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O MOVIMENTO DOS GRANDES LIVROS: um retorno aos clássicos

PATRICK S. J. CARMACK

O Movimento dos Grandes Livros, sendo um movimento ou uma mudança, inicia um lugar
e termina outro. O movimento não é físico, mas intelectual e, espera-se, também decisório
(envolvendo arbítrio). Além do que, a experiência daqueles no Movimento dos Grandes
Livros denota que a mudança envolvida é geralmente para melhor, e de fato, de maneira
marcante. A seguir estão quatro das questões iniciais básicas, e respostas, sobre as bases do
Movimento dos Grandes Livros.

Questões iniciais

Por que um movimento de livros? Porque ler é bom para a mente: requer do indivíduo
adquirir habilidades intelectuais básicas; a arte da leitura; a arte de falar sobre o que é lido;
a arte de pensar sobre o que é lido e discutido. Além disso, a leitura de livros aumenta a
oportunidade para a mente ganhar introspecção, discernimento e sabedoria. Ler e discutir
sobre o que é lido, fornece condições propícias para a aquisição dessas qualidades mentais
favoráveis.

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"Se existe alguma razão nas coisas que fazemos... não tem o conhecimento dessa razão uma
grande influência na vida? Não devemos nós, como arqueiros que possuem um alvo para
mirar, acertar aquilo que devemos? Se sim, devemos tentar, ainda que superficialmente,
determinar o que é" - Aristóteles.
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Por que grandes livros? Porque grandeza significa excelência - os maiores e melhores
materiais que a mente humana pode explorar para que obtenha introspecção, discernimento
e sabedoria. Obviamente, materiais inferiores diminuem a oportunidade para tais ganhos, ao
ponto - de pobres a péssimos materiais - de que nada é adquirido e muito pode ser perdido.
Ninguém pode mais ler todos os livros, ou mesmo a maioria dos livros, mas apenas uma
pequena porcentagem do número total dos livros. Assim, para maximizar os ganhos a serem
feitos através da leitura, os melhores devem ser lidos - os grandes livros.

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"Ele [Adler] percebera que a mera leitura não era o suficiente. Ele descobrira que a
utilidade da leitura era de alguma maneira relacionada à excelência do que era lido e o
plano para a leitura. Eu sabia que leitura era uma coisa boa, mas até agora tinha a impressão
que não fazia qualquer diferença o que você lê ou como isso estava relacionado a qualquer
outra coisa que você leia” - Robert M. Hutchins.
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"Contato com os escritores geniais nos concede a vantagem imediata de nos elevar a um
plano mais alto; somente por sua superioridade eles nos conferem um benefício mesmo
antes de nos ensinar qualquer coisa...eles nos acostumam ao ar do topo das
montanhas...Naquele mundo de pensamento sublime a face da verdade parece ser revelada;
a beleza brilha adiante” - A.G. Sertillanges, O.P., The Intellectual Life.
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A leitura torna alguém bom, ou pelo menos melhor? Não, ao menos não diretamente, mas
pode representar uma grande ajuda no final. Ser bom, nesse sentido, é uma qualidade da
vontade, não da mente. Entretanto, como Aristóteles apontou acima, se possuir
conhecimento e sabedoria é uma vantagem para um homem, então ler grandes livros pode
melhorar a mente e auxiliar um homem na busca da felicidade e na execução das suas
responsabilidades. Mas a mera leitura, mesmo dos grandes livros, não torna os homens
melhores. Entretanto, fornece a melhor oportunidade para o crescimento da mente, e se esta
oportunidade é aproveitada, e outros fatores cooperarem (incluindo uma boa vontade), o
resultado pode ser um melhor homem e uma melhor sociedade.

