Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática

Gregorio F. Baremblitt
5ª.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992 4

SUMÁRIO 5 INTRODUÇÃO.............. 11 CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13 CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 CAPÍTULO III: As histórias..............37 CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 GLOSSÁRIO..............133 APÊNDICE..............174 POST-SCRIPTUM..............195 BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207

AGRADECIMENTOS No referente à primeira edição deste livro, o autor dá aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi uma versão. Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou inúmeras tarefas que possibilitaram sua publicação e distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com a revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor também agradece aos membros e funcionários do Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contribuições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente. O autor é grato a todos os amigos: professores universitários, pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da autogestão que colaboraram na distribuição das diversas edições deste escrito.

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heterológico e polimorfo de orientações. por sua vez. Curso que. O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo. Essa vocação libertária. ainda está para ser produzida. sua Pedagogia exige uma originalidade da qual já existem muitas tentativas.INTRODUÇÃO Este livro corresponde à versão escrita de um curso proferido em Belo Horizonte no decorrer de 1990. organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. ainda inédito. Os seis primeiros capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o curso. mas que. o estatuto epistemológico e jurídico absolutamente singular e a infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tarefa de ensiná-lo. foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. 11▲ . entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua aspiração a deflagrar. apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais. ao mesmo tempo. enquanto o último foi escrito como artigo independente. Se se deseja ser coerente com os valores do Movimento.

12 ▲ . no meu entender. em algum momento. sejamos realistas. devo destacar as correntes latino-americanas de Pichón-Riéver. De Brasi. discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para os futuros institucionalistas. a bibliografia final. acredito que este livro seja estimulante. mas. proferido com uma metodologia tradicional. um livro especial. Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar. integrada predominantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil. Kaminsky. tem apenas o propósito de aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do Institucionalismo. Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados. Bleger. Bauleo. Pavlovsky. ou. Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória. foi inspirado pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer complexo e arriscado. proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. Ulloa. importantíssimo para o povo brasileiro.Este curso. começar verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta. Malfe. Matrajt. Mais informativo que formativo. Para quem decidir continuar.

. Não existe nenhuma escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte. da maneira mais simples e mais didática possível. Em capítulos sucessivos. há algumas que são relativamente fáceis de se colocar. um leque de tendências. teremos ocasião de complicar as coisas. Podemos chamar a isto também de 1 3▲ . simplificá-las.. Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte. é um conjunto de escolas. para ser entendida pelo maior número possível de pessoas. Agora.Capítulo I O MOVIMENTO INSTITUINTE. A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam. como o nome aproximativamente indica. a intenção é. pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. predominantemente. E é a essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora. Contudo. Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que. pois se procura apresentar uma exposição de nível médio. Eu diria que existe o que se chama de "ideais máximos" do Movimento.

experts que são os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. os processos de funcionamento social. nesses últimos duzentos anos. os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e de autogestão. a serviço daquela instituição que representa o máximo 14 ▲ . ou uma medieval com a nossa sociedade moderna. O que significam essas palavras? Depois. ou seja. uma grande complicação interna. existem disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. Por exemplo. mas que são. como veremos depois. uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil anos. ciências formais. Esse saber. como ninguém ignora. de fato. compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana. capitalista ou tecnológica. então. a serviço das entidades e das forças que são dominantes em nossa sociedade. As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar. nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de estudo e tem gerado profissionais. Esses conhecedores têmse colocado. além de se caracterizar por uma grande diversidade. E o progresso trouxe uma grande complexidade.propósitos mais importantes. apoiar e deflagrar nas comunidades. houve um processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. caracteriza-se também por. Os mesmos podem ser enunciados através de duas palavras aparentemente simples. Ou seja. ou uma organização imperial. ter produzido uma soma de saberes que propiciou. Mas em nossa civilização chamada industrial. Se compararmos. despótica. apesar delas não serem nada simples. de diversidade que as sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas civilizações. resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado "progresso" em igual proporção. o grau de complexidade. muito complexas. que nossa época. Acontece. intelectuais. têm sido sempre muito complexos. por exemplo. nossa civilização. em geral. Além desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza. a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a história da humanidade. uma organização social dita "primitiva". aplicações tecnológicas.

os bens que se produzem e administram nesses territórios. aos assuntos familiares. empresariais. nos tribunais. ou seja. Junto com seu saber. colocado em segundo plano. geral. moradia. quase incondicionalmente. E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo de ideologia. sua conveniência. infundado ou. a sociedade civil – têm-se visto despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua própria vida. transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. num sentido vago. que é o Estado. tem tido como conseqüência que os povos – em sentido amplo. insuficiente. como se fosse rudimentar e inadequado. secundários e terciários. Cada um desses campos. sua qualidade. é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência. vestuário. as empresas nacionais e multinacionais etc. dos organismos do Estado. Então. fica relegado. às que atingem a comunicação de massa. em que os "sábios". aos psicológicos e subjetivos. ou seja. em geral. pobre. do saber e do prestígio. os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado e das empresas.da concentração de poder. Mas noutro plano. Essa situação. cada um dos serviços que se prestam nessas áreas. por outro lado. Esse saber. às questões relativas ao lazer. no melhor dos casos. de seu próprio funcionamento. gerenciada por "especialistas". já dentro da sociedade civil. do saber e de serviços dos experts . aos especialistas de produção de bens materiais. com os 15 ▲ . refiro-me aos problemas de saúde. primários. Elas dependem. esses experts têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza. de educação. o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a sociedade. criado e acumulado pelas comunidades sociais durante tantos anos de experiência vital. aos assuntos próprios da religião. visando a qualificá-lo como um falso conhecimento. a partir do surgimento do saber científico e tecnológico. elas têm perdido o controle sobre suas próprias condições de vida. do poder. tudo é decidido pelos experts . O mesmo acontece no plano de administração da justiça. Toda a produção desses bens está dirigida. sua quantidade. então. sua necessidade. as comunidades de cidadãos têm visto esse saber subordinado ao saber dos experts. comida. Além disso. que são as organizações corporativas.

Acontece. guardas etc. então. na verdade. Mas não se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam e acham que pedem o que querem e como querem. desejar e solicitar. muito evidente que nossos coletivos estão. através da exigência de produtos e de serviços correspondentes. mas particularmente na nossa. despachantes. níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas necessidades a perdem. mas. É.advogados. mas o uso da força física está reservado a organizações como a polícia. de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que "realmente" aspiram. Esse "mínimo" é gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. que se chama demanda. da força da persuasão. na Análise Institucional e em outras escolas do Institucionalismo. pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de descrever. oficiais. Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo. porque todas essas outras entidades também usam da força. É possível afirmar que as comunidades ou coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. no sentido literal. Mas ainda dentro do condicionamento histórico. registros civis. querem e pedem o que lhes inculcam que devem necessitar. E o que falar do exercício da força. não existem demandas "espontâneas". É claro que os experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os interesses das classes. da força da sedução. que seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e desejos citados. aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo" não existe. delegados. Então. que também têm seus especialistas. isto é. senão da força física. as forças armadas. a noção das necessidades é produzida. não existem necessidades básicas "naturais". assim como a demanda é modulada. leis: tudo i sso feito por experts e administrado por eles. como veremos. o que acontece? Há um conceito básico que vamos ver depois. 16 ▲ . Essas necessidades são colocadas diariamente através de demandas espontâneas. porque ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história. precisam.

eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento importante e não inteiramente alienado. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas. com precisão. se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir. têm alienado o saber acerca de sua própria vida. mas elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo. compreender. os coletivos têm perdido. a noção de suas reais necessidades. o que devem pedir e o que podem ou não conseguir. nem de fora. Então. ela também não é feita de cima para baixo. o que podem. adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida. interesses. Mas os experts 17 ▲ .atualmente. não necessariamente distorcido. possam enunciar. ao mesmo tempo. necessidades. desejos e demandas. o que sabem. ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de sua vida sobre a terra. ela mesma. ou seja: não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer-lhes quem são. Este processo de auto-análise das comunidades é simultâneo ao processo de auto-organização. ou seja: produtivo. de suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas limitações. Mal podem organizar-se para resolver seus problemas se não conseguem saber. em que a comunidade se articula. quais são seus verdadeiros problemas e o que se requer para resolvê-los. Na medida em que essa organização é conseqüência e. com sua disciplina e seus instrumentos. de seus desejos. Essa auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque. nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem. de suas demandas. um deles seria a auto-análise e o outro a autogestão. um movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise. Eles têm perdido um certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem dispor para colocar e resolver seus problemas. se institucionaliza. Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria o primeiro deles. como protagonistas de seus problemas. sem dúvida.

dentro dos organismos aos quais pertencem. seu saber específico. seus métodos. 18▲ É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. E só conseguirão reformulá-los numa gestão. não podem fazê-lo nas academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. os experts. significa a produção de um saber. hierarquias que eles têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico-políticos do Estado. para as comunidades. Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas superficial. suas técnicas. de sua pertença ao bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise. do . Esse estatuto deve resultar de uma crítica das posições. Ao mesmo tempo em que são os objetivos principais das propostas instituintes. sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de auto-análise e auto gestão dessa comunidade. À parte dessa reinvenção de sua disciplina.devem submeter seu saber. num trabalho feito em conjunto com essas comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz. mas profundamente conhecidos pelos leitores. tenham algum lugar dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins. métodos e técnicas. da qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas. eventualmente. Isso permitirá que. Eles têm que entrar em contato direto com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando para incorporar-se a essas comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham. eles são também os próprios meios para realizá-las. Por isso. a uma auto gestão. o que é produto de sua origem. os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim. suas inserções sociais como profissionais a uma profunda crítica que os faça separar. ou ainda das diretivas das grandes empresas nacionais e multinacionais. os experts poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e autoanalíticos quando forem chamados a participar. Eles poderão assim reformular. Por quê? Porque auto-análise. Eles têm de reformular sua condição profissional. Então seu saber. aprendendo e ensinando seu saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. quando a comunidade conseguir organizar-se. Para poderem efetuar essa autocrítica. postos. suas glórias. dentr o dessas teorias.

elas têm que construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. em assembléias. tanto quanto os processos auto-analíticos.. é evidente que o Institucionalismo. demandas etc. a capacidade de impor a vontade de um sobre o outro. Na realidade. e também de seus recursos. Mas a existência de hierarquia não implica diferença de poder. de deliberação. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo produtivo. suas necessidades. Em todo caso. Deverão. Existem hierarquias moduladas pela potência. os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual. 19▲ . não pode haver um saber sem uma organização. então. Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de denominações. Mas não pode haver uma organização sem um saber. Contudo. São dois processos diferenciados. especificidades etc. de suas condições de vida. tudo o que elas descobrirem neste processo de auto-conhecimento só terá uma finalidade: a de auto-organizar-se para que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência. gerências. ou seja. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem.conhecimento acerca de seus problemas. porque estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas coletivamente. mas não há hierarquias de poder. por correias de transmissão. Implica apenas uma certa especialização em algumas tarefas. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades. simultâneos. articulados. Elas têm que organizar-se em grupos de discussão. peculiaridades e capacidade de produzir. hierarquias. não equivale a privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos. é difícil pensar qualquer processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa hierarquia de decisão. são produtores de conhecimentos. quadros. São executores. Eles têm maneiras diretas de comunicar as decisões. elas têm que se dar condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. existir hierarquias. Ao mesmo tempo. mas eles são concomitantes. a resolver seus problemas. elas têm que chamar experts aliados para colaborarem.

Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles um saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. ou. de ambições de segmentos individualistas etc. Entretanto. distribuído e exercitado na vida coletiva. Na topografia deste saber. e ambos não são homogeneamente distribuídos. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza são É - . existem alguns elementos essenciais que compartilhados por todo mundo. que afeta 0. principalmente se por prevenção entende se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. já não é um saber produzido fora dos interesses e desejos do coletivo. já não é um saber que vai cair de cima para baixo. muitos dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. Vou dar um típico exemplo da medicina. digamos. pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual.5% da população. Então. embora haja mil exemplos. e então a serviço do coletivo. Acontece que o povo. de fora para dentro. vestuário e saneamento básico. um poder. produzido. há muitos centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou diagnosticar uma problemática altamente específica. uma vez realizados. por alguns especialistas no assunto. as organizações de base. que têm efeitos médicos. Quem conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa prioritariamente de. o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil esteja colocada na assistência e não na prevenção. circunscrita. quando esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa questão. em estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas aplicações terão. O coletivo conserva um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando o seu poder com sentido instituinte-organizante. alimentação. Mas este saber é um saber coletivo. têm suas causas diretas nos problemas de habitação. Seus problemas. pelo contrário. O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa nem acaba no campo da medicina. não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do Brasil porque a primeira coisa 20 ▲ que lhes seria respondida é que não sabem. porque foi produzido dentro. Disso todos os experts sabem. necessariamente.e que todo saber envolve. já uma delegação. tomógrafos computadorizados.

seu saber. todo mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos. Assim. Nesse caso. A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar. as comunidades da planície têm. integrado à comunidade. a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts. as comunidades 21 ▲ eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente . Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está colocada num futuro longínquo. revalorizar o saber espontâneo que elas têm sobre seus problemas. não devendo ser tratado como tal. Como já dissemos. Isso não descarta que possam acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder. e não numa potência de colaboração com o coletivo. mas isso não pode afirmar-se a priori. também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo que não se exprimam em sofrimento. Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico. o coletivo já não está desqualificado – ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que preci sa? Os índios têm. para este trabalho de reformulação. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o que vem depois. senão em cada ato do cotidiano. ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença. as comunidades das montanhas têm. porque este processo de auto-conhecimento e autogestão é interminável. as comunidades negras têm. ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária-que o saber médico (nesse caso) e suas técnicas têm. demonstra a capacidade de contribuir. basicamente. Por exemplo. Desde logo este saber também desconhece muita coisa. quais são as enfermidades e como devem ser tratadas. Provavelmente. pelo menos. nacionais e multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses interesses. pode-se delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder. haverá necessidade de muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se em sua plenitude. que atua predominantemente a serviço de interesses estatais. Uma vez que o expert . existiram e existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. em pé de igualdade. o que é prioritário e o que é secundário.

integrado a aspectos libertários do Cristianismo. severamente contraproducentes. engenheiros. Um desses movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. psicólogos etc –. não são donos dos recursos que são propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes. Os leitores compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições altamente desfavoráveis. não são donos da riqueza. os experts – médicos. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. Mas. para a 22 ▲ . O Institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. conceitos. gostaria de referir-me à última questão. a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos organismos e entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. advogados. enfim. Por outro lado. em que consiste o tema aqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico -social e uma gênese conceitual. porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. Por quê? Naturalmente porque os coletivos em questão não são donos do saber. comunicólogos. existem e vão existir. embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja Católica. idéias. e não precisam do Institucionalismo para se desenvolverem. categorias que têm sido produzidas pela humanidade no decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base. Então. a gênese conceitual refere-se ao campo das idéias. para fundamentar a proposta institucionalista. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram. Nós. temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação. conceitos e funções: todas aquelas teorias. mas acho que vai complicar um pouco as coisas. Agora. muito importante. Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo. Esses processos autogestivos e auto-analíticos são.

do ensaio. Quer dizer: há correntes. porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a definição de problemas. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos. a invenção de soluções. Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas auto-analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. um câncer. Não há nada que seja mais temido e mais odiado pelo sistema social. que buscam a instalação plena da autogestão e da auto-análise. organizações e saberes de grupos e outros segmentos dominantes. incorporá-las. Provavelmente a tendência política tradicional que mais se aproxima das propostas institucionalistas. no Institucionalismo. uma peste. De qualquer maneira. Isso faz com que os objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos nunca de forma definitiva. do que é impossível e do que é virtual. tentam recuperá-las. da procura. como na política. nada disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. tanto das extremistas quanto das propostas social-democráticas. Ou seja. Eles as diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas. e com a qual o Institucionalismo está mais que em dívida. pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos. 2 3▲ . Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. o que normalmente é feito pelas instituições. esta última afirmação que faço refere-se ao seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias. Então. existem correntes reformistas e existem correntes ultra-revolucionárias. Eles são atingidos sempre na base da tentativa. e pelo grau de realização com o qual se conformam. a colocaçã o dos limites do que é possível. Mas isso não quer dizer que não sejam possíveis ou inventáveis. Elas têm aparecido muitas vezes na história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas.organização do sistema. seja a de certas orientações do anarquismo. E quando não conseguem eliminá-las. de alguns espaços. pelos métodos. E as que hoje insistem em existir lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí-las. escolas" maximalistas". de alguns temas de auto-análise e autogestão.

ou é a oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 5) O que significa auto-análise e autogestão? 24 ▲ . as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações.PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência. uma disciplina ou uma tecnologia? 2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos e grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber". e por que se diz que as ciências.

as normas e os códigos também. não figurando em nenhum documento. só que eles são transmitidos verbal ou praticamente. um tecido de instituições. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos. assim corno o . o que está proscrito. podem ser normas e. tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do que é a História. estão escritas. Alguns autores sustentam que leis. quando não estão enunciadas de maneira manifesta. esclarecendo 25▲ o que deve ser. em geral. caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela. O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana. normas e costumes são objetificações de valores. e o que não deve ser. As leis. o que está prescrito.Capítulo II SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES O Institucionalismo. sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola para escola. afirma que a sociedade é uma rede. são árvores de composições lógicas que. O Institucionalismo. E que são as instituições? As instituições são lógicas. à sua maneira. segundo a forma e o grau de formalização que adotem. isto é. podem ser leis. podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o devir da Sociedade no tempo.

de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte dessa língua. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em termos gramaticais. que característica de vínculo. e é curioso que os institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. Isso também é um código que. essa divisão vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder. que é o que acontece em outros tipos de instituição. no caso da língua. 26 ▲ . corno se pode ver. Então. Essas lógicas. consideradas gramaticais ou agramaticais. É claro que. Mas. Com a combinação desses elementos. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano. não estarão estipulados também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua. formalizado ou não. genro etc. mãe. entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo. assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica. urna gramática é urna instituição que explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens. pode construir-se um infinito número de mensagens. nora. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. de normas que regem a combinatória de elementos fônicos. as que definem os lugares tais corno: pai. Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco. por outro lado. e também proscrições – o que é proibido. esses corpos discriminativos. Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. Um exemplo de urna instituição: a instituição da' linguagem. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis.que é indiferente. pelo menos dentro desse universo humano em particular. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa classificação podem se dar uniões. filho. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da divisão do trabalho humano. no final das contas. de unidades de significação na linguagem. regula a relação de parentesco e tem prescrições – o que é indicado. os prescritos ou os proscritos. conforme indicado por essas leis. são vários.

urna organização (que. isto é. as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções que as instituições distribuem e enunciam. são formas materiais muito variadas que compreendem desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação. as instituições têm de realizar-se. um banco. Em um plano formal. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las todas. normas e pautas que prescrevem corno se deve socializar. Ternos também a instituição da religião. por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. Mas as organizações não teriam sentido. Por sua vez. então. não teriam realidade social senão através das organizações. Estabelecimentos seriam as escolas. as instituições não teriam vida. as instituições são entidades abstratas. as instituições da administração da força. por exemplo. Isto é. Ou seja. como insisti. do campo e da cidade. os estabelecimentos. E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que são as organizações. e assim por diante. aquelas leis. pelas instituições. Ministério da Fazenda etc. Mas. uma fábrica. uma loja. – até um pequeno estabelecimento. há algumas que são muito 27 ▲ características. Ternos também as instituições de justiça. urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens.prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm esses lugares (divisão social). um convento. Há diversos tipos de . que é a que regula as relações do homem com a divindade. feminino e masculino etc. têm de "materializar-se". não teriam direção se não estivessem informadas como estão. assalariados e autônomos. um quartel. mas com respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de comportamentos contra-indicados. Para vigorar. Há também as instituições da educação. vultoso) está composta de unidades menores. Agora. instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa integrar-se à mesma com suas características efetivas. não teriam objetivo. Por exemplo: trabalho manual e intelectual. As organizações. costuma ser um complexo grande. como. Ministério da Justiça. para cumprir sua função de regulação da vida humana. pelo menos. divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros. entendidas assim.

estabelecimentos, de características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das organizações da comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não-verbais, discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de instituição às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer, por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 28 ▲

uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis. Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir historicamente ao nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações de urna instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não existem), a isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições, tem um produto, geram 29 ▲

um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados aos novos estados sociais. Tem-se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado. Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma tendência histórica a esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior felicidade, maior realização, 30 ▲

se se compreende esta oposição entre a 31 ▲ . de consenso. de uma fase histórica para outra. É claro que. cada sociedade. uma orientação histórica de seus objetivos. mas é a mais conhecida por nós. à exceção de algumas sociedades em particular. ou seja. pode-se distinguir uma função e um funcionamento. imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva. há a tendência a adquirir sempre características históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. Assim. podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por todo mundo: são os processos de exploração. deseja. sempre tem uma utopia. estabelecimentos. a utopia da Revolução Francesa. Então. organizações. Para poder entender essa terminologia. que não é nem a única nem a melhor das utopias. compartilhada. ou seja. tem-se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos.maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes entre o instituinte e o instituído. sonegação de informação etc. e na vida humana tomada num sentido muito amplo. e mistificação. desde que existem sociedades. dominação. de dominação e de mistificação (desinformação ou engano). para referir -me a isso. fluidas. uma administração arbitrária ou deformada do que se considera saber e verdade histórica. e que são chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta. engano. que é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros). práticas. diferentes formas de igualdade. que é substituída por diversas formas de mentira. diferentes formas de veracidade e fraternidade. que cada sociedade coloca à sua maneira. elásticas. em seus aspectos instituintes e organizantes. entre o organizante e o organizado (processo de institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis. de suas finalidades mais altas. Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições. deve chegar a ser. chamada de revolução burguesa. agentes. Essas características históricas. apesar de eu estar usando. muito diferentes de uma sociedade para outra. Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais nobres. as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade. ilusão.

A função apresenta-se deformada. o organizado. Só que esta função raramente se apresenta como ela é. Agora. natural. ela é predominantemente reacionária. Então. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais". Essas forças. de Igualdade e Fraternidade. enquanto recurso operante o instituinte. desejáveis e eternas. As instituições. é claro que é necessário. funções a serviço da exploração. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração. disfarça da. tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a característica da função. da mistificação. esses processos. chamamos de Justiça. organizações. estabelecimentos. desejado e lógico das instituições e das organizações. é sempre transformador. Podem ser chamados de outra maneira. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas. mostra-se como o objetivo natural. todo estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores. coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a característica essencial do instituinte. O instituído.. conservadora. justamente por causa da questão da mistificação. ao passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia. o funcionamento é sempre instituinte. é justiceiro e tende à utopia': A função. dominação e mistificação que se apresentam nesta sociedade. recebem o nome de funcionamento. do organizante e dos seus produtos operantes é serem propícios à produção. produção que é a geração do novo.. freqüentemente. Isto é. predominantemente. então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento. não se manifesta claramente ao nível do instituído e do organizado. agentes e práticas desempenham uma função. Toda instituição. dos mistificadores. Ou seja. dos domina dores. daquilo que 32 ▲ . rapidamente. da dominação. provisoriamente. da dominação e da mistificação. pode-se definir outros termos que temos aqui presentes. toda organização. estão sempre a serviço dos objetivos que. desejável e invariável. os instituídos e os organizados apresentam. dominação. mistificação-. mas em geral elas são mesmo traídas. a serviço da exploração. e se apresenta aos olhos não atentos como eterna. enquanto produtivo.utopia. o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração. enquanto expressão apropriada. Acontece que.

ao nível da produção e ao nível da reprodução. Então: instituinte e instituído. Essa é uma tentativa de enunciar o entrelaçamento. do conservador. não só instrui. especialmente 33▲ . aquilo que não é operativo para propiciar as transformações sociais. e além de ensiná-los a ler e escrever. abstratas. Acontece que uma escola não só alfabetiza. funcionamento contra função. Então. a rede social. Para concluir. desde o outro. do produtivo. mas também prepara força de trabalho (alienado). entre todos os organizantes e organizados. não só educa dentro dos objetivos manifestos do organizado e do instituído. não atuam separadamente. Nós dizemos. do reprodutivo. Para dar apenas um exemplo. funcionamento e produção são a mesma coisa. por exemplo. os instituintes-instituídos. e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do organizante. a interpenetração que existe entre todos os instituintes e instituídos. Para concluir. produção contra reprodução. o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer. uma escola também é uma fábrica. essa interpenetração ao nível da função. Por outro lado. para o outro. cada organização. Essa interpenetração ao nível do instituinte. também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia. vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de funções a nível organizacional. como analisar cada instituição. como entender. de acordo com a concepção de ensino que ela tenha. mas necessárias para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste. exporemos definições que são um pouco áridas. uma escola. que uma escola é um estabelecimento das organizações do ensino. do criativo chama-se transversalidade. Função é sinônimo de reprodução: é a tentativa de reiterar o mesmo. organizante e organizado. mas sim em conjunto. que por sua vez são uma realização da instituição da educação. Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. Esta interpenetração acontece ao nível da função e ao nível do funcionamento. do revolucionário. chama-se atravessamento. ou seja.almeja a utopia. pejo outro. e o que basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições. organizantes-organizados que constituem a malha. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro. de perpetuar o que já existe. ao nível daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra.

produtivas. Então. por ela. e esta se define também como uma dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade. também se pode dizer que uma escola é um quartel ou uma delegacia de polícia. ao nível da reprodução. gerando assim movimentos e montagens alternativos. está atravessada pelas outras organizações. do que deve ser destruído. e ainda entre os diversos· quadros e segmentos desse mesmo estabelecimento. ao nível da função. numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração. 34 ▲ . uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as correntes instituintes. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas. da dominação e da mistificação. Então. tal como está. e ela por outras.de punições. uma escola tem um lado instituinte. uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os alunos. da reprodução. ensina formas de exercício da agressividade. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. um lugar de doutrinamento para a revolução. ao nível do instituído. chama-se transversalidade. através dela. chama-se atravessamento. Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está. como já vimos. com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam nela. o que a escola ensina é uma série de valores do que deve ser construído. de luta sindical. instituições. produtivo. de alguma maneira. interpenetrado com muitas outras organizações. por exemplo. Então. uma frente de luta revolucionária. a escola pode ser também. para ela. Neste sentido é que uma escola tem também um funcionamento articulado. Mas uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento políticoescolar. Neste sentido. além disso. vocês vão vendo como uma escola. A interpenetração ao nível da função. A interpenetração a nível instituinte. Mas. um lado organizante.um clube estudantil. Essa interpenetração chama-se transversalidade. marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. a dominação. a mistificação. e dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração. um lugar de exercício da solidariedade. do organizado. uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos direitos.

da plena informação. os estabelecimentos. a função e o funcionamento.Com isso temos definida. assim como também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da cooperação. a produção. dominação e mistificação (atravessamento). a concepção institucionalista da sociedade. a reprodução e a antiprodução? 5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 6) De que está composta a rede social? 36 ▲ . da liberdade. as sociedades? 2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou normas ou que se manifestam em hábitos? 3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações. até certo ponto. equipamentos. agentes e práticas? 4) O que é o instituinte e o instituído. para o Institucionalismo. o organizante e o organizado. da produção e da transformação afirmativa e ativa da realidade (transversalidade). A sociedade é uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas funções estão a serviço da exploração. ou seja. 35▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 1) O que são.

que qualquer registro inclui os desejos. tão tendenciosa quanto qualquer outra. propriamente. neutra. História. geralmente. os interesses. em geral. Então.Capítulo III AS HISTÓRIAS o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos. alguma noção aproximada do que é história. das classes dominantes. registram aquilo que lhes convém. impessoal e que. enquanto justifica as ações 37 ▲ . empiricamente. historiografia é esta versão que. é apenas uma versão tão interesseira. Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos. mas que aparece como descritiva. mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva. do instituído e do organizado. se apresenta como sendo objetiva. Numa primeira instância. Agora. Porque a versão que se tem da História é sumamente importante. não é isso. Naturalmente. como meramente narrativa. é uma versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do Estado. é importante diferenciar História de Historiografia. a rigor. as tendências de quem faz História. que têm recursos para resgatar e promover estes documentos. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e.

ideológicas. da vontade.e paixões que se protagonizam no presente e. no século XI. Passado e futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se transcorreram todos os processos. mas consiste em uma localização daquilo que. que não se pode totalizar. os processos que constituem a História são processos policronológicos. Trata-se de tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos históricos em alguns momentos. que se faz num único fluxo da História. justifica e propicia um projeto futuro para a vida social. geralmente. ou na Idade Antiga etc. definido – "o que foi. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que não é o passado que engendra o presente. eras ou etapas. que são localizáveis como tais. morto. cada um em sua duração. de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só. que o presente ilumina. Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no presente. Quer dizer. histórias raciais. começou. mas o passado está composto de uma série de potencialidades que o presente ativa. no século XVI. e sim o presente que explora. já foi"-. mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas. Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar. que aproveita 38 ▲ . de modo que não se pode estudar uma época como se essa época fosse um corte transversal. cronológica ou conceitualmente. que o presente deflagra. Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História. todos os movimentos sociais que se deflagram. globalizar em um tempo único. como se faria no fluxo de um rio. histórias das gerações. a reconstrução do que já aconteceu e que já está. de alguma forma. enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. teve início em um passado. que se impulsionam para chegar a este porvir. ou seja. e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se "atrasa" em relação aos outros. Não é o passado que gera o presente. da afetividade. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História podem ser resumidas em poucas palavras: Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é. do desejo. culturais. uma História que seja como uma espécie de mangueira. de alguma maneira. apenas. obsoleto.

outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da História é que nós. o acontecimento. se produz. Por outro lado. não é o igual. não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste. não existe um apogeu final dos tempos. por conseguinte. é o acaso. a História não é uma série de etapas fatais. suas parábolas. O Institucionalismo diz que o que. Segundo alguns institucionalistas. mas que o que se repete na História é a diferença. E que são estes grandes ou pequenos momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 39 ▲ . esta concepção da História que faz da diferença uma variação análoga ou semelhante do igual. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica. com uma explicação claramente mecânica. e como correlato à máquina do relógio –. ou um final catastrófico ou apocalíptico. em todo caso. o aleatório. baseada em paradigmas de ordem que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com suas trajetórias. cem ou qualquer número final. não é compartilhada pelo Institucionalismo. o imprevisível. tendemos a pensar a História em função de suas leis. Não existe finalidade da História. que tende a repetir-se e que. um final que pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva. não é o regular. devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. predominantemente. que começam do zero e vão acabar em dez. o tempo. ou do idêntico.ou atualiza as potencialidades do passado para construir u m porvir. cada uma das quais origina a seguinte. isto é. do relógio ou do calendário. Não existe uma progressão predeterminada das etapas históricas e. Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou menos maquinais. suas órbitas. não é o idêntico. com este metamodelo mecanicista. O que pode ocorrer no dia-a-dia não está inteiramente predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro. quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual. ou mais ou menos determinadas. sendo que os enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade. sempre policronológico. é o inesperado. Então. Finalmente. retoma na História.

que. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação. um "dentro" do outro. dito de uma maneira simples. o propósito. A rigor funcionam sempre. mas da transformação em direção ao radicalmente novo e. o objetivo. vida do desejo inconsciente. uma investigação erudita. Bem. O termo molar. é aquilo que é grande. trata-se de entender como a História é não apenas uma atividade ilustrativa. a inerência. vida política. quer dizer. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do que tende a repetir-se. esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo. a finalidade e os recursos do Institucionalismo. Por outra parte temos o molecular. portanto. O que existe são imanências – isto é. pelo organizado e repetidos como idênticos. os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da humanidade. Então. para a partir desses ensinamentos. outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao termo molecular. incluindo-se no outro. por assim dizer. mas está estritamente relacionada com a concepção da práxis. não é apenas um exercício acadêmico. mas uma tentativa de reconstruir os grandes momentos de imprevisto. da atividade político-social desejante que o Institucionalismo tem. produzir estratégias que permitam propiciá-los novamente. visíveis e enunciáveis. do acontecimento. Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica. que é evidente. Tentemos agora definir outros conceitos importantes. com contribuições de diferentes tendências institucionalistas. dentro desta concepção da vida social como uma rede. que é o que na física se costuma chamar micro. Então. por 40 ▲ . ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do inesperado.vão tentar ser capturados pelo instituído. não de uma transformação pré-figurada. em que os diversos processos são imanentes um ao outro. a posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros. vida biológica e natural. pode se distinguir o molar. que tem formas objetais ou formas discursivas. absolutamente desconhecido. é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar explicar brevemente. não de uma transformação previsível. e com a utopia ativa. que só se podem separar de uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. da inovação absoluta.

por oposição. o detectável e consagrado. do instituído e do organizado. o cosmos. o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. Finalmente. da conservação. as conexões circunstanciais. político. é o lugar da estabilidade. da microbiologia. é o lugar das entidades claras. Esta diferenciação também é importante porque. e o micro é o lugar da produção. ao generalizarem-se. O micro. o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas. o mundo das partículas. enquanto o mundo macro por excelência seria. o mundo atômico e subatômico. dito tanto no sentido físico. técnica. tomando esses ensinamentos da microfísica. já tentamos reiteradamente definir e redefinir o termo produção. Dito com outras palavras. químico. impensáveis. o universo. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva. da regularidade. O macro é o lugar da reprodução. O macro é o lugar da ordem. Como até mesmo a física. é importante definir o termo antiprodução. e o micro é o lugar da eclosão constante do novo. dos limites precisos. resultam nas grandes metamorfoses. é o lugar das conexões anárquicas. econômico e desejante.oposição a macro. Então. da microquímica. e não os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. o Institucionalismo pensa que as pequenas conexões locais são o lugar do instituinte. em geral. insólitas. e que os grandes poderes em vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam em espaços microscópicos de uma sociedade. porque espera delas efeitos à distância que. o macro é o lugar da regularidade e das leis. biológico quanto no sentido social. que é composto de grandes corpos. as macromudanças. Produção é aquilo que processa tudo que existe. são sempre resultado de pequenas micromudanças. e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as estratégias de intervenção nos âmbitos. subjetiva e socialmente. nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. Se não me engano. É a permanente 41 ▲ . as transformações microscópicas. natural. da biologia molecular. a biologia e a química descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta da dinâmica que acontece nas micro. o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo previsível. o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais. isto é.

da mortalidade infantil. que a sociedade não está em condições de incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria. as matérias produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos. seres. do alcoolismo. sociais. são forças singulares. dos preconceitos sexuais e raciais. e que morrem não apenas por deficiência da provisão ou da organização. como é o caso da marginalidade.geração. mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los. neocoloniais e planetários contemporâneos etc. é o que. Agora. da tóxico-dependência. que vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. de bens de troca e não de bens de uso. isso se torna moda. vigora a antiprodução. é a metamorfose. de maneira que a produção. Então. as forças instituintes-organizantes. Um desses processos característicos é o problema ecológico. e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. ou as mata por meio de mecanismos mais ou menos deliberados. chamaríamos de criação. enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias. o impedimento ou a destruição do novo. Esse processo de autodestruição das forças produtivas naturais. valores. dos genocídios coloniais. 42 ▲ . produtivas. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas de maneira muito ampla. é o devir. pelos organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo. é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de destruir os produtos porque o preço caiu no mercado. Por exemplo. enquanto não se cristaliza. mas foi sempre assim. que só agora se está" descobrindo". É o que subjaz a grandes processos sociais como as guerras. bens. as energias não orientadas. ou as deixa morrer. subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se antiprodução. elas tornam-se antiprodutivas. Essas são potências. com uma terminologia ainda religiosa. são capturadas em grandes organismos reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista. elas se destroem a si mesmas. é o que subjaz à geração de enormes contingentes sociais que estão destinados a morrer. mais ou menos premeditados. pelos equipamentos. serviços – não pode assimilá-las à lógica do sistema. elas são voltadas contra si mesmas.

os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes. para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano. em última instância. sabese que as vontades. E também não entram se suas expectativas. e ainda mais. Ou seja. pelo contrário. isto é. convicções acerca da vida social. os desejos e as representações com que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais". por exemplo. mas que têm a ver com o prazer. apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina. já é completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que acontece em economia.Para qualquer tendência sociológica. está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população. econômicas. de mistificação ou. científica-política ou econômica clássica. de algum modo. as características da vida e da morte social. Isso é claríssimo. não só seus interesses. ou que se possa supor que é o político o tal determinante. em processos revolucionários. que têm a ver com o sofrimento e têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. por vontades que eles não controlam e não conhecem. isto é. E não se trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária. eles só entram nesses processos de dominação. por mais submetidos às leis econômicas e políticas que estejam os homens. de seu querer deliberado. políticas ou naturais que os determinam. ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes 43 ▲ . coincidem com suas crenças. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica. são tão importantes as vontades. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que outra. não fazem parte de seu saber. de exploração. prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. seus desejos não se encaminham nessa direção. se estes. Hoje. representações. em política ou sociologia – com independência do psiquismo dos homens. Em última instância. mas de mobilizar forças inconscientes às quais se apela. e ninguém pode negá-la. que o "pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. são inconscientes. que por mais determinados. hoje se sabe. os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens. suas vontades.

em algum momento. Isso também não é novidade. não se trata apenas de dizer que o fazem por medo. sem apelar para os saberes instituídos e estabelecidos. não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve. de incalculável potência social. porque os soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores. A diferença consiste em que o desejo inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar. Por que os povos atuam contra seus reais interesses e vontades? Então.sociais. o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo. é um anseio que tende a restaurar o narcisismo. nós nos interrogamos constantemente porque. Já a partir de Reich. nas relações ou nas fantasias incestuosas ou parricidas do inconsciente infantil e que. quando as forças inconscientes se ativam. que supostamente. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais. foi o estado em que o protosujeito esteve integralmente. depois. o grande psicanalista marxista. por ressonância ou por uma re-elaboração do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. se translada para a vida social com as mesmas características. é uma tendência reprodutiva. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes. não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua potência. O desejo do 44 ▲ . passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação. nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. mas eles operam as transformações sociais. Então. O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários. O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. porque se é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados. já se tem visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas condições de existência que não precisa. em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus superiores. Os povos checam seu próprio saber sobre suas condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente movimentos de imenso poderio. porque os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam.

