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PROJECTO “PORTO DE PARTIDA”

SEMINÁRIO TRANSNACIONAL

Processo De Reabilitação Urbana no Centro


Histórico

“Intervenções Técnicas”

Porto, 18 de Novembro de 2003

Margarida Guimarães
C.M.P - DMCCH

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Processo De Reabilitação Urbana no Centro
Histórico

“Intervenções Técnicas”

A reabilitação do Centro Histórico da cidade do Porto começou logo


após a revolução democrática de Abril de 1974 e é consequência dessa
mesma revolução.
Contando com importantes estudos anteriores, nomeadamente o
estudo do Arqtº Fernando Távora que tinha defendido a reabilitação
urbana do Barredo, contrariando pareceres diferentes que previam a
demolição dos edifícios para resolver os problemas da habitação
insalubre e degradada.
A partir do 1975, rebenta um forte movimento da população
reivindicando o direito a uma casa para os moradores da Ribeira e
do Barredo, grandes vitimas do problema habitacional, da
degradação urbana, social, económica e moral.
De facto os edifícios do Centro Histórico, até ao Seculo XIX, eram
em grande parte habitações unifamiliares, que foram abandonadas
pelas famílias burguesas que as habitavam, para serem divididas em
diversas habitações. Primeiro uma por piso, depois uma por
compartimento e no final já os compartimentos se encontravam
divididos através de paredes bastante precárias, transformando os
prédios em autênticas colmeias humanas. Proliferavam as habitações
em que o inquilino arrendava de novo e a várias famílias diferentes.
Pagava-se o chão para dormir e os talheres para comer.
Esta população, predominantemente pobre, com grandes agregados
familiares, assiste finalmente à criação por parte do Governo do
CRUARB – Comissariado para a Renovação Urbana da Ribeira-Barredo,
para resolver o problema do realojamento.
O CRUARB é efectivamente a solução encontrada para resolver um
problema social, surgindo no âmbito das políticas de habitação. Essa

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origem marcou efectivamente a actuação futura, porque jamais a
intervenção se afastou dos objectivos sociais.
Desencadeou-se assim, um processo de realojamento de cerca de 300
famílias para um Bairro municipal – O Aleixo, que tinha acabado de ser
construído. A forte vontade duma casa condigna fez com esta
transferência fosse pacífica e quase sempre bem aceite. A rejeição e
a vontade de voltar às origens, começou mais tarde, quando começam a
surgir as primeiras casas renovadas na Ribeira-Barredo.
Dado assim o primeiro passo – o realojamento duma parte da
população, ficam uma série de prédios muito degradados, em ruína,
onde era necessário intervir com urgência.
O próprio governo cria também nesta altura legislação específica para
o Comissariado proceder a um processo de expropriação sistemática,
por utilidade pública, segundo um modelo operacional eficaz.
É de facto com estes instrumentos governamentais que um 2º passo é
dado - a renovação urbana de vários quarteirões e em 1980 a quase
totalidade destes edifícios estão transformados em habitações
“seguras”, “saudáveis” e “confortáveis”, que por sua vez foram
reutilizados com habitação social, procurando resolver problemas da
proximidade, geralmente da mesma freguesia, e sempre que possível e
necessário da mesma rua. Neste processo de retirada das famílias e
depois o realojamento, há durante a 1ª fase, uma parte muito activa da
população, que organizada em Comissão de Moradores participa
activamente e ela própria, confirma os agregados familiares, e faz
proposta de prioridades sobre os casos urgentes a resolver.
Depois das casas renovadas estarem ocupadas pelos novos inquilinos, o
papel do CRUARB foi muito importante na sua manutenção e
conservação. O morador sempre que tinha um problema na casa,
recorria ao CRUARB pedia a sua reparação.
Mas os problemas da degradação do C.H.P., não se limitavam às
habitações. Também o espaço público tinha sido duramente atingido
pelo abandono, resultante da marganilização da cidade que se tinha
desenvolvido no Séc. XX. As ruas e praças estavam esburacadas,
predominava o lixo e a área verde não existia.

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É no entanto na década de 80, que o CRUARB com a recuperação da
Praça da Ribeira consegue reconhecimento nacional e até
internacional. É recuperada a Praça (infra-estruturas e pavimento) e
os edifícios envolventes. Aqui os jornalistas passam a notícia e falam
do Cruarb, chegando até a noticiar que esta é a 1ª Obra.

A acção do CRUARB foi crescendo e em 1982 em consequência da Lei


das Finanças Locais, em que o Governo deixa de poder intervir de
forma discricionária nos investimentos das autarquias, que o CRUARB
corre o risco de se extinguir. Mas era de facto uma operação
importante, não terminada e querida pela população local, que levou o
Município a responsabilizar-se pelo Gabinete e do património de
intervenção.

E é também em 1982 que a acção do CRUARB alarga as suas


fronteiras de intervenção, estendendo a sua acção à área restante da
freguesia de S. Nicolau e às outras freguesias do Centro Histórico –
Sé, Miragaia e Vitória. Este alargamento surge também porque outras
áreas do C.H., principalmente da Sé e Miragaia, estão de tal maneira
degradadas, que a CMP teve que intervir, urgentemente, chegando à
necessidade de alojar temporariamente famílias em pensões, até
conseguir um realojamento definitivo numa casa. Neste contexto
foram definidos, numa 1ª fase alguns quarteirões como áreas criticas
de recuperação e reconversão urbanística, estatuto que mais tarde é
estendido a toda a área do C. Histórico.

A extensão da área era nessa altura de 90ha, onde viviam cerca de


20.000 habitantes, em 3.200 prédios.
Durante todo este percurso, foi muito importante o apoio consultivo
de conceituados arquitectos como Fernando Távora, Alcino Soutinho,
João Campos, sendo no entanto o “Mestre” Viana de Lima, que desde
1977 até 1991 (14 anos) acompanhou esta operação e aqui conseguiu
deixar as linhas da sua doutrina: casas com luz, arejamento, circulação
entre edifícios, criação de espaços abertos, pátios, saguões, a não
reconstrução de edifícios e em casos pontuais a demolição de

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construções de diminuto valor. E foi Viana de Lima, quem lançou a ideia
da candidatura do Centro Histórico do Porto a Património Cultural
da Humanidade junto da UNESCO.

A dinâmica da operação vai sofrendo variações, dependendo de


disponibilidades orçamentais, da vontade política, e como uma
resposta a um conjunto, bem identificado, de situações criticas, que
não necessitam de mecanismos pesados de análise para e definição de
prioridades. E o planeamento que foi sendo feito, não passou de
programas de intervenção em áreas mais ou menos homogéneas , à
escala do bairro ou mesmo, do quarteirão.
Em 1992 é criada a Fundação para o Desenvolvimento da Zona
Histórica, sendo um novo mecanismo de intervenção, na reabilitação
urbana , mas fundamentalmente na reabilitação social.
É de referir que em 1992 a zona Sé, considerada um caso crítico de
degradação urbana, social e económica do C.H, sofre um grande
impulso com o Projecto Piloto Urbano financiado pelo Feder, com uma
profunda intervenção nas infra-estruturas, pavimentos de ruas,
espaços públicos, restauro de monumentos, beneficiação de
estabelecimentos comerciais, criação de espaços com interesse para o
Turismo e a reconstrução da Casa da Câmara, obra de arquitectura
contemporânea, mas emblemática para a Cidade.

E é sem dúvida que a partir de 5 de Dezembro de 1996,


responsabilidades acrescidas são cometidas ao Porto, através da
passagem do Centro Histórico a Património da Humanidade. O
desempenho tem de ser mais eficaz, mais extenso e profundo. Aqui o
objectivo fundamental do CRUARB é preservar, recuperar, dar uso,
vitalizar e enriquecer culturalmente este sítio.