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"Se então o poder do discurso é uma dádiva grandiosa como muitas que podem ser
nomeadas, - se a origem da linguagem é por muitos filósofos considerada nada menos que
divino, - se pelo significado das palavras os segredos do coração são trazidos à luz, a dor da
alma é aliviada, mágoas internas são expulsas, a simpatia conduzida, os conselhos
concedidos, a experiência gravada e a sabedoria perpetuada, - se por grandes autores o todo
é reduzido à unidade, o caráter nacional é fixado, uma pessoa fala, passado e futuro, o Leste
o Oeste se comunicam, - se tais homens são, em uma palavra, os porta-vozes e profetas da
família humana, - não irá responder para fazer a luz da Literatura ou para negligenciar seu
estudo; ao invés, nós devemos assegurar que, em proporção à nossa especialização sobre
ela, em qualquer língua, e absorver seu espírito, nós devemos nos tornar na nossa própria
medida os ministros dos mesmos benefícios aos outros, sejam eles muitos ou poucos,
estejam eles nos obscuros ou radiantes caminhos da vida, - que são unidos a nós por laços
sociais, e estão dentro da esfera nossa influência pessoal” - John Henry Cardinal Newman.
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Tendo estabelecido alguns dos valores de maior importância na leitura de grandes livros (e
as suas limitações), nós agora estamos diante da quarta questão mencionada acima:

Quais critérios devem ser empregados para a seleção dos grandes livros a serem lidos? A
resposta para essa questão nos leva a rever o Movimento dos Grandes Livros, que começou
quando um homem - John Erskine -, tendo chegado em alguma semelhança às conclusões
mencionadas acima, em resposta às três primeiras perguntas, teve que encarar esta quarta
questão.

A primeira resposta é que existem muitas respostas - os homens têm discordado na


compilação dos grandes livros. No Século XIX, as Universidades de Oxford e Cambridge,
cada uma, uniu cursos clássicos e pequenas listas de clássicos, mas nenhuma lista
compreensiva. Ao final daquele século, também na Inglaterra, Sir John Lubbock publicou
sua lista de “os 100 melhores livros”. Em 1901, Charles M. Gayley compilou sua lista de
grandes livros para seu curso de mesmo nome em Berkeley. Em 1910, Charles W. Eliot,
Presidente de Harvard, editou uma extensa lista de grandes livros intitulada Os Clássicos
de Harvard que ficou conhecida como “A estante de livros de 2 metros do Dr. Eliot”. Essa
era uma maravilhosa coleção, e ainda é impressa. Entretanto, como a descrição implica, era
apenas a lista pessoal de Dr. Eliot (bem como a de Sir John), e faltou qualquer tipo de
consenso amplo em relação à sua seleção. Outras listas compiladas por indivíduos ou
diferentes casas publicadoras (e.g. as séries Modern Library, Everyman's Library, os
Clássicos Mundiais da Oxford Press, Penguin Classics, Book-of-the-Month Club) sofriam
da mesma deficiência (bem como interesses comerciais). De fato, o Movimento dos
Grandes livros originalmente sofria do mesmo defeito, resultando em influências
essencialmente pessoais na lista do que era razoavelmente desejado e rejeitado. Isso foi
posteriormente minimizado com a expansão do movimento.

O começo do Movimento

O relevante curso na Columbia University de Nova York primeiramente lecionado por John
Erskine, um músico, autor e professor de literatura, que se especializara em Literatura
Elizabetana, era originalmente chamado General Honors e os livros que ele juntava eram
chamados de “Os Clássicos da Civilização Ocidental”. A primeira lista de Erskine era
simplesmente sua própria lista de 52 livros. Se tivesse parado por aí, o movimento não teria
prosperado - ou pelo menos se estagnaria. Mas Erskine combinou sua lista de clássicos com
um grupo de discussão - agora comumente chamado de Grupo de discussão socrático (ou
Seminário ou Tutorial socrático). Aos alunos era recomendada a leitura de um clássico por
semana e então, uma vez por semana, eram convocados para uma discussão de duas horas,
sentados em volta de uma grande mesa oval.