Então. é absolutamente própria de cada lugar. Mas é inconsciente. Para o Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal. em todos os momentos históricos. sujeitos variavelmente protagonistas desse acontecimento. produzem-se sujeitos em cada acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir. Só que este inconsciente não se entende exclusivamente como um inconsciente edipiano. ou. podem existir semelhanças entre esses sujeitos. apenas preenchido com conteúdos históricos sociais variáveis. a singularidade de cada sujeito produzido em cada lugar. uma essência-homem. mas essa produção é absolutamente contingente. O que se passa é que esse sujeito psíquico. repetitivo. O que importa não é a produção das semelhanças ou de analogias entre os sujeitos. uma essênciasujeito. a cada momento. E podem existir analogias. mas a produção de diferenças. pré-social e pré-cultural.Institucionalismo é imanente à produção. se pode dizer. em todas as raças etc. É uma força que tende a criar o novo. o que existe são processos de produção de subjetivação ou de subjetividade. objeto de um saber que toma elementos de todos saberes existentes. libidinal. teria representações ou teria recursos que variariam segundo a sociedade. de cada momento. mas por um recalque complexo que é simultaneamente político. não existe uma estrutura. familiarista. um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades. aos 45 ▲ . semiótico etc. de cada conjuntura histórica etc. segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. entendido como o imprevisível. para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal. é uma força de conexões insólitas. é o acontecimento-devir que os produz. Também não existe uma estrutura. em todas as classes sociais. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um recalque psíquico. mesmo que se aceite como sendo universal. Então. mas também como um inconsciente pré-pessoal. trata-se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são capazes de gerar transformação. é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. quando nessa produção predomina o instituído. a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes. Ou seja. é uma força de invenção e não é uma força restauradora de estados antigos. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas denominações. Para o Institucionalismo.

subjetividade submetida. o organizado. ele vai privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. circunstanciais. Evidentemente. eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar. de cada estabelecimento. não assujeitada. não se concretiza restituindo o antigo. de compreensão. e trabalhá-lo para torná-lo produtivo. não poderemos dar nesta exposição. em geral. aos interesses mistificantes. absolutamente instituinte. Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto. O objetivo institucionalista é criar campos de leitura. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada. de subjetivação absolutamente original. micro. 46 ▲ . produtiva.se propõe "pegar" um sujeito reprodutivo que é sempre o mesmo. e se efetua gerando o novo. com as formas de militância. a não ser para denunciá-los. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que já estão feitos. revolucionário. porque as mesmas têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação. ele adota as características de um sujeito mais ou menos universal e eterno. mas aceitar a idéia de que os novos homens se fazem a cada momento. Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer de cada organização. transitórias. processa-se não reproduzindo o instituído. em cada circunstância. movimento ou proposta. capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar seu lugar a outras. mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários. de intervenção para que cada processo produtivo desejante. todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que. absolutamente contingente. o estabelecido. a isto se chama produção de subjetivação livre. E não vai privilegiar. absolutamente singular. em que o desejo se realiza em conexões locais. com a "maquinaria de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções. organizativas. Mas a discriminação que tem de ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo. revolucionária. a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas. políticas. não . pela natureza elementar deste livro.interesses exploradores. seja capaz de gerar os "homens" (ou sujeitos) de que precisa. primigênia.

talvez estivesse incorretamente informado. é criar outro tipo de expectativa ou vontade. culturalista ou estrutural-funcionalista. e também 47 ▲ . dos grupos que procuram uma drástica transformação social. Este é o caso. os grupos e sujeitos submetem. Então. por exemplo. conscientizar acerca do potencial de prazer. Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante. que habitualmente se aborda com o nome de ideologia. pela esperança e pelo medo. o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança. existem ideologias revolucionárias. convicções ou expectativas e desejos conscientes.Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da Psicanálise. é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção. afirmava que o povo alemão não estava desinformado. Por outro lado. A intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. São crenças. Em muitas passagens. que está animada pela ilusão. afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos dominantes. é educar. que são ideologias conservadoras. é conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante. pode ficar sincrética ou imprecisa demais. reacionárias. costuma-se dizer que a maneira de reverter essa situação é instruir. estudando o movimento nazista da Alemanha. de convicções acerca do mundo. apesar de ser contrária aos interesses da maioria. positivista. de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela classe dominada. Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele. de quando falamos do inconsciente ou do desejo. que são ideologias das classes. de gozo. É verdade que há uma certa definição de ideologia que a considera como uma série de representações erradas. ou seja. Ademais. O contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço teórico algo clássico. mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras que estavam sendo ditas.se aos interesses das classes dominantes. é modificar essas representações. de crenças. por ignorância. informações erradas ou manipuladas que as classes. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de consciência falsa ou distorcida.

não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um proletariado muito politizado. E, sem d úvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos, desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se consegue dominar os povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise), mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma peculiaridade do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise, o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 48 ▲

do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu rel ato restos da nomenclatura psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função que estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da castração 49 ▲

simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co-protagonizem este processo. Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento, em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os geraram em sua montagem. Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 50 ▲

outras correntes institucionalistas não dizem que o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação revolucionária.). na saúde etc.que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não (ou seja: no trabalho. na educação. Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito". 51 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Que diferença existe entre História e Historiografia? 2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicossubjetivos e naturais? 3) O que significa Molar e Molecular? 4) O que se entende por produção. do acaso e das regularidades na História? 6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 52 ▲ . reprodução e antiprodução? 5) Qual é o papel da repetição e da diferença.

O mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do pensamento corrente que. de "espírito científico" – só pode aceitá-lo como uma metáfora. cujas "verdades" freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. em uma passagem do capítulo anterior. se compreenderá que não se pode falar. produzem um efeito de convicção na "mente" de quem pretende formar-se como cientista. por estarem muito arraigados. não se tratava propriamente de Psicanálise e. O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito Científico".Capítulo IV O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO Eu dizia. assim. Na realidade. assim como a essência mesma do Movimento. Esses "vícios" do senso comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos. Bachelard tentava um trabalho epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir. a predisposição dos 53 ▲ Sé . em um sentido estrito. por outro lado. que não me estranharia que muitos dos conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender.

entendendo a singular proposta do lnstitucionalismo. semanticamente falando. quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica. Para concluir. mudam radicalmente de sentido. o Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria. Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em particular passa-se devido ao fato de que. podem empregar termos teóricos com acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado. sem descartá-las. algo extremada. o Institucionalismo procede adotando algum termo. a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas. se considera que. de um questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas especificidades. em determinada conjuntura. Não ignoro que. por sua parte. os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito". não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. As diversas correntes institucionalistas. defendendo a fertilidade de todos os saberes. Em outros casos. incluídos. ou um outro melhor ainda. os que existem em "estado prático" nas 54 ▲ . Finalmente. mas o faz acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais. polimorfa e complexa. neste momento. ainda que invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado e do qual recebe seu valor de origem. alguns termos teóricos que as ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. torna-o revelador. que comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos". sabemos que essas palavras. por exemplo. ainda durante um longo período de sua aprendizagem. cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão. ou em uma noção. ou até em uma alusão vaga. Cabe aqui lembrar que. Contudo."espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. devido às deficiências da formação geral e universitária da qual padecemos. No entanto. por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes. tem com elas uma relação contraditória.

que é um composto de todos os saberes de uma época. mas justamente porque o são. está a definição dada a "desejo". entre as muitas diferenças existentes de uma para a outra. especialistas de alguma disciplina. políticas entre elas. desenvolver esses temas.atividades leigas. Estou tentando dar um curso introdutório de um saber que não tem limites. Por isso. os populares. tendo se tornado descartável como os jogadores de futebol. Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões. desejo etc. muito pouco aprofundada e ambiciosa. Não nego que algumas ampliações sejam essenciais.. pois depois de uma década já não consegue acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se. por exemplo). como a Física. Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista. no caso de eu estar capacitado para fazê-lo. os artísticos. assim como por um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber. às vezes é duro. para quem se aproxima deste estudo. mas sim muitas. Estou tentando dar uma visão panorâmica geral. e existem diferenças teóricas. que terá de ser breve. artísticas. levaria a outros tantos cursos. É o mínimo denominador comum que se consegue encontrar entre as várias tendências. Se os profissionais. O que há como característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições. técnicas. então a formação de um institucionalista realmente é interminável. de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. metodológicas. religiosas etc. de certos conceitos. inclusive os saberes não-científicos. que faz com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos. Agora. para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto. digamos. aceitar e entender a polissemia que adquirem semantemas provenientes. Imaginem vocês uma coisa como esta. peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. chega-se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil. Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 55▲ . Agora. da Psicanálise (inconsciente. ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais-valia.).

persistente. embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade. que tenta reproduzi-lo. Isso. desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos psíquicos da vida organizacional. ou seja. resultados dessa trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória". em último termo. dentro desse campo chamado psiquismo. assim definida nas organizações. A maioria delas aceita.relativamente autônomo da realidade. particularmente em seus aspectos inconscientes. as representações e afetos são do campo dos efeitos deste psiquismo. as vivências. reeditar. a lei ou a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). surge uma força que seria o desejo. que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa instância. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias. inclui uma definição restitutiva do desejo. a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância determinante. que é o desejo. devido à sua subordinação à ordem simbólica. outros dispositivos. que procura restaurar. da área dos motores do funcionamento psíquico. Então. a conduta. a existência de um espaço. No entanto. usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade. em que o ego e o objeto são um. ele parte de uma situação narcisística e tende a voltar a ela. ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho. outras maquinarias do psiquismo. Muitos institucionalistas compartilham plenamente essa definição de . 56 ▲ . que são rendimentos. em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de Castração. Em que consiste esta definição de desejo? Seria uma força insistente. de um sistema e de processos de caráter inconsciente que considera do campo das causas. nessa trajetória. da economia. a partir da ruptura desse estado. sendo que o comportamento. como o leitor avaliará. um certo estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo. de sua tentativa de restauração desse narcisismo inicial. o desejo tem uma natureza conservadora. e a sublimar. Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria predominante à colocada em muitos textos freudianos. particularmente por certa ordem de representações. ela acaba gerando todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica. é obrigado a elaborar. Um exemplo característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de desejo.

criador de uma corrente institucionalista chamada Sociopsicanálise. por exemplo. como a filosofia. particularmente Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise. mas propiciar. outros setores do Institucionalismo. Então. unidades vitais. assim como a exclusividade de um modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado imaginário perdido. a macrofísica. cada vez mais amplamente. assim como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo. de forma anárquica. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos. do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada primeira tópica. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo. que recolhe a definição de desejo de uma forma menos ortodoxa. os freudo-marxistas. não é estranho que isto se apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). porque este é um problema muito atual e de muita disputa teórica. à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso programa. no qual a pulsão de vida funciona segundo o processo primário. é Gerard Mendel. 57 ▲ . levam as proposições freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais. mostra-se característica. processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do desejo que dela emana. estados permanentemente novos. Estamos assistindo. muito pouco conhecida e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –. a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo. Entretanto. No entanto. mundialmente. e com ele a imobilidade. percebe setores da mesma em que essa definição de desejo. que explicamos anteriormente. existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos.da política e das organizações. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau. Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e detalhe. como por exemplo. associar.

apesar de que Marx nunca negou que a superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. por processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra. mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que. Bom. não podendo ser entendidas dessa maneira. ou tendência à autopoiese. que seriam a pulsão e o desejo. O desejo não tem caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo-revolucionário – e não é uma força separada das que animam a vida social e natural. isto é. é imanente a outras forças animadoras do social. E também não seriam modificáveis 58 ▲ . Dessa maneira. Essa mudança. Marx afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício. que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos produtivos. constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o psiquismo. em um de seus aspectos. também apoiados na literatura. exclusivamente pelo econômico. a biologia molecular e certos campos das ciências formais.a microfísica. do natural. que afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. Assim. de forma alguma. Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança de paradigma. dita no sentido amplo. Por isso há uma fórmula na Esquizoanálise. Deleuze e Guattari. além de tudo. por exemplo a matemática de Rieman. uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. na arte. Então. tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. em que há os alicerces e há as paredes superiores visíveis. e ainda no discurso delirante. as resultantes desse processo complexo não são causadas. a chamada infra-estrutura determina a superestrutura. Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção. na defesa da produção. consiste na promoção de certo poder criativo da desordem. inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância. na reivindicação da neguentropia. do histórico. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente determinada pela atividade econômica. da vitalidade.

Existem outras teorias da causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas. utilizando outro modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente intersecionados. que em todos os modos de produção é o econômico. no caso de Deleuze e Guattari. formam o conjunto total. para que o modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. O determinante em última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos efeitos econômico-sociais. e sim mediatizado por aqueles. de registro e de consumo. não é uma teoria da sociedade formada por três subconjuntos que. políticos. funciona interpenetrado. Mas o conjunto total. Althusser a denominou sobredeterminação. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade social. econômicos. Essa é a determinação complexa pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. O lnstitucionalisrno. A instância decisória é a fundamental no processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. por sua vez. A instância chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção. naturais etc. de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras são superpostas ou imanentes entre si. tecnológicos. semióticos e naturais e estão ordenados em três superfícies: de produção. Por exemplo. mas todas elas têm em comum a insistência em não separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas. Louis Althusser. 59 ▲ . mas não exclusivamente. Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no psiquismo: atos. tem muito em comum com a proposta althusseriana. uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente psíquicos. políticas. em alguns de seus ramos. em que ld. técnicas. o sistema. à medida que adota essa idéia de sobredeterminação. diversificado e sobredeterminado". formações do inconsciente etc. de maneira tal que haverá um determinante em última instância. uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva. que Althusser chama "todo complexo articulado.exclusivamente a partir do econômico. mas uma sociedade reticular formada por uma grade aberta. Um de seus seguidores. um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana.

muito heterogêneos – por exemplo. infinitamente menor que o campo de análise. que é o "recorte". como estão colocadas e articuladas suas determinações. Esses campos de análise são terrivelmente amplos. que em qualquer corrente de Institucionalismo. em geral. ou da múltipla escolha para o processo de seleção. suas causas. logísticas. o espaço delimitado para planejar estratégias. O máximo que se consegue delimitar são campos de análise organizacionais. E óbvio. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde pequeno até amplíssimo. as principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –.Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo. Isso significa delimitar um objeto ou um campo e aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo. e isso dará um estudo como aquele no qual participou recentemente Guattari. Mas podem ocorrer campos de análise infinitamente menores. Outra coisa é o campo de intervenção. implica um processo de compreensão. de inteligência dos determinantes desse campo. como uma análise do significado da festa no Brasil ou uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru. Campos de grande porte poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau. o primeiro a ser abordado será o conceito de campo de análise. concretamente. nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos sujeitos a nível inconsciente. Isso ainda não implica necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado. porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a nível nacional continental ou planetário. por exemplo. desde um estabelecimento até. também. o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". ou o funcionamento dos programas de estudo no vestibular. que se chama "O Estado e o Inconsciente". 60 ▲ . Por isso denomina-se campo de análise. É claro que o campo de intervenção é. como se geram seus efeitos etc. Esse objeto pode estar constituído por materiais. que se chama "Contratempo". uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de produção no curso da história. técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente. para saber como funciona. táticas.

Pode-se compreender e não intervir. em que radica a problemática desta organização solicitante. analisar. geradora ou moduladora da demanda de serviços que lhe é formulada. Mas acontece que. manifestos. De modo que para compreender a demanda de análise institucional de uma organização é necessário. eles estão articulados entre si: à medida que se compreende. e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. e à medida que se intervém. que também temos de tratar sinteticamente. A isso chamam análise de demanda. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar.a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. determinada. antes. voluntários deste pedido. desde o princípio. A demanda não existe por si. a proposição direta ou indireta dos serviços que a organização analítica faz e que não pode não ser causante. O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda. particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa. deliberados. por esta oferta. Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de Análise Institucional. mas não se pode intervir sem alguma forma de compreensão. Para dizê-la provisoriamente: quais são os aspectos conscientes. cujos autores mais notórios são Lourau. a compreensão de como a organização analítica gerou esta demanda. a divulgação científica ou não-científica. que essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise. incluir a auto-análise. Só que um campo de análise é pensável sem intervenção. se intervém. Em geral quando os dois campos se constituem. mas um campo de intervenção é impensável sem um campo de análise. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a expressão do desejo. o Institucionalismo enfatiza a necessidade de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea. a demanda não é o primeiro passo de um processo: ela é produzida. eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí. que é um dos primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva. para fazê-lo. 61 ▲ . esmiuçar o pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. e está marcada . modulada. ou que relação existe entre a publicidade. de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta. se compreende.

você não entende. além disso. então. lapsus linguae. tão sutil. também de bens materiais. tão técnica. e a organização analisada. delírios. concebeu o conceito de derivados do inconsciente. Entre a organização analisante. não sabe em que consiste.Um institucionalista muito respeitável e. que ele não sabe o que é. no meu modo de ver. uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. Mas é tão complexa. não são efeitos exclusivamente 62 ▲ ." Essa mensagem subjaz. Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. atos falhos. sintomas. e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações. quando essa oferta gera uma demanda. interveniente. Portanto. A Psicanálise já classicamente. o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque. sejam eles pontuais ou mais amplos. Quem demanda. Então. Não existe aqui. chistes. provavelmente. ela não pode estar modulada senão pela própria oferta. com a oferta. mas que é muito ilustrativa. como sonhos. que consiste aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e. Isso exige por parte do coletivo analisante. intervinda. está "por trás" de toda oferta de prestação de serviços e. demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles fenômenos. o coletivo prestador de serviço. que é o verdadeiro objeto de análise. que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta para ser analisado. Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade. formações do inconsciente. esta análise deve ser articulada com a forma em que foi produzida. injustamente pouco conhecido. para poder dar o primeiro passo em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-. vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização. Mas juntos é que vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. ou seja. um severo processo de auto-análise de como produzir a oferta de seus trabalhos. tem uma fórmula que não explica todas as situações.

manifestá-la. a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. um analisador não é necessariamente um discurso. pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. é um efeito ou fenômeno formalmente parecido com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. nos questionários ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. nem exclusivamente pré-conscientes. na aparência desses fenômenos. ou seja. o organograma. da sexualidade. e a. a forma como está elaborada a planta arquitetônica da organização. Mas as diferenças são as seguintes: Primeira: na materialidade fenomênica. isto é. ou seja. mas pode ser um monumento. porque sabemos que em Psicanálise os comportamentos. absolutamente. pode ser um arquivo. os estatutos. Por isso é que se chamam. subordinar os outros à compreensão verbal. a couraça caracterológica também são considerados formações do inconsciente. Então. os rituais. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica. Não é que em Psicanálise não o seja. nem exclusivamente inconscientes. Um analisador não é assim. Os mitos. O analisador. E essa é a primeira diferença. o uso do dinheiro. a carta de princípios. nem uma lei.conscientes. 63 ▲ . Não são dados claramente efetuados pelo superego. Por exemplo. nem pelo ego ou o id. não se privilegiam. os regulamentos. só que a Psicanálise tem uma persistente predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações do inconsciente. efeitos transacionais ou formações transacionais. do lazer. o fluxograma etc. E é claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional. em análise institucional. exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito. pode ser um costume e não uma norma. E podem ser os relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas. os efeitos verbais. denunciá-la. de uma mistura. do domínio e o cuidado de si. pode ser uma característica dos modos de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma. da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas instâncias. a maneira como está organizada a memória de uma organização. as atitudes corporais. segundo uma das denominações. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador. etc. pelo menos fenomênica ou técnica. Isso é claro. São fenômenos resultantes de uma combinação.

tem a possibilidade de não apenas manifestar-se. um determinado acidente numa usina atômica (geograficamente pequeno. existem os chamados analisadores naturais – que é uma expressão inadequada. realmente. este tipo de fenômeno. Um grande analisador é a Revolução Francesa. denunciar. declarar. que são dispositivos que os analistas institucionais inventam. por exemplo. a análise institucional nunca conseguiu compreender. como também de resolver a situação da qual ele é emergente. de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade. e esses podem ser um conflito dentro da organização. "Natural" quer dizer espontâneo. manifestar. Existem grandes analisa dores e pequenos analisadores. Isto não é fácil de ser explicado. porque espontâneos todos são. produto de determinados encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média. não está preparada para isso. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender. a definição correta é dizer que são analisadores históricos. ou seja. evidenciar. mas também de se compreender. Só que esse analisador. ou seja. para começar o processo de seu próprio esclarecimento. Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção do analista). E dessa maneira. introduzem 64 ▲ - . não apenas é capaz de enunciar. sendo assumido por seus protagonistas.Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir. pelo menos) etc. como todo mundo sabe. ele não precisa ser analisado de fora. E existem analisadores artificiais ou construídos. que foi marcar o fim do feudalismo e o início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. pelo menos nos seus aspectos geológicos. Então. Mas podem haver pequenos analisadores. colocado em condições propícias. revolução burguesa. Nesse sentido. e. que também é uma má expressão. porque analisadores naturais são os terremotos. que a própria vida históricosocial-natural os produz por conta própria como resultado de suas determinações. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu próprio processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro de certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico. acumulação de capital mercantil e usurário etc. ele predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se. Um analisador é um produto que pode se auto-analisar.

da interpenetração destas duas organizações. se valem de todo e qualquer recurso. ou seja. a análise da interação. na equipe de análise institucional. Insistiremos uma vez mais em que estas definições. experimental. psíquico heterogêneo por natureza. lógico. procedimentos de tipo ativista. pois é prévia a este contato. que deve ser analisado em todas as dimensões. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica. seja de tipo artístico. Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. mas um processo de materialidade múltipla. É. é simultâneo e é parte indissolúvel do processo de análise da organização. montagens de tipo propriamente científico. antropológico e manobras do tipo" convivência prolongada". de sua interseção com a organização analisada. cuja finalidade é basicamente transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento. ou seja. é o contrário de uma análise "objetiva". Poderse-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. e na análise institucional a implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente. veremos rapidamente alguns termos. ao nível de produção de analisa dores construídos. a raiz de seu contato. em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai estudar. complexa e sobredeterminada. como está claro nas ciências físicas. os retomaremos na exposição correspondente aos itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica. não começa no usuário: é recíproco.nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos mesmos. cenográfico. de alguma forma. Só que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material do paciente produz no analista. O passo seguinte será falar da análise da implicação. A implicação se define como o processo que acontece na organização de analistas institucionais. dramático. Em continuação. produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana. E não é apenas reativo. 65 ▲ . que denominamos standard . sendo que. político. intervinda. político. sociológico. Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. um processo econômico. uma análise variável da relação entre o sujeito e o "objeto". não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com seu objeto.

As mesmas estão armadas com sentidos diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores. sempre simultâneo a sua formação e sempre 66 ▲ . que sua condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade. a Polícia. da Educação. segregacionistas ou punitivas (como por exemplo. artificialmente extraídas dos contextos teóricos. da Comunicação de massas ou a Família). maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos. tecnológicos e até subjetivos. dizer-se que é o contrário de um equipamento. aparatos. de alguma maneira. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista chamava de "aparatos". a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). Estes cumprem funções eliminatórias. naturais. Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções. Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função. Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente. médio ou pequeno porte. estrutura. ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico. forma etc. teatro ou nas artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" sociais.seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. de grande. Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia. estabelecimentos. No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações. mais ou menos sistemáticos. De um dispositivo pode. cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento. Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião. as Forças Armadas. O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado. enfatizando. assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. em articulação com os quais adquirem seus significados prevalecentes. além do mais. do registro ou do controle social.

um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo. acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações. para sua montagem e funcionamento. Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção. tais como contrato. que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário). Nesse sentido é óbvio que os dispositivos. da produção e da liberdade. planejar. logística. táticas. potências. assim. Gera. têm a peculiaridade de nascer. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona. num sentido restrito. também chamados agenciamentos. técnicas: Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível. operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura. reprodução e antiprodução. territórios. digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou sujeitos. revolucionários e transformadores. magnitudes de produção. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem. processos. o que se denomina linhas de fuga do desejo. conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. os territórios estabelecidos e os meios consagrados.a serviço da produção. um descobrimento científico. opositivas e antagônicas. gerando acontecimentos insólitos. contradições principais e secundárias. um pensador original e libertário. decidir os passos que comentaremos em seguida. pelo contrário. mecanismos. linhas de fuga. analisa dores. uma obra artística. do desejo. ele os inclui. com o instituinte-organizante. antecipar. O diagnóstico é importante para justamente instituir. conflitos. poderes. equipamentos. têm a ver com a transversalidade (conceito que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e. do novo. os faz explodirem e os atravessa. Um grupo político sujeito (quer dizer. defesas. organizar. 67 ▲ . Por último. estratégia. dinâmica. Um dispositivo em geral não respeita. dispositivos da área ou organização intervinda. assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). da vida.

para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções. promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação. solidariedade militante etc. quer dizer.) que fundamenta o contrato. expectativas. tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego. com os coletivos de usuários "clientes". dos espaços e territórios que se colocarão. As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. simpatizantes. retrocessos etc. serviço profissional independente. Por outro lado. precisam fazer acordos. se essa guerra se dará por terra. Os diversos aspectos do contrato: tempo. habilidades. Para dar um exemplo bélico. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação. são analisadores. avanços. A estes acordos costuma-se denominar contrato. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações. simplesmente. estabelecimentos ou. opções. objetivos. é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo. alternativas. recursos etc. de fronteiras. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção como serviço deflagra. quais serão os aliados. 68 ▲ . mar ou ar. Trata principalmente de tempo (duração total. pactos. com que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidades de realização. punitiva ou de extermínio parcial. Como veremos. elementos. dinheiro. assim como a progressão das manobras. mas com certos segmentos do mesmo. contratantes. de que se dispõe ao começar uma intervenção. Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças. a previsão de vicissitudes. honorários ou outro tipo de retribuição. freqüência dos trabalhos). Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. emergentes da problemática a ser pesquisada.Os institucionalistas. A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo).

No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística. desportivos. táticas e técnicas? 70 ▲ . estratégia. à participação da infantaria. o horário. uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios. lúdicos. praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. convivenciais. As técnicas. Procedimentos interpretativos. desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no lnstitucionalismo? 2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 4) O que é análise da implicação? 5) O que são: analisador. esclarecedores. esboços de uma logística. estratégia geral e primeiras táticas. os movimentos de tropas etc. enquanto já se têm. de expressão. à área onde se desenvolvem. a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção. morteiros. As táticas referem-se a batalhas circunscritas. objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades do coletivo em pauta. agenciamentos artísticos. cavalaria. aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis. de discussão. de sensibilização. logística.neutros e inimigos etc. É interessante enfatizar drasticamente que no Institucionalismo. informativos. granadas etc. sem tomá-las ao pé da letra. baseados nisso. 69 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Qual é o sentido dos termos sujeito. dispositivo. Quer dizer. equipamento. prosseguindo com a metáfora. será ditada pela inspiração e o treinamento. assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora. a eleição de técnicas é consideravelmente livre.

uma forma de abordagem das organizações e das instituições que. mais ativas. Produz. poderíamos dizer. digamos. políticos. assim. se é que tal termo exprime alguma coisa. contar com certo conhecimento de 71▲ . Em termos.Capítulo V AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas. mas são as que mais notoriedade têm atingido. eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –. Então. é politicamente moderada. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. são propostas políticas mais subversivas. de graduação entre essas três tendências. com certos matizes diferenciais entre elas. nem necessariamente as mais importantes. Tentarei uma espécie discutível de classificação. Terei de ser muito esquemático. particularmente aqui no Brasil. eu diria. mais enérgicas. São também as mais difundidas. existe uma graduação à medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. que podemos tratar de caracterizar nesta exposição.

Então. Nesta teoria distinguem-se. Suas representações são secundariamente recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. Freud criou também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". A série disposicional é composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados por seus progenitores. no seu percurso e desenvolvimento. Acrescente-se a isso as experiências da infância precoce. o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação. isto é. intensamente pressionantes para o 72 ▲ . Algumas dessas situações são altamente tensionantes. Em seguida. de estudo. tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries. com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de idade). grupos de jogos. pelos sujeitos psíquicos que o geraram. ou seja. adquire contato com os grupos chamados secundários. Essas séries denominam-se complementares. Seu Superego está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de significações. tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo uma das séries: a série disposicional. Tudo que acontece na vida psíquica. introduzindo-os nesta teoria. duas séries assim chamadas: a série disposicional e a série desencadeante. e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. o sujeito se incorpora plenamente à vida social. na constituição do psiquismo. continuam sucessivas incursões nas atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da outra. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a chamada latência. mais as correspondentes ao parto e primeira infância.Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar isto de forma breve. Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de movimentos e de adaptações. grupos sociáveis no sentido amplo. metodologia e técnica sociopsicanalíticas. mas. de educação. de criação e de transformação. Ela se ocupa da psicopatologia com uma expectativa de cura. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias adquirem retroativamente sentidos morais. A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica.

Se não resolver. sublimatórios. é importante assinalar que entre frustração. atuando sobre a série disposicional – são totalmente variáveis. Privação refere-se à falta de subsídios para necessidades biológicas. em geral. Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta articulação entre a série disposicional e a série desencadeante. Quando a série dessas experiências. pode resultar numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar. e experiências daquilo que em Psicanálise se chama castração. concretas. único. resolver. elaborar – ou não – o chamado Complexo de Édipo. pode efetuar-se em comportamentos ativamente adaptativos. Outra forma de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu. poderíamos resumir esses três 73 ▲ . de universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia em geral. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre determinada série disposicional). gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de fixação. Apesar de não podermos desenvolver agora. ao passo que a frustração é um desengano de amor. durante sua primeira infância. Então. são exigências diferentes. privação e castração existem diferenças. e as configurações da série desencadeante – que podem gerar patologia. experiências de privação. atuam em conjunto. arcaica. Elas. constituída pelas situações da vida. E isso resultará na doença psíquica. irrepetível. então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". castração refere-se a um tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo). quando a série desencadeante atua sobre a disposicional. De um ponto de vista mais amplo. cada sujeito é singular.psiquismo. Logicamente. que constitui o núcleo central de sua série disposicional. não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional diferente). atua sobre a série disposicional que o sujeito traz. Essas são experiências de frustração. em sintomas. faltas diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos diferentes. Ou seja. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária. No entanto. sociopsicanaliticamente falando. e isto é que vai resultar no retorno do recalcado como sintoma. ou pode ser causante de processos patológicos.

tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menosvalia, exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa. Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto "pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar-se, que estabelecer uma aliança entre si para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento, 74 ▲

através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e outras formas de comunicação inter-humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar 75 ▲

a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um se tor da humanidade por outro. Isso faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de seu trabalho não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 76 ▲

quando se estava construindo sua série disposicional. chamado funcionamento psico-familiar. no sentido em que os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual já passaram. eles vão viver a situação de trabalho. Só que esta regressão não deve ser pensada como sendo da ordem individual. um processo regressivo. Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam parte dessas organizações. Ou seja. mas também produção de serviços. e assim por diante. não desfrute dos resultados deste esforço. não apenas trabalho industrial. mas também trabalho escolar. é fácil ver que esses conjuntos vivenciam. ou seja. ou seja. E as figuras determinantes reais dessa situação atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua situação familiar. a situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. médico. entendendo o trabalho num sentido muito amplo. essa experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado no capitalismo. que é no lugar de produção.humanidade que trabalha. mas da ordem coletiva. Em 77 ▲ . o lugar onde deve ser estudada a experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar natural" em que os homens se associam para exercer sua potência. com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. Para Mendel. o que Mendel vai afirmar é que. ou seja. a regressão que se produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou psico-institucional a um outro. adequada às circunstâncias concretas que os rodeiam. incidindo sobre a série disposicional de cada um deles. O que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas organizações de trabalho. Esta experiência de impotência gera uma regressão do psico-institucional ao psico-familiar. se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja). não apenas produção de bens de consumo. Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de retificação com o real. Por isso. Então. nos âmbitos de trabalho. de mil maneiras diferentes. E essa experiência de impotência gera neles. comercial. recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida simbólica. as vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas acontecem.

