Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática

Gregorio F. Baremblitt
5ª.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992 4

SUMÁRIO 5 INTRODUÇÃO.............. 11 CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13 CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 CAPÍTULO III: As histórias..............37 CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 GLOSSÁRIO..............133 APÊNDICE..............174 POST-SCRIPTUM..............195 BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207

AGRADECIMENTOS No referente à primeira edição deste livro, o autor dá aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi uma versão. Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou inúmeras tarefas que possibilitaram sua publicação e distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com a revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor também agradece aos membros e funcionários do Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contribuições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente. O autor é grato a todos os amigos: professores universitários, pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da autogestão que colaboraram na distribuição das diversas edições deste escrito.

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Curso que. Essa vocação libertária.INTRODUÇÃO Este livro corresponde à versão escrita de um curso proferido em Belo Horizonte no decorrer de 1990. Os seis primeiros capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o curso. mas que. por sua vez. entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua aspiração a deflagrar. sua Pedagogia exige uma originalidade da qual já existem muitas tentativas. ao mesmo tempo. enquanto o último foi escrito como artigo independente. o estatuto epistemológico e jurídico absolutamente singular e a infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tarefa de ensiná-lo. Se se deseja ser coerente com os valores do Movimento. foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. ainda inédito. heterológico e polimorfo de orientações. organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. ainda está para ser produzida. 11▲ . apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais. O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo.

Ulloa. importantíssimo para o povo brasileiro. em algum momento. tem apenas o propósito de aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do Institucionalismo. um livro especial. Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar. Pavlovsky. no meu entender. Para quem decidir continuar. proferido com uma metodologia tradicional. mas. Mais informativo que formativo. Malfe. proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. começar verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta. foi inspirado pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer complexo e arriscado.Este curso. Matrajt. 12 ▲ . sejamos realistas. acredito que este livro seja estimulante. Bleger. discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para os futuros institucionalistas. a bibliografia final. Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória. De Brasi. ou. Bauleo. integrada predominantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil. Kaminsky. devo destacar as correntes latino-americanas de Pichón-Riéver. Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados.

Contudo. Agora.Capítulo I O MOVIMENTO INSTITUINTE. A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam. Eu diria que existe o que se chama de "ideais máximos" do Movimento. E é a essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora. é um conjunto de escolas. da maneira mais simples e mais didática possível. um leque de tendências. Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte. teremos ocasião de complicar as coisas. há algumas que são relativamente fáceis de se colocar. simplificá-las. Podemos chamar a isto também de 1 3▲ .. Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que. para ser entendida pelo maior número possível de pessoas. Não existe nenhuma escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte. a intenção é. pois se procura apresentar uma exposição de nível médio. predominantemente. pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. Em capítulos sucessivos.. como o nome aproximativamente indica.

os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. E o progresso trouxe uma grande complexidade. como ninguém ignora. nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de estudo e tem gerado profissionais. aplicações tecnológicas. Ou seja. capitalista ou tecnológica. Acontece. nesses últimos duzentos anos. nossa civilização. compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana. que nossa época. Além desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza. nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e de autogestão. mas que são. ou seja. apesar delas não serem nada simples. então. como veremos depois. uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil anos. resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado "progresso" em igual proporção. de fato. muito complexas. Mas em nossa civilização chamada industrial. As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar. além de se caracterizar por uma grande diversidade. por exemplo. apoiar e deflagrar nas comunidades. ou uma medieval com a nossa sociedade moderna. ter produzido uma soma de saberes que propiciou. Os mesmos podem ser enunciados através de duas palavras aparentemente simples. os processos de funcionamento social. Por exemplo. têm sido sempre muito complexos. Esse saber. de diversidade que as sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas civilizações. caracteriza-se também por.propósitos mais importantes. ou uma organização imperial. a serviço daquela instituição que representa o máximo 14 ▲ . existem disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. experts que são os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. intelectuais. ciências formais. uma organização social dita "primitiva". a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a história da humanidade. Se compararmos. uma grande complicação interna. houve um processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. o grau de complexidade. em geral. O que significam essas palavras? Depois. Esses conhecedores têmse colocado. a serviço das entidades e das forças que são dominantes em nossa sociedade. despótica.

num sentido vago. que são as organizações corporativas. ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência. Esse saber.da concentração de poder. fica relegado. sua conveniência. quase incondicionalmente. Mas noutro plano. tudo é decidido pelos experts . esses experts têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza. Então. infundado ou. com os 15 ▲ . moradia. por outro lado. de seu próprio funcionamento. nos tribunais. que é o Estado. do saber e de serviços dos experts . refiro-me aos problemas de saúde. as empresas nacionais e multinacionais etc. a partir do surgimento do saber científico e tecnológico. ou seja. elas têm perdido o controle sobre suas próprias condições de vida. criado e acumulado pelas comunidades sociais durante tantos anos de experiência vital. Toda a produção desses bens está dirigida. Essa situação. já dentro da sociedade civil. tem tido como conseqüência que os povos – em sentido amplo. sua qualidade. aos especialistas de produção de bens materiais. secundários e terciários. transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. comida. no melhor dos casos. os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado e das empresas. aos assuntos familiares. os bens que se produzem e administram nesses territórios. então. é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. do poder. aos psicológicos e subjetivos. em que os "sábios". aos assuntos próprios da religião. gerenciada por "especialistas". Cada um desses campos. Elas dependem. o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a sociedade. ou seja. colocado em segundo plano. empresariais. geral. Além disso. Junto com seu saber. em geral. E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo de ideologia. como se fosse rudimentar e inadequado. a sociedade civil – têm-se visto despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua própria vida. O mesmo acontece no plano de administração da justiça. pobre. às questões relativas ao lazer. as comunidades de cidadãos têm visto esse saber subordinado ao saber dos experts. sua quantidade. vestuário. cada um dos serviços que se prestam nessas áreas. do saber e do prestígio. de educação. dos organismos do Estado. primários. sua necessidade. insuficiente. visando a qualificá-lo como um falso conhecimento. às que atingem a comunicação de massa.

advogados. aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo" não existe. senão da força física. 16 ▲ . então. leis: tudo i sso feito por experts e administrado por eles. isto é. da força da sedução. E o que falar do exercício da força. Essas necessidades são colocadas diariamente através de demandas espontâneas. oficiais. É possível afirmar que as comunidades ou coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. não existem demandas "espontâneas". É claro que os experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os interesses das classes. o que acontece? Há um conceito básico que vamos ver depois. as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas necessidades a perdem. que também têm seus especialistas. não existem necessidades básicas "naturais". as forças armadas. muito evidente que nossos coletivos estão. mas o uso da força física está reservado a organizações como a polícia. Acontece. mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam e acham que pedem o que querem e como querem. porque todas essas outras entidades também usam da força. através da exigência de produtos e de serviços correspondentes. mas. porque ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história. assim como a demanda é modulada. como veremos. É. guardas etc. registros civis. de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que "realmente" aspiram. no sentido literal. na verdade. Então. Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo. querem e pedem o que lhes inculcam que devem necessitar. níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. delegados. na Análise Institucional e em outras escolas do Institucionalismo. que se chama demanda. precisam. despachantes. Mas ainda dentro do condicionamento histórico. a noção das necessidades é produzida. desejar e solicitar. mas particularmente na nossa. que seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e desejos citados. Mas não se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de descrever. da força da persuasão. Esse "mínimo" é gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma.

desejos e demandas. Então. a noção de suas reais necessidades. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas. Este processo de auto-análise das comunidades é simultâneo ao processo de auto-organização. têm alienado o saber acerca de sua própria vida. como protagonistas de seus problemas. se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir. interesses. Mas os experts 17 ▲ . Na medida em que essa organização é conseqüência e. ou seja: não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer-lhes quem são. quais são seus verdadeiros problemas e o que se requer para resolvê-los. o que sabem. necessidades. possam enunciar. o que devem pedir e o que podem ou não conseguir. ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de sua vida sobre a terra. Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria o primeiro deles. com precisão. ela mesma. nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem. ela também não é feita de cima para baixo. se institucionaliza. de seus desejos. compreender. mas elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. de suas demandas. em que a comunidade se articula. um deles seria a auto-análise e o outro a autogestão. de suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas limitações. não necessariamente distorcido. com sua disciplina e seus instrumentos. os coletivos têm perdido.atualmente. Essa auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque. Mal podem organizar-se para resolver seus problemas se não conseguem saber. um movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise. eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento importante e não inteiramente alienado. Eles têm perdido um certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem dispor para colocar e resolver seus problemas. Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo. o que podem. ou seja: produtivo. nem de fora. sem dúvida. adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida. ao mesmo tempo.

eventualmente. 18▲ É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. Eles poderão assim reformular. À parte dessa reinvenção de sua disciplina. ou ainda das diretivas das grandes empresas nacionais e multinacionais. Por isso. seus métodos. significa a produção de um saber. para as comunidades. Esse estatuto deve resultar de uma crítica das posições. métodos e técnicas. num trabalho feito em conjunto com essas comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz. aprendendo e ensinando seu saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. seu saber específico. da qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas. Por quê? Porque auto-análise. os experts. é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas superficial. sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de auto-análise e auto gestão dessa comunidade. Ao mesmo tempo em que são os objetivos principais das propostas instituintes. postos. suas glórias. mas profundamente conhecidos pelos leitores. os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim. hierarquias que eles têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico-políticos do Estado. dentr o dessas teorias. do . tenham algum lugar dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins.devem submeter seu saber. Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. a uma auto gestão. suas inserções sociais como profissionais a uma profunda crítica que os faça separar. de sua pertença ao bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise. quando a comunidade conseguir organizar-se. os experts poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e autoanalíticos quando forem chamados a participar. Isso permitirá que. suas técnicas. dentro dos organismos aos quais pertencem. eles são também os próprios meios para realizá-las. não podem fazê-lo nas academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. o que é produto de sua origem. Então seu saber. E só conseguirão reformulá-los numa gestão. Eles têm de reformular sua condição profissional. Para poderem efetuar essa autocrítica. Eles têm que entrar em contato direto com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando para incorporar-se a essas comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham.

São dois processos diferenciados. de suas condições de vida. a capacidade de impor a vontade de um sobre o outro. articulados. Contudo. Em todo caso. São executores. Eles têm maneiras diretas de comunicar as decisões. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades. mas eles são concomitantes. peculiaridades e capacidade de produzir. Implica apenas uma certa especialização em algumas tarefas. especificidades etc. Deverão. tanto quanto os processos auto-analíticos. elas têm que se dar condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. a resolver seus problemas. Elas têm que organizar-se em grupos de discussão. 19▲ . é evidente que o Institucionalismo.. por correias de transmissão. é difícil pensar qualquer processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa hierarquia de decisão. não equivale a privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. suas necessidades. mas não há hierarquias de poder. hierarquias. de deliberação. em assembléias. existir hierarquias. ou seja. Existem hierarquias moduladas pela potência. os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual. Mas não pode haver uma organização sem um saber. tudo o que elas descobrirem neste processo de auto-conhecimento só terá uma finalidade: a de auto-organizar-se para que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência. Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de denominações.conhecimento acerca de seus problemas. elas têm que chamar experts aliados para colaborarem. demandas etc. simultâneos. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem. quadros. porque estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas coletivamente. não pode haver um saber sem uma organização. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos. Ao mesmo tempo. são produtores de conhecimentos. Na realidade. então. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo produtivo. e também de seus recursos. elas têm que construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. Mas a existência de hierarquia não implica diferença de poder. gerências.

necessariamente. Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles um saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. já não é um saber que vai cair de cima para baixo. embora haja mil exemplos.e que todo saber envolve. circunscrita. há muitos centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou diagnosticar uma problemática altamente específica. Mas este saber é um saber coletivo. porque foi produzido dentro. as organizações de base. digamos. ou. Quem conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa prioritariamente de.5% da população. existem alguns elementos essenciais que compartilhados por todo mundo. tomógrafos computadorizados. e ambos não são homogeneamente distribuídos. Seus problemas. pelo contrário. O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa nem acaba no campo da medicina. uma vez realizados. que têm efeitos médicos. Disso todos os experts sabem. de ambições de segmentos individualistas etc. já uma delegação. o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil esteja colocada na assistência e não na prevenção. por alguns especialistas no assunto. produzido. já não é um saber produzido fora dos interesses e desejos do coletivo. quando esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa questão. e então a serviço do coletivo. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza são É - . Entretanto. têm suas causas diretas nos problemas de habitação. Então. que afeta 0. pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual. distribuído e exercitado na vida coletiva. Vou dar um típico exemplo da medicina. Acontece que o povo. principalmente se por prevenção entende se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. muitos dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. em estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas aplicações terão. um poder. O coletivo conserva um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando o seu poder com sentido instituinte-organizante. Na topografia deste saber. de fora para dentro. não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do Brasil porque a primeira coisa 20 ▲ que lhes seria respondida é que não sabem. vestuário e saneamento básico. alimentação.

Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está colocada num futuro longínquo. o que é prioritário e o que é secundário. mas isso não pode afirmar-se a priori. demonstra a capacidade de contribuir. também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo que não se exprimam em sofrimento. as comunidades das montanhas têm. para este trabalho de reformulação. o coletivo já não está desqualificado – ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. basicamente. revalorizar o saber espontâneo que elas têm sobre seus problemas. Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico. ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença. nacionais e multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses interesses. Por exemplo. Desde logo este saber também desconhece muita coisa. a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts. não devendo ser tratado como tal. Provavelmente. A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar. e não numa potência de colaboração com o coletivo. revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que preci sa? Os índios têm. porque este processo de auto-conhecimento e autogestão é interminável. as comunidades da planície têm. Como já dissemos. pode-se delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder. integrado à comunidade. Isso não descarta que possam acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder. em pé de igualdade. existiram e existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária-que o saber médico (nesse caso) e suas técnicas têm. haverá necessidade de muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se em sua plenitude. quais são as enfermidades e como devem ser tratadas. Uma vez que o expert . pelo menos.seu saber. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o que vem depois. senão em cada ato do cotidiano. todo mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos. Assim. as comunidades 21 ▲ eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente . as comunidades negras têm. que atua predominantemente a serviço de interesses estatais. Nesse caso.

para fundamentar a proposta institucionalista. O Institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. severamente contraproducentes. conceitos. a gênese conceitual refere-se ao campo das idéias. Esses processos autogestivos e auto-analíticos são. não são donos da riqueza. Por outro lado. Agora. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. enfim. em que consiste o tema aqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico -social e uma gênese conceitual. Um desses movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. Por quê? Naturalmente porque os coletivos em questão não são donos do saber. embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja Católica. categorias que têm sido produzidas pela humanidade no decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base. gostaria de referir-me à última questão. muito importante. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram. conceitos e funções: todas aquelas teorias. existem e vão existir. Mas. Nós. idéias. psicólogos etc –. Os leitores compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições altamente desfavoráveis. engenheiros. para a 22 ▲ . não são donos dos recursos que são propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes. temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação. comunicólogos. porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. e não precisam do Institucionalismo para se desenvolverem. a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos organismos e entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo. os experts – médicos. mas acho que vai complicar um pouco as coisas. Então. advogados.integrado a aspectos libertários do Cristianismo.

uma peste. de alguns espaços. nada disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. e com a qual o Institucionalismo está mais que em dívida. seja a de certas orientações do anarquismo. Elas têm aparecido muitas vezes na história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos. Ou seja. Quer dizer: há correntes. De qualquer maneira. que buscam a instalação plena da autogestão e da auto-análise. E as que hoje insistem em existir lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí-las. Provavelmente a tendência política tradicional que mais se aproxima das propostas institucionalistas. do que é impossível e do que é virtual. tanto das extremistas quanto das propostas social-democráticas. Eles as diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas. um câncer. de alguns temas de auto-análise e autogestão. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. pelos métodos. 2 3▲ . esta última afirmação que faço refere-se ao seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias. como na política. no Institucionalismo.organização do sistema. porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a definição de problemas. a colocaçã o dos limites do que é possível. e pelo grau de realização com o qual se conformam. Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas auto-analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. Mas isso não quer dizer que não sejam possíveis ou inventáveis. tentam recuperá-las. existem correntes reformistas e existem correntes ultra-revolucionárias. Eles são atingidos sempre na base da tentativa. E quando não conseguem eliminá-las. a invenção de soluções. do ensaio. o que normalmente é feito pelas instituições. Então. incorporá-las. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos. da procura. escolas" maximalistas". Não há nada que seja mais temido e mais odiado pelo sistema social. organizações e saberes de grupos e outros segmentos dominantes. Isso faz com que os objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos nunca de forma definitiva.

uma disciplina ou uma tecnologia? 2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos e grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber".PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência. as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações. e por que se diz que as ciências. ou é a oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 5) O que significa auto-análise e autogestão? 24 ▲ .

um tecido de instituições. assim corno o . afirma que a sociedade é uma rede. quando não estão enunciadas de maneira manifesta. podem ser normas e. e o que não deve ser. as normas e os códigos também. segundo a forma e o grau de formalização que adotem.Capítulo II SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES O Institucionalismo. As leis. O Institucionalismo. sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola para escola. o que está proscrito. E que são as instituições? As instituições são lógicas. normas e costumes são objetificações de valores. são árvores de composições lógicas que. isto é. só que eles são transmitidos verbal ou praticamente. caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela. em geral. esclarecendo 25▲ o que deve ser. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos. a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o devir da Sociedade no tempo. Alguns autores sustentam que leis. O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana. não figurando em nenhum documento. podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. o que está prescrito. podem ser leis. estão escritas. à sua maneira. tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do que é a História.

urna gramática é urna instituição que explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens. consideradas gramaticais ou agramaticais. de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. essa divisão vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder. não estarão estipulados também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua. assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica. Um exemplo de urna instituição: a instituição da' linguagem. nora. Mas. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em termos gramaticais. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano. e é curioso que os institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. pelo menos dentro desse universo humano em particular. É claro que. que é o que acontece em outros tipos de instituição. de unidades de significação na linguagem. filho. no caso da língua. Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco. entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo. regula a relação de parentesco e tem prescrições – o que é indicado. que característica de vínculo. Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. no final das contas. 26 ▲ .que é indiferente. Com a combinação desses elementos. conforme indicado por essas leis. as que definem os lugares tais corno: pai. esses corpos discriminativos. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da divisão do trabalho humano. Essas lógicas. genro etc. são vários. de normas que regem a combinatória de elementos fônicos. formalizado ou não. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). mãe. por outro lado. Isso também é um código que. Então. de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte dessa língua. os prescritos ou os proscritos. corno se pode ver. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis. e também proscrições – o que é proibido. pode construir-se um infinito número de mensagens. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa classificação podem se dar uniões.

então. Ministério da Justiça. As organizações. E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que são as organizações. vultoso) está composta de unidades menores. Em um plano formal. as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções que as instituições distribuem e enunciam. isto é. como. como insisti. urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens. as instituições não teriam vida. Ou seja. normas e pautas que prescrevem corno se deve socializar. as instituições têm de realizar-se. Há também as instituições da educação. Para vigorar. uma fábrica. para cumprir sua função de regulação da vida humana. pelas instituições. divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros.prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm esses lugares (divisão social). uma loja. não teriam direção se não estivessem informadas como estão. um quartel. por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. Mas. costuma ser um complexo grande. têm de "materializar-se". mas com respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de comportamentos contra-indicados. não teriam objetivo. instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa integrar-se à mesma com suas características efetivas. um banco. Agora. Por exemplo: trabalho manual e intelectual. um convento. Ternos também as instituições de justiça. que é a que regula as relações do homem com a divindade. entendidas assim. as instituições são entidades abstratas. urna organização (que. pelo menos. feminino e masculino etc. Isto é. Há diversos tipos de . Estabelecimentos seriam as escolas. são formas materiais muito variadas que compreendem desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação. do campo e da cidade. há algumas que são muito 27 ▲ características. assalariados e autônomos. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las todas. – até um pequeno estabelecimento. aquelas leis. Ministério da Fazenda etc. Mas as organizações não teriam sentido. e assim por diante. Ternos também a instituição da religião. não teriam realidade social senão através das organizações. Por sua vez. por exemplo. os estabelecimentos. as instituições da administração da força.

estabelecimentos, de características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das organizações da comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não-verbais, discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de instituição às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer, por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 28 ▲

uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis. Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir historicamente ao nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações de urna instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não existem), a isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições, tem um produto, geram 29 ▲

um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados aos novos estados sociais. Tem-se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado. Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma tendência histórica a esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior felicidade, maior realização, 30 ▲

se se compreende esta oposição entre a 31 ▲ . para referir -me a isso. chamada de revolução burguesa. entre o organizante e o organizado (processo de institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis. organizações. tem-se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos. uma administração arbitrária ou deformada do que se considera saber e verdade histórica. ou seja. deve chegar a ser. em seus aspectos instituintes e organizantes. há a tendência a adquirir sempre características históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. ilusão. de dominação e de mistificação (desinformação ou engano). à exceção de algumas sociedades em particular. Assim. Essas características históricas. compartilhada. e mistificação. pode-se distinguir uma função e um funcionamento. uma orientação histórica de seus objetivos. que não é nem a única nem a melhor das utopias. muito diferentes de uma sociedade para outra. Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais nobres. e na vida humana tomada num sentido muito amplo. de consenso. que cada sociedade coloca à sua maneira. e que são chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta. sempre tem uma utopia. cada sociedade. desde que existem sociedades. que é substituída por diversas formas de mentira. Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições. sonegação de informação etc. apesar de eu estar usando. fluidas. diferentes formas de igualdade. de suas finalidades mais altas. engano. elásticas. agentes. diferentes formas de veracidade e fraternidade. Então. mas é a mais conhecida por nós. as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade.maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes entre o instituinte e o instituído. práticas. deseja. É claro que. Para poder entender essa terminologia. imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva. que é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros). de uma fase histórica para outra. ou seja. a utopia da Revolução Francesa. dominação. estabelecimentos. podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por todo mundo: são os processos de exploração.

conservadora. o funcionamento é sempre instituinte. coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a característica essencial do instituinte. Essas forças. do organizante e dos seus produtos operantes é serem propícios à produção. o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas. Só que esta função raramente se apresenta como ela é. funções a serviço da exploração. daquilo que 32 ▲ . ao passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia. é claro que é necessário. Então. A função apresenta-se deformada. desejáveis e eternas. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais". Toda instituição. o organizado. dos mistificadores. todo estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores. Agora. da dominação. estabelecimentos.. Isto é. tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a característica da função. dominação e mistificação que se apresentam nesta sociedade. ela é predominantemente reacionária. O instituído. freqüentemente. pode-se definir outros termos que temos aqui presentes. não se manifesta claramente ao nível do instituído e do organizado. provisoriamente. Acontece que.. toda organização. desejável e invariável. predominantemente. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração. justamente por causa da questão da mistificação. desejado e lógico das instituições e das organizações. agentes e práticas desempenham uma função. enquanto produtivo. esses processos. As instituições. mas em geral elas são mesmo traídas. a serviço da exploração. mostra-se como o objetivo natural. mistificação-. chamamos de Justiça. dos domina dores. organizações. disfarça da. dominação. de Igualdade e Fraternidade. recebem o nome de funcionamento. estão sempre a serviço dos objetivos que. Podem ser chamados de outra maneira. então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento. da dominação e da mistificação.utopia. da mistificação. produção que é a geração do novo. enquanto expressão apropriada. natural. é justiceiro e tende à utopia': A função. rapidamente. e se apresenta aos olhos não atentos como eterna. Ou seja. enquanto recurso operante o instituinte. os instituídos e os organizados apresentam. é sempre transformador.

de acordo com a concepção de ensino que ela tenha. uma escola também é uma fábrica. Essa é uma tentativa de enunciar o entrelaçamento. para o outro. a interpenetração que existe entre todos os instituintes e instituídos. Nós dizemos. mas sim em conjunto. Então. como entender. aquilo que não é operativo para propiciar as transformações sociais. organizante e organizado. ou seja. do revolucionário. entre todos os organizantes e organizados. vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de funções a nível organizacional. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro. Essa interpenetração ao nível do instituinte.almeja a utopia. que uma escola é um estabelecimento das organizações do ensino. Para dar apenas um exemplo. também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia. exporemos definições que são um pouco áridas. Acontece que uma escola não só alfabetiza. cada organização. os instituintes-instituídos. Para concluir. Então: instituinte e instituído. mas necessárias para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste. funcionamento e produção são a mesma coisa. mas também prepara força de trabalho (alienado). e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do organizante. organizantes-organizados que constituem a malha. uma escola. ao nível daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra. do criativo chama-se transversalidade. o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer. de perpetuar o que já existe. Para concluir. essa interpenetração ao nível da função. chama-se atravessamento. produção contra reprodução. Esta interpenetração acontece ao nível da função e ao nível do funcionamento. Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. como analisar cada instituição. não atuam separadamente. desde o outro. Por outro lado. abstratas. e o que basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições. a rede social. por exemplo. ao nível da produção e ao nível da reprodução. que por sua vez são uma realização da instituição da educação. não só educa dentro dos objetivos manifestos do organizado e do instituído. do produtivo. funcionamento contra função. e além de ensiná-los a ler e escrever. do conservador. não só instrui. Função é sinônimo de reprodução: é a tentativa de reiterar o mesmo. especialmente 33▲ . do reprodutivo. pejo outro.

através dela. interpenetrado com muitas outras organizações. para ela. produtivo. Então. a escola pode ser também. Mas. do que deve ser destruído. e ainda entre os diversos· quadros e segmentos desse mesmo estabelecimento. Então. A interpenetração a nível instituinte. por exemplo. uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os alunos. Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está. ensina formas de exercício da agressividade. também se pode dizer que uma escola é um quartel ou uma delegacia de polícia. vocês vão vendo como uma escola. por ela. ao nível do instituído. uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as correntes instituintes. do organizado. numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração.um clube estudantil. Neste sentido é que uma escola tem também um funcionamento articulado. uma frente de luta revolucionária. Então. ao nível da reprodução. gerando assim movimentos e montagens alternativos. de alguma maneira.de punições. a dominação. instituições. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas. o que a escola ensina é uma série de valores do que deve ser construído. além disso. A interpenetração ao nível da função. com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam nela. um lugar de exercício da solidariedade. está atravessada pelas outras organizações. ao nível da função. a mistificação. e ela por outras. como já vimos. 34 ▲ . tal como está. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. Essa interpenetração chama-se transversalidade. e dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração. chama-se atravessamento. e esta se define também como uma dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade. um lado organizante. um lugar de doutrinamento para a revolução. de luta sindical. Neste sentido. produtivas. da dominação e da mistificação. uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos direitos. marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. uma escola tem um lado instituinte. Mas uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento políticoescolar. chama-se transversalidade. da reprodução.

a função e o funcionamento. da produção e da transformação afirmativa e ativa da realidade (transversalidade). assim como também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da cooperação. o organizante e o organizado. ou seja. até certo ponto. a reprodução e a antiprodução? 5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 6) De que está composta a rede social? 36 ▲ . para o Institucionalismo. da plena informação. a concepção institucionalista da sociedade. as sociedades? 2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou normas ou que se manifestam em hábitos? 3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações. da liberdade. agentes e práticas? 4) O que é o instituinte e o instituído. equipamentos. a produção. dominação e mistificação (atravessamento). A sociedade é uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas funções estão a serviço da exploração. 35▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 1) O que são.Com isso temos definida. os estabelecimentos.

do instituído e do organizado. das classes dominantes. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e. não é isso. que têm recursos para resgatar e promover estes documentos. os interesses. é apenas uma versão tão interesseira. enquanto justifica as ações 37 ▲ . propriamente. que qualquer registro inclui os desejos. Agora. como meramente narrativa. Numa primeira instância. impessoal e que.Capítulo III AS HISTÓRIAS o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos. em geral. é uma versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do Estado. mas que aparece como descritiva. a rigor. neutra. historiografia é esta versão que. tão tendenciosa quanto qualquer outra. registram aquilo que lhes convém. Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos. mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva. as tendências de quem faz História. Porque a versão que se tem da História é sumamente importante. História. Naturalmente. é importante diferenciar História de Historiografia. Então. alguma noção aproximada do que é história. se apresenta como sendo objetiva. empiricamente. geralmente.

enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. da vontade. mas o passado está composto de uma série de potencialidades que o presente ativa. de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que não é o passado que engendra o presente. já foi"-. eras ou etapas. geralmente. Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História. de alguma maneira. Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar. da afetividade. Quer dizer. como se faria no fluxo de um rio. que aproveita 38 ▲ . de alguma forma. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História podem ser resumidas em poucas palavras: Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é. cronológica ou conceitualmente. ou seja. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se transcorreram todos os processos. culturais. globalizar em um tempo único. teve início em um passado. que se faz num único fluxo da História. justifica e propicia um projeto futuro para a vida social. histórias das gerações. de modo que não se pode estudar uma época como se essa época fosse um corte transversal. apenas. no século XVI. Passado e futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. obsoleto. cada um em sua duração. e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se "atrasa" em relação aos outros. que não se pode totalizar. e sim o presente que explora. todos os movimentos sociais que se deflagram. histórias raciais. no século XI. Trata-se de tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos históricos em alguns momentos. do desejo. ideológicas. ou na Idade Antiga etc.e paixões que se protagonizam no presente e. Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no presente. mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas. os processos que constituem a História são processos policronológicos. morto. Não é o passado que gera o presente. uma História que seja como uma espécie de mangueira. que se impulsionam para chegar a este porvir. mas consiste em uma localização daquilo que. que o presente ilumina. definido – "o que foi. que são localizáveis como tais. que o presente deflagra. a reconstrução do que já aconteceu e que já está. começou.

retoma na História. não é compartilhada pelo Institucionalismo. sendo que os enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade. é o inesperado. ou um final catastrófico ou apocalíptico. o tempo. O Institucionalismo diz que o que. Segundo alguns institucionalistas. tendemos a pensar a História em função de suas leis. suas órbitas. predominantemente. não é o regular. devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. cem ou qualquer número final. um final que pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva. com uma explicação claramente mecânica. suas parábolas. o imprevisível. o acontecimento. por conseguinte. Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou menos maquinais. não é o idêntico. em todo caso. sempre policronológico. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica. Então. ou do idêntico. do relógio ou do calendário. que tende a repetir-se e que.ou atualiza as potencialidades do passado para construir u m porvir. não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste. o aleatório. é o acaso. a História não é uma série de etapas fatais. ou mais ou menos determinadas. se produz. outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da História é que nós. baseada em paradigmas de ordem que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com suas trajetórias. não existe um apogeu final dos tempos. Não existe uma progressão predeterminada das etapas históricas e. que começam do zero e vão acabar em dez. Por outro lado. Não existe finalidade da História. mas que o que se repete na História é a diferença. Finalmente. O que pode ocorrer no dia-a-dia não está inteiramente predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro. isto é. e como correlato à máquina do relógio –. com este metamodelo mecanicista. cada uma das quais origina a seguinte. não é o igual. E que são estes grandes ou pequenos momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 39 ▲ . quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual. esta concepção da História que faz da diferença uma variação análoga ou semelhante do igual.

trata-se de entender como a História é não apenas uma atividade ilustrativa. que tem formas objetais ou formas discursivas. que. o propósito. dito de uma maneira simples. Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação. portanto. não de uma transformação previsível. mas está estritamente relacionada com a concepção da práxis. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do que tende a repetir-se. esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo. uma investigação erudita. absolutamente desconhecido. produzir estratégias que permitam propiciá-los novamente. é aquilo que é grande. para a partir desses ensinamentos. que só se podem separar de uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. do acontecimento. O que existe são imanências – isto é. da inovação absoluta. por assim dizer. dentro desta concepção da vida social como uma rede. os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da humanidade. da atividade político-social desejante que o Institucionalismo tem. vida do desejo inconsciente. mas da transformação em direção ao radicalmente novo e. que é o que na física se costuma chamar micro. pelo organizado e repetidos como idênticos. outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao termo molecular. em que os diversos processos são imanentes um ao outro. Então. que é evidente. e com a utopia ativa. Tentemos agora definir outros conceitos importantes. mas uma tentativa de reconstruir os grandes momentos de imprevisto. vida política. visíveis e enunciáveis.vão tentar ser capturados pelo instituído. O termo molar. A rigor funcionam sempre. vida biológica e natural. um "dentro" do outro. não é apenas um exercício acadêmico. o objetivo. com contribuições de diferentes tendências institucionalistas. Por outra parte temos o molecular. ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do inesperado. a posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros. não de uma transformação pré-figurada. Bem. incluindo-se no outro. pode se distinguir o molar. é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar explicar brevemente. Então. quer dizer. a finalidade e os recursos do Institucionalismo. a inerência. por 40 ▲ .

impensáveis.oposição a macro. O macro é o lugar da reprodução. e o micro é o lugar da eclosão constante do novo. é o lugar das conexões anárquicas. o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais. o mundo das partículas. é o lugar das entidades claras. as macromudanças. Dito com outras palavras. químico. as transformações microscópicas. técnica. o Institucionalismo pensa que as pequenas conexões locais são o lugar do instituinte. natural. o mundo atômico e subatômico. da conservação. insólitas. do instituído e do organizado. O macro é o lugar da ordem. Produção é aquilo que processa tudo que existe. as conexões circunstanciais. que é composto de grandes corpos. já tentamos reiteradamente definir e redefinir o termo produção. tomando esses ensinamentos da microfísica. Como até mesmo a física. econômico e desejante. o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. É a permanente 41 ▲ . Esta diferenciação também é importante porque. isto é. o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo previsível. da biologia molecular. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva. por oposição. ao generalizarem-se. e o micro é o lugar da produção. dito tanto no sentido físico. o macro é o lugar da regularidade e das leis. são sempre resultado de pequenas micromudanças. o detectável e consagrado. resultam nas grandes metamorfoses. é importante definir o termo antiprodução. em geral. e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as estratégias de intervenção nos âmbitos. e que os grandes poderes em vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam em espaços microscópicos de uma sociedade. dos limites precisos. o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas. político. biológico quanto no sentido social. da microbiologia. a biologia e a química descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta da dinâmica que acontece nas micro. porque espera delas efeitos à distância que. é o lugar da estabilidade. e não os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. subjetiva e socialmente. O micro. Então. nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. Finalmente. enquanto o mundo macro por excelência seria. da regularidade. Se não me engano. o cosmos. da microquímica. o universo.

de maneira que a produção. vigora a antiprodução. que só agora se está" descobrindo". é a metamorfose. Esse processo de autodestruição das forças produtivas naturais. isso se torna moda. mais ou menos premeditados. são forças singulares. de bens de troca e não de bens de uso. Um desses processos característicos é o problema ecológico. Essas são potências. ou as deixa morrer. seres. sociais. subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se antiprodução. dos genocídios coloniais. é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de destruir os produtos porque o preço caiu no mercado. da mortalidade infantil. com uma terminologia ainda religiosa. valores. Por exemplo. é o devir. elas são voltadas contra si mesmas. bens. são capturadas em grandes organismos reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista. é o que. o impedimento ou a destruição do novo. mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los. as energias não orientadas. serviços – não pode assimilá-las à lógica do sistema. É o que subjaz a grandes processos sociais como as guerras. ou as mata por meio de mecanismos mais ou menos deliberados. as forças instituintes-organizantes. elas tornam-se antiprodutivas. neocoloniais e planetários contemporâneos etc.geração. produtivas. elas se destroem a si mesmas. e que morrem não apenas por deficiência da provisão ou da organização. mas foi sempre assim. chamaríamos de criação. que a sociedade não está em condições de incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria. Então. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas de maneira muito ampla. Agora. enquanto não se cristaliza. como é o caso da marginalidade. que vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias. da tóxico-dependência. 42 ▲ . e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. pelos organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo. é o que subjaz à geração de enormes contingentes sociais que estão destinados a morrer. as matérias produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos. dos preconceitos sexuais e raciais. do alcoolismo. pelos equipamentos.

são inconscientes. e ninguém pode negá-la. não fazem parte de seu saber. mas que têm a ver com o prazer. apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina. ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes 43 ▲ . Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica. representações. hoje se sabe. Ou seja. coincidem com suas crenças. Hoje. econômicas. os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes. mas de mobilizar forças inconscientes às quais se apela. suas vontades. são tão importantes as vontades. científica-política ou econômica clássica. de mistificação ou. de seu querer deliberado. já é completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que acontece em economia. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que outra. de exploração. para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano. eles só entram nesses processos de dominação. que por mais determinados. por vontades que eles não controlam e não conhecem. as características da vida e da morte social. Em última instância. convicções acerca da vida social.Para qualquer tendência sociológica. que o "pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. políticas ou naturais que os determinam. por exemplo. e ainda mais. de algum modo. ou que se possa supor que é o político o tal determinante. em processos revolucionários. os desejos e as representações com que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais". prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. não só seus interesses. em última instância. os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens. por mais submetidos às leis econômicas e políticas que estejam os homens. se estes. em política ou sociologia – com independência do psiquismo dos homens. E não se trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária. Isso é claríssimo. isto é. isto é. sabese que as vontades. está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população. que têm a ver com o sofrimento e têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. pelo contrário. seus desejos não se encaminham nessa direção. E também não entram se suas expectativas.

