisa no seu rosto e uma neblina humedeceu a sua pele. ao fundo da colina. como um alpinista. O som. Por fim. quando nos sentimos uma pessoa vulgar. muito direitinho. Coloca os óculos e examina os relatórios da manutenção. Durante todo aquele tempo? Porquê? Observou aqueles seres pequeninos. Joe fala sobre o condomínio de apartamentos. Reparou também noutra coisa. aquela gritaria. retorquia ela. em cima da rocha. E foi então que os olhos de Eddie pousaram num rochedo branco. é uma quarta-feira. Eddie diz «ah sim?» pelo menos cinquenta vezes. Ele hesitou. sozinho lá no alto. Estas eram. 151 Não havia adultos. Ela voltou a acenar e fez que sim com a cabeça. aparentemente a supervisionarem-se umas às outras. prende-se com uma corda a uma curva da montanha-russa. Faz sessenta e oito anos. Repara que alguém falhou um turno na noite anterior e que os travões da Aventura da Minhoca Contorcionista não foram testados. como quem diz: Sim. um sábado. Vai para a cama cedo. Olhou para baixo e viu. Convidava amigos. virada para ele. destacada das outras crianças. e a palidez da rendição torna-se a cor dos dias de Eddie. A noite.

155 Nenhuma das outras crianças pareceu reparar nele. Ela sorriu como se tivesse começado um jogo. Senta-se no banco da frente. Eddie ouvira muitas crianças na sua vida. ao longo das costas. talvez com uns cinco ou seis anos. — Não. onde verifica ele próprio os painéis dos travões. anunciando o seu nome. Ela sorriu e bateu as palmas. Apoia-se na bengala e olha para a pedra tumular e pensa em tantas coisas. 154 A última lição A menina parecia asiática. na voz desta. cabelos da cor de uma ameixa escura. Como habitualmente. Continuaram a mergulhar. Pensa em caramelos. — Inas? — repetiu Eddie. puxando a bengala para dentro do automóvel. se isso significasse comê-los na companhia dela. Não explica que. lábios carnudos que se abriam alegremente sobre os seus dentes afastados e uns olhos extraordinariamente cativantes. é como se fosse ele a conduzir e não conduz desde que lhe retiraram a carta de condução. — Mães — respondeu ela. — Baro. Eddie olha em frente. guarda a da mulher para último lugar. Fez sinal a Eddie para ele se sentar no tapete e ela fez o mesmo. Visita a sepultura da mãe e a sepultura do irmão e detém-se junto da sepultura do pai durante uns instantes apenas. — Saya. os seus sapatos tipo socas — "bakya" —. a nadar e a apanhar seixos do leito do rio. Eddie observou um miúdo a esfregar uma pedra no corpo de outro. — Baro — disse ela. depois leva-o para a entrada da Minhoca. O táxi leva-o ao cemitério. até Eddie dar mais um passo em frente. — Tala — repetiu Eddie. — Importa-se? — pergunta Eddie. mas. um narizito chato. mas podia comê-los na mesma. — A maior parte das pessoas prefere ir no banco de trás — diz o motorista. Caramelos. uma terça-feira. — Como as nossas inas costumavam fazer. — Saya. folgada nos ombros e molhada com a água do rio. uma bonita tez de canela. — Estão a lavar-se — disse a menina. assim. agora. Apontou para a sua blusa bordada. não detectava a hesitação habitual em relação aos adultos. . — Tala — disse ela. com um pontinho branco a servir de pupila. com as mãos sobre o peito. Depois. excitada. O motorista encolhe os ombros. pretos como a pele de uma foca. a seguir as conchas do mar iridiscentes aos seus pés — "capiz" —. Perguntou-se se ela e os outros miúdos teriam escolhido aquele Céu ribeirinho. altura que aproveitou para se apresentar. Faz oitenta e dois anos. Um táxi pára à entrada do parque de diversões.153 parede — ATRACÇÃO TEMPORARIAMENTE ENCERRADA PARA MANUTENÇÃO —. não me importo. há dois anos. com as pernas cruzadas por baixo das nádegas. Pensa que lhe arrancariam os dentes. dos braços. Ela tocou no tecido encarnado que lhe envolvia o tronco e as pernas. depois um tapete de bambu entrelaçado — "banig" — que se encontrava diante dela.