A metodologia de intervenção conserva muitas das características da intervenção psicanalítica. que por tratar de ser clara pode resultar empobrecedora. Agora resumiremos a posição de Lourau. atuações. e não passa exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas. eles são os produtores da riqueza. Dessa maneira. se isso está mais ou menos entendido. em que. como sintomas. mas exige um movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível. feito em colaboração com uma equipe interveniente. imaginárias. e também se refugia no mundo da fantasia. para poder ter de novo um acesso ao real atual. Lapassade e seus companheiros – que são. Tentando outra vez uma síntese. familiar. eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio. sós e impotentes. que se tem perdido devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar. reagirão de uma maneira irreal e fantástica. objetivamente. senão os criadores exclusivos. inibições.conseqüência. uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer dizer. somatizações. como já dissemos. que estão negando. mas coletivo. com pontos de vista e postulações perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. sobretudo o recurso interpretativo. como acontecia na sua infância. o coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica. afinal de contas. É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual. eles eram pequenos. pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise Institucional. desconhecendo. digamos o seguinte: Para a Análise Institucional. como tudo quanto constitui a patologia biopsico-social. delírios. Então. que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica e obter a compreensão da regressão que os afeta. Devido a essa regressão que mencionamos. Este processo opera teoricamente. recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional. porque. enfim. chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas. não totalizável – de 78 ▲ . e não tinham outra forma de solucionar essa situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. a proposta de Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise.

ou podem ainda operar como costumes. uma norma universal (digamos as relações de parentesco). que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas. Em palavras diferentes. ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norteamericanos. Cada instituição é universal. indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. como hábitos não-explicitados. uma modalidade particular do matrimônio poligâmico. um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia dar conta de todos estes 79 ▲ . indiferentes. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de comportamentos humanos aos quais classifica e divide. cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. outras apenas permitidas e algumas. Assim consideradas. então. segundo sua amplitude. como dizíamos. agentes. tanto para o saber espontâneo de seus agentes sociais quanto para os experts que as descrevem. outras proscritas (proibidas). Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição. algumas prescritas (indicadas). essas entidades. eficientes e em geral consideradas necessárias. atribuindo-lhes valores e decisões. é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais. podem ser: organizações. contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em que. como por exemplo. as engloba. tendese a atribuir-lhe funções inteiramente claras. úteis etc. A Análise Institucional não é. quer dizer. usuários e práticas. ou seja. ainda. também tem uma relação. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis. com referência aos outros e em relação ao sistema global que as instituições integram e que. a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam. Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si mesma).instituições. ainda que seja de maneira aberta. As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou "corporificadas" que. e essa ausência é registrada como um não-saber.de negatividade consigo mesmo. indispensáveis. em normas escritas ou discursivamente transmitidas. estabelecimentos. ocultam funcionamentos divergentes.

das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando. ao qual se referia Mendel. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de trabalho". positivando de uma vez por todas o tecido social. porque quem é o proprietário dos meios de produção. Isto é. Mas. no caso das organizações do trabalho. dos objetivos da vida. entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações. sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a negatividade operam em cada conjuntura. a Análise Institucional parte da idéia de que. da classe institucional trabalhadora. devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho". dos meios de decisão. É o que o Marxismo chamava. Isso gera. como diria Mendel. Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia. é vítima de um processo de doutrinamento ativo por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo. em parte. ela considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar mercadorias (e não a gerar bens de uso). desconhecer os principais vetores que ordenam a organização na qual está inserida. de Ideologia. digamos assim. Esse poder é entendido como a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados. Pelo contrário: t rata-se de uma investigação permanente. do sentido da existência e uma definição da função das organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder. é um desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e organizações. uma noção do processo de trabalho. esse mesmo processo de impotência. existe nas organizações. o fato. E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas.desconhecimentos. dos valores. ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia de Estado. em parte. classicamente. Por exemplo. em todas as organizações. é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. cada coletivo de uma organização está alienado no não-saber. É vítima. com as classes dominantes. de um desconhecimento que. tanto nas suas bases como nos estratos que lhe são próximos. também é proprietário de um saber. que o mesmo Marxismo não sabe decifrar. Ela 80 ▲ .

o analisador "sexo". da tóxico-dependência. o analisador "prestígio". são lugares de atrito que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por aqueles que o produzem. de conflito. "naturalmente". que se destina a transformar toda essa problemática em uma 81 ▲ . E não teria de ser assim. forçosamente. Esses analisadores são muitos. Então. Então. como já dissemos anteriormente. essas contradições vão estourar em fenômenos como o do absenteísmo. que geram essa experiência de impotência. monstruosas. incidência do alcoolismo. Isso constitui parte do não-dito institucional. e ainda costumam. rebeldia e revolta estéril. Em um sentido amplo. na modernidade. uma posição de maior poder. conflitos. ou Relações Humanas –. solucionar drasticamente. são acontecimentos mais ou menos explosivos. ou Psicologia Organizacional. ou Relações Públicas. brigas. Mas a divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. de acidentes de trabalho. como o da diminuição da produção. o não-dito compreende a relação de não-saber que cada momento da instituição guarda com respeito ao outro e o não-saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. por exemplo. São fenômenos conflitivos. mas também uma série de relações humanas distorcidas. E assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz c oincidir com uma divisão social. Então as classes e grupos dominantes. de impotência. trata-se de criar um dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos de mal-estar. o analisador "poder". descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – Recursos Humanos. tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de respostas individualistas. outros são construídos pelos interventores institucionais. de disfunção que aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho. Alguns deles são" espontâneos". arbitrariedades que as classes dominantes da organização costumavam. desordenadas ou autodestrutivas. Mas os que podem delimitar-se com maior freqüência são. incomunicabilidade.considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior saber dá. com medidas disciplinares. o analisa dor "dinheiro". são vivências sofridas.

tanto do não-saber das contradições da estrutura e da função do sistema. a conseqüência. mas também diferenças. Em todos os dois há certa semelhança. como um desvio das forças críticas. que é necessária-. De modo que esse processo autogestivo e autoanalítico. esses fenômenos. na qual vão poder analisar os fenômenos de alienação de uma e de outra. mas nas formas peculiares que este adquire em seu caso singular. de dissociação – não a diferenciação técnica. negociando ou vivenciando. das forças revolucionárias. mas sem sair da lógica do sistema. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico-Socioanálise. E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando. O objetivo. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a autogestão. pode-se ver. sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são as causadoras dessa problemática. relaxando-se. de imposição. correlacionar esses analisa dores com suas causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar esses fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si mesmo. Trata-se de colocar os quadros em contato para que solucionem esse assunto conversando.simples questão de negociação ou comunicação. a equipe interveniente também vai integrar-se com a organização intervinda numa organização compartilhada. Finalmente. cabe 82 ▲ . e descubra a maneira como esses efeitos antiprodutivos são a expressão. ou seja. a isso se chama "implicação". dessa maneira. a recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo. mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. Trata-se de criar condições para que possam. eliminando as situações de burocracia. exaustivamente. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta. vai ser ocasião de poder analisar também os seus próprios conflitos da mesma natureza. das forças subversivas. é parecido com o de Mendel. Então. que vai tentar deflagrar na organização intervinda. Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do trabalho.

quando se pratica sobre uma organização circunscrita. convento. Pode-se. mas tem uma espécie de central em Paris. apesar da rigorosa autocrítica que exercitam. é geralmente um serviço apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado. na qual se discutem honorários. enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou menos generalizada. Isso. apesar de uma vocação militante que têm no seu trabalho. a uma escola. o requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico. a um sindicato. prognóstico e indicação. não deixam de ser experts. tempo e demais coisas. fábrica. não deixam de ser técnicos. se denomina" autogestão a frio".esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio". apesar de todas as ressalvas. Isso gera. que se chama Degenettes. em última instância – apesar de sua franca inspiração libertária. quando se opera no seio de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva generalizada de uma sociedade inteira. tratando de caracterizar algumas diferenças essenciais. então. hospital. com uma conflitiva mais ou menos moderada. Além disso. trabalha em muitos lugares do mundo. Isto é. e um contrato de trabalho. científicos. Então. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau. entre a organização solicitante e a organização solicitada. não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica dos experts profissionais. quartel etc. como prestação de serviço profissional. Isto é. ou seja. Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. dentro de um marco mais ou menos convencional. a demanda. auto críticas e análise da implicação. como já dissemos. trata se de uma prestação profissional de serviço. que são muito 83 ▲ . que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional. todo um processo de diagnóstico. ir até lá e solicitar seus serviços. os sociopsicanalistas e os analistas institucionais. é feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo organizado. ou "a quente". Por exemplo: o grupo de Mendel. de sua enérgica vocação revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos tradicionais.

mas que pode ser um trabalho feito por um sujeito sobre si mesmo. per se. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. e que não podem ser sistematizadas 84 ▲ . um modo de ser. táticas e estratégias absolutamente singulares para cada caso. Mas que tem também um aspecto analítico. necessariamente. e protagonizado por qualquer pessoa que tenha.sofisticadas e complicadas. as sentimentais. Sequer implica um trabalho de um agente sobre um usuário. estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais. Eu diria que de Mendel a Deleuze e Guattari existe. Então. Não é necessariamente uma atividade coletiva. a compreensão de como as determinações alienantes do sistema. Não implica. digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a de Mendel. Não implica um lugar nem tempo determinado. uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe. desempenhada por experts nem por profissionais. responsáveis pela dominação. todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo. ou seja. em qualquer momento. para cada situação. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina. Propõe algo assim como um processo de análise permanente. mas basicamente como uma nova forma de pensar. Não é. Para ela. para se aproximar muito mais do Anarquismo.a invenção de uma metodologia e de técnicas. ou uma maneira de viver. as relações com os outros e as relações conosco mesmos. presente por toda parte. essa prestação de serviços convencionais. indispensavelmente. generalizado e ubíquo. interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a precederam. as afetivas. que não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. naturalmente. A Esquizoanálise pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer lugar. Além disso. as artísticas. pela exploração e pela mistificação. necessariamente. Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. senão que pode ser dual ou individual. são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a alienação e propiciar. as econômicas. as políticas. uma relação de contratação. politicamente.

Em Deleuze e Guattari. podemos dizer que existe a "natureza ecológica". da vida. ele não dá muita ênfase a essa categoria e a esse conceito. como uma proposta radicalmente nova. não enquadrável. se perguntaram qual é a definição de desejo em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. é uma doutrina. a "natureza humana". mas não é um inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o não-dito e não-sabido. como. uma crença? A rigor. o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo. é rigorosamente freudiana: é a que Freud dá nas formas que. na versão dos autores. só que essa esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes. nem como uma ciência. nem como ideologia. que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. não se trata de 85 ▲ . por exemplo. É alguma coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo. Então. a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica. uma ideologia. segundo uma epistemologia clássica. já forma como que uma terceira natureza. mas para eles a questão se altera por completo. mas é uma força pertencente a esse domínio.nem transladadas para outra oportunidade. do psiquismo. elétricas. são as mais amadurecidas de sua obra. se aceitamos que na civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas. por referência não apenas à instituição familiar. aquela das máquinas desejantes. porque eles consideram a definição freudiana do desejo. apesar de um de seus produtores ser considerado o maior filósofo contemporâneo. a participação do desejo. particularmente. da história. que pretende ser um novo gênero. eu poderia dizer. na nossa opinião não se trata de filosofia. a coisa já muda radicalmente. Não lhe interessa. Inclusive. a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais. Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari. senão à do dinheiro e outras. entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. Para Freud. embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional. mas. eletrônicas etc. Para Deleuze e Guattari. poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta pobre: em Mendel. a concepção do desejo. da vida organizacional. a "natureza social".

que são imanentes entre si. que abrange todas as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis. por exemplo. para eles o desejo não é restitutivo. propiciar. e tenta esterilmente repetir um estado anterior –. digamos que. mas é também produção desejante. Ou seja. a realidade está composta por 86 ▲ . que só precisa ser veiculada. o desejo é. porque as representações não interessam tanto quanto as forças. mas entre suas formas molares. Então. enquanto em Deleuze e Guattari. no caso de Mendel. uma vez interpretados. do real psíquico. por exemplo. de uma natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção. vai-se gerar uma nova categoria de produção. do real natural e do real maquínico – é a produção. É a mesma natureza com uma diferença de regime. tal conceito não consegue englobar todas as formas de produção possíveis. esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de desejo. Baseando-nos nelas. A produção não é apenas produção mecânica social ou natural. mas a produção como processo de geração constante do novo. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles supõem. Equivale a dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social. segundo as características do processo primário. no nível molecular. que é a produção já deformada pelo capitalismo. para concluir. ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária. os sujeitos possam controlá-los. isoladas entre si. Não a produtividade. Mais ou menos essas são as diferenças. o desejo é produtivo. incluída a psíquica. em Mendel.domínios nem de esferas separadas. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar. como dizíamos. liberada de suas constrições. eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção. se tomamos o conceito freudiano de desejo – ele. especificamente psíquico. A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. dominá-los e utilizá-los no sentido de ganhar uma margem de poder possível. é restitutivo. é o produzir. Ao passo que. do desejo e da diferença. o que se tem de fazer é liberar. deflagrar a potência da produção. Para Deleuze e Guattari. Para quê? Para que. e com essa característica de gerar sempre o diferente e em todas as atividades possíveis. é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados. a produção e o desejo são uma e a mesma coisa.

três superfícies imanentes entre si: a da Produção. geradoras de tudo quanto é novo. O Corpo sem Órgãos assim povoado se transforma numa Nova Terra. integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas Máquinas Desejantes. segundo se trate das formações primitivas. dinheiro. sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. do Déspota ou do Capital-Dinheiro. Superfície de Consumo = Voluptas. por sua vez. as Intensidades circulam por ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas. os códigos. O Corpo sem Órgãos torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que. os sujeitos. representações e estruturas edipianas). Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante-revolucionários gerados por encontros ao acaso das intensidades. bancos. 87 ▲ . É o lugar das identidades e dos controles e da repressão generalizada. são capazes de desestruturar os estratos e territórios da Superfície de Registro. o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídosórganizados: Estado. Também a ele pertencem as pessoas. A Superfície de Produção está. organismos. ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário. enquanto que. Em si mesmo o Corpo sem Órgãos é o grau zero de Intensidades. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção = Libido. compõe-se de matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. asiáticas ou capitalistas. quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia. A este nível cristalizam-se em territórios. a do RegistroControle_e a do ConsumoConsumação. ou máquinas desejantes. Na Superfície de Registro. os indivíduos. O nível de funcionamento da Superfície de Produção é submicroscópico ou molecular. pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e levar à morte ou à demência. ou seja. será respectivamente o Corpo da Terra. Igreja. empresas. desejante-produtivo. Superfície de Registro = Númen. em condições desfavoráveis.

Para tentar enriquecer um pouco essas definições. Como se vê. 88 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 4) Qual ê a relação entre estas três tendências. apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria torna impossível defini-los em detalhe. assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo? 89 ▲ . Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular. um pólo paranóide (capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário). sugiro consultar o glossário deste livro.propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em novidades radicais.

é um tema do qual o institucionalista quer se ocupar. seguramente.Capítulo VI ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard. é evidente que o campo de análise consiste apenas num espaço conceitual ou nocional. Então eu gostaria de. Mas 90 ▲ . Em outras palavras. passado ou futuro. Antes de começar. a mais conspícua. eu gostaria de fazer uma breve classificação – que. É um assunto importante. Esse tema pode ser abstrato ou concreto. metodológica e tecnicamente. permanece nas pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste tipo de serviço. E pode ser muito vasto ou mais restrito. pois me parece que. porque quando não fica claro. é uma questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos. isto é. a mais corriqueira. Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de um campo de análise e um campo de intervenção. mencionar algumas delas. pode ser contemporâneo. pelo menos. será muito incompleta e esquemática – de algumas formas diferentes de intervenção. a mais habitual. no entanto.

91 ▲ . É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo. dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção. Ou seja. em termos empíricos. Agora. que é interna à organização na qual se vai intervir. Partindo. tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas. para poder saber como funciona essa organização concreta. fabril. porque se pode entender sem intervir. na condição de sociedade cientifica – uma sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos. é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade. por exemplo. uma indústria. escolhida como campo de intervenção. embora durante a intervenção iremos entendendo cada vez mais. que tem de fazer uma intervenção dentro de sua empresa mesma. por exemplo. o campo de intervenção. Aliás. um instituto de Análise Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma microempresa. pressupõe um campo de análise. pode-se escolher como campo concreto de intervenção uma fábrica. Mas pode-se delimitar um campo de análise que não compreenda unicamente o entendimento dessa fábrica. digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. como já foi dito. isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente histórico-social. Uma modalidade de intervenção – aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard . O campo de análise pode não coincidir. e resolver estudar o processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil. por exemplo. é o exercício oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados. com o campo de intervenção. convencionais. É o famoso caso. envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar entendê-lo . no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica. um departamento de Análise lnstitucional numa universidade. habituais. pois.é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica necessariamen te uma intervenção técnica. do departamento de Recursos Humanos de uma empresa. Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que integra. mas não se pode intervir sem entender. dentro do panorama social.

com os companheiros. sem explicitar essa condição. tem institucionalistas que são militantes formais. mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais. mas que. esse sindicato ou esse partido político pede a seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor. é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo na convivência cotidiana. na condição de qualquer outra coisa que faça parte dos papéis formais existentes nessa organização. em todo caso. nem é solicitado corno tal. e o faz sob um rótulo. sem dúvida. convive dessa forma e. em urna frente. mas simplesmente é um "cristão". e ele é procurado nesta condição. qual ele pode pertencer organicamente ou não. nem se infiltra sob outra condição não formal. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista. em um espaço da vida e da atividade partidária. É o caso. limitado. que acabamos de expor. contanto que seja considerado corno parte da vida militante. em um segmento. ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas. Em outras 92 ▲ à . Por exemplo. trabalho esse que pode ser ou não pago. é um acordo muito definido. com os adversários. então. é um próximo que. pratica o Institucionalismo com sua mulher. dentro de seu papel de morador. vive dessa maneira. Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização.ou um departamento de acompan hamento institucional de urna universidade. formas técnicas de operar. mas que não seja o de institucionalista. Mas. Então. com os filhos. Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre. de um morador numa associação de bairro. por exemplo. que consiste numa variação dessa última possibilidade. é o caso de um sindicato ou de um partido político que. em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico". nos seus quadros. tendo assimilado princípios teóricos. Urna variação que parece a menos comprometida e. em que ninguém sabe que seja institucionalista. isto é. Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com esta anterior. opera corno institucionalista.

palavras: é a quele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis, o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode levá-los a adotar uma atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso; não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 93 ▲

complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... " O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, devese ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de operar, corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos diziam: calcanharplanta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê-lo ... O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 94 ▲

atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é . "naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo. Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 95 ▲

Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui porque excede nossos propósitos. Além disso. um ao lado do outro. todo o meu poder social e todo o meu prestígio através disso que eu faço.. Um oficial pede a um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. ou sefa. tem com sua tarefa. vêm correndo. É um forte americano. acha que os problemas da realidade são problemas de seu campo. Eu sou especialista em saúde. mas não nos usuários. numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. profissões.análise da implicação. o vigia sobe. porque estão vindo todos juntos. Então. e muitas vezes é. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são totalmente produzidas. um senhor ou uma organização vem consultar-nos sobre um problema de saúde. certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 96 ▲ . Então. Há uma piada famosa que se passa num forte militar. Então não tenho culpa de nada. fica mais fácil lembrar que a realidade com que trabalhamos vem toda junta. E o que acontece é que cada especialidade. A divisão em especialidades. mas não freqüentemente. Isso não é maldade dos agentes. do profissional. sou profissional. olha e diz: "Sim. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro. e eu gostaria de descrevê-la de maneira pitoresca. convencido de que o problema é nosso: de cada um. ter presente. é estar próximos. consciente ou não. ela começa pela análise da implicação existente na oferta. na produção da demanda. os índios estão vindo. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se demonstrado eficazes. às vezes. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócioeconômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora. " Se a gente se lembra desta piada. São muitos. para encarar qualquer problema da realidade e estar. Mas a realidade vem junta e nós não estamos juntos. para que seja mais lembrada pelos leitores.. Mas há uma que temos de revelar." O oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe. só existe dentro da classe ou da equipe. pode ser uma desonestidade. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição profissional estão estruturados para isso. em território índio. devem ser amigos. Se alguém me consulta por um problema de saúde. do especialista. o mais que conseguimos. cada profissão... Vivo disso. em princípio.

" Estou tratando de ser simples. que coisas. Essa é a análise da implicação na produção da demanda. estou a seu dispor. esquecendo-me de que. Esse problema tem de ser resolvido com seus amigos. Então. ou seja: que fiz eu. Essa análise tem aspectos conscientes e préconscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe. Procura-me porque algum lado do problema tem a ver com o que faço. e então o atendo. quantos cientistas vocês conhecem que. Mas se eu não me oferecer. realmente. posso solucionar." Isso já é muito. o que foi que fizemos nós sem dar-nos conta. dar de volta ao usuário o que ele solicita de mim. seus companheiros. vamos ver como foi que convencemos este fulano a nos procurar. " Quantos profissionais. que coisas posso solucionar parcialmente e que coisas não devo solucionar. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura.. como foi que vendi isso. seus colaboradores ou sozinho. O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita-me dizer-lhe que esse problema não é privativo de nenhuma especialidade. o que tenho de fazer é analisar. pelo contrário. Às vezes há quem diga: "Sim. se ele me procura. ampla. se o sujeito está demandando em primeira instância.. ninguém me procura. ou seja. é porque me ofereci. E se me procura. pode ser uma oferta vasta. concluem que esse problema não é para eles resolverem. Então: "Venha que esse problema é comigo . devo encaminhar noutra direção ou devo devolver. O problema fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda.alçada. A primeira coisa a ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita. cruzada. se não vendo o que faço. válida. e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se conhecem muitos profissionais assim. sem me dar conta. para" capturar este peixe"? Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária. mas seria conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área. após ouvirem cuidadosamente alguma demanda. para que foi que "vendi". somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está demandando. ninguém" compra". a primeira coisa que ocorre é que a gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda. com cuidado. Se eu não me constituo num lugar científico." Mas tem aspectos inconscientes. o problema é meu.. resolutiva etc. profissional. é difícil de se ouvir.. na oferta. Existem poucos. porque.. o que 97 ▲ .

mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e a demanda. para os institucionalistas. não é exatamente um colega. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é o melhor". sem dúvida. E isto é muito importante. segmentos da organização. porque nos pode dar toda uma antecipação dos motivos desta consulta. consulta porque" é bara to". Isto é: qual foi o setor da organização que assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes.vivemos fazendo é lutar pela legitimação. ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere. chegou à conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis. É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem solicita. que ofertamos o serviço. de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases. os desejos em pauta e. pela autorização e pelo reconhecimento s nosso serviço.ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos. nem homogeneamente progressistas. nem homogeneamente sinceras. Costuma ser. Consulta porque" é daqui". consulta porque "é caro". isto é. mas para dar um exemplo simples: qual foi o cliente que. ou porque "vem de fora". consulta porque ele é "dos nossos". e o faz com elementos conscientes e inconscientes no usuário. Tudo isso modula a demanda. isto é: quais foram os passos intennediá. na mesma proporção neles e em nós. porque as bases não são homogeneamente revolucionárias. definindo nossos serviços como eficientes. O passo seguinte é a análise da gestão parcial. não é nenhuma garantia. Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “ A ideologia 98 ▲ . ocial de O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento. os interesses em jogo. o grau de consenso. infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela direção ou pelos proprietários. sobretudo. Isso.

consciente. desconhecimento e recalque. Isso. demanda é a solicitação formal. O passo' seguinte é a análise do encargo. veja. geralmente. Pode-se dar um exemplo clássico. sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. claro. a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom. deliberada. desigual. da tecnologia moderna em relações humanas. mas não único. passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional forma parte da parafernália de serviços característicos do progresso. conflitiva. Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro para os leitores. Então. a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e como foi que consultou. uma organização numerosa nunca virá toda para fazer uma solicitação. pois o fato de você considerar o parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa. solidárias etc. singulares.dominante é a ideologia das classes dominantes. que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. Nessa terminologia. A diferença entre demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e encargo. Então. na medida em que a Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais." Então. mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes. vem apenas um segmento (apenas uma parte faz a demanda). A demanda nunca coincide com o encargo. as bases são. mas apenas uma delas. Por outro lado. que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos entre má-fé. É claro que as pessoas estão solicitando uma coisa. nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional. viemos consultá-lo porque sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 99 ▲ . em geral. em geral. contraditória. Mas não coincide por quê? Por má-fé? Pode ser. O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes. originais. A compreensão da determinação dessa parcialidade é importante. Isso também tem de ser analisado. é uma solicitação consciente que. ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. Estamos falando de uma situação ideal em que. mas o que elas querem obter é outra. que nunca coincide com o encargo. Vem um setor.. Então.

quem tem fama de institucionalista dificilmente será solicitado abertamente para isso. O urologista irá receitar. então. O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado (?) para a consulta. e se isso não funcionar. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza. no entanto. está surgindo um grave conflito por problemas de condições de trabalho. Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má-fé. de uma intervenção profilática. como paralisar isto.. da direção. Ora. Pode ser fruto do desconhecimento. ou seja. que se diz uma coisa e se está pedindo outra. Mas pode ser. ou como aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário. localiza os líderes. melhoradora. veja se acaba com esta revolta. como fragmentar. na organização. Agora. quando. de um problema de ignorância. que não sabe uma palavra sobre isso. um problema recalcado. progressista. a comunicação. você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica. tratase de algum conflito com a "mamãe". Então. 100 ▲ . vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se opera.. O encargo. há uma demanda. é: "Olhe. cloridrato de ioimbina ou viagra. me aconselha como desmontar este movimento. e procurar um urologista. pois." Isso pode ser feito com plena consciência e com má-fé." Por quê? Porq ue já se sabe que existe uma tecnologia modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. acontece que o encargo pode não ter nada a ver com isso. com algo que acontece quando.dos operários. finalmente. num plano manifesto. Então não se lhe pede isso diretamente. O encargo pode ter a ver. porque já se tem uma vaga idéia de que se ele não é revolucionário. entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. a negociação etc. por exemplo. por problemas de autoritarismo na liderança. de quem vem consultar alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o encargo recalcado. pelo menos é democrata ou humanista. ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos. porque é um corrupto ou porque é um reacionário. perfeitamente. o entendimento. inconsciente. Há especialistas em fazer essas coisas. Não é comum isso? Tratase. simplificando humoristicamente. como desmobilizar. por problemas de nível de salário. Mas pode-se perceber.

Vocês se lembram do que é analisador . É claro." Já tenho recebido demandas dramáticas. então temos de caracterizar os analisadores "naturais". descartado o fato de que todo trabalho é alienado. ou de uma essência "vadia". Mas também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia cumprir. e também análise da demanda parcial. não se quer trabalhar. e a maioria delas não é boa. numa sociedade onde o trabalho é alienado. por exemplo. Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de uma unidade. e que sempre há dominação etc. porque não querem trabalhar. porque não se quer estudar. não se pode entender um sem o outro –. mas tem-se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a gente não trabalhe. Mas. ou uma autocrítica que não consegue suportar. falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um serviço.natural: é um fenômeno (dito em termos clássicos. não se podem separar esses dois pontos. Na realidade. Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. que é o que surge como resultante de toda uma 101 ▲ . Sem dúvida este desagrado pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim". ou um estudo que não tem vontade de 'encarar. incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de emergente. heróicas. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. Então solicitase alguma reivindicação. estes grandes "protestos revolucionários". Quando se simplificou isso. em todo caso. que sempre existe uma extração de mais valia. em termos de má-fé. anteriormente. com freqüência. é bom que tais manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. Os determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente complexos. pelo fato de ter sido colocado o cartão de ponto. o cartão de ponto quer dizer muita coisa.Agora cabe aclara r uma coisa importante. pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser fruto de má-fé. de desconhecimento ou de recalque. Mas se os quadros são de base. Mas vocês devem ter ouvido. no tocante à diferença entre a demanda e o encargo. porque os quadros de base podem fazer essa solicitação. Já sabemos o que é encargo. de desconhecimento ou de recalque.

uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam chamar de "presuntivo". Então. já devem ser pagos. assegura-se o respeito geral necessário. um contrato de diagnóstico. que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. Então. Só que é bom fazer este novo acordo. o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí. Então. as defesas. E são "naturais". legitimado e. Com esse contrato. a esta altura. se entre outras coisas o institucionalista vive disso. Por isso. cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. por um segmento qualquer. poderemos chegar ao que se chama diagnóstico provisório. no caso de existirem honorários. 102 ▲ . em primeira instância. Porque só ouvimos uma. no entanto não é valorizada pelos usuários. e não por todo o coletivo. poderia ser uma greve. Depois do contrato de diagnóstico. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. Então. não existem analisadores naturais propriamente ditos.série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. e também porque um contrato de diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser diagnosticados. Senão. tenta-se analisar. aquela que fez a demanda parcial. Qual seria um analisador desse tipo? Grande. e nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso. se vai lá. O contrato de diagnóstico é um acerto. fundamentalmente. suponhamos um analisador chamado natural (criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto. E quando tivermos feito tudo isso. é interessante receber os honorários. temos de fazer. entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. o aumento das doenças de trabalho. Mas então. porque não foram fabricados por um interventor institucional. Senão. pelo fato de que. porque ele implica que o diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado. temos de caracterizá-los. pequeno ou médio. quais foram as resistências que se levantaram nos outros setores que se foi ouvir. Um primeiro entendimento sobre o que está acontecendo lá na organização. o institucionalista foi solicitado por um setor. pelo menos enquanto acontecimento geológico. Este contrato já implica a construção de dispositivos para ouvir todas as partes. delimitar quais são. isto é. é um convênio feito para poder construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. a morte de um operário.

fazendo-se a análise da demanda e do encargo 103 ▲ . Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório. porque o interventor não está baixando regras. só se ouviu os setores distintamente. Mas talvez isso se possa entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. Ouviu-se passivamente. de indagação. Os usuários podem aceitar ou não. desloca a problemática da situação espontaneamente referida. ou dispositivos para poder recolher todos os dados do didgnóstico provisório. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. mais crítico. é "artificial" – já fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. nada impositivo. poder planejar uma política. não estou deixando de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim e não. mas não é sequer o diagnóstico provisório. e importante.O passo seguinte consiste em. mas está propondo um dispositivo agitador. pode dar certo ou não. Então vai-se criar analisadores construídos. não é demasiadamente indutivo. mas não se criou condições para cutucar o nãodito que queremos investigar. Também se pode propor outra coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em um espaço diferente do habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitirnos observar o que acontece nessa convivência. Mas será que quando crio instrumentos de investigação. Eles não são tão indutivos assim. porque é indireto. um agenciamento ativador. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural". mais comprometido. a partir desse diagnóstico provisório. Uma vez aceito. Por enquanto. reúne-se a equipe interventora e parte-se para analisar toda a colheita. Vamos dar um exemplo fácil. Se não aceitam. é uma reunião de cineclube. uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. Depois que se fez a investigação passiva. Ainda é um presuntivo já mais elaborado. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o mesmo. É muito recomendável e não é nada autoritário. Mas não foi concluído ainda o diagnóstico provisório. resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e que vai dar-nos o material mais profundo. teremos que pensar em outras alternativas. uma estratégia. porque se trata simplesmente de propor. Por outro lado.

exige ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. que não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente.definitivo. técnicas expressivas. Então. Por exemplo. É possível não se dar conta de que essa ambição acordou-se nos interventores. quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou recalcados que foram ativados. a importância dos mesmos e as técnicas. será necessário precisar quais são as estratégias. qualquer técnica. Por que é importante? Porque o passo seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. temos adquirido solidariedade ou cumplicidade inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo. pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras intervenções. vai conseguir outras intervenções noutros lados. os espaços onde se vai dar essa "guerra". uma festa. será necessário desenhar as táticas. a ordem dos mesmos. táticas. um quebra-cabeça coletivo. sempre que a tática. depois de todo esse novo exame. temos uma vivência de contato diferente. 104 ▲ . exaustivamente. um cineclube. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em condições de manifestar-se muito mais livremente. despertou em nós. a análise da implicação significa pesquisar. toda técnica é boa. somos igualmente ativados. uma guerra simulada. a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. muito mais ricamente. também somo's mobilizados. no coletivo interventor. os movimentos fundamentais para conseguir os propósitos políticos. Nova política. novas estratégias. temos de voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou. os procedimentos: psicodrama. quando se mantém uma convivência prolongada. mas pensada anteriormente. Então. porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe fez uma boa intervenção aqui. técnicas definitivas. analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e novo contrato. Nova análise da implicação. que envolve maior compromisso e requer mais retribuição. Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser dada ao processo. Esse contrato definitivo. despertou na equipe interventora.

Consideração dos índices de transferência. que poderes quer nos dar e porque. Os temas a investigar são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização? É claro que.Depois temos a autogestão do contrato de intervenção. para chegar a um acordo consciente. ou seja." Primeiro quero saber o que o coletivo propõe nesse sentido. atravessamento. mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo proponha se quer pagar quanto quer pagar. Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise coletiva permanente. produção. antiprodução. isto é. eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças. ficará uma disposição e uma 105 ▲ . O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: "Eu quero um contrato por tanto tempo. que poderemos ou não comunicar ao coletivo. em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto." Não é esta a idéia. que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a implicação que se vai gerando na equipe durante o processo. e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho. resistência. Se não for assim. no momento em que saímos da organização. o tratamento vai durar tanto tempo. transversalidade. o que será muito ilustrativo do significado que a intervenção tem para cada segmento. tal como foi planejada. depois de analisar a proposta. Depois vem a execução da intervenção. vamos fazer uma proposta de contrato definitivo. que tempo pensa destinar ao trabalho. Isso é completamente diferente das prestações de serviço profissionais habituais. Logo vêm as avaliações periódicas. todos os conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. e porque. por que quer pagar. o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la. não atendo.

temos de discutir.instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo. em todo caso. E. Nossa decisão deverá ser submetida a ele. de forma permanente. se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio. como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer com ele. finalmente. o processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos. 106 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional? 3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. que introduzimos como hetero. e o trabalho continua. Nós saímos. mas a implicação e os problemas éticos. é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generispara cada situação. sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é propriedade do coletivo considerado. é um esquema para se considerar e omitir os passos que não sejam possíveis. condensar tantos outros etc. como vamos elaborar todo o material. Podemos fazer um acordo de acompanhamento. que não sejam recomendáveis. 4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 107 ▲ . políticos e econômicos continuam sendo importantíssimos. A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações. já por nossa conta. tanto que se pode dizer que a regra são as exceções. de intervenções periódicas de atualização. profunda e exaustivamente. Mas. Em todo caso.

insistindo que não 108 ▲ . organizações. assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. uma vocação crítica. Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral. que tenta conceituar de diferentes maneiras. às formas concretas em que essas se "materializam".Capítulo VII o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE f) O Institucionalismo e suas vicissitudes Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista. Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos sociais no que se refere às lógicas que os regem. às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam. a um conjunto aberto e internamente diversificado de correntes que mostram certos valores em comum. Podemos eleger uma. Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas. e não sem ressalvas. ou simplesmente Institucionalismo. ou Instituinte. estabelecimentos e equipamentos. mas também porque supomos que este universo seja não totalizável. Em outras palavras: ocupam-se das instituições. bem como marcadas diferenças. ou Antiinstitucionalista. não só porque este propósito excede em muito os limites deste livro. assim como aos recursos que empregam para obtê-las. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação.

