Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática

Gregorio F. Baremblitt
5ª.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992 4

SUMÁRIO 5 INTRODUÇÃO.............. 11 CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13 CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 CAPÍTULO III: As histórias..............37 CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 GLOSSÁRIO..............133 APÊNDICE..............174 POST-SCRIPTUM..............195 BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207

AGRADECIMENTOS No referente à primeira edição deste livro, o autor dá aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi uma versão. Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou inúmeras tarefas que possibilitaram sua publicação e distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com a revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor também agradece aos membros e funcionários do Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contribuições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente. O autor é grato a todos os amigos: professores universitários, pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da autogestão que colaboraram na distribuição das diversas edições deste escrito.

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Essa vocação libertária.INTRODUÇÃO Este livro corresponde à versão escrita de um curso proferido em Belo Horizonte no decorrer de 1990. Curso que. ainda está para ser produzida. ainda inédito. 11▲ . Os seis primeiros capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o curso. heterológico e polimorfo de orientações. sua Pedagogia exige uma originalidade da qual já existem muitas tentativas. organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. por sua vez. entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua aspiração a deflagrar. foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo. enquanto o último foi escrito como artigo independente. apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais. mas que. o estatuto epistemológico e jurídico absolutamente singular e a infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tarefa de ensiná-lo. Se se deseja ser coerente com os valores do Movimento. ao mesmo tempo.

a bibliografia final. devo destacar as correntes latino-americanas de Pichón-Riéver. ou. proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória. Bleger. Ulloa. no meu entender. em algum momento. De Brasi. acredito que este livro seja estimulante. Pavlovsky.Este curso. Malfe. 12 ▲ . Mais informativo que formativo. Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados. importantíssimo para o povo brasileiro. Para quem decidir continuar. tem apenas o propósito de aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do Institucionalismo. um livro especial. proferido com uma metodologia tradicional. mas. integrada predominantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil. sejamos realistas. Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar. Bauleo. Matrajt. discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para os futuros institucionalistas. foi inspirado pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer complexo e arriscado. Kaminsky. começar verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta.

. Em capítulos sucessivos. predominantemente. um leque de tendências. teremos ocasião de complicar as coisas.Capítulo I O MOVIMENTO INSTITUINTE. há algumas que são relativamente fáceis de se colocar. Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que. pois se procura apresentar uma exposição de nível médio. é um conjunto de escolas. Eu diria que existe o que se chama de "ideais máximos" do Movimento. A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam. Podemos chamar a isto também de 1 3▲ . como o nome aproximativamente indica. E é a essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora. Não existe nenhuma escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte. a intenção é. Contudo. Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte.. pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. da maneira mais simples e mais didática possível. simplificá-las. para ser entendida pelo maior número possível de pessoas. Agora.

Por exemplo. compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana. muito complexas. como ninguém ignora. despótica. a serviço daquela instituição que representa o máximo 14 ▲ . Mas em nossa civilização chamada industrial. os processos de funcionamento social. existem disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. em geral. a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a história da humanidade. E o progresso trouxe uma grande complexidade. As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar. ou uma medieval com a nossa sociedade moderna. nossa civilização. intelectuais. Acontece. apesar delas não serem nada simples. ter produzido uma soma de saberes que propiciou. Esse saber. houve um processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. Ou seja. apoiar e deflagrar nas comunidades. como veremos depois. de fato. uma organização social dita "primitiva". uma grande complicação interna. então. uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil anos. além de se caracterizar por uma grande diversidade. ou seja. têm sido sempre muito complexos. nesses últimos duzentos anos.propósitos mais importantes. aplicações tecnológicas. resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado "progresso" em igual proporção. a serviço das entidades e das forças que são dominantes em nossa sociedade. caracteriza-se também por. que nossa época. experts que são os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. ciências formais. capitalista ou tecnológica. ou uma organização imperial. Além desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza. de diversidade que as sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas civilizações. nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e de autogestão. Esses conhecedores têmse colocado. o grau de complexidade. Se compararmos. por exemplo. Os mesmos podem ser enunciados através de duas palavras aparentemente simples. nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de estudo e tem gerado profissionais. mas que são. O que significam essas palavras? Depois.

tudo é decidido pelos experts . Essa situação. ou seja. secundários e terciários. Mas noutro plano. pobre. os bens que se produzem e administram nesses territórios. infundado ou. cada um dos serviços que se prestam nessas áreas. Além disso.da concentração de poder. do poder. gerenciada por "especialistas". as empresas nacionais e multinacionais etc. sua qualidade. como se fosse rudimentar e inadequado. geral. Elas dependem. Esse saber. de educação. comida. às que atingem a comunicação de massa. que é o Estado. sua quantidade. fica relegado. criado e acumulado pelas comunidades sociais durante tantos anos de experiência vital. visando a qualificá-lo como um falso conhecimento. E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos. é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. empresariais. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo de ideologia. Então. as comunidades de cidadãos têm visto esse saber subordinado ao saber dos experts. O mesmo acontece no plano de administração da justiça. então. dos organismos do Estado. sua conveniência. refiro-me aos problemas de saúde. nos tribunais. sua necessidade. aos assuntos familiares. primários. insuficiente. Cada um desses campos. o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a sociedade. quase incondicionalmente. elas têm perdido o controle sobre suas próprias condições de vida. Toda a produção desses bens está dirigida. tem tido como conseqüência que os povos – em sentido amplo. por outro lado. de seu próprio funcionamento. transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. aos assuntos próprios da religião. Junto com seu saber. em que os "sábios". do saber e do prestígio. que são as organizações corporativas. a partir do surgimento do saber científico e tecnológico. do saber e de serviços dos experts . aos psicológicos e subjetivos. colocado em segundo plano. no melhor dos casos. ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência. num sentido vago. com os 15 ▲ . às questões relativas ao lazer. os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado e das empresas. moradia. aos especialistas de produção de bens materiais. já dentro da sociedade civil. vestuário. esses experts têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza. a sociedade civil – têm-se visto despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua própria vida. ou seja. em geral.

as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas necessidades a perdem. despachantes. Mas não se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. o que acontece? Há um conceito básico que vamos ver depois. pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de descrever. níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. muito evidente que nossos coletivos estão. Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo. Esse "mínimo" é gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. oficiais. as forças armadas. porque ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história. querem e pedem o que lhes inculcam que devem necessitar. É claro que os experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os interesses das classes. desejar e solicitar. da força da persuasão.advogados. mas particularmente na nossa. que também têm seus especialistas. no sentido literal. E o que falar do exercício da força. aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo" não existe. Mas ainda dentro do condicionamento histórico. precisam. Então. de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que "realmente" aspiram. É. não existem necessidades básicas "naturais". na Análise Institucional e em outras escolas do Institucionalismo. 16 ▲ . É possível afirmar que as comunidades ou coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. Acontece. senão da força física. que se chama demanda. leis: tudo i sso feito por experts e administrado por eles. registros civis. mas o uso da força física está reservado a organizações como a polícia. delegados. como veremos. Essas necessidades são colocadas diariamente através de demandas espontâneas. a noção das necessidades é produzida. na verdade. mas. então. porque todas essas outras entidades também usam da força. assim como a demanda é modulada. através da exigência de produtos e de serviços correspondentes. da força da sedução. que seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e desejos citados. guardas etc. não existem demandas "espontâneas". mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam e acham que pedem o que querem e como querem. isto é.

Mal podem organizar-se para resolver seus problemas se não conseguem saber. um movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise. se institucionaliza. se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir. um deles seria a auto-análise e o outro a autogestão. como protagonistas de seus problemas. com precisão. eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento importante e não inteiramente alienado. possam enunciar. adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida. Na medida em que essa organização é conseqüência e. ela também não é feita de cima para baixo. compreender. ao mesmo tempo. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas. a noção de suas reais necessidades. de suas demandas. Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo. têm alienado o saber acerca de sua própria vida. Este processo de auto-análise das comunidades é simultâneo ao processo de auto-organização. o que sabem. ou seja: produtivo. de suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas limitações. interesses. em que a comunidade se articula. ela mesma. sem dúvida. não necessariamente distorcido. os coletivos têm perdido. desejos e demandas. com sua disciplina e seus instrumentos. ou seja: não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer-lhes quem são. Eles têm perdido um certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem dispor para colocar e resolver seus problemas. Essa auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque. Então. de seus desejos. quais são seus verdadeiros problemas e o que se requer para resolvê-los. necessidades. ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de sua vida sobre a terra. Mas os experts 17 ▲ . Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria o primeiro deles. nem de fora. o que podem. o que devem pedir e o que podem ou não conseguir.atualmente. mas elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem.

tenham algum lugar dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins. os experts. Por quê? Porque auto-análise. ou ainda das diretivas das grandes empresas nacionais e multinacionais. Ao mesmo tempo em que são os objetivos principais das propostas instituintes. Eles poderão assim reformular. para as comunidades. a uma auto gestão. hierarquias que eles têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico-políticos do Estado. Por isso. quando a comunidade conseguir organizar-se. eventualmente. eles são também os próprios meios para realizá-las. aprendendo e ensinando seu saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. métodos e técnicas. Eles têm de reformular sua condição profissional. suas inserções sociais como profissionais a uma profunda crítica que os faça separar. do . de sua pertença ao bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise. os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim. 18▲ É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. o que é produto de sua origem. suas glórias. Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. E só conseguirão reformulá-los numa gestão. seus métodos. postos. suas técnicas. é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas superficial. Isso permitirá que. dentr o dessas teorias. Então seu saber. num trabalho feito em conjunto com essas comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz. mas profundamente conhecidos pelos leitores.devem submeter seu saber. Eles têm que entrar em contato direto com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando para incorporar-se a essas comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham. não podem fazê-lo nas academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. dentro dos organismos aos quais pertencem. Para poderem efetuar essa autocrítica. os experts poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e autoanalíticos quando forem chamados a participar. Esse estatuto deve resultar de uma crítica das posições. sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de auto-análise e auto gestão dessa comunidade. seu saber específico. significa a produção de um saber. da qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas. À parte dessa reinvenção de sua disciplina.

suas necessidades. de deliberação. tudo o que elas descobrirem neste processo de auto-conhecimento só terá uma finalidade: a de auto-organizar-se para que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência. especificidades etc. e também de seus recursos. Contudo. não pode haver um saber sem uma organização. Eles têm maneiras diretas de comunicar as decisões. Ao mesmo tempo. Existem hierarquias moduladas pela potência. em assembléias. Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de denominações. demandas etc. mas não há hierarquias de poder. Elas têm que organizar-se em grupos de discussão. então. tanto quanto os processos auto-analíticos. quadros. Em todo caso. Implica apenas uma certa especialização em algumas tarefas.conhecimento acerca de seus problemas. 19▲ . São dois processos diferenciados. elas têm que se dar condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades. por correias de transmissão. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos. Deverão. de suas condições de vida. simultâneos. porque estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas coletivamente. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem. hierarquias. Mas a existência de hierarquia não implica diferença de poder. ou seja. elas têm que chamar experts aliados para colaborarem. existir hierarquias. Na realidade. a capacidade de impor a vontade de um sobre o outro. mas eles são concomitantes.. peculiaridades e capacidade de produzir. gerências. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo produtivo. não equivale a privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual. são produtores de conhecimentos. São executores. articulados. é evidente que o Institucionalismo. Mas não pode haver uma organização sem um saber. é difícil pensar qualquer processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa hierarquia de decisão. elas têm que construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. a resolver seus problemas.

ou. já uma delegação. pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual. uma vez realizados. que têm efeitos médicos. Entretanto. distribuído e exercitado na vida coletiva. Seus problemas. Acontece que o povo. O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa nem acaba no campo da medicina. um poder. o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil esteja colocada na assistência e não na prevenção. embora haja mil exemplos. de fora para dentro. principalmente se por prevenção entende se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. alimentação. já não é um saber produzido fora dos interesses e desejos do coletivo. e ambos não são homogeneamente distribuídos. Então. Quem conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa prioritariamente de. vestuário e saneamento básico. necessariamente. por alguns especialistas no assunto. pelo contrário. digamos. que afeta 0. quando esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa questão. e então a serviço do coletivo. Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles um saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. existem alguns elementos essenciais que compartilhados por todo mundo. O coletivo conserva um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando o seu poder com sentido instituinte-organizante. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza são É - . têm suas causas diretas nos problemas de habitação. produzido.e que todo saber envolve. em estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas aplicações terão. Mas este saber é um saber coletivo. Disso todos os experts sabem. porque foi produzido dentro. circunscrita. já não é um saber que vai cair de cima para baixo.5% da população. de ambições de segmentos individualistas etc. muitos dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. há muitos centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou diagnosticar uma problemática altamente específica. tomógrafos computadorizados. as organizações de base. não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do Brasil porque a primeira coisa 20 ▲ que lhes seria respondida é que não sabem. Na topografia deste saber. Vou dar um típico exemplo da medicina.

nacionais e multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses interesses. Assim. Uma vez que o expert . revalorizar o saber espontâneo que elas têm sobre seus problemas. todo mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos. porque este processo de auto-conhecimento e autogestão é interminável. revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que preci sa? Os índios têm. Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está colocada num futuro longínquo. Por exemplo. pode-se delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder. também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo que não se exprimam em sofrimento. Desde logo este saber também desconhece muita coisa. ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença. existiram e existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. as comunidades negras têm. o coletivo já não está desqualificado – ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. as comunidades da planície têm. não devendo ser tratado como tal. Como já dissemos. pelo menos. integrado à comunidade. que atua predominantemente a serviço de interesses estatais. Provavelmente. basicamente. senão em cada ato do cotidiano. Isso não descarta que possam acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder. ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária-que o saber médico (nesse caso) e suas técnicas têm. em pé de igualdade. as comunidades das montanhas têm.seu saber. mas isso não pode afirmar-se a priori. o que é prioritário e o que é secundário. haverá necessidade de muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se em sua plenitude. demonstra a capacidade de contribuir. as comunidades 21 ▲ eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente . Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico. para este trabalho de reformulação. Nesse caso. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o que vem depois. A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar. quais são as enfermidades e como devem ser tratadas. e não numa potência de colaboração com o coletivo. a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts.

não são donos da riqueza. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram. Um desses movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja Católica. para fundamentar a proposta institucionalista. em que consiste o tema aqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico -social e uma gênese conceitual. enfim. categorias que têm sido produzidas pela humanidade no decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base. a gênese conceitual refere-se ao campo das idéias. Então. e não precisam do Institucionalismo para se desenvolverem. mas acho que vai complicar um pouco as coisas. Mas. temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação. gostaria de referir-me à última questão. conceitos.integrado a aspectos libertários do Cristianismo. a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos organismos e entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. muito importante. existem e vão existir. advogados. porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. conceitos e funções: todas aquelas teorias. psicólogos etc –. severamente contraproducentes. Agora. os experts – médicos. Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo. comunicólogos. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. idéias. O Institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. Por outro lado. Por quê? Naturalmente porque os coletivos em questão não são donos do saber. Os leitores compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições altamente desfavoráveis. Esses processos autogestivos e auto-analíticos são. Nós. para a 22 ▲ . não são donos dos recursos que são propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes. engenheiros.

o que normalmente é feito pelas instituições. nada disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. uma peste. seja a de certas orientações do anarquismo. Mas isso não quer dizer que não sejam possíveis ou inventáveis. escolas" maximalistas". do que é impossível e do que é virtual. pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos. tentam recuperá-las. como na política. e pelo grau de realização com o qual se conformam. Eles as diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas. De qualquer maneira. incorporá-las. um câncer. e com a qual o Institucionalismo está mais que em dívida. porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a definição de problemas. Provavelmente a tendência política tradicional que mais se aproxima das propostas institucionalistas. de alguns temas de auto-análise e autogestão. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. a invenção de soluções. existem correntes reformistas e existem correntes ultra-revolucionárias. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos. que buscam a instalação plena da autogestão e da auto-análise. Elas têm aparecido muitas vezes na história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. E quando não conseguem eliminá-las.organização do sistema. da procura. Não há nada que seja mais temido e mais odiado pelo sistema social. no Institucionalismo. Ou seja. esta última afirmação que faço refere-se ao seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias. pelos métodos. Eles são atingidos sempre na base da tentativa. do ensaio. a colocaçã o dos limites do que é possível. Então. de alguns espaços. Isso faz com que os objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos nunca de forma definitiva. organizações e saberes de grupos e outros segmentos dominantes. E as que hoje insistem em existir lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí-las. Quer dizer: há correntes. 2 3▲ . Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas auto-analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. tanto das extremistas quanto das propostas social-democráticas.

PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência. ou é a oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 5) O que significa auto-análise e autogestão? 24 ▲ . e por que se diz que as ciências. uma disciplina ou uma tecnologia? 2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos e grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber". as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações.

segundo a forma e o grau de formalização que adotem. E que são as instituições? As instituições são lógicas. à sua maneira. O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana. caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela. normas e costumes são objetificações de valores. a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o devir da Sociedade no tempo. são árvores de composições lógicas que. e o que não deve ser.Capítulo II SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES O Institucionalismo. só que eles são transmitidos verbal ou praticamente. o que está prescrito. O Institucionalismo. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos. podem ser leis. podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. isto é. tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do que é a História. não figurando em nenhum documento. assim corno o . o que está proscrito. esclarecendo 25▲ o que deve ser. As leis. podem ser normas e. as normas e os códigos também. um tecido de instituições. sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola para escola. Alguns autores sustentam que leis. em geral. estão escritas. afirma que a sociedade é uma rede. quando não estão enunciadas de maneira manifesta.

Com a combinação desses elementos. de unidades de significação na linguagem. que característica de vínculo. consideradas gramaticais ou agramaticais. esses corpos discriminativos. entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo. de normas que regem a combinatória de elementos fônicos. e também proscrições – o que é proibido.que é indiferente. regula a relação de parentesco e tem prescrições – o que é indicado. no final das contas. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da divisão do trabalho humano. Mas. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano. pode construir-se um infinito número de mensagens. Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco. que é o que acontece em outros tipos de instituição. essa divisão vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder. formalizado ou não. Então. Um exemplo de urna instituição: a instituição da' linguagem. conforme indicado por essas leis. urna gramática é urna instituição que explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens. e é curioso que os institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. por outro lado. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa classificação podem se dar uniões. genro etc. É claro que. de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte dessa língua. de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. Isso também é um código que. Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. corno se pode ver. são vários. assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica. mãe. Essas lógicas. pelo menos dentro desse universo humano em particular. filho. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). não estarão estipulados também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua. as que definem os lugares tais corno: pai. no caso da língua. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em termos gramaticais. os prescritos ou os proscritos. 26 ▲ . nora.

Estabelecimentos seriam as escolas. as instituições têm de realizar-se. têm de "materializar-se". mas com respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de comportamentos contra-indicados. pelo menos. Mas as organizações não teriam sentido. Ternos também as instituições de justiça. do campo e da cidade. como insisti. Ou seja. uma loja. Em um plano formal. e assim por diante. para cumprir sua função de regulação da vida humana. entendidas assim. Há diversos tipos de . pelas instituições. Mas. não teriam realidade social senão através das organizações. são formas materiais muito variadas que compreendem desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação.prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm esses lugares (divisão social). um convento. As organizações. costuma ser um complexo grande. vultoso) está composta de unidades menores. um banco. Para vigorar. os estabelecimentos. as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções que as instituições distribuem e enunciam. Isto é. Agora. como. Por exemplo: trabalho manual e intelectual. urna organização (que. não teriam direção se não estivessem informadas como estão. E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que são as organizações. as instituições são entidades abstratas. um quartel. isto é. que é a que regula as relações do homem com a divindade. instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa integrar-se à mesma com suas características efetivas. não teriam objetivo. as instituições não teriam vida. urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens. as instituições da administração da força. Por sua vez. – até um pequeno estabelecimento. divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros. normas e pautas que prescrevem corno se deve socializar. Ternos também a instituição da religião. por exemplo. por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. feminino e masculino etc. aquelas leis. uma fábrica. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las todas. assalariados e autônomos. então. Ministério da Fazenda etc. Ministério da Justiça. há algumas que são muito 27 ▲ características. Há também as instituições da educação.

estabelecimentos, de características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das organizações da comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não-verbais, discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de instituição às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer, por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 28 ▲

uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis. Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir historicamente ao nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações de urna instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não existem), a isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições, tem um produto, geram 29 ▲

um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados aos novos estados sociais. Tem-se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado. Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma tendência histórica a esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior felicidade, maior realização, 30 ▲

Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições. e na vida humana tomada num sentido muito amplo.maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes entre o instituinte e o instituído. que é substituída por diversas formas de mentira. e que são chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta. dominação. que é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros). para referir -me a isso. se se compreende esta oposição entre a 31 ▲ . agentes. ilusão. estabelecimentos. uma orientação histórica de seus objetivos. as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade. há a tendência a adquirir sempre características históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. elásticas. ou seja. tem-se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos. mas é a mais conhecida por nós. ou seja. compartilhada. práticas. podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por todo mundo: são os processos de exploração. deve chegar a ser. organizações. diferentes formas de igualdade. Para poder entender essa terminologia. de dominação e de mistificação (desinformação ou engano). desde que existem sociedades. diferentes formas de veracidade e fraternidade. de consenso. que cada sociedade coloca à sua maneira. que não é nem a única nem a melhor das utopias. Então. em seus aspectos instituintes e organizantes. muito diferentes de uma sociedade para outra. uma administração arbitrária ou deformada do que se considera saber e verdade histórica. cada sociedade. à exceção de algumas sociedades em particular. sonegação de informação etc. apesar de eu estar usando. fluidas. de uma fase histórica para outra. de suas finalidades mais altas. e mistificação. Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais nobres. pode-se distinguir uma função e um funcionamento. chamada de revolução burguesa. Assim. imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva. engano. deseja. sempre tem uma utopia. entre o organizante e o organizado (processo de institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis. a utopia da Revolução Francesa. Essas características históricas. É claro que.

e se apresenta aos olhos não atentos como eterna. Então. freqüentemente.. rapidamente. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração. agentes e práticas desempenham uma função. enquanto expressão apropriada. de Igualdade e Fraternidade. conservadora. então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento.. O instituído. desejável e invariável. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas. natural. da mistificação. enquanto produtivo. o organizado. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais". dos domina dores. funções a serviço da exploração. daquilo que 32 ▲ . produção que é a geração do novo. os instituídos e os organizados apresentam. recebem o nome de funcionamento. enquanto recurso operante o instituinte. é sempre transformador. dominação. não se manifesta claramente ao nível do instituído e do organizado. todo estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores. Podem ser chamados de outra maneira. dos mistificadores. pode-se definir outros termos que temos aqui presentes. Isto é. é claro que é necessário. estabelecimentos. mostra-se como o objetivo natural. ao passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia.utopia. Agora. tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a característica da função. Acontece que. Ou seja. do organizante e dos seus produtos operantes é serem propícios à produção. organizações. desejado e lógico das instituições e das organizações. esses processos. A função apresenta-se deformada. o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração. ela é predominantemente reacionária. Toda instituição. dominação e mistificação que se apresentam nesta sociedade. As instituições. mas em geral elas são mesmo traídas. Só que esta função raramente se apresenta como ela é. da dominação. o funcionamento é sempre instituinte. disfarça da. a serviço da exploração. justamente por causa da questão da mistificação. chamamos de Justiça. Essas forças. predominantemente. provisoriamente. da dominação e da mistificação. é justiceiro e tende à utopia': A função. mistificação-. toda organização. coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a característica essencial do instituinte. estão sempre a serviço dos objetivos que. desejáveis e eternas.

e o que basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições. que por sua vez são uma realização da instituição da educação. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro. ao nível daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra. por exemplo. Para concluir. Para concluir. aquilo que não é operativo para propiciar as transformações sociais. Esta interpenetração acontece ao nível da função e ao nível do funcionamento. o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer. Essa interpenetração ao nível do instituinte. os instituintes-instituídos. Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. não só educa dentro dos objetivos manifestos do organizado e do instituído. entre todos os organizantes e organizados.almeja a utopia. não atuam separadamente. pejo outro. ao nível da produção e ao nível da reprodução. Então. de perpetuar o que já existe. a rede social. funcionamento contra função. vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de funções a nível organizacional. desde o outro. do conservador. produção contra reprodução. não só instrui. do produtivo. para o outro. Por outro lado. organizante e organizado. especialmente 33▲ . uma escola também é uma fábrica. também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia. e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do organizante. organizantes-organizados que constituem a malha. mas necessárias para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste. do revolucionário. Acontece que uma escola não só alfabetiza. que uma escola é um estabelecimento das organizações do ensino. de acordo com a concepção de ensino que ela tenha. Então: instituinte e instituído. Para dar apenas um exemplo. do criativo chama-se transversalidade. uma escola. do reprodutivo. como entender. essa interpenetração ao nível da função. funcionamento e produção são a mesma coisa. como analisar cada instituição. Nós dizemos. Função é sinônimo de reprodução: é a tentativa de reiterar o mesmo. exporemos definições que são um pouco áridas. e além de ensiná-los a ler e escrever. ou seja. mas também prepara força de trabalho (alienado). mas sim em conjunto. a interpenetração que existe entre todos os instituintes e instituídos. abstratas. chama-se atravessamento. cada organização. Essa é uma tentativa de enunciar o entrelaçamento.

da dominação e da mistificação. além disso. de luta sindical. do que deve ser destruído. e ela por outras. Então. através dela. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. como já vimos. chama-se atravessamento. ao nível da função. Mas uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento políticoescolar. e dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração. Então. interpenetrado com muitas outras organizações. uma escola tem um lado instituinte. uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os alunos. e esta se define também como uma dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade. instituições. vocês vão vendo como uma escola. por ela. Essa interpenetração chama-se transversalidade. por exemplo. uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos direitos. ao nível da reprodução. numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas. produtivo. a escola pode ser também. Neste sentido é que uma escola tem também um funcionamento articulado. da reprodução. A interpenetração ao nível da função. também se pode dizer que uma escola é um quartel ou uma delegacia de polícia. A interpenetração a nível instituinte. e ainda entre os diversos· quadros e segmentos desse mesmo estabelecimento. gerando assim movimentos e montagens alternativos. ao nível do instituído. uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as correntes instituintes. produtivas. tal como está. ensina formas de exercício da agressividade.um clube estudantil. para ela. 34 ▲ . Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está. está atravessada pelas outras organizações. marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. o que a escola ensina é uma série de valores do que deve ser construído. a dominação. Então. do organizado. um lugar de exercício da solidariedade. Neste sentido. chama-se transversalidade. uma frente de luta revolucionária. a mistificação. um lado organizante. Mas.de punições. um lugar de doutrinamento para a revolução. com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam nela. de alguma maneira.

equipamentos. as sociedades? 2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou normas ou que se manifestam em hábitos? 3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações. a função e o funcionamento. até certo ponto. para o Institucionalismo. da produção e da transformação afirmativa e ativa da realidade (transversalidade). a produção. assim como também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da cooperação. da liberdade. o organizante e o organizado. os estabelecimentos. 35▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 1) O que são. dominação e mistificação (atravessamento). da plena informação. A sociedade é uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas funções estão a serviço da exploração. a reprodução e a antiprodução? 5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 6) De que está composta a rede social? 36 ▲ . agentes e práticas? 4) O que é o instituinte e o instituído.Com isso temos definida. a concepção institucionalista da sociedade. ou seja.

Naturalmente. neutra. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e. que qualquer registro inclui os desejos. é importante diferenciar História de Historiografia. do instituído e do organizado. empiricamente. mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva. registram aquilo que lhes convém. propriamente. Numa primeira instância. das classes dominantes. se apresenta como sendo objetiva. alguma noção aproximada do que é história. Então. como meramente narrativa. Agora. a rigor. não é isso. tão tendenciosa quanto qualquer outra.Capítulo III AS HISTÓRIAS o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos. é apenas uma versão tão interesseira. Porque a versão que se tem da História é sumamente importante. mas que aparece como descritiva. enquanto justifica as ações 37 ▲ . impessoal e que. que têm recursos para resgatar e promover estes documentos. em geral. geralmente. História. os interesses. as tendências de quem faz História. historiografia é esta versão que. é uma versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do Estado. Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos.

que aproveita 38 ▲ . no século XVI. ou na Idade Antiga etc. Não é o passado que gera o presente. cronológica ou conceitualmente. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História podem ser resumidas em poucas palavras: Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é. eras ou etapas. ou seja. de alguma forma. todos os movimentos sociais que se deflagram. morto. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que não é o passado que engendra o presente. de modo que não se pode estudar uma época como se essa época fosse um corte transversal. de alguma maneira. histórias das gerações. geralmente. e sim o presente que explora. Passado e futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. Trata-se de tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos históricos em alguns momentos. apenas. os processos que constituem a História são processos policronológicos. que se faz num único fluxo da História. já foi"-. que se impulsionam para chegar a este porvir. da vontade. como se faria no fluxo de um rio. que o presente ilumina. mas consiste em uma localização daquilo que. que são localizáveis como tais. que o presente deflagra. culturais. Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História. Quer dizer. ideológicas. uma História que seja como uma espécie de mangueira. Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no presente. mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas. no século XI. e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se "atrasa" em relação aos outros. do desejo. começou. teve início em um passado. que não se pode totalizar. obsoleto. cada um em sua duração. Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar. a reconstrução do que já aconteceu e que já está. definido – "o que foi. histórias raciais. de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só. justifica e propicia um projeto futuro para a vida social. enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. globalizar em um tempo único. mas o passado está composto de uma série de potencialidades que o presente ativa.e paixões que se protagonizam no presente e. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se transcorreram todos os processos. da afetividade.

não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste. o imprevisível. é o acaso. um final que pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva. tendemos a pensar a História em função de suas leis. E que são estes grandes ou pequenos momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 39 ▲ . que começam do zero e vão acabar em dez. Não existe uma progressão predeterminada das etapas históricas e. não é compartilhada pelo Institucionalismo.ou atualiza as potencialidades do passado para construir u m porvir. o acontecimento. em todo caso. Então. e como correlato à máquina do relógio –. O Institucionalismo diz que o que. a História não é uma série de etapas fatais. é o inesperado. Não existe finalidade da História. que tende a repetir-se e que. baseada em paradigmas de ordem que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com suas trajetórias. devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. ou do idêntico. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica. não é o regular. não é o igual. suas órbitas. ou um final catastrófico ou apocalíptico. se produz. quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual. Segundo alguns institucionalistas. com este metamodelo mecanicista. mas que o que se repete na História é a diferença. não existe um apogeu final dos tempos. sendo que os enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade. Finalmente. cem ou qualquer número final. ou mais ou menos determinadas. sempre policronológico. Por outro lado. isto é. o aleatório. outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da História é que nós. cada uma das quais origina a seguinte. predominantemente. do relógio ou do calendário. O que pode ocorrer no dia-a-dia não está inteiramente predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro. o tempo. por conseguinte. suas parábolas. esta concepção da História que faz da diferença uma variação análoga ou semelhante do igual. retoma na História. com uma explicação claramente mecânica. não é o idêntico. Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou menos maquinais.

quer dizer. A rigor funcionam sempre. produzir estratégias que permitam propiciá-los novamente. o propósito. portanto. do acontecimento. é aquilo que é grande. mas uma tentativa de reconstruir os grandes momentos de imprevisto. Então. o objetivo. que só se podem separar de uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. com contribuições de diferentes tendências institucionalistas. a inerência. que tem formas objetais ou formas discursivas. vida do desejo inconsciente. absolutamente desconhecido. os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da humanidade. é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar explicar brevemente. um "dentro" do outro. Tentemos agora definir outros conceitos importantes. Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica. trata-se de entender como a História é não apenas uma atividade ilustrativa. dito de uma maneira simples. não de uma transformação previsível. O que existe são imanências – isto é. Bem. para a partir desses ensinamentos. vida biológica e natural. não é apenas um exercício acadêmico. incluindo-se no outro. da inovação absoluta. ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do inesperado. em que os diversos processos são imanentes um ao outro. mas da transformação em direção ao radicalmente novo e. pode se distinguir o molar. a finalidade e os recursos do Institucionalismo. e com a utopia ativa.vão tentar ser capturados pelo instituído. a posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros. pelo organizado e repetidos como idênticos. mas está estritamente relacionada com a concepção da práxis. por assim dizer. visíveis e enunciáveis. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do que tende a repetir-se. que. Por outra parte temos o molecular. dentro desta concepção da vida social como uma rede. que é evidente. esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo. não de uma transformação pré-figurada. O termo molar. da atividade político-social desejante que o Institucionalismo tem. Então. por 40 ▲ . que é o que na física se costuma chamar micro. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação. uma investigação erudita. vida política. outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao termo molecular.

que é composto de grandes corpos. por oposição. tomando esses ensinamentos da microfísica. da microbiologia. é o lugar da estabilidade. natural. do instituído e do organizado. dito tanto no sentido físico. biológico quanto no sentido social. Finalmente. e o micro é o lugar da eclosão constante do novo. da regularidade. resultam nas grandes metamorfoses. o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. subjetiva e socialmente. ao generalizarem-se. da conservação. da biologia molecular. as transformações microscópicas. insólitas. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva. o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo previsível. em geral. É a permanente 41 ▲ . político. impensáveis. são sempre resultado de pequenas micromudanças. as conexões circunstanciais. O micro. e que os grandes poderes em vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam em espaços microscópicos de uma sociedade. é o lugar das conexões anárquicas. Dito com outras palavras. o detectável e consagrado. isto é. as macromudanças. Como até mesmo a física. Se não me engano. o universo. o macro é o lugar da regularidade e das leis. e não os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as estratégias de intervenção nos âmbitos. o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas. é o lugar das entidades claras. já tentamos reiteradamente definir e redefinir o termo produção. é importante definir o termo antiprodução. nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. da microquímica. porque espera delas efeitos à distância que. Esta diferenciação também é importante porque. o mundo atômico e subatômico. e o micro é o lugar da produção. enquanto o mundo macro por excelência seria. técnica. econômico e desejante. a biologia e a química descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta da dinâmica que acontece nas micro. O macro é o lugar da ordem.oposição a macro. Produção é aquilo que processa tudo que existe. químico. o Institucionalismo pensa que as pequenas conexões locais são o lugar do instituinte. o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais. o cosmos. dos limites precisos. Então. O macro é o lugar da reprodução. o mundo das partículas.