— Eddie terminou a última volta. — De que estavas. cão. — Soldado. A sua cabeça começou a latejar. Eddie baixou a voz. Olhou para os olhos negros e profundos dela e tentou sorrir. — Estás a ver? É um. como se fosse um medicamento de que a criança necessitasse. Smitty. — Ela encolheu os ombros estreitos. dadas as suas memórias tão curtas. Eddie sentiu um martelo a bater-lhe por detrás dos olhos. merecia cada um deles. a esconder-te. A menina apontou para o bolso da camisa de Eddie. Grande incêndio. Fazes-me fogo. até o uivo ceder lugar a uma espécie de oração. chorou e gemeu. Eddie sentiu a palavra como uma faca na boca. de um lado para o outro. Fazes-me fogo. ele matara-a.. — Não é seguro.. frenética. A seguir. Explosões. — Tala — disse ela. — Gostas? — perguntou ele. Eddie sentiu o maxilar contrair-se. Esperar por ela.. — sussurrou ele. A escuridão que o assombrara durante aqueles anos todos estava finalmente a revelar-se. O seu rosto desfigurou-se e ele enterrou-o nas mãos. — Isto? — perguntou ele. O Capitão. Os lança-chamas. os pesadelos que sofrera. Ele baixou os olhos.. Seguro. A voz dela era inexpressiva. qualquer coisa! A sombra nas chamas! Matara-a com as suas próprias mãos! Com as suas mãos incendiárias! Uma torrente de lágrimas escorreu-lhe por entre os dedos e a sua alma entrou em queda livre. era real. Depois. 156 — Sundalong? Ela levantou os olhos. A ina disse que lá era seguro.. Eddie engoliu em seco. A minha ina diz para esconder.. — Queimas-me.. As suas mãos tremiam-lhe. As mãos dele tremiam.. Passaram-lhe imagens pela cabeça. um uivo que revolveu a água do rio e abalou o ar enevoado do Céu. naquela cabana.. Vira. Os seus ombros e pulmões cederam. Soldados. esta criança.ou se. as palavras expelidas numa maré ofegante de confissões: 157 . — Porque é que estás aqui no Céu? Ela baixou o cão de borracha. Ela pegou no cão e sorriu — um sorriso que Eddie vira milhares de vezes. Tirou-os do bolso e retorceu-os um no outro. Morton. pronunciando as palavras lentamente.. como costumava fazer nos seus tempos. mas isso fez com que ele se fosse abaixo. depois mergulhou-o na água. — A minha ina diz para esperar dentro da nipa. — . — Estavas nas Filipinas. O seu corpo entrou em convulsões e a sua cabeça abanou. um uivo saído das suas entranhas. Queimas-me. esta linda criança. Arames para limpar cachimbos. — O que é que disseste? — Queimas-me. — Sundalong — disse ela.. no parque.. aquela paisagem serena fora escolhida para elas. de facto. um uivo ergueu-se dentro dele numa voz que nunca ouvira antes. como a de uma criança a recitar uma lição de cor. sorrindo perante o seu próprio nome. a sombra.. — Tala. — A nipa. queimara-a até à morte. Tala? Ela palpou o cão de borracha. Ela retribuiu o sorriso. um grande barulho. de carne e osso. Ela pôs-se de joelhos para observar o procedimento. A sua respiração acelerou. — Queimas-me — respondeu ela..