Algo similar ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. em seus aspectos conservadores ou reformistas. Quanto à gênese conceitual. marginais. assim como aos sofistas. epicuros. o Institucionalismo tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou experimentado. estóicos. à sua maneira. em suas versões mais drásticas. Campanella. Bakunin e outros. até chegar a concepções e ações alternativas. A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem comum". Kierkegaard e Sartre. até talvez caiba dizer. O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial transformador. Hegel e Heidegger. a serviço.será necessariamente compartilhada. Descartes. desde a tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia. Por outro. sobretudo. o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos importantes pioneiros deste tipo. Kant. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua função ou funcionalidade de seu funcionamento. sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas contrastantes. 109 ▲ . por Marx. Platão. os Escolásticos. Muito sumariamente mencionada. Argélia e. Nietzsche. Rabelais. extremistas. adere com muito mais entusiasmo ao espírito dos materialistas pré-socráticos. com uma longa série de tentativas históricas de regular racionalmente a existência das coletividades. principalmente. a gênese social desse Movimento pode relacionar-se. Por um lado. Essa vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos "institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições relativamente conservadoras. Espinosa. Hume. não pode deixar de se inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates. Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus. Bergson. proporíamos as grandes balizas da Revolução Francesa. na medida em que estas não são homogêneas. seguindo por outras crescentemente reformistas. Pelo contrário. Aristóteles. Arbitrária e muito simplificadamente. megáricos. da produção de novas formas libertárias da vida. revolucionárias e. Fourier e. da República durante a Guerra Civil Espanhola. clandestinas.

é sabido que as origens do Movimento podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis. como mínimo. Funcionalismo. assim. não é homogêneo. com a definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 110 ▲ - . a saber: o da Educação. esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e estabelecimentos (comerciais. Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis. liberais. Semiótica e Antropologia –. Economia. Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia). As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia. financeiros.Se é permitido falar-se de uma gênese operacional. entre os quais encontramos. Poder-se-ia acrescentar toda aquela atividade vinculada aos Serviços Sociais. Simultânea ou consecutivamente. Cada um desses setores do conhecimento. Sem contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas reconhecidas. e assim por diante. Encontramos. a gama abarca desde as escolas que. quer dizer. dos Sistemas. dos Jogos etc. Essa difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala. e nem sua herança institucionalista o é. por exemplo: Comportamentalismo. influências predominantes de várias correntes. ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes institucionalistas. Desde logo. obviamente. eclesiásticos e até militares). os problemas da Urbanização e Demografia. ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a Teoria da Comunicação. como também de disciplinas como a Pedagogia e a Medicina. todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas. História. está claro. o da Saúde Pública (especialmente a mental) e o d a Indústria. Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por diante. aspiram a títulos de cientificidade (de acordo. partidários. marxistas e anarquistas. às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e das populações em geral. sindicais. Psicologia.

. com relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém. Estratégia e Tática do Movimento. no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção teórica (coerência. o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de uma Ética. "progressão" ou. Como veremos mais adiante. consistência. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética Social" são 111 ▲ . Em síntese: esta "evolução". o que esperar acerca do arsenal técnico. este "percurso" de sua gênese social.). Com a profissionalidade o que está e m jogo é a legitimidade.. convalidação. avaliação de eficácia. gnosiológico e profissional.). verificação etc. coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu estatuto ético. assembléias. análise de conteúdo. workshops etc. o qual se desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude. método e objeto de estudo são tão proteiformes e problemáticos. entrevistas livres ou dirigidas. do Institucionalismo.). sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais. publicações etc. passando pelos procedimentos informativos. dramáticos. questões de neutralidadeabstinência ou imparcialidade-indução). legalidade. Se o instrumental teórico. Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a cientificidade e a profissionalidade. precisão. carreiras. Conseqüentemente. ou o que quer que se queira chamá-lo. conceitual e operativa. títulos. essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de Babel. Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na escala de correntes. mais neutramente dizendo. e suas óbvias conseqüências econômico-políticas (operações de oferta. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a autorização das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas. possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção. demanda e contratação de serviços. jurídico-político.afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma nova concepção da convivência cotidiana.

sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e intervenções científico. centro-periferia etc. por parte dos coletivos. Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi se pronunciando: a) Quanto à especificidade. b) Quanto à profissionalidade. as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teóricotécnicos valiosos sob todos os prismas. analisador. encargo. nacional e até planetária. da autogestão e da autodeterminação das comunidades. Pelo contrário. das potencialidades acima apontadas. sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações de serviços. as formas mais marginais. que atendem à autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista. Lukács. (ver glossário). afastase cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. as expectativas de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente satisfeitas. demanda. e 112 ▲ .). conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que de direito) à tecnologia da human engineering(Psico-Sociologia das Relações Humanas. Contudo. impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto-análise. frio-quente. Os setores tradicionais do Movimento. a faixa mais subversiva do Movimento. mercantilistas e adaptativas. de acordo com os países onde se desenvolvem.tecnológicas com os sistemas e setores dominantes. Treinamento em Recursos Humanos etc. tais como: implicação. efeitos: Mulhman. e coerentemente. cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da alienação-dependência do saber-poder dos coletivos de usuários. Durante esse trajeto. alternativas ou revolucionárias do Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização da análise e da intervenção em grandes situações em escala regional.vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras". Weber. isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo entre seus usuários. No extremo.

não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos. ameaçam submergi-lo em uma certa paralisia. a idéia consiste em encontrar canais de conexão. o autor tenta sistematizar os obstáculos. pontuais ou amplos. com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento. que não simpatiza com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou vanguardas elitistas). e mais ainda o "maximalista". Isso tudo acontecendo em um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. uma maneira vasta e diversificada como "o inimigo principal" (a expressão é nossa). que se em um sentido podem constituir fatores de propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos. Resume-se aí o drama Institucionalismo: definindo o Estado. tais como as de integrante. nem sempre realistas. de mudança libertária. não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo avançado pretende. Se por um lado os procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos pela peculiaridade de seus ideais. Parece que o Institucionalismo avançado. o agente institucionalista com inquietações militantes encontra dilemas excruciantes.muito menos as de propagação da utopia transformadora a vas tas unidades sociais. 1980). o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos. os capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". formais ou não. Kairos. para contribuir com as mesmas para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar-se. Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o mais duro desafio. Na segunda parte do citado texto. soma do instituído. Barcelona. aliado ou simpatizante lhe são insuficientes. radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. 113▲ . por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e lutas. ou persuadidos ao participacionismo. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente" (Ed. ou totalmente apáticos e dispersos. Diante dessa perspectiva. colaborador. em outro. Como veremos mais adiante. Mais corretamente. A rigor.

Por outra parte. Em cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais". sexuais. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes. As duas dificuldades. segundo nossa experiência na América Latina. contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações mais adaptacionistas ou reformistas. de modo que os pequenos grupos e organizações não sabem de sua existência. algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos.possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os campos de sua provável atuação. Também devido à pouca divulgação do Movimento. mesmo supondo que conheça sua proposta. que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas. raciais. senão à autogestão generalizada "a quente". Contudo. Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e média envergaduras. religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas. espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades etárias. senão no tangente à nossa experiência particular. Trata-se. O primeiro refere-se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão. a maioria dos grandes experimentos "revolucionários" massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados. abrem-se para o institucionalista outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinações estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. proliferam cada vez mais movimentos. não por acreditarmos que não tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos. o Institucionalismo se vê forçado a recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação acadêmica de especialistas e profissionais. mediante a auto-análise da implicação despertada pelo encontro com a singularidade do 114 ▲ . a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e corporativa dos agentes. sendo pouco provável que solicite a colaboração de um institucionalista.

estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos. por exemplo. insuficientes. sobre algumas das quais voltaremos ulteriormente. estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e o cultivo do mercado interno).coletivo intervindo. parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de controle social. por um lado. incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um ostensivo fracasso. o Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas. de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. os Estados gerentes pseudo-exitosos. Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 115 ▲ . persuadiram as populações com benefícios concretos ou imaginários. o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as comunidades. as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções reais de sobrevivência. As massas extremamente depauperadas. por outro lado. queremos apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias européias). enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e acumulação de informações (chame-se. modernos e eficientes administradores de enormes riquezas. inconsciente e "contínuo") em cada formação social. Essa falência também foi indicada por Lourau e outros. "Praxiologia". Ao mesmo tempo. Como conseqüência. levando-as a uma atitude de "conservadorismo crispado" (segundo F. ao elevado nível de padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista". o brutal contraste entre o discurso. como sugerem alguns). Fazem-se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e estratégias do Estado (entendido como ubíquo. não são propensas às propostas institucionalistas. No entanto. Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de resistência passiva).

em outras palavras: não há nada de inesperado no fato de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido. penosamente. Deu-se para elas respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do Institucionalismo: empresarização. calouro ou experiente. sofre sérias pressões resultantes da crítica endógena. revolucionárias e até "terroristas") da corrente. se tal coisa existe. Essas questões não são. em pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática". alternativas. mais ou menos acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento. Freqüentemente o institucionalista. a ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais. a dar-se soluções próprias. acrescentam-se certos agravantes que iremos apenas esboçar aqui. reformistas. novas para o Movimento. distorção da demanda. da crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras. começam.providencialismo estatal. a reformulação das características do agente e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva – como a cooptativa. Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente. para certo trabalho "no Estado" e "com a sociedade civil". das quais as tendências institucionalistas se 116 ▲ . causado basicamente pelo poderio. ou seja. entrismo. clandestinismo. Consagrados e repudiados. o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". Ela afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas. Nesses empreendimentos. expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à totalização. de maneira alguma. sempre pronta a desencadear-se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e táticas infinitamente sutis e cautelosas. como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do Movimento. uma rica e profunda autocrítica. Em geral. ressingularização das práticas são alguns dos termos usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. Esta superfície mostra algumas brechas para o Institucionalismo. marginalismo. maquiavelismo. Não é nada estranho que assim seja. infiltracionismo. contudo. esses modi operandi.

na medida em que tais registros só seriam reconstrutivos de experiências consumadas. uma modalidade de viver coletivamente. cada uma das células. a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda não foram escritos. a da sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". como uma de suas áreas mais sensíveis. Essa crítica disseca. A problemática que esboçamos tem. Se se admite que o Institucionalismo é. adquire sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina". Mas se não se admite um "especialista em autogestão". Cabe aqui acrescentar a ressalva de que. especialmente se o fazem para formar " experts em fazer isso". as dos "que ensinam a fazer isso". talvez não seja necessário escrevêlos senão como curiosidades museológicas. autodeliberar e autodecidir a forma sui generis. vísceras. junto com elas. tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados) ou. única e irrepetível. Tanto é assim que capítulos fundamentais. deve-se necessariamente conceber (pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para formar diversos especialistas. no possível. Essas. Nesta reelaboração. triunfantes ou falidas. incluindo entre elas boa porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. seguindo com a metáfora.originaram. segundo certo conjunturalismo ou improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas. metaforicamente falando. organismos e funções que as integram. em última instância. fazendo. sistemas. tecidos. Mas esse trabalho é feito habitualmente em abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. uma clara discriminação entre especificidade e especificismo. a proposta é que cada coletivo construa as condições para se autoconhecer. Este processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas das quais padece. as figuras do profissional e do técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e. quanto elas mesmas. teriam uma singularidade tal que careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. A redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 117 ▲ . a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e mutação). Dito de outra maneira. que deseje dar-se para existir.

O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e. Esse objetivo. Ciências Políticas etc. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam. "permanentes". que configura estas comunidades como tais. tais como Sociologia. Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito ideológico. Que a organização e procedimentos adotados sejam "não-diretivos". Completando a idéia: impõe a não. quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo. a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em outros coletivos atuantes. ao que há algumas décadas se denominava "acumulação social do saber". "co-gestivos". Psico-Sociologia. assim como tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas diversas qualidades que acima confessamos não havermos conseguido classificar. não é tão importante quanto parece. mas pressupõe a firme disposição dos agentes formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se insiram.condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos dos quais "menos se poderia esperar". exige ou não a autodissolução do agenciamento pedagógico. O ponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado. Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 118 ▲ . quando é claramente assumido. é a de associar-se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. é claro. Aludimos. Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e v ocacional do trabalho. em cada um de seus dispositivos. pedagógico e político) ou integralmente autogestiva. mais claro ainda.reprodução do equipamento e do modelo pedagógico que o gerou. enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma discreta transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande Política. e dão modestos frutos. A nota em comum.

culpado. adaptacionistas. Os profissionais mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa. ambos deverão dissolver-se em uníssono. o institucionalista deve ainda enfrentar a crítica interna. o máximo que se autodissolverá. o que é mais comum. Sem que pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias. a de "autorização" e o desejo produtivo. No primeiro caso. e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro. nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê-lo. O agente retrocede às modalidades mercantis. "a frio". administradores. os ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. No segundo."deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso isolado. o funcionalato e o academicismo. será a assimetria educacional entre professores e aprendizes. Um primeiro caminho é o regressivo. urge se fazer constar que. perplexo. assim como sua organização mesma. e só até certo ponto. não é nada infreqüente encontrá-lo decepcionado. Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo. eles não são tão límpidos quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas institucionalistas contemporâneas. três deformações tocaiam o agente institucionalista. sejam as reformistas e eleitoreiras. assim como professores universitários. com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. Por isso. Tensionado entre a necessidade de sobrevivência. e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. todo e qualquer "espírito" 119 ▲ . como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. Frente a esse difícil panorama. burocráticas e corporativas do Movimento. onipotente ou. Só que essas adoções se realizam" em nome do Institucionalismo". Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o agente se lança às formas clássicas da militância política. Entre elas destacam-se o empresarismo. de um lado. resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma. comunicólogos e psicanalistas. em sua assunção. Enfim: como dissemos.

publicam ou intervêm. Como quer que seja. sectárias ou facciosas. as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada). 120 ▲ . é a que pedimos licença para denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". O tero é uma ave da planície Argentina que. Ao mesmo tempo. da "novidade radical" (que impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação-auto. "grita em um lugar e põe os ovos em outro". muito nos importa esclarecer que não deve ser confundido com outro. do saber ex-nihilo(que proscreve o estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. Inteirados nominalmente de um punhado de noções da corrente. drogadito e parasitário) etc. que cremos conhecer muito bem e que é urgente desmascarar. erráteis e libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento. segundo versões híbridas.próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias.heterodissolvente (que hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas). devido às limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. segundo a tradição gaúcha. sabendo das características dispersivas. tão engenhosa quanto discutível. colaboram ou protagonizam. que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais ensinam. o "hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico. a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena). inevitável. Como notas secundárias caracterológicas. mas em real condição de implicados nos eventos e empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar-se. e em referência a esse terceiro tipo de agente. da "desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e eficácia). às vezes. Não nos parece que esta composição seja das piores. Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que. estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um sentimentalismo raso). clandestinamente ou não. Uma terceira escolha. circunscritas e moderadas do Movimento. Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns institucionalistas. as usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. mas sim que é uma saída desgastante. para assim protegê-las da voracidade das espécies predadoras.

com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. contratação. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas com rigor e vigor. E isso não significa exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos. II) O Institucionalismo e seus valores Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas. qualquer iniciativa que os tirou do anonimato. ou melhor. acólitos ou franco. líderes. nem Teros. Sua triste história consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado. em resumo: ladrões de galinhas. Experientes institucionalistas exortam 121 ▲ . amplos e fortes. originada da lumpenização das faixas médias urbana s universitárias. implantação.Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada. Será procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"? Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos parte desta problemática. que restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. Política. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo Movimento. Nem Eros. nem Ananké. mas que muitos deles precisam ser apenas comunicados. cabe concluir. modalidades de divulgação. dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade de nada". Essa óbvia constatação não é proclamada aqui apenas por pruridos éticos.atiradores. não só "não passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa qualificava de esquerdosos festivos. morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. autorização. Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais. Para tal. o Movimento deve dar-se dispositivos formais. alianças. a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" entidade de origem. consciência epistemológica ou autocomiseração sentimental. no mínimo. tais "revoltosos". libidinais ou ideológicos incapazes de produção. táticas. transmissão. desenvolvimento. logística. técnicas. brandindo "palavras" instituintes. avaliação de resultados. estratégia. intercambiados e elaborados coletivamente.

Entretanto. contudo. instituir um ponto de partida contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". Essa limitação. em alguns casos admiráveis. Por outra parte. compartilhadas pelas equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem cuidadosamente analisados. do lucro e do prestígio. Afirmam que se toda intervenção está encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos. Em outras palavras: da racionalidade. do poder. que a crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou. É óbvio que para os institucionalistas mais "profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos. se bem que esses requisitos sejam indispensáveis. e portanto repetitivo.seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido. como tecnologia falsamente "neutra". Dá-nos a impressão. Constituir-se-ia assim um núcleo cego. e até há pouquíssimo tempo. para as correntes puristas. só se exige que suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários. extremada no 122 ▲ . trabalhistas ou jurídicos externos ao Movimento. justamente sobre os valores e recursos em nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos. as forças mais reativas do "especificismo" e "profissionalismo". que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do mesmo. Já para alguns. do saber e fazer disciplinar que dessa maneira ritual se funda. não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do Movimento. apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca da onda de integração planetária de todos os processos sociais. Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de contrato e enquadre das prestações de serviços. de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos. todo settingseria um aparato ou equipamento no qual se cristalizariam. assim como à subscrição de convenções normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do Movimento.

imaginá-lo solicitando os serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. Por outra parte. caso este que parece não criar problema algum. Por outro lado. uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento. Via esta questão restrita do contrato e do enquadre. "culturais" e libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa). No limite. tenhamos presente que em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir.caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social. não se vê porque um companheiro institucionalista iria ser convocado a participar. se compreende os aspectos econômicos.). isso ocorre porque os coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir (inventar). e menos ainda porque seu trabalho não haveria 123▲ . políticos. recordemos a verdade de Perogrullo. não se entende por que não apelar a ele em caso de necessidade ou ainda de "luxo". por exemplo. Por uma parte. Se a mesma é integral. E claro que ninguém ignora a distância que separa as aplicações da física à computação. como dizia Bakunin. ou seja. aquela liberdade que desejam. o que tornaria difícil. "só a liberdade engendra a liberdade". existiria ainda nos convênios de serviços da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise. ainda que não impossível. que não existe uma prescritiva para a invenção e que. da human engeneering. de que a autogestão não se decreta nem se concede. Sociologia das Organizações. cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de analistas institucionais. Pode acontecer que já pertença "naturalmente" ao coletivo em questão. Psicanálise Aplicada etc. com a autogestão como meio e como fim. nos introduzimos em uma contradição aguda e geral do Institucionalismo. Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas disciplinas (além da própria). porquanto seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados.

como em qualquer dos outros. assim como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. demandas. ficaram substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das determinações que as constringem. De Lapassade a De Gaulle. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as requisições do participacionismo. independentemente do contexto. quando não do colaboracionismo. por si mesmo. não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza científico-tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. cujas necessidades. que os centros oraculares de poder se vêem obrigados a lançar. acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e fazer dos coletivos sobre seu destino. quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. a convicção de que os coletivos das sociedades modernas são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-sociallibidinal do trabalho. que se administrará o que é de si mesmo. Mas a certeza do Institucionalismo. produtor de seus detentores. hábitos de consumo e soluções são integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder. O que está em jogo neste ponto. sem dúvida. e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado administrador-gerente – submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. é uma mistificação. como um de seus mais essenciais fundamentos. Deve-se ter presente que o Movimento afirma. Converte-se em algo assim como um princípio moral. A eficácia de tal consigna depende. As comunidades. Félix Guattari. escreveu: autogestão como consigna pode servir para qualquer coisa. da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir-se à autogestão em si. a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar. é uma questão políticoepistemológica de fundo no Institucionalismo. O vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos.de ser pago. de seu efeito de auto-sedução. um solene compromisso de que será em si mesmo. de tal ou qual grupo ou empresa. a casta privilegiada dos tecno burocratas. A "A 124 ▲ .

o tipo de relação. não é um fim em si mesmo. em definitivo. Afirmação da Singularidade. tomada como consigna política. a "Esquizoanálise". O conceito de autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias o Institucionalismo maneja..determinação. Invenção (oposto à Fabricação). Ed. do objeto institucional correspondente é um critério qu e deveria permitir esclarecer a questão. " ("Psicanálise e Transversalidade". Ser como 125 ▲ . a hierarquia. corre o risco de criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente. A autogestão. no sentido mais forte do vocábulo. não descarta o apoio de tecnologia alguma. ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. Negatividade. Reatividade. assim como a infinita diversidade de suas estratégias.. e o tipo de poder a instituir. Nenhuma corrente. México). Siglo XXI. assume que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais. O problema consiste em definir. pelo contrário.. os máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução). Não há uma 'filosofia geral' da autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação. Além do mais. de formas que devem estimular-se. Identidade-Repetição. Se 'impugna'. em cada nível de organização. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que.. e considerando a complexidade do desenvolvimento dessa concepção. Potência. Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo. quer dizer.. valores.. Guattari é um de seus mais ardentes defensores. em cada situação. De qualquer maneira. no imaginário. assim como em muitas outras. Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos. Diferença. mas também. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se substitui massivamente as respostas diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real. (opostos à Generalidade. mesmo as mais drásticas do Movimento. Ser do Devir etc.

). Máquina de Guerra. organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir. Desejo.. Objetivações das Idéias Puras ou Modelos. para precisar invocá-las novamente neste contexto. Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama na "Esquizoanálise") do Capital. Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede. Deleuze. da Lei. dos Maus Encontros etc. pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. equipamentos e manobras capitalistas. Toda a História Universal (a das Formações Econômico-Sociais. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault.) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento. como sinônimo do Instituído. pelo menos em tese. da Igreja. Se os repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e. Nós os temos muito em conta. Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos-valores seria uma tarefa colossal e apaixonante. Já a Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos. Talvez tenhamos deixado 126 ▲ . Dispositivo. No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e "pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas características contraproducentes. Simulacro. fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis. Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades (desterritorializados) do Ser e do Existir. Guattari. que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. da Família ou da Corporação.. Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema reincorpora à torrente da reprodução e do consumo. as invenções dos movimentos produtivo-libertários. diametralmente contrários a eles. não poucas vezes. Acontecimento. a não ser que se considere recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos. do Estado. assim como ao tabuleiro do registro e da dominação. tornando-a ostensiva. Civilizações. que têm a ver com o Instituinte e os Bons Encontros (opostos às Formações de Soberania.Permanência etc.

mas sim de permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim conduzida pode causar. Basta compreender que as séries opositivas de valores que antes enumeramos. Desde logo. compreende-se que em um Movimento. os valores mencionados não são evidências. que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da Autogestão". Naturalmente. insistiu em uma reivindicação da singularidade das práticas. a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo. como notável independência dos princípios que a guiam e que.a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até personalizar. Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar sua atuação e observar seus resultados. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu. Por outra parte. quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto. não são nem axiomas. para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa orientação. pois apesar da predileção do Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para técnicos e usuários. mas aqui nos interessa destacar estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. Como quer que seja. sem misteriosas avaliações de seita. tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" desses desvios. os conflitos 127 ▲ . existem casos em que isso é possível. pragmatismo ou "intuicionismo". e mais ainda da Teoria baseada em p a rti p ris formalizados. Pelo contrário. em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis. pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas. empirismo. desde diversos ângulos. não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las. eventualmente. no qual não se pode apelar ao veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante. ou mais dissolventes ainda. Convém precisar com respeito a suas propostas teóricas e sua atuação política e técnica. cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista. nem evidências.

sobrevivência e crescimento. logo. fortes e onipresentes. inerentes a todo Movimento. É no campo dessas dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos. o Institucionalismo exige que suas decisões de condução sejam. Frente a um panorama tão desfavorável. 128 ▲ . Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobreexigem o tempo e os esforços destinados à implantação. Não obstante. Por outro lado. Procede enfatizar que o Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas econômico-político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas). não facilita as resoluções e execuções táticas imediatas.e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis. que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. no possível. ocupa similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. algo assim como um artesanato militante cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes. digamos. Tudo é "Análise Institucional". "nada o é". Tudo isso se torna particularmente delicado. corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam campanhas repressivas. o que torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às transformações de fundo e a longo prazo. processuais e conjunturais. mas também à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. que se nega a separar meios de fins. diante de contendedores tão ágeis. vegetativo ou infra-estrutural das iniciativas. Entre essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de patente". 2) Os poderes oficiais. inúmeros aliados nos coletivos subjugados e explorados. acadêmicos. exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais. mas quem impera atual e universalmente (embora não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. hipoteticamente. resulta notório que esse principismo sui generis. o Institucionalismo tem. Como já expressamos mais acima.

de modo que estas se enrijecem estatutariamente .3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2. a designação de recursos de todo tipo. é a mais desejável: o centralismo democrático. "legitimação". O organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. perversas ou psicóticas. o "lucro". no seio das organizações e dos sujeitosagentes institucionalistas. o 129 ▲ . "sabotador" etc. valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder". Ou mesmo. então. "prestígio". "reconhecimento". das estratégias e táticas externas. o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico. se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais lideranças "autocráticas" ou la íssez-fa íre os papéis e de "bode expiatório". finalmente. em suas modalidades de protopaternalismo.. começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis. até um suposto contrário: o matiz "beneficente". à atomização do Movimento. "autorização". O regime das alianças tende a uma regressão filiativa. isso se registra como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas". 5) Fica preparado. No plano da produção de subjetividades. pelo caminho do famoso "individualismo pequeno burguês". 6) Em resumo: cedo ou tarde. Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a empresarização ou para uma morfologia política convencional que. "solvência financeira" etc. para a luta pela obtenção. "legalização". Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja hora de descartar como obsoletos: o ativismo. a serialidade. Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade. fraternidade do terror e. apropriação e "inflação" de "identidade". 4) Em função de tudo isso. exacerba-se . "caritativo" ou "filantrópico" das prestações de serviços. "perversifica-se" a horizontalidade e "extravia-se " a transversalidade. não por ser "menos pior". tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem. assim como das relações internas. a "primazia" etc.

teremos uma imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. Durkheim ou Marx". G. 9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência (como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os segundos infundem e orientam. Seguimos acreditando que se trata de uma força reativa. Sennett. J . Baudrillard. Se os primeiros enfatizam a fragmentação pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial. especialmente o referente à "compulsão à autodissolução". o oportunismo. L. Lasch. Rio. P. ou a corrupção franca.voluntarismo. R. quer dizer. 7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução". em constatar a decadência da res publica de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la e Weber. A rigor. a capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá sentido. Dumont) e pósmoderno (D. 1988). Lipovetsky. Rozitchner. organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico. Bell. os últimos sublinham a subjetivação indiferente e abúlica das sociedades pós-industriais. trata-se de uma curiosa exacerbação do que a teoria postula como um requisito dos grupos revolucionários. Riesman. Coincidem. digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do Movimento à 130 ▲ . como diria Nietzsche. o utilitarismo. 10) Para fins de síntese e conclusão. Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma caricatura de suas virtudes. Virilio e outros). D. 8) Se se repassa o exposto. C. a ter muito em conta nas vicissitudes do Movimento Institucionalista. no entanto. publicações internas do Ibrapsi. Toda uma vasta produção biblio gráfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do individualismo moderno (L. os "desviantes ideológicos. o imediatismo.

"não-fundamentalista"? Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua positividade. Se se most ou indubitavelmente que tanto teórica quanto estratégica. recortá-las por linhas clivagem bizarras. etc. em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras diferenças". dividi-las até o infinito. um "modo de viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas ". infiltrá-las. e a produzi-las segundo funcionem. diluir-se. em todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se torne atualizável. queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de código. refluidificá-las. segundo a vontade de potência produtiva. intersticial e não – totalizável. para mimetizá-las. axiológica e epistemológica? Ontologicamente. um pensamento "sem fundamento". incluídas aí as específicas e profissionais. dedica-se a genealogizar suas formas históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. heterogênea. Que outro recurso lhe compete além da construção de "verossímeis". qual pode ser sua condição ontológica. Por conseguinte. indemonstráveis. estatuto ou prática. "alternativizar". ou melho. mais que tudo. discurso. parece indiscutível q ue o Institucionalismo. que ética pode reger esta atividade não enquadrável. mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de pensar". seria a afirmação de sua positividade. diversificada. "simulações ". Epistemologicamente. sejam estes revelados. para cavalgá-las. especulativos ou experimentais. rachar. parodizá-las.Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da Utopia Ativa). longe de orientar-se por critérios de Verdade. quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu limite. ao Institucionalismo não deve 131 ▲ . organização. fazêlas proliferar. "efeitos especiais". tentando exclusivamente propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como "desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade ". incrementando seu pólo progressivo. indecidíveis.? Axiologicamente. tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal. e remetê -las a funcionar segundo se produzam.

tudo que "abra". amplos e numerosos.interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios c ânones dos mesmos. Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo. um artista ou uma criança. avaliados e resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de dispositivos fortes. Nada impede. sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um bárbaro. psicanalista. boa parte dos pruridos. 132 ▲ . profissional liberal ou funcionário. engenheiro de sistemas. agenciá-la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá-la até gerar um acontecimento. Se isso está correto. pois. "devir" (que embora lúdica não deixa de ser revolucionariamente) sociólogo. assim como os purismos e desviacionismos internos ao Movimento que mais acima descrevíamos. são passíveis de ser analisados. ao institucionalista. "possibilite" e "conecte". economista.

este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo. fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente: 1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente. mas se responsabilizam por toda e qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. não pretende haver dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que. bem como da diferente acepção que tomam outros. os autores. os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade. e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a paternidade ou a precisão dos conceitos. Embora este propósito não baste para explicar as limitações do texto. 4) E desnecessário dizer que este glossário. deveriam estar nele incluídos. ou seja. pois esse requisito excederia as aspirações e possibilidades deste livro.GLOSSÁRIO Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo Advertências para a leitura deste Glossário Devido ao caráter introdutório deste livro. 133 ▲ . 2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos. de propriedade intelectual dos mesmos. advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. assim como o volume do qual forma parte. nós. segundo a definição ampla dada do Movimento. 3) De forma coerente com o exposto anteriormente.

contingente. o organizado*. de modo geral. são conservadores. como por exemplo no da Esquizoanálise. apesar de que freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". 134 ▲ . Freqüentemente se equipara este termo ao que é casual. Estes atos. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*. Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem. o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente possível. ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se. tornando-se mais apto para sua função. que pretende ser panorâmica. ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. do novo absoluto. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las. o estabelecido tentam a repetição do mesmo (ver Repetição*). e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e sua potência produtiva. cuja essência não coincide com as possibilidades. como reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. são o substrato de transformações de pequeno ou grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. conseqüências de conexões insólitas que escapam das constrições do instituído*-organizado*.5) Em alguns casos. o que empobreceria demais esta leitura. da diferença e da singularidade. processos e resultados. Esta última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver. mas em geral indesejável. enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação do instituinte*-organizante*. Em um sentido estrito do instituído*. este é considerado o modo de ser do devir dos processos. o vocábulo adaptação costuma ser sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório. a" desordem" e o acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*. imprevisível e incontrolável. Nas chamadas Ciências Humanas. O virtual não existe. mas faz parte da realidade. ACONTECIMENTO: ato.. mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente. através da liberação do acaso-radical. É o momento de aparição do novo absoluto. No lnstitucionalismo*. deflagrador da diferença. estabelecido. geradores da transformação e da novidade nos sistemas. O acontecimento atualiza as virtualidades. insólito etc. os autores estão cientes de haver incluído e definido termos que não estão suficientemente esclarecidos. apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados. essa noção foi empregada com freqüência. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem".

como disse Feuerbach. designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos essenciais. Os dispositivos. organizações. No lnstitucionalismo a significação deste termo é próxima à da Sociologia: os homens. se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. e não como causa dos mesmos. pode-se valer de qualquer recurso (procedimentos artísticos. territórios. o agente. reconhecidos e consagrados. ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução.).). Entendido como produção de subjetivação*. ALIENAÇÃO: no sentido filosófico. dissidentes e marginais. Em geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. As forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas. as recuperam. dramáticos. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades. ou em um "fora de si". 135 ▲ . interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. ou a uma classe social que. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição de opositoras. funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos. AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* – organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. atualiza virtualidades e inventa o novo radical. não chegam a ser consideradas clandestinas. Para tal fim. geradores da diferença absoluta. Em um dispositivo. ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades. por ser a proprietária dos meios de produção. intensidades) heterogêneos que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos. mas em ge~al as toleram ou as ignoram. produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o horizonte considerado do real. De todas as maneiras. do possível e do impossível.AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera acontecimentos* e devires. instituídos* etc. no lnstitucionalismo. científicos etc. ALTERNATIVA: designa-se assim as idéias. qualquer montagem que torne manifesto o jogo de forças. "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro. pessoas. atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses). os desejos. Excepcionalmente. a meta a alcançar e o processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. subversivas ou revolucionárias. o agente pode ser peça especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. singularidades. movimentos e práticas que supõem uma opção para seus simétricos oficiais. políticos.

