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Textos Da Oficina Poética

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Oficina de poesia
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Carlito Azevedo

19 / 12 / 2005

O escritor espanhol Enrique Vila-Matas "entrou" para a literatura de uma forma muito especial. Logo nos primeiros anos de colégio, apaixonou-se por uma daquelas adolescentes lindas e inalcançáveis que só quem já foi adolescente apaixonado sabe como é difícil (e necessário) alcançar. Traçou um plano. Copiou numa folha de caderno um poema do grande lírico espanhol Luis Cernuda, tendo, contudo, o cuidado de inserir, no meio do poema, um verso de sua própria autoria. Ofereceu-o à moça. No dia seguinte, quando recebeu os calorosos cumprimentos da, já não tão inacessível, jovem, pode compensar a sensação de fraude com a deliciosa sensação de que, em verdade, uma pequena parte daqueles elogios era de fato merecida, já que era autor de um dos versos do poema. Na semana seguinte: a mesma estratégia e outro poema de Luis Cernuda foi copiado no caderno, agora "infiltrado" por dois versos do próprio Vila-Matas. Novos cumprimentos, e uma sensação cada vez maior de merecimento. A coisa seguiu assim até que a moça, totalmente conquistada, já recebia poemas inteiros de Vila-Matas, sem a presença, agora incômoda, de Luis Cernuda. A moça passou, mas Vila-Matas nunca mais abandonou a literatura. Embora, após a adolescência, tenha trocado a poesia pela prosa. Inclusive porque sempre há outras musas a conquistar, a quem dedicar poemas... algumas de nomes muito conhecidos: "Glória", "Revolução", "Verdade"... Voltaremos a falar delas. *** É uma pena que nem a jovem e nem Vila-Matas tenham guardado os "originais" desses poemas. Assim teríamos uma idéia mais clara de como o autor de Bartleby e companhia foi afirmando sua própria voz no meio do cânone, representado ali pela grandeza de Luis Cernuda. Afirmar sua própria voz em meio a uma tradição de tão poderosos solistas, os Baudelaire, os Drummond, os Shakespeare, as Ana Cristina Cesar, os César Vallejo, os Paulo Leminski, as Emily Dickinson etc, não é brincadeira... Não é brincadeira, mas Borges conseguiu, Thomas Bernard conseguiu, Czeslaw Milosz conseguiu, Paulo Henriques Britto conseguiu, Lu Menezes conseguiu... e não importam aqui hierarquizações do tipo "quem é mais importante que quem"... Deixemos essa ociosa tarefa para os que acham alguma graça em hierarquizar coisas que podem muito bem ser vistas de uma perspectiva não-hierárquica... Num de seus textos mais interessantes, T. S. Eliot dizia que toda vez que encontrava um sujeito que gostava de absolutamente "todos" os autores bons, e desprezava absolutamente "todos" os autores "não-bons", sentia que estava diante de alguém que era mais um "bom aluno" do que um verdadeiro amante da poesia... Alguém que aprendeu tudo direitinho... Para ele, o sujeito realmente apaixonado por poesia deveria desgostar de pelo menos um poeta maior, daqueles que todo mundo gosta... e deveria, por algum motivo misterioso, trazer bem dentro do coração algum poeta menor, daqueles que ninguém gosta...

Porque na poesia acontece um pouco como no amor. Você tem todos os motivos para gostar daquela pessoa que seria perfeita pra você... mas não gosta... Ao invés disso, adora aquele ser que todos dizem (e você bem sabe) que não presta... Não se incomodem portanto se os exercícios, aulas ou módulos colocarem em absoluta convivência democrática nomes como Ezra Pound e Charles, Mallarmé e Heitor Ferraz, João Cabral e Adília Lopes... O coração de quem ama poesia tem lugar para todos... Como diz o poema "A acácia-meleira rosa", do poeta norte-americano William Carlos Williams, um grande poeta que inventou seu lugar no meio da mais esplendorosa geração de poetas dos Estados Unidos: "E assim, como esta flor, eu persevero – pela importância que isso possa ter. Não sou, e bem o sei, na galáxia dos poetas uma rosa, mas quem, entre os demais, me negará o meu lugar." *** Poesia? O que você quer exatamente com ela? Qual o nome da musa que te interessa?

Glória? Revolução? Verdade? "Glória" eu não recomendo. Dá atenção demais ao que os outros dizem. "Revolução" também não. É o tipo de garota que no final pode se voltar contra você. Mesmo sabendo que você daria a vida por ela. Quanto à "Verdade"... bem que poderia acusá-la de falta de imaginação. De viver copiando os outros. De viver dizendo o que é certo e o que é errado. Sem falar que seus dois irmãos, "Realismo" e "Naturalismo", são dois sujeitos fortões que não permitem a menor liberdade com "Verdade". Mas acho que o golpe fatal que pode ser dado nessa garota é outro: com o tempo, sempre é desmentida. Mas não fique assim, desanimado... repare naquele outro grupinho, o das "garotas más": "Mentira", "Fantasia", "Invenção"... e no grupo de "rapazes maus": "Logro", "Fingimento", "Falso Testemunho"... Essa turma é boa... É claro que não são coisas que você vai querer encontrar na chamada "vida real". Mas para a "vida simbolizada", aquela dos poemas, dos contos, dos romances, são ingredientes fantásticos. *

Alguém pode perguntar assim: "Mas quer dizer então que aquele pungente e emocionante sentimento que encontramos, por exemplo, num poema belíssimo como "Algo preto", no qual o francês Jacques Roubaud fala do desaparecimento de sua esposa, é fingimento?" De jeito nenhum. Mas pense bem. Se você descobrisse que aquilo era uma invenção do Roubaud, que nunca houve essa esposa... que era tudo ficção... o poema seria menos "belíssimo"? Ou melhor: é menos belíssima por ser inventada a história de Anna Karenina? A história e o final trágico de Madame Bovary são menos pungentes por sabermos que Madame Bovary nunca existiu, ou, como dizia Flaubert, Madame Bovary era ele? Em que melhoraria um poema como "A máquina do mundo" se soubéssemos que Drummond realmente palmilhava uma estrada de Minas, pedregosa, quando para ele abriu-se a máquina do mundo? Um dos poemas mais famosos do romantismo francês é "O lago", de Lamartine, que dizia tê-lo escrito de um jato, fulminado por uma inspiração, quando caminhava à beira de um lago. Depois de sua morte, pesquisadores encontraram, entre os seus papéis, rascunhos que atestam que o poema levou um bom tempo, no mínimo quatro meses, entre seu nascimento e sua versão final... muito diversa da primeira... Devemos gostar menos do poema por causa disso? Se você disse sim, então talvez você goste menos de poesia do que de processos mediúnicos... Tem gente que não acha graça nenhuma no fato do homem ter colocado um foguete de centenas de toneladas na lua, e tê-lo trazido de volta... mas basta alguém lhe dizer que presenciou um copo que se movia sozinho sobre uma mesa de vidente que cairá de joelhos maravilhado... Se você está escrevendo um romance, um poema ou um conto, não importa se o que está narrando aconteceu ou não... O importante é saber se em algum momento, para ser mais "fiel" ao fato real, você aceitou desligar a chave da imaginação... isso sim é imperdoável... *** Cabe, aliás, perguntar: será verdadeira aquela história contada por Enrique Vila-Matas? *** Bem, se você chegou até aqui, parece que está preparado para o jogo da oficina literária. E como todo jogo, este deve começar com as regras sendo muito bem esclarecidas. A oficina será composta por dez módulos (aulas). Em cada módulo apresentaremos um tema específico (por exemplo: o poema em prosa, poesia e pintura, poesia e cinema, monólogo dramático, enumeração caótica na poesia moderna etc.). Tomemos como exemplo o caso do poema em prosa. Contaremos um pouco do nascimento, desenvolvimento e evolução do gênero "poema em prosa". Depois comentaremos alguns poemas em prosa, desde os Pequenos poemas em prosa, de Baudelaire, até os atuais, que atestam a permanência do interesse dos poetas contemporâneos pelo gênero (como exemplo cito aqui o livro As coisas, de Arnaldo Antunes, todo composto por poemas em prosa). O interessante é se perguntar porque é que os poetas, em dado momento (que dura até hoje) acharam que o verso já era muito pouco para a poesia, que esta necessitava de um outro tipo de expansão... Daremos sugestões de leitura crítica sobre o tema, para aqueles que desejarem se aprofundar no assunto.

E, é claro, pediremos que escrevam poemas em prosa. Com sugestões técnicas que podem ser seguidas ou não. Em geral serão sugestões que ajudem a quebrar a rigidez dos modelos... afinal, ninguém está aqui para ser um bom aluno, todo mundo está aqui querendo escrever poemas, falar sobre poesia... *** Na verdade, nosso processo será um pouco como o do Vila-Matas, exposto nos primeiros parágrafos deste texto. Mas não é sempre assim? Lembram do episódio Bíblico (Gênesis, 18), quando Deus queria destruir Sodoma? Abraão intercedeu pela cidade, dizendo que se houvesse cinqüenta justos na cidade, eles não poderiam pagar pelos injustos. Deus aceita não destruir a cidade se encontrar ali cinqüenta justos. Abraão depois fala em quarenta e cinco, depois quarenta, depois trinta, e no final fica combinado que a cidade seria salva se ali houvesse dez homens justos. Pois bem. Digam-me se não foi inserindo a própria voz e poesia nessa história tão antiga que Jorge Luis Borges escreveu seu poema "Os justos": OS JUSTOS Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra haja música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade. Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto. O que acaricia um animal adormecido. O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. O que agradece que na terra haja Stevenson. O que prefere que os outros tenham razão. Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo. (O talento de Borges foi o de, respeitando integralmente a essência da questão - ou seja: alguns homens justos podem salvar o mundo -, colocar muita coisa que não havia na história original... por exemplo: a idéia de que os salvadores do mundo são homens simples, que fazem coisas simples, e nem se conhecem... esses é que estão salvando o mundo, e não aqueles famosos "salvadores da pátria", os "Grandes Heróis" que se arvoram em "Grandes Heróis", políticos, militares, homens públicos... Voltaremos a falar nesse poema na aula-módulo "enumeração caótica na poesia moderna", de que ele constitui ótimo exemplo.) *** Esta primeira aula eu acho que contou mais como uma exposição de motivos, não é? Mas penso que abordamos questões importantes. De todo modo, se você já quiser um exercício ou sugestão para um poema, que tal usar o "procedimento Vila-Matas"? Pegue um poema de algum poeta de sua preferência e insira nele uma estrofe inteira de sua autoria... depois, pegue sua estrofe e faça o seu próprio poema... podemos considerar que os poetas nascem uns dos outros, e que do casulo de um sai a borboleta de outro... Não se prenda a questões como "angústia da influência", "atentado à originalidade"... tente

só se divertir um pouco... Até breve... Carlito Azevedo 10 / 01 / 2006

Uma das definições mais conhecidas de "poesia lírica" afirma que ela é "a expressão do EU do poeta". Mas o que fazer com tal definição hoje, depois do tal "EU" ter passado, nos séculos 19 e 20, pelo bombardeio pesado da psicanálise, da lingüística e da filosofia? Se ele (ou seja, o "EU") não desapareceu totalmente, como proclamaram com certa afoiteza os que consideravam que o poema era escrito metade pela linguagem e metade pela sociedade (na qual o poeta teria a função de ser uma espécie de "impressora"), depois desse bombardeio ele perdeu muito de sua pose, de sua pretensão. De "inalterável" e "sempre idêntico a sim mesmo" passou a ser "variável e ambíguo". De "íntegro e indivisível" passou a ser "fragmentado, estilhaçado". Carlos Drummond de Andrade se deu conta disso e batizou uma seção de sua Antologia poética de "Um Eu todo retorcido", imagem que não deixa de lembrar aquelas estátuas derretidas, retorcidas, quebradas, destruídas, das cidades bombardeadas na Segunda Guerra Mundial, estátuas que antes ostentavam, em bronze e mármore, uma olímpica pretensão de eternidade. Os poetas mais sensíveis não deixaram de apresentar, em seus poemas, as feridas e escoriações dessa batalha. No poema "Últimos dias", o próprio Drummond escreveu o famoso verso: "Adeus, composição que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade". Ferreira Gullar escreveu um "Réquiem para Gullar" e Sebastião Uchoa Leite escreveu um irônico auto-epitáfio: aqui jaz para o seu deleite sebastião uchoa leite O grande poeta peruano César Vallejo termina com os seguintes tercetos o seu soneto "Pedra negra sobre uma pedra branca": César Vallejo morreu, pois lhe batiam todos sem que lhes fizesse nada; batiam firme com porrete e firme também com um chicote; são testemunhas as quintas-feiras e os ossos úmeros, a solidão, a chuva, os caminhos...

Poema que traz à mente, é inevitável, o clássico de Paulo Leminski: o pauloleminski é um cachorro louco que deve ser morto a pau a pedra a fogo a pique senão é bem capaz

o filhadaputa de fazer chover no nosso piquenique. Há um lindo poema de Eudoro Augusto, chamado "Barcarola", que termina assim: Sem mais, comunico com pesar que o projeto Eudoro Augusto não é viável no momento. E há o texto irônico, belo e radical, de Aníbal Cristobo que, a partir do próprio título "Ghost Writer", brinca com essa condição fantasmagórica, zumbi, do "EU" autoral: Ghost Writer O poeta, e seus procedimentos: (aqui) círculo a que regressam as paixões, - quase sem voz - ensombrecidas pela imaginação. Ângulo do poema: "que ao falar com você exista intimidade, e que tudo possa ser perdido e reencontrado assim: em outros cenários". [...] Aníbal sumiu! Aníbal está dormindo!-" Bem, acho que não preciso chamar a atenção para o que estes poemas têm em comum. O que ocorre aqui é que por uma mesma pressão, vários poetas (e fazem parte da lista muitos outros, como Allen Ginsberg, Boris Vian, Régis Bonvicino, Augusto de Campos etc) sentiram a necessidade de inscrever seu nome próprio no poema, complicando ainda mais a questão do sujeito do poema... Note-se que na maioria absoluta dos casos, o nome é expresso sob a forma da inviabilidade, da desaparição, da morte, da interdição, do desajustamento ("Vai, Carlos, ser gauche na vida!"). O "EU" que fora bombardeado pela psicanálise, filosofia e lingüística, não veio encontrar no poema nenhum refúgio ou um socorro... Pelo contrário, também o poema participava do bombardeio, da asfixia. * Sendo assim, o que fazer com aquela definição da poesia lírica como "expressão do EU"? Definição responsável pela opinião, hoje já bastante desgastada, de que se um poema é "genial", seu autor (de que ele seria a expressão mais fiel) seria um "gênio" necessariamente. Em vez de responder a essa pergunta, sigamos em frente observando algumas das várias soluções que os poetas encontraram para esse "estado de coisas". Uma delas foi justamente deixar de falar de si e falar "de coisas". O título de um livro do poeta Francis Ponge era sintomático: Le parti pris des choses, que se poderia traduzir por "O partido das coisas", ou "Tomando o partido das coisas".