Depois. EU MATEI-TE — depois. Uma lágrima rolou pela face de Eddie. Depois... entre as crostas manchadas. apoiando a cabeça no peito dele. Entrou na água e virou as costas para Eddie. a nuca e finalmente as faces. Pegou na pedra.. virou a pedra ao contrário e esfregou as costas ossudas. diante da menina de cabelos escuros. a testa e a pele por trás das orelhas. já não havia lugar para uma conversa adulto-criança. Eddie soluçou. . acima de tudo. porque não aproveitei a minha vida. Eddie baixou o braço e estremeceu em curtas inspirações ofegantes. Ele passou o seixo com cuidado à volta das pálpebras. num murmúrio: — Perdoa-me — e a seguir: — PERDOAME... Eddie pegou nela com ternura e. quando a sua angústia abrandou. a Ruby. até os cabelos cor de ameixa despontarem das raízes e o rosto que ele vira inicialmente voltar a aparecer. — Lava-me — disse ela novamente. Depois. retirou o baro bordado pela cabeça. — Lava-me — disse ela. Não conquistei nada. até o choro perder força e se reduzir a um estremecimento. como se o seu peito estivesse vazio. Tala observou-a da mesma maneira que uma criança observa um insecto na relva.. O cabelo aos tufos. — Sou cinco — segredou ela.. com bolhas. os pequeninos ombros. passou o seixo pelo braço dela. A dada altura. Ela encostou-se a ele. Baixara todas as suas defesas. que brincava com o seu animal feito de arames na margem de um rio. Depois. — Lá. OH. A pele dela estava horrivelmente queimada. — Aqui? Ela apontou para baixo. como que a explicar os teus cinco. Ele retraiu-se. até as cicatrizes começarem a desfazer-se. — Porque é que estou triste? — sussurrou ele. elas soltaram-se da pele. Não fui nada. Eddie sentiu baterem-lhe ao de leve no ombro. Quando ela se voltou. por fim: — O que foi que eu fiz. Quando ela reabriu os olhos. Os lábios caídos. Perdi-me. — e. Sentia que não devia estar vivo. Chorou e chorou. Os seus dedos tremiam. MEU DEUS. ao Capitão. lá — disse ela. balouçou o corpo silenciosamente para trás e para a frente.. — Nunca tive filhos. de olhos fechados como se estivesse a dormir uma sesta... Soprava uma brisa quente. Ela levantou a mão queimada. — Não sei como.. Disse o que sempre dissera a Marguerite. lentamente. Estava ajoelhado num tapete.. ah sim?. Fez o mesmo com os lábios 158 descaídos e com as crostas da cabeça. Ela abanou a cabeça a dizer que não. Eddie arrastou-se para o rio. um último soluço vago. Depois. nos pontos onde o crânio não ficara queimado. Tens cinco anos?. — Cinco.. os pontinhos brancos cintilaram como faróis. o seu rosto belíssimo e inocente estava coberto de cicatrizes grotescas. Esfregou com mais força. — Devias estar vivo. — Porquê triste? — perguntou ela. empurrou-os contra o peito de Eddie. Levantou os olhos e deparou-se com Tala.. de braço estendido e um seixo na mão..— Matei-te. O QUE FOI QUE EU FIZ?. — Estava triste. a si próprio. falou por entre a distância que existia entre eles. ao Homem Azul e. O seu torso e os ombros estreitos estavam pretos.. carbonizados. Tala tirou o cão feito de arames de dentro da água. Redobrou os seus esforços até a pele carbonizada cair e ver-se a pele saudável. A tua quinta pessoa. Esticou cinco dedos. estendendo-lhe o seixo. Apenas um olho aberto. — murmurou num fiozinho de voz.

— Crianças — disse ela. Eddie fechou os olhos. — Mas eu senti as mãos dela — disse ele. como se a resposta fosse óbvia. — Empurrar — disse Tala. Fazes-me bem. Ela conduziu-o por entre as ondas de um vasto mar cinzento e ele emergiu. Eu trazer-te para o Céu. e pressentiu que não lhe restava muito tempo. Pronto. Eddie estremeceu. a carne arrancada dos ossos. por baixo da superfície. e Eddie percebeu que todas aquelas cores. de calções. Tu salvas a menina. por entre tons de azul e marfim e limão e preto. tirou água do rio. Fez que sim com a cabeça. As suas mãos ainda estavam entrelaçadas nas de Tala. o peito e os ombros. Deixou cair a cabeça. pais. engolindo a cintura de Eddie. 159 Ela sacudiu o cão contra a camisa dele. que o quer que surgisse depois das cinco pessoas que encontramos no Céu estava prestes a suceder. — As mãos dela não — disse Tala. Antes que ele pudesse voltar a inspirar. Senti as mãos dela. — É a única coisa de que me lembro. e ela puxou-o suavemente por entre sombras e luzes. dissolver-se. lado a lado. crianças do passado e do presente. durante aquele tempo todo. representavam as emoções da sua vida. — Salvas as crianças. Eu salvo-te. As pedras da sua vida estavam agora todas à sua volta. Não podia tê-la empurrado. Eddie levantou os olhos. E dito isto. — Empurrar? — Empurrar as pernas. — A reparar máquinas? Era essa a minha vida? — Ele respirou longamente. Puxar não. — Salvei-a? Consegui puxá-la? Tala abanou a cabeça. Agora não era nada. tocou na etiqueta da camisa dele com uma gargalhada e acrescentou duas palavras: — Eddie Ma-nu-ten-ção. de barrete. depois pousou os dedinhos molhados nas mãos adultas de Eddie. Ali estava o final da sua história. Eddie deixou-se cair na corrente de água. — Devias estar vivo lá — repetiu ela e. a seguir. Sentiu a sua forma derreter. Empurrar. todas as cicatrizes. todas as más recordações. rodeado de luz brilhante. crianças que ainda não tinham nascido. Tala sorriu e. Ele soube de imediato que já ali estivera antes. — A menina do parque? Sabes o que lhe aconteceu? Tala olhou para as pontas dos dedos. com a mão em forma de concha. Ela levantou os olhos. mas sentiu o seu corpo ser levado da sua alma. todas as feridas. uma folha na água. — Tala? — sussurrou. mães e crianças — tantas crianças —. — As minhas mãos. enchendo a marginal e as atracções do parque e as . encostadas umas às outras. — Porquê? Ela inclinou a cabeça para o lado. — Puxar não. homens e mulheres. o rio subiu rapidamente.— Onde? Em Ruby Pier? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. e com o corpo desapareceram toda a dor e cansaço que ele acumulara dentro de si. O carrinho caiu. o barulho 160 das crianças desapareceu e ele foi submerso por uma forte mas silenciosa corrente. de mãos dadas. em negação. acima de uma cena quase inimaginável: Havia um parque cheio de milhares de pessoas.

