Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática

Gregorio F. Baremblitt
5ª.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992 4

SUMÁRIO 5 INTRODUÇÃO.............. 11 CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13 CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 CAPÍTULO III: As histórias..............37 CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 GLOSSÁRIO..............133 APÊNDICE..............174 POST-SCRIPTUM..............195 BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207

AGRADECIMENTOS No referente à primeira edição deste livro, o autor dá aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi uma versão. Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou inúmeras tarefas que possibilitaram sua publicação e distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com a revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor também agradece aos membros e funcionários do Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contribuições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente. O autor é grato a todos os amigos: professores universitários, pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da autogestão que colaboraram na distribuição das diversas edições deste escrito.

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foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. Se se deseja ser coerente com os valores do Movimento. por sua vez. o estatuto epistemológico e jurídico absolutamente singular e a infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tarefa de ensiná-lo.INTRODUÇÃO Este livro corresponde à versão escrita de um curso proferido em Belo Horizonte no decorrer de 1990. Essa vocação libertária. apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais. heterológico e polimorfo de orientações. entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua aspiração a deflagrar. 11▲ . ainda está para ser produzida. sua Pedagogia exige uma originalidade da qual já existem muitas tentativas. enquanto o último foi escrito como artigo independente. mas que. Curso que. organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. Os seis primeiros capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o curso. ainda inédito. ao mesmo tempo. O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo.

proferido com uma metodologia tradicional. Bauleo. sejamos realistas. Malfe. em algum momento. Pavlovsky. um livro especial. ou. Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar. tem apenas o propósito de aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do Institucionalismo. foi inspirado pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer complexo e arriscado.Este curso. Kaminsky. acredito que este livro seja estimulante. devo destacar as correntes latino-americanas de Pichón-Riéver. discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para os futuros institucionalistas. no meu entender. mas. integrada predominantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil. começar verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta. Ulloa. Para quem decidir continuar. 12 ▲ . a bibliografia final. De Brasi. Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória. Mais informativo que formativo. Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados. Bleger. importantíssimo para o povo brasileiro. proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. Matrajt.

há algumas que são relativamente fáceis de se colocar. simplificá-las.. da maneira mais simples e mais didática possível. predominantemente. pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam. Eu diria que existe o que se chama de "ideais máximos" do Movimento. teremos ocasião de complicar as coisas. Em capítulos sucessivos. Não existe nenhuma escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte. Agora.Capítulo I O MOVIMENTO INSTITUINTE. é um conjunto de escolas. Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte. Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que. a intenção é. para ser entendida pelo maior número possível de pessoas. um leque de tendências. E é a essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora. como o nome aproximativamente indica. pois se procura apresentar uma exposição de nível médio. Podemos chamar a isto também de 1 3▲ .. Contudo.

uma grande complicação interna. Além desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza. Mas em nossa civilização chamada industrial. de diversidade que as sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas civilizações. despótica. ou seja. Ou seja. uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil anos. E o progresso trouxe uma grande complexidade. resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado "progresso" em igual proporção. Esses conhecedores têmse colocado. muito complexas. aplicações tecnológicas. ter produzido uma soma de saberes que propiciou. existem disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. em geral. como ninguém ignora. os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. mas que são. os processos de funcionamento social. intelectuais. então. que nossa época. experts que são os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. ciências formais. de fato. As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar. a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a história da humanidade. capitalista ou tecnológica. O que significam essas palavras? Depois. Se compararmos. por exemplo. como veremos depois. ou uma medieval com a nossa sociedade moderna. nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de estudo e tem gerado profissionais. Acontece. nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e de autogestão. apoiar e deflagrar nas comunidades. Os mesmos podem ser enunciados através de duas palavras aparentemente simples. a serviço daquela instituição que representa o máximo 14 ▲ . ou uma organização imperial. o grau de complexidade. houve um processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. além de se caracterizar por uma grande diversidade. nossa civilização. caracteriza-se também por. apesar delas não serem nada simples. Esse saber. Por exemplo. compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana. nesses últimos duzentos anos. uma organização social dita "primitiva".propósitos mais importantes. têm sido sempre muito complexos. a serviço das entidades e das forças que são dominantes em nossa sociedade.

aos assuntos próprios da religião. ou seja. fica relegado. E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos. quase incondicionalmente. Elas dependem. já dentro da sociedade civil. aos psicológicos e subjetivos. Essa situação. então. de seu próprio funcionamento. sua qualidade. insuficiente. gerenciada por "especialistas". ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência.da concentração de poder. vestuário. que são as organizações corporativas. tem tido como conseqüência que os povos – em sentido amplo. as comunidades de cidadãos têm visto esse saber subordinado ao saber dos experts. criado e acumulado pelas comunidades sociais durante tantos anos de experiência vital. é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. sua conveniência. secundários e terciários. Cada um desses campos. Toda a produção desses bens está dirigida. sua necessidade. aos assuntos familiares. esses experts têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza. dos organismos do Estado. aos especialistas de produção de bens materiais. num sentido vago. tudo é decidido pelos experts . por outro lado. de educação. às que atingem a comunicação de massa. colocado em segundo plano. Junto com seu saber. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo de ideologia. sua quantidade. cada um dos serviços que se prestam nessas áreas. refiro-me aos problemas de saúde. O mesmo acontece no plano de administração da justiça. moradia. o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a sociedade. transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. nos tribunais. ou seja. infundado ou. geral. pobre. Além disso. elas têm perdido o controle sobre suas próprias condições de vida. do poder. que é o Estado. primários. em que os "sábios". Esse saber. Então. Mas noutro plano. comida. do saber e de serviços dos experts . a sociedade civil – têm-se visto despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua própria vida. as empresas nacionais e multinacionais etc. como se fosse rudimentar e inadequado. visando a qualificá-lo como um falso conhecimento. do saber e do prestígio. empresariais. no melhor dos casos. em geral. a partir do surgimento do saber científico e tecnológico. os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado e das empresas. às questões relativas ao lazer. os bens que se produzem e administram nesses territórios. com os 15 ▲ .

Essas necessidades são colocadas diariamente através de demandas espontâneas. mas o uso da força física está reservado a organizações como a polícia. precisam. através da exigência de produtos e de serviços correspondentes. 16 ▲ . assim como a demanda é modulada. como veremos. que seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e desejos citados. É claro que os experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os interesses das classes. mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam e acham que pedem o que querem e como querem. da força da persuasão. mas particularmente na nossa. É. no sentido literal. isto é. desejar e solicitar. E o que falar do exercício da força. Acontece. Mas não se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. Esse "mínimo" é gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. senão da força física. despachantes. mas. Mas ainda dentro do condicionamento histórico. níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. oficiais. de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que "realmente" aspiram. Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo. as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas necessidades a perdem. não existem demandas "espontâneas". porque ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história. muito evidente que nossos coletivos estão. as forças armadas. porque todas essas outras entidades também usam da força. leis: tudo i sso feito por experts e administrado por eles. guardas etc. na Análise Institucional e em outras escolas do Institucionalismo. registros civis. delegados.advogados. aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo" não existe. então. na verdade. o que acontece? Há um conceito básico que vamos ver depois. que também têm seus especialistas. da força da sedução. que se chama demanda. a noção das necessidades é produzida. não existem necessidades básicas "naturais". Então. pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de descrever. É possível afirmar que as comunidades ou coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. querem e pedem o que lhes inculcam que devem necessitar.

Eles têm perdido um certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem dispor para colocar e resolver seus problemas. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas. nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem. não necessariamente distorcido. ou seja: não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer-lhes quem são. nem de fora. sem dúvida. quais são seus verdadeiros problemas e o que se requer para resolvê-los. eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento importante e não inteiramente alienado. como protagonistas de seus problemas. desejos e demandas. Então. com precisão. ela também não é feita de cima para baixo. de seus desejos. de suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas limitações. se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir. ao mesmo tempo. têm alienado o saber acerca de sua própria vida. compreender. interesses. com sua disciplina e seus instrumentos. necessidades. o que devem pedir e o que podem ou não conseguir. Mal podem organizar-se para resolver seus problemas se não conseguem saber. em que a comunidade se articula. Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria o primeiro deles. mas elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado.atualmente. Na medida em que essa organização é conseqüência e. Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo. os coletivos têm perdido. se institucionaliza. ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de sua vida sobre a terra. Essa auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque. possam enunciar. um movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise. Mas os experts 17 ▲ . a noção de suas reais necessidades. um deles seria a auto-análise e o outro a autogestão. adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida. de suas demandas. o que sabem. Este processo de auto-análise das comunidades é simultâneo ao processo de auto-organização. ela mesma. o que podem. ou seja: produtivo.

tenham algum lugar dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins. ou ainda das diretivas das grandes empresas nacionais e multinacionais. do . de sua pertença ao bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise. aprendendo e ensinando seu saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. Ao mesmo tempo em que são os objetivos principais das propostas instituintes. E só conseguirão reformulá-los numa gestão. significa a produção de um saber. 18▲ É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. hierarquias que eles têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico-políticos do Estado. seu saber específico. o que é produto de sua origem. mas profundamente conhecidos pelos leitores. suas técnicas. dentro dos organismos aos quais pertencem. Eles têm que entrar em contato direto com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando para incorporar-se a essas comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham. a uma auto gestão. suas inserções sociais como profissionais a uma profunda crítica que os faça separar. é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas superficial. Eles têm de reformular sua condição profissional. postos. eles são também os próprios meios para realizá-las. Por isso. Isso permitirá que.devem submeter seu saber. eventualmente. quando a comunidade conseguir organizar-se. À parte dessa reinvenção de sua disciplina. da qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas. num trabalho feito em conjunto com essas comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz. Por quê? Porque auto-análise. suas glórias. Esse estatuto deve resultar de uma crítica das posições. Para poderem efetuar essa autocrítica. não podem fazê-lo nas academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. os experts poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e autoanalíticos quando forem chamados a participar. métodos e técnicas. para as comunidades. Então seu saber. Eles poderão assim reformular. os experts. sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de auto-análise e auto gestão dessa comunidade. seus métodos. dentr o dessas teorias. os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim.

mas não há hierarquias de poder. Deverão. e também de seus recursos. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo produtivo. Na realidade. Contudo. quadros.. são produtores de conhecimentos. São executores. tudo o que elas descobrirem neste processo de auto-conhecimento só terá uma finalidade: a de auto-organizar-se para que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência. os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual. mas eles são concomitantes. demandas etc. Mas não pode haver uma organização sem um saber. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem. Mas a existência de hierarquia não implica diferença de poder. em assembléias. de deliberação. porque estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas coletivamente. Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de denominações. elas têm que chamar experts aliados para colaborarem. então. peculiaridades e capacidade de produzir. elas têm que se dar condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. gerências. é difícil pensar qualquer processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa hierarquia de decisão. Em todo caso. elas têm que construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. simultâneos.conhecimento acerca de seus problemas. Eles têm maneiras diretas de comunicar as decisões. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos. Ao mesmo tempo. especificidades etc. não equivale a privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. ou seja. de suas condições de vida. Existem hierarquias moduladas pela potência. é evidente que o Institucionalismo. articulados. hierarquias. São dois processos diferenciados. Implica apenas uma certa especialização em algumas tarefas. existir hierarquias. suas necessidades. não pode haver um saber sem uma organização. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades. por correias de transmissão. Elas têm que organizar-se em grupos de discussão. tanto quanto os processos auto-analíticos. a resolver seus problemas. 19▲ . a capacidade de impor a vontade de um sobre o outro.

e que todo saber envolve. existem alguns elementos essenciais que compartilhados por todo mundo. já não é um saber que vai cair de cima para baixo. o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil esteja colocada na assistência e não na prevenção. já não é um saber produzido fora dos interesses e desejos do coletivo. e então a serviço do coletivo.5% da população. tomógrafos computadorizados. quando esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa questão. Então. uma vez realizados. Acontece que o povo. Seus problemas. que afeta 0. e ambos não são homogeneamente distribuídos. Entretanto. um poder. principalmente se por prevenção entende se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa nem acaba no campo da medicina. alimentação. distribuído e exercitado na vida coletiva. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza são É - . digamos. em estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas aplicações terão. pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual. Quem conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa prioritariamente de. vestuário e saneamento básico. há muitos centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou diagnosticar uma problemática altamente específica. têm suas causas diretas nos problemas de habitação. Disso todos os experts sabem. necessariamente. porque foi produzido dentro. muitos dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. que têm efeitos médicos. já uma delegação. Vou dar um típico exemplo da medicina. produzido. de ambições de segmentos individualistas etc. de fora para dentro. Mas este saber é um saber coletivo. por alguns especialistas no assunto. Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles um saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. pelo contrário. Na topografia deste saber. as organizações de base. não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do Brasil porque a primeira coisa 20 ▲ que lhes seria respondida é que não sabem. ou. embora haja mil exemplos. circunscrita. O coletivo conserva um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando o seu poder com sentido instituinte-organizante.

ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença. Provavelmente. pode-se delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder. basicamente. Assim. Isso não descarta que possam acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder. Como já dissemos. Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está colocada num futuro longínquo. mas isso não pode afirmar-se a priori. a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts. revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que preci sa? Os índios têm. não devendo ser tratado como tal. as comunidades da planície têm. também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo que não se exprimam em sofrimento.seu saber. em pé de igualdade. integrado à comunidade. que atua predominantemente a serviço de interesses estatais. ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária-que o saber médico (nesse caso) e suas técnicas têm. as comunidades negras têm. pelo menos. Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico. Uma vez que o expert . as comunidades das montanhas têm. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o que vem depois. revalorizar o saber espontâneo que elas têm sobre seus problemas. e não numa potência de colaboração com o coletivo. haverá necessidade de muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se em sua plenitude. porque este processo de auto-conhecimento e autogestão é interminável. o coletivo já não está desqualificado – ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. as comunidades 21 ▲ eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente . nacionais e multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses interesses. todo mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos. Nesse caso. quais são as enfermidades e como devem ser tratadas. senão em cada ato do cotidiano. Desde logo este saber também desconhece muita coisa. existiram e existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. Por exemplo. o que é prioritário e o que é secundário. demonstra a capacidade de contribuir. A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar. para este trabalho de reformulação.

temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação. Por outro lado. a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos organismos e entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram. os experts – médicos. advogados. conceitos e funções: todas aquelas teorias. Os leitores compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições altamente desfavoráveis. Um desses movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. idéias. severamente contraproducentes. embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja Católica. muito importante. O Institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. não são donos dos recursos que são propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes. para a 22 ▲ . Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo. mas acho que vai complicar um pouco as coisas. gostaria de referir-me à última questão. e não precisam do Institucionalismo para se desenvolverem. em que consiste o tema aqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico -social e uma gênese conceitual. para fundamentar a proposta institucionalista. categorias que têm sido produzidas pela humanidade no decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base. Mas. não são donos da riqueza.integrado a aspectos libertários do Cristianismo. comunicólogos. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. Esses processos autogestivos e auto-analíticos são. Por quê? Naturalmente porque os coletivos em questão não são donos do saber. Então. psicólogos etc –. enfim. porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. engenheiros. conceitos. a gênese conceitual refere-se ao campo das idéias. Agora. existem e vão existir. Nós.

do que é impossível e do que é virtual. Isso faz com que os objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos nunca de forma definitiva. nada disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. um câncer. que buscam a instalação plena da autogestão e da auto-análise. tentam recuperá-las. E as que hoje insistem em existir lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí-las. E quando não conseguem eliminá-las. o que normalmente é feito pelas instituições. pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos. de alguns espaços. e com a qual o Institucionalismo está mais que em dívida. De qualquer maneira. e pelo grau de realização com o qual se conformam. seja a de certas orientações do anarquismo.organização do sistema. Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas auto-analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. uma peste. da procura. do ensaio. pelos métodos. a invenção de soluções. a colocaçã o dos limites do que é possível. Não há nada que seja mais temido e mais odiado pelo sistema social. Quer dizer: há correntes. Mas isso não quer dizer que não sejam possíveis ou inventáveis. porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a definição de problemas. de alguns temas de auto-análise e autogestão. organizações e saberes de grupos e outros segmentos dominantes. existem correntes reformistas e existem correntes ultra-revolucionárias. Eles as diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas. Elas têm aparecido muitas vezes na história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos. Provavelmente a tendência política tradicional que mais se aproxima das propostas institucionalistas. esta última afirmação que faço refere-se ao seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias. Eles são atingidos sempre na base da tentativa. incorporá-las. escolas" maximalistas". no Institucionalismo. como na política. Ou seja. 2 3▲ . Então. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. tanto das extremistas quanto das propostas social-democráticas.

uma disciplina ou uma tecnologia? 2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos e grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber".PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência. e por que se diz que as ciências. ou é a oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 5) O que significa auto-análise e autogestão? 24 ▲ . as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações.

sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola para escola. normas e costumes são objetificações de valores. são árvores de composições lógicas que. e o que não deve ser. não figurando em nenhum documento. um tecido de instituições. afirma que a sociedade é uma rede. podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. quando não estão enunciadas de maneira manifesta. podem ser leis. E que são as instituições? As instituições são lógicas. a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o devir da Sociedade no tempo. assim corno o . O Institucionalismo. Alguns autores sustentam que leis. só que eles são transmitidos verbal ou praticamente. isto é. o que está proscrito. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos. o que está prescrito. estão escritas. as normas e os códigos também. tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do que é a História.Capítulo II SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES O Institucionalismo. caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela. O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana. à sua maneira. segundo a forma e o grau de formalização que adotem. As leis. podem ser normas e. em geral. esclarecendo 25▲ o que deve ser.

que é indiferente. de unidades de significação na linguagem. de normas que regem a combinatória de elementos fônicos. filho. e é curioso que os institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano. no caso da língua. pelo menos dentro desse universo humano em particular. entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo. nora. assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica. são vários. Isso também é um código que. conforme indicado por essas leis. regula a relação de parentesco e tem prescrições – o que é indicado. no final das contas. 26 ▲ . que característica de vínculo. de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. essa divisão vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa classificação podem se dar uniões. por outro lado. Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco. mãe. Essas lógicas. os prescritos ou os proscritos. Um exemplo de urna instituição: a instituição da' linguagem. formalizado ou não. consideradas gramaticais ou agramaticais. É claro que. e também proscrições – o que é proibido. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). urna gramática é urna instituição que explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens. as que definem os lugares tais corno: pai. pode construir-se um infinito número de mensagens. esses corpos discriminativos. Então. corno se pode ver. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em termos gramaticais. que é o que acontece em outros tipos de instituição. Com a combinação desses elementos. Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. genro etc. de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte dessa língua. não estarão estipulados também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da divisão do trabalho humano. Mas.

Ministério da Justiça. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las todas. uma loja. normas e pautas que prescrevem corno se deve socializar. Ternos também a instituição da religião. as instituições não teriam vida. Agora. instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa integrar-se à mesma com suas características efetivas. E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que são as organizações. Estabelecimentos seriam as escolas. as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções que as instituições distribuem e enunciam. por exemplo. feminino e masculino etc. isto é. que é a que regula as relações do homem com a divindade. pelas instituições. as instituições da administração da força. são formas materiais muito variadas que compreendem desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação. Por sua vez. não teriam objetivo. uma fábrica. um convento. e assim por diante. aquelas leis. as instituições são entidades abstratas. um quartel. Isto é. há algumas que são muito 27 ▲ características. um banco. Em um plano formal. como insisti. urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens. por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. Mas. divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros. Para vigorar. têm de "materializar-se". – até um pequeno estabelecimento. Há diversos tipos de . as instituições têm de realizar-se. não teriam direção se não estivessem informadas como estão. As organizações. Ternos também as instituições de justiça. para cumprir sua função de regulação da vida humana.prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm esses lugares (divisão social). Ministério da Fazenda etc. Por exemplo: trabalho manual e intelectual. Mas as organizações não teriam sentido. Há também as instituições da educação. entendidas assim. urna organização (que. pelo menos. os estabelecimentos. como. não teriam realidade social senão através das organizações. vultoso) está composta de unidades menores. assalariados e autônomos. então. do campo e da cidade. Ou seja. mas com respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de comportamentos contra-indicados. costuma ser um complexo grande.

estabelecimentos, de características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das organizações da comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não-verbais, discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de instituição às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer, por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 28 ▲

uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis. Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir historicamente ao nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações de urna instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não existem), a isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições, tem um produto, geram 29 ▲

um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados aos novos estados sociais. Tem-se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado. Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma tendência histórica a esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior felicidade, maior realização, 30 ▲

sempre tem uma utopia. as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade. apesar de eu estar usando. para referir -me a isso. Então. e mistificação. podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por todo mundo: são os processos de exploração. Assim. agentes. que não é nem a única nem a melhor das utopias. que é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros). ilusão. que cada sociedade coloca à sua maneira. Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais nobres. estabelecimentos. e que são chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta. diferentes formas de igualdade. desde que existem sociedades. elásticas. fluidas. Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições. à exceção de algumas sociedades em particular. pode-se distinguir uma função e um funcionamento. uma orientação histórica de seus objetivos. chamada de revolução burguesa. que é substituída por diversas formas de mentira. cada sociedade. a utopia da Revolução Francesa. tem-se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos. organizações. de consenso. engano. diferentes formas de veracidade e fraternidade. mas é a mais conhecida por nós. muito diferentes de uma sociedade para outra. compartilhada. Para poder entender essa terminologia. ou seja. de uma fase histórica para outra. imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva. dominação. se se compreende esta oposição entre a 31 ▲ . entre o organizante e o organizado (processo de institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis. e na vida humana tomada num sentido muito amplo. deseja. de suas finalidades mais altas. deve chegar a ser. de dominação e de mistificação (desinformação ou engano). ou seja. uma administração arbitrária ou deformada do que se considera saber e verdade histórica. em seus aspectos instituintes e organizantes. É claro que. Essas características históricas. sonegação de informação etc. há a tendência a adquirir sempre características históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. práticas.maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes entre o instituinte e o instituído.

Então. Acontece que. organizações. funções a serviço da exploração. enquanto produtivo. é justiceiro e tende à utopia': A função. recebem o nome de funcionamento. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas. todo estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores. mistificação-.. disfarça da. toda organização. enquanto recurso operante o instituinte. da mistificação. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais". Agora. estabelecimentos. natural. dos domina dores. justamente por causa da questão da mistificação. dos mistificadores. produção que é a geração do novo. coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a característica essencial do instituinte. o organizado. Só que esta função raramente se apresenta como ela é. estão sempre a serviço dos objetivos que. Podem ser chamados de outra maneira. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração. Essas forças. do organizante e dos seus produtos operantes é serem propícios à produção. da dominação e da mistificação. e se apresenta aos olhos não atentos como eterna. da dominação. ela é predominantemente reacionária. então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento. não se manifesta claramente ao nível do instituído e do organizado. freqüentemente. A função apresenta-se deformada. os instituídos e os organizados apresentam. é sempre transformador. dominação. é claro que é necessário. de Igualdade e Fraternidade. mostra-se como o objetivo natural. Isto é. o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração. desejável e invariável. provisoriamente. Toda instituição. Ou seja. pode-se definir outros termos que temos aqui presentes. rapidamente. tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a característica da função.utopia. chamamos de Justiça. predominantemente. agentes e práticas desempenham uma função. daquilo que 32 ▲ . desejáveis e eternas. o funcionamento é sempre instituinte. desejado e lógico das instituições e das organizações. ao passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia.. O instituído. esses processos. mas em geral elas são mesmo traídas. dominação e mistificação que se apresentam nesta sociedade. a serviço da exploração. conservadora. enquanto expressão apropriada. As instituições.

Por outro lado. por exemplo. desde o outro. organizantes-organizados que constituem a malha. pejo outro. de perpetuar o que já existe. e além de ensiná-los a ler e escrever. Então: instituinte e instituído. não atuam separadamente. ou seja. Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. do revolucionário. de acordo com a concepção de ensino que ela tenha. não só educa dentro dos objetivos manifestos do organizado e do instituído.almeja a utopia. também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia. Essa é uma tentativa de enunciar o entrelaçamento. Função é sinônimo de reprodução: é a tentativa de reiterar o mesmo. cada organização. ao nível da produção e ao nível da reprodução. Para dar apenas um exemplo. uma escola também é uma fábrica. mas também prepara força de trabalho (alienado). uma escola. organizante e organizado. não só instrui. chama-se atravessamento. funcionamento e produção são a mesma coisa. a rede social. a interpenetração que existe entre todos os instituintes e instituídos. essa interpenetração ao nível da função. do conservador. funcionamento contra função. do criativo chama-se transversalidade. e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do organizante. como entender. para o outro. Nós dizemos. o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer. produção contra reprodução. abstratas. do reprodutivo. exporemos definições que são um pouco áridas. do produtivo. e o que basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições. que uma escola é um estabelecimento das organizações do ensino. mas sim em conjunto. ao nível daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra. vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de funções a nível organizacional. Acontece que uma escola não só alfabetiza. especialmente 33▲ . entre todos os organizantes e organizados. mas necessárias para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste. Para concluir. que por sua vez são uma realização da instituição da educação. Esta interpenetração acontece ao nível da função e ao nível do funcionamento. como analisar cada instituição. Então. aquilo que não é operativo para propiciar as transformações sociais. Essa interpenetração ao nível do instituinte. os instituintes-instituídos. Para concluir. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro.

como já vimos. ao nível da função. o que a escola ensina é uma série de valores do que deve ser construído. marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. por ela. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. 34 ▲ . gerando assim movimentos e montagens alternativos. produtivo. vocês vão vendo como uma escola.um clube estudantil. ao nível da reprodução. ao nível do instituído. a dominação. Então. Mas. uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos direitos. de alguma maneira. e ela por outras. produtivas. e esta se define também como uma dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade. também se pode dizer que uma escola é um quartel ou uma delegacia de polícia. tal como está. interpenetrado com muitas outras organizações. instituições. Então. Então. A interpenetração ao nível da função. do que deve ser destruído. a escola pode ser também. por exemplo. Neste sentido é que uma escola tem também um funcionamento articulado. chama-se atravessamento. uma escola tem um lado instituinte. uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as correntes instituintes. chama-se transversalidade. um lado organizante. ensina formas de exercício da agressividade. Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está. da reprodução. Mas uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento políticoescolar. Essa interpenetração chama-se transversalidade. através dela. a mistificação. do organizado. um lugar de exercício da solidariedade. está atravessada pelas outras organizações. uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os alunos.de punições. além disso. para ela. e ainda entre os diversos· quadros e segmentos desse mesmo estabelecimento. Neste sentido. da dominação e da mistificação. A interpenetração a nível instituinte. um lugar de doutrinamento para a revolução. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas. numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração. com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam nela. uma frente de luta revolucionária. e dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração. de luta sindical.

35▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 1) O que são. a produção. o organizante e o organizado. A sociedade é uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas funções estão a serviço da exploração. as sociedades? 2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou normas ou que se manifestam em hábitos? 3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações. dominação e mistificação (atravessamento). da liberdade. a reprodução e a antiprodução? 5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 6) De que está composta a rede social? 36 ▲ . da plena informação. os estabelecimentos. a concepção institucionalista da sociedade.Com isso temos definida. assim como também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da cooperação. a função e o funcionamento. da produção e da transformação afirmativa e ativa da realidade (transversalidade). até certo ponto. equipamentos. ou seja. agentes e práticas? 4) O que é o instituinte e o instituído. para o Institucionalismo.

Capítulo III AS HISTÓRIAS o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos. do instituído e do organizado. Naturalmente. tão tendenciosa quanto qualquer outra. é importante diferenciar História de Historiografia. registram aquilo que lhes convém. mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva. em geral. é apenas uma versão tão interesseira. não é isso. se apresenta como sendo objetiva. que têm recursos para resgatar e promover estes documentos. Então. enquanto justifica as ações 37 ▲ . empiricamente. a rigor. impessoal e que. neutra. geralmente. Agora. as tendências de quem faz História. das classes dominantes. Numa primeira instância. como meramente narrativa. historiografia é esta versão que. que qualquer registro inclui os desejos. é uma versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do Estado. os interesses. Porque a versão que se tem da História é sumamente importante. mas que aparece como descritiva. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e. alguma noção aproximada do que é história. propriamente. História. Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos.

Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar. todos os movimentos sociais que se deflagram. ou na Idade Antiga etc. que são localizáveis como tais. no século XVI. ideológicas. do desejo. justifica e propicia um projeto futuro para a vida social. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História podem ser resumidas em poucas palavras: Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é. mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas. e sim o presente que explora. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que não é o passado que engendra o presente. os processos que constituem a História são processos policronológicos.e paixões que se protagonizam no presente e. que o presente ilumina. da vontade. uma História que seja como uma espécie de mangueira. Não é o passado que gera o presente. da afetividade. apenas. que se impulsionam para chegar a este porvir. de alguma forma. já foi"-. mas o passado está composto de uma série de potencialidades que o presente ativa. obsoleto. como se faria no fluxo de um rio. definido – "o que foi. Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no presente. ou seja. começou. cada um em sua duração. histórias raciais. mas consiste em uma localização daquilo que. Trata-se de tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos históricos em alguns momentos. eras ou etapas. enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. culturais. cronológica ou conceitualmente. Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História. Passado e futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. que aproveita 38 ▲ . de modo que não se pode estudar uma época como se essa época fosse um corte transversal. de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só. globalizar em um tempo único. que se faz num único fluxo da História. e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se "atrasa" em relação aos outros. Quer dizer. a reconstrução do que já aconteceu e que já está. teve início em um passado. que não se pode totalizar. de alguma maneira. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se transcorreram todos os processos. que o presente deflagra. geralmente. no século XI. histórias das gerações. morto.

que tende a repetir-se e que. o aleatório. do relógio ou do calendário. devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. que começam do zero e vão acabar em dez. com este metamodelo mecanicista. Não existe uma progressão predeterminada das etapas históricas e. o acontecimento. não é compartilhada pelo Institucionalismo. por conseguinte. E que são estes grandes ou pequenos momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 39 ▲ . Finalmente. Não existe finalidade da História. outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da História é que nós. com uma explicação claramente mecânica. Então. é o acaso. não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste. Por outro lado. Segundo alguns institucionalistas. O Institucionalismo diz que o que. é o inesperado.ou atualiza as potencialidades do passado para construir u m porvir. quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual. Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou menos maquinais. o tempo. o imprevisível. ou um final catastrófico ou apocalíptico. um final que pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva. baseada em paradigmas de ordem que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com suas trajetórias. e como correlato à máquina do relógio –. cem ou qualquer número final. se produz. tendemos a pensar a História em função de suas leis. esta concepção da História que faz da diferença uma variação análoga ou semelhante do igual. mas que o que se repete na História é a diferença. sendo que os enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade. sempre policronológico. retoma na História. não é o regular. predominantemente. não existe um apogeu final dos tempos. ou mais ou menos determinadas. suas órbitas. não é o igual. em todo caso. isto é. ou do idêntico. O que pode ocorrer no dia-a-dia não está inteiramente predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro. a História não é uma série de etapas fatais. não é o idêntico. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica. suas parábolas. cada uma das quais origina a seguinte.

que. mas está estritamente relacionada com a concepção da práxis. o objetivo. a posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros. o propósito. não de uma transformação previsível. por 40 ▲ . é aquilo que é grande. dentro desta concepção da vida social como uma rede. mas uma tentativa de reconstruir os grandes momentos de imprevisto. produzir estratégias que permitam propiciá-los novamente. incluindo-se no outro. Bem. vida política. Tentemos agora definir outros conceitos importantes. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do que tende a repetir-se. e com a utopia ativa. a inerência. é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar explicar brevemente. não é apenas um exercício acadêmico. um "dentro" do outro. que é evidente. pelo organizado e repetidos como idênticos. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação. esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo. da atividade político-social desejante que o Institucionalismo tem. os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da humanidade. não de uma transformação pré-figurada. que só se podem separar de uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica. para a partir desses ensinamentos. Então. trata-se de entender como a História é não apenas uma atividade ilustrativa. vida do desejo inconsciente. da inovação absoluta. pode se distinguir o molar. em que os diversos processos são imanentes um ao outro. portanto. do acontecimento. que é o que na física se costuma chamar micro. visíveis e enunciáveis. dito de uma maneira simples. outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao termo molecular. O termo molar. uma investigação erudita. com contribuições de diferentes tendências institucionalistas. Por outra parte temos o molecular. A rigor funcionam sempre. vida biológica e natural. ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do inesperado. O que existe são imanências – isto é. quer dizer. absolutamente desconhecido. por assim dizer. a finalidade e os recursos do Institucionalismo. Então.vão tentar ser capturados pelo instituído. mas da transformação em direção ao radicalmente novo e. que tem formas objetais ou formas discursivas.

o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. o mundo das partículas. as transformações microscópicas. É a permanente 41 ▲ . a biologia e a química descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta da dinâmica que acontece nas micro. é o lugar das conexões anárquicas. resultam nas grandes metamorfoses. o mundo atômico e subatômico. da biologia molecular. e o micro é o lugar da produção. Dito com outras palavras. o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais. o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo previsível. as conexões circunstanciais. impensáveis. porque espera delas efeitos à distância que. da conservação. técnica. insólitas. por oposição. é o lugar da estabilidade. que é composto de grandes corpos. político. Como até mesmo a física. o universo. subjetiva e socialmente. as macromudanças. da microquímica. econômico e desejante. Então. do instituído e do organizado. nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. dos limites precisos. é importante definir o termo antiprodução. O macro é o lugar da reprodução. dito tanto no sentido físico.oposição a macro. O micro. o detectável e consagrado. Produção é aquilo que processa tudo que existe. o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas. Esta diferenciação também é importante porque. natural. o cosmos. isto é. enquanto o mundo macro por excelência seria. Finalmente. em geral. o Institucionalismo pensa que as pequenas conexões locais são o lugar do instituinte. e o micro é o lugar da eclosão constante do novo. são sempre resultado de pequenas micromudanças. tomando esses ensinamentos da microfísica. da regularidade. da microbiologia. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva. O macro é o lugar da ordem. Se não me engano. biológico quanto no sentido social. é o lugar das entidades claras. ao generalizarem-se. já tentamos reiteradamente definir e redefinir o termo produção. e não os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. e que os grandes poderes em vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam em espaços microscópicos de uma sociedade. e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as estratégias de intervenção nos âmbitos. o macro é o lugar da regularidade e das leis. químico.

