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Um Lírico no Auge do Capitalismo - Charles Baudelaire

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cujas únicas estações fixas . operários que só exerciam a conspiração a par de suas outras ocupações e que.. publicadas em 1850 na Nova Gazeta Renana. que dedicavam todo o seu serviço à conspiração. de que se ocupa na detalhada resenha das Memórias do Agente Policial de Ia Hodde.. Rememorar a fisiognomonia de Baudelaire significa falar da semelhança que ele exibe com esse tipo político. Marx assim o delineia: "Com o desenvolvimento das conspirações proletárias surgiu a necessidade da divisão do trabalho. As condições de vida desta classe condicionam de antemão todo o seu caráter. isto é.. freqüentavam os encontros e ficavam de prontidão para comparecer ao ponto de reunião. nos pormenores. mais dependente do acaso que da própria atividade. os membros se dividiram em conspiradores casuais ou de ocasião. Sua existência oscilante e. só com a ordem do chefe. Ele aí inclui os conspiradores profissionais. sua vida desregrada. . vivendo dela . e em conspiradores profissionais.Paris do Segundo Império • Uma capital não é absolutamente necessária ao homem" Senancour A Boêmia A boêmia surge em Marx num contexto revelador.

motins que deverão resultar tanto mais miraculosos quanto menos bases racionais tiverem. onde fez aquele apontamento. cujos quadros. e seu gesto não é o do advocatus diaboli. as pessoas mais ou menos cultas que representam esse lado do movimento.um homem cujo negócio não é a barricada. encontra para a "'honnête' burguesia" e para o notário a figura do respeito no meio burguês . a derrubada do governo existente e desdenham profundamente o esclarecimento mais teórico dos trabalhadores sobre seus interesses de classe. . Proclamações surpreendentes. Se dirige suas simpatias ao reacionarismo clerical.f Em princípio. teve por algum tempo f~ma de espião da polícia francesa. Expedientes desse gênero causavam tão pouca estranheza • O general Aupick era padastro de Baudelaire. Em tudo isso se esforça tão pouco em se reconciliar com seu público quanto Napoleão III ao passar da tarifa protecionista para o Iivre-carnbismo. O Salão de 1846 ele o dedicou "aos burgueses". ele expõe opiniões apodicticamente. A imagem que apresentou nos dias de fevereiro numa esquina de Paris. Um dos instrumentos do seu período governamental foi a Sociedade de 10 de Dezembro.tenha rastreado tão mal as energias teóricas contidas na prosa de Baudelaire. Ocupados com esse frenesi de projetos não têm outra meta senão a mais próxima ou seja.os traços do boêmio mais raivoso. os vislumbres políticos de Baudelaire não excedem os desses conspiradores profissionais. invectivas bruscas e ironias impenetráveis constituem a razão de Estado do Segundo Império. Lançam-se a invenções que devem levar a cabo maravilhas revolucionárias: bombas incendiárias. em Paris. nunca se conseguem fazer de todo independentes'<.s O que Baudelaire assim registra poder-se-ia denominar a metafísica do provocador. Seria feliz não só como vítima. haviam empregado "toda a massa indefinida. 180-18t). Na Bélgica. Mais tarde.. L'enjermé. tráfico de segredos. pp. que se quer distanciar dos conspiradores profissionais. e seu fundamento permanece frágil. Paris 18<n. no entanto. defende "I'art pour I'art". Ele o evita mesmo quando as evidentes contradições em teses que adota sucessivamente exigiriam um debate.! Por volta de 1850. . poderia ter feito suas as palavras de Flaubert: "De toda a política só entendo uma coisa: a revolta". sua expressão desconhece mediações. diluída e disseminada por toda a parte. um homem que. mas a discussão. Tornamos a achar essas mesmas características nos escritos teóricos de Baudelaire. não proletária mas plebéia. colocam-nos naquela esfera de vida que. todas as noites.10 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPBRIO 11 são as tavernas dos negociantes de vinho . o único requisito da revolução é organizar suficientemente sua conspiração. segundo Marx. Essa frase então deveria ser entendida à luz do trecho final de uma nota que nos foi entregue junto com seus esboços sobre a Bélgica: "Digo 'viva a revolução!' como diria 'viva a destruição! viva a expiação! viva o castigo! viva a morte!'. alguns anos depois. O mais das vezes. deve-se observar que o próprio Napoleão 111 iniciara sua ascensão num meio que tinha muito em comum com o descrito.com Jules Lemaitre à frente . das quais. Na pior hipótese. Daí sua raiva. por exemplo em sua invectiva contra a escola do bon sens. a qual os franceses denominam a boêmia"? Durante seu império. poderia sentar-se à mesa com o chefe de polícia e ganhar a confiança de todos os De La Hodde do mundo . a fim de sentir a revolução pelos dois lados! Todos temos no sangue o espírito republicano assim como a sífilis nos ossos. tampouco me desagradaria representar o carrasco. proclama que a arte não deve ser separada da utilidade.os locais de encontro dos conspiradores -. é chamada a boêmia'í)" De passagem. • Proudhon. máquinas destrutivas de efeito mágico. Gustave Geffroy. como de representantes oficiais do partido. estamos infectados de democracia e de sífilis". Em sua descrição dos conspiradores profissionais prossegue Marx: "Para eles. quase da noite para o dia e às escondidas do parlamento francês. agitando uma espingarda e proferindo as palavras "Abaixo o general Aupick"* é convincente. Todavia esses traços tornam compreensível que a crítica oficial . denomina-se vez por outra "um homem novo . ou se as oferece à insurreição de 1848." (cit. Napoleão aperfeicoou hábitos conspirativos. contra os habits noirs (casacas-pretas). suas relações inevitáveis com toda a sorte de gente equívoca. Discutir não é a sua seara. aparece como seu porta-voz.