Então. o grande psicanalista marxista. em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus superiores. de incalculável potência social. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais. é um anseio que tende a restaurar o narcisismo. porque se é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados. Por que os povos atuam contra seus reais interesses e vontades? Então. não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua potência. quando as forças inconscientes se ativam. depois. sem apelar para os saberes instituídos e estabelecidos. nós nos interrogamos constantemente porque. em algum momento. porque os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam.sociais. nas relações ou nas fantasias incestuosas ou parricidas do inconsciente infantil e que. que supostamente. Os povos checam seu próprio saber sobre suas condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente movimentos de imenso poderio. passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação. foi o estado em que o protosujeito esteve integralmente. Já a partir de Reich. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes. A diferença consiste em que o desejo inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar. o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo. mas eles operam as transformações sociais. porque os soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores. por ressonância ou por uma re-elaboração do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve. já se tem visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas condições de existência que não precisa. é uma tendência reprodutiva. nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. não se trata apenas de dizer que o fazem por medo. se translada para a vida social com as mesmas características. O desejo do 44 ▲ . O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários. Isso também não é novidade.

é uma força de invenção e não é uma força restauradora de estados antigos. se pode dizer. O que importa não é a produção das semelhanças ou de analogias entre os sujeitos. E podem existir analogias. É uma força que tende a criar o novo. é o acontecimento-devir que os produz. objeto de um saber que toma elementos de todos saberes existentes. entendido como o imprevisível. Então. em todas as raças etc. produzem-se sujeitos em cada acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir. mas a produção de diferenças. mas por um recalque complexo que é simultaneamente político. mas essa produção é absolutamente contingente. Ou seja. a cada momento. em todos os momentos históricos. libidinal. teria representações ou teria recursos que variariam segundo a sociedade. ou. é uma força de conexões insólitas. a singularidade de cada sujeito produzido em cada lugar. Para o Institucionalismo. a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes. Então. não existe uma estrutura. segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. familiarista. o que existe são processos de produção de subjetivação ou de subjetividade. semiótico etc. quando nessa produção predomina o instituído. sujeitos variavelmente protagonistas desse acontecimento. Só que este inconsciente não se entende exclusivamente como um inconsciente edipiano. mesmo que se aceite como sendo universal. para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal. é absolutamente própria de cada lugar. em todas as classes sociais. pré-social e pré-cultural. Também não existe uma estrutura. aos 45 ▲ . uma essência-homem.Institucionalismo é imanente à produção. de cada momento. mas também como um inconsciente pré-pessoal. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas denominações. apenas preenchido com conteúdos históricos sociais variáveis. Mas é inconsciente. O que se passa é que esse sujeito psíquico. uma essênciasujeito. um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades. podem existir semelhanças entre esses sujeitos. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um recalque psíquico. repetitivo. é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. de cada conjuntura histórica etc. Para o Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal. trata-se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são capazes de gerar transformação.

a não ser para denunciá-los. de subjetivação absolutamente original. capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar seu lugar a outras. em geral. a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas. absolutamente singular. primigênia. circunstanciais. seja capaz de gerar os "homens" (ou sujeitos) de que precisa. ele vai privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. o estabelecido. políticas. de intervenção para que cada processo produtivo desejante. Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer de cada organização. não assujeitada.se propõe "pegar" um sujeito reprodutivo que é sempre o mesmo. absolutamente contingente. com a "maquinaria de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções. em cada circunstância. em que o desejo se realiza em conexões locais. organizativas. absolutamente instituinte. processa-se não reproduzindo o instituído. e se efetua gerando o novo. 46 ▲ . o organizado. O objetivo institucionalista é criar campos de leitura. subjetividade submetida. de compreensão. não se concretiza restituindo o antigo. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada. de cada estabelecimento. pela natureza elementar deste livro. micro. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que já estão feitos. produtiva. E não vai privilegiar. todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que. com as formas de militância. aos interesses mistificantes. transitórias. revolucionária. não . eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar. circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas.interesses exploradores. Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto. Mas a discriminação que tem de ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo. Evidentemente. mas aceitar a idéia de que os novos homens se fazem a cada momento. a isto se chama produção de subjetivação livre. movimento ou proposta. e trabalhá-lo para torná-lo produtivo. não poderemos dar nesta exposição. ele adota as características de um sujeito mais ou menos universal e eterno. mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. revolucionário. porque as mesmas têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação.

costuma-se dizer que a maneira de reverter essa situação é instruir. é modificar essas representações. de convicções acerca do mundo. Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele. conscientizar acerca do potencial de prazer. Por outro lado. o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de consciência falsa ou distorcida. de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela classe dominada.Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da Psicanálise. que habitualmente se aborda com o nome de ideologia. por exemplo. Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante. que está animada pela ilusão. de crenças. mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras que estavam sendo ditas. apesar de ser contrária aos interesses da maioria.se aos interesses das classes dominantes. é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção. São crenças. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança. Ademais. os grupos e sujeitos submetem. Em muitas passagens. estudando o movimento nazista da Alemanha. pela esperança e pelo medo. e também 47 ▲ . dos grupos que procuram uma drástica transformação social. O contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço teórico algo clássico. ou seja. que são ideologias das classes. informações erradas ou manipuladas que as classes. É verdade que há uma certa definição de ideologia que a considera como uma série de representações erradas. que são ideologias conservadoras. por ignorância. positivista. talvez estivesse incorretamente informado. afirmava que o povo alemão não estava desinformado. culturalista ou estrutural-funcionalista. A intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. é educar. reacionárias. existem ideologias revolucionárias. pode ficar sincrética ou imprecisa demais. de quando falamos do inconsciente ou do desejo. é conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante. é criar outro tipo de expectativa ou vontade. Este é o caso. convicções ou expectativas e desejos conscientes. afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos dominantes. de gozo. Então.

não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um proletariado muito politizado. E, sem d úvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos, desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se consegue dominar os povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise), mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma peculiaridade do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise, o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 48 ▲

do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu rel ato restos da nomenclatura psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função que estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da castração 49 ▲

simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co-protagonizem este processo. Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento, em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os geraram em sua montagem. Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 50 ▲

51 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Que diferença existe entre História e Historiografia? 2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicossubjetivos e naturais? 3) O que significa Molar e Molecular? 4) O que se entende por produção. Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito".que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não (ou seja: no trabalho. do acaso e das regularidades na História? 6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 52 ▲ .). na saúde etc. outras correntes institucionalistas não dizem que o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação revolucionária. na educação. reprodução e antiprodução? 5) Qual é o papel da repetição e da diferença.

Na realidade. não se tratava propriamente de Psicanálise e. assim. se compreenderá que não se pode falar. a predisposição dos 53 ▲ Sé . de "espírito científico" – só pode aceitá-lo como uma metáfora. cujas "verdades" freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. O mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do pensamento corrente que. assim como a essência mesma do Movimento. Esses "vícios" do senso comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos. Bachelard tentava um trabalho epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir. em uma passagem do capítulo anterior. O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito Científico". que não me estranharia que muitos dos conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender. produzem um efeito de convicção na "mente" de quem pretende formar-se como cientista.Capítulo IV O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO Eu dizia. por estarem muito arraigados. por outro lado. em um sentido estrito.

os que existem em "estado prático" nas 54 ▲ . por exemplo. incluídos. Finalmente. mas o faz acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais. muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito". neste momento. polimorfa e complexa. Cabe aqui lembrar que. se considera que. torna-o revelador. o Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria. tem com elas uma relação contraditória. sabemos que essas palavras. cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão. o Institucionalismo procede adotando algum termo. Em outros casos. não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. por sua parte. que comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos". por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes. quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica. ou um outro melhor ainda. As diversas correntes institucionalistas. a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas. algo extremada. entendendo a singular proposta do lnstitucionalismo. ou em uma noção. devido às deficiências da formação geral e universitária da qual padecemos. ou até em uma alusão vaga. sem descartá-las."espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. em determinada conjuntura. de um questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas especificidades. No entanto. Contudo. podem empregar termos teóricos com acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado. os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. ainda durante um longo período de sua aprendizagem. Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em particular passa-se devido ao fato de que. Não ignoro que. defendendo a fertilidade de todos os saberes. ainda que invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado e do qual recebe seu valor de origem. alguns termos teóricos que as ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. Para concluir. mudam radicalmente de sentido. semanticamente falando.

Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões. como a Física. às vezes é duro. metodológicas. Estou tentando dar uma visão panorâmica geral. artísticas. técnicas. que é um composto de todos os saberes de uma época.atividades leigas. no caso de eu estar capacitado para fazê-lo. Estou tentando dar um curso introdutório de um saber que não tem limites. tendo se tornado descartável como os jogadores de futebol. entre as muitas diferenças existentes de uma para a outra. e existem diferenças teóricas. Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 55▲ . Se os profissionais. digamos. inclusive os saberes não-científicos. especialistas de alguma disciplina. queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber. desenvolver esses temas. ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais-valia. Por isso. então a formação de um institucionalista realmente é interminável. de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. pois depois de uma década já não consegue acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se. O que há como característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições. que terá de ser breve. para quem se aproxima deste estudo. chega-se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil. Imaginem vocês uma coisa como esta. desejo etc. Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista.). os artísticos. É o mínimo denominador comum que se consegue encontrar entre as várias tendências.. muito pouco aprofundada e ambiciosa. os populares. Agora. assim como por um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. levaria a outros tantos cursos. religiosas etc. mas justamente porque o são. políticas entre elas. que faz com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos. Agora. da Psicanálise (inconsciente. Não nego que algumas ampliações sejam essenciais. peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto. está a definição dada a "desejo". por exemplo). aceitar e entender a polissemia que adquirem semantemas provenientes. mas sim muitas. de certos conceitos.

como o leitor avaliará. um certo estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo. Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria predominante à colocada em muitos textos freudianos. é obrigado a elaborar. ou seja. a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância determinante. desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos psíquicos da vida organizacional. inclui uma definição restitutiva do desejo. que procura restaurar. reeditar. da área dos motores do funcionamento psíquico. as vivências. e a sublimar. ele parte de uma situação narcisística e tende a voltar a ela. da economia. que tenta reproduzi-lo. sendo que o comportamento.relativamente autônomo da realidade. em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de Castração. usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade. surge uma força que seria o desejo. particularmente em seus aspectos inconscientes. Muitos institucionalistas compartilham plenamente essa definição de . de sua tentativa de restauração desse narcisismo inicial. 56 ▲ . que são rendimentos. outras maquinarias do psiquismo. resultados dessa trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória". o desejo tem uma natureza conservadora. em que o ego e o objeto são um. ela acaba gerando todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica. dentro desse campo chamado psiquismo. embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade. que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa instância. assim definida nas organizações. em último termo. nessa trajetória. persistente. Um exemplo característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de desejo. de um sistema e de processos de caráter inconsciente que considera do campo das causas. ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho. Então. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias. A maioria delas aceita. a lei ou a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). que é o desejo. particularmente por certa ordem de representações. outros dispositivos. as representações e afetos são do campo dos efeitos deste psiquismo. Em que consiste esta definição de desejo? Seria uma força insistente. devido à sua subordinação à ordem simbólica. a existência de um espaço. No entanto. a conduta. Isso. a partir da ruptura desse estado.

os freudo-marxistas. 57 ▲ . outros setores do Institucionalismo. do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada primeira tópica. levam as proposições freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais. no qual a pulsão de vida funciona segundo o processo primário. à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso programa. Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e detalhe. muito pouco conhecida e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –. é Gerard Mendel. Estamos assistindo. que explicamos anteriormente. existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos. e com ele a imobilidade. de forma anárquica. estados permanentemente novos.da política e das organizações. No entanto. por exemplo. percebe setores da mesma em que essa definição de desejo. porque este é um problema muito atual e de muita disputa teórica. assim como a exclusividade de um modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado imaginário perdido. como por exemplo. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos. como a filosofia. unidades vitais. cada vez mais amplamente. mas propiciar. que recolhe a definição de desejo de uma forma menos ortodoxa. Então. particularmente Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise. mostra-se característica. a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo. associar. assim como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo. criador de uma corrente institucionalista chamada Sociopsicanálise. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). Entretanto. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau. mundialmente. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo. a macrofísica. processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do desejo que dela emana. não é estranho que isto se apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto.

Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança de paradigma. do histórico. uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. é imanente a outras forças animadoras do social. não podendo ser entendidas dessa maneira. na reivindicação da neguentropia. em um de seus aspectos. dita no sentido amplo. Assim. Essa mudança. que afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. Deleuze e Guattari. apesar de que Marx nunca negou que a superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente determinada pela atividade econômica. a biologia molecular e certos campos das ciências formais. Então. Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção. Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. isto é. além de tudo. na arte. consiste na promoção de certo poder criativo da desordem. de forma alguma. Por isso há uma fórmula na Esquizoanálise. do natural. as resultantes desse processo complexo não são causadas.a microfísica. que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos produtivos. inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância. na defesa da produção. Dessa maneira. em que há os alicerces e há as paredes superiores visíveis. exclusivamente pelo econômico. Marx afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício. tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que. também apoiados na literatura. constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o psiquismo. por processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra. Bom. da vitalidade. e ainda no discurso delirante. ou tendência à autopoiese. O desejo não tem caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo-revolucionário – e não é uma força separada das que animam a vida social e natural. por exemplo a matemática de Rieman. a chamada infra-estrutura determina a superestrutura. E também não seriam modificáveis 58 ▲ . que seriam a pulsão e o desejo.

de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras são superpostas ou imanentes entre si. políticas. O lnstitucionalisrno. Louis Althusser. Althusser a denominou sobredeterminação. Por exemplo. Existem outras teorias da causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas. Um de seus seguidores. mas todas elas têm em comum a insistência em não separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas. um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana. semióticos e naturais e estão ordenados em três superfícies: de produção. não é uma teoria da sociedade formada por três subconjuntos que. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade social. uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva. uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente psíquicos. mas não exclusivamente. tecnológicos. diversificado e sobredeterminado". Essa é a determinação complexa pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. políticos. para que o modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. econômicos. O determinante em última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos efeitos econômico-sociais. 59 ▲ . à medida que adota essa idéia de sobredeterminação. A instância decisória é a fundamental no processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. de maneira tal que haverá um determinante em última instância. em que ld. A instância chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção. por sua vez. mas uma sociedade reticular formada por uma grade aberta. funciona interpenetrado. formações do inconsciente etc.exclusivamente a partir do econômico. no caso de Deleuze e Guattari. e sim mediatizado por aqueles. Mas o conjunto total. de registro e de consumo. naturais etc. o sistema. formam o conjunto total. tem muito em comum com a proposta althusseriana. utilizando outro modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente intersecionados. que Althusser chama "todo complexo articulado. em alguns de seus ramos. técnicas. Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no psiquismo: atos. que em todos os modos de produção é o econômico.

As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde pequeno até amplíssimo. o primeiro a ser abordado será o conceito de campo de análise. Esses campos de análise são terrivelmente amplos. Campos de grande porte poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau. e isso dará um estudo como aquele no qual participou recentemente Guattari. porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a nível nacional continental ou planetário. que se chama "O Estado e o Inconsciente". ou o funcionamento dos programas de estudo no vestibular. as principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –. que em qualquer corrente de Institucionalismo. que é o "recorte". desde um estabelecimento até. E óbvio.Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo. ou da múltipla escolha para o processo de seleção. Isso ainda não implica necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado. implica um processo de compreensão. O máximo que se consegue delimitar são campos de análise organizacionais. para saber como funciona. concretamente. em geral. 60 ▲ . táticas. por exemplo. como estão colocadas e articuladas suas determinações. Por isso denomina-se campo de análise. nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos sujeitos a nível inconsciente. suas causas. como uma análise do significado da festa no Brasil ou uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru. Esse objeto pode estar constituído por materiais. uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de produção no curso da história. de inteligência dos determinantes desse campo. o espaço delimitado para planejar estratégias. infinitamente menor que o campo de análise. Mas podem ocorrer campos de análise infinitamente menores. também. o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". que se chama "Contratempo". Isso significa delimitar um objeto ou um campo e aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo. técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente. logísticas. Outra coisa é o campo de intervenção. muito heterogêneos – por exemplo. como se geram seus efeitos etc. É claro que o campo de intervenção é.

desde o princípio. modulada. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a expressão do desejo. Para dizê-la provisoriamente: quais são os aspectos conscientes. 61 ▲ .a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. se intervém. que essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise. a compreensão de como a organização analítica gerou esta demanda. que é um dos primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva. eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí. antes. Em geral quando os dois campos se constituem. voluntários deste pedido. ou que relação existe entre a publicidade. eles estão articulados entre si: à medida que se compreende. deliberados. manifestos. e está marcada . particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa. que também temos de tratar sinteticamente. de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta. e à medida que se intervém. De modo que para compreender a demanda de análise institucional de uma organização é necessário. geradora ou moduladora da demanda de serviços que lhe é formulada. cujos autores mais notórios são Lourau. se compreende. esmiuçar o pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. Pode-se compreender e não intervir. A isso chamam análise de demanda. A demanda não existe por si. a proposição direta ou indireta dos serviços que a organização analítica faz e que não pode não ser causante. e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. analisar. determinada. incluir a auto-análise. para fazê-lo. por esta oferta. Mas acontece que. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar. O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda. mas um campo de intervenção é impensável sem um campo de análise. a divulgação científica ou não-científica. a demanda não é o primeiro passo de um processo: ela é produzida. o Institucionalismo enfatiza a necessidade de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea. Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de Análise Institucional. em que radica a problemática desta organização solicitante. mas não se pode intervir sem alguma forma de compreensão. Só que um campo de análise é pensável sem intervenção.

vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização. Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade. também de bens materiais. chistes. delírios. além disso. e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações. A Psicanálise já classicamente. então. lapsus linguae. ela não pode estar modulada senão pela própria oferta. esta análise deve ser articulada com a forma em que foi produzida. o coletivo prestador de serviço. intervinda. Mas juntos é que vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. injustamente pouco conhecido. provavelmente. você não entende. no meu modo de ver. como sonhos. Quem demanda. demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. que é o verdadeiro objeto de análise. que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta para ser analisado. Mas é tão complexa. sintomas. concebeu o conceito de derivados do inconsciente. tão sutil. atos falhos. não são efeitos exclusivamente 62 ▲ . quando essa oferta gera uma demanda. Portanto. Isso exige por parte do coletivo analisante. ou seja. que consiste aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e. Então. mas que é muito ilustrativa. interveniente. um severo processo de auto-análise de como produzir a oferta de seus trabalhos. tem uma fórmula que não explica todas as situações.Um institucionalista muito respeitável e. não sabe em que consiste. e a organização analisada. sejam eles pontuais ou mais amplos. que ele não sabe o que é. tão técnica. Não existe aqui. o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque. formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles fenômenos. para poder dar o primeiro passo em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-. está "por trás" de toda oferta de prestação de serviços e. Entre a organização analisante. uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. com a oferta. formações do inconsciente." Essa mensagem subjaz.

Então. manifestá-la. não se privilegiam. mas pode ser um monumento. o uso do dinheiro. os regulamentos. Não são dados claramente efetuados pelo superego. os rituais. pelo menos fenomênica ou técnica. nem exclusivamente pré-conscientes. porque sabemos que em Psicanálise os comportamentos. etc. em análise institucional. da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas instâncias. São fenômenos resultantes de uma combinação. é um efeito ou fenômeno formalmente parecido com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. absolutamente. Um analisador não é assim. Isso é claro. na aparência desses fenômenos. nos questionários ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. um analisador não é necessariamente um discurso. a maneira como está organizada a memória de uma organização. Não é que em Psicanálise não o seja. E é claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional. as atitudes corporais. a forma como está elaborada a planta arquitetônica da organização. a carta de princípios. denunciá-la. efeitos transacionais ou formações transacionais. o organograma. de uma mistura. segundo uma das denominações. Os mitos. o fluxograma etc. da sexualidade. Por isso é que se chamam. ou seja. a couraça caracterológica também são considerados formações do inconsciente. pode ser uma característica dos modos de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma. os estatutos. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica.conscientes. 63 ▲ . exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito. E podem ser os relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas. pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. nem exclusivamente inconscientes. E essa é a primeira diferença. a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. os efeitos verbais. do lazer. ou seja. pode ser um arquivo. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador. pode ser um costume e não uma norma. e a. do domínio e o cuidado de si. subordinar os outros à compreensão verbal. O analisador. nem pelo ego ou o id. Por exemplo. isto é. só que a Psicanálise tem uma persistente predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações do inconsciente. Mas as diferenças são as seguintes: Primeira: na materialidade fenomênica. nem uma lei.

Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir. E existem analisadores artificiais ou construídos. sendo assumido por seus protagonistas. produto de determinados encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média. ou seja. introduzem 64 ▲ - . porque espontâneos todos são. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender. manifestar. E dessa maneira. a definição correta é dizer que são analisadores históricos. pelo menos nos seus aspectos geológicos. "Natural" quer dizer espontâneo. que também é uma má expressão. Só que esse analisador. Mas podem haver pequenos analisadores. Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção do analista). ou seja. declarar. um determinado acidente numa usina atômica (geograficamente pequeno. que a própria vida históricosocial-natural os produz por conta própria como resultado de suas determinações. como também de resolver a situação da qual ele é emergente. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu próprio processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro de certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico. Então. por exemplo. Isto não é fácil de ser explicado. ele não precisa ser analisado de fora. para começar o processo de seu próprio esclarecimento. de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade. Nesse sentido. tem a possibilidade de não apenas manifestar-se. como todo mundo sabe. Um grande analisador é a Revolução Francesa. Existem grandes analisa dores e pequenos analisadores. que são dispositivos que os analistas institucionais inventam. colocado em condições propícias. e. que foi marcar o fim do feudalismo e o início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. revolução burguesa. denunciar. realmente. Um analisador é um produto que pode se auto-analisar. a análise institucional nunca conseguiu compreender. ele predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se. não apenas é capaz de enunciar. porque analisadores naturais são os terremotos. mas também de se compreender. existem os chamados analisadores naturais – que é uma expressão inadequada. pelo menos) etc. este tipo de fenômeno. não está preparada para isso. acumulação de capital mercantil e usurário etc. evidenciar. e esses podem ser um conflito dentro da organização.

lógico. e na análise institucional a implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente. seja de tipo artístico. como está claro nas ciências físicas. se valem de todo e qualquer recurso. mas um processo de materialidade múltipla. de alguma forma. intervinda. complexa e sobredeterminada. pois é prévia a este contato. é o contrário de uma análise "objetiva". cenográfico. na equipe de análise institucional. psíquico heterogêneo por natureza. que deve ser analisado em todas as dimensões. sociológico.nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos mesmos. Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. veremos rapidamente alguns termos. experimental. ou seja. montagens de tipo propriamente científico. procedimentos de tipo ativista. A implicação se define como o processo que acontece na organização de analistas institucionais. político. Poderse-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. não começa no usuário: é recíproco. É. E não é apenas reativo. ao nível de produção de analisa dores construídos. dramático. produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana. 65 ▲ . Só que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material do paciente produz no analista. O passo seguinte será falar da análise da implicação. sendo que. os retomaremos na exposição correspondente aos itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica. a análise da interação. é simultâneo e é parte indissolúvel do processo de análise da organização. político. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica. que denominamos standard . não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com seu objeto. da interpenetração destas duas organizações. Insistiremos uma vez mais em que estas definições. Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. ou seja. Em continuação. a raiz de seu contato. uma análise variável da relação entre o sujeito e o "objeto". um processo econômico. cuja finalidade é basicamente transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento. antropológico e manobras do tipo" convivência prolongada". em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai estudar. de sua interseção com a organização analisada.

cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão. naturais. As mesmas estão armadas com sentidos diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores. a Polícia. em articulação com os quais adquirem seus significados prevalecentes. enfatizando. as Forças Armadas. assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. mais ou menos sistemáticos. maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos. De um dispositivo pode. segregacionistas ou punitivas (como por exemplo. dizer-se que é o contrário de um equipamento. do registro ou do controle social. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista chamava de "aparatos". de alguma maneira. forma etc. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento. Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia. teatro ou nas artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" sociais. de grande. além do mais. Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião. ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico. aparatos. estrutura. Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função. No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações. da Educação. estabelecimentos. a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). sempre simultâneo a sua formação e sempre 66 ▲ . O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado. que sua condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade. Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções. Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente. tecnológicos e até subjetivos. da Comunicação de massas ou a Família). Estes cumprem funções eliminatórias. médio ou pequeno porte. artificialmente extraídas dos contextos teóricos.seguramente não serão nem exaustivas nem precisas.

ele os inclui. têm a peculiaridade de nascer. os faz explodirem e os atravessa. O diagnóstico é importante para justamente instituir. assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos).a serviço da produção. magnitudes de produção. também chamados agenciamentos. dispositivos da área ou organização intervinda. linhas de fuga. conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. processos. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona. para sua montagem e funcionamento. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem. potências. da vida. Um grupo político sujeito (quer dizer. equipamentos. tais como contrato. conflitos. dinâmica. decidir os passos que comentaremos em seguida. poderes. digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou sujeitos. organizar. reprodução e antiprodução. operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. pelo contrário. mecanismos. num sentido restrito. assim. da produção e da liberdade. táticas. um pensador original e libertário. do desejo. os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações. que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário). planejar. Gera. um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo. estratégia. Nesse sentido é óbvio que os dispositivos. do novo. os territórios estabelecidos e os meios consagrados. técnicas: Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível. Por último. 67 ▲ . opositivas e antagônicas. antecipar. gerando acontecimentos insólitos. analisa dores. Um dispositivo em geral não respeita. têm a ver com a transversalidade (conceito que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e. acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura. uma obra artística. Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção. logística. o que se denomina linhas de fuga do desejo. um descobrimento científico. contradições principais e secundárias. territórios. defesas. com o instituinte-organizante. revolucionários e transformadores.

quais serão os aliados. precisam fazer acordos. de fronteiras. expectativas. A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo). quer dizer. mas com certos segmentos do mesmo. Como veremos. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. dinheiro. assim como a progressão das manobras. simplesmente. habilidades. com que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidades de realização. recursos etc. Por outro lado. mar ou ar. com os coletivos de usuários "clientes". delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. elementos. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção como serviço deflagra. contratantes. avanços. tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego. objetivos. Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças. estabelecimentos ou.) que fundamenta o contrato. promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. Trata principalmente de tempo (duração total. 68 ▲ .Os institucionalistas. é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo. simpatizantes. solidariedade militante etc. emergentes da problemática a ser pesquisada. punitiva ou de extermínio parcial. freqüência dos trabalhos). são analisadores. se essa guerra se dará por terra. retrocessos etc. Para dar um exemplo bélico. a previsão de vicissitudes. de que se dispõe ao começar uma intervenção. pactos. opções. Os diversos aspectos do contrato: tempo. serviço profissional independente. convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações. para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções. As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. alternativas. Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. honorários ou outro tipo de retribuição. totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação. dos espaços e territórios que se colocarão. A estes acordos costuma-se denominar contrato.

esclarecedores. será ditada pela inspiração e o treinamento. desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no lnstitucionalismo? 2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 4) O que é análise da implicação? 5) O que são: analisador. As técnicas. granadas etc. de sensibilização. desportivos. de expressão. logística. As táticas referem-se a batalhas circunscritas. agenciamentos artísticos. de discussão. baseados nisso. uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios. Procedimentos interpretativos. enquanto já se têm. informativos. cavalaria. prosseguindo com a metáfora. Quer dizer. assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora. convivenciais. lúdicos. No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística. sem tomá-las ao pé da letra. à área onde se desenvolvem. É interessante enfatizar drasticamente que no Institucionalismo. praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. o horário.neutros e inimigos etc. 69 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Qual é o sentido dos termos sujeito. à participação da infantaria. a eleição de técnicas é consideravelmente livre. morteiros. táticas e técnicas? 70 ▲ . a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção. estratégia geral e primeiras táticas. esboços de uma logística. os movimentos de tropas etc. objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades do coletivo em pauta. equipamento. estratégia. aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis. dispositivo.

existe uma graduação à medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. eu diria. Terei de ser muito esquemático. digamos.Capítulo V AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas. nem necessariamente as mais importantes. contar com certo conhecimento de 71▲ . Tentarei uma espécie discutível de classificação. Produz. se é que tal termo exprime alguma coisa. mais ativas. São também as mais difundidas. eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –. Então. é politicamente moderada. mas são as que mais notoriedade têm atingido. de graduação entre essas três tendências. com certos matizes diferenciais entre elas. são propostas políticas mais subversivas. que podemos tratar de caracterizar nesta exposição. políticos. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. poderíamos dizer. mais enérgicas. Em termos. assim. uma forma de abordagem das organizações e das instituições que. particularmente aqui no Brasil.

na constituição do psiquismo. com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de idade). Algumas dessas situações são altamente tensionantes. mais as correspondentes ao parto e primeira infância. Seu Superego está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de significações. Freud criou também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". de criação e de transformação. adquire contato com os grupos chamados secundários. de estudo. Então. no seu percurso e desenvolvimento. Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de movimentos e de adaptações. tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo uma das séries: a série disposicional. Em seguida. Ela se ocupa da psicopatologia com uma expectativa de cura. Tudo que acontece na vida psíquica. duas séries assim chamadas: a série disposicional e a série desencadeante. introduzindo-os nesta teoria. Essas séries denominam-se complementares. mas. A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. continuam sucessivas incursões nas atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da outra. e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. Suas representações são secundariamente recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. isto é. Nesta teoria distinguem-se. de educação. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a chamada latência. ou seja. tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries. metodologia e técnica sociopsicanalíticas. intensamente pressionantes para o 72 ▲ . o sujeito se incorpora plenamente à vida social. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias adquirem retroativamente sentidos morais. o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação. pelos sujeitos psíquicos que o geraram. Acrescente-se a isso as experiências da infância precoce. grupos de jogos.Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar isto de forma breve. grupos sociáveis no sentido amplo. A série disposicional é composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados por seus progenitores.

Elas. No entanto. de universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia em geral. constituída pelas situações da vida. elaborar – ou não – o chamado Complexo de Édipo. irrepetível. poderíamos resumir esses três 73 ▲ . atuando sobre a série disposicional – são totalmente variáveis. Outra forma de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu. e isto é que vai resultar no retorno do recalcado como sintoma. então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". Privação refere-se à falta de subsídios para necessidades biológicas. e experiências daquilo que em Psicanálise se chama castração. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre determinada série disposicional). sublimatórios. atuam em conjunto. experiências de privação. privação e castração existem diferenças. Logicamente. em sintomas. ao passo que a frustração é um desengano de amor.psiquismo. e as configurações da série desencadeante – que podem gerar patologia. atua sobre a série disposicional que o sujeito traz. são exigências diferentes. concretas. faltas diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos diferentes. Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta articulação entre a série disposicional e a série desencadeante. que constitui o núcleo central de sua série disposicional. pode efetuar-se em comportamentos ativamente adaptativos. é importante assinalar que entre frustração. arcaica. durante sua primeira infância. a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar. em geral. Essas são experiências de frustração. Ou seja. ou pode ser causante de processos patológicos. De um ponto de vista mais amplo. quando a série desencadeante atua sobre a disposicional. Se não resolver. Apesar de não podermos desenvolver agora. não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional diferente). pode resultar numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. castração refere-se a um tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo). cada sujeito é singular. Então. único. Quando a série dessas experiências. gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de fixação. sociopsicanaliticamente falando. resolver. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária. E isso resultará na doença psíquica.

tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menosvalia, exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa. Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto "pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar-se, que estabelecer uma aliança entre si para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento, 74 ▲

através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e outras formas de comunicação inter-humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar 75 ▲

a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um se tor da humanidade por outro. Isso faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de seu trabalho não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 76 ▲

E as figuras determinantes reais dessa situação atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua situação familiar. um processo regressivo. o lugar onde deve ser estudada a experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar natural" em que os homens se associam para exercer sua potência. ou seja. comercial. quando se estava construindo sua série disposicional. Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam parte dessas organizações. nos âmbitos de trabalho. médico. as vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas acontecem. adequada às circunstâncias concretas que os rodeiam. O que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas organizações de trabalho. Então. de mil maneiras diferentes. Para Mendel. o que Mendel vai afirmar é que. Só que esta regressão não deve ser pensada como sendo da ordem individual.humanidade que trabalha. não apenas trabalho industrial. E essa experiência de impotência gera neles. com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. não desfrute dos resultados deste esforço. Por isso. a regressão que se produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou psico-institucional a um outro. recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida simbólica. chamado funcionamento psico-familiar. mas da ordem coletiva. não apenas produção de bens de consumo. ou seja. ou seja. mas também produção de serviços. eles vão viver a situação de trabalho. Esta experiência de impotência gera uma regressão do psico-institucional ao psico-familiar. no sentido em que os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual já passaram. que é no lugar de produção. mas também trabalho escolar. essa experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado no capitalismo. e assim por diante. se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja). Em 77 ▲ . entendendo o trabalho num sentido muito amplo. Ou seja. é fácil ver que esses conjuntos vivenciam. a situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de retificação com o real. incidindo sobre a série disposicional de cada um deles.

delírios. e não tinham outra forma de solucionar essa situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. digamos o seguinte: Para a Análise Institucional. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas. Devido a essa regressão que mencionamos. que se tem perdido devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar. uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer dizer. o coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica. recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional. A metodologia de intervenção conserva muitas das características da intervenção psicanalítica. e não passa exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas. afinal de contas. pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise Institucional. mas coletivo.conseqüência. Dessa maneira. sós e impotentes. somatizações. Lapassade e seus companheiros – que são. enfim. desconhecendo. imaginárias. e também se refugia no mundo da fantasia. como tudo quanto constitui a patologia biopsico-social. mas exige um movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível. a proposta de Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise. inibições. com pontos de vista e postulações perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. atuações. como já dissemos. se isso está mais ou menos entendido. Este processo opera teoricamente. eles eram pequenos. É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual. em que. como sintomas. familiar. não totalizável – de 78 ▲ . chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária. Então. Tentando outra vez uma síntese. eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio. que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica e obter a compreensão da regressão que os afeta. objetivamente. sobretudo o recurso interpretativo. reagirão de uma maneira irreal e fantástica. como acontecia na sua infância. que por tratar de ser clara pode resultar empobrecedora. porque. Agora resumiremos a posição de Lourau. senão os criadores exclusivos. que estão negando. eles são os produtores da riqueza. feito em colaboração com uma equipe interveniente. para poder ter de novo um acesso ao real atual.