Análise de implicação é a compreensão da interação. É ao mesmo tempo. um processo político. que forma parte da implicação dos interventores. a proposta direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. sutil. ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma organização. assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática da organização solicitante. a análise da oferta.ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato. nem inconsciente. enfatizando a parte que cabe à intervinda. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica dessa organização. A publicidade. deliberados. que por sua vez não sabe que não tem e não entende o que é porque é complexo. etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo. Ela pode até ser prévia a qualquer contato. isso sim. da interpenetração dessas duas organizações. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes. técnico. social. A análise da demanda* deve estar necessariamente articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja. não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. 136 ▲ . manifestos. produzido" espontaneamente" pela própria vida histórico-social-libidinal e natural. complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). simultânea. uma interinfluência recíproca. econômico. como resultado de seu contato com a organização analisada. ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. em sua equipe. mas de uma materialidade múltipla e variada. a divulgação (científica ou não). É um termo que tem certa semelhança com o conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz no analista). particularmente a de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. Não começa no "cliente" e é. ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica. que faz parte integrante do processo de análise da organização. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa. Por outra parte.

de diversas formas. particularmente para sua descrição do "mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te*instituído". institucionalização. como similar ao cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica. defesas. Lukács etc. a Análise lnstitucional superou amplamente esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias. sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação. mas tendendo sempre a que se expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. que são as configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões. analisadores históricos e construídos". ou seja. idealização. nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais dos agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). A Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância. As posições esquizoparanóides e depressivas. nessas teorias. Guattari. Pichon Rivière. projeção. a Dinâmica de Grupos. Métodos como os de Montessori. A Análise lnstitucional insistiu particularmente na análise da implicação*. a Psicoterapia e a Pedagogia lnstitucionais.. fantasias) no curso do desenvolvimento. são acompanhadas de vivências características denom. objetivos. depressivas. Esta corrente institucionalista. liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. confusionais etc. e propõe para eles o perfil de um intelectual implicado. Impossível resumir aqui suas contribuições. inclina-se pela Assembléia Geral Permanente. negação etc. Assim se fala de ansiedades paranóides. modos de intervenção e objetivos últimos. Bleger e outros). Lourau. regulamentos) como suportes.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos. ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau. Como dispositivo* de intervenção.ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. ANSIEDADES: correntes institucionalistas. efeitos" Mulhman. 137 ▲ . diversos pedagogos procuraram reformar. bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso). à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto especulativo). uma das mais coerentes e empenhadas. tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. Lapassade e R. a tese de que as organizações são" sistemas de defesa contra a ansiedade". demanda-encargo*. na qual os não-ditos* institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras.inadas ansiedades. assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. Contudo. reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia. apesar de a denominação ter sido criada por F. subscrevem. O conceito de ansiedade deve ser entendido. organograma.

atua em 138 ▲ . Lapassade e R. são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que não conseguem capturar. M. Generalizando. dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico. o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados Unidos. e outros. ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado*estabelecido. Tais tentativas replicam. A maioria desses autores. o Capital etc. em 1978. este Movimento. foram mentores ou participantes do Movimento Institucionalista *. surgiram as experiências de Makarenko na União Soviética. marxistas e liberais de democratizaçiío (ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade. ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e Europa. econômica e cultural da sociedade moderna. como contra-instituição.) e suas forças são voltadas contra si mesmas. Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente. Labat. de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia. psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –. cuja função prevalente é a reprodução do sistema. levando-as à repetição estéril ou autodestruição. mais ou me nos radical. ao nível da aprendizagem. que o sistema dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens. na França.Pestalozzi. que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro. F. substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co-Gestão*). Michel Foucault. Vasquez. A. pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino. Castel na França. é possível que seja a proposta de G. impulsionou uma profunda revolução nesse campo. os exemplos anarquistas. ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais. Félix Guattari e R. na qual os alunos assumem integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem. Goffman nos Estados Unidos. Cooper na Inglaterra. são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado. As potências singulares. Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia menos autoritária. assim como a Pedagogia Institucional de F Oury. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política. Ronald Laing e D. Entretanto. serviços ou valores alienados (mercadorias) e incorporá-las à sua lógica. Basaglia na Itália e E. Seus máximos representantes – Thomas Szasz e I. e depois generalizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber.

assim como alguma especialização nas operações de planejamento.conjunto. como também operam com critérios de Verdade e Eficiência. de um saber acerca de si mesmos. organizações* e movimentos instituintes* (em outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais. pela outra. CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona. para a outra. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. desejos. As comunidades instituem-se. A auto-análise possibilita aos coletivos o conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*. As hierarquias correspondem a diferenças de potência. decisão e execução. demandas. protagonista de um processo transformador. problemas. peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. Cada uma dessas entidades opera na outra. o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão pora gerenciar sua vida.). deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. a articulação de 139 ▲ . serve à exploração*. ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade" que se deu. Esse entrelaçamento. dominação* e mistificação*. Todo processo instituinte*organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho. desde a outra. desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários. interpenetração e articulação de orientação conservadora. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*. que não só estão em boa medida a serviço das entidades dominantes (Estado. Essas diferenças podem implicar hierarquias. mas as mesmas não envolvem escalas de poder. que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. soluções e limites. que são imanentes aos valores de tais entidades. AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação. organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais. Quando um conjunto instituinte cumpriu todos os seus objetivos. CapitaL Raça ete. suas necessidades. AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos. AUTOGESTÃO: é. por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*). apresentando-as como necessárias e benéficas. subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*. ao mesmo tempo. Tal consciência é precondição para seu bom funcionamento. deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". Esse saber se acha em geral apagado.

ameaçadores ou francamente perigosos para o instituídoorganizado. CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos. logísticas *. deverão operar neste âmbito específico para transformá-lo de acordo com as metas propostas. CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido. inibindo ou destruindo as forças produtivas. ocultos ou secretos. em especial o Estado. O campo de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e organizada) de um segmento social. pensado. por sua vez. dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. Só se intervém quando se compreende.). Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais teóricos muito heterogêneos. mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial. as classes e grupos dominantes. mais possibilidades existem de entendimento do campo de intervenção. organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores. CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. subversiva ou revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis. Quanto mais amplo o campo de análise. o grande Capital. Quando o conseguem. as incorporam à lógica acumulativa do Sistema. fundamentalmente transformando as linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. Quando o aparato de captura e recuperação falha. Tal participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho. empresa etc. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. em especial as instituintes*. táticas * e técnicas * que.suas determinações. CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão estratégias *. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola. classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força produ tiva. desde o qual será compreendido. Reciprocamente. sindicato. por mais aparentemente pequeno que este seja. as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva. As idéias. procuram detectar. Está em estreita dependência do campo de análise*. a forma como são gerados seus efeitos etc. a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar contra eles. pessoas. sendo que posteriormente se compreende à medida que se intervém. interrompendo o curso do processo produtivo em um 140 ▲ . dissidentes ou marginais.

assumida ou não pelos integrantes que. por sua vez. e da cristalização ou da resolução de sua dialética * depende o destino produtivo. subordinadas às forças instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização. COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. Em geral refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno.ponto determinado. para algumas tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e. elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma tarefa. estruturas. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade. apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. Para o lnstitucionalismo. médio ou grande) que está vinculado por algum traço. é essencial que as unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes. à classe subjacente. de um estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e. classe. característica ou atividade compartilhada. CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo. gênero. movimentos. sociedades* e civilizações. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes corresponde pela classe suprajacente e despossuem. Esta peculiaridade pode ser de espécie. de uma forma ou de outra. o único motor da mudança nos sujeitos. explorados e mistificados que prestam subserviência. CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo). hierarquizada e articulada). sem mnunciar às categorias antes mencionadas. valores etc. e esta de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. diversifica da. portanto. J. reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*. raça. e não apenas mecânica. relações de subordinação em última instância. sexo. Todas as forças. P. A classe institucional é o segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus integrantes com os menlbros de outros segmentos. Para a Sociologia Clássica. categoria. idade. organizações*. é fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada. ao mesmo tempo. instâncias e mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva. lugar. COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror. 141 ▲ . lhes confere uma certa coesão e solidariedade. tempo.

eufemisticamente denominados "sobrinhos". imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos. se conseguiria que as almas recuperassem a memória. e com ela o acesso às Idéias Puras. sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real. cuja condição de superioridade está dada por uma linhagem hereditária). entre tantas outras origens teóricas. prestígio e 142 ▲ . havendo tido.) seria uma forma de seleção para cliferenciar as "boas" das "más" cópias. com a finalidade de explicitar seu interesse para o Institucionalismo. os conflitos. centro-periferia. tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de cunho científico). Aqui vale acrescentar a palavra "nepotismo". porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante. LOGOCRAClA. que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias baseadas no afeto. ver Idéias puras*. Em sua acepção ampla. A maiêutica socrática consistiria em um procedimento pelo qual. Os conflitos entre instituinte* – instituído*. SEXOCRACIA. Essa formulação recolhe. mediante o raciocínio. Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do Materialismo Histórico e Dialético. O método platônico da clivisão em gêneros. as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que. CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo. uma proximidade. em sentido restrito. para outras correntes. BUROCRACIA. alude aos filhos naturais dos Papas. espécies (etec. TEOCRACIA. buro (categoria ou classe que se ocupa da administração. sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras. com freqüência supostamente "científica" das organizações). pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos). dominadoresdominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento institucionalista. Contudo.Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. esta abordagem permitirá resumir a exposição. TECNOCRACIA: optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque. Para a interpretação institucionalista desse pensamento. Para o Institucionalismo. O sufixo cra cia significa governo de ou poder de: a risto (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade. -CRACIAS:ARISTOCRACIA. exploradores-explorados.e te o (alude aos supostos representantes da clivindade ou à divindade mesma. sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras). "encarnada" em um indivíduo ou grupo). perderam a semelhança e só conservaram a imagem. refere-se à designação de parentes de um governante para cargos oficiais. esquecendose dessa "queda". nos tempos míticos. logo (alude aos possuidores da razão como saber discursivo). em que nepo. As cópias são sinônimos de "representações".

como Lapassade. melhor ainda se generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. a palavra krisissignificava: interpretação (por exemplo. dos sonhos). As crises são etapas de mudanças para o bem ou para o mal. circunstanciais. mas em geral aceleradas e radicais. Para certos autores (por exemplo. por caducidade dos mecanismos e recursos vigentes. Outros sustentam que são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos. no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade. devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou negativos acidentais. juízo (por exemplo. Para o Institucionalismo. extraordinários ete. segundo alguns. Esse estado de crise ocorre. objetos. Bleger e outros). posto que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente. chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização. vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . cena de apogeu numa tragédia). Provavelmente por extensão da noção médica. enquanto há os que pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. e a maioria prefere intervir nos momentos críticos. seleção (por exemplo. Alguns institucionalistas. DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou organizacional (provocação institucional). momento crucial das vicissitudes ou do metabolé(por exemplo. Pichon Rivière. as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões. Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. por sua vez.exemplaridade). tanto enquanto campo de análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*). fantasmas) no curso do desenvolvimento-. na medida em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da "desordem criadora". fase de definição. nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis. procedimento para chegar a um veredicto). Marx). das vítimas de um sacrifício). os estados de crise são considerados fecundos. configurando vícios de condução que são. dentro de um andamento relativamente regular. o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza. Assim 143 ▲ . CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada. desordem) mais ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. contingentes. nos quais.

O Complexo de Castração. Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência". Assim entendido. negação etc. gera e é gerado no processo mesmo de invenção. regulamentos etc. daí o conceito de produção desejante. confusionais etc. o desejo é imanente à produção. Durante esses incessantes ensaios. Para outras (por exemplo. Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano. a Esquizoanálise). Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real. constitui o desejo. não carece do objeto. sua própria extinção definitiva. na qual se encontra com a pulsão de morte. ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente. o desejo também está parcialmente submetido a entidades repressivas. ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e servir aos objetivos de vida. prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. no início do desenvolvimento. metamorfose ou "criação" do novo. Essa força se origina. o desejo é essencial e imanentemente produtivo. e sim um complexo conjunto ao mesmo tempo político. e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a entrarem nos processos sociais amplos. depressivas. Na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. para a Psicanálise. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo. atua exclusivamente na dramática da vida familiar.se fala de ansiedades paranóides. que resulta do encontro entre os corpos (devir). quer dizer. O desejo.). Não tende à morte porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena"). econômico. ao que Espinoza chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal". gesta-se no seio do Complexo de Édipo. Em última instância. e tende à busca do prazer e à evitação do desprazer. isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. comunicacional etc. idealização. que instaura a lei no psiquismo. o desejo. mas estas não são exclusivamente psíquicas. Descritivamente falando. por sua vez. 144 ▲ . com as "quantidades intensivas" em Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. que carece do objeto real. Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação. Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). Sua essência não é exclusivamente psíquica. que procura restituir um estado arcaico perdido. DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a qual não têm conhecimento nem controle voluntário. projeção.) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e organizacionais (contratos. Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa contra a ansiedade*". organograma. o desejo persegue o gozo absoluto. das pulsões. pois participa de todo o real.

Opõese a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável. cada momento nega o anterior. Karl Marx. A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação. uma idéia do ser como puro devir no qual retornam exclusivamente as 145 ▲ . da moral etc. outras entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera. não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou uma mudança profunda. e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. 2) Passagem da quantidade à qualidade.DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos. que a postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto". mas também conserva o superado). postulando. particular" e "singular". É um pensamento que concebe a realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação. essência de todo o real. o fundador do Materialismo Dialético e Histórico. Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal Clássica. através de diversos discursos. tornar-se o gérmen de um processo produtivodesejante-revolucionário. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos enérgica. um desvio ou afastamento da linha condutora hegemônica da organização. que pode ser examinada como "universal". A proposta e ação desviante podem. mas em geral é predominantemente reativa. organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal (quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer. quer dizer. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel. em troca. e não ao espírito. Como nas leis do devir. eventualmente. "geral. contradição e terceiro excluído perdem vigência. assim. Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*). mas o atribui à matéria em suas várias qualidades. Protagonizam. sendo as mudanças que se apresentam apenas superficiais. desde a Antiguidade até a época contemporânea. se bem impugna e denuncia os defeitos do instituídoorganizado. grupos ou tendências que questionam o instituído* – organizado. ilusórias ou aparentes. devido a sua essência intrinsecamente contraditória.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica ou dou trinária). Outro aspecto importante da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade. DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão presentes em todo saber ocidental. de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência.). o supera e ao mesmo tempo o conserva. pois os princípios de identidade. atitudes e comportamentos.

exige um trabalho. estão diversificados em diferentes tarefas articuladas entre si. masculina-feminina etc. no Grupalismo e no Institucionalismo a operação pela qual o analista. a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e compreendê-los (ver Análise da Implicação*). em todas as sociedades da História e especialmente na modernidade industrial. DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma organização ou movimento. confiando em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à autogestão* e à auto-análise * . DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção. a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem analisados e intervindos. à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. As tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização-movimento ou separar-se dele. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases. poder e prestígio. um apreciável encargo repressivo ou ligeiramente reformista. consome força de trabalho. DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção. que expressam claramente uma falta de vontade instituinte*. Coisa similar Ocorre em outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). Determinadas tarefas são consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza. Contudo. e este. por sua vez. DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise. devido à propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas (extração de mais-valia). DISPOSITIVO: ver Agenciamento. Os processos de trabalho complexos. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção manualintelectual. ou mais ainda.diferenças (Esquizoanálise*). particularmente de bens materiais e serviços. Para o Institucionalismo. podem ser atendidas. sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. do campo-cidade. por diversos meios (dentro de um espectro de 146 ▲ . DOMINAÇÃO: imposição.

enquanto esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. Quanto mais formalizada. às teorias. Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. interminável. estratégias. o ECRO é muito mais que o até aqui mencionado.. em primeira instância. grupos ou classes sobre outros. Por outra parte. ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo". a Lei do das Valor. em especial o Estado e o grande Capital. semiótica. mais ela se torna opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. afetos e outros elementos que compõem a personalidade de todos os participantes.violência que vai desde a sedução até a destruição física). mantêm seus privilégios dominando a vontade coletiva ou majoritária. Contudo. irrepetível e contingente do fato em questão. Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma. no Materialismo Histórico). logísticas. ressaltando suas características singulares devido à condição única. Os instituídos* – organizados* estabelecidos. EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável de sua gênese social. A lista de efeitos que podem ser propostos é. A dominação é simultaneamente política. mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências. seguindo uma orientação das ciências físicas. Refere-se. rigorosa 147 ▲ . a idéia do esquema denota o caráter provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). Se bem esta afirmação não refute o caráter universal e om niva len te grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo. jurídica. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. Iibidinal ete. experiências. por definição. econômica. da vontade de indivíduos. o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento. Por isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos".

e. Já nas etapas "quentes". sujeito e objeto constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. Essa constatação pode conduzir a um irracionalismo (ou seja. Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem constituída. seriam "estáticas". como. por oposição às modernas. mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos. Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos. portanto. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de imediato todo o apreendido na ação instituinte. erroneamente. que careceriam de história. Nessas fases. O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a problemática da implicação. que as sociedades chamadas primitivas. ocorre o contrário: as experiências sociais se multiplicam. a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. Alguns antropólogos pretenderam. pelo contrário. o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a "naturalização" de seus instituídos*. por exemplo. à concepção de outras modalidades da causalidade. mobilização e grandes transformações. assim como outros de agitação. mais satisfaz as exigências cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e desenvolvimento (ou seja. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber científico". a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos). Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos. as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por parte dos coletivos do saber acadêmico. Nos experimentos da mecânica quântica. do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a organização intervinda. quer dizer. ou. quer dizer. cada um dos elementos mencionados é um "resultante" do campo que assim se configura. 148 ▲ . quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"). inspirados por uma profecia libertária. em que todo o saber social está em ebulição. O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção do conhecimento social científico. precisar simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. Quer dizer: geram-se processos de autoanálise* e autogestão* espontâneos e generalizados.e quantificada aparece uma ciência.

Um emergente pode manifestar-se através de um indivíduo. dissimulados. especialmente nos políticos. Em uma acepção ampla. Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. pedido. Em nosso entender. De acordo com o contexto discursivo de que se trate. método e técnicas. EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. e que comporta uma demanda de bens ou serviços. sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa. teoria. Outros Efeitos: Lefevre. sendo que freqüentemente se subdivide. sendo que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. um grupo ou uma organização. ENCARGO: no Institucionalismo*. em um número crescente de especialidades. mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo. Einstein. por definição. A modalidade do saber dominante durante este processo é a do conhecimento científico. Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes. tem seu próprio objeto. denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em materialidades diversas: "mentais". o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente." corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital. não-manifestos. Cada ciência.chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados". por sua vez. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos. Essa 149 ▲ . Artaud. a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil precisar seu significado. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela. analítico. por sua vez. a idéia de emergente tem uma similaridade com a de analisador*. as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. Reich. encomenda etc. cujo procedimento é. refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída quando a mesma está ameaçada. O lnstitucionalismo constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos. que num sentido acadêmico denomina-se disciplina. que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. ignorados ou reprimidos. centro-contra-periferia etc. ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e de suas aplicações tecnológicas.

pretendem resgatar os valores instituintes* e organizantes*. prevalentemente a serviço da exploração. Por outra parte. relógios de ponto etc. Essas diferenciações. além de insistirem na crítica global desses efeitos. corporações). é o que corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente.).). Sobretudo se interessa sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e. montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos técnicos). Os equipamentos podem pertencer ao Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas. Em termos sociais e epistemológicos. em resumo.fragmentação do saber. As diversas modalidades do Movimento Inslitucionalista. No caso das ciências e disciplinas. Podem ser de grande porte (por exemplo. Isso levou a deformações tais como o operacionalismo. à incapacidade de julgar e conduzir seu andamento. os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo. possibilitam o incremento de sua competência e eficiência. por outra parte. pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. em todas elas. revolucionários. articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*. assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer (particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). redundam na fragmentação. O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. à medida que reduzem o campo de atuação de cadél agente social. ou seja. dispersão e perda da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação". consagrou a especificidade – a delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente – como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. da loucura etc. a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico. 150 ▲ . tem a ver com a divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. EQUIPAMENTO: conglomerados complexos. popular. dominação e mistificação. também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes nela). resultando no aumento espetacular de sua produtividade. Mas. OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo. impressoras. erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de nossa civilização. ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE. das contribuições científicas. arquivos.

para essa concepção. comunicacional. "Análise Nômade" etc. O processo produtivo de produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia. infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas desejantes". estão" precedidas" por um campo de materialidades "puras". Nesse sentido. cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade".ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente. Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e tecnológica seria estéril. puras diferenças intensivas. mas como ser do devir). política.produção e do desejo na vida biológica. concentradora e acumulativa. a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e outras positivas. ecológica etc. A essência do real é a "produção desejante". ou seja. essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos. a microfísica e a biologia molecular. demolindo as constrições da parafernália de controle-registro. consubstanciais ou inseparáveis uma da outra). o real é constante e integralmente produzido. Mas a produção de produção de novidades é capturada pelos estratos. Mencionaremos apenas que. que varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra". Uma dessas formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. Segundo a entendemos. em qualquer tempo ou lugar. a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que se originam ao acaso*. Entendida como procedimento para pensar e compreender o real. As máquinas desejantes dispõem-se e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". A Esquizoanálise também é definida com outras denominações. "do Déspota" ou do "Capital-Dinheiro"). em cujo âmbito as inúmeras revoluções são feitas não apenas por necessidade ou dever. psíquica. e mais ainda. colocada a serviço de uma entidade centralizadora. totalizante. Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica". territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à repetição do mesmo. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática no livro "O Anti-Edipo" (1972). tais como "Pragmática Universal". a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura liberar o processo produtivo-desejante-revolucionário. destinadas a propiciar o livre fluir da . mas pelo desejo. Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. 151 ▲ . podendo-se distinguir nele uma produção de produção. tais materialidades são imanentes (quer dizer.

ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos. mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. Os psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. Os sociopsicanalistas decifram e interpretam esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho. o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". grupos e idiossincrasias dominantes. coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes. mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo. Seu principal instrumento é o Direito. que obtém por meio de sua concordância com a Lei. os possíveis retrocessos ete. reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. as alternativas viáveis. para que a classe recupere a margem real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita. Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis si mesma. os avanços esperados. Existem muitos diferentes tipos de Estado. do estado de coisas às quais este se relaciona. e o planejamento da progressão das manobras. corpo estabelecido de leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados. É uma sistematização das metas a serem alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*). Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintesorganizantes dentro do Estado. mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e legitimação. meios e resultados dos processos produtivos de toda índole. FANTASMA: para a Psicanálise. a previsão de curso. micropoderes do Estado). ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção. apresentando-se aparentemente como expressão da vontade majoritária. A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de dominação* e mistificação*. repressão. EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças. agente e instrumento de persuasão. e ainda do significado do que diz. O Estado não se compõe apenas de grandes organismos. em 152 ▲ . A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito.

seus agentes* e práticas*. universal. Pelo contrário. A rigor. GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e doutriné1s. então é um grupo sujeito (protagônico). GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver Esquizoanálise*). Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e de construir a si mesmo durante o processo. Em conseqüência. conjunturas. é um grupo sujeitado. não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual. têm apenas uma autonomia relativa com respeito aos acontecimentos*. um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos. a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo". 153 ▲ . lógica e necessária. ideológicas. opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte. procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*estabelecidos. prescindindo de alguma leitura que os torne inteligíveis. A função apresenta-se às representações e crenças das sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural". filosóficas ou estéticas. É o gerador da diferença. Para Guattari. assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos". a afirmação de que a gênese social e teórica são inseparáveis entre si. opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias. prevalentemente. a belicracia etc. invariável. que se empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade. FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). a tecnocracia. procedimentos. dominação* e mistificação*. Entre seus produtos estão os instituídos*-organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo. Do mesmo modo. não se entende nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica.FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos. sejam elas científicas. eterna. organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram.). Em todo caso. da invenção e da metamorfose. estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social. a serviço das diversas formas históricas da exploração*. a burocracia. da novidade. e não "individuais" ou "coletivos". A função está sempre.

não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes convêm. sexuais. Delas só se pode predicar sua 154 ▲ . que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). culturais. IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo. cada um transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. existem histórias econômicas. geológicas. das classes dominantes e do instituído*-organizado*-estabelecido. biológicas. raciais. Por outra parte. Na Psico-Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo. Assim entendida. é uma versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*.HISTÓRIA: para o Institucionalismo. HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos. tão tendenciosa como qualquer outra. assumindo que o fará a partir dos desejos. intrigas de corredor. Assim. mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. modelos de tudo que existe. configurando-se no aqui e agora do campo grupal. mas o conhecimento de processos vigentes no presente. mas como o presente ativa e deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. obsoleto e morto. quando não exclusivas. mais importante pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma. Em geral. HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. consistem apenas numa versão a mais. a horizontalidade designa a dimensão grupal atual. para o Institucionalismo. A História. segundo Platão as concebeu. o conjunto de elementos que coexistem e operam. não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro. vínculos sexuais etc. A rigor. são seres idênticos a si mesmos. é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado. Não existe um processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. períodos ou épocas localizáveis geográfica ou cronologicamente. interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. geracionais. ou seja: rumores. as Idéias Puras. aparentenlente claro e acessível. ou seja. a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde às relações e aos processos informais. a História não é a investigação acerca do que já está definido. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais. etapas. Existem variados processos. Trata-se da reconstrução dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. Pode-se tentar articular os diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras. eternos e invariáveis. políticas.

Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos ocupam nos sistemas que se representam erroneamente. Enquanto sistemas de representações. políticos. ou por forças ativas (por exemplo. a ideologia dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. Todos eles são 155▲ . A ideologia. O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser encaminhado como amor ao saber. apenas um saber aproximativo e viciado por erros. Em outra direção. Segundo seu matiz político ou ético. Análise Institucional *). Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um ideal ou modelo. Segundo esse sentido. à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que são "realizações" de desejos inconscientes. enquanto implica a virtude e o bem supremo. Para algumas correntes do Institucionalismo. é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento. por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *). a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com suas condições reais de existência. a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*. definida como oposta à ciência.própria essência (por exemplo: a brancura é branca). ou seja. IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações (crenças. Para o Institucionalismo. valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo. à procura da Verdade. Opõe-se à transcendência. Em geral. mas podem ser também disposições para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). constituem as ideologias teóricas. e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. denominam-se cosmovisões ou visões do mundo. As Idéias Puras são sinônimos de "ídolos" para alguns autores. as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras). e essa é também uma proposta ética. os naturais e os desejantes. Quando configuram sistemas amplos. convicções. para outras. culturais (sociais em sentido amplo). Essas representações estão animadas por vontades e desejos. carece de interesse. distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. que é a visão das Idéias Puras. expressa a não-separação entre os processos econômicos. IMANÊNCIA: para alguns filósofos. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. em uma sociedade"'. este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. as das classes dominantes) que produzem.

mecanismos. Na versão clássica do Materialismo Histórico. as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas. as relações de parentesco. por exemplo. Segundo seu grau de objetivação e formalização. o que é permitido e o que é indiferente. o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo. a justiça. ciência da História. Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo. indicando o que é proibido. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*. e um processo: da institucionalização. Para outras. a divisão social do trabalho*.inerentes. INCONSCIENTE: em um sentido amplo. Para realizar concretamente sua função regulamentadora. denomina-se instância a cada região que compõe o território ou domínio do modo de produção. Um conglomerado importante de instituições é. apropriação. a infra-estrutura determina a superestrutura*. podem estar expressas em leis* (princípios-fundamentos). a Sociopsicanálise). que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento. particularmente na versão de Althusser. o dinheiro. e também das instâncias do aparelho jurídico. normas ou hábitos. as forças armadas etc. forças e representações. consumo e desfrute de bens materiais. Esse processo é considerado a base material e condição de existência de toda e qualquer sociedade. denomina-se infraestrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção. em especial o Complexo de Édipo e o desejo. o Estado*. a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego. quer dizer. operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*. Essa terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção. refere-se a realidades e processos que não são conscientes. dito em sentido amplo. Superego e ld. O significado psicanalítico designa instâncias. processos. INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico. especialmente o recalcamento primário. da Sociologia e da Economia Política marxistas. de uma sociedade humana. Exemplos de instituições são:a linguagem. intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. distribuição. a religião. troca. um resultado: o instituído*. É um campo histórico que sofre uma repressão político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social. INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico. As 156 ▲ .

INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante-revolucionárias que tende a fundar instituições ou a transformá-las. Pode-se falar de quatro instituições "fundantes" das sociedades humanas (ver sociedade*). INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído. o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela. e freqüentemente se descobre que sua suposta racionalidade não é mais que uma racionalização.origens das instituições são difíceis de determinar. Para operar concretamente. grupos ou classes na atividade social. desejos. LEIS: consistem na formalização e explicitação. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se apresentam como universais e mais ou menos invariáveis. o processo de institucionalização deve ser acompanhado de outros organizantes* que se materializam em organizações*. o instituído tem uma tendência a permanecer estático e imutável. Contudo. Em geral. expectativas e demandas pré-conscientes e conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes. a implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*. conservando d e ju ri estados já transformados de fa cto tornando-se assim resistente e e conservador. de acordo com as exigências do devir social. Quando esse efeito foi produzido pela primeira vez. INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos. Os interesses caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. no seu limite. como parte do devir das potências e materialidades sociais. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados pelas Utopias Ativas*. diz-se que se fundou uma instituição. aspirações. devem permanecer abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. em textos e/ou discursos. sendo 157 ▲ . INTERESSE: denomina-se assim às motivações. No transcurso do funcionamento do processo de institucionalização. Todo esse procedimento parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em táticas. os interesses divergem ou se opõem aos desejos e fantasmas inconscientes. Para que os instituídos sejam eficientes. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte*organizante* e. das árvores de valores e decisões que constituem as instituições*.

sinônimo de organizações. doutrinas. Em outra significação. A logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. jurídicas) etc. idiossincrasias (sexuais. movimentos. Freud utilizou o conceito de massa como sinônimo de grande agrupação. Avalia-se o que está disponível para contribuir ou para dificultar o trabalho. ideologias. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. mas o de um exemplo singular. e não intradirigidos.referendadas. Obviamente. considera-se marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central. refere-se a conjuntos humanos amorfos. MASSAS: noção de difícil definição. etárias. pelo Estado ou a Igreja. Num sentido. consagrado ou autêntico nos campos correspondentes. Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército. Os mais característicos são: o autoritário. a de classes) se apagam em função de outros parâmetros (por exemplo. Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias leis". econômicas. LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de condução. cujos integrantes carecem de "identidade" própria. Chama-se "Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo. legítimo. Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros. Quando o líder é um autêntico e recurso para o funcionamento instituinte. são instrumentos formais produtivo-desejante-revolucionários. denomina-se revolucionário-desejante-produtivo.. por exemplo. organizações. o termo marginalidade está muito relacionado com a oposição centro-periferia. designa grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar. o laíssez-faire o democrático. são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação. O Institucionalismo conhece e aplica as leis científicas que lhe são úteis. que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. MARGINALIDADE: por referência a teorias. espaços físicos. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. o acesso 158▲ . geográficos ou abstratos. LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. As massas "estáveis" são. raciais. mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. Seu estatuto não é o de um modelo. de modo plausível. que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. nacionais.

A produção de objetos suntuosos. Já a demanda. o gozo absoluto. segundo dizem os experts. não é um pedido do que manifestamente se solicita. as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*. transporte etc. bens de luxo e desperdício dos setores dominantes. Essas decisões e as ações que elas orientam são. difusão e assimilação de ideologias regressivas ou. e a simbolização. Nas sociedades industriais modernas. sempre visando "o bem comum". do ponto de vista psicanalítico. encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos. convicções e valores que deformam. quanto. São eles os que decidem o que. A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória. a construção de um "Estado beneficente. que a Psicanálise define como essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. e de acordo com a "vontade popular". tem sido sempre prioritária. MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades "naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". sendo compensável com as respostas que a complementem. os experts. e com eles. categorizado como "objetos das necessidades básicas". O desejo. A partir da Psicanálise. de máquinas de semiotização de captura e recuperação* .ao consumo de certos produtos). mas de "amor" e "reconhecimento". pede uma impossível restauração narcisística. onde. MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção. A necessidade não satisfeita origina uma privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. assim como supõe ter necessidades cuja existência foi produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. difusão e assimilação de representações. educação. Pode-se considerar os processos de mistificação como sinônimos de produção. no que se refere a bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental). um destino 159 ▲ . porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam". segundo outra terminologia institucionalista. costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda. em troca. "cientificamente" fundadas. como. Uma sociedade* tem necessidades que não conhece e não consegue definir como tais. previdenciário. Ou seja. O que resta da produção é o que se oferece às comunidades. crenças. definem-se tais necessidades e se convoca e modula sua demanda. entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo. administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*. Dessa maneira.

resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades molares. sobrecódigos e axiomáticas. estratégias e táticas de leitura e de intervenção. segundo o acaso* ou uma lógica aleatória). assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem. Igreja etc.que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga. Nessa ordem. Nesse espaço constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númenvoluptas). técnicas. MOLECULAR: para a Esquizoanálise. o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. 160 ▲ . Assim configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo. entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos processos de auto-análise* e autogestão*. É o campo da regularidade. métodos. da conservação e da reprodução*.socializável. Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. em suas ligações anárquicas locais ou à distância. dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*. onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*. da estabilidade. Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro". agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o desejo* e a produção*. Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias. Em outra terminologia. MOLAR: para a Esquizoanálise*. enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. das formas sujeitos e objetos definidos. Os dispositivos* e máquinas de guerra nômades. É o lugar das matérias não-formadas e das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. Essa superfície está integrada pelo "corpo sem órgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de maneira binária – máquina-fonte-m. Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que. MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências subscrevem alguns objetivos comuns. este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de registro e controle e a de consumo-consumação. as entidades características são os estratos e os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção desejante. estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente libertários. É o lugar dos códigos.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções. Algumas correntes institucionalistas questionam radicalmente essa concepção do desejo*.

por sua parte. simultaneamente biosociolibidinais. que resulta da natureza conservadora das pulsões. para imitar o mundo e o tempo divinos. tal como ela se apresenta nos grupos. que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias. "transformacionistas". reação-reformismo-revolução etc. c) afirma que a substância do real é a diferença pura e a produção desejante. refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou distorcidas nos discursos. consciente ou não. a oposição. Em geral. b) sustenta que as mudanças. da insistência do desejo e dos princípios de constância e inércia. comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. Em todo caso. ou então causas ou efeitos de um desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se mantivesse exatamente idêntico em organização. o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como reações em cadeia. A Psicanálise.. o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu nas ciências humanas e na cultura ocidental. Essa omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária. a problemática da mudança. eternos e invariáveis. NÃO-DITO: no Institucionalismo. Para algumas comunidades primitivas. a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. pode-se dizer que. e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas.. é tratada segundo as inspirações teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. em um sentido mais amplo. para seren1 sólidas. também tem. No outro extremo da História. devem ser integrais. mas é considerada invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência. permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais. a questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da compulsão à repetição. Basicamente. entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas". ou seja. ou. em todos e cada um dos aspectos da vida. costumes etc. ou até extremistas. sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais e pré-sociais. 161 ▲ . organizações e comunidades diante das situações desconhecidas e novas. entre seus temas mais importantes. A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural-funcionalista insistiram muito na problemática da mudança e da "resistência à mudança". ligada a categorias de diferença-repetição. transferência-resistência. atitudes. Para as diversas correntes do Institucionalismo. textos. dentro de um espectro de radicalidade crescente. assumida ou não.MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) à transformação valores ou diferentes.

O organizado é ilustrado no esquema do organograma e do fluxograma da organização. ao desejo e à vida. ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*. espaciais. correspondem às grandes formas molares da superfície de registro. adquirindo uma série de vícios. ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica. da antiprodução* e da morte. Assim. inventiva e transformadora que tende à otimização das organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*. mas tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se. De acordo com sua dimensão. no Institucionalismo. OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos. vão desde um grau complexo organizacional. vai-se produzir uma nova organização que é o verdadeiro objeto de análise. ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". estrutura e dinâmica dos agentes. A oposição pode ser mais ou menos acirrada. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva. chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que a integra. atitudes. É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz no encontro. grupos. Esse processo exige das organizações a abertura para efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. até um pequeno estabelecimento escolar. como um ministério. Esse omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*. técnicos. à má-fé ou à repressão no seio dos discursos.Contudo. perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. textos. o mais conhecido é a burocracia. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*). o não-dito remete predominantemente à ignorância. cronológicos (etc. OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada. exagera-se em torno de sua função. mas em geral é reconhecida. organizações e movimentos. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos. que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante o processo de institucionalização. pois para o Institucionalismo não é possível uma posição clássica de "neutralidade" ou "objetividade". autorizada. Uma organização* só cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 162 ▲ . E necessário para orientar o funcionamento da entidade.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. comportamentos. Na terminologia da Esquizoanálise. como aos manejos do poder.

destinados a impor a vontade de um segmento social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. segundo as circunstâncias. na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e grupais em particular. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os outros e carece de sentido fora desse vínculo. Desejo* Instituinte*). emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de produzir. decisão. Em geral. POTÊNCIA: no Institucionalismo. mas também em um sentido positivo de orientação: o poder incita.organizado*. "seguidor". PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas. a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente novo. provoca. a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver Produção*. algumas cujas 163 ▲ . POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes teóricas e técnicas. PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na planificação. ativa etc. inventar. Os papéis são emergentes de configurações estruturais que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes indivíduos-sujeitos-agentes* sociais. PARTICULARIDADE: ver Universalidade. em geral ele se aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente. execução e benefícios da atividade. Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados. come caracteres de personagens teatrais. convoca. como "masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). transformar etc. e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição). Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente emergentes. Isso não significa maiores modificações de fundo na propriedade. criador de vida. Particularidade e Singularidade. como o de "bode expiatório". consciente ou não. "sabotador". Quando um agente social abandona o papel este se expressa ou manifesta através de outro participante. mas que se exercita. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se possui ou se detém.

pode-se mencionar a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich). Para o Institucionalismo. desde o início. Apesar do já dito. A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação "vocare": chamado de Deus). a Medicina e a Carreira Milita. e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento. designa todo processo pelo qual um agente. Entre as tendências que o integram. diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*. Em um sentido descritivo.características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal. a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima. PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional. Em geral utiliza-se o termo "prática" para as ações específicas e qualificadas. coordenação de grupos e intervenções organizacionais. É aquilo que processa tudo que existenatural. tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas. é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas determinações que para seus próprios agentes. organizações* e estabelecimentos*. uma dupla natureza – de 164 ▲ . a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. técnica. É o devir.: Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio. a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e academias universitárias teve. assim como de autonomia e independência relativa. a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por Georges Lapassade. expressivo e dramático nos tratamentos clínicos. É equivalente ao funcionamento*. enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às inespecíficas e não-qualificadas. Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de militância. gerando um produto específico. dotado de força de trabalho qualificada. PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico esclarecedor e a ação transformadora do real. a metamorfose. No Institucionalismo. com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à especificidade*. PRÁTICAS: em um sentido epistemológico. PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue. a Advocacia. subjetiva e socialmente. É a permanente geração de tudo que pode logo tender a cristalizar-se. as profissões compreendiam o Sacerdócio. com sua proposta de Transe-Análise.

tecnológicos. mercantilizaram-se. visando o lucro. "neutro". produziu-se uma série de mudanças no status de profissional. RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70. O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais.controle de qualidade dos serviços. PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que as classes institucionais regredidas fazem. (ver Psico-Socioanálise *.. Com a modernidade. nações etc . De maneiras muito variadas (por exemplo. Comportamentalista. Interacionismo Simbólico). econômicos e outros. por um lado.) PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que. No filosófico. O Institucionalismo insiste no estudo e no desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro. Falase de Recursos Humanos como um dos componentes de um espectro de recursos: físicos. distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica. à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao elemento humano nas organizações. 165 ▲ . mas se diferencia delas. da "modernidade" hiperespecialista e da suposta independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. Gestaltista) ou à Sociologia (por exemplo. entre outras coisas. no campo da Administração. consciente ou inconsciente). todas afirmam a constituição. toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). inconscientemente. antes considerados de segunda categoria. Existem várias correntes de Psicologia Social. regiões. ligaram-se ao poder do Estado e ao das empresas. por não reivindicar o caráter científico (ou seja. poder e prestígio do corporativismo e do academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista. de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder de que dispõem para mudá-as. gratificação. refere-se à reiteração ou reapresentação de idéias ou de realidades. de uma maneira ou de outra. REPETIÇÃO: em um sentido etimológico. frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado individual ou coletivamente. significa voltar a pedir. As práticas profissionais. instrumental ou operacional) que elas se atribuem. começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos" para referir-se. mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. formando as cúpulas tecno-burocráticoacadêmicas – mas também se degradaram como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização. por outro. Esse título ampliou-se a outros ofícios.

o romance institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização. demoníacos e inclassificáveis. a diferença absoluta. O Institucionalismo sustenta que o que retoma na História não é o idêntico. grafitos ete. 2) o diferente. tradições. cumprindo sua função conservadora. ou ainda. mas puro devir. sociais. ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico". e podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. mitos. tenda a capturar o retorno do diferente para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema. tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso.Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o idêntico ou igual. o instituído*-organizado*-estabelecido. realísticas. pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 166 ▲ . melhor. REPRODUÇÃO: num sentido etimológico. Sua "encarnação" mais prototipica estaria nos sofistas. os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que não conservam nem a imagem. nunca o consegue por completo. Não são seres. Se bem seja certo que a superfície de registro. obviamente. Dessa maneira. Trata-se. nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e. SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo. atitudes. de entender o retorno do diferente. Em conseqüência. analogia ou semelhança com o idêntico ou o mesmo. Platão os considera falsos. culturais e subjetivas. acontecimentos e transformações naturais. procura-se deter os devires. a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de matizes imaginários e fantasmáticos. que é radicalmente transformadora ou motor da História. Na Filosofia. designa as tentativas de reiterar algo idêntico. o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. ou seja. significa cópia ou imitação. entendido por relação de negação. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. grupo ou movimento. igualou similar ao que já existe. carecem por completo de identidade. 3) o diferente absoluto. na Sociologia e para o Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões simbólicas. mas o diferencial. capturando-o e recuperando-o (ver Captura e Recuperação). o igualou o mesmo. documentos. não interessa tanto estudar as leis que dão conta das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas astronômicos do cosmos ordenado. produto do acaso. do aleatório e imprevisível. Trata-se de comportamentos.

Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a indústria. não apenas econômico) reconhece-se uma instância" determinante última" (condição de existência). uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição de transformação). que se compõe de diferenças puras. 167 ▲ . Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *).que pertence às formas definidas da superfície de registro. articulada. organizações*. fluxos. ampliar essa definição. Como se vê. Define-a como uma rede. é a partir da década de 20. sinérgica ou contraditoriamente. SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*. incluindo o instituinte*. as relações de parentesco. um tecido de instituições*. organizado*. estabelecido. Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas. No entanto. A ação causal conjunta. essa definição está bastante centrada no instituído*. Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo. Os objetivos desse enfoque são a racionalização e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações. SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da participação causal. instâncias e representações que. que são o ser do devir ou processo produtivodesejante-revolucionário. SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. o organizante* e a superfície de produção. a religião e a divisão técnica e social do trabalho. compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*. hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se denomina sobredetermi nação. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius. respectivamente. sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades. assim como a passagem da solidariedade mecânica à orgânica. contudo. singularidades* intensivas.como a essência do real. complexa. As instituições interpenetramse e articulam-se para regular a produção e a reprodução* da vida humana. francamente críticos. SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. É possível. como o de T Parsons e outros. que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*. Alguns institucionalistas afirmam que as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua. desloca da e condensada de todas as forças. estabelecimentos*. agentes* e práticas*.

num sentido coletivo. avaliação e comportamentos transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. Segundo a denúncia institucionalista. do poder e prestígio. Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra. diminuir os insumos. que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise. O resultado é uma abordagem politicamente moderada. visa facilitar os mecanismos culturais. Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de que. onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor compreendidas. A Sociopsicanálise sustenta que. sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. devido à sua série disposicional pessoal. em vez de principalmente simbólica (correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). A 168 ▲ .) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera". no qual os sujeitos viven. Mendel articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce. bastante ortodoxa. denomina-se assim à percepção. a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). conseguindo. do resultado do trabalho. trabalhadores. a Sociologia das Organizações. Foi fundada e desenvolvida por Gérard Mendel. cuja viabilidade é considerável. denominada Desenvolvimento Organizacional. quando se abordam os coletivos. Whyte. do Materialismo Histórico. uma vida preferencialmente imaginária. Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento psicofamiliar. um processo regressivo de ordem coletiva. comunicacionais e motivacionais (do conjunto empresarial e dos grupos que o integram. aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários. Segundo Mendel. particularmente uma de suas modalidades. necessitando dos cuidados de um outro para ter sua sobrevivência garantida). pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado (ver Alienação*) no Capitalismo.como os de W Mills e W H. assim. Essa experiência de limitação gera neles. a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza. o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos patológicos é o local de trabalho.

autoritarismo. Com isso. classe social. STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. populismo. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os levava a se refugiar num mundo de fantasias.situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram. através da análise e da intervenção. sujeitada e submetida. e sim coletivos. desejante. junto com eles. Há. Mas a cura não é definida em termos individuais. SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*. ubíqua e universal do sujeito filosófico. somatizações. delírios. buscando soluções mágicas. momento histórico. O lnstitucionalismo pretende propiciar. invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". A metodologia de intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica. SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 169 ▲ . o coletivo institucional também passará a funcionar nesse registro. infinitos e heterogêneos processos de produção de subjetivação livre. próprios de cada momento. Trata-se da condição obtida por um papel dentro de uma sistematização hierarquizada dos mesmos. principalmente a interpretação. clie. e geram sujeitos singulares nas margens de cada acontecimento*. contraproducentes. inibições. povoada por figuras fantasmáticas de sua vida familiar.ntelismo. esses quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar. para algumas orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável. a montagem de dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e. sim. o que os levará a vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia. No plano da militância. produtiva. fisiologismo ete. Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer sociedade. Inclusive. os modos de subjetivação que os mesmos precisam. que vão res ultar em sintomas (atuações. toxicodependências). social ou psíquico. com Lênin. enfim. messianismo. lugar e conjuntura. raça ete. o modelo científico que temos no Ocidente como universal. em todo tipo de patologia biopsico-social. como "enfermidades infantis do trabalho": voluntarismo. e pressupõe um movimento de cada classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de trabalho alienado. por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme. Esses são absolutamente contingentes. revolucionária.

composição. É o momento de seleção de recursos a serem empregados na etapa imediata. Por ou tra parte. desportivos. Na versão clássica do Materialismo Histórico. informativos. O que existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou similares. ciência da História.) a serem adotados de acordo com as circunstâncias. reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do psiquismo). remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*. Para outros Institucionalistas. SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico. lúdicos. expressivos. com propósitos diagnósticos e elaborativos. interrelacionais. artísticos. Trata-se de procedimentos (interpretativos. por exemplo).psicológicas (entre elas. Os processos superestruturais operam a reprodução ampliada do modo de produção. tais como: Umbanda. TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros. Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe. Sua escolha é consideravelmente livre e dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora. transformação. a superestrutura reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura. denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídicopolíticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos. a Psicanálise). sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição. Quimbanda e Candomblé. assim como de produção. grupais. sensibiliza dores. O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. Algumas correntes institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise. 170 ▲ . conteúdo ou estilo. discursivos. segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*organizado*-estabelecido. da Sociologia e da Economia Política Marxistas. do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento e peculiaridades do coletivo em questão. na instância jurídicopolítica é onde se processam os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente. não existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento. TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. Posteriormente. difusão e assimilação de representações e valores ideológicos. coletivos etc.

em conseqüência. tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas. Contudo. uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras bastante modificadas. o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos particulares e singulares de seu objeto. considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e os variados aspectos da vida institucional como um todo. demandas. fantasmas. TRANSVERSALIDADE: interpenetração. PARTICULARIDADE. entrelaçamento. estereótipos gestionários. SINGULARIDADE: no que interessa ao Institucionalismo. No Institucionalismo. pré-conscientes e inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva". que é imanente à rede social das forças produtivo-desejantesinstituintes-organizantes. UNIVERSALIDADE. papéis. Lacan. segundo a corrente de que se trate. é importante 171 ▲ . gerando efeitos à distância sem transmissores detectáveis. territórios. códigos. Certas correntes do lnstitucionalismo. a idéia de transferência pode ter. a partir de conexões locais. sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais. Para essa orientação. entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes.as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis. como por exemplo a Esquizoanálise. estruturas e até complexos destinos organizacionais. Reich e outros). mas como motor das transformações. hábitos comunicacionais. que propõe a autogestão* ou a gestão participativa dentro de cada estabelecimento. existiria uma transferência que não funciona como resistência ou obstáculo. elaboraram uma profunda reflexão filosófica sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos. desejos. No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional. Como montagens. TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein. O que se repete são pulsões. É uma travessia molecular dos estratos molares. Em geral. deflagram efeitos transversais inventivos e libertários. GENERALIDADE. o que se repete substancialmente é o diferente. e. no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem membranas celulares nem limites externos precisos). A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas organizações*.

Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo. as línguas indo-européias). em certa medida. USUÁRIO: no lnstitucionalismo. consome. Pode-se sustentar que nega de uma só vez a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade. UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais em seus aspectos instituintes*-organizantes*. Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica. a particularidade (por exemplo. na medida em que se refere a um objeto único. personalizado ou anônimo. possui. se apropria. O momento da generalidade compreende a caracterização de um atributo abstrato da universalidade. No caso de uma intervenção institucional standard. Um juízo ou um conceito universal abstrato é. vazio. cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro momentos: a universalidade abs trata (por exemplo. Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais do particular e do singular. é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). Lourau.diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto. O momento da singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. um puro produto do pensamento. dessa maneira possibilitaria sua desalienação. Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal. tal dialeto napolitano e seu uso concreto. a singularidade (por exemplo. enquanto cada um deles se define por sua afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. Segundo entendemos a proposta de R. assim como contribuiria para a reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas). O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da generalidade. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já estava compreendido no conceito universal. usufrui de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". adquire. entende-se por usuário quem demanda. mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. a Análise Institucional estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos. freqüentemente designa-se o conjunto dos usuários como "staff-cliente". Supõe-se que a intervenção no caso singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e no saber dos coletivos institucionais. do tipo dos que são 172 ▲ . por um falante/ouvinte desse dialeto). máximo nível de determinação atingível.

funções etc. relacionado-o com o segundo. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo. Parece-me interessante que o leitor possa. composto dos seus próprios ethos. Obviamente. Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins e meios. o processo produtivodesejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. avaliar acertos e desacertos do primeiro texto. lagostelos. para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a quinta edição. desta forma. como se 174 ▲ . pathos. topos. Desde já. cronos. quer dizer: cargos. hierarquias. este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência. Neste final de milênio vivemos. a existência de uma composição sui generis e não é exclusiva da nossa fase. a individuação de um real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo grupal. mas também à importância de marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento. Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná-lo com a biografia do autor.enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos"). Primeira Parte O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados. sendo que cada período histórico tem. sem dúvida alguma.expressando isso de uma forma clássica. VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. obviamente a partir de suas próprias convicções. Optei por reproduzi-lo quase sem alterações. a verticalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde ao organograma formal. em outubro de 1995. 173 ▲ APÊNDICE O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro. umepospeculiar. contudo me parece que tem o direito de tentar. ou seja. e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica".

representativos e eleitorais. de situação econômica.sabe. autoritários e outros. de distribuição. sendo que. incorporais. o Estado de Direito. 175 ▲ . "Multitudinárias" e assim por diante. de circulação. o mesmo tendo se realizado em todos os campos e níveis. a sua. "valores". sexuais. os Direitos Civis e os Direitos Humanos. Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado". de culto. cabem – devidamente redefinidos – termos mais ou menos "na moda". "presente". porém. de certa forma. ou 'A. ou "lnformatizadas". constatar. assim. geográficas. "movimento". ou "Hipermodernas". que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a atualidade tem havido. "espaço". integrado por uma função axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. gerou-se uma tendência ao desmoronamento de regimes políticos totalitários. "partes". e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos indiretos. pelo menos formalmente. – Como causa e efeito dessas transformações. "pensamento". Uma análise detalhada dessas categorias seria. tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil. ditatoriais. detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por "passado". regionais. "troca". política. como aplicação teórica de um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento. – Esse incremento inclui bens materiais. tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari. em setores localizados do mundo. Isso propiciou uma inclinação ao predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos. serviços. tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições democráticas. nacionais. desde o local até o mundial. "todo". Conformarei-me apenas em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. raciais. onde vige. excessiva neste escrito. "cultura". Também cada" civilização". de idade. tais como "Globalização". de comunicação. legislativas e executivas. cultural. "Sociedades Pós-Industriais". Nessa designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do Capitalismo". de troca e de consumo. Costuma-se declarar. no lugar da predisposição ao uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. possibilitando. e porque não. "Transnacionalização". e que esse aumento qualitativo e quantitativo resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados. evidentemente. "permanência". um crescimento enorme da "Riqueza" – entendida como meios de produção. – Nesse mesmo lapso. tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de idiossincrasias minoritárias. "Pós-Classes" e "Pós-Massas". ou "Pós-Modernas". judiciais.utomatizadas".

176 ▲ . diversos "estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas. esses processos não são universais nem suficien temente implantados. podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas" adversas. persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo. tais como fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação. desejos. agentes. limitação. toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência. à justiça e à competição sadia. e nem aperfeiçoados. e ainda hoje continuam trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. que são oportunamente subsanáveis. interesses e açôes contrários a esses desígnios. exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil. justiça e ordem pública. Esses setores a dificultam devido a vocação. empresas livres e outros-. – As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização – diminuição. eficientização. cultural e subjetivo. – Obviamente. "Socialismo Real". baratização. planejamento e execução. educação. "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista". No campo do social. democratização. imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí generís. os Socialismos Reformistas. consumidores. crescente e incessante. estruturas. economia de mercado. funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde. não somente em quantidade como também em amplitude.porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei. resistem em adotar os princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados. as Sociais-Democracias e ou tros similares. Por isso. transitórias e circunstanciais. – Desde já. essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduossujeitos-agentes-produtoresconsumidores-usuários conscientes.lógicas e âmbitos. em todos e em cada um dos processos. incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo. modernização das estruturas. por diversas razões. assim como pelo culto à liberdade. todavia não superadas. assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente fracasso de todos os ensaio de "Comunismo".– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção. que tendem a realizar-se de forma gradual. Todos esses indicadores de "evolução". Isso significou a vigilância e ingerência sobre tais poderes. assim como determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis. usuários." em vias de desenvolvimento e de crítica". de formas arcaicas. compactuação.

à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo agora. Em terceiro lugar. é a sólida confirmação de que os modos de produção. ou é repetida. os regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado. pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato" que se pinta dela. incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante. entender e avaliar o panorama munclial contemporâneo. os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos triunfadores. demonstram ser a "menos pior". Estes. uma maneira de descrever. não servem para nada. vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto. Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostumase a experimentar. vale a pena repassar. comportando-se como se acreditasse que "na prática todas essas teorias são outra coisa". Está claro que existem inúmeras versões a respeito que. mesmo frágeis e freqüentemente precários. apesar de não ser a culminância. Em primeiro lugar. ou funcionam somente dependendo do uso peculiar que se decide fazer delas. são tratados como se fossem inexistentes ou irrelevantes. apesar de muito mais sofisticadas e matizadas. isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos. O mais grave desta "realidade". de forma parcial ou distorcida. O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos. como se fosse uma "novidade recémdescoberta". de acordo com esta leitura do panorama mundial. ou bem os despreza. Segunda Parte O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor. uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade. a meu ver. não deixam de conduzir a conclusões parecidas. de forma esquemática e prototípica – e faço votos para que não tenha sido irônica –. Em segundo lugar. isto é. senão a única alternativa possível para a consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. ou os cita apenas nas passagens em que supõe poder refutá-las. da qual estas "impressões" são um 177 ▲ .Esse andamento. uma série de impressões que. não se pode evitar a sensação de que. frente ao quadro que acabamos de delinear.

ou como" delirantes adoradores "de um cataclismo imaginário e inexorável. os conhecedores dos processos de construção e difusão "ideológica". sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade. se avalia e se procede frente ao estado contemporâneo das coisas. analisadores ou idéias com os quais se pensa. A colossal. Psicologia e Política – as declarações. é que a versão que relatamos anteriormente – que. por outro lado. signos. categorias. Sociologia. conceitos." catastrólogos". Em alguns campos do saber e da vida notoriamente na Economia. desavisadamente. não existem reais alternativas para a situação imperante. mas também da difundida convicção de que. Boa parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumidaresulta não só da estupidez e de necessidades. é sabido e constatado que aqueles pensadores militantes. escrever. Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –. desejos e interesses do pensamento crítico. "catastrofistas". funções. conseguem apenas dissimular sua sistemática 178 ▲ . dependendo do país onde atuam. procedimentos e resultados. muitas das suas categorias. vai desde a eliminação física e a tortura até a reclusão ou o exílio – mas também tornarse passíveis de inúmeras modalidades de desqualificação. mesmo se empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições. refinamento e desacordo que. rótulos esses que servem para etiquetá-los como "amantes ou cultores" mórbidos. tudo depende de como se define cada um dos termos: noções. Em quarto lugar. A sentença mais draconiana é que "são inaptos para oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos". indicadores. Em verdade.registro. ou como" especialistas com falso prestígio".não apenas podem sofrer as mesmas ações repressivas de seus antecessores de todas as épocas – que. longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência. de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. agir e coerentemente viver de acordo com uma inteligência crítica e segundo alguma dessas propostas questionadoras supostamente inexistentes. obscuridade. heterogênea e onipresente maquinária que gera esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possívele os "estilos de vida" e "de morte" que lhe são conseqüentes. planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo. Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter que suportar a atribuição do status e papel de "catastrófilos". falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial. desprezo e exclusão mais ou menos sutis. ou simplesmente cidadãos que resolvem falar. "a rigor". acabam por compartilhar. conceitos. a não ser aquelas que consistem em um aperfeiçoamento do conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde.

se por um lado – como veremos mais adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas são tragicamente ostensivos outros são confusos. a seguir. Porque. Para examinar os aspectos mais relevantes dessa comparação. não costumam coincidir uns com os outros. ambíguos. pelo menos um bilhão vive em um estado que a Organização Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta. o assunto consiste no confronto entre o que poderíamos fazer e o que realmente fazemos. nossos tempos. e os números que verdadeiramente interessam para tomar posição definitiva acerca das questões mais cruciais são considerados sigilosos e mantidos em secreto. em todos ou em algum dos aspectos da existência. As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que: – Dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra. que na Idade Média. tornariam estas linhas intoleravelmente difíceis de serem escritas e lidas. Tampouco. É uma brevíssima avaliação dessa natureza que me proponho intentar. são poucos os resultados que podem ser considerados confiáveis. Frente a essa formidável escalada. quantitativa e qualitativamente. Contudo. é abordada de fom. não citarei muitos dados estatísticos que. assim a valorizações complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão. delicados e contraditórios. outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria Relativa e ou Pobreza. por exemplo consiste em cotejar o que o Capitalismo veio a ganhar com os desmandoó do Socialismo Real. Trata-se de comparar o desenvolvimento potencial e efetivo de todos os tipos de forças produtivas de uma época com as realizações abstratas ou concretas alcançadas durante a mesma. – Dois bilhões de pessoas do globo terrestre subsistem em um estado que contempla apenas racionalmente o que – de maneira muito controvertida – denomina-se "satisfação de suas necessidades básicas". Dito de outra maneira.inoperância. Prestam-se. o problema corretamente posto reside em perguntar o que se conseguiu exatamente com essas disponibilidades. Muitos autores enfatizaram a velocidade do processo que o incremento das mais diversas potências adquiriu nos últimos vinte anos: a mesma é tão vertiginosa que resulta muito maior que a conseguida nos recentemente passados duzentos anos. Essa questão de "otimismo" versus "pessimismo" é. mostram uma peculiaridade surpreendente. com respeito às estatísticas. mas segundo o meu entendimento. Há hoje levantamentos estatísticos acerca de "tudo". tantc no passado como nas circunstâncias presentes. tão velha como o próprio mundo. 179▲ . Por outro lado. se bem necessários e ilustrativos. e "todo mundo" parece ter acesso aos mesmos. evidentemente. O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono.a errônea O problema não consiste em puxar conclusões sobre se o mundo de hoje é melhor ou pior.

à manutenção da ordem constituída e à segurança pública. de maneira muito peculiar.. o arsenal de armas atômicas foi reduzido. que resultaram no fim da Guerra Fria. cujo foco principal é a defesa da propriedade privada e da pessoa dos proprietários. mas também à tendência ao esgotamento dos mercados externos e internos. se houve aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance. a Índia. apesar de serem os principais assentos de opulência mundial. apresentam marcados desníveis e reconhecem que estão ameaçados pela possibilidade de graves crises de diversos tipos. racial e outros. tanto na atualidade como no futuro próximo.. ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a 180 ▲ . o incremento da riqueza nesses "capitalismos nacionais tardios" mostra uma distribuição desigual do benefício. – Os grandes blocos dos países ricos – EUA. a cada ano duplicam-se os equipamentos militares e policiais destinados. sem direito laborais e sociais. – O aparente crescimento econômico das chamadas "economias emergentes" – apesar dos casos serem diferentes e complexos – em geral é fraco e instável. Malásia. particularmente os dos países chamados" periféricos". a China Comunista) –. limítrofe. assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques. mas estrondosamente – em 95% dos países. Taiwan e. continua-se discutindo. Devido às diferentes gestões internacionais. à qual me referia acima. seja na extração irrecuperável de matérias-primas e energéticas. salvo exceções locais.– Dos quinhentos milhões restantes. – Os Estados Nacionais – tanto os "democráticos" como os "autoritários". – Os indicadores mundiais de desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas ao acelerado processo de substituição da força humana de trabalho pela automação. Canadá. religioso. Ela se encontra – desigualmente. Oriente Médio e América Latina. Além de tudo isso. Vietnã. idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo-coloniais clássicas dessas mesmas nações. de forma menos espetacular. Indonésia. ou ainda nas condições contratuais leoninas dos acordos de exploração. supostamente. "dependentes" – apresentam-se cada vez mais empobrecidos. porém. só vem aumentando. – Até pouco tempo atrás. civil.ente todo o continente africano e. remessas de lucros. Neste momento. "em vias de desenvolvimento". 30% (trinta por cento) possuem 70% (setenta por cento) de qualquer tipo de riqueza disponível no planeta. Coréia do Sul. CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão. – A distribuição da miséria absoluta e relativa. estão em andamento quase cem guerras de tipo internacional. Surpreendentemente – como todos estão cansados de saber – a criminalidade. nos seus respectivos bolsões internos de pobreza. prejudica inapelavelm. exceção de impostos. e está baseado seja na venda da força de trabalho baratíssima e informal. o número reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico cuja capacidade era mil vezes superior àquela necessária para destruir qualquer indício de vida sobre a face da terra.

A decadência mundial do Estado de Bem Estar – causada fundamentalmente pela limitação orçamentária imposta à política tributária pelo Capital também obedece à privatização crescente de sua funções. moradia. a política tributária é ridiculamente favorável às grandes fortunas e a política fiscal é incompetente. limitando-me a mencionar problemas tais como a nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos. corrupta. resultante de uma sólida elevação das condições de vida e de atenção médica integral. ao seqüestro. eleitoreira demagógica. A lógica dessa melhora é parecida com aquela responsável por certa diminuição dos índices de morbimortalidade: não se trata de um aperfeiçoamento amplo e consistente de saúde popular. e sim do espetacular e barato progresso da técnica imunológica. carcerários e assim por diante. ao jogo ilegal. o comércio de crianças e de órgãos humanos. Isso pela necessidade do Capitalismo de incorporar à produção e ao mercado ganancioso todas as atividades possíveis para compensar a tendência de queda da taxa de extração da maisvalia resultante das causas acima apontadas. – O aumento da criminalidade.sua subordinação aos onipotentes organismos econômicos internacionais. a total falência dos aparelhos judiciários. Esse problema. torna-se gravíssimo nos países "periféricos" por razões óbvias: as necessidades de serviços infra-estruturais como os de educação. É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"? 181▲ . do terrorismo sectário ou de Estado. – Certo incremento do acesso de setores mais an1plos da população a alguns produtos e serviços – devido à hiperprodução e ao barateamento da produção massificada dos mesmos – deve ser entendido como um resultado muito mais atribuível ao poderio tecnológico dos parques industriais que ao efeito da ascensão econômica de tais segmentos populares. que não é nada mais que um apêndice. tal é seu grau de interferência no comércio de influência. As chamadas genericamente "máfias". saúde. saneamento básico e segurança pública. ao roubo. particularmente da organizada-empresarial – está se tornando não geométrica. têm adquirido tal poder financeiro que parecem estar integrando formalmente os processos econômicos e políticos. ao contrabando. de proteção e outros. Para não carregar demasiadamente este texto. o poder econômico dos lobbies locais sobre os governos é enorme. corporativo-burocrática. É de se supor o que ocorre quando esses países são afetados pelo declínio próprio da transnacionalização-privatização. porém. à prostituição. são infinitamente maiores que nos países centrais. terei que parar por aqui. mas exponencial. a sinistra questão dos fundamentalismos. relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas. a distribuição da renda é muito mais desigual. à falsificação e assassinato por encomenda. policiais. seguro-desemprego.

semi-determinado. porém. e dos funcionamentos. uma formação histórica que pode ser entendida como 182 ▲ . auto-producente. dá andamento a quatro processos: de Produção da Produção. externamente aberto e internamente heterogêneo. da Sociedade.Terceira Parte Esse tema do "otimismo" versus "pessimismo" está intimamente relacionado com o outro. o mínimo que se pode fazer é analisar o significado exato dessas palavras. da Subjetividade e da Maquinária. seja como for que ela se defina. nenhum é causa última nem efeito exclusivo do outro. quatro grandes "continentes" ou "territórios". de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico. explicando como cada uma delas era e é – à medida que as mesmas subsistem no panorama atual – um modo sui generis. de gestar. mais relacionados à produção e à consumação. mais ligadas à reprodução e a antiprodução. em si mesma. Cada formação histórica caracteriza-se pela modalidade com a qual. de Produção de Antiprodução e de Produção de Demanda-Consumo e Consumação. em movimento transformador contínuo. devo avisar. digamos. Uma nova definição de maquinária como conjunto difuso. administrar e destruir tudo o que compõe a realidade. distribuídos em superfícies (vide Nota 1): da Natureza. heteromórfico. devido a um laborioso esquecimento de seus detalhes. como desejaria. à medida que já foi antecipada quase exaustivamente por vários dos colossais pensadores do século passado e que. no mínimo. É preciso. e isso implica que são parcialmente diferenciados. não poderei definir detalhadamente neste âmbito. em cada um de seus territórios e em todos eles. Em cada formação histórica. da "evolução" do Capitalismo. A modalidade e a prevalência de cada um desses processos em cada um desses territórios-superfícies determina as peculiaridades das funções. o do "velho" e do "novo" que mencionei anteriormente e que poderíamos reformular e ampliar do seguinte modoapesar de que. algum possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim. apesar de que. heterólogo. semi-aleatório de "peças" variáveis. em cada formação histórica. todosos termos que utilizarei. Quando se afirma que o Capitalismo Planetário Integrado – a "Globalização" e a internacionalização mundial do Capitalismo em sua Fase Superior – é resultado do "desenvolvimento". é parte da questão do "velho" e do "novo". Esses grandes trataram. nos vimos na obrigação de expor esta descrição como se fosse uma premissa. e também imanentes. de Produção de Reprodução. Cada formação histórica compreende. cada um a seu modo. os territórios citados e os processos que os" animam" estão intimamente interpenetrados entre si. do "progresso". Nenhum deles é prescindível. aclarar que esta análise. dispersas e "oniconectáveis" – ou seja. de periodizar as formações históricas.

definir. Isso é diferente de dizer "mecânica" ou "automática". quanto deixa de fazer com elas.uma Megamáquina. ou quanto e como as investe na reprodução ou antiprodução que geram as atrocidades dos referidos índices. Isso precisa ser dito. também importam as relações dos mesmos com os campos da natureza. por exemplo. a mencionar três fenômenos: os graus e tipos qualitativos e quantitativos de exploração. sem dúvida alguma. isto é. "Evolução" e "Desenvolvimento" enquanto valores definidos pelo Capitalismo triunfante? Por um lado. de sua "Totalidade" ou Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução e da Antiprodução podem manifestar-se através de inumeráveis índices ou indicadores. por exemplo. que os do Feudalismo. conseguem inventar. assim como com o grau de reprodução e anti-produção que as investem. Limitarei-me. Dadas as características das funções e do funcionam de cada formação histórica – ou seja. seus tipos de exploração. Se não procedermos dessa forma. Maquínica. da subjetividade e da maquinária. detectar e criticar esses índices. não se nossos terríveis índices de exploração. as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam. a qualidade de vida dos países nórdicos e outros. dominação e mistificação que lhes são próprios. Considerando o que foi exposto. sem ignorar que. Nestes indicadores. Sendo assim. o procedimento e a interpretação dos resultados da comparação – de forma a fazer uma avaliação – de uma formação histórica com outra são. os de algumas formações primitivas tribais – cujas forças produtivas são ínfimas –. outro indicador do tipo de formação histórica que assim o faz. dominação e mistificação lhes são próprios. mas com as potências de produção que detêm. Dito de outra maneira. Espero ser mais explícito agora sobre porque devemos comparar nossa formação histórica atual – a primeira que está em vias de conseguir uma hegemonia mundial quase absoluta – não com as outras. cairemos exatamente em um dos mecanismos de mistificação que são especiais da nossa formação histórica. mesmo prevalecendo os coletados no território da sociedade. o que significam "Progresso". Obviamente. dominação e mistificação são melhores ou piores. se comparamos alguns dos nossos indicadores com. por sua vez. a realização de blocos de nações ricas. trata-se de julgar. cibernéticas etc. a decisão. a falsa generalização de algumas melhoras localizadas – por exemplo. mas se dadas as incalculáveis forças que a humanidade dispõe. isto é: com os índices de exploração. Repassando o panorama descrito na segunda parte deste apêndice. dominação e mistificação são. a seu modo. conhecimento e valores que. dado que os indicadores medidos como resultado da aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são 183 ▲ . saber. cada formação histórica possui também os recursos próprios de pensamento. bem "menos atrozes" que os nossos. porém. seja nas modalidades das máquinas elétricas ou eletrônicas.

sem dúvida. O Capitalismo. Por conseqüência. limitante e destruidora do "todo" da realidade. é possível falar também de Capital de Poder. supostamente geradora. a Axiomática do Capital – que pode se expressar através de quantidades abstratas. apesar da crítica. "animadora" hierarquizadora. Fraternidade" – não é apenas uma mentira. ou que são enunciados – prévia deformação – como "novidades" funcionais para essa leitura "otimista". de Saber. o Capitalismo ainda precisa mentir. de dinheiro-moeda ou "letras" de diferentes naturezas. Igualdade. sistema. Esse Equivalente Geral. acumulação e centralização de inumeráveis forças-formas de produção não pagas. como títulos de propriedade. apesar do cinismo peculiar do sistema de representações dessa fórmula mundial. um sofisma. uma racionalização ou um delírio megalomaníaco. cédulas ou registros informáticos – é uma medida arbitrária de valor. "moderna". apropriação. de Desejo – Consciente e Inconsciente –. no mais amplo sentido já definido – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada. porém. Por outro lado. cataclísmicos. bônus. imanente a "todos" e a cada um dos campos ou territórios antes citados que. Cabe apenas mencionar agora. tais índices mundiais são. e até de Beleza – Dominação e Mistificação. a afirmação de que o Capitalismo é o modo. um erro. O Equivalente Geral. uma série desses conhecimentos do século X IX – produzidos por autores de diferentes orientações – que parecem ter sido "esquecidos". As modalidades clássicas do Capital são o Capital Latifundiário. estrictu sensué um modo de produção-reprodução-antiprodução-consumação da realidade – dito . continua sendo um recurso necessário para sua permanência. Entre as principais forças-formas dessa produção está a força-forma do Trabalho "Humano" – entendendo como tal aquele composto por energias 184 ▲ . Trata-se de uma auto-convalidação da Lógica do Capital. ações. Essa integral é denominada Equivalente Geral Dinheiro. "evolução" e "desenvolvimento" estão longe de tornarem-se efetivos.deploráveis. por exemplo. "Liberdade. um equívoco. de Semiotização. subalternamente. organizadora. Ou seja. da Esquizoanálise à importância da ideologia ou das ridículas afirmações acerca de seu " final". torna-se a medida para a qual deve ser traduzido o resultado da extração. Reprodução e Antiprodução (assim como seus estilos" de vida" e" de morte") – tal como foi anunciado na famosa fórmula da Revolução Francesa e do Iluminismo. isso significa que nosso " progresso". regime que "melhor" está protagonizando a realização gradual de uma certa maneira de gerar e relacionar Produção. muito elementarmente. que se acumula como inumeráveis forças produtivas não retribuídas. "realista". julgados segundo a potencialidade produtiva intrínseca ao Capitalismo. o Industrial e o Financeiro. ou que são citados como "insuficientes" ou "já superados".

cada um deles está informado pelo circuito de compra-venda. podem haver crises provoca das. operações de troca mediadas pelo dinheiro. de compradores suficientes de mercadorias. e as secundárias. possessão. enquanto interessam por seu valor de compra-venda. isto é. O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado – está constituído por contradições famosas que lhe são essenciais. deve ser acrescentado ao Capital fixo e ao variável o que podelíamos chamar de gastos com a produção de necessidade de demandas de consumo e fruição propriamente ditos. Por exemplo: as primárias. As condições fundamentais que possibilitam a produção. que perdem assim seu poder aquisitivo. como as que ocorrem na competição entre as diversas modalidades do Capital. além dos gastos da reprodução ampliada – manutenção das condições jurídico-político-subjetivolibidinais do Capitalismo. Era costume atribuir aos limites externos a existência de mercados solventes. ou seja. isto é. é a conversão crescente de tais produtos em mercadorias bens de troca. Entre as variadas situações nas quais essas contradições transformam-se em aporias e conduzem à celebre crise do Capitalismo. troca. pois as lutas operárias 185 ▲ . empreendimento. distlibuição. o qual habitualmente era tido como sinônimo da existência de trabalhadores vivos e produtivos. de maneira sumamente variada. produção de mercado. e só secundariamente pelo seu valor de uso-satisfação – pois se o processo de capitalização realiza-se em cada passo desse circuito.físico-químicas. dependendo do ramo de produção tratado. as mais conhecidas são aquelas que resultam das hiperproduções – excesso de mercadorias que se barateiam "excessivamente" e não compensam as inversões – ou do esgotamento relativo dos mercados. ou seja. que se estabelecem entre o desenvolvimento das forças produtivas de todo tipo e as relações de produção de toda espécie. O Capital variável inclui também os insumos produtivos: gastos de crédito de dinheiro-mercadoria. comprável e vendável através do Capital chamado variável. Porém. cujo protagonista principal é o Estado –. Concomitantemente. semiotização e outras. sociais. de matérias-primas e manutenção e aperfeiçoamento dos meios de produção propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo. energéticos e territoriais. biológicas. Essas contradições são tanto produtoras do crescimento produtivo e cumulativo e da reprodução das condições restritas e amplas da existência do Capital quanto demarcadoras de seus tetos classicamente denominados limites internos e externos – e de sua subsistência. a submeter-se à citada equivalência e a sua valorização e remuneração parcialmente não paga – Dominação e Mistificação – pela força física ou por modalidades de subjetividade. consumo e fruição dos produtos de toda espécie. psíquicas. subjetivas – que deve ser "forçada". apropriação. Os limites internos costumavam ser reduzidos à existência da força de trabalho disponível.

porém. incrementam o gasto do Capital variável através de reivindicações salariais ou de melhores condições de trabalho ou chegam. Ao nível da produção. a apropriarse parcial ou totalmente do aparelho de Estado. ou a destruição dos produ tos para aumentar seu preço. Já a crise gerada pelo esgotamento da expansão extensivogeográfica dos mercados foi superada com a intensificação quantitativa e qualitativa da venda através do consumo de massas. isto é. dominadora e mistificadora que lhe é característica tende a orientar toda a produção. mas. renda e ganhos. oligopólios e monopólios. é importante destacar que o Capitalismo é um modo – dito no sentido amplo definido acima – em que a inflexão exploradora. não podendo ampliar detalhadamente este ponto. a antiprodução e o consumo para a extração de mais-valia econômica. que o Capitalismo é um modo histórico que. troca e consumo. Outra celebre tática é a diminuição deliberada da produção. por um lado. megabancos e. outros são notoriamente beneficiados. assim como através da planificação de produtos perecíveis. o aperfeiçoamento das máquinas e uma nova articulação entre a força de trabalho "humano" e "não-humano". não só aprendeu a prevenir e resolver as crises. Nisso participa. Por último. Sabe-se. mencionaremos somente algumas essenciais. mas também para o saber. nelas e delas. sobretudo. mas também viver com elas. o resultado de cada crise é uma redistribuição de riquezas. apropriação.e camponesas questionam a propriedade das diversas formas de Capital fixo. se agrega e finalmente substitui a exploração típica a extração de mais-valia maquínica. De qualquer maneira. em suas lutas políticas. enfim. de entidades que são suas proprietárias. alguns setores do Capital são prejudicados. não necessariamente em menos "pessoas". por sua vez. o poder e o prestígio. não explicitamente formal. facilmente descartados e "melhorados". o Capitalismo obteve uma enorme agilidade e bara teamen to desses processos mediante a informatização e a robotização dos mesmos. foi alcançado com o barateamento e multiplicação dos produtos. desde suas origens. pelo aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing. A inflação é mais um exemplo de fenômeno provocado: se. pois atua em todos e em cada um dos níveis dos processos do "Todo Capitalístico". Esse. pela qual o Capital – em quaisquer de suas formas de existência – acaba por concentrar-se. senão em um número real. o Capitalismo suplantou a extração de mais-valia relativa – aumento das horas do trabalho não remuneradas – pela absoluta – aumento da produtividade pela intensificação do trabalho em si mesmo ou em menos tempo. a reprodução. As manobras do Capitalismo a esse respeito são inumeráveis e. Na esfera da distribuição. Isso é válido para o lucro. Longe de conseguir – através do tipo de competição generalizada e" de cartas marcadas" que é 186 ▲ . Não é necessário explicar como a guerra sempre foi um recurso complexo para superar as crises. megaempresas.

que é. Também é possível aceitar que sendo a economia mercantil. e das que potencial e insolitamente disporia). da Reforma e da Contra-Reforma e das revoluções européias e norte-americanas – culmina com a instauração da indústria manufatureira na Inglaterra. Pessoalmente. devido à revolução tecnológica e industrial. podemos admitir. que continuam incólumes e que as transformações acontecidas. que é possível encontrar seus antecedentes nas formações histólicas dos séculos XII e XIII. desaproveita e destrói em uma proporção jamais igualada. Perante uma assertiva deste porte. responsáveis por nossa chegada a esta "Fase Superior". o nosso interesse está centrado em mostrar que as suas peculiaridades essenciais estavam préfiguradas. formas e maquinaria. uma velocidade e uma eficácia totalmente imprevisíveis para os teóricos do século passado. tendo a considerá-las. a primeira expressão "verdadeira" do Capitalismo na História. em suma. assim como de formas sui generisde subjetividade. torna-se de radical importância precisar quando e como este Modo começou e quais foram suas sucessivas ou simultâneas transformações. contudo. em sua essência. e dali em diante. Então. razão pela qual não justifica nenhum "otimismo". à maneira de Marx e Engels. incluem. Partindo do princípio de que o Capitalismo é uma singular relação e composição de substâncias. esse sistema as paralisa. reprodução e antiprodução variem muito com o tempo e os lugares nos quais operam o diferente tipo de Capital. como formações précapitalistas. energias. embora sejam originalíssimas e necessitem cuidadoso estudo.sua característica – uma otimização das forças produtivas de quaisquer naturezas (sejam as que verdadeiramente o mesmo suscitou. e não têm mudado em sua essência desde aquelas até as contemporâneas. Pelo contrário. Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os nossos dias. As conseqüências dessa incrível aceleração consistem principalmente no seguinte: 187 ▲ . as mesmas podem ser consideradas como precursoras do Capitalismo. seguindo alguns autores. as anteriores. o "novo" Capitalismo é. apesar de que suas modalidades de produções de produção. O Capitalismo propriamente dito – cuja preparação se inicia com o fim do Feudalismo e prossegue no decurso da Renascença. nem nos exime de nenhum tipo de luta pela sua extinção. Esse esclarecimento parece-me imprescindível para poder discriminar de forma convincente que o "novo" do Capitalismo Mundial Integrado não implica uma transformação substancial do "velho". o Estado. com uma modéstia conceitual exigida por esta síntese: quais são as principais "novidades" apresentadas pela atual "Fase Superior"? O processo da produção adquiriu. Nestas linhas. muito pior que o anterior. em minha opinião. a vigência de uma sociedade institucionalizada. semiotização e parques maquínicos – condições essenciais e existenciais de muitas formações históricas antigas –.

– Ênfase na geração de produtos e serviços baseados na tecnologia de ponta – informática. porém 188 ▲ . ao mesmo tempo. desfiliando-se de qualquer organismo de classe ou luta coletiva de defesa de suas reivindicações trabalhistas. mudança e anonimato crescente das sedes e proprietários do Capital. também mercados pobres – compradores de bens e prestações relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –. Essas e muitas outras estratégias conduzem a uma divisão mundial técnica. mas sobretudo econômico-social do trabalho. cibernética. para os países periféricos. empenham-se numa política de diminuição de custos produtivos. trazendo como conseqüência desemprego. ocultando sua concentração e o poder decisório dos tecnoburocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais. participantes de baixíssimos custos e. que criam a ilusão participativa. formados segundo planos artificiosos e rapidamente "aperfeiçoáveis" que os tornam imediatamente "perecíveis" e "descartáveis". localizam-se nos setores mundiais "em vias de desenvolvimento". A força de trabalho maquinal e a exploração da mais-valia maquínica vão suplantando aquela humana. emprego transitório e precário. processo esse cujo aspecto jurídico se denomina "fIexibilização". Desse modo. através da participação nos lucros e na propriedade – via compra de ações minoritárias e reciclagem contínua da capacitação técnica. da geradora de produtos e serviços está transformando e diminuindo – gradual. telemática. subemprego. ecologicamente "suja" e altamente tributada nos países centrais. lucros e renda parecem estar crescendo. robótica –. assim. formam-se elites ou aristocracias de trabalhadores que passam a fazer parte do Capital fixo da empresa. havendo indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre. com" mãode-obra" e impostos baratos. da agroindústria. – "Terceirização" contratual de segmentos da produção pouco rentáveis para empresas menores ou para trabalhadores independentes. transferindo a parte básica. – Os grandes grupos empresariais. de Capital fixo e variável. porém firmemente – a participação da força de trabalho "humana" nos processos produtivos. Esses setores tornam-se. Algumas dessas manobras consistem em descentralizar a produção de grandes complexos infra-estruturais caros. – Hiperespecialização e/ou fIexibilização dos poucos trabalhadores que "permanecem" empregados com incentivos de produtividade. obrigando a uma substituição incessante. alguns dos quais operam na economia informal ou em seus próprios domicílios. assumindo a identidade e os in teresses desta. em que – diferente do período imperialista fordista da produção – os ramos produtivos de bens e serviços indispensáveis e "pesados".– A maquinária da indústria extrativa. apesar de que seus ganhos. assim como aqueles que entram subsidiariamente nos produtos e prestações altamente remuneráveis. Multiplicação.

saúde. carência) – foram "hipertecnologizados" pelos grandes mass-media e pela propaganda. os mesmos costumam ser governados por demagogos. consumo-consumação – que incluem os de financiamento. educação e diversão "públicos". transporte. comunicações. seguros. Alguns exemplos ilustrativos são os que. mas por sua necessidade expansiva. A constituição de enormes e onipotentes monopólios nacionais ou internacionais – legalmente formalizados. segurança. eram próprios dos mecanismos de "reprodução ampliada": tarefas familiares. no caso das dívidas externas do "Terceiro Mundo" por exemplo. apropriação. Um "fordismo periférico". troca. Essa parafernália adquiriu os níveis máximos de eficiência. sendo que. preservação e restauração do "meio ambiente". anônimos. entre outras razões. previdência. o Colonialismo e o Neo-Colonialismo. prolifera geometricamente – sobretudo como empréstimo para as contas correntes dos países "em desenvolvimento" ou emergentes. acionário. até pouco tempo. descomprometidos e quase sempre não tributados. distribuição. operações administrativas e contáveis. rede viária. estabelecimentos carcerários e outros. juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos. onde se negociam matérias-primas. No chamado "mercado de capitais". divisas. o Capitalismo atual provocou a privatização. saneamento básico. velocidade. Os processos de ordenamento. devido. comercialização. o Capital financeiro. Como se sabe. sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História. artifício e inutilidade relativa para o consumidor – maiores ainda que os da produção de bens duráveis e não duráveis propriamente ditos-. Por outro lado. transitórios. documentário. esses empréstimos não são nada mais que a mesma riqueza explorada pela força durante a conquista. supostamente resultantes e defensores do 189 ▲ . "andorinha". O lucro financeiro puro possui seu mecanismo mais pelverso nos citados interesses e no refinanciamento eterno das dívidas externas e internas dos Estados e empresas nacionais estatais. assim como capitais dos financistas do próprio país que depositam seu dinheiro nos paraísos fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. corruptos e incompetentes cuja gestão acaba sempre em grande déficit – contraído em um montante de dívidas com juros astronômicos. títulos inexistentes. que compõem os investimentos da usura "flutuante". aparatos e funções de Estado – energia.complementares daqueles centrais já saturados. falta. às vezes dispersos e condensados do Capital monetário. que elevam à enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada. profissionalização e mercantilização de "quase todos" os territórios e atividades recentemente não-lucrativos ou considerados "gratuitos" ou "públicos". essa proliferação torna-se infinita no chamado "Mercado de Futuros". Não por sua real eficiência. moradias populares. ao caráter instantâneo da comunicação e da informática e à sua subordinação a núcleos ubíquos. móveis. produtos. "fabricação" de necessidades e demandas (escassez.

entre outros. demasiado caros e ostensivamente "inumanos". semióticas econômicas. estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários . "Bom comportamento" que implica uma administração completamente submetida ao Capital transnacional – sobretudo o financeiro –. fisiologismo. A mencionada. esse processo. em crise no mundo inteiro. indivíduos. clientelismo. já dispõe de novos n. criando os vícios conhecidos.eios para reproduzir as condições de sua existência e proliferação – produção de subjetividade. e domina a condução política das nações. que como explicamos. O enfraquecimento do Estado realiza-se em nome da modernização. o Capital. dados os vícios de "nascença" da máquina estatal. da compra de votos. que permita prescindir dos recursos repressivos clássicos. comunidades do Axioma que rege a Lógica do Capital – vêm se impondo até o presente. representativa. Finalmente. à privatização a preços baixos das empresas e serviços 190 ▲ . objetiva a subordinação das soberanias nacionais e respectivas populações a entidades supranacionais cujos paradigmas são o Fundo Monetário lnternacional. Esse processo se enfatiza na dissolução do chamado Estado Beneficente ou Providencial – cujas atribuições são demasiado onerosas para o Capital –. o que segundo os clássicos marxistas denominava-se "Democracia Burguesa" – são a garantia do "bom comportamento" dos povos em questão. Em última instância. não sem contradição. na privatização e re-significação da estrutura e das funções do Estado. crises autofagicamente resolvidas e também acontecimentos metamorfósicos irreversíveis e incapturáveis – toda essa grande transformação que aponta para a assunção voluntária e pacífica por parte de todos os agentes. da racionalização."Livre Mercado" e da omissão reguladora do Estado e de organismos da sociedade civil – acaba por criar e regular à vontade as convenções de custos e preços que regem esses mercados. ou porque é manipulador dos meios de propaganda. burocracia. nepotismo. hegemonia do poder econômico – o financeiro e o das grandes empresas – modula arbitrariamente os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário. assim como a qualidade e quantidade de demanda e oferta. a rigor. da eficiência – o que não deixa de ter o seu sentido. ao pagamento" correto" das dívidas públicas externas. ou ainda por causa do poder de seus lobbiessobre os políticos e funcionários do Estado. Esses regimes e seus sistemas de "representação" – num sentido amplo de produção de subjetividade. Por outro lado. competitiva e heterogestionária. jurídicas. políticas. Por sua vez. o doutrinamento persuade. a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial. convence e corrompe o eleitorado em si mesmo. Não obstante. grupos. institucionais. sujeitos. o Estado fomenta o surgimento de cartórios eleitorais. culturais e libidinais incorporadas à sua lógica-. reiteradas vezes. Trata-se de implantar nas nações o regime político da democracia indireta. está empenhado no desmonte.

delinqüentes – é mais que suficiente para diagnosticar e avaliar a situação mundial contemporânea. Por isso. ou pacifistas. sem-terra. marginalizados. de direitos humanos. Tampouco lhe foi possível eliminar totalmente as modalidades de resistência próprias dos neoarcaísmos. e também as do Oriente Médio. temos que acrescentar a destruição massiva da natureza. agentes e práticas que possibilitavam suas modalidades clássicas de exploração. que a construção da megamáquina planetária do Capitalismo Global Integrado não pode prescindir por completo dos velhos equipamentos. seja com a famosa participação direta de seus "assessores" militares. dos não-inseridos nas instituições e organizações. o Capitalismo Planetário Integrado tem que lidar com os movimentos separatistas – de inspiração socialista ou não –. ao compromisso incondicional com as alianças. dominação e justificação. errantes. sobretudo as bélicas. se em alguns campos e setores parece que o balanço de todos esses andamentos mostra alguns "progressos" estridentes. no entanto suficientes para entender que. sem-casa. o mau aproveitamento 191 ▲ . procedimentos. finalmente. enfermos. assim como subvencionou as piores ditaduras latino-americanas e africanas. tais como os regimes integralistas. A geração de um imenso contingente de excluídos da produção e do consumo. nacionais. Sem considerar essas observações como um estudo profundo da contemporaneidade. Por outro lado. A essa degradação e deterioramento. a banalização ou obscenidade da cultura. mais que expressivos da degradação e destruição do "parque humano". sexuais. etárias. o carro-chefe do Capitalismo Mundial. os indicadores de exploração. revolucionários ou genuinamente reformistas. à "livre" radicação – ou seja. a modulação supérflua e luxuosa do parque industrial. clandestinos. despossuídos de direitos e também de qualquer identidade-miseráveis. o crescimento cancerigeno das megalópolis. porém. ambientalistas. dos países "guardiões" do patrimônio do Capital. analfabetos. e depois tenta substituí-los por democracias formais ou nominais. de liberação das singularidades raciais. culturais. como dizia anteriormente. fundamentalistas e os totalitários – que o Capital supranacional fomenta quando lhe são funcionais. religiosos e assim por diante. dominação e mistificação sui generis dessa "Fase Superior" são inequívocos sinais de um tremendo predomínio da reprodução e da antiprodução sobre a produção possível e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia. o esvaziamento rural. seja com dinheiro e armas. sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e a apropriação de mercados.estatais. não tributada e salarialmente flexibilizada – das empresas transnacionais e. Ocorre. os EUA. invadiu Panamá e Granada e tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o menor respeito pela autonomia que proclama-.

coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda está longe de alcançar.tampouco se reduz. Para poder pensá-lo – com a única finalidade de combatê-lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar. O estudo dos grandes impérios históricos – o Chinês. o Grego de Alexandre Magno. Quero aqui parafrasear unia sentença do "Anti-Édipo" – texto fundamental para o que denomino de Institucionalismo – que qualifica o Capitalismo como sendo" a mescla bizarra de tudo aquilo no qual alguma vez se acreditou com aquilo no qual nunca se acreditou verdadeiramente". Decididamente. senão viver nelas e delas. Permito-me sugerir que seria melhor. O sistemático "fracasso" – e escrevo fracasso entre aspas porque. Quarta Parte Se essa entidade que denominei Movimento Instituinte existe. o Romano. a um "tigre de papel". complemento adequado de uma derrota sempre presente"dos experimentos socialistas às vezes impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico. o panorama paradoxal e sinistro de decadência. sem dúvida alguma. Acredito que tudo isso já é conhecido por demais e serve para caracterizar. Não é que as contradições "internas" e "externas". sentir. "exterior" e "interior". o do "Socialismo Real" – mostra que sua decadência e sua queda não sobrevieram do seu" exterior". acredito ser importante para o seu destino introduzir uma pequena modificação no excelente conceito de Capitalismo Planetário Integrado. o Egípcio. o de Napoleão. presuntivamente perene. mas uma espécie de protoplasma polimorfo e sobrevivente.das fontes energéticas e muito mais. 192 ▲ . mas" cresceram de dentro". que é quase o contrário de uma vitória futura final. Pois "integrado" é um particípio passado e designa um objetivo já conseguido. apesar de que duvido que ela mesma se reconheça como tal. "não existe reparação possível para esse cataclismo. como expressei em outra parte. a não ser a convicção de uma vitória sem fim". Dissemos anteriormente que o Capitalismo é a formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as crises. o de Carlos V. a máquina abstrata geral e as micro-máquinas concretas pseudodemocráticas e cripto-fascistas do Capital sejam não tanto "ossos duros de roer". como dizia Mão. no sentido geopolítico que essas palavras adquiriram nesses enunciados. atuar. denominá-lo de "Capitalismo Planetário Integralizante". como foi chamado por Félix Guattari. O problema. é que o Capitalismo Planetário Integralizante não tem mais. porém. Todas as forças crítico-reformistas-revolucionárias que o enfrentam atualmente estão num momento de trágico desânimo.e vai depender de todos os institucionalistas para que não o alcance. rigorosamente falando. talvez. se esse modo não é um non plus ultra. É exa tamente essa capacidade de adaptação plástica e ativa que faz com que a lógica.

Esse apresentar-se não se explica apenas pelos efeitos da "ideologia". as camarilhas tecno-burocráticas. O extraordinário é que a assumem. Se há algo que ameaça a sobrevivência do Capitalismo. deliberativas e executivas da megamáquina do Capital sabem. e até a desejam. Sabia perfeitamente tudo aquilo que a proposta do Terceiro Reich implicava. ubíquo e versátil. difusão e apropriação de sistemas de representações "imaginárias" que "falsificam" a realidade. e também sabe – e pode ir se adequando às suas próprias contradições. as vanguardas programadoras. isto é. assumem e desejam. declinação assintótica e indefinida que se apresenta como "desenvolvimento". é a potência do que Deleuze e Guattari chamam" Processo Produtivo Desejante". como também diziam Deleuze e Guattari. pela "redação". Foucault designa como "Forças do Fora". "progresso" e "evolução". por exemplo. sem iludir-se a respeito. elístico. Por "cinismo" se entende que o "espírito" do Capitalismo Avançado – empregando literalmente a velha expressão de M. também o sabem. os da mistificação. afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida. e/ou se oferecem como fantasmas a serem animados pelo desejo inconsciente ou pelos interesses pré-conscientes-conscientes dos sujeitos-agentes. O Capitalismo é demasiado ágil. Sobretudo esses últimos. "ninguém nunca morreu de contradição". tal como já a havia percebido W Reich quando. que são "peças" de uma lógica – ao mesmo tempo exuberante e letal – que as constitui em suas funções e dela se vale. Não obstante a "ideologia" siga cumprindo uma importante função nos circuitos pré-modernos e ainda nos modelos de reprodução ampliada do Capitalismo. As cúpulas proprietárias. afirmava que "o povo alemão não foi enganado". fontes da invenção do radicalmente novo. Essa não é uma" descoberta insólita". dominação e mistificação. secundárias do Capitalismo não estejam vigentes e atuantes. mas que. hábil. a encarnam. e assim o Parque Humano se divide entre os que possuem grandes probabilidades de sobreviver. Nietzsche denomina "Vontade de Potência" e Bergson como "Realidade Virtual". com maior ou menor lucidez. os que têm poucas e o enorme contingente que não tem nenhuma. está ficando evidente o que se passou a chamar – muito discutivelmente – de "cinismo" da Pós-Modemidade Capitilista. engendrando atitudes e ações conseqüentes. da Pulsão de Morte ou do Masoquismo Primário. impensável e imprevisível. estão sendo essencialmente reformulados. referindo-se ao nazismo. Não obstante a Psicanálise queira explicar esses efeitos como expressão. É notório. segundo o que se entende por sobreviver. em proporções e clarezas variáveis. que cada um dos modos de subjetividade sente que contém cada uma dessas divisões e contraposições dentro de si. 193 ▲ . Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar os mecanismos e efeitos de suas modalidades peculiares de exploração. Os diversos estratos e segmentos da subjetividade e da sociabilidade.primárias.

em TODOS OS LUGARES E AGORA NOTAS 1 – A definição rigorosa desses conceitos para torná-los acessíveis ao tipo de leitor ao qual este texto se destina requereria um volumoso tratado à parte. "culturais". reproduzidos e antiproduzidos pela modalidade peculiar da imanência que se dá entre esses processos do Capitalismo Planetário Integrado contemporâneo. Por isso. a Igreja. interesses. "lingüísticos" ou "mediáticos". a Educação. devo advertir que muitos destes termos não são usados aqui no sentido estrito de sua bibliografia de origem. Cabe ao Movimento lnstituinte – levando-se em conta sua suposta infinita heterogeneidade interna e sua irrestrita abertura externa – inventar os recursos e as práticas que possam empurrar o Capitalismo Mundial Integralizante além de seus próprios limites. desejos. o Mercado. sujeitos. sócius. tornando-o permeável à irrupção das forças do "fora" que são capazes. Para aproximar-se do entendimento de alguns deles. práticas. Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault. a rigor nos sentimos tentados. devemos tomar consciência de que aquela dos expertse condutores do Capitalismo não é menor. incessantemente. 194 ▲ . tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade. realmente. o Trabalho. instituições. é importante entender. De qualquer maneira. Ninguém é capaz de fazer predições a médio e longo prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. éticas e estéticas são produzidos. não apenas a perguntarmo-nos – de acordo com a famosa fórmula – "Que Fazer" para transfomá-lo. "psíquicos".em nível de estrutura e dinâmica dos sujeitos edipianos especificamente considerados como objetos universais dessa disciplina. mas afeções – como dizia Espinoza – operadas em conjunto pelo tipo de maquinismo que modula prevalentemente o atravessamento dos territórios da natureza. senão antes interrogar: "Como consegue manter-se hegemônico e aparentemente próspero sem nem sequer esforçar-se demasiado em dissimular sua fragilidade e sua contraprodução?" Apesar de que a perplexidade dos pensadores críticos e gestores da troca é ostensiva. É preciso compreender que o que emerge enquanto subjetividades e sócio-institucionalidades não são efeitos específicos e pontuais de mecanismos "educacionais". pode ser consultado o Glossário deste Compêndio. agentes. Indivíduos. o Tempo Livre como subjetivados – de certo modo – e as subjetividades como "infundidas" por um Estado. Quando lemos o panorama mundial. da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina. como procurei fazê-lo nestas linhas. por exemplo. Justamente por isso é que nos resta apenas avaliar e lutar. da sociedade. o Estado. de transmutá-lo.

e involuntariamente. com benevolência. Durante este tempo. Tão fortemente acredito nisso que decidi catalogar este escrito numa simpática categoria inventada por um amigo.POST-SCRIPTUM Janeiro de 1998 A releitura do apêndice anterior. por um lado. escrito em 1995. à grave crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi-se agregando uma crise econômica de incalculáveis proporções que. em geral. segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio". contudo que esses também possam existir. assistemático. Penso que. de cem e do que tentei dizer. acredito ter sido desde o início. não é apenas – como espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos e justificantes. e até vaticinantes. os três últimos anos possam ter trazido elementos para melhor avaliar a pertinência do que se poderia qualificar. e sim um" globo de ensaios". não suficientemente fundamentado. quero conceder-me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito. por outro. A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do 195 ▲ . Não obstante. exorbitantemente amplas. às vezes pouco claro e. o filósofo brasileiro Peter Pal Pelbart. como sempre acontece. insuficiente. desgarradas e mutiladas entre as exigências pedagógicas e sintéticas do texto. Não sei se é excesso de petulância incluir-me entre esses últimos. suscitou em mim impressões contraditórias. pelo que entendo. Se me atrevo a comentá-las com os leitores. e suas pretensões analíticas. porém não pude deixar de constatar que o "pessimismo" de cada página do "Apêndice" que antecede a este post-scriptum insistia sobre esta predição. Essas páginas de 95 me parecem retorcidas. somente alguns poucos prenunciavam.

passando por todos os segmentos sociais. uma ou outra tese já postulada neste livro. 196 ▲ . mas nem sequer tem a humildade de reconhecer o estatuto de interfase do sistema caótico ordenado própria de seu "objeto". podem reduzir-se a três tipos: – Ou esse é um erro regional de modelo. Coréia do Sul e. sem ignorar diferenças nacionais. a cômica discrepância que os economistas e outros especialistas mostram quando tentam explicar esse fenômeno colossal que se iniciou com uma dimensão regional. menos drasticamente. Esta é uma realidade clamorosa. – Ou se trata de um efeito processual. o mínimo que se pode considerar é que o destino do mundo está em mãos de presunçosos incompetentes. Permito-me fazer somente alguns comentários globais que podem reafirmar. e numa dimensão mais ou menos ameaçadora. em muito. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. todos os "capitalismos emergentes". Com respeito à primeira hipótese. planejamento que implica dos povos até os governos – desde logo. Laos e. por último.. chama fortemente a atenção. Isso não implica "falha humana". Em primeiro lugar. Começamos pela admissão do FMI de que "se equivocou" na avaliação e condução desse assunto. tanlbém as grandes potências capitalistas. não cabe aqui uma análise excessivamente detalhada. substancial. entre essesexperts. até chegar aos organismos internacionais – desde logo. cálculo. – Ou essa é uma fraude de magnitude hemisférica e configuração escalonada que vai desde os produtoresconsumidores. sendo que em outra. Hong Kong.. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades.ataque especulativo à lira italiana e à libra inglesa e o outro que afetou o México – e engloba diretamente todos os "Tigres Asiáticos" – Malásia. Vamos continuar observando muitos expertsatribuírem à "falta de dados" – porque ocultados ou distorcidos por parte das economias em questão – a surpresa e a perplexidade que a catástrofe ocasionou. lndonésia. alguns atribuem o flagelo à cumulação de empréstimos enviados aos países em crise. eventualmente. Essas explicações. ou ainda à sobrevalorização de sua moeda. Ou a "todas" essas causas juntas e a muitas outras. no caso dela ser correta. Japão. ainda indefinida. tanto que está chegando ao limite de sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os investidores especulativos para que não percam seu dinheiro. essencial e inerente ao Capitalismo Planetário em via de lntegração. senão principalmente um erro radical sobre os meios de pensar a realidade. China e Taiwan. a meu ver. e assim sucessivamente. E mais: porque. inferior à da Meteorologia. Singapura. Obviamente. econômicos e políticos. A idoneidade da "Ciência Econômica" e da "Economia Política" oficial capitalista não só é. Tailândia. de outra forma. outros às suas falências bancárias ou à desenfreada especulação imobiliária que ocorreu no seu território. Filipinas.

Excepcional e/ou aparentemente. Em um certo sentido. se acertada. absolutamente em sintonia com a racionalidade ética e proposicional das leis nacionais e internacionais – as propriamente jurídicas ou as "internas" aos enunciados específicos disciplinares. tanto quanto a desonestidade dos agentes e das entidades. tampouco são exaustivas." Pelo que se refere à segunda hipótese. regulamentações. simplesmente. A lógica dessa axiomática está. resulta evidente que as duas primeiras podem ser perfeitamente incluídas na última. científicos ou não. não esgotam o repertório de riscos que caracterizam as subjetividades capitalistas. às vezes incondicional – da Axiomática do Capital. lem brar leitores. FH. da qual a ordem jurídica imperante é uma engrenagem perfeitamente coerente (vide a plena vigência do Direito Positivo). assim como as três não são excludentes.. respondeu: "Só Deus sabe. ou de aproveitar os limites de seu império e de suas falhas intersticiais para pô-la à serviço – às vezes condicional. em última instância. direitos fundamentais ou reais" da formação da soberania em questão. O que mais nos deixa pasmos e surpresos no espectro das mesmas é o cinismo. Cardoso. Não se trata. especificações. Fica aberto o tema da qualidade e gradualidade de imputabilidade de cada um dos envolvidos e do acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja-se mais adiante). porém. uma vez que não precisa aos ser demonstrado porque já o foi durante um século – que a sábia ignorância dos experts. é preciso apenas definir.. "Direitos Humanos" que concretamente podem ou não podem ser cumpridos dentro do que se chama hipocritamente" condições constitutivas. de desconhecimento.por estúpidos e ladrões que os agentes-sujeitos individuais e coletivos do Capitalismo assumem os lugares. nem som entede uma tendência delituosa de transgredir ignorara Lei – qualquer que seja a Lei da qual estamos falando. ao qual já nos referimos reiteradamente. mas não som ente. Os célebres conceitos e a análise foucaultianos acerca do atravessamento entre os enunciados – as dizibilidades – e aquilo que o autor 197 ▲ . ou como leis maiores formais. é claro.O erudito "Científico-Presidente" do Brasil. ou como leis menores – decretos. trata-se de cumprir ao pé da letra as leis vigentes. as leis se contrapôem a essa Lógica. em que consiste este risco. ou especialmente se nos referimos a uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei". E também. solicitado a opinar acerca das conseqüências da crise para a economia do Brasil. foi feliz e sincero quando. Se a terceira hipótese está correta – e isso tenho afirmado constantemente nesse modesto e elementar livro-. Está comprovado – e isso é o que tenho procurado. temos que assumir que o destino da humanidade este) nas mãos de delinqüentes. pelo menos parcialmente. as funçôes e as práticas segundo os quais a lógica da Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona. com a qual os psicanalistas e outros teóricos enchem a boca. normas.

o que é mais astuto. estão destinadas a desorganizar. como Jean Baudrillard. Ao menos numa vertente dominante de sua essência. sem considerar os seus defeitos. visando produzir as condições mínimas nas quais essa última possa subsistir – e encontrando viabilidade. como as "menores". mitigar ou amenizar os efeitos fundantes da Lógica do Capital – expresse. em sua maioria. e como tais são admiráveis. aos quais atribuem todos os méritos da Modernidade – que. e o diagram a. pois não se conhece outra-. especialmente aquelas que se consideram concessões – geralmente tão inevitáveis quanto mínimas. da imprensa livre e da competição liberal e neoliberal. os neo-arcaísmos e o terrorismo. não deve enganar ninguém. supostamente apoiado por uma "realidade" que o panorama da Axiomática do Capital delimita e modula. Os segundos prescrevem" uma quantidade maior" da mesma Lógica do Estado. Que o lado "progressista" dessas leis – tanto as "maiores". não são nada mais que estratégias. essas montagens dão conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo "moralismo" à Ordem Capitalista Constituída. sempre considerados irrealizáveis. Um exemplo ilustrativo a esse respeito são as contendas entre os partidários neoliberais do "Livre Mercado" e os defensores da "Regulação Estatal". Principalmente não deve tranqüilizar ninguém acerca da perfeição do modo econômico e de seus rebrjmes – jurídico-políticosubjetivo e outros. o resultado de heróicas e cruentas lutas da humanidade. garantindo sua reprodução simples e ampliada tanto em seus aspectos econômicos como em todos os outros que já mencionamos. sempre foi consubstancial ao Capitalismo. que começou muito antes daquela do Capital. obviamente. Outro caso ilustrativo é a luta da economia de mercado e democracias representativas contra as "massas ausentes". puramente nominais. O mérito relativo do pensamento de alguns autores. Em sua essência. bem distantes dos "ideais". está na virtude de chamar a atenção – apesar de que unilateral e exagerada – sobre a estratégia de resistência nãoconsumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização. imanentes ao jogo de forças de uma formação histórica (por um lado). Os primeiros fazem uma apologia do individualismo. crescer –. desmobilizar. complexo de forças informais (por outro) – dão conta admiravelmente de alsrumas das maneiras com as quais as funções reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema. fragmentar e recapturar as forças críticas e metamórficas. possibilitou o seu começo e ainda lhe é imprescindível. ou ainda.chama visibilidades – os dispositivos do poder. omissa e passiva" 198 ▲ . Essas concessões são invariavelmente tardias e de aplicação sujeita ao horizonte do "possível". a implicá-las em dispositivos nos quais a modalidade organizativa e os objetos a serem conquistados resultam relativamente irrelevantes e/ou absorvíveis pelo Capital. de Entre vários requisitos. que resultam operantes somente para matizar.

das massas. A imanência entre as potências e processos de desterritolialização e reterritorialização capitalistas movimenta-se sem cessar. expressões de singularidades intensivas –. apesar de apresentarem uma triste originalidade. que vão desde o preciso até o indecidível. Veja-se. conexões disjuntivas inclusas. porém acidentais. como se diz pitorescamente falando. com uma velocidade que passa de geométrica para exponencial. heteróclito e bizarro de colisões. e muito menos estática. vejam-se os memoráveis capítulos da "Revolução 199 ▲ . É claro que espero e desejo fervorosamen te ser explícito dizendo isso. Perante essa constelação. a ferocidade das contraposições recentes e suas conseqÜências entre o Capital Financeiro "apátrida" volátil. "Todas" as Máquinas de Guerra e as Linhas de Fuga simultaneamente econômicas. dominados e mistificados" comprem a briga". do Capital ou da chamada Sociedade Civil (a esse respeito. Não somente ao nível das contradições antagônicas e agônicas do que Deleuze e Guattari chamam de "Superfície de Registro e Controle" composta por territórios. habilmente engenhada para propor e propiciar contendas. suas transversalidades. Assim. o Industrial e o Latifundiário – tanto nos domínios "globais" como nos regionais. artísticas. senão. isto é. científicas. sinérgicas e potencializantes. filosóficas. sem a menor intenção de desvalorizar nenhuma forma de luta tradicional ou nova que as forças da Vida vão inventando. apenas descritivamente. instituições. políticas." entrem numa provocação desviante". Mas "ninguém morreu de contradições". devido tanto às resistências que minam o processo de suas façanhas quanto à dureza de suas vicissitudes. o mundo atual é um poliverso vertiginoso. seu entusiasmo e sua alegria – como dizia Espinoza – foram. Essas estratégias. heterogêneo. não deixam de ser uma resposta cega às manobras orquestradas pela Máquina Abstrata do Capital. complementada pela irracionalidade monstruosa. como infinitos agenciamentos e acontecimentos no seu combate contra as equações variáveis de reprodução e antiprodução do Capital. locais. segmentos. Diante de tudo isso. e mais enfaticamente. mas que têm aprendido a viver em crise e da crise. nacionais. de maneira que os explorados. proteiforme. "absurda" e intempestiva dos fundamentalismos e do terrorismo. idiossincrásicas – na medida em que são individuações. são e serão "o sal da terra". da seguinte maneira: Os militantes e pensadores instituintes contemporâneos passam por divergências e discussões dilemáticas – que freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de se a luta deve dar-se a partir de dentro ou de fora das organizações do Estado. As preocupações dos militantes acerca do grau de capacidade de recuperação que o Capital exerce sobre as mesmas geralmente não são mais do que hesitações compreensíveis. o pouco que proponho enfatizar aqui pode se resumir. não é pleonástico repetir que o processo do Capital não constitui uma unidade monolítica. jurídicas. organizações. creio eu. agentes dotados de uma identidade mais ou menos precisa e circunscrita. heteromorfo.

tinha sérias dificuldades para entender tanto o conceito da tendência à diminuição da taxa de extração da mais-valia quanto a contestação que os economistas positivistas faziam a essa teoria. bastante afetados por essa debacle setorial insuspeita. entre outras razões porque insiste em enfatizar-se como intensiva. Guattari. Também Alemanha. empenham-se em reivindicar que.Molecular" de F. existem inumeráveis posições intermediárias que dão espaço a quantas vontades de transformação seja possível imaginarassim como às melhores delas. não faz senão demonstrar o uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política – em grotesco contraste com suas declarações neoliberais de "livre-mercado" e de democracia. Em conseqüência disso. O argumento principal. se me lembro bem. Contudo. apesar de que isso não o exonere inteiramente das conseqüências imediatas da crise. déficit interno e externo. Canadá. reiterarei que no momento a mesma tem respeitado. Em função do que foi exposto acerca da crise presente. Itália e Espanha mantêm-se relativamente estáveis. França e Reino Unido. se me permitem uma digressão. antes de concluir com uma nova tentativa de síntese. Outro desses dilemasé o já célebre que se trava entre os "reformistas" e os poucos "revolucionários" que ainda sobraram – seja como for que se defina revolução. que consegue manter-se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia. apesar de tudo. de forma aceitável. Lembrarei também que alguns adora dores do neoliberalismo. inviável quanto à operacionalização. confundindo singularidade com isolamento. Rememoro que em minha juventude. ubiqüidade com fragmentação dispersiva. mesmo que todos os países enumerados apresentem altíssimos índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal-. porém. que são as que escapam a toda imaginação. e por ser uma hipótese de "alto nível". reforçar que a reivindicação idiossincrásica nunca acaba de propagar-se como uma onda extensiva. por isso carecia de sentido epistemológico.No espectro que vai do pólo dos" apocalípticos". por um lado. Cabe. baseava-se na tese de que tal indicador era in1possível de ser medido empiricamente. o modo capitalista e seu Sistema 200 ▲ . os de "O Estado e o Inconsciente" de René Loureau e até alguns capítulos deste livro). O crescimento de quase 4% de sua economia em 97 e o decréscimo de seus índices de desemprego. verificação e falseamento. quando estudava a crítica marxista da Economia Política. aos "integrados" – bem intencionados – por outro. assim como de seu principal aparato bélico-repressivo: os EUA. discretos indicndores de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva. acrescentarei quanto segue. somente a nação que continua sendo o assento das maiores sedes centrais do Capital mundial. linha de fuga com evasão. tanto os movimentos chamados "Alternativos" quanto a Esquerda tradicional parecem perder de vista os macro-indicadores inequívocos da deterioração do "todo" capitalista.

como Coréia e Vietnã. mesnlO que uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à geração de força de trabalho cnpacitada e eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre. sustentam que apesar da instabilidade persistente. Alemanha. nas falências atuais. Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é. a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda de falências. Por último: como não requerer (apenas porque não sei se isso já foi feito) um levantamento cuidadoso e verídico dos coeficientes de concentração de riquezas que têm sido realizados e perpetrados nesses países. em primeiro lugar. Ironizam. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam". Essa afirmação adquire relevância pelo contraste com a decadência dos países do ex-bloco do Socialismo real. pelo fato de serem aliados dos países centrais nas guerras anticomunistas.. e teve uma base de lançamento nada depreciável. torna-se importante esclarecer que. Ora: que Economia Mundial é essa que entra em pânico por um "acidente" que afeta apenas 7% de sua produtividade anual? O verdadeiro pavor não consistirá de fato em que uma das suas derivações pode ser a estrepitosa baixa de preços dos produtos asiáticos (dum ping) o perigo iminente de benefício dos consumidores e prejuízo dos e inversores? A quais maldades políticas terá que se apelar para evitar essa presuntiva "injusta" festa dos compradores? Com certeza não será "democrática" nem "livre-empresista". a fuga desse Capital acumulado. Outros têm manifestado que. a parte do Produto Bruto Mundial correspondente aos países estremecidos pelo "sismo" alcança somente 6 ou 7% do total mundial. Em segundo lugar. Afinal. o qual. A iminência da segunda Guerra do Golfo e da terceira Mundial não é apenas hipótese de ficção científica.. como é notório. como se 201 ▲ . assim. ao final.Democrático Nominal conseguiram. está em pleno declínio. por exemplo. que não precisamos nos preocupar demasiado com as falências generalizadas. os mecanismos de "contágio" sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa.é apropriado pontuar que boa parte do desenvolvimento dos "Tigres Asiáticos" processou-se sob governos ditatoriais e autoritários. Diante dessas afirmações. De outro lado. porque assim a economia mundial se corrige e ajusta". desde a Segunda Guerra Mundial até hoje. Japão e Itália começaram seu crescimento a partir da inversão massiva do Capital "aliado" – novas versões do Plano Marshall e da 'Aliança para o Progresso" – e nas condições políticas severamen te repressivas das nações derrotadas e "ocupadas". destinado a inversões especulativas em outros mercados mais lucrativos e/ou estáveis? Alguns famosos economistas acabam de declarar. o milagre inédito de reduzir em quase 50% a pobreza asiática.moratórias e outros flagelos. "é bom que as coisas se precipitem.

Quanto custará ao povo desses países "novos ricos" quebrados a hipoteca dos anos vindouros. não é apaixonante que a Suíça – país que deve uma parte indefinida de sua prosperidade aos depósitos bancários de boa parte dos capitais "espúrios" do mundo: evasão tributária. "estrutural". que não é outra coisa mais que o pleno reinado universal – ostensivo. Pelo fato que já mencionamos antes dessa interessante questão da correlação inequívoca entre ética. sendo que vários dos mencionados "desenvolvimentos" capitalistas realiza ram-se duran te regimes cripto ou ostensivamente despóticos – veja-se em outro contexto geopolítico a trajetória do Chile e do Peru. subordinando à sua força quase tudo que existe como realizado no horizonte do existente. mafiosos e delinquenciais em geral – tenha um sistema político dotado de Assembléias Populares Comunitárias Cantonais?! A "plena" democracia suíça "perpetrou" um plebiscito. "em última instância". segundo o qual votouse a favor de continuar mantendo o segredo sobre suas contas bancárias. no predomínio nebuloso do Capital Financeiro mundial – completamente independente de sua base material – e sua desregulação total. por que devemos acreditar que são ou serão aptos a quantificar. que é o preço de sua futura "recuperação"? Se os experts e seus organismos têm sido incapazes de conhecer as cifras necessárias ou de elaborar os modelos e as simulações que lhes perm.itiriam predizer essa "quebradeira". Movimentos esses 202 ▲ . estridente. "liberdade" mercadológica e "liberdades" políticas e humanas. São as seguintes: por que tomar como referência comparativa e justificante das excelências liberais o Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é um tema ainda digno de muita polêmica? Por que confiar na "natural" afinidade entre Capitalismo e Democracia Nominal. não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais-valia o que não se pode mensurar!!! Como já advertiram Deleuze e Guattari. tanto as empresas nacionais e transnacionais quanto os organismos estatais e supra-estatais operacionalizaram seus "modelos" predominantemente com base em movimentos táticos de "invenções" e "sangrias". descarado – da Máquina Abstrata do Capital e sua Axiomática Suprema? O que manda é o Equivalente Geral. de forma convincente. ditatoriais. suas formas monetárias e informáhcas. incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão! Segundo me parece. narcotraficantes. A hegemonia da Axiomática do Capital consegue. às vezes.diz eufemisticamente. existem algumas outras perguntas-chave que precisamos nos fazer nessas circunstâncias. e se funda. Como explicar esse império inquestionável a não ser pelas peculiaridades da globalização. que em vão se reclama limitar jurídica e institucionalmente. sem descartá-las por serem ingênuas e menos procedentes. tanto as vantagens do caminho capitalista "eleito" quanto o montante exigido para sua recuperação? Pelo visto.

estabelecimentos. sem considerar com profundidade que a tal prosperidade é fruto da participação dessas nações na espoliação colonial e neocolonial e da inexistência de bloqueios sobre suas economias. porém.invariavelmente improvisados e incidentais. nem tampouco a "participação" na democracia direta. neoliberal. obteve índices parecidos. por bem ou por mal. equipamentos. O ceme do problema – por mais pobres e óbvias em que essas observações resultem – reside no seguinte: – Não se deve confundir a lógica dos processos que Deleuze e Guattari chamam" Produtivos. mas devem estar. Revolucionários" – que são o "motor" da Produção ou a Produção em si – com aquela dos reprodu ti vos e antiprodutivos. quaisquer que sejam as limitações. – Não se deve confundir a democracia indireta e representativa liberal. não tem muita diferença entre as variedades de Capitalismo e de Socialismo real. Dinamarca. existe o hábito de invocar o sereno bemestar da Suécia. mimetizações e vacilações estratégicas. com o embargo que dura mais de três décadas e oprimida por uma "Ditadura do Proletariado". do possível e do impossível. agentes e práticas. isto é. com a auto-análise e a auto-gestão. Finlândia e alguns ou tros países com fabulosos índices de saúde e educação. Holanda. – Não se deve confundir – mesmo levando-se em conta as singularidades históricas das citadas modalidades – a separação entre meios e fins que é própria da ética dos modos e sistemas capitalistas com a imanência entre meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte. Folgo em dizer que o incremento das forças produtivas de todos os tipos – incluídas as forças teóricas e expressivas – mostra que este enunciado 203▲ . organizações. e assim por diante. Que Cuba. Não se pode dizer que os dois segundos sejam absolutamente contraproducentes e elimináveis. social-democrata ou socialista "soft". logísticas. cuja previsibilidade e precisão brilham pela ausência e são decididamente contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda. quaisquer que sejam as modalidades históricas que os dois termos dessa diferenciação adotem. que constituem os domínios do real. com o âmbito do virtual atualizável. Noruega. os componentes territorializados. estratificados. rigorosamente subordinados ao primeiro. hierarquizados. ajuda a demonstrar que. ou ainda a "popular". Desejantes. sujeitos. semióticas. – Não se deve confundir a morfologia e a dinâmica das instituições. Como último argumento. – Não se pode esquecer jamais. táticas ou técnicas históricas de cada iniciativa produtiva-desejante-revolucionária. que nunca o "espírito" das mesmas esteve melhor resumido que na deslumbrante fórmula – " A cada um segundo suas capacidades e a todos segundo suas necessidades" . nem o saber e o poder de seus políticos profissionais e tecnoburocratas.

Vozes. Mendel. Campo Abierto. 1975. 1978. Pour. V R.pode e poderá ser formulado de infinitas novas maneiras. C. G. Petrópolis. Baremblitt. Petrópolis. Baremblitt. Presses Universitaires de France. uma variação que me ocorre para a palavra-de-ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte: ''A cada qual segundo suas capacidades de lograr que – a todos segundo suas necessidades – seja uma necessidade para todos e um desafio para cada um. Barcelona. Zahar. in: Revista Vozes n° 4. México. J. Bourdet. Saidon (org. Para terminar. tomos 1 e 2. Nueva Vision. Kankhagi e O. "EI Sociopsicoanalisis Institucional". Buenos Aires. in: "Saude loucura" nOl. "LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?". G. G. 1987. Lourau. ''Análise Institucional no Brasil". Vozes. Paris. G. apresentação e introdução. Lapassade. BuenosAires. Lourau et ill. Espaço e Tempo. R. R. Lapassade. Ed. 1977. 1973. Lancetti. n° 62-63. Ardoino (org). Amorrortu. Quehacer y Deseo". 1973. G. A. Ed. Rio de Janeiro. Buenos Aires. Cuillerm e Y. "EI Analizador y el Analista". J. Ed. Petrópolis. Francisco Alves. Tomasetta. Paris. Ed. 1989. ''Alguns elementos teoricos para pensar Ia cuestion de Ias derechos humanos y Ia violencia institucional". Organizações e Instituições". 1988. coord. Cuigon (coord. 1979. "EI Analisis lnstitucional". Ed. Hess. México. e que isso exige aplicar às definições de capacidades e de necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados. in: Rev. 'Autogestão: Uma Mudança Radical". Poder. Ed. Ed Vozes. 205▲ "Sociopsicoanalisis lnstitucional". Rio de Janeiro. "O Inconsciente Institucional". 1973. 1971. Ed. L. Falias. Rio de Janeiro. ''Análise Institucional: Teoria e Prática". Ed. Lourau et aI. 1984. 1981. São Paulo. in: "Saber. "Participacion y Autogestion". Ed. vários autores. coord. Hucitec. M. 1977. Cedisa. 'A Análise lnstitucional". 'Analisis Institucional y Socioanalisis". R. Ed.). 1976. Lapassade. Ed Nuevillmagen. Madri." 204 ▲ BIBLIOGRAFIA BÁSICA Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura: "Apresentação do Movimento Institucionalista". . "Grupos. Ed. Ed. Baremblitt. Ed. "[Analyse Institu tionnelle". A. in: "La Intervencion Institucional". Mendel. 1975. Amorrortu. G. G. Autlúer e R.).

Rolnik. Sigla XXI. Campinas. F Cua ttari. Ed. Cedisa. Ed. "Pour une autre Societé". 'As Três Ecologias". Paris. Civilização Brasileira. Buenos Aires. 1974. 1978. Ed. G. "La Entrada en Ia Vida". 'A Revolução Molecular". Ed. 1981. 1973. Paris. R. Barcelona. "La Descolonizacion dei Niíi. Ed. Papirus. Paris. "Enquete par un Psychanalyste sur Lui-Même". Barcelona. Campinas. Rio de Janeiro. Ed. 1977. 1972. "l. Ed. Deleuze e F Cuattari. Rio de Janeiro. Vozes. Lourau. Ed. F Cuattari. 1976. Ia Poli tique est en Crise". 1988. Paris. Ed. "Mil Platôs". Stock. Ed. Os textos aqui classificados são apenas os mais próximos. Cranica. Valência. São Paulo. Ed Payot. Payot. Ed. Por motivo de focalização. 1976."Psicoanalisis y TransversaJidad". Madri. Paris. "EI Manifesto de Ia Educación". Petrópolis. esgotar a lista dos possíveis.:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". Península. 1986. 1972. F Cuattilri. "La Classe lnstitu tionnelle".lmago. Ed. 1985. Fundamentos.o". G. "La Crise est Poli tique. 1986. em colaboração com R. . "La Crisis e Ias Ceneraciones". Lafon t. Francisco Alves. Paris. 1988. Payot. "Quand plus rien ne va de soi". Ed. Obras de Gérard Mendel: "La Rebelion contra el Padre". 19~O. e não pretendem. 1981. Pre-Textos. Ed. Barcelona. Ed. Barcelona. 206▲ BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA A bibliografia de consulta é vastíssima e pode ser classificada de acordo com a maior ou menor proximidade que tenha com a linha teórico-prática adotada neste livro. F Cuattari e S. F Cuattari. "On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Deleuze e F Cuattari. 1975. 1976. Paris. Obras de Georges Lapassade: "Chaves da Sociologia". "Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". Granica. 1988. R. Ed. "La Bio-Energia". Papirus. Brasiliense. Payot. 1981. Barcelona. Ed. Ed. 1977. Ed. Ed. 1972. Ed. Lafont. Ed. à psicologia organizacional e à psicologia grupal. Paris. Rio de Janeiro. em absoluto. 1975. Barcelona. 2ª ed. 'Au togestion Pedagógica". Payot. 207"54 Millions d'Inclivid us sans Appartenance" . 1977. Obras de Gilles Deleuze: "Para Ler Kant". 1983.1975. 1975. Lafont. 'Anthropologie Diffierentielle". "Micropolítica – Cartografias do Desejo". Península. R. Ed. Siglo XXI. Ariel. Ed. "Empirismo y Subjetividad". Cedisa. excluímos da literatura concernente à antipsiquiatria. Ed. Ed. "O Anti-Édipo". "O Inconsciente Maquínico". Barcelona. Madri.

Murad. 1972. Paris. Ed. 1984. "Spinoza: Filosofia PréÍctica". Forense Universitária. I. Guattari. Ed. Ed.:epi. R. 1977..1977. Anagrama.rica do Sentido". 1988. Catedra. Ed. "EI Bergsonismo". "Le Analyseur'Lip"'. Ed. 1987. Ed. "Los Equipamentos de Poder". Obras de René Lourau: "LInstituant Centre I. "EI Estado y ei Inconciente".:épi. Res. Ed. Rio de Janeiro. Des Mots Perdus. Graal. "Les Lapsus des Intellectuels". 1974. "Diálogos". Rio de Janeiro. "La Imagen-Movim. Antrophos. Ed. Ed. Muchik. "Spinoza y el Problema de Ia Expresión"."Diferença e Repetição".1977. Antrophos. Imago. "Deleuze e a Filosofia". Paris. "Nietzsche y Ia Filosofia". Paidos. 1971.. 1971. Ed. "Proust e os Signos".. Barcelona. Ed. Estuclios 1 y 2. 1975. Madri. Alençon. 1987. Rio de Janeiro. Porto. G. Perspectiva. Valência.iento". "Le Gai Savoir des Sociologues". 1983. UGE 10/18. Pre-Textos. Ed. 1974. 1976. Ed. Barcelona. 1987. "Kafka/ por uma Literatura Menor". Ed. 1990. Rio de Janeiro.19bO. Edições 70. Parnet. Ed. Barcelona. I. Ed. "Les Analyseurs de l'Église". 1975. Ed. Ed.:Institué". 1980. em colaboração com F. Paidos. Barcelona. "Lót.:epi. 208 . "Politique et Psychanalyse". "I. "Sociologue a Plein Temps". 'Autodissolusion des Avant-Gardes". Barcelona. "Pericles y Verdi". Privat. Graal. "Nietzsche". 1981. Paris. "Espinosa e os Signos". 1976. Ed. Ed. com F. Paris. 'Apresentação de Sacher Masoch". em colaboração com C. 1984.. "EI Pliegue". BuenosAires. Ed. Barcelona. 1969. Tusquets. Pre-Textos.. Kairos. 1989.idos. I. Galilée. Toulouse. Machado. UGE 10/18. Livraria Taurus Editora. 1989. Pa.:Illusion Pédagogique". 1979. Ed. Buenos Aires. Ed. 1969. Rio de Janeiro. Ed. Valência. F Fourquet e L. Lisboa/1981. São Paulo. Ed. Gill. Ed. Paris. 'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". "Foucault". Gua ttari. Ed.

J. "EI Psicoanalisis delas Organizaciones". Vasquez. A. "Organizações Modernas". A1thusser. J. 1986. Paidos. J. A. Paris. "Emergentes de una Psicologia Social Sumergida". Nevomar. Bauleo. Ed. "La Teoria de Ia Institucion y de Ia Fundación". Scherzer. 1976. Ficha de Ia Nueva Vision. Meridiens Klinscksieck. A. . F. jan. J. "Los Sistemas Sociales como Defensa contra Ia Ansiedad". Alves. Buenos Aires. P. A. in: Revista de Psicoanalisis. Hess. Buenos Aires. Guilhon Albuquerque. "Perspectives de l' Analyse Institutionnelle". Ed. Ed. Oury. Guilhon Albuquerque. Ed Busqueda Grupo Cero. Etzioni. Identificaciones". 1980. C. Ed. Ed. "Salud Mental y rrabajo". Ed. nº 1. 1980. "Introduccion a Ia Terapia Institucional". México. Buenos Aires. 1975. Castilho Pereira. "Ideologia y Aparatos Ideologicos de Estado". Ed. São Paulo. "Metáforas da Desordem". 1977. F. M. Barcelona.Obras de outros autores "Psychiatrie et Psychothérapie Institutionnelle". 1974. Madri. BuenosAires. "Psicologia de Ias Instituciones". Cuernavaca.Pedagogia dei Siglo XX". 1978. Pioneira. Paz e Terra. Ulloa. Rio de Janeiro. tomo XXVI. Bleger. Birman. 1966. "Contrainstitucion y Grupos". Ed. Ed. Matrajt. Matrajt. Grupalidad. Guilhon Albuquerque. Payot. Ed. "Psicohigiene y Psicologia Institucional". coord. 1985. Achiamé Socii. Haurion. Ed. 1980. Ed. M. de Ia Banda Oriental. Rio de Janeiro. Horme. A1thusser. 1988. Buenos Aires. Rio de Janeiro. 'A Reprodução". 1987. De Brasi. "Metáforas do Poder". Barcelona. Ed. Graal. Jaques. Ed. Oury e A. Rio de Janeiro. "Replanteo". Belo Horizonte. Passeron. J. R. M. "Nuevos Escritos". W C. A. Ed. "Instituição e Poder". Segrac. L. Ed. 1969. 1980. J. 1990. Paidos. L. 1990. J./mar. Buenos Aires. Bordieu e J. Ed. Achiamé/Socii. Rio de Janeiro. "O Adoecer Psíquico do Subproletariado". UAM. 1968. Laia. 1980. J. L Menzies y E. "Sexualidade na Instituição Asilar". Chazaud. Ed. A. F. Fundamentos. "Subjetividad. Abeledo-Perrot. 1978. coord. A. 1971. Montevidéu. C. 1976. México. 3ª ed. Paidos. Savoye e R. de Board. Ed. 1969. Siglo XXI. Paris. Buenos Aires. "Hacia una .

''A Pesquisa-Ação na Instituição Educativa". Hucitec. Revista Lo Grupal. a Sociologia. Payot. Pichon-Riviére. Rio de Janeiro. cerca de 20 números. Buenos Aires. Rio de Janeiro. coord. BuenosAires. cerca de 20 números. Altoé. R. Ed. 1984. quatro números. Paris.1978. Epi. Ed. SAI." Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui". Rio de Janeiro. Paris. Renaudot. Busqueda. Ed. A. Revista Saudeloucura. Barhier. ''As Instituições e os Discursos". da qual é livre-docente. oito números. Gregorio Baremblitt buscou sempre expandir sua atuação até as fronteiras da Medicina com a Política. cerca de 30 números. 1990. e foi-se tornando mais rico e complexo a cada momento em que o médico buscou o cruzamento da Medicina com outras áreas. Paris. 1974. Baremblitt vem traçando um longo e fecundo percurso como médico psiquiatra.209 ▲ "Infâncias Perdidas – O Cotidiano nos Internatos". Esse percurso teve início há 40 anos. Zahar. Ed. analista e interventor institucional. 1985. Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. S. a Filosofia. 210 O AUTOR Da formação em Psiquiatria à militância junto ao Movimento Instituinte Internacional. 4ª ed. E. "Sociopsicoanalisis e Institucion". Tempo Brasileiro. A. esquizoanalista. Gregorio F. Privat. professor. na Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires. Ed. São Paulo. Revista Tempo Brasileiro n° 35. Paris. Esse olhar generoso e ao mesmo tempo rigoroso sobre os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma . Ed. Nueva Vision. Revista Sociopsychanalyse. Hogar deI Libro. Ed. Periódicos. Martin. Toulouse. Fd. pesquisador. "m Proceso Grupal – Dei Psicoanalisis a Ia Psicologia Social". Ed. Revista Connexions. psicoterapeuta. esquizodramatista e escritor em diversos países da América Latina e Europa. Movido pela inquietação daqueles que não se contentam com o conforto garantido pelo reconhecimento dado aos especialistas consagrados. Lancetti. Xenon. 1989. Ed. cerca de 30 números. tomos 1 e 2. Ed. Revista Autogestions. Ed. Barcelona. a Arte e também os saberes populares.

212 . o Instituto Brasileiro de Psicanálise. Centro Editor Latinoamericano. Rio de Janeiro. Ed. Rio de Janeiro. primeira organização no mundo separada da Associação Psicanalítica Internacional por motivos políticos. Belo Horizonte. Cidade do México. Ed.ampla produção intelectual. Vozes. "Cinco Lições sobre a Transferência". "La Interpretacion de los Suenos: Una Técnica Olvidada". Petrópolis. uma das primeiras entidades do país a instituir formas de tratamento mental em sintonia com os ideais da Luta Antimanicomial. "Saber. Quehacer yDeseo". 1974. sempre ancorados em duas palavras-chave: auto-análise e autogestão. Belo Horizonte. Poder. BuenosAires. fundou. "La Cura". Buenos Aires. Instituto Félix Guattari. GraalIbrapsi. Sua atuação no campo da saúde mental inspirou outros profissionais a criarem a Fundação Gregorio Baremblitt. 1976. "El Concepto de Realidad en Psicoanalisis". culturais. Grupos e Instituições (Ibrapsi). Ed. Gregorio foi membro-fundador do grupo psicanalítico argentino denominado Plataforma. Teoria e Técnica". Socioanalisis. Ato Político". livros e jornais da América Latina e Europa. 1991. em colaboração com outros autores. Buenos Aires. em colaboração com outros autores. 1982. em Uberaba (MG). "O Inconsciente Institucional". do qual é atualmente o coordenador-geral. Matrajt. Ed. Ed. Ao se estabelecer no Brasil em 1977. Universidade Autônoma do México. "Psicoanalisis: Teoria y Practica". Hucitec. Helguero. Buenos Aires. Ed. 1980. 1988. Ed. Traduzido para o espanhol. Gregorio é autor de numerosos livros e artigos científicos e organizador de seis congressos internacionais em sua área de atuação. em colaboração comM. Este Compêndio é fruto de um grande esforço para traduzir as temáticas. no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nueva Vision. São Paulo.1971. São Paulo. Hucitec. 211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR "Introdução à Esquizoanálise". Há também numerosos prólogos e artigos publicados em revistas científicas. 1984. ''Ato Psicanalítico. 1998. Ed. Buenos Aires. Global Ground. em colaboração com outros autores. Ed. Ed. "Grupos. Busqueda. Segrac. 1972. correntes e questões do Movimento Instituinte para aqueles que estão iniciando seus estudos e ações nesse campo. "Lacantroças". "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria e Psicanálise". 1978. Ed. Traduzido para o espanhol. Ed. "Cuestionamos". mas também diversas ações nos planos de coletivos diversos: em 1970. 1987. em colaboração com outros autores. Ed. em colaboração com outros autores. e o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte.

governamentais e não-governamentais que atuam nas áreas de educação.1083 e 3221. saúde. O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (IFG-BH) também promove cursos e grupos de estudo. MG. movimentos e grupos públicos e privados. trabalho. terapeuta e institucionalista Gregorio Baremblitt.br . e está aberto a todos aqueles que compartilham de seus ideais.ifgorg. O Instituto foi criado pelo autor deste Compêndio – o professor de Psiquiatria.com. estabelecimento este que já conta mais de uma década de existência ancorada em uma orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte.hpg. Seu nome é uma homenagem ao célebre intelectual e militante francês Félix Guattari. supervisiona trabalhos técnicos e práticos. O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F. que é também a do Movimento Instituinte Internacional. psicóloga.br ou pelo site www.bh@terra.7352 (Fax). Os interessados em entrar em contato com o Instituto Félix Guattari podem fazê-lo através dos telefones (31) 3284. O Instituto desenvolve atividades de prestação de serviços em análise e intervenção de organizações. Baremblitt de Uberaba (MG). organiza eventos. conduz pesquisas. Belo Horizonte. e suas atividades têm como inspiração a Utopia Ativa que guia a obra de Gilles Deleuze e do homenageado: a Esquizoanálise. e-mail guattari.com. mas com ênfase na prática clínica. Cep 30240-010. e junto a um grupo de colegas institucionalistas. sendo todas as atividades pautadas em sua orientação. analista institucional e esquizodramatista. ecologia. 213 ▲ . políticas públicas etc.INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (MG) é uma organização não-governamental fundada no ano de 1996. justiça. edita e distribui livros e gerencia programas sociais. arte. um dos introdutores das idéias desses autores em vários países da América Latina e Europa – em parceria com Margarete Amorim. 267 – Serra. Sua sede fica na Rua Herval. O IFG-BH tem diversas parcerias com organizações nacionais e estrangeiras afins.

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