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Baremblitt - Análise Institucional OK

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Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática

Gregorio F. Baremblitt
5ª.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992 4

SUMÁRIO 5 INTRODUÇÃO.............. 11 CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13 CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 CAPÍTULO III: As histórias..............37 CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 GLOSSÁRIO..............133 APÊNDICE..............174 POST-SCRIPTUM..............195 BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207

AGRADECIMENTOS No referente à primeira edição deste livro, o autor dá aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi uma versão. Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou inúmeras tarefas que possibilitaram sua publicação e distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com a revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor também agradece aos membros e funcionários do Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contribuições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente. O autor é grato a todos os amigos: professores universitários, pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da autogestão que colaboraram na distribuição das diversas edições deste escrito.

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ainda está para ser produzida. apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos sociais. Curso que. por sua vez. Se se deseja ser coerente com os valores do Movimento. ao mesmo tempo. entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua aspiração a deflagrar. 11▲ . Os seis primeiros capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o curso.INTRODUÇÃO Este livro corresponde à versão escrita de um curso proferido em Belo Horizonte no decorrer de 1990. enquanto o último foi escrito como artigo independente. ainda inédito. foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. sua Pedagogia exige uma originalidade da qual já existem muitas tentativas. o estatuto epistemológico e jurídico absolutamente singular e a infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tarefa de ensiná-lo. O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo. heterológico e polimorfo de orientações. mas que. Essa vocação libertária. organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais.

proferido com uma metodologia tradicional. acredito que este livro seja estimulante. Kaminsky. Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados. Para quem decidir continuar. Mais informativo que formativo. discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para os futuros institucionalistas. no meu entender. importantíssimo para o povo brasileiro. Ulloa. em algum momento.Este curso. sejamos realistas. Pavlovsky. Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar. proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. De Brasi. Bauleo. tem apenas o propósito de aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do Institucionalismo. Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória. 12 ▲ . foi inspirado pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer complexo e arriscado. devo destacar as correntes latino-americanas de Pichón-Riéver. a bibliografia final. Malfe. começar verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta. Bleger. integrada predominantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil. ou. um livro especial. Matrajt. mas.

pois se procura apresentar uma exposição de nível médio. simplificá-las. predominantemente. para ser entendida pelo maior número possível de pessoas. Agora. A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam. a intenção é.Capítulo I O MOVIMENTO INSTITUINTE. Podemos chamar a isto também de 1 3▲ . um leque de tendências. teremos ocasião de complicar as coisas. Não existe nenhuma escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte.. da maneira mais simples e mais didática possível. E é a essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora. há algumas que são relativamente fáceis de se colocar.. Em capítulos sucessivos. é um conjunto de escolas. como o nome aproximativamente indica. Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que. Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte. pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. Eu diria que existe o que se chama de "ideais máximos" do Movimento. Contudo.

a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a história da humanidade. uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil anos. que nossa época. Os mesmos podem ser enunciados através de duas palavras aparentemente simples. nossa civilização. Esse saber. de fato. têm sido sempre muito complexos. ciências formais. despótica. nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e de autogestão. compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana. resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado "progresso" em igual proporção. Esses conhecedores têmse colocado. o grau de complexidade. nesses últimos duzentos anos. Acontece. O que significam essas palavras? Depois. apoiar e deflagrar nas comunidades. ou seja. apesar delas não serem nada simples. experts que são os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de estudo e tem gerado profissionais. por exemplo. muito complexas. uma organização social dita "primitiva". Além desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza. Ou seja. então.propósitos mais importantes. como veremos depois. ter produzido uma soma de saberes que propiciou. além de se caracterizar por uma grande diversidade. caracteriza-se também por. uma grande complicação interna. aplicações tecnológicas. Se compararmos. intelectuais. houve um processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. ou uma organização imperial. a serviço daquela instituição que representa o máximo 14 ▲ . os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. como ninguém ignora. As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar. Por exemplo. mas que são. os processos de funcionamento social. de diversidade que as sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas civilizações. existem disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. a serviço das entidades e das forças que são dominantes em nossa sociedade. Mas em nossa civilização chamada industrial. ou uma medieval com a nossa sociedade moderna. capitalista ou tecnológica. E o progresso trouxe uma grande complexidade. em geral.

em geral. Mas noutro plano. Esse saber. do poder. nos tribunais. às que atingem a comunicação de massa. refiro-me aos problemas de saúde. E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos. a partir do surgimento do saber científico e tecnológico. aos assuntos familiares. Essa situação.da concentração de poder. Toda a produção desses bens está dirigida. sua qualidade. que é o Estado. os bens que se produzem e administram nesses territórios. a sociedade civil – têm-se visto despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua própria vida. em que os "sábios". elas têm perdido o controle sobre suas próprias condições de vida. secundários e terciários. gerenciada por "especialistas". por outro lado. sua necessidade. no melhor dos casos. dos organismos do Estado. já dentro da sociedade civil. às questões relativas ao lazer. aos psicológicos e subjetivos. Além disso. de educação. transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. infundado ou. comida. sua conveniência. criado e acumulado pelas comunidades sociais durante tantos anos de experiência vital. aos especialistas de produção de bens materiais. num sentido vago. quase incondicionalmente. então. o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a sociedade. colocado em segundo plano. com os 15 ▲ . as comunidades de cidadãos têm visto esse saber subordinado ao saber dos experts. do saber e de serviços dos experts . primários. moradia. pobre. as empresas nacionais e multinacionais etc. de seu próprio funcionamento. como se fosse rudimentar e inadequado. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo de ideologia. tudo é decidido pelos experts . Cada um desses campos. ou seja. empresariais. esses experts têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza. visando a qualificá-lo como um falso conhecimento. vestuário. geral. Elas dependem. é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. insuficiente. os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado e das empresas. tem tido como conseqüência que os povos – em sentido amplo. ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência. sua quantidade. que são as organizações corporativas. ou seja. Então. aos assuntos próprios da religião. fica relegado. do saber e do prestígio. O mesmo acontece no plano de administração da justiça. cada um dos serviços que se prestam nessas áreas. Junto com seu saber.

Mas ainda dentro do condicionamento histórico. desejar e solicitar. porque ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história. a noção das necessidades é produzida. É claro que os experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os interesses das classes. através da exigência de produtos e de serviços correspondentes. porque todas essas outras entidades também usam da força. as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas necessidades a perdem. mas. assim como a demanda é modulada. da força da persuasão. então. E o que falar do exercício da força. pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de descrever. que também têm seus especialistas. delegados. Esse "mínimo" é gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. as forças armadas. Acontece. querem e pedem o que lhes inculcam que devem necessitar. isto é. de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que "realmente" aspiram. É possível afirmar que as comunidades ou coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. da força da sedução. guardas etc. Mas não se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. como veremos. oficiais. o que acontece? Há um conceito básico que vamos ver depois. precisam. senão da força física. muito evidente que nossos coletivos estão. mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam e acham que pedem o que querem e como querem. aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo" não existe.advogados. mas particularmente na nossa. mas o uso da força física está reservado a organizações como a polícia. na verdade. registros civis. Essas necessidades são colocadas diariamente através de demandas espontâneas. leis: tudo i sso feito por experts e administrado por eles. no sentido literal. que seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e desejos citados. É. não existem demandas "espontâneas". não existem necessidades básicas "naturais". 16 ▲ . que se chama demanda. Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo. Então. na Análise Institucional e em outras escolas do Institucionalismo. despachantes.

Então. não necessariamente distorcido. adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida. possam enunciar. Eles têm perdido um certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem dispor para colocar e resolver seus problemas. sem dúvida. ou seja: não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer-lhes quem são. os coletivos têm perdido. Este processo de auto-análise das comunidades é simultâneo ao processo de auto-organização. o que devem pedir e o que podem ou não conseguir. ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de sua vida sobre a terra. a noção de suas reais necessidades. Na medida em que essa organização é conseqüência e. o que podem. têm alienado o saber acerca de sua própria vida. de suas demandas. Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria o primeiro deles. de suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas limitações. um deles seria a auto-análise e o outro a autogestão. se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir. ou seja: produtivo. se institucionaliza. necessidades. com sua disciplina e seus instrumentos. interesses.atualmente. ao mesmo tempo. Mal podem organizar-se para resolver seus problemas se não conseguem saber. como protagonistas de seus problemas. nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem. ela mesma. Mas os experts 17 ▲ . Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo. Essa auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque. em que a comunidade se articula. eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento importante e não inteiramente alienado. um movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise. quais são seus verdadeiros problemas e o que se requer para resolvê-los. nem de fora. o que sabem. mas elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. ela também não é feita de cima para baixo. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas. de seus desejos. compreender. com precisão. desejos e demandas.

o que é produto de sua origem. Eles têm de reformular sua condição profissional. 18▲ É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. Ao mesmo tempo em que são os objetivos principais das propostas instituintes. os experts poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e autoanalíticos quando forem chamados a participar.devem submeter seu saber. seu saber específico. postos. suas glórias. seus métodos. Por quê? Porque auto-análise. dentro dos organismos aos quais pertencem. não podem fazê-lo nas academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. ou ainda das diretivas das grandes empresas nacionais e multinacionais. é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas superficial. À parte dessa reinvenção de sua disciplina. Eles poderão assim reformular. suas inserções sociais como profissionais a uma profunda crítica que os faça separar. eles são também os próprios meios para realizá-las. suas técnicas. tenham algum lugar dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins. de sua pertença ao bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise. para as comunidades. dentr o dessas teorias. hierarquias que eles têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico-políticos do Estado. aprendendo e ensinando seu saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. mas profundamente conhecidos pelos leitores. E só conseguirão reformulá-los numa gestão. significa a produção de um saber. os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim. Eles têm que entrar em contato direto com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando para incorporar-se a essas comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham. Então seu saber. Esse estatuto deve resultar de uma crítica das posições. os experts. sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de auto-análise e auto gestão dessa comunidade. do . quando a comunidade conseguir organizar-se. eventualmente. métodos e técnicas. Por isso. da qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas. num trabalho feito em conjunto com essas comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz. Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. Para poderem efetuar essa autocrítica. a uma auto gestão. Isso permitirá que.

Em todo caso. Contudo. em assembléias. tanto quanto os processos auto-analíticos. simultâneos. a capacidade de impor a vontade de um sobre o outro. Ao mesmo tempo. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo produtivo. os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual. é difícil pensar qualquer processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa hierarquia de decisão. quadros. elas têm que se dar condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. elas têm que chamar experts aliados para colaborarem. e também de seus recursos. Mas não pode haver uma organização sem um saber. são produtores de conhecimentos. então. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos. de suas condições de vida. São dois processos diferenciados. 19▲ . elas têm que construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. Deverão. gerências. não equivale a privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. peculiaridades e capacidade de produzir. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades. ou seja. por correias de transmissão. tudo o que elas descobrirem neste processo de auto-conhecimento só terá uma finalidade: a de auto-organizar-se para que possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência. Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de denominações. articulados. mas eles são concomitantes. de deliberação. Implica apenas uma certa especialização em algumas tarefas. Eles têm maneiras diretas de comunicar as decisões. São executores. existir hierarquias. hierarquias. mas não há hierarquias de poder. Na realidade. Elas têm que organizar-se em grupos de discussão. especificidades etc.conhecimento acerca de seus problemas. não pode haver um saber sem uma organização. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem. porque estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas coletivamente. suas necessidades. Mas a existência de hierarquia não implica diferença de poder. Existem hierarquias moduladas pela potência. é evidente que o Institucionalismo.. a resolver seus problemas. demandas etc.

O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa nem acaba no campo da medicina. quando esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa questão. tomógrafos computadorizados. e então a serviço do coletivo. por alguns especialistas no assunto. Disso todos os experts sabem. Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles um saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. Mas este saber é um saber coletivo. já não é um saber produzido fora dos interesses e desejos do coletivo. Entretanto. o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil esteja colocada na assistência e não na prevenção. alimentação. pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual. O coletivo conserva um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando o seu poder com sentido instituinte-organizante. circunscrita. vestuário e saneamento básico. têm suas causas diretas nos problemas de habitação. que afeta 0. distribuído e exercitado na vida coletiva.e que todo saber envolve. necessariamente. ou. Seus problemas. um poder. de fora para dentro. muitos dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. produzido. Vou dar um típico exemplo da medicina. digamos. já uma delegação. principalmente se por prevenção entende se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. as organizações de base. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza são É - . Acontece que o povo. uma vez realizados. não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do Brasil porque a primeira coisa 20 ▲ que lhes seria respondida é que não sabem. porque foi produzido dentro. Quem conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa prioritariamente de. de ambições de segmentos individualistas etc. em estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas aplicações terão. Então.5% da população. já não é um saber que vai cair de cima para baixo. e ambos não são homogeneamente distribuídos. embora haja mil exemplos. existem alguns elementos essenciais que compartilhados por todo mundo. há muitos centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou diagnosticar uma problemática altamente específica. pelo contrário. que têm efeitos médicos. Na topografia deste saber.

todo mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos. também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo que não se exprimam em sofrimento. demonstra a capacidade de contribuir. pelo menos. integrado à comunidade. a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts. revalorizar o saber espontâneo que elas têm sobre seus problemas. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o que vem depois. Assim. ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença. Provavelmente. o coletivo já não está desqualificado – ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. existiram e existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária-que o saber médico (nesse caso) e suas técnicas têm. as comunidades 21 ▲ eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente . Nesse caso. Desde logo este saber também desconhece muita coisa. em pé de igualdade. e não numa potência de colaboração com o coletivo. as comunidades das montanhas têm. basicamente. Como já dissemos. para este trabalho de reformulação. Uma vez que o expert . não devendo ser tratado como tal. as comunidades negras têm. mas isso não pode afirmar-se a priori. que atua predominantemente a serviço de interesses estatais. Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está colocada num futuro longínquo. senão em cada ato do cotidiano.seu saber. Isso não descarta que possam acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder. Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico. o que é prioritário e o que é secundário. nacionais e multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses interesses. as comunidades da planície têm. pode-se delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder. haverá necessidade de muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se em sua plenitude. Por exemplo. A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar. porque este processo de auto-conhecimento e autogestão é interminável. quais são as enfermidades e como devem ser tratadas. revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que preci sa? Os índios têm.

Os leitores compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições altamente desfavoráveis. Um desses movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. Então. os experts – médicos. não são donos dos recursos que são propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes. para fundamentar a proposta institucionalista. advogados. para a 22 ▲ . Por quê? Naturalmente porque os coletivos em questão não são donos do saber. em que consiste o tema aqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico -social e uma gênese conceitual. Agora. a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos organismos e entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. categorias que têm sido produzidas pela humanidade no decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base. temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação. enfim. e não precisam do Institucionalismo para se desenvolverem. severamente contraproducentes. porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. existem e vão existir.integrado a aspectos libertários do Cristianismo. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. a gênese conceitual refere-se ao campo das idéias. Nós. mas acho que vai complicar um pouco as coisas. Por outro lado. não são donos da riqueza. Mas. psicólogos etc –. gostaria de referir-me à última questão. conceitos. muito importante. comunicólogos. engenheiros. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram. conceitos e funções: todas aquelas teorias. idéias. Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo. embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja Católica. O Institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. Esses processos autogestivos e auto-analíticos são.

da procura. do ensaio. tanto das extremistas quanto das propostas social-democráticas. como na política. nada disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. no Institucionalismo. de alguns espaços. a colocaçã o dos limites do que é possível. um câncer. e com a qual o Institucionalismo está mais que em dívida. De qualquer maneira. E as que hoje insistem em existir lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí-las. a invenção de soluções. tentam recuperá-las. e pelo grau de realização com o qual se conformam. Elas têm aparecido muitas vezes na história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. esta última afirmação que faço refere-se ao seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias. organizações e saberes de grupos e outros segmentos dominantes. de alguns temas de auto-análise e autogestão. que buscam a instalação plena da autogestão e da auto-análise. porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a definição de problemas. existem correntes reformistas e existem correntes ultra-revolucionárias. Mas isso não quer dizer que não sejam possíveis ou inventáveis. E quando não conseguem eliminá-las. escolas" maximalistas". Então. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos. 2 3▲ .organização do sistema. Ou seja. o que normalmente é feito pelas instituições. Eles são atingidos sempre na base da tentativa. Quer dizer: há correntes. do que é impossível e do que é virtual. pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos. Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas auto-analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. pelos métodos. Isso faz com que os objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos nunca de forma definitiva. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. Não há nada que seja mais temido e mais odiado pelo sistema social. Eles as diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas. Provavelmente a tendência política tradicional que mais se aproxima das propostas institucionalistas. uma peste. incorporá-las. seja a de certas orientações do anarquismo.

as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações. e por que se diz que as ciências.PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência. ou é a oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 5) O que significa auto-análise e autogestão? 24 ▲ . uma disciplina ou uma tecnologia? 2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos e grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber".

à sua maneira. O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana. esclarecendo 25▲ o que deve ser. as normas e os códigos também. estão escritas. um tecido de instituições. sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola para escola. normas e costumes são objetificações de valores. assim corno o . podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. As leis. podem ser leis. em geral. caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela. quando não estão enunciadas de maneira manifesta. o que está prescrito. Alguns autores sustentam que leis. isto é.Capítulo II SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES O Institucionalismo. O Institucionalismo. e o que não deve ser. são árvores de composições lógicas que. afirma que a sociedade é uma rede. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos. E que são as instituições? As instituições são lógicas. segundo a forma e o grau de formalização que adotem. a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o devir da Sociedade no tempo. podem ser normas e. só que eles são transmitidos verbal ou praticamente. o que está proscrito. não figurando em nenhum documento. tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do que é a História.

de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. corno se pode ver. Com a combinação desses elementos. por outro lado. entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em termos gramaticais. as que definem os lugares tais corno: pai. consideradas gramaticais ou agramaticais. Isso também é um código que. Então. É claro que. que característica de vínculo. mãe. 26 ▲ . e também proscrições – o que é proibido. não estarão estipulados também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa classificação podem se dar uniões. formalizado ou não. Um exemplo de urna instituição: a instituição da' linguagem. genro etc. assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica. regula a relação de parentesco e tem prescrições – o que é indicado. Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. os prescritos ou os proscritos. essa divisão vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder. no final das contas. no caso da língua. Mas. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da divisão do trabalho humano. e é curioso que os institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. de normas que regem a combinatória de elementos fônicos. são vários. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis.que é indiferente. Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco. nora. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano. que é o que acontece em outros tipos de instituição. de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte dessa língua. urna gramática é urna instituição que explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens. de unidades de significação na linguagem. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). Essas lógicas. filho. pode construir-se um infinito número de mensagens. pelo menos dentro desse universo humano em particular. esses corpos discriminativos. conforme indicado por essas leis.

Ternos também a instituição da religião. Ministério da Justiça. feminino e masculino etc. pelas instituições. as instituições têm de realizar-se. as instituições não teriam vida. – até um pequeno estabelecimento. Ternos também as instituições de justiça. Para vigorar. divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros. Por exemplo: trabalho manual e intelectual. costuma ser um complexo grande. instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa integrar-se à mesma com suas características efetivas. E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que são as organizações. do campo e da cidade. como. têm de "materializar-se". então. Mas as organizações não teriam sentido. Estabelecimentos seriam as escolas. entendidas assim. pelo menos. não teriam realidade social senão através das organizações. por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. Agora. como insisti. assalariados e autônomos. Por sua vez. as instituições da administração da força. normas e pautas que prescrevem corno se deve socializar. as instituições são entidades abstratas. são formas materiais muito variadas que compreendem desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação. vultoso) está composta de unidades menores. por exemplo. Mas. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las todas. Ou seja. para cumprir sua função de regulação da vida humana. mas com respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de comportamentos contra-indicados. e assim por diante. aquelas leis. as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções que as instituições distribuem e enunciam. um convento. há algumas que são muito 27 ▲ características. não teriam direção se não estivessem informadas como estão. os estabelecimentos. Ministério da Fazenda etc. um quartel. Há diversos tipos de . que é a que regula as relações do homem com a divindade. Em um plano formal. um banco. não teriam objetivo. isto é. urna organização (que. As organizações.prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm esses lugares (divisão social). Há também as instituições da educação. uma loja. Isto é. urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens. uma fábrica.

estabelecimentos, de características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das organizações da comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não-verbais, discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de instituição às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer, por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 28 ▲

uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis. Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir historicamente ao nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações de urna instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não existem), a isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições, tem um produto, geram 29 ▲

um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados aos novos estados sociais. Tem-se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado. Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma tendência histórica a esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior felicidade, maior realização, 30 ▲

imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva. e que são chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta. compartilhada. e mistificação. tem-se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos. cada sociedade. deseja. sempre tem uma utopia. muito diferentes de uma sociedade para outra.maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética existentes entre o instituinte e o instituído. ilusão. elásticas. mas é a mais conhecida por nós. entre o organizante e o organizado (processo de institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis. Então. estabelecimentos. podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por todo mundo: são os processos de exploração. de suas finalidades mais altas. práticas. engano. Essas características históricas. de consenso. apesar de eu estar usando. de uma fase histórica para outra. uma orientação histórica de seus objetivos. chamada de revolução burguesa. Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições. sonegação de informação etc. dominação. as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade. É claro que. de dominação e de mistificação (desinformação ou engano). há a tendência a adquirir sempre características históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. que é substituída por diversas formas de mentira. que não é nem a única nem a melhor das utopias. em seus aspectos instituintes e organizantes. à exceção de algumas sociedades em particular. pode-se distinguir uma função e um funcionamento. fluidas. uma administração arbitrária ou deformada do que se considera saber e verdade histórica. se se compreende esta oposição entre a 31 ▲ . Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais nobres. que é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros). e na vida humana tomada num sentido muito amplo. que cada sociedade coloca à sua maneira. para referir -me a isso. Para poder entender essa terminologia. Assim. ou seja. diferentes formas de igualdade. diferentes formas de veracidade e fraternidade. agentes. ou seja. desde que existem sociedades. a utopia da Revolução Francesa. organizações. deve chegar a ser.

funções a serviço da exploração. disfarça da. enquanto expressão apropriada. ao passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia. provisoriamente. daquilo que 32 ▲ . dominação e mistificação que se apresentam nesta sociedade. mas em geral elas são mesmo traídas. Acontece que. Essas forças. O instituído. é claro que é necessário. o funcionamento é sempre instituinte. dominação. do organizante e dos seus produtos operantes é serem propícios à produção. chamamos de Justiça. Então. agentes e práticas desempenham uma função. predominantemente. desejáveis e eternas. de Igualdade e Fraternidade. desejável e invariável. não se manifesta claramente ao nível do instituído e do organizado. freqüentemente. toda organização. os instituídos e os organizados apresentam. mistificação-. estão sempre a serviço dos objetivos que. natural. organizações. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais". é justiceiro e tende à utopia': A função.utopia. mostra-se como o objetivo natural. dos mistificadores. a serviço da exploração. coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a característica essencial do instituinte. recebem o nome de funcionamento. produção que é a geração do novo. Ou seja. é sempre transformador. o organizado. Só que esta função raramente se apresenta como ela é. enquanto recurso operante o instituinte. desejado e lógico das instituições e das organizações. Toda instituição. estabelecimentos. Podem ser chamados de outra maneira. esses processos. ela é predominantemente reacionária. rapidamente. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas. da mistificação. tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a característica da função. todo estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores. Isto é. então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento. As instituições. justamente por causa da questão da mistificação. enquanto produtivo. o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração.. conservadora. e se apresenta aos olhos não atentos como eterna. da dominação. dos domina dores. A função apresenta-se deformada. Agora. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração. pode-se definir outros termos que temos aqui presentes.. da dominação e da mistificação.

do conservador. Por outro lado. não só instrui. que uma escola é um estabelecimento das organizações do ensino. vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de funções a nível organizacional. Para dar apenas um exemplo. como analisar cada instituição. cada organização. exporemos definições que são um pouco áridas. mas também prepara força de trabalho (alienado). não só educa dentro dos objetivos manifestos do organizado e do instituído. e além de ensiná-los a ler e escrever. o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer. a interpenetração que existe entre todos os instituintes e instituídos. ou seja. Nós dizemos. que por sua vez são uma realização da instituição da educação. Então. e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do organizante. a rede social. do produtivo. desde o outro. Essa é uma tentativa de enunciar o entrelaçamento. Para concluir.almeja a utopia. Acontece que uma escola não só alfabetiza. pejo outro. entre todos os organizantes e organizados. Esta interpenetração acontece ao nível da função e ao nível do funcionamento. os instituintes-instituídos. uma escola também é uma fábrica. Função é sinônimo de reprodução: é a tentativa de reiterar o mesmo. de perpetuar o que já existe. produção contra reprodução. especialmente 33▲ . também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia. organizantes-organizados que constituem a malha. funcionamento contra função. ao nível da produção e ao nível da reprodução. não atuam separadamente. do revolucionário. organizante e organizado. do criativo chama-se transversalidade. abstratas. do reprodutivo. Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. Então: instituinte e instituído. aquilo que não é operativo para propiciar as transformações sociais. mas sim em conjunto. ao nível daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra. essa interpenetração ao nível da função. Essa interpenetração ao nível do instituinte. Para concluir. mas necessárias para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste. por exemplo. de acordo com a concepção de ensino que ela tenha. chama-se atravessamento. e o que basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições. como entender. funcionamento e produção são a mesma coisa. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro. uma escola. para o outro.

chama-se transversalidade. interpenetrado com muitas outras organizações. uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os alunos. a dominação. um lado organizante. produtivo. A interpenetração ao nível da função. de alguma maneira. da reprodução. da dominação e da mistificação. a escola pode ser também. Essa interpenetração chama-se transversalidade. está atravessada pelas outras organizações. uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as correntes instituintes. um lugar de exercício da solidariedade. uma frente de luta revolucionária. tal como está. instituições. ao nível da reprodução. a mistificação. do organizado. Neste sentido. produtivas. A interpenetração a nível instituinte. uma escola tem um lado instituinte. gerando assim movimentos e montagens alternativos. numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração. e ainda entre os diversos· quadros e segmentos desse mesmo estabelecimento. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas. Então. ensina formas de exercício da agressividade. Então. além disso. e dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração. também se pode dizer que uma escola é um quartel ou uma delegacia de polícia. Mas. do que deve ser destruído. uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos direitos. vocês vão vendo como uma escola. com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam nela. e esta se define também como uma dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade. o que a escola ensina é uma série de valores do que deve ser construído.um clube estudantil. Mas uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento políticoescolar. 34 ▲ . um lugar de doutrinamento para a revolução. Então. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere.de punições. para ela. como já vimos. Neste sentido é que uma escola tem também um funcionamento articulado. e ela por outras. chama-se atravessamento. marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. ao nível do instituído. por ela. Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está. por exemplo. ao nível da função. de luta sindical. através dela.

o organizante e o organizado. a produção. a reprodução e a antiprodução? 5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 6) De que está composta a rede social? 36 ▲ . para o Institucionalismo. dominação e mistificação (atravessamento). da liberdade. da plena informação. assim como também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da cooperação.Com isso temos definida. 35▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 1) O que são. ou seja. agentes e práticas? 4) O que é o instituinte e o instituído. as sociedades? 2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou normas ou que se manifestam em hábitos? 3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações. os estabelecimentos. a concepção institucionalista da sociedade. até certo ponto. equipamentos. A sociedade é uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas funções estão a serviço da exploração. da produção e da transformação afirmativa e ativa da realidade (transversalidade). a função e o funcionamento.

das classes dominantes. a rigor. como meramente narrativa. Então. neutra.Capítulo III AS HISTÓRIAS o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos. as tendências de quem faz História. alguma noção aproximada do que é história. Porque a versão que se tem da História é sumamente importante. Naturalmente. do instituído e do organizado. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e. é uma versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do Estado. empiricamente. Agora. não é isso. é apenas uma versão tão interesseira. em geral. que têm recursos para resgatar e promover estes documentos. geralmente. impessoal e que. registram aquilo que lhes convém. enquanto justifica as ações 37 ▲ . se apresenta como sendo objetiva. é importante diferenciar História de Historiografia. mas que aparece como descritiva. Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos. tão tendenciosa quanto qualquer outra. que qualquer registro inclui os desejos. Numa primeira instância. historiografia é esta versão que. História. os interesses. mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva. propriamente.

histórias das gerações. da vontade. uma História que seja como uma espécie de mangueira. da afetividade. Não é o passado que gera o presente. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História podem ser resumidas em poucas palavras: Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é. geralmente. de modo que não se pode estudar uma época como se essa época fosse um corte transversal. culturais. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que não é o passado que engendra o presente. já foi"-. no século XI. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se transcorreram todos os processos. cada um em sua duração. Trata-se de tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos históricos em alguns momentos. ou na Idade Antiga etc. de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só. definido – "o que foi. Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar. que se impulsionam para chegar a este porvir. do desejo. histórias raciais. eras ou etapas. que o presente deflagra. mas o passado está composto de uma série de potencialidades que o presente ativa. ideológicas. justifica e propicia um projeto futuro para a vida social. e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se "atrasa" em relação aos outros. Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História. que o presente ilumina. apenas. Quer dizer. que se faz num único fluxo da História. como se faria no fluxo de um rio. cronológica ou conceitualmente. Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no presente. no século XVI. todos os movimentos sociais que se deflagram. e sim o presente que explora.e paixões que se protagonizam no presente e. globalizar em um tempo único. que aproveita 38 ▲ . Passado e futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. morto. começou. de alguma maneira. ou seja. mas consiste em uma localização daquilo que. que são localizáveis como tais. que não se pode totalizar. obsoleto. de alguma forma. os processos que constituem a História são processos policronológicos. a reconstrução do que já aconteceu e que já está. teve início em um passado. mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas.

isto é. cada uma das quais origina a seguinte. e como correlato à máquina do relógio –. Por outro lado. a História não é uma série de etapas fatais. não é o regular. suas parábolas. Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou menos maquinais. esta concepção da História que faz da diferença uma variação análoga ou semelhante do igual. Não existe uma progressão predeterminada das etapas históricas e. não é o igual. o imprevisível. do relógio ou do calendário. se produz.ou atualiza as potencialidades do passado para construir u m porvir. baseada em paradigmas de ordem que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com suas trajetórias. por conseguinte. o acontecimento. um final que pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva. Então. sempre policronológico. é o inesperado. que tende a repetir-se e que. Segundo alguns institucionalistas. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica. Finalmente. com este metamodelo mecanicista. não existe um apogeu final dos tempos. com uma explicação claramente mecânica. tendemos a pensar a História em função de suas leis. é o acaso. O Institucionalismo diz que o que. E que são estes grandes ou pequenos momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 39 ▲ . ou do idêntico. não é o idêntico. cem ou qualquer número final. não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste. sendo que os enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade. em todo caso. outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da História é que nós. predominantemente. Não existe finalidade da História. não é compartilhada pelo Institucionalismo. mas que o que se repete na História é a diferença. o aleatório. que começam do zero e vão acabar em dez. quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual. ou um final catastrófico ou apocalíptico. retoma na História. suas órbitas. O que pode ocorrer no dia-a-dia não está inteiramente predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro. ou mais ou menos determinadas. o tempo. devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro.

quer dizer. Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica. A rigor funcionam sempre. que só se podem separar de uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do que tende a repetir-se. que tem formas objetais ou formas discursivas. portanto. o propósito. com contribuições de diferentes tendências institucionalistas. dito de uma maneira simples. que é o que na física se costuma chamar micro. uma investigação erudita.vão tentar ser capturados pelo instituído. trata-se de entender como a História é não apenas uma atividade ilustrativa. um "dentro" do outro. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação. que é evidente. e com a utopia ativa. O que existe são imanências – isto é. é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar explicar brevemente. Tentemos agora definir outros conceitos importantes. Então. absolutamente desconhecido. por assim dizer. não de uma transformação pré-figurada. que. do acontecimento. vida biológica e natural. produzir estratégias que permitam propiciá-los novamente. a posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros. é aquilo que é grande. pode se distinguir o molar. da atividade político-social desejante que o Institucionalismo tem. mas está estritamente relacionada com a concepção da práxis. da inovação absoluta. a inerência. O termo molar. os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da humanidade. mas uma tentativa de reconstruir os grandes momentos de imprevisto. outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao termo molecular. dentro desta concepção da vida social como uma rede. em que os diversos processos são imanentes um ao outro. esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo. o objetivo. por 40 ▲ . mas da transformação em direção ao radicalmente novo e. Então. vida política. não de uma transformação previsível. pelo organizado e repetidos como idênticos. Por outra parte temos o molecular. não é apenas um exercício acadêmico. a finalidade e os recursos do Institucionalismo. para a partir desses ensinamentos. Bem. incluindo-se no outro. ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do inesperado. visíveis e enunciáveis. vida do desejo inconsciente.

da microbiologia. Como até mesmo a física. isto é. insólitas. químico. O macro é o lugar da reprodução.oposição a macro. é importante definir o termo antiprodução. tomando esses ensinamentos da microfísica. natural. Então. e o micro é o lugar da produção. econômico e desejante. O macro é o lugar da ordem. o cosmos. o universo. e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as estratégias de intervenção nos âmbitos. a biologia e a química descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta da dinâmica que acontece nas micro. da regularidade. Se não me engano. dos limites precisos. o mundo atômico e subatômico. o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. o mundo das partículas. e o micro é o lugar da eclosão constante do novo. do instituído e do organizado. da biologia molecular. Finalmente. É a permanente 41 ▲ . O micro. em geral. o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas. porque espera delas efeitos à distância que. técnica. que é composto de grandes corpos. as macromudanças. o macro é o lugar da regularidade e das leis. da conservação. as transformações microscópicas. Produção é aquilo que processa tudo que existe. nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. e que os grandes poderes em vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam em espaços microscópicos de uma sociedade. é o lugar das entidades claras. o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo previsível. e não os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. já tentamos reiteradamente definir e redefinir o termo produção. da microquímica. o Institucionalismo pensa que as pequenas conexões locais são o lugar do instituinte. o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais. político. é o lugar da estabilidade. enquanto o mundo macro por excelência seria. o detectável e consagrado. resultam nas grandes metamorfoses. dito tanto no sentido físico. é o lugar das conexões anárquicas. Esta diferenciação também é importante porque. Dito com outras palavras. biológico quanto no sentido social. impensáveis. as conexões circunstanciais. subjetiva e socialmente. ao generalizarem-se. por oposição. são sempre resultado de pequenas micromudanças. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva.

isso se torna moda. as matérias produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos. é o que. elas tornam-se antiprodutivas. dos genocídios coloniais. subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se antiprodução. seres. ou as mata por meio de mecanismos mais ou menos deliberados. que a sociedade não está em condições de incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria. da mortalidade infantil. valores. pelos organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo. as energias não orientadas. Agora. É o que subjaz a grandes processos sociais como as guerras. são forças singulares. 42 ▲ . enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias. serviços – não pode assimilá-las à lógica do sistema. vigora a antiprodução. as forças instituintes-organizantes. como é o caso da marginalidade. de maneira que a produção. é a metamorfose. mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas de maneira muito ampla. enquanto não se cristaliza. que vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. Então. Essas são potências. é o que subjaz à geração de enormes contingentes sociais que estão destinados a morrer. sociais. ou as deixa morrer. produtivas. mais ou menos premeditados. dos preconceitos sexuais e raciais. são capturadas em grandes organismos reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista. mas foi sempre assim. bens. Por exemplo. é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de destruir os produtos porque o preço caiu no mercado. chamaríamos de criação. elas são voltadas contra si mesmas. elas se destroem a si mesmas. do alcoolismo. com uma terminologia ainda religiosa. e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. que só agora se está" descobrindo".geração. é o devir. de bens de troca e não de bens de uso. da tóxico-dependência. e que morrem não apenas por deficiência da provisão ou da organização. Esse processo de autodestruição das forças produtivas naturais. pelos equipamentos. Um desses processos característicos é o problema ecológico. neocoloniais e planetários contemporâneos etc. o impedimento ou a destruição do novo.

mas de mobilizar forças inconscientes às quais se apela. convicções acerca da vida social. de exploração. de mistificação ou. Em última instância. são tão importantes as vontades. e ainda mais. que têm a ver com o sofrimento e têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população. em política ou sociologia – com independência do psiquismo dos homens. de algum modo. em processos revolucionários. apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina. eles só entram nesses processos de dominação. não fazem parte de seu saber. políticas ou naturais que os determinam. e ninguém pode negá-la. suas vontades. isto é. ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes 43 ▲ . hoje se sabe. por vontades que eles não controlam e não conhecem. Isso é claríssimo. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que outra. em última instância. os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens. Ou seja. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica. por exemplo. que por mais determinados. E também não entram se suas expectativas. Hoje. os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes. científica-política ou econômica clássica. mas que têm a ver com o prazer. para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano. ou que se possa supor que é o político o tal determinante. representações. as características da vida e da morte social. seus desejos não se encaminham nessa direção. que o "pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. por mais submetidos às leis econômicas e políticas que estejam os homens. se estes. não só seus interesses. são inconscientes. isto é. E não se trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária. coincidem com suas crenças. pelo contrário. sabese que as vontades. econômicas. de seu querer deliberado. já é completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que acontece em economia.Para qualquer tendência sociológica. os desejos e as representações com que os homens entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais".