é o que. as energias não orientadas. que vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. elas tornam-se antiprodutivas. como é o caso da marginalidade. Esse processo de autodestruição das forças produtivas naturais. Agora. e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. valores. é a metamorfose. elas se destroem a si mesmas. de bens de troca e não de bens de uso. mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los. Por exemplo. que a sociedade não está em condições de incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria. serviços – não pode assimilá-las à lógica do sistema. 42 ▲ . mas foi sempre assim. as forças instituintes-organizantes. são forças singulares. enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias. é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de destruir os produtos porque o preço caiu no mercado. que só agora se está" descobrindo". de maneira que a produção. pelos equipamentos. vigora a antiprodução. chamaríamos de criação. Um desses processos característicos é o problema ecológico. é o devir. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas de maneira muito ampla. enquanto não se cristaliza.geração. as matérias produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos. da tóxico-dependência. ou as mata por meio de mecanismos mais ou menos deliberados. pelos organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo. ou as deixa morrer. produtivas. e que morrem não apenas por deficiência da provisão ou da organização. é o que subjaz à geração de enormes contingentes sociais que estão destinados a morrer. sociais. bens. do alcoolismo. o impedimento ou a destruição do novo. Essas são potências. são capturadas em grandes organismos reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista. neocoloniais e planetários contemporâneos etc. Então. com uma terminologia ainda religiosa. dos preconceitos sexuais e raciais. subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se antiprodução. elas são voltadas contra si mesmas. seres. isso se torna moda. É o que subjaz a grandes processos sociais como as guerras. da mortalidade infantil. mais ou menos premeditados. dos genocídios coloniais.

já é completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que acontece em economia. se estes. em última instância. representações. prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. E não se trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária. científica-política ou econômica clássica. de algum modo. em processos revolucionários. políticas ou naturais que os determinam. que o "pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. são tão importantes as vontades. hoje se sabe. suas vontades. E também não entram se suas expectativas. pelo contrário. de seu querer deliberado. Isso é claríssimo. em política ou sociologia – com independência do psiquismo dos homens. as características da vida e da morte social. convicções acerca da vida social. está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população. mas de mobilizar forças inconscientes às quais se apela. apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina. e ninguém pode negá-la. que por mais determinados. não só seus interesses. Em última instância. ou que se possa supor que é o político o tal determinante. mas que têm a ver com o prazer. isto é. não fazem parte de seu saber. isto é. de mistificação ou. Hoje. por mais submetidos às leis econômicas e políticas que estejam os homens. por vontades que eles não controlam e não conhecem. por exemplo. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica. coincidem com suas crenças. os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens. ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes 43 ▲ . são inconscientes. para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano. sabese que as vontades. eles só entram nesses processos de dominação. de exploração. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que outra. seus desejos não se encaminham nessa direção. econômicas. que têm a ver com o sofrimento e têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. e ainda mais. os desejos e as representações com que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais". os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes.Para qualquer tendência sociológica. Ou seja.

O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários. quando as forças inconscientes se ativam. Os povos checam seu próprio saber sobre suas condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente movimentos de imenso poderio. porque se é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados. é um anseio que tende a restaurar o narcisismo. não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais. em algum momento. Por que os povos atuam contra seus reais interesses e vontades? Então. Já a partir de Reich. O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. nas relações ou nas fantasias incestuosas ou parricidas do inconsciente infantil e que. porque os soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores. Isso também não é novidade. não se trata apenas de dizer que o fazem por medo. que supostamente. em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus superiores. porque os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam. já se tem visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas condições de existência que não precisa. nós nos interrogamos constantemente porque. passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação.sociais. O desejo do 44 ▲ . o grande psicanalista marxista. não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua potência. por ressonância ou por uma re-elaboração do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. A diferença consiste em que o desejo inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar. depois. Então. nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. se translada para a vida social com as mesmas características. sem apelar para os saberes instituídos e estabelecidos. mas eles operam as transformações sociais. de incalculável potência social. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes. é uma tendência reprodutiva. o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo. foi o estado em que o protosujeito esteve integralmente.

é uma força de invenção e não é uma força restauradora de estados antigos. podem existir semelhanças entre esses sujeitos. ou. uma essênciasujeito. é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. E podem existir analogias. semiótico etc. é o acontecimento-devir que os produz. mas também como um inconsciente pré-pessoal. produzem-se sujeitos em cada acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir. a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes. uma essência-homem. se pode dizer. entendido como o imprevisível. Então. segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. É uma força que tende a criar o novo. Para o Institucionalismo. quando nessa produção predomina o instituído. Então. Só que este inconsciente não se entende exclusivamente como um inconsciente edipiano. O que importa não é a produção das semelhanças ou de analogias entre os sujeitos. é uma força de conexões insólitas. mas essa produção é absolutamente contingente. mas por um recalque complexo que é simultaneamente político. teria representações ou teria recursos que variariam segundo a sociedade. não existe uma estrutura.Institucionalismo é imanente à produção. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas denominações. um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades. a singularidade de cada sujeito produzido em cada lugar. a cada momento. em todas as classes sociais. Mas é inconsciente. aos 45 ▲ . de cada momento. para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal. libidinal. mas a produção de diferenças. de cada conjuntura histórica etc. em todos os momentos históricos. em todas as raças etc. apenas preenchido com conteúdos históricos sociais variáveis. o que existe são processos de produção de subjetivação ou de subjetividade. Para o Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal. O que se passa é que esse sujeito psíquico. é absolutamente própria de cada lugar. Ou seja. pré-social e pré-cultural. repetitivo. mesmo que se aceite como sendo universal. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um recalque psíquico. sujeitos variavelmente protagonistas desse acontecimento. trata-se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são capazes de gerar transformação. familiarista. objeto de um saber que toma elementos de todos saberes existentes. Também não existe uma estrutura.

E não vai privilegiar. com a "maquinaria de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções.interesses exploradores. em geral. subjetividade submetida. a isto se chama produção de subjetivação livre. capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar seu lugar a outras. não poderemos dar nesta exposição. micro. com as formas de militância. mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. absolutamente instituinte. políticas. Mas a discriminação que tem de ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo. em cada circunstância. ele adota as características de um sujeito mais ou menos universal e eterno. porque as mesmas têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação. produtiva. circunstanciais. absolutamente singular. de intervenção para que cada processo produtivo desejante. 46 ▲ . e trabalhá-lo para torná-lo produtivo. todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que. Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer de cada organização. revolucionária. Evidentemente. O objetivo institucionalista é criar campos de leitura. mas aceitar a idéia de que os novos homens se fazem a cada momento. de subjetivação absolutamente original. movimento ou proposta. transitórias. Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto. e se efetua gerando o novo. circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários. aos interesses mistificantes. revolucionário. o organizado. seja capaz de gerar os "homens" (ou sujeitos) de que precisa. processa-se não reproduzindo o instituído. ele vai privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar. a não ser para denunciá-los. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que já estão feitos. primigênia. a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas.se propõe "pegar" um sujeito reprodutivo que é sempre o mesmo. de compreensão. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada. não se concretiza restituindo o antigo. de cada estabelecimento. absolutamente contingente. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas. não assujeitada. o estabelecido. pela natureza elementar deste livro. em que o desejo se realiza em conexões locais. não . organizativas.

O contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço teórico algo clássico. que são ideologias das classes. estudando o movimento nazista da Alemanha. informações erradas ou manipuladas que as classes. talvez estivesse incorretamente informado.se aos interesses das classes dominantes. dos grupos que procuram uma drástica transformação social. positivista. que habitualmente se aborda com o nome de ideologia. Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de consciência falsa ou distorcida. Então. de convicções acerca do mundo. apesar de ser contrária aos interesses da maioria. pela esperança e pelo medo. Ademais. Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante. afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos dominantes. Em muitas passagens. que são ideologias conservadoras. reacionárias. e também 47 ▲ . de quando falamos do inconsciente ou do desejo. por ignorância. costuma-se dizer que a maneira de reverter essa situação é instruir. os grupos e sujeitos submetem. é educar. é conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante. afirmava que o povo alemão não estava desinformado. culturalista ou estrutural-funcionalista. que está animada pela ilusão. A intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. de gozo.Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da Psicanálise. de crenças. São crenças. o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico. de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela classe dominada. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança. É verdade que há uma certa definição de ideologia que a considera como uma série de representações erradas. por exemplo. conscientizar acerca do potencial de prazer. convicções ou expectativas e desejos conscientes. é criar outro tipo de expectativa ou vontade. ou seja. Este é o caso. pode ficar sincrética ou imprecisa demais. mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras que estavam sendo ditas. é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção. Por outro lado. existem ideologias revolucionárias. é modificar essas representações.

não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um proletariado muito politizado. E, sem d úvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos, desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se consegue dominar os povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise), mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma peculiaridade do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise, o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 48 ▲

do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu rel ato restos da nomenclatura psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função que estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da castração 49 ▲

simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co-protagonizem este processo. Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento, em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os geraram em sua montagem. Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 50 ▲

). outras correntes institucionalistas não dizem que o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação revolucionária. na saúde etc.que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não (ou seja: no trabalho. do acaso e das regularidades na História? 6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 52 ▲ . 51 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Que diferença existe entre História e Historiografia? 2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicossubjetivos e naturais? 3) O que significa Molar e Molecular? 4) O que se entende por produção. reprodução e antiprodução? 5) Qual é o papel da repetição e da diferença. na educação. Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito".

Bachelard tentava um trabalho epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir. por estarem muito arraigados. produzem um efeito de convicção na "mente" de quem pretende formar-se como cientista. que não me estranharia que muitos dos conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender. de "espírito científico" – só pode aceitá-lo como uma metáfora. O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito Científico". não se tratava propriamente de Psicanálise e. por outro lado. se compreenderá que não se pode falar. cujas "verdades" freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. Esses "vícios" do senso comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos. a predisposição dos 53 ▲ Sé . assim. em um sentido estrito. em uma passagem do capítulo anterior. O mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do pensamento corrente que.Capítulo IV O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO Eu dizia. Na realidade. assim como a essência mesma do Movimento.

que comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos". os que existem em "estado prático" nas 54 ▲ . Contudo. de um questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas especificidades. mudam radicalmente de sentido. podem empregar termos teóricos com acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado. o Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria. os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. Cabe aqui lembrar que. não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. ou em uma noção. mas o faz acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais. entendendo a singular proposta do lnstitucionalismo. torna-o revelador. No entanto. defendendo a fertilidade de todos os saberes. em determinada conjuntura. tem com elas uma relação contraditória. se considera que. neste momento. ou até em uma alusão vaga. ainda durante um longo período de sua aprendizagem. incluídos. muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito". Para concluir. ainda que invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado e do qual recebe seu valor de origem. cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão. o Institucionalismo procede adotando algum termo. sabemos que essas palavras. devido às deficiências da formação geral e universitária da qual padecemos. por sua parte. quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica. sem descartá-las. polimorfa e complexa. semanticamente falando. Finalmente. As diversas correntes institucionalistas. alguns termos teóricos que as ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. por exemplo. por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes."espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. ou um outro melhor ainda. a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas. Não ignoro que. Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em particular passa-se devido ao fato de que. algo extremada. Em outros casos.

especialistas de alguma disciplina. chega-se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil.. Se os profissionais. desenvolver esses temas.atividades leigas. entre as muitas diferenças existentes de uma para a outra. então a formação de um institucionalista realmente é interminável. mas justamente porque o são. tendo se tornado descartável como os jogadores de futebol. assim como por um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. religiosas etc. artísticas. Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista. técnicas.). aceitar e entender a polissemia que adquirem semantemas provenientes. Agora. de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. Estou tentando dar um curso introdutório de um saber que não tem limites. ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais-valia. políticas entre elas. O que há como característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições. desejo etc. queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber. por exemplo). e existem diferenças teóricas. às vezes é duro. Estou tentando dar uma visão panorâmica geral. digamos. no caso de eu estar capacitado para fazê-lo. Por isso. os artísticos. está a definição dada a "desejo". que faz com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos. levaria a outros tantos cursos. os populares. mas sim muitas. peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. que terá de ser breve. Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões. Imaginem vocês uma coisa como esta. metodológicas. pois depois de uma década já não consegue acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se. para quem se aproxima deste estudo. para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto. É o mínimo denominador comum que se consegue encontrar entre as várias tendências. Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 55▲ . inclusive os saberes não-científicos. Não nego que algumas ampliações sejam essenciais. muito pouco aprofundada e ambiciosa. da Psicanálise (inconsciente. como a Física. que é um composto de todos os saberes de uma época. Agora. de certos conceitos.

relativamente autônomo da realidade. No entanto. reeditar. as vivências. ela acaba gerando todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica. em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de Castração. assim definida nas organizações. Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria predominante à colocada em muitos textos freudianos. a lei ou a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). outras maquinarias do psiquismo. A maioria delas aceita. Muitos institucionalistas compartilham plenamente essa definição de . que tenta reproduzi-lo. ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias. Em que consiste esta definição de desejo? Seria uma força insistente. que são rendimentos. em último termo. inclui uma definição restitutiva do desejo. como o leitor avaliará. é obrigado a elaborar. ou seja. desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos psíquicos da vida organizacional. a conduta. Isso. da área dos motores do funcionamento psíquico. Um exemplo característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de desejo. o desejo tem uma natureza conservadora. da economia. persistente. nessa trajetória. de sua tentativa de restauração desse narcisismo inicial. ele parte de uma situação narcisística e tende a voltar a ela. devido à sua subordinação à ordem simbólica. que é o desejo. que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa instância. e a sublimar. que procura restaurar. surge uma força que seria o desejo. as representações e afetos são do campo dos efeitos deste psiquismo. particularmente por certa ordem de representações. a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância determinante. usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade. outros dispositivos. a partir da ruptura desse estado. 56 ▲ . sendo que o comportamento. Então. particularmente em seus aspectos inconscientes. um certo estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo. de um sistema e de processos de caráter inconsciente que considera do campo das causas. a existência de um espaço. resultados dessa trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória". embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade. dentro desse campo chamado psiquismo. em que o ego e o objeto são um.

que recolhe a definição de desejo de uma forma menos ortodoxa. processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do desejo que dela emana. e com ele a imobilidade. Então. cada vez mais amplamente. por exemplo. estados permanentemente novos. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos. Entretanto. associar. porque este é um problema muito atual e de muita disputa teórica. é Gerard Mendel. que explicamos anteriormente. a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo. existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos. mostra-se característica. Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e detalhe. mas propiciar. criador de uma corrente institucionalista chamada Sociopsicanálise. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo. como por exemplo. do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada primeira tópica. assim como a exclusividade de um modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado imaginário perdido. Estamos assistindo. assim como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo. a macrofísica. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). outros setores do Institucionalismo. não é estranho que isto se apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto. no qual a pulsão de vida funciona segundo o processo primário. como a filosofia. os freudo-marxistas. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau. unidades vitais. mundialmente.da política e das organizações. de forma anárquica. percebe setores da mesma em que essa definição de desejo. No entanto. à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso programa. particularmente Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise. muito pouco conhecida e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –. 57 ▲ . levam as proposições freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais.

de forma alguma. ou tendência à autopoiese. em que há os alicerces e há as paredes superiores visíveis. e ainda no discurso delirante. Marx afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício. Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. O desejo não tem caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo-revolucionário – e não é uma força separada das que animam a vida social e natural. apesar de que Marx nunca negou que a superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. do natural. que seriam a pulsão e o desejo. a biologia molecular e certos campos das ciências formais. do histórico. que afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos produtivos. Deleuze e Guattari. é imanente a outras forças animadoras do social. Essa mudança. inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância. na reivindicação da neguentropia. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente determinada pela atividade econômica. por exemplo a matemática de Rieman. isto é. uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. além de tudo. dita no sentido amplo. Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção. tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. em um de seus aspectos. Por isso há uma fórmula na Esquizoanálise. as resultantes desse processo complexo não são causadas. a chamada infra-estrutura determina a superestrutura. consiste na promoção de certo poder criativo da desordem. Dessa maneira. E também não seriam modificáveis 58 ▲ . mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que. também apoiados na literatura. da vitalidade. Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança de paradigma. Então. Assim.a microfísica. exclusivamente pelo econômico. na defesa da produção. por processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra. Bom. constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o psiquismo. na arte. não podendo ser entendidas dessa maneira.

em que ld. 59 ▲ . O lnstitucionalisrno. por sua vez. Um de seus seguidores. à medida que adota essa idéia de sobredeterminação. políticas. mas não exclusivamente. econômicos. A instância chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção. tecnológicos. Althusser a denominou sobredeterminação. de maneira tal que haverá um determinante em última instância. diversificado e sobredeterminado". Mas o conjunto total. formam o conjunto total. formações do inconsciente etc. Existem outras teorias da causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas. o sistema. O determinante em última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos efeitos econômico-sociais. A instância decisória é a fundamental no processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. funciona interpenetrado. que em todos os modos de produção é o econômico. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade social. semióticos e naturais e estão ordenados em três superfícies: de produção. uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente psíquicos. técnicas. políticos. de registro e de consumo. de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras são superpostas ou imanentes entre si. Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no psiquismo: atos. não é uma teoria da sociedade formada por três subconjuntos que. mas todas elas têm em comum a insistência em não separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas.exclusivamente a partir do econômico. Essa é a determinação complexa pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. Louis Althusser. que Althusser chama "todo complexo articulado. em alguns de seus ramos. uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva. para que o modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana. no caso de Deleuze e Guattari. Por exemplo. mas uma sociedade reticular formada por uma grade aberta. e sim mediatizado por aqueles. tem muito em comum com a proposta althusseriana. naturais etc. utilizando outro modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente intersecionados.

e isso dará um estudo como aquele no qual participou recentemente Guattari. técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente. nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos sujeitos a nível inconsciente. ou da múltipla escolha para o processo de seleção. O máximo que se consegue delimitar são campos de análise organizacionais. que se chama "Contratempo". infinitamente menor que o campo de análise. Mas podem ocorrer campos de análise infinitamente menores. Esse objeto pode estar constituído por materiais. por exemplo. também. uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de produção no curso da história. o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". para saber como funciona. Esses campos de análise são terrivelmente amplos. Isso significa delimitar um objeto ou um campo e aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo. Outra coisa é o campo de intervenção. táticas. muito heterogêneos – por exemplo. como uma análise do significado da festa no Brasil ou uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru. desde um estabelecimento até. Campos de grande porte poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau. implica um processo de compreensão.Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo. Por isso denomina-se campo de análise. E óbvio. 60 ▲ . logísticas. Isso ainda não implica necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado. as principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –. o primeiro a ser abordado será o conceito de campo de análise. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde pequeno até amplíssimo. que se chama "O Estado e o Inconsciente". que em qualquer corrente de Institucionalismo. porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a nível nacional continental ou planetário. o espaço delimitado para planejar estratégias. como estão colocadas e articuladas suas determinações. como se geram seus efeitos etc. É claro que o campo de intervenção é. que é o "recorte". suas causas. em geral. concretamente. de inteligência dos determinantes desse campo. ou o funcionamento dos programas de estudo no vestibular.

o Institucionalismo enfatiza a necessidade de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea. por esta oferta. O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda. cujos autores mais notórios são Lourau. que essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise. em que radica a problemática desta organização solicitante. determinada. e à medida que se intervém. eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí. antes. Só que um campo de análise é pensável sem intervenção. esmiuçar o pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. desde o princípio. Pode-se compreender e não intervir. a demanda não é o primeiro passo de um processo: ela é produzida. se compreende. Mas acontece que. A demanda não existe por si. Em geral quando os dois campos se constituem. e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. deliberados. ou que relação existe entre a publicidade. que também temos de tratar sinteticamente. para fazê-lo. eles estão articulados entre si: à medida que se compreende. a divulgação científica ou não-científica. modulada. analisar. manifestos. mas um campo de intervenção é impensável sem um campo de análise. mas não se pode intervir sem alguma forma de compreensão. de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a expressão do desejo. 61 ▲ . geradora ou moduladora da demanda de serviços que lhe é formulada. a proposição direta ou indireta dos serviços que a organização analítica faz e que não pode não ser causante. Para dizê-la provisoriamente: quais são os aspectos conscientes. incluir a auto-análise. Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de Análise Institucional. De modo que para compreender a demanda de análise institucional de uma organização é necessário. voluntários deste pedido. e está marcada . se intervém. particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa. que é um dos primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva. a compreensão de como a organização analítica gerou esta demanda. A isso chamam análise de demanda.a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção.

também de bens materiais. o coletivo prestador de serviço. intervinda. tem uma fórmula que não explica todas as situações. mas que é muito ilustrativa. injustamente pouco conhecido. sintomas. como sonhos. Portanto. quando essa oferta gera uma demanda. chistes. formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles fenômenos. uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. interveniente. Isso exige por parte do coletivo analisante. lapsus linguae. ela não pode estar modulada senão pela própria oferta." Essa mensagem subjaz. Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade. que é o verdadeiro objeto de análise. sejam eles pontuais ou mais amplos. e a organização analisada. no meu modo de ver. concebeu o conceito de derivados do inconsciente. com a oferta. está "por trás" de toda oferta de prestação de serviços e. que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta para ser analisado. não são efeitos exclusivamente 62 ▲ . demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. delírios. Então. para poder dar o primeiro passo em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-. não sabe em que consiste. esta análise deve ser articulada com a forma em que foi produzida. Entre a organização analisante. tão técnica. tão sutil. Não existe aqui. provavelmente. você não entende. que consiste aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e. o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque. e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações. Quem demanda. além disso. atos falhos. que ele não sabe o que é. Mas é tão complexa. Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. então. formações do inconsciente. A Psicanálise já classicamente. Mas juntos é que vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. ou seja. vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização.Um institucionalista muito respeitável e. um severo processo de auto-análise de como produzir a oferta de seus trabalhos.

Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador. Não são dados claramente efetuados pelo superego. Isso é claro. da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas instâncias. um analisador não é necessariamente um discurso. E é claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional. nem exclusivamente inconscientes. pode ser um costume e não uma norma. E podem ser os relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas. Por isso é que se chamam. a maneira como está organizada a memória de uma organização. do lazer. ou seja. é um efeito ou fenômeno formalmente parecido com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. a carta de princípios. absolutamente. exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito. da sexualidade. O analisador. a forma como está elaborada a planta arquitetônica da organização. manifestá-la. o organograma. Os mitos. isto é. 63 ▲ . segundo uma das denominações. pelo menos fenomênica ou técnica. os rituais. nem pelo ego ou o id. porque sabemos que em Psicanálise os comportamentos. os efeitos verbais. denunciá-la. não se privilegiam. São fenômenos resultantes de uma combinação. os regulamentos. efeitos transacionais ou formações transacionais. os estatutos. ou seja. só que a Psicanálise tem uma persistente predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações do inconsciente. E essa é a primeira diferença. Um analisador não é assim. do domínio e o cuidado de si. o fluxograma etc. a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. o uso do dinheiro. subordinar os outros à compreensão verbal. a couraça caracterológica também são considerados formações do inconsciente. Por exemplo. Então. etc. pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. na aparência desses fenômenos. Mas as diferenças são as seguintes: Primeira: na materialidade fenomênica.conscientes. e a. mas pode ser um monumento. nem exclusivamente pré-conscientes. pode ser um arquivo. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica. nos questionários ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. em análise institucional. Não é que em Psicanálise não o seja. nem uma lei. de uma mistura. as atitudes corporais. pode ser uma característica dos modos de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma.

revolução burguesa. acumulação de capital mercantil e usurário etc. E dessa maneira. sendo assumido por seus protagonistas. este tipo de fenômeno. e esses podem ser um conflito dentro da organização. a análise institucional nunca conseguiu compreender. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu próprio processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro de certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico. E existem analisadores artificiais ou construídos. que foi marcar o fim do feudalismo e o início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção do analista). por exemplo. introduzem 64 ▲ - . Nesse sentido. denunciar. ele não precisa ser analisado de fora. um determinado acidente numa usina atômica (geograficamente pequeno. Um grande analisador é a Revolução Francesa. colocado em condições propícias. Só que esse analisador. como todo mundo sabe. produto de determinados encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média. declarar. que são dispositivos que os analistas institucionais inventam. de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade. porque espontâneos todos são. porque analisadores naturais são os terremotos. evidenciar. para começar o processo de seu próprio esclarecimento. existem os chamados analisadores naturais – que é uma expressão inadequada. a definição correta é dizer que são analisadores históricos. e. tem a possibilidade de não apenas manifestar-se. que a própria vida históricosocial-natural os produz por conta própria como resultado de suas determinações. ou seja. Existem grandes analisa dores e pequenos analisadores. manifestar. "Natural" quer dizer espontâneo. que também é uma má expressão. pelo menos nos seus aspectos geológicos. Mas podem haver pequenos analisadores. Isto não é fácil de ser explicado. não apenas é capaz de enunciar. Então. ele predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se. Um analisador é um produto que pode se auto-analisar. não está preparada para isso. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender. como também de resolver a situação da qual ele é emergente. mas também de se compreender. ou seja.Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir. pelo menos) etc. realmente.

montagens de tipo propriamente científico. não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com seu objeto. e na análise institucional a implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente. psíquico heterogêneo por natureza. ou seja. de alguma forma. a raiz de seu contato. E não é apenas reativo. intervinda. cenográfico. os retomaremos na exposição correspondente aos itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica. veremos rapidamente alguns termos. na equipe de análise institucional. político. O passo seguinte será falar da análise da implicação.nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos mesmos. que denominamos standard . Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. dramático. é o contrário de uma análise "objetiva". um processo econômico. É. sendo que. Em continuação. 65 ▲ . procedimentos de tipo ativista. Insistiremos uma vez mais em que estas definições. seja de tipo artístico. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica. é simultâneo e é parte indissolúvel do processo de análise da organização. sociológico. a análise da interação. de sua interseção com a organização analisada. experimental. complexa e sobredeterminada. Poderse-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. mas um processo de materialidade múltipla. uma análise variável da relação entre o sujeito e o "objeto". cuja finalidade é basicamente transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento. como está claro nas ciências físicas. Só que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material do paciente produz no analista. lógico. político. que deve ser analisado em todas as dimensões. ao nível de produção de analisa dores construídos. produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana. ou seja. em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai estudar. Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. A implicação se define como o processo que acontece na organização de analistas institucionais. antropológico e manobras do tipo" convivência prolongada". não começa no usuário: é recíproco. pois é prévia a este contato. da interpenetração destas duas organizações. se valem de todo e qualquer recurso.

de alguma maneira. médio ou pequeno porte. mais ou menos sistemáticos. da Comunicação de massas ou a Família). De um dispositivo pode. aparatos. segregacionistas ou punitivas (como por exemplo. forma etc. O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado. estabelecimentos. além do mais. assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções. No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações. Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente. a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento. As mesmas estão armadas com sentidos diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista chamava de "aparatos". dizer-se que é o contrário de um equipamento. do registro ou do controle social. cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão. a Polícia. que sua condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade. maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos. estrutura. Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião. tecnológicos e até subjetivos. da Educação.seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. artificialmente extraídas dos contextos teóricos. de grande. Estes cumprem funções eliminatórias. teatro ou nas artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" sociais. Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia. ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico. enfatizando. Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função. em articulação com os quais adquirem seus significados prevalecentes. sempre simultâneo a sua formação e sempre 66 ▲ . as Forças Armadas. naturais.

os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona. antecipar. O diagnóstico é importante para justamente instituir. assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). dinâmica. poderes. táticas. dispositivos da área ou organização intervinda. defesas. equipamentos. digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou sujeitos. num sentido restrito. operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário). territórios. têm a ver com a transversalidade (conceito que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e. organizar. logística. gerando acontecimentos insólitos.a serviço da produção. uma obra artística. decidir os passos que comentaremos em seguida. analisa dores. os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações. o que se denomina linhas de fuga do desejo. os faz explodirem e os atravessa. reprodução e antiprodução. tais como contrato. um pensador original e libertário. assim. contradições principais e secundárias. conflitos. também chamados agenciamentos. Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção. um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo. 67 ▲ . pelo contrário. acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. da vida. planejar. potências. um descobrimento científico. opositivas e antagônicas. Um dispositivo em geral não respeita. do desejo. têm a peculiaridade de nascer. processos. Nesse sentido é óbvio que os dispositivos. para sua montagem e funcionamento. da produção e da liberdade. linhas de fuga. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem. revolucionários e transformadores. estratégia. técnicas: Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível. Um grupo político sujeito (quer dizer. com o instituinte-organizante. ele os inclui. do novo. os territórios estabelecidos e os meios consagrados. mecanismos. magnitudes de produção. conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. Gera. Por último.

punitiva ou de extermínio parcial. com os coletivos de usuários "clientes". Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. contratantes. freqüência dos trabalhos). Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças. As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego. é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo. expectativas. Como veremos. se essa guerra se dará por terra. habilidades. dos espaços e territórios que se colocarão.) que fundamenta o contrato. promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. objetivos. simplesmente. A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo). elementos. precisam fazer acordos. convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações. quer dizer. serviço profissional independente. honorários ou outro tipo de retribuição. mas com certos segmentos do mesmo. recursos etc. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. avanços. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção como serviço deflagra. alternativas. são analisadores. solidariedade militante etc. totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação. de que se dispõe ao começar uma intervenção. A estes acordos costuma-se denominar contrato. de fronteiras. mar ou ar. a previsão de vicissitudes. quais serão os aliados. 68 ▲ . simpatizantes. assim como a progressão das manobras. pactos. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. Para dar um exemplo bélico. para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções. emergentes da problemática a ser pesquisada. Trata principalmente de tempo (duração total. retrocessos etc. Os diversos aspectos do contrato: tempo. estabelecimentos ou. Por outro lado. com que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidades de realização.Os institucionalistas. opções. dinheiro. delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação.

os movimentos de tropas etc. estratégia. desportivos. informativos. objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades do coletivo em pauta. desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no lnstitucionalismo? 2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 4) O que é análise da implicação? 5) O que são: analisador. aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis. No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística. agenciamentos artísticos. o horário. à participação da infantaria. de discussão. táticas e técnicas? 70 ▲ . uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios. sem tomá-las ao pé da letra. convivenciais. É interessante enfatizar drasticamente que no Institucionalismo. morteiros. Quer dizer. estratégia geral e primeiras táticas. à área onde se desenvolvem. prosseguindo com a metáfora. a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção. assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora. cavalaria. de sensibilização.neutros e inimigos etc. a eleição de técnicas é consideravelmente livre. lúdicos. dispositivo. será ditada pela inspiração e o treinamento. equipamento. granadas etc. esboços de uma logística. esclarecedores. As táticas referem-se a batalhas circunscritas. 69 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Qual é o sentido dos termos sujeito. Procedimentos interpretativos. As técnicas. de expressão. logística. praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. enquanto já se têm. baseados nisso.

digamos. particularmente aqui no Brasil. políticos. são propostas políticas mais subversivas. é politicamente moderada. Terei de ser muito esquemático. eu diria. se é que tal termo exprime alguma coisa. mais enérgicas. existe uma graduação à medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. com certos matizes diferenciais entre elas. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –. São também as mais difundidas. uma forma de abordagem das organizações e das instituições que. mas são as que mais notoriedade têm atingido. nem necessariamente as mais importantes. poderíamos dizer. de graduação entre essas três tendências. contar com certo conhecimento de 71▲ . mais ativas. Tentarei uma espécie discutível de classificação. Em termos. Então. que podemos tratar de caracterizar nesta exposição.Capítulo V AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas. Produz. assim.

de criação e de transformação. Essas séries denominam-se complementares. o sujeito se incorpora plenamente à vida social. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias adquirem retroativamente sentidos morais. Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de movimentos e de adaptações. grupos sociáveis no sentido amplo. isto é. introduzindo-os nesta teoria. Suas representações são secundariamente recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. intensamente pressionantes para o 72 ▲ . com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de idade). pelos sujeitos psíquicos que o geraram. de estudo. continuam sucessivas incursões nas atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da outra. Acrescente-se a isso as experiências da infância precoce. metodologia e técnica sociopsicanalíticas. e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação. adquire contato com os grupos chamados secundários. Seu Superego está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de significações. na constituição do psiquismo.Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar isto de forma breve. Freud criou também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". de educação. Algumas dessas situações são altamente tensionantes. Em seguida. Nesta teoria distinguem-se. Ela se ocupa da psicopatologia com uma expectativa de cura. no seu percurso e desenvolvimento. grupos de jogos. Tudo que acontece na vida psíquica. mais as correspondentes ao parto e primeira infância. mas. A série disposicional é composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados por seus progenitores. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a chamada latência. duas séries assim chamadas: a série disposicional e a série desencadeante. tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo uma das séries: a série disposicional. ou seja. A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. Então. tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries.

O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária. ou pode ser causante de processos patológicos. sociopsicanaliticamente falando. concretas. ao passo que a frustração é um desengano de amor. faltas diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos diferentes. que constitui o núcleo central de sua série disposicional. durante sua primeira infância. irrepetível. e as configurações da série desencadeante – que podem gerar patologia. De um ponto de vista mais amplo. pode efetuar-se em comportamentos ativamente adaptativos. Se não resolver. cada sujeito é singular. Logicamente. gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de fixação. Privação refere-se à falta de subsídios para necessidades biológicas. atuam em conjunto. poderíamos resumir esses três 73 ▲ . Ou seja. Essas são experiências de frustração. privação e castração existem diferenças. e experiências daquilo que em Psicanálise se chama castração. resolver. pode resultar numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. Quando a série dessas experiências. castração refere-se a um tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo). arcaica. em geral. atuando sobre a série disposicional – são totalmente variáveis. então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". são exigências diferentes. e isto é que vai resultar no retorno do recalcado como sintoma. é importante assinalar que entre frustração. elaborar – ou não – o chamado Complexo de Édipo. não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional diferente). Apesar de não podermos desenvolver agora. quando a série desencadeante atua sobre a disposicional. No entanto. experiências de privação. constituída pelas situações da vida. Outra forma de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu. E isso resultará na doença psíquica. atua sobre a série disposicional que o sujeito traz. Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta articulação entre a série disposicional e a série desencadeante. sublimatórios.psiquismo. de universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia em geral. Elas. a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar. Então. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre determinada série disposicional). único. em sintomas.

tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menosvalia, exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa. Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto "pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar-se, que estabelecer uma aliança entre si para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento, 74 ▲

através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e outras formas de comunicação inter-humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar 75 ▲

a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um se tor da humanidade por outro. Isso faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de seu trabalho não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 76 ▲

e assim por diante. O que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas organizações de trabalho. E essa experiência de impotência gera neles. essa experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado no capitalismo. eles vão viver a situação de trabalho. ou seja. E as figuras determinantes reais dessa situação atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua situação familiar. Ou seja. no sentido em que os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual já passaram. Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam parte dessas organizações. ou seja. mas também trabalho escolar. não apenas produção de bens de consumo. recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida simbólica. comercial. é fácil ver que esses conjuntos vivenciam. o lugar onde deve ser estudada a experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar natural" em que os homens se associam para exercer sua potência. Então. não desfrute dos resultados deste esforço. de mil maneiras diferentes. que é no lugar de produção. mas também produção de serviços. Para Mendel. a regressão que se produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou psico-institucional a um outro. adequada às circunstâncias concretas que os rodeiam. não apenas trabalho industrial. quando se estava construindo sua série disposicional. nos âmbitos de trabalho. Em 77 ▲ . a situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. Esta experiência de impotência gera uma regressão do psico-institucional ao psico-familiar. Por isso.humanidade que trabalha. ou seja. com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. chamado funcionamento psico-familiar. entendendo o trabalho num sentido muito amplo. mas da ordem coletiva. o que Mendel vai afirmar é que. médico. um processo regressivo. incidindo sobre a série disposicional de cada um deles. Só que esta regressão não deve ser pensada como sendo da ordem individual. Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de retificação com o real. as vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas acontecem. se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja).