É claro que essa poesia do objeto, objetiva, não nasceria isenta de contradições e conflitos, como bem notou João Cabral, poeta objetivo, no poema "Dúvidas apócrifas de Marianne Moore": Sempre evitei falar de mim, falar-me. Quis falar de coisas. Mas na seleção dessas coisas não haverá um falar de mim? Esta permanência residual do EU, agora não mais dominante, não mais senhor todo poderoso do poema, não mais mandarim, mas sim reduzido a ser mais uma coisa entre coisas, um EU que duvida de si, tem sido em geral mais prolífica em bons poemas do que as tentativas anacrônicas de ressuscitar o EU maiúsculo e imperial (sob pretexto de um "fracasso" modernista), e do que as poéticas hiper-vanguardistas que alimentavam a fantasia de uma objetividade total. Outra solução, além desta, foi, e continua sendo cada vez mais, a utilização do "poema em vozes", no qual o poeta, mais do que "alguém que fala", torna-se "alguém que escuta". Nesses casos, o poeta parece admitir que o tão falado "interior" é o "lugar não do MEU, não do EU, mas de uma passagem, de uma fresta por onde um sopro de fora nos toma", como escreveu o dramaturgo francês Valère Novarina. Esse "poema em vozes" pode ser um recorte cotidiano com intenção crítica, como em tantos poemas de Francisco Alvim. Vejamos dois deles: MOÇO, FORTE Vem cá você por acaso me chamou de ignorante você é que me chamou chamei a administradora me chame outra vez porque aí sim você vai ver a ignorância ora vá andando eu estou aqui trabalhando e você atoa um caralho perdi dez mil cruzeiros por culpa de vocês chiu olha as senhoras chiu olha o respeito

ALMOÇO Sim senhor doutor, o que vai ser? Um filé mignon, um filezinho, com salada de batatas Não: salada de tomates E o que vai beber o meu patrão? Uma caxambu Interessante observar que o registro de vozes aqui funciona também ao mostrar que a violência da subserviência "cordial" do segundo poema não é menor do que a agressividade social do primeiro. Mas um "poema em vozes" também pode ter intenções menos claras, menos explícitas. Não só o "recorte" da fala no tecido social interessa a esse tipo de formato poético. Também a invenção da fala pode abrir novas dimensões na linguagem, como bem mostra

esse esplêndido poema de Michael Palmer, um poeta norte americano nascido no início dos anos 40 (a tradução é do poeta Régis Bonvicino): AUTOBIOGRAFIA 4 IDEM Voz: Você vê o tom púrpura que tomou o céu? Outra voz: Eu diria malva, é quase malva. V.: Existe alguma diferença? O.V.: Uma tem mais rosa. V.: Qual? O.V.: Qual o quê? V.: Qual tem mais rosa? O.V.: Eu realmente não sei. V.: Então, como você pode... O.V.: Soa correto, para essa cor. V.: Você vai sempre pelo som? O.V.: Som? V.: O som, o... O.V.: O que isso quer dizer "ir pelo som"? V.: Quero dizer às vezes que começa com sons – nada além. Você persegue, você... O.V.: Sons musicais? V.: Não, menos articulados. O.V.: Como os sons ao nosso redor agora? V.: Não, como os sons ao nosso redor agora. O.V.: Sons que não pode ouvir. V.: Sons que não pode ouvir. O.V.: Você escuta sons que não pode ouvir? V.: Não. O.V.: Não? V.: É antes de ouvir. O.V.: Antes de ouvir? V.: Ouvir é atenção. Antes da atenção. O.V.: Malva: "Púrpura delicado, violeta ou lilás". V.: Púrpura: "Um tom de cor entre o azul e o vermelho; uma das cores usualmente chamada de violeta, lilás, malva etc." O.V.: Não e mesmo. V.: Não e mesmo. O.V.: Não como mesmo. V.: Não mesmo. O.V.: Mesmo não mesmo. V.: A forma está completa aos 36. O.V.: Magenta. Aqui, a linguagem, a fala, é mais do que a "moeda de troca" entre os homens, mais do que algo reduzido à tarefa de comunicar. Sua física é diferente. Entre a inexatidão e o acerto, entre a lógica e a anti-lógica, nossa fala é o que "abre um buraco no mundo" (Valère Novarina). Há algumas diferenças técnicas interessantes entre os poemas de Alvim e Palmer. O primeiro não utiliza travessões para marcar as falas de cada personagem, falas que também não trazem nenhuma rubrica identificatória. Mas mesmo assim podemos definir com razoável facilidade quem fala e quando é interrompido, pois os papéis sociais se revelam nas tonalidades e no vocabulário. Já Palmer não só apresenta os travessões demarcatórios como identifica (por pouco que seja) quem está por detrás dos travessões (uma voz, outra voz), mas por outro lado seu poema torna dificilmente identificáveis os "actantes" (a não ser que, guiados pelo título, imaginemos que essas duas vozes ou mais, já que "outra voz" pode ser sempre e a cada vez um "outro emissor" representem a os estilhaçamento do EU autobiografado).

Um belo poema em vozes foi escrito pelo grande lírico espanhol Federico García Lorca e se encontra no livro O poeta em Nova York: ASSASSINATO (Duas vozes de madrugada em Riverside Drive) - Como foi? - Um corte no rosto. E ponto final! Uma unha que oprime o talo. Um alfinete que mergulha até encontrar as raízes mínimas do grito. E o mar deixa de mover-se. - Como, como foi? - Assim. - Não pode ser! Dessa maneira? - Sim. O coração saiu sozinho. - Ai, ai de mim. A cena (re)criada por Lorca é identificável: duas pessoas comentam um crime na madrugada. Mas a lírica transfiguradora e metafórica de Lorca vai buscar nessas vozes mais do que o mero relato do crime. Como ele mesmo diz, o alfinete do poema quer investigar as próprias "raízes do grito". 40 anos depois de publicado o livro de Lorca, o poeta mineiro Cacaso, em plena ditadura militar, vai glosar este poema em seu livro Grupo escolar. Mas o que ouve o poeta do "país do futuro" não é o mesmo que ouve o "poeta em Nova York": O FUTURO JÁ CHEGOU - Como foi? - Com revólver, arrebentou a cabeça. E nem o sangue bastou para desatar seus cabelos. O desespero cortou-se pela raiz. - Impossível. Como foi? - Assim. - Mas como? - Dizia que estava desanimado, que as coisas não faziam sentido. Ultimamente já nem saía de casa. * Talvez porque o diálogo seja uma das principais características do texto teatral (que, no entanto, não se reduz a ele), não há como não ler esses poemas como se fossem uma espécie de teatro-relâmpago, teatro-sintético. E é mesmo pesquisando nas margens da poesia, onde a poesia faz fronteira com outras narratividades (cinema, teatro, prosa etc) que os poetas parecem buscar elementos para suprir o vazio deixado pelo derretimento do EU. Mas além do diálogo, há outro formato bastante característico do teatro que foi adotado com tremendo sucesso pela poesia. Trata-se do "Monólogo dramático", um formato criado no século 19 pelo poeta inglês Robert Browning. O monólogo dramático é simplesmente um poema em que o poeta cede a voz a um personagem (real ou ficcional). Sem ser interrompido (o que já constituiria um diálogo), o

personagem fala. Eis um exemplo bem conhecido, de João Cabral de Melo Neto: Graciliano Ramos: Falo somente com o que falo: com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol que as limpa do que não é faca: de toda uma crosta viscosa, resto de janta abaianada, que fica na lâmina e cega seu gosto da cicatriz clara. (...) Como todo o seu senso de humor, Jorge Luis Borges escolheu para ser o personagem de um de seus monólogos dramáticos justamente o inventor do monólogo dramático: Roberto Browning. No poema de Borges, que reproduzo aí embaixo, Browning ainda é um jovem que parece estar tendo a visão dos poemas que vai escrever e do gênero que vai inventar, pois cita personagens que mais tarde serão personagens de seus monólogos dramáticos... BROWNING RESOLVE SER POETA Por estes rubros labirintos de Londres descubro que escolhi a mais curiosa das profissões humanas, embora todas, a seu modo, o sejam. Como os alquimistas que procuraram a pedra filosofal no fugitivo argento-vivo, farei com que as palavras comuns - cartas marcadas do taful, moeda da plebe rendam a magia que foi sua quando Thor era o nume e o estrondo, o trovão e a prece. No dialeto de hoje direi, por minha vez, coisas eternas; tentarei não ser indigno do grande eco de Byron. Este pó que sou será invulnerável. Se uma mulher compartilhar meu amor, meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos; se uma mulher desdenhar meu amor, farei de minha tristeza uma música, um alto rio que continue ecoando no tempo. Viverei de esquecer. Serei o rosto que entrevejo e esqueço. serei Judas, que aceita a divina missão de ser traidor, serei Caliban no lamaçal, serei um soldado mercenário que morre sem temor nem fé, serei Polícrates, que vê com espanto o anel que o destino devolveu, serei o amigo que me odeia. O persa me dará o rouxinol e Roma, a espada. Máscaras, agonias, ressurreições

vão destecer e tecer minha sorte e algum dia serei Robert Browning. (Tradução de Josely Vianna Baptista)

EXERCÍCIOS: Depois de toda essa conversa, não há muita dúvida quanto ao que vou sugerir como exercício. Escolham uma dessas três opções (ou as três, se estiverem inspirados) e divirtam-se fazendo poemas... 1) Um EU todo retorcido: Faça um poema em que você escreva seu nome próprio, como nos inúmeros exemplos aqui mostrados. Tente observar se ao escrevê-lo você está apresentando uma abordagem auto-crítica ou auto-celebratória, auto-piedosa ou cruel, ou seja, se está vendo o seu nome sob um prisma olímpico ou da inviabilidade. 2) Poema em vozes: Vale aqui soltar a imaginação. Escreva diálogos que ouviu na rua ou invente diálogos do modo que achar melhor... Não há nenhum problema se você quiser escrever até uma minipeça (de no máximo duas páginas). O poeta e dramaturgo alemão Heiner Müller tem vários trabalhos que ficam numa região indecidível entre o poema e o drama, como esse aqui, tão curto quanto belo: PEÇA CORAÇÃO Um- Posso pôr meu coração a seus pés. Dois- Se não sujar meu chão. Um- Meu coração é limpo. Dois- É o que veremos. Um- Eu não consigo tirar. Dois- Você quer que eu ajude? Um- Se não incomodar. Dois- É um prazer para mim. Eu também não consigo tirar. Um- (Chora) Dois- Vou operar e tirar para você. Para quê que eu tenho um canivete. Vamos dar um jeito já. Trabalhar e não desesperar. Pronto – aqui está. Mas isto é um tijolo. Seu coração é um tijolo. Um- Mas ele bate por você. (Tradução de Marcos Renaux) 3) Monólogo dramático: Escolha um desses personagens abaixo citados e faça-o falar no poema: CAPITU RASKOLNIKOFF SUPER-HOMEM WOLVERINE JOANA D'ARC BRECHT CHE GUEVARA CARMEM MIRANDA HAMLET ou qualquer um que você queira... Mas faça-o falar, tenha o prazer de ser por um momento o "autor" da fala dessas figuras. Espero que tenham muito prazer com essas brincadeiras...

Até breve. Carlito Azevedo 17 / 01 / 2006

O poema em prosa seria um tema espinhoso e controverso, tão ou até mais espinhoso e controverso quanto a questão das letras de música (são ou não são poesia?), se não tivesse recebido, desde a origem, o aval de alguns dos mais incontestáveis poetas do século 19, quando parece ter sido criado, pelo menos nos moldes como é conhecido e praticado hoje. Afinal, se Baudelaire escreveu seus "Pequenos poemas em prosa", se Rimbaud escolheu esse mesmo formato para seus dois livros principais Uma estadia no inferno e As iluminações, se Mallarmé, Francis Ponge, Drummond, Lautréamont, Manuel Bandeira, João Cabral, Octavio Paz, Jorge Luis Borges, Pablo Neruda, César Vallejo e tantos outros, nos quatro cantos do mundo, praticaram o poema em prosa, isso torna mais difícil, mas muito mais difícil mesmo, o trabalho dos "fiscais de fronteira poética", essas criaturas que, sem nenhuma ironia ou auto-ironia, adoram ficar regulamentando as coisas: "isso é poesia, isso não é poesia". Porque exatamente disso se trata: cruzar fronteiras como um clandestino, forçar os limites, ampliar os limites da poesia, levar mais além os confins da poesia. Quando alguns dizem: até aqui! Outros dizem: ir mais além! Quando alguns dizem: basta! Outros dizem: não basta! Mas se o poema em prosa, graças ao auxílio luxuoso desses grandes poetas, conseguiu "direito de cidadania", nem por isso o problema que ele propõe se tornou menos radical e revolucionário. Eu diria até que a rápida consagração do gênero deixou em segundo plano sua questão fundamental: O poema, para ser poema, precisa do verso? O poema depende do verso? É refém do verso? Há poema fora do verso? Bem, deixemos essas questões para mais adiante. Ou melhor, vamos dar uma olhadela em alguns poemas em prosa para sabermos melhor do que estamos falando, e deixar que os próprios poemas guiem nossa reflexão. Comecemos com esse poema em prosa belíssimo do brasileiro Jorge de Lima: O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu stradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o pára-quedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre

as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

Cada um pense porque é que o autor de versos perfeitamente metrificados e versos livres de cadências tão sutis escolheu justamente a prosa para dar conta dessa imagem tão poderosa do desastre aéreo, mas não se esqueçam da ironia do final, quando se fala que diante daquela chuva de sangue no céu, os "poetas míopes" viam um "arrebol". Afinal, a miopia de alguns poetas talvez seja a responsável por eles não conseguirem ver que a estrada da poesia não termina logo ali, vai sempre mais longe. Vejamos agora outro poema em prosa, desta vez de um contemporâneo, Arnaldo Antunes. As pedras são muito mais lentas do que os animais. As plantas exalam mais cheiro quando a chuva cai. As andorinhas quando chega o inverno voam até o verão. Os pombos gostam de milho e de migalhas de pão. As chuvas vêm da água que o sol evapora. Os homens quando vêm de longe trazem malas. Os peixes quando nadam junto formam um cardume. As larvas viram borboletas dentro dos casulos. Os dedos dos pés evitam que se caia. Os sábios ficam em silêncio quando os outros falam. As máquinas de fazer nada não estão quebradas. Os rabos dos macacos servem como braços. Os rabos dos cachorros servem como risos. As vacas comem duas vezes a mesma comida. As páginas foram escritas para serem lidas. As árvores podem viver mais tempo que as pessoas. Os elefantes e golfinhos têm boa memória. Palavras podem ser usadas de muitas maneiras. Os fósforos só podem ser usados uma vez. Os vidros quando estão bem limpos quase não se vê. Chicletes são para mastigar mas não para engolir. Os dromedários têm uma corcova e os camelos duas. As meias-noites duram menos do que os meios-dias. As tartarugas nascem em ovos mas não são aves. As baleias vivem na água mas não são peixes. Os dentes quando a gente escova ficam brancos. Cabelos quando ficam velhos ficam brancos. As músicas dos índios fazem cair chuva. Os corpos dos mortos enterrados adubam a terra. Os carros fazem muitas curvas para subir a serra. Crianças gostam de fazer perguntas sobre tudo. Nem todas as respostas cabem num adulto.