Quando isso começou em 1921, havia apenas um grupo de discussão, que Erskine conduzia
sozinho (ele também era solista de piano, na Filarmônica de NY). Para resgatar um pouco
do sabor de seu curso, aqui estão duas pitadas de conselho sobre a leitura dos clássicos que
Erskine escreveu e deve ter falado, em substância, naquela classe:

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"O fato de um livro ser famoso é o suficiente para espantar algumas pessoas que, se
tivessem coragem de abrir as páginas, encontrariam prazer e recompensa. Nós cometemos o
erro de temer que as coisas imortais da arte precisam ser abordadas através de estudos e
disciplinas especiais, e nós nos confortamos no "princípio da uva azeda", decidindo que
mesmo se estivéssemos preparados para ler os clássicos, nós os acharíamos estúpidos. Mas
uma justificativa para qualquer grande fama é que ela é merecida, e os homens que
escreverem estes livros poderiam se horrorizar se descobrissem que você e eu pensamos
neles apenas como assunto para cursos educacionais e acadêmicos. Eles escreveram para
serem lidos pelo público em geral e presumem em seus leitores experiência de vida e
interesse na natureza humana, nada mais..."
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"É recomendável que se prove tanto dos grandes livros quanto for possível, ainda que os
primeiros possam não ser aqueles que nos refletem completamente. Mas assim que
descobrimos nosso autor, nós temos apenas que lê-lo mais e mais, e depois de um tempo ler
sobre ele nos autores que possuam espíritos familiares. Quando o leitor se descobre em dois
grandes autores, ele é prontamente lançado. Mas os livros devem ser relidos e relidos. Até
que entendamos que certos livros crescem com nossa experiência e maturidade e outros
livros não, nós ainda não aprenderemos como distinguir um livro de um grande livro” -
John Erskine [The Delight of Great Books, 1928].

Em 1921 Mortimer J. Adler ingressou no curso como estudante. O curso era popular e em
1923 o número de General Honors cresceu e eram ministrados por dois instrutores cada,
para assegurar um amplo conhecimento entre os dois moderadores, já que os grupos
discutiam uma vasta gama de livros em várias disciplinas. Foi quando Adler foi selecionado
para co-moderar um grupo com o poeta Mark Van Doren. Van Dorer posteriormente
ganhou o prêmio Pulitzer (1943) por seu Collected Poems, e sucedeu Erskine para lecionar
o curso sobre Shakespeare em Columbia. Os filhos de Van Doren, Charles e John,
posteriormente trabalharam com Adler em várias incursões para promover o Movimento
dos Grandes Livros. Adler continuou a participar nestes grupos até o presente - 79 anos. Por
que essa devoção a um curso?

"Muitos profissionais ensinam pela prosa; apaixonados, dentre os quais Sócrates era o
arquétipo, ensinam pelo questionamento.” Adler escreveu essas linhas para explicar a
diferença do método de ensino de Sócrates - e Erskine. Não era apenas a excelência do
material que Erskine havia selecionado - haviam existido cursos de clássicos antes de
Erskine - mas também a excelência do método socrático de ensino. Foi a afortunada
combinação dos dois que emplacou: leitura de excelente material e então discussão sobre
ele. Adler escreveu sobre isso:

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"Nossas mentes, diferente dos nossos corpos, são capazes de crescer até que a morte nos
tenha. A única condição para esse crescimento contínuo é que ela seja alimentada e
exercitada. Como alimentada? Através da leitura de grandes livros ano após ano. Como
exercitada? Discutindo sobre esses livros.”
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Erskine promoveu algo que funcionava e seus estudantes eram estimulados, deliciados e
iluminados por isso. Um movimento havia nascido, ainda que ninguém tivesse se dado
conta no momento. Erskine lecionou em Columbia de 1909 a 1937, mas depois de escrever
um bestseller (Helena de Tróia) em 1925 ele usou os procedimentos para alcançar seus
outros interesses. Ele escreveu 45 livros e se tornou presidente da Julliard School of Music
e diretor da Metropolitan Opera Association. Erskine (nascido em 1879) morreu em 1951.