O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. nós nos interrogamos constantemente porque. porque os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais. Os povos checam seu próprio saber sobre suas condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente movimentos de imenso poderio. é uma tendência reprodutiva. A diferença consiste em que o desejo inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar. não se trata apenas de dizer que o fazem por medo. mas eles operam as transformações sociais. não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve. é um anseio que tende a restaurar o narcisismo. em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus superiores. passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação. o grande psicanalista marxista. Por que os povos atuam contra seus reais interesses e vontades? Então. não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua potência. porque se é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados. Então. nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. porque os soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes. que supostamente. se translada para a vida social com as mesmas características. sem apelar para os saberes instituídos e estabelecidos. depois. O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários. nas relações ou nas fantasias incestuosas ou parricidas do inconsciente infantil e que. Já a partir de Reich. em algum momento. foi o estado em que o protosujeito esteve integralmente. por ressonância ou por uma re-elaboração do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. quando as forças inconscientes se ativam. O desejo do 44 ▲ . já se tem visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas condições de existência que não precisa. o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo. de incalculável potência social.sociais. Isso também não é novidade.

teria representações ou teria recursos que variariam segundo a sociedade. Só que este inconsciente não se entende exclusivamente como um inconsciente edipiano. é o acontecimento-devir que os produz. aos 45 ▲ . podem existir semelhanças entre esses sujeitos. em todas as classes sociais. não existe uma estrutura. Ou seja. Também não existe uma estrutura. a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes. é uma força de invenção e não é uma força restauradora de estados antigos. uma essência-homem. semiótico etc. é uma força de conexões insólitas. pré-social e pré-cultural. familiarista. de cada momento. É uma força que tende a criar o novo. um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades. em todos os momentos históricos. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um recalque psíquico. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas denominações. entendido como o imprevisível. O que importa não é a produção das semelhanças ou de analogias entre os sujeitos. libidinal. Para o Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal. a singularidade de cada sujeito produzido em cada lugar. mas a produção de diferenças. uma essênciasujeito. mas essa produção é absolutamente contingente. O que se passa é que esse sujeito psíquico. é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. apenas preenchido com conteúdos históricos sociais variáveis. trata-se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são capazes de gerar transformação. Então.Institucionalismo é imanente à produção. mesmo que se aceite como sendo universal. a cada momento. é absolutamente própria de cada lugar. sujeitos variavelmente protagonistas desse acontecimento. segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. Mas é inconsciente. em todas as raças etc. para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal. o que existe são processos de produção de subjetivação ou de subjetividade. de cada conjuntura histórica etc. objeto de um saber que toma elementos de todos saberes existentes. mas por um recalque complexo que é simultaneamente político. Então. repetitivo. se pode dizer. produzem-se sujeitos em cada acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir. mas também como um inconsciente pré-pessoal. ou. E podem existir analogias. Para o Institucionalismo. quando nessa produção predomina o instituído.

Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto. E não vai privilegiar. com a "maquinaria de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas. Evidentemente. e trabalhá-lo para torná-lo produtivo. não . produtiva. o estabelecido. não poderemos dar nesta exposição. subjetividade submetida. o organizado. primigênia. mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. mas aceitar a idéia de que os novos homens se fazem a cada momento. a não ser para denunciá-los. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada. Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer de cada organização. circunstanciais. capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar seu lugar a outras. O objetivo institucionalista é criar campos de leitura. de intervenção para que cada processo produtivo desejante. processa-se não reproduzindo o instituído. a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas.se propõe "pegar" um sujeito reprodutivo que é sempre o mesmo. ele vai privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. com as formas de militância. absolutamente instituinte. revolucionária. de compreensão. ele adota as características de um sujeito mais ou menos universal e eterno. 46 ▲ . políticas. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que já estão feitos. organizativas. absolutamente singular. revolucionário. eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar.interesses exploradores. Mas a discriminação que tem de ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo. não assujeitada. porque as mesmas têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação. todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que. transitórias. e se efetua gerando o novo. seja capaz de gerar os "homens" (ou sujeitos) de que precisa. em cada circunstância. circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários. em que o desejo se realiza em conexões locais. de subjetivação absolutamente original. micro. movimento ou proposta. pela natureza elementar deste livro. aos interesses mistificantes. a isto se chama produção de subjetivação livre. de cada estabelecimento. não se concretiza restituindo o antigo. absolutamente contingente. em geral.

o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico. estudando o movimento nazista da Alemanha. talvez estivesse incorretamente informado. afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos dominantes. por ignorância. de quando falamos do inconsciente ou do desejo.Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da Psicanálise. Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante. os grupos e sujeitos submetem. de convicções acerca do mundo. pela esperança e pelo medo. Por outro lado. dos grupos que procuram uma drástica transformação social. Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele. e também 47 ▲ . São crenças. é educar. conscientizar acerca do potencial de prazer. informações erradas ou manipuladas que as classes. Ademais. reacionárias. que são ideologias das classes. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança. existem ideologias revolucionárias. O contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço teórico algo clássico. apesar de ser contrária aos interesses da maioria. culturalista ou estrutural-funcionalista. de crenças. ou seja. A intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. afirmava que o povo alemão não estava desinformado. é conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante. convicções ou expectativas e desejos conscientes. de gozo. Este é o caso. que habitualmente se aborda com o nome de ideologia. costuma-se dizer que a maneira de reverter essa situação é instruir. Em muitas passagens. que são ideologias conservadoras. É verdade que há uma certa definição de ideologia que a considera como uma série de representações erradas. por exemplo.se aos interesses das classes dominantes. é modificar essas representações. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de consciência falsa ou distorcida. é criar outro tipo de expectativa ou vontade. Então. que está animada pela ilusão. positivista. é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção. mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras que estavam sendo ditas. de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela classe dominada. pode ficar sincrética ou imprecisa demais.

não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um proletariado muito politizado. E, sem d úvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos, desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se consegue dominar os povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise), mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma peculiaridade do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise, o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 48 ▲

do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu rel ato restos da nomenclatura psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função que estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da castração 49 ▲

simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co-protagonizem este processo. Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento, em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os geraram em sua montagem. Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 50 ▲

na educação.). na saúde etc. reprodução e antiprodução? 5) Qual é o papel da repetição e da diferença. Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito".que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não (ou seja: no trabalho. do acaso e das regularidades na História? 6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 52 ▲ . 51 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Que diferença existe entre História e Historiografia? 2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicossubjetivos e naturais? 3) O que significa Molar e Molecular? 4) O que se entende por produção. outras correntes institucionalistas não dizem que o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação revolucionária.

por outro lado. assim. cujas "verdades" freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito Científico". em uma passagem do capítulo anterior. não se tratava propriamente de Psicanálise e. Na realidade. assim como a essência mesma do Movimento. Bachelard tentava um trabalho epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir. que não me estranharia que muitos dos conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender. de "espírito científico" – só pode aceitá-lo como uma metáfora. a predisposição dos 53 ▲ Sé . O mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do pensamento corrente que.Capítulo IV O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO Eu dizia. produzem um efeito de convicção na "mente" de quem pretende formar-se como cientista. em um sentido estrito. se compreenderá que não se pode falar. Esses "vícios" do senso comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos. por estarem muito arraigados.

muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito". mudam radicalmente de sentido. Para concluir. os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes. Cabe aqui lembrar que. ou até em uma alusão vaga. o Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria. os que existem em "estado prático" nas 54 ▲ . algo extremada. ou um outro melhor ainda. Não ignoro que. mas o faz acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais. não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. defendendo a fertilidade de todos os saberes. o Institucionalismo procede adotando algum termo. semanticamente falando. sabemos que essas palavras. que comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos". alguns termos teóricos que as ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. As diversas correntes institucionalistas. entendendo a singular proposta do lnstitucionalismo. de um questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas especificidades. polimorfa e complexa. podem empregar termos teóricos com acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado. por exemplo. por sua parte. sem descartá-las. ainda que invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado e do qual recebe seu valor de origem. torna-o revelador. neste momento. No entanto. cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão. Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em particular passa-se devido ao fato de que. a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas. devido às deficiências da formação geral e universitária da qual padecemos. em determinada conjuntura. quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica. tem com elas uma relação contraditória."espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. ou em uma noção. ainda durante um longo período de sua aprendizagem. incluídos. Em outros casos. se considera que. Contudo. Finalmente.

Se os profissionais. está a definição dada a "desejo". de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. Não nego que algumas ampliações sejam essenciais. Estou tentando dar uma visão panorâmica geral. tendo se tornado descartável como os jogadores de futebol. então a formação de um institucionalista realmente é interminável. Estou tentando dar um curso introdutório de um saber que não tem limites. O que há como característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições. que terá de ser breve.. mas sim muitas. Por isso. inclusive os saberes não-científicos. para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto. assim como por um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. e existem diferenças teóricas. É o mínimo denominador comum que se consegue encontrar entre as várias tendências. no caso de eu estar capacitado para fazê-lo. de certos conceitos. peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 55▲ . pois depois de uma década já não consegue acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se. muito pouco aprofundada e ambiciosa. desenvolver esses temas. ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais-valia. entre as muitas diferenças existentes de uma para a outra. os populares. chega-se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil. por exemplo). às vezes é duro.). artísticas. para quem se aproxima deste estudo. metodológicas. mas justamente porque o são. Agora.atividades leigas. desejo etc. que faz com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos. técnicas. queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber. Agora. os artísticos. da Psicanálise (inconsciente. Imaginem vocês uma coisa como esta. digamos. religiosas etc. especialistas de alguma disciplina. aceitar e entender a polissemia que adquirem semantemas provenientes. como a Física. levaria a outros tantos cursos. Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista. políticas entre elas. Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões. que é um composto de todos os saberes de uma época.

usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade. Muitos institucionalistas compartilham plenamente essa definição de . que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa instância. nessa trajetória. ele parte de uma situação narcisística e tende a voltar a ela. devido à sua subordinação à ordem simbólica. ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho.relativamente autônomo da realidade. a lei ou a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). e a sublimar. No entanto. que são rendimentos. Então. da área dos motores do funcionamento psíquico. particularmente em seus aspectos inconscientes. o desejo tem uma natureza conservadora. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias. reeditar. A maioria delas aceita. embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade. em que o ego e o objeto são um. um certo estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo. que é o desejo. assim definida nas organizações. a conduta. a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância determinante. Um exemplo característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de desejo. ou seja. sendo que o comportamento. outras maquinarias do psiquismo. da economia. particularmente por certa ordem de representações. persistente. em último termo. Em que consiste esta definição de desejo? Seria uma força insistente. desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos psíquicos da vida organizacional. surge uma força que seria o desejo. em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de Castração. de um sistema e de processos de caráter inconsciente que considera do campo das causas. como o leitor avaliará. que procura restaurar. 56 ▲ . Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria predominante à colocada em muitos textos freudianos. de sua tentativa de restauração desse narcisismo inicial. a existência de um espaço. as vivências. as representações e afetos são do campo dos efeitos deste psiquismo. outros dispositivos. Isso. resultados dessa trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória". que tenta reproduzi-lo. ela acaba gerando todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica. a partir da ruptura desse estado. dentro desse campo chamado psiquismo. inclui uma definição restitutiva do desejo. é obrigado a elaborar.

como a filosofia. mostra-se característica. Entretanto. unidades vitais. assim como a exclusividade de um modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado imaginário perdido. mundialmente. criador de uma corrente institucionalista chamada Sociopsicanálise. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau. Então. particularmente Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise. associar. Estamos assistindo. à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso programa. percebe setores da mesma em que essa definição de desejo. que recolhe a definição de desejo de uma forma menos ortodoxa. processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do desejo que dela emana. de forma anárquica. mas propiciar.da política e das organizações. a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo. e com ele a imobilidade. Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e detalhe. como por exemplo. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). cada vez mais amplamente. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos. no qual a pulsão de vida funciona segundo o processo primário. assim como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo. não é estranho que isto se apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto. outros setores do Institucionalismo. porque este é um problema muito atual e de muita disputa teórica. por exemplo. os freudo-marxistas. estados permanentemente novos. do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada primeira tópica. No entanto. levam as proposições freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais. que explicamos anteriormente. a macrofísica. muito pouco conhecida e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –. 57 ▲ . é Gerard Mendel. existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos.

Marx afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício. a biologia molecular e certos campos das ciências formais. inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância. E também não seriam modificáveis 58 ▲ . Dessa maneira. na reivindicação da neguentropia. apesar de que Marx nunca negou que a superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. consiste na promoção de certo poder criativo da desordem. de forma alguma. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente determinada pela atividade econômica. dita no sentido amplo. por processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra. do histórico. é imanente a outras forças animadoras do social. Bom. também apoiados na literatura. da vitalidade. e ainda no discurso delirante. Essa mudança. não podendo ser entendidas dessa maneira. exclusivamente pelo econômico. do natural. a chamada infra-estrutura determina a superestrutura. que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos produtivos. tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. por exemplo a matemática de Rieman. isto é. uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. as resultantes desse processo complexo não são causadas. mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que. na defesa da produção. na arte. além de tudo. ou tendência à autopoiese.a microfísica. Por isso há uma fórmula na Esquizoanálise. Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção. que afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança de paradigma. em que há os alicerces e há as paredes superiores visíveis. Assim. O desejo não tem caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo-revolucionário – e não é uma força separada das que animam a vida social e natural. Então. Deleuze e Guattari. constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o psiquismo. em um de seus aspectos. Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. que seriam a pulsão e o desejo.

naturais etc. mas uma sociedade reticular formada por uma grade aberta. mas todas elas têm em comum a insistência em não separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas. não é uma teoria da sociedade formada por três subconjuntos que. A instância decisória é a fundamental no processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. formam o conjunto total. em alguns de seus ramos. tem muito em comum com a proposta althusseriana. políticas. o sistema. e sim mediatizado por aqueles. à medida que adota essa idéia de sobredeterminação. no caso de Deleuze e Guattari. em que ld. A instância chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção. semióticos e naturais e estão ordenados em três superfícies: de produção. Mas o conjunto total. que Althusser chama "todo complexo articulado. de maneira tal que haverá um determinante em última instância. uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva. 59 ▲ . Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no psiquismo: atos. políticos. de registro e de consumo. formações do inconsciente etc. Althusser a denominou sobredeterminação. mas não exclusivamente. que em todos os modos de produção é o econômico. Louis Althusser. O determinante em última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos efeitos econômico-sociais.exclusivamente a partir do econômico. tecnológicos. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade social. econômicos. para que o modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana. de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras são superpostas ou imanentes entre si. Por exemplo. utilizando outro modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente intersecionados. funciona interpenetrado. Um de seus seguidores. O lnstitucionalisrno. uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente psíquicos. diversificado e sobredeterminado". técnicas. Essa é a determinação complexa pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. Existem outras teorias da causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas. por sua vez.

ou da múltipla escolha para o processo de seleção. as principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –. para saber como funciona. como se geram seus efeitos etc. o espaço delimitado para planejar estratégias. Outra coisa é o campo de intervenção. que em qualquer corrente de Institucionalismo. implica um processo de compreensão. É claro que o campo de intervenção é.Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo. o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". que se chama "O Estado e o Inconsciente". Mas podem ocorrer campos de análise infinitamente menores. infinitamente menor que o campo de análise. táticas. que é o "recorte". Por isso denomina-se campo de análise. Isso ainda não implica necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado. que se chama "Contratempo". e isso dará um estudo como aquele no qual participou recentemente Guattari. uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de produção no curso da história. muito heterogêneos – por exemplo. porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a nível nacional continental ou planetário. como estão colocadas e articuladas suas determinações. técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente. o primeiro a ser abordado será o conceito de campo de análise. logísticas. também. por exemplo. em geral. Campos de grande porte poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau. ou o funcionamento dos programas de estudo no vestibular. suas causas. concretamente. E óbvio. Esse objeto pode estar constituído por materiais. Isso significa delimitar um objeto ou um campo e aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo. como uma análise do significado da festa no Brasil ou uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru. nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos sujeitos a nível inconsciente. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde pequeno até amplíssimo. desde um estabelecimento até. de inteligência dos determinantes desse campo. 60 ▲ . Esses campos de análise são terrivelmente amplos. O máximo que se consegue delimitar são campos de análise organizacionais.

O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda. voluntários deste pedido. mas não se pode intervir sem alguma forma de compreensão. incluir a auto-análise. A demanda não existe por si. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a expressão do desejo. cujos autores mais notórios são Lourau. que essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise. se compreende. a demanda não é o primeiro passo de um processo: ela é produzida. mas um campo de intervenção é impensável sem um campo de análise. eles estão articulados entre si: à medida que se compreende. analisar. Só que um campo de análise é pensável sem intervenção. deliberados. a divulgação científica ou não-científica. em que radica a problemática desta organização solicitante. manifestos. e quais são seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. o Institucionalismo enfatiza a necessidade de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea.a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. que é um dos primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva. a proposição direta ou indireta dos serviços que a organização analítica faz e que não pode não ser causante. determinada. De modo que para compreender a demanda de análise institucional de uma organização é necessário. para fazê-lo. se intervém. por esta oferta. e à medida que se intervém. desde o princípio. Pode-se compreender e não intervir. antes. esmiuçar o pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa. eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí. A isso chamam análise de demanda. 61 ▲ . ou que relação existe entre a publicidade. Em geral quando os dois campos se constituem. modulada. Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de Análise Institucional. Para dizê-la provisoriamente: quais são os aspectos conscientes. e está marcada . de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta. Mas acontece que. que também temos de tratar sinteticamente. a compreensão de como a organização analítica gerou esta demanda. geradora ou moduladora da demanda de serviços que lhe é formulada.

não sabe em que consiste. e a organização analisada. tem uma fórmula que não explica todas as situações. tão sutil. no meu modo de ver. Então. Quem demanda. com a oferta. está "por trás" de toda oferta de prestação de serviços e. formações do inconsciente. e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações. você não entende. atos falhos." Essa mensagem subjaz. mas que é muito ilustrativa. que é o verdadeiro objeto de análise. também de bens materiais. Não existe aqui. como sonhos. sejam eles pontuais ou mais amplos. formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles fenômenos. além disso. intervinda. que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta para ser analisado. então. quando essa oferta gera uma demanda. A Psicanálise já classicamente. vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização. injustamente pouco conhecido. que ele não sabe o que é. lapsus linguae. Mas juntos é que vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. Mas é tão complexa. Entre a organização analisante. Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade. delírios. demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. concebeu o conceito de derivados do inconsciente. para poder dar o primeiro passo em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-. não são efeitos exclusivamente 62 ▲ . ela não pode estar modulada senão pela própria oferta. Isso exige por parte do coletivo analisante. o coletivo prestador de serviço. o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque. uma posição clássica de objetividade: não somos os experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. um severo processo de auto-análise de como produzir a oferta de seus trabalhos. esta análise deve ser articulada com a forma em que foi produzida. provavelmente.Um institucionalista muito respeitável e. chistes. ou seja. sintomas. interveniente. Portanto. que consiste aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e. tão técnica.

absolutamente. Um analisador não é assim. efeitos transacionais ou formações transacionais. a materialidade expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. isto é. o fluxograma etc.conscientes. ou seja. o organograma. Então. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador. ou seja. O analisador. as atitudes corporais. do domínio e o cuidado de si. a couraça caracterológica também são considerados formações do inconsciente. denunciá-la. pelo menos fenomênica ou técnica. E essa é a primeira diferença. é um efeito ou fenômeno formalmente parecido com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. em análise institucional. Isso é claro. etc. subordinar os outros à compreensão verbal. E é claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional. Por isso é que se chamam. na aparência desses fenômenos. nem exclusivamente inconscientes. de uma mistura. nem exclusivamente pré-conscientes. nem pelo ego ou o id. do lazer. os rituais. da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas instâncias. não se privilegiam. os regulamentos. manifestá-la. a maneira como está organizada a memória de uma organização. pode ser um arquivo. nem uma lei. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica. nos questionários ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. o uso do dinheiro. mas pode ser um monumento. Por exemplo. um analisador não é necessariamente um discurso. segundo uma das denominações. Os mitos. a forma como está elaborada a planta arquitetônica da organização. 63 ▲ . os efeitos verbais. São fenômenos resultantes de uma combinação. a carta de princípios. Mas as diferenças são as seguintes: Primeira: na materialidade fenomênica. porque sabemos que em Psicanálise os comportamentos. exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito. os estatutos. só que a Psicanálise tem uma persistente predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações do inconsciente. pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. E podem ser os relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas. pode ser um costume e não uma norma. da sexualidade. pode ser uma característica dos modos de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma. Não é que em Psicanálise não o seja. Não são dados claramente efetuados pelo superego. e a.

para começar o processo de seu próprio esclarecimento. sendo assumido por seus protagonistas. Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção do analista). um determinado acidente numa usina atômica (geograficamente pequeno. que a própria vida históricosocial-natural os produz por conta própria como resultado de suas determinações. Então. Existem grandes analisa dores e pequenos analisadores. a definição correta é dizer que são analisadores históricos. e. introduzem 64 ▲ - . evidenciar. como todo mundo sabe. Mas podem haver pequenos analisadores. ele não precisa ser analisado de fora. denunciar. Um analisador é um produto que pode se auto-analisar.Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu próprio processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro de certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico. pelo menos) etc. não apenas é capaz de enunciar. Isto não é fácil de ser explicado. Nesse sentido. E dessa maneira. que foi marcar o fim do feudalismo e o início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. este tipo de fenômeno. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender. que também é uma má expressão. não está preparada para isso. Um grande analisador é a Revolução Francesa. E existem analisadores artificiais ou construídos. porque espontâneos todos são. Só que esse analisador. porque analisadores naturais são os terremotos. por exemplo. ou seja. como também de resolver a situação da qual ele é emergente. revolução burguesa. manifestar. ele predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se. declarar. produto de determinados encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média. mas também de se compreender. existem os chamados analisadores naturais – que é uma expressão inadequada. de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade. acumulação de capital mercantil e usurário etc. tem a possibilidade de não apenas manifestar-se. e esses podem ser um conflito dentro da organização. colocado em condições propícias. "Natural" quer dizer espontâneo. ou seja. a análise institucional nunca conseguiu compreender. realmente. que são dispositivos que os analistas institucionais inventam. pelo menos nos seus aspectos geológicos.

Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. Insistiremos uma vez mais em que estas definições. lógico. produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana. procedimentos de tipo ativista. cenográfico. complexa e sobredeterminada. como está claro nas ciências físicas. mas um processo de materialidade múltipla. montagens de tipo propriamente científico. Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. psíquico heterogêneo por natureza. ou seja. antropológico e manobras do tipo" convivência prolongada". 65 ▲ . pois é prévia a este contato. se valem de todo e qualquer recurso. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica. dramático. e na análise institucional a implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente. um processo econômico.nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos mesmos. seja de tipo artístico. Em continuação. uma análise variável da relação entre o sujeito e o "objeto". a raiz de seu contato. político. Poderse-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. de alguma forma. O passo seguinte será falar da análise da implicação. não começa no usuário: é recíproco. não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com seu objeto. em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai estudar. sendo que. sociológico. que denominamos standard . os retomaremos na exposição correspondente aos itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica. político. ao nível de produção de analisa dores construídos. cuja finalidade é basicamente transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento. de sua interseção com a organização analisada. veremos rapidamente alguns termos. experimental. da interpenetração destas duas organizações. a análise da interação. ou seja. A implicação se define como o processo que acontece na organização de analistas institucionais. na equipe de análise institucional. Só que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material do paciente produz no analista. é o contrário de uma análise "objetiva". E não é apenas reativo. É. que deve ser analisado em todas as dimensões. intervinda. é simultâneo e é parte indissolúvel do processo de análise da organização.

Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função.seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. dizer-se que é o contrário de um equipamento. de grande. médio ou pequeno porte. Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia. maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos. O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado. Estes cumprem funções eliminatórias. segregacionistas ou punitivas (como por exemplo. Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente. a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações. do registro ou do controle social. tecnológicos e até subjetivos. artificialmente extraídas dos contextos teóricos. a Polícia. em articulação com os quais adquirem seus significados prevalecentes. mais ou menos sistemáticos. de alguma maneira. que sua condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade. naturais. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista chamava de "aparatos". Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião. cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão. além do mais. as Forças Armadas. estabelecimentos. De um dispositivo pode. teatro ou nas artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" sociais. sempre simultâneo a sua formação e sempre 66 ▲ . As mesmas estão armadas com sentidos diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores. estrutura. da Educação. assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico. Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções. aparatos. forma etc. enfatizando. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento. da Comunicação de massas ou a Família).

poderes. analisa dores. num sentido restrito. os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações. logística.a serviço da produção. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem. acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. gerando acontecimentos insólitos. do novo. têm a peculiaridade de nascer. que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário). revolucionários e transformadores. antecipar. 67 ▲ . opositivas e antagônicas. da vida. dinâmica. mecanismos. estratégia. O diagnóstico é importante para justamente instituir. equipamentos. os territórios estabelecidos e os meios consagrados. um descobrimento científico. Nesse sentido é óbvio que os dispositivos. operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). processos. reprodução e antiprodução. uma obra artística. assim. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona. o que se denomina linhas de fuga do desejo. contradições principais e secundárias. digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou sujeitos. Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção. potências. tais como contrato. territórios. os faz explodirem e os atravessa. organizar. ele os inclui. conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. conflitos. Um dispositivo em geral não respeita. para sua montagem e funcionamento. defesas. táticas. com o instituinte-organizante. Por último. linhas de fuga. do desejo. um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo. Um grupo político sujeito (quer dizer. Gera. decidir os passos que comentaremos em seguida. da produção e da liberdade. também chamados agenciamentos. pelo contrário. um pensador original e libertário. técnicas: Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível. magnitudes de produção. planejar. têm a ver com a transversalidade (conceito que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e. os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura. dispositivos da área ou organização intervinda.

convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações. contratantes. Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. se essa guerra se dará por terra. elementos. recursos etc. de fronteiras. mar ou ar. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. opções. com os coletivos de usuários "clientes". Como veremos. avanços. A estes acordos costuma-se denominar contrato. Por outro lado. mas com certos segmentos do mesmo. precisam fazer acordos. simplesmente. quer dizer. habilidades. pactos. dos espaços e territórios que se colocarão. serviço profissional independente. As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo). objetivos. solidariedade militante etc.Os institucionalistas. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego. retrocessos etc. Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção como serviço deflagra. Trata principalmente de tempo (duração total. de que se dispõe ao começar uma intervenção. a previsão de vicissitudes. Os diversos aspectos do contrato: tempo. punitiva ou de extermínio parcial. expectativas. totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação. é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo. assim como a progressão das manobras. com que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidades de realização. quais serão os aliados. promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. emergentes da problemática a ser pesquisada. freqüência dos trabalhos). estabelecimentos ou.) que fundamenta o contrato. 68 ▲ . para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções. Para dar um exemplo bélico. simpatizantes. delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação. são analisadores. honorários ou outro tipo de retribuição. alternativas. dinheiro.

esclarecedores. 69 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 1) Qual é o sentido dos termos sujeito. aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis. baseados nisso. desportivos. estratégia. As táticas referem-se a batalhas circunscritas. Procedimentos interpretativos. desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no lnstitucionalismo? 2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 4) O que é análise da implicação? 5) O que são: analisador. objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades do coletivo em pauta. morteiros.neutros e inimigos etc. prosseguindo com a metáfora. lúdicos. assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora. táticas e técnicas? 70 ▲ . praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. será ditada pela inspiração e o treinamento. a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção. sem tomá-las ao pé da letra. Quer dizer. equipamento. o horário. esboços de uma logística. de discussão. enquanto já se têm. à participação da infantaria. uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios. convivenciais. os movimentos de tropas etc. cavalaria. No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística. de sensibilização. agenciamentos artísticos. estratégia geral e primeiras táticas. granadas etc. informativos. à área onde se desenvolvem. logística. dispositivo. As técnicas. É interessante enfatizar drasticamente que no Institucionalismo. de expressão. a eleição de técnicas é consideravelmente livre.

Produz. de graduação entre essas três tendências.Capítulo V AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas. contar com certo conhecimento de 71▲ . poderíamos dizer. Tentarei uma espécie discutível de classificação. existe uma graduação à medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. Em termos. eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –. Terei de ser muito esquemático. uma forma de abordagem das organizações e das instituições que. digamos. eu diria. com certos matizes diferenciais entre elas. mas são as que mais notoriedade têm atingido. que podemos tratar de caracterizar nesta exposição. são propostas políticas mais subversivas. particularmente aqui no Brasil. políticos. é politicamente moderada. mais enérgicas. se é que tal termo exprime alguma coisa. São também as mais difundidas. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. mais ativas. assim. Então. nem necessariamente as mais importantes.

Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de movimentos e de adaptações. A série disposicional é composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados por seus progenitores. Ela se ocupa da psicopatologia com uma expectativa de cura. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias adquirem retroativamente sentidos morais.Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar isto de forma breve. Acrescente-se a isso as experiências da infância precoce. Freud criou também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". de educação. e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. o sujeito se incorpora plenamente à vida social. isto é. Seu Superego está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de significações. Tudo que acontece na vida psíquica. tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo uma das séries: a série disposicional. grupos sociáveis no sentido amplo. intensamente pressionantes para o 72 ▲ . Então. de estudo. Nesta teoria distinguem-se. na constituição do psiquismo. o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação. introduzindo-os nesta teoria. A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. metodologia e técnica sociopsicanalíticas. Em seguida. mais as correspondentes ao parto e primeira infância. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a chamada latência. no seu percurso e desenvolvimento. adquire contato com os grupos chamados secundários. com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de idade). de criação e de transformação. tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries. continuam sucessivas incursões nas atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da outra. duas séries assim chamadas: a série disposicional e a série desencadeante. Algumas dessas situações são altamente tensionantes. mas. pelos sujeitos psíquicos que o geraram. Suas representações são secundariamente recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. grupos de jogos. ou seja. Essas séries denominam-se complementares.

experiências de privação. Logicamente. Essas são experiências de frustração. constituída pelas situações da vida. ou pode ser causante de processos patológicos. resolver. de universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia em geral. durante sua primeira infância. ao passo que a frustração é um desengano de amor. arcaica. e experiências daquilo que em Psicanálise se chama castração. atuam em conjunto. poderíamos resumir esses três 73 ▲ . Privação refere-se à falta de subsídios para necessidades biológicas. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre determinada série disposicional). cada sujeito é singular. não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional diferente). atuando sobre a série disposicional – são totalmente variáveis. elaborar – ou não – o chamado Complexo de Édipo.psiquismo. sociopsicanaliticamente falando. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária. em geral. Ou seja. em sintomas. então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". faltas diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos diferentes. castração refere-se a um tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo). é importante assinalar que entre frustração. irrepetível. E isso resultará na doença psíquica. e isto é que vai resultar no retorno do recalcado como sintoma. concretas. pode resultar numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. Se não resolver. privação e castração existem diferenças. pode efetuar-se em comportamentos ativamente adaptativos. Quando a série dessas experiências. No entanto. são exigências diferentes. quando a série desencadeante atua sobre a disposicional. a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar. e as configurações da série desencadeante – que podem gerar patologia. que constitui o núcleo central de sua série disposicional. De um ponto de vista mais amplo. Apesar de não podermos desenvolver agora. Então. Outra forma de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu. Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta articulação entre a série disposicional e a série desencadeante. sublimatórios. Elas. atua sobre a série disposicional que o sujeito traz. único. gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de fixação.

tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menosvalia, exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa. Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto "pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar-se, que estabelecer uma aliança entre si para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento, 74 ▲

através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e outras formas de comunicação inter-humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar 75 ▲

a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um se tor da humanidade por outro. Isso faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de seu trabalho não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 76 ▲

quando se estava construindo sua série disposicional. as vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas acontecem. a regressão que se produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou psico-institucional a um outro. médico. ou seja. ou seja. o que Mendel vai afirmar é que.humanidade que trabalha. Por isso. eles vão viver a situação de trabalho. incidindo sobre a série disposicional de cada um deles. recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida simbólica. não apenas produção de bens de consumo. chamado funcionamento psico-familiar. se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja). e assim por diante. o lugar onde deve ser estudada a experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar natural" em que os homens se associam para exercer sua potência. ou seja. é fácil ver que esses conjuntos vivenciam. Só que esta regressão não deve ser pensada como sendo da ordem individual. adequada às circunstâncias concretas que os rodeiam. não desfrute dos resultados deste esforço. a situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. mas da ordem coletiva. comercial. entendendo o trabalho num sentido muito amplo. mas também trabalho escolar. mas também produção de serviços. que é no lugar de produção. não apenas trabalho industrial. Para Mendel. Ou seja. essa experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado no capitalismo. de mil maneiras diferentes. O que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas organizações de trabalho. no sentido em que os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual já passaram. com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. Então. E essa experiência de impotência gera neles. Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de retificação com o real. nos âmbitos de trabalho. Esta experiência de impotência gera uma regressão do psico-institucional ao psico-familiar. um processo regressivo. E as figuras determinantes reais dessa situação atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua situação familiar. Em 77 ▲ . Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam parte dessas organizações.

eles são os produtores da riqueza. e também se refugia no mundo da fantasia. É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual. Dessa maneira. eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio. Devido a essa regressão que mencionamos. objetivamente. uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer dizer. Este processo opera teoricamente. se isso está mais ou menos entendido. não totalizável – de 78 ▲ . digamos o seguinte: Para a Análise Institucional. que se tem perdido devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar. em que. como acontecia na sua infância. sobretudo o recurso interpretativo. Então. familiar. eles eram pequenos. que por tratar de ser clara pode resultar empobrecedora. enfim. com pontos de vista e postulações perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. Tentando outra vez uma síntese. a proposta de Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise. o coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica. chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária. atuações. delírios. senão os criadores exclusivos. pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise Institucional. recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional. feito em colaboração com uma equipe interveniente. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas. mas exige um movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível. Lapassade e seus companheiros – que são. sós e impotentes. somatizações. imaginárias. Agora resumiremos a posição de Lourau. porque. como já dissemos. A metodologia de intervenção conserva muitas das características da intervenção psicanalítica. para poder ter de novo um acesso ao real atual.conseqüência. afinal de contas. e não tinham outra forma de solucionar essa situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. e não passa exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas. que estão negando. inibições. desconhecendo. mas coletivo. reagirão de uma maneira irreal e fantástica. como sintomas. como tudo quanto constitui a patologia biopsico-social. que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica e obter a compreensão da regressão que os afeta.

agentes. então. as engloba. uma norma universal (digamos as relações de parentesco). também tem uma relação. Cada instituição é universal. essas entidades. outras proscritas (proibidas). ainda que seja de maneira aberta. atribuindo-lhes valores e decisões. As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou "corporificadas" que. indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norteamericanos. e essa ausência é registrada como um não-saber. contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em que. usuários e práticas. tanto para o saber espontâneo de seus agentes sociais quanto para os experts que as descrevem. ou seja. Assim consideradas. indispensáveis. úteis etc. a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam. como dizíamos. é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais.de negatividade consigo mesmo.instituições. algumas prescritas (indicadas). como hábitos não-explicitados. ou podem ainda operar como costumes. podem ser: organizações. eficientes e em geral consideradas necessárias. um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia dar conta de todos estes 79 ▲ . que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas. tendese a atribuir-lhe funções inteiramente claras. Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si mesma). em normas escritas ou discursivamente transmitidas. cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. ocultam funcionamentos divergentes. indiferentes. Em palavras diferentes. estabelecimentos. uma modalidade particular do matrimônio poligâmico. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis. ainda. segundo sua amplitude. como por exemplo. Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição. A Análise Institucional não é. quer dizer. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de comportamentos humanos aos quais classifica e divide. com referência aos outros e em relação ao sistema global que as instituições integram e que. outras apenas permitidas e algumas.