Responsável pela derrota foi o fato de os operários..l" Dificilmente se pode exagerar o prestígio revolucionário que Blanqui então possuía e que manteve até a morte. com referência aos literatos de aluguel da polícia: "Jamais meu nome aparecerá em seus registros infames".. Mantinha a ordem. escreve: "Se alguma vez recuperar o vigor e a energia que já possuí. como animal mortalmente atingido. Quero incitar toda a raça humana contra mim. pois. Diz Charles Proles em Os Homens da Revolução de 1871: "Ao lado de muito sangue-frio. e em seus companheiros.14 Ao fim da Comuna. clama o blanquista Tridon: "O força. a morte atrás do calçamento empilhado como barricada. . no entanto. uma vez que o poema de Baudelaire não conhece as mãos que as colocaram em movimento. Olhos que. ou seja. Nessas ruínas se movia algo semelhante a luminárias.!' Quando Fourier espreita à sua volta em busca de um exemplo do. Por certo. O título sob o qual o espírito com que Céline escreveu Bagatelles pour un massacre remete diretamente a um registro do diário de Baudelaire: "Podia-se organizar uma bela conspiração com o intuito de exterminar a raça judaica". que encerrou a carreira de conspirador como chefe de polícia da Comuna de Paris. que. facilmente ele mesmo poderia se comprazer em difundi-Ia. Há uma folha de sua autoria em que. . Tal qualidade lhe era inseparável. de que muito se fala em testemunhos sobre Baudelaire. O culte de Ia blague.diz Marx a respeito desses conspiradores os que erguem e comandam as primeiras barricadas".15 Blanqui.'? Com efeito." O blanquista Rigault. Vale-se da tradição revolucionária. dá em Baudelaire seus primeiros frutos. Esses operários preferiram como escreve um dos historiadores modernos da Comuna "a luta no próprio quarteirão ao combate aberto e. Em sua retrospectiva sobre a Revolução de Julho. não serem favoráveis ao combate aberto que teria bloqueado caminho a Thiers.ê O próprio ideal terrorista que Marx encontra nos conspiradores tem seu equivalente em Baudelaire. uma aparência indistinta que indicava contornos fragmentados e de traçado arbitrário. Hugo fixou.. então desabafarei minha cólera através de livros horripilantes." Dificilmente a causa dessa fama terá sido apenas a inimizade que Baudelaire manifestou contra o então proscrito Victor Hugo. Seria para mim uma volúpia que me compensaria por tudo'"? Essa fúria encarniçada . lembra-se de seus "paralelepípedos mágicos que se elevam para o alto como fortalezas't. "trabalho não assalariado mas apaixonado". Antes de Lênin. não encontra nenhum mais próximo que a construção de barricadas. São eles . a rede dessas barricadas. Na Revolução de Julho. a barricada é o ponto central do movimento conspirativo. até mesmo em seu fanatismov. Marx viu nele. Rigault tinha em tudo alguma coisa de um gozador depravado. parece ter tido o mesmo humor macabro. o Fort du Taureau. de cima. que brilhas no clarão e no motim . numa carta à mãe. tivessem olhado essas sombras amontoadas talvez percebessem. que reencontramos em Georges Sarei e que se tornou componente inalienável da propaganda fascista.Ia rogne . numa rua de Paris" . . "os verdadeiros líderes do partido proletãrio't. tu. Mas precisamente esse palhas poderia ser imputado ao blanquismo. estava na época confinado em sua última prisão. perfis de construções singulares.12 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPbRIO 13 que. que permaneceu fragmentária e que deveria fechar As Flores do Mal.. muito celebrado na Bélgica. em 20 de dezembro de 1854. mais de quatro mil barricadas se espalharam pela cidade.. Nesses locais estavam as barricadasv. rainha das barricadas .foi a disposição de espírito que alimentou os conspiradores profissionais de Paris durante meio século de lutas em barricadas. adestrados em lutas de barricadas.P Na alocução a Paris. Traços que se gravaram também em Baudelaire. sua devastadora ironia participou na formação desse boato. em 23 de dezembro de 1865. o proletariado retomou tateante para trás das barricadas. a noite. de modo semelhante. em locais dispersos. é para ti que os prisioneiros estendem as mãos acorrentadas" . a invisível polícia dos revoltosos vigiava. deixando na sombra. de modo impressionante. sua guarnição: "Por toda a parte. o mais importante dos chefes de barricadas parisiense. Baudelaire não se despede da cidade sem evocar suas barricadas.P Naturalmente essas pedras são "mágicas". Baudelaire pôde escrever à mãe.. se preciso. não houve quem tivesse aos olhos do proletariado traços mais distintos.

os alquimistas da revolução e partilham inteiramente a desordem mental e a estreiteza das idéias fixas dos antigos alquimistas=. A Assembléia Constituinte da República tinha prometido sua abolição. junto com o de Thiers. "Eles são . desde o primeiro momento. como diz Marx. um dos habits noirs..· (I I. em geral. 424) Atribui o dito a um desconhecido. como já prometera em 1830. a mania de segredamento do conspirador em outro. "uma vez que estabelecera às portas de todas as cidades de mais de 4. improvisar uma revolução sem que haja condições para ela". que eram pequenos.ê? "No imposto do vinho .escreve Marx a respeito desses conspiradores profissionais . comungavam uma exigência do proletariado e uma dos camponeses. como se fora o único a lhes ser concedido. Em As Lutas de Classe na França. exibiam então todo o seu prazer. mas só voltava quem era adepto. por outro lado. o vinho da barreira. Em meio a eles se desenvolveu o grande poema intitulado O Vinho dos Trapeiros. .'? Se. compararmos descrições que possuímos de Blanqui." Nesta descrição. ele explicava a situação. impeli-lo por meio de artifícios para a crise. Se. apertados e penetrantes. jamais ouvi". temas que ressoam nesses versos eram debatidos publicamente. . paternal e inequívoco.escreve ele os pobres não usam luvas para mendigar? Fariam fortuna.000 habitantes alfândegas municipais e transformara cada cidade num país estrangeiro com tarifas protecionistas contra o vinho francês't. BJanqui entrou na tradição como "putschista". A. que onerava o vinho de mesa no mesmo nível que o mais fino. Marx fala das tavernas onde O conspirador subalterno se sentia em casa. porém. na remoção desse imposto. Blanqui aparece como doutrinador." O imposto. H. vê sua missão no "antecipar-se ao processo de evolução revolucionário. .'? Com isso. de Blanqui. contudo. reduzia o consumo. antes. Para a tradição.14 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMP~RIO 15 ao lado de outros desenhos improvisados. cheios de soberba e insolência.. prejudicava igualmente o habitante da cidade. Seu aspecto era distinto e a roupa impecável. reconhecer a posição ambígua que Blanqui ali ocupava. Os vapores que aí se precipitavam eram também Iamiliares a Baudelaire. Certa vez. há boas razões para isso. do povo representado pela meia dúzia de imbecis arrogantes e irritados. Lá era servido o vinho isento de imposto. apenas de vez em quando um Jampejo sinistro e selvagem lhe atravessava os olhos. p. Após o aborrecido desfile dos oprimidos. ele representa o tipo de político que. como não poderia deixar de ser. Seu pretexto era resumir as queixas de seus clientes. em quem os conspiradores viam os seus malquistos concorrentes. que justamente tinham acabado de ser ouvidos. os trabalhadores. por um lado. Marx mostrou que. Uma testemunha ocular descreve assim o clube blanquista de Les Halles: "Se quisermos ter uma idéia exata da impressão que. Frégier. Os sinais de identificação com os habits noirs se confirmam até nas pequenas coisas. ele tem. o selo de Baudelaire. O imposto. a expressão tranqüila. forçando-o a se dirigir às tavernas da periferia a fim de encontrar vinho mais barato.• Por que . Seu modo de falar era comedido.diz Marx o camponês prova o bouquet do governo. pareciam mais benévolos que implacáveis. tratou-se do imposto sobre o vinho. De modo depreciativo. a imagem de Baudelaire se apresenta como que por si própria: a bade1 de enigmas da alegoria em um. erguia-se o sacerdote daquele lugar. Sua origem pode ser datada em meados do século. Se se pode crer no chefe de seção na central de polícia. se mostra a cabeça Os conceitos a que Marx recorre em sua descrição dos ambientes conspirativos em Paris permitem. então o melhor será imaginarmos o público da Comédie-Française num dia em que são encenados Racine e Corneille ao lado da massa humana que lota um circo onde acrobatas exibem habilidades de risco. * Porém a seriedade comedida e a irnpenetrabilidade próprias de Blanqui aparecem de modo distinto sob a luz em que as coloca uma observação de Marx. Naquela época. As portas ficavam abertas a todo o mundo. então ele parecerá. "Há mulheres que não hesitam em acom• Baude\aire sabia apreciar esses detalhes . Era sabido que o "velho" costumava ensinar de luvas pretas. com maior razão. Na verdade. se tinha do clube revolucionário de Blanqui em comparação com os outros dois clubes que o partido possuía na época . o modo de falar menos dec1amatório que. a cabeça de forma delicada. Era como estar numa capela consagrada ao rito ortodoxo da conspiração..