Um desses processos característicos é o problema ecológico. são forças singulares. subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se antiprodução. mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los. elas se destroem a si mesmas. da tóxico-dependência. que vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. valores. produtivas. é o que subjaz à geração de enormes contingentes sociais que estão destinados a morrer. as matérias produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos. sociais. mas foi sempre assim. é o devir. que só agora se está" descobrindo". elas tornam-se antiprodutivas. neocoloniais e planetários contemporâneos etc. e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. Por exemplo. é o que. de bens de troca e não de bens de uso. pelos equipamentos. com uma terminologia ainda religiosa. vigora a antiprodução. serviços – não pode assimilá-las à lógica do sistema. enquanto não se cristaliza. ou as mata por meio de mecanismos mais ou menos deliberados. pelos organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo. como é o caso da marginalidade. é a metamorfose. Essas são potências. do alcoolismo. dos genocídios coloniais. mais ou menos premeditados. as forças instituintes-organizantes. enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias. são capturadas em grandes organismos reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista. elas são voltadas contra si mesmas. Esse processo de autodestruição das forças produtivas naturais. é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de destruir os produtos porque o preço caiu no mercado. o impedimento ou a destruição do novo. que a sociedade não está em condições de incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria. bens. 42 ▲ . ou as deixa morrer. seres. da mortalidade infantil. Agora. as energias não orientadas. de maneira que a produção. e que morrem não apenas por deficiência da provisão ou da organização. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas de maneira muito ampla. isso se torna moda.geração. chamaríamos de criação. É o que subjaz a grandes processos sociais como as guerras. dos preconceitos sexuais e raciais. Então.

são tão importantes as vontades. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que outra. sabese que as vontades. isto é. se estes. E também não entram se suas expectativas. por mais submetidos às leis econômicas e políticas que estejam os homens. em política ou sociologia – com independência do psiquismo dos homens. mas que têm a ver com o prazer. ou que se possa supor que é o político o tal determinante. os desejos e as representações com que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais". Hoje. apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina. por exemplo. os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens. Isso é claríssimo. E não se trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária. eles só entram nesses processos de dominação. hoje se sabe. que têm a ver com o sofrimento e têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos.Para qualquer tendência sociológica. não fazem parte de seu saber. Em última instância. os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica. de mistificação ou. Ou seja. suas vontades. de seu querer deliberado. as características da vida e da morte social. coincidem com suas crenças. prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. não só seus interesses. ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes 43 ▲ . científica-política ou econômica clássica. são inconscientes. em última instância. de algum modo. que por mais determinados. e ainda mais. por vontades que eles não controlam e não conhecem. isto é. políticas ou naturais que os determinam. convicções acerca da vida social. seus desejos não se encaminham nessa direção. mas de mobilizar forças inconscientes às quais se apela. econômicas. de exploração. pelo contrário. está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população. representações. que o "pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano. já é completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que acontece em economia. em processos revolucionários. e ninguém pode negá-la.

passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação. Isso também não é novidade. o grande psicanalista marxista. sem apelar para os saberes instituídos e estabelecidos. O desejo do 44 ▲ . já se tem visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas condições de existência que não precisa. não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve. depois. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes. em algum momento.sociais. foi o estado em que o protosujeito esteve integralmente. Os povos checam seu próprio saber sobre suas condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente movimentos de imenso poderio. o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo. de incalculável potência social. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais. não se trata apenas de dizer que o fazem por medo. quando as forças inconscientes se ativam. porque se é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados. O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários. mas eles operam as transformações sociais. se translada para a vida social com as mesmas características. A diferença consiste em que o desejo inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar. em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus superiores. que supostamente. não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua potência. nós nos interrogamos constantemente porque. porque os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam. é um anseio que tende a restaurar o narcisismo. por ressonância ou por uma re-elaboração do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. porque os soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores. O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. Já a partir de Reich. é uma tendência reprodutiva. Então. nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. Por que os povos atuam contra seus reais interesses e vontades? Então. nas relações ou nas fantasias incestuosas ou parricidas do inconsciente infantil e que.

mesmo que se aceite como sendo universal. Só que este inconsciente não se entende exclusivamente como um inconsciente edipiano. O que importa não é a produção das semelhanças ou de analogias entre os sujeitos. teria representações ou teria recursos que variariam segundo a sociedade. ou. é uma força de conexões insólitas. mas a produção de diferenças. semiótico etc. entendido como o imprevisível. uma essência-homem. trata-se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são capazes de gerar transformação. Então. de cada momento. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas denominações. a singularidade de cada sujeito produzido em cada lugar. pré-social e pré-cultural. um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades. não existe uma estrutura. é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. repetitivo. objeto de um saber que toma elementos de todos saberes existentes. é o acontecimento-devir que os produz. mas também como um inconsciente pré-pessoal. aos 45 ▲ . em todos os momentos históricos. E podem existir analogias. podem existir semelhanças entre esses sujeitos. é absolutamente própria de cada lugar. quando nessa produção predomina o instituído. a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes. uma essênciasujeito. Mas é inconsciente. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um recalque psíquico. segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. O que se passa é que esse sujeito psíquico. produzem-se sujeitos em cada acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir. libidinal. a cada momento. se pode dizer. em todas as raças etc. Ou seja. em todas as classes sociais. o que existe são processos de produção de subjetivação ou de subjetividade. apenas preenchido com conteúdos históricos sociais variáveis. de cada conjuntura histórica etc. Para o Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal. mas essa produção é absolutamente contingente. Para o Institucionalismo. para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal. familiarista. Também não existe uma estrutura. mas por um recalque complexo que é simultaneamente político. é uma força de invenção e não é uma força restauradora de estados antigos.Institucionalismo é imanente à produção. sujeitos variavelmente protagonistas desse acontecimento. É uma força que tende a criar o novo. Então.

movimento ou proposta. em cada circunstância. absolutamente singular. não . de cada estabelecimento. mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. organizativas. subjetividade submetida. não assujeitada. Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer de cada organização. micro. eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar. o organizado. não se concretiza restituindo o antigo. O objetivo institucionalista é criar campos de leitura. de intervenção para que cada processo produtivo desejante. a isto se chama produção de subjetivação livre. produtiva. de compreensão. e trabalhá-lo para torná-lo produtivo. a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas. de subjetivação absolutamente original. o estabelecido. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que já estão feitos. seja capaz de gerar os "homens" (ou sujeitos) de que precisa. não poderemos dar nesta exposição. em geral. mas aceitar a idéia de que os novos homens se fazem a cada momento. revolucionário. 46 ▲ . circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada. Mas a discriminação que tem de ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas. E não vai privilegiar. aos interesses mistificantes. absolutamente instituinte. absolutamente contingente.interesses exploradores. Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto. capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar seu lugar a outras. ele adota as características de um sujeito mais ou menos universal e eterno. transitórias. com as formas de militância. primigênia. com a "maquinaria de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções.se propõe "pegar" um sujeito reprodutivo que é sempre o mesmo. revolucionária. Evidentemente. políticas. em que o desejo se realiza em conexões locais. circunstanciais. pela natureza elementar deste livro. todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que. ele vai privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. a não ser para denunciá-los. e se efetua gerando o novo. processa-se não reproduzindo o instituído. porque as mesmas têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação.

Em muitas passagens. é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção. pela esperança e pelo medo. ou seja. por exemplo. informações erradas ou manipuladas que as classes. Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante. Ademais. É verdade que há uma certa definição de ideologia que a considera como uma série de representações erradas. Por outro lado. pode ficar sincrética ou imprecisa demais. que são ideologias das classes. que são ideologias conservadoras.Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da Psicanálise. Então. existem ideologias revolucionárias. é conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante. afirmava que o povo alemão não estava desinformado. de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela classe dominada. de crenças. dos grupos que procuram uma drástica transformação social. Este é o caso. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de consciência falsa ou distorcida. é modificar essas representações. o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico. de convicções acerca do mundo. de gozo. culturalista ou estrutural-funcionalista. conscientizar acerca do potencial de prazer. talvez estivesse incorretamente informado. que está animada pela ilusão. é educar. os grupos e sujeitos submetem. estudando o movimento nazista da Alemanha. convicções ou expectativas e desejos conscientes. mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras que estavam sendo ditas.se aos interesses das classes dominantes. São crenças. reacionárias. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança. por ignorância. de quando falamos do inconsciente ou do desejo. O contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço teórico algo clássico. apesar de ser contrária aos interesses da maioria. e também 47 ▲ . Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele. positivista. costuma-se dizer que a maneira de reverter essa situação é instruir. A intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos dominantes. é criar outro tipo de expectativa ou vontade. que habitualmente se aborda com o nome de ideologia.

não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um proletariado muito politizado. E, sem d úvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos, desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se consegue dominar os povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise), mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma peculiaridade do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise, o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 48 ▲

do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu rel ato restos da nomenclatura psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função que estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da castração 49 ▲

simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co-protagonizem este processo. Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento, em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os geraram em sua montagem. Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 50 ▲

na educação.). Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito".que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não (ou seja: no trabalho. do acaso e das regularidades na História? 6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 52 ▲ . 51 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Que diferença existe entre História e Historiografia? 2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicossubjetivos e naturais? 3) O que significa Molar e Molecular? 4) O que se entende por produção. na saúde etc. reprodução e antiprodução? 5) Qual é o papel da repetição e da diferença. outras correntes institucionalistas não dizem que o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação revolucionária.

produzem um efeito de convicção na "mente" de quem pretende formar-se como cientista.Capítulo IV O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO Eu dizia. cujas "verdades" freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. O mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do pensamento corrente que. Na realidade. assim como a essência mesma do Movimento. em uma passagem do capítulo anterior. O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito Científico". de "espírito científico" – só pode aceitá-lo como uma metáfora. que não me estranharia que muitos dos conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender. por estarem muito arraigados. em um sentido estrito. se compreenderá que não se pode falar. por outro lado. assim. Esses "vícios" do senso comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos. não se tratava propriamente de Psicanálise e. a predisposição dos 53 ▲ Sé . Bachelard tentava um trabalho epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir.

ou até em uma alusão vaga. neste momento. não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito". defendendo a fertilidade de todos os saberes. alguns termos teóricos que as ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. algo extremada. Finalmente. Em outros casos. mas o faz acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais. o Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria. ainda que invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado e do qual recebe seu valor de origem. ou em uma noção. se considera que. mudam radicalmente de sentido. tem com elas uma relação contraditória. por exemplo. incluídos. Contudo. polimorfa e complexa. ou um outro melhor ainda. de um questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas especificidades. entendendo a singular proposta do lnstitucionalismo. Não ignoro que. No entanto. os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. o Institucionalismo procede adotando algum termo. ainda durante um longo período de sua aprendizagem. sem descartá-las. a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas. por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes. Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em particular passa-se devido ao fato de que. em determinada conjuntura. quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica. podem empregar termos teóricos com acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado. Para concluir. sabemos que essas palavras. devido às deficiências da formação geral e universitária da qual padecemos. os que existem em "estado prático" nas 54 ▲ . semanticamente falando. torna-o revelador. cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão. por sua parte. que comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos"."espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. Cabe aqui lembrar que. As diversas correntes institucionalistas.

). aceitar e entender a polissemia que adquirem semantemas provenientes. para quem se aproxima deste estudo.. assim como por um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista. Agora. mas sim muitas. especialistas de alguma disciplina. os artísticos. religiosas etc. mas justamente porque o são. digamos. Se os profissionais. de certos conceitos. Não nego que algumas ampliações sejam essenciais. está a definição dada a "desejo". O que há como característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições. Imaginem vocês uma coisa como esta. Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões. por exemplo). levaria a outros tantos cursos. que é um composto de todos os saberes de uma época. então a formação de um institucionalista realmente é interminável. ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais-valia. Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 55▲ . inclusive os saberes não-científicos. tendo se tornado descartável como os jogadores de futebol. técnicas. desejo etc. chega-se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil. Por isso. como a Física. muito pouco aprofundada e ambiciosa. pois depois de uma década já não consegue acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se. É o mínimo denominador comum que se consegue encontrar entre as várias tendências. que faz com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos. às vezes é duro. que terá de ser breve. Estou tentando dar um curso introdutório de um saber que não tem limites. desenvolver esses temas. e existem diferenças teóricas. artísticas. entre as muitas diferenças existentes de uma para a outra. da Psicanálise (inconsciente. no caso de eu estar capacitado para fazê-lo. queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber.atividades leigas. os populares. Agora. peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto. metodológicas. políticas entre elas. Estou tentando dar uma visão panorâmica geral.

sendo que o comportamento. em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de Castração. Um exemplo característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de desejo. resultados dessa trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória". de sua tentativa de restauração desse narcisismo inicial. ou seja. Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria predominante à colocada em muitos textos freudianos. e a sublimar. desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos psíquicos da vida organizacional. que procura restaurar. é obrigado a elaborar. da economia. A maioria delas aceita. nessa trajetória. dentro desse campo chamado psiquismo.relativamente autônomo da realidade. Isso. o desejo tem uma natureza conservadora. de um sistema e de processos de caráter inconsciente que considera do campo das causas. ela acaba gerando todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias. persistente. particularmente por certa ordem de representações. que tenta reproduzi-lo. ele parte de uma situação narcisística e tende a voltar a ela. as representações e afetos são do campo dos efeitos deste psiquismo. devido à sua subordinação à ordem simbólica. No entanto. que são rendimentos. a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância determinante. em último termo. embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade. a conduta. as vivências. a existência de um espaço. outros dispositivos. reeditar. particularmente em seus aspectos inconscientes. outras maquinarias do psiquismo. Então. 56 ▲ . que é o desejo. da área dos motores do funcionamento psíquico. como o leitor avaliará. Em que consiste esta definição de desejo? Seria uma força insistente. em que o ego e o objeto são um. um certo estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo. inclui uma definição restitutiva do desejo. que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa instância. assim definida nas organizações. a partir da ruptura desse estado. Muitos institucionalistas compartilham plenamente essa definição de . ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho. usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade. a lei ou a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). surge uma força que seria o desejo.

Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e detalhe. percebe setores da mesma em que essa definição de desejo.da política e das organizações. muito pouco conhecida e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –. mundialmente. cada vez mais amplamente. No entanto. a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo. Entretanto. é Gerard Mendel. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau. e com ele a imobilidade. que explicamos anteriormente. criador de uma corrente institucionalista chamada Sociopsicanálise. processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do desejo que dela emana. porque este é um problema muito atual e de muita disputa teórica. Então. assim como a exclusividade de um modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado imaginário perdido. outros setores do Institucionalismo. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). Estamos assistindo. não é estranho que isto se apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto. existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos. mostra-se característica. unidades vitais. como por exemplo. a macrofísica. mas propiciar. particularmente Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise. estados permanentemente novos. que recolhe a definição de desejo de uma forma menos ortodoxa. 57 ▲ . no qual a pulsão de vida funciona segundo o processo primário. os freudo-marxistas. à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso programa. de forma anárquica. assim como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo. por exemplo. do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada primeira tópica. como a filosofia. levam as proposições freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais. associar. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo.

Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança de paradigma. consiste na promoção de certo poder criativo da desordem. Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. E também não seriam modificáveis 58 ▲ . na defesa da produção. apesar de que Marx nunca negou que a superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. é imanente a outras forças animadoras do social. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente determinada pela atividade econômica. Essa mudança. da vitalidade. por processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra. não podendo ser entendidas dessa maneira. a chamada infra-estrutura determina a superestrutura. em um de seus aspectos. Então.a microfísica. tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. na arte. isto é. as resultantes desse processo complexo não são causadas. que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos produtivos. Bom. mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que. do histórico. Dessa maneira. Marx afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício. em que há os alicerces e há as paredes superiores visíveis. além de tudo. Por isso há uma fórmula na Esquizoanálise. a biologia molecular e certos campos das ciências formais. O desejo não tem caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo-revolucionário – e não é uma força separada das que animam a vida social e natural. Deleuze e Guattari. e ainda no discurso delirante. também apoiados na literatura. que seriam a pulsão e o desejo. exclusivamente pelo econômico. na reivindicação da neguentropia. constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o psiquismo. do natural. de forma alguma. Assim. inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância. por exemplo a matemática de Rieman. Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção. que afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. ou tendência à autopoiese. dita no sentido amplo.

Por exemplo. mas todas elas têm em comum a insistência em não separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas. O lnstitucionalisrno. e sim mediatizado por aqueles.exclusivamente a partir do econômico. de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras são superpostas ou imanentes entre si. Louis Althusser. Um de seus seguidores. de registro e de consumo. para que o modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. Althusser a denominou sobredeterminação. Essa é a determinação complexa pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. não é uma teoria da sociedade formada por três subconjuntos que. o sistema. técnicas. um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana. políticos. funciona interpenetrado. em alguns de seus ramos. A instância chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção. tem muito em comum com a proposta althusseriana. semióticos e naturais e estão ordenados em três superfícies: de produção. utilizando outro modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente intersecionados. Existem outras teorias da causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas. Mas o conjunto total. A instância decisória é a fundamental no processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva. formam o conjunto total. mas não exclusivamente. por sua vez. mas uma sociedade reticular formada por uma grade aberta. econômicos. uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente psíquicos. 59 ▲ . em que ld. diversificado e sobredeterminado". que Althusser chama "todo complexo articulado. no caso de Deleuze e Guattari. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade social. políticas. O determinante em última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos efeitos econômico-sociais. de maneira tal que haverá um determinante em última instância. naturais etc. Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no psiquismo: atos. formações do inconsciente etc. tecnológicos. que em todos os modos de produção é o econômico. à medida que adota essa idéia de sobredeterminação.

ou da múltipla escolha para o processo de seleção. concretamente. uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de produção no curso da história. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde pequeno até amplíssimo. O máximo que se consegue delimitar são campos de análise organizacionais. implica um processo de compreensão. É claro que o campo de intervenção é.Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo. Campos de grande porte poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau. porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a nível nacional continental ou planetário. logísticas. que em qualquer corrente de Institucionalismo. Esses campos de análise são terrivelmente amplos. suas causas. o primeiro a ser abordado será o conceito de campo de análise. para saber como funciona. Outra coisa é o campo de intervenção. Isso significa delimitar um objeto ou um campo e aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo. como uma análise do significado da festa no Brasil ou uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru. Esse objeto pode estar constituído por materiais. 60 ▲ . o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". ou o funcionamento dos programas de estudo no vestibular. E óbvio. por exemplo. como estão colocadas e articuladas suas determinações. muito heterogêneos – por exemplo. que se chama "Contratempo". em geral. Mas podem ocorrer campos de análise infinitamente menores. o espaço delimitado para planejar estratégias. que é o "recorte". e isso dará um estudo como aquele no qual participou recentemente Guattari. desde um estabelecimento até. técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente. como se geram seus efeitos etc. infinitamente menor que o campo de análise. Isso ainda não implica necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado. que se chama "O Estado e o Inconsciente". táticas. as principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –. Por isso denomina-se campo de análise. também. de inteligência dos determinantes desse campo. nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos sujeitos a nível inconsciente.

Em geral quando os dois campos se constituem.a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. Só que um campo de análise é pensável sem intervenção. que também temos de tratar sinteticamente. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar. de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta. eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí. a proposição direta ou indireta dos serviços que a organização analítica faz e que não pode não ser causante. deliberados. a divulgação científica ou não-científica. a compreensão de como a organização analítica gerou esta demanda. e à medida que se intervém. O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda. antes. mas um campo de intervenção é impensável sem um campo de análise. desde o princípio. Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de Análise Institucional. mas não se pode intervir sem alguma forma de compreensão. que é um dos primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva. e está marcada . voluntários deste pedido. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a expressão do desejo. incluir a auto-análise. A demanda não existe por si. analisar. particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa. esmiuçar o pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. por esta oferta. De modo que para compreender a demanda de análise institucional de uma organização é necessário. Para dizê-la provisoriamente: quais são os aspectos conscientes. e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. a demanda não é o primeiro passo de um processo: ela é produzida. modulada. Mas acontece que. eles estão articulados entre si: à medida que se compreende. para fazê-lo. 61 ▲ . que essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise. ou que relação existe entre a publicidade. Pode-se compreender e não intervir. se compreende. A isso chamam análise de demanda. geradora ou moduladora da demanda de serviços que lhe é formulada. cujos autores mais notórios são Lourau. determinada. em que radica a problemática desta organização solicitante. se intervém. manifestos. o Institucionalismo enfatiza a necessidade de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea.

um severo processo de auto-análise de como produzir a oferta de seus trabalhos. você não entende. no meu modo de ver. está "por trás" de toda oferta de prestação de serviços e. tem uma fórmula que não explica todas as situações. também de bens materiais. esta análise deve ser articulada com a forma em que foi produzida. vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização." Essa mensagem subjaz. atos falhos. tão sutil. formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles fenômenos. quando essa oferta gera uma demanda. então. para poder dar o primeiro passo em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-. sejam eles pontuais ou mais amplos. Mas juntos é que vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. chistes. intervinda. com a oferta. que consiste aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e. ou seja. provavelmente. Quem demanda. lapsus linguae. uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. e a organização analisada. interveniente. além disso. e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações. Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade. Entre a organização analisante.Um institucionalista muito respeitável e. como sonhos. demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. concebeu o conceito de derivados do inconsciente. ela não pode estar modulada senão pela própria oferta. Então. Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. A Psicanálise já classicamente. que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta para ser analisado. não são efeitos exclusivamente 62 ▲ . que é o verdadeiro objeto de análise. formações do inconsciente. o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque. delírios. o coletivo prestador de serviço. Não existe aqui. Isso exige por parte do coletivo analisante. injustamente pouco conhecido. mas que é muito ilustrativa. não sabe em que consiste. tão técnica. sintomas. Portanto. Mas é tão complexa. que ele não sabe o que é.

Não são dados claramente efetuados pelo superego. os efeitos verbais. o organograma. E é claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional.conscientes. mas pode ser um monumento. E podem ser os relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas. a maneira como está organizada a memória de uma organização. nos questionários ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. a couraça caracterológica também são considerados formações do inconsciente. Isso é claro. em análise institucional. etc. nem exclusivamente inconscientes. os rituais. absolutamente. Por isso é que se chamam. só que a Psicanálise tem uma persistente predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações do inconsciente. e a. São fenômenos resultantes de uma combinação. E essa é a primeira diferença. pode ser um arquivo. a carta de princípios. nem uma lei. pode ser um costume e não uma norma. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador. as atitudes corporais. de uma mistura. na aparência desses fenômenos. nem exclusivamente pré-conscientes. subordinar os outros à compreensão verbal. um analisador não é necessariamente um discurso. isto é. segundo uma das denominações. exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito. pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas instâncias. ou seja. é um efeito ou fenômeno formalmente parecido com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. a forma como está elaborada a planta arquitetônica da organização. Por exemplo. Os mitos. manifestá-la. Um analisador não é assim. pode ser uma característica dos modos de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma. da sexualidade. denunciá-la. o uso do dinheiro. Mas as diferenças são as seguintes: Primeira: na materialidade fenomênica. os regulamentos. O analisador. porque sabemos que em Psicanálise os comportamentos. do lazer. o fluxograma etc. a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. 63 ▲ . efeitos transacionais ou formações transacionais. ou seja. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica. nem pelo ego ou o id. pelo menos fenomênica ou técnica. do domínio e o cuidado de si. não se privilegiam. Então. Não é que em Psicanálise não o seja. os estatutos.

Mas podem haver pequenos analisadores. introduzem 64 ▲ - . Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção do analista). realmente. sendo assumido por seus protagonistas. declarar. não apenas é capaz de enunciar. porque analisadores naturais são os terremotos. E dessa maneira. existem os chamados analisadores naturais – que é uma expressão inadequada. que foi marcar o fim do feudalismo e o início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. manifestar. pelo menos nos seus aspectos geológicos. revolução burguesa. mas também de se compreender. Um grande analisador é a Revolução Francesa. "Natural" quer dizer espontâneo. para começar o processo de seu próprio esclarecimento. Nesse sentido. ou seja. e. Um analisador é um produto que pode se auto-analisar. a definição correta é dizer que são analisadores históricos. um determinado acidente numa usina atômica (geograficamente pequeno. evidenciar. porque espontâneos todos são. de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade.Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir. por exemplo. não está preparada para isso. acumulação de capital mercantil e usurário etc. Só que esse analisador. que a própria vida históricosocial-natural os produz por conta própria como resultado de suas determinações. produto de determinados encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média. este tipo de fenômeno. Então. ele não precisa ser analisado de fora. tem a possibilidade de não apenas manifestar-se. denunciar. pelo menos) etc. a análise institucional nunca conseguiu compreender. ele predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se. que também é uma má expressão. colocado em condições propícias. Existem grandes analisa dores e pequenos analisadores. E existem analisadores artificiais ou construídos. como também de resolver a situação da qual ele é emergente. que são dispositivos que os analistas institucionais inventam. e esses podem ser um conflito dentro da organização. como todo mundo sabe. ou seja. Isto não é fácil de ser explicado. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu próprio processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro de certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico.

A implicação se define como o processo que acontece na organização de analistas institucionais. político. pois é prévia a este contato. 65 ▲ . e na análise institucional a implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente. É. é o contrário de uma análise "objetiva". na equipe de análise institucional. os retomaremos na exposição correspondente aos itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica. Insistiremos uma vez mais em que estas definições. da interpenetração destas duas organizações. é simultâneo e é parte indissolúvel do processo de análise da organização. O passo seguinte será falar da análise da implicação. como está claro nas ciências físicas. lógico. não começa no usuário: é recíproco. de alguma forma. Em continuação. a análise da interação. uma análise variável da relação entre o sujeito e o "objeto". experimental. antropológico e manobras do tipo" convivência prolongada". que denominamos standard . veremos rapidamente alguns termos. não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com seu objeto. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica. de sua interseção com a organização analisada. intervinda. sendo que. político. psíquico heterogêneo por natureza. mas um processo de materialidade múltipla. montagens de tipo propriamente científico. Poderse-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. ou seja. produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana. que deve ser analisado em todas as dimensões. sociológico. dramático. cenográfico. um processo econômico. complexa e sobredeterminada. a raiz de seu contato. Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta.nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos mesmos. E não é apenas reativo. ou seja. se valem de todo e qualquer recurso. Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai estudar. procedimentos de tipo ativista. ao nível de produção de analisa dores construídos. cuja finalidade é basicamente transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento. Só que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material do paciente produz no analista. seja de tipo artístico.

cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão. O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado. estabelecimentos. segregacionistas ou punitivas (como por exemplo. forma etc. Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião. teatro ou nas artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" sociais. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento. Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente. de alguma maneira. do registro ou do controle social. De um dispositivo pode. As mesmas estão armadas com sentidos diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores. dizer-se que é o contrário de um equipamento. Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia. além do mais.seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. tecnológicos e até subjetivos. em articulação com os quais adquirem seus significados prevalecentes. Estes cumprem funções eliminatórias. as Forças Armadas. da Comunicação de massas ou a Família). Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções. No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações. mais ou menos sistemáticos. Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função. de grande. médio ou pequeno porte. ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico. estrutura. a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). a Polícia. naturais. maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos. que sua condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade. da Educação. sempre simultâneo a sua formação e sempre 66 ▲ . artificialmente extraídas dos contextos teóricos. aparatos. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista chamava de "aparatos". assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. enfatizando.

analisa dores. um pensador original e libertário. da vida. Nesse sentido é óbvio que os dispositivos. ele os inclui. Por último. reprodução e antiprodução. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem. com o instituinte-organizante. assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura. do desejo. estratégia. táticas. do novo.a serviço da produção. Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção. processos. um descobrimento científico. Um grupo político sujeito (quer dizer. têm a ver com a transversalidade (conceito que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e. revolucionários e transformadores. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona. uma obra artística. assim. antecipar. os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações. digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou sujeitos. Um dispositivo em geral não respeita. pelo contrário. dispositivos da área ou organização intervinda. equipamentos. linhas de fuga. técnicas: Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível. também chamados agenciamentos. conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. tais como contrato. o que se denomina linhas de fuga do desejo. organizar. magnitudes de produção. contradições principais e secundárias. gerando acontecimentos insólitos. têm a peculiaridade de nascer. 67 ▲ . planejar. num sentido restrito. dinâmica. logística. opositivas e antagônicas. defesas. os faz explodirem e os atravessa. acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. territórios. O diagnóstico é importante para justamente instituir. operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. conflitos. um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo. Gera. que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário). mecanismos. decidir os passos que comentaremos em seguida. da produção e da liberdade. potências. os territórios estabelecidos e os meios consagrados. poderes. para sua montagem e funcionamento.

simpatizantes. dos espaços e territórios que se colocarão. mar ou ar. tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego. serviço profissional independente. assim como a progressão das manobras. delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. simplesmente. de que se dispõe ao começar uma intervenção. mas com certos segmentos do mesmo. solidariedade militante etc. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção como serviço deflagra. A estes acordos costuma-se denominar contrato. avanços. são analisadores. punitiva ou de extermínio parcial. convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações. emergentes da problemática a ser pesquisada. dinheiro. se essa guerra se dará por terra. pactos. elementos.Os institucionalistas. objetivos. quer dizer. habilidades. com que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidades de realização. 68 ▲ . Os diversos aspectos do contrato: tempo. promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. retrocessos etc. expectativas. A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo). Como veremos. Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças. contratantes. Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. freqüência dos trabalhos). Por outro lado. As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia.) que fundamenta o contrato. é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo. para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções. alternativas. com os coletivos de usuários "clientes". estabelecimentos ou. quais serão os aliados. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. de fronteiras. Para dar um exemplo bélico. opções. Trata principalmente de tempo (duração total. recursos etc. precisam fazer acordos. totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação. honorários ou outro tipo de retribuição. a previsão de vicissitudes.

será ditada pela inspiração e o treinamento. Quer dizer. Procedimentos interpretativos. desportivos. estratégia geral e primeiras táticas. No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística. de sensibilização. de expressão. uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios. o horário. de discussão. à área onde se desenvolvem. sem tomá-las ao pé da letra. à participação da infantaria. cavalaria. estratégia. informativos. desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no lnstitucionalismo? 2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 4) O que é análise da implicação? 5) O que são: analisador. logística. prosseguindo com a metáfora. lúdicos. equipamento. táticas e técnicas? 70 ▲ .neutros e inimigos etc. assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora. agenciamentos artísticos. granadas etc. 69 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Qual é o sentido dos termos sujeito. enquanto já se têm. É interessante enfatizar drasticamente que no Institucionalismo. morteiros. a eleição de técnicas é consideravelmente livre. As técnicas. baseados nisso. dispositivo. convivenciais. praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. As táticas referem-se a batalhas circunscritas. esboços de uma logística. esclarecedores. objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades do coletivo em pauta. os movimentos de tropas etc. aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis. a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção.

com certos matizes diferenciais entre elas. São também as mais difundidas. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. poderíamos dizer. assim. Terei de ser muito esquemático. é politicamente moderada. Então. mais ativas. Produz. mas são as que mais notoriedade têm atingido. nem necessariamente as mais importantes. que podemos tratar de caracterizar nesta exposição. existe uma graduação à medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. são propostas políticas mais subversivas. digamos. particularmente aqui no Brasil. mais enérgicas. políticos. uma forma de abordagem das organizações e das instituições que.Capítulo V AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas. contar com certo conhecimento de 71▲ . de graduação entre essas três tendências. Em termos. Tentarei uma espécie discutível de classificação. se é que tal termo exprime alguma coisa. eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –. eu diria.

tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo uma das séries: a série disposicional. mas. isto é. na constituição do psiquismo. de educação. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias adquirem retroativamente sentidos morais.Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar isto de forma breve. Essas séries denominam-se complementares. duas séries assim chamadas: a série disposicional e a série desencadeante. grupos de jogos. ou seja. de estudo. introduzindo-os nesta teoria. e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. continuam sucessivas incursões nas atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da outra. metodologia e técnica sociopsicanalíticas. no seu percurso e desenvolvimento. Freud criou também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". de criação e de transformação. A série disposicional é composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados por seus progenitores. Nesta teoria distinguem-se. Acrescente-se a isso as experiências da infância precoce. com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de idade). Então. intensamente pressionantes para o 72 ▲ . Ela se ocupa da psicopatologia com uma expectativa de cura. adquire contato com os grupos chamados secundários. Em seguida. mais as correspondentes ao parto e primeira infância. o sujeito se incorpora plenamente à vida social. tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries. Tudo que acontece na vida psíquica. A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação. grupos sociáveis no sentido amplo. Algumas dessas situações são altamente tensionantes. Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de movimentos e de adaptações. pelos sujeitos psíquicos que o geraram. Suas representações são secundariamente recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a chamada latência. Seu Superego está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de significações.

gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de fixação. elaborar – ou não – o chamado Complexo de Édipo. em sintomas. pode efetuar-se em comportamentos ativamente adaptativos. resolver. e experiências daquilo que em Psicanálise se chama castração. concretas. faltas diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos diferentes. sublimatórios. ao passo que a frustração é um desengano de amor. durante sua primeira infância. sociopsicanaliticamente falando. Logicamente. e as configurações da série desencadeante – que podem gerar patologia. cada sujeito é singular. são exigências diferentes. constituída pelas situações da vida. atuam em conjunto. experiências de privação. então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". quando a série desencadeante atua sobre a disposicional. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre determinada série disposicional). não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional diferente). No entanto. que constitui o núcleo central de sua série disposicional. pode resultar numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta articulação entre a série disposicional e a série desencadeante. poderíamos resumir esses três 73 ▲ . De um ponto de vista mais amplo. a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar. ou pode ser causante de processos patológicos. privação e castração existem diferenças. de universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia em geral. castração refere-se a um tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo). em geral.psiquismo. atua sobre a série disposicional que o sujeito traz. E isso resultará na doença psíquica. Essas são experiências de frustração. Se não resolver. arcaica. Privação refere-se à falta de subsídios para necessidades biológicas. Elas. é importante assinalar que entre frustração. Então. e isto é que vai resultar no retorno do recalcado como sintoma. Quando a série dessas experiências. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária. único. irrepetível. Ou seja. Outra forma de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu. atuando sobre a série disposicional – são totalmente variáveis. Apesar de não podermos desenvolver agora.

tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menosvalia, exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa. Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto "pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar-se, que estabelecer uma aliança entre si para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento, 74 ▲

através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e outras formas de comunicação inter-humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar 75 ▲

a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um se tor da humanidade por outro. Isso faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de seu trabalho não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 76 ▲

Então. quando se estava construindo sua série disposicional. nos âmbitos de trabalho. adequada às circunstâncias concretas que os rodeiam. é fácil ver que esses conjuntos vivenciam. ou seja. Por isso. um processo regressivo. Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de retificação com o real. entendendo o trabalho num sentido muito amplo.humanidade que trabalha. ou seja. Para Mendel. incidindo sobre a série disposicional de cada um deles. de mil maneiras diferentes. comercial. O que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas organizações de trabalho. não apenas produção de bens de consumo. eles vão viver a situação de trabalho. mas da ordem coletiva. Só que esta regressão não deve ser pensada como sendo da ordem individual. e assim por diante. chamado funcionamento psico-familiar. médico. E as figuras determinantes reais dessa situação atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua situação familiar. não apenas trabalho industrial. essa experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado no capitalismo. ou seja. com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. que é no lugar de produção. se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja). Esta experiência de impotência gera uma regressão do psico-institucional ao psico-familiar. Em 77 ▲ . não desfrute dos resultados deste esforço. recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida simbólica. Ou seja. no sentido em que os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual já passaram. a regressão que se produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou psico-institucional a um outro. as vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas acontecem. E essa experiência de impotência gera neles. Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam parte dessas organizações. mas também trabalho escolar. o lugar onde deve ser estudada a experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar natural" em que os homens se associam para exercer sua potência. o que Mendel vai afirmar é que. a situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. mas também produção de serviços.

feito em colaboração com uma equipe interveniente. que se tem perdido devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar. familiar. em que. delírios. com pontos de vista e postulações perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. se isso está mais ou menos entendido. enfim. uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer dizer. como acontecia na sua infância. e não tinham outra forma de solucionar essa situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. Lapassade e seus companheiros – que são. Devido a essa regressão que mencionamos. como já dissemos. que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica e obter a compreensão da regressão que os afeta. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas. desconhecendo. objetivamente. A metodologia de intervenção conserva muitas das características da intervenção psicanalítica. reagirão de uma maneira irreal e fantástica. atuações. eles são os produtores da riqueza. mas coletivo. chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária. eles eram pequenos. Agora resumiremos a posição de Lourau. mas exige um movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível. imaginárias. a proposta de Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise. sós e impotentes. somatizações. como tudo quanto constitui a patologia biopsico-social. como sintomas. afinal de contas. recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional. não totalizável – de 78 ▲ . pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise Institucional. e também se refugia no mundo da fantasia. o coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica. que estão negando. senão os criadores exclusivos. sobretudo o recurso interpretativo. É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual. Então. e não passa exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas.conseqüência. porque. Tentando outra vez uma síntese. para poder ter de novo um acesso ao real atual. digamos o seguinte: Para a Análise Institucional. que por tratar de ser clara pode resultar empobrecedora. inibições. Este processo opera teoricamente. Dessa maneira. eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio.

tendese a atribuir-lhe funções inteiramente claras. também tem uma relação. segundo sua amplitude. indiferentes. quer dizer. que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas. atribuindo-lhes valores e decisões. indispensáveis. ou podem ainda operar como costumes. indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. uma modalidade particular do matrimônio poligâmico. outras proscritas (proibidas). A Análise Institucional não é. é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais. ocultam funcionamentos divergentes. eficientes e em geral consideradas necessárias. Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição. usuários e práticas.instituições. ainda. como hábitos não-explicitados. ainda que seja de maneira aberta. como por exemplo. algumas prescritas (indicadas). agentes. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de comportamentos humanos aos quais classifica e divide. cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. então. essas entidades. uma norma universal (digamos as relações de parentesco). ou seja. a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam. em normas escritas ou discursivamente transmitidas. Em palavras diferentes. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis. úteis etc. e essa ausência é registrada como um não-saber. podem ser: organizações. contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em que. As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou "corporificadas" que. com referência aos outros e em relação ao sistema global que as instituições integram e que. as engloba. Cada instituição é universal. como dizíamos. ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norteamericanos. outras apenas permitidas e algumas.de negatividade consigo mesmo. um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia dar conta de todos estes 79 ▲ . tanto para o saber espontâneo de seus agentes sociais quanto para os experts que as descrevem. Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si mesma). estabelecimentos. Assim consideradas.

a Análise Institucional parte da idéia de que. classicamente. dos objetivos da vida. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de trabalho". dos valores. Isso gera. porque quem é o proprietário dos meios de produção. Por exemplo. É o que o Marxismo chamava. entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações. positivando de uma vez por todas o tecido social. no caso das organizações do trabalho. o fato. dos meios de decisão. É vítima. Esse poder é entendido como a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados. Ela 80 ▲ . em todas as organizações. E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. esse mesmo processo de impotência. Isto é. em parte. que o mesmo Marxismo não sabe decifrar. desconhecer os principais vetores que ordenam a organização na qual está inserida. ao qual se referia Mendel. Mas. devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho".desconhecimentos. no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando. também é proprietário de um saber. existe nas organizações. Pelo contrário: t rata-se de uma investigação permanente. é um desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e organizações. é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. digamos assim. Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia. da classe institucional trabalhadora. com as classes dominantes. como diria Mendel. de Ideologia. sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a negatividade operam em cada conjuntura. do sentido da existência e uma definição da função das organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder. cada coletivo de uma organização está alienado no não-saber. em parte. tanto nas suas bases como nos estratos que lhe são próximos. ela considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar mercadorias (e não a gerar bens de uso). uma noção do processo de trabalho. é vítima de um processo de doutrinamento ativo por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo. ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia de Estado. das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. de um desconhecimento que.

na modernidade. Isso constitui parte do não-dito institucional. de impotência. por exemplo. E não teria de ser assim. são vivências sofridas. incomunicabilidade.considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior saber dá. arbitrariedades que as classes dominantes da organização costumavam. tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de respostas individualistas. Mas a divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. Mas os que podem delimitar-se com maior freqüência são. ou Relações Humanas –. solucionar drasticamente. conflitos. são acontecimentos mais ou menos explosivos. Então as classes e grupos dominantes. o analisador "prestígio". da tóxico-dependência. que geram essa experiência de impotência. o analisador "sexo". monstruosas. com medidas disciplinares. "naturalmente". brigas. Em um sentido amplo. o não-dito compreende a relação de não-saber que cada momento da instituição guarda com respeito ao outro e o não-saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. Então. o analisa dor "dinheiro". uma posição de maior poder. ou Relações Públicas. descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – Recursos Humanos. desordenadas ou autodestrutivas. e ainda costumam. forçosamente. como já dissemos anteriormente. São fenômenos conflitivos. trata-se de criar um dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos de mal-estar. o analisador "poder". de acidentes de trabalho. como o da diminuição da produção. Esses analisadores são muitos. ou Psicologia Organizacional. Então. mas também uma série de relações humanas distorcidas. de conflito. que se destina a transformar toda essa problemática em uma 81 ▲ . outros são construídos pelos interventores institucionais. rebeldia e revolta estéril. incidência do alcoolismo. Alguns deles são" espontâneos". são lugares de atrito que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por aqueles que o produzem. E assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz c oincidir com uma divisão social. essas contradições vão estourar em fenômenos como o do absenteísmo. de disfunção que aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho.

é parecido com o de Mendel. E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando. ou seja. esses fenômenos. a recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo. dessa maneira. Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do trabalho. tanto do não-saber das contradições da estrutura e da função do sistema. e descubra a maneira como esses efeitos antiprodutivos são a expressão. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a autogestão. Trata-se de criar condições para que possam. Então.simples questão de negociação ou comunicação. vai ser ocasião de poder analisar também os seus próprios conflitos da mesma natureza. Finalmente. correlacionar esses analisa dores com suas causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar esses fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si mesmo. negociando ou vivenciando. de dissociação – não a diferenciação técnica. que é necessária-. na qual vão poder analisar os fenômenos de alienação de uma e de outra. Em todos os dois há certa semelhança. mas sem sair da lógica do sistema. Trata-se de colocar os quadros em contato para que solucionem esse assunto conversando. das forças subversivas. de imposição. como um desvio das forças críticas. O objetivo. relaxando-se. eliminando as situações de burocracia. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta. cabe 82 ▲ . pode-se ver. a isso se chama "implicação". que vai tentar deflagrar na organização intervinda. das forças revolucionárias. mas nas formas peculiares que este adquire em seu caso singular. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico-Socioanálise. exaustivamente. a equipe interveniente também vai integrar-se com a organização intervinda numa organização compartilhada. De modo que esse processo autogestivo e autoanalítico. mas também diferenças. mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. a conseqüência. sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são as causadoras dessa problemática.

a um sindicato. apesar de uma vocação militante que têm no seu trabalho. não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica dos experts profissionais. quando se opera no seio de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva generalizada de uma sociedade inteira. todo um processo de diagnóstico. hospital. trabalha em muitos lugares do mundo. Pode-se. Isto é. como prestação de serviço profissional. é geralmente um serviço apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado. então. de sua enérgica vocação revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos tradicionais. não deixam de ser experts. não deixam de ser técnicos. quando se pratica sobre uma organização circunscrita. o requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico. tempo e demais coisas. Então. quartel etc. convento. na qual se discutem honorários. em última instância – apesar de sua franca inspiração libertária. entre a organização solicitante e a organização solicitada. que são muito 83 ▲ . que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional. científicos.esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio". trata se de uma prestação profissional de serviço. dentro de um marco mais ou menos convencional. Isso gera. apesar da rigorosa autocrítica que exercitam. Isso. Por exemplo: o grupo de Mendel. prognóstico e indicação. Além disso. ou seja. se denomina" autogestão a frio". e um contrato de trabalho. os sociopsicanalistas e os analistas institucionais. apesar de todas as ressalvas. mas tem uma espécie de central em Paris. ir até lá e solicitar seus serviços. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau. Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. é feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo organizado. ou "a quente". que se chama Degenettes. Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. a demanda. com uma conflitiva mais ou menos moderada. fábrica. Isto é. como já dissemos. tratando de caracterizar algumas diferenças essenciais. a uma escola. auto críticas e análise da implicação. enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou menos generalizada.

uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe. todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo. Então.a invenção de uma metodologia e de técnicas. são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a alienação e propiciar.sofisticadas e complicadas. Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina. mas basicamente como uma nova forma de pensar. Não é necessariamente uma atividade coletiva. e que não podem ser sistematizadas 84 ▲ . Para ela. naturalmente. as sentimentais. mas que pode ser um trabalho feito por um sujeito sobre si mesmo. a compreensão de como as determinações alienantes do sistema. necessariamente. e protagonizado por qualquer pessoa que tenha. Não é. per se. uma relação de contratação. essa prestação de serviços convencionais. desempenhada por experts nem por profissionais. Não implica um lugar nem tempo determinado. ou seja. as artísticas. estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais. Mas que tem também um aspecto analítico. pela exploração e pela mistificação. Propõe algo assim como um processo de análise permanente. em qualquer momento. Eu diria que de Mendel a Deleuze e Guattari existe. as relações com os outros e as relações conosco mesmos. um modo de ser. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. as econômicas. necessariamente. ou uma maneira de viver. as afetivas. presente por toda parte. interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a precederam. as políticas. que não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. responsáveis pela dominação. Não implica. A Esquizoanálise pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer lugar. senão que pode ser dual ou individual. Além disso. táticas e estratégias absolutamente singulares para cada caso. para se aproximar muito mais do Anarquismo. politicamente. para cada situação. digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a de Mendel. generalizado e ubíquo. indispensavelmente. Sequer implica um trabalho de um agente sobre um usuário.

como. nem como ideologia. mas não é um inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o não-dito e não-sabido. eu poderia dizer. uma ideologia. já forma como que uma terceira natureza. uma crença? A rigor. aquela das máquinas desejantes. da vida. são as mais amadurecidas de sua obra.nem transladadas para outra oportunidade. que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari. por referência não apenas à instituição familiar. da história. segundo uma epistemologia clássica. a coisa já muda radicalmente. como uma proposta radicalmente nova. que pretende ser um novo gênero. poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia. senão à do dinheiro e outras. não enquadrável. na nossa opinião não se trata de filosofia. embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional. se perguntaram qual é a definição de desejo em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. nem como uma ciência. a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais. a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica. eletrônicas etc. É alguma coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo. Para Deleuze e Guattari. porque eles consideram a definição freudiana do desejo. do psiquismo. Em Deleuze e Guattari. a participação do desejo. Não lhe interessa. entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. Então. mas para eles a questão se altera por completo. ele não dá muita ênfase a essa categoria e a esse conceito. mas. podemos dizer que existe a "natureza ecológica". na versão dos autores. é uma doutrina. se aceitamos que na civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas. da vida organizacional. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta pobre: em Mendel. Para Freud. é rigorosamente freudiana: é a que Freud dá nas formas que. elétricas. a concepção do desejo. particularmente. o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo. mas é uma força pertencente a esse domínio. Inclusive. não se trata de 85 ▲ . apesar de um de seus produtores ser considerado o maior filósofo contemporâneo. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas. por exemplo. a "natureza humana". a "natureza social". só que essa esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes.

tal conceito não consegue englobar todas as formas de produção possíveis. em Mendel. porque as representações não interessam tanto quanto as forças. especificamente psíquico. o desejo é. que são imanentes entre si. por exemplo. digamos que. de uma natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção. incluída a psíquica. e tenta esterilmente repetir um estado anterior –. do desejo e da diferença. deflagrar a potência da produção. o que se tem de fazer é liberar. que só precisa ser veiculada. que abrange todas as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis. a produção e o desejo são uma e a mesma coisa. os sujeitos possam controlá-los. propiciar. segundo as características do processo primário. uma vez interpretados. se tomamos o conceito freudiano de desejo – ele. por exemplo. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles supõem. a realidade está composta por 86 ▲ . A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. para concluir. ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária. enquanto em Deleuze e Guattari. Então. para eles o desejo não é restitutivo. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar. é restitutivo. Mais ou menos essas são as diferenças. mas é também produção desejante. como dizíamos. Ou seja. Não a produtividade. Para Deleuze e Guattari. e com essa característica de gerar sempre o diferente e em todas as atividades possíveis. no caso de Mendel. mas a produção como processo de geração constante do novo. Ao passo que. dominá-los e utilizá-los no sentido de ganhar uma margem de poder possível. no nível molecular. que é a produção já deformada pelo capitalismo. eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção. é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados.domínios nem de esferas separadas. liberada de suas constrições. Baseando-nos nelas. é o produzir. isoladas entre si. Equivale a dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social. É a mesma natureza com uma diferença de regime. vai-se gerar uma nova categoria de produção. Para quê? Para que. esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de desejo. do real natural e do real maquínico – é a produção. o desejo é produtivo. A produção não é apenas produção mecânica social ou natural. do real psíquico. mas entre suas formas molares.

dinheiro. Superfície de Registro = Númen. Superfície de Consumo = Voluptas. Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante-revolucionários gerados por encontros ao acaso das intensidades. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção = Libido. enquanto que. o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídosórganizados: Estado. será respectivamente o Corpo da Terra. mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário. bancos. geradoras de tudo quanto é novo. do Déspota ou do Capital-Dinheiro. os códigos. Na Superfície de Registro. O nível de funcionamento da Superfície de Produção é submicroscópico ou molecular. representações e estruturas edipianas). empresas. em condições desfavoráveis. Em si mesmo o Corpo sem Órgãos é o grau zero de Intensidades. os indivíduos. Igreja. organismos. 87 ▲ . ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. as Intensidades circulam por ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas. O Corpo sem Órgãos torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que. sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. segundo se trate das formações primitivas. É o lugar das identidades e dos controles e da repressão generalizada. compõe-se de matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo. ou máquinas desejantes. ou seja. integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas Máquinas Desejantes. quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam. A Superfície de Produção está. são capazes de desestruturar os estratos e territórios da Superfície de Registro. desejante-produtivo. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia. A este nível cristalizam-se em territórios. os sujeitos. Também a ele pertencem as pessoas. O Corpo sem Órgãos assim povoado se transforma numa Nova Terra.três superfícies imanentes entre si: a da Produção. por sua vez. pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e levar à morte ou à demência. asiáticas ou capitalistas. a do RegistroControle_e a do ConsumoConsumação.

Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular. assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. sugiro consultar o glossário deste livro. um pólo paranóide (capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário). Para tentar enriquecer um pouco essas definições. Como se vê. a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo? 89 ▲ .propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em novidades radicais. 88 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 4) Qual ê a relação entre estas três tendências. apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria torna impossível defini-los em detalhe.

Capítulo VI ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard. Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de um campo de análise e um campo de intervenção. mencionar algumas delas. eu gostaria de fazer uma breve classificação – que. pode ser contemporâneo. a mais habitual. permanece nas pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste tipo de serviço. Mas 90 ▲ . porque quando não fica claro. passado ou futuro. isto é. a mais corriqueira. pois me parece que. é evidente que o campo de análise consiste apenas num espaço conceitual ou nocional. Em outras palavras. Então eu gostaria de. É um assunto importante. seguramente. metodológica e tecnicamente. é uma questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos. a mais conspícua. Esse tema pode ser abstrato ou concreto. Antes de começar. é um tema do qual o institucionalista quer se ocupar. no entanto. E pode ser muito vasto ou mais restrito. pelo menos. será muito incompleta e esquemática – de algumas formas diferentes de intervenção.

que é interna à organização na qual se vai intervir. digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade. pois. convencionais. 91 ▲ . fabril. um departamento de Análise lnstitucional numa universidade. na condição de sociedade cientifica – uma sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos. por exemplo. do departamento de Recursos Humanos de uma empresa. por exemplo. uma indústria. com o campo de intervenção. Ou seja. É o famoso caso. e resolver estudar o processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil. habituais. escolhida como campo de intervenção. isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente histórico-social. pode-se escolher como campo concreto de intervenção uma fábrica. Agora. como já foi dito. envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar entendê-lo . é o exercício oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados. que tem de fazer uma intervenção dentro de sua empresa mesma. no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica. o campo de intervenção. para poder saber como funciona essa organização concreta. É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo. um instituto de Análise Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma microempresa. porque se pode entender sem intervir. Partindo. por exemplo. Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que integra. mas não se pode intervir sem entender. dentro do panorama social. Mas pode-se delimitar um campo de análise que não compreenda unicamente o entendimento dessa fábrica. em termos empíricos. O campo de análise pode não coincidir.é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica necessariamen te uma intervenção técnica. dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção. Uma modalidade de intervenção – aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard . tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas. pressupõe um campo de análise. Aliás. embora durante a intervenção iremos entendendo cada vez mais.

Então. isto é. é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo na convivência cotidiana. e o faz sob um rótulo. com os filhos. em que ninguém sabe que seja institucionalista. com os adversários. com os companheiros. tem institucionalistas que são militantes formais. na condição de qualquer outra coisa que faça parte dos papéis formais existentes nessa organização. em todo caso. dentro de seu papel de morador. é o caso de um sindicato ou de um partido político que. nem se infiltra sob outra condição não formal. Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização. em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico". é um próximo que. pratica o Institucionalismo com sua mulher. contanto que seja considerado corno parte da vida militante. Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre. de um morador numa associação de bairro. sem dúvida. nem é solicitado corno tal. nos seus quadros. que acabamos de expor. limitado. mas que não seja o de institucionalista. vive dessa maneira. mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas. então. trabalho esse que pode ser ou não pago. esse sindicato ou esse partido político pede a seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor. convive dessa forma e.ou um departamento de acompan hamento institucional de urna universidade. é um acordo muito definido. por exemplo. que consiste numa variação dessa última possibilidade. qual ele pode pertencer organicamente ou não. É o caso. opera corno institucionalista. tendo assimilado princípios teóricos. sem explicitar essa condição. Por exemplo. pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais. mas simplesmente é um "cristão". Em outras 92 ▲ à . em um espaço da vida e da atividade partidária. Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com esta anterior. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista. em um segmento. Mas. e ele é procurado nesta condição. Urna variação que parece a menos comprometida e. em urna frente. formas técnicas de operar. mas que.

palavras: é a quele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis, o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode levá-los a adotar uma atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso; não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 93 ▲

complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... " O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, devese ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de operar, corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos diziam: calcanharplanta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê-lo ... O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 94 ▲

atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é . "naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo. Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 95 ▲

cada profissão. São muitos. Então.análise da implicação. Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui porque excede nossos propósitos. Há uma piada famosa que se passa num forte militar. convencido de que o problema é nosso: de cada um. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se demonstrado eficazes. Então. para que seja mais lembrada pelos leitores. ela começa pela análise da implicação existente na oferta. ou sefa. numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. Vivo disso. o mais que conseguimos. em princípio. acha que os problemas da realidade são problemas de seu campo. devem ser amigos. Então não tenho culpa de nada. o vigia sobe.. é estar próximos. Um oficial pede a um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. profissões. ter presente. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição profissional estão estruturados para isso. vêm correndo. mas não freqüentemente. fica mais fácil lembrar que a realidade com que trabalhamos vem toda junta. só existe dentro da classe ou da equipe.. " Se a gente se lembra desta piada. na produção da demanda. certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 96 ▲ . Além disso." O oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe.. Eu sou especialista em saúde. em território índio. porque estão vindo todos juntos. consciente ou não.. pode ser uma desonestidade. mas não nos usuários. Se alguém me consulta por um problema de saúde. Mas há uma que temos de revelar. um ao lado do outro. do profissional. os índios estão vindo. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são totalmente produzidas. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro. um senhor ou uma organização vem consultar-nos sobre um problema de saúde. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócioeconômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora. sou profissional. tem com sua tarefa. todo o meu poder social e todo o meu prestígio através disso que eu faço. E o que acontece é que cada especialidade. e eu gostaria de descrevê-la de maneira pitoresca. do especialista. para encarar qualquer problema da realidade e estar. e muitas vezes é. Mas a realidade vem junta e nós não estamos juntos. É um forte americano. olha e diz: "Sim. às vezes. A divisão em especialidades. Isso não é maldade dos agentes.

devo encaminhar noutra direção ou devo devolver. após ouvirem cuidadosamente alguma demanda. porque. sem me dar conta. resolutiva etc. ninguém" compra". se não vendo o que faço. válida.. o problema é meu. estou a seu dispor. na oferta.. pelo contrário. é porque me ofereci. o que 97 ▲ . seus colaboradores ou sozinho." Estou tratando de ser simples. mas seria conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área.. ampla. posso solucionar. Então. A primeira coisa a ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita. o que tenho de fazer é analisar. Então: "Venha que esse problema é comigo . Mas se eu não me oferecer. concluem que esse problema não é para eles resolverem. Esse problema tem de ser resolvido com seus amigos." Isso já é muito. ou seja. e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se conhecem muitos profissionais assim. Essa é a análise da implicação na produção da demanda." Mas tem aspectos inconscientes. para que foi que "vendi". que coisas. quantos cientistas vocês conhecem que. e então o atendo. profissional. como foi que vendi isso. ninguém me procura. para" capturar este peixe"? Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária. dar de volta ao usuário o que ele solicita de mim. realmente. é difícil de se ouvir. ou seja: que fiz eu. pode ser uma oferta vasta..alçada. Existem poucos. Às vezes há quem diga: "Sim. o que foi que fizemos nós sem dar-nos conta.. " Quantos profissionais. se ele me procura. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura. cruzada. O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita-me dizer-lhe que esse problema não é privativo de nenhuma especialidade. Essa análise tem aspectos conscientes e préconscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe. seus companheiros. E se me procura. Se eu não me constituo num lugar científico. esquecendo-me de que. que coisas posso solucionar parcialmente e que coisas não devo solucionar. a primeira coisa que ocorre é que a gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda. vamos ver como foi que convencemos este fulano a nos procurar. Procura-me porque algum lado do problema tem a ver com o que faço. com cuidado. se o sujeito está demandando em primeira instância. O problema fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda. somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está demandando.

Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases. nem homogeneamente progressistas. o grau de consenso. consulta porque ele é "dos nossos". os interesses em jogo. consulta porque" é bara to". porque as bases não são homogeneamente revolucionárias. consulta porque "é caro".vivemos fazendo é lutar pela legitimação. segmentos da organização. Isso. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é o melhor". Costuma ser.ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos. mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e a demanda. nem homogeneamente sinceras. ocial de O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento. isto é. É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem solicita. chegou à conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis. os desejos em pauta e. mas para dar um exemplo simples: qual foi o cliente que. Isto é: qual foi o setor da organização que assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes. isto é: quais foram os passos intennediá. para os institucionalistas. na mesma proporção neles e em nós. ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere. porque nos pode dar toda uma antecipação dos motivos desta consulta. Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “ A ideologia 98 ▲ . e o faz com elementos conscientes e inconscientes no usuário. E isto é muito importante. sobretudo. que ofertamos o serviço. Tudo isso modula a demanda. sem dúvida. definindo nossos serviços como eficientes. Consulta porque" é daqui". não é nenhuma garantia. pela autorização e pelo reconhecimento s nosso serviço. O passo seguinte é a análise da gestão parcial. infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela direção ou pelos proprietários. de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. ou porque "vem de fora". não é exatamente um colega.

geralmente. Nessa terminologia. na medida em que a Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais. nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional. A diferença entre demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. demanda é a solicitação formal. Pode-se dar um exemplo clássico. originais. que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos entre má-fé. Estamos falando de uma situação ideal em que. viemos consultá-lo porque sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 99 ▲ . solidárias etc. que nunca coincide com o encargo. Vem um setor. Isso. Isso também tem de ser analisado. passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional forma parte da parafernália de serviços característicos do progresso. desigual. Por outro lado. singulares. a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e como foi que consultou. É claro que as pessoas estão solicitando uma coisa. ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. veja. consciente. conflitiva. Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro para os leitores. as bases são. mas o que elas querem obter é outra. Então. A demanda nunca coincide com o encargo. O passo' seguinte é a análise do encargo. vem apenas um segmento (apenas uma parte faz a demanda). mas apenas uma delas. Mas não coincide por quê? Por má-fé? Pode ser.dominante é a ideologia das classes dominantes. Então.. contraditória. mas não único. Então. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e encargo. uma organização numerosa nunca virá toda para fazer uma solicitação. que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. da tecnologia moderna em relações humanas. sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. é uma solicitação consciente que. pois o fato de você considerar o parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa. desconhecimento e recalque. A compreensão da determinação dessa parcialidade é importante. em geral. a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom. mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes. claro. O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes." Então. deliberada. em geral.

Ora. Há especialistas em fazer essas coisas. de um problema de ignorância. Mas pode-se perceber. Mas pode ser. você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica. no entanto. que não sabe uma palavra sobre isso. na organização. perfeitamente. de uma intervenção profilática. todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. num plano manifesto.. O encargo pode ter a ver. quando. ou como aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário. de quem vem consultar alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o encargo recalcado. me aconselha como desmontar este movimento. Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má-fé. então. por exemplo. veja se acaba com esta revolta. 100 ▲ . Agora. um problema recalcado. Então. O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado (?) para a consulta. com algo que acontece quando." Por quê? Porq ue já se sabe que existe uma tecnologia modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. ou seja. como fragmentar. vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se opera. está surgindo um grave conflito por problemas de condições de trabalho. finalmente." Isso pode ser feito com plena consciência e com má-fé. como paralisar isto. Pode ser fruto do desconhecimento. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza. tratase de algum conflito com a "mamãe". é: "Olhe. Então não se lhe pede isso diretamente. e procurar um urologista. melhoradora. O urologista irá receitar. que se diz uma coisa e se está pedindo outra. a negociação etc. entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. a comunicação. quem tem fama de institucionalista dificilmente será solicitado abertamente para isso. porque já se tem uma vaga idéia de que se ele não é revolucionário. porque é um corrupto ou porque é um reacionário. Não é comum isso? Tratase.. pelo menos é democrata ou humanista. simplificando humoristicamente. há uma demanda. progressista. e se isso não funcionar. da direção. pois. por problemas de autoritarismo na liderança. localiza os líderes. como desmobilizar. o entendimento. ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos. acontece que o encargo pode não ter nada a ver com isso. inconsciente. por problemas de nível de salário.dos operários. cloridrato de ioimbina ou viagra. O encargo.

é bom que tais manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. e também análise da demanda parcial. não se pode entender um sem o outro –. incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de emergente. Quando se simplificou isso." Já tenho recebido demandas dramáticas. pelo fato de ter sido colocado o cartão de ponto. Os determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente complexos.natural: é um fenômeno (dito em termos clássicos. Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de uma unidade. ou de uma essência "vadia". que sempre existe uma extração de mais valia.Agora cabe aclara r uma coisa importante. não se quer trabalhar. estes grandes "protestos revolucionários". de desconhecimento ou de recalque. Então solicitase alguma reivindicação. anteriormente. É claro. numa sociedade onde o trabalho é alienado. que é o que surge como resultante de toda uma 101 ▲ . por exemplo. falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um serviço. Mas se os quadros são de base. de desconhecimento ou de recalque. Mas vocês devem ter ouvido. heróicas. Vocês se lembram do que é analisador . o cartão de ponto quer dizer muita coisa. porque os quadros de base podem fazer essa solicitação. não se podem separar esses dois pontos. ou um estudo que não tem vontade de 'encarar. então temos de caracterizar os analisadores "naturais". descartado o fato de que todo trabalho é alienado. e a maioria delas não é boa. com freqüência. Mas. Mas também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia cumprir. mas tem-se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a gente não trabalhe. Na realidade. no tocante à diferença entre a demanda e o encargo. ou uma autocrítica que não consegue suportar. Sem dúvida este desagrado pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim". em termos de má-fé. pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser fruto de má-fé. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. e que sempre há dominação etc. porque não querem trabalhar. em todo caso. porque não se quer estudar. Já sabemos o que é encargo.

uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. tenta-se analisar. já devem ser pagos. o institucionalista foi solicitado por um setor. quais foram as resistências que se levantaram nos outros setores que se foi ouvir. Este contrato já implica a construção de dispositivos para ouvir todas as partes. pelo fato de que. o aumento das doenças de trabalho. e não por todo o coletivo. legitimado e. entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. e nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso. Porque só ouvimos uma. Um primeiro entendimento sobre o que está acontecendo lá na organização. Mas então. que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. é um convênio feito para poder construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. Depois do contrato de diagnóstico. Com esse contrato. poderemos chegar ao que se chama diagnóstico provisório. Então. assegura-se o respeito geral necessário. porque não foram fabricados por um interventor institucional. no entanto não é valorizada pelos usuários. no caso de existirem honorários. porque ele implica que o diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado. Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam chamar de "presuntivo". fundamentalmente. O contrato de diagnóstico é um acerto. Então. em primeira instância. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí. por um segmento qualquer. se vai lá. se entre outras coisas o institucionalista vive disso. cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. as defesas. E quando tivermos feito tudo isso. E são "naturais". e também porque um contrato de diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser diagnosticados. a esta altura. Qual seria um analisador desse tipo? Grande. Só que é bom fazer este novo acordo. isto é. não existem analisadores naturais propriamente ditos. suponhamos um analisador chamado natural (criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto. é interessante receber os honorários. pelo menos enquanto acontecimento geológico. temos de caracterizá-los. delimitar quais são. 102 ▲ . Por isso. aquela que fez a demanda parcial. Então.série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. Então. pequeno ou médio. temos de fazer. a morte de um operário. Senão. um contrato de diagnóstico. poderia ser uma greve. Senão.

teremos que pensar em outras alternativas. Mas talvez isso se possa entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. mas não é sequer o diagnóstico provisório. É muito recomendável e não é nada autoritário. uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. não estou deixando de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim e não. mas está propondo um dispositivo agitador. mas não se criou condições para cutucar o nãodito que queremos investigar. porque é indireto. porque se trata simplesmente de propor. é "artificial" – já fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. Depois que se fez a investigação passiva. reúne-se a equipe interventora e parte-se para analisar toda a colheita. mais comprometido. Os usuários podem aceitar ou não. poder planejar uma política. pode dar certo ou não. a partir desse diagnóstico provisório. Por outro lado. Então vai-se criar analisadores construídos. mais crítico. e importante. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o mesmo. Eles não são tão indutivos assim. ou dispositivos para poder recolher todos os dados do didgnóstico provisório. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. de indagação.O passo seguinte consiste em. Ouviu-se passivamente. Mas será que quando crio instrumentos de investigação. não é demasiadamente indutivo. porque o interventor não está baixando regras. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural". uma estratégia. é uma reunião de cineclube. nada impositivo. fazendo-se a análise da demanda e do encargo 103 ▲ . desloca a problemática da situação espontaneamente referida. Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório. Uma vez aceito. Vamos dar um exemplo fácil. resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e que vai dar-nos o material mais profundo. um agenciamento ativador. Por enquanto. Também se pode propor outra coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em um espaço diferente do habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitirnos observar o que acontece nessa convivência. Se não aceitam. só se ouviu os setores distintamente. Mas não foi concluído ainda o diagnóstico provisório. Ainda é um presuntivo já mais elaborado.

táticas. toda técnica é boa. Por que é importante? Porque o passo seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. Nova política.definitivo. analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e novo contrato. os espaços onde se vai dar essa "guerra". será necessário desenhar as táticas. despertou em nós. mas pensada anteriormente. Então. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em condições de manifestar-se muito mais livremente. Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser dada ao processo. porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe fez uma boa intervenção aqui. uma guerra simulada. temos de voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou. Nova análise da implicação. 104 ▲ . técnicas definitivas. depois de todo esse novo exame. um cineclube. também somo's mobilizados. a ordem dos mesmos. quando se mantém uma convivência prolongada. Esse contrato definitivo. será necessário precisar quais são as estratégias. um quebra-cabeça coletivo. que envolve maior compromisso e requer mais retribuição. novas estratégias. Por exemplo. temos uma vivência de contato diferente. os movimentos fundamentais para conseguir os propósitos políticos. a análise da implicação significa pesquisar. vai conseguir outras intervenções noutros lados. qualquer técnica. exige ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. despertou na equipe interventora. exaustivamente. que não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. técnicas expressivas. a importância dos mesmos e as técnicas. uma festa. somos igualmente ativados. pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras intervenções. os procedimentos: psicodrama. sempre que a tática. quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou recalcados que foram ativados. no coletivo interventor. É possível não se dar conta de que essa ambição acordou-se nos interventores. temos adquirido solidariedade ou cumplicidade inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo. Então. a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. muito mais ricamente.

e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho. Os temas a investigar são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização? É claro que. resistência. que poderemos ou não comunicar ao coletivo. e porque. todos os conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. não atendo. no momento em que saímos da organização.Depois temos a autogestão do contrato de intervenção. Se não for assim." Não é esta a idéia. produção. Depois vem a execução da intervenção. eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças. para chegar a um acordo consciente. antiprodução. vamos fazer uma proposta de contrato definitivo. depois de analisar a proposta. que tempo pensa destinar ao trabalho. que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a implicação que se vai gerando na equipe durante o processo. Isso é completamente diferente das prestações de serviço profissionais habituais. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: "Eu quero um contrato por tanto tempo. em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto. ficará uma disposição e uma 105 ▲ . o que será muito ilustrativo do significado que a intervenção tem para cada segmento." Primeiro quero saber o que o coletivo propõe nesse sentido. isto é. que poderes quer nos dar e porque. Logo vêm as avaliações periódicas. por que quer pagar. o tratamento vai durar tanto tempo. Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico. transversalidade. tal como foi planejada. o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la. ou seja. mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo proponha se quer pagar quanto quer pagar. Consideração dos índices de transferência. atravessamento. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise coletiva permanente.

Mas. temos de discutir. em todo caso. finalmente. e o trabalho continua. se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio. Nós saímos. Em todo caso. Podemos fazer um acordo de acompanhamento. é um esquema para se considerar e omitir os passos que não sejam possíveis. já por nossa conta. o processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos. sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é propriedade do coletivo considerado. de forma permanente. condensar tantos outros etc. 106 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional? 3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. políticos e econômicos continuam sendo importantíssimos. 4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 107 ▲ . tanto que se pode dizer que a regra são as exceções. E. que não sejam recomendáveis. profunda e exaustivamente. de intervenções periódicas de atualização. é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generispara cada situação. A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações. que introduzimos como hetero. mas a implicação e os problemas éticos. Nossa decisão deverá ser submetida a ele.instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo. como vamos elaborar todo o material. como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer com ele.

Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos sociais no que se refere às lógicas que os regem.Capítulo VII o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE f) O Institucionalismo e suas vicissitudes Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista. não só porque este propósito excede em muito os limites deste livro. mas também porque supomos que este universo seja não totalizável. assim como aos recursos que empregam para obtê-las. ou Antiinstitucionalista. e não sem ressalvas. às formas concretas em que essas se "materializam". bem como marcadas diferenças. estabelecimentos e equipamentos. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação. a um conjunto aberto e internamente diversificado de correntes que mostram certos valores em comum. que tenta conceituar de diferentes maneiras. Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas. ou Instituinte. Podemos eleger uma. organizações. ou simplesmente Institucionalismo. assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. insistindo que não 108 ▲ . Em outras palavras: ocupam-se das instituições. uma vocação crítica. Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral. às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam.

proporíamos as grandes balizas da Revolução Francesa. não pode deixar de se inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates. marginais. Rabelais. megáricos. Argélia e. Aristóteles. Muito sumariamente mencionada.será necessariamente compartilhada. até talvez caiba dizer. clandestinas. desde a tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua função ou funcionalidade de seu funcionamento. a serviço. o Institucionalismo tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou experimentado. da produção de novas formas libertárias da vida. adere com muito mais entusiasmo ao espírito dos materialistas pré-socráticos. com uma longa série de tentativas históricas de regular racionalmente a existência das coletividades. Essa vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos "institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições relativamente conservadoras. estóicos. Pelo contrário. a gênese social desse Movimento pode relacionar-se. os Escolásticos. extremistas. 109 ▲ . até chegar a concepções e ações alternativas. por Marx. Arbitrária e muito simplificadamente. Hume. Platão. Bakunin e outros. A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem comum". seguindo por outras crescentemente reformistas. Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus. o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos importantes pioneiros deste tipo. assim como aos sofistas. Espinosa. na medida em que estas não são homogêneas. Campanella. O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial transformador. Nietzsche. Por outro. Algo similar ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. Bergson. principalmente. Kierkegaard e Sartre. à sua maneira. epicuros. revolucionárias e. Por um lado. Kant. Fourier e. sobretudo. em suas versões mais drásticas. Hegel e Heidegger. da República durante a Guerra Civil Espanhola. sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas contrastantes. Descartes. em seus aspectos conservadores ou reformistas. Quanto à gênese conceitual.

com a definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 110 ▲ - . Sem contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas reconhecidas. por exemplo: Comportamentalismo. eclesiásticos e até militares). e nem sua herança institucionalista o é. aspiram a títulos de cientificidade (de acordo. não é homogêneo. dos Sistemas. As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia. Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por diante. Funcionalismo. financeiros. Essa difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala. o da Saúde Pública (especialmente a mental) e o d a Indústria. a gama abarca desde as escolas que. marxistas e anarquistas. Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis. Cada um desses setores do conhecimento. influências predominantes de várias correntes. Encontramos. obviamente. é sabido que as origens do Movimento podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis.Se é permitido falar-se de uma gênese operacional. a saber: o da Educação. Poder-se-ia acrescentar toda aquela atividade vinculada aos Serviços Sociais. quer dizer. como mínimo. esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e estabelecimentos (comerciais. partidários. sindicais. todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas. Simultânea ou consecutivamente. e assim por diante. está claro. Desde logo. Psicologia. História. assim. como também de disciplinas como a Pedagogia e a Medicina. ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a Teoria da Comunicação. Semiótica e Antropologia –. entre os quais encontramos. Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia). Economia. liberais. os problemas da Urbanização e Demografia. ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes institucionalistas. dos Jogos etc. às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e das populações em geral.

entrevistas livres ou dirigidas. mais neutramente dizendo. o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de uma Ética. o qual se desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude..afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma nova concepção da convivência cotidiana.. no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção teórica (coerência. avaliação de eficácia.). demanda e contratação de serviços. workshops etc. e suas óbvias conseqüências econômico-políticas (operações de oferta. questões de neutralidadeabstinência ou imparcialidade-indução). método e objeto de estudo são tão proteiformes e problemáticos. verificação etc. consistência. com relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém. Estratégia e Tática do Movimento. o que esperar acerca do arsenal técnico. Como veremos mais adiante. passando pelos procedimentos informativos. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a autorização das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas. coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu estatuto ético. assembléias. carreiras.). "progressão" ou. Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na escala de correntes. convalidação. legalidade. possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção. sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética Social" são 111 ▲ . títulos. jurídico-político.). dramáticos. ou o que quer que se queira chamá-lo. Conseqüentemente. gnosiológico e profissional. precisão. Se o instrumental teórico. Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a cientificidade e a profissionalidade. do Institucionalismo. essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de Babel. este "percurso" de sua gênese social. análise de conteúdo. publicações etc. conceitual e operativa. Com a profissionalidade o que está e m jogo é a legitimidade. Em síntese: esta "evolução".

No extremo. analisador. Os setores tradicionais do Movimento. tais como: implicação. e 112 ▲ . Lukács. Durante esse trajeto.vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras". demanda. sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações de serviços. afastase cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. frio-quente. Pelo contrário. impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto-análise. por parte dos coletivos. de acordo com os países onde se desenvolvem. a faixa mais subversiva do Movimento. sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e intervenções científico. centro-periferia etc. (ver glossário). Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi se pronunciando: a) Quanto à especificidade. as formas mais marginais. encargo. mercantilistas e adaptativas. as expectativas de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente satisfeitas. nacional e até planetária. que atendem à autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista. efeitos: Mulhman. Weber. conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que de direito) à tecnologia da human engineering(Psico-Sociologia das Relações Humanas. isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo entre seus usuários. e coerentemente. as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teóricotécnicos valiosos sob todos os prismas.tecnológicas com os sistemas e setores dominantes. da autogestão e da autodeterminação das comunidades.). Contudo. cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da alienação-dependência do saber-poder dos coletivos de usuários. alternativas ou revolucionárias do Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização da análise e da intervenção em grandes situações em escala regional. Treinamento em Recursos Humanos etc. b) Quanto à profissionalidade. das potencialidades acima apontadas.

Se por um lado os procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos pela peculiaridade de seus ideais. não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo avançado pretende. que não simpatiza com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou vanguardas elitistas). A rigor. 1980). e mais ainda o "maximalista". Na segunda parte do citado texto. soma do instituído. de mudança libertária. Mais corretamente. em outro. uma maneira vasta e diversificada como "o inimigo principal" (a expressão é nossa). Resume-se aí o drama Institucionalismo: definindo o Estado. Barcelona. Isso tudo acontecendo em um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. para contribuir com as mesmas para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar-se. os capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". pontuais ou amplos. Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o mais duro desafio. o autor tenta sistematizar os obstáculos. o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos.muito menos as de propagação da utopia transformadora a vas tas unidades sociais. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente" (Ed. formais ou não. Parece que o Institucionalismo avançado. tais como as de integrante. com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento. o agente institucionalista com inquietações militantes encontra dilemas excruciantes. colaborador. ameaçam submergi-lo em uma certa paralisia. Diante dessa perspectiva. a idéia consiste em encontrar canais de conexão. ou totalmente apáticos e dispersos. não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos. Como veremos mais adiante. aliado ou simpatizante lhe são insuficientes. 113▲ . nem sempre realistas. Kairos. ou persuadidos ao participacionismo. que se em um sentido podem constituir fatores de propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos. radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e lutas.

abrem-se para o institucionalista outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria".possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os campos de sua provável atuação. Contudo. mesmo supondo que conheça sua proposta. senão à autogestão generalizada "a quente". segundo nossa experiência na América Latina. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes. Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinações estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. o Institucionalismo se vê forçado a recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação acadêmica de especialistas e profissionais. Por outra parte. de modo que os pequenos grupos e organizações não sabem de sua existência. Também devido à pouca divulgação do Movimento. Trata-se. O primeiro refere-se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão. sendo pouco provável que solicite a colaboração de um institucionalista. que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas. a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e corporativa dos agentes. raciais. senão no tangente à nossa experiência particular. algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos. a maioria dos grandes experimentos "revolucionários" massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados. contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações mais adaptacionistas ou reformistas. As duas dificuldades. proliferam cada vez mais movimentos. não por acreditarmos que não tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos. Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e média envergaduras. sexuais. mediante a auto-análise da implicação despertada pelo encontro com a singularidade do 114 ▲ . religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas. Em cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais". espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades etárias.

Fazem-se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e estratégias do Estado (entendido como ubíquo. por outro lado. inconsciente e "contínuo") em cada formação social. Ao mesmo tempo. o brutal contraste entre o discurso. como sugerem alguns). profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 115 ▲ . No entanto. o Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas. Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de resistência passiva). estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e o cultivo do mercado interno). modernos e eficientes administradores de enormes riquezas. as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções reais de sobrevivência. queremos apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias européias). os Estados gerentes pseudo-exitosos. levando-as a uma atitude de "conservadorismo crispado" (segundo F. Como conseqüência. por exemplo. ao elevado nível de padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. sobre algumas das quais voltaremos ulteriormente. "Praxiologia". enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e acumulação de informações (chame-se. persuadiram as populações com benefícios concretos ou imaginários. incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um ostensivo fracasso. parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de controle social. Essa falência também foi indicada por Lourau e outros. Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. As massas extremamente depauperadas. estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos. o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as comunidades.coletivo intervindo. não são propensas às propostas institucionalistas. de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. por um lado. insuficientes. Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista".

Freqüentemente o institucionalista. a dar-se soluções próprias. em outras palavras: não há nada de inesperado no fato de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido. expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à totalização. uma rica e profunda autocrítica. reformistas. de maneira alguma. causado basicamente pelo poderio. em pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática". da crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras. revolucionárias e até "terroristas") da corrente. Nesses empreendimentos. novas para o Movimento. alternativas. contudo. se tal coisa existe. Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente. Essas questões não são.providencialismo estatal. começam. o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". clandestinismo. ressingularização das práticas são alguns dos termos usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. ou seja. entrismo. maquiavelismo. Esta superfície mostra algumas brechas para o Institucionalismo. Não é nada estranho que assim seja. marginalismo. a ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais. a reformulação das características do agente e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva – como a cooptativa. mais ou menos acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento. Ela afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas. das quais as tendências institucionalistas se 116 ▲ . para certo trabalho "no Estado" e "com a sociedade civil". Consagrados e repudiados. Em geral. acrescentam-se certos agravantes que iremos apenas esboçar aqui. infiltracionismo. penosamente. sempre pronta a desencadear-se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e táticas infinitamente sutis e cautelosas. Deu-se para elas respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do Institucionalismo: empresarização. calouro ou experiente. esses modi operandi. distorção da demanda. sofre sérias pressões resultantes da crítica endógena. como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do Movimento.

única e irrepetível. adquire sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina". na medida em que tais registros só seriam reconstrutivos de experiências consumadas. deve-se necessariamente conceber (pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para formar diversos especialistas. a da sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". A redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 117 ▲ . Mas se não se admite um "especialista em autogestão". uma clara discriminação entre especificidade e especificismo. Essa crítica disseca. organismos e funções que as integram. a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda não foram escritos. tecidos.originaram. a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e mutação). especialmente se o fazem para formar " experts em fazer isso". A problemática que esboçamos tem. Nesta reelaboração. Este processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas das quais padece. Tanto é assim que capítulos fundamentais. triunfantes ou falidas. que deseje dar-se para existir. talvez não seja necessário escrevêlos senão como curiosidades museológicas. tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados) ou. Dito de outra maneira. teriam uma singularidade tal que careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. seguindo com a metáfora. sistemas. independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. autodeliberar e autodecidir a forma sui generis. Se se admite que o Institucionalismo é. vísceras. junto com elas. metaforicamente falando. as dos "que ensinam a fazer isso". Mas esse trabalho é feito habitualmente em abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. as figuras do profissional e do técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e. como uma de suas áreas mais sensíveis. segundo certo conjunturalismo ou improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas. fazendo. Cabe aqui acrescentar a ressalva de que. no possível. Essas. quanto elas mesmas. incluindo entre elas boa porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. em última instância. a proposta é que cada coletivo construa as condições para se autoconhecer. cada uma das células. uma modalidade de viver coletivamente.

Psico-Sociologia. "co-gestivos". que configura estas comunidades como tais. mas pressupõe a firme disposição dos agentes formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se insiram. tais como Sociologia. Esse objetivo.condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos dos quais "menos se poderia esperar". O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e. "permanentes". em cada um de seus dispositivos. Ciências Políticas etc. pedagógico e político) ou integralmente autogestiva. ao que há algumas décadas se denominava "acumulação social do saber". O ponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam. quando é claramente assumido. mais claro ainda.reprodução do equipamento e do modelo pedagógico que o gerou. quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo. e dão modestos frutos. não é tão importante quanto parece. é a de associar-se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. Aludimos. Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito ideológico. é claro. Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 118 ▲ . assim como tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas diversas qualidades que acima confessamos não havermos conseguido classificar. Completando a idéia: impõe a não. Que a organização e procedimentos adotados sejam "não-diretivos". exige ou não a autodissolução do agenciamento pedagógico. a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em outros coletivos atuantes. Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e v ocacional do trabalho. enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma discreta transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande Política. A nota em comum.

Entre elas destacam-se o empresarismo. Frente a esse difícil panorama. O agente retrocede às modalidades mercantis. Sem que pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias. Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o agente se lança às formas clássicas da militância política. será a assimetria educacional entre professores e aprendizes. e só até certo ponto. o funcionalato e o academicismo. culpado. todo e qualquer "espírito" 119 ▲ . ambos deverão dissolver-se em uníssono. comunicólogos e psicanalistas. como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. administradores. assim como professores universitários. sejam as reformistas e eleitoreiras. Os profissionais mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa."deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso isolado. "a frio". perplexo. resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma. Um primeiro caminho é o regressivo. de um lado. o máximo que se autodissolverá. em sua assunção. No primeiro caso. burocráticas e corporativas do Movimento. urge se fazer constar que. Enfim: como dissemos. a de "autorização" e o desejo produtivo. nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê-lo. Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo. e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. onipotente ou. Por isso. adaptacionistas. Tensionado entre a necessidade de sobrevivência. e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro. o que é mais comum. Só que essas adoções se realizam" em nome do Institucionalismo". eles não são tão límpidos quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas institucionalistas contemporâneas. não é nada infreqüente encontrá-lo decepcionado. três deformações tocaiam o agente institucionalista. o institucionalista deve ainda enfrentar a crítica interna. assim como sua organização mesma. No segundo. os ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas.

Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que. "grita em um lugar e põe os ovos em outro". Ao mesmo tempo. que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais ensinam.próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias. da "desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e eficácia). clandestinamente ou não. segundo a tradição gaúcha. mas em real condição de implicados nos eventos e empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar-se. que cremos conhecer muito bem e que é urgente desmascarar. mas sim que é uma saída desgastante. 120 ▲ . devido às limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. Não nos parece que esta composição seja das piores. para assim protegê-las da voracidade das espécies predadoras. colaboram ou protagonizam. erráteis e libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento. tão engenhosa quanto discutível. sectárias ou facciosas. e em referência a esse terceiro tipo de agente. Inteirados nominalmente de um punhado de noções da corrente. publicam ou intervêm. Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns institucionalistas. sabendo das características dispersivas. da "novidade radical" (que impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação-auto. inevitável. do saber ex-nihilo(que proscreve o estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. o "hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico.heterodissolvente (que hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas). segundo versões híbridas. muito nos importa esclarecer que não deve ser confundido com outro. estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um sentimentalismo raso). drogadito e parasitário) etc. O tero é uma ave da planície Argentina que. a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena). às vezes. Como quer que seja. é a que pedimos licença para denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". circunscritas e moderadas do Movimento. as usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. Como notas secundárias caracterológicas. Uma terceira escolha. as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada).

o Movimento deve dar-se dispositivos formais. no mínimo. brandindo "palavras" instituintes. mas que muitos deles precisam ser apenas comunicados. amplos e fortes. em resumo: ladrões de galinhas. com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. técnicas. táticas. Essa óbvia constatação não é proclamada aqui apenas por pruridos éticos. Sua triste história consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado. ou melhor. não só "não passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa qualificava de esquerdosos festivos. líderes. Para tal. morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. que restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. avaliação de resultados. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo Movimento. dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade de nada". intercambiados e elaborados coletivamente. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas com rigor e vigor. libidinais ou ideológicos incapazes de produção. II) O Institucionalismo e seus valores Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas. estratégia. Nem Eros. logística. nem Teros. tais "revoltosos". transmissão.Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada. Experientes institucionalistas exortam 121 ▲ . Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais. autorização. E isso não significa exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos. consciência epistemológica ou autocomiseração sentimental. nem Ananké. cabe concluir. Será procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"? Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos parte desta problemática. a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" entidade de origem. implantação. modalidades de divulgação. Política. qualquer iniciativa que os tirou do anonimato. desenvolvimento. alianças. contratação.atiradores. acólitos ou franco. originada da lumpenização das faixas médias urbana s universitárias.

não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do Movimento.seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido. em alguns casos admiráveis. Afirmam que se toda intervenção está encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos. Constituir-se-ia assim um núcleo cego. as forças mais reativas do "especificismo" e "profissionalismo". para as correntes puristas. e até há pouquíssimo tempo. que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do mesmo. Por outra parte. extremada no 122 ▲ . de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos. do poder. justamente sobre os valores e recursos em nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos. e portanto repetitivo. todo settingseria um aparato ou equipamento no qual se cristalizariam. Entretanto. Em outras palavras: da racionalidade. Já para alguns. como tecnologia falsamente "neutra". apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca da onda de integração planetária de todos os processos sociais. contudo. Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de contrato e enquadre das prestações de serviços. instituir um ponto de partida contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". do lucro e do prestígio. Essa limitação. do saber e fazer disciplinar que dessa maneira ritual se funda. se bem que esses requisitos sejam indispensáveis. Dá-nos a impressão. trabalhistas ou jurídicos externos ao Movimento. É óbvio que para os institucionalistas mais "profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos. assim como à subscrição de convenções normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do Movimento. que a crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou. só se exige que suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários. compartilhadas pelas equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem cuidadosamente analisados.

Via esta questão restrita do contrato e do enquadre. aquela liberdade que desejam. Psicanálise Aplicada etc. ainda que não impossível. recordemos a verdade de Perogrullo. por exemplo. porquanto seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados. não se entende por que não apelar a ele em caso de necessidade ou ainda de "luxo". como dizia Bakunin. Se a mesma é integral. cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de analistas institucionais. Por outra parte. se compreende os aspectos econômicos. políticos. da human engeneering. Sociologia das Organizações. Pode acontecer que já pertença "naturalmente" ao coletivo em questão. existiria ainda nos convênios de serviços da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise. E claro que ninguém ignora a distância que separa as aplicações da física à computação. de que a autogestão não se decreta nem se concede. ou seja.caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social. Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas disciplinas (além da própria). isso ocorre porque os coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir (inventar). Por outro lado. Por uma parte.). que não existe uma prescritiva para a invenção e que. uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. o que tornaria difícil. "culturais" e libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa). caso este que parece não criar problema algum. Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento. e menos ainda porque seu trabalho não haveria 123▲ . imaginá-lo solicitando os serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. nos introduzimos em uma contradição aguda e geral do Institucionalismo. não se vê porque um companheiro institucionalista iria ser convocado a participar. No limite. tenhamos presente que em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir. "só a liberdade engendra a liberdade". com a autogestão como meio e como fim.

é uma questão políticoepistemológica de fundo no Institucionalismo. como um de seus mais essenciais fundamentos. sem dúvida. que os centros oraculares de poder se vêem obrigados a lançar. quando não do colaboracionismo. ficaram substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das determinações que as constringem. A eficácia de tal consigna depende. não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza científico-tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. demandas. produtor de seus detentores. de tal ou qual grupo ou empresa. A "A 124 ▲ . a convicção de que os coletivos das sociedades modernas são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-sociallibidinal do trabalho. quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. Félix Guattari.de ser pago. a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar. que se administrará o que é de si mesmo. Converte-se em algo assim como um princípio moral. cujas necessidades. de seu efeito de auto-sedução. independentemente do contexto. é uma mistificação. O que está em jogo neste ponto. escreveu: autogestão como consigna pode servir para qualquer coisa. por si mesmo. O vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos. hábitos de consumo e soluções são integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder. assim como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. Deve-se ter presente que o Movimento afirma. como em qualquer dos outros. e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado administrador-gerente – submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. Mas a certeza do Institucionalismo. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as requisições do participacionismo. acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e fazer dos coletivos sobre seu destino. De Lapassade a De Gaulle. As comunidades. a casta privilegiada dos tecno burocratas. da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir-se à autogestão em si. um solene compromisso de que será em si mesmo.

A autogestão. pelo contrário. Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo. em definitivo. Afirmação da Singularidade. Ser do Devir etc. (opostos à Generalidade. tomada como consigna política. no imaginário. Além do mais. em cada situação. o tipo de relação. Ed. mesmo as mais drásticas do Movimento. O conceito de autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias o Institucionalismo maneja. no sentido mais forte do vocábulo. não é um fim em si mesmo. de formas que devem estimular-se. a hierarquia. em cada nível de organização. quer dizer. Reatividade. Negatividade. os máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução). Ser como 125 ▲ . Guattari é um de seus mais ardentes defensores.. do objeto institucional correspondente é um critério qu e deveria permitir esclarecer a questão. e considerando a complexidade do desenvolvimento dessa concepção. Potência. O problema consiste em definir. ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. Nenhuma corrente. " ("Psicanálise e Transversalidade". A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que. De qualquer maneira.. mas também. Não há uma 'filosofia geral' da autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação.. a "Esquizoanálise". Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos. Diferença. assume que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais. assim como em muitas outras.. Invenção (oposto à Fabricação). Se 'impugna'. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se substitui massivamente as respostas diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real. valores. assim como a infinita diversidade de suas estratégias.determinação. e o tipo de poder a instituir.. corre o risco de criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente. não descarta o apoio de tecnologia alguma.. Identidade-Repetição. México). Siglo XXI.

. dos Maus Encontros etc. assim como ao tabuleiro do registro e da dominação. Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama na "Esquizoanálise") do Capital. para precisar invocá-las novamente neste contexto. Desejo. Já a Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos. Se os repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e. Simulacro. Talvez tenhamos deixado 126 ▲ . da Lei. que têm a ver com o Instituinte e os Bons Encontros (opostos às Formações de Soberania. diametralmente contrários a eles. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault. fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis.). da Família ou da Corporação.) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento. pelo menos em tese. Máquina de Guerra. Acontecimento. Toda a História Universal (a das Formações Econômico-Sociais. organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir. Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos-valores seria uma tarefa colossal e apaixonante. as invenções dos movimentos produtivo-libertários. pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede. a não ser que se considere recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos. Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema reincorpora à torrente da reprodução e do consumo.Permanência etc. não poucas vezes.. Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades (desterritorializados) do Ser e do Existir. Nós os temos muito em conta. Objetivações das Idéias Puras ou Modelos. equipamentos e manobras capitalistas. No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e "pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas características contraproducentes. como sinônimo do Instituído. tornando-a ostensiva. do Estado. Guattari. Dispositivo. da Igreja. que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. Deleuze. Civilizações.

no qual não se pode apelar ao veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante. Desde logo. ou mais dissolventes ainda. desde diversos ângulos. os valores mencionados não são evidências. Por outra parte. existem casos em que isso é possível. sem misteriosas avaliações de seita. não são nem axiomas. pois apesar da predileção do Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para técnicos e usuários. em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis. pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas. os conflitos 127 ▲ .a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até personalizar. para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa orientação. que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da Autogestão". Basta compreender que as séries opositivas de valores que antes enumeramos. Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar sua atuação e observar seus resultados. insistiu em uma reivindicação da singularidade das práticas. eventualmente. cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista. Pelo contrário. Convém precisar com respeito a suas propostas teóricas e sua atuação política e técnica. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu. empirismo. mas sim de permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim conduzida pode causar. como notável independência dos princípios que a guiam e que. a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo. compreende-se que em um Movimento. nem evidências. quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto. tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" desses desvios. Como quer que seja. e mais ainda da Teoria baseada em p a rti p ris formalizados. não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las. Naturalmente. mas aqui nos interessa destacar estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. pragmatismo ou "intuicionismo".

Entre essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de patente". injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. Tudo isso se torna particularmente delicado. hipoteticamente. diante de contendedores tão ágeis. acadêmicos. que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. Por outro lado. não facilita as resoluções e execuções táticas imediatas. mas quem impera atual e universalmente (embora não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. o que torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às transformações de fundo e a longo prazo. Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobreexigem o tempo e os esforços destinados à implantação. algo assim como um artesanato militante cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes. Procede enfatizar que o Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas econômico-político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas). 2) Os poderes oficiais. "nada o é". o Institucionalismo tem. sobrevivência e crescimento. logo. inerentes a todo Movimento. fortes e onipresentes. Frente a um panorama tão desfavorável. É no campo dessas dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos. exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais. digamos.e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis. mas também à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. resulta notório que esse principismo sui generis. vegetativo ou infra-estrutural das iniciativas. corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam campanhas repressivas. Tudo é "Análise Institucional". 128 ▲ . Como já expressamos mais acima. no possível. que se nega a separar meios de fins. o Institucionalismo exige que suas decisões de condução sejam. Não obstante. ocupa similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. processuais e conjunturais. inúmeros aliados nos coletivos subjugados e explorados.

o "lucro". até um suposto contrário: o matiz "beneficente". isso se registra como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas". é a mais desejável: o centralismo democrático.3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2.. Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a empresarização ou para uma morfologia política convencional que. No plano da produção de subjetividades. a "primazia" etc. assim como das relações internas. "sabotador" etc. valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder". 4) Em função de tudo isso. então. "prestígio". "perversifica-se" a horizontalidade e "extravia-se " a transversalidade. No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais lideranças "autocráticas" ou la íssez-fa íre os papéis e de "bode expiatório". 6) Em resumo: cedo ou tarde. se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. exacerba-se . "caritativo" ou "filantrópico" das prestações de serviços. finalmente. para a luta pela obtenção. O regime das alianças tende a uma regressão filiativa. em suas modalidades de protopaternalismo. pelo caminho do famoso "individualismo pequeno burguês". perversas ou psicóticas. "legalização". no seio das organizações e dos sujeitosagentes institucionalistas. de modo que estas se enrijecem estatutariamente . Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade. Ou mesmo. "solvência financeira" etc. a serialidade. O organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. das estratégias e táticas externas. não por ser "menos pior". Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja hora de descartar como obsoletos: o ativismo. fraternidade do terror e. 5) Fica preparado. "autorização". o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico. apropriação e "inflação" de "identidade". o 129 ▲ . tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem. a designação de recursos de todo tipo. "reconhecimento". "legitimação". à atomização do Movimento. começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis.

o oportunismo. C. teremos uma imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. Bell. Durkheim ou Marx". 8) Se se repassa o exposto. em constatar a decadência da res publica de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la e Weber. G. quer dizer. P. Dumont) e pósmoderno (D. 9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência (como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os segundos infundem e orientam. Rio. J . D. Riesman. 1988). como diria Nietzsche. Seguimos acreditando que se trata de uma força reativa. 10) Para fins de síntese e conclusão. A rigor. organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico. ou a corrupção franca. a ter muito em conta nas vicissitudes do Movimento Institucionalista. Lasch. os últimos sublinham a subjetivação indiferente e abúlica das sociedades pós-industriais. publicações internas do Ibrapsi. digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do Movimento à 130 ▲ . Sennett. 7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução".voluntarismo. os "desviantes ideológicos. R. Rozitchner. Lipovetsky. Baudrillard. Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma caricatura de suas virtudes. Coincidem. o imediatismo. no entanto. Toda uma vasta produção biblio gráfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do individualismo moderno (L. o utilitarismo. Virilio e outros). Se os primeiros enfatizam a fragmentação pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial. L. especialmente o referente à "compulsão à autodissolução". a capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá sentido. trata-se de uma curiosa exacerbação do que a teoria postula como um requisito dos grupos revolucionários.

intersticial e não – totalizável. parece indiscutível q ue o Institucionalismo. que ética pode reger esta atividade não enquadrável. em todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se torne atualizável. "simulações ". refluidificá-las. Por conseguinte. indecidíveis. dividi-las até o infinito. um pensamento "sem fundamento". qual pode ser sua condição ontológica. axiológica e epistemológica? Ontologicamente. seria a afirmação de sua positividade. e remetê -las a funcionar segundo se produzam. em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras diferenças". etc. Que outro recurso lhe compete além da construção de "verossímeis". "alternativizar". dedica-se a genealogizar suas formas históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal. estatuto ou prática. especulativos ou experimentais. ao Institucionalismo não deve 131 ▲ . recortá-las por linhas clivagem bizarras. "não-fundamentalista"? Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua positividade. incluídas aí as específicas e profissionais. para cavalgá-las. parodizá-las. fazêlas proliferar. sejam estes revelados. "efeitos especiais". rachar. tentando exclusivamente propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como "desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade ". infiltrá-las. mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de pensar". incrementando seu pólo progressivo. segundo a vontade de potência produtiva. diluir-se. quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu limite. um "modo de viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas ". Epistemologicamente. longe de orientar-se por critérios de Verdade. ou melho. indemonstráveis. organização.? Axiologicamente. e a produzi-las segundo funcionem. discurso. diversificada. mais que tudo. queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de código.Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da Utopia Ativa). para mimetizá-las. heterogênea. Se se most ou indubitavelmente que tanto teórica quanto estratégica.

engenheiro de sistemas.interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios c ânones dos mesmos. Nada impede. agenciá-la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá-la até gerar um acontecimento. ao institucionalista. assim como os purismos e desviacionismos internos ao Movimento que mais acima descrevíamos. tudo que "abra". economista. "devir" (que embora lúdica não deixa de ser revolucionariamente) sociólogo. pois. sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um bárbaro. são passíveis de ser analisados. psicanalista. 132 ▲ . amplos e numerosos. profissional liberal ou funcionário. "possibilite" e "conecte". Se isso está correto. boa parte dos pruridos. um artista ou uma criança. Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo. avaliados e resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de dispositivos fortes.

ou seja. este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo. 2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos. 4) E desnecessário dizer que este glossário. assim como o volume do qual forma parte. pois esse requisito excederia as aspirações e possibilidades deste livro.GLOSSÁRIO Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo Advertências para a leitura deste Glossário Devido ao caráter introdutório deste livro. 3) De forma coerente com o exposto anteriormente. bem como da diferente acepção que tomam outros. advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. de propriedade intelectual dos mesmos. Embora este propósito não baste para explicar as limitações do texto. os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade. nós. 133 ▲ . e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a paternidade ou a precisão dos conceitos. deveriam estar nele incluídos. mas se responsabilizam por toda e qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. segundo a definição ampla dada do Movimento. não pretende haver dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que. os autores. fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente: 1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente.

ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. O virtual não existe. o estabelecido tentam a repetição do mesmo (ver Repetição*). Esta última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los. e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e sua potência produtiva. o vocábulo adaptação costuma ser sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. mas faz parte da realidade. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). É o momento de aparição do novo absoluto. este é considerado o modo de ser do devir dos processos. processos e resultados. os autores estão cientes de haver incluído e definido termos que não estão suficientemente esclarecidos. através da liberação do acaso-radical. o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente possível. apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las. No lnstitucionalismo*. mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver. estabelecido. tornando-se mais apto para sua função. imprevisível e incontrolável. cuja essência não coincide com as possibilidades. 134 ▲ . como por exemplo no da Esquizoanálise. Freqüentemente se equipara este termo ao que é casual. da diferença e da singularidade.. enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação do instituinte*-organizante*. Estes atos. Nas chamadas Ciências Humanas. são conservadores. ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se. Em um sentido estrito do instituído*. processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*. contingente. ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório. o organizado*. deflagrador da diferença. geradores da transformação e da novidade nos sistemas. que pretende ser panorâmica. insólito etc. Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem. são o substrato de transformações de pequeno ou grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. apesar de que freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". a" desordem" e o acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*. como reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. ACONTECIMENTO: ato. O acontecimento atualiza as virtualidades. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem". conseqüências de conexões insólitas que escapam das constrições do instituído*-organizado*.5) Em alguns casos. do novo absoluto. o que empobreceria demais esta leitura. de modo geral. essa noção foi empregada com freqüência. mas em geral indesejável.

pode-se valer de qualquer recurso (procedimentos artísticos. atualiza virtualidades e inventa o novo radical. singularidades. como disse Feuerbach.AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera acontecimentos* e devires. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição de opositoras. As forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas. e não como causa dos mesmos. científicos etc.). ou a uma classe social que. Entendido como produção de subjetivação*. do possível e do impossível. reconhecidos e consagrados. Em geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. ou em um "fora de si". No lnstitucionalismo a significação deste termo é próxima à da Sociologia: os homens. não chegam a ser consideradas clandestinas. no lnstitucionalismo. geradores da diferença absoluta. "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro. Os dispositivos. dissidentes e marginais. funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos. territórios. 135 ▲ . o agente pode ser peça especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades. o agente. mas em ge~al as toleram ou as ignoram. políticos. De todas as maneiras. subversivas ou revolucionárias. interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. ALTERNATIVA: designa-se assim as idéias. a meta a alcançar e o processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades. ALIENAÇÃO: no sentido filosófico. pessoas. as recuperam. organizações. por ser a proprietária dos meios de produção. designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos essenciais. Em um dispositivo. produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o horizonte considerado do real. se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. qualquer montagem que torne manifesto o jogo de forças. ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. Para tal fim. Excepcionalmente. os desejos. instituídos* etc.). AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* – organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. dramáticos. movimentos e práticas que supõem uma opção para seus simétricos oficiais. atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses). intensidades) heterogêneos que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos.

A toda oferta de prestação de serviços subjaz a duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa. produzido" espontaneamente" pela própria vida histórico-social-libidinal e natural. que forma parte da implicação dos interventores. como resultado de seu contato com a organização analisada. Ela pode até ser prévia a qualquer contato. a divulgação (científica ou não).ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato. nem inconsciente. A publicidade. isso sim. manifestos. É um termo que tem certa semelhança com o conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz no analista). a proposta direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma organização. Não começa no "cliente" e é. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes. sutil. enfatizando a parte que cabe à intervinda. assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática da organização solicitante. que faz parte integrante do processo de análise da organização. Por outra parte. particularmente a de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. técnico. em sua equipe. Análise de implicação é a compreensão da interação. econômico. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica dessa organização. um processo político. só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico. deliberados. uma interinfluência recíproca. ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo. A análise da demanda* deve estar necessariamente articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja. 136 ▲ . a análise da oferta. etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. mas de uma materialidade múltipla e variada. complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). social. ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica. da interpenetração dessas duas organizações. simultânea. não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. que por sua vez não sabe que não tem e não entende o que é porque é complexo. É ao mesmo tempo.

depressivas. O conceito de ansiedade deve ser entendido. inclina-se pela Assembléia Geral Permanente. A Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância. Como dispositivo* de intervenção. Métodos como os de Montessori. diversos pedagogos procuraram reformar. regulamentos) como suportes. Esta corrente institucionalista. ANSIEDADES: correntes institucionalistas. a Análise lnstitucional superou amplamente esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias. apesar de a denominação ter sido criada por F. a Psicoterapia e a Pedagogia lnstitucionais.ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau. 137 ▲ . analisadores históricos e construídos". como similar ao cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica. particularmente para sua descrição do "mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. organograma. idealização. O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te*instituído". projeção. Lukács etc. institucionalização. modos de intervenção e objetivos últimos. confusionais etc. efeitos" Mulhman. objetivos. assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação. que são as configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões. Impossível resumir aqui suas contribuições. liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia. nessas teorias. Contudo. Pichon Rivière. à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto especulativo). uma das mais coerentes e empenhadas. A Análise lnstitucional insistiu particularmente na análise da implicação*. demanda-encargo*. Lourau. bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso). nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais dos agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). a Dinâmica de Grupos. e propõe para eles o perfil de um intelectual implicado. As posições esquizoparanóides e depressivas. tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. a tese de que as organizações são" sistemas de defesa contra a ansiedade". são acompanhadas de vivências características denom. de diversas formas. subscrevem. Guattari. Bleger e outros). Lapassade e R. na qual os não-ditos* institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras. fantasias) no curso do desenvolvimento. defesas.inadas ansiedades.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos. mas tendendo sempre a que se expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário.. ou seja. negação etc. Assim se fala de ansiedades paranóides.

M. Labat. foram mentores ou participantes do Movimento Institucionalista *. Seus máximos representantes – Thomas Szasz e I. Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia menos autoritária. marxistas e liberais de democratizaçiío (ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. Entretanto. mais ou me nos radical. ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado*estabelecido. Castel na França. na qual os alunos assumem integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem. atua em 138 ▲ . Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política. serviços ou valores alienados (mercadorias) e incorporá-las à sua lógica. este Movimento. Generalizando. ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e Europa. cuja função prevalente é a reprodução do sistema. na França. surgiram as experiências de Makarenko na União Soviética. que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro. assim como a Pedagogia Institucional de F Oury. A. F. como contra-instituição. Basaglia na Itália e E. o Capital etc. Michel Foucault. são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado.Pestalozzi.) e suas forças são voltadas contra si mesmas. pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino. Lapassade e R. e outros. ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais. dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico. psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –. Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente. econômica e cultural da sociedade moderna. Tais tentativas replicam. Goffman nos Estados Unidos. ao nível da aprendizagem. substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co-Gestão*). são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que não conseguem capturar. que o sistema dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens. os exemplos anarquistas. e depois generalizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber. levando-as à repetição estéril ou autodestruição. impulsionou uma profunda revolução nesse campo. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade. As potências singulares. o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados Unidos. Vasquez. é possível que seja a proposta de G. Cooper na Inglaterra. Félix Guattari e R. em 1978. A maioria desses autores. de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia. Ronald Laing e D.

A auto-análise possibilita aos coletivos o conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*. ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade" que se deu. Cada uma dessas entidades opera na outra. AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação. por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*). Tal consciência é precondição para seu bom funcionamento. deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. pela outra. demandas. para a outra. soluções e limites. AUTOGESTÃO: é. organizações* e movimentos instituintes* (em outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais. desde a outra. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*. deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". CapitaL Raça ete. interpenetração e articulação de orientação conservadora.). As comunidades instituem-se. como também operam com critérios de Verdade e Eficiência. serve à exploração*. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. assim como alguma especialização nas operações de planejamento. desejos. Quando um conjunto instituinte cumpriu todos os seus objetivos. mas as mesmas não envolvem escalas de poder. desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários. Esse saber se acha em geral apagado. dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais. que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. Essas diferenças podem implicar hierarquias. AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos. subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*. Esse entrelaçamento. As hierarquias correspondem a diferenças de potência. apresentando-as como necessárias e benéficas. suas necessidades.conjunto. protagonista de um processo transformador. CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona. que não só estão em boa medida a serviço das entidades dominantes (Estado. Todo processo instituinte*organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho. ao mesmo tempo. dominação* e mistificação*. decisão e execução. problemas. o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão pora gerenciar sua vida. peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. que são imanentes aos valores de tais entidades. a articulação de 139 ▲ . de um saber acerca de si mesmos.

Só se intervém quando se compreende. CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido. deverão operar neste âmbito específico para transformá-lo de acordo com as metas propostas. dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. pensado. em especial as instituintes*. Está em estreita dependência do campo de análise*. O campo de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e organizada) de um segmento social. por mais aparentemente pequeno que este seja. as classes e grupos dominantes. classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força produ tiva. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. procuram detectar. CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão estratégias *. interrompendo o curso do processo produtivo em um 140 ▲ . ameaçadores ou francamente perigosos para o instituídoorganizado. organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores. empresa etc. pessoas.suas determinações. fundamentalmente transformando as linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. dissidentes ou marginais. as incorporam à lógica acumulativa do Sistema. por sua vez. CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos. Quanto mais amplo o campo de análise. ocultos ou secretos. desde o qual será compreendido. subversiva ou revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola. sindicato. mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial. logísticas *. sendo que posteriormente se compreende à medida que se intervém. a forma como são gerados seus efeitos etc. mais possibilidades existem de entendimento do campo de intervenção. Reciprocamente. Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais teóricos muito heterogêneos. As idéias. em especial o Estado. o grande Capital. táticas * e técnicas * que. as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva. a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar contra eles. Tal participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho. Quando o conseguem.). Quando o aparato de captura e recuperação falha. inibindo ou destruindo as forças produtivas.

CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo). COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos. Todas as forças. tempo. instâncias e mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva. à classe subjacente. característica ou atividade compartilhada. elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma tarefa.ponto determinado. ao mesmo tempo. hierarquizada e articulada). idade. por sua vez. e esta de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo. é fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada. lhes confere uma certa coesão e solidariedade. apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. e da cristalização ou da resolução de sua dialética * depende o destino produtivo. sociedades* e civilizações. e não apenas mecânica. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade. categoria. subordinadas às forças instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização. Em geral refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno. é essencial que as unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes. sexo. classe. gênero. estruturas. organizações*. explorados e mistificados que prestam subserviência. para algumas tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e. o único motor da mudança nos sujeitos. P. médio ou grande) que está vinculado por algum traço. Para o lnstitucionalismo. assumida ou não pelos integrantes que. sem mnunciar às categorias antes mencionadas. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes corresponde pela classe suprajacente e despossuem. valores etc. movimentos. lugar. Esta peculiaridade pode ser de espécie. relações de subordinação em última instância. de um estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e. de uma forma ou de outra. portanto. 141 ▲ . reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*. J. A classe institucional é o segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus integrantes com os menlbros de outros segmentos. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror. raça. diversifica da. Para a Sociologia Clássica. COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas.

esta abordagem permitirá resumir a exposição. Contudo. com a finalidade de explicitar seu interesse para o Institucionalismo. pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos). A maiêutica socrática consistiria em um procedimento pelo qual. sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras. "encarnada" em um indivíduo ou grupo). -CRACIAS:ARISTOCRACIA. Para o Institucionalismo. As cópias são sinônimos de "representações". esquecendose dessa "queda". CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo. sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras). perderam a semelhança e só conservaram a imagem. alude aos filhos naturais dos Papas.Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. SEXOCRACIA. Aqui vale acrescentar a palavra "nepotismo". espécies (etec. imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos. em sentido restrito. prestígio e 142 ▲ . Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do Materialismo Histórico e Dialético. refere-se à designação de parentes de um governante para cargos oficiais.e te o (alude aos supostos representantes da clivindade ou à divindade mesma. com freqüência supostamente "científica" das organizações). logo (alude aos possuidores da razão como saber discursivo). cuja condição de superioridade está dada por uma linhagem hereditária). até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento institucionalista. que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias baseadas no afeto. Para a interpretação institucionalista desse pensamento. eufemisticamente denominados "sobrinhos". havendo tido. uma proximidade. porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante. Os conflitos entre instituinte* – instituído*. mediante o raciocínio. e com ela o acesso às Idéias Puras. O sufixo cra cia significa governo de ou poder de: a risto (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade. TECNOCRACIA: optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque. BUROCRACIA. Em sua acepção ampla. os conflitos. as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que. Essa formulação recolhe. sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real.) seria uma forma de seleção para cliferenciar as "boas" das "más" cópias. tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de cunho científico). em que nepo. se conseguiria que as almas recuperassem a memória. centro-periferia. LOGOCRAClA. exploradores-explorados. O método platônico da clivisão em gêneros. TEOCRACIA. dominadoresdominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. nos tempos míticos. buro (categoria ou classe que se ocupa da administração. para outras correntes. ver Idéias puras*. entre tantas outras origens teóricas.

enquanto há os que pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . os estados de crise são considerados fecundos. Para o Institucionalismo. Outros sustentam que são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos. Assim 143 ▲ . Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. dentro de um andamento relativamente regular. Para certos autores (por exemplo. CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada. procedimento para chegar a um veredicto). por caducidade dos mecanismos e recursos vigentes. fantasmas) no curso do desenvolvimento-. posto que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. Marx). DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. a palavra krisissignificava: interpretação (por exemplo. fase de definição. melhor ainda se generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza. Provavelmente por extensão da noção médica. circunstanciais. as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões. segundo alguns. devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou negativos acidentais. por sua vez. no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade. na medida em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da "desordem criadora". tanto enquanto campo de análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*). dos sonhos). causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis. nos quais. extraordinários ete. o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente. Pichon Rivière. chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização. cena de apogeu numa tragédia). momento crucial das vicissitudes ou do metabolé(por exemplo. das vítimas de um sacrifício). desordem) mais ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. Bleger e outros). contingentes. tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou organizacional (provocação institucional). Alguns institucionalistas. e a maioria prefere intervir nos momentos críticos. mas em geral aceleradas e radicais. configurando vícios de condução que são. As crises são etapas de mudanças para o bem ou para o mal. seleção (por exemplo. Esse estado de crise ocorre.exemplaridade). objetos. como Lapassade. juízo (por exemplo.

pois participa de todo o real. organograma. e tende à busca do prazer e à evitação do desprazer. idealização. o desejo é imanente à produção. projeção. com as "quantidades intensivas" em Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena"). 144 ▲ . mas estas não são exclusivamente psíquicas. DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a qual não têm conhecimento nem controle voluntário. que carece do objeto real.) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e organizacionais (contratos. Essa força se origina. O desejo. constitui o desejo. Para outras (por exemplo. por sua vez. para a Psicanálise. daí o conceito de produção desejante. que instaura a lei no psiquismo. isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. o desejo persegue o gozo absoluto. confusionais etc. metamorfose ou "criação" do novo. O Complexo de Castração. não carece do objeto. Durante esses incessantes ensaios. ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente.). Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano. que resulta do encontro entre os corpos (devir). e sim um complexo conjunto ao mesmo tempo político. no início do desenvolvimento. gesta-se no seio do Complexo de Édipo. das pulsões. sua própria extinção definitiva. Descritivamente falando. na qual se encontra com a pulsão de morte. o desejo. quer dizer. Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa contra a ansiedade*". atua exclusivamente na dramática da vida familiar. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo. e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a entrarem nos processos sociais amplos. ao que Espinoza chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal". Na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. que procura restituir um estado arcaico perdido. Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação. ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e servir aos objetivos de vida. depressivas. Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência". gera e é gerado no processo mesmo de invenção. o desejo é essencial e imanentemente produtivo.se fala de ansiedades paranóides. Em última instância. Não tende à morte porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". a Esquizoanálise). o desejo também está parcialmente submetido a entidades repressivas. Assim entendido. negação etc. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real. econômico. Sua essência não é exclusivamente psíquica. comunicacional etc. regulamentos etc. Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise).

que a postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto". mas o atribui à matéria em suas várias qualidades. organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal (quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer. Opõese a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável. cada momento nega o anterior. postulando. o fundador do Materialismo Dialético e Histórico. Como nas leis do devir. que pode ser examinada como "universal". da moral etc. mas também conserva o superado). Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos enérgica. A proposta e ação desviante podem. tornar-se o gérmen de um processo produtivodesejante-revolucionário. e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. ilusórias ou aparentes. desde a Antiguidade até a época contemporânea. contradição e terceiro excluído perdem vigência. não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou uma mudança profunda. sendo as mudanças que se apresentam apenas superficiais. devido a sua essência intrinsecamente contraditória. outras entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica ou dou trinária). e não ao espírito. grupos ou tendências que questionam o instituído* – organizado. quer dizer. mas em geral é predominantemente reativa. eventualmente. de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético.). Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*). atitudes e comportamentos. DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão presentes em todo saber ocidental. uma idéia do ser como puro devir no qual retornam exclusivamente as 145 ▲ . A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação. em troca. Protagonizam. É um pensamento que concebe a realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. através de diversos discursos. Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal Clássica. Outro aspecto importante da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade. um desvio ou afastamento da linha condutora hegemônica da organização. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel.DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos. assim. o supera e ao mesmo tempo o conserva. Karl Marx. "geral. 2) Passagem da quantidade à qualidade. se bem impugna e denuncia os defeitos do instituídoorganizado. particular" e "singular". pois os princípios de identidade. essência de todo o real.

no Grupalismo e no Institucionalismo a operação pela qual o analista. em todas as sociedades da História e especialmente na modernidade industrial. que expressam claramente uma falta de vontade instituinte*. Para o Institucionalismo. do campo-cidade. devido à propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas (extração de mais-valia). DOMINAÇÃO: imposição. particularmente de bens materiais e serviços. Determinadas tarefas são consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza. Contudo. à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. Os processos de trabalho complexos. consome força de trabalho. masculina-feminina etc. ou mais ainda. a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e compreendê-los (ver Análise da Implicação*). por sua vez. Coisa similar Ocorre em outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). podem ser atendidas. estão diversificados em diferentes tarefas articuladas entre si. confiando em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à autogestão* e à auto-análise * . por diversos meios (dentro de um espectro de 146 ▲ . Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. poder e prestígio. sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases. um apreciável encargo repressivo ou ligeiramente reformista. DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção manualintelectual. DISPOSITIVO: ver Agenciamento. DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção. exige um trabalho. DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise.diferenças (Esquizoanálise*). e este. DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma organização ou movimento. a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem analisados e intervindos. As tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização-movimento ou separar-se dele.

enquanto esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável de sua gênese social. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência.. Por outra parte. Quanto mais formalizada. da vontade de indivíduos. mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). experiências. Iibidinal ete. porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências. Os instituídos* – organizados* estabelecidos. rigorosa 147 ▲ . mantêm seus privilégios dominando a vontade coletiva ou majoritária. econômica. Por isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos". interminável. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. grupos ou classes sobre outros. a idéia do esquema denota o caráter provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado. Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. seguindo uma orientação das ciências físicas. estratégias. Contudo. Refere-se. táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. por definição. o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento. jurídica. logísticas. ressaltando suas características singulares devido à condição única. mais ela se torna opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. às teorias. A lista de efeitos que podem ser propostos é. Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma. semiótica. em especial o Estado e o grande Capital.violência que vai desde a sedução até a destruição física). A dominação é simultaneamente política. em primeira instância. a Lei do das Valor. ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo". no Materialismo Histórico). Se bem esta afirmação não refute o caráter universal e om niva len te grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo. o ECRO é muito mais que o até aqui mencionado. afetos e outros elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. irrepetível e contingente do fato em questão.

Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber científico". ocorre o contrário: as experiências sociais se multiplicam. do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a organização intervinda. por exemplo. Alguns antropólogos pretenderam. pelo contrário. Já nas etapas "quentes". o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a "naturalização" de seus instituídos*. à concepção de outras modalidades da causalidade. Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos. quer dizer. Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos. que careceriam de história. Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem constituída. Nessas fases. a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos). cada um dos elementos mencionados é um "resultante" do campo que assim se configura. quer dizer. as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por parte dos coletivos do saber acadêmico. mais satisfaz as exigências cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. 148 ▲ . O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a problemática da implicação. mobilização e grandes transformações. por oposição às modernas. como. e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e desenvolvimento (ou seja. mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos. a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"). precisar simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção do conhecimento social científico.e quantificada aparece uma ciência. que as sociedades chamadas primitivas. Nos experimentos da mecânica quântica. ou. erroneamente. Quer dizer: geram-se processos de autoanálise* e autogestão* espontâneos e generalizados. inspirados por uma profecia libertária. portanto. e. sujeito e objeto constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de imediato todo o apreendido na ação instituinte. assim como outros de agitação. seriam "estáticas". Essa constatação pode conduzir a um irracionalismo (ou seja. em que todo o saber social está em ebulição.

chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados". teoria. Einstein. refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída quando a mesma está ameaçada. sendo que freqüentemente se subdivide. De acordo com o contexto discursivo de que se trate. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela. por sua vez. que num sentido acadêmico denomina-se disciplina. o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente. sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa. O lnstitucionalismo constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos. as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. dissimulados. Outros Efeitos: Lefevre. Em nosso entender. Em uma acepção ampla. um grupo ou uma organização. encomenda etc. que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. ENCARGO: no Institucionalismo*. A modalidade do saber dominante durante este processo é a do conhecimento científico. cujo procedimento é. Reich. por definição. sendo que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. a idéia de emergente tem uma similaridade com a de analisador*." corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital. analítico. não-manifestos. Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes. tem seu próprio objeto. por sua vez. em um número crescente de especialidades. denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em materialidades diversas: "mentais". EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil precisar seu significado. Um emergente pode manifestar-se através de um indivíduo. método e técnicas. ignorados ou reprimidos. Essa 149 ▲ . pedido. Artaud. Cada ciência. mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo. e que comporta uma demanda de bens ou serviços. ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e de suas aplicações tecnológicas. especialmente nos políticos. Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos. centro-contra-periferia etc.

dominação e mistificação. ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE. 150 ▲ . Sobretudo se interessa sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e. Mas. EQUIPAMENTO: conglomerados complexos. dispersão e perda da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação".fragmentação do saber. pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. Os equipamentos podem pertencer ao Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas. Essas diferenciações. a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico. popular. arquivos. é o que corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. consagrou a especificidade – a delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente – como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. à medida que reduzem o campo de atuação de cadél agente social. em resumo. possibilitam o incremento de sua competência e eficiência. revolucionários. além de insistirem na crítica global desses efeitos. redundam na fragmentação. Em termos sociais e epistemológicos. prevalentemente a serviço da exploração. das contribuições científicas. Isso levou a deformações tais como o operacionalismo. sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de nossa civilização. Por outra parte. os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo. por outra parte.). Podem ser de grande porte (por exemplo. tem a ver com a divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo. também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes nela). da loucura etc. corporações). As diversas modalidades do Movimento Inslitucionalista. impressoras. assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer (particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). relógios de ponto etc.). No caso das ciências e disciplinas. montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos técnicos). à incapacidade de julgar e conduzir seu andamento. em todas elas. resultando no aumento espetacular de sua produtividade. ou seja. articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*. pretendem resgatar os valores instituintes* e organizantes*.

Uma dessas formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e outras positivas. Nesse sentido. Mencionaremos apenas que. que varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra". A essência do real é a "produção desejante". demolindo as constrições da parafernália de controle-registro. Mas a produção de produção de novidades é capturada pelos estratos. psíquica. "do Déspota" ou do "Capital-Dinheiro"). em cujo âmbito as inúmeras revoluções são feitas não apenas por necessidade ou dever. As máquinas desejantes dispõem-se e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica". o real é constante e integralmente produzido. ecológica etc. consubstanciais ou inseparáveis uma da outra). O processo produtivo de produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia. concentradora e acumulativa. política. Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. tais materialidades são imanentes (quer dizer. a microfísica e a biologia molecular. a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura liberar o processo produtivo-desejante-revolucionário. territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à repetição do mesmo. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre. comunicacional. colocada a serviço de uma entidade centralizadora. mas pelo desejo.ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente. puras diferenças intensivas. mas como ser do devir). infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas desejantes". Entendida como procedimento para pensar e compreender o real. para essa concepção. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática no livro "O Anti-Edipo" (1972). 151 ▲ . tais como "Pragmática Universal". essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos. A Esquizoanálise também é definida com outras denominações. ou seja. e mais ainda. cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. em qualquer tempo ou lugar. uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade". a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que se originam ao acaso*. totalizante. Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e tecnológica seria estéril. estão" precedidas" por um campo de materialidades "puras". podendo-se distinguir nele uma produção de produção. "Análise Nômade" etc.produção e do desejo na vida biológica. destinadas a propiciar o livre fluir da . Segundo a entendemos.

para que a classe recupere a margem real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita. que obtém por meio de sua concordância com a Lei. Existem muitos diferentes tipos de Estado. Seu principal instrumento é o Direito. grupos e idiossincrasias dominantes. micropoderes do Estado). EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças. mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e legitimação. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis si mesma. A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito. os possíveis retrocessos ete. agente e instrumento de persuasão. os avanços esperados. em 152 ▲ . repressão. ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção.ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos. e ainda do significado do que diz. do estado de coisas às quais este se relaciona. corpo estabelecido de leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados. coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes. efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. FANTASMA: para a Psicanálise. as alternativas viáveis. mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. apresentando-se aparentemente como expressão da vontade majoritária. e o planejamento da progressão das manobras. Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza. A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de dominação* e mistificação*. Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintesorganizantes dentro do Estado. o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". É uma sistematização das metas a serem alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*). Os psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. Os sociopsicanalistas decifram e interpretam esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho. meios e resultados dos processos produtivos de toda índole. a previsão de curso. mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo. O Estado não se compõe apenas de grandes organismos.

e não "individuais" ou "coletivos". da novidade. é um grupo sujeitado. A função está sempre. A rigor. lógica e necessária. prescindindo de alguma leitura que os torne inteligíveis. a serviço das diversas formas históricas da exploração*. a tecnocracia. organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram. têm apenas uma autonomia relativa com respeito aos acontecimentos*. Pelo contrário. estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social. Em conseqüência.). da invenção e da metamorfose. seus agentes* e práticas*. 153 ▲ . conjunturas. então é um grupo sujeito (protagônico). dominação* e mistificação*. a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo". opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. a belicracia etc. procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*estabelecidos. invariável. eterna. opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias. universal. A função apresenta-se às representações e crenças das sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural".FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos. Entre seus produtos estão os instituídos*-organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo. sejam elas científicas. que se empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade. FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos. tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte. Do mesmo modo. ideológicas. GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver Esquizoanálise*). prevalentemente. filosóficas ou estéticas. procedimentos. não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual. É o gerador da diferença. a burocracia. Em todo caso. Para Guattari. a afirmação de que a gênese social e teórica são inseparáveis entre si. não se entende nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica. Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e de construir a si mesmo durante o processo. GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e doutriné1s. assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos".

sexuais. existem histórias econômicas. HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. raciais. obsoleto e morto. as Idéias Puras. intrigas de corredor. consistem apenas numa versão a mais. não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. são seres idênticos a si mesmos. Assim. modelos de tudo que existe. A rigor. assumindo que o fará a partir dos desejos. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais. das classes dominantes e do instituído*-organizado*-estabelecido. que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). ou seja: rumores. Assim entendida. quando não exclusivas. culturais. a horizontalidade designa a dimensão grupal atual. mais importante pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma. tão tendenciosa como qualquer outra. interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. Na Psico-Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo. IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo. eternos e invariáveis. para o Institucionalismo. ou seja. não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro. Em geral.HISTÓRIA: para o Institucionalismo. mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. aparentenlente claro e acessível. mas o conhecimento de processos vigentes no presente. o conjunto de elementos que coexistem e operam. Por outra parte. A História. geracionais. geológicas. é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado. a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde às relações e aos processos informais. Delas só se pode predicar sua 154 ▲ . períodos ou épocas localizáveis geográfica ou cronologicamente. é uma versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*. configurando-se no aqui e agora do campo grupal. Não existe um processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. políticas. mas como o presente ativa e deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos. a História não é a investigação acerca do que já está definido. biológicas. Trata-se da reconstrução dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. cada um transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. Existem variados processos. etapas. que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes convêm. vínculos sexuais etc. Pode-se tentar articular os diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras. segundo Platão as concebeu.

As Idéias Puras são sinônimos de "ídolos" para alguns autores. definida como oposta à ciência. carece de interesse. e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. Em geral. IMANÊNCIA: para alguns filósofos. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um ideal ou modelo. Essas representações estão animadas por vontades e desejos. valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo. a ideologia dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento. à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que são "realizações" de desejos inconscientes. denominam-se cosmovisões ou visões do mundo. para outras. A ideologia. por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *). Segundo esse sentido. ou por forças ativas (por exemplo. O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser encaminhado como amor ao saber. constituem as ideologias teóricas. a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com suas condições reais de existência. Opõe-se à transcendência. Análise Institucional *). a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*. que é a visão das Idéias Puras. Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos ocupam nos sistemas que se representam erroneamente. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. culturais (sociais em sentido amplo). distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras). políticos. ou seja. em uma sociedade"'. convicções. e essa é também uma proposta ética. Enquanto sistemas de representações. Todos eles são 155▲ . as das classes dominantes) que produzem. Em outra direção. Para o Institucionalismo.própria essência (por exemplo: a brancura é branca). à procura da Verdade. os naturais e os desejantes. Segundo seu matiz político ou ético. este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações (crenças. Quando configuram sistemas amplos. expressa a não-separação entre os processos econômicos. Para algumas correntes do Institucionalismo. enquanto implica a virtude e o bem supremo. mas podem ser também disposições para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). apenas um saber aproximativo e viciado por erros.

INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas. de uma sociedade humana. a divisão social do trabalho*. consumo e desfrute de bens materiais. ciência da História. normas ou hábitos. o Estado*. Esse processo é considerado a base material e condição de existência de toda e qualquer sociedade. indicando o que é proibido. as forças armadas etc. Na versão clássica do Materialismo Histórico. mecanismos. Segundo seu grau de objetivação e formalização. O significado psicanalítico designa instâncias. processos. troca. as relações de parentesco. É um campo histórico que sofre uma repressão político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social. a infra-estrutura determina a superestrutura*. INCONSCIENTE: em um sentido amplo. intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. o dinheiro. especialmente o recalcamento primário. Para outras. Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo. dito em sentido amplo. Superego e ld. particularmente na versão de Althusser. a Sociopsicanálise). e também das instâncias do aparelho jurídico. a religião. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*. em especial o Complexo de Édipo e o desejo. da Sociologia e da Economia Política marxistas. INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico. por exemplo. o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo.inerentes. INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico. refere-se a realidades e processos que não são conscientes. distribuição. quer dizer. as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. Essa terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção. Exemplos de instituições são:a linguagem. podem estar expressas em leis* (princípios-fundamentos). um resultado: o instituído*. denomina-se instância a cada região que compõe o território ou domínio do modo de produção. As 156 ▲ . a justiça. forças e representações. apropriação. a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego. Para realizar concretamente sua função regulamentadora. o que é permitido e o que é indiferente. e um processo: da institucionalização. denomina-se infraestrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção. Um conglomerado importante de instituições é. que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento. operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*.

conservando d e ju ri estados já transformados de fa cto tornando-se assim resistente e e conservador. como parte do devir das potências e materialidades sociais. Os interesses caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. de acordo com as exigências do devir social. sendo 157 ▲ . Para que os instituídos sejam eficientes. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se apresentam como universais e mais ou menos invariáveis. no seu limite. devem permanecer abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos. aspirações. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados pelas Utopias Ativas*. expectativas e demandas pré-conscientes e conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte*organizante* e. Todo esse procedimento parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em táticas. grupos ou classes na atividade social. O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. Em geral. o processo de institucionalização deve ser acompanhado de outros organizantes* que se materializam em organizações*. Para operar concretamente. INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante-revolucionárias que tende a fundar instituições ou a transformá-las. o instituído tem uma tendência a permanecer estático e imutável. o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela. Pode-se falar de quatro instituições "fundantes" das sociedades humanas (ver sociedade*). e freqüentemente se descobre que sua suposta racionalidade não é mais que uma racionalização. diz-se que se fundou uma instituição. desejos. Quando esse efeito foi produzido pela primeira vez. INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído. em textos e/ou discursos. os interesses divergem ou se opõem aos desejos e fantasmas inconscientes. a implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*. No transcurso do funcionamento do processo de institucionalização. Contudo. LEIS: consistem na formalização e explicitação.origens das instituições são difíceis de determinar. INTERESSE: denomina-se assim às motivações. das árvores de valores e decisões que constituem as instituições*.

idiossincrasias (sexuais. o acesso 158▲ . refere-se a conjuntos humanos amorfos. cujos integrantes carecem de "identidade" própria. etárias. pelo Estado ou a Igreja.referendadas. por exemplo. sinônimo de organizações. que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. consagrado ou autêntico nos campos correspondentes. geográficos ou abstratos. a de classes) se apagam em função de outros parâmetros (por exemplo. doutrinas. mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. Freud utilizou o conceito de massa como sinônimo de grande agrupação. raciais. espaços físicos. MARGINALIDADE: por referência a teorias. legítimo. designa grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar. mas o de um exemplo singular. são instrumentos formais produtivo-desejante-revolucionários. organizações. jurídicas) etc. o laíssez-faire o democrático. e não intradirigidos.. nacionais. que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. Quando o líder é um autêntico e recurso para o funcionamento instituinte. o termo marginalidade está muito relacionado com a oposição centro-periferia. MASSAS: noção de difícil definição. A logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. Os mais característicos são: o autoritário. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. movimentos. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. As massas "estáveis" são. Avalia-se o que está disponível para contribuir ou para dificultar o trabalho. Em outra significação. são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação. LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de condução. Num sentido. Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias leis". econômicas. O Institucionalismo conhece e aplica as leis científicas que lhe são úteis. denomina-se revolucionário-desejante-produtivo. Chama-se "Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo. Seu estatuto não é o de um modelo. Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército. de modo plausível. LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. Obviamente. ideologias. Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros. considera-se marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central.

A necessidade não satisfeita origina uma privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. crenças. onde. Nas sociedades industriais modernas. MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção. A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória. "cientificamente" fundadas. sendo compensável com as respostas que a complementem. previdenciário. Essas decisões e as ações que elas orientam são. transporte etc. de máquinas de semiotização de captura e recuperação* . em troca. assim como supõe ter necessidades cuja existência foi produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. segundo outra terminologia institucionalista. administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*. Dessa maneira. não é um pedido do que manifestamente se solicita. mas de "amor" e "reconhecimento". segundo dizem os experts. como. encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos. A partir da Psicanálise. convicções e valores que deformam. porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam".ao consumo de certos produtos). a construção de um "Estado beneficente. sempre visando "o bem comum". e a simbolização. Pode-se considerar os processos de mistificação como sinônimos de produção. e com eles. bens de luxo e desperdício dos setores dominantes. MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades "naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". O desejo. tem sido sempre prioritária. Já a demanda. definem-se tais necessidades e se convoca e modula sua demanda. costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda. educação. e de acordo com a "vontade popular". categorizado como "objetos das necessidades básicas". difusão e assimilação de ideologias regressivas ou. quanto. que a Psicanálise define como essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. no que se refere a bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental). os experts. do ponto de vista psicanalítico. São eles os que decidem o que. o gozo absoluto. difusão e assimilação de representações. pede uma impossível restauração narcisística. Ou seja. um destino 159 ▲ . O que resta da produção é o que se oferece às comunidades. entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo. A produção de objetos suntuosos. Uma sociedade* tem necessidades que não conhece e não consegue definir como tais. as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*.

da conservação e da reprodução*. entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos processos de auto-análise* e autogestão*. agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o desejo* e a produção*. métodos. em suas ligações anárquicas locais ou à distância. Assim configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo. Os dispositivos* e máquinas de guerra nômades. este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de registro e controle e a de consumo-consumação.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções. estratégias e táticas de leitura e de intervenção. onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*. Nessa ordem. enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias. o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. sobrecódigos e axiomáticas. É o lugar dos códigos. 160 ▲ . É o campo da regularidade. É o lugar das matérias não-formadas e das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que. da estabilidade. Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro". segundo o acaso* ou uma lógica aleatória). Algumas correntes institucionalistas questionam radicalmente essa concepção do desejo*. assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem. este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção desejante. Essa superfície está integrada pelo "corpo sem órgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de maneira binária – máquina-fonte-m. as entidades características são os estratos e os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. das formas sujeitos e objetos definidos. estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente libertários. resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades molares. MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências subscrevem alguns objetivos comuns.que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga.socializável. Igreja etc. MOLECULAR: para a Esquizoanálise. Em outra terminologia. MOLAR: para a Esquizoanálise*. técnicas. dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*. Nesse espaço constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númenvoluptas).

Para as diversas correntes do Institucionalismo. em todos e cada um dos aspectos da vida. assumida ou não. ou então causas ou efeitos de um desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. que resulta da natureza conservadora das pulsões. mas é considerada invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência. ou até extremistas. devem ser integrais. organizações e comunidades diante das situações desconhecidas e novas. ou seja. também tem. a problemática da mudança. Em geral. para seren1 sólidas. a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais e pré-sociais. da insistência do desejo e dos princípios de constância e inércia.MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) à transformação valores ou diferentes. transferência-resistência. é tratada segundo as inspirações teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu nas ciências humanas e na cultura ocidental. ou. Basicamente. comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais. b) sustenta que as mudanças. c) afirma que a substância do real é a diferença pura e a produção desejante. em um sentido mais amplo. que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias. Em todo caso. pode-se dizer que. refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou distorcidas nos discursos. NÃO-DITO: no Institucionalismo. para imitar o mundo e o tempo divinos. textos. No outro extremo da História. entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas". por sua parte. a questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da compulsão à repetição. simultaneamente biosociolibidinais. o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como reações em cadeia. Essa omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária. reação-reformismo-revolução etc.. A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural-funcionalista insistiram muito na problemática da mudança e da "resistência à mudança". consciente ou não. o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se mantivesse exatamente idêntico em organização. entre seus temas mais importantes. A Psicanálise. atitudes. "transformacionistas". Para algumas comunidades primitivas. e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas. dentro de um espectro de radicalidade crescente. tal como ela se apresenta nos grupos. a oposição. 161 ▲ .. ligada a categorias de diferença-repetição. eternos e invariáveis. costumes etc.

estrutura e dinâmica dos agentes. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos. OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos. técnicos. De acordo com sua dimensão. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*). pois para o Institucionalismo não é possível uma posição clássica de "neutralidade" ou "objetividade". à má-fé ou à repressão no seio dos discursos. até um pequeno estabelecimento escolar. adquirindo uma série de vícios. como aos manejos do poder. A oposição pode ser mais ou menos acirrada. Esse omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*. correspondem às grandes formas molares da superfície de registro.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante o processo de institucionalização. E necessário para orientar o funcionamento da entidade. comportamentos. atitudes. organizações e movimentos. autorizada. legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que a integra. espaciais. Na terminologia da Esquizoanálise. vai-se produzir uma nova organização que é o verdadeiro objeto de análise. ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". inventiva e transformadora que tende à otimização das organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*. Uma organização* só cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 162 ▲ . Esse processo exige das organizações a abertura para efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. vão desde um grau complexo organizacional. perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. grupos. chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada.Contudo. o mais conhecido é a burocracia. como um ministério. ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*. mas tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se. textos. Assim. o não-dito remete predominantemente à ignorância. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva. exagera-se em torno de sua função. mas em geral é reconhecida. O organizado é ilustrado no esquema do organograma e do fluxograma da organização. da antiprodução* e da morte. É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz no encontro. cronológicos (etc. ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica. no Institucionalismo. ao desejo e à vida.

decisão. na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. Os papéis são emergentes de configurações estruturais que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes indivíduos-sujeitos-agentes* sociais. algumas cujas 163 ▲ . e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição). POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes teóricas e técnicas. a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver Produção*. Quando um agente social abandona o papel este se expressa ou manifesta através de outro participante. Em geral. Isso não significa maiores modificações de fundo na propriedade. consciente ou não. PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas. destinados a impor a vontade de um segmento social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente novo. segundo as circunstâncias. PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na planificação. inventar. mas que se exercita. come caracteres de personagens teatrais. criador de vida. PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e grupais em particular. POTÊNCIA: no Institucionalismo. provoca. mas também em um sentido positivo de orientação: o poder incita. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se possui ou se detém. em geral ele se aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os outros e carece de sentido fora desse vínculo. "sabotador". convoca. execução e benefícios da atividade. "seguidor". como "masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). ativa etc. Desejo* Instituinte*). Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente emergentes. PARTICULARIDADE: ver Universalidade. transformar etc. Particularidade e Singularidade. como o de "bode expiatório". Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados. emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de produzir.organizado*.

dotado de força de trabalho qualificada. É o devir. subjetiva e socialmente. a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. No Institucionalismo. a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por Georges Lapassade. com sua proposta de Transe-Análise. gerando um produto específico. a Medicina e a Carreira Milita. coordenação de grupos e intervenções organizacionais. a metamorfose. desde o início.: Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio. tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*. a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e academias universitárias teve. a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima. PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico esclarecedor e a ação transformadora do real. Para o Institucionalismo. A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação "vocare": chamado de Deus). Em um sentido descritivo. PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue.características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal. assim como de autonomia e independência relativa. é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas determinações que para seus próprios agentes." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas. organizações* e estabelecimentos*. enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às inespecíficas e não-qualificadas. técnica. expressivo e dramático nos tratamentos clínicos. e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento. Entre as tendências que o integram. Em geral utiliza-se o termo "prática" para as ações específicas e qualificadas. Apesar do já dito. PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional. as profissões compreendiam o Sacerdócio. designa todo processo pelo qual um agente. com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à especificidade*. PRÁTICAS: em um sentido epistemológico. Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de militância. a Advocacia. É a permanente geração de tudo que pode logo tender a cristalizar-se. É aquilo que processa tudo que existenatural. uma dupla natureza – de 164 ▲ . É equivalente ao funcionamento*. diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*. pode-se mencionar a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich).

. no campo da Administração. mas se diferencia delas. distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica. econômicos e outros. O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais. por outro. 165 ▲ .) PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que. mercantilizaram-se. poder e prestígio do corporativismo e do academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista. significa voltar a pedir. Falase de Recursos Humanos como um dos componentes de um espectro de recursos: físicos. por não reivindicar o caráter científico (ou seja. consciente ou inconsciente). nações etc . por um lado. ligaram-se ao poder do Estado e ao das empresas. (ver Psico-Socioanálise *. As práticas profissionais. todas afirmam a constituição. Interacionismo Simbólico). Comportamentalista. REPETIÇÃO: em um sentido etimológico. à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao elemento humano nas organizações. No filosófico. começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos" para referir-se. "neutro". inconscientemente. Existem várias correntes de Psicologia Social. RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70. refere-se à reiteração ou reapresentação de idéias ou de realidades. formando as cúpulas tecno-burocráticoacadêmicas – mas também se degradaram como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização. regiões. mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que as classes institucionais regredidas fazem. frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado individual ou coletivamente. de uma maneira ou de outra. gratificação. toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). antes considerados de segunda categoria. visando o lucro. Com a modernidade. instrumental ou operacional) que elas se atribuem. De maneiras muito variadas (por exemplo. da "modernidade" hiperespecialista e da suposta independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. O Institucionalismo insiste no estudo e no desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro. entre outras coisas. tecnológicos. produziu-se uma série de mudanças no status de profissional. Esse título ampliou-se a outros ofícios. Gestaltista) ou à Sociologia (por exemplo.controle de qualidade dos serviços. de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder de que dispõem para mudá-as.

do aleatório e imprevisível. e podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. Sua "encarnação" mais prototipica estaria nos sofistas. o romance institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização. ou ainda. analogia ou semelhança com o idêntico ou o mesmo. capturando-o e recuperando-o (ver Captura e Recuperação). na Sociologia e para o Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). mas o diferencial. melhor. Trata-se. entendido por relação de negação. ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico". REPRODUÇÃO: num sentido etimológico. tenda a capturar o retorno do diferente para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema. ou seja. tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso. procura-se deter os devires. nunca o consegue por completo. os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que não conservam nem a imagem. mitos. que é radicalmente transformadora ou motor da História. realísticas. Dessa maneira. 2) o diferente. sociais. significa cópia ou imitação. designa as tentativas de reiterar algo idêntico. O Institucionalismo sustenta que o que retoma na História não é o idêntico. não interessa tanto estudar as leis que dão conta das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas astronômicos do cosmos ordenado. igualou similar ao que já existe. a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de matizes imaginários e fantasmáticos. obviamente. 3) o diferente absoluto. nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e. SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo. Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões simbólicas. acontecimentos e transformações naturais. culturais e subjetivas.Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o idêntico ou igual. grupo ou movimento. de entender o retorno do diferente. atitudes. a diferença absoluta. o igualou o mesmo. Platão os considera falsos. o instituído*-organizado*-estabelecido. Se bem seja certo que a superfície de registro. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. cumprindo sua função conservadora. Trata-se de comportamentos. produto do acaso. tradições. mas puro devir. Na Filosofia. demoníacos e inclassificáveis. pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 166 ▲ . documentos. Não são seres. o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. grafitos ete. Em conseqüência. carecem por completo de identidade.

como o de T Parsons e outros. Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo. SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. A ação causal conjunta. Como se vê. ampliar essa definição. organizado*. Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a indústria. uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição de transformação). complexa. desloca da e condensada de todas as forças. SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. 167 ▲ . agentes* e práticas*. assim como a passagem da solidariedade mecânica à orgânica. o organizante* e a superfície de produção. hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se denomina sobredetermi nação. SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da participação causal. compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*. estabelecimentos*. a religião e a divisão técnica e social do trabalho. incluindo o instituinte*. contudo. Os objetivos desse enfoque são a racionalização e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações.como a essência do real. As instituições interpenetramse e articulam-se para regular a produção e a reprodução* da vida humana. essa definição está bastante centrada no instituído*. instâncias e representações que. sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius. as relações de parentesco. um tecido de instituições*. organizações*. estabelecido. Define-a como uma rede. singularidades* intensivas. que são o ser do devir ou processo produtivodesejante-revolucionário. francamente críticos. Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *). SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*. que se compõe de diferenças puras. fluxos. articulada. É possível. sinérgica ou contraditoriamente. é a partir da década de 20. respectivamente. Alguns institucionalistas afirmam que as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua. No entanto. não apenas econômico) reconhece-se uma instância" determinante última" (condição de existência). que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*.que pertence às formas definidas da superfície de registro. Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas.

Mendel articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce. SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise. avaliação e comportamentos transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. denominada Desenvolvimento Organizacional. sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. A Sociopsicanálise sustenta que. que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. comunicacionais e motivacionais (do conjunto empresarial e dos grupos que o integram. Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra. bastante ortodoxa.) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera". pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado (ver Alienação*) no Capitalismo. cuja viabilidade é considerável. um processo regressivo de ordem coletiva. do poder e prestígio. Segundo Mendel. Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento psicofamiliar. onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor compreendidas. a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza. uma vida preferencialmente imaginária. em vez de principalmente simbólica (correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). no qual os sujeitos viven. do Materialismo Histórico. trabalhadores. O resultado é uma abordagem politicamente moderada. diminuir os insumos. Segundo a denúncia institucionalista. denomina-se assim à percepção. a Sociologia das Organizações. do resultado do trabalho. quando se abordam os coletivos. a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). visa facilitar os mecanismos culturais. Essa experiência de limitação gera neles.como os de W Mills e W H. num sentido coletivo. Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de que. conseguindo. assim. necessitando dos cuidados de um outro para ter sua sobrevivência garantida). o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos patológicos é o local de trabalho. A 168 ▲ . Whyte. aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários. devido à sua série disposicional pessoal. Foi fundada e desenvolvida por Gérard Mendel. particularmente uma de suas modalidades.

Há. com Lênin. e pressupõe um movimento de cada classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de trabalho alienado. classe social. enfim. somatizações. messianismo. momento histórico. os modos de subjetivação que os mesmos precisam. toxicodependências). delírios. o que os levará a vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia. inibições. a montagem de dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e. clie. sim. No plano da militância. e geram sujeitos singulares nas margens de cada acontecimento*.situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram. social ou psíquico. que vão res ultar em sintomas (atuações.ntelismo. infinitos e heterogêneos processos de produção de subjetivação livre. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os levava a se refugiar num mundo de fantasias. ubíqua e universal do sujeito filosófico. revolucionária. Mas a cura não é definida em termos individuais. junto com eles. Inclusive. por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme. esses quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar. o modelo científico que temos no Ocidente como universal. SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 169 ▲ . contraproducentes. Trata-se da condição obtida por um papel dentro de uma sistematização hierarquizada dos mesmos. Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer sociedade. SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*. próprios de cada momento. A metodologia de intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica. como "enfermidades infantis do trabalho": voluntarismo. fisiologismo ete. Com isso. sujeitada e submetida. povoada por figuras fantasmáticas de sua vida familiar. populismo. buscando soluções mágicas. em todo tipo de patologia biopsico-social. invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". O lnstitucionalismo pretende propiciar. e sim coletivos. autoritarismo. para algumas orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável. Esses são absolutamente contingentes. principalmente a interpretação. o coletivo institucional também passará a funcionar nesse registro. desejante. produtiva. STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. através da análise e da intervenção. raça ete. lugar e conjuntura.

Quimbanda e Candomblé. É o momento de seleção de recursos a serem empregados na etapa imediata. composição.psicológicas (entre elas. TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. informativos. SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico. reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do psiquismo). ciência da História. artísticos. segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*organizado*-estabelecido. Para outros Institucionalistas. Algumas correntes institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise. Os processos superestruturais operam a reprodução ampliada do modo de produção.) a serem adotados de acordo com as circunstâncias. difusão e assimilação de representações e valores ideológicos. por exemplo). não existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento. conteúdo ou estilo. desportivos. tais como: Umbanda. da Sociologia e da Economia Política Marxistas. denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídicopolíticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos. TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros. transformação. O que existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou similares. com propósitos diagnósticos e elaborativos. O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. Sua escolha é consideravelmente livre e dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora. 170 ▲ . lúdicos. assim como de produção. Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe. expressivos. sensibiliza dores. a Psicanálise). discursivos. Na versão clássica do Materialismo Histórico. Trata-se de procedimentos (interpretativos. interrelacionais. Por ou tra parte. a superestrutura reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura. sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição. TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*. do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento e peculiaridades do coletivo em questão. Posteriormente. grupais. coletivos etc. na instância jurídicopolítica é onde se processam os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente.

TRANSVERSALIDADE: interpenetração. Para essa orientação. como por exemplo a Esquizoanálise. é importante 171 ▲ . Como montagens. desejos. Reich e outros). fantasmas. que propõe a autogestão* ou a gestão participativa dentro de cada estabelecimento. UNIVERSALIDADE. A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas organizações*. a idéia de transferência pode ter. existiria uma transferência que não funciona como resistência ou obstáculo. em conseqüência. uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras bastante modificadas. pré-conscientes e inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva".as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes. tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas. a partir de conexões locais. estereótipos gestionários. o que se repete substancialmente é o diferente. Lacan. o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos particulares e singulares de seu objeto. no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem membranas celulares nem limites externos precisos). A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis. hábitos comunicacionais. No Institucionalismo. considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e os variados aspectos da vida institucional como um todo. Certas correntes do lnstitucionalismo. mas como motor das transformações. PARTICULARIDADE. deflagram efeitos transversais inventivos e libertários. No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional. O que se repete são pulsões. códigos. entrelaçamento. papéis. que é imanente à rede social das forças produtivo-desejantesinstituintes-organizantes. os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos. e. TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein. Em geral. estruturas e até complexos destinos organizacionais. territórios. segundo a corrente de que se trate. sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais. demandas. gerando efeitos à distância sem transmissores detectáveis. Contudo. SINGULARIDADE: no que interessa ao Institucionalismo. É uma travessia molecular dos estratos molares. elaboraram uma profunda reflexão filosófica sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. GENERALIDADE.

se apropria. USUÁRIO: no lnstitucionalismo. Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo. consome. Segundo entendemos a proposta de R. Pode-se sustentar que nega de uma só vez a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade. Supõe-se que a intervenção no caso singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e no saber dos coletivos institucionais. a particularidade (por exemplo. O momento da generalidade compreende a caracterização de um atributo abstrato da universalidade. a Análise Institucional estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos. O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da generalidade. tal dialeto napolitano e seu uso concreto. na medida em que se refere a um objeto único. dessa maneira possibilitaria sua desalienação. personalizado ou anônimo. usufrui de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais em seus aspectos instituintes*-organizantes*. Lourau.diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto. vazio. Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais do particular e do singular. máximo nível de determinação atingível. mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. freqüentemente designa-se o conjunto dos usuários como "staff-cliente". Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal. Um juízo ou um conceito universal abstrato é. a singularidade (por exemplo. um puro produto do pensamento. adquire. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já estava compreendido no conceito universal. entende-se por usuário quem demanda. por um falante/ouvinte desse dialeto). enquanto cada um deles se define por sua afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. do tipo dos que são 172 ▲ . possui. a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas). No caso de uma intervenção institucional standard. Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica. O momento da singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro momentos: a universalidade abs trata (por exemplo. assim como contribuiria para a reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). em certa medida. as línguas indo-européias).

quer dizer: cargos. para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a quinta edição. Primeira Parte O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados. avaliar acertos e desacertos do primeiro texto. obviamente a partir de suas próprias convicções. contudo me parece que tem o direito de tentar. Desde já. cronos. hierarquias. Neste final de milênio vivemos. funções etc. 173 ▲ APÊNDICE O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro. umepospeculiar. Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná-lo com a biografia do autor. relacionado-o com o segundo. este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência.enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos"). em outubro de 1995. o processo produtivodesejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. desta forma. mas também à importância de marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento. Parece-me interessante que o leitor possa. como se 174 ▲ . e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica". a existência de uma composição sui generis e não é exclusiva da nossa fase. Obviamente. a verticalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde ao organograma formal. a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo grupal. Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins e meios. ou seja. composto dos seus próprios ethos.expressando isso de uma forma clássica. sem dúvida alguma. pathos. topos. a individuação de um real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. lagostelos. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo. sendo que cada período histórico tem. Optei por reproduzi-lo quase sem alterações. VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière.

"cultura". tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari. e que esse aumento qualitativo e quantitativo resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados. constatar. detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por "passado". cabem – devidamente redefinidos – termos mais ou menos "na moda". geográficas. "movimento". "Multitudinárias" e assim por diante. e porque não. de situação econômica. um crescimento enorme da "Riqueza" – entendida como meios de produção. tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil. de idade. "Transnacionalização". de certa forma. de troca e de consumo. de circulação. cultural. ou "lnformatizadas". "presente". em setores localizados do mundo. sexuais. Também cada" civilização". 175 ▲ . judiciais. que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a atualidade tem havido. de distribuição. assim. "troca". raciais. ditatoriais. "Sociedades Pós-Industriais". tais como "Globalização". – Como causa e efeito dessas transformações. pelo menos formalmente. "espaço". de comunicação. desde o local até o mundial. autoritários e outros. possibilitando. política. sendo que. "valores". "todo". representativos e eleitorais. Isso propiciou uma inclinação ao predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos. os Direitos Civis e os Direitos Humanos. e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos indiretos. tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições democráticas. excessiva neste escrito. Nessa designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do Capitalismo". legislativas e executivas. a sua. regionais. "pensamento". ou 'A. o mesmo tendo se realizado em todos os campos e níveis. "permanência". ou "Pós-Modernas". como aplicação teórica de um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento. o Estado de Direito. "Pós-Classes" e "Pós-Massas". – Esse incremento inclui bens materiais. onde vige. integrado por uma função axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. ou "Hipermodernas". evidentemente. tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de idiossincrasias minoritárias. no lugar da predisposição ao uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. Uma análise detalhada dessas categorias seria. incorporais. Costuma-se declarar. de culto. Conformarei-me apenas em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. porém. Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado". serviços. gerou-se uma tendência ao desmoronamento de regimes políticos totalitários. nacionais.sabe. "partes".utomatizadas". – Nesse mesmo lapso.

lógicas e âmbitos. "Socialismo Real". Isso significou a vigilância e ingerência sobre tais poderes. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente fracasso de todos os ensaio de "Comunismo". os Socialismos Reformistas. e nem aperfeiçoados. eficientização. Todos esses indicadores de "evolução". as Sociais-Democracias e ou tros similares. compactuação. não somente em quantidade como também em amplitude. transitórias e circunstanciais. toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência. crescente e incessante. de formas arcaicas. empresas livres e outros-. educação. por diversas razões. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis. à justiça e à competição sadia. No campo do social. exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil.porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei. imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí generís. estruturas. economia de mercado. justiça e ordem pública. desejos. 176 ▲ . agentes. – Desde já. essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduossujeitos-agentes-produtoresconsumidores-usuários conscientes. "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista"." em vias de desenvolvimento e de crítica". assim como pelo culto à liberdade. podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas" adversas. resistem em adotar os princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados. usuários. Esses setores a dificultam devido a vocação. e ainda hoje continuam trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. interesses e açôes contrários a esses desígnios. que são oportunamente subsanáveis. consumidores. modernização das estruturas. persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo. limitação. diversos "estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas. cultural e subjetivo. democratização. – Obviamente. baratização. – As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização – diminuição. assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional. assim como determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que.– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção. esses processos não são universais nem suficien temente implantados. tais como fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação. que tendem a realizar-se de forma gradual. todavia não superadas. planejamento e execução. Por isso. incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo. em todos e em cada um dos processos. funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde.

de forma esquemática e prototípica – e faço votos para que não tenha sido irônica –. isto é. é a sólida confirmação de que os modos de produção. vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto. uma maneira de descrever. vale a pena repassar. ou os cita apenas nas passagens em que supõe poder refutá-las. demonstram ser a "menos pior". Segunda Parte O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor. à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo agora. Estes. apesar de não ser a culminância. entender e avaliar o panorama munclial contemporâneo. Em primeiro lugar. Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostumase a experimentar. como se fosse uma "novidade recémdescoberta". Está claro que existem inúmeras versões a respeito que. ou bem os despreza. mesmo frágeis e freqüentemente precários. isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos. frente ao quadro que acabamos de delinear. não se pode evitar a sensação de que.Esse andamento. Em segundo lugar. de acordo com esta leitura do panorama mundial. comportando-se como se acreditasse que "na prática todas essas teorias são outra coisa". senão a única alternativa possível para a consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. apesar de muito mais sofisticadas e matizadas. da qual estas "impressões" são um 177 ▲ . O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos. uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade. Em terceiro lugar. ou funcionam somente dependendo do uso peculiar que se decide fazer delas. de forma parcial ou distorcida. a meu ver. uma série de impressões que. incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante. O mais grave desta "realidade". ou é repetida. não servem para nada. os regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado. são tratados como se fossem inexistentes ou irrelevantes. os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos triunfadores. pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato" que se pinta dela. não deixam de conduzir a conclusões parecidas.

mesmo se empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições. sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade. Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter que suportar a atribuição do status e papel de "catastrófilos".não apenas podem sofrer as mesmas ações repressivas de seus antecessores de todas as épocas – que. planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo. os conhecedores dos processos de construção e difusão "ideológica". se avalia e se procede frente ao estado contemporâneo das coisas." catastrólogos". longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência. dependendo do país onde atuam. indicadores. ou como" especialistas com falso prestígio". Em verdade. "catastrofistas". A colossal. escrever. é que a versão que relatamos anteriormente – que. a não ser aquelas que consistem em um aperfeiçoamento do conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde. Sociologia. conseguem apenas dissimular sua sistemática 178 ▲ . Boa parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumidaresulta não só da estupidez e de necessidades. Em alguns campos do saber e da vida notoriamente na Economia. conceitos. Em quarto lugar. signos. desprezo e exclusão mais ou menos sutis. funções. A sentença mais draconiana é que "são inaptos para oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos". agir e coerentemente viver de acordo com uma inteligência crítica e segundo alguma dessas propostas questionadoras supostamente inexistentes. mas também da difundida convicção de que. não existem reais alternativas para a situação imperante. Psicologia e Política – as declarações. rótulos esses que servem para etiquetá-los como "amantes ou cultores" mórbidos. analisadores ou idéias com os quais se pensa. ou como" delirantes adoradores "de um cataclismo imaginário e inexorável. muitas das suas categorias. categorias. tudo depende de como se define cada um dos termos: noções. é sabido e constatado que aqueles pensadores militantes. refinamento e desacordo que. desejos e interesses do pensamento crítico. desavisadamente. "a rigor". heterogênea e onipresente maquinária que gera esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possívele os "estilos de vida" e "de morte" que lhe são conseqüentes. vai desde a eliminação física e a tortura até a reclusão ou o exílio – mas também tornarse passíveis de inúmeras modalidades de desqualificação. de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. conceitos. Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –. procedimentos e resultados. ou simplesmente cidadãos que resolvem falar.registro. obscuridade. acabam por compartilhar. falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial. por outro lado.

nossos tempos. que na Idade Média. Muitos autores enfatizaram a velocidade do processo que o incremento das mais diversas potências adquiriu nos últimos vinte anos: a mesma é tão vertiginosa que resulta muito maior que a conseguida nos recentemente passados duzentos anos. ambíguos.a errônea O problema não consiste em puxar conclusões sobre se o mundo de hoje é melhor ou pior. Há hoje levantamentos estatísticos acerca de "tudo". – Dois bilhões de pessoas do globo terrestre subsistem em um estado que contempla apenas racionalmente o que – de maneira muito controvertida – denomina-se "satisfação de suas necessidades básicas". quantitativa e qualitativamente. em todos ou em algum dos aspectos da existência. se bem necessários e ilustrativos. não citarei muitos dados estatísticos que. o assunto consiste no confronto entre o que poderíamos fazer e o que realmente fazemos. tão velha como o próprio mundo. O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono. tantc no passado como nas circunstâncias presentes. não costumam coincidir uns com os outros. Trata-se de comparar o desenvolvimento potencial e efetivo de todos os tipos de forças produtivas de uma época com as realizações abstratas ou concretas alcançadas durante a mesma. a seguir. Dito de outra maneira. É uma brevíssima avaliação dessa natureza que me proponho intentar. Essa questão de "otimismo" versus "pessimismo" é. pelo menos um bilhão vive em um estado que a Organização Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta. Para examinar os aspectos mais relevantes dessa comparação. e "todo mundo" parece ter acesso aos mesmos. delicados e contraditórios.inoperância. com respeito às estatísticas. Porque. Frente a essa formidável escalada. tornariam estas linhas intoleravelmente difíceis de serem escritas e lidas. As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que: – Dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra. Contudo. Por outro lado. mostram uma peculiaridade surpreendente. evidentemente. o problema corretamente posto reside em perguntar o que se conseguiu exatamente com essas disponibilidades. é abordada de fom. se por um lado – como veremos mais adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas são tragicamente ostensivos outros são confusos. por exemplo consiste em cotejar o que o Capitalismo veio a ganhar com os desmandoó do Socialismo Real. Prestam-se. outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria Relativa e ou Pobreza. e os números que verdadeiramente interessam para tomar posição definitiva acerca das questões mais cruciais são considerados sigilosos e mantidos em secreto. Tampouco. 179▲ . assim a valorizações complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão. são poucos os resultados que podem ser considerados confiáveis. mas segundo o meu entendimento.

religioso. a Índia. e está baseado seja na venda da força de trabalho baratíssima e informal. assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques. apesar de serem os principais assentos de opulência mundial. tanto na atualidade como no futuro próximo. de forma menos espetacular. Indonésia. Surpreendentemente – como todos estão cansados de saber – a criminalidade. Coréia do Sul. ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a 180 ▲ . Além de tudo isso. o arsenal de armas atômicas foi reduzido. mas estrondosamente – em 95% dos países. CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão. Oriente Médio e América Latina. estão em andamento quase cem guerras de tipo internacional. "em vias de desenvolvimento". de maneira muito peculiar. a China Comunista) –. 30% (trinta por cento) possuem 70% (setenta por cento) de qualquer tipo de riqueza disponível no planeta. racial e outros. porém. continua-se discutindo. – A distribuição da miséria absoluta e relativa. cujo foco principal é a defesa da propriedade privada e da pessoa dos proprietários. idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo-coloniais clássicas dessas mesmas nações. ou ainda nas condições contratuais leoninas dos acordos de exploração.– Dos quinhentos milhões restantes. Canadá. – Os Estados Nacionais – tanto os "democráticos" como os "autoritários". "dependentes" – apresentam-se cada vez mais empobrecidos. – Os indicadores mundiais de desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas ao acelerado processo de substituição da força humana de trabalho pela automação. – Até pouco tempo atrás. remessas de lucros. à qual me referia acima. civil. Devido às diferentes gestões internacionais. prejudica inapelavelm. o número reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico cuja capacidade era mil vezes superior àquela necessária para destruir qualquer indício de vida sobre a face da terra. apresentam marcados desníveis e reconhecem que estão ameaçados pela possibilidade de graves crises de diversos tipos. supostamente. Taiwan e. mas também à tendência ao esgotamento dos mercados externos e internos.ente todo o continente africano e. particularmente os dos países chamados" periféricos". salvo exceções locais. a cada ano duplicam-se os equipamentos militares e policiais destinados. se houve aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance.. Neste momento. Vietnã. Malásia. só vem aumentando. – O aparente crescimento econômico das chamadas "economias emergentes" – apesar dos casos serem diferentes e complexos – em geral é fraco e instável. à manutenção da ordem constituída e à segurança pública. que resultaram no fim da Guerra Fria. – Os grandes blocos dos países ricos – EUA.. nos seus respectivos bolsões internos de pobreza. seja na extração irrecuperável de matérias-primas e energéticas. exceção de impostos. o incremento da riqueza nesses "capitalismos nacionais tardios" mostra uma distribuição desigual do benefício. Ela se encontra – desigualmente. sem direito laborais e sociais. limítrofe.

policiais. saneamento básico e segurança pública. torna-se gravíssimo nos países "periféricos" por razões óbvias: as necessidades de serviços infra-estruturais como os de educação. – O aumento da criminalidade. porém. a sinistra questão dos fundamentalismos. terei que parar por aqui. e sim do espetacular e barato progresso da técnica imunológica. a política tributária é ridiculamente favorável às grandes fortunas e a política fiscal é incompetente. corporativo-burocrática. moradia. seguro-desemprego. tal é seu grau de interferência no comércio de influência. Esse problema. que não é nada mais que um apêndice. ao seqüestro. a distribuição da renda é muito mais desigual. A lógica dessa melhora é parecida com aquela responsável por certa diminuição dos índices de morbimortalidade: não se trata de um aperfeiçoamento amplo e consistente de saúde popular. ao roubo. carcerários e assim por diante. limitando-me a mencionar problemas tais como a nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos. É de se supor o que ocorre quando esses países são afetados pelo declínio próprio da transnacionalização-privatização. É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"? 181▲ . o poder econômico dos lobbies locais sobre os governos é enorme. mas exponencial. são infinitamente maiores que nos países centrais. de proteção e outros. o comércio de crianças e de órgãos humanos. têm adquirido tal poder financeiro que parecem estar integrando formalmente os processos econômicos e políticos. ao jogo ilegal. As chamadas genericamente "máfias". resultante de uma sólida elevação das condições de vida e de atenção médica integral. à falsificação e assassinato por encomenda. Isso pela necessidade do Capitalismo de incorporar à produção e ao mercado ganancioso todas as atividades possíveis para compensar a tendência de queda da taxa de extração da maisvalia resultante das causas acima apontadas.sua subordinação aos onipotentes organismos econômicos internacionais. eleitoreira demagógica. – Certo incremento do acesso de setores mais an1plos da população a alguns produtos e serviços – devido à hiperprodução e ao barateamento da produção massificada dos mesmos – deve ser entendido como um resultado muito mais atribuível ao poderio tecnológico dos parques industriais que ao efeito da ascensão econômica de tais segmentos populares. à prostituição. relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas. saúde. particularmente da organizada-empresarial – está se tornando não geométrica. ao contrabando. do terrorismo sectário ou de Estado. Para não carregar demasiadamente este texto. a total falência dos aparelhos judiciários. A decadência mundial do Estado de Bem Estar – causada fundamentalmente pela limitação orçamentária imposta à política tributária pelo Capital também obedece à privatização crescente de sua funções. corrupta.

Nenhum deles é prescindível.Terceira Parte Esse tema do "otimismo" versus "pessimismo" está intimamente relacionado com o outro. quatro grandes "continentes" ou "territórios". A modalidade e a prevalência de cada um desses processos em cada um desses territórios-superfícies determina as peculiaridades das funções. semi-aleatório de "peças" variáveis. seja como for que ela se defina. nos vimos na obrigação de expor esta descrição como se fosse uma premissa. Esses grandes trataram. do "progresso". porém. à medida que já foi antecipada quase exaustivamente por vários dos colossais pensadores do século passado e que. semi-determinado. dispersas e "oniconectáveis" – ou seja. nenhum é causa última nem efeito exclusivo do outro. da "evolução" do Capitalismo. Uma nova definição de maquinária como conjunto difuso. de Produção de Reprodução. devo avisar. o mínimo que se pode fazer é analisar o significado exato dessas palavras. digamos. dá andamento a quatro processos: de Produção da Produção. Em cada formação histórica. mais relacionados à produção e à consumação. Cada formação histórica caracteriza-se pela modalidade com a qual. devido a um laborioso esquecimento de seus detalhes. de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico. heterólogo. de gestar. algum possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim. auto-producente. administrar e destruir tudo o que compõe a realidade. e também imanentes. e isso implica que são parcialmente diferenciados. da Sociedade. todosos termos que utilizarei. É preciso. em cada um de seus territórios e em todos eles. cada um a seu modo. Cada formação histórica compreende. os territórios citados e os processos que os" animam" estão intimamente interpenetrados entre si. de periodizar as formações históricas. no mínimo. Quando se afirma que o Capitalismo Planetário Integrado – a "Globalização" e a internacionalização mundial do Capitalismo em sua Fase Superior – é resultado do "desenvolvimento". o do "velho" e do "novo" que mencionei anteriormente e que poderíamos reformular e ampliar do seguinte modoapesar de que. como desejaria. heteromórfico. apesar de que. em movimento transformador contínuo. distribuídos em superfícies (vide Nota 1): da Natureza. aclarar que esta análise. da Subjetividade e da Maquinária. mais ligadas à reprodução e a antiprodução. externamente aberto e internamente heterogêneo. explicando como cada uma delas era e é – à medida que as mesmas subsistem no panorama atual – um modo sui generis. de Produção de Antiprodução e de Produção de Demanda-Consumo e Consumação. uma formação histórica que pode ser entendida como 182 ▲ . em cada formação histórica. não poderei definir detalhadamente neste âmbito. é parte da questão do "velho" e do "novo". e dos funcionamentos. em si mesma.

o procedimento e a interpretação dos resultados da comparação – de forma a fazer uma avaliação – de uma formação histórica com outra são. outro indicador do tipo de formação histórica que assim o faz. mesmo prevalecendo os coletados no território da sociedade. Considerando o que foi exposto. detectar e criticar esses índices. Isso é diferente de dizer "mecânica" ou "automática". conseguem inventar. as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam. não se nossos terríveis índices de exploração. definir. também importam as relações dos mesmos com os campos da natureza. conhecimento e valores que. dado que os indicadores medidos como resultado da aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são 183 ▲ . a falsa generalização de algumas melhoras localizadas – por exemplo. a seu modo. os de algumas formações primitivas tribais – cujas forças produtivas são ínfimas –. a qualidade de vida dos países nórdicos e outros. mas com as potências de produção que detêm. sem ignorar que. Sendo assim.uma Megamáquina. o que significam "Progresso". Maquínica. cada formação histórica possui também os recursos próprios de pensamento. dominação e mistificação lhes são próprios. mas se dadas as incalculáveis forças que a humanidade dispõe. Obviamente. Dito de outra maneira. quanto deixa de fazer com elas. por exemplo. cibernéticas etc. Espero ser mais explícito agora sobre porque devemos comparar nossa formação histórica atual – a primeira que está em vias de conseguir uma hegemonia mundial quase absoluta – não com as outras. porém. Limitarei-me. isto é: com os índices de exploração. seus tipos de exploração. se comparamos alguns dos nossos indicadores com. por sua vez. trata-se de julgar. Se não procedermos dessa forma. "Evolução" e "Desenvolvimento" enquanto valores definidos pelo Capitalismo triunfante? Por um lado. dominação e mistificação que lhes são próprios. sem dúvida alguma. dominação e mistificação são melhores ou piores. Isso precisa ser dito. Dadas as características das funções e do funcionam de cada formação histórica – ou seja. que os do Feudalismo. isto é. de sua "Totalidade" ou Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução e da Antiprodução podem manifestar-se através de inumeráveis índices ou indicadores. cairemos exatamente em um dos mecanismos de mistificação que são especiais da nossa formação histórica. dominação e mistificação são. bem "menos atrozes" que os nossos. ou quanto e como as investe na reprodução ou antiprodução que geram as atrocidades dos referidos índices. a decisão. a mencionar três fenômenos: os graus e tipos qualitativos e quantitativos de exploração. Repassando o panorama descrito na segunda parte deste apêndice. por exemplo. a realização de blocos de nações ricas. saber. assim como com o grau de reprodução e anti-produção que as investem. seja nas modalidades das máquinas elétricas ou eletrônicas. Nestes indicadores. da subjetividade e da maquinária.

Reprodução e Antiprodução (assim como seus estilos" de vida" e" de morte") – tal como foi anunciado na famosa fórmula da Revolução Francesa e do Iluminismo. Por conseqüência. O Equivalente Geral. apesar do cinismo peculiar do sistema de representações dessa fórmula mundial. organizadora. tais índices mundiais são. o Industrial e o Financeiro. uma racionalização ou um delírio megalomaníaco. Entre as principais forças-formas dessa produção está a força-forma do Trabalho "Humano" – entendendo como tal aquele composto por energias 184 ▲ . isso significa que nosso " progresso". O Capitalismo. "Liberdade. por exemplo. "realista". que se acumula como inumeráveis forças produtivas não retribuídas. Trata-se de uma auto-convalidação da Lógica do Capital. da Esquizoanálise à importância da ideologia ou das ridículas afirmações acerca de seu " final". uma série desses conhecimentos do século X IX – produzidos por autores de diferentes orientações – que parecem ter sido "esquecidos". de Saber. estrictu sensué um modo de produção-reprodução-antiprodução-consumação da realidade – dito . de Desejo – Consciente e Inconsciente –. no mais amplo sentido já definido – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada. muito elementarmente. Esse Equivalente Geral. um sofisma. subalternamente. Cabe apenas mencionar agora. Ou seja. supostamente geradora. imanente a "todos" e a cada um dos campos ou territórios antes citados que. ou que são citados como "insuficientes" ou "já superados". sistema. cédulas ou registros informáticos – é uma medida arbitrária de valor. torna-se a medida para a qual deve ser traduzido o resultado da extração. Fraternidade" – não é apenas uma mentira. cataclísmicos. ou que são enunciados – prévia deformação – como "novidades" funcionais para essa leitura "otimista". e até de Beleza – Dominação e Mistificação. Igualdade. de Semiotização. sem dúvida. continua sendo um recurso necessário para sua permanência. regime que "melhor" está protagonizando a realização gradual de uma certa maneira de gerar e relacionar Produção. limitante e destruidora do "todo" da realidade. é possível falar também de Capital de Poder. um erro. de dinheiro-moeda ou "letras" de diferentes naturezas. um equívoco. ações. apropriação. julgados segundo a potencialidade produtiva intrínseca ao Capitalismo. "evolução" e "desenvolvimento" estão longe de tornarem-se efetivos. bônus. porém. "moderna". As modalidades clássicas do Capital são o Capital Latifundiário. como títulos de propriedade. Por outro lado.deploráveis. apesar da crítica. "animadora" hierarquizadora. Essa integral é denominada Equivalente Geral Dinheiro. o Capitalismo ainda precisa mentir. a Axiomática do Capital – que pode se expressar através de quantidades abstratas. a afirmação de que o Capitalismo é o modo. acumulação e centralização de inumeráveis forças-formas de produção não pagas.

energéticos e territoriais. apropriação. pois as lutas operárias 185 ▲ . As condições fundamentais que possibilitam a produção. cujo protagonista principal é o Estado –. sociais. a submeter-se à citada equivalência e a sua valorização e remuneração parcialmente não paga – Dominação e Mistificação – pela força física ou por modalidades de subjetividade. as mais conhecidas são aquelas que resultam das hiperproduções – excesso de mercadorias que se barateiam "excessivamente" e não compensam as inversões – ou do esgotamento relativo dos mercados. o qual habitualmente era tido como sinônimo da existência de trabalhadores vivos e produtivos. Essas contradições são tanto produtoras do crescimento produtivo e cumulativo e da reprodução das condições restritas e amplas da existência do Capital quanto demarcadoras de seus tetos classicamente denominados limites internos e externos – e de sua subsistência. empreendimento. que perdem assim seu poder aquisitivo. semiotização e outras. de maneira sumamente variada. operações de troca mediadas pelo dinheiro. consumo e fruição dos produtos de toda espécie. dependendo do ramo de produção tratado. além dos gastos da reprodução ampliada – manutenção das condições jurídico-político-subjetivolibidinais do Capitalismo. de matérias-primas e manutenção e aperfeiçoamento dos meios de produção propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo. produção de mercado. deve ser acrescentado ao Capital fixo e ao variável o que podelíamos chamar de gastos com a produção de necessidade de demandas de consumo e fruição propriamente ditos. Era costume atribuir aos limites externos a existência de mercados solventes. ou seja. que se estabelecem entre o desenvolvimento das forças produtivas de todo tipo e as relações de produção de toda espécie. possessão. de compradores suficientes de mercadorias. biológicas. comprável e vendável através do Capital chamado variável.físico-químicas. e só secundariamente pelo seu valor de uso-satisfação – pois se o processo de capitalização realiza-se em cada passo desse circuito. enquanto interessam por seu valor de compra-venda. Por exemplo: as primárias. Concomitantemente. subjetivas – que deve ser "forçada". distlibuição. como as que ocorrem na competição entre as diversas modalidades do Capital. O Capital variável inclui também os insumos produtivos: gastos de crédito de dinheiro-mercadoria. O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado – está constituído por contradições famosas que lhe são essenciais. podem haver crises provoca das. isto é. ou seja. Porém. Os limites internos costumavam ser reduzidos à existência da força de trabalho disponível. isto é. é a conversão crescente de tais produtos em mercadorias bens de troca. psíquicas. Entre as variadas situações nas quais essas contradições transformam-se em aporias e conduzem à celebre crise do Capitalismo. cada um deles está informado pelo circuito de compra-venda. e as secundárias. troca.

ou a destruição dos produ tos para aumentar seu preço. Já a crise gerada pelo esgotamento da expansão extensivogeográfica dos mercados foi superada com a intensificação quantitativa e qualitativa da venda através do consumo de massas. oligopólios e monopólios. megaempresas. alguns setores do Capital são prejudicados. Na esfera da distribuição. Ao nível da produção. apropriação. por sua vez. assim como através da planificação de produtos perecíveis. mas. por um lado. facilmente descartados e "melhorados". sobretudo. mas também viver com elas. em suas lutas políticas. o aperfeiçoamento das máquinas e uma nova articulação entre a força de trabalho "humano" e "não-humano". megabancos e. incrementam o gasto do Capital variável através de reivindicações salariais ou de melhores condições de trabalho ou chegam. outros são notoriamente beneficiados. isto é. troca e consumo. Esse. a antiprodução e o consumo para a extração de mais-valia econômica. a reprodução. pela qual o Capital – em quaisquer de suas formas de existência – acaba por concentrar-se. senão em um número real. é importante destacar que o Capitalismo é um modo – dito no sentido amplo definido acima – em que a inflexão exploradora. porém. Sabe-se. desde suas origens. Longe de conseguir – através do tipo de competição generalizada e" de cartas marcadas" que é 186 ▲ . De qualquer maneira. não necessariamente em menos "pessoas". Por último. Outra celebre tática é a diminuição deliberada da produção. foi alcançado com o barateamento e multiplicação dos produtos.e camponesas questionam a propriedade das diversas formas de Capital fixo. se agrega e finalmente substitui a exploração típica a extração de mais-valia maquínica. não só aprendeu a prevenir e resolver as crises. pelo aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing. o Capitalismo obteve uma enorme agilidade e bara teamen to desses processos mediante a informatização e a robotização dos mesmos. pois atua em todos e em cada um dos níveis dos processos do "Todo Capitalístico". não podendo ampliar detalhadamente este ponto. enfim. dominadora e mistificadora que lhe é característica tende a orientar toda a produção. a apropriarse parcial ou totalmente do aparelho de Estado. mencionaremos somente algumas essenciais. não explicitamente formal. mas também para o saber. o poder e o prestígio. Não é necessário explicar como a guerra sempre foi um recurso complexo para superar as crises. o Capitalismo suplantou a extração de mais-valia relativa – aumento das horas do trabalho não remuneradas – pela absoluta – aumento da produtividade pela intensificação do trabalho em si mesmo ou em menos tempo. A inflação é mais um exemplo de fenômeno provocado: se. Nisso participa. o resultado de cada crise é uma redistribuição de riquezas. que o Capitalismo é um modo histórico que. Isso é válido para o lucro. renda e ganhos. As manobras do Capitalismo a esse respeito são inumeráveis e. nelas e delas. de entidades que são suas proprietárias.

Pessoalmente. Nestas linhas. que continuam incólumes e que as transformações acontecidas. em suma. esse sistema as paralisa. apesar de que suas modalidades de produções de produção. responsáveis por nossa chegada a esta "Fase Superior". que é. podemos admitir. embora sejam originalíssimas e necessitem cuidadoso estudo. em sua essência. a primeira expressão "verdadeira" do Capitalismo na História. como formações précapitalistas. seguindo alguns autores. Também é possível aceitar que sendo a economia mercantil. reprodução e antiprodução variem muito com o tempo e os lugares nos quais operam o diferente tipo de Capital. Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os nossos dias. uma velocidade e uma eficácia totalmente imprevisíveis para os teóricos do século passado. muito pior que o anterior. energias. formas e maquinaria. desaproveita e destrói em uma proporção jamais igualada. razão pela qual não justifica nenhum "otimismo". As conseqüências dessa incrível aceleração consistem principalmente no seguinte: 187 ▲ . e dali em diante. que é possível encontrar seus antecedentes nas formações histólicas dos séculos XII e XIII. O Capitalismo propriamente dito – cuja preparação se inicia com o fim do Feudalismo e prossegue no decurso da Renascença. Pelo contrário. o nosso interesse está centrado em mostrar que as suas peculiaridades essenciais estavam préfiguradas. contudo. da Reforma e da Contra-Reforma e das revoluções européias e norte-americanas – culmina com a instauração da indústria manufatureira na Inglaterra. assim como de formas sui generisde subjetividade. Perante uma assertiva deste porte. as mesmas podem ser consideradas como precursoras do Capitalismo. com uma modéstia conceitual exigida por esta síntese: quais são as principais "novidades" apresentadas pela atual "Fase Superior"? O processo da produção adquiriu. Esse esclarecimento parece-me imprescindível para poder discriminar de forma convincente que o "novo" do Capitalismo Mundial Integrado não implica uma transformação substancial do "velho". o Estado. as anteriores. à maneira de Marx e Engels. nem nos exime de nenhum tipo de luta pela sua extinção. Então. Partindo do princípio de que o Capitalismo é uma singular relação e composição de substâncias. e não têm mudado em sua essência desde aquelas até as contemporâneas. e das que potencial e insolitamente disporia). a vigência de uma sociedade institucionalizada. incluem. devido à revolução tecnológica e industrial. em minha opinião. o "novo" Capitalismo é. semiotização e parques maquínicos – condições essenciais e existenciais de muitas formações históricas antigas –. torna-se de radical importância precisar quando e como este Modo começou e quais foram suas sucessivas ou simultâneas transformações.sua característica – uma otimização das forças produtivas de quaisquer naturezas (sejam as que verdadeiramente o mesmo suscitou. tendo a considerá-las.

Esses setores tornam-se. cibernética. mas sobretudo econômico-social do trabalho. também mercados pobres – compradores de bens e prestações relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –. Essas e muitas outras estratégias conduzem a uma divisão mundial técnica. obrigando a uma substituição incessante. para os países periféricos. em que – diferente do período imperialista fordista da produção – os ramos produtivos de bens e serviços indispensáveis e "pesados". porém 188 ▲ . participantes de baixíssimos custos e. ecologicamente "suja" e altamente tributada nos países centrais. empenham-se numa política de diminuição de custos produtivos. emprego transitório e precário. – Os grandes grupos empresariais. alguns dos quais operam na economia informal ou em seus próprios domicílios. da geradora de produtos e serviços está transformando e diminuindo – gradual. através da participação nos lucros e na propriedade – via compra de ações minoritárias e reciclagem contínua da capacitação técnica. – Ênfase na geração de produtos e serviços baseados na tecnologia de ponta – informática. assim como aqueles que entram subsidiariamente nos produtos e prestações altamente remuneráveis. que criam a ilusão participativa. com" mãode-obra" e impostos baratos. mudança e anonimato crescente das sedes e proprietários do Capital. desfiliando-se de qualquer organismo de classe ou luta coletiva de defesa de suas reivindicações trabalhistas. formados segundo planos artificiosos e rapidamente "aperfeiçoáveis" que os tornam imediatamente "perecíveis" e "descartáveis".– A maquinária da indústria extrativa. robótica –. apesar de que seus ganhos. A força de trabalho maquinal e a exploração da mais-valia maquínica vão suplantando aquela humana. – Hiperespecialização e/ou fIexibilização dos poucos trabalhadores que "permanecem" empregados com incentivos de produtividade. Algumas dessas manobras consistem em descentralizar a produção de grandes complexos infra-estruturais caros. ao mesmo tempo. formam-se elites ou aristocracias de trabalhadores que passam a fazer parte do Capital fixo da empresa. havendo indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre. transferindo a parte básica. Multiplicação. de Capital fixo e variável. – "Terceirização" contratual de segmentos da produção pouco rentáveis para empresas menores ou para trabalhadores independentes. lucros e renda parecem estar crescendo. processo esse cujo aspecto jurídico se denomina "fIexibilização". subemprego. telemática. porém firmemente – a participação da força de trabalho "humana" nos processos produtivos. localizam-se nos setores mundiais "em vias de desenvolvimento". assim. ocultando sua concentração e o poder decisório dos tecnoburocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais. Desse modo. da agroindústria. assumindo a identidade e os in teresses desta. trazendo como conseqüência desemprego.

transporte. moradias populares. corruptos e incompetentes cuja gestão acaba sempre em grande déficit – contraído em um montante de dívidas com juros astronômicos. saneamento básico. móveis. Por outro lado. transitórios. supostamente resultantes e defensores do 189 ▲ . assim como capitais dos financistas do próprio país que depositam seu dinheiro nos paraísos fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. descomprometidos e quase sempre não tributados. "fabricação" de necessidades e demandas (escassez. eram próprios dos mecanismos de "reprodução ampliada": tarefas familiares. o Capital financeiro. esses empréstimos não são nada mais que a mesma riqueza explorada pela força durante a conquista. devido. O lucro financeiro puro possui seu mecanismo mais pelverso nos citados interesses e no refinanciamento eterno das dívidas externas e internas dos Estados e empresas nacionais estatais. anônimos. velocidade. onde se negociam matérias-primas. que elevam à enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada. sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História. comercialização. profissionalização e mercantilização de "quase todos" os territórios e atividades recentemente não-lucrativos ou considerados "gratuitos" ou "públicos". segurança. entre outras razões. divisas. educação e diversão "públicos". carência) – foram "hipertecnologizados" pelos grandes mass-media e pela propaganda. títulos inexistentes. Essa parafernália adquiriu os níveis máximos de eficiência. estabelecimentos carcerários e outros. "andorinha". preservação e restauração do "meio ambiente". Os processos de ordenamento. A constituição de enormes e onipotentes monopólios nacionais ou internacionais – legalmente formalizados. no caso das dívidas externas do "Terceiro Mundo" por exemplo. até pouco tempo. comunicações. produtos. consumo-consumação – que incluem os de financiamento. juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos. às vezes dispersos e condensados do Capital monetário. documentário. sendo que. distribuição. o Capitalismo atual provocou a privatização. Um "fordismo periférico". No chamado "mercado de capitais". Como se sabe. operações administrativas e contáveis. falta. aparatos e funções de Estado – energia. seguros.complementares daqueles centrais já saturados. acionário. Alguns exemplos ilustrativos são os que. artifício e inutilidade relativa para o consumidor – maiores ainda que os da produção de bens duráveis e não duráveis propriamente ditos-. os mesmos costumam ser governados por demagogos. Não por sua real eficiência. mas por sua necessidade expansiva. previdência. saúde. que compõem os investimentos da usura "flutuante". prolifera geometricamente – sobretudo como empréstimo para as contas correntes dos países "em desenvolvimento" ou emergentes. apropriação. ao caráter instantâneo da comunicação e da informática e à sua subordinação a núcleos ubíquos. essa proliferação torna-se infinita no chamado "Mercado de Futuros". troca. rede viária. o Colonialismo e o Neo-Colonialismo.

representativa. da racionalização. que como explicamos. competitiva e heterogestionária. que permita prescindir dos recursos repressivos clássicos. clientelismo. demasiado caros e ostensivamente "inumanos". à privatização a preços baixos das empresas e serviços 190 ▲ . criando os vícios conhecidos. não sem contradição. objetiva a subordinação das soberanias nacionais e respectivas populações a entidades supranacionais cujos paradigmas são o Fundo Monetário lnternacional. Por outro lado. Não obstante. reiteradas vezes. hegemonia do poder econômico – o financeiro e o das grandes empresas – modula arbitrariamente os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário. O enfraquecimento do Estado realiza-se em nome da modernização. culturais e libidinais incorporadas à sua lógica-. Esse processo se enfatiza na dissolução do chamado Estado Beneficente ou Providencial – cujas atribuições são demasiado onerosas para o Capital –.eios para reproduzir as condições de sua existência e proliferação – produção de subjetividade. Finalmente. A mencionada. fisiologismo. a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial. já dispõe de novos n. da eficiência – o que não deixa de ter o seu sentido. entre outros. Trata-se de implantar nas nações o regime político da democracia indireta. ou porque é manipulador dos meios de propaganda. dados os vícios de "nascença" da máquina estatal. grupos. Por sua vez. e domina a condução política das nações. políticas. burocracia. da compra de votos. assim como a qualidade e quantidade de demanda e oferta. crises autofagicamente resolvidas e também acontecimentos metamorfósicos irreversíveis e incapturáveis – toda essa grande transformação que aponta para a assunção voluntária e pacífica por parte de todos os agentes. jurídicas. ou ainda por causa do poder de seus lobbiessobre os políticos e funcionários do Estado. na privatização e re-significação da estrutura e das funções do Estado. Esses regimes e seus sistemas de "representação" – num sentido amplo de produção de subjetividade. esse processo. o Capital. indivíduos. "Bom comportamento" que implica uma administração completamente submetida ao Capital transnacional – sobretudo o financeiro –. estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários . convence e corrompe o eleitorado em si mesmo. está empenhado no desmonte. comunidades do Axioma que rege a Lógica do Capital – vêm se impondo até o presente. semióticas econômicas. em crise no mundo inteiro. o Estado fomenta o surgimento de cartórios eleitorais. Em última instância."Livre Mercado" e da omissão reguladora do Estado e de organismos da sociedade civil – acaba por criar e regular à vontade as convenções de custos e preços que regem esses mercados. o doutrinamento persuade. institucionais. a rigor. nepotismo. o que segundo os clássicos marxistas denominava-se "Democracia Burguesa" – são a garantia do "bom comportamento" dos povos em questão. ao pagamento" correto" das dívidas públicas externas. sujeitos.

a modulação supérflua e luxuosa do parque industrial. porém. enfermos. etárias. e também as do Oriente Médio. assim como subvencionou as piores ditaduras latino-americanas e africanas. dominação e mistificação sui generis dessa "Fase Superior" são inequívocos sinais de um tremendo predomínio da reprodução e da antiprodução sobre a produção possível e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia. invadiu Panamá e Granada e tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o menor respeito pela autonomia que proclama-. à "livre" radicação – ou seja. sem-casa. nacionais. A geração de um imenso contingente de excluídos da produção e do consumo. agentes e práticas que possibilitavam suas modalidades clássicas de exploração. Por isso. não tributada e salarialmente flexibilizada – das empresas transnacionais e. tais como os regimes integralistas. sem-terra. ou pacifistas. Sem considerar essas observações como um estudo profundo da contemporaneidade. dos não-inseridos nas instituições e organizações. os indicadores de exploração. analfabetos. de direitos humanos. fundamentalistas e os totalitários – que o Capital supranacional fomenta quando lhe são funcionais. de liberação das singularidades raciais. A essa degradação e deterioramento. o mau aproveitamento 191 ▲ . ambientalistas. se em alguns campos e setores parece que o balanço de todos esses andamentos mostra alguns "progressos" estridentes. ao compromisso incondicional com as alianças. dominação e justificação. o esvaziamento rural. e depois tenta substituí-los por democracias formais ou nominais. no entanto suficientes para entender que. sexuais. dos países "guardiões" do patrimônio do Capital. mais que expressivos da degradação e destruição do "parque humano". seja com a famosa participação direta de seus "assessores" militares. Ocorre.estatais. o crescimento cancerigeno das megalópolis. sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e a apropriação de mercados. revolucionários ou genuinamente reformistas. como dizia anteriormente. que a construção da megamáquina planetária do Capitalismo Global Integrado não pode prescindir por completo dos velhos equipamentos. errantes. Tampouco lhe foi possível eliminar totalmente as modalidades de resistência próprias dos neoarcaísmos. temos que acrescentar a destruição massiva da natureza. culturais. seja com dinheiro e armas. delinqüentes – é mais que suficiente para diagnosticar e avaliar a situação mundial contemporânea. sobretudo as bélicas. procedimentos. o Capitalismo Planetário Integrado tem que lidar com os movimentos separatistas – de inspiração socialista ou não –. Por outro lado. clandestinos. os EUA. a banalização ou obscenidade da cultura. marginalizados. o carro-chefe do Capitalismo Mundial. despossuídos de direitos e também de qualquer identidade-miseráveis. finalmente. religiosos e assim por diante.

tampouco se reduz. a máquina abstrata geral e as micro-máquinas concretas pseudodemocráticas e cripto-fascistas do Capital sejam não tanto "ossos duros de roer". Quarta Parte Se essa entidade que denominei Movimento Instituinte existe. o Egípcio. Para poder pensá-lo – com a única finalidade de combatê-lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar. o de Napoleão. o do "Socialismo Real" – mostra que sua decadência e sua queda não sobrevieram do seu" exterior". "não existe reparação possível para esse cataclismo. atuar. denominá-lo de "Capitalismo Planetário Integralizante". Acredito que tudo isso já é conhecido por demais e serve para caracterizar. presuntivamente perene. como expressei em outra parte. o Grego de Alexandre Magno. talvez. Decididamente.e vai depender de todos os institucionalistas para que não o alcance. a não ser a convicção de uma vitória sem fim". Pois "integrado" é um particípio passado e designa um objetivo já conseguido. O sistemático "fracasso" – e escrevo fracasso entre aspas porque. complemento adequado de uma derrota sempre presente"dos experimentos socialistas às vezes impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico. como foi chamado por Félix Guattari. mas" cresceram de dentro". acredito ser importante para o seu destino introduzir uma pequena modificação no excelente conceito de Capitalismo Planetário Integrado.das fontes energéticas e muito mais. é que o Capitalismo Planetário Integralizante não tem mais. se esse modo não é um non plus ultra. a um "tigre de papel". que é quase o contrário de uma vitória futura final. sem dúvida alguma. como dizia Mão. coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda está longe de alcançar. rigorosamente falando. porém. Não é que as contradições "internas" e "externas". senão viver nelas e delas. no sentido geopolítico que essas palavras adquiriram nesses enunciados. o panorama paradoxal e sinistro de decadência. O problema. Todas as forças crítico-reformistas-revolucionárias que o enfrentam atualmente estão num momento de trágico desânimo. sentir. "exterior" e "interior". Dissemos anteriormente que o Capitalismo é a formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as crises. mas uma espécie de protoplasma polimorfo e sobrevivente. 192 ▲ . Quero aqui parafrasear unia sentença do "Anti-Édipo" – texto fundamental para o que denomino de Institucionalismo – que qualifica o Capitalismo como sendo" a mescla bizarra de tudo aquilo no qual alguma vez se acreditou com aquilo no qual nunca se acreditou verdadeiramente". Permito-me sugerir que seria melhor. apesar de que duvido que ela mesma se reconheça como tal. É exa tamente essa capacidade de adaptação plástica e ativa que faz com que a lógica. O estudo dos grandes impérios históricos – o Chinês. o de Carlos V. o Romano.

secundárias do Capitalismo não estejam vigentes e atuantes. dominação e mistificação. O Capitalismo é demasiado ágil. Por "cinismo" se entende que o "espírito" do Capitalismo Avançado – empregando literalmente a velha expressão de M. 193 ▲ . por exemplo. Nietzsche denomina "Vontade de Potência" e Bergson como "Realidade Virtual". segundo o que se entende por sobreviver. impensável e imprevisível. Essa não é uma" descoberta insólita". a encarnam. Foucault designa como "Forças do Fora". "ninguém nunca morreu de contradição". fontes da invenção do radicalmente novo. sem iludir-se a respeito. como também diziam Deleuze e Guattari. engendrando atitudes e ações conseqüentes. hábil. que são "peças" de uma lógica – ao mesmo tempo exuberante e letal – que as constitui em suas funções e dela se vale. difusão e apropriação de sistemas de representações "imaginárias" que "falsificam" a realidade. elístico. é a potência do que Deleuze e Guattari chamam" Processo Produtivo Desejante". com maior ou menor lucidez. referindo-se ao nazismo. os da mistificação. afirmava que "o povo alemão não foi enganado". e/ou se oferecem como fantasmas a serem animados pelo desejo inconsciente ou pelos interesses pré-conscientes-conscientes dos sujeitos-agentes. mas que. Não obstante a Psicanálise queira explicar esses efeitos como expressão. É notório. e assim o Parque Humano se divide entre os que possuem grandes probabilidades de sobreviver. Sobretudo esses últimos. ubíquo e versátil. O extraordinário é que a assumem. pela "redação". Não obstante a "ideologia" siga cumprindo uma importante função nos circuitos pré-modernos e ainda nos modelos de reprodução ampliada do Capitalismo. assumem e desejam. Os diversos estratos e segmentos da subjetividade e da sociabilidade.primárias. Esse apresentar-se não se explica apenas pelos efeitos da "ideologia". e também sabe – e pode ir se adequando às suas próprias contradições. declinação assintótica e indefinida que se apresenta como "desenvolvimento". também o sabem. deliberativas e executivas da megamáquina do Capital sabem. tal como já a havia percebido W Reich quando. As cúpulas proprietárias. que cada um dos modos de subjetividade sente que contém cada uma dessas divisões e contraposições dentro de si. em proporções e clarezas variáveis. "progresso" e "evolução". Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar os mecanismos e efeitos de suas modalidades peculiares de exploração. as camarilhas tecno-burocráticas. os que têm poucas e o enorme contingente que não tem nenhuma. estão sendo essencialmente reformulados. afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida. está ficando evidente o que se passou a chamar – muito discutivelmente – de "cinismo" da Pós-Modemidade Capitilista. Sabia perfeitamente tudo aquilo que a proposta do Terceiro Reich implicava. e até a desejam. isto é. as vanguardas programadoras. da Pulsão de Morte ou do Masoquismo Primário. Se há algo que ameaça a sobrevivência do Capitalismo.

o Tempo Livre como subjetivados – de certo modo – e as subjetividades como "infundidas" por um Estado. sujeitos. de transmutá-lo. interesses. De qualquer maneira. "psíquicos". da sociedade. a rigor nos sentimos tentados. a Igreja. devemos tomar consciência de que aquela dos expertse condutores do Capitalismo não é menor. 194 ▲ . Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault. desejos. incessantemente. Para aproximar-se do entendimento de alguns deles. é importante entender. Ninguém é capaz de fazer predições a médio e longo prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. devo advertir que muitos destes termos não são usados aqui no sentido estrito de sua bibliografia de origem. Justamente por isso é que nos resta apenas avaliar e lutar. agentes. "lingüísticos" ou "mediáticos". realmente. a Educação. É preciso compreender que o que emerge enquanto subjetividades e sócio-institucionalidades não são efeitos específicos e pontuais de mecanismos "educacionais". Cabe ao Movimento lnstituinte – levando-se em conta sua suposta infinita heterogeneidade interna e sua irrestrita abertura externa – inventar os recursos e as práticas que possam empurrar o Capitalismo Mundial Integralizante além de seus próprios limites. "culturais". como procurei fazê-lo nestas linhas. reproduzidos e antiproduzidos pela modalidade peculiar da imanência que se dá entre esses processos do Capitalismo Planetário Integrado contemporâneo. o Mercado. práticas. éticas e estéticas são produzidos. por exemplo.em nível de estrutura e dinâmica dos sujeitos edipianos especificamente considerados como objetos universais dessa disciplina. tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade. Quando lemos o panorama mundial. Indivíduos. instituições. tornando-o permeável à irrupção das forças do "fora" que são capazes. Por isso. da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina. mas afeções – como dizia Espinoza – operadas em conjunto pelo tipo de maquinismo que modula prevalentemente o atravessamento dos territórios da natureza. em TODOS OS LUGARES E AGORA NOTAS 1 – A definição rigorosa desses conceitos para torná-los acessíveis ao tipo de leitor ao qual este texto se destina requereria um volumoso tratado à parte. senão antes interrogar: "Como consegue manter-se hegemônico e aparentemente próspero sem nem sequer esforçar-se demasiado em dissimular sua fragilidade e sua contraprodução?" Apesar de que a perplexidade dos pensadores críticos e gestores da troca é ostensiva. o Trabalho. pode ser consultado o Glossário deste Compêndio. sócius. não apenas a perguntarmo-nos – de acordo com a famosa fórmula – "Que Fazer" para transfomá-lo. o Estado.

e suas pretensões analíticas. segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio". à grave crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi-se agregando uma crise econômica de incalculáveis proporções que. pelo que entendo. Não sei se é excesso de petulância incluir-me entre esses últimos. escrito em 1995. suscitou em mim impressões contraditórias. por um lado. por outro. os três últimos anos possam ter trazido elementos para melhor avaliar a pertinência do que se poderia qualificar. acredito ter sido desde o início. não suficientemente fundamentado. e sim um" globo de ensaios". Durante este tempo. Penso que. contudo que esses também possam existir. com benevolência. de cem e do que tentei dizer. A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do 195 ▲ . assistemático. exorbitantemente amplas. Não obstante. o filósofo brasileiro Peter Pal Pelbart. como sempre acontece. somente alguns poucos prenunciavam. às vezes pouco claro e. e até vaticinantes. insuficiente. Essas páginas de 95 me parecem retorcidas. e involuntariamente. em geral.POST-SCRIPTUM Janeiro de 1998 A releitura do apêndice anterior. não é apenas – como espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos e justificantes. desgarradas e mutiladas entre as exigências pedagógicas e sintéticas do texto. quero conceder-me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito. porém não pude deixar de constatar que o "pessimismo" de cada página do "Apêndice" que antecede a este post-scriptum insistia sobre esta predição. Tão fortemente acredito nisso que decidi catalogar este escrito numa simpática categoria inventada por um amigo. Se me atrevo a comentá-las com os leitores.

Ou a "todas" essas causas juntas e a muitas outras. ainda indefinida. ou ainda à sobrevalorização de sua moeda. Laos e. E mais: porque. de outra forma. Com respeito à primeira hipótese. chama fortemente a atenção. tanlbém as grandes potências capitalistas. Japão. inferior à da Meteorologia. Hong Kong. uma ou outra tese já postulada neste livro.ataque especulativo à lira italiana e à libra inglesa e o outro que afetou o México – e engloba diretamente todos os "Tigres Asiáticos" – Malásia. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. a meu ver. sendo que em outra. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. podem reduzir-se a três tipos: – Ou esse é um erro regional de modelo. outros às suas falências bancárias ou à desenfreada especulação imobiliária que ocorreu no seu território. Em primeiro lugar. essencial e inerente ao Capitalismo Planetário em via de lntegração. cálculo. China e Taiwan. até chegar aos organismos internacionais – desde logo. 196 ▲ . a cômica discrepância que os economistas e outros especialistas mostram quando tentam explicar esse fenômeno colossal que se iniciou com uma dimensão regional. lndonésia. por último. – Ou se trata de um efeito processual. menos drasticamente. substancial. Isso não implica "falha humana". passando por todos os segmentos sociais. Coréia do Sul e. Filipinas. todos os "capitalismos emergentes". eventualmente. Esta é uma realidade clamorosa. planejamento que implica dos povos até os governos – desde logo. e numa dimensão mais ou menos ameaçadora. A idoneidade da "Ciência Econômica" e da "Economia Política" oficial capitalista não só é. senão principalmente um erro radical sobre os meios de pensar a realidade. entre essesexperts. Tailândia.. Começamos pela admissão do FMI de que "se equivocou" na avaliação e condução desse assunto. Obviamente. em muito. alguns atribuem o flagelo à cumulação de empréstimos enviados aos países em crise. Vamos continuar observando muitos expertsatribuírem à "falta de dados" – porque ocultados ou distorcidos por parte das economias em questão – a surpresa e a perplexidade que a catástrofe ocasionou. econômicos e políticos. sem ignorar diferenças nacionais. tanto que está chegando ao limite de sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os investidores especulativos para que não percam seu dinheiro. Essas explicações. mas nem sequer tem a humildade de reconhecer o estatuto de interfase do sistema caótico ordenado própria de seu "objeto". e assim sucessivamente. Singapura. Permito-me fazer somente alguns comentários globais que podem reafirmar. no caso dela ser correta. não cabe aqui uma análise excessivamente detalhada. o mínimo que se pode considerar é que o destino do mundo está em mãos de presunçosos incompetentes.. – Ou essa é uma fraude de magnitude hemisférica e configuração escalonada que vai desde os produtoresconsumidores.

normas. em que consiste este risco. Em um certo sentido. Está comprovado – e isso é o que tenho procurado. uma vez que não precisa aos ser demonstrado porque já o foi durante um século – que a sábia ignorância dos experts. científicos ou não. é claro. Se a terceira hipótese está correta – e isso tenho afirmado constantemente nesse modesto e elementar livro-. Fica aberto o tema da qualidade e gradualidade de imputabilidade de cada um dos envolvidos e do acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja-se mais adiante). mas não som ente. nem som entede uma tendência delituosa de transgredir ignorara Lei – qualquer que seja a Lei da qual estamos falando. com a qual os psicanalistas e outros teóricos enchem a boca. tampouco são exaustivas. ou como leis menores – decretos. respondeu: "Só Deus sabe. E também. pelo menos parcialmente.." Pelo que se refere à segunda hipótese. da qual a ordem jurídica imperante é uma engrenagem perfeitamente coerente (vide a plena vigência do Direito Positivo). Não se trata. em última instância. não esgotam o repertório de riscos que caracterizam as subjetividades capitalistas. solicitado a opinar acerca das conseqüências da crise para a economia do Brasil. direitos fundamentais ou reais" da formação da soberania em questão. especificações. absolutamente em sintonia com a racionalidade ética e proposicional das leis nacionais e internacionais – as propriamente jurídicas ou as "internas" aos enunciados específicos disciplinares. se acertada. foi feliz e sincero quando. "Direitos Humanos" que concretamente podem ou não podem ser cumpridos dentro do que se chama hipocritamente" condições constitutivas.por estúpidos e ladrões que os agentes-sujeitos individuais e coletivos do Capitalismo assumem os lugares. ao qual já nos referimos reiteradamente. Excepcional e/ou aparentemente. assim como as três não são excludentes.O erudito "Científico-Presidente" do Brasil. é preciso apenas definir. as leis se contrapôem a essa Lógica. Os célebres conceitos e a análise foucaultianos acerca do atravessamento entre os enunciados – as dizibilidades – e aquilo que o autor 197 ▲ . ou de aproveitar os limites de seu império e de suas falhas intersticiais para pô-la à serviço – às vezes condicional. porém. lem brar leitores. regulamentações. temos que assumir que o destino da humanidade este) nas mãos de delinqüentes.. trata-se de cumprir ao pé da letra as leis vigentes. tanto quanto a desonestidade dos agentes e das entidades. as funçôes e as práticas segundo os quais a lógica da Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona. às vezes incondicional – da Axiomática do Capital. ou como leis maiores formais. A lógica dessa axiomática está. de desconhecimento. O que mais nos deixa pasmos e surpresos no espectro das mesmas é o cinismo. simplesmente. Cardoso. ou especialmente se nos referimos a uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei". resulta evidente que as duas primeiras podem ser perfeitamente incluídas na última. FH.

em sua maioria. que resultam operantes somente para matizar. está na virtude de chamar a atenção – apesar de que unilateral e exagerada – sobre a estratégia de resistência nãoconsumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização. O mérito relativo do pensamento de alguns autores. fragmentar e recapturar as forças críticas e metamórficas. bem distantes dos "ideais". não são nada mais que estratégias. sempre foi consubstancial ao Capitalismo. ou ainda. e como tais são admiráveis. pois não se conhece outra-. Os segundos prescrevem" uma quantidade maior" da mesma Lógica do Estado. puramente nominais. garantindo sua reprodução simples e ampliada tanto em seus aspectos econômicos como em todos os outros que já mencionamos. que começou muito antes daquela do Capital. omissa e passiva" 198 ▲ . como as "menores". Os primeiros fazem uma apologia do individualismo. Essas concessões são invariavelmente tardias e de aplicação sujeita ao horizonte do "possível". imanentes ao jogo de forças de uma formação histórica (por um lado). visando produzir as condições mínimas nas quais essa última possa subsistir – e encontrando viabilidade. crescer –. desmobilizar. obviamente. supostamente apoiado por uma "realidade" que o panorama da Axiomática do Capital delimita e modula. Outro caso ilustrativo é a luta da economia de mercado e democracias representativas contra as "massas ausentes". especialmente aquelas que se consideram concessões – geralmente tão inevitáveis quanto mínimas. essas montagens dão conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo "moralismo" à Ordem Capitalista Constituída. sem considerar os seus defeitos. aos quais atribuem todos os méritos da Modernidade – que. Principalmente não deve tranqüilizar ninguém acerca da perfeição do modo econômico e de seus rebrjmes – jurídico-políticosubjetivo e outros. a implicá-las em dispositivos nos quais a modalidade organizativa e os objetos a serem conquistados resultam relativamente irrelevantes e/ou absorvíveis pelo Capital. sempre considerados irrealizáveis. os neo-arcaísmos e o terrorismo. Um exemplo ilustrativo a esse respeito são as contendas entre os partidários neoliberais do "Livre Mercado" e os defensores da "Regulação Estatal". Em sua essência. o que é mais astuto.chama visibilidades – os dispositivos do poder. não deve enganar ninguém. Que o lado "progressista" dessas leis – tanto as "maiores". de Entre vários requisitos. como Jean Baudrillard. e o diagram a. possibilitou o seu começo e ainda lhe é imprescindível. o resultado de heróicas e cruentas lutas da humanidade. estão destinadas a desorganizar. Ao menos numa vertente dominante de sua essência. da imprensa livre e da competição liberal e neoliberal. complexo de forças informais (por outro) – dão conta admiravelmente de alsrumas das maneiras com as quais as funções reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema. mitigar ou amenizar os efeitos fundantes da Lógica do Capital – expresse.

o pouco que proponho enfatizar aqui pode se resumir. expressões de singularidades intensivas –." entrem numa provocação desviante". Mas "ninguém morreu de contradições". heteróclito e bizarro de colisões. "absurda" e intempestiva dos fundamentalismos e do terrorismo. da seguinte maneira: Os militantes e pensadores instituintes contemporâneos passam por divergências e discussões dilemáticas – que freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de se a luta deve dar-se a partir de dentro ou de fora das organizações do Estado. instituições. creio eu. seu entusiasmo e sua alegria – como dizia Espinoza – foram. vejam-se os memoráveis capítulos da "Revolução 199 ▲ . o mundo atual é um poliverso vertiginoso. segmentos. mas que têm aprendido a viver em crise e da crise. Assim. Perante essa constelação. científicas. como infinitos agenciamentos e acontecimentos no seu combate contra as equações variáveis de reprodução e antiprodução do Capital. sem a menor intenção de desvalorizar nenhuma forma de luta tradicional ou nova que as forças da Vida vão inventando. As preocupações dos militantes acerca do grau de capacidade de recuperação que o Capital exerce sobre as mesmas geralmente não são mais do que hesitações compreensíveis. proteiforme. conexões disjuntivas inclusas. como se diz pitorescamente falando. habilmente engenhada para propor e propiciar contendas. devido tanto às resistências que minam o processo de suas façanhas quanto à dureza de suas vicissitudes. com uma velocidade que passa de geométrica para exponencial. agentes dotados de uma identidade mais ou menos precisa e circunscrita. políticas. e mais enfaticamente. É claro que espero e desejo fervorosamen te ser explícito dizendo isso. jurídicas. Diante de tudo isso. não é pleonástico repetir que o processo do Capital não constitui uma unidade monolítica. não deixam de ser uma resposta cega às manobras orquestradas pela Máquina Abstrata do Capital. do Capital ou da chamada Sociedade Civil (a esse respeito. nacionais. Essas estratégias. filosóficas. locais. complementada pela irracionalidade monstruosa. a ferocidade das contraposições recentes e suas conseqÜências entre o Capital Financeiro "apátrida" volátil. são e serão "o sal da terra". dominados e mistificados" comprem a briga". senão. heterogêneo. e muito menos estática. suas transversalidades. "Todas" as Máquinas de Guerra e as Linhas de Fuga simultaneamente econômicas. sinérgicas e potencializantes. Veja-se. heteromorfo. idiossincrásicas – na medida em que são individuações.das massas. apenas descritivamente. apesar de apresentarem uma triste originalidade. porém acidentais. isto é. artísticas. o Industrial e o Latifundiário – tanto nos domínios "globais" como nos regionais. que vão desde o preciso até o indecidível. de maneira que os explorados. Não somente ao nível das contradições antagônicas e agônicas do que Deleuze e Guattari chamam de "Superfície de Registro e Controle" composta por territórios. organizações. A imanência entre as potências e processos de desterritolialização e reterritorialização capitalistas movimenta-se sem cessar.

déficit interno e externo. quando estudava a crítica marxista da Economia Política. Contudo. inviável quanto à operacionalização. por isso carecia de sentido epistemológico. mesmo que todos os países enumerados apresentem altíssimos índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal-. antes de concluir com uma nova tentativa de síntese. assim como de seu principal aparato bélico-repressivo: os EUA. O crescimento de quase 4% de sua economia em 97 e o decréscimo de seus índices de desemprego. Guattari. tanto os movimentos chamados "Alternativos" quanto a Esquerda tradicional parecem perder de vista os macro-indicadores inequívocos da deterioração do "todo" capitalista. linha de fuga com evasão. porém. não faz senão demonstrar o uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política – em grotesco contraste com suas declarações neoliberais de "livre-mercado" e de democracia. Itália e Espanha mantêm-se relativamente estáveis. tinha sérias dificuldades para entender tanto o conceito da tendência à diminuição da taxa de extração da mais-valia quanto a contestação que os economistas positivistas faziam a essa teoria. O argumento principal. entre outras razões porque insiste em enfatizar-se como intensiva. ubiqüidade com fragmentação dispersiva. Outro desses dilemasé o já célebre que se trava entre os "reformistas" e os poucos "revolucionários" que ainda sobraram – seja como for que se defina revolução.Molecular" de F. confundindo singularidade com isolamento. de forma aceitável. o modo capitalista e seu Sistema 200 ▲ . e por ser uma hipótese de "alto nível". que consegue manter-se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia. apesar de tudo. reforçar que a reivindicação idiossincrásica nunca acaba de propagar-se como uma onda extensiva. existem inumeráveis posições intermediárias que dão espaço a quantas vontades de transformação seja possível imaginarassim como às melhores delas. Canadá. Em conseqüência disso. reiterarei que no momento a mesma tem respeitado. bastante afetados por essa debacle setorial insuspeita. Em função do que foi exposto acerca da crise presente. verificação e falseamento. Cabe. Lembrarei também que alguns adora dores do neoliberalismo. França e Reino Unido. aos "integrados" – bem intencionados – por outro. os de "O Estado e o Inconsciente" de René Loureau e até alguns capítulos deste livro). Rememoro que em minha juventude. discretos indicndores de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva. que são as que escapam a toda imaginação. por um lado. baseava-se na tese de que tal indicador era in1possível de ser medido empiricamente. somente a nação que continua sendo o assento das maiores sedes centrais do Capital mundial. acrescentarei quanto segue. apesar de que isso não o exonere inteiramente das conseqüências imediatas da crise. se me lembro bem. empenham-se em reivindicar que. se me permitem uma digressão.No espectro que vai do pólo dos" apocalípticos". Também Alemanha.

Ora: que Economia Mundial é essa que entra em pânico por um "acidente" que afeta apenas 7% de sua produtividade anual? O verdadeiro pavor não consistirá de fato em que uma das suas derivações pode ser a estrepitosa baixa de preços dos produtos asiáticos (dum ping) o perigo iminente de benefício dos consumidores e prejuízo dos e inversores? A quais maldades políticas terá que se apelar para evitar essa presuntiva "injusta" festa dos compradores? Com certeza não será "democrática" nem "livre-empresista". Alemanha. a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda de falências. Ironizam. o milagre inédito de reduzir em quase 50% a pobreza asiática. assim. pelo fato de serem aliados dos países centrais nas guerras anticomunistas. nas falências atuais. A iminência da segunda Guerra do Golfo e da terceira Mundial não é apenas hipótese de ficção científica. torna-se importante esclarecer que. que não precisamos nos preocupar demasiado com as falências generalizadas. os mecanismos de "contágio" sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa. "é bom que as coisas se precipitem. ao final. mesnlO que uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à geração de força de trabalho cnpacitada e eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam". Em segundo lugar. Essa afirmação adquire relevância pelo contraste com a decadência dos países do ex-bloco do Socialismo real. como se 201 ▲ .é apropriado pontuar que boa parte do desenvolvimento dos "Tigres Asiáticos" processou-se sob governos ditatoriais e autoritários.. sustentam que apesar da instabilidade persistente. Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é.Democrático Nominal conseguiram.moratórias e outros flagelos. Diante dessas afirmações. Afinal. porque assim a economia mundial se corrige e ajusta". desde a Segunda Guerra Mundial até hoje. destinado a inversões especulativas em outros mercados mais lucrativos e/ou estáveis? Alguns famosos economistas acabam de declarar. a fuga desse Capital acumulado. Por último: como não requerer (apenas porque não sei se isso já foi feito) um levantamento cuidadoso e verídico dos coeficientes de concentração de riquezas que têm sido realizados e perpetrados nesses países. De outro lado. Outros têm manifestado que. Japão e Itália começaram seu crescimento a partir da inversão massiva do Capital "aliado" – novas versões do Plano Marshall e da 'Aliança para o Progresso" – e nas condições políticas severamen te repressivas das nações derrotadas e "ocupadas". a parte do Produto Bruto Mundial correspondente aos países estremecidos pelo "sismo" alcança somente 6 ou 7% do total mundial. em primeiro lugar. como Coréia e Vietnã. o qual.. por exemplo. como é notório. e teve uma base de lançamento nada depreciável. está em pleno declínio.

ditatoriais. Pelo fato que já mencionamos antes dessa interessante questão da correlação inequívoca entre ética. subordinando à sua força quase tudo que existe como realizado no horizonte do existente. tanto as empresas nacionais e transnacionais quanto os organismos estatais e supra-estatais operacionalizaram seus "modelos" predominantemente com base em movimentos táticos de "invenções" e "sangrias". São as seguintes: por que tomar como referência comparativa e justificante das excelências liberais o Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é um tema ainda digno de muita polêmica? Por que confiar na "natural" afinidade entre Capitalismo e Democracia Nominal. segundo o qual votouse a favor de continuar mantendo o segredo sobre suas contas bancárias. Como explicar esse império inquestionável a não ser pelas peculiaridades da globalização. estridente.diz eufemisticamente. tanto as vantagens do caminho capitalista "eleito" quanto o montante exigido para sua recuperação? Pelo visto. de forma convincente. existem algumas outras perguntas-chave que precisamos nos fazer nessas circunstâncias. A hegemonia da Axiomática do Capital consegue. incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão! Segundo me parece. às vezes. sendo que vários dos mencionados "desenvolvimentos" capitalistas realiza ram-se duran te regimes cripto ou ostensivamente despóticos – veja-se em outro contexto geopolítico a trajetória do Chile e do Peru. no predomínio nebuloso do Capital Financeiro mundial – completamente independente de sua base material – e sua desregulação total. Quanto custará ao povo desses países "novos ricos" quebrados a hipoteca dos anos vindouros. "liberdade" mercadológica e "liberdades" políticas e humanas.itiriam predizer essa "quebradeira". não é apaixonante que a Suíça – país que deve uma parte indefinida de sua prosperidade aos depósitos bancários de boa parte dos capitais "espúrios" do mundo: evasão tributária. que em vão se reclama limitar jurídica e institucionalmente. "estrutural". que é o preço de sua futura "recuperação"? Se os experts e seus organismos têm sido incapazes de conhecer as cifras necessárias ou de elaborar os modelos e as simulações que lhes perm. narcotraficantes. não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais-valia o que não se pode mensurar!!! Como já advertiram Deleuze e Guattari. descarado – da Máquina Abstrata do Capital e sua Axiomática Suprema? O que manda é o Equivalente Geral. Movimentos esses 202 ▲ . "em última instância". suas formas monetárias e informáhcas. mafiosos e delinquenciais em geral – tenha um sistema político dotado de Assembléias Populares Comunitárias Cantonais?! A "plena" democracia suíça "perpetrou" um plebiscito. e se funda. que não é outra coisa mais que o pleno reinado universal – ostensivo. sem descartá-las por serem ingênuas e menos procedentes. por que devemos acreditar que são ou serão aptos a quantificar.

agentes e práticas. estabelecimentos. social-democrata ou socialista "soft". Noruega. – Não se pode esquecer jamais. Que Cuba. isto é. porém. neoliberal. Não se pode dizer que os dois segundos sejam absolutamente contraproducentes e elimináveis. nem o saber e o poder de seus políticos profissionais e tecnoburocratas. ajuda a demonstrar que. obteve índices parecidos. mas devem estar. não tem muita diferença entre as variedades de Capitalismo e de Socialismo real. os componentes territorializados. ou ainda a "popular". – Não se deve confundir a democracia indireta e representativa liberal. Dinamarca. e assim por diante. Holanda. – Não se deve confundir a morfologia e a dinâmica das instituições. Revolucionários" – que são o "motor" da Produção ou a Produção em si – com aquela dos reprodu ti vos e antiprodutivos. táticas ou técnicas históricas de cada iniciativa produtiva-desejante-revolucionária. quaisquer que sejam as limitações. do possível e do impossível. nem tampouco a "participação" na democracia direta. sujeitos. logísticas. hierarquizados. com o embargo que dura mais de três décadas e oprimida por uma "Ditadura do Proletariado". que nunca o "espírito" das mesmas esteve melhor resumido que na deslumbrante fórmula – " A cada um segundo suas capacidades e a todos segundo suas necessidades" . O ceme do problema – por mais pobres e óbvias em que essas observações resultem – reside no seguinte: – Não se deve confundir a lógica dos processos que Deleuze e Guattari chamam" Produtivos. quaisquer que sejam as modalidades históricas que os dois termos dessa diferenciação adotem. mimetizações e vacilações estratégicas. com a auto-análise e a auto-gestão. semióticas. cuja previsibilidade e precisão brilham pela ausência e são decididamente contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda. – Não se deve confundir – mesmo levando-se em conta as singularidades históricas das citadas modalidades – a separação entre meios e fins que é própria da ética dos modos e sistemas capitalistas com a imanência entre meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte. que constituem os domínios do real. rigorosamente subordinados ao primeiro. Como último argumento. por bem ou por mal. sem considerar com profundidade que a tal prosperidade é fruto da participação dessas nações na espoliação colonial e neocolonial e da inexistência de bloqueios sobre suas economias. equipamentos.invariavelmente improvisados e incidentais. existe o hábito de invocar o sereno bemestar da Suécia. organizações. com o âmbito do virtual atualizável. Folgo em dizer que o incremento das forças produtivas de todos os tipos – incluídas as forças teóricas e expressivas – mostra que este enunciado 203▲ . estratificados. Desejantes. Finlândia e alguns ou tros países com fabulosos índices de saúde e educação.

Buenos Aires. R. Lapassade. México. Vozes. Madri. Ed. Mendel. "EI Analisis lnstitucional". 'Autogestão: Uma Mudança Radical". Poder. Tomasetta. 1975. Amorrortu. Rio de Janeiro. in: "Saber. 1981. A." 204 ▲ BIBLIOGRAFIA BÁSICA Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura: "Apresentação do Movimento Institucionalista". 1987. Quehacer y Deseo". G. ''Análise Institucional no Brasil". Ed Vozes.). coord. Mendel. G. Kankhagi e O. Francisco Alves. Ed. n° 62-63. Saidon (org. in: "Saude loucura" nOl. México. G. 1973. G. Petrópolis. "Participacion y Autogestion". Ed. G. e que isso exige aplicar às definições de capacidades e de necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados. . 1989. A. Organizações e Instituições". tomos 1 e 2. Cuigon (coord. in: Rev. Lapassade. Espaço e Tempo. Ed. Lourau et ill. 1977. Rio de Janeiro.). vários autores. "EI Sociopsicoanalisis Institucional". Paris. R. Lapassade. Rio de Janeiro. J. Ed. G. 1975.pode e poderá ser formulado de infinitas novas maneiras. 1979. Hucitec. 1976. Baremblitt. L. Cedisa. 205▲ "Sociopsicoanalisis lnstitucional". G. Ed Nuevillmagen. Campo Abierto. Ardoino (org). Nueva Vision. São Paulo. Autlúer e R. 1973. "LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?". Paris. Ed. Bourdet. Pour. ''Alguns elementos teoricos para pensar Ia cuestion de Ias derechos humanos y Ia violencia institucional". 1977. Ed. R. Ed. V R. Presses Universitaires de France. Baremblitt. "EI Analizador y el Analista". 1978. 1973. in: Revista Vozes n° 4. Cuillerm e Y. M. "Grupos. Para terminar. in: "La Intervencion Institucional". Ed. "[Analyse Institu tionnelle". Ed. BuenosAires. Barcelona. 'Analisis Institucional y Socioanalisis". J. Petrópolis. "O Inconsciente Institucional". Lancetti. C. ''Análise Institucional: Teoria e Prática". Petrópolis. 1971. Hess. Baremblitt. Buenos Aires. Ed. Ed. Ed. coord. Lourau. 1984. apresentação e introdução. Vozes. Amorrortu. Lourau et aI. Zahar. 1988. Falias. 'A Análise lnstitucional". uma variação que me ocorre para a palavra-de-ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte: ''A cada qual segundo suas capacidades de lograr que – a todos segundo suas necessidades – seja uma necessidade para todos e um desafio para cada um.

Ed. 'Anthropologie Diffierentielle". Barcelona. Paris. Cranica. Ed. São Paulo. e não pretendem. Ed Payot. Paris. 2ª ed. Ed. F Cuattari. 'Au togestion Pedagógica". 1976. Deleuze e F Cuattari. Siglo XXI. Payot. Stock. Sigla XXI. em colaboração com R. Ariel.:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". Ed. Paris. Ed. Rio de Janeiro. 1981. Paris. 1975. Ed. Cedisa. 1981. "La Classe lnstitu tionnelle". Vozes. 1976.lmago. 1975. "On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Ed. F Cuattilri. "Pour une autre Societé". 1983. 1973. G. Buenos Aires. Rolnik."Psicoanalisis y TransversaJidad". Brasiliense. Ia Poli tique est en Crise". Pre-Textos. esgotar a lista dos possíveis. Obras de Gérard Mendel: "La Rebelion contra el Padre". "Quand plus rien ne va de soi".1975. Paris. Ed. 1976. Ed. "O Anti-Édipo". 206▲ BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA A bibliografia de consulta é vastíssima e pode ser classificada de acordo com a maior ou menor proximidade que tenha com a linha teórico-prática adotada neste livro. "O Inconsciente Maquínico". Península. . Barcelona. Ed. em absoluto. Deleuze e F Cuattari. Ed. F Cuattari. Ed. R. Ed. Granica. 1981. Paris. F Cua ttari. Ed. Por motivo de focalização. excluímos da literatura concernente à antipsiquiatria. Lourau. Ed. 1974. 1977. Lafon t. Ed. Barcelona. Madri. R. Campinas. "La Descolonizacion dei Niíi. Barcelona. Madri. Península. G. R. Campinas. Paris. Rio de Janeiro. "Micropolítica – Cartografias do Desejo". Obras de Georges Lapassade: "Chaves da Sociologia". Ed. Payot. Papirus. "La Crisis e Ias Ceneraciones". Ed. Papirus. 1988. Cedisa. 1975. Os textos aqui classificados são apenas os mais próximos. Barcelona. Ed. "Enquete par un Psychanalyste sur Lui-Même". "La Bio-Energia". 'As Três Ecologias". Ed. "Mil Platôs". 1988. "La Entrada en Ia Vida". Obras de Gilles Deleuze: "Para Ler Kant". 1985.o". 1988. 1972. Ed. Rio de Janeiro. Francisco Alves. 1977. "EI Manifesto de Ia Educación". Ed. Petrópolis. Payot. F Cuattari e S. Ed. à psicologia organizacional e à psicologia grupal. "Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". Fundamentos. 1986. Civilização Brasileira. 'A Revolução Molecular". Ed. Lafont. Ed. 1978. Valência. 1977. 1986. 19~O. 1972. Payot. "La Crise est Poli tique. Barcelona. Paris. Lafont. 1972. Barcelona. 207"54 Millions d'Inclivid us sans Appartenance" . "l. "Empirismo y Subjetividad". Ed.

"Spinoza y el Problema de Ia Expresión".1977. Privat. Ed. Ed. Machado.. "Politique et Psychanalyse". Pre-Textos. Ed. 1984.:épi. Obras de René Lourau: "LInstituant Centre I. UGE 10/18. São Paulo. Ed. Edições 70. Barcelona. Ed. "Spinoza: Filosofia PréÍctica". "EI Bergsonismo". "EI Estado y ei Inconciente". Alençon. Valência. 1974."Diferença e Repetição".rica do Sentido". 1975. 1987. Galilée. "Deleuze e a Filosofia". "Lót. 1989. Perspectiva.:Institué". com F. 1987. "Kafka/ por uma Literatura Menor". R. Paris. Ed.:Illusion Pédagogique". Barcelona. Murad.:epi. Ed. "La Imagen-Movim.idos. "Los Equipamentos de Poder". Barcelona. "Les Lapsus des Intellectuels". Ed. Ed. 1984.. Livraria Taurus Editora. 1974. UGE 10/18. Ed. Barcelona. Ed. Ed. Guattari. Gua ttari. "Foucault". 1981. Toulouse. 1971. I. 1980. Antrophos. Barcelona. Parnet. 1975. Kairos. Graal. Paidos. Paris. Anagrama. Res. Paris. Estuclios 1 y 2. Paris. Ed. "EI Pliegue".. "Le Analyseur'Lip"'. 1977. "I. Buenos Aires. 'Apresentação de Sacher Masoch". Rio de Janeiro. 1972. Catedra. BuenosAires. Pre-Textos.19bO. Antrophos. Forense Universitária. Ed. 1976. 1969. "Proust e os Signos". "Le Gai Savoir des Sociologues". 1989. Ed. Ed. Ed. Ed. Graal. Ed. Ed. Rio de Janeiro. Lisboa/1981. Ed. 1983. "Nietzsche y Ia Filosofia". Gill.iento". Rio de Janeiro. "Espinosa e os Signos". F Fourquet e L. Ed. 208 . 1988. Rio de Janeiro. Ed. Pa. Ed. "Diálogos". "Pericles y Verdi". Porto. 1990. Ed.. 'Autodissolusion des Avant-Gardes".:epi. Imago. Tusquets. Barcelona. Valência. Ed. Ed. Des Mots Perdus. 1979. em colaboração com F. 1976. I. I. Paidos. Paris. Madri. "Sociologue a Plein Temps".. 'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". "Nietzsche". em colaboração com C. "Les Analyseurs de l'Église". 1987.1977. 1969. G. 1971. Rio de Janeiro. Muchik.

Fundamentos. "Psicologia de Ias Instituciones". 'A Reprodução". "Nuevos Escritos". Ed. jan. "O Adoecer Psíquico do Subproletariado". Jaques. Meridiens Klinscksieck. Abeledo-Perrot. Etzioni. 1980. F. Ed. Ed. Savoye e R. Haurion. Ed. Ed. "Emergentes de una Psicologia Social Sumergida". J. F. J. "Replanteo". Castilho Pereira. "Subjetividad. nº 1. in: Revista de Psicoanalisis. Pioneira. "Salud Mental y rrabajo". Matrajt. Rio de Janeiro. 1976. Rio de Janeiro. coord. 1977. Ed. Ed. Matrajt. 1990. L. "La Teoria de Ia Institucion y de Ia Fundación". Payot. Buenos Aires. Hess. Scherzer. Siglo XXI. Passeron. Barcelona. 1980. Achiamé Socii.Pedagogia dei Siglo XX". Rio de Janeiro. Ed. 3ª ed. J. J. A. 1987. Paz e Terra. 1974. A. Grupalidad. A. Ed. Laia. Nevomar. Vasquez. Bleger. BuenosAires. "Los Sistemas Sociales como Defensa contra Ia Ansiedad". Belo Horizonte. Ed. Identificaciones". "EI Psicoanalisis delas Organizaciones". Ed. J. coord.Obras de outros autores "Psychiatrie et Psychothérapie Institutionnelle". Alves. Buenos Aires. "Introduccion a Ia Terapia Institucional". W C. Ed. A. De Brasi. J. J. M. "Metáforas da Desordem". Buenos Aires. L. 1976. J. Chazaud. "Instituição e Poder". 1966. 1980. Graal. Oury. Guilhon Albuquerque. Achiamé/Socii. "Psicohigiene y Psicologia Institucional". M. 1969. 1985. Ed. Paris. de Board. UAM. Bordieu e J. Ed. Buenos Aires. C. A1thusser. C. Paidos. 1988. Ed Busqueda Grupo Cero. . Oury e A. 1980. 1986. A. Guilhon Albuquerque. A. tomo XXVI. Rio de Janeiro. Ficha de Ia Nueva Vision. Bauleo. 1968. "Contrainstitucion y Grupos". "Perspectives de l' Analyse Institutionnelle". 1978. A. "Sexualidade na Instituição Asilar". Ed. São Paulo. Segrac. 1971. Horme. 1978. Birman. Guilhon Albuquerque./mar. Montevidéu. Paidos. L Menzies y E. Ed. "Metáforas do Poder". 1969. Ed. M. de Ia Banda Oriental. 1990. 1980. P. Ed. México. Buenos Aires. Rio de Janeiro. Ulloa. Ed. A1thusser. Buenos Aires. "Hacia una . Paidos. Cuernavaca. Madri. 1975. R. México. "Ideologia y Aparatos Ideologicos de Estado". Barcelona. Paris. "Organizações Modernas". F.

Fd. Ed. Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. da qual é livre-docente. na Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires. E. Ed. Zahar. BuenosAires. Xenon. oito números. Toulouse. Ed. Revista Lo Grupal. SAI. Lancetti. A. Ed. 4ª ed. Renaudot. Buenos Aires. a Arte e também os saberes populares. Ed. Busqueda. 1990. S. professor. pesquisador. 1985. Paris. Barhier. "Sociopsicoanalisis e Institucion". Hogar deI Libro. Paris. Rio de Janeiro. Revista Connexions. Martin. Gregorio Baremblitt buscou sempre expandir sua atuação até as fronteiras da Medicina com a Política. a Filosofia. Revista Sociopsychanalyse. Pichon-Riviére. Rio de Janeiro. ''As Instituições e os Discursos". cerca de 30 números. Gregorio F. Revista Autogestions. Ed. Ed. e foi-se tornando mais rico e complexo a cada momento em que o médico buscou o cruzamento da Medicina com outras áreas. Ed. Ed." Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui". a Sociologia. Ed. Privat. 1989. Movido pela inquietação daqueles que não se contentam com o conforto garantido pelo reconhecimento dado aos especialistas consagrados. quatro números. cerca de 20 números. Esse olhar generoso e ao mesmo tempo rigoroso sobre os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma . Altoé.1978. Barcelona. Payot. cerca de 20 números. 1974. Epi. cerca de 30 números. R.209 ▲ "Infâncias Perdidas – O Cotidiano nos Internatos". "m Proceso Grupal – Dei Psicoanalisis a Ia Psicologia Social". esquizoanalista. esquizodramatista e escritor em diversos países da América Latina e Europa. psicoterapeuta. Tempo Brasileiro. tomos 1 e 2. Hucitec. Periódicos. A. Baremblitt vem traçando um longo e fecundo percurso como médico psiquiatra. ''A Pesquisa-Ação na Instituição Educativa". Revista Saudeloucura. Revista Tempo Brasileiro n° 35. 1984. 210 O AUTOR Da formação em Psiquiatria à militância junto ao Movimento Instituinte Internacional. Paris. São Paulo. Nueva Vision. Rio de Janeiro. Paris. Esse percurso teve início há 40 anos. coord. analista e interventor institucional. Ed.

Rio de Janeiro. Ed. em colaboração com outros autores. em colaboração com outros autores. 1987. em colaboração com outros autores. Ed. "El Concepto de Realidad en Psicoanalisis". Ao se estabelecer no Brasil em 1977. uma das primeiras entidades do país a instituir formas de tratamento mental em sintonia com os ideais da Luta Antimanicomial. 1978. Nueva Vision. "Grupos. o Instituto Brasileiro de Psicanálise. 1976. Belo Horizonte. 1991. culturais. 1972. Ed. "Cuestionamos". ''Ato Psicanalítico. e o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. São Paulo. "Cinco Lições sobre a Transferência". Ed. Matrajt. Hucitec. Buenos Aires. "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria e Psicanálise". Traduzido para o espanhol. 1984. em colaboração comM. Poder. Teoria e Técnica".1971. no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ed. livros e jornais da América Latina e Europa. Grupos e Instituições (Ibrapsi). Traduzido para o espanhol. Ed. "Saber. Ed. Rio de Janeiro. Ed. Buenos Aires. 1988. Hucitec. "O Inconsciente Institucional". Instituto Félix Guattari.ampla produção intelectual. Vozes. Quehacer yDeseo". Centro Editor Latinoamericano. Ed. em Uberaba (MG). do qual é atualmente o coordenador-geral. primeira organização no mundo separada da Associação Psicanalítica Internacional por motivos políticos. em colaboração com outros autores. "La Cura". correntes e questões do Movimento Instituinte para aqueles que estão iniciando seus estudos e ações nesse campo. Ed. Cidade do México. "La Interpretacion de los Suenos: Una Técnica Olvidada". em colaboração com outros autores. Buenos Aires. Ed. Belo Horizonte. GraalIbrapsi. Buenos Aires. Busqueda. 211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR "Introdução à Esquizoanálise". Segrac. Socioanalisis. Gregorio é autor de numerosos livros e artigos científicos e organizador de seis congressos internacionais em sua área de atuação. fundou. sempre ancorados em duas palavras-chave: auto-análise e autogestão. Ed. Sua atuação no campo da saúde mental inspirou outros profissionais a criarem a Fundação Gregorio Baremblitt. "Psicoanalisis: Teoria y Practica". 1998. BuenosAires. Há também numerosos prólogos e artigos publicados em revistas científicas. Petrópolis. Gregorio foi membro-fundador do grupo psicanalítico argentino denominado Plataforma. 1980. Ato Político". Helguero. 1974. Este Compêndio é fruto de um grande esforço para traduzir as temáticas. mas também diversas ações nos planos de coletivos diversos: em 1970. São Paulo. 212 . Universidade Autônoma do México. Ed. Global Ground. 1982. "Lacantroças".

213 ▲ .br ou pelo site www.7352 (Fax).hpg.br . um dos introdutores das idéias desses autores em vários países da América Latina e Europa – em parceria com Margarete Amorim. governamentais e não-governamentais que atuam nas áreas de educação. Os interessados em entrar em contato com o Instituto Félix Guattari podem fazê-lo através dos telefones (31) 3284. e-mail guattari. e suas atividades têm como inspiração a Utopia Ativa que guia a obra de Gilles Deleuze e do homenageado: a Esquizoanálise. O Instituto foi criado pelo autor deste Compêndio – o professor de Psiquiatria. O Instituto desenvolve atividades de prestação de serviços em análise e intervenção de organizações. ecologia. organiza eventos. e está aberto a todos aqueles que compartilham de seus ideais. mas com ênfase na prática clínica. Belo Horizonte. Baremblitt de Uberaba (MG). O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (IFG-BH) também promove cursos e grupos de estudo. Cep 30240-010. O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F. supervisiona trabalhos técnicos e práticos. edita e distribui livros e gerencia programas sociais. terapeuta e institucionalista Gregorio Baremblitt. psicóloga. justiça. sendo todas as atividades pautadas em sua orientação. que é também a do Movimento Instituinte Internacional. arte. 267 – Serra. Sua sede fica na Rua Herval.com. analista institucional e esquizodramatista. trabalho.1083 e 3221. O IFG-BH tem diversas parcerias com organizações nacionais e estrangeiras afins. saúde. MG. estabelecimento este que já conta mais de uma década de existência ancorada em uma orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. movimentos e grupos públicos e privados.bh@terra.com. e junto a um grupo de colegas institucionalistas. Seu nome é uma homenagem ao célebre intelectual e militante francês Félix Guattari. políticas públicas etc. conduz pesquisas.INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (MG) é uma organização não-governamental fundada no ano de 1996.ifgorg.

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