úteis etc. ocultam funcionamentos divergentes. e essa ausência é registrada como um não-saber. Assim consideradas. outras apenas permitidas e algumas. quer dizer. a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam. estabelecimentos. indispensáveis. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis. cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norteamericanos. tanto para o saber espontâneo de seus agentes sociais quanto para os experts que as descrevem. usuários e práticas.de negatividade consigo mesmo. algumas prescritas (indicadas). como por exemplo. atribuindo-lhes valores e decisões. uma norma universal (digamos as relações de parentesco). A Análise Institucional não é. Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição. agentes. Em palavras diferentes. como dizíamos. então. ou podem ainda operar como costumes. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de comportamentos humanos aos quais classifica e divide. contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em que. em normas escritas ou discursivamente transmitidas. um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia dar conta de todos estes 79 ▲ . que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas. ou seja. ainda que seja de maneira aberta. também tem uma relação. indiferentes. essas entidades. eficientes e em geral consideradas necessárias.instituições. As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou "corporificadas" que. podem ser: organizações. indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. uma modalidade particular do matrimônio poligâmico. segundo sua amplitude. as engloba. como hábitos não-explicitados. ainda. Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si mesma). tendese a atribuir-lhe funções inteiramente claras. Cada instituição é universal. é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais. com referência aos outros e em relação ao sistema global que as instituições integram e que. outras proscritas (proibidas).

de um desconhecimento que. ao qual se referia Mendel. da classe institucional trabalhadora. em todas as organizações. positivando de uma vez por todas o tecido social. como diria Mendel. Isto é. no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando. classicamente. porque quem é o proprietário dos meios de produção. ela considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar mercadorias (e não a gerar bens de uso). dos meios de decisão. das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. digamos assim. no caso das organizações do trabalho. uma noção do processo de trabalho. é um desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e organizações. Pelo contrário: t rata-se de uma investigação permanente.desconhecimentos. em parte. existe nas organizações. Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia. esse mesmo processo de impotência. é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. é vítima de um processo de doutrinamento ativo por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo. Por exemplo. Isso gera. do sentido da existência e uma definição da função das organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder. também é proprietário de um saber. Ela 80 ▲ . sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a negatividade operam em cada conjuntura. entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações. dos valores. E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. dos objetivos da vida. Mas. que o mesmo Marxismo não sabe decifrar. É o que o Marxismo chamava. desconhecer os principais vetores que ordenam a organização na qual está inserida. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de trabalho". em parte. devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho". a Análise Institucional parte da idéia de que. de Ideologia. É vítima. cada coletivo de uma organização está alienado no não-saber. com as classes dominantes. Esse poder é entendido como a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados. o fato. ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia de Estado. tanto nas suas bases como nos estratos que lhe são próximos.

o analisa dor "dinheiro". uma posição de maior poder. descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – Recursos Humanos. ou Relações Públicas. da tóxico-dependência. Mas os que podem delimitar-se com maior freqüência são. são acontecimentos mais ou menos explosivos. que geram essa experiência de impotência. essas contradições vão estourar em fenômenos como o do absenteísmo. arbitrariedades que as classes dominantes da organização costumavam. mas também uma série de relações humanas distorcidas. Então. Esses analisadores são muitos. o não-dito compreende a relação de não-saber que cada momento da instituição guarda com respeito ao outro e o não-saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. são vivências sofridas. brigas. solucionar drasticamente. na modernidade. por exemplo. outros são construídos pelos interventores institucionais. Em um sentido amplo. incidência do alcoolismo. de impotência. o analisador "sexo". como o da diminuição da produção. de disfunção que aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho. monstruosas. o analisador "prestígio". são lugares de atrito que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por aqueles que o produzem. São fenômenos conflitivos. Então. Então as classes e grupos dominantes. ou Psicologia Organizacional. incomunicabilidade. conflitos. Isso constitui parte do não-dito institucional. E não teria de ser assim. Mas a divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. ou Relações Humanas –. o analisador "poder". E assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz c oincidir com uma divisão social. trata-se de criar um dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos de mal-estar. desordenadas ou autodestrutivas. de conflito. que se destina a transformar toda essa problemática em uma 81 ▲ . como já dissemos anteriormente. e ainda costumam. "naturalmente". rebeldia e revolta estéril. Alguns deles são" espontâneos". com medidas disciplinares. forçosamente. de acidentes de trabalho.considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior saber dá. tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de respostas individualistas.

esses fenômenos. Então. Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do trabalho. mas nas formas peculiares que este adquire em seu caso singular. mas sem sair da lógica do sistema. na qual vão poder analisar os fenômenos de alienação de uma e de outra. tanto do não-saber das contradições da estrutura e da função do sistema. das forças revolucionárias. pode-se ver. Trata-se de criar condições para que possam. cabe 82 ▲ . como um desvio das forças críticas. das forças subversivas. a conseqüência. De modo que esse processo autogestivo e autoanalítico. E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando. é parecido com o de Mendel. eliminando as situações de burocracia. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a autogestão. de dissociação – não a diferenciação técnica. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico-Socioanálise. que é necessária-. que vai tentar deflagrar na organização intervinda. a equipe interveniente também vai integrar-se com a organização intervinda numa organização compartilhada. mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são as causadoras dessa problemática. Em todos os dois há certa semelhança. de imposição. dessa maneira. relaxando-se. e descubra a maneira como esses efeitos antiprodutivos são a expressão. mas também diferenças. vai ser ocasião de poder analisar também os seus próprios conflitos da mesma natureza. Trata-se de colocar os quadros em contato para que solucionem esse assunto conversando. O objetivo. Finalmente. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta. exaustivamente.simples questão de negociação ou comunicação. correlacionar esses analisa dores com suas causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar esses fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si mesmo. a recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo. a isso se chama "implicação". negociando ou vivenciando. ou seja.

não deixam de ser experts. auto críticas e análise da implicação. apesar da rigorosa autocrítica que exercitam. não deixam de ser técnicos. prognóstico e indicação. a demanda. como já dissemos. que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional. que são muito 83 ▲ . quando se pratica sobre uma organização circunscrita. a um sindicato. mas tem uma espécie de central em Paris. apesar de todas as ressalvas. convento. os sociopsicanalistas e os analistas institucionais. em última instância – apesar de sua franca inspiração libertária. todo um processo de diagnóstico. fábrica. e um contrato de trabalho. Isto é. ou seja. com uma conflitiva mais ou menos moderada. tratando de caracterizar algumas diferenças essenciais. tempo e demais coisas. de sua enérgica vocação revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos tradicionais. é feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo organizado. Pode-se. quando se opera no seio de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva generalizada de uma sociedade inteira. se denomina" autogestão a frio". quartel etc. científicos. que se chama Degenettes. Então. então. não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica dos experts profissionais. é geralmente um serviço apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado. ou "a quente". Além disso. na qual se discutem honorários. a uma escola. apesar de uma vocação militante que têm no seu trabalho. entre a organização solicitante e a organização solicitada. dentro de um marco mais ou menos convencional. como prestação de serviço profissional. Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. trabalha em muitos lugares do mundo. Isso gera. o requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau. trata se de uma prestação profissional de serviço. hospital. Isto é. ir até lá e solicitar seus serviços. Por exemplo: o grupo de Mendel.esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio". Isso. Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou menos generalizada.

as artísticas. necessariamente. e que não podem ser sistematizadas 84 ▲ . uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe. as econômicas. são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a alienação e propiciar. Não é necessariamente uma atividade coletiva. para cada situação. as relações com os outros e as relações conosco mesmos. Sequer implica um trabalho de um agente sobre um usuário. e protagonizado por qualquer pessoa que tenha. naturalmente. digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a de Mendel. uma relação de contratação.sofisticadas e complicadas. generalizado e ubíquo.a invenção de uma metodologia e de técnicas. para se aproximar muito mais do Anarquismo. Para ela. per se. as afetivas. Então. que não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. táticas e estratégias absolutamente singulares para cada caso. a compreensão de como as determinações alienantes do sistema. Mas que tem também um aspecto analítico. indispensavelmente. pela exploração e pela mistificação. estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais. Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. Não é. Não implica um lugar nem tempo determinado. necessariamente. as sentimentais. desempenhada por experts nem por profissionais. essa prestação de serviços convencionais. Não implica. as políticas. mas que pode ser um trabalho feito por um sujeito sobre si mesmo. ou uma maneira de viver. Eu diria que de Mendel a Deleuze e Guattari existe. mas basicamente como uma nova forma de pensar. interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a precederam. presente por toda parte. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. em qualquer momento. A Esquizoanálise pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer lugar. Propõe algo assim como um processo de análise permanente. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina. ou seja. senão que pode ser dual ou individual. Além disso. responsáveis pela dominação. um modo de ser. todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo. politicamente.

não se trata de 85 ▲ . são as mais amadurecidas de sua obra. da vida. como.nem transladadas para outra oportunidade. a concepção do desejo. a "natureza humana". mas não é um inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o não-dito e não-sabido. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta pobre: em Mendel. eletrônicas etc. mas é uma força pertencente a esse domínio. É alguma coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo. que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. na nossa opinião não se trata de filosofia. Não lhe interessa. mas para eles a questão se altera por completo. elétricas. da vida organizacional. segundo uma epistemologia clássica. Para Freud. podemos dizer que existe a "natureza ecológica". senão à do dinheiro e outras. se aceitamos que na civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas. Para Deleuze e Guattari. ele não dá muita ênfase a essa categoria e a esse conceito. do psiquismo. mas. da história. nem como uma ciência. é rigorosamente freudiana: é a que Freud dá nas formas que. Inclusive. nem como ideologia. porque eles consideram a definição freudiana do desejo. é uma doutrina. Então. uma ideologia. por exemplo. a participação do desejo. a coisa já muda radicalmente. a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica. o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo. só que essa esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes. apesar de um de seus produtores ser considerado o maior filósofo contemporâneo. por referência não apenas à instituição familiar. entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. Em Deleuze e Guattari. na versão dos autores. já forma como que uma terceira natureza. a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais. se perguntaram qual é a definição de desejo em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. não enquadrável. a "natureza social". aquela das máquinas desejantes. uma crença? A rigor. embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional. poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas. Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari. eu poderia dizer. particularmente. que pretende ser um novo gênero. como uma proposta radicalmente nova.

do real psíquico. e tenta esterilmente repetir um estado anterior –. A produção não é apenas produção mecânica social ou natural. enquanto em Deleuze e Guattari. do desejo e da diferença. no caso de Mendel. liberada de suas constrições. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles supõem. por exemplo. mas é também produção desejante. deflagrar a potência da produção. por exemplo. ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar. se tomamos o conceito freudiano de desejo – ele. Ou seja. em Mendel. do real natural e do real maquínico – é a produção. é o produzir. isoladas entre si. que é a produção já deformada pelo capitalismo. Baseando-nos nelas. como dizíamos. para eles o desejo não é restitutivo. segundo as características do processo primário. esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de desejo. Mais ou menos essas são as diferenças. de uma natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção. Para quê? Para que. é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados.domínios nem de esferas separadas. especificamente psíquico. É a mesma natureza com uma diferença de regime. o desejo é produtivo. dominá-los e utilizá-los no sentido de ganhar uma margem de poder possível. tal conceito não consegue englobar todas as formas de produção possíveis. que só precisa ser veiculada. incluída a psíquica. porque as representações não interessam tanto quanto as forças. no nível molecular. mas entre suas formas molares. Equivale a dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social. o que se tem de fazer é liberar. propiciar. a produção e o desejo são uma e a mesma coisa. o desejo é. Não a produtividade. os sujeitos possam controlá-los. uma vez interpretados. Então. digamos que. e com essa característica de gerar sempre o diferente e em todas as atividades possíveis. Para Deleuze e Guattari. é restitutivo. Ao passo que. eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção. que são imanentes entre si. a realidade está composta por 86 ▲ . para concluir. mas a produção como processo de geração constante do novo. que abrange todas as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis. vai-se gerar uma nova categoria de produção. A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo.

Também a ele pertencem as pessoas. ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo. asiáticas ou capitalistas. organismos. É o lugar das identidades e dos controles e da repressão generalizada. em condições desfavoráveis. por sua vez. quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam. os códigos. ou seja. enquanto que. desejante-produtivo. as Intensidades circulam por ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas. ou máquinas desejantes. geradoras de tudo quanto é novo. dinheiro. Na Superfície de Registro. a do RegistroControle_e a do ConsumoConsumação. Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante-revolucionários gerados por encontros ao acaso das intensidades. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção = Libido. O nível de funcionamento da Superfície de Produção é submicroscópico ou molecular. O Corpo sem Órgãos assim povoado se transforma numa Nova Terra. empresas. Em si mesmo o Corpo sem Órgãos é o grau zero de Intensidades. são capazes de desestruturar os estratos e territórios da Superfície de Registro. representações e estruturas edipianas). compõe-se de matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. do Déspota ou do Capital-Dinheiro. o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídosórganizados: Estado. integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas Máquinas Desejantes. Superfície de Consumo = Voluptas. pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e levar à morte ou à demência. segundo se trate das formações primitivas. será respectivamente o Corpo da Terra. O Corpo sem Órgãos torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que. bancos. A Superfície de Produção está.três superfícies imanentes entre si: a da Produção. 87 ▲ . os sujeitos. A este nível cristalizam-se em territórios. sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. Superfície de Registro = Númen. os indivíduos. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia. Igreja. mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário.

apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria torna impossível defini-los em detalhe. sugiro consultar o glossário deste livro.propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em novidades radicais. Para tentar enriquecer um pouco essas definições. um pólo paranóide (capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário). 88 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 4) Qual ê a relação entre estas três tendências. Como se vê. assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo? 89 ▲ . Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular.

seguramente. passado ou futuro. no entanto. a mais corriqueira. Mas 90 ▲ . será muito incompleta e esquemática – de algumas formas diferentes de intervenção. Esse tema pode ser abstrato ou concreto. mencionar algumas delas. metodológica e tecnicamente. pode ser contemporâneo. porque quando não fica claro. pelo menos. permanece nas pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste tipo de serviço. é evidente que o campo de análise consiste apenas num espaço conceitual ou nocional. é um tema do qual o institucionalista quer se ocupar. eu gostaria de fazer uma breve classificação – que. Então eu gostaria de. pois me parece que. Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de um campo de análise e um campo de intervenção. isto é. Em outras palavras. E pode ser muito vasto ou mais restrito. a mais conspícua. a mais habitual. Antes de começar. é uma questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos.Capítulo VI ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard. É um assunto importante.

pode-se escolher como campo concreto de intervenção uma fábrica. que é interna à organização na qual se vai intervir. É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo. isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente histórico-social. fabril. do departamento de Recursos Humanos de uma empresa. Ou seja. na condição de sociedade cientifica – uma sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos. mas não se pode intervir sem entender. no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica. por exemplo. porque se pode entender sem intervir. Partindo. pressupõe um campo de análise. em termos empíricos. É o famoso caso. embora durante a intervenção iremos entendendo cada vez mais. habituais. Agora. Aliás.é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica necessariamen te uma intervenção técnica. envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar entendê-lo . uma indústria. por exemplo. que tem de fazer uma intervenção dentro de sua empresa mesma. o campo de intervenção. digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. 91 ▲ . um departamento de Análise lnstitucional numa universidade. O campo de análise pode não coincidir. com o campo de intervenção. e resolver estudar o processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil. tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas. é o exercício oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados. por exemplo. Mas pode-se delimitar um campo de análise que não compreenda unicamente o entendimento dessa fábrica. dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção. Uma modalidade de intervenção – aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard . é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade. dentro do panorama social. pois. convencionais. escolhida como campo de intervenção. como já foi dito. um instituto de Análise Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma microempresa. para poder saber como funciona essa organização concreta. Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que integra.

esse sindicato ou esse partido político pede a seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor. Por exemplo. Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com esta anterior. de um morador numa associação de bairro. convive dessa forma e. por exemplo. em um espaço da vida e da atividade partidária. mas que não seja o de institucionalista. Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre. em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico". vive dessa maneira. que consiste numa variação dessa última possibilidade.ou um departamento de acompan hamento institucional de urna universidade. sem explicitar essa condição. com os companheiros. pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais. então. e o faz sob um rótulo. pratica o Institucionalismo com sua mulher. nem é solicitado corno tal. tendo assimilado princípios teóricos. Mas. nem se infiltra sob outra condição não formal. isto é. é um próximo que. tem institucionalistas que são militantes formais. Urna variação que parece a menos comprometida e. sem dúvida. é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo na convivência cotidiana. trabalho esse que pode ser ou não pago. Então. É o caso. com os adversários. dentro de seu papel de morador. é o caso de um sindicato ou de um partido político que. com os filhos. em todo caso. contanto que seja considerado corno parte da vida militante. mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. é um acordo muito definido. nos seus quadros. em que ninguém sabe que seja institucionalista. em um segmento. que acabamos de expor. mas que. formas técnicas de operar. opera corno institucionalista. na condição de qualquer outra coisa que faça parte dos papéis formais existentes nessa organização. Em outras 92 ▲ à . e ele é procurado nesta condição. mas simplesmente é um "cristão". ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas. qual ele pode pertencer organicamente ou não. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista. Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização. em urna frente. limitado.

palavras: é a quele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis, o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode levá-los a adotar uma atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso; não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 93 ▲

complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... " O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, devese ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de operar, corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos diziam: calcanharplanta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê-lo ... O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 94 ▲

atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é . "naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo. Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 95 ▲

Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se demonstrado eficazes. Há uma piada famosa que se passa num forte militar. todo o meu poder social e todo o meu prestígio através disso que eu faço. Então não tenho culpa de nada. certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 96 ▲ . cada profissão. E o que acontece é que cada especialidade. ou sefa. É um forte americano. o vigia sobe. é estar próximos. porque estão vindo todos juntos. em princípio. os índios estão vindo. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócioeconômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora. Então. o mais que conseguimos. convencido de que o problema é nosso: de cada um.análise da implicação. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são totalmente produzidas. Mas há uma que temos de revelar. Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui porque excede nossos propósitos. tem com sua tarefa. um ao lado do outro. devem ser amigos. A divisão em especialidades. em território índio. mas não freqüentemente. e eu gostaria de descrevê-la de maneira pitoresca. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição profissional estão estruturados para isso. vêm correndo. consciente ou não. Além disso. Então. para que seja mais lembrada pelos leitores. Um oficial pede a um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não.. profissões. pode ser uma desonestidade. para encarar qualquer problema da realidade e estar. Vivo disso. e muitas vezes é.. sou profissional. numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro.. Eu sou especialista em saúde." O oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe. São muitos. acha que os problemas da realidade são problemas de seu campo. do profissional. só existe dentro da classe ou da equipe. mas não nos usuários. ela começa pela análise da implicação existente na oferta. na produção da demanda. ter presente. " Se a gente se lembra desta piada. Se alguém me consulta por um problema de saúde. do especialista. às vezes. Mas a realidade vem junta e nós não estamos juntos. olha e diz: "Sim. um senhor ou uma organização vem consultar-nos sobre um problema de saúde.. fica mais fácil lembrar que a realidade com que trabalhamos vem toda junta. Isso não é maldade dos agentes.

. quantos cientistas vocês conhecem que. o que foi que fizemos nós sem dar-nos conta. o que 97 ▲ ." Estou tratando de ser simples. para" capturar este peixe"? Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária.alçada. a primeira coisa que ocorre é que a gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda. válida.. Esse problema tem de ser resolvido com seus amigos. o problema é meu. ninguém me procura. realmente. sem me dar conta. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura. é porque me ofereci.. para que foi que "vendi". seus companheiros. como foi que vendi isso. O problema fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda. Existem poucos. Então: "Venha que esse problema é comigo . O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita-me dizer-lhe que esse problema não é privativo de nenhuma especialidade.. que coisas. Às vezes há quem diga: "Sim. Essa análise tem aspectos conscientes e préconscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe. E se me procura. estou a seu dispor. Essa é a análise da implicação na produção da demanda. porque. cruzada. o que tenho de fazer é analisar. Se eu não me constituo num lugar científico. seus colaboradores ou sozinho. se não vendo o que faço. que coisas posso solucionar parcialmente e que coisas não devo solucionar. e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se conhecem muitos profissionais assim. posso solucionar. ninguém" compra". e então o atendo. pode ser uma oferta vasta. ou seja: que fiz eu. Procura-me porque algum lado do problema tem a ver com o que faço. ou seja. " Quantos profissionais. pelo contrário. concluem que esse problema não é para eles resolverem. Então. é difícil de se ouvir.. se ele me procura. mas seria conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área. A primeira coisa a ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita. com cuidado. devo encaminhar noutra direção ou devo devolver." Mas tem aspectos inconscientes. na oferta. vamos ver como foi que convencemos este fulano a nos procurar. somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está demandando." Isso já é muito. ampla. resolutiva etc. esquecendo-me de que. após ouvirem cuidadosamente alguma demanda. se o sujeito está demandando em primeira instância. dar de volta ao usuário o que ele solicita de mim. profissional. Mas se eu não me oferecer.

segmentos da organização. Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é o melhor". para os institucionalistas. chegou à conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis. mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e a demanda. de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. porque as bases não são homogeneamente revolucionárias. Tudo isso modula a demanda. nem homogeneamente sinceras. Isso. sem dúvida.ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos. É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem solicita. que ofertamos o serviço. definindo nossos serviços como eficientes. ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere. e o faz com elementos conscientes e inconscientes no usuário.vivemos fazendo é lutar pela legitimação. ou porque "vem de fora". ocial de O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento. sobretudo. não é exatamente um colega. não é nenhuma garantia. Consulta porque" é daqui". E isto é muito importante. os desejos em pauta e. consulta porque ele é "dos nossos". nem homogeneamente progressistas. na mesma proporção neles e em nós. isto é. porque nos pode dar toda uma antecipação dos motivos desta consulta. Costuma ser. Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “ A ideologia 98 ▲ . infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela direção ou pelos proprietários. mas para dar um exemplo simples: qual foi o cliente que. Isto é: qual foi o setor da organização que assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes. os interesses em jogo. isto é: quais foram os passos intennediá. O passo seguinte é a análise da gestão parcial. o grau de consenso. consulta porque "é caro". pela autorização e pelo reconhecimento s nosso serviço. consulta porque" é bara to".

Nessa terminologia. veja. Isso. em geral. mas o que elas querem obter é outra. singulares. uma organização numerosa nunca virá toda para fazer uma solicitação. Isso também tem de ser analisado. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e encargo. sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos entre má-fé. deliberada. Estamos falando de uma situação ideal em que. em geral. O passo' seguinte é a análise do encargo. viemos consultá-lo porque sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 99 ▲ . A compreensão da determinação dessa parcialidade é importante. demanda é a solicitação formal. Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro para os leitores. mas não único. É claro que as pessoas estão solicitando uma coisa. as bases são. Pode-se dar um exemplo clássico. na medida em que a Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais. ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e como foi que consultou. a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom. é uma solicitação consciente que. originais. consciente. Mas não coincide por quê? Por má-fé? Pode ser. O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes. solidárias etc. contraditória. Então. passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional forma parte da parafernália de serviços característicos do progresso. Então. vem apenas um segmento (apenas uma parte faz a demanda). desigual. Por outro lado. que nunca coincide com o encargo.dominante é a ideologia das classes dominantes. da tecnologia moderna em relações humanas. A diferença entre demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. A demanda nunca coincide com o encargo.. pois o fato de você considerar o parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa. mas apenas uma delas." Então. claro. desconhecimento e recalque. conflitiva. Vem um setor. mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes. que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. geralmente. Então. nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional.

um problema recalcado. Pode ser fruto do desconhecimento." Isso pode ser feito com plena consciência e com má-fé. com algo que acontece quando. por problemas de autoritarismo na liderança. acontece que o encargo pode não ter nada a ver com isso. Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má-fé. Então não se lhe pede isso diretamente. Agora. pelo menos é democrata ou humanista. todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. melhoradora. quem tem fama de institucionalista dificilmente será solicitado abertamente para isso. você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica. Ora. como paralisar isto. que não sabe uma palavra sobre isso.. a negociação etc. há uma demanda. no entanto. finalmente. vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se opera. Mas pode ser. é: "Olhe. O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado (?) para a consulta." Por quê? Porq ue já se sabe que existe uma tecnologia modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. tratase de algum conflito com a "mamãe". simplificando humoristicamente.. ou seja. então. como fragmentar. quando. 100 ▲ . progressista. Mas pode-se perceber. ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos. porque é um corrupto ou porque é um reacionário. de quem vem consultar alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o encargo recalcado. que se diz uma coisa e se está pedindo outra. localiza os líderes. Há especialistas em fazer essas coisas. da direção. ou como aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário. está surgindo um grave conflito por problemas de condições de trabalho. O urologista irá receitar. o entendimento. Não é comum isso? Tratase. como desmobilizar. na organização. entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. e procurar um urologista. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza. inconsciente. a comunicação.dos operários. perfeitamente. de um problema de ignorância. O encargo. pois. de uma intervenção profilática. O encargo pode ter a ver. veja se acaba com esta revolta. e se isso não funcionar. me aconselha como desmontar este movimento. por exemplo. Então. num plano manifesto. cloridrato de ioimbina ou viagra. por problemas de nível de salário. porque já se tem uma vaga idéia de que se ele não é revolucionário.

numa sociedade onde o trabalho é alienado. no tocante à diferença entre a demanda e o encargo. então temos de caracterizar os analisadores "naturais". porque os quadros de base podem fazer essa solicitação. que é o que surge como resultante de toda uma 101 ▲ . Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência.Agora cabe aclara r uma coisa importante. Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de uma unidade. e a maioria delas não é boa. Vocês se lembram do que é analisador . ou uma autocrítica que não consegue suportar. Então solicitase alguma reivindicação. porque não querem trabalhar. em todo caso. não se podem separar esses dois pontos. de desconhecimento ou de recalque. Quando se simplificou isso. o cartão de ponto quer dizer muita coisa. em termos de má-fé. por exemplo. Mas vocês devem ter ouvido. Já sabemos o que é encargo. que sempre existe uma extração de mais valia. pelo fato de ter sido colocado o cartão de ponto. falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um serviço. Mas. Mas se os quadros são de base. ou de uma essência "vadia". de desconhecimento ou de recalque. Os determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente complexos. heróicas. anteriormente. não se quer trabalhar. é bom que tais manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. e que sempre há dominação etc. Na realidade. não se pode entender um sem o outro –." Já tenho recebido demandas dramáticas. Mas também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia cumprir. Sem dúvida este desagrado pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim". e também análise da demanda parcial. com freqüência. descartado o fato de que todo trabalho é alienado. Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial.natural: é um fenômeno (dito em termos clássicos. incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de emergente. mas tem-se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a gente não trabalhe. É claro. estes grandes "protestos revolucionários". ou um estudo que não tem vontade de 'encarar. pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser fruto de má-fé. porque não se quer estudar.

o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí. que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. no caso de existirem honorários. se vai lá. por um segmento qualquer. porque ele implica que o diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado. O contrato de diagnóstico é um acerto. fundamentalmente. Este contrato já implica a construção de dispositivos para ouvir todas as partes. Por isso. é um convênio feito para poder construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. e também porque um contrato de diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser diagnosticados. se entre outras coisas o institucionalista vive disso. poderemos chegar ao que se chama diagnóstico provisório.série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. é interessante receber os honorários. Senão. temos de fazer. a morte de um operário. uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. Porque só ouvimos uma. Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam chamar de "presuntivo". o institucionalista foi solicitado por um setor. isto é. legitimado e. Com esse contrato. Então. Então. já devem ser pagos. temos de caracterizá-los. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. 102 ▲ . Só que é bom fazer este novo acordo. um contrato de diagnóstico. Depois do contrato de diagnóstico. porque não foram fabricados por um interventor institucional. a esta altura. cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. suponhamos um analisador chamado natural (criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto. Um primeiro entendimento sobre o que está acontecendo lá na organização. e nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso. Então. as defesas. pequeno ou médio. tenta-se analisar. o aumento das doenças de trabalho. pelo fato de que. E quando tivermos feito tudo isso. assegura-se o respeito geral necessário. aquela que fez a demanda parcial. poderia ser uma greve. Então. entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. pelo menos enquanto acontecimento geológico. delimitar quais são. no entanto não é valorizada pelos usuários. e não por todo o coletivo. Qual seria um analisador desse tipo? Grande. Senão. não existem analisadores naturais propriamente ditos. E são "naturais". em primeira instância. quais foram as resistências que se levantaram nos outros setores que se foi ouvir. Mas então.

mais crítico. mas não é sequer o diagnóstico provisório. Eles não são tão indutivos assim. pode dar certo ou não. Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório. Por outro lado. desloca a problemática da situação espontaneamente referida. uma estratégia. um agenciamento ativador. a partir desse diagnóstico provisório. é "artificial" – já fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. fazendo-se a análise da demanda e do encargo 103 ▲ . Se não aceitam. Por enquanto. porque é indireto. porque se trata simplesmente de propor. não estou deixando de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim e não. ou dispositivos para poder recolher todos os dados do didgnóstico provisório. é uma reunião de cineclube. Depois que se fez a investigação passiva. É muito recomendável e não é nada autoritário. mais comprometido. Vamos dar um exemplo fácil. mas está propondo um dispositivo agitador. só se ouviu os setores distintamente. Os usuários podem aceitar ou não. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural". Ouviu-se passivamente. uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. Mas será que quando crio instrumentos de investigação. Ainda é um presuntivo já mais elaborado. Então vai-se criar analisadores construídos.O passo seguinte consiste em. resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e que vai dar-nos o material mais profundo. Mas não foi concluído ainda o diagnóstico provisório. nada impositivo. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o mesmo. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. porque o interventor não está baixando regras. teremos que pensar em outras alternativas. Mas talvez isso se possa entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. não é demasiadamente indutivo. Também se pode propor outra coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em um espaço diferente do habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitirnos observar o que acontece nessa convivência. mas não se criou condições para cutucar o nãodito que queremos investigar. e importante. reúne-se a equipe interventora e parte-se para analisar toda a colheita. poder planejar uma política. de indagação. Uma vez aceito.

técnicas definitivas. que envolve maior compromisso e requer mais retribuição. quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou recalcados que foram ativados. também somo's mobilizados. um quebra-cabeça coletivo. 104 ▲ . Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser dada ao processo. analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e novo contrato. É possível não se dar conta de que essa ambição acordou-se nos interventores. a análise da implicação significa pesquisar. toda técnica é boa. no coletivo interventor. Então. será necessário precisar quais são as estratégias. Então. será necessário desenhar as táticas. exige ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. Esse contrato definitivo. somos igualmente ativados. técnicas expressivas. muito mais ricamente. a ordem dos mesmos. quando se mantém uma convivência prolongada. os movimentos fundamentais para conseguir os propósitos políticos. Nova análise da implicação. temos uma vivência de contato diferente. que não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. mas pensada anteriormente. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em condições de manifestar-se muito mais livremente. Por exemplo. pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras intervenções. um cineclube. despertou em nós. porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe fez uma boa intervenção aqui.definitivo. sempre que a tática. uma guerra simulada. táticas. os espaços onde se vai dar essa "guerra". despertou na equipe interventora. qualquer técnica. uma festa. Por que é importante? Porque o passo seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. depois de todo esse novo exame. novas estratégias. a importância dos mesmos e as técnicas. a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. temos de voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou. vai conseguir outras intervenções noutros lados. exaustivamente. temos adquirido solidariedade ou cumplicidade inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo. os procedimentos: psicodrama. Nova política.

ficará uma disposição e uma 105 ▲ . Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico. não atendo. vamos fazer uma proposta de contrato definitivo. ou seja. Consideração dos índices de transferência. mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo proponha se quer pagar quanto quer pagar. para chegar a um acordo consciente. que poderemos ou não comunicar ao coletivo. e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise coletiva permanente. por que quer pagar. resistência. isto é. transversalidade. e porque. o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la. o que será muito ilustrativo do significado que a intervenção tem para cada segmento. Isso é completamente diferente das prestações de serviço profissionais habituais. que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a implicação que se vai gerando na equipe durante o processo. em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto. Logo vêm as avaliações periódicas. produção. que tempo pensa destinar ao trabalho. eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças. Depois vem a execução da intervenção. no momento em que saímos da organização.Depois temos a autogestão do contrato de intervenção. Se não for assim. tal como foi planejada. depois de analisar a proposta. que poderes quer nos dar e porque." Primeiro quero saber o que o coletivo propõe nesse sentido. atravessamento. todos os conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes." Não é esta a idéia. o tratamento vai durar tanto tempo. antiprodução. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: "Eu quero um contrato por tanto tempo. Os temas a investigar são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização? É claro que.