Em 1925 o General Honors havia crescido para doze ministrantes. Rexford Tugwell era o
conselheiro e em 1927 ele apontou Adler para reconsiderar a lista de clássicos de Erskine.
O resultado das sugestões que Adler solicitou de outros ministrantes e dele mesmo, foi uma
lista revisada de 176 autores a serem votados pelo conselho da General Honors. 19 autores
foram aprovados por unanimidade com mais 76 autores - o índice de aprovação total foi de
aproximadamente 90%. Vários autores - como Shakespeare - foram selecionados por mais
de um trabalho.
A revisão da lista por Adler aumentou para 130 o número de autores. Finalmente, em 1947,
o Senador William Benton pediu a Hutchins, Adler e os demais que fornecessem uma lista
definitiva para publicação na Encyclopaedia Britannica como uma coleção dos Grandes
Livros do Mundo Ocidental. Erskine, Hutchins, Adler, Van Doren, Scott Buchanan,
Stringfellow Barr e Alexander Meikljohn constituíram o corpo editorial – todos eles agora
com anos de experiência dentro do Movimento dos Grandes Livros. Depois de muitas
consultas, reexame das listas existentes, muitos votos, reconsiderações e aí por diante, uma
lista final incluindo 74 autores (433 obras) foi publicada em uma coleção de 54 volumes,
incluindo 1 volume introdutório escrito por Hutchins e um índice de grandes idéias em 2
volumes (o Syntopicon) editado por Adler.

Claro, qualquer lista de livros muda ao longo do tempo. Mas pode-se dizer que
considerando a data limite apontada pelo corpo editorial (1900), a lista da Britannica
certamente foi o produto de um amplo consenso de consultores especialistas em diversas
áreas, aplicados no campo da leitura, comparação e discussão dos clássicos. Em 1990 a
Britannica pediu que Adler atualizasse a lista e o resultado foi uma compilação de 130
autores (517 obras) publicados em 60 volumes (incluindo 6 volumes de trabalhos do séc.
XX [até 1950] e 2 volumes atualizados do Syntopicon). Essa é a lista definitiva? Não, mas
não pode ser negado que é um começo tão promissor quanto - quando você faz sua própria
lista de leitura - o que possa se encontrado em qualquer lugar, e possivelmente muito
melhor.

Os critérios de seleção desenvolvidos pelo corpo editorial são interessantes: 1.) Relevância
contextual - não confinada exclusivamente a uma era histórica, um apelo atemporal e
universal; 2.) Releiturabilidade - livros qualificados como "relíveis" muitas vezes e de valia
devido à sua beleza, percepções e inteligência; 3.) Extensiva relevância para as grandes
idéias - cada autor selecionado tem algo significante a dizer sobre um grande número de
grandes idéias; sua contribuição para a grande conversação corrente da civilização
ocidental. Scott Buchanan também introduziu o critério de 4.) Indispensabilidade para a
educação de qualquer pessoa, que foi aceito. Era possível atingir quase a unanimidade na
seleção dos clássicos pré-1700, mas com a aproximação dos períodos modernos se tornava
mais difícil alcançar o consenso de 90%, que foi, entretanto, finalmente alcançado com a
lista de 1990.