A justificação apresentada pelo Estado Membro para a classificação


do Porto a “Património da Humanidade” foi:

“Sítio urbano de grande valor estético, o Centro Histórico do Porto


testemunha um desenvolvimento urbano que remonta às épocas

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romana, medieval e almadina (século XVIII). Os vestígios
arqueológicos que subsistem provam que o sítio foi ocupado desde o
Século VIII a C.
As riquezas e a variedade da arquitectura civil do centro histórico
reflectem os valores culturais de épocas sucessivas: romana, gótica,
renascença, barroca, neoclássica e moderna, ao mesmo tempo que se
adaptam perfeitamente à estrutura social e geográfica da cidade,
apresentando assim uma relação estável e coerente com o ambiente
urbano e natural. O dinamismo do tecido social e institucional da
cidade é a garantia da sua sobrevivência como Centro Histórico.
Tanto como cidade como realização humana, o centro histórico do
Porto constitui uma obra-prima do génio criativo do Homem.
Interesses militares, comerciais, agrícolas e demográficos
convergiram neste local para dar abrigo a uma população capaz de
edificar a cidade. O resultado é uma obra de arte única no seu género
e de alto valor estético. Trata-se de um trabalho colectivo que não
resulta duma obra pontual, mas sim de sucessivas contribuições.
Um dos aspectos mais significativos do Porto, e do seu centro
histórico em particular, é o seu aspecto panorâmico, fruto da
complexidade do terreno, da articulação harmoniosa das suas ruas e
do diálogo com o rio. Todavia, apesar da variedade das suas formas e
materiais, o centro histórico do Porto conserva uma unidade estética
visual. A cidade traduz igualmente uma interacção conseguida entre o
meio social e o ambiente geográfico.
O Porto oferece uma variada escolha em matéria de urbanismo.
Intervenções planeadas e não planeadas de diversas épocas foram-se
concentrando nesta zona, permitindo assim o estudo da concepção
urbana e das características urbanas das cidades da Europa ocidental
e atlântico-mediterrânicas da Idade Média até à Revolução Industrial.
As vielas tortuosas adaptadas à topografia da Idade Média, as
estradas rectilíneas e as pracetas da Renascença, as vias que vão dar
aos monumentos barrocos e uma profusão de edifícios divididos em
que se fez uma junção dos andares, assim como novas construções em
terrenos de uso comum, conferem a este sítio um tecido urbano
complexo”.

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Esta classificação foi e é muito importante, porque uma operação que
sobrevivia apenas com dinheiro público, começa a dar os primeiros
sinais de participação e interesse dos privados, os proprietários
aderem a programas comparticipados pelo estado , mas que também
têm o seu esforço financeiro (caso do RECRIA), começa a procura
principalmente pelos jovens, duma casa no Centro Histórico, há
procura para investimentos comerciais, como o hotel da Ribeira,
cafés, esplanadas, restaurantes, etc.
O interesse dos estudantes universitários, portugueses e
estrangeiros em estudar o Centro Histórico aumenta
consideravelmente. Estudantes estrangeiros instalam-se no Porto,
durante meses para prepararem o seu trabalho de estágio.
Já há qualidade em grande parte do Centro Histórico, muitas casas
estão renovadas, mas os arranjos urbanísticos feitos principalmente
nas margens do Rio, e não só, são locais agradáveis e atractivos.
Muitos espaços culturais e edifícios classificados, estão agora abertos
ao público.
Nesta fase já foi mais importante o que a Câmara pode fazer no
espaço público, criando condições atractivas ao investimento
económico, do que propriamente a reabilitação da casinha degradada.
Este último diapositivo é uma obra emblemática do Centro Histórico, a
“Antiga Casa da Câmara”, cujo Arquitecto é o conceituado Prof.
Fernando Távora, que por coincidência participou no início do CRUARB,
no fim e é o autor dum projecto que poderá ser o local para, uma nova
etapa, a divulgação do Centro Histórico.

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Margarida Guimarães
(Chefe da DMCCH)