Quem conhece, por pouco que seja, o trabalho de Arnaldo Antunes, sabe que ele atua no sentido contrário daqueles "fiscais da alfândega poética" que vivem querendo impor limites para a poesia. O trabalho de Arnaldo é justamente testar até onde vai a poesia, um trabalho que é, no mínimo, mais divertido. Daí seus poemas-foto, poemas-desenho, poemas-rabisco, poemas-verso (por que não?), poemas-em-prosa, poemas concretos, pós-concretos e pop-concretos etc... Nem todas as respostas cabem num adulto, mas todas as perguntas cabem num poema, em especial aquela: "por que é que não pode?" Mais um poema em prosa antes de atacarmos outro lado da questão. Vamos ao começo de tudo, vamos a Baudelaire: EMBRIAGAI-VOS É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e voz faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: - É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,

embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Este poema vai ecoar em Carlos Drummond de Andrade, num poema, aliás em versos, chamado "Poema da necessidade", que diz assim: "É preciso estudar volapuque,/ é preciso estar sempre bêbado,/ é preciso ler Baudelaire,/ é preciso colher as flores/ de que rezam velhos autores." Aliás, os poemas em prosa de Baudelaire parecem ser umas das principais matrizes do primeiro Drummond, o que demonstra a importância particularmente grande que o gênero possui entre nós. Comparemos "A sopa e as nuvens", de Baudelaire, com o poema "Sentimental", de Alguma poesia, livro de estréia de Drummond: A SOPA E AS NUVENS A louca da minha bem-amada me dava de jantar, e pela janela aberta da sala de refeições eu contemplava as movediças arquiteturas que Deus faz com as nuvens, as maravilhosas construções do impalpável. E dizia, comigo, através da minha contemplação: "Todas estas fantasmagorias são quase tão belas quanto os olhos de minha amada, a pequena louca monstruosa de olhos verdes." De súbito senti um violento murro nas costas e ouvi uma voz rouca e encantadora, uma voz histérica, e como enrouquecida pela aguardente, a voz da minha querida bem-amada, que me dizia: - Trate de tomar a sua sopa, seu maluco, mercador de nuvens!

E vejamos o que diz o poema de Drummond: SENTIMENTAL Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão. No prato, a sopa esfria, cheia de escamas e debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho. Desgraçadamente falta uma letra, uma letra somente para acabar teu nome! - Está sonhando? Olha que a sopa esfria! Eu estava sonhando... E há em todas as consciências um cartaz amarelo: "Neste país é proibido sonhar."

Acho que já podemos enfrentar então outros pontos da discussão: 1- O poema em prosa "canônico" não é aquele escrito em "linguagem prosaica". É aquele que, independentemente da linguagem utilizada, abandona o verso, e segue de uma à outra margem da página linearmente... sem quebras, como na prosa. 2- Diz Baudelaire, ao prefaciar seu livro de poemas em prosa: "Qual de nós, em seus dias de ambição, não sonhou com o milagre de uma prosa poética, musical sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?"

Como quer que interpretemos essas palavras, o fato é que ele está falando em libertação de amarras... Trata-se de levar a poesia para além do limite do verso (que contudo continuará sendo utilizado)... Trata-se de uma necessidade de romper as formas tradicionais e acrescentar a elas novas formas... Pode-se argumentar que isso é, no mínimo, polêmico. Afinal, o que faria de algumas das narrativas curtíssimas de Kafka, prosa, e de alguns textos em prosa de Max Jacob, poesia? Leiamos "As árvores", de Kafka: Porque somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente, apenas estão apoiados na superfície, e com um pequeno empurrão seriam deslocados. Não, é impossível, porque estão firmemente unidos à terra. Mas atenção, também isto é pura aparência.

Leiamos "Noite infernal", de Max Jacob: Algo de terrivelmente frio me cai sobre os ombros. Algo pegajoso se me prende ao pescoço. Uma voz vinda do céu grita: "Monstro!" sem que eu saiba se é de mim e dos meus vícios que se trata, ou se de longe se referem ao ser viscoso que a mim se agarra.

E este texto de Caio Fernando Abreu? Prosa ou poesia? MERGULHO II Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar. As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: "Ou você aprende ou morre". Acordou quando a água chegava a seus tornozelos. Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir. Na terceira noite, o navio afundou.

Então, já conseguiu perceber porque Kafka é prosador e Max Jacob poeta? Não? Então acertou! E já decidiu se o texto de Caio Fernando Abreu é prosa ou poesia? Também não? Então acertou de novo! Porque se há romances que são evidentemente romances, e se há poemas que são evidentemente poemas, há também "trabalhos" que ousam penetrar numa região híbrida, agir como espiões infiltrados em território alheio... roubando dali o que bem lhe interessar. Para esses textos, a mistura e a hibridez são mais valiosas que a obediência estrita aos cânones... 3- Mas porque é que alguns poetas, de repente, resolveram se infiltrar no país da prosa? Nas questões anteriores chegamos a compreender a legitimidade dessa atitude. Mas qual a utilidade dessa atitude? O que os levou a tomá-la?

E que tal mais uma pergunta: quando Baudelaire escreveu os Pequenos poemas em prosa, já tinha gente escrevendo verso livre, como Walt Whitman, por exemplo. Porque é que em vez de escrever poemas em prosa, Baudelaire não escreveu poemas em verso livre, já que também ele poderia significar uma forma "musical sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência"? Há aqui duas possíveis respostas: ou Baudelaire era muito conservador e queria preservar para o verso a nobreza do metro e da rima, preferindo a prosa para seus experimentos mais livres... ou era mais revolucionário do que todos os "verso-livristas" de então, pela simples consciência de que o verso livre não passaria de um paliativo... ou um truque do verso para sobreviver em novos tempos. Com Baudelaire, nada de paliativos, se é para deixar o verso, que seja para penetrar de vez, sem pudores, no território proibido da prosa. Bem, o que posso fazer agora, depois de deixar no ar estas questões, e além de pedir para que escrevam e me mandem os seus poemas em prosa, é sugerir algumas leituras. Alguns clássicos do gênero "poema em prosa" já foram lançados no Brasil, como: - Pequenos poemas em prosa, de Charles Baudelaire (Nova Fronteira). - Uma estadia no inferno e Iluminações, de Rimbaud (dentro do volume Prosa poética, da Topbooks) - Cantos de Maldoror, de Lautréamont (Iluminuras) No Brasil, a produção de poemas em prosa se não é dominante, está presente em quase todos os poetas contemporâneos. Cito alguns: - Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto (Nova Fronteira, dentro da Poesia completa) - Carlos Drummond de Andrade escreveu poucos mas preciosos poemas em prosa, como "Morte de Neco Andrade", de Fazendeiro do ar, "O Enigma", de Novos poemas, "Operário no mar", de Sentimento do mundo, entre outros. Uma ótima mistura de poema em versos e poema em prosa está no poema "Outubro 1930", de Alguma poesia. - São clássicos os poemas em prosa de Manuel Bandeira, como "Lenda brasileira" (de Libertinagem), "Noturno da rua da Lapa" (idem), "Desmemoriado de Vigário Geral" (de Estrela da manhã), entre outros. - Crime na flora, editado pela José Olympio, é uma experiência radical de Ferreira Gullar com o poema em prosa que merece ser mais conhecida. - Os poemas em prosa objetivistas de Sebastião Uchoa Leite e os mais surrealistas de Leonardo Fróes estão entre os melhores poemas em prosa contemporâneos. Os de Sebastião poderão ser encontrados em livros como Obra em dobras (Coleção Claro Enigma), A regra secreta (Landy), e A ficção-vida (ed. 34). Os de Leonardo Fróes em Vertigens, que reúne quase toda a sua poesia (Rocco). - Muito singulares dentro do "formato" poema em prosa são os livros Galáxias, de Haroldo de Campos, A teus pés, de Ana Cristina Cesar, e Me segura qu'eu vou dar um troço, de Waly Salomão. Nestes livros, todos da fase "pós-moderna" de nossa história poética, é o próprio poema em prosa que se vê levado a investigar seus próprios limites... Se ele nasceu como uma explosão dos limites entre poesia e prosa, depois de duzentos anos, e praticado por tantos nomes canônicos e oficiais da poesia, era de se esperar que também o poema em prosa acabasse sendo uma regra, um formato, uma prisão, e que alguns poetas se sentissem tentados a explodi-lo desde dentro. O poema em prosa norteamericano de Ron Silliman e da "new sentence" faz isso sistematicamente, e os poemas em prosa de Régis Bonvicino são um bom exemplo do que já se conseguiu por aí.

- Dentro do espírito irreverente e desbundado da geração 70 surgiram alguns bons poemas em prosa. Recomendo em especial os livros Quampérios, de Chacal, e Mais dia menos dia, de Ângela Melim. - Um clássico: O mono gramático, de Octavio Paz, é leitura obrigatória. Volto semana que vem com mais uma aula, mandem brasa. Carlito Azevedo 30 / 01 / 2006

A poesia tem uma coisa fantástica: quanto a temas, ela é absolutamente não-hierárquica. Um ótimo poema sobre um desenho de criança na parede será sempre melhor do que um mau poema sobre os afrescos de Giotto em Pádua. O famoso poema de João Cabral de Melo Neto sobre o ovo da galinha não é absolutamente menos importante do que seu poema sobre Paul Klee. O não menos famoso poema de Drummond sobre uma pedra no meio do caminho é tão bom quanto seu poema sobre uma tela de Mondrian. Há um belíssimo poema de Ferreira Gullar sobre bananas podres, sobre umas simples bananas que estão apodrecendo em um prato, que não fica nem um pouco atrás de seu poema sobre a arquitetura de Oscar Niemeyer. Porque a poesia tem algo daquela "idiotia" a que se referia, positivamente, Júlio Cortazar. Ou seja, aquela capacidade de se maravilhar tanto com uma escultura de Rodin quanto com uma teiazinha de aranha brilhando ao sol, sem precisar submeter-se ao estatuto lógico segundo o qual uma escultura de Rodin é uma coisa mais importante e mais digna de maravilhamento do que uma teiazinha de aranha cheia de minúsculas gotas de orvalho cintilantes, e segundo o qual uma banana podre, um desenhozinho infantil numa parede, uma pedra no caminho e um ovo de galinha são coisas que devem ser colocadas muitos milhões de degraus abaixo da arquitetura de Niemeyer, dos afrescos de Giotto, da pintura de Mondrian e Klee. Com essa introdução, o que eu quero deixar claro é: não é porque hoje vamos falar de poesia e artes plásticas, artes visuais, que vocês têm que assumir uma postura solene, um ar de profundidade intelectual, se levar a sério demais, começar a fazer pose de "iluminado". Nem precisam correr atrás de livros sobre pintura... afinal, não vou pedir que escrevam ensaios sobre esse ou aquele artista... aí sim, isso seria fundamental. Muita sensibilidade é fundamental... A simplicidade pode gerar bons resultados também nessa área, como prova o clássico poema de Jacques Prevert: Para pintar o retrato de um pássaro Primeiro pinte uma gaiola com a porta aberta. Depois pinte algo gracioso algo simples algo bonito algo útil para o pássaro. Então encoste a tela a uma árvore em um jardim em um bosque

ou em uma floresta. Esconda-se atrás da árvore sem falar sem se mover... Às vezes o pássaro aparece logo mas ele pode demorar muitos anos antes de se decidir. Não desanime. Espere. Espere durante anos, se for necessário. A rapidez ou a lentidão do pássaro não influi no bom resultado do quadro. Quando o pássaro aparecer se ele o fizer observe no mais profundo silêncio até ele entrar na gaiola e quando ele assim agir delicadamente feche a porta com o pincel. Então, apague uma a uma todas as grades tomando cuidado para não tocar na plumagem do pássaro. Em seguida, pinte o retrato de uma árvore escolhendo o mais bonito de seus galhos para o pássaro. Pinte também a folhagem verde e o frescor do vento o dourado do sol e a algazarra das criaturas, na relva, sob o calor do verão. e então espere até que o pássaro decida cantar. Se ele não cantar é um mau sinal, um sinal de que a pintura está ruim. Mas se ele cantar é um bom sinal um sinal de que você pode assinar. Então, com muita delicadeza, você arranca uma das penas do pássaro e escreve seu nome em um canto do quadro.

Agora, é claro que nem todos os poemas sobre pintura precisam ser tão simples... há poemas sofisticadíssimos, herméticos, e nem por isso menos importantes... E é claro que é recomendável ler livros sobre pintura... não só para o nosso curso, para a sua vida... afinal, quando a gente gosta de um tema (e acredito que todo mundo que tem sensibilidade para gostar de poesia deve gostar de pelo menos uma das muitas manifestações envolvidas no nome "artes visuais"), é sempre bom ouvir outras pessoas que amam e conhecem o assunto... e é sempre melhor conhecer coisas do que ignorar coisas... Mas faço questão de deixar claro que um mau poeta pode ter visto de perto todas as telas de um pintor, ter lido todos os livros sobre esse pintor, e ainda assim seu poema sobre esse pintor será um mau poema... Por outro lado, um dos mais belos poemas sobre Picasso que já li foi escrito por um poeta venezuelano que jamais viu de perto um quadro de Picasso e escreveu esse poema quando viu a reprodução de uma tela do espanhol na capa de um livro. Vamos ler mais um poema, um poema do norte-americano Lawrence Ferlinghetti, um sujeito que sempre esteve próximo da geração beatnik. O poema se desenvolve a partir do conhecidíssimo quadro "O beijo", de Klimt.

CONTO SOBRE UMA PINTURA DE GUSTAV KLIMT Estão ajoelhados sobre uma cama florida Ele acabou de prendê-la ali e a detém O vestido dela desceu e deixou descoberto o ombro Ele sente uma fome urgente sua cabeça morena inclina-se sobre a dela faminta E a mulher a mulher afasta dos lábios dele seus lábios de tangerina uma das mãos lembra a cabeça de um cisne morto e repousa sobre o pescoço grosso do homem os dedos estranhamente crispados apertados com força o outro braço dobrado sobre o seio premido a mão é uma garra lânguida agarrando a mão do homem a qual quer apertar a boca da mulher contra a sua o vestido comprido é feito de flores de todas as cores bordadas a ouro os cabelos à Ticiano cheio de estrelas azuis E o manto de ouro do homem arlequinal axadrezado com quadrados escuros Grinaldas de ouro caem por sobre as pernas nuas da moça & seus pés tensos Ali perto deve haver uma árvore de jóias com folhas de vidro brilhantes no ar de ouro Deve ser manhã em algum lugar longínquo Eles estão calados juntos como se num campo florido sobre o leito estival que deve ser dela E ele a detém tão apaixonadamente

aperta-lhe a fronte contra a sua tão leve tão insistente para fazê-la levar

os lábios aos seus Os olhos dela estão fechados como pétalas de botão Ela não vai abri-los Ele não é Aquele (Tradução: Paulo Henriques Britto)

Convenhamos que é o tipo de ótimo poema que um sujeito pode escrever a partir até da observação de uma reprodução em um fascículo da coleção "Gênios da pintura", desde que sua capacidade de observar, imaginar, fantasiar, seja a de alguém talentoso... Só quem não tem muito talento para fantasiar não pode fazer poemas assim. Faço questão de afirmar isso aqui porque parece que vivemos um momento tão elitista na poesia que daqui a pouco vão surgir críticos dizendo que quem não viu as obras originais dos artistas está proibido de fazer poemas sobre esses artistas... Agora leiamos um daqueles poemas formidáveis que pressupõem um conhecimento abrangente do assunto... Um belíssimo poema do inglês W. H. Auden: Musée des beaux arts No que diz respeito ao sofrimento, nunca se enganaram os velhos mestre da pintura: como entenderam bem a sua dimensão humana; como ele ocorre enquanto as outras pessoas comem ou abrem uma janela ou simplesmente passeiam; como, na hora em que os mais velhos aguardam reverente, apaixonadamente o nascimento milagroso, sempre há crianças que não estão nem aí para ele, patinam num lago do bosque. Nunca eles esqueceram que mesmo o martírio mais horrendo deve acontecer de forma simples numa esquina qualquer, num lugar sujo cheio de cães vadios, onde o cavalo do algoz arraste o traseiro inocente numa árvore. No Ícaro de Breughel, por exemplo: tudo volta as costas calmamente ao desastre: o lavrador talvez tenha ouvido o mergulho, um grito no ar; mas para ele não era nada demais; o sol brilhava como sempre sobre as pernas brancas que afundavam na água esverdeada; e o delicado, luxuoso barco que viu, talvez, aquela coisa surpreendente, um rapaz caindo do céu, tinha um destino a atingir, e para ele suavemente navegou.