A Grande coversação, as Grandes idéias e o Syntopicon

Hutchins e Adler, bem como os outros, gradualmente descobriram em seus grupos de


discussão que também estavam participando de um grupo de discussão bem maior, um que
compreendia séculos. Os autores dos clássicos geralmente escreviam sobre o que seus
predecessores tinham a dizer sobre essa idéia ou aquela, esse tópico ou aquele e respondiam
a isso comentando sobre eles ou contestando-os. Os tópicos que escreviam tendiam a ser os
mesmos, e normalmente os autores era bem atentos ao que os seus predecessores haviam
escrito para que pudessem levar a discussão um ou mais passos adiante. Esse fato era tão
importante, que Adler posteriormente compilou evidências sobre isso em índices Autor-
Autor e Autor-Idéia, que conectavam os autores, demonstrando as intensas interrelações
entre as atividades clássica e intelectual dos autores ocidentais ao longo dos cerca de 3000
anos em que escreveram. Através de seus livros, o pensamento dos autores dos clássicos
continuamente influenciava a vida, em cada geração até os dias de hoje, na extensão em
que eram lidos e discutidos. Até hoje, nenhuma geração no ocidente negligenciou ou
esqueceu por completo esses autores, apesar de algumas vezes isso quase ter acontecido
(e.g. nos Tempos Negros depois das invasões bárbaras na Europa e em nosso tempo). Por
outro lado, estudos renovados dos clássicos iniciaram inúmeros afloramentos culturais (por
exemplo, a Renascença).

Hutchins foi tomado pela idéia e escreveu um trabalho intitulado “A Grande Conversação”
celebrando essa marcante e única (tanto em longevidade como escopo) realização da
civilização ocidental na qual ele refere como a “Civilização do Diálogo”. A noção não era
inteiramente nova, mas Hutchins e Adler a desenvolveram e a transformaram em um nó que
juntava a coleção.

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"A leitura de todos os bons livros é como uma conversação com os mais nobres homens dos
séculos passados, que foram os autores desses livros, uma conversação cuidadosamente
estudada, onde eles revelam nada além do que o melhor dos seus pensamentos” - René
Descartes, Discurso do Método, I.
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As "grandes idéias" foram desenvolvidas como uma resposta de Adler à relutância de


Hutchins em trabalhar em uma coleção que pensou ser apenas um amontoado de poeira nas
bibliotecas. Ocorreu a Adler, durante uma pesquisa sobre o que todos os autores tinham a
dizer sobre uma única idéia (que requisitou releitura de todos os livros sob o ímpeto
daquele problema ou questão - muito parecido como uma busca por palavra-chave na
Internet), que se essas idéias discutidas durante esses três mil anos de Grande conversação
pudessem ser identificadas e referenciadas aos leitores, eles poderiam se motivar a integrar
a conversação. Então Adler e uma equipe, a que depois somaram-se 90 co-autores,
iniciaram um esforço de dez anos para indexar e cruzar referências dos grandes livros a um
conjunto de idéias pivôs.

Depois de dois anos, 105 idéias-chave foram selecionadas, posteriormente reduzidas para
102 e chamadas de As Grandes Idéias. Adler desenvolveu a noção de idéias sendo como
constelações, com idéias menores circulando ao redor das grandes e cruzando caminhos
agora e então com outras constelações, em um ordenado universo de verdade (novamente, a
noção não era inteiramente nova, São Bonaventura tinha anjos similarmente nomeados e
guiando estrelas representando uma virtude ou idéia de grande ou menor correspondência
de valor). 163.000 referências aos Grandes Livros, organizadas em 3.000 tópicos,
representando aproximadamente 400.000 horas de leitura, foram indexadas. Adler cunhou o
termo Syntopicon para o resultado: um índice de assuntos das Grandes Idéias, indexadas
nos Grandes Livros. Referências a outros estudos também foram incluídas. Isto completou
a unidade nuclear do Movimento dos Grandes Livros. As Grandes Idéias (e a Grande
Conversação sobre elas), contidas nos Grandes Livros, foram enfatizadas - e reconhecidas
por todos os que, sem elas, os Grandes Livros eram apenas perfumaria.