Derruba os maus. os Estados totalitários fizeram brotar um gérmen que. num protesto mais ou menos surdo contra a sociedade. _ Adicional: em caso de reveses. acima de tudo. não tanto pelos levantarnentos realizados numa família definida quanto pela tentativa de fazer a mais profunda miséria. uma por ano .) • E fascinante acompanhar como a rebelião vagarosamente abre caminho nas diferentes versões dos versos conclusivos do poema. batata frita: 8 F. Assistência social e esmola (os trabalhadores desta camada geralmente não dão esmolas). Em sua ronda. não faz economia. de modo que a todo o mundo fique claro que beberam e que não foi pouco. 166. p. Em seguida.) O espírito de semelhante levantamento é ilustrado por uma observação sarcástica de Buret: "Como o sentimento humanitário. representando de 5 a 34 F. De Ia misêre des classes laborieuses en Angleterre et en France. a fronte inquieta. na terça-feira de Carnaval. junto com os filhos já em idade de trabalhar. os rejeitos ganharam certo valor.45 F. também à sua volta há o cheiro de barris. * Temas sociais do cotidiano parisiente se encontram já em Sainte-Beuve. Embriaga-se na luz de seu talento imenso. Com a ambição de não deixar nenhuma de suas desumanidades sem o parágrafo que deve ser observado a respeito. Trabalhavam para intermediários e representavam uma espécie de indústria caseira situada na rua.. os filhos imitam o exemplo dos pais". pão. o orçamento de um trapeiro parisiense e dependentes. recreações e higiene .. o trapeiro não pode ser incluído na boêmia. Le Play fornece para O período de 1849 a 1850. podia simpatizar com aqueles que abalavam os alicerces dessa sociedade. Abrir seu coração em gloriosos projetos." Um observador contemporâneo escreve: "Uma coisa é certa: o vinho da barreira poupou ao governo muitos choques't. Paris. . Nele representavam uma conquista da poesia lírica. pp. por ser cuidadosamente recenseada. Cada um deles se encontrava. e mais vinho. compra de livros: 1. Les ouvriers européens. 274-5.. Acompanham-no camaradas. em O Vinho dos Trapeiros: "Vê-se um trapeiro cambaleante. então não se lhes pode negar a esmola de um ataúde. Mas. Muitas vezes. vêm-lhe ao encontro os mouchards. como se pode presumir aqui. Assim. Eugêne Buret. E sob o azul do céu..ê? O vinho transmite aos deserdados sonhos de desforra e de glórias futuras. ou mesmo o decoro. como um dossel suspenso. Na primeira versão diziam: . 1840. vol. desde o literato até o conspirador profissional.RIO 17 p anhar o marido até a barreira. E. alheio aos guardas e alcagüetes mais abjetos. Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta. Em boa hora. A quarta seção deste orçamento de um trapeiro .aparece da seguinte maneira: "Instrução das crianças: a mensalidade escolar é paga pelo empregador da família: 48 F. perdoa as vítimas dos crimes. o que lhe importa.. mas gasta dia a dia tudo o que ganha)·. * Naturalmente. brinquedos e outros presentes para as crianças: 1 F .". Paris. diante de um amanhã mais ou menos precário. os agentes secretos sobre quem os sonhos lhe dão supremacia. põem-se todos a caminho de casa meio embriagados e se fingem de mais bêbados do que estão na verdade. os olhares dos primeiros investigadores do pauperismo nele se fixaram com a pergunta muda: "Onde seria alcançado o limite da miséria humana?" Frégier lhe dedica seis páginas do seu As Classes Perigosas da População. já dormitava num estádio remoto do capitalismo.. cada um que pertencesse à boêmia podia reencontrar no trapeiro um pedaço de si mesmo. Economia anual (o trabalhador não possui nenhum tipo de previsão. fumo de mascar do marido (tocos de cigarro juntados pelo próprio trabalhador) .necessidades culturais.16 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPf. I. é proporcionar à mulher e à filha pequena todo o bem-estar compatível com sua situação. Juramentos profere e dita leis sublimes. presumivelmente aquele em que nasceu o poema de Baudelaire. rapé para a mulher (comprado) . Correspondência com parentes: cartas para o irmão do trabalhador. O bigode lhe pende como uma bandeira velha.. 1855. na Páscoa e em Pentecostes: essas despesas estão registradas na primeira seção. parecer menos escandalosa. refeições consistindo de macarrão preparado com mano teiga e queijo. festas e solenidades: refeições tomadas por toda a família numa das barreiras de Paris (8 excursões anuais): vinho. Encantados. O trapeiro fascinava a sua época.. . o recurso mais importante para a família consiste na caridade privada. "2~ Maior número de trapeiros surgiu nas cidades desde que.66 F. proíbe que se deixem morrer os homens como animais. O trapeiro não está sozinho no seu sonho. mas ainda * Este orçamento é um documento social. graças aos novos métodos industriais. (Frédéric Le Play. no Natal. e ele também encaneceu em batalhas. 18. residente na Itália: na média..