É o tipo de poema que pressupõe o conhecimento da obra dos "grandes mestres". Através da observação e da comparação de seus trabalhos, o poeta notou que o que há em comum entre eles é essa "não-monumentalização" do sofrimento. Observações fundamentais como essa é o que encontramos nos melhores livros de arte, cuja leitura, depois de ter feito a necessária ressalva anti-elitista, recomendo fortemente. Mas vejamos como um poeta norte-americano, William Carlos Williams, a partir de um poema bastante simples e sofisticado ao mesmo tempo, fala quase a mesma coisa que esse poema de Auden, e a partir do mesmo quadro, "Paisagem com queda de Ícaro", de Breughel: Paisagem com queda de Ícaro

De acordo com Breughel quando Ícaro caiu era primavera um lavrador arava os seus campos todo o esplendor do ano formigava ali à beira do mar o lavrador consigo mesmo preocupado suava ao sol que derretia a cera das asas perto da costa houve uma pancada quase imperceptível era Ícaro que se afogava

Essa invisibilidade, essa imperceptibilidade do sofrimento de Ícaro é a mesma que revela o poema de Auden. Um poema que mistura a vida e a pintura de forma muito eficaz é "Uma coca-cola com você", do poeta norte-americano Frank O'Hara. Trata-se de um dos meus poemas favoritos. Nele, O'Hara, que conhecia muito o tema (além de trabalhar no Museus de Arte Moderna de Nova York escreveu, por exemplo, um belíssimo ensaio sobre a pintura de Jackson Pollock), parece menosprezar a pintura em comparação com a vida... mas na verdade, vida e pintura saem ganhando enormemente depois da leitura desse poema... vejam se não é verdade... UMA COCA-COLA COM VOCÊ é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne ou que ficar enjoado na Travesera de Gracia em Barcelona em parte porque nessa camisa laranja você parece um São Sebastião melhor e mais feliz em parte porque eu gosto tanto de você, em parte porque você gosta tanto de iogurte em parte por causa das tulipas laranja fluorescente contra a casca branca das árvores em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso perto de gente e de estatuária é difícil quando estou com você acreditar que existe alguma coisa tão parada tão solene tão desagradável e definitiva como estatuária quando bem na frente delas na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós estamos indo e vindo de um lado para o outro como a árvore respirando pelos olhos de seus nós e a exposição de retratos parece não ter nenhum rosto, só tinta de repente você se surpreende que alguém se tenha dado ao trabalho de pintá-los olho para você e prefiro de longe olhar para você do que para todos os retratos do mundo exceto talvez às vezes o Cavaleiro Polonês que de qualquer maneira está no Frick aonde graças a Deus você nunca e assim eu posso ir junto com você a primeira vez

e isso de você se mover tão bonito mais ou menos dá conta do Futurismo assim como em casa nunca penso no Nu Descendo a Escada ou num ensaio em algum desenho de Leonardo ou Michelangelo que me deslumbrava e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa quando eles nunca encontraram a pessoa certa para ficar perto de uma árvore quando o sol baixava ou por sinal Marino Marini que não escolheu o cavaleiro tão bem quanto o cavalo acho que eles todos deixaram de ter uma experiência maravilhosa que eu não vou desperdiçar por isso estou te contando

Outro poema preferido é "Eco de Ausonius", de Augusto de Campos, um poema que zomba de um pintor que tentou pintar Eco: ECO DE AUSONIUS Por quê, pintor, figurar-me uma face e sujeitar uma deusa do vazio? Filha do ar e da fala, não de inanes sonoridades, gero-me, voz sem mente. Tomando pela cauda as derradeiras sílabas, divirto-me a seguir as palavras alheias. No labirinto do teu próprio ouvido, eis-me Eco: se puderes, pinta o som.

Gosto muito destes dois poemas de Bertolt Brecht que apresento a seguir. O primeiro fala de uma gravura chinesa, outra de uma máscara oriental. NUMA GRAVURA DE LEÃO CHINESA Os maus temem tuas garras. Os bons se alegram de tua graça. Algo assim Gostaria de ouvir Do meu verso.

A MÁSCARA DO MAL Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa, Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado. Compreensivo observo As veias dilatadas da fronte, indicando Como é cansativo ser mau.

Como vemos, neste segundo poema Brecht chama a atenção para a capacidade de observação. É claro que diante dessa mesma escultura japonesa muitos outros poderão dizer muitas outras coisas. Uns farão uma leitura histórica, outros darão com precisão a data, outros ainda poderão dizer se aquela peça se inscreve numa tradição ou se ao contrário quebra uma tradição. Para Brecht, a gravura e a máscara faziam brotar a questão do bem e do mau. O nome do escultor Brancusi está presente nos próximos dois poemas que leremos. O primeiro, de Paul Celan, tece uma hipótese a partir das pedras produzidas por esse escultor. O segundo, de Haroldo de Campos, vislumbra uma peça de brancusi na cabeça de uma mulher que sai do metrô em Paris. Vejamos os poemas: COM BRANCUSI, A DOIS

Se dessas pedras apenas uma fizesse ressoar aquilo que a silencia: aqui, bem perto, na ponta do cinzel-bengala deste ancião, ela se abriria, como uma ferida, em que terias de mergulhar, sozinho, bem longe deste meu grito, nela esculpido, lívido. (Paul Celan, tradução: Flávio Kothe)

BRANCUSI Marfim negro uma cabeça brancusina gazela ou leoa-passarinho túnica em tubo dáctilo-prateada (anéis em todos os dedos) mais os aros das pulseiras tintinabulantes bailando a contranegro (contra o negro: a pele esse marfim brunido lustre virgem revérbero não-tacto de dulcíssimo jovem pergaminho) o olhar: uma rainha em armas (descendo do metrô em sèvres-babylone)

Vemos que não existe um modelo de poema sobre pintura... existem aqueles sobre quadros imaginários (o poeta contemporâneo Júlio Castañon Guimarães é mestre nestes "quadros imaginários"), há aqueles que tentam contar uma história a partir da cena pintada, há aqueles que falam de imagens artísticas que voltam à nossa mente quando estamos andando no meio da rua ou tomando um banho ou qualquer coisa de tão corriqueiro quanto isso... Há aqueles em que se tenta observar e dar a ver o método criativo do poeta (não conheço melhor exemplo do que o poema "O sim contra o sim", de João Cabral de Melo Neto. Uma boa sugestão de exercício é você tentar fazer uma série... coisa muito comum entre os pintores, que às vezes desenvolvem um tema em uma série de quadros... Cézanne pintou uma série de banhistas. Ou pegue por exemplo um quadro onde haja muitas figuras humanas e faça um poema

para cada uma daquelas pessoas, um poema que seja um pouco o que cada uma delas está pensando. Outro exercício, mais simples, é pegar uma foto, um quadro, uma instalação, uma escultura, uma gravura, uma imagem de quadrinhos e tentar fazer um poema sobre ele... pode enfatizar o autor, pode, a partir dessa imagem, tentar imaginar o processo criativo do artista... Enfim, pode (e deve) ir ver alguma exposição na sua cidade, ou pegar um livro de arte em qualquer biblioteca e olhar bem as imagens, observar a delicadeza ou a agressividade que devem ter custado aos seus autores... Pense se as pinceladas agressivas ou as delicadas mais combinam com a sua escrita, com o seu fraseado... Observe se os trabalhos que mais te impressionaram são os de mais luz ou menos luz... coisas assim... Enfim, tente compreender as reações que aquilo provoca em você e extraia um poema desse atrito entre a sensibilidade exposta e construída no quadro e a sua sensibilidade. Antes de terminar, deixo com vocês esse poema do Ferreira Gullar: PINTURA Eu sei que se tocasse com a mão aquele canto do quadro onde um amarelo arde me queimaria nele ou teria manchado para sempre de delírio a ponta dos dedos.

Gullar não diz que quadro é esse, nem seu autor. Estamos acostumados a associar amarelo e delírio à imagem de Van Gogh, mas o importante foi que o poeta preferiu apenas sugerir isso... pode ser, pode não ser... talvez ele pensasse que o fundamental era passar essa idéia de contágio pela obra... e que o "signo" Van Gogh já está tão cheio de referências (camisetas, xícaras, papéis de parede etc) que o melhor é deixar no poema apenas aquilo que não se consegue domar, o indomável... Ou pode ser que nem de Van Gogh fosse o tal quadro... talvez fosse um daqueles quadros imaginários... Como disse um pouco mais acima, a poesia inventou um milhão de formas de falar da pintura. Abraços. Carlito Azevedo 13 / 02 / 2006

Para que vocês entendam melhor a aula de hoje, começarei com um poema em prosa bem curto de Max Jacob: A MENDIGA DE NÁPOLES Quando eu morava em Nápoles, havia à porta da minha mansão, uma mendiga a quem eu atirava alguns níqueis, antes de subir no meu carro. Um dia, surpreso por nunca ter recebido um único "obrigado", encarei a mendiga. Ora, como a encarasse, descobri que o que eu tomara por uma mendiga era, na realidade, um caixote de madeira pintada de verde que continha terra vermelha e umas bananas podres.

De onde vem a poesia desse poema? Bem, será que ajudaria a encontrar a resposta saber que Max Jacob foi amigo e companheiro de luta dos pintores cubistas, como Picasso e Braque, em Paris, no início do século XX?

Talvez adiante alguma coisa, talvez não. Mas a grande "desautomatização" do olhar proposta e realizada pelo cubismo está muito presente nesse poema que também, à sua maneira, faz a crítica do olhar burguês, do olhar que olha o mundo e não o vê, não é? A escolha do "tom do poema", do formato "poema em prosa" foram fundamentais para que ele tivesse a contundência que tem. Mas quantas formas, formatos, linguagens, materiais Max Jacob teve que dispensar para chegar a essa depuração da linguagem? Hoje falaremos disso um pouco. Escrever poesia é fazer escolhas. Eleger alguns materiais e técnicas e dispensar outras. Ainda que sejam escolhas inconscientes. Porque o acervo de formas, formatos, materiais, dimensões da poesia é tão grande e complexo que é praticamente impossível você utilizar todo o material disponível. Sabem de algum poeta cuja obra contenha epopéias e poemas concretos, sonetos metrificados e versos livres, hai-kais e poemas surrealistas, monólogos dramáticos e sextinas, literatura de cordel e acrósticos, poemas semióticos e baladas provençais, quadrinhas e trovas etc. etc.? Uma vida só é pouco, e se alguém se arriscar a cumprir todo o circuito das formas e tons poéticos provavelmente terá escrito uma obra que vai interessar mais ao livro dos recordes do que aos amantes da poesia. Sendo assim, só nos resta, eleger, escolher, selecionar. Ou seja, só nos resta fazer (consciente ou inconscientemente) a crítica das formas, dizendo que essa aqui não nos interessa, mas aquela lá sim, esta outra não, aquela talvez... Pois ao optar (consciente ou inconscientemente) por poemas curtos, você já está deixando de lado os poemas longos. E ao optar (consciente ou inconscientemente) por poemas longos, você já está deixando de lado os poemas curtos. E ao optar (consciente ou inconscientemente) por escrever tanto poemas curtos como longos, deixando que cada poema dite um pouco sua dimensão na página, já está deixando de lado as duas opções anteriores. (Podemos estender isso indefinidamente. Ao optar por uma linguagem coloquial, você já fez uma escolha que colocou de lado a linguagem mais solene. Ao optar por uma linguagem mais solene, você já fez uma escolha que colocou de lado a linguagem coloquial. Ao optar por uma linguagem mesclada, ora coloquial, ora solene, você já fez uma escolha que eliminou as duas opções anteriores. Apliquemos isso a questões como "linguagem metafórica" versus "linguagem mais colada ao real". Ou "formas fixas de estrofação e metrificação" versus "irregularidade dos versos e das estrofes".

Etc. etc.) A crítica Susanne K. Langer, no seu livro Sentimento e forma, observa com muita precisão que um poeta tende a eleger cinco ou seis materiais com os quais vai trabalhar, e que, após essa eleição, passa a identificá-los como os materiais que contém a "essência" da poesia. O problema é que a partir daí, a maior parte dos poetas tenderá a condenar os que fizeram escolhas diferentes, e admirar todos os que fizeram escolhas parecidas. Esse é um dos poucos argumentos contra a idéia bastante comum de que o melhor crítico de poesia é o poeta. Só o será se levar em conta aquela frase de Ezra Pound: "Mau crítico é aquele que prefere um mau poeta de sua escola literária a um bom poeta da escola literária adversária". O mais comum é que os poetas que escolheram uma linguagem mais concisa, o poema curto e econômico, acusem os que escolheram linguagens mais caudalosas e poemas longos de verborragia e exagero. E que os poetas que identificaram a essência poética com longos discursos por sua vez, acusem os que escolheram a concisão e a economia de insignificância, irrelevância. Um poeminha de Francisco Alvim resume a questão: LUTA LITERÁRIA Eu é que presto.

O grande erro está em julgar um material poético (a metáfora, o poema longo, o poema curto, a forma fixa etc.), e não o talento do poeta na utilização desse material. É claro que cada escolha define uma posição. E é preciso responder por essa escolha. O soneto é uma forma que já foi tão usada, e tão identificada com a própria poesia, tornando-se quase que uma "garantia" de qualidade poética, que ao eleger essa forma hoje em dia o poeta já está tomando uma posição... Se não for um soneto auto-irônico, ou um "soneto para acabar com os sonetos", o mínimo que se pode dizer desse poeta é que prefere (ou não o incomoda muito) conferir ao seu fazer poético uma certa oficialidade, e que prefere andar no território do convencional e do bom comportamento já reconhecido. Mas já que falamos dele, vejamos que mesmo um material tão desgastado como o soneto pode ganhar, nas mãos de um bom poeta, uma vivacidade e uma atualidade, que estão muito longe do automatismo que cerca o formato... pelo contrário. No caso da série de sonetos "Até segunda ordem", do poeta contemporâneo Paulo Henriques Britto, o que há é uma subversão da linguagem dentro do formato oficial (e repare que o tema do poema também tem algo de crime cometido sob fachada e proteção oficial): ATÉ SEGUNDA ORDEM (10 DE OUTUBRO) Até segunda ordem estão suspensas todas as autorizações de férias, viagens, tratamentos e licenças.

É hora de pensar em coisas sérias. Deve chegar mais um carregamento até o dia quinze, dezesseis no máximo. Fui lá em Sacramento, mas não deu pra encontrar com o tal inglês — será que alguém errou o codinome? Confere aí com quem organizou o negócio todo. Bem, amanhã a gente se fala, que agora a fome está apertando. (Ah, o padre adorou o canivete suíço de Taiwan.)

(9 DE NOVEMBRO) Tudo resolvido. O campo de pouso até que é razoável. Mas o tal de Carlão, hein, vou te contar. É nervoso, não sei; parece que sofre de mal de Parkinson, ou coisa que o valha. Mas isso é o de menos. O pior é que o "Almirante" desde terça tomou chá de sumiço. Não sei que fim levou; é preocupante. Chegou a encomenda de Lisboa. O número é 318. A senha: "O olho esquerdo de Camões não vale uma epopéia". (Essa é boa!) Não agüento mais ter que jantar biscoito. No mais, tudo bem. Aguardo instruções.

(21 de dezembro) Sim, recebi a carta do João. Só que o seu telefonema da sexta já havia alterado a situação completamente. É, o Bento é uma besta, mas você, também... Nessas horas é que se vê que falta faz um profissional. Você nunca vai ser como era o Alex. Mas deixa isso pra lá. O principal é que o negócio está de pé, ainda. O que não pode é pôr tudo a perder a essa altura do campeonato.

Não diga nada, nada, à dona Arminda. Toma cuidado. Conto com você. Aguarde o nosso próximo contato.

(12 de janeiro)

Por quê que ninguém me deu um aviso? Pra que que serve essa porra de bip? Assim não dá. Que falta de juízo, de... de... sei lá! Eu lá em Arembipe dando duro, e vocês aí de pândega! O deputado, é claro, virou bicho, e não vai mais ajudar lá na alfândega. Meses de esforço jogados no lixo! E agora? E o alvará do "Três Irmãos"? E os dez mil dólares do Mr. Walloughby? Não vou nem falar com o doutor Felipe. Vocês que agüentem o tranco. Eu lavo as mãos. Se alguém me perguntar, eu tenho um álibi perfeito: "Eu estava lá em Arembipe".

(19 de janeiro) Até esta chegar às suas mãos eu já devo ter cruzado a fronteira. Entregue por favor aos meus irmãos os livros da segunda prateleira, e àquela moça – a dos "quatorze dígitos" – o embrulho que ficou com o teu amigo. Eu lavei com cuidado o disco rígido. Os disquetes back-up estão comigo. Até mais. Heroísmo não é a minha. A barra pesou. Desculpe o mau jeito. Levei tudo que coube na viatura, mas deixei um revólver na cozinha, com uma bala. Destrua este soneto imediatamente após a leitura.

Uma coisa o poeta contemporâneo não pode ser: ingênuo. E Paulo Henriques Britto não é nem um pouco ingênuo. Ele sabe que para arrancar alguma faísca de vivacidade desse formato repetido à exaustão por tantos poetas, é preciso ser irônico e auto-irônico ("Destrua este soneto/ imediatamente após a leitura."). Ou seja, não pode continuar acreditando que o mero fato de saber metrificar e rimar já garante a qualidade do poeta e, conseqüentemente, do poema. Sonetos, métrica e rima já não são garantias de qualidade poética. Assim como, versos livres, estrofação irregular também não são. * Este é o ponto: todos os materiais podem ser utilizados... Mas não como num self-service todas as comidas podem ser escolhidas... não como num armário todos os estilos de moda podem ser usados...

Ou melhor, poder podem, mas quem vai arcar com a conseqüência dessa indiscriminação total é o seu poema, o seu estômago e o seu visual. Para evitar que seu poema pareça um estômago embrulhado ou uma "perua", a única coisa você pode fazer é selecionar, e selecionar quer dizer, fazer a crítica dos materiais selecionados. Nenhum dos materiais citados trazem consigo a garantia do "poético", e alguns (como a metáfora, por exemplo), pelo simples fato de terem sido identificados por muito tempo como a própria essência poética, trazem um perigo adicional embutido, o grande perigo para qualquer poesia: o clichê. * Os poemas que observaremos na aula de hoje podem nos ajudar a aguçar o senso crítico. O primeiro é de um dos principais poetas iugoslavos do século XX, Vasko Popa: PORCO Só quando ouviu A faca furiosa na garganta A cortina vermelha Explicou-lhe o jogo E ele lamentou Ter-se desprendido Dos braços do lamaçal E à noite do campo Tão alegre ter corrido Corrido para o portão amarelo.

* Quando nenhum elemento mais é garantia de qualidade poética, uma dúvida enriquecedora nasce: de onde surge exatamente a força poética de um poema? Acho este poema de Vasko Popa belíssimo. Será pela simplicidade? (Mas existem poemas simples que são horríveis. Além disso, há ótimos poemas complexos.) Será por sua concisão? (Mas existem poemas concisos e chatos. E o longo poema Uivo, de Allen Ginsberg, por exemplo, é ótimo.) Será pelo jogo cromático entre a cortina vermelha e o portão amarelo? Podemos arriscar um palpite: as elipses do poema são manejadas muito habilmente pelo poeta. A elipse, que já foi chamada muito lindamente de "estilo de persianas" pelo poeta Haroldo de Campos, é aquele jeito de contar ocultando, revelar escondendo, sugerir pelo silêncio. Obedecendo ao que foi dito mais acima, não direi que a elipse deve ser julgada (positiva ou negativamente), o que podemos julgar, e muito positivamente, é a habilidade, o talento de Vasko Popa no manejo da elipse. Ele não diz nada sobre a pessoa que mora na casa. O que podemos fazer é tentar

recompor, preencher essa elipse com suposições: a de que o morador da casa estava com fome e viu a chegada daquele porco como um milagre, por exemplo. Ou sei lá que leitura você aí deve ter feito desse poema. Aqui tocamos em um ponto importantíssimo. Um poema deve possuir várias leituras possíveis. A linguagem tem um ponto máximo de determinação. É aquele que você usa se quer pedir a alguém que vá até a padaria e traga um litro de leite. Para conseguir plenamente esse objetivo, você vai emitir uma mensagem com um grau de determinação tal que a pessoa que a recebeu não tenha a menor margem de possibilidade de entender que o que você pediu foi que ela se dirigisse à farmácia e comprasse um analgésico. Mas a linguagem também tem um ponto máximo de indeterminação. Não digo que neste ponto máximo se encontre o lar da poesia, mas sem dúvida a poesia está mais perto dele do que do ponto máximo de determinação. Porque quando se trata de poesia, a pessoa que recebeu a mensagem deve ter muitas possibilidades interpretativas. Uma coisa é uma pessoa chamada João dizer: "Meu nome é João". Outra coisa é uma pessoa chamada João dizer: "Meu nome é legião". O poema deve se prestar, como dissemos, a várias leituras. E uma boa elipse, ou seja, uma elipse bem manejada, é um instrumento formidável para criar essa zona onde muitos sentidos são cabíveis. Uma elipse mal manejada, contudo, resulta em carência. Sente-se que faltou algo ao poema. * Mas vejamos outro poema, este do argentino Juan Gelman: ANCORADO EM PARIS De quem tenho saudades é do velho leão do zoológico, sempre tomávamos café no Bois de Boulogne, e era ali que me contava as suas aventuras na Rodésia do Sul. Mas mentia, era evidente que nunca tinha saído do Saara. Seja como for, me encantava a sua elegância, sua maneira de erguer os ombros diante das mesquinharias da vida, olhava os franceses pela vidraça do café e dizia "e esses idiotas ainda fazem filhos". Os dois ou três caçadores ingleses que tinha comido lhe provocavam más recordações e até melancolia, "as coisas que a gente tem que fazer para viver", filosofava, ajeitando a própria juba no espelho do café. Sim, tenho muitas saudades dele, nunca se mexeu para pagar a conta, mas sempre calculava quanto se devia deixar de gorjeta

e os garçons o cumprimentavam com especial deferência. Nos despedíamos às margens do crepúsculo, ele regressava a son bureau, como dizia, não sem antes me advertir com uma pata em meu ombro "muito cuidado, meu filho, com as noite de Paris". Tenho muitas saudades dele, de verdade, seus olhos às vezes se enchiam de deserto mas sabia calar-se como um irmão quando emocionado, emocionado, eu lhe falava de Carlos Gardel.

* Aqui, podemos desconfiar que a força poética nasce do "estranhamento". Desconfio que Juan Gelman, que viveu exilado em Paris, só encontrou, para dar uma idéia dessa sensação de estranhamento que é a do sujeito que de repente se vê obrigado a viver longe de sua pátria, a imagem de um leão com que se possa beber e falar da vida e de Gardel. Se em nossa canção do exílio se fala que as aves que na pátria gorjeavam não gorjeavam como as do exílio, no poema de Juan Gelman se pode imaginar que os leões que por Paris rugiam não estavam rugindo como os da Argentina da ditadura militar. * Disse várias vezes aqui que nenhum formato, técnica ou material é garantia de qualidade poética. Mas quando um autor é forte e certeiro em suas escolhas, até um curriculum vitae pode virar poema. Como no caso desse poema da polonesa Wislawa Szymborska: CURRICULUM VITAE Que é necessário fazer? É necessário preencher um requerimento E anexar um curriculum vitae. Qualquer que seja a duração da vida O C. V. deve ser sucinto. Recomenda-se a concisão e uma boa seleção dos dados. Transformar o que era paisagem em endereço. E as vagas lembranças em datas fixas. De todos os amores, basta o conjugal, De todos os filhos, só os que nasceram. Quem te conhece, não quem conheces. Viagens, só ao exterior. Filiações sem as razões. Distinções sem menção ao mérito. Escreva como se nem te conhecesses. Como se te mantivesses sempre à distância de ti. Silêncio total sobre cães, gatos, passarinhos,

Lembranças, amigos e sonhos. Prêmios, mais que o valor. Títulos, mais que a relevância. Número dos sapatos, e não onde eles vão. Anexar uma foto com orelhas bem visíveis. É a forma delas que conta, e não o que elas ouvem. E o que é que elas ouvem? Barulho de máquinas de picar papel.

* Reflexão é fundamental para o poeta. Aliás, ironizando a figura de um poeta totalmente desprovido de talento, Machado de Assis escreveu essas linhas cômicas e perfeitamente sérias: "O autor de Goivos e camélias não era homem que meditasse uma página de leitura; ele ia atrás das grandes frases, - sobretudo das frases sonoras – demorava-se nelas, repetia-as, ruminava-as com verdadeira delícia. O que era reflexão, observação, análise parecia-lhe árido, e ele corria depressa por elas." (Histórias da meia-noite). Machado é o nosso melhor exemplo de que a reflexão e o pensamento não matam o talento e a espontaneidade, como costumam pregar os preguiçosos... (E notem que de brinde ele ainda deixou uma crítica agudíssima sobre o gosto de certos poetas pela grandiloqüência vazia, as frases sonoras...) * A aula de hoje foi mesmo para refletir, e o exercício proposto também vai bater nessa tecla... Mande um poema que tenha gostado muito de fazer e que represente, no seu modo de ver, as suas "escolhas poéticas"... e junto com ele mande dez linhas falando sobre quais são essas escolhas poéticas. Se puder comente também um pouco o que você NÃO inclui na sua receita poética, e o porque dessa exclusão. Topam a parada? Um abraço. Carlito Azevedo 08 / 03 / 2006

Todas as artes são primas. Poesia e cinema são irmãs. Pelo menos no jeito onívoro de ser. Que outra arte, como essas duas, será "capaz de assimilar os materiais mais diversos e transformá-los em elementos próprios"? (Suzanne K. Langer) Veja-se o que elas fizeram com a música, por exemplo. Certa vez, Debussy disse que gostaria de colocar música em um poema de Mallarmé. O mestre do lance de dados então respondeu: "engraçado... pensei que já havia eu

mesmo colocado música suficiente ali". Quanto ao cinema, desde os tempos em que era mudo já incorporava uma orquestra ao pé da tela... imagina depois do Dolby... Um dos maiores críticos de cinema, Michel Chion, que é aliás fabuloso compositor, descreve um filme como uma "sinfonia audiovisual". Que outra arte, como essas duas, soube roubar a música e fazer dela "coisa sua"? Outra semelhança: tanto quando lemos um poema como quando assistimos a um filme, há algo de sonho fluindo ante nossos olhos. Os cortes, bruscos ou não, dos versos e das cenas, imprimem ao fluxo de um filme ou de um poema algo da descontinuidade dos sonhos. Por isso, talvez, alguns grandes poemas foram escritos tendo o cinema como fonte de inspiração. Há poemas sobre atores e atrizes. Há poemas sobre filmes específicos. Há poemas sobre diretores (quase todo poeta, até bem pouco tempo atrás, tinha o seu poema sobre Charles Chaplin). Há poemas sobre existirem cinemas (e recomendo muito a leitura de "Indecisão do Méier", de Carlos Drummond de Andrade, do livro Sentimento do mundo, sobre a existência de dois cinemas nesse tradicional bairro carioca). Há poemas sobre uma cena específica de um filme... e aqui, não há como não citar um dos mais belos que conheço, da poeta, compositora e performer norte-americana Laurie Anderson, sobre uma cena de um filme de Fassbinder: LÍRIO BRANCO Em que filme do Fassbinder é que é? Um homem sem um braço Entra numa florista e diz: Qual é a flor que exprime A passagem dos dias Os dias que se sucedem sem fim Puxando-nos Para o futuro? A infinita Passagem dos dias Puxando-nos infinitamente Para o futuro? E a florista diz: O lírio branco. (Tradução de João Lisboa)

Há poemas sobre os efeitos do cinema no comportamento, como esse, quase um manifesto, do também norte-americano Frank O'Hara: AVE MARIA Mães da América deixem seus filhos ir ao cinema! mandem seus filhos sair de casa para não ver o que vocês aprontam

está certo que ar fresco faz bem para o corpo mas e a alma que cresce na escuridão, nutrida por imagens prateadas e quando vocês envelhecerem como tem de acontecer eles não vão odiá-las nem criticá-las não vão nem saber porque vão estar num país glamouroso que viram pela primeira vez numa tarde de sábado ou [matando aula talvez até agradeçam a vocês sua primeira experiência sexual que só custou vinte e cinco cêntimos e não perturbou a santa paz do lar vão aprender de onde vêm as barras de chocolate e sacos gratuitos de pipoca tão gratuitos como sair do cinema antes do fim do filme com um desconhecido simpático cujo apartamento é o Céu do Edifício Terra perto da ponte de Williamsburg ah mães vocês vão fazer os diabinhos tão felizes porque também se ninguém os pegar no cinema eles nem vão saber o que perderam e se alguém os pegar vai ser a glória e de um modo ou de outro eles vão se divertir em vez de ficar bestando no quintal ou no quarto odiando vocês prematuramente antes mesmo de vocês fazerem alguma maldade horrível que não a de negar-lhes os prazeres mais escuros o que é imperdoável depois não digam que não avisei se não seguirem meu conselho e a família se desestruturar e seus filhos ficarem velhos e cegos diante da TV vendo os filmes que vocês não os deixaram ver quando eram jovens. (Tradução de Paulo Henriques Britto)

O fato é que, como se lê no prefácio a uma bela antologia de contos sobre o cinema (Le cinéma des écrivains, Cahiers du cinema, 1995), "ir ao cinema, ver filmes, é algo que só se compreende acompanhado do prazer de prolongar essa experiência através da palavra, da conversa, até da escrita". Pois é. E nem precisa ser escrita crítica não. Chegamos em casa, depois de um filme, e anotamos algo em um caderno, talvez um diário íntimo, um blog, qualquer impressão marcante do filme. Às vezes é um pouco mais do que isso... e vem um poema. Este é o ponto que nos interessa. Assim como é bom, após um bom filme, conversar com pessoas sensíveis e inteligentes sobre o filme que se acabou de ver, trocar impressões, notar como outros nos chamam a atenção para detalhes que não percebemos, e como podemos iluminar para outros passagens que lhes ficaram um tanto obscuras, é bom ir carregando por horas, dias, semanas, meses, anos, uma sensação forte de um filme, até que um dia... um poema... Esta sensação de "depois do filme", quando tudo o que vemos e fazemos se torna um pouco "cena de cinema", foi tema de um poema de Heitor Ferraz, um poema que lemos como se fosse um pouco escrito por nós. DEPOIS DO FILME P/ Augusto Massi

Quando, depois do filme, volto de carro pela avenida (ainda úmida de chuva, ainda úmida de imagens) outra câmera se abre em descontínua linha de luz e entre um farol e outro - paro, tudo é vermelho novo filme passa a rodar dentro deste túnel de cenas que a janela enquadra e ao mesmo tempo barra: pequena mão inofensiva que num gesto de quase vôo arrebenta o vidro nos olhos e rebobina falsos recortes. ******************************************** Deu pra perceber qual o exercício de hoje, não é? Poemas sobre cinema. Não é preciso ser cinéfilo. Basta ter gostado certa vez de um filme e ter deixado que, dentro de você, em torno dele, crescessem, como ramificações, um pouco suas e um pouco dele, sensações, vagas lembranças, reflexões... Ou nem isso, basta apenas que você reconheça a existência dessa sala escura onde, por vezes, preferimos mergulhar, enfiar nossa cabeça, porque a vida simbolizada ficou pesada demais para seguir sem aquilo... Darei agora dois exemplos muito distintos. O primeiro é de nosso maior poeta-cinéfilo: Sebastião Uchoa Leite, que não só escreveu vários poemas sobre filmes (como Cat people, A woman of Paris, Black Widow, Dark Mirror etc.), como também preciosíssimos ensaios sobre a sétima arte. É tipicamente de cinéfilo esse delicioso poema: OS ASSASSINOS E AS VÍTIMAS eu bogart decifro o falcão maltês mas sou tragado por você mary astor eu robert walker troco o meu crime pelo de farley granger ele esquece o pacto mas eu não nós montand e signoret matamos de susto vera clouzot assassina perseguida pelo crime eu delon mato maurice ronet aposso-me da identidade mas o cadáver dele me segue eu clift nego que afoguei shelley winters mas a imagem persiste eu o fotógrafo persigo eu o fotógrafo persigo o crime de vanessa redgrave

ou sou perseguido por ele? ************ O outro exemplo vem do poeta Francisco Alvim, que eu não sei se é cinéfilo ou não, mas isso não importa. Importa que aqui o "cinema" não é um diretor, uma atriz, um filme etc. É mesmo a concreta sala escura, buraco negro dentro da cidade, onde por vezes, como dissemos há pouco, para ver-não ver, para sentir-não sentir o peso do tempo, entramos... SOZINHA — Vá ao cinema. — Com quem? ************ Bem, Carlos Drummond de Andrade mereceria um capítulo especial neste tema, tantos e tão excelentes são seus poemas sobre cinema. Desde o arqui-conhecido "Canto ao homem do povo Charles Chaplin" aos mais simples, como o já citado "Indecisão no Méier". Seria interessante organizar uma antologia com os poemas de Drummond sobre cinema. Minha preferência particular vai para os poemas que dedicou às estrelas do cinema que inspiraram platônicos desejos no poeta. Como: JOAN CRAWFORD: IN MEMORIAN No firmamento apagado não luciluzem mais estrelas de cinema. Greta Garbo passeia incógnita a solidão de sua solitude. Marlene Dietrich quebrou a perna mítica de valquíria. Joan Crawford, produtora de refrigerantes, o coração a matou. O cinema é uma fábula de antigamente (ontem passou a ser antigamente) contada por arqueólogos de sonho, em estilo didático, a jovens ouvintes que pensam em outra coisa. O nome perdura. Também é outra coisa. Tudo é outra coisa depois que envelhecemos. E não há mais deusas e deuses. Há figurinhas Móveis, falantes, coloridas, projetadas no interior da casa. Não saem nunca mais, enquanto se esvazia o céu da Grécia dentro de nós – azul já negro, ou neutra-cor. Joan, não beberei por ti, à guisa de luto, nenhum líquido fácil e moderno, sorvo tua lembrança a lentos goles. ************ É o caso de se pensar: por que não há mais poemas sobre as estrelas de cinema? Elas não são mais Grandes Mitos como Greta Garbo, Marlene Dietrich etc? Mas será que não merecem poemas pela alegria que nos dão quando iluminam a tela e nossos olhos musas e musos como Scarlett Johansson, Zhang Ziyi, Cameron Diaz, Al Pacino, Gabriel Bernal Granados etc. etc.? Vocês podem fazer o poema sobre cinema que quiserem, é claro, mas eu adoraria que a timidez e a repressão não os impedissem, como não impediram grandes poetas como

Drummond e Bandeira, de fazer poema de fã! Desde que fã sensível e inteligente, como eles foram... O importante é não deixar afrouxar esse laço que sempre uniu os poetas ao cinema... Aí estão também Wenders, Godard, Truffaut, Fellini, Wong Kar Way, Ana Carolina... Almodóvar dá poesia. Mesmo aquelas paqueras mais ousadas dentro da sala escura podem dar poemas... como esse, ótimo, de Oswald de Andrade, com um final maravilhoso... LINHA NO ESCURO É fita de risada A criançada hurla como o vento Mas os cotovelos se encontram Se acotovelam e se apalpam Mãos descem na calada da lua quadrângula Enquanto a orquestra os cavalos o letreiro galopam Entre saias uma lixa humana se arredonda Mas quando amanhece A mulher qualquer Desaparece * ********** Acho que aquela lua quadrângula é a tela de cinema, não é? Isso explicaria o verso "Mas quando amanhece", que quer dizer, talvez, quando a luz acende... Vocês também têm um poema escrito "na calada da lua quadrângula"? PROPOSTAS DE EXERCÍCIOS Bem. É simples. Tentem fazer poemas que envolvam direta ou indiretamente o cinema. Uma sugestão: que tal "contar um filme" em poema? Algo como aquela narração que fazemos, às vezes demorada, às vezes acelerada, a alguém que não viu certo filme e que nos pede que o contemos... Aproveitem para tensionar os registros (épico, melodramático, cômico, trágico etc)... Uma técnica de um dos maiores poetas contemporâneos, o norte-americano John Ashbery: ele costuma ir ao cinema (ver filmes novos mas também a produção dos anos 20 e 30) e escolher uma frase qualquer dita dentro do filme. Uma vez escolhida, esta frase será o primeiro verso do seu poema. Repare que o que é tremendamente clichê em um filme pode ser interessante como recurso poético. Em um ensaio sobre montagem cinematográfica, Eisenstein cita um "clichê" cinematográfico... mas talvez nem tenha percebido que aquilo é poeticamente instigante... trata-se da seguinte seqüência: 1. A mão levanta a faca. 2. Os olhos da vítima abrem-se repentinamente. 3. Mãos agarram uma mesa. 4. A faca desce. 5. Olhos piscam involuntariamente. 6. O sangue espirra. 7. Uma boca solta um grito. 8. Algo pinga no sapato.

Trata-se de uma cena bem clichê... mas não dá pra fazer uns poemas bem legais com essa técnica? Bem, espero que tenham curtido mais essa. Até a próxima. Carlito Azedo 30 / 03 / 2006

A poesia moderna começa quando as ruas deixam de ser apenas a pacata faixa de terreno destinada à passagem de quem vai visitar um parente, dar um passeio, e passam a ser o caótico torvelinho da multidão e do trânsito, um espaço onde a paixão e a morte podem nos surpreender a qualquer momento sem aviso prévio. Paixão e morte, duas coisas tão caras aos poemas de todos os tempos, e que requeriam todo um processo, toda uma linha de conduta, agora podiam surgir de súbito, do nada. Dois poemas conhecidíssimos de Charles Baudelaire exemplificam perfeitamente esse processo. E não é à toa que nove entre dez críticos o consideram o primeiro poeta moderno. O primeiro poema é "A uma passante". Aqui, a passagem rápida de uma mulher no meio da multidão, numa rua tumultuosa e barulhenta, toca o coração do poeta... ela surge, passa e desaparece... Com isso, como escreveu o crítico Walter Benjamin, Baudelaire mostrava que a experiência urbana transformava o romântico tema do "amor à primeira vista", no moderníssimo tema do "amor à última vista". O fugaz, o efêmero, o provisório, o precário começavam a invadir o terreno do que antes era sagrado, eterno, inamovível. O outro poema se chama "Perda de auréola", o melhor é reproduzi-lo: PERDA DE AURÉOLA "O quê!? Você aqui, meu caro? Você, num lugar desses! Você, o bebedor de quintessências!, O comedor de ambrosia! Francamente, é de surpreender." "Meu caro, bem conheces o pavor que tenho dos cavalos e dos coches. Agora há pouco, quando atravessava apressado o bulevar, saltando sobre a lama, através desse caos movente em que a morte chega a galope, por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou de minha cabeça para o lodo do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que quebrar os ossos. E depois pensei cá comigo, há males que vêm para bem. Agora posso passear incógnito, praticar ações baixas, entregar-me à devassidão como os simples mortais. E aqui estou eu, igualzinho a você, como pode ver!" "Deveria ao menos dar parte do desaparecimento dessa auréola, comunicar o ocorrido ao comissário." "Ah, não. Me sinto bem. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me aborrece. Depois, penso com alegria que algum poeta medíocre vai achá-la e com ela, impudentemente, se cobrir. Fazer alguém feliz, que prazer! E principalmente um felizardo que me faça rir! Pense em X ou Z! Hein? Como vai ser engraçado!" (Tradução Leda Tenório da Mota)

O artista, ao atravessar a rua que leva da fase pré-moderna à fase moderna, se despoja dos ornamentos, das insígnias, dos sinais de distinção; agora, ei-lo: "igualzinho a você".

Ora, isso se passou no século XIX. Uma crítica norte-americana, Marjorie Perloff, se perguntava há pouco algo interessantíssimo. Se a poesia moderna nasceu quando as pessoas passaram a conviver nas ruas, expostas a tudo o que a experiência das ruas oferece, o que estará acontecendo com a poesia agora que as pessoas abandonam as ruas, deixam de freqüentá-la, tanto pelo medo da violência, como pelos confortos que a tecnologia nos trouxe e que nos permitem fazer tudo sem sair de casa? Eis uma pergunta a ser respondida com poemas... Leiamos um poema do poeta mexicano Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura: PEDESTRE Seguia entre a multidão pelo bulevar Sebastó pensando em suas coisas. O semáforo o deteve. Olhou para cima: Sobre os prédios cinza, prateado entre pássaros pardos voava um peixe. O semáforo mudou de cor. Perguntou-se enquanto atravessava a rua no que é que estava pensando.

O belo desse poema é revelar um pouco a dinâmica da vida nas ruas. Baudelaire mostrou que o amor e a morte deixavam de ser coisas motivadas por uma seqüência de acontecimentos e passavam a existir como aparições súbitas. Mas nem todos que andam pelas ruas se apaixonam ou morrem. O poema de Paz talvez diga que mais fundamental do que isso, o que mudava na dinâmica da cidade, era o próprio modo de pensar, agora mais cheio de descontinuidades impostas pelas próprias descontinuidades da cidade. Esbarrões, vitrines, semáforos, tudo isso impõe um movimento de andar e parar e perder o fluxo do pensamento. Pensamos na crise do Oriente Médio até que uma vitrine nos impõe a imagem de uma blusa e passamos a pensar no tecido, no design, na nossa necessidade ou desejo de tê-la, e pronto... perdemos o fluxo do pensamento... _________________ Este poema de Ferreira Gullar que leremos a seguir é quase um clássico. É um pouco o reverso de "A uma passante". Enquanto Baudelaire vislumbra, no meio da multidão, uma mulher que passa e pela qual se apaixona pouco antes de vê-la desaparecer, Gullar busca no meio da multidão a mulher que não passa, que não pode passar, como que dizendo que aquele era um tipo de amor que não sobreviveria no mundo atual, onde só existiria enquanto inviabilidade... PELA RUA Sem qualquer esperança detenho-me diante de uma vitrina de bolsas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo, enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança te espero. Na multidão que vai e vem entra e sai dos bares e cinemas surge teu rosto e some num vislumbre e o coração dispara. Te vejo no restaurante na fila do cinema, de azul diriges um automóvel, a pé cruzas a rua miragem que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios e se esvai nas nuvens. A cidade é grande tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só. Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando, talvez na rua ao lado, talvez na praia talvez converses num bar distante ou no terraço desse edifício em frente, talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes, misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida. Mas que esperança! Tenho uma chance em quatro milhões. Ah, se ao menos fosses mil disseminada pela cidade. A noite se ergue comercial nas constelações da Avenida. Sem qualquer esperança continuo e meu coração vai repetindo teu nome abafado pelo barulho dos motores solto ao fumo da gasolina queimada.

Enquanto boa parte da poesia brasileira supõe um espectador que, de sua janela, observa o mundo, a poesia de Sebastião Uchoa Leite é daquelas que desce às ruas e não foge ao "contato furioso da existência": PASSEIO Marcelo Gama – coitado – caiu de um trem por distração. Não beberia naquele dia o tal licor marasquino e nem leria Cesário Verde (Ó Mestre do "Sentimento d'um ocidental"). Pois bem – flanêur – ele (Marcelo Gama) adoraria o calçadão da Vieira Souto e o vaivém das ondas e de gente de gringos cor-de-rosa a jeunes-filles-en-fleur com hiperglândulas mamárias. Chamaram-me para uma volta e uma água de coco. Ela vai mais depressa do que eu. Esqueci as asinhas nos pés.

Eu e Aquiles não somos mais aqueles.

A ironia corrosiva é uma característica da poesia de Sebastião Uchoa Leite. E neste poema parece que sua intenção é ironizar os dois poemas de Baudelaire a que nos referimos... A morte que nos espreita nas ruas é representada, no começo do poema, pela figura do poeta Marcelo Gama, que de fato morreu ao cair de um trem... Já o mito da passante é rebaixado na moça que "vai mais depressa que eu", já que além de não ter mais uma auréola, o poeta ainda esqueceu as asinhas nos pés...

Um poema de Eudoro Augusto revela a grande ópera das ruas do fim de século XX, uma ópera surrealista e ecológica. OFEGANTE Até aqui a paisagem é limpa e são claros os motivos da manhã. O mar anda sujo, preguiçoso. Mal tem força para brincar com as crianças que cospem nele às gargalhadas e nele mijam infiltrando ainda mais a cor da dúvida em sua espuma. Os adultos discutem as absurdas taxas de juros E o mito da virgindade. Aos mais velhos desagrada sobretudo A interferência grosseira das bases partidárias E dos temas sexuais no café da manhã. Uma nova ordem democrática atravessa a rua absolutamente incógnita. Um bando de focas percorre canhestro a orla marítima com seus folhetos turísticos e seus bigodes curiosos. As mais lustrosas compram jornais e chocolates e as mais opacas atendem telefones alarmantes. Outras se apressam em direção às limusines. Até aqui tudo normal e atlântico: o dia parece de vidro. Então ele surge e subverte tudo em questão de segundos. Um rastro nervoso, uma respiração ofegante. Mãos pegajosas. A tarde chega descabelada, Cigarro no canto da boca. Nada a fazer. O dragão respira fundo. Ele aspira Aquele ar saturado de signos e sirenes. Depois revira os olhos para o norte E os aviões param no céu. Alguém descobre que não são aviões, são estrelas cadentes. O dragão torna-se apenas um gemido.

Neste poema de Augusto Massi a rua hesita entre ser fluxo e estática: PONTO MORTO A minha primeira mulher se divorciou do terceiro marido.

A minha segunda mulher acabou casando com a melhor amiga dela. A terceira (seria a quarta?) detesta os filhos do meu primeiro casamento. Estes, por sua vez, não suportam os filhos do terceiro casamento da minha primeira mulher. Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras. Estava sozinho quando um dos meus filhos acenou para mim no meio do engarrafamento. A memória demorou para engatar seu nome. Por segundos, a vida parou em ponto morto.

Bem, o exercício de hoje é simples... e complexo...

Façam um poema que fale de uma rua ou de ruas... Esse é o aspecto simples... O aspecto complexo é outro. Não apenas falem de ruas, mas tentem compreender as ruas em suas complexidades, dinâmicas. Local privilegiado para as tensões mais diversas, a rua não pode ser apenas um "tema de poesia", mas exige que o poema seja ele próprio atravessado por essas tensões que a atravessam: dinâmica X estática habitável X inviável fluxo X contenção razão X desrazão Vamos nessa? Carlito Azevedo 19 / 04 / 2006

Há alguns anos, um intelectual comentava: "ouvimos centenas de canções de amor, e depois gastamos milhares de dólares nos psicanalistas para descobrir onde foi que erramos no amor." Sim, porque não é mole fazer sua "educação sentimental" ouvindo coisas como "eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, a cada despedida eu vou te amar, desesperadamente eu sei que vou te amar"... Quando as coisas não dão tão certo assim como queria o cantor é claro que pensamos que a culpa foi nossa. Nesse ponto os poemas de amor têm pelo menos essa vantagem. Devem mandar muito menos gente para o divã... Já entenderam, não é? O tema de hoje é: poemas de amor. Tema perigosíssimo, eu concordo. Afinal, se já se disse que não há originalidade que resista a uma boa pesquisa de fontes (obrigado por essa, Bráulio Tavares), se o tema é amor a coisa ainda é mais grave... pois depois de Ronsard, Petrarca, os provençais, Camões, Shakespeare... é difícil não ficar com a sensação de que tudo já foi dito... E isso para falar só nos mais famosos... Mas basta ler um não tão famoso poeta como Mark Alexander Boyd... este sujeito,

enquanto o Brasil ainda estava sendo descoberto, já escrevia coisas assim, lá na Inglaterra: De areia a areia, selva a selva eu ando, Presa da minha frágil fantasia, Como o vime que o vento vai dobrando Ou a folha a vogar na ventania. Um cego pela mão me está levando, Que uma criança fútil tem por guia E uma mulher esguia atrai, nadando, Nada do mar, mais ágil que uma enguia. Triste de quem, a vida toda a arar, Só ara a areia e semeia no ar. Porém mais triste é aquele que se lança, Movido pelo ímã do mal amar. No fogo, atrás de uma mulher de mar, Guiado por um cego e uma criança. (Tradução: Augusto de Campos) E sem falar no Cântico dos cânticos, em Guido Cavalcanti, nos poemas japoneses de muito antes de Cristo... Sim... levemos em conta tudo isso... mas levemos em conta também a quadrinha de Maiakovski que diz: Velha é a melodia das baladas, Mas se as palavras combalidas Falam daquilo que as abala, De novo soam belas as baladas. Portanto, nada impede que mais uma vez, mais um poeta, escreva um poema de amor. E que ao tema dediquemos nossa conversa de hoje. Um jovem poeta, argentino e brasileiro, Aníbal Cristobo, nascido na década de 70, felizmente não hesitou em escrever o seu: TEMA DE AMOR DE KRILL Em vão esperei na superfície do líquen, com câimbras na mão, olhando aquelas fotos do reconhecimento e pensando: em como chegarias. Me apaixonei pelo assassino? Pelo rumor do mar e das cigarras? O erro poderia ser um dígito, um led sem controle de si mesmo – me apaixonei pelo roçar das algas, achei que fosse amor, que fosse o fundo do coração.

Aqui, parafraseando o penúltimo verso do poema de Mark Alexander Boyd, o "erro poderia ser" o fato de Krill estar no mar, atrás de uma mulher de fogo? Há mais semelhanças entre o fundo do mar e o fundo do coração do que podemos supor? Bem, já que apontei a pequena analogia entre o poema de Aníbal e o de Boyd (nascido em 1563!), posso aproveitar aquele trecho do "Tema de amor de Krill" ("olhando aquelas fotos do reconhecimento", "me apaixonei pelo assassino"), que interpreto como a súbita paixão nascida em alguém que contempla fotos numa delegacia para reconhecer um assassino, (o que não deixa de ser uma belíssima alegoria da paixão), pois bem aproveito esse trechinho para encaixar aqui um poema em prosa de Max Jacob, o poeta francês présurrealista que é um de meus preferidos: O QUE A FLAUTA NOS TRAZ O viajante ferido morreu na casa de campo e foi enterrado debaixo das árvores da estrada. Um dia, de seu túmulo, saiu uma ratazana; um cavalo que passava empinou. Oram a ratazana largou, na corrida, uma fotografia muito roída. O viajante pedira que o enterrassem com aquela imagem de uma mulher com belo decote. O cavaleiro que a viu, encantado pela imagem, apaixonou-se pela fotografada. * Não quero aqui interpretar esse poema, mas note-se que depois de Baudelaire e suas Flores do mal, o contexto em que se fala de amor pode muito bem compreender enterros, túmulos e uma ratazana. Bem, na verdade há muita coisa a se dizer sobre esse poema. Sugiro aqui, brevemente, que ele é o perfeito poema sobre poemas de amor. Quando pensamos que o tema já está sepultado, uma ratazana o retira do túmulo e o primeiro que passa torna a lhe dar vida... * Vamos em frente. É claro que poemas de amor, pelo menos para nós, pós-freudianos, habitantes do século XXI, têm que levar em conta que não sabemos muito bem o que é o amor, nem quais são os limites do amor. Ou melhor, que tudo o que sabemos sobre amor tem validade muito reduzida quando aplicado ao outro, e no amor "o outro" é pelo menos 50%, não é? Um belíssimo poema sobre poemas de amor conseguiu incrivelmente dar voz ao "outro" dos poemas de amor, e o que se ouve ali não é muito lisonjeiro... O poema é de autoria do norte-americano Robert Bringhurst, e a tradução que cito foi publicada na revista de poesia Azougue. ESSES POEMAS, ELA DISSE Esses poemas, esses poemas, esses poemas, ela disse, são poemas sem nenhum amor. São poemas de um homem que poderia deixar mulher e filhos apenas porque fazem barulho durante seu estudo. São poemas de um homem que poderia matar sua mãe para reclamar herança. São poemas de um homem como Platão, ela disse, dizendo algo que não entendo mas mesmo assim me ofende. São poemas de um homem que preferiria dormir consigo mesmo no lugar de uma mulher, ela disse. São poemas de um homem com olhos como estilete, mãos como as mãos de um

trombadinha, urdidos de água e lógica e raiva, com nenhuma sombra de amor neles. Esses poemas são tão sem coração como o canto dos pássaros, tão ausentes de significados como as folhas de carvalho, que, se amam, amam apenas o amplo céu azul e o mar e a idéia de folhas de carvalho. Amor próprio é um fim, ela disse, não um começo. Amor significa amor pela coisa cantada, não pela canção ou pelo cantar. Esses poemas, ela disse... Você é linda, ele disse. Isto não é amor, ela respondeu, justa, * Uma coisa se pode dizer dos poemas de amor: não houve escola ou movimento literário que não produzisse pelos menos meia dúzia de bons poemas de amor. Ou de desamor, como vemos pelo nem sempre muito grande otimismo dos poemas de "amor". Como disse uma vez Cacaso, "o amor que não dá certo/ sempre está por perto". E isto vem de longe, se pegarmos o próprio Ronsard (poeta francês nascido em 1524 e que pelo seu livro Os amores se tornou o protótipo do autor de poemas de amor – Drummond, naquele poema sobre "Fulana", chega a citá-lo na estrofe que diz: "Sou eu, o poeta precário/ que fez de Fulana um mito,/ nutrindo-me de Petrarca,/ Ronsard, Camões e Capim"), pois bem, se pegarmos o próprio Ronsard, veremos que seu poema mais célebre e celebrado lamenta a esquiva da amada, mais do que celebra as venturas do amor. Ei-lo em tradução de José Lino Grünewald: Quando fores bem velha, à noite junto à vela, Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando, Dirá, cantando os versos meus e te enlevando, "Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela". Então na haverá, ouvindo o recital, Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta, Que com o som do meu nome não desperte atenta A saudar o teu nome em louvor imortal. Estarei sob a terra e, fantasma sem osso, Pelas sombras dos mirtos terei meu repouso; Tu serás à lareira uma anciã encolhida Chorando o meu amor e o teu fero desdém. Se me crês, não espere o amanhã também: Vive, colhe desde hoje as rosas desta vida. * Já deixando bem claro que as mudanças do mundo e do tempo é que modificam os amores, os amados e o amor, deixando claro que este não é imutável, e muda como tudo, o poeta português Manuel António Pina escreveu esse "clássico": ESPLANADA Naquele tempo falavas muito de perfeição, da prosa dos versos irregulares onde cantam os sentimentos irregulares. Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão, agora lês saramagos & coisas assim e eu já não fico a ouvir-te amo antigamente olhando as tuas pernas que subiam lentamente até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu; Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, e não caminhos por andar, como dantes. * Por quê será que o amor que não dá certo, não deu certo, nunca dará certo, encanta tanto os poetas? Há muitas respostas. Tento aqui uma suposição. Na vida real, ou seja, na vida não simbolizada, gostaríamos que tudo transcorresse na maior calma, na maior tranqüilidade... quem gostaria de um amor com tantos percalços e final tão trágico quanto o de Romeu & Julieta? Mas na arte, bom é Romeu & Julieta. É conflito, aventura, sobressaltos, reviravoltas... Porque ali, nas palavras que o poeta utiliza, podemos testar nossos limites e os do amor. Diz o velho Terêncio: "Sou humano, nada do que é humano me é estranho". O mais estranho no amor ainda é humano, e por isso não nos é estranho... Por estar experimentando com os limites é que talvez tenhamos visto tantos túmulos, tanto fundo do coração, tanto gesto extremo nos poemas de amor. Se as canções de amor nos mandam para os psicanalista, talvez os poemas de amor nos tirem de lá... * O exercício que vou sugerir é mesmo o que vocês estão pensando: façam poemas de amor. Mas não vai ser fácil assim. Façam uma lista de palavras que vocês acham que não faltam ou não podem faltar em um poema de amor. Depois façam outra lista de palavras que vocês acham que não cabem nem podem caber em nenhum poema de amor. Depois de feitas as listas, façam um poema de amor com as palavras da segunda lista, é claro. Bom trabalho.

POESIA E RISO Sabemos que, segundo as perspectivas mais otimistas, durante alguns bilhões de anos nosso querido planeta Terra cumpriu, astro obediente e pertinaz, a sua órbita, sem carregar na carcaça essa estranha forma de vida chamada "homem". E também sabemos que, por um motivo ou por outro, mais cedo ou mais tarde, essa mesma Terra será de novo apenas uma rocha girando na engrenagem de rochas e luz do universo, alheia a qualquer forma de vida. E teremos sido um brevíssimo segundo diante da incomensurável massa de tempo que houve antes de nós e haverá depois de nós. Quer dizer: só rindo mesmo de qualquer pretensão de seriedade, não é? Concordo com aquele sujeito que escreveu que "a vida é uma grande piada cósmica". O estranho é que não vivamos rindo o dia inteiro, e que desperdicemos esse nosso "brevíssimo lapso" com

lamentações. Já dizia o Paul Valéry: "o ser é apenas um defeito na pureza de não-ser". Um defeito que, aliás, não tardará muito a ser corrigido. Só rindo. Aliás, é disso que trata a nossa conversa de hoje. Daquelas vezes em que, com felicidade, a poesia riu de nós, riu de si, riu de tudo, e nos fez rir de si, de nós e de tudo. Seja o riso irônico, a gargalhada grosseirona e franca, o riso melancólico etc, todos os matizes desse ato que nos distingue de todos os outros seres do planeta. Afinal, como disse primeiro que todos Aristóteles, o homem é o único animal que ri. E a poesia sempre riu, desde o começo, e principalmente da estupidez e das pretensões do homem. Este animal que para se impor não hesitou muitas vezes (e continua não hesitando) em massacrar, torturar e matar... Como denunciam, com um riso corrosivo, esses poemas de Nicanor Parra e Nicolas Behr: Aparecer apareceu. Só que numa lista de desaparecidos. (Nicanor Parra) * Quem teve a mão decepada Levanta o dedo. (Nicolas Behr) ____________ Se fosse o caso de encontrar semelhanças entre a poesia e o riso, diria, baseando-me um pouco em Bergson, que os dois trabalham no sentido da desautomatização, que os dois são um drible na rigidez. Se há uma coisa contra a qual os poetas e artistas em geral devem lutar é a automatização da sensibilidade, da sua produção artística. Quando a coisa chega nesse nível, como diz João Cabral (um poeta que várias vezes reclamou porque a crítica literária não dava a devida atenção ao aspecto humorístico de sua poesia), o melhor é passar a escrever (ou pintar) com a mão esquerda, como se lê nesse poema, que trata do bem-humoradíssimo Miró: Miró sentia a mão direita demasiado sábia e que de saber tanto já não podia inventar nada. Quis então que desaprendesse o muito que aprendera, a fim de reencontrar a linha ainda fresca da esquerda. Pois que ela não pôde, ele pôs-se a desenhar com esta até que, se operando, no braço direito ele a enxerta. A esquerda (se não se é canhoto) é mão sem habilidade: reaprende a cada linha, cada instante, a recomeçar-se. _______________

O riso e a poesia acontecem justamente quando um "acidente" provoca uma quebra na automatização, na visão automatizada da vida, na prática automatizada e obediente da vida. Eis um ótimo exemplo de casamento feliz entre poesia e riso, de autoria de José Paulo Paes: FALSO DIÁLOGO ENTRE PESSOA E CAEIRO - A chuva me deixa triste. - A mim me deixa molhado. * Uma visão absurda do automatismo a que somos submetidos nesse estranho consenso chamado "vida real" ou "realidade" é brilhantemente expressa por esse texto do argentino Júlio Cortázar. Como sabemos, o "absurdo" em Cortázar tem com principal característica prescindir de mirabolantes efeitos pirotécnicos, magias e sobrenaturais, ocorrendo o mais das vezes como o "outro lado" do real, nas coisas mais comuns, como chaves, jarros, bondes, camisas, fósforos, sapatos, fotos, focadas ou desfocadas, e esse é um ótimo exemplo: A FOTO SAIU FORA DE FOCO Um cronópio vai abrir a porta da rua e ao enfiar a mão no bolso para pegar a chave o que tira é uma caixa de fósforos; então este cronópio fica muito aflito e começa a pensar que se em vez da chave ele encontra os fósforos, seria terrível que o mundo se houvesse deslocado de repente, e então se os fósforos estão no lugar da chave, pode acontecer que ele ache a carteira de dinheiro cheia de fósforos, e o açucareiro cheio de dinheiro, e o piano cheio de açúcar, e o catálogo do telefone cheio de música, e o armário cheio de assinantes, e a cama cheia de roupas, e as jarras cheias de lençóis, e os bondes cheios de rosas, e os campos cheios de bondes. Assim este cronópio fica horrivelmente aflito e corre para se olhar no espelho, mas como o espelho está um pouco de lado, o que ele enxerga é o portaguarda-chuvas do vestíbulo, e suas desconfianças se confirmam e ele desata a soluçar, cai de joelhos e junta suas mãozinhas nem sabe para quê. Os famas vizinhos acodem para consolá-lo, e também as esperanças, mas passa-se muito tempo antes que o cronópio saia de seu desespero e aceite uma xícara de chá, que olha e examina muito antes de beber, não vá acontecer em lugar de uma xícara de chá seja um formigueiro ou um livro de Samuel Smiles. * Os "cronópios" de Júlio Cortázar serão talvez descendentes de "Pluma", o inacreditável personagem do francês Henri Michaux (que, como o argentino Cortázar, nasceu na Bélgica), cujo humor quase alucinógeno permanece inédito no Brasil por algum mistério que me escapa. Leiam esse fragmento (o livro é todo composto por fragmentos), e, se puderem, me expliquem porque é que o livro Plume, que narra as aventuras desse que é um dos mais geniais personagens da literatura do século XX ainda não foi traduzido e publicado por aqui: UM HOMEM TRANQÜILO Ao estender as mãos fora do leito, Pluma ficou surpreso de não encontrar a parede. "Bem, pensou ele, vai ver que as formigas a comeram..." e tornou a dormir. Pouco depois, sua mulher agarrou-o e sacudiu: "Veja, disse a ele, preguiçoso! Enquanto você se ocupava dormindo nos roubaram a casa." E de fato um céu intacto se estendia por todos os lados. "Ah, não há mais nada a fazer", pensou. Pouco depois, ouviu-se um ruído. Era um trem que vinha na direção do casal a toda velocidade. "Com a pressa que tem, pensou, seguramente chegará antes de nós", e tornou a dormir. Depois o frio o despertou. Estava todo coberto de sangue. Alguns pedaços de sua mulher jaziam a seu lado. "Com o sangue, pensou, sempre surgem um monte de problemas: se o trem não tivesse passado eu estaria bem contente. Mas já que já passou mesmo...", e tornou a dormir. - Vejamos, disse o juiz, como o senhor explica que sua mulher tenha se acidentado a ponto de que a tenham encontrado partida em oito pedaços, sem que o senhor, que estava a seu lado, fizesse o menor gesto para impedi-lo, sem que sequer se tenha dado conta. Eis o mistério. Ao reside o x da questão. - Em relação a esse assunto não poderei ajudá-lo, pensou Pluma, e tornou a dormir. - A execução será realizada amanhã. O acusado quer acrescentar alguma coisa? - Desculpe-me, disse ele, eu não acompanhei o julgamento.

_______________________________ Aqui no Brasil inventamos um gênero cujas ações andam muito em baixa na bolsa de valores literários: o poema-piada. Todos o condenam como se não fosse uma coisa lá muito séria. Alguns críticos parecem quase "desculpar" Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, ou seja, nossos maiores poetas, por terem praticado poemas-piada durante toda a vida... É claro que o poema-piada é apenas um capítulo na vasta matéria sobre poesia e riso, e é claro que da vasta gama de risos (o riso corrosivo, o riso melancólico, o riso celebratório, o riso-denúncia etc.), o poema-piada utilizou apenas uma pequena parte... Mas talvez seja justamente porque suas "ações" na "bolsa de valores literários" andam tão em baixa (qualquer crítico se sente um Papa da solenidade e da profundidade quando condena, em um livro qualquer, um poema mais engraçadinho), que aí mesmo resida seu interesse... É longe das unanimidades, longe da multidão de diluidores, longe dos prêmios literários, longe das comendas, que a poesia mais se renova... Enquanto os formatos mais premiados, diluídos, repetidos, cultuados acabam se automatizando e adquirindo a rigidez que os torna risíveis... O já citado José Paulo Paes foi um dos raros a não fugir do formato "modernista" do poema-piada nem se deixar limitar por ele, aí vão 3 de seus "clássicos": CRONOLOGIA A.C. D.C. W.C. __ GRAFITO neste lugar solitário o homem toda manhã tem o porte estatuário de um pensador de rodin neste lugar solitário extravasa sem sursis como num confessionário o mais íntimo de si neste lugar solitário arúspice desentranha o aflito vocabulário de suas próprias entranhas neste lugar solitário faz a conta mais doída: em lançamentos diários a soma da sua vida __ LAR espaço que separa o volkswagen da televisão ______________________ O poeta carioca José Lino Grünewald conseguiu um ótimo casamento entre poema-piada e poesia concreta:

SERVIÇO PÚBLICO bate ponto bate papo bate ponto _________ Para os que alimentam algum preconceito contra o humor na poesia, e que em geral necessitam de alguma "autoridade" para referendar ou "autorizar" seus gostos, cito aqui poemas de dois poetas perfeitamente sérios, verdadeiras "autoridades poéticas". um deles inclusive vencedor de Prêmio Nobel (o que deve comover quase às lágrimas – de inveja – nossos "sérios de plantão"): Octavio Paz, poeta que felizmente bebeu desde cedo nas fontes do humor negro do surrealismo. Eis dois poemas de Paz:

EFEITOS DO BATISMO O jovem Hassan para casar-se com uma cristã, foi batizado. O padre, como a um viking, chamou-o Erik. Agora tem dois nomes e uma só mulher.

* O OUTRO Inventou-se uma cara. Por trás dela Viveu, morreu e ressuscitou muitas vezes. Sua cara hoje tem as rugas dessa cara. Suas rugas não têm cara. ___________________ O outro poeta é o inglês W. H. Auden, autor desse delicioso "poema breve": Quem poderá imaginar Calvino, Pascal ou Nietzsche como um róseo bebê rechonchudo?

Também aqui o poema/riso nasce do desequilíbrio entre nossa visão já fossilizada desses "grandes homens" com suas fisionomias graves e solenes, e a face rosada do bebê que desautomatiza totalmente nossa memória. Releia agora o poema "O outro", de Octavio Paz, e veja se não há uma ligação muito sutil entre esses dois poemas... ___________ E já que falamos no surrealismo, um ótimo exemplo do "humour noir" dos surrealistas pode ser esse poema do francês Robert Desnos, que retira do velho e vasto sortilégio das pragas uma inspiração para a poesia: A POMBA DA ARCA Maldito seja o pai da esposa do ferreiro que forjou o ferro do machado

com o qual o lenhador abateu o carvalho no qual foi esculpido o leito em que foi engendrado o bisavô do homem que conduzia o ônibus em que tua mãe conheceu teu pai! ____________ Na poesia brasileira contemporânea, se há um nome absolutamente incontornável quando o tema é poesia e humor, este nome é o de Zuca Sardan. Trata-se de nosso poeta mais original. Desconfio que o fato de seu nome ainda permanecer tão desconhecido do público em geral, quando ao contrário realiza uma obra absolutamente "acessível", tem a ver com a radicalidade de seu questionamento da "seriedade" da poesia. Ninguém como Zuca empreende uma guerra tão sem tréguas contra a solenidade, contra o poeta muito cheio de si, contra o poema muito cheio de si. Seu poema-riso às vezes se quer sutil, às vezes bem grosseirão, mas não é nunca o que esperamos. Há um poema de Zuca que tematiza justamente o poder do riso de demolir as hierarquias: VEA VICTIS Malgrado a cabeleira De cachos empoados, Luiz XV revelou-se O maior republicano da França. Num tribunal reacionário Retrógrado e contra-revolucionário O teriam certamente condenado Pra deixar de ser burro. Mas compareceu, de fato, Àquele tribunal re-volucionário. Então, pra se safar Só havia mesmo Dizer que sua pessoa... era sagrada. Nem por isso o teriam menos Guilhotinado. Mas, em todo caso, Morreria com certa dignidade. A não ser que... Aqueles juízes grosseirões Começassem a rir...

"Só para ficar nu/ preciso de dez alfaiates", diz El Rey num poema de Zuca, e é bem contra essa retórica, esse gosto pelos floreios da eloqüência, que se dirigem as setas de seu riso. ___________ Não consigo não ligar a figura de Zuca Sardan com a de dois outros poetas, com os quais encerro a conversa de hoje. São eles o já citado Nicanor Parra, chileno, e a portuguesa Adília Lopes. No poema de Parra, o riso desintegra nossas pretensões de progresso e evolução, nosso orgulho por nossos avanços técnicos. Chama-se:

PROJETO DE TREM INSTANTÂNEO A locomotiva do trem instantâneo fica no lugar de destino (Puerto Montt) e o último carro no ponto de partida (Santiago)

a vantagem apresentada por este tipo de trem consiste em que o viajante chega instantaneamente em Puerto Montt no mesmo momento em que aborda o último carro em Santiago a única coisa que precisa fazer a seguir é dirigir-se com suas maletas pelo interior do trem até chegar ao primeiro carro uma vez realizada esta operação o viajante pode abandonar o trem instantâneo que terá permanecido imóvel durante todo o trajeto (Nicanor Parra) * O poema de Adília Lopes é revelador de uma das características dessa poeta. Trata-se de ver a coisa mais comum (os mesmos "objetos" comuns de Cortázar) com um olhar tão livre que a coisa comum (mas por um motivo bem diverso do absurdo de Cortázar) parece vir de Marte ou Vênus, revelada em toda a sua estranheza: A BIFURCAÇÃO SUCESSIVA Divido a minha vida em duas partes uma em que tinha orelhas e não tinha brincos uma em que já não tinha orelhas e toda a gente me dava brincos para me consolar de duas coisas de não ter orelhas e de não ter tido brincos quando tinha orelhas de todos nós assim era só eu porque orelhas tinha duas ______ Espero que tenham curtido essa seleção do humor. Se tiverem conseguido pelo menos um risinho em algum desses poemas já justificaram tudo. Que tal quebrarem todas as barreiras que impedem o riso de se expandir por regiões ditas "proibidas" para ele, como a Arte, a Poesia, o Ritual, o Solene, e deixar a poesia que escrevem rir um pouco de vocês, com vocês? Até a próxima. Carlito Azevedo 24 / 05 / 2006

Olá pessoal, Como hoje é a nossa última aula (aliás, muito obrigado pela paciência!), gostaria de começar essa conversa falando um pouco da situação da poesia no mundo, tal como a encontrará o poeta novo, aquele que chegou à conclusão de que é, definitivamente, poeta, e que deve arcar com todas as conseqüências desse gesto meio tresloucado de resolver pensar por si, de se re-inventar, de pensar contra o consenso, contra as opiniões que só são consensuais porque são as que todos adotam... as opiniões de todo mundo..., contra, enfim, a sociedade do espetáculo, do entretenimento e da diversão (que nada tem de

diverso ou divergente, pelo contrário, funciona pelo eterno retorno do mesmo)... Começo então citando algumas palavras do filósofo alemão Karl Jaspers, tendo tomado o cuidado, contudo, de substituir a palavra "filosofia", empregada por ele, pela palavra "poesia", que é o que nos interessa aqui... Como sou dos que consideram a filosofia e a poesia "irmãs em universo" (o do pensamento crítico), creio que a coisa continuará a fazer sentido mesmo depois de minha interferência... A citação, um pouco longo, se refere à oposição que as pessoas em geral fazem ao exercício desse pensamento crítico que está entranhado na poesia e na filosofia: "Mas como se coloca o mundo em relação com a poesia? Há cursos de poesia nas universidades. Atualmente, representam uma posição embaraçosa. Claro que por força da tradição, a poesia é polidamente respeitada, mas, no fundo, é objeto de desprezo. A opinião corrente é a de que a poesia não tem nada a dizer e carece de qualquer utilidade prática. A oposição se traduz em fórmulas como: a poesia é muito complexa: não a compreendo; está além do meu alcance; não tenho vocação para ela, e, portanto, não me diz respeito. Ora, isso equivale a dizer: é inútil o interesse pelas questões fundamentais da vida; o negócio é abster-se de pensar no plano geral para mergulhar num capítulo qualquer de atividade prática; quanto ao resto, bastará ter "opiniões" e contentar-se com elas. Um instinto vital, ignorado de si mesmo, odeia a poesia e diz: a poesia é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar a minha vida, teria de rever meus juízos. E daí surgem os detratores que desejam substituir a obsoleta poesia por algo novo e totalmente diverso." Pergunto: o "espetáculo"? "Muitos agentes do "espetáculo" vêem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência de poesia. Massas são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão-somente usam de uma inteligência de rebanho. É preciso impedir que os homens se tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a poesia seja vista como algo entediante." Fim da citação, ou da quase citação... já que mudei algumas coisas, como, neste último parágrafo, de onde retirei a expressão de Karl Jaspers "políticos" e coloquei "agentes do espetáculo"... no fundo são a mesma coisa... Pois bem... minha sugestão agora é que todos tenham em mente essas questões. Não precisam nem concordar com o que está aí... mas é fundamental dar sua própria resposta a esse estado de coisas... coloquemos a questão nos seguintes termos: a. Vale a pena tentar reunir poesia e "sociedade do espetáculo"? b. Mesmo sabendo que a sociedade do espetáculo, e sua principal arma, a TV, só admite a figura do poeta quando devidamente "espetacularizada" pela morte (de preferência suicídio), ou sob a forma do "sujeito maluquinho", "artista irreverentezinho", o "bobo-dacorte pós moderninho" que fará caretas e trejeitos para a câmera, e só reforçará a idéia de que a poesia é de fato uma coisa irrelevante? c. Será que essa postura expressa aí na letra b é uma postura "elitista" e "antiquada" e "fora de moda"? d. O negócio então seria penetrar nas "brechas" do sistema do espetáculo para miná-lo "por dentro"? e. Alguém já conseguiu esse feito?

f. A que preço? g. O importante é alcançar a tão desejada VISIBILIDADE? h. Ou a invisibilidade, a arte de desaparecer, podem ser os trunfos mais valiosos do poeta hoje? Enfim, são questões que deixo aqui para múltiplas respostas... as mais divergentes, as mais originais... Pense nisso tudo e faça poemas! * Mas se acentuei a parte mais difícil da situação da poesia no mundo hoje, faço questão de acentuar também os aspectos positivos da situação. E eles existem... Há alguns anos, o grande poeta mexicano ficou espantado de ver como conseguem conviver no mundo a opinião de que a poesia morreu, e, ao mesmo tempo, uma situação em que realmente é impossível citar um único país, por mais pobre ou por mais rico, que não conte com um grupo de poetas que editam uma revista de poesia, ou mantém uma editora especializada em poesia, ou, em lugares mais carentes, se reúnem em praças para ler poemas e discutir poesia... Vá ao Paraguai e encontrará grupos de poesia, revistas de poesia ou blogs de poesia. O mesmo encontrará na Argentina, no Chile, no Iraque, na França, na Alemanha, na Guatemala, em Porto Rico etc... Esse é o lado bacana: na nossa estranha invisibilidade temos uma possibilidade imensa de interlocuções... Há países que ignoram o futebol, mas não a poesia. Há países que ignoram o golfe, o tiro com arco, mas não a poesia. Esse é o lado bacana... Pense nisso também e faça poemas. * Veja as fotos da recente agitação em São Paulo, e faça poemas. Veja uma exposição de quadros abstratos, e faça poemas. Dê uma caminhada pelo centro da cidade, note como ela, a cidade, entra pelos seus cinco sentidos, suas formas e cores pela visão, seus sabores pelo paladar, seus rumores pela audição, seus esbarrões ou carícias pelo tato, seus odores doces ou acres pelo olfato, sinta isso e faça poemas. Experimente isso num lugar tranqüilo, e também faça poemas. Leia os filósofos, e faça poemas. Converse com os porteiros, e faça poemas. Aguce o ouvido quando estiver em um transporte público ou ajuntamento popular, roube frases dali e faça poemas. Pegue uma edição de Os lusíadas e faça um poema usando apenas uma palavra de cada estrofe.

Aprenda uma língua que seja considerada "inútil" no mundo das relações econômicas, e faça um poema nela. Cultive um jardim, e faça poemas. Crie um cãozinho, e faça poemas. A poesia está no mundo, e a ele se refere. Era isso. Um abraço.

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