Crescimento
Scott Buchanan e Alexander Meiklejohn são ambos originários da Amherst College.
Buchanan havia sido um pesquisador sobre Ródes em Oxford onde encontrou Stringfellow
Barr e Jerry McGill. Todos menos McGill (que escrevera "A Idéia de Felicidade" para o
Instituto para Pesquisa Filosófica) estavam na Conselho Tutelar da Britannica, e todos
posteriormente foram grandes personagens no movimento que Buchanan e Stringfellow
Barr criaram para iniciar o Novo Programa (dos Grandes Livros) no St. John's College em
Annapolis, Maryland, que alterou toda uma estrutura falida e falha que existia lá
anteriormente. St. John criou um segundo campus em Santa Fé, Novo México.

Hutchins era Presidente da University of Chicago quando convidou Adler para iniciar um
programa de grandes livros na universidade, que ele co-moderava. O programa se efetivou
na University College. Um programa de grandes livros para adultos e a Fundação dos
Grandes Livros foram lançados em Chicago, ambos ainda promovendo ativamente a
filosofia dos grandes livros na educação. De lá o movimento se espalhou a inúmeras outras
faculdades. Adler passou muito tempo promovendo grandes discussões sobre os livros com
adultos, fora da educação institucionalizada, ao redor dos Estados Unidos. As vendas da
coleção Britannica Great Books começaram a ganhar impulso e por volta dos anos de 1950
foram vendidas aproximadamente 50.000 coleções por ano, 1 milhão de coleções vendidas
no total. Os Estados Unidos estavam pesquisando e encontrando suas raízes. Nos anos de
1960 o movimento continuou a crescer, mas nunca atingiu mais do que uma pequena
minoria de faculdades e lares antes da reação progressista começar.

Declínio

O estrago criado pelo pragmatismo de Dewey, espalhou ceticismo, relativismo


antropológico e positivismo lógico, que combinaram com a prosperidade crescente nos
Estados Unidos pós-guerra e acompanhando o materialismo, transformaram as cabeças de
nossa juventude, tornando-os um joguete fácil para todos os de cima. Os anos de 1960
marcaram a morte do Movimento dos Grandes Livros. Naquele contexto, ser morto,
europeu, autor do sexo masculino (como os autores dos clássicos ocidentais quase todos
eram), era irrelevante. Apenas os vivos eram considerados plausíveis. O Método socrático,
assim como Sócrates, fôra condenado à morte. A educação foi cada vez mais direcionada
aos "progressistas" radicais, que ainda dominam por completo a educação, e cujos
resultados trágicos hoje nos apavoram.

Mas aqui e lá o Movimento dos Grandes Livros sobreviveu e o próprio Adler nunca desistiu
da luta. No começo dos anos de 1980, um grupo de educadores chamados de Grupo Paidea
(grego para elevação das crianças) publicou a Proposta Paidea, estabelecendo reformas
necessárias nos níveis fundamental e secundário, particularmente a introdução do Método
socrático, treinamento em habilidades de ensino e leitura dos clássicos. A Fundação dos
Grandes Livros continuou a publicar as coleções de clássicos juvenis e a promover grupos
de discussões socráticas entre adultos nas escolas. Grupos de discussão dos Grandes Livros
para adultos continuaram em várias cidades, e Nina Houghton do Aspen Institute promove
os "Seminários Encontros Adler" todos os anos, assistidos por Charlene Costello, enquanto
Max Weismann, no Centro de Estudos para as Grandes Idéias, conduz grupos de discussão
online sobre os Grandes Livros. No total, mais ou menos 37 faculdades e universidades
ainda possuem algum tipo de programa de grandes livros e sinais de novos interesses sobre
os clássicos continuam a aparecer em faculdades em um lugar e outro (exemplo, Wilbur
Wright College, Chicago). Mas apenas duas faculdades possuem o programa completo de
quatro anos dos Grandes Livros, ministrados por Adler, Buchanan et al.: St. John's Colleges
e Thomas Aquinas College, Santa Paula, California .