A metodologia de intervenção conserva muitas das características da intervenção psicanalítica. recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional. Tentando outra vez uma síntese. como sintomas. inibições. Devido a essa regressão que mencionamos. e não tinham outra forma de solucionar essa situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. em que. feito em colaboração com uma equipe interveniente. senão os criadores exclusivos. mas exige um movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível.conseqüência. com pontos de vista e postulações perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. a proposta de Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise. que estão negando. delírios. eles eram pequenos. reagirão de uma maneira irreal e fantástica. pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise Institucional. e não passa exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas. Este processo opera teoricamente. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas. afinal de contas. que por tratar de ser clara pode resultar empobrecedora. imaginárias. e também se refugia no mundo da fantasia. Dessa maneira. Lapassade e seus companheiros – que são. eles são os produtores da riqueza. não totalizável – de 78 ▲ . digamos o seguinte: Para a Análise Institucional. objetivamente. Então. desconhecendo. como já dissemos. o coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica. como tudo quanto constitui a patologia biopsico-social. eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio. uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer dizer. chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária. porque. que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica e obter a compreensão da regressão que os afeta. se isso está mais ou menos entendido. familiar. que se tem perdido devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar. como acontecia na sua infância. mas coletivo. sobretudo o recurso interpretativo. para poder ter de novo um acesso ao real atual. É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual. Agora resumiremos a posição de Lourau. atuações. enfim. somatizações. sós e impotentes.

as engloba. úteis etc. e essa ausência é registrada como um não-saber. atribuindo-lhes valores e decisões. ocultam funcionamentos divergentes. Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si mesma). As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou "corporificadas" que. ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norteamericanos. indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. como por exemplo. eficientes e em geral consideradas necessárias. usuários e práticas. outras apenas permitidas e algumas. a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam. Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição. que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas. Cada instituição é universal. contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em que. é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais. ou podem ainda operar como costumes. Em palavras diferentes. um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia dar conta de todos estes 79 ▲ . com referência aos outros e em relação ao sistema global que as instituições integram e que. A Análise Institucional não é. cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. quer dizer. Assim consideradas. uma modalidade particular do matrimônio poligâmico. essas entidades. em normas escritas ou discursivamente transmitidas.instituições. ainda. indiferentes. agentes. algumas prescritas (indicadas). então. também tem uma relação. como dizíamos. outras proscritas (proibidas). uma norma universal (digamos as relações de parentesco). ainda que seja de maneira aberta. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis. como hábitos não-explicitados. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de comportamentos humanos aos quais classifica e divide. estabelecimentos. segundo sua amplitude. tendese a atribuir-lhe funções inteiramente claras. podem ser: organizações.de negatividade consigo mesmo. indispensáveis. ou seja. tanto para o saber espontâneo de seus agentes sociais quanto para os experts que as descrevem.

E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. É vítima. também é proprietário de um saber.desconhecimentos. porque quem é o proprietário dos meios de produção. ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia de Estado. em parte. positivando de uma vez por todas o tecido social. classicamente. tanto nas suas bases como nos estratos que lhe são próximos. é vítima de um processo de doutrinamento ativo por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo. Isso gera. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de trabalho". Esse poder é entendido como a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados. digamos assim. uma noção do processo de trabalho. como diria Mendel. ela considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar mercadorias (e não a gerar bens de uso). desconhecer os principais vetores que ordenam a organização na qual está inserida. é um desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e organizações. entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações. das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. esse mesmo processo de impotência. existe nas organizações. ao qual se referia Mendel. a Análise Institucional parte da idéia de que. em parte. Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia. cada coletivo de uma organização está alienado no não-saber. Isto é. Ela 80 ▲ . sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a negatividade operam em cada conjuntura. dos meios de decisão. do sentido da existência e uma definição da função das organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder. é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. no caso das organizações do trabalho. com as classes dominantes. devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho". dos objetivos da vida. no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando. em todas as organizações. de Ideologia. que o mesmo Marxismo não sabe decifrar. Mas. de um desconhecimento que. da classe institucional trabalhadora. É o que o Marxismo chamava. Por exemplo. Pelo contrário: t rata-se de uma investigação permanente. dos valores. o fato.

com medidas disciplinares. e ainda costumam. de conflito. são lugares de atrito que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por aqueles que o produzem. rebeldia e revolta estéril. E assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz c oincidir com uma divisão social. conflitos. forçosamente. E não teria de ser assim. "naturalmente". Em um sentido amplo. o analisador "sexo". São fenômenos conflitivos. da tóxico-dependência. solucionar drasticamente. Então. Mas os que podem delimitar-se com maior freqüência são. como o da diminuição da produção.considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior saber dá. são vivências sofridas. o analisador "poder". como já dissemos anteriormente. incidência do alcoolismo. o não-dito compreende a relação de não-saber que cada momento da instituição guarda com respeito ao outro e o não-saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. ou Psicologia Organizacional. Esses analisadores são muitos. Isso constitui parte do não-dito institucional. monstruosas. o analisador "prestígio". outros são construídos pelos interventores institucionais. de acidentes de trabalho. tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de respostas individualistas. que se destina a transformar toda essa problemática em uma 81 ▲ . incomunicabilidade. Mas a divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. por exemplo. descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – Recursos Humanos. que geram essa experiência de impotência. são acontecimentos mais ou menos explosivos. o analisa dor "dinheiro". desordenadas ou autodestrutivas. Alguns deles são" espontâneos". de disfunção que aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho. Então as classes e grupos dominantes. uma posição de maior poder. Então. mas também uma série de relações humanas distorcidas. arbitrariedades que as classes dominantes da organização costumavam. de impotência. ou Relações Humanas –. ou Relações Públicas. essas contradições vão estourar em fenômenos como o do absenteísmo. na modernidade. trata-se de criar um dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos de mal-estar. brigas.

a isso se chama "implicação". a conseqüência. mas nas formas peculiares que este adquire em seu caso singular. eliminando as situações de burocracia. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a autogestão. das forças subversivas. correlacionar esses analisa dores com suas causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar esses fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si mesmo. como um desvio das forças críticas. mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. que é necessária-. relaxando-se. vai ser ocasião de poder analisar também os seus próprios conflitos da mesma natureza. de imposição. Então. Trata-se de criar condições para que possam. Finalmente. exaustivamente. de dissociação – não a diferenciação técnica. De modo que esse processo autogestivo e autoanalítico. é parecido com o de Mendel. Em todos os dois há certa semelhança.simples questão de negociação ou comunicação. tanto do não-saber das contradições da estrutura e da função do sistema. das forças revolucionárias. dessa maneira. ou seja. pode-se ver. E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando. a equipe interveniente também vai integrar-se com a organização intervinda numa organização compartilhada. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta. e descubra a maneira como esses efeitos antiprodutivos são a expressão. negociando ou vivenciando. Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do trabalho. mas também diferenças. Trata-se de colocar os quadros em contato para que solucionem esse assunto conversando. na qual vão poder analisar os fenômenos de alienação de uma e de outra. esses fenômenos. mas sem sair da lógica do sistema. sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são as causadoras dessa problemática. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico-Socioanálise. que vai tentar deflagrar na organização intervinda. a recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo. cabe 82 ▲ . O objetivo.

prognóstico e indicação. quando se pratica sobre uma organização circunscrita. a demanda. a uma escola. não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica dos experts profissionais. mas tem uma espécie de central em Paris. como prestação de serviço profissional. tempo e demais coisas. Isso. quando se opera no seio de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva generalizada de uma sociedade inteira. apesar de todas as ressalvas. se denomina" autogestão a frio". ou seja. Isso gera. fábrica. Isto é. ir até lá e solicitar seus serviços. apesar de uma vocação militante que têm no seu trabalho. auto críticas e análise da implicação. enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou menos generalizada. Pode-se. trabalha em muitos lugares do mundo. todo um processo de diagnóstico. é geralmente um serviço apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado. hospital. que são muito 83 ▲ . o requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico. trata se de uma prestação profissional de serviço. Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. a um sindicato. apesar da rigorosa autocrítica que exercitam. de sua enérgica vocação revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos tradicionais. Isto é. como já dissemos. é feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo organizado. que se chama Degenettes. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau. então. tratando de caracterizar algumas diferenças essenciais. ou "a quente". em última instância – apesar de sua franca inspiração libertária. convento.esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio". dentro de um marco mais ou menos convencional. entre a organização solicitante e a organização solicitada. Além disso. quartel etc. com uma conflitiva mais ou menos moderada. Então. não deixam de ser técnicos. Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. e um contrato de trabalho. os sociopsicanalistas e os analistas institucionais. na qual se discutem honorários. científicos. que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional. Por exemplo: o grupo de Mendel. não deixam de ser experts.

um modo de ser. pela exploração e pela mistificação. Não implica. são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a alienação e propiciar. as sentimentais. per se. e que não podem ser sistematizadas 84 ▲ . uma relação de contratação. Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. necessariamente. mas basicamente como uma nova forma de pensar. senão que pode ser dual ou individual. para cada situação.sofisticadas e complicadas.a invenção de uma metodologia e de técnicas. e protagonizado por qualquer pessoa que tenha. as econômicas. Propõe algo assim como um processo de análise permanente. as afetivas. as relações com os outros e as relações conosco mesmos. Eu diria que de Mendel a Deleuze e Guattari existe. Sequer implica um trabalho de um agente sobre um usuário. digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a de Mendel. necessariamente. mas que pode ser um trabalho feito por um sujeito sobre si mesmo. para se aproximar muito mais do Anarquismo. naturalmente. essa prestação de serviços convencionais. indispensavelmente. as artísticas. generalizado e ubíquo. táticas e estratégias absolutamente singulares para cada caso. ou seja. todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo. Para ela. Mas que tem também um aspecto analítico. interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a precederam. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina. estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais. as políticas. Além disso. Não é necessariamente uma atividade coletiva. politicamente. uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe. responsáveis pela dominação. Não implica um lugar nem tempo determinado. Não é. que não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. presente por toda parte. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. ou uma maneira de viver. a compreensão de como as determinações alienantes do sistema. Então. em qualquer momento. desempenhada por experts nem por profissionais. A Esquizoanálise pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer lugar.

nem como ideologia. senão à do dinheiro e outras. se aceitamos que na civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas. Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari. a concepção do desejo. que pretende ser um novo gênero. já forma como que uma terceira natureza. nem como uma ciência.nem transladadas para outra oportunidade. eu poderia dizer. elétricas. da vida organizacional. Não lhe interessa. a participação do desejo. ele não dá muita ênfase a essa categoria e a esse conceito. Para Freud. se perguntaram qual é a definição de desejo em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. mas não é um inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o não-dito e não-sabido. mas é uma força pertencente a esse domínio. que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. só que essa esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes. não se trata de 85 ▲ . porque eles consideram a definição freudiana do desejo. Para Deleuze e Guattari. por exemplo. da vida. a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica. a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais. a coisa já muda radicalmente. a "natureza humana". são as mais amadurecidas de sua obra. uma crença? A rigor. poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia. como uma proposta radicalmente nova. apesar de um de seus produtores ser considerado o maior filósofo contemporâneo. na nossa opinião não se trata de filosofia. Em Deleuze e Guattari. não enquadrável. Inclusive. a "natureza social". particularmente. embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional. por referência não apenas à instituição familiar. é uma doutrina. o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo. entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. uma ideologia. Então. na versão dos autores. mas para eles a questão se altera por completo. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta pobre: em Mendel. do psiquismo. segundo uma epistemologia clássica. é rigorosamente freudiana: é a que Freud dá nas formas que. como. podemos dizer que existe a "natureza ecológica". aquela das máquinas desejantes. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas. mas. da história. É alguma coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo. eletrônicas etc.

ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária. no caso de Mendel. deflagrar a potência da produção. do desejo e da diferença. como dizíamos. é restitutivo. é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados. para concluir. Mais ou menos essas são as diferenças. A produção não é apenas produção mecânica social ou natural. enquanto em Deleuze e Guattari. de uma natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção. esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de desejo. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles supõem. mas entre suas formas molares. que é a produção já deformada pelo capitalismo. do real psíquico. tal conceito não consegue englobar todas as formas de produção possíveis. o que se tem de fazer é liberar. e tenta esterilmente repetir um estado anterior –. É a mesma natureza com uma diferença de regime. Baseando-nos nelas. isoladas entre si. que são imanentes entre si. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar. a produção e o desejo são uma e a mesma coisa. que só precisa ser veiculada. especificamente psíquico. para eles o desejo não é restitutivo. por exemplo.domínios nem de esferas separadas. os sujeitos possam controlá-los. Para quê? Para que. Ao passo que. digamos que. em Mendel. A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. dominá-los e utilizá-los no sentido de ganhar uma margem de poder possível. incluída a psíquica. se tomamos o conceito freudiano de desejo – ele. Equivale a dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social. por exemplo. vai-se gerar uma nova categoria de produção. no nível molecular. é o produzir. Ou seja. eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção. do real natural e do real maquínico – é a produção. liberada de suas constrições. que abrange todas as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis. mas é também produção desejante. e com essa característica de gerar sempre o diferente e em todas as atividades possíveis. porque as representações não interessam tanto quanto as forças. Então. o desejo é. propiciar. uma vez interpretados. Para Deleuze e Guattari. Não a produtividade. segundo as características do processo primário. a realidade está composta por 86 ▲ . o desejo é produtivo. mas a produção como processo de geração constante do novo.

organismos. os indivíduos. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo. em condições desfavoráveis. Igreja. pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e levar à morte ou à demência. as Intensidades circulam por ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas. O nível de funcionamento da Superfície de Produção é submicroscópico ou molecular. por sua vez. segundo se trate das formações primitivas. do Déspota ou do Capital-Dinheiro. os sujeitos. enquanto que. quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção = Libido. geradoras de tudo quanto é novo. será respectivamente o Corpo da Terra. compõe-se de matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. ou máquinas desejantes. a do RegistroControle_e a do ConsumoConsumação. o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídosórganizados: Estado. O Corpo sem Órgãos assim povoado se transforma numa Nova Terra. Superfície de Consumo = Voluptas. bancos. ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia.três superfícies imanentes entre si: a da Produção. Na Superfície de Registro. dinheiro. O Corpo sem Órgãos torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que. os códigos. sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário. representações e estruturas edipianas). asiáticas ou capitalistas. são capazes de desestruturar os estratos e territórios da Superfície de Registro. desejante-produtivo. Em si mesmo o Corpo sem Órgãos é o grau zero de Intensidades. A este nível cristalizam-se em territórios. Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante-revolucionários gerados por encontros ao acaso das intensidades. É o lugar das identidades e dos controles e da repressão generalizada. integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas Máquinas Desejantes. Também a ele pertencem as pessoas. Superfície de Registro = Númen. ou seja. empresas. A Superfície de Produção está. 87 ▲ .

a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo? 89 ▲ . 88 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 4) Qual ê a relação entre estas três tendências. assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. Para tentar enriquecer um pouco essas definições. Como se vê.propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em novidades radicais. sugiro consultar o glossário deste livro. Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular. apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria torna impossível defini-los em detalhe. um pólo paranóide (capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário).

E pode ser muito vasto ou mais restrito. permanece nas pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste tipo de serviço. Então eu gostaria de. é um tema do qual o institucionalista quer se ocupar. É um assunto importante. Mas 90 ▲ .Capítulo VI ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard. pode ser contemporâneo. é evidente que o campo de análise consiste apenas num espaço conceitual ou nocional. pois me parece que. mencionar algumas delas. metodológica e tecnicamente. Em outras palavras. Antes de começar. pelo menos. seguramente. Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de um campo de análise e um campo de intervenção. no entanto. Esse tema pode ser abstrato ou concreto. será muito incompleta e esquemática – de algumas formas diferentes de intervenção. a mais habitual. porque quando não fica claro. a mais corriqueira. passado ou futuro. a mais conspícua. eu gostaria de fazer uma breve classificação – que. isto é. é uma questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos.

é o exercício oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados. uma indústria. por exemplo. isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente histórico-social. para poder saber como funciona essa organização concreta. Agora. um departamento de Análise lnstitucional numa universidade. Mas pode-se delimitar um campo de análise que não compreenda unicamente o entendimento dessa fábrica. 91 ▲ . em termos empíricos. com o campo de intervenção. no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica. digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. Uma modalidade de intervenção – aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard . é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade. e resolver estudar o processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil. pois. Partindo. Aliás. pressupõe um campo de análise. por exemplo. embora durante a intervenção iremos entendendo cada vez mais. mas não se pode intervir sem entender. habituais. porque se pode entender sem intervir. envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar entendê-lo . pode-se escolher como campo concreto de intervenção uma fábrica. escolhida como campo de intervenção. como já foi dito. na condição de sociedade cientifica – uma sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos. dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção. do departamento de Recursos Humanos de uma empresa. um instituto de Análise Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma microempresa.é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica necessariamen te uma intervenção técnica. que tem de fazer uma intervenção dentro de sua empresa mesma. É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo. por exemplo. tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas. o campo de intervenção. O campo de análise pode não coincidir. convencionais. dentro do panorama social. Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que integra. fabril. É o famoso caso. Ou seja. que é interna à organização na qual se vai intervir.

com os companheiros. sem dúvida. mas simplesmente é um "cristão". Em outras 92 ▲ à . mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. que consiste numa variação dessa última possibilidade. em um espaço da vida e da atividade partidária. em que ninguém sabe que seja institucionalista. É o caso. Por exemplo. contanto que seja considerado corno parte da vida militante. mas que não seja o de institucionalista. vive dessa maneira. opera corno institucionalista. pratica o Institucionalismo com sua mulher. e o faz sob um rótulo. de um morador numa associação de bairro. nos seus quadros. em todo caso. ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas. é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo na convivência cotidiana. convive dessa forma e. dentro de seu papel de morador. em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico". em urna frente. trabalho esse que pode ser ou não pago. então. mas que. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista. com os filhos. pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais. isto é. sem explicitar essa condição. Então. limitado. qual ele pode pertencer organicamente ou não. nem é solicitado corno tal.ou um departamento de acompan hamento institucional de urna universidade. Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização. tendo assimilado princípios teóricos. por exemplo. esse sindicato ou esse partido político pede a seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor. é o caso de um sindicato ou de um partido político que. Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre. Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com esta anterior. é um próximo que. com os adversários. é um acordo muito definido. e ele é procurado nesta condição. em um segmento. nem se infiltra sob outra condição não formal. Mas. que acabamos de expor. na condição de qualquer outra coisa que faça parte dos papéis formais existentes nessa organização. Urna variação que parece a menos comprometida e. formas técnicas de operar. tem institucionalistas que são militantes formais.

palavras: é a quele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis, o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode levá-los a adotar uma atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso; não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 93 ▲

complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... " O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, devese ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de operar, corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos diziam: calcanharplanta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê-lo ... O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 94 ▲

atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é . "naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo. Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 95 ▲

Um oficial pede a um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. para que seja mais lembrada pelos leitores. E o que acontece é que cada especialidade. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócioeconômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora. É um forte americano. é estar próximos.. Isso não é maldade dos agentes. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição profissional estão estruturados para isso. devem ser amigos. sou profissional. e muitas vezes é. o mais que conseguimos. consciente ou não. certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 96 ▲ . fica mais fácil lembrar que a realidade com que trabalhamos vem toda junta.. um ao lado do outro. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro. Mas a realidade vem junta e nós não estamos juntos. São muitos. vêm correndo. Mas há uma que temos de revelar. os índios estão vindo. acha que os problemas da realidade são problemas de seu campo. mas não freqüentemente. profissões. para encarar qualquer problema da realidade e estar. ela começa pela análise da implicação existente na oferta." O oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe. um senhor ou uma organização vem consultar-nos sobre um problema de saúde. em princípio. A divisão em especialidades. porque estão vindo todos juntos. Então. todo o meu poder social e todo o meu prestígio através disso que eu faço. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se demonstrado eficazes. Se alguém me consulta por um problema de saúde. do especialista. em território índio. Eu sou especialista em saúde. tem com sua tarefa. olha e diz: "Sim. Além disso.. só existe dentro da classe ou da equipe. Então. mas não nos usuários. Há uma piada famosa que se passa num forte militar. numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. " Se a gente se lembra desta piada. pode ser uma desonestidade. ter presente.análise da implicação. ou sefa. Então não tenho culpa de nada. cada profissão. o vigia sobe. Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui porque excede nossos propósitos. do profissional. convencido de que o problema é nosso: de cada um. na produção da demanda. Vivo disso.. e eu gostaria de descrevê-la de maneira pitoresca. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são totalmente produzidas. às vezes.

pelo contrário. esquecendo-me de que. com cuidado. ninguém" compra". A primeira coisa a ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita. sem me dar conta. O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita-me dizer-lhe que esse problema não é privativo de nenhuma especialidade. para" capturar este peixe"? Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária.. Às vezes há quem diga: "Sim. é difícil de se ouvir. ou seja. na oferta. quantos cientistas vocês conhecem que. pode ser uma oferta vasta.. somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está demandando. porque. cruzada. o que 97 ▲ . é porque me ofereci. que coisas. E se me procura. concluem que esse problema não é para eles resolverem. Mas se eu não me oferecer. Essa é a análise da implicação na produção da demanda. se o sujeito está demandando em primeira instância." Estou tratando de ser simples. ampla. vamos ver como foi que convencemos este fulano a nos procurar. profissional. estou a seu dispor. Então: "Venha que esse problema é comigo .. dar de volta ao usuário o que ele solicita de mim. Procura-me porque algum lado do problema tem a ver com o que faço." Isso já é muito.alçada. e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se conhecem muitos profissionais assim. para que foi que "vendi". que coisas posso solucionar parcialmente e que coisas não devo solucionar. a primeira coisa que ocorre é que a gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda. mas seria conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área.. o que tenho de fazer é analisar. devo encaminhar noutra direção ou devo devolver. seus colaboradores ou sozinho. Essa análise tem aspectos conscientes e préconscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe. resolutiva etc. como foi que vendi isso. e então o atendo. Existem poucos. o que foi que fizemos nós sem dar-nos conta. válida. se ele me procura.." Mas tem aspectos inconscientes. O problema fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda. Então. o problema é meu. se não vendo o que faço. Esse problema tem de ser resolvido com seus amigos. posso solucionar. ou seja: que fiz eu. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura. seus companheiros. ninguém me procura. Se eu não me constituo num lugar científico. após ouvirem cuidadosamente alguma demanda. realmente. " Quantos profissionais.

não é exatamente um colega. Isso. Consulta porque" é daqui". E isto é muito importante. segmentos da organização. porque as bases não são homogeneamente revolucionárias. e o faz com elementos conscientes e inconscientes no usuário. sobretudo. mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e a demanda. Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “ A ideologia 98 ▲ . para os institucionalistas. que ofertamos o serviço. consulta porque" é bara to". isto é: quais foram os passos intennediá. pela autorização e pelo reconhecimento s nosso serviço. na mesma proporção neles e em nós. nem homogeneamente progressistas. de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. mas para dar um exemplo simples: qual foi o cliente que. o grau de consenso. sem dúvida. Costuma ser. porque nos pode dar toda uma antecipação dos motivos desta consulta. isto é. os interesses em jogo. nem homogeneamente sinceras. ou porque "vem de fora". ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere. ocial de O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento. consulta porque "é caro".vivemos fazendo é lutar pela legitimação. consulta porque ele é "dos nossos". chegou à conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis. definindo nossos serviços como eficientes. Isto é: qual foi o setor da organização que assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes. Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases. Tudo isso modula a demanda. É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem solicita.ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos. não é nenhuma garantia. infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela direção ou pelos proprietários. os desejos em pauta e. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é o melhor". O passo seguinte é a análise da gestão parcial.

demanda é a solicitação formal. pois o fato de você considerar o parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa. é uma solicitação consciente que. sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. Isso também tem de ser analisado. O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes. A compreensão da determinação dessa parcialidade é importante. Estamos falando de uma situação ideal em que. Então. mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes. mas apenas uma delas. Isso.dominante é a ideologia das classes dominantes. viemos consultá-lo porque sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 99 ▲ . desconhecimento e recalque. singulares. Então. passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional forma parte da parafernália de serviços característicos do progresso. Vem um setor. solidárias etc. originais. Pode-se dar um exemplo clássico. claro. É claro que as pessoas estão solicitando uma coisa. deliberada." Então. na medida em que a Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais. nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional. desigual. Por outro lado. O passo' seguinte é a análise do encargo. vem apenas um segmento (apenas uma parte faz a demanda). veja. ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente.. as bases são. uma organização numerosa nunca virá toda para fazer uma solicitação. que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos entre má-fé. A diferença entre demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e encargo. em geral. consciente. Nessa terminologia. que nunca coincide com o encargo. em geral. mas o que elas querem obter é outra. A demanda nunca coincide com o encargo. mas não único. Então. que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. da tecnologia moderna em relações humanas. Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro para os leitores. Mas não coincide por quê? Por má-fé? Pode ser. contraditória. geralmente. a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e como foi que consultou. a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom. conflitiva.

e se isso não funcionar. e procurar um urologista. na organização.dos operários. está surgindo um grave conflito por problemas de condições de trabalho. com algo que acontece quando. por exemplo. cloridrato de ioimbina ou viagra. veja se acaba com esta revolta. O urologista irá receitar. porque é um corrupto ou porque é um reacionário. o entendimento. vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se opera." Por quê? Porq ue já se sabe que existe uma tecnologia modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. que se diz uma coisa e se está pedindo outra. melhoradora. entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. Agora. Pode ser fruto do desconhecimento. Não é comum isso? Tratase. da direção. O encargo pode ter a ver. Mas pode-se perceber. é: "Olhe. progressista. ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos. localiza os líderes.. então. 100 ▲ ." Isso pode ser feito com plena consciência e com má-fé. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza. de uma intervenção profilática. há uma demanda. simplificando humoristicamente. tratase de algum conflito com a "mamãe". Mas pode ser. quando. como desmobilizar. perfeitamente. ou como aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário. por problemas de nível de salário. Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má-fé. no entanto. acontece que o encargo pode não ter nada a ver com isso. você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica. pelo menos é democrata ou humanista. que não sabe uma palavra sobre isso. como fragmentar. a negociação etc. O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado (?) para a consulta. todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. porque já se tem uma vaga idéia de que se ele não é revolucionário. Então.. me aconselha como desmontar este movimento. como paralisar isto. por problemas de autoritarismo na liderança. um problema recalcado. num plano manifesto. quem tem fama de institucionalista dificilmente será solicitado abertamente para isso. a comunicação. Ora. inconsciente. Então não se lhe pede isso diretamente. de um problema de ignorância. de quem vem consultar alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o encargo recalcado. Há especialistas em fazer essas coisas. pois. ou seja. O encargo. finalmente.

mas tem-se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a gente não trabalhe. pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser fruto de má-fé. em todo caso. Já sabemos o que é encargo. anteriormente.Agora cabe aclara r uma coisa importante. de desconhecimento ou de recalque. com freqüência. e que sempre há dominação etc. É claro. pelo fato de ter sido colocado o cartão de ponto. Na realidade. não se pode entender um sem o outro –. e a maioria delas não é boa. ou uma autocrítica que não consegue suportar. que sempre existe uma extração de mais valia. Mas. que é o que surge como resultante de toda uma 101 ▲ ." Já tenho recebido demandas dramáticas. porque os quadros de base podem fazer essa solicitação. não se quer trabalhar. Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de uma unidade. e também análise da demanda parcial. incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de emergente. Vocês se lembram do que é analisador . Mas vocês devem ter ouvido. Sem dúvida este desagrado pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim".natural: é um fenômeno (dito em termos clássicos. estes grandes "protestos revolucionários". o cartão de ponto quer dizer muita coisa. é bom que tais manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. então temos de caracterizar os analisadores "naturais". Mas também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia cumprir. não se podem separar esses dois pontos. Os determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente complexos. falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um serviço. Então solicitase alguma reivindicação. de desconhecimento ou de recalque. no tocante à diferença entre a demanda e o encargo. ou um estudo que não tem vontade de 'encarar. numa sociedade onde o trabalho é alienado. Mas se os quadros são de base. descartado o fato de que todo trabalho é alienado. porque não se quer estudar. porque não querem trabalhar. por exemplo. ou de uma essência "vadia". heróicas. Quando se simplificou isso. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. em termos de má-fé.

delimitar quais são. pelo menos enquanto acontecimento geológico. aquela que fez a demanda parcial. tenta-se analisar. Depois do contrato de diagnóstico.série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. Então. e não por todo o coletivo. isto é. Porque só ouvimos uma. E quando tivermos feito tudo isso. já devem ser pagos. é interessante receber os honorários. porque ele implica que o diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado. em primeira instância. a morte de um operário. o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí. Senão. suponhamos um analisador chamado natural (criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto. por um segmento qualquer. Então. Qual seria um analisador desse tipo? Grande. Só que é bom fazer este novo acordo. Com esse contrato. uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. o aumento das doenças de trabalho. assegura-se o respeito geral necessário. Um primeiro entendimento sobre o que está acontecendo lá na organização. poderemos chegar ao que se chama diagnóstico provisório. um contrato de diagnóstico. se vai lá. fundamentalmente. poderia ser uma greve. Este contrato já implica a construção de dispositivos para ouvir todas as partes. Senão. se entre outras coisas o institucionalista vive disso. E são "naturais". Então. o institucionalista foi solicitado por um setor. no entanto não é valorizada pelos usuários. porque não foram fabricados por um interventor institucional. O contrato de diagnóstico é um acerto. Mas então. temos de fazer. e nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso. cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. a esta altura. entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. quais foram as resistências que se levantaram nos outros setores que se foi ouvir. as defesas. no caso de existirem honorários. não existem analisadores naturais propriamente ditos. é um convênio feito para poder construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. Por isso. que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. pelo fato de que. pequeno ou médio. temos de caracterizá-los. legitimado e. Então. 102 ▲ . e também porque um contrato de diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser diagnosticados. Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam chamar de "presuntivo".

fazendo-se a análise da demanda e do encargo 103 ▲ .O passo seguinte consiste em. só se ouviu os setores distintamente. a partir desse diagnóstico provisório. Os usuários podem aceitar ou não. ou dispositivos para poder recolher todos os dados do didgnóstico provisório. é uma reunião de cineclube. e importante. é "artificial" – já fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. mais crítico. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. mas não é sequer o diagnóstico provisório. Uma vez aceito. Por outro lado. de indagação. Ainda é um presuntivo já mais elaborado. uma estratégia. Também se pode propor outra coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em um espaço diferente do habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitirnos observar o que acontece nessa convivência. Ouviu-se passivamente. Mas não foi concluído ainda o diagnóstico provisório. mais comprometido. porque é indireto. Depois que se fez a investigação passiva. pode dar certo ou não. nada impositivo. não é demasiadamente indutivo. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural". Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório. Por enquanto. poder planejar uma política. Eles não são tão indutivos assim. Se não aceitam. não estou deixando de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim e não. resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e que vai dar-nos o material mais profundo. teremos que pensar em outras alternativas. reúne-se a equipe interventora e parte-se para analisar toda a colheita. desloca a problemática da situação espontaneamente referida. Vamos dar um exemplo fácil. um agenciamento ativador. Mas talvez isso se possa entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. É muito recomendável e não é nada autoritário. porque o interventor não está baixando regras. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o mesmo. mas não se criou condições para cutucar o nãodito que queremos investigar. Então vai-se criar analisadores construídos. Mas será que quando crio instrumentos de investigação. mas está propondo um dispositivo agitador. porque se trata simplesmente de propor. uma tônica e técnicas para começar sua intervenção.

porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe fez uma boa intervenção aqui. 104 ▲ . qualquer técnica. muito mais ricamente. será necessário precisar quais são as estratégias. um cineclube. uma guerra simulada. analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e novo contrato. a análise da implicação significa pesquisar. exige ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. quando se mantém uma convivência prolongada. os espaços onde se vai dar essa "guerra". Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser dada ao processo. os procedimentos: psicodrama. Então. temos uma vivência de contato diferente. Então. que envolve maior compromisso e requer mais retribuição. pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras intervenções. técnicas expressivas. também somo's mobilizados. os movimentos fundamentais para conseguir os propósitos políticos. que não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. Nova política. técnicas definitivas. mas pensada anteriormente. a ordem dos mesmos. temos adquirido solidariedade ou cumplicidade inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo. despertou em nós. somos igualmente ativados. quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou recalcados que foram ativados. Nova análise da implicação.definitivo. vai conseguir outras intervenções noutros lados. Por que é importante? Porque o passo seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. despertou na equipe interventora. sempre que a tática. um quebra-cabeça coletivo. uma festa. Por exemplo. a importância dos mesmos e as técnicas. novas estratégias. É possível não se dar conta de que essa ambição acordou-se nos interventores. depois de todo esse novo exame. toda técnica é boa. temos de voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em condições de manifestar-se muito mais livremente. exaustivamente. no coletivo interventor. Esse contrato definitivo. táticas. será necessário desenhar as táticas.

e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho. antiprodução. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise coletiva permanente." Primeiro quero saber o que o coletivo propõe nesse sentido. não atendo. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: "Eu quero um contrato por tanto tempo. mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo proponha se quer pagar quanto quer pagar. Consideração dos índices de transferência. o tratamento vai durar tanto tempo. vamos fazer uma proposta de contrato definitivo. atravessamento. Logo vêm as avaliações periódicas.Depois temos a autogestão do contrato de intervenção. depois de analisar a proposta. eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças. Se não for assim. por que quer pagar. Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico. todos os conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. ou seja. o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la. Isso é completamente diferente das prestações de serviço profissionais habituais. que poderes quer nos dar e porque." Não é esta a idéia. ficará uma disposição e uma 105 ▲ . que tempo pensa destinar ao trabalho. Os temas a investigar são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização? É claro que. para chegar a um acordo consciente. que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a implicação que se vai gerando na equipe durante o processo. e porque. isto é. transversalidade. tal como foi planejada. produção. resistência. Depois vem a execução da intervenção. no momento em que saímos da organização. que poderemos ou não comunicar ao coletivo. o que será muito ilustrativo do significado que a intervenção tem para cada segmento. em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto.

como vamos elaborar todo o material.instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo. Em todo caso. tanto que se pode dizer que a regra são as exceções. finalmente. que não sejam recomendáveis. já por nossa conta. temos de discutir. 4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 107 ▲ . que introduzimos como hetero. em todo caso. Mas. e o trabalho continua. de forma permanente. sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é propriedade do coletivo considerado. como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer com ele. profunda e exaustivamente. o processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos. políticos e econômicos continuam sendo importantíssimos. Podemos fazer um acordo de acompanhamento. 106 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional? 3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações. de intervenções periódicas de atualização. é um esquema para se considerar e omitir os passos que não sejam possíveis. condensar tantos outros etc. E. Nossa decisão deverá ser submetida a ele. é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generispara cada situação. se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio. mas a implicação e os problemas éticos. Nós saímos.

Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral. a um conjunto aberto e internamente diversificado de correntes que mostram certos valores em comum. Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos sociais no que se refere às lógicas que os regem. ou Instituinte. ou simplesmente Institucionalismo. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação. não só porque este propósito excede em muito os limites deste livro. às formas concretas em que essas se "materializam". Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas. assim como aos recursos que empregam para obtê-las. estabelecimentos e equipamentos. ou Antiinstitucionalista. às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam. Podemos eleger uma. bem como marcadas diferenças. e não sem ressalvas. que tenta conceituar de diferentes maneiras.Capítulo VII o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE f) O Institucionalismo e suas vicissitudes Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista. insistindo que não 108 ▲ . organizações. mas também porque supomos que este universo seja não totalizável. uma vocação crítica. assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. Em outras palavras: ocupam-se das instituições.

Pelo contrário. Quanto à gênese conceitual. Algo similar ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. principalmente. a gênese social desse Movimento pode relacionar-se. da República durante a Guerra Civil Espanhola. epicuros. até chegar a concepções e ações alternativas. Hegel e Heidegger. Aristóteles. clandestinas.será necessariamente compartilhada. não pode deixar de se inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates. revolucionárias e. da produção de novas formas libertárias da vida. Por um lado. na medida em que estas não são homogêneas. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua função ou funcionalidade de seu funcionamento. Por outro. Fourier e. proporíamos as grandes balizas da Revolução Francesa. estóicos. A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem comum". Arbitrária e muito simplificadamente. Bergson. até talvez caiba dizer. em seus aspectos conservadores ou reformistas. Kant. Bakunin e outros. sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas contrastantes. seguindo por outras crescentemente reformistas. marginais. Rabelais. megáricos. com uma longa série de tentativas históricas de regular racionalmente a existência das coletividades. Muito sumariamente mencionada. Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus. por Marx. Argélia e. Nietzsche. os Escolásticos. o Institucionalismo tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou experimentado. 109 ▲ . Campanella. desde a tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia. sobretudo. Hume. Kierkegaard e Sartre. a serviço. O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial transformador. Descartes. Essa vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos "institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições relativamente conservadoras. o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos importantes pioneiros deste tipo. em suas versões mais drásticas. adere com muito mais entusiasmo ao espírito dos materialistas pré-socráticos. assim como aos sofistas. extremistas. Platão. Espinosa. à sua maneira.

Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por diante. As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia. os problemas da Urbanização e Demografia. influências predominantes de várias correntes. obviamente. como mínimo. partidários. Semiótica e Antropologia –. e assim por diante. com a definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 110 ▲ - . Poder-se-ia acrescentar toda aquela atividade vinculada aos Serviços Sociais. aspiram a títulos de cientificidade (de acordo. dos Jogos etc. dos Sistemas. Funcionalismo. é sabido que as origens do Movimento podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis. às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e das populações em geral. a saber: o da Educação. quer dizer. Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia). Essa difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala. por exemplo: Comportamentalismo. Encontramos. sindicais. marxistas e anarquistas. ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes institucionalistas. está claro. Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis. Economia. esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e estabelecimentos (comerciais. entre os quais encontramos. o da Saúde Pública (especialmente a mental) e o d a Indústria. a gama abarca desde as escolas que. e nem sua herança institucionalista o é. eclesiásticos e até militares). liberais. financeiros. ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a Teoria da Comunicação. Simultânea ou consecutivamente. assim. Sem contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas reconhecidas. História. como também de disciplinas como a Pedagogia e a Medicina. não é homogêneo.Se é permitido falar-se de uma gênese operacional. Cada um desses setores do conhecimento. Desde logo. Psicologia. todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas.

Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na escala de correntes. publicações etc. do Institucionalismo.afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma nova concepção da convivência cotidiana. coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu estatuto ético. passando pelos procedimentos informativos. Estratégia e Tática do Movimento. questões de neutralidadeabstinência ou imparcialidade-indução). legalidade.. Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a cientificidade e a profissionalidade. Com a profissionalidade o que está e m jogo é a legitimidade. essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de Babel. gnosiológico e profissional. entrevistas livres ou dirigidas. Conseqüentemente. jurídico-político. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a autorização das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas. workshops etc. ou o que quer que se queira chamá-lo. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética Social" são 111 ▲ . e suas óbvias conseqüências econômico-políticas (operações de oferta. carreiras. Em síntese: esta "evolução". demanda e contratação de serviços. avaliação de eficácia. dramáticos.). Como veremos mais adiante. conceitual e operativa. verificação etc. Se o instrumental teórico. "progressão" ou. análise de conteúdo. o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de uma Ética. convalidação. possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção. títulos.). mais neutramente dizendo. o que esperar acerca do arsenal técnico.. assembléias. o qual se desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude. este "percurso" de sua gênese social. precisão. com relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém. consistência. sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais.). no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção teórica (coerência. método e objeto de estudo são tão proteiformes e problemáticos.

Contudo. as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teóricotécnicos valiosos sob todos os prismas. Os setores tradicionais do Movimento. por parte dos coletivos. e 112 ▲ . alternativas ou revolucionárias do Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização da análise e da intervenção em grandes situações em escala regional. analisador. afastase cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e intervenções científico. cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da alienação-dependência do saber-poder dos coletivos de usuários. sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações de serviços. Treinamento em Recursos Humanos etc. que atendem à autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista. da autogestão e da autodeterminação das comunidades.tecnológicas com os sistemas e setores dominantes. tais como: implicação.vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras". demanda. as expectativas de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente satisfeitas. e coerentemente. mercantilistas e adaptativas. de acordo com os países onde se desenvolvem. No extremo. impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto-análise. centro-periferia etc. isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo entre seus usuários. a faixa mais subversiva do Movimento. conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que de direito) à tecnologia da human engineering(Psico-Sociologia das Relações Humanas. Pelo contrário. efeitos: Mulhman. b) Quanto à profissionalidade. (ver glossário).). Durante esse trajeto. nacional e até planetária. frio-quente. Weber. Lukács. Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi se pronunciando: a) Quanto à especificidade. das potencialidades acima apontadas. encargo. as formas mais marginais.

a idéia consiste em encontrar canais de conexão. o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos. pontuais ou amplos. ou persuadidos ao participacionismo. Diante dessa perspectiva. para contribuir com as mesmas para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar-se. por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e lutas. Isso tudo acontecendo em um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. ou totalmente apáticos e dispersos. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente" (Ed. soma do instituído. colaborador. Na segunda parte do citado texto. Barcelona. Parece que o Institucionalismo avançado. e mais ainda o "maximalista". Resume-se aí o drama Institucionalismo: definindo o Estado. Como veremos mais adiante. Kairos. 113▲ . A rigor. uma maneira vasta e diversificada como "o inimigo principal" (a expressão é nossa). o autor tenta sistematizar os obstáculos. não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo avançado pretende. 1980). Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o mais duro desafio. Se por um lado os procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos pela peculiaridade de seus ideais. em outro. que não simpatiza com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou vanguardas elitistas). com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento. tais como as de integrante. aliado ou simpatizante lhe são insuficientes. radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. nem sempre realistas. Mais corretamente. ameaçam submergi-lo em uma certa paralisia. o agente institucionalista com inquietações militantes encontra dilemas excruciantes. os capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". de mudança libertária. não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos. formais ou não.muito menos as de propagação da utopia transformadora a vas tas unidades sociais. que se em um sentido podem constituir fatores de propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos.

abrem-se para o institucionalista outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". Contudo. não por acreditarmos que não tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos. sexuais. religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas. espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades etárias. Trata-se. Também devido à pouca divulgação do Movimento. senão no tangente à nossa experiência particular. Por outra parte. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes. Em cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais". raciais. mesmo supondo que conheça sua proposta. o Institucionalismo se vê forçado a recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação acadêmica de especialistas e profissionais. O primeiro refere-se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão. proliferam cada vez mais movimentos. segundo nossa experiência na América Latina. que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas. sendo pouco provável que solicite a colaboração de um institucionalista. senão à autogestão generalizada "a quente".possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os campos de sua provável atuação. de modo que os pequenos grupos e organizações não sabem de sua existência. mediante a auto-análise da implicação despertada pelo encontro com a singularidade do 114 ▲ . As duas dificuldades. a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e corporativa dos agentes. contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações mais adaptacionistas ou reformistas. Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinações estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e média envergaduras. a maioria dos grandes experimentos "revolucionários" massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados. algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos.

as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções reais de sobrevivência. "Praxiologia". profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 115 ▲ . Essa falência também foi indicada por Lourau e outros. o Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas. de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. Como conseqüência. o brutal contraste entre o discurso. levando-as a uma atitude de "conservadorismo crispado" (segundo F. parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de controle social. insuficientes. ao elevado nível de padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. por exemplo. modernos e eficientes administradores de enormes riquezas. o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as comunidades. No entanto. Fazem-se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e estratégias do Estado (entendido como ubíquo. Ao mesmo tempo. por um lado. enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e acumulação de informações (chame-se. Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista". os Estados gerentes pseudo-exitosos. por outro lado. como sugerem alguns). Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de resistência passiva). sobre algumas das quais voltaremos ulteriormente. inconsciente e "contínuo") em cada formação social. incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um ostensivo fracasso. estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos.coletivo intervindo. não são propensas às propostas institucionalistas. queremos apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias européias). Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. As massas extremamente depauperadas. estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e o cultivo do mercado interno). persuadiram as populações com benefícios concretos ou imaginários.

o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". esses modi operandi. novas para o Movimento. maquiavelismo. de maneira alguma. começam. alternativas. Em geral. marginalismo. mais ou menos acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento. uma rica e profunda autocrítica. Deu-se para elas respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do Institucionalismo: empresarização. para certo trabalho "no Estado" e "com a sociedade civil". a reformulação das características do agente e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva – como a cooptativa. Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente. Ela afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas. como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do Movimento. causado basicamente pelo poderio. clandestinismo. revolucionárias e até "terroristas") da corrente.providencialismo estatal. distorção da demanda. a dar-se soluções próprias. Esta superfície mostra algumas brechas para o Institucionalismo. se tal coisa existe. acrescentam-se certos agravantes que iremos apenas esboçar aqui. sempre pronta a desencadear-se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e táticas infinitamente sutis e cautelosas. ou seja. sofre sérias pressões resultantes da crítica endógena. Essas questões não são. a ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais. das quais as tendências institucionalistas se 116 ▲ . reformistas. entrismo. Nesses empreendimentos. ressingularização das práticas são alguns dos termos usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. contudo. Freqüentemente o institucionalista. penosamente. da crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras. em outras palavras: não há nada de inesperado no fato de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido. calouro ou experiente. Consagrados e repudiados. infiltracionismo. em pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática". expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à totalização. Não é nada estranho que assim seja.

especialmente se o fazem para formar " experts em fazer isso". independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. única e irrepetível. Este processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas das quais padece. a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda não foram escritos. metaforicamente falando. Essa crítica disseca. Mas se não se admite um "especialista em autogestão". quanto elas mesmas. sistemas.originaram. Se se admite que o Institucionalismo é. organismos e funções que as integram. A redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 117 ▲ . Cabe aqui acrescentar a ressalva de que. a proposta é que cada coletivo construa as condições para se autoconhecer. seguindo com a metáfora. incluindo entre elas boa porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. talvez não seja necessário escrevêlos senão como curiosidades museológicas. Tanto é assim que capítulos fundamentais. teriam uma singularidade tal que careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. na medida em que tais registros só seriam reconstrutivos de experiências consumadas. cada uma das células. tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados) ou. triunfantes ou falidas. segundo certo conjunturalismo ou improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas. junto com elas. adquire sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina". vísceras. as figuras do profissional e do técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e. no possível. uma modalidade de viver coletivamente. a da sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e mutação). Essas. deve-se necessariamente conceber (pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para formar diversos especialistas. como uma de suas áreas mais sensíveis. fazendo. tecidos. Nesta reelaboração. autodeliberar e autodecidir a forma sui generis. Dito de outra maneira. uma clara discriminação entre especificidade e especificismo. as dos "que ensinam a fazer isso". A problemática que esboçamos tem. que deseje dar-se para existir. em última instância. Mas esse trabalho é feito habitualmente em abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento.

"permanentes".condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos dos quais "menos se poderia esperar". Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e v ocacional do trabalho. e dão modestos frutos. pedagógico e político) ou integralmente autogestiva. mas pressupõe a firme disposição dos agentes formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se insiram. Que a organização e procedimentos adotados sejam "não-diretivos". Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 118 ▲ . A nota em comum. mais claro ainda. exige ou não a autodissolução do agenciamento pedagógico. ao que há algumas décadas se denominava "acumulação social do saber". Completando a idéia: impõe a não. em cada um de seus dispositivos. que configura estas comunidades como tais. tais como Sociologia. é claro. Ciências Políticas etc. O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e. assim como tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas diversas qualidades que acima confessamos não havermos conseguido classificar. quando é claramente assumido. Aludimos. O ponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado. quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam.reprodução do equipamento e do modelo pedagógico que o gerou. enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma discreta transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande Política. Esse objetivo. não é tão importante quanto parece. "co-gestivos". Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito ideológico. a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em outros coletivos atuantes. é a de associar-se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. Psico-Sociologia.

de um lado. a de "autorização" e o desejo produtivo. "a frio". Os profissionais mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa. sejam as reformistas e eleitoreiras. e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro. todo e qualquer "espírito" 119 ▲ . eles não são tão límpidos quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas institucionalistas contemporâneas. assim como professores universitários. Tensionado entre a necessidade de sobrevivência. Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo. Entre elas destacam-se o empresarismo. Por isso. Só que essas adoções se realizam" em nome do Institucionalismo". burocráticas e corporativas do Movimento. perplexo. No primeiro caso. Enfim: como dissemos. como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. o institucionalista deve ainda enfrentar a crítica interna. os ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. Um primeiro caminho é o regressivo. nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê-lo. culpado. e só até certo ponto. com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. será a assimetria educacional entre professores e aprendizes. Frente a esse difícil panorama. o funcionalato e o academicismo. o máximo que se autodissolverá. em sua assunção. ambos deverão dissolver-se em uníssono. três deformações tocaiam o agente institucionalista. No segundo. administradores. não é nada infreqüente encontrá-lo decepcionado. adaptacionistas. resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma."deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso isolado. e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. urge se fazer constar que. comunicólogos e psicanalistas. onipotente ou. Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o agente se lança às formas clássicas da militância política. Sem que pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias. o que é mais comum. assim como sua organização mesma. O agente retrocede às modalidades mercantis.

Como notas secundárias caracterológicas. 120 ▲ . publicam ou intervêm.heterodissolvente (que hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas). Não nos parece que esta composição seja das piores. as usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. colaboram ou protagonizam. e em referência a esse terceiro tipo de agente. muito nos importa esclarecer que não deve ser confundido com outro. Inteirados nominalmente de um punhado de noções da corrente. que cremos conhecer muito bem e que é urgente desmascarar. circunscritas e moderadas do Movimento. estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um sentimentalismo raso). Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns institucionalistas. da "novidade radical" (que impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação-auto. a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena). sectárias ou facciosas. às vezes. que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais ensinam. tão engenhosa quanto discutível. para assim protegê-las da voracidade das espécies predadoras. erráteis e libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento. mas em real condição de implicados nos eventos e empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar-se. inevitável. O tero é uma ave da planície Argentina que. devido às limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. o "hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico. segundo versões híbridas. drogadito e parasitário) etc. Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que. "grita em um lugar e põe os ovos em outro". mas sim que é uma saída desgastante. do saber ex-nihilo(que proscreve o estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc.próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias. segundo a tradição gaúcha. Como quer que seja. Ao mesmo tempo. sabendo das características dispersivas. clandestinamente ou não. é a que pedimos licença para denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". Uma terceira escolha. as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada). da "desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e eficácia).

estratégia. alianças. Essa óbvia constatação não é proclamada aqui apenas por pruridos éticos. Experientes institucionalistas exortam 121 ▲ . amplos e fortes. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo Movimento. tais "revoltosos". intercambiados e elaborados coletivamente. líderes. o Movimento deve dar-se dispositivos formais.atiradores. nem Teros. avaliação de resultados. mas que muitos deles precisam ser apenas comunicados. autorização. libidinais ou ideológicos incapazes de produção. Será procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"? Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos parte desta problemática. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas com rigor e vigor. com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. transmissão. brandindo "palavras" instituintes. ou melhor. em resumo: ladrões de galinhas. dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade de nada". modalidades de divulgação. que restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. não só "não passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa qualificava de esquerdosos festivos. no mínimo. nem Ananké. qualquer iniciativa que os tirou do anonimato. a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" entidade de origem. logística. técnicas. cabe concluir. Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais. contratação. II) O Institucionalismo e seus valores Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas. táticas. desenvolvimento. implantação.Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada. Política. Sua triste história consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado. consciência epistemológica ou autocomiseração sentimental. Nem Eros. morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. E isso não significa exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos. Para tal. acólitos ou franco. originada da lumpenização das faixas médias urbana s universitárias.

do saber e fazer disciplinar que dessa maneira ritual se funda.seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido. Em outras palavras: da racionalidade. Afirmam que se toda intervenção está encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos. trabalhistas ou jurídicos externos ao Movimento. do lucro e do prestígio. Por outra parte. instituir um ponto de partida contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". para as correntes puristas. Essa limitação. Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de contrato e enquadre das prestações de serviços. como tecnologia falsamente "neutra". Dá-nos a impressão. do poder. Constituir-se-ia assim um núcleo cego. em alguns casos admiráveis. contudo. apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca da onda de integração planetária de todos os processos sociais. e até há pouquíssimo tempo. extremada no 122 ▲ . justamente sobre os valores e recursos em nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos. assim como à subscrição de convenções normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do Movimento. compartilhadas pelas equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem cuidadosamente analisados. se bem que esses requisitos sejam indispensáveis. Entretanto. que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do mesmo. Já para alguns. não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do Movimento. que a crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou. É óbvio que para os institucionalistas mais "profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos. as forças mais reativas do "especificismo" e "profissionalismo". todo settingseria um aparato ou equipamento no qual se cristalizariam. e portanto repetitivo. só se exige que suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários. de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos.

Por outra parte. de que a autogestão não se decreta nem se concede. da human engeneering. uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. não se vê porque um companheiro institucionalista iria ser convocado a participar. Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento.). Se a mesma é integral. como dizia Bakunin. Por uma parte. caso este que parece não criar problema algum. não se entende por que não apelar a ele em caso de necessidade ou ainda de "luxo". tenhamos presente que em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir. por exemplo. Sociologia das Organizações. se compreende os aspectos econômicos. Via esta questão restrita do contrato e do enquadre. aquela liberdade que desejam. ainda que não impossível. imaginá-lo solicitando os serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. porquanto seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados. Por outro lado. o que tornaria difícil. cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de analistas institucionais. recordemos a verdade de Perogrullo. Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas disciplinas (além da própria). Pode acontecer que já pertença "naturalmente" ao coletivo em questão. que não existe uma prescritiva para a invenção e que. existiria ainda nos convênios de serviços da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise. E claro que ninguém ignora a distância que separa as aplicações da física à computação. Psicanálise Aplicada etc. ou seja. "só a liberdade engendra a liberdade". e menos ainda porque seu trabalho não haveria 123▲ .caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social. com a autogestão como meio e como fim. políticos. isso ocorre porque os coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir (inventar). No limite. nos introduzimos em uma contradição aguda e geral do Institucionalismo. "culturais" e libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa).

A eficácia de tal consigna depende. hábitos de consumo e soluções são integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder. como um de seus mais essenciais fundamentos. escreveu: autogestão como consigna pode servir para qualquer coisa. produtor de seus detentores. não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza científico-tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e fazer dos coletivos sobre seu destino. que os centros oraculares de poder se vêem obrigados a lançar. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as requisições do participacionismo. demandas. De Lapassade a De Gaulle. como em qualquer dos outros. um solene compromisso de que será em si mesmo. de seu efeito de auto-sedução. a convicção de que os coletivos das sociedades modernas são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-sociallibidinal do trabalho. As comunidades. é uma questão políticoepistemológica de fundo no Institucionalismo. quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado administrador-gerente – submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. a casta privilegiada dos tecno burocratas. Deve-se ter presente que o Movimento afirma. O vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos. Mas a certeza do Institucionalismo. Félix Guattari. O que está em jogo neste ponto.de ser pago. quando não do colaboracionismo. independentemente do contexto. da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir-se à autogestão em si. cujas necessidades. ficaram substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das determinações que as constringem. de tal ou qual grupo ou empresa. por si mesmo. que se administrará o que é de si mesmo. assim como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. sem dúvida. a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar. A "A 124 ▲ . Converte-se em algo assim como um princípio moral. é uma mistificação.

Afirmação da Singularidade. Ed. e o tipo de poder a instituir. assim como a infinita diversidade de suas estratégias. A autogestão.. e considerando a complexidade do desenvolvimento dessa concepção. O problema consiste em definir. o tipo de relação. no sentido mais forte do vocábulo. Diferença. não é um fim em si mesmo. a "Esquizoanálise". em cada nível de organização. México). Se 'impugna'. corre o risco de criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente. ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. " ("Psicanálise e Transversalidade". assume que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais. Invenção (oposto à Fabricação). Reatividade. os máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução). tomada como consigna política.. em definitivo. Ser do Devir etc.. assim como em muitas outras. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se substitui massivamente as respostas diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real. O conceito de autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias o Institucionalismo maneja. Guattari é um de seus mais ardentes defensores. não descarta o apoio de tecnologia alguma. Siglo XXI.. De qualquer maneira..determinação. Identidade-Repetição. em cada situação. no imaginário. pelo contrário. de formas que devem estimular-se. do objeto institucional correspondente é um critério qu e deveria permitir esclarecer a questão. a hierarquia. mesmo as mais drásticas do Movimento. Nenhuma corrente. (opostos à Generalidade.. Negatividade. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que. Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo. mas também. quer dizer. Potência. valores. Além do mais. Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos. Ser como 125 ▲ . Não há uma 'filosofia geral' da autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação.

. da Família ou da Corporação.Permanência etc. pelo menos em tese. as invenções dos movimentos produtivo-libertários. Civilizações. organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir. equipamentos e manobras capitalistas. do Estado. tornando-a ostensiva.. para precisar invocá-las novamente neste contexto. Simulacro. No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e "pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas características contraproducentes. diametralmente contrários a eles. que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. Objetivações das Idéias Puras ou Modelos. a não ser que se considere recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos. Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede. Toda a História Universal (a das Formações Econômico-Sociais. Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos-valores seria uma tarefa colossal e apaixonante. Se os repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e. Guattari. assim como ao tabuleiro do registro e da dominação. Acontecimento.). Dispositivo. da Lei.) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault. da Igreja. que têm a ver com o Instituinte e os Bons Encontros (opostos às Formações de Soberania. fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis. Desejo. dos Maus Encontros etc. como sinônimo do Instituído. Nós os temos muito em conta. pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades (desterritorializados) do Ser e do Existir. Deleuze. Já a Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos. Talvez tenhamos deixado 126 ▲ . Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema reincorpora à torrente da reprodução e do consumo. não poucas vezes. Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama na "Esquizoanálise") do Capital. Máquina de Guerra.

quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto. existem casos em que isso é possível. como notável independência dos princípios que a guiam e que. tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" desses desvios. eventualmente. sem misteriosas avaliações de seita. Naturalmente. Convém precisar com respeito a suas propostas teóricas e sua atuação política e técnica.a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até personalizar. Basta compreender que as séries opositivas de valores que antes enumeramos. Desde logo. cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu. nem evidências. a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo. Por outra parte. ou mais dissolventes ainda. para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa orientação. os valores mencionados não são evidências. pragmatismo ou "intuicionismo". Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar sua atuação e observar seus resultados. os conflitos 127 ▲ . no qual não se pode apelar ao veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante. compreende-se que em um Movimento. insistiu em uma reivindicação da singularidade das práticas. pois apesar da predileção do Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para técnicos e usuários. pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas. não são nem axiomas. desde diversos ângulos. mas sim de permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim conduzida pode causar. e mais ainda da Teoria baseada em p a rti p ris formalizados. Pelo contrário. que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da Autogestão". mas aqui nos interessa destacar estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. empirismo. Como quer que seja. não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las. em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis.

vegetativo ou infra-estrutural das iniciativas. mas também à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. "nada o é". Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobreexigem o tempo e os esforços destinados à implantação. diante de contendedores tão ágeis. sobrevivência e crescimento. digamos. Frente a um panorama tão desfavorável. acadêmicos. algo assim como um artesanato militante cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes. ocupa similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. 2) Os poderes oficiais. corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam campanhas repressivas. logo. Como já expressamos mais acima. Tudo é "Análise Institucional".e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis. que se nega a separar meios de fins. resulta notório que esse principismo sui generis. o que torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às transformações de fundo e a longo prazo. É no campo dessas dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos. exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais. injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. mas quem impera atual e universalmente (embora não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. processuais e conjunturais. Não obstante. no possível. Procede enfatizar que o Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas econômico-político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas). hipoteticamente. inerentes a todo Movimento. não facilita as resoluções e execuções táticas imediatas. Tudo isso se torna particularmente delicado. inúmeros aliados nos coletivos subjugados e explorados. Entre essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de patente". Por outro lado. o Institucionalismo exige que suas decisões de condução sejam. 128 ▲ . que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. fortes e onipresentes. o Institucionalismo tem.

isso se registra como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas". Ou mesmo. a serialidade. O regime das alianças tende a uma regressão filiativa. 4) Em função de tudo isso. a designação de recursos de todo tipo. das estratégias e táticas externas. Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja hora de descartar como obsoletos: o ativismo. finalmente. até um suposto contrário: o matiz "beneficente". "caritativo" ou "filantrópico" das prestações de serviços. fraternidade do terror e. pelo caminho do famoso "individualismo pequeno burguês".. à atomização do Movimento. se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico. para a luta pela obtenção. 6) Em resumo: cedo ou tarde. no seio das organizações e dos sujeitosagentes institucionalistas. No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais lideranças "autocráticas" ou la íssez-fa íre os papéis e de "bode expiatório". "autorização". apropriação e "inflação" de "identidade". No plano da produção de subjetividades.3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2. então. assim como das relações internas. "perversifica-se" a horizontalidade e "extravia-se " a transversalidade. "reconhecimento". a "primazia" etc. tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem. Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade. em suas modalidades de protopaternalismo. exacerba-se . o 129 ▲ . "legalização". é a mais desejável: o centralismo democrático. "prestígio". o "lucro". valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder". 5) Fica preparado. "solvência financeira" etc. "legitimação". "sabotador" etc. O organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. de modo que estas se enrijecem estatutariamente . perversas ou psicóticas. Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a empresarização ou para uma morfologia política convencional que. começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis. não por ser "menos pior".

Seguimos acreditando que se trata de uma força reativa. o oportunismo. Se os primeiros enfatizam a fragmentação pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial. 8) Se se repassa o exposto. Bell. trata-se de uma curiosa exacerbação do que a teoria postula como um requisito dos grupos revolucionários. L. Sennett. teremos uma imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. a capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá sentido. o utilitarismo. 9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência (como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os segundos infundem e orientam. em constatar a decadência da res publica de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la e Weber. Durkheim ou Marx". Baudrillard. o imediatismo. publicações internas do Ibrapsi. Virilio e outros). digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do Movimento à 130 ▲ . Rio. Toda uma vasta produção biblio gráfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do individualismo moderno (L.voluntarismo. Coincidem. A rigor. os "desviantes ideológicos. Dumont) e pósmoderno (D. P. especialmente o referente à "compulsão à autodissolução". 10) Para fins de síntese e conclusão. C. no entanto. G. a ter muito em conta nas vicissitudes do Movimento Institucionalista. R. os últimos sublinham a subjetivação indiferente e abúlica das sociedades pós-industriais. J . Riesman. Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma caricatura de suas virtudes. como diria Nietzsche. 7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução". Lasch. ou a corrupção franca. 1988). quer dizer. organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico. Lipovetsky. Rozitchner. D.

Que outro recurso lhe compete além da construção de "verossímeis". quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu limite. ou melho. axiológica e epistemológica? Ontologicamente. organização. sejam estes revelados. parece indiscutível q ue o Institucionalismo. e a produzi-las segundo funcionem. para cavalgá-las. dividi-las até o infinito. incrementando seu pólo progressivo. recortá-las por linhas clivagem bizarras. incluídas aí as específicas e profissionais. estatuto ou prática. um pensamento "sem fundamento". "efeitos especiais". e remetê -las a funcionar segundo se produzam. mais que tudo. para mimetizá-las. diluir-se. dedica-se a genealogizar suas formas históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. indecidíveis.? Axiologicamente. especulativos ou experimentais. segundo a vontade de potência produtiva. parodizá-las. refluidificá-las. indemonstráveis. rachar. discurso.Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da Utopia Ativa). qual pode ser sua condição ontológica. queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de código. Se se most ou indubitavelmente que tanto teórica quanto estratégica. tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal. ao Institucionalismo não deve 131 ▲ . intersticial e não – totalizável. diversificada. que ética pode reger esta atividade não enquadrável. infiltrá-las. heterogênea. "não-fundamentalista"? Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua positividade. em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras diferenças". fazêlas proliferar. etc. "alternativizar". mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de pensar". seria a afirmação de sua positividade. tentando exclusivamente propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como "desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade ". longe de orientar-se por critérios de Verdade. Epistemologicamente. um "modo de viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas ". Por conseguinte. "simulações ". em todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se torne atualizável.

"devir" (que embora lúdica não deixa de ser revolucionariamente) sociólogo. economista. tudo que "abra". avaliados e resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de dispositivos fortes.interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios c ânones dos mesmos. são passíveis de ser analisados. um artista ou uma criança. 132 ▲ . psicanalista. ao institucionalista. pois. assim como os purismos e desviacionismos internos ao Movimento que mais acima descrevíamos. agenciá-la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá-la até gerar um acontecimento. engenheiro de sistemas. Nada impede. Se isso está correto. sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um bárbaro. Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo. "possibilite" e "conecte". amplos e numerosos. profissional liberal ou funcionário. boa parte dos pruridos.

133 ▲ . advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente: 1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente. 2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos. assim como o volume do qual forma parte. os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade. mas se responsabilizam por toda e qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. ou seja. deveriam estar nele incluídos. e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a paternidade ou a precisão dos conceitos. não pretende haver dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que. bem como da diferente acepção que tomam outros. segundo a definição ampla dada do Movimento. os autores. este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo. 4) E desnecessário dizer que este glossário. 3) De forma coerente com o exposto anteriormente.GLOSSÁRIO Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo Advertências para a leitura deste Glossário Devido ao caráter introdutório deste livro. pois esse requisito excederia as aspirações e possibilidades deste livro. nós. de propriedade intelectual dos mesmos. Embora este propósito não baste para explicar as limitações do texto.

o estabelecido tentam a repetição do mesmo (ver Repetição*). Freqüentemente se equipara este termo ao que é casual. estabelecido. geradores da transformação e da novidade nos sistemas. como por exemplo no da Esquizoanálise. são conservadores. tornando-se mais apto para sua função. imprevisível e incontrolável. Estes atos. da diferença e da singularidade. insólito etc. Nas chamadas Ciências Humanas. de modo geral. No lnstitucionalismo*. que pretende ser panorâmica. e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e sua potência produtiva. apesar de que freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". ACONTECIMENTO: ato. ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se. como reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação do instituinte*-organizante*. os autores estão cientes de haver incluído e definido termos que não estão suficientemente esclarecidos. o vocábulo adaptação costuma ser sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação.5) Em alguns casos. mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente. conseqüências de conexões insólitas que escapam das constrições do instituído*-organizado*.. são o substrato de transformações de pequeno ou grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver. É o momento de aparição do novo absoluto. contingente. Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las. apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados. ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. processos e resultados. O virtual não existe. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem". através da liberação do acaso-radical. a" desordem" e o acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*. do novo absoluto. 134 ▲ . o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente possível. cuja essência não coincide com as possibilidades. deflagrador da diferença. O acontecimento atualiza as virtualidades. ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório. Em um sentido estrito do instituído*. essa noção foi empregada com freqüência. Esta última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los. mas em geral indesejável. o que empobreceria demais esta leitura. o organizado*. processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*. mas faz parte da realidade. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). este é considerado o modo de ser do devir dos processos.

atualiza virtualidades e inventa o novo radical. subversivas ou revolucionárias. ou em um "fora de si". intensidades) heterogêneos que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos. organizações. e não como causa dos mesmos. geradores da diferença absoluta. científicos etc. Entendido como produção de subjetivação*. ALTERNATIVA: designa-se assim as idéias. ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. pessoas. interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. As forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas. produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o horizonte considerado do real. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição de opositoras. o agente pode ser peça especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. territórios. a meta a alcançar e o processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. as recuperam. atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses). AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* – organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. ou a uma classe social que. mas em ge~al as toleram ou as ignoram. Em um dispositivo. não chegam a ser consideradas clandestinas.). instituídos* etc. designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos essenciais. Em geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. Os dispositivos. dissidentes e marginais. os desejos. Para tal fim. como disse Feuerbach. políticos.AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera acontecimentos* e devires. se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. 135 ▲ . pode-se valer de qualquer recurso (procedimentos artísticos. reconhecidos e consagrados. no lnstitucionalismo. dramáticos. qualquer montagem que torne manifesto o jogo de forças. do possível e do impossível. o agente. movimentos e práticas que supõem uma opção para seus simétricos oficiais. por ser a proprietária dos meios de produção. funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos.). De todas as maneiras. ALIENAÇÃO: no sentido filosófico. "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades. Excepcionalmente. ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades. No lnstitucionalismo a significação deste termo é próxima à da Sociologia: os homens. singularidades.