4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 107 ▲ . Nossa decisão deverá ser submetida a ele. Nós saímos.instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo. Em todo caso. tanto que se pode dizer que a regra são as exceções. Mas. que não sejam recomendáveis. é um esquema para se considerar e omitir os passos que não sejam possíveis. políticos e econômicos continuam sendo importantíssimos. se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio. E. 106 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional? 3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. profunda e exaustivamente. e o trabalho continua. Podemos fazer um acordo de acompanhamento. é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generispara cada situação. que introduzimos como hetero. como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer com ele. sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é propriedade do coletivo considerado. finalmente. já por nossa conta. A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações. temos de discutir. como vamos elaborar todo o material. de intervenções periódicas de atualização. em todo caso. condensar tantos outros etc. mas a implicação e os problemas éticos. de forma permanente. o processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos.

bem como marcadas diferenças. às formas concretas em que essas se "materializam". e não sem ressalvas.Capítulo VII o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE f) O Institucionalismo e suas vicissitudes Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista. a um conjunto aberto e internamente diversificado de correntes que mostram certos valores em comum. insistindo que não 108 ▲ . estabelecimentos e equipamentos. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação. às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam. não só porque este propósito excede em muito os limites deste livro. Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas. assim como aos recursos que empregam para obtê-las. mas também porque supomos que este universo seja não totalizável. Em outras palavras: ocupam-se das instituições. uma vocação crítica. Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos sociais no que se refere às lógicas que os regem. ou Instituinte. que tenta conceituar de diferentes maneiras. ou Antiinstitucionalista. assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral. organizações. ou simplesmente Institucionalismo. Podemos eleger uma.

marginais. Argélia e. da produção de novas formas libertárias da vida. na medida em que estas não são homogêneas.será necessariamente compartilhada. a gênese social desse Movimento pode relacionar-se. à sua maneira. o Institucionalismo tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou experimentado. epicuros. Descartes. Algo similar ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem comum". a serviço. principalmente. até talvez caiba dizer. Arbitrária e muito simplificadamente. Kant. Essa vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos "institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições relativamente conservadoras. Hume. da República durante a Guerra Civil Espanhola. assim como aos sofistas. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua função ou funcionalidade de seu funcionamento. proporíamos as grandes balizas da Revolução Francesa. não pode deixar de se inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates. sobretudo. Nietzsche. Aristóteles. em suas versões mais drásticas. Bergson. megáricos. em seus aspectos conservadores ou reformistas. Muito sumariamente mencionada. clandestinas. revolucionárias e. Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus. Fourier e. Hegel e Heidegger. o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos importantes pioneiros deste tipo. sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas contrastantes. Por um lado. Pelo contrário. Campanella. Kierkegaard e Sartre. Por outro. até chegar a concepções e ações alternativas. os Escolásticos. desde a tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia. adere com muito mais entusiasmo ao espírito dos materialistas pré-socráticos. extremistas. com uma longa série de tentativas históricas de regular racionalmente a existência das coletividades. O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial transformador. 109 ▲ . estóicos. Bakunin e outros. Rabelais. Quanto à gênese conceitual. Platão. seguindo por outras crescentemente reformistas. por Marx. Espinosa.

está claro. Economia. As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia. esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e estabelecimentos (comerciais. Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por diante. por exemplo: Comportamentalismo. influências predominantes de várias correntes. quer dizer. não é homogêneo. Cada um desses setores do conhecimento. a saber: o da Educação. os problemas da Urbanização e Demografia.Se é permitido falar-se de uma gênese operacional. partidários. dos Sistemas. Desde logo. liberais. marxistas e anarquistas. assim. ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a Teoria da Comunicação. e nem sua herança institucionalista o é. Essa difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala. e assim por diante. aspiram a títulos de cientificidade (de acordo. Semiótica e Antropologia –. dos Jogos etc. a gama abarca desde as escolas que. entre os quais encontramos. financeiros. Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia). às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e das populações em geral. como também de disciplinas como a Pedagogia e a Medicina. ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes institucionalistas. todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas. com a definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 110 ▲ - . Simultânea ou consecutivamente. Funcionalismo. Sem contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas reconhecidas. Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis. Poder-se-ia acrescentar toda aquela atividade vinculada aos Serviços Sociais. sindicais. é sabido que as origens do Movimento podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis. Psicologia. Encontramos. o da Saúde Pública (especialmente a mental) e o d a Indústria. eclesiásticos e até militares). obviamente. como mínimo. História.

afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma nova concepção da convivência cotidiana. Se o instrumental teórico. passando pelos procedimentos informativos. conceitual e operativa. Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a cientificidade e a profissionalidade. Conseqüentemente. sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais. Em síntese: esta "evolução". método e objeto de estudo são tão proteiformes e problemáticos. dramáticos. assembléias. do Institucionalismo.). consistência. o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de uma Ética. Estratégia e Tática do Movimento.. Com a profissionalidade o que está e m jogo é a legitimidade. publicações etc. avaliação de eficácia. legalidade. com relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém.).. este "percurso" de sua gênese social.). demanda e contratação de serviços. Como veremos mais adiante. coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu estatuto ético. ou o que quer que se queira chamá-lo. no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção teórica (coerência. entrevistas livres ou dirigidas. questões de neutralidadeabstinência ou imparcialidade-indução). Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética Social" são 111 ▲ . convalidação. análise de conteúdo. títulos. precisão. e suas óbvias conseqüências econômico-políticas (operações de oferta. Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na escala de correntes. o qual se desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude. jurídico-político. possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção. workshops etc. o que esperar acerca do arsenal técnico. "progressão" ou. essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de Babel. mais neutramente dizendo. carreiras. gnosiológico e profissional. verificação etc. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a autorização das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas.

sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações de serviços.vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras". Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi se pronunciando: a) Quanto à especificidade. analisador. Weber. conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que de direito) à tecnologia da human engineering(Psico-Sociologia das Relações Humanas. a faixa mais subversiva do Movimento. tais como: implicação. nacional e até planetária. encargo. frio-quente. Contudo. sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e intervenções científico. Lukács. as expectativas de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente satisfeitas. Treinamento em Recursos Humanos etc.tecnológicas com os sistemas e setores dominantes. por parte dos coletivos. efeitos: Mulhman. centro-periferia etc. cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da alienação-dependência do saber-poder dos coletivos de usuários. mercantilistas e adaptativas. (ver glossário). demanda. de acordo com os países onde se desenvolvem. Pelo contrário. Durante esse trajeto. da autogestão e da autodeterminação das comunidades. Os setores tradicionais do Movimento. das potencialidades acima apontadas. impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto-análise. e 112 ▲ . afastase cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. as formas mais marginais.). alternativas ou revolucionárias do Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização da análise e da intervenção em grandes situações em escala regional. b) Quanto à profissionalidade. que atendem à autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista. as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teóricotécnicos valiosos sob todos os prismas. e coerentemente. No extremo. isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo entre seus usuários.

o agente institucionalista com inquietações militantes encontra dilemas excruciantes. os capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". Isso tudo acontecendo em um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. 113▲ . pontuais ou amplos. formais ou não. Mais corretamente. radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. Parece que o Institucionalismo avançado. tais como as de integrante. Na segunda parte do citado texto. Kairos. que se em um sentido podem constituir fatores de propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos. uma maneira vasta e diversificada como "o inimigo principal" (a expressão é nossa). aliado ou simpatizante lhe são insuficientes. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente" (Ed. em outro. Resume-se aí o drama Institucionalismo: definindo o Estado. 1980). Barcelona. A rigor. não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos. ou totalmente apáticos e dispersos. o autor tenta sistematizar os obstáculos. ameaçam submergi-lo em uma certa paralisia. com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento. a idéia consiste em encontrar canais de conexão. Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o mais duro desafio. Diante dessa perspectiva. não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo avançado pretende. ou persuadidos ao participacionismo. Como veremos mais adiante. de mudança libertária. colaborador. nem sempre realistas. por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e lutas. Se por um lado os procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos pela peculiaridade de seus ideais. o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos. soma do instituído. para contribuir com as mesmas para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar-se. que não simpatiza com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou vanguardas elitistas).muito menos as de propagação da utopia transformadora a vas tas unidades sociais. e mais ainda o "maximalista".

a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e corporativa dos agentes. a maioria dos grandes experimentos "revolucionários" massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados. Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e média envergaduras. Trata-se. mesmo supondo que conheça sua proposta. algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos. de modo que os pequenos grupos e organizações não sabem de sua existência. o Institucionalismo se vê forçado a recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação acadêmica de especialistas e profissionais. Por outra parte. mediante a auto-análise da implicação despertada pelo encontro com a singularidade do 114 ▲ . segundo nossa experiência na América Latina. sendo pouco provável que solicite a colaboração de um institucionalista. Contudo. sexuais. raciais. As duas dificuldades.possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os campos de sua provável atuação. proliferam cada vez mais movimentos. Também devido à pouca divulgação do Movimento. abrem-se para o institucionalista outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". Em cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais". contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações mais adaptacionistas ou reformistas. senão no tangente à nossa experiência particular. religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas. que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas. senão à autogestão generalizada "a quente". Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinações estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. O primeiro refere-se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão. espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades etárias. não por acreditarmos que não tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes.

As massas extremamente depauperadas. ao elevado nível de padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. Essa falência também foi indicada por Lourau e outros. parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de controle social. Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. o Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas. estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e o cultivo do mercado interno). o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as comunidades. como sugerem alguns). queremos apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias européias). inconsciente e "contínuo") em cada formação social. insuficientes. não são propensas às propostas institucionalistas. incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um ostensivo fracasso. por um lado. profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 115 ▲ . modernos e eficientes administradores de enormes riquezas. Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista".coletivo intervindo. "Praxiologia". Ao mesmo tempo. No entanto. os Estados gerentes pseudo-exitosos. estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos. Fazem-se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e estratégias do Estado (entendido como ubíquo. por exemplo. Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de resistência passiva). as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções reais de sobrevivência. Como conseqüência. enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e acumulação de informações (chame-se. persuadiram as populações com benefícios concretos ou imaginários. sobre algumas das quais voltaremos ulteriormente. por outro lado. de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. o brutal contraste entre o discurso. levando-as a uma atitude de "conservadorismo crispado" (segundo F.

reformistas. da crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras. Esta superfície mostra algumas brechas para o Institucionalismo. causado basicamente pelo poderio. contudo. a ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais. acrescentam-se certos agravantes que iremos apenas esboçar aqui. marginalismo.providencialismo estatal. das quais as tendências institucionalistas se 116 ▲ . Ela afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas. Nesses empreendimentos. sofre sérias pressões resultantes da crítica endógena. mais ou menos acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento. Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente. penosamente. para certo trabalho "no Estado" e "com a sociedade civil". infiltracionismo. Consagrados e repudiados. esses modi operandi. como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do Movimento. maquiavelismo. expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à totalização. começam. Não é nada estranho que assim seja. distorção da demanda. novas para o Movimento. uma rica e profunda autocrítica. se tal coisa existe. alternativas. a reformulação das características do agente e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva – como a cooptativa. Em geral. Essas questões não são. em pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática". Deu-se para elas respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do Institucionalismo: empresarização. a dar-se soluções próprias. clandestinismo. Freqüentemente o institucionalista. de maneira alguma. em outras palavras: não há nada de inesperado no fato de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido. calouro ou experiente. ressingularização das práticas são alguns dos termos usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. entrismo. sempre pronta a desencadear-se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e táticas infinitamente sutis e cautelosas. ou seja. revolucionárias e até "terroristas") da corrente. o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio".

independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda não foram escritos. única e irrepetível. as figuras do profissional e do técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e. em última instância. Nesta reelaboração. fazendo. Este processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas das quais padece. Mas esse trabalho é feito habitualmente em abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. Dito de outra maneira. A redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 117 ▲ . como uma de suas áreas mais sensíveis. sistemas. Se se admite que o Institucionalismo é. no possível. uma clara discriminação entre especificidade e especificismo. tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados) ou. segundo certo conjunturalismo ou improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas.originaram. a da sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". seguindo com a metáfora. A problemática que esboçamos tem. Mas se não se admite um "especialista em autogestão". deve-se necessariamente conceber (pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para formar diversos especialistas. Tanto é assim que capítulos fundamentais. as dos "que ensinam a fazer isso". Essas. tecidos. na medida em que tais registros só seriam reconstrutivos de experiências consumadas. quanto elas mesmas. talvez não seja necessário escrevêlos senão como curiosidades museológicas. junto com elas. autodeliberar e autodecidir a forma sui generis. incluindo entre elas boa porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. adquire sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina". a proposta é que cada coletivo construa as condições para se autoconhecer. cada uma das células. vísceras. especialmente se o fazem para formar " experts em fazer isso". que deseje dar-se para existir. teriam uma singularidade tal que careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. Essa crítica disseca. Cabe aqui acrescentar a ressalva de que. triunfantes ou falidas. uma modalidade de viver coletivamente. organismos e funções que as integram. a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e mutação). metaforicamente falando.

Que a organização e procedimentos adotados sejam "não-diretivos". A nota em comum. Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito ideológico. a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em outros coletivos atuantes. "co-gestivos". mais claro ainda. pedagógico e político) ou integralmente autogestiva. é claro. Ciências Políticas etc. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam.reprodução do equipamento e do modelo pedagógico que o gerou. tais como Sociologia. Esse objetivo. não é tão importante quanto parece. em cada um de seus dispositivos. Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 118 ▲ . ao que há algumas décadas se denominava "acumulação social do saber". Aludimos. Completando a idéia: impõe a não. enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma discreta transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande Política. quando é claramente assumido. exige ou não a autodissolução do agenciamento pedagógico. Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e v ocacional do trabalho. O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e. mas pressupõe a firme disposição dos agentes formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se insiram. quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo. é a de associar-se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. Psico-Sociologia. que configura estas comunidades como tais. e dão modestos frutos.condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos dos quais "menos se poderia esperar". assim como tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas diversas qualidades que acima confessamos não havermos conseguido classificar. O ponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado. "permanentes".

Frente a esse difícil panorama. de um lado. adaptacionistas. perplexo. Só que essas adoções se realizam" em nome do Institucionalismo". onipotente ou. sejam as reformistas e eleitoreiras."deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso isolado. não é nada infreqüente encontrá-lo decepcionado. o máximo que se autodissolverá. Enfim: como dissemos. No segundo. Sem que pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias. três deformações tocaiam o agente institucionalista. No primeiro caso. "a frio". culpado. como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. burocráticas e corporativas do Movimento. assim como sua organização mesma. eles não são tão límpidos quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas institucionalistas contemporâneas. os ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. urge se fazer constar que. o institucionalista deve ainda enfrentar a crítica interna. e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o agente se lança às formas clássicas da militância política. o funcionalato e o academicismo. Um primeiro caminho é o regressivo. O agente retrocede às modalidades mercantis. ambos deverão dissolver-se em uníssono. Tensionado entre a necessidade de sobrevivência. com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. Os profissionais mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa. todo e qualquer "espírito" 119 ▲ . Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo. e só até certo ponto. Por isso. a de "autorização" e o desejo produtivo. resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma. em sua assunção. administradores. será a assimetria educacional entre professores e aprendizes. assim como professores universitários. comunicólogos e psicanalistas. Entre elas destacam-se o empresarismo. e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro. nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê-lo. o que é mais comum.

publicam ou intervêm. Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns institucionalistas. para assim protegê-las da voracidade das espécies predadoras. 120 ▲ . Ao mesmo tempo. Não nos parece que esta composição seja das piores. "grita em um lugar e põe os ovos em outro". sabendo das características dispersivas. segundo versões híbridas. que cremos conhecer muito bem e que é urgente desmascarar. segundo a tradição gaúcha. circunscritas e moderadas do Movimento. Uma terceira escolha. às vezes. tão engenhosa quanto discutível. é a que pedimos licença para denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". e em referência a esse terceiro tipo de agente. erráteis e libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento. sectárias ou facciosas. inevitável. O tero é uma ave da planície Argentina que. mas em real condição de implicados nos eventos e empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar-se. devido às limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. muito nos importa esclarecer que não deve ser confundido com outro. mas sim que é uma saída desgastante. estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um sentimentalismo raso). as usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais ensinam. Como quer que seja. Inteirados nominalmente de um punhado de noções da corrente. a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena).heterodissolvente (que hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas). clandestinamente ou não. da "novidade radical" (que impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação-auto. da "desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e eficácia). colaboram ou protagonizam.próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias. drogadito e parasitário) etc. do saber ex-nihilo(que proscreve o estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. o "hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico. Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que. Como notas secundárias caracterológicas. as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada).

alianças. modalidades de divulgação. II) O Institucionalismo e seus valores Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas. amplos e fortes. consciência epistemológica ou autocomiseração sentimental. Será procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"? Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos parte desta problemática. intercambiados e elaborados coletivamente. a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" entidade de origem. em resumo: ladrões de galinhas. desenvolvimento. cabe concluir.atiradores. no mínimo. com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. transmissão. táticas. técnicas. autorização. acólitos ou franco. Para tal. Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais. ou melhor. Política. originada da lumpenização das faixas médias urbana s universitárias. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas com rigor e vigor. morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. implantação. contratação. avaliação de resultados. qualquer iniciativa que os tirou do anonimato. tais "revoltosos". Nem Eros. nem Ananké. nem Teros. que restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. Sua triste história consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado. estratégia.Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada. Essa óbvia constatação não é proclamada aqui apenas por pruridos éticos. não só "não passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa qualificava de esquerdosos festivos. brandindo "palavras" instituintes. libidinais ou ideológicos incapazes de produção. líderes. dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade de nada". Experientes institucionalistas exortam 121 ▲ . o Movimento deve dar-se dispositivos formais. mas que muitos deles precisam ser apenas comunicados. logística. E isso não significa exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo Movimento.

só se exige que suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários. todo settingseria um aparato ou equipamento no qual se cristalizariam. as forças mais reativas do "especificismo" e "profissionalismo". Em outras palavras: da racionalidade. instituir um ponto de partida contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". justamente sobre os valores e recursos em nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos. Já para alguns. Por outra parte. para as correntes puristas. do lucro e do prestígio. que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do mesmo. do saber e fazer disciplinar que dessa maneira ritual se funda. como tecnologia falsamente "neutra". assim como à subscrição de convenções normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do Movimento. Afirmam que se toda intervenção está encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos. e portanto repetitivo. É óbvio que para os institucionalistas mais "profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos. e até há pouquíssimo tempo. em alguns casos admiráveis. trabalhistas ou jurídicos externos ao Movimento. apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca da onda de integração planetária de todos os processos sociais.seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido. que a crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou. Essa limitação. se bem que esses requisitos sejam indispensáveis. de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos. Dá-nos a impressão. compartilhadas pelas equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem cuidadosamente analisados. Entretanto. contudo. do poder. Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de contrato e enquadre das prestações de serviços. Constituir-se-ia assim um núcleo cego. extremada no 122 ▲ . não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do Movimento.

aquela liberdade que desejam. que não existe uma prescritiva para a invenção e que. recordemos a verdade de Perogrullo. porquanto seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados. não se entende por que não apelar a ele em caso de necessidade ou ainda de "luxo". Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento. como dizia Bakunin. No limite. existiria ainda nos convênios de serviços da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise. Por outra parte. Por uma parte. o que tornaria difícil. ou seja. Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas disciplinas (além da própria). Psicanálise Aplicada etc. E claro que ninguém ignora a distância que separa as aplicações da física à computação. e menos ainda porque seu trabalho não haveria 123▲ . Sociologia das Organizações. tenhamos presente que em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir. se compreende os aspectos econômicos. "só a liberdade engendra a liberdade". políticos. de que a autogestão não se decreta nem se concede. ainda que não impossível. isso ocorre porque os coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir (inventar). caso este que parece não criar problema algum. uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. nos introduzimos em uma contradição aguda e geral do Institucionalismo. Pode acontecer que já pertença "naturalmente" ao coletivo em questão. "culturais" e libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa). da human engeneering. com a autogestão como meio e como fim. Se a mesma é integral.caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social. não se vê porque um companheiro institucionalista iria ser convocado a participar. por exemplo. Por outro lado. Via esta questão restrita do contrato e do enquadre. cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de analistas institucionais. imaginá-lo solicitando os serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos.).

assim como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. O que está em jogo neste ponto. O vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos.de ser pago. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as requisições do participacionismo. sem dúvida. é uma mistificação. um solene compromisso de que será em si mesmo. quando não do colaboracionismo. independentemente do contexto. de tal ou qual grupo ou empresa. por si mesmo. Converte-se em algo assim como um princípio moral. acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e fazer dos coletivos sobre seu destino. é uma questão políticoepistemológica de fundo no Institucionalismo. não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza científico-tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. como um de seus mais essenciais fundamentos. de seu efeito de auto-sedução. a casta privilegiada dos tecno burocratas. a convicção de que os coletivos das sociedades modernas são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-sociallibidinal do trabalho. como em qualquer dos outros. demandas. que os centros oraculares de poder se vêem obrigados a lançar. escreveu: autogestão como consigna pode servir para qualquer coisa. da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir-se à autogestão em si. cujas necessidades. e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado administrador-gerente – submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. A eficácia de tal consigna depende. ficaram substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das determinações que as constringem. Mas a certeza do Institucionalismo. quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. Deve-se ter presente que o Movimento afirma. A "A 124 ▲ . produtor de seus detentores. De Lapassade a De Gaulle. hábitos de consumo e soluções são integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder. que se administrará o que é de si mesmo. Félix Guattari. a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar. As comunidades.

Potência. Identidade-Repetição.. Guattari é um de seus mais ardentes defensores. Se 'impugna'. no sentido mais forte do vocábulo. em definitivo.. do objeto institucional correspondente é um critério qu e deveria permitir esclarecer a questão. o tipo de relação. no imaginário. tomada como consigna política. corre o risco de criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se substitui massivamente as respostas diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real. O conceito de autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias o Institucionalismo maneja. Ser do Devir etc. assim como a infinita diversidade de suas estratégias. (opostos à Generalidade. A autogestão. O problema consiste em definir. não descarta o apoio de tecnologia alguma. em cada situação. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que. assim como em muitas outras. Negatividade. Siglo XXI. a hierarquia. e considerando a complexidade do desenvolvimento dessa concepção. Não há uma 'filosofia geral' da autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação. Nenhuma corrente. assume que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais.determinação. Afirmação da Singularidade. ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. e o tipo de poder a instituir.. Ed. Diferença. Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo. não é um fim em si mesmo. pelo contrário.. mesmo as mais drásticas do Movimento. quer dizer. a "Esquizoanálise". os máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução). México).. Ser como 125 ▲ . " ("Psicanálise e Transversalidade".. Invenção (oposto à Fabricação). em cada nível de organização. de formas que devem estimular-se. mas também. valores. Reatividade. Além do mais. Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos. De qualquer maneira.

Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama na "Esquizoanálise") do Capital. Simulacro. tornando-a ostensiva. No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e "pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas características contraproducentes.) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento. organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir. Talvez tenhamos deixado 126 ▲ . fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis. pelo menos em tese. a não ser que se considere recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos. Nós os temos muito em conta. Se os repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e. Deleuze. Máquina de Guerra. Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede.. Guattari. Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades (desterritorializados) do Ser e do Existir. não poucas vezes. Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema reincorpora à torrente da reprodução e do consumo. assim como ao tabuleiro do registro e da dominação. que têm a ver com o Instituinte e os Bons Encontros (opostos às Formações de Soberania. do Estado. dos Maus Encontros etc.Permanência etc. Dispositivo. para precisar invocá-las novamente neste contexto. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault. Desejo. como sinônimo do Instituído. da Família ou da Corporação.). equipamentos e manobras capitalistas. Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos-valores seria uma tarefa colossal e apaixonante. que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. diametralmente contrários a eles. as invenções dos movimentos produtivo-libertários.. Civilizações. da Lei. Acontecimento. da Igreja. Já a Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos. Toda a História Universal (a das Formações Econômico-Sociais. Objetivações das Idéias Puras ou Modelos. pensáveis com os critérios mencionados anteriormente.

existem casos em que isso é possível. quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto.a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até personalizar. Convém precisar com respeito a suas propostas teóricas e sua atuação política e técnica. não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las. tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" desses desvios. insistiu em uma reivindicação da singularidade das práticas. Por outra parte. desde diversos ângulos. não são nem axiomas. compreende-se que em um Movimento. mas aqui nos interessa destacar estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa orientação. Pelo contrário. os valores mencionados não são evidências. como notável independência dos princípios que a guiam e que. pois apesar da predileção do Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para técnicos e usuários. sem misteriosas avaliações de seita. empirismo. que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da Autogestão". Naturalmente. Basta compreender que as séries opositivas de valores que antes enumeramos. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu. ou mais dissolventes ainda. em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis. cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista. pragmatismo ou "intuicionismo". no qual não se pode apelar ao veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante. eventualmente. pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas. a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo. Como quer que seja. mas sim de permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim conduzida pode causar. os conflitos 127 ▲ . e mais ainda da Teoria baseada em p a rti p ris formalizados. Desde logo. nem evidências. Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar sua atuação e observar seus resultados.

exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais. o Institucionalismo tem. Procede enfatizar que o Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas econômico-político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas). algo assim como um artesanato militante cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes. que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. Não obstante. no possível. que se nega a separar meios de fins. Tudo é "Análise Institucional". processuais e conjunturais. Frente a um panorama tão desfavorável. "nada o é". mas quem impera atual e universalmente (embora não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. resulta notório que esse principismo sui generis. inerentes a todo Movimento. Entre essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de patente". Por outro lado. hipoteticamente. acadêmicos. É no campo dessas dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos. logo. diante de contendedores tão ágeis. 128 ▲ . digamos. não facilita as resoluções e execuções táticas imediatas. o Institucionalismo exige que suas decisões de condução sejam. fortes e onipresentes. Como já expressamos mais acima. mas também à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. 2) Os poderes oficiais. injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. sobrevivência e crescimento.e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis. Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobreexigem o tempo e os esforços destinados à implantação. ocupa similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. vegetativo ou infra-estrutural das iniciativas. inúmeros aliados nos coletivos subjugados e explorados. o que torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às transformações de fundo e a longo prazo. Tudo isso se torna particularmente delicado. corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam campanhas repressivas.

isso se registra como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas". "reconhecimento". no seio das organizações e dos sujeitosagentes institucionalistas. Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a empresarização ou para uma morfologia política convencional que. 4) Em função de tudo isso. finalmente. das estratégias e táticas externas. 6) Em resumo: cedo ou tarde. Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja hora de descartar como obsoletos: o ativismo. pelo caminho do famoso "individualismo pequeno burguês". "solvência financeira" etc. O organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam.3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2. até um suposto contrário: o matiz "beneficente". tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem. a serialidade. fraternidade do terror e. "perversifica-se" a horizontalidade e "extravia-se " a transversalidade. se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. a "primazia" etc. "caritativo" ou "filantrópico" das prestações de serviços.. "legalização". "autorização". o 129 ▲ . de modo que estas se enrijecem estatutariamente . 5) Fica preparado. então. Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade. o "lucro". assim como das relações internas. é a mais desejável: o centralismo democrático. O regime das alianças tende a uma regressão filiativa. Ou mesmo. o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico. apropriação e "inflação" de "identidade". começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis. valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder". exacerba-se . à atomização do Movimento. "sabotador" etc. "legitimação". No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais lideranças "autocráticas" ou la íssez-fa íre os papéis e de "bode expiatório". "prestígio". perversas ou psicóticas. não por ser "menos pior". para a luta pela obtenção. a designação de recursos de todo tipo. em suas modalidades de protopaternalismo. No plano da produção de subjetividades.

Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma caricatura de suas virtudes. digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do Movimento à 130 ▲ . Seguimos acreditando que se trata de uma força reativa. Se os primeiros enfatizam a fragmentação pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial. os "desviantes ideológicos. C. L. Baudrillard. o imediatismo. ou a corrupção franca. R. 7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução". Lasch. teremos uma imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. especialmente o referente à "compulsão à autodissolução". P. 8) Se se repassa o exposto. o oportunismo. J . 10) Para fins de síntese e conclusão. Coincidem. trata-se de uma curiosa exacerbação do que a teoria postula como um requisito dos grupos revolucionários. Riesman. a capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá sentido. Bell. Durkheim ou Marx". organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico. o utilitarismo. Lipovetsky. Rozitchner. 1988). Toda uma vasta produção biblio gráfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do individualismo moderno (L. 9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência (como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os segundos infundem e orientam. quer dizer. publicações internas do Ibrapsi. os últimos sublinham a subjetivação indiferente e abúlica das sociedades pós-industriais. Rio. Sennett. G. em constatar a decadência da res publica de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la e Weber. como diria Nietzsche. D. A rigor. no entanto. Virilio e outros).voluntarismo. Dumont) e pósmoderno (D. a ter muito em conta nas vicissitudes do Movimento Institucionalista.

e a produzi-las segundo funcionem. queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de código. especulativos ou experimentais. refluidificá-las. diversificada. Se se most ou indubitavelmente que tanto teórica quanto estratégica. intersticial e não – totalizável.? Axiologicamente. em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras diferenças". etc. um "modo de viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas ". diluir-se. Por conseguinte. rachar. "simulações ". para cavalgá-las. recortá-las por linhas clivagem bizarras. que ética pode reger esta atividade não enquadrável. parece indiscutível q ue o Institucionalismo.Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da Utopia Ativa). Epistemologicamente. incluídas aí as específicas e profissionais. indemonstráveis. discurso. estatuto ou prática. fazêlas proliferar. axiológica e epistemológica? Ontologicamente. quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu limite. organização. seria a afirmação de sua positividade. qual pode ser sua condição ontológica. dividi-las até o infinito. para mimetizá-las. tentando exclusivamente propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como "desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade ". longe de orientar-se por critérios de Verdade. indecidíveis. "não-fundamentalista"? Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua positividade. Que outro recurso lhe compete além da construção de "verossímeis". mais que tudo. um pensamento "sem fundamento". heterogênea. ao Institucionalismo não deve 131 ▲ . parodizá-las. incrementando seu pólo progressivo. tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal. "alternativizar". infiltrá-las. ou melho. sejam estes revelados. mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de pensar". dedica-se a genealogizar suas formas históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. segundo a vontade de potência produtiva. e remetê -las a funcionar segundo se produzam. "efeitos especiais". em todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se torne atualizável.

engenheiro de sistemas. assim como os purismos e desviacionismos internos ao Movimento que mais acima descrevíamos. tudo que "abra". psicanalista.interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios c ânones dos mesmos. amplos e numerosos. um artista ou uma criança. 132 ▲ . ao institucionalista. Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo. agenciá-la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá-la até gerar um acontecimento. pois. avaliados e resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de dispositivos fortes. "possibilite" e "conecte". Nada impede. sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um bárbaro. boa parte dos pruridos. Se isso está correto. "devir" (que embora lúdica não deixa de ser revolucionariamente) sociólogo. profissional liberal ou funcionário. economista. são passíveis de ser analisados.

e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a paternidade ou a precisão dos conceitos. não pretende haver dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que. 4) E desnecessário dizer que este glossário. 2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos. os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade. pois esse requisito excederia as aspirações e possibilidades deste livro. 133 ▲ . deveriam estar nele incluídos. de propriedade intelectual dos mesmos. advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente.GLOSSÁRIO Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo Advertências para a leitura deste Glossário Devido ao caráter introdutório deste livro. 3) De forma coerente com o exposto anteriormente. os autores. mas se responsabilizam por toda e qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente: 1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente. bem como da diferente acepção que tomam outros. ou seja. segundo a definição ampla dada do Movimento. este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo. nós. assim como o volume do qual forma parte. Embora este propósito não baste para explicar as limitações do texto.

5) Em alguns casos. através da liberação do acaso-radical. mas faz parte da realidade. os autores estão cientes de haver incluído e definido termos que não estão suficientemente esclarecidos. geradores da transformação e da novidade nos sistemas. ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las. cuja essência não coincide com as possibilidades. É o momento de aparição do novo absoluto. O acontecimento atualiza as virtualidades. estabelecido. contingente. o que empobreceria demais esta leitura. insólito etc. Estes atos. essa noção foi empregada com freqüência. que pretende ser panorâmica. processos e resultados. mas em geral indesejável. apesar de que freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". conseqüências de conexões insólitas que escapam das constrições do instituído*-organizado*. e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e sua potência produtiva. como por exemplo no da Esquizoanálise. enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação do instituinte*-organizante*. Em um sentido estrito do instituído*. Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem". da diferença e da singularidade. No lnstitucionalismo*. como reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. Esta última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los. do novo absoluto. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). são o substrato de transformações de pequeno ou grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório. de modo geral. 134 ▲ . processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*. o vocábulo adaptação costuma ser sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. deflagrador da diferença. mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente.. o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente possível. a" desordem" e o acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*. este é considerado o modo de ser do devir dos processos. tornando-se mais apto para sua função. O virtual não existe. ACONTECIMENTO: ato. o organizado*. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver. apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados. são conservadores. Freqüentemente se equipara este termo ao que é casual. Nas chamadas Ciências Humanas. ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. o estabelecido tentam a repetição do mesmo (ver Repetição*). imprevisível e incontrolável.

não chegam a ser consideradas clandestinas. ALTERNATIVA: designa-se assim as idéias. 135 ▲ . Excepcionalmente.). ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades. mas em ge~al as toleram ou as ignoram. designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos essenciais. ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. dissidentes e marginais. Os dispositivos. como disse Feuerbach. se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. Entendido como produção de subjetivação*. reconhecidos e consagrados. ou em um "fora de si". De todas as maneiras.AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera acontecimentos* e devires. pode-se valer de qualquer recurso (procedimentos artísticos. Para tal fim. Em geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades. ou a uma classe social que. intensidades) heterogêneos que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos. singularidades. no lnstitucionalismo. ALIENAÇÃO: no sentido filosófico. o agente. funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos. atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses). Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição de opositoras. dramáticos. pessoas. territórios. subversivas ou revolucionárias.). e não como causa dos mesmos. as recuperam. Em um dispositivo. qualquer montagem que torne manifesto o jogo de forças. políticos. As forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas. "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro. a meta a alcançar e o processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* – organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. organizações. por ser a proprietária dos meios de produção. atualiza virtualidades e inventa o novo radical. do possível e do impossível. movimentos e práticas que supõem uma opção para seus simétricos oficiais. científicos etc. os desejos. instituídos* etc. produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o horizonte considerado do real. geradores da diferença absoluta. No lnstitucionalismo a significação deste termo é próxima à da Sociologia: os homens. o agente pode ser peça especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador.

que forma parte da implicação dos interventores. Análise de implicação é a compreensão da interação. a proposta direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. Ela pode até ser prévia a qualquer contato. manifestos. deliberados. produzido" espontaneamente" pela própria vida histórico-social-libidinal e natural. a divulgação (científica ou não). a análise da oferta. não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática da organização solicitante. da interpenetração dessas duas organizações. É um termo que tem certa semelhança com o conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz no analista). mas de uma materialidade múltipla e variada. particularmente a de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. que faz parte integrante do processo de análise da organização. isso sim. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo. nem inconsciente. só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico.ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato. Por outra parte. Não começa no "cliente" e é. simultânea. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica dessa organização. etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. que por sua vez não sabe que não tem e não entende o que é porque é complexo. A análise da demanda* deve estar necessariamente articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja. social. 136 ▲ . técnico. sutil. complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). econômico. ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma organização. como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. um processo político. uma interinfluência recíproca. como resultado de seu contato com a organização analisada. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes. em sua equipe. enfatizando a parte que cabe à intervinda. ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica. A publicidade. É ao mesmo tempo.

fantasias) no curso do desenvolvimento. negação etc. O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te*instituído". assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. Impossível resumir aqui suas contribuições. à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto especulativo). Lourau. ANSIEDADES: correntes institucionalistas. Bleger e outros). Assim se fala de ansiedades paranóides. As posições esquizoparanóides e depressivas. efeitos" Mulhman. reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia. são acompanhadas de vivências características denom. A Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância. demanda-encargo*. regulamentos) como suportes. defesas. Como dispositivo* de intervenção.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos. diversos pedagogos procuraram reformar. Guattari. sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação. organograma. inclina-se pela Assembléia Geral Permanente. liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. institucionalização. analisadores históricos e construídos".inadas ansiedades. subscrevem. a Psicoterapia e a Pedagogia lnstitucionais. apesar de a denominação ter sido criada por F. a Análise lnstitucional superou amplamente esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias. Contudo. depressivas. modos de intervenção e objetivos últimos. Lapassade e R. mas tendendo sempre a que se expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. que são as configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões. na qual os não-ditos* institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras. Pichon Rivière. particularmente para sua descrição do "mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. projeção. Lukács etc. tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques.. ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau. nessas teorias. ou seja. a Dinâmica de Grupos. A Análise lnstitucional insistiu particularmente na análise da implicação*. idealização. objetivos. a tese de que as organizações são" sistemas de defesa contra a ansiedade". confusionais etc. nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais dos agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). como similar ao cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica. bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso).ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. e propõe para eles o perfil de um intelectual implicado. de diversas formas. Esta corrente institucionalista. O conceito de ansiedade deve ser entendido. uma das mais coerentes e empenhadas. Métodos como os de Montessori. 137 ▲ .

Cooper na Inglaterra. substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co-Gestão*). Seus máximos representantes – Thomas Szasz e I. marxistas e liberais de democratizaçiío (ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado*estabelecido. ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais. é possível que seja a proposta de G. este Movimento. econômica e cultural da sociedade moderna. que o sistema dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens. dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico. cuja função prevalente é a reprodução do sistema. Vasquez. Goffman nos Estados Unidos. A maioria desses autores. Michel Foucault. Labat. Ronald Laing e D. Basaglia na Itália e E. A. levando-as à repetição estéril ou autodestruição. assim como a Pedagogia Institucional de F Oury. Castel na França. surgiram as experiências de Makarenko na União Soviética. M. de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia. como contra-instituição. serviços ou valores alienados (mercadorias) e incorporá-las à sua lógica. mais ou me nos radical. e depois generalizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber. As potências singulares. impulsionou uma profunda revolução nesse campo. F. Generalizando.Pestalozzi. ao nível da aprendizagem. os exemplos anarquistas. o Capital etc.) e suas forças são voltadas contra si mesmas. ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e Europa. são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado. Tais tentativas replicam. na qual os alunos assumem integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem. Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia menos autoritária. o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados Unidos. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade. em 1978. e outros. foram mentores ou participantes do Movimento Institucionalista *. que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro. Félix Guattari e R. na França. são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que não conseguem capturar. psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –. pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino. Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente. atua em 138 ▲ . Entretanto. Lapassade e R. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política.

de um saber acerca de si mesmos. soluções e limites. Esse entrelaçamento. Quando um conjunto instituinte cumpriu todos os seus objetivos. dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. mas as mesmas não envolvem escalas de poder. organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais. desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários. demandas. suas necessidades.conjunto. desejos. As comunidades instituem-se. dominação* e mistificação*. que não só estão em boa medida a serviço das entidades dominantes (Estado. AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação. por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*). CapitaL Raça ete. As hierarquias correspondem a diferenças de potência. peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. organizações* e movimentos instituintes* (em outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais. CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona. serve à exploração*. a articulação de 139 ▲ . pela outra. o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão pora gerenciar sua vida. desde a outra. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*. AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos. Esse saber se acha em geral apagado. Essas diferenças podem implicar hierarquias. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. AUTOGESTÃO: é. interpenetração e articulação de orientação conservadora.). apresentando-as como necessárias e benéficas. A auto-análise possibilita aos coletivos o conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*. que são imanentes aos valores de tais entidades. protagonista de um processo transformador. para a outra. como também operam com critérios de Verdade e Eficiência. ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade" que se deu. deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. Cada uma dessas entidades opera na outra. ao mesmo tempo. problemas. que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*. decisão e execução. Todo processo instituinte*organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho. assim como alguma especialização nas operações de planejamento. deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". Tal consciência é precondição para seu bom funcionamento.

pensado. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola. as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva. ameaçadores ou francamente perigosos para o instituídoorganizado. ocultos ou secretos. a forma como são gerados seus efeitos etc. CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos. CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão estratégias *. procuram detectar. Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais teóricos muito heterogêneos. a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar contra eles. as classes e grupos dominantes. classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força produ tiva. logísticas *. em especial as instituintes*. interrompendo o curso do processo produtivo em um 140 ▲ . inibindo ou destruindo as forças produtivas. dissidentes ou marginais. Quanto mais amplo o campo de análise. por mais aparentemente pequeno que este seja. Está em estreita dependência do campo de análise*. Tal participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores.suas determinações. Quando o conseguem. Só se intervém quando se compreende. pessoas. mais possibilidades existem de entendimento do campo de intervenção. as incorporam à lógica acumulativa do Sistema. Quando o aparato de captura e recuperação falha. sindicato. subversiva ou revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis. em especial o Estado. sendo que posteriormente se compreende à medida que se intervém. deverão operar neste âmbito específico para transformá-lo de acordo com as metas propostas. fundamentalmente transformando as linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. As idéias. dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial. o grande Capital. Reciprocamente. CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido. desde o qual será compreendido.). táticas * e técnicas * que. empresa etc. por sua vez. O campo de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e organizada) de um segmento social.

à classe subjacente. reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*.ponto determinado. estruturas. CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo). assumida ou não pelos integrantes que. característica ou atividade compartilhada. classe. e esta de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. e não apenas mecânica. é essencial que as unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes. CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo. categoria. sexo. portanto. valores etc. A classe institucional é o segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus integrantes com os menlbros de outros segmentos. gênero. tempo. lugar. por sua vez. relações de subordinação em última instância. COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. P. raça. de uma forma ou de outra. diversifica da. ao mesmo tempo. para algumas tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e. Em geral refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes corresponde pela classe suprajacente e despossuem. Esta peculiaridade pode ser de espécie. COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos. médio ou grande) que está vinculado por algum traço. de um estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e. Para o lnstitucionalismo. lhes confere uma certa coesão e solidariedade. hierarquizada e articulada). 141 ▲ . idade. subordinadas às forças instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização. organizações*. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror. Todas as forças. sociedades* e civilizações. movimentos. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade. e da cristalização ou da resolução de sua dialética * depende o destino produtivo. J. Para a Sociologia Clássica. explorados e mistificados que prestam subserviência. instâncias e mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva. elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma tarefa. é fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada. sem mnunciar às categorias antes mencionadas. apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. o único motor da mudança nos sujeitos.

perderam a semelhança e só conservaram a imagem. CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo. e com ela o acesso às Idéias Puras. dominadoresdominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. Em sua acepção ampla. Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do Materialismo Histórico e Dialético. que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias baseadas no afeto. as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que. entre tantas outras origens teóricas. O método platônico da clivisão em gêneros. logo (alude aos possuidores da razão como saber discursivo). Contudo. Os conflitos entre instituinte* – instituído*. Essa formulação recolhe.) seria uma forma de seleção para cliferenciar as "boas" das "más" cópias. SEXOCRACIA. centro-periferia. pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos). em sentido restrito. esquecendose dessa "queda". TEOCRACIA. BUROCRACIA. refere-se à designação de parentes de um governante para cargos oficiais. alude aos filhos naturais dos Papas. cuja condição de superioridade está dada por uma linhagem hereditária). em que nepo. Para o Institucionalismo. exploradores-explorados.e te o (alude aos supostos representantes da clivindade ou à divindade mesma. se conseguiria que as almas recuperassem a memória. espécies (etec. havendo tido. tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de cunho científico). ver Idéias puras*. As cópias são sinônimos de "representações". para outras correntes. mediante o raciocínio. O sufixo cra cia significa governo de ou poder de: a risto (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade. sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras. com freqüência supostamente "científica" das organizações). LOGOCRAClA. buro (categoria ou classe que se ocupa da administração. -CRACIAS:ARISTOCRACIA. TECNOCRACIA: optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque. "encarnada" em um indivíduo ou grupo). esta abordagem permitirá resumir a exposição. sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras). Para a interpretação institucionalista desse pensamento. porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante.Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. A maiêutica socrática consistiria em um procedimento pelo qual. os conflitos. nos tempos míticos. Aqui vale acrescentar a palavra "nepotismo". sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real. até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento institucionalista. eufemisticamente denominados "sobrinhos". uma proximidade. com a finalidade de explicitar seu interesse para o Institucionalismo. imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos. prestígio e 142 ▲ .

das vítimas de um sacrifício). nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis. tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou organizacional (provocação institucional). As crises são etapas de mudanças para o bem ou para o mal. nos quais. momento crucial das vicissitudes ou do metabolé(por exemplo. melhor ainda se generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. Para certos autores (por exemplo. Provavelmente por extensão da noção médica. DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. juízo (por exemplo. Assim 143 ▲ . cena de apogeu numa tragédia). e a maioria prefere intervir nos momentos críticos. por sua vez. como Lapassade. as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões. objetos. desordem) mais ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. mas em geral aceleradas e radicais. vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou negativos acidentais. causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. posto que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. segundo alguns. extraordinários ete. contingentes. enquanto há os que pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente.exemplaridade). chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização. CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada. procedimento para chegar a um veredicto). configurando vícios de condução que são. Para o Institucionalismo. o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza. Marx). Pichon Rivière. Bleger e outros). dos sonhos). dentro de um andamento relativamente regular. tanto enquanto campo de análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*). fase de definição. a palavra krisissignificava: interpretação (por exemplo. Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. por caducidade dos mecanismos e recursos vigentes. os estados de crise são considerados fecundos. fantasmas) no curso do desenvolvimento-. Alguns institucionalistas. no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade. circunstanciais. na medida em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da "desordem criadora". Outros sustentam que são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos. seleção (por exemplo. Esse estado de crise ocorre.

pois participa de todo o real. metamorfose ou "criação" do novo. isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. gesta-se no seio do Complexo de Édipo. com as "quantidades intensivas" em Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. mas estas não são exclusivamente psíquicas. se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena"). negação etc. não carece do objeto. ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e servir aos objetivos de vida. comunicacional etc. Descritivamente falando. para a Psicanálise. por sua vez. Essa força se origina. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo. e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a entrarem nos processos sociais amplos. idealização. projeção. o desejo é essencial e imanentemente produtivo. confusionais etc. o desejo. Não tende à morte porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas".). Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação. que resulta do encontro entre os corpos (devir). depressivas. atua exclusivamente na dramática da vida familiar. Assim entendido. daí o conceito de produção desejante. Em última instância. gera e é gerado no processo mesmo de invenção. o desejo é imanente à produção. quer dizer. sua própria extinção definitiva. prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. organograma. O desejo. ao que Espinoza chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal". o desejo também está parcialmente submetido a entidades repressivas. o desejo persegue o gozo absoluto. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real. ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente. Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa contra a ansiedade*". Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência". que procura restituir um estado arcaico perdido. a Esquizoanálise). O Complexo de Castração. 144 ▲ . Sua essência não é exclusivamente psíquica. Na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. das pulsões. econômico. que instaura a lei no psiquismo. Durante esses incessantes ensaios. constitui o desejo. no início do desenvolvimento. regulamentos etc. na qual se encontra com a pulsão de morte. Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). que carece do objeto real.se fala de ansiedades paranóides. e tende à busca do prazer e à evitação do desprazer. e sim um complexo conjunto ao mesmo tempo político.) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e organizacionais (contratos. Para outras (por exemplo. Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano. DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a qual não têm conhecimento nem controle voluntário.

se bem impugna e denuncia os defeitos do instituídoorganizado. e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. Karl Marx. Protagonizam. organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal (quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer. um desvio ou afastamento da linha condutora hegemônica da organização. É um pensamento que concebe a realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação. outras entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera. devido a sua essência intrinsecamente contraditória. em troca.DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos. Como nas leis do devir. eventualmente.). da moral etc. desde a Antiguidade até a época contemporânea. A proposta e ação desviante podem. 2) Passagem da quantidade à qualidade. assim. contradição e terceiro excluído perdem vigência. tornar-se o gérmen de um processo produtivodesejante-revolucionário.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica ou dou trinária). postulando. quer dizer. Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal Clássica. Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*). não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou uma mudança profunda. o fundador do Materialismo Dialético e Histórico. e não ao espírito. que a postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto". grupos ou tendências que questionam o instituído* – organizado. que pode ser examinada como "universal". particular" e "singular". mas em geral é predominantemente reativa. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos enérgica. mas o atribui à matéria em suas várias qualidades. essência de todo o real. sendo as mudanças que se apresentam apenas superficiais. A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. "geral. de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético. DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão presentes em todo saber ocidental. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel. Opõese a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável. cada momento nega o anterior. Outro aspecto importante da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade. mas também conserva o superado). uma idéia do ser como puro devir no qual retornam exclusivamente as 145 ▲ . ilusórias ou aparentes. através de diversos discursos. o supera e ao mesmo tempo o conserva. pois os princípios de identidade. atitudes e comportamentos.

consome força de trabalho. exige um trabalho. devido à propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas (extração de mais-valia). confiando em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à autogestão* e à auto-análise * . masculina-feminina etc. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases. por sua vez. por diversos meios (dentro de um espectro de 146 ▲ . poder e prestígio. à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. particularmente de bens materiais e serviços. que expressam claramente uma falta de vontade instituinte*. Determinadas tarefas são consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza. estão diversificados em diferentes tarefas articuladas entre si. em todas as sociedades da História e especialmente na modernidade industrial. Os processos de trabalho complexos. DOMINAÇÃO: imposição. Para o Institucionalismo.diferenças (Esquizoanálise*). DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção. ou mais ainda. DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise. DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma organização ou movimento. no Grupalismo e no Institucionalismo a operação pela qual o analista. a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e compreendê-los (ver Análise da Implicação*). Contudo. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção manualintelectual. Coisa similar Ocorre em outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). do campo-cidade. um apreciável encargo repressivo ou ligeiramente reformista. As tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização-movimento ou separar-se dele. DISPOSITIVO: ver Agenciamento. e este. a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem analisados e intervindos. podem ser atendidas. DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção.

ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo". irrepetível e contingente do fato em questão. o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento. Os instituídos* – organizados* estabelecidos. estratégias. Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma. mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. afetos e outros elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. semiótica. enquanto esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. mais ela se torna opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. por definição. Quanto mais formalizada. a Lei do das Valor. jurídica.. Contudo. ressaltando suas características singulares devido à condição única. porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências. econômica. logísticas. o ECRO é muito mais que o até aqui mencionado. da vontade de indivíduos. seguindo uma orientação das ciências físicas. Iibidinal ete. às teorias. A dominação é simultaneamente política. interminável. Por outra parte.violência que vai desde a sedução até a destruição física). mantêm seus privilégios dominando a vontade coletiva ou majoritária. Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável de sua gênese social. no Materialismo Histórico). a idéia do esquema denota o caráter provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado. Se bem esta afirmação não refute o caráter universal e om niva len te grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo. rigorosa 147 ▲ . grupos ou classes sobre outros. Refere-se. em especial o Estado e o grande Capital. experiências. Por isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos". em primeira instância. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. A lista de efeitos que podem ser propostos é.

em que todo o saber social está em ebulição. a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. como. Quer dizer: geram-se processos de autoanálise* e autogestão* espontâneos e generalizados. por oposição às modernas. portanto. inspirados por uma profecia libertária. ou. Alguns antropólogos pretenderam. mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos. quer dizer. ocorre o contrário: as experiências sociais se multiplicam. erroneamente. 148 ▲ . precisar simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. pelo contrário. por exemplo. a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos). mobilização e grandes transformações. sujeito e objeto constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno.e quantificada aparece uma ciência. assim como outros de agitação. o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a "naturalização" de seus instituídos*. as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por parte dos coletivos do saber acadêmico. quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"). que as sociedades chamadas primitivas. Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos. Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de imediato todo o apreendido na ação instituinte. Essa constatação pode conduzir a um irracionalismo (ou seja. O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção do conhecimento social científico. quer dizer. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber científico". Nessas fases. cada um dos elementos mencionados é um "resultante" do campo que assim se configura. mais satisfaz as exigências cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e desenvolvimento (ou seja. e. Já nas etapas "quentes". O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a problemática da implicação. do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a organização intervinda. seriam "estáticas". Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem constituída. à concepção de outras modalidades da causalidade. Nos experimentos da mecânica quântica. que careceriam de história.

dissimulados. teoria. refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída quando a mesma está ameaçada. por sua vez. De acordo com o contexto discursivo de que se trate. Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. centro-contra-periferia etc. Em uma acepção ampla." corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital. sendo que freqüentemente se subdivide. Cada ciência. um grupo ou uma organização. Artaud. Essa 149 ▲ . sendo que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. por sua vez. Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes. que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo. analítico. Reich. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos. por definição. em um número crescente de especialidades. Um emergente pode manifestar-se através de um indivíduo. especialmente nos políticos. Em nosso entender. ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e de suas aplicações tecnológicas. O lnstitucionalismo constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos. A modalidade do saber dominante durante este processo é a do conhecimento científico. EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela. não-manifestos. encomenda etc.chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados". o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente. as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. método e técnicas. a idéia de emergente tem uma similaridade com a de analisador*. tem seu próprio objeto. cujo procedimento é. Outros Efeitos: Lefevre. pedido. ENCARGO: no Institucionalismo*. Einstein. que num sentido acadêmico denomina-se disciplina. denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em materialidades diversas: "mentais". a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil precisar seu significado. ignorados ou reprimidos. e que comporta uma demanda de bens ou serviços.

). Os equipamentos podem pertencer ao Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas. Essas diferenciações. resultando no aumento espetacular de sua produtividade. articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*. em resumo. As diversas modalidades do Movimento Inslitucionalista. da loucura etc. por outra parte. prevalentemente a serviço da exploração. pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. é o que corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. Podem ser de grande porte (por exemplo. possibilitam o incremento de sua competência e eficiência. Mas. Sobretudo se interessa sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e. OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo. pretendem resgatar os valores instituintes* e organizantes*. erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. consagrou a especificidade – a delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente – como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes nela). tem a ver com a divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. Isso levou a deformações tais como o operacionalismo. à medida que reduzem o campo de atuação de cadél agente social. além de insistirem na crítica global desses efeitos. impressoras. No caso das ciências e disciplinas. 150 ▲ .). sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de nossa civilização. popular. dispersão e perda da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação". relógios de ponto etc. ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE. dominação e mistificação. arquivos. das contribuições científicas. revolucionários. a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico.fragmentação do saber. Em termos sociais e epistemológicos. ou seja. os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo. EQUIPAMENTO: conglomerados complexos. em todas elas. montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos técnicos). assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer (particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). corporações). redundam na fragmentação. à incapacidade de julgar e conduzir seu andamento. Por outra parte.

a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que se originam ao acaso*. A Esquizoanálise também é definida com outras denominações. "Análise Nômade" etc. Mas a produção de produção de novidades é capturada pelos estratos. a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura liberar o processo produtivo-desejante-revolucionário. As máquinas desejantes dispõem-se e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". o real é constante e integralmente produzido. a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e outras positivas.ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre. O processo produtivo de produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia. puras diferenças intensivas. Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. destinadas a propiciar o livre fluir da . Entendida como procedimento para pensar e compreender o real. Nesse sentido. cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. mas pelo desejo. concentradora e acumulativa. mas como ser do devir). infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas desejantes". política. 151 ▲ . essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos. colocada a serviço de uma entidade centralizadora. Segundo a entendemos. psíquica. estão" precedidas" por um campo de materialidades "puras".produção e do desejo na vida biológica. e mais ainda. totalizante. ecológica etc. em cujo âmbito as inúmeras revoluções são feitas não apenas por necessidade ou dever. Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e tecnológica seria estéril. demolindo as constrições da parafernália de controle-registro. ou seja. uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade". que varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra". tais como "Pragmática Universal". para essa concepção. consubstanciais ou inseparáveis uma da outra). em qualquer tempo ou lugar. Mencionaremos apenas que. "do Déspota" ou do "Capital-Dinheiro"). territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à repetição do mesmo. tais materialidades são imanentes (quer dizer. A essência do real é a "produção desejante". a microfísica e a biologia molecular. Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica". Uma dessas formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática no livro "O Anti-Edipo" (1972). comunicacional. podendo-se distinguir nele uma produção de produção.

A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de dominação* e mistificação*. efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. agente e instrumento de persuasão. FANTASMA: para a Psicanálise. mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e legitimação. que obtém por meio de sua concordância com a Lei. apresentando-se aparentemente como expressão da vontade majoritária. coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes. para que a classe recupere a margem real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita. Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza. o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. grupos e idiossincrasias dominantes. A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito. e ainda do significado do que diz. mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo. os avanços esperados. em 152 ▲ . EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças. Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintesorganizantes dentro do Estado. Os sociopsicanalistas decifram e interpretam esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho. os possíveis retrocessos ete. meios e resultados dos processos produtivos de toda índole. do estado de coisas às quais este se relaciona. Seu principal instrumento é o Direito. as alternativas viáveis. mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. micropoderes do Estado). a previsão de curso. Os psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis si mesma.ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos. É uma sistematização das metas a serem alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*). e o planejamento da progressão das manobras. corpo estabelecido de leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados. O Estado não se compõe apenas de grandes organismos. ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção. repressão. Existem muitos diferentes tipos de Estado.

FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). sejam elas científicas. estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social. opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. Para Guattari. da novidade. da invenção e da metamorfose. Em conseqüência. então é um grupo sujeito (protagônico). organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram. A função apresenta-se às representações e crenças das sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural". A rigor. 153 ▲ . é um grupo sujeitado. invariável. a afirmação de que a gênese social e teórica são inseparáveis entre si. Do mesmo modo. GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e doutriné1s.). procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*estabelecidos. tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte. Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e de construir a si mesmo durante o processo. opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias. um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos. Entre seus produtos estão os instituídos*-organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo.FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos. GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver Esquizoanálise*). lógica e necessária. procedimentos. não se entende nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica. a tecnocracia. seus agentes* e práticas*. eterna. prevalentemente. a burocracia. assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos". Pelo contrário. Em todo caso. não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual. prescindindo de alguma leitura que os torne inteligíveis. ideológicas. a belicracia etc. filosóficas ou estéticas. dominação* e mistificação*. É o gerador da diferença. conjunturas. a serviço das diversas formas históricas da exploração*. que se empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade. universal. e não "individuais" ou "coletivos". têm apenas uma autonomia relativa com respeito aos acontecimentos*. a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo". A função está sempre.

HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. Não existe um processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. políticas. obsoleto e morto. Trata-se da reconstrução dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. a História não é a investigação acerca do que já está definido. intrigas de corredor. Na Psico-Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo. que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes convêm. etapas. mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. biológicas. o conjunto de elementos que coexistem e operam. quando não exclusivas. geológicas. interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. períodos ou épocas localizáveis geográfica ou cronologicamente. são seres idênticos a si mesmos. as Idéias Puras. não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro. a horizontalidade designa a dimensão grupal atual. mais importante pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma. ou seja. Pode-se tentar articular os diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras. existem histórias econômicas. ou seja: rumores. consistem apenas numa versão a mais. das classes dominantes e do instituído*-organizado*-estabelecido. A História. vínculos sexuais etc. A rigor. a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde às relações e aos processos informais. geracionais. eternos e invariáveis. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais. é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado. Existem variados processos. HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos. tão tendenciosa como qualquer outra. sexuais. Assim entendida. modelos de tudo que existe. Assim. cada um transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. raciais. mas como o presente ativa e deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. culturais. aparentenlente claro e acessível. configurando-se no aqui e agora do campo grupal. Por outra parte. IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo. assumindo que o fará a partir dos desejos.HISTÓRIA: para o Institucionalismo. Delas só se pode predicar sua 154 ▲ . é uma versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*. Em geral. para o Institucionalismo. segundo Platão as concebeu. mas o conhecimento de processos vigentes no presente.

valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo.própria essência (por exemplo: a brancura é branca). As Idéias Puras são sinônimos de "ídolos" para alguns autores. ou por forças ativas (por exemplo. a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*. distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. Segundo esse sentido. denominam-se cosmovisões ou visões do mundo. Segundo seu matiz político ou ético. convicções. Todos eles são 155▲ . Análise Institucional *). Opõe-se à transcendência. que é a visão das Idéias Puras. Enquanto sistemas de representações. Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos ocupam nos sistemas que se representam erroneamente. Para algumas correntes do Institucionalismo. é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um ideal ou modelo. este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. ou seja. Essas representações estão animadas por vontades e desejos. as das classes dominantes) que produzem. A ideologia. à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que são "realizações" de desejos inconscientes. Em geral. Para o Institucionalismo. para outras. definida como oposta à ciência. IMANÊNCIA: para alguns filósofos. carece de interesse. enquanto implica a virtude e o bem supremo. IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações (crenças. e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras). a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com suas condições reais de existência. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. culturais (sociais em sentido amplo). Em outra direção. à procura da Verdade. Quando configuram sistemas amplos. políticos. constituem as ideologias teóricas. os naturais e os desejantes. O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser encaminhado como amor ao saber. e essa é também uma proposta ética. a ideologia dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. mas podem ser também disposições para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *). expressa a não-separação entre os processos econômicos. em uma sociedade"'. apenas um saber aproximativo e viciado por erros.

Segundo seu grau de objetivação e formalização. Um conglomerado importante de instituições é. processos. INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico. Esse processo é considerado a base material e condição de existência de toda e qualquer sociedade. a religião. da Sociologia e da Economia Política marxistas. distribuição. o que é permitido e o que é indiferente. em especial o Complexo de Édipo e o desejo. que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento. ciência da História. INCONSCIENTE: em um sentido amplo. as forças armadas etc. Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo. o Estado*. podem estar expressas em leis* (princípios-fundamentos). denomina-se infraestrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção. consumo e desfrute de bens materiais. intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. o dinheiro. quer dizer. Superego e ld. as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. dito em sentido amplo. troca. e um processo: da institucionalização. a justiça. denomina-se instância a cada região que compõe o território ou domínio do modo de produção. Na versão clássica do Materialismo Histórico. um resultado: o instituído*.inerentes. forças e representações. operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*. Essa terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção. e também das instâncias do aparelho jurídico. As 156 ▲ . apropriação. o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo. as relações de parentesco. particularmente na versão de Althusser. especialmente o recalcamento primário. a infra-estrutura determina a superestrutura*. Exemplos de instituições são:a linguagem. mecanismos. O significado psicanalítico designa instâncias. Para realizar concretamente sua função regulamentadora. É um campo histórico que sofre uma repressão político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social. a divisão social do trabalho*. a Sociopsicanálise). de uma sociedade humana. por exemplo. INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas. indicando o que é proibido. a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego. normas ou hábitos. Para outras. INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico. refere-se a realidades e processos que não são conscientes.

No transcurso do funcionamento do processo de institucionalização. sendo 157 ▲ . INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos. Quando esse efeito foi produzido pela primeira vez. o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela. diz-se que se fundou uma instituição. o instituído tem uma tendência a permanecer estático e imutável. a implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*. Para operar concretamente. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se apresentam como universais e mais ou menos invariáveis. de acordo com as exigências do devir social. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte*organizante* e. devem permanecer abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. os interesses divergem ou se opõem aos desejos e fantasmas inconscientes. como parte do devir das potências e materialidades sociais. conservando d e ju ri estados já transformados de fa cto tornando-se assim resistente e e conservador. Em geral. O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. Os interesses caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. LEIS: consistem na formalização e explicitação. INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante-revolucionárias que tende a fundar instituições ou a transformá-las. Todo esse procedimento parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em táticas. Para que os instituídos sejam eficientes. das árvores de valores e decisões que constituem as instituições*. grupos ou classes na atividade social. INTERESSE: denomina-se assim às motivações. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados pelas Utopias Ativas*. Contudo. expectativas e demandas pré-conscientes e conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes. e freqüentemente se descobre que sua suposta racionalidade não é mais que uma racionalização. o processo de institucionalização deve ser acompanhado de outros organizantes* que se materializam em organizações*. no seu limite. aspirações. desejos. INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído.origens das instituições são difíceis de determinar. em textos e/ou discursos. Pode-se falar de quatro instituições "fundantes" das sociedades humanas (ver sociedade*).

organizações. designa grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar. mas o de um exemplo singular. o termo marginalidade está muito relacionado com a oposição centro-periferia.. raciais. ideologias. MARGINALIDADE: por referência a teorias. legítimo. Freud utilizou o conceito de massa como sinônimo de grande agrupação. sinônimo de organizações. idiossincrasias (sexuais. Chama-se "Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. As massas "estáveis" são. econômicas.referendadas. nacionais. jurídicas) etc. e não intradirigidos. MASSAS: noção de difícil definição. cujos integrantes carecem de "identidade" própria. o laíssez-faire o democrático. A logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. etárias. considera-se marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central. Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército. movimentos. Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros. o acesso 158▲ . Avalia-se o que está disponível para contribuir ou para dificultar o trabalho. que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. espaços físicos. Os mais característicos são: o autoritário. LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. Quando o líder é um autêntico e recurso para o funcionamento instituinte. Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias leis". de modo plausível. Seu estatuto não é o de um modelo. são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação. que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. pelo Estado ou a Igreja. são instrumentos formais produtivo-desejante-revolucionários. Num sentido. por exemplo. a de classes) se apagam em função de outros parâmetros (por exemplo. O Institucionalismo conhece e aplica as leis científicas que lhe são úteis. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. geográficos ou abstratos. Em outra significação. doutrinas. denomina-se revolucionário-desejante-produtivo. LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de condução. Obviamente. consagrado ou autêntico nos campos correspondentes. refere-se a conjuntos humanos amorfos.

como. A partir da Psicanálise.ao consumo de certos produtos). tem sido sempre prioritária. segundo dizem os experts. MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção. crenças. as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*. difusão e assimilação de representações. assim como supõe ter necessidades cuja existência foi produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. convicções e valores que deformam. definem-se tais necessidades e se convoca e modula sua demanda. onde. Ou seja. costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda. sendo compensável com as respostas que a complementem. MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades "naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". no que se refere a bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental). não é um pedido do que manifestamente se solicita. categorizado como "objetos das necessidades básicas". A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória. de máquinas de semiotização de captura e recuperação* . e a simbolização. um destino 159 ▲ . entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo. previdenciário. Essas decisões e as ações que elas orientam são. "cientificamente" fundadas. pede uma impossível restauração narcisística. educação. A necessidade não satisfeita origina uma privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. e com eles. Nas sociedades industriais modernas. Uma sociedade* tem necessidades que não conhece e não consegue definir como tais. Dessa maneira. que a Psicanálise define como essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam". e de acordo com a "vontade popular". do ponto de vista psicanalítico. São eles os que decidem o que. quanto. o gozo absoluto. em troca. a construção de um "Estado beneficente. O desejo. mas de "amor" e "reconhecimento". sempre visando "o bem comum". O que resta da produção é o que se oferece às comunidades. encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos. Já a demanda. administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*. Pode-se considerar os processos de mistificação como sinônimos de produção. A produção de objetos suntuosos. transporte etc. bens de luxo e desperdício dos setores dominantes. difusão e assimilação de ideologias regressivas ou. segundo outra terminologia institucionalista. os experts.

Essa superfície está integrada pelo "corpo sem órgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de maneira binária – máquina-fonte-m. técnicas.que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga. 160 ▲ .socializável. Os dispositivos* e máquinas de guerra nômades. da estabilidade. Algumas correntes institucionalistas questionam radicalmente essa concepção do desejo*. métodos. É o lugar dos códigos. Em outra terminologia. Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que. É o lugar das matérias não-formadas e das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. Nesse espaço constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númenvoluptas). Nessa ordem. estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente libertários. das formas sujeitos e objetos definidos. segundo o acaso* ou uma lógica aleatória). as entidades características são os estratos e os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. da conservação e da reprodução*. Igreja etc. o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. sobrecódigos e axiomáticas. MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências subscrevem alguns objetivos comuns. este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de registro e controle e a de consumo-consumação. assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem. agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o desejo* e a produção*. Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro". estratégias e táticas de leitura e de intervenção. dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*. este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção desejante.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções. resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades molares. Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias. Assim configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo. MOLAR: para a Esquizoanálise*. onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*. entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos processos de auto-análise* e autogestão*. MOLECULAR: para a Esquizoanálise. em suas ligações anárquicas locais ou à distância. É o campo da regularidade.

reação-reformismo-revolução etc. Para as diversas correntes do Institucionalismo. permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais. que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias.. também tem. Em geral. organizações e comunidades diante das situações desconhecidas e novas. c) afirma que a substância do real é a diferença pura e a produção desejante. assumida ou não. ligada a categorias de diferença-repetição. atitudes. eternos e invariáveis. ou. Basicamente. o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como reações em cadeia. em um sentido mais amplo. transferência-resistência. a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. é tratada segundo as inspirações teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu nas ciências humanas e na cultura ocidental. da insistência do desejo e dos princípios de constância e inércia.MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) à transformação valores ou diferentes. sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais e pré-sociais. b) sustenta que as mudanças. ou então causas ou efeitos de um desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. Em todo caso. Para algumas comunidades primitivas. ou até extremistas. No outro extremo da História. entre seus temas mais importantes. ou seja. comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. costumes etc. e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas. a problemática da mudança. o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se mantivesse exatamente idêntico em organização. pode-se dizer que. por sua parte. para seren1 sólidas. tal como ela se apresenta nos grupos. entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas".. para imitar o mundo e o tempo divinos. 161 ▲ . dentro de um espectro de radicalidade crescente. simultaneamente biosociolibidinais. a oposição. A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural-funcionalista insistiram muito na problemática da mudança e da "resistência à mudança". em todos e cada um dos aspectos da vida. mas é considerada invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência. devem ser integrais. Essa omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária. refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou distorcidas nos discursos. NÃO-DITO: no Institucionalismo. textos. "transformacionistas". consciente ou não. que resulta da natureza conservadora das pulsões. A Psicanálise. a questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da compulsão à repetição.

Esse processo exige das organizações a abertura para efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. adquirindo uma série de vícios. textos.Contudo. De acordo com sua dimensão. vão desde um grau complexo organizacional. o mais conhecido é a burocracia. Uma organização* só cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 162 ▲ . como um ministério. OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada. comportamentos. espaciais. A oposição pode ser mais ou menos acirrada. que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante o processo de institucionalização. como aos manejos do poder. pois para o Institucionalismo não é possível uma posição clássica de "neutralidade" ou "objetividade". ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva. ao desejo e à vida. perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que a integra. vai-se produzir uma nova organização que é o verdadeiro objeto de análise. até um pequeno estabelecimento escolar. OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos. O organizado é ilustrado no esquema do organograma e do fluxograma da organização. autorizada. Na terminologia da Esquizoanálise. atitudes. no Institucionalismo. inventiva e transformadora que tende à otimização das organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*. chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). estrutura e dinâmica dos agentes. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos. da antiprodução* e da morte. exagera-se em torno de sua função. ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". E necessário para orientar o funcionamento da entidade. ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica. Assim. mas em geral é reconhecida. correspondem às grandes formas molares da superfície de registro. grupos. mas tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se. técnicos. o não-dito remete predominantemente à ignorância. à má-fé ou à repressão no seio dos discursos. É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz no encontro. organizações e movimentos. cronológicos (etc. Esse omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*).

consciente ou não. ativa etc. a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente novo. PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas. em geral ele se aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente. como o de "bode expiatório". algumas cujas 163 ▲ . Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente emergentes. transformar etc. PARTICULARIDADE: ver Universalidade. PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e grupais em particular. na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. Os papéis são emergentes de configurações estruturais que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes indivíduos-sujeitos-agentes* sociais. mas também em um sentido positivo de orientação: o poder incita. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se possui ou se detém. inventar. Desejo* Instituinte*). PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na planificação. a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver Produção*. segundo as circunstâncias. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os outros e carece de sentido fora desse vínculo. POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes teóricas e técnicas. Quando um agente social abandona o papel este se expressa ou manifesta através de outro participante. Particularidade e Singularidade.organizado*. Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados. provoca. "sabotador". criador de vida. mas que se exercita. Isso não significa maiores modificações de fundo na propriedade. convoca. decisão. Em geral. como "masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). destinados a impor a vontade de um segmento social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. come caracteres de personagens teatrais. "seguidor". execução e benefícios da atividade. e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição). POTÊNCIA: no Institucionalismo. emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de produzir.

com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à especificidade*. é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas determinações que para seus próprios agentes. designa todo processo pelo qual um agente. É o devir. Em um sentido descritivo. gerando um produto específico. a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. organizações* e estabelecimentos*. A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação "vocare": chamado de Deus)." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas. PRÁTICAS: em um sentido epistemológico. Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de militância. as profissões compreendiam o Sacerdócio. Entre as tendências que o integram. e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento.: Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio. a Medicina e a Carreira Milita. desde o início. a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e academias universitárias teve. PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue. Em geral utiliza-se o termo "prática" para as ações específicas e qualificadas. uma dupla natureza – de 164 ▲ . a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima. a metamorfose.características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal. diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*. subjetiva e socialmente. Para o Institucionalismo. coordenação de grupos e intervenções organizacionais. dotado de força de trabalho qualificada. No Institucionalismo. É aquilo que processa tudo que existenatural. técnica. PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico esclarecedor e a ação transformadora do real. a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por Georges Lapassade. enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às inespecíficas e não-qualificadas. assim como de autonomia e independência relativa. pode-se mencionar a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich). a Advocacia. É a permanente geração de tudo que pode logo tender a cristalizar-se. PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional. Apesar do já dito. tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*. expressivo e dramático nos tratamentos clínicos. É equivalente ao funcionamento*. com sua proposta de Transe-Análise.

por não reivindicar o caráter científico (ou seja. por um lado. de uma maneira ou de outra.controle de qualidade dos serviços. significa voltar a pedir. poder e prestígio do corporativismo e do academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista. à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao elemento humano nas organizações. "neutro".. todas afirmam a constituição. RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70. O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais. no campo da Administração. (ver Psico-Socioanálise *. nações etc . gratificação. regiões.) PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que. econômicos e outros. inconscientemente. de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder de que dispõem para mudá-as. instrumental ou operacional) que elas se atribuem. No filosófico. Interacionismo Simbólico). REPETIÇÃO: em um sentido etimológico. frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado individual ou coletivamente. Falase de Recursos Humanos como um dos componentes de um espectro de recursos: físicos. 165 ▲ . PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que as classes institucionais regredidas fazem. tecnológicos. produziu-se uma série de mudanças no status de profissional. ligaram-se ao poder do Estado e ao das empresas. O Institucionalismo insiste no estudo e no desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro. distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica. mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. refere-se à reiteração ou reapresentação de idéias ou de realidades. antes considerados de segunda categoria. começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos" para referir-se. consciente ou inconsciente). da "modernidade" hiperespecialista e da suposta independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. por outro. As práticas profissionais. entre outras coisas. Existem várias correntes de Psicologia Social. Comportamentalista. De maneiras muito variadas (por exemplo. visando o lucro. Gestaltista) ou à Sociologia (por exemplo. Esse título ampliou-se a outros ofícios. mercantilizaram-se. mas se diferencia delas. toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). Com a modernidade. formando as cúpulas tecno-burocráticoacadêmicas – mas também se degradaram como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização.

SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo. designa as tentativas de reiterar algo idêntico. 3) o diferente absoluto. culturais e subjetivas. pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 166 ▲ . demoníacos e inclassificáveis. ou ainda. mas o diferencial. acontecimentos e transformações naturais. os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que não conservam nem a imagem. melhor. a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de matizes imaginários e fantasmáticos. e podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. Trata-se de comportamentos. de entender o retorno do diferente. Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões simbólicas. nunca o consegue por completo. igualou similar ao que já existe. O Institucionalismo sustenta que o que retoma na História não é o idêntico. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. Dessa maneira. REPRODUÇÃO: num sentido etimológico. mas puro devir. realísticas. ou seja. obviamente. não interessa tanto estudar as leis que dão conta das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas astronômicos do cosmos ordenado. Se bem seja certo que a superfície de registro. Em conseqüência. Na Filosofia. carecem por completo de identidade. ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico". grafitos ete. o igualou o mesmo. produto do acaso. grupo ou movimento. do aleatório e imprevisível. analogia ou semelhança com o idêntico ou o mesmo. tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso. Platão os considera falsos. que é radicalmente transformadora ou motor da História. Sua "encarnação" mais prototipica estaria nos sofistas. tradições. atitudes. nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e. Não são seres. o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. a diferença absoluta. o instituído*-organizado*-estabelecido. Trata-se. procura-se deter os devires. 2) o diferente. documentos. cumprindo sua função conservadora. entendido por relação de negação. tenda a capturar o retorno do diferente para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema. sociais. significa cópia ou imitação.Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o idêntico ou igual. o romance institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização. capturando-o e recuperando-o (ver Captura e Recuperação). mitos. na Sociologia e para o Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *).

não apenas econômico) reconhece-se uma instância" determinante última" (condição de existência). é a partir da década de 20. como o de T Parsons e outros. SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius. francamente críticos. SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*. SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da participação causal.como a essência do real. Como se vê. um tecido de instituições*. compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*. Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a indústria. É possível. que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*. incluindo o instituinte*. o organizante* e a superfície de produção. respectivamente.que pertence às formas definidas da superfície de registro. Define-a como uma rede. contudo. desloca da e condensada de todas as forças. articulada. sinérgica ou contraditoriamente. que se compõe de diferenças puras. singularidades* intensivas. agentes* e práticas*. que são o ser do devir ou processo produtivodesejante-revolucionário. a religião e a divisão técnica e social do trabalho. estabelecido. No entanto. Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo. As instituições interpenetramse e articulam-se para regular a produção e a reprodução* da vida humana. Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *). estabelecimentos*. organizações*. as relações de parentesco. SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. ampliar essa definição. essa definição está bastante centrada no instituído*. complexa. Alguns institucionalistas afirmam que as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua. A ação causal conjunta. hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se denomina sobredetermi nação. fluxos. uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição de transformação). Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas. Os objetivos desse enfoque são a racionalização e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações. assim como a passagem da solidariedade mecânica à orgânica. organizado*. sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades. 167 ▲ . instâncias e representações que.

onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor compreendidas. Whyte. bastante ortodoxa. trabalhadores. Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento psicofamiliar. conseguindo. quando se abordam os coletivos. diminuir os insumos. que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. em vez de principalmente simbólica (correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). do Materialismo Histórico. Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de que. assim. avaliação e comportamentos transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. denominada Desenvolvimento Organizacional. sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. num sentido coletivo. A Sociopsicanálise sustenta que. SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise. um processo regressivo de ordem coletiva. Segundo Mendel. SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários. denomina-se assim à percepção. a Sociologia das Organizações. Mendel articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce. do poder e prestígio. devido à sua série disposicional pessoal. cuja viabilidade é considerável. A 168 ▲ . a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado (ver Alienação*) no Capitalismo. no qual os sujeitos viven. do resultado do trabalho.como os de W Mills e W H. a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza. necessitando dos cuidados de um outro para ter sua sobrevivência garantida). Foi fundada e desenvolvida por Gérard Mendel. visa facilitar os mecanismos culturais.) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera". particularmente uma de suas modalidades. comunicacionais e motivacionais (do conjunto empresarial e dos grupos que o integram. Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra. Segundo a denúncia institucionalista. O resultado é uma abordagem politicamente moderada. uma vida preferencialmente imaginária. Essa experiência de limitação gera neles. o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos patológicos é o local de trabalho.

toxicodependências). Trata-se da condição obtida por um papel dentro de uma sistematização hierarquizada dos mesmos. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os levava a se refugiar num mundo de fantasias.ntelismo. próprios de cada momento. para algumas orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável. A metodologia de intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica. Há. sujeitada e submetida. SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 169 ▲ . inibições. como "enfermidades infantis do trabalho": voluntarismo. enfim. SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*. No plano da militância. junto com eles. o modelo científico que temos no Ocidente como universal. messianismo. sim.situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram. em todo tipo de patologia biopsico-social. Esses são absolutamente contingentes. Inclusive. o que os levará a vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia. povoada por figuras fantasmáticas de sua vida familiar. esses quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar. STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. através da análise e da intervenção. Mas a cura não é definida em termos individuais. autoritarismo. clie. contraproducentes. desejante. social ou psíquico. por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme. buscando soluções mágicas. com Lênin. revolucionária. fisiologismo ete. momento histórico. raça ete. principalmente a interpretação. a montagem de dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e. populismo. O lnstitucionalismo pretende propiciar. produtiva. e pressupõe um movimento de cada classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de trabalho alienado. ubíqua e universal do sujeito filosófico. lugar e conjuntura. e sim coletivos. delírios. o coletivo institucional também passará a funcionar nesse registro. somatizações. os modos de subjetivação que os mesmos precisam. invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer sociedade. e geram sujeitos singulares nas margens de cada acontecimento*. classe social. que vão res ultar em sintomas (atuações. Com isso. infinitos e heterogêneos processos de produção de subjetivação livre.

discursivos. sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição. 170 ▲ .psicológicas (entre elas. lúdicos. TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros.) a serem adotados de acordo com as circunstâncias. tais como: Umbanda. conteúdo ou estilo. interrelacionais. reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do psiquismo). Para outros Institucionalistas. remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. não existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento. É o momento de seleção de recursos a serem empregados na etapa imediata. assim como de produção. Algumas correntes institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise. TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*. Por ou tra parte. na instância jurídicopolítica é onde se processam os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente. transformação. Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe. com propósitos diagnósticos e elaborativos. denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídicopolíticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos. coletivos etc. Quimbanda e Candomblé. por exemplo). grupais. ciência da História. difusão e assimilação de representações e valores ideológicos. Na versão clássica do Materialismo Histórico. a superestrutura reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura. da Sociologia e da Economia Política Marxistas. artísticos. desportivos. do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento e peculiaridades do coletivo em questão. expressivos. composição. a Psicanálise). SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico. segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*organizado*-estabelecido. informativos. Trata-se de procedimentos (interpretativos. Os processos superestruturais operam a reprodução ampliada do modo de produção. TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. Posteriormente. Sua escolha é consideravelmente livre e dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora. O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. sensibiliza dores. O que existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou similares.

Certas correntes do lnstitucionalismo. TRANSVERSALIDADE: interpenetração.as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. papéis. A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas organizações*. deflagram efeitos transversais inventivos e libertários. segundo a corrente de que se trate. códigos. existiria uma transferência que não funciona como resistência ou obstáculo. No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional. Para essa orientação. sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais. demandas. Em geral. estereótipos gestionários. desejos. e. No Institucionalismo. SINGULARIDADE: no que interessa ao Institucionalismo. o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos particulares e singulares de seu objeto. é importante 171 ▲ . considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e os variados aspectos da vida institucional como um todo. uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras bastante modificadas. mas como motor das transformações. PARTICULARIDADE. UNIVERSALIDADE. fantasmas. a partir de conexões locais. entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes. O que se repete são pulsões. que é imanente à rede social das forças produtivo-desejantesinstituintes-organizantes. o que se repete substancialmente é o diferente. em conseqüência. os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos. gerando efeitos à distância sem transmissores detectáveis. Contudo. Reich e outros). elaboraram uma profunda reflexão filosófica sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. GENERALIDADE. É uma travessia molecular dos estratos molares. A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis. territórios. a idéia de transferência pode ter. como por exemplo a Esquizoanálise. estruturas e até complexos destinos organizacionais. que propõe a autogestão* ou a gestão participativa dentro de cada estabelecimento. TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein. no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem membranas celulares nem limites externos precisos). Como montagens. entrelaçamento. Lacan. pré-conscientes e inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva". hábitos comunicacionais. tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas.

Lourau. freqüentemente designa-se o conjunto dos usuários como "staff-cliente". Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais do particular e do singular. enquanto cada um deles se define por sua afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. a singularidade (por exemplo. do tipo dos que são 172 ▲ . na medida em que se refere a um objeto único. usufrui de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". dessa maneira possibilitaria sua desalienação. a Análise Institucional estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos. Pode-se sustentar que nega de uma só vez a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade. Um juízo ou um conceito universal abstrato é. assim como contribuiria para a reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal. O momento da singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. em certa medida. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já estava compreendido no conceito universal. um puro produto do pensamento. vazio. cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro momentos: a universalidade abs trata (por exemplo. possui. entende-se por usuário quem demanda. se apropria. as línguas indo-européias). UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais em seus aspectos instituintes*-organizantes*. consome. adquire. Supõe-se que a intervenção no caso singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e no saber dos coletivos institucionais. a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas). O momento da generalidade compreende a caracterização de um atributo abstrato da universalidade. por um falante/ouvinte desse dialeto). mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. tal dialeto napolitano e seu uso concreto. USUÁRIO: no lnstitucionalismo. máximo nível de determinação atingível. No caso de uma intervenção institucional standard. Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo. personalizado ou anônimo. Segundo entendemos a proposta de R.diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto. Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica. a particularidade (por exemplo. O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da generalidade.

desta forma. para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a quinta edição. pathos. avaliar acertos e desacertos do primeiro texto. sem dúvida alguma. sendo que cada período histórico tem.enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos"). e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica". Optei por reproduzi-lo quase sem alterações. a verticalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde ao organograma formal.expressando isso de uma forma clássica. quer dizer: cargos. hierarquias. a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo grupal. funções etc. o processo produtivodesejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. ou seja. lagostelos. este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência. relacionado-o com o segundo. mas também à importância de marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento. em outubro de 1995. contudo me parece que tem o direito de tentar. Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins e meios. umepospeculiar. cronos. a existência de uma composição sui generis e não é exclusiva da nossa fase. composto dos seus próprios ethos. Primeira Parte O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados. Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná-lo com a biografia do autor. a individuação de um real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. Desde já. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo. Parece-me interessante que o leitor possa. como se 174 ▲ . topos. obviamente a partir de suas próprias convicções. 173 ▲ APÊNDICE O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro. Neste final de milênio vivemos. Obviamente.

"espaço". no lugar da predisposição ao uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. – Como causa e efeito dessas transformações. tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari. raciais.utomatizadas". ditatoriais. tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições democráticas. Uma análise detalhada dessas categorias seria. que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a atualidade tem havido. "Sociedades Pós-Industriais". de certa forma. Nessa designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do Capitalismo". de comunicação. "partes". tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil. serviços. regionais. geográficas. – Nesse mesmo lapso. legislativas e executivas. de idade. tais como "Globalização". desde o local até o mundial. ou "Hipermodernas". autoritários e outros. de situação econômica. Conformarei-me apenas em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. "todo". onde vige. "Pós-Classes" e "Pós-Massas". evidentemente. o mesmo tendo se realizado em todos os campos e níveis. gerou-se uma tendência ao desmoronamento de regimes políticos totalitários. ou "lnformatizadas". 175 ▲ . excessiva neste escrito. "cultura". pelo menos formalmente. o Estado de Direito. "valores". e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos indiretos. Isso propiciou uma inclinação ao predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos. um crescimento enorme da "Riqueza" – entendida como meios de produção. de distribuição. de culto. constatar. "pensamento". – Esse incremento inclui bens materiais. ou 'A. de troca e de consumo. e que esse aumento qualitativo e quantitativo resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados. a sua. os Direitos Civis e os Direitos Humanos. e porque não. cabem – devidamente redefinidos – termos mais ou menos "na moda".sabe. Também cada" civilização". porém. sexuais. judiciais. de circulação. como aplicação teórica de um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento. ou "Pós-Modernas". integrado por uma função axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. assim. "movimento". Costuma-se declarar. em setores localizados do mundo. "presente". "permanência". cultural. política. nacionais. tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de idiossincrasias minoritárias. sendo que. "Multitudinárias" e assim por diante. Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado". detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por "passado". "troca". incorporais. "Transnacionalização". possibilitando. representativos e eleitorais.

esses processos não são universais nem suficien temente implantados. empresas livres e outros-. em todos e em cada um dos processos. cultural e subjetivo. assim como pelo culto à liberdade. que são oportunamente subsanáveis. essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduossujeitos-agentes-produtoresconsumidores-usuários conscientes. justiça e ordem pública. assim como determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que. toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência. os Socialismos Reformistas. assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional. 176 ▲ . baratização. à justiça e à competição sadia. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente fracasso de todos os ensaio de "Comunismo". não somente em quantidade como também em amplitude. tais como fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação. Esses setores a dificultam devido a vocação. que tendem a realizar-se de forma gradual. todavia não superadas. desejos. usuários. interesses e açôes contrários a esses desígnios. consumidores. No campo do social." em vias de desenvolvimento e de crítica". economia de mercado. funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde. Todos esses indicadores de "evolução". exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil. podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas" adversas. "Socialismo Real". e ainda hoje continuam trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. de formas arcaicas. diversos "estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas. Isso significou a vigilância e ingerência sobre tais poderes. incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo.porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei. "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista". modernização das estruturas. compactuação. eficientização. resistem em adotar os princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados. democratização.lógicas e âmbitos. e nem aperfeiçoados. transitórias e circunstanciais. – Desde já. Por isso.– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção. planejamento e execução. persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo. – As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização – diminuição. por diversas razões. limitação. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis. educação. estruturas. crescente e incessante. agentes. – Obviamente. as Sociais-Democracias e ou tros similares. imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí generís.

uma série de impressões que. uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade. Está claro que existem inúmeras versões a respeito que. apesar de muito mais sofisticadas e matizadas. demonstram ser a "menos pior". ou os cita apenas nas passagens em que supõe poder refutá-las. os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos triunfadores. de acordo com esta leitura do panorama mundial. O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos. da qual estas "impressões" são um 177 ▲ . não se pode evitar a sensação de que. vale a pena repassar. ou bem os despreza. à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo agora. pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato" que se pinta dela. não deixam de conduzir a conclusões parecidas. senão a única alternativa possível para a consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. mesmo frágeis e freqüentemente precários. é a sólida confirmação de que os modos de produção. Em primeiro lugar. os regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado. Em terceiro lugar. comportando-se como se acreditasse que "na prática todas essas teorias são outra coisa". Segunda Parte O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor. não servem para nada. isto é. como se fosse uma "novidade recémdescoberta". ou funcionam somente dependendo do uso peculiar que se decide fazer delas. a meu ver. frente ao quadro que acabamos de delinear.Esse andamento. uma maneira de descrever. ou é repetida. O mais grave desta "realidade". incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante. apesar de não ser a culminância. de forma parcial ou distorcida. Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostumase a experimentar. entender e avaliar o panorama munclial contemporâneo. Estes. isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos. Em segundo lugar. são tratados como se fossem inexistentes ou irrelevantes. de forma esquemática e prototípica – e faço votos para que não tenha sido irônica –. vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto.

planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo. heterogênea e onipresente maquinária que gera esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possívele os "estilos de vida" e "de morte" que lhe são conseqüentes. sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade. mesmo se empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições. procedimentos e resultados. por outro lado. ou como" especialistas com falso prestígio". Em alguns campos do saber e da vida notoriamente na Economia. conceitos. a não ser aquelas que consistem em um aperfeiçoamento do conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde. falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial. "a rigor". conseguem apenas dissimular sua sistemática 178 ▲ . A sentença mais draconiana é que "são inaptos para oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos". desprezo e exclusão mais ou menos sutis. Psicologia e Política – as declarações. não existem reais alternativas para a situação imperante. signos. Sociologia. agir e coerentemente viver de acordo com uma inteligência crítica e segundo alguma dessas propostas questionadoras supostamente inexistentes. desavisadamente. categorias. A colossal. indicadores. Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter que suportar a atribuição do status e papel de "catastrófilos". de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. rótulos esses que servem para etiquetá-los como "amantes ou cultores" mórbidos. ou como" delirantes adoradores "de um cataclismo imaginário e inexorável. acabam por compartilhar." catastrólogos".não apenas podem sofrer as mesmas ações repressivas de seus antecessores de todas as épocas – que. obscuridade. é que a versão que relatamos anteriormente – que. longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência. analisadores ou idéias com os quais se pensa. dependendo do país onde atuam. refinamento e desacordo que. conceitos. tudo depende de como se define cada um dos termos: noções.registro. vai desde a eliminação física e a tortura até a reclusão ou o exílio – mas também tornarse passíveis de inúmeras modalidades de desqualificação. escrever. muitas das suas categorias. os conhecedores dos processos de construção e difusão "ideológica". é sabido e constatado que aqueles pensadores militantes. desejos e interesses do pensamento crítico. ou simplesmente cidadãos que resolvem falar. mas também da difundida convicção de que. funções. Em verdade. se avalia e se procede frente ao estado contemporâneo das coisas. Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –. Boa parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumidaresulta não só da estupidez e de necessidades. Em quarto lugar. "catastrofistas".

e os números que verdadeiramente interessam para tomar posição definitiva acerca das questões mais cruciais são considerados sigilosos e mantidos em secreto. As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que: – Dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra. evidentemente. Há hoje levantamentos estatísticos acerca de "tudo". 179▲ .a errônea O problema não consiste em puxar conclusões sobre se o mundo de hoje é melhor ou pior. Essa questão de "otimismo" versus "pessimismo" é. não costumam coincidir uns com os outros. são poucos os resultados que podem ser considerados confiáveis. mostram uma peculiaridade surpreendente. é abordada de fom. pelo menos um bilhão vive em um estado que a Organização Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta. se bem necessários e ilustrativos. quantitativa e qualitativamente. O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono. se por um lado – como veremos mais adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas são tragicamente ostensivos outros são confusos. que na Idade Média. Frente a essa formidável escalada. tão velha como o próprio mundo. tornariam estas linhas intoleravelmente difíceis de serem escritas e lidas. em todos ou em algum dos aspectos da existência. – Dois bilhões de pessoas do globo terrestre subsistem em um estado que contempla apenas racionalmente o que – de maneira muito controvertida – denomina-se "satisfação de suas necessidades básicas". Tampouco. Porque. e "todo mundo" parece ter acesso aos mesmos. Muitos autores enfatizaram a velocidade do processo que o incremento das mais diversas potências adquiriu nos últimos vinte anos: a mesma é tão vertiginosa que resulta muito maior que a conseguida nos recentemente passados duzentos anos. assim a valorizações complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão. por exemplo consiste em cotejar o que o Capitalismo veio a ganhar com os desmandoó do Socialismo Real. nossos tempos. outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria Relativa e ou Pobreza. É uma brevíssima avaliação dessa natureza que me proponho intentar. Dito de outra maneira.inoperância. Para examinar os aspectos mais relevantes dessa comparação. a seguir. Trata-se de comparar o desenvolvimento potencial e efetivo de todos os tipos de forças produtivas de uma época com as realizações abstratas ou concretas alcançadas durante a mesma. tantc no passado como nas circunstâncias presentes. o problema corretamente posto reside em perguntar o que se conseguiu exatamente com essas disponibilidades. Contudo. ambíguos. mas segundo o meu entendimento. o assunto consiste no confronto entre o que poderíamos fazer e o que realmente fazemos. não citarei muitos dados estatísticos que. Por outro lado. com respeito às estatísticas. Prestam-se. delicados e contraditórios.

Ela se encontra – desigualmente. o incremento da riqueza nesses "capitalismos nacionais tardios" mostra uma distribuição desigual do benefício. – Os grandes blocos dos países ricos – EUA. a China Comunista) –. ou ainda nas condições contratuais leoninas dos acordos de exploração. mas estrondosamente – em 95% dos países. se houve aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance. Malásia. que resultaram no fim da Guerra Fria. tanto na atualidade como no futuro próximo. nos seus respectivos bolsões internos de pobreza.. CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão. idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo-coloniais clássicas dessas mesmas nações. a Índia. Coréia do Sul. Vietnã. Taiwan e. supostamente. e está baseado seja na venda da força de trabalho baratíssima e informal. cujo foco principal é a defesa da propriedade privada e da pessoa dos proprietários. prejudica inapelavelm. "dependentes" – apresentam-se cada vez mais empobrecidos. de maneira muito peculiar.. a cada ano duplicam-se os equipamentos militares e policiais destinados. à manutenção da ordem constituída e à segurança pública. – A distribuição da miséria absoluta e relativa. apesar de serem os principais assentos de opulência mundial. Além de tudo isso. civil. apresentam marcados desníveis e reconhecem que estão ameaçados pela possibilidade de graves crises de diversos tipos. sem direito laborais e sociais. racial e outros. Surpreendentemente – como todos estão cansados de saber – a criminalidade. mas também à tendência ao esgotamento dos mercados externos e internos. Devido às diferentes gestões internacionais. religioso. porém. Oriente Médio e América Latina. o número reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico cuja capacidade era mil vezes superior àquela necessária para destruir qualquer indício de vida sobre a face da terra. – Até pouco tempo atrás. só vem aumentando. particularmente os dos países chamados" periféricos". seja na extração irrecuperável de matérias-primas e energéticas. salvo exceções locais. estão em andamento quase cem guerras de tipo internacional. à qual me referia acima. – O aparente crescimento econômico das chamadas "economias emergentes" – apesar dos casos serem diferentes e complexos – em geral é fraco e instável. de forma menos espetacular. remessas de lucros.– Dos quinhentos milhões restantes. limítrofe. ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a 180 ▲ . 30% (trinta por cento) possuem 70% (setenta por cento) de qualquer tipo de riqueza disponível no planeta. "em vias de desenvolvimento". continua-se discutindo. exceção de impostos.ente todo o continente africano e. Indonésia. Neste momento. Canadá. assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques. o arsenal de armas atômicas foi reduzido. – Os indicadores mundiais de desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas ao acelerado processo de substituição da força humana de trabalho pela automação. – Os Estados Nacionais – tanto os "democráticos" como os "autoritários".

a política tributária é ridiculamente favorável às grandes fortunas e a política fiscal é incompetente. Isso pela necessidade do Capitalismo de incorporar à produção e ao mercado ganancioso todas as atividades possíveis para compensar a tendência de queda da taxa de extração da maisvalia resultante das causas acima apontadas. As chamadas genericamente "máfias". – O aumento da criminalidade. tal é seu grau de interferência no comércio de influência. carcerários e assim por diante. limitando-me a mencionar problemas tais como a nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos. a total falência dos aparelhos judiciários. e sim do espetacular e barato progresso da técnica imunológica. torna-se gravíssimo nos países "periféricos" por razões óbvias: as necessidades de serviços infra-estruturais como os de educação. policiais. seguro-desemprego. particularmente da organizada-empresarial – está se tornando não geométrica. que não é nada mais que um apêndice. mas exponencial. A lógica dessa melhora é parecida com aquela responsável por certa diminuição dos índices de morbimortalidade: não se trata de um aperfeiçoamento amplo e consistente de saúde popular. porém. o comércio de crianças e de órgãos humanos. têm adquirido tal poder financeiro que parecem estar integrando formalmente os processos econômicos e políticos. ao roubo. terei que parar por aqui. Para não carregar demasiadamente este texto. à falsificação e assassinato por encomenda. A decadência mundial do Estado de Bem Estar – causada fundamentalmente pela limitação orçamentária imposta à política tributária pelo Capital também obedece à privatização crescente de sua funções. É de se supor o que ocorre quando esses países são afetados pelo declínio próprio da transnacionalização-privatização. resultante de uma sólida elevação das condições de vida e de atenção médica integral. ao seqüestro. saneamento básico e segurança pública. a distribuição da renda é muito mais desigual. relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas. são infinitamente maiores que nos países centrais. do terrorismo sectário ou de Estado. É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"? 181▲ .sua subordinação aos onipotentes organismos econômicos internacionais. ao contrabando. eleitoreira demagógica. o poder econômico dos lobbies locais sobre os governos é enorme. à prostituição. moradia. a sinistra questão dos fundamentalismos. corrupta. ao jogo ilegal. de proteção e outros. saúde. corporativo-burocrática. – Certo incremento do acesso de setores mais an1plos da população a alguns produtos e serviços – devido à hiperprodução e ao barateamento da produção massificada dos mesmos – deve ser entendido como um resultado muito mais atribuível ao poderio tecnológico dos parques industriais que ao efeito da ascensão econômica de tais segmentos populares. Esse problema.

heterólogo. e dos funcionamentos. da Sociedade. no mínimo. semi-determinado. todosos termos que utilizarei. e isso implica que são parcialmente diferenciados. dá andamento a quatro processos: de Produção da Produção. cada um a seu modo. devo avisar. dispersas e "oniconectáveis" – ou seja. de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico. de Produção de Reprodução. à medida que já foi antecipada quase exaustivamente por vários dos colossais pensadores do século passado e que. externamente aberto e internamente heterogêneo. devido a um laborioso esquecimento de seus detalhes. porém. apesar de que. de periodizar as formações históricas. mais relacionados à produção e à consumação. em cada um de seus territórios e em todos eles. os territórios citados e os processos que os" animam" estão intimamente interpenetrados entre si. como desejaria. mais ligadas à reprodução e a antiprodução. auto-producente. e também imanentes. algum possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim. quatro grandes "continentes" ou "territórios". o do "velho" e do "novo" que mencionei anteriormente e que poderíamos reformular e ampliar do seguinte modoapesar de que. digamos. em si mesma. é parte da questão do "velho" e do "novo". da Subjetividade e da Maquinária. A modalidade e a prevalência de cada um desses processos em cada um desses territórios-superfícies determina as peculiaridades das funções. distribuídos em superfícies (vide Nota 1): da Natureza. administrar e destruir tudo o que compõe a realidade.Terceira Parte Esse tema do "otimismo" versus "pessimismo" está intimamente relacionado com o outro. Uma nova definição de maquinária como conjunto difuso. heteromórfico. em movimento transformador contínuo. aclarar que esta análise. o mínimo que se pode fazer é analisar o significado exato dessas palavras. não poderei definir detalhadamente neste âmbito. do "progresso". de gestar. semi-aleatório de "peças" variáveis. em cada formação histórica. É preciso. nos vimos na obrigação de expor esta descrição como se fosse uma premissa. explicando como cada uma delas era e é – à medida que as mesmas subsistem no panorama atual – um modo sui generis. uma formação histórica que pode ser entendida como 182 ▲ . Esses grandes trataram. da "evolução" do Capitalismo. Cada formação histórica compreende. Quando se afirma que o Capitalismo Planetário Integrado – a "Globalização" e a internacionalização mundial do Capitalismo em sua Fase Superior – é resultado do "desenvolvimento". Cada formação histórica caracteriza-se pela modalidade com a qual. nenhum é causa última nem efeito exclusivo do outro. Nenhum deles é prescindível. seja como for que ela se defina. Em cada formação histórica. de Produção de Antiprodução e de Produção de Demanda-Consumo e Consumação.

a qualidade de vida dos países nórdicos e outros. detectar e criticar esses índices. Espero ser mais explícito agora sobre porque devemos comparar nossa formação histórica atual – a primeira que está em vias de conseguir uma hegemonia mundial quase absoluta – não com as outras. também importam as relações dos mesmos com os campos da natureza. porém. mas com as potências de produção que detêm. por exemplo. Obviamente. seus tipos de exploração. a realização de blocos de nações ricas. dominação e mistificação lhes são próprios. o que significam "Progresso". a seu modo. a falsa generalização de algumas melhoras localizadas – por exemplo. Maquínica. conhecimento e valores que.uma Megamáquina. sem dúvida alguma. isto é: com os índices de exploração. Isso é diferente de dizer "mecânica" ou "automática". saber. que os do Feudalismo. seja nas modalidades das máquinas elétricas ou eletrônicas. Sendo assim. ou quanto e como as investe na reprodução ou antiprodução que geram as atrocidades dos referidos índices. mesmo prevalecendo os coletados no território da sociedade. Dito de outra maneira. outro indicador do tipo de formação histórica que assim o faz. assim como com o grau de reprodução e anti-produção que as investem. não se nossos terríveis índices de exploração. da subjetividade e da maquinária. dado que os indicadores medidos como resultado da aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são 183 ▲ . os de algumas formações primitivas tribais – cujas forças produtivas são ínfimas –. isto é. a decisão. conseguem inventar. a mencionar três fenômenos: os graus e tipos qualitativos e quantitativos de exploração. "Evolução" e "Desenvolvimento" enquanto valores definidos pelo Capitalismo triunfante? Por um lado. o procedimento e a interpretação dos resultados da comparação – de forma a fazer uma avaliação – de uma formação histórica com outra são. Repassando o panorama descrito na segunda parte deste apêndice. Dadas as características das funções e do funcionam de cada formação histórica – ou seja. Limitarei-me. bem "menos atrozes" que os nossos. por exemplo. de sua "Totalidade" ou Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução e da Antiprodução podem manifestar-se através de inumeráveis índices ou indicadores. dominação e mistificação são melhores ou piores. Considerando o que foi exposto. sem ignorar que. cibernéticas etc. cada formação histórica possui também os recursos próprios de pensamento. Isso precisa ser dito. dominação e mistificação que lhes são próprios. definir. cairemos exatamente em um dos mecanismos de mistificação que são especiais da nossa formação histórica. quanto deixa de fazer com elas. Se não procedermos dessa forma. se comparamos alguns dos nossos indicadores com. Nestes indicadores. as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam. dominação e mistificação são. por sua vez. trata-se de julgar. mas se dadas as incalculáveis forças que a humanidade dispõe.

um equívoco. Cabe apenas mencionar agora. "Liberdade. no mais amplo sentido já definido – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada. Ou seja. Esse Equivalente Geral. a Axiomática do Capital – que pode se expressar através de quantidades abstratas. sistema. sem dúvida. de Saber. e até de Beleza – Dominação e Mistificação. ou que são citados como "insuficientes" ou "já superados". acumulação e centralização de inumeráveis forças-formas de produção não pagas. o Capitalismo ainda precisa mentir. Igualdade. ações. continua sendo um recurso necessário para sua permanência. Fraternidade" – não é apenas uma mentira. apropriação. regime que "melhor" está protagonizando a realização gradual de uma certa maneira de gerar e relacionar Produção. torna-se a medida para a qual deve ser traduzido o resultado da extração. como títulos de propriedade. o Industrial e o Financeiro. bônus.deploráveis. de Semiotização. porém. um erro. "moderna". de Desejo – Consciente e Inconsciente –. apesar da crítica. O Capitalismo. uma série desses conhecimentos do século X IX – produzidos por autores de diferentes orientações – que parecem ter sido "esquecidos". apesar do cinismo peculiar do sistema de representações dessa fórmula mundial. que se acumula como inumeráveis forças produtivas não retribuídas. ou que são enunciados – prévia deformação – como "novidades" funcionais para essa leitura "otimista". tais índices mundiais são. é possível falar também de Capital de Poder. "animadora" hierarquizadora. organizadora. isso significa que nosso " progresso". a afirmação de que o Capitalismo é o modo. O Equivalente Geral. "realista". uma racionalização ou um delírio megalomaníaco. por exemplo. subalternamente. imanente a "todos" e a cada um dos campos ou territórios antes citados que. estrictu sensué um modo de produção-reprodução-antiprodução-consumação da realidade – dito . "evolução" e "desenvolvimento" estão longe de tornarem-se efetivos. cataclísmicos. cédulas ou registros informáticos – é uma medida arbitrária de valor. Entre as principais forças-formas dessa produção está a força-forma do Trabalho "Humano" – entendendo como tal aquele composto por energias 184 ▲ . Por conseqüência. muito elementarmente. de dinheiro-moeda ou "letras" de diferentes naturezas. supostamente geradora. Por outro lado. Essa integral é denominada Equivalente Geral Dinheiro. um sofisma. As modalidades clássicas do Capital são o Capital Latifundiário. limitante e destruidora do "todo" da realidade. julgados segundo a potencialidade produtiva intrínseca ao Capitalismo. Reprodução e Antiprodução (assim como seus estilos" de vida" e" de morte") – tal como foi anunciado na famosa fórmula da Revolução Francesa e do Iluminismo. Trata-se de uma auto-convalidação da Lógica do Capital. da Esquizoanálise à importância da ideologia ou das ridículas afirmações acerca de seu " final".

Essas contradições são tanto produtoras do crescimento produtivo e cumulativo e da reprodução das condições restritas e amplas da existência do Capital quanto demarcadoras de seus tetos classicamente denominados limites internos e externos – e de sua subsistência. cujo protagonista principal é o Estado –. Os limites internos costumavam ser reduzidos à existência da força de trabalho disponível. além dos gastos da reprodução ampliada – manutenção das condições jurídico-político-subjetivolibidinais do Capitalismo. é a conversão crescente de tais produtos em mercadorias bens de troca. o qual habitualmente era tido como sinônimo da existência de trabalhadores vivos e produtivos. biológicas. O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado – está constituído por contradições famosas que lhe são essenciais. As condições fundamentais que possibilitam a produção.físico-químicas. apropriação. Por exemplo: as primárias. Era costume atribuir aos limites externos a existência de mercados solventes. consumo e fruição dos produtos de toda espécie. de compradores suficientes de mercadorias. de matérias-primas e manutenção e aperfeiçoamento dos meios de produção propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo. como as que ocorrem na competição entre as diversas modalidades do Capital. distlibuição. que perdem assim seu poder aquisitivo. O Capital variável inclui também os insumos produtivos: gastos de crédito de dinheiro-mercadoria. isto é. a submeter-se à citada equivalência e a sua valorização e remuneração parcialmente não paga – Dominação e Mistificação – pela força física ou por modalidades de subjetividade. pois as lutas operárias 185 ▲ . produção de mercado. operações de troca mediadas pelo dinheiro. troca. que se estabelecem entre o desenvolvimento das forças produtivas de todo tipo e as relações de produção de toda espécie. empreendimento. isto é. possessão. Entre as variadas situações nas quais essas contradições transformam-se em aporias e conduzem à celebre crise do Capitalismo. sociais. Porém. comprável e vendável através do Capital chamado variável. semiotização e outras. podem haver crises provoca das. cada um deles está informado pelo circuito de compra-venda. energéticos e territoriais. dependendo do ramo de produção tratado. de maneira sumamente variada. ou seja. enquanto interessam por seu valor de compra-venda. e só secundariamente pelo seu valor de uso-satisfação – pois se o processo de capitalização realiza-se em cada passo desse circuito. deve ser acrescentado ao Capital fixo e ao variável o que podelíamos chamar de gastos com a produção de necessidade de demandas de consumo e fruição propriamente ditos. ou seja. Concomitantemente. psíquicas. e as secundárias. as mais conhecidas são aquelas que resultam das hiperproduções – excesso de mercadorias que se barateiam "excessivamente" e não compensam as inversões – ou do esgotamento relativo dos mercados. subjetivas – que deve ser "forçada".

mas também para o saber. senão em um número real. o aperfeiçoamento das máquinas e uma nova articulação entre a força de trabalho "humano" e "não-humano". não explicitamente formal. A inflação é mais um exemplo de fenômeno provocado: se. enfim. a antiprodução e o consumo para a extração de mais-valia econômica. por sua vez. Nisso participa. troca e consumo. outros são notoriamente beneficiados. facilmente descartados e "melhorados". pois atua em todos e em cada um dos níveis dos processos do "Todo Capitalístico". mas. porém. Ao nível da produção. Esse. é importante destacar que o Capitalismo é um modo – dito no sentido amplo definido acima – em que a inflexão exploradora. ou a destruição dos produ tos para aumentar seu preço. Por último. apropriação. se agrega e finalmente substitui a exploração típica a extração de mais-valia maquínica. megabancos e. As manobras do Capitalismo a esse respeito são inumeráveis e. que o Capitalismo é um modo histórico que. o Capitalismo suplantou a extração de mais-valia relativa – aumento das horas do trabalho não remuneradas – pela absoluta – aumento da produtividade pela intensificação do trabalho em si mesmo ou em menos tempo. não podendo ampliar detalhadamente este ponto. foi alcançado com o barateamento e multiplicação dos produtos. alguns setores do Capital são prejudicados. incrementam o gasto do Capital variável através de reivindicações salariais ou de melhores condições de trabalho ou chegam. renda e ganhos. dominadora e mistificadora que lhe é característica tende a orientar toda a produção. a reprodução. Não é necessário explicar como a guerra sempre foi um recurso complexo para superar as crises. nelas e delas. mencionaremos somente algumas essenciais. megaempresas. o resultado de cada crise é uma redistribuição de riquezas. não necessariamente em menos "pessoas". assim como através da planificação de produtos perecíveis. por um lado. Longe de conseguir – através do tipo de competição generalizada e" de cartas marcadas" que é 186 ▲ . Isso é válido para o lucro. o poder e o prestígio. De qualquer maneira. pelo aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing.e camponesas questionam a propriedade das diversas formas de Capital fixo. mas também viver com elas. em suas lutas políticas. Outra celebre tática é a diminuição deliberada da produção. Na esfera da distribuição. a apropriarse parcial ou totalmente do aparelho de Estado. o Capitalismo obteve uma enorme agilidade e bara teamen to desses processos mediante a informatização e a robotização dos mesmos. de entidades que são suas proprietárias. sobretudo. não só aprendeu a prevenir e resolver as crises. pela qual o Capital – em quaisquer de suas formas de existência – acaba por concentrar-se. isto é. Sabe-se. Já a crise gerada pelo esgotamento da expansão extensivogeográfica dos mercados foi superada com a intensificação quantitativa e qualitativa da venda através do consumo de massas. desde suas origens. oligopólios e monopólios.

Pelo contrário. como formações précapitalistas. esse sistema as paralisa. o "novo" Capitalismo é. as anteriores. e das que potencial e insolitamente disporia). razão pela qual não justifica nenhum "otimismo". que é. uma velocidade e uma eficácia totalmente imprevisíveis para os teóricos do século passado. podemos admitir. que é possível encontrar seus antecedentes nas formações histólicas dos séculos XII e XIII. contudo. e dali em diante. Também é possível aceitar que sendo a economia mercantil. Partindo do princípio de que o Capitalismo é uma singular relação e composição de substâncias. assim como de formas sui generisde subjetividade. a primeira expressão "verdadeira" do Capitalismo na História. devido à revolução tecnológica e industrial. reprodução e antiprodução variem muito com o tempo e os lugares nos quais operam o diferente tipo de Capital.sua característica – uma otimização das forças produtivas de quaisquer naturezas (sejam as que verdadeiramente o mesmo suscitou. embora sejam originalíssimas e necessitem cuidadoso estudo. Nestas linhas. muito pior que o anterior. O Capitalismo propriamente dito – cuja preparação se inicia com o fim do Feudalismo e prossegue no decurso da Renascença. energias. seguindo alguns autores. Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os nossos dias. que continuam incólumes e que as transformações acontecidas. incluem. semiotização e parques maquínicos – condições essenciais e existenciais de muitas formações históricas antigas –. com uma modéstia conceitual exigida por esta síntese: quais são as principais "novidades" apresentadas pela atual "Fase Superior"? O processo da produção adquiriu. responsáveis por nossa chegada a esta "Fase Superior". o Estado. as mesmas podem ser consideradas como precursoras do Capitalismo. apesar de que suas modalidades de produções de produção. em suma. o nosso interesse está centrado em mostrar que as suas peculiaridades essenciais estavam préfiguradas. torna-se de radical importância precisar quando e como este Modo começou e quais foram suas sucessivas ou simultâneas transformações. em minha opinião. em sua essência. Esse esclarecimento parece-me imprescindível para poder discriminar de forma convincente que o "novo" do Capitalismo Mundial Integrado não implica uma transformação substancial do "velho". Perante uma assertiva deste porte. e não têm mudado em sua essência desde aquelas até as contemporâneas. formas e maquinaria. tendo a considerá-las. nem nos exime de nenhum tipo de luta pela sua extinção. Então. Pessoalmente. à maneira de Marx e Engels. a vigência de uma sociedade institucionalizada. da Reforma e da Contra-Reforma e das revoluções européias e norte-americanas – culmina com a instauração da indústria manufatureira na Inglaterra. As conseqüências dessa incrível aceleração consistem principalmente no seguinte: 187 ▲ . desaproveita e destrói em uma proporção jamais igualada.

empenham-se numa política de diminuição de custos produtivos. com" mãode-obra" e impostos baratos. ecologicamente "suja" e altamente tributada nos países centrais. transferindo a parte básica. telemática. lucros e renda parecem estar crescendo. Algumas dessas manobras consistem em descentralizar a produção de grandes complexos infra-estruturais caros. em que – diferente do período imperialista fordista da produção – os ramos produtivos de bens e serviços indispensáveis e "pesados". – "Terceirização" contratual de segmentos da produção pouco rentáveis para empresas menores ou para trabalhadores independentes. Desse modo. formam-se elites ou aristocracias de trabalhadores que passam a fazer parte do Capital fixo da empresa. alguns dos quais operam na economia informal ou em seus próprios domicílios. assim como aqueles que entram subsidiariamente nos produtos e prestações altamente remuneráveis. de Capital fixo e variável. que criam a ilusão participativa. – Os grandes grupos empresariais.– A maquinária da indústria extrativa. Multiplicação. cibernética. porém 188 ▲ . formados segundo planos artificiosos e rapidamente "aperfeiçoáveis" que os tornam imediatamente "perecíveis" e "descartáveis". Esses setores tornam-se. mas sobretudo econômico-social do trabalho. processo esse cujo aspecto jurídico se denomina "fIexibilização". apesar de que seus ganhos. através da participação nos lucros e na propriedade – via compra de ações minoritárias e reciclagem contínua da capacitação técnica. subemprego. – Hiperespecialização e/ou fIexibilização dos poucos trabalhadores que "permanecem" empregados com incentivos de produtividade. para os países periféricos. da geradora de produtos e serviços está transformando e diminuindo – gradual. ocultando sua concentração e o poder decisório dos tecnoburocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais. Essas e muitas outras estratégias conduzem a uma divisão mundial técnica. porém firmemente – a participação da força de trabalho "humana" nos processos produtivos. da agroindústria. também mercados pobres – compradores de bens e prestações relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –. robótica –. assim. emprego transitório e precário. localizam-se nos setores mundiais "em vias de desenvolvimento". obrigando a uma substituição incessante. mudança e anonimato crescente das sedes e proprietários do Capital. assumindo a identidade e os in teresses desta. trazendo como conseqüência desemprego. – Ênfase na geração de produtos e serviços baseados na tecnologia de ponta – informática. participantes de baixíssimos custos e. havendo indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre. desfiliando-se de qualquer organismo de classe ou luta coletiva de defesa de suas reivindicações trabalhistas. A força de trabalho maquinal e a exploração da mais-valia maquínica vão suplantando aquela humana. ao mesmo tempo.

transitórios. sendo que. esses empréstimos não são nada mais que a mesma riqueza explorada pela força durante a conquista. moradias populares. títulos inexistentes. carência) – foram "hipertecnologizados" pelos grandes mass-media e pela propaganda. documentário. juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos. seguros. Essa parafernália adquiriu os níveis máximos de eficiência. o Capital financeiro. A constituição de enormes e onipotentes monopólios nacionais ou internacionais – legalmente formalizados. essa proliferação torna-se infinita no chamado "Mercado de Futuros". Um "fordismo periférico".complementares daqueles centrais já saturados. comercialização. Por outro lado. saúde. sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História. estabelecimentos carcerários e outros. apropriação. transporte. divisas. até pouco tempo. corruptos e incompetentes cuja gestão acaba sempre em grande déficit – contraído em um montante de dívidas com juros astronômicos. eram próprios dos mecanismos de "reprodução ampliada": tarefas familiares. móveis. produtos. No chamado "mercado de capitais". saneamento básico. troca. "andorinha". Como se sabe. operações administrativas e contáveis. anônimos. acionário. falta. o Capitalismo atual provocou a privatização. Os processos de ordenamento. Não por sua real eficiência. mas por sua necessidade expansiva. no caso das dívidas externas do "Terceiro Mundo" por exemplo. distribuição. comunicações. os mesmos costumam ser governados por demagogos. previdência. segurança. consumo-consumação – que incluem os de financiamento. às vezes dispersos e condensados do Capital monetário. assim como capitais dos financistas do próprio país que depositam seu dinheiro nos paraísos fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. entre outras razões. O lucro financeiro puro possui seu mecanismo mais pelverso nos citados interesses e no refinanciamento eterno das dívidas externas e internas dos Estados e empresas nacionais estatais. profissionalização e mercantilização de "quase todos" os territórios e atividades recentemente não-lucrativos ou considerados "gratuitos" ou "públicos". "fabricação" de necessidades e demandas (escassez. rede viária. ao caráter instantâneo da comunicação e da informática e à sua subordinação a núcleos ubíquos. velocidade. que compõem os investimentos da usura "flutuante". prolifera geometricamente – sobretudo como empréstimo para as contas correntes dos países "em desenvolvimento" ou emergentes. devido. o Colonialismo e o Neo-Colonialismo. que elevam à enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada. Alguns exemplos ilustrativos são os que. aparatos e funções de Estado – energia. educação e diversão "públicos". artifício e inutilidade relativa para o consumidor – maiores ainda que os da produção de bens duráveis e não duráveis propriamente ditos-. onde se negociam matérias-primas. preservação e restauração do "meio ambiente". descomprometidos e quase sempre não tributados. supostamente resultantes e defensores do 189 ▲ .

clientelismo. o Capital. da racionalização. Não obstante. O enfraquecimento do Estado realiza-se em nome da modernização. culturais e libidinais incorporadas à sua lógica-. na privatização e re-significação da estrutura e das funções do Estado. Por sua vez. e domina a condução política das nações. a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial. A mencionada. nepotismo. que como explicamos. Esses regimes e seus sistemas de "representação" – num sentido amplo de produção de subjetividade. "Bom comportamento" que implica uma administração completamente submetida ao Capital transnacional – sobretudo o financeiro –."Livre Mercado" e da omissão reguladora do Estado e de organismos da sociedade civil – acaba por criar e regular à vontade as convenções de custos e preços que regem esses mercados. esse processo. em crise no mundo inteiro. que permita prescindir dos recursos repressivos clássicos. reiteradas vezes. à privatização a preços baixos das empresas e serviços 190 ▲ . criando os vícios conhecidos. ao pagamento" correto" das dívidas públicas externas. competitiva e heterogestionária. hegemonia do poder econômico – o financeiro e o das grandes empresas – modula arbitrariamente os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário. ou porque é manipulador dos meios de propaganda. políticas. jurídicas. Por outro lado. dados os vícios de "nascença" da máquina estatal. da eficiência – o que não deixa de ter o seu sentido. demasiado caros e ostensivamente "inumanos". o Estado fomenta o surgimento de cartórios eleitorais. o doutrinamento persuade. Em última instância. grupos. representativa. a rigor. Esse processo se enfatiza na dissolução do chamado Estado Beneficente ou Providencial – cujas atribuições são demasiado onerosas para o Capital –. Finalmente. indivíduos. está empenhado no desmonte. estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários . fisiologismo. já dispõe de novos n. crises autofagicamente resolvidas e também acontecimentos metamorfósicos irreversíveis e incapturáveis – toda essa grande transformação que aponta para a assunção voluntária e pacífica por parte de todos os agentes. convence e corrompe o eleitorado em si mesmo.eios para reproduzir as condições de sua existência e proliferação – produção de subjetividade. ou ainda por causa do poder de seus lobbiessobre os políticos e funcionários do Estado. comunidades do Axioma que rege a Lógica do Capital – vêm se impondo até o presente. entre outros. não sem contradição. assim como a qualidade e quantidade de demanda e oferta. Trata-se de implantar nas nações o regime político da democracia indireta. burocracia. institucionais. sujeitos. objetiva a subordinação das soberanias nacionais e respectivas populações a entidades supranacionais cujos paradigmas são o Fundo Monetário lnternacional. semióticas econômicas. da compra de votos. o que segundo os clássicos marxistas denominava-se "Democracia Burguesa" – são a garantia do "bom comportamento" dos povos em questão.

o Capitalismo Planetário Integrado tem que lidar com os movimentos separatistas – de inspiração socialista ou não –. e também as do Oriente Médio. Por isso. marginalizados. no entanto suficientes para entender que. ao compromisso incondicional com as alianças. como dizia anteriormente. enfermos. seja com dinheiro e armas. de liberação das singularidades raciais. o mau aproveitamento 191 ▲ . o crescimento cancerigeno das megalópolis. finalmente. seja com a famosa participação direta de seus "assessores" militares. sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e a apropriação de mercados. sem-casa. sobretudo as bélicas. Sem considerar essas observações como um estudo profundo da contemporaneidade. se em alguns campos e setores parece que o balanço de todos esses andamentos mostra alguns "progressos" estridentes.estatais. errantes. assim como subvencionou as piores ditaduras latino-americanas e africanas. etárias. culturais. Por outro lado. o esvaziamento rural. à "livre" radicação – ou seja. religiosos e assim por diante. dominação e justificação. não tributada e salarialmente flexibilizada – das empresas transnacionais e. mais que expressivos da degradação e destruição do "parque humano". A essa degradação e deterioramento. clandestinos. nacionais. dos países "guardiões" do patrimônio do Capital. fundamentalistas e os totalitários – que o Capital supranacional fomenta quando lhe são funcionais. e depois tenta substituí-los por democracias formais ou nominais. dos não-inseridos nas instituições e organizações. Tampouco lhe foi possível eliminar totalmente as modalidades de resistência próprias dos neoarcaísmos. Ocorre. delinqüentes – é mais que suficiente para diagnosticar e avaliar a situação mundial contemporânea. revolucionários ou genuinamente reformistas. sem-terra. sexuais. os EUA. a banalização ou obscenidade da cultura. porém. ou pacifistas. temos que acrescentar a destruição massiva da natureza. invadiu Panamá e Granada e tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o menor respeito pela autonomia que proclama-. a modulação supérflua e luxuosa do parque industrial. despossuídos de direitos e também de qualquer identidade-miseráveis. agentes e práticas que possibilitavam suas modalidades clássicas de exploração. os indicadores de exploração. que a construção da megamáquina planetária do Capitalismo Global Integrado não pode prescindir por completo dos velhos equipamentos. analfabetos. o carro-chefe do Capitalismo Mundial. ambientalistas. de direitos humanos. procedimentos. A geração de um imenso contingente de excluídos da produção e do consumo. tais como os regimes integralistas. dominação e mistificação sui generis dessa "Fase Superior" são inequívocos sinais de um tremendo predomínio da reprodução e da antiprodução sobre a produção possível e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia.

Acredito que tudo isso já é conhecido por demais e serve para caracterizar. como foi chamado por Félix Guattari. Decididamente.e vai depender de todos os institucionalistas para que não o alcance. Todas as forças crítico-reformistas-revolucionárias que o enfrentam atualmente estão num momento de trágico desânimo. coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda está longe de alcançar. talvez. como expressei em outra parte. o Romano. no sentido geopolítico que essas palavras adquiriram nesses enunciados. a máquina abstrata geral e as micro-máquinas concretas pseudodemocráticas e cripto-fascistas do Capital sejam não tanto "ossos duros de roer". O sistemático "fracasso" – e escrevo fracasso entre aspas porque. presuntivamente perene. Permito-me sugerir que seria melhor. O problema. Quero aqui parafrasear unia sentença do "Anti-Édipo" – texto fundamental para o que denomino de Institucionalismo – que qualifica o Capitalismo como sendo" a mescla bizarra de tudo aquilo no qual alguma vez se acreditou com aquilo no qual nunca se acreditou verdadeiramente". o Egípcio. o do "Socialismo Real" – mostra que sua decadência e sua queda não sobrevieram do seu" exterior". a um "tigre de papel". Quarta Parte Se essa entidade que denominei Movimento Instituinte existe. a não ser a convicção de uma vitória sem fim". porém. mas" cresceram de dentro". Não é que as contradições "internas" e "externas". rigorosamente falando. Pois "integrado" é um particípio passado e designa um objetivo já conseguido. complemento adequado de uma derrota sempre presente"dos experimentos socialistas às vezes impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico. é que o Capitalismo Planetário Integralizante não tem mais. mas uma espécie de protoplasma polimorfo e sobrevivente. É exa tamente essa capacidade de adaptação plástica e ativa que faz com que a lógica. o de Napoleão. como dizia Mão.das fontes energéticas e muito mais. O estudo dos grandes impérios históricos – o Chinês. o de Carlos V. apesar de que duvido que ela mesma se reconheça como tal. atuar. "não existe reparação possível para esse cataclismo. denominá-lo de "Capitalismo Planetário Integralizante". sentir. o panorama paradoxal e sinistro de decadência. Para poder pensá-lo – com a única finalidade de combatê-lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar. que é quase o contrário de uma vitória futura final. 192 ▲ . Dissemos anteriormente que o Capitalismo é a formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as crises. se esse modo não é um non plus ultra. acredito ser importante para o seu destino introduzir uma pequena modificação no excelente conceito de Capitalismo Planetário Integrado.tampouco se reduz. "exterior" e "interior". senão viver nelas e delas. o Grego de Alexandre Magno. sem dúvida alguma.

e até a desejam. afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida. Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar os mecanismos e efeitos de suas modalidades peculiares de exploração. Não obstante a "ideologia" siga cumprindo uma importante função nos circuitos pré-modernos e ainda nos modelos de reprodução ampliada do Capitalismo. está ficando evidente o que se passou a chamar – muito discutivelmente – de "cinismo" da Pós-Modemidade Capitilista. tal como já a havia percebido W Reich quando. Se há algo que ameaça a sobrevivência do Capitalismo. isto é. sem iludir-se a respeito. estão sendo essencialmente reformulados. impensável e imprevisível. fontes da invenção do radicalmente novo. Os diversos estratos e segmentos da subjetividade e da sociabilidade. Essa não é uma" descoberta insólita". por exemplo. hábil. em proporções e clarezas variáveis. referindo-se ao nazismo. também o sabem. As cúpulas proprietárias. como também diziam Deleuze e Guattari. deliberativas e executivas da megamáquina do Capital sabem. a encarnam. segundo o que se entende por sobreviver. os que têm poucas e o enorme contingente que não tem nenhuma. da Pulsão de Morte ou do Masoquismo Primário. difusão e apropriação de sistemas de representações "imaginárias" que "falsificam" a realidade. Esse apresentar-se não se explica apenas pelos efeitos da "ideologia". e também sabe – e pode ir se adequando às suas próprias contradições. declinação assintótica e indefinida que se apresenta como "desenvolvimento". que são "peças" de uma lógica – ao mesmo tempo exuberante e letal – que as constitui em suas funções e dela se vale. as vanguardas programadoras. com maior ou menor lucidez.primárias. e/ou se oferecem como fantasmas a serem animados pelo desejo inconsciente ou pelos interesses pré-conscientes-conscientes dos sujeitos-agentes. Foucault designa como "Forças do Fora". pela "redação". Por "cinismo" se entende que o "espírito" do Capitalismo Avançado – empregando literalmente a velha expressão de M. Sobretudo esses últimos. 193 ▲ . assumem e desejam. e assim o Parque Humano se divide entre os que possuem grandes probabilidades de sobreviver. é a potência do que Deleuze e Guattari chamam" Processo Produtivo Desejante". engendrando atitudes e ações conseqüentes. que cada um dos modos de subjetividade sente que contém cada uma dessas divisões e contraposições dentro de si. É notório. elístico. "ninguém nunca morreu de contradição". secundárias do Capitalismo não estejam vigentes e atuantes. dominação e mistificação. mas que. as camarilhas tecno-burocráticas. ubíquo e versátil. afirmava que "o povo alemão não foi enganado". Sabia perfeitamente tudo aquilo que a proposta do Terceiro Reich implicava. "progresso" e "evolução". Nietzsche denomina "Vontade de Potência" e Bergson como "Realidade Virtual". O Capitalismo é demasiado ágil. os da mistificação. Não obstante a Psicanálise queira explicar esses efeitos como expressão. O extraordinário é que a assumem.

Quando lemos o panorama mundial. realmente. "lingüísticos" ou "mediáticos". práticas. o Mercado. desejos. instituições. por exemplo. "psíquicos". tornando-o permeável à irrupção das forças do "fora" que são capazes. sócius. Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault. a rigor nos sentimos tentados. da sociedade. Cabe ao Movimento lnstituinte – levando-se em conta sua suposta infinita heterogeneidade interna e sua irrestrita abertura externa – inventar os recursos e as práticas que possam empurrar o Capitalismo Mundial Integralizante além de seus próprios limites. devemos tomar consciência de que aquela dos expertse condutores do Capitalismo não é menor. não apenas a perguntarmo-nos – de acordo com a famosa fórmula – "Que Fazer" para transfomá-lo. mas afeções – como dizia Espinoza – operadas em conjunto pelo tipo de maquinismo que modula prevalentemente o atravessamento dos territórios da natureza. "culturais". o Tempo Livre como subjetivados – de certo modo – e as subjetividades como "infundidas" por um Estado. É preciso compreender que o que emerge enquanto subjetividades e sócio-institucionalidades não são efeitos específicos e pontuais de mecanismos "educacionais". De qualquer maneira. agentes. de transmutá-lo. a Igreja. pode ser consultado o Glossário deste Compêndio.em nível de estrutura e dinâmica dos sujeitos edipianos especificamente considerados como objetos universais dessa disciplina. devo advertir que muitos destes termos não são usados aqui no sentido estrito de sua bibliografia de origem. 194 ▲ . é importante entender. em TODOS OS LUGARES E AGORA NOTAS 1 – A definição rigorosa desses conceitos para torná-los acessíveis ao tipo de leitor ao qual este texto se destina requereria um volumoso tratado à parte. éticas e estéticas são produzidos. Justamente por isso é que nos resta apenas avaliar e lutar. reproduzidos e antiproduzidos pela modalidade peculiar da imanência que se dá entre esses processos do Capitalismo Planetário Integrado contemporâneo. sujeitos. Ninguém é capaz de fazer predições a médio e longo prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. senão antes interrogar: "Como consegue manter-se hegemônico e aparentemente próspero sem nem sequer esforçar-se demasiado em dissimular sua fragilidade e sua contraprodução?" Apesar de que a perplexidade dos pensadores críticos e gestores da troca é ostensiva. Indivíduos. incessantemente. interesses. como procurei fazê-lo nestas linhas. da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina. tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade. a Educação. Por isso. o Estado. o Trabalho. Para aproximar-se do entendimento de alguns deles.

acredito ter sido desde o início. contudo que esses também possam existir. quero conceder-me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito. escrito em 1995. e suas pretensões analíticas. e sim um" globo de ensaios". por outro. porém não pude deixar de constatar que o "pessimismo" de cada página do "Apêndice" que antecede a este post-scriptum insistia sobre esta predição. de cem e do que tentei dizer. em geral. por um lado. Durante este tempo. Essas páginas de 95 me parecem retorcidas. o filósofo brasileiro Peter Pal Pelbart. A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do 195 ▲ . Penso que. Não sei se é excesso de petulância incluir-me entre esses últimos. exorbitantemente amplas. não é apenas – como espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos e justificantes. desgarradas e mutiladas entre as exigências pedagógicas e sintéticas do texto. suscitou em mim impressões contraditórias. Tão fortemente acredito nisso que decidi catalogar este escrito numa simpática categoria inventada por um amigo. à grave crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi-se agregando uma crise econômica de incalculáveis proporções que. e até vaticinantes. Não obstante. insuficiente. assistemático. e involuntariamente. pelo que entendo. os três últimos anos possam ter trazido elementos para melhor avaliar a pertinência do que se poderia qualificar.POST-SCRIPTUM Janeiro de 1998 A releitura do apêndice anterior. com benevolência. às vezes pouco claro e. segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio". não suficientemente fundamentado. somente alguns poucos prenunciavam. como sempre acontece. Se me atrevo a comentá-las com os leitores.

com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. Ou a "todas" essas causas juntas e a muitas outras. sendo que em outra. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. – Ou essa é uma fraude de magnitude hemisférica e configuração escalonada que vai desde os produtoresconsumidores. 196 ▲ . tanto que está chegando ao limite de sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os investidores especulativos para que não percam seu dinheiro. e numa dimensão mais ou menos ameaçadora. Com respeito à primeira hipótese. tanlbém as grandes potências capitalistas. Em primeiro lugar. não cabe aqui uma análise excessivamente detalhada. A idoneidade da "Ciência Econômica" e da "Economia Política" oficial capitalista não só é... eventualmente. lndonésia. em muito. Permito-me fazer somente alguns comentários globais que podem reafirmar. uma ou outra tese já postulada neste livro. a meu ver. inferior à da Meteorologia. menos drasticamente. Esta é uma realidade clamorosa. planejamento que implica dos povos até os governos – desde logo. China e Taiwan. o mínimo que se pode considerar é que o destino do mundo está em mãos de presunçosos incompetentes. Filipinas. Hong Kong. Singapura. Laos e. a cômica discrepância que os economistas e outros especialistas mostram quando tentam explicar esse fenômeno colossal que se iniciou com uma dimensão regional. passando por todos os segmentos sociais. no caso dela ser correta. e assim sucessivamente. entre essesexperts. por último. todos os "capitalismos emergentes". chama fortemente a atenção. Essas explicações. Japão. – Ou se trata de um efeito processual. Vamos continuar observando muitos expertsatribuírem à "falta de dados" – porque ocultados ou distorcidos por parte das economias em questão – a surpresa e a perplexidade que a catástrofe ocasionou. de outra forma. essencial e inerente ao Capitalismo Planetário em via de lntegração. econômicos e políticos. até chegar aos organismos internacionais – desde logo. podem reduzir-se a três tipos: – Ou esse é um erro regional de modelo. cálculo. alguns atribuem o flagelo à cumulação de empréstimos enviados aos países em crise. ainda indefinida. outros às suas falências bancárias ou à desenfreada especulação imobiliária que ocorreu no seu território. Começamos pela admissão do FMI de que "se equivocou" na avaliação e condução desse assunto. substancial. E mais: porque. ou ainda à sobrevalorização de sua moeda. Obviamente. senão principalmente um erro radical sobre os meios de pensar a realidade. Isso não implica "falha humana". sem ignorar diferenças nacionais.ataque especulativo à lira italiana e à libra inglesa e o outro que afetou o México – e engloba diretamente todos os "Tigres Asiáticos" – Malásia. Tailândia. mas nem sequer tem a humildade de reconhecer o estatuto de interfase do sistema caótico ordenado própria de seu "objeto". Coréia do Sul e.