Formavam-se filas em Ruby Pier — tal como se formava uma fila noutro lugar: cinco pessoas à espera. onde num carrinho. Já não segurava na mão de Tala. que uma menina chamada Amy ou Annie crescesse e amasse e envelhecesse e morresse. e sentiu-se inundado por uma paz que nunca antes sentira. graças às pequenas coisas mundanas que Eddie fizera na sua vida. no colo umas das outras. mas suficientemente grande. Eddie ouvia as suas vozes. com um barrete de linho e um nariz adunco. 161 Epílogo O parque de diversões de Ruby Pier reabriu três dias depois do acidente. tapando a vista do velho carrossel. directora . e finalmente obtivesse respostas para as suas perguntas: porque é que viveu e qual o objectivo da sua vida. e Dana Wyatt. onde se vangloriava perante os amigos de que a sua bisavó era a mulher que dera o nome ao parque de diversões. das Diversões da América. mais vozes do que jamais imaginara. E embora os seus lábios não se mexessem. incluindo fotografias da antiga entrada original. depois outras histórias sobre outras mortes ocuparam o seu lugar. o jovem cuja chave cortara o cabo. acima das tendas e das espirais da rua principal. ou viriam a estar ali. mas no ano seguinte reabriu com um novo nome: o Precipício do Desafio. flutuava acima da areia. a balouçar suavemente. em cinco recordações escolhidas. à espera de braços abertos. A casa de Eddie. a casa onde crescera. Com a chegada do Verão. 164 Agradecimentos O autor gostaria de agradecer a Vinnie Curci. as voltas discretas que efectuara todos os dias. para partilhar a sua parte do segredo do Céu: que cada pessoa afecta outra e essa outra afecta outra ainda. A atracção chamada Queda Livre foi encerrada durante o resto da temporada. Estavam ali. os acidentes que evitara. as multidões voltaram ao parque de diversões à beira do vasto oceano cinzento — um número de pessoas não 163 tão grande como nos parques temáticos. Dominguez. mas as histórias são todas uma só. em direcção ao pico da grande roda-gigante. estava uma mulher de vestido amarelo — a sua mulher.plataformas de madeira. foi alugada a um novo inquilino. A história da morte de Eddie saiu nos jornais durante uma semana. fez uma nova chave quando chegou a casa e vendeu o carro quatro meses depois. as máquinas que reparara. guardou os poucos pertences de Eddie numa arca na oficina. Nicky. sentadas nos ombros umas das outras. à espera num lugar chamado a Concha da Banda do Estrelato. Os adolescentes viam-na como um símbolo de coragem e eram muitos os clientes que a procuravam. Marguerite. juntamente com recordações de Ruby Pier. que aceitara ficar com o cargo de Eddie. Voltou muitas vezes a Ruby Pier. Ele aproximou-se dela e viu-a sorrir e as vozes fundiram-se numa só palavra de Deus: Lar. E quando acabaram as aulas e os dias se tornaram mais longos. E nessa fila encontra-se agora um velhote de bigodes. o espírito alegra-se e a costa cativa com a sua cantilena de ondas e as pessoas reúnem-se à volta dos carrosséis e das rodas-gigantes e das bebidas geladas e do algodão-doce. acima da marginal. Os proprietários ficaram satisfeitos. As estações sucederam-se. que colocou vidro fosco na janela da cozinha. e que o mundo está cheio de histórias.

que ouviu pacientemente e muitas vezes a leitura em voz alta deste livro. por acreditarem em mim. que me contou as suas histórias muito antes de eu contar a minha. Ira. e bem. com quem partilhei a minha primeira roda-gigante. no Cais de Santa Monica.de operações do Pacific Park. pela informação sobre feridas de guerra. que simboliza o ideal da relação agente-autor. Os meus mais sinceros agradecimentos a Bob Miller. Will Schwalbe. A sua ajuda na fase de pesquisa deste livro foi preciosa e o seu orgulho em proteger os clientes dos parques de diversões é digno de elogio. Leslie Wells. E a Kerri Alexander. o verdadeiro Eddie. Cara e Peter. que sabe lidar. a Janine. Um especial agradecimento também ao Dr. Ellen Archer. Michael Burkin e Phil Rose. Jane Comins. e ao meu tio. com tudo. a David Black. do Henry Ford Hospital. FIM . a Rhoda. Katie Long. David Collon.

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