A análise da demanda* deve estar necessariamente articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja. É ao mesmo tempo. mas de uma materialidade múltipla e variada. ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma organização. não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. que por sua vez não sabe que não tem e não entende o que é porque é complexo. deliberados. um processo político. A publicidade. isso sim. técnico. Análise de implicação é a compreensão da interação. enfatizando a parte que cabe à intervinda. assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática da organização solicitante. econômico. 136 ▲ . a análise da oferta. só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico. Não começa no "cliente" e é. simultânea. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes. ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica. que faz parte integrante do processo de análise da organização. uma interinfluência recíproca. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa. a proposta direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. da interpenetração dessas duas organizações. É um termo que tem certa semelhança com o conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz no analista). como resultado de seu contato com a organização analisada. que forma parte da implicação dos interventores. a divulgação (científica ou não). Ela pode até ser prévia a qualquer contato. em sua equipe. complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). particularmente a de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo. sutil. manifestos. nem inconsciente. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica dessa organização. Por outra parte.ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato. social. produzido" espontaneamente" pela própria vida histórico-social-libidinal e natural.

regulamentos) como suportes. Pichon Rivière. nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais dos agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). Lourau. analisadores históricos e construídos". modos de intervenção e objetivos últimos. que são as configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões. A Análise lnstitucional insistiu particularmente na análise da implicação*. Esta corrente institucionalista. particularmente para sua descrição do "mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. confusionais etc. a Dinâmica de Grupos. como similar ao cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica. organograma. Lapassade e R. inclina-se pela Assembléia Geral Permanente. na qual os não-ditos* institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras. bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso). Contudo. de diversas formas. Lukács etc. objetivos. ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau. negação etc.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos. uma das mais coerentes e empenhadas. defesas. e propõe para eles o perfil de um intelectual implicado. mas tendendo sempre a que se expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. a Análise lnstitucional superou amplamente esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias. reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia. assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. 137 ▲ . Bleger e outros). subscrevem. As posições esquizoparanóides e depressivas. liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto especulativo). diversos pedagogos procuraram reformar. Impossível resumir aqui suas contribuições. Métodos como os de Montessori. projeção. Como dispositivo* de intervenção. efeitos" Mulhman. idealização.ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. a tese de que as organizações são" sistemas de defesa contra a ansiedade". nessas teorias.. institucionalização. demanda-encargo*. O conceito de ansiedade deve ser entendido. Guattari. a Psicoterapia e a Pedagogia lnstitucionais.inadas ansiedades. apesar de a denominação ter sido criada por F. ou seja. são acompanhadas de vivências características denom. depressivas. ANSIEDADES: correntes institucionalistas. O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te*instituído". A Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância. tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação. fantasias) no curso do desenvolvimento. Assim se fala de ansiedades paranóides.

Félix Guattari e R. Cooper na Inglaterra. Basaglia na Itália e E. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política. o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados Unidos. o Capital etc. como contra-instituição. ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado*estabelecido. Vasquez. substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co-Gestão*). que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro. Labat. psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –. pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino. As potências singulares. e outros. marxistas e liberais de democratizaçiío (ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. impulsionou uma profunda revolução nesse campo. Seus máximos representantes – Thomas Szasz e I. Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia menos autoritária. A. Lapassade e R. Goffman nos Estados Unidos. na França. dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico. foram mentores ou participantes do Movimento Institucionalista *. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade. Ronald Laing e D. na qual os alunos assumem integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem. atua em 138 ▲ . Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente. este Movimento. que o sistema dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens. surgiram as experiências de Makarenko na União Soviética. cuja função prevalente é a reprodução do sistema. ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais. os exemplos anarquistas. Michel Foucault. de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia. serviços ou valores alienados (mercadorias) e incorporá-las à sua lógica.Pestalozzi. mais ou me nos radical. A maioria desses autores. econômica e cultural da sociedade moderna. e depois generalizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber. são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado. assim como a Pedagogia Institucional de F Oury. ao nível da aprendizagem. M. é possível que seja a proposta de G. Generalizando. ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e Europa. F. levando-as à repetição estéril ou autodestruição.) e suas forças são voltadas contra si mesmas. em 1978. Castel na França. são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que não conseguem capturar. Entretanto. Tais tentativas replicam.

organizações* e movimentos instituintes* (em outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais. AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação. demandas. desejos. serve à exploração*. desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários. como também operam com critérios de Verdade e Eficiência. ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade" que se deu. Quando um conjunto instituinte cumpriu todos os seus objetivos. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. suas necessidades. mas as mesmas não envolvem escalas de poder. que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído.). AUTOGESTÃO: é. Esse saber se acha em geral apagado. deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. dominação* e mistificação*. protagonista de um processo transformador. por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*). Todo processo instituinte*organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho. organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais. o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão pora gerenciar sua vida. peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*. assim como alguma especialização nas operações de planejamento. desde a outra. Tal consciência é precondição para seu bom funcionamento. As hierarquias correspondem a diferenças de potência. ao mesmo tempo. que não só estão em boa medida a serviço das entidades dominantes (Estado. de um saber acerca de si mesmos.conjunto. Esse entrelaçamento. Cada uma dessas entidades opera na outra. que são imanentes aos valores de tais entidades. problemas. soluções e limites. apresentando-as como necessárias e benéficas. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*. dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos. CapitaL Raça ete. CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona. pela outra. para a outra. Essas diferenças podem implicar hierarquias. A auto-análise possibilita aos coletivos o conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*. deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". As comunidades instituem-se. interpenetração e articulação de orientação conservadora. decisão e execução. a articulação de 139 ▲ .

as incorporam à lógica acumulativa do Sistema. classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força produ tiva. CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido. táticas * e técnicas * que. as classes e grupos dominantes. CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. em especial as instituintes*. por mais aparentemente pequeno que este seja. logísticas *. Reciprocamente. inibindo ou destruindo as forças produtivas. em especial o Estado. mais possibilidades existem de entendimento do campo de intervenção. ocultos ou secretos. por sua vez.suas determinações. desde o qual será compreendido. pensado. As idéias. procuram detectar. Quando o aparato de captura e recuperação falha. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. O campo de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e organizada) de um segmento social. Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais teóricos muito heterogêneos. Está em estreita dependência do campo de análise*. fundamentalmente transformando as linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. subversiva ou revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis. interrompendo o curso do processo produtivo em um 140 ▲ . organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores. Quando o conseguem. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola. deverão operar neste âmbito específico para transformá-lo de acordo com as metas propostas. o grande Capital.). sendo que posteriormente se compreende à medida que se intervém. mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial. pessoas. CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos. empresa etc. dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar contra eles. CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão estratégias *. dissidentes ou marginais. ameaçadores ou francamente perigosos para o instituídoorganizado. sindicato. Tal participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho. Quanto mais amplo o campo de análise. Só se intervém quando se compreende. as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva. a forma como são gerados seus efeitos etc.

explorados e mistificados que prestam subserviência. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror. tempo. CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo. CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo). o único motor da mudança nos sujeitos. estruturas. por sua vez. para algumas tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e. instâncias e mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva. assumida ou não pelos integrantes que. COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. raça. COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos. relações de subordinação em última instância. P. de uma forma ou de outra. Todas as forças. lhes confere uma certa coesão e solidariedade. J. elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma tarefa. diversifica da. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes corresponde pela classe suprajacente e despossuem. é essencial que as unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes.ponto determinado. ao mesmo tempo. Para a Sociologia Clássica. organizações*. reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*. apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. é fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada. gênero. subordinadas às forças instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização. sociedades* e civilizações. e da cristalização ou da resolução de sua dialética * depende o destino produtivo. e esta de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. idade. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade. categoria. Em geral refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno. sem mnunciar às categorias antes mencionadas. e não apenas mecânica. característica ou atividade compartilhada. valores etc. 141 ▲ . à classe subjacente. médio ou grande) que está vinculado por algum traço. sexo. de um estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e. movimentos. portanto. classe. A classe institucional é o segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus integrantes com os menlbros de outros segmentos. Para o lnstitucionalismo. lugar. Esta peculiaridade pode ser de espécie. hierarquizada e articulada).

Contudo. em sentido restrito. até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento institucionalista. uma proximidade. exploradores-explorados. BUROCRACIA. mediante o raciocínio. Para a interpretação institucionalista desse pensamento.Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real. prestígio e 142 ▲ . havendo tido. eufemisticamente denominados "sobrinhos". sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras. alude aos filhos naturais dos Papas. Aqui vale acrescentar a palavra "nepotismo". espécies (etec. perderam a semelhança e só conservaram a imagem. se conseguiria que as almas recuperassem a memória. em que nepo. com a finalidade de explicitar seu interesse para o Institucionalismo. Os conflitos entre instituinte* – instituído*. As cópias são sinônimos de "representações". as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que. pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos). porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante. esta abordagem permitirá resumir a exposição. esquecendose dessa "queda". dominadoresdominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar.e te o (alude aos supostos representantes da clivindade ou à divindade mesma. CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo. os conflitos. cuja condição de superioridade está dada por uma linhagem hereditária). SEXOCRACIA. sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras). O método platônico da clivisão em gêneros. LOGOCRAClA. ver Idéias puras*. Para o Institucionalismo. com freqüência supostamente "científica" das organizações). nos tempos míticos. -CRACIAS:ARISTOCRACIA. TECNOCRACIA: optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque. buro (categoria ou classe que se ocupa da administração. logo (alude aos possuidores da razão como saber discursivo). imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos. refere-se à designação de parentes de um governante para cargos oficiais. e com ela o acesso às Idéias Puras. que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias baseadas no afeto. O sufixo cra cia significa governo de ou poder de: a risto (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade. Essa formulação recolhe. entre tantas outras origens teóricas. tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de cunho científico). para outras correntes. TEOCRACIA. centro-periferia.) seria uma forma de seleção para cliferenciar as "boas" das "más" cópias. Em sua acepção ampla. "encarnada" em um indivíduo ou grupo). Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do Materialismo Histórico e Dialético. A maiêutica socrática consistiria em um procedimento pelo qual.

e a maioria prefere intervir nos momentos críticos. melhor ainda se generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. fantasmas) no curso do desenvolvimento-. a palavra krisissignificava: interpretação (por exemplo. como Lapassade. dos sonhos). procedimento para chegar a um veredicto). Bleger e outros). na medida em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da "desordem criadora". por sua vez. As crises são etapas de mudanças para o bem ou para o mal. Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. mas em geral aceleradas e radicais. causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. enquanto há os que pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade. das vítimas de um sacrifício). fase de definição. Para certos autores (por exemplo. Marx). momento crucial das vicissitudes ou do metabolé(por exemplo. chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização. vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . objetos. configurando vícios de condução que são. as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões. seleção (por exemplo. Outros sustentam que são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos. Provavelmente por extensão da noção médica. DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou organizacional (provocação institucional). extraordinários ete. por caducidade dos mecanismos e recursos vigentes. desordem) mais ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. contingentes. Para o Institucionalismo. devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou negativos acidentais. posto que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. nos quais. segundo alguns. tanto enquanto campo de análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*).exemplaridade). nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis. os estados de crise são considerados fecundos. o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza. circunstanciais. o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente. Esse estado de crise ocorre. Assim 143 ▲ . CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada. juízo (por exemplo. dentro de um andamento relativamente regular. Pichon Rivière. cena de apogeu numa tragédia). Alguns institucionalistas.

que procura restituir um estado arcaico perdido. o desejo é essencial e imanentemente produtivo. Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação. Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano. se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena").). constitui o desejo. idealização. projeção. Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa contra a ansiedade*". o desejo. Não tende à morte porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". Descritivamente falando. Essa força se origina. por sua vez. Assim entendido. para a Psicanálise. DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a qual não têm conhecimento nem controle voluntário. confusionais etc. o desejo é imanente à produção. Sua essência não é exclusivamente psíquica. na qual se encontra com a pulsão de morte. gesta-se no seio do Complexo de Édipo. ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e servir aos objetivos de vida. que resulta do encontro entre os corpos (devir).se fala de ansiedades paranóides. prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. negação etc. ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente. sua própria extinção definitiva. isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a entrarem nos processos sociais amplos. que instaura a lei no psiquismo. metamorfose ou "criação" do novo. comunicacional etc. no início do desenvolvimento. a Esquizoanálise). A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo. gera e é gerado no processo mesmo de invenção. e sim um complexo conjunto ao mesmo tempo político. o desejo também está parcialmente submetido a entidades repressivas. Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). pois participa de todo o real. e tende à busca do prazer e à evitação do desprazer. O desejo. que carece do objeto real. Durante esses incessantes ensaios. daí o conceito de produção desejante. Para outras (por exemplo. mas estas não são exclusivamente psíquicas. não carece do objeto. com as "quantidades intensivas" em Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. depressivas. 144 ▲ . econômico.) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e organizacionais (contratos. Na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. atua exclusivamente na dramática da vida familiar. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real. Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência". O Complexo de Castração. quer dizer. das pulsões. organograma. o desejo persegue o gozo absoluto. regulamentos etc. ao que Espinoza chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal". Em última instância.

que pode ser examinada como "universal". Opõese a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável. Karl Marx. que a postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto".DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos. mas também conserva o superado). A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação. contradição e terceiro excluído perdem vigência. assim. A proposta e ação desviante podem. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. um desvio ou afastamento da linha condutora hegemônica da organização. DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão presentes em todo saber ocidental. postulando. "geral. não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou uma mudança profunda. o fundador do Materialismo Dialético e Histórico. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel. e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. e não ao espírito. Como nas leis do devir. essência de todo o real. se bem impugna e denuncia os defeitos do instituídoorganizado.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica ou dou trinária). cada momento nega o anterior. pois os princípios de identidade. o supera e ao mesmo tempo o conserva. sendo as mudanças que se apresentam apenas superficiais. devido a sua essência intrinsecamente contraditória. ilusórias ou aparentes. da moral etc. tornar-se o gérmen de um processo produtivodesejante-revolucionário. em troca. atitudes e comportamentos. Outro aspecto importante da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade. de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético. eventualmente. 2) Passagem da quantidade à qualidade. Protagonizam. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos enérgica. desde a Antiguidade até a época contemporânea. organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal (quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer. particular" e "singular". outras entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera. uma idéia do ser como puro devir no qual retornam exclusivamente as 145 ▲ . Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal Clássica. É um pensamento que concebe a realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação. quer dizer. mas em geral é predominantemente reativa. grupos ou tendências que questionam o instituído* – organizado. através de diversos discursos. Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*).). mas o atribui à matéria em suas várias qualidades.

estão diversificados em diferentes tarefas articuladas entre si. masculina-feminina etc. que expressam claramente uma falta de vontade instituinte*. um apreciável encargo repressivo ou ligeiramente reformista. DISPOSITIVO: ver Agenciamento. Os processos de trabalho complexos. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases. à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. do campo-cidade. a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e compreendê-los (ver Análise da Implicação*). em todas as sociedades da História e especialmente na modernidade industrial. exige um trabalho. DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção. DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise. Determinadas tarefas são consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza. DOMINAÇÃO: imposição. ou mais ainda. e este. Para o Institucionalismo. confiando em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à autogestão* e à auto-análise * . poder e prestígio. Contudo. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. As tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização-movimento ou separar-se dele. consome força de trabalho. devido à propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas (extração de mais-valia). As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção manualintelectual. por sua vez. particularmente de bens materiais e serviços. no Grupalismo e no Institucionalismo a operação pela qual o analista. Coisa similar Ocorre em outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção. por diversos meios (dentro de um espectro de 146 ▲ . DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma organização ou movimento. a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem analisados e intervindos. podem ser atendidas.diferenças (Esquizoanálise*). sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica.

a idéia do esquema denota o caráter provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado. irrepetível e contingente do fato em questão. o ECRO é muito mais que o até aqui mencionado. Quanto mais formalizada. a Lei do das Valor. às teorias. Contudo. mantêm seus privilégios dominando a vontade coletiva ou majoritária. Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. semiótica. da vontade de indivíduos. logísticas. seguindo uma orientação das ciências físicas. porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências. e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. rigorosa 147 ▲ . Se bem esta afirmação não refute o caráter universal e om niva len te grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo.violência que vai desde a sedução até a destruição física). Por isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos". Os instituídos* – organizados* estabelecidos. EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável de sua gênese social. em especial o Estado e o grande Capital. enquanto esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. grupos ou classes sobre outros. ressaltando suas características singulares devido à condição única. o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento. A lista de efeitos que podem ser propostos é. Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma. mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. jurídica. Refere-se. no Materialismo Histórico). em primeira instância. econômica. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. por definição. A dominação é simultaneamente política. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. Iibidinal ete. Por outra parte. experiências.. estratégias. ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo". afetos e outros elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. mais ela se torna opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. interminável.

Já nas etapas "quentes". ocorre o contrário: as experiências sociais se multiplicam. mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos. Essa constatação pode conduzir a um irracionalismo (ou seja. as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por parte dos coletivos do saber acadêmico. assim como outros de agitação. por exemplo. cada um dos elementos mencionados é um "resultante" do campo que assim se configura. por oposição às modernas. quer dizer. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de imediato todo o apreendido na ação instituinte. seriam "estáticas". Alguns antropólogos pretenderam. O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a problemática da implicação. O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção do conhecimento social científico.e quantificada aparece uma ciência. erroneamente. e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e desenvolvimento (ou seja. à concepção de outras modalidades da causalidade. portanto. Nessas fases. que careceriam de história. pelo contrário. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber científico". quer dizer. ou. mais satisfaz as exigências cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem constituída. a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a "naturalização" de seus instituídos*. e. que as sociedades chamadas primitivas. quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"). inspirados por uma profecia libertária. Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos. do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a organização intervinda. em que todo o saber social está em ebulição. Nos experimentos da mecânica quântica. Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos. precisar simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. sujeito e objeto constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. como. mobilização e grandes transformações. 148 ▲ . Quer dizer: geram-se processos de autoanálise* e autogestão* espontâneos e generalizados. a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos).

e que comporta uma demanda de bens ou serviços. as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. dissimulados. um grupo ou uma organização. A modalidade do saber dominante durante este processo é a do conhecimento científico. Um emergente pode manifestar-se através de um indivíduo. em um número crescente de especialidades. especialmente nos políticos. sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa. analítico. Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. Einstein. sendo que freqüentemente se subdivide. ENCARGO: no Institucionalismo*. o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente. encomenda etc. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos." corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital.chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados". Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes. Artaud. cujo procedimento é. que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. por sua vez. a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil precisar seu significado. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela. centro-contra-periferia etc. por definição. sendo que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. teoria. não-manifestos. tem seu próprio objeto. pedido. a idéia de emergente tem uma similaridade com a de analisador*. refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída quando a mesma está ameaçada. Essa 149 ▲ . EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. Em nosso entender. Em uma acepção ampla. ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e de suas aplicações tecnológicas. mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo. Reich. O lnstitucionalismo constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos. denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em materialidades diversas: "mentais". Outros Efeitos: Lefevre. por sua vez. ignorados ou reprimidos. método e técnicas. que num sentido acadêmico denomina-se disciplina. De acordo com o contexto discursivo de que se trate. Cada ciência.

popular. redundam na fragmentação. ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE. No caso das ciências e disciplinas. erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. corporações). por outra parte. Os equipamentos podem pertencer ao Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas.fragmentação do saber. os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo. relógios de ponto etc. Mas. dominação e mistificação. OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo. prevalentemente a serviço da exploração. também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes nela). pretendem resgatar os valores instituintes* e organizantes*.). a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico. da loucura etc.). arquivos. Por outra parte. sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de nossa civilização. Isso levou a deformações tais como o operacionalismo. resultando no aumento espetacular de sua produtividade. possibilitam o incremento de sua competência e eficiência. consagrou a especificidade – a delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente – como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. tem a ver com a divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. Essas diferenciações. articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*. 150 ▲ . assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer (particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). à incapacidade de julgar e conduzir seu andamento. montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos técnicos). impressoras. à medida que reduzem o campo de atuação de cadél agente social. pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. Podem ser de grande porte (por exemplo. EQUIPAMENTO: conglomerados complexos. revolucionários. em resumo. é o que corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. dispersão e perda da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação". além de insistirem na crítica global desses efeitos. Em termos sociais e epistemológicos. ou seja. das contribuições científicas. As diversas modalidades do Movimento Inslitucionalista. Sobretudo se interessa sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e. em todas elas.

151 ▲ . consubstanciais ou inseparáveis uma da outra). totalizante. ou seja. As máquinas desejantes dispõem-se e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". puras diferenças intensivas. a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura liberar o processo produtivo-desejante-revolucionário. psíquica.produção e do desejo na vida biológica. uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade". o real é constante e integralmente produzido. e mais ainda. territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à repetição do mesmo. Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica". a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que se originam ao acaso*. Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. a microfísica e a biologia molecular. O processo produtivo de produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia. Mencionaremos apenas que.ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente. essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos. mas como ser do devir). Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática no livro "O Anti-Edipo" (1972). Entendida como procedimento para pensar e compreender o real. colocada a serviço de uma entidade centralizadora. estão" precedidas" por um campo de materialidades "puras". infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas desejantes". comunicacional. destinadas a propiciar o livre fluir da . tais como "Pragmática Universal". ecológica etc. Segundo a entendemos. política. mas pelo desejo. para essa concepção. "do Déspota" ou do "Capital-Dinheiro"). demolindo as constrições da parafernália de controle-registro. que varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra". concentradora e acumulativa. em cujo âmbito as inúmeras revoluções são feitas não apenas por necessidade ou dever. "Análise Nômade" etc. a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e outras positivas. Uma dessas formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. A Esquizoanálise também é definida com outras denominações. Nesse sentido. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre. Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e tecnológica seria estéril. Mas a produção de produção de novidades é capturada pelos estratos. podendo-se distinguir nele uma produção de produção. cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. tais materialidades são imanentes (quer dizer. A essência do real é a "produção desejante". em qualquer tempo ou lugar.

Os sociopsicanalistas decifram e interpretam esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho. a previsão de curso.ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos. agente e instrumento de persuasão. micropoderes do Estado). Os psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. É uma sistematização das metas a serem alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*). os possíveis retrocessos ete. mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo. coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes. Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza. que obtém por meio de sua concordância com a Lei. para que a classe recupere a margem real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita. do estado de coisas às quais este se relaciona. mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e legitimação. apresentando-se aparentemente como expressão da vontade majoritária. FANTASMA: para a Psicanálise. O Estado não se compõe apenas de grandes organismos. Existem muitos diferentes tipos de Estado. grupos e idiossincrasias dominantes. os avanços esperados. A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de dominação* e mistificação*. Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintesorganizantes dentro do Estado. ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção. em 152 ▲ . A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito. efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. corpo estabelecido de leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados. as alternativas viáveis. reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. e ainda do significado do que diz. repressão. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis si mesma. e o planejamento da progressão das manobras. EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças. mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. Seu principal instrumento é o Direito. o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". meios e resultados dos processos produtivos de toda índole.

não se entende nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica. conjunturas. Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e de construir a si mesmo durante o processo. então é um grupo sujeito (protagônico). estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social. procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*estabelecidos. A função está sempre. universal. É o gerador da diferença. GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e doutriné1s. filosóficas ou estéticas. que se empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade. ideológicas. opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias. Para Guattari. GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver Esquizoanálise*). Em conseqüência. prevalentemente. sejam elas científicas. organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram. lógica e necessária. Pelo contrário. a belicracia etc. um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos. invariável. é um grupo sujeitado. Do mesmo modo. 153 ▲ . a tecnocracia. e não "individuais" ou "coletivos". tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte. A função apresenta-se às representações e crenças das sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural". opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. dominação* e mistificação*. assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos". a afirmação de que a gênese social e teórica são inseparáveis entre si. da novidade. a burocracia. não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual.). procedimentos. da invenção e da metamorfose. A rigor. FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). seus agentes* e práticas*. têm apenas uma autonomia relativa com respeito aos acontecimentos*. Entre seus produtos estão os instituídos*-organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo. a serviço das diversas formas históricas da exploração*. prescindindo de alguma leitura que os torne inteligíveis. a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo". Em todo caso.FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos. eterna.

segundo Platão as concebeu. são seres idênticos a si mesmos. existem histórias econômicas. configurando-se no aqui e agora do campo grupal.HISTÓRIA: para o Institucionalismo. vínculos sexuais etc. eternos e invariáveis. é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado. períodos ou épocas localizáveis geográfica ou cronologicamente. tão tendenciosa como qualquer outra. Delas só se pode predicar sua 154 ▲ . HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos. a horizontalidade designa a dimensão grupal atual. geracionais. é uma versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*. Assim entendida. o conjunto de elementos que coexistem e operam. as Idéias Puras. assumindo que o fará a partir dos desejos. Não existe um processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. Em geral. mas o conhecimento de processos vigentes no presente. mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. etapas. culturais. políticas. modelos de tudo que existe. obsoleto e morto. quando não exclusivas. a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde às relações e aos processos informais. a História não é a investigação acerca do que já está definido. interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro. ou seja: rumores. Na Psico-Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo. A História. aparentenlente claro e acessível. Existem variados processos. das classes dominantes e do instituído*-organizado*-estabelecido. que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). para o Institucionalismo. IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo. mas como o presente ativa e deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais. sexuais. cada um transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. mais importante pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma. Por outra parte. Pode-se tentar articular os diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras. consistem apenas numa versão a mais. ou seja. raciais. Trata-se da reconstrução dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes convêm. A rigor. não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. intrigas de corredor. HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. Assim. geológicas. biológicas.

IMANÊNCIA: para alguns filósofos. As Idéias Puras são sinônimos de "ídolos" para alguns autores. ou por forças ativas (por exemplo. a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*. as das classes dominantes) que produzem. apenas um saber aproximativo e viciado por erros. definida como oposta à ciência. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um ideal ou modelo. carece de interesse. à procura da Verdade. a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com suas condições reais de existência. constituem as ideologias teóricas. Em outra direção. políticos. em uma sociedade"'. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que são "realizações" de desejos inconscientes. Em geral. Opõe-se à transcendência. A ideologia. Segundo seu matiz político ou ético. os naturais e os desejantes. é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento. e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações (crenças. distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. a ideologia dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. Análise Institucional *). Para algumas correntes do Institucionalismo. para outras. Para o Institucionalismo. Essas representações estão animadas por vontades e desejos. Todos eles são 155▲ . convicções. Segundo esse sentido. que é a visão das Idéias Puras. Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos ocupam nos sistemas que se representam erroneamente. expressa a não-separação entre os processos econômicos. Quando configuram sistemas amplos. este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. ou seja. O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser encaminhado como amor ao saber. denominam-se cosmovisões ou visões do mundo. valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo. mas podem ser também disposições para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). culturais (sociais em sentido amplo). e essa é também uma proposta ética. enquanto implica a virtude e o bem supremo. as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras).própria essência (por exemplo: a brancura é branca). Enquanto sistemas de representações. por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *).

em especial o Complexo de Édipo e o desejo. o que é permitido e o que é indiferente. Esse processo é considerado a base material e condição de existência de toda e qualquer sociedade. a justiça. mecanismos. É um campo histórico que sofre uma repressão político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social.inerentes. refere-se a realidades e processos que não são conscientes. que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento. Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo. Segundo seu grau de objetivação e formalização. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*. apropriação. forças e representações. denomina-se instância a cada região que compõe o território ou domínio do modo de produção. Superego e ld. Na versão clássica do Materialismo Histórico. a infra-estrutura determina a superestrutura*. a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego. normas ou hábitos. INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico. podem estar expressas em leis* (princípios-fundamentos). as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. da Sociologia e da Economia Política marxistas. a religião. indicando o que é proibido. as forças armadas etc. e também das instâncias do aparelho jurídico. o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo. Para realizar concretamente sua função regulamentadora. de uma sociedade humana. consumo e desfrute de bens materiais. dito em sentido amplo. INCONSCIENTE: em um sentido amplo. INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico. intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. O significado psicanalítico designa instâncias. Exemplos de instituições são:a linguagem. As 156 ▲ . um resultado: o instituído*. especialmente o recalcamento primário. o Estado*. Essa terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção. e um processo: da institucionalização. as relações de parentesco. a Sociopsicanálise). operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*. quer dizer. particularmente na versão de Althusser. Um conglomerado importante de instituições é. por exemplo. o dinheiro. Para outras. INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas. a divisão social do trabalho*. distribuição. ciência da História. troca. denomina-se infraestrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção. processos.

Pode-se falar de quatro instituições "fundantes" das sociedades humanas (ver sociedade*). Em geral. INTERESSE: denomina-se assim às motivações. conservando d e ju ri estados já transformados de fa cto tornando-se assim resistente e e conservador. e freqüentemente se descobre que sua suposta racionalidade não é mais que uma racionalização. Quando esse efeito foi produzido pela primeira vez. diz-se que se fundou uma instituição. Para operar concretamente. Todo esse procedimento parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em táticas. como parte do devir das potências e materialidades sociais. de acordo com as exigências do devir social. Para que os instituídos sejam eficientes.origens das instituições são difíceis de determinar. a implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*. no seu limite. expectativas e demandas pré-conscientes e conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes. No transcurso do funcionamento do processo de institucionalização. devem permanecer abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante-revolucionárias que tende a fundar instituições ou a transformá-las. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados pelas Utopias Ativas*. o processo de institucionalização deve ser acompanhado de outros organizantes* que se materializam em organizações*. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se apresentam como universais e mais ou menos invariáveis. LEIS: consistem na formalização e explicitação. O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte*organizante* e. Os interesses caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. o instituído tem uma tendência a permanecer estático e imutável. desejos. sendo 157 ▲ . o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela. em textos e/ou discursos. aspirações. Contudo. das árvores de valores e decisões que constituem as instituições*. os interesses divergem ou se opõem aos desejos e fantasmas inconscientes. INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído. INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos. grupos ou classes na atividade social.

nacionais.. Avalia-se o que está disponível para contribuir ou para dificultar o trabalho. Quando o líder é um autêntico e recurso para o funcionamento instituinte. Em outra significação. LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. movimentos. denomina-se revolucionário-desejante-produtivo. geográficos ou abstratos. legítimo. organizações. cujos integrantes carecem de "identidade" própria. Freud utilizou o conceito de massa como sinônimo de grande agrupação. que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. espaços físicos. refere-se a conjuntos humanos amorfos. o acesso 158▲ . raciais. são instrumentos formais produtivo-desejante-revolucionários. o termo marginalidade está muito relacionado com a oposição centro-periferia. Obviamente. As massas "estáveis" são. jurídicas) etc. e não intradirigidos. mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. Num sentido. designa grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar. de modo plausível. que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de condução. considera-se marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central. A logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. consagrado ou autêntico nos campos correspondentes. idiossincrasias (sexuais. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros. Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército. Seu estatuto não é o de um modelo. mas o de um exemplo singular. são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação. O Institucionalismo conhece e aplica as leis científicas que lhe são úteis. Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias leis". pelo Estado ou a Igreja. por exemplo. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. a de classes) se apagam em função de outros parâmetros (por exemplo. MASSAS: noção de difícil definição. o laíssez-faire o democrático. Os mais característicos são: o autoritário. ideologias. doutrinas. etárias.referendadas. econômicas. MARGINALIDADE: por referência a teorias. sinônimo de organizações. Chama-se "Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo.

difusão e assimilação de representações. sendo compensável com as respostas que a complementem. A partir da Psicanálise. no que se refere a bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental). em troca. sempre visando "o bem comum". Uma sociedade* tem necessidades que não conhece e não consegue definir como tais. administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*. segundo dizem os experts. Ou seja. educação. difusão e assimilação de ideologias regressivas ou. não é um pedido do que manifestamente se solicita. tem sido sempre prioritária. de máquinas de semiotização de captura e recuperação* . O desejo. que a Psicanálise define como essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. transporte etc. onde. e a simbolização. Essas decisões e as ações que elas orientam são. Pode-se considerar os processos de mistificação como sinônimos de produção. crenças. e de acordo com a "vontade popular". as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*. A necessidade não satisfeita origina uma privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. mas de "amor" e "reconhecimento". MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades "naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". do ponto de vista psicanalítico. a construção de um "Estado beneficente. costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda. e com eles. categorizado como "objetos das necessidades básicas". segundo outra terminologia institucionalista. A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória. quanto. porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam". "cientificamente" fundadas. previdenciário. convicções e valores que deformam. o gozo absoluto.ao consumo de certos produtos). como. assim como supõe ter necessidades cuja existência foi produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. um destino 159 ▲ . A produção de objetos suntuosos. os experts. pede uma impossível restauração narcisística. Nas sociedades industriais modernas. entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo. definem-se tais necessidades e se convoca e modula sua demanda. encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos. MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção. Já a demanda. O que resta da produção é o que se oferece às comunidades. São eles os que decidem o que. bens de luxo e desperdício dos setores dominantes. Dessa maneira.

agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o desejo* e a produção*. Algumas correntes institucionalistas questionam radicalmente essa concepção do desejo*. técnicas. enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. É o lugar das matérias não-formadas e das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos processos de auto-análise* e autogestão*. este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de registro e controle e a de consumo-consumação. as entidades características são os estratos e os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. segundo o acaso* ou uma lógica aleatória). assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem. Nessa ordem. da estabilidade. em suas ligações anárquicas locais ou à distância. Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que. estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente libertários. Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro". Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. das formas sujeitos e objetos definidos. este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção desejante.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções. Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias. Assim configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo. estratégias e táticas de leitura e de intervenção. métodos.socializável. 160 ▲ . É o lugar dos códigos. Em outra terminologia. MOLAR: para a Esquizoanálise*. Nesse espaço constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númenvoluptas). resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades molares. Os dispositivos* e máquinas de guerra nômades. MOLECULAR: para a Esquizoanálise. da conservação e da reprodução*. o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. sobrecódigos e axiomáticas. Essa superfície está integrada pelo "corpo sem órgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de maneira binária – máquina-fonte-m. É o campo da regularidade. onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*. dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*. MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências subscrevem alguns objetivos comuns. Igreja etc.que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga.

reação-reformismo-revolução etc. transferência-resistência. devem ser integrais. em um sentido mais amplo. comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. Basicamente. eternos e invariáveis. Em geral. que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias. também tem. 161 ▲ .MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) à transformação valores ou diferentes. textos. ou então causas ou efeitos de um desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. assumida ou não. o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se mantivesse exatamente idêntico em organização. simultaneamente biosociolibidinais. entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas". pode-se dizer que. consciente ou não. entre seus temas mais importantes. refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou distorcidas nos discursos. Essa omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária. para seren1 sólidas. No outro extremo da História. Em todo caso. organizações e comunidades diante das situações desconhecidas e novas. a oposição. mas é considerada invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência. A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural-funcionalista insistiram muito na problemática da mudança e da "resistência à mudança". costumes etc. dentro de um espectro de radicalidade crescente. Para as diversas correntes do Institucionalismo. da insistência do desejo e dos princípios de constância e inércia. permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais. ou até extremistas. o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu nas ciências humanas e na cultura ocidental. em todos e cada um dos aspectos da vida. e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas. A Psicanálise. "transformacionistas". Para algumas comunidades primitivas. ligada a categorias de diferença-repetição. o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como reações em cadeia. b) sustenta que as mudanças.. atitudes. para imitar o mundo e o tempo divinos. c) afirma que a substância do real é a diferença pura e a produção desejante. sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais e pré-sociais. é tratada segundo as inspirações teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. ou seja. NÃO-DITO: no Institucionalismo. tal como ela se apresenta nos grupos. ou. a problemática da mudança.. por sua parte. a questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da compulsão à repetição. a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. que resulta da natureza conservadora das pulsões.

vão desde um grau complexo organizacional. ao desejo e à vida. mas tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se. Esse processo exige das organizações a abertura para efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. De acordo com sua dimensão. ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*. E necessário para orientar o funcionamento da entidade. autorizada. espaciais. da antiprodução* e da morte. cronológicos (etc. pois para o Institucionalismo não é possível uma posição clássica de "neutralidade" ou "objetividade". mas em geral é reconhecida. O organizado é ilustrado no esquema do organograma e do fluxograma da organização. como um ministério. comportamentos. A oposição pode ser mais ou menos acirrada. OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada. que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante o processo de institucionalização. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos. É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz no encontro. exagera-se em torno de sua função. chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). inventiva e transformadora que tende à otimização das organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. técnicos. no Institucionalismo. grupos. organizações e movimentos. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva. Esse omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*. à má-fé ou à repressão no seio dos discursos. textos.Contudo. correspondem às grandes formas molares da superfície de registro. ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". o não-dito remete predominantemente à ignorância. vai-se produzir uma nova organização que é o verdadeiro objeto de análise. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*). adquirindo uma série de vícios. Uma organização* só cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 162 ▲ . o mais conhecido é a burocracia. Assim. estrutura e dinâmica dos agentes. OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos. até um pequeno estabelecimento escolar. legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que a integra. Na terminologia da Esquizoanálise. atitudes. ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica. como aos manejos do poder.

PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na planificação. Quando um agente social abandona o papel este se expressa ou manifesta através de outro participante. execução e benefícios da atividade. PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e grupais em particular. Isso não significa maiores modificações de fundo na propriedade. transformar etc. "sabotador". inventar. destinados a impor a vontade de um segmento social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. Em geral. decisão. a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente novo. emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de produzir. Os papéis são emergentes de configurações estruturais que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes indivíduos-sujeitos-agentes* sociais. como o de "bode expiatório". Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente emergentes. convoca. criador de vida. mas que se exercita. algumas cujas 163 ▲ . PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas. como "masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição).organizado*. POTÊNCIA: no Institucionalismo. POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes teóricas e técnicas. na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. em geral ele se aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente. PARTICULARIDADE: ver Universalidade. Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados. Particularidade e Singularidade. a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver Produção*. ativa etc. Desejo* Instituinte*). mas também em um sentido positivo de orientação: o poder incita. segundo as circunstâncias. come caracteres de personagens teatrais. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se possui ou se detém. provoca. consciente ou não. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os outros e carece de sentido fora desse vínculo. "seguidor".

designa todo processo pelo qual um agente. uma dupla natureza – de 164 ▲ . desde o início. a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às inespecíficas e não-qualificadas. organizações* e estabelecimentos*. PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue. expressivo e dramático nos tratamentos clínicos. a Medicina e a Carreira Milita. com sua proposta de Transe-Análise. diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*. é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas determinações que para seus próprios agentes. No Institucionalismo. dotado de força de trabalho qualificada. É a permanente geração de tudo que pode logo tender a cristalizar-se. tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*. Para o Institucionalismo. a Advocacia. A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação "vocare": chamado de Deus). Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de militância. a metamorfose. PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico esclarecedor e a ação transformadora do real. É o devir.características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal. técnica. assim como de autonomia e independência relativa. a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima. Em um sentido descritivo. PRÁTICAS: em um sentido epistemológico. a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por Georges Lapassade. as profissões compreendiam o Sacerdócio." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas. Em geral utiliza-se o termo "prática" para as ações específicas e qualificadas. É aquilo que processa tudo que existenatural. Entre as tendências que o integram. PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional. e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento. coordenação de grupos e intervenções organizacionais. Apesar do já dito. É equivalente ao funcionamento*.: Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio. com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à especificidade*. pode-se mencionar a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich). gerando um produto específico. subjetiva e socialmente. a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e academias universitárias teve.

inconscientemente. Esse título ampliou-se a outros ofícios. formando as cúpulas tecno-burocráticoacadêmicas – mas também se degradaram como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização. econômicos e outros. no campo da Administração. Interacionismo Simbólico). todas afirmam a constituição. De maneiras muito variadas (por exemplo. por um lado. significa voltar a pedir. Comportamentalista. de uma maneira ou de outra.. O Institucionalismo insiste no estudo e no desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro. entre outras coisas. (ver Psico-Socioanálise *. gratificação. mercantilizaram-se. da "modernidade" hiperespecialista e da suposta independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. consciente ou inconsciente). instrumental ou operacional) que elas se atribuem. No filosófico. poder e prestígio do corporativismo e do academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista. 165 ▲ . frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado individual ou coletivamente. Falase de Recursos Humanos como um dos componentes de um espectro de recursos: físicos. REPETIÇÃO: em um sentido etimológico. tecnológicos. toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). produziu-se uma série de mudanças no status de profissional. de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder de que dispõem para mudá-as. Gestaltista) ou à Sociologia (por exemplo. PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que as classes institucionais regredidas fazem. "neutro". regiões.controle de qualidade dos serviços. começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos" para referir-se. O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais. ligaram-se ao poder do Estado e ao das empresas. distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica. por não reivindicar o caráter científico (ou seja. visando o lucro. As práticas profissionais. Com a modernidade. RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70. à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao elemento humano nas organizações. mas se diferencia delas. por outro.) PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que. refere-se à reiteração ou reapresentação de idéias ou de realidades. antes considerados de segunda categoria. Existem várias correntes de Psicologia Social. mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. nações etc .

mas puro devir. O Institucionalismo sustenta que o que retoma na História não é o idêntico. o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. tradições. não interessa tanto estudar as leis que dão conta das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas astronômicos do cosmos ordenado. o igualou o mesmo. grupo ou movimento. grafitos ete. igualou similar ao que já existe. carecem por completo de identidade. acontecimentos e transformações naturais. ou ainda. Se bem seja certo que a superfície de registro. capturando-o e recuperando-o (ver Captura e Recuperação). Não são seres. Trata-se de comportamentos. produto do acaso. demoníacos e inclassificáveis. realísticas. melhor. os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que não conservam nem a imagem. ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico". culturais e subjetivas. Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões simbólicas. a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de matizes imaginários e fantasmáticos. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. do aleatório e imprevisível. documentos. de entender o retorno do diferente. ou seja. sociais. atitudes.Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o idêntico ou igual. mitos. REPRODUÇÃO: num sentido etimológico. nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e. obviamente. o romance institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização. Dessa maneira. nunca o consegue por completo. 2) o diferente. Em conseqüência. cumprindo sua função conservadora. que é radicalmente transformadora ou motor da História. e podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. na Sociologia e para o Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). Na Filosofia. 3) o diferente absoluto. tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso. o instituído*-organizado*-estabelecido. entendido por relação de negação. Sua "encarnação" mais prototipica estaria nos sofistas. tenda a capturar o retorno do diferente para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema. analogia ou semelhança com o idêntico ou o mesmo. Platão os considera falsos. Trata-se. pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 166 ▲ . procura-se deter os devires. SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo. mas o diferencial. significa cópia ou imitação. designa as tentativas de reiterar algo idêntico. a diferença absoluta.

agentes* e práticas*. as relações de parentesco. sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades. Define-a como uma rede. não apenas econômico) reconhece-se uma instância" determinante última" (condição de existência).que pertence às formas definidas da superfície de registro. complexa. hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se denomina sobredetermi nação. SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da participação causal. ampliar essa definição. compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*. é a partir da década de 20. É possível. Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *). SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição de transformação). organizações*. Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a indústria. SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*. que se compõe de diferenças puras.como a essência do real. Os objetivos desse enfoque são a racionalização e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações. Alguns institucionalistas afirmam que as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua. a religião e a divisão técnica e social do trabalho. que são o ser do devir ou processo produtivodesejante-revolucionário. Como se vê. As instituições interpenetramse e articulam-se para regular a produção e a reprodução* da vida humana. assim como a passagem da solidariedade mecânica à orgânica. singularidades* intensivas. instâncias e representações que. o organizante* e a superfície de produção. desloca da e condensada de todas as forças. francamente críticos. Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas. contudo. organizado*. No entanto. um tecido de instituições*. articulada. 167 ▲ . como o de T Parsons e outros. estabelecimentos*. respectivamente. Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo. que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*. fluxos. sinérgica ou contraditoriamente. essa definição está bastante centrada no instituído*. incluindo o instituinte*. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius. estabelecido. SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. A ação causal conjunta.

Segundo Mendel. devido à sua série disposicional pessoal. do poder e prestígio.) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera". Essa experiência de limitação gera neles. quando se abordam os coletivos. Whyte. SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise.como os de W Mills e W H. denominada Desenvolvimento Organizacional. assim. Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento psicofamiliar. num sentido coletivo. SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. Foi fundada e desenvolvida por Gérard Mendel. particularmente uma de suas modalidades. bastante ortodoxa. Mendel articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce. a Sociologia das Organizações. a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza. pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado (ver Alienação*) no Capitalismo. diminuir os insumos. em vez de principalmente simbólica (correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). do Materialismo Histórico. do resultado do trabalho. um processo regressivo de ordem coletiva. denomina-se assim à percepção. onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor compreendidas. avaliação e comportamentos transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. cuja viabilidade é considerável. Segundo a denúncia institucionalista. visa facilitar os mecanismos culturais. uma vida preferencialmente imaginária. trabalhadores. o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos patológicos é o local de trabalho. A 168 ▲ . Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de que. no qual os sujeitos viven. a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra. O resultado é uma abordagem politicamente moderada. necessitando dos cuidados de um outro para ter sua sobrevivência garantida). sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. conseguindo. A Sociopsicanálise sustenta que. comunicacionais e motivacionais (do conjunto empresarial e dos grupos que o integram. aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários.

com Lênin. momento histórico. lugar e conjuntura. principalmente a interpretação. O lnstitucionalismo pretende propiciar. o modelo científico que temos no Ocidente como universal. sim. em todo tipo de patologia biopsico-social. invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". autoritarismo. delírios. populismo. que vão res ultar em sintomas (atuações. Mas a cura não é definida em termos individuais. raça ete. esses quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar. somatizações. povoada por figuras fantasmáticas de sua vida familiar. os modos de subjetivação que os mesmos precisam. toxicodependências). SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*. desejante. STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. inibições. por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme. sujeitada e submetida. A metodologia de intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os levava a se refugiar num mundo de fantasias.ntelismo. No plano da militância. Com isso. Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer sociedade. Há. através da análise e da intervenção. e sim coletivos. como "enfermidades infantis do trabalho": voluntarismo. Inclusive. Trata-se da condição obtida por um papel dentro de uma sistematização hierarquizada dos mesmos. a montagem de dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e. para algumas orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável. messianismo. o coletivo institucional também passará a funcionar nesse registro. contraproducentes. clie. enfim. e pressupõe um movimento de cada classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de trabalho alienado. Esses são absolutamente contingentes.situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram. ubíqua e universal do sujeito filosófico. classe social. social ou psíquico. fisiologismo ete. produtiva. junto com eles. SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 169 ▲ . próprios de cada momento. buscando soluções mágicas. infinitos e heterogêneos processos de produção de subjetivação livre. o que os levará a vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia. revolucionária. e geram sujeitos singulares nas margens de cada acontecimento*.

do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento e peculiaridades do coletivo em questão. É o momento de seleção de recursos a serem empregados na etapa imediata. Para outros Institucionalistas. Quimbanda e Candomblé. coletivos etc. remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. não existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento. a Psicanálise). Posteriormente. TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. Na versão clássica do Materialismo Histórico. Trata-se de procedimentos (interpretativos. conteúdo ou estilo. da Sociologia e da Economia Política Marxistas. grupais. TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros. Sua escolha é consideravelmente livre e dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora. difusão e assimilação de representações e valores ideológicos. composição. lúdicos. ciência da História. TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*.) a serem adotados de acordo com as circunstâncias. desportivos. sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição. com propósitos diagnósticos e elaborativos. denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídicopolíticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos. na instância jurídicopolítica é onde se processam os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente. Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe. transformação. discursivos. SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico. artísticos. assim como de produção. 170 ▲ .psicológicas (entre elas. por exemplo). expressivos. informativos. Por ou tra parte. O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. a superestrutura reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura. interrelacionais. sensibiliza dores. Os processos superestruturais operam a reprodução ampliada do modo de produção. tais como: Umbanda. Algumas correntes institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise. reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do psiquismo). O que existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou similares. segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*organizado*-estabelecido.

mas como motor das transformações. Como montagens. entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes. segundo a corrente de que se trate. A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis. estruturas e até complexos destinos organizacionais. fantasmas. Certas correntes do lnstitucionalismo. entrelaçamento. O que se repete são pulsões. No Institucionalismo. considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e os variados aspectos da vida institucional como um todo. existiria uma transferência que não funciona como resistência ou obstáculo. em conseqüência. gerando efeitos à distância sem transmissores detectáveis. é importante 171 ▲ . elaboraram uma profunda reflexão filosófica sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. desejos. Para essa orientação. e. Reich e outros). demandas. códigos. Contudo. papéis. UNIVERSALIDADE. TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein. como por exemplo a Esquizoanálise. No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional. tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas. SINGULARIDADE: no que interessa ao Institucionalismo. hábitos comunicacionais. Lacan. estereótipos gestionários. TRANSVERSALIDADE: interpenetração. a partir de conexões locais.as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. territórios. que é imanente à rede social das forças produtivo-desejantesinstituintes-organizantes. GENERALIDADE. o que se repete substancialmente é o diferente. que propõe a autogestão* ou a gestão participativa dentro de cada estabelecimento. Em geral. pré-conscientes e inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva". a idéia de transferência pode ter. uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras bastante modificadas. os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos. PARTICULARIDADE. É uma travessia molecular dos estratos molares. o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos particulares e singulares de seu objeto. sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais. no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem membranas celulares nem limites externos precisos). deflagram efeitos transversais inventivos e libertários. A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas organizações*.

as línguas indo-européias). se apropria. do tipo dos que são 172 ▲ . a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas). cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro momentos: a universalidade abs trata (por exemplo. é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). USUÁRIO: no lnstitucionalismo. O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da generalidade. assim como contribuiria para a reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. freqüentemente designa-se o conjunto dos usuários como "staff-cliente". Supõe-se que a intervenção no caso singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e no saber dos coletivos institucionais. na medida em que se refere a um objeto único. a particularidade (por exemplo. O momento da generalidade compreende a caracterização de um atributo abstrato da universalidade. máximo nível de determinação atingível. dessa maneira possibilitaria sua desalienação. Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais do particular e do singular. vazio. usufrui de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". um puro produto do pensamento. a singularidade (por exemplo. consome. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já estava compreendido no conceito universal. No caso de uma intervenção institucional standard. entende-se por usuário quem demanda. possui. adquire. Um juízo ou um conceito universal abstrato é. Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo. O momento da singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica. em certa medida. a Análise Institucional estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos. Pode-se sustentar que nega de uma só vez a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade. Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal. enquanto cada um deles se define por sua afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. Segundo entendemos a proposta de R. UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais em seus aspectos instituintes*-organizantes*. mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. Lourau. por um falante/ouvinte desse dialeto). tal dialeto napolitano e seu uso concreto. personalizado ou anônimo.diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto.

a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo grupal. a individuação de um real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. funções etc.enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos"). ou seja. sendo que cada período histórico tem. Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná-lo com a biografia do autor. cronos. a verticalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde ao organograma formal. Primeira Parte O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados. a existência de uma composição sui generis e não é exclusiva da nossa fase. relacionado-o com o segundo. Desde já. em outubro de 1995. hierarquias. este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência. como se 174 ▲ . lagostelos. mas também à importância de marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo. Parece-me interessante que o leitor possa. obviamente a partir de suas próprias convicções. contudo me parece que tem o direito de tentar. e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica". Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins e meios.expressando isso de uma forma clássica. sem dúvida alguma. topos. umepospeculiar. Optei por reproduzi-lo quase sem alterações. composto dos seus próprios ethos. 173 ▲ APÊNDICE O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro. quer dizer: cargos. desta forma. avaliar acertos e desacertos do primeiro texto. Neste final de milênio vivemos. o processo produtivodesejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. Obviamente. para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a quinta edição. VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. pathos.

cabem – devidamente redefinidos – termos mais ou menos "na moda". de distribuição. política. cultural. Isso propiciou uma inclinação ao predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos. Costuma-se declarar. nacionais. como aplicação teórica de um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento. judiciais. "movimento". sendo que. "cultura".utomatizadas". ditatoriais. ou "Hipermodernas". e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos indiretos. Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado". no lugar da predisposição ao uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. e porque não. Uma análise detalhada dessas categorias seria. um crescimento enorme da "Riqueza" – entendida como meios de produção. de culto. Também cada" civilização". "espaço". "troca". "permanência".sabe. – Nesse mesmo lapso. onde vige. ou "lnformatizadas". de circulação. "valores". legislativas e executivas. assim. "Transnacionalização". – Esse incremento inclui bens materiais. e que esse aumento qualitativo e quantitativo resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados. possibilitando. incorporais. serviços. "partes". ou 'A. de idade. geográficas. integrado por uma função axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições democráticas. gerou-se uma tendência ao desmoronamento de regimes políticos totalitários. os Direitos Civis e os Direitos Humanos. regionais. tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil. constatar. ou "Pós-Modernas". pelo menos formalmente. detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por "passado". "Sociedades Pós-Industriais". 175 ▲ . "Pós-Classes" e "Pós-Massas". tais como "Globalização". tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de idiossincrasias minoritárias. de comunicação. em setores localizados do mundo. raciais. porém. evidentemente. sexuais. "Multitudinárias" e assim por diante. tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari. que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a atualidade tem havido. "pensamento". – Como causa e efeito dessas transformações. autoritários e outros. representativos e eleitorais. a sua. de certa forma. desde o local até o mundial. de situação econômica. Conformarei-me apenas em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. de troca e de consumo. o mesmo tendo se realizado em todos os campos e níveis. "presente". "todo". excessiva neste escrito. Nessa designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do Capitalismo". o Estado de Direito.

os Socialismos Reformistas. imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí generís. esses processos não são universais nem suficien temente implantados. incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo. 176 ▲ . que são oportunamente subsanáveis. toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência. limitação. educação. interesses e açôes contrários a esses desígnios. em todos e em cada um dos processos. assim como determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que.porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei. e nem aperfeiçoados. empresas livres e outros-.– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção. modernização das estruturas. economia de mercado. – Obviamente. democratização. diversos "estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas. Todos esses indicadores de "evolução". por diversas razões. Esses setores a dificultam devido a vocação. eficientização. não somente em quantidade como também em amplitude. – Desde já." em vias de desenvolvimento e de crítica". estruturas. No campo do social. baratização. "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista". justiça e ordem pública. de formas arcaicas. tais como fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação. podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas" adversas. "Socialismo Real". funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente fracasso de todos os ensaio de "Comunismo". Por isso. transitórias e circunstanciais.lógicas e âmbitos. desejos. exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis. agentes. usuários. consumidores. planejamento e execução. que tendem a realizar-se de forma gradual. assim como pelo culto à liberdade. assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional. cultural e subjetivo. as Sociais-Democracias e ou tros similares. persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo. Isso significou a vigilância e ingerência sobre tais poderes. resistem em adotar os princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados. e ainda hoje continuam trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. todavia não superadas. essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduossujeitos-agentes-produtoresconsumidores-usuários conscientes. à justiça e à competição sadia. crescente e incessante. compactuação. – As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização – diminuição.

de forma parcial ou distorcida. uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade. mesmo frágeis e freqüentemente precários. ou os cita apenas nas passagens em que supõe poder refutá-las. os regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado. de forma esquemática e prototípica – e faço votos para que não tenha sido irônica –. demonstram ser a "menos pior". os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos triunfadores. O mais grave desta "realidade". O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos. frente ao quadro que acabamos de delinear. ou é repetida. Em segundo lugar. não deixam de conduzir a conclusões parecidas. vale a pena repassar. isto é. ou bem os despreza. Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostumase a experimentar. Segunda Parte O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor. apesar de muito mais sofisticadas e matizadas. senão a única alternativa possível para a consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. não se pode evitar a sensação de que. incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante. isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos. apesar de não ser a culminância. Está claro que existem inúmeras versões a respeito que. Em terceiro lugar. comportando-se como se acreditasse que "na prática todas essas teorias são outra coisa". Em primeiro lugar. não servem para nada. como se fosse uma "novidade recémdescoberta". uma série de impressões que. uma maneira de descrever. é a sólida confirmação de que os modos de produção. são tratados como se fossem inexistentes ou irrelevantes. de acordo com esta leitura do panorama mundial. ou funcionam somente dependendo do uso peculiar que se decide fazer delas. Estes. à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo agora.Esse andamento. pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato" que se pinta dela. a meu ver. vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto. da qual estas "impressões" são um 177 ▲ . entender e avaliar o panorama munclial contemporâneo.

indicadores. é sabido e constatado que aqueles pensadores militantes. conceitos. Sociologia. heterogênea e onipresente maquinária que gera esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possívele os "estilos de vida" e "de morte" que lhe são conseqüentes. Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter que suportar a atribuição do status e papel de "catastrófilos". é que a versão que relatamos anteriormente – que. Em alguns campos do saber e da vida notoriamente na Economia. muitas das suas categorias. desejos e interesses do pensamento crítico." catastrólogos". falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial. conseguem apenas dissimular sua sistemática 178 ▲ . mas também da difundida convicção de que. refinamento e desacordo que. longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência.registro. "a rigor". agir e coerentemente viver de acordo com uma inteligência crítica e segundo alguma dessas propostas questionadoras supostamente inexistentes. Em verdade. desavisadamente. desprezo e exclusão mais ou menos sutis. não existem reais alternativas para a situação imperante. vai desde a eliminação física e a tortura até a reclusão ou o exílio – mas também tornarse passíveis de inúmeras modalidades de desqualificação. rótulos esses que servem para etiquetá-los como "amantes ou cultores" mórbidos. Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –. A sentença mais draconiana é que "são inaptos para oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos". de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. ou como" delirantes adoradores "de um cataclismo imaginário e inexorável. a não ser aquelas que consistem em um aperfeiçoamento do conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde. Psicologia e Política – as declarações.não apenas podem sofrer as mesmas ações repressivas de seus antecessores de todas as épocas – que. sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade. procedimentos e resultados. por outro lado. funções. ou simplesmente cidadãos que resolvem falar. categorias. dependendo do país onde atuam. Boa parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumidaresulta não só da estupidez e de necessidades. "catastrofistas". tudo depende de como se define cada um dos termos: noções. conceitos. A colossal. mesmo se empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições. planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo. se avalia e se procede frente ao estado contemporâneo das coisas. Em quarto lugar. analisadores ou idéias com os quais se pensa. obscuridade. ou como" especialistas com falso prestígio". acabam por compartilhar. escrever. os conhecedores dos processos de construção e difusão "ideológica". signos.

Há hoje levantamentos estatísticos acerca de "tudo". se por um lado – como veremos mais adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas são tragicamente ostensivos outros são confusos. Frente a essa formidável escalada. evidentemente. Para examinar os aspectos mais relevantes dessa comparação. Essa questão de "otimismo" versus "pessimismo" é. a seguir. nossos tempos. quantitativa e qualitativamente. por exemplo consiste em cotejar o que o Capitalismo veio a ganhar com os desmandoó do Socialismo Real. tornariam estas linhas intoleravelmente difíceis de serem escritas e lidas. Trata-se de comparar o desenvolvimento potencial e efetivo de todos os tipos de forças produtivas de uma época com as realizações abstratas ou concretas alcançadas durante a mesma. se bem necessários e ilustrativos. não costumam coincidir uns com os outros. – Dois bilhões de pessoas do globo terrestre subsistem em um estado que contempla apenas racionalmente o que – de maneira muito controvertida – denomina-se "satisfação de suas necessidades básicas". é abordada de fom. ambíguos. não citarei muitos dados estatísticos que. e "todo mundo" parece ter acesso aos mesmos. tantc no passado como nas circunstâncias presentes. assim a valorizações complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão. Muitos autores enfatizaram a velocidade do processo que o incremento das mais diversas potências adquiriu nos últimos vinte anos: a mesma é tão vertiginosa que resulta muito maior que a conseguida nos recentemente passados duzentos anos. o assunto consiste no confronto entre o que poderíamos fazer e o que realmente fazemos. Prestam-se. Por outro lado. tão velha como o próprio mundo. são poucos os resultados que podem ser considerados confiáveis. 179▲ . mostram uma peculiaridade surpreendente.a errônea O problema não consiste em puxar conclusões sobre se o mundo de hoje é melhor ou pior. As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que: – Dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra. delicados e contraditórios. em todos ou em algum dos aspectos da existência. O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono. Tampouco. que na Idade Média. e os números que verdadeiramente interessam para tomar posição definitiva acerca das questões mais cruciais são considerados sigilosos e mantidos em secreto. pelo menos um bilhão vive em um estado que a Organização Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta. outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria Relativa e ou Pobreza. Porque. o problema corretamente posto reside em perguntar o que se conseguiu exatamente com essas disponibilidades. Contudo. Dito de outra maneira.inoperância. É uma brevíssima avaliação dessa natureza que me proponho intentar. com respeito às estatísticas. mas segundo o meu entendimento.

Canadá. nos seus respectivos bolsões internos de pobreza. idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo-coloniais clássicas dessas mesmas nações. – Os indicadores mundiais de desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas ao acelerado processo de substituição da força humana de trabalho pela automação. CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão. assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques. estão em andamento quase cem guerras de tipo internacional. – Os Estados Nacionais – tanto os "democráticos" como os "autoritários". Indonésia. se houve aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance. Vietnã. de forma menos espetacular. 30% (trinta por cento) possuem 70% (setenta por cento) de qualquer tipo de riqueza disponível no planeta. supostamente. à qual me referia acima. limítrofe. – Até pouco tempo atrás. Malásia. Oriente Médio e América Latina. remessas de lucros. religioso. ou ainda nas condições contratuais leoninas dos acordos de exploração. continua-se discutindo. a cada ano duplicam-se os equipamentos militares e policiais destinados. – A distribuição da miséria absoluta e relativa. Além de tudo isso. Taiwan e. Surpreendentemente – como todos estão cansados de saber – a criminalidade. a Índia. o incremento da riqueza nesses "capitalismos nacionais tardios" mostra uma distribuição desigual do benefício. Neste momento. o número reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico cuja capacidade era mil vezes superior àquela necessária para destruir qualquer indício de vida sobre a face da terra. Devido às diferentes gestões internacionais.. civil. e está baseado seja na venda da força de trabalho baratíssima e informal.– Dos quinhentos milhões restantes. – O aparente crescimento econômico das chamadas "economias emergentes" – apesar dos casos serem diferentes e complexos – em geral é fraco e instável.. racial e outros. "dependentes" – apresentam-se cada vez mais empobrecidos. tanto na atualidade como no futuro próximo. de maneira muito peculiar. apesar de serem os principais assentos de opulência mundial. exceção de impostos. seja na extração irrecuperável de matérias-primas e energéticas. Coréia do Sul. a China Comunista) –. o arsenal de armas atômicas foi reduzido. cujo foco principal é a defesa da propriedade privada e da pessoa dos proprietários. prejudica inapelavelm. Ela se encontra – desigualmente. que resultaram no fim da Guerra Fria. porém. mas também à tendência ao esgotamento dos mercados externos e internos. apresentam marcados desníveis e reconhecem que estão ameaçados pela possibilidade de graves crises de diversos tipos. à manutenção da ordem constituída e à segurança pública.ente todo o continente africano e. sem direito laborais e sociais. só vem aumentando. particularmente os dos países chamados" periféricos". ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a 180 ▲ . mas estrondosamente – em 95% dos países. "em vias de desenvolvimento". – Os grandes blocos dos países ricos – EUA. salvo exceções locais.

tal é seu grau de interferência no comércio de influência. relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas. o poder econômico dos lobbies locais sobre os governos é enorme. É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"? 181▲ . a sinistra questão dos fundamentalismos. eleitoreira demagógica. saúde.sua subordinação aos onipotentes organismos econômicos internacionais. de proteção e outros. – Certo incremento do acesso de setores mais an1plos da população a alguns produtos e serviços – devido à hiperprodução e ao barateamento da produção massificada dos mesmos – deve ser entendido como um resultado muito mais atribuível ao poderio tecnológico dos parques industriais que ao efeito da ascensão econômica de tais segmentos populares. torna-se gravíssimo nos países "periféricos" por razões óbvias: as necessidades de serviços infra-estruturais como os de educação. corporativo-burocrática. à falsificação e assassinato por encomenda. particularmente da organizada-empresarial – está se tornando não geométrica. são infinitamente maiores que nos países centrais. A decadência mundial do Estado de Bem Estar – causada fundamentalmente pela limitação orçamentária imposta à política tributária pelo Capital também obedece à privatização crescente de sua funções. terei que parar por aqui. carcerários e assim por diante. porém. ao roubo. ao jogo ilegal. têm adquirido tal poder financeiro que parecem estar integrando formalmente os processos econômicos e políticos. É de se supor o que ocorre quando esses países são afetados pelo declínio próprio da transnacionalização-privatização. que não é nada mais que um apêndice. Isso pela necessidade do Capitalismo de incorporar à produção e ao mercado ganancioso todas as atividades possíveis para compensar a tendência de queda da taxa de extração da maisvalia resultante das causas acima apontadas. – O aumento da criminalidade. Para não carregar demasiadamente este texto. As chamadas genericamente "máfias". do terrorismo sectário ou de Estado. Esse problema. limitando-me a mencionar problemas tais como a nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos. a política tributária é ridiculamente favorável às grandes fortunas e a política fiscal é incompetente. a total falência dos aparelhos judiciários. corrupta. moradia. o comércio de crianças e de órgãos humanos. ao contrabando. A lógica dessa melhora é parecida com aquela responsável por certa diminuição dos índices de morbimortalidade: não se trata de um aperfeiçoamento amplo e consistente de saúde popular. ao seqüestro. e sim do espetacular e barato progresso da técnica imunológica. mas exponencial. seguro-desemprego. a distribuição da renda é muito mais desigual. saneamento básico e segurança pública. à prostituição. resultante de uma sólida elevação das condições de vida e de atenção médica integral. policiais.

administrar e destruir tudo o que compõe a realidade. Uma nova definição de maquinária como conjunto difuso. dá andamento a quatro processos: de Produção da Produção. de Produção de Antiprodução e de Produção de Demanda-Consumo e Consumação. em movimento transformador contínuo. no mínimo. algum possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim. mais relacionados à produção e à consumação. e também imanentes. nenhum é causa última nem efeito exclusivo do outro. da Subjetividade e da Maquinária. heteromórfico. seja como for que ela se defina. É preciso. em si mesma. de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico. e isso implica que são parcialmente diferenciados. externamente aberto e internamente heterogêneo. mais ligadas à reprodução e a antiprodução. é parte da questão do "velho" e do "novo". à medida que já foi antecipada quase exaustivamente por vários dos colossais pensadores do século passado e que. não poderei definir detalhadamente neste âmbito. em cada formação histórica. os territórios citados e os processos que os" animam" estão intimamente interpenetrados entre si. em cada um de seus territórios e em todos eles. de periodizar as formações históricas. apesar de que. Em cada formação histórica. aclarar que esta análise. da Sociedade. cada um a seu modo. da "evolução" do Capitalismo. explicando como cada uma delas era e é – à medida que as mesmas subsistem no panorama atual – um modo sui generis. distribuídos em superfícies (vide Nota 1): da Natureza. Quando se afirma que o Capitalismo Planetário Integrado – a "Globalização" e a internacionalização mundial do Capitalismo em sua Fase Superior – é resultado do "desenvolvimento". A modalidade e a prevalência de cada um desses processos em cada um desses territórios-superfícies determina as peculiaridades das funções. de gestar. devo avisar. Cada formação histórica compreende. e dos funcionamentos. heterólogo. quatro grandes "continentes" ou "territórios".Terceira Parte Esse tema do "otimismo" versus "pessimismo" está intimamente relacionado com o outro. o do "velho" e do "novo" que mencionei anteriormente e que poderíamos reformular e ampliar do seguinte modoapesar de que. semi-determinado. Nenhum deles é prescindível. de Produção de Reprodução. dispersas e "oniconectáveis" – ou seja. porém. do "progresso". nos vimos na obrigação de expor esta descrição como se fosse uma premissa. auto-producente. como desejaria. o mínimo que se pode fazer é analisar o significado exato dessas palavras. digamos. todosos termos que utilizarei. uma formação histórica que pode ser entendida como 182 ▲ . devido a um laborioso esquecimento de seus detalhes. semi-aleatório de "peças" variáveis. Cada formação histórica caracteriza-se pela modalidade com a qual. Esses grandes trataram.

seus tipos de exploração. outro indicador do tipo de formação histórica que assim o faz. de sua "Totalidade" ou Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução e da Antiprodução podem manifestar-se através de inumeráveis índices ou indicadores. quanto deixa de fazer com elas. Repassando o panorama descrito na segunda parte deste apêndice. a qualidade de vida dos países nórdicos e outros. isto é: com os índices de exploração. Espero ser mais explícito agora sobre porque devemos comparar nossa formação histórica atual – a primeira que está em vias de conseguir uma hegemonia mundial quase absoluta – não com as outras. mas se dadas as incalculáveis forças que a humanidade dispõe. dado que os indicadores medidos como resultado da aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são 183 ▲ . que os do Feudalismo. bem "menos atrozes" que os nossos. Isso é diferente de dizer "mecânica" ou "automática". da subjetividade e da maquinária. a realização de blocos de nações ricas. por exemplo. seja nas modalidades das máquinas elétricas ou eletrônicas. o que significam "Progresso". dominação e mistificação que lhes são próprios. sem dúvida alguma.uma Megamáquina. a seu modo. conseguem inventar. conhecimento e valores que. Maquínica. por sua vez. dominação e mistificação são. por exemplo. isto é. dominação e mistificação são melhores ou piores. ou quanto e como as investe na reprodução ou antiprodução que geram as atrocidades dos referidos índices. definir. Considerando o que foi exposto. Obviamente. sem ignorar que. porém. o procedimento e a interpretação dos resultados da comparação – de forma a fazer uma avaliação – de uma formação histórica com outra são. "Evolução" e "Desenvolvimento" enquanto valores definidos pelo Capitalismo triunfante? Por um lado. Dadas as características das funções e do funcionam de cada formação histórica – ou seja. cibernéticas etc. Limitarei-me. Nestes indicadores. saber. Dito de outra maneira. a decisão. trata-se de julgar. se comparamos alguns dos nossos indicadores com. Se não procedermos dessa forma. a falsa generalização de algumas melhoras localizadas – por exemplo. não se nossos terríveis índices de exploração. Sendo assim. as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam. dominação e mistificação lhes são próprios. mesmo prevalecendo os coletados no território da sociedade. Isso precisa ser dito. os de algumas formações primitivas tribais – cujas forças produtivas são ínfimas –. também importam as relações dos mesmos com os campos da natureza. detectar e criticar esses índices. mas com as potências de produção que detêm. cada formação histórica possui também os recursos próprios de pensamento. a mencionar três fenômenos: os graus e tipos qualitativos e quantitativos de exploração. assim como com o grau de reprodução e anti-produção que as investem. cairemos exatamente em um dos mecanismos de mistificação que são especiais da nossa formação histórica.