da qual a ordem jurídica imperante é uma engrenagem perfeitamente coerente (vide a plena vigência do Direito Positivo). especificações. as funçôes e as práticas segundo os quais a lógica da Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona. é preciso apenas definir. E também. Em um certo sentido. com a qual os psicanalistas e outros teóricos enchem a boca.. FH.O erudito "Científico-Presidente" do Brasil. científicos ou não. solicitado a opinar acerca das conseqüências da crise para a economia do Brasil. é claro. Excepcional e/ou aparentemente. Fica aberto o tema da qualidade e gradualidade de imputabilidade de cada um dos envolvidos e do acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja-se mais adiante). ou como leis menores – decretos. ao qual já nos referimos reiteradamente. tanto quanto a desonestidade dos agentes e das entidades. lem brar leitores. direitos fundamentais ou reais" da formação da soberania em questão. nem som entede uma tendência delituosa de transgredir ignorara Lei – qualquer que seja a Lei da qual estamos falando. simplesmente. temos que assumir que o destino da humanidade este) nas mãos de delinqüentes." Pelo que se refere à segunda hipótese. não esgotam o repertório de riscos que caracterizam as subjetividades capitalistas. resulta evidente que as duas primeiras podem ser perfeitamente incluídas na última. em que consiste este risco. se acertada. assim como as três não são excludentes. absolutamente em sintonia com a racionalidade ética e proposicional das leis nacionais e internacionais – as propriamente jurídicas ou as "internas" aos enunciados específicos disciplinares. foi feliz e sincero quando. Não se trata. Está comprovado – e isso é o que tenho procurado. tampouco são exaustivas. às vezes incondicional – da Axiomática do Capital. uma vez que não precisa aos ser demonstrado porque já o foi durante um século – que a sábia ignorância dos experts. ou especialmente se nos referimos a uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei". ou como leis maiores formais. O que mais nos deixa pasmos e surpresos no espectro das mesmas é o cinismo. pelo menos parcialmente. as leis se contrapôem a essa Lógica. porém. Se a terceira hipótese está correta – e isso tenho afirmado constantemente nesse modesto e elementar livro-. mas não som ente. respondeu: "Só Deus sabe. ou de aproveitar os limites de seu império e de suas falhas intersticiais para pô-la à serviço – às vezes condicional. regulamentações.por estúpidos e ladrões que os agentes-sujeitos individuais e coletivos do Capitalismo assumem os lugares. de desconhecimento. normas. Os célebres conceitos e a análise foucaultianos acerca do atravessamento entre os enunciados – as dizibilidades – e aquilo que o autor 197 ▲ . A lógica dessa axiomática está. "Direitos Humanos" que concretamente podem ou não podem ser cumpridos dentro do que se chama hipocritamente" condições constitutivas. Cardoso. trata-se de cumprir ao pé da letra as leis vigentes. em última instância..

como Jean Baudrillard. Os primeiros fazem uma apologia do individualismo. está na virtude de chamar a atenção – apesar de que unilateral e exagerada – sobre a estratégia de resistência nãoconsumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização. os neo-arcaísmos e o terrorismo. Os segundos prescrevem" uma quantidade maior" da mesma Lógica do Estado. que resultam operantes somente para matizar.chama visibilidades – os dispositivos do poder. bem distantes dos "ideais". e o diagram a. garantindo sua reprodução simples e ampliada tanto em seus aspectos econômicos como em todos os outros que já mencionamos. sem considerar os seus defeitos. Em sua essência. aos quais atribuem todos os méritos da Modernidade – que. a implicá-las em dispositivos nos quais a modalidade organizativa e os objetos a serem conquistados resultam relativamente irrelevantes e/ou absorvíveis pelo Capital. complexo de forças informais (por outro) – dão conta admiravelmente de alsrumas das maneiras com as quais as funções reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema. desmobilizar. o resultado de heróicas e cruentas lutas da humanidade. sempre foi consubstancial ao Capitalismo. Ao menos numa vertente dominante de sua essência. puramente nominais. obviamente. em sua maioria. supostamente apoiado por uma "realidade" que o panorama da Axiomática do Capital delimita e modula. da imprensa livre e da competição liberal e neoliberal. ou ainda. Outro caso ilustrativo é a luta da economia de mercado e democracias representativas contra as "massas ausentes". Principalmente não deve tranqüilizar ninguém acerca da perfeição do modo econômico e de seus rebrjmes – jurídico-políticosubjetivo e outros. Essas concessões são invariavelmente tardias e de aplicação sujeita ao horizonte do "possível". mitigar ou amenizar os efeitos fundantes da Lógica do Capital – expresse. imanentes ao jogo de forças de uma formação histórica (por um lado). Que o lado "progressista" dessas leis – tanto as "maiores". essas montagens dão conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo "moralismo" à Ordem Capitalista Constituída. não são nada mais que estratégias. que começou muito antes daquela do Capital. como as "menores". não deve enganar ninguém. fragmentar e recapturar as forças críticas e metamórficas. O mérito relativo do pensamento de alguns autores. de Entre vários requisitos. possibilitou o seu começo e ainda lhe é imprescindível. e como tais são admiráveis. pois não se conhece outra-. crescer –. omissa e passiva" 198 ▲ . especialmente aquelas que se consideram concessões – geralmente tão inevitáveis quanto mínimas. estão destinadas a desorganizar. o que é mais astuto. sempre considerados irrealizáveis. visando produzir as condições mínimas nas quais essa última possa subsistir – e encontrando viabilidade. Um exemplo ilustrativo a esse respeito são as contendas entre os partidários neoliberais do "Livre Mercado" e os defensores da "Regulação Estatal".

nacionais. artísticas. da seguinte maneira: Os militantes e pensadores instituintes contemporâneos passam por divergências e discussões dilemáticas – que freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de se a luta deve dar-se a partir de dentro ou de fora das organizações do Estado." entrem numa provocação desviante". mas que têm aprendido a viver em crise e da crise. complementada pela irracionalidade monstruosa. seu entusiasmo e sua alegria – como dizia Espinoza – foram. filosóficas. heteróclito e bizarro de colisões. sinérgicas e potencializantes. sem a menor intenção de desvalorizar nenhuma forma de luta tradicional ou nova que as forças da Vida vão inventando. Veja-se. não deixam de ser uma resposta cega às manobras orquestradas pela Máquina Abstrata do Capital. heteromorfo. proteiforme. "absurda" e intempestiva dos fundamentalismos e do terrorismo. isto é. devido tanto às resistências que minam o processo de suas façanhas quanto à dureza de suas vicissitudes. a ferocidade das contraposições recentes e suas conseqÜências entre o Capital Financeiro "apátrida" volátil. como infinitos agenciamentos e acontecimentos no seu combate contra as equações variáveis de reprodução e antiprodução do Capital. porém acidentais. locais. o mundo atual é um poliverso vertiginoso. creio eu. conexões disjuntivas inclusas. Assim. políticas. apesar de apresentarem uma triste originalidade. instituições. o pouco que proponho enfatizar aqui pode se resumir. heterogêneo. idiossincrásicas – na medida em que são individuações. jurídicas. científicas. e mais enfaticamente. como se diz pitorescamente falando. Diante de tudo isso. suas transversalidades. A imanência entre as potências e processos de desterritolialização e reterritorialização capitalistas movimenta-se sem cessar. e muito menos estática. dominados e mistificados" comprem a briga". que vão desde o preciso até o indecidível. senão. não é pleonástico repetir que o processo do Capital não constitui uma unidade monolítica. de maneira que os explorados. Não somente ao nível das contradições antagônicas e agônicas do que Deleuze e Guattari chamam de "Superfície de Registro e Controle" composta por territórios. As preocupações dos militantes acerca do grau de capacidade de recuperação que o Capital exerce sobre as mesmas geralmente não são mais do que hesitações compreensíveis. segmentos. são e serão "o sal da terra". habilmente engenhada para propor e propiciar contendas. apenas descritivamente. "Todas" as Máquinas de Guerra e as Linhas de Fuga simultaneamente econômicas. É claro que espero e desejo fervorosamen te ser explícito dizendo isso. vejam-se os memoráveis capítulos da "Revolução 199 ▲ . agentes dotados de uma identidade mais ou menos precisa e circunscrita. o Industrial e o Latifundiário – tanto nos domínios "globais" como nos regionais. Perante essa constelação. Essas estratégias.das massas. expressões de singularidades intensivas –. com uma velocidade que passa de geométrica para exponencial. do Capital ou da chamada Sociedade Civil (a esse respeito. Mas "ninguém morreu de contradições". organizações.

tanto os movimentos chamados "Alternativos" quanto a Esquerda tradicional parecem perder de vista os macro-indicadores inequívocos da deterioração do "todo" capitalista. mesmo que todos os países enumerados apresentem altíssimos índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal-. discretos indicndores de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva. verificação e falseamento. Guattari. Em conseqüência disso. ubiqüidade com fragmentação dispersiva. que consegue manter-se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia. porém. empenham-se em reivindicar que. França e Reino Unido. antes de concluir com uma nova tentativa de síntese. inviável quanto à operacionalização. Outro desses dilemasé o já célebre que se trava entre os "reformistas" e os poucos "revolucionários" que ainda sobraram – seja como for que se defina revolução. bastante afetados por essa debacle setorial insuspeita. os de "O Estado e o Inconsciente" de René Loureau e até alguns capítulos deste livro). e por ser uma hipótese de "alto nível". confundindo singularidade com isolamento.No espectro que vai do pólo dos" apocalípticos". quando estudava a crítica marxista da Economia Política. reforçar que a reivindicação idiossincrásica nunca acaba de propagar-se como uma onda extensiva. O argumento principal. O crescimento de quase 4% de sua economia em 97 e o decréscimo de seus índices de desemprego. se me lembro bem. Em função do que foi exposto acerca da crise presente. déficit interno e externo.Molecular" de F. entre outras razões porque insiste em enfatizar-se como intensiva. apesar de que isso não o exonere inteiramente das conseqüências imediatas da crise. baseava-se na tese de que tal indicador era in1possível de ser medido empiricamente. existem inumeráveis posições intermediárias que dão espaço a quantas vontades de transformação seja possível imaginarassim como às melhores delas. Canadá. Também Alemanha. o modo capitalista e seu Sistema 200 ▲ . Itália e Espanha mantêm-se relativamente estáveis. acrescentarei quanto segue. Rememoro que em minha juventude. se me permitem uma digressão. somente a nação que continua sendo o assento das maiores sedes centrais do Capital mundial. reiterarei que no momento a mesma tem respeitado. por um lado. linha de fuga com evasão. por isso carecia de sentido epistemológico. não faz senão demonstrar o uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política – em grotesco contraste com suas declarações neoliberais de "livre-mercado" e de democracia. Contudo. tinha sérias dificuldades para entender tanto o conceito da tendência à diminuição da taxa de extração da mais-valia quanto a contestação que os economistas positivistas faziam a essa teoria. Lembrarei também que alguns adora dores do neoliberalismo. de forma aceitável. Cabe. assim como de seu principal aparato bélico-repressivo: os EUA. aos "integrados" – bem intencionados – por outro. apesar de tudo. que são as que escapam a toda imaginação.

destinado a inversões especulativas em outros mercados mais lucrativos e/ou estáveis? Alguns famosos economistas acabam de declarar.. desde a Segunda Guerra Mundial até hoje. por exemplo. a fuga desse Capital acumulado. Ironizam. torna-se importante esclarecer que. Outros têm manifestado que. está em pleno declínio. Diante dessas afirmações. ao final. porque assim a economia mundial se corrige e ajusta". De outro lado. o qual.moratórias e outros flagelos. A iminência da segunda Guerra do Golfo e da terceira Mundial não é apenas hipótese de ficção científica. assim. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam". Em segundo lugar. que não precisamos nos preocupar demasiado com as falências generalizadas. em primeiro lugar. nas falências atuais. Japão e Itália começaram seu crescimento a partir da inversão massiva do Capital "aliado" – novas versões do Plano Marshall e da 'Aliança para o Progresso" – e nas condições políticas severamen te repressivas das nações derrotadas e "ocupadas". Afinal. os mecanismos de "contágio" sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa. Alemanha. Por último: como não requerer (apenas porque não sei se isso já foi feito) um levantamento cuidadoso e verídico dos coeficientes de concentração de riquezas que têm sido realizados e perpetrados nesses países. o milagre inédito de reduzir em quase 50% a pobreza asiática. a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda de falências. Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é. sustentam que apesar da instabilidade persistente. a parte do Produto Bruto Mundial correspondente aos países estremecidos pelo "sismo" alcança somente 6 ou 7% do total mundial. e teve uma base de lançamento nada depreciável. Essa afirmação adquire relevância pelo contraste com a decadência dos países do ex-bloco do Socialismo real. pelo fato de serem aliados dos países centrais nas guerras anticomunistas.. "é bom que as coisas se precipitem. como é notório. como se 201 ▲ .Democrático Nominal conseguiram. mesnlO que uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à geração de força de trabalho cnpacitada e eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre. como Coréia e Vietnã.é apropriado pontuar que boa parte do desenvolvimento dos "Tigres Asiáticos" processou-se sob governos ditatoriais e autoritários. Ora: que Economia Mundial é essa que entra em pânico por um "acidente" que afeta apenas 7% de sua produtividade anual? O verdadeiro pavor não consistirá de fato em que uma das suas derivações pode ser a estrepitosa baixa de preços dos produtos asiáticos (dum ping) o perigo iminente de benefício dos consumidores e prejuízo dos e inversores? A quais maldades políticas terá que se apelar para evitar essa presuntiva "injusta" festa dos compradores? Com certeza não será "democrática" nem "livre-empresista".

por que devemos acreditar que são ou serão aptos a quantificar. mafiosos e delinquenciais em geral – tenha um sistema político dotado de Assembléias Populares Comunitárias Cantonais?! A "plena" democracia suíça "perpetrou" um plebiscito. A hegemonia da Axiomática do Capital consegue. estridente. incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão! Segundo me parece. "em última instância". São as seguintes: por que tomar como referência comparativa e justificante das excelências liberais o Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é um tema ainda digno de muita polêmica? Por que confiar na "natural" afinidade entre Capitalismo e Democracia Nominal.itiriam predizer essa "quebradeira". Quanto custará ao povo desses países "novos ricos" quebrados a hipoteca dos anos vindouros. "liberdade" mercadológica e "liberdades" políticas e humanas. descarado – da Máquina Abstrata do Capital e sua Axiomática Suprema? O que manda é o Equivalente Geral. Como explicar esse império inquestionável a não ser pelas peculiaridades da globalização. que em vão se reclama limitar jurídica e institucionalmente. não é apaixonante que a Suíça – país que deve uma parte indefinida de sua prosperidade aos depósitos bancários de boa parte dos capitais "espúrios" do mundo: evasão tributária. e se funda. ditatoriais. Pelo fato que já mencionamos antes dessa interessante questão da correlação inequívoca entre ética. sendo que vários dos mencionados "desenvolvimentos" capitalistas realiza ram-se duran te regimes cripto ou ostensivamente despóticos – veja-se em outro contexto geopolítico a trajetória do Chile e do Peru.diz eufemisticamente. existem algumas outras perguntas-chave que precisamos nos fazer nessas circunstâncias. às vezes. "estrutural". tanto as vantagens do caminho capitalista "eleito" quanto o montante exigido para sua recuperação? Pelo visto. sem descartá-las por serem ingênuas e menos procedentes. que não é outra coisa mais que o pleno reinado universal – ostensivo. tanto as empresas nacionais e transnacionais quanto os organismos estatais e supra-estatais operacionalizaram seus "modelos" predominantemente com base em movimentos táticos de "invenções" e "sangrias". segundo o qual votouse a favor de continuar mantendo o segredo sobre suas contas bancárias. de forma convincente. narcotraficantes. Movimentos esses 202 ▲ . no predomínio nebuloso do Capital Financeiro mundial – completamente independente de sua base material – e sua desregulação total. que é o preço de sua futura "recuperação"? Se os experts e seus organismos têm sido incapazes de conhecer as cifras necessárias ou de elaborar os modelos e as simulações que lhes perm. suas formas monetárias e informáhcas. subordinando à sua força quase tudo que existe como realizado no horizonte do existente. não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais-valia o que não se pode mensurar!!! Como já advertiram Deleuze e Guattari.

nem tampouco a "participação" na democracia direta. hierarquizados. os componentes territorializados. Holanda. táticas ou técnicas históricas de cada iniciativa produtiva-desejante-revolucionária. equipamentos. Revolucionários" – que são o "motor" da Produção ou a Produção em si – com aquela dos reprodu ti vos e antiprodutivos. nem o saber e o poder de seus políticos profissionais e tecnoburocratas. não tem muita diferença entre as variedades de Capitalismo e de Socialismo real. – Não se deve confundir a democracia indireta e representativa liberal. com o embargo que dura mais de três décadas e oprimida por uma "Ditadura do Proletariado". Finlândia e alguns ou tros países com fabulosos índices de saúde e educação. – Não se deve confundir – mesmo levando-se em conta as singularidades históricas das citadas modalidades – a separação entre meios e fins que é própria da ética dos modos e sistemas capitalistas com a imanência entre meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte. isto é. – Não se deve confundir a morfologia e a dinâmica das instituições. quaisquer que sejam as limitações. cuja previsibilidade e precisão brilham pela ausência e são decididamente contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda. que constituem os domínios do real. com a auto-análise e a auto-gestão. Que Cuba. quaisquer que sejam as modalidades históricas que os dois termos dessa diferenciação adotem. porém. social-democrata ou socialista "soft". estratificados. semióticas. agentes e práticas. rigorosamente subordinados ao primeiro. que nunca o "espírito" das mesmas esteve melhor resumido que na deslumbrante fórmula – " A cada um segundo suas capacidades e a todos segundo suas necessidades" . organizações. sem considerar com profundidade que a tal prosperidade é fruto da participação dessas nações na espoliação colonial e neocolonial e da inexistência de bloqueios sobre suas economias. sujeitos. neoliberal. O ceme do problema – por mais pobres e óbvias em que essas observações resultem – reside no seguinte: – Não se deve confundir a lógica dos processos que Deleuze e Guattari chamam" Produtivos. obteve índices parecidos. Dinamarca. mimetizações e vacilações estratégicas. com o âmbito do virtual atualizável. logísticas. por bem ou por mal.invariavelmente improvisados e incidentais. Como último argumento. e assim por diante. do possível e do impossível. Folgo em dizer que o incremento das forças produtivas de todos os tipos – incluídas as forças teóricas e expressivas – mostra que este enunciado 203▲ . ajuda a demonstrar que. Não se pode dizer que os dois segundos sejam absolutamente contraproducentes e elimináveis. – Não se pode esquecer jamais. ou ainda a "popular". mas devem estar. existe o hábito de invocar o sereno bemestar da Suécia. estabelecimentos. Noruega. Desejantes.

Mendel. Ed. Lancetti. Ed. . Lourau et aI. e que isso exige aplicar às definições de capacidades e de necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados. Nueva Vision. 205▲ "Sociopsicoanalisis lnstitucional". Para terminar. Saidon (org. G. Ed. Rio de Janeiro. Ed. Lapassade. G. México. Cuillerm e Y. ''Análise Institucional: Teoria e Prática". apresentação e introdução. Ed Vozes. Hess. J. Tomasetta. A. Ed. Autlúer e R. "[Analyse Institu tionnelle". Presses Universitaires de France. Baremblitt. n° 62-63. Lapassade. in: "Saber. Lourau. Ed. Mendel. uma variação que me ocorre para a palavra-de-ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte: ''A cada qual segundo suas capacidades de lograr que – a todos segundo suas necessidades – seja uma necessidade para todos e um desafio para cada um. 1984. Ed Nuevillmagen.). 1971. 'A Análise lnstitucional". Organizações e Instituições". tomos 1 e 2. "EI Sociopsicoanalisis Institucional". Rio de Janeiro. ''Alguns elementos teoricos para pensar Ia cuestion de Ias derechos humanos y Ia violencia institucional". Kankhagi e O. Amorrortu. São Paulo. C. G. 1975. Petrópolis. Ed. G. México. L. A. "Grupos. in: Rev." 204 ▲ BIBLIOGRAFIA BÁSICA Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura: "Apresentação do Movimento Institucionalista". Francisco Alves. Baremblitt. "O Inconsciente Institucional". Zahar.). Amorrortu. coord. Campo Abierto. R. M. Buenos Aires. "EI Analisis lnstitucional". Ed. 1981. 1975. Ed. Ed. Vozes. 1973. 1988. 1973. Cuigon (coord. Falias. 'Analisis Institucional y Socioanalisis". BuenosAires. Baremblitt. Poder. Bourdet. Lourau et ill. J. Pour. in: Revista Vozes n° 4. in: "Saude loucura" nOl. "EI Analizador y el Analista". Cedisa. Ed.pode e poderá ser formulado de infinitas novas maneiras. G. coord. Espaço e Tempo. ''Análise Institucional no Brasil". 1977. G. 1979. Ed. Ardoino (org). Hucitec. 1989. Petrópolis. G. Quehacer y Deseo". Lapassade. 1987. R. Madri. "Participacion y Autogestion". Petrópolis. Barcelona. Ed. Buenos Aires. 1978. Paris. vários autores. 1977. 'Autogestão: Uma Mudança Radical". Vozes. R. V R. Rio de Janeiro. in: "La Intervencion Institucional". 1976. 1973. "LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?". Paris.

Barcelona. Payot. Ed. 1975. 1976. Ed. 1977. em colaboração com R. "Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". F Cuattilri. Obras de Gérard Mendel: "La Rebelion contra el Padre". Lourau. "La Classe lnstitu tionnelle". Península. 1976. 1977. "l. Rio de Janeiro. Ed. Paris. Paris. 'Au togestion Pedagógica".:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". R. 207"54 Millions d'Inclivid us sans Appartenance" . Ed. 1988. excluímos da literatura concernente à antipsiquiatria.o". e não pretendem. Barcelona. Lafon t. Civilização Brasileira. 1976. Ed. "La Descolonizacion dei Niíi. Cedisa. Ed. Campinas. Por motivo de focalização. 2ª ed. Petrópolis. Payot. Payot. São Paulo. Paris. 1972. "Micropolítica – Cartografias do Desejo". Granica. F Cuattari. Stock. Paris. Ed. 206▲ BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA A bibliografia de consulta é vastíssima e pode ser classificada de acordo com a maior ou menor proximidade que tenha com a linha teórico-prática adotada neste livro. Ed. Francisco Alves. 'As Três Ecologias". Cedisa. "EI Manifesto de Ia Educación". Península. Ed. . "O Anti-Édipo". 1972. 1988. F Cua ttari. Ariel. Deleuze e F Cuattari. Brasiliense. 1981. Os textos aqui classificados são apenas os mais próximos. 1986. 1974. 1985. Ed. à psicologia organizacional e à psicologia grupal. G. Papirus. 1975. 1983. Ed. 1975. Barcelona. Ed. Barcelona. Barcelona. 1988. G. Campinas. Paris. 'Anthropologie Diffierentielle". Ed. "La Crise est Poli tique. Ed. Ed. 1973. "Quand plus rien ne va de soi". Ed Payot. Ia Poli tique est en Crise". "La Crisis e Ias Ceneraciones". 1972. R. Madri. Paris. em absoluto. Paris. 'A Revolução Molecular". Barcelona. "Empirismo y Subjetividad". Ed. 19~O. R. "Mil Platôs". Papirus.lmago. Barcelona. Rolnik. F Cuattari e S. Madri. Ed. Pre-Textos. Ed. "La Entrada en Ia Vida". F Cuattari. Vozes. "La Bio-Energia". Siglo XXI. "On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Buenos Aires. Obras de Gilles Deleuze: "Para Ler Kant". Ed. Fundamentos. Deleuze e F Cuattari. Ed. Sigla XXI. "Pour une autre Societé". Paris. Ed.1975. Payot. 1981. Rio de Janeiro."Psicoanalisis y TransversaJidad". Ed. Rio de Janeiro. 1978. 1981. Ed. Ed. Lafont. Obras de Georges Lapassade: "Chaves da Sociologia". 1986. Ed. "O Inconsciente Maquínico". Valência. Ed. "Enquete par un Psychanalyste sur Lui-Même". Lafont. 1977. esgotar a lista dos possíveis. Cranica.

1974.:epi. Rio de Janeiro. "Le Analyseur'Lip"'. I. "La Imagen-Movim. Rio de Janeiro.:Institué". Forense Universitária. Ed. Toulouse. Antrophos. Ed. "EI Bergsonismo". Ed. 'Autodissolusion des Avant-Gardes". Ed. Imago. Gill.19bO. Obras de René Lourau: "LInstituant Centre I. "Les Analyseurs de l'Église". Privat. Paris. Ed. 1987.1977. "Lót. Buenos Aires. Edições 70. Anagrama. 1988. BuenosAires. Paris.. Valência. Barcelona. 1975. Ed.. "Nietzsche". Paidos. "Le Gai Savoir des Sociologues". "Espinosa e os Signos". G. Pa. Rio de Janeiro. Ed. "Deleuze e a Filosofia". Kairos. 1987.idos. Ed. I. 1977. 'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". Graal. Ed. em colaboração com F. Barcelona. 1969. 208 . Pre-Textos. 'Apresentação de Sacher Masoch". Barcelona. Ed.. Ed. Ed. 1989. 1976. Paris. Ed. Rio de Janeiro. Ed. Paidos. 1971. 1979. 1989. "EI Estado y ei Inconciente". Machado. Ed. Ed. "Politique et Psychanalyse". 1971. 1984. Gua ttari. "Nietzsche y Ia Filosofia". Catedra. UGE 10/18. Galilée.:epi. Barcelona.rica do Sentido".. em colaboração com C. 1980. 1969. Ed. Ed. UGE 10/18. Madri. "I. "Spinoza: Filosofia PréÍctica". Res. Pre-Textos. Ed. F Fourquet e L.1977. Barcelona. 1981. Tusquets. "Les Lapsus des Intellectuels". "Proust e os Signos". Alençon. Barcelona. com F. Ed. 1987. Guattari. Paris. Des Mots Perdus. Lisboa/1981. R. Murad. "Kafka/ por uma Literatura Menor". Perspectiva. "Pericles y Verdi". Parnet. Paris.:épi. "Sociologue a Plein Temps". Antrophos. Rio de Janeiro. I. Ed. 1990. 1974. Ed. Valência. "Spinoza y el Problema de Ia Expresión". Ed. 1984.:Illusion Pédagogique". 1976. Ed. 1975. Ed. Muchik."Diferença e Repetição".iento". "Foucault". Ed. São Paulo.. Livraria Taurus Editora. "EI Pliegue". 1983. Porto. Graal. "Diálogos". 1972. Estuclios 1 y 2. Ed. "Los Equipamentos de Poder".

Jaques. Montevidéu. Buenos Aires. Achiamé Socii. J. Ed. 1988. Abeledo-Perrot. Ed. jan. Grupalidad. Cuernavaca. Castilho Pereira. Rio de Janeiro. Ed. Payot. Ed. Paidos. coord. 1980. de Board. "Replanteo". "Introduccion a Ia Terapia Institucional". R. M. 1980. Buenos Aires. 1976. A. Buenos Aires. Fundamentos. 1987. Paz e Terra. Paidos. México. Ed. Pioneira. Ed. Belo Horizonte. Paris. J. A. L. . 1974. L Menzies y E. 1975. "Sexualidade na Instituição Asilar".Obras de outros autores "Psychiatrie et Psychothérapie Institutionnelle". C. Bordieu e J. 1978. Achiamé/Socii. Ed. Rio de Janeiro. 1980. M. Ed. Buenos Aires. A1thusser. 1980. tomo XXVI. "Instituição e Poder". UAM. "Metáforas do Poder".Pedagogia dei Siglo XX". "O Adoecer Psíquico do Subproletariado". Rio de Janeiro. Ed Busqueda Grupo Cero. Guilhon Albuquerque. 1985. Savoye e R. Ed. "Nuevos Escritos". Ed. "EI Psicoanalisis delas Organizaciones". Meridiens Klinscksieck. De Brasi. A1thusser. F. Paidos. 3ª ed. Buenos Aires. Ed. Graal. Ed. A. 1976. coord. Segrac. C. J. 1980. "Perspectives de l' Analyse Institutionnelle". "Subjetividad. 1977. M. "Hacia una . Barcelona. J. Ed. A. Nevomar. 'A Reprodução". Ed. Horme. 1968. in: Revista de Psicoanalisis. "La Teoria de Ia Institucion y de Ia Fundación". Madri. W C. J. BuenosAires. Ed. Matrajt. Chazaud. Barcelona. J. Ed. Scherzer. 1990. Oury. São Paulo. Ed. A. Etzioni. L. Haurion. "Psicohigiene y Psicologia Institucional". 1971. Bleger. J./mar. "Los Sistemas Sociales como Defensa contra Ia Ansiedad". de Ia Banda Oriental. "Psicologia de Ias Instituciones". Vasquez. México. 1990. "Organizações Modernas". Ficha de Ia Nueva Vision. Buenos Aires. J. "Contrainstitucion y Grupos". Ed. Identificaciones". Ed. Paris. Hess. F. F. "Salud Mental y rrabajo". 1986. 1966. "Ideologia y Aparatos Ideologicos de Estado". Matrajt. A. Rio de Janeiro. Oury e A. A. 1978. "Emergentes de una Psicologia Social Sumergida". Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro. Laia. Birman. 1969. 1969. Passeron. Ulloa. Siglo XXI. Bauleo. nº 1. Guilhon Albuquerque. "Metáforas da Desordem". P. Alves.

Busqueda. Rio de Janeiro. Ed. ''As Instituições e os Discursos". BuenosAires. quatro números. Paris. Hucitec. Rio de Janeiro. Ed. cerca de 20 números. Pichon-Riviére. Payot. Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. Rio de Janeiro. S. analista e interventor institucional. Privat. Ed. Esse percurso teve início há 40 anos. E. 1989. Lancetti. SAI. Fd. "m Proceso Grupal – Dei Psicoanalisis a Ia Psicologia Social". 1985. Revista Lo Grupal. Revista Saudeloucura. esquizoanalista. 4ª ed. ''A Pesquisa-Ação na Instituição Educativa". Revista Autogestions. na Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires. tomos 1 e 2. Baremblitt vem traçando um longo e fecundo percurso como médico psiquiatra. Ed. 1974. professor. psicoterapeuta. Buenos Aires. Hogar deI Libro. Tempo Brasileiro. Altoé. Zahar. Revista Sociopsychanalyse. A. cerca de 30 números. da qual é livre-docente. Revista Tempo Brasileiro n° 35. R. Movido pela inquietação daqueles que não se contentam com o conforto garantido pelo reconhecimento dado aos especialistas consagrados. 210 O AUTOR Da formação em Psiquiatria à militância junto ao Movimento Instituinte Internacional. a Sociologia." Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui". Epi. Gregorio F. Ed. Ed. Barcelona. A. a Arte e também os saberes populares. Esse olhar generoso e ao mesmo tempo rigoroso sobre os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma . Xenon. Martin. pesquisador. Paris. a Filosofia. Periódicos. Ed. Revista Connexions. São Paulo. "Sociopsicoanalisis e Institucion". Ed.209 ▲ "Infâncias Perdidas – O Cotidiano nos Internatos". coord. 1984.1978. cerca de 30 números. Gregorio Baremblitt buscou sempre expandir sua atuação até as fronteiras da Medicina com a Política. Paris. e foi-se tornando mais rico e complexo a cada momento em que o médico buscou o cruzamento da Medicina com outras áreas. oito números. Paris. Renaudot. esquizodramatista e escritor em diversos países da América Latina e Europa. cerca de 20 números. Ed. Ed. 1990. Ed. Barhier. Toulouse. Nueva Vision.

"Saber. 1972. 1988. Este Compêndio é fruto de um grande esforço para traduzir as temáticas. em colaboração com outros autores. Ed. Há também numerosos prólogos e artigos publicados em revistas científicas.ampla produção intelectual. livros e jornais da América Latina e Europa. Busqueda. em colaboração com outros autores. primeira organização no mundo separada da Associação Psicanalítica Internacional por motivos políticos. culturais. "La Cura". Poder. do qual é atualmente o coordenador-geral. Cidade do México. Ed. 1998. 211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR "Introdução à Esquizoanálise". no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ato Político". Global Ground. Vozes. Traduzido para o espanhol. Segrac. Matrajt. Ed. 212 . Hucitec. Ed. GraalIbrapsi. 1974. Teoria e Técnica". Belo Horizonte. Rio de Janeiro. São Paulo. Instituto Félix Guattari. 1982. 1987. Universidade Autônoma do México. Ed. em colaboração com outros autores. Belo Horizonte. "Psicoanalisis: Teoria y Practica". Buenos Aires. 1980. 1976. em colaboração com outros autores. Rio de Janeiro. Gregorio foi membro-fundador do grupo psicanalítico argentino denominado Plataforma. Ed. Ed. "El Concepto de Realidad en Psicoanalisis". "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria e Psicanálise". Hucitec. em colaboração comM. "O Inconsciente Institucional". Traduzido para o espanhol. sempre ancorados em duas palavras-chave: auto-análise e autogestão. Ed. e o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. 1984. Grupos e Instituições (Ibrapsi). "La Interpretacion de los Suenos: Una Técnica Olvidada". correntes e questões do Movimento Instituinte para aqueles que estão iniciando seus estudos e ações nesse campo. Ed. "Cinco Lições sobre a Transferência". "Cuestionamos".1971. em colaboração com outros autores. Helguero. "Lacantroças". Ao se estabelecer no Brasil em 1977. "Grupos. Ed. em Uberaba (MG). ''Ato Psicanalítico. Centro Editor Latinoamericano. uma das primeiras entidades do país a instituir formas de tratamento mental em sintonia com os ideais da Luta Antimanicomial. Ed. Ed. Buenos Aires. Nueva Vision. Gregorio é autor de numerosos livros e artigos científicos e organizador de seis congressos internacionais em sua área de atuação. 1978. Buenos Aires. Socioanalisis. Sua atuação no campo da saúde mental inspirou outros profissionais a criarem a Fundação Gregorio Baremblitt. Quehacer yDeseo". Buenos Aires. BuenosAires. o Instituto Brasileiro de Psicanálise. mas também diversas ações nos planos de coletivos diversos: em 1970. São Paulo. Ed. fundou. Petrópolis. 1991.

saúde. políticas públicas etc. psicóloga. Seu nome é uma homenagem ao célebre intelectual e militante francês Félix Guattari.com. que é também a do Movimento Instituinte Internacional. supervisiona trabalhos técnicos e práticos. MG.1083 e 3221. ecologia. movimentos e grupos públicos e privados. mas com ênfase na prática clínica.br ou pelo site www. Os interessados em entrar em contato com o Instituto Félix Guattari podem fazê-lo através dos telefones (31) 3284. O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (IFG-BH) também promove cursos e grupos de estudo. Cep 30240-010. arte. 213 ▲ . Belo Horizonte.7352 (Fax). estabelecimento este que já conta mais de uma década de existência ancorada em uma orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. e está aberto a todos aqueles que compartilham de seus ideais.ifgorg. justiça.hpg. 267 – Serra.br . O IFG-BH tem diversas parcerias com organizações nacionais e estrangeiras afins. O Instituto desenvolve atividades de prestação de serviços em análise e intervenção de organizações. terapeuta e institucionalista Gregorio Baremblitt. e suas atividades têm como inspiração a Utopia Ativa que guia a obra de Gilles Deleuze e do homenageado: a Esquizoanálise. Sua sede fica na Rua Herval. analista institucional e esquizodramatista.bh@terra. e junto a um grupo de colegas institucionalistas. trabalho.INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (MG) é uma organização não-governamental fundada no ano de 1996. O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F. edita e distribui livros e gerencia programas sociais. conduz pesquisas. um dos introdutores das idéias desses autores em vários países da América Latina e Europa – em parceria com Margarete Amorim. e-mail guattari. sendo todas as atividades pautadas em sua orientação.com. O Instituto foi criado pelo autor deste Compêndio – o professor de Psiquiatria. Baremblitt de Uberaba (MG). governamentais e não-governamentais que atuam nas áreas de educação. organiza eventos.