diziam: • Para amansar o coração e acalmar o sofrimento De todos esses inocentes que morrem em silêncio. verdadeira máquina. O satanismo de Baudelaire não deve ser tomado demasiadamente a sério. As. "Neste cabriolé de aluguel examino O homem que me conduz. ao fixar o conceito de "uma raça de peculiares proprietários de bens". em edições posteriores suprimida." Exatamente nessa acepção aparece em Baudelaire a raça originária de Caim. A miséria e o álcool contraem no espírito do ilustrado capitalista uma relação essencialmente distinta daquela em Baudelaire. A Ne· gação de São Pedra. O Homem o Vinho fez. Raça de Caim. E canta suas façanhas pela goela do homem. respondeu à sua teoria racial. filho sagrado do Sol. Esta obra soube proclamar a origem dos proletários: formavam uma raça de homens inferiores. Como o homem pode cair assim? pensava Enquanto me recolhia ao outro canto do assento. Obviamente. no lado informe Roja-te e morre amargamente. nele aparece como fundador de uma raça que não pode ser senão a proletária. E quis ajuntar o vinho. come e dorme. "25 dos irmãos bíblicos o de • E assim que o vinho reina por seus benefícios.v-" Assim é o começo do poema. ele não teria podido defini-Ia. o ancestral dos deserdados. Sainte-Beuve pergunta a si mesmo se sua alma não estaria igualmente abandonada como a do cocheiro de aluguel. e também as sucessoras assim o entendem. Hediondo. soam em 1857 com uma mudança radical no sentido: o poema consiste de 16 dísticos. é como a única atitude na qual Baudelaire era capaz de manter por muito tempo uma po- • E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo Desses malditos que em silêncio vão morrendo." Em 1852. é desse modo que se entende o proletariado. não se pode falar de cópia. frui." Por fim. Para esquentar o coração e acalmar o sofrimento De todos esses infelizes que morrem em silêncio. O barão Seilliêre o revela com muito desleixo em sua interpretação do poema introdutório. longos cabelos emplastrados: Vício e vinho e sono carregam seus olhos bêbados. barba espessa. Ajuntou o vinho. três partes que o compõem mantêm um tom blasfemat6rio.18 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPERIO 19 não do discernimento. Terá Baudelaire tomado conhecimento dessas especulações? B bem possível. Granier de Cassagnac publicou sua História das Classes Operárias e das Classes Burguesas. A Procuradoria de Estado do Segundo Império assim o entendeu. Grandeza da bondade daquele que tudo batiza. A litania intitulada Abel e Caim mostra sobre que substrato repousa a noção mais livre e mais compreensiva que Baudelaire tinha dos deserdados. O Capital. Que já nos dera o doce sono. resultante do cruzamento de ladrões e prostitutas. O certo é que foram encontradas por Marx. Caim. filho do 50). O poema de Baudelaire se encontra no ciclo intitulado Revolta". o que se segue é uma interpretação edificante. Na verdade. "Raça de Abel. Deus já lhes dera o doce sono. que saudou em Granier de Cassagnac o "pensador" da reação bonapartista. só encontra (p. cujo início é alternadamente igual ao dos anteriores. Em seu remorso Deus o sono havia criado. Faz do conflito duas raças eternamente irreconciliáveis. que contém os seguintes versos: . Em 1838. 381) sua forma mais • Ao título se segue uma nota prévia. B a raça dos que não possuem outro bem que não a sua força de trabalho. do 50) filho sagrado!" Percebe-se nitidamente como a estrofe segura com o conteúdo blasfemo. Em Marx. Deus te sorri bondosamente. Se tem algum significado. Declara os poemas deste ciclo uma cópia altamente literária • dos sofismas da ignorância e da raiva".

.S6 o Diabo em pessoa ainda pode salvar a Igreja católica. Caim tem a supremacia sobre o manso Abel . de "Demônio". a revolta contra os conceitos de ordem e honestidade estava mais bem preservada junto aos dominadores do que junto aos oprimidos. romper de todo e para sempre com esse salvador. 193. Para ele. o miserere de uma liturgia of ídica. Vigny homenageara.) tes festejos da corte dos quais ele se rodeava.o rude. Baudelaire quis fazerse conhecido como poeta social. admirador dos jesuítas. A última parte do ciclo.v'" Esse Satã. As mem6rias em que o conde Viel-Castel descreve a companhia do imperador permitem que uma Mimi e um Schaunardê? pareçam até honestos e tacanhos. Os que se declaravam partidários da liberdade e do direito não viam em Napoleão 111 o imperador-soldado que pretendia ser a emulação de seu tio. mas também pelos superiores. Entre as linhas lampeja a cabeça sombria de Blanqui. p. é diferente do intrigante infernal. 8audelaire. Lemaitre chamou a atenção para a dualidade que faz do diabo "ora o autor de todo o mal. na baixa. é. Barthélemy. dele fixou. a desordem à ordem! "32 Mesmo em suas horas rebeldes não quis Baudelaire. Lúcifer. faz com que se diga uma missa do ágio e que se cante um salmo da renda. Em que tu foste o mestre enfim? Dize: o remorso Teu flanco não rasgou mais fundo do que a lança?" (pp. Dificilmente. seguindo os rastros de Byron. e as peças em prosa pelo de "Vossa Alteza". não abjurarem totalmente de sua obediência àquele que causou indignação ao discernimento e à humanidade. o cinismo era de bom-tom.. que tem sua moradia subterrânea nas proximidades do bulevar. o perjúrio à religião.-por ter perdido uma oportunidade tão boa de implantar a ditadura do proletariado".29 Só fazemos formular o problema diferentemente se lançamos a questão: "O que terá forçado Baudelaire a dar uma forma teológica radical à sua rejeição aos dominadores?" Após a derrota do proletariado na Campanha de Junho. o irônico intérprete percebe as autocensuras . mesmo no protesto desesperado.. que se foi para as cidades a fim de sorver o fermento do rancor que aí se acumula e de participar das falsas idéias que aí vivem o seu triunfo" .. de Victor Hugo. Marx teria podido encontrar um leitor melhor para as seguintes linhas: "Quando os puritanos . Em E/oa. s ição "Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar Que leva o povo ao pé da forca a desvairar. Seus versos se resguardaram do que sua prosa não se proibira.diz em O Dezoito Brumário protestaram contra a vida depravada dos papas . que a série de invocações do poema conhece também como "confessor. B a ele que devem a força sutil de. por outro lado. de ponta a ponta. mas da ressalva luciferina de difamar o Satã. Os textos críticos de d' AureviIly dão um esboço desse autor: "Nesse talento e nessa cabeça. o faminto.20 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPtRIO 21 não-conformista. Por seu turno. o selvagem Caim. em sua Nêmesis associara o satanismo aos dirigentes. familiar a Baudelaire. de quem se está à mercê. como patrono dos impenitentes e inquebrantáveis. a grande vítima" . Satã não fala apenas pelos inferiores. a argumentação rebelde.?" Satã aparece em sua coroa de raios luciferinos como depositário do saber profundo. ora o grande vencido. mas sim o impostor favorecido pela sorte." Essa dupla face de Satã é. e vós exigis anjos! Assim bradava a burguesia francesa após o golpe de Estado Só o líder da Sociedade de 10 de Dezembro ainda pode salvar a sociedade burguesa! Só roubo à propriedade. Foi essa a imagem que Os Castigos. (Ernest Seilliere. B por isso que Satã aparece neles. a quem outros poemas chamam pelo nome de "Satã Trismegisto".33 Essa ° . como instrutor das habilidades prometéicas. Em que. 417 e 419) Nesse remorso. . Na classe alta. As Litanias de Satã.. Quase sempre a confissão religiosa brota de Baudelaire como um grito de guerra. Este é o verdadeiro móvel do conflito que Baudelaire teve de sustentar com sua descrença. Com sua amizade por Pierre Dupont. em sentido gn6stico. do conspirador". a bastardia à família. o anjo caído. a alma pródiga de audácia e de esperança. . o cardeal Pierre d'AilI trovejou contra eles: . Não se trata de sacramento e oração. Aos vendilhões do templo açoitavas o dorso. Não quer que lhe tirem o seu Satã. 1931. a boêmia dourada via seus sonhos de uma vida "livre" se tornarem realidade nos estontean- "Pensavas tu nos dias . por seu conteúdo teológico. o invejoso. Paris.

. . do qual.. e doravante a arte ficou inseparável da moral. por um momento Baudelaire fica indignado.. em seguida. Tal como Caim. mas. Quando Bonaparte chega ao poder através do golpe de Estado. Baudelaire contribuiu para um fascículo de poemas dupontianos foi um ato de estratégia literária. As alterações trazidas para a imprensa pela Revolução de Julho se resumem na introdução do folhetim. sem excluir os maiores. fora objeto de anúncio. Tinha um ouvido para os cantos da revolução e outro para a "voz superior" que fala através do rufar dos tambores das execuções. frustrando o ardil. Recomendava-se pela sua utilidade mercantil. a atividade revolucionária que. Era a sua vantagem sobre os escritores do seu tempo. só quem fosse assinante podia receber um exemplar.ê? Isso nada tem da profunda duplicidade que dá asas à poesia do próprio Baudelaire. Durante a Restauração.. muitas vezes. o anúncio e o romance-folhetim. mas tanto por suas ilusões quanto por sua causa. mais adiante. Por volta de 1830. grupos de várias pessoas rodeavam um exemplar. a atividade literária cotidiana se movera em torno dos periódicos. escreveu poemas sobre a miséria na Inglaterra e na J rlanda. tivera papel decisivo nesse aumento. a informação curta e brusca começou a fazer concorrência ao relato comedido. duas polegadas abaixo.?" "Teocracia e cornunismo'P" não eram para ele convicções. autônoma na aparência. Sainte-Beuve lamentava seus efeitos desmoralizantes: "Como se pode condenar na parte crítica um produto. em 1854. Dupont "se foi para as cidades e abandonou o idílio". arrastava todo o mundo consigo não o desviou totalmente de seu caminho natural". E a folha de louro que Karl Marx reclamara então para a "sombria e ameaçadora fronte'<" dos combatentes de Junho. Dupont compôs o seu Canto do Voto. na véspera ou naquele mesmo número. "Depois. Quem não pudesse pagar a elevada quantia de 80 francos pela assinatura anual ficava na dependência dos cafés. O República! a esses perversos. apesar de algumas faltas ocasionais. Um de seus versos admite isso desairosamente. mesmo a singela romança. E. na seção redacional. Quando se perderam.200 mil. diz que o poeta "empresta ouvidos alternadamente às matas e às massas". Na poesia política da época."?" Dupont sentiu chegar a crise da poesia lírica com a progressiva desintegração entre cidade e campo. . uma a uma. numa clara referência a Auguste Barbier: "Quando um poeta que. Trouxera três importantes inovações: a redução do preço da assinatura para 40 francos. na verdade. as conquistas da Revolução. se lê que é a maravilha da época? Impunha- .40 Para Baudelaire. paga pelo editor e com a qual. Faz ver. quanto ele imaginava. o jornal de Girardin. quase sempre se revelou grande. mas insinuações que disputavam entre si o seu ouvido: uma nem tão seráfica. essa brusca ruptura com a "I'art pour I'art" tinha valor apenas como postura. assim como da utili dade't. a própria paixão. em 185 I. Dupont estava em todas as bocas. com versos igualmente flamejantes. desse modo. outra nem tão luciferina. Ao mesmo tempo. que se interessava pelos oprimidos. muitas vezes. e em 1846. surgiu e proclamou a santidade da Revolução de T ulho e.. números avulsos de jornais não podiam ser vendidos. Por sorte. Com isso se torna evidente que ele se situava acima do meio literário que o circundava . está muito afastada dele. . a questão estava de uma vez por todas liquidada. escreve: "E à graça e à delicadeza feminis de sua natureza que Dupont deve as suas primeiras canções. "A canção como era entendida pelos no ssos pais . O assim chamado "réclame" abria passagem.. Tua grande face de Medusa Em meio a ru bros clarões! "36 A introdução com que. Permitia-lhe proclamar o espaço que. As massas recompensaram-no por sua atenção. Já em 1839. Em 1824 havia em Paris 47 mil assinantes de jornal. em 1836 eram 70 mil. e Baudelaire abandonara seu manifesto revolucionário e. Não demorou muito. na época. depois de uma série de anos. contempla os acontecimentos 'do ponto de vista providencial' e se su- jeita como um monge. La Presse. tornou-se necessariamente estéril". pouca coisa há que possa rivalizar com seu refrão. como literato. onde. Durante um século e meio. se chamava a atenção para um livro que. as belasletras lograram um mercado nos diários. tinha para se mover. . Aí se encontram os seguintes juízos curiosos: "A ridícula teoria da 'arte pela arte' excluiu a moral e.22 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPERIO 23 característica exprime com exatidão o que fez Baudelaire solidário a Dupont. por esse termo se entendia uma nota.

em suas Cartas Parisienses. o incremento dos anúncios e a crescente importância do folhetim. Desde o início é notável sua peculiar elegância barata e que se torna tão característica do folhetim. sua descoberta é maravilhosa. as pessoas se ocupam muito com a invenção do Sr. Calculou-se em 5 milhões de francos os honorários de Lamartine para o período entre 1838 e 1851. p.a redução da taxa de assinatura o jornal tem de viver dos anúncios . a assimilação do literato à sociedade em que se encontrava se consumou no bulevar. O Sr.'? A satisfação com o estilo folhetinesco não foi tão rápida nem tão universal. Foi necessária uma isca que se dirigisse a todos sem considerar opiniões pessoais e que tivesse o seu valor no fato de pôr a curiosidade no lugar da política. quando só havia os grandes e sérios jornais. do barão Gaston de Ia Flotte. aos olhos do público. que se recheava a informação.. que proporcionava ao jornal o aspecto a cada dia novo e inteligentemente variado da paginação. e não o editorial político nem o romance-folhetim.t'P A atividade dos cafés treinou os redatores no ritmo do serviço informativo antes mesmo que sua maquinaria estivesse desenvolvida. era ela.P Eugêne Sue recebeu por Os Mistérios de Paris um sinal de 100 mil francos. no qual residia uma parte de seu encanto. isto é. os acidentes e os crimes podiam ser recebidos de todo o mundo.24 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPf. não se conhecia a hora do aperitivo. e nada é mais engraçado que as sérias explicações que os nossos eruditos de salão sabem dar a respeito. Doravante. e estava tão dependente de seus efeitos quanto as coquetes de sua arte de se transvestir. Dessa forma. é fácil reconhecer que uma moça que. o bulevar perdera o seu monopólio. 1839. Les filles publiques de Paris. exibindo-as às pessoas como parcela de seu horário de trabalho. que se voltara para a publicidade. Tomaram para si a incumbência de lutar contra a leviandade das informações históricas. Era nos cafés. O público não estava sozinho em tal avaliação."44 E exatamente isso que explica a alta cotação desses artigos. o valor de sua própria força de trabalho adquire alguma coisa próximo ao fantástico em face do dilatado ócio que. Uma vez dado o ponto de partida. sobretudo as do folhetim da imprensa parisiense.) . mas as pessoas nada entendem dela... durante o aperitivo.-A. saúda desse modo a fotografia: "Hoje em dia. De fato." (F. A alta remuneração do folhetim de então mostra que essa opinião se alicerçava nas relações sociais. o telégrafo elétrico entrou em uso. Assim. a página quatro. que apareceu primeira- • "Com um pouco de perspicácia. Daguerre pode ficar descansado: o seu segredo não lhe vai ser roubado . às oito. . Quando. "Devido ao novo arranjo . apareceu com o advento da imprensa do bulevar." No bulevar. Portava-se como se tivesse aprendido de Marx que o valor de cada bem é definido pelo tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção. como carnponesa. I. 51. desdobrava os ornamentos de suas relações com colegas e boasvidas.'! O "réclame" se encontra nos primórdios de uma evolução cujo final é a notícia da boba publicada nos jornais e paga pelos interessados. Em 1845. No bulevar. precisava ser vista pelo maior número possível de assinantes. por volta do fim do Segundo Império. pelo qual lhe foram prometidos durante cinco anos honorários mínimos de 63 mil francos por uma produção mínima anual de 18 vclumes. Daguerre. representa uma montanha magnética que desvia a bússola't. para obter muitos anúncios.. ela foi por demais explicada't. chiste ou boato. De fato...RIO 25 se a força atrativa das letras crescentes do anúncio. Dumas fechou contrato com Le Constitutionnel e com La Presse. intrigas do meio teatral e mesmo "curiosidades" constituíam suas fontes prediletas. voI. Girardin. Em 1860 e em 1868 aparecem em Marselha e em Paris os dois volumes das Revistas Parisienses. que é conseqüência lógica da 'crônica parisiense' e dos mexericos urbanos. às nove. o preço da assinatura a 40 francos. é necessário para seu aperfeiçoamento. A Sra. . se apresenta ricamente vestida num elegante costume é a mesma que. Antes. existia uma conexão entre a redução da taxa de' assinatura. "O hábito do aperitivo.-F. Era no bulevar que ele tinha à disposição o primeiro incidente. A informação precisava de pouco espaço. Dificilmente a história da informação pode ser escrita separando-a da história da corrupção da imprensa. às dez. passava suas horas ociosas. . Por História dos Girondinos. et Ia police qui les régit. Béraud. surge como costureirinha e. Precisava ser constantemente renovada: mexericos urbanos. chegou-se quase forçosamente ao romance-folhetim por via do anúncio. Paris.

Em . aquela prescrição deixou de vigorar pouco depois. A alta cotação do folhetim os escritores que o forneciam aliada à sua grande saída ajudou a fazer nome junto ao público. Mais sorte teve Sue que. Amplas informações sobre o assunto são dadas por um panfleto. é ele o romancista". Isso pressupunha que alguns romancistas bem-sucedidos não tivessem melindres com a própria assinatura. essa carreira é. Tendo sido despertada a ambição política do literato. Scribe empregava para os diálogos de suas peças uma série de colaboradores anônimos. mesmo que se trate apenas de um ex-funcionário de ministério. com um imposto de um centime. Taxava-se a continuação do romance. Em 1846. através de restrições à liberdade de opinião. O verdadeiro autor da 'Câmara dos Crânios' é ele. Os exuberantes honorários da mercadoria literária nos diários levavam necessariamente a inconvenientes. devido ao sucesso de Os M istérios de Paris. Ministro das Colônias. em 1855. Dumas? Será que ele próprio os conhece? Se não mantiver um diário com 'débito' e 'crédito'. urna viagem a Túnis para fazer propaganda na colônia. natural ou adotivo" . Os eleitores proletários não ganhavam muito com isso.46 A Revista dos Dois Mundos escreveu na época: "Quem conhece os títulos de todos os livros assinados pelo Sr. capítulo por capítulo. reservar para si o direito de tê-lo assinado por um autor de sua escolha.26 WAL TER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPBRIO 27 mente como folhetim. . de Santis: "Chegando à casa. que o autor chama de Sr. com uma longa pena de ganso na mão. valiosa na consideração crítica de seus escritos.48* Durante a Segunda República. Ali. As Meditações e As Harmoa urna época em que a clase dos agricultores franceses detinha o usufruto dos campos de cultura conquistados. Com isso se verificaram novas formas de corrupção. o parlamento procurou combater a predominância do folhetim. mais graves que o abuso de nome de autores conhecidos.47 Corria o boato de que Dumas empregava em seus porões toda uma companhia de literatos pobres. . Larnartine oferece um exemplo disso. sob meu pé que a pisa. Não estava fora do alcance do indivíduo a possibilidade de estabelecer sua fama em combinação com seus recursos financeiros: a carreira política abria-se-lhe quase por si mesma. Marx chama a eleição de um "comentário sentimental que enfraquece'"? os ganhos do mandato anterior. Casa Alexandre Dumas e Cia. Com isso se acha num pequeno gabinete mal iluminado e bastante sujo. como também foi eleito deputado com 130 mil votos do operariado de Paris. certamente esquecerá de mais de um dos filhos de que é pai legítimo. Produzindo para seu dono. não só elevou o número de assinantes de Le Constitutionnel de 3. de olhar submisso e cabelos emaranhados. Muito ouro para pagar muita liberdade! "30 Essas linhas. Nele se reconhece a uma milha de distância o verdadeiro romancista de estirpe. Dez anos após as constatações da grande revista. Nos meus tonéis numerosos como riacho de âmbar corre. devorou muito dinheiro e acabou numa pequena interpelação na Câmara. por seu turno. que aprendeu a arte de Balzac através da leitura de Le Constitutionnel. Feliz quando seu néctar. ofereceu a Alexandre Dumas.ernbriagado por sua carestia. intensificou o valor do folhetim. Se a literatura podia assim abrir uma carreira política aos privilegiados.. na compra do manuscrito.000. às custas do governo a empreitada custava 10 mil francos -. onde Lamartine louva a própria prosperidade como se fosse rural e se gaba dos honorários que seu produto lhe proporciona na feira.versos ingênuos a Alphonse Karr. Com a reacionária Lei da Imprensa que. são esclarecedoras se as consideramos • O uso do 'negro' não se limita ao folhetim. A expedição fracassou.600 para 20. Fábrica de Romances. nias remontam Êxitos decisivos de Lamartine. e abre uma pequena porta atrás de sua biblioteca. Salvandy. era natural que o regime lhe indicasse o caminho certo. recebera 600 mil francos. está sentado um homem sombrio. Acontecia de o editor. o poeta equipara sua obra à de um viticultor: "Todo homem com orgulho pode vender seu suor! Vendo meu cacho de fruta como vendes tua flor. . fecha a porta à chave cuidadosamente. encontra-se num pequeno órgão da boêmia a seguinte representação pitoresca da vida de um romancista de sucesso.

Baudelaire permaneceu mal colocado no mercado literário.uma medida que. ti I ~ I. Em 6 de abril de 1849. apresenta o poeta na posição desvantajosa de quem aceita moedas sonantes por suas confissões. um pouco prostituído" . lhe faltou entendimento da verdadeira situação do literato. o então embaixador russo em Paris. indisposto contra a sociedade e contra as autoridades. Desde cedo. Pokrowski provou que os eventos se desenrolaram como Marx já previra em As Lutas de Classes na França. a si mesmo . não tenha ganho mais do que 15 mil francos. Viena. o senhor produz seus livros do mesmo modo comercial que seus legumes ou que seu vinho!" (Louis Veuillot. "Se o recém-formado minifúndio era naturalmente religioso em sua concordância com a sociedade. Confrontá-lo . "Balzac se arruína com café. tanto mais porque determina o bom e o mau tempo. autoriza reimpressões sem caracterizá-Ias como tais. pp."'''' "Provavelmente. Pokrowski. A situação do minifundiário se tornou crítica na década de 40. Baudelaire merece a apreciação que a última frase lhe quer imputar. e cujos manuscritos só aceitavam se eles conseguissem assinaturas. e não incluído em As ! . 1906." Com isso. Calcula-se que. Historische Aujsãtze. do alto. em primeiro lugar. desprezar o ouro. é. a burguesia procurou justificar com as demonstrações operárias de 16 de abril. o minifúndio arruinado pelas dívidas. il 'i 'i :! . antes.Y'? Exatamente nesse céu os poemas de Lamartine haviam sido formações de nuvens.) * * Segundo relatórios de Kisseliov. e o arquiteto literário cujo simples nome não promete lucros tem de vender a qualquer preço" . f I' fi I' li ~ I I I ti I menos pelo seu lado moral" do que como expressão do sentimento de classe de Lamartine. E. porém. p_ 31. antes de tudo um enchimento de linhas. Escreve em 1846: "Por mais bela que seja uma casa. 1928.I I 28 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPfRIO 29 'I I li 1" 1.1 II il I. deveria conduzir e moderar aquela invasão dos bárbaros. dos amadores e dos principiantes. Ao Leitor. até certo ponto. Um dos primeiros poemas de Baudelaire. O grande poema introdutório de As Flores do Mal.ss Dificilmente alguém possuía olhar mais penetrante que Baudelaire para os aspectos problemáticos desse fenômeno brilhante. mas vira insulto tão logo seja imposto ao minifúndio como cornpensação. ela tem antes de tudo . Porché é de opinião que Baudelaire. o protegia. Murger morre . Lamartine colaborara na preparação de seus votos.escreve Sainte-Beuve sobre seu papel • Numa carta aberta a Lamartine. Pages Choisies. Nem por isso. (Cf.53 Esse céu desmoronou para sempre quando os camponeses franceses votaram em 1848 pela presidência de Bonaparte. Musset se embota com o absinto. própria da poesia de Lamartine . Lamartine garantira ao embaixador que as tropas se concentrariam na capital ." "Baudelaire . mais tarde.com a puta lhe era habitual. pelo conjunto de sua obra. Disso fala o soneto A Musa Venal.Y" Baudelaire o chama secamente de "um pouco devasso. Põe o mesmo manuscrito à disposição de várias redações. mas sim no certificado de hipoteca". o Sr. Sem dúvida. E nenhum desses escritores foi socialista! "59 escreve [ules Troubat.. Paris. Nisso se encontra uma parcela da história da poesia de Lamartine. não teve escolha na negociação de seus manuscritos. em sua dependência das forças naturais e em sua submissão à autoridade que. O céu era um adendo muito formoso para a minguada região recém-conquistada.I.. Assim também é a literatura. 108-9. a paisagem sobre a qual Lamartine estendeu o céu" .começou a desmoronar. do minifundiário. ele não pensara . talvez por ter ele sempre sentido pouco brilho sobre si mesmo.e.. numa casa de saúde. com seu áureo arco. "S7 O próprio comportamento de Baudelaire corresponde a esse estado de coisa. que reproduz a substância mais difícil de avaliar.58 Até o fim da vida. torna-se naturalmente irreligioso. tinha de lidar com editores que especulavam com a vaidade das pessoas mundanas. o secretário particular de Sainte-Beuve..e antes que nos detenhamos em sua beleza tantos metros de altura e tantos de comprimento. ele estava endividado. para obter essa espécie de liberdade que se compra com ouro.) na revolução que estivesse destinado a se tornar o Orfeu que. O minifúndio "já não se encontrava na assim chamada pátria. A observação de Lamartine de que precisaria aproximadamente de dez dias para a concentração das tropas lança efetivamente uma luz ambígua sobre aquelas demonstrações.escreve Ernest Raynaud tinha de contar com a prática de vigaristas. o otimismo rural fundamento da transfigurante contemplação da natureza. lançado para além de sua própria limitação. contemplou sem ilusões o mercado literário. como ainda há pouco Baudelaire. II '. parece. escreve o ultramontano Louis Veuil\ot: ·0 senhor realmente não sabe que 'ser livre' significa. como já em 1830 escrevera Sainte-Beuve: "A poesia de André Chénier .

La crise de l'Etat moderne. p. 229. Berlim. 39. 32. Charles Baudelaire. in: Revue bleue. vol. 1932. Berlim. Révolution de 1830. é dirigido a uma mulher de rua. loc. loco cit. p. 31. Diz a segunda estrofe: I·~ " \ Ili Ir 1'1 "It "Para ter sapatos. Eu. 1931/1932. 1870. Pensées d'aoüt. 6. p. Paris. lI. 37. p. Satire hebdomadaire. 403-5. perto dessa infame. 19. Paris. doravante só serão indicadas as páginas. Paul Desjardins. p. segundo Die Neue Zeit. Physiologie de l'industrie [rançaise. p.. tomo 14. Ivan [unqueira. Paris. 34. 1927. loco cit. 556. 1. na verdade.. o literato: como jlãneur ele se dirige à feira. 8. Karl Marx e Friedrich Engels. Viena. 10. 1850. von AdoIphe Chenu. M. Les contemporaines. Les Misérables. cit.-A. Paris.24. Eu bancasse o Tartufo e fingisse altivez. 16.j:' . La préjecture de police sous Ia Commune. 17. 1928. 38. 2. Cito Charles Benoist. p. ~~ 15. p." edição. Ajasson de Grandsagne e Maurice Plaut. 21. Charles Baudelaire. vol. a fazia um símbolo do Messias. 14. Le chant du vote. 379. p. Les consolations. Karl Marx.. Das Kapital. 3. 556. Charles Baudelaire. 2. I. 11. 1932. 19. . Personagens de Scênes de Ia vie de bohême. Dem Andenken der [uni-Kãmpjer.'1 i. 1862. Némésis. 556. 9. 20. H. 242. 9. cito Gustave Geffroy. 28 et 29 juillet.) 28. p. p.t"? A última estrofe . cit. Auguste-Marseille Barthélémy. s/do 12. Paris inventeur.° vol. ~. 522-3. . P. Karl Marx e Friedrich Engels.° ano. pp.. p. n. 1895. p. Paris. 225. p. 1834. p. Paris. Lettres à sa mêre. 1928. !4. 22. 35. 659. Paris. Les poêtes. Roman. Karl Marx.ela é tudo para mim" inclui despreocupadamente essa criatura na irmandade da boêmia. Raoul Rigault. 1881. do T. • Les conspirateurs".-r. Frégier. i! ilj r~ {l I~ '!. I. Karl Marx. Mas o bom Deus riria se. (Os poemas de As Flores do Mal foram extraídos desta edição. 4 (1886). 86. 7. p. Cf. 1985. 33. Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte. Paris. 26. I. 556. Pierre Dupont. Die Klassenkiimpfe in Frankreich 1848 bis 1850. p. La justice. 40. 8." 1. 423. P. 73. Plan des combats de Paris au 27. mas. Pierre Larousse. As Flores do Mal. 1932. L'enjermé. Viena e Berlim. loco cit. em verdade. e Lucien de La Hodde. 1850. p. Georges Laronze. Nova Fronteira. vol. ela vendeu sua alma. (Les hommes de Ia révolution de 1871).) (N. Rio de Janeiro." edição. Trata-se de uma seita gn6stica do século 11 que. Charles Baudeloire. 25. Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte. Le • mythe" de Ia "classe ouvriêre". Paris."Essa boêmia .413. Oeuvres completes. 1. 415. 1. 555. lI. Histoire de Ia Commune.. 11. loco cit. 27. 30. 87. Charles Proles. Grand dictionnaire universel du XIX' Siêcle. Os demais poemas citados nesta obra foram gentilmente traduzidos por Angela C. 2. 728. loc. Oeuvres. 83. [ules-Amédée Barbey D'Aurevilly. p. p. Bespr. 346-8. 29. p. trad. 666.0 de março de 1914. 10.. do T. já é para procurar um comprador. Paris. (Doravante s6 serão indicados o volume e a página desta edição. 419. Karl Marx. lI. in: Revue des deux mondes. loco cit. Bibliothéque de Ia Pléiade. p. Edouard Foucaud.) 24. 30. Paris. Karl Marx e Friedrich Engels. 36. 1897. Charles Baudelaire. Karl Marx.° semestre. 173. p. 18. 40. p. Paris. voI. Paris. cit. Lettres à sa mére. 23. Karl Marx e Friedrich Engels. Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte. Cf. Les otages.. 11. p. Karl Marx e Friedrich Engels. Baudelaire sabia como se situava. pp.. von Adolphe Chenu. Guerra. Poêtes contemporaines. 1844. Etudes et portraits littéraires. 1850. 11. Jules Lemaitre. p. Paris. 2 volumes. VI. 124. Informe de J Weiss. p. p. 1840. 28. Paris. Notas I. de Murger (1848). pp. von Adolphe Chenu. 278. p. Paris. 1887. p. Bespr. Paris.1 30 WALTER BENJAMIN PARIS DO SEGUNDO IMPeRIO 31 1: Flores do Mal. (N.) 4. 13. Victor Hugo. que vendo meu pensamento e quero ser autor. La naissance de Ia République en [évrier 1848. 1898. Bespr. 10'\. Des classes dangeureuses de Ia population dans les grandes villes. 5. 532. dedica da ao culto da serpente. Charles Augustin Sainte-Beuve. Les oeuvres et les hommes. pensa que é para olhar. Karl Marx. 555. et des moyens de Ies rendre meilleures.

' Um gênero literário específico faz suas primeiras tentativas de se orientar. Charlc: Augustin Sainte-Beuve. loc. Vie. e em formato de bolso. pp. p.. 54. 156. 122-3. 56. Paris. 1. KarI Marx. 118.) 51. cit. 2. 72. Oeuvres poétiques completes. 44. 1906. 289-90. 1845. Ernest Lavisse. 59. loco cit. essas coletâneas são sedimentos do mesmo trabalho beletrístico coletivo para o qual Girardin inaugurara um espaço no folhetim. Etude biographique. p. A Grande Cidade gozavam. (" Letlre à Alphonse Karr". o Flâneur Uma vez na feira. 52.. pp. 42. Os Franceses Pintados por si Mesmos. 1845. 1926. in: Le bohême. 46. p. n. o escritor olhava à sua volta como em um panorama. Numerosos autores forneceram contribuições para esses volumes. poésies et pensées de losepn Delorrne. Cf. 53. Os trajes de gala de uma escritura por natureza destinada a se vender nas ruas. 1863. Paris. 47. loe. simultaneamente com os panoramas. 1860. 50.506. loco cit.. por assim dizer. 43. imitam. Histoire de France contem poraine: La monarchie ele [uillet (1830-1848). 159-60. O Diabo em Paris. 60. CL François Porché. Histoire de Ia littérature [rançaise sous le Gouvernernent de [uillet. 953-4. Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte. 49. 1839. 45. p. tomo 11. in: Revue des deu x mondes. 1963. 196-7. 319.. p. Gabriêl Guillemot. 48. Paris. ibid. Paris. 11. abril 1855. Les Consolation«. Eugene Crépet. 385. Paris. 55. François Porehé. pp. Paris. Paris. Cit.32 WALTER BENJAMIN 41. O Livro dos Cento e Um.'e não por acaso. 248. Charles Baudelaire. rses. Paris. pp. Cf. o segundo plano largo e extenso dos panoramas. as graças da capital. o primeiro plano plástico e. Paulin Limayrae. com seu fundo informativo. 122. Emile de Girardin." 5. KarI Marx. 352. Ernest Raynaud. chamados de "fisiologias". Nesse gênero ocupavam lugar privilegiado os fascículos de aparência insignificante. Paris. in: Revue des deu x mondes. Ocupavam-se da descrição dos tipos encontrados por quem visita a feira. pp. Le bohême. p. Lettres parisiennes 18361840. I. Charles Baudelaire. 1921. Cit. Du roman en général et du romancier moderne en particulier. Charles Augustin Sainte-Beuve. B uma literatura panorâmica. Du roman actuel et de nos romanciers. 682-3. Esses livros consistem em esboços que. vol. p. p. 301-2. Desse modo. 58. Physionomies parisiennes. 209. Alphonse de Lamartine.. Id. pp. com seu estilo anedótico. cit. Paul Saulnier. Eugêne Mirecourt. pp. 1859. 57.. 1922. Paris. Etude biographique. Oeuvres completes. p. Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte. Charles Augustin Sainte-Beuve. Alfred Nettement.68. Maison Alexandre Dumas et Compagnie. De Ia littérature industrielte. Fabrique de romans. Desde o . p. I. La vie douloureuse de Charles Baudelaire. p. p.

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