deploráveis. "realista". "moderna". ou que são enunciados – prévia deformação – como "novidades" funcionais para essa leitura "otimista". Esse Equivalente Geral. de Desejo – Consciente e Inconsciente –. Ou seja. "animadora" hierarquizadora. Por conseqüência. apesar do cinismo peculiar do sistema de representações dessa fórmula mundial. uma racionalização ou um delírio megalomaníaco. Reprodução e Antiprodução (assim como seus estilos" de vida" e" de morte") – tal como foi anunciado na famosa fórmula da Revolução Francesa e do Iluminismo. um erro. tais índices mundiais são. a afirmação de que o Capitalismo é o modo. Por outro lado. é possível falar também de Capital de Poder. O Capitalismo. o Industrial e o Financeiro. ações. uma série desses conhecimentos do século X IX – produzidos por autores de diferentes orientações – que parecem ter sido "esquecidos". Trata-se de uma auto-convalidação da Lógica do Capital. cédulas ou registros informáticos – é uma medida arbitrária de valor. regime que "melhor" está protagonizando a realização gradual de uma certa maneira de gerar e relacionar Produção. por exemplo. subalternamente. Igualdade. bônus. muito elementarmente. As modalidades clássicas do Capital são o Capital Latifundiário. no mais amplo sentido já definido – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada. que se acumula como inumeráveis forças produtivas não retribuídas. um equívoco. organizadora. "Liberdade. da Esquizoanálise à importância da ideologia ou das ridículas afirmações acerca de seu " final". um sofisma. acumulação e centralização de inumeráveis forças-formas de produção não pagas. sistema. O Equivalente Geral. Entre as principais forças-formas dessa produção está a força-forma do Trabalho "Humano" – entendendo como tal aquele composto por energias 184 ▲ . "evolução" e "desenvolvimento" estão longe de tornarem-se efetivos. Fraternidade" – não é apenas uma mentira. de Saber. de Semiotização. cataclísmicos. julgados segundo a potencialidade produtiva intrínseca ao Capitalismo. torna-se a medida para a qual deve ser traduzido o resultado da extração. continua sendo um recurso necessário para sua permanência. o Capitalismo ainda precisa mentir. isso significa que nosso " progresso". Essa integral é denominada Equivalente Geral Dinheiro. ou que são citados como "insuficientes" ou "já superados". e até de Beleza – Dominação e Mistificação. estrictu sensué um modo de produção-reprodução-antiprodução-consumação da realidade – dito . sem dúvida. como títulos de propriedade. supostamente geradora. apropriação. imanente a "todos" e a cada um dos campos ou territórios antes citados que. a Axiomática do Capital – que pode se expressar através de quantidades abstratas. limitante e destruidora do "todo" da realidade. de dinheiro-moeda ou "letras" de diferentes naturezas. Cabe apenas mencionar agora. porém. apesar da crítica.

que perdem assim seu poder aquisitivo. As condições fundamentais que possibilitam a produção. e só secundariamente pelo seu valor de uso-satisfação – pois se o processo de capitalização realiza-se em cada passo desse circuito. de maneira sumamente variada. que se estabelecem entre o desenvolvimento das forças produtivas de todo tipo e as relações de produção de toda espécie. comprável e vendável através do Capital chamado variável. troca. ou seja. como as que ocorrem na competição entre as diversas modalidades do Capital. consumo e fruição dos produtos de toda espécie. operações de troca mediadas pelo dinheiro. podem haver crises provoca das. Os limites internos costumavam ser reduzidos à existência da força de trabalho disponível. enquanto interessam por seu valor de compra-venda. apropriação. Era costume atribuir aos limites externos a existência de mercados solventes. Concomitantemente. de matérias-primas e manutenção e aperfeiçoamento dos meios de produção propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo. sociais. além dos gastos da reprodução ampliada – manutenção das condições jurídico-político-subjetivolibidinais do Capitalismo. Entre as variadas situações nas quais essas contradições transformam-se em aporias e conduzem à celebre crise do Capitalismo. cada um deles está informado pelo circuito de compra-venda. as mais conhecidas são aquelas que resultam das hiperproduções – excesso de mercadorias que se barateiam "excessivamente" e não compensam as inversões – ou do esgotamento relativo dos mercados. isto é. produção de mercado. semiotização e outras. empreendimento. O Capital variável inclui também os insumos produtivos: gastos de crédito de dinheiro-mercadoria. Por exemplo: as primárias. possessão.físico-químicas. biológicas. pois as lutas operárias 185 ▲ . subjetivas – que deve ser "forçada". deve ser acrescentado ao Capital fixo e ao variável o que podelíamos chamar de gastos com a produção de necessidade de demandas de consumo e fruição propriamente ditos. dependendo do ramo de produção tratado. energéticos e territoriais. distlibuição. Porém. de compradores suficientes de mercadorias. ou seja. Essas contradições são tanto produtoras do crescimento produtivo e cumulativo e da reprodução das condições restritas e amplas da existência do Capital quanto demarcadoras de seus tetos classicamente denominados limites internos e externos – e de sua subsistência. e as secundárias. é a conversão crescente de tais produtos em mercadorias bens de troca. isto é. a submeter-se à citada equivalência e a sua valorização e remuneração parcialmente não paga – Dominação e Mistificação – pela força física ou por modalidades de subjetividade. O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado – está constituído por contradições famosas que lhe são essenciais. o qual habitualmente era tido como sinônimo da existência de trabalhadores vivos e produtivos. cujo protagonista principal é o Estado –. psíquicas.

De qualquer maneira. renda e ganhos. alguns setores do Capital são prejudicados. não necessariamente em menos "pessoas". Nisso participa. Já a crise gerada pelo esgotamento da expansão extensivogeográfica dos mercados foi superada com a intensificação quantitativa e qualitativa da venda através do consumo de massas. troca e consumo. desde suas origens. As manobras do Capitalismo a esse respeito são inumeráveis e. não explicitamente formal. mas também para o saber. Ao nível da produção.e camponesas questionam a propriedade das diversas formas de Capital fixo. senão em um número real. Esse. ou a destruição dos produ tos para aumentar seu preço. nelas e delas. incrementam o gasto do Capital variável através de reivindicações salariais ou de melhores condições de trabalho ou chegam. não só aprendeu a prevenir e resolver as crises. por um lado. megabancos e. por sua vez. facilmente descartados e "melhorados". pela qual o Capital – em quaisquer de suas formas de existência – acaba por concentrar-se. outros são notoriamente beneficiados. pois atua em todos e em cada um dos níveis dos processos do "Todo Capitalístico". em suas lutas políticas. não podendo ampliar detalhadamente este ponto. assim como através da planificação de produtos perecíveis. Sabe-se. dominadora e mistificadora que lhe é característica tende a orientar toda a produção. o Capitalismo obteve uma enorme agilidade e bara teamen to desses processos mediante a informatização e a robotização dos mesmos. que o Capitalismo é um modo histórico que. Na esfera da distribuição. porém. o Capitalismo suplantou a extração de mais-valia relativa – aumento das horas do trabalho não remuneradas – pela absoluta – aumento da produtividade pela intensificação do trabalho em si mesmo ou em menos tempo. a reprodução. oligopólios e monopólios. o poder e o prestígio. Isso é válido para o lucro. se agrega e finalmente substitui a exploração típica a extração de mais-valia maquínica. isto é. é importante destacar que o Capitalismo é um modo – dito no sentido amplo definido acima – em que a inflexão exploradora. sobretudo. a apropriarse parcial ou totalmente do aparelho de Estado. de entidades que são suas proprietárias. mencionaremos somente algumas essenciais. o resultado de cada crise é uma redistribuição de riquezas. a antiprodução e o consumo para a extração de mais-valia econômica. foi alcançado com o barateamento e multiplicação dos produtos. Outra celebre tática é a diminuição deliberada da produção. o aperfeiçoamento das máquinas e uma nova articulação entre a força de trabalho "humano" e "não-humano". pelo aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing. megaempresas. Não é necessário explicar como a guerra sempre foi um recurso complexo para superar as crises. mas também viver com elas. Longe de conseguir – através do tipo de competição generalizada e" de cartas marcadas" que é 186 ▲ . enfim. mas. A inflação é mais um exemplo de fenômeno provocado: se. apropriação. Por último.

As conseqüências dessa incrível aceleração consistem principalmente no seguinte: 187 ▲ . o "novo" Capitalismo é. à maneira de Marx e Engels. como formações précapitalistas. em minha opinião. formas e maquinaria. responsáveis por nossa chegada a esta "Fase Superior". Esse esclarecimento parece-me imprescindível para poder discriminar de forma convincente que o "novo" do Capitalismo Mundial Integrado não implica uma transformação substancial do "velho". Também é possível aceitar que sendo a economia mercantil. a vigência de uma sociedade institucionalizada. torna-se de radical importância precisar quando e como este Modo começou e quais foram suas sucessivas ou simultâneas transformações. uma velocidade e uma eficácia totalmente imprevisíveis para os teóricos do século passado. assim como de formas sui generisde subjetividade. da Reforma e da Contra-Reforma e das revoluções européias e norte-americanas – culmina com a instauração da indústria manufatureira na Inglaterra. o nosso interesse está centrado em mostrar que as suas peculiaridades essenciais estavam préfiguradas. contudo. a primeira expressão "verdadeira" do Capitalismo na História. desaproveita e destrói em uma proporção jamais igualada. semiotização e parques maquínicos – condições essenciais e existenciais de muitas formações históricas antigas –. as anteriores. energias. muito pior que o anterior. esse sistema as paralisa. Perante uma assertiva deste porte. reprodução e antiprodução variem muito com o tempo e os lugares nos quais operam o diferente tipo de Capital. O Capitalismo propriamente dito – cuja preparação se inicia com o fim do Feudalismo e prossegue no decurso da Renascença. Então. Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os nossos dias. e das que potencial e insolitamente disporia).sua característica – uma otimização das forças produtivas de quaisquer naturezas (sejam as que verdadeiramente o mesmo suscitou. seguindo alguns autores. e não têm mudado em sua essência desde aquelas até as contemporâneas. podemos admitir. Nestas linhas. devido à revolução tecnológica e industrial. o Estado. que continuam incólumes e que as transformações acontecidas. incluem. embora sejam originalíssimas e necessitem cuidadoso estudo. em sua essência. que é possível encontrar seus antecedentes nas formações histólicas dos séculos XII e XIII. Pelo contrário. as mesmas podem ser consideradas como precursoras do Capitalismo. Pessoalmente. que é. nem nos exime de nenhum tipo de luta pela sua extinção. apesar de que suas modalidades de produções de produção. tendo a considerá-las. em suma. Partindo do princípio de que o Capitalismo é uma singular relação e composição de substâncias. razão pela qual não justifica nenhum "otimismo". e dali em diante. com uma modéstia conceitual exigida por esta síntese: quais são as principais "novidades" apresentadas pela atual "Fase Superior"? O processo da produção adquiriu.

– A maquinária da indústria extrativa. obrigando a uma substituição incessante. assim. transferindo a parte básica. trazendo como conseqüência desemprego. cibernética. Essas e muitas outras estratégias conduzem a uma divisão mundial técnica. apesar de que seus ganhos. mudança e anonimato crescente das sedes e proprietários do Capital. formam-se elites ou aristocracias de trabalhadores que passam a fazer parte do Capital fixo da empresa. empenham-se numa política de diminuição de custos produtivos. havendo indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre. lucros e renda parecem estar crescendo. Algumas dessas manobras consistem em descentralizar a produção de grandes complexos infra-estruturais caros. subemprego. – Hiperespecialização e/ou fIexibilização dos poucos trabalhadores que "permanecem" empregados com incentivos de produtividade. A força de trabalho maquinal e a exploração da mais-valia maquínica vão suplantando aquela humana. com" mãode-obra" e impostos baratos. que criam a ilusão participativa. processo esse cujo aspecto jurídico se denomina "fIexibilização". – Os grandes grupos empresariais. de Capital fixo e variável. robótica –. telemática. desfiliando-se de qualquer organismo de classe ou luta coletiva de defesa de suas reivindicações trabalhistas. também mercados pobres – compradores de bens e prestações relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –. assim como aqueles que entram subsidiariamente nos produtos e prestações altamente remuneráveis. localizam-se nos setores mundiais "em vias de desenvolvimento". da agroindústria. da geradora de produtos e serviços está transformando e diminuindo – gradual. assumindo a identidade e os in teresses desta. em que – diferente do período imperialista fordista da produção – os ramos produtivos de bens e serviços indispensáveis e "pesados". alguns dos quais operam na economia informal ou em seus próprios domicílios. participantes de baixíssimos custos e. formados segundo planos artificiosos e rapidamente "aperfeiçoáveis" que os tornam imediatamente "perecíveis" e "descartáveis". ao mesmo tempo. porém firmemente – a participação da força de trabalho "humana" nos processos produtivos. – Ênfase na geração de produtos e serviços baseados na tecnologia de ponta – informática. Desse modo. através da participação nos lucros e na propriedade – via compra de ações minoritárias e reciclagem contínua da capacitação técnica. ocultando sua concentração e o poder decisório dos tecnoburocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais. para os países periféricos. ecologicamente "suja" e altamente tributada nos países centrais. – "Terceirização" contratual de segmentos da produção pouco rentáveis para empresas menores ou para trabalhadores independentes. porém 188 ▲ . Esses setores tornam-se. mas sobretudo econômico-social do trabalho. emprego transitório e precário. Multiplicação.

até pouco tempo. velocidade. preservação e restauração do "meio ambiente". prolifera geometricamente – sobretudo como empréstimo para as contas correntes dos países "em desenvolvimento" ou emergentes. que elevam à enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada. Essa parafernália adquiriu os níveis máximos de eficiência. seguros. documentário. consumo-consumação – que incluem os de financiamento. distribuição. o Capitalismo atual provocou a privatização. Os processos de ordenamento. profissionalização e mercantilização de "quase todos" os territórios e atividades recentemente não-lucrativos ou considerados "gratuitos" ou "públicos". essa proliferação torna-se infinita no chamado "Mercado de Futuros". estabelecimentos carcerários e outros.complementares daqueles centrais já saturados. assim como capitais dos financistas do próprio país que depositam seu dinheiro nos paraísos fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. produtos. que compõem os investimentos da usura "flutuante". aparatos e funções de Estado – energia. entre outras razões. corruptos e incompetentes cuja gestão acaba sempre em grande déficit – contraído em um montante de dívidas com juros astronômicos. ao caráter instantâneo da comunicação e da informática e à sua subordinação a núcleos ubíquos. comercialização. operações administrativas e contáveis. No chamado "mercado de capitais". "fabricação" de necessidades e demandas (escassez. O lucro financeiro puro possui seu mecanismo mais pelverso nos citados interesses e no refinanciamento eterno das dívidas externas e internas dos Estados e empresas nacionais estatais. mas por sua necessidade expansiva. moradias populares. supostamente resultantes e defensores do 189 ▲ . os mesmos costumam ser governados por demagogos. às vezes dispersos e condensados do Capital monetário. educação e diversão "públicos". artifício e inutilidade relativa para o consumidor – maiores ainda que os da produção de bens duráveis e não duráveis propriamente ditos-. troca. títulos inexistentes. transporte. onde se negociam matérias-primas. A constituição de enormes e onipotentes monopólios nacionais ou internacionais – legalmente formalizados. saúde. sendo que. eram próprios dos mecanismos de "reprodução ampliada": tarefas familiares. anônimos. rede viária. Um "fordismo periférico". Como se sabe. apropriação. previdência. o Colonialismo e o Neo-Colonialismo. Não por sua real eficiência. descomprometidos e quase sempre não tributados. saneamento básico. sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História. comunicações. carência) – foram "hipertecnologizados" pelos grandes mass-media e pela propaganda. "andorinha". acionário. juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos. o Capital financeiro. falta. segurança. devido. no caso das dívidas externas do "Terceiro Mundo" por exemplo. Alguns exemplos ilustrativos são os que. esses empréstimos não são nada mais que a mesma riqueza explorada pela força durante a conquista. transitórios. divisas. móveis. Por outro lado.

estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários . nepotismo. que permita prescindir dos recursos repressivos clássicos. a rigor. a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial. demasiado caros e ostensivamente "inumanos". Finalmente. jurídicas. ou porque é manipulador dos meios de propaganda. clientelismo. e domina a condução política das nações. Em última instância. dados os vícios de "nascença" da máquina estatal. objetiva a subordinação das soberanias nacionais e respectivas populações a entidades supranacionais cujos paradigmas são o Fundo Monetário lnternacional. reiteradas vezes. entre outros. culturais e libidinais incorporadas à sua lógica-. A mencionada. ou ainda por causa do poder de seus lobbiessobre os políticos e funcionários do Estado. assim como a qualidade e quantidade de demanda e oferta. o doutrinamento persuade. políticas. sujeitos. Não obstante. Esses regimes e seus sistemas de "representação" – num sentido amplo de produção de subjetividade. criando os vícios conhecidos. semióticas econômicas. da compra de votos. da eficiência – o que não deixa de ter o seu sentido. crises autofagicamente resolvidas e também acontecimentos metamorfósicos irreversíveis e incapturáveis – toda essa grande transformação que aponta para a assunção voluntária e pacífica por parte de todos os agentes. não sem contradição. em crise no mundo inteiro. comunidades do Axioma que rege a Lógica do Capital – vêm se impondo até o presente. indivíduos. O enfraquecimento do Estado realiza-se em nome da modernização. da racionalização. fisiologismo. representativa. Esse processo se enfatiza na dissolução do chamado Estado Beneficente ou Providencial – cujas atribuições são demasiado onerosas para o Capital –. ao pagamento" correto" das dívidas públicas externas. que como explicamos. Por sua vez. esse processo. grupos. o que segundo os clássicos marxistas denominava-se "Democracia Burguesa" – são a garantia do "bom comportamento" dos povos em questão. competitiva e heterogestionária. à privatização a preços baixos das empresas e serviços 190 ▲ . já dispõe de novos n. o Capital. institucionais. hegemonia do poder econômico – o financeiro e o das grandes empresas – modula arbitrariamente os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário."Livre Mercado" e da omissão reguladora do Estado e de organismos da sociedade civil – acaba por criar e regular à vontade as convenções de custos e preços que regem esses mercados. convence e corrompe o eleitorado em si mesmo. o Estado fomenta o surgimento de cartórios eleitorais. Por outro lado. burocracia. "Bom comportamento" que implica uma administração completamente submetida ao Capital transnacional – sobretudo o financeiro –. está empenhado no desmonte. Trata-se de implantar nas nações o regime político da democracia indireta. na privatização e re-significação da estrutura e das funções do Estado.eios para reproduzir as condições de sua existência e proliferação – produção de subjetividade.

despossuídos de direitos e também de qualquer identidade-miseráveis. sem-terra. nacionais. A essa degradação e deterioramento. tais como os regimes integralistas. os EUA. no entanto suficientes para entender que. assim como subvencionou as piores ditaduras latino-americanas e africanas. de liberação das singularidades raciais. temos que acrescentar a destruição massiva da natureza. como dizia anteriormente. a banalização ou obscenidade da cultura. o carro-chefe do Capitalismo Mundial. ao compromisso incondicional com as alianças. o crescimento cancerigeno das megalópolis. o mau aproveitamento 191 ▲ . delinqüentes – é mais que suficiente para diagnosticar e avaliar a situação mundial contemporânea. finalmente. os indicadores de exploração. revolucionários ou genuinamente reformistas. Tampouco lhe foi possível eliminar totalmente as modalidades de resistência próprias dos neoarcaísmos. não tributada e salarialmente flexibilizada – das empresas transnacionais e. e depois tenta substituí-los por democracias formais ou nominais. religiosos e assim por diante. sobretudo as bélicas. se em alguns campos e setores parece que o balanço de todos esses andamentos mostra alguns "progressos" estridentes. seja com a famosa participação direta de seus "assessores" militares. sem-casa. ambientalistas. Ocorre. o esvaziamento rural. a modulação supérflua e luxuosa do parque industrial. marginalizados. seja com dinheiro e armas. porém. dominação e mistificação sui generis dessa "Fase Superior" são inequívocos sinais de um tremendo predomínio da reprodução e da antiprodução sobre a produção possível e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia. clandestinos. fundamentalistas e os totalitários – que o Capital supranacional fomenta quando lhe são funcionais. e também as do Oriente Médio. dos países "guardiões" do patrimônio do Capital. o Capitalismo Planetário Integrado tem que lidar com os movimentos separatistas – de inspiração socialista ou não –. agentes e práticas que possibilitavam suas modalidades clássicas de exploração. à "livre" radicação – ou seja. sexuais. mais que expressivos da degradação e destruição do "parque humano". A geração de um imenso contingente de excluídos da produção e do consumo. de direitos humanos. dos não-inseridos nas instituições e organizações. etárias. errantes.estatais. culturais. que a construção da megamáquina planetária do Capitalismo Global Integrado não pode prescindir por completo dos velhos equipamentos. dominação e justificação. analfabetos. Por isso. invadiu Panamá e Granada e tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o menor respeito pela autonomia que proclama-. Por outro lado. Sem considerar essas observações como um estudo profundo da contemporaneidade. procedimentos. ou pacifistas. enfermos. sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e a apropriação de mercados.

como expressei em outra parte. É exa tamente essa capacidade de adaptação plástica e ativa que faz com que a lógica. porém. Quarta Parte Se essa entidade que denominei Movimento Instituinte existe. se esse modo não é um non plus ultra. o de Carlos V.tampouco se reduz. denominá-lo de "Capitalismo Planetário Integralizante". rigorosamente falando. a um "tigre de papel". "exterior" e "interior". talvez. a não ser a convicção de uma vitória sem fim". o do "Socialismo Real" – mostra que sua decadência e sua queda não sobrevieram do seu" exterior". como foi chamado por Félix Guattari. Dissemos anteriormente que o Capitalismo é a formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as crises. Quero aqui parafrasear unia sentença do "Anti-Édipo" – texto fundamental para o que denomino de Institucionalismo – que qualifica o Capitalismo como sendo" a mescla bizarra de tudo aquilo no qual alguma vez se acreditou com aquilo no qual nunca se acreditou verdadeiramente". é que o Capitalismo Planetário Integralizante não tem mais. Pois "integrado" é um particípio passado e designa um objetivo já conseguido. "não existe reparação possível para esse cataclismo. o Grego de Alexandre Magno. O problema. a máquina abstrata geral e as micro-máquinas concretas pseudodemocráticas e cripto-fascistas do Capital sejam não tanto "ossos duros de roer". o Egípcio. Todas as forças crítico-reformistas-revolucionárias que o enfrentam atualmente estão num momento de trágico desânimo. presuntivamente perene. Para poder pensá-lo – com a única finalidade de combatê-lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar. O estudo dos grandes impérios históricos – o Chinês. acredito ser importante para o seu destino introduzir uma pequena modificação no excelente conceito de Capitalismo Planetário Integrado. no sentido geopolítico que essas palavras adquiriram nesses enunciados.das fontes energéticas e muito mais. Permito-me sugerir que seria melhor. que é quase o contrário de uma vitória futura final. 192 ▲ . sem dúvida alguma. atuar. apesar de que duvido que ela mesma se reconheça como tal. sentir. o panorama paradoxal e sinistro de decadência. como dizia Mão. coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda está longe de alcançar. Acredito que tudo isso já é conhecido por demais e serve para caracterizar. o Romano. mas uma espécie de protoplasma polimorfo e sobrevivente.e vai depender de todos os institucionalistas para que não o alcance. o de Napoleão. mas" cresceram de dentro". Decididamente. senão viver nelas e delas. complemento adequado de uma derrota sempre presente"dos experimentos socialistas às vezes impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico. O sistemático "fracasso" – e escrevo fracasso entre aspas porque. Não é que as contradições "internas" e "externas".

e até a desejam. dominação e mistificação. As cúpulas proprietárias. mas que. declinação assintótica e indefinida que se apresenta como "desenvolvimento". Foucault designa como "Forças do Fora". Por "cinismo" se entende que o "espírito" do Capitalismo Avançado – empregando literalmente a velha expressão de M. difusão e apropriação de sistemas de representações "imaginárias" que "falsificam" a realidade. e também sabe – e pode ir se adequando às suas próprias contradições. Essa não é uma" descoberta insólita". também o sabem. O Capitalismo é demasiado ágil. Os diversos estratos e segmentos da subjetividade e da sociabilidade. que cada um dos modos de subjetividade sente que contém cada uma dessas divisões e contraposições dentro de si. Se há algo que ameaça a sobrevivência do Capitalismo. e/ou se oferecem como fantasmas a serem animados pelo desejo inconsciente ou pelos interesses pré-conscientes-conscientes dos sujeitos-agentes. Sobretudo esses últimos. e assim o Parque Humano se divide entre os que possuem grandes probabilidades de sobreviver. por exemplo. Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar os mecanismos e efeitos de suas modalidades peculiares de exploração. Esse apresentar-se não se explica apenas pelos efeitos da "ideologia". os da mistificação. 193 ▲ . segundo o que se entende por sobreviver. Não obstante a "ideologia" siga cumprindo uma importante função nos circuitos pré-modernos e ainda nos modelos de reprodução ampliada do Capitalismo. pela "redação". deliberativas e executivas da megamáquina do Capital sabem. "progresso" e "evolução". secundárias do Capitalismo não estejam vigentes e atuantes. referindo-se ao nazismo. fontes da invenção do radicalmente novo. afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida. as vanguardas programadoras. O extraordinário é que a assumem. elístico. impensável e imprevisível. Sabia perfeitamente tudo aquilo que a proposta do Terceiro Reich implicava. em proporções e clarezas variáveis. Nietzsche denomina "Vontade de Potência" e Bergson como "Realidade Virtual". afirmava que "o povo alemão não foi enganado". tal como já a havia percebido W Reich quando. da Pulsão de Morte ou do Masoquismo Primário.primárias. estão sendo essencialmente reformulados. os que têm poucas e o enorme contingente que não tem nenhuma. assumem e desejam. que são "peças" de uma lógica – ao mesmo tempo exuberante e letal – que as constitui em suas funções e dela se vale. está ficando evidente o que se passou a chamar – muito discutivelmente – de "cinismo" da Pós-Modemidade Capitilista. com maior ou menor lucidez. é a potência do que Deleuze e Guattari chamam" Processo Produtivo Desejante". sem iludir-se a respeito. É notório. isto é. a encarnam. ubíquo e versátil. Não obstante a Psicanálise queira explicar esses efeitos como expressão. "ninguém nunca morreu de contradição". engendrando atitudes e ações conseqüentes. hábil. como também diziam Deleuze e Guattari. as camarilhas tecno-burocráticas.

Cabe ao Movimento lnstituinte – levando-se em conta sua suposta infinita heterogeneidade interna e sua irrestrita abertura externa – inventar os recursos e as práticas que possam empurrar o Capitalismo Mundial Integralizante além de seus próprios limites. 194 ▲ . por exemplo. Para aproximar-se do entendimento de alguns deles. senão antes interrogar: "Como consegue manter-se hegemônico e aparentemente próspero sem nem sequer esforçar-se demasiado em dissimular sua fragilidade e sua contraprodução?" Apesar de que a perplexidade dos pensadores críticos e gestores da troca é ostensiva. "psíquicos". Quando lemos o panorama mundial. Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault. da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina. sujeitos. sócius. tornando-o permeável à irrupção das forças do "fora" que são capazes. Por isso. instituições. o Mercado. "culturais". a rigor nos sentimos tentados. incessantemente. pode ser consultado o Glossário deste Compêndio. De qualquer maneira. "lingüísticos" ou "mediáticos". o Tempo Livre como subjetivados – de certo modo – e as subjetividades como "infundidas" por um Estado. é importante entender. mas afeções – como dizia Espinoza – operadas em conjunto pelo tipo de maquinismo que modula prevalentemente o atravessamento dos territórios da natureza. tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade. desejos. devemos tomar consciência de que aquela dos expertse condutores do Capitalismo não é menor. em TODOS OS LUGARES E AGORA NOTAS 1 – A definição rigorosa desses conceitos para torná-los acessíveis ao tipo de leitor ao qual este texto se destina requereria um volumoso tratado à parte. É preciso compreender que o que emerge enquanto subjetividades e sócio-institucionalidades não são efeitos específicos e pontuais de mecanismos "educacionais". Ninguém é capaz de fazer predições a médio e longo prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. a Igreja. práticas. Justamente por isso é que nos resta apenas avaliar e lutar. o Trabalho. éticas e estéticas são produzidos. como procurei fazê-lo nestas linhas.em nível de estrutura e dinâmica dos sujeitos edipianos especificamente considerados como objetos universais dessa disciplina. a Educação. realmente. interesses. o Estado. de transmutá-lo. não apenas a perguntarmo-nos – de acordo com a famosa fórmula – "Que Fazer" para transfomá-lo. devo advertir que muitos destes termos não são usados aqui no sentido estrito de sua bibliografia de origem. agentes. Indivíduos. reproduzidos e antiproduzidos pela modalidade peculiar da imanência que se dá entre esses processos do Capitalismo Planetário Integrado contemporâneo. da sociedade.

insuficiente. o filósofo brasileiro Peter Pal Pelbart. Não sei se é excesso de petulância incluir-me entre esses últimos. Tão fortemente acredito nisso que decidi catalogar este escrito numa simpática categoria inventada por um amigo. os três últimos anos possam ter trazido elementos para melhor avaliar a pertinência do que se poderia qualificar. e até vaticinantes. assistemático. suscitou em mim impressões contraditórias. e sim um" globo de ensaios". contudo que esses também possam existir. em geral. por um lado. acredito ter sido desde o início. como sempre acontece. A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do 195 ▲ . pelo que entendo. Se me atrevo a comentá-las com os leitores. à grave crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi-se agregando uma crise econômica de incalculáveis proporções que.POST-SCRIPTUM Janeiro de 1998 A releitura do apêndice anterior. às vezes pouco claro e. de cem e do que tentei dizer. não é apenas – como espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos e justificantes. por outro. e involuntariamente. não suficientemente fundamentado. escrito em 1995. quero conceder-me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito. e suas pretensões analíticas. Penso que. segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio". Durante este tempo. com benevolência. Não obstante. desgarradas e mutiladas entre as exigências pedagógicas e sintéticas do texto. exorbitantemente amplas. somente alguns poucos prenunciavam. porém não pude deixar de constatar que o "pessimismo" de cada página do "Apêndice" que antecede a este post-scriptum insistia sobre esta predição. Essas páginas de 95 me parecem retorcidas.

por último. Laos e. Tailândia. – Ou essa é uma fraude de magnitude hemisférica e configuração escalonada que vai desde os produtoresconsumidores. em muito. Vamos continuar observando muitos expertsatribuírem à "falta de dados" – porque ocultados ou distorcidos por parte das economias em questão – a surpresa e a perplexidade que a catástrofe ocasionou. podem reduzir-se a três tipos: – Ou esse é um erro regional de modelo. Esta é uma realidade clamorosa. lndonésia. entre essesexperts. sendo que em outra. Obviamente. sem ignorar diferenças nacionais. no caso dela ser correta. Permito-me fazer somente alguns comentários globais que podem reafirmar. outros às suas falências bancárias ou à desenfreada especulação imobiliária que ocorreu no seu território. passando por todos os segmentos sociais. cálculo. senão principalmente um erro radical sobre os meios de pensar a realidade. econômicos e políticos. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. tanto que está chegando ao limite de sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os investidores especulativos para que não percam seu dinheiro. Filipinas. inferior à da Meteorologia. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. ainda indefinida. essencial e inerente ao Capitalismo Planetário em via de lntegração. todos os "capitalismos emergentes". Essas explicações. planejamento que implica dos povos até os governos – desde logo. Singapura.ataque especulativo à lira italiana e à libra inglesa e o outro que afetou o México – e engloba diretamente todos os "Tigres Asiáticos" – Malásia. eventualmente. Em primeiro lugar. A idoneidade da "Ciência Econômica" e da "Economia Política" oficial capitalista não só é. alguns atribuem o flagelo à cumulação de empréstimos enviados aos países em crise.. até chegar aos organismos internacionais – desde logo. E mais: porque. ou ainda à sobrevalorização de sua moeda. substancial. e assim sucessivamente. mas nem sequer tem a humildade de reconhecer o estatuto de interfase do sistema caótico ordenado própria de seu "objeto". China e Taiwan. Com respeito à primeira hipótese. não cabe aqui uma análise excessivamente detalhada. Japão. uma ou outra tese já postulada neste livro. 196 ▲ . Coréia do Sul e. o mínimo que se pode considerar é que o destino do mundo está em mãos de presunçosos incompetentes. de outra forma. Ou a "todas" essas causas juntas e a muitas outras. a meu ver. chama fortemente a atenção. menos drasticamente. – Ou se trata de um efeito processual. Começamos pela admissão do FMI de que "se equivocou" na avaliação e condução desse assunto. tanlbém as grandes potências capitalistas. Hong Kong. Isso não implica "falha humana". a cômica discrepância que os economistas e outros especialistas mostram quando tentam explicar esse fenômeno colossal que se iniciou com uma dimensão regional. e numa dimensão mais ou menos ameaçadora..

ou como leis menores – decretos. ao qual já nos referimos reiteradamente.. respondeu: "Só Deus sabe. Em um certo sentido. em que consiste este risco. temos que assumir que o destino da humanidade este) nas mãos de delinqüentes. regulamentações. se acertada. pelo menos parcialmente. porém. "Direitos Humanos" que concretamente podem ou não podem ser cumpridos dentro do que se chama hipocritamente" condições constitutivas. normas. Fica aberto o tema da qualidade e gradualidade de imputabilidade de cada um dos envolvidos e do acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja-se mais adiante). Cardoso.O erudito "Científico-Presidente" do Brasil. simplesmente. Excepcional e/ou aparentemente. não esgotam o repertório de riscos que caracterizam as subjetividades capitalistas. solicitado a opinar acerca das conseqüências da crise para a economia do Brasil. FH. da qual a ordem jurídica imperante é uma engrenagem perfeitamente coerente (vide a plena vigência do Direito Positivo). E também. absolutamente em sintonia com a racionalidade ética e proposicional das leis nacionais e internacionais – as propriamente jurídicas ou as "internas" aos enunciados específicos disciplinares. nem som entede uma tendência delituosa de transgredir ignorara Lei – qualquer que seja a Lei da qual estamos falando. direitos fundamentais ou reais" da formação da soberania em questão.por estúpidos e ladrões que os agentes-sujeitos individuais e coletivos do Capitalismo assumem os lugares. é preciso apenas definir." Pelo que se refere à segunda hipótese. Os célebres conceitos e a análise foucaultianos acerca do atravessamento entre os enunciados – as dizibilidades – e aquilo que o autor 197 ▲ . com a qual os psicanalistas e outros teóricos enchem a boca. as leis se contrapôem a essa Lógica. de desconhecimento. tampouco são exaustivas. uma vez que não precisa aos ser demonstrado porque já o foi durante um século – que a sábia ignorância dos experts. trata-se de cumprir ao pé da letra as leis vigentes. Se a terceira hipótese está correta – e isso tenho afirmado constantemente nesse modesto e elementar livro-. ou de aproveitar os limites de seu império e de suas falhas intersticiais para pô-la à serviço – às vezes condicional. Está comprovado – e isso é o que tenho procurado. resulta evidente que as duas primeiras podem ser perfeitamente incluídas na última. mas não som ente. Não se trata. às vezes incondicional – da Axiomática do Capital.. tanto quanto a desonestidade dos agentes e das entidades. em última instância. científicos ou não. especificações. as funçôes e as práticas segundo os quais a lógica da Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona. é claro. O que mais nos deixa pasmos e surpresos no espectro das mesmas é o cinismo. foi feliz e sincero quando. A lógica dessa axiomática está. lem brar leitores. ou como leis maiores formais. assim como as três não são excludentes. ou especialmente se nos referimos a uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei".