Renascença

2000 anos ec, 79 anos depois de participar de seu primeiro grupo de discussão dos grandes
livros, Adler acaba de aprontar mais uma, e vive para ver o movimento entrar em uma nova
arena, a educação domiciliar. Tendo testemunhado e experimentado os resultados que a
educação progressiva e a deconstrução da cultura ocidental tiveram sobre as instituições
educacionais nos Estados Unidos, os pais estão garantindo - em números jamais vistos,
entre 1,6 e 2 milhões de crianças - que seus filhos sejam educados em casa.

De alguma forma em paralelo a como o St. John (sem filiação religiosa [apesar de
originalmente Anglicana, no séc. XVII]) e o Thomam Aquinas College (católica) se
relacionam, a recente mudança indireta para a inclusão de materiais especificamente do
magistério católico - dois novos programas de grandes livros domiciliares são da mesma
forma baseados inteiramente no contexto dos grandes livros em seus programas de ensino
médio, e nas Propostas Paidéia em seus programas elementares: a Academia dos Grandes
Livros (sem filiação religiosa) e a Academia Angélica (católica). Na luz da ausência do
progressismo educacional e resistência institucionalizada para reforma no movimento de
educação domiciliar, o ano 2000 tem tudo para ser o ano do início de um reavivamento do
Movimento dos Grandes Livros na educação, ou como um autor disse: a Renascença da
Escola Domiciliar dos Grandes Livros.

Os autores dos Grandes Livros

Adam Smith, Ésquilo, Aquino, Arquimedes, Aristófanes, Aristóteles, Agostinho, Austen,


Bacon, Balzac, Barth, Beckett, Bergson, Berkeley, Bohr, Boswell, Brecht, Calvino, Cather,
Cervantes, Chaucer, Tchekhov, Conrad, Copérnico, Dante, Darwin, Descartes, Dewey,
Dickens, Diderot, Dobzhansky, Dostoiévski, Eddington, Einstein, Engels, Epicteto,
Erasmo, Euclides, Eurípides, Faraday, Faulkner, Fitzgerald, Frazer, Freud, Galeno, Galileo,
George Eliot, Gibbon, Gilbert, Goethe, Hardy, Harvey, Hegel, Heidegger, Heisenberg,
Hemingway, Henry James, Heródoto, Hipócrates, Hobbes, Homero, Huizinga, Hume,
Huygens, Ibsen, J.S. Mill, Joyce, Kafka, Kant, Kepler, Keynes, Kierkegaard, Lavoisier,
Lawrence, Levi-Strauss, Locke, Lucrécio, Maquiavel, Mann, Marco Aurélio, Marx,
Melville, Milton, Moliére, Montaigne, Montesquieu, Newton, Nicômaco, Nietzsche,
O'Neill, Orwell, Pascal, Pirandello, Planck, Platão, Plotino, Plutarco, Poincare, Proust,
Ptolomeu, Rabelais, Racine, Rousseau, Russell, Schrodinger, Shakespeare, Shaw, Sófocles,
Spinoza, Swift, T.S. Eliot, Tácito, Tawney, Tucídides, Tocqueville, Tolstoi, Twain, Veblen,
Virgílio, Voltaire, Waddington, Weber, Whitehead, William James, Wittgenstein, Woolf.

Patrick S. J. Carmack
Tradução de Moreno Barros
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CARMACK, Patrick S. J. O movimento dos grandes livros: um retorno aos clássicos.
ExtraLibris, 2005. Disponível em:
<http://academica.extralibris.info/educacao/o_movimento_dos_grandes_livros.html>.
Acesso em: 10 out. 2005.

Original: CARMACK, Patrick S. J. The Great Books Movement: a return to classics.


Homeschooling, 2000. Disponível em:
<http://www.classicalhomeschooling.com/html/the_great_books_movement.html>. Acesso
em: 03 out. 2005.