Esse poder é entendido como a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados. é vítima de um processo de doutrinamento ativo por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo. Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia. positivando de uma vez por todas o tecido social. como diria Mendel. que o mesmo Marxismo não sabe decifrar. ao qual se referia Mendel. ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia de Estado. em parte. das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. ela considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar mercadorias (e não a gerar bens de uso). existe nas organizações. é um desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e organizações. Isso gera. uma noção do processo de trabalho. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de trabalho". cada coletivo de uma organização está alienado no não-saber. devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho". E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. o fato. Mas. esse mesmo processo de impotência. porque quem é o proprietário dos meios de produção. classicamente. É vítima. Pelo contrário: t rata-se de uma investigação permanente. no caso das organizações do trabalho. em todas as organizações. tanto nas suas bases como nos estratos que lhe são próximos. dos meios de decisão. dos valores.desconhecimentos. Isto é. é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. da classe institucional trabalhadora. de um desconhecimento que. do sentido da existência e uma definição da função das organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder. Por exemplo. com as classes dominantes. É o que o Marxismo chamava. em parte. a Análise Institucional parte da idéia de que. no não conhecer quais são as condições reais em que está trabalhando. digamos assim. entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações. de Ideologia. Ela 80 ▲ . também é proprietário de um saber. sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a negatividade operam em cada conjuntura. desconhecer os principais vetores que ordenam a organização na qual está inserida. dos objetivos da vida.

como o da diminuição da produção. da tóxico-dependência. "naturalmente". o analisador "sexo". Então as classes e grupos dominantes. E assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz c oincidir com uma divisão social. incomunicabilidade. mas também uma série de relações humanas distorcidas. o analisador "prestígio". com medidas disciplinares. E não teria de ser assim. incidência do alcoolismo. Isso constitui parte do não-dito institucional. e ainda costumam. essas contradições vão estourar em fenômenos como o do absenteísmo. Em um sentido amplo. o analisador "poder". são lugares de atrito que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por aqueles que o produzem. o analisa dor "dinheiro". na modernidade. São fenômenos conflitivos. de acidentes de trabalho. o não-dito compreende a relação de não-saber que cada momento da instituição guarda com respeito ao outro e o não-saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. arbitrariedades que as classes dominantes da organização costumavam. de impotência. trata-se de criar um dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos de mal-estar. que se destina a transformar toda essa problemática em uma 81 ▲ . ou Relações Públicas. descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – Recursos Humanos. Esses analisadores são muitos. como já dissemos anteriormente. tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de respostas individualistas. forçosamente. de disfunção que aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho. Então. brigas. ou Relações Humanas –. solucionar drasticamente. por exemplo. Alguns deles são" espontâneos". desordenadas ou autodestrutivas.considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior saber dá. ou Psicologia Organizacional. são acontecimentos mais ou menos explosivos. uma posição de maior poder. rebeldia e revolta estéril. de conflito. conflitos. Mas os que podem delimitar-se com maior freqüência são. outros são construídos pelos interventores institucionais. que geram essa experiência de impotência. são vivências sofridas. monstruosas. Mas a divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. Então.

Trata-se de criar condições para que possam. a conseqüência.simples questão de negociação ou comunicação. na qual vão poder analisar os fenômenos de alienação de uma e de outra. é parecido com o de Mendel. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a autogestão. Finalmente. tanto do não-saber das contradições da estrutura e da função do sistema. sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são as causadoras dessa problemática. Então. E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando. vai ser ocasião de poder analisar também os seus próprios conflitos da mesma natureza. de dissociação – não a diferenciação técnica. O objetivo. eliminando as situações de burocracia. mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. relaxando-se. Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do trabalho. pode-se ver. ou seja. esses fenômenos. mas também diferenças. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico-Socioanálise. mas nas formas peculiares que este adquire em seu caso singular. das forças revolucionárias. que vai tentar deflagrar na organização intervinda. correlacionar esses analisa dores com suas causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar esses fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si mesmo. a equipe interveniente também vai integrar-se com a organização intervinda numa organização compartilhada. como um desvio das forças críticas. de imposição. negociando ou vivenciando. e descubra a maneira como esses efeitos antiprodutivos são a expressão. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta. a recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo. De modo que esse processo autogestivo e autoanalítico. dessa maneira. das forças subversivas. mas sem sair da lógica do sistema. Em todos os dois há certa semelhança. Trata-se de colocar os quadros em contato para que solucionem esse assunto conversando. que é necessária-. exaustivamente. cabe 82 ▲ . a isso se chama "implicação".

convento. a um sindicato. fábrica. como prestação de serviço profissional. se denomina" autogestão a frio". enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou menos generalizada. Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. em última instância – apesar de sua franca inspiração libertária. de sua enérgica vocação revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos tradicionais. quando se opera no seio de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva generalizada de uma sociedade inteira. trata se de uma prestação profissional de serviço. dentro de um marco mais ou menos convencional. não deixam de ser experts. então. apesar de uma vocação militante que têm no seu trabalho. todo um processo de diagnóstico. como já dissemos. hospital. auto críticas e análise da implicação. Isso gera. científicos. apesar da rigorosa autocrítica que exercitam. Isso. não deixam de ser técnicos. ou seja.esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio". que são muito 83 ▲ . trabalha em muitos lugares do mundo. com uma conflitiva mais ou menos moderada. Isto é. a uma escola. ou "a quente". quartel etc. Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. o requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico. tempo e demais coisas. tratando de caracterizar algumas diferenças essenciais. é feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo organizado. Além disso. é geralmente um serviço apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau. a demanda. que se chama Degenettes. os sociopsicanalistas e os analistas institucionais. mas tem uma espécie de central em Paris. e um contrato de trabalho. prognóstico e indicação. que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional. Pode-se. entre a organização solicitante e a organização solicitada. Isto é. na qual se discutem honorários. ir até lá e solicitar seus serviços. Então. não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica dos experts profissionais. quando se pratica sobre uma organização circunscrita. apesar de todas as ressalvas. Por exemplo: o grupo de Mendel.

ou seja. são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a alienação e propiciar. mas que pode ser um trabalho feito por um sujeito sobre si mesmo. presente por toda parte. Então. que não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. Não é. todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo. Não é necessariamente uma atividade coletiva. uma relação de contratação. necessariamente. Sequer implica um trabalho de um agente sobre um usuário. as afetivas. necessariamente. Não implica um lugar nem tempo determinado. as artísticas. Não implica. e que não podem ser sistematizadas 84 ▲ . A Esquizoanálise pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer lugar. Propõe algo assim como um processo de análise permanente. interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a precederam. em qualquer momento. para cada situação.sofisticadas e complicadas. digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a de Mendel. naturalmente. Eu diria que de Mendel a Deleuze e Guattari existe. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. Mas que tem também um aspecto analítico. senão que pode ser dual ou individual. Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. responsáveis pela dominação. as relações com os outros e as relações conosco mesmos. mas basicamente como uma nova forma de pensar. Para ela. as econômicas. per se. generalizado e ubíquo. ou uma maneira de viver. para se aproximar muito mais do Anarquismo. estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais.a invenção de uma metodologia e de técnicas. um modo de ser. e protagonizado por qualquer pessoa que tenha. indispensavelmente. a compreensão de como as determinações alienantes do sistema. pela exploração e pela mistificação. uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe. politicamente. as sentimentais. desempenhada por experts nem por profissionais. táticas e estratégias absolutamente singulares para cada caso. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina. Além disso. as políticas. essa prestação de serviços convencionais.

a participação do desejo. como. Para Deleuze e Guattari. mas não é um inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o não-dito e não-sabido. embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional. Para Freud. se perguntaram qual é a definição de desejo em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. eletrônicas etc. apesar de um de seus produtores ser considerado o maior filósofo contemporâneo. só que essa esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes. aquela das máquinas desejantes. já forma como que uma terceira natureza.nem transladadas para outra oportunidade. ele não dá muita ênfase a essa categoria e a esse conceito. por exemplo. podemos dizer que existe a "natureza ecológica". segundo uma epistemologia clássica. que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. como uma proposta radicalmente nova. porque eles consideram a definição freudiana do desejo. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta pobre: em Mendel. a "natureza humana". da vida organizacional. eu poderia dizer. na nossa opinião não se trata de filosofia. nem como ideologia. da vida. particularmente. a coisa já muda radicalmente. Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari. mas. é rigorosamente freudiana: é a que Freud dá nas formas que. poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia. entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. é uma doutrina. não enquadrável. Em Deleuze e Guattari. a "natureza social". É alguma coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo. senão à do dinheiro e outras. a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica. Não lhe interessa. do psiquismo. o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo. se aceitamos que na civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas. a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais. são as mais amadurecidas de sua obra. não se trata de 85 ▲ . mas para eles a questão se altera por completo. que pretende ser um novo gênero. da história. por referência não apenas à instituição familiar. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas. mas é uma força pertencente a esse domínio. a concepção do desejo. Inclusive. elétricas. nem como uma ciência. uma ideologia. Então. na versão dos autores. uma crença? A rigor.

deflagrar a potência da produção. o desejo é. a realidade está composta por 86 ▲ . que são imanentes entre si. esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de desejo.domínios nem de esferas separadas. É a mesma natureza com uma diferença de regime. no nível molecular. que só precisa ser veiculada. por exemplo. para concluir. a produção e o desejo são uma e a mesma coisa. Para quê? Para que. é restitutivo. eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção. se tomamos o conceito freudiano de desejo – ele. uma vez interpretados. para eles o desejo não é restitutivo. especificamente psíquico. segundo as características do processo primário. incluída a psíquica. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar. no caso de Mendel. os sujeitos possam controlá-los. Equivale a dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social. mas entre suas formas molares. liberada de suas constrições. mas é também produção desejante. ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária. porque as representações não interessam tanto quanto as forças. é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados. digamos que. como dizíamos. em Mendel. do real natural e do real maquínico – é a produção. dominá-los e utilizá-los no sentido de ganhar uma margem de poder possível. Então. Não a produtividade. de uma natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção. do desejo e da diferença. do real psíquico. A produção não é apenas produção mecânica social ou natural. Mais ou menos essas são as diferenças. Ao passo que. por exemplo. que abrange todas as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles supõem. enquanto em Deleuze e Guattari. e tenta esterilmente repetir um estado anterior –. e com essa característica de gerar sempre o diferente e em todas as atividades possíveis. vai-se gerar uma nova categoria de produção. o desejo é produtivo. Para Deleuze e Guattari. mas a produção como processo de geração constante do novo. Ou seja. tal conceito não consegue englobar todas as formas de produção possíveis. é o produzir. isoladas entre si. Baseando-nos nelas. que é a produção já deformada pelo capitalismo. A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. o que se tem de fazer é liberar. propiciar.

compõe-se de matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia. a do RegistroControle_e a do ConsumoConsumação. desejante-produtivo. o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídosórganizados: Estado. será respectivamente o Corpo da Terra. por sua vez. pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e levar à morte ou à demência. são capazes de desestruturar os estratos e territórios da Superfície de Registro. Em si mesmo o Corpo sem Órgãos é o grau zero de Intensidades. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo. bancos. as Intensidades circulam por ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas. Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante-revolucionários gerados por encontros ao acaso das intensidades. asiáticas ou capitalistas. Superfície de Registro = Númen. geradoras de tudo quanto é novo. empresas. O Corpo sem Órgãos torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que. dinheiro. mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário. organismos. do Déspota ou do Capital-Dinheiro. em condições desfavoráveis. ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. os códigos. os sujeitos. representações e estruturas edipianas). ou seja. sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. Igreja. integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas Máquinas Desejantes.três superfícies imanentes entre si: a da Produção. O nível de funcionamento da Superfície de Produção é submicroscópico ou molecular. O Corpo sem Órgãos assim povoado se transforma numa Nova Terra. A este nível cristalizam-se em territórios. quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção = Libido. Na Superfície de Registro. segundo se trate das formações primitivas. É o lugar das identidades e dos controles e da repressão generalizada. 87 ▲ . enquanto que. os indivíduos. Também a ele pertencem as pessoas. ou máquinas desejantes. Superfície de Consumo = Voluptas. A Superfície de Produção está.

a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo? 89 ▲ . apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria torna impossível defini-los em detalhe. um pólo paranóide (capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário). assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. Como se vê. 88 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 4) Qual ê a relação entre estas três tendências. Para tentar enriquecer um pouco essas definições. Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular.propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em novidades radicais. sugiro consultar o glossário deste livro.

É um assunto importante. permanece nas pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste tipo de serviço.Capítulo VI ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard. a mais conspícua. isto é. Em outras palavras. a mais habitual. é evidente que o campo de análise consiste apenas num espaço conceitual ou nocional. E pode ser muito vasto ou mais restrito. Então eu gostaria de. pelo menos. a mais corriqueira. será muito incompleta e esquemática – de algumas formas diferentes de intervenção. eu gostaria de fazer uma breve classificação – que. pois me parece que. Esse tema pode ser abstrato ou concreto. Antes de começar. metodológica e tecnicamente. é um tema do qual o institucionalista quer se ocupar. Mas 90 ▲ . Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de um campo de análise e um campo de intervenção. seguramente. mencionar algumas delas. é uma questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos. porque quando não fica claro. passado ou futuro. pode ser contemporâneo. no entanto.

que tem de fazer uma intervenção dentro de sua empresa mesma. tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas. mas não se pode intervir sem entender. um departamento de Análise lnstitucional numa universidade. isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente histórico-social. em termos empíricos. é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade. por exemplo. e resolver estudar o processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil. Partindo. convencionais. 91 ▲ . para poder saber como funciona essa organização concreta. porque se pode entender sem intervir. Mas pode-se delimitar um campo de análise que não compreenda unicamente o entendimento dessa fábrica. Ou seja. digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. pode-se escolher como campo concreto de intervenção uma fábrica. o campo de intervenção. O campo de análise pode não coincidir. dentro do panorama social. embora durante a intervenção iremos entendendo cada vez mais.é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica necessariamen te uma intervenção técnica. Agora. escolhida como campo de intervenção. com o campo de intervenção. é o exercício oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados. Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que integra. na condição de sociedade cientifica – uma sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos. um instituto de Análise Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma microempresa. por exemplo. envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar entendê-lo . do departamento de Recursos Humanos de uma empresa. por exemplo. que é interna à organização na qual se vai intervir. uma indústria. pois. como já foi dito. no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica. Uma modalidade de intervenção – aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard . habituais. É o famoso caso. dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção. fabril. Aliás. pressupõe um campo de análise. É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo.

é um acordo muito definido. Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização. que consiste numa variação dessa última possibilidade. dentro de seu papel de morador. Por exemplo. e o faz sob um rótulo. com os adversários. mas que. por exemplo. mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. na condição de qualquer outra coisa que faça parte dos papéis formais existentes nessa organização. tem institucionalistas que são militantes formais. formas técnicas de operar. Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com esta anterior. trabalho esse que pode ser ou não pago. em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico". nem é solicitado corno tal. convive dessa forma e. contanto que seja considerado corno parte da vida militante.ou um departamento de acompan hamento institucional de urna universidade. vive dessa maneira. sem explicitar essa condição. tendo assimilado princípios teóricos. então. ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas. Em outras 92 ▲ à . e ele é procurado nesta condição. isto é. mas que não seja o de institucionalista. pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais. em um segmento. de um morador numa associação de bairro. qual ele pode pertencer organicamente ou não. nos seus quadros. é o caso de um sindicato ou de um partido político que. mas simplesmente é um "cristão". Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre. Então. Urna variação que parece a menos comprometida e. com os companheiros. opera corno institucionalista. Mas. em um espaço da vida e da atividade partidária. em todo caso. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista. esse sindicato ou esse partido político pede a seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor. sem dúvida. é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo na convivência cotidiana. em urna frente. nem se infiltra sob outra condição não formal. É o caso. pratica o Institucionalismo com sua mulher. com os filhos. que acabamos de expor. é um próximo que. em que ninguém sabe que seja institucionalista. limitado.

palavras: é a quele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis, o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode levá-los a adotar uma atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso; não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 93 ▲

complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... " O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, devese ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de operar, corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos diziam: calcanharplanta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê-lo ... O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 94 ▲

atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é . "naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo. Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 95 ▲

profissões. tem com sua tarefa. E o que acontece é que cada especialidade. Então. mas não nos usuários. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição profissional estão estruturados para isso. numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. vêm correndo. fica mais fácil lembrar que a realidade com que trabalhamos vem toda junta. São muitos. consciente ou não. cada profissão. mas não freqüentemente. sou profissional.. " Se a gente se lembra desta piada. Vivo disso. todo o meu poder social e todo o meu prestígio através disso que eu faço. pode ser uma desonestidade. Mas a realidade vem junta e nós não estamos juntos. A divisão em especialidades. só existe dentro da classe ou da equipe. o mais que conseguimos. na produção da demanda. Então. Eu sou especialista em saúde.. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se demonstrado eficazes. ter presente. às vezes. acha que os problemas da realidade são problemas de seu campo. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são totalmente produzidas. Então não tenho culpa de nada. um ao lado do outro. Se alguém me consulta por um problema de saúde.. Além disso. do profissional.. para que seja mais lembrada pelos leitores. os índios estão vindo. Mas há uma que temos de revelar. em princípio. Um oficial pede a um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. devem ser amigos. e muitas vezes é. convencido de que o problema é nosso: de cada um. em território índio. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócioeconômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora. olha e diz: "Sim. para encarar qualquer problema da realidade e estar. é estar próximos. certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 96 ▲ . um senhor ou uma organização vem consultar-nos sobre um problema de saúde. e eu gostaria de descrevê-la de maneira pitoresca. Há uma piada famosa que se passa num forte militar. ela começa pela análise da implicação existente na oferta. Isso não é maldade dos agentes. o vigia sobe. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro." O oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe. Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui porque excede nossos propósitos. É um forte americano. porque estão vindo todos juntos. do especialista. ou sefa.análise da implicação.

e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se conhecem muitos profissionais assim. realmente. estou a seu dispor. " Quantos profissionais. a primeira coisa que ocorre é que a gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda. O problema fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda. quantos cientistas vocês conhecem que. o que tenho de fazer é analisar.. concluem que esse problema não é para eles resolverem.. ninguém me procura. se o sujeito está demandando em primeira instância. dar de volta ao usuário o que ele solicita de mim. como foi que vendi isso. Esse problema tem de ser resolvido com seus amigos. após ouvirem cuidadosamente alguma demanda.. Essa análise tem aspectos conscientes e préconscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe. com cuidado. resolutiva etc. o problema é meu. é difícil de se ouvir. que coisas posso solucionar parcialmente e que coisas não devo solucionar. válida. Existem poucos. Às vezes há quem diga: "Sim. porque. Essa é a análise da implicação na produção da demanda. A primeira coisa a ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita. e então o atendo. é porque me ofereci. seus colaboradores ou sozinho.alçada." Estou tratando de ser simples." Mas tem aspectos inconscientes." Isso já é muito.. Procura-me porque algum lado do problema tem a ver com o que faço. na oferta. cruzada. o que foi que fizemos nós sem dar-nos conta. ou seja: que fiz eu. ampla. para que foi que "vendi". posso solucionar. pelo contrário. esquecendo-me de que. somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está demandando.. Mas se eu não me oferecer. sem me dar conta. pode ser uma oferta vasta. se ele me procura. se não vendo o que faço. devo encaminhar noutra direção ou devo devolver. profissional. ninguém" compra". mas seria conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área. Então. Se eu não me constituo num lugar científico. vamos ver como foi que convencemos este fulano a nos procurar. E se me procura. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura. para" capturar este peixe"? Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária. o que 97 ▲ . O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita-me dizer-lhe que esse problema não é privativo de nenhuma especialidade. Então: "Venha que esse problema é comigo . ou seja. seus companheiros. que coisas.

nem homogeneamente sinceras. Isso. mas para dar um exemplo simples: qual foi o cliente que. Costuma ser. Isto é: qual foi o setor da organização que assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes. Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases. de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. e o faz com elementos conscientes e inconscientes no usuário. ocial de O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento. porque as bases não são homogeneamente revolucionárias. não é nenhuma garantia. consulta porque ele é "dos nossos". ou porque "vem de fora". infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela direção ou pelos proprietários. sem dúvida. segmentos da organização. Consulta porque" é daqui". para os institucionalistas. porque nos pode dar toda uma antecipação dos motivos desta consulta.vivemos fazendo é lutar pela legitimação. definindo nossos serviços como eficientes. os desejos em pauta e. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é o melhor". Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “ A ideologia 98 ▲ . sobretudo. nem homogeneamente progressistas. chegou à conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis. isto é: quais foram os passos intennediá. consulta porque" é bara to". Tudo isso modula a demanda. ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere. os interesses em jogo. o grau de consenso. consulta porque "é caro". na mesma proporção neles e em nós. que ofertamos o serviço. E isto é muito importante. não é exatamente um colega. mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e a demanda. pela autorização e pelo reconhecimento s nosso serviço. isto é. O passo seguinte é a análise da gestão parcial.ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos. É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem solicita.

Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro para os leitores. as bases são. conflitiva. claro. Então. ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. consciente. Vem um setor. originais. singulares. Mas não coincide por quê? Por má-fé? Pode ser. viemos consultá-lo porque sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 99 ▲ . solidárias etc. sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. mas não único. O passo' seguinte é a análise do encargo. A compreensão da determinação dessa parcialidade é importante. é uma solicitação consciente que. Pode-se dar um exemplo clássico.. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e encargo. contraditória. nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional. Nessa terminologia. mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes. na medida em que a Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais. passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional forma parte da parafernália de serviços característicos do progresso. A diferença entre demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. Isso também tem de ser analisado. pois o fato de você considerar o parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa. que nunca coincide com o encargo. em geral. geralmente. mas o que elas querem obter é outra. Estamos falando de uma situação ideal em que. desconhecimento e recalque. É claro que as pessoas estão solicitando uma coisa. desigual. A demanda nunca coincide com o encargo. que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. demanda é a solicitação formal. deliberada. mas apenas uma delas. O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes. Então. a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom.dominante é a ideologia das classes dominantes. da tecnologia moderna em relações humanas." Então. Então. vem apenas um segmento (apenas uma parte faz a demanda). Isso. veja. a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e como foi que consultou. uma organização numerosa nunca virá toda para fazer uma solicitação. Por outro lado. que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos entre má-fé. em geral.

" Por quê? Porq ue já se sabe que existe uma tecnologia modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. como desmobilizar. Mas pode-se perceber. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza. Então não se lhe pede isso diretamente. veja se acaba com esta revolta. num plano manifesto. está surgindo um grave conflito por problemas de condições de trabalho. cloridrato de ioimbina ou viagra. localiza os líderes. você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica. porque é um corrupto ou porque é um reacionário. Agora. O urologista irá receitar. quem tem fama de institucionalista dificilmente será solicitado abertamente para isso. Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má-fé. inconsciente. de uma intervenção profilática. me aconselha como desmontar este movimento. perfeitamente. Pode ser fruto do desconhecimento. Então. pelo menos é democrata ou humanista. tratase de algum conflito com a "mamãe". quando. e procurar um urologista. vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se opera. de quem vem consultar alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o encargo recalcado. Mas pode ser. O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado (?) para a consulta. então. o entendimento. por exemplo. Não é comum isso? Tratase. e se isso não funcionar. que se diz uma coisa e se está pedindo outra. por problemas de autoritarismo na liderança.. é: "Olhe. a negociação etc. O encargo pode ter a ver. com algo que acontece quando. há uma demanda. Há especialistas em fazer essas coisas. como paralisar isto. que não sabe uma palavra sobre isso. simplificando humoristicamente. por problemas de nível de salário. como fragmentar. ou como aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário. O encargo. Ora. 100 ▲ . entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. a comunicação. ou seja. ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos.." Isso pode ser feito com plena consciência e com má-fé. todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. finalmente. melhoradora. da direção. pois. no entanto. um problema recalcado. na organização. progressista. de um problema de ignorância. porque já se tem uma vaga idéia de que se ele não é revolucionário. acontece que o encargo pode não ter nada a ver com isso.dos operários.

Mas. porque os quadros de base podem fazer essa solicitação. então temos de caracterizar os analisadores "naturais". ou de uma essência "vadia". com freqüência. heróicas. Mas também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia cumprir. ou um estudo que não tem vontade de 'encarar. Vocês se lembram do que é analisador . que é o que surge como resultante de toda uma 101 ▲ ." Já tenho recebido demandas dramáticas. pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser fruto de má-fé. mas tem-se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a gente não trabalhe. por exemplo. o cartão de ponto quer dizer muita coisa. Os determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente complexos. incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de emergente. e também análise da demanda parcial. e que sempre há dominação etc. Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de uma unidade. no tocante à diferença entre a demanda e o encargo. é bom que tais manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. porque não querem trabalhar. ou uma autocrítica que não consegue suportar. Na realidade.Agora cabe aclara r uma coisa importante. e a maioria delas não é boa. numa sociedade onde o trabalho é alienado. descartado o fato de que todo trabalho é alienado. estes grandes "protestos revolucionários". Já sabemos o que é encargo. não se quer trabalhar. Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. Então solicitase alguma reivindicação. É claro. não se podem separar esses dois pontos. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. anteriormente. pelo fato de ter sido colocado o cartão de ponto. falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um serviço.natural: é um fenômeno (dito em termos clássicos. de desconhecimento ou de recalque. de desconhecimento ou de recalque. em termos de má-fé. Mas se os quadros são de base. Mas vocês devem ter ouvido. em todo caso. não se pode entender um sem o outro –. que sempre existe uma extração de mais valia. porque não se quer estudar. Quando se simplificou isso. Sem dúvida este desagrado pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim".

Só que é bom fazer este novo acordo. Porque só ouvimos uma. Então. e também porque um contrato de diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser diagnosticados.série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. poderia ser uma greve. suponhamos um analisador chamado natural (criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto. legitimado e. se entre outras coisas o institucionalista vive disso. Com esse contrato. Depois do contrato de diagnóstico. e nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso. tenta-se analisar. é um convênio feito para poder construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. e não por todo o coletivo. se vai lá. a esta altura. a morte de um operário. Senão. Então. pequeno ou médio. não existem analisadores naturais propriamente ditos. pelo fato de que. por um segmento qualquer. isto é. o aumento das doenças de trabalho. o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí. entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. assegura-se o respeito geral necessário. pelo menos enquanto acontecimento geológico. temos de caracterizá-los. Então. que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. Por isso. uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. Este contrato já implica a construção de dispositivos para ouvir todas as partes. 102 ▲ . Mas então. é interessante receber os honorários. porque não foram fabricados por um interventor institucional. porque ele implica que o diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado. quais foram as resistências que se levantaram nos outros setores que se foi ouvir. o institucionalista foi solicitado por um setor. no caso de existirem honorários. Então. temos de fazer. poderemos chegar ao que se chama diagnóstico provisório. Qual seria um analisador desse tipo? Grande. aquela que fez a demanda parcial. E quando tivermos feito tudo isso. O contrato de diagnóstico é um acerto. em primeira instância. já devem ser pagos. no entanto não é valorizada pelos usuários. Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam chamar de "presuntivo". fundamentalmente. cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. um contrato de diagnóstico. delimitar quais são. Um primeiro entendimento sobre o que está acontecendo lá na organização. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. E são "naturais". as defesas. Senão.

é "artificial" – já fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. mas não é sequer o diagnóstico provisório. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural". não é demasiadamente indutivo. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. Mas não foi concluído ainda o diagnóstico provisório. Então vai-se criar analisadores construídos. ou dispositivos para poder recolher todos os dados do didgnóstico provisório. Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório. Depois que se fez a investigação passiva. uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. mais crítico. um agenciamento ativador. teremos que pensar em outras alternativas. Eles não são tão indutivos assim. mais comprometido. Por enquanto. Mas será que quando crio instrumentos de investigação. e importante. é uma reunião de cineclube. Se não aceitam. nada impositivo. Vamos dar um exemplo fácil. Por outro lado. mas não se criou condições para cutucar o nãodito que queremos investigar. a partir desse diagnóstico provisório. Os usuários podem aceitar ou não. Também se pode propor outra coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em um espaço diferente do habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitirnos observar o que acontece nessa convivência. não estou deixando de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim e não. Uma vez aceito. É muito recomendável e não é nada autoritário. reúne-se a equipe interventora e parte-se para analisar toda a colheita. Ainda é um presuntivo já mais elaborado. resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e que vai dar-nos o material mais profundo. Mas talvez isso se possa entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o mesmo. só se ouviu os setores distintamente. fazendo-se a análise da demanda e do encargo 103 ▲ . uma estratégia. mas está propondo um dispositivo agitador. Ouviu-se passivamente.O passo seguinte consiste em. poder planejar uma política. porque é indireto. de indagação. porque o interventor não está baixando regras. porque se trata simplesmente de propor. desloca a problemática da situação espontaneamente referida. pode dar certo ou não.

Por exemplo. porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe fez uma boa intervenção aqui. Esse contrato definitivo. sempre que a tática. vai conseguir outras intervenções noutros lados. uma festa. no coletivo interventor. os procedimentos: psicodrama. exaustivamente. os espaços onde se vai dar essa "guerra".definitivo. técnicas expressivas. a análise da implicação significa pesquisar. 104 ▲ . a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. somos igualmente ativados. os movimentos fundamentais para conseguir os propósitos políticos. a ordem dos mesmos. a importância dos mesmos e as técnicas. quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou recalcados que foram ativados. despertou em nós. uma guerra simulada. temos adquirido solidariedade ou cumplicidade inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em condições de manifestar-se muito mais livremente. que envolve maior compromisso e requer mais retribuição. É possível não se dar conta de que essa ambição acordou-se nos interventores. técnicas definitivas. mas pensada anteriormente. um quebra-cabeça coletivo. um cineclube. que não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. Por que é importante? Porque o passo seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. quando se mantém uma convivência prolongada. qualquer técnica. Então. Nova política. muito mais ricamente. também somo's mobilizados. exige ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras intervenções. novas estratégias. depois de todo esse novo exame. temos de voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou. táticas. despertou na equipe interventora. será necessário precisar quais são as estratégias. analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e novo contrato. Então. Nova análise da implicação. toda técnica é boa. será necessário desenhar as táticas. Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser dada ao processo. temos uma vivência de contato diferente.

o que será muito ilustrativo do significado que a intervenção tem para cada segmento. no momento em que saímos da organização. que poderemos ou não comunicar ao coletivo. que poderes quer nos dar e porque. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise coletiva permanente. ficará uma disposição e uma 105 ▲ . Os temas a investigar são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos ver os livros contábeis da organização? É claro que. por que quer pagar." Não é esta a idéia. em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto. que tempo pensa destinar ao trabalho. depois de analisar a proposta. que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a implicação que se vai gerando na equipe durante o processo. todos os conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: "Eu quero um contrato por tanto tempo. eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças. atravessamento. transversalidade. tal como foi planejada.Depois temos a autogestão do contrato de intervenção. antiprodução. Consideração dos índices de transferência. para chegar a um acordo consciente. e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho." Primeiro quero saber o que o coletivo propõe nesse sentido. Se não for assim. ou seja. Depois vem a execução da intervenção. resistência. e porque. mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo proponha se quer pagar quanto quer pagar. o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la. Isso é completamente diferente das prestações de serviço profissionais habituais. Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico. não atendo. Logo vêm as avaliações periódicas. isto é. vamos fazer uma proposta de contrato definitivo. produção. o tratamento vai durar tanto tempo.

condensar tantos outros etc. políticos e econômicos continuam sendo importantíssimos. que introduzimos como hetero. 106 ▲ PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional? 3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. profunda e exaustivamente. e o trabalho continua. em todo caso. finalmente. Em todo caso. o processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos. é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generispara cada situação. 4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 107 ▲ .instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo. E. Mas. já por nossa conta. de intervenções periódicas de atualização. mas a implicação e os problemas éticos. como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer com ele. temos de discutir. que não sejam recomendáveis. sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é propriedade do coletivo considerado. A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações. tanto que se pode dizer que a regra são as exceções. de forma permanente. Nossa decisão deverá ser submetida a ele. Nós saímos. Podemos fazer um acordo de acompanhamento. é um esquema para se considerar e omitir os passos que não sejam possíveis. se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio. como vamos elaborar todo o material.