Os segundos prescrevem" uma quantidade maior" da mesma Lógica do Estado. imanentes ao jogo de forças de uma formação histórica (por um lado). que resultam operantes somente para matizar. não são nada mais que estratégias. essas montagens dão conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo "moralismo" à Ordem Capitalista Constituída. fragmentar e recapturar as forças críticas e metamórficas. de Entre vários requisitos. omissa e passiva" 198 ▲ . desmobilizar. aos quais atribuem todos os méritos da Modernidade – que. a implicá-las em dispositivos nos quais a modalidade organizativa e os objetos a serem conquistados resultam relativamente irrelevantes e/ou absorvíveis pelo Capital. sempre foi consubstancial ao Capitalismo. bem distantes dos "ideais". o resultado de heróicas e cruentas lutas da humanidade. pois não se conhece outra-. e o diagram a. está na virtude de chamar a atenção – apesar de que unilateral e exagerada – sobre a estratégia de resistência nãoconsumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização. em sua maioria. O mérito relativo do pensamento de alguns autores. supostamente apoiado por uma "realidade" que o panorama da Axiomática do Capital delimita e modula. Em sua essência.chama visibilidades – os dispositivos do poder. como as "menores". Principalmente não deve tranqüilizar ninguém acerca da perfeição do modo econômico e de seus rebrjmes – jurídico-políticosubjetivo e outros. Os primeiros fazem uma apologia do individualismo. especialmente aquelas que se consideram concessões – geralmente tão inevitáveis quanto mínimas. não deve enganar ninguém. Outro caso ilustrativo é a luta da economia de mercado e democracias representativas contra as "massas ausentes". Que o lado "progressista" dessas leis – tanto as "maiores". da imprensa livre e da competição liberal e neoliberal. os neo-arcaísmos e o terrorismo. visando produzir as condições mínimas nas quais essa última possa subsistir – e encontrando viabilidade. sem considerar os seus defeitos. puramente nominais. possibilitou o seu começo e ainda lhe é imprescindível. garantindo sua reprodução simples e ampliada tanto em seus aspectos econômicos como em todos os outros que já mencionamos. ou ainda. complexo de forças informais (por outro) – dão conta admiravelmente de alsrumas das maneiras com as quais as funções reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema. sempre considerados irrealizáveis. Ao menos numa vertente dominante de sua essência. o que é mais astuto. crescer –. Essas concessões são invariavelmente tardias e de aplicação sujeita ao horizonte do "possível". obviamente. Um exemplo ilustrativo a esse respeito são as contendas entre os partidários neoliberais do "Livre Mercado" e os defensores da "Regulação Estatal". mitigar ou amenizar os efeitos fundantes da Lógica do Capital – expresse. estão destinadas a desorganizar. e como tais são admiráveis. que começou muito antes daquela do Capital. como Jean Baudrillard.

heteróclito e bizarro de colisões. "Todas" as Máquinas de Guerra e as Linhas de Fuga simultaneamente econômicas. isto é. A imanência entre as potências e processos de desterritolialização e reterritorialização capitalistas movimenta-se sem cessar. filosóficas. porém acidentais. É claro que espero e desejo fervorosamen te ser explícito dizendo isso. da seguinte maneira: Os militantes e pensadores instituintes contemporâneos passam por divergências e discussões dilemáticas – que freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de se a luta deve dar-se a partir de dentro ou de fora das organizações do Estado. políticas. instituições. e muito menos estática. como infinitos agenciamentos e acontecimentos no seu combate contra as equações variáveis de reprodução e antiprodução do Capital. Veja-se. seu entusiasmo e sua alegria – como dizia Espinoza – foram. segmentos. que vão desde o preciso até o indecidível. científicas. Mas "ninguém morreu de contradições". Diante de tudo isso. complementada pela irracionalidade monstruosa. apesar de apresentarem uma triste originalidade. não é pleonástico repetir que o processo do Capital não constitui uma unidade monolítica. o mundo atual é um poliverso vertiginoso. devido tanto às resistências que minam o processo de suas façanhas quanto à dureza de suas vicissitudes. organizações. idiossincrásicas – na medida em que são individuações. Essas estratégias. heteromorfo. vejam-se os memoráveis capítulos da "Revolução 199 ▲ . agentes dotados de uma identidade mais ou menos precisa e circunscrita. expressões de singularidades intensivas –. apenas descritivamente. nacionais. Assim. habilmente engenhada para propor e propiciar contendas. e mais enfaticamente. heterogêneo. Não somente ao nível das contradições antagônicas e agônicas do que Deleuze e Guattari chamam de "Superfície de Registro e Controle" composta por territórios. mas que têm aprendido a viver em crise e da crise. com uma velocidade que passa de geométrica para exponencial. sem a menor intenção de desvalorizar nenhuma forma de luta tradicional ou nova que as forças da Vida vão inventando. "absurda" e intempestiva dos fundamentalismos e do terrorismo. senão. não deixam de ser uma resposta cega às manobras orquestradas pela Máquina Abstrata do Capital. a ferocidade das contraposições recentes e suas conseqÜências entre o Capital Financeiro "apátrida" volátil. As preocupações dos militantes acerca do grau de capacidade de recuperação que o Capital exerce sobre as mesmas geralmente não são mais do que hesitações compreensíveis. locais. jurídicas. Perante essa constelação. são e serão "o sal da terra". o pouco que proponho enfatizar aqui pode se resumir.das massas. conexões disjuntivas inclusas. creio eu." entrem numa provocação desviante". proteiforme. dominados e mistificados" comprem a briga". como se diz pitorescamente falando. o Industrial e o Latifundiário – tanto nos domínios "globais" como nos regionais. artísticas. suas transversalidades. do Capital ou da chamada Sociedade Civil (a esse respeito. de maneira que os explorados. sinérgicas e potencializantes.

não faz senão demonstrar o uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política – em grotesco contraste com suas declarações neoliberais de "livre-mercado" e de democracia. Cabe. somente a nação que continua sendo o assento das maiores sedes centrais do Capital mundial. O crescimento de quase 4% de sua economia em 97 e o decréscimo de seus índices de desemprego. se me permitem uma digressão. que são as que escapam a toda imaginação. reiterarei que no momento a mesma tem respeitado. porém.Molecular" de F. Contudo. inviável quanto à operacionalização. Guattari. quando estudava a crítica marxista da Economia Política. apesar de tudo. apesar de que isso não o exonere inteiramente das conseqüências imediatas da crise.No espectro que vai do pólo dos" apocalípticos". Itália e Espanha mantêm-se relativamente estáveis. França e Reino Unido. Em função do que foi exposto acerca da crise presente. e por ser uma hipótese de "alto nível". o modo capitalista e seu Sistema 200 ▲ . ubiqüidade com fragmentação dispersiva. entre outras razões porque insiste em enfatizar-se como intensiva. Rememoro que em minha juventude. Outro desses dilemasé o já célebre que se trava entre os "reformistas" e os poucos "revolucionários" que ainda sobraram – seja como for que se defina revolução. reforçar que a reivindicação idiossincrásica nunca acaba de propagar-se como uma onda extensiva. acrescentarei quanto segue. se me lembro bem. mesmo que todos os países enumerados apresentem altíssimos índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal-. tinha sérias dificuldades para entender tanto o conceito da tendência à diminuição da taxa de extração da mais-valia quanto a contestação que os economistas positivistas faziam a essa teoria. assim como de seu principal aparato bélico-repressivo: os EUA. confundindo singularidade com isolamento. Canadá. verificação e falseamento. por isso carecia de sentido epistemológico. que consegue manter-se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia. antes de concluir com uma nova tentativa de síntese. por um lado. Também Alemanha. empenham-se em reivindicar que. baseava-se na tese de que tal indicador era in1possível de ser medido empiricamente. os de "O Estado e o Inconsciente" de René Loureau e até alguns capítulos deste livro). déficit interno e externo. O argumento principal. discretos indicndores de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva. existem inumeráveis posições intermediárias que dão espaço a quantas vontades de transformação seja possível imaginarassim como às melhores delas. Em conseqüência disso. Lembrarei também que alguns adora dores do neoliberalismo. linha de fuga com evasão. tanto os movimentos chamados "Alternativos" quanto a Esquerda tradicional parecem perder de vista os macro-indicadores inequívocos da deterioração do "todo" capitalista. aos "integrados" – bem intencionados – por outro. de forma aceitável. bastante afetados por essa debacle setorial insuspeita.

desde a Segunda Guerra Mundial até hoje. o milagre inédito de reduzir em quase 50% a pobreza asiática. destinado a inversões especulativas em outros mercados mais lucrativos e/ou estáveis? Alguns famosos economistas acabam de declarar. A iminência da segunda Guerra do Golfo e da terceira Mundial não é apenas hipótese de ficção científica. Alemanha. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam". o qual. em primeiro lugar. porque assim a economia mundial se corrige e ajusta". Diante dessas afirmações. como se 201 ▲ . Por último: como não requerer (apenas porque não sei se isso já foi feito) um levantamento cuidadoso e verídico dos coeficientes de concentração de riquezas que têm sido realizados e perpetrados nesses países. a fuga desse Capital acumulado. Japão e Itália começaram seu crescimento a partir da inversão massiva do Capital "aliado" – novas versões do Plano Marshall e da 'Aliança para o Progresso" – e nas condições políticas severamen te repressivas das nações derrotadas e "ocupadas". por exemplo. como é notório.é apropriado pontuar que boa parte do desenvolvimento dos "Tigres Asiáticos" processou-se sob governos ditatoriais e autoritários.. "é bom que as coisas se precipitem. sustentam que apesar da instabilidade persistente. Essa afirmação adquire relevância pelo contraste com a decadência dos países do ex-bloco do Socialismo real. ao final. Afinal. De outro lado. Ironizam.moratórias e outros flagelos. a parte do Produto Bruto Mundial correspondente aos países estremecidos pelo "sismo" alcança somente 6 ou 7% do total mundial. os mecanismos de "contágio" sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa. assim. pelo fato de serem aliados dos países centrais nas guerras anticomunistas.. Outros têm manifestado que. como Coréia e Vietnã. está em pleno declínio. Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é. nas falências atuais. mesnlO que uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à geração de força de trabalho cnpacitada e eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre. Em segundo lugar. torna-se importante esclarecer que. e teve uma base de lançamento nada depreciável.Democrático Nominal conseguiram. que não precisamos nos preocupar demasiado com as falências generalizadas. a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda de falências. Ora: que Economia Mundial é essa que entra em pânico por um "acidente" que afeta apenas 7% de sua produtividade anual? O verdadeiro pavor não consistirá de fato em que uma das suas derivações pode ser a estrepitosa baixa de preços dos produtos asiáticos (dum ping) o perigo iminente de benefício dos consumidores e prejuízo dos e inversores? A quais maldades políticas terá que se apelar para evitar essa presuntiva "injusta" festa dos compradores? Com certeza não será "democrática" nem "livre-empresista".

sem descartá-las por serem ingênuas e menos procedentes. A hegemonia da Axiomática do Capital consegue. não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais-valia o que não se pode mensurar!!! Como já advertiram Deleuze e Guattari. às vezes. que é o preço de sua futura "recuperação"? Se os experts e seus organismos têm sido incapazes de conhecer as cifras necessárias ou de elaborar os modelos e as simulações que lhes perm. Pelo fato que já mencionamos antes dessa interessante questão da correlação inequívoca entre ética. que em vão se reclama limitar jurídica e institucionalmente. "liberdade" mercadológica e "liberdades" políticas e humanas. sendo que vários dos mencionados "desenvolvimentos" capitalistas realiza ram-se duran te regimes cripto ou ostensivamente despóticos – veja-se em outro contexto geopolítico a trajetória do Chile e do Peru. suas formas monetárias e informáhcas.itiriam predizer essa "quebradeira". que não é outra coisa mais que o pleno reinado universal – ostensivo. estridente. "estrutural". São as seguintes: por que tomar como referência comparativa e justificante das excelências liberais o Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é um tema ainda digno de muita polêmica? Por que confiar na "natural" afinidade entre Capitalismo e Democracia Nominal. de forma convincente. e se funda. "em última instância". no predomínio nebuloso do Capital Financeiro mundial – completamente independente de sua base material – e sua desregulação total. mafiosos e delinquenciais em geral – tenha um sistema político dotado de Assembléias Populares Comunitárias Cantonais?! A "plena" democracia suíça "perpetrou" um plebiscito. Quanto custará ao povo desses países "novos ricos" quebrados a hipoteca dos anos vindouros.diz eufemisticamente. segundo o qual votouse a favor de continuar mantendo o segredo sobre suas contas bancárias. Movimentos esses 202 ▲ . por que devemos acreditar que são ou serão aptos a quantificar. descarado – da Máquina Abstrata do Capital e sua Axiomática Suprema? O que manda é o Equivalente Geral. incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão! Segundo me parece. subordinando à sua força quase tudo que existe como realizado no horizonte do existente. existem algumas outras perguntas-chave que precisamos nos fazer nessas circunstâncias. narcotraficantes. tanto as empresas nacionais e transnacionais quanto os organismos estatais e supra-estatais operacionalizaram seus "modelos" predominantemente com base em movimentos táticos de "invenções" e "sangrias". não é apaixonante que a Suíça – país que deve uma parte indefinida de sua prosperidade aos depósitos bancários de boa parte dos capitais "espúrios" do mundo: evasão tributária. tanto as vantagens do caminho capitalista "eleito" quanto o montante exigido para sua recuperação? Pelo visto. ditatoriais. Como explicar esse império inquestionável a não ser pelas peculiaridades da globalização.

porém. que constituem os domínios do real. sujeitos. organizações. Que Cuba. logísticas. por bem ou por mal. Revolucionários" – que são o "motor" da Produção ou a Produção em si – com aquela dos reprodu ti vos e antiprodutivos. mas devem estar. nem tampouco a "participação" na democracia direta. que nunca o "espírito" das mesmas esteve melhor resumido que na deslumbrante fórmula – " A cada um segundo suas capacidades e a todos segundo suas necessidades" . equipamentos. sem considerar com profundidade que a tal prosperidade é fruto da participação dessas nações na espoliação colonial e neocolonial e da inexistência de bloqueios sobre suas economias. ajuda a demonstrar que. e assim por diante. quaisquer que sejam as modalidades históricas que os dois termos dessa diferenciação adotem. neoliberal. não tem muita diferença entre as variedades de Capitalismo e de Socialismo real. ou ainda a "popular". existe o hábito de invocar o sereno bemestar da Suécia. rigorosamente subordinados ao primeiro. estratificados. hierarquizados. nem o saber e o poder de seus políticos profissionais e tecnoburocratas. – Não se deve confundir a democracia indireta e representativa liberal. cuja previsibilidade e precisão brilham pela ausência e são decididamente contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda. isto é. semióticas. com o âmbito do virtual atualizável. – Não se pode esquecer jamais. quaisquer que sejam as limitações. Folgo em dizer que o incremento das forças produtivas de todos os tipos – incluídas as forças teóricas e expressivas – mostra que este enunciado 203▲ . com o embargo que dura mais de três décadas e oprimida por uma "Ditadura do Proletariado". táticas ou técnicas históricas de cada iniciativa produtiva-desejante-revolucionária. com a auto-análise e a auto-gestão. obteve índices parecidos. social-democrata ou socialista "soft". – Não se deve confundir a morfologia e a dinâmica das instituições. Dinamarca. mimetizações e vacilações estratégicas. estabelecimentos. Noruega. O ceme do problema – por mais pobres e óbvias em que essas observações resultem – reside no seguinte: – Não se deve confundir a lógica dos processos que Deleuze e Guattari chamam" Produtivos. – Não se deve confundir – mesmo levando-se em conta as singularidades históricas das citadas modalidades – a separação entre meios e fins que é própria da ética dos modos e sistemas capitalistas com a imanência entre meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte. Holanda. os componentes territorializados. Desejantes. Como último argumento. Não se pode dizer que os dois segundos sejam absolutamente contraproducentes e elimináveis. Finlândia e alguns ou tros países com fabulosos índices de saúde e educação. agentes e práticas. do possível e do impossível.invariavelmente improvisados e incidentais.

1975. in: Revista Vozes n° 4. Zahar. vários autores. C. R. Ed. Quehacer y Deseo". in: "La Intervencion Institucional". Lapassade. México. "EI Sociopsicoanalisis Institucional". Ed. "LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?". Mendel. ''Análise Institucional: Teoria e Prática". in: "Saber. Vozes. Rio de Janeiro. Campo Abierto. Falias. Ed. 1976. 1973.).pode e poderá ser formulado de infinitas novas maneiras. . Poder. Ed. Vozes. Cedisa. Barcelona. 1984. Petrópolis. 1978. 205▲ "Sociopsicoanalisis lnstitucional". 1977. Lapassade. Ed Nuevillmagen. Francisco Alves. Organizações e Instituições". 1979. Baremblitt. Cuillerm e Y. São Paulo. Ed. Mendel. Ed. Bourdet. Rio de Janeiro. Lancetti. Petrópolis. "Grupos. e que isso exige aplicar às definições de capacidades e de necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados. "Participacion y Autogestion". G." 204 ▲ BIBLIOGRAFIA BÁSICA Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura: "Apresentação do Movimento Institucionalista". 'Autogestão: Uma Mudança Radical". in: Rev. G. Ed.). 1977. 1989. R. 1971. coord. Ed. Madri. Lourau. G. R. Kankhagi e O. Rio de Janeiro. apresentação e introdução. Baremblitt. J. V R. 1987. Hess. "O Inconsciente Institucional". Nueva Vision. Ardoino (org). Ed. Paris. "EI Analisis lnstitucional". BuenosAires. 1973. Petrópolis. A. Buenos Aires. Presses Universitaires de France. Ed Vozes. 1973. Tomasetta. tomos 1 e 2. Lapassade. uma variação que me ocorre para a palavra-de-ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte: ''A cada qual segundo suas capacidades de lograr que – a todos segundo suas necessidades – seja uma necessidade para todos e um desafio para cada um. "EI Analizador y el Analista". México. Pour. Saidon (org. 'Analisis Institucional y Socioanalisis". J. Hucitec. Amorrortu. G. Lourau et ill. Ed. Ed. in: "Saude loucura" nOl. 1975. Para terminar. Espaço e Tempo. coord. "[Analyse Institu tionnelle". M. Ed. G. Ed. G. A. Paris. ''Análise Institucional no Brasil". Buenos Aires. 1988. Autlúer e R. 1981. L. G. 'A Análise lnstitucional". n° 62-63. Baremblitt. ''Alguns elementos teoricos para pensar Ia cuestion de Ias derechos humanos y Ia violencia institucional". Lourau et aI. Cuigon (coord. Amorrortu.

1978. R. 1977. Ed. Paris. Ed. 'As Três Ecologias". Francisco Alves. Paris. Ed. "Enquete par un Psychanalyste sur Lui-Même". Fundamentos. 1988. Deleuze e F Cuattari. 1976. "EI Manifesto de Ia Educación". Ed. Lafont. em absoluto. 19~O. 1983. F Cua ttari. F Cuattari e S. Ed. Siglo XXI. e não pretendem. 1981. 206▲ BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA A bibliografia de consulta é vastíssima e pode ser classificada de acordo com a maior ou menor proximidade que tenha com a linha teórico-prática adotada neste livro. 1981. 1976. Deleuze e F Cuattari. Ed. "Micropolítica – Cartografias do Desejo". excluímos da literatura concernente à antipsiquiatria. Lourau. Cedisa. "La Bio-Energia". R. Ed. Os textos aqui classificados são apenas os mais próximos. Lafont. Pre-Textos. Ed Payot. Ed. Rio de Janeiro. Por motivo de focalização. "La Classe lnstitu tionnelle". Ed. Península. 1973. Payot. "Empirismo y Subjetividad". Paris. Ed. Ed. Península. Ed. Vozes. Ed. "Quand plus rien ne va de soi". Ed. Ed. Papirus. Buenos Aires. Campinas. Payot. Paris. Granica.1975. Ed. Obras de Gérard Mendel: "La Rebelion contra el Padre". "O Anti-Édipo". Madri. R. Barcelona. Ed. Ariel. São Paulo. Ed. à psicologia organizacional e à psicologia grupal. Campinas. 1974. 'Anthropologie Diffierentielle". Paris. Barcelona. Cranica. Brasiliense. "Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". 1972. F Cuattari. 1988. 1975. Barcelona. em colaboração com R. 1988. "La Descolonizacion dei Niíi. Sigla XXI. Obras de Georges Lapassade: "Chaves da Sociologia". 1975. Papirus. Paris. 'A Revolução Molecular". F Cuattari. Ed. Ed. Barcelona. 1977. 1985. 207"54 Millions d'Inclivid us sans Appartenance" . 1986. 2ª ed. Paris. "l. Rio de Janeiro. Valência.o". Ed. Obras de Gilles Deleuze: "Para Ler Kant". Payot. Barcelona. 1972. Paris. esgotar a lista dos possíveis.lmago. "O Inconsciente Maquínico". Lafon t. Ed. Ed. Ed. "Pour une autre Societé". Madri. G. 'Au togestion Pedagógica". Petrópolis. 1986. Ed."Psicoanalisis y TransversaJidad". "La Entrada en Ia Vida".:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". "La Crise est Poli tique. "On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Barcelona. 1977. Rolnik. Ia Poli tique est en Crise". 1976. Ed. Payot. G. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. "La Crisis e Ias Ceneraciones". Cedisa. . 1975. Stock. F Cuattilri. Barcelona. 1972. 1981. "Mil Platôs".

Obras de René Lourau: "LInstituant Centre I. 1990. 1988. Ed. Paris. Ed. I. Anagrama. 1974.19bO. "Nietzsche y Ia Filosofia". Paris. Galilée. "Sociologue a Plein Temps". Forense Universitária. Rio de Janeiro. 1969. 1976. I. Ed. Barcelona.:epi. Pre-Textos.:Illusion Pédagogique". "Spinoza y el Problema de Ia Expresión". Pa. "Les Lapsus des Intellectuels". Ed. Alençon. 208 . 1979. Rio de Janeiro. 1969. 1984. com F. Ed. "Le Analyseur'Lip"'. 1987. Pre-Textos. R. Madri. Ed. 1972. Tusquets. Des Mots Perdus. Murad.:Institué". "Pericles y Verdi". "Nietzsche". 1975. 'Autodissolusion des Avant-Gardes". 1971."Diferença e Repetição". "I. "Spinoza: Filosofia PréÍctica". Ed. 1971. "Politique et Psychanalyse". 1975. 1989. Valência. UGE 10/18. I. "Deleuze e a Filosofia". Paidos.1977. "Le Gai Savoir des Sociologues". Ed.:epi. "Lót. "Foucault". 1987. Ed. "Espinosa e os Signos".iento". 1980. Ed. Res.. "EI Bergsonismo". Estuclios 1 y 2. Ed. "Les Analyseurs de l'Église". "EI Estado y ei Inconciente". 'Apresentação de Sacher Masoch". Guattari. F Fourquet e L. Ed. Barcelona. "Proust e os Signos". "La Imagen-Movim. Paris. Rio de Janeiro. Ed. Ed. 1974.rica do Sentido".. Ed. Ed. 1984. Gua ttari. Buenos Aires. Graal. 1976. 1983. 'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". Antrophos. Barcelona. Valência.idos. Graal. 1987. Barcelona. UGE 10/18. São Paulo. Antrophos.. Ed. Perspectiva. "Diálogos". Ed. Ed. Privat. Gill. Ed. Parnet. em colaboração com F. Livraria Taurus Editora. Ed. "EI Pliegue". Lisboa/1981. G. Rio de Janeiro. 1989. Barcelona. 1981. Ed. Catedra.. Edições 70. Porto. Ed. Machado.. Kairos. BuenosAires. "Los Equipamentos de Poder". Imago. Paris. Paris. Ed. Rio de Janeiro. Paidos. Toulouse. Ed. Ed.:épi. Ed. "Kafka/ por uma Literatura Menor". 1977.1977. Barcelona. Muchik. em colaboração com C.

Ed. J. 1971. 1990. 1969. M. de Board. tomo XXVI. "Subjetividad. "Instituição e Poder". L Menzies y E. F. Ed. 1976. Ed. P. M. Paris. Guilhon Albuquerque. L. Ed. Identificaciones". 1975. J. Nevomar. México. Castilho Pereira. Buenos Aires. 1980. Paris. A. A. 1980. A. Ed. 1969. "O Adoecer Psíquico do Subproletariado". Buenos Aires. Matrajt. Rio de Janeiro. "Metáforas do Poder". Ed Busqueda Grupo Cero. Paz e Terra. Rio de Janeiro. in: Revista de Psicoanalisis. Abeledo-Perrot. México. Ed. R. De Brasi. A1thusser. Segrac. A. J. "Metáforas da Desordem". A. Cuernavaca. 3ª ed. Ed. Rio de Janeiro. Graal. Ed. Ed. F. F. C. Ed. 1976. M. 1978. "Nuevos Escritos". C. Buenos Aires. Passeron. jan. A. Buenos Aires. "Psicologia de Ias Instituciones". Guilhon Albuquerque. São Paulo. Haurion. 1974. Achiamé/Socii. 1978. "Sexualidade na Instituição Asilar". "Emergentes de una Psicologia Social Sumergida". Bleger. nº 1. Matrajt. Paidos. Madri.Obras de outros autores "Psychiatrie et Psychothérapie Institutionnelle". coord. Alves. Etzioni. coord. Oury e A. Paidos. 1980. Paidos. Savoye e R. Ed. J. Birman. J. 1966. Guilhon Albuquerque. 1986. J. Buenos Aires. 1980. 1977. L. A1thusser. 'A Reprodução".Pedagogia dei Siglo XX". 1980. Barcelona. Rio de Janeiro. "La Teoria de Ia Institucion y de Ia Fundación". Rio de Janeiro. Ficha de Ia Nueva Vision. Fundamentos. Ed. Oury. Jaques. . 1985. Ed. Hess. Montevidéu. A. Laia. Horme. "Replanteo". Ed. 1968. "Los Sistemas Sociales como Defensa contra Ia Ansiedad". J. Ulloa. "EI Psicoanalisis delas Organizaciones". "Organizações Modernas". UAM. Bordieu e J. "Ideologia y Aparatos Ideologicos de Estado". Ed. Pioneira. Buenos Aires. "Introduccion a Ia Terapia Institucional". "Hacia una . Meridiens Klinscksieck. Scherzer. Ed. "Salud Mental y rrabajo". "Psicohigiene y Psicologia Institucional". Vasquez. Grupalidad./mar. Siglo XXI. "Perspectives de l' Analyse Institutionnelle". Bauleo. Ed. W C. 1987. Chazaud. Belo Horizonte. de Ia Banda Oriental. Ed. Payot. Achiamé Socii. "Contrainstitucion y Grupos". Ed. J. Barcelona. 1988. BuenosAires. 1990.

Paris. Epi. Altoé. 1974. Movido pela inquietação daqueles que não se contentam com o conforto garantido pelo reconhecimento dado aos especialistas consagrados. Fd. 4ª ed. 1990. A. Buenos Aires. Hogar deI Libro. Xenon. Busqueda. Ed. E. a Filosofia. 1985. da qual é livre-docente. Periódicos. ''As Instituições e os Discursos". Lancetti. BuenosAires. Renaudot. Ed. Esse percurso teve início há 40 anos. Ed. Tempo Brasileiro. a Arte e também os saberes populares. R. e foi-se tornando mais rico e complexo a cada momento em que o médico buscou o cruzamento da Medicina com outras áreas. Ed. Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. "m Proceso Grupal – Dei Psicoanalisis a Ia Psicologia Social". Ed. Revista Connexions. Baremblitt vem traçando um longo e fecundo percurso como médico psiquiatra.209 ▲ "Infâncias Perdidas – O Cotidiano nos Internatos". Esse olhar generoso e ao mesmo tempo rigoroso sobre os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma . S. Hucitec. Zahar. 1989. Revista Tempo Brasileiro n° 35. professor. cerca de 20 números. tomos 1 e 2. 210 O AUTOR Da formação em Psiquiatria à militância junto ao Movimento Instituinte Internacional. "Sociopsicoanalisis e Institucion". esquizoanalista. Barcelona.1978. Ed. Gregorio F. Paris. Nueva Vision. Toulouse. Ed. a Sociologia. Payot. Ed. Rio de Janeiro. psicoterapeuta. Paris. Rio de Janeiro. cerca de 30 números. SAI. Paris. cerca de 20 números. 1984. Martin. coord. Pichon-Riviére. Privat. pesquisador. Ed. ''A Pesquisa-Ação na Instituição Educativa". Rio de Janeiro. quatro números. esquizodramatista e escritor em diversos países da América Latina e Europa." Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui". Ed. Revista Saudeloucura. Ed. Revista Lo Grupal. A. Gregorio Baremblitt buscou sempre expandir sua atuação até as fronteiras da Medicina com a Política. cerca de 30 números. São Paulo. oito números. Revista Sociopsychanalyse. analista e interventor institucional. na Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires. Barhier. Revista Autogestions.

1988. Hucitec. em colaboração com outros autores.ampla produção intelectual. 1998. "O Inconsciente Institucional". Ed. Ed. "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria e Psicanálise". Ed. Sua atuação no campo da saúde mental inspirou outros profissionais a criarem a Fundação Gregorio Baremblitt. mas também diversas ações nos planos de coletivos diversos: em 1970. São Paulo. Helguero. 212 . Ato Político". Buenos Aires. Belo Horizonte. Segrac. Buenos Aires. Belo Horizonte. "Cinco Lições sobre a Transferência". 1982. do qual é atualmente o coordenador-geral. Buenos Aires. Ed. 1974. Rio de Janeiro. Instituto Félix Guattari. Buenos Aires. Busqueda. Há também numerosos prólogos e artigos publicados em revistas científicas. 1980. "La Interpretacion de los Suenos: Una Técnica Olvidada". 1978. primeira organização no mundo separada da Associação Psicanalítica Internacional por motivos políticos. 1987. Socioanalisis. BuenosAires. Gregorio foi membro-fundador do grupo psicanalítico argentino denominado Plataforma. Rio de Janeiro. Traduzido para o espanhol. o Instituto Brasileiro de Psicanálise. Matrajt. uma das primeiras entidades do país a instituir formas de tratamento mental em sintonia com os ideais da Luta Antimanicomial. "El Concepto de Realidad en Psicoanalisis". Ed. "La Cura". Ed. Ao se estabelecer no Brasil em 1977. ''Ato Psicanalítico. 1976. Vozes. "Cuestionamos". em Uberaba (MG). em colaboração comM. no Rio de Janeiro e em São Paulo. culturais. Global Ground. Gregorio é autor de numerosos livros e artigos científicos e organizador de seis congressos internacionais em sua área de atuação. 1991. Ed. Hucitec. em colaboração com outros autores. Grupos e Instituições (Ibrapsi). Ed. "Grupos. Ed. Quehacer yDeseo". 1984. Poder. "Saber. 211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR "Introdução à Esquizoanálise". GraalIbrapsi. em colaboração com outros autores. correntes e questões do Movimento Instituinte para aqueles que estão iniciando seus estudos e ações nesse campo. 1972. em colaboração com outros autores. Teoria e Técnica". Ed. "Psicoanalisis: Teoria y Practica". Este Compêndio é fruto de um grande esforço para traduzir as temáticas. em colaboração com outros autores. Nueva Vision. Ed. Ed.1971. sempre ancorados em duas palavras-chave: auto-análise e autogestão. Universidade Autônoma do México. Traduzido para o espanhol. Petrópolis. Ed. livros e jornais da América Latina e Europa. Cidade do México. fundou. São Paulo. "Lacantroças". Centro Editor Latinoamericano. e o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte.

Belo Horizonte. Baremblitt de Uberaba (MG). Cep 30240-010. saúde. trabalho. mas com ênfase na prática clínica. e suas atividades têm como inspiração a Utopia Ativa que guia a obra de Gilles Deleuze e do homenageado: a Esquizoanálise.br ou pelo site www. justiça.INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (MG) é uma organização não-governamental fundada no ano de 1996.hpg.ifgorg.com. O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (IFG-BH) também promove cursos e grupos de estudo. supervisiona trabalhos técnicos e práticos. analista institucional e esquizodramatista. e-mail guattari. O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F. que é também a do Movimento Instituinte Internacional.1083 e 3221. e está aberto a todos aqueles que compartilham de seus ideais. políticas públicas etc. O Instituto desenvolve atividades de prestação de serviços em análise e intervenção de organizações. e junto a um grupo de colegas institucionalistas. Sua sede fica na Rua Herval. ecologia. MG. O Instituto foi criado pelo autor deste Compêndio – o professor de Psiquiatria.br . sendo todas as atividades pautadas em sua orientação. movimentos e grupos públicos e privados. Os interessados em entrar em contato com o Instituto Félix Guattari podem fazê-lo através dos telefones (31) 3284. organiza eventos.com. terapeuta e institucionalista Gregorio Baremblitt. um dos introdutores das idéias desses autores em vários países da América Latina e Europa – em parceria com Margarete Amorim. conduz pesquisas. governamentais e não-governamentais que atuam nas áreas de educação. psicóloga. Seu nome é uma homenagem ao célebre intelectual e militante francês Félix Guattari. edita e distribui livros e gerencia programas sociais.bh@terra. 267 – Serra. O IFG-BH tem diversas parcerias com organizações nacionais e estrangeiras afins.7352 (Fax). arte. 213 ▲ . estabelecimento este que já conta mais de uma década de existência ancorada em uma orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte.