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LIBERAÇÃO NA PALMA DA SUA

MÃO
INTRODUÇÃO
Em 1921, cerca de setecentos monges, monjas e leigos tibetanos reuniram-se no
Eremitério de Chuzang, perto de Lhasa, para receber os ensinamentos de Lam-rim do
renomado mestre Kyabje Pabongka Rimpoche. Nos vinte-e-quatro dias seguintes, eles
ouviram o que se tornou um dos mais famosos ensinamentos que já foram dados no
Tibet.
O termo Lam-rim – passos no caminho até a iluminação – refere-se a um grupo de
ensinamentos que foram desenvolvidos no Tibet durante o último milênio baseado no
texto conciso e original chamado Uma Luz no Caminho do grande mestre indiano
Atisha (Dipamkara Shrijñana, 982-1054). De alguma maneira, Liberação na Palma de
Sua Mão representa a culminação da tradição Lam-rim no Tibet. Certamente para os
ocidentais, este livro tornou-se um dos Lam-rims mais significativos.
Há mais de 2.500 anos, Buda Shakyamuni passou quarenta e cinco anos
transmitindo uma vasta gama de ensinamentos para uma enorme variedade de pessoas.
Ele não ensinou a partir de um resumo pré-determinado, mas sim segundo as
necessidades espirituais dos ouvintes. Portanto, qualquer indivíduo que estude a
coletânea das obras de Buda acharia extremamente difícil discernir um caminho claro
que pudesse colocar em prática. A importância do Lam-rim de Atisha foi ter colocado
os ensinamentos de Buda em uma ordem lógica, um passo a passo compreendido e
praticado por qualquer pessoa que queira seguir um caminho budista,
independentemente de seu nível de desenvolvimento.
Atisha não só confiou no que o próprio Buda ensinou, mas também levou ao Tibet a
tradição oral viva destes ensinamentos – as linhagens ininterruptas de método e
sabedoria que foram transmitidas por Buda, respectivamente, a Maitreya e a Manjushri,
e depois transmitidos até Asanga, Nagarjuna e muitos outros grandes iogues indianos
até os mestres espirituais do próprio Atisha. Assim, além de escrever o primeiro texto
de Lam-rim, Atisha também transmitiu estas tradições orais tão importantes, que ainda
existem, e que estão sendo transmitidas aos ocidentais pelos grandes lamas
contemporâneos como Sua Santidade o XIV Dalai Lama.
Os discípulos de Atisha fundaram uma escola conhecida como Kadam, e a maioria
de sua tradição foi absorvida pela escola Gelug do Budismo Tibetano, que foi fundada
pelo grande Tsongkapa (1357-1419). Muitos lamas Kadam e Gelug escreveram
comentários sobre o Lam-rim, sendo o mais famoso a obra-prima de Tsongkapa, Os
Grandes Estágios do Caminho (Lam-rim Chen-mo): Pabongka Rimpoche seguiu as
linhas gerais deste texto no seu ensinamento de 1921, que acabou se transformando no
Liberação na Palma de Sua Mão. Mas, enquanto a obra de Tsongkapa tem uma ênfase
acadêmica, Pabongka Rimpoche focaliza mais as necessidades dos praticantes. Ele
entra em grandes detalhes em temas sobre como preparar-se para meditar, o guru ioga e
o desenvolvimento da bodhicitta. Portanto, Liberação é um texto altamente prático e
tão relevante aos praticantes ocidentais como foi aos tibetanos que lá estiveram.
Presente em 1921 estava Kyabje Trijang Dorje Chang (1901-1981), um dos

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discípulos mais próximos de Pabongka, Tutor Junior do XIV Dalai Lama, e guru-raiz
de muitos lamas Gelug que fugiram do Tibet em 1959. Trijang Rimpoche tomou notas
dos ensinamentos e durante os trinta-e-sete anos seguintes editou-as incansavelmente
até estarem prontas para publicação em tibetano como Liberação na Palma de Sua
Mão.
Pabongka Rimpoche foi provavelmente o lama Gelug mais influente do século,
detentor de todas as linhagens importantes dos sutras e tantras, repassando-as aos mais
importantes lamas Gelug das duas gerações seguintes; a relação de seus ensinamentos
orais é vasta em profundidade e amplitude. Ele foi também o guru-raiz de Kyabje Ling
Rimpoche (1903-1983), Tutor Sênior do Dalai Lama, Trijang Rimpoche, e muitos
outros mestres altamente respeitados. A coletânea de suas obras ocupa quinze grandes
volumes e cobre todos os aspectos do budismo. Se você já recebeu ensinamento de um
lama Gelug, você foi influenciado por Pabongka Rimpoche. Um texto de Lam-rim
como Liberação jamais pode ser escrito novamente, e assim este livro representa a
culminação da tradição Lam-rim.
Existem quatro escolas principais do Budismo Tibetano, e em todas há
ensinamentos de Lam-rim, mas as escolas Nyingma, Sakya e Kagyu não enfatizam o
Lam-rim como a Gelug. Embora normalmente no currículo Gelug monástico o Lam-
rim só seja ensinado aos monges em um estágio mais avançado de suas carreiras,
muitas vezes este é o primeiro ensinamento dado aos ocidentais. Liberação é o Lam-
rim mais ensinado pelos mestres Gelug e tem sido o favorito de lamas como Sua
Santidade o Dalai Lama, seus dois tutores, Serkong Rimpoche, Song Rimpoche, Geshe
Ngawang Dhargyey, Geshe Rabten, Geshe Sopa, Lama Thubten Yeshe e Lama
Thubten Zopa Rimpoche.
Em sua breve introdução, Kyabje Trijang Rimpoche transmite uma forte sensação
do que foi estar presente nestes ensinamentos. Este texto é verdadeiramente incomum
entre as obras tibetanas porque é a transcrição editada de um discurso oral e não uma
composição literária. Assim, não só recebemos alguns ensinamentos muito preciosos –
a essência dos oito Lam-rims principais – mas também temos uma visão de como estes
ensinamentos eram dados no Tibet. Os pontos que detalham as características especiais
deste ensinamento podem ser encontrados na introdução de Trijang Rimpoche e no
final do Dia Um.
Cada capítulo corresponde a um dia de ensinamentos e normalmente começa com
uma breve palestra para acertar a motivação dos ouvintes. (Para uma visão geral dos
detalhes do caminho completo à iluminação conforme aqui apresentado, veja o resumo
do texto nos Apêndices). No livro, as motivações foram abreviadas em benefício do
novo material, mas o notável Dia Um tanto é uma motivação elaborada quanto uma
excelente meditação compacta de todo o Lam-rim. Em certo sentido, o restante do livro
é um comentário sobre este capítulo. Como Pabongka Rimpoche deixa bem claro do
começo ao fim, dedicar-se ao desenvolvimento da bodhicitta é a maneira mais
significativa de direcionar sua vida, e as realizações graduais mostradas no Dia Um o
levará a esta meta. No final do livro, Pabongka Rimpoche diz, "Pratique o que puder,

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para que os meus ensinamentos não tenham sido em vão... Mas, acima de tudo, faça da
bodhicitta a sua prática principal."
Estes ensinamentos contêm muitas coisas novas e nada familiares, especialmente
para os ocidentais, mas assim como em qualquer objetivo significativo, o estudo e a
reflexão trazem clareza e compreensão.

NOTA DA TRADUÇÃO EM INGLÊS


Procurei dar a leitura mais fácil possível sem prejudicar a precisão. No entanto, como
Trijang Rimpoche era um poeta renomado, sem dúvida parte da beleza do texto
tibetano foi perdida. Mesmo assim, penso que preservei a natureza coloquial e prática
dos discursos de Pabongka Rimpoche, dando a esta obra a proximidade e o poder do
original.
Para ajudar os leitores ocidentais apresentei uma hierarquia estrutural do material
de uma maneira que os livros tibetanos não fazem. São onze níveis de subdivisões que
no original é simplesmente em texto direto: o sumário destes títulos e subtítulos estão
claramente expostos no Apêndice I e serve como um índice elaborado.
Não traduzi todos os termos técnicos, preferindo deixar a palavra em sânscrito onde
não há equivalente adequado em inglês. É preferível a forjar um termo em inglês que
pode até ser menos familiar ao leitor do que o sânscrito, e novas palavras sânscritas
budistas estão sempre entrando nos dicionários ingleses.
No corpo principal do texto todas as palavras tibetanas e nomes próprios estão
apresentados apenas em fonética; as transliterações estão no glossário. A transliteração
do sânscrito é padrão, com exceção do s' ser escrito como sh, c como ch e ch como
chh para ajudar aos leitores na pronúncia.
AGRADECIMENTOS
Sinceros agradecimentos ao meu precioso guru-raiz, Gen Rimpoche Geshe Ngawang
Dhargyey, por ensinar este texto na Library of Tibetan Works and Archives (Biblioteca
de Arquivos e Obras Tibetanas), e por me conceder a transmissão oral completa em
1979. Sou também profundamente grato ao Venerável Amchok Rimpoche, que
trabalhou longa e arduamente durante cinco anos, revendo comigo todo o texto e
aprimorando minha tradução com excelentes sugestões. Agradecimentos também a
Gala Rimpoche que me ajudou com os dias Onze e Doze na Austrália, em 1980-81, e
Rilbur Rimpoche, um dos poucos discípulos vivos de Pabongka Rimpoche, forneceu
uma biografia de seu guru.
Agradeço também aos muitos amigos e colegas em Dharamsala pela ajuda,
encorajamento e apoio: Losang Gyatso, na época, tradutor de Geshe Dhargyey, por
sugerir que eu traduzisse este livro; Gyatso Tsering e sua equipe na Biblioteca
Tibetana; todos do Hospital Delek e a Jean-Pierre Urolixes e Mervyn Stringer pela
ajuda após meu acidente automobilístico em 1983; David Stuart, que recuperou a
minuta da tradução dos Dias Nove e Dez de Jammu, onde foram concluídas após o
acidente; Cathy Graham e Jeremy Russell, que ofereceram valiosas sugestões para

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aprimorar o manuscrito; minha mãe e meu falecido pai, que sempre me ajudaram e
apoiaram; Alan Hanlay, Lisa Heath e Michael Perrott; meus falecidos amigos Keith,
Kevan e Andy Brennand; e minha querida esposa, Angela, que compartilhou comigo
todas as dificuldades trazidas por este longo projeto, mantendo sempre a esperança e a
paciência; seu encorajamento e sacrifício foram inestimáveis.
Finalmente, gostaria de agradecer a Eva Van Dam e Robert Beer por suas belas
ilustrações, Gareth Sparham e Trisha Donnelly por entrevistarem Rilbur Rimpoche;
Ven. Sonan Jampa pelo índice, e aos da Wisdom Publications que editaram e
produziram este livro: Nick Ribush, Robina Courtin, Sarah Thresher, Lydia Muellbauer
e Maurice Walshe.

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PABONGKA RIMPOCHE
Uma Biografia por Rilbur Rimpoche

Meu três vezes, bondoso guru, cujo nome acho difícil sussurrar, o Senhor Pabongka
Vajradhara Dechen Nyingpo Pael Zangpo, nasceu ao norte de Lhasa em 1878. Seu pai
era um oficial, mas a família não era rica. Apesar da noite escura, uma luz brilhou no
quarto, e as pessoas de fora da casa tiveram a visão de um protetor no telhado.
Pabongka Rimpoche era uma emanação do grande erudita Jangkya Rolpai Dorje
(1717-1786), embora inicialmente pensava-se que fosse a reencarnação de um grande
geshe Kadam do Mosteiro de Sera-me. Rimpoche entrou no mosteiro aos sete anos de
idade, fez os estudos normais de um monge, recebeu sua graduação como geshe e
passou dois anos no Colégio Tântrico Gyuto.
Seu guru-raiz era Dagpo Lama Rimpoche Jampel Lhumdrub Gyatso, de Lhoka. Ele
era definitivamente um bodhisattva, e Pabongka Rimpoche era seu principal discípulo.
Ele viveu numa caverna em Pasang e sua prática principal era a bodhicitta; sua
principal deidade era Avalokiteshvara e ele recitava 50.000 manis [o mantra om mani
padme hum] todas as noites. Quando Kyabje Pabongka Rimpoche encontrou Dagpo
Rimpoche pela primeira vez em uma cerimônia de oferecimento de tsog em Lhasa, ele
chorou do começo ao fim movido por reverência.
Quando Pabongka Rimpoche terminou seus estudos, ele visitou Dagpo Lama
Rimpoche em sua caverna e foi então encaminhado a um retiro de Lam-rim nas
proximidades. Dagpo Lama Rimpoche ensinava-lhe um tópico de Lam-rim e depois
Pabongka Rimpoche partia e meditava no tópico. Depois, voltava e contava o que havia
compreendido. Se tivesse conseguido alguma realização, Dagpo Lama Rimpoche
ensinava um pouco mais e Pabongka Rimpoche voltava a meditar no assunto. Isto
continuou por dez anos (se isto não é surpreendente, o que será!)
Os quatro principais discípulos de Pabongka Rimpoche foram Kyabje Ling
Rimpoche, Kyabje Trijang Rimpoche, Khangsar Rimpoche e Tathag Rimpoche, um
dos regentes do Tibet. Tathag Rimpoche era o mestre principal de Sua Santidade o
Dalai Lama na infância e concedeu-lhe sua ordenação de monge noviço.
Eu nasci em Khan, no Nordeste do Tibet, e dois dos meus primeiros mestres foram
discípulos de Pabongka Rimpoche, então cresci num ambiente de completa fé em
Pabongka Rimpoche como se ele fosse o próprio Buda. Um destes mestres tinha um
retrato de Pabongka Rimpoche que soltava pequenas gotas de néctar entre as
sobrancelhas. Eu vi isto com meus próprios olhos, portanto podem imaginar o tamanho
da fé que eu tinha em Rimpoche quando finalmente cheguei à sua presença.
Mas eu também tinha um motivo pessoal para ter tamanha fé nele. Eu era o filho
único de uma família importante, e embora o XIII Dalai Lama tivesse me reconhecido
como um lama reencarnado e o próprio Pabongka Rimpoche tivesse dito que eu deveria
entrar para o Mosteiro Sera em Lhasa, meus pais não estavam felizes com esta idéia.
Mas meu pai morreu pouco depois disto e eu finalmente pude ir para o Tibet central.
Vocês podem imaginar minha empolgação ao embarcar numa viagem de dois meses a

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cavalo? Eu só tinha quatorze anos e ser um monge era a coisa certa para um rapaz da
minha idade fazer. Eu senti que a oportunidade de ir a Lhasa, de me ordenar e viver
como um Rimpoche conforme o Dalai Lama havia dito, era tudo uma maravilhosa obra
de Pabongka Rimpoche.
Na época de minha chegada a Lhasa, Pabongka Rimpoche vivia em Tashi
Choeling, uma caverna acima do Mosteiro Sera. Marcamos um encontro e alguns dias
mais tarde minha mãe, meu chang-dze (o homem encarregado de meus assuntos
pessoais), e eu fomos a cavalo. Embora Rimpoche estivesse nos esperando naquele dia,
nós não tínhamos marcado um horário. Mesmo assim, havia acabado de pedir ao seu
próprio chang-dze para preparar chá e arroz doce que nos aguardava na chegada. Isto
me convenceu que Rimpoche era clarividente, uma manifestação do próprio
Vajradhara, que tudo vê.
Depois que comemos, fomos visitar Rimpoche. Lembro-me como se fosse hoje.
Uma escada estreita levava ao pequeno quarto de Pabongka Rimpoche, onde ele estava
sentado em sua cama. Ele parecia igual às fotos – baixo e gordo! Ele disse, "Eu sabia
que você viria – agora nos encontramos," e afagou o lado de minha face. Enquanto eu
estava sentado lá, um recém-geshe de Sera veio oferecer Rimpoche um prato especial
de tsam-pa que só é feito na ocasião especial de receber o grau de geshe. Rimpoche
comentou como era auspicioso este novo geshe ter vindo enquanto eu estava lá e como
ele havia enchido a minha tigela igual à sua. Imaginem o que isto fez à minha mente.
Quase não havia nada no quarto. O mais surpreendente era uma estátua de duas
polegadas de ouro puro de Dagpo Lama Rimpoche, o guru-raiz de Pabongka
Rimpoche, rodeado por pequenos oferecimentos. Atrás de Rimpoche havia cinco
thangkas de Tsongkapa depois de seu falecimento, da visão de Kedrub Je. A única
outra coisa no quarto era um lugar para uma xícara de chá. Eu também conseguia ver
uma pequena sala de meditação ao lado e ficava espiando-a (eu só tinha quatorze anos e
era muito curioso). Rimpoche me disse para ir até a sala e dar uma olhada lá dentro.
Tudo o que tinha era uma caixa de meditação e um pequeno altar: da esquerda para a
direita havia Lama Tsongkapa, Heruka, Yamantaka, Naljorma e Pelgon Dramze, uma
emanação de Mahakala. Abaixo das estátuas havia oferecimentos, arrumados ao longo
do altar.
Eu ainda não era um monge, então Jamyang, o antigo empregado indicado a
Pabongka Rimpoche por Dagpo Lama Rimpoche, que sempre ficava no quarto de
Rimpoche, foi enviado para buscar um calendário e marcar uma data para minha
ordenação, embora eu não a tivesse pedido. Rimpoche estava me dando tudo que eu
sempre quis e pude sentir como ele era tão bondoso. Quando parti, eu voava em uma
nuvem de total estado de beatitude!
O chang-dze de Rimpoche era um homem de cara muito feroz considerado a
emanação de um protetor. Certa vez, enquanto Rimpoche fazia uma longa viagem, o
chang-dez movido por devoção demoliu o pequeno e velho prédio onde Rimpoche
vivia e construiu uma grande residência ornamentada que rivalizava com as
acomodações pessoais do Dalai Lama. Quando Rimpoche retornou, ele não ficou nada

vi
satisfeito e disse, "Eu sou apenas um pequeno lama eremita e você não deveria ter
construído algo assim para mim. Eu não sou famoso e a essência do que ensino é a
renúncia da vida mundana. Portanto, estou envergonhado com estas acomodações".
Recebi muitas vezes ensinamentos de Lam-rim de Pabongka Rimpoche. Os
chineses confiscaram as minhas anotações, mas como resultado de seus ensinamentos,
eu ainda carrego em meu interior algo muito especial. Sempre que ele ensinava, eu
ficava inspirado a tornar-me um verdadeiro iogue, retirando-me para uma caverna,
cobrindo-me de cinzas e meditando. À medida que eu crescia, passei a sentir isto cada
vez menos, e agora não penso mais nisto. Mas, naquela época, eu realmente queria ser
um verdadeiro iogue, como ele.
Ele deu muitas iniciações, como Yamantaka, Heruka e Guhyasamaja. Eu mesmo
recebi estas iniciações dele. Nós íamos até a sua residência para as iniciações secretas
importantes e ele descia até o mosteiro para dar ensinamentos mais gerais. Às vezes,
fazíamos uma turnê a vários mosteiros. Visitar Pabongka Rimpoche era,
provavelmente, igual ao que acontecia ao visitar Lama Tsongkapa quando ele estava
vivo.
Ao ensinar, ele sentava-se sem se mexer por até oito horas. Cerca de duas mil
pessoas assistiam aos seus ensinamentos e iniciações, e um número menor assistiam os
ensinamentos especiais. Mas quando dava os votos de bodhisattva apareciam até dez
mil pessoas. Quando dava a iniciação de Heruka, ele tinha uma aparência especial. Seus
olhos ficavam abertos e penetrantes e eu quase o via como Heruka, com uma perna
esticada e a outra dobrada. Era tão intenso que eu começava a chorar, como se a própria
divindade Heruka estivesse ali Isto era muito poderoso, muito especial.
Para a minha mente, ele era o lama tibetano mais importante de todos. Todas as
pessoas sabem como os seus quatro principais discípulos foram grandiosos – bem, ele
era o mestre deles. Ele passou muito tempo pensando no sentido prático dos
ensinamentos e tendo uma realização interna deles, e havia praticado e realizado tudo
que tinha aprendido, até o estágio de consumação. Ele não jorrava simplesmente as
palavras, ele experimentava as coisas por si mesmo. E também nunca ficava com raiva;
toda raiva tinha sido totalmente pacificada por sua bodhicitta. Muitas vezes havia
longas filas de pessoas aguardando suas bênçãos, mas Rimpoche perguntava um por
um como estavam e tocava-lhes na cabeça. Às vezes dava remédios. Ele era sempre
gentil. Tudo isto o fazia ser muito especial.
Eu diria que ele tinha duas qualidades principais: do ponto de vista tântrico, as suas
realizações e habilidades de apresentar Heruka, e do ponto de vista do sutra, a sua
habilidade de ensinar o Lam-rim.
Pouco antes de falecer, ele foi convidado a explicar um Lam-rim abreviado no
mosteiro Dagpo Shidag Ling, in Lhoka, de seu guru-raiz. Ele escolheu um texto
chamado O Caminho Rápido, do Segundo Panchen Lama. Este foi o primeiro Lam-rim
que Dapgo Lama Rimpoche lhe ensinou e Pabongka Rimpoche dizia que seria o último
que ele, Pagongka Rimpoche, ensinaria. Sempre que visitava o mosteiro de seu lama,
Rimpoche desmontava do cavalo assim que o mosteiro estivesse à vista e se

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prosternava até chegar à porta de entrada – o que não era fácil devido ao seu corpo
volumoso; ao partir, ele andava de costas até o mosteiro ficar fora do alcance de sua
vista. Desta vez, quando partiu do mosteiro, ele fez uma prosternação quando estava
quase fora do alcance, e foi pernoitar em uma casa próxima. Tendo manifestado um
pequeno desconforto em seu estômago, Rimpoche recolheu-se aos seus aposentos. Ele
pediu que seus atendentes o deixassem enquanto fazia suas preces, que cantou mais alto
do que o normal. Depois, parecia que estava dando um ensinamento de Lam-rim.
Quando terminou, seus atendentes entraram no quarto e viram que ele tinha falecido.
Embora Tathag Rimpoche estivesse extremamente desconcertado, ele nos disse o que
fazer. Estávamos todos perturbados. O corpo de Pabongka Rimpoche foi vestido em
brocado e cremado da maneira tradicional. Um relicário incrível foi construído, mas os
chineses o demoliram. No entanto, consegui recuperar algumas das relíquias de
Rimpoche e dei-as ao Mosteiro Sera-me. Agora elas podem ser vistas lá.
Eu tive certo sucesso como estudioso, e como lama, sou conhecido, mas estas
coisas não são importantes. A única coisa que me interessa é que fui discípulo de
Pabongka Rimpoche.

O Venerável Rilbur Rimpoche nasceu no Nordeste do Tibet em 1923. Aos cinco anos
foi reconhecido pelo XIII Dalai Lama como a sexta encarnação de Rilbur Rimpoche de
Sera-me. Ele entrou na Universidade Monástica de Lhasa aos quatorze anos e tornou-
se geshe aos vinte-e-quatro. Meditou e ensinou o Dharma até 1959, quando passou a
sofrer sob intensa opressão chinesa durante vinte-e-um anos. Em 1980 recebeu
permissão para fazer algumas atividades religiosas, e ajudou a construir uma nova
stupa para Pabongka Rimpoche em Sera, já que os chineses haviam destruído a
original. Ele então veio a Índia e atualmente mora no Mosteiro Namgyal, em
Dharamsala.

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O Texto
Uma Instrução Profunda e Totalmente Inequívoca
de conceder A Liberação na Palma de Sua Mão,
Essência dos Pensamentos do
Inigualável Rei do Dharma [Tsongkapa],
O registro escrito do Ensinamento Conciso sobre
Os Estágios do Caminho à Iluminação,
Cerne de Todas as Escrituras,
Essência do Néctar das Instruções.

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Introdução por Trijang Rimpoche
Prasarin parana syaklutaki yanta,
Trayan guhyanata tigolama eka,
Sudhi vajradharottarah muni aksha,
Prayachha tashubham valaruga kota.

Oh Lama Lozang Dragpa,


Uno com Shakyamuni e Vajradhara,
Oh união de todo perfeito refígio,
Oh aspecto total de mandala
Com os três mistérios da iluminação,
Faça chover sobre nós dez milhões de bondades.

Oh meu guru, meu protetor,


Que através do Veículo Supremo,
Superou o extremo da paz egoísta,
Que, sem apego aos confortos mundanos,
Sustentou os três treinamentos superiores
E os ensinamentos dos Vitoriosos,
Cujas obras boas e nobres permaneceram
Livres de máculas das oito preocupações mundanas
Oh, a própria fonte de bondade.

Tudo o que disse foi remédio para eliminar centenas de doenças;


Nossas mentes infantis foram recipientes impróprios
Para um oceano tão vasto de ensinamentos.
Oh, preciosa fonte de qualidades,
Como seria triste se estes ensinamentos fossem esquecidos!
Aqui, registrei apenas alguns deles.

Uma quantidade imensa e incontável de Budas veio no passado. Mas seres


desafortunados como eu, não fomos dignos o bastante para sermos discípulos diretos de
Shakyamuni, o melhor dos protetores, que sobressai como um lótus branco entre
milhares de grandes Budas salvadores deste éon afortunado. Primeiro, foi preciso que
fossemos forçados a desenvolver até mesmo um pensamento salutar momentâneo; isto
nos levou ao perfeito renascimento como humano. Fomos ensinados este caminho
perfeitamente inequívoco, que nos leva ao nível da onisciência, quando então,
alcançamos nossa liberdade.
Mas, para ser breve, fui salvo contínuas vezes de uma infinidade de males
diferentes, e fui levado mais próximo de uma infinidade de coisas magníficas. Meu
glorioso e santo guru fez isto. Sua bondade é sem par. Ele foi – e agora direi seu nome
em vista de meu propósito – Jampa Tenzin Trinle Gyatso Pelzangpo. Embora pessoas
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como eu sejamos imaturos, sem cultura e sem regeneração, houve uma época em que
eu festejava suas instruções orais do Mahayana [o Veículo Supremo ou Grande] no
Eremitério Chuzang, um belo local abençoado pela presença de grandes meditadores.
Ele começou este ensinamento informal no décimo terceiro dia do sétimo mês do
Ano Ferro Pássaro (1921), e durou vinte-e-quatro dias. As pessoas passaram por
grandes dificuldades para chegar lá vindo dos três principais mosteiros de Lhasa, da
Província Central, e de Tsang, Amdo e Kham para saborear o néctar de seus
ensinamentos orais, igual a sedentos que anseiam por água. Havia cerca de trinta lamas
e reencarnações de lamas, e muitos sustentadores das três cestas dos ensinamentos – ao
todo uma reunião de mais de setecentos. O ensinamento informal combinou as várias
tradições do Lam-rim – os estágios do caminho à iluminação. Havia as duas linhagens
orais relacionadas ao texto Lam-rim denominado As Palavras do Próprio Manjushri.
Uma destas linhagens era bastante detalhada e havia sido desenvolvida na Província
Central; uma outra linhagem de um ensinamento mais curto florescia ao sul do Tibet.
Ele também incluiu o ensinamento conciso, o Lam-rim O Caminho Rápido; e na parte
das seções do Grande Alcance que trata de trocar-se pelos outros, ele ensinou o
treinamento da mente em sete pontos.
Cada parte do ensinamento foi enriquecida com instruções tiradas das linhagens
orais secretas. Cada seção foi ilustrada com analogias, lógica conclusiva formal,
estórias surpreendentes, e citações confiáveis. O ensinamento era facilmente
compreendido por principiantes e, no entanto, era talhado para todos os níveis de
inteligência. Isto era benéfico para a mente porque era muito inspirador. Às vezes
éramos levados aos risos, ficando bastante despertos e vivos. Às vezes éramos levados
às lágrimas e chorávamos desconsolados. Outras vezes ficávamos com medo e éramos
levados a sentir, "Eu abandonaria com prazer esta vida e me devotaria somente à minha
prática." Este sentimento de renúncia era imenso.
Estas foram algumas das maneiras que estes ensinamentos foram tão
extraordinários. Como eu poderia efetivamente colocar tudo isto em papel! No entanto,
seria uma pena se todos os pontos-chaves contidos nestas instruções inspiradoras
fossem perdidos. Este pensamento deu-me a coragem para escrever este livro Como
mais tarde o meu precioso guru aconselhou-me, "Algumas pessoas presentes não
conseguiam seguir os ensinamentos, Confesso que não confio em todas as anotações
feitas pelas elas durante os ensinamentos. Peço, portanto, que você publique um livro,
colocando nele tudo aquilo que tiver certeza."
Neste livro, registrei com precisão os ensinamentos de meu lama na esperança de
que este substituto ao seu ensinamento será benéfico aos meus amigos que queiram ter
sucesso em suas práticas.

xi
Primeira Parte
AS PRELIMINARES
DIA UM
Kyabje Pabongka Rinpoche, um inigualável rei do Dharma, falou um pouco para
acertar a nossa motivação para os ensinamentos. Ele disse:

O grande Tsongkapa, o rei do Dharma dos três reinos, disse:


Esta oportuna forma física
Vale mais do que a jóia que realiza desejos.
Só a conseguimos uma única vez.
Ela é tão difícil de se conseguir, tão facilmente destruída,
É rápida como um raio atravessando o céu.
Contemple isto e compreenderá
Que todas as ações mundanas são como palhas ao vento.
Todos os dias e todas as noites você deve
Extrair alguma essência de sua vida.
Eu, o iogue, assim pratico;
Você, que quer a liberação, faça o mesmo!

Desde tempos sem princípio, tivemos infindáveis corpos, mas não tiramos deles
nenhuma essência. Não há sofrimento que não vivenciamos, nem felicidade que não
experimentamos. Mas, independente de quantos corpos já tivemos, não conseguimos
extrair deles nenhuma essência. Agora, que conseguimos esta perfeita forma humana,
devemos fazer algo para tirar alguma essência. Enquanto continuarmos sem
discernimento, não daremos importância a esta forma humana tão significativa e não
lamentaremos desperdiçar este perfeito renascimento humano. Provavelmente
lamentaríamos muito mais desperdiçar dinheiro. Mas esta forma física que temos agora
é cem mil vezes mais valiosa do que qualquer jóia que realiza desejos.
Se limpar uma jóia que realiza desejos lavando-a três vezes e depois colocá-la no
topo de um estandarte de vitória, obterá sem esforço as boas coisas desta vida –
comida, roupas, etc. Mesmo se conseguir cem, mil, dez mil, e ou até cem mil jóias
dessas, elas não poderão fazer por você nem o mínimo que pode conseguir com este
renascimento, porque elas não podem ser usadas para evitar que seu próximo
renascimento seja nos reinos inferiores. Com sua forma física atual, você pode evitar
cair novamente nos reinos inferiores. Além disso, se quiser conseguir o renascimento
físico de um Brâmane, Indra, etc., poderá consegui-lo com o seu renascimento atual. Se
quiser ir aos reinos puros como Abhirati, Sukhavati, ou Tushita, poderá fazê-lo por
meio de seu atual renascimento físico. E não é só isto, pois poderá até mesmo alcançar
os estados de liberação ou onisciência através do atual renascimento. Tudo que precisa
é aproveitar a oportunidade. O mais importante é que através deste renascimento físico
poderá alcançar o estado de Vajradhara [a unificação do corpo ilusório e do grande
prazer sublime] dentro de uma vida curta desta era degenerada; coisa que, de outra
forma, demoraria incontáveis eons para conseguir. Assim, este renascimento vale mais
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do que mil bilhões de jóias preciosas.
Se desperdiçar este renascimento, isto será uma lástima maior do que desperdiçar mil
bilhões de jóias preciosas. Não há perda maior; nada poderia cegar mais; nenhuma
auto-decepção poderia ser maior. O protetor Shantideva disse:

Após ter conseguido tal oportunidade


Nenhuma auto-decepção poderia ser pior
Do que não usá-la para fins virtuosos!
Nada traria maior cegueira!

Então, você deve tentar extrair agora alguma essência de sua vida. Você certamente
vai morrer, e não há como saber quando isto acontecerá.
Estamos agora ouvindo este ensinamento de Dharma, mas nenhum de nós estará
vivo daqui a cem anos. No passado, Buda, o nosso mestre, reuniu as duas coletâneas
[de mérito e sabedoria primordial] durante muitos eons, conseguindo assim obter um
corpo vajra. Mas, para as aparências comuns, até ele entrou em nirvana [além do
sofrimento]. Depois, vieram os estudiosos, adeptos, tradutores, e panditas, tanto na
Índia quanto no Tibet, mas todos também já partiram desta vida. Deles, nada sobrou a
não ser seus nomes e o que ainda falam sobre eles. Enfim, não há ninguém que tenha
sido poupado pela morte. Como pode então esperar que só você vá viver para sempre?
Não há esperança alguma de que seja poupado!
Então, não só você vai realmente morrer, como também não pode ter certeza de
quando acontecerá. Não pode estar certo que no próximo ano ainda estará vivo neste
seu corpo humano, muito menos que ainda estará usando os três mantos de um monge.1
No ano que vem, nesta mesma época, talvez já terá renascido como um animal peludo e
com chifres na cabeça. Ou talvez, terá renascido como um fantasma faminto, por
exemplo, tendo que viver sem conseguir encontrar qualquer tipo de comida, nem
mesmo uma gota de água. Ou então poderá ter renascido nos infernos, tendo que
experimentar as misérias de sentir calor, frio, ser fervido, ou estar pegando fogo.
Após a morte, a sua mente continua; ela tomará um renascimento. Só há duas
migrações para este renascimento – os reinos superiores e os inferiores. Se renascer no
Inferno Sem Descanso, ficará lá com seu corpo indistinguível do fogo do inferno. Nos
infernos mais amenos, como o Inferno da Ressurreição Contínua, você será morto e
reavivado centenas de vezes por dia, e sofrerá tormentos contínuos. Mas como poderá
suportar isto, se não consegue suportar nem mesmo queimar sua mão no fogo? E vamos
sofrer nos infernos assim como sofreríamos com este calor em nossos corpos atuais.
Podemos questionar: "Não será mais fácil suportar o calor lá, e assim o sofrimento não
ser tão grande?", mas não é assim.
Se renascer como fantasma faminto, não conseguirá encontrar uma única gota de
água durante anos. Você acha difícil fazer um retiro em jejum, como então suportar tal
1
Embora a audiência de Pabongka Rinpoche consistisse de lamas, geshes, monges e monjas comuns, e leigos, muito
freqüentemente dirigia-se às primeiras filas de lamas e geshes estudiosos enquanto ensinava.

3
renascimento? E quanto ao reino animal, veja o caso de um cachorro. Examinem
detalhadamente os lugares onde vive, como precisam procurar comida e que tipo de
comida acabam encontrando. Você suportaria viver uma vida assim? Você pode pensar,
"Os reinos inferiores estão muito distantes." Mas entre você e os reinos inferiores só há
o fato de que você ainda respira.
Enquanto continuarmos sem discernimento, nunca suspeitaremos que poderemos ir
aos reinos inferiores. Provavelmente, pensamos que, bem ou mal, guardamos os nossos
votos, fazemos a maioria de nossas práticas diárias, e não cometemos nenhuma
negatividade grave, como matar uma pessoa ou fugir com o seu cavalo. O problema é
que não temos observado as coisas corretamente. Devemos repensá-las em detalhes.
Então, veremos que não somos livres para escolher se vamos aos reinos inferiores ou
não. Isto é determinado pelo nosso karma. Temos em nosso contínuo mental uma
mistura de karma virtuoso e não-virtuoso. Ao morrermos, o mais forte dos dois será
acionado pelo desejo e apego. Quando analisamos qual dos dois é mais forte em nosso
contínuo mental, vemos que a não-virtude é mais forte. O grau de sua força é
determinado pela força do motivo, ato, e passo final. Assim, embora possamos pensar
que só cometemos pequenas não-virtudes, na realidade, a sua força é enorme.
Veja um exemplo. Suponha que você ralhe com seus alunos. Você faz isto
motivado por forte hostilidade. Quanto ao ato, você usa palavras ásperas, que realmente
magoam. Quanto ao passo final, fica orgulhoso e com uma opinião inflada de si
mesmo. Estas três partes – motivo, ato e passo final – não poderiam ser melhores!
Suponha que você mate um piolho. O seu motivo é hostilidade forte. Você rola o piolho
entre os dedos, torturando-o por um longo tempo, depois eventualmente o mata. Para o
passo final, você fica arrogante e sente-se muito beneficiado com o ato. A não-virtude
fica muito poderosa.
Podemos pensar que a nossa virtude seja muito forte, mas de fato ela é muito fraca.
O ato, o motivo – a parte principal do ato– e o passo final – dedicação da virtude, etc.–
precisam ser feitos com pureza para que a virtude seja muito forte. Contraste isto com a
virtude que nós fazemos. Inicialmente, há o nosso motivo. Raramente somos motivados
até mesmo pelo menor dos motivos: o anseio por um renascimento melhor – muito
menos pelo melhor dos motivos: a bodhicitta [a mente que aspira a iluminação], ou o
segundo melhor motivo: a renúncia. Normalmente aspiramos os desejos relacionados às
banalidades desta vida; qualquer oração feita com esta finalidade é de fato pecaminosa.
Depois, na parte principal do ato, tudo o que fazemos é trabalhoso; quando recitamos
um rosário de om mani padme hum, por exemplo, não conseguimos fixar a nossa mente
na tarefa o tempo todo. Tudo é sono ou distração! É difícil fazer as coisas bem, mesmo
pelo tempo que leva recitar As Cem Deidades de Tushita uma única vez. E, quando
chega a hora das orações finais e dedicações, escorregamos novamente, direcionando-
as para esta vida. Assim, embora possamos pensar que fazemos grandes virtudes, na
realidade elas são frágeis.
Às vezes não fazemos a ação corretamente; outras vezes estragamos o motivo ou
passo final; e outras vezes ainda, não fazemos nada corretamente. Assim, em nosso

4
contínuo mental, só o karma não-virtuoso é muito forte; e é a única coisa possível de
ser ativada ao morrermos. Se for isto efetivamente o que ocorre, o nosso destino só
poderá ser os reinos inferiores. É por esta razão que certamente renasceremos nos
reinos inferiores. Dizemos que nossos lamas são clarividentes, e pedimos que façam
adivinhações com dados, ou profecias sobre onde vamos renascer. Ficamos aliviados se
nos dizem, “Você terá um bom renascimento,” e temerosos se a resposta for, “Não será
bom.” Mas como podemos confiar nestas previsões? Não precisamos de adivinhações,
profecias ou horóscopos que nos digam aonde iremos em nossas próximas vidas. O
nosso Mestre Compassivo já fez esta previsão no cesto do sutra [sutra pitaka]. Já
recebemos esta previsão de muitos panditas e adeptos, tanto da Índia quanto do Tibet.
Por exemplo, Arya Nagarjuna diz em Guirlanda Preciosa:

Da não-virtude vem todo sofrimento,


E também todos os reinos inferiores.
Da virtude vem todos os reinos superiores,
E todos os renascimentos felizes.

Não podemos ter certeza – mesmo por meio de cognição válida direta – sobre onde
teremos nossos futuros renascimentos. Mas, nosso Mestre percebeu corretamente este
assunto tão obscuro de cognição válida, e o ensinou sem erro. Portanto, a certeza só é
possível por inferência, e devemos acreditar nos pronunciamentos autênticos do Buda
sobre o assunto.
Portanto, se é tão definitivo que renasceremos nos reinos inferiores, a partir de
agora devemos buscar uma maneira de evitar que isto aconteça. Se quisermos
realmente ficar livre dos reinos inferiores, devemos buscar um refúgio que nos proteja.
Por exemplo, um criminoso sentenciado à execução vai buscar a proteção de uma
autoridade influente para escapar da punição. Se estivermos maculados por karma
muito negativo devido aos nossos maus atos, estaremos correndo o risco da punição
pela lei [do karma] e iremos para os reinos inferiores. Devemos buscar o refúgio nas
Três Jóias [Buda, Dharma e Sangha], porque só elas podem nos proteger. Mas, não
devemos apenas buscar este refúgio, devemos também modificar nosso comportamento
conforme os ensinamentos. Se existisse alguma maneira dos Budas nos livrar de nossas
negatividades e obscurecimentos, lavando-os com água ou guiando-nos pela mão, por
exemplo, eles já o teriam feito e agora não teríamos mais sofrimentos. Mas, eles não
podem fazer isto. O Vitorioso ensinou o Dharma; mas somos nós que devemos
modificar o nosso comportamento segundo a lei das causas e efeito, e fazê-lo de forma
inequívoca. Um sutra diz:
Os Vitoriosos não lavam as negatividades com água;
Não livram os seres de sofrimento com o toque de suas mãos;
Não transferem as suas realizações de vacuidade para os outros.
Eles libertam ensinando a verdade da vacuidade.

5
Assim, pode-se pensar, “Buscarei refúgio nas Três Jóias para ficar livre dos reinos
inferiores, e adotarei meios para libertar-me destes reinos. Modificarei meu
comportamento segundo as leis de causa e efeito.” Isto coloca a sua motivação no nível
do Lam-rim compartilhado com o nível de Pequena Capacidade.
Será que, basta livrar-se apenas dos reinos inferiores? Não, não basta. Você só
conseguirá um ou dois renascimentos nos reinos superiores antes de recair nos reinos
inferiores quando seu mau karma alcançá-lo. Esta não é a resposta final, não é algo que
podemos confiar. De fato, conseguimos muitos renascimentos nos reinos superiores e
depois recaímos nos reinos inferiores. Certamente vamos recair novamente. Em nossos
renascimentos passados, tivemos a forma dos deuses poderosos Brahma e Indra, e
vivemos em palácios celestiais. Isto já aconteceu muitas vezes mas deixamos estes
renascimentos para nos contorcermos na superfície de ferro incandescente dos infernos.
Isto aconteceu vezes seguidas. Nos reinos celestiais, desfrutamos o néctar dos deuses;
depois, quando deixamos estes renascimentos, tivemos que beber o cobre fundido nos
infernos. Nos divertimos na companhia de muitos deuses e deusas, depois vivemos
cercados pelos terríveis guardiões dos infernos. Renascemos como imperadores
universais e reinamos sobre centenas de milhares de súditos; depois renascemos como
servos e escravos, como condutores de mulas e vaqueiros. Às vezes renascemos como
deuses do sol e da lua, e nossos corpos irradiavam tanta luz que iluminávamos os
quatros continentes.2 Depois renascemos nas profundezas dos oceanos, entre
continentes, onde era tão escuro que não conseguíamos enxergar os movimentos de
nossos próprios membros. Independente do que conseguimos com este tipo de
felicidade mundana, ela não é confiável e não tem essência alguma.

Já vivenciamos muitos sofrimentos, mas enquanto não nos libertarmos do samsara


[a existência cíclica], ainda vamos experimentar muitos mais. Se toda sujeira e
imundície que já comemos em nossos renascimentos passados como animais, tais como
cães e porcos, fossem empilhadas, o monte de esterco seria maior do que o Monte
Meru, o rei das montanhas. Mas, ainda vamos comer muita imundície enquanto
estivermos presos ao samsara. Se todas as nossas cabeças cortadas pelos nossos
inimigos no passado fossem empilhadas, o topo deste monte seria ainda maior do que o
reino de Brahma. Mas, se não dermos um fim à nossa existência cíclica, ainda vamos
perder mais cabeças. Nos nossos renascimentos passados no inferno, água fervente foi
despejada em nossas gargantas – mais água do que as que existem nos grandes oceanos
– mas vamos beber ainda mais enquanto estivermos presos ao samsara. Portanto,
devemos ficar desalentados ao pensar como vagamos sem rumo por não termos dado
um fim à nossa existência cíclica.

2
Os quatro continentes aqui mencionados são os da cosmologia budista, que descreve cada sistema mundial (existem ao
total bilhões deles) como sendo um disco achatado com uma cerca de ferro em seu perímetro. Dentro há oceanos, e ao
centro uma enorme montanha chamada Meru, cercada por sete cadeias de montanhas douradas e quatro continentes, cada
um com seus dois sub-continentes, um de cada lado. O Monte Meru tem quatro níveis acima das águas do oceano e quatro
níveis abaixo.

6
Até os renascimentos de deuses e humanos não transcenderam a natureza do
sofrimento. No renascimento humano há os sofrimentos de nascimento, velhice, doença
e morte; há o sofrimento de separar-se das coisas queridas, enfrentar situações
desagradáveis, e buscar sem encontrar o que se deseja. Os semideuses também sofrem,
pois são mutilados ou feridos quando vão às batalhas, e sempre sofrem de inveja
inquietante. Ao renascer como um deus do Reino dos Desejos sofre ao exibir os sinais
da morte. Os deuses dos [dois] reinos superiores não manifestam nenhum sofrimento.
Mas, por natureza, ainda estão sob a influência do sofrimento aplicável a todos os
fenômenos condicionais porque não conseguiram liberdade suficiente para manter suas
situações atuais. No final, cairão e por isto ainda não transcenderam o sofrimento.
Enfim, enquanto não nos livrarmos de vez do samsara, a natureza do sofrimento
ainda não terá sido transcendida. Portanto, é preciso ficarmos definitivamente livres do
samsara; e é preciso fazê-lo neste nosso atual renascimento.
Normalmente dizemos, “Não posso fazer isto neste renascimento,” e rezamos pelo
nosso renascimento futuro. Mas, é possível sim fazê-lo neste renascimento. Temos um
perfeito renascimento humano, e esta é a forma física mais vantajosa para a prática do
Dharma. Encontramos as condições certas – encontramos os ensinamentos do Buda, e
assim por diante. Temos todas as condições certas, e então se não conseguirmos a
liberação agora, quando poderemos conseguí-la?
Portanto, você pode pensar, “Devo definitivamente libertar-me do samsara, haja o
que houver. A liberação só é conseguida por meio dos três treinamentos superiores.
Então, vou treinar-me nos três, e conseguir a minha liberação deste grande oceano de
sofrimento.” Ao pensar assim estará ajustando a sua motivação ao nível do Lam-rim
que é compartilhado com a Média Capacidade.
Mas será isto suficiente? Mais uma vez, não. Se conseguir o estado de Shravaka
[Ouvinte] ou Arhat Pratyekabuddha [Realizador Solitário] pelo seu próprio bem, não
terá realizado nem mesmo suas próprias necessidades e nada terá sido feito pelo bem
dos outros. Isto porque você ainda não abandonou algumas coisas, como os
obscurecimentos à onisciência e as quatro causas da ignorância. É como ter que
atravessar o mesmo rio duas vezes: embora possa ter alcançado todos os passos até o
estado de arhat no caminho Hinayana [Pequeno Veículo], será preciso desenvolver a
bodhicitta e treinar-se nas tarefas de um Filho dos Vitoriosos desde os passos básicos,
começando assim o caminho Mahayana de Acumulação. É como entrar num mosteiro e
trabalhar seu caminho de ajudante de cozinha até abade. Depois, entrar em outro
mosteiro e ter que começar tudo novamente, trabalhando na cozinha.
[Chandragomim] disse em sua Carta a um Discípulo:

Eles são como parentes perdidos no oceano do samsara,


Parecem ter caído na correnteza do oceano;
Mas, devido ao nascimento, morte e renascimentos,
Você não os reconhece, você os ignora.
Você seria mais do que desprezível se só libertasse a si mesmo.

7
Ou seja, embora não reconheçamos uns aos outros, não há um único ser senciente
que não tenha sido sua mãe. E assim como você teve incontáveis renascimentos, teve
também incontáveis mães. E cada vez que foram suas mães, a bondade que tiveram
com você foi igual à bondade de sua mãe atual. Não há a menor diferença entre a
bondade de sua mãe atual por você e a de todos os outros seres sencientes.
Mas, alguns podem sentir, “Todos os seres não são minhas mães. Se fossem, eu as
reconheceria e isto não acontece.” Mas é bem possível que muitos não reconheçam a
própria mãe desta vida. O mero não-reconhecimento não é razão suficiente para que
alguém não seja sua mãe. Outros podem pensar, “Mães de vidas passadas pertencem ao
passado. Não há consistência em dizer que ainda são nossas mães bondosas.” Mas a
bondade de suas mães no passado e a bondade demonstrada pela sua mãe atual em nada
difere. Se alguém lhe deu uma jóia no ano passado ou neste ano, a bondade é a mesma.
A época do ato não altera o grau de bondade. Assim, todos os seres sencientes foram
bondosos com você.
Como pode ignorar suas bondosas mães, que caíram no oceano do samsara, e só
trabalhar por sua própria libertação? Seria como crianças cantando e dançando na beira
da praia enquanto suas mães caem nas correntezas do oceano. A correnteza as carrega
para o oceano e apavoradas elas gritam por socorro, mas as crianças estão totalmente
esquecidas delas. O que é mais insensível ou desprezível? Dizem que as correntezas
nos oceanos [como na citação acima] são redemoinhos e é terrível quando um barco,
uma canoa, etc., caem no remoinho, pois certamente serão sugados. Parece que agora
você não tem relação com todos os seres sencientes, que na analogia caíram nas
correntezas do oceano do samsara. Mas não é assim. Todos são suas mães bondosas e
você deve retribuir-lhes estas bondades. Dar comida aos famintos, bebida aos sedentos,
riqueza aos pobres, etc. e satisfazer suas necessidades, retribuiria parte da bondade; mas
isto não traria grandes benefícios. A melhor forma de retribuir suas bondades é dando-
lhes as causas para que tenham toda felicidade e nenhum tipo de sofrimento. Não há
melhor forma de retribuir as suas bondades.
Com estes pensamentos, você será levado a pensar, “Que estes seres sencientes
tenham toda felicidade,” e assim desenvolverá o amor. Você também pensa, “Que eles
fiquem sem nenhum sofrimento,” e assim você desenvolverá a compaixão. O altruísmo
é desenvolvido ao sentir, “A responsabilidade de fazer com que estas duas coisas
aconteçam caiu sobre mim. Sozinho, vou trabalhar para este fim.”
Ainda assim, conseguirá fazê-lo? Você não consegue trabalhar nem mesmo pelo
bem de um único ser senciente, muito menos por todos eles. Quem então poderá? Os
Bodhisattvas que residem nos níveis puros 3 e os Shravakas ou Pratyekabuddhas podem
beneficiar os seres sencientes até certo nível; mas só conseguem fazer um pouco do que
os Budas podem fazer. Cada raio de luz do corpo de um Buda pode levar inúmeros
seres sencientes a um estado de amadurecimento, ou até mesmo à liberação. Os Budas
3
Há dez níveis de desenvolvimento dos Bodhisattvas – seres determinados a iluminarem-se pelo bem de todos os seres
sencientes. Os níveis puros são os oitavo, nono e décimo. A partir do oitavo nível o Bodhisattva alcançou os estágios
irreversíveis e a iluminação está garantida. Isto é descrito em maiores detalhes no Dia Doze.

8
emanam corpos que aparecem diante de cada ser senciente. Estas formas são talhadas
conforme as disposições, faculdades [mentais], desejos e instintos destes seres. Os
Budas ensinam-lhes o Dharma em suas próprias línguas. Estas são algumas das
qualidades dos Budas. Os Budas são realmente incomparáveis na maneira de trabalhar
pelo bem dos seres sencientes.
Mesmo assim, poderemos alcançar esta Budeidade? Sim, e o melhor renascimento
físico para conseguí-lo é o perfeito renascimento humano. Conseguimos um tipo muito
especial de renascimento físico: nascemos do útero de um ser humano do Continente
Sul, e temos os seis tipos de constituintes físicos. Tudo que precisamos é aproveitar
esta oportunidade para alcançar o estado de Vajradhara numa única vida. Nós
conseguimos obter este renascimento físico. O meio para alcançar a Budeidade é o
Dharma do Veículo Supremo; e os ensinamentos do Segundo Vitorioso [Je Tsongkapa]
são totalmente inequívocos. Os seus ensinamentos imaculados combinam os sutras e os
tantras. E, agora, encontramos estes ensinamentos.
Em suma, encontramos todas as condições corretas e estamos livres de quaisquer
condições desfavoráveis. Só extraviaremos se não fizermos esforço algum para
alcançar a Budeidade. Não teremos sempre um renascimento físico como este, e nem
este Dharma. Alguns podem alegar, “Agora é um tempo degenerado; nossa hora é
ruim.” Mas desde a existência cíclica sem princípio nunca tivemos um tempo
potencialmente mais benéfico para nós do que agora. A nossa hora não poderia ser
melhor. Encontramos uma situação como esta apenas uma vez. Devemos portanto
trabalhar pela nossa Budeidade, haja o que houver.
Assim, isto deve levá-lo a sentir, “Farei tudo que puder para alcançar a minha meta:
a incomparável e total iluminação pelo bem de todos os seres sencientes.” Este
pensamento invoca a bodhicitta, e é a maneira de ajustar a motivação segundo o Lam-
rim de Grande Capacidade. Você terá desenvolvido a bodhicitta se tiver este
pensamento de maneira sincera e não forçada.
Você deve praticar para alcançar esta Budeidade, e deve saber o que praticar para
ter sucesso. Algumas pessoas querem praticar o Dharma, mas não sabem o que fazer,
podem ir a um local solitário e recitar alguns mantras, fazer algumas orações, ou até
alcançar alguns dos [nove] estados mentais [que levam à quietude mental], mas não
saberão fazer mais nada. Você deve estudar as instruções inequívocas que nada deixam
de fora sobre a prática do Dharma. Assim, saberá todas estas coisas. E a instrução mais
soberana é o Lam-rim, os estágios do caminho à iluminação. Portanto, desenvolva a
motivação: “Ouvirei atentamente o Lam-rim, e depois o colocarei em prática.”

Em geral, é vital ter uma destas três motivações no início de cada prática, mas, o
mais importante, é que ao ouvir um ensinamento do Lam-rim, qualquer uma destas
motivações não basta. Você deve pelo menos ouvir tendo uma forma de bodhicitta
forçada ou produzida. Para quem já experimentou o desenvolvimento da bodhicitta,
pode ser suficiente refletir sobre uma frase curta como “Pelo bem de todos os seres...”
mas isto não basta para transformar a mente de um principiante. Se refletir no Lam-rim,

9
começando pela imensa dificuldade de conseguir um perfeito renascimento humano,
sua mente vai se voltar para a bodhicitta. Isto não se aplica só ao Lam-rim. Quando
Gelugpas freqüentam um ensinamento, iniciação, transmissão oral, ou coisas assim,
devem repassar todo o Lam-rim como uma preliminar para acertar a nossa motivação.
Até orações curtas devem incluir todos os três níveis do Lam-rim. Esta é uma
característica suprema de distinção dos ensinamentos dos antigos Kadampas, e nossa os
neo-Kadampas. 4 Meu precioso guru disse isto várias vezes. Aqueles de vocês que terão
a responsabilidade de preservar estes ensinamentos devem estudar assim. (Mas, ao dar
uma iniciação de longa vida, a prática é não falar sobre impermanência, [morte], e
coisas assim, já que não seria um gesto auspicioso: deve-se falar só da dificuldade de
obter este benéfico e perfeito renascimento humano).
Algumas pessoas podem sentir num ensinamento de Dharma, “Sou muito
afortunado de estar estudando isto, mas não consigo colocá-lo em prática”. Alguns
freqüentam porque imitam os outros – “se você for, eu também vou.” Ninguém
freqüenta estes ensinamentos para ganhar dinheiro fazendo rituais nas casas das
pessoas, mas isto acontece com outros ensinamentos como as iniciações principais. Ao
freqüentar outros ensinamentos – iniciações, por exemplo – você pode pensar que
receberá o poder de subjugar os maus espíritos recitando mantra, e coisas assim; ou
pode pensar que vai subjugar doenças ou espíritos, conseguir riquezas, adquirir poder,
etc. Outros ainda, não importa quantos ensinamentos recebam, tratam o Dharma como
se fosse, por exemplo, um capital para começar um negócio; parecem pessoas prontas
para ir à Mongólia em uma viagem de negócios. Estas pessoas acumulam enormes
negatividades. Buda, o nosso Mestre, discutiu os meios de alcançar a liberação e a
onisciência. Explorar tais ensinamentos para fins mundanos equivale a forçar um rei a
sair de seu trono e varrer o chão.
Portanto, se tiver alguma das más motivações acima, livre-se dela; faça surgir
alguma forma de bodhicitta produzida e então ouça os ensinamentos. Isto é suficiente
para ajustar a motivação.
Segue aqui o corpo principal dos ensinamentos.
Primeiro, o Dharma que você vai praticar deve ter vindo do Buda e discutido pelos
panditas [indianos]. A sua prática deve ser uma de onde os grandes adeptos tiraram as
suas compreensões e realizações; caso contrário, uma instrução poderia ser chamada de
“profunda” mesmo não sendo algo dito pelo Buda e sendo desconhecido pelos outros
adeptos eruditos. Se meditar nestas instruções, correrá o perigo de obter um resultado
nunca antes conseguido – nem mesmo pelos Budas! Portanto, examine bem o Dharma
que será a sua prática. Como disse Sakya Pandita:

4
Das quatro principais escolas do Budismo Tibetano –Nyingma, Sakya, Kagyu e Gelug– Pabongka Rinpoche foi um
grande lama da tradição Gelug. Os antepassados desta tradição foram os Kadampas, praticantes dos ensinamentos de
Atisha. Na realidade, as escolas Kagyu e Gelug vêm dos Kadampas. Os Gelugpas são às vezes chamados de neo-
Kadampas. Esta evolução está indicada no Dia Seis na explicação de como os três grupos de Kadampas na visualização do
campo de méritos foram passados por Je Rinpoche a um grupo de mestres Gelug.

10
Ao fazer negócios com cavalos, jóias e coisas assim,
Você questiona tudo, examina tudo.
Vejo como você é diligente
Com as pequenas ações desta vida!
O bem ou o mal em todas as suas vidas futuras vem do santo Dharma,
Mas você trata o Dharma como um cão engolindo a comida:
Você é respeitoso com qualquer coisa que apareça,
Sem primeiro verificar se aquilo é bom ou ruim.

Quando compra um cavalo, por exemplo, você examina muitas coisas, faz
adivinhações prévias e muitas perguntas aos outros. Veja o exemplo de um monge
comum. Mesmo ao comprar chá prensado, ele verifica várias vezes a cor, peso, e
formato. Ele procura certificar-se de que o chá não foi danificado pela água, etc., e pede
a opinião de outras pessoas. Mas, se não tivesse sorte, isto só afetaria algumas xícaras
de chá.
Você investiga estas coisas incansavelmente, embora só tenham valor temporário.
Mas não investiga o Dharma que vai praticar, embora seja a base de sua esperança pelo
resto de seus renascimentos. É assim que um cão engole a sua comida. Como isto é
errado! Se errar aqui, estará arruinando a sua esperança eterna. Então, é preciso
examinar o Dharma que pretende praticar antes de engajar-se nele.
Se examinar este Dharma, o Lam-rim, verá que é o melhor de todos. A
profundidade extraordinária dos tantras secretos vem do Lam-rim. Se não desenvolver
os três pilares do caminho [renúncia, bodhicitta, e visão correta da vacuidade] em seu
contínuo-mental, você não poderá iluminar-se nesta vida. Ouvi falar de muitos
ensinamentos supostamente profundos que vêm de visões ou poderes ocultos – e, em
comparação, os três pilares do caminho pode não parecer uma peça de instrução
particularmente excitante.
Mas, o Lam-rim não foi inventado por Je Rinpoche [Lama Tsongkapa], Atisha, etc.
A sua linhagem vem do próprio Buda, perfeitamente iluminado, e só dele. Mas, quando
compreender que algumas coisas recebem o nome de Lam-rim e outras não, verá que
todas as escrituras são Lam-rim. O precioso conjunto Sutras da Perfeição da Sabedoria
é supremo entre todas as escrituras de nosso Mestre. Nestes sutras ele ensinou
ostensivamente a parte profunda dos estágios do caminho [a sabedoria da vacuidade]
que é o cerne dos oitenta e quatro mil Dharmas; também ensinou secretamente a parte
vasta do caminho do Lam-rim [os métodos dos Budas]. Esta então é a fonte da
linhagem. A parte vasta foi transmitida a Maitreya, o principal discípulo de Buda, que
por sua vez a transmitiu a Asanga. A parte profunda do Lam-rim foi transmitida por
Manjushri a Nagarjuna. Foi assim que a linhagem do Lam-rim dividiu-se em duas – a
Profunda e a Vasta.
Visando tornar o Lam-rim mais claro, Maitreya compôs Os Cinco Tratados,
Asanga escreveu os Cinco Textos sobre Os Níveis, e Nagarjuna escreveu Os Seis
Tratados Lógicos, e assim por diante. Portanto, as linhagens Profunda e Vasta do Lam-

11
rim desceram separadamente até o grande e inigualável Atisha. Ele recebeu a Linhagem
Vasta de Suvarnadvipi e a Profunda de Vidyakokila e combinou as duas em um único
fluxo. Herdou também a Linhagem dos Mais Poderosos Feitos que Shantideva recebeu
de Manjushri, bem como as linhagens dos tantras secretos, e assim por diante. Assim,
as linhagens que herdou continham os sutras e os tantras completos.
Atisha compôs a Luz no Caminho à Iluminação no Tibet. Este trabalho combina os
pontos chaves da doutrina completa. Mais tarde estes ensinamentos adquiriram o nome
de Lam-rim. Desde os tempos de Atisha, as linhagens relativas à visão profunda e às
tarefas vastas foram combinadas em um único fluxo. Mas isto foi novamente dividido
em três durante o período Kadampa: as linhagens dos Clássicos, Estágios do Caminho,
e Instruções, que concentravam em aspectos diferentes. Ainda mais tarde, Je Tsongkapa
recebeu todas as três linhagens de Namka Gyeltsen, de Lhodrag, ele próprio um grande
adepto, e de Chokyab Zangpo, o abade de Dragor. Desde então, passou a ser uma única
linhagem.
O grande Je Rinpoche fez súplicas em suas preces [aos detentores da linhagem
desta tradição] ao lado da Rocha do Leão em Retreng, norte de Lhasa; e lá começou a
escrever um livro sobre o caminho. Ele carregava uma estátua de Atisha. A estátua
retratava Atisha com sua cabeça inclinada para um lado. Sempre que Rinpoche fazia
súplicas a esta estátua, ele tinha visões de todos os gurus da linhagem do Lam-rim e
discutia o Dharma com eles. Além disto, teve visões de Atisha, Dromtempa, Potowa, e
Sharawa durante um mês. Estes últimos três se dissolveram em Atisha, que colocou a
mão na cabeça de Je Rinpoche e disse, “Dê este ensinamento e eu o ajudarei.” Isto
significa que foi ele quem pediu a Tsongkapa para escrever Os Grandes Estágios do
Caminho. Je Rinpoche escreveu até a parte final que trata de quietude mental. O
Venerável Manjushri pediu então que ele concluísse o livro. Como resultado, Je
Rinpoche escreveu a seção sobre a visão especial. Portanto, fique certo de que o livro é
um verdadeiro tesouro de bênçãos, mesmo sem considerar as outras pessoas que
também pediram a Je Rinpoche para compô-lo. Isto é veladamente ensinado na
passagem do final do livro que diz, “Ao reunir as boas obras dos Vitoriosos e seus
Filhos...”
Mais tarde ele compôs Os Estágios Médios do Caminho resumindo a essência do
que não foi tratado em Os Grandes Estágios do Caminho. Este trabalho de média
extensão trata principalmente das linhagens orais diretas e linhagens mais antigas dos
ensinamentos; os dois Lam-rims complementam-se com diferentes pontos chaves das
instruções orais.
Talvez você não saiba como integrar estes textos em sua prática. Je Rinpoche mais
tarde disse:

Quem acha quase impossível compreender como colocar em


prática estes ensinamentos deve referir-se aos textos mais curtos
que mostram como fazê-lo.

Portanto, leia os seguintes textos: O [Terceiro] Dalai Lama, Sonan Gyatso, escreveu
12
A Essência de Ouro Puro. O grande Quinto Dalai Lama escreveu o Lam-rim As
Palavras do Próprio Manjushri como um comentário a este texto. O Panchen Lama
Lozang Choekyi Gyeltsen escreveu O Caminho Fácil, e Lozang Yeshe [uma outra
encarnação do Panchen Lama] compôs o seu comentário, O Caminho Rápido. O
próprio Je Rinpoche escreveu três Lam-rims: O Grande, O Médio, e O Pequeno
(também conhecido como Cânticos da Experiência). Além destes quatro ensinamentos
concisos dos Dalai Lamas e Panchen Lamas, Ngawang Dragpa de Dagpo escreveu O
Caminho da Escritura Excelente. Estes são os oito ensinamentos mais famosos do
Lam-rim.
Você deve receber, separadamente, os ensinamentos da linhagem para estes textos
raiz e os comentários. Não basta receber apenas um deles. E há, ainda, duas linhagens
de ensinamentos sobre As Palavras do Próprio Manjushri, uma mais detalhada do que
a outra. Uma destas foi preservada na Província Central, e a outra no sul; isto resultou
na divisão das duas. Você deve também receber separadamente os discursos destas
duas linhagens. O Chanceler Tagpugpa e seus seguidores avaliaram mais tarde as
linhagens deste texto. Ele alegou que se tivesse lido este texto mais cedo, não teria tido
tantos problemas com os tópicos de meditação Lam-rim. Como ele disse: os
ensinamentos concisos de O Caminho Rápido e as duas linhas de As Palavras do
Próprio Manjushri fazem, juntos, algo particularmente profundo.
Quando Buda ensinou, não havia nenhuma tradição de duas linhagens – uma para
transmissões orais e uma para discursos orais. Só mais tarde, quando seus ensinamentos
já não eram totalmente compreensíveis, os discursos foram ensinados separadamente.
Os discursos com uma discussão detalhada das palavras de um texto foram chamados
discursos formais. Um discurso conciso refere-se aos ensinamentos orais que não
elaboram muito as palavras do texto, mas expõem o cerne da instrução, muito
semelhante a um médico habilidoso dissecando um cadáver perante seus alunos. A
maneira como apontam os cinco órgãos sólidos, os seis órgãos ocos, etc., daria uma
introdução clara. No discurso informal, o lama fala a partir de sua própria experiência,
e o ensinamento é projetado para ter o máximo efeito no contínuo-mental de seus
discípulos. O ensinamento prático é o seguinte: Os discípulos ficam juntos em uma
casa de retiro. O lama ensina um tópico, e os discípulos começam a meditar nele, e só
recebem ensinamentos no tópico seguinte quando alcançam alguma compreensão. Este
tipo de discurso chega a nós em linhagens abençoadas por realizações. Eles são muito
benéficos para pacificar o contínuo-mental.
O ensinamento que darei agora é um discurso informal. Poucos aqui presentes não
são afortunados porque só têm tempo para assistir a este tipo de ensinamento uma ou
duas vezes. Eles estão interessados nestes ensinamentos, embora mais tarde possam
seguir caminhos separados. Pelo bem deles, estarei combinando O Caminho Rápido e
as duas linhagens de As Palavras do Próprio Manjushri. Mais tarde, quando chegar
nesta parte, ensinarei o Treinamento da Mente em Sete Pontos e o Trocar-se pelos
Outros.
Não tenho inibição alguma de dar este ensinamento. Isto vai criar méritos-raiz para

13
estes dois nobres falecidos, em cujas memórias, dou este ensinamento. Ao ensinar o
Lam-rim, não preciso medir os benefícios ou perigos para o guru ou para o discípulo,
algo que preciso fazer quando dou outros ensinamentos, como as iniciações. Um
ensinamento de Lam-rim só pode ser muito benéfico.
Todos vocês: pratiquem o que puderem; e rezem por estes dois nobres homens que
já se foram.

Kyabje Pabongka Rinpoche deu uma breve transmissão oral das linhas de abertura
destes textos de Lam-rim. Depois, fomos dispensados.

14
DIA DOIS
Lama Pabongka Rimpoche começou:

O Grande Tsongkapa escreveu [na introdução de Os Três Pilares do Caminho]:

Vou explicar, o melhor que puder, a importância


Da essência de todas as escrituras dos Vitoriosos,
O caminho louvado pelos santos Vitoriosos e seus Filhos
O portal para os afortunados que querem a liberação.

Este ensinamento é a quintessência de todas as escrituras do Vitorioso. Na seção de


Pequena Capacidade, somos levados a renunciar os reinos inferiores e na Média
Capacidade somos levados a renunciar ao samsara inteiro, e assim por diante. Mas não
conseguiremos estas metas se não dependermos do Lam-rim. A preciosa bodhichitta5 é
o caminho louvado pelos santos Vitoriosos e seus Filhos. O portal para quem quer a
liberação é a visão [correta da vacuidade] que é livre dos dois extremos [eternalismo e
niilismo]. Mas só conseguiremos isto se dependermos dos ensinamentos do Lam-rim.
Portanto, para alcançar a Budeidade, é preciso desenvolver estes três pilares do
caminho em seu contínuo mental6 Devemos depender do Lam-rim para gerar estes três
em nosso contínuo-mental. Então, logo no início, adote a seguinte motivação: “Vou
alcançar a Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes – e por esta razão vou ouvir
este discurso informal sobre os três diferentes níveis de capacidade do Lam-rim.”
Coloque a sua motivação e suas ações alinhadas com tais pensamentos e, somente
então, ouça.
Qual será o Dharma que vamos ouvir? É o Dharma do Veículo Supremo, que leva
os afortunados ao nível da Budeidade. É o caminho tradicional dos dois grandes
precursores – Nagarjuna e Asanga. É a essência do pensamento do inigualável Atisha e
do grande Tsongkapa, o rei do Dharma nos três reinos. Isto mostra como a instrução é
profunda. Ela contém cada ponto-chave que podemos encontrar na essência das oitenta
e quatro mil escrituras, e organiza as práticas que levam à iluminação seguindo a
seqüência apropriada.
Os discursos informais dos estágios do caminho até a iluminação podem ser
classificados sob um título básico: Os Ensinamentos Efetivos. Mas, outros títulos foram
introduzidos para fixar a natureza do Lam-rim, suas diversas relações, e a seqüência do
ensinamento. É preciso familiarizar-se com estes títulos para ter a certeza sob qual
título cai um certo tópico de meditação, como ele é explicado, as citações mencionadas,
a linhagem de seus ensinamentos orais, e suas instruções. Ao contrário, se receber um
ensinamento puxado do punho da manga, sem nenhum título, será difícil fazer a
meditação benéfica para o seu contínuo mental. Seria como tentar usar chá, manteiga,
sal, soda, etc., que foram guardados juntos em um mesmo jarro. Há muitos conjuntos
5
N.T. - A mente altruísta que busca a iluminação pelo bem de todos os seres.
6
N.T. - Os três pilares são: renúncia, bodhicitta e visão correta da vacuidade.

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diferentes de títulos – alguns para os Lam-rim curtos, outros para as versões mais
longas. Você deve seguir os títulos específicos dos ensinamentos que tiver recebido.
Seguirei principalmente a prática de meu precioso guru de aplicar títulos ao texto O
Caminho Rápido. Este conjunto específico de títulos está adornado de muitas
instruções orais, que nunca foram escritas antes. Mas ele era muito cuidadoso ao
ensiná-las em público, e eu também as recebi em particular. Tive muito cuidado ao
reuni-las e passá-las ao papel. Elas não são curtas demais, nem longas demais, e
possuem características bem peculiares, que se mostraram efetivas.
Os estudiosos do Mosteiro de Nalanda costumavam falar de três purezas antes de
um ensinamento: a pureza dos ensinamentos orais do mestre; a pureza do contínuo-
mental dos discípulos; e a pureza do Dharma a ser apresentado. Os estudiosos de
Vikramashila, em suas introduções, costumavam discutir a grandeza do autor, a
grandeza do Dharma, e como ouvir os ensinamentos. Eu vou seguir esta última
tradição.
Este discurso nos estágios do caminho até a iluminação tem quatro partes
principais: (1) a grandeza dos autores, para mostrar que o ensinamento vem de uma
fonte imaculada; (2) a grandeza do Dharma, ensinada para aumentar a nossa fé nas
instruções; (3) a forma correta de ensinar e ouvir o Dharma que possui estas duas
grandezas; (4) a seqüência que os discípulos devem receber estas instruções. Os quatro
títulos são encontrados em Os Grandes Estágios do Caminho [de Tsongkapa].
Independente de qual Lam-rim esteja sendo apresentado – O Caminho Fácil, O
Caminho Rápido, etc. – e independente da quantidade de detalhes que esteja sendo
dada, a tradição oral diz que devemos começar com estes títulos, caso contrário, as
pessoas não desenvolverão suficiente convicção.

I - A GRANDEZA DOS AUTORES, PARA MOSTRAR QUE O


ENSINAMENTO VEM DE UMA FONTE IMACULADA.
Como disse antes, segundo a tradição dos estudiosos da Índia, o Dharma que se vai
praticar deve ter sido ensinado pelo Buda, descrito pelos panditas, e utilizado nas
meditações de adeptos grandes e poderosos para produzir realizações e compreensões
no seu contínuo-mental.
De nossa parte precisamos mais fé, sabedoria e perseverança: se praticarmos um
Dharma que vemos só como razoável, não teremos resultado algum. Já vimos muitas
pessoas com sabedoria e perseverança desperdiçarem o seu tempo assim. Além disto,
independente do quanto dizem que um ensinamento vindo de visões é um ensinamento
profundo, Os Três Pilares do Caminho carrega o maior peso da experiência – mais do
que sadhanas [métodos para realizações] ou ensinamentos de como conseguir poderes
milagrosos, já que estes não passariam de uma introdução aos três refúgios.
Para traçar um rio de volta à sua nascente, é preciso voltar até os picos nevados.
Assim também devemos traçar o Dharma até o Buda, o nosso Mestre. Se houvesse
tempo e eu soubesse o suficiente para discutir isto detalhadamente, eu teria que tomar o
Buda como o meu ponto de partida e contar as biografias de todos os gurus de
16
linhagem, dizendo como eles usaram este caminho para alcançar seus estados
evoluídos. Mas não temos tempo para um assunto tão longo. Falarei só um pouco sobre
isto.
Pabongka Dorge Chang [Vajradhara] então falou um pouco de como passaram a
existir duas linhagens de Buda até Atisha; e como Atisha combinou as duas num único
fluxo. Depois, continuou:

Atisha escreveu A Luz no Caminho no Tibet; o termo Lam-rim veio mais tarde. O
texto raiz utilizado nos temas de todos os ensinamentos como o Lam-rim, o caminho
supremo, os ensinamentos graduais e assim por diante, é a sua obra-prima, A Luz no
Caminho. Assim, Atisha tornou-se virtualmente o autor de todos eles. Até o grande Je
Tsongkapa escreveu, “O autor disto é na realidade Atisha.” Portanto, eu realmente
deveria contar-lhes a biografia detalhada de Atisha, mas só há tempo para uma versão
mais curta.
Farei isto em três títulos: (1) como nasceu em uma das famílias mais ricas; (2)
como alcançou suas boas qualidades naquele renascimento; (3) após conseguir estas
qualidades, o que fez para propagar a doutrina.

1.1 COMO ATISHA NASCEU EM UMA DAS FAMILIAS MAIS RICAS


Atisha nasceu na festejada terra da Índia Oriental chamada Bengala, uma grande
cidade de cem mil famílias – ao todo uma população de três milhões e meio.7 O palácio
de seu pai chama-se Palácio dos Estandartes de Vitória Dourados. Tinha treze pagodes
dourados e vinte e cinco mil estandartes de vitória dourados. A família era
extremamente rica e poderosa. Seu pai era o Rei Kalyanashri; sua mãe chamava-se
Prabhavati. No seu nascimento foram observados muitos sinais milagrosos.

1.2 COMO ELE CONSEGUIU SUAS BOAS QUALIDADES NAQUELA


MESMA VIDA
Quando o pequeno príncipe tinha apenas dezoito meses, seus pais visitaram um
templo próximo em Vikramapuri.8 Todas as pessoas da cidade se alinharam nas ruas
para ver o jovem príncipe. Ele viu a multidão e perguntou aos seus pais: “Quem são
eles?”
Seus pais responderam, “São seus súditos.” A criança olhou para o povo com
compaixão e disse o seguinte em verso:

Ah se eles fossem como eu:


Rico, com méritos incríveis;
7
Os números no original são confusos. O texto tibetano diz “uma população de trinta e cinco mil” mas isto seria muito
pequeno para cem mil familias. Amchok Rimpoche sugere o numero de três milhões e meio.
8
O livro Atisha e o Tibete de Aloka Chattopadhyaya (R.D.Press, Calcutta, 1967) identifica isto como a moderna Dacca,
em Bangladesh.

17
Herdeiro de um rei, um poderoso príncipe.
Que todos eles possam seguir o santo Dharma!

Isto surpreendeu a todos. No templo, todos os outros, inclusive sua mãe e seu pai,
rezaram para que tivessem vidas longas e livres de doenças, muita riqueza, para que
não caíssem nos reinos inferiores, para que renascessem nos reinos superiores, e coisas
assim. O príncipe no entanto rezou:

Eu consegui um perfeito renascimento humano,


E o renascimento de um homem privilegiado.
Meus órgãos dos sentidos são todos perfeitos,
E encontrei as Três Jóias,
Possa eu sempre tocar respeitosamente
As Três Jóias à coroa de minha cabeça.
A partir de hoje, que elas sejam o meu refúgio.
Que eu nunca mais fique preso a obrigações domésticas;
Que eu seja dotado com o Dharma no meio da Sangha.
Sem nenhum orgulho, que eu possa
Fazer oferecimentos às Três Jóias;
E olhar a todos os seres com compaixão.

Aos dezoito meses de idade, o príncipe já falava de refúgio e do desenvolvimento


da bodhicitta. Neste ponto de sua vida, ele já objeto de nossa fé.
O Livro dos Kadampas nos conta de seu desenvolvimento precoce:

Aos três anos de idade,


Ele era habilidoso com números, literatura e poesia.
Aos seis anos de idade,
Ele sabia distinguir entre budismo e não-budismo.

Distinguir entre o budismo e o não-budismo é na realidade muito difícil. Talvez o


seguinte possa dar uma idéia. Atisha certa vez disse:

Na Índia só três pessoas sabiam distinguir budismo do não-budismo:


Naropa, Shantipa e eu. Naropa já morreu, e eu vim para o Tibet. Quando a
Índia esteve em pior situação?

O próprio fato de que Atisha fazia isto aos seis anos me parece um sinal de que
mesmo então ele tinha grandes conhecimentos.
Aos onze anos, muitas princesas adequadas a serem suas concubinas passaram a
empregar várias artes de sedução perante o príncipe, como cantar e dançar; mas isto só
inspirava-lhe renúncia e recuo. Uma jovem menina de tez escura, que era uma
emanação de Tara, implorou-lhe:

18
Sua Alteza! Não se apegue! Oh afortunado, não se apegue!
Se um herói como Sua Alteza ficasse preso no pântano do desejo,
Seria como um elefante atolado no meio do junco num brejo.
Pessoas trajadas com ética não se rebaixam.

Vamos considerar o que ela dizia. Ela pedia para ele não se apegar, em primeiro
lugar, às coisas desta vida e, em segundo lugar, ao samsara em geral. A imagem do
elefante preso na armadilha, significa o seguinte: um elefante tem um corpo enorme e é
mais difícil de ser desatolado. Ela comparava esta imagem com sua afirmação, “Se um
herói como Sua Alteza ficasse preso...” Se uma pessoa comum comete uma má ação,
isto só prejudica a si própria e não pode prejudicar os ensinamentos. Mas, se os grandes
lamas ou as reencarnações dos lamas agem sem consistência, isto enfraquece os
ensinamentos naquela área. Se estas pessoas agem corretamente, isto promove os
ensinamentos naquela área. Parece-me também que ela dizia que é muito importante
que pessoas grandiosas, como vocês, tenham conhecimento, ética e bondade, e que
devem preservar as puras tradições Gelugpas.
O príncipe disse-lhe que a sua súplica havia lhe agradado muito.
Logo depois, o rei cercou o príncipe com cento e trinta cavaleiros armados.
Habilidosamente, o príncipe fingiu que ia explorar as montanhas rochosas nos
arredores. Seu verdadeiro propósito era procurar um guru. Ele conheceu o brâmane
Jitari que vivia numa destas montanhas. Jitari deu ao príncipe o refúgio e os votos de
Bodhisattva, e falou sobre Bodhibadra, de Nalanda, com quem Atisha tinha elos
kármicos do passado. Então, o príncipe foi ver este guru e fez-lhe um oferecimento de
jóias. Isto agradou a Bodhibadra. O guru entrou em estado de absorção meditativa e
abençoou as três portas [corpo, palavra e mente] do príncipe. Ele também deu ao
príncipe muitas instruções de como desenvolver a bodhichitta, e depois encaminhou
Atisha ao Guru Vidyakokila, que também deu instruções para desenvolver a
bodhichitta. Vidyakokila enviou Atisha a um outro guru do seu passado, Avadhutipa
[Vidyakokila, o mais jovem].
Ele se encontrou com Avadhutipa, que disse, “Volte hoje ao reino de seu pai.
Analise as desvantagens da viver como um leigo!”
Assim, ele voltou para casa, muito para a alegria de seus pais, “Onde esteve,
Chandragarbha?” perguntaram-lhe. “Você está cansado? Está triste? Que bom que
voltou!”
Ele respondeu:

Estive em busca de um guru,


Que é a jóia do refúgio de Buda.
Estive em cavernas nas montanhas
E lugares desertos em minha busca.
Mas onde quer que eu fosse,
Eu via as desvantagens do samsara.
Todos com quem fiz amizade
19
Contaram-me das desvantagens do samsara.
Embora eu tenha feito tudo isto, ainda estou insatisfeito –
Deixem-me livre, e eu me voltarei para o Dharma!
Seus pais disseram que se o samsara o fazia tão infeliz, ele deveria assumir as suas
obrigações reais. Então, poderia fazer oferecimentos às Três Jóias, doações aos pobres,
construir templos, convidar a Sangha, e assim por diante. E, então, seria totalmente
feliz.
“Eu já vi muito do samsara,” ele respondeu. “Não tenho a menor atração pelas
armadilhas da vida real. Um palácio dourado não é diferente de uma prisão. Rainhas
não são diferentes das filhas de Mara [as forças do mal]. As três substâncias doces não
são diferentes de carne de cachorro, pus e sangue. Não há a menor diferença entre usar
belas sedas e jóias ou um cobertor sujo. Entrarei na floresta para poder estar sempre
meditando. Hoje, me dê um pouco de carne, leite, mel e cana de açúcar; vou ver o
venerável Avadhutipa.” Esta foi a essência dos cânticos cantados aos seus pais. Sua
mãe e seu pai deram-lhe permissão para fazer o que quisesse, e ele partiu para a floresta
com mil cavalheiros.
Ele tornou-se seguidor de Avadhutipa, que o iniciou no desenvolvimento da
bodhichitta. “Vá até o templo de Krshnagir [a Montanha Negra],” disse-lhe
Abadhutipa, “Lá vive Shri Rahulagupta. Ele, também, já foi seu guru.”
Guru Rahula estava dando um ensinamento tântrico quando viu o príncipe
chegando e, embora soubesse que Atisha vinha em busca do Dharma, lançou um raio
no príncipe para testá-lo. Depois Rahula foi até o topo da montanha onde havia uma
stupa Tirthika negra. Seu séquito de iogues perguntaram-lhe quem era aquela pessoa.
Rahula respondeu, “Durante quinhentos e cinqüenta e dois renascimentos ele não
foi outra coisa senão panditas estudiosos. Atualmente é herdeiro de Kalyanashri, o rei
do Dharma de Bengala. Ele é desapegado da vida real e quer levar uma vida de práticas
ascetas."
Todos ficaram surpresos. Eles se levantaram e convidaram o príncipe a juntar-se a
eles.
Ao encontrar este guru, Atisha disse:

Santo guru, ouça-me!


Deixei o meu lar.
Desejo alcançar a liberação
Mas nasci em uma família famosa
E corro o risco de ficar preso a Bengala.
Eu me devotei a Jitari, Bodhibhadra, Vidyakokila e Avadhutipa--
Gurus com poderes psíquicos;
No entanto, até agora, não estou livre de minhas obrigações reais.
Agora fui enviado até aqui oh guru;
Inicie-me no Mahayana e no desenvolvimento da bodhichitta.
Que eu fique livre destes meus vínculos!
20
Ele continuou a implorar ao guru durante treze dias. O guru respondeu dando a
iniciação de Hevajra e todas as instruções somente para o príncipe. A ele foi dado o
nome de Jñanaguhyavajra.
Rahula então disse aos oito iogues e ioguines nus com surpreendentes poderes
psíquicos: “Siga-o até Bengala. O rei mudará de idéia. Quando for liberado de suas
obrigações reais, vá com ele até o seu guru, Avadhutipa.”
O príncipe vestiu-se como Heruka e foi até as terras palacianas. Todos que o viram
o reconheceram e tiveram medo. Ele vagou sem rumo por três meses, comportando-se
como um louco. Os iogues e ioguines corriam e pulavam por toda parte. Todos
acharam que ele não estava mais apto a governar, e não conseguiam conter o choro.
Seu pai foi o mais atingido, e disse:

Oh filho meu! Desde o seu excelente nascimento


Eu vi o seu maravilhoso valor
Pensei que fosse cumprir suas obrigações reais.
Quem poderia ter comandado maior felicidade?
O que o retiro na floresta fez à sua mente?

O príncipe respondeu:

Se eu assumisse as minhas obrigações reais


Só poderia estar consigo, meu pai, enquanto esta vida durar,
Mas pai e filho não se reconheceriam em todas as vidas seguintes
Como é errado fazer algo que não traz benefício mas, só prejudica.
Se eu deixar de lado as grandes exigências da vida real
E praticar o caminho seguro à liberação e à iluminação,
Estaremos juntos e felizes em todas as nossas vidas futuras.
Portanto, por favor, deixem-me livre!

Sua mãe disse:


De que adianta? Eu não consigo convencê-lo.
O karma é o fator principal
Que nos joga em todos os nossos renascimentos.
Oh ser santo, pratique o Dharma que julgar o melhor.
Rezarei para que você esteja comigo
Em todas as minhas vidas futuras.

E então, seus pais deram-lhe a permissão.


O príncipe, iogues e ioguines partiram ao primeiro clarão do dia para o eremitério
do Guru Avadhutipa na floresta, onde ele estudou o Dharma da escola Madhyamika.
Atisha recebeu ensinamentos nas sutilezas da lei de causa e efeito, e dos vinte e um aos
vinte e nove anos igualou-se a Avadhutipa. Enfim, ele contemplou e meditou em tudo
que havia estudado. O Livro Azul dos Encantos diz: “Ele seguiu Avadhutipa por sete
21
anos.”
Atisha poderia ter sido um rei cujo esplendor se igualaria ao do Imperador chinês Li
Shih-min. Cem mil famílias moravam no palácio real com seus estandartes da vitória,
vinte e cinco mil piscinas, setecentos e vinte bosques de lazer, e cinqüenta e seis mil
palmeiras. Ele poderia ter tido três milhões e quinhentos mil súditos. O palácio era
cercado por sete paredes interligadas por trezentas e sessenta e três pontes. Tinha vinte
e cinco mil estandartes da vitória dourados, e o palácio central tinha treze pagodes. Mas
o grande Atisha entregou-se ao Dharma e livrou-se das incontáveis armadilhas do poder
real com uma facilidade igual à de cuspir na poeira. Nosso Mestre, o Buda, fez o
mesmo: embora tivesse o poder de um imperador universal na palma de sua mão, ele
renunciou para tornar-se um monge. Então, leia avidamente suas biografias. Se alguém
dissesse agora, “Abandone os seus votos e será nomeado governador de um estado,”
nós o faríamos sem hesitação; isto nos mostra a extensão de nossa determinação.
Achamos difícil abandonar até mesmo pequenas coisas em nossos quartinhos
apertados, o que não dizer do poder de um príncipe. Contraste isto com o grande
Atisha, que desistiu de sua posição real, tratando-a como uma cuspidela na poeira, e
durante sete anos dependeu principalmente de Abadhutipa. Ele também estudou o
Vajrayana com muitos outros gurus que eram também dotados de poderes psíquicos.
Tornou-se erudita em todos os clássicos e todas as instruções. Certa vez, surgiu-lhe o
pensamento, “Serei bem versado nos tantras secretos.” Mas perdeu o orgulho quando
uma dakini mostrou-lhe em sonho muitos volumes de tantra que ele nunca vira antes. E
quando pensou, “Conseguirei os poderes psíquicos supremos do mahamudra [o grande
selo] nesta vida se adotar um modo mais tântrico de comportamento” [isto é, tomando
uma consorte], o Guru Rahulagupta veio até ele passando milagrosamente através de
uma parede.
“O que?” disse o guru. “Você está se esquecendo dos seres sencientes? Ordene-se!
Isto beneficiará os ensinamentos e muitos seres sencientes.”
Então Shri Heruka apareceu diante de Atisha e fez um apelo semelhante. Nosso
Mestre Shakyamuni e o Protetor Maitreya pediram também, nos sonhos de Atisha, que
ele se ordenasse. Ele recebeu a ordenação completa de Shilaraksha, um abade da sub-
seita Mahasamgika, que havia atingido o nível de paciência do caminho da preparação.
9
Atisha ordenou-se aos vinte e nove anos.
Atisha teve cento e cinqüenta e sete gurus; estudou todas as ciências, sutras, e
tantras junto com as suas instruções orais. Fez um estudo específico de todos os pontos
chaves das quatro divisões de A Transmissão do Vinaya com o Guru Dharmarakshita,
assim como um texto enorme que, em cento e oito poemas, sobre todas as sete divisões
do Abhidharma [a metafísica] chamada A Grande Discussão dos Particulares. Ele
ouviu este ensinamento durante doze anos, estudando-o inteiramente. Conhecia
9
Há cinco caminhos Mahayana de desenvolvimento mental até a iluminação. Os primeiros quatro – caminhos de
acumulação, preparação, visão e meditação – são os “ainda-a-aprender”; o último é o caminho de não-mais-aprender, ou
seja, a iluminação. Cada um dos quatro primeiros são sub-divididos em outros quatro, e o nível da paciência é a terceira
sub-divisão do caminho da preparação. Há uma descrição mais detalhada em A Tradição Tibetana do Desenvolvimento
Mental, Geshe Dhargyey (LTWA; Índia, 1985).

22
também todas as diferentes práticas das dezoito sub-escolas [da seita Vaibhashika]
como quais membros da Shanga devem dar aos monges uma parcela de suas esmolas,
ou qual água é própria para beber; portanto, tornou-se a jóia suprema de todas as
dezoito destas sub-escolas da Índia.
Mas, embora tenha recebido e praticado todo o Dharma do sutra e tantra que existia
na Índia naquela época, ele continuou a se perguntar qual era o caminho mais rápido
para a iluminação. E Rahulagupta, que vivia numa caverna no Monte Krshnagiri sabia
disto através de sua clarividência. Ele foi até Atisha e disse, “Qual a vantagem de
simplesmente ter visões de deidades, manifestar diversos grupos de deidades em suas
mandalas, conseguir muitos poderes psíquicos, ou ter uma concentração uni-focada
firme como uma montanha? Treine sua mente no amor e na bodhichitta!
Avalokiteshvara de Mil-Braços é a deidade da compaixão. Adote-o como a sua deidade
tutelar e comprometa-se a trabalhar pelo bem dos seres sencientes até que o samsara se
esgote.”
Um dia, Atisha andava ao redor do trono vajra da iluminação em Bodhgaya.
Enquanto andava no caminho de circumambulação10 ele presenciou a conversa entre
duas estátuas. Em outra ocasião, duas meninas que haviam transcendido as limitações
do corpo humano, estavam conversando no céu ao sul de Bodhgaya.
“Em que Dharma deve treinar-se alguém que queira uma iluminação rápida e
completa?” perguntou uma das meninas.
A outra respondeu, “Treinar-se na bodhichitta!”
“Sim, o treinamento da bodhichitta é o meio mais nobre.”
Ele havia parado de circumambular para ouvir, e acolheu isto em seu coração assim
como um vaso recebendo todo o conteúdo de outro.
Certa vez, ele estava em pé ao lado do muro de pedras construído pelo Acharya
Nagarjuna. Havia uma velha e uma menina. “Qualquer um que queira rapidamente a
iluminação completa,” disse a mulher para a menina, “deve treinar-se na bodhichitta.”
A estátua de Buda sob a sacada do Grande Templo em Bodhgaya certa vez falou
com ele enquanto ele circumambulava. “Oh mendigo!” disse, “Se quer se iluminar
logo, treine-se no amor, na compaixão, e na bodhichitta.”
Certa vez, enquanto circulava ao redor de uma pequena cela de paredes de pedra,
uma estátua de marfim do Buda Shakyamuni disse-lhe, “Oh iogue! Treine-se na
bodhichitta se quiser logo a iluminação completa!”
Portanto, Atisha desenvolveu mais bodhichitta do que jamais havia conseguido
antes e para desenvolvê-la ao máximo, questionou-se, “Quem detém as instruções
completas sobre este assunto?” Ele indagou e descobriu que o grande Guru
Suvarnadvipe era famoso por ser um mestre de bodhichitta. Atisha fez planos para ir
até Suvarnadvipa [na Indonésia] para receber as instruções completas da bodhichitta.
Ele navegou o oceano durante treze meses num barco com alguns mercadores que
10
N.T. Circumambulação é uma prática em que o praticante anda ao redor de objetos e monumentos sagrados, recitando
mantras, fazendo práticas de purificação, com as devidas visualizações, etc. Em todo monumento sagrado há um caminho
ao seu redor próprio para esta prática. Aqui no caso ele andava em volta do trono vajra, i.e. o local onde Buda se iluminou
em Bodhgaya, na Índia, onde foi construída uma “stupa", monumento que simboliza a mente de Buda.

23
viajavam a negócios. Kamadeva, o poderoso deus-demônio da luxúria, não suportava
ver os ensinamentos de Buda se espalharem e, para obstruir a bodhichitta de Atisha, fez
o barco virar para o lado contrário soprando um vento frontal.
Então, bloqueou a passagem do barco com uma enorme baleia monstruosa, do
tamanho de uma montanha, lançou raios do céu, e coisas assim. Isto causou muita
devastação, e o Pandita Kshitagarbha implorou a Atisha que usasse seus poderes de
deidades iradas. Atisha entrou em estado de meditação de Yamantaka Vermelho e
subjugou as hostes dos demônios. Eventualmente a sua comitiva chegou à Indonésia.
Atisha já era um grande estudioso e adepto. Aos dezoito meses de idade e sem que
ninguém o estimulasse, disse palavras que provavam que ele já era familiarizado com a
bodhichitta. Mas, ele suportou de bom grado todas estas dificuldades para chegar à
Indonésia, o que deve nos convencer que nada é mais fundamental no Mahayana do
que a preciosa bodhichitta.
Atisha passou treze meses nesta viagem, e nunca tirou os seus mantos, o sinal de
sua ordenação. Ele não viajou como nós. Atualmente, quando os monges viajam em
peregrinação, colocam roupas leigas assim que cruzam os limites do mosteiro. Alguns
até carregam longas lanças. Eu acho que os estranhos devem sentir medo deles e
pensar, “Será que estes homens são degoladores?” No futuro, devemos dar exemplo
não retirando os nossos mantos – o sinal de que somos ordenados. Isto vai beneficiar os
ensinamentos. O onisciente Kedrub Rimpoche disse:
Os corpos dos seres ordenados
São embelezados pelos dois mantos cor de açafrão.
Quando os ordenados adotarem os sinais das pessoas leigas,
Este tipo de comportamento arruinará os ensinamentos.

Alguns alegam, “Devemos estar amadurecidos por dentro”, e não preservar coisas
externas. Isto não é um bom exemplo para os ensinamentos. Todas as ações externas da
Sangha devem ser feitas de forma calma e disciplinada. Shariputra foi guiado à verdade
[do caminho da visão] pelas maneiras de Arya Ashvajit.
Voltando à estória, Atisha chegou à Indonésia. Aportaram na ilha e viram alguns
meditadores, discípulos do grande Suvarnadvipi. Atisha e todos os seus discípulos
descansaram uma quinzena, e pediram aos meditadores que contassem a vida do Guru
Suvarnadvipi. Se estivéssemos lá, teríamos ido o mais rápido possível até a sua
presença, mas Atisha não. Ele examinou a vida do guru. Ele estava nos dando um
exemplo: devemos primeiro investigar corretamente um guru.
Alguns meditadores correram na frente até o Guru Suvarnadvipi e contaram-lhe, “O
grande erudito Dipankara Shrijñana, o principal estudioso de toda a Índia oriental e
ocidental, juntamente com cento e vinte e cinco discípulos, viajaram por mar durante
treze meses, passando por grandes dificuldades. Eles vieram receber do senhor, oh
guru, a mãe fundamental [O Sutra da Perfeição da Sabedoria] que fez nascer todos os
Vitoriosos dos três tempos. Eles também vieram pela prática Mahayana do treinamento
da mente para desenvolver a bodhichitta em suas formas de aspiração e atuante.”
24
“Que maravilha que tal grande erudita tenha vindo à nossa terra,” disse
Suvarnadvipi. “Devemos dar-lhe as boas-vindas.”
Enquanto o grande Atisha se aproximava do palácio do Guru Suvarnadvipi, ele e
seu grupo viram uma procissão distante vindo para dar-lhes as boas-vindas. O próprio
Guru Suvarnadvipi a liderava. Atrás dele vinham quinhentos e trinta e cinco monges.
Eles pareciam Arhats. Usavam os três mantos da cor adequada de um monge,
carregavam os vasos próprios para água e seguravam belos bastões de ferro. Sessenta e
dois noviços participaram. Ao todo, eram quinhentos e noventa e sete pessoas
ordenadas. Assim que a comitiva de Atisha viu esta imponente procissão, tão
semelhante às dos Arhats da época do Buda, eles se alegraram do fundo de seus
corações.
Então, os panditas versados nas cinco ciências, como Atisha e o Pandita
Kshitigarbha, e os monges instruídos nas três cestas, partiram para a residência de Guru
Suvarnadvipi. Eles usavam sandálias próprias de um monge, e cada um usava os três
mantos belamente tingidos com açafrão de Kashmir tão apreciado pela escola
Mahasamgika. Para que as pessoas pudessem fazer o gesto muito auspicioso de dar
esmolas, todos carregavam tigelas de esmolar de ferro em bom estado. Traziam com
eles todos os utensílios prescritos, como um recipiente de latão para água com
capacidade de uma drona,medida do país de Magadha, e o bastão de ferro que o Senhor
dos Ensinamentos tanto louvava. Todos usavam chapéus de pandita com pontas
rombudas – para indicar falta de orgulho – e seguravam leques cerimoniais. Os cento e
vinte e cinco seguiram Atisha em fila única, mantendo entre eles a distância prescrita –
uma linha [tão perfeita] quanto o arco-íris de cinco cores. Tudo era tão magnífico; os
deuses virtuosos estavam satisfeitos e fizeram cair uma chuva de flores em sinal de
respeito. Todos da ilha se admiraram com as ações dos dois gurus, e sua fé aumentou.
Atisha deu ao guru um vaso totalmente transparente. Podia-se ver que estava cheio de
ouro, prata, pérolas, corais e lápis-lázuli. Este gesto auspicioso previa que ele receberia
as instruções completas nos treinamentos da bodhichitta, como um vaso que recebe
todo o conteúdo do outro.
Eles se retiraram para o quarto do guru no Palácio do Pára-sol Prateado, Lá, Guru
Suvarnadvipi ensinou inicialmente quinze [dos setenta] tópicos de Um Ornamento à
Realização, de Maitreya, juntamente com suas respectivas instruções orais, como um
gesto ainda maior de auspiciosidade. O mestre imediatamente se afeiçoou a Atisha, e
compartilharam as mesmas acomodações. Assim, começaram doze anos em que Atisha
e seus discípulos receberam as instruções completas de todos os significados ocultos
dos Sutras da Perfei-ção da Sabedoria – a “sagrada mãe” – da linhagem que Maitreya
passou a Asanga. Receberam, também, instruções exclusivas no treinamento da mente
na bodhichitta por meio de trocar-se pelos outros; a linhagem para isto foi dada por
Manjushri a Shantideva. Eles estudaram, contemplaram, e meditaram completa e
exaustivamente estas instruções. Por meio do trocar-se pelos outros; eles
desenvolveram, aos pés deste guru, a genuína bodhichitta em suas mentes.
O guru certa vez dirigiu-se a Atisha, agora senhor da doutrina, e previu que ele teria

25
discípulos se fosse ao Tibet.
Sua Alteza, não permaneça aqui.
Vá para o norte, ao norte, para a Terra das Neves.

1.3 APÓS ADQUIRIR ESTAS QUALIDADES, O QUE FEZ PARA PROPAGAR


A DOUTRINA

COMO ATUOU NA ÍNDIA


Ao voltar a Magadha, Atisha viveu em Bodhgaya, e derrotou três vezes em debate
os detentores das religiões Tirthikas nocivas, convertendo-os ao budismo. Ele também
promoveu os ensinamentos de outras formas. O Rei Mahabala o encarregou da
biblioteca do Mosteiro Vikramashila. Embora Atisha seguisse principalmente as
tradições da escola Mahasamgika, ele também era bem versado nas tradições das outras
escolas; e como não demonstrou sectarismo algum, tornou-se a jóia suprema de toda a
Sangha em Magadha e em toda a Índia. Ele era o mestre reconhecido de todos os
ensinamentos do sutra e do tantra encontrados nas três cestas e nas quatro classes de
tantra. E, quanto aos ensinamentos em si, era como se o próprio Vitorioso tivesse
retornado.

COMO ATUOU NO TIBET


Os primeiros ensinamentos difundidos no Tibet, à esta altura, haviam se extinguido. A
última propagação dos ensinamentos ganhava movimento. Mas algumas pessoas se
concentravam no vinaya e desprezavam o tantra; outras faziam justamente o oposto.
Sutra e tantra haviam se tornado tão oposto quando quente e frio. Muitos panditas
famosos vieram da Índia ao Tibet, atraídos pelas perspectivas de ouro. Eles enganaram
o povo do Tibet com muitos mantras nocivos e sexo tântrico, e estava muito difícil para
os ensinamentos puros do Vitorioso se espalharem. O rei tibetano Lhalama Yeshe Oe
não estava feliz com esta situação, e para propagar os ensinamentos puros, enviou vinte
e quatro brilhantes estudantes tibetanos até a Índia para trazer de volta os panditas que
tanto benefício poderiam trazer para o Tibet. Todos morreram, menos dois deles; o
grande Rinchen Zangpo e Legden Sherab tornaram-se muito experientes no Dharma,
mas mesmo assim, não conseguiram trazer Atisha com eles. Quando retornaram ao
Tibet, tiveram uma audiência com o rei sobre como harmonizar os sutras e os tantras
com as práticas e crenças de todos os estudiosos da Índia.
“Estes outros panditas não estão beneficiando o Tibet”, disseram. “Em
Vikramashila, vive um monge de nascimento real que alcançou a liberação. Seu nome é
Dipankara Shrijñana. Se convidá-lo, é certo que trará benefícios ao Tibet.” Eles
disseram que todos os outros panditas também concordavam com isto.
Estas palavras acalmaram as dúvidas do rei mas, o mais importante foi que ele
desenvolveu uma fé firme e inabalável em Atisha só de ouvir seu nome. Ele enviou

26
Gyatsoen Senge, juntamente com outros oito, para trazer Atisha. Eles levaram muito
ouro, mas não conseguiram. O próprio rei do Dharma foi em busca de mais ouro para
ajudar a trazer o pandita de volta.
O khan de Garlog sabia que o rei estava agindo para propagar a doutrina, então,
capturou Yeshe Oe e ameaçou-o de morte se ele não abandonasse seus ensinamentos. O
rei foi jogado na prisão. O seu sobrinho paterno, Jangchub Oe, foi até lá tentar libertar
seu tio, apenas para ouvir do khan de Garlog, “Ou você abandona os seus planos de
trazer o pandita e se torna meu servo ou então me traga o peso do rei em ouro. Com
qualquer uma destas alternativas, eu o libertarei.”
Jangchub Oe prometeu entregar o ouro. Ele ofereceu ao khan duzentos onças de
ouro que tinha consigo, mas o khan não aceitou. Eventualmente, ele trouxe ao khan o
peso do rei em ouro, menos a cabeça. O khan de Garlog não estava interessado, “Quero
a cabeça e tudo,” ele disse.
Jangchub Oe não tinha mais meios de conseguir mais ouro. Então, foi até o portão
da prisão de Yeshe Oe. “Tio,” ele exclamou, “você tem sido extremamente bom. Você
é uma vítima de suas ações do passado. Se eu declarar guerra contra este homem para
derrotá-lo, muitas pessoas morrerão, e temo que renasçam nos reinos inferiores. Este
homem me disse para não convidar o pandita, mas em vez disto tornar-me seu servo.
Mas, se abandonarmos o Dharma, teremos nos rendido a este rei pecaminoso. Penso
que será melhor que você permaneça fiel ao Dharma. Ele me disse que queria o seu
peso em ouro. Eu tenho buscado ouro, mas só consegui o suficiente para igualar o peso
de seu corpo sem a cabeça. Isto não o satisfez, e agora preciso buscar o restante.
Voltarei com o resgate. Até lá, pense em seu karma passado, faça súplicas às Três Jóias
e, acima de tudo, tenha coragem e crie méritos.”
Seu tio riu e disse, “Eu pensava que você levava uma vida fácil e era mimado
demais para enfrentar dificuldades ou ter alguma coragem. Agora vejo que, quando eu
morrer, você manterá as tradições de nossos ancestrais. Você agiu bem. Isto me deixa
contente. Eu achava que seria errado eu morrer sem ter estabelecido no Tibet um
governo impecável do Dharma. Estou velho e se não morresse agora, viveria mais uns
dez anos. Se der tanto ouro só para isto, vai desagradar às Três Jóias! Em minhas
infindáveis vidas passadas, não morri nenhuma vez pelo Dharma. Então, não dê ao
khan nem mesmo uma partícula de ouro; será maravilhoso morrer pelo Dharma. Onde
encontraríamos ouro para a minha cabeça? Leve todo o ouro à Índia, e faça o que puder
para trazer o Pandita Atisha.” “Se ele recebê-lo, diga-lhe: ‘Entreguei minha vida ao
khan de Garlog pelos ensinamentos de Buda e por seu próprio bem. Olhe-me com
compaixão pelo resto de minhas vidas. Meu único pensamento era que viesse ao Tibet.
Só fiz isto para que os ensinamentos de Buda espalharem no Tibet. Então, faça o que
peço. Abençoe-me para definitivamente nos encontrarmos em vidas futuras.’ Meu
sobrinho, esqueça de mim; pense nos ensinamentos do Buda!”
O tio estava muito enfraquecido, e o som de sua voz era muito comovente. Mas,
Jangchub O e podia ver que seu tio tinha a coragem de só pensar nos seres sencientes
do Tibet, nos ensinamentos do Buda, e em Atisha. Ele forçou-se a deixar o tio. Sua

27
coragem saiu fortalecida e ele agiu inteiramente segundo os desejos do tio.
No Tibet, muitas pessoas faziam várias religiões rudes passarem por tantra.
Algumas destas pessoas eram o Acharya Saias Vermelhas, o infame Pandita Saias
Azuis, e os Dezoito Mendigos de Artso. Para derrotar estas pessoas pacificamente, o rei
Jangchub Oe rezou às Três Jóias pedindo orientação sobre qual de seus súditos seria a
pessoa certa para trazer Atisha. Todas as consultas com dados e cálculos astrológicos
indicavam Nagtso, o tradutor. Na ocasião Nagtso vivia no Templo Dourado de
Gungtang. O rei convocou-o até Ngari, mas temia que o tradutor não fosse à Índia.
Então, o rei Jangchub Oe fez Nagtso sentar-se no trono real e ofereceu-lhe presentes.
“Implore a Atisha,” disse o rei. “Diga-lhe, ‘Você tem sido muito louvado por seu
conhecimento, ética e bom coração. Meus ancestrais, reis e ministros de estado do
passado, estabeleceram aqui os ensinamentos do Buda, que virou hábito, floresceram e
se espalharam. Agora os ensinamentos do Buda estão em estado lastimável. Uma raça
de demônios tomou posse. Os já falecidos estudiosos do passado ficariam tristes com
isto. Tanto eu quanto meu tio enviamos muito ouro à Índia, mas depois de tantos
gastos, de riqueza e de homens, ainda não trouxemos Atisha de volta. Nosso rei não
suportou isto e foi em busca de ouro. Ele foi aprisionado por um khan malvado. Sua
Majestade deu a sua vida. Se desapontar a nós, seres sencientes ignorantes da remota
terra do Tibet depois de termos demonstrado tamanha coragem, como poderemos
considerá-lo compassivo e objeto de refúgio dos seres sencientes?”
“Eu tenho mil e quatrocentas onças de ouro. Leve-as e coloque-as nas mãos do
guru. Diga-lhe, ‘O nosso Tibet é como a cidade de fantasmas famintos, encontrar ouro
em nosso país é como procurar um único piolho numa ovelha, é muito difícil de se
achar. O ouro que vê aqui é toda a riqueza do povo do Tibet. Mas, Oh protetor, se não
for ao Tibet, isto mostrará que tem pouca compaixão. Então nunca faríamos nada para
sermos melhores.’ Nagtso, você sustenta o vinaya. Conte nossa estória pessoalmente a
Atisha. Se ele ainda recusar, explique a situação até que ele a entenda completamente.”
O rei chorava tanto que havia lágrimas em seu colo e na mesa à sua frente. Nagtso o
tradutor, cujo nome verdadeiro era Tsultrim Gyaelwa, não havia viajado muito antes e
não estava nada ávido para partir para terras distantes, mas ele não conseguia negar.
Temos um provérbio: “Quem vê alguém chorando começará a chorar também.” Ele
nunca havia encontrado Yeshe Oe antes, mas sabia bem que o rei dizia a verdade. Ele
estava ciente de que o tio havia gasto muita fortuna, e que os dois haviam dado as suas
próprias felicidades pelo bem do Tibet para que pudéssemos ser felizes. O rei, um
homem de alta posição, havia tocado profundamente a Nagtso. Ele estava sem fala, seu
corpo tremia, sua face estava coberta de lágrimas e era incapaz de encarar o rei. O rei
pedia-lhe que arriscasse tanto a sua vida quanto os seus membros, mas Nagtso não era
apegado a nenhuma das felicidades desta vida, e então disse que iria.
Ele recebeu as mil e quatrocentas onças de ouro do rei e seus sete ministros, e
tomou o caminho da Índia. O rei acompanhou-o por longa distância. “Monge, você está
fazendo isto por mim,” disse o rei. “Está arriscando sua vida e membros. Com grande
perseverança está agora viajando a lugares que vão lhe criar muitas dificuldades.

28
Quando voltar, retribuirei a sua bondade.” O rei afastou-se um pouco e depois disse,
“Faça súplicas ao Grande Compassivo [Avalokiteshvara] enquanto estiver viajando.”
Quando Nagtso o tradutor e sua comitiva chegaram ao reino do Nepal, encontraram
um homem alto que disse, “Creio que você está indo a lugares distantes numa grande
missão. Você terá sucesso em sua missão se enquanto viajar repetir: ‘Homenagem às
Três Jóias! Que o santo Dharma, a fonte dos Budas dos três tempos, se espalhe na Terra
das Neves!’ Diga isto enquanto viaja. Assim, sua viagem será fácil.” Perguntaram
quem ele era. “Vocês saberão quem sou,” ele disse.
Havia também muitas emanações diferentes de Dromtoenpa [que em breve seria o
principal discípulo de Atisha]. Estas emanações removiam os muitos perigos que
ameaçavam Nagtso e sua comitiva na estrada.
Enfim, chegaram aos portões de Vikramashila. Havia um parapeito sobre o portão,
e Gyatsoen Senge, que entendia a língua tibetana, gritou-lhes de uma fenda no
parapeito: “Senhores tibetanos, de onde vieram?”
“Viemos do Alto Ngari,” responderam.
“Há um porteiro. Deixem todas as suas coisas com ele. Tenham uma boa noite de
sono em algum abrigo. O portão será aberto logo ao primeiro sinal de luz.”
Eles entregaram o ouro ao filho do porteiro, que o guardou num quarto interno.
“Confiem em mim como confiariam em seu melhor amigo” ele disse. “Não se
preocupem. Durmam bem.” Eles acharam que a pequena criança, dizendo estas coisas
não poderia ser uma pessoa comum. Isto deixou suas mentes em paz.
Na manhã seguinte, assim que o portão foi aberto, uma criancinha apareceu. Ele
usava um chapéu pontudo e se vestia como um nômade tibetano – com os trajes
completos de duas camadas de lã e carregando uma pequena tigela de madeira. “De
onde vieram vocês tibetanos?” a criança perguntou. “Vocês não parecem mal pela a
viagem.”
A comitiva de Nagtso achou encorajador encontrar alguém falando o dialeto dos
nômades. “Viemos de Alto Ngari,” disseram. “Tivemos uma viagem tranqüila. O que o
traz aqui? Para onde está indo?”
“Eu também sou tibetano,”respondeu a criança. “Estamos indo ao Tibet. Nós
tibetanos temos a língua muito solta. Somos muito ingênuos. Não sabemos guardar um
segredo. As coisas importantes devem ser feitas em segredo. Gyatsoen Senge está
hospedado nas acomodações tibetanas. Perguntem por aí e encontrarão.” E com isto,
ele se foi.
Eles entraram numa longa alameda, seguiram por ela, e encontraram um homem
santo e velho com um bastão de bambu para caminhar “De onde vieram?”, perguntou.
“O que os trouxe aqui de tão importante?”
“Viemos do Alto Ngari,” responderam. “Viemos buscar o ilustre Atisha. Onde fica
a casa de Gyatsoen Senge?”
O santo velho homem inclinou o seu bastão e virou seus olhos. “A criança que
encontraram esta manhã disse a verdade. Os tibetanos não conseguem ficar de bocas
fechadas! Vocês contam todos seus segredos às pessoas espreitando nos becos. Como

29
podem esperar conseguir alguma coisa assim! É bom que tenham me contado. Mas não
digam isto a ninguém a não ser Atisha. Eu lhes mostrarei a porta de Gyatsoen Senge.”
O velho abriu o caminho lentamente, mas Nagtso não conseguia acompanhá-lo.
Nagtso encontrou-o esperando na soleira das acomodações tibetanas.
“Coisas importantes devem ser feitas lentamente” disse o velho. “Apresse-se
lentamente. O que você quer está muito longe e é preciso subir uma montanha passo a
passo. Esta é a casa dele.”
Nagtso entrou e fez um oferecimento de ouro a Gyatsoen Senge, o tradutor.
Gyatsoen perguntou-lhe. “De onde vieram?”
Ele contou sua estória detalhadamente.
“Parece que você já foi meu discípulo,” disse Gyatsoen, “mas não o reconheço. Não
diga a ninguém que veio convidar Atisha. Diga que veio aprender. Há um Ancião
chamado Ratnakarashanti, que é muito poderoso aqui e é o mestre de Atisha. Ele não
deve suspeitar de suas intenções. Devemos agora fazer-lhe um oferecimento de uma
onça de ouro. Diga-lhe ‘Fracassamos em convidar qualquer pandita.’ Depois, não se
apresse; não deixe nada lhe preocupar. Na hora certa, habilmente convidaremos Atisha
para vir aqui.”
Nagtso e Gyatsoen Senge foram ver o Ancião Ratnakarashanti presenteando-o com
uma onça de ouro. Nagtso conversou com ele por um tempo, contando a estória
combinada.
O Ancião então disse, “Isto é maravilhoso! Os outros panditas não conseguem
subjugar os seres sencientes. Isto não é nenhum exagero. Os ensinamentos do Buda
podem ter originado na Índia, mas sem Atisha, os méritos dos seres sencientes aqui vão
declinar.” Ele também disse muitas outras coisas.
Durante algum tempo foi muito difícil encontrar Atisha. Mesmo assim, emanações
de Avalokiteshvara haviam proporcionado muitas oportunidades auspiciosas para
Atisha viajar ao Tibet. Então chegou o dia em que não havia nenhum outro pandita ou
rei por perto para suspeitar o que estava acontecendo; Gyatsoen Senge chamou Nagtso
e levou-o ao quarto de Atisha. Eles ofereceram a Atisha uma mandala-mundial de um
cúbito de altura, montada sobre uma peça de ouro que era rodeada de outras pequenas
peças de ouro.
O tradutor Gyatsoen Senge falou por ambos. Ele contou como o rei do Tibet era um
Bodhisattva, e como o Dharma havia se espalhado sob os três Dharmarajas [Songtsen
Gampo, Trisong Detsen e Raelpa Chaen]. Ele contou como o rei Langdarma havia
perseguido os ensinamentos e como o grande lama Gompa Rabsael havia conseguido
preservar a Sangha e aumentar o seu número. Falou do sacrifício que o tio do rei fez
para levar Atisha ao Tibet. Deu o recado de Jangchub Oe, e descreveu o tipo pervertido
de Dharma que prevalecia no Tibet.
“O rei Bodhisattva do Tibet,” Gyatsoen disse, “enviou este homem para convidá-lo,
oh valoroso protetor. Não nos iluda dizendo que irá no ano que vem. Olhe
compassivamente para o Tibet!”
“O rei tibetano é um Bodhisattva,” disse Atisha. “Os três Dharmarajas eram

30
emanações de Bodhisattvas. Gompa Rabsael era uma emanação de um Bodhisattva, se
não fosse como poderia ter reacendido as brasas dos ensinamentos. Os reis do Tibet são
Bodhisattvas. Não seria correto desobedecer as ordens de um Bodhisattva. Sinto-me
envergonhado perante este rei. Ele gastou uma fortuna. Vocês tibetanos estão em estado
lastimável, mas eu sou responsável por muitas chaves [de templos e mosteiros] e já
estou velho. Tenho muitos ofícios a executar. Não posso esperar poder voltar do Tibet.
Mesmo assim, investigarei este assunto. Por enquanto, guarde o seu ouro.” Ele então os
dispensou.
Atisha investigou se seria benéfico para os ensinamentos do Buda se ele fosse ao
Tibet movido por amor aos seus possíveis discípulos tibetanos. Verificou, também, se
haveria um impedimento à sua própria vida. Avalokiteshvara, Tara, e assim por diante,
disseram que, se ele fosse, isto seria muito benéfico para os seres sencientes e para os
ensinamentos. Mas, se fosse, o seu tempo de vida seria encurtado. Atisha perguntou
quanto seria. E disseram-lhe que, se não fosse, viveria até noventa e um anos, e se fosse
só viveria até setenta e três anos, o que significa que sua vida seria encurtada em quase
vinte anos. Neste ponto Atisha pensou em todos os benefícios de sua ida ao Tibet e que,
se isto implicasse em ter uma vida mais curta, ele aceitaria. Ele havia desenvolvido
tanta determinação que não se preocupava com sua própria vida.
Mas Atisha não queria ir imediatamente ao Tibet, porque a Sangha da Índia e seus
benfeitores diriam que a Índia, a própria nascente dos ensinamentos, iria declinar. Para
evitar tal conversa, Atisha usou seus meios hábeis: em vez de dizer que estava indo ao
Tibet, disse que ia fazer uma longa peregrinação de ofere-cimentos em Bodhgaya e
outros lugares sagrados, e que passaria bastante tempo viajando. Dromtoenpa, sendo
um Dharmaraja no verdadeiro sentido, habilmente se manifestou na forma de
comerciantes. Sem que ninguém suspeitasse, eles levaram de volta para o Tibet, muitas
estátuas santas do Arya Manjuvajra [uma forma de Guhyasamaya], etc. --os símbolos
dos corpos dos Budas-- bem como muitas escrituras --os símbolos da palavra iluminada
dos Budas. Atisha pediu permissão ao Ancião para viajar ao Nepal e Tibet. Lá havia
muitas stupas excepcionais e locais de peregrinação, e ele só ficaria ausente o tempo
necessário para vê-los. O Ancião observou que Atisha estava bastante inclinado a ir e
que os tibetanos estavam determinados a levá-lo, então permitiu que fosse por período
de tempo pequeno. Nagtso o tradutor prometeu traze-lo de volta em de três anos.
Assim, Atisha e seus discípulos deixaram a Índia rumo ao reino do Nepal. O rei
tibetano veio com trezentos cavaleiros e deu-lhes exuberantes boas-vindas. Dizem que
o povo local instantaneamente desenvolvia fé só ao vê-lo, e que os seus contínuos-
mentais foram subjugados.

Pabongka Dorje Chang falou detalhadamente do encontro entre Atisha e o grande


Rinchen Zangpo.

O rei Jangchub Oe submeteu seu pedido a Atisha. Ele contou como no passado os
três Dharmarajas haviam suportado centenas de dificuldades para estabelecer os

31
ensinamentos do Buda aqui ao norte, na Terra das Neves. Mas Langdarma havia
perseguido os ensinamentos. Os próprios ancestrais de Jangchub Oe, os Dharmarajas de
Ngari, haviam restabelecido os ensinamentos do Buda no Tibet sem considerar suas
próprias vidas. Mas agora algumas pessoas se ocupavam do tantra e ignoravam o
vinaya. Outros juraram pelo vinaya e ignoravam os tantras. Os sutras e tantras eram
tidos como opostos, como quente e frio. As pessoas faziam suas próprias práticas
fantasiosas e, mais precisamente Acharya Saias Vermelhas e Acharya Saias Azuis
ensinavam uma doutrina de liberação através de relações sexuais com os praticantes de
cabelos longos dos tantras antigos. Os ensinamentos haviam declinado tanto que eram
como balelas sem sentido. Ele continuou com muitos detalhes e seus olhos se encheram
de lágrimas.
“Compassivo Atisha,” ele disse, “por ora, não ensine os Dharmas mais profundos e
surpreendentes aos seus discípulos não-civilizados do Tibet. Peço que, em vez disto,
ensine o Dharma da lei de causa e efeito. Também, que seja do agrado do protetor
ensinar compassivamente algum Dharma sem erro e fácil de praticar, um que você
mesmo pratique, que inclua todo o caminho, que seja benéfico aos tibetanos em geral, e
que englobe todas as escrituras do Vitorioso --os sutras, tantras e comentários.”
“Além disto, é preciso que alguém tenha os votos pratimoksha [de liberação
individual]11 para ser um candidato aos votos de bodhichitta em sua forma atuante?
Alguém consegue se iluminar sem a combinação de método e sabedoria? É permitido a
alguém assistir a um ensinamento do tantra sem ter recebido a iniciação? É permitido a
alguém conceder a efetiva iniciação de sabedoria [onde o discípulo recebe uma
consorte real] às pessoas com votos de celibato? É permitido realizar práticas secretas
do caminho tântrico sem ter obtido a iniciação de um mestre vajra?”
Estas são algumas das perguntas feitas por ele.
Atisha estava altamente satisfeito com isto, e então compôs Uma Luz no Caminho à
Iluminação. Em apenas três fólios ele elucida os pensamentos dos sutras e tantras. E
começa assim:

As mais respeitosas homenagens


A todos os Vitoriosos dos três tempos,
Ao seu Dharma, e à Sangha.
A pedido de meu nobre discípulo
Jangchub Oe, acenderei
Uma Luz no Caminho à Iluminação.

Atisha não disse “meu nobre discípulo Janchub Oe” porque havia recebido muitos
oferecimentos dele; mas sim porque estava muito satisfeito com a maneira como
Jangchub Oe havia perguntado sobre o Dharma. Meu próprio precioso guru me disse:
“Atisha não teria ficado nada satisfeito se ele tivesse pedido, ‘Por favor conceda-me
uma grande iniciação ou uma iniciação menor.’”

11
N.T. - Votos pratimoksha são: não matar, não roubar, não mentir, não tomar intoxicantes, não o ter má conduta sexual.

32
Uma Luz no Caminho responde as perguntas de Jangchub Oe. Logo depois de ter
surgido, os ensinamentos rudes e perversos no Tibet desapareceram de volta para onde
haviam vindo.
Atisha promoveu ainda mais a doutrina na área de Ngari, mas quando os três anos
estavam quase acabando, e devido à sua promessa ao Ancião, Nagtso o tradutor disse,
“Agora devemos retornar à Índia.”
Atisha pareceu consentir, então foram até Puhreng. Mas Tara havia dito
anteriormente várias vezes a Atisha, “Seria muito benéfico para os ensinamentos se
você acolhesse um grande upasika [praticante leigo] do Tibet.” Agora ela dizia
repetidamente, “O upasika logo chegará aqui,” então Atisha estava sempre atento à sua
espera.
“Meu upasika não chegou,” ele disse, “Como poderia Tara mentir!”
Certo dia Dromtoenpa apareceu enquanto Atisha estava visitando um benfeitor.
Drom foi até o quarto de Atisha e lá soube que Atisha havia ido ver seu benfeitor mas
já deveria estar voltando. “Não posso esperar mais nem um momento,”disse Drom
Rimpoche, “preso aqui enquanto ainda não me encontrei com meu guia espiritual
Mahayana. Vou até onde ele está.” Ele saiu e encontrou Atisha numa viela. Drom
Rimpoche fez prosternações longas12 e aproximou-se de Atisha, que colocou suas mãos
na cabeça de Drom enquanto pronunciava muitas coisas auspiciosas em sânscrito.
Enquanto Atisha esteve com seu benfeitor, ele havia dito, “Preciso de um pouco de
comida para meu afortunado upasika,” então ele trazia a comida. Atisha era um
vegetariano rigoroso, e a comida que havia recebido consistia de bolas de massa de
cevada fritas em ghee, Drom comeu a massa de cevada, mas guardou a manteiga
clarificada, colocando-a numa lamparina de manteiga grande o bastante para ficar acesa
a noite toda. Ele colocou-a ao lado do travesseiro de Atisha, e dizem que ele continuou
colocando lamparinas semelhantes ao lado do travesseiro de seu mestre todos os dias
pelo resto da vida de Atisha. Naquela noite Atisha deu a Drom Rimpoche uma
iniciação majoritária e adotou-o como seu filho espiritual.
Eles partiram de Puhreng e foram para Kyirong no distrito de Mangyul, com a
intenção de atravessar o Nepal a caminho da Índia, mas a passagem estava bloqueada
porque havia estourado uma guerra. Eles não podiam mais prosseguir. Então, Drom
insistiu com Atisha para que voltassem ao Tibet, enquanto Nagtso suplicava para que
continuassem a viagem à Índia; o tradutor estava frustrado porque não podiam viajar de
volta à Índia.
Atisha disse-lhe, “Você não deve se preocupar muito. Você não fez nada errado,
pois não é possível cumprir a sua promessa."
Isto deixou o tradutor muito feliz: “Muito bem,” ele disse. “Vamos voltar ao Tibet.”
Então, Atisha decidiu regressar ao Tibet. Ele não podia prosseguir até a Índia
12
N.T. - A prosternação é a prática de reverenciar um objeto sagrado ou ser superior. Há a prosternação mental (feita com
o pensamento), de palavra (através de recitação de mantras) e de corpo. A prosternação de corpo pode ser pequena ou
longa. Na primeira, toca-se o chão com os joelhos e mãos e leva-se a cabeça até o chão, na outra, leva-se o corpo inteiro ao
chão. Uma forma mais simples de prosternação de corpo é unir as palmas das mãos (como fazemos ao rezar) na direção do
objeto ou pessoa sendo reverenciada.

33
porque a estrada estava bloqueada na ocasião como resultado do karma coletivo dos
tibetanos.
Eles enviaram uma mensagem à Índia dizendo, “Atisha não pode voltar pelo Nepal
como o Ancião havia ordenado devido à luta que está sendo travada. Isto significa que
teremos que regressar ao Tibet por uns tempos. Vocês podem convidar Atisha de volta
assim que os problemas se acalmarem? Como seria muito benéfico para os seres
sencientes, podem permitir que Atisha permaneça no Tibet? Enquanto ele estiver aqui,
ele escreverá mais tratados como o que segue anexo.”Eles enviaram uma cópia
autografada de Uma Luz no Caminho de Atisha, junto com bastante ouro.
Naquela época, a Índia não era como o Tibet [do tempo atual]. Os novos livros do
ano eram submetidos a uma assembléia de panditas e cada um dos fólios passava por
fileiras de juizes para ser avaliado. Os livros que não tinham erros gramaticais ou de
conteúdo eram apresentados ao rei, e o autor recompensado. A estes trabalhos era
concedida a publicação. Os tratados de conteúdo falho – mesmo escritos
impecavelmente em versos – eram amarrados ao rabo de um cão. O cão era levado
pelas das ruelas da cidade, e assim tanto o autor quanto o livro eram ridicularizados.
Depois, pediam ao rei para que não publicasse tal tratado. A composição do Grande
Atisha na realidade não precisava ser submetida a este teste. Mesmo assim, foi
submetida aos panditas. Estes ficaram muito impressionados, porque o trabalho, de
apenas três fólios, ensinava sucintamente todos os assuntos de todo o sutra e tantra e se
alguém dependesse deste trabalho, iria considerar todas as escrituras como instruções
para si mesmo.
Satisfeitos, declararam unanimemente, “A ida de Atisha ao Tibet não foi excelente
só para os tibetanos, mas também provou ser o melhor para os indianos. Atisha não
teria escrito isto se tivesse permanecido na Índia, porque os indianos são mais sábios e
tem mais perseverança. Ele sabe que os tibetanos são obtusos e de pouca perseverança,
então escreveu este tratado breve e muito benéfico.” Eles foram pródigos em louvar a
estada de Atisha no Tibet.
Ratnakarashanti o Ancião escreveu-lhes: “Foi assim que ele foi louvado pelos
panditas, portanto dou minha permissão para que permaneça no Tibet, já que isto será
tão benéfico para os seres. Só peço que ele escreva um comentário a esta obra como
compensação por não estar aqui.” (Mas, a obra encontrada nas edições dos comentários
traduzidos, sendo supostamente o comentário do próprio Atisha, é tida como
adulterada).
Nagtso ficou muito feliz. “Eu carreguei uma montanha de responsabilidade que me
foi imposta pelo Ancião. Hoje a tirei de meus ombros.”
Pouco antes de Atisha ir à Província Central, Drom Rimpoche escreveu às pessoas
importantes de lá, dizendo: “Eu me esforcei muito para Atisha ir à Província Central,
portanto quando receberem a minha próxima carta, partam imediatamente para dar-lhe
as boas-vindas.” Mais tarde ele escreveu, “Que os mestres da Província Central, como
Kawa Shakya Wangchug, etc. partam imediatamente para dar-lhe as boas-vindas.”
Drom destacou este Kawa como o mestre mais importante do Tibet.

34
No início desta jornada, uma pessoa chamada Kutoenpa reclamou, “Onde está o
meu nome?” e responderam-lhe, “Você foi incluído entre os etceteras.”
“Eu não sou homem que mereça estar relegado aos etceteras!” disse, e tentou estar à
frente da procissão. Então todos começaram a se empurrar para ficar na posição de
liderança.
Nesta época, os mestres tibetanos costumavam usar chapéus de abas largas, capas
de brocado, e coisas assim --um costume que indicava os grandes lamas. Assim que
Atisha viu estas pessoas vindo à distância, ele disse: “Muitos espíritos nocivos do Tibet
apareceram por aqui!” e cobriu sua cabeça com seu manto. Os grandes lamas então
desmontaram, colocaram os três tipos de mantos e se aproximaram. Isto agradou a
Atisha, que então os recebeu.
Eventualmente, chegou à Província Central, e lá fez muito para girar a roda do
Dharma. Ele provou ser uma grande força atrás dos ensinamentos. Passou três anos no
Alto Ngari, nove anos em Nyetang, e cinco nas Províncias Central e Tsang – um total
de dezessete anos no Tibet. Obras como A História dos Kadampas afirmam que ele só
esteve lá por treze anos, mas nossa tradição de dezessete anos começou com o grande
Tsongkapa. Segundo ele disse:

“O próprio Nagtso devotou-se a ele durante dois anos na Índia, e dezessete


anos no Tibet. Assim, ele serviu e se dedicou a Atisha durante dezenove
anos.”

O motivo essencial de o grande Jangchub Oe esforçar-se tanto para levar Atisha ao


Tibet, foi para que ele ensinasse o Dharma, e o mais importante de seus ensinamentos
foi Uma Luz no Caminho à Iluminação. A sua viagem ao Tibet havia sido prevista por
Tara. O seu próprio guru, Halkrshna, disse:

Se você for ao Tibet, os filhos serão mais ricos do que os pais. Os netos
serão mais ricos do que os filhos. Os bisnetos serão mais ricos do que os
netos. Os tataranetos serão mais ricos do que os bisnetos. Então será menos
rigoroso.

Aqui, o pai é Atisha. Os filhos são Dromtoenpa, Legden Sherab, etc. Os netos são
os três Irmãos Kadampas [Potowa, Gampopa, Chaen Ngawa]. Os bisnetos são Langri
Tangpa, Geshe Sharawa, e assim por diante. Os tataranetos são Sangye Boenton,
Sangye Gompa, e outros daquela geração. O significado de “serão mais ricos” é que os
ensinamentos se espalharão sendo transmitidos de geração a geração. Atisha reavivou
as tradições dos ensinamentos que haviam esmorecido, e espalhou outras raras
tradições. Ele expurgou qualquer idéia errônea que estava maculando e diluindo os
ensinamentos, e portanto fez com que os preciosos ensinamentos ficassem imaculados.
Mas, a partir de então, este ensinamento nos estágios e níveis do caminho foram
obscurecidos por certos tantras inúteis e iniciações menores, e assim o ensinamento
ficou um tanto corrompido.

35
Este ensinamento sobre os estágios do caminho à iluminação foi dado a Drom.
Drom perguntou, “Porque os outros receberam instruções nos tantras, e o Lam-rim foi
dado só para mim?”
Atisha respondeu, “Não encontrei ninguém, além de você a quem confiá-lo.”
Ele deu o ensinamento a Drom em privacidade. Drom deu-o em público, e a partir
de então surgiram três linhagens. A Tradição Clássica Kadampa, foi a linhagem que foi
passada de Potowa a Sharawa. Ela tratava dos estágios do caminho à iluminação
através dos grandes clássicos. A Tradição Kadampa de Lam-rim foi a linhagem que foi
passada de Gampopa a Neuzurpa. Este era um tratamento mais curto do Lam-rim,
dando os estágios do caminho em sua seqüência. A Tradição da Instrução Oral
Kadampa veio através do Geshe Chen Ngawa a Zhoenue Oe. Este tratamento seguiu as
instruções dos gurus em ensinamentos como a essência dos doze elos interdependentes.
Estes ensinamentos ainda existem, mas não mais sob estes nomes. A interpretação
tradicional que se ramifica desde Ngagwang Norbu, um ocupante do trono de
Ganden13, afirma que os academicamente mais inclinados devem praticar o Lam-rim
segundo os cinco principais tópicos de debate.14 Isto segue a Tradição Clássica. As
pessoas que não conseguem praticar assim, mas têm percepção aguçada e perseverança,
devem estudar e contemplar os Lam-rims grande e médio [de Tsongkapa]. Esta prática
segue a Tradição Kadampa de Lam-rim. Quem não consegue praticar estas, deve
trabalhar com alguma instrução sucinta, como O Caminho Fácil ou O Caminho
Rápido. Elas estariam seguindo todas as seções dos estágios do caminho. Isto seria a
Tradição da Instrução Oral Kadampa. O meu próprio precioso guru, meu refúgio
supremo, me deu esta interpretação tradicional.
Como já disse, Je Tsongkapa pegou estas três linhagens e combinou-as em uma
única. Também já contei como o grande Tsongkapa escreveu os Lam-rims grande,
médio e pequeno. Manjushri aparecia sempre a Je Rimpoche, e eles tiveram uma
relação guru-discípulo. Manjushri deu a Tsongkapa uma quantidade infinita de Dharma
profundo de sutra e tantra. Isto está na biografia de Je Rimpoche. Portanto, alguém
pode alegar que Je Rimpoche recebeu o Lam-rim de Manjushri, mas o próprio Je
Rimpoche concentrou-se no trabalho de traçar a linhagem de volta até o nosso Mestre
Shakyamuni. Ele nunca disse que tivesse vindo de qualquer visão, ou de qualquer
linhagem mais recente, e coisas assim. Este é um dos prodígios de sua biografia15
Quando Je Rimpoche estava escrevendo Os Grandes Estágios do Caminho e havia
chegado à parte da visão especial, Manjushri disse-lhe jocosamente, “Tudo isto não
vem sob o meu ensinamento chamado Os Três Pilares do Caminho?”
Tsongkapa disse a Manjushri que escreveria o livro da seguinte maneira. Ele
utilizaria os três pilares como força vital do caminho, e utilizaria os assuntos discutidos
em Uma Luz no Caminho como ponto de partida. Então daria corpo à obra com muitas
13
N.T. O “ocupante do trono de Ganden” refere-se ao abade do Mosteiro de Ganden.
14
Estas são: o caminho do meio (Madhyamaka), cognição válida (pramana), metafísica (abhidharma), Perfeição da
Sabedoria (Prajnaparamita), e disciplina (vinaya).
15
N.T. Para melhor entender esta linhagem, favor observar o organograma e relação da linhagem que foram preparados
pela tradutora e que seguem anexos no fim do texto.

36
outras instruções Kadampa. Mas Tsongkapa pensava que mesmo se escrevesse a parte
sobre visão especial em seu grande Lam-rim, não ajudaria muito os seres sencientes.
Manjushri disse, “Escreva sobre a visão especial, pois isto trará benefício mediano aos
seres sencientes."
Há muitos destes detalhes biográficos místicos e inconcebíveis sobre ele. Neste
ponto do ensinamento eu deveria contar-lhes a biografia de Je Tsongkapa em detalhes,
mas não há tempo para isto. Vocês devem fazer um estudo detalhado das obras sobre a
sua biografia.
Este ensinamento de Je Tsongkapa inclui todos os ensinamentos de Atisha. Ele
também contém instruções inigualáveis de excepcional profundidade, através das quais
pode-se alcançar a unificação do Não-mais-aprender dentro de uma única vida, mesmo
nestes tempos degenerados. O Lam-rim de Je Rimpoche contém muitas coisas
particularmente profundas que não são encontrados nem nos Lam-rims dos Kadampas
do passado; pode-se ver isto ao lê-los em detalhes.
Agora, existem muitas linhagens tradicionais que vêm de Tsongkapa sobre o Lam-
rim. As mais famosas destas linhagens principais são as oito tradições orais associadas
aos oito grandes ensinamentos. Ontem vimos isto. Tanto A Essência de Ouro Puro e As
Palavras do Próprio Manjushri são consideradas composições segundo os sutras. O
Caminho Fácil e O Caminho Rápido são relacionadas aos tantras.
Segue aqui um pouco de como a Linhagem do Sul de As Palavras do Próprio
Manjushri foi transmitida. Este é o mais curto dos dois tipos de ensinamentos deste
texto. O Quinto Dalai Lama indicou um ensinamento mais curto quando marcou certas
passagens no texto. Ele também deu um conjunto de instruções diferentes para a
visualização do refúgio, a visualização do campo de mérito, e as visualizações da casa
de banho, etc. Estas instruções são bastante diferentes daquelas das linhagens da
Província Central. O Dalai Lama passou a Linhagem do Sul ao Lama Purchog
Ngagwang Jampa Rimpoche de Epa, que por sua vez a transmitiu a Lozang Ketsuen, a
autoridade monástica responsável pelas acomodações do Dalai Lama. A biografia de
Lozang Ketsuen tem um detalhe extraordinário. Ele era excepcionalmente inteligente e
legou muitas variantes dos ensinamentos --algumas com mais detalhes, outras com
menos. Para afastar a sua confusão, ele sabia que teria que perguntar ao próprio senhor
do Dharma, o Quinto Dalai Lama. Ele teve uma audiência e recebeu todo o
ensinamento em uma hora ou duas. O Dalai Lama nomeou-o abade de Potala. Lozang
Ketsuen passou a última parte de sua vida praticando num local solitário chamado
Lam-rim Choeding, onde atingiu um alto grau de realizações.
Lozang Ketsuen passou o ensinamento a Puentsog Gyatso, o grande adepto de
Yerpa, que completou todo o discurso prático (vide Dia Um) em três meses. Puentsog
Gyatso desenvolveu uma extraordinária realização de quietude mental e visão especial.
Ele passou este discurso prático a muitos discípulos em Yerpa. Ele desenvolveu os seus
poderes através da prática da mandala do corpo de Heruka, e considera-se que a
maioria dos lamas da Linhagem Sul seguiu este padrão.
Puentsog Gyatso passou a linhagem ao Lama Kacho Tendar de Epa, que passou ao

37
Abade Gedun Jamyang. Gedun Jamyang escreveu uma obra à parte sobre a Linhagem
do Sul, porque ele temia que alguns erros estavam se perpetuando quanto a quais
passagens de As Palavras do Próprio Manjushri haviam realmente sido marcadas pelo
Quinto Dalai Lama para o benefício da Linhagem do Sul. O livro de Gedun Jamyang
circulou só em cópias manuscritas até que Kyabje Drubkang Geleg Gyatso gravou-o
em blocos de madeira.
Gedun Jamyang passou a linhagem para Je Ngagwang Tutob, que por sua vez a
transmitiu a Tempa Gyatso, abade do Colégio de Dagpo. Enquanto Tempa Gyatso
completava os seus estudos, ele foi escalado para várias tarefas domésticas e dizem que
alcançou a visão do caminho do meio [a correta visão da vacuidade] enquanto cortava
lenha. Ele por sua vez a transmitiu ao Seto Lama Kalden. A biografia de Seto Lama
tem um fato surpreendente: Ele era totalmente desapegado de qualquer oferecimento
que recebia, não importa o que fosse: dinheiro, lenços cerimoniais, roupa de lã, e coisas
semelhantes. Ele também não dava estas coisas. Ele simplesmente as jogava numa
caverna próxima. Várias gerações depois, as moedas e a lã roída pelas traças foram
encontradas após uma busca. Ele não as tinha dado porque temia que isto mais tarde
pudesse aumentar a sua arrogância.
Então o Seto Lama passou os ensinamentos a Je Lozang Choepel, que os transmitiu
ao Geshe Tubten Rabgye. Sempre que Tubten Rabgye meditava, ele cantava a oração
de súplicas do Lam-rim e depois ficava em silêncio. Quando outras pessoas vinham
visitá-lo, achavam que ele estava dormindo, mas de fato testemunhavam sua meditação
uni-focada. Ele transmitiu a linhagem ao monge chamado Jangchub Togme.
Este homem era só um simples monge, não um geshe ou um lama. Ele vivia no
Eremitério Dragri. Depois de oferecer bolos rituais, ele praticava o Lam-rim uni-
focadamente todos os dias no gramado do lado de fora do eremitério. Ele desenvolveu
tal amor e compaixão em seu contínuo-mental que sempre estava triste. Todos os dias
os meninos que cuidavam dos rebanhos se divertiam observando-o secretamente. Para
eles, ele parecia ser apenas um velho se lastimando.
Nesta época, a Linhagem do Sul de As Palavras do Próprio Manjushri corria o
risco de se extinguir porque a linhagem deste discurso só havia sido dada a este monge.
Um abade aposentado do Colégio de Dagpo, Lozang Jinpa, que ordenou o meu próprio
precioso guru, fez uma busca detalhada de outras pessoas que teriam recebido o
discurso da Linhagem do Sul, mas descobriu que só este monge o havia realmente
recebido. Lozang Jinpo duvidou que ele fosse capaz de dar um discurso informal, mas
se não pedisse o discurso, a linhagem seria quebrada.
Certo dia, ele foi até o monge e disse, “Não há mais ninguém que detenha o
discurso da Linhagem do Sul de As Palavras do Próprio Manjushri. Seria uma grande
lástima se esta linhagem se quebrasse! Você poderia transmiti-la a mim só pelo bem da
linhagem? Eu então poderia transmiti-la a você, mas desta vez embelezado com
referências escriturais e provas lógicas.”
“Como alguém como eu pode transmitir isto?” perguntou o monge.
Ele continuou alegando ser incapaz de fazê-lo, mas quando finalmente deu o

38
discurso, acrescentou muitas instruções profundas que eram unicamente resultado de
suas experiências pessoais. Je Lozang Jinpa ficou atônito.
Em seu louvor Lozang disse, “Para a minha vergonha eu disse-lhe, ‘Vim só para
receber a transmissão.’ Ele é um grande geshe Kadampa da Tradição das Instruções
Orais.”
O próprio Lozang Jinpa havia alcançado uma extraordinária concentração uni-
focada de quietude mental e visão especial. Ele, também, desenvolveu isto com a
prática da mandala do corpo de Heruka. Ele vivia no Mosteiro Bangrim Choede do
Baixo Dagpo. Je Kelzang Tenzin era o seu irmão mais novo, que mais tarde foi viver
no Eremitério Lhading no Alto Dagpo. Ele muitas vezes dizia que Je Lozang visitaria
Lhading, mas Lozang nunca conseguia se afastar. Algum tempo depois, enquanto
estava em absorção meditativa, Lozang viu cada detalhe do eremitério, tanto do lado de
dentro quanto de fora.
“Eu dei uma olhada em seu eremitério e vi tudo,” Lozang disse a Kelzang Tenzin
quando recebeu sua visita. Ele até falou a Kenzang de detalhes como as árvores de
zimbro à direita e à esquerda da casa. “E há uma coisa grande e branca que se mexia
numa das sacadas da casa. O que é isto?” perguntou. Era uma cortina sendo agitada
pelo vento. Lozang Jinpa havia visto isto em sua absorção meditativa.
Lozang Jinpa passou a linhagem ao seu irmão Kelzang Tenzin. Kelzang mais tarde
tornou-se um grande adepto de sutra e tantra. Quando dava ensinamentos, raios brancos
de luz eram emitidos pelos seus olhos e circulavam toda a platéia de discípulos. Ao
final dos ensinamentos, os raios se dissolviam e voltavam aos seus olhos. As pessoas
viram isto muitas vezes. Muitos ficavam pasmos ao vê-lo dando ensinamentos
enquanto ao mesmo tempo andava no caminho de circumambulação, e coisas assim.
Ele tinha visões de todo o campo de mérito da prática do Guru Puja. Quando morreu,
havia no topo de seu crânio um desenho milagroso do campo de mérito do Guru Puja.
Isto ainda está no Eremitério de Lhading.
Ele deu ensinamentos a Kelzang Kedrub, que também conseguiu poderes
clarividentes através das práticas de Heruka. Por sua vez, ele as transmitiu ao meu
próprio e precioso guru, meu refúgio e protetor.
Esta foi a explicação rápida de como a Linhagem do Sul de As Palavras do Próprio
Manjushri chegou até nós. Vocês devem conhecer isto em mais detalhes. Procurem nas
biografias.
Agora, quanto a Linhagem da Província Central de As Palavras do Próprio
Manjushri. O grande Quinto Dalai Lama transmitiu-a a Jinpa Gyatso, um ocupante do
trono de Ganden. Eventualmente a linhagem veio até Lozang Lundrub, outro sucessor
do trono de Ganden. Je Lozang Jinpa a recebeu dele.
Os discursos informais de O Caminho Rápido têm a seguinte história. O Que Tudo-
Vê, Panchen Lama Lozang Yeshe, ditou o texto mas nunca ninguém solicitou os
discursos de linhagem. O Panchen Lama ficou parcialmente cego na velhice, e quando
alguém queria uma transmissão oral de algumas páginas importantes do texto elas
tinham que ser re-escritas em letras bem graúdas. O grande adepto Lozang Namgyal

39
estava na época no Eremitério Jadrel. Ele leu O Caminho Rápido e achou que a
posteridade ficaria empobrecida se não obtivesse a linhagem de seus discursos. Ele
embrulhou seus pertences e foi até Tashi Lhumpo. Lá, disse ao atendente do Panchen
Lama que queria a transmissão da Coletânea de Obras do Panchen Lama; e que estava
especialmente interessado em receber o discurso de O Caminho Rápido.
Agora, Lozang Namgyel era apenas um monge comum, mas estava pedindo muito
e a visão do Panchen Lama estava fraca. O atendente ficou perplexo e ralhou com
Lozang Namgyal redondamente; Lozang voltou para casa mas não podia suportar a
situação. Ele fez o pedido mais três vezes, mas o atendente nada fez a respeito. Em
desespero, Lozang Namgyel disse, “Ouça, eu não estou pedindo a você para dar um
ensinamento! Leve meu pedido ao Panchen Lama!” O atendente perdeu a calma e
contou ao Panchen Lama ainda sentindo raiva. O Panchen Lama, no entanto, estava
muito feliz em dar a transmissão a Lozang Namgyal, e durante todo o ensinamento ele
não teve nenhum problema com sua visão.
O meu próprio e precioso guru me contou esta estória várias vezes. Mesmo assim,
Lozang Namgyal não está na lista oficial de nossos gurus de linhagem Supõe-se que
tenha vindo até nós através de Purchog Ngagwang Jampa como está claro na recitação
do rito preparatório intitulado Um Ornamento para as Gargantas dos Afortunados.
[vide Dia Seis]
Portanto, agora dei um breve esboço da grandeza dos autores, embora não tenha
mencionado todos os lamas e seus discípulos. Se fosse fazê-lo em detalhes, teria que
seguir os dois volumes de biografias dos gurus de linhagens escritas por [Yeshe
Gyaltsen] um tutor de Sua Santidade o Dalai Lama. Pelo menos foi isto que meu
próprio precioso guru disse. Não temos tempo para isto, mas se conseguirem uma cópia
do livro, devem lê-la sempre.
Agora, ao fim de qualquer ensinamento sobre uma estória de vida, devemos fazer
orações como:
Oh guru, que o meu corpo seja
Exatamente como o seu,
Que o meu séquito, vida, e arredores
Se tornem os mesmos que os seus;
Que até meu próprio nome
Seja o seu nome supremo.
Devemos também meditar na alegria que devemos sentir.

40
BUDA
Maitreya Manjushri
Método Sabedoria
Parte Extensa Parte Profunda
Bodhichitta Vacuidade

Asanga Nagarjuna

Atisha
Lam-rim

Kadampas

Estágios do Instruções de
Clássicos
Caminho Linhagem

Je Tsong Khapa

A Linhagem destes Ensinamentos

41
Guru Buda Shakyamuni

Linhagem dos Feitos Vastos Linhagem da Visão Profunda

Maitreya Manjushri
Asanga Nagarjuna
Vasubhandu Chandrakirti
Vimuktisena Vidyakokila mais velho
Vimuktisenagomin Vidyakokila mais jovem
Paranasena (Avadhutipa)
Vititasena
Cairochana
Haribhadra
Kusali
Ratnasena
Suvarnavipi
Atisha
Dromtoenpa

Lam-rim Lineage Classical Lineage Instruction Lineage

Gampopa Potowa Chaen Ngawa


Neuzurpa Sharawa Tsultrimbar
Tagmapa Chibuba Zhoenue Oe
Namkha Senge Lhalung Wangchug Gyergompa
Namkha Gyelpo Goempo Rimpoche Sangyeboen
Senge Zangpo Zangchenpa Namkha Gyalpo
Namka Gyeltsen Tsonawa Senge Zangpo
Moendrapa Gyealtse Zangpo
Chokyab Zangpo Namka Gyealtsen

Gelugpa Lineage

42
Je Tsongkhapa
Jampel Gyatso
Kaedrup Rinpoche
Basoje
Choekye Dorge
Gyalwa Ensapa
Sangye Yeshe
Lozang Choekyi Gyaeltsen (Primeiro Panchen Lama)
Koenchog Gyaelsen
Lozang Yeshe (Segundo Panchen Lama)
Purchog Ngagwang Jampa
Lozang Nyaendrag
Yoentaen Ta –yae
Tempa Rabgye
Lodroe Zangpo
Lozang Gyatso
Tenzin Kedrub
Lozang Lhumdrub Gyatso
Jampa Tenzin Trinle Gyatso (Pabongka Rimpoche)
Lozang Yeshe Tenzin Gyatso (Trijang Rinpoche)

N.T.: Trijang Rimpoche foi tutor de S.S. o 14º Dalai Lama


S.S. o 14º Dalai Lama é um dos mestres de Kyabje Zopa Rimpoche

43
DIA TRÊS
Como disse Shantideva:

Eu consegui um perfeito renascimento humano,


Tão difícil de encontrar, mas que pode
Alcançar os objetivos de uma pessoa.
Se eu não tirar nenhum benefício disto,
Como poderei ter esperanças de herdar
Novamente um renascimento puro como este?

Ou seja, agora que conseguimos um perfeito renascimento físico, não devemos


desejar só a felicidade para esta vida. Nem devemos ficar imersos em subjugar nossos
inimigos, proteger os que amamos, e coisas assim: até os animais são capazes de fazer
estas coisas. Se, no tempo que nos resta não praticarmos o Dharma – algo que
certamente beneficiará nossos futuros renascimentos e que nos diferencia dos animais –
será difícil conseguirmos tal renascimento no futuro. Agora que conseguimos isto,
devemos considerá-lo com seriedade.
Os benefícios de suas vidas futuras dependem de praticar este Dharma: os estágios
do caminho à iluminação. Portanto, você deve fazer da bodhicitta a sua motivação e
sentir, “Alcançarei a Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes. Portanto, vou
ouvir estas instruções profundas nos estágios do caminho à iluminação e colocá-las
efetivamente em prática.” Só então ouça os ensinamentos.
Qual é o Dharma que está prestes a ouvir? É o Dharma Mahayana, o Dharma que
leva os afortunados ao nível da Budeidade...
Kyabje Pabongka Rinpoche continuou na mesma linha de ontem. Depois, repassou os
quatro títulos já mencionados, que estão sob o título geral “Os Discursos dos Estágios
do Caminho à Iluminação." Embora já tivesse coberto ontem o primeiro destes quatro
títulos, ele nos lembrou como este ensinamento foi passado adiante pelo nosso
Mestre,o Buda. Ele também reviu brevemente como, muito mais tarde, surgiram muitas
variáveis dos ensinamentos, como o Lam-rim, os estágios dos ensinamentos, e assim
por diante. Mas todos estes usaram "A Luz no Caminho" como texto-raiz. Isto é visto
em grandes detalhes nas biografias dos gurus de linhagem do Lam-rim. Depois, ele
continuou:

Hoje, ensinarei o segundo destes ensinamentos.

II - A GRANDEZA DO DHARMA, PARA AUMENTAR O RESPEITO


PELAS INSTRUÇÕES
O Lam-rim tem quatro grandezas e três características que o diferencia dos outros
textos clássicos. As quatro grandezas são: (1) a grandeza de permitir-se perceber que
todos os ensinamentos são consistentes, (2) a grandeza de permitir que todas as
44
escrituras se apresentem como instruções, (3) a grandeza de permitir que se descubra
facilmente o verdadeiro pensamento dos Vitoriosos (4) a grandeza de permitir salvar-se
dos piores atos.

2.1 A GRANDEZA DE PERMITIR-SE PERCEBER QUE TODOS OS


ENSINAMENTOS SÃO CONSISTENTES
Aqui, ensinamentos referem-se às escrituras dos Vitoriosos. Como consta do
comentário A Luz da Sabedoria [de Bhavaviveka]:

“Ensinamento” significa o seguinte: as escrituras do Bhagavan que ensinam


sem distorções o que deuses e humanos que queiram alcançar o estado
semelhante ao néctar devem saber, o que devem abandonar, o que devem
fazer manifestar, e em que devem meditar.

“Perceber que todos os ensinamentos são consistentes” significa que cada pessoa
coloca em prática estes ensinamentos para se iluminar.
“Ser consistente” significa “ser harmonioso.” O Mahayana, Hinayana, Vinaya,
tantras, etc. parecem se contradizer se analisados do ponto de vista literal, mas todos
eles ou são a prática principal que nos leva à iluminação, ou um caminho secreto que
leva à iluminação. São, portanto, consistentes. Suponha que você esteja com uma febre
alta. Inicialmente o seu médico proibirá o consumo de carne, álcool, etc. Ele diz: “Se
não abandoná-los, pode ser fatal para você.” Mais tarde, quando a febre sair da crise e
houver um excesso de vento16 o médico recomenda comer carne, álcool, etc. Agora,
isto foi dito só a uma pessoa e só há uma pessoa dizendo-o. As duas afirmações, a
primeira proibindo carne e álcool, e a posterior permitindo-os, parecem inconsistentes,
mas não é assim. Ambas foram ditas visando a cura do paciente.
Você pode também sentir, “Hinayana, Mahayana, sutras, tantras, etc foram talhados
para discípulos específicos então estes ensinamentos não são todos obrigatórios na
prática de uma pessoa para iluminar-se.” Novamente, isto não está certo. Quem falou,
estava falando a uma pessoa sobre as práticas para a iluminação. Quando aquela pessoa
estava no nível de Pequena e Média Capacidades, o Buda explicou primeiro a cesta
Hinayana dos ensinamentos17 A pessoa deveria meditar em coisas como
impermanência e sofrimento. Depois de algum progresso, a pessoa chegaria então ao
nível de Grande Capacidade, e ele então explicava a cesta Mahayana. Neste nível a
pessoa recebia as explicações sobre bodhichitta, as seis perfeições, e coisas assim.18
Então, a pessoa se tornava um recipiente adequado para os tantras, e Buda explicava o
16
Segundo a medicina tibetana, três humores governam a condição dos seres sencientes: vento, bilis e fleugma. Quando
estão equilibrados, a saúde é mantida, mas o menor desequilíbrio produz a doença.
17
N.T. Os ensinamentos eram guardados em rolos dentro de cestas e eram agrupados nas cestas conforme o conteúdo, por
exemplo, a cesta de Abidharma (ensinamentos metafísicos) a cesta do vinaya (votos e regras monásticas), e a cesta dos
sutras (ensinamentos).
18
N.T. Bodhichitta é a mente altruísta que almeja a iluminação pelo bem de todos. As seis perfeições são: generosidade,
moralidade, paciência, esforço entusiástico, concentração e sabedoria.

45
Vajrayana, os dois estágios [de Tantras Iogas Superiores] e as práticas tântricas [de
consorte]. Mas, todas estas práticas são adequadas para que alguém como você siga e
alcance a iluminação. Assim, qualquer escrituras do Vitorioso pertence ou ao fluxo
principal do caminho ou a um de seus caminhos secretos; nenhuma destas escrituras é
supérflua para a prática que leva à iluminação.
A principal preocupação de um Bodhisattva é trabalhar pelo bem dos seres
sencientes. Portanto, o Bodhisattva deve ensinar os três caminhos que levam aos três
tipos de discípulos [Shravaka, Pratyekabuda, e Bodhisattva] às suas formas particulares
de liberação. Mas se os Bodhisattvas não conhecerem estes caminhos não poderão
ensiná-los aos outros. [Dharmakirti] diz em seu Comentário de Coisas Válidas: “Os
meios para estes fins são obscuros; e é difícil discuti-los.” O caminho que leva a uma
compreensão dos caminhos que pertencem aos três veículos é algo que os Bodhisattvas
devem desenvolver em seus contínuos-mentais para terem certeza das rotas diferentes
para conseguir algum benefício para os outros. Um sutra diz:

O Subhuti, os Bodhisattvas desenvolvem-se em todos os caminhos, seja


caminho dos Shravakas, o caminho do Pratyekabuda, ou caminho do
Bodhisattva. Eles compreendem todos os caminhos.

Em O Ornamento à Realização [de Maitreya] encontramos: “Aqueles que querem


trabalhar pelo bem dos seres, devem beneficiar o mundo ao conhecer os caminhos.”
Outro ponto: a meta é a Budeidade, o estado que possui todas as boas qualidades e
onde todos os enganos foram eliminados. Para alcançar este estado, o caminho
Mahayana deve causar a cessação de todos os enganos da pessoa e deve tornar efetivas
todas as boas qualidades. Como não há uma única escritura que não elimina algum tipo
de engano ou desenvolva algum tipo de qualidade, certamente todas as escrituras
devem ser incluídas nas divisões do Mahayana.
Vamos examinar esta questão da consistência escritural em mais detalhes. Há duas
maneiras: como compreender que todos os ensinamentos transmitidos – isto é, as
apresentações dos temas – são consistentes; e como compreender que os ensinamentos
realizados – isto é, o próprio tema – são consistentes.
As três cestas, as quatro classes de tantra, e assim por diante, formam as escrituras e
seus comentários. E, como já expliquei, constituem uma prática harmoniosa para levar
a pessoa à iluminação. É assim que todos os ensinamentos transmitidos devem ser
compreendidos como sendo consistentes.
Os tópicos destes ensinamentos podem ser incluídos em todos os diversos caminhos
das três capacidades. O nível de seres de Pequena Capacidade cobre todas as causas
para alcançar estados de renascimentos elevados como deuses e humanos. Estas causas
são, de fato, a moralidade de abandonar as dez não virtudes, etc. O nível de Média
Capacidade inclui as práticas que são causas para alcançar a excelência definitiva da
liberação – como as práticas de abandonar [as duas primeiras das] quatro nobres

46
verdades, e trabalhar pelas [duas últimas destas verdades]19 e a prática dos três
treinamentos superiores.20 O nível de Grande Capacidade contém as práticas que
causam a excelência definitiva da onisciência – práticas como desenvolver a
bodhichitta, as seis perfeições, etc. Portanto, todos estes tópicos formam uma prática
harmoniosa que leva a pessoa até a iluminação e devem ser compreendidas como sendo
completamente consistentes.
Dromtempa, um dos reis do Dharma, disse: “Meu lama sabe como considerar todos
os ensinamentos como os quatro cantos de um caminho de quatro lados.” Estas são suas
palavras exatas, que já foram interpretadas de várias formas. Os quatro cantos são as
três Capacidades, com o tantra sendo a quarta. Ou então, não importa como se joga um
dado, uma face quadrada sempre cai virada para cima, de forma similar, cada tópico de
meditação inclui em si todo o caminho.
Pode-se seguir estas explicações, mas meu próprio precioso guru, meu refúgio e
protetor, disse-me:

Quando você puxa um canto de um tapete quadrado, o tapete inteiro se


mexe. De forma similar, o tópico de uma escritura específica, mais seus
comentários, se reduzem à prática que iluminará alguém, como se você
estivesse puxando um dos cantos desta prática.

Esta é uma interpretação muito importante.

2.2 A GRANDEZA DE PERMITIR QUE TODAS AS ESCRITURAS SE


APRESENTEM COMO INSTRUÇÕES
Se ainda não encontrou [este sistema] dos estágios do caminho à iluminação, todas
as escrituras não se apresentarão a você como instruções. Mas as instruções supremas
são as escrituras dos Vitoriosos e os grandes clássicos que as comentam. Nunca houve
melhor mestre no mundo que Buda Shakyamuni, o Bhagavan, o transcendente, o
totalmente realizado destruidor de todos os obscurecimentos. Suas escrituras são a
melhor de todas as instruções. O Sublime Contínuo do Grande Veículo [de Maitreya]
diz:

Que erudita neste mundo


É maior do que O Vitorioso!
Com onisciência ele conhece a suprema vacuidade
E tudo o mais; os outros não.
Portanto, não adultere nada que este sábio
Colocou nos seus próprios sutras
Porque isto destruiria o sistema de Shakyamuni;
Isto prejudicaria o Santo Dharma.
19
N.T. As quatro nobres verdades são: (1) a verdade do sofrimento: o sofrimento existe; (2) a verdade da causa: há uma
causa; (3) a verdade da cessação: o sofrimento pode cessar; (4) a verdade do caminho: o caminho para cessar o sofrimento.
20
N.T. Os três treinamentos superiores são: ética, concentração e sabedoria que compreende a vacuidade.

47
Atualmente, ninguém considera as escrituras dos Vitoriosos – como, por exemplo,
As Palavras de Buda Traduzidas como algo a ser colocado em prática, mas sim como
algo a ser recitado em cerimônias. As pessoas realmente estudam os clássicos dos dois
antepassados [Asanga e Nagarjuna] que comentam estas escrituras, mas o fazem apenas
para citá-los nos debates. Até mesmo o mais erudita dos estudiosos, quando está preste
a embarcar em alguma prática de meditação, não sabe como integrar qualquer um
destes textos às suas práticas, apesar de uma vida inteira estudando e contemplando-os.
Eles procuram pessoas com a reputação de grande meditador, mas na realidade não
sabem nada, ou estudam algumas sadhanas de como observar o funcionamento
consciente da mente; depois, servilmente, meditam nessas coisas. O Grande Tsongkapa
disse o seguinte:

Eles estudaram muito, mas são pobres de Dharma;


Culpe isto por não tomarem as escrituras como instruções.

Ou seja, é prejudicial não considerar as escrituras como sendo instruções.


Por exemplo, havia um geshe em nosso mosteiro que visitou sua terra natal em
Kham. Ele pediu instruções práticas a um lama Nyingma e depois meditou nas
instruções sumárias do lama. Por causa disto, o povo local disse que o Dharma Gelugpa
só servia para debates, e não era algo a se praticar. Assim, eles ignoraram os
ensinamentos Gelugpa. Penso que este geshe deu um mau exemplo; e acho isto
bastante deprimente.
Devemos colocar em prática qualquer coisa cujo significado determinamos através
de nosso estudo ou contemplação; e o significado do que praticarmos deve ter sido
ratificado por estudo e contemplação. Se você ratificar algo através do estudo e
contemplação, e depois praticar outra coisa, é como apontar uma pista de corrida para
alguém e depois usar outro terreno para a corrida de cavalos. Os Grandes Estágios do
Caminho utiliza estas exatas palavras. Talvez alguma explicação seja necessária. Você
está querendo fazer uma corrida de cavalos, e aponta um lugar específico dizendo,
“Aqui será a corrida de cavalos de amanhã.” Mas no dia da corrida, você faz a corrida
em outro lugar.
Portanto, se você é incapaz de tomar as escrituras como instruções, é porque não
compreendeu os estágios do caminho à iluminação. Mas, com esta compreensão vem o
conhecimento de que toda a literatura clássica – as escrituras do Vitorioso, por exemplo
– pode ser incluída no Lam-rim, e são coisas a serem colocadas em prática totalmente.
Ngawang Chogden certa vez ocupou o trono Ganden. Após completar seu
treinamento monástico, recebeu várias instruções de Jamyang Shaypa como Os Três
Pilares do Caminho [de Tsongkapa]. Ele foi apresentado à maneira de meditar nos
pensamentos contidos em todo o conjunto dos sutras e tantras. Mais tarde ele disse que
passou a compreender que durante seus estudos dos vastos campos da literatura
clássica, ele havia estudado de fato Os Grandes Estágios do Caminho. Isto mostra que
as escrituras foram instruções para ele.
Quando o grande adepto Lozang Namgyal dava uma transmissão oral do Sutra da
48
Perfeição da Sabedoria em Oito Mil Versos, de tempos em tempos comentava, “Ah, se
eu não fosse tão velho! Isto é algo que eu deveria meditar!”
Quando se compreende o Lam-rim, toda a sua prática de debates no pátio do
mosteiro também é Lam-rim: a prática de debate seria vista como uma forma de
instrução de meditação. Suponha que estivesse debatendo o desenvolvimento da
bodhichitta: você imediatamente faria comparações com a seção da Grande Capacidade
sobre o treinamento da mente em bodhichitta. Ou compararia um debate sobre os doze
elos interdependentes com a Média Capacidade. Ou, faria o mesmo com o debate sobre
os estados das concentrações dhyani dos Reinos da Forma e os níveis dos Reinos Sem
Formas, comparando-os com a seção sobre quietude mental do Lam-rim. Até ao recitar
algum ritual do Dharma você deve ser capaz de integrá-lo ao Lam-rim, não importando
de qual escritura tenha sido tirado.
Você seria até capaz de fazer isto ao bater os olhos na página de um livro deixado
num santuário à beira da estrada. Certa vez, quando eu era muito jovem, vi uma página
largada num santuário no caminho ao redor de um mosteiro. A página continha um dos
cânticos do Sétimo Dalai Lama, Kelzang Gyatso.

A jovem abelha no rododentro


Voa de flor a flor colorida.
Veja como se move rapidamente de uma a outra.
O meu cântico explica esta imagem:
Muitas pessoas nestes tempos degenerados
Têm mentes impuras e mergulham em banalidades.
Veja como num momento são amigos, no seguinte, inimigos.
Não encontrei um amigo constante.

Em outras palavras, associei prontamente minhas experiências no santuário com a


seção de Média Capacidade que trata da incerteza do samsara.
Je Rimpoche perguntou a Rinchen Pel, um grande estudioso, qual era o significado
da palavra “Kadam” [literalmente, “escritura-instrução”]. A resposta de Rinchen Pel
foi, “Ter até mesmo uma única letra ‘N’ das escrituras aparecer para você como uma
instrução que não deve ser ignorada.”
Isto agradou Je Rinpoche tanto que ele disse em louvor enquanto dava um
ensinamento público: “Hoje, um estudioso expandiu o meu pensamento. Realmente, é
como ele disse.”
Portanto, todas as escrituras – mesmo uma página deixada no santuário – são
instruções que guiam a pessoa até a iluminação. Isto se aplica a você e sua iluminação.
É como se o Buda e os outros autores tivessem dado estas escrituras especialmente para
você Esta atitude vai lhe proporcionar uma fé suprema em todas elas.
Como disse o iogue Jangchub Rinchen: “Não nos disseram para buscar instruções
de alcançar a iluminação em alguma antologia de mantras, devemos procurar instruções
em todas as escrituras.” Devemos pensar assim; estas palavras atingem a própria raiz.
Portanto, há muita relevância em tomar todas as escrituras como instruções.
49
Você pode indagar, “Será realmente suficiente só estudar o Lam-rim?” O
significado das escrituras e seus comentários estão contidos no Lam-rim: desde a
primeira seção em confiar no guia espiritual até a seção de quietude mental. Um Lam-
rim específico pode ter um conjunto de títulos elaborados, e um outro pode ser sucinto.
Alguns destes títulos pedem meditação analítica, enquanto outros exigem meditação
estabilizadora. Quando tiver dominado a estrutura destes títulos, saberá que meditação
deve ser aplicada a cada título. Com esta compreensão, você prontamente associará
qualquer escritura que encontre com a prática de um tópico específico de meditação do
Lam-rim – isto mostra que você está tomando as escrituras como instruções.
Eis uma analogia fácil que meu precioso lama costumava fazer. Suponha que
alguém que não tenha um lugar para estocar arroz, trigo, feijão, e coisas assim, encontre
um punhado de arroz. Ele não saberá o que fazer com o arroz e provavelmente o jogará
fora. Portanto, se não compreendeu toda a estrutura do caminho, e acontece de ver
algum texto escritural, não perceberá que deve associá-lo [com algum tópico do Lam-
rim]. Você não saberá como colocar a escritura em prática. Se, por acaso, você só tiver
um bre21 de cada um: arroz, farinha e feijão, e conseguir outro punhado de arroz, com
satisfação acrescentará aquele arroz ao seu estoque de comida. Se tiver uma
compreensão completa da estrutura dos tópicos de meditação do Lam-rim, você
prontamente associará qualquer escritura com um [título de Lam-rim] específico.

Então, Rimpoche falou um detalhadamente de como um texto do Lam-rim que tenha


toda a estrutura do Lam-rim pode levá-lo pelo caminho, independente do tamanho do
texto. Ele comparou isto a dois quartos, um de um oficial do governo e o outro de um
simples monge: ambos contém móveis suficientes que suprem suas necessidades

Note também: há uma diferença entre realizar que toda escritura é consistente e
tomar todas as escrituras como instruções. Ter a primeira realização não significa
necessariamente que tenha a segunda. Mas se tiver a segunda, necessariamente terá a
primeira.

2.3 A GRANDEZA DE PERMITIR QUE SE DESCUBRA FACILMENTE O


VERDADEIRO PENSAMENTO DOS VITORIOSOS
Como já disse, as escrituras e seus comentários são a melhor das instruções. Mas,
você não conseguirá descobrir os pensamentos supremos do Vitorioso simplesmente
referindo-se a estes grandes clássicos sem nenhuma instrução de seu guru sobre os
estágios do caminho à iluminação como seu ponto de referência, apesar dos tópicos
destes clássicos expressarem os pensamentos supremos dos Vitoriosos. Para descobrir
estes pensamentos [só com os clássicos], é preciso trabalhar com estes textos por um
longo tempo. Se depender do Lam-rim, você os descobrirá facilmente sem tanto
esforço.
Talvez esteja se indagando, “Quais sãos estes pensamentos dos Vitoriosos?” Meu
21
Literalmente, um “bre”, que a grosso modo é certa de quinhentas gramas

50
próprio precioso guru, meu refúgio e protetor, disse-me que em geral eles são os três
níveis do Lam-rim; porém, e mais importante, eles reduzem-se à necessidade de
praticar os três pilares do caminho. Isto certamente é correto. O grande Tsongkapa
esclareceu os pensamentos dos Vitoriosos sobre a visão correta. Em Os Três Pilares do
Caminho Tsongkapa disse:

A aparência de que as coisas são mutuamente interdependentes


Não é uma ilusão; mas existem aqueles que compreendem
A vacuidade como algo destituído desta aparência.
Enquanto para você elas forem duas coisas separadas,
Você nunca realizará os pensamentos do Grandioso.

Na realidade, isto diz que você não terá compreendido os pensamentos do Vitorioso
se não tiver realizado a visão correta – o que significa que a força da sua realização
daquela visão é que lhe permite finalmente alcançar os pensamentos do Vitorioso. No
mesmo poema, Tsongkapa diz, “...a importância da essência das escrituras dos
Vitoriosos...” Isto se refere ao pilar da renúncia. Ele continua dizendo, “...o caminho
louvado pelos Vitoriosos e seus Filhos...” Isto se refere ao pilar da bodhichitta. Por fim,
ele diz, “...o portal dos afortunados que desejam a liberação...” Isto se refere ao pilar da
visão correta. Portanto, está implícito que você ainda precisa dos outros dois pilares:
renúncia e bodhichitta. Portanto, ao confiar no Lam-rim, você descobre com facilidade
que o tópico dos grandes clássicos almeja o desenvolvimento destes três pilares em seu
contínuo-mental. Então, você terá facilmente descoberto os pensamentos do Vitorioso.
Suponha que os grandes clássicos fossem um oceano. Os pensamentos do Vitorioso
– os três pilares do caminho, por exemplo – seriam as jóias dentro deste oceano; o
Lam-rim seria o barco; o guru que ensina o Lam-rim seria o capitão. Embora o oceano
contenha três jóias, você só perderia a sua vida se as procurasse sem o barco. Se não
fizer um uso similar do Lam-rim, será difícil descobrir os pensamentos do Vitorioso,
mesmo se consultar estes grandes clássicos. Você deve depender de um guru, o hábil
capitão, subir no barco, o Lam-rim, e então facilmente encontrará as jóias nos clássicos:
estes pensamentos supremos.

2.4 A GRANDEZA DE PERMITIR SALVAR-SE DE COMETER OS PIORES


ATOS
Aqui, Os Grandes Estágios do Caminho e outros textos ensinam explicitamente que
não devemos fazer nada que crie o karma de abandonar o Dharma e os obscurecimentos
resultantes. Mas, se você não aceitou no coração as três primeiras destas quatro
grandezas, você estará sempre fazendo distinções mesquinhas que o fazem respeitar
uma parte do Dharma mais que outras – distinções como Mahayana contra Hinayana,
ou Dharma teórico contra Dharma prático.
Abandonar uma parte do Dharma produz um fluxo contínuo do karma do pior tipo;

51
os obscurecimentos que resultam são muito graves. O Sutra Tecendo Tudo Junto diz:
Manjushri, os obscurecimentos que resultam do karma de abandonar o santo
Dharma são sutis. Manjushri, abandona-se o Dharma quando considera
alguma escritura do Tathagata boa e outra ruim. Quem abandona o Dharma,
como resultado, também deprecia os Tathagatas; e também fala mal da
Sangha. Abandona-se o Dharma ao alegar, “Esta [escritura] é correta,” e
“Esta é incorreta.” Abandona-se o Dharma ao alegar, “Isto foi ensinado para
Bodhisattvas,” ou “Isto foi ensinado para Shravakas.” Abandona-se o Dharma
ao alegar, “Isto foi ensinado para Pratyeka-buddhas.” Abandona-se o Dharma
ao alegar, “Isto não é algo em que um Bodhisattva deve treinar-se.”

Abandonar o Dharma é um ato extremamente perigoso, pois como diz o Sutra


Soberano da Concentração Uni-Focada:

Abandonar a cesta do sutra


É uma ação nociva mais pesada
Do que destruir todas as stupas
No Continente Sul.
Abandonar a cesta do sutra
É uma ação nociva mais pesada
Do que matar tantos Arhats
Quantos grãos de areia
No leito do Rio Ganges.

Se estiver convencido das três primeiras destas grandezas, você não vai ignorar
nenhum dos ensinamentos do Vitorioso; e renderá o mesmo respeito a todos eles, pois
todos são para serem postos em prática. Você deve se proteger contra considerar
alguma parte do Dharma boa e outra parte ruim – o maior fator que contribui para o
abandono do Dharma. Além do mais, se pensar em como se devotar corretamente ao
seu guia espiritual, você estará livrando-se de quaisquer obscurecimentos kármicos que
possa ter em relação a ele. E, ao se convencer, por exemplo, da verdade do perfeito
renascimento humano ou da impermanência, automaticamente deixará de cometer atos
nocivos relacionados ao apego a esta vida. Você cessará o seu comportamento instável
associado à auto-estima egoísta quando seguir o tópico de meditação sobre bodhichitta.
Você então se treinará no tópico de meditação sobre a ausência do ego, ocasião em que
dará um fim ao seu apego ao ego. Automaticamente você cessa todo o seu
comportamento mais instável e não-Dharmico como resultado de desenvolver a
realização de cada tópico de meditação do Lam-rim.
Vou dar um exemplo para explicar como estas três primeiras grandezas promovem
o seu desenvolvimento. Suponha que vá pintar uma imagem religiosa. Como você sabe,
é preciso reunir as condições certas: você deve ter todo o material para a pintura – uma
tela, tintas, pincéis, etc. Este conhecimento é análogo à realização de que toda escritura

52
é consistente. Você deve saber como pintar, como utilizar todo este material – assim
como deve tomar todas as escrituras como peças de instruções. E fazer um bom
trabalho de pintura é similar a descobrir com facilidade os pensamentos do Vitorioso.
Estas quatro grandezas são tomadas convencionalmente de duas maneiras: as quatro
grandezas da apresentação (as próprias palavras usadas), e as quatro grandezas do
tópico (o significado destas palavras). As escrituras têm estas quatro associadas à
apresentação. Porém, dizem que é mais importante que a pessoa tenha as quatro
associadas ao tópico.
Isto conclui as quatro grandezas. O Lam-rim possui, além destas quatro, mais três
características: (1) o lam-rim é completo porque contém todos os tópicos do sutra e
tantra; (2) é fácil de se colocar em prática porque enfatiza os passos para domar a
mente; (3) é superior às outras tradições porque contém instruções dos dois gurus que
estudaram nas tradições dos dois antepassados.

2.5 O LAM-RIM É COMPLETO PORQUE CONTÉM TODOS OS TÓPICOS


DO SUTRA E TANTRA
Embora seja impossível incluir no Lam-Rim todas as palavras de escrituras e
comentários, ele inclui e ensina efetivamente todo o seu significado principal. Até o
menor texto do Lam-rim faz isto. O significado completo das escrituras e comentários
se encaixam sob os três níveis do Lam-rim; o Lam-rim inclui e ensina os tópicos de
todo o conjunto de escrituras e comentários. O grande Tsongkapa disse em uma carta
ao Lama Umapa

Esta instrução de Dipamkara Shrijana –os estágios do caminho à


iluminação– parece incorporar em seus ensinamentos todas as instruções
das escrituras e seus comentários. Se alguém souber como ensiná-lo ou
estudá-lo, o Lam-rim não só parece uma miscelânea de instruções para a
nossa própria prática, mas também a síntese de todas as escrituras.
Portanto, eu não ensino uma longa lista de tipos diferentes de
ensinamentos.

Os ensinamentos das outras escolas têm várias listas de ensinamentos: os quatro


grandes ensinamentos sobre as práticas preliminares, como tomar refúgio e coisas
assim; ensinamentos das práticas principais, etc. Mesmo assim, os Kadampas originais
e nós, os neo-Kadampas, tradicionalmente dispensamos tais listas longas e ensinamos
tudo conforme o Lam-rim. Uma Luz no Caminho ensina a síntese de todos os tópicos
das escrituras dentro do espaço de três fólios. Todos os outros textos de Lam-rim
condensam, de maneira similar, todo este material, porque tomam Uma Luz no
Caminho como texto-raiz. Portanto, o grande Tsongkapa disse:

Ele condensa a essência de todas as escrituras.


Ao ensinar e estudar este sistema

53
Mesmo por um tempo pequeno, ganha-se
Os benefícios de estudar e discutir
Todo o santo Dharma.
Contemple seu significado,
Pois isto certamente é poderoso.

Em outras palavras, estudar, contemplar, ensinar e receber um ensinamento do


Lam-rim é o mesmo que estudar, contemplar e aprender todo o significado completo
das escrituras e seus comentários. Ao fazer até mesmo uma única seqüência de
meditações retrospectivas do Lam-rim, este tipo de prática meditativa abrange o
significado das escrituras e comentários. A grande personalidade Kadampa, Geshe
Telungpa disse:

Quando ensino os estágios do caminho à iluminação, vocês ganham uma


compreensão conceitual de todos os livros e volumes do mundo. Todos
estes livros sentem, "Aquele velho monge grisalho nos arrancou o
coração!" e tremem com este pensamento.

Quão verdadeiro, porque se um ensinamento do Lam-rim foi bem dado, e a


audiência esteve atenta, a essência de todos os livros do mundo foram discutidas
naquele ensinamento. Então, por um lado, o Lam-rim contém o significado de todas as
escrituras, por outro lado, é a chave que abre as escrituras. Não poderia haver resumo
melhor do Dharma. Então, é por isso que Geshe Telungpa disse do tópico do
ensinamento do Lam-rim: "Eu esquartejei o grande yak do Dharma."
As pessoas que pensam num nível inferior podem não compreender os textos de
Lam-rim mais elaborados; mas podem ainda utilizar um texto mais curto – por
exemplo, um dos ensinamentos concisos – que contém toda a estrutura do Lam-rim.
Este ensinamento conciso ainda é capaz de guiá-los no caminho. Mas se o texto deixa
de lado até só um dos tópicos de meditação, não poderá guiar ninguém no caminho.
Vejamos, por exemplo, o remédio Cânfora 25 para febre22 você não precisa sair e
conseguir um pacote grande de cada um dos vinte e cinco ingredientes e depois tomá-
los individualmente; se o remédio foi composto corretamente com todos os vinte e
cinco ingredientes, a febre vai baixar rapidamente. Mas se faltar um ingrediente, o
remédio não vai livrá-lo da febre, não importa quantos você tomar.
Agora que foi afortunado o bastante para encontrar estas instruções nobres, deve se
especializar nelas.

2.6 LAM-RIM É FÁCIL DE SE COLOCAR EM PRÁTICA PORQUE


ENFATIZA OS PASSOS PARA DOMAR A MENTE
Já passamos por muitos e variados sofrimentos do samsara, e já tivemos o mais

22
Os remédios tibetanos muitas vezes são chamados pelo nome do principal ingrediente seguido de um número para
indicar quantos ingredientes são no total.

54
elevado êxtase que o samsara pode oferecer. Nossas próprias mentes foram
responsáveis por isto. Nada é considerado melhor do que o Lam-rim para pacificar a
mente; o Lam-rim dá grande ênfase nos meios para alcançarmos isto. Portanto, o Lam-
rim é fácil de ser colocado em prática.

2.7 LAM-RIM É SUPERIOR ÀS OUTRAS TRADIÇÕES PORQUE CONTÉM


INSTRUÇÕES DOS DOIS GURUS QUE ESTUDARAM NAS TRADIÇÔES
DOS DOIS ANTEPASSADOS
O guru que pertenceu à escola de Nagarjuna foi Vidyakokila; o Guru Suvarnadvipi
pertenceu à escola de Asanga23 Este ensinamento está enriquecido com as suas
instruções e, portanto, é superior a todas as outras tradições. Como disse o grande Je
Tsongkapa:

Os estágios do caminho à iluminação


Se ramificam de Nagarjuna e Asanga--
As jóias supremas dos estudiosos do mundo,
Cujas famas entre os seres sobressaem como bandeiras.
Nem O Ornamento à Realização [de Maitreya] tem estas três características. Até
mesmo o rei dos tantras, Shri Guhyasamaja [O Tantra de Guhyasamaja} não as possui.
Esses dois textos não contêm todos os tópicos do sutra e tantra, nem enfatizam como
domar a mente.
Agora que você é afortunado o bastante para estudar, contemplar e meditar neste
Lam-rim com tais grandezas e características, você não deve satisfazer-se com
instruções incompletas ou apenas razoáveis. É vital que coloque o máximo de esforço
neste caminho.
Isto completa o segundo título principal, “A Grandeza do Dharma.”

III - A MANEIRA CORRETA DE ENSINAR E OUVIR O DHARMA QUE


POSSUI ESTAS DUAS GRANDEZAS
Este é um título muito importante. Ngagwang Dragpa, um grande meditador de
Dagpo, disse:

A melhor instrução preliminar


É sobre como se deve ensinar e ouvir.
Estime-a com carinho...

Ou seja, este título determinará se os ensinamentos que seguem terão efeito sobre
seu contínuo-mental. Será difícil traduzir meus ensinamentos em contemplação e
meditação se não entender este título, assim como erraria todas as datas até o décimo
23
N.T. Estes são os gurus que lideram as linhagens de sabedoria (vacuidade) e método (compaixão) conforme foi visto no
Dia Dois.

55
quinto dia [lua cheia] se tomar o dia errado como sendo o primeiro do mês lunar [lua
nova].
Há três títulos neste ponto: (1) como ouvir o Dharma; (2) como ensinar o Dharma;
(3) o que discípulos e mestre devem fazer juntos ao final.

3.1 COMO OUVIR O DHARMA


Há aqui três subtítulos: (1) contemplando os benefícios de estudar o Dharma; (2)
como demonstrar respeito ao Dharma e seu mestre; (3) como efetivamente ouvir o
Dharma.

CONTEMPLANDO OS BENEFÍCIOS DE ESTUDAR O DHARMA


É vital contemplar primeiro os benefícios de estudar o Dharma, porque só então
poderá desenvolver a vontade firme de estudá-lo. Se a contemplação for feita
corretamente, você ficará extremamente feliz em embarcar nesse estudo. Em As
Palavras do Buda encontramos:

Por causa de seu estudo, você compreende o Dharma,


Por causa de seu estudo, você deixa de pecar,
Por causa de seu estudo, você abandona coisas sem sentido
Por causa de seu estudo, você atinge o nirvana.

Isto é, por virtude de seu estudo, você saberá todos os pontos chaves para modificar
o seu comportamento. Você compreenderá o significado da cesta vinaya e, como
resultado, deixará de cometer ações nocivas por estar seguindo o treinamento superior
da ética. Você compreenderá o significado da cesta do sutra, e como resultado
abandonará coisas sem sentido como distrações [triviais], por seguir o treinamento
superior da concentração uni-focada. Você compreenderá o significado da cesta
abhidharma, e então abandonará os enganos por meio do treinamento superior da
sabedoria. Portanto, o seu estudo o permitirá atingir o nirvana.
Em Os Contos de Jataka está dito;

O estudo é a luz que afasta


A escuridão da ignorância.
É a melhor das posses,
Os ladrões não podem tirá-la de você.
É uma arma para derrotar o seu inimigo:
A sua cegueira a todas as coisas.
É seu melhor amigo
Que lhe ensina os métodos;
É um parente que não
O abandonará quando você ficar pobre.
É um remédio contra o sofrimento

56
Que não lhe faz nenhum mal.
É a melhor das forças tarefas
Para despachar contra seus maus atos.
É um fundo supremo
De fama e glória.
Você não tem melhor talento
Ao encontrar pessoas dotadas.
Você impressionará os eruditas
De qualquer assembléia.

O estudo é como uma lamparina que afasta a escuridão da mais profunda


ignorância. Meu próprio e precioso guru me disse que ao conhecer uma letra do
alfabeto, fica-se livre da ignorância com relação à letra e aumenta-se o estoque de
sabedoria. Então, ao conhecer as outras letras, afastará sua ignorância com relação a
elas também, e acrescentará mais à sua sabedoria. Sem nenhum estudo, não seríamos
capazes de reconhecer a letra A, mesmo se fosse escrita do tamanho da cabeça de asno.
Desconcertados, só poderíamos sacudir as nossas cabeças. Pense nas pessoas de sua
família que não sabem nada e compreenderão o que quero dizer.
A quantidade de ignorância que consegue afastar depende também de quanto
estudou. A luz de sua sabedoria cresce proporcionalmente. Em Os Dizeres do Buda
encontramos:

Embora alguém possa estar muito familiarizado com uma casa,


Apesar dos seus olhos,
Ele não verá nenhuma forma visual
Enquanto estiver num quarto de escuro como azeviche.
De forma semelhante, o discípulo
Pode ser perspicaz, mas, até que estude,
Ele não distinguirá o mal da virtude.
Quando uma pessoa com visão
Tem uma lamparina nas mãos,
Ele verá formas visuais;
Assim também, através do estudo, uma pessoa
Saberá a virtude e o mal.

Em outras palavras, não se pode ver nada num quarto totalmente escuro, apesar de
estar cercado por muitas coisas e ter os olhos bem abertos. De forma similar, você pode
ter o olho da sabedoria, mas sem a lamparina do estudo, nada saberá dos pontos
exigidos para modificar o comportamento. Se acender uma lamparina no quarto escuro,
você conseguirá ver com nitidez todas as coisas dentro dele; assim, com a lamparina do
estudo e o olho da sabedoria você poderá compreender todos os fenômenos.
Os Níveis de Bodhisattva [de Asanga] fala em detalhe destes benefícios, e de como
ouvir os ensinamentos com as cinco atitudes. A primeira atitude é considerar o

57
ensinamento como um olho, por meio do qual desenvolve-se cada vez mais sabedoria.
Depois, deve-se considerar o ensinamento como uma luz, pela qual este olho de
sabedoria vê a verdade relativa e suprema. Deve-se considerá-lo como algo precioso
que só ocorre raramente no mundo. Considere o ensinamento como muito benéfico, e
através dele obterá os frutos apreciados pelos grandes Bodhisattvas. Por último, deve-se
considerá-lo como algo totalmente não proibido, porque vai lhe capacitar alcançar a
quietude mental e a visão especial.
Os seus estudos são também posses supremas que ninguém pode tirar-lhe. Ladrões
podem carregar seus bens mundanos, mas não podem tirar-lhe as sete jóias dos Aryas –
ou seja, seus estudos, etc – nem as boas qualidades da educação, ética e bom coração.
Até nos melhores tempos, os seus bens materiais dão muita dor de cabeça, por
exemplo, quando retorna à sua cidade natal, que posse levará na viagem? Os seus
estudos não são assim. Você pode até levá-los consigo quando morrer. Por isso dizem
que é muito importante que nós, simples monges, não devemos ansiar por chaleiras
ricamente decoradas com alças de bronze, ou por panelas de cobre, e coisas assim;
devemos ansiar é pelas sete jóias dos Aryas.
O estudo é como uma arma para vencer seu inimigo: a sua cegueira. Pelo estudo,
você destruirá todos os seus enganos – o seu verdadeiro inimigo. O estudo é também o
seu melhor amigo, que nunca lhe dará um conselho errado. Os seus estudos anteriores o
aconselharão sobre qualquer ação específica: se a hora é certa para agir, como agir na
hora certa, como evitar agir se a hora é errada, seus benefícios, suas desvantagens, etc.
Meu próprio e precioso guru me disse, “Enquanto o Rei Lhalama Yeshe Oe estava
sozinho na prisão, ele ficou cada dia mais determinado. Isto aconteceu por causa dos
conselhos que recebeu de seu companheiro – seus estudos anteriores.”
O estudo é também um parente que nunca lhe esquece em tempos difíceis. Parentes
comuns fingem ser seus amigos quando você está bem de vida; quando os tempos estão
ruins, eles fingem não reconhecê-lo. Mas o estudo é o melhor dos parentes, pois lhe
será particularmente útil quando a época for difícil e você estiver sofrendo, doente,
morrendo, etc.
Antes do grande Tsechogling Rimpoche se tornar tutor de um dos Dalai Lamas,
havia uma época em que ele era pobre. Ele encontrou na estrada um tio que viajava
para fazer comércio. Tsechogling Rimpoche disse-lhe algo, mas o tio falou como se
não conhecesse Rimpoche. Quando Rimpoche passou a ser tutor do Dalai Lama e
ocupou uma das mais altas posições de autoridade, o tio foi vê-lo, apresentando-se
como tio.
Certa vez havia um homem que começou a vida pobre. Ninguém se dizia seu
parente. Depois ele ganhou um dinheiro com o comércio e muitas pessoas apareceram
alegando serem parentes. Ele chamou todos para almoçar com ele. Ele colocou montes
de dinheiro na cabeceira da mesa, e depois, recitou o seguinte verso enquanto se
prosternava perante o dinheiro: "Um homem que não era meu tio tornou-se meu tio. Oh
montes encantadores de dinheiro, eu vos rendo homenagem!" Ou seja, não se pode
confiar em parentes comuns.

58
Se devemos buscar nossos parentes há muito perdidos, porque não buscar o estudo,
a contemplação e a meditação. Aliás, no Lam-rim de Ketsang a última linha do verso
mencionado acima diz: “Oh, meu vale-refeição, eu rendo-lhe homenagem!” Mas a
versão que dei é exatamente como o meu próprio precioso guru costumava contar esta
história.
O estudo é também o remédio para os enganos, e um exército a ser despachado
contra a não-virtude. É também o melhor deposito de fama e glória; o melhor prêmio a
se obter dos seres santos; a melhor maneira de conseguir o respeito dos eruditos.
Os Contos de Jataka também diz:

Quem quer que tenha estudado, desenvolverá fé


Será firme e se deleitará na excelência;
Desenvolverá a sabedoria, e não terá ignorância alguma.
É correto até vender a própria carne para obtê-lo.

Isto é, o estudo tem infinitas qualidades boas. Você desenvolverá fé nas boas
qualidades das Três Jóias através do estudo; e então se esforçará para fazer
oferecimentos aos Budas e assim por diante. E também por causa de sua fé nas leis
fixas do karma, ficará feliz em modificar o seu comportamento, etc. Você
compreenderá os defeitos das duas primeiras das quatro verdades [sofrimento e origem
do sofrimento], e as boas qualidades das duas últimas [a cessação e o caminho].
Portanto, estará sempre trabalhando para chegar à sua meta final [a Budeidade].
Nos dizem, “É correto até cortar e vender a própria carne para conseguir estudar.”
Mas, agora que consegue estudar no conforto, sem precisar mutilar o seu corpo, você
deve estudar o melhor possível. O verso acima foi dado ao Bodhisattva [Principe]
Chandra [Vyilingalita, uma das vidas prévias de Shakyamuni], depois que ele pregou
mil pregos em seu corpo para cada linha no verso.
A profundidade do estudo determina quantas vezes você precisa contemplar. Esta
quantidade determina o tempo para desenvolver a compreensão através de suas
meditações e, por sua vez, você chegará a ter sabedoria.
Os jovens devem estudar os cinco temas de debates, quando entram nos grandes
mosteiros. Há uma enorme diferença entre quem estudou e quem não estudou – mesmo
o que reconhece ser as Três Jóias. Talvez você tenha filhos para cuidar. Se você leu
muito pouco, não deve criá-los para ser como você. Faça-os estudar e em sua próxima
vida desenvolverá a mesma sabedoria deles agora. Os velhos com pouca inteligência
podem querer estudar os grandes clássicos, mas a morte interromperá seus estudos
antes que se livrem dos conceitos errôneos. Estas pessoas são, portanto, incapazes de
completar muito estudo. Mas estudando algo como o Lam-rim, podem conseguir certa
compreensão de todo o caminho. Tsongkapa certa vez disse ao Panchen Lama Lozang
Choekyi Gyalten em sonho:

Para beneficiar a si e aos outros,


Nunca se satisfaça com seus estudos.

59
Observem os Bodhisattvas no terceiro nível,
Eles estão insatisfeitos com a quantidade de seus estudos.

Vocês devem fazer o que ele sugere.


Independente da capacidade que as pessoas julgam ter, certamente podem encontrar
tempo para estudar um ensinamento conciso do Lam-rim, por exemplo. Como não
saberiam como faze-lo? Como poderiam viver a vida com uma parcela tão pequena do
Dharma? Como poderiam afirmar que não são do tipo intelectual? Até cavalos, vacas e
ovelhas sabem, sozinhos, conseguir o que precisam. Você deve estudar em seu próprio
nível intelectual. Mas, o que estudar, seja texto pequeno ou elaborado, deve conter toda
gama de tópicos de meditação: desde confiar num guia espiritual até a unificação do
Não-Mais-Aprendiz. Se um texto estiver incompleto, não terá todos os tópicos de
meditação. Mesmo se tiver muitos detalhes em uns tópicos, isto não compensará a falta
de outros tópicos. Seria como ter cem tapetes no seu quarto, mas nenhuma roupa para
vestir; ou ter cem coisas para vestir e nenhum tapete. Se o texto estiver completo, vai
guiá-lo pelo caminho, independente de quantos detalhes oferecer – assim como um
grande quarto de um ministro de estado e a cela de um monge servem ambos a seus
propósitos.

COMO DEMOSTRAR RESPEITO AO DHARMA E SEU MESTRE


O Sutra para Kshitagarbha diz:

Ouça o Dharma com fé e respeito


Não zomba nem deprecie seus mestres;
Faça oferecimentos aos mestres do Dharma,
Desenvolva a atitude que eles são iguais ao Buda.

Ao ouvir seus ensinamentos, renda aos mestres do Dharma o mesmo respeito que
renderia a nosso Mestre Buda.
Os Níveis do Bodhisattva de Asanga, diz que devemos ouvir livres de enganos e
sem a mente se distrair com as cinco coisas (abaixo). Devemos também estar livre de
orgulho. Há ainda a menção de seis coisas que devem estar presentes ao ouvir: (1) o
momento certo; (2) consideração; (3) respeito; (4) falta de raiva; (5) o fato que mais
tarde colocará os ensinamentos em prática; (6) não procurar defeitos no mestre.
Vejamos o primeiro: o momento certo. O guru deve dar um ensinamento se isto o
deixa feliz, se não tem outras ocupações naquele momento, etc. Então, não devemos
pedir ou ouvir seus ensinamentos sempre que nos for conveniente, pois isto seria muito
presunçoso e egoísta. Geshe Potowa certa vez se hospedou no Mosteiro Kakang no
planalto da Província Central para editar vários textos escriturais. Um homem veio até
ele e pediu ensinamentos. Geshe Potowa levantou e adotando uma atitude zangada,
mandou o homem embora. O homem saiu logo, o que mostra que devemos ser
habilidosos quanto ao momento certo.

60
Mostra-se “consideração” fazendo prosternações e levantando-se na presença do
mestre. Render “respeito” inclui lavar suas mãos e pés. “Falta de raiva” é não se
aborrecer se precisar fazer algum trabalho por ele. “Procurar defeitos” é reclamar.
Poderia significar também desprezar o Dharma e seus mestres – um ato relacionado aos
seus enganos.
Também não se deve fixar-se em cinco coisas: sua ética degenerada, sua casta
baixa, suas roupas pobres, sua voz desagradável ou maneira pobre de falar, e seu uso de
palavras rudes. Deve-se abandonar qualquer idéia de ver estas cinco coisas como
defeitos.

COMO EFETIVAMENTE OUVIR O DHARMA

Isto tem duas partes: (1) abandonar os três tipos de falhas que impedem a pessoa de se
tornar um recipiente digno, (2) cultivar as seis atitudes auxiliares.

1) ABANDONAR OS TRÊS TIPOS DE FALHAS QUE IMPEDEM A PESSOA


DE SE TORNAR UM RECIPIENTE DIGNO

Estes três são: (1) a falha de ser como um recipiente virado para baixo; (2) a falha de
ser como um recipiente sujo; (3) a falha de ser como um recipiente com um vazamento
no fundo.

(A) A FALHA DE SER COMO UM RECIPIENTE VIRADO PARA BAIXO

Se um recipiente está virado para baixo, não importa quanto líquido nutritivo seja
despejado nele, nada entrará. Você pode estar assistindo a um ensinamento, mas nada
compreenderá se sua mente estiver distraída e seus ouvidos não estiverem captando o
que está sendo dito. Não há diferença entre isto e não ir ao ensinamento. Você deve
ouvir como uma corça – um animal muito apegado ao som. Dê toda a atenção ao
ensinamento. Mas, “dar toda a atenção” não é ouvir o Dharma só com metade da
atenção e ter a outra metade da mente distraída. Significa que deve acompanhar todo o
ensinamento de perto. Seja como a corça: devido ao seu apego ao som, fica tão absorta
[quando alguém toca uma flauta] que um caçador pode atirar suas flechas com
facilidade.

(B) A FALHA DE SER COMO UM RECIPIENTE SUJO

Um recipiente pode não estar virado para baixo, mas se conter veneno então tudo
que for despejado nele não servirá mais para ser usado, mesmo se antes era salutar. Os
seus ouvidos podem estar captando tudo, mas alguns de vocês podem estar motivados
por pensamentos de progredir nos estudos, e outros motivados por pensamentos de

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repetir o que ouviram para outras pessoas, e coisas assim. Ser motivado por um anseio
pela paz [da liberação] só para si é um progresso nestas motivações, mas ainda é falho e
então se assemelha a um recipiente sujo. Portanto, é preciso pelo menos ouvir com a
bodhicitta induzida como sua motivação.

(C) A FALHA DE SER COMO UM RECIPIENTE COM UM VAZAMENTO


NO FUNDO

Um recipiente pode não estar virado para baixo nem sujo, mas se o fundo estiver
vazando não reterá líquido algum, não importa o quanto despejar nele. Os seus ouvidos
podem estar captando tudo e a sua motivação pode ser impecável, mas a menos que
ouça cuidadosamente você esquecerá tudo imediatamente. É muito difícil tomar as
medidas para evitar esquecer um ensinamento, portanto devemos usar algo como um
lembrete – um livro ou um conjunto de subtítulos por exemplo. Devemos repassar
continuamente o material pensando, “O que foi ensinado neste ponto específico?” E, o
mais importante, reunam-se entre as sessões dos ensinamentos e repassem um pouco o
que foi dito.
Quanto a abandonar estas falhas do recipiente, em um sutra o Bhagavan salientou
“ouvir bem, ouvir da melhor maneira, e reter na mente.” “Ouvir bem” refere-se a
abandonar a falha do recipiente sujo, “ouvir da melhor maneira” refere-se a abandonar
a falha do recipiente virado para baixo; e “reter na mente” significa abandonar a falha
do recipiente com um vazamento no fundo. É assim, então, que devemos ouvir.

2) CULTIVANDO AS SEIS ATITUDES AUXILIARES

Estas são: (1) a atitude que você é como um paciente; (2) a atitude que o Dharma é
como o remédio; (3) a atitude que o seu guia espiritual é como um médico habilidoso;
(4) a atitude que a prática diligente é como a cura; (5) a atitude que o seu guia espiritual
é um ser santo como os Tathagatas; (6) a atitude que o Dharma deve permanecer por
muito tempo.

(A) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE VOCÊ É COMO UM


PACIENTE

Esta atitude é vital, pois as outras seguirão naturalmente. Pode parecer perverso
meditar que somos pacientes quando não estamos doentes, mas o ponto aqui é que
estamos seriamente doentes com a doença dos enganos. Como o Geshe Kamaba disse,
pode ser perverso alguém que não esteja doente meditar assim mas, embora não
saibamos, estamos de fato com a doença grave e crônica dos três venenos: apego, raiva
e ignorância.
Podemos estar pensando: “Como posso estar doente sem saber?” Mas, quando
temos uma febre alta, podemos delirar, cantar, etc. e não nos sentirmos doentes.

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Estamos também seriamente doentes com os enganos e não temos consciência disto.
Novamente, você pode pensar: “Se eu tenho uma doença não deveria sentir dores?
Mas não sinto.” Mas de vez em quando você sente as dores agudas que vem dos três
venenos. Você pode estar pensando, “Como assim?” Suponha que vá ao mercado e veja
um artigo atraente que é muito caro. Quando volta para casa, fica muito aborrecido
pensando em como conseguí-lo. Esta é a dor do apego. Quando vê, ouve ou recorda
algo desagradável – um comentário ferino, por exemplo – você se sente angustiado.
Isto é um exemplo da dor da hostilidade. Examine esta parte em detalhe e analise o
orgulho, ciúme, etc. Os enganos são doenças sérias, dolorosas, intoleráveis e crônicas.
Assim, você contraiu muitas doenças – as doenças do apego, hostilidade, ciúme, e
assim por diante. Você é cuidadoso para não contrair nem mesmo uma doença comum,
mas sofrer dos vários enganos em nada o preocupa. Shantideva afirma em Engajando-
se nos Feitos dos Bodhisattvas:

Se é preciso obedecer as ordens do seu médico


Quando tem uma doença normal,
O que não dizer quanto
A doença que sempre tem tido,
Cem vezes mais perigosa que o apego?

Ficamos com muito medo se estamos doentes e a doença já está durando um ou


dois meses. Mas temos sofrido da doença dos enganos desde o samsara sem princípio
até agora. É impossível recuperarmos desta doença enquanto não conseguirmos a
liberação da existência cíclica. Como disse Geshe Potowa: “O paciente que nunca fica
bom, o viajante que nunca chega ao destino...” Este é uma perfeita descrição de nós
mesmos

(B) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE O DHARMA É COMO O


REMÉDIO

Quando os pacientes percebem que estão doentes, precisam procurar o remédio


certo. O único remédio que pacificará a doença dos enganos é o santo Dharma. É este
remédio que devemos buscar.

(C) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE SEU GUIA ESPIRITUAL É


COMO UM MÉDICO HABILIDOSO

Se você está doente, não tem médico e simplesmente toma um remédio por conta
própria, você pode se enganar quanto à sua condição – se é doença quente ou fria, por
exemplo – e quanto aos estágios que a doença alcançou. O remédio que toma pode não
ajudar e pode até colocar em risco a sua vida. Seguramente, é preciso confiar num
médico habilidoso. Talvez você não confia num guia espiritual, mas acha que é

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suficiente praticar Dharma dos livros. Mas, não desenvolverá realizações ou
compreensões de suas recitações, meditações etc. O seu contínuo-mental ficará cada
vez mais fixo em suas próprias maneiras. Então, quando decidir que deve praticar o
Dharma, deve confiar seriamente num guia espiritual assim como confiaria num
médico habilidoso. Como paciente, você fica muito feliz quando encontra o médico
certo. Você escutará o que o médico diz, e o tratará respeitosamente. Você deve fazer o
mesmo quando encontrar um guia espiritual. Como está dito em O Sumário das
Qualidades Boas e Preciosas:

Assim, o sábio que tem o forte desejo de buscar


A sagrada iluminação deve subjugar completamente seu orgulho
Assim como os pacientes que querem se curar
Confiam nos médicos, assim também aquele que procura
Confia firmemente num guia espiritual

(D) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE A PRÀTICA DILIGENTE É


COMO A CURA

É o remédio que ajuda o paciente, mas talvez você não siga o conselho do médico e
simplesmente deixa o remédio ao lado de sua cama. Se não melhorar, não pode culpar o
médico, porque não seguiu suas recomendações e não pode culpar o remédio porque
nem mesmo o tomou.
O guia espiritual é como um médico habilidoso, mas se ouvir muitas instruções
orais, que são como o remédio para pacificar a doença dos enganos, e não colocá-las
em prática, as instruções não trarão benefício ao seu contínuo-mental, não importa quão
profundas ou vastas sejam. Você não deve culpar o guru, nem culpar o Dharma. A falha
foi toda sua. Como diz O Sutra Soberano da Concentração Uni-focada:

Após busca constante; o paciente encontra


Um médico habilidoso e inteligente
Que, vendo-o, diz com muita compaixão,
“Tome este remédio,” que ele prepara,
Mas o paciente não toma o remédio
Tão precioso e salutar, a cura em potencial.
Não culpe o médico;
A culpa não é do remédio;
Mas o próprio paciente deve ser culpado.
Assim é também com as pessoas ordenadas nesta doutrina:
Eles podem saber muito bem a respeito
Das [dez] forças, as concentrações dhyani, os [dez] poderes-
Mas nenhum esforço verdadeiro é feito para meditar.
Como poderia o nirvana vir sem o esforço correto?...

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Eu lhe ensinei bem o Dharma,
Se não fizer um bom uso de seus estudos,
Você será como o paciente que deixa o remédio
Dentro da caixa, pensando,
“Isto não pode curar a minha doença.”

Shantideva diz em Engajando-se nos Feitos dos Bodhisattvas:

Fisicamente utilize o seguinte:


Meras palavras nada realizam.
Será o doente tratado
Só por ler a receita médica?

Então, não basta ter o remédio; para ser curado é preciso administrá-lo corretamente
e seguir os conselhos do médico. Você deve aplicar o seu conhecimento no significado
das instruções orais para pacificar esta doença dos enganos e colocar estas instruções
em prática. Em Os Grandes Estágios do Caminho [de Tsongkapa] encontramos:
Com o estudo vem a compreensão, mas ela deve ser utilizada. É, portanto, vital
colocar em prática o máximo possível do que estudou.
Em O Sutra de Súplica ao Altruísmo diz o seguinte sobre as pessoas cujos hábitos
tem sido o de ter uma longa lista de iniciações e ensinamentos recebidos, mas nada
colocar em prática:

A casca da cana-de-açúcar não tem suco algum;


O gosto delicioso está dentro.
As pessoas que mastigam a casca não conseguem
Descobrir o sabor da cana-de-açúcar.
Agora, a casca é como meras palavras;
O sabor é pensar no significado.

Em outras palavras, tais pessoas são como quem deseja cana-de-açúcar mas estão
mais apegados ao gosto da casca – e será só o que comerão da cana.

Eles são como pessoas que vão assistir uma peça teatral,
Como pessoas que cantam louvores a outros heróis.
Eles perderam as essências,
Como o perigo de ser super apegados a ensinamentos orais.

Eles são como pessoas que imitam os atores numa peça. Você não deve praticar só
estudando; deve tentar colocar os estudos em prática. Se não fizer isto, o Dharma o
torna intratável e quase mais nada. Estudo demais e muito pouca prática é chamado de
“causa para tornar-se inflexível com o Dharma.” Nos primeiros estágios dos estudos, a

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meditação parece ser apenas de benefício marginal para sua mente. Mas seus estudos
causarão menos impacto ainda se não levá-los adiante através de freqüentes meditações
e reflexões. Eventualmente se cansará dos ensinamentos, mesmo se forem as instruções
mais profundas. Os seus estudos não trará nenhum benefício ao seu contínuo-mental.
Você terá se tornado inflexível com o Dharma, e como disse o Acharya Bararuchi em
Cem Versos:

O monge que largou os mantos,


A mulher que abandonou três maridos,
O chacal que escapou da armadilha --
Conheça bem estes três tipos astuciosos!

Os antigos Kadampas costumavam dizer:

O Dharma domará os pecadores


Mas ninguém inflexível com o Dharma.
O óleo amacia o couro
Mas não a pele usada para carregar manteiga24

Em outras palavras, isto é o pior que poderia acontecer. Se pessoas que se tornaram
inflexíveis a outros ensinamentos receberem ensinamentos do Lam-rim, elas podem ser
subjugadas; mas se forem inflexíveis também com o Lam-rim, é bastante impossível
subjuga-las. Você deve, portanto, cuidar deste ponto.
Estude qualquer coisa que vai praticar, e relacione ao seu próprio contínuo-mental
tudo que estudar. O rei do Dharma, Dromtempa, disse o seguinte da necessidade de
combinar estudo, contemplação e meditação:

Quando estudo, aumento minha contemplação e meditação.


Quando contemplo, aumento meu estudo e minha meditação
Quando medito, aumento meu estudo e contemplação.
Eu acrescento todos eles a uma única base;
Portanto sei como usar o Dharma como o meu caminho,
Sou um Kadampa e não faço as coisas pela metade.
As pessoas que usam grandes viseiras se enganam;
Aqueles que compreendem bem isto, são Kadampas.

Se leprosos com mãos e pés deformados tomarem remédio só uma ou duas vezes,
as suas condições não mudam; eles precisam tomar um remédio poderoso durante um
longo período. Vimos sofrendo a doença crônica e virulenta dos enganos desde os
tempos sem princípio, e não basta colocar o significado de uma instrução em prática
apenas uma ou duas vezes. É preciso que haja um esforço sério – tão constante quanto
24
N.T. Os tibetanos carregam a manteiga em recipientes feitos de couro que com o uso ficam extremamente rígidos.

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o fluir de um rio. Acharya Chandragomin disse:

Mas a mente tem estado sempre cega


Com esta doença crônica e duradoura;
Como poderia um leproso com mãos e pés mutilados
Tirar algum benefício de seu remédio
Se toma-lo apenas umas poucas vezes?

É preciso colocar tudo imediatamente em prática, assim como Geshe Chaen Ngawa.
Ele estava lendo um trecho do vinaya que discute couro e peles; e leu que era proibido
o manuseio do couro por alguém ordenado. Na ocasião, ele estava sentado num tapete
de couro. Ele imediatamente retirou-o. Continuando a leitura, viu que esta regra pode
ser relaxada em países remotos onde os seres ordenados podem lidar com couro. Então,
ele pegou o couro e recolocou-o em seu assento.

(E) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE SEU GUIA ESPIRITUAL É UM


SER SANTO COMO OS TATHAGATAS

A primeira pessoa a ensinar o Dharma foi o nosso Mestre o Buda, e ele próprio
manifestou o caminho e seus resultados. Ele ensinou o Dharma adequadamente aos
outros, e os pontos que ensinou de como modificar nosso comportamento são
inequívocos. Portanto, ele é uma autoridade. Ao lembrar estes fatos sobre o Buda,
deve-se sentir, “Como poderiam estar equivocados os seus ensinamentos do Dharma?”
Podemos ir além e compará-lo com a atitude de que um ser santo que ensina na mesma
tradição seja um Tathagata. Deve-se então pensar “Este santo ser – o meu guru – é uma
emanação do Tathagata Shakyamuni."

(F) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE O DHARMA DEVE


PERMANECER POR MUITO TEMPO

Esta atitude, que resulta de ouvir o Dharma, é o pensamento “Como seria


maravilhoso se os ensinamentos do Vitorioso fossem preservados neste mundo por
muito tempo!”
As cinco primeiras atitudes são exemplos de recordar a bondade do Tathagata.
[Esta] sexta atitude é a meditação em retribuir a bondade do Buda.
Ouvir o Dharma é crucial. A razão de assistir os ensinamentos é trazer alguma
pressão sobre o seu contínuo-mental, caso contrário sua mente continuaria como está.
Se não experimentou nenhuma mudança após ouvir um ensinamento, então não houve
benefício algum para você embora as instruções possam ter sido especialmente
profundas e você tenha ouvido atentamente. Um exemplo: você precisa olhar no
espelho para ver se seu rosto está limpo, depois pode remover qualquer sujeira que
encontrar. Você examina o seu próprio contínuo-mental no espelho do Dharma: você

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ouve o Dharma para saber se sua mente tem algumas falhas. Se descobrir algo, deve
ficar aflito e pensar, “Minha mente chegou até isto!” Então, vai querer fazer o possível
para se livrar das falhas. Os Contos de Jataka diz:

Quando vejo a forma de meus maus atos


Claramente no espelho do Dharma;
Minha mente fica atormentada;
Irei agora me voltar para o Dharma.

Sudasaputra – também conhecido como Príncipe Kalmashapada – disse isto ao


Príncipe Chandra. Esta estória serve de exemplo a todos nós.
Quando o Abençoado Buda ainda era um Aprendiz trilhando o caminho, ele
renasceu como o Príncipe [Bodhisattva] Chandra. Havia um homem chamado
Sudasaputra, que costumava matar pessoas e comer suas vítimas. Um dia, o príncipe
entrou num bosque e um brâmane eloqüente veio até ele. Enquanto o príncipe recebia
ensinamentos de Dharma deste brâmane, repentinamente, ouviram um enorme barulho.
Algumas pessoas foram enviadas para ver o que estava acontecendo e descobriram que
Sudasaputra estava chegando.
Os seguranças do príncipe disseram, “Sudasaputra Kalmashapada come gente. Ele é
um homem a ser temido; nossos exércitos se retiraram com todos os nossos cavalos,
elefantes e charretes. O que vamos fazer? Chegou a hora de conversar com ele.”
Esta idéia agradou ao príncipe e, surdo às suplicas de suas esposas e súditos, foi até
onde vinha o grande clamor. O príncipe viu Sudasaputra perseguindo o exército do rei
com fúria, com sua espada e escudo ao alto. Mas o príncipe destemidamente e sem
hesitação disse: “Eu sou o Príncipe Chandra. Venha a mim.”
Sudasaputra partiu em direção ao príncipe dizendo enquanto corria: “ É você que eu
quero!” Ele jogou o príncipe sobre os ombros e correu com ele até seu covil. Este lugar
terrível estava cheio de esqueletos humanos; o chão estava todo vermelho e todo o
lugar ressoava com gritos sombrios de carnívoros ferozes como chacais, abutres e
rapinas. O covil estava preto de fumaça de cadáveres assados. Sudasaputra colocou o
príncipe no chão e descansou – mas com seus olhos fixos no belo corpo do príncipe.
O príncipe pensou para si, “Eu não tive oportunidade de fazer um oferecimento
àquele eloqüente brâmane no bosque pelo Dharma que recebi.” E este pensamento o fez
chorar.
“Pare com isso!” disse Sudasaputra. “Príncipe Chandra, você é afamado por não se
deixar perturbar. Que estranho chorar agora que o capturei. Eles dizem, ‘A capacidade
de não se perturbar é inútil quando se sente dor. Os estudos não ajudam se você sofre.
Todos tremem ao ser abatidos.’ Você sabe, eu acho que isto é verdade. Diga-me
honestamente: você tem medo que eu vá matá-lo? Você tem medo de se separar de seus
amigos, parentes, esposas, filhos e pais? Diga a verdade: porque está chorando?”
“Eu estava recebendo o Dharma de um brâmane,” respondeu o príncipe, “mas não
consegui fazer um oferecimento a ele. Deixe-me ir dar algo a ele e eu definitivamente

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voltarei para cá.”
Então, Sudasaputra disse, “Não importa o que você diga, isto não pode ser verdade.
Depois de ser salvo uma vez das garras do Senhor da Morte, quem voltaria à sua
presença?”
“Eu não lhe dei a minha palavra e prometi voltar? Eu sou o Príncipe Chandra, e
valorizo a verdade tanto quanto a minha própria vida.”
“Eu não confio no que diz; mas estou disposto a experimentar. Volte e veremos se o
que diz realmente é verdade. Volte, complete o seu negócio com o brâmane – seja o
que for – e depois volte rapidamente. Eu estarei preparando o fogo para assá-lo. Vou
esperá-lo.”
O príncipe voltou para casa e deu ao brâmane quatro mil onças de ouro como
pagamento para os quatro versos que o brâmane havia ensinado. O pai do príncipe
tentou por vários meios impedi-lo sem conseguir. O príncipe voltou ao covil.
“Você parece surpreso de me ver à distância,” disse o príncipe, “agora você pode
me comer.”
“Sei que chegou a hora de comê-lo,” respondeu Sudasaputra, “mas o fogo está
soltando muito fumaça. Se eu assar a sua carne agora, a carne ficaria estragada e
cheirando a fumaça. Enquanto isto, o que foi que o brâmane disse que você valorizou
tanto? Eu gostaria que você me ensinasse.”
“As palavras eloqüentes do brâmane mostraram como distinguir entre o Dharma e o
não-Dharma. As suas maneiras são piores do que os rakshas carnívoros. Que benefício
teria com o estudo?”
Sudasaputra não suportou este comentário, “Pare! Vocês reis matam gazelas com
suas armas. Certamente isto vai contra o Dharma!”
“Os reis que matam gazelas infringem o Dharma,” respondeu o príncipe Chandra,
“mas comer carne humana é pior. Os humanos são superiores às gazelas. E se é errado
comer a carne de alguém que morreu de morte natural, como poderia matar e comer
pessoas ser algo correto?”
Sudasaputra então disse, “Se voltou a mim, você não aprendeu muito com as
escrituras.”
“Eu voltei para manter a minha palavra, portanto eu aprendi muito com as
escrituras.”
“Os outros homens tinham medo quando eu os tinha em minhas garras. Mas você
provou ser um herói, você não perdeu a compostura. Você não tem medo de morrer.”
“Aqueles homens estavam cheios de remorso porque haviam cometido ações
nocivas,” disse o príncipe. “Mas não há ação nociva que eu me lembre de ter cometido.
Portanto, não temo. Eu me ofereço a você pode me comer.”
A esta altura, Sudasaputra havia desenvolvido fé no príncipe. Seus olhos estavam
cheios de lágrimas e os pelos de seus corpos arrepiados. Ele olhou o príncipe com
admiração e falou de seus pecados. Sudasaputra disse, “Cometer deliberadamente uma
ação nociva contra você seria como beber um poderoso veneno. Por favor, ensine-me o
que o brâmane tão eloqüentemente lhe ensinou.” Então ele recitou o verso acima:

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Quando vejo a forma de meus maus atos
Claramente no espelho do Dharma;
Minha mente fica atormentada;
Irei agora me voltar para o Dharma.

Príncipe Chandra viu que ele havia se tornado um recipiente adequado ao Dharma,
e disse:

Beba o néctar destas palavras


Enquanto estiver sentado num assento baixo
Enquanto maravilhosamente subjugado em suas maneiras
E os seus olhos brilhando de alegria.

Desenvolva respeito, ouça uni-focadamente.


Escute estas palavras como um paciente atento ao médico,
E tire delas a inspiração imaculada.
Ouça o Dharma com reverência.

Sudasaputra estendeu seu manto numa pedra achatada e convidou o Príncipe


Chandra para se sentar. Ele sentou-se na frente do príncipe e, enquanto contemplava
sua face, disse: “Oh Nobre, ensine-me agora.”
Então, o Príncipe Chandra começou:

Não importa quantos desejos tenha,


Você só precisa conhecer um homem santo apenas uma vez.
Não é preciso que o conheça há muito tempo;
Isto ainda o fará ser imperturbável.

E assim continuou. Ele domou a mente de Sudasaputra com o ensinamento do


Dharma. Sudasaputra, para retribuir esta gentileza, presenteou Chandra com noventa e
um príncipes que ele mantinha prisioneiros para devorá-los; ele prometeu guardar um
comportamento correto e, a partir de então, abandonar matar qualquer ser senciente e
de comer carne humana.
Então, quando ouvir o Dharma, investigue a sua própria mente o tempo todo. Se
fizer isto, o seu contínuo-mental será domado – mesmo se for tão selvagem quanto o de
Sudasaputra. Mas se permanecer intocável pelo Dharma enquanto ouvir, não vai ter
benefício algum, não importa a qualidade do lama, não importa a penetração das
instruções.
Ao ouvir o Dharma algumas pessoas pensam, “O que ele dirá que eu já não
conheço, ou já não estudei?” Ouvir assim não traz benefício algum. Outros só prestam
atenção em anedotas interessantes, e não levam a sério alguns pontos profundos das

70
instruções. Um exemplo: Quando Kelsang Gyatso, o Sétimo Dalai Lama, dava um
ensinamento de Lam-rim, ouviu-se um homem comentar: “Hoje foi realmente muito
informativo! O Dalai Lama nos disse que a Fortaleza Lundrub no Distrito de Pempo
também era conhecida como “Fortaleza Mayi Cha.”
Outros ficam observando se os ensinamentos do lama seguem os textos. Lama
Tsechogling Rinpoche, tutor de um dos Dalai Lamas, disse “Atualmente os discípulos
parecem verificar a precisão dos lamas.” Ouvir um ensinamento assim nunca trará
benefícios. É muito importante observar a sua mente enquanto escuta. Quando os lamas
ensinam o Lam-rim, sua maior preocupação não deve ser se eles cometem algum erro;
eles ensinam principalmente para domar os contínuos-mentais de seus discípulos.
Num ensinamento os discípulos não devem ouvir da maneira descrita acima.
Qualquer coisa que o lama falar deve desafiá-lo. Você deve ouvir principalmente para
domar sua mente. Se agir assim, desenvolverá as suas primeiras realizações durante
aquele ensinamento. Isto é algo que não acontece quando um lama visita o seu quarto e
você oferece uma tigela de chá – mesmo se ele for um lama que dá ensinamentos
sentado num trono alto. Mesmo ao estudar sozinho, seus estudos não causam o mesmo
impacto que ouvir um ensinamento.
Tudo que Geshe Potowa ensinava beneficiava as mentes das pessoas – até suas
anedotas sobre pássaros. Havia também um grande estudioso chamado Geshe Chokyi
Oezer, mas suas instruções não eram benéficas para a mente, mesmo as mais profundas
ou vastas. Algumas pessoas mencionaram isto a Potowa, e Potowa disse, “Todos os
ensinamentos dele são excelentes, mas há uma diferença entre a maneira como
ensinamos.” Pediram a Potowa para explicar mais. “Ele ensina para comunicar fatos,
enquanto todo o meu Dharma é direcionado para dentro. Esta é a diferença.”
Geshe Chokyi Oezer ouviu o comentário e foi receber ensinamentos de Geshe
Potowa. Os ensinamentos provaram ser muito benéficos, mesmo não havendo nada no
ensinamento que ele já não soubesse. Geshe Chokyi mais tarde comentou,
“Compreendi coisas que nunca havia compreendido antes.”
Devemos fazer como Geshe Dromtempa ensinou:

Explicarei o que significa “gurus Mahayana.” Eles dão infinita


compreensão às pessoas. Ensinam qualquer prática que será útil após os
ensinamentos. E ensinam qualquer coisa que trará benefício direto.

A frase “após os ensinamentos” foi interpretada de várias maneiras. Segundo a


tradição oral de meu próprio precioso guru, significa que, não importa quanto Dharma
você ensine, ele deve ser do maior benefício para o contínuo-mental do discípulo
depois que o ensinamento terminou.
Este conjunto específico de títulos contém as instruções de como ouvir os
ensinamentos no caminho. Como eu já disse, um erro neste ponto poderia ser
desastroso, assim como foi dito que se tomarmos a data errada para o primeiro dia do
mês lunar, erraremos o décimo quinto dia [lua cheia]. Independente de quão vastos ou

71
sejam os ensinamentos do Dharma que receba, você poderá transformá-los num
demônio; e o Dharma só alimentaria os seus enganos. Eu penso que isto é muito
comum. Devemos cuidar disto com seriedade.

3.2 COMO ENSINAR O DHARMA

Isto tem quatro partes: (1) pensando nos benefícios de ensinar o Dharma; (2) sendo
respeitoso com o Dharma e seu mestre; (3) o que pensar e fazer enquanto ensina; (4) a
diferença entre quem você deve e quem você não deve ensinar.

PENSANDO NOS BENEFÍCIOS DE ENSINAR O DHARMA

É vital que quem estiver ensinando o Dharma não transforme o ato de dar o Dharma
aos outros em algo motivado por enganos. [Vasubandhu] diz em Um Tesouro de
Metafísica:

O generoso ato de dar o Dharma aos outros


Não deve ser um ato com enganos.
Ensine corretamente os sutras e outros ensinamentos puros.

Se ensinar com a esperança de ganhar oferecimentos, ou para que seus discípulos


rendam-lhe respeito, ou para se tornar famoso e conhecido como erudita e coisas assim,
os seus ensinamentos, em vez de benéficos serão prejudiciais. Até seus méritos vão
declinar. Você deve ensinar compassivamente pelo bem de seus discípulos, e não
considerar quaisquer efeitos kármicos que possa receber do ato de dar o ensinamento.
Como disse Chuzang Lama Rinpoche Yeshe Gyatso:

Eu o ouvi dando
Ensinamentos e iniciações:
Ele faz isto bem
Mas me deixa doente
No mais fundo do coração,
Quando ele ansiosamente
Recebeu garantias de doações.

Em outras palavras, isto não deve acontecer: um ensinamento é muito benéfico


quando o mestre não se importa com oferecimentos materiais:

O Sutra da Súplica do Altruísmo menciona vinte benefícios:

Maitreya, qualquer ato de dar o Dharma, feito sem desejo de receber


oferecimentos materiais ou de ser respeitado, tem vinte benefícios. Quais

72
são eles? São: a pessoa terá boa memória; terá discernimento; ficará
inteligente; será firme; terá sabedoria; obterá realização completa da
sabedoria transcendental; o apego diminuirá; a hostilidade diminuirá; sua
ignorância profunda diminuirá; não será perturbado por demônios;
receberá a atenção dos Budas; receberá proteção de não-humanos; os
deuses concederão seus brilhos; desafetos não levarão a melhor; não será
separado de seus entes queridos; suas palavras terão peso; terá destemor;
terá a mente mais pacificada; será louvado pelos estudiosos; o seu ato de
dar o Dharma será digno de ser lembrado.

O primeiro dos benefícios, ter boa memória, significa que não esquecerá do
Dharma. Ter discernimento se refere à convicção que se ganha nas formas supremas de
meditação. Ter inteligência se refere à convicção que se ganha com as contemplações
mais habituais. Firmeza significa que você não poderá ser influenciado. Ter sabedoria
se refere à sabedoria mundana adquirida nos caminhos de acumulação e preparação;
sabedoria supramundana é a sabedoria adquirida durante os caminhos da visão e da
meditação.
Seis destes vinte benefícios são resultados que correspondem à causa inicial. Quatro
outros benefícios resultam dos estados de separação. Seis benefícios são resultados
ambientais e há um resultado de maturação kármica. [mais detalhes no Dia Treze]

Pabongka Dorge Chang na realidade falou mais longamente deste assunto do que aqui
registrado.

Outros benefícios são mencionados em O Sutra Solicitado por Ugra, onde diz que
uma pessoa ordenada adquire mais méritos através do ato dar até mesmo um verso de
Dharma, do que uma pessoa leiga pode receber com inúmeros atos de generosidade
material.
Você deve ter estes benefícios em mente. Assim, vai querer ensinar e sentirá que a
sua própria felicidade resultará disto. Estes benefícios não vêm apenas de ensinar o
Dharma de um trono alto de meditação. Mestres que instruem seus alunos também
recebem estes benefícios. Quando recitar um texto do Dharma, você deve imaginar que
está lendo para uma audiência de deuses, nagas (seres semelhantes a serpentes),
criaturas, etc. que estão todos ao seu redor. Você receberá os mesmos benefícios se
fizer isto. Faça o mesmo ao memorizar um texto. Você receberá estes benefícios de
suas conversas com outras pessoas se ensinar os pontos-chaves de como modificar o
comportamento. Mas note: faz também uma diferença se você for o guru da pessoa ou
não.

SENDO RESPEITOSO COM O DHARMA E SEU MESTRE

Ngawang Dragpa de Dagpo disse: “O Buda, nosso Mestre, arrumou o seu próprio

73
trono quando ensinou a 'sagrada mãe.' ” Isto é quando o Bhagavan ensinou o conjunto
dos Sutras da Sabedoria da Perfeição, ele fez para si um trono de ensinamentos com
suas próprias mãos – mãos que carregavam as marcas e sinais de um Buda e eram tão
belas quanto um ramo estendido de uma árvore dourada. Quando o Dharma merece este
respeito até mesmo dos Budas, devemos ensiná-lo realmente com grande reverência.
Quando aconteceu a primeira assembléia budista, Ananda e os outros oradores
foram sentados em cima de quinhentos mantos de açafrão fornecidos pelos outros
Arhats. Fizeram isto por respeito à grandeza do Dharma que estava sendo ensinado.
(Aqui, devo acrescentar que os três mantos de um monge era a roupa adotada por Buda,
mas muitos monges atualmente usam seus mantos para limpar objetos ou como
almofada. É muito errado fazer isto.)
O Dharma deve ser respeitado por causa de sua grandeza. Vocês devem recordar as
boas qualidades de nosso Mestre e a sua bondade, e desenvolver respeito.

O QUE PENSAR E FAZER ENQUANTO ENSINA

1) O QUE PENSAR:

Ngagwang Dragpa de Dagpo disse:

Abandone a mesquinhez, o auto-elogio,


Sonolência ao ensinar; discutir os defeitos alheios,
Adiar ensinamentos, e ciúmes.
Tenha amor por seus seguidores, e ensine adequadamente
Enquanto mantém as cinco atitudes.
Pense que a virtude lhe concederá a felicidade.

Ou seja, você não deve esconder os pontos-chaves das instruções, pois isto seria
uma forma de avareza com os ensinamentos. Durante seus ensinamentos de Dharma,
você não deve fazer auto-elogios dizendo, “No passado eu fiz isto e aquilo, etc.” Você
não deve ficar sonolento enquanto ensina. Não deve discutir os defeitos alheios com
apego ou hostilidade como motivação. Não deve ter preguiça e adiar um ensinamento
porque realmente não quer ensiná-lo. E, deve abandonar o ciúme que surge porque
suspeita que outros estão sendo promovidos.
Você deve ter amor e compaixão fortes para com seus ouvintes; e deve também
manter as cinco atitudes. Estas cinco são as mesmas que as seis atitudes acima,
omitindo a atitude de que a prática diligente do Dharma vai curá-lo. Em outras
palavras, estas cinco atitudes são: eles são os pacientes, o Dharma é o remédio, você é o
médico, e assim por diante. Você deve então sentir que a virtude que resulta de ensinar
corretamente enquanto mantém estas cinco atitudes lhe dará felicidade.
A razão porque uma das seis foi omitida é porque ela se aplica mais aos discípulos
do que ao mestre.

74
2) O QUE FAZER ENQUANTO ENSINA:

Você deve lavar-se antecipadamente; sua aparência deve ser limpa com roupas
novas. Sente-se em um trono elevado. As suas maneiras devem ser alegres. Ensine por
meio de analogias, citações, e lógica formal para que o significado fique claro.
Mesmo assim, fico muito encabulado e meio infeliz de sentar neste trono alto
quando há altos lamas encarnados sentados abaixo de mim. Mas, devo sentar-me aqui
em respeito à grandeza do Dharma. De fato, é maravilhoso que este costume não tenha
morrido nas províncias Central e de Tsang. Como uma estória conta, se este costume
não fosse mais seguido, e o lama se sentasse em um trono baixo para ensinar, as
pessoas estranhariam ouvir: “Eu recebi esta linhagem de vários grandes lamas.”
“As suas maneiras devem ser alegres" significa que deve sorrir aos seus discípulos
enquanto ensina. Longdoel Lama Rinpoche por outro lado costumava ralhar com seus
discípulos e ameaçá-los com uma vara na mão enquanto ensinava.
Se confundir-se com a ordem dos títulos, os ensinamentos serão tão confusos
quando o ninho de um corvo. Se omitir os pontos difíceis e só ensinar as partes fáceis,
os seus ensinamentos serão como mingau de um velho. Os mestres que não
compreendem corretamente o significado interno do ensinamento e precisam recorrer a
palpites são como pessoas cegas dependendo de suas bengalas. Isto é errado.
Meu próprio precioso guru, meu refúgio supremo, contou-me o seguinte. Quando
estiver pronto a ensinar o Dharma, acerte a sua motivação corretamente enquanto
caminha de seu quarto ao local do ensinamento. Imagine que os gurus-raiz da linhagem
do Dharma que vai ensinar estão sentados no seu trono, um guru sobre o outro.
Prosterne-se três vezes ao trono. Os gurus se fundem nos outros, um por um;
finalmente todos se fundem em seu próprio guru raiz. Enquanto sobe no trono, o seu
próprio guru se funde em você. Depois, quando sentar-se, estale seus dedos e recite um
verso sobre a impermanência, como o seguinte:

Como lamparinas flamejantes


Que duram poucos minutos,
A felicidade é uma ilusão
E dura como uma bolha, um sonho,
Um relâmpago ou um dia.
Todos os fenômenos são assim.

Você deve sentir, “Isto é só por uns poucos minutos, é apenas algo impermanente.”
Você deve suprimir qualquer opinião inflada de si mesmo, senão, como disse meu
lama, você pode desenvolver orgulho ao sentar no trono elevado e sentir, “Agora sou
alguém importante!”
Dizem que se deve recitar mantras para derrotar os demônios, mas tradicionalmente
recitamos O Sutra do Coração e batemos palmas três vezes. Je Drubkang Geleg Gyatso

75
costumava seguir a tradição de usar melodias e cânticos lentos para os seis ritos
preparatórios. De fato, quando deu um ensinamento de Lam-rim, ele adotou ritmos bem
lentos para estes ritos. Algumas pessoas pediram-lhe para encurtar os ritos
preparatórios, porque estavam prolongando o ensinamento. Ele respondeu, “O que é
isso? Todo o sucesso do ensinamento depende dos ritos preparatórios.” E ele não os
encurtou.
Como já disse, pode-se desenvolver o primeiro tipo de realização do Lam-rim
durante este ensinamento. Mas deve-se dar uma oportunidade para que as realizações se
desenvolvam, e seu desenvolvimento depende de se construir as acumulações [de
mérito e sabedoria primordial], purificar obscurecimentos, fazer súplicas em orações, e
coisas assim. Este é o pensamento por trás da prática preparatória durante os
ensinamentos. Não se deve ficar distraído o tempo todo – os olhos vagando, a boca
recitando fórmulas automaticamente – durante os ritos. Leve a sério esta acumulação de
méritos, auto-purificação, e súplicas, pois são cruciais para desenvolver alguma
compreensão dos tópicos de meditação enquanto assiste os ensinamentos.
Agora, voltando a como conduzir um ensinamento. Após oferecer uma mandala-
mundial [Dia Cinco], toque a sua cópia do texto à sua cabeça [em respeito e como uma
benção], e acerte novamente a sua motivação. Reze para que o que está prestes a fazer
beneficie o contínuo-mental de seus ouvintes. A prática de Dubkang Geleg Gyatso era
fazer estas orações não só quando tocava o livro à sua cabeça, mas também quando
colocava o seu chapéu.
Agora, a maioria de vocês sabe que quando um ensinamento está para ser dado, há
uma ligeira mudança no verso do refúgio. Este verso normalmente é:

Até atingir a iluminação, eu me refugio


No Buda, Dharma e Assembléia Suprema.
Pelos méritos adquiridos pela generosidade, e outras
Que eu alcance a Budeidade pelo bem de todos os seres.

O Lama diz, “Pelos méritos adquiridos através do ato de dar o Dharma...” enquanto
os discípulos dizem, “Pelos méritos adquiridos através de ouvir o Dharma...”
Outra coisa que devo mencionar é a tradição de ler em voz alta parte do texto do
Lam-rim a ser ensinado naquele dia. Considera-se melhor que quem estiver dando o
ensinamento faça a leitura todos os dias, ou pelo menos uns dois dias e depois a tarefa
fique a cargo de um dos seus principais discípulos. De qualquer forma, era preciso
contar quais são as tradições.
Enquanto ensinar, deve imaginar que deuses como Indra, nagas e outros espíritos
vieram ouvir. Você deve fazer o gesto de dar o Dharma enquanto recita o verso,
“Deuses e espíritos...” Aparentemente, os deuses não suportam sentar no chão. Então o
guru deve imaginar que está dando-lhes permissão para permanecer no ar e ouvir. As
pessoas que sustentaram a responsabilidade de preservar a doutrina devem guardar no
coração estas tradições.

76
A DIFERENÇA ENTRE QUEM VOCÊ DEVE E QUEM VOCÊ NÃO DEVE
ENSINAR

Em geral, conforme está dito em A Transmissão do Vinaya: “Não ensine nada que
não tenha sido pedido.” Ou seja, não é correto ensinar algo que não foi solicitado. E
não deve também concordar imediatamente a ensinar no momento em que é feito o
pedido. Você deve dizer, movido por modéstia, “Eu não compreendo este assunto
corretamente, portanto não posso ensiná-lo,” ou “Como eu poderia ensinar isto a
pessoas tão elevadas como vocês.” Você deve testar o desejo das pessoas de ter um
ensinamento, e só ensinar quando tiver certeza que sejam recipientes adequados. O
Sutra Soberano da Concentração Uni-focada diz:

Prakasha, diga-lhes primeiro estas palavras: “Eu sou inexperiente.”


Depois, se você for conhecedor e habilidoso,
Diga-lhes, “Como posso discutir isto
Perante pessoas elevadas como vocês?”

Mas, você é obrigado a ensinar certas pessoas algo não solicitado se existir motivo
imperativo para fazê-lo. Como disse Je Tsong Khapa, “Conhecendo um recipiente
adequado, ensine mesmo sem ser solicitado.”
Está dito que você também deve seguir as vinte e seis regras estabelecidas no
vinaya: não deve ensinar a pessoas que estejam sentadas enquanto você ainda estiver de
pé ou a pessoas reclinadas [no chão]; ou a pessoas que ocupam um assento mais
elevado, [e assim por diante].
Chegamos, então, ao nosso terceiro título principal.

3.3 O QUE DISCÍPULOS E MESTRE DEVEM FAZER JUNTO NO FINAL

Após oferecer uma mandala de agradecimento, o mestre e a audiência devem


dedicar os méritos-raiz que adquiriram durante o ensinamento para o progresso dos
ensinamentos e para a própria e completa iluminação, recitando A Oração de Lam-rim
[da obra de Tsongkapa, Os Grandes Estágios do Caminho].
As pessoas não devem sair todas juntas apressadamente quando o tempo do
ensinamento acabar. A prática é que sair em fila um por um, como que sentindo pesar
de separar-se do guru e seus ensinamentos.

77
ORAÇÃO DE LAM-RIM
Lama Tsong Khapa

Pelas duas acumulações que reuni com muito esforço e por tanto tempo,
Que preenchem uma vastidão como o céu,
Possa eu tornar-me um Vitorioso, poderoso, líder de seres
Àqueles cujos olhos mentais estão fechados pela ignorância.

A partir de agora e por todas as minhas vidas,


Que Manjushri cuide de mim com carinho.
Que eu encontre o caminho supremo de todos os ensinamentos,
Pratique-o e agrade a todos os Vitoriosos.

Usando o que tiver realizado sobre os pontos do caminho,


Possa eu afastar a escuridão mental dos seres
Através do amor poderoso e de meios hábeis honestos;
Possa eu sustentar por longo tempo a doutrina do Vitorioso.

Em qualquer lugar onde os ensinamentos preciosos cheguem,


Ou nos locais onde eles declinem,
Possa eu, movido por grande compaixão.
Derramar luz sobre estes tesouros benéficos.

Pelas surpreendentes boas obras dos Vitoriosos e seus Filhos


E a excelente prática do caminho à iluminação em estágios,
Possam as mentes dos buscadores de liberação ser enriquecida
E os feitos dos Vitoriosos persistirem por muito tempo.

Que tudo conduza à prática do caminho salutar;


Que o que não conduz seja afastado,
Em todas suas vidas, que todos os humanos e não-humanos
Não sejam afastados do caminho louvado pelos Vitoriosos.

Sempre que os ritos preparatórios do Veículo Supremo


Forem praticados corretamente com [muito] esforço,
Possam os poderosos sempre proclamá-lo,
E um oceano de auspiciosidade permeie todas as direções

78
Segunda Parte:
OS RITOS PRELIMINARES

79
DIA QUATRO

Pabongka Dorje Chang começou o ensinamento da seguinte maneira:

Como disse o glorioso Chandrakirti:

Agora que você tem liberdade,


Agora que está num estado favorável,
Se não tirar proveito
E perder a sua liberdade
Caindo nos reinos inferiores,
Quem irá levantá-lo novamente?

Em outras palavras, agora estamos livres de estados desafortunados porque


recebemos o renascimento humano perfeito; somos livres para praticar o Dharma. Mas se
não tirarmos proveito de nossa situação para alcançarmos nossa eterna esperança, vamos
cair novamente nos sofrimentos dos reinos inferiores, onde não seremos afortunados o
bastante nem para ouvir a palavra “Dharma.” Se cairmos em tal estado, quem será capaz
de nos tirar de lá? Então, enquanto ainda estamos livres, devemos tentar alcançar a nossa
esperança eterna, haja o que houver. Poderíamos realizar esta esperança por meio do
Lam-rim. Devemos portanto sentir, “Eu alcançarei a Budeidade pelo bem de todos os
seres sencientes; então vou ouvir e colocar em prática estes ensinamentos dos estágios do
caminho a iluminação.”
Só após acertar a sua motivação desta maneira, é que deve ouvir este ensinamento. E
qual é o ensinamento que está ouvindo? É o Dharma da tradição do Veículo Supremo, o
Dharma que leva os afortunados ao estado de Buda.
Depois desta introdução, Pabongka Rinpoche repassou os títulos já transmitidos até
aqui. Ele também reviu brevemente o material ensinado ontem. Então, começou o
ensinamento do dia:

IV - A SEQUÊNCIA DE TRANSMITIR OS ENSINAMENTOS AOS


DISCÍPULOS

Isto está subdividido em: (1) a raiz do caminho: devoção a um guia espiritual, e (2) o
correto treinamento a seguir após confiar no guia espiritual.
Estes títulos foram tirados dos textos do grande Tsongkapa. Eles ensinam um dos
pontos mais cruciais para nossa prática. As palavras “a raiz do caminho” afirma o
seguinte. Todas as folhas, frutos, ramos, e tronco de uma árvore são resultado de suas
raízes. Todas as compreensões e realizações – desde a dificuldade de obter o perfeito
renascimento humano até a unificação do Não-Mais-Aprendiz – de forma semelhante,
derivam exclusivamente da nossa devoção a um guia espiritual. A palavra após em “o
correto treinamento a seguir após confiar no guia espiritual” nos diz que ação deve vir

80
primeiro. Afirma que receberemos todas as realizações até a unificação quando tivermos
a devoção correta ao nosso guia espiritual. Assim, é vital logo de início, ter a devoção a
um guia espiritual.
Os primeiros três títulos principais que já cobrimos são também encontrados em Os
Grandes Estágios do Caminho. Os títulos que seguem são diferentes; eles são tirados dos
ensinamentos concisos.

4.1 A RAIZ DO CAMINHO: A DEVOÇÃO AO GUIA ESPIRITUAL

Isto tem duas partes principais: (1) o que fazer durante suas sessões de meditação. (2)
o que fazer entre as sessões de meditação.
O ponto mais importante está aqui nestes dois títulos, um destinado às sessões de
meditação e o outro aos intervalos entre as meditações. Toda rotina diária de uma pessoa
pode ser dividida em períodos, e cada um destes períodos pode ser dividido entre o que
acontece durante as sessões de meditação e o que acontece fora das sessões. Assim, cada
ação de seu corpo, palavra e mente ocorre num desses períodos de meditação ou períodos
entre as sessões de meditação. Se tornar estes períodos frutíferos, todo o dia se torna
frutífero. Estenda isso por um período de meses, anos, etc., e toda a sua vida se torna
significativa. Isto é crucial.

O QUE FAZER DURANTE SUAS SESSÕES DE MEDITAÇÃO

Este título tem três passos: (1) os ritos preparatórios; (2) como fazer a parte principal
da sessão; (3) o que fazer na ultima parte da sessão.
É errado dar pouca atenção aos preparativos. Se quiser fazer uma boa xícara de chá,
por exemplo, você deve levar a sério o ato de comprar chá. De forma semelhante, se
quiser desenvolver experiências religiosas durante a parte principal da sessão de
meditação, antes você deve fazer corretamente os ritos preparatórios.

1) OS RITOS PREPARATÓRIOS

São seis: (1) limpar o quarto e arrumar os símbolos do corpo, palavra e mente
iluminados; (2) obter oferecimentos honestamente e arrumá-los harmoniosamente; (3)
adotar a posição de sete-pontos de Vairochana, sentado num assento confortável, e depois
tomar refúgio, desenvolver a bodhicitta, etc., com um estado mental especialmente
virtuoso; (4) fazer súplicas ao campo de mérito; (5) oferecer a oração de sete ramos e
mandala – práticas que contém todos os pontos-chaves para acumular [méritos] e auto-
purificação; (6) outras súplicas feitas, segundo as instruções orais, para assegurar que seu
contínuo mental foi adequadamente impregnado [pelas suas meditações].

81
(A) LIMPAR O QUARTO E ARRUMAR OS SÍMBOLOS DO CORPO,
PALAVRA E MENTE ILUMINADOS

Guru Suvardnavipi, segundo sua biografia, costumava limpar seu próprio quarto. A
origem desta prática é um sutra que afirma: “O Bodhisattva senta de pernas cruzadas num
ambiente limpo.”
A razão de limpar o seu quarto e a seguinte. Se seu guru ou alguma autoridade lhe
fizesse uma visita, você faria uma boa limpeza, não é? Similarmente, quando convida seu
guru, os Vitoriosos e seus Filhos ao seu quarto [durante a meditação], você deve limpá-lo
em seu respeito.
Não haverá benefício algum se o fizer com a mesma motivação dos faxineiros leigos
de Potala, Sera ou Drepung, por exemplo, porque eles fazem seus trabalhos pelas suas
próprias felicidades, ou para impressionar os outros. Ao contrário, você deve sentir que
está fazendo-o em respeito ao campo de mérito, que convidará ao seu quarto como
prelúdio de um tópico de meditação específico do Lam-rim; você estará meditando para
alcançar a Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes. E muito benéfico pensar
assim.
Um sutra fala de cinco benefícios: a sua mente fica clara, as mentes dos outros ficam
claras, agrada os deuses, acumula-se karma para ser belo, e quando deixar este corpo
renascerá nos reinos celestiais. Meu próprio precioso guru disse-me que os deuses que
sustentam a virtude estão constantemente visitando os reinos humanos e protegendo
quem pratica o Dharma corretamente. Mas não limpar seu quarto desencoraja-os e eles
não podem oferecer proteção, porque evitam coisas que não estejam limpas. Limpar seu
quarto agrada o seu guru, os Budas e assim por diante, e não apenas os deuses que
sustentam a virtude.
Você acumula karma para ser belo. Isto se refere não só à beleza física, mas também
será causa de ter uma ética pura. Ética pura não faz o corpo bonito, mas é algo muito belo
para a percepção dos Budas e seus Filhos. Como disse Tsongkapa:

Os perspicazes se vestem com a modéstia:


Isto e ética – e não cetins finos.
A eloquência adorna suas gargantas – e não um colar.
Seu guru e sua jóia suprema – e não uma pedra qualquer.

Dizem que renasceremos nos reinos celestiais, mas devemos considerar isto como
sendo, acima de tudo, os campos búdicos.
Arya Chudapanthaka alcançou o estado de arhat limpando o quarto. Vou contar
rapidamente a sua estória.
Na cidade de Shravasti, houve certa vez um brâmane. Todos os seus filhos morreram
ao nascer. Uma das velhas da vizinhança disse-lhe, “Se tiver um outro filho, me chame.”
O brâmane teve outro filho, então chamou a mulher. Ela disse-lhe para lavar o bebê,
envolvê-lo em tecido branco, encher sua boca com manteiga e entregá-lo a uma menina

82
para cuidar. O brâmane foi instruído a dizer à menina para levar o bebê a uma certa
encruzilhada onde quatro estradas se encontravam. Ela deveria render respeito a qualquer
homem santo ou brâmane que passasse, dizendo-lhes, “Este bebê rende homenagem aos
seus nobres pés.” Se o bebê sobrevivesse, ela deveria voltar com ele ao entardecer; se
morresse, ela deveria abandoná-lo.
A menina foi conscienciosa e passou o dia na grande encruzilhada. Primeiro alguns
sacerdotes Tirtikas passaram, e a menina seguiu as ordens da velha senhora. Os
sacerdotes disseram, “Que esta criança sobreviva, que sua vida seja longa, e os desejos de
seus pais se realizem.”
Mais tarde passaram alguns monges, que disseram quase a mesma coisa. A menina
então levou a criança até a estrada do Bosque Jetavana. Ela encontrou Buda em sua ronda
de esmola, e fez o mesmo que antes. Buda disse o mesmo que os outros, acrescentando,
“Que seus pais tenham todos seus desejos do Dharma satisfeitos.”
Ao entardecer, a menina viu que o bebê ainda vivia, então levou-o de volta para casa.
O bebê recebeu o nome de Mahapanthaka [Grande Estrada], porque havia sido levado à
estrada. Mahapanthaka cresceu e tornou-se um sábio em todos os ramos do saber védico.
Ele ensinou os ensinamentos esotéricos a cem meninos brâmanes.
O brâmane teve outro filho, e novamente chamou a anciã. A mesma rotina se repetiu,
mas desta vez o bebê ficou com uma menina preguiçosa que só levou o bebê até uma
pequena viela. Nenhum homem santo ou brâmane passou por lá. O Buda, que
constantemente olha por todos os seres, noite e dia, sabia que ninguém passaria na viela,
então foi ate lá. A menina rezou para ele, e ele respondeu com as mesmas palavras que
antes. Mais tarde, ela viu que a criança ainda estava viva e levou-a para casa. Ele foi
chamado de Chudapanthaka [Pequena Estrada]. Quando cresceu, tentou aprender a ler.
Ele precisava aprender palavras como siddham, mas quando lia a sílaba sid se esquecia
do dham. Quando conseguia lembrar-se do dham, havia se esquecido do sid. O mestre de
Chuda disse a seu pai, o brâmane, “Preciso ensinar muitos outros meninos brâmanes. Não
posso ensinar este menino.”
Chudapanthaka foi enviado a um declamador profissional dos Vedas para ler.
Primeiro ele estudou a palavra om blu. Quando aprendia o om, se esquecia do blu.
Quando aprendia o blu, se esquecia do om. Isto levou seu mestre ao desespero. O mestre
disse ao pai do menino, “Seu outro filho Mahapanthaka compreende com um mínimo de
instrução, mas eu não posso ensinar a este – tenho que ensinar a outros meninos.”
Então o nome Chudapanthaka passou a significar “lerdo”, “o mais lerdos dos lerdos”,
“pequeno” e “o menor dos pequenos.”
Depois os pais dos dois Panthakas morreram. Mahapanthaka tornou-se budista e
monge. Ele tornou-se um estudioso das três cestas e um Arhat. A herança de
Chudapanthaka acabou e ele foi ao encontro de seu irmão mais velho. Mahapanthaka
examinou seu irmão para ver se ele tinha algum potencial para o Dharma. Maha
descobriu que ele mesmo poderia desenvolver o potencial do irmão e então ordenou
Chuda.
Chuda passou os próximos três meses tentando aprender este verso:

83
Não deixe seu corpo, palavra ou mente pecar.
Fique livre do desejo que aflige todo mundano
Tenha memória, esteja vigilante;
Evite tudo que prejudica, e qualquer sofrimento.

Os vaqueiros da redondeza ouviram o verso e até eles conseguiram aprender, mas


Chuda não conseguia.
Um dia Arya Mahapanthaka pensou, “Como posso domar Chuda? Devo elogiá-lo ou
insultá-lo?” Ele percebeu que insultá-lo seria mais efetivo, então repreendeu Chuda,
agarrou-o pelo colarinho e levou-o até o Bosque Jetavana.
Maha disse, “Você é o mais lerdo dos lerdos. Não sei porque fui ordená-lo. Fique
aqui!”
Chuda pensou para si, “Agora já não sou um asceta. Nem mesmo sou mais um
brâmane,” e chorou.
Buda, o nosso Mestre, foi até ele movido por grande compaixão.
“Panthaka, porque esta chorando?” perguntou Buda.
“Meu abade me insultou.”

Buda disse:

Qualquer coisa louvado pelos chulos


É depreciado pelos sábios,
É melhor ser depreciado por um sábio
Do que ser louvado por um chulo.

“Meu filho, o seu abade não suportou tantas dificuldades durante três incontáveis
eons para completar as seis perfeições. Ele não compôs um verso para você – eu, sim.
Não poderá o Tatagatha ensinar-lhe e ler?”
"Oh, monge," disse Chudapanthaka, "Eu sou o mais lerdos dos lerdos, o menor dos
menores. Como poderia aprender a ler?"
Buda, nosso Mestre, respondeu:

O chulo que sabe que é um chulo


É verdadeiramente um sábio
O chulo que se orgulha de sua erudição
É o maior chulo de todos.
Buda então deu as seguintes palavras para Pathanka memorizar: “Abandone a sujeira,
abandone as máculas.” Mas novamente isto foi demais para Chudapanthaka. O Bhagavan
Buda então pensou, “Vou purificá-lo deste seu karma.”
“Panthaka, você pode engraxar as sandálias dos monges?” perguntou Buda.
Chuda respondeu, “Oh sim, monge, eu posso.”

84
“Então engraxe as sandálias e os sapatos dos monges,” disse o Buda. “Vocês monges
devem deixá-lo fazer isto para que ele possa purificar o seu karma. Vocês devem recitar
estas palavras para que eventualmente ele acabe aprendendo.”
Então, quando Chuda havia aprendido esta segunda recitação, o Buda disse-lhe,
“Você não precisa mais engraxar as sandálias. Faça a segunda recitação enquanto varre o
templo.”
Agora que Chuda tinha recebido a tarefa de varrer o templo, ele desenvolveu
perseverança enquanto varria. Mas quando acabava de varrer o lado direito, o lado
esquerdo já tinha ficado sujo, e quando acabava de varrer o lado esquerdo, o lado direito
já estava novamente sujo. Isto acontecia pelo poder do Buda. Mesmo assim, Panthaka
persistiu, e seu karma e obscurecimentos foram purificados. Então, teve o pensamento,
“Quando o Mestre disse, ‘Abandone a sujeira, abandone as máculas,’ será que ele estava
se referindo à sujeira interna ou externa?" Então, surgiu em sua mente três versos que ele
nunca ouvira antes:

Aqui, “sujeira” é apego, não sujeira.


“Sujeira” é um nome para apego, não sujeira.
Os sábios rejeitam este tipo de sujeira.
Eles seguem escrupulosamente os ensinamentos do Sugata.

Aqui “sujeira” é hostilidade, não sujeira


“Sujeira” é um nome para a hostilidade, não sujeira.
Os sábios rejeitam este tipo de sujeira.
Eles seguem escrupulosamente os ensinamentos do Sugata.

Aqui “sujeira” é ignorância profunda, não sujeira...

E assim por diante. Ele tentou compreender estes versos e através de suas meditações
alcançou o estado de arhat.
Aliás, é assim que os versos aparecem no sutra. Os textos dos ritos preparatórios, e a
tradição oral dos gurus, dão a seguinte versão para os versos:

“Sujeira” não é a sujeira do chão:


É a sujeira do apego.

Em termos de prática, isto é mais fácil de compreender. Mas ainda assim, é melhor
consultar a versão original.
Buda então anunciou a todos as boas qualidades de Panthaka dizendo, “Ananda, vá e
diga a Panthaka, ‘Você deve ensinar o Dharma às monjas.’ e também diga às monjas, ‘O
seu mestre agora é Panthaka.’”
Panthaka compreendeu que Buda estava agora anunciado suas boas qualidades, então
prometeu cumprir o que lhe foi pedido.

85
As monjas ficaram espantadas com a notícia e disseram, “Vejam como estão rindo de
nós mulheres! Ele não conseguia aprender nem mesmo um único verso em três meses.
Como poderia ensinar a nós, que sustentamos os três cestos?”
Mais tarde algumas delas disseram, “Vamos fazer algo para não termos que agüentar
esse ignorante.” Doze monjas se reuniram. Algumas construíram um trono extremamente
alto, mas sem escadas. Outras foram até à grande cidade de Shravasti e anunciaram a seus
habitantes, “Amanhã nosso mestre estará nos visitando. Ele é um dos maiores Shravakas.
Vamos ouvir o seu Dharma. Quem ainda não viu a verdade [ou seja, quem não alcançou
o caminho da visão] deve vir e ouvi-lo para que não fiquem vagando longamente no
samsara.”
Centenas de milhares de pessoas foram ao ensinamento. Alguns foram buscando
diversão, outros na esperança de acumular virtudes raiz. Naquele dia Panthaka saiu para
esmolar. Depois, liderou os outros monges, depois de terem saído do estado de absorção
meditativa, até a casa de retiro de monção das monjas onde iria ensinar o Dharma. Assim
que se aproximou do trono, viu que era muito alto. E pensou, “Ou elas tem muita fé em
mim, ou estão me testando.” Ele entrou em absorção meditativa por um instante, e viu
que estavam testando-lhe. Ele esticou seus braços, como um elefante estica a tromba, e
puxou o trono para baixo. Algumas pessoas viram isto e outras não. Ele se sentou no
trono e novamente entrou em absorção meditativa. Do trono, Panthaka subiu até o céu e
produziu os quatro tipos de emanações milagrosas em cada um dos quatro pontos
cardeais do compasso. Estas voltaram e se absorveram nele, e agora o seu trono passou a
ser sustentado por leões.
“Irmãs,” ele começou, “eu demorei três meses para aprender um único verso. Agora,
durante os próximos sete dias e noites, vou explicar o seu significado. O Baghavan disse,
‘Não deixe seu corpo, palavra ou mente pecar.’ Ele estava nos ensinando a abandonar as
dez não-virtudes. Quando ele disse, ‘todo mundano,’ ele se referia aos cinco agregados. A
palavra ‘aflige’ refere-se ao apego, hostilidade e profunda ignorância que aflige estes
agregados...”
Ele só ensinou detalhadamente o significado da primeira metade deste verso, e
mesmo assim doze mil seres chegaram a ver a verdade [suprema]. Outros manifestaram
um dos quatro tipos de resultados [tornando-se O-Que-Entrou-na-Corrente, O-Que-
Retorna-Uma-Vez, O-Que-Não-Mais-Retorna, ou um Arhat]. Algumas pessoas tornaram-
se Shravakas, outras Pratyekabuddhas, e ainda outras entraram no Mahayana; cada uma
desenvolveu o desejo de conseguir seu tipo específico de iluminação [como um Arhat
Mahayana ou Hinayana]. A maioria dos presentes desenvolveu fé nas Três Jóias. Quando
Panthaka voltou mais tarde ao Bosque Jetavana, o Mestre Buda declarou, “Entre meus
Shravakas, Panthaka e o mais hábil em converter pessoas.”
Portanto, é errado sentir, “A meditação tem mais valor; ações como varrer tem pouco
valor.” Mesmo Anathapindika [o homem que doou o Bosque Jetavana à Sangha]
costumava aparecer todos os dias para varrer o bosque. Um dia ele estava muito ocupado
para ir, e como não havia mais ninguém para varrer em seu lugar, o próprio Buda – como
relatam os sutras – segurou uma vassoura comum em suas mãos douradas e varreu o

86
bosque.
Meu próprio precioso guru costumava me dizer que as várias reencarnações do
onisciente Dalai Lama tinha o hábito de praticar os ritos preparatórios. De tanto varrer,
eles gastavam suas vassouras e não sobravam pelos – as vassouras pareciam rabos de
asnos. Muitas delas foram preservadas com fitas amarelas amarradas nos cabos para
mostrar que certa vez foram propriedades do Dalai Lama. Isto é um detalhe biográfico
muito importante; demonstra que principiantes como nos devemos levar estas coisas a
sério.
É melhor varrer seu quarto antes de cada sessão de meditação, quer o quarto precise
ou não. No mínimo, deve varrer seu quarto todos os dias. De qualquer forma, a sua
motivação deve ser a que expliquei acima. Imagine que está varrendo para fora as
máculas obscurecendo os contínuos-mentais dos outros seres sencientes e o seu. Imagine
que as varridas da vassoura estão aperfeiçoando, amadurecendo, e purificando, fazendo
com que seu quarto seja purificado num campo búdico. Você deve recitar algo enquanto
varre, assim como Chudapanthaka feza. Você pode dizer, “Abandone a sujeira, abandone
as máculas,” ou melhor ainda:

Aqui, “sujeira” é apego, não sujeira.


“Sujeira” é um nome para apego, não sujeira.
Os sábios rejeitam este tipo de sujeira.
Eles seguem escrupulosamente os ensinamentos do Sugata.

Repita o verso, substituindo “apego” por “hostilidade” e “ignorância profunda.”


Quando tiver se especializando nas práticas relacionadas à sua devoção a um guia
espiritual, o verso passa a ser: “Aqui,
‘sujeira’ é falta de fé, não sujeira...” Na realidade, você pode fazer a sujeira representar
qualquer coisa – até o aferramento dualista. Você deve saber como modificar a recitação
para se adequar à prática específica que na ocasião estiver fazendo.
Se estiver muito velho ou doente para varrer, peça a um de seus discípulos para fazê-
lo; enquanto ele varre, recite os versos e faça as visualizações.
A profundidade de sua motivação também fará uma enorme diferença no benefício
que você consegue com cada golpe da vassoura.
Você deve colocar quatro pedras fora de seu quarto e imaginar que elas são os quatro
maharajas.25 Ou pode visualizar uma pedra como sendo os quatro mahajaras. Você pode
até visualizar a pedra como sendo Vaishravana sozinho. Dizem que é muito importante
fazer estas visualizações porque você não terá nenhum impedimento e sua ética será pura.
Se viver em um grande mosteiro, talvez não seja conveniente colocar pedras do lado de

25
Marcadores de pequenas pedras, palhas colocadas num jarro ou imagens tsa-tsa de argila, são normalmente colocadas do
lado de fora de uma sala de retiro para marcar as fronteiras do retiro, a menos que esteja sendo conduzida dentro de um
mosteiro. Neste caso, não é possível colocar um marcador na verdadeira fronteira do retiro, então coloca-se no parapeito
na janela da cabana. Para um retiro de Lam-rim, estes marcadores são visualizados como os quatro maharajas, os
guardiãos das quatro direções cardeais de cada sistema-mundial, para afastar interferências. Quando apenas um marcador é
usado, ele é visualizado como Vaishravana, o protetor do Leste e também da ética e riqueza material.

87
fora de seu quarto. Neste caso, visualize as paredes externas de seu quarto como os
maharajas; esta tradição oral específica vem de Purchog Ngagwang Jampa.
Vamos agora ver como os símbolos do corpo, palavra e mente iluminados são
arrumados. O guru, a deidade de meditação, etc., devem seguir a mesma ordem da
visualização do campo de mérito [Dia Cinco]. Mas você pode se afastar um pouco desta
ordem se eles não couberem no altar. Algumas pessoas pensam que é mais efetivo rezar
aos protetores do Dharma, espíritos-reis, espíritos de poder e coisas assim; e dão a eles
uma posição mais proeminente do que a estátua de Buda. Já vi isto várias vezes. Isto é
sinal de que estas pessoas não tomaram refúgio adequado: o ato de tomar refúgio não está
dentro de seus contínuos-mentais. Algumas pessoas dão o lugar principal a qualquer
estátua feita de ouro, prata ou bronze; mas colocam as estátuas de argila no fim da fila.
Isto é um sinal que só consideram estas figuras como pedaços de propriedade. Também
não é correto arrumar as pinturas religiosas segundo a antigüidade. Algumas pessoas até
penduram suas pinturas nas cortinas que usam como porta. Como poderia isto estar certo?
Há pessoas que dormem com os pés apontando para as imagens de Budas e Bodhisattvas.
Isto é muito desrespeitoso – um claro sinal de que não tomaram refúgio. Outros tratam
estátuas, pinturas, etc. velhas e esfarrapadas como sujeira, abandonando-as em algum
santuário à beira de estrada. Dizem que isto é como tirar seus méritos de dentro de sua
casa. Você deve considerar estas estátuas e imagens como se realmente fossem aquele
Buda ou Bodhisattva específico.
Talvez não tenha muitos destes símbolos de corpo, palavra e mente iluminados, mas
para simbolizar o corpo iluminado, você deve usar definitivamente a imagem de nosso
Mestre, o Buda, para se lembrar dele, bem como uma imagem de Je Rinpoche para se
lembrar de seu guru. Um pequeno sutra ou cópia do Lam-rim serve como símbolo da
palavra iluminada. Um “tsa-tsa” [pequeno cone de argila formando uma stupa] servirá
para simbolizar a mente iluminada. Se tiver um vajra e sino, eles poderiam simbolizar a
mente iluminada. Algumas pessoas parecem considerar vajra e sino apenas como
implementos simbólicos manuseados por deidades; na realidade eles representam a mente
iluminada. E um grave ato subvalorizar seu vajra e sino.
Você não precisa arrumar seu altar todos os dias, mas deve considerar as imagens em
seu altar como verdadeiras quando olhá-las.
É errado sentir que você já viu as imagens em seu quarto tantas vezes que já se
cansou delas. Todas as vezes que vê-las durante o dia, você é inundado de instintos
extraordinariamente fortes. Dizem que é dezesseis vezes mais benéfico olhar uma
representação do Buda do que olhar a figura verdadeira. Como está dito no Sutra do
Lótus Branco:

Se alguém olha a imagem do Sugata numa parede


[Mesmo] estando num estado mental de raiva,
Eventualmente chegará a ver dez milhões de Budas.

Na realidade o sutra diz, “Se alguém faz oferecimento à imagem do Sugata...”; a

88
versão que citei segue a tradição oral. Se nos dizem que é benéfico olhar a imagem do
Buda quando estamos com raiva, pense nos benefícios que recebemos olhando-as com fé!
Arya Shariputra era um dos dois principais discípulos de Buda e estava constantemente
ao seu lado. Isto é considerado como resultado de uma ação feita numa vida passada: ele
olhou um desenho do Buda e ficou maravilhado.
Arya Shariputra era um mensageiro naquela vida passada. Certa noite viu um templo
e entrou. Ele acendeu uma lamparina bem brilhante e começou a consertar suas botas
enquanto descansava. Ele viu o mural do Tathagata na parede oposta, e pensou, “Que ser
maravilhoso! Eu gostaria muito de encontrá-lo pessoalmente.” Ele fez orações silenciosas
e dizem que, como resultado, tornou-se um dos principais discípulos do Buda.
Agora vemos Budas feitos de argila, bronze, etc., mas quando tivermos a
concentração uni-focada chamada “a corrente do Dharma,” veremos nirmanakayas
supremos [corpos de emanação]. E quando alcançarmos o primeiro dos dez níveis de
Bodhisattva, encontraremos os sambhogakayas [corpos de utilidade]. E por isso é
importante manter a atitude de que as estátuas de Budas são Budas verdadeiros.

(B) OBTER OFERECIMENTOS HONESTAMENTE E ARRUMÁ-LOS


HARMONIOSAMENTE

Aqui, “honestamente” se refere a uma ausência de duas coisas: Falsidade com


respeito aos objetos sendo oferecidos e motivos falsos.
“Falsidade com respeito aos objetos sendo oferecidos” significa que alguma ação
errada foi cometida para obter o oferecimento. Isto é, ou uma pessoa ordenada conseguiu
o objeto por meio dos cinco meios de vida errado, ou uma pessoa leiga obteve-o por meio
de tirar a vida, negociatas ou algum outro meio nocivo.
É melhor não fazer um oferecimento de tais objetos. A palavra em sânscrito para
“oferecimento” e “puja”, que tem a conotação de “agradar.” Então, o oferecimento que
fizer deve agradar os Vitoriosos e Seus Filhos. Como poderia agradá-los oferecendo este
tipo de coisa? Mesmo assim, se já tiver obtido oferecimentos das maneiras descritas
acima, é bom oferecê-las como meio de purificar a ação negativa que naturalmente seguiu
o ato de adquirir estes bens.
Os cinco meios de vida errôneos são: bajulação, insinuação, dar para receber,
pressionar os outros, mostrar o melhor comportamento.
“Bajulação” é o seguinte: Você elogia seu benfeitor, por exemplo, na esperança de
receber algo em troca. Se ele realmente lhe der algo, o ato de bajulação tornou-se um
meio de vida errado. Mas, se elogiar alguém sinceramente e sem a motivação acima, não
é um meio de vida errado, mesmo se receber alguma coisa dele.
“Insinuação” é contar ao seu benfeitor coisas como: “Eu tenho chá e manteiga no
momento, mas não tenho muitos grãos,” com a esperança de conseguir um presente. Ou
você pode dizer, “A farinha de centeio que me deu no ano passado foi uma ajuda
enorme.” Em outras palavras, você está insinuando que quer grãos ou farinha de cevada.
Mas, se falar destas coisas com toda honestidade e sem qualquer motivação de receber

89
um presente, então não será “insinuação.”
“Dar para receber,” é dar alguma bagatela para receber algo melhor. Por exemplo,
você pode levar ao seu benfeitor um lenço cerimonial ou um pote de chá, ou qualquer
outra coisa, para que ele o recompense ou faça um oferecimento ao seu mosteiro em seu
nome. Em outras palavras, você usou o presente como meio de conseguir algo melhor.
Atualmente chamamos isto de “mordendo a isca.” Hoje em dia as pessoas estão bem
espertas em cometer este tipo de meio de vida errado. Mas, presentear seus benfeitores
sinceramente e sem esta motivação, não é um meio de vida errado – mesmo se eles o
recompensar.
“Pressionar os outros” significa importunar alguém por algo que ele não quer dar, ou
fazer alguém dar-lhe algo que iria dar a outra pessoa. Ou, você poderia dizer coisas como,
"Meu benfeitor fulano-de-tal me deu chá e manteiga realmente bons.” Mas se disser estas
coisas sinceramente, sem a intenção de receber presentes, não é meio de vida errado de
“pressionar os outros.”
“Mostrar o melhor comportamento,” significa fazer o que gosta na privacidade de seu
quarto, mas agindo, na frente de seus benfeitores, como um bom monge que observa
todas as normas, com a esperança de receber algo por causa de seu comportamento
disciplinado. Mas meu próprio precioso lama, meu refúgio e protetor, me disse que se não
tiver estas intenções, mas sentir que “Não seria correto perturbar esta pessoa leiga,” e
comportar-se como um bom monge – contrastando com a maneira com que se comporta
em casa – você não esta “mostrando o seu melhor comportamento.”
Um outro ponto: se pessoas ordenadas, como nós, quebrarem as restrições relativas
aos três tipos de votos que tomamos e obterem ganhos materiais pela venda de coisas,
sofreremos conseqüências pesadas se usarmos estes materiais nos oferecimentos.
“Motivos falsos” sifnifica fazer oferecimentos movido pelo desejo de fama ou para
impressionar os outros. Em outras palavras, as ações são influenciadas por más
motivações. Como disse Drogen Rinpoche: “Até os oferecimentos que faz às Três Jóias
só são feitos para serem vistos pelos outros.” Em outras palavras, todo oferecimento que
fazemos é feito com o desejo de fama, auto-progresso, e coisas assim. Caímos novamente
nas oito preocupações mundanas. Certamente é melhor fazer oferecimentos com a
motivação de simplesmente querer uma vida longa ou ficar livre de doença. Algumas
pessoas dizem que estão fazendo oferecimentos a Sangha motivadas por profundo
respeito pela Sangha, e não na esperança de receber méritos. Na realidade, estão fazendo-
o principalmente por reputação.
Se estivesse esperando alguém em sua casa hoje, você varreria com mais cuidado e
colocaria mais oferecimentos em seu altar do que normalmente faz. Você não ofereceria
só uma lamparina, e encheria a casa com incenso aromático. Mas é difícil dizer se você só
está querendo impressionar a sua visita, ou se o oferecimento vai lhe beneficiar ou
prejudicar. Geshe Ben Gungyel soube que um benfeitor vinha visitá-lo. Geshe Ben
arrumou os melhores oferecimentos que conseguiu encontrar para oferecer às Três Jóias.
Depois, sentou em sua almofada de meditação e examinou sua motivação. Ele viu que
havia feito o oferecimento para impressionar seu benfeitor. Então, pulou de seu assento e

90
jogou cinzas em cima de todo o oferecimento, dizendo, “Oh monge! Não tente enganar-
se!” E deixou os oferecimentos cobertos de cinzas.
Padampa Sangye ouviu isso enquanto estava em Langkor, no Alto Dingri, e em
louvor disse que, de todos os oferecimentos feitos no Tibet, o mais nobre era de Ben
Gungyel. As pessoas perguntaram porque isto era assim. Padampa respondeu que o geshe
havia conseguido encher de cinzas a boca das oito preocupações mundanas. Padampa
estava extremamente feliz, mas obviamente não estava elogiando os oferecimentos que
Geshe Ben havia feito originalmente. Ele estava louvando o ato de cobrí-los com cinzas!
Então e muito importante fazer um oferecimento junto com bodhicitta. Não faça as
oito preocupações mundanas a sua motivação, nem faça oferecimentos para conseguir um
renascimento superior, a excelência definitiva [da liberação], e coisas assim.
Nos dizem para “arrumá-los harmoniosamente.” Algumas pessoas podem pensar, “Eu
não quero impressionar os outros,” e podem arrumar seus oferecimentos de qualquer
jeito. Você não deve fazer isto: deve se esforçar para arrumá-los da forma mais bonita
possível. Nos dizem que arrumar belamente seu altar agirá como causa para as marcas e
sinais de um Buda quando se iluminar.
Você mesmo deve colocar os oferecimentos; se mandar seus discípulos ou
empregados arrumar os oferecimentos, você não receberá nenhum dos méritos. Quando
Atisha estava extremamente doente, ele mesmo oferecia as tigelas de água embora suas
pernas estivessem sem firmeza. As pessoas diziam-lhe “Oh, Atisha, isso é demais para
você. Nós podemos fazer isto por você.”
A resposta de Atisha era, “Então, quando eu como você não deveria me dizer, ‘Oh
Atisha, isto e muito difícil,’ e comer a minha porção de comida por mim?”
Quando os Dharmarajas da Índia antiga praticavam grandes atos de generosidade,
eles não mandavam algum ministro ou outra autoridade distribuir os presentes. Mas, o
rajá construía um pavilhão e se sentava dentro dele cercado por pilhas de jóias para
distribuição, que ele mesmo pessoalmente entregava. Isto era chamado de “prática
extraordinária de generosidade.” Então é muito importante colocarmos os oferecimentos
com nossas próprias mãos.
Você também deve oferecer a primeira porção de sua comida – mas apenas a melhor
parte; você não deve oferecer legumes murchos ou, caso seja rico, a parte bolorenta de
seu tue [um doce tibetano].
Temos a tendência de guardar a melhor manteiga e farinha de cevada para nosso
próprio uso, e deixar de lado a pior parte dizendo, “Isto é para os oferecimentos!” Isto não
seria igual a varrer nossos méritos? Mesmo assim, lamparinas de manteiga são
oferecimentos de luzes e não de manteiga derretida, então alegam que não tem problema
oferecer manteiga um pouco rançosa.
Não é preciso sentir-se intimidado com tudo isso se você for pobre. Tendo
abandonado levar uma vida normal pode levá-lo a pensar que não tem nada a oferecer.
Mas se sua fé for forte o bastante, você também poderá fazer oferecimentos, mesmo se
não tiver nada que possa dar. Como disse o grande Atisha:

91
A água no Tibet tem oito propriedades, então basta oferecer tigelas de água no
Tibet. Se existisse na Índia algumas destas flores silvestres, as pessoas dariam
ouro por elas.

Então, você pode não ter nada a oferecer, mas ainda pode ter grande força atrás de sua
acumulação de méritos se só oferecer tigelas d’água.
Agora discutirei estas oito propriedades da água. Seguirei as explicações de meu
próprio e precioso guru sobre os benefícios karmicos que se ganha de cada uma destas
oito propriedades. Em O Comentário ao Tesouro de Metafísica de Vasubandhu, de
Jampelyang, estas oito propriedades são explicadas:

Fresca, deliciosa, leve, e suave,


Clara, sem odor, fácil para a garganta,
E boa para o estômago é a água
Com as oito propriedades.

Os oito benefícios [karmicos] correspondentes são os seguintes. Sua ética será pura
porque a água oferecida é fresca. Por ser deliciosa, você apreciará os alimentos mais
deliciosos. A leveza da água significa que sua mente e corpo ficarão em forma. A
suavidade da água resulta num contínuo-mental gentil. Uma mente clara resulta da
clareza da água. Sua ausência de odor purificará seus obscurecimentos [kármicos]. Como
a água não fere o estômago, seu corpo estará livre de doenças. Ser fácil para a garganta
significa que você terá voz agradável.
Quando Drubkang Geleg Gyatso entrou pela primeira vez numa casa de retiros do
Mosteiro Sera Je, ele tinha muitos poucos pertences e mantimentos. Ele nem mesmo tinha
um conjunto de tigelas para seus oferecimentos de água. Para fazer o oferecimento, ele
tinha de dar uma boa lavada em sua tigela de comida e então colocar o seu oferecimento
de água dentro. Se quisesse beber chá, primeiro pedia licença às Três Jóias para pegar a
tigela emprestada. Ele usava a tigela e quando acabava de tomar seu chá, lavava
novamente a tigela e fazia outro oferecimento de água.
Você pode oferecer mentalmente qualquer coisa. Pode ser flores de verão, frutas,
água clara e fresca, e coisas assim. Meu próprio precioso guru me disse, “Você pode
também consagrar os oferecimentos recitando o mantra para aumentar os oferecimentos
[Dia Cinco] e depois dedicar a virtude. Busque detalhes na biografia de Tridagpo
Tsepel.” De qualquer forma, a sua fé e o principal fator – não o que você esta oferecendo.
Alguns podem pensar que basta oferecer água, flores, etc.26, o que pode levá-los a
pensar se poderiam reservar as coisas realmente valiosas para seus próprios fins. Tais
pensamentos poderiam causar seu renascimento como fantasma faminto. Você deve
oferecer o melhor do que tiver.
Alguns monges comuns que renunciaram a todo trabalho mundano podem pensar,

26
N.T. - Aqui ele se refere aos oferecimentos tradicionais que são: água de lavar, agua de beber, flores, incenso, luzes,
perfume, comida e música.

92
“Eu não devo fazer oferecimentos materiais. Dizem que seres ordenados devem se
concentrar em oferecer o que conseguiram realizar através de suas práticas [meditativas].
Basta eu fazer este tipo de oferecimento.” Mas se este pensamento levá-lo a nunca fazer
qualquer oferecimento material, então em renascimentos após renascimentos, você nem
mesmo terá pequenas coisas para oferecer!
Se tudo o que tiver a oferecer for pequeninos bolos rituais e meio bastão de incenso,
não subestime o seu valor. Você aumentará os seus méritos se oferecê-los. Mais tarde
este mérito lhe trará bens materiais para fazer oferecimentos mais grandiosos. Isto é
ilustrado pela vida de Geshe Puchungwa. Como o próprio Geshe Puchungwa disse:

No início eu só queimava genciana como incenso; Eu ofereci tanto, que faziam


meus olhos lacrimejar. Mais tarde eu tinha incenso de aroma doce feito dos
quatro ingredientes. Atualmente, eu ofereço a fragrância de myrobalan, duraka
e coisas assim.

De fato, certa vez ele ofereceu incenso que valia vinte e duas moedas de ouro. Mesmo
assim, alguns podem alegar, “Geshe Puchung era um ser realizado que se devotou
inteiramente à meditação. Não espere conseguir a iluminação de tais atos externos.” Uma
alegação destas demonstra como estão pouco familiarizados com o Dharma. Você deve
pensar que os Bodhisattvas que alcançaram um dos dez níveis fazem oferecimentos aos
Vitoriosos durante eons, por meio de centenas de milhares de corpos de emanação, cada
um com centenas e ate milhares de braços. Certamente você deve fazer o maior número
de oferecimentos que puder.
Agora, segue um pouco sobre como fazer oferecimentos. Vamos fazer oferecimentos
de tigelas de água, por exemplo. Você deve limpar bem as tigelas. Deve colocar as tigelas
em uma linha reta. Elas não devem estar muito afastadas umas das outras, porque isto
pode resultar em você se separar de seu guru. Se estiverem muito juntas e se tocarem,
você poderá se tornar lento de inteligência. Se colocar as tigelas fazendo muito barulho,
poderá ficar louco, e coisas assim. Evite fazer estes tipos de coisas. Se colocar as tigelas
enquanto ainda estiverem vazias, os seus méritos diminuirão. Você deve segurar a pilha
de tigelas em sua mão e despejar um pouco de água na tigela de cima.27 Consagre isto
com as três sílabas om ah hum. Despeje quase toda a água na tigela seguinte, deixando só
um pouco na primeira tigela. Coloque a primeira tigela no altar e continue este processo
com todas as tigelas. Assim, não estará colocando tigelas vazias no altar. Depois acabe de
encher as tigelas do altar, evitando segurar o jarro de água só com uma mão, pois isto é
considerado desrespeitoso. Você deve agir como se estivesse servindo chá a um
maharaja.
Um grão de cevada é grosso no meio e fino em ambas pontas; e assim que deve
despejar a água [isto é, no início um pouco, depois bastante, e depois ir afilando]. Se

27
N.T. As tigelas tibetanas próprias para oferecimentos se encaixam uma dentro da outra, cabendo todas elas fácilmente
empilhadas na palma da mão.

93
deixar a água transbordar, pode resultar que a sua ética fique frouxa, mas se as tigelas
forem enchidas insuficientemente, o seu padrão de vida pode declinar. A superfície da
água deve estar abaixo do nível da borda das tigelas em uma distância igual a espessura
do grão de cevada.
Lamparinas de manteiga são oferecimentos de luzes, então elas devem ter uma chama
com muita luz. Dizem que devem queimar o máximo possível, porque isto e um gesto
auspicioso para ter uma vida longa. Você deve decidir por si mesmo como oferecer as
outras coisas, como flores.
Os sutras dizem que cada oferecimento que fizer tem dez vantagens.

(C) NUM ASSENTO CONFORTÁVEL, ADOTAR A POSIÇÃO SENTADA DE


OITO-PONTOS – OU A POSIÇÃO MAIS CONFORTÁVEL – ENTÃO,
TOMAR REFÚGIO, DESENVOLVER A BODHICITTA, ETC., COM ESTADO
MENTAL ESPECIALMENTE VIRTUOSO, CERTIFICANDO-SE QUE ESTAS
PRÁTICAS INUNDAM ADEQUADAMENTE O SEU CONTÍNUO-MENTAL

A parte traseira de sua almofada de meditação deve ser ligeiramente mais alta. Isto
tem um significado tântrico profundo; e também evitará dores em suas nádegas quando se
sentar em meditação por longos períodos.
Debaixo do tapete de sua almofada, você deve desenhar, com giz branco, uma
suástica no sentido dos ponteiros do relógio. A suástica significa a cruz vajra e deve
recordá-lo da passagem da vida de Buda quando ele sentou no trono vajra [em
Bodhgaya]. Simboliza também que a sua prática ficará firme. Mas, não é correto sentar
em uma cruz vajra verdadeira, já que é um dos implementos simbólicos que as deidades
tutelares seguram. Coloque capim durva [um capim longo com muitos segmentos] e
capim kusha sobre a suástica. Mais uma vez, a fonte desta prática é a vida de Buda. O
capim durva aumenta o seu tempo de vida. Está dito nos sutras: “Durva aumenta o tempo
de vida..” Ou seja, a sua vida aumenta ao sentar-se nele. E, também, “Kusha é limpo e
virtuoso.” Em outras palavras, kusha é uma substância que elimina a poluição e a
sujeira.28 Quando os brâmanes indianos recebiam uma poluição de casta, eles passavam a
noite num monte de capim kusha. Espalhe o kusha debaixo de seu assento para eliminar
estas coisas.
A “postura de oito pontos” mencionada no título acima, se refere à postura de sete
pontos de Vairochana, sendo o oitavo ponto o ato de contar a sua respiração. Gyalwa
Ensapa disse:

As pernas, mãos e costas são três,


Que são levados a quatro pelos dentes, lábios e língua.
A cabeça, os olhos, ombros e respiração são outros quatro
Estas são as oito práticas de Vairochana.

28
N.T. O capim kusha é longo e reto, simbolizando também a mente unificada. Este capim macio é muito usado na India
como uma vassoura.

94
As pernas ficam na posição vajra [ou “lótus completo”]. E também permitido sentar
na posição de meio lótus ou simplesmente de pernas cruzadas como a “postura do
Bodhisattva.” Mas, a posição vajra é obrigatória para as meditações tântricas do estágio
de consumação.
Coloque as suas duas mãos na postura de absorção meditativa. A mão direita repousa
sobre a mão esquerda.29 As pontas dos dois polegares se tocam mais ou menos na altura
do umbigo. As suas costas devem estar retas, com as vértebras tão retas quanto uma pilha
de moedas. Dizem que os canais vento-energia são endireitados quando o corpo está reto;
os ventos-energia podem então ser regulados e a mente fica mais maleável.
Os dentes e lábios não devem estar muito fechados nem muito abertos, o melhor e
deixá-los na posição natural. Coloque a ponta da língua em seu céu-da-boca, para que a
sua boca não fique seca. Quando entrar em absorção meditativa profunda, vai evitar
também que a saliva escorra de sua boca.
A sua cabeça deve estar ligeiramente inclinada para baixo, fazendo uma ligeira
pressão em seu pomo-de-adão. Dizem que “os olhos devem estar focalizados na ponta de
nosso nariz”, mas você só precisa realmente focalizar seus olhos para que vejam os dois
lados de seu nariz. O propósito disto é que fica mais fácil cortar o torpor ou agitação
mental [Dia Vinte e Um]. Algumas pessoas fecham bem os olhos quando fazem
visualizações. Isto é incorreto. Outras seitas dizem para dirigir os olhos para cima,
imitando pessoas que possuem as melhores faculdades dos sentidos, cuja percepção é a
percepção do dharmakaya [o corpo da verdade]. Mas isto é estranho à nossa tradição.
Os ombros devem estar nivelados, e não um mais alto do que o outro.
Estes são os sete pontos da postura Vairochana. Eles tem significado da maior
profundidade para o estágio de consumação, mas agora não é hora de falarmos disto. Esta
postura sentada é de importância crucial, como Marpa de Lhodrag diz: “A soma de todas
as meditações tibetanas não se iguala à maneira como eu, Marpa, o tradutor, senta.” A
postura é atribuída ao Buda Vairochana porque ele é o aspecto purificado do agregado da
forma sob o formato de uma deidade.
O oitavo ponto é o ato de contar a sua respiração. Quando a mente primária é não-
virtuosa, os fatores mentais secundários que a acompanham também são não-virtuosos.
Nesta situação, é difícil gerar um estado mental extremamente virtuoso. Por exemplo,
você pode passar mecanicamente pelo procedimento de desenvolver a bodhichitta
enquanto está com muita raiva, e recitar, “Pelo bem de todos os seres sencientes, que
foram minhas mães...” mas você não tentará gerar um estado mental virtuoso enquanto a
mente primária e os fatores mentais secundários que a acompanham permanecerem não-
virtuosos. Você deve, ao contrário, mudar o seu estado mental para um estado neutro.
Suponha que um tecido de algodão seja branco, mas com manchas pretas. É difícil tingi-
lo de outra cor. Mas se lavar bem o tecido na água, ele fica totalmente branco e é muito
mais fácil tingí-lo de vermelho, amarelo, ou de qualquer cor que queira.

29
N.T. Ambas as palmas viradas para cima.

95
O chamado estado mental neutro não é nem virtuoso nem não-virtuoso. É como o
tecido de algodão sem as manchas. Você pode perguntar, “Qual é a técnica para contar a
respiração e mudar o nosso estado mental para neutro?” Dirija a sua mente para dentro e
examine a sua motivação. Se achar que está sob o poder do apego, hostilidade, e coisas
assim, você deve respirar de uma maneira mais relaxada. Não deixe a sua respiração
passar ruidosamente pelas narinas. Ela não deve ser nem muito forte nem muito irregular.
Depois, enquanto inspira, pense, “Eu estou inspirando. Esta é a primeira vez.” Depois,
repita uma segunda vez. Continue a contar, sete, onze, quinze, vinte-e-um, ou quantas
forem, mas não use o seu rosário guardar a conta. Não se deixe distrair de contar. Seres
comuns não conseguem reter duas coisas ao mesmo tempo na mente, e por isso a mente
mudará de um estado hostil ou apegado para um estado neutro.
Dizem que se deve fazer a seguinte visualização. Ao expirar, imagine que os seus
enganos tomam a forma de raios negros situados dentro do ar que sai. Ao inspirar, as
bênçãos dos Vitoriosos e seus Filhos vêm dentro do ar que entra, desta vez na forma de
raios brancos de luz. Mas, isto não é obrigatório, e apenas algo que mostrou ser útil.
Uma vez que a mente tenha se tornado neutra, é mais fácil gerar um estado mental
virtuoso. O meu próprio precioso lama me deu este exemplo. Suponha que seja um
inverno terrivelmente frio, e só há uma almofada no chão – a sua, mas alguém já está
sentado nela. Se você mandá-lo se levantar grosseiramente, ele recusará. Se, em vez
disso, se afastar um pouco e disser, “Que grande coisa está acontecendo ali!” E parecer
dar uma olhada. A pessoa se levantará para ver. Você poderá sentar-se na sua almofada se
for rápido o bastante! De maneira semelhante, é difícil deixar de ter apego enquanto
cultiva um estado mental não-virtuoso, não importa o quanto tente. Se fixar a sua mente
nos movimentos da sua respiração, isto redireciona a mente e pacifica os enganos. Então
é mais fácil gerar um estado mental virtuoso. Mas lembre-se que ainda é fácil gerar um
estado mental virtuoso se a mente primária e os fatores mentais que a acompanham não
forem não-virtuosos; assim, pode ser que não precise contar a respiração. Este é o motivo
de dizer que existem sete ou oito pontos.
Talvez não precise contar a respiração, mas mesmo assim deve gerar um estado
mental virtuoso no início de sua sessão de meditação. Quando começar qualquer prática
virtuosa, é vital acertar a sua motivação corretamente logo no início. O Grande
Tsongkapa escreveu Perguntas sobre o Altruísmo Mais Branco, onde ele indica uma série
de coisas aos mestres de meditação no Tibet. Uma das perguntas foi: “O que é tão
importante no início da meditação quanto as palavras 'em sânscrito' no início de um
texto?30 O Panchen Lama Lozang Chokyi Gyaltsen respondeu esta e outras questões em
seu texto O Riso Melodioso de Lozang Dragpa - Respostas às "Perguntas sobre o
Altruísmo Mais Branco.” Ele disse:

Antes de qualquer meditação [deve-se]


Examinar adequadamente o próprio contínuo mental,

30
Todas as traduções das escrituras Budistas começam com as palavras "Em sânscrito" seguidas pelo título original em
sânscrito; isto garante a sua autenticidade.

96
Assim como as palavras “Em sânscrito”
Devem aparecer no início de um texto.
Foi isto que você quis afirmar, oh guru inigualável.

Em outras palavras, é crucial acertar a sua motivação antes de qualquer meditação.


Encontramos num sutra: “As suas aspirações continuam a ser o principal fator de todo o
Dharma.” Acharya Nagarjuna disse:

A não-virtude segue o desenvolvimento


De apego, hostilidade e ignorância.
A virtude segue o desenvolvimento de falta
De apego, hostilidade e ignorância.

Atisha disse:

“Se a raiz for venenosa, os galhos e as folhas também serão venenosas. Se a


raiz for medicinal, os galhos e folhas também serão medicinais. De maneira
semelhante, se a raiz for apego, hostilidade e ignorância, o que quer que faça
será não-virtuoso.”

Em outras palavras, se estiver motivado por enganos, qualquer estudo, contemplação


ou meditação que fizer só amadurecerá num resultado kármico muito indesejável. Mas se
estiver motivado por pensamentos nobres e cometer algo não-virtuoso como matar, isto
será um grande ímpeto para concluir a sua acumulação [de mérito e sabedoria
primordial].
Quando nosso mestre, o Buda, ainda trilhava o caminho, num de seus renascimentos
ele foi um capitão de navio chamado Mahasattva. Ele foi ao mar com quinhentos
mercadores numa expedição para encontrar jóias. Havia também a bordo um Dravidiano,
chamado Shakti, que estava determinado a matar os quinhentos mercadores. Com grande
compaixão, o capitão matou o Dravidiano para salvar a vida dos mercadores. Mas ele
também tinha uma meta a longo prazo: fez isto para que o homem não renascesse
eventualmente num reino inferior. Dizem que este ato acumulou mais mérito do que
normalmente se poderia acumular por quarenta mil grandes eons. Embora seja impossível
que o resultado de um ato de matar complete a coletânea de méritos, houve um grande
impulso para completar a coletânea por causa da força de sua compaixão motivadora.
A motivação controla tudo: virtude, não-virtude, amadurecimento do karma em
efeitos desejáveis ou indesejáveis, a força relativa do próprio karma, e coisas assim. Certa
vez, na Índia, havia dois brâmanes e um pedinte da casta [real ou militar] “kshatriya”.
Estes brâmanes foram esmolar na hora errada do dia; ninguém deu nada aos brâmanes
porque a Sangha só dava comida depois que já tinha comido. O kshatriya foi mais
habilidoso na escolha do horário: ele foi esmolar quando as sobras estavam para ser
jogadas fora. Como resultado, ele recebeu uma grande quantidade de comida.

97
“Vocês não conseguiram nada?” ele perguntou aos brâmanes.
Eles perderam a calma e disseram: “Se tivéssemos a oportunidade, cortaríamos as
cabeças de todos os homens santos de Shakyamuni e as deixava apodrecendo no chão.”
O kshatriya havia desenvolvido fé [na Sangha] porque havia recebido muita comida.
“Quando eu for rico,” disse, “eu gostaria de dar ao Buda e sua Sangha alimentos com
cem sabores diferentes todos os dias.”
Eles estavam andando enquanto falavam, e todos os três tinham chegado a cidade de
Shravasti. Eles pararam para cochilar em frente a uma árvore. Uma carreta extraviada
passou por eles e as suas rodas deceparam as cabeças dos dois brâmanes.
Mais ou menos ao mesmo tempo, um mercador morreu em Shravasti. Ele não tinha
tido filhos, e todos os homens livres de Shravasti se reuniram para decidir quem tinha
méritos mais grandiosos, pois tal pessoa se tornaria o herdeiro do mercador. Eles
encontraram o kshatriya dormindo; ele sempre estava debaixo da sombra da árvore apesar
das sombras das outras árvores mudarem de lugar. Então, tornou-se chefe dos
mercadores. O kshatriya era tão bom quanto a sua palavra e fez doações ao Buda e a
Sangha. Ele ouviu o Dharma e chegou a ver a verdade. Como está dito naquele sutra
específico:

A mente tem precedência sobre as outras coisas.


A mente trabalha rapidamente; ela é a raiz.
Se sua mente é nociva, tudo o que fizer ou disser
Só trará sofrimento --como os dois homens
Cujas cabeças foram decepadas pelas rodas da carreta.
Se sua mente é purificada, tudo o que fizer ou disser
Só trará felicidade --como o homem
Que era seguido pela sombra da árvore.

Em outras palavras, resultados kármicos tangíveis como estes seguem a motivação –


seja ela boa ou má.
Ainda assim, você não deve ter uma boa motivação só no início de alguma prática
virtuosa; é crucial ter boas motivações o tempo inteiro.
Atualmente, costumamos perguntar as pessoas sobre sua saúde, mas Atisha
costumava perguntar, “Você tem um bom coração?” Como disse Tsonkapa:

Karma preto ou branco


Vem de motivos bons ou maus
Se a motivação for boa
Assim também será o caminho e seus níveis.
Se a motivação for má
Então baixo será o caminho e seus níveis.
Tudo depende de sua motivação.

98
Nossa motivação faz uma diferença enorme no tipo de resultado kármico virtuoso que
vamos receber, e na força destes resultados. Suponha que quatro pessoas estejam
recitando juntas um rosário de preces a Tara. Um tem bodhichitta como motivação. Outro
está motivado pela renúncia. O terceiro anseia por um melhor renascimento. O último só
aspira as preocupações desta vida, boa saúde e coisas assim. Embora os quatro recitem a
mesma quantidade, há uma grande diferença no tipo de resultados kármicos que vão
obter. A recitação da primeira pessoa foi feita com o desenvolvimento da bodhichitta; a
recitação agirá, portanto, como causa para sua iluminação. E também um feito de um
Filho dos Vitoriosos, e Dharma Mahayana. Isto não se aplica aos outros três.
A recitação da segunda pessoa foi feita junto com renúncia. Portanto, agirá como
causa para a liberação e será um antídoto contra o samsara. É um Dharma do nível de
Capacidade Média. A recitação das outras duas pessoas não contribuirão nem mesmo
para suas liberações; as recitações estariam classificadas sob a verdade da origem do
sofrimento.
A recitação da terceira pessoa não contribui para a onisciência nem para a liberação.
É só um meio de evitar que renasça nos reinos inferiores. É um Dharma do nível de
Capacidade Pequena.
A recitação da quarta pessoa só pertence a esta vida e portanto, nem mesmo e
Dharma. E será difícil que tenha qualquer efeito nesta vida. Como disse Atisha:
Pergunte-me quais são os resultados de só pensar nesta vida e eu direi: são apenas os
resultados desta vida. Pergunte-me o que acontecerá em suas próximas vidas e eu direi:
você estará no inferno ou será um fantasma faminto ou um animal.
Portanto, quando nós monges vamos a cerimônias ou prática de debates, devemos
fazê-lo com a motivação de bodhichitta; depois até mesmo os nossos passos serão atos de
um Filho dos Vitoriosos. Cada passo valerá mais do que cem mil moedas de ouro. Mas se
fizermos qualquer doação de chá, sopa, ou o que for, para que a hierarquia monástica
fique satisfeita conosco, a doação só se encaixará na descrição de Atisha.
A motivação do meditador também determina se as meditações terão sentido. Atisha
disse que a verdadeira meditação preciosa era a meditação no guru. Se meditar movido
pelo desejo de receber chá, peças de seda e coisas assim, todas as suas meditações serão
maculadas. Se meditar até mesmo com o mais leve pensamento de colocar um fim no
oceano de renascimentos, os méritos que receber vão transbordar os próprios limites do
espaço.
Assim, se não adotar as motivações corretas para algumas práticas de virtude – sejam
pequenas ou grandes – a prática não levará a nada. Tais práticas incluem estudo,
contemplação, meditação, fazer donativos, prática da generosidade, e assim por diante.
Portanto, é preciso ter seriedade, adotando uma motivação correta logo de início. Alem
disso, como isto é Dharma Mahayana, não basta adotar intenções virtuosas, você deve
fazer suas práticas com um tipo muito especial de estado mental virtuoso – a bodhichitta.
Se sua bodhichitta for espontânea, ela se desenvolverá por si só e você não terá que
fazer o seguinte. Se a sua bochichitta for do tipo produzido, você deve ativá-la
conscientemente. A sua mente não mudará de rumo se, sem qualquer preparação, você

99
simplesmente recitar: “Pelo bem de todos os seres sencientes...” Você deve, ao contrário,
começar com algo como, “Eu consegui um perfeito renascimento humano...” e terminar
com “Vou alcançar a iluminação pelo bem de todos os seres. Portanto, vou meditar neste
ensinamento dos estágios do caminho a iluminação." Falei sobre isso alguns dias atrás.
Em outras palavras, você deve trabalhar o seu caminho indo desde o tema da dificuldade
de se obter um perfeito renascimento humano até a seção de desenvolvimento da
bodhichitta. Então, a sua mente será transformada.
Os santos do passado deram vários ensinamentos – alguns breves, alguns detalhados –
de como acertar a motivação. Alguns alegaram que se não tivéssemos sido capazes de
realizar alguma transformação mental através de algum processo de transformação do
pensamento, seria suficiente acertar a nossa motivação por meio de certas recitações.
Mas, é a mente que acerta a nossa motivação, não a boca. Assim, devemos transformar
nossa mente inundando-a com o significado do texto que estamos recitando.
Portanto, estando neste estado mental especialmente virtuoso, você deve agora tomar
refúgio. Mas cuidado: estou combinando os três textos de Lam-rim neste ensinamento e
você não deve ficar confuso, pois cada texto tem sua própria versão dos ritos
preparatórios, da visualização do Refúgio, e do campo de méritos. Parece que agora a
prática e ensinar os ritos preparatórios segundo a versão da Linhagem do Sul por causa de
sua conveniência. Mas, você deve usar a versão de O Caminho Rápido em sua recitação
diária.
Antes de tomar refúgio, você pode invocar a visualização do refúgio. A versão desta
visualização em O Caminho Rápido é a seguinte.31 Visualize à sua frente um trono
enorme e precioso, sustentado por oito enormes leões. Se situar o trono muito alto, a sua
mente se tornara muito agitada, se muito baixo, sua mente ficara entorpecida. O ideal
seria visualizar o trono nivelado com o espaço entre as suas sobrancelhas. Cinco tronos
menores se encontram neste trono grande: um no centro e os outro quatro ao seu redor
nas quatro direções cardeais.
O trono central e ligeiramente mais alto que os outros quatro. Gere a visualização de
Buda Shakyamuni, nosso Mestre, neste trono central. Por natureza ele é o seu guru raiz
que lhe ensina o Dharma. Os detalhes desta visualização do Buda devem seguir o texto
que estiver recitando. Você deve sentir que ele é o seu guru por natureza, porque é na
dependência de seu guru que você desenvolverá todas as realizações – os resultados de
seguir o caminho. O seu guru tem o aspecto de Buda Shakyamuni porque Shakyamuni e
o Senhor dos Ensinamentos, a própria fonte do Dharma. Sua mão direita adota o mudra
(gesto) de tocar-a-terra, significando a derrota de Kamadeva, o demônio da luxúria. A
mão esquerda de Shakyamuni segura uma tigela de esmolar, que contém vários néctares.
Um deles é o néctar que tudo cura, significando a derrota dos cinco agregados
demoníacos. Depois há o néctar da imortalidade – significando a derrota do Senhor da
Morte [Yama}. O néctar da sabedoria primordial não-contaminada significa a derrota dos

31
N.T. Para facilitar o entendimento e evitar confusão, a descrição da prática segundo O Caminho Rápido se encontra em
negrito.

100
enganos. Você deve pensar que isto significa que Buda derrotou estes quatro demônios
que o afligiam e que nós também em breve vamos derrotar os nossos quatro demônios.
No coração de Buda está Vajradhara; este é o ser de sabedoria. No coração de
Vajradhara há uma sílaba hum azul, isto é o ser de concentração. Você deve visualizar
estes três seres estando um dentro do outro. Esta visualização está relacionada ao tantra.
Você pode estar indagando: “Muitas pessoas já me ensinaram o Lam-rim. Quais
destes deverei visualizar como a figura central?” Adote como seu guru principal aquele
que mais beneficiou o seu contínuo-mental.
Maitreya está sentado no trono menor à direita de Buda. Maitreya está cercado por
tronos ainda menores, onde sentam-se os gurus da Linhagem de Feitos Extensos.
Manjushri está sentado no trono menor à esquerda do trono de Buda. Como o anterior, ele
também está cercado por tronos menores, onde sentam-se os gurus da Linhagem da Visão
Profunda. Vajradhara está sentado no trono atrás de Buda; Vajradhara está cercado pelos
gurus da Linhagem das Práticas Consagradas.32
No trono em frente ao Buda está sentado o seu próprio guru-raiz, desta vez em seu
aspecto normal. Você não deve visualizar seus defeitos físicos; por exemplo, na vida real
ele pode ser cego, mas você não o visualiza assim. A sua mão direita faz o gesto de
ensinar o Dharma, a mão esquerda faz o gesto da absorção meditativa. Um vaso de
iniciação doador de vida, cheio de néctar de imortalidade, repousa na palma de sua mão
esquerda. Estes dois gestos indicam que ele é um Buda, pois pode ensinar o Dharma
enquanto permanece absorvido na meditação da vacuidade. O gesto de ensinar o Dharma
também encoraja os seus discípulos a estudar; o gesto de absorção meditativa os encoraja
a colocar os seus estudos em prática. O Grande Tsongkapa disse:

As principais coisas impedindo os afortunados


De praticar o caminho a liberação são:
Enganos, que derrotam a mente,
E Yama, que derrota o corpo.

Em outras palavras, os impedimentos para a prática do Dharma são os enganos, pois


dominam a mente, e o Senhor da Morte, pois este conquista o corpo. Como medida
defensiva, o seu guru faz o gesto de ensinar o Dharma para significar a derrota dos
enganos por seus ensinamentos do Dharma. O vaso doador-de-vida e o néctar da
imortalidade significam a derrota do Senhor da Morte. Há muitos outros pontos
profundos que poderia salientar aqui sobre como conseguir os quatro tipos de poderes
milagrosos – o poder de paz, aumento, influência, e força – devotando-se ao seu guru.
O seu guru esta cercado pelos gurus de quem você já recebeu ensinamentos de
Dharma, começando com a pessoa que lhe ensinou a ler. Se alguém nos pergunta quantos
32
N.T. A Linhagem de Feitos extensos é a linhagem do Método, a linhagem de todos os mestres de realizações e
ensinamentos da bochichitta, o bom coração, a mente altruísta que busca a iluminação pelo bem de todos os seres. A
Linhagem da Visão Profunda é a linhagem da Sabedoria, a linhagem de todos os mestres de realizações e ensinamentos da
vacuidade, a visão correta da existência de todos os fenômenos. A Linhagem das Práticas Consagradas é a linhagem de todos
os mestres com realizações e ensinamentos do Tantra.

101
gurus temos, não temos nenhuma idéia e precisamos contá-los em nosso rosário. Mas
podemos imediatamente dizer quanto dinheiro temos em nosso bolso! Isto mostra como
não consideramos seriamente o guru como a raiz do caminho.
Nesta visualização, os seus gurus que ainda estão vivos estão sentados em almofadas.
Aqueles que já morreram, sentam-se em lótus e discos lunares.
Estaremos usando o termo “os cinco conjuntos de gurus” porque os gurus nesta
visualização estão sentados em cinco grupos. As outras figuras no campo de mérito –
desde as deidades tutelares até os protetores do Dharma – circulam estes gurus. As outras
figuras estão em pé ou sentados no trono maior que sustenta os cinco tronos menores. Na
tradição oral de meu próprio e precioso guru as deidades de meditação se posicionam ao
redor dos cinco conjuntos de gurus. Isto segue a prática do Tutor Tsechogling Rinpoche.
As deidades do círculo mais interno são as do Ioga Tantra Superior. Elas estão rodeadas
pelas deidades do Ioga Tantra. Depois vem aqueles do Charya Tantra [Tantra de
Atuação], e o Kriya Tantra [Tantra de Ação]. Chuzang Lama Yeshe Gyatso coloca os
quatro tipos de deidades nas quatro direções cardeais: o Ioga Tantra Superior na frente, o
Ioga Tantra à direita, etc. Devido a esta arrumação, em desenhos da versão de Chuzang
da visualização do campo de mérito, só estão visíveis as deidades do Ioga Tantra
Superior.
Em todo caso, as deidades de meditação estão cercadas pelos Budas em sua forma
suprema nirmanakaya. Proeminente neste grupo estão os mil Budas deste eon afortunado,
os oito Tathagatas [Suvanam, Ratna, etc.], os trinta e cinco Budas de Confissão, etc. A
finalidade disto é a seguinte. Há, em geral, um número infinito de Budas; mas nosso
relacionamento mais forte é com estes Budas deste eon afortunado. Nos dizem que
orações feitas aos outro sete Tathagatas durante o reinado dos ensinamentos do Buda
serão bem sucedidas. Os trinta e cinco Budas de Confissão têm grande poder para
purificar ações negativas e votos quebrados [Dia Seis].
Os Budas por sua vez estão cercados pelos Bodhisattvas, como os oito Filhos mais
próximos [do Buda Shakyamuni: Manjushri, Vajrapani, etc.]. Estes tomam a forma de
deuses masculinos.
Os Bodhisattvas estão cercados pelos Pratyekabuddhas, como os doze
Pratyekabuddas. Eles estão rodeados pelos Shravakas – os Dezesseis Arhats Superiores
[Angaja, Ajita, etc.] e assim por diante. Todos tomam a forma de monges. Eles exibem as
boas qualidades de pureza, seguram tigelas de esmolar, cajados de ferro e livros de folhas
de palmeiras. Os Shravakas podem ser distinguidos dos Pratyekabuddhas pela
protuberância ligeiramente menor na coroa de suas cabeças. Na realidade, este grupo
exibe marcas semelhantes às marcas e sinais [dos Budas].
Os Shravakas estão rodeados pelos dakas e dakinis1 tais como Khandakapala e
Prachandali. Eles tomam as formas descritas no Tantra de Heruka.
Os dakas e dakinis33 estão rodeados pelos protetores supramundanos do Dharma –
principalmente pelos senhores do Dharma dos três níveis do Lam-rim [Mahakala de seis
braços, Vaishravana e Kamayama].
33
N.T. São deuses próprios do Tantra, sendo os Dakas deuses masculinos e as dakinis deusas femininas.

102
Há duas tradições orais a respeito dos quatro maharajas dos quatro pontos cardeais.
Uma tradição coloca-os no trono principal; a outra tradição, coloca-os em pé sobre
almofadas de nuvens abaixo do trono. A razão disto é a seguinte. A primeira tradição
considera estes maharajas figuras supramundanas. A segunda dá-lhes apenas o status
mundano. É errado incluir figuras mundanas menores como espíritos-reis nesta
visualização. Certa vez, mostraram uma pintura deste campo de méritos ao Lama
Tsechogling Rinpoche, tutor de um dos Dalai Lamas. O artista havia desenhado um
espírito-rei entre os protetores. Rimpoche apontou a figura e disse: “Ah, se ao invés disto
ele tivesse pintado uma jóia que realiza desejos!”
Visualize livros de Dharma na frente de cada uma das figuras nesta visualização do
refúgio. Os livros são por natureza a jóia do Dharma realizado, mas tomam a forma de
livros – isto é, o Dharma transmitido. Os livros estão embrulhados em seda e possuem
marcadores coloridos. Visualize que estes livros estão lhe ensinando o Dharma [emitindo
o som das palavras que eles contém].
Há muitas versões da visualização do refúgio. Uma tradição tem as Três Jóias unidas
em uma única figura [a do guru], outra versão tem várias figuras de pé em níveis
horizontais diferentes. Mas, a descrição acima tem todo o simbolismo necessário
relacionado às Três Jóias. Mas notem: esta visualização não é bi-dimensional como uma
pintura. Nem as figuras são sólidas como estátuas de argila: eles são corpos de arco-íris
cuja natureza é de luz clara e brilhante. Eles estão aqui em pessoa, e irradiam luz
brilhante. Em A Transmissão do Vinaya encontramos três comparações em louvor do
corpo iluminado:

É como uma chama no formato de um corpo. É como algo cheio de línguas de


chamas. É como um vaso dourado com uma lamparina de óleo.

As figuras estão também debatendo o Dharma entre si. De fato, há uma imensa
quantidade de atividade acontecendo: alguns estão chegando enquanto outros vão realizar
várias tarefas. Há muito ir e vir, como pessoas em negócios de estado entrando e saindo
dos portões do palácio do rei. As figuras – desde Buda Shakyamuni até os maharajas –
enviam emanações pelo bem dos seres sencientes, enquanto outras emanações retornam a
eles. Cada poro destas figuras é também um campo de méritos. E assim por diante. A
visualização deve ser a mais detalhada possível.
Você também deve pensar que as figuras neste campo de méritos estão extremamente
felizes com você. Como disse Drubkang Geleg Gyatso, normalmente você não faz aquilo
que os Vitoriosos e Seus Filhos pedem; mas faz aquilo que eles pedem que não faça.
Então, não há ocasião em que possam ficar felizes com o que fez. Mas, agora você esta
fazendo algo para agradá-los. Suponha que uma mãe tenha um filho que seja o tempo
todo malcriado. Se uma vez ele fizer algo de bom, isto agradará sua mãe mais do que
qualquer outra coisa. Nós estamos sempre fazendo as coisas erradas. Mas, aqui estamos,
tentando meditar no Lam-rim. Isto agrada os Vitoriosos e Seus Filhos mais do que
qualquer outra coisa.

103
Neste ponto, você gera a motivação para tomar refúgio. Você deve fazer isto através
da seguinte recitação [de Um Ornamento para as Gargantas dos Afortunados, de Jampel
Lhumdrub].

Desde os tempos sem princípio, eu e todos os seres sencientes, que já foram


minhas mães, vimos renascendo no samsara e por muito tempo e até agora,
experimentamos os vários sofrimentos diferentes do samsara em geral, e
aqueles relativos aos três reinos inferiores em especial. Mesmo agora, é difícil
compreender a extensão e a profundidade daquele sofrimento. Mas consegui
algo especial que é difícil de se conseguir, e uma vez conseguido é muito
benéfico: o perfeito renascimento humano. É difícil encontrar os preciosos
ensinamentos do Buda. Agora que encontrei estes ensinamentos, se eu não
alcançar a pura e completa Budeidade – a melhor forma de liberação de todo
sofrimento do samsara – vou novamente experimentar todo tipo de sofrimento
do samsara em geral, e o mais importante, os sofrimentos dos reinos inferiores.
O poder de proteger-me destes sofrimentos está nos gurus e nas Três Jóias.
Assim, pelo bem de todos os seres sencientes, minhas mães anteriores, eu
alcançarei a completa Budeidade. Portanto, tomarei refúgio no guru e nas Três
Jóias.

O resultado de gerar as causas para tomar refúgio será que você toma refúgio
corretamente. Estas causas são medo e fé. O medo é dos sofrimentos gerais e específicos
do samsara. A fé é a crença de que as Três Jóias podem protegê-lo destes sofrimentos. E,
para tomar o refúgio incomum, do tipo Mahayana, você precisa de uma causa adicional:
amor e compaixão pelos outros seres atormentados por estes sofrimentos. Vou tratar deste
assunto – as causas para tomar refúgio – em maiores detalhes durante a parte principal do
ensinamento.
Visualize-se rodeado por todos os seres sencientes juntamente com seus pais. Eles
estão sentados juntos, e estão passando o sofrimento de seus diversos tipos de
renascimentos nos diversos reinos, mas você os visualiza na forma de seres humanos – ou
seja, como seres capazes de falar e compreender. Você os guia na recitação da fórmula do
refúgio, e deve pensar que todos estes seres estão tomando refúgio com você.
Dizem que quando você recita a fórmula quádrupla do refúgio em cerimônias
públicas, você deve repeti-la na ordem, isto é:

Tomo refúgio no guru. Tomo refúgio no Buda. Tomo refúgio no Dharma.


Tomo refúgio na Sangha. Tomo refúgio no guru, etc...34

34
N.T. Esta fórmula pode ser também recitada
Em sânscrito: ou Em tibetano:
Namo Gurubhya Lama-la kyab su chio
Namo Buddhaya Sangye-la kyab su chio
Namo Dharmaya Chos-la kyab su chio
Namo Sanghaya Gedun-la kyab su chio

104
Mas, ao tomar refúgio durante as suas meditações, você deve repetir cada parte da
fórmula várias vezes isoladamente.
Assim, quando estiver repetindo “Tomo refúgio no guru” (ou Namo Gurubhya)
focalize sua atenção nos cinco conjuntos de gurus e tome refúgio enquanto recebe deles
os néctares purificadores. Suponha que vá recitar um rosário desta parte da fórmula. Nas
primeiras cinqüenta recitações você deve visualizar que os néctares estão purificando
suas qualidades não-Dharmicas. Durante as últimas cinqüenta repetições, você visualiza
que suas qualidades Dharmicas aumentam. Assim, para a primeira metade da recitação,
você imagina que os cinco tipos de néctares coloridos, juntos com luzes das cinco cores
[branco, vermelho, azul, amarelo e verde], descem dos gurus. O néctar branco predomina.
Eles entram no seu próprio corpo e mente e também nos corpos e mentes de todos os
demais seres sencientes. Os néctares purificam todas as ações negativas e
obscurecimentos acumulados por você e pelos seres sencientes desde os tempos sem
princípio. Isto se aplica especialmente a ações como colocar em perigo o corpo do guru,
desobedecer as suas ordens, perturbar a sua paz mental, desprezá-lo, e não ter fé no guru
– enfim, todas as ações negativas e obscurecimentos adquiridos com relação ao seu guru.
Estas negatividades escorrem para fora de seu corpo sob forma de uma lama negra e você
sente que foi totalmente purificado.
A segunda parte da recitação é como segue. As qualidades Dharmicas a serem
aumentadas são, por natureza, as boas qualidades do corpo, palavra e mente do guru. Mas
elas tomam a forma dos cinco tipos de néctares e luzes coloridas. Desta vez, predomina o
néctar amarelo. Eles descem [dos gurus]. Pense que você e todos os seres sencientes em
geral recebem um aumento de duração de vida, méritos e boas qualidades dos
ensinamentos transmitidos e realizados. Em particular, você e estes seres recebem as
bênçãos do corpo, palavra e mente de seu guru.
Quando recita “Eu tomo refúgio no Buda” (ou Namo Buddhaya) você repete quase a
mesma coisa. Segundo os tantras, “Buda” significa as deidades tutelares das quatro
classes de tantra; segundo o sutra, Budas são as formas nirmamakaya supremas. Néctares
purificadores descem de ambos os tipos de Budas no campo de méritos.
As negatividades que acumulamos com relação aos Budas são: com uma motivação
nociva, fazer sangrar o corpo de um Tathagata, fazer julgamentos sobre as qualidades das
imagens de Buda, penhorar imagens, considerar imagens como mercadorias a serem
compradas ou vendidas, destruir os símbolos da mente iluminada [isto é, as stupas], e
assim por diante.
Um exemplo do primeiro tipo de ação negativa – causar sangramento em um Buda –
foi Devadatta [o primo ciumento de Buda], que usou uma catapulta gigantesca para atirar
pedras no Buda. [Dia Doze] Este ato fez o Buda sangrar. Nós não cometemos este tipo
específico de ação nociva, mas já cometemos as demais.
Quando examina imagens [de Buda] procurando defeitos no acabamento, você está
julgando a sua qualidade. Certa vez, o Mahayogi mostrou a Atisha uma estátua de
Manjushri. Ele perguntou a Atisha se a estátua era boa e se valia o preço para comprá-la

105
com uma [moeda] sho de ouro que Rongpa Gargewa havia lhe dado. Atisha respondeu,
“Uma estátua de Manjushri nunca poderia ser ruim. Mas o artista era apenas medíocre.”
Em outras palavras, só fale da qualidade do artista, pois não é correto apontar os defeitos
da própria imagem. Penhorar estátuas e ganhar dinheiro com elas são coisas corriqueiras.
Você deve evitar fazer estas coisas a qualquer custo.
Na segunda metade da recitação, quando você aumenta as suas boas qualidades,
imagine que os dez poderes, os quatro destemores, as dezoito qualidades exclusivas,
tomam a forma de néctares descendentes. O resto é igual ao que foi dito acima.
Depois, recite “Tomo refúgio no Dharma” (ou Namo Dharmaya). Os néctares descem
vindos dos livros na visualização. Este néctar é por natureza o Dharma realizado.
As negatividades que acumulamos com relação ao Dharma são: abandonar o santo
Dharma, vender escrituras, não mostrar o devido respeito pelas escrituras, lucrar com a
venda de um livro, etc. Corremos o perigo de cometer estas ações negativas, e elas tem
conseqüências extremamente pesadas.
Abandonar o Dharma é depreciar o Mahayana e favorecer o Hinayana; depreciar o
Hinayana e favorecer o Mahayana; jogar o sutra contra o tantra; favorecer uma das
linhagens tibetanas – Sakya, Gelug, Kagyu, ou Nyingma – e depreciar as outras, etc. Em
outras palavras, abandonamos o Dharma cada vez que favorecemos nossos próprios
princípios e depreciamos o resto. Também abandonamos o Dharma quando passamos por
cima de textos, jogamos fora algum texto, etc. Algumas pessoas fazem até coisas como
sentar nos textos. Fazendo isto, acumulam propositadamente karma nocivo. Abandonar o
Dharma é um ato extremamente pesado, como está dito em O Sutra Soberano das
Concentrações Uni-focadas. Mas, eu já cobri isto em grandes detalhes [Dia Três].
É uma ação extremamente pesada vender escrituras, e lidar com elas como se fossem
mercadorias comuns.
Você não trata as escrituras com o devido respeito se colocá-las no chão sem sua capa
de tecido. Se você limpa os dentes e usa a goma dentaria para grudar pedaços de papel
colorido nas paginas35, se lamber o seu dedo para virar uma página, ou colocar coisas em
cima dos livros de Dharma. Estas também são ações muito pesadas. Quando Atisha viu
um escrivão usar o dedo para limpar os dentes e depois grudar um remendo colorido na
página de um livro de Dharma, Atisha não suportou vê-lo. Ele se voltou ao tantrista e
disse, “Ah, que errado, que errado!” Dizem que isto levantou a fé do tantrista em Atisha –
de tal forma que buscou ensinamentos com ele. Pessoas como nós, que estamos sempre
manuseando livros, devem ser especialmente cautelosas: sempre corremos o risco de
cometer uma destas ações.
Se usar algo comprado com dinheiro obtido com a venda de livros, você terá “lucrado
com a venda de livros.” Isto também tem conseqüências pesadas. O quinto dos sete
Shagpa Rimpoches, Denten Kyergampa, era um grande adepto do tantra de
Avalokiteshvara. Seu benfeitor, um leigo, ficou sem dinheiro e vendeu um conjunto do

35
Os tibetanos não sublinham os trechos importantes nos livros. Mas grudam um pedaço de papel colorido no início do
trecho, ou então passam aquarela vermelha ou amarela sobre as palavras a serem enfatizadas. Como não havia cola
facilmente disponível no Tibet, os preguiçosos pegavam um pouco da película sobre seus dentes e a usavam como cola.

106
Sutra da Perfeição da Sabedoria em Cem Mil Versos. O benfeitor convidou Kyergampa e
três outros monges a sua casa, pensando que fazendo isto iria purificar a sua ação
negativa. Ele serviu alimento comprado com o dinheiro recebido pela venda dos livros.
Naquela noite, Kyergampa ficou seriamente doente. Kyergampa podia ver, quando em
meditação uni-focada, uma letra “A” se movendo rapidamente pelo seu corpo. Isto
causava-lhe dores agudas. Ele fez súplicas às suas deidades tutelares, e Avalokiteshvara
veio até ele.

“Você e os outros,” disse Avalokiteshvara, “lucraram com a venda de uma escritura.


Isto é muito sério. Você tem poucas negatividades e obscurecimentos, então o karma
deste seu ato amadureceu sobre você nesta vida. Os outros só poderão cair nos infernos.
Você deve escrever O Sutra da Perfeição da Sabedoria em Cem Mil Versos com tinta
dourada para purificar esta negatividade. Deve também oferecer muitos bolos rituais aos
nagas.”
Kyergampa seguiu suas instruções, e a doença acabou.
Quando chegar a visualização de aumentar, imagine que o Dharma, a verdade da
cessação, a verdade do caminho, e coisas assim, descem sob forma de néctar.
A seguir, repita “Tomo refúgio na Sangha” (ou Namo Sanghaya). Segundo os sutras,
Shravakas, Pratyekabuddhas e Bodhisattvas compõem a Sangha. A Sangha tântrica são os
dakas, dakinis e protetores do Dharma. Néctares purificadores descem destas figuras.
As negatividades e obscurecimentos que acumula em relação à Sangha são: criar
divisão na Sangha, roubar seus oferecimentos, criticá-los, e quebrar um compromisso de
oferecer bolos rituais aos protetores do Dharma.
Você deve tentar purificar quaisquer negatividades e obscurecimentos cometidos com
a Sangha, mas será incapaz de purificá-los o suficiente para nunca experimentar qualquer
efeito amadurecedor de karma. Refira-se a estória do mestre Supushpachandra.36 Estas
negatividades são muito mais sérias do que aquelas relacionadas ao Buda ou ao Dharma,
porque esta negatividade é cometida com relação a muitas pessoas. Devemos ter muito
cuidado, pois nos misturamos livremente com a Sangha, então corremos o risco de
cometer este tipo de negatividade.
Falando rigorosamente, só se pode causar divisão na Sangha durante a época da vida
de um Buda, portanto isto não pode acontecer agora. Mas, muitos atritos ocorrem entre a
Sangha e isto se assemelha a divisão.
A Arya Sangha consiste de pessoas que perceberam diretamente a vacuidade. Seus
membros podem ser pessoas leigas, monges ou monjas. Quatro seres comuns [que não
perceberam a vacuidade desta maneira] são considerados como Sangha se seus votos
[pratimoksha] ainda estiverem puros. Mas, sejam os membros da Sangha seres comuns
ou não, eles podem se dividir em dois grupos de pelo menos quatro membros cada um
sobre algum desentendimento porque alguém se envolve em conversa que dividem as
36
Embora prevendo que isto custaria sua vida, o Bodhisattva Supushpachandra foi alegramente até à terra do Rei Viradatta
para espalhar o Dharma. Após guiar muitos seres à felicidade ele foi morto pelo rei num acesso de inveja. Mais tarde, o rei
lamentou profundamente o seu ato e erigiu um santuario, colocando as reliquias do Bodhisattva numa stupa. Mas já era muito
tarde, nada poderia trazer o mestre de volta à vida.

107
pessoas, o que causa atrito entre os dois grupos. Todos os envolvidos, e não apenas a
pessoa que causou a divisão – irão de mãos dadas aos reinos inferiores.
Houve certa vez um geshe Kadampa chamado Selshe que causou divisão na Sangha.
Mais tarde, após a morte do geshe, o Geshe Dromtempa comentou que se o seu discípulo
Selshe tivesse morrido três anos antes, teria morrido como um mantenedor das três cestas,
mas ele morreu três anos muito tarde. “O seu mosteiro Toepur,” disse Drom, “foi a sua
ruína.” E segundo a tradição oral dos mestres de Lam-rim, Selshe ainda está no inferno.
Dizem que o lugar onde uma divisão ocorre fica manchado pela negatividade: outras
pessoas não conseguirão desenvolver realizações naquele lugar, mesmo se praticarem
durante doze anos.
Hostilidade ou apego pode dividir a Sangha em “panelinhas” cujos membros pensam
em termos de “nós” e “eles” e “ah, se houvesse mais gente do nosso lado.” Eu penso que
isto é a principal causa de atrito. Se os membros da Sangha não se entendem, não fazem
nada para melhorar a leitura, estudo ou contemplação das pessoas – muito menos para
ajudar as pessoas atingirem os estados de concentração dhyani que poderiam utilizar para
abandonar os enganos [manifestados]. O pior prejuízo que este tipo de atrito pode causar
e levar os ensinamentos a um declínio. Um sutra afirma:

Monges e monjas da Sangha que concordam são felizes.


Aqueles que se entendem acham o ascetismo fácil.

Esta citação nos diz, em outras palavras, que o principal para os membros da Sangha
é a boa convivência.
“Roubar oferecimentos da Sangha é desapropriar os fundos da Sangha, não entregar à
Sangha impostos arrecadados em seu nome, um membro da Sangha usar algo destinado à
Sangha em geral, etc. Os administradores dos mosteiros são muito vulneráveis a estas
coisas. Alguns monges cujo trabalho é lidar com benfeitores do mosteiro, tem mais
preocupação pelo benfeitor, e pode dizer-lhe, “Não precisamos de tudo isto.” Isto é um
ato de privar a Sangha. Privar a Sangha até de um pouco de manteiga é roubar da boca da
comunidade em geral; é causa para renascer no Inferno Sem Descanso. Outras formas de
desfalcar a Sangha resulta em renascimento nos infernos adjacentes.
Isto está ilustrado pela estória de Arya Sangharakshita. Quando voltava de uma visita
às regiões dos nagas, ele viu alguns seres num inferno ocasional à beira da praia. Aqueles
seres-infernais tomavam muitas formas e formatos; alguns pareciam corda, alguns
pareciam potes de argila, outros como vassouras, pilões, pilares, paredes e até uma pipa
d'água. Eles estavam se lamentando e fazendo gemidos de doer o coração. Sangharakshita
mais tarde perguntou ao Buda, “Que karma amadureceu em tais resultados?”
Buda contou-lhe o seguinte. As criaturas dos infernos que eram como cordas e
vassouras certa vez foram pessoas que privaram a Sangha de cordas e vassouras quando
os ensinamentos do Buda Kashyapa [o Buda anterior] ainda existiam. As cordas e
vassouras eram destinadas para o uso da Sangha em geral, mas estas pessoas colocou-as
de lado para o seu próprio uso.

108
A criatura que parecia um pote de argila havia sido um ajudante leigo da Sangha. Ele
estava fervendo algum tipo de remédio num pote de argila, e algum monge dirigiu-lhe
comentários maldosos. Ele perdeu a calma e quebrou o pote. Isto foi o resultado daquela
ação.
A criatura-pilão havia sido um monge. Ele chamou um noviço em seu quarto e
mandou que amassasse alguns grãos num almofariz e pilão. O noviço estava ocupado e
disse que o faria daqui um pouco. O monge perdeu a calma e disse, “Se eu colocasse as
minhas mãos em seu pilão, eu o amassaria e não pensaria no grão!” Ele renasceu na
forma de pilão como resultado destas palavras insultuosas.
Os seres que pareciam paredes e pilares foram pessoas que cuspiam nos templos da
Sangha. Alguns deles tinham até espirrado nas mãos e limpado as mãos nas paredes e
pilares dos templos.
A criatura que parecia uma pipa d'água tinha uma cintura muito pequena. Isto foi o
efeito amadurecido do seguinte karma. Ele havia sido um monge que deixava a Sangha
passar fome quando só distribuía os alimentos do verão no outono seguinte.
Portanto, se pegar algo que pertence à Sangha sem permissão, mesmo algo como uma
vareta da pilha de madeira da Sangha, você certamente renascerá no inferno ocasional.
“Criticar a Sangha” significa abusar de seus membros com palavras ásperas,
xingando-os, e coisas assim, seja pela frente ou pelas costas. Um brâmane chamado
Manavagaura insultou membros da Sangha de Buda Kashyapa. Ele renasceu como um
tipo de monstro-marinho. Eis uma pequena versão de sua estória.
Na Índia houve certa vez quinhentos pescadores que costumavam jogar suas redes no
rio Gandaka para pegar peixe, tartaruga, etc. Um dia, um tipo de monstro-marinho entrou
pelo rio [um afluente no norte do rio Ganges]. O seu corpo era imenso. Os quinhentos
pescadores não conseguiram pegar o monstro. Eles pediram ajuda a vaqueiros,
cortadores-de-capim, trabalhadores na colheita e transeuntes. Centenas de milhares de
pessoas deram uma mão e a coisa foi arrastada até à margem do rio. Eles viram que o
monstro tinha dezoito cabeças e trinta e dois olhos. Muitas centenas de milhares de
pessoas se reuniram para ver o espetáculo. Entre a multidão, havia seis mestres Tirthikas
e outras pessoas assim. Buda, que tudo pode perceber, independente de quando ocorreu,
foi até lá para fazer um pronunciamento sobre as leis de causa e efeito. Ele estava
acompanhado de muitos monges de sua Sangha.
Scoffers disse, “Este santo homem Gautama alega estar além de tais espetáculos
vulgares. Mas, lá vem ele!”
As pessoas que acreditavam nele disseram, “Buda está acima destas coisas. Buda vai
aproveitar esta oportunidade para ensinar algum Dharma maravilhoso a estas pessoas
aqui.”
Um trono foi arrumado, e Buda sentou-se nele, cercado por seus seguidores. Ele
abençoou o monstro para que pudesse recordar suas vidas passadas e compreender a fala
humana. Então Buda disse-lhe: “Você é Manavagaura, não é?”

“Sim,” ele disse, “eu sou Gaura.”

109
“Você esta passando por um amadurecimento de alguma ma ação de corpo, palavra e
mente?”
“Sim, estou.”
“Quem lhe orientou mal?”
“Minha mãe.”
“Onde ela renasceu?”
“No inferno.”
“Como você renasceu?”
“Como um animal.’
“Quando morrer, aonde renascerá?’
“Eu renascerei no inferno.” E naquele instante, a criatura começou a chorar.
Os seguidores de Buda estavam totalmente admirados. Por sua insistência, Ananda
perguntou quem era esta criatura que podia lembrar vidas passadas e falar em língua
humana. Buda então recitou sua estória.
“Certa vez, no tempo de Buda Kashyapa, durante o reinado do Rei Krkin, alguns
brâmanes vieram de um outro pais e desafiaram as pessoas a um debate. Um brâmane
chamado Gaurashanti derrotou os outros filósofos em debate e o rei deu-lhe o título da
montanha onde o debate ocorreu. O filho do brâmane tinha longos cabelos louros, e
portanto foi chamado de Manavagaura [Brâmane Louro]. Este filho estudou a arte de
escrever e coisas assim, e se tornou um sábio que também derrotava os outros em
debates.”
Seu pai morreu e sua mãe temia que os outros poderiam tirar-lhe os prêmios que ele
havia ganho em debates. Ela pediu a seu filho, “Você pode derrotar qualquer filósofo em
debates?”
“Eu posso derrotar qualquer um, menos os homens santos de Kashyapa,” ele
respondeu.
“Até eles você vai derrotar,” ela disse.
“Por respeito à sua mãe, ele foi debater com eles. Ele encontrou um monge que lhe
perguntou qual era o significado de um certo verso. Ele não conseguiu apresentar uma
resposta, desenvolveu fé na Sangha e voltou para casa.”
“Você derrotou os homens santos?” sua mãe perguntou.
“Mãe, se houvesse alguma testemunha, eu teria sido derrotado.”
“Filho, neste caso leia as escrituras do Buda.”
“Elas não são abertas para pessoas leigas.”
“Então ordene-se. Depois que conseguir a sua sapiência, deixe de ser monge.”
Ela foi tão insistente que ele se ordenou e tornou-se um erudita das três cestas.
Novamente sua mãe perguntou, “Você derrotou estes homens santos?”
“Mãe, eu só recebi as transmissão dos ensinamentos, eles tem as transmissões e as
realizações dos ensinamentos. Eu não posso derrotá-los.”
“Filho, independente do tema do Dharma que surgir no debate, você deve insultá-los.
Eles têm medo de cometer qualquer má ação e nada dirão em retaliação. As pessoas
pensarão que você venceu o debate.”

110
“Gaura seguiu suas instruções. Quando debateu com os monges ele perdeu a calma e
disse, “Seu cabeça de elefante! Como você poderia saber o que é Dharma e o que não é?”
Ele também xingou-os de “Cabeça de cavalo,” “Cabeça de camelo,” “Cabeça de asno,”
“Cabeça de Touro,” “Cabeça de Macaco,” “Cabeça de Leão,” “Cabeça de Tigre,” etc. Ele
usou dezoito insultos diferentes contra eles. Como resultado desta ação negativa, ele
renasceu como um tipo de monstro-marinho com dezoito cabeças.”
Este foi o pronunciamento do Buda.
Também é errado desprezar os membros comuns da Sangha. As pessoas podem dizer,
por exemplo, “Aqueles monges depravados,” mas eu já mencionei que não há diferença
entre quatro seres comuns que são monges e a Arya Sangha. Seria a mesma coisa que
dizer estas coisas a Maitreya ou Manjushri.
Tratamos os membros da Sangha de nossa própria classe social muito
despretensiosamente. Podemos dizer, “Tomo refúgio na Sangha,” mas agimos de maneira
diferente. Como meu próprio lama precioso disse, quando os seres ordenados sentam-se
entre as fileiras [da Sangha no templo], todos devem considerar o outro como seu refúgio.
Mas não é isto o que realmente fazem, mas ao contrário, procuram defeitos nos outros.
Eles pensam: “Fulano, o velho monge no meio daquela fila, é muito avarento. Beltrano, o
monge atrás dele, não é fácil, tem um gênio!” e assim por diante. Eles acham defeito em
cada membro da Sangha.
Você pode sentir, “Nenhum deles é melhor que eu!” mas a fórmula “Tomo refúgio na
Sangha” se aplica a toda a Sangha que se possa encontrar nas dez direções. Talvez você
deva compor a sua fórmula muito própria de refúgio. Que tal: “Tomo refúgio na Sangha,
menos nesta pessoa, naquela pessoa...” Lama Konchog disse:

Sempre que vir seus amigos, a Arya Sangha, lembre-se:


Eles são amigos verdadeiros para ajudá-lo no caminho.

Em outras palavras, sempre que encontrar membros da Sangha comum ou a Arya


Sangha, você deve considerá-los como seu refúgio, como pessoas que o ajudam a deixar
um local de perigo.
Na segunda metade da visualização, você novamente imagina que suas qualidades
Dharmicas aumentam. Imagine néctar descendo. O néctar é na realidade as seis
perfeições, que são as tarefas dos Bodhisattvas; as doze qualidades puras dos Shravakas e
Pratyekabuddhas; os três treinamentos superiores; a sabedoria primordial na vacuidade
sustentada pelos dakas e dakinis; os quatro tipos de boas obras realizadas pelos protetores
do Dharma; e assim por diante. Estas qualidades tomam a forma de néctar.
Quando recita a fórmula do refúgio muitas vezes, você visualiza os néctares
purificadores descendo de três maneiras: a introdução, a parte longa, e a parte final.
Para a introdução você repete “Tomo refúgio no guru” enquanto os néctares descem
de todos os cinco grupos simultaneamente. Durante a parte longa, néctares descem de
cada um dos cinco grupos de gurus, um de cada vez. Depois, na parte final, néctares
descem novamente de todos os gurus. Suponha que você vá recitar um rosário de cada

111
passo; o processo todo demoraria sete rosários para se completar.
Você faz exatamente o mesmo com as outras três partes da fórmula de refúgio. Os
Budas são todos nos cinco grupos seguintes: as deidades das quatro classes de tantra, e os
Budas do sutra. Os cinco grupos de Dharma são: Dharma dos Shravakas, Dharma dos
Pratyekabuddhas, Dharma Mahayana comum [do sutra], os Kriya Tantra, Charya Tantra,
Ioga Tantra, e o Ioga Tantra Superior. Os cinco grupos da Sangha são: Bodhisattvas,
Shravakas, Pratyekabuddhas, dakas e dakinis, e os protetores do Dharma.
É também a prática recitar “Tomo refúgio no guru, nas deidades de meditação e nas
Três Jóias,” seguido da visualização dos néctares purificadores descendentes. Mas, os
textos não são explícitos quanto a isto.
Dizem que a visualização dos néctares purificadores descendentes é uma tradição
tântrica; as luzes purificadoras descendentes é uma tradição do sutra. Os néctares
purificadores podem descer de três maneiras. Eles podem vir ate você dentro de um tubo
de luz; podem descer ao redor de uma superfície cilíndrica de luz; ou eles podem descer
como uma chuva pesada.
Depois, você recita o trecho de Ornamento para as Gargantas dos Afortunados:

Até à iluminação, eu tomo refúgio


No Buda, Dharma e Assembléia Suprema.
Com os méritos que alcancei
Com a generosidade e outras perfeições
Possa eu atingir a Budeidade pelo bem de todos os seres

Tome refúgio na primeira parte, e desenvolva ainda mais a sua bodhichitta ao dizer
“Com os méritos que alcancei com a generosidade e outras perfeições...” Pense para si
mesmo, “Pela virtude de meus méritos raiz, que adquiri através de praticar generosidade,
manter minha ética, praticar a paciência, etc., possa eu atingir a Budeidade pelo bem de
todos os seres sencientes.” Eu não preciso dar agora mais nenhum detalhe sobre isto, já
que mais adiante falarei sobre isto em detalhes de como internalizar este tópico [Dia
Doze]. Tomar refúgio é como se tornar súdito de um rei; desenvolver a bodhichitta é
como pagar-lhe tributos.
Neste ponto visualize os resultados de ter desenvolvido a bodhichitta, e tome esta
visualização como parte do caminho. Faça isto da seguinte maneira. Do coração do Guru
Shakyamuni surge uma imagem duplicata dele que se dissolve em você. Você se torna
por natureza Shakyamuni – isto é, um Buda. Incontáveis Shakyamunis se emanam de
você e se dissolvem nos seres sencientes que também se tornam Shakyamuni por
natureza; agora, eles também são Budas. Alegre-se e sinta, “Quando desenvolvi a
bodhichitta, pensei 'Vou guiar todos os seres sencientes ao estado da Budeidade.' Agora
eu atingi esta meta.”
Esta visualização simula os resultados de desenvolver a bodhichitta: que você foi
totalmente bem sucedido nos tantras e suas mandalas. Fazer esta visualização tem seus
benefícios correspondentes, e também contém todos os pontos chaves encontrados em

112
ensinamentos como Sacudindo para Fora o Conteúdo do Samsara, ou Purificação dos
Seis Tipos de Seres Sencientes e Suas Moradas.
Depois, você medita nos quatro imensuráveis. Pense assim: “Mas, na realidade sou
incapaz de levar todos os seres sencientes a tal estado – posso apenas fazer isto em minha
visualização. O que deve ser culpado por isto? Meus sentimentos de apego pelos seres de
minha intimidade, e sentimentos de hostilidade pelos que estão distantes de mim.” Depois
pense nas palavras de O Ornamento às Gargantas dos Afortunados de Jampel Lhumdrub,
enquanto recita:

Como seria maravilhoso se todos os seres sencientes permanecessem num estado


de equanimidade: livre de sentimentos de intimidade ou distanciamento, apego
ou hostilidade. Que alcancem este estado! Eu os levarei até este estado. Que eu
seja abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê-lo!

Como seria maravilhoso se todos os seres sencientes possuíssem a felicidade e


suas causas. Que eles alcancem isto! Eu os farei alcançá-los. Que eu seja
abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê-lo!

Como seria maravilhoso se todos os seres sencientes fossem livres do sofrimento


e suas causas. Que eles fiquem livres deles! Eu os farei se libertarem deles. Que
eu seja abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê -lo!

Como seria maravilhoso se todos os seres sencientes nunca fossem separados do


sagrado êxtase de renascimento elevado e liberação. Que eles alcancem isto! Eu
os farei alcançá-lo. Que eu seja abençoado pelos meus gurus e deidades para
poder fazê -lo!

Com isto você começa o processo de internalizar os quatro imensuráveis


[equanimidade, amor, compaixão e alegria imensuráveis].
Você não faz só estes quatro imensuráveis, um após o outro; as palavras da recitação
acima contém quatro outros imensuráveis adicionais dentro de cada imensurável
individual. Cada vez você pensa “Como seria maravilhoso se... isto é uma aspiração
imensurável. O pensamento “Que eles alcancem isto!” é uma oração imensurável. Pensar
“Eu os farei...” ou “Eu os levarei...” é altruísmo imensurável. Finalmente, o pensamento
“Que eu seja abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê-lo!” e uma súplicas
imensurável. Esta é a explicação oral tradicional.
Mais especificamente, a fórmula “...todos os seres sencientes que já foram minhas
mães...” só se aplica ao desenvolvimento da bodhichitta. Assim, estas palavras não são
usadas na recitação acima porque estas instruções dos quatro imensuráveis não se destina
a ser usado no desenvolvimento inicial da bodhichittta, mas é para ser usado para
aumentar a própria habilidade de desenvolver a bodhichitta.
Seguem alguns pontos a mais sobre o desenvolvimento da equanimidade. Você pode

113
aumentar a sua bodhichitta pensando, “Vou alcançar a Budeidade para levar todos os
seres sencientes, que são como crianças controvertidas, a um estado de equanimidade,
livre de apego e hostilidade.” Ou pode pensar, “Vou alcançar a Budeidade para guiar
todos os seres sencientes à felicidade – começando com a felicidade que resulta de eu
esfriar os infernos quentes, e terminando com o êxtase completo da iluminação.” Ou pode
pensar, “Vou alcançar a iluminação para libertá-los do sofrimento – desde os sofrimentos
dos infernos até os obscurecimentos mais sutis que impedem que se iluminem.” Cada
uma destas três maneiras de desenvolver a equanimidade contém em si todo o caminho
dos três níveis de capacidade.
Você pode então questionar, “Neste caso, porque desenvolver a bodhichitta e o resto
antes de treinar a mente na seção do caminho do nível de Pequena Capacidade?” Mas,
mesmo quando você treina nas seções dos níveis de Média e Grande Capacidade, você
segue estes treinamentos para desenvolver a sua bodhichitta – embora isto possa não estar
óbvio. Você precisa apreciar este fato logo de início. Eis dois exemplos. Se quiser subir
até o topo de um desfiladeiro, primeiro precisa ter o pensamento de ir até lá. Ou, quando
desenha a imagem de uma deidade, você deve primeiro certificar-se de que as proporções
da imagem vão sair corretas, e para isto desenha um quadriculado, etc.
Há dois tipos de progressos rápidos. O primeiro tipo é alcançar a iluminação em uma
vida fazendo um progresso mais rápido do que poderia fazer usando o Veículo da
Perfeição [Paramitayana]. O segundo tipo de progresso rápido é ainda mais rápido do que
o primeiro: se iluminar nesta curta vida disponível a alguém nestes tempos degenerados.
O primeiro tipo é conseguido por meios dos tantras das primeiras classes; o segundo,
através da mais elevada das quatro classes de tantra.
Há uma outra versão para estes dois tipos de progressos rápidos. O primeiro tipo é
atingir a iluminação em uma curta vida disponível nestes tempos degenerados por meio
da mais elevada classe dos tantras. Esta é uma característica comum a todas as escolas -
Sakya, Gelug, Nyingma e Kagyu. O segundo tipo, que se supõe mais rápida ainda, é
conseguido considerando os Ioga Tantras Superiores segundo as instruções orais
confidenciais da escola Gelug como o sangue-vital do caminho. Se praticar uma
combinação dos tantras de Guhyasamaja, Heruka, e Yamantaka, poderá alcançar a
iluminação em apenas doze anos. O que sair errado é devido ao praticante. Antes destas
linhagens confidenciais evoluírem – elas se ramificam do grande Tsongkapa – havia
pessoas que conseguiam suportar grandes austeridades – pessoas como Milarepa, Gyalwa
Goetsang, etc. – que precisavam apenas de três anos para alcançar a iluminação. Esta
interpretação é da tradição oral que vem desde Chanceler Tagpupa. O seu pensamento era
que muitos dos mestres Gelugpa do passado, como Ensapa e seus discípulos, parecem ter
alcançado a Budeidade em uma única vida sem muitos esforços heróicos. Eles seguiram a
tradição de O Caminho Rápido de como tomar refúgio e desenvolver a bodhichitta.
A linhagem de As Palavras do Próprio Manjushri da Província Central dá a
visualização do campo de méritos, para ser usada como o local de nosso refúgio, igual à
tradição que acabei de descrever. Este não é o caso da Linhagem do Sul: esta tradição
apresenta uma visualização bem diferente do campo de mérito de nosso refúgio. É, de

114
fato, uma tradição oral confidencial totalmente diferente.
A visualização da Linhagem do Sul é a seguinte. Visualize à sua frente muitos lótus
crescendo do chão. Eles crescem no meio de belas nuvens e arco-íris, e só as partes
superiores das flores estão visíveis. A flor central é a maior e nela senta-se Shakyamuni.
À sua direita e esquerda estão respectivamente Maitreya e Manjushri – cada um em sua
própria flor de lótus. Seus ombros estão nivelados com os de Buda. Atrás de Maitreya e
Manjushri estão sentados os gurus que pertencem respectivamente às Linhagem de Feitos
Extensos e Linhagem da Visão Profunda. Estes gurus formam duas filas: sentam-se um
atrás do outro, os primeiros sentam-se atrás de Maitreya ou de Manjushri. As fileiras de
gurus formam uma espiral, rodeando Shakyamuni. Os últimos gurus destas linhagens
sentam-se um ao lado do outro. Deve-se visualizar que cada guru se senta em sua própria
flor de lótus, à frente de Shakyamuni, mas em um nível ligeiramente mais baixo, sentam-
se seus próprios gurus – aqueles de quem você realmente recebeu ensinamentos. Você
não precisa visualizar a Linhagem das Práticas Consagradas.
Os Budas sentam-se no alto do espaço entre nuvens e arco-íris; eles se alinham à
direita e esquerda dos gurus. Abaixo dos Budas sentam-se os Bodhisattvas, Shravakas e
Pratyekabuddhas; os protetores do Dharma estão abaixo deles.
Abaixo de seu próprio guru há três flores de lótus multicoloridas. Na flor central esta
Mahakala [De Seis Braços] de pé sobre um disco-solar. Ele está em sua forma
Kurukellejnana. Ele é o senhor do Dharma do nível de Grande Capacidade. À sua direita
está Vaishravana, sobre uma flor de lótus e disco-lunar. Ele é o senhor do Dharma do
nível de Media Capacidade. À esquerda de Mahakala está Kamayama de pé sobre um
disco-solar e flor de lótus. Ele é senhor do Dharma do nível de Pequena Capacidade.
As razões para considerá-los como senhores do Dharma dos três níveis de capacidade
são as seguintes. A forma Kurukellejnana de Mahakala é na realidade Avalokiteshvara, a
personificação da compaixão de todos os Vitoriosos surgindo na forma de uma deidade
protetora. O que está sendo apontado aqui é que você desenvolverá amor e compaixão
seguindo o nível de Grande Capacidade se confiar neste protetor. No nível de Media
Capacidade, a pessoa deve praticar principalmente os três treinamentos superiores – com
maior ênfase no treinamento da ética. O Maharaja Vaishravana prometeu perante Buda
guardar a parte das três cestas do vinaya, bem como o treinamento superior da ética.
Confiando-se, em particular, neste protetor desenvolve-se estas partes do caminho no
contínuo mental. O Dharmaraja Yama representa a impermanência de todos os
renascimentos; ele também classifica as pessoas segundo as leis de causa e efeito e
segundo as virtudes ou não-virtudes que cometeram. Se confiar neste protetor do
Dharma, facilmente se desenvolve realizações do nível de Pequena Capacidade – isto é,
da impermanência, causa e efeito, etc.
É assim que você deve se relacionar com estes protetores de Dharma enquanto eles o
guia pelo caminho. Há uma infinidade de pontos secretos e profundos de como os gurus,
as deidades de meditação, etc. aceleram-lhe pelo caminho, levando-o muito rapidamente
à sua iluminação. Manjushri ensinou estes pontos ao grande Tsongkapa, mas esta não é a
hora para discuti-los.

115
Outros protetores do Dharma estão à direita e à esquerda dos três senhores dos três
níveis de capacidade. Estes três senhores devem também ser colocados de forma que suas
bases de lótus estejam em níveis diferentes [com Mahakala no mais alto].
Os procedimentos para internalizar a tomada de refúgio e tudo o mais são iguais ao já
explicado para a Linhagem do Norte.
Esta linhagem em particular acrescenta então uma passagem chamada “Súplicas ao
Refúgio.” A passagem diz, “Guru e Três Jóias preciosas, eu tomo refúgio e rendo-lhes
homenagem. Por favor, abençoem meu contínuo-mental.” Isto está baseado nas
instruções orais do grande Sakya Rimpoche.

116
DIA CINCO

Pabongka Dorje Chang falou um pouco sobre como devemos acertar as nossas
motivações. Ele citou este verso de Nagarjuna:

É estupidez despejar sujeira nauseante,


Num recipiente de ouro ornado com jóias,
É uma estupidez ainda maior alguém
Pecar após ter nascido como um ser humano.

Só se deve ouvir este ensinamento após acertar corretamente a sua motivação e


adotar o comportamento correto. O Dharma que está prestes a ouvir é Dharma que leva
o afortunado ao nível dos Budas...

Então Rinpoche fez referência aos títulos que ele já havia falado:

O quarto principal título do Lam-Rim é: “A Seqüência para Ensinar as Instruções


aos Discípulos.” Este título tem duas sub-divisões; a primeