Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática

Gregorio F. Baremblitt
5ª.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992 4

SUMÁRIO 5 INTRODUÇÃO.............. 11 CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13 CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 CAPÍTULO III: As histórias..............37 CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 GLOSSÁRIO..............133 APÊNDICE..............174 POST-SCRIPTUM..............195 BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207

AGRADECIMENTOS No referente à primeira edição deste livro, o autor dá aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi uma versão. Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou inúmeras tarefas que possibilitaram sua publicação e distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com a revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor também agradece aos membros e funcionários do Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contribuições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente. O autor é grato a todos os amigos: professores universitários, pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da autogestão que colaboraram na distribuição das diversas edições deste escrito.

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organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. o estatuto epistemológico e jurídico absolutamente singular e a infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tarefa de ensiná-lo. entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua aspiração a deflagrar. ao mesmo tempo. Os seis primeiros capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o curso. Curso que. 11▲ . O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo. Essa vocação libertária. foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. por sua vez. heterológico e polimorfo de orientações. enquanto o último foi escrito como artigo independente.INTRODUÇÃO Este livro corresponde à versão escrita de um curso proferido em Belo Horizonte no decorrer de 1990. sua Pedagogia exige uma originalidade da qual já existem muitas tentativas. apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais. mas que. Se se deseja ser coerente com os valores do Movimento. ainda está para ser produzida. ainda inédito.

Bleger. Kaminsky. Mais informativo que formativo. acredito que este livro seja estimulante. tem apenas o propósito de aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do Institucionalismo. Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados. começar verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta.Este curso. De Brasi. em algum momento. Para quem decidir continuar. Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória. no meu entender. 12 ▲ . importantíssimo para o povo brasileiro. a bibliografia final. devo destacar as correntes latino-americanas de Pichón-Riéver. sejamos realistas. proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. integrada predominantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil. mas. Malfe. ou. discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para os futuros institucionalistas. proferido com uma metodologia tradicional. Bauleo. Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar. um livro especial. Ulloa. Pavlovsky. foi inspirado pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer complexo e arriscado. Matrajt.

Contudo. Agora.. um leque de tendências. há algumas que são relativamente fáceis de se colocar. Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que.Capítulo I O MOVIMENTO INSTITUINTE. Eu diria que existe o que se chama de "ideais máximos" do Movimento. Em capítulos sucessivos. E é a essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora. é um conjunto de escolas.. pois se procura apresentar uma exposição de nível médio. teremos ocasião de complicar as coisas. para ser entendida pelo maior número possível de pessoas. Não existe nenhuma escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte. a intenção é. pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. simplificá-las. da maneira mais simples e mais didática possível. A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam. Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte. predominantemente. como o nome aproximativamente indica. Podemos chamar a isto também de 1 3▲ .

Os mesmos podem ser enunciados através de duas palavras aparentemente simples. As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar. ou uma organização imperial. experts que são os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. caracteriza-se também por. Esse saber. em geral. mas que são. Além desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza. os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. como veremos depois. Acontece. ou seja. nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de estudo e tem gerado profissionais. a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a história da humanidade. resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado "progresso" em igual proporção. Por exemplo. houve um processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. nesses últimos duzentos anos. O que significam essas palavras? Depois. por exemplo. apoiar e deflagrar nas comunidades. a serviço das entidades e das forças que são dominantes em nossa sociedade. intelectuais. aplicações tecnológicas. que nossa época. compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana. nossa civilização. ter produzido uma soma de saberes que propiciou. os processos de funcionamento social. capitalista ou tecnológica. muito complexas. de diversidade que as sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas civilizações.propósitos mais importantes. Ou seja. então. têm sido sempre muito complexos. Mas em nossa civilização chamada industrial. uma grande complicação interna. de fato. existem disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. além de se caracterizar por uma grande diversidade. E o progresso trouxe uma grande complexidade. ciências formais. nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e de autogestão. Esses conhecedores têmse colocado. como ninguém ignora. o grau de complexidade. Se compararmos. uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil anos. uma organização social dita "primitiva". a serviço daquela instituição que representa o máximo 14 ▲ . ou uma medieval com a nossa sociedade moderna. despótica. apesar delas não serem nada simples.

comida. empresariais. colocado em segundo plano. gerenciada por "especialistas". esses experts têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza. de educação. de seu próprio funcionamento. fica relegado. secundários e terciários. moradia. sua necessidade. do saber e de serviços dos experts . já dentro da sociedade civil. então. a partir do surgimento do saber científico e tecnológico. pobre. insuficiente. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo de ideologia. as comunidades de cidadãos têm visto esse saber subordinado ao saber dos experts. elas têm perdido o controle sobre suas próprias condições de vida. dos organismos do Estado. que são as organizações corporativas. é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos. às questões relativas ao lazer. no melhor dos casos. o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a sociedade. O mesmo acontece no plano de administração da justiça. visando a qualificá-lo como um falso conhecimento. aos psicológicos e subjetivos. tem tido como conseqüência que os povos – em sentido amplo. nos tribunais. ou seja. infundado ou. sua qualidade. num sentido vago. tudo é decidido pelos experts . como se fosse rudimentar e inadequado. Então. em que os "sábios". cada um dos serviços que se prestam nessas áreas. primários. do poder. sua quantidade. às que atingem a comunicação de massa. aos assuntos próprios da religião. ou seja. do saber e do prestígio. Junto com seu saber. com os 15 ▲ . quase incondicionalmente. geral. refiro-me aos problemas de saúde. que é o Estado. vestuário. sua conveniência. ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência. por outro lado. Além disso. criado e acumulado pelas comunidades sociais durante tantos anos de experiência vital. os bens que se produzem e administram nesses territórios. Mas noutro plano. aos especialistas de produção de bens materiais. Cada um desses campos. Elas dependem. Toda a produção desses bens está dirigida. Essa situação. os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado e das empresas. em geral. a sociedade civil – têm-se visto despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua própria vida. aos assuntos familiares. as empresas nacionais e multinacionais etc. Esse saber. transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência.da concentração de poder.

muito evidente que nossos coletivos estão. que se chama demanda. É claro que os experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os interesses das classes. É. porque ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história. querem e pedem o que lhes inculcam que devem necessitar. como veremos. porque todas essas outras entidades também usam da força. não existem demandas "espontâneas". aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo" não existe. senão da força física. então. não existem necessidades básicas "naturais". leis: tudo i sso feito por experts e administrado por eles. de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que "realmente" aspiram. as forças armadas. Essas necessidades são colocadas diariamente através de demandas espontâneas. assim como a demanda é modulada. que seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e desejos citados. 16 ▲ . Acontece. registros civis. na verdade. E o que falar do exercício da força. É possível afirmar que as comunidades ou coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. Mas ainda dentro do condicionamento histórico. a noção das necessidades é produzida. mas o uso da força física está reservado a organizações como a polícia. que também têm seus especialistas. Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo. mas particularmente na nossa. guardas etc. pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de descrever. desejar e solicitar. da força da persuasão. oficiais.advogados. Mas não se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. através da exigência de produtos e de serviços correspondentes. as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas necessidades a perdem. delegados. precisam. níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. no sentido literal. da força da sedução. Então. despachantes. isto é. na Análise Institucional e em outras escolas do Institucionalismo. o que acontece? Há um conceito básico que vamos ver depois. mas. Esse "mínimo" é gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam e acham que pedem o que querem e como querem.

necessidades. ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de sua vida sobre a terra. sem dúvida. Na medida em que essa organização é conseqüência e. mas elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. ou seja: não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer-lhes quem são. Mal podem organizar-se para resolver seus problemas se não conseguem saber.atualmente. ou seja: produtivo. se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir. Mas os experts 17 ▲ . ela mesma. o que devem pedir e o que podem ou não conseguir. em que a comunidade se articula. de suas demandas. interesses. possam enunciar. eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento importante e não inteiramente alienado. Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo. Eles têm perdido um certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem dispor para colocar e resolver seus problemas. de suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas limitações. se institucionaliza. ela também não é feita de cima para baixo. compreender. nem de fora. nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem. não necessariamente distorcido. desejos e demandas. como protagonistas de seus problemas. têm alienado o saber acerca de sua própria vida. os coletivos têm perdido. com sua disciplina e seus instrumentos. a noção de suas reais necessidades. quais são seus verdadeiros problemas e o que se requer para resolvê-los. com precisão. Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria o primeiro deles. ao mesmo tempo. de seus desejos. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas. adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida. Então. Este processo de auto-análise das comunidades é simultâneo ao processo de auto-organização. o que podem. um movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise. um deles seria a auto-análise e o outro a autogestão. o que sabem. Essa auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque.

suas técnicas. suas inserções sociais como profissionais a uma profunda crítica que os faça separar. num trabalho feito em conjunto com essas comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz. é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas superficial. suas glórias. eventualmente. do . Para poderem efetuar essa autocrítica. aprendendo e ensinando seu saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. significa a produção de um saber. não podem fazê-lo nas academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. hierarquias que eles têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico-políticos do Estado. E só conseguirão reformulá-los numa gestão. os experts poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e autoanalíticos quando forem chamados a participar. Ao mesmo tempo em que são os objetivos principais das propostas instituintes. Eles poderão assim reformular. seu saber específico. Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. Por quê? Porque auto-análise. À parte dessa reinvenção de sua disciplina. 18▲ É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. dentr o dessas teorias. seus métodos. mas profundamente conhecidos pelos leitores. Isso permitirá que. a uma auto gestão. Por isso.devem submeter seu saber. postos. eles são também os próprios meios para realizá-las. ou ainda das diretivas das grandes empresas nacionais e multinacionais. dentro dos organismos aos quais pertencem. sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de auto-análise e auto gestão dessa comunidade. da qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas. quando a comunidade conseguir organizar-se. tenham algum lugar dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins. Eles têm que entrar em contato direto com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando para incorporar-se a essas comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham. o que é produto de sua origem. os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim. os experts. Esse estatuto deve resultar de uma crítica das posições. Eles têm de reformular sua condição profissional. para as comunidades. de sua pertença ao bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise. métodos e técnicas. Então seu saber.

elas têm que chamar experts aliados para colaborarem. Existem hierarquias moduladas pela potência. a resolver seus problemas. em assembléias. peculiaridades e capacidade de produzir. não equivale a privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. tanto quanto os processos auto-analíticos. por correias de transmissão. de suas condições de vida. São dois processos diferenciados. suas necessidades. articulados. são produtores de conhecimentos. elas têm que construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. Eles têm maneiras diretas de comunicar as decisões. existir hierarquias. Contudo. 19▲ . e também de seus recursos. gerências. tudo o que elas descobrirem neste processo de auto-conhecimento só terá uma finalidade: a de auto-organizar-se para que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência. especificidades etc. Mas a existência de hierarquia não implica diferença de poder.. elas têm que se dar condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. então. Deverão. de deliberação. Elas têm que organizar-se em grupos de discussão. demandas etc. Implica apenas uma certa especialização em algumas tarefas. Na realidade. ou seja. Mas não pode haver uma organização sem um saber. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem. porque estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas coletivamente. os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual. São executores. hierarquias. Ao mesmo tempo. Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de denominações. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos. a capacidade de impor a vontade de um sobre o outro. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo produtivo. mas não há hierarquias de poder.conhecimento acerca de seus problemas. é evidente que o Institucionalismo. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades. Em todo caso. mas eles são concomitantes. não pode haver um saber sem uma organização. é difícil pensar qualquer processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa hierarquia de decisão. simultâneos. quadros.

circunscrita. Mas este saber é um saber coletivo. uma vez realizados. digamos. e então a serviço do coletivo. de ambições de segmentos individualistas etc. que têm efeitos médicos. já uma delegação. Então. principalmente se por prevenção entende se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. O coletivo conserva um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando o seu poder com sentido instituinte-organizante. o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil esteja colocada na assistência e não na prevenção. quando esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa questão. não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do Brasil porque a primeira coisa 20 ▲ que lhes seria respondida é que não sabem. um poder.e que todo saber envolve. vestuário e saneamento básico. já não é um saber que vai cair de cima para baixo. O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa nem acaba no campo da medicina. Disso todos os experts sabem. produzido. pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual. e ambos não são homogeneamente distribuídos. Na topografia deste saber. existem alguns elementos essenciais que compartilhados por todo mundo. Quem conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa prioritariamente de. de fora para dentro. Acontece que o povo. pelo contrário. distribuído e exercitado na vida coletiva. tomógrafos computadorizados. há muitos centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou diagnosticar uma problemática altamente específica. Seus problemas. têm suas causas diretas nos problemas de habitação.5% da população. Entretanto. alimentação. muitos dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. Vou dar um típico exemplo da medicina. embora haja mil exemplos. as organizações de base. por alguns especialistas no assunto. ou. em estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas aplicações terão. que afeta 0. já não é um saber produzido fora dos interesses e desejos do coletivo. necessariamente. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza são É - . Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles um saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. porque foi produzido dentro.

em pé de igualdade. Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico. Assim. Uma vez que o expert . ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária-que o saber médico (nesse caso) e suas técnicas têm. todo mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos. nacionais e multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses interesses. a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts. Como já dissemos. e não numa potência de colaboração com o coletivo. Desde logo este saber também desconhece muita coisa. pelo menos. porque este processo de auto-conhecimento e autogestão é interminável. integrado à comunidade. Nesse caso. também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo que não se exprimam em sofrimento. pode-se delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder. demonstra a capacidade de contribuir. ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença. revalorizar o saber espontâneo que elas têm sobre seus problemas. as comunidades 21 ▲ eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente . as comunidades negras têm. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o que vem depois. existiram e existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. Isso não descarta que possam acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder. mas isso não pode afirmar-se a priori. revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que preci sa? Os índios têm. para este trabalho de reformulação. quais são as enfermidades e como devem ser tratadas. não devendo ser tratado como tal. A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar. as comunidades da planície têm. o coletivo já não está desqualificado – ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. que atua predominantemente a serviço de interesses estatais. Por exemplo. Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está colocada num futuro longínquo. senão em cada ato do cotidiano.seu saber. as comunidades das montanhas têm. basicamente. Provavelmente. haverá necessidade de muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se em sua plenitude. o que é prioritário e o que é secundário.

Nós. idéias. muito importante. Os leitores compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições altamente desfavoráveis. advogados. severamente contraproducentes. Então. comunicólogos. conceitos e funções: todas aquelas teorias. mas acho que vai complicar um pouco as coisas. enfim. não são donos da riqueza. os experts – médicos. Mas. para fundamentar a proposta institucionalista. a gênese conceitual refere-se ao campo das idéias. Por quê? Naturalmente porque os coletivos em questão não são donos do saber. Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo. psicólogos etc –. existem e vão existir. em que consiste o tema aqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico -social e uma gênese conceitual. para a 22 ▲ . engenheiros. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos organismos e entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. gostaria de referir-me à última questão. temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação. O Institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts.integrado a aspectos libertários do Cristianismo. Por outro lado. não são donos dos recursos que são propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes. Agora. porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja Católica. e não precisam do Institucionalismo para se desenvolverem. Esses processos autogestivos e auto-analíticos são. Um desses movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. conceitos. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram. categorias que têm sido produzidas pela humanidade no decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base.

Mas isso não quer dizer que não sejam possíveis ou inventáveis. seja a de certas orientações do anarquismo. uma peste. Ou seja. como na política. E as que hoje insistem em existir lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí-las. incorporá-las. Quer dizer: há correntes. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. escolas" maximalistas". porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a definição de problemas. Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas auto-analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. Eles são atingidos sempre na base da tentativa. a colocaçã o dos limites do que é possível. tentam recuperá-las. um câncer. do ensaio. pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos. tanto das extremistas quanto das propostas social-democráticas.organização do sistema. Provavelmente a tendência política tradicional que mais se aproxima das propostas institucionalistas. e pelo grau de realização com o qual se conformam. E quando não conseguem eliminá-las. existem correntes reformistas e existem correntes ultra-revolucionárias. Elas têm aparecido muitas vezes na história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. Não há nada que seja mais temido e mais odiado pelo sistema social. de alguns espaços. que buscam a instalação plena da autogestão e da auto-análise. Isso faz com que os objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos nunca de forma definitiva. a invenção de soluções. pelos métodos. no Institucionalismo. Então. De qualquer maneira. Eles as diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas. esta última afirmação que faço refere-se ao seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias. do que é impossível e do que é virtual. organizações e saberes de grupos e outros segmentos dominantes. o que normalmente é feito pelas instituições. 2 3▲ . nada disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. e com a qual o Institucionalismo está mais que em dívida. da procura. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos. de alguns temas de auto-análise e autogestão.

ou é a oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 5) O que significa auto-análise e autogestão? 24 ▲ . e por que se diz que as ciências. uma disciplina ou uma tecnologia? 2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos e grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber". as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações.PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência.

o que está prescrito. só que eles são transmitidos verbal ou praticamente.Capítulo II SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES O Institucionalismo. podem ser leis. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos. afirma que a sociedade é uma rede. podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. segundo a forma e o grau de formalização que adotem. quando não estão enunciadas de maneira manifesta. O Institucionalismo. assim corno o . são árvores de composições lógicas que. As leis. o que está proscrito. E que são as instituições? As instituições são lógicas. sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola para escola. podem ser normas e. em geral. normas e costumes são objetificações de valores. O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana. tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do que é a História. caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela. Alguns autores sustentam que leis. as normas e os códigos também. a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o devir da Sociedade no tempo. um tecido de instituições. esclarecendo 25▲ o que deve ser. à sua maneira. não figurando em nenhum documento. estão escritas. e o que não deve ser. isto é.

e também proscrições – o que é proibido. entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo. as que definem os lugares tais corno: pai. corno se pode ver. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). de unidades de significação na linguagem. consideradas gramaticais ou agramaticais. regula a relação de parentesco e tem prescrições – o que é indicado. Isso também é um código que. por outro lado. conforme indicado por essas leis. de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte dessa língua. não estarão estipulados também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua. Com a combinação desses elementos. formalizado ou não. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da divisão do trabalho humano. de normas que regem a combinatória de elementos fônicos. filho. são vários. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis.que é indiferente. genro etc. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em termos gramaticais. nora. Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. no caso da língua. de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. os prescritos ou os proscritos. Essas lógicas. pelo menos dentro desse universo humano em particular. Um exemplo de urna instituição: a instituição da' linguagem. no final das contas. essa divisão vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder. que característica de vínculo. É claro que. mãe. urna gramática é urna instituição que explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano. e é curioso que os institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. 26 ▲ . Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco. Mas. Então. assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica. que é o que acontece em outros tipos de instituição. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa classificação podem se dar uniões. pode construir-se um infinito número de mensagens. esses corpos discriminativos.

há algumas que são muito 27 ▲ características. para cumprir sua função de regulação da vida humana. têm de "materializar-se". um banco. que é a que regula as relações do homem com a divindade. Ministério da Fazenda etc. as instituições não teriam vida. como insisti. Ternos também as instituições de justiça. Por sua vez. vultoso) está composta de unidades menores. as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções que as instituições distribuem e enunciam. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las todas. Ternos também a instituição da religião. mas com respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de comportamentos contra-indicados. isto é. aquelas leis. as instituições da administração da força. Por exemplo: trabalho manual e intelectual. Em um plano formal. divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros. pelo menos. Ministério da Justiça. uma loja. do campo e da cidade. Para vigorar. Há também as instituições da educação. urna organização (que. Agora. Ou seja. feminino e masculino etc. não teriam direção se não estivessem informadas como estão. um quartel. por exemplo. costuma ser um complexo grande. Há diversos tipos de . pelas instituições. Mas as organizações não teriam sentido. os estabelecimentos. Estabelecimentos seriam as escolas. as instituições têm de realizar-se. são formas materiais muito variadas que compreendem desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação. – até um pequeno estabelecimento. instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa integrar-se à mesma com suas características efetivas. assalariados e autônomos.prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm esses lugares (divisão social). então. e assim por diante. entendidas assim. um convento. não teriam realidade social senão através das organizações. Mas. normas e pautas que prescrevem corno se deve socializar. como. urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens. Isto é. por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. não teriam objetivo. uma fábrica. As organizações. E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que são as organizações. as instituições são entidades abstratas.

estabelecimentos, de características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das organizações da comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não-verbais, discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de instituição às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer, por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 28 ▲

uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis. Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir historicamente ao nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações de urna instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não existem), a isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições, tem um produto, geram 29 ▲

um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados aos novos estados sociais. Tem-se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado. Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma tendência histórica a esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior felicidade, maior realização, 30 ▲

imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva. podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por todo mundo: são os processos de exploração. sempre tem uma utopia. É claro que. agentes. compartilhada. se se compreende esta oposição entre a 31 ▲ . Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições. à exceção de algumas sociedades em particular. desde que existem sociedades. de dominação e de mistificação (desinformação ou engano). uma orientação histórica de seus objetivos.maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes entre o instituinte e o instituído. Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais nobres. sonegação de informação etc. tem-se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos. Para poder entender essa terminologia. engano. ou seja. e que são chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta. organizações. Essas características históricas. que é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros). uma administração arbitrária ou deformada do que se considera saber e verdade histórica. que cada sociedade coloca à sua maneira. diferentes formas de veracidade e fraternidade. e mistificação. que não é nem a única nem a melhor das utopias. práticas. de uma fase histórica para outra. Assim. diferentes formas de igualdade. há a tendência a adquirir sempre características históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. ilusão. e na vida humana tomada num sentido muito amplo. mas é a mais conhecida por nós. as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade. apesar de eu estar usando. a utopia da Revolução Francesa. de suas finalidades mais altas. deve chegar a ser. que é substituída por diversas formas de mentira. Então. elásticas. pode-se distinguir uma função e um funcionamento. para referir -me a isso. de consenso. ou seja. chamada de revolução burguesa. dominação. cada sociedade. deseja. estabelecimentos. em seus aspectos instituintes e organizantes. entre o organizante e o organizado (processo de institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis. fluidas. muito diferentes de uma sociedade para outra.

chamamos de Justiça. agentes e práticas desempenham uma função. disfarça da. ela é predominantemente reacionária. conservadora. de Igualdade e Fraternidade. justamente por causa da questão da mistificação. o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração. dominação. enquanto produtivo. recebem o nome de funcionamento. desejáveis e eternas. As instituições. coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a característica essencial do instituinte. toda organização. O instituído. Agora. a serviço da exploração. organizações. provisoriamente. ao passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia. mostra-se como o objetivo natural. da dominação. dos mistificadores. é sempre transformador. Toda instituição. enquanto recurso operante o instituinte. daquilo que 32 ▲ . e se apresenta aos olhos não atentos como eterna. Ou seja. Então. é claro que é necessário. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas. A função apresenta-se deformada. todo estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores. produção que é a geração do novo. Isto é. o funcionamento é sempre instituinte. os instituídos e os organizados apresentam. estabelecimentos. tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a característica da função. esses processos. o organizado. Podem ser chamados de outra maneira. dos domina dores. predominantemente. da dominação e da mistificação. dominação e mistificação que se apresentam nesta sociedade. funções a serviço da exploração. mas em geral elas são mesmo traídas. desejado e lógico das instituições e das organizações. do organizante e dos seus produtos operantes é serem propícios à produção. da mistificação. pode-se definir outros termos que temos aqui presentes. estão sempre a serviço dos objetivos que. então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento. Essas forças. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais"... enquanto expressão apropriada. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração. desejável e invariável. rapidamente.utopia. não se manifesta claramente ao nível do instituído e do organizado. Só que esta função raramente se apresenta como ela é. é justiceiro e tende à utopia': A função. Acontece que. natural. mistificação-. freqüentemente.

Função é sinônimo de reprodução: é a tentativa de reiterar o mesmo. mas sim em conjunto. Para concluir. Esta interpenetração acontece ao nível da função e ao nível do funcionamento. a rede social. que por sua vez são uma realização da instituição da educação. funcionamento contra função. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro. de perpetuar o que já existe. Essa interpenetração ao nível do instituinte. desde o outro. aquilo que não é operativo para propiciar as transformações sociais. cada organização. Então: instituinte e instituído. Nós dizemos. também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia. produção contra reprodução. e o que basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições. que uma escola é um estabelecimento das organizações do ensino. os instituintes-instituídos. pejo outro. não atuam separadamente. Por outro lado. de acordo com a concepção de ensino que ela tenha. entre todos os organizantes e organizados. para o outro. não só instrui. a interpenetração que existe entre todos os instituintes e instituídos. uma escola também é uma fábrica. Então. Para concluir. essa interpenetração ao nível da função. uma escola. do conservador. vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de funções a nível organizacional. do revolucionário.almeja a utopia. Para dar apenas um exemplo. mas necessárias para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste. do produtivo. especialmente 33▲ . como analisar cada instituição. ao nível da produção e ao nível da reprodução. ao nível daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra. Acontece que uma escola não só alfabetiza. ou seja. Essa é uma tentativa de enunciar o entrelaçamento. e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do organizante. do reprodutivo. mas também prepara força de trabalho (alienado). não só educa dentro dos objetivos manifestos do organizado e do instituído. exporemos definições que são um pouco áridas. por exemplo. o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer. organizantes-organizados que constituem a malha. abstratas. Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. funcionamento e produção são a mesma coisa. do criativo chama-se transversalidade. como entender. organizante e organizado. chama-se atravessamento. e além de ensiná-los a ler e escrever.

a mistificação. Então. de alguma maneira. e dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração. chama-se atravessamento. da dominação e da mistificação. Essa interpenetração chama-se transversalidade. ao nível da reprodução. e esta se define também como uma dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade. Então. como já vimos. uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os alunos. de luta sindical. marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. uma frente de luta revolucionária. do organizado. do que deve ser destruído. gerando assim movimentos e montagens alternativos. uma escola tem um lado instituinte. tal como está. produtivas. Mas uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento políticoescolar. além disso. por ela. para ela. uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as correntes instituintes. Então. ao nível do instituído. ao nível da função. chama-se transversalidade.de punições. a dominação. o que a escola ensina é uma série de valores do que deve ser construído. através dela. a escola pode ser também. da reprodução. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. ensina formas de exercício da agressividade. por exemplo. A interpenetração ao nível da função. Mas. um lugar de exercício da solidariedade. Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está. Neste sentido. e ela por outras. está atravessada pelas outras organizações. uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos direitos. 34 ▲ . vocês vão vendo como uma escola. instituições. interpenetrado com muitas outras organizações. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas. Neste sentido é que uma escola tem também um funcionamento articulado. um lugar de doutrinamento para a revolução.um clube estudantil. com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam nela. e ainda entre os diversos· quadros e segmentos desse mesmo estabelecimento. produtivo. um lado organizante. numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração. A interpenetração a nível instituinte. também se pode dizer que uma escola é um quartel ou uma delegacia de polícia.

agentes e práticas? 4) O que é o instituinte e o instituído. para o Institucionalismo. 35▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 1) O que são. a concepção institucionalista da sociedade. a produção. ou seja. o organizante e o organizado. até certo ponto. a reprodução e a antiprodução? 5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 6) De que está composta a rede social? 36 ▲ .Com isso temos definida. da liberdade. da produção e da transformação afirmativa e ativa da realidade (transversalidade). A sociedade é uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas funções estão a serviço da exploração. as sociedades? 2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou normas ou que se manifestam em hábitos? 3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações. dominação e mistificação (atravessamento). equipamentos. os estabelecimentos. da plena informação. assim como também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da cooperação. a função e o funcionamento.

neutra. Então. empiricamente. não é isso. enquanto justifica as ações 37 ▲ . impessoal e que. é uma versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do Estado. registram aquilo que lhes convém. é apenas uma versão tão interesseira. como meramente narrativa. historiografia é esta versão que. do instituído e do organizado. em geral. se apresenta como sendo objetiva. que têm recursos para resgatar e promover estes documentos. propriamente. mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva. Porque a versão que se tem da História é sumamente importante. a rigor. mas que aparece como descritiva. Agora. as tendências de quem faz História. tão tendenciosa quanto qualquer outra. Numa primeira instância. Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos.Capítulo III AS HISTÓRIAS o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos. alguma noção aproximada do que é história. Naturalmente. das classes dominantes. os interesses. é importante diferenciar História de Historiografia. História. que qualquer registro inclui os desejos. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e. geralmente.

que aproveita 38 ▲ .e paixões que se protagonizam no presente e. Quer dizer. geralmente. morto. da afetividade. culturais. eras ou etapas. teve início em um passado. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que não é o passado que engendra o presente. globalizar em um tempo único. e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se "atrasa" em relação aos outros. no século XI. de alguma forma. da vontade. ideológicas. já foi"-. ou seja. a reconstrução do que já aconteceu e que já está. de modo que não se pode estudar uma época como se essa época fosse um corte transversal. todos os movimentos sociais que se deflagram. começou. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História podem ser resumidas em poucas palavras: Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é. uma História que seja como uma espécie de mangueira. que o presente ilumina. que não se pode totalizar. Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar. mas consiste em uma localização daquilo que. e sim o presente que explora. histórias das gerações. Trata-se de tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos históricos em alguns momentos. do desejo. no século XVI. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se transcorreram todos os processos. mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas. ou na Idade Antiga etc. que se faz num único fluxo da História. Passado e futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. Não é o passado que gera o presente. apenas. de alguma maneira. justifica e propicia um projeto futuro para a vida social. que são localizáveis como tais. obsoleto. os processos que constituem a História são processos policronológicos. Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no presente. Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História. como se faria no fluxo de um rio. histórias raciais. que se impulsionam para chegar a este porvir. mas o passado está composto de uma série de potencialidades que o presente ativa. cronológica ou conceitualmente. que o presente deflagra. definido – "o que foi. enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só. cada um em sua duração.

Então. ou do idêntico. suas parábolas. Segundo alguns institucionalistas. com uma explicação claramente mecânica. tendemos a pensar a História em função de suas leis. que começam do zero e vão acabar em dez. do relógio ou do calendário. é o acaso. suas órbitas.ou atualiza as potencialidades do passado para construir u m porvir. não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste. cada uma das quais origina a seguinte. o aleatório. e como correlato à máquina do relógio –. em todo caso. ou um final catastrófico ou apocalíptico. é o inesperado. se produz. a História não é uma série de etapas fatais. O Institucionalismo diz que o que. por conseguinte. Não existe uma progressão predeterminada das etapas históricas e. cem ou qualquer número final. retoma na História. sempre policronológico. mas que o que se repete na História é a diferença. isto é. não é o idêntico. devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica. o acontecimento. um final que pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva. E que são estes grandes ou pequenos momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 39 ▲ . Não existe finalidade da História. Por outro lado. baseada em paradigmas de ordem que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com suas trajetórias. Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou menos maquinais. predominantemente. sendo que os enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade. Finalmente. que tende a repetir-se e que. quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual. o imprevisível. esta concepção da História que faz da diferença uma variação análoga ou semelhante do igual. não existe um apogeu final dos tempos. ou mais ou menos determinadas. o tempo. O que pode ocorrer no dia-a-dia não está inteiramente predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro. outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da História é que nós. não é compartilhada pelo Institucionalismo. não é o regular. com este metamodelo mecanicista. não é o igual.

pode se distinguir o molar. do acontecimento. absolutamente desconhecido. ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do inesperado. A rigor funcionam sempre. O termo molar. é aquilo que é grande. a inerência. não de uma transformação pré-figurada. e com a utopia ativa. Por outra parte temos o molecular. não é apenas um exercício acadêmico.vão tentar ser capturados pelo instituído. incluindo-se no outro. para a partir desses ensinamentos. a finalidade e os recursos do Institucionalismo. um "dentro" do outro. produzir estratégias que permitam propiciá-los novamente. pelo organizado e repetidos como idênticos. uma investigação erudita. que tem formas objetais ou formas discursivas. que é evidente. é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar explicar brevemente. os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da humanidade. da inovação absoluta. que. o propósito. Então. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do que tende a repetir-se. visíveis e enunciáveis. Bem. vida do desejo inconsciente. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação. outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao termo molecular. Tentemos agora definir outros conceitos importantes. vida biológica e natural. O que existe são imanências – isto é. que só se podem separar de uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. vida política. mas da transformação em direção ao radicalmente novo e. em que os diversos processos são imanentes um ao outro. que é o que na física se costuma chamar micro. Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica. o objetivo. esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo. por 40 ▲ . não de uma transformação previsível. quer dizer. mas está estritamente relacionada com a concepção da práxis. dito de uma maneira simples. mas uma tentativa de reconstruir os grandes momentos de imprevisto. por assim dizer. Então. dentro desta concepção da vida social como uma rede. com contribuições de diferentes tendências institucionalistas. a posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros. trata-se de entender como a História é não apenas uma atividade ilustrativa. portanto. da atividade político-social desejante que o Institucionalismo tem.

é o lugar da estabilidade. político. Produção é aquilo que processa tudo que existe. natural. da microbiologia. e que os grandes poderes em vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam em espaços microscópicos de uma sociedade. isto é. o mundo das partículas. o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo previsível. que é composto de grandes corpos. as conexões circunstanciais. do instituído e do organizado. o Institucionalismo pensa que as pequenas conexões locais são o lugar do instituinte. as macromudanças. ao generalizarem-se. e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as estratégias de intervenção nos âmbitos. técnica. é importante definir o termo antiprodução. já tentamos reiteradamente definir e redefinir o termo produção. econômico e desejante. tomando esses ensinamentos da microfísica. e o micro é o lugar da produção. dos limites precisos. resultam nas grandes metamorfoses. a biologia e a química descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta da dinâmica que acontece nas micro. e o micro é o lugar da eclosão constante do novo. porque espera delas efeitos à distância que. o mundo atômico e subatômico. impensáveis. e não os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. O macro é o lugar da reprodução. Esta diferenciação também é importante porque. biológico quanto no sentido social. Como até mesmo a física. químico. o detectável e consagrado. O macro é o lugar da ordem. Então. o macro é o lugar da regularidade e das leis. da biologia molecular. o universo. insólitas. subjetiva e socialmente. é o lugar das conexões anárquicas. Dito com outras palavras. o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas. O micro. as transformações microscópicas.oposição a macro. são sempre resultado de pequenas micromudanças. da conservação. nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. é o lugar das entidades claras. da microquímica. Se não me engano. o cosmos. da regularidade. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva. o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais. enquanto o mundo macro por excelência seria. É a permanente 41 ▲ . o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. em geral. por oposição. dito tanto no sentido físico. Finalmente.

da mortalidade infantil. é a metamorfose. serviços – não pode assimilá-las à lógica do sistema. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas de maneira muito ampla. produtivas. 42 ▲ . as energias não orientadas. é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de destruir os produtos porque o preço caiu no mercado. Esse processo de autodestruição das forças produtivas naturais. ou as deixa morrer. É o que subjaz a grandes processos sociais como as guerras. são capturadas em grandes organismos reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista. enquanto não se cristaliza. vigora a antiprodução. pelos equipamentos. bens. enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias. de maneira que a produção. o impedimento ou a destruição do novo.geração. ou as mata por meio de mecanismos mais ou menos deliberados. como é o caso da marginalidade. neocoloniais e planetários contemporâneos etc. mais ou menos premeditados. Então. elas tornam-se antiprodutivas. Um desses processos característicos é o problema ecológico. Por exemplo. Agora. dos preconceitos sexuais e raciais. elas se destroem a si mesmas. é o que. que a sociedade não está em condições de incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria. chamaríamos de criação. subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se antiprodução. as forças instituintes-organizantes. do alcoolismo. que vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. que só agora se está" descobrindo". mas foi sempre assim. pelos organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo. Essas são potências. mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los. de bens de troca e não de bens de uso. e que morrem não apenas por deficiência da provisão ou da organização. valores. elas são voltadas contra si mesmas. é o que subjaz à geração de enormes contingentes sociais que estão destinados a morrer. são forças singulares. com uma terminologia ainda religiosa. é o devir. sociais. seres. dos genocídios coloniais. isso se torna moda. as matérias produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos. e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. da tóxico-dependência.

representações. prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. Isso é claríssimo. em última instância. Hoje. e ainda mais. de seu querer deliberado. não só seus interesses. suas vontades. não fazem parte de seu saber. sabese que as vontades. para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que outra. está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população. e ninguém pode negá-la. apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina. ou que se possa supor que é o político o tal determinante. coincidem com suas crenças. eles só entram nesses processos de dominação. de exploração. de algum modo. são tão importantes as vontades. econômicas. os desejos e as representações com que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais". E também não entram se suas expectativas. hoje se sabe. que têm a ver com o sofrimento e têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. Ou seja. políticas ou naturais que os determinam. por vontades que eles não controlam e não conhecem. se estes. em política ou sociologia – com independência do psiquismo dos homens. científica-política ou econômica clássica. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica. Em última instância. que o "pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. isto é. as características da vida e da morte social. são inconscientes. E não se trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária. em processos revolucionários. já é completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que acontece em economia. por exemplo. isto é. os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens. pelo contrário. seus desejos não se encaminham nessa direção. convicções acerca da vida social. que por mais determinados. ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes 43 ▲ .Para qualquer tendência sociológica. mas que têm a ver com o prazer. de mistificação ou. mas de mobilizar forças inconscientes às quais se apela. por mais submetidos às leis econômicas e políticas que estejam os homens. os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes.

quando as forças inconscientes se ativam. em algum momento. Os povos checam seu próprio saber sobre suas condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente movimentos de imenso poderio. não se trata apenas de dizer que o fazem por medo. já se tem visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas condições de existência que não precisa. O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários. nós nos interrogamos constantemente porque. mas eles operam as transformações sociais. foi o estado em que o protosujeito esteve integralmente. de incalculável potência social. não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua potência. Isso também não é novidade. porque os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam. O desejo do 44 ▲ . O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. nas relações ou nas fantasias incestuosas ou parricidas do inconsciente infantil e que. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes.sociais. nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais. A diferença consiste em que o desejo inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar. Então. não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve. é uma tendência reprodutiva. Por que os povos atuam contra seus reais interesses e vontades? Então. depois. sem apelar para os saberes instituídos e estabelecidos. o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo. passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação. por ressonância ou por uma re-elaboração do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. é um anseio que tende a restaurar o narcisismo. que supostamente. o grande psicanalista marxista. porque se é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados. se translada para a vida social com as mesmas características. Já a partir de Reich. em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus superiores. porque os soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores.

sujeitos variavelmente protagonistas desse acontecimento. É uma força que tende a criar o novo. é absolutamente própria de cada lugar. a cada momento. mas por um recalque complexo que é simultaneamente político. Para o Institucionalismo. o que existe são processos de produção de subjetivação ou de subjetividade. é uma força de conexões insólitas. trata-se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são capazes de gerar transformação. mesmo que se aceite como sendo universal. Mas é inconsciente. Também não existe uma estrutura. semiótico etc. em todas as classes sociais. Para o Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal. a singularidade de cada sujeito produzido em cada lugar. teria representações ou teria recursos que variariam segundo a sociedade. mas também como um inconsciente pré-pessoal. podem existir semelhanças entre esses sujeitos. é o acontecimento-devir que os produz. um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades. objeto de um saber que toma elementos de todos saberes existentes. aos 45 ▲ . pré-social e pré-cultural. em todos os momentos históricos. entendido como o imprevisível. O que se passa é que esse sujeito psíquico.Institucionalismo é imanente à produção. de cada momento. Só que este inconsciente não se entende exclusivamente como um inconsciente edipiano. segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. apenas preenchido com conteúdos históricos sociais variáveis. é uma força de invenção e não é uma força restauradora de estados antigos. é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. familiarista. a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes. para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal. de cada conjuntura histórica etc. O que importa não é a produção das semelhanças ou de analogias entre os sujeitos. Então. E podem existir analogias. não existe uma estrutura. quando nessa produção predomina o instituído. Então. uma essência-homem. mas a produção de diferenças. mas essa produção é absolutamente contingente. em todas as raças etc. produzem-se sujeitos em cada acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir. se pode dizer. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas denominações. repetitivo. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um recalque psíquico. libidinal. Ou seja. ou. uma essênciasujeito.

processa-se não reproduzindo o instituído. não assujeitada. absolutamente singular.interesses exploradores. de intervenção para que cada processo produtivo desejante. ele adota as características de um sujeito mais ou menos universal e eterno. a não ser para denunciá-los.se propõe "pegar" um sujeito reprodutivo que é sempre o mesmo. organizativas. em que o desejo se realiza em conexões locais. eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar. Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer de cada organização. capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar seu lugar a outras. todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que. ele vai privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto. transitórias. seja capaz de gerar os "homens" (ou sujeitos) de que precisa. micro. de cada estabelecimento. pela natureza elementar deste livro. absolutamente instituinte. em cada circunstância. Mas a discriminação que tem de ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo. não . produtiva. e se efetua gerando o novo. primigênia. revolucionária. com as formas de militância. movimento ou proposta. e trabalhá-lo para torná-lo produtivo. o estabelecido. absolutamente contingente. 46 ▲ . mas aceitar a idéia de que os novos homens se fazem a cada momento. a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas. políticas. O objetivo institucionalista é criar campos de leitura. circunstanciais. Evidentemente. E não vai privilegiar. mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. aos interesses mistificantes. de subjetivação absolutamente original. o organizado. em geral. subjetividade submetida. não poderemos dar nesta exposição. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas. com a "maquinaria de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções. a isto se chama produção de subjetivação livre. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que já estão feitos. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada. revolucionário. não se concretiza restituindo o antigo. circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários. porque as mesmas têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação. de compreensão.

A intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. ou seja. Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante. por exemplo. de gozo. que habitualmente se aborda com o nome de ideologia. o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico. Então. que está animada pela ilusão. que são ideologias conservadoras. é modificar essas representações. talvez estivesse incorretamente informado. Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele. estudando o movimento nazista da Alemanha.Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da Psicanálise. mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras que estavam sendo ditas. pela esperança e pelo medo. É verdade que há uma certa definição de ideologia que a considera como uma série de representações erradas. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de consciência falsa ou distorcida. afirmava que o povo alemão não estava desinformado. que são ideologias das classes. existem ideologias revolucionárias. conscientizar acerca do potencial de prazer. de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela classe dominada. dos grupos que procuram uma drástica transformação social. Ademais. convicções ou expectativas e desejos conscientes. informações erradas ou manipuladas que as classes. Por outro lado. O contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço teórico algo clássico.se aos interesses das classes dominantes. Este é o caso. pode ficar sincrética ou imprecisa demais. é educar. é criar outro tipo de expectativa ou vontade. culturalista ou estrutural-funcionalista. apesar de ser contrária aos interesses da maioria. São crenças. costuma-se dizer que a maneira de reverter essa situação é instruir. é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção. de quando falamos do inconsciente ou do desejo. de convicções acerca do mundo. reacionárias. é conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante. positivista. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança. os grupos e sujeitos submetem. e também 47 ▲ . de crenças. Em muitas passagens. afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos dominantes. por ignorância.

não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um proletariado muito politizado. E, sem d úvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos, desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se consegue dominar os povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise), mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma peculiaridade do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise, o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 48 ▲

do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu rel ato restos da nomenclatura psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função que estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da castração 49 ▲

simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co-protagonizem este processo. Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento, em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os geraram em sua montagem. Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 50 ▲

do acaso e das regularidades na História? 6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 52 ▲ . reprodução e antiprodução? 5) Qual é o papel da repetição e da diferença. na saúde etc. 51 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Que diferença existe entre História e Historiografia? 2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicossubjetivos e naturais? 3) O que significa Molar e Molecular? 4) O que se entende por produção.).que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não (ou seja: no trabalho. na educação. outras correntes institucionalistas não dizem que o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação revolucionária. Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito".

O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito Científico". produzem um efeito de convicção na "mente" de quem pretende formar-se como cientista. não se tratava propriamente de Psicanálise e. a predisposição dos 53 ▲ Sé . assim como a essência mesma do Movimento. em uma passagem do capítulo anterior. por estarem muito arraigados. assim. que não me estranharia que muitos dos conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender. cujas "verdades" freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. O mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do pensamento corrente que. de "espírito científico" – só pode aceitá-lo como uma metáfora. por outro lado. em um sentido estrito. se compreenderá que não se pode falar. Esses "vícios" do senso comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos. Bachelard tentava um trabalho epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir.Capítulo IV O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO Eu dizia. Na realidade.

mudam radicalmente de sentido. não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. algo extremada. mas o faz acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais. alguns termos teóricos que as ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. podem empregar termos teóricos com acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado. semanticamente falando. quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica. devido às deficiências da formação geral e universitária da qual padecemos. por exemplo. Para concluir. torna-o revelador. Não ignoro que. ou em uma noção. ainda que invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado e do qual recebe seu valor de origem. se considera que. As diversas correntes institucionalistas. que comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos". ou até em uma alusão vaga. incluídos. entendendo a singular proposta do lnstitucionalismo. ainda durante um longo período de sua aprendizagem. os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. neste momento. o Institucionalismo procede adotando algum termo. Finalmente. em determinada conjuntura. sem descartá-las. sabemos que essas palavras. muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito". polimorfa e complexa. Em outros casos. tem com elas uma relação contraditória. a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas. ou um outro melhor ainda. defendendo a fertilidade de todos os saberes. No entanto."espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. os que existem em "estado prático" nas 54 ▲ . Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em particular passa-se devido ao fato de que. por sua parte. por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes. Cabe aqui lembrar que. o Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria. cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão. de um questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas especificidades. Contudo.

então a formação de um institucionalista realmente é interminável. os populares. que terá de ser breve. no caso de eu estar capacitado para fazê-lo. desejo etc. como a Física. Se os profissionais. desenvolver esses temas. aceitar e entender a polissemia que adquirem semantemas provenientes. mas justamente porque o são. pois depois de uma década já não consegue acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se. levaria a outros tantos cursos..atividades leigas. que é um composto de todos os saberes de uma época. às vezes é duro. metodológicas. da Psicanálise (inconsciente. para quem se aproxima deste estudo. tendo se tornado descartável como os jogadores de futebol. Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 55▲ . assim como por um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. O que há como característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições. entre as muitas diferenças existentes de uma para a outra. especialistas de alguma disciplina. Por isso. Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista. É o mínimo denominador comum que se consegue encontrar entre as várias tendências. muito pouco aprofundada e ambiciosa. Estou tentando dar uma visão panorâmica geral. Estou tentando dar um curso introdutório de um saber que não tem limites. chega-se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil. Agora. mas sim muitas. Não nego que algumas ampliações sejam essenciais. de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. que faz com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos. técnicas. ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais-valia. os artísticos. de certos conceitos. peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. está a definição dada a "desejo". inclusive os saberes não-científicos. Imaginem vocês uma coisa como esta. artísticas. Agora. para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto. políticas entre elas. religiosas etc. queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber. e existem diferenças teóricas. Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões. por exemplo).). digamos.

é obrigado a elaborar. em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de Castração. inclui uma definição restitutiva do desejo. dentro desse campo chamado psiquismo. reeditar. devido à sua subordinação à ordem simbólica. como o leitor avaliará. em que o ego e o objeto são um. Em que consiste esta definição de desejo? Seria uma força insistente. a partir da ruptura desse estado. a existência de um espaço. usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade. da área dos motores do funcionamento psíquico. Um exemplo característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de desejo. o desejo tem uma natureza conservadora. embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade. que é o desejo. particularmente por certa ordem de representações. ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho. particularmente em seus aspectos inconscientes. ela acaba gerando todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica. que tenta reproduzi-lo. Isso. persistente. ou seja. 56 ▲ . sendo que o comportamento. Muitos institucionalistas compartilham plenamente essa definição de . Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria predominante à colocada em muitos textos freudianos. No entanto. outras maquinarias do psiquismo. da economia. um certo estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo. em último termo. as representações e afetos são do campo dos efeitos deste psiquismo. que procura restaurar. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias. assim definida nas organizações. que são rendimentos. de sua tentativa de restauração desse narcisismo inicial. a conduta. a lei ou a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). Então. A maioria delas aceita.relativamente autônomo da realidade. outros dispositivos. desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos psíquicos da vida organizacional. de um sistema e de processos de caráter inconsciente que considera do campo das causas. nessa trajetória. a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância determinante. ele parte de uma situação narcisística e tende a voltar a ela. surge uma força que seria o desejo. resultados dessa trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória". que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa instância. e a sublimar. as vivências.

como a filosofia. como por exemplo. Entretanto. associar. porque este é um problema muito atual e de muita disputa teórica. levam as proposições freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais. a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo. do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada primeira tópica. Estamos assistindo. de forma anárquica. existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos. mostra-se característica. assim como a exclusividade de um modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado imaginário perdido. e com ele a imobilidade. mundialmente. muito pouco conhecida e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –. que recolhe a definição de desejo de uma forma menos ortodoxa. por exemplo. outros setores do Institucionalismo. à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso programa. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau. 57 ▲ . particularmente Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise. no qual a pulsão de vida funciona segundo o processo primário. os freudo-marxistas. assim como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos. Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e detalhe. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). não é estranho que isto se apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto. que explicamos anteriormente. processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do desejo que dela emana. é Gerard Mendel. estados permanentemente novos. unidades vitais. cada vez mais amplamente. mas propiciar. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo.da política e das organizações. percebe setores da mesma em que essa definição de desejo. a macrofísica. Então. criador de uma corrente institucionalista chamada Sociopsicanálise. No entanto.

O desejo não tem caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo-revolucionário – e não é uma força separada das que animam a vida social e natural. em que há os alicerces e há as paredes superiores visíveis. que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos produtivos. que seriam a pulsão e o desejo. constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o psiquismo. Dessa maneira. do natural. Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança de paradigma. Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção. de forma alguma. tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. na defesa da produção. dita no sentido amplo. Assim. também apoiados na literatura. na reivindicação da neguentropia. na arte. a biologia molecular e certos campos das ciências formais. além de tudo. em um de seus aspectos. Então. Marx afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício. Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. exclusivamente pelo econômico. do histórico. as resultantes desse processo complexo não são causadas. Deleuze e Guattari. Bom. e ainda no discurso delirante. uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. consiste na promoção de certo poder criativo da desordem. não podendo ser entendidas dessa maneira. Por isso há uma fórmula na Esquizoanálise. apesar de que Marx nunca negou que a superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. que afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente determinada pela atividade econômica. E também não seriam modificáveis 58 ▲ . isto é. inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância. mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que. por exemplo a matemática de Rieman. por processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra.a microfísica. Essa mudança. da vitalidade. ou tendência à autopoiese. a chamada infra-estrutura determina a superestrutura. é imanente a outras forças animadoras do social.

Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no psiquismo: atos. técnicas. uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva. formam o conjunto total. Althusser a denominou sobredeterminação. Essa é a determinação complexa pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. para que o modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. Existem outras teorias da causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas. e sim mediatizado por aqueles. não é uma teoria da sociedade formada por três subconjuntos que. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade social. políticas. Louis Althusser. mas uma sociedade reticular formada por uma grade aberta. Mas o conjunto total. econômicos. de registro e de consumo. políticos. formações do inconsciente etc. tecnológicos. tem muito em comum com a proposta althusseriana. A instância chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção.exclusivamente a partir do econômico. uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente psíquicos. O determinante em última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos efeitos econômico-sociais. 59 ▲ . O lnstitucionalisrno. que Althusser chama "todo complexo articulado. funciona interpenetrado. de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras são superpostas ou imanentes entre si. que em todos os modos de produção é o econômico. semióticos e naturais e estão ordenados em três superfícies: de produção. Um de seus seguidores. diversificado e sobredeterminado". em que ld. Por exemplo. um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana. naturais etc. no caso de Deleuze e Guattari. à medida que adota essa idéia de sobredeterminação. mas todas elas têm em comum a insistência em não separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas. mas não exclusivamente. em alguns de seus ramos. A instância decisória é a fundamental no processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. utilizando outro modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente intersecionados. o sistema. por sua vez. de maneira tal que haverá um determinante em última instância.

ou o funcionamento dos programas de estudo no vestibular. Esse objeto pode estar constituído por materiais. 60 ▲ . Isso significa delimitar um objeto ou um campo e aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo. Esses campos de análise são terrivelmente amplos. que se chama "O Estado e o Inconsciente". Campos de grande porte poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau. táticas. o primeiro a ser abordado será o conceito de campo de análise. técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente.Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo. É claro que o campo de intervenção é. concretamente. nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos sujeitos a nível inconsciente. o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". muito heterogêneos – por exemplo. suas causas. para saber como funciona. E óbvio. que é o "recorte". Isso ainda não implica necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado. em geral. também. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde pequeno até amplíssimo. desde um estabelecimento até. que em qualquer corrente de Institucionalismo. implica um processo de compreensão. o espaço delimitado para planejar estratégias. uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de produção no curso da história. O máximo que se consegue delimitar são campos de análise organizacionais. como estão colocadas e articuladas suas determinações. as principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –. Outra coisa é o campo de intervenção. como se geram seus efeitos etc. logísticas. Mas podem ocorrer campos de análise infinitamente menores. como uma análise do significado da festa no Brasil ou uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru. por exemplo. Por isso denomina-se campo de análise. de inteligência dos determinantes desse campo. ou da múltipla escolha para o processo de seleção. porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a nível nacional continental ou planetário. e isso dará um estudo como aquele no qual participou recentemente Guattari. que se chama "Contratempo". infinitamente menor que o campo de análise.

geradora ou moduladora da demanda de serviços que lhe é formulada. De modo que para compreender a demanda de análise institucional de uma organização é necessário. voluntários deste pedido. que é um dos primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva. cujos autores mais notórios são Lourau. O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda. para fazê-lo. mas não se pode intervir sem alguma forma de compreensão. incluir a auto-análise. eles estão articulados entre si: à medida que se compreende. se intervém. antes. manifestos. a divulgação científica ou não-científica. o Institucionalismo enfatiza a necessidade de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea. que essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise. que também temos de tratar sinteticamente. A isso chamam análise de demanda. esmiuçar o pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí. e à medida que se intervém. ou que relação existe entre a publicidade. de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta. Pode-se compreender e não intervir. determinada. e está marcada . Para dizê-la provisoriamente: quais são os aspectos conscientes. em que radica a problemática desta organização solicitante. Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de Análise Institucional. desde o princípio. analisar. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a expressão do desejo. e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. se compreende. mas um campo de intervenção é impensável sem um campo de análise. Em geral quando os dois campos se constituem. A demanda não existe por si.a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. a proposição direta ou indireta dos serviços que a organização analítica faz e que não pode não ser causante. a compreensão de como a organização analítica gerou esta demanda. Só que um campo de análise é pensável sem intervenção. particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa. deliberados. por esta oferta. 61 ▲ . Mas acontece que. modulada. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar. a demanda não é o primeiro passo de um processo: ela é produzida.

não são efeitos exclusivamente 62 ▲ . Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade. tão técnica. que ele não sabe o que é. que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta para ser analisado. com a oferta. interveniente.Um institucionalista muito respeitável e. Mas juntos é que vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. A Psicanálise já classicamente." Essa mensagem subjaz. vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização. formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles fenômenos. também de bens materiais. ela não pode estar modulada senão pela própria oferta. Entre a organização analisante. sintomas. ou seja. que consiste aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e. um severo processo de auto-análise de como produzir a oferta de seus trabalhos. formações do inconsciente. Portanto. então. tão sutil. Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. sejam eles pontuais ou mais amplos. o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque. está "por trás" de toda oferta de prestação de serviços e. além disso. quando essa oferta gera uma demanda. provavelmente. atos falhos. chistes. delírios. Quem demanda. você não entende. lapsus linguae. concebeu o conceito de derivados do inconsciente. Isso exige por parte do coletivo analisante. não sabe em que consiste. e a organização analisada. como sonhos. Então. e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações. que é o verdadeiro objeto de análise. intervinda. no meu modo de ver. para poder dar o primeiro passo em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-. injustamente pouco conhecido. Não existe aqui. demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. o coletivo prestador de serviço. Mas é tão complexa. mas que é muito ilustrativa. tem uma fórmula que não explica todas as situações. esta análise deve ser articulada com a forma em que foi produzida. uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante.

nos questionários ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. nem uma lei. o uso do dinheiro. Não é que em Psicanálise não o seja. um analisador não é necessariamente um discurso. os estatutos. etc. do domínio e o cuidado de si. pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. a couraça caracterológica também são considerados formações do inconsciente. é um efeito ou fenômeno formalmente parecido com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. segundo uma das denominações. manifestá-la. Por isso é que se chamam. pode ser uma característica dos modos de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma. exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito. Não são dados claramente efetuados pelo superego. só que a Psicanálise tem uma persistente predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações do inconsciente. e a. Um analisador não é assim. os rituais. a forma como está elaborada a planta arquitetônica da organização. a maneira como está organizada a memória de uma organização. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica. pode ser um costume e não uma norma. a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. pelo menos fenomênica ou técnica. subordinar os outros à compreensão verbal. 63 ▲ . porque sabemos que em Psicanálise os comportamentos. as atitudes corporais. de uma mistura. Por exemplo. E essa é a primeira diferença. da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas instâncias. na aparência desses fenômenos. mas pode ser um monumento.conscientes. nem exclusivamente pré-conscientes. não se privilegiam. São fenômenos resultantes de uma combinação. absolutamente. E podem ser os relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas. Então. Os mitos. isto é. da sexualidade. os efeitos verbais. E é claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional. os regulamentos. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador. denunciá-la. o organograma. nem pelo ego ou o id. nem exclusivamente inconscientes. em análise institucional. ou seja. do lazer. Mas as diferenças são as seguintes: Primeira: na materialidade fenomênica. O analisador. ou seja. o fluxograma etc. efeitos transacionais ou formações transacionais. pode ser um arquivo. Isso é claro. a carta de princípios.

revolução burguesa. denunciar. Mas podem haver pequenos analisadores. como todo mundo sabe. que foi marcar o fim do feudalismo e o início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. Só que esse analisador. sendo assumido por seus protagonistas. colocado em condições propícias. que também é uma má expressão. E existem analisadores artificiais ou construídos. não apenas é capaz de enunciar. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu próprio processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro de certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico. porque espontâneos todos são. e. declarar. porque analisadores naturais são os terremotos. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender. Existem grandes analisa dores e pequenos analisadores. existem os chamados analisadores naturais – que é uma expressão inadequada. ou seja. realmente. ou seja. como também de resolver a situação da qual ele é emergente. "Natural" quer dizer espontâneo. a análise institucional nunca conseguiu compreender. introduzem 64 ▲ - . que a própria vida históricosocial-natural os produz por conta própria como resultado de suas determinações. e esses podem ser um conflito dentro da organização. de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade. pelo menos) etc. Então. acumulação de capital mercantil e usurário etc. E dessa maneira. para começar o processo de seu próprio esclarecimento. Isto não é fácil de ser explicado. pelo menos nos seus aspectos geológicos. por exemplo. manifestar. ele não precisa ser analisado de fora. tem a possibilidade de não apenas manifestar-se. que são dispositivos que os analistas institucionais inventam. não está preparada para isso. Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção do analista).Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir. ele predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se. Nesse sentido. um determinado acidente numa usina atômica (geograficamente pequeno. a definição correta é dizer que são analisadores históricos. produto de determinados encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média. mas também de se compreender. evidenciar. Um analisador é um produto que pode se auto-analisar. este tipo de fenômeno. Um grande analisador é a Revolução Francesa.

intervinda. Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. como está claro nas ciências físicas. é simultâneo e é parte indissolúvel do processo de análise da organização. pois é prévia a este contato. Insistiremos uma vez mais em que estas definições. sendo que. os retomaremos na exposição correspondente aos itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica. em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai estudar. um processo econômico. É. se valem de todo e qualquer recurso. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica. a raiz de seu contato. montagens de tipo propriamente científico. Em continuação. lógico. dramático. experimental. produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana. da interpenetração destas duas organizações. que deve ser analisado em todas as dimensões. na equipe de análise institucional. não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com seu objeto. 65 ▲ . ou seja. antropológico e manobras do tipo" convivência prolongada". E não é apenas reativo. uma análise variável da relação entre o sujeito e o "objeto". complexa e sobredeterminada. a análise da interação. político. de alguma forma. veremos rapidamente alguns termos. político. psíquico heterogêneo por natureza. não começa no usuário: é recíproco. cenográfico. ao nível de produção de analisa dores construídos. de sua interseção com a organização analisada. cuja finalidade é basicamente transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento.nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos mesmos. e na análise institucional a implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente. mas um processo de materialidade múltipla. sociológico. procedimentos de tipo ativista. seja de tipo artístico. A implicação se define como o processo que acontece na organização de analistas institucionais. é o contrário de uma análise "objetiva". Poderse-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. ou seja. Só que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material do paciente produz no analista. O passo seguinte será falar da análise da implicação. que denominamos standard . Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta.

mais ou menos sistemáticos.seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. de alguma maneira. Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista chamava de "aparatos". cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão. que sua condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade. As mesmas estão armadas com sentidos diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores. teatro ou nas artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" sociais. estabelecimentos. aparatos. da Comunicação de massas ou a Família). estrutura. ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico. Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função. De um dispositivo pode. Estes cumprem funções eliminatórias. O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado. No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações. assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia. de grande. em articulação com os quais adquirem seus significados prevalecentes. Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente. enfatizando. Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião. sempre simultâneo a sua formação e sempre 66 ▲ . a Polícia. naturais. além do mais. tecnológicos e até subjetivos. forma etc. a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). do registro ou do controle social. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento. maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos. artificialmente extraídas dos contextos teóricos. as Forças Armadas. da Educação. médio ou pequeno porte. segregacionistas ou punitivas (como por exemplo. dizer-se que é o contrário de um equipamento.

um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo. também chamados agenciamentos. equipamentos. potências. num sentido restrito. O diagnóstico é importante para justamente instituir. os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações. assim. táticas. ele os inclui. do desejo. um descobrimento científico. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem. da produção e da liberdade. poderes. logística. dispositivos da área ou organização intervinda. técnicas: Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível. os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura. Um dispositivo em geral não respeita. gerando acontecimentos insólitos. Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção. 67 ▲ . analisa dores. opositivas e antagônicas. territórios. têm a ver com a transversalidade (conceito que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e. mecanismos. operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. organizar. para sua montagem e funcionamento. assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário). do novo. Nesse sentido é óbvio que os dispositivos. acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. com o instituinte-organizante. antecipar. dinâmica. contradições principais e secundárias. Por último. estratégia. o que se denomina linhas de fuga do desejo. processos. linhas de fuga. pelo contrário.a serviço da produção. os territórios estabelecidos e os meios consagrados. reprodução e antiprodução. planejar. Um grupo político sujeito (quer dizer. defesas. digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou sujeitos. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona. uma obra artística. Gera. decidir os passos que comentaremos em seguida. conflitos. um pensador original e libertário. os faz explodirem e os atravessa. magnitudes de produção. da vida. conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. tais como contrato. têm a peculiaridade de nascer. revolucionários e transformadores.

tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego. dinheiro. para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções. pactos. contratantes. Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação. 68 ▲ . com os coletivos de usuários "clientes". Trata principalmente de tempo (duração total. alternativas. As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. com que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidades de realização. mas com certos segmentos do mesmo. simplesmente. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. são analisadores. mar ou ar. recursos etc. freqüência dos trabalhos). solidariedade militante etc. quais serão os aliados. Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças. Para dar um exemplo bélico. simpatizantes. Por outro lado. punitiva ou de extermínio parcial. estabelecimentos ou. dos espaços e territórios que se colocarão. de que se dispõe ao começar uma intervenção. convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações.Os institucionalistas. de fronteiras. Os diversos aspectos do contrato: tempo. objetivos. Como veremos. se essa guerra se dará por terra. promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. honorários ou outro tipo de retribuição. quer dizer. A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo). habilidades. serviço profissional independente. opções. emergentes da problemática a ser pesquisada.) que fundamenta o contrato. a previsão de vicissitudes. retrocessos etc. expectativas. avanços. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção como serviço deflagra. A estes acordos costuma-se denominar contrato. precisam fazer acordos. assim como a progressão das manobras. totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação. elementos.

Quer dizer. esboços de uma logística. aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis. desportivos. de sensibilização. os movimentos de tropas etc. agenciamentos artísticos. será ditada pela inspiração e o treinamento. de expressão. prosseguindo com a metáfora. baseados nisso. uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios. As táticas referem-se a batalhas circunscritas. convivenciais. cavalaria. à participação da infantaria. granadas etc. enquanto já se têm. dispositivo. estratégia. a eleição de técnicas é consideravelmente livre. táticas e técnicas? 70 ▲ . praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. esclarecedores. informativos. objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades do coletivo em pauta. sem tomá-las ao pé da letra. É interessante enfatizar drasticamente que no Institucionalismo. o horário. As técnicas. logística. lúdicos. assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora. a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção. estratégia geral e primeiras táticas. de discussão. 69 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Qual é o sentido dos termos sujeito. equipamento. No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística. morteiros.neutros e inimigos etc. à área onde se desenvolvem. desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no lnstitucionalismo? 2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 4) O que é análise da implicação? 5) O que são: analisador. Procedimentos interpretativos.

Terei de ser muito esquemático. Produz. mais enérgicas.Capítulo V AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas. políticos. existe uma graduação à medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. Em termos. particularmente aqui no Brasil. digamos. eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –. Tentarei uma espécie discutível de classificação. mas são as que mais notoriedade têm atingido. é politicamente moderada. poderíamos dizer. se é que tal termo exprime alguma coisa. são propostas políticas mais subversivas. mais ativas. com certos matizes diferenciais entre elas. uma forma de abordagem das organizações e das instituições que. de graduação entre essas três tendências. contar com certo conhecimento de 71▲ . nem necessariamente as mais importantes. assim. Então. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. eu diria. São também as mais difundidas. que podemos tratar de caracterizar nesta exposição.

tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo uma das séries: a série disposicional. Acrescente-se a isso as experiências da infância precoce. na constituição do psiquismo. grupos de jogos. A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. Então. no seu percurso e desenvolvimento. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias adquirem retroativamente sentidos morais. o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação. A série disposicional é composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados por seus progenitores. mais as correspondentes ao parto e primeira infância. tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries. mas. Tudo que acontece na vida psíquica. Essas séries denominam-se complementares. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a chamada latência. Em seguida. pelos sujeitos psíquicos que o geraram. Seu Superego está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de significações. Suas representações são secundariamente recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. Algumas dessas situações são altamente tensionantes.Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar isto de forma breve. Ela se ocupa da psicopatologia com uma expectativa de cura. e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. de criação e de transformação. introduzindo-os nesta teoria. com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de idade). o sujeito se incorpora plenamente à vida social. continuam sucessivas incursões nas atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da outra. ou seja. Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de movimentos e de adaptações. Nesta teoria distinguem-se. isto é. grupos sociáveis no sentido amplo. de educação. de estudo. adquire contato com os grupos chamados secundários. duas séries assim chamadas: a série disposicional e a série desencadeante. Freud criou também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". intensamente pressionantes para o 72 ▲ . metodologia e técnica sociopsicanalíticas.

é importante assinalar que entre frustração. quando a série desencadeante atua sobre a disposicional. em geral. irrepetível. experiências de privação. pode resultar numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. E isso resultará na doença psíquica. Logicamente. são exigências diferentes. Se não resolver. cada sujeito é singular. atuam em conjunto. gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de fixação. No entanto. pode efetuar-se em comportamentos ativamente adaptativos. que constitui o núcleo central de sua série disposicional. castração refere-se a um tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo). resolver. privação e castração existem diferenças. e isto é que vai resultar no retorno do recalcado como sintoma. arcaica. atuando sobre a série disposicional – são totalmente variáveis. atua sobre a série disposicional que o sujeito traz. sublimatórios. De um ponto de vista mais amplo. Ou seja. ao passo que a frustração é um desengano de amor. faltas diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos diferentes. Privação refere-se à falta de subsídios para necessidades biológicas. Quando a série dessas experiências. não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional diferente). Apesar de não podermos desenvolver agora. Outra forma de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária.psiquismo. e experiências daquilo que em Psicanálise se chama castração. ou pode ser causante de processos patológicos. então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta articulação entre a série disposicional e a série desencadeante. durante sua primeira infância. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre determinada série disposicional). sociopsicanaliticamente falando. de universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia em geral. Então. a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar. poderíamos resumir esses três 73 ▲ . elaborar – ou não – o chamado Complexo de Édipo. e as configurações da série desencadeante – que podem gerar patologia. Essas são experiências de frustração. Elas. constituída pelas situações da vida. em sintomas. concretas. único.

tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menosvalia, exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa. Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto "pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar-se, que estabelecer uma aliança entre si para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento, 74 ▲

através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e outras formas de comunicação inter-humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar 75 ▲

a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um se tor da humanidade por outro. Isso faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de seu trabalho não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 76 ▲

eles vão viver a situação de trabalho. que é no lugar de produção. se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja).humanidade que trabalha. chamado funcionamento psico-familiar. Só que esta regressão não deve ser pensada como sendo da ordem individual. comercial. as vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas acontecem. entendendo o trabalho num sentido muito amplo. E as figuras determinantes reais dessa situação atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua situação familiar. não apenas produção de bens de consumo. a regressão que se produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou psico-institucional a um outro. Por isso. Ou seja. Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam parte dessas organizações. com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. incidindo sobre a série disposicional de cada um deles. no sentido em que os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual já passaram. E essa experiência de impotência gera neles. é fácil ver que esses conjuntos vivenciam. o que Mendel vai afirmar é que. mas da ordem coletiva. Para Mendel. ou seja. o lugar onde deve ser estudada a experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar natural" em que os homens se associam para exercer sua potência. O que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas organizações de trabalho. a situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. ou seja. não apenas trabalho industrial. Então. nos âmbitos de trabalho. quando se estava construindo sua série disposicional. médico. ou seja. mas também produção de serviços. um processo regressivo. recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida simbólica. essa experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado no capitalismo. mas também trabalho escolar. Em 77 ▲ . Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de retificação com o real. e assim por diante. adequada às circunstâncias concretas que os rodeiam. de mil maneiras diferentes. não desfrute dos resultados deste esforço. Esta experiência de impotência gera uma regressão do psico-institucional ao psico-familiar.

eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio. como já dissemos. imaginárias. que por tratar de ser clara pode resultar empobrecedora. e também se refugia no mundo da fantasia. não totalizável – de 78 ▲ . chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária. delírios. para poder ter de novo um acesso ao real atual. senão os criadores exclusivos. A metodologia de intervenção conserva muitas das características da intervenção psicanalítica. se isso está mais ou menos entendido. mas coletivo. com pontos de vista e postulações perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. reagirão de uma maneira irreal e fantástica. eles eram pequenos. sobretudo o recurso interpretativo. que se tem perdido devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar. Então. mas exige um movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível. Lapassade e seus companheiros – que são.conseqüência. o coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica. como sintomas. e não tinham outra forma de solucionar essa situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. Tentando outra vez uma síntese. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas. como acontecia na sua infância. Devido a essa regressão que mencionamos. e não passa exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas. Este processo opera teoricamente. digamos o seguinte: Para a Análise Institucional. objetivamente. Agora resumiremos a posição de Lourau. pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise Institucional. uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer dizer. em que. enfim. desconhecendo. atuações. como tudo quanto constitui a patologia biopsico-social. É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual. recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional. que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica e obter a compreensão da regressão que os afeta. somatizações. a proposta de Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise. inibições. afinal de contas. eles são os produtores da riqueza. familiar. feito em colaboração com uma equipe interveniente. porque. que estão negando. Dessa maneira. sós e impotentes.

úteis etc. tanto para o saber espontâneo de seus agentes sociais quanto para os experts que as descrevem. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de comportamentos humanos aos quais classifica e divide. como hábitos não-explicitados. ou podem ainda operar como costumes. também tem uma relação. ou seja. um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia dar conta de todos estes 79 ▲ . estabelecimentos. em normas escritas ou discursivamente transmitidas. então. ainda. segundo sua amplitude. agentes. A Análise Institucional não é. tendese a atribuir-lhe funções inteiramente claras. outras proscritas (proibidas). Essas lógicas podem estar formalizadas em leis. ocultam funcionamentos divergentes. é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais. cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. uma modalidade particular do matrimônio poligâmico. uma norma universal (digamos as relações de parentesco). algumas prescritas (indicadas). Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição. essas entidades. as engloba. podem ser: organizações. contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em que. como dizíamos. Em palavras diferentes. e essa ausência é registrada como um não-saber. como por exemplo. que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas.de negatividade consigo mesmo. quer dizer.instituições. indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam. Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si mesma). As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou "corporificadas" que. ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norteamericanos. eficientes e em geral consideradas necessárias. indispensáveis. com referência aos outros e em relação ao sistema global que as instituições integram e que. indiferentes. Assim consideradas. atribuindo-lhes valores e decisões. ainda que seja de maneira aberta. usuários e práticas. outras apenas permitidas e algumas. Cada instituição é universal.

Isso gera. como diria Mendel. é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. de um desconhecimento que. existe nas organizações. o fato. É o que o Marxismo chamava. cada coletivo de uma organização está alienado no não-saber. entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações. uma noção do processo de trabalho. em todas as organizações. ao qual se referia Mendel. desconhecer os principais vetores que ordenam a organização na qual está inserida. E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho". ela considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar mercadorias (e não a gerar bens de uso). do sentido da existência e uma definição da função das organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder. que o mesmo Marxismo não sabe decifrar. em parte. com as classes dominantes. Ela 80 ▲ . classicamente. de Ideologia. é vítima de um processo de doutrinamento ativo por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo. dos meios de decisão. em parte. Pelo contrário: t rata-se de uma investigação permanente. dos objetivos da vida. porque quem é o proprietário dos meios de produção. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de trabalho". Mas. tanto nas suas bases como nos estratos que lhe são próximos. das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. esse mesmo processo de impotência. É vítima. no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando. também é proprietário de um saber. digamos assim. Por exemplo. Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia. Esse poder é entendido como a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados. da classe institucional trabalhadora. no caso das organizações do trabalho. é um desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e organizações. sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a negatividade operam em cada conjuntura. positivando de uma vez por todas o tecido social. a Análise Institucional parte da idéia de que.desconhecimentos. ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia de Estado. Isto é. dos valores.

o analisador "prestígio". incomunicabilidade. Em um sentido amplo. o analisador "poder". de disfunção que aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho. de impotência. que se destina a transformar toda essa problemática em uma 81 ▲ . ou Psicologia Organizacional. são vivências sofridas. Então. de conflito. Isso constitui parte do não-dito institucional. na modernidade.considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior saber dá. por exemplo. são lugares de atrito que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por aqueles que o produzem. solucionar drasticamente. brigas. com medidas disciplinares. tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de respostas individualistas. mas também uma série de relações humanas distorcidas. outros são construídos pelos interventores institucionais. trata-se de criar um dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos de mal-estar. ou Relações Humanas –. Então as classes e grupos dominantes. o não-dito compreende a relação de não-saber que cada momento da instituição guarda com respeito ao outro e o não-saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. Esses analisadores são muitos. essas contradições vão estourar em fenômenos como o do absenteísmo. Mas os que podem delimitar-se com maior freqüência são. descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – Recursos Humanos. o analisa dor "dinheiro". uma posição de maior poder. desordenadas ou autodestrutivas. incidência do alcoolismo. ou Relações Públicas. como já dissemos anteriormente. arbitrariedades que as classes dominantes da organização costumavam. E assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz c oincidir com uma divisão social. da tóxico-dependência. como o da diminuição da produção. e ainda costumam. Alguns deles são" espontâneos". monstruosas. São fenômenos conflitivos. rebeldia e revolta estéril. Mas a divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. que geram essa experiência de impotência. forçosamente. "naturalmente". são acontecimentos mais ou menos explosivos. Então. o analisador "sexo". conflitos. de acidentes de trabalho. E não teria de ser assim.

que é necessária-. esses fenômenos. a recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo. Então. de dissociação – não a diferenciação técnica. O objetivo. a equipe interveniente também vai integrar-se com a organização intervinda numa organização compartilhada. é parecido com o de Mendel. Trata-se de criar condições para que possam. De modo que esse processo autogestivo e autoanalítico. que vai tentar deflagrar na organização intervinda. a isso se chama "implicação". vai ser ocasião de poder analisar também os seus próprios conflitos da mesma natureza. mas sem sair da lógica do sistema. sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são as causadoras dessa problemática. das forças revolucionárias. mas nas formas peculiares que este adquire em seu caso singular. e descubra a maneira como esses efeitos antiprodutivos são a expressão. mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. pode-se ver. eliminando as situações de burocracia. cabe 82 ▲ . E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico-Socioanálise. exaustivamente. tanto do não-saber das contradições da estrutura e da função do sistema. Trata-se de colocar os quadros em contato para que solucionem esse assunto conversando. Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do trabalho.simples questão de negociação ou comunicação. Em todos os dois há certa semelhança. negociando ou vivenciando. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a autogestão. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta. a conseqüência. Finalmente. de imposição. correlacionar esses analisa dores com suas causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar esses fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si mesmo. mas também diferenças. relaxando-se. como um desvio das forças críticas. das forças subversivas. ou seja. na qual vão poder analisar os fenômenos de alienação de uma e de outra. dessa maneira.

como prestação de serviço profissional. na qual se discutem honorários. ir até lá e solicitar seus serviços. prognóstico e indicação. trata se de uma prestação profissional de serviço. quando se pratica sobre uma organização circunscrita. Por exemplo: o grupo de Mendel. hospital. com uma conflitiva mais ou menos moderada. em última instância – apesar de sua franca inspiração libertária. Então. então. os sociopsicanalistas e os analistas institucionais. Além disso. Isto é. não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica dos experts profissionais. apesar da rigorosa autocrítica que exercitam. Isto é. dentro de um marco mais ou menos convencional. tempo e demais coisas. a uma escola. de sua enérgica vocação revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos tradicionais. trabalha em muitos lugares do mundo. auto críticas e análise da implicação. ou seja. que se chama Degenettes. apesar de uma vocação militante que têm no seu trabalho. Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. que são muito 83 ▲ . é feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo organizado. não deixam de ser técnicos. Isso. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau. como já dissemos. Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. mas tem uma espécie de central em Paris. fábrica. e um contrato de trabalho. científicos. quando se opera no seio de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva generalizada de uma sociedade inteira. a um sindicato. o requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico. ou "a quente". todo um processo de diagnóstico. que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional. apesar de todas as ressalvas. enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou menos generalizada. tratando de caracterizar algumas diferenças essenciais. a demanda. quartel etc. Pode-se. não deixam de ser experts. convento. é geralmente um serviço apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado.esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio". Isso gera. se denomina" autogestão a frio". entre a organização solicitante e a organização solicitada.

as artísticas. as sentimentais. per se. todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo. para se aproximar muito mais do Anarquismo. as relações com os outros e as relações conosco mesmos. Sequer implica um trabalho de um agente sobre um usuário. senão que pode ser dual ou individual. mas que pode ser um trabalho feito por um sujeito sobre si mesmo. Não implica. essa prestação de serviços convencionais. e que não podem ser sistematizadas 84 ▲ . a compreensão de como as determinações alienantes do sistema. mas basicamente como uma nova forma de pensar. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. generalizado e ubíquo. as afetivas. necessariamente. Mas que tem também um aspecto analítico. ou uma maneira de viver. naturalmente. estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais. que não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. um modo de ser. indispensavelmente. as econômicas. Além disso. uma relação de contratação. desempenhada por experts nem por profissionais. A Esquizoanálise pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer lugar. ou seja. uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe. e protagonizado por qualquer pessoa que tenha. digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a de Mendel. interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a precederam.sofisticadas e complicadas. táticas e estratégias absolutamente singulares para cada caso. pela exploração e pela mistificação. responsáveis pela dominação. as políticas. em qualquer momento. para cada situação.a invenção de uma metodologia e de técnicas. Não é necessariamente uma atividade coletiva. Para ela. presente por toda parte. Não implica um lugar nem tempo determinado. politicamente. Eu diria que de Mendel a Deleuze e Guattari existe. são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a alienação e propiciar. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina. Propõe algo assim como um processo de análise permanente. Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. necessariamente. Não é. Então.

uma ideologia. particularmente.nem transladadas para outra oportunidade. se aceitamos que na civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas. É alguma coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo. senão à do dinheiro e outras. na versão dos autores. a "natureza humana". ele não dá muita ênfase a essa categoria e a esse conceito. o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo. Não lhe interessa. já forma como que uma terceira natureza. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas. a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais. eletrônicas etc. a concepção do desejo. mas para eles a questão se altera por completo. que pretende ser um novo gênero. são as mais amadurecidas de sua obra. a "natureza social". podemos dizer que existe a "natureza ecológica". por exemplo. mas é uma força pertencente a esse domínio. embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional. por referência não apenas à instituição familiar. apesar de um de seus produtores ser considerado o maior filósofo contemporâneo. Então. do psiquismo. que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. Para Deleuze e Guattari. Em Deleuze e Guattari. da vida organizacional. da vida. nem como uma ciência. entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. mas. Inclusive. como uma proposta radicalmente nova. a participação do desejo. uma crença? A rigor. é rigorosamente freudiana: é a que Freud dá nas formas que. a coisa já muda radicalmente. Para Freud. elétricas. a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica. só que essa esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes. não se trata de 85 ▲ . como. da história. se perguntaram qual é a definição de desejo em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. nem como ideologia. mas não é um inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o não-dito e não-sabido. é uma doutrina. aquela das máquinas desejantes. porque eles consideram a definição freudiana do desejo. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta pobre: em Mendel. não enquadrável. Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari. segundo uma epistemologia clássica. eu poderia dizer. na nossa opinião não se trata de filosofia. poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia.

do real natural e do real maquínico – é a produção. a realidade está composta por 86 ▲ .domínios nem de esferas separadas. Mais ou menos essas são as diferenças. se tomamos o conceito freudiano de desejo – ele. como dizíamos. A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. é restitutivo. que só precisa ser veiculada. é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados. Baseando-nos nelas. tal conceito não consegue englobar todas as formas de produção possíveis. Ao passo que. propiciar. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar. o desejo é produtivo. segundo as características do processo primário. para eles o desejo não é restitutivo. A produção não é apenas produção mecânica social ou natural. o desejo é. do real psíquico. liberada de suas constrições. mas entre suas formas molares. em Mendel. incluída a psíquica. isoladas entre si. para concluir. dominá-los e utilizá-los no sentido de ganhar uma margem de poder possível. o que se tem de fazer é liberar. mas é também produção desejante. de uma natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção. enquanto em Deleuze e Guattari. Para Deleuze e Guattari. digamos que. que abrange todas as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis. esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de desejo. É a mesma natureza com uma diferença de regime. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles supõem. por exemplo. no nível molecular. eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção. vai-se gerar uma nova categoria de produção. especificamente psíquico. ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária. porque as representações não interessam tanto quanto as forças. é o produzir. os sujeitos possam controlá-los. uma vez interpretados. a produção e o desejo são uma e a mesma coisa. Ou seja. e tenta esterilmente repetir um estado anterior –. que é a produção já deformada pelo capitalismo. mas a produção como processo de geração constante do novo. deflagrar a potência da produção. e com essa característica de gerar sempre o diferente e em todas as atividades possíveis. Para quê? Para que. Então. que são imanentes entre si. do desejo e da diferença. no caso de Mendel. Não a produtividade. por exemplo. Equivale a dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social.

do Déspota ou do Capital-Dinheiro. pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e levar à morte ou à demência. o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídosórganizados: Estado. A Superfície de Produção está. será respectivamente o Corpo da Terra. segundo se trate das formações primitivas. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia. Também a ele pertencem as pessoas. O Corpo sem Órgãos torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que. É o lugar das identidades e dos controles e da repressão generalizada. quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam. empresas. geradoras de tudo quanto é novo. sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. ou máquinas desejantes. ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. os sujeitos. O nível de funcionamento da Superfície de Produção é submicroscópico ou molecular. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção = Libido. os indivíduos. desejante-produtivo. integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas Máquinas Desejantes. são capazes de desestruturar os estratos e territórios da Superfície de Registro. Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante-revolucionários gerados por encontros ao acaso das intensidades. por sua vez. Superfície de Registro = Númen. O Corpo sem Órgãos assim povoado se transforma numa Nova Terra. ou seja. mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário. a do RegistroControle_e a do ConsumoConsumação. Igreja. as Intensidades circulam por ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas. representações e estruturas edipianas).três superfícies imanentes entre si: a da Produção. dinheiro. Superfície de Consumo = Voluptas. 87 ▲ . os códigos. Na Superfície de Registro. Em si mesmo o Corpo sem Órgãos é o grau zero de Intensidades. asiáticas ou capitalistas. compõe-se de matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. enquanto que. organismos. bancos. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo. A este nível cristalizam-se em territórios. em condições desfavoráveis.

assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. sugiro consultar o glossário deste livro. Como se vê. a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo? 89 ▲ . 88 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 4) Qual ê a relação entre estas três tendências. Para tentar enriquecer um pouco essas definições. Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular. um pólo paranóide (capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário). apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria torna impossível defini-los em detalhe.propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em novidades radicais.

mencionar algumas delas. E pode ser muito vasto ou mais restrito. Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de um campo de análise e um campo de intervenção. Esse tema pode ser abstrato ou concreto. eu gostaria de fazer uma breve classificação – que.Capítulo VI ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard. seguramente. passado ou futuro. isto é. É um assunto importante. permanece nas pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste tipo de serviço. a mais conspícua. pode ser contemporâneo. Em outras palavras. pois me parece que. Então eu gostaria de. porque quando não fica claro. Mas 90 ▲ . é um tema do qual o institucionalista quer se ocupar. no entanto. é uma questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos. a mais corriqueira. será muito incompleta e esquemática – de algumas formas diferentes de intervenção. é evidente que o campo de análise consiste apenas num espaço conceitual ou nocional. Antes de começar. a mais habitual. metodológica e tecnicamente. pelo menos.

pressupõe um campo de análise. Mas pode-se delimitar um campo de análise que não compreenda unicamente o entendimento dessa fábrica. no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica. Aliás. isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente histórico-social. fabril. e resolver estudar o processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil. Partindo. que tem de fazer uma intervenção dentro de sua empresa mesma. 91 ▲ . Uma modalidade de intervenção – aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard . pode-se escolher como campo concreto de intervenção uma fábrica. um departamento de Análise lnstitucional numa universidade. porque se pode entender sem intervir. É o famoso caso. do departamento de Recursos Humanos de uma empresa. dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção. um instituto de Análise Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma microempresa. O campo de análise pode não coincidir. por exemplo. tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas. o campo de intervenção. Agora. convencionais. uma indústria. como já foi dito. escolhida como campo de intervenção. por exemplo.é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica necessariamen te uma intervenção técnica. que é interna à organização na qual se vai intervir. para poder saber como funciona essa organização concreta. em termos empíricos. digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. habituais. Ou seja. dentro do panorama social. mas não se pode intervir sem entender. pois. é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade. embora durante a intervenção iremos entendendo cada vez mais. é o exercício oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados. na condição de sociedade cientifica – uma sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos. Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que integra. É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo. por exemplo. envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar entendê-lo . com o campo de intervenção.

com os companheiros. Então. mas simplesmente é um "cristão". Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre. Em outras 92 ▲ à . mas que não seja o de institucionalista. e o faz sob um rótulo. com os filhos. convive dessa forma e. mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. é o caso de um sindicato ou de um partido político que. trabalho esse que pode ser ou não pago. pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais. na condição de qualquer outra coisa que faça parte dos papéis formais existentes nessa organização. tem institucionalistas que são militantes formais. de um morador numa associação de bairro. em um espaço da vida e da atividade partidária. vive dessa maneira. nem se infiltra sob outra condição não formal. formas técnicas de operar. qual ele pode pertencer organicamente ou não. e ele é procurado nesta condição. É o caso. então. em um segmento. Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com esta anterior. pratica o Institucionalismo com sua mulher. em que ninguém sabe que seja institucionalista. com os adversários. por exemplo. contanto que seja considerado corno parte da vida militante. em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico". é um próximo que. é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo na convivência cotidiana. em urna frente. tendo assimilado princípios teóricos. sem dúvida. é um acordo muito definido. Por exemplo. esse sindicato ou esse partido político pede a seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor. sem explicitar essa condição. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista. Mas. Urna variação que parece a menos comprometida e. nos seus quadros. em todo caso.ou um departamento de acompan hamento institucional de urna universidade. dentro de seu papel de morador. isto é. mas que. Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização. nem é solicitado corno tal. ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas. que consiste numa variação dessa última possibilidade. opera corno institucionalista. que acabamos de expor. limitado.

palavras: é a quele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis, o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode levá-los a adotar uma atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso; não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 93 ▲

complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... " O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, devese ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de operar, corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos diziam: calcanharplanta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê-lo ... O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 94 ▲

atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é . "naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo. Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 95 ▲

Eu sou especialista em saúde. os índios estão vindo. " Se a gente se lembra desta piada. Mas há uma que temos de revelar. consciente ou não. mas não nos usuários. São muitos. Além disso. vêm correndo. E o que acontece é que cada especialidade. Então. Se alguém me consulta por um problema de saúde. A divisão em especialidades. Um oficial pede a um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. o vigia sobe. um ao lado do outro. numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. e muitas vezes é." O oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe. Então não tenho culpa de nada. só existe dentro da classe ou da equipe. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são totalmente produzidas. do especialista. devem ser amigos. todo o meu poder social e todo o meu prestígio através disso que eu faço. É um forte americano. Então. cada profissão. porque estão vindo todos juntos. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se demonstrado eficazes. tem com sua tarefa.. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição profissional estão estruturados para isso.. Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui porque excede nossos propósitos.análise da implicação. olha e diz: "Sim. Isso não é maldade dos agentes. e eu gostaria de descrevê-la de maneira pitoresca. para que seja mais lembrada pelos leitores. em território índio.. na produção da demanda. ou sefa. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro. sou profissional. ter presente. um senhor ou uma organização vem consultar-nos sobre um problema de saúde. mas não freqüentemente. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócioeconômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora. pode ser uma desonestidade. o mais que conseguimos. convencido de que o problema é nosso: de cada um. é estar próximos. profissões. para encarar qualquer problema da realidade e estar. Há uma piada famosa que se passa num forte militar. acha que os problemas da realidade são problemas de seu campo. certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 96 ▲ . em princípio. às vezes. Vivo disso.. fica mais fácil lembrar que a realidade com que trabalhamos vem toda junta. do profissional. Mas a realidade vem junta e nós não estamos juntos. ela começa pela análise da implicação existente na oferta.

após ouvirem cuidadosamente alguma demanda. vamos ver como foi que convencemos este fulano a nos procurar. devo encaminhar noutra direção ou devo devolver. somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está demandando. posso solucionar. Às vezes há quem diga: "Sim. o que 97 ▲ . Então. a primeira coisa que ocorre é que a gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda. realmente. pelo contrário. e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se conhecem muitos profissionais assim.. Então: "Venha que esse problema é comigo ." Estou tratando de ser simples.. seus colaboradores ou sozinho. pode ser uma oferta vasta. ampla. quantos cientistas vocês conhecem que. para" capturar este peixe"? Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária. mas seria conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área. se o sujeito está demandando em primeira instância. Essa é a análise da implicação na produção da demanda. é porque me ofereci. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura. concluem que esse problema não é para eles resolverem. " Quantos profissionais. cruzada.alçada. se não vendo o que faço.. Procura-me porque algum lado do problema tem a ver com o que faço. Se eu não me constituo num lugar científico. ou seja: que fiz eu.." Mas tem aspectos inconscientes. seus companheiros. Mas se eu não me oferecer. Existem poucos. esquecendo-me de que. é difícil de se ouvir. E se me procura. com cuidado. resolutiva etc. A primeira coisa a ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita. ou seja. ninguém me procura. profissional. estou a seu dispor. o que tenho de fazer é analisar." Isso já é muito. sem me dar conta. dar de volta ao usuário o que ele solicita de mim. e então o atendo. ninguém" compra". válida. que coisas posso solucionar parcialmente e que coisas não devo solucionar. na oferta. O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita-me dizer-lhe que esse problema não é privativo de nenhuma especialidade. que coisas. como foi que vendi isso. o que foi que fizemos nós sem dar-nos conta. para que foi que "vendi". se ele me procura. O problema fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda.. Esse problema tem de ser resolvido com seus amigos. o problema é meu. porque. Essa análise tem aspectos conscientes e préconscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe.

Isto é: qual foi o setor da organização que assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes. mas para dar um exemplo simples: qual foi o cliente que. sem dúvida. segmentos da organização. Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “ A ideologia 98 ▲ . isto é. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é o melhor". Consulta porque" é daqui". Costuma ser. nem homogeneamente progressistas. os interesses em jogo. que ofertamos o serviço. Isso. consulta porque "é caro". não é nenhuma garantia.vivemos fazendo é lutar pela legitimação. e o faz com elementos conscientes e inconscientes no usuário. E isto é muito importante. de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação.ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos. isto é: quais foram os passos intennediá. O passo seguinte é a análise da gestão parcial. pela autorização e pelo reconhecimento s nosso serviço. não é exatamente um colega. na mesma proporção neles e em nós. consulta porque" é bara to". ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere. É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem solicita. porque nos pode dar toda uma antecipação dos motivos desta consulta. para os institucionalistas. nem homogeneamente sinceras. infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela direção ou pelos proprietários. ou porque "vem de fora". mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e a demanda. porque as bases não são homogeneamente revolucionárias. ocial de O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento. consulta porque ele é "dos nossos". Tudo isso modula a demanda. definindo nossos serviços como eficientes. Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases. chegou à conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis. sobretudo. o grau de consenso. os desejos em pauta e.

mas o que elas querem obter é outra. Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro para os leitores. claro." Então.dominante é a ideologia das classes dominantes. uma organização numerosa nunca virá toda para fazer uma solicitação. pois o fato de você considerar o parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa. ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. Por outro lado. que nunca coincide com o encargo. as bases são. Estamos falando de uma situação ideal em que. A compreensão da determinação dessa parcialidade é importante. O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes. Isso também tem de ser analisado. demanda é a solicitação formal. da tecnologia moderna em relações humanas. Nessa terminologia. solidárias etc. a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom. Isso. é uma solicitação consciente que. Então. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e encargo. veja. sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. vem apenas um segmento (apenas uma parte faz a demanda). passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional forma parte da parafernália de serviços característicos do progresso.. em geral. que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos entre má-fé. singulares. Mas não coincide por quê? Por má-fé? Pode ser. A diferença entre demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. É claro que as pessoas estão solicitando uma coisa. O passo' seguinte é a análise do encargo. Então. Vem um setor. Então. geralmente. mas apenas uma delas. na medida em que a Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais. contraditória. em geral. deliberada. Pode-se dar um exemplo clássico. viemos consultá-lo porque sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 99 ▲ . mas não único. mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes. desigual. originais. nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional. a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e como foi que consultou. conflitiva. que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. consciente. A demanda nunca coincide com o encargo. desconhecimento e recalque.

localiza os líderes. Ora. é: "Olhe. e procurar um urologista. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza. me aconselha como desmontar este movimento. como fragmentar.. você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica. progressista. por problemas de autoritarismo na liderança. veja se acaba com esta revolta. simplificando humoristicamente. porque é um corrupto ou porque é um reacionário. porque já se tem uma vaga idéia de que se ele não é revolucionário." Por quê? Porq ue já se sabe que existe uma tecnologia modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. Agora.. melhoradora. de um problema de ignorância. vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se opera. Então não se lhe pede isso diretamente. o entendimento. Não é comum isso? Tratase. O encargo pode ter a ver. Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má-fé. O encargo. tratase de algum conflito com a "mamãe". O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado (?) para a consulta. que se diz uma coisa e se está pedindo outra. O urologista irá receitar. quando. todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. quem tem fama de institucionalista dificilmente será solicitado abertamente para isso. na organização. no entanto. cloridrato de ioimbina ou viagra. da direção. como paralisar isto. num plano manifesto. que não sabe uma palavra sobre isso. perfeitamente. Então. de uma intervenção profilática.dos operários. está surgindo um grave conflito por problemas de condições de trabalho. pelo menos é democrata ou humanista. por problemas de nível de salário. por exemplo. Há especialistas em fazer essas coisas. Mas pode ser. ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos. como desmobilizar. Pode ser fruto do desconhecimento." Isso pode ser feito com plena consciência e com má-fé. pois. Mas pode-se perceber. e se isso não funcionar. a comunicação. há uma demanda. com algo que acontece quando. ou seja. ou como aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário. de quem vem consultar alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o encargo recalcado. inconsciente. entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. 100 ▲ . então. um problema recalcado. a negociação etc. acontece que o encargo pode não ter nada a ver com isso. finalmente.

o cartão de ponto quer dizer muita coisa. É claro. Vocês se lembram do que é analisador . descartado o fato de que todo trabalho é alienado. Mas. porque os quadros de base podem fazer essa solicitação. Mas vocês devem ter ouvido. de desconhecimento ou de recalque. ou um estudo que não tem vontade de 'encarar.natural: é um fenômeno (dito em termos clássicos. Sem dúvida este desagrado pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim". com freqüência. Mas se os quadros são de base. que é o que surge como resultante de toda uma 101 ▲ . em termos de má-fé. anteriormente. não se podem separar esses dois pontos. incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de emergente. e a maioria delas não é boa. Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de uma unidade.Agora cabe aclara r uma coisa importante. porque não querem trabalhar. mas tem-se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a gente não trabalhe. ou de uma essência "vadia". por exemplo. heróicas. é bom que tais manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. Na realidade. Os determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente complexos. Quando se simplificou isso. não se quer trabalhar. porque não se quer estudar. falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um serviço. estes grandes "protestos revolucionários". Mas também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia cumprir. e também análise da demanda parcial. pelo fato de ter sido colocado o cartão de ponto. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. ou uma autocrítica que não consegue suportar. em todo caso. e que sempre há dominação etc. Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. Então solicitase alguma reivindicação. numa sociedade onde o trabalho é alienado. Já sabemos o que é encargo. pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser fruto de má-fé. no tocante à diferença entre a demanda e o encargo. de desconhecimento ou de recalque." Já tenho recebido demandas dramáticas. então temos de caracterizar os analisadores "naturais". que sempre existe uma extração de mais valia. não se pode entender um sem o outro –.

fundamentalmente. poderia ser uma greve. Porque só ouvimos uma. Este contrato já implica a construção de dispositivos para ouvir todas as partes. pequeno ou médio. Então. é interessante receber os honorários. legitimado e. porque não foram fabricados por um interventor institucional. o institucionalista foi solicitado por um setor. pelo menos enquanto acontecimento geológico. se vai lá. Um primeiro entendimento sobre o que está acontecendo lá na organização. Só que é bom fazer este novo acordo. um contrato de diagnóstico. não existem analisadores naturais propriamente ditos. O contrato de diagnóstico é um acerto. já devem ser pagos. tenta-se analisar. temos de caracterizá-los. em primeira instância. que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí. suponhamos um analisador chamado natural (criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto. Com esse contrato. se entre outras coisas o institucionalista vive disso.série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. isto é. por um segmento qualquer. aquela que fez a demanda parcial. pelo fato de que. assegura-se o respeito geral necessário. as defesas. Então. entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. poderemos chegar ao que se chama diagnóstico provisório. e não por todo o coletivo. porque ele implica que o diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado. E quando tivermos feito tudo isso. temos de fazer. Por isso. no caso de existirem honorários. Mas então. e nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso. cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. Então. a esta altura. o aumento das doenças de trabalho. e também porque um contrato de diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser diagnosticados. Senão. Então. E são "naturais". Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam chamar de "presuntivo". Depois do contrato de diagnóstico. 102 ▲ . Qual seria um analisador desse tipo? Grande. no entanto não é valorizada pelos usuários. é um convênio feito para poder construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. quais foram as resistências que se levantaram nos outros setores que se foi ouvir. uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. a morte de um operário. delimitar quais são. Senão.

Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural". resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e que vai dar-nos o material mais profundo. um agenciamento ativador. porque o interventor não está baixando regras. Então vai-se criar analisadores construídos. Mas será que quando crio instrumentos de investigação. porque é indireto. É muito recomendável e não é nada autoritário. ou dispositivos para poder recolher todos os dados do didgnóstico provisório. de indagação. uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o mesmo. mas não é sequer o diagnóstico provisório. só se ouviu os setores distintamente. Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório. desloca a problemática da situação espontaneamente referida. Depois que se fez a investigação passiva. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. mas está propondo um dispositivo agitador. uma estratégia. Vamos dar um exemplo fácil. é uma reunião de cineclube. Uma vez aceito. Por enquanto. porque se trata simplesmente de propor. Ainda é um presuntivo já mais elaborado. nada impositivo. mais comprometido. a partir desse diagnóstico provisório. mais crítico. e importante. Também se pode propor outra coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em um espaço diferente do habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitirnos observar o que acontece nessa convivência. Mas não foi concluído ainda o diagnóstico provisório. fazendo-se a análise da demanda e do encargo 103 ▲ . Mas talvez isso se possa entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. teremos que pensar em outras alternativas. não é demasiadamente indutivo. não estou deixando de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim e não. reúne-se a equipe interventora e parte-se para analisar toda a colheita.O passo seguinte consiste em. Os usuários podem aceitar ou não. Eles não são tão indutivos assim. Por outro lado. poder planejar uma política. pode dar certo ou não. é "artificial" – já fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. Se não aceitam. mas não se criou condições para cutucar o nãodito que queremos investigar. Ouviu-se passivamente.

analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e novo contrato. Então. quando se mantém uma convivência prolongada. Então. vai conseguir outras intervenções noutros lados. uma festa. um cineclube. exaustivamente. quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou recalcados que foram ativados. Nova política. novas estratégias. os movimentos fundamentais para conseguir os propósitos políticos. temos de voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou. técnicas expressivas. qualquer técnica. exige ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. Esse contrato definitivo. a ordem dos mesmos. Por que é importante? Porque o passo seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. depois de todo esse novo exame. os espaços onde se vai dar essa "guerra". que não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. temos uma vivência de contato diferente. será necessário desenhar as táticas. uma guerra simulada. despertou na equipe interventora. mas pensada anteriormente. despertou em nós. Nova análise da implicação. um quebra-cabeça coletivo. pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras intervenções. porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe fez uma boa intervenção aqui. a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. no coletivo interventor. sempre que a tática. Por exemplo. É possível não se dar conta de que essa ambição acordou-se nos interventores. a análise da implicação significa pesquisar. técnicas definitivas. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em condições de manifestar-se muito mais livremente. toda técnica é boa.definitivo. 104 ▲ . táticas. somos igualmente ativados. os procedimentos: psicodrama. temos adquirido solidariedade ou cumplicidade inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo. muito mais ricamente. que envolve maior compromisso e requer mais retribuição. também somo's mobilizados. Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser dada ao processo. a importância dos mesmos e as técnicas. será necessário precisar quais são as estratégias.

não atendo. Isso é completamente diferente das prestações de serviço profissionais habituais. que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a implicação que se vai gerando na equipe durante o processo." Primeiro quero saber o que o coletivo propõe nesse sentido. que tempo pensa destinar ao trabalho. resistência. ou seja. no momento em que saímos da organização. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: "Eu quero um contrato por tanto tempo. vamos fazer uma proposta de contrato definitivo. produção. depois de analisar a proposta. antiprodução. todos os conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. Se não for assim. que poderes quer nos dar e porque. isto é. ficará uma disposição e uma 105 ▲ ." Não é esta a idéia. transversalidade. Consideração dos índices de transferência. que poderemos ou não comunicar ao coletivo. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise coletiva permanente. e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho. atravessamento. para chegar a um acordo consciente.Depois temos a autogestão do contrato de intervenção. o tratamento vai durar tanto tempo. Os temas a investigar são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização? É claro que. o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la. Logo vêm as avaliações periódicas. por que quer pagar. Depois vem a execução da intervenção. Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico. mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo proponha se quer pagar quanto quer pagar. eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças. tal como foi planejada. e porque. o que será muito ilustrativo do significado que a intervenção tem para cada segmento. em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto.

como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer com ele.instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo. já por nossa conta. A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações. E. 4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 107 ▲ . de forma permanente. sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é propriedade do coletivo considerado. o processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos. políticos e econômicos continuam sendo importantíssimos. profunda e exaustivamente. como vamos elaborar todo o material. tanto que se pode dizer que a regra são as exceções. condensar tantos outros etc. de intervenções periódicas de atualização. mas a implicação e os problemas éticos. em todo caso. é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generispara cada situação. e o trabalho continua. se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio. que introduzimos como hetero. Mas. temos de discutir. Nossa decisão deverá ser submetida a ele. 106 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional? 3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. Podemos fazer um acordo de acompanhamento. Em todo caso. é um esquema para se considerar e omitir os passos que não sejam possíveis. Nós saímos. finalmente. que não sejam recomendáveis.

Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral. bem como marcadas diferenças. às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação. assim como aos recursos que empregam para obtê-las.Capítulo VII o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE f) O Institucionalismo e suas vicissitudes Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista. que tenta conceituar de diferentes maneiras. ou simplesmente Institucionalismo. Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos sociais no que se refere às lógicas que os regem. Podemos eleger uma. uma vocação crítica. estabelecimentos e equipamentos. organizações. Em outras palavras: ocupam-se das instituições. ou Antiinstitucionalista. insistindo que não 108 ▲ . mas também porque supomos que este universo seja não totalizável. a um conjunto aberto e internamente diversificado de correntes que mostram certos valores em comum. assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. não só porque este propósito excede em muito os limites deste livro. Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas. e não sem ressalvas. ou Instituinte. às formas concretas em que essas se "materializam".

não pode deixar de se inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates. epicuros. Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus. Fourier e. Por um lado. Nietzsche. Algo similar ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. 109 ▲ . Platão. marginais. da República durante a Guerra Civil Espanhola. Pelo contrário. principalmente. Aristóteles. por Marx. Rabelais. adere com muito mais entusiasmo ao espírito dos materialistas pré-socráticos. o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos importantes pioneiros deste tipo. clandestinas. Kierkegaard e Sartre. Espinosa. a gênese social desse Movimento pode relacionar-se. sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas contrastantes. Por outro. até chegar a concepções e ações alternativas. à sua maneira. os Escolásticos. da produção de novas formas libertárias da vida. proporíamos as grandes balizas da Revolução Francesa. Bergson. Kant. Arbitrária e muito simplificadamente. A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem comum". Quanto à gênese conceitual. Descartes. assim como aos sofistas. megáricos. Muito sumariamente mencionada. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua função ou funcionalidade de seu funcionamento. Essa vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos "institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições relativamente conservadoras. seguindo por outras crescentemente reformistas. Argélia e. sobretudo. com uma longa série de tentativas históricas de regular racionalmente a existência das coletividades.será necessariamente compartilhada. a serviço. O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial transformador. desde a tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia. estóicos. em suas versões mais drásticas. revolucionárias e. em seus aspectos conservadores ou reformistas. na medida em que estas não são homogêneas. Bakunin e outros. Campanella. Hume. Hegel e Heidegger. o Institucionalismo tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou experimentado. até talvez caiba dizer. extremistas.

Essa difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala. Semiótica e Antropologia –. o da Saúde Pública (especialmente a mental) e o d a Indústria. eclesiásticos e até militares). partidários. é sabido que as origens do Movimento podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis. financeiros. Sem contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas reconhecidas. sindicais. Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis. As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia. Simultânea ou consecutivamente. dos Sistemas. entre os quais encontramos. História. Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por diante. obviamente. Psicologia. a gama abarca desde as escolas que. liberais. influências predominantes de várias correntes. os problemas da Urbanização e Demografia. dos Jogos etc. Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia). com a definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 110 ▲ - . como também de disciplinas como a Pedagogia e a Medicina. assim. marxistas e anarquistas. Poder-se-ia acrescentar toda aquela atividade vinculada aos Serviços Sociais. como mínimo. por exemplo: Comportamentalismo. está claro. às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e das populações em geral. Economia. aspiram a títulos de cientificidade (de acordo.Se é permitido falar-se de uma gênese operacional. todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas. Funcionalismo. Desde logo. esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e estabelecimentos (comerciais. Cada um desses setores do conhecimento. e assim por diante. não é homogêneo. Encontramos. ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a Teoria da Comunicação. ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes institucionalistas. a saber: o da Educação. e nem sua herança institucionalista o é. quer dizer.

workshops etc.. análise de conteúdo.). o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de uma Ética. gnosiológico e profissional. jurídico-político.. legalidade. "progressão" ou. este "percurso" de sua gênese social. Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na escala de correntes. avaliação de eficácia. questões de neutralidadeabstinência ou imparcialidade-indução). Com a profissionalidade o que está e m jogo é a legitimidade. Conseqüentemente. Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a cientificidade e a profissionalidade. consistência.). o qual se desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude. Em síntese: esta "evolução". com relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém. do Institucionalismo. Se o instrumental teórico. carreiras. publicações etc.afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma nova concepção da convivência cotidiana. no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção teórica (coerência. passando pelos procedimentos informativos. Como veremos mais adiante.). conceitual e operativa. coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu estatuto ético. precisão. Estratégia e Tática do Movimento. dramáticos. assembléias. essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de Babel. sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais. verificação etc. possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção. o que esperar acerca do arsenal técnico. convalidação. método e objeto de estudo são tão proteiformes e problemáticos. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a autorização das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas. entrevistas livres ou dirigidas. mais neutramente dizendo. ou o que quer que se queira chamá-lo. e suas óbvias conseqüências econômico-políticas (operações de oferta. títulos. demanda e contratação de serviços. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética Social" são 111 ▲ .

(ver glossário). e coerentemente. nacional e até planetária. sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e intervenções científico.vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras". b) Quanto à profissionalidade. afastase cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. Treinamento em Recursos Humanos etc. Durante esse trajeto. alternativas ou revolucionárias do Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização da análise e da intervenção em grandes situações em escala regional. as formas mais marginais. as expectativas de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente satisfeitas. conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que de direito) à tecnologia da human engineering(Psico-Sociologia das Relações Humanas. de acordo com os países onde se desenvolvem. Os setores tradicionais do Movimento. analisador. que atendem à autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista. das potencialidades acima apontadas.). sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações de serviços. Lukács. da autogestão e da autodeterminação das comunidades. Pelo contrário. a faixa mais subversiva do Movimento. demanda.tecnológicas com os sistemas e setores dominantes. tais como: implicação. cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da alienação-dependência do saber-poder dos coletivos de usuários. Weber. efeitos: Mulhman. as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teóricotécnicos valiosos sob todos os prismas. Contudo. encargo. e 112 ▲ . mercantilistas e adaptativas. impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto-análise. frio-quente. centro-periferia etc. por parte dos coletivos. Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi se pronunciando: a) Quanto à especificidade. isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo entre seus usuários. No extremo.

1980). tais como as de integrante. não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos. colaborador. o agente institucionalista com inquietações militantes encontra dilemas excruciantes. Diante dessa perspectiva. 113▲ . Parece que o Institucionalismo avançado. com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento. que não simpatiza com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou vanguardas elitistas). Kairos. nem sempre realistas. Se por um lado os procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos pela peculiaridade de seus ideais. por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e lutas. Isso tudo acontecendo em um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. formais ou não. em outro. ou totalmente apáticos e dispersos. Mais corretamente. ameaçam submergi-lo em uma certa paralisia. e mais ainda o "maximalista". Na segunda parte do citado texto. soma do instituído. pontuais ou amplos. de mudança libertária. para contribuir com as mesmas para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar-se. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente" (Ed. Resume-se aí o drama Institucionalismo: definindo o Estado. Como veremos mais adiante. não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo avançado pretende. uma maneira vasta e diversificada como "o inimigo principal" (a expressão é nossa). Barcelona. o autor tenta sistematizar os obstáculos. Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o mais duro desafio. ou persuadidos ao participacionismo. A rigor. os capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. que se em um sentido podem constituir fatores de propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos. a idéia consiste em encontrar canais de conexão. aliado ou simpatizante lhe são insuficientes.muito menos as de propagação da utopia transformadora a vas tas unidades sociais. o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos.

O primeiro refere-se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão. de modo que os pequenos grupos e organizações não sabem de sua existência. mesmo supondo que conheça sua proposta. religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas. raciais. a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e corporativa dos agentes. mediante a auto-análise da implicação despertada pelo encontro com a singularidade do 114 ▲ . senão no tangente à nossa experiência particular. Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinações estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. Trata-se. abrem-se para o institucionalista outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades etárias. Em cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais". a maioria dos grandes experimentos "revolucionários" massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados.possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os campos de sua provável atuação. segundo nossa experiência na América Latina. sexuais. Por outra parte. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes. sendo pouco provável que solicite a colaboração de um institucionalista. Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e média envergaduras. Contudo. proliferam cada vez mais movimentos. senão à autogestão generalizada "a quente". que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas. algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos. não por acreditarmos que não tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos. contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações mais adaptacionistas ou reformistas. As duas dificuldades. o Institucionalismo se vê forçado a recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação acadêmica de especialistas e profissionais. Também devido à pouca divulgação do Movimento.

queremos apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias européias). sobre algumas das quais voltaremos ulteriormente. levando-as a uma atitude de "conservadorismo crispado" (segundo F. Essa falência também foi indicada por Lourau e outros. persuadiram as populações com benefícios concretos ou imaginários. Como conseqüência. o Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas. de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções reais de sobrevivência. insuficientes. por exemplo. os Estados gerentes pseudo-exitosos. As massas extremamente depauperadas. estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e o cultivo do mercado interno). Ao mesmo tempo. Fazem-se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e estratégias do Estado (entendido como ubíquo. parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de controle social. Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista". o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as comunidades. "Praxiologia". como sugerem alguns). No entanto. por um lado. Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de resistência passiva). o brutal contraste entre o discurso. ao elevado nível de padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. não são propensas às propostas institucionalistas.coletivo intervindo. Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 115 ▲ . por outro lado. inconsciente e "contínuo") em cada formação social. enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e acumulação de informações (chame-se. incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um ostensivo fracasso. estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos. modernos e eficientes administradores de enormes riquezas.

em pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática". Em geral. começam. esses modi operandi. ressingularização das práticas são alguns dos termos usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. a dar-se soluções próprias. revolucionárias e até "terroristas") da corrente. marginalismo. Deu-se para elas respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do Institucionalismo: empresarização. Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente. calouro ou experiente. para certo trabalho "no Estado" e "com a sociedade civil". reformistas. como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do Movimento. Consagrados e repudiados. de maneira alguma. expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à totalização. Nesses empreendimentos. da crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras. mais ou menos acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento. causado basicamente pelo poderio. Ela afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas. uma rica e profunda autocrítica. Essas questões não são. infiltracionismo. das quais as tendências institucionalistas se 116 ▲ .providencialismo estatal. a reformulação das características do agente e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva – como a cooptativa. em outras palavras: não há nada de inesperado no fato de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido. acrescentam-se certos agravantes que iremos apenas esboçar aqui. distorção da demanda. penosamente. sempre pronta a desencadear-se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e táticas infinitamente sutis e cautelosas. Freqüentemente o institucionalista. novas para o Movimento. se tal coisa existe. a ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais. sofre sérias pressões resultantes da crítica endógena. Esta superfície mostra algumas brechas para o Institucionalismo. clandestinismo. alternativas. entrismo. o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". maquiavelismo. ou seja. Não é nada estranho que assim seja. contudo.

tecidos. a da sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". deve-se necessariamente conceber (pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para formar diversos especialistas. Nesta reelaboração. Cabe aqui acrescentar a ressalva de que. Se se admite que o Institucionalismo é. especialmente se o fazem para formar " experts em fazer isso". as dos "que ensinam a fazer isso". tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados) ou. quanto elas mesmas. sistemas. talvez não seja necessário escrevêlos senão como curiosidades museológicas. fazendo. vísceras. metaforicamente falando. incluindo entre elas boa porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. no possível. Essas. Tanto é assim que capítulos fundamentais. única e irrepetível. como uma de suas áreas mais sensíveis. que deseje dar-se para existir. A redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 117 ▲ . uma clara discriminação entre especificidade e especificismo. independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. junto com elas. as figuras do profissional e do técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e. cada uma das células. Dito de outra maneira. seguindo com a metáfora. adquire sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina". organismos e funções que as integram. segundo certo conjunturalismo ou improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas. triunfantes ou falidas. a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda não foram escritos. Essa crítica disseca. Mas esse trabalho é feito habitualmente em abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. uma modalidade de viver coletivamente. a proposta é que cada coletivo construa as condições para se autoconhecer. a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e mutação).originaram. A problemática que esboçamos tem. teriam uma singularidade tal que careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. em última instância. autodeliberar e autodecidir a forma sui generis. na medida em que tais registros só seriam reconstrutivos de experiências consumadas. Mas se não se admite um "especialista em autogestão". Este processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas das quais padece.

condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos dos quais "menos se poderia esperar". Aludimos. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam. pedagógico e político) ou integralmente autogestiva. Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 118 ▲ . é a de associar-se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. exige ou não a autodissolução do agenciamento pedagógico. Psico-Sociologia. Que a organização e procedimentos adotados sejam "não-diretivos". e dão modestos frutos. a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em outros coletivos atuantes. enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma discreta transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande Política. mas pressupõe a firme disposição dos agentes formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se insiram. tais como Sociologia. assim como tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas diversas qualidades que acima confessamos não havermos conseguido classificar. Ciências Políticas etc.reprodução do equipamento e do modelo pedagógico que o gerou. "co-gestivos". em cada um de seus dispositivos. quando é claramente assumido. quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo. "permanentes". é claro. Esse objetivo. que configura estas comunidades como tais. ao que há algumas décadas se denominava "acumulação social do saber". O ponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado. Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito ideológico. A nota em comum. mais claro ainda. Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e v ocacional do trabalho. não é tão importante quanto parece. O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e. Completando a idéia: impõe a não.

resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma. assim como sua organização mesma. Um primeiro caminho é o regressivo. burocráticas e corporativas do Movimento. Sem que pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias. com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. o institucionalista deve ainda enfrentar a crítica interna."deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso isolado. todo e qualquer "espírito" 119 ▲ . Frente a esse difícil panorama. e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro. ambos deverão dissolver-se em uníssono. Por isso. urge se fazer constar que. administradores. não é nada infreqüente encontrá-lo decepcionado. onipotente ou. Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo. o que é mais comum. assim como professores universitários. eles não são tão límpidos quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas institucionalistas contemporâneas. perplexo. Enfim: como dissemos. O agente retrocede às modalidades mercantis. Só que essas adoções se realizam" em nome do Institucionalismo". em sua assunção. No segundo. de um lado. sejam as reformistas e eleitoreiras. o funcionalato e o academicismo. Tensionado entre a necessidade de sobrevivência. adaptacionistas. Entre elas destacam-se o empresarismo. a de "autorização" e o desejo produtivo. três deformações tocaiam o agente institucionalista. nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê-lo. e só até certo ponto. culpado. será a assimetria educacional entre professores e aprendizes. Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o agente se lança às formas clássicas da militância política. No primeiro caso. comunicólogos e psicanalistas. e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. os ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. "a frio". como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. Os profissionais mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa. o máximo que se autodissolverá.

O tero é uma ave da planície Argentina que. segundo versões híbridas. Como notas secundárias caracterológicas. segundo a tradição gaúcha. tão engenhosa quanto discutível.próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias. mas em real condição de implicados nos eventos e empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar-se. as usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. da "novidade radical" (que impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação-auto. circunscritas e moderadas do Movimento. Uma terceira escolha. colaboram ou protagonizam. devido às limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada). mas sim que é uma saída desgastante. inevitável. muito nos importa esclarecer que não deve ser confundido com outro. para assim protegê-las da voracidade das espécies predadoras. sectárias ou facciosas. sabendo das características dispersivas. publicam ou intervêm. que cremos conhecer muito bem e que é urgente desmascarar. do saber ex-nihilo(que proscreve o estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. Não nos parece que esta composição seja das piores. Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que. drogadito e parasitário) etc. da "desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e eficácia). estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um sentimentalismo raso). a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena).heterodissolvente (que hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas). Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns institucionalistas. clandestinamente ou não. é a que pedimos licença para denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". Ao mesmo tempo. Como quer que seja. Inteirados nominalmente de um punhado de noções da corrente. e em referência a esse terceiro tipo de agente. "grita em um lugar e põe os ovos em outro". que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais ensinam. 120 ▲ . o "hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico. às vezes. erráteis e libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento.

técnicas. no mínimo.atiradores. intercambiados e elaborados coletivamente. originada da lumpenização das faixas médias urbana s universitárias. não só "não passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa qualificava de esquerdosos festivos. Sua triste história consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado. libidinais ou ideológicos incapazes de produção. mas que muitos deles precisam ser apenas comunicados. transmissão. consciência epistemológica ou autocomiseração sentimental. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo Movimento. modalidades de divulgação. desenvolvimento. nem Teros. Essa óbvia constatação não é proclamada aqui apenas por pruridos éticos. amplos e fortes. nem Ananké. Nem Eros. dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade de nada". a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" entidade de origem. alianças. morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. qualquer iniciativa que os tirou do anonimato. ou melhor.Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada. Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais. autorização. líderes. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas com rigor e vigor. brandindo "palavras" instituintes. em resumo: ladrões de galinhas. acólitos ou franco. táticas. o Movimento deve dar-se dispositivos formais. cabe concluir. avaliação de resultados. contratação. II) O Institucionalismo e seus valores Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas. implantação. estratégia. logística. Será procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"? Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos parte desta problemática. com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. que restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. Experientes institucionalistas exortam 121 ▲ . Para tal. E isso não significa exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos. Política. tais "revoltosos".

Constituir-se-ia assim um núcleo cego. contudo. do lucro e do prestígio. Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de contrato e enquadre das prestações de serviços. para as correntes puristas. assim como à subscrição de convenções normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do Movimento. Em outras palavras: da racionalidade. se bem que esses requisitos sejam indispensáveis. de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos. do poder. as forças mais reativas do "especificismo" e "profissionalismo". trabalhistas ou jurídicos externos ao Movimento. instituir um ponto de partida contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". todo settingseria um aparato ou equipamento no qual se cristalizariam. apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca da onda de integração planetária de todos os processos sociais. Entretanto. que a crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou. e portanto repetitivo. Dá-nos a impressão. Já para alguns. do saber e fazer disciplinar que dessa maneira ritual se funda. É óbvio que para os institucionalistas mais "profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos. não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do Movimento. que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do mesmo. extremada no 122 ▲ . compartilhadas pelas equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem cuidadosamente analisados. em alguns casos admiráveis. Afirmam que se toda intervenção está encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos.seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido. e até há pouquíssimo tempo. só se exige que suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários. Essa limitação. Por outra parte. como tecnologia falsamente "neutra". justamente sobre os valores e recursos em nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos.

tenhamos presente que em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir. uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento. nos introduzimos em uma contradição aguda e geral do Institucionalismo. No limite.). que não existe uma prescritiva para a invenção e que. caso este que parece não criar problema algum. Sociologia das Organizações. recordemos a verdade de Perogrullo. Se a mesma é integral. com a autogestão como meio e como fim. Via esta questão restrita do contrato e do enquadre. porquanto seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados. "só a liberdade engendra a liberdade". Por uma parte. ou seja. não se entende por que não apelar a ele em caso de necessidade ou ainda de "luxo". "culturais" e libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa). existiria ainda nos convênios de serviços da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise. Psicanálise Aplicada etc.caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social. imaginá-lo solicitando os serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. se compreende os aspectos econômicos. isso ocorre porque os coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir (inventar). o que tornaria difícil. aquela liberdade que desejam. Por outra parte. E claro que ninguém ignora a distância que separa as aplicações da física à computação. e menos ainda porque seu trabalho não haveria 123▲ . Pode acontecer que já pertença "naturalmente" ao coletivo em questão. ainda que não impossível. de que a autogestão não se decreta nem se concede. da human engeneering. não se vê porque um companheiro institucionalista iria ser convocado a participar. Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas disciplinas (além da própria). como dizia Bakunin. cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de analistas institucionais. Por outro lado. políticos. por exemplo.

a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar. de seu efeito de auto-sedução. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as requisições do participacionismo. da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir-se à autogestão em si.de ser pago. produtor de seus detentores. é uma mistificação. Mas a certeza do Institucionalismo. de tal ou qual grupo ou empresa. e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado administrador-gerente – submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. hábitos de consumo e soluções são integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder. por si mesmo. independentemente do contexto. As comunidades. assim como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. sem dúvida. quando não do colaboracionismo. O vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos. que se administrará o que é de si mesmo. ficaram substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das determinações que as constringem. não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza científico-tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. cujas necessidades. Deve-se ter presente que o Movimento afirma. como um de seus mais essenciais fundamentos. como em qualquer dos outros. Converte-se em algo assim como um princípio moral. a convicção de que os coletivos das sociedades modernas são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-sociallibidinal do trabalho. a casta privilegiada dos tecno burocratas. um solene compromisso de que será em si mesmo. escreveu: autogestão como consigna pode servir para qualquer coisa. é uma questão políticoepistemológica de fundo no Institucionalismo. De Lapassade a De Gaulle. Félix Guattari. que os centros oraculares de poder se vêem obrigados a lançar. quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. O que está em jogo neste ponto. A eficácia de tal consigna depende. demandas. acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e fazer dos coletivos sobre seu destino. A "A 124 ▲ .

A autogestão.. de formas que devem estimular-se. O conceito de autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias o Institucionalismo maneja. em definitivo. Invenção (oposto à Fabricação). Afirmação da Singularidade.. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se substitui massivamente as respostas diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real. Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos.. Além do mais. mesmo as mais drásticas do Movimento. Potência. O problema consiste em definir. em cada nível de organização. valores. Não há uma 'filosofia geral' da autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação. a hierarquia. o tipo de relação. não descarta o apoio de tecnologia alguma. (opostos à Generalidade. Siglo XXI. Ser do Devir etc. Reatividade. " ("Psicanálise e Transversalidade". Diferença. em cada situação. do objeto institucional correspondente é um critério qu e deveria permitir esclarecer a questão. De qualquer maneira.. assim como a infinita diversidade de suas estratégias. México). não é um fim em si mesmo. no imaginário. a "Esquizoanálise". no sentido mais forte do vocábulo. pelo contrário. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que. mas também. assume que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais. quer dizer. Nenhuma corrente. os máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução).determinação. Guattari é um de seus mais ardentes defensores. corre o risco de criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente.. assim como em muitas outras. tomada como consigna política. Identidade-Repetição. Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo.. Se 'impugna'. e o tipo de poder a instituir. Ser como 125 ▲ . Ed. ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. e considerando a complexidade do desenvolvimento dessa concepção. Negatividade.

Permanência etc. Objetivações das Idéias Puras ou Modelos. Nós os temos muito em conta. as invenções dos movimentos produtivo-libertários. não poucas vezes. assim como ao tabuleiro do registro e da dominação. Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades (desterritorializados) do Ser e do Existir. Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema reincorpora à torrente da reprodução e do consumo. Desejo.). Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama na "Esquizoanálise") do Capital. como sinônimo do Instituído. dos Maus Encontros etc. fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis. da Lei. Dispositivo. da Família ou da Corporação. que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. equipamentos e manobras capitalistas. diametralmente contrários a eles. Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede. organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir. para precisar invocá-las novamente neste contexto. pelo menos em tese. No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e "pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas características contraproducentes. a não ser que se considere recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos. Guattari.. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault. Máquina de Guerra. Toda a História Universal (a das Formações Econômico-Sociais. Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos-valores seria uma tarefa colossal e apaixonante. Deleuze. do Estado. Acontecimento. Talvez tenhamos deixado 126 ▲ . Civilizações. que têm a ver com o Instituinte e os Bons Encontros (opostos às Formações de Soberania. pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. Simulacro. da Igreja. tornando-a ostensiva.) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento. Se os repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e.. Já a Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos.

pois apesar da predileção do Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para técnicos e usuários. ou mais dissolventes ainda. que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da Autogestão". Como quer que seja. cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista. como notável independência dos princípios que a guiam e que. os valores mencionados não são evidências. Desde logo. Pelo contrário. pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas. e mais ainda da Teoria baseada em p a rti p ris formalizados. Basta compreender que as séries opositivas de valores que antes enumeramos. a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo. nem evidências. existem casos em que isso é possível. desde diversos ângulos. no qual não se pode apelar ao veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante. compreende-se que em um Movimento. quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto. sem misteriosas avaliações de seita. Por outra parte. eventualmente. Naturalmente. tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" desses desvios. mas aqui nos interessa destacar estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. os conflitos 127 ▲ . em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis. não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las. Convém precisar com respeito a suas propostas teóricas e sua atuação política e técnica. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu.a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até personalizar. não são nem axiomas. mas sim de permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim conduzida pode causar. pragmatismo ou "intuicionismo". Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar sua atuação e observar seus resultados. empirismo. insistiu em uma reivindicação da singularidade das práticas. para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa orientação.

acadêmicos. Procede enfatizar que o Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas econômico-político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas). o Institucionalismo tem. Tudo é "Análise Institucional". diante de contendedores tão ágeis. algo assim como um artesanato militante cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes. "nada o é". 2) Os poderes oficiais. mas também à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. Não obstante. inerentes a todo Movimento. Tudo isso se torna particularmente delicado. 128 ▲ . resulta notório que esse principismo sui generis. vegetativo ou infra-estrutural das iniciativas.e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis. o Institucionalismo exige que suas decisões de condução sejam. o que torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às transformações de fundo e a longo prazo. mas quem impera atual e universalmente (embora não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. Entre essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de patente". que se nega a separar meios de fins. processuais e conjunturais. Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobreexigem o tempo e os esforços destinados à implantação. sobrevivência e crescimento. Como já expressamos mais acima. Frente a um panorama tão desfavorável. fortes e onipresentes. hipoteticamente. injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. inúmeros aliados nos coletivos subjugados e explorados. logo. exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais. não facilita as resoluções e execuções táticas imediatas. no possível. É no campo dessas dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos. ocupa similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. Por outro lado. corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam campanhas repressivas. digamos.

apropriação e "inflação" de "identidade". pelo caminho do famoso "individualismo pequeno burguês". Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade. "solvência financeira" etc. exacerba-se . começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis. à atomização do Movimento. tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem. a designação de recursos de todo tipo. finalmente. então. Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a empresarização ou para uma morfologia política convencional que. até um suposto contrário: o matiz "beneficente". se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. "legitimação". 6) Em resumo: cedo ou tarde. 4) Em função de tudo isso. "sabotador" etc. No plano da produção de subjetividades. valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder".3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2. o 129 ▲ . a "primazia" etc. Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja hora de descartar como obsoletos: o ativismo. "prestígio". O organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. é a mais desejável: o centralismo democrático. "caritativo" ou "filantrópico" das prestações de serviços.. Ou mesmo. para a luta pela obtenção. em suas modalidades de protopaternalismo. fraternidade do terror e. "perversifica-se" a horizontalidade e "extravia-se " a transversalidade. No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais lideranças "autocráticas" ou la íssez-fa íre os papéis e de "bode expiatório". das estratégias e táticas externas. isso se registra como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas". de modo que estas se enrijecem estatutariamente . "reconhecimento". O regime das alianças tende a uma regressão filiativa. perversas ou psicóticas. "legalização". "autorização". o "lucro". a serialidade. no seio das organizações e dos sujeitosagentes institucionalistas. não por ser "menos pior". 5) Fica preparado. assim como das relações internas. o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico.

a capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá sentido. Toda uma vasta produção biblio gráfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do individualismo moderno (L. Sennett. no entanto. Coincidem. teremos uma imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. os últimos sublinham a subjetivação indiferente e abúlica das sociedades pós-industriais. G. D. a ter muito em conta nas vicissitudes do Movimento Institucionalista. Durkheim ou Marx".voluntarismo. 9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência (como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os segundos infundem e orientam. o oportunismo. 10) Para fins de síntese e conclusão. o utilitarismo. publicações internas do Ibrapsi. os "desviantes ideológicos. ou a corrupção franca. o imediatismo. Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma caricatura de suas virtudes. digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do Movimento à 130 ▲ . C. especialmente o referente à "compulsão à autodissolução". P. Rio. Se os primeiros enfatizam a fragmentação pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial. 1988). Bell. R. A rigor. Riesman. 7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução". Lasch. Seguimos acreditando que se trata de uma força reativa. J . Virilio e outros). trata-se de uma curiosa exacerbação do que a teoria postula como um requisito dos grupos revolucionários. 8) Se se repassa o exposto. quer dizer. L. em constatar a decadência da res publica de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la e Weber. Baudrillard. Dumont) e pósmoderno (D. organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico. Lipovetsky. como diria Nietzsche. Rozitchner.

axiológica e epistemológica? Ontologicamente. indecidíveis. segundo a vontade de potência produtiva. heterogênea. seria a afirmação de sua positividade. tentando exclusivamente propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como "desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade ". parodizá-las. Se se most ou indubitavelmente que tanto teórica quanto estratégica. tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal. fazêlas proliferar. "simulações ". estatuto ou prática.? Axiologicamente. intersticial e não – totalizável. "não-fundamentalista"? Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua positividade. um pensamento "sem fundamento". para mimetizá-las. "alternativizar". quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu limite. em todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se torne atualizável. especulativos ou experimentais. sejam estes revelados. indemonstráveis.Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da Utopia Ativa). em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras diferenças". parece indiscutível q ue o Institucionalismo. Epistemologicamente. ou melho. discurso. dedica-se a genealogizar suas formas históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. longe de orientar-se por critérios de Verdade. organização. incluídas aí as específicas e profissionais. diversificada. um "modo de viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas ". qual pode ser sua condição ontológica. ao Institucionalismo não deve 131 ▲ . infiltrá-las. "efeitos especiais". diluir-se. dividi-las até o infinito. e remetê -las a funcionar segundo se produzam. refluidificá-las. para cavalgá-las. que ética pode reger esta atividade não enquadrável. etc. mais que tudo. Que outro recurso lhe compete além da construção de "verossímeis". incrementando seu pólo progressivo. queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de código. e a produzi-las segundo funcionem. Por conseguinte. recortá-las por linhas clivagem bizarras. rachar. mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de pensar".

são passíveis de ser analisados. assim como os purismos e desviacionismos internos ao Movimento que mais acima descrevíamos. Se isso está correto. profissional liberal ou funcionário. avaliados e resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de dispositivos fortes. "possibilite" e "conecte".interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios c ânones dos mesmos. agenciá-la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá-la até gerar um acontecimento. engenheiro de sistemas. "devir" (que embora lúdica não deixa de ser revolucionariamente) sociólogo. Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo. um artista ou uma criança. economista. boa parte dos pruridos. tudo que "abra". Nada impede. psicanalista. sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um bárbaro. 132 ▲ . pois. ao institucionalista. amplos e numerosos.

não pretende haver dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que. advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. 3) De forma coerente com o exposto anteriormente. ou seja.GLOSSÁRIO Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo Advertências para a leitura deste Glossário Devido ao caráter introdutório deste livro. deveriam estar nele incluídos. 4) E desnecessário dizer que este glossário. segundo a definição ampla dada do Movimento. bem como da diferente acepção que tomam outros. e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a paternidade ou a precisão dos conceitos. assim como o volume do qual forma parte. fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente: 1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente. pois esse requisito excederia as aspirações e possibilidades deste livro. de propriedade intelectual dos mesmos. 133 ▲ . mas se responsabilizam por toda e qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. os autores. este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo. Embora este propósito não baste para explicar as limitações do texto. os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade. 2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos. nós.

5) Em alguns casos. 134 ▲ . o organizado*. processos e resultados. a" desordem" e o acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*. conseqüências de conexões insólitas que escapam das constrições do instituído*-organizado*. cuja essência não coincide com as possibilidades. essa noção foi empregada com freqüência. Esta última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los. ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório. o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente possível. são conservadores. enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação do instituinte*-organizante*. do novo absoluto. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las. O virtual não existe. o vocábulo adaptação costuma ser sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados. Estes atos. geradores da transformação e da novidade nos sistemas. Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem. ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. da diferença e da singularidade. Nas chamadas Ciências Humanas. o que empobreceria demais esta leitura. contingente. Freqüentemente se equipara este termo ao que é casual. insólito etc. como por exemplo no da Esquizoanálise. tornando-se mais apto para sua função. deflagrador da diferença. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver. ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se. No lnstitucionalismo*. os autores estão cientes de haver incluído e definido termos que não estão suficientemente esclarecidos. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). através da liberação do acaso-radical. processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*.. Em um sentido estrito do instituído*. como reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. mas em geral indesejável. de modo geral. este é considerado o modo de ser do devir dos processos. estabelecido. e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e sua potência produtiva. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem". apesar de que freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". imprevisível e incontrolável. são o substrato de transformações de pequeno ou grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. É o momento de aparição do novo absoluto. O acontecimento atualiza as virtualidades. o estabelecido tentam a repetição do mesmo (ver Repetição*). mas faz parte da realidade. que pretende ser panorâmica. ACONTECIMENTO: ato. mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente.

Em geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. e não como causa dos mesmos. Para tal fim. Excepcionalmente. ou a uma classe social que. não chegam a ser consideradas clandestinas. As forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas. ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades. singularidades. De todas as maneiras. geradores da diferença absoluta. do possível e do impossível. instituídos* etc. No lnstitucionalismo a significação deste termo é próxima à da Sociologia: os homens. "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro. Os dispositivos. atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses). qualquer montagem que torne manifesto o jogo de forças. interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais.). científicos etc. mas em ge~al as toleram ou as ignoram.). dissidentes e marginais. no lnstitucionalismo. a meta a alcançar e o processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. atualiza virtualidades e inventa o novo radical. organizações. Em um dispositivo. designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos essenciais. se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. movimentos e práticas que supõem uma opção para seus simétricos oficiais. ALTERNATIVA: designa-se assim as idéias. ou em um "fora de si". o agente. 135 ▲ . ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. como disse Feuerbach. ALIENAÇÃO: no sentido filosófico. intensidades) heterogêneos que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos. territórios. dramáticos. produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o horizonte considerado do real.AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera acontecimentos* e devires. funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos. os desejos. reconhecidos e consagrados. subversivas ou revolucionárias. as recuperam. pessoas. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades. por ser a proprietária dos meios de produção. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição de opositoras. políticos. AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* – organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. Entendido como produção de subjetivação*. o agente pode ser peça especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. pode-se valer de qualquer recurso (procedimentos artísticos.

É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes. não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico. Análise de implicação é a compreensão da interação. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica dessa organização. a proposta direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. A análise da demanda* deve estar necessariamente articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja. simultânea. assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática da organização solicitante. que por sua vez não sabe que não tem e não entende o que é porque é complexo. que faz parte integrante do processo de análise da organização. isso sim. produzido" espontaneamente" pela própria vida histórico-social-libidinal e natural. da interpenetração dessas duas organizações. ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). social. A publicidade. É um termo que tem certa semelhança com o conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz no analista). a divulgação (científica ou não). em sua equipe. ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma organização. que forma parte da implicação dos interventores. nem inconsciente. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo.ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato. Não começa no "cliente" e é. particularmente a de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. sutil. como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa. ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica. manifestos. técnico. enfatizando a parte que cabe à intervinda. Por outra parte. Ela pode até ser prévia a qualquer contato. É ao mesmo tempo. a análise da oferta. uma interinfluência recíproca. deliberados. 136 ▲ . como resultado de seu contato com a organização analisada. etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. um processo político. mas de uma materialidade múltipla e variada. econômico.

Pichon Rivière. de diversas formas. mas tendendo sempre a que se expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. A Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância. ANSIEDADES: correntes institucionalistas. particularmente para sua descrição do "mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. e propõe para eles o perfil de um intelectual implicado. a Psicoterapia e a Pedagogia lnstitucionais. projeção. As posições esquizoparanóides e depressivas. como similar ao cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica. ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau. 137 ▲ . nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais dos agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). confusionais etc. tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. A Análise lnstitucional insistiu particularmente na análise da implicação*. ou seja. Bleger e outros).ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. regulamentos) como suportes. liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. defesas. organograma. Lourau.inadas ansiedades. Assim se fala de ansiedades paranóides. O conceito de ansiedade deve ser entendido. nessas teorias.. a Dinâmica de Grupos. bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso).) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos. Guattari. negação etc. a tese de que as organizações são" sistemas de defesa contra a ansiedade". O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te*instituído". subscrevem. inclina-se pela Assembléia Geral Permanente. Contudo. que são as configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões. Métodos como os de Montessori. assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. são acompanhadas de vivências características denom. apesar de a denominação ter sido criada por F. idealização. Lukács etc. modos de intervenção e objetivos últimos. sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação. Impossível resumir aqui suas contribuições. objetivos. Como dispositivo* de intervenção. diversos pedagogos procuraram reformar. à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto especulativo). Esta corrente institucionalista. analisadores históricos e construídos". reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia. uma das mais coerentes e empenhadas. institucionalização. demanda-encargo*. a Análise lnstitucional superou amplamente esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias. Lapassade e R. efeitos" Mulhman. fantasias) no curso do desenvolvimento. depressivas. na qual os não-ditos* institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras.

Basaglia na Itália e E. mais ou me nos radical. ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e Europa. As potências singulares. assim como a Pedagogia Institucional de F Oury. este Movimento. o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados Unidos. Seus máximos representantes – Thomas Szasz e I. atua em 138 ▲ . Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia menos autoritária. Cooper na Inglaterra. em 1978. Goffman nos Estados Unidos. ao nível da aprendizagem. e outros. foram mentores ou participantes do Movimento Institucionalista *. Félix Guattari e R. marxistas e liberais de democratizaçiío (ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. Castel na França. na França. Lapassade e R. Vasquez. que o sistema dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens. e depois generalizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber. ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais. os exemplos anarquistas. são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que não conseguem capturar. Labat. na qual os alunos assumem integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem. M. Entretanto. cuja função prevalente é a reprodução do sistema. econômica e cultural da sociedade moderna. Tais tentativas replicam. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política.Pestalozzi. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade. psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –. substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co-Gestão*). dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico. impulsionou uma profunda revolução nesse campo. F. como contra-instituição. o Capital etc. são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado. levando-as à repetição estéril ou autodestruição. A maioria desses autores. Ronald Laing e D. pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino. serviços ou valores alienados (mercadorias) e incorporá-las à sua lógica. é possível que seja a proposta de G. surgiram as experiências de Makarenko na União Soviética. Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente. Michel Foucault. de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia. A. Generalizando. ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado*estabelecido.) e suas forças são voltadas contra si mesmas. que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro.

demandas. serve à exploração*. As comunidades instituem-se. como também operam com critérios de Verdade e Eficiência. para a outra. Esse saber se acha em geral apagado. soluções e limites. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*. Tal consciência é precondição para seu bom funcionamento. que não só estão em boa medida a serviço das entidades dominantes (Estado. Quando um conjunto instituinte cumpriu todos os seus objetivos. por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*). organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais. apresentando-as como necessárias e benéficas. o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão pora gerenciar sua vida. interpenetração e articulação de orientação conservadora. desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários. de um saber acerca de si mesmos. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. A auto-análise possibilita aos coletivos o conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*. Cada uma dessas entidades opera na outra.). ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade" que se deu. pela outra. a articulação de 139 ▲ . Essas diferenças podem implicar hierarquias. CapitaL Raça ete. deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". AUTOGESTÃO: é. desejos. suas necessidades.conjunto. que são imanentes aos valores de tais entidades. que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. ao mesmo tempo. desde a outra. CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona. dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. decisão e execução. protagonista de um processo transformador. AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação. organizações* e movimentos instituintes* (em outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais. As hierarquias correspondem a diferenças de potência. Todo processo instituinte*organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho. AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos. mas as mesmas não envolvem escalas de poder. assim como alguma especialização nas operações de planejamento. problemas. subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*. Esse entrelaçamento. dominação* e mistificação*.

empresa etc. CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão estratégias *. em especial as instituintes*. classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força produ tiva. táticas * e técnicas * que. As idéias. Quando o aparato de captura e recuperação falha. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola. interrompendo o curso do processo produtivo em um 140 ▲ . CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. fundamentalmente transformando as linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. subversiva ou revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis. mais possibilidades existem de entendimento do campo de intervenção. O campo de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e organizada) de um segmento social. a forma como são gerados seus efeitos etc.suas determinações. Só se intervém quando se compreende. a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar contra eles. dissidentes ou marginais. Tal participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho. Reciprocamente.). desde o qual será compreendido. sendo que posteriormente se compreende à medida que se intervém. Quanto mais amplo o campo de análise. as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva. por mais aparentemente pequeno que este seja. CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos. pensado. Quando o conseguem. as classes e grupos dominantes. procuram detectar. em especial o Estado. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. inibindo ou destruindo as forças produtivas. deverão operar neste âmbito específico para transformá-lo de acordo com as metas propostas. CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido. organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores. o grande Capital. ameaçadores ou francamente perigosos para o instituídoorganizado. mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial. pessoas. Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais teóricos muito heterogêneos. Está em estreita dependência do campo de análise*. por sua vez. dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. as incorporam à lógica acumulativa do Sistema. logísticas *. sindicato. ocultos ou secretos.

subordinadas às forças instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização. lhes confere uma certa coesão e solidariedade. Para a Sociologia Clássica. elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma tarefa. diversifica da. é essencial que as unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes. classe. característica ou atividade compartilhada. gênero. P. raça. CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo. o único motor da mudança nos sujeitos. é fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada. de um estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e. para algumas tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e. J. COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. 141 ▲ . sociedades* e civilizações. apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos. instâncias e mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva. reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*. Todas as forças. à classe subjacente. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade. portanto. idade. CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo). e não apenas mecânica. explorados e mistificados que prestam subserviência. movimentos. sem mnunciar às categorias antes mencionadas. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes corresponde pela classe suprajacente e despossuem.ponto determinado. sexo. relações de subordinação em última instância. ao mesmo tempo. assumida ou não pelos integrantes que. Em geral refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno. valores etc. organizações*. por sua vez. Para o lnstitucionalismo. médio ou grande) que está vinculado por algum traço. categoria. e esta de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. hierarquizada e articulada). tempo. estruturas. Esta peculiaridade pode ser de espécie. e da cristalização ou da resolução de sua dialética * depende o destino produtivo. de uma forma ou de outra. A classe institucional é o segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus integrantes com os menlbros de outros segmentos. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror. lugar.

TECNOCRACIA: optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque. As cópias são sinônimos de "representações". tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de cunho científico). CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo. Essa formulação recolhe. -CRACIAS:ARISTOCRACIA. "encarnada" em um indivíduo ou grupo). sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras. prestígio e 142 ▲ . alude aos filhos naturais dos Papas. Contudo. porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante. exploradores-explorados.) seria uma forma de seleção para cliferenciar as "boas" das "más" cópias. Aqui vale acrescentar a palavra "nepotismo". buro (categoria ou classe que se ocupa da administração.Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. havendo tido. Para o Institucionalismo. entre tantas outras origens teóricas. cuja condição de superioridade está dada por uma linhagem hereditária). até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento institucionalista. os conflitos. A maiêutica socrática consistiria em um procedimento pelo qual. com freqüência supostamente "científica" das organizações). Em sua acepção ampla. espécies (etec. nos tempos míticos. dominadoresdominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. refere-se à designação de parentes de um governante para cargos oficiais. BUROCRACIA. se conseguiria que as almas recuperassem a memória.e te o (alude aos supostos representantes da clivindade ou à divindade mesma. em sentido restrito. LOGOCRAClA. sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras). as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que. que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias baseadas no afeto. para outras correntes. imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos. pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos). com a finalidade de explicitar seu interesse para o Institucionalismo. esta abordagem permitirá resumir a exposição. uma proximidade. Para a interpretação institucionalista desse pensamento. em que nepo. ver Idéias puras*. O método platônico da clivisão em gêneros. SEXOCRACIA. centro-periferia. perderam a semelhança e só conservaram a imagem. e com ela o acesso às Idéias Puras. O sufixo cra cia significa governo de ou poder de: a risto (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade. TEOCRACIA. logo (alude aos possuidores da razão como saber discursivo). esquecendose dessa "queda". eufemisticamente denominados "sobrinhos". Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do Materialismo Histórico e Dialético. sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real. mediante o raciocínio. Os conflitos entre instituinte* – instituído*.

Para o Institucionalismo. Pichon Rivière. As crises são etapas de mudanças para o bem ou para o mal. nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis. contingentes. objetos. extraordinários ete. fase de definição. e a maioria prefere intervir nos momentos críticos. DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade. dos sonhos). Bleger e outros). causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. nos quais. Outros sustentam que são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos. seleção (por exemplo. Esse estado de crise ocorre. procedimento para chegar a um veredicto). das vítimas de um sacrifício). Provavelmente por extensão da noção médica. devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou negativos acidentais. os estados de crise são considerados fecundos. por sua vez. tanto enquanto campo de análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*). circunstanciais. Para certos autores (por exemplo. juízo (por exemplo. melhor ainda se generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. cena de apogeu numa tragédia). o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente. Assim 143 ▲ . segundo alguns. Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. desordem) mais ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou organizacional (provocação institucional). chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização. as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões. a palavra krisissignificava: interpretação (por exemplo. configurando vícios de condução que são. fantasmas) no curso do desenvolvimento-. Alguns institucionalistas. dentro de um andamento relativamente regular. CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada.exemplaridade). Marx). o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza. por caducidade dos mecanismos e recursos vigentes. momento crucial das vicissitudes ou do metabolé(por exemplo. na medida em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da "desordem criadora". posto que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. mas em geral aceleradas e radicais. vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . como Lapassade. enquanto há os que pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo.

pois participa de todo o real. O desejo. Durante esses incessantes ensaios. o desejo é essencial e imanentemente produtivo. depressivas. Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano. gesta-se no seio do Complexo de Édipo. mas estas não são exclusivamente psíquicas. Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação. e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a entrarem nos processos sociais amplos. daí o conceito de produção desejante. sua própria extinção definitiva. metamorfose ou "criação" do novo. que instaura a lei no psiquismo. O Complexo de Castração. Para outras (por exemplo. o desejo. por sua vez. 144 ▲ . das pulsões. Sua essência não é exclusivamente psíquica. o desejo persegue o gozo absoluto. o desejo é imanente à produção. isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. que resulta do encontro entre os corpos (devir). Não tende à morte porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". Em última instância. projeção. no início do desenvolvimento. gera e é gerado no processo mesmo de invenção. que procura restituir um estado arcaico perdido. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real. regulamentos etc. na qual se encontra com a pulsão de morte. o desejo também está parcialmente submetido a entidades repressivas. ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente.). DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a qual não têm conhecimento nem controle voluntário. a Esquizoanálise). econômico. Na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e servir aos objetivos de vida. não carece do objeto. confusionais etc. comunicacional etc. organograma.se fala de ansiedades paranóides. quer dizer. Essa força se origina. ao que Espinoza chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal". e sim um complexo conjunto ao mesmo tempo político. Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa contra a ansiedade*". que carece do objeto real. Assim entendido. e tende à busca do prazer e à evitação do desprazer. se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena").) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e organizacionais (contratos. constitui o desejo. para a Psicanálise. Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência". atua exclusivamente na dramática da vida familiar. prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. com as "quantidades intensivas" em Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo. negação etc. idealização. Descritivamente falando.

se bem impugna e denuncia os defeitos do instituídoorganizado. A proposta e ação desviante podem. mas também conserva o superado). em troca. através de diversos discursos. Karl Marx. contradição e terceiro excluído perdem vigência. eventualmente. Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal Clássica. outras entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera. ilusórias ou aparentes. tornar-se o gérmen de um processo produtivodesejante-revolucionário. Protagonizam. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos enérgica. quer dizer. "geral. 2) Passagem da quantidade à qualidade. que a postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto". sendo as mudanças que se apresentam apenas superficiais. particular" e "singular". A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel.DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos. organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal (quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer. e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. essência de todo o real. mas o atribui à matéria em suas várias qualidades. mas em geral é predominantemente reativa. um desvio ou afastamento da linha condutora hegemônica da organização. Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*). atitudes e comportamentos. DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão presentes em todo saber ocidental. de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético.). O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. postulando. desde a Antiguidade até a época contemporânea. assim. e não ao espírito. pois os princípios de identidade. Outro aspecto importante da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade. cada momento nega o anterior. Opõese a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável. da moral etc. grupos ou tendências que questionam o instituído* – organizado. uma idéia do ser como puro devir no qual retornam exclusivamente as 145 ▲ . o fundador do Materialismo Dialético e Histórico. É um pensamento que concebe a realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação. Como nas leis do devir.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica ou dou trinária). o supera e ao mesmo tempo o conserva. A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação. não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou uma mudança profunda. que pode ser examinada como "universal". devido a sua essência intrinsecamente contraditória.

um apreciável encargo repressivo ou ligeiramente reformista. devido à propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas (extração de mais-valia). As tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização-movimento ou separar-se dele. particularmente de bens materiais e serviços. a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem analisados e intervindos. exige um trabalho. em todas as sociedades da História e especialmente na modernidade industrial. Os processos de trabalho complexos. Determinadas tarefas são consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza. DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas.diferenças (Esquizoanálise*). sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. poder e prestígio. consome força de trabalho. DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma organização ou movimento. confiando em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à autogestão* e à auto-análise * . masculina-feminina etc. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases. DISPOSITIVO: ver Agenciamento. estão diversificados em diferentes tarefas articuladas entre si. DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção. Contudo. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção manualintelectual. que expressam claramente uma falta de vontade instituinte*. Para o Institucionalismo. por sua vez. Coisa similar Ocorre em outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). e este. ou mais ainda. DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise. à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e compreendê-los (ver Análise da Implicação*). do campo-cidade. no Grupalismo e no Institucionalismo a operação pela qual o analista. por diversos meios (dentro de um espectro de 146 ▲ . podem ser atendidas. DOMINAÇÃO: imposição.

ressaltando suas características singulares devido à condição única. Por isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos". Por outra parte.violência que vai desde a sedução até a destruição física). Os instituídos* – organizados* estabelecidos. enquanto esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. por definição. às teorias. jurídica. a Lei do das Valor. Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma. mais ela se torna opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. Contudo.. A dominação é simultaneamente política. da vontade de indivíduos. porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências. estratégias. irrepetível e contingente do fato em questão. o ECRO é muito mais que o até aqui mencionado. em especial o Estado e o grande Capital. ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo". mantêm seus privilégios dominando a vontade coletiva ou majoritária. o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento. grupos ou classes sobre outros. Refere-se. Quanto mais formalizada. táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. Se bem esta afirmação não refute o caráter universal e om niva len te grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo. em primeira instância. rigorosa 147 ▲ . econômica. e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). afetos e outros elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. no Materialismo Histórico). EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável de sua gênese social. semiótica. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. A lista de efeitos que podem ser propostos é. interminável. logísticas. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. experiências. seguindo uma orientação das ciências físicas. a idéia do esquema denota o caráter provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado. Iibidinal ete.

O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção do conhecimento social científico. ou. que careceriam de história. portanto. à concepção de outras modalidades da causalidade. como. por exemplo. 148 ▲ . e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e desenvolvimento (ou seja. Essa constatação pode conduzir a um irracionalismo (ou seja. por oposição às modernas. quer dizer. Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos. que as sociedades chamadas primitivas. sujeito e objeto constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. Quer dizer: geram-se processos de autoanálise* e autogestão* espontâneos e generalizados. Já nas etapas "quentes". erroneamente. quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"). mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos. Alguns antropólogos pretenderam. cada um dos elementos mencionados é um "resultante" do campo que assim se configura. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de imediato todo o apreendido na ação instituinte. em que todo o saber social está em ebulição. a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos).e quantificada aparece uma ciência. do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a organização intervinda. pelo contrário. inspirados por uma profecia libertária. as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por parte dos coletivos do saber acadêmico. Nessas fases. Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem constituída. o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a "naturalização" de seus instituídos*. Nos experimentos da mecânica quântica. quer dizer. seriam "estáticas". e. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber científico". ocorre o contrário: as experiências sociais se multiplicam. assim como outros de agitação. mobilização e grandes transformações. a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a problemática da implicação. Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos. precisar simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. mais satisfaz as exigências cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência.

mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo. sendo que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. especialmente nos políticos. Outros Efeitos: Lefevre. a idéia de emergente tem uma similaridade com a de analisador*. Em nosso entender. refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída quando a mesma está ameaçada. A modalidade do saber dominante durante este processo é a do conhecimento científico. Essa 149 ▲ . que num sentido acadêmico denomina-se disciplina. Einstein. De acordo com o contexto discursivo de que se trate." corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital. método e técnicas. o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente. tem seu próprio objeto. Em uma acepção ampla. O lnstitucionalismo constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos. em um número crescente de especialidades. não-manifestos. ENCARGO: no Institucionalismo*. dissimulados. Reich. Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes. por sua vez. Cada ciência. denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em materialidades diversas: "mentais". pedido. ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e de suas aplicações tecnológicas. sendo que freqüentemente se subdivide. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela. analítico. ignorados ou reprimidos. encomenda etc. Um emergente pode manifestar-se através de um indivíduo. cujo procedimento é.chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados". EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. centro-contra-periferia etc. a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil precisar seu significado. e que comporta uma demanda de bens ou serviços. um grupo ou uma organização. por definição. teoria. que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. por sua vez. sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa. Artaud.

possibilitam o incremento de sua competência e eficiência. Sobretudo se interessa sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e. resultando no aumento espetacular de sua produtividade. em resumo. Mas. assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer (particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). prevalentemente a serviço da exploração. redundam na fragmentação. Os equipamentos podem pertencer ao Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas. Isso levou a deformações tais como o operacionalismo. Por outra parte. revolucionários. popular. montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos técnicos). da loucura etc. a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico. em todas elas. articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*. pretendem resgatar os valores instituintes* e organizantes*. tem a ver com a divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE.). à incapacidade de julgar e conduzir seu andamento. dominação e mistificação. por outra parte. EQUIPAMENTO: conglomerados complexos. os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo. OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo. das contribuições científicas. além de insistirem na crítica global desses efeitos. Podem ser de grande porte (por exemplo. pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. Em termos sociais e epistemológicos. também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes nela). é o que corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. relógios de ponto etc. dispersão e perda da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação". erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. As diversas modalidades do Movimento Inslitucionalista. Essas diferenciações.). corporações).fragmentação do saber. No caso das ciências e disciplinas. consagrou a especificidade – a delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente – como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. impressoras. 150 ▲ . sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de nossa civilização. O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. à medida que reduzem o campo de atuação de cadél agente social. arquivos. ou seja.

demolindo as constrições da parafernália de controle-registro. totalizante. em cujo âmbito as inúmeras revoluções são feitas não apenas por necessidade ou dever. essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos. A essência do real é a "produção desejante". territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à repetição do mesmo. consubstanciais ou inseparáveis uma da outra). Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e tecnológica seria estéril. a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que se originam ao acaso*. mas como ser do devir). Entendida como procedimento para pensar e compreender o real. para essa concepção. ou seja. Uma dessas formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. destinadas a propiciar o livre fluir da . infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas desejantes". psíquica. a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura liberar o processo produtivo-desejante-revolucionário. Mencionaremos apenas que. Nesse sentido. "do Déspota" ou do "Capital-Dinheiro"). podendo-se distinguir nele uma produção de produção. colocada a serviço de uma entidade centralizadora. estão" precedidas" por um campo de materialidades "puras". ecológica etc. mas pelo desejo. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática no livro "O Anti-Edipo" (1972). uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade". Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. tais materialidades são imanentes (quer dizer. puras diferenças intensivas. concentradora e acumulativa. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre. "Análise Nômade" etc. As máquinas desejantes dispõem-se e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". o real é constante e integralmente produzido. a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e outras positivas. tais como "Pragmática Universal". 151 ▲ . cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. Mas a produção de produção de novidades é capturada pelos estratos.produção e do desejo na vida biológica. política. comunicacional. a microfísica e a biologia molecular. Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica". Segundo a entendemos.ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente. e mais ainda. que varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra". O processo produtivo de produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia. A Esquizoanálise também é definida com outras denominações. em qualquer tempo ou lugar.

apresentando-se aparentemente como expressão da vontade majoritária. Seu principal instrumento é o Direito. A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de dominação* e mistificação*. as alternativas viáveis. efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. Existem muitos diferentes tipos de Estado. mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo. corpo estabelecido de leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados. para que a classe recupere a margem real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita.ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos. A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito. mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e legitimação. EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças. O Estado não se compõe apenas de grandes organismos. o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". micropoderes do Estado). coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes. Os sociopsicanalistas decifram e interpretam esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho. os avanços esperados. FANTASMA: para a Psicanálise. do estado de coisas às quais este se relaciona. É uma sistematização das metas a serem alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*). os possíveis retrocessos ete. meios e resultados dos processos produtivos de toda índole. a previsão de curso. em 152 ▲ . que obtém por meio de sua concordância com a Lei. grupos e idiossincrasias dominantes. Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza. Os psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. agente e instrumento de persuasão. Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintesorganizantes dentro do Estado. repressão. reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. e o planejamento da progressão das manobras. ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção. e ainda do significado do que diz. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis si mesma.

Para Guattari. dominação* e mistificação*. Pelo contrário. é um grupo sujeitado. conjunturas. A função apresenta-se às representações e crenças das sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural". lógica e necessária. a serviço das diversas formas históricas da exploração*. têm apenas uma autonomia relativa com respeito aos acontecimentos*. organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram. eterna. invariável. assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos". não se entende nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica. GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e doutriné1s. prevalentemente. Entre seus produtos estão os instituídos*-organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo. Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e de construir a si mesmo durante o processo. É o gerador da diferença. procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*estabelecidos. a burocracia. prescindindo de alguma leitura que os torne inteligíveis. FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). Em todo caso. a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo". tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte. GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver Esquizoanálise*). ideológicas. a afirmação de que a gênese social e teórica são inseparáveis entre si. não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual. procedimentos. e não "individuais" ou "coletivos". da novidade. da invenção e da metamorfose. A rigor. um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos. a tecnocracia. Em conseqüência. filosóficas ou estéticas.). então é um grupo sujeito (protagônico). opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. Do mesmo modo. 153 ▲ .FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos. seus agentes* e práticas*. a belicracia etc. universal. sejam elas científicas. A função está sempre. que se empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade. estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social. opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias.

Assim. raciais.HISTÓRIA: para o Institucionalismo. a História não é a investigação acerca do que já está definido. interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. Existem variados processos. é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado. são seres idênticos a si mesmos. não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). culturais. biológicas. vínculos sexuais etc. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais. consistem apenas numa versão a mais. A rigor. intrigas de corredor. ou seja: rumores. eternos e invariáveis. IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo. configurando-se no aqui e agora do campo grupal. sexuais. assumindo que o fará a partir dos desejos. é uma versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*. Em geral. Delas só se pode predicar sua 154 ▲ . que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes convêm. a horizontalidade designa a dimensão grupal atual. Trata-se da reconstrução dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. quando não exclusivas. HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. mas o conhecimento de processos vigentes no presente. geológicas. existem histórias econômicas. HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos. Por outra parte. para o Institucionalismo. políticas. Na Psico-Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo. etapas. mais importante pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma. a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde às relações e aos processos informais. A História. períodos ou épocas localizáveis geográfica ou cronologicamente. Pode-se tentar articular os diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras. modelos de tudo que existe. mas como o presente ativa e deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. Não existe um processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. aparentenlente claro e acessível. Assim entendida. obsoleto e morto. não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro. o conjunto de elementos que coexistem e operam. as Idéias Puras. tão tendenciosa como qualquer outra. ou seja. cada um transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. geracionais. segundo Platão as concebeu. das classes dominantes e do instituído*-organizado*-estabelecido.

distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. Para algumas correntes do Institucionalismo. Segundo esse sentido. IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações (crenças. Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos ocupam nos sistemas que se representam erroneamente. Todos eles são 155▲ . ou seja.própria essência (por exemplo: a brancura é branca). as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras). à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que são "realizações" de desejos inconscientes. Em geral. e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. expressa a não-separação entre os processos econômicos. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um ideal ou modelo. em uma sociedade"'. IMANÊNCIA: para alguns filósofos. e essa é também uma proposta ética. este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*. valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo. a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com suas condições reais de existência. As Idéias Puras são sinônimos de "ídolos" para alguns autores. os naturais e os desejantes. Enquanto sistemas de representações. A ideologia. enquanto implica a virtude e o bem supremo. culturais (sociais em sentido amplo). ou por forças ativas (por exemplo. a ideologia dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. convicções. definida como oposta à ciência. Para o Institucionalismo. carece de interesse. Opõe-se à transcendência. à procura da Verdade. apenas um saber aproximativo e viciado por erros. Análise Institucional *). que é a visão das Idéias Puras. O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser encaminhado como amor ao saber. Segundo seu matiz político ou ético. por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *). políticos. mas podem ser também disposições para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. denominam-se cosmovisões ou visões do mundo. para outras. Quando configuram sistemas amplos. Em outra direção. constituem as ideologias teóricas. Essas representações estão animadas por vontades e desejos. as das classes dominantes) que produzem.

Superego e ld. a religião. a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego. Para outras. em especial o Complexo de Édipo e o desejo. INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico. refere-se a realidades e processos que não são conscientes.inerentes. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*. e também das instâncias do aparelho jurídico. um resultado: o instituído*. ciência da História. dito em sentido amplo. a Sociopsicanálise). que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento. mecanismos. As 156 ▲ . a infra-estrutura determina a superestrutura*. o que é permitido e o que é indiferente. consumo e desfrute de bens materiais. as relações de parentesco. Para realizar concretamente sua função regulamentadora. e um processo: da institucionalização. normas ou hábitos. a justiça. Segundo seu grau de objetivação e formalização. o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo. denomina-se instância a cada região que compõe o território ou domínio do modo de produção. o dinheiro. Exemplos de instituições são:a linguagem. INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas. intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. troca. o Estado*. Na versão clássica do Materialismo Histórico. quer dizer. especialmente o recalcamento primário. forças e representações. Um conglomerado importante de instituições é. operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*. distribuição. INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico. apropriação. de uma sociedade humana. Essa terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção. denomina-se infraestrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção. da Sociologia e da Economia Política marxistas. por exemplo. É um campo histórico que sofre uma repressão político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social. a divisão social do trabalho*. indicando o que é proibido. as forças armadas etc. processos. O significado psicanalítico designa instâncias. podem estar expressas em leis* (princípios-fundamentos). INCONSCIENTE: em um sentido amplo. Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo. Esse processo é considerado a base material e condição de existência de toda e qualquer sociedade. as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. particularmente na versão de Althusser.

O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. sendo 157 ▲ . diz-se que se fundou uma instituição. o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela. o instituído tem uma tendência a permanecer estático e imutável. Todo esse procedimento parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em táticas. Para que os instituídos sejam eficientes. no seu limite. de acordo com as exigências do devir social. os interesses divergem ou se opõem aos desejos e fantasmas inconscientes. conservando d e ju ri estados já transformados de fa cto tornando-se assim resistente e e conservador. Os interesses caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. Para operar concretamente. a implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*. aspirações. Quando esse efeito foi produzido pela primeira vez. grupos ou classes na atividade social. Em geral. INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído. No transcurso do funcionamento do processo de institucionalização. LEIS: consistem na formalização e explicitação. INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante-revolucionárias que tende a fundar instituições ou a transformá-las. devem permanecer abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. das árvores de valores e decisões que constituem as instituições*. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte*organizante* e.origens das instituições são difíceis de determinar. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados pelas Utopias Ativas*. e freqüentemente se descobre que sua suposta racionalidade não é mais que uma racionalização. em textos e/ou discursos. expectativas e demandas pré-conscientes e conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se apresentam como universais e mais ou menos invariáveis. desejos. Contudo. Pode-se falar de quatro instituições "fundantes" das sociedades humanas (ver sociedade*). o processo de institucionalização deve ser acompanhado de outros organizantes* que se materializam em organizações*. como parte do devir das potências e materialidades sociais. INTERESSE: denomina-se assim às motivações. INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos.

etárias. considera-se marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central. Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros. sinônimo de organizações. Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército. raciais. Os mais característicos são: o autoritário. As massas "estáveis" são. Em outra significação.. legítimo. MASSAS: noção de difícil definição. o termo marginalidade está muito relacionado com a oposição centro-periferia. Freud utilizou o conceito de massa como sinônimo de grande agrupação. Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias leis". que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. e não intradirigidos. LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de condução. espaços físicos.referendadas. são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação. consagrado ou autêntico nos campos correspondentes. de modo plausível. nacionais. geográficos ou abstratos. idiossincrasias (sexuais. denomina-se revolucionário-desejante-produtivo. jurídicas) etc. mas o de um exemplo singular. doutrinas. MARGINALIDADE: por referência a teorias. que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. ideologias. a de classes) se apagam em função de outros parâmetros (por exemplo. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. organizações. são instrumentos formais produtivo-desejante-revolucionários. Seu estatuto não é o de um modelo. designa grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar. econômicas. O Institucionalismo conhece e aplica as leis científicas que lhe são úteis. LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. cujos integrantes carecem de "identidade" própria. refere-se a conjuntos humanos amorfos. o laíssez-faire o democrático. Obviamente. Chama-se "Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo. movimentos. pelo Estado ou a Igreja. o acesso 158▲ . Quando o líder é um autêntico e recurso para o funcionamento instituinte. Avalia-se o que está disponível para contribuir ou para dificultar o trabalho. A logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. Num sentido. por exemplo.

crenças. entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo. A produção de objetos suntuosos. onde. não é um pedido do que manifestamente se solicita. A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória. A necessidade não satisfeita origina uma privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. Já a demanda. mas de "amor" e "reconhecimento". definem-se tais necessidades e se convoca e modula sua demanda. O desejo. as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*. educação. Pode-se considerar os processos de mistificação como sinônimos de produção. sempre visando "o bem comum". Essas decisões e as ações que elas orientam são. Nas sociedades industriais modernas. segundo dizem os experts. A partir da Psicanálise. como. bens de luxo e desperdício dos setores dominantes. o gozo absoluto. costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda. um destino 159 ▲ . Dessa maneira. assim como supõe ter necessidades cuja existência foi produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos. difusão e assimilação de representações. sendo compensável com as respostas que a complementem. "cientificamente" fundadas. MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção. administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*. de máquinas de semiotização de captura e recuperação* . do ponto de vista psicanalítico. São eles os que decidem o que. previdenciário. transporte etc.ao consumo de certos produtos). no que se refere a bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental). a construção de um "Estado beneficente. segundo outra terminologia institucionalista. difusão e assimilação de ideologias regressivas ou. categorizado como "objetos das necessidades básicas". Ou seja. MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades "naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". pede uma impossível restauração narcisística. e com eles. e a simbolização. porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam". que a Psicanálise define como essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. Uma sociedade* tem necessidades que não conhece e não consegue definir como tais. convicções e valores que deformam. O que resta da produção é o que se oferece às comunidades. quanto. tem sido sempre prioritária. e de acordo com a "vontade popular". os experts. em troca.

Nessa ordem. Os dispositivos* e máquinas de guerra nômades. 160 ▲ . Assim configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo.socializável. segundo o acaso* ou uma lógica aleatória). É o lugar das matérias não-formadas e das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. estratégias e táticas de leitura e de intervenção. onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*. Essa superfície está integrada pelo "corpo sem órgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de maneira binária – máquina-fonte-m. da estabilidade. Em outra terminologia. É o campo da regularidade. MOLAR: para a Esquizoanálise*. dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*. da conservação e da reprodução*. enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de registro e controle e a de consumo-consumação. agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o desejo* e a produção*. Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias. técnicas. Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro". estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente libertários. este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção desejante. Algumas correntes institucionalistas questionam radicalmente essa concepção do desejo*. Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. das formas sujeitos e objetos definidos. Igreja etc. as entidades características são os estratos e os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. Nesse espaço constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númenvoluptas). assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem. o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que. métodos. em suas ligações anárquicas locais ou à distância.que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções. resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades molares. entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos processos de auto-análise* e autogestão*. MOLECULAR: para a Esquizoanálise. É o lugar dos códigos. MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências subscrevem alguns objetivos comuns. sobrecódigos e axiomáticas.

a oposição. A Psicanálise. por sua parte. 161 ▲ . Essa omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária. o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como reações em cadeia. ligada a categorias de diferença-repetição.. reação-reformismo-revolução etc. No outro extremo da História. Para algumas comunidades primitivas. "transformacionistas". transferência-resistência. tal como ela se apresenta nos grupos. é tratada segundo as inspirações teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. ou. permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais. organizações e comunidades diante das situações desconhecidas e novas. NÃO-DITO: no Institucionalismo. sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais e pré-sociais. c) afirma que a substância do real é a diferença pura e a produção desejante. o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu nas ciências humanas e na cultura ocidental. a problemática da mudança. para imitar o mundo e o tempo divinos. textos. refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou distorcidas nos discursos. também tem. a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. consciente ou não. ou até extremistas. a questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da compulsão à repetição. Em geral. eternos e invariáveis. devem ser integrais. ou então causas ou efeitos de um desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. Para as diversas correntes do Institucionalismo. A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural-funcionalista insistiram muito na problemática da mudança e da "resistência à mudança". b) sustenta que as mudanças. entre seus temas mais importantes. em todos e cada um dos aspectos da vida. Basicamente. assumida ou não.. atitudes. em um sentido mais amplo. simultaneamente biosociolibidinais. que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias. mas é considerada invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência. para seren1 sólidas. costumes etc. pode-se dizer que. dentro de um espectro de radicalidade crescente. ou seja. comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. da insistência do desejo e dos princípios de constância e inércia.MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) à transformação valores ou diferentes. entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas". Em todo caso. que resulta da natureza conservadora das pulsões. o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se mantivesse exatamente idêntico em organização. e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas.

vão desde um grau complexo organizacional. pois para o Institucionalismo não é possível uma posição clássica de "neutralidade" ou "objetividade". ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*). ao desejo e à vida. É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz no encontro. cronológicos (etc. correspondem às grandes formas molares da superfície de registro. Esse omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*. mas tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se. ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". atitudes. adquirindo uma série de vícios. o não-dito remete predominantemente à ignorância. que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante o processo de institucionalização. mas em geral é reconhecida. da antiprodução* e da morte. Esse processo exige das organizações a abertura para efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). textos. espaciais. inventiva e transformadora que tende à otimização das organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*. exagera-se em torno de sua função. como aos manejos do poder. até um pequeno estabelecimento escolar.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. De acordo com sua dimensão. à má-fé ou à repressão no seio dos discursos. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos. comportamentos. autorizada. grupos. como um ministério. ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica.Contudo. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva. Uma organização* só cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 162 ▲ . o mais conhecido é a burocracia. estrutura e dinâmica dos agentes. OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos. técnicos. E necessário para orientar o funcionamento da entidade. O organizado é ilustrado no esquema do organograma e do fluxograma da organização. OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada. Na terminologia da Esquizoanálise. Assim. vai-se produzir uma nova organização que é o verdadeiro objeto de análise. perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. A oposição pode ser mais ou menos acirrada. legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que a integra. no Institucionalismo. organizações e movimentos.

POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes teóricas e técnicas. come caracteres de personagens teatrais. Em geral. POTÊNCIA: no Institucionalismo. a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente novo. "sabotador". Particularidade e Singularidade. e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição). PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas. execução e benefícios da atividade. PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e grupais em particular. como o de "bode expiatório". provoca. PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na planificação. algumas cujas 163 ▲ . a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver Produção*. PARTICULARIDADE: ver Universalidade. inventar. Desejo* Instituinte*). Quando um agente social abandona o papel este se expressa ou manifesta através de outro participante. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os outros e carece de sentido fora desse vínculo. segundo as circunstâncias. Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente emergentes. criador de vida. Isso não significa maiores modificações de fundo na propriedade. destinados a impor a vontade de um segmento social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. em geral ele se aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente. transformar etc. decisão. mas que se exercita. como "masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). "seguidor". Os papéis são emergentes de configurações estruturais que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes indivíduos-sujeitos-agentes* sociais.organizado*. convoca. mas também em um sentido positivo de orientação: o poder incita. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se possui ou se detém. consciente ou não. ativa etc. na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados. emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de produzir.

tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*. a Advocacia. organizações* e estabelecimentos*. as profissões compreendiam o Sacerdócio. Em um sentido descritivo. PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico esclarecedor e a ação transformadora do real. diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas. É o devir. Apesar do já dito. a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e academias universitárias teve. e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento. expressivo e dramático nos tratamentos clínicos. a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima. a metamorfose. uma dupla natureza – de 164 ▲ .características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal. Para o Institucionalismo. dotado de força de trabalho qualificada. assim como de autonomia e independência relativa. É a permanente geração de tudo que pode logo tender a cristalizar-se. a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. com sua proposta de Transe-Análise. Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de militância. com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à especificidade*. No Institucionalismo. A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação "vocare": chamado de Deus). desde o início. enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às inespecíficas e não-qualificadas. PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue. pode-se mencionar a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich). coordenação de grupos e intervenções organizacionais. gerando um produto específico. técnica. Entre as tendências que o integram. a Medicina e a Carreira Milita. É equivalente ao funcionamento*. é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas determinações que para seus próprios agentes. designa todo processo pelo qual um agente. PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional.: Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio. PRÁTICAS: em um sentido epistemológico. a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por Georges Lapassade. subjetiva e socialmente. É aquilo que processa tudo que existenatural. Em geral utiliza-se o termo "prática" para as ações específicas e qualificadas.

Com a modernidade. Gestaltista) ou à Sociologia (por exemplo. O Institucionalismo insiste no estudo e no desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro. frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado individual ou coletivamente.. Esse título ampliou-se a outros ofícios. consciente ou inconsciente). econômicos e outros. tecnológicos. da "modernidade" hiperespecialista e da suposta independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. produziu-se uma série de mudanças no status de profissional. PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que as classes institucionais regredidas fazem. 165 ▲ . mas se diferencia delas. por um lado. distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica. REPETIÇÃO: em um sentido etimológico. As práticas profissionais. de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder de que dispõem para mudá-as. RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70. ligaram-se ao poder do Estado e ao das empresas. visando o lucro. regiões. entre outras coisas. O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais. de uma maneira ou de outra. (ver Psico-Socioanálise *. "neutro". mercantilizaram-se. mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. Comportamentalista. gratificação. começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos" para referir-se.controle de qualidade dos serviços. Existem várias correntes de Psicologia Social. antes considerados de segunda categoria. poder e prestígio do corporativismo e do academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista. instrumental ou operacional) que elas se atribuem.) PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que. toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). Falase de Recursos Humanos como um dos componentes de um espectro de recursos: físicos. por não reivindicar o caráter científico (ou seja. formando as cúpulas tecno-burocráticoacadêmicas – mas também se degradaram como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização. nações etc . significa voltar a pedir. no campo da Administração. por outro. De maneiras muito variadas (por exemplo. Interacionismo Simbólico). No filosófico. inconscientemente. refere-se à reiteração ou reapresentação de idéias ou de realidades. todas afirmam a constituição. à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao elemento humano nas organizações.

o igualou o mesmo. melhor. na Sociologia e para o Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). ou seja. Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões simbólicas. REPRODUÇÃO: num sentido etimológico. nunca o consegue por completo. e podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. Na Filosofia. demoníacos e inclassificáveis. entendido por relação de negação. culturais e subjetivas. grupo ou movimento. Se bem seja certo que a superfície de registro. os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que não conservam nem a imagem. a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de matizes imaginários e fantasmáticos. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. atitudes.Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o idêntico ou igual. tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso. carecem por completo de identidade. pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 166 ▲ . grafitos ete. tradições. obviamente. procura-se deter os devires. o romance institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização. mas o diferencial. Dessa maneira. produto do acaso. 3) o diferente absoluto. sociais. capturando-o e recuperando-o (ver Captura e Recuperação). Trata-se. mas puro devir. igualou similar ao que já existe. SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo. que é radicalmente transformadora ou motor da História. o instituído*-organizado*-estabelecido. Não são seres. O Institucionalismo sustenta que o que retoma na História não é o idêntico. 2) o diferente. designa as tentativas de reiterar algo idêntico. cumprindo sua função conservadora. tenda a capturar o retorno do diferente para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema. significa cópia ou imitação. Platão os considera falsos. o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. do aleatório e imprevisível. analogia ou semelhança com o idêntico ou o mesmo. nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e. Trata-se de comportamentos. mitos. ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico". de entender o retorno do diferente. Sua "encarnação" mais prototipica estaria nos sofistas. Em conseqüência. realísticas. não interessa tanto estudar as leis que dão conta das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas astronômicos do cosmos ordenado. documentos. ou ainda. acontecimentos e transformações naturais. a diferença absoluta.

167 ▲ . a religião e a divisão técnica e social do trabalho. como o de T Parsons e outros. agentes* e práticas*. fluxos. que são o ser do devir ou processo produtivodesejante-revolucionário. A ação causal conjunta. Define-a como uma rede. estabelecido. Alguns institucionalistas afirmam que as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua. Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo. essa definição está bastante centrada no instituído*. No entanto. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius. que se compõe de diferenças puras. ampliar essa definição. uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição de transformação). Como se vê. complexa. incluindo o instituinte*. organizações*. SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. é a partir da década de 20. sinérgica ou contraditoriamente. francamente críticos. SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da participação causal. Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas. singularidades* intensivas. articulada. É possível. SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*. assim como a passagem da solidariedade mecânica à orgânica.que pertence às formas definidas da superfície de registro. Os objetivos desse enfoque são a racionalização e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações. compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*. instâncias e representações que. estabelecimentos*. sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades. contudo. organizado*. que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*. Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *). hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se denomina sobredetermi nação. Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a indústria. não apenas econômico) reconhece-se uma instância" determinante última" (condição de existência). desloca da e condensada de todas as forças. um tecido de instituições*.como a essência do real. o organizante* e a superfície de produção. respectivamente. As instituições interpenetramse e articulam-se para regular a produção e a reprodução* da vida humana. as relações de parentesco.

) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera". Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento psicofamiliar. Segundo Mendel. visa facilitar os mecanismos culturais. necessitando dos cuidados de um outro para ter sua sobrevivência garantida). assim. devido à sua série disposicional pessoal. Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra. no qual os sujeitos viven.como os de W Mills e W H. avaliação e comportamentos transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. cuja viabilidade é considerável. uma vida preferencialmente imaginária. Segundo a denúncia institucionalista. particularmente uma de suas modalidades. onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor compreendidas. diminuir os insumos. Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de que. do resultado do trabalho. a Sociologia das Organizações. comunicacionais e motivacionais (do conjunto empresarial e dos grupos que o integram. Foi fundada e desenvolvida por Gérard Mendel. Mendel articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce. O resultado é uma abordagem politicamente moderada. A 168 ▲ . a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). Whyte. quando se abordam os coletivos. a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza. aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários. pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado (ver Alienação*) no Capitalismo. conseguindo. sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. bastante ortodoxa. denomina-se assim à percepção. um processo regressivo de ordem coletiva. que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos patológicos é o local de trabalho. em vez de principalmente simbólica (correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. do Materialismo Histórico. trabalhadores. do poder e prestígio. A Sociopsicanálise sustenta que. num sentido coletivo. SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise. Essa experiência de limitação gera neles. denominada Desenvolvimento Organizacional.

e pressupõe um movimento de cada classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de trabalho alienado. Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer sociedade. lugar e conjuntura.situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram. Com isso. autoritarismo. invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". ubíqua e universal do sujeito filosófico. com Lênin. SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 169 ▲ . que vão res ultar em sintomas (atuações. esses quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar. Inclusive. como "enfermidades infantis do trabalho": voluntarismo. o que os levará a vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia. sujeitada e submetida. o coletivo institucional também passará a funcionar nesse registro. próprios de cada momento. classe social. a montagem de dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e. principalmente a interpretação. somatizações. e geram sujeitos singulares nas margens de cada acontecimento*. buscando soluções mágicas. clie. inibições. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os levava a se refugiar num mundo de fantasias. produtiva. desejante. momento histórico. contraproducentes. raça ete. STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. junto com eles. messianismo. infinitos e heterogêneos processos de produção de subjetivação livre. os modos de subjetivação que os mesmos precisam. delírios. revolucionária. fisiologismo ete. No plano da militância. SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*. povoada por figuras fantasmáticas de sua vida familiar.ntelismo. por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme. toxicodependências). sim. Trata-se da condição obtida por um papel dentro de uma sistematização hierarquizada dos mesmos. Esses são absolutamente contingentes. Mas a cura não é definida em termos individuais. o modelo científico que temos no Ocidente como universal. em todo tipo de patologia biopsico-social. e sim coletivos. enfim. social ou psíquico. A metodologia de intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica. Há. populismo. para algumas orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável. através da análise e da intervenção. O lnstitucionalismo pretende propiciar.

TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. sensibiliza dores. sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição.) a serem adotados de acordo com as circunstâncias. Na versão clássica do Materialismo Histórico. difusão e assimilação de representações e valores ideológicos. O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. por exemplo). Os processos superestruturais operam a reprodução ampliada do modo de produção. a superestrutura reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura. assim como de produção. Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe. com propósitos diagnósticos e elaborativos. discursivos. coletivos etc.psicológicas (entre elas. do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento e peculiaridades do coletivo em questão. O que existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou similares. SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico. grupais. ciência da História. TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros. Trata-se de procedimentos (interpretativos. Quimbanda e Candomblé. interrelacionais. não existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento. artísticos. É o momento de seleção de recursos a serem empregados na etapa imediata. remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. 170 ▲ . Para outros Institucionalistas. desportivos. a Psicanálise). reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do psiquismo). TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*. transformação. da Sociologia e da Economia Política Marxistas. na instância jurídicopolítica é onde se processam os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente. tais como: Umbanda. Algumas correntes institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise. Sua escolha é consideravelmente livre e dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora. lúdicos. expressivos. informativos. conteúdo ou estilo. Posteriormente. segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*organizado*-estabelecido. Por ou tra parte. denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídicopolíticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos. composição.

gerando efeitos à distância sem transmissores detectáveis. entrelaçamento. PARTICULARIDADE. que é imanente à rede social das forças produtivo-desejantesinstituintes-organizantes. fantasmas. deflagram efeitos transversais inventivos e libertários. como por exemplo a Esquizoanálise. uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras bastante modificadas. os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos. e. desejos. que propõe a autogestão* ou a gestão participativa dentro de cada estabelecimento. Em geral. Lacan. estereótipos gestionários. estruturas e até complexos destinos organizacionais. o que se repete substancialmente é o diferente. em conseqüência. papéis. tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas. TRANSVERSALIDADE: interpenetração. No Institucionalismo. segundo a corrente de que se trate. Para essa orientação.as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais. Como montagens. Certas correntes do lnstitucionalismo. a idéia de transferência pode ter. mas como motor das transformações. A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas organizações*. códigos. TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein. o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos particulares e singulares de seu objeto. a partir de conexões locais. demandas. O que se repete são pulsões. considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e os variados aspectos da vida institucional como um todo. elaboraram uma profunda reflexão filosófica sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. pré-conscientes e inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva". entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes. UNIVERSALIDADE. existiria uma transferência que não funciona como resistência ou obstáculo. A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis. É uma travessia molecular dos estratos molares. Reich e outros). Contudo. é importante 171 ▲ . no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem membranas celulares nem limites externos precisos). GENERALIDADE. hábitos comunicacionais. territórios. SINGULARIDADE: no que interessa ao Institucionalismo. No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional.

Supõe-se que a intervenção no caso singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e no saber dos coletivos institucionais. Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal. O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da generalidade. do tipo dos que são 172 ▲ . consome. usufrui de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". USUÁRIO: no lnstitucionalismo. entende-se por usuário quem demanda. a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas). Segundo entendemos a proposta de R.diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto. O momento da generalidade compreende a caracterização de um atributo abstrato da universalidade. No caso de uma intervenção institucional standard. a Análise Institucional estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos. mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. as línguas indo-européias). vazio. cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro momentos: a universalidade abs trata (por exemplo. Um juízo ou um conceito universal abstrato é. Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo. em certa medida. Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica. na medida em que se refere a um objeto único. possui. por um falante/ouvinte desse dialeto). assim como contribuiria para a reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já estava compreendido no conceito universal. UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais em seus aspectos instituintes*-organizantes*. é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). personalizado ou anônimo. dessa maneira possibilitaria sua desalienação. a singularidade (por exemplo. um puro produto do pensamento. Lourau. enquanto cada um deles se define por sua afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. máximo nível de determinação atingível. adquire. freqüentemente designa-se o conjunto dos usuários como "staff-cliente". tal dialeto napolitano e seu uso concreto. a particularidade (por exemplo. Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais do particular e do singular. O momento da singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. se apropria. Pode-se sustentar que nega de uma só vez a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade.

cronos. e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica". o processo produtivodesejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. a verticalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde ao organograma formal. sem dúvida alguma. em outubro de 1995. Obviamente. obviamente a partir de suas próprias convicções. Neste final de milênio vivemos.expressando isso de uma forma clássica. avaliar acertos e desacertos do primeiro texto. para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a quinta edição. Primeira Parte O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados. Desde já. Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins e meios. desta forma. Optei por reproduzi-lo quase sem alterações. a individuação de um real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo grupal. umepospeculiar. quer dizer: cargos. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo. a existência de uma composição sui generis e não é exclusiva da nossa fase. Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná-lo com a biografia do autor. sendo que cada período histórico tem. contudo me parece que tem o direito de tentar. Parece-me interessante que o leitor possa. relacionado-o com o segundo. VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. ou seja.enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos"). como se 174 ▲ . este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência. funções etc. mas também à importância de marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento. hierarquias. pathos. topos. 173 ▲ APÊNDICE O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro. lagostelos. composto dos seus próprios ethos.

e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos indiretos. cultural. Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado". 175 ▲ . porém. serviços. desde o local até o mundial. regionais. ou "Pós-Modernas". e porque não. de comunicação. detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por "passado". Costuma-se declarar. ditatoriais. cabem – devidamente redefinidos – termos mais ou menos "na moda". "pensamento". "presente". nacionais. tais como "Globalização".utomatizadas". de idade. como aplicação teórica de um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento. Nessa designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do Capitalismo". evidentemente. a sua. – Esse incremento inclui bens materiais.sabe. constatar. Uma análise detalhada dessas categorias seria. "movimento". de circulação. ou "lnformatizadas". "cultura". "Sociedades Pós-Industriais". sexuais. assim. que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a atualidade tem havido. "troca". raciais. possibilitando. o mesmo tendo se realizado em todos os campos e níveis. no lugar da predisposição ao uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. representativos e eleitorais. um crescimento enorme da "Riqueza" – entendida como meios de produção. tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições democráticas. – Nesse mesmo lapso. tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil. judiciais. de distribuição. incorporais. "Transnacionalização". Isso propiciou uma inclinação ao predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos. e que esse aumento qualitativo e quantitativo resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados. "Multitudinárias" e assim por diante. excessiva neste escrito. sendo que. geográficas. ou 'A. o Estado de Direito. "espaço". autoritários e outros. Conformarei-me apenas em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. integrado por uma função axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. gerou-se uma tendência ao desmoronamento de regimes políticos totalitários. ou "Hipermodernas". de situação econômica. "Pós-Classes" e "Pós-Massas". legislativas e executivas. "todo". "partes". de troca e de consumo. de certa forma. pelo menos formalmente. os Direitos Civis e os Direitos Humanos. – Como causa e efeito dessas transformações. "permanência". tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de idiossincrasias minoritárias. de culto. em setores localizados do mundo. tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari. política. "valores". onde vige. Também cada" civilização".

– As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização – diminuição. democratização. agentes. à justiça e à competição sadia. imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí generís. Isso significou a vigilância e ingerência sobre tais poderes. usuários. baratização. desejos. 176 ▲ . transitórias e circunstanciais. podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas" adversas. incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo. "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista".lógicas e âmbitos. interesses e açôes contrários a esses desígnios. persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo. diversos "estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas. funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde.– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção. justiça e ordem pública. de formas arcaicas. não somente em quantidade como também em amplitude. que tendem a realizar-se de forma gradual. estruturas. assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional.porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei. empresas livres e outros-. compactuação. tais como fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação. No campo do social. todavia não superadas. esses processos não são universais nem suficien temente implantados. Todos esses indicadores de "evolução". Por isso. exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil. os Socialismos Reformistas. limitação. modernização das estruturas. Esses setores a dificultam devido a vocação. resistem em adotar os princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados. e ainda hoje continuam trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. as Sociais-Democracias e ou tros similares. assim como pelo culto à liberdade. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente fracasso de todos os ensaio de "Comunismo". que são oportunamente subsanáveis. – Desde já. assim como determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que. essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduossujeitos-agentes-produtoresconsumidores-usuários conscientes. e nem aperfeiçoados. consumidores. em todos e em cada um dos processos. "Socialismo Real". cultural e subjetivo. economia de mercado. planejamento e execução. eficientização. toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência. crescente e incessante. por diversas razões." em vias de desenvolvimento e de crítica". educação. – Obviamente. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis.

incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante. ou bem os despreza. apesar de não ser a culminância. O mais grave desta "realidade". O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos. como se fosse uma "novidade recémdescoberta". é a sólida confirmação de que os modos de produção. a meu ver. uma série de impressões que. ou é repetida. Em primeiro lugar. não se pode evitar a sensação de que. Em terceiro lugar. vale a pena repassar. os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos triunfadores. senão a única alternativa possível para a consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. Está claro que existem inúmeras versões a respeito que. uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade. demonstram ser a "menos pior". uma maneira de descrever. Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostumase a experimentar. pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato" que se pinta dela. Em segundo lugar. ou os cita apenas nas passagens em que supõe poder refutá-las. vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto. isto é. não servem para nada. à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo agora. de acordo com esta leitura do panorama mundial. da qual estas "impressões" são um 177 ▲ . comportando-se como se acreditasse que "na prática todas essas teorias são outra coisa". de forma esquemática e prototípica – e faço votos para que não tenha sido irônica –. de forma parcial ou distorcida. isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos. são tratados como se fossem inexistentes ou irrelevantes. mesmo frágeis e freqüentemente precários. entender e avaliar o panorama munclial contemporâneo. não deixam de conduzir a conclusões parecidas. apesar de muito mais sofisticadas e matizadas.Esse andamento. ou funcionam somente dependendo do uso peculiar que se decide fazer delas. os regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado. Estes. Segunda Parte O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor. frente ao quadro que acabamos de delinear.

desprezo e exclusão mais ou menos sutis. mesmo se empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições. refinamento e desacordo que. desavisadamente. A colossal. Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter que suportar a atribuição do status e papel de "catastrófilos". ou simplesmente cidadãos que resolvem falar. signos. é sabido e constatado que aqueles pensadores militantes. de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –. conceitos. vai desde a eliminação física e a tortura até a reclusão ou o exílio – mas também tornarse passíveis de inúmeras modalidades de desqualificação. a não ser aquelas que consistem em um aperfeiçoamento do conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde. heterogênea e onipresente maquinária que gera esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possívele os "estilos de vida" e "de morte" que lhe são conseqüentes. conceitos." catastrólogos". é que a versão que relatamos anteriormente – que. os conhecedores dos processos de construção e difusão "ideológica". Boa parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumidaresulta não só da estupidez e de necessidades. conseguem apenas dissimular sua sistemática 178 ▲ .não apenas podem sofrer as mesmas ações repressivas de seus antecessores de todas as épocas – que. Sociologia. por outro lado. ou como" delirantes adoradores "de um cataclismo imaginário e inexorável. Em quarto lugar. Em alguns campos do saber e da vida notoriamente na Economia. acabam por compartilhar. muitas das suas categorias. se avalia e se procede frente ao estado contemporâneo das coisas. categorias. ou como" especialistas com falso prestígio". Em verdade. não existem reais alternativas para a situação imperante. longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência. mas também da difundida convicção de que. A sentença mais draconiana é que "são inaptos para oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos". escrever. planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo. Psicologia e Política – as declarações. rótulos esses que servem para etiquetá-los como "amantes ou cultores" mórbidos.registro. procedimentos e resultados. funções. agir e coerentemente viver de acordo com uma inteligência crítica e segundo alguma dessas propostas questionadoras supostamente inexistentes. analisadores ou idéias com os quais se pensa. desejos e interesses do pensamento crítico. sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade. dependendo do país onde atuam. indicadores. falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial. tudo depende de como se define cada um dos termos: noções. "a rigor". "catastrofistas". obscuridade.

Porque. Muitos autores enfatizaram a velocidade do processo que o incremento das mais diversas potências adquiriu nos últimos vinte anos: a mesma é tão vertiginosa que resulta muito maior que a conseguida nos recentemente passados duzentos anos. e "todo mundo" parece ter acesso aos mesmos. Há hoje levantamentos estatísticos acerca de "tudo". por exemplo consiste em cotejar o que o Capitalismo veio a ganhar com os desmandoó do Socialismo Real. mas segundo o meu entendimento. assim a valorizações complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão. se por um lado – como veremos mais adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas são tragicamente ostensivos outros são confusos.inoperância. tão velha como o próprio mundo. – Dois bilhões de pessoas do globo terrestre subsistem em um estado que contempla apenas racionalmente o que – de maneira muito controvertida – denomina-se "satisfação de suas necessidades básicas". O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono. tornariam estas linhas intoleravelmente difíceis de serem escritas e lidas. delicados e contraditórios. Essa questão de "otimismo" versus "pessimismo" é. em todos ou em algum dos aspectos da existência. pelo menos um bilhão vive em um estado que a Organização Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta. É uma brevíssima avaliação dessa natureza que me proponho intentar. o assunto consiste no confronto entre o que poderíamos fazer e o que realmente fazemos. a seguir. nossos tempos. o problema corretamente posto reside em perguntar o que se conseguiu exatamente com essas disponibilidades. que na Idade Média.a errônea O problema não consiste em puxar conclusões sobre se o mundo de hoje é melhor ou pior. tantc no passado como nas circunstâncias presentes. Prestam-se. 179▲ . ambíguos. Tampouco. não costumam coincidir uns com os outros. são poucos os resultados que podem ser considerados confiáveis. quantitativa e qualitativamente. outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria Relativa e ou Pobreza. Frente a essa formidável escalada. As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que: – Dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra. e os números que verdadeiramente interessam para tomar posição definitiva acerca das questões mais cruciais são considerados sigilosos e mantidos em secreto. não citarei muitos dados estatísticos que. evidentemente. com respeito às estatísticas. Para examinar os aspectos mais relevantes dessa comparação. se bem necessários e ilustrativos. mostram uma peculiaridade surpreendente. Trata-se de comparar o desenvolvimento potencial e efetivo de todos os tipos de forças produtivas de uma época com as realizações abstratas ou concretas alcançadas durante a mesma. Dito de outra maneira. Por outro lado. é abordada de fom. Contudo.

exceção de impostos. CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão. apesar de serem os principais assentos de opulência mundial. Canadá. idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo-coloniais clássicas dessas mesmas nações.ente todo o continente africano e. Neste momento. – O aparente crescimento econômico das chamadas "economias emergentes" – apesar dos casos serem diferentes e complexos – em geral é fraco e instável. de maneira muito peculiar. Oriente Médio e América Latina. religioso. remessas de lucros. de forma menos espetacular. Vietnã. – A distribuição da miséria absoluta e relativa. a Índia. "dependentes" – apresentam-se cada vez mais empobrecidos. apresentam marcados desníveis e reconhecem que estão ameaçados pela possibilidade de graves crises de diversos tipos.. racial e outros. Surpreendentemente – como todos estão cansados de saber – a criminalidade. "em vias de desenvolvimento". que resultaram no fim da Guerra Fria. Ela se encontra – desigualmente. sem direito laborais e sociais. Devido às diferentes gestões internacionais. Coréia do Sul. – Até pouco tempo atrás. supostamente. seja na extração irrecuperável de matérias-primas e energéticas. assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques. o incremento da riqueza nesses "capitalismos nacionais tardios" mostra uma distribuição desigual do benefício. cujo foco principal é a defesa da propriedade privada e da pessoa dos proprietários. – Os indicadores mundiais de desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas ao acelerado processo de substituição da força humana de trabalho pela automação. limítrofe. prejudica inapelavelm.– Dos quinhentos milhões restantes.. só vem aumentando. ou ainda nas condições contratuais leoninas dos acordos de exploração. Além de tudo isso. 30% (trinta por cento) possuem 70% (setenta por cento) de qualquer tipo de riqueza disponível no planeta. se houve aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance. o número reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico cuja capacidade era mil vezes superior àquela necessária para destruir qualquer indício de vida sobre a face da terra. mas também à tendência ao esgotamento dos mercados externos e internos. a cada ano duplicam-se os equipamentos militares e policiais destinados. ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a 180 ▲ . tanto na atualidade como no futuro próximo. Malásia. Indonésia. salvo exceções locais. continua-se discutindo. porém. civil. – Os grandes blocos dos países ricos – EUA. – Os Estados Nacionais – tanto os "democráticos" como os "autoritários". mas estrondosamente – em 95% dos países. particularmente os dos países chamados" periféricos". nos seus respectivos bolsões internos de pobreza. à manutenção da ordem constituída e à segurança pública. à qual me referia acima. o arsenal de armas atômicas foi reduzido. a China Comunista) –. Taiwan e. estão em andamento quase cem guerras de tipo internacional. e está baseado seja na venda da força de trabalho baratíssima e informal.

ao roubo. ao seqüestro. saneamento básico e segurança pública. a distribuição da renda é muito mais desigual. É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"? 181▲ . porém. o comércio de crianças e de órgãos humanos.sua subordinação aos onipotentes organismos econômicos internacionais. ao jogo ilegal. relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas. policiais. de proteção e outros. – Certo incremento do acesso de setores mais an1plos da população a alguns produtos e serviços – devido à hiperprodução e ao barateamento da produção massificada dos mesmos – deve ser entendido como um resultado muito mais atribuível ao poderio tecnológico dos parques industriais que ao efeito da ascensão econômica de tais segmentos populares. carcerários e assim por diante. moradia. à prostituição. a total falência dos aparelhos judiciários. Isso pela necessidade do Capitalismo de incorporar à produção e ao mercado ganancioso todas as atividades possíveis para compensar a tendência de queda da taxa de extração da maisvalia resultante das causas acima apontadas. mas exponencial. eleitoreira demagógica. As chamadas genericamente "máfias". à falsificação e assassinato por encomenda. e sim do espetacular e barato progresso da técnica imunológica. tal é seu grau de interferência no comércio de influência. a política tributária é ridiculamente favorável às grandes fortunas e a política fiscal é incompetente. têm adquirido tal poder financeiro que parecem estar integrando formalmente os processos econômicos e políticos. corporativo-burocrática. a sinistra questão dos fundamentalismos. A lógica dessa melhora é parecida com aquela responsável por certa diminuição dos índices de morbimortalidade: não se trata de um aperfeiçoamento amplo e consistente de saúde popular. que não é nada mais que um apêndice. do terrorismo sectário ou de Estado. terei que parar por aqui. É de se supor o que ocorre quando esses países são afetados pelo declínio próprio da transnacionalização-privatização. torna-se gravíssimo nos países "periféricos" por razões óbvias: as necessidades de serviços infra-estruturais como os de educação. resultante de uma sólida elevação das condições de vida e de atenção médica integral. corrupta. o poder econômico dos lobbies locais sobre os governos é enorme. Esse problema. Para não carregar demasiadamente este texto. seguro-desemprego. saúde. particularmente da organizada-empresarial – está se tornando não geométrica. – O aumento da criminalidade. são infinitamente maiores que nos países centrais. A decadência mundial do Estado de Bem Estar – causada fundamentalmente pela limitação orçamentária imposta à política tributária pelo Capital também obedece à privatização crescente de sua funções. ao contrabando. limitando-me a mencionar problemas tais como a nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos.

Esses grandes trataram.Terceira Parte Esse tema do "otimismo" versus "pessimismo" está intimamente relacionado com o outro. Uma nova definição de maquinária como conjunto difuso. semi-aleatório de "peças" variáveis. quatro grandes "continentes" ou "territórios". heterólogo. Quando se afirma que o Capitalismo Planetário Integrado – a "Globalização" e a internacionalização mundial do Capitalismo em sua Fase Superior – é resultado do "desenvolvimento". mais relacionados à produção e à consumação. digamos. algum possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim. da Subjetividade e da Maquinária. como desejaria. dá andamento a quatro processos: de Produção da Produção. em cada formação histórica. no mínimo. Cada formação histórica caracteriza-se pela modalidade com a qual. do "progresso". nenhum é causa última nem efeito exclusivo do outro. Nenhum deles é prescindível. apesar de que. todosos termos que utilizarei. heteromórfico. de Produção de Reprodução. Cada formação histórica compreende. os territórios citados e os processos que os" animam" estão intimamente interpenetrados entre si. Em cada formação histórica. cada um a seu modo. semi-determinado. devo avisar. o mínimo que se pode fazer é analisar o significado exato dessas palavras. de gestar. administrar e destruir tudo o que compõe a realidade. o do "velho" e do "novo" que mencionei anteriormente e que poderíamos reformular e ampliar do seguinte modoapesar de que. seja como for que ela se defina. uma formação histórica que pode ser entendida como 182 ▲ . não poderei definir detalhadamente neste âmbito. é parte da questão do "velho" e do "novo". em si mesma. da "evolução" do Capitalismo. de periodizar as formações históricas. porém. de Produção de Antiprodução e de Produção de Demanda-Consumo e Consumação. nos vimos na obrigação de expor esta descrição como se fosse uma premissa. em movimento transformador contínuo. externamente aberto e internamente heterogêneo. distribuídos em superfícies (vide Nota 1): da Natureza. à medida que já foi antecipada quase exaustivamente por vários dos colossais pensadores do século passado e que. e isso implica que são parcialmente diferenciados. da Sociedade. em cada um de seus territórios e em todos eles. aclarar que esta análise. É preciso. devido a um laborioso esquecimento de seus detalhes. A modalidade e a prevalência de cada um desses processos em cada um desses territórios-superfícies determina as peculiaridades das funções. mais ligadas à reprodução e a antiprodução. auto-producente. e dos funcionamentos. dispersas e "oniconectáveis" – ou seja. de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico. explicando como cada uma delas era e é – à medida que as mesmas subsistem no panorama atual – um modo sui generis. e também imanentes.

conseguem inventar. Limitarei-me. Espero ser mais explícito agora sobre porque devemos comparar nossa formação histórica atual – a primeira que está em vias de conseguir uma hegemonia mundial quase absoluta – não com as outras. as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam. o procedimento e a interpretação dos resultados da comparação – de forma a fazer uma avaliação – de uma formação histórica com outra são. não se nossos terríveis índices de exploração. Sendo assim. isto é: com os índices de exploração. ou quanto e como as investe na reprodução ou antiprodução que geram as atrocidades dos referidos índices. por exemplo. sem ignorar que. a realização de blocos de nações ricas. cibernéticas etc. Maquínica. detectar e criticar esses índices. sem dúvida alguma. de sua "Totalidade" ou Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução e da Antiprodução podem manifestar-se através de inumeráveis índices ou indicadores. conhecimento e valores que. seja nas modalidades das máquinas elétricas ou eletrônicas. definir. seus tipos de exploração. bem "menos atrozes" que os nossos. quanto deixa de fazer com elas. que os do Feudalismo. Considerando o que foi exposto. porém. mas se dadas as incalculáveis forças que a humanidade dispõe. Dito de outra maneira. a qualidade de vida dos países nórdicos e outros. dominação e mistificação são. o que significam "Progresso". Dadas as características das funções e do funcionam de cada formação histórica – ou seja. trata-se de julgar. mesmo prevalecendo os coletados no território da sociedade. mas com as potências de produção que detêm. dominação e mistificação são melhores ou piores. Isso precisa ser dito. dominação e mistificação lhes são próprios. a mencionar três fenômenos: os graus e tipos qualitativos e quantitativos de exploração. Obviamente. dado que os indicadores medidos como resultado da aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são 183 ▲ . por exemplo. Isso é diferente de dizer "mecânica" ou "automática". Se não procedermos dessa forma. isto é. outro indicador do tipo de formação histórica que assim o faz. cada formação histórica possui também os recursos próprios de pensamento. assim como com o grau de reprodução e anti-produção que as investem. a falsa generalização de algumas melhoras localizadas – por exemplo. Nestes indicadores. dominação e mistificação que lhes são próprios. também importam as relações dos mesmos com os campos da natureza. saber. a seu modo. "Evolução" e "Desenvolvimento" enquanto valores definidos pelo Capitalismo triunfante? Por um lado. Repassando o panorama descrito na segunda parte deste apêndice. cairemos exatamente em um dos mecanismos de mistificação que são especiais da nossa formação histórica. da subjetividade e da maquinária. os de algumas formações primitivas tribais – cujas forças produtivas são ínfimas –. por sua vez. a decisão. se comparamos alguns dos nossos indicadores com.uma Megamáquina.

Esse Equivalente Geral. de dinheiro-moeda ou "letras" de diferentes naturezas. um erro. como títulos de propriedade. O Equivalente Geral. ou que são citados como "insuficientes" ou "já superados". é possível falar também de Capital de Poder. As modalidades clássicas do Capital são o Capital Latifundiário. um sofisma. Trata-se de uma auto-convalidação da Lógica do Capital. O Capitalismo. apropriação. apesar da crítica. a Axiomática do Capital – que pode se expressar através de quantidades abstratas. bônus. continua sendo um recurso necessário para sua permanência. "realista". no mais amplo sentido já definido – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada. a afirmação de que o Capitalismo é o modo. Entre as principais forças-formas dessa produção está a força-forma do Trabalho "Humano" – entendendo como tal aquele composto por energias 184 ▲ . acumulação e centralização de inumeráveis forças-formas de produção não pagas.deploráveis. Fraternidade" – não é apenas uma mentira. "evolução" e "desenvolvimento" estão longe de tornarem-se efetivos. ou que são enunciados – prévia deformação – como "novidades" funcionais para essa leitura "otimista". "moderna". "animadora" hierarquizadora. tais índices mundiais são. organizadora. Essa integral é denominada Equivalente Geral Dinheiro. de Semiotização. torna-se a medida para a qual deve ser traduzido o resultado da extração. Reprodução e Antiprodução (assim como seus estilos" de vida" e" de morte") – tal como foi anunciado na famosa fórmula da Revolução Francesa e do Iluminismo. porém. julgados segundo a potencialidade produtiva intrínseca ao Capitalismo. e até de Beleza – Dominação e Mistificação. limitante e destruidora do "todo" da realidade. o Industrial e o Financeiro. Igualdade. que se acumula como inumeráveis forças produtivas não retribuídas. sem dúvida. subalternamente. apesar do cinismo peculiar do sistema de representações dessa fórmula mundial. Ou seja. estrictu sensué um modo de produção-reprodução-antiprodução-consumação da realidade – dito . ações. de Saber. imanente a "todos" e a cada um dos campos ou territórios antes citados que. Por conseqüência. um equívoco. de Desejo – Consciente e Inconsciente –. sistema. uma série desses conhecimentos do século X IX – produzidos por autores de diferentes orientações – que parecem ter sido "esquecidos". supostamente geradora. "Liberdade. por exemplo. cédulas ou registros informáticos – é uma medida arbitrária de valor. muito elementarmente. isso significa que nosso " progresso". cataclísmicos. Cabe apenas mencionar agora. o Capitalismo ainda precisa mentir. uma racionalização ou um delírio megalomaníaco. da Esquizoanálise à importância da ideologia ou das ridículas afirmações acerca de seu " final". Por outro lado. regime que "melhor" está protagonizando a realização gradual de uma certa maneira de gerar e relacionar Produção.

As condições fundamentais que possibilitam a produção. ou seja. troca.físico-químicas. isto é. Era costume atribuir aos limites externos a existência de mercados solventes. Os limites internos costumavam ser reduzidos à existência da força de trabalho disponível. Por exemplo: as primárias. distlibuição. Essas contradições são tanto produtoras do crescimento produtivo e cumulativo e da reprodução das condições restritas e amplas da existência do Capital quanto demarcadoras de seus tetos classicamente denominados limites internos e externos – e de sua subsistência. produção de mercado. é a conversão crescente de tais produtos em mercadorias bens de troca. sociais. como as que ocorrem na competição entre as diversas modalidades do Capital. de maneira sumamente variada. apropriação. subjetivas – que deve ser "forçada". podem haver crises provoca das. Entre as variadas situações nas quais essas contradições transformam-se em aporias e conduzem à celebre crise do Capitalismo. de compradores suficientes de mercadorias. pois as lutas operárias 185 ▲ . que se estabelecem entre o desenvolvimento das forças produtivas de todo tipo e as relações de produção de toda espécie. a submeter-se à citada equivalência e a sua valorização e remuneração parcialmente não paga – Dominação e Mistificação – pela força física ou por modalidades de subjetividade. empreendimento. operações de troca mediadas pelo dinheiro. comprável e vendável através do Capital chamado variável. deve ser acrescentado ao Capital fixo e ao variável o que podelíamos chamar de gastos com a produção de necessidade de demandas de consumo e fruição propriamente ditos. biológicas. energéticos e territoriais. que perdem assim seu poder aquisitivo. possessão. Porém. consumo e fruição dos produtos de toda espécie. o qual habitualmente era tido como sinônimo da existência de trabalhadores vivos e produtivos. e as secundárias. O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado – está constituído por contradições famosas que lhe são essenciais. semiotização e outras. além dos gastos da reprodução ampliada – manutenção das condições jurídico-político-subjetivolibidinais do Capitalismo. as mais conhecidas são aquelas que resultam das hiperproduções – excesso de mercadorias que se barateiam "excessivamente" e não compensam as inversões – ou do esgotamento relativo dos mercados. enquanto interessam por seu valor de compra-venda. de matérias-primas e manutenção e aperfeiçoamento dos meios de produção propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo. cujo protagonista principal é o Estado –. e só secundariamente pelo seu valor de uso-satisfação – pois se o processo de capitalização realiza-se em cada passo desse circuito. O Capital variável inclui também os insumos produtivos: gastos de crédito de dinheiro-mercadoria. dependendo do ramo de produção tratado. isto é. cada um deles está informado pelo circuito de compra-venda. Concomitantemente. psíquicas. ou seja.

senão em um número real.e camponesas questionam a propriedade das diversas formas de Capital fixo. A inflação é mais um exemplo de fenômeno provocado: se. o resultado de cada crise é uma redistribuição de riquezas. Nisso participa. não podendo ampliar detalhadamente este ponto. mas. enfim. renda e ganhos. ou a destruição dos produ tos para aumentar seu preço. por sua vez. a apropriarse parcial ou totalmente do aparelho de Estado. Já a crise gerada pelo esgotamento da expansão extensivogeográfica dos mercados foi superada com a intensificação quantitativa e qualitativa da venda através do consumo de massas. dominadora e mistificadora que lhe é característica tende a orientar toda a produção. oligopólios e monopólios. se agrega e finalmente substitui a exploração típica a extração de mais-valia maquínica. Na esfera da distribuição. outros são notoriamente beneficiados. pelo aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing. De qualquer maneira. a reprodução. facilmente descartados e "melhorados". mencionaremos somente algumas essenciais. Longe de conseguir – através do tipo de competição generalizada e" de cartas marcadas" que é 186 ▲ . desde suas origens. nelas e delas. mas também viver com elas. foi alcançado com o barateamento e multiplicação dos produtos. incrementam o gasto do Capital variável através de reivindicações salariais ou de melhores condições de trabalho ou chegam. isto é. por um lado. Por último. o Capitalismo obteve uma enorme agilidade e bara teamen to desses processos mediante a informatização e a robotização dos mesmos. Sabe-se. pela qual o Capital – em quaisquer de suas formas de existência – acaba por concentrar-se. Ao nível da produção. Isso é válido para o lucro. de entidades que são suas proprietárias. Esse. que o Capitalismo é um modo histórico que. mas também para o saber. o poder e o prestígio. Não é necessário explicar como a guerra sempre foi um recurso complexo para superar as crises. sobretudo. megabancos e. megaempresas. não só aprendeu a prevenir e resolver as crises. Outra celebre tática é a diminuição deliberada da produção. em suas lutas políticas. alguns setores do Capital são prejudicados. As manobras do Capitalismo a esse respeito são inumeráveis e. troca e consumo. não necessariamente em menos "pessoas". é importante destacar que o Capitalismo é um modo – dito no sentido amplo definido acima – em que a inflexão exploradora. pois atua em todos e em cada um dos níveis dos processos do "Todo Capitalístico". não explicitamente formal. o Capitalismo suplantou a extração de mais-valia relativa – aumento das horas do trabalho não remuneradas – pela absoluta – aumento da produtividade pela intensificação do trabalho em si mesmo ou em menos tempo. a antiprodução e o consumo para a extração de mais-valia econômica. porém. o aperfeiçoamento das máquinas e uma nova articulação entre a força de trabalho "humano" e "não-humano". apropriação. assim como através da planificação de produtos perecíveis.

Então. com uma modéstia conceitual exigida por esta síntese: quais são as principais "novidades" apresentadas pela atual "Fase Superior"? O processo da produção adquiriu.sua característica – uma otimização das forças produtivas de quaisquer naturezas (sejam as que verdadeiramente o mesmo suscitou. muito pior que o anterior. energias. devido à revolução tecnológica e industrial. Pelo contrário. em suma. em minha opinião. as mesmas podem ser consideradas como precursoras do Capitalismo. assim como de formas sui generisde subjetividade. Também é possível aceitar que sendo a economia mercantil. o "novo" Capitalismo é. O Capitalismo propriamente dito – cuja preparação se inicia com o fim do Feudalismo e prossegue no decurso da Renascença. a vigência de uma sociedade institucionalizada. torna-se de radical importância precisar quando e como este Modo começou e quais foram suas sucessivas ou simultâneas transformações. nem nos exime de nenhum tipo de luta pela sua extinção. e dali em diante. Partindo do princípio de que o Capitalismo é uma singular relação e composição de substâncias. esse sistema as paralisa. Perante uma assertiva deste porte. semiotização e parques maquínicos – condições essenciais e existenciais de muitas formações históricas antigas –. podemos admitir. o Estado. desaproveita e destrói em uma proporção jamais igualada. uma velocidade e uma eficácia totalmente imprevisíveis para os teóricos do século passado. tendo a considerá-las. incluem. a primeira expressão "verdadeira" do Capitalismo na História. da Reforma e da Contra-Reforma e das revoluções européias e norte-americanas – culmina com a instauração da indústria manufatureira na Inglaterra. que é possível encontrar seus antecedentes nas formações histólicas dos séculos XII e XIII. que é. e das que potencial e insolitamente disporia). responsáveis por nossa chegada a esta "Fase Superior". As conseqüências dessa incrível aceleração consistem principalmente no seguinte: 187 ▲ . formas e maquinaria. seguindo alguns autores. em sua essência. e não têm mudado em sua essência desde aquelas até as contemporâneas. como formações précapitalistas. razão pela qual não justifica nenhum "otimismo". Esse esclarecimento parece-me imprescindível para poder discriminar de forma convincente que o "novo" do Capitalismo Mundial Integrado não implica uma transformação substancial do "velho". Nestas linhas. o nosso interesse está centrado em mostrar que as suas peculiaridades essenciais estavam préfiguradas. reprodução e antiprodução variem muito com o tempo e os lugares nos quais operam o diferente tipo de Capital. Pessoalmente. Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os nossos dias. contudo. apesar de que suas modalidades de produções de produção. que continuam incólumes e que as transformações acontecidas. embora sejam originalíssimas e necessitem cuidadoso estudo. as anteriores. à maneira de Marx e Engels.

localizam-se nos setores mundiais "em vias de desenvolvimento". Essas e muitas outras estratégias conduzem a uma divisão mundial técnica. lucros e renda parecem estar crescendo. Multiplicação. assim como aqueles que entram subsidiariamente nos produtos e prestações altamente remuneráveis. com" mãode-obra" e impostos baratos.– A maquinária da indústria extrativa. Algumas dessas manobras consistem em descentralizar a produção de grandes complexos infra-estruturais caros. – Ênfase na geração de produtos e serviços baseados na tecnologia de ponta – informática. emprego transitório e precário. assim. assumindo a identidade e os in teresses desta. cibernética. trazendo como conseqüência desemprego. que criam a ilusão participativa. ecologicamente "suja" e altamente tributada nos países centrais. ocultando sua concentração e o poder decisório dos tecnoburocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais. empenham-se numa política de diminuição de custos produtivos. mas sobretudo econômico-social do trabalho. da agroindústria. transferindo a parte básica. ao mesmo tempo. robótica –. Esses setores tornam-se. Desse modo. em que – diferente do período imperialista fordista da produção – os ramos produtivos de bens e serviços indispensáveis e "pesados". participantes de baixíssimos custos e. – Hiperespecialização e/ou fIexibilização dos poucos trabalhadores que "permanecem" empregados com incentivos de produtividade. processo esse cujo aspecto jurídico se denomina "fIexibilização". telemática. para os países periféricos. formados segundo planos artificiosos e rapidamente "aperfeiçoáveis" que os tornam imediatamente "perecíveis" e "descartáveis". A força de trabalho maquinal e a exploração da mais-valia maquínica vão suplantando aquela humana. desfiliando-se de qualquer organismo de classe ou luta coletiva de defesa de suas reivindicações trabalhistas. também mercados pobres – compradores de bens e prestações relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –. – Os grandes grupos empresariais. obrigando a uma substituição incessante. alguns dos quais operam na economia informal ou em seus próprios domicílios. – "Terceirização" contratual de segmentos da produção pouco rentáveis para empresas menores ou para trabalhadores independentes. através da participação nos lucros e na propriedade – via compra de ações minoritárias e reciclagem contínua da capacitação técnica. de Capital fixo e variável. havendo indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre. da geradora de produtos e serviços está transformando e diminuindo – gradual. subemprego. porém 188 ▲ . mudança e anonimato crescente das sedes e proprietários do Capital. apesar de que seus ganhos. porém firmemente – a participação da força de trabalho "humana" nos processos produtivos. formam-se elites ou aristocracias de trabalhadores que passam a fazer parte do Capital fixo da empresa.

ao caráter instantâneo da comunicação e da informática e à sua subordinação a núcleos ubíquos. corruptos e incompetentes cuja gestão acaba sempre em grande déficit – contraído em um montante de dívidas com juros astronômicos. sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História. títulos inexistentes. divisas. Um "fordismo periférico". Essa parafernália adquiriu os níveis máximos de eficiência. Por outro lado. "fabricação" de necessidades e demandas (escassez. até pouco tempo. documentário. móveis. "andorinha". o Capitalismo atual provocou a privatização. A constituição de enormes e onipotentes monopólios nacionais ou internacionais – legalmente formalizados. distribuição. descomprometidos e quase sempre não tributados. falta. produtos. carência) – foram "hipertecnologizados" pelos grandes mass-media e pela propaganda. Como se sabe. consumo-consumação – que incluem os de financiamento. o Colonialismo e o Neo-Colonialismo. estabelecimentos carcerários e outros. preservação e restauração do "meio ambiente". supostamente resultantes e defensores do 189 ▲ . apropriação. entre outras razões. rede viária. previdência. profissionalização e mercantilização de "quase todos" os territórios e atividades recentemente não-lucrativos ou considerados "gratuitos" ou "públicos". saúde. Os processos de ordenamento. educação e diversão "públicos". No chamado "mercado de capitais". os mesmos costumam ser governados por demagogos. transporte. Não por sua real eficiência. comercialização. que elevam à enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada. eram próprios dos mecanismos de "reprodução ampliada": tarefas familiares. O lucro financeiro puro possui seu mecanismo mais pelverso nos citados interesses e no refinanciamento eterno das dívidas externas e internas dos Estados e empresas nacionais estatais. assim como capitais dos financistas do próprio país que depositam seu dinheiro nos paraísos fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. velocidade. devido. esses empréstimos não são nada mais que a mesma riqueza explorada pela força durante a conquista. Alguns exemplos ilustrativos são os que. aparatos e funções de Estado – energia. segurança. o Capital financeiro. prolifera geometricamente – sobretudo como empréstimo para as contas correntes dos países "em desenvolvimento" ou emergentes. seguros. às vezes dispersos e condensados do Capital monetário. comunicações. que compõem os investimentos da usura "flutuante". mas por sua necessidade expansiva. saneamento básico. transitórios.complementares daqueles centrais já saturados. onde se negociam matérias-primas. essa proliferação torna-se infinita no chamado "Mercado de Futuros". operações administrativas e contáveis. juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos. acionário. sendo que. troca. artifício e inutilidade relativa para o consumidor – maiores ainda que os da produção de bens duráveis e não duráveis propriamente ditos-. anônimos. no caso das dívidas externas do "Terceiro Mundo" por exemplo. moradias populares.

o que segundo os clássicos marxistas denominava-se "Democracia Burguesa" – são a garantia do "bom comportamento" dos povos em questão. institucionais. Trata-se de implantar nas nações o regime político da democracia indireta. criando os vícios conhecidos. da eficiência – o que não deixa de ter o seu sentido. ao pagamento" correto" das dívidas públicas externas. Em última instância. objetiva a subordinação das soberanias nacionais e respectivas populações a entidades supranacionais cujos paradigmas são o Fundo Monetário lnternacional. a rigor. não sem contradição. nepotismo. Não obstante. fisiologismo. Finalmente. convence e corrompe o eleitorado em si mesmo. jurídicas. que permita prescindir dos recursos repressivos clássicos. da compra de votos. Esse processo se enfatiza na dissolução do chamado Estado Beneficente ou Providencial – cujas atribuições são demasiado onerosas para o Capital –. Por outro lado. reiteradas vezes. já dispõe de novos n. indivíduos. esse processo. clientelismo. da racionalização. hegemonia do poder econômico – o financeiro e o das grandes empresas – modula arbitrariamente os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário. competitiva e heterogestionária. sujeitos. Esses regimes e seus sistemas de "representação" – num sentido amplo de produção de subjetividade. que como explicamos. burocracia. Por sua vez. políticas. assim como a qualidade e quantidade de demanda e oferta. crises autofagicamente resolvidas e também acontecimentos metamorfósicos irreversíveis e incapturáveis – toda essa grande transformação que aponta para a assunção voluntária e pacífica por parte de todos os agentes. à privatização a preços baixos das empresas e serviços 190 ▲ ."Livre Mercado" e da omissão reguladora do Estado e de organismos da sociedade civil – acaba por criar e regular à vontade as convenções de custos e preços que regem esses mercados. a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial. e domina a condução política das nações. "Bom comportamento" que implica uma administração completamente submetida ao Capital transnacional – sobretudo o financeiro –. O enfraquecimento do Estado realiza-se em nome da modernização.eios para reproduzir as condições de sua existência e proliferação – produção de subjetividade. representativa. ou porque é manipulador dos meios de propaganda. comunidades do Axioma que rege a Lógica do Capital – vêm se impondo até o presente. na privatização e re-significação da estrutura e das funções do Estado. entre outros. semióticas econômicas. grupos. em crise no mundo inteiro. ou ainda por causa do poder de seus lobbiessobre os políticos e funcionários do Estado. está empenhado no desmonte. dados os vícios de "nascença" da máquina estatal. o doutrinamento persuade. A mencionada. o Capital. culturais e libidinais incorporadas à sua lógica-. demasiado caros e ostensivamente "inumanos". estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários . o Estado fomenta o surgimento de cartórios eleitorais.

procedimentos. enfermos. ao compromisso incondicional com as alianças. analfabetos. de direitos humanos. à "livre" radicação – ou seja. o crescimento cancerigeno das megalópolis. dos países "guardiões" do patrimônio do Capital. dominação e justificação. Ocorre. Tampouco lhe foi possível eliminar totalmente as modalidades de resistência próprias dos neoarcaísmos. agentes e práticas que possibilitavam suas modalidades clássicas de exploração. seja com a famosa participação direta de seus "assessores" militares. religiosos e assim por diante. ambientalistas. não tributada e salarialmente flexibilizada – das empresas transnacionais e. culturais. Por isso. marginalizados. Sem considerar essas observações como um estudo profundo da contemporaneidade. sobretudo as bélicas. tais como os regimes integralistas. temos que acrescentar a destruição massiva da natureza. e depois tenta substituí-los por democracias formais ou nominais. sem-terra. de liberação das singularidades raciais. A geração de um imenso contingente de excluídos da produção e do consumo. e também as do Oriente Médio. o Capitalismo Planetário Integrado tem que lidar com os movimentos separatistas – de inspiração socialista ou não –. A essa degradação e deterioramento. delinqüentes – é mais que suficiente para diagnosticar e avaliar a situação mundial contemporânea. assim como subvencionou as piores ditaduras latino-americanas e africanas. etárias. errantes. clandestinos. Por outro lado. o mau aproveitamento 191 ▲ . sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e a apropriação de mercados. os EUA. porém. que a construção da megamáquina planetária do Capitalismo Global Integrado não pode prescindir por completo dos velhos equipamentos.estatais. dominação e mistificação sui generis dessa "Fase Superior" são inequívocos sinais de um tremendo predomínio da reprodução e da antiprodução sobre a produção possível e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia. o esvaziamento rural. sexuais. ou pacifistas. revolucionários ou genuinamente reformistas. a banalização ou obscenidade da cultura. invadiu Panamá e Granada e tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o menor respeito pela autonomia que proclama-. nacionais. mais que expressivos da degradação e destruição do "parque humano". seja com dinheiro e armas. os indicadores de exploração. a modulação supérflua e luxuosa do parque industrial. finalmente. sem-casa. se em alguns campos e setores parece que o balanço de todos esses andamentos mostra alguns "progressos" estridentes. dos não-inseridos nas instituições e organizações. no entanto suficientes para entender que. fundamentalistas e os totalitários – que o Capital supranacional fomenta quando lhe são funcionais. despossuídos de direitos e também de qualquer identidade-miseráveis. o carro-chefe do Capitalismo Mundial. como dizia anteriormente.

192 ▲ . sem dúvida alguma. o Grego de Alexandre Magno. atuar. a não ser a convicção de uma vitória sem fim". Pois "integrado" é um particípio passado e designa um objetivo já conseguido. o de Carlos V. o Romano. coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda está longe de alcançar. acredito ser importante para o seu destino introduzir uma pequena modificação no excelente conceito de Capitalismo Planetário Integrado. o Egípcio. como dizia Mão. O problema. Quarta Parte Se essa entidade que denominei Movimento Instituinte existe. "não existe reparação possível para esse cataclismo. no sentido geopolítico que essas palavras adquiriram nesses enunciados. Decididamente.e vai depender de todos os institucionalistas para que não o alcance.das fontes energéticas e muito mais. Permito-me sugerir que seria melhor. apesar de que duvido que ela mesma se reconheça como tal. O estudo dos grandes impérios históricos – o Chinês. presuntivamente perene. a máquina abstrata geral e as micro-máquinas concretas pseudodemocráticas e cripto-fascistas do Capital sejam não tanto "ossos duros de roer". o panorama paradoxal e sinistro de decadência. Todas as forças crítico-reformistas-revolucionárias que o enfrentam atualmente estão num momento de trágico desânimo. o de Napoleão. como foi chamado por Félix Guattari. como expressei em outra parte. é que o Capitalismo Planetário Integralizante não tem mais. a um "tigre de papel". se esse modo não é um non plus ultra. mas uma espécie de protoplasma polimorfo e sobrevivente.tampouco se reduz. Não é que as contradições "internas" e "externas". Acredito que tudo isso já é conhecido por demais e serve para caracterizar. "exterior" e "interior". denominá-lo de "Capitalismo Planetário Integralizante". talvez. O sistemático "fracasso" – e escrevo fracasso entre aspas porque. complemento adequado de uma derrota sempre presente"dos experimentos socialistas às vezes impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico. sentir. o do "Socialismo Real" – mostra que sua decadência e sua queda não sobrevieram do seu" exterior". Dissemos anteriormente que o Capitalismo é a formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as crises. senão viver nelas e delas. Quero aqui parafrasear unia sentença do "Anti-Édipo" – texto fundamental para o que denomino de Institucionalismo – que qualifica o Capitalismo como sendo" a mescla bizarra de tudo aquilo no qual alguma vez se acreditou com aquilo no qual nunca se acreditou verdadeiramente". mas" cresceram de dentro". porém. Para poder pensá-lo – com a única finalidade de combatê-lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar. rigorosamente falando. que é quase o contrário de uma vitória futura final. É exa tamente essa capacidade de adaptação plástica e ativa que faz com que a lógica.

está ficando evidente o que se passou a chamar – muito discutivelmente – de "cinismo" da Pós-Modemidade Capitilista. Foucault designa como "Forças do Fora". Os diversos estratos e segmentos da subjetividade e da sociabilidade. engendrando atitudes e ações conseqüentes. difusão e apropriação de sistemas de representações "imaginárias" que "falsificam" a realidade. declinação assintótica e indefinida que se apresenta como "desenvolvimento". e/ou se oferecem como fantasmas a serem animados pelo desejo inconsciente ou pelos interesses pré-conscientes-conscientes dos sujeitos-agentes. as vanguardas programadoras. que cada um dos modos de subjetividade sente que contém cada uma dessas divisões e contraposições dentro de si. assumem e desejam. Não obstante a Psicanálise queira explicar esses efeitos como expressão. mas que. afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida. por exemplo. "progresso" e "evolução". Essa não é uma" descoberta insólita". O Capitalismo é demasiado ágil. as camarilhas tecno-burocráticas. segundo o que se entende por sobreviver. elístico.primárias. "ninguém nunca morreu de contradição". fontes da invenção do radicalmente novo. referindo-se ao nazismo. Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar os mecanismos e efeitos de suas modalidades peculiares de exploração. isto é. Por "cinismo" se entende que o "espírito" do Capitalismo Avançado – empregando literalmente a velha expressão de M. também o sabem. e assim o Parque Humano se divide entre os que possuem grandes probabilidades de sobreviver. como também diziam Deleuze e Guattari. deliberativas e executivas da megamáquina do Capital sabem. os que têm poucas e o enorme contingente que não tem nenhuma. impensável e imprevisível. Nietzsche denomina "Vontade de Potência" e Bergson como "Realidade Virtual". tal como já a havia percebido W Reich quando. estão sendo essencialmente reformulados. a encarnam. 193 ▲ . As cúpulas proprietárias. da Pulsão de Morte ou do Masoquismo Primário. é a potência do que Deleuze e Guattari chamam" Processo Produtivo Desejante". e também sabe – e pode ir se adequando às suas próprias contradições. dominação e mistificação. ubíquo e versátil. em proporções e clarezas variáveis. É notório. Sobretudo esses últimos. Esse apresentar-se não se explica apenas pelos efeitos da "ideologia". hábil. sem iludir-se a respeito. e até a desejam. secundárias do Capitalismo não estejam vigentes e atuantes. afirmava que "o povo alemão não foi enganado". Se há algo que ameaça a sobrevivência do Capitalismo. pela "redação". Sabia perfeitamente tudo aquilo que a proposta do Terceiro Reich implicava. Não obstante a "ideologia" siga cumprindo uma importante função nos circuitos pré-modernos e ainda nos modelos de reprodução ampliada do Capitalismo. com maior ou menor lucidez. que são "peças" de uma lógica – ao mesmo tempo exuberante e letal – que as constitui em suas funções e dela se vale. os da mistificação. O extraordinário é que a assumem.

o Tempo Livre como subjetivados – de certo modo – e as subjetividades como "infundidas" por um Estado. "lingüísticos" ou "mediáticos". o Estado. desejos. em TODOS OS LUGARES E AGORA NOTAS 1 – A definição rigorosa desses conceitos para torná-los acessíveis ao tipo de leitor ao qual este texto se destina requereria um volumoso tratado à parte. Indivíduos. 194 ▲ . Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault. instituições. não apenas a perguntarmo-nos – de acordo com a famosa fórmula – "Que Fazer" para transfomá-lo. por exemplo. de transmutá-lo. É preciso compreender que o que emerge enquanto subjetividades e sócio-institucionalidades não são efeitos específicos e pontuais de mecanismos "educacionais". reproduzidos e antiproduzidos pela modalidade peculiar da imanência que se dá entre esses processos do Capitalismo Planetário Integrado contemporâneo. mas afeções – como dizia Espinoza – operadas em conjunto pelo tipo de maquinismo que modula prevalentemente o atravessamento dos territórios da natureza. Para aproximar-se do entendimento de alguns deles. De qualquer maneira. Ninguém é capaz de fazer predições a médio e longo prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. sócius. tornando-o permeável à irrupção das forças do "fora" que são capazes. Quando lemos o panorama mundial. é importante entender. interesses. como procurei fazê-lo nestas linhas. Cabe ao Movimento lnstituinte – levando-se em conta sua suposta infinita heterogeneidade interna e sua irrestrita abertura externa – inventar os recursos e as práticas que possam empurrar o Capitalismo Mundial Integralizante além de seus próprios limites. pode ser consultado o Glossário deste Compêndio. o Trabalho. a Igreja. incessantemente. o Mercado. devo advertir que muitos destes termos não são usados aqui no sentido estrito de sua bibliografia de origem. sujeitos.em nível de estrutura e dinâmica dos sujeitos edipianos especificamente considerados como objetos universais dessa disciplina. da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina. realmente. senão antes interrogar: "Como consegue manter-se hegemônico e aparentemente próspero sem nem sequer esforçar-se demasiado em dissimular sua fragilidade e sua contraprodução?" Apesar de que a perplexidade dos pensadores críticos e gestores da troca é ostensiva. éticas e estéticas são produzidos. Por isso. agentes. práticas. Justamente por isso é que nos resta apenas avaliar e lutar. da sociedade. devemos tomar consciência de que aquela dos expertse condutores do Capitalismo não é menor. a rigor nos sentimos tentados. a Educação. "culturais". "psíquicos". tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade.

Essas páginas de 95 me parecem retorcidas. acredito ter sido desde o início. Se me atrevo a comentá-las com os leitores. de cem e do que tentei dizer. suscitou em mim impressões contraditórias. exorbitantemente amplas. desgarradas e mutiladas entre as exigências pedagógicas e sintéticas do texto. com benevolência. às vezes pouco claro e. somente alguns poucos prenunciavam. e suas pretensões analíticas. por outro. por um lado. Não sei se é excesso de petulância incluir-me entre esses últimos. quero conceder-me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito. os três últimos anos possam ter trazido elementos para melhor avaliar a pertinência do que se poderia qualificar. e sim um" globo de ensaios". Penso que. à grave crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi-se agregando uma crise econômica de incalculáveis proporções que. pelo que entendo. segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio". e até vaticinantes. Tão fortemente acredito nisso que decidi catalogar este escrito numa simpática categoria inventada por um amigo. porém não pude deixar de constatar que o "pessimismo" de cada página do "Apêndice" que antecede a este post-scriptum insistia sobre esta predição. A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do 195 ▲ . como sempre acontece. insuficiente. Durante este tempo. contudo que esses também possam existir. não suficientemente fundamentado. Não obstante. e involuntariamente. em geral. não é apenas – como espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos e justificantes. o filósofo brasileiro Peter Pal Pelbart.POST-SCRIPTUM Janeiro de 1998 A releitura do apêndice anterior. assistemático. escrito em 1995.

sem ignorar diferenças nacionais. Ou a "todas" essas causas juntas e a muitas outras. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. todos os "capitalismos emergentes". senão principalmente um erro radical sobre os meios de pensar a realidade. e numa dimensão mais ou menos ameaçadora. entre essesexperts. A idoneidade da "Ciência Econômica" e da "Economia Política" oficial capitalista não só é. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. por último. substancial. – Ou essa é uma fraude de magnitude hemisférica e configuração escalonada que vai desde os produtoresconsumidores. uma ou outra tese já postulada neste livro. tanto que está chegando ao limite de sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os investidores especulativos para que não percam seu dinheiro. sendo que em outra. inferior à da Meteorologia. Isso não implica "falha humana". cálculo. de outra forma. Vamos continuar observando muitos expertsatribuírem à "falta de dados" – porque ocultados ou distorcidos por parte das economias em questão – a surpresa e a perplexidade que a catástrofe ocasionou. Essas explicações. o mínimo que se pode considerar é que o destino do mundo está em mãos de presunçosos incompetentes. ou ainda à sobrevalorização de sua moeda. 196 ▲ . ainda indefinida. econômicos e políticos. lndonésia. Coréia do Sul e. alguns atribuem o flagelo à cumulação de empréstimos enviados aos países em crise. Esta é uma realidade clamorosa. até chegar aos organismos internacionais – desde logo.ataque especulativo à lira italiana e à libra inglesa e o outro que afetou o México – e engloba diretamente todos os "Tigres Asiáticos" – Malásia. – Ou se trata de um efeito processual. tanlbém as grandes potências capitalistas. a cômica discrepância que os economistas e outros especialistas mostram quando tentam explicar esse fenômeno colossal que se iniciou com uma dimensão regional. Obviamente. e assim sucessivamente. passando por todos os segmentos sociais. Laos e. Hong Kong. Filipinas. Em primeiro lugar.. outros às suas falências bancárias ou à desenfreada especulação imobiliária que ocorreu no seu território.. a meu ver. Permito-me fazer somente alguns comentários globais que podem reafirmar. chama fortemente a atenção. não cabe aqui uma análise excessivamente detalhada. planejamento que implica dos povos até os governos – desde logo. essencial e inerente ao Capitalismo Planetário em via de lntegração. Tailândia. China e Taiwan. eventualmente. podem reduzir-se a três tipos: – Ou esse é um erro regional de modelo. Começamos pela admissão do FMI de que "se equivocou" na avaliação e condução desse assunto. em muito. Japão. no caso dela ser correta. menos drasticamente. Singapura. E mais: porque. Com respeito à primeira hipótese. mas nem sequer tem a humildade de reconhecer o estatuto de interfase do sistema caótico ordenado própria de seu "objeto".

trata-se de cumprir ao pé da letra as leis vigentes. Fica aberto o tema da qualidade e gradualidade de imputabilidade de cada um dos envolvidos e do acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja-se mais adiante). direitos fundamentais ou reais" da formação da soberania em questão. ou especialmente se nos referimos a uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei". Se a terceira hipótese está correta – e isso tenho afirmado constantemente nesse modesto e elementar livro-. mas não som ente.por estúpidos e ladrões que os agentes-sujeitos individuais e coletivos do Capitalismo assumem os lugares. resulta evidente que as duas primeiras podem ser perfeitamente incluídas na última. Excepcional e/ou aparentemente. ou como leis menores – decretos. as funçôes e as práticas segundo os quais a lógica da Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona. foi feliz e sincero quando. as leis se contrapôem a essa Lógica. de desconhecimento. com a qual os psicanalistas e outros teóricos enchem a boca. Não se trata. Está comprovado – e isso é o que tenho procurado. O que mais nos deixa pasmos e surpresos no espectro das mesmas é o cinismo. Os célebres conceitos e a análise foucaultianos acerca do atravessamento entre os enunciados – as dizibilidades – e aquilo que o autor 197 ▲ . tanto quanto a desonestidade dos agentes e das entidades. em última instância. ao qual já nos referimos reiteradamente. E também. lem brar leitores.O erudito "Científico-Presidente" do Brasil. ou como leis maiores formais. respondeu: "Só Deus sabe. especificações. não esgotam o repertório de riscos que caracterizam as subjetividades capitalistas. ou de aproveitar os limites de seu império e de suas falhas intersticiais para pô-la à serviço – às vezes condicional. normas. regulamentações. temos que assumir que o destino da humanidade este) nas mãos de delinqüentes. Em um certo sentido.. da qual a ordem jurídica imperante é uma engrenagem perfeitamente coerente (vide a plena vigência do Direito Positivo). assim como as três não são excludentes.." Pelo que se refere à segunda hipótese. absolutamente em sintonia com a racionalidade ética e proposicional das leis nacionais e internacionais – as propriamente jurídicas ou as "internas" aos enunciados específicos disciplinares. "Direitos Humanos" que concretamente podem ou não podem ser cumpridos dentro do que se chama hipocritamente" condições constitutivas. FH. nem som entede uma tendência delituosa de transgredir ignorara Lei – qualquer que seja a Lei da qual estamos falando. tampouco são exaustivas. em que consiste este risco. pelo menos parcialmente. solicitado a opinar acerca das conseqüências da crise para a economia do Brasil. porém. simplesmente. se acertada. é claro. é preciso apenas definir. às vezes incondicional – da Axiomática do Capital. A lógica dessa axiomática está. científicos ou não. Cardoso. uma vez que não precisa aos ser demonstrado porque já o foi durante um século – que a sábia ignorância dos experts.

a implicá-las em dispositivos nos quais a modalidade organizativa e os objetos a serem conquistados resultam relativamente irrelevantes e/ou absorvíveis pelo Capital. o que é mais astuto. Em sua essência. supostamente apoiado por uma "realidade" que o panorama da Axiomática do Capital delimita e modula. bem distantes dos "ideais". O mérito relativo do pensamento de alguns autores. o resultado de heróicas e cruentas lutas da humanidade. puramente nominais. possibilitou o seu começo e ainda lhe é imprescindível. Que o lado "progressista" dessas leis – tanto as "maiores". e como tais são admiráveis. de Entre vários requisitos. não deve enganar ninguém. Um exemplo ilustrativo a esse respeito são as contendas entre os partidários neoliberais do "Livre Mercado" e os defensores da "Regulação Estatal". Os segundos prescrevem" uma quantidade maior" da mesma Lógica do Estado. omissa e passiva" 198 ▲ . Ao menos numa vertente dominante de sua essência. desmobilizar. garantindo sua reprodução simples e ampliada tanto em seus aspectos econômicos como em todos os outros que já mencionamos. essas montagens dão conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo "moralismo" à Ordem Capitalista Constituída.chama visibilidades – os dispositivos do poder. como as "menores". Principalmente não deve tranqüilizar ninguém acerca da perfeição do modo econômico e de seus rebrjmes – jurídico-políticosubjetivo e outros. Essas concessões são invariavelmente tardias e de aplicação sujeita ao horizonte do "possível". e o diagram a. especialmente aquelas que se consideram concessões – geralmente tão inevitáveis quanto mínimas. ou ainda. estão destinadas a desorganizar. sempre foi consubstancial ao Capitalismo. imanentes ao jogo de forças de uma formação histórica (por um lado). obviamente. crescer –. visando produzir as condições mínimas nas quais essa última possa subsistir – e encontrando viabilidade. sem considerar os seus defeitos. como Jean Baudrillard. mitigar ou amenizar os efeitos fundantes da Lógica do Capital – expresse. que resultam operantes somente para matizar. aos quais atribuem todos os méritos da Modernidade – que. fragmentar e recapturar as forças críticas e metamórficas. está na virtude de chamar a atenção – apesar de que unilateral e exagerada – sobre a estratégia de resistência nãoconsumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização. em sua maioria. da imprensa livre e da competição liberal e neoliberal. Os primeiros fazem uma apologia do individualismo. que começou muito antes daquela do Capital. não são nada mais que estratégias. os neo-arcaísmos e o terrorismo. sempre considerados irrealizáveis. pois não se conhece outra-. Outro caso ilustrativo é a luta da economia de mercado e democracias representativas contra as "massas ausentes". complexo de forças informais (por outro) – dão conta admiravelmente de alsrumas das maneiras com as quais as funções reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema.

"Todas" as Máquinas de Guerra e as Linhas de Fuga simultaneamente econômicas. filosóficas. heteróclito e bizarro de colisões. não deixam de ser uma resposta cega às manobras orquestradas pela Máquina Abstrata do Capital. não é pleonástico repetir que o processo do Capital não constitui uma unidade monolítica. idiossincrásicas – na medida em que são individuações. agentes dotados de uma identidade mais ou menos precisa e circunscrita. vejam-se os memoráveis capítulos da "Revolução 199 ▲ . artísticas. proteiforme. heterogêneo. instituições. jurídicas. heteromorfo.das massas. expressões de singularidades intensivas –. Perante essa constelação. o Industrial e o Latifundiário – tanto nos domínios "globais" como nos regionais. são e serão "o sal da terra". apesar de apresentarem uma triste originalidade. políticas. da seguinte maneira: Os militantes e pensadores instituintes contemporâneos passam por divergências e discussões dilemáticas – que freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de se a luta deve dar-se a partir de dentro ou de fora das organizações do Estado." entrem numa provocação desviante". devido tanto às resistências que minam o processo de suas façanhas quanto à dureza de suas vicissitudes. sinérgicas e potencializantes. habilmente engenhada para propor e propiciar contendas. As preocupações dos militantes acerca do grau de capacidade de recuperação que o Capital exerce sobre as mesmas geralmente não são mais do que hesitações compreensíveis. Mas "ninguém morreu de contradições". o mundo atual é um poliverso vertiginoso. dominados e mistificados" comprem a briga". creio eu. senão. apenas descritivamente. que vão desde o preciso até o indecidível. A imanência entre as potências e processos de desterritolialização e reterritorialização capitalistas movimenta-se sem cessar. a ferocidade das contraposições recentes e suas conseqÜências entre o Capital Financeiro "apátrida" volátil. Não somente ao nível das contradições antagônicas e agônicas do que Deleuze e Guattari chamam de "Superfície de Registro e Controle" composta por territórios. Veja-se. sem a menor intenção de desvalorizar nenhuma forma de luta tradicional ou nova que as forças da Vida vão inventando. organizações. de maneira que os explorados. como se diz pitorescamente falando. como infinitos agenciamentos e acontecimentos no seu combate contra as equações variáveis de reprodução e antiprodução do Capital. conexões disjuntivas inclusas. o pouco que proponho enfatizar aqui pode se resumir. É claro que espero e desejo fervorosamen te ser explícito dizendo isso. porém acidentais. mas que têm aprendido a viver em crise e da crise. e muito menos estática. Essas estratégias. Assim. com uma velocidade que passa de geométrica para exponencial. isto é. locais. suas transversalidades. nacionais. segmentos. seu entusiasmo e sua alegria – como dizia Espinoza – foram. complementada pela irracionalidade monstruosa. científicas. e mais enfaticamente. "absurda" e intempestiva dos fundamentalismos e do terrorismo. do Capital ou da chamada Sociedade Civil (a esse respeito. Diante de tudo isso.

bastante afetados por essa debacle setorial insuspeita. assim como de seu principal aparato bélico-repressivo: os EUA. O argumento principal. Lembrarei também que alguns adora dores do neoliberalismo. se me permitem uma digressão.No espectro que vai do pólo dos" apocalípticos". se me lembro bem. Cabe. Em conseqüência disso. França e Reino Unido. discretos indicndores de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva. Também Alemanha. O crescimento de quase 4% de sua economia em 97 e o decréscimo de seus índices de desemprego. verificação e falseamento.Molecular" de F. por um lado. que são as que escapam a toda imaginação. baseava-se na tese de que tal indicador era in1possível de ser medido empiricamente. déficit interno e externo. os de "O Estado e o Inconsciente" de René Loureau e até alguns capítulos deste livro). porém. por isso carecia de sentido epistemológico. apesar de que isso não o exonere inteiramente das conseqüências imediatas da crise. inviável quanto à operacionalização. Guattari. não faz senão demonstrar o uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política – em grotesco contraste com suas declarações neoliberais de "livre-mercado" e de democracia. ubiqüidade com fragmentação dispersiva. mesmo que todos os países enumerados apresentem altíssimos índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal-. quando estudava a crítica marxista da Economia Política. somente a nação que continua sendo o assento das maiores sedes centrais do Capital mundial. o modo capitalista e seu Sistema 200 ▲ . Contudo. entre outras razões porque insiste em enfatizar-se como intensiva. reforçar que a reivindicação idiossincrásica nunca acaba de propagar-se como uma onda extensiva. tanto os movimentos chamados "Alternativos" quanto a Esquerda tradicional parecem perder de vista os macro-indicadores inequívocos da deterioração do "todo" capitalista. antes de concluir com uma nova tentativa de síntese. tinha sérias dificuldades para entender tanto o conceito da tendência à diminuição da taxa de extração da mais-valia quanto a contestação que os economistas positivistas faziam a essa teoria. e por ser uma hipótese de "alto nível". Rememoro que em minha juventude. linha de fuga com evasão. reiterarei que no momento a mesma tem respeitado. aos "integrados" – bem intencionados – por outro. acrescentarei quanto segue. Canadá. Em função do que foi exposto acerca da crise presente. Outro desses dilemasé o já célebre que se trava entre os "reformistas" e os poucos "revolucionários" que ainda sobraram – seja como for que se defina revolução. empenham-se em reivindicar que. Itália e Espanha mantêm-se relativamente estáveis. que consegue manter-se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia. confundindo singularidade com isolamento. apesar de tudo. existem inumeráveis posições intermediárias que dão espaço a quantas vontades de transformação seja possível imaginarassim como às melhores delas. de forma aceitável.

Em segundo lugar. Ironizam.Democrático Nominal conseguiram. o milagre inédito de reduzir em quase 50% a pobreza asiática. Japão e Itália começaram seu crescimento a partir da inversão massiva do Capital "aliado" – novas versões do Plano Marshall e da 'Aliança para o Progresso" – e nas condições políticas severamen te repressivas das nações derrotadas e "ocupadas". De outro lado. que não precisamos nos preocupar demasiado com as falências generalizadas. a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda de falências. torna-se importante esclarecer que.. e teve uma base de lançamento nada depreciável.. sustentam que apesar da instabilidade persistente. A iminência da segunda Guerra do Golfo e da terceira Mundial não é apenas hipótese de ficção científica. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam". em primeiro lugar. desde a Segunda Guerra Mundial até hoje. Alemanha. por exemplo. nas falências atuais. mesnlO que uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à geração de força de trabalho cnpacitada e eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre. Essa afirmação adquire relevância pelo contraste com a decadência dos países do ex-bloco do Socialismo real. Afinal.moratórias e outros flagelos. está em pleno declínio. os mecanismos de "contágio" sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa. a fuga desse Capital acumulado. Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é. a parte do Produto Bruto Mundial correspondente aos países estremecidos pelo "sismo" alcança somente 6 ou 7% do total mundial. porque assim a economia mundial se corrige e ajusta". ao final. como Coréia e Vietnã. o qual. assim. como se 201 ▲ . "é bom que as coisas se precipitem. como é notório.é apropriado pontuar que boa parte do desenvolvimento dos "Tigres Asiáticos" processou-se sob governos ditatoriais e autoritários. Diante dessas afirmações. Ora: que Economia Mundial é essa que entra em pânico por um "acidente" que afeta apenas 7% de sua produtividade anual? O verdadeiro pavor não consistirá de fato em que uma das suas derivações pode ser a estrepitosa baixa de preços dos produtos asiáticos (dum ping) o perigo iminente de benefício dos consumidores e prejuízo dos e inversores? A quais maldades políticas terá que se apelar para evitar essa presuntiva "injusta" festa dos compradores? Com certeza não será "democrática" nem "livre-empresista". destinado a inversões especulativas em outros mercados mais lucrativos e/ou estáveis? Alguns famosos economistas acabam de declarar. pelo fato de serem aliados dos países centrais nas guerras anticomunistas. Por último: como não requerer (apenas porque não sei se isso já foi feito) um levantamento cuidadoso e verídico dos coeficientes de concentração de riquezas que têm sido realizados e perpetrados nesses países. Outros têm manifestado que.

ditatoriais. descarado – da Máquina Abstrata do Capital e sua Axiomática Suprema? O que manda é o Equivalente Geral. "em última instância". no predomínio nebuloso do Capital Financeiro mundial – completamente independente de sua base material – e sua desregulação total.itiriam predizer essa "quebradeira". que é o preço de sua futura "recuperação"? Se os experts e seus organismos têm sido incapazes de conhecer as cifras necessárias ou de elaborar os modelos e as simulações que lhes perm.diz eufemisticamente. subordinando à sua força quase tudo que existe como realizado no horizonte do existente. tanto as empresas nacionais e transnacionais quanto os organismos estatais e supra-estatais operacionalizaram seus "modelos" predominantemente com base em movimentos táticos de "invenções" e "sangrias". não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais-valia o que não se pode mensurar!!! Como já advertiram Deleuze e Guattari. sem descartá-las por serem ingênuas e menos procedentes. que não é outra coisa mais que o pleno reinado universal – ostensivo. estridente. São as seguintes: por que tomar como referência comparativa e justificante das excelências liberais o Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é um tema ainda digno de muita polêmica? Por que confiar na "natural" afinidade entre Capitalismo e Democracia Nominal. incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão! Segundo me parece. Quanto custará ao povo desses países "novos ricos" quebrados a hipoteca dos anos vindouros. narcotraficantes. que em vão se reclama limitar jurídica e institucionalmente. A hegemonia da Axiomática do Capital consegue. de forma convincente. Movimentos esses 202 ▲ . não é apaixonante que a Suíça – país que deve uma parte indefinida de sua prosperidade aos depósitos bancários de boa parte dos capitais "espúrios" do mundo: evasão tributária. segundo o qual votouse a favor de continuar mantendo o segredo sobre suas contas bancárias. por que devemos acreditar que são ou serão aptos a quantificar. sendo que vários dos mencionados "desenvolvimentos" capitalistas realiza ram-se duran te regimes cripto ou ostensivamente despóticos – veja-se em outro contexto geopolítico a trajetória do Chile e do Peru. Pelo fato que já mencionamos antes dessa interessante questão da correlação inequívoca entre ética. suas formas monetárias e informáhcas. "estrutural". existem algumas outras perguntas-chave que precisamos nos fazer nessas circunstâncias. e se funda. às vezes. mafiosos e delinquenciais em geral – tenha um sistema político dotado de Assembléias Populares Comunitárias Cantonais?! A "plena" democracia suíça "perpetrou" um plebiscito. Como explicar esse império inquestionável a não ser pelas peculiaridades da globalização. "liberdade" mercadológica e "liberdades" políticas e humanas. tanto as vantagens do caminho capitalista "eleito" quanto o montante exigido para sua recuperação? Pelo visto.

– Não se pode esquecer jamais. – Não se deve confundir – mesmo levando-se em conta as singularidades históricas das citadas modalidades – a separação entre meios e fins que é própria da ética dos modos e sistemas capitalistas com a imanência entre meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte. táticas ou técnicas históricas de cada iniciativa produtiva-desejante-revolucionária. com a auto-análise e a auto-gestão. quaisquer que sejam as modalidades históricas que os dois termos dessa diferenciação adotem. que nunca o "espírito" das mesmas esteve melhor resumido que na deslumbrante fórmula – " A cada um segundo suas capacidades e a todos segundo suas necessidades" . logísticas. nem tampouco a "participação" na democracia direta. porém. agentes e práticas. rigorosamente subordinados ao primeiro. nem o saber e o poder de seus políticos profissionais e tecnoburocratas. organizações. cuja previsibilidade e precisão brilham pela ausência e são decididamente contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda. ou ainda a "popular". – Não se deve confundir a morfologia e a dinâmica das instituições. hierarquizados. Holanda. quaisquer que sejam as limitações. Finlândia e alguns ou tros países com fabulosos índices de saúde e educação. não tem muita diferença entre as variedades de Capitalismo e de Socialismo real. Folgo em dizer que o incremento das forças produtivas de todos os tipos – incluídas as forças teóricas e expressivas – mostra que este enunciado 203▲ . existe o hábito de invocar o sereno bemestar da Suécia. estratificados. obteve índices parecidos. Dinamarca. social-democrata ou socialista "soft". Noruega. mimetizações e vacilações estratégicas. e assim por diante. mas devem estar. do possível e do impossível. equipamentos.invariavelmente improvisados e incidentais. – Não se deve confundir a democracia indireta e representativa liberal. estabelecimentos. sem considerar com profundidade que a tal prosperidade é fruto da participação dessas nações na espoliação colonial e neocolonial e da inexistência de bloqueios sobre suas economias. Desejantes. com o embargo que dura mais de três décadas e oprimida por uma "Ditadura do Proletariado". semióticas. Não se pode dizer que os dois segundos sejam absolutamente contraproducentes e elimináveis. ajuda a demonstrar que. os componentes territorializados. que constituem os domínios do real. Revolucionários" – que são o "motor" da Produção ou a Produção em si – com aquela dos reprodu ti vos e antiprodutivos. isto é. por bem ou por mal. O ceme do problema – por mais pobres e óbvias em que essas observações resultem – reside no seguinte: – Não se deve confundir a lógica dos processos que Deleuze e Guattari chamam" Produtivos. Que Cuba. Como último argumento. neoliberal. com o âmbito do virtual atualizável. sujeitos.

"LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?". Buenos Aires. Rio de Janeiro. 1976. Baremblitt. BuenosAires. Espaço e Tempo. Amorrortu. coord. R. Lancetti. 1973. Baremblitt. 1975. México. Bourdet. in: "La Intervencion Institucional". "EI Analisis lnstitucional". Lourau et ill. Rio de Janeiro. G. Cuigon (coord. Petrópolis. 1988. G. Para terminar.). vários autores. J. Presses Universitaires de France. Ed Nuevillmagen. Ed. n° 62-63.). Petrópolis. Zahar. Ed. V R. 1987. uma variação que me ocorre para a palavra-de-ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte: ''A cada qual segundo suas capacidades de lograr que – a todos segundo suas necessidades – seja uma necessidade para todos e um desafio para cada um. 1975. ''Análise Institucional no Brasil".pode e poderá ser formulado de infinitas novas maneiras. Falias. 1981. A. México. "EI Sociopsicoanalisis Institucional". L. Campo Abierto. 1977. Pour. 1973." 204 ▲ BIBLIOGRAFIA BÁSICA Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura: "Apresentação do Movimento Institucionalista". Nueva Vision. Lapassade. in: "Saude loucura" nOl. Ardoino (org). J. . Ed. G. Ed. G. Cuillerm e Y. Kankhagi e O. 1979. "EI Analizador y el Analista". Cedisa. Autlúer e R. 205▲ "Sociopsicoanalisis lnstitucional". Mendel. G. Ed. Saidon (org. in: Rev. Madri. Ed Vozes. 'Autogestão: Uma Mudança Radical". in: Revista Vozes n° 4. R. "Grupos. Organizações e Instituições". Rio de Janeiro. 1978. Lapassade. e que isso exige aplicar às definições de capacidades e de necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados. Mendel. Hess. C. Lourau et aI. Vozes. Petrópolis. Ed. Ed. 'Analisis Institucional y Socioanalisis". Quehacer y Deseo". Ed. G. coord. Ed. Buenos Aires. "Participacion y Autogestion". Francisco Alves. ''Análise Institucional: Teoria e Prática". São Paulo. Ed. Paris. 'A Análise lnstitucional". M. 1973. R. Vozes. Barcelona. Tomasetta. 1984. "[Analyse Institu tionnelle". Lourau. Hucitec. G. Ed. Amorrortu. Lapassade. A. in: "Saber. Paris. ''Alguns elementos teoricos para pensar Ia cuestion de Ias derechos humanos y Ia violencia institucional". 1989. Poder. Ed. "O Inconsciente Institucional". 1971. 1977. apresentação e introdução. Baremblitt. Ed. tomos 1 e 2.

Obras de Gilles Deleuze: "Para Ler Kant". "l. "Enquete par un Psychanalyste sur Lui-Même". Ed. F Cuattari. Campinas. 206▲ BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA A bibliografia de consulta é vastíssima e pode ser classificada de acordo com a maior ou menor proximidade que tenha com a linha teórico-prática adotada neste livro. Obras de Georges Lapassade: "Chaves da Sociologia". Os textos aqui classificados são apenas os mais próximos. Ed. "Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". "Micropolítica – Cartografias do Desejo". 1988. Ed. F Cua ttari. 1972. 'Anthropologie Diffierentielle". "EI Manifesto de Ia Educación". 1978. Buenos Aires. Cedisa. R. Campinas. "Quand plus rien ne va de soi". 1976. Ed. Lafon t. Paris. Ed. Ed. 'A Revolução Molecular". 1981. "La Entrada en Ia Vida". em colaboração com R. 1976. 1972. G. Ed. Granica. Península. 1986. Deleuze e F Cuattari. 1983. Ed. esgotar a lista dos possíveis. Francisco Alves. excluímos da literatura concernente à antipsiquiatria. Ed. "Empirismo y Subjetividad". "La Crisis e Ias Ceneraciones". Paris. 1975. Ariel. em absoluto. Ed. "La Descolonizacion dei Niíi. Lafont. Civilização Brasileira. 1977. Rolnik. 1977. Ed Payot. à psicologia organizacional e à psicologia grupal. F Cuattari e S. 1981. Paris. Ed. "La Crise est Poli tique. Madri. Cranica. Payot. "On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Por motivo de focalização. F Cuattilri. 1988. Barcelona. Ed. Papirus. R. Fundamentos. 1972. "O Anti-Édipo". 1976. . Ed. Ed. "Mil Platôs". Barcelona. "La Classe lnstitu tionnelle". Deleuze e F Cuattari. "O Inconsciente Maquínico". Petrópolis. 'Au togestion Pedagógica"."Psicoanalisis y TransversaJidad". Madri. Brasiliense. F Cuattari. Ed. Lafont. 1985. Ed. Ed.lmago. Siglo XXI. Ed. Barcelona. Payot. Paris. Lourau. 1974. Paris. Barcelona. Barcelona. Paris. Papirus. Valência. Paris. Ed. Ed. Ed. Payot. e não pretendem. Ed. Ed. São Paulo. Sigla XXI. "La Bio-Energia". 19~O. Ia Poli tique est en Crise". 1977. 207"54 Millions d'Inclivid us sans Appartenance" . Ed. Obras de Gérard Mendel: "La Rebelion contra el Padre". 1975. Vozes. R. "Pour une autre Societé". 1986. 'As Três Ecologias". 1973.1975. 1988. Península. 1975. Paris. Ed. Payot. Ed. Pre-Textos. 2ª ed. Cedisa. Barcelona. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Barcelona.o". 1981.:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". Stock. Rio de Janeiro. G.

Res. Ed. "Spinoza y el Problema de Ia Expresión". Gua ttari. Ed. 1974. Barcelona. Forense Universitária.19bO.:épi. Ed. "Sociologue a Plein Temps". Obras de René Lourau: "LInstituant Centre I. 1976. 1987. "Le Analyseur'Lip"'. em colaboração com C. I. G. Barcelona. 1969. I. 1981. Paidos. Rio de Janeiro..iento". 'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". Barcelona. Livraria Taurus Editora. Privat. 1984. 'Apresentação de Sacher Masoch". Ed. "Foucault". Paris. Paris.. Ed. Toulouse. "Kafka/ por uma Literatura Menor". "Nietzsche". 1975. "Los Equipamentos de Poder". Ed. R. Tusquets. Paris. Pre-Textos.:epi. 1980. "Politique et Psychanalyse". 1988. "Diálogos". "Nietzsche y Ia Filosofia". Ed. Parnet. 1972. Ed. Madri. Ed. Paris. UGE 10/18. Porto. "Le Gai Savoir des Sociologues". Pre-Textos. 1987. Barcelona. "Deleuze e a Filosofia". Des Mots Perdus. "Pericles y Verdi". Kairos. "Proust e os Signos". Graal. Ed. Guattari. Ed. Gill. 1979. Ed. 1983. Alençon."Diferença e Repetição". 1989. F Fourquet e L. 1975. "La Imagen-Movim. "EI Estado y ei Inconciente". Pa. Ed. 1974. BuenosAires. "EI Pliegue". Ed. Rio de Janeiro. Ed. 1984. Rio de Janeiro. 1969. Ed. em colaboração com F. Galilée.. "Espinosa e os Signos". Rio de Janeiro. 1977. Ed. Ed. Ed. UGE 10/18. Ed. 1987. "Les Lapsus des Intellectuels". "Spinoza: Filosofia PréÍctica". Ed. Catedra. Buenos Aires. Machado. 1990. I. Ed. 'Autodissolusion des Avant-Gardes". "EI Bergsonismo". Ed.1977.:epi. Lisboa/1981. Valência. 1989. Edições 70. Graal. Antrophos. 1971. "I. Paidos.:Illusion Pédagogique". 208 . Anagrama. Ed.rica do Sentido". Ed.:Institué". Perspectiva. com F. São Paulo. Antrophos. Murad..1977. Estuclios 1 y 2. Imago. "Les Analyseurs de l'Église". Muchik. Paris. "Lót. Rio de Janeiro. Ed. 1971.. Barcelona. Ed. Valência. Barcelona.idos. 1976.

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Barcelona. Altoé. ''As Instituições e os Discursos". Rio de Janeiro. Zahar. Rio de Janeiro. Revista Saudeloucura. esquizodramatista e escritor em diversos países da América Latina e Europa.1978. Periódicos. 4ª ed. Ed. pesquisador. 1990. Barhier. coord. Revista Connexions. Ed. ''A Pesquisa-Ação na Instituição Educativa". Revista Tempo Brasileiro n° 35. esquizoanalista. São Paulo. Ed. Revista Autogestions. "Sociopsicoanalisis e Institucion". Rio de Janeiro. Toulouse. R. tomos 1 e 2. Esse percurso teve início há 40 anos. Renaudot. Busqueda. Privat. Buenos Aires. Baremblitt vem traçando um longo e fecundo percurso como médico psiquiatra. E. e foi-se tornando mais rico e complexo a cada momento em que o médico buscou o cruzamento da Medicina com outras áreas. 1974. Ed. BuenosAires. Tempo Brasileiro. Ed. Gregorio Baremblitt buscou sempre expandir sua atuação até as fronteiras da Medicina com a Política. psicoterapeuta. 1984. A. da qual é livre-docente. Ed. a Filosofia. Xenon." Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui". Paris. Fd. A. cerca de 20 números. na Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires. 210 O AUTOR Da formação em Psiquiatria à militância junto ao Movimento Instituinte Internacional. Hogar deI Libro. Paris. Ed. Lancetti. Epi. SAI. a Sociologia. Esse olhar generoso e ao mesmo tempo rigoroso sobre os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma . "m Proceso Grupal – Dei Psicoanalisis a Ia Psicologia Social". Ed. analista e interventor institucional. Pichon-Riviére. Ed. S. Nueva Vision. Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. Payot. Ed. Revista Lo Grupal. 1985. oito números. Paris. Martin.209 ▲ "Infâncias Perdidas – O Cotidiano nos Internatos". cerca de 30 números. Hucitec. professor. cerca de 30 números. cerca de 20 números. Paris. 1989. a Arte e também os saberes populares. Movido pela inquietação daqueles que não se contentam com o conforto garantido pelo reconhecimento dado aos especialistas consagrados. Ed. Gregorio F. quatro números. Revista Sociopsychanalyse.

Ed. Nueva Vision. São Paulo. Belo Horizonte. Grupos e Instituições (Ibrapsi). 1998. Ed. Universidade Autônoma do México. Buenos Aires. "El Concepto de Realidad en Psicoanalisis". "Lacantroças". uma das primeiras entidades do país a instituir formas de tratamento mental em sintonia com os ideais da Luta Antimanicomial.1971. Traduzido para o espanhol. Quehacer yDeseo". em colaboração com outros autores. 1984.ampla produção intelectual. Ed. 1974. Matrajt. no Rio de Janeiro e em São Paulo. Há também numerosos prólogos e artigos publicados em revistas científicas. Socioanalisis. Sua atuação no campo da saúde mental inspirou outros profissionais a criarem a Fundação Gregorio Baremblitt. em colaboração com outros autores. Rio de Janeiro. Cidade do México. "O Inconsciente Institucional". Poder. em Uberaba (MG). Buenos Aires. Ato Político". "Cuestionamos". Global Ground. em colaboração com outros autores. Ed. Gregorio é autor de numerosos livros e artigos científicos e organizador de seis congressos internacionais em sua área de atuação. correntes e questões do Movimento Instituinte para aqueles que estão iniciando seus estudos e ações nesse campo. "Cinco Lições sobre a Transferência". em colaboração com outros autores. Instituto Félix Guattari. 1982. primeira organização no mundo separada da Associação Psicanalítica Internacional por motivos políticos. Buenos Aires. Gregorio foi membro-fundador do grupo psicanalítico argentino denominado Plataforma. "La Cura". 1978. Buenos Aires. em colaboração com outros autores. fundou. Ed. Este Compêndio é fruto de um grande esforço para traduzir as temáticas. 1980. 1976. Ed. Ed. ''Ato Psicanalítico. Ed. sempre ancorados em duas palavras-chave: auto-análise e autogestão. Ed. e o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. GraalIbrapsi. Centro Editor Latinoamericano. Vozes. 211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR "Introdução à Esquizoanálise". Ed. "La Interpretacion de los Suenos: Una Técnica Olvidada". Petrópolis. "Saber. culturais. Belo Horizonte. BuenosAires. livros e jornais da América Latina e Europa. Traduzido para o espanhol. o Instituto Brasileiro de Psicanálise. Ed. Hucitec. Ed. Hucitec. Rio de Janeiro. Ed. Ao se estabelecer no Brasil em 1977. Helguero. 212 . Busqueda. "Grupos. mas também diversas ações nos planos de coletivos diversos: em 1970. "Psicoanalisis: Teoria y Practica". 1972. em colaboração comM. 1987. Teoria e Técnica". São Paulo. "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria e Psicanálise". Segrac. do qual é atualmente o coordenador-geral. 1988. 1991.

e está aberto a todos aqueles que compartilham de seus ideais. e suas atividades têm como inspiração a Utopia Ativa que guia a obra de Gilles Deleuze e do homenageado: a Esquizoanálise. O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (IFG-BH) também promove cursos e grupos de estudo.1083 e 3221. Belo Horizonte. e junto a um grupo de colegas institucionalistas. governamentais e não-governamentais que atuam nas áreas de educação. e-mail guattari. Os interessados em entrar em contato com o Instituto Félix Guattari podem fazê-lo através dos telefones (31) 3284.br . movimentos e grupos públicos e privados. MG.7352 (Fax). O IFG-BH tem diversas parcerias com organizações nacionais e estrangeiras afins. sendo todas as atividades pautadas em sua orientação. saúde. mas com ênfase na prática clínica. justiça. terapeuta e institucionalista Gregorio Baremblitt. supervisiona trabalhos técnicos e práticos. Cep 30240-010. um dos introdutores das idéias desses autores em vários países da América Latina e Europa – em parceria com Margarete Amorim.br ou pelo site www. O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F. que é também a do Movimento Instituinte Internacional.INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (MG) é uma organização não-governamental fundada no ano de 1996. arte. analista institucional e esquizodramatista.com. Seu nome é uma homenagem ao célebre intelectual e militante francês Félix Guattari. estabelecimento este que já conta mais de uma década de existência ancorada em uma orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. psicóloga. 213 ▲ . organiza eventos. políticas públicas etc. 267 – Serra.hpg. Baremblitt de Uberaba (MG).bh@terra. trabalho.com. O Instituto desenvolve atividades de prestação de serviços em análise e intervenção de organizações. edita e distribui livros e gerencia programas sociais. O Instituto foi criado pelo autor deste Compêndio – o professor de Psiquiatria. Sua sede fica na Rua Herval. conduz pesquisas. ecologia.ifgorg.

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