Capítulo VII o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE f) O Institucionalismo e suas vicissitudes Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista. organizações. que tenta conceituar de diferentes maneiras. assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam. uma vocação crítica. assim como aos recursos que empregam para obtê-las. Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral. e não sem ressalvas. estabelecimentos e equipamentos. não só porque este propósito excede em muito os limites deste livro. ou simplesmente Institucionalismo. Podemos eleger uma. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação. Em outras palavras: ocupam-se das instituições. Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas. a um conjunto aberto e internamente diversificado de correntes que mostram certos valores em comum. Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos sociais no que se refere às lógicas que os regem. ou Instituinte. mas também porque supomos que este universo seja não totalizável. bem como marcadas diferenças. ou Antiinstitucionalista. insistindo que não 108 ▲ . às formas concretas em que essas se "materializam".

Arbitrária e muito simplificadamente. seguindo por outras crescentemente reformistas. Por um lado.será necessariamente compartilhada. Pelo contrário. estóicos. adere com muito mais entusiasmo ao espírito dos materialistas pré-socráticos. à sua maneira. Campanella. assim como aos sofistas. Bergson. proporíamos as grandes balizas da Revolução Francesa. até talvez caiba dizer. Essa vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos "institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições relativamente conservadoras. da República durante a Guerra Civil Espanhola. o Institucionalismo tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou experimentado. Hume. Muito sumariamente mencionada. sobretudo. em seus aspectos conservadores ou reformistas. O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial transformador. o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos importantes pioneiros deste tipo. os Escolásticos. Aristóteles. Bakunin e outros. Kierkegaard e Sartre. não pode deixar de se inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates. Quanto à gênese conceitual. 109 ▲ . Fourier e. Platão. principalmente. extremistas. Espinosa. Kant. clandestinas. a gênese social desse Movimento pode relacionar-se. Argélia e. Hegel e Heidegger. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua função ou funcionalidade de seu funcionamento. por Marx. até chegar a concepções e ações alternativas. com uma longa série de tentativas históricas de regular racionalmente a existência das coletividades. Descartes. Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus. A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem comum". em suas versões mais drásticas. Algo similar ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas contrastantes. epicuros. a serviço. megáricos. Por outro. revolucionárias e. Rabelais. desde a tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia. da produção de novas formas libertárias da vida. marginais. na medida em que estas não são homogêneas. Nietzsche.

Essa difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala. Encontramos. influências predominantes de várias correntes. Desde logo. a gama abarca desde as escolas que. todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas. Cada um desses setores do conhecimento. a saber: o da Educação. Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia). Semiótica e Antropologia –. por exemplo: Comportamentalismo. e assim por diante. é sabido que as origens do Movimento podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis. não é homogêneo. às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e das populações em geral. quer dizer. As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia. partidários. entre os quais encontramos. os problemas da Urbanização e Demografia. dos Sistemas. obviamente. eclesiásticos e até militares). ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes institucionalistas. dos Jogos etc. com a definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 110 ▲ - . financeiros. Psicologia. Simultânea ou consecutivamente. liberais. História. assim. esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e estabelecimentos (comerciais. o da Saúde Pública (especialmente a mental) e o d a Indústria. marxistas e anarquistas. como também de disciplinas como a Pedagogia e a Medicina. Funcionalismo. Sem contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas reconhecidas. aspiram a títulos de cientificidade (de acordo. e nem sua herança institucionalista o é. ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a Teoria da Comunicação. Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis.Se é permitido falar-se de uma gênese operacional. sindicais. Economia. está claro. Poder-se-ia acrescentar toda aquela atividade vinculada aos Serviços Sociais. Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por diante. como mínimo.

afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma nova concepção da convivência cotidiana. essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de Babel.). o que esperar acerca do arsenal técnico. avaliação de eficácia. Em síntese: esta "evolução". Como veremos mais adiante. Se o instrumental teórico. Conseqüentemente.. com relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém. Estratégia e Tática do Movimento. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética Social" são 111 ▲ . consistência. ou o que quer que se queira chamá-lo. workshops etc. dramáticos. método e objeto de estudo são tão proteiformes e problemáticos. e suas óbvias conseqüências econômico-políticas (operações de oferta. demanda e contratação de serviços. análise de conteúdo. legalidade. carreiras. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a autorização das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas. mais neutramente dizendo. questões de neutralidadeabstinência ou imparcialidade-indução). sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais.). publicações etc.). Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na escala de correntes. verificação etc. conceitual e operativa. precisão. "progressão" ou. no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção teórica (coerência. títulos. o qual se desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude. coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu estatuto ético. passando pelos procedimentos informativos. Com a profissionalidade o que está e m jogo é a legitimidade.. do Institucionalismo. o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de uma Ética. este "percurso" de sua gênese social. jurídico-político. Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a cientificidade e a profissionalidade. gnosiológico e profissional. entrevistas livres ou dirigidas. convalidação. assembléias. possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção.

impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto-análise. Pelo contrário. Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi se pronunciando: a) Quanto à especificidade. as formas mais marginais. b) Quanto à profissionalidade.tecnológicas com os sistemas e setores dominantes. isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo entre seus usuários. encargo. Treinamento em Recursos Humanos etc. nacional e até planetária. a faixa mais subversiva do Movimento. Contudo.). Weber. alternativas ou revolucionárias do Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização da análise e da intervenção em grandes situações em escala regional. tais como: implicação. que atendem à autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista. mercantilistas e adaptativas. por parte dos coletivos. No extremo. e 112 ▲ . frio-quente. analisador. demanda. das potencialidades acima apontadas. cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da alienação-dependência do saber-poder dos coletivos de usuários. afastase cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações de serviços. centro-periferia etc. Durante esse trajeto. (ver glossário). Os setores tradicionais do Movimento. conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que de direito) à tecnologia da human engineering(Psico-Sociologia das Relações Humanas. sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e intervenções científico. efeitos: Mulhman. as expectativas de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente satisfeitas. de acordo com os países onde se desenvolvem. da autogestão e da autodeterminação das comunidades.vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras". Lukács. e coerentemente. as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teóricotécnicos valiosos sob todos os prismas.

ou totalmente apáticos e dispersos. Mais corretamente. e mais ainda o "maximalista". A rigor. 113▲ . por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e lutas. uma maneira vasta e diversificada como "o inimigo principal" (a expressão é nossa).muito menos as de propagação da utopia transformadora a vas tas unidades sociais. Na segunda parte do citado texto. soma do instituído. colaborador. que não simpatiza com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou vanguardas elitistas). Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o mais duro desafio. os capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". Isso tudo acontecendo em um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. ou persuadidos ao participacionismo. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente" (Ed. Resume-se aí o drama Institucionalismo: definindo o Estado. o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos. pontuais ou amplos. o agente institucionalista com inquietações militantes encontra dilemas excruciantes. Como veremos mais adiante. Diante dessa perspectiva. Parece que o Institucionalismo avançado. o autor tenta sistematizar os obstáculos. não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos. aliado ou simpatizante lhe são insuficientes. ameaçam submergi-lo em uma certa paralisia. que se em um sentido podem constituir fatores de propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos. a idéia consiste em encontrar canais de conexão. formais ou não. de mudança libertária. Barcelona. radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. Kairos. Se por um lado os procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos pela peculiaridade de seus ideais. para contribuir com as mesmas para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar-se. tais como as de integrante. 1980). em outro. nem sempre realistas. não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo avançado pretende. com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento.

a maioria dos grandes experimentos "revolucionários" massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados. mediante a auto-análise da implicação despertada pelo encontro com a singularidade do 114 ▲ . abrem-se para o institucionalista outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". segundo nossa experiência na América Latina. espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades etárias. sexuais. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes. que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas. senão no tangente à nossa experiência particular. contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações mais adaptacionistas ou reformistas. Em cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais". Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinações estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. sendo pouco provável que solicite a colaboração de um institucionalista. mesmo supondo que conheça sua proposta. a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e corporativa dos agentes.possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os campos de sua provável atuação. senão à autogestão generalizada "a quente". Contudo. raciais. As duas dificuldades. não por acreditarmos que não tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos. Por outra parte. algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos. Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e média envergaduras. proliferam cada vez mais movimentos. religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas. Também devido à pouca divulgação do Movimento. Trata-se. de modo que os pequenos grupos e organizações não sabem de sua existência. O primeiro refere-se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão. o Institucionalismo se vê forçado a recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação acadêmica de especialistas e profissionais.

inconsciente e "contínuo") em cada formação social. persuadiram as populações com benefícios concretos ou imaginários. o Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas. Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. sobre algumas das quais voltaremos ulteriormente. "Praxiologia". Essa falência também foi indicada por Lourau e outros. o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as comunidades. Ao mesmo tempo. Fazem-se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e estratégias do Estado (entendido como ubíquo. por um lado. as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções reais de sobrevivência. enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e acumulação de informações (chame-se. Como conseqüência. os Estados gerentes pseudo-exitosos. ao elevado nível de padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um ostensivo fracasso. por outro lado. insuficientes. não são propensas às propostas institucionalistas. parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de controle social. Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista". No entanto. modernos e eficientes administradores de enormes riquezas. queremos apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias européias). estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos. Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de resistência passiva). levando-as a uma atitude de "conservadorismo crispado" (segundo F. profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 115 ▲ . como sugerem alguns). por exemplo. o brutal contraste entre o discurso. As massas extremamente depauperadas.coletivo intervindo. de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e o cultivo do mercado interno).

Ela afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas. mais ou menos acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento. Deu-se para elas respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do Institucionalismo: empresarização. expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à totalização. reformistas. revolucionárias e até "terroristas") da corrente. Consagrados e repudiados. acrescentam-se certos agravantes que iremos apenas esboçar aqui. uma rica e profunda autocrítica. Esta superfície mostra algumas brechas para o Institucionalismo. a ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais. causado basicamente pelo poderio. da crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras. infiltracionismo. entrismo. Em geral. calouro ou experiente. sofre sérias pressões resultantes da crítica endógena. sempre pronta a desencadear-se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e táticas infinitamente sutis e cautelosas. para certo trabalho "no Estado" e "com a sociedade civil". Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente. novas para o Movimento. contudo. se tal coisa existe. marginalismo. Freqüentemente o institucionalista. a reformulação das características do agente e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva – como a cooptativa. de maneira alguma.providencialismo estatal. ressingularização das práticas são alguns dos termos usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. clandestinismo. Essas questões não são. distorção da demanda. o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do Movimento. Nesses empreendimentos. em pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática". das quais as tendências institucionalistas se 116 ▲ . a dar-se soluções próprias. começam. maquiavelismo. ou seja. Não é nada estranho que assim seja. penosamente. alternativas. em outras palavras: não há nada de inesperado no fato de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido. esses modi operandi.

seguindo com a metáfora. Essa crítica disseca. Se se admite que o Institucionalismo é. Nesta reelaboração. as figuras do profissional e do técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e. as dos "que ensinam a fazer isso". teriam uma singularidade tal que careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. quanto elas mesmas. a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda não foram escritos. autodeliberar e autodecidir a forma sui generis. a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e mutação). a proposta é que cada coletivo construa as condições para se autoconhecer. especialmente se o fazem para formar " experts em fazer isso". A problemática que esboçamos tem. no possível. uma modalidade de viver coletivamente. tecidos. em última instância. Mas se não se admite um "especialista em autogestão". talvez não seja necessário escrevêlos senão como curiosidades museológicas. metaforicamente falando. incluindo entre elas boa porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. na medida em que tais registros só seriam reconstrutivos de experiências consumadas. fazendo. A redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 117 ▲ . independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. cada uma das células. adquire sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina". vísceras. Este processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas das quais padece. junto com elas. sistemas. Tanto é assim que capítulos fundamentais. triunfantes ou falidas. Cabe aqui acrescentar a ressalva de que. única e irrepetível.originaram. a da sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". Dito de outra maneira. Essas. organismos e funções que as integram. como uma de suas áreas mais sensíveis. tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados) ou. uma clara discriminação entre especificidade e especificismo. Mas esse trabalho é feito habitualmente em abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. segundo certo conjunturalismo ou improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas. que deseje dar-se para existir. deve-se necessariamente conceber (pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para formar diversos especialistas.

Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e v ocacional do trabalho. Psico-Sociologia. que configura estas comunidades como tais. Que a organização e procedimentos adotados sejam "não-diretivos". Completando a idéia: impõe a não. O ponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado. "permanentes". Ciências Políticas etc. Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 118 ▲ . É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam. mas pressupõe a firme disposição dos agentes formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se insiram. Aludimos. "co-gestivos". ao que há algumas décadas se denominava "acumulação social do saber". e dão modestos frutos. quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo. assim como tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas diversas qualidades que acima confessamos não havermos conseguido classificar. A nota em comum.reprodução do equipamento e do modelo pedagógico que o gerou. tais como Sociologia. quando é claramente assumido. em cada um de seus dispositivos.condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos dos quais "menos se poderia esperar". exige ou não a autodissolução do agenciamento pedagógico. Esse objetivo. Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito ideológico. a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em outros coletivos atuantes. não é tão importante quanto parece. pedagógico e político) ou integralmente autogestiva. mais claro ainda. é claro. enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma discreta transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande Política. é a de associar-se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e.

e só até certo ponto. com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. perplexo. No segundo. assim como professores universitários. Um primeiro caminho é o regressivo. e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro. administradores. Por isso. três deformações tocaiam o agente institucionalista. assim como sua organização mesma. Os profissionais mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa. o institucionalista deve ainda enfrentar a crítica interna. em sua assunção. burocráticas e corporativas do Movimento. O agente retrocede às modalidades mercantis. Entre elas destacam-se o empresarismo. Frente a esse difícil panorama."deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso isolado. Tensionado entre a necessidade de sobrevivência. os ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. será a assimetria educacional entre professores e aprendizes. a de "autorização" e o desejo produtivo. Sem que pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias. como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma. Enfim: como dissemos. adaptacionistas. o funcionalato e o academicismo. No primeiro caso. ambos deverão dissolver-se em uníssono. comunicólogos e psicanalistas. sejam as reformistas e eleitoreiras. não é nada infreqüente encontrá-lo decepcionado. e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. de um lado. "a frio". Só que essas adoções se realizam" em nome do Institucionalismo". nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê-lo. o que é mais comum. eles não são tão límpidos quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas institucionalistas contemporâneas. o máximo que se autodissolverá. culpado. urge se fazer constar que. onipotente ou. Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o agente se lança às formas clássicas da militância política. todo e qualquer "espírito" 119 ▲ . Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo.

sabendo das características dispersivas. estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um sentimentalismo raso). da "desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e eficácia).heterodissolvente (que hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas). circunscritas e moderadas do Movimento. e em referência a esse terceiro tipo de agente. muito nos importa esclarecer que não deve ser confundido com outro. inevitável. segundo a tradição gaúcha. que cremos conhecer muito bem e que é urgente desmascarar. Ao mesmo tempo. Não nos parece que esta composição seja das piores. O tero é uma ave da planície Argentina que. o "hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico. Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que. devido às limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. às vezes. as usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena). da "novidade radical" (que impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação-auto. é a que pedimos licença para denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". Como notas secundárias caracterológicas. erráteis e libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento. clandestinamente ou não. Uma terceira escolha. para assim protegê-las da voracidade das espécies predadoras. mas em real condição de implicados nos eventos e empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar-se.próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias. sectárias ou facciosas. tão engenhosa quanto discutível. mas sim que é uma saída desgastante. Como quer que seja. que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais ensinam. segundo versões híbridas. 120 ▲ . as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada). publicam ou intervêm. colaboram ou protagonizam. "grita em um lugar e põe os ovos em outro". do saber ex-nihilo(que proscreve o estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. Inteirados nominalmente de um punhado de noções da corrente. drogadito e parasitário) etc. Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns institucionalistas.

modalidades de divulgação. nem Ananké. intercambiados e elaborados coletivamente. ou melhor. nem Teros. implantação. acólitos ou franco. em resumo: ladrões de galinhas. autorização. a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" entidade de origem. Para tal. técnicas. originada da lumpenização das faixas médias urbana s universitárias.atiradores. Sua triste história consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado. qualquer iniciativa que os tirou do anonimato. com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. Nem Eros. mas que muitos deles precisam ser apenas comunicados. táticas. Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais. II) O Institucionalismo e seus valores Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas. cabe concluir. transmissão. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo Movimento. Será procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"? Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos parte desta problemática. líderes. amplos e fortes. Experientes institucionalistas exortam 121 ▲ . avaliação de resultados.Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada. dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade de nada". brandindo "palavras" instituintes. tais "revoltosos". estratégia. desenvolvimento. o Movimento deve dar-se dispositivos formais. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas com rigor e vigor. contratação. Política. logística. que restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. no mínimo. não só "não passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa qualificava de esquerdosos festivos. alianças. E isso não significa exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos. morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. Essa óbvia constatação não é proclamada aqui apenas por pruridos éticos. libidinais ou ideológicos incapazes de produção. consciência epistemológica ou autocomiseração sentimental.

Dá-nos a impressão. extremada no 122 ▲ . de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos. todo settingseria um aparato ou equipamento no qual se cristalizariam. apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca da onda de integração planetária de todos os processos sociais. em alguns casos admiráveis. trabalhistas ou jurídicos externos ao Movimento. para as correntes puristas. Por outra parte. do poder. do saber e fazer disciplinar que dessa maneira ritual se funda. compartilhadas pelas equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem cuidadosamente analisados. do lucro e do prestígio. Em outras palavras: da racionalidade. É óbvio que para os institucionalistas mais "profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos. justamente sobre os valores e recursos em nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos. instituir um ponto de partida contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". Entretanto. que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do mesmo. só se exige que suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários. e até há pouquíssimo tempo.seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido. Essa limitação. Já para alguns. se bem que esses requisitos sejam indispensáveis. assim como à subscrição de convenções normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do Movimento. as forças mais reativas do "especificismo" e "profissionalismo". Afirmam que se toda intervenção está encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos. contudo. que a crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou. não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do Movimento. Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de contrato e enquadre das prestações de serviços. e portanto repetitivo. como tecnologia falsamente "neutra". Constituir-se-ia assim um núcleo cego.

recordemos a verdade de Perogrullo. Pode acontecer que já pertença "naturalmente" ao coletivo em questão. com a autogestão como meio e como fim. e menos ainda porque seu trabalho não haveria 123▲ . E claro que ninguém ignora a distância que separa as aplicações da física à computação. não se vê porque um companheiro institucionalista iria ser convocado a participar.caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social. por exemplo. políticos. uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. Psicanálise Aplicada etc. ainda que não impossível. Sociologia das Organizações. No limite. caso este que parece não criar problema algum. ou seja. isso ocorre porque os coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir (inventar). Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento. Por uma parte. Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas disciplinas (além da própria). aquela liberdade que desejam. cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de analistas institucionais. tenhamos presente que em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir. como dizia Bakunin. da human engeneering. que não existe uma prescritiva para a invenção e que. de que a autogestão não se decreta nem se concede. se compreende os aspectos econômicos. porquanto seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados. Por outra parte. Se a mesma é integral. imaginá-lo solicitando os serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. nos introduzimos em uma contradição aguda e geral do Institucionalismo. o que tornaria difícil. "só a liberdade engendra a liberdade". existiria ainda nos convênios de serviços da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise. não se entende por que não apelar a ele em caso de necessidade ou ainda de "luxo". Por outro lado.). Via esta questão restrita do contrato e do enquadre. "culturais" e libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa).

demandas. é uma mistificação. produtor de seus detentores. Deve-se ter presente que o Movimento afirma. ficaram substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das determinações que as constringem. cujas necessidades. não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza científico-tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. que os centros oraculares de poder se vêem obrigados a lançar. Converte-se em algo assim como um princípio moral. sem dúvida. As comunidades. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as requisições do participacionismo. como em qualquer dos outros. Félix Guattari. quando não do colaboracionismo. a convicção de que os coletivos das sociedades modernas são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-sociallibidinal do trabalho. assim como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. Mas a certeza do Institucionalismo. hábitos de consumo e soluções são integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder. O vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos. que se administrará o que é de si mesmo. quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e fazer dos coletivos sobre seu destino. de seu efeito de auto-sedução. a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar. como um de seus mais essenciais fundamentos. A eficácia de tal consigna depende. O que está em jogo neste ponto.de ser pago. um solene compromisso de que será em si mesmo. A "A 124 ▲ . de tal ou qual grupo ou empresa. é uma questão políticoepistemológica de fundo no Institucionalismo. escreveu: autogestão como consigna pode servir para qualquer coisa. da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir-se à autogestão em si. independentemente do contexto. a casta privilegiada dos tecno burocratas. por si mesmo. De Lapassade a De Gaulle. e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado administrador-gerente – submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal.

(opostos à Generalidade. Diferença. assim como em muitas outras. Além do mais. México). os máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução). quer dizer. assume que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais. tomada como consigna política. O problema consiste em definir. Potência. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que. Guattari é um de seus mais ardentes defensores. não descarta o apoio de tecnologia alguma. a "Esquizoanálise". O conceito de autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias o Institucionalismo maneja. mas também. Nenhuma corrente. mesmo as mais drásticas do Movimento. Se 'impugna'. Negatividade... Siglo XXI. Não há uma 'filosofia geral' da autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação. De qualquer maneira. em cada nível de organização. Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo. a hierarquia. no sentido mais forte do vocábulo. corre o risco de criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente. e considerando a complexidade do desenvolvimento dessa concepção. do objeto institucional correspondente é um critério qu e deveria permitir esclarecer a questão.determinação.. Ser do Devir etc. o tipo de relação. e o tipo de poder a instituir. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se substitui massivamente as respostas diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real.. não é um fim em si mesmo. Afirmação da Singularidade. assim como a infinita diversidade de suas estratégias... ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. Invenção (oposto à Fabricação). A autogestão. Ed. pelo contrário. valores. Reatividade. Identidade-Repetição. " ("Psicanálise e Transversalidade". de formas que devem estimular-se. em cada situação. Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos. no imaginário. em definitivo. Ser como 125 ▲ .

Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama na "Esquizoanálise") do Capital. Objetivações das Idéias Puras ou Modelos. Se os repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e. pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho.) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento. não poucas vezes. dos Maus Encontros etc. Toda a História Universal (a das Formações Econômico-Sociais. Deleuze. fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis. para precisar invocá-las novamente neste contexto. da Lei. Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede. Simulacro. Talvez tenhamos deixado 126 ▲ . No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e "pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas características contraproducentes. pelo menos em tese. Guattari. da Família ou da Corporação. Nós os temos muito em conta. que têm a ver com o Instituinte e os Bons Encontros (opostos às Formações de Soberania.). tornando-a ostensiva. Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos-valores seria uma tarefa colossal e apaixonante. Máquina de Guerra. Desejo. Já a Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos.Permanência etc. as invenções dos movimentos produtivo-libertários. Civilizações. equipamentos e manobras capitalistas. Acontecimento. Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema reincorpora à torrente da reprodução e do consumo. organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir. do Estado. da Igreja. diametralmente contrários a eles. Dispositivo. como sinônimo do Instituído. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault. assim como ao tabuleiro do registro e da dominação. a não ser que se considere recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos... Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades (desterritorializados) do Ser e do Existir.

pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas. no qual não se pode apelar ao veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante. nem evidências. mas sim de permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim conduzida pode causar. insistiu em uma reivindicação da singularidade das práticas. como notável independência dos princípios que a guiam e que. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu. quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto. eventualmente. não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las. Por outra parte. Convém precisar com respeito a suas propostas teóricas e sua atuação política e técnica. ou mais dissolventes ainda. compreende-se que em um Movimento. empirismo. Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar sua atuação e observar seus resultados. para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa orientação. pois apesar da predileção do Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para técnicos e usuários. Basta compreender que as séries opositivas de valores que antes enumeramos. não são nem axiomas. pragmatismo ou "intuicionismo". sem misteriosas avaliações de seita. e mais ainda da Teoria baseada em p a rti p ris formalizados. existem casos em que isso é possível. Pelo contrário. os valores mencionados não são evidências. cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista. Como quer que seja. mas aqui nos interessa destacar estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. os conflitos 127 ▲ . que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da Autogestão". a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo.a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até personalizar. Naturalmente. em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis. Desde logo. desde diversos ângulos. tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" desses desvios.

2) Os poderes oficiais. Por outro lado. Como já expressamos mais acima. fortes e onipresentes. Frente a um panorama tão desfavorável. sobrevivência e crescimento. ocupa similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais. o que torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às transformações de fundo e a longo prazo. no possível. digamos. logo. injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. Não obstante. que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. Procede enfatizar que o Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas econômico-político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas). Tudo é "Análise Institucional". processuais e conjunturais. não facilita as resoluções e execuções táticas imediatas. acadêmicos. Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobreexigem o tempo e os esforços destinados à implantação. "nada o é". o Institucionalismo exige que suas decisões de condução sejam. resulta notório que esse principismo sui generis. que se nega a separar meios de fins. mas quem impera atual e universalmente (embora não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. 128 ▲ . mas também à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. Tudo isso se torna particularmente delicado. inúmeros aliados nos coletivos subjugados e explorados. o Institucionalismo tem. É no campo dessas dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos.e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis. Entre essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de patente". corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam campanhas repressivas. inerentes a todo Movimento. algo assim como um artesanato militante cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes. diante de contendedores tão ágeis. hipoteticamente. vegetativo ou infra-estrutural das iniciativas.

tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem. isso se registra como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas". "autorização". "perversifica-se" a horizontalidade e "extravia-se " a transversalidade. O regime das alianças tende a uma regressão filiativa. para a luta pela obtenção. a serialidade. assim como das relações internas. não por ser "menos pior". Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a empresarização ou para uma morfologia política convencional que. Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja hora de descartar como obsoletos: o ativismo. em suas modalidades de protopaternalismo. "reconhecimento". 4) Em função de tudo isso. 5) Fica preparado. a "primazia" etc. "caritativo" ou "filantrópico" das prestações de serviços. exacerba-se . até um suposto contrário: o matiz "beneficente". se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente.3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2. então. "prestígio". pelo caminho do famoso "individualismo pequeno burguês". das estratégias e táticas externas. Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade. valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder". é a mais desejável: o centralismo democrático. "sabotador" etc. o "lucro". começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis. "solvência financeira" etc. O organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. à atomização do Movimento. a designação de recursos de todo tipo.. "legalização". de modo que estas se enrijecem estatutariamente . No plano da produção de subjetividades. o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico. no seio das organizações e dos sujeitosagentes institucionalistas. fraternidade do terror e. No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais lideranças "autocráticas" ou la íssez-fa íre os papéis e de "bode expiatório". 6) Em resumo: cedo ou tarde. o 129 ▲ . apropriação e "inflação" de "identidade". Ou mesmo. perversas ou psicóticas. finalmente. "legitimação".

D. J . quer dizer.voluntarismo. o utilitarismo. Bell. G. 7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução". L. o imediatismo. R. 9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência (como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os segundos infundem e orientam. em constatar a decadência da res publica de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la e Weber. Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma caricatura de suas virtudes. Rio. P. 8) Se se repassa o exposto. C. Lipovetsky. Rozitchner. teremos uma imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. Baudrillard. Durkheim ou Marx". os "desviantes ideológicos. A rigor. especialmente o referente à "compulsão à autodissolução". o oportunismo. Lasch. Virilio e outros). Seguimos acreditando que se trata de uma força reativa. publicações internas do Ibrapsi. Se os primeiros enfatizam a fragmentação pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial. ou a corrupção franca. trata-se de uma curiosa exacerbação do que a teoria postula como um requisito dos grupos revolucionários. Sennett. como diria Nietzsche. os últimos sublinham a subjetivação indiferente e abúlica das sociedades pós-industriais. digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do Movimento à 130 ▲ . no entanto. organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico. Coincidem. 10) Para fins de síntese e conclusão. Dumont) e pósmoderno (D. Riesman. Toda uma vasta produção biblio gráfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do individualismo moderno (L. 1988). a capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá sentido. a ter muito em conta nas vicissitudes do Movimento Institucionalista.

diversificada. um pensamento "sem fundamento". infiltrá-las. intersticial e não – totalizável. longe de orientar-se por critérios de Verdade. incrementando seu pólo progressivo. "não-fundamentalista"? Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua positividade. diluir-se. axiológica e epistemológica? Ontologicamente. estatuto ou prática. sejam estes revelados. segundo a vontade de potência produtiva. seria a afirmação de sua positividade. indemonstráveis. incluídas aí as específicas e profissionais. para cavalgá-las. indecidíveis. ou melho. especulativos ou experimentais. fazêlas proliferar. em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras diferenças". qual pode ser sua condição ontológica. rachar. parodizá-las. e a produzi-las segundo funcionem. "efeitos especiais". refluidificá-las. heterogênea. recortá-las por linhas clivagem bizarras.? Axiologicamente.Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da Utopia Ativa). dividi-las até o infinito. mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de pensar". discurso. etc. organização. dedica-se a genealogizar suas formas históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. Epistemologicamente. parece indiscutível q ue o Institucionalismo. quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu limite. um "modo de viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas ". Se se most ou indubitavelmente que tanto teórica quanto estratégica. para mimetizá-las. mais que tudo. "alternativizar". Por conseguinte. ao Institucionalismo não deve 131 ▲ . em todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se torne atualizável. e remetê -las a funcionar segundo se produzam. tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal. que ética pode reger esta atividade não enquadrável. Que outro recurso lhe compete além da construção de "verossímeis". queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de código. "simulações ". tentando exclusivamente propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como "desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade ".

sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um bárbaro. engenheiro de sistemas.interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios c ânones dos mesmos. avaliados e resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de dispositivos fortes. "devir" (que embora lúdica não deixa de ser revolucionariamente) sociólogo. tudo que "abra". Se isso está correto. profissional liberal ou funcionário. agenciá-la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá-la até gerar um acontecimento. Nada impede. assim como os purismos e desviacionismos internos ao Movimento que mais acima descrevíamos. são passíveis de ser analisados. 132 ▲ . economista. boa parte dos pruridos. amplos e numerosos. Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo. "possibilite" e "conecte". um artista ou uma criança. ao institucionalista. psicanalista. pois.

e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a paternidade ou a precisão dos conceitos. de propriedade intelectual dos mesmos. 3) De forma coerente com o exposto anteriormente. advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. assim como o volume do qual forma parte. os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade.GLOSSÁRIO Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo Advertências para a leitura deste Glossário Devido ao caráter introdutório deste livro. 2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos. fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente: 1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente. bem como da diferente acepção que tomam outros. 133 ▲ . ou seja. este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo. 4) E desnecessário dizer que este glossário. mas se responsabilizam por toda e qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. segundo a definição ampla dada do Movimento. deveriam estar nele incluídos. os autores. não pretende haver dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que. pois esse requisito excederia as aspirações e possibilidades deste livro. Embora este propósito não baste para explicar as limitações do texto. nós.

No lnstitucionalismo*. ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório. através da liberação do acaso-radical. este é considerado o modo de ser do devir dos processos. como reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem. os autores estão cientes de haver incluído e definido termos que não estão suficientemente esclarecidos. processos e resultados. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver. ACONTECIMENTO: ato. ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. geradores da transformação e da novidade nos sistemas. conseqüências de conexões insólitas que escapam das constrições do instituído*-organizado*. Esta última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los.. Freqüentemente se equipara este termo ao que é casual. estabelecido. essa noção foi empregada com freqüência. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem". contingente. que pretende ser panorâmica. apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados. Estes atos. mas faz parte da realidade. mas em geral indesejável. a" desordem" e o acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*. deflagrador da diferença. o organizado*. ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se. são o substrato de transformações de pequeno ou grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. 134 ▲ . da diferença e da singularidade. o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente possível.5) Em alguns casos. apesar de que freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". como por exemplo no da Esquizoanálise. Em um sentido estrito do instituído*. Nas chamadas Ciências Humanas. enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação do instituinte*-organizante*. É o momento de aparição do novo absoluto. O virtual não existe. O acontecimento atualiza as virtualidades. insólito etc. imprevisível e incontrolável. tornando-se mais apto para sua função. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). o estabelecido tentam a repetição do mesmo (ver Repetição*). o vocábulo adaptação costuma ser sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. cuja essência não coincide com as possibilidades. e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e sua potência produtiva. de modo geral. do novo absoluto. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las. são conservadores. o que empobreceria demais esta leitura. mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente. processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*.

a meta a alcançar e o processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. movimentos e práticas que supõem uma opção para seus simétricos oficiais. ou a uma classe social que. ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades. subversivas ou revolucionárias. No lnstitucionalismo a significação deste termo é próxima à da Sociologia: os homens. por ser a proprietária dos meios de produção. Entendido como produção de subjetivação*. designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos essenciais. do possível e do impossível. geradores da diferença absoluta. mas em ge~al as toleram ou as ignoram. Excepcionalmente. o agente pode ser peça especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. como disse Feuerbach.). organizações. se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. territórios. dissidentes e marginais. interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. reconhecidos e consagrados. ALTERNATIVA: designa-se assim as idéias. Os dispositivos. Em um dispositivo.). científicos etc. produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o horizonte considerado do real. AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* – organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. e não como causa dos mesmos. qualquer montagem que torne manifesto o jogo de forças. De todas as maneiras. pode-se valer de qualquer recurso (procedimentos artísticos. As forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas. Em geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. o agente. Para tal fim.AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera acontecimentos* e devires. atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses). instituídos* etc. políticos. as recuperam. dramáticos. ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades. intensidades) heterogêneos que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos. ou em um "fora de si". ALIENAÇÃO: no sentido filosófico. pessoas. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição de opositoras. não chegam a ser consideradas clandestinas. funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos. os desejos. singularidades. no lnstitucionalismo. 135 ▲ . "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro. atualiza virtualidades e inventa o novo radical.

que faz parte integrante do processo de análise da organização. social. Por outra parte. a divulgação (científica ou não). Análise de implicação é a compreensão da interação. técnico. que por sua vez não sabe que não tem e não entende o que é porque é complexo. a proposta direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. particularmente a de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. nem inconsciente. Não começa no "cliente" e é. mas de uma materialidade múltipla e variada. como resultado de seu contato com a organização analisada. 136 ▲ . que forma parte da implicação dos interventores. A publicidade. deliberados. simultânea. manifestos. da interpenetração dessas duas organizações. uma interinfluência recíproca. produzido" espontaneamente" pela própria vida histórico-social-libidinal e natural. só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico. em sua equipe. enfatizando a parte que cabe à intervinda. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica dessa organização. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes. como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. um processo político. a análise da oferta. não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo. ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda.ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato. etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática da organização solicitante. isso sim. ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica. ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma organização. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa. sutil. A análise da demanda* deve estar necessariamente articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja. Ela pode até ser prévia a qualquer contato. econômico. É um termo que tem certa semelhança com o conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz no analista). É ao mesmo tempo.

demanda-encargo*. diversos pedagogos procuraram reformar. As posições esquizoparanóides e depressivas. sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação. modos de intervenção e objetivos últimos. idealização. O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te*instituído". nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais dos agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). A Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância. Como dispositivo* de intervenção. efeitos" Mulhman. ou seja. a Análise lnstitucional superou amplamente esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias. Guattari. O conceito de ansiedade deve ser entendido. objetivos. Pichon Rivière. Assim se fala de ansiedades paranóides. Bleger e outros). inclina-se pela Assembléia Geral Permanente.inadas ansiedades. de diversas formas. confusionais etc. que são as configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos. na qual os não-ditos* institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras. 137 ▲ . a tese de que as organizações são" sistemas de defesa contra a ansiedade". institucionalização. ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau. Lourau. negação etc. tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. A Análise lnstitucional insistiu particularmente na análise da implicação*. projeção. subscrevem. Métodos como os de Montessori. Impossível resumir aqui suas contribuições. a Psicoterapia e a Pedagogia lnstitucionais. e propõe para eles o perfil de um intelectual implicado. liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. particularmente para sua descrição do "mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. Contudo.. como similar ao cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica. fantasias) no curso do desenvolvimento. a Dinâmica de Grupos. regulamentos) como suportes. mas tendendo sempre a que se expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. são acompanhadas de vivências características denom. à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto especulativo). organograma. analisadores históricos e construídos".ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. Lukács etc. apesar de a denominação ter sido criada por F. Lapassade e R. bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso). uma das mais coerentes e empenhadas. reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia. defesas. ANSIEDADES: correntes institucionalistas. Esta corrente institucionalista. nessas teorias. assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. depressivas.

os exemplos anarquistas.Pestalozzi. econômica e cultural da sociedade moderna. Goffman nos Estados Unidos. e depois generalizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber. psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –. Félix Guattari e R. o Capital etc. pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino. assim como a Pedagogia Institucional de F Oury. é possível que seja a proposta de G. Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente. Seus máximos representantes – Thomas Szasz e I. Tais tentativas replicam. este Movimento. o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados Unidos. Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia menos autoritária. A maioria desses autores. dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico. marxistas e liberais de democratizaçiío (ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. A. de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia. na França. são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que não conseguem capturar. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade. Generalizando. As potências singulares. levando-as à repetição estéril ou autodestruição. Cooper na Inglaterra. Lapassade e R. e outros. Entretanto. em 1978. ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais. substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co-Gestão*). serviços ou valores alienados (mercadorias) e incorporá-las à sua lógica. F. que o sistema dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens. surgiram as experiências de Makarenko na União Soviética. M.) e suas forças são voltadas contra si mesmas. Castel na França. ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e Europa. ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado*estabelecido. impulsionou uma profunda revolução nesse campo. Michel Foucault. Basaglia na Itália e E. ao nível da aprendizagem. cuja função prevalente é a reprodução do sistema. na qual os alunos assumem integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem. foram mentores ou participantes do Movimento Institucionalista *. são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado. mais ou me nos radical. como contra-instituição. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política. Ronald Laing e D. Labat. atua em 138 ▲ . Vasquez. que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro.

CapitaL Raça ete. ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade" que se deu. a articulação de 139 ▲ . o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão pora gerenciar sua vida. dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência.). peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. pela outra. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. organizações* e movimentos instituintes* (em outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais. apresentando-as como necessárias e benéficas. As comunidades instituem-se. Essas diferenças podem implicar hierarquias. AUTOGESTÃO: é. AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos. CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona. deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. decisão e execução. de um saber acerca de si mesmos. organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais. ao mesmo tempo. mas as mesmas não envolvem escalas de poder. problemas. A auto-análise possibilita aos coletivos o conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*. serve à exploração*. assim como alguma especialização nas operações de planejamento. desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários. demandas. por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*). dominação* e mistificação*. As hierarquias correspondem a diferenças de potência. suas necessidades. AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação. desejos. interpenetração e articulação de orientação conservadora. soluções e limites. Cada uma dessas entidades opera na outra. Todo processo instituinte*organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho. Tal consciência é precondição para seu bom funcionamento. para a outra. como também operam com critérios de Verdade e Eficiência. protagonista de um processo transformador. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*. desde a outra. Esse saber se acha em geral apagado. deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. Esse entrelaçamento. que não só estão em boa medida a serviço das entidades dominantes (Estado.conjunto. que são imanentes aos valores de tais entidades. Quando um conjunto instituinte cumpriu todos os seus objetivos. subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*.

Está em estreita dependência do campo de análise*. Quanto mais amplo o campo de análise. empresa etc. deverão operar neste âmbito específico para transformá-lo de acordo com as metas propostas. Tal participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho. dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores. Reciprocamente.suas determinações. em especial o Estado. pessoas.). as classes e grupos dominantes. sindicato. ocultos ou secretos. a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar contra eles. As idéias. CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão estratégias *. Quando o conseguem. CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. por mais aparentemente pequeno que este seja. as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva. inibindo ou destruindo as forças produtivas. interrompendo o curso do processo produtivo em um 140 ▲ . pensado. mais possibilidades existem de entendimento do campo de intervenção. a forma como são gerados seus efeitos etc. por sua vez. O campo de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e organizada) de um segmento social. dissidentes ou marginais. as incorporam à lógica acumulativa do Sistema. CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido. subversiva ou revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis. em especial as instituintes*. táticas * e técnicas * que. logísticas *. fundamentalmente transformando as linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. o grande Capital. classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força produ tiva. sendo que posteriormente se compreende à medida que se intervém. Só se intervém quando se compreende. desde o qual será compreendido. mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. procuram detectar. Quando o aparato de captura e recuperação falha. ameaçadores ou francamente perigosos para o instituídoorganizado. Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais teóricos muito heterogêneos. CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola.

de uma forma ou de outra. característica ou atividade compartilhada. elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma tarefa. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade. lhes confere uma certa coesão e solidariedade. gênero. Todas as forças. e esta de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos. COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. hierarquizada e articulada). portanto. organizações*. o único motor da mudança nos sujeitos. classe. de um estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e. estruturas. instâncias e mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva. sem mnunciar às categorias antes mencionadas. movimentos. médio ou grande) que está vinculado por algum traço. e não apenas mecânica. raça. sociedades* e civilizações. apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo). Esta peculiaridade pode ser de espécie. é fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada. J. 141 ▲ . assumida ou não pelos integrantes que. é essencial que as unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes. Para a Sociologia Clássica. idade. valores etc. ao mesmo tempo. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes corresponde pela classe suprajacente e despossuem. A classe institucional é o segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus integrantes com os menlbros de outros segmentos. subordinadas às forças instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização. diversifica da.ponto determinado. explorados e mistificados que prestam subserviência. à classe subjacente. para algumas tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e. lugar. CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo. por sua vez. Em geral refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno. categoria. Para o lnstitucionalismo. sexo. relações de subordinação em última instância. P. e da cristalização ou da resolução de sua dialética * depende o destino produtivo. tempo. reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*.

Aqui vale acrescentar a palavra "nepotismo". esquecendose dessa "queda". Essa formulação recolhe. as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que. para outras correntes. entre tantas outras origens teóricas. prestígio e 142 ▲ . perderam a semelhança e só conservaram a imagem. O sufixo cra cia significa governo de ou poder de: a risto (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade.) seria uma forma de seleção para cliferenciar as "boas" das "más" cópias.e te o (alude aos supostos representantes da clivindade ou à divindade mesma.Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. SEXOCRACIA. com a finalidade de explicitar seu interesse para o Institucionalismo. e com ela o acesso às Idéias Puras. sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras). tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de cunho científico). Para a interpretação institucionalista desse pensamento. -CRACIAS:ARISTOCRACIA. Para o Institucionalismo. buro (categoria ou classe que se ocupa da administração. CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo. uma proximidade. havendo tido. TEOCRACIA. espécies (etec. TECNOCRACIA: optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque. que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias baseadas no afeto. Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do Materialismo Histórico e Dialético. refere-se à designação de parentes de um governante para cargos oficiais. pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos). Contudo. LOGOCRAClA. As cópias são sinônimos de "representações". nos tempos míticos. Os conflitos entre instituinte* – instituído*. logo (alude aos possuidores da razão como saber discursivo). A maiêutica socrática consistiria em um procedimento pelo qual. alude aos filhos naturais dos Papas. até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento institucionalista. porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante. "encarnada" em um indivíduo ou grupo). dominadoresdominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. exploradores-explorados. ver Idéias puras*. O método platônico da clivisão em gêneros. Em sua acepção ampla. com freqüência supostamente "científica" das organizações). eufemisticamente denominados "sobrinhos". em sentido restrito. imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos. se conseguiria que as almas recuperassem a memória. em que nepo. esta abordagem permitirá resumir a exposição. cuja condição de superioridade está dada por uma linhagem hereditária). sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras. centro-periferia. os conflitos. sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real. BUROCRACIA. mediante o raciocínio.

dos sonhos). no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade. As crises são etapas de mudanças para o bem ou para o mal. seleção (por exemplo. extraordinários ete. cena de apogeu numa tragédia). contingentes. Para certos autores (por exemplo. o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente. Para o Institucionalismo. mas em geral aceleradas e radicais. Pichon Rivière. Assim 143 ▲ . Marx). como Lapassade. das vítimas de um sacrifício). posto que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou organizacional (provocação institucional). devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou negativos acidentais. CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada. fase de definição. nos quais. Alguns institucionalistas. momento crucial das vicissitudes ou do metabolé(por exemplo. procedimento para chegar a um veredicto). enquanto há os que pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. configurando vícios de condução que são. tanto enquanto campo de análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*). Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis. o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza. chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização. e a maioria prefere intervir nos momentos críticos.exemplaridade). DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot Jacques. vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões. os estados de crise são considerados fecundos. fantasmas) no curso do desenvolvimento-. melhor ainda se generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. juízo (por exemplo. circunstanciais. desordem) mais ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. Outros sustentam que são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos. dentro de um andamento relativamente regular. por sua vez. causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. por caducidade dos mecanismos e recursos vigentes. objetos. na medida em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da "desordem criadora". Provavelmente por extensão da noção médica. Esse estado de crise ocorre. segundo alguns. Bleger e outros). a palavra krisissignificava: interpretação (por exemplo.

isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação. econômico. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real. regulamentos etc. no início do desenvolvimento. organograma. Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa contra a ansiedade*". com as "quantidades intensivas" em Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. Não tende à morte porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". gesta-se no seio do Complexo de Édipo. na qual se encontra com a pulsão de morte. que carece do objeto real. gera e é gerado no processo mesmo de invenção. o desejo é essencial e imanentemente produtivo. pois participa de todo o real. Na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari. Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência". projeção. Para outras (por exemplo. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo. negação etc. Em última instância. ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente. e tende à busca do prazer e à evitação do desprazer.) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e organizacionais (contratos. Sua essência não é exclusivamente psíquica. DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a qual não têm conhecimento nem controle voluntário. o desejo. o desejo é imanente à produção. que resulta do encontro entre os corpos (devir).). se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena"). Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). por sua vez. Essa força se origina. prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. quer dizer. mas estas não são exclusivamente psíquicas. sua própria extinção definitiva. para a Psicanálise. Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano. daí o conceito de produção desejante. depressivas. Assim entendido. Descritivamente falando. ao que Espinoza chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal". metamorfose ou "criação" do novo. que instaura a lei no psiquismo. Durante esses incessantes ensaios. atua exclusivamente na dramática da vida familiar. o desejo também está parcialmente submetido a entidades repressivas. das pulsões. ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e servir aos objetivos de vida. e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a entrarem nos processos sociais amplos. a Esquizoanálise). e sim um complexo conjunto ao mesmo tempo político. O Complexo de Castração. que procura restituir um estado arcaico perdido. O desejo.se fala de ansiedades paranóides. não carece do objeto. confusionais etc. comunicacional etc. constitui o desejo. 144 ▲ . idealização. o desejo persegue o gozo absoluto.

não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou uma mudança profunda. essência de todo o real. Karl Marx. de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético. Protagonizam.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica ou dou trinária). em troca. organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal (quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer. outras entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera.DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos. "geral.). um desvio ou afastamento da linha condutora hegemônica da organização. o fundador do Materialismo Dialético e Histórico. mas o atribui à matéria em suas várias qualidades. postulando. mas também conserva o superado). A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação. tornar-se o gérmen de um processo produtivodesejante-revolucionário. DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão presentes em todo saber ocidental. Outro aspecto importante da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade. É um pensamento que concebe a realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação. assim. sendo as mudanças que se apresentam apenas superficiais. se bem impugna e denuncia os defeitos do instituídoorganizado. contradição e terceiro excluído perdem vigência. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel. Como nas leis do devir. ilusórias ou aparentes. particular" e "singular". cada momento nega o anterior. e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. o supera e ao mesmo tempo o conserva. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. grupos ou tendências que questionam o instituído* – organizado. desde a Antiguidade até a época contemporânea. quer dizer. que a postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto". mas em geral é predominantemente reativa. 2) Passagem da quantidade à qualidade. devido a sua essência intrinsecamente contraditória. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos enérgica. A proposta e ação desviante podem. e não ao espírito. Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*). Opõese a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável. eventualmente. uma idéia do ser como puro devir no qual retornam exclusivamente as 145 ▲ . atitudes e comportamentos. através de diversos discursos. pois os princípios de identidade. da moral etc. que pode ser examinada como "universal". Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal Clássica.

Coisa similar Ocorre em outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). As tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização-movimento ou separar-se dele. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção manualintelectual. a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e compreendê-los (ver Análise da Implicação*). do campo-cidade. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases. confiando em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à autogestão* e à auto-análise * . poder e prestígio. DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção.diferenças (Esquizoanálise*). podem ser atendidas. estão diversificados em diferentes tarefas articuladas entre si. consome força de trabalho. DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma organização ou movimento. Contudo. um apreciável encargo repressivo ou ligeiramente reformista. exige um trabalho. no Grupalismo e no Institucionalismo a operação pela qual o analista. por sua vez. Determinadas tarefas são consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza. e este. à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. ou mais ainda. devido à propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas (extração de mais-valia). Os processos de trabalho complexos. DOMINAÇÃO: imposição. particularmente de bens materiais e serviços. que expressam claramente uma falta de vontade instituinte*. em todas as sociedades da História e especialmente na modernidade industrial. sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem analisados e intervindos. DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção. Para o Institucionalismo. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. por diversos meios (dentro de um espectro de 146 ▲ . masculina-feminina etc. DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise. DISPOSITIVO: ver Agenciamento.

mais ela se torna opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. Refere-se. por definição. ressaltando suas características singulares devido à condição única. táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. Iibidinal ete. estratégias. em especial o Estado e o grande Capital.. às teorias. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. A lista de efeitos que podem ser propostos é. enquanto esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo". Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma. afetos e outros elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. o ECRO é muito mais que o até aqui mencionado. mantêm seus privilégios dominando a vontade coletiva ou majoritária. Se bem esta afirmação não refute o caráter universal e om niva len te grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo. interminável. jurídica. Contudo. em primeira instância. experiências. da vontade de indivíduos. porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências. e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). Quanto mais formalizada. Por outra parte. semiótica. Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. no Materialismo Histórico). logísticas.violência que vai desde a sedução até a destruição física). Por isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos". A dominação é simultaneamente política. Os instituídos* – organizados* estabelecidos. econômica. seguindo uma orientação das ciências físicas. a idéia do esquema denota o caráter provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado. irrepetível e contingente do fato em questão. o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento. EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável de sua gênese social. rigorosa 147 ▲ . a Lei do das Valor. grupos ou classes sobre outros. mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber.

à concepção de outras modalidades da causalidade. quer dizer. Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem constituída. que as sociedades chamadas primitivas. ocorre o contrário: as experiências sociais se multiplicam. Já nas etapas "quentes". a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de imediato todo o apreendido na ação instituinte. portanto. do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a organização intervinda. erroneamente. cada um dos elementos mencionados é um "resultante" do campo que assim se configura. a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos). por exemplo. mobilização e grandes transformações. O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a problemática da implicação. assim como outros de agitação. as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por parte dos coletivos do saber acadêmico. Quer dizer: geram-se processos de autoanálise* e autogestão* espontâneos e generalizados. mais satisfaz as exigências cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. Nos experimentos da mecânica quântica. Essa constatação pode conduzir a um irracionalismo (ou seja. por oposição às modernas. quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"). e. mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos. Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos. 148 ▲ . precisar simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. ou. quer dizer. Nessas fases. o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a "naturalização" de seus instituídos*. pelo contrário. em que todo o saber social está em ebulição. inspirados por uma profecia libertária. sujeito e objeto constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos. seriam "estáticas". que careceriam de história.e quantificada aparece uma ciência. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber científico". O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção do conhecimento social científico. como. e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e desenvolvimento (ou seja. Alguns antropólogos pretenderam.

sendo que freqüentemente se subdivide. Em nosso entender. as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. cujo procedimento é. De acordo com o contexto discursivo de que se trate." corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital. ENCARGO: no Institucionalismo*. sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa.chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados". Reich. e que comporta uma demanda de bens ou serviços. especialmente nos políticos. refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída quando a mesma está ameaçada. ignorados ou reprimidos. Em uma acepção ampla. centro-contra-periferia etc. Einstein. Outros Efeitos: Lefevre. Um emergente pode manifestar-se através de um indivíduo. analítico. Artaud. não-manifestos. tem seu próprio objeto. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos. Cada ciência. que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela. em um número crescente de especialidades. a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil precisar seu significado. Essa 149 ▲ . dissimulados. O lnstitucionalismo constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos. um grupo ou uma organização. A modalidade do saber dominante durante este processo é a do conhecimento científico. EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. teoria. a idéia de emergente tem uma similaridade com a de analisador*. Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes. por sua vez. pedido. por definição. ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e de suas aplicações tecnológicas. mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo. método e técnicas. o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente. Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. por sua vez. que num sentido acadêmico denomina-se disciplina. denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em materialidades diversas: "mentais". sendo que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. encomenda etc.

possibilitam o incremento de sua competência e eficiência. impressoras. Mas. O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. da loucura etc. 150 ▲ . relógios de ponto etc. arquivos. Essas diferenciações. erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. Podem ser de grande porte (por exemplo. pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. Isso levou a deformações tais como o operacionalismo. pretendem resgatar os valores instituintes* e organizantes*. popular. a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico. à medida que reduzem o campo de atuação de cadél agente social. montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos técnicos). os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo. além de insistirem na crítica global desses efeitos. As diversas modalidades do Movimento Inslitucionalista. articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*. EQUIPAMENTO: conglomerados complexos. OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo. ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE. consagrou a especificidade – a delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente – como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. No caso das ciências e disciplinas. é o que corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. em resumo. redundam na fragmentação. prevalentemente a serviço da exploração. ou seja. dominação e mistificação. das contribuições científicas. também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes nela). Sobretudo se interessa sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e. revolucionários. tem a ver com a divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de nossa civilização. Os equipamentos podem pertencer ao Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas.). assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer (particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). corporações).fragmentação do saber.). Em termos sociais e epistemológicos. em todas elas. resultando no aumento espetacular de sua produtividade. à incapacidade de julgar e conduzir seu andamento. dispersão e perda da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação". por outra parte. Por outra parte.

A essência do real é a "produção desejante". tais materialidades são imanentes (quer dizer. a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e outras positivas. para essa concepção. podendo-se distinguir nele uma produção de produção. estão" precedidas" por um campo de materialidades "puras". consubstanciais ou inseparáveis uma da outra). A Esquizoanálise também é definida com outras denominações. a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que se originam ao acaso*. Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. Uma dessas formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. Segundo a entendemos. "do Déspota" ou do "Capital-Dinheiro"). O processo produtivo de produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia. Mas a produção de produção de novidades é capturada pelos estratos. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre. cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura liberar o processo produtivo-desejante-revolucionário. e mais ainda. destinadas a propiciar o livre fluir da . tais como "Pragmática Universal". em cujo âmbito as inúmeras revoluções são feitas não apenas por necessidade ou dever. mas pelo desejo. puras diferenças intensivas. o real é constante e integralmente produzido. Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e tecnológica seria estéril. demolindo as constrições da parafernália de controle-registro. comunicacional. essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos. colocada a serviço de uma entidade centralizadora. concentradora e acumulativa. totalizante. As máquinas desejantes dispõem-se e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos".ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente. uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade". que varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra". "Análise Nômade" etc. ecológica etc. Entendida como procedimento para pensar e compreender o real. a microfísica e a biologia molecular. mas como ser do devir). ou seja. Mencionaremos apenas que. 151 ▲ . infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas desejantes". territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à repetição do mesmo. em qualquer tempo ou lugar. psíquica.produção e do desejo na vida biológica. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática no livro "O Anti-Edipo" (1972). política. Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica". Nesse sentido.

micropoderes do Estado). mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintesorganizantes dentro do Estado. Os sociopsicanalistas decifram e interpretam esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho. corpo estabelecido de leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados. o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". as alternativas viáveis. do estado de coisas às quais este se relaciona. A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de dominação* e mistificação*. Existem muitos diferentes tipos de Estado. que obtém por meio de sua concordância com a Lei. meios e resultados dos processos produtivos de toda índole. Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza. O Estado não se compõe apenas de grandes organismos. reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes. para que a classe recupere a margem real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita. e ainda do significado do que diz. Os psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. e o planejamento da progressão das manobras. A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito. É uma sistematização das metas a serem alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*). mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e legitimação. agente e instrumento de persuasão.ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos. repressão. Seu principal instrumento é o Direito. mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo. ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção. a previsão de curso. FANTASMA: para a Psicanálise. EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças. em 152 ▲ . efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. grupos e idiossincrasias dominantes. os avanços esperados. os possíveis retrocessos ete. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis si mesma. apresentando-se aparentemente como expressão da vontade majoritária.

procedimentos. A função está sempre. tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte. filosóficas ou estéticas. sejam elas científicas. Em todo caso. É o gerador da diferença. estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social. Entre seus produtos estão os instituídos*-organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo. não se entende nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica. GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e doutriné1s. eterna. opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias. da novidade. procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*estabelecidos. prevalentemente. Pelo contrário. Em conseqüência. prescindindo de alguma leitura que os torne inteligíveis. Para Guattari. conjunturas. a burocracia. GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver Esquizoanálise*). assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos". então é um grupo sujeito (protagônico). seus agentes* e práticas*. têm apenas uma autonomia relativa com respeito aos acontecimentos*.FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos. lógica e necessária. é um grupo sujeitado. 153 ▲ . FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). a afirmação de que a gênese social e teórica são inseparáveis entre si. que se empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade. universal. dominação* e mistificação*. a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo". organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram. a serviço das diversas formas históricas da exploração*. invariável. Do mesmo modo. da invenção e da metamorfose. não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual. opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e de construir a si mesmo durante o processo. A função apresenta-se às representações e crenças das sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural". e não "individuais" ou "coletivos". a tecnocracia. A rigor. a belicracia etc.). ideológicas. um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos.

aparentenlente claro e acessível. geológicas. mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. períodos ou épocas localizáveis geográfica ou cronologicamente. geracionais. configurando-se no aqui e agora do campo grupal. vínculos sexuais etc. sexuais. a História não é a investigação acerca do que já está definido.HISTÓRIA: para o Institucionalismo. raciais. interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. mas o conhecimento de processos vigentes no presente. intrigas de corredor. eternos e invariáveis. Pode-se tentar articular os diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras. cada um transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes convêm. Na Psico-Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo. tão tendenciosa como qualquer outra. é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado. Não existe um processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. ou seja: rumores. Assim entendida. quando não exclusivas. a horizontalidade designa a dimensão grupal atual. Em geral. IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo. são seres idênticos a si mesmos. para o Institucionalismo. Por outra parte. existem histórias econômicas. A História. das classes dominantes e do instituído*-organizado*-estabelecido. consistem apenas numa versão a mais. o conjunto de elementos que coexistem e operam. modelos de tudo que existe. políticas. que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). ou seja. Delas só se pode predicar sua 154 ▲ . HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. etapas. Trata-se da reconstrução dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos. segundo Platão as concebeu. é uma versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*. Assim. A rigor. obsoleto e morto. culturais. a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde às relações e aos processos informais. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais. não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro. mais importante pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma. assumindo que o fará a partir dos desejos. não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. as Idéias Puras. mas como o presente ativa e deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. biológicas. Existem variados processos.

IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações (crenças. políticos. e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. ou seja. as das classes dominantes) que produzem. em uma sociedade"'. e essa é também uma proposta ética. Em geral. Enquanto sistemas de representações. As Idéias Puras são sinônimos de "ídolos" para alguns autores. constituem as ideologias teóricas. Segundo seu matiz político ou ético. Para o Institucionalismo. enquanto implica a virtude e o bem supremo. para outras. expressa a não-separação entre os processos econômicos. distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*. IMANÊNCIA: para alguns filósofos.própria essência (por exemplo: a brancura é branca). Em outra direção. definida como oposta à ciência. Análise Institucional *). mas podem ser também disposições para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). ou por forças ativas (por exemplo. Segundo esse sentido. Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos ocupam nos sistemas que se representam erroneamente. Quando configuram sistemas amplos. convicções. as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras). apenas um saber aproximativo e viciado por erros. culturais (sociais em sentido amplo). que é a visão das Idéias Puras. este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um ideal ou modelo. os naturais e os desejantes. carece de interesse. O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser encaminhado como amor ao saber. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. Todos eles são 155▲ . à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que são "realizações" de desejos inconscientes. A ideologia. valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo. por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *). Para algumas correntes do Institucionalismo. é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento. a ideologia dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. à procura da Verdade. a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com suas condições reais de existência. denominam-se cosmovisões ou visões do mundo. Opõe-se à transcendência. Essas representações estão animadas por vontades e desejos.

processos. O significado psicanalítico designa instâncias. Essa terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção. INCONSCIENTE: em um sentido amplo. por exemplo. especialmente o recalcamento primário. a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego. intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo. dito em sentido amplo. o dinheiro. consumo e desfrute de bens materiais. e também das instâncias do aparelho jurídico. as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. denomina-se infraestrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção. em especial o Complexo de Édipo e o desejo. a Sociopsicanálise). a infra-estrutura determina a superestrutura*. que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento. normas ou hábitos. Na versão clássica do Materialismo Histórico. as forças armadas etc. INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico. a justiça. denomina-se instância a cada região que compõe o território ou domínio do modo de produção. da Sociologia e da Economia Política marxistas. Para outras. um resultado: o instituído*. indicando o que é proibido.inerentes. Esse processo é considerado a base material e condição de existência de toda e qualquer sociedade. Um conglomerado importante de instituições é. particularmente na versão de Althusser. Exemplos de instituições são:a linguagem. distribuição. É um campo histórico que sofre uma repressão político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social. o Estado*. quer dizer. operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*. Para realizar concretamente sua função regulamentadora. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*. INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas. INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico. as relações de parentesco. e um processo: da institucionalização. Segundo seu grau de objetivação e formalização. de uma sociedade humana. o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo. o que é permitido e o que é indiferente. As 156 ▲ . podem estar expressas em leis* (princípios-fundamentos). forças e representações. Superego e ld. apropriação. troca. a religião. ciência da História. refere-se a realidades e processos que não são conscientes. a divisão social do trabalho*. mecanismos.

Contudo.origens das instituições são difíceis de determinar. Pode-se falar de quatro instituições "fundantes" das sociedades humanas (ver sociedade*). INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se apresentam como universais e mais ou menos invariáveis. o processo de institucionalização deve ser acompanhado de outros organizantes* que se materializam em organizações*. o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela. LEIS: consistem na formalização e explicitação. de acordo com as exigências do devir social. INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante-revolucionárias que tende a fundar instituições ou a transformá-las. aspirações. a implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*. e freqüentemente se descobre que sua suposta racionalidade não é mais que uma racionalização. desejos. Em geral. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte*organizante* e. O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. grupos ou classes na atividade social. Para operar concretamente. INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído. no seu limite. diz-se que se fundou uma instituição. das árvores de valores e decisões que constituem as instituições*. devem permanecer abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. o instituído tem uma tendência a permanecer estático e imutável. expectativas e demandas pré-conscientes e conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes. Para que os instituídos sejam eficientes. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados pelas Utopias Ativas*. INTERESSE: denomina-se assim às motivações. conservando d e ju ri estados já transformados de fa cto tornando-se assim resistente e e conservador. No transcurso do funcionamento do processo de institucionalização. sendo 157 ▲ . Todo esse procedimento parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em táticas. como parte do devir das potências e materialidades sociais. Quando esse efeito foi produzido pela primeira vez. Os interesses caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. em textos e/ou discursos. os interesses divergem ou se opõem aos desejos e fantasmas inconscientes.

espaços físicos. geográficos ou abstratos. designa grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar. Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias leis". Os mais característicos são: o autoritário. Chama-se "Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo. movimentos.. por exemplo. Seu estatuto não é o de um modelo. ideologias. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. refere-se a conjuntos humanos amorfos. o laíssez-faire o democrático. mas o de um exemplo singular. Num sentido.referendadas. pelo Estado ou a Igreja. organizações. nacionais. jurídicas) etc. e não intradirigidos. legítimo. LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. etárias. Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros. LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de condução. As massas "estáveis" são. Avalia-se o que está disponível para contribuir ou para dificultar o trabalho. denomina-se revolucionário-desejante-produtivo. idiossincrasias (sexuais. raciais. são instrumentos formais produtivo-desejante-revolucionários. o termo marginalidade está muito relacionado com a oposição centro-periferia. Obviamente. consagrado ou autêntico nos campos correspondentes. mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. A logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército. O Institucionalismo conhece e aplica as leis científicas que lhe são úteis. econômicas. que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. doutrinas. Em outra significação. cujos integrantes carecem de "identidade" própria. Quando o líder é um autêntico e recurso para o funcionamento instituinte. Freud utilizou o conceito de massa como sinônimo de grande agrupação. considera-se marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central. MARGINALIDADE: por referência a teorias. a de classes) se apagam em função de outros parâmetros (por exemplo. o acesso 158▲ . MASSAS: noção de difícil definição. de modo plausível. sinônimo de organizações.

A partir da Psicanálise. e com eles. previdenciário. difusão e assimilação de ideologias regressivas ou. de máquinas de semiotização de captura e recuperação* .ao consumo de certos produtos). A necessidade não satisfeita origina uma privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. sempre visando "o bem comum". sendo compensável com as respostas que a complementem. bens de luxo e desperdício dos setores dominantes. a construção de um "Estado beneficente. não é um pedido do que manifestamente se solicita. no que se refere a bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental). "cientificamente" fundadas. definem-se tais necessidades e se convoca e modula sua demanda. Nas sociedades industriais modernas. quanto. A produção de objetos suntuosos. e a simbolização. em troca. São eles os que decidem o que. transporte etc. o gozo absoluto. as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*. do ponto de vista psicanalítico. os experts. costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda. tem sido sempre prioritária. segundo dizem os experts. categorizado como "objetos das necessidades básicas". educação. pede uma impossível restauração narcisística. Ou seja. Pode-se considerar os processos de mistificação como sinônimos de produção. onde. mas de "amor" e "reconhecimento". MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção. MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades "naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". um destino 159 ▲ . convicções e valores que deformam. A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória. entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo. assim como supõe ter necessidades cuja existência foi produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. como. Uma sociedade* tem necessidades que não conhece e não consegue definir como tais. administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*. crenças. que a Psicanálise define como essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. e de acordo com a "vontade popular". porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam". segundo outra terminologia institucionalista. O que resta da produção é o que se oferece às comunidades. encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos. O desejo. difusão e assimilação de representações. Essas decisões e as ações que elas orientam são. Dessa maneira. Já a demanda.

socializável. É o campo da regularidade. Assim configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo. da conservação e da reprodução*. técnicas. sobrecódigos e axiomáticas. MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências subscrevem alguns objetivos comuns. Nesse espaço constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númenvoluptas). Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias. o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos processos de auto-análise* e autogestão*. estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente libertários. Algumas correntes institucionalistas questionam radicalmente essa concepção do desejo*. Essa superfície está integrada pelo "corpo sem órgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de maneira binária – máquina-fonte-m. onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*. Os dispositivos* e máquinas de guerra nômades. da estabilidade. em suas ligações anárquicas locais ou à distância. Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que. 160 ▲ . enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. MOLAR: para a Esquizoanálise*. estratégias e táticas de leitura e de intervenção. as entidades características são os estratos e os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de registro e controle e a de consumo-consumação. este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção desejante. É o lugar das matérias não-formadas e das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. métodos. Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro". Igreja etc. É o lugar dos códigos. assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem. Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*. Nessa ordem. MOLECULAR: para a Esquizoanálise.que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga. Em outra terminologia. resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades molares. agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o desejo* e a produção*. segundo o acaso* ou uma lógica aleatória). das formas sujeitos e objetos definidos.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções.

costumes etc.. Basicamente. o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se mantivesse exatamente idêntico em organização. "transformacionistas". reação-reformismo-revolução etc. entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas". para seren1 sólidas. permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais. Para algumas comunidades primitivas. transferência-resistência. entre seus temas mais importantes. Em todo caso. o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como reações em cadeia. da insistência do desejo e dos princípios de constância e inércia. NÃO-DITO: no Institucionalismo.MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) à transformação valores ou diferentes. a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. é tratada segundo as inspirações teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. em todos e cada um dos aspectos da vida. Para as diversas correntes do Institucionalismo. b) sustenta que as mudanças. A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural-funcionalista insistiram muito na problemática da mudança e da "resistência à mudança".. atitudes. ou então causas ou efeitos de um desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. c) afirma que a substância do real é a diferença pura e a produção desejante. em um sentido mais amplo. mas é considerada invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência. a problemática da mudança. organizações e comunidades diante das situações desconhecidas e novas. ou até extremistas. e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas. Em geral. textos. para imitar o mundo e o tempo divinos. ligada a categorias de diferença-repetição. A Psicanálise. tal como ela se apresenta nos grupos. 161 ▲ . ou. eternos e invariáveis. sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais e pré-sociais. refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou distorcidas nos discursos. a oposição. por sua parte. No outro extremo da História. consciente ou não. ou seja. dentro de um espectro de radicalidade crescente. Essa omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária. o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu nas ciências humanas e na cultura ocidental. comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. simultaneamente biosociolibidinais. assumida ou não. devem ser integrais. a questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da compulsão à repetição. que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias. também tem. pode-se dizer que. que resulta da natureza conservadora das pulsões.

pois para o Institucionalismo não é possível uma posição clássica de "neutralidade" ou "objetividade". o mais conhecido é a burocracia. ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva. grupos. exagera-se em torno de sua função.Contudo. De acordo com sua dimensão. cronológicos (etc. comportamentos. à má-fé ou à repressão no seio dos discursos.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. técnicos. textos. até um pequeno estabelecimento escolar. O organizado é ilustrado no esquema do organograma e do fluxograma da organização. OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada. como aos manejos do poder. ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica. chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). vão desde um grau complexo organizacional. estrutura e dinâmica dos agentes. E necessário para orientar o funcionamento da entidade. Na terminologia da Esquizoanálise. inventiva e transformadora que tende à otimização das organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*. mas em geral é reconhecida. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos. atitudes. Esse omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*. adquirindo uma série de vícios. vai-se produzir uma nova organização que é o verdadeiro objeto de análise. A oposição pode ser mais ou menos acirrada. que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante o processo de institucionalização. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*). Uma organização* só cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 162 ▲ . o não-dito remete predominantemente à ignorância. organizações e movimentos. perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. mas tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se. correspondem às grandes formas molares da superfície de registro. Assim. OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos. legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que a integra. ao desejo e à vida. espaciais. É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz no encontro. ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". autorizada. Esse processo exige das organizações a abertura para efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. como um ministério. da antiprodução* e da morte. no Institucionalismo.

Particularidade e Singularidade. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os outros e carece de sentido fora desse vínculo. come caracteres de personagens teatrais. execução e benefícios da atividade. na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição). POTÊNCIA: no Institucionalismo. Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados. segundo as circunstâncias. Em geral. POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes teóricas e técnicas. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se possui ou se detém.organizado*. como "masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas. Quando um agente social abandona o papel este se expressa ou manifesta através de outro participante. Os papéis são emergentes de configurações estruturais que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes indivíduos-sujeitos-agentes* sociais. PARTICULARIDADE: ver Universalidade. Desejo* Instituinte*). decisão. a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente novo. algumas cujas 163 ▲ . Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente emergentes. "seguidor". destinados a impor a vontade de um segmento social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. ativa etc. criador de vida. Isso não significa maiores modificações de fundo na propriedade. como o de "bode expiatório". em geral ele se aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente. PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na planificação. inventar. provoca. convoca. mas que se exercita. PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e grupais em particular. "sabotador". transformar etc. emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de produzir. consciente ou não. mas também em um sentido positivo de orientação: o poder incita. a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver Produção*.

designa todo processo pelo qual um agente. Entre as tendências que o integram. e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento. tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*.características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal. coordenação de grupos e intervenções organizacionais. subjetiva e socialmente. é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas determinações que para seus próprios agentes. No Institucionalismo. PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue. expressivo e dramático nos tratamentos clínicos. Em geral utiliza-se o termo "prática" para as ações específicas e qualificadas. técnica. Para o Institucionalismo. a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. as profissões compreendiam o Sacerdócio. enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às inespecíficas e não-qualificadas. É aquilo que processa tudo que existenatural. a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima. A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação "vocare": chamado de Deus). com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à especificidade*. assim como de autonomia e independência relativa. É a permanente geração de tudo que pode logo tender a cristalizar-se. Em um sentido descritivo. PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional. a metamorfose. a Medicina e a Carreira Milita. uma dupla natureza – de 164 ▲ .: Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio. a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por Georges Lapassade. PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico esclarecedor e a ação transformadora do real. É equivalente ao funcionamento*. PRÁTICAS: em um sentido epistemológico. pode-se mencionar a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich). gerando um produto específico. a Advocacia. dotado de força de trabalho qualificada. desde o início. É o devir. diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*. Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de militância. a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e academias universitárias teve. com sua proposta de Transe-Análise. Apesar do já dito. organizações* e estabelecimentos*." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas.

REPETIÇÃO: em um sentido etimológico. Existem várias correntes de Psicologia Social. à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao elemento humano nas organizações.) PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que. toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). (ver Psico-Socioanálise *. nações etc . gratificação. formando as cúpulas tecno-burocráticoacadêmicas – mas também se degradaram como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização. 165 ▲ . visando o lucro. distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica. de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder de que dispõem para mudá-as. inconscientemente. produziu-se uma série de mudanças no status de profissional. todas afirmam a constituição. Esse título ampliou-se a outros ofícios. "neutro". Falase de Recursos Humanos como um dos componentes de um espectro de recursos: físicos. econômicos e outros. significa voltar a pedir. Comportamentalista. Interacionismo Simbólico). O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais. consciente ou inconsciente).controle de qualidade dos serviços. da "modernidade" hiperespecialista e da suposta independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. O Institucionalismo insiste no estudo e no desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro. poder e prestígio do corporativismo e do academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista. refere-se à reiteração ou reapresentação de idéias ou de realidades. RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70. Gestaltista) ou à Sociologia (por exemplo. regiões. PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que as classes institucionais regredidas fazem. por outro. antes considerados de segunda categoria. ligaram-se ao poder do Estado e ao das empresas.. entre outras coisas. Com a modernidade. mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. de uma maneira ou de outra. começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos" para referir-se. mas se diferencia delas. instrumental ou operacional) que elas se atribuem. frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado individual ou coletivamente. mercantilizaram-se. por não reivindicar o caráter científico (ou seja. No filosófico. tecnológicos. De maneiras muito variadas (por exemplo. no campo da Administração. As práticas profissionais. por um lado.

do aleatório e imprevisível. documentos. Trata-se de comportamentos. acontecimentos e transformações naturais. Na Filosofia. de entender o retorno do diferente. a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de matizes imaginários e fantasmáticos. grupo ou movimento. culturais e subjetivas. significa cópia ou imitação. não interessa tanto estudar as leis que dão conta das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas astronômicos do cosmos ordenado. tradições. carecem por completo de identidade. cumprindo sua função conservadora. o igualou o mesmo. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo. 3) o diferente absoluto. Trata-se. Se bem seja certo que a superfície de registro. 2) o diferente. Em conseqüência. capturando-o e recuperando-o (ver Captura e Recuperação). que é radicalmente transformadora ou motor da História. igualou similar ao que já existe. mas puro devir. procura-se deter os devires. entendido por relação de negação. a diferença absoluta. O Institucionalismo sustenta que o que retoma na História não é o idêntico. o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. ou ainda.Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o idêntico ou igual. melhor. ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico". mas o diferencial. REPRODUÇÃO: num sentido etimológico. Sua "encarnação" mais prototipica estaria nos sofistas. realísticas. grafitos ete. demoníacos e inclassificáveis. analogia ou semelhança com o idêntico ou o mesmo. Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões simbólicas. obviamente. ou seja. sociais. Platão os considera falsos. e podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. o romance institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização. Não são seres. atitudes. produto do acaso. na Sociologia e para o Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *). tenda a capturar o retorno do diferente para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema. nunca o consegue por completo. Dessa maneira. tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso. designa as tentativas de reiterar algo idêntico. o instituído*-organizado*-estabelecido. mitos. nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e. os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que não conservam nem a imagem. pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 166 ▲ .

o organizante* e a superfície de produção. que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*. organizações*. No entanto. instâncias e representações que. estabelecimentos*. francamente críticos. compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*. estabelecido. agentes* e práticas*. SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius. contudo. as relações de parentesco. singularidades* intensivas. Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas. complexa. respectivamente. SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. como o de T Parsons e outros. Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo. organizado*. a religião e a divisão técnica e social do trabalho.que pertence às formas definidas da superfície de registro. incluindo o instituinte*. uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição de transformação). sinérgica ou contraditoriamente. fluxos. é a partir da década de 20. As instituições interpenetramse e articulam-se para regular a produção e a reprodução* da vida humana. Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *).como a essência do real. A ação causal conjunta. Define-a como uma rede. articulada. não apenas econômico) reconhece-se uma instância" determinante última" (condição de existência). Os objetivos desse enfoque são a racionalização e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações. assim como a passagem da solidariedade mecânica à orgânica. ampliar essa definição. desloca da e condensada de todas as forças. que são o ser do devir ou processo produtivodesejante-revolucionário. hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se denomina sobredetermi nação. sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades. Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a indústria. SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da participação causal. Como se vê. que se compõe de diferenças puras. essa definição está bastante centrada no instituído*. É possível. SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*. 167 ▲ . Alguns institucionalistas afirmam que as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua. um tecido de instituições*.

no qual os sujeitos viven. Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento psicofamiliar. a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza. do resultado do trabalho. Mendel articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce. que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. particularmente uma de suas modalidades. Essa experiência de limitação gera neles. conseguindo. trabalhadores. um processo regressivo de ordem coletiva. Segundo a denúncia institucionalista. SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado (ver Alienação*) no Capitalismo. visa facilitar os mecanismos culturais. avaliação e comportamentos transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. em vez de principalmente simbólica (correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. do Materialismo Histórico. Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de que. cuja viabilidade é considerável. devido à sua série disposicional pessoal. denomina-se assim à percepção. a Sociologia das Organizações. aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários. bastante ortodoxa. Segundo Mendel. uma vida preferencialmente imaginária. Foi fundada e desenvolvida por Gérard Mendel. Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra. onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor compreendidas. num sentido coletivo. do poder e prestígio.como os de W Mills e W H. necessitando dos cuidados de um outro para ter sua sobrevivência garantida). a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). quando se abordam os coletivos. o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos patológicos é o local de trabalho. A 168 ▲ . SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise. diminuir os insumos. comunicacionais e motivacionais (do conjunto empresarial e dos grupos que o integram. denominada Desenvolvimento Organizacional. A Sociopsicanálise sustenta que. Whyte.) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera". assim. O resultado é uma abordagem politicamente moderada.

o coletivo institucional também passará a funcionar nesse registro. os modos de subjetivação que os mesmos precisam. inibições. fisiologismo ete. lugar e conjuntura. o modelo científico que temos no Ocidente como universal. em todo tipo de patologia biopsico-social. invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". produtiva. com Lênin. enfim. Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer sociedade. populismo. toxicodependências). revolucionária. e geram sujeitos singulares nas margens de cada acontecimento*. messianismo. autoritarismo. para algumas orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável. sujeitada e submetida. STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. como "enfermidades infantis do trabalho": voluntarismo. infinitos e heterogêneos processos de produção de subjetivação livre. povoada por figuras fantasmáticas de sua vida familiar. e sim coletivos. Inclusive. o que os levará a vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia. SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*. e pressupõe um movimento de cada classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de trabalho alienado. somatizações. desejante. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os levava a se refugiar num mundo de fantasias. buscando soluções mágicas. SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 169 ▲ .situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram. principalmente a interpretação. delírios. Esses são absolutamente contingentes. No plano da militância. Mas a cura não é definida em termos individuais. classe social. clie. esses quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar. próprios de cada momento. a montagem de dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e. raça ete. Com isso. através da análise e da intervenção. ubíqua e universal do sujeito filosófico. que vão res ultar em sintomas (atuações. junto com eles. Há. O lnstitucionalismo pretende propiciar. momento histórico. Trata-se da condição obtida por um papel dentro de uma sistematização hierarquizada dos mesmos. sim. A metodologia de intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica. por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme. social ou psíquico.ntelismo. contraproducentes.

difusão e assimilação de representações e valores ideológicos. Por ou tra parte. Sua escolha é consideravelmente livre e dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora. desportivos. Na versão clássica do Materialismo Histórico. SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico. Para outros Institucionalistas. TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*. reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do psiquismo). remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. Os processos superestruturais operam a reprodução ampliada do modo de produção. O que existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou similares. a Psicanálise). ciência da História. segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*organizado*-estabelecido.psicológicas (entre elas. transformação. por exemplo). expressivos. tais como: Umbanda. conteúdo ou estilo. da Sociologia e da Economia Política Marxistas. sensibiliza dores. artísticos. na instância jurídicopolítica é onde se processam os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente. Quimbanda e Candomblé. informativos. Posteriormente. a superestrutura reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura. grupais. do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento e peculiaridades do coletivo em questão. assim como de produção. denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídicopolíticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos. sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição. 170 ▲ . É o momento de seleção de recursos a serem empregados na etapa imediata. Algumas correntes institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise. O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. Trata-se de procedimentos (interpretativos. interrelacionais. composição. TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros. não existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento. lúdicos. discursivos.) a serem adotados de acordo com as circunstâncias. com propósitos diagnósticos e elaborativos. coletivos etc. Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe.

tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas. existiria uma transferência que não funciona como resistência ou obstáculo. A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas organizações*. papéis. é importante 171 ▲ . sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais. códigos. o que se repete substancialmente é o diferente. Em geral. Como montagens. em conseqüência. entrelaçamento. mas como motor das transformações. UNIVERSALIDADE. É uma travessia molecular dos estratos molares. deflagram efeitos transversais inventivos e libertários. o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos particulares e singulares de seu objeto. demandas. a idéia de transferência pode ter. considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e os variados aspectos da vida institucional como um todo. estruturas e até complexos destinos organizacionais. entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes. gerando efeitos à distância sem transmissores detectáveis. que propõe a autogestão* ou a gestão participativa dentro de cada estabelecimento. TRANSVERSALIDADE: interpenetração. Contudo. que é imanente à rede social das forças produtivo-desejantesinstituintes-organizantes. e. desejos. a partir de conexões locais. Lacan. Certas correntes do lnstitucionalismo. estereótipos gestionários. GENERALIDADE. no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem membranas celulares nem limites externos precisos). SINGULARIDADE: no que interessa ao Institucionalismo.as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. No Institucionalismo. pré-conscientes e inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva". A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis. os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos. hábitos comunicacionais. uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras bastante modificadas. elaboraram uma profunda reflexão filosófica sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. fantasmas. territórios. segundo a corrente de que se trate. TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein. Reich e outros). como por exemplo a Esquizoanálise. O que se repete são pulsões. No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional. Para essa orientação. PARTICULARIDADE.

máximo nível de determinação atingível. personalizado ou anônimo. a Análise Institucional estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos. na medida em que se refere a um objeto único. Pode-se sustentar que nega de uma só vez a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade. Lourau. enquanto cada um deles se define por sua afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. Segundo entendemos a proposta de R. é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). entende-se por usuário quem demanda. Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo. as línguas indo-européias). adquire. freqüentemente designa-se o conjunto dos usuários como "staff-cliente". Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica. vazio. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já estava compreendido no conceito universal. No caso de uma intervenção institucional standard. consome. por um falante/ouvinte desse dialeto). mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. assim como contribuiria para a reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. possui. a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas). a particularidade (por exemplo. O momento da generalidade compreende a caracterização de um atributo abstrato da universalidade. USUÁRIO: no lnstitucionalismo. UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais em seus aspectos instituintes*-organizantes*. Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais do particular e do singular. O momento da singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. a singularidade (por exemplo. usufrui de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". dessa maneira possibilitaria sua desalienação. Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal. cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro momentos: a universalidade abs trata (por exemplo. se apropria. em certa medida. do tipo dos que são 172 ▲ . um puro produto do pensamento. O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da generalidade. Supõe-se que a intervenção no caso singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e no saber dos coletivos institucionais.diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto. Um juízo ou um conceito universal abstrato é. tal dialeto napolitano e seu uso concreto.

sem dúvida alguma. lagostelos. este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência.expressando isso de uma forma clássica. cronos. em outubro de 1995. para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a quinta edição. o processo produtivodesejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica". avaliar acertos e desacertos do primeiro texto. a existência de uma composição sui generis e não é exclusiva da nossa fase. hierarquias. contudo me parece que tem o direito de tentar. 173 ▲ APÊNDICE O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro.enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos"). como se 174 ▲ . relacionado-o com o segundo. Parece-me interessante que o leitor possa. mas também à importância de marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento. ou seja. quer dizer: cargos. Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins e meios. topos. desta forma. Optei por reproduzi-lo quase sem alterações. Desde já. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo. Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná-lo com a biografia do autor. funções etc. Primeira Parte O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados. a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo grupal. Neste final de milênio vivemos. pathos. obviamente a partir de suas próprias convicções. sendo que cada período histórico tem. Obviamente. composto dos seus próprios ethos. a individuação de um real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière. a verticalidade define a dimensão da vida organizacional que corresponde ao organograma formal. umepospeculiar.

tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de idiossincrasias minoritárias. – Como causa e efeito dessas transformações. de circulação. "Sociedades Pós-Industriais". de comunicação.utomatizadas". detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por "passado".sabe. tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições democráticas. – Esse incremento inclui bens materiais. como aplicação teórica de um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento. Também cada" civilização". Costuma-se declarar. o Estado de Direito. tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari. ditatoriais. "Multitudinárias" e assim por diante. "Pós-Classes" e "Pós-Massas". representativos e eleitorais. de idade. os Direitos Civis e os Direitos Humanos. o mesmo tendo se realizado em todos os campos e níveis. desde o local até o mundial. "Transnacionalização". Conformarei-me apenas em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. política. um crescimento enorme da "Riqueza" – entendida como meios de produção. Nessa designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do Capitalismo". tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil. de culto. 175 ▲ . nacionais. raciais. de troca e de consumo. onde vige. judiciais. "todo". evidentemente. "espaço". de distribuição. integrado por uma função axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado". cultural. em setores localizados do mundo. ou 'A. serviços. "presente". ou "Pós-Modernas". no lugar da predisposição ao uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. regionais. geográficas. cabem – devidamente redefinidos – termos mais ou menos "na moda". autoritários e outros. de situação econômica. assim. "permanência". ou "lnformatizadas". sexuais. e que esse aumento qualitativo e quantitativo resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados. Uma análise detalhada dessas categorias seria. – Nesse mesmo lapso. "valores". Isso propiciou uma inclinação ao predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos. "movimento". gerou-se uma tendência ao desmoronamento de regimes políticos totalitários. legislativas e executivas. "cultura". "partes". excessiva neste escrito. a sua. que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a atualidade tem havido. tais como "Globalização". possibilitando. "troca". de certa forma. "pensamento". ou "Hipermodernas". constatar. e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos indiretos. e porque não. pelo menos formalmente. incorporais. porém. sendo que.

– Obviamente. toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência. desejos. Esses setores a dificultam devido a vocação. resistem em adotar os princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados. esses processos não são universais nem suficien temente implantados. que são oportunamente subsanáveis.– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção.lógicas e âmbitos. "Socialismo Real". que tendem a realizar-se de forma gradual. – Desde já. justiça e ordem pública. em todos e em cada um dos processos. todavia não superadas. os Socialismos Reformistas. incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo. usuários. economia de mercado. essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduossujeitos-agentes-produtoresconsumidores-usuários conscientes. empresas livres e outros-." em vias de desenvolvimento e de crítica". interesses e açôes contrários a esses desígnios. e ainda hoje continuam trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde. assim como pelo culto à liberdade. estruturas. planejamento e execução. não somente em quantidade como também em amplitude. assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional. democratização. podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas" adversas. No campo do social. limitação. agentes. Por isso. 176 ▲ .porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei. à justiça e à competição sadia. as Sociais-Democracias e ou tros similares. crescente e incessante. modernização das estruturas. consumidores. de formas arcaicas. transitórias e circunstanciais. – As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização – diminuição. por diversas razões. eficientização. imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí generís. tais como fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação. exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil. cultural e subjetivo. "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista". Isso significou a vigilância e ingerência sobre tais poderes. compactuação. diversos "estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas. educação. Todos esses indicadores de "evolução". assim como determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que. baratização. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis. e nem aperfeiçoados. persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente fracasso de todos os ensaio de "Comunismo".

são tratados como se fossem inexistentes ou irrelevantes. não servem para nada. comportando-se como se acreditasse que "na prática todas essas teorias são outra coisa". apesar de não ser a culminância. ou funcionam somente dependendo do uso peculiar que se decide fazer delas. O mais grave desta "realidade". vale a pena repassar. mesmo frágeis e freqüentemente precários. apesar de muito mais sofisticadas e matizadas. O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos. uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade. a meu ver. Em terceiro lugar. entender e avaliar o panorama munclial contemporâneo. Em segundo lugar.Esse andamento. os regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado. de acordo com esta leitura do panorama mundial. uma série de impressões que. Está claro que existem inúmeras versões a respeito que. ou os cita apenas nas passagens em que supõe poder refutá-las. uma maneira de descrever. vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto. Em primeiro lugar. isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos. Estes. os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos triunfadores. ou bem os despreza. senão a única alternativa possível para a consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. como se fosse uma "novidade recémdescoberta". não se pode evitar a sensação de que. de forma esquemática e prototípica – e faço votos para que não tenha sido irônica –. não deixam de conduzir a conclusões parecidas. da qual estas "impressões" são um 177 ▲ . de forma parcial ou distorcida. demonstram ser a "menos pior". Segunda Parte O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor. incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante. à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo agora. frente ao quadro que acabamos de delinear. isto é. ou é repetida. Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostumase a experimentar. pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato" que se pinta dela. é a sólida confirmação de que os modos de produção.

analisadores ou idéias com os quais se pensa. Em alguns campos do saber e da vida notoriamente na Economia. signos. conceitos. Em verdade. Boa parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumidaresulta não só da estupidez e de necessidades. "a rigor". os conhecedores dos processos de construção e difusão "ideológica". longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência. Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter que suportar a atribuição do status e papel de "catastrófilos". Psicologia e Política – as declarações." catastrólogos". obscuridade. funções. por outro lado. sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade. mas também da difundida convicção de que. rótulos esses que servem para etiquetá-los como "amantes ou cultores" mórbidos. planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo. desprezo e exclusão mais ou menos sutis. tudo depende de como se define cada um dos termos: noções. de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. mesmo se empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições. indicadores. falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial. A colossal. a não ser aquelas que consistem em um aperfeiçoamento do conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde. conceitos. A sentença mais draconiana é que "são inaptos para oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos". ou simplesmente cidadãos que resolvem falar. vai desde a eliminação física e a tortura até a reclusão ou o exílio – mas também tornarse passíveis de inúmeras modalidades de desqualificação. dependendo do país onde atuam. é que a versão que relatamos anteriormente – que. escrever. ou como" delirantes adoradores "de um cataclismo imaginário e inexorável. desejos e interesses do pensamento crítico. é sabido e constatado que aqueles pensadores militantes. Em quarto lugar. acabam por compartilhar. conseguem apenas dissimular sua sistemática 178 ▲ .registro. Sociologia. procedimentos e resultados. categorias. "catastrofistas". desavisadamente.não apenas podem sofrer as mesmas ações repressivas de seus antecessores de todas as épocas – que. se avalia e se procede frente ao estado contemporâneo das coisas. Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –. não existem reais alternativas para a situação imperante. ou como" especialistas com falso prestígio". muitas das suas categorias. agir e coerentemente viver de acordo com uma inteligência crítica e segundo alguma dessas propostas questionadoras supostamente inexistentes. refinamento e desacordo que. heterogênea e onipresente maquinária que gera esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possívele os "estilos de vida" e "de morte" que lhe são conseqüentes.

e "todo mundo" parece ter acesso aos mesmos.inoperância. Dito de outra maneira. é abordada de fom. o problema corretamente posto reside em perguntar o que se conseguiu exatamente com essas disponibilidades. tornariam estas linhas intoleravelmente difíceis de serem escritas e lidas. por exemplo consiste em cotejar o que o Capitalismo veio a ganhar com os desmandoó do Socialismo Real. nossos tempos. que na Idade Média. com respeito às estatísticas. tão velha como o próprio mundo. O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono. não citarei muitos dados estatísticos que. – Dois bilhões de pessoas do globo terrestre subsistem em um estado que contempla apenas racionalmente o que – de maneira muito controvertida – denomina-se "satisfação de suas necessidades básicas". são poucos os resultados que podem ser considerados confiáveis. 179▲ . Muitos autores enfatizaram a velocidade do processo que o incremento das mais diversas potências adquiriu nos últimos vinte anos: a mesma é tão vertiginosa que resulta muito maior que a conseguida nos recentemente passados duzentos anos. ambíguos. Por outro lado. Contudo. quantitativa e qualitativamente. Essa questão de "otimismo" versus "pessimismo" é. Trata-se de comparar o desenvolvimento potencial e efetivo de todos os tipos de forças produtivas de uma época com as realizações abstratas ou concretas alcançadas durante a mesma. não costumam coincidir uns com os outros. Prestam-se. Há hoje levantamentos estatísticos acerca de "tudo". se bem necessários e ilustrativos. pelo menos um bilhão vive em um estado que a Organização Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta. delicados e contraditórios. mas segundo o meu entendimento. É uma brevíssima avaliação dessa natureza que me proponho intentar.a errônea O problema não consiste em puxar conclusões sobre se o mundo de hoje é melhor ou pior. o assunto consiste no confronto entre o que poderíamos fazer e o que realmente fazemos. e os números que verdadeiramente interessam para tomar posição definitiva acerca das questões mais cruciais são considerados sigilosos e mantidos em secreto. se por um lado – como veremos mais adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas são tragicamente ostensivos outros são confusos. Frente a essa formidável escalada. Porque. assim a valorizações complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão. As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que: – Dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra. Para examinar os aspectos mais relevantes dessa comparação. mostram uma peculiaridade surpreendente. em todos ou em algum dos aspectos da existência. outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria Relativa e ou Pobreza. evidentemente. a seguir. Tampouco. tantc no passado como nas circunstâncias presentes.

– Os indicadores mundiais de desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas ao acelerado processo de substituição da força humana de trabalho pela automação. que resultaram no fim da Guerra Fria. à qual me referia acima. assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques. remessas de lucros. particularmente os dos países chamados" periféricos". exceção de impostos. Canadá. tanto na atualidade como no futuro próximo. Taiwan e. estão em andamento quase cem guerras de tipo internacional. nos seus respectivos bolsões internos de pobreza. Devido às diferentes gestões internacionais. sem direito laborais e sociais. Vietnã. Oriente Médio e América Latina. salvo exceções locais. idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo-coloniais clássicas dessas mesmas nações. o incremento da riqueza nesses "capitalismos nacionais tardios" mostra uma distribuição desigual do benefício. continua-se discutindo. religioso. Indonésia. – Até pouco tempo atrás. "dependentes" – apresentam-se cada vez mais empobrecidos. Além de tudo isso. apesar de serem os principais assentos de opulência mundial.ente todo o continente africano e. mas também à tendência ao esgotamento dos mercados externos e internos. – O aparente crescimento econômico das chamadas "economias emergentes" – apesar dos casos serem diferentes e complexos – em geral é fraco e instável. Surpreendentemente – como todos estão cansados de saber – a criminalidade.. – Os grandes blocos dos países ricos – EUA. a China Comunista) –.– Dos quinhentos milhões restantes. prejudica inapelavelm. e está baseado seja na venda da força de trabalho baratíssima e informal. 30% (trinta por cento) possuem 70% (setenta por cento) de qualquer tipo de riqueza disponível no planeta. apresentam marcados desníveis e reconhecem que estão ameaçados pela possibilidade de graves crises de diversos tipos. ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a 180 ▲ . se houve aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance.. limítrofe. seja na extração irrecuperável de matérias-primas e energéticas. só vem aumentando. Neste momento. de forma menos espetacular. civil. à manutenção da ordem constituída e à segurança pública. o arsenal de armas atômicas foi reduzido. "em vias de desenvolvimento". Ela se encontra – desigualmente. racial e outros. – A distribuição da miséria absoluta e relativa. a cada ano duplicam-se os equipamentos militares e policiais destinados. – Os Estados Nacionais – tanto os "democráticos" como os "autoritários". a Índia. mas estrondosamente – em 95% dos países. cujo foco principal é a defesa da propriedade privada e da pessoa dos proprietários. ou ainda nas condições contratuais leoninas dos acordos de exploração. supostamente. de maneira muito peculiar. o número reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico cuja capacidade era mil vezes superior àquela necessária para destruir qualquer indício de vida sobre a face da terra. Malásia. Coréia do Sul. porém. CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão.

mas exponencial. Isso pela necessidade do Capitalismo de incorporar à produção e ao mercado ganancioso todas as atividades possíveis para compensar a tendência de queda da taxa de extração da maisvalia resultante das causas acima apontadas. a política tributária é ridiculamente favorável às grandes fortunas e a política fiscal é incompetente. tal é seu grau de interferência no comércio de influência. ao jogo ilegal. A lógica dessa melhora é parecida com aquela responsável por certa diminuição dos índices de morbimortalidade: não se trata de um aperfeiçoamento amplo e consistente de saúde popular. As chamadas genericamente "máfias". É de se supor o que ocorre quando esses países são afetados pelo declínio próprio da transnacionalização-privatização. A decadência mundial do Estado de Bem Estar – causada fundamentalmente pela limitação orçamentária imposta à política tributária pelo Capital também obedece à privatização crescente de sua funções. o comércio de crianças e de órgãos humanos. relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas. Esse problema. policiais. eleitoreira demagógica. a distribuição da renda é muito mais desigual. são infinitamente maiores que nos países centrais. à falsificação e assassinato por encomenda. saneamento básico e segurança pública. saúde. de proteção e outros.sua subordinação aos onipotentes organismos econômicos internacionais. ao roubo. particularmente da organizada-empresarial – está se tornando não geométrica. a sinistra questão dos fundamentalismos. resultante de uma sólida elevação das condições de vida e de atenção médica integral. Para não carregar demasiadamente este texto. corrupta. porém. a total falência dos aparelhos judiciários. e sim do espetacular e barato progresso da técnica imunológica. moradia. corporativo-burocrática. do terrorismo sectário ou de Estado. – Certo incremento do acesso de setores mais an1plos da população a alguns produtos e serviços – devido à hiperprodução e ao barateamento da produção massificada dos mesmos – deve ser entendido como um resultado muito mais atribuível ao poderio tecnológico dos parques industriais que ao efeito da ascensão econômica de tais segmentos populares. terei que parar por aqui. que não é nada mais que um apêndice. limitando-me a mencionar problemas tais como a nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos. – O aumento da criminalidade. o poder econômico dos lobbies locais sobre os governos é enorme. têm adquirido tal poder financeiro que parecem estar integrando formalmente os processos econômicos e políticos. carcerários e assim por diante. à prostituição. seguro-desemprego. ao seqüestro. torna-se gravíssimo nos países "periféricos" por razões óbvias: as necessidades de serviços infra-estruturais como os de educação. ao contrabando. É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"? 181▲ .

de Produção de Antiprodução e de Produção de Demanda-Consumo e Consumação. o do "velho" e do "novo" que mencionei anteriormente e que poderíamos reformular e ampliar do seguinte modoapesar de que. semi-aleatório de "peças" variáveis. à medida que já foi antecipada quase exaustivamente por vários dos colossais pensadores do século passado e que. distribuídos em superfícies (vide Nota 1): da Natureza. o mínimo que se pode fazer é analisar o significado exato dessas palavras. É preciso. como desejaria. e isso implica que são parcialmente diferenciados. dá andamento a quatro processos: de Produção da Produção. de Produção de Reprodução. devido a um laborioso esquecimento de seus detalhes. no mínimo. nenhum é causa última nem efeito exclusivo do outro. semi-determinado. mais relacionados à produção e à consumação. da Subjetividade e da Maquinária. em cada um de seus territórios e em todos eles. algum possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim. Cada formação histórica caracteriza-se pela modalidade com a qual. Esses grandes trataram. Cada formação histórica compreende. explicando como cada uma delas era e é – à medida que as mesmas subsistem no panorama atual – um modo sui generis. A modalidade e a prevalência de cada um desses processos em cada um desses territórios-superfícies determina as peculiaridades das funções. mais ligadas à reprodução e a antiprodução. do "progresso". Uma nova definição de maquinária como conjunto difuso. auto-producente. e também imanentes. heterólogo. todosos termos que utilizarei. porém. nos vimos na obrigação de expor esta descrição como se fosse uma premissa. em cada formação histórica. devo avisar. Em cada formação histórica. aclarar que esta análise. da "evolução" do Capitalismo. externamente aberto e internamente heterogêneo. digamos. em movimento transformador contínuo. de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico. em si mesma. dispersas e "oniconectáveis" – ou seja. uma formação histórica que pode ser entendida como 182 ▲ . Nenhum deles é prescindível. quatro grandes "continentes" ou "territórios". Quando se afirma que o Capitalismo Planetário Integrado – a "Globalização" e a internacionalização mundial do Capitalismo em sua Fase Superior – é resultado do "desenvolvimento". de gestar. os territórios citados e os processos que os" animam" estão intimamente interpenetrados entre si. não poderei definir detalhadamente neste âmbito.Terceira Parte Esse tema do "otimismo" versus "pessimismo" está intimamente relacionado com o outro. administrar e destruir tudo o que compõe a realidade. e dos funcionamentos. apesar de que. de periodizar as formações históricas. cada um a seu modo. seja como for que ela se defina. da Sociedade. é parte da questão do "velho" e do "novo". heteromórfico.

a mencionar três fenômenos: os graus e tipos qualitativos e quantitativos de exploração. que os do Feudalismo. definir. sem ignorar que. mas se dadas as incalculáveis forças que a humanidade dispõe. quanto deixa de fazer com elas. Limitarei-me. detectar e criticar esses índices. Sendo assim. Obviamente. a qualidade de vida dos países nórdicos e outros. bem "menos atrozes" que os nossos. a falsa generalização de algumas melhoras localizadas – por exemplo. o que significam "Progresso". dado que os indicadores medidos como resultado da aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são 183 ▲ . assim como com o grau de reprodução e anti-produção que as investem.uma Megamáquina. da subjetividade e da maquinária. mesmo prevalecendo os coletados no território da sociedade. cibernéticas etc. também importam as relações dos mesmos com os campos da natureza. o procedimento e a interpretação dos resultados da comparação – de forma a fazer uma avaliação – de uma formação histórica com outra são. a realização de blocos de nações ricas. por exemplo. cairemos exatamente em um dos mecanismos de mistificação que são especiais da nossa formação histórica. a seu modo. de sua "Totalidade" ou Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução e da Antiprodução podem manifestar-se através de inumeráveis índices ou indicadores. seus tipos de exploração. "Evolução" e "Desenvolvimento" enquanto valores definidos pelo Capitalismo triunfante? Por um lado. dominação e mistificação lhes são próprios. sem dúvida alguma. porém. isto é. dominação e mistificação são. outro indicador do tipo de formação histórica que assim o faz. Dadas as características das funções e do funcionam de cada formação histórica – ou seja. Espero ser mais explícito agora sobre porque devemos comparar nossa formação histórica atual – a primeira que está em vias de conseguir uma hegemonia mundial quase absoluta – não com as outras. trata-se de julgar. Isso precisa ser dito. Isso é diferente de dizer "mecânica" ou "automática". saber. Maquínica. dominação e mistificação são melhores ou piores. Repassando o panorama descrito na segunda parte deste apêndice. Considerando o que foi exposto. ou quanto e como as investe na reprodução ou antiprodução que geram as atrocidades dos referidos índices. conhecimento e valores que. a decisão. as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam. conseguem inventar. se comparamos alguns dos nossos indicadores com. seja nas modalidades das máquinas elétricas ou eletrônicas. por exemplo. Se não procedermos dessa forma. não se nossos terríveis índices de exploração. por sua vez. Dito de outra maneira. os de algumas formações primitivas tribais – cujas forças produtivas são ínfimas –. dominação e mistificação que lhes são próprios. Nestes indicadores. cada formação histórica possui também os recursos próprios de pensamento. isto é: com os índices de exploração. mas com as potências de produção que detêm.

apesar do cinismo peculiar do sistema de representações dessa fórmula mundial. e até de Beleza – Dominação e Mistificação. é possível falar também de Capital de Poder. como títulos de propriedade. um sofisma. organizadora. acumulação e centralização de inumeráveis forças-formas de produção não pagas. Trata-se de uma auto-convalidação da Lógica do Capital. o Industrial e o Financeiro. o Capitalismo ainda precisa mentir. estrictu sensué um modo de produção-reprodução-antiprodução-consumação da realidade – dito . "moderna". que se acumula como inumeráveis forças produtivas não retribuídas. O Capitalismo. bônus. ou que são enunciados – prévia deformação – como "novidades" funcionais para essa leitura "otimista". "Liberdade. O Equivalente Geral. uma série desses conhecimentos do século X IX – produzidos por autores de diferentes orientações – que parecem ter sido "esquecidos". "evolução" e "desenvolvimento" estão longe de tornarem-se efetivos. cédulas ou registros informáticos – é uma medida arbitrária de valor. uma racionalização ou um delírio megalomaníaco. Por conseqüência. isso significa que nosso " progresso". Entre as principais forças-formas dessa produção está a força-forma do Trabalho "Humano" – entendendo como tal aquele composto por energias 184 ▲ . sistema. continua sendo um recurso necessário para sua permanência. ou que são citados como "insuficientes" ou "já superados". a Axiomática do Capital – que pode se expressar através de quantidades abstratas. imanente a "todos" e a cada um dos campos ou territórios antes citados que. um equívoco. Essa integral é denominada Equivalente Geral Dinheiro. "animadora" hierarquizadora. regime que "melhor" está protagonizando a realização gradual de uma certa maneira de gerar e relacionar Produção. um erro. subalternamente. de Desejo – Consciente e Inconsciente –. no mais amplo sentido já definido – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada. torna-se a medida para a qual deve ser traduzido o resultado da extração. tais índices mundiais são. julgados segundo a potencialidade produtiva intrínseca ao Capitalismo. de Semiotização. supostamente geradora. por exemplo. Esse Equivalente Geral. porém.deploráveis. ações. cataclísmicos. Por outro lado. sem dúvida. de dinheiro-moeda ou "letras" de diferentes naturezas. apesar da crítica. a afirmação de que o Capitalismo é o modo. Fraternidade" – não é apenas uma mentira. Cabe apenas mencionar agora. Ou seja. Igualdade. limitante e destruidora do "todo" da realidade. apropriação. "realista". muito elementarmente. de Saber. As modalidades clássicas do Capital são o Capital Latifundiário. da Esquizoanálise à importância da ideologia ou das ridículas afirmações acerca de seu " final". Reprodução e Antiprodução (assim como seus estilos" de vida" e" de morte") – tal como foi anunciado na famosa fórmula da Revolução Francesa e do Iluminismo.

possessão. e as secundárias. O Capital variável inclui também os insumos produtivos: gastos de crédito de dinheiro-mercadoria. a submeter-se à citada equivalência e a sua valorização e remuneração parcialmente não paga – Dominação e Mistificação – pela força física ou por modalidades de subjetividade. que se estabelecem entre o desenvolvimento das forças produtivas de todo tipo e as relações de produção de toda espécie. Era costume atribuir aos limites externos a existência de mercados solventes. distlibuição. Essas contradições são tanto produtoras do crescimento produtivo e cumulativo e da reprodução das condições restritas e amplas da existência do Capital quanto demarcadoras de seus tetos classicamente denominados limites internos e externos – e de sua subsistência. podem haver crises provoca das. dependendo do ramo de produção tratado. apropriação. operações de troca mediadas pelo dinheiro. sociais. Entre as variadas situações nas quais essas contradições transformam-se em aporias e conduzem à celebre crise do Capitalismo. de matérias-primas e manutenção e aperfeiçoamento dos meios de produção propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo. troca. comprável e vendável através do Capital chamado variável. ou seja. O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado – está constituído por contradições famosas que lhe são essenciais. além dos gastos da reprodução ampliada – manutenção das condições jurídico-político-subjetivolibidinais do Capitalismo. e só secundariamente pelo seu valor de uso-satisfação – pois se o processo de capitalização realiza-se em cada passo desse circuito. semiotização e outras. as mais conhecidas são aquelas que resultam das hiperproduções – excesso de mercadorias que se barateiam "excessivamente" e não compensam as inversões – ou do esgotamento relativo dos mercados. As condições fundamentais que possibilitam a produção. isto é. cada um deles está informado pelo circuito de compra-venda. subjetivas – que deve ser "forçada". de compradores suficientes de mercadorias. é a conversão crescente de tais produtos em mercadorias bens de troca. Concomitantemente. como as que ocorrem na competição entre as diversas modalidades do Capital. ou seja. de maneira sumamente variada. cujo protagonista principal é o Estado –. o qual habitualmente era tido como sinônimo da existência de trabalhadores vivos e produtivos. consumo e fruição dos produtos de toda espécie. deve ser acrescentado ao Capital fixo e ao variável o que podelíamos chamar de gastos com a produção de necessidade de demandas de consumo e fruição propriamente ditos. psíquicas. energéticos e territoriais. enquanto interessam por seu valor de compra-venda. que perdem assim seu poder aquisitivo. pois as lutas operárias 185 ▲ . Os limites internos costumavam ser reduzidos à existência da força de trabalho disponível. empreendimento. Por exemplo: as primárias.físico-químicas. isto é. Porém. biológicas. produção de mercado.

o poder e o prestígio. desde suas origens. a apropriarse parcial ou totalmente do aparelho de Estado. o resultado de cada crise é uma redistribuição de riquezas. pois atua em todos e em cada um dos níveis dos processos do "Todo Capitalístico". alguns setores do Capital são prejudicados. Isso é válido para o lucro. por sua vez. megaempresas. a antiprodução e o consumo para a extração de mais-valia econômica. a reprodução. apropriação. o aperfeiçoamento das máquinas e uma nova articulação entre a força de trabalho "humano" e "não-humano". por um lado. mas. Na esfera da distribuição. porém. ou a destruição dos produ tos para aumentar seu preço. em suas lutas políticas. sobretudo. pelo aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing. facilmente descartados e "melhorados". Sabe-se. não explicitamente formal. As manobras do Capitalismo a esse respeito são inumeráveis e. se agrega e finalmente substitui a exploração típica a extração de mais-valia maquínica. não podendo ampliar detalhadamente este ponto. A inflação é mais um exemplo de fenômeno provocado: se.e camponesas questionam a propriedade das diversas formas de Capital fixo. enfim. não necessariamente em menos "pessoas". Outra celebre tática é a diminuição deliberada da produção. senão em um número real. Já a crise gerada pelo esgotamento da expansão extensivogeográfica dos mercados foi superada com a intensificação quantitativa e qualitativa da venda através do consumo de massas. pela qual o Capital – em quaisquer de suas formas de existência – acaba por concentrar-se. foi alcançado com o barateamento e multiplicação dos produtos. outros são notoriamente beneficiados. mencionaremos somente algumas essenciais. nelas e delas. é importante destacar que o Capitalismo é um modo – dito no sentido amplo definido acima – em que a inflexão exploradora. Longe de conseguir – através do tipo de competição generalizada e" de cartas marcadas" que é 186 ▲ . Esse. o Capitalismo suplantou a extração de mais-valia relativa – aumento das horas do trabalho não remuneradas – pela absoluta – aumento da produtividade pela intensificação do trabalho em si mesmo ou em menos tempo. o Capitalismo obteve uma enorme agilidade e bara teamen to desses processos mediante a informatização e a robotização dos mesmos. renda e ganhos. Nisso participa. incrementam o gasto do Capital variável através de reivindicações salariais ou de melhores condições de trabalho ou chegam. mas também para o saber. oligopólios e monopólios. De qualquer maneira. assim como através da planificação de produtos perecíveis. isto é. dominadora e mistificadora que lhe é característica tende a orientar toda a produção. megabancos e. não só aprendeu a prevenir e resolver as crises. de entidades que são suas proprietárias. mas também viver com elas. Não é necessário explicar como a guerra sempre foi um recurso complexo para superar as crises. Por último. troca e consumo. que o Capitalismo é um modo histórico que. Ao nível da produção.

que é. seguindo alguns autores. torna-se de radical importância precisar quando e como este Modo começou e quais foram suas sucessivas ou simultâneas transformações. esse sistema as paralisa. Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os nossos dias. contudo. que é possível encontrar seus antecedentes nas formações histólicas dos séculos XII e XIII. Também é possível aceitar que sendo a economia mercantil. as mesmas podem ser consideradas como precursoras do Capitalismo. O Capitalismo propriamente dito – cuja preparação se inicia com o fim do Feudalismo e prossegue no decurso da Renascença. formas e maquinaria. a vigência de uma sociedade institucionalizada. responsáveis por nossa chegada a esta "Fase Superior". uma velocidade e uma eficácia totalmente imprevisíveis para os teóricos do século passado. energias. e dali em diante. Então. assim como de formas sui generisde subjetividade. muito pior que o anterior. desaproveita e destrói em uma proporção jamais igualada. que continuam incólumes e que as transformações acontecidas. Pelo contrário. o Estado. em suma. reprodução e antiprodução variem muito com o tempo e os lugares nos quais operam o diferente tipo de Capital. o "novo" Capitalismo é. Nestas linhas.sua característica – uma otimização das forças produtivas de quaisquer naturezas (sejam as que verdadeiramente o mesmo suscitou. semiotização e parques maquínicos – condições essenciais e existenciais de muitas formações históricas antigas –. Partindo do princípio de que o Capitalismo é uma singular relação e composição de substâncias. As conseqüências dessa incrível aceleração consistem principalmente no seguinte: 187 ▲ . devido à revolução tecnológica e industrial. em minha opinião. com uma modéstia conceitual exigida por esta síntese: quais são as principais "novidades" apresentadas pela atual "Fase Superior"? O processo da produção adquiriu. embora sejam originalíssimas e necessitem cuidadoso estudo. nem nos exime de nenhum tipo de luta pela sua extinção. e não têm mudado em sua essência desde aquelas até as contemporâneas. da Reforma e da Contra-Reforma e das revoluções européias e norte-americanas – culmina com a instauração da indústria manufatureira na Inglaterra. e das que potencial e insolitamente disporia). apesar de que suas modalidades de produções de produção. o nosso interesse está centrado em mostrar que as suas peculiaridades essenciais estavam préfiguradas. tendo a considerá-las. a primeira expressão "verdadeira" do Capitalismo na História. incluem. como formações précapitalistas. Esse esclarecimento parece-me imprescindível para poder discriminar de forma convincente que o "novo" do Capitalismo Mundial Integrado não implica uma transformação substancial do "velho". Pessoalmente. podemos admitir. Perante uma assertiva deste porte. em sua essência. as anteriores. razão pela qual não justifica nenhum "otimismo". à maneira de Marx e Engels.

Multiplicação. – Ênfase na geração de produtos e serviços baseados na tecnologia de ponta – informática. formam-se elites ou aristocracias de trabalhadores que passam a fazer parte do Capital fixo da empresa. da geradora de produtos e serviços está transformando e diminuindo – gradual. ecologicamente "suja" e altamente tributada nos países centrais. trazendo como conseqüência desemprego. telemática. para os países periféricos. transferindo a parte básica. – "Terceirização" contratual de segmentos da produção pouco rentáveis para empresas menores ou para trabalhadores independentes. mudança e anonimato crescente das sedes e proprietários do Capital.– A maquinária da indústria extrativa. porém firmemente – a participação da força de trabalho "humana" nos processos produtivos. formados segundo planos artificiosos e rapidamente "aperfeiçoáveis" que os tornam imediatamente "perecíveis" e "descartáveis". através da participação nos lucros e na propriedade – via compra de ações minoritárias e reciclagem contínua da capacitação técnica. mas sobretudo econômico-social do trabalho. Desse modo. participantes de baixíssimos custos e. assim. lucros e renda parecem estar crescendo. com" mãode-obra" e impostos baratos. A força de trabalho maquinal e a exploração da mais-valia maquínica vão suplantando aquela humana. que criam a ilusão participativa. – Hiperespecialização e/ou fIexibilização dos poucos trabalhadores que "permanecem" empregados com incentivos de produtividade. assumindo a identidade e os in teresses desta. empenham-se numa política de diminuição de custos produtivos. robótica –. em que – diferente do período imperialista fordista da produção – os ramos produtivos de bens e serviços indispensáveis e "pesados". ocultando sua concentração e o poder decisório dos tecnoburocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais. da agroindústria. porém 188 ▲ . emprego transitório e precário. Esses setores tornam-se. localizam-se nos setores mundiais "em vias de desenvolvimento". processo esse cujo aspecto jurídico se denomina "fIexibilização". alguns dos quais operam na economia informal ou em seus próprios domicílios. cibernética. apesar de que seus ganhos. Algumas dessas manobras consistem em descentralizar a produção de grandes complexos infra-estruturais caros. subemprego. ao mesmo tempo. de Capital fixo e variável. assim como aqueles que entram subsidiariamente nos produtos e prestações altamente remuneráveis. obrigando a uma substituição incessante. Essas e muitas outras estratégias conduzem a uma divisão mundial técnica. também mercados pobres – compradores de bens e prestações relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –. desfiliando-se de qualquer organismo de classe ou luta coletiva de defesa de suas reivindicações trabalhistas. havendo indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre. – Os grandes grupos empresariais.

corruptos e incompetentes cuja gestão acaba sempre em grande déficit – contraído em um montante de dívidas com juros astronômicos. até pouco tempo. profissionalização e mercantilização de "quase todos" os territórios e atividades recentemente não-lucrativos ou considerados "gratuitos" ou "públicos". "fabricação" de necessidades e demandas (escassez. assim como capitais dos financistas do próprio país que depositam seu dinheiro nos paraísos fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. apropriação. produtos. comunicações. seguros. moradias populares. comercialização. previdência. descomprometidos e quase sempre não tributados. saneamento básico. Essa parafernália adquiriu os níveis máximos de eficiência. A constituição de enormes e onipotentes monopólios nacionais ou internacionais – legalmente formalizados. sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História. devido. títulos inexistentes. anônimos. operações administrativas e contáveis. os mesmos costumam ser governados por demagogos. "andorinha". Um "fordismo periférico". o Capital financeiro. estabelecimentos carcerários e outros. supostamente resultantes e defensores do 189 ▲ . Os processos de ordenamento. velocidade. Por outro lado. No chamado "mercado de capitais". distribuição. saúde. móveis. no caso das dívidas externas do "Terceiro Mundo" por exemplo. juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos. rede viária. carência) – foram "hipertecnologizados" pelos grandes mass-media e pela propaganda. acionário. eram próprios dos mecanismos de "reprodução ampliada": tarefas familiares. transporte. educação e diversão "públicos". mas por sua necessidade expansiva. transitórios. segurança. às vezes dispersos e condensados do Capital monetário. Como se sabe. que elevam à enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada. o Colonialismo e o Neo-Colonialismo. O lucro financeiro puro possui seu mecanismo mais pelverso nos citados interesses e no refinanciamento eterno das dívidas externas e internas dos Estados e empresas nacionais estatais. troca. documentário. consumo-consumação – que incluem os de financiamento. falta. artifício e inutilidade relativa para o consumidor – maiores ainda que os da produção de bens duráveis e não duráveis propriamente ditos-. essa proliferação torna-se infinita no chamado "Mercado de Futuros". o Capitalismo atual provocou a privatização. prolifera geometricamente – sobretudo como empréstimo para as contas correntes dos países "em desenvolvimento" ou emergentes. Alguns exemplos ilustrativos são os que.complementares daqueles centrais já saturados. ao caráter instantâneo da comunicação e da informática e à sua subordinação a núcleos ubíquos. preservação e restauração do "meio ambiente". Não por sua real eficiência. divisas. aparatos e funções de Estado – energia. que compõem os investimentos da usura "flutuante". entre outras razões. onde se negociam matérias-primas. sendo que. esses empréstimos não são nada mais que a mesma riqueza explorada pela força durante a conquista.

Finalmente. dados os vícios de "nascença" da máquina estatal. O enfraquecimento do Estado realiza-se em nome da modernização. criando os vícios conhecidos. objetiva a subordinação das soberanias nacionais e respectivas populações a entidades supranacionais cujos paradigmas são o Fundo Monetário lnternacional. esse processo."Livre Mercado" e da omissão reguladora do Estado e de organismos da sociedade civil – acaba por criar e regular à vontade as convenções de custos e preços que regem esses mercados. em crise no mundo inteiro. fisiologismo. ao pagamento" correto" das dívidas públicas externas. não sem contradição. semióticas econômicas. reiteradas vezes. que como explicamos. ou porque é manipulador dos meios de propaganda. o Capital. representativa. da eficiência – o que não deixa de ter o seu sentido. Em última instância. entre outros. o Estado fomenta o surgimento de cartórios eleitorais. nepotismo. Esses regimes e seus sistemas de "representação" – num sentido amplo de produção de subjetividade. demasiado caros e ostensivamente "inumanos". Por sua vez. institucionais. o que segundo os clássicos marxistas denominava-se "Democracia Burguesa" – são a garantia do "bom comportamento" dos povos em questão. indivíduos. assim como a qualidade e quantidade de demanda e oferta. convence e corrompe o eleitorado em si mesmo. culturais e libidinais incorporadas à sua lógica-. comunidades do Axioma que rege a Lógica do Capital – vêm se impondo até o presente. competitiva e heterogestionária. Trata-se de implantar nas nações o regime político da democracia indireta. e domina a condução política das nações.eios para reproduzir as condições de sua existência e proliferação – produção de subjetividade. políticas. estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários . hegemonia do poder econômico – o financeiro e o das grandes empresas – modula arbitrariamente os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário. A mencionada. na privatização e re-significação da estrutura e das funções do Estado. clientelismo. Por outro lado. sujeitos. da compra de votos. o doutrinamento persuade. crises autofagicamente resolvidas e também acontecimentos metamorfósicos irreversíveis e incapturáveis – toda essa grande transformação que aponta para a assunção voluntária e pacífica por parte de todos os agentes. ou ainda por causa do poder de seus lobbiessobre os políticos e funcionários do Estado. da racionalização. a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial. está empenhado no desmonte. já dispõe de novos n. burocracia. jurídicas. Esse processo se enfatiza na dissolução do chamado Estado Beneficente ou Providencial – cujas atribuições são demasiado onerosas para o Capital –. à privatização a preços baixos das empresas e serviços 190 ▲ . Não obstante. grupos. "Bom comportamento" que implica uma administração completamente submetida ao Capital transnacional – sobretudo o financeiro –. que permita prescindir dos recursos repressivos clássicos. a rigor.

A geração de um imenso contingente de excluídos da produção e do consumo. fundamentalistas e os totalitários – que o Capital supranacional fomenta quando lhe são funcionais. revolucionários ou genuinamente reformistas. invadiu Panamá e Granada e tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o menor respeito pela autonomia que proclama-. seja com a famosa participação direta de seus "assessores" militares. agentes e práticas que possibilitavam suas modalidades clássicas de exploração. nacionais. etárias. de liberação das singularidades raciais. Por isso. dos não-inseridos nas instituições e organizações. procedimentos. no entanto suficientes para entender que. dominação e mistificação sui generis dessa "Fase Superior" são inequívocos sinais de um tremendo predomínio da reprodução e da antiprodução sobre a produção possível e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia. dominação e justificação. sem-terra. e depois tenta substituí-los por democracias formais ou nominais. os EUA. tais como os regimes integralistas. seja com dinheiro e armas. assim como subvencionou as piores ditaduras latino-americanas e africanas. à "livre" radicação – ou seja. de direitos humanos. o esvaziamento rural. dos países "guardiões" do patrimônio do Capital. religiosos e assim por diante. a modulação supérflua e luxuosa do parque industrial. sexuais. a banalização ou obscenidade da cultura. o Capitalismo Planetário Integrado tem que lidar com os movimentos separatistas – de inspiração socialista ou não –. que a construção da megamáquina planetária do Capitalismo Global Integrado não pode prescindir por completo dos velhos equipamentos. Ocorre. não tributada e salarialmente flexibilizada – das empresas transnacionais e. sobretudo as bélicas. errantes. como dizia anteriormente. analfabetos. enfermos. sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e a apropriação de mercados. Sem considerar essas observações como um estudo profundo da contemporaneidade.estatais. culturais. A essa degradação e deterioramento. porém. ao compromisso incondicional com as alianças. finalmente. delinqüentes – é mais que suficiente para diagnosticar e avaliar a situação mundial contemporânea. ambientalistas. marginalizados. se em alguns campos e setores parece que o balanço de todos esses andamentos mostra alguns "progressos" estridentes. ou pacifistas. clandestinos. os indicadores de exploração. o crescimento cancerigeno das megalópolis. Tampouco lhe foi possível eliminar totalmente as modalidades de resistência próprias dos neoarcaísmos. Por outro lado. despossuídos de direitos e também de qualquer identidade-miseráveis. temos que acrescentar a destruição massiva da natureza. mais que expressivos da degradação e destruição do "parque humano". e também as do Oriente Médio. o carro-chefe do Capitalismo Mundial. o mau aproveitamento 191 ▲ . sem-casa.

Quero aqui parafrasear unia sentença do "Anti-Édipo" – texto fundamental para o que denomino de Institucionalismo – que qualifica o Capitalismo como sendo" a mescla bizarra de tudo aquilo no qual alguma vez se acreditou com aquilo no qual nunca se acreditou verdadeiramente".e vai depender de todos os institucionalistas para que não o alcance. Não é que as contradições "internas" e "externas". "exterior" e "interior". o de Napoleão. Para poder pensá-lo – com a única finalidade de combatê-lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar. porém. "não existe reparação possível para esse cataclismo. O sistemático "fracasso" – e escrevo fracasso entre aspas porque. como expressei em outra parte. como dizia Mão. Acredito que tudo isso já é conhecido por demais e serve para caracterizar. é que o Capitalismo Planetário Integralizante não tem mais. a não ser a convicção de uma vitória sem fim". Todas as forças crítico-reformistas-revolucionárias que o enfrentam atualmente estão num momento de trágico desânimo. Dissemos anteriormente que o Capitalismo é a formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as crises. O problema. que é quase o contrário de uma vitória futura final. Quarta Parte Se essa entidade que denominei Movimento Instituinte existe. presuntivamente perene. se esse modo não é um non plus ultra. mas uma espécie de protoplasma polimorfo e sobrevivente. senão viver nelas e delas. O estudo dos grandes impérios históricos – o Chinês. o do "Socialismo Real" – mostra que sua decadência e sua queda não sobrevieram do seu" exterior". 192 ▲ . o Egípcio. mas" cresceram de dentro".das fontes energéticas e muito mais. o de Carlos V.tampouco se reduz. complemento adequado de uma derrota sempre presente"dos experimentos socialistas às vezes impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico. o panorama paradoxal e sinistro de decadência. Pois "integrado" é um particípio passado e designa um objetivo já conseguido. talvez. sem dúvida alguma. atuar. no sentido geopolítico que essas palavras adquiriram nesses enunciados. rigorosamente falando. denominá-lo de "Capitalismo Planetário Integralizante". a máquina abstrata geral e as micro-máquinas concretas pseudodemocráticas e cripto-fascistas do Capital sejam não tanto "ossos duros de roer". Permito-me sugerir que seria melhor. acredito ser importante para o seu destino introduzir uma pequena modificação no excelente conceito de Capitalismo Planetário Integrado. apesar de que duvido que ela mesma se reconheça como tal. É exa tamente essa capacidade de adaptação plástica e ativa que faz com que a lógica. coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda está longe de alcançar. Decididamente. como foi chamado por Félix Guattari. sentir. a um "tigre de papel". o Romano. o Grego de Alexandre Magno.

secundárias do Capitalismo não estejam vigentes e atuantes. isto é. deliberativas e executivas da megamáquina do Capital sabem. Sobretudo esses últimos. O Capitalismo é demasiado ágil. referindo-se ao nazismo. afirmava que "o povo alemão não foi enganado". como também diziam Deleuze e Guattari. "progresso" e "evolução". Essa não é uma" descoberta insólita". 193 ▲ . com maior ou menor lucidez. Sabia perfeitamente tudo aquilo que a proposta do Terceiro Reich implicava. Esse apresentar-se não se explica apenas pelos efeitos da "ideologia". por exemplo. da Pulsão de Morte ou do Masoquismo Primário. e/ou se oferecem como fantasmas a serem animados pelo desejo inconsciente ou pelos interesses pré-conscientes-conscientes dos sujeitos-agentes. "ninguém nunca morreu de contradição". difusão e apropriação de sistemas de representações "imaginárias" que "falsificam" a realidade. fontes da invenção do radicalmente novo. Não obstante a "ideologia" siga cumprindo uma importante função nos circuitos pré-modernos e ainda nos modelos de reprodução ampliada do Capitalismo. ubíquo e versátil. segundo o que se entende por sobreviver. impensável e imprevisível. Os diversos estratos e segmentos da subjetividade e da sociabilidade. os da mistificação. os que têm poucas e o enorme contingente que não tem nenhuma. Se há algo que ameaça a sobrevivência do Capitalismo. engendrando atitudes e ações conseqüentes. está ficando evidente o que se passou a chamar – muito discutivelmente – de "cinismo" da Pós-Modemidade Capitilista. também o sabem. tal como já a havia percebido W Reich quando. O extraordinário é que a assumem. e até a desejam. As cúpulas proprietárias. em proporções e clarezas variáveis.primárias. que cada um dos modos de subjetividade sente que contém cada uma dessas divisões e contraposições dentro de si. é a potência do que Deleuze e Guattari chamam" Processo Produtivo Desejante". assumem e desejam. afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida. declinação assintótica e indefinida que se apresenta como "desenvolvimento". mas que. e assim o Parque Humano se divide entre os que possuem grandes probabilidades de sobreviver. sem iludir-se a respeito. Não obstante a Psicanálise queira explicar esses efeitos como expressão. elístico. Foucault designa como "Forças do Fora". a encarnam. Por "cinismo" se entende que o "espírito" do Capitalismo Avançado – empregando literalmente a velha expressão de M. que são "peças" de uma lógica – ao mesmo tempo exuberante e letal – que as constitui em suas funções e dela se vale. hábil. e também sabe – e pode ir se adequando às suas próprias contradições. Nietzsche denomina "Vontade de Potência" e Bergson como "Realidade Virtual". estão sendo essencialmente reformulados. Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar os mecanismos e efeitos de suas modalidades peculiares de exploração. pela "redação". dominação e mistificação. É notório. as vanguardas programadoras. as camarilhas tecno-burocráticas.

desejos. tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade. a Igreja. como procurei fazê-lo nestas linhas. éticas e estéticas são produzidos. de transmutá-lo. por exemplo. interesses. agentes. Para aproximar-se do entendimento de alguns deles. "lingüísticos" ou "mediáticos". De qualquer maneira. da sociedade. sujeitos. tornando-o permeável à irrupção das forças do "fora" que são capazes. realmente.em nível de estrutura e dinâmica dos sujeitos edipianos especificamente considerados como objetos universais dessa disciplina. mas afeções – como dizia Espinoza – operadas em conjunto pelo tipo de maquinismo que modula prevalentemente o atravessamento dos territórios da natureza. práticas. Quando lemos o panorama mundial. Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault. Por isso. da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina. Cabe ao Movimento lnstituinte – levando-se em conta sua suposta infinita heterogeneidade interna e sua irrestrita abertura externa – inventar os recursos e as práticas que possam empurrar o Capitalismo Mundial Integralizante além de seus próprios limites. reproduzidos e antiproduzidos pela modalidade peculiar da imanência que se dá entre esses processos do Capitalismo Planetário Integrado contemporâneo. é importante entender. instituições. Justamente por isso é que nos resta apenas avaliar e lutar. É preciso compreender que o que emerge enquanto subjetividades e sócio-institucionalidades não são efeitos específicos e pontuais de mecanismos "educacionais". Indivíduos. devo advertir que muitos destes termos não são usados aqui no sentido estrito de sua bibliografia de origem. em TODOS OS LUGARES E AGORA NOTAS 1 – A definição rigorosa desses conceitos para torná-los acessíveis ao tipo de leitor ao qual este texto se destina requereria um volumoso tratado à parte. pode ser consultado o Glossário deste Compêndio. o Tempo Livre como subjetivados – de certo modo – e as subjetividades como "infundidas" por um Estado. o Trabalho. a Educação. 194 ▲ . sócius. "psíquicos". não apenas a perguntarmo-nos – de acordo com a famosa fórmula – "Que Fazer" para transfomá-lo. o Mercado. senão antes interrogar: "Como consegue manter-se hegemônico e aparentemente próspero sem nem sequer esforçar-se demasiado em dissimular sua fragilidade e sua contraprodução?" Apesar de que a perplexidade dos pensadores críticos e gestores da troca é ostensiva. o Estado. Ninguém é capaz de fazer predições a médio e longo prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. incessantemente. a rigor nos sentimos tentados. devemos tomar consciência de que aquela dos expertse condutores do Capitalismo não é menor. "culturais".

os três últimos anos possam ter trazido elementos para melhor avaliar a pertinência do que se poderia qualificar. quero conceder-me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito.POST-SCRIPTUM Janeiro de 1998 A releitura do apêndice anterior. Não obstante. não suficientemente fundamentado. e até vaticinantes. Essas páginas de 95 me parecem retorcidas. de cem e do que tentei dizer. e involuntariamente. insuficiente. porém não pude deixar de constatar que o "pessimismo" de cada página do "Apêndice" que antecede a este post-scriptum insistia sobre esta predição. somente alguns poucos prenunciavam. por outro. suscitou em mim impressões contraditórias. Não sei se é excesso de petulância incluir-me entre esses últimos. Se me atrevo a comentá-las com os leitores. com benevolência. acredito ter sido desde o início. Penso que. à grave crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi-se agregando uma crise econômica de incalculáveis proporções que. e suas pretensões analíticas. em geral. segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio". assistemático. o filósofo brasileiro Peter Pal Pelbart. A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do 195 ▲ . pelo que entendo. por um lado. Tão fortemente acredito nisso que decidi catalogar este escrito numa simpática categoria inventada por um amigo. contudo que esses também possam existir. desgarradas e mutiladas entre as exigências pedagógicas e sintéticas do texto. como sempre acontece. e sim um" globo de ensaios". não é apenas – como espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos e justificantes. exorbitantemente amplas. escrito em 1995. Durante este tempo. às vezes pouco claro e.

de outra forma. 196 ▲ . essencial e inerente ao Capitalismo Planetário em via de lntegração. Hong Kong. E mais: porque. Vamos continuar observando muitos expertsatribuírem à "falta de dados" – porque ocultados ou distorcidos por parte das economias em questão – a surpresa e a perplexidade que a catástrofe ocasionou. – Ou essa é uma fraude de magnitude hemisférica e configuração escalonada que vai desde os produtoresconsumidores. Obviamente. inferior à da Meteorologia. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. ou ainda à sobrevalorização de sua moeda. não cabe aqui uma análise excessivamente detalhada. China e Taiwan. A idoneidade da "Ciência Econômica" e da "Economia Política" oficial capitalista não só é. Filipinas. econômicos e políticos. Isso não implica "falha humana". no caso dela ser correta. Coréia do Sul e. com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. Permito-me fazer somente alguns comentários globais que podem reafirmar. uma ou outra tese já postulada neste livro. o mínimo que se pode considerar é que o destino do mundo está em mãos de presunçosos incompetentes. menos drasticamente. e assim sucessivamente. e numa dimensão mais ou menos ameaçadora. Ou a "todas" essas causas juntas e a muitas outras. senão principalmente um erro radical sobre os meios de pensar a realidade. Essas explicações. eventualmente. tanlbém as grandes potências capitalistas. passando por todos os segmentos sociais. entre essesexperts. mas nem sequer tem a humildade de reconhecer o estatuto de interfase do sistema caótico ordenado própria de seu "objeto". a cômica discrepância que os economistas e outros especialistas mostram quando tentam explicar esse fenômeno colossal que se iniciou com uma dimensão regional. Tailândia.. até chegar aos organismos internacionais – desde logo. em muito. Começamos pela admissão do FMI de que "se equivocou" na avaliação e condução desse assunto. sendo que em outra..ataque especulativo à lira italiana e à libra inglesa e o outro que afetou o México – e engloba diretamente todos os "Tigres Asiáticos" – Malásia. Com respeito à primeira hipótese. alguns atribuem o flagelo à cumulação de empréstimos enviados aos países em crise. podem reduzir-se a três tipos: – Ou esse é um erro regional de modelo. a meu ver. cálculo. tanto que está chegando ao limite de sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os investidores especulativos para que não percam seu dinheiro. chama fortemente a atenção. substancial. Em primeiro lugar. por último. todos os "capitalismos emergentes". Singapura. – Ou se trata de um efeito processual. sem ignorar diferenças nacionais. ainda indefinida. Esta é uma realidade clamorosa. Laos e. Japão. outros às suas falências bancárias ou à desenfreada especulação imobiliária que ocorreu no seu território. lndonésia. planejamento que implica dos povos até os governos – desde logo.

pelo menos parcialmente. as funçôes e as práticas segundo os quais a lógica da Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona. especificações. temos que assumir que o destino da humanidade este) nas mãos de delinqüentes. solicitado a opinar acerca das conseqüências da crise para a economia do Brasil. resulta evidente que as duas primeiras podem ser perfeitamente incluídas na última.. Está comprovado – e isso é o que tenho procurado. se acertada. nem som entede uma tendência delituosa de transgredir ignorara Lei – qualquer que seja a Lei da qual estamos falando. Fica aberto o tema da qualidade e gradualidade de imputabilidade de cada um dos envolvidos e do acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja-se mais adiante). assim como as três não são excludentes. não esgotam o repertório de riscos que caracterizam as subjetividades capitalistas. respondeu: "Só Deus sabe. normas. em última instância. lem brar leitores. ou como leis menores – decretos. é preciso apenas definir. de desconhecimento. uma vez que não precisa aos ser demonstrado porque já o foi durante um século – que a sábia ignorância dos experts. com a qual os psicanalistas e outros teóricos enchem a boca. científicos ou não.O erudito "Científico-Presidente" do Brasil. Cardoso.. Em um certo sentido. A lógica dessa axiomática está. trata-se de cumprir ao pé da letra as leis vigentes." Pelo que se refere à segunda hipótese. "Direitos Humanos" que concretamente podem ou não podem ser cumpridos dentro do que se chama hipocritamente" condições constitutivas. Se a terceira hipótese está correta – e isso tenho afirmado constantemente nesse modesto e elementar livro-. é claro.por estúpidos e ladrões que os agentes-sujeitos individuais e coletivos do Capitalismo assumem os lugares. em que consiste este risco. porém. tanto quanto a desonestidade dos agentes e das entidades. direitos fundamentais ou reais" da formação da soberania em questão. Excepcional e/ou aparentemente. ao qual já nos referimos reiteradamente. Os célebres conceitos e a análise foucaultianos acerca do atravessamento entre os enunciados – as dizibilidades – e aquilo que o autor 197 ▲ . tampouco são exaustivas. ou como leis maiores formais. absolutamente em sintonia com a racionalidade ética e proposicional das leis nacionais e internacionais – as propriamente jurídicas ou as "internas" aos enunciados específicos disciplinares. ou especialmente se nos referimos a uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei". da qual a ordem jurídica imperante é uma engrenagem perfeitamente coerente (vide a plena vigência do Direito Positivo). E também. mas não som ente. Não se trata. as leis se contrapôem a essa Lógica. O que mais nos deixa pasmos e surpresos no espectro das mesmas é o cinismo. foi feliz e sincero quando. simplesmente. ou de aproveitar os limites de seu império e de suas falhas intersticiais para pô-la à serviço – às vezes condicional. regulamentações. às vezes incondicional – da Axiomática do Capital. FH.

o que é mais astuto. de Entre vários requisitos. imanentes ao jogo de forças de uma formação histórica (por um lado). pois não se conhece outra-. que resultam operantes somente para matizar. fragmentar e recapturar as forças críticas e metamórficas. Outro caso ilustrativo é a luta da economia de mercado e democracias representativas contra as "massas ausentes". Em sua essência. especialmente aquelas que se consideram concessões – geralmente tão inevitáveis quanto mínimas. Principalmente não deve tranqüilizar ninguém acerca da perfeição do modo econômico e de seus rebrjmes – jurídico-políticosubjetivo e outros. que começou muito antes daquela do Capital. possibilitou o seu começo e ainda lhe é imprescindível. e o diagram a. Os segundos prescrevem" uma quantidade maior" da mesma Lógica do Estado. visando produzir as condições mínimas nas quais essa última possa subsistir – e encontrando viabilidade. Essas concessões são invariavelmente tardias e de aplicação sujeita ao horizonte do "possível". bem distantes dos "ideais". garantindo sua reprodução simples e ampliada tanto em seus aspectos econômicos como em todos os outros que já mencionamos. sem considerar os seus defeitos. sempre foi consubstancial ao Capitalismo. desmobilizar. Um exemplo ilustrativo a esse respeito são as contendas entre os partidários neoliberais do "Livre Mercado" e os defensores da "Regulação Estatal". Os primeiros fazem uma apologia do individualismo. puramente nominais. aos quais atribuem todos os méritos da Modernidade – que. essas montagens dão conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo "moralismo" à Ordem Capitalista Constituída. obviamente. não deve enganar ninguém. estão destinadas a desorganizar. Ao menos numa vertente dominante de sua essência. o resultado de heróicas e cruentas lutas da humanidade. da imprensa livre e da competição liberal e neoliberal. em sua maioria. ou ainda. supostamente apoiado por uma "realidade" que o panorama da Axiomática do Capital delimita e modula. mitigar ou amenizar os efeitos fundantes da Lógica do Capital – expresse. Que o lado "progressista" dessas leis – tanto as "maiores". sempre considerados irrealizáveis. complexo de forças informais (por outro) – dão conta admiravelmente de alsrumas das maneiras com as quais as funções reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema. está na virtude de chamar a atenção – apesar de que unilateral e exagerada – sobre a estratégia de resistência nãoconsumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização. crescer –. omissa e passiva" 198 ▲ . os neo-arcaísmos e o terrorismo. como Jean Baudrillard. e como tais são admiráveis.chama visibilidades – os dispositivos do poder. a implicá-las em dispositivos nos quais a modalidade organizativa e os objetos a serem conquistados resultam relativamente irrelevantes e/ou absorvíveis pelo Capital. como as "menores". O mérito relativo do pensamento de alguns autores. não são nada mais que estratégias.

Perante essa constelação. como infinitos agenciamentos e acontecimentos no seu combate contra as equações variáveis de reprodução e antiprodução do Capital. e mais enfaticamente. Essas estratégias. Não somente ao nível das contradições antagônicas e agônicas do que Deleuze e Guattari chamam de "Superfície de Registro e Controle" composta por territórios. de maneira que os explorados. Veja-se." entrem numa provocação desviante". apesar de apresentarem uma triste originalidade. e muito menos estática. Diante de tudo isso. agentes dotados de uma identidade mais ou menos precisa e circunscrita. "Todas" as Máquinas de Guerra e as Linhas de Fuga simultaneamente econômicas. suas transversalidades. nacionais. com uma velocidade que passa de geométrica para exponencial. creio eu. mas que têm aprendido a viver em crise e da crise.das massas. Assim. apenas descritivamente. heteromorfo. vejam-se os memoráveis capítulos da "Revolução 199 ▲ . heterogêneo. políticas. sinérgicas e potencializantes. organizações. devido tanto às resistências que minam o processo de suas façanhas quanto à dureza de suas vicissitudes. não é pleonástico repetir que o processo do Capital não constitui uma unidade monolítica. artísticas. não deixam de ser uma resposta cega às manobras orquestradas pela Máquina Abstrata do Capital. conexões disjuntivas inclusas. sem a menor intenção de desvalorizar nenhuma forma de luta tradicional ou nova que as forças da Vida vão inventando. heteróclito e bizarro de colisões. científicas. idiossincrásicas – na medida em que são individuações. são e serão "o sal da terra". dominados e mistificados" comprem a briga". expressões de singularidades intensivas –. complementada pela irracionalidade monstruosa. A imanência entre as potências e processos de desterritolialização e reterritorialização capitalistas movimenta-se sem cessar. proteiforme. jurídicas. o mundo atual é um poliverso vertiginoso. a ferocidade das contraposições recentes e suas conseqÜências entre o Capital Financeiro "apátrida" volátil. instituições. o pouco que proponho enfatizar aqui pode se resumir. como se diz pitorescamente falando. senão. As preocupações dos militantes acerca do grau de capacidade de recuperação que o Capital exerce sobre as mesmas geralmente não são mais do que hesitações compreensíveis. do Capital ou da chamada Sociedade Civil (a esse respeito. seu entusiasmo e sua alegria – como dizia Espinoza – foram. porém acidentais. segmentos. isto é. É claro que espero e desejo fervorosamen te ser explícito dizendo isso. da seguinte maneira: Os militantes e pensadores instituintes contemporâneos passam por divergências e discussões dilemáticas – que freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de se a luta deve dar-se a partir de dentro ou de fora das organizações do Estado. Mas "ninguém morreu de contradições". que vão desde o preciso até o indecidível. filosóficas. o Industrial e o Latifundiário – tanto nos domínios "globais" como nos regionais. "absurda" e intempestiva dos fundamentalismos e do terrorismo. locais. habilmente engenhada para propor e propiciar contendas.

Lembrarei também que alguns adora dores do neoliberalismo. Cabe. Rememoro que em minha juventude. ubiqüidade com fragmentação dispersiva. França e Reino Unido. por um lado. linha de fuga com evasão. tanto os movimentos chamados "Alternativos" quanto a Esquerda tradicional parecem perder de vista os macro-indicadores inequívocos da deterioração do "todo" capitalista. empenham-se em reivindicar que. déficit interno e externo. aos "integrados" – bem intencionados – por outro. e por ser uma hipótese de "alto nível". que são as que escapam a toda imaginação. Guattari. entre outras razões porque insiste em enfatizar-se como intensiva.Molecular" de F. Itália e Espanha mantêm-se relativamente estáveis. Em conseqüência disso. de forma aceitável. confundindo singularidade com isolamento. Contudo. que consegue manter-se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia. se me permitem uma digressão.No espectro que vai do pólo dos" apocalípticos". verificação e falseamento. o modo capitalista e seu Sistema 200 ▲ . não faz senão demonstrar o uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política – em grotesco contraste com suas declarações neoliberais de "livre-mercado" e de democracia. reforçar que a reivindicação idiossincrásica nunca acaba de propagar-se como uma onda extensiva. Também Alemanha. baseava-se na tese de que tal indicador era in1possível de ser medido empiricamente. mesmo que todos os países enumerados apresentem altíssimos índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal-. O argumento principal. apesar de tudo. existem inumeráveis posições intermediárias que dão espaço a quantas vontades de transformação seja possível imaginarassim como às melhores delas. O crescimento de quase 4% de sua economia em 97 e o decréscimo de seus índices de desemprego. assim como de seu principal aparato bélico-repressivo: os EUA. por isso carecia de sentido epistemológico. tinha sérias dificuldades para entender tanto o conceito da tendência à diminuição da taxa de extração da mais-valia quanto a contestação que os economistas positivistas faziam a essa teoria. reiterarei que no momento a mesma tem respeitado. antes de concluir com uma nova tentativa de síntese. se me lembro bem. Canadá. porém. apesar de que isso não o exonere inteiramente das conseqüências imediatas da crise. Em função do que foi exposto acerca da crise presente. os de "O Estado e o Inconsciente" de René Loureau e até alguns capítulos deste livro). quando estudava a crítica marxista da Economia Política. inviável quanto à operacionalização. somente a nação que continua sendo o assento das maiores sedes centrais do Capital mundial. discretos indicndores de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva. bastante afetados por essa debacle setorial insuspeita. Outro desses dilemasé o já célebre que se trava entre os "reformistas" e os poucos "revolucionários" que ainda sobraram – seja como for que se defina revolução. acrescentarei quanto segue.

Outros têm manifestado que. A iminência da segunda Guerra do Golfo e da terceira Mundial não é apenas hipótese de ficção científica. a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda de falências. nas falências atuais. desde a Segunda Guerra Mundial até hoje. como Coréia e Vietnã... Essa afirmação adquire relevância pelo contraste com a decadência dos países do ex-bloco do Socialismo real. assim. "é bom que as coisas se precipitem. a fuga desse Capital acumulado. ao final. a parte do Produto Bruto Mundial correspondente aos países estremecidos pelo "sismo" alcança somente 6 ou 7% do total mundial. como é notório. porque assim a economia mundial se corrige e ajusta". em primeiro lugar. Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é. mesnlO que uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à geração de força de trabalho cnpacitada e eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre. sustentam que apesar da instabilidade persistente. Alemanha. pelo fato de serem aliados dos países centrais nas guerras anticomunistas. Japão e Itália começaram seu crescimento a partir da inversão massiva do Capital "aliado" – novas versões do Plano Marshall e da 'Aliança para o Progresso" – e nas condições políticas severamen te repressivas das nações derrotadas e "ocupadas". De outro lado. Ora: que Economia Mundial é essa que entra em pânico por um "acidente" que afeta apenas 7% de sua produtividade anual? O verdadeiro pavor não consistirá de fato em que uma das suas derivações pode ser a estrepitosa baixa de preços dos produtos asiáticos (dum ping) o perigo iminente de benefício dos consumidores e prejuízo dos e inversores? A quais maldades políticas terá que se apelar para evitar essa presuntiva "injusta" festa dos compradores? Com certeza não será "democrática" nem "livre-empresista". está em pleno declínio.moratórias e outros flagelos. como se 201 ▲ . o milagre inédito de reduzir em quase 50% a pobreza asiática. por exemplo.é apropriado pontuar que boa parte do desenvolvimento dos "Tigres Asiáticos" processou-se sob governos ditatoriais e autoritários. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam". e teve uma base de lançamento nada depreciável. torna-se importante esclarecer que. os mecanismos de "contágio" sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa. Diante dessas afirmações. destinado a inversões especulativas em outros mercados mais lucrativos e/ou estáveis? Alguns famosos economistas acabam de declarar. Ironizam. Em segundo lugar. o qual. Por último: como não requerer (apenas porque não sei se isso já foi feito) um levantamento cuidadoso e verídico dos coeficientes de concentração de riquezas que têm sido realizados e perpetrados nesses países. que não precisamos nos preocupar demasiado com as falências generalizadas. Afinal.Democrático Nominal conseguiram.

por que devemos acreditar que são ou serão aptos a quantificar.diz eufemisticamente. descarado – da Máquina Abstrata do Capital e sua Axiomática Suprema? O que manda é o Equivalente Geral. Como explicar esse império inquestionável a não ser pelas peculiaridades da globalização. sem descartá-las por serem ingênuas e menos procedentes. no predomínio nebuloso do Capital Financeiro mundial – completamente independente de sua base material – e sua desregulação total.itiriam predizer essa "quebradeira". tanto as empresas nacionais e transnacionais quanto os organismos estatais e supra-estatais operacionalizaram seus "modelos" predominantemente com base em movimentos táticos de "invenções" e "sangrias". "em última instância". narcotraficantes. que em vão se reclama limitar jurídica e institucionalmente. que não é outra coisa mais que o pleno reinado universal – ostensivo. existem algumas outras perguntas-chave que precisamos nos fazer nessas circunstâncias. sendo que vários dos mencionados "desenvolvimentos" capitalistas realiza ram-se duran te regimes cripto ou ostensivamente despóticos – veja-se em outro contexto geopolítico a trajetória do Chile e do Peru. mafiosos e delinquenciais em geral – tenha um sistema político dotado de Assembléias Populares Comunitárias Cantonais?! A "plena" democracia suíça "perpetrou" um plebiscito. Movimentos esses 202 ▲ . de forma convincente. segundo o qual votouse a favor de continuar mantendo o segredo sobre suas contas bancárias. que é o preço de sua futura "recuperação"? Se os experts e seus organismos têm sido incapazes de conhecer as cifras necessárias ou de elaborar os modelos e as simulações que lhes perm. não é apaixonante que a Suíça – país que deve uma parte indefinida de sua prosperidade aos depósitos bancários de boa parte dos capitais "espúrios" do mundo: evasão tributária. Quanto custará ao povo desses países "novos ricos" quebrados a hipoteca dos anos vindouros. "estrutural". e se funda. não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais-valia o que não se pode mensurar!!! Como já advertiram Deleuze e Guattari. suas formas monetárias e informáhcas. tanto as vantagens do caminho capitalista "eleito" quanto o montante exigido para sua recuperação? Pelo visto. estridente. São as seguintes: por que tomar como referência comparativa e justificante das excelências liberais o Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é um tema ainda digno de muita polêmica? Por que confiar na "natural" afinidade entre Capitalismo e Democracia Nominal. incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão! Segundo me parece. "liberdade" mercadológica e "liberdades" políticas e humanas. às vezes. Pelo fato que já mencionamos antes dessa interessante questão da correlação inequívoca entre ética. subordinando à sua força quase tudo que existe como realizado no horizonte do existente. ditatoriais. A hegemonia da Axiomática do Capital consegue.

estabelecimentos. – Não se pode esquecer jamais. táticas ou técnicas históricas de cada iniciativa produtiva-desejante-revolucionária. Como último argumento. Não se pode dizer que os dois segundos sejam absolutamente contraproducentes e elimináveis. nem o saber e o poder de seus políticos profissionais e tecnoburocratas. Desejantes. isto é. e assim por diante.invariavelmente improvisados e incidentais. com a auto-análise e a auto-gestão. rigorosamente subordinados ao primeiro. sem considerar com profundidade que a tal prosperidade é fruto da participação dessas nações na espoliação colonial e neocolonial e da inexistência de bloqueios sobre suas economias. não tem muita diferença entre as variedades de Capitalismo e de Socialismo real. neoliberal. semióticas. Que Cuba. existe o hábito de invocar o sereno bemestar da Suécia. social-democrata ou socialista "soft". Noruega. nem tampouco a "participação" na democracia direta. do possível e do impossível. logísticas. Folgo em dizer que o incremento das forças produtivas de todos os tipos – incluídas as forças teóricas e expressivas – mostra que este enunciado 203▲ . – Não se deve confundir a morfologia e a dinâmica das instituições. O ceme do problema – por mais pobres e óbvias em que essas observações resultem – reside no seguinte: – Não se deve confundir a lógica dos processos que Deleuze e Guattari chamam" Produtivos. Revolucionários" – que são o "motor" da Produção ou a Produção em si – com aquela dos reprodu ti vos e antiprodutivos. cuja previsibilidade e precisão brilham pela ausência e são decididamente contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda. os componentes territorializados. mas devem estar. Finlândia e alguns ou tros países com fabulosos índices de saúde e educação. sujeitos. ou ainda a "popular". com o embargo que dura mais de três décadas e oprimida por uma "Ditadura do Proletariado". Dinamarca. Holanda. – Não se deve confundir – mesmo levando-se em conta as singularidades históricas das citadas modalidades – a separação entre meios e fins que é própria da ética dos modos e sistemas capitalistas com a imanência entre meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte. organizações. que constituem os domínios do real. quaisquer que sejam as limitações. obteve índices parecidos. agentes e práticas. hierarquizados. ajuda a demonstrar que. quaisquer que sejam as modalidades históricas que os dois termos dessa diferenciação adotem. equipamentos. porém. mimetizações e vacilações estratégicas. estratificados. que nunca o "espírito" das mesmas esteve melhor resumido que na deslumbrante fórmula – " A cada um segundo suas capacidades e a todos segundo suas necessidades" . com o âmbito do virtual atualizável. por bem ou por mal. – Não se deve confundir a democracia indireta e representativa liberal.

Ed. G. 1977. 1973. São Paulo.pode e poderá ser formulado de infinitas novas maneiras. Paris. A. Espaço e Tempo. in: "Saude loucura" nOl. A. "LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?". 1978. Ed Nuevillmagen. 1984. M. Amorrortu. G. "EI Analizador y el Analista". 'Analisis Institucional y Socioanalisis". J. ''Análise Institucional no Brasil". BuenosAires. in: Rev. G. Quehacer y Deseo". uma variação que me ocorre para a palavra-de-ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte: ''A cada qual segundo suas capacidades de lograr que – a todos segundo suas necessidades – seja uma necessidade para todos e um desafio para cada um. 1975.). Madri. 1988. tomos 1 e 2. Nueva Vision. Mendel. Ed. Barcelona. L. Ed. Lapassade. Ed. 1989. Francisco Alves. Cedisa. Lapassade. Ed. 'A Análise lnstitucional". Falias. e que isso exige aplicar às definições de capacidades e de necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados. Ed Vozes. apresentação e introdução. "EI Analisis lnstitucional". 1979. n° 62-63. "O Inconsciente Institucional". 205▲ "Sociopsicoanalisis lnstitucional". 'Autogestão: Uma Mudança Radical". in: "La Intervencion Institucional". 1975. Baremblitt. R. Hucitec. Rio de Janeiro. R. G. Rio de Janeiro. Baremblitt. Ed. G. Para terminar. Amorrortu. 1976.). coord. Ed. 1971. México. Vozes. Buenos Aires. Lourau et ill. Saidon (org. 1981. "Participacion y Autogestion". Organizações e Instituições". Cuigon (coord. Ed. Petrópolis. Buenos Aires. coord. C. 1973. Petrópolis. Campo Abierto. Poder. Cuillerm e Y. Pour. "[Analyse Institu tionnelle". Autlúer e R. Hess. vários autores. in: "Saber. Ed. Vozes. Ed. 1973. G. Tomasetta. Ed. Presses Universitaires de France. Lapassade. G. ''Análise Institucional: Teoria e Prática". Ed. in: Revista Vozes n° 4. Bourdet. Lancetti. Lourau et aI. Kankhagi e O. R. Ed. Rio de Janeiro. "Grupos." 204 ▲ BIBLIOGRAFIA BÁSICA Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura: "Apresentação do Movimento Institucionalista". 1987. Petrópolis. Paris. . J. Zahar. Mendel. Baremblitt. Lourau. V R. 1977. Ardoino (org). "EI Sociopsicoanalisis Institucional". México. ''Alguns elementos teoricos para pensar Ia cuestion de Ias derechos humanos y Ia violencia institucional".

"On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Ed. Ed. R. 1972. Papirus. Madri. Lafont. Ed. 1976. Paris. 1975. 1985. Granica. Por motivo de focalização. Payot. Paris. Ed. 'A Revolução Molecular". Ed. Civilização Brasileira. Ed. Península. Petrópolis. 1973. 1974.:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". Buenos Aires. F Cua ttari. 1981. 1976. "La Bio-Energia". "Quand plus rien ne va de soi". Lourau. em colaboração com R.lmago. Ed. 1975. 207"54 Millions d'Inclivid us sans Appartenance" . Ed. Campinas. "Empirismo y Subjetividad". 1972. Ed. Rio de Janeiro. "La Classe lnstitu tionnelle". Lafon t. Barcelona. Ia Poli tique est en Crise". Rio de Janeiro. 1988. Ed. Paris. 1986. Vozes. F Cuattari.o". G. Barcelona. Os textos aqui classificados são apenas os mais próximos. Ed. 1975. Siglo XXI. Payot. Ed. 1983. F Cuattari. São Paulo. "Mil Platôs". 2ª ed. Stock. 1977. Payot. Ed Payot. Brasiliense. Ed. "Enquete par un Psychanalyste sur Lui-Même". 'As Três Ecologias". Ed. Sigla XXI. Fundamentos. . e não pretendem. 1977. Paris. Valência. 1981. 'Au togestion Pedagógica". Deleuze e F Cuattari. R. "Micropolítica – Cartografias do Desejo". Barcelona. Ed. Barcelona. G. em absoluto. excluímos da literatura concernente à antipsiquiatria. Payot. Deleuze e F Cuattari. Paris. 1981. Barcelona. Ed. R. Ariel. Cedisa.1975. Lafont. Rio de Janeiro. Pre-Textos. Ed. Ed. "La Crise est Poli tique. 1972. Ed. 1986. 19~O. 1988. "Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". Paris. Obras de Georges Lapassade: "Chaves da Sociologia". "La Crisis e Ias Ceneraciones". à psicologia organizacional e à psicologia grupal. Península. Ed. Paris. Campinas."Psicoanalisis y TransversaJidad". Paris. Ed. "O Inconsciente Maquínico". 1977. "La Entrada en Ia Vida". "La Descolonizacion dei Niíi. F Cuattilri. Obras de Gilles Deleuze: "Para Ler Kant". Ed. Cranica. Ed. 206▲ BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA A bibliografia de consulta é vastíssima e pode ser classificada de acordo com a maior ou menor proximidade que tenha com a linha teórico-prática adotada neste livro. esgotar a lista dos possíveis. "l. "O Anti-Édipo". Barcelona. 1976. 1978. Ed. Papirus. Rolnik. Ed. Cedisa. Francisco Alves. Ed. Barcelona. Obras de Gérard Mendel: "La Rebelion contra el Padre". 'Anthropologie Diffierentielle". Madri. "Pour une autre Societé". F Cuattari e S. "EI Manifesto de Ia Educación". 1988.

Rio de Janeiro. Imago.:épi. "Spinoza y el Problema de Ia Expresión". 1983. 1971. Ed. 1984. Ed. 1989. 1974. UGE 10/18. Barcelona. Ed. Paris. 1976. Valência. Rio de Janeiro. Pre-Textos. 1971.. Rio de Janeiro. Ed. Antrophos. Paidos. Ed. 1975. Ed. Alençon. Estuclios 1 y 2.:Institué". "Espinosa e os Signos". 1979. 'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". 1987. Ed. Res. Ed.. Paidos. 'Autodissolusion des Avant-Gardes".1977.:epi. Ed. Ed. Graal. Ed. "Sociologue a Plein Temps".:Illusion Pédagogique". "Diálogos". Privat. 1977. Pre-Textos. Rio de Janeiro. Ed. Lisboa/1981. Paris.rica do Sentido". "Foucault". Ed. 1987. I. Ed. F Fourquet e L. Catedra. Barcelona. BuenosAires.. "Politique et Psychanalyse". Parnet. I. "Les Analyseurs de l'Église". Ed. 1969. 'Apresentação de Sacher Masoch". Paris. Forense Universitária. 208 . "La Imagen-Movim. Barcelona. Paris. Ed. Livraria Taurus Editora. Tusquets. "Les Lapsus des Intellectuels". Ed. 1988. "Nietzsche y Ia Filosofia". "Deleuze e a Filosofia".. Murad. Barcelona. Graal.idos. "Lót. Ed. 1981. Madri. Porto. Antrophos. "Le Analyseur'Lip"'. 1987. 1972. Rio de Janeiro. Ed. São Paulo.. "EI Bergsonismo". com F.iento". "EI Pliegue". Muchik. Des Mots Perdus. "Le Gai Savoir des Sociologues". 1969. Paris. Buenos Aires. Machado. em colaboração com F. UGE 10/18. Ed. Gill. "Kafka/ por uma Literatura Menor". Ed. Anagrama. Kairos. 1975. "Spinoza: Filosofia PréÍctica". 1989. Ed. Valência. Pa."Diferença e Repetição".:epi. Barcelona. Ed. Perspectiva. 1976.1977. Edições 70. "Los Equipamentos de Poder". 1974. Toulouse. 1980. Ed. Ed. "EI Estado y ei Inconciente". 1990. "Proust e os Signos". "I. Ed. Obras de René Lourau: "LInstituant Centre I. em colaboração com C. "Pericles y Verdi".19bO. "Nietzsche". I. Guattari. Gua ttari. R. Barcelona. 1984. G. Galilée. Ed.

1974. A1thusser. Rio de Janeiro. A1thusser. "Metáforas do Poder". Vasquez. Horme. Madri. Buenos Aires. A. Buenos Aires. "Ideologia y Aparatos Ideologicos de Estado". "Sexualidade na Instituição Asilar". A. L Menzies y E. São Paulo. J. Hess. 1985. A. J. Ed. Jaques. "Perspectives de l' Analyse Institutionnelle". 1990. Ed. Oury e A. F. Ed. Passeron. 1980. L. "Subjetividad. 1971. 1986. coord. Ed. . Chazaud. Meridiens Klinscksieck. A. 'A Reprodução". Siglo XXI. "Metáforas da Desordem". Buenos Aires. México. Matrajt. Ficha de Ia Nueva Vision. L. 1969. Rio de Janeiro. 1976. F. Paidos. Belo Horizonte. 1988. J. Segrac. 1976. A. in: Revista de Psicoanalisis. Castilho Pereira. M. Ed. BuenosAires. Pioneira. Rio de Janeiro. 3ª ed. Bleger. Ed. "Los Sistemas Sociales como Defensa contra Ia Ansiedad". Ulloa. M. Haurion. Ed. Paz e Terra. J. Fundamentos. 1990. de Ia Banda Oriental. Buenos Aires. Ed. Ed. Barcelona. A. Graal. "Replanteo". "Salud Mental y rrabajo". F. Ed Busqueda Grupo Cero. Ed. Ed. Payot. 1980. Guilhon Albuquerque. "O Adoecer Psíquico do Subproletariado". Buenos Aires. 1980. Savoye e R. "Nuevos Escritos". Oury. UAM. "Hacia una . Achiamé Socii. Bauleo. Abeledo-Perrot. Nevomar. tomo XXVI. Alves. Barcelona. Ed. Buenos Aires. "Instituição e Poder". Paidos. Achiamé/Socii. W C. Bordieu e J. "La Teoria de Ia Institucion y de Ia Fundación". 1978. Ed. 1966. C. Laia. Ed. 1977. Etzioni. Matrajt. "Contrainstitucion y Grupos". Guilhon Albuquerque. coord. "Psicohigiene y Psicologia Institucional". P.Pedagogia dei Siglo XX". 1969. Birman. "EI Psicoanalisis delas Organizaciones". 1975. "Introduccion a Ia Terapia Institucional". 1978. J. nº 1. 1980. "Psicologia de Ias Instituciones". "Emergentes de una Psicologia Social Sumergida". De Brasi. 1987. Identificaciones". J.Obras de outros autores "Psychiatrie et Psychothérapie Institutionnelle". Rio de Janeiro. Ed. Ed. jan. Ed. A. Ed./mar. R. 1968. M. Guilhon Albuquerque. de Board. México. J. Ed. Cuernavaca. Rio de Janeiro. Paris. "Organizações Modernas". 1980. Montevidéu. J. Paidos. Scherzer. C. Grupalidad. Paris.

R. BuenosAires. Toulouse. Esse percurso teve início há 40 anos. 1990. 4ª ed. Epi. Busqueda. tomos 1 e 2. Altoé. cerca de 20 números. Revista Connexions. Ed. pesquisador. Paris. Rio de Janeiro. cerca de 20 números. Ed. Privat. 1984. psicoterapeuta. Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. quatro números. analista e interventor institucional. Rio de Janeiro. Ed. Rio de Janeiro. Ed. Barhier. Hucitec. "m Proceso Grupal – Dei Psicoanalisis a Ia Psicologia Social". Buenos Aires. Baremblitt vem traçando um longo e fecundo percurso como médico psiquiatra. esquizodramatista e escritor em diversos países da América Latina e Europa. 1985. Barcelona. 210 O AUTOR Da formação em Psiquiatria à militância junto ao Movimento Instituinte Internacional. Paris. Ed. Gregorio F. Ed. Lancetti. a Sociologia. cerca de 30 números. Ed. Gregorio Baremblitt buscou sempre expandir sua atuação até as fronteiras da Medicina com a Política. Tempo Brasileiro. Paris. Revista Saudeloucura. Martin. cerca de 30 números. Fd. esquizoanalista. e foi-se tornando mais rico e complexo a cada momento em que o médico buscou o cruzamento da Medicina com outras áreas. Revista Autogestions. ''As Instituições e os Discursos". Paris. ''A Pesquisa-Ação na Instituição Educativa". Ed. Ed. Zahar. A. Revista Tempo Brasileiro n° 35.209 ▲ "Infâncias Perdidas – O Cotidiano nos Internatos". Payot. "Sociopsicoanalisis e Institucion". Xenon. A.1978. na Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires. 1989. São Paulo. Hogar deI Libro. a Arte e também os saberes populares. Ed. Esse olhar generoso e ao mesmo tempo rigoroso sobre os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma . 1974. Ed. E. Nueva Vision. Movido pela inquietação daqueles que não se contentam com o conforto garantido pelo reconhecimento dado aos especialistas consagrados. SAI. professor. S. Revista Sociopsychanalyse. Renaudot. a Filosofia. Pichon-Riviére. Periódicos. oito números. coord. da qual é livre-docente." Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui". Revista Lo Grupal.

1980. 1991. 1987. Grupos e Instituições (Ibrapsi). em colaboração com outros autores. 1998. Ed. "La Interpretacion de los Suenos: Una Técnica Olvidada". Belo Horizonte. GraalIbrapsi. 1982. 1974. Universidade Autônoma do México. culturais. e o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. São Paulo. BuenosAires. Belo Horizonte. Matrajt. Ed. em colaboração com outros autores. Hucitec. Buenos Aires. Instituto Félix Guattari. Ed. Socioanalisis. Buenos Aires. Ed. Quehacer yDeseo". "Grupos. "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria e Psicanálise". 1976. "La Cura". Ed. Buenos Aires. Vozes. Rio de Janeiro. em Uberaba (MG). livros e jornais da América Latina e Europa. Traduzido para o espanhol. Poder. uma das primeiras entidades do país a instituir formas de tratamento mental em sintonia com os ideais da Luta Antimanicomial. Hucitec. em colaboração comM. Centro Editor Latinoamericano. Nueva Vision. primeira organização no mundo separada da Associação Psicanalítica Internacional por motivos políticos. Ato Político". São Paulo. Ed. correntes e questões do Movimento Instituinte para aqueles que estão iniciando seus estudos e ações nesse campo. Ao se estabelecer no Brasil em 1977. Gregorio é autor de numerosos livros e artigos científicos e organizador de seis congressos internacionais em sua área de atuação. o Instituto Brasileiro de Psicanálise. Gregorio foi membro-fundador do grupo psicanalítico argentino denominado Plataforma. no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ed. "El Concepto de Realidad en Psicoanalisis". em colaboração com outros autores. Traduzido para o espanhol. Helguero. "Saber. Ed. em colaboração com outros autores. sempre ancorados em duas palavras-chave: auto-análise e autogestão. 1978. Há também numerosos prólogos e artigos publicados em revistas científicas. Ed. "Cinco Lições sobre a Transferência". 1984. fundou. "Cuestionamos". "Psicoanalisis: Teoria y Practica". 1988. Ed.1971. Busqueda. ''Ato Psicanalítico. 1972. Ed. Buenos Aires. Cidade do México. Petrópolis. 211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR "Introdução à Esquizoanálise". "O Inconsciente Institucional". Sua atuação no campo da saúde mental inspirou outros profissionais a criarem a Fundação Gregorio Baremblitt. Segrac. Este Compêndio é fruto de um grande esforço para traduzir as temáticas. 212 . Global Ground. Ed. mas também diversas ações nos planos de coletivos diversos: em 1970. "Lacantroças". em colaboração com outros autores.ampla produção intelectual. Teoria e Técnica". Rio de Janeiro. Ed. do qual é atualmente o coordenador-geral.

O Instituto desenvolve atividades de prestação de serviços em análise e intervenção de organizações. supervisiona trabalhos técnicos e práticos. e junto a um grupo de colegas institucionalistas. movimentos e grupos públicos e privados. O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F.com. Cep 30240-010. Belo Horizonte. arte. e suas atividades têm como inspiração a Utopia Ativa que guia a obra de Gilles Deleuze e do homenageado: a Esquizoanálise. Os interessados em entrar em contato com o Instituto Félix Guattari podem fazê-lo através dos telefones (31) 3284. conduz pesquisas. Seu nome é uma homenagem ao célebre intelectual e militante francês Félix Guattari.7352 (Fax). e está aberto a todos aqueles que compartilham de seus ideais.com.br ou pelo site www. organiza eventos. mas com ênfase na prática clínica.INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (MG) é uma organização não-governamental fundada no ano de 1996. O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (IFG-BH) também promove cursos e grupos de estudo.bh@terra.hpg. trabalho. O Instituto foi criado pelo autor deste Compêndio – o professor de Psiquiatria. saúde. MG. um dos introdutores das idéias desses autores em vários países da América Latina e Europa – em parceria com Margarete Amorim. O IFG-BH tem diversas parcerias com organizações nacionais e estrangeiras afins. políticas públicas etc.1083 e 3221.ifgorg. sendo todas as atividades pautadas em sua orientação. Sua sede fica na Rua Herval. que é também a do Movimento Instituinte Internacional. psicóloga. ecologia. 213 ▲ . edita e distribui livros e gerencia programas sociais. analista institucional e esquizodramatista. governamentais e não-governamentais que atuam nas áreas de educação.br . estabelecimento este que já conta mais de uma década de existência ancorada em uma orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte. justiça. 267 – Serra. Baremblitt de Uberaba (MG). e-mail guattari. terapeuta e institucionalista Gregorio Baremblitt.

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