Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática

Gregorio F. Baremblitt
5ª.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992 4

SUMÁRIO 5 INTRODUÇÃO.............. 11 CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13 CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 CAPÍTULO III: As histórias..............37 CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 GLOSSÁRIO..............133 APÊNDICE..............174 POST-SCRIPTUM..............195 BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207

AGRADECIMENTOS No referente à primeira edição deste livro, o autor dá aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi uma versão. Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou inúmeras tarefas que possibilitaram sua publicação e distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com a revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor também agradece aos membros e funcionários do Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contribuições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente. O autor é grato a todos os amigos: professores universitários, pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da autogestão que colaboraram na distribuição das diversas edições deste escrito.

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11▲ . Se se deseja ser coerente com os valores do Movimento. Curso que. ainda está para ser produzida.INTRODUÇÃO Este livro corresponde à versão escrita de um curso proferido em Belo Horizonte no decorrer de 1990. organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. por sua vez. foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. heterológico e polimorfo de orientações. apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais. O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo. Essa vocação libertária. enquanto o último foi escrito como artigo independente. entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua aspiração a deflagrar. Os seis primeiros capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o curso. sua Pedagogia exige uma originalidade da qual já existem muitas tentativas. mas que. o estatuto epistemológico e jurídico absolutamente singular e a infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tarefa de ensiná-lo. ao mesmo tempo. ainda inédito.

Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar. Pavlovsky. Matrajt. ou. integrada predominantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil. começar verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta. importantíssimo para o povo brasileiro. proferido com uma metodologia tradicional. Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória. um livro especial. sejamos realistas. a bibliografia final. Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados. tem apenas o propósito de aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do Institucionalismo. 12 ▲ . foi inspirado pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer complexo e arriscado. De Brasi. Malfe.Este curso. Bleger. acredito que este livro seja estimulante. no meu entender. Bauleo. Ulloa. em algum momento. proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para os futuros institucionalistas. Kaminsky. devo destacar as correntes latino-americanas de Pichón-Riéver. mas. Para quem decidir continuar. Mais informativo que formativo.

da maneira mais simples e mais didática possível. Eu diria que existe o que se chama de "ideais máximos" do Movimento. Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte. pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. simplificá-las. Contudo.Capítulo I O MOVIMENTO INSTITUINTE. E é a essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora. Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que. como o nome aproximativamente indica.. pois se procura apresentar uma exposição de nível médio. predominantemente. a intenção é. há algumas que são relativamente fáceis de se colocar. teremos ocasião de complicar as coisas. A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam. um leque de tendências. Agora. é um conjunto de escolas. Podemos chamar a isto também de 1 3▲ .. para ser entendida pelo maior número possível de pessoas. Em capítulos sucessivos. Não existe nenhuma escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte.

então. Ou seja. ou uma medieval com a nossa sociedade moderna. Esses conhecedores têmse colocado. Esse saber. apoiar e deflagrar nas comunidades. nossa civilização. Se compararmos. em geral. ter produzido uma soma de saberes que propiciou. os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. os processos de funcionamento social. existem disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. de fato. como veremos depois. a serviço das entidades e das forças que são dominantes em nossa sociedade. aplicações tecnológicas. experts que são os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. ou uma organização imperial. nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e de autogestão. intelectuais. ciências formais. resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado "progresso" em igual proporção. que nossa época. O que significam essas palavras? Depois. houve um processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar.propósitos mais importantes. a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a história da humanidade. caracteriza-se também por. como ninguém ignora. uma organização social dita "primitiva". têm sido sempre muito complexos. de diversidade que as sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas civilizações. apesar delas não serem nada simples. capitalista ou tecnológica. nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de estudo e tem gerado profissionais. uma grande complicação interna. o grau de complexidade. por exemplo. Acontece. muito complexas. Por exemplo. despótica. a serviço daquela instituição que representa o máximo 14 ▲ . E o progresso trouxe uma grande complexidade. ou seja. nesses últimos duzentos anos. Mas em nossa civilização chamada industrial. uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil anos. Os mesmos podem ser enunciados através de duas palavras aparentemente simples. mas que são. Além desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza. compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana. além de se caracterizar por uma grande diversidade.

Junto com seu saber. primários. em que os "sábios". Toda a produção desses bens está dirigida. os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado e das empresas. quase incondicionalmente. sua conveniência. o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a sociedade. ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência. fica relegado. pobre. às questões relativas ao lazer. as comunidades de cidadãos têm visto esse saber subordinado ao saber dos experts. cada um dos serviços que se prestam nessas áreas. às que atingem a comunicação de massa. aos psicológicos e subjetivos. que é o Estado. a partir do surgimento do saber científico e tecnológico. E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos. Então. moradia. do saber e de serviços dos experts . como se fosse rudimentar e inadequado. aos especialistas de produção de bens materiais. Além disso. transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. refiro-me aos problemas de saúde. do saber e do prestígio. do poder. ou seja. O mesmo acontece no plano de administração da justiça. insuficiente.da concentração de poder. num sentido vago. sua quantidade. ou seja. nos tribunais. de seu próprio funcionamento. Essa situação. empresariais. tem tido como conseqüência que os povos – em sentido amplo. então. sua qualidade. a sociedade civil – têm-se visto despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua própria vida. visando a qualificá-lo como um falso conhecimento. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo de ideologia. infundado ou. Esse saber. secundários e terciários. aos assuntos familiares. no melhor dos casos. geral. de educação. os bens que se produzem e administram nesses territórios. dos organismos do Estado. em geral. por outro lado. com os 15 ▲ . tudo é decidido pelos experts . já dentro da sociedade civil. colocado em segundo plano. Cada um desses campos. as empresas nacionais e multinacionais etc. criado e acumulado pelas comunidades sociais durante tantos anos de experiência vital. Mas noutro plano. que são as organizações corporativas. gerenciada por "especialistas". vestuário. esses experts têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza. Elas dependem. comida. sua necessidade. é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. elas têm perdido o controle sobre suas próprias condições de vida. aos assuntos próprios da religião.

Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo. leis: tudo i sso feito por experts e administrado por eles. não existem demandas "espontâneas". aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo" não existe. mas. É. níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. E o que falar do exercício da força. porque todas essas outras entidades também usam da força. pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de descrever. que se chama demanda. de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que "realmente" aspiram. oficiais. que seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e desejos citados. despachantes. da força da sedução. não existem necessidades básicas "naturais". Essas necessidades são colocadas diariamente através de demandas espontâneas. que também têm seus especialistas. Acontece. querem e pedem o que lhes inculcam que devem necessitar. porque ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história. as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas necessidades a perdem.advogados. mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam e acham que pedem o que querem e como querem. na Análise Institucional e em outras escolas do Institucionalismo. o que acontece? Há um conceito básico que vamos ver depois. mas o uso da força física está reservado a organizações como a polícia. delegados. senão da força física. como veremos. mas particularmente na nossa. Esse "mínimo" é gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. através da exigência de produtos e de serviços correspondentes. É claro que os experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os interesses das classes. muito evidente que nossos coletivos estão. no sentido literal. assim como a demanda é modulada. as forças armadas. desejar e solicitar. a noção das necessidades é produzida. precisam. guardas etc. Então. então. É possível afirmar que as comunidades ou coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. na verdade. Mas não se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. da força da persuasão. 16 ▲ . isto é. registros civis. Mas ainda dentro do condicionamento histórico.

Este processo de auto-análise das comunidades é simultâneo ao processo de auto-organização. Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo. se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir. Então. têm alienado o saber acerca de sua própria vida. Mal podem organizar-se para resolver seus problemas se não conseguem saber. Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria o primeiro deles. ao mesmo tempo. Mas os experts 17 ▲ . Essa auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque. de suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas limitações. Na medida em que essa organização é conseqüência e. os coletivos têm perdido. ela mesma. ou seja: produtivo. desejos e demandas. como protagonistas de seus problemas. Eles têm perdido um certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem dispor para colocar e resolver seus problemas. se institucionaliza. de seus desejos. ela também não é feita de cima para baixo. com sua disciplina e seus instrumentos. interesses.atualmente. compreender. a noção de suas reais necessidades. em que a comunidade se articula. um movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise. nem de fora. adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida. um deles seria a auto-análise e o outro a autogestão. de suas demandas. possam enunciar. eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento importante e não inteiramente alienado. com precisão. ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de sua vida sobre a terra. o que podem. nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas. sem dúvida. o que sabem. necessidades. não necessariamente distorcido. o que devem pedir e o que podem ou não conseguir. mas elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. quais são seus verdadeiros problemas e o que se requer para resolvê-los. ou seja: não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer-lhes quem são.

Ao mesmo tempo em que são os objetivos principais das propostas instituintes. Esse estatuto deve resultar de uma crítica das posições. os experts poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e autoanalíticos quando forem chamados a participar. do . significa a produção de um saber. não podem fazê-lo nas academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. ou ainda das diretivas das grandes empresas nacionais e multinacionais. suas técnicas. para as comunidades. 18▲ É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. de sua pertença ao bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise. da qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas.devem submeter seu saber. dentro dos organismos aos quais pertencem. sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de auto-análise e auto gestão dessa comunidade. dentr o dessas teorias. suas inserções sociais como profissionais a uma profunda crítica que os faça separar. seu saber específico. eles são também os próprios meios para realizá-las. Por quê? Porque auto-análise. Para poderem efetuar essa autocrítica. suas glórias. eventualmente. Eles têm de reformular sua condição profissional. num trabalho feito em conjunto com essas comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz. Por isso. À parte dessa reinvenção de sua disciplina. E só conseguirão reformulá-los numa gestão. quando a comunidade conseguir organizar-se. o que é produto de sua origem. Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. aprendendo e ensinando seu saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. a uma auto gestão. Eles poderão assim reformular. é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas superficial. Então seu saber. hierarquias que eles têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico-políticos do Estado. mas profundamente conhecidos pelos leitores. Isso permitirá que. postos. os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim. Eles têm que entrar em contato direto com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando para incorporar-se a essas comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham. métodos e técnicas. os experts. tenham algum lugar dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins. seus métodos.

19▲ . não pode haver um saber sem uma organização. de suas condições de vida. Deverão. simultâneos. elas têm que chamar experts aliados para colaborarem. Eles têm maneiras diretas de comunicar as decisões. é difícil pensar qualquer processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa hierarquia de decisão. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo produtivo. a resolver seus problemas. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos. não equivale a privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. demandas etc. Mas não pode haver uma organização sem um saber. mas não há hierarquias de poder. Mas a existência de hierarquia não implica diferença de poder. São executores. porque estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas coletivamente. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem. existir hierarquias. a capacidade de impor a vontade de um sobre o outro. em assembléias. Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de denominações. mas eles são concomitantes. elas têm que se dar condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. quadros. suas necessidades. peculiaridades e capacidade de produzir. e também de seus recursos. especificidades etc. Contudo. tudo o que elas descobrirem neste processo de auto-conhecimento só terá uma finalidade: a de auto-organizar-se para que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades. Em todo caso. por correias de transmissão. Na realidade. tanto quanto os processos auto-analíticos. gerências. então. os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual.conhecimento acerca de seus problemas. Implica apenas uma certa especialização em algumas tarefas. Elas têm que organizar-se em grupos de discussão. elas têm que construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. ou seja. articulados. Ao mesmo tempo. São dois processos diferenciados. Existem hierarquias moduladas pela potência. de deliberação. hierarquias.. são produtores de conhecimentos. é evidente que o Institucionalismo.

um poder. o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil esteja colocada na assistência e não na prevenção. já não é um saber produzido fora dos interesses e desejos do coletivo. que têm efeitos médicos. já não é um saber que vai cair de cima para baixo. de fora para dentro. Quem conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa prioritariamente de. alimentação. Na topografia deste saber. há muitos centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou diagnosticar uma problemática altamente específica. Vou dar um típico exemplo da medicina. muitos dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. uma vez realizados. ou. Então. Entretanto. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza são É - . já uma delegação. pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual. digamos. produzido.5% da população. Acontece que o povo. existem alguns elementos essenciais que compartilhados por todo mundo. em estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas aplicações terão. tomógrafos computadorizados. vestuário e saneamento básico. as organizações de base. necessariamente. O coletivo conserva um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando o seu poder com sentido instituinte-organizante. porque foi produzido dentro. Mas este saber é um saber coletivo. têm suas causas diretas nos problemas de habitação. não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do Brasil porque a primeira coisa 20 ▲ que lhes seria respondida é que não sabem. O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa nem acaba no campo da medicina. por alguns especialistas no assunto. e ambos não são homogeneamente distribuídos. pelo contrário. que afeta 0. e então a serviço do coletivo. de ambições de segmentos individualistas etc. principalmente se por prevenção entende se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. Disso todos os experts sabem. circunscrita. quando esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa questão. Seus problemas. distribuído e exercitado na vida coletiva. Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles um saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo.e que todo saber envolve. embora haja mil exemplos.

todo mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos. senão em cada ato do cotidiano. existiram e existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. as comunidades negras têm. ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária-que o saber médico (nesse caso) e suas técnicas têm. Nesse caso. as comunidades 21 ▲ eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente . as comunidades da planície têm. o que é prioritário e o que é secundário. não devendo ser tratado como tal. quais são as enfermidades e como devem ser tratadas. porque este processo de auto-conhecimento e autogestão é interminável. pode-se delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder. o coletivo já não está desqualificado – ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. mas isso não pode afirmar-se a priori. também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo que não se exprimam em sofrimento. revalorizar o saber espontâneo que elas têm sobre seus problemas. integrado à comunidade. Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está colocada num futuro longínquo. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o que vem depois. basicamente. A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar. Como já dissemos. Por exemplo. Assim. e não numa potência de colaboração com o coletivo. Uma vez que o expert . a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts. haverá necessidade de muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se em sua plenitude. ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença. revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que preci sa? Os índios têm. pelo menos. Provavelmente. para este trabalho de reformulação. Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico. nacionais e multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses interesses. que atua predominantemente a serviço de interesses estatais. Isso não descarta que possam acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder. as comunidades das montanhas têm. Desde logo este saber também desconhece muita coisa. em pé de igualdade.seu saber. demonstra a capacidade de contribuir.

psicólogos etc –. mas acho que vai complicar um pouco as coisas. comunicólogos. Os leitores compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições altamente desfavoráveis. Mas. severamente contraproducentes. e não precisam do Institucionalismo para se desenvolverem. Um desses movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. gostaria de referir-me à última questão. Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo. embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja Católica. não são donos da riqueza. Por quê? Naturalmente porque os coletivos em questão não são donos do saber. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram. para a 22 ▲ . idéias. temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação. porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. categorias que têm sido produzidas pela humanidade no decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base. existem e vão existir. Por outro lado. os experts – médicos. Esses processos autogestivos e auto-analíticos são. a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos organismos e entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. a gênese conceitual refere-se ao campo das idéias. em que consiste o tema aqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico -social e uma gênese conceitual. conceitos. Nós. muito importante. O Institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. conceitos e funções: todas aquelas teorias. advogados. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. enfim. para fundamentar a proposta institucionalista. Então.integrado a aspectos libertários do Cristianismo. Agora. engenheiros. não são donos dos recursos que são propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes.

de alguns temas de auto-análise e autogestão. Então. o que normalmente é feito pelas instituições. pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos. Isso faz com que os objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos nunca de forma definitiva. porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a definição de problemas. E as que hoje insistem em existir lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí-las. a invenção de soluções. De qualquer maneira. Ou seja. seja a de certas orientações do anarquismo. 2 3▲ . existem correntes reformistas e existem correntes ultra-revolucionárias. no Institucionalismo. tanto das extremistas quanto das propostas social-democráticas. a colocaçã o dos limites do que é possível. que buscam a instalação plena da autogestão e da auto-análise. tentam recuperá-las. um câncer.organização do sistema. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. da procura. Eles as diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas. E quando não conseguem eliminá-las. incorporá-las. e com a qual o Institucionalismo está mais que em dívida. de alguns espaços. uma peste. Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas auto-analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. do ensaio. pelos métodos. do que é impossível e do que é virtual. esta última afirmação que faço refere-se ao seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias. organizações e saberes de grupos e outros segmentos dominantes. Eles são atingidos sempre na base da tentativa. Provavelmente a tendência política tradicional que mais se aproxima das propostas institucionalistas. como na política. Não há nada que seja mais temido e mais odiado pelo sistema social. e pelo grau de realização com o qual se conformam. Mas isso não quer dizer que não sejam possíveis ou inventáveis. Elas têm aparecido muitas vezes na história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. Quer dizer: há correntes. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos. nada disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. escolas" maximalistas".

PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência. uma disciplina ou uma tecnologia? 2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos e grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber". as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações. ou é a oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 5) O que significa auto-análise e autogestão? 24 ▲ . e por que se diz que as ciências.

estão escritas. o que está prescrito.Capítulo II SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES O Institucionalismo. à sua maneira. caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela. assim corno o . em geral. podem ser leis. quando não estão enunciadas de maneira manifesta. são árvores de composições lógicas que. não figurando em nenhum documento. sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola para escola. Alguns autores sustentam que leis. O Institucionalismo. O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana. isto é. um tecido de instituições. normas e costumes são objetificações de valores. a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o devir da Sociedade no tempo. e o que não deve ser. podem ser normas e. só que eles são transmitidos verbal ou praticamente. o que está proscrito. as normas e os códigos também. afirma que a sociedade é uma rede. tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do que é a História. As leis. E que são as instituições? As instituições são lógicas. segundo a forma e o grau de formalização que adotem. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos. esclarecendo 25▲ o que deve ser. podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos.

Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da divisão do trabalho humano.que é indiferente. Um exemplo de urna instituição: a instituição da' linguagem. de normas que regem a combinatória de elementos fônicos. Essas lógicas. 26 ▲ . no final das contas. filho. genro etc. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis. Com a combinação desses elementos. e também proscrições – o que é proibido. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). por outro lado. que característica de vínculo. esses corpos discriminativos. regula a relação de parentesco e tem prescrições – o que é indicado. as que definem os lugares tais corno: pai. de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. urna gramática é urna instituição que explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens. que é o que acontece em outros tipos de instituição. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em termos gramaticais. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano. de unidades de significação na linguagem. entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo. Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco. assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica. são vários. Então. Mas. pelo menos dentro desse universo humano em particular. consideradas gramaticais ou agramaticais. É claro que. não estarão estipulados também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua. formalizado ou não. conforme indicado por essas leis. de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte dessa língua. mãe. pode construir-se um infinito número de mensagens. no caso da língua. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa classificação podem se dar uniões. e é curioso que os institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. corno se pode ver. Isso também é um código que. nora. os prescritos ou os proscritos. essa divisão vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder.

não teriam objetivo. costuma ser um complexo grande. as instituições têm de realizar-se. por exemplo. normas e pautas que prescrevem corno se deve socializar. aquelas leis. um convento. Estabelecimentos seriam as escolas. Ternos também as instituições de justiça. Mas. isto é. não teriam realidade social senão através das organizações. há algumas que são muito 27 ▲ características. as instituições da administração da força.prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm esses lugares (divisão social). As organizações. Ou seja. Ternos também a instituição da religião. urna organização (que. as instituições são entidades abstratas. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las todas. – até um pequeno estabelecimento. Há diversos tipos de . os estabelecimentos. por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. têm de "materializar-se". do campo e da cidade. Por exemplo: trabalho manual e intelectual. Em um plano formal. entendidas assim. as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções que as instituições distribuem e enunciam. feminino e masculino etc. então. vultoso) está composta de unidades menores. urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens. Ministério da Fazenda etc. pelas instituições. uma fábrica. um banco. E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que são as organizações. mas com respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de comportamentos contra-indicados. instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa integrar-se à mesma com suas características efetivas. pelo menos. não teriam direção se não estivessem informadas como estão. como insisti. as instituições não teriam vida. divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros. Para vigorar. assalariados e autônomos. e assim por diante. para cumprir sua função de regulação da vida humana. como. Por sua vez. Há também as instituições da educação. Agora. que é a que regula as relações do homem com a divindade. uma loja. Isto é. Ministério da Justiça. Mas as organizações não teriam sentido. um quartel. são formas materiais muito variadas que compreendem desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação.

estabelecimentos, de características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das organizações da comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não-verbais, discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de instituição às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer, por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 28 ▲

uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis. Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir historicamente ao nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações de urna instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não existem), a isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições, tem um produto, geram 29 ▲

um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados aos novos estados sociais. Tem-se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado. Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma tendência histórica a esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior felicidade, maior realização, 30 ▲

uma administração arbitrária ou deformada do que se considera saber e verdade histórica. de consenso. elásticas. sonegação de informação etc. que é substituída por diversas formas de mentira. que não é nem a única nem a melhor das utopias. uma orientação histórica de seus objetivos. imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva. Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais nobres. agentes. a utopia da Revolução Francesa. ou seja. ou seja. sempre tem uma utopia. se se compreende esta oposição entre a 31 ▲ . ilusão. tem-se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos. que é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros). práticas. de dominação e de mistificação (desinformação ou engano).maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes entre o instituinte e o instituído. e que são chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta. e na vida humana tomada num sentido muito amplo. desde que existem sociedades. as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade. cada sociedade. de suas finalidades mais altas. É claro que. que cada sociedade coloca à sua maneira. fluidas. e mistificação. diferentes formas de igualdade. estabelecimentos. para referir -me a isso. muito diferentes de uma sociedade para outra. deseja. compartilhada. organizações. podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por todo mundo: são os processos de exploração. Assim. mas é a mais conhecida por nós. engano. chamada de revolução burguesa. Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições. deve chegar a ser. pode-se distinguir uma função e um funcionamento. diferentes formas de veracidade e fraternidade. em seus aspectos instituintes e organizantes. à exceção de algumas sociedades em particular. de uma fase histórica para outra. apesar de eu estar usando. dominação. entre o organizante e o organizado (processo de institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis. Então. Essas características históricas. há a tendência a adquirir sempre características históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. Para poder entender essa terminologia.

dos mistificadores. da mistificação. Então. Acontece que. enquanto expressão apropriada. desejável e invariável. da dominação e da mistificação. todo estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores. disfarça da. chamamos de Justiça. Essas forças. daquilo que 32 ▲ . O instituído. agentes e práticas desempenham uma função. mas em geral elas são mesmo traídas. e se apresenta aos olhos não atentos como eterna. natural. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração. Agora. A função apresenta-se deformada. pode-se definir outros termos que temos aqui presentes. funções a serviço da exploração. coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a característica essencial do instituinte. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais". o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração. mistificação-. Podem ser chamados de outra maneira. estão sempre a serviço dos objetivos que. do organizante e dos seus produtos operantes é serem propícios à produção. desejado e lógico das instituições e das organizações. o organizado. estabelecimentos. então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento. Isto é. conservadora. produção que é a geração do novo. enquanto recurso operante o instituinte.. a serviço da exploração. Ou seja. esses processos. ao passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia. o funcionamento é sempre instituinte. não se manifesta claramente ao nível do instituído e do organizado. organizações. enquanto produtivo. dominação e mistificação que se apresentam nesta sociedade. Toda instituição. recebem o nome de funcionamento. de Igualdade e Fraternidade. provisoriamente. desejáveis e eternas. dos domina dores. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas. Só que esta função raramente se apresenta como ela é. é claro que é necessário. dominação. rapidamente. da dominação. justamente por causa da questão da mistificação.utopia. ela é predominantemente reacionária. mostra-se como o objetivo natural. As instituições. predominantemente. freqüentemente. é sempre transformador.. é justiceiro e tende à utopia': A função. toda organização. tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a característica da função. os instituídos e os organizados apresentam.

mas também prepara força de trabalho (alienado). Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. Esta interpenetração acontece ao nível da função e ao nível do funcionamento. uma escola também é uma fábrica. do criativo chama-se transversalidade. funcionamento e produção são a mesma coisa. Então: instituinte e instituído. ao nível daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra. produção contra reprodução. por exemplo. não só educa dentro dos objetivos manifestos do organizado e do instituído. Essa interpenetração ao nível do instituinte. Função é sinônimo de reprodução: é a tentativa de reiterar o mesmo. como entender. organizantes-organizados que constituem a malha. não atuam separadamente. como analisar cada instituição. Acontece que uma escola não só alfabetiza. organizante e organizado. Para concluir. mas sim em conjunto. ou seja.almeja a utopia. essa interpenetração ao nível da função. também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia. do reprodutivo. ao nível da produção e ao nível da reprodução. que uma escola é um estabelecimento das organizações do ensino. o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer. os instituintes-instituídos. Para dar apenas um exemplo. aquilo que não é operativo para propiciar as transformações sociais. chama-se atravessamento. Então. para o outro. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro. do produtivo. não só instrui. a rede social. mas necessárias para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste. a interpenetração que existe entre todos os instituintes e instituídos. Por outro lado. e além de ensiná-los a ler e escrever. desde o outro. que por sua vez são uma realização da instituição da educação. exporemos definições que são um pouco áridas. do conservador. funcionamento contra função. especialmente 33▲ . Essa é uma tentativa de enunciar o entrelaçamento. cada organização. abstratas. e o que basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições. pejo outro. de perpetuar o que já existe. de acordo com a concepção de ensino que ela tenha. do revolucionário. vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de funções a nível organizacional. uma escola. Nós dizemos. Para concluir. e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do organizante. entre todos os organizantes e organizados.

de luta sindical. marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. Essa interpenetração chama-se transversalidade. uma escola tem um lado instituinte. produtivas. de alguma maneira. tal como está. da dominação e da mistificação. um lugar de exercício da solidariedade. do organizado. vocês vão vendo como uma escola. para ela. a dominação. Então. Neste sentido é que uma escola tem também um funcionamento articulado. por ela. além disso. do que deve ser destruído. uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os alunos. chama-se transversalidade. uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos direitos. ensina formas de exercício da agressividade. com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam nela. Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está. interpenetrado com muitas outras organizações. gerando assim movimentos e montagens alternativos. por exemplo. ao nível do instituído. e dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração. Mas. e ela por outras. produtivo. ao nível da função. um lugar de doutrinamento para a revolução. também se pode dizer que uma escola é um quartel ou uma delegacia de polícia. Neste sentido. uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as correntes instituintes. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. a mistificação. ao nível da reprodução. Então. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas. a escola pode ser também. uma frente de luta revolucionária. chama-se atravessamento. 34 ▲ . como já vimos.um clube estudantil.de punições. através dela. o que a escola ensina é uma série de valores do que deve ser construído. e esta se define também como uma dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade. A interpenetração ao nível da função. instituições. Então. numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração. A interpenetração a nível instituinte. da reprodução. e ainda entre os diversos· quadros e segmentos desse mesmo estabelecimento. um lado organizante. Mas uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento políticoescolar. está atravessada pelas outras organizações.

ou seja. para o Institucionalismo. dominação e mistificação (atravessamento). até certo ponto. agentes e práticas? 4) O que é o instituinte e o instituído. assim como também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da cooperação. da plena informação. o organizante e o organizado. a produção. a concepção institucionalista da sociedade. as sociedades? 2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou normas ou que se manifestam em hábitos? 3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações. da liberdade. A sociedade é uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas funções estão a serviço da exploração. a reprodução e a antiprodução? 5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 6) De que está composta a rede social? 36 ▲ . equipamentos. a função e o funcionamento. da produção e da transformação afirmativa e ativa da realidade (transversalidade). os estabelecimentos.Com isso temos definida. 35▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 1) O que são.

não é isso. Então. os interesses. enquanto justifica as ações 37 ▲ . mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva. registram aquilo que lhes convém. impessoal e que. Porque a versão que se tem da História é sumamente importante. se apresenta como sendo objetiva. tão tendenciosa quanto qualquer outra. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e. em geral. as tendências de quem faz História. a rigor. é apenas uma versão tão interesseira. neutra. do instituído e do organizado. mas que aparece como descritiva. como meramente narrativa. empiricamente. Agora. Numa primeira instância. Naturalmente. que têm recursos para resgatar e promover estes documentos. das classes dominantes. que qualquer registro inclui os desejos. é importante diferenciar História de Historiografia. propriamente. História.Capítulo III AS HISTÓRIAS o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos. alguma noção aproximada do que é história. historiografia é esta versão que. Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos. é uma versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do Estado. geralmente.

todos os movimentos sociais que se deflagram. ideológicas. teve início em um passado. geralmente. já foi"-. apenas. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se transcorreram todos os processos. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História podem ser resumidas em poucas palavras: Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é. Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no presente. globalizar em um tempo único. eras ou etapas. mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas. e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se "atrasa" em relação aos outros. os processos que constituem a História são processos policronológicos. que o presente deflagra. da vontade. que aproveita 38 ▲ . ou na Idade Antiga etc. Passado e futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só. morto. no século XVI. de alguma forma. Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar. começou. da afetividade. histórias raciais. do desejo. de alguma maneira. mas consiste em uma localização daquilo que. cronológica ou conceitualmente. que se faz num único fluxo da História.e paixões que se protagonizam no presente e. definido – "o que foi. cada um em sua duração. que são localizáveis como tais. histórias das gerações. como se faria no fluxo de um rio. enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. ou seja. justifica e propicia um projeto futuro para a vida social. que não se pode totalizar. que se impulsionam para chegar a este porvir. no século XI. obsoleto. Trata-se de tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos históricos em alguns momentos. mas o passado está composto de uma série de potencialidades que o presente ativa. que o presente ilumina. uma História que seja como uma espécie de mangueira. a reconstrução do que já aconteceu e que já está. Quer dizer. Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que não é o passado que engendra o presente. Não é o passado que gera o presente. e sim o presente que explora. de modo que não se pode estudar uma época como se essa época fosse um corte transversal. culturais.

o acontecimento. um final que pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva. Não existe finalidade da História. que começam do zero e vão acabar em dez. não é o idêntico. não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste. suas órbitas. do relógio ou do calendário. e como correlato à máquina do relógio –. em todo caso. devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. não é compartilhada pelo Institucionalismo. Finalmente. suas parábolas. E que são estes grandes ou pequenos momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 39 ▲ . O Institucionalismo diz que o que. Não existe uma progressão predeterminada das etapas históricas e. Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou menos maquinais. não existe um apogeu final dos tempos. o imprevisível. cada uma das quais origina a seguinte. quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual. com uma explicação claramente mecânica. baseada em paradigmas de ordem que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com suas trajetórias. é o acaso. Segundo alguns institucionalistas. por conseguinte. o aleatório. com este metamodelo mecanicista. sendo que os enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade. O que pode ocorrer no dia-a-dia não está inteiramente predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro. tendemos a pensar a História em função de suas leis. se produz. não é o igual. predominantemente. Então.ou atualiza as potencialidades do passado para construir u m porvir. é o inesperado. ou um final catastrófico ou apocalíptico. esta concepção da História que faz da diferença uma variação análoga ou semelhante do igual. isto é. o tempo. ou mais ou menos determinadas. ou do idêntico. que tende a repetir-se e que. cem ou qualquer número final. Por outro lado. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica. mas que o que se repete na História é a diferença. outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da História é que nós. sempre policronológico. retoma na História. a História não é uma série de etapas fatais. não é o regular.

mas da transformação em direção ao radicalmente novo e. o objetivo. com contribuições de diferentes tendências institucionalistas. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação. não de uma transformação pré-figurada. Então. Bem. um "dentro" do outro. mas uma tentativa de reconstruir os grandes momentos de imprevisto. pode se distinguir o molar. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do que tende a repetir-se. vida biológica e natural. esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo. é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar explicar brevemente. não de uma transformação previsível. do acontecimento. ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do inesperado. a finalidade e os recursos do Institucionalismo. para a partir desses ensinamentos. a inerência. O que existe são imanências – isto é. por assim dizer. que. o propósito. Tentemos agora definir outros conceitos importantes. O termo molar. dentro desta concepção da vida social como uma rede.vão tentar ser capturados pelo instituído. que tem formas objetais ou formas discursivas. incluindo-se no outro. dito de uma maneira simples. trata-se de entender como a História é não apenas uma atividade ilustrativa. outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao termo molecular. da atividade político-social desejante que o Institucionalismo tem. portanto. pelo organizado e repetidos como idênticos. Por outra parte temos o molecular. uma investigação erudita. por 40 ▲ . que é o que na física se costuma chamar micro. e com a utopia ativa. vida política. Então. A rigor funcionam sempre. visíveis e enunciáveis. os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da humanidade. não é apenas um exercício acadêmico. a posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros. que é evidente. que só se podem separar de uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. quer dizer. Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica. mas está estritamente relacionada com a concepção da práxis. da inovação absoluta. absolutamente desconhecido. em que os diversos processos são imanentes um ao outro. vida do desejo inconsciente. é aquilo que é grande. produzir estratégias que permitam propiciá-los novamente.

o cosmos. o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais. Dito com outras palavras. e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as estratégias de intervenção nos âmbitos. e que os grandes poderes em vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam em espaços microscópicos de uma sociedade. as conexões circunstanciais. Então. e não os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. da microbiologia.oposição a macro. o Institucionalismo pensa que as pequenas conexões locais são o lugar do instituinte. resultam nas grandes metamorfoses. técnica. da biologia molecular. em geral. a biologia e a química descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta da dinâmica que acontece nas micro. ao generalizarem-se. impensáveis. as transformações microscópicas. o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. enquanto o mundo macro por excelência seria. subjetiva e socialmente. É a permanente 41 ▲ . da microquímica. e o micro é o lugar da eclosão constante do novo. nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. biológico quanto no sentido social. o mundo atômico e subatômico. o macro é o lugar da regularidade e das leis. Esta diferenciação também é importante porque. econômico e desejante. Como até mesmo a física. é o lugar da estabilidade. e o micro é o lugar da produção. O macro é o lugar da reprodução. é importante definir o termo antiprodução. O macro é o lugar da ordem. é o lugar das entidades claras. do instituído e do organizado. político. químico. o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo previsível. que é composto de grandes corpos. Se não me engano. o mundo das partículas. dito tanto no sentido físico. é o lugar das conexões anárquicas. Produção é aquilo que processa tudo que existe. insólitas. dos limites precisos. da regularidade. da conservação. já tentamos reiteradamente definir e redefinir o termo produção. o detectável e consagrado. as macromudanças. porque espera delas efeitos à distância que. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva. o universo. natural. tomando esses ensinamentos da microfísica. o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas. por oposição. O micro. Finalmente. isto é. são sempre resultado de pequenas micromudanças.

produtivas. o impedimento ou a destruição do novo. é o que. Agora. 42 ▲ . da tóxico-dependência. neocoloniais e planetários contemporâneos etc. elas são voltadas contra si mesmas. as matérias produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos. isso se torna moda. que a sociedade não está em condições de incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria. mais ou menos premeditados. seres. é o devir. é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de destruir os produtos porque o preço caiu no mercado. que vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. chamaríamos de criação. de bens de troca e não de bens de uso. que só agora se está" descobrindo". subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se antiprodução. as energias não orientadas. e que morrem não apenas por deficiência da provisão ou da organização. dos genocídios coloniais. e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. sociais. da mortalidade infantil. serviços – não pode assimilá-las à lógica do sistema. Essas são potências. valores. Esse processo de autodestruição das forças produtivas naturais. Por exemplo. ou as deixa morrer.geração. mas foi sempre assim. Um desses processos característicos é o problema ecológico. Então. do alcoolismo. dos preconceitos sexuais e raciais. pelos equipamentos. pelos organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo. elas se destroem a si mesmas. de maneira que a produção. elas tornam-se antiprodutivas. são forças singulares. bens. É o que subjaz a grandes processos sociais como as guerras. as forças instituintes-organizantes. como é o caso da marginalidade. são capturadas em grandes organismos reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista. enquanto não se cristaliza. mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los. vigora a antiprodução. com uma terminologia ainda religiosa. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas de maneira muito ampla. enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias. ou as mata por meio de mecanismos mais ou menos deliberados. é o que subjaz à geração de enormes contingentes sociais que estão destinados a morrer. é a metamorfose.

e ninguém pode negá-la. eles só entram nesses processos de dominação. isto é. E também não entram se suas expectativas. por vontades que eles não controlam e não conhecem. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que outra. hoje se sabe. convicções acerca da vida social. mas que têm a ver com o prazer. ou que se possa supor que é o político o tal determinante. que por mais determinados. se estes. suas vontades. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica. de algum modo. coincidem com suas crenças. pelo contrário. e ainda mais. já é completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que acontece em economia. mas de mobilizar forças inconscientes às quais se apela. prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. não fazem parte de seu saber. os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes. por mais submetidos às leis econômicas e políticas que estejam os homens. em política ou sociologia – com independência do psiquismo dos homens. que o "pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. as características da vida e da morte social. representações. de mistificação ou. em última instância. não só seus interesses. E não se trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária. para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano. que têm a ver com o sofrimento e têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos.Para qualquer tendência sociológica. seus desejos não se encaminham nessa direção. de seu querer deliberado. isto é. sabese que as vontades. Em última instância. econômicas. Hoje. está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população. políticas ou naturais que os determinam. os desejos e as representações com que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais". ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes 43 ▲ . são inconscientes. os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens. apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina. em processos revolucionários. científica-política ou econômica clássica. Isso é claríssimo. por exemplo. são tão importantes as vontades. de exploração. Ou seja.

A diferença consiste em que o desejo inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar. Isso também não é novidade. O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. por ressonância ou por uma re-elaboração do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve. já se tem visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas condições de existência que não precisa. porque os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam. quando as forças inconscientes se ativam. o grande psicanalista marxista. sem apelar para os saberes instituídos e estabelecidos. de incalculável potência social. Os povos checam seu próprio saber sobre suas condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente movimentos de imenso poderio. se translada para a vida social com as mesmas características. O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários. porque os soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores. nas relações ou nas fantasias incestuosas ou parricidas do inconsciente infantil e que. que supostamente. depois. é uma tendência reprodutiva. nós nos interrogamos constantemente porque.sociais. não se trata apenas de dizer que o fazem por medo. Por que os povos atuam contra seus reais interesses e vontades? Então. Já a partir de Reich. nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes. em algum momento. em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus superiores. Então. mas eles operam as transformações sociais. passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais. não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua potência. porque se é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados. é um anseio que tende a restaurar o narcisismo. o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo. foi o estado em que o protosujeito esteve integralmente. O desejo do 44 ▲ .

não existe uma estrutura. familiarista. a singularidade de cada sujeito produzido em cada lugar. é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. objeto de um saber que toma elementos de todos saberes existentes. teria representações ou teria recursos que variariam segundo a sociedade. a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes. um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades. de cada momento. mas por um recalque complexo que é simultaneamente político. entendido como o imprevisível. segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. Para o Institucionalismo. É uma força que tende a criar o novo. se pode dizer. O que importa não é a produção das semelhanças ou de analogias entre os sujeitos. Também não existe uma estrutura. é uma força de conexões insólitas. Ou seja. o que existe são processos de produção de subjetivação ou de subjetividade. uma essência-homem. Só que este inconsciente não se entende exclusivamente como um inconsciente edipiano. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas denominações. libidinal. pré-social e pré-cultural.Institucionalismo é imanente à produção. para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal. a cada momento. mas a produção de diferenças. sujeitos variavelmente protagonistas desse acontecimento. em todas as raças etc. quando nessa produção predomina o instituído. E podem existir analogias. em todas as classes sociais. mesmo que se aceite como sendo universal. uma essênciasujeito. Então. aos 45 ▲ . trata-se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são capazes de gerar transformação. é o acontecimento-devir que os produz. Mas é inconsciente. apenas preenchido com conteúdos históricos sociais variáveis. Então. produzem-se sujeitos em cada acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir. podem existir semelhanças entre esses sujeitos. ou. mas essa produção é absolutamente contingente. é uma força de invenção e não é uma força restauradora de estados antigos. de cada conjuntura histórica etc. é absolutamente própria de cada lugar. O que se passa é que esse sujeito psíquico. repetitivo. semiótico etc. em todos os momentos históricos. mas também como um inconsciente pré-pessoal. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um recalque psíquico. Para o Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal.

O objetivo institucionalista é criar campos de leitura. aos interesses mistificantes. em que o desejo se realiza em conexões locais. E não vai privilegiar. Mas a discriminação que tem de ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo. primigênia. não poderemos dar nesta exposição. transitórias. mas aceitar a idéia de que os novos homens se fazem a cada momento. ele vai privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer de cada organização. capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar seu lugar a outras. revolucionária. de subjetivação absolutamente original. revolucionário. de compreensão. com a "maquinaria de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções. e trabalhá-lo para torná-lo produtivo. 46 ▲ . o organizado. não se concretiza restituindo o antigo. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas.se propõe "pegar" um sujeito reprodutivo que é sempre o mesmo. pela natureza elementar deste livro. todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que. não . produtiva. o estabelecido. a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas. absolutamente instituinte. Evidentemente. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada. porque as mesmas têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação. eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar. mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. a não ser para denunciá-los. de cada estabelecimento. circunstanciais. a isto se chama produção de subjetivação livre.interesses exploradores. ele adota as características de um sujeito mais ou menos universal e eterno. processa-se não reproduzindo o instituído. com as formas de militância. organizativas. de intervenção para que cada processo produtivo desejante. subjetividade submetida. em geral. absolutamente singular. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que já estão feitos. políticas. seja capaz de gerar os "homens" (ou sujeitos) de que precisa. Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto. movimento ou proposta. circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários. absolutamente contingente. micro. e se efetua gerando o novo. não assujeitada. em cada circunstância.

de crenças. de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela classe dominada. talvez estivesse incorretamente informado. Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante. e também 47 ▲ . é conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante. positivista. o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico. afirmava que o povo alemão não estava desinformado. apesar de ser contrária aos interesses da maioria. é criar outro tipo de expectativa ou vontade. dos grupos que procuram uma drástica transformação social. de quando falamos do inconsciente ou do desejo. por exemplo. culturalista ou estrutural-funcionalista. O contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço teórico algo clássico. Este é o caso. costuma-se dizer que a maneira de reverter essa situação é instruir.Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da Psicanálise. por ignorância. pode ficar sincrética ou imprecisa demais. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de consciência falsa ou distorcida. A intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. pela esperança e pelo medo. afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos dominantes. Em muitas passagens. estudando o movimento nazista da Alemanha. que são ideologias das classes. que está animada pela ilusão. Ademais. informações erradas ou manipuladas que as classes.se aos interesses das classes dominantes. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança. de gozo. é modificar essas representações. São crenças. reacionárias. é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção. é educar. Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele. ou seja. convicções ou expectativas e desejos conscientes. Por outro lado. mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras que estavam sendo ditas. que habitualmente se aborda com o nome de ideologia. Então. que são ideologias conservadoras. conscientizar acerca do potencial de prazer. existem ideologias revolucionárias. os grupos e sujeitos submetem. de convicções acerca do mundo. É verdade que há uma certa definição de ideologia que a considera como uma série de representações erradas.

não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um proletariado muito politizado. E, sem d úvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos, desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se consegue dominar os povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise), mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma peculiaridade do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise, o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 48 ▲

do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu rel ato restos da nomenclatura psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função que estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da castração 49 ▲

simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co-protagonizem este processo. Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento, em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os geraram em sua montagem. Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 50 ▲

na educação. do acaso e das regularidades na História? 6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 52 ▲ . Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito". outras correntes institucionalistas não dizem que o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação revolucionária. na saúde etc. reprodução e antiprodução? 5) Qual é o papel da repetição e da diferença.que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não (ou seja: no trabalho. 51 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Que diferença existe entre História e Historiografia? 2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicossubjetivos e naturais? 3) O que significa Molar e Molecular? 4) O que se entende por produção.).

a predisposição dos 53 ▲ Sé . de "espírito científico" – só pode aceitá-lo como uma metáfora. em um sentido estrito. assim. O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito Científico".Capítulo IV O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO Eu dizia. cujas "verdades" freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. em uma passagem do capítulo anterior. que não me estranharia que muitos dos conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender. produzem um efeito de convicção na "mente" de quem pretende formar-se como cientista. por outro lado. se compreenderá que não se pode falar. assim como a essência mesma do Movimento. por estarem muito arraigados. O mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do pensamento corrente que. Na realidade. Bachelard tentava um trabalho epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir. Esses "vícios" do senso comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos. não se tratava propriamente de Psicanálise e.

"espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. Cabe aqui lembrar que. Para concluir. alguns termos teóricos que as ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. tem com elas uma relação contraditória. mas o faz acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais. entendendo a singular proposta do lnstitucionalismo. incluídos. Contudo. algo extremada. que comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos". se considera que. o Institucionalismo procede adotando algum termo. os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em particular passa-se devido ao fato de que. ou até em uma alusão vaga. neste momento. sem descartá-las. por exemplo. sabemos que essas palavras. quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica. ou um outro melhor ainda. ainda que invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado e do qual recebe seu valor de origem. por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes. defendendo a fertilidade de todos os saberes. devido às deficiências da formação geral e universitária da qual padecemos. Não ignoro que. polimorfa e complexa. torna-o revelador. ainda durante um longo período de sua aprendizagem. As diversas correntes institucionalistas. mudam radicalmente de sentido. de um questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas especificidades. cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão. No entanto. semanticamente falando. em determinada conjuntura. o Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria. muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito". Em outros casos. podem empregar termos teóricos com acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado. a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas. não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. Finalmente. os que existem em "estado prático" nas 54 ▲ . por sua parte. ou em uma noção.

mas justamente porque o são. levaria a outros tantos cursos.atividades leigas. artísticas.). de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. que terá de ser breve. ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais-valia. para quem se aproxima deste estudo. especialistas de alguma disciplina. da Psicanálise (inconsciente. assim como por um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. Estou tentando dar um curso introdutório de um saber que não tem limites. entre as muitas diferenças existentes de uma para a outra. desenvolver esses temas. de certos conceitos. que é um composto de todos os saberes de uma época. Agora. Agora. e existem diferenças teóricas. metodológicas. os artísticos. peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. no caso de eu estar capacitado para fazê-lo. Por isso.. políticas entre elas. os populares. desejo etc. por exemplo). Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista. aceitar e entender a polissemia que adquirem semantemas provenientes. inclusive os saberes não-científicos. religiosas etc. às vezes é duro. técnicas. É o mínimo denominador comum que se consegue encontrar entre as várias tendências. então a formação de um institucionalista realmente é interminável. Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 55▲ . que faz com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos. para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto. Se os profissionais. digamos. chega-se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil. tendo se tornado descartável como os jogadores de futebol. pois depois de uma década já não consegue acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se. mas sim muitas. queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber. O que há como característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições. está a definição dada a "desejo". como a Física. Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões. Imaginem vocês uma coisa como esta. Estou tentando dar uma visão panorâmica geral. Não nego que algumas ampliações sejam essenciais. muito pouco aprofundada e ambiciosa.

a existência de um espaço. ela acaba gerando todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica. que procura restaurar.relativamente autônomo da realidade. assim definida nas organizações. Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria predominante à colocada em muitos textos freudianos. o desejo tem uma natureza conservadora. como o leitor avaliará. as vivências. ou seja. sendo que o comportamento. dentro desse campo chamado psiquismo. que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa instância. de sua tentativa de restauração desse narcisismo inicial. embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade. ele parte de uma situação narcisística e tende a voltar a ela. Isso. Em que consiste esta definição de desejo? Seria uma força insistente. inclui uma definição restitutiva do desejo. é obrigado a elaborar. A maioria delas aceita. da economia. que são rendimentos. nessa trajetória. em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de Castração. a lei ou a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho. 56 ▲ . as representações e afetos são do campo dos efeitos deste psiquismo. em que o ego e o objeto são um. a conduta. Um exemplo característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de desejo. e a sublimar. a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância determinante. desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos psíquicos da vida organizacional. da área dos motores do funcionamento psíquico. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias. particularmente por certa ordem de representações. de um sistema e de processos de caráter inconsciente que considera do campo das causas. No entanto. particularmente em seus aspectos inconscientes. a partir da ruptura desse estado. em último termo. um certo estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo. persistente. usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade. devido à sua subordinação à ordem simbólica. Então. resultados dessa trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória". Muitos institucionalistas compartilham plenamente essa definição de . outros dispositivos. que tenta reproduzi-lo. reeditar. outras maquinarias do psiquismo. surge uma força que seria o desejo. que é o desejo.

Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e detalhe. não é estranho que isto se apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto. no qual a pulsão de vida funciona segundo o processo primário. particularmente Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise. por exemplo. assim como a exclusividade de um modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado imaginário perdido. criador de uma corrente institucionalista chamada Sociopsicanálise. muito pouco conhecida e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –. os freudo-marxistas. a macrofísica. mostra-se característica. Entretanto.da política e das organizações. estados permanentemente novos. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos. Estamos assistindo. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo. associar. levam as proposições freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais. que explicamos anteriormente. No entanto. 57 ▲ . do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada primeira tópica. Então. e com ele a imobilidade. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). de forma anárquica. outros setores do Institucionalismo. unidades vitais. como a filosofia. a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo. percebe setores da mesma em que essa definição de desejo. como por exemplo. processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do desejo que dela emana. à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso programa. assim como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo. é Gerard Mendel. existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos. que recolhe a definição de desejo de uma forma menos ortodoxa. mundialmente. mas propiciar. cada vez mais amplamente. porque este é um problema muito atual e de muita disputa teórica.

apesar de que Marx nunca negou que a superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. do histórico. que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos produtivos. Essa mudança. Dessa maneira. inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância. constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o psiquismo. e ainda no discurso delirante.a microfísica. da vitalidade. uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança de paradigma. Então. Por isso há uma fórmula na Esquizoanálise. na defesa da produção. do natural. Assim. Bom. Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção. as resultantes desse processo complexo não são causadas. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente determinada pela atividade econômica. isto é. E também não seriam modificáveis 58 ▲ . que seriam a pulsão e o desejo. a chamada infra-estrutura determina a superestrutura. Marx afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício. em um de seus aspectos. em que há os alicerces e há as paredes superiores visíveis. de forma alguma. na arte. dita no sentido amplo. por processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra. na reivindicação da neguentropia. que afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. Deleuze e Guattari. não podendo ser entendidas dessa maneira. além de tudo. O desejo não tem caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo-revolucionário – e não é uma força separada das que animam a vida social e natural. consiste na promoção de certo poder criativo da desordem. Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. exclusivamente pelo econômico. também apoiados na literatura. por exemplo a matemática de Rieman. tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. a biologia molecular e certos campos das ciências formais. é imanente a outras forças animadoras do social. ou tendência à autopoiese. mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que.

Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no psiquismo: atos. Essa é a determinação complexa pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. que Althusser chama "todo complexo articulado. políticos. políticas. formam o conjunto total. funciona interpenetrado. em que ld. à medida que adota essa idéia de sobredeterminação. um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana. mas todas elas têm em comum a insistência em não separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas. mas uma sociedade reticular formada por uma grade aberta. e sim mediatizado por aqueles. Existem outras teorias da causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade social. para que o modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente psíquicos. Um de seus seguidores. tem muito em comum com a proposta althusseriana. por sua vez. técnicas. diversificado e sobredeterminado". no caso de Deleuze e Guattari. 59 ▲ . tecnológicos. Louis Althusser. de registro e de consumo. utilizando outro modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente intersecionados. A instância chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção. naturais etc. uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva.exclusivamente a partir do econômico. não é uma teoria da sociedade formada por três subconjuntos que. mas não exclusivamente. formações do inconsciente etc. Althusser a denominou sobredeterminação. o sistema. A instância decisória é a fundamental no processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. semióticos e naturais e estão ordenados em três superfícies: de produção. em alguns de seus ramos. de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras são superpostas ou imanentes entre si. Mas o conjunto total. Por exemplo. O determinante em última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos efeitos econômico-sociais. econômicos. O lnstitucionalisrno. que em todos os modos de produção é o econômico. de maneira tal que haverá um determinante em última instância.

também. de inteligência dos determinantes desse campo.Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo. E óbvio. em geral. Por isso denomina-se campo de análise. que se chama "Contratempo". como se geram seus efeitos etc. que em qualquer corrente de Institucionalismo. nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos sujeitos a nível inconsciente. porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a nível nacional continental ou planetário. infinitamente menor que o campo de análise. É claro que o campo de intervenção é. suas causas. Isso significa delimitar um objeto ou um campo e aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo. técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente. desde um estabelecimento até. o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". como estão colocadas e articuladas suas determinações. uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de produção no curso da história. concretamente. e isso dará um estudo como aquele no qual participou recentemente Guattari. o espaço delimitado para planejar estratégias. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde pequeno até amplíssimo. que é o "recorte". por exemplo. logísticas. Mas podem ocorrer campos de análise infinitamente menores. 60 ▲ . como uma análise do significado da festa no Brasil ou uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru. Esses campos de análise são terrivelmente amplos. muito heterogêneos – por exemplo. Outra coisa é o campo de intervenção. táticas. ou da múltipla escolha para o processo de seleção. O máximo que se consegue delimitar são campos de análise organizacionais. as principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –. o primeiro a ser abordado será o conceito de campo de análise. para saber como funciona. implica um processo de compreensão. Campos de grande porte poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau. Esse objeto pode estar constituído por materiais. Isso ainda não implica necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado. ou o funcionamento dos programas de estudo no vestibular. que se chama "O Estado e o Inconsciente".

eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí. a demanda não é o primeiro passo de um processo: ela é produzida. modulada. O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar. Pode-se compreender e não intervir. antes. Só que um campo de análise é pensável sem intervenção. eles estão articulados entre si: à medida que se compreende. e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. 61 ▲ . a proposição direta ou indireta dos serviços que a organização analítica faz e que não pode não ser causante. cujos autores mais notórios são Lourau. que é um dos primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva. em que radica a problemática desta organização solicitante. o Institucionalismo enfatiza a necessidade de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea. ou que relação existe entre a publicidade. que essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise. incluir a auto-análise. Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de Análise Institucional. para fazê-lo. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a expressão do desejo. que também temos de tratar sinteticamente. Para dizê-la provisoriamente: quais são os aspectos conscientes. se compreende. mas não se pode intervir sem alguma forma de compreensão. analisar. esmiuçar o pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. desde o princípio. Mas acontece que. geradora ou moduladora da demanda de serviços que lhe é formulada. determinada. A isso chamam análise de demanda. a divulgação científica ou não-científica. particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa. mas um campo de intervenção é impensável sem um campo de análise. manifestos.a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. se intervém. A demanda não existe por si. deliberados. voluntários deste pedido. a compreensão de como a organização analítica gerou esta demanda. Em geral quando os dois campos se constituem. por esta oferta. e está marcada . e à medida que se intervém. De modo que para compreender a demanda de análise institucional de uma organização é necessário. de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta.

e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações. tem uma fórmula que não explica todas as situações. atos falhos. que é o verdadeiro objeto de análise. demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. mas que é muito ilustrativa. Entre a organização analisante. vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização. Mas juntos é que vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. concebeu o conceito de derivados do inconsciente. com a oferta." Essa mensagem subjaz. Quem demanda. no meu modo de ver. provavelmente. que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta para ser analisado. intervinda. lapsus linguae. A Psicanálise já classicamente. você não entende. uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque. não são efeitos exclusivamente 62 ▲ . tão técnica. está "por trás" de toda oferta de prestação de serviços e. um severo processo de auto-análise de como produzir a oferta de seus trabalhos. e a organização analisada. que consiste aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e. formações do inconsciente. formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles fenômenos. quando essa oferta gera uma demanda. então. Portanto. interveniente. além disso. ela não pode estar modulada senão pela própria oferta. sejam eles pontuais ou mais amplos. Então. também de bens materiais. como sonhos. ou seja. delírios. não sabe em que consiste. Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador.Um institucionalista muito respeitável e. para poder dar o primeiro passo em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-. injustamente pouco conhecido. sintomas. chistes. Mas é tão complexa. tão sutil. Isso exige por parte do coletivo analisante. o coletivo prestador de serviço. Não existe aqui. Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade. esta análise deve ser articulada com a forma em que foi produzida. que ele não sabe o que é.

manifestá-la. Os mitos. efeitos transacionais ou formações transacionais. Não é que em Psicanálise não o seja. os rituais. só que a Psicanálise tem uma persistente predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações do inconsciente. absolutamente. o fluxograma etc. nem exclusivamente inconscientes. nem uma lei. Mas as diferenças são as seguintes: Primeira: na materialidade fenomênica. a maneira como está organizada a memória de uma organização. porque sabemos que em Psicanálise os comportamentos. E essa é a primeira diferença. isto é. é um efeito ou fenômeno formalmente parecido com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. de uma mistura. subordinar os outros à compreensão verbal. nem pelo ego ou o id. da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas instâncias. os efeitos verbais. Então. a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. o uso do dinheiro. nem exclusivamente pré-conscientes. pode ser um arquivo. pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. na aparência desses fenômenos. ou seja. O analisador. pode ser um costume e não uma norma. os regulamentos. os estatutos. do domínio e o cuidado de si. exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito. em análise institucional. Um analisador não é assim. pode ser uma característica dos modos de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma. um analisador não é necessariamente um discurso. E é claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional. a forma como está elaborada a planta arquitetônica da organização. pelo menos fenomênica ou técnica. mas pode ser um monumento. as atitudes corporais. São fenômenos resultantes de uma combinação. Não são dados claramente efetuados pelo superego. o organograma. Por isso é que se chamam. e a.conscientes. a couraça caracterológica também são considerados formações do inconsciente. nos questionários ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. etc. ou seja. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador. não se privilegiam. denunciá-la. a carta de princípios. Isso é claro. 63 ▲ . Por exemplo. da sexualidade. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica. do lazer. E podem ser os relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas. segundo uma das denominações.

introduzem 64 ▲ - . Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção do analista). e. Existem grandes analisa dores e pequenos analisadores. declarar. ou seja. evidenciar. Então. revolução burguesa. que foi marcar o fim do feudalismo e o início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. que são dispositivos que os analistas institucionais inventam. Um analisador é um produto que pode se auto-analisar. Mas podem haver pequenos analisadores. a definição correta é dizer que são analisadores históricos. que a própria vida históricosocial-natural os produz por conta própria como resultado de suas determinações. Só que esse analisador. pelo menos nos seus aspectos geológicos. e esses podem ser um conflito dentro da organização. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender. realmente. manifestar. tem a possibilidade de não apenas manifestar-se. este tipo de fenômeno. sendo assumido por seus protagonistas. ele não precisa ser analisado de fora. não apenas é capaz de enunciar. mas também de se compreender. que também é uma má expressão. produto de determinados encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média. por exemplo. denunciar. porque espontâneos todos são. ele predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se. de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade. existem os chamados analisadores naturais – que é uma expressão inadequada.Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir. E existem analisadores artificiais ou construídos. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu próprio processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro de certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico. como também de resolver a situação da qual ele é emergente. um determinado acidente numa usina atômica (geograficamente pequeno. porque analisadores naturais são os terremotos. E dessa maneira. ou seja. como todo mundo sabe. para começar o processo de seu próprio esclarecimento. pelo menos) etc. colocado em condições propícias. Isto não é fácil de ser explicado. não está preparada para isso. Nesse sentido. "Natural" quer dizer espontâneo. acumulação de capital mercantil e usurário etc. Um grande analisador é a Revolução Francesa. a análise institucional nunca conseguiu compreender.

de alguma forma. Só que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material do paciente produz no analista. os retomaremos na exposição correspondente aos itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica. um processo econômico. mas um processo de materialidade múltipla. a análise da interação. político. sendo que. ao nível de produção de analisa dores construídos. não começa no usuário: é recíproco. veremos rapidamente alguns termos. dramático. Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. procedimentos de tipo ativista. pois é prévia a este contato. não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com seu objeto. que denominamos standard . político. antropológico e manobras do tipo" convivência prolongada". lógico. intervinda. psíquico heterogêneo por natureza. cuja finalidade é basicamente transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento. A implicação se define como o processo que acontece na organização de analistas institucionais. em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai estudar. 65 ▲ . a raiz de seu contato. que deve ser analisado em todas as dimensões. da interpenetração destas duas organizações. Insistiremos uma vez mais em que estas definições. experimental. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica. cenográfico. uma análise variável da relação entre o sujeito e o "objeto". na equipe de análise institucional. é simultâneo e é parte indissolúvel do processo de análise da organização. ou seja. produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana.nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos mesmos. montagens de tipo propriamente científico. como está claro nas ciências físicas. E não é apenas reativo. se valem de todo e qualquer recurso. É. Poderse-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. complexa e sobredeterminada. e na análise institucional a implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente. Em continuação. de sua interseção com a organização analisada. ou seja. sociológico. Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. O passo seguinte será falar da análise da implicação. seja de tipo artístico. é o contrário de uma análise "objetiva".

As mesmas estão armadas com sentidos diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores. forma etc. Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções.seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. Estes cumprem funções eliminatórias. tecnológicos e até subjetivos. estabelecimentos. No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações. em articulação com os quais adquirem seus significados prevalecentes. a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião. O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista chamava de "aparatos". dizer-se que é o contrário de um equipamento. naturais. maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos. do registro ou do controle social. que sua condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade. ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico. a Polícia. segregacionistas ou punitivas (como por exemplo. Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente. sempre simultâneo a sua formação e sempre 66 ▲ . enfatizando. de grande. De um dispositivo pode. estrutura. Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função. da Comunicação de massas ou a Família). Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia. artificialmente extraídas dos contextos teóricos. as Forças Armadas. mais ou menos sistemáticos. assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. aparatos. médio ou pequeno porte. de alguma maneira. da Educação. cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão. teatro ou nas artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" sociais. além do mais. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento.

67 ▲ . técnicas: Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível. para sua montagem e funcionamento. Por último. Um grupo político sujeito (quer dizer. contradições principais e secundárias. têm a peculiaridade de nascer. os territórios estabelecidos e os meios consagrados. Nesse sentido é óbvio que os dispositivos. Gera. defesas. táticas. dispositivos da área ou organização intervinda. o que se denomina linhas de fuga do desejo. um pensador original e libertário. do novo. pelo contrário. têm a ver com a transversalidade (conceito que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e. conflitos. revolucionários e transformadores. decidir os passos que comentaremos em seguida. os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura. também chamados agenciamentos. um descobrimento científico. conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. organizar. poderes. uma obra artística. assim. potências.a serviço da produção. planejar. magnitudes de produção. com o instituinte-organizante. opositivas e antagônicas. processos. um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo. assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. os faz explodirem e os atravessa. Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem. do desejo. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona. Um dispositivo em geral não respeita. estratégia. os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações. acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. gerando acontecimentos insólitos. dinâmica. mecanismos. ele os inclui. territórios. equipamentos. tais como contrato. linhas de fuga. analisa dores. da produção e da liberdade. logística. que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário). O diagnóstico é importante para justamente instituir. reprodução e antiprodução. num sentido restrito. digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou sujeitos. antecipar. da vida.

quais serão os aliados. dinheiro. é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo. para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções. Os diversos aspectos do contrato: tempo. avanços. punitiva ou de extermínio parcial. serviço profissional independente. 68 ▲ . honorários ou outro tipo de retribuição. estabelecimentos ou. tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego. solidariedade militante etc. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. mar ou ar. Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças. simplesmente. são analisadores. simpatizantes. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. Para dar um exemplo bélico. assim como a progressão das manobras. habilidades. pactos. As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação. de fronteiras.) que fundamenta o contrato. emergentes da problemática a ser pesquisada. mas com certos segmentos do mesmo. de que se dispõe ao começar uma intervenção. contratantes. totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação. se essa guerra se dará por terra. recursos etc. freqüência dos trabalhos). Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção como serviço deflagra. quer dizer. Por outro lado. expectativas. Como veremos. promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações. alternativas. com os coletivos de usuários "clientes". A estes acordos costuma-se denominar contrato. precisam fazer acordos.Os institucionalistas. retrocessos etc. Trata principalmente de tempo (duração total. A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo). elementos. opções. a previsão de vicissitudes. com que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidades de realização. dos espaços e territórios que se colocarão. objetivos.

69 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Qual é o sentido dos termos sujeito. No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística. As táticas referem-se a batalhas circunscritas. enquanto já se têm. à área onde se desenvolvem. granadas etc. Quer dizer. estratégia geral e primeiras táticas. É interessante enfatizar drasticamente que no Institucionalismo. prosseguindo com a metáfora. Procedimentos interpretativos. estratégia.neutros e inimigos etc. desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no lnstitucionalismo? 2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 4) O que é análise da implicação? 5) O que são: analisador. logística. esclarecedores. informativos. equipamento. será ditada pela inspiração e o treinamento. de discussão. morteiros. esboços de uma logística. praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. cavalaria. objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades do coletivo em pauta. uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios. a eleição de técnicas é consideravelmente livre. de expressão. lúdicos. baseados nisso. táticas e técnicas? 70 ▲ . As técnicas. sem tomá-las ao pé da letra. aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis. à participação da infantaria. os movimentos de tropas etc. agenciamentos artísticos. a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção. assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora. de sensibilização. dispositivo. o horário. convivenciais. desportivos.

assim. com certos matizes diferenciais entre elas. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. uma forma de abordagem das organizações e das instituições que. são propostas políticas mais subversivas. políticos. mais ativas.Capítulo V AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas. de graduação entre essas três tendências. existe uma graduação à medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. digamos. São também as mais difundidas. Tentarei uma espécie discutível de classificação. Produz. Então. é politicamente moderada. contar com certo conhecimento de 71▲ . poderíamos dizer. que podemos tratar de caracterizar nesta exposição. Terei de ser muito esquemático. particularmente aqui no Brasil. mais enérgicas. nem necessariamente as mais importantes. mas são as que mais notoriedade têm atingido. eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –. se é que tal termo exprime alguma coisa. Em termos. eu diria.

A série disposicional é composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados por seus progenitores. no seu percurso e desenvolvimento. Nesta teoria distinguem-se. Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de movimentos e de adaptações. isto é. mas. Algumas dessas situações são altamente tensionantes. pelos sujeitos psíquicos que o geraram. introduzindo-os nesta teoria. tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo uma das séries: a série disposicional.Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar isto de forma breve. ou seja. metodologia e técnica sociopsicanalíticas. na constituição do psiquismo. Tudo que acontece na vida psíquica. Ela se ocupa da psicopatologia com uma expectativa de cura. mais as correspondentes ao parto e primeira infância. Seu Superego está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de significações. duas séries assim chamadas: a série disposicional e a série desencadeante. intensamente pressionantes para o 72 ▲ . de educação. o sujeito se incorpora plenamente à vida social. de estudo. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a chamada latência. Em seguida. A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. Freud criou também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". Acrescente-se a isso as experiências da infância precoce. de criação e de transformação. continuam sucessivas incursões nas atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da outra. Suas representações são secundariamente recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. grupos sociáveis no sentido amplo. grupos de jogos. com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de idade). As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias adquirem retroativamente sentidos morais. tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries. e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. Então. Essas séries denominam-se complementares. o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação. adquire contato com os grupos chamados secundários.

elaborar – ou não – o chamado Complexo de Édipo. privação e castração existem diferenças. gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de fixação. sociopsicanaliticamente falando. então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". Então. sublimatórios. arcaica. concretas. pode efetuar-se em comportamentos ativamente adaptativos. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre determinada série disposicional). cada sujeito é singular. experiências de privação. Elas. Privação refere-se à falta de subsídios para necessidades biológicas. atuam em conjunto. Outra forma de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu. e isto é que vai resultar no retorno do recalcado como sintoma. Essas são experiências de frustração. em sintomas. E isso resultará na doença psíquica. em geral. e as configurações da série desencadeante – que podem gerar patologia. poderíamos resumir esses três 73 ▲ . único. durante sua primeira infância. não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional diferente). Logicamente. é importante assinalar que entre frustração. atua sobre a série disposicional que o sujeito traz. que constitui o núcleo central de sua série disposicional. e experiências daquilo que em Psicanálise se chama castração. Se não resolver. Ou seja. Quando a série dessas experiências. irrepetível. De um ponto de vista mais amplo. atuando sobre a série disposicional – são totalmente variáveis. são exigências diferentes. constituída pelas situações da vida. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária. pode resultar numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. Apesar de não podermos desenvolver agora. Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta articulação entre a série disposicional e a série desencadeante. a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar. quando a série desencadeante atua sobre a disposicional. ou pode ser causante de processos patológicos. ao passo que a frustração é um desengano de amor. resolver.psiquismo. castração refere-se a um tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo). de universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia em geral. No entanto. faltas diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos diferentes.

tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menosvalia, exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa. Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto "pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar-se, que estabelecer uma aliança entre si para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento, 74 ▲

através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e outras formas de comunicação inter-humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar 75 ▲

a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um se tor da humanidade por outro. Isso faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de seu trabalho não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 76 ▲

não desfrute dos resultados deste esforço. e assim por diante. ou seja. Ou seja. de mil maneiras diferentes. Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de retificação com o real. E essa experiência de impotência gera neles. O que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas organizações de trabalho. incidindo sobre a série disposicional de cada um deles. Por isso. ou seja. um processo regressivo. entendendo o trabalho num sentido muito amplo. a situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. adequada às circunstâncias concretas que os rodeiam. o que Mendel vai afirmar é que. com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. o lugar onde deve ser estudada a experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar natural" em que os homens se associam para exercer sua potência. não apenas produção de bens de consumo. que é no lugar de produção. recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida simbólica. Só que esta regressão não deve ser pensada como sendo da ordem individual.humanidade que trabalha. comercial. Em 77 ▲ . nos âmbitos de trabalho. as vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas acontecem. Então. a regressão que se produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou psico-institucional a um outro. Esta experiência de impotência gera uma regressão do psico-institucional ao psico-familiar. E as figuras determinantes reais dessa situação atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua situação familiar. mas também trabalho escolar. chamado funcionamento psico-familiar. essa experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado no capitalismo. Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam parte dessas organizações. eles vão viver a situação de trabalho. mas também produção de serviços. médico. é fácil ver que esses conjuntos vivenciam. mas da ordem coletiva. Para Mendel. quando se estava construindo sua série disposicional. não apenas trabalho industrial. ou seja. no sentido em que os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual já passaram. se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja).

delírios. que por tratar de ser clara pode resultar empobrecedora. feito em colaboração com uma equipe interveniente. Devido a essa regressão que mencionamos. e não passa exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas. objetivamente. que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica e obter a compreensão da regressão que os afeta. enfim. senão os criadores exclusivos. como acontecia na sua infância. se isso está mais ou menos entendido. Tentando outra vez uma síntese. chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária. mas exige um movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível. Agora resumiremos a posição de Lourau. pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise Institucional. familiar. Lapassade e seus companheiros – que são. inibições. eles eram pequenos. Então. desconhecendo. afinal de contas. É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual. porque. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas. A metodologia de intervenção conserva muitas das características da intervenção psicanalítica. não totalizável – de 78 ▲ . como sintomas. uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer dizer. imaginárias. reagirão de uma maneira irreal e fantástica. eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio. e não tinham outra forma de solucionar essa situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. em que. atuações. a proposta de Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise. com pontos de vista e postulações perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. que estão negando. para poder ter de novo um acesso ao real atual. e também se refugia no mundo da fantasia. Este processo opera teoricamente.conseqüência. sós e impotentes. que se tem perdido devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar. somatizações. recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional. digamos o seguinte: Para a Análise Institucional. o coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica. eles são os produtores da riqueza. como já dissemos. como tudo quanto constitui a patologia biopsico-social. Dessa maneira. mas coletivo. sobretudo o recurso interpretativo.

então. A Análise Institucional não é. Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição. Em palavras diferentes. úteis etc. um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia dar conta de todos estes 79 ▲ . Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de comportamentos humanos aos quais classifica e divide.de negatividade consigo mesmo. segundo sua amplitude. tanto para o saber espontâneo de seus agentes sociais quanto para os experts que as descrevem. Assim consideradas. tendese a atribuir-lhe funções inteiramente claras. As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou "corporificadas" que. quer dizer. é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais. eficientes e em geral consideradas necessárias. indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. ou seja. atribuindo-lhes valores e decisões. ou podem ainda operar como costumes. as engloba. essas entidades. em normas escritas ou discursivamente transmitidas. como hábitos não-explicitados. contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em que. ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norteamericanos. que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas.instituições. outras proscritas (proibidas). como por exemplo. agentes. podem ser: organizações. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis. cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam. ocultam funcionamentos divergentes. indiferentes. uma modalidade particular do matrimônio poligâmico. indispensáveis. usuários e práticas. Cada instituição é universal. ainda. com referência aos outros e em relação ao sistema global que as instituições integram e que. como dizíamos. outras apenas permitidas e algumas. uma norma universal (digamos as relações de parentesco). e essa ausência é registrada como um não-saber. ainda que seja de maneira aberta. algumas prescritas (indicadas). estabelecimentos. Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si mesma). também tem uma relação.

Pelo contrário: t rata-se de uma investigação permanente. cada coletivo de uma organização está alienado no não-saber.desconhecimentos. sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a negatividade operam em cada conjuntura. Isso gera. ela considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar mercadorias (e não a gerar bens de uso). digamos assim. E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. o fato. entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações. em parte. em todas as organizações. é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. é um desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e organizações. positivando de uma vez por todas o tecido social. existe nas organizações. desconhecer os principais vetores que ordenam a organização na qual está inserida. da classe institucional trabalhadora. devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho". ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia de Estado. dos meios de decisão. de Ideologia. classicamente. Mas. a Análise Institucional parte da idéia de que. do sentido da existência e uma definição da função das organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder. também é proprietário de um saber. Por exemplo. com as classes dominantes. ao qual se referia Mendel. É vítima. de um desconhecimento que. esse mesmo processo de impotência. É o que o Marxismo chamava. em parte. no caso das organizações do trabalho. no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando. tanto nas suas bases como nos estratos que lhe são próximos. como diria Mendel. é vítima de um processo de doutrinamento ativo por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de trabalho". Esse poder é entendido como a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados. Ela 80 ▲ . que o mesmo Marxismo não sabe decifrar. dos valores. porque quem é o proprietário dos meios de produção. das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. uma noção do processo de trabalho. dos objetivos da vida. Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia. Isto é.

arbitrariedades que as classes dominantes da organização costumavam. outros são construídos pelos interventores institucionais. E não teria de ser assim. de acidentes de trabalho. na modernidade. Então as classes e grupos dominantes. São fenômenos conflitivos. solucionar drasticamente. forçosamente. brigas. trata-se de criar um dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos de mal-estar. são vivências sofridas. são lugares de atrito que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por aqueles que o produzem. Em um sentido amplo. Alguns deles são" espontâneos". incomunicabilidade. por exemplo. descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – Recursos Humanos. o analisador "sexo". com medidas disciplinares. o analisador "poder". são acontecimentos mais ou menos explosivos. de impotência. Mas a divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. que geram essa experiência de impotência. tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de respostas individualistas. o não-dito compreende a relação de não-saber que cada momento da instituição guarda com respeito ao outro e o não-saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. o analisador "prestígio". essas contradições vão estourar em fenômenos como o do absenteísmo. de disfunção que aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho. e ainda costumam. "naturalmente". que se destina a transformar toda essa problemática em uma 81 ▲ . E assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz c oincidir com uma divisão social. Mas os que podem delimitar-se com maior freqüência são. ou Psicologia Organizacional. monstruosas. como o da diminuição da produção. Então. Então. rebeldia e revolta estéril. Isso constitui parte do não-dito institucional. o analisa dor "dinheiro". ou Relações Humanas –. ou Relações Públicas. uma posição de maior poder. de conflito.considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior saber dá. conflitos. desordenadas ou autodestrutivas. mas também uma série de relações humanas distorcidas. da tóxico-dependência. Esses analisadores são muitos. incidência do alcoolismo. como já dissemos anteriormente.

correlacionar esses analisa dores com suas causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar esses fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si mesmo. Finalmente. que é necessária-. a recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo. é parecido com o de Mendel. tanto do não-saber das contradições da estrutura e da função do sistema. de imposição. E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico-Socioanálise. das forças subversivas. na qual vão poder analisar os fenômenos de alienação de uma e de outra. esses fenômenos. eliminando as situações de burocracia. dessa maneira. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta. a equipe interveniente também vai integrar-se com a organização intervinda numa organização compartilhada. exaustivamente. mas sem sair da lógica do sistema. negociando ou vivenciando. relaxando-se. De modo que esse processo autogestivo e autoanalítico. sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são as causadoras dessa problemática. Trata-se de colocar os quadros em contato para que solucionem esse assunto conversando. cabe 82 ▲ . O objetivo.simples questão de negociação ou comunicação. Então. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a autogestão. das forças revolucionárias. a isso se chama "implicação". Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do trabalho. como um desvio das forças críticas. ou seja. Em todos os dois há certa semelhança. Trata-se de criar condições para que possam. que vai tentar deflagrar na organização intervinda. de dissociação – não a diferenciação técnica. a conseqüência. pode-se ver. vai ser ocasião de poder analisar também os seus próprios conflitos da mesma natureza. e descubra a maneira como esses efeitos antiprodutivos são a expressão. mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. mas também diferenças. mas nas formas peculiares que este adquire em seu caso singular.

na qual se discutem honorários. trata se de uma prestação profissional de serviço. trabalha em muitos lugares do mundo. é feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo organizado. ou seja. Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. é geralmente um serviço apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado. o requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico. Além disso. a uma escola. enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou menos generalizada. dentro de um marco mais ou menos convencional. a um sindicato. Isso. tratando de caracterizar algumas diferenças essenciais. auto críticas e análise da implicação. Isto é. quartel etc. convento. em última instância – apesar de sua franca inspiração libertária. tempo e demais coisas. fábrica. como prestação de serviço profissional. a demanda. não deixam de ser experts. que são muito 83 ▲ . Pode-se. todo um processo de diagnóstico. apesar de uma vocação militante que têm no seu trabalho. Isto é. mas tem uma espécie de central em Paris. com uma conflitiva mais ou menos moderada. Por exemplo: o grupo de Mendel. quando se pratica sobre uma organização circunscrita. ou "a quente". não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica dos experts profissionais. prognóstico e indicação. de sua enérgica vocação revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos tradicionais. e um contrato de trabalho. ir até lá e solicitar seus serviços. os sociopsicanalistas e os analistas institucionais. se denomina" autogestão a frio". Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. científicos. que se chama Degenettes. entre a organização solicitante e a organização solicitada. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau. quando se opera no seio de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva generalizada de uma sociedade inteira. não deixam de ser técnicos. hospital.esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio". apesar de todas as ressalvas. Então. então. apesar da rigorosa autocrítica que exercitam. como já dissemos. que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional. Isso gera.

todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo. interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a precederam. uma relação de contratação. e protagonizado por qualquer pessoa que tenha. as sentimentais. necessariamente. para se aproximar muito mais do Anarquismo. e que não podem ser sistematizadas 84 ▲ . Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. as políticas. que não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. Mas que tem também um aspecto analítico. Não implica um lugar nem tempo determinado. as econômicas. digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a de Mendel. desempenhada por experts nem por profissionais. ou uma maneira de viver. presente por toda parte. a compreensão de como as determinações alienantes do sistema. A Esquizoanálise pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer lugar. em qualquer momento. Então. responsáveis pela dominação. politicamente. per se. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina. indispensavelmente. Além disso. necessariamente. Não é necessariamente uma atividade coletiva. essa prestação de serviços convencionais. as relações com os outros e as relações conosco mesmos. naturalmente. estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais.sofisticadas e complicadas. generalizado e ubíquo. pela exploração e pela mistificação. Propõe algo assim como um processo de análise permanente. Para ela. mas basicamente como uma nova forma de pensar. um modo de ser. mas que pode ser um trabalho feito por um sujeito sobre si mesmo. são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a alienação e propiciar. uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe. para cada situação. Não implica. Eu diria que de Mendel a Deleuze e Guattari existe. ou seja. as afetivas. táticas e estratégias absolutamente singulares para cada caso. senão que pode ser dual ou individual. as artísticas. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. Não é. Sequer implica um trabalho de um agente sobre um usuário.a invenção de uma metodologia e de técnicas.

Para Deleuze e Guattari. como uma proposta radicalmente nova. aquela das máquinas desejantes. que pretende ser um novo gênero. particularmente. que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. porque eles consideram a definição freudiana do desejo. Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari. do psiquismo. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas. senão à do dinheiro e outras. poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia. a "natureza social". é rigorosamente freudiana: é a que Freud dá nas formas que. na versão dos autores. da vida. o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo. ele não dá muita ênfase a essa categoria e a esse conceito. É alguma coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo. a participação do desejo. a "natureza humana". por exemplo. por referência não apenas à instituição familiar. uma ideologia. como. mas. da história. a coisa já muda radicalmente. podemos dizer que existe a "natureza ecológica". são as mais amadurecidas de sua obra. a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais. Para Freud. nem como uma ciência. já forma como que uma terceira natureza. eletrônicas etc. Inclusive. se aceitamos que na civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas. não se trata de 85 ▲ .nem transladadas para outra oportunidade. só que essa esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes. Em Deleuze e Guattari. mas para eles a questão se altera por completo. embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional. não enquadrável. Não lhe interessa. é uma doutrina. mas não é um inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o não-dito e não-sabido. na nossa opinião não se trata de filosofia. mas é uma força pertencente a esse domínio. da vida organizacional. Então. apesar de um de seus produtores ser considerado o maior filósofo contemporâneo. se perguntaram qual é a definição de desejo em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. a concepção do desejo. segundo uma epistemologia clássica. entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. uma crença? A rigor. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta pobre: em Mendel. elétricas. nem como ideologia. eu poderia dizer. a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica.

Baseando-nos nelas. que é a produção já deformada pelo capitalismo. e tenta esterilmente repetir um estado anterior –. o que se tem de fazer é liberar. propiciar. é o produzir. por exemplo. o desejo é. Para Deleuze e Guattari. se tomamos o conceito freudiano de desejo – ele. a produção e o desejo são uma e a mesma coisa. do real psíquico. eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção. porque as representações não interessam tanto quanto as forças. incluída a psíquica. para concluir. Mais ou menos essas são as diferenças. enquanto em Deleuze e Guattari. ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária. A produção não é apenas produção mecânica social ou natural. Equivale a dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social. que são imanentes entre si. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles supõem. Para quê? Para que. deflagrar a potência da produção. o desejo é produtivo. Não a produtividade. como dizíamos. A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. para eles o desejo não é restitutivo. a realidade está composta por 86 ▲ . Ao passo que. esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de desejo. Então. vai-se gerar uma nova categoria de produção. isoladas entre si. dominá-los e utilizá-los no sentido de ganhar uma margem de poder possível. É a mesma natureza com uma diferença de regime. segundo as características do processo primário. mas a produção como processo de geração constante do novo. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar.domínios nem de esferas separadas. mas é também produção desejante. que só precisa ser veiculada. liberada de suas constrições. no nível molecular. no caso de Mendel. em Mendel. Ou seja. de uma natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção. mas entre suas formas molares. uma vez interpretados. por exemplo. é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados. é restitutivo. tal conceito não consegue englobar todas as formas de produção possíveis. que abrange todas as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis. e com essa característica de gerar sempre o diferente e em todas as atividades possíveis. especificamente psíquico. os sujeitos possam controlá-los. do real natural e do real maquínico – é a produção. digamos que. do desejo e da diferença.

organismos. Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante-revolucionários gerados por encontros ao acaso das intensidades. ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. 87 ▲ . O nível de funcionamento da Superfície de Produção é submicroscópico ou molecular. os códigos. O Corpo sem Órgãos torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que. ou máquinas desejantes. mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário. A Superfície de Produção está. enquanto que. asiáticas ou capitalistas. integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas Máquinas Desejantes. o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídosórganizados: Estado. a do RegistroControle_e a do ConsumoConsumação. representações e estruturas edipianas). É o lugar das identidades e dos controles e da repressão generalizada. por sua vez. O Corpo sem Órgãos assim povoado se transforma numa Nova Terra. geradoras de tudo quanto é novo. dinheiro. quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam. sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. desejante-produtivo. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção = Libido. Superfície de Consumo = Voluptas. compõe-se de matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. são capazes de desestruturar os estratos e territórios da Superfície de Registro. as Intensidades circulam por ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas. em condições desfavoráveis. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo. do Déspota ou do Capital-Dinheiro. Na Superfície de Registro. bancos. Também a ele pertencem as pessoas. ou seja. Superfície de Registro = Númen. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia. empresas. A este nível cristalizam-se em territórios. Igreja. os indivíduos. será respectivamente o Corpo da Terra. Em si mesmo o Corpo sem Órgãos é o grau zero de Intensidades. pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e levar à morte ou à demência. segundo se trate das formações primitivas. os sujeitos.três superfícies imanentes entre si: a da Produção.

Para tentar enriquecer um pouco essas definições. a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo? 89 ▲ . sugiro consultar o glossário deste livro. Como se vê. apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria torna impossível defini-los em detalhe. Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular. 88 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 4) Qual ê a relação entre estas três tendências. assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. um pólo paranóide (capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário).propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em novidades radicais.

a mais corriqueira. é uma questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos. Antes de começar. pelo menos. no entanto. pois me parece que. permanece nas pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste tipo de serviço. pode ser contemporâneo. É um assunto importante. seguramente. Mas 90 ▲ . passado ou futuro. mencionar algumas delas. Em outras palavras. E pode ser muito vasto ou mais restrito. Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de um campo de análise e um campo de intervenção. porque quando não fica claro. eu gostaria de fazer uma breve classificação – que. é um tema do qual o institucionalista quer se ocupar. isto é. será muito incompleta e esquemática – de algumas formas diferentes de intervenção. a mais conspícua. a mais habitual. Esse tema pode ser abstrato ou concreto.Capítulo VI ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard. Então eu gostaria de. é evidente que o campo de análise consiste apenas num espaço conceitual ou nocional. metodológica e tecnicamente.

fabril. é o exercício oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados. dentro do panorama social. no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica. pois. digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. por exemplo. dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção. É o famoso caso. o campo de intervenção. O campo de análise pode não coincidir. que é interna à organização na qual se vai intervir. pode-se escolher como campo concreto de intervenção uma fábrica. embora durante a intervenção iremos entendendo cada vez mais. habituais. Uma modalidade de intervenção – aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard . na condição de sociedade cientifica – uma sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos.é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica necessariamen te uma intervenção técnica. para poder saber como funciona essa organização concreta. é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade. com o campo de intervenção. e resolver estudar o processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil. convencionais. Partindo. 91 ▲ . que tem de fazer uma intervenção dentro de sua empresa mesma. pressupõe um campo de análise. por exemplo. Agora. Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que integra. uma indústria. Mas pode-se delimitar um campo de análise que não compreenda unicamente o entendimento dessa fábrica. mas não se pode intervir sem entender. um departamento de Análise lnstitucional numa universidade. em termos empíricos. É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo. por exemplo. porque se pode entender sem intervir. como já foi dito. Aliás. um instituto de Análise Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma microempresa. escolhida como campo de intervenção. Ou seja. isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente histórico-social. do departamento de Recursos Humanos de uma empresa. tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas. envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar entendê-lo .

É o caso. trabalho esse que pode ser ou não pago. Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização. na condição de qualquer outra coisa que faça parte dos papéis formais existentes nessa organização. em urna frente. e o faz sob um rótulo. Mas. mas que. mas simplesmente é um "cristão". sem dúvida. que acabamos de expor. é um próximo que. sem explicitar essa condição. Então. é um acordo muito definido. em todo caso. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista. com os filhos. nem é solicitado corno tal. pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais. convive dessa forma e. então. nem se infiltra sob outra condição não formal. por exemplo. vive dessa maneira. mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. formas técnicas de operar. em um espaço da vida e da atividade partidária. que consiste numa variação dessa última possibilidade. mas que não seja o de institucionalista. nos seus quadros. em um segmento. Urna variação que parece a menos comprometida e. dentro de seu papel de morador. qual ele pode pertencer organicamente ou não. com os companheiros. com os adversários. Por exemplo.ou um departamento de acompan hamento institucional de urna universidade. contanto que seja considerado corno parte da vida militante. limitado. isto é. Em outras 92 ▲ à . é o caso de um sindicato ou de um partido político que. Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre. pratica o Institucionalismo com sua mulher. esse sindicato ou esse partido político pede a seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor. opera corno institucionalista. em que ninguém sabe que seja institucionalista. ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas. em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico". é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo na convivência cotidiana. tendo assimilado princípios teóricos. e ele é procurado nesta condição. Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com esta anterior. de um morador numa associação de bairro. tem institucionalistas que são militantes formais.

palavras: é a quele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis, o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode levá-los a adotar uma atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso; não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 93 ▲

complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... " O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, devese ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de operar, corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos diziam: calcanharplanta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê-lo ... O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 94 ▲

atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é . "naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo. Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 95 ▲

cada profissão. Isso não é maldade dos agentes. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição profissional estão estruturados para isso. é estar próximos. um senhor ou uma organização vem consultar-nos sobre um problema de saúde. Mas há uma que temos de revelar.análise da implicação. consciente ou não. Mas a realidade vem junta e nós não estamos juntos. profissões. certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 96 ▲ . Então.. É um forte americano. São muitos. " Se a gente se lembra desta piada. Além disso. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócioeconômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora. sou profissional. Então. em território índio.. pode ser uma desonestidade. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são totalmente produzidas. para que seja mais lembrada pelos leitores. A divisão em especialidades. às vezes. devem ser amigos. fica mais fácil lembrar que a realidade com que trabalhamos vem toda junta. ela começa pela análise da implicação existente na oferta. o vigia sobe. ter presente. em princípio. para encarar qualquer problema da realidade e estar. os índios estão vindo. Então não tenho culpa de nada. Eu sou especialista em saúde. um ao lado do outro. Um oficial pede a um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. porque estão vindo todos juntos. ou sefa. e eu gostaria de descrevê-la de maneira pitoresca. olha e diz: "Sim. na produção da demanda. vêm correndo. do profissional.. mas não freqüentemente. numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. do especialista. e muitas vezes é.." O oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe. Há uma piada famosa que se passa num forte militar. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro. tem com sua tarefa. mas não nos usuários. acha que os problemas da realidade são problemas de seu campo. todo o meu poder social e todo o meu prestígio através disso que eu faço. E o que acontece é que cada especialidade. convencido de que o problema é nosso: de cada um. só existe dentro da classe ou da equipe. Se alguém me consulta por um problema de saúde. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se demonstrado eficazes. o mais que conseguimos. Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui porque excede nossos propósitos. Vivo disso.

estou a seu dispor. mas seria conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área.. quantos cientistas vocês conhecem que. a primeira coisa que ocorre é que a gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda. ninguém" compra". que coisas posso solucionar parcialmente e que coisas não devo solucionar. para que foi que "vendi". cruzada. realmente. pelo contrário. vamos ver como foi que convencemos este fulano a nos procurar. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura. Então. devo encaminhar noutra direção ou devo devolver. Então: "Venha que esse problema é comigo . resolutiva etc. A primeira coisa a ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita. o problema é meu.alçada. concluem que esse problema não é para eles resolverem. é difícil de se ouvir. com cuidado." Isso já é muito. Se eu não me constituo num lugar científico. Essa análise tem aspectos conscientes e préconscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe. O problema fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda. seus companheiros. e então o atendo. como foi que vendi isso. E se me procura. somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está demandando. Mas se eu não me oferecer. esquecendo-me de que. após ouvirem cuidadosamente alguma demanda. sem me dar conta. para" capturar este peixe"? Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária. o que tenho de fazer é analisar. ou seja. o que 97 ▲ . seus colaboradores ou sozinho. Às vezes há quem diga: "Sim. se não vendo o que faço. porque." Mas tem aspectos inconscientes. se ele me procura. é porque me ofereci. Existem poucos. Procura-me porque algum lado do problema tem a ver com o que faço. e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se conhecem muitos profissionais assim.. dar de volta ao usuário o que ele solicita de mim. profissional. o que foi que fizemos nós sem dar-nos conta. ninguém me procura." Estou tratando de ser simples. Essa é a análise da implicação na produção da demanda. " Quantos profissionais.. ou seja: que fiz eu. ampla. válida. Esse problema tem de ser resolvido com seus amigos.. O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita-me dizer-lhe que esse problema não é privativo de nenhuma especialidade. na oferta. que coisas. pode ser uma oferta vasta. posso solucionar. se o sujeito está demandando em primeira instância..

São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é o melhor". É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem solicita. infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela direção ou pelos proprietários. segmentos da organização. isto é. Isto é: qual foi o setor da organização que assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes. os interesses em jogo. não é exatamente um colega. ocial de O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento. e o faz com elementos conscientes e inconscientes no usuário. definindo nossos serviços como eficientes. os desejos em pauta e. consulta porque "é caro". Tudo isso modula a demanda. na mesma proporção neles e em nós. nem homogeneamente sinceras. ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere. de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. consulta porque" é bara to". chegou à conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis. Isso. consulta porque ele é "dos nossos". mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e a demanda. Consulta porque" é daqui". sem dúvida. Costuma ser. O passo seguinte é a análise da gestão parcial.vivemos fazendo é lutar pela legitimação. Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases. ou porque "vem de fora". que ofertamos o serviço. porque as bases não são homogeneamente revolucionárias. Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “ A ideologia 98 ▲ . não é nenhuma garantia. pela autorização e pelo reconhecimento s nosso serviço. isto é: quais foram os passos intennediá. o grau de consenso. sobretudo. para os institucionalistas. porque nos pode dar toda uma antecipação dos motivos desta consulta. nem homogeneamente progressistas. E isto é muito importante. mas para dar um exemplo simples: qual foi o cliente que.ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos.

" Então. singulares. Isso também tem de ser analisado. Então. geralmente.dominante é a ideologia das classes dominantes. mas apenas uma delas. consciente. que nunca coincide com o encargo. A demanda nunca coincide com o encargo. mas não único. Estamos falando de uma situação ideal em que. Vem um setor. que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos entre má-fé. originais. é uma solicitação consciente que. em geral. Nessa terminologia. da tecnologia moderna em relações humanas. que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. claro. vem apenas um segmento (apenas uma parte faz a demanda).. demanda é a solicitação formal. na medida em que a Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais. desconhecimento e recalque. passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional forma parte da parafernália de serviços característicos do progresso. mas o que elas querem obter é outra. Mas não coincide por quê? Por má-fé? Pode ser. É claro que as pessoas estão solicitando uma coisa. sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. viemos consultá-lo porque sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 99 ▲ . Então. veja. a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e como foi que consultou. Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro para os leitores. em geral. pois o fato de você considerar o parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa. uma organização numerosa nunca virá toda para fazer uma solicitação. Então. O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes. deliberada. O passo' seguinte é a análise do encargo. Por outro lado. Isso. solidárias etc. A diferença entre demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom. conflitiva. nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional. A compreensão da determinação dessa parcialidade é importante. mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes. Pode-se dar um exemplo clássico. desigual. as bases são. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e encargo. ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. contraditória.

Então. Pode ser fruto do desconhecimento.dos operários. porque já se tem uma vaga idéia de que se ele não é revolucionário. como paralisar isto. de uma intervenção profilática. porque é um corrupto ou porque é um reacionário. é: "Olhe. como desmobilizar. finalmente. a negociação etc. todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza. um problema recalcado. no entanto. tratase de algum conflito com a "mamãe". Não é comum isso? Tratase. melhoradora." Isso pode ser feito com plena consciência e com má-fé. de um problema de ignorância. O urologista irá receitar. de quem vem consultar alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o encargo recalcado. está surgindo um grave conflito por problemas de condições de trabalho. 100 ▲ . pelo menos é democrata ou humanista. por problemas de autoritarismo na liderança. então. Então não se lhe pede isso diretamente. Agora. quem tem fama de institucionalista dificilmente será solicitado abertamente para isso. por exemplo. da direção. como fragmentar. que se diz uma coisa e se está pedindo outra. Ora. me aconselha como desmontar este movimento. entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. inconsciente. quando. O encargo pode ter a ver. a comunicação." Por quê? Porq ue já se sabe que existe uma tecnologia modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se opera. O encargo. localiza os líderes. num plano manifesto. ou seja. pois. na organização. Mas pode-se perceber. você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica. ou como aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário. o entendimento. Há especialistas em fazer essas coisas. e procurar um urologista. progressista. que não sabe uma palavra sobre isso. perfeitamente. acontece que o encargo pode não ter nada a ver com isso. cloridrato de ioimbina ou viagra. por problemas de nível de salário. há uma demanda. Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má-fé.. e se isso não funcionar. simplificando humoristicamente. O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado (?) para a consulta. com algo que acontece quando. veja se acaba com esta revolta.. ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos. Mas pode ser.

e que sempre há dominação etc. é bom que tais manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. Sem dúvida este desagrado pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim". incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de emergente. em todo caso. Na realidade. pelo fato de ter sido colocado o cartão de ponto. falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um serviço. ou um estudo que não tem vontade de 'encarar. É claro. que sempre existe uma extração de mais valia. Vocês se lembram do que é analisador . ou uma autocrítica que não consegue suportar. de desconhecimento ou de recalque. e a maioria delas não é boa. anteriormente. Já sabemos o que é encargo. em termos de má-fé. estes grandes "protestos revolucionários". porque os quadros de base podem fazer essa solicitação. porque não se quer estudar. Quando se simplificou isso.natural: é um fenômeno (dito em termos clássicos. Mas vocês devem ter ouvido. Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de uma unidade. de desconhecimento ou de recalque. por exemplo. pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser fruto de má-fé. Então solicitase alguma reivindicação. não se pode entender um sem o outro –. com freqüência. e também análise da demanda parcial. Mas se os quadros são de base. que é o que surge como resultante de toda uma 101 ▲ . mas tem-se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a gente não trabalhe. descartado o fato de que todo trabalho é alienado. porque não querem trabalhar. ou de uma essência "vadia". no tocante à diferença entre a demanda e o encargo. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. Mas também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia cumprir. Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. Os determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente complexos. o cartão de ponto quer dizer muita coisa. não se quer trabalhar. heróicas.Agora cabe aclara r uma coisa importante. não se podem separar esses dois pontos. numa sociedade onde o trabalho é alienado. então temos de caracterizar os analisadores "naturais"." Já tenho recebido demandas dramáticas. Mas.

que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. e não por todo o coletivo. em primeira instância. Depois do contrato de diagnóstico. Qual seria um analisador desse tipo? Grande. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. delimitar quais são. a morte de um operário. o aumento das doenças de trabalho. E são "naturais". porque ele implica que o diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado. isto é. as defesas. assegura-se o respeito geral necessário. Por isso. poderia ser uma greve. pequeno ou médio. no entanto não é valorizada pelos usuários.série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. Senão. quais foram as resistências que se levantaram nos outros setores que se foi ouvir. Então. cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. não existem analisadores naturais propriamente ditos. entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. um contrato de diagnóstico. é interessante receber os honorários. 102 ▲ . Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam chamar de "presuntivo". Porque só ouvimos uma. é um convênio feito para poder construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. Então. tenta-se analisar. Com esse contrato. poderemos chegar ao que se chama diagnóstico provisório. no caso de existirem honorários. Um primeiro entendimento sobre o que está acontecendo lá na organização. e também porque um contrato de diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser diagnosticados. suponhamos um analisador chamado natural (criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto. legitimado e. já devem ser pagos. o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí. fundamentalmente. temos de fazer. pelo fato de que. temos de caracterizá-los. a esta altura. pelo menos enquanto acontecimento geológico. aquela que fez a demanda parcial. se entre outras coisas o institucionalista vive disso. Senão. E quando tivermos feito tudo isso. o institucionalista foi solicitado por um setor. se vai lá. O contrato de diagnóstico é um acerto. por um segmento qualquer. Este contrato já implica a construção de dispositivos para ouvir todas as partes. Então. Então. Mas então. e nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso. Só que é bom fazer este novo acordo. porque não foram fabricados por um interventor institucional.

Ainda é um presuntivo já mais elaborado. Vamos dar um exemplo fácil. porque é indireto. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural". só se ouviu os setores distintamente. Também se pode propor outra coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em um espaço diferente do habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitirnos observar o que acontece nessa convivência. mas não é sequer o diagnóstico provisório. Por outro lado. não estou deixando de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim e não. de indagação. Eles não são tão indutivos assim. a partir desse diagnóstico provisório. pode dar certo ou não. e importante. uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. ou dispositivos para poder recolher todos os dados do didgnóstico provisório. mais crítico. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o mesmo.O passo seguinte consiste em. mas está propondo um dispositivo agitador. Mas será que quando crio instrumentos de investigação. não é demasiadamente indutivo. Depois que se fez a investigação passiva. Por enquanto. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. é uma reunião de cineclube. Ouviu-se passivamente. Mas não foi concluído ainda o diagnóstico provisório. mais comprometido. teremos que pensar em outras alternativas. Uma vez aceito. mas não se criou condições para cutucar o nãodito que queremos investigar. porque se trata simplesmente de propor. fazendo-se a análise da demanda e do encargo 103 ▲ . desloca a problemática da situação espontaneamente referida. Mas talvez isso se possa entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. Então vai-se criar analisadores construídos. Os usuários podem aceitar ou não. reúne-se a equipe interventora e parte-se para analisar toda a colheita. Se não aceitam. resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e que vai dar-nos o material mais profundo. Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório. um agenciamento ativador. nada impositivo. poder planejar uma política. porque o interventor não está baixando regras. é "artificial" – já fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. uma estratégia. É muito recomendável e não é nada autoritário.

temos uma vivência de contato diferente. técnicas expressivas. técnicas definitivas. qualquer técnica. táticas. vai conseguir outras intervenções noutros lados. analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e novo contrato. também somo's mobilizados. quando se mantém uma convivência prolongada. Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser dada ao processo. exaustivamente. É possível não se dar conta de que essa ambição acordou-se nos interventores. Então. Esse contrato definitivo. os espaços onde se vai dar essa "guerra". 104 ▲ . a análise da implicação significa pesquisar. Por que é importante? Porque o passo seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. sempre que a tática. porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe fez uma boa intervenção aqui. somos igualmente ativados. Por exemplo. que envolve maior compromisso e requer mais retribuição. a ordem dos mesmos. Nova política. será necessário precisar quais são as estratégias. novas estratégias. despertou em nós. pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras intervenções. muito mais ricamente. que não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. Nova análise da implicação.definitivo. uma festa. a importância dos mesmos e as técnicas. um quebra-cabeça coletivo. exige ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em condições de manifestar-se muito mais livremente. no coletivo interventor. quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou recalcados que foram ativados. os procedimentos: psicodrama. uma guerra simulada. um cineclube. toda técnica é boa. depois de todo esse novo exame. Então. os movimentos fundamentais para conseguir os propósitos políticos. a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. temos adquirido solidariedade ou cumplicidade inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo. será necessário desenhar as táticas. mas pensada anteriormente. despertou na equipe interventora. temos de voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou.

resistência. o tratamento vai durar tanto tempo. todos os conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. atravessamento. Isso é completamente diferente das prestações de serviço profissionais habituais. ficará uma disposição e uma 105 ▲ . tal como foi planejada. isto é. no momento em que saímos da organização. por que quer pagar. Logo vêm as avaliações periódicas. que poderes quer nos dar e porque. que tempo pensa destinar ao trabalho." Não é esta a idéia. e porque. que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a implicação que se vai gerando na equipe durante o processo.Depois temos a autogestão do contrato de intervenção. Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico. ou seja. Se não for assim. o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la. mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo proponha se quer pagar quanto quer pagar." Primeiro quero saber o que o coletivo propõe nesse sentido. Depois vem a execução da intervenção. eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças. e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho. Consideração dos índices de transferência. depois de analisar a proposta. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise coletiva permanente. em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto. o que será muito ilustrativo do significado que a intervenção tem para cada segmento. vamos fazer uma proposta de contrato definitivo. produção. para chegar a um acordo consciente. que poderemos ou não comunicar ao coletivo. antiprodução. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: "Eu quero um contrato por tanto tempo. transversalidade. Os temas a investigar são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização? É claro que. não atendo.

4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 107 ▲ . Mas. políticos e econômicos continuam sendo importantíssimos. se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio. que não sejam recomendáveis. finalmente. temos de discutir. o processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos. tanto que se pode dizer que a regra são as exceções. já por nossa conta. mas a implicação e os problemas éticos. de forma permanente. de intervenções periódicas de atualização. é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generispara cada situação. Nós saímos. 106 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional? 3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. Podemos fazer um acordo de acompanhamento. profunda e exaustivamente. A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações. é um esquema para se considerar e omitir os passos que não sejam possíveis. condensar tantos outros etc. Em todo caso.instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo. em todo caso. que introduzimos como hetero. sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é propriedade do coletivo considerado. e o trabalho continua. Nossa decisão deverá ser submetida a ele. E. como vamos elaborar todo o material. como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer com ele.

assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. e não sem ressalvas. Em outras palavras: ocupam-se das instituições.Capítulo VII o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE f) O Institucionalismo e suas vicissitudes Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista. Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos sociais no que se refere às lógicas que os regem. que tenta conceituar de diferentes maneiras. não só porque este propósito excede em muito os limites deste livro. assim como aos recursos que empregam para obtê-las. às formas concretas em que essas se "materializam". bem como marcadas diferenças. uma vocação crítica. Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas. Podemos eleger uma. insistindo que não 108 ▲ . mas também porque supomos que este universo seja não totalizável. a um conjunto aberto e internamente diversificado de correntes que mostram certos valores em comum. ou Antiinstitucionalista. ou simplesmente Institucionalismo. às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação. estabelecimentos e equipamentos. Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral. ou Instituinte. organizações.

seguindo por outras crescentemente reformistas. por Marx. O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial transformador. epicuros. extremistas. o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos importantes pioneiros deste tipo. Por um lado. clandestinas. Nietzsche. em seus aspectos conservadores ou reformistas. Espinosa. Algo similar ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. Aristóteles. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua função ou funcionalidade de seu funcionamento. Campanella. com uma longa série de tentativas históricas de regular racionalmente a existência das coletividades. Bakunin e outros. Hume. Kant. Por outro. principalmente. em suas versões mais drásticas. proporíamos as grandes balizas da Revolução Francesa. até talvez caiba dizer. Descartes. à sua maneira. sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas contrastantes. Argélia e. estóicos. Quanto à gênese conceitual. Fourier e. Muito sumariamente mencionada. o Institucionalismo tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou experimentado. Essa vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos "institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições relativamente conservadoras. a gênese social desse Movimento pode relacionar-se. a serviço.será necessariamente compartilhada. Platão. da produção de novas formas libertárias da vida. revolucionárias e. Hegel e Heidegger. assim como aos sofistas. sobretudo. Bergson. A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem comum". Arbitrária e muito simplificadamente. da República durante a Guerra Civil Espanhola. Kierkegaard e Sartre. marginais. desde a tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia. Rabelais. Pelo contrário. na medida em que estas não são homogêneas. adere com muito mais entusiasmo ao espírito dos materialistas pré-socráticos. não pode deixar de se inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates. megáricos. os Escolásticos. 109 ▲ . Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus. até chegar a concepções e ações alternativas.

eclesiásticos e até militares). financeiros. como mínimo. assim. e nem sua herança institucionalista o é. Funcionalismo. a gama abarca desde as escolas que. Essa difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala. por exemplo: Comportamentalismo. e assim por diante. a saber: o da Educação. Encontramos. sindicais. entre os quais encontramos. Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia). todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas. Semiótica e Antropologia –. Simultânea ou consecutivamente. ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes institucionalistas. partidários. aspiram a títulos de cientificidade (de acordo. Economia. História. quer dizer. Sem contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas reconhecidas. como também de disciplinas como a Pedagogia e a Medicina. Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis. não é homogêneo. liberais. o da Saúde Pública (especialmente a mental) e o d a Indústria. às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e das populações em geral. As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia. influências predominantes de várias correntes.Se é permitido falar-se de uma gênese operacional. dos Sistemas. Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por diante. marxistas e anarquistas. os problemas da Urbanização e Demografia. com a definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 110 ▲ - . é sabido que as origens do Movimento podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis. ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a Teoria da Comunicação. está claro. obviamente. Psicologia. dos Jogos etc. esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e estabelecimentos (comerciais. Desde logo. Poder-se-ia acrescentar toda aquela atividade vinculada aos Serviços Sociais. Cada um desses setores do conhecimento.

método e objeto de estudo são tão proteiformes e problemáticos. mais neutramente dizendo. possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção. análise de conteúdo. o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de uma Ética. gnosiológico e profissional. Estratégia e Tática do Movimento. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética Social" são 111 ▲ . e suas óbvias conseqüências econômico-políticas (operações de oferta. essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de Babel. precisão.). verificação etc.. coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu estatuto ético. convalidação. entrevistas livres ou dirigidas. publicações etc. do Institucionalismo.). o qual se desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude. sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais. demanda e contratação de serviços. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a autorização das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas. ou o que quer que se queira chamá-lo. passando pelos procedimentos informativos. assembléias. no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção teórica (coerência. Com a profissionalidade o que está e m jogo é a legitimidade. questões de neutralidadeabstinência ou imparcialidade-indução).). o que esperar acerca do arsenal técnico. consistência. jurídico-político. Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na escala de correntes. carreiras. workshops etc. títulos. Se o instrumental teórico. Como veremos mais adiante. com relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém. "progressão" ou. legalidade. Em síntese: esta "evolução". Conseqüentemente. este "percurso" de sua gênese social. conceitual e operativa.. Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a cientificidade e a profissionalidade. dramáticos. avaliação de eficácia.afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma nova concepção da convivência cotidiana.

vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras". tais como: implicação. Pelo contrário. centro-periferia etc. das potencialidades acima apontadas.tecnológicas com os sistemas e setores dominantes. b) Quanto à profissionalidade. que atendem à autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista. analisador. isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo entre seus usuários. conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que de direito) à tecnologia da human engineering(Psico-Sociologia das Relações Humanas. e 112 ▲ . da autogestão e da autodeterminação das comunidades. Durante esse trajeto. as formas mais marginais. encargo. demanda. a faixa mais subversiva do Movimento. por parte dos coletivos. sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações de serviços. Lukács. frio-quente. Treinamento em Recursos Humanos etc. efeitos: Mulhman. Contudo.). alternativas ou revolucionárias do Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização da análise e da intervenção em grandes situações em escala regional. mercantilistas e adaptativas. afastase cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. e coerentemente. de acordo com os países onde se desenvolvem. cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da alienação-dependência do saber-poder dos coletivos de usuários. Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi se pronunciando: a) Quanto à especificidade. (ver glossário). as expectativas de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente satisfeitas. nacional e até planetária. sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e intervenções científico. No extremo. Weber. as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teóricotécnicos valiosos sob todos os prismas. Os setores tradicionais do Movimento. impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto-análise.

e mais ainda o "maximalista". radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. ou persuadidos ao participacionismo. para contribuir com as mesmas para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar-se. o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos. Como veremos mais adiante. por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e lutas. Kairos. Barcelona. ameaçam submergi-lo em uma certa paralisia. a idéia consiste em encontrar canais de conexão. Isso tudo acontecendo em um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. tais como as de integrante. Se por um lado os procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos pela peculiaridade de seus ideais. pontuais ou amplos. não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo avançado pretende. em outro. formais ou não. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente" (Ed. os capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". de mudança libertária. Resume-se aí o drama Institucionalismo: definindo o Estado. com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento. 113▲ .muito menos as de propagação da utopia transformadora a vas tas unidades sociais. que não simpatiza com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou vanguardas elitistas). A rigor. não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos. o agente institucionalista com inquietações militantes encontra dilemas excruciantes. o autor tenta sistematizar os obstáculos. Diante dessa perspectiva. Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o mais duro desafio. Na segunda parte do citado texto. Mais corretamente. ou totalmente apáticos e dispersos. 1980). colaborador. que se em um sentido podem constituir fatores de propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos. aliado ou simpatizante lhe são insuficientes. soma do instituído. nem sempre realistas. Parece que o Institucionalismo avançado. uma maneira vasta e diversificada como "o inimigo principal" (a expressão é nossa).

segundo nossa experiência na América Latina. sendo pouco provável que solicite a colaboração de um institucionalista. Em cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais". Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e média envergaduras.possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os campos de sua provável atuação. senão no tangente à nossa experiência particular. O primeiro refere-se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão. o Institucionalismo se vê forçado a recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação acadêmica de especialistas e profissionais. Contudo. raciais. contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações mais adaptacionistas ou reformistas. Também devido à pouca divulgação do Movimento. mesmo supondo que conheça sua proposta. senão à autogestão generalizada "a quente". abrem-se para o institucionalista outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinações estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. Trata-se. As duas dificuldades. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes. Por outra parte. mediante a auto-análise da implicação despertada pelo encontro com a singularidade do 114 ▲ . de modo que os pequenos grupos e organizações não sabem de sua existência. sexuais. não por acreditarmos que não tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos. a maioria dos grandes experimentos "revolucionários" massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados. religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas. algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos. espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades etárias. que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas. a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e corporativa dos agentes. proliferam cada vez mais movimentos.

queremos apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias européias). modernos e eficientes administradores de enormes riquezas. Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. por exemplo. Como conseqüência. enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e acumulação de informações (chame-se. Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista". sobre algumas das quais voltaremos ulteriormente. estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos. insuficientes. levando-as a uma atitude de "conservadorismo crispado" (segundo F. Ao mesmo tempo. Fazem-se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e estratégias do Estado (entendido como ubíquo. não são propensas às propostas institucionalistas. ao elevado nível de padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. persuadiram as populações com benefícios concretos ou imaginários. o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as comunidades. inconsciente e "contínuo") em cada formação social. de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. No entanto. o Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas. como sugerem alguns). profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 115 ▲ .coletivo intervindo. As massas extremamente depauperadas. o brutal contraste entre o discurso. os Estados gerentes pseudo-exitosos. parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de controle social. estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e o cultivo do mercado interno). incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um ostensivo fracasso. Essa falência também foi indicada por Lourau e outros. por um lado. por outro lado. Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de resistência passiva). "Praxiologia". as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções reais de sobrevivência.

da crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras. novas para o Movimento. Não é nada estranho que assim seja. entrismo. a dar-se soluções próprias. Em geral. como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do Movimento. ressingularização das práticas são alguns dos termos usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. calouro ou experiente. mais ou menos acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento. a ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais. Ela afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas. Nesses empreendimentos. expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à totalização. Esta superfície mostra algumas brechas para o Institucionalismo. Essas questões não são. alternativas. ou seja. de maneira alguma. distorção da demanda. reformistas. o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". sempre pronta a desencadear-se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e táticas infinitamente sutis e cautelosas. acrescentam-se certos agravantes que iremos apenas esboçar aqui. em outras palavras: não há nada de inesperado no fato de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido. Consagrados e repudiados.providencialismo estatal. Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente. para certo trabalho "no Estado" e "com a sociedade civil". sofre sérias pressões resultantes da crítica endógena. em pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática". maquiavelismo. se tal coisa existe. penosamente. causado basicamente pelo poderio. das quais as tendências institucionalistas se 116 ▲ . Freqüentemente o institucionalista. clandestinismo. marginalismo. infiltracionismo. Deu-se para elas respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do Institucionalismo: empresarização. contudo. uma rica e profunda autocrítica. começam. revolucionárias e até "terroristas") da corrente. esses modi operandi. a reformulação das características do agente e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva – como a cooptativa.

especialmente se o fazem para formar " experts em fazer isso". Mas esse trabalho é feito habitualmente em abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. segundo certo conjunturalismo ou improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas. a proposta é que cada coletivo construa as condições para se autoconhecer. autodeliberar e autodecidir a forma sui generis. como uma de suas áreas mais sensíveis. organismos e funções que as integram. a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda não foram escritos. triunfantes ou falidas. cada uma das células. incluindo entre elas boa porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. junto com elas. tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados) ou. Cabe aqui acrescentar a ressalva de que. seguindo com a metáfora. deve-se necessariamente conceber (pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para formar diversos especialistas. Este processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas das quais padece. que deseje dar-se para existir. Tanto é assim que capítulos fundamentais. adquire sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina". na medida em que tais registros só seriam reconstrutivos de experiências consumadas. fazendo. Se se admite que o Institucionalismo é. Essas.originaram. vísceras. quanto elas mesmas. A problemática que esboçamos tem. Nesta reelaboração. uma modalidade de viver coletivamente. A redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 117 ▲ . as dos "que ensinam a fazer isso". tecidos. as figuras do profissional e do técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e. talvez não seja necessário escrevêlos senão como curiosidades museológicas. uma clara discriminação entre especificidade e especificismo. Essa crítica disseca. independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. única e irrepetível. no possível. teriam uma singularidade tal que careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. metaforicamente falando. Dito de outra maneira. Mas se não se admite um "especialista em autogestão". em última instância. a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e mutação). a da sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". sistemas.

tais como Sociologia. Que a organização e procedimentos adotados sejam "não-diretivos". O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e. Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito ideológico. mas pressupõe a firme disposição dos agentes formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se insiram.reprodução do equipamento e do modelo pedagógico que o gerou. enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma discreta transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande Política. assim como tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas diversas qualidades que acima confessamos não havermos conseguido classificar. ao que há algumas décadas se denominava "acumulação social do saber". O ponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado. Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 118 ▲ . quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo. Psico-Sociologia. "co-gestivos". que configura estas comunidades como tais. em cada um de seus dispositivos. Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e v ocacional do trabalho. Completando a idéia: impõe a não. Esse objetivo. pedagógico e político) ou integralmente autogestiva.condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos dos quais "menos se poderia esperar". quando é claramente assumido. Aludimos. não é tão importante quanto parece. é claro. a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em outros coletivos atuantes. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam. exige ou não a autodissolução do agenciamento pedagógico. e dão modestos frutos. "permanentes". Ciências Políticas etc. é a de associar-se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. mais claro ainda. A nota em comum.

com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. e só até certo ponto."deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso isolado. adaptacionistas. e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. será a assimetria educacional entre professores e aprendizes. e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro. resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma. Um primeiro caminho é o regressivo. culpado. Tensionado entre a necessidade de sobrevivência. No segundo. Sem que pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias. comunicólogos e psicanalistas. os ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. de um lado. nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê-lo. todo e qualquer "espírito" 119 ▲ . sejam as reformistas e eleitoreiras. em sua assunção. três deformações tocaiam o agente institucionalista. o máximo que se autodissolverá. Por isso. Entre elas destacam-se o empresarismo. onipotente ou. Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o agente se lança às formas clássicas da militância política. Só que essas adoções se realizam" em nome do Institucionalismo". eles não são tão límpidos quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas institucionalistas contemporâneas. O agente retrocede às modalidades mercantis. Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo. o institucionalista deve ainda enfrentar a crítica interna. assim como professores universitários. assim como sua organização mesma. No primeiro caso. a de "autorização" e o desejo produtivo. administradores. perplexo. Frente a esse difícil panorama. o que é mais comum. Enfim: como dissemos. não é nada infreqüente encontrá-lo decepcionado. "a frio". o funcionalato e o academicismo. burocráticas e corporativas do Movimento. ambos deverão dissolver-se em uníssono. Os profissionais mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa. urge se fazer constar que.

Não nos parece que esta composição seja das piores. 120 ▲ .próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias. é a que pedimos licença para denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". "grita em um lugar e põe os ovos em outro". devido às limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. sabendo das características dispersivas. Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que. erráteis e libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento. para assim protegê-las da voracidade das espécies predadoras. do saber ex-nihilo(que proscreve o estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. Como quer que seja. Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns institucionalistas. as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada). estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um sentimentalismo raso). muito nos importa esclarecer que não deve ser confundido com outro. tão engenhosa quanto discutível. segundo versões híbridas. às vezes. circunscritas e moderadas do Movimento.heterodissolvente (que hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas). inevitável. publicam ou intervêm. segundo a tradição gaúcha. da "novidade radical" (que impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação-auto. o "hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico. drogadito e parasitário) etc. Como notas secundárias caracterológicas. clandestinamente ou não. O tero é uma ave da planície Argentina que. mas sim que é uma saída desgastante. a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena). sectárias ou facciosas. e em referência a esse terceiro tipo de agente. as usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. Inteirados nominalmente de um punhado de noções da corrente. mas em real condição de implicados nos eventos e empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar-se. Ao mesmo tempo. da "desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e eficácia). Uma terceira escolha. que cremos conhecer muito bem e que é urgente desmascarar. colaboram ou protagonizam. que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais ensinam.

acólitos ou franco. cabe concluir. implantação. desenvolvimento. que restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. técnicas. táticas. Sua triste história consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado. autorização. transmissão.Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada. não só "não passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa qualificava de esquerdosos festivos. E isso não significa exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos. no mínimo. com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. Nem Eros. amplos e fortes. nem Ananké. líderes. mas que muitos deles precisam ser apenas comunicados. consciência epistemológica ou autocomiseração sentimental. modalidades de divulgação. originada da lumpenização das faixas médias urbana s universitárias. dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade de nada". Essa óbvia constatação não é proclamada aqui apenas por pruridos éticos. libidinais ou ideológicos incapazes de produção. em resumo: ladrões de galinhas. avaliação de resultados. Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais. contratação. Política. morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. intercambiados e elaborados coletivamente. ou melhor. brandindo "palavras" instituintes. Será procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"? Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos parte desta problemática. Experientes institucionalistas exortam 121 ▲ . o Movimento deve dar-se dispositivos formais. estratégia. nem Teros. logística. a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" entidade de origem. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas com rigor e vigor.atiradores. II) O Institucionalismo e seus valores Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas. Para tal. qualquer iniciativa que os tirou do anonimato. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo Movimento. alianças. tais "revoltosos".

Por outra parte. Constituir-se-ia assim um núcleo cego. se bem que esses requisitos sejam indispensáveis. apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca da onda de integração planetária de todos os processos sociais. contudo. e portanto repetitivo. assim como à subscrição de convenções normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do Movimento. Afirmam que se toda intervenção está encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos. Dá-nos a impressão. compartilhadas pelas equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem cuidadosamente analisados. do saber e fazer disciplinar que dessa maneira ritual se funda. extremada no 122 ▲ . É óbvio que para os institucionalistas mais "profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos. Essa limitação. Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de contrato e enquadre das prestações de serviços. e até há pouquíssimo tempo. não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do Movimento. como tecnologia falsamente "neutra". que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do mesmo. que a crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou. todo settingseria um aparato ou equipamento no qual se cristalizariam. em alguns casos admiráveis. só se exige que suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários. Em outras palavras: da racionalidade. trabalhistas ou jurídicos externos ao Movimento. instituir um ponto de partida contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". para as correntes puristas. do lucro e do prestígio.seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido. do poder. de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos. Já para alguns. Entretanto. as forças mais reativas do "especificismo" e "profissionalismo". justamente sobre os valores e recursos em nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos.

"só a liberdade engendra a liberdade". por exemplo. Via esta questão restrita do contrato e do enquadre. não se entende por que não apelar a ele em caso de necessidade ou ainda de "luxo". "culturais" e libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa). existiria ainda nos convênios de serviços da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise. Pode acontecer que já pertença "naturalmente" ao coletivo em questão.). Psicanálise Aplicada etc. Por outra parte. com a autogestão como meio e como fim. porquanto seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados. Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas disciplinas (além da própria). E claro que ninguém ignora a distância que separa as aplicações da física à computação. imaginá-lo solicitando os serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento. caso este que parece não criar problema algum. não se vê porque um companheiro institucionalista iria ser convocado a participar. Se a mesma é integral. Por uma parte. o que tornaria difícil. ou seja. Sociologia das Organizações. de que a autogestão não se decreta nem se concede. nos introduzimos em uma contradição aguda e geral do Institucionalismo. isso ocorre porque os coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir (inventar). e menos ainda porque seu trabalho não haveria 123▲ . recordemos a verdade de Perogrullo. da human engeneering. uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. como dizia Bakunin.caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social. políticos. cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de analistas institucionais. aquela liberdade que desejam. Por outro lado. ainda que não impossível. No limite. que não existe uma prescritiva para a invenção e que. se compreende os aspectos econômicos. tenhamos presente que em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir.

ficaram substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das determinações que as constringem. Félix Guattari. As comunidades. Deve-se ter presente que o Movimento afirma. quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. como em qualquer dos outros. como um de seus mais essenciais fundamentos. a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar. De Lapassade a De Gaulle. hábitos de consumo e soluções são integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder. cujas necessidades. Converte-se em algo assim como um princípio moral. quando não do colaboracionismo. e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado administrador-gerente – submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. independentemente do contexto. de seu efeito de auto-sedução. a convicção de que os coletivos das sociedades modernas são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-sociallibidinal do trabalho. escreveu: autogestão como consigna pode servir para qualquer coisa. O que está em jogo neste ponto. da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir-se à autogestão em si. é uma questão políticoepistemológica de fundo no Institucionalismo. acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e fazer dos coletivos sobre seu destino. por si mesmo. demandas. Mas a certeza do Institucionalismo. não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza científico-tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. A eficácia de tal consigna depende.de ser pago. é uma mistificação. a casta privilegiada dos tecno burocratas. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as requisições do participacionismo. produtor de seus detentores. assim como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. um solene compromisso de que será em si mesmo. A "A 124 ▲ . sem dúvida. que se administrará o que é de si mesmo. que os centros oraculares de poder se vêem obrigados a lançar. de tal ou qual grupo ou empresa. O vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos.

mesmo as mais drásticas do Movimento. corre o risco de criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente. Negatividade. em definitivo. valores. não é um fim em si mesmo. ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. O problema consiste em definir. pelo contrário. Siglo XXI.. Reatividade. Não há uma 'filosofia geral' da autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação. no imaginário. a "Esquizoanálise".. assim como em muitas outras. (opostos à Generalidade. mas também. de formas que devem estimular-se. Ed. México). Invenção (oposto à Fabricação). Identidade-Repetição. Afirmação da Singularidade. em cada nível de organização. Ser como 125 ▲ . Ser do Devir etc. Guattari é um de seus mais ardentes defensores..determinação. a hierarquia. no sentido mais forte do vocábulo. quer dizer. De qualquer maneira. e o tipo de poder a instituir. A autogestão. não descarta o apoio de tecnologia alguma. Diferença. Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo. Potência. Além do mais. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que. do objeto institucional correspondente é um critério qu e deveria permitir esclarecer a questão. Nenhuma corrente. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se substitui massivamente as respostas diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real. o tipo de relação.. em cada situação. Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos. Se 'impugna'. os máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução). " ("Psicanálise e Transversalidade". assume que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais. e considerando a complexidade do desenvolvimento dessa concepção. assim como a infinita diversidade de suas estratégias. O conceito de autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias o Institucionalismo maneja.. tomada como consigna política..

Civilizações. Acontecimento. da Lei. Já a Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos. Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema reincorpora à torrente da reprodução e do consumo. que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir. Guattari. fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis. para precisar invocá-las novamente neste contexto. dos Maus Encontros etc. a não ser que se considere recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos. No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e "pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas características contraproducentes. Deleuze. Talvez tenhamos deixado 126 ▲ . Toda a História Universal (a das Formações Econômico-Sociais. do Estado. Máquina de Guerra. da Igreja. Desejo. não poucas vezes.. da Família ou da Corporação.).) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento. Simulacro. Se os repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e. Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos-valores seria uma tarefa colossal e apaixonante.Permanência etc.. assim como ao tabuleiro do registro e da dominação. pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. Dispositivo. equipamentos e manobras capitalistas. Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades (desterritorializados) do Ser e do Existir. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault. Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede. Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama na "Esquizoanálise") do Capital. Nós os temos muito em conta. como sinônimo do Instituído. tornando-a ostensiva. pelo menos em tese. as invenções dos movimentos produtivo-libertários. diametralmente contrários a eles. que têm a ver com o Instituinte e os Bons Encontros (opostos às Formações de Soberania. Objetivações das Idéias Puras ou Modelos.

os conflitos 127 ▲ . pragmatismo ou "intuicionismo". como notável independência dos princípios que a guiam e que. eventualmente. Naturalmente. a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo. quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto.a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até personalizar. mas aqui nos interessa destacar estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. os valores mencionados não são evidências. Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar sua atuação e observar seus resultados. desde diversos ângulos. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu. Como quer que seja. insistiu em uma reivindicação da singularidade das práticas. ou mais dissolventes ainda. sem misteriosas avaliações de seita. que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da Autogestão". tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" desses desvios. compreende-se que em um Movimento. e mais ainda da Teoria baseada em p a rti p ris formalizados. em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis. mas sim de permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim conduzida pode causar. no qual não se pode apelar ao veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante. não são nem axiomas. Pelo contrário. para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa orientação. Por outra parte. não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las. Desde logo. pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas. Basta compreender que as séries opositivas de valores que antes enumeramos. cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista. pois apesar da predileção do Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para técnicos e usuários. Convém precisar com respeito a suas propostas teóricas e sua atuação política e técnica. nem evidências. existem casos em que isso é possível. empirismo.

logo. o que torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às transformações de fundo e a longo prazo. corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam campanhas repressivas. algo assim como um artesanato militante cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes. Não obstante. mas quem impera atual e universalmente (embora não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. inúmeros aliados nos coletivos subjugados e explorados. vegetativo ou infra-estrutural das iniciativas. Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobreexigem o tempo e os esforços destinados à implantação. Frente a um panorama tão desfavorável. 2) Os poderes oficiais. sobrevivência e crescimento. hipoteticamente. exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais. Tudo é "Análise Institucional". inerentes a todo Movimento. Entre essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de patente". ocupa similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. o Institucionalismo exige que suas decisões de condução sejam. Como já expressamos mais acima. que se nega a separar meios de fins. Tudo isso se torna particularmente delicado. "nada o é". digamos. 128 ▲ . diante de contendedores tão ágeis. Procede enfatizar que o Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas econômico-político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas). acadêmicos. que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. resulta notório que esse principismo sui generis. o Institucionalismo tem. Por outro lado.e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis. não facilita as resoluções e execuções táticas imediatas. fortes e onipresentes. mas também à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. É no campo dessas dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos. processuais e conjunturais. injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. no possível.

Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade. pelo caminho do famoso "individualismo pequeno burguês". isso se registra como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas". o "lucro". "perversifica-se" a horizontalidade e "extravia-se " a transversalidade. a designação de recursos de todo tipo. "reconhecimento". o 129 ▲ . valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder". para a luta pela obtenção. Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja hora de descartar como obsoletos: o ativismo. "legitimação". finalmente. tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem. é a mais desejável: o centralismo democrático. "prestígio". não por ser "menos pior". até um suposto contrário: o matiz "beneficente".3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2. o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico. de modo que estas se enrijecem estatutariamente . 5) Fica preparado. fraternidade do terror e. se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. 4) Em função de tudo isso. No plano da produção de subjetividades.. "sabotador" etc. No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais lideranças "autocráticas" ou la íssez-fa íre os papéis e de "bode expiatório". a "primazia" etc. assim como das relações internas. 6) Em resumo: cedo ou tarde. começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis. exacerba-se . "legalização". O regime das alianças tende a uma regressão filiativa. "caritativo" ou "filantrópico" das prestações de serviços. à atomização do Movimento. das estratégias e táticas externas. perversas ou psicóticas. no seio das organizações e dos sujeitosagentes institucionalistas. apropriação e "inflação" de "identidade". Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a empresarização ou para uma morfologia política convencional que. então. em suas modalidades de protopaternalismo. "solvência financeira" etc. a serialidade. Ou mesmo. O organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. "autorização".

R. D. C. Coincidem. Seguimos acreditando que se trata de uma força reativa.voluntarismo. 9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência (como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os segundos infundem e orientam. os "desviantes ideológicos. P. o imediatismo. 10) Para fins de síntese e conclusão. Baudrillard. 1988). no entanto. L. o utilitarismo. quer dizer. Toda uma vasta produção biblio gráfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do individualismo moderno (L. Durkheim ou Marx". Lasch. a capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá sentido. especialmente o referente à "compulsão à autodissolução". G. Riesman. trata-se de uma curiosa exacerbação do que a teoria postula como um requisito dos grupos revolucionários. o oportunismo. publicações internas do Ibrapsi. a ter muito em conta nas vicissitudes do Movimento Institucionalista. A rigor. os últimos sublinham a subjetivação indiferente e abúlica das sociedades pós-industriais. J . organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico. Bell. digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do Movimento à 130 ▲ . Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma caricatura de suas virtudes. Lipovetsky. teremos uma imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. Virilio e outros). Se os primeiros enfatizam a fragmentação pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial. como diria Nietzsche. Dumont) e pósmoderno (D. Sennett. em constatar a decadência da res publica de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la e Weber. 8) Se se repassa o exposto. ou a corrupção franca. Rozitchner. Rio. 7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução".

quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu limite. em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras diferenças". para cavalgá-las. tentando exclusivamente propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como "desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade ". indemonstráveis. incluídas aí as específicas e profissionais.? Axiologicamente.Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da Utopia Ativa). e remetê -las a funcionar segundo se produzam. refluidificá-las. axiológica e epistemológica? Ontologicamente. heterogênea. um "modo de viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas ". especulativos ou experimentais. para mimetizá-las. sejam estes revelados. um pensamento "sem fundamento". estatuto ou prática. intersticial e não – totalizável. e a produzi-las segundo funcionem. mais que tudo. indecidíveis. ou melho. tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal. etc. dedica-se a genealogizar suas formas históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. "efeitos especiais". incrementando seu pólo progressivo. recortá-las por linhas clivagem bizarras. organização. ao Institucionalismo não deve 131 ▲ . em todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se torne atualizável. qual pode ser sua condição ontológica. Que outro recurso lhe compete além da construção de "verossímeis". rachar. "não-fundamentalista"? Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua positividade. discurso. Se se most ou indubitavelmente que tanto teórica quanto estratégica. Epistemologicamente. parece indiscutível q ue o Institucionalismo. mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de pensar". seria a afirmação de sua positividade. longe de orientar-se por critérios de Verdade. queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de código. parodizá-las. diversificada. dividi-las até o infinito. infiltrá-las. segundo a vontade de potência produtiva. que ética pode reger esta atividade não enquadrável. Por conseguinte. "simulações ". "alternativizar". diluir-se. fazêlas proliferar.

interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios c ânones dos mesmos. Nada impede. agenciá-la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá-la até gerar um acontecimento. "devir" (que embora lúdica não deixa de ser revolucionariamente) sociólogo. sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um bárbaro. amplos e numerosos. economista. são passíveis de ser analisados. 132 ▲ . pois. boa parte dos pruridos. psicanalista. assim como os purismos e desviacionismos internos ao Movimento que mais acima descrevíamos. Se isso está correto. engenheiro de sistemas. tudo que "abra". ao institucionalista. avaliados e resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de dispositivos fortes. um artista ou uma criança. profissional liberal ou funcionário. "possibilite" e "conecte". Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo.

e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a paternidade ou a precisão dos conceitos. 3) De forma coerente com o exposto anteriormente. 4) E desnecessário dizer que este glossário. nós. ou seja. bem como da diferente acepção que tomam outros. este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo. 2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos. os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade. advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. não pretende haver dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que. deveriam estar nele incluídos. de propriedade intelectual dos mesmos. fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente: 1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente.GLOSSÁRIO Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo Advertências para a leitura deste Glossário Devido ao caráter introdutório deste livro. pois esse requisito excederia as aspirações e possibilidades deste livro. 133 ▲ . segundo a definição ampla dada do Movimento. Embora este propósito não baste para explicar as limitações do texto. os autores. assim como o volume do qual forma parte. mas se responsabilizam por toda e qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem.

mas faz parte da realidade. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem". através da liberação do acaso-radical. Esta última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los. Nas chamadas Ciências Humanas. O acontecimento atualiza as virtualidades. cuja essência não coincide com as possibilidades. como por exemplo no da Esquizoanálise. o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente possível. conseqüências de conexões insólitas que escapam das constrições do instituído*-organizado*. este é considerado o modo de ser do devir dos processos. ACONTECIMENTO: ato. ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. que pretende ser panorâmica. imprevisível e incontrolável. a" desordem" e o acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*. enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação do instituinte*-organizante*. geradores da transformação e da novidade nos sistemas. ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se. Freqüentemente se equipara este termo ao que é casual. os autores estão cientes de haver incluído e definido termos que não estão suficientemente esclarecidos. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados. O virtual não existe. mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente. são o substrato de transformações de pequeno ou grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*. deflagrador da diferença. da diferença e da singularidade. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver. apesar de que freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". Estes atos. É o momento de aparição do novo absoluto. Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las. são conservadores. contingente. mas em geral indesejável. processos e resultados. e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e sua potência produtiva. 134 ▲ . do novo absoluto. tornando-se mais apto para sua função. o que empobreceria demais esta leitura. de modo geral. Em um sentido estrito do instituído*. estabelecido. essa noção foi empregada com freqüência. como reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. o estabelecido tentam a repetição do mesmo (ver Repetição*). o organizado*. No lnstitucionalismo*.. ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório. o vocábulo adaptação costuma ser sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. insólito etc.5) Em alguns casos.

subversivas ou revolucionárias. políticos. reconhecidos e consagrados. Em geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição de opositoras. a meta a alcançar e o processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. atualiza virtualidades e inventa o novo radical. os desejos. ALTERNATIVA: designa-se assim as idéias. Entendido como produção de subjetivação*. geradores da diferença absoluta. atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses). De todas as maneiras. territórios.). interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. não chegam a ser consideradas clandestinas. como disse Feuerbach. e não como causa dos mesmos. As forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas. pode-se valer de qualquer recurso (procedimentos artísticos. dissidentes e marginais. Em um dispositivo. "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro. ALIENAÇÃO: no sentido filosófico. instituídos* etc. qualquer montagem que torne manifesto o jogo de forças. No lnstitucionalismo a significação deste termo é próxima à da Sociologia: os homens. no lnstitucionalismo. pessoas. as recuperam. científicos etc. AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* – organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. por ser a proprietária dos meios de produção. o agente pode ser peça especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador.AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera acontecimentos* e devires. mas em ge~al as toleram ou as ignoram. dramáticos. designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos essenciais. singularidades. ou a uma classe social que. ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades.). Excepcionalmente. organizações. intensidades) heterogêneos que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos. produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o horizonte considerado do real. funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos. ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. ou em um "fora de si". Para tal fim. o agente. movimentos e práticas que supõem uma opção para seus simétricos oficiais. se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. Os dispositivos. 135 ▲ . do possível e do impossível.

A análise da demanda* deve estar necessariamente articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja. em sua equipe. social. que por sua vez não sabe que não tem e não entende o que é porque é complexo. ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica. particularmente a de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico. etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. que faz parte integrante do processo de análise da organização. Por outra parte. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo. que forma parte da implicação dos interventores. nem inconsciente. 136 ▲ . É ao mesmo tempo. um processo político. A publicidade. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes. É um termo que tem certa semelhança com o conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz no analista). produzido" espontaneamente" pela própria vida histórico-social-libidinal e natural. complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). econômico. manifestos. Não começa no "cliente" e é. a análise da oferta. mas de uma materialidade múltipla e variada. deliberados. uma interinfluência recíproca. Ela pode até ser prévia a qualquer contato. sutil. como resultado de seu contato com a organização analisada. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa.ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato. não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. a proposta direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. enfatizando a parte que cabe à intervinda. a divulgação (científica ou não). assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática da organização solicitante. Análise de implicação é a compreensão da interação. da interpenetração dessas duas organizações. técnico. simultânea. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica dessa organização. ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma organização. ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. isso sim.

ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. são acompanhadas de vivências características denom. particularmente para sua descrição do "mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos..inadas ansiedades. à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto especulativo). Métodos como os de Montessori. reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia. confusionais etc. apesar de a denominação ter sido criada por F. efeitos" Mulhman. e propõe para eles o perfil de um intelectual implicado. que são as configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões. a Dinâmica de Grupos. Impossível resumir aqui suas contribuições. Bleger e outros). liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais dos agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). O conceito de ansiedade deve ser entendido. A Análise lnstitucional insistiu particularmente na análise da implicação*. Guattari. tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. Pichon Rivière. mas tendendo sempre a que se expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. demanda-encargo*. modos de intervenção e objetivos últimos. a Análise lnstitucional superou amplamente esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias. Lapassade e R. Lukács etc. institucionalização. ANSIEDADES: correntes institucionalistas. a tese de que as organizações são" sistemas de defesa contra a ansiedade". projeção. organograma. Assim se fala de ansiedades paranóides. ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau. na qual os não-ditos* institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras. defesas. Lourau. assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. depressivas. regulamentos) como suportes. objetivos. ou seja. a Psicoterapia e a Pedagogia lnstitucionais. Como dispositivo* de intervenção. sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação. O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te*instituído". diversos pedagogos procuraram reformar. As posições esquizoparanóides e depressivas. fantasias) no curso do desenvolvimento.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos. bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso). 137 ▲ . uma das mais coerentes e empenhadas. inclina-se pela Assembléia Geral Permanente. como similar ao cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica. negação etc. nessas teorias. idealização. analisadores históricos e construídos". Contudo. Esta corrente institucionalista. de diversas formas. A Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância. subscrevem.

Pestalozzi. Seus máximos representantes – Thomas Szasz e I. Generalizando. econômica e cultural da sociedade moderna. é possível que seja a proposta de G.) e suas forças são voltadas contra si mesmas. psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –. Félix Guattari e R. em 1978. ao nível da aprendizagem. ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais. surgiram as experiências de Makarenko na União Soviética. Cooper na Inglaterra. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade. este Movimento. Ronald Laing e D. substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co-Gestão*). impulsionou uma profunda revolução nesse campo. o Capital etc. pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino. serviços ou valores alienados (mercadorias) e incorporá-las à sua lógica. Vasquez. e outros. M. Lapassade e R. F. ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e Europa. o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados Unidos. são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que não conseguem capturar. levando-as à repetição estéril ou autodestruição. que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro. Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia menos autoritária. ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado*estabelecido. e depois generalizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber. Goffman nos Estados Unidos. A maioria desses autores. que o sistema dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens. são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado. atua em 138 ▲ . Michel Foucault. A. como contra-instituição. cuja função prevalente é a reprodução do sistema. na França. Basaglia na Itália e E. assim como a Pedagogia Institucional de F Oury. foram mentores ou participantes do Movimento Institucionalista *. mais ou me nos radical. os exemplos anarquistas. na qual os alunos assumem integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem. Castel na França. marxistas e liberais de democratizaçiío (ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia. Tais tentativas replicam. As potências singulares. Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política. dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico. Entretanto. Labat.

Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*. protagonista de um processo transformador. problemas. a articulação de 139 ▲ . AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos. de um saber acerca de si mesmos. organizações* e movimentos instituintes* (em outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais. soluções e limites. demandas. Quando um conjunto instituinte cumpriu todos os seus objetivos. desde a outra. como também operam com critérios de Verdade e Eficiência. que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. Essas diferenças podem implicar hierarquias. A auto-análise possibilita aos coletivos o conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*. As comunidades instituem-se. Tal consciência é precondição para seu bom funcionamento. Todo processo instituinte*organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho. ao mesmo tempo. dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*). que não só estão em boa medida a serviço das entidades dominantes (Estado. As hierarquias correspondem a diferenças de potência. CapitaL Raça ete. mas as mesmas não envolvem escalas de poder. deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". decisão e execução. CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona. serve à exploração*. que são imanentes aos valores de tais entidades. assim como alguma especialização nas operações de planejamento.). desejos. ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade" que se deu.conjunto. suas necessidades. Cada uma dessas entidades opera na outra. Esse entrelaçamento. AUTOGESTÃO: é. apresentando-as como necessárias e benéficas. dominação* e mistificação*. desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários. para a outra. AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação. Esse saber se acha em geral apagado. o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão pora gerenciar sua vida. peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. pela outra. organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais. interpenetração e articulação de orientação conservadora. subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*.

por sua vez. Só se intervém quando se compreende. inibindo ou destruindo as forças produtivas. interrompendo o curso do processo produtivo em um 140 ▲ . as incorporam à lógica acumulativa do Sistema. sindicato. classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força produ tiva. a forma como são gerados seus efeitos etc. pensado. Quando o aparato de captura e recuperação falha. por mais aparentemente pequeno que este seja. Quanto mais amplo o campo de análise. fundamentalmente transformando as linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. O campo de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e organizada) de um segmento social. Tal participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho. em especial as instituintes*. Reciprocamente. CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão estratégias *. organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores. Está em estreita dependência do campo de análise*. CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido. procuram detectar. sendo que posteriormente se compreende à medida que se intervém. as classes e grupos dominantes. as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva. a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar contra eles. desde o qual será compreendido. dissidentes ou marginais. mais possibilidades existem de entendimento do campo de intervenção. logísticas *. Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais teóricos muito heterogêneos.suas determinações. em especial o Estado. o grande Capital. táticas * e técnicas * que. Quando o conseguem. dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*.). deverão operar neste âmbito específico para transformá-lo de acordo com as metas propostas. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. ameaçadores ou francamente perigosos para o instituídoorganizado. subversiva ou revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis. mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial. CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola. pessoas. empresa etc. As idéias. CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos. ocultos ou secretos.

gênero. COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. raça. 141 ▲ . estruturas. apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. hierarquizada e articulada). CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo). Todas as forças. o único motor da mudança nos sujeitos. para algumas tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e. é essencial que as unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes. classe. Esta peculiaridade pode ser de espécie. médio ou grande) que está vinculado por algum traço. Para a Sociologia Clássica. sociedades* e civilizações. sem mnunciar às categorias antes mencionadas. Em geral refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno. ao mesmo tempo. categoria. J.ponto determinado. de uma forma ou de outra. de um estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e. idade. organizações*. e esta de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror. subordinadas às forças instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização. COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos. portanto. lugar. por sua vez. instâncias e mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva. explorados e mistificados que prestam subserviência. reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*. assumida ou não pelos integrantes que. tempo. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade. característica ou atividade compartilhada. sexo. valores etc. lhes confere uma certa coesão e solidariedade. P. relações de subordinação em última instância. A classe institucional é o segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus integrantes com os menlbros de outros segmentos. diversifica da. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes corresponde pela classe suprajacente e despossuem. e da cristalização ou da resolução de sua dialética * depende o destino produtivo. movimentos. CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo. e não apenas mecânica. à classe subjacente. elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma tarefa. é fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada. Para o lnstitucionalismo.

TEOCRACIA. Essa formulação recolhe. eufemisticamente denominados "sobrinhos". CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo. ver Idéias puras*. pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos). até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento institucionalista. uma proximidade. esta abordagem permitirá resumir a exposição. Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do Materialismo Histórico e Dialético. LOGOCRAClA. As cópias são sinônimos de "representações". O sufixo cra cia significa governo de ou poder de: a risto (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade. refere-se à designação de parentes de um governante para cargos oficiais. se conseguiria que as almas recuperassem a memória. BUROCRACIA. com a finalidade de explicitar seu interesse para o Institucionalismo. esquecendose dessa "queda". centro-periferia. havendo tido. dominadoresdominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. O método platônico da clivisão em gêneros. mediante o raciocínio. prestígio e 142 ▲ . buro (categoria ou classe que se ocupa da administração. SEXOCRACIA. os conflitos. alude aos filhos naturais dos Papas.) seria uma forma de seleção para cliferenciar as "boas" das "más" cópias. Para o Institucionalismo. Aqui vale acrescentar a palavra "nepotismo". logo (alude aos possuidores da razão como saber discursivo). A maiêutica socrática consistiria em um procedimento pelo qual. em que nepo.Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras). sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras. exploradores-explorados. porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante. -CRACIAS:ARISTOCRACIA. imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos. perderam a semelhança e só conservaram a imagem. as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que. entre tantas outras origens teóricas. Os conflitos entre instituinte* – instituído*. para outras correntes. tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de cunho científico). cuja condição de superioridade está dada por uma linhagem hereditária). TECNOCRACIA: optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque. Para a interpretação institucionalista desse pensamento.e te o (alude aos supostos representantes da clivindade ou à divindade mesma. nos tempos míticos. espécies (etec. e com ela o acesso às Idéias Puras. que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias baseadas no afeto. Contudo. com freqüência supostamente "científica" das organizações). Em sua acepção ampla. sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real. "encarnada" em um indivíduo ou grupo). em sentido restrito.

a palavra krisissignificava: interpretação (por exemplo. dos sonhos). chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização. segundo alguns. tanto enquanto campo de análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*). nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis. Alguns institucionalistas. Outros sustentam que são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos. objetos. desordem) mais ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. momento crucial das vicissitudes ou do metabolé(por exemplo. Marx). fantasmas) no curso do desenvolvimento-. mas em geral aceleradas e radicais. na medida em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da "desordem criadora". no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade. Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. e a maioria prefere intervir nos momentos críticos. DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. como Lapassade. o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza. os estados de crise são considerados fecundos. devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou negativos acidentais. seleção (por exemplo. vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . extraordinários ete. Bleger e outros). Pichon Rivière. Para o Institucionalismo.exemplaridade). posto que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. juízo (por exemplo. as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões. o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente. tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou organizacional (provocação institucional). melhor ainda se generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. Provavelmente por extensão da noção médica. cena de apogeu numa tragédia). causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. contingentes. As crises são etapas de mudanças para o bem ou para o mal. nos quais. circunstanciais. Assim 143 ▲ . fase de definição. procedimento para chegar a um veredicto). Esse estado de crise ocorre. enquanto há os que pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. por sua vez. configurando vícios de condução que são. dentro de um andamento relativamente regular. das vítimas de um sacrifício). por caducidade dos mecanismos e recursos vigentes. Para certos autores (por exemplo. CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada.

comunicacional etc. Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência". 144 ▲ . que carece do objeto real.se fala de ansiedades paranóides. ao que Espinoza chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal". quer dizer. Não tende à morte porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". gesta-se no seio do Complexo de Édipo. o desejo é imanente à produção. negação etc. para a Psicanálise. Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa contra a ansiedade*". e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a entrarem nos processos sociais amplos. se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena"). ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e servir aos objetivos de vida. Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano.). Durante esses incessantes ensaios. O Complexo de Castração. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo. por sua vez. econômico. projeção. com as "quantidades intensivas" em Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. a Esquizoanálise). o desejo é essencial e imanentemente produtivo. o desejo também está parcialmente submetido a entidades repressivas. e sim um complexo conjunto ao mesmo tempo político. Na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. depressivas. regulamentos etc. Em última instância. organograma. das pulsões. O desejo. Para outras (por exemplo. no início do desenvolvimento. o desejo persegue o gozo absoluto. ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente. confusionais etc. Sua essência não é exclusivamente psíquica. que instaura a lei no psiquismo. sua própria extinção definitiva. prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. o desejo.) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e organizacionais (contratos. gera e é gerado no processo mesmo de invenção. atua exclusivamente na dramática da vida familiar. idealização. Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação. Descritivamente falando. que resulta do encontro entre os corpos (devir). na qual se encontra com a pulsão de morte. Essa força se origina. DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a qual não têm conhecimento nem controle voluntário. mas estas não são exclusivamente psíquicas. metamorfose ou "criação" do novo. Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). Assim entendido. daí o conceito de produção desejante. e tende à busca do prazer e à evitação do desprazer. não carece do objeto. isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. que procura restituir um estado arcaico perdido. pois participa de todo o real. constitui o desejo. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real.

mas também conserva o superado). ilusórias ou aparentes. e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. atitudes e comportamentos. A proposta e ação desviante podem. sendo as mudanças que se apresentam apenas superficiais. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos enérgica. um desvio ou afastamento da linha condutora hegemônica da organização. Karl Marx. que pode ser examinada como "universal". em troca. contradição e terceiro excluído perdem vigência. cada momento nega o anterior. assim. essência de todo o real. "geral.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica ou dou trinária). organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal (quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer. 2) Passagem da quantidade à qualidade. eventualmente. que a postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto". grupos ou tendências que questionam o instituído* – organizado. Como nas leis do devir. o supera e ao mesmo tempo o conserva. Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*). da moral etc. o fundador do Materialismo Dialético e Histórico.). Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal Clássica. desde a Antiguidade até a época contemporânea. uma idéia do ser como puro devir no qual retornam exclusivamente as 145 ▲ . não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou uma mudança profunda. A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação. particular" e "singular". Outro aspecto importante da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade. postulando. devido a sua essência intrinsecamente contraditória. de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético. É um pensamento que concebe a realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação. quer dizer. através de diversos discursos. outras entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera. mas o atribui à matéria em suas várias qualidades. pois os princípios de identidade. Protagonizam.DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos. DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão presentes em todo saber ocidental. mas em geral é predominantemente reativa. Opõese a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável. e não ao espírito. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. tornar-se o gérmen de um processo produtivodesejante-revolucionário. se bem impugna e denuncia os defeitos do instituídoorganizado.

DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise. por sua vez. Os processos de trabalho complexos. e este. confiando em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à autogestão* e à auto-análise * . em todas as sociedades da História e especialmente na modernidade industrial. Determinadas tarefas são consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza. particularmente de bens materiais e serviços. As tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização-movimento ou separar-se dele. que expressam claramente uma falta de vontade instituinte*. por diversos meios (dentro de um espectro de 146 ▲ . DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma organização ou movimento. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. Contudo. DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção. devido à propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas (extração de mais-valia). no Grupalismo e no Institucionalismo a operação pela qual o analista. podem ser atendidas. a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e compreendê-los (ver Análise da Implicação*). ou mais ainda. masculina-feminina etc. Coisa similar Ocorre em outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). DOMINAÇÃO: imposição.diferenças (Esquizoanálise*). DISPOSITIVO: ver Agenciamento. à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. Para o Institucionalismo. consome força de trabalho. exige um trabalho. um apreciável encargo repressivo ou ligeiramente reformista. do campo-cidade. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases. a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem analisados e intervindos. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção manualintelectual. sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. estão diversificados em diferentes tarefas articuladas entre si. poder e prestígio. DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção.

Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. enquanto esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. a Lei do das Valor. ressaltando suas características singulares devido à condição única. Refere-se. seguindo uma orientação das ciências físicas. a idéia do esquema denota o caráter provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado. grupos ou classes sobre outros. rigorosa 147 ▲ .. mais ela se torna opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento. Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. em especial o Estado e o grande Capital. Iibidinal ete. táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. jurídica. ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo". e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). A lista de efeitos que podem ser propostos é. o ECRO é muito mais que o até aqui mencionado. em primeira instância. experiências. no Materialismo Histórico). irrepetível e contingente do fato em questão. afetos e outros elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. estratégias. por definição. porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências. logísticas. da vontade de indivíduos. interminável. Por outra parte. mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. Quanto mais formalizada. Os instituídos* – organizados* estabelecidos.violência que vai desde a sedução até a destruição física). Por isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos". mantêm seus privilégios dominando a vontade coletiva ou majoritária. EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável de sua gênese social. semiótica. Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma. Se bem esta afirmação não refute o caráter universal e om niva len te grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo. às teorias. A dominação é simultaneamente política. econômica. Contudo.

mobilização e grandes transformações. seriam "estáticas". sujeito e objeto constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. Essa constatação pode conduzir a um irracionalismo (ou seja. a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"). por exemplo. O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a problemática da implicação.e quantificada aparece uma ciência. Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos. Nessas fases. por oposição às modernas. Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem constituída. e. quer dizer. mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos. e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e desenvolvimento (ou seja. O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção do conhecimento social científico. inspirados por uma profecia libertária. precisar simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. que as sociedades chamadas primitivas. em que todo o saber social está em ebulição. Já nas etapas "quentes". ocorre o contrário: as experiências sociais se multiplicam. Alguns antropólogos pretenderam. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber científico". Nos experimentos da mecânica quântica. que careceriam de história. cada um dos elementos mencionados é um "resultante" do campo que assim se configura. pelo contrário. a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos). do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a organização intervinda. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de imediato todo o apreendido na ação instituinte. erroneamente. como. Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos. assim como outros de agitação. ou. portanto. 148 ▲ . as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por parte dos coletivos do saber acadêmico. à concepção de outras modalidades da causalidade. mais satisfaz as exigências cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. quer dizer. Quer dizer: geram-se processos de autoanálise* e autogestão* espontâneos e generalizados. o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a "naturalização" de seus instituídos*.

especialmente nos políticos. Em uma acepção ampla. um grupo ou uma organização. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela. cujo procedimento é. por sua vez. Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. Um emergente pode manifestar-se através de um indivíduo.chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados". dissimulados. que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. O lnstitucionalismo constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos. por sua vez. e que comporta uma demanda de bens ou serviços. ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e de suas aplicações tecnológicas. mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos. a idéia de emergente tem uma similaridade com a de analisador*. ENCARGO: no Institucionalismo*. método e técnicas. ignorados ou reprimidos. EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. Artaud. Cada ciência. sendo que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula." corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital. teoria. em um número crescente de especialidades. Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes. Em nosso entender. denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em materialidades diversas: "mentais". Reich. o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente. analítico. encomenda etc. refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída quando a mesma está ameaçada. que num sentido acadêmico denomina-se disciplina. por definição. Essa 149 ▲ . sendo que freqüentemente se subdivide. pedido. não-manifestos. centro-contra-periferia etc. a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil precisar seu significado. Outros Efeitos: Lefevre. tem seu próprio objeto. A modalidade do saber dominante durante este processo é a do conhecimento científico. sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa. De acordo com o contexto discursivo de que se trate. Einstein.

ou seja.fragmentação do saber. em todas elas. Os equipamentos podem pertencer ao Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas. redundam na fragmentação. os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo. Isso levou a deformações tais como o operacionalismo. articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*. revolucionários. Sobretudo se interessa sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e. corporações). prevalentemente a serviço da exploração. à incapacidade de julgar e conduzir seu andamento. Em termos sociais e epistemológicos. popular. além de insistirem na crítica global desses efeitos. dispersão e perda da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação". arquivos. por outra parte. à medida que reduzem o campo de atuação de cadél agente social. impressoras. O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE. é o que corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. tem a ver com a divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. resultando no aumento espetacular de sua produtividade. a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico. da loucura etc. pretendem resgatar os valores instituintes* e organizantes*. em resumo. Por outra parte. dominação e mistificação. Podem ser de grande porte (por exemplo. possibilitam o incremento de sua competência e eficiência. EQUIPAMENTO: conglomerados complexos. assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer (particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de nossa civilização. As diversas modalidades do Movimento Inslitucionalista. No caso das ciências e disciplinas. Mas. relógios de ponto etc. erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. Essas diferenciações.).). das contribuições científicas. montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos técnicos). consagrou a especificidade – a delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente – como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. 150 ▲ . também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes nela). OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo.

ecológica etc. tais como "Pragmática Universal". demolindo as constrições da parafernália de controle-registro. territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à repetição do mesmo. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre. Nesse sentido. Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e tecnológica seria estéril. política. em cujo âmbito as inúmeras revoluções são feitas não apenas por necessidade ou dever. comunicacional. estão" precedidas" por um campo de materialidades "puras". infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas desejantes". totalizante.produção e do desejo na vida biológica. As máquinas desejantes dispõem-se e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". 151 ▲ . a microfísica e a biologia molecular. colocada a serviço de uma entidade centralizadora. ou seja. mas pelo desejo. "Análise Nômade" etc. destinadas a propiciar o livre fluir da . A Esquizoanálise também é definida com outras denominações. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática no livro "O Anti-Edipo" (1972). Uma dessas formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. A essência do real é a "produção desejante". psíquica. em qualquer tempo ou lugar. Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. concentradora e acumulativa. Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica". a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura liberar o processo produtivo-desejante-revolucionário. consubstanciais ou inseparáveis uma da outra). Mencionaremos apenas que. o real é constante e integralmente produzido. tais materialidades são imanentes (quer dizer. mas como ser do devir). a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e outras positivas.ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente. cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. Mas a produção de produção de novidades é capturada pelos estratos. a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que se originam ao acaso*. e mais ainda. O processo produtivo de produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia. essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos. para essa concepção. puras diferenças intensivas. Segundo a entendemos. que varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra". uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade". Entendida como procedimento para pensar e compreender o real. podendo-se distinguir nele uma produção de produção. "do Déspota" ou do "Capital-Dinheiro").

Existem muitos diferentes tipos de Estado. FANTASMA: para a Psicanálise. Os sociopsicanalistas decifram e interpretam esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho. É uma sistematização das metas a serem alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*). efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. grupos e idiossincrasias dominantes. mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis si mesma. os avanços esperados. mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo. coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes. a previsão de curso.ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos. mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e legitimação. A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito. Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintesorganizantes dentro do Estado. o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". e o planejamento da progressão das manobras. apresentando-se aparentemente como expressão da vontade majoritária. agente e instrumento de persuasão. O Estado não se compõe apenas de grandes organismos. as alternativas viáveis. Os psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. micropoderes do Estado). reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. que obtém por meio de sua concordância com a Lei. Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza. Seu principal instrumento é o Direito. meios e resultados dos processos produtivos de toda índole. e ainda do significado do que diz. para que a classe recupere a margem real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita. ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção. repressão. corpo estabelecido de leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados. A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de dominação* e mistificação*. os possíveis retrocessos ete. do estado de coisas às quais este se relaciona. em 152 ▲ . EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças.

opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. Para Guattari. um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos. seus agentes* e práticas*. prevalentemente. Pelo contrário. conjunturas. é um grupo sujeitado. não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual. e não "individuais" ou "coletivos". É o gerador da diferença. 153 ▲ . eterna. GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e doutriné1s. sejam elas científicas. Em conseqüência. Do mesmo modo. A função apresenta-se às representações e crenças das sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural". não se entende nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica. lógica e necessária. a belicracia etc. têm apenas uma autonomia relativa com respeito aos acontecimentos*. dominação* e mistificação*. GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver Esquizoanálise*). a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo". que se empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade. assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos". opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias. A função está sempre. A rigor. organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram.). filosóficas ou estéticas. procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*estabelecidos. a serviço das diversas formas históricas da exploração*. prescindindo de alguma leitura que os torne inteligíveis. tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte.FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos. da novidade. invariável. da invenção e da metamorfose. FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social. Em todo caso. então é um grupo sujeito (protagônico). a tecnocracia. a burocracia. Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e de construir a si mesmo durante o processo. ideológicas. universal. a afirmação de que a gênese social e teórica são inseparáveis entre si. Entre seus produtos estão os instituídos*-organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo. procedimentos.

obsoleto e morto. geracionais. assumindo que o fará a partir dos desejos. A rigor. consistem apenas numa versão a mais. configurando-se no aqui e agora do campo grupal. mas o conhecimento de processos vigentes no presente. Em geral. mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. as Idéias Puras. não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos. políticas. IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo. o conjunto de elementos que coexistem e operam. não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro. que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). períodos ou épocas localizáveis geográfica ou cronologicamente. Existem variados processos. são seres idênticos a si mesmos. eternos e invariáveis. etapas. tão tendenciosa como qualquer outra. modelos de tudo que existe. culturais. cada um transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. geológicas. a História não é a investigação acerca do que já está definido. Por outra parte. Assim. aparentenlente claro e acessível. Pode-se tentar articular os diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras. é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado. raciais. segundo Platão as concebeu. vínculos sexuais etc. para o Institucionalismo. ou seja: rumores. HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. a horizontalidade designa a dimensão grupal atual. biológicas. interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. Não existe um processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. é uma versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*. sexuais. das classes dominantes e do instituído*-organizado*-estabelecido. Na Psico-Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo. Trata-se da reconstrução dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. mas como o presente ativa e deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. existem histórias econômicas. mais importante pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma. A História. a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde às relações e aos processos informais. Assim entendida. ou seja. que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes convêm. quando não exclusivas. intrigas de corredor. Delas só se pode predicar sua 154 ▲ .HISTÓRIA: para o Institucionalismo. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais.

políticos. expressa a não-separação entre os processos econômicos. Análise Institucional *). mas podem ser também disposições para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. Quando configuram sistemas amplos. Para o Institucionalismo. e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. Em geral. por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *). IMANÊNCIA: para alguns filósofos. enquanto implica a virtude e o bem supremo. à procura da Verdade. IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações (crenças. as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras). valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo. é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento. distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. a ideologia dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que são "realizações" de desejos inconscientes. denominam-se cosmovisões ou visões do mundo. Essas representações estão animadas por vontades e desejos. Segundo esse sentido. Todos eles são 155▲ . apenas um saber aproximativo e viciado por erros. Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos ocupam nos sistemas que se representam erroneamente. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. e essa é também uma proposta ética. as das classes dominantes) que produzem. Opõe-se à transcendência. os naturais e os desejantes. Para algumas correntes do Institucionalismo. convicções. carece de interesse. a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*. constituem as ideologias teóricas. Segundo seu matiz político ou ético. para outras. em uma sociedade"'. As Idéias Puras são sinônimos de "ídolos" para alguns autores. definida como oposta à ciência. a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com suas condições reais de existência. O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser encaminhado como amor ao saber. culturais (sociais em sentido amplo). que é a visão das Idéias Puras. A ideologia.própria essência (por exemplo: a brancura é branca). ou seja. ou por forças ativas (por exemplo. Em outra direção. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um ideal ou modelo. Enquanto sistemas de representações.

inerentes. refere-se a realidades e processos que não são conscientes. de uma sociedade humana. Para outras. dito em sentido amplo. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*. INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas. as forças armadas etc. INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico. por exemplo. O significado psicanalítico designa instâncias. a Sociopsicanálise). particularmente na versão de Althusser. apropriação. intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. Superego e ld. especialmente o recalcamento primário. normas ou hábitos. denomina-se infraestrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção. As 156 ▲ . Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo. Um conglomerado importante de instituições é. em especial o Complexo de Édipo e o desejo. mecanismos. as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. e um processo: da institucionalização. operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*. da Sociologia e da Economia Política marxistas. denomina-se instância a cada região que compõe o território ou domínio do modo de produção. a infra-estrutura determina a superestrutura*. o Estado*. um resultado: o instituído*. quer dizer. Segundo seu grau de objetivação e formalização. o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo. Esse processo é considerado a base material e condição de existência de toda e qualquer sociedade. que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento. Na versão clássica do Materialismo Histórico. o que é permitido e o que é indiferente. INCONSCIENTE: em um sentido amplo. a justiça. ciência da História. as relações de parentesco. a divisão social do trabalho*. troca. INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico. processos. consumo e desfrute de bens materiais. forças e representações. É um campo histórico que sofre uma repressão político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social. a religião. podem estar expressas em leis* (princípios-fundamentos). o dinheiro. indicando o que é proibido. Exemplos de instituições são:a linguagem. Para realizar concretamente sua função regulamentadora. e também das instâncias do aparelho jurídico. distribuição. Essa terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção. a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego.

e freqüentemente se descobre que sua suposta racionalidade não é mais que uma racionalização. Todo esse procedimento parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em táticas. o processo de institucionalização deve ser acompanhado de outros organizantes* que se materializam em organizações*. sendo 157 ▲ . de acordo com as exigências do devir social. aspirações. INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído. devem permanecer abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. Os interesses caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos. LEIS: consistem na formalização e explicitação. No transcurso do funcionamento do processo de institucionalização. Em geral. conservando d e ju ri estados já transformados de fa cto tornando-se assim resistente e e conservador. INTERESSE: denomina-se assim às motivações. grupos ou classes na atividade social. o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela. a implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte*organizante* e. em textos e/ou discursos.origens das instituições são difíceis de determinar. das árvores de valores e decisões que constituem as instituições*. Para que os instituídos sejam eficientes. os interesses divergem ou se opõem aos desejos e fantasmas inconscientes. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se apresentam como universais e mais ou menos invariáveis. INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante-revolucionárias que tende a fundar instituições ou a transformá-las. desejos. como parte do devir das potências e materialidades sociais. O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. diz-se que se fundou uma instituição. Quando esse efeito foi produzido pela primeira vez. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados pelas Utopias Ativas*. o instituído tem uma tendência a permanecer estático e imutável. Contudo. Para operar concretamente. no seu limite. Pode-se falar de quatro instituições "fundantes" das sociedades humanas (ver sociedade*). expectativas e demandas pré-conscientes e conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes.

o termo marginalidade está muito relacionado com a oposição centro-periferia. ideologias. cujos integrantes carecem de "identidade" própria. que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. o laíssez-faire o democrático. geográficos ou abstratos. Seu estatuto não é o de um modelo. movimentos.. a de classes) se apagam em função de outros parâmetros (por exemplo. refere-se a conjuntos humanos amorfos. O Institucionalismo conhece e aplica as leis científicas que lhe são úteis. Em outra significação. etárias. considera-se marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central. LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. As massas "estáveis" são. mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. o acesso 158▲ . Num sentido. doutrinas. Obviamente. nacionais. jurídicas) etc. MARGINALIDADE: por referência a teorias. Freud utilizou o conceito de massa como sinônimo de grande agrupação. que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. organizações. legítimo. idiossincrasias (sexuais. e não intradirigidos. LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de condução. pelo Estado ou a Igreja. são instrumentos formais produtivo-desejante-revolucionários. consagrado ou autêntico nos campos correspondentes. Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros. espaços físicos. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. de modo plausível. Os mais característicos são: o autoritário. Quando o líder é um autêntico e recurso para o funcionamento instituinte. Avalia-se o que está disponível para contribuir ou para dificultar o trabalho. denomina-se revolucionário-desejante-produtivo. A logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. mas o de um exemplo singular. Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias leis". econômicas. MASSAS: noção de difícil definição. Chama-se "Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. por exemplo. são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação. raciais. Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército.referendadas. designa grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar. sinônimo de organizações.

transporte etc. que a Psicanálise define como essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos. segundo dizem os experts. um destino 159 ▲ . e com eles. Dessa maneira. em troca. como. de máquinas de semiotização de captura e recuperação* . definem-se tais necessidades e se convoca e modula sua demanda. os experts. assim como supõe ter necessidades cuja existência foi produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. previdenciário. Ou seja. o gozo absoluto. não é um pedido do que manifestamente se solicita. A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória. sendo compensável com as respostas que a complementem. pede uma impossível restauração narcisística. do ponto de vista psicanalítico. bens de luxo e desperdício dos setores dominantes. quanto. a construção de um "Estado beneficente. e a simbolização. Já a demanda. costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda.ao consumo de certos produtos). convicções e valores que deformam. as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*. A partir da Psicanálise. no que se refere a bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental). Pode-se considerar os processos de mistificação como sinônimos de produção. MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção. São eles os que decidem o que. e de acordo com a "vontade popular". sempre visando "o bem comum". "cientificamente" fundadas. administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*. educação. mas de "amor" e "reconhecimento". porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam". segundo outra terminologia institucionalista. MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades "naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". A produção de objetos suntuosos. entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo. Essas decisões e as ações que elas orientam são. Nas sociedades industriais modernas. difusão e assimilação de representações. A necessidade não satisfeita origina uma privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. O desejo. crenças. categorizado como "objetos das necessidades básicas". difusão e assimilação de ideologias regressivas ou. tem sido sempre prioritária. Uma sociedade* tem necessidades que não conhece e não consegue definir como tais. onde. O que resta da produção é o que se oferece às comunidades.

MOLECULAR: para a Esquizoanálise. 160 ▲ . técnicas. agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o desejo* e a produção*. É o campo da regularidade. Em outra terminologia. estratégias e táticas de leitura e de intervenção. Nesse espaço constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númenvoluptas). Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro". sobrecódigos e axiomáticas. das formas sujeitos e objetos definidos. em suas ligações anárquicas locais ou à distância.que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga. da conservação e da reprodução*. métodos. MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências subscrevem alguns objetivos comuns. da estabilidade. Igreja etc. Assim configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo. segundo o acaso* ou uma lógica aleatória). este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção desejante. É o lugar dos códigos. Algumas correntes institucionalistas questionam radicalmente essa concepção do desejo*. entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos processos de auto-análise* e autogestão*. estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente libertários. as entidades características são os estratos e os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. MOLAR: para a Esquizoanálise*.socializável. este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de registro e controle e a de consumo-consumação. o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. Os dispositivos* e máquinas de guerra nômades. Essa superfície está integrada pelo "corpo sem órgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de maneira binária – máquina-fonte-m. Nessa ordem. Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias. dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*. Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades molares. É o lugar das matérias não-formadas e das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções. onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*. enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que.

consciente ou não. comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. em um sentido mais amplo. da insistência do desejo e dos princípios de constância e inércia. Em todo caso. refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou distorcidas nos discursos. Para algumas comunidades primitivas. a problemática da mudança. simultaneamente biosociolibidinais. Basicamente.. reação-reformismo-revolução etc. também tem. dentro de um espectro de radicalidade crescente. b) sustenta que as mudanças.. o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se mantivesse exatamente idêntico em organização. pode-se dizer que. sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais e pré-sociais. a oposição. A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural-funcionalista insistiram muito na problemática da mudança e da "resistência à mudança". assumida ou não. ou. atitudes. A Psicanálise. eternos e invariáveis. organizações e comunidades diante das situações desconhecidas e novas. c) afirma que a substância do real é a diferença pura e a produção desejante. ou até extremistas. por sua parte. Para as diversas correntes do Institucionalismo. textos. que resulta da natureza conservadora das pulsões.MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) à transformação valores ou diferentes. para imitar o mundo e o tempo divinos. ou seja. Em geral. é tratada segundo as inspirações teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas". No outro extremo da História. que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias. ligada a categorias de diferença-repetição. tal como ela se apresenta nos grupos. "transformacionistas". ou então causas ou efeitos de um desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu nas ciências humanas e na cultura ocidental. mas é considerada invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência. devem ser integrais. entre seus temas mais importantes. para seren1 sólidas. NÃO-DITO: no Institucionalismo. permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais. transferência-resistência. o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como reações em cadeia. e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas. costumes etc. 161 ▲ . Essa omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária. a questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da compulsão à repetição. a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. em todos e cada um dos aspectos da vida.

O organizado é ilustrado no esquema do organograma e do fluxograma da organização. OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada. chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). o não-dito remete predominantemente à ignorância. o mais conhecido é a burocracia. correspondem às grandes formas molares da superfície de registro. ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica. atitudes. A oposição pode ser mais ou menos acirrada. como um ministério. pois para o Institucionalismo não é possível uma posição clássica de "neutralidade" ou "objetividade".Contudo.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. Assim. textos. E necessário para orientar o funcionamento da entidade. técnicos. cronológicos (etc. que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante o processo de institucionalização. exagera-se em torno de sua função. Uma organização* só cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 162 ▲ . inventiva e transformadora que tende à otimização das organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*. autorizada. comportamentos. vai-se produzir uma nova organização que é o verdadeiro objeto de análise. legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que a integra. ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*. adquirindo uma série de vícios. organizações e movimentos. à má-fé ou à repressão no seio dos discursos. Esse processo exige das organizações a abertura para efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva. OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos. ao desejo e à vida. perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. De acordo com sua dimensão. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos. estrutura e dinâmica dos agentes. É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz no encontro. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*). grupos. da antiprodução* e da morte. Na terminologia da Esquizoanálise. no Institucionalismo. até um pequeno estabelecimento escolar. como aos manejos do poder. mas tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se. Esse omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*. mas em geral é reconhecida. vão desde um grau complexo organizacional. espaciais.

segundo as circunstâncias. come caracteres de personagens teatrais. algumas cujas 163 ▲ . "sabotador". convoca. criador de vida. "seguidor". Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados. em geral ele se aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente. consciente ou não. ativa etc. PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e grupais em particular. Particularidade e Singularidade. PARTICULARIDADE: ver Universalidade. a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente novo. PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na planificação. execução e benefícios da atividade. Os papéis são emergentes de configurações estruturais que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes indivíduos-sujeitos-agentes* sociais. como "masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). Quando um agente social abandona o papel este se expressa ou manifesta através de outro participante. emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de produzir. como o de "bode expiatório". POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes teóricas e técnicas. mas também em um sentido positivo de orientação: o poder incita. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se possui ou se detém. Em geral. decisão. destinados a impor a vontade de um segmento social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. transformar etc. e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição). a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver Produção*. Isso não significa maiores modificações de fundo na propriedade.organizado*. mas que se exercita. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os outros e carece de sentido fora desse vínculo. Desejo* Instituinte*). provoca. Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente emergentes. POTÊNCIA: no Institucionalismo. na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas. inventar.

uma dupla natureza – de 164 ▲ . dotado de força de trabalho qualificada. designa todo processo pelo qual um agente. É equivalente ao funcionamento*. as profissões compreendiam o Sacerdócio. a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. Entre as tendências que o integram. PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico esclarecedor e a ação transformadora do real. É a permanente geração de tudo que pode logo tender a cristalizar-se.: Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio. com sua proposta de Transe-Análise. coordenação de grupos e intervenções organizacionais. expressivo e dramático nos tratamentos clínicos. No Institucionalismo. diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*. a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por Georges Lapassade. PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional. é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas determinações que para seus próprios agentes." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas. Em geral utiliza-se o termo "prática" para as ações específicas e qualificadas. a Advocacia. Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de militância. a Medicina e a Carreira Milita. pode-se mencionar a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich). Para o Institucionalismo. e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento. Em um sentido descritivo. gerando um produto específico. organizações* e estabelecimentos*. técnica. PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue. É o devir. subjetiva e socialmente. a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e academias universitárias teve. A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação "vocare": chamado de Deus). a metamorfose. desde o início. com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à especificidade*. tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*. assim como de autonomia e independência relativa. a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima. É aquilo que processa tudo que existenatural.características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal. enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às inespecíficas e não-qualificadas. Apesar do já dito. PRÁTICAS: em um sentido epistemológico.

poder e prestígio do corporativismo e do academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista.controle de qualidade dos serviços. entre outras coisas. à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao elemento humano nas organizações. regiões. toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). Gestaltista) ou à Sociologia (por exemplo. começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos" para referir-se. Existem várias correntes de Psicologia Social. Falase de Recursos Humanos como um dos componentes de um espectro de recursos: físicos. visando o lucro. As práticas profissionais. significa voltar a pedir. "neutro". mercantilizaram-se. frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado individual ou coletivamente. de uma maneira ou de outra. PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que as classes institucionais regredidas fazem. (ver Psico-Socioanálise *. formando as cúpulas tecno-burocráticoacadêmicas – mas também se degradaram como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização. de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder de que dispõem para mudá-as. No filosófico. 165 ▲ . REPETIÇÃO: em um sentido etimológico. refere-se à reiteração ou reapresentação de idéias ou de realidades. nações etc .. consciente ou inconsciente). por outro. por um lado. ligaram-se ao poder do Estado e ao das empresas. inconscientemente. distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica. O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais. mas se diferencia delas. De maneiras muito variadas (por exemplo. Com a modernidade. tecnológicos. no campo da Administração. por não reivindicar o caráter científico (ou seja. antes considerados de segunda categoria. produziu-se uma série de mudanças no status de profissional.) PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que. Esse título ampliou-se a outros ofícios. instrumental ou operacional) que elas se atribuem. O Institucionalismo insiste no estudo e no desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro. mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70. todas afirmam a constituição. econômicos e outros. gratificação. da "modernidade" hiperespecialista e da suposta independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. Comportamentalista. Interacionismo Simbólico).

procura-se deter os devires. REPRODUÇÃO: num sentido etimológico. acontecimentos e transformações naturais. Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões simbólicas. grupo ou movimento. tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso. os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que não conservam nem a imagem. pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 166 ▲ . mitos.Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o idêntico ou igual. na Sociologia e para o Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). que é radicalmente transformadora ou motor da História. Trata-se. nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e. Se bem seja certo que a superfície de registro. culturais e subjetivas. do aleatório e imprevisível. de entender o retorno do diferente. Platão os considera falsos. O Institucionalismo sustenta que o que retoma na História não é o idêntico. analogia ou semelhança com o idêntico ou o mesmo. produto do acaso. sociais. cumprindo sua função conservadora. ou seja. capturando-o e recuperando-o (ver Captura e Recuperação). e podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. Não são seres. Sua "encarnação" mais prototipica estaria nos sofistas. o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. o igualou o mesmo. obviamente. nunca o consegue por completo. SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo. significa cópia ou imitação. entendido por relação de negação. tradições. documentos. o romance institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização. Trata-se de comportamentos. igualou similar ao que já existe. a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de matizes imaginários e fantasmáticos. 3) o diferente absoluto. tenda a capturar o retorno do diferente para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema. demoníacos e inclassificáveis. Na Filosofia. grafitos ete. Em conseqüência. 2) o diferente. ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico". Dessa maneira. mas o diferencial. o instituído*-organizado*-estabelecido. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. melhor. atitudes. ou ainda. carecem por completo de identidade. designa as tentativas de reiterar algo idêntico. realísticas. a diferença absoluta. não interessa tanto estudar as leis que dão conta das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas astronômicos do cosmos ordenado. mas puro devir.

SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da participação causal. organizado*. Define-a como uma rede. SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. A ação causal conjunta. Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas. que são o ser do devir ou processo produtivodesejante-revolucionário. Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *). complexa. agentes* e práticas*. uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição de transformação). Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo. SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. As instituições interpenetramse e articulam-se para regular a produção e a reprodução* da vida humana. Alguns institucionalistas afirmam que as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius. que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*. Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a indústria. 167 ▲ . compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*. incluindo o instituinte*. como o de T Parsons e outros. organizações*. não apenas econômico) reconhece-se uma instância" determinante última" (condição de existência). ampliar essa definição. um tecido de instituições*. articulada. instâncias e representações que.como a essência do real. essa definição está bastante centrada no instituído*. fluxos. estabelecimentos*.que pertence às formas definidas da superfície de registro. sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades. SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*. desloca da e condensada de todas as forças. francamente críticos. o organizante* e a superfície de produção. Como se vê. sinérgica ou contraditoriamente. assim como a passagem da solidariedade mecânica à orgânica. a religião e a divisão técnica e social do trabalho. No entanto. é a partir da década de 20. que se compõe de diferenças puras. as relações de parentesco. respectivamente. singularidades* intensivas. hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se denomina sobredetermi nação. Os objetivos desse enfoque são a racionalização e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações. estabelecido. contudo. É possível.

Foi fundada e desenvolvida por Gérard Mendel. visa facilitar os mecanismos culturais. Segundo a denúncia institucionalista. aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários. a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza. num sentido coletivo. pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado (ver Alienação*) no Capitalismo. a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). cuja viabilidade é considerável. assim. a Sociologia das Organizações. no qual os sujeitos viven. diminuir os insumos. O resultado é uma abordagem politicamente moderada. em vez de principalmente simbólica (correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). do poder e prestígio. comunicacionais e motivacionais (do conjunto empresarial e dos grupos que o integram. Segundo Mendel. particularmente uma de suas modalidades. Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra. Essa experiência de limitação gera neles. necessitando dos cuidados de um outro para ter sua sobrevivência garantida). denominada Desenvolvimento Organizacional. SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise. devido à sua série disposicional pessoal.) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera". Whyte. SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. A Sociopsicanálise sustenta que. Mendel articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce. avaliação e comportamentos transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos patológicos é o local de trabalho. trabalhadores. do Materialismo Histórico. onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor compreendidas. denomina-se assim à percepção. que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. bastante ortodoxa. A 168 ▲ . Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento psicofamiliar. conseguindo. sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de que. um processo regressivo de ordem coletiva. uma vida preferencialmente imaginária.como os de W Mills e W H. do resultado do trabalho. quando se abordam os coletivos.

Há. SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 169 ▲ . No plano da militância.ntelismo. Mas a cura não é definida em termos individuais. para algumas orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável. povoada por figuras fantasmáticas de sua vida familiar. através da análise e da intervenção. esses quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar. Esses são absolutamente contingentes. lugar e conjuntura. Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer sociedade. invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". o que os levará a vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia. e geram sujeitos singulares nas margens de cada acontecimento*. junto com eles. os modos de subjetivação que os mesmos precisam. a montagem de dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e. momento histórico. A metodologia de intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica. revolucionária. sujeitada e submetida. delírios. somatizações. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os levava a se refugiar num mundo de fantasias. clie. classe social. em todo tipo de patologia biopsico-social. principalmente a interpretação. inibições. social ou psíquico. O lnstitucionalismo pretende propiciar. contraproducentes. Com isso. produtiva. que vão res ultar em sintomas (atuações. enfim. autoritarismo. por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme. toxicodependências).situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram. messianismo. infinitos e heterogêneos processos de produção de subjetivação livre. desejante. STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. como "enfermidades infantis do trabalho": voluntarismo. com Lênin. ubíqua e universal do sujeito filosófico. e sim coletivos. o coletivo institucional também passará a funcionar nesse registro. SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*. raça ete. buscando soluções mágicas. populismo. o modelo científico que temos no Ocidente como universal. fisiologismo ete. próprios de cada momento. sim. Inclusive. Trata-se da condição obtida por um papel dentro de uma sistematização hierarquizada dos mesmos. e pressupõe um movimento de cada classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de trabalho alienado.

tais como: Umbanda. Algumas correntes institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise. O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. da Sociologia e da Economia Política Marxistas. ciência da História. Os processos superestruturais operam a reprodução ampliada do modo de produção. desportivos. interrelacionais. É o momento de seleção de recursos a serem empregados na etapa imediata. coletivos etc. SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico. artísticos.) a serem adotados de acordo com as circunstâncias. sensibiliza dores. não existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento. TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. Trata-se de procedimentos (interpretativos. expressivos. reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do psiquismo). Posteriormente. discursivos. assim como de produção. sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição. grupais.psicológicas (entre elas. O que existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou similares. transformação. Para outros Institucionalistas. por exemplo). com propósitos diagnósticos e elaborativos. 170 ▲ . TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*. TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros. Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe. lúdicos. difusão e assimilação de representações e valores ideológicos. segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*organizado*-estabelecido. Quimbanda e Candomblé. conteúdo ou estilo. informativos. do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento e peculiaridades do coletivo em questão. a Psicanálise). Na versão clássica do Materialismo Histórico. Sua escolha é consideravelmente livre e dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora. composição. na instância jurídicopolítica é onde se processam os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente. remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. Por ou tra parte. a superestrutura reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura. denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídicopolíticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos.

segundo a corrente de que se trate. O que se repete são pulsões. que é imanente à rede social das forças produtivo-desejantesinstituintes-organizantes. considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e os variados aspectos da vida institucional como um todo. Lacan. em conseqüência. desejos. Certas correntes do lnstitucionalismo. GENERALIDADE. TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein. entrelaçamento. os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos. o que se repete substancialmente é o diferente. Contudo. Em geral. papéis. É uma travessia molecular dos estratos molares. deflagram efeitos transversais inventivos e libertários. Para essa orientação. A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas organizações*. UNIVERSALIDADE. é importante 171 ▲ . No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional. TRANSVERSALIDADE: interpenetração. e. Como montagens. territórios. gerando efeitos à distância sem transmissores detectáveis.as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. fantasmas. pré-conscientes e inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva". no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem membranas celulares nem limites externos precisos). hábitos comunicacionais. existiria uma transferência que não funciona como resistência ou obstáculo. estruturas e até complexos destinos organizacionais. que propõe a autogestão* ou a gestão participativa dentro de cada estabelecimento. PARTICULARIDADE. demandas. elaboraram uma profunda reflexão filosófica sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. SINGULARIDADE: no que interessa ao Institucionalismo. estereótipos gestionários. A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis. entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes. sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais. No Institucionalismo. a idéia de transferência pode ter. tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas. Reich e outros). códigos. mas como motor das transformações. como por exemplo a Esquizoanálise. a partir de conexões locais. o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos particulares e singulares de seu objeto. uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras bastante modificadas.

em certa medida. a singularidade (por exemplo. tal dialeto napolitano e seu uso concreto. O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da generalidade. se apropria. Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo. vazio. freqüentemente designa-se o conjunto dos usuários como "staff-cliente". O momento da generalidade compreende a caracterização de um atributo abstrato da universalidade. do tipo dos que são 172 ▲ . Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica. adquire. a Análise Institucional estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos. por um falante/ouvinte desse dialeto). No caso de uma intervenção institucional standard. as línguas indo-européias). usufrui de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já estava compreendido no conceito universal. entende-se por usuário quem demanda. mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. dessa maneira possibilitaria sua desalienação. na medida em que se refere a um objeto único. assim como contribuiria para a reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). um puro produto do pensamento. consome. a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas). personalizado ou anônimo. Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais do particular e do singular. Um juízo ou um conceito universal abstrato é.diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto. Lourau. a particularidade (por exemplo. USUÁRIO: no lnstitucionalismo. cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro momentos: a universalidade abs trata (por exemplo. possui. enquanto cada um deles se define por sua afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais em seus aspectos instituintes*-organizantes*. Supõe-se que a intervenção no caso singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e no saber dos coletivos institucionais. Segundo entendemos a proposta de R. O momento da singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. máximo nível de determinação atingível. Pode-se sustentar que nega de uma só vez a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade.

funções etc. avaliar acertos e desacertos do primeiro texto.expressando isso de uma forma clássica. composto dos seus próprios ethos. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo. Optei por reproduzi-lo quase sem alterações. Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins e meios. relacionado-o com o segundo. hierarquias. e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica". a verticalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde ao organograma formal. desta forma. em outubro de 1995. a individuação de um real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. mas também à importância de marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento. sendo que cada período histórico tem. ou seja. para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a quinta edição. 173 ▲ APÊNDICE O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro. Parece-me interessante que o leitor possa. este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência. Obviamente. Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná-lo com a biografia do autor. cronos. como se 174 ▲ . Desde já. Primeira Parte O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados. umepospeculiar. Neste final de milênio vivemos. lagostelos. pathos. quer dizer: cargos. contudo me parece que tem o direito de tentar. VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. sem dúvida alguma. topos. obviamente a partir de suas próprias convicções. a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo grupal. o processo produtivodesejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. a existência de uma composição sui generis e não é exclusiva da nossa fase.enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos").

Costuma-se declarar. "permanência". Conformarei-me apenas em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por "passado". sexuais. integrado por uma função axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. cabem – devidamente redefinidos – termos mais ou menos "na moda". tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil. "pensamento". autoritários e outros. Isso propiciou uma inclinação ao predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos. desde o local até o mundial. ou "Pós-Modernas". de situação econômica. ditatoriais. serviços. de circulação. ou 'A. os Direitos Civis e os Direitos Humanos. 175 ▲ . assim. onde vige. e que esse aumento qualitativo e quantitativo resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados. "Multitudinárias" e assim por diante.sabe. de idade. a sua. legislativas e executivas. constatar. possibilitando. "troca". Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado". Também cada" civilização". em setores localizados do mundo. Uma análise detalhada dessas categorias seria. cultural. tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições democráticas. "partes". "Transnacionalização". "valores". e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos indiretos. geográficas. de distribuição. regionais. política. um crescimento enorme da "Riqueza" – entendida como meios de produção. excessiva neste escrito. sendo que. de culto. Nessa designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do Capitalismo". de comunicação. o mesmo tendo se realizado em todos os campos e níveis. "presente". tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari. "Pós-Classes" e "Pós-Massas". representativos e eleitorais. como aplicação teórica de um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento. ou "Hipermodernas". "espaço". raciais. porém. de troca e de consumo. "cultura". ou "lnformatizadas". e porque não. de certa forma. judiciais. "todo". – Nesse mesmo lapso. – Esse incremento inclui bens materiais. o Estado de Direito. evidentemente. pelo menos formalmente. – Como causa e efeito dessas transformações. "movimento". "Sociedades Pós-Industriais". que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a atualidade tem havido. tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de idiossincrasias minoritárias. gerou-se uma tendência ao desmoronamento de regimes políticos totalitários. incorporais.utomatizadas". nacionais. tais como "Globalização". no lugar da predisposição ao uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies.

desejos. agentes. essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduossujeitos-agentes-produtoresconsumidores-usuários conscientes.porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei. cultural e subjetivo. economia de mercado. funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde. 176 ▲ . exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil. os Socialismos Reformistas. imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí generís. educação. persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo. eficientização. "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista". planejamento e execução. diversos "estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis. assim como pelo culto à liberdade. crescente e incessante. resistem em adotar os princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados. as Sociais-Democracias e ou tros similares. – As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização – diminuição. limitação. Isso significou a vigilância e ingerência sobre tais poderes. modernização das estruturas. transitórias e circunstanciais. não somente em quantidade como também em amplitude. tais como fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente fracasso de todos os ensaio de "Comunismo". por diversas razões. assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional. Esses setores a dificultam devido a vocação. – Desde já. empresas livres e outros-. em todos e em cada um dos processos. e ainda hoje continuam trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. todavia não superadas. de formas arcaicas. que tendem a realizar-se de forma gradual. consumidores. "Socialismo Real".– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção." em vias de desenvolvimento e de crítica". compactuação. toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência. que são oportunamente subsanáveis.lógicas e âmbitos. incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo. – Obviamente. democratização. baratização. e nem aperfeiçoados. à justiça e à competição sadia. justiça e ordem pública. Por isso. usuários. esses processos não são universais nem suficien temente implantados. interesses e açôes contrários a esses desígnios. estruturas. podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas" adversas. No campo do social. assim como determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que. Todos esses indicadores de "evolução".

isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos. à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo agora. uma série de impressões que. os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos triunfadores. uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade. os regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado. não se pode evitar a sensação de que. é a sólida confirmação de que os modos de produção. ou funcionam somente dependendo do uso peculiar que se decide fazer delas. O mais grave desta "realidade". apesar de não ser a culminância. vale a pena repassar. apesar de muito mais sofisticadas e matizadas. incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante. vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto. Segunda Parte O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor. Em segundo lugar. da qual estas "impressões" são um 177 ▲ . ou bem os despreza. a meu ver. de acordo com esta leitura do panorama mundial. entender e avaliar o panorama munclial contemporâneo.Esse andamento. Em terceiro lugar. comportando-se como se acreditasse que "na prática todas essas teorias são outra coisa". frente ao quadro que acabamos de delinear. são tratados como se fossem inexistentes ou irrelevantes. O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos. não servem para nada. pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato" que se pinta dela. isto é. uma maneira de descrever. senão a única alternativa possível para a consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. Está claro que existem inúmeras versões a respeito que. Estes. como se fosse uma "novidade recémdescoberta". mesmo frágeis e freqüentemente precários. Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostumase a experimentar. ou os cita apenas nas passagens em que supõe poder refutá-las. demonstram ser a "menos pior". não deixam de conduzir a conclusões parecidas. ou é repetida. Em primeiro lugar. de forma esquemática e prototípica – e faço votos para que não tenha sido irônica –. de forma parcial ou distorcida.

planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo. Sociologia. A colossal. longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência. a não ser aquelas que consistem em um aperfeiçoamento do conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde. analisadores ou idéias com os quais se pensa. heterogênea e onipresente maquinária que gera esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possívele os "estilos de vida" e "de morte" que lhe são conseqüentes. vai desde a eliminação física e a tortura até a reclusão ou o exílio – mas também tornarse passíveis de inúmeras modalidades de desqualificação. dependendo do país onde atuam. ou simplesmente cidadãos que resolvem falar. de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. conseguem apenas dissimular sua sistemática 178 ▲ . conceitos. signos. falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial. não existem reais alternativas para a situação imperante. desejos e interesses do pensamento crítico. Em quarto lugar. Em verdade. categorias. Em alguns campos do saber e da vida notoriamente na Economia." catastrólogos". ou como" especialistas com falso prestígio". indicadores. se avalia e se procede frente ao estado contemporâneo das coisas. ou como" delirantes adoradores "de um cataclismo imaginário e inexorável. mesmo se empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições. funções. Psicologia e Política – as declarações. os conhecedores dos processos de construção e difusão "ideológica". tudo depende de como se define cada um dos termos: noções. "catastrofistas". acabam por compartilhar. escrever. é sabido e constatado que aqueles pensadores militantes.registro. é que a versão que relatamos anteriormente – que. refinamento e desacordo que.não apenas podem sofrer as mesmas ações repressivas de seus antecessores de todas as épocas – que. desprezo e exclusão mais ou menos sutis. muitas das suas categorias. conceitos. "a rigor". desavisadamente. Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter que suportar a atribuição do status e papel de "catastrófilos". A sentença mais draconiana é que "são inaptos para oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos". mas também da difundida convicção de que. agir e coerentemente viver de acordo com uma inteligência crítica e segundo alguma dessas propostas questionadoras supostamente inexistentes. procedimentos e resultados. obscuridade. Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –. por outro lado. sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade. Boa parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumidaresulta não só da estupidez e de necessidades. rótulos esses que servem para etiquetá-los como "amantes ou cultores" mórbidos.

por exemplo consiste em cotejar o que o Capitalismo veio a ganhar com os desmandoó do Socialismo Real. quantitativa e qualitativamente. Dito de outra maneira. tão velha como o próprio mundo. se bem necessários e ilustrativos. que na Idade Média. Há hoje levantamentos estatísticos acerca de "tudo". é abordada de fom. – Dois bilhões de pessoas do globo terrestre subsistem em um estado que contempla apenas racionalmente o que – de maneira muito controvertida – denomina-se "satisfação de suas necessidades básicas". Porque. É uma brevíssima avaliação dessa natureza que me proponho intentar. e os números que verdadeiramente interessam para tomar posição definitiva acerca das questões mais cruciais são considerados sigilosos e mantidos em secreto. o assunto consiste no confronto entre o que poderíamos fazer e o que realmente fazemos. Tampouco. Por outro lado. Muitos autores enfatizaram a velocidade do processo que o incremento das mais diversas potências adquiriu nos últimos vinte anos: a mesma é tão vertiginosa que resulta muito maior que a conseguida nos recentemente passados duzentos anos. o problema corretamente posto reside em perguntar o que se conseguiu exatamente com essas disponibilidades. assim a valorizações complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão. delicados e contraditórios. Trata-se de comparar o desenvolvimento potencial e efetivo de todos os tipos de forças produtivas de uma época com as realizações abstratas ou concretas alcançadas durante a mesma. tornariam estas linhas intoleravelmente difíceis de serem escritas e lidas. evidentemente. Prestam-se. com respeito às estatísticas.inoperância. não costumam coincidir uns com os outros. Frente a essa formidável escalada. a seguir. mas segundo o meu entendimento.a errônea O problema não consiste em puxar conclusões sobre se o mundo de hoje é melhor ou pior. mostram uma peculiaridade surpreendente. se por um lado – como veremos mais adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas são tragicamente ostensivos outros são confusos. Contudo. outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria Relativa e ou Pobreza. nossos tempos. são poucos os resultados que podem ser considerados confiáveis. e "todo mundo" parece ter acesso aos mesmos. ambíguos. As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que: – Dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra. tantc no passado como nas circunstâncias presentes. 179▲ . não citarei muitos dados estatísticos que. pelo menos um bilhão vive em um estado que a Organização Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta. Para examinar os aspectos mais relevantes dessa comparação. O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono. Essa questão de "otimismo" versus "pessimismo" é. em todos ou em algum dos aspectos da existência.

o arsenal de armas atômicas foi reduzido. exceção de impostos. racial e outros. "em vias de desenvolvimento". a China Comunista) –. se houve aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance. continua-se discutindo.. CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão. o incremento da riqueza nesses "capitalismos nacionais tardios" mostra uma distribuição desigual do benefício. que resultaram no fim da Guerra Fria. – O aparente crescimento econômico das chamadas "economias emergentes" – apesar dos casos serem diferentes e complexos – em geral é fraco e instável. 30% (trinta por cento) possuem 70% (setenta por cento) de qualquer tipo de riqueza disponível no planeta. mas estrondosamente – em 95% dos países. e está baseado seja na venda da força de trabalho baratíssima e informal. Vietnã. ou ainda nas condições contratuais leoninas dos acordos de exploração. Coréia do Sul. "dependentes" – apresentam-se cada vez mais empobrecidos. – A distribuição da miséria absoluta e relativa. limítrofe. Neste momento. Indonésia. porém. Ela se encontra – desigualmente. assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques. ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a 180 ▲ .ente todo o continente africano e. de forma menos espetacular. – Os grandes blocos dos países ricos – EUA. apresentam marcados desníveis e reconhecem que estão ameaçados pela possibilidade de graves crises de diversos tipos. – Os Estados Nacionais – tanto os "democráticos" como os "autoritários". mas também à tendência ao esgotamento dos mercados externos e internos. o número reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico cuja capacidade era mil vezes superior àquela necessária para destruir qualquer indício de vida sobre a face da terra. – Até pouco tempo atrás. Canadá. apesar de serem os principais assentos de opulência mundial. remessas de lucros. Devido às diferentes gestões internacionais. à manutenção da ordem constituída e à segurança pública. à qual me referia acima. religioso. Malásia. Além de tudo isso. Taiwan e. idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo-coloniais clássicas dessas mesmas nações. de maneira muito peculiar. particularmente os dos países chamados" periféricos". civil. supostamente. a Índia. estão em andamento quase cem guerras de tipo internacional..– Dos quinhentos milhões restantes. Oriente Médio e América Latina. tanto na atualidade como no futuro próximo. prejudica inapelavelm. salvo exceções locais. só vem aumentando. seja na extração irrecuperável de matérias-primas e energéticas. a cada ano duplicam-se os equipamentos militares e policiais destinados. sem direito laborais e sociais. – Os indicadores mundiais de desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas ao acelerado processo de substituição da força humana de trabalho pela automação. cujo foco principal é a defesa da propriedade privada e da pessoa dos proprietários. Surpreendentemente – como todos estão cansados de saber – a criminalidade. nos seus respectivos bolsões internos de pobreza.

que não é nada mais que um apêndice. eleitoreira demagógica. do terrorismo sectário ou de Estado. Isso pela necessidade do Capitalismo de incorporar à produção e ao mercado ganancioso todas as atividades possíveis para compensar a tendência de queda da taxa de extração da maisvalia resultante das causas acima apontadas. A decadência mundial do Estado de Bem Estar – causada fundamentalmente pela limitação orçamentária imposta à política tributária pelo Capital também obedece à privatização crescente de sua funções. resultante de uma sólida elevação das condições de vida e de atenção médica integral. – Certo incremento do acesso de setores mais an1plos da população a alguns produtos e serviços – devido à hiperprodução e ao barateamento da produção massificada dos mesmos – deve ser entendido como um resultado muito mais atribuível ao poderio tecnológico dos parques industriais que ao efeito da ascensão econômica de tais segmentos populares. corrupta. policiais. e sim do espetacular e barato progresso da técnica imunológica. ao jogo ilegal. porém.sua subordinação aos onipotentes organismos econômicos internacionais. de proteção e outros. à falsificação e assassinato por encomenda. É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"? 181▲ . ao roubo. tal é seu grau de interferência no comércio de influência. a total falência dos aparelhos judiciários. Esse problema. a sinistra questão dos fundamentalismos. ao contrabando. à prostituição. corporativo-burocrática. saúde. a distribuição da renda é muito mais desigual. torna-se gravíssimo nos países "periféricos" por razões óbvias: as necessidades de serviços infra-estruturais como os de educação. saneamento básico e segurança pública. É de se supor o que ocorre quando esses países são afetados pelo declínio próprio da transnacionalização-privatização. ao seqüestro. o poder econômico dos lobbies locais sobre os governos é enorme. relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas. a política tributária é ridiculamente favorável às grandes fortunas e a política fiscal é incompetente. particularmente da organizada-empresarial – está se tornando não geométrica. mas exponencial. o comércio de crianças e de órgãos humanos. seguro-desemprego. As chamadas genericamente "máfias". terei que parar por aqui. têm adquirido tal poder financeiro que parecem estar integrando formalmente os processos econômicos e políticos. são infinitamente maiores que nos países centrais. – O aumento da criminalidade. moradia. A lógica dessa melhora é parecida com aquela responsável por certa diminuição dos índices de morbimortalidade: não se trata de um aperfeiçoamento amplo e consistente de saúde popular. limitando-me a mencionar problemas tais como a nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos. carcerários e assim por diante. Para não carregar demasiadamente este texto.

Em cada formação histórica. quatro grandes "continentes" ou "territórios". nenhum é causa última nem efeito exclusivo do outro. em si mesma. A modalidade e a prevalência de cada um desses processos em cada um desses territórios-superfícies determina as peculiaridades das funções. da Sociedade. Cada formação histórica compreende. dispersas e "oniconectáveis" – ou seja. e também imanentes. distribuídos em superfícies (vide Nota 1): da Natureza. Uma nova definição de maquinária como conjunto difuso. aclarar que esta análise. heterólogo. de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico. como desejaria.Terceira Parte Esse tema do "otimismo" versus "pessimismo" está intimamente relacionado com o outro. de gestar. auto-producente. à medida que já foi antecipada quase exaustivamente por vários dos colossais pensadores do século passado e que. e isso implica que são parcialmente diferenciados. do "progresso". Esses grandes trataram. é parte da questão do "velho" e do "novo". da Subjetividade e da Maquinária. heteromórfico. devo avisar. no mínimo. o do "velho" e do "novo" que mencionei anteriormente e que poderíamos reformular e ampliar do seguinte modoapesar de que. todosos termos que utilizarei. em cada formação histórica. em movimento transformador contínuo. Nenhum deles é prescindível. digamos. em cada um de seus territórios e em todos eles. externamente aberto e internamente heterogêneo. semi-aleatório de "peças" variáveis. cada um a seu modo. de periodizar as formações históricas. e dos funcionamentos. de Produção de Antiprodução e de Produção de Demanda-Consumo e Consumação. É preciso. seja como for que ela se defina. mais relacionados à produção e à consumação. apesar de que. Quando se afirma que o Capitalismo Planetário Integrado – a "Globalização" e a internacionalização mundial do Capitalismo em sua Fase Superior – é resultado do "desenvolvimento". não poderei definir detalhadamente neste âmbito. dá andamento a quatro processos: de Produção da Produção. os territórios citados e os processos que os" animam" estão intimamente interpenetrados entre si. devido a um laborioso esquecimento de seus detalhes. de Produção de Reprodução. Cada formação histórica caracteriza-se pela modalidade com a qual. nos vimos na obrigação de expor esta descrição como se fosse uma premissa. da "evolução" do Capitalismo. administrar e destruir tudo o que compõe a realidade. semi-determinado. mais ligadas à reprodução e a antiprodução. uma formação histórica que pode ser entendida como 182 ▲ . algum possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim. explicando como cada uma delas era e é – à medida que as mesmas subsistem no panorama atual – um modo sui generis. porém. o mínimo que se pode fazer é analisar o significado exato dessas palavras.

isto é. de sua "Totalidade" ou Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução e da Antiprodução podem manifestar-se através de inumeráveis índices ou indicadores. ou quanto e como as investe na reprodução ou antiprodução que geram as atrocidades dos referidos índices. a decisão. também importam as relações dos mesmos com os campos da natureza. dominação e mistificação lhes são próprios. se comparamos alguns dos nossos indicadores com. cibernéticas etc. seja nas modalidades das máquinas elétricas ou eletrônicas. quanto deixa de fazer com elas. Dito de outra maneira. Obviamente. os de algumas formações primitivas tribais – cujas forças produtivas são ínfimas –. dominação e mistificação são melhores ou piores. Sendo assim. não se nossos terríveis índices de exploração. cairemos exatamente em um dos mecanismos de mistificação que são especiais da nossa formação histórica. Limitarei-me. que os do Feudalismo. a mencionar três fenômenos: os graus e tipos qualitativos e quantitativos de exploração. detectar e criticar esses índices. cada formação histórica possui também os recursos próprios de pensamento. dominação e mistificação são. conseguem inventar. a seu modo. sem dúvida alguma. a qualidade de vida dos países nórdicos e outros. bem "menos atrozes" que os nossos. Dadas as características das funções e do funcionam de cada formação histórica – ou seja. saber. seus tipos de exploração. dominação e mistificação que lhes são próprios. sem ignorar que. Repassando o panorama descrito na segunda parte deste apêndice. Considerando o que foi exposto. Isso é diferente de dizer "mecânica" ou "automática". Espero ser mais explícito agora sobre porque devemos comparar nossa formação histórica atual – a primeira que está em vias de conseguir uma hegemonia mundial quase absoluta – não com as outras. a realização de blocos de nações ricas. Isso precisa ser dito. assim como com o grau de reprodução e anti-produção que as investem. por exemplo. definir. as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam. isto é: com os índices de exploração. "Evolução" e "Desenvolvimento" enquanto valores definidos pelo Capitalismo triunfante? Por um lado. Se não procedermos dessa forma. Nestes indicadores. Maquínica. o que significam "Progresso". por exemplo. o procedimento e a interpretação dos resultados da comparação – de forma a fazer uma avaliação – de uma formação histórica com outra são. porém. conhecimento e valores que. da subjetividade e da maquinária. outro indicador do tipo de formação histórica que assim o faz.uma Megamáquina. por sua vez. a falsa generalização de algumas melhoras localizadas – por exemplo. mas se dadas as incalculáveis forças que a humanidade dispõe. mesmo prevalecendo os coletados no território da sociedade. trata-se de julgar. mas com as potências de produção que detêm. dado que os indicadores medidos como resultado da aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são 183 ▲ .

limitante e destruidora do "todo" da realidade. ou que são enunciados – prévia deformação – como "novidades" funcionais para essa leitura "otimista". apesar do cinismo peculiar do sistema de representações dessa fórmula mundial. continua sendo um recurso necessário para sua permanência. "Liberdade. imanente a "todos" e a cada um dos campos ou territórios antes citados que. um erro. sistema. cédulas ou registros informáticos – é uma medida arbitrária de valor. sem dúvida. o Capitalismo ainda precisa mentir. Cabe apenas mencionar agora. As modalidades clássicas do Capital são o Capital Latifundiário. de Desejo – Consciente e Inconsciente –. Fraternidade" – não é apenas uma mentira. de dinheiro-moeda ou "letras" de diferentes naturezas. apesar da crítica. isso significa que nosso " progresso". subalternamente. bônus. Esse Equivalente Geral.deploráveis. Reprodução e Antiprodução (assim como seus estilos" de vida" e" de morte") – tal como foi anunciado na famosa fórmula da Revolução Francesa e do Iluminismo. e até de Beleza – Dominação e Mistificação. de Saber. um equívoco. ações. uma série desses conhecimentos do século X IX – produzidos por autores de diferentes orientações – que parecem ter sido "esquecidos". apropriação. Ou seja. no mais amplo sentido já definido – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada. da Esquizoanálise à importância da ideologia ou das ridículas afirmações acerca de seu " final". torna-se a medida para a qual deve ser traduzido o resultado da extração. "moderna". estrictu sensué um modo de produção-reprodução-antiprodução-consumação da realidade – dito . "realista". de Semiotização. porém. é possível falar também de Capital de Poder. uma racionalização ou um delírio megalomaníaco. o Industrial e o Financeiro. a Axiomática do Capital – que pode se expressar através de quantidades abstratas. O Capitalismo. Essa integral é denominada Equivalente Geral Dinheiro. organizadora. Por conseqüência. que se acumula como inumeráveis forças produtivas não retribuídas. por exemplo. ou que são citados como "insuficientes" ou "já superados". Trata-se de uma auto-convalidação da Lógica do Capital. regime que "melhor" está protagonizando a realização gradual de uma certa maneira de gerar e relacionar Produção. um sofisma. O Equivalente Geral. a afirmação de que o Capitalismo é o modo. Igualdade. supostamente geradora. Entre as principais forças-formas dessa produção está a força-forma do Trabalho "Humano" – entendendo como tal aquele composto por energias 184 ▲ . Por outro lado. tais índices mundiais são. cataclísmicos. "evolução" e "desenvolvimento" estão longe de tornarem-se efetivos. como títulos de propriedade. muito elementarmente. acumulação e centralização de inumeráveis forças-formas de produção não pagas. julgados segundo a potencialidade produtiva intrínseca ao Capitalismo. "animadora" hierarquizadora.

semiotização e outras. comprável e vendável através do Capital chamado variável. produção de mercado. é a conversão crescente de tais produtos em mercadorias bens de troca. podem haver crises provoca das. de maneira sumamente variada. e as secundárias. Essas contradições são tanto produtoras do crescimento produtivo e cumulativo e da reprodução das condições restritas e amplas da existência do Capital quanto demarcadoras de seus tetos classicamente denominados limites internos e externos – e de sua subsistência. isto é. a submeter-se à citada equivalência e a sua valorização e remuneração parcialmente não paga – Dominação e Mistificação – pela força física ou por modalidades de subjetividade. Os limites internos costumavam ser reduzidos à existência da força de trabalho disponível. cujo protagonista principal é o Estado –. troca.físico-químicas. Entre as variadas situações nas quais essas contradições transformam-se em aporias e conduzem à celebre crise do Capitalismo. pois as lutas operárias 185 ▲ . ou seja. de matérias-primas e manutenção e aperfeiçoamento dos meios de produção propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo. operações de troca mediadas pelo dinheiro. ou seja. Porém. subjetivas – que deve ser "forçada". deve ser acrescentado ao Capital fixo e ao variável o que podelíamos chamar de gastos com a produção de necessidade de demandas de consumo e fruição propriamente ditos. psíquicas. isto é. cada um deles está informado pelo circuito de compra-venda. sociais. Concomitantemente. dependendo do ramo de produção tratado. o qual habitualmente era tido como sinônimo da existência de trabalhadores vivos e produtivos. biológicas. as mais conhecidas são aquelas que resultam das hiperproduções – excesso de mercadorias que se barateiam "excessivamente" e não compensam as inversões – ou do esgotamento relativo dos mercados. Era costume atribuir aos limites externos a existência de mercados solventes. apropriação. distlibuição. como as que ocorrem na competição entre as diversas modalidades do Capital. que se estabelecem entre o desenvolvimento das forças produtivas de todo tipo e as relações de produção de toda espécie. empreendimento. que perdem assim seu poder aquisitivo. consumo e fruição dos produtos de toda espécie. Por exemplo: as primárias. e só secundariamente pelo seu valor de uso-satisfação – pois se o processo de capitalização realiza-se em cada passo desse circuito. O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado – está constituído por contradições famosas que lhe são essenciais. energéticos e territoriais. As condições fundamentais que possibilitam a produção. além dos gastos da reprodução ampliada – manutenção das condições jurídico-político-subjetivolibidinais do Capitalismo. de compradores suficientes de mercadorias. possessão. O Capital variável inclui também os insumos produtivos: gastos de crédito de dinheiro-mercadoria. enquanto interessam por seu valor de compra-venda.

desde suas origens. nelas e delas. Isso é válido para o lucro. que o Capitalismo é um modo histórico que. Por último. sobretudo. não podendo ampliar detalhadamente este ponto. Não é necessário explicar como a guerra sempre foi um recurso complexo para superar as crises. a antiprodução e o consumo para a extração de mais-valia econômica. o poder e o prestígio. de entidades que são suas proprietárias. isto é. incrementam o gasto do Capital variável através de reivindicações salariais ou de melhores condições de trabalho ou chegam. megabancos e. A inflação é mais um exemplo de fenômeno provocado: se. renda e ganhos. Longe de conseguir – através do tipo de competição generalizada e" de cartas marcadas" que é 186 ▲ . pelo aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing. não só aprendeu a prevenir e resolver as crises. por sua vez. pois atua em todos e em cada um dos níveis dos processos do "Todo Capitalístico". o Capitalismo obteve uma enorme agilidade e bara teamen to desses processos mediante a informatização e a robotização dos mesmos. em suas lutas políticas. não explicitamente formal. mas também para o saber. alguns setores do Capital são prejudicados. Ao nível da produção. Na esfera da distribuição. outros são notoriamente beneficiados. ou a destruição dos produ tos para aumentar seu preço. se agrega e finalmente substitui a exploração típica a extração de mais-valia maquínica. mas também viver com elas. troca e consumo. Outra celebre tática é a diminuição deliberada da produção. Já a crise gerada pelo esgotamento da expansão extensivogeográfica dos mercados foi superada com a intensificação quantitativa e qualitativa da venda através do consumo de massas. Nisso participa. porém. não necessariamente em menos "pessoas". a apropriarse parcial ou totalmente do aparelho de Estado. o Capitalismo suplantou a extração de mais-valia relativa – aumento das horas do trabalho não remuneradas – pela absoluta – aumento da produtividade pela intensificação do trabalho em si mesmo ou em menos tempo. facilmente descartados e "melhorados". o aperfeiçoamento das máquinas e uma nova articulação entre a força de trabalho "humano" e "não-humano". foi alcançado com o barateamento e multiplicação dos produtos. a reprodução. mencionaremos somente algumas essenciais. o resultado de cada crise é uma redistribuição de riquezas. Sabe-se. é importante destacar que o Capitalismo é um modo – dito no sentido amplo definido acima – em que a inflexão exploradora. pela qual o Capital – em quaisquer de suas formas de existência – acaba por concentrar-se. assim como através da planificação de produtos perecíveis.e camponesas questionam a propriedade das diversas formas de Capital fixo. dominadora e mistificadora que lhe é característica tende a orientar toda a produção. megaempresas. por um lado. oligopólios e monopólios. enfim. apropriação. Esse. senão em um número real. De qualquer maneira. mas. As manobras do Capitalismo a esse respeito são inumeráveis e.

e dali em diante. nem nos exime de nenhum tipo de luta pela sua extinção. o nosso interesse está centrado em mostrar que as suas peculiaridades essenciais estavam préfiguradas. com uma modéstia conceitual exigida por esta síntese: quais são as principais "novidades" apresentadas pela atual "Fase Superior"? O processo da produção adquiriu. que continuam incólumes e que as transformações acontecidas. e não têm mudado em sua essência desde aquelas até as contemporâneas. da Reforma e da Contra-Reforma e das revoluções européias e norte-americanas – culmina com a instauração da indústria manufatureira na Inglaterra. em suma. Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os nossos dias. a vigência de uma sociedade institucionalizada. tendo a considerá-las. o "novo" Capitalismo é. devido à revolução tecnológica e industrial. contudo. Pessoalmente. desaproveita e destrói em uma proporção jamais igualada. Nestas linhas. esse sistema as paralisa. torna-se de radical importância precisar quando e como este Modo começou e quais foram suas sucessivas ou simultâneas transformações. O Capitalismo propriamente dito – cuja preparação se inicia com o fim do Feudalismo e prossegue no decurso da Renascença. as anteriores. As conseqüências dessa incrível aceleração consistem principalmente no seguinte: 187 ▲ . Pelo contrário. formas e maquinaria. e das que potencial e insolitamente disporia). em minha opinião. assim como de formas sui generisde subjetividade. à maneira de Marx e Engels. seguindo alguns autores. Então. muito pior que o anterior. que é. uma velocidade e uma eficácia totalmente imprevisíveis para os teóricos do século passado. incluem. embora sejam originalíssimas e necessitem cuidadoso estudo.sua característica – uma otimização das forças produtivas de quaisquer naturezas (sejam as que verdadeiramente o mesmo suscitou. em sua essência. Partindo do princípio de que o Capitalismo é uma singular relação e composição de substâncias. Também é possível aceitar que sendo a economia mercantil. responsáveis por nossa chegada a esta "Fase Superior". Esse esclarecimento parece-me imprescindível para poder discriminar de forma convincente que o "novo" do Capitalismo Mundial Integrado não implica uma transformação substancial do "velho". como formações précapitalistas. o Estado. as mesmas podem ser consideradas como precursoras do Capitalismo. Perante uma assertiva deste porte. reprodução e antiprodução variem muito com o tempo e os lugares nos quais operam o diferente tipo de Capital. semiotização e parques maquínicos – condições essenciais e existenciais de muitas formações históricas antigas –. que é possível encontrar seus antecedentes nas formações histólicas dos séculos XII e XIII. a primeira expressão "verdadeira" do Capitalismo na História. energias. apesar de que suas modalidades de produções de produção. razão pela qual não justifica nenhum "otimismo". podemos admitir.

mas sobretudo econômico-social do trabalho. telemática. de Capital fixo e variável. também mercados pobres – compradores de bens e prestações relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –. ao mesmo tempo. localizam-se nos setores mundiais "em vias de desenvolvimento". alguns dos quais operam na economia informal ou em seus próprios domicílios. obrigando a uma substituição incessante. ecologicamente "suja" e altamente tributada nos países centrais. – Os grandes grupos empresariais. – Ênfase na geração de produtos e serviços baseados na tecnologia de ponta – informática. Esses setores tornam-se. assim. processo esse cujo aspecto jurídico se denomina "fIexibilização". formados segundo planos artificiosos e rapidamente "aperfeiçoáveis" que os tornam imediatamente "perecíveis" e "descartáveis". participantes de baixíssimos custos e. – Hiperespecialização e/ou fIexibilização dos poucos trabalhadores que "permanecem" empregados com incentivos de produtividade. mudança e anonimato crescente das sedes e proprietários do Capital.– A maquinária da indústria extrativa. cibernética. da geradora de produtos e serviços está transformando e diminuindo – gradual. apesar de que seus ganhos. – "Terceirização" contratual de segmentos da produção pouco rentáveis para empresas menores ou para trabalhadores independentes. lucros e renda parecem estar crescendo. Multiplicação. havendo indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre. da agroindústria. porém firmemente – a participação da força de trabalho "humana" nos processos produtivos. assumindo a identidade e os in teresses desta. que criam a ilusão participativa. Essas e muitas outras estratégias conduzem a uma divisão mundial técnica. A força de trabalho maquinal e a exploração da mais-valia maquínica vão suplantando aquela humana. assim como aqueles que entram subsidiariamente nos produtos e prestações altamente remuneráveis. empenham-se numa política de diminuição de custos produtivos. com" mãode-obra" e impostos baratos. emprego transitório e precário. Algumas dessas manobras consistem em descentralizar a produção de grandes complexos infra-estruturais caros. subemprego. trazendo como conseqüência desemprego. porém 188 ▲ . para os países periféricos. transferindo a parte básica. em que – diferente do período imperialista fordista da produção – os ramos produtivos de bens e serviços indispensáveis e "pesados". desfiliando-se de qualquer organismo de classe ou luta coletiva de defesa de suas reivindicações trabalhistas. ocultando sua concentração e o poder decisório dos tecnoburocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais. formam-se elites ou aristocracias de trabalhadores que passam a fazer parte do Capital fixo da empresa. através da participação nos lucros e na propriedade – via compra de ações minoritárias e reciclagem contínua da capacitação técnica. Desse modo. robótica –.

comercialização. anônimos. o Colonialismo e o Neo-Colonialismo. Como se sabe. no caso das dívidas externas do "Terceiro Mundo" por exemplo. Os processos de ordenamento. estabelecimentos carcerários e outros. descomprometidos e quase sempre não tributados. os mesmos costumam ser governados por demagogos. ao caráter instantâneo da comunicação e da informática e à sua subordinação a núcleos ubíquos. Por outro lado. sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História. operações administrativas e contáveis. velocidade. saneamento básico. educação e diversão "públicos". divisas. aparatos e funções de Estado – energia. comunicações. devido. que elevam à enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada. o Capital financeiro. produtos. entre outras razões. artifício e inutilidade relativa para o consumidor – maiores ainda que os da produção de bens duráveis e não duráveis propriamente ditos-.complementares daqueles centrais já saturados. eram próprios dos mecanismos de "reprodução ampliada": tarefas familiares. moradias populares. A constituição de enormes e onipotentes monopólios nacionais ou internacionais – legalmente formalizados. transporte. distribuição. móveis. O lucro financeiro puro possui seu mecanismo mais pelverso nos citados interesses e no refinanciamento eterno das dívidas externas e internas dos Estados e empresas nacionais estatais. previdência. esses empréstimos não são nada mais que a mesma riqueza explorada pela força durante a conquista. consumo-consumação – que incluem os de financiamento. até pouco tempo. Alguns exemplos ilustrativos são os que. troca. juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos. "fabricação" de necessidades e demandas (escassez. No chamado "mercado de capitais". falta. sendo que. onde se negociam matérias-primas. prolifera geometricamente – sobretudo como empréstimo para as contas correntes dos países "em desenvolvimento" ou emergentes. carência) – foram "hipertecnologizados" pelos grandes mass-media e pela propaganda. Essa parafernália adquiriu os níveis máximos de eficiência. essa proliferação torna-se infinita no chamado "Mercado de Futuros". saúde. corruptos e incompetentes cuja gestão acaba sempre em grande déficit – contraído em um montante de dívidas com juros astronômicos. títulos inexistentes. assim como capitais dos financistas do próprio país que depositam seu dinheiro nos paraísos fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. "andorinha". seguros. rede viária. supostamente resultantes e defensores do 189 ▲ . profissionalização e mercantilização de "quase todos" os territórios e atividades recentemente não-lucrativos ou considerados "gratuitos" ou "públicos". Não por sua real eficiência. mas por sua necessidade expansiva. que compõem os investimentos da usura "flutuante". acionário. o Capitalismo atual provocou a privatização. segurança. documentário. preservação e restauração do "meio ambiente". transitórios. às vezes dispersos e condensados do Capital monetário. apropriação. Um "fordismo periférico".

semióticas econômicas. jurídicas. convence e corrompe o eleitorado em si mesmo. dados os vícios de "nascença" da máquina estatal. grupos. a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial. que como explicamos. competitiva e heterogestionária. objetiva a subordinação das soberanias nacionais e respectivas populações a entidades supranacionais cujos paradigmas são o Fundo Monetário lnternacional. culturais e libidinais incorporadas à sua lógica-. reiteradas vezes. Trata-se de implantar nas nações o regime político da democracia indireta. em crise no mundo inteiro. Por sua vez. assim como a qualidade e quantidade de demanda e oferta. o Estado fomenta o surgimento de cartórios eleitorais. A mencionada. fisiologismo. Em última instância.eios para reproduzir as condições de sua existência e proliferação – produção de subjetividade. entre outros. da eficiência – o que não deixa de ter o seu sentido. ou porque é manipulador dos meios de propaganda. indivíduos. demasiado caros e ostensivamente "inumanos". o doutrinamento persuade. comunidades do Axioma que rege a Lógica do Capital – vêm se impondo até o presente. já dispõe de novos n. "Bom comportamento" que implica uma administração completamente submetida ao Capital transnacional – sobretudo o financeiro –. burocracia. o que segundo os clássicos marxistas denominava-se "Democracia Burguesa" – são a garantia do "bom comportamento" dos povos em questão. Por outro lado. crises autofagicamente resolvidas e também acontecimentos metamorfósicos irreversíveis e incapturáveis – toda essa grande transformação que aponta para a assunção voluntária e pacífica por parte de todos os agentes. esse processo. políticas. hegemonia do poder econômico – o financeiro e o das grandes empresas – modula arbitrariamente os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário. não sem contradição. representativa. Finalmente. ou ainda por causa do poder de seus lobbiessobre os políticos e funcionários do Estado. Esse processo se enfatiza na dissolução do chamado Estado Beneficente ou Providencial – cujas atribuições são demasiado onerosas para o Capital –. criando os vícios conhecidos. institucionais. o Capital. da racionalização. à privatização a preços baixos das empresas e serviços 190 ▲ . ao pagamento" correto" das dívidas públicas externas. clientelismo."Livre Mercado" e da omissão reguladora do Estado e de organismos da sociedade civil – acaba por criar e regular à vontade as convenções de custos e preços que regem esses mercados. da compra de votos. estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários . Esses regimes e seus sistemas de "representação" – num sentido amplo de produção de subjetividade. O enfraquecimento do Estado realiza-se em nome da modernização. nepotismo. e domina a condução política das nações. na privatização e re-significação da estrutura e das funções do Estado. Não obstante. está empenhado no desmonte. sujeitos. a rigor. que permita prescindir dos recursos repressivos clássicos.

os EUA. A essa degradação e deterioramento. sexuais. Por isso. etárias. nacionais. não tributada e salarialmente flexibilizada – das empresas transnacionais e. analfabetos. e também as do Oriente Médio. revolucionários ou genuinamente reformistas. marginalizados. ambientalistas. sobretudo as bélicas. Sem considerar essas observações como um estudo profundo da contemporaneidade. tais como os regimes integralistas. o carro-chefe do Capitalismo Mundial. assim como subvencionou as piores ditaduras latino-americanas e africanas. o esvaziamento rural.estatais. dominação e mistificação sui generis dessa "Fase Superior" são inequívocos sinais de um tremendo predomínio da reprodução e da antiprodução sobre a produção possível e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia. Ocorre. seja com dinheiro e armas. fundamentalistas e os totalitários – que o Capital supranacional fomenta quando lhe são funcionais. se em alguns campos e setores parece que o balanço de todos esses andamentos mostra alguns "progressos" estridentes. o crescimento cancerigeno das megalópolis. seja com a famosa participação direta de seus "assessores" militares. enfermos. culturais. de liberação das singularidades raciais. e depois tenta substituí-los por democracias formais ou nominais. dominação e justificação. de direitos humanos. o Capitalismo Planetário Integrado tem que lidar com os movimentos separatistas – de inspiração socialista ou não –. errantes. religiosos e assim por diante. no entanto suficientes para entender que. os indicadores de exploração. ou pacifistas. finalmente. temos que acrescentar a destruição massiva da natureza. à "livre" radicação – ou seja. a modulação supérflua e luxuosa do parque industrial. delinqüentes – é mais que suficiente para diagnosticar e avaliar a situação mundial contemporânea. que a construção da megamáquina planetária do Capitalismo Global Integrado não pode prescindir por completo dos velhos equipamentos. o mau aproveitamento 191 ▲ . ao compromisso incondicional com as alianças. Tampouco lhe foi possível eliminar totalmente as modalidades de resistência próprias dos neoarcaísmos. agentes e práticas que possibilitavam suas modalidades clássicas de exploração. mais que expressivos da degradação e destruição do "parque humano". invadiu Panamá e Granada e tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o menor respeito pela autonomia que proclama-. porém. sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e a apropriação de mercados. despossuídos de direitos e também de qualquer identidade-miseráveis. dos países "guardiões" do patrimônio do Capital. sem-casa. Por outro lado. como dizia anteriormente. procedimentos. a banalização ou obscenidade da cultura. sem-terra. dos não-inseridos nas instituições e organizações. clandestinos. A geração de um imenso contingente de excluídos da produção e do consumo.

e vai depender de todos os institucionalistas para que não o alcance. como foi chamado por Félix Guattari. se esse modo não é um non plus ultra. o do "Socialismo Real" – mostra que sua decadência e sua queda não sobrevieram do seu" exterior". 192 ▲ . o de Carlos V. o de Napoleão. Todas as forças crítico-reformistas-revolucionárias que o enfrentam atualmente estão num momento de trágico desânimo. Decididamente. "não existe reparação possível para esse cataclismo. a não ser a convicção de uma vitória sem fim". "exterior" e "interior". O estudo dos grandes impérios históricos – o Chinês. denominá-lo de "Capitalismo Planetário Integralizante". Acredito que tudo isso já é conhecido por demais e serve para caracterizar. Pois "integrado" é um particípio passado e designa um objetivo já conseguido. complemento adequado de uma derrota sempre presente"dos experimentos socialistas às vezes impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico. a máquina abstrata geral e as micro-máquinas concretas pseudodemocráticas e cripto-fascistas do Capital sejam não tanto "ossos duros de roer". apesar de que duvido que ela mesma se reconheça como tal. que é quase o contrário de uma vitória futura final. senão viver nelas e delas. o Romano. como dizia Mão. É exa tamente essa capacidade de adaptação plástica e ativa que faz com que a lógica. Quero aqui parafrasear unia sentença do "Anti-Édipo" – texto fundamental para o que denomino de Institucionalismo – que qualifica o Capitalismo como sendo" a mescla bizarra de tudo aquilo no qual alguma vez se acreditou com aquilo no qual nunca se acreditou verdadeiramente". atuar. sem dúvida alguma. Permito-me sugerir que seria melhor. presuntivamente perene. mas uma espécie de protoplasma polimorfo e sobrevivente. O problema. mas" cresceram de dentro". o Egípcio.das fontes energéticas e muito mais. acredito ser importante para o seu destino introduzir uma pequena modificação no excelente conceito de Capitalismo Planetário Integrado. a um "tigre de papel". Não é que as contradições "internas" e "externas".tampouco se reduz. o Grego de Alexandre Magno. é que o Capitalismo Planetário Integralizante não tem mais. Quarta Parte Se essa entidade que denominei Movimento Instituinte existe. O sistemático "fracasso" – e escrevo fracasso entre aspas porque. o panorama paradoxal e sinistro de decadência. rigorosamente falando. no sentido geopolítico que essas palavras adquiriram nesses enunciados. como expressei em outra parte. sentir. Para poder pensá-lo – com a única finalidade de combatê-lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar. porém. talvez. Dissemos anteriormente que o Capitalismo é a formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as crises. coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda está longe de alcançar.

engendrando atitudes e ações conseqüentes. mas que. Sabia perfeitamente tudo aquilo que a proposta do Terceiro Reich implicava. O Capitalismo é demasiado ágil. segundo o que se entende por sobreviver. em proporções e clarezas variáveis. também o sabem. assumem e desejam. hábil. os da mistificação. fontes da invenção do radicalmente novo. como também diziam Deleuze e Guattari. Não obstante a "ideologia" siga cumprindo uma importante função nos circuitos pré-modernos e ainda nos modelos de reprodução ampliada do Capitalismo. Não obstante a Psicanálise queira explicar esses efeitos como expressão. afirmava que "o povo alemão não foi enganado". impensável e imprevisível. "ninguém nunca morreu de contradição". que cada um dos modos de subjetividade sente que contém cada uma dessas divisões e contraposições dentro de si. dominação e mistificação. É notório. com maior ou menor lucidez. sem iludir-se a respeito. e assim o Parque Humano se divide entre os que possuem grandes probabilidades de sobreviver. por exemplo. que são "peças" de uma lógica – ao mesmo tempo exuberante e letal – que as constitui em suas funções e dela se vale. afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida. deliberativas e executivas da megamáquina do Capital sabem. da Pulsão de Morte ou do Masoquismo Primário. "progresso" e "evolução". As cúpulas proprietárias. Os diversos estratos e segmentos da subjetividade e da sociabilidade. Nietzsche denomina "Vontade de Potência" e Bergson como "Realidade Virtual". difusão e apropriação de sistemas de representações "imaginárias" que "falsificam" a realidade. elístico. Essa não é uma" descoberta insólita". e/ou se oferecem como fantasmas a serem animados pelo desejo inconsciente ou pelos interesses pré-conscientes-conscientes dos sujeitos-agentes. Sobretudo esses últimos. isto é. O extraordinário é que a assumem.primárias. Por "cinismo" se entende que o "espírito" do Capitalismo Avançado – empregando literalmente a velha expressão de M. tal como já a havia percebido W Reich quando. e até a desejam. está ficando evidente o que se passou a chamar – muito discutivelmente – de "cinismo" da Pós-Modemidade Capitilista. Se há algo que ameaça a sobrevivência do Capitalismo. os que têm poucas e o enorme contingente que não tem nenhuma. pela "redação". as camarilhas tecno-burocráticas. referindo-se ao nazismo. e também sabe – e pode ir se adequando às suas próprias contradições. as vanguardas programadoras. Foucault designa como "Forças do Fora". a encarnam. estão sendo essencialmente reformulados. 193 ▲ . secundárias do Capitalismo não estejam vigentes e atuantes. ubíquo e versátil. declinação assintótica e indefinida que se apresenta como "desenvolvimento". Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar os mecanismos e efeitos de suas modalidades peculiares de exploração. Esse apresentar-se não se explica apenas pelos efeitos da "ideologia". é a potência do que Deleuze e Guattari chamam" Processo Produtivo Desejante".

reproduzidos e antiproduzidos pela modalidade peculiar da imanência que se dá entre esses processos do Capitalismo Planetário Integrado contemporâneo. tornando-o permeável à irrupção das forças do "fora" que são capazes. sujeitos. "psíquicos". o Estado. a Igreja. tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade. 194 ▲ . Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault. o Mercado. senão antes interrogar: "Como consegue manter-se hegemônico e aparentemente próspero sem nem sequer esforçar-se demasiado em dissimular sua fragilidade e sua contraprodução?" Apesar de que a perplexidade dos pensadores críticos e gestores da troca é ostensiva. o Tempo Livre como subjetivados – de certo modo – e as subjetividades como "infundidas" por um Estado. da sociedade. é importante entender. "lingüísticos" ou "mediáticos". instituições. É preciso compreender que o que emerge enquanto subjetividades e sócio-institucionalidades não são efeitos específicos e pontuais de mecanismos "educacionais". Para aproximar-se do entendimento de alguns deles. Cabe ao Movimento lnstituinte – levando-se em conta sua suposta infinita heterogeneidade interna e sua irrestrita abertura externa – inventar os recursos e as práticas que possam empurrar o Capitalismo Mundial Integralizante além de seus próprios limites. agentes. práticas. Indivíduos. "culturais". a Educação. desejos. pode ser consultado o Glossário deste Compêndio. Quando lemos o panorama mundial. Por isso. devo advertir que muitos destes termos não são usados aqui no sentido estrito de sua bibliografia de origem. devemos tomar consciência de que aquela dos expertse condutores do Capitalismo não é menor. por exemplo. não apenas a perguntarmo-nos – de acordo com a famosa fórmula – "Que Fazer" para transfomá-lo. o Trabalho. sócius. éticas e estéticas são produzidos. Ninguém é capaz de fazer predições a médio e longo prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. incessantemente.em nível de estrutura e dinâmica dos sujeitos edipianos especificamente considerados como objetos universais dessa disciplina. Justamente por isso é que nos resta apenas avaliar e lutar. realmente. a rigor nos sentimos tentados. em TODOS OS LUGARES E AGORA NOTAS 1 – A definição rigorosa desses conceitos para torná-los acessíveis ao tipo de leitor ao qual este texto se destina requereria um volumoso tratado à parte. mas afeções – como dizia Espinoza – operadas em conjunto pelo tipo de maquinismo que modula prevalentemente o atravessamento dos territórios da natureza. De qualquer maneira. interesses. da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina. como procurei fazê-lo nestas linhas. de transmutá-lo.

em geral. e involuntariamente. assistemático. desgarradas e mutiladas entre as exigências pedagógicas e sintéticas do texto. porém não pude deixar de constatar que o "pessimismo" de cada página do "Apêndice" que antecede a este post-scriptum insistia sobre esta predição.POST-SCRIPTUM Janeiro de 1998 A releitura do apêndice anterior. às vezes pouco claro e. os três últimos anos possam ter trazido elementos para melhor avaliar a pertinência do que se poderia qualificar. Durante este tempo. por um lado. como sempre acontece. insuficiente. A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do 195 ▲ . Não sei se é excesso de petulância incluir-me entre esses últimos. somente alguns poucos prenunciavam. acredito ter sido desde o início. por outro. Não obstante. escrito em 1995. segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio". à grave crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi-se agregando uma crise econômica de incalculáveis proporções que. contudo que esses também possam existir. e até vaticinantes. e sim um" globo de ensaios". Se me atrevo a comentá-las com os leitores. não suficientemente fundamentado. com benevolência. Essas páginas de 95 me parecem retorcidas. exorbitantemente amplas. de cem e do que tentei dizer. não é apenas – como espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos e justificantes. Penso que. e suas pretensões analíticas. quero conceder-me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito. suscitou em mim impressões contraditórias. pelo que entendo. o filósofo brasileiro Peter Pal Pelbart. Tão fortemente acredito nisso que decidi catalogar este escrito numa simpática categoria inventada por um amigo.

Essas explicações. Isso não implica "falha humana". todos os "capitalismos emergentes". tanto que está chegando ao limite de sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os investidores especulativos para que não percam seu dinheiro. a cômica discrepância que os economistas e outros especialistas mostram quando tentam explicar esse fenômeno colossal que se iniciou com uma dimensão regional. Vamos continuar observando muitos expertsatribuírem à "falta de dados" – porque ocultados ou distorcidos por parte das economias em questão – a surpresa e a perplexidade que a catástrofe ocasionou. em muito. por último. Esta é uma realidade clamorosa. Ou a "todas" essas causas juntas e a muitas outras. China e Taiwan. substancial. Singapura. no caso dela ser correta. passando por todos os segmentos sociais. Tailândia. Laos e. – Ou essa é uma fraude de magnitude hemisférica e configuração escalonada que vai desde os produtoresconsumidores. – Ou se trata de um efeito processual. chama fortemente a atenção. e assim sucessivamente. Japão. Hong Kong. Permito-me fazer somente alguns comentários globais que podem reafirmar. planejamento que implica dos povos até os governos – desde logo. mas nem sequer tem a humildade de reconhecer o estatuto de interfase do sistema caótico ordenado própria de seu "objeto". tanlbém as grandes potências capitalistas. ainda indefinida. Com respeito à primeira hipótese. até chegar aos organismos internacionais – desde logo. essencial e inerente ao Capitalismo Planetário em via de lntegração. entre essesexperts. uma ou outra tese já postulada neste livro. Filipinas. podem reduzir-se a três tipos: – Ou esse é um erro regional de modelo.. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. senão principalmente um erro radical sobre os meios de pensar a realidade. ou ainda à sobrevalorização de sua moeda. E mais: porque. econômicos e políticos.ataque especulativo à lira italiana e à libra inglesa e o outro que afetou o México – e engloba diretamente todos os "Tigres Asiáticos" – Malásia. a meu ver.. outros às suas falências bancárias ou à desenfreada especulação imobiliária que ocorreu no seu território. eventualmente. 196 ▲ . não cabe aqui uma análise excessivamente detalhada. menos drasticamente. Coréia do Sul e. sendo que em outra. de outra forma. Obviamente. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. A idoneidade da "Ciência Econômica" e da "Economia Política" oficial capitalista não só é. sem ignorar diferenças nacionais. Em primeiro lugar. inferior à da Meteorologia. alguns atribuem o flagelo à cumulação de empréstimos enviados aos países em crise. o mínimo que se pode considerar é que o destino do mundo está em mãos de presunçosos incompetentes. e numa dimensão mais ou menos ameaçadora. Começamos pela admissão do FMI de que "se equivocou" na avaliação e condução desse assunto. cálculo. lndonésia.

" Pelo que se refere à segunda hipótese. solicitado a opinar acerca das conseqüências da crise para a economia do Brasil. absolutamente em sintonia com a racionalidade ética e proposicional das leis nacionais e internacionais – as propriamente jurídicas ou as "internas" aos enunciados específicos disciplinares. não esgotam o repertório de riscos que caracterizam as subjetividades capitalistas. "Direitos Humanos" que concretamente podem ou não podem ser cumpridos dentro do que se chama hipocritamente" condições constitutivas. A lógica dessa axiomática está. tampouco são exaustivas. normas. de desconhecimento. as leis se contrapôem a essa Lógica. trata-se de cumprir ao pé da letra as leis vigentes.O erudito "Científico-Presidente" do Brasil.por estúpidos e ladrões que os agentes-sujeitos individuais e coletivos do Capitalismo assumem os lugares. porém. Não se trata. Fica aberto o tema da qualidade e gradualidade de imputabilidade de cada um dos envolvidos e do acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja-se mais adiante). temos que assumir que o destino da humanidade este) nas mãos de delinqüentes. em última instância. é claro. ou especialmente se nos referimos a uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei". FH. regulamentações. E também. ou como leis maiores formais. especificações. Em um certo sentido. ao qual já nos referimos reiteradamente. científicos ou não. Os célebres conceitos e a análise foucaultianos acerca do atravessamento entre os enunciados – as dizibilidades – e aquilo que o autor 197 ▲ . assim como as três não são excludentes. respondeu: "Só Deus sabe. lem brar leitores.. pelo menos parcialmente. é preciso apenas definir. ou como leis menores – decretos. em que consiste este risco. com a qual os psicanalistas e outros teóricos enchem a boca. ou de aproveitar os limites de seu império e de suas falhas intersticiais para pô-la à serviço – às vezes condicional. Cardoso. uma vez que não precisa aos ser demonstrado porque já o foi durante um século – que a sábia ignorância dos experts. as funçôes e as práticas segundo os quais a lógica da Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona. O que mais nos deixa pasmos e surpresos no espectro das mesmas é o cinismo. nem som entede uma tendência delituosa de transgredir ignorara Lei – qualquer que seja a Lei da qual estamos falando. tanto quanto a desonestidade dos agentes e das entidades. se acertada. direitos fundamentais ou reais" da formação da soberania em questão.. às vezes incondicional – da Axiomática do Capital. Está comprovado – e isso é o que tenho procurado. da qual a ordem jurídica imperante é uma engrenagem perfeitamente coerente (vide a plena vigência do Direito Positivo). Se a terceira hipótese está correta – e isso tenho afirmado constantemente nesse modesto e elementar livro-. foi feliz e sincero quando. mas não som ente. resulta evidente que as duas primeiras podem ser perfeitamente incluídas na última. Excepcional e/ou aparentemente. simplesmente.

desmobilizar. não deve enganar ninguém. que começou muito antes daquela do Capital. e como tais são admiráveis. imanentes ao jogo de forças de uma formação histórica (por um lado). Ao menos numa vertente dominante de sua essência. obviamente. e o diagram a. sem considerar os seus defeitos. os neo-arcaísmos e o terrorismo. sempre considerados irrealizáveis. fragmentar e recapturar as forças críticas e metamórficas. essas montagens dão conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo "moralismo" à Ordem Capitalista Constituída. visando produzir as condições mínimas nas quais essa última possa subsistir – e encontrando viabilidade. a implicá-las em dispositivos nos quais a modalidade organizativa e os objetos a serem conquistados resultam relativamente irrelevantes e/ou absorvíveis pelo Capital. especialmente aquelas que se consideram concessões – geralmente tão inevitáveis quanto mínimas.chama visibilidades – os dispositivos do poder. Principalmente não deve tranqüilizar ninguém acerca da perfeição do modo econômico e de seus rebrjmes – jurídico-políticosubjetivo e outros. que resultam operantes somente para matizar. omissa e passiva" 198 ▲ . como as "menores". garantindo sua reprodução simples e ampliada tanto em seus aspectos econômicos como em todos os outros que já mencionamos. aos quais atribuem todos os méritos da Modernidade – que. Outro caso ilustrativo é a luta da economia de mercado e democracias representativas contra as "massas ausentes". puramente nominais. como Jean Baudrillard. o resultado de heróicas e cruentas lutas da humanidade. complexo de forças informais (por outro) – dão conta admiravelmente de alsrumas das maneiras com as quais as funções reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema. Os primeiros fazem uma apologia do individualismo. não são nada mais que estratégias. pois não se conhece outra-. está na virtude de chamar a atenção – apesar de que unilateral e exagerada – sobre a estratégia de resistência nãoconsumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização. bem distantes dos "ideais". O mérito relativo do pensamento de alguns autores. em sua maioria. Que o lado "progressista" dessas leis – tanto as "maiores". da imprensa livre e da competição liberal e neoliberal. ou ainda. supostamente apoiado por uma "realidade" que o panorama da Axiomática do Capital delimita e modula. possibilitou o seu começo e ainda lhe é imprescindível. Um exemplo ilustrativo a esse respeito são as contendas entre os partidários neoliberais do "Livre Mercado" e os defensores da "Regulação Estatal". estão destinadas a desorganizar. Em sua essência. o que é mais astuto. de Entre vários requisitos. Os segundos prescrevem" uma quantidade maior" da mesma Lógica do Estado. mitigar ou amenizar os efeitos fundantes da Lógica do Capital – expresse. sempre foi consubstancial ao Capitalismo. crescer –. Essas concessões são invariavelmente tardias e de aplicação sujeita ao horizonte do "possível".

científicas. creio eu. porém acidentais.das massas. heteróclito e bizarro de colisões. segmentos. devido tanto às resistências que minam o processo de suas façanhas quanto à dureza de suas vicissitudes. organizações. artísticas. heteromorfo. com uma velocidade que passa de geométrica para exponencial. isto é. o mundo atual é um poliverso vertiginoso. como infinitos agenciamentos e acontecimentos no seu combate contra as equações variáveis de reprodução e antiprodução do Capital. vejam-se os memoráveis capítulos da "Revolução 199 ▲ . do Capital ou da chamada Sociedade Civil (a esse respeito. idiossincrásicas – na medida em que são individuações. de maneira que os explorados." entrem numa provocação desviante". como se diz pitorescamente falando. Mas "ninguém morreu de contradições". senão. "absurda" e intempestiva dos fundamentalismos e do terrorismo. instituições. É claro que espero e desejo fervorosamen te ser explícito dizendo isso. o pouco que proponho enfatizar aqui pode se resumir. e muito menos estática. políticas. Perante essa constelação. que vão desde o preciso até o indecidível. o Industrial e o Latifundiário – tanto nos domínios "globais" como nos regionais. A imanência entre as potências e processos de desterritolialização e reterritorialização capitalistas movimenta-se sem cessar. apesar de apresentarem uma triste originalidade. heterogêneo. sem a menor intenção de desvalorizar nenhuma forma de luta tradicional ou nova que as forças da Vida vão inventando. e mais enfaticamente. conexões disjuntivas inclusas. Diante de tudo isso. da seguinte maneira: Os militantes e pensadores instituintes contemporâneos passam por divergências e discussões dilemáticas – que freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de se a luta deve dar-se a partir de dentro ou de fora das organizações do Estado. proteiforme. apenas descritivamente. a ferocidade das contraposições recentes e suas conseqÜências entre o Capital Financeiro "apátrida" volátil. locais. habilmente engenhada para propor e propiciar contendas. Essas estratégias. seu entusiasmo e sua alegria – como dizia Espinoza – foram. mas que têm aprendido a viver em crise e da crise. não é pleonástico repetir que o processo do Capital não constitui uma unidade monolítica. complementada pela irracionalidade monstruosa. são e serão "o sal da terra". Veja-se. sinérgicas e potencializantes. agentes dotados de uma identidade mais ou menos precisa e circunscrita. filosóficas. "Todas" as Máquinas de Guerra e as Linhas de Fuga simultaneamente econômicas. Assim. jurídicas. dominados e mistificados" comprem a briga". expressões de singularidades intensivas –. não deixam de ser uma resposta cega às manobras orquestradas pela Máquina Abstrata do Capital. Não somente ao nível das contradições antagônicas e agônicas do que Deleuze e Guattari chamam de "Superfície de Registro e Controle" composta por territórios. As preocupações dos militantes acerca do grau de capacidade de recuperação que o Capital exerce sobre as mesmas geralmente não são mais do que hesitações compreensíveis. suas transversalidades. nacionais.

apesar de que isso não o exonere inteiramente das conseqüências imediatas da crise. se me lembro bem. por isso carecia de sentido epistemológico. apesar de tudo. aos "integrados" – bem intencionados – por outro. Cabe. Lembrarei também que alguns adora dores do neoliberalismo. de forma aceitável. que consegue manter-se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia. o modo capitalista e seu Sistema 200 ▲ . bastante afetados por essa debacle setorial insuspeita. que são as que escapam a toda imaginação. existem inumeráveis posições intermediárias que dão espaço a quantas vontades de transformação seja possível imaginarassim como às melhores delas. não faz senão demonstrar o uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política – em grotesco contraste com suas declarações neoliberais de "livre-mercado" e de democracia. confundindo singularidade com isolamento. ubiqüidade com fragmentação dispersiva. Guattari. Em função do que foi exposto acerca da crise presente. déficit interno e externo. quando estudava a crítica marxista da Economia Política. por um lado. Rememoro que em minha juventude. porém. Contudo. França e Reino Unido. verificação e falseamento. assim como de seu principal aparato bélico-repressivo: os EUA. Canadá. Também Alemanha. se me permitem uma digressão. linha de fuga com evasão. O crescimento de quase 4% de sua economia em 97 e o decréscimo de seus índices de desemprego. os de "O Estado e o Inconsciente" de René Loureau e até alguns capítulos deste livro). discretos indicndores de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva. reforçar que a reivindicação idiossincrásica nunca acaba de propagar-se como uma onda extensiva. entre outras razões porque insiste em enfatizar-se como intensiva. antes de concluir com uma nova tentativa de síntese. Em conseqüência disso. baseava-se na tese de que tal indicador era in1possível de ser medido empiricamente. acrescentarei quanto segue. tanto os movimentos chamados "Alternativos" quanto a Esquerda tradicional parecem perder de vista os macro-indicadores inequívocos da deterioração do "todo" capitalista. inviável quanto à operacionalização. mesmo que todos os países enumerados apresentem altíssimos índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal-. somente a nação que continua sendo o assento das maiores sedes centrais do Capital mundial. O argumento principal.Molecular" de F. Itália e Espanha mantêm-se relativamente estáveis. empenham-se em reivindicar que. Outro desses dilemasé o já célebre que se trava entre os "reformistas" e os poucos "revolucionários" que ainda sobraram – seja como for que se defina revolução. reiterarei que no momento a mesma tem respeitado. tinha sérias dificuldades para entender tanto o conceito da tendência à diminuição da taxa de extração da mais-valia quanto a contestação que os economistas positivistas faziam a essa teoria.No espectro que vai do pólo dos" apocalípticos". e por ser uma hipótese de "alto nível".

torna-se importante esclarecer que. assim. pelo fato de serem aliados dos países centrais nas guerras anticomunistas. A iminência da segunda Guerra do Golfo e da terceira Mundial não é apenas hipótese de ficção científica. o qual. como Coréia e Vietnã. desde a Segunda Guerra Mundial até hoje. destinado a inversões especulativas em outros mercados mais lucrativos e/ou estáveis? Alguns famosos economistas acabam de declarar. Ironizam. a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda de falências. Por último: como não requerer (apenas porque não sei se isso já foi feito) um levantamento cuidadoso e verídico dos coeficientes de concentração de riquezas que têm sido realizados e perpetrados nesses países.moratórias e outros flagelos. Ora: que Economia Mundial é essa que entra em pânico por um "acidente" que afeta apenas 7% de sua produtividade anual? O verdadeiro pavor não consistirá de fato em que uma das suas derivações pode ser a estrepitosa baixa de preços dos produtos asiáticos (dum ping) o perigo iminente de benefício dos consumidores e prejuízo dos e inversores? A quais maldades políticas terá que se apelar para evitar essa presuntiva "injusta" festa dos compradores? Com certeza não será "democrática" nem "livre-empresista". Japão e Itália começaram seu crescimento a partir da inversão massiva do Capital "aliado" – novas versões do Plano Marshall e da 'Aliança para o Progresso" – e nas condições políticas severamen te repressivas das nações derrotadas e "ocupadas".é apropriado pontuar que boa parte do desenvolvimento dos "Tigres Asiáticos" processou-se sob governos ditatoriais e autoritários. Alemanha. Afinal. está em pleno declínio. Essa afirmação adquire relevância pelo contraste com a decadência dos países do ex-bloco do Socialismo real. Outros têm manifestado que. ao final. sustentam que apesar da instabilidade persistente. Em segundo lugar. como é notório. Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é. De outro lado.. Diante dessas afirmações. em primeiro lugar. que não precisamos nos preocupar demasiado com as falências generalizadas. porque assim a economia mundial se corrige e ajusta". por exemplo. "é bom que as coisas se precipitem. a parte do Produto Bruto Mundial correspondente aos países estremecidos pelo "sismo" alcança somente 6 ou 7% do total mundial.Democrático Nominal conseguiram. como se 201 ▲ . e teve uma base de lançamento nada depreciável. mesnlO que uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à geração de força de trabalho cnpacitada e eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre. o milagre inédito de reduzir em quase 50% a pobreza asiática. os mecanismos de "contágio" sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa. nas falências atuais. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam". a fuga desse Capital acumulado..

itiriam predizer essa "quebradeira". "estrutural". descarado – da Máquina Abstrata do Capital e sua Axiomática Suprema? O que manda é o Equivalente Geral. segundo o qual votouse a favor de continuar mantendo o segredo sobre suas contas bancárias. que não é outra coisa mais que o pleno reinado universal – ostensivo. tanto as empresas nacionais e transnacionais quanto os organismos estatais e supra-estatais operacionalizaram seus "modelos" predominantemente com base em movimentos táticos de "invenções" e "sangrias". narcotraficantes. estridente. não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais-valia o que não se pode mensurar!!! Como já advertiram Deleuze e Guattari. incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão! Segundo me parece. Movimentos esses 202 ▲ . no predomínio nebuloso do Capital Financeiro mundial – completamente independente de sua base material – e sua desregulação total. Quanto custará ao povo desses países "novos ricos" quebrados a hipoteca dos anos vindouros. sendo que vários dos mencionados "desenvolvimentos" capitalistas realiza ram-se duran te regimes cripto ou ostensivamente despóticos – veja-se em outro contexto geopolítico a trajetória do Chile e do Peru. ditatoriais. Pelo fato que já mencionamos antes dessa interessante questão da correlação inequívoca entre ética. tanto as vantagens do caminho capitalista "eleito" quanto o montante exigido para sua recuperação? Pelo visto. de forma convincente. que em vão se reclama limitar jurídica e institucionalmente. sem descartá-las por serem ingênuas e menos procedentes. subordinando à sua força quase tudo que existe como realizado no horizonte do existente. São as seguintes: por que tomar como referência comparativa e justificante das excelências liberais o Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é um tema ainda digno de muita polêmica? Por que confiar na "natural" afinidade entre Capitalismo e Democracia Nominal.diz eufemisticamente. mafiosos e delinquenciais em geral – tenha um sistema político dotado de Assembléias Populares Comunitárias Cantonais?! A "plena" democracia suíça "perpetrou" um plebiscito. não é apaixonante que a Suíça – país que deve uma parte indefinida de sua prosperidade aos depósitos bancários de boa parte dos capitais "espúrios" do mundo: evasão tributária. "liberdade" mercadológica e "liberdades" políticas e humanas. por que devemos acreditar que são ou serão aptos a quantificar. às vezes. existem algumas outras perguntas-chave que precisamos nos fazer nessas circunstâncias. "em última instância". e se funda. A hegemonia da Axiomática do Capital consegue. suas formas monetárias e informáhcas. Como explicar esse império inquestionável a não ser pelas peculiaridades da globalização. que é o preço de sua futura "recuperação"? Se os experts e seus organismos têm sido incapazes de conhecer as cifras necessárias ou de elaborar os modelos e as simulações que lhes perm.

equipamentos.invariavelmente improvisados e incidentais. Revolucionários" – que são o "motor" da Produção ou a Produção em si – com aquela dos reprodu ti vos e antiprodutivos. – Não se deve confundir a morfologia e a dinâmica das instituições. O ceme do problema – por mais pobres e óbvias em que essas observações resultem – reside no seguinte: – Não se deve confundir a lógica dos processos que Deleuze e Guattari chamam" Produtivos. – Não se deve confundir – mesmo levando-se em conta as singularidades históricas das citadas modalidades – a separação entre meios e fins que é própria da ética dos modos e sistemas capitalistas com a imanência entre meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte. com a auto-análise e a auto-gestão. nem o saber e o poder de seus políticos profissionais e tecnoburocratas. social-democrata ou socialista "soft". agentes e práticas. porém. quaisquer que sejam as limitações. ou ainda a "popular". organizações. mas devem estar. que nunca o "espírito" das mesmas esteve melhor resumido que na deslumbrante fórmula – " A cada um segundo suas capacidades e a todos segundo suas necessidades" . nem tampouco a "participação" na democracia direta. neoliberal. obteve índices parecidos. táticas ou técnicas históricas de cada iniciativa produtiva-desejante-revolucionária. e assim por diante. por bem ou por mal. do possível e do impossível. que constituem os domínios do real. ajuda a demonstrar que. existe o hábito de invocar o sereno bemestar da Suécia. Que Cuba. logísticas. não tem muita diferença entre as variedades de Capitalismo e de Socialismo real. isto é. Como último argumento. estabelecimentos. mimetizações e vacilações estratégicas. hierarquizados. cuja previsibilidade e precisão brilham pela ausência e são decididamente contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda. Holanda. semióticas. Não se pode dizer que os dois segundos sejam absolutamente contraproducentes e elimináveis. Folgo em dizer que o incremento das forças produtivas de todos os tipos – incluídas as forças teóricas e expressivas – mostra que este enunciado 203▲ . com o âmbito do virtual atualizável. Desejantes. Dinamarca. – Não se pode esquecer jamais. sujeitos. quaisquer que sejam as modalidades históricas que os dois termos dessa diferenciação adotem. com o embargo que dura mais de três décadas e oprimida por uma "Ditadura do Proletariado". estratificados. – Não se deve confundir a democracia indireta e representativa liberal. sem considerar com profundidade que a tal prosperidade é fruto da participação dessas nações na espoliação colonial e neocolonial e da inexistência de bloqueios sobre suas economias. Finlândia e alguns ou tros países com fabulosos índices de saúde e educação. os componentes territorializados. Noruega. rigorosamente subordinados ao primeiro.

1975. M. Petrópolis. coord. Ed. Ed Nuevillmagen. Tomasetta. in: Rev. 1971. 1984. Ed. Ed. Petrópolis. 1987. G. Madri. Ardoino (org). 1973. Ed. 'Analisis Institucional y Socioanalisis". in: Revista Vozes n° 4. A. ''Análise Institucional: Teoria e Prática". in: "Saude loucura" nOl. n° 62-63. Espaço e Tempo. tomos 1 e 2. ''Alguns elementos teoricos para pensar Ia cuestion de Ias derechos humanos y Ia violencia institucional". Ed. "EI Analizador y el Analista". Buenos Aires. Campo Abierto. Zahar. Nueva Vision. Mendel. 1989. G. J.). G. L. Pour. Hucitec. 1977.pode e poderá ser formulado de infinitas novas maneiras. Quehacer y Deseo". Autlúer e R. Rio de Janeiro. Ed. 1977. Falias. vários autores. Hess. A. Ed. J. ''Análise Institucional no Brasil". 1973. Saidon (org. Lapassade. México. V R.). uma variação que me ocorre para a palavra-de-ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte: ''A cada qual segundo suas capacidades de lograr que – a todos segundo suas necessidades – seja uma necessidade para todos e um desafio para cada um. Amorrortu. R. Baremblitt. G. G." 204 ▲ BIBLIOGRAFIA BÁSICA Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura: "Apresentação do Movimento Institucionalista". Organizações e Instituições". Lourau et aI. Lourau et ill. Baremblitt. 205▲ "Sociopsicoanalisis lnstitucional". "Participacion y Autogestion". BuenosAires. Rio de Janeiro. 'Autogestão: Uma Mudança Radical". Rio de Janeiro. 'A Análise lnstitucional". 1976. Ed. Lapassade. "EI Analisis lnstitucional". e que isso exige aplicar às definições de capacidades e de necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados. apresentação e introdução. Lourau. Cedisa. Ed. Cuillerm e Y. R. "EI Sociopsicoanalisis Institucional". Bourdet. Ed. "O Inconsciente Institucional". Ed. Kankhagi e O. Vozes. G. coord. 1973. Presses Universitaires de France. 1988. Buenos Aires. in: "La Intervencion Institucional". Petrópolis. "Grupos. 1978. "[Analyse Institu tionnelle". . Ed. Poder. São Paulo. C. in: "Saber. Paris. Ed. Barcelona. Francisco Alves. Baremblitt. Lapassade. 1981. Mendel. Ed Vozes. México. 1979. G. 1975. Para terminar. Paris. "LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?". Vozes. R. Amorrortu. Lancetti. Cuigon (coord.

Madri. Ed. F Cuattari. 1975. Papirus. 1975. Ed. 19~O. Barcelona. Payot. Siglo XXI. Ed. Campinas. 1985. esgotar a lista dos possíveis. Fundamentos. Ed. 1988. à psicologia organizacional e à psicologia grupal. Buenos Aires. 1981. Ed. 1977. G. Ed. 1972. . 1975. 2ª ed.:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". Ed. Paris. Ed. Paris. 1986. "EI Manifesto de Ia Educación". Lourau. Paris. Península. Ed. "Empirismo y Subjetividad". 1986. Granica. Ed. R. 1977. F Cua ttari. Payot. Barcelona. Paris. Deleuze e F Cuattari.1975. "Enquete par un Psychanalyste sur Lui-Même". Paris. Ed. São Paulo. Ia Poli tique est en Crise". Lafont. "l. Cranica. 1988. Lafont. Petrópolis. Barcelona. 'A Revolução Molecular". Paris. Rio de Janeiro. "On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Pre-Textos.o". Cedisa. Paris. Payot. Ed. "Mil Platôs". "O Inconsciente Maquínico". "La Descolonizacion dei Niíi. Sigla XXI. "La Entrada en Ia Vida". 1972. R."Psicoanalisis y TransversaJidad". 'As Três Ecologias". Rio de Janeiro. "Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". Os textos aqui classificados são apenas os mais próximos. Ed. 1988. Rolnik. Madri. Campinas. 207"54 Millions d'Inclivid us sans Appartenance" . 1976. Ed. e não pretendem. Ed. Obras de Georges Lapassade: "Chaves da Sociologia". Rio de Janeiro. Ed. Ed. 1973. G. F Cuattari. Francisco Alves. "La Bio-Energia". em colaboração com R. Deleuze e F Cuattari. Barcelona. 1978. Por motivo de focalização. Paris. "Micropolítica – Cartografias do Desejo". 206▲ BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA A bibliografia de consulta é vastíssima e pode ser classificada de acordo com a maior ou menor proximidade que tenha com a linha teórico-prática adotada neste livro. Papirus. Ariel. F Cuattari e S. Barcelona. 1972.lmago. "La Crisis e Ias Ceneraciones". Vozes. Payot. 'Au togestion Pedagógica". "La Classe lnstitu tionnelle". 1983. 1976. Valência. "La Crise est Poli tique. Ed. Stock. 1981. 1976. "O Anti-Édipo". 1974. 1981. Ed. Obras de Gérard Mendel: "La Rebelion contra el Padre". Ed. Lafon t. Cedisa. "Quand plus rien ne va de soi". Ed. Ed Payot. Ed. 'Anthropologie Diffierentielle". Ed. R. Ed. excluímos da literatura concernente à antipsiquiatria. 1977. Obras de Gilles Deleuze: "Para Ler Kant". Barcelona. Barcelona. Ed. Brasiliense. F Cuattilri. Península. em absoluto. Ed. "Pour une autre Societé". Civilização Brasileira.

. Ed. UGE 10/18. Kairos. "Le Analyseur'Lip"'. Ed. Ed. Forense Universitária. Machado. Tusquets. Gill. "Deleuze e a Filosofia". 1980.. Res. Privat. BuenosAires. Ed. "Pericles y Verdi". I. Rio de Janeiro. "Nietzsche". Estuclios 1 y 2. Ed. 1981.1977. Perspectiva. 1987. Barcelona. 1987. 'Apresentação de Sacher Masoch"."Diferença e Repetição". G. 1989. "Le Gai Savoir des Sociologues". Toulouse. 1972. Imago. Pre-Textos. 1984. Paidos. Valência. 1977. Rio de Janeiro.19bO. Buenos Aires. "La Imagen-Movim. com F. Ed. Edições 70. Pre-Textos.. 1971.idos. Graal. Ed. "Politique et Psychanalyse". "Les Analyseurs de l'Église". "I.:Illusion Pédagogique". 1976. F Fourquet e L. Ed. "Proust e os Signos". Ed. Barcelona. Ed. Ed. Pa.iento". Ed.:epi. em colaboração com F. Paris. 1974. "EI Estado y ei Inconciente". 1984. Anagrama. Gua ttari. 1976. Obras de René Lourau: "LInstituant Centre I. "Les Lapsus des Intellectuels". Ed. Ed. Catedra. "Lót. Ed. I.:Institué". "Foucault". Madri. Rio de Janeiro. Parnet. 1979. Barcelona. 1971. UGE 10/18. Ed. Ed. "Spinoza y el Problema de Ia Expresión". "Espinosa e os Signos". "Sociologue a Plein Temps". Ed. "Kafka/ por uma Literatura Menor". 'Autodissolusion des Avant-Gardes". Rio de Janeiro. 'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". Ed. Paidos. Ed. Ed. Ed. 1969. Galilée. "EI Bergsonismo".:épi. Guattari. "Diálogos". Livraria Taurus Editora. Rio de Janeiro. Paris. em colaboração com C. "Los Equipamentos de Poder". Ed. São Paulo. 1989. Barcelona. 1988. 1969. Ed.1977. Antrophos. Paris. 1990.. Paris. 1974.:epi. R. Alençon. 1987. Porto. Valência. "Nietzsche y Ia Filosofia". Antrophos. Paris. Barcelona. 1975. Barcelona. "Spinoza: Filosofia PréÍctica". Ed. Ed..rica do Sentido". Des Mots Perdus. Ed. Lisboa/1981. 1975. I. Graal. Muchik. Murad. 208 . "EI Pliegue". 1983.

Obras de outros autores "Psychiatrie et Psychothérapie Institutionnelle". J. P. de Ia Banda Oriental. 1969. Matrajt. Paidos. Ed Busqueda Grupo Cero. A. "Instituição e Poder". Buenos Aires. J. Ulloa. 1980. Achiamé Socii. São Paulo. A1thusser. Paidos. 1980. "Metáforas do Poder". Fundamentos. "Metáforas da Desordem". 3ª ed. A. Chazaud. "Emergentes de una Psicologia Social Sumergida". M. F. "O Adoecer Psíquico do Subproletariado".Pedagogia dei Siglo XX". jan. 1978. "Introduccion a Ia Terapia Institucional". Passeron. Ed. Achiamé/Socii. in: Revista de Psicoanalisis. 1980. Guilhon Albuquerque. J. 1978. "Subjetividad. 1974. Bauleo./mar. Paidos. R. Barcelona. Ed. de Board. J. México. Ed. Pioneira. 1990. Ed. Guilhon Albuquerque. Bordieu e J. A. A1thusser. "EI Psicoanalisis delas Organizaciones". Grupalidad. Ed. J. J. Siglo XXI. Paz e Terra. "Sexualidade na Instituição Asilar". Madri. Buenos Aires. Savoye e R. J. Haurion. Ed. "Organizações Modernas". Ed. J. L. Ed. Matrajt. Ed. Cuernavaca. "Ideologia y Aparatos Ideologicos de Estado". "Los Sistemas Sociales como Defensa contra Ia Ansiedad". Ed. nº 1. Ed. A. Scherzer. 1976. "Psicohigiene y Psicologia Institucional". "Replanteo". Ed. Abeledo-Perrot. 1980. coord. "Perspectives de l' Analyse Institutionnelle". A. Ed. Buenos Aires. F. Buenos Aires. Ed. Rio de Janeiro. 1968. Paris. Oury. C. coord. 1987. Buenos Aires. "Salud Mental y rrabajo". C. 1966. Alves. Ed. Etzioni. México. Jaques. Meridiens Klinscksieck. Hess. L Menzies y E. Rio de Janeiro. A. Barcelona. Rio de Janeiro. Nevomar. Bleger. Guilhon Albuquerque. Castilho Pereira. 1969. 1988. Ed. A. Identificaciones". L. Graal. Ed. W C. 1977. Ficha de Ia Nueva Vision. UAM. tomo XXVI. Horme. Oury e A. Ed. Ed. F. Belo Horizonte. 1971. Rio de Janeiro. Laia. Rio de Janeiro. BuenosAires. "Hacia una . 1980. "Psicologia de Ias Instituciones". . Buenos Aires. M. Paris. 1975. 1986. De Brasi. "Nuevos Escritos". Segrac. Birman. "La Teoria de Ia Institucion y de Ia Fundación". Payot. M. 1985. 1976. Vasquez. "Contrainstitucion y Grupos". 'A Reprodução". Montevidéu. 1990.

Revista Autogestions. Baremblitt vem traçando um longo e fecundo percurso como médico psiquiatra. Paris. a Arte e também os saberes populares. analista e interventor institucional. cerca de 20 números. Ed. SAI. coord. 1984. Rio de Janeiro. Pichon-Riviére. ''A Pesquisa-Ação na Instituição Educativa". Ed. esquizoanalista. Periódicos. Ed. Xenon. Martin. Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. oito números. 1990. pesquisador. Ed. Nueva Vision. Paris. 1989. Epi. na Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires. Esse percurso teve início há 40 anos. esquizodramatista e escritor em diversos países da América Latina e Europa. A. A. Paris. Ed. Gregorio Baremblitt buscou sempre expandir sua atuação até as fronteiras da Medicina com a Política. Ed.1978. Rio de Janeiro. Ed. Revista Sociopsychanalyse. professor. BuenosAires. Renaudot. Ed. a Filosofia. 4ª ed. cerca de 20 números. S. Revista Saudeloucura. cerca de 30 números. ''As Instituições e os Discursos". quatro números. Altoé. E. Ed. Zahar. Barcelona. Esse olhar generoso e ao mesmo tempo rigoroso sobre os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma . Paris." Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui". Barhier. Ed. 1985. 210 O AUTOR Da formação em Psiquiatria à militância junto ao Movimento Instituinte Internacional. Revista Connexions. a Sociologia. Revista Lo Grupal. Busqueda. Payot. Gregorio F. tomos 1 e 2. R. Privat. Hogar deI Libro. "Sociopsicoanalisis e Institucion". Hucitec. Lancetti. Fd. Movido pela inquietação daqueles que não se contentam com o conforto garantido pelo reconhecimento dado aos especialistas consagrados. cerca de 30 números. "m Proceso Grupal – Dei Psicoanalisis a Ia Psicologia Social". São Paulo. Buenos Aires. e foi-se tornando mais rico e complexo a cada momento em que o médico buscou o cruzamento da Medicina com outras áreas. Rio de Janeiro. 1974. Toulouse. Revista Tempo Brasileiro n° 35. psicoterapeuta.209 ▲ "Infâncias Perdidas – O Cotidiano nos Internatos". Tempo Brasileiro. Ed. da qual é livre-docente.

culturais. Gregorio é autor de numerosos livros e artigos científicos e organizador de seis congressos internacionais em sua área de atuação. Ed. Socioanalisis. 1978. Hucitec. "O Inconsciente Institucional". "El Concepto de Realidad en Psicoanalisis".ampla produção intelectual. Centro Editor Latinoamericano. 1988. em colaboração com outros autores. Ed. "Saber. Instituto Félix Guattari. Ed. Ed.1971. Ed. no Rio de Janeiro e em São Paulo. 1976. Ed. Quehacer yDeseo". Ato Político". "Lacantroças". Helguero. Belo Horizonte. Hucitec. em colaboração com outros autores. Ed. uma das primeiras entidades do país a instituir formas de tratamento mental em sintonia com os ideais da Luta Antimanicomial. Ed. Ed. Grupos e Instituições (Ibrapsi). Sua atuação no campo da saúde mental inspirou outros profissionais a criarem a Fundação Gregorio Baremblitt. Petrópolis. 1991. correntes e questões do Movimento Instituinte para aqueles que estão iniciando seus estudos e ações nesse campo. Buenos Aires. 1980. GraalIbrapsi. Buenos Aires. Buenos Aires. Ed. Teoria e Técnica". em colaboração com outros autores. Universidade Autônoma do México. Poder. BuenosAires. Buenos Aires. 1974. Global Ground. 211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR "Introdução à Esquizoanálise". Ed. 1998. Este Compêndio é fruto de um grande esforço para traduzir as temáticas. Ed. "Grupos. em colaboração com outros autores. e o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. "La Cura". Gregorio foi membro-fundador do grupo psicanalítico argentino denominado Plataforma. "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria e Psicanálise". Belo Horizonte. o Instituto Brasileiro de Psicanálise. "Cinco Lições sobre a Transferência". Vozes. em colaboração com outros autores. sempre ancorados em duas palavras-chave: auto-análise e autogestão. livros e jornais da América Latina e Europa. Matrajt. Busqueda. Rio de Janeiro. "Psicoanalisis: Teoria y Practica". fundou. em Uberaba (MG). Ed. primeira organização no mundo separada da Associação Psicanalítica Internacional por motivos políticos. "Cuestionamos". São Paulo. Há também numerosos prólogos e artigos publicados em revistas científicas. mas também diversas ações nos planos de coletivos diversos: em 1970. Cidade do México. Rio de Janeiro. Traduzido para o espanhol. Ao se estabelecer no Brasil em 1977. 212 . São Paulo. Segrac. 1972. 1982. Traduzido para o espanhol. 1987. ''Ato Psicanalítico. em colaboração comM. "La Interpretacion de los Suenos: Una Técnica Olvidada". 1984. Nueva Vision. do qual é atualmente o coordenador-geral.

O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F.hpg. organiza eventos. trabalho.br .bh@terra. que é também a do Movimento Instituinte Internacional. MG. conduz pesquisas.ifgorg. um dos introdutores das idéias desses autores em vários países da América Latina e Europa – em parceria com Margarete Amorim. terapeuta e institucionalista Gregorio Baremblitt. 267 – Serra. supervisiona trabalhos técnicos e práticos.1083 e 3221. arte. estabelecimento este que já conta mais de uma década de existência ancorada em uma orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. analista institucional e esquizodramatista. O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (IFG-BH) também promove cursos e grupos de estudo. e suas atividades têm como inspiração a Utopia Ativa que guia a obra de Gilles Deleuze e do homenageado: a Esquizoanálise. sendo todas as atividades pautadas em sua orientação. Os interessados em entrar em contato com o Instituto Félix Guattari podem fazê-lo através dos telefones (31) 3284. e-mail guattari. Baremblitt de Uberaba (MG). O Instituto desenvolve atividades de prestação de serviços em análise e intervenção de organizações. O Instituto foi criado pelo autor deste Compêndio – o professor de Psiquiatria.7352 (Fax). Sua sede fica na Rua Herval. e junto a um grupo de colegas institucionalistas. Seu nome é uma homenagem ao célebre intelectual e militante francês Félix Guattari. políticas públicas etc.com.br ou pelo site www. justiça.INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (MG) é uma organização não-governamental fundada no ano de 1996. Cep 30240-010. O IFG-BH tem diversas parcerias com organizações nacionais e estrangeiras afins. governamentais e não-governamentais que atuam nas áreas de educação.com. Belo Horizonte. ecologia. edita e distribui livros e gerencia programas sociais. movimentos e grupos públicos e privados. saúde. mas com ênfase na prática clínica. e está aberto a todos aqueles que compartilham de seus ideais. psicóloga. 213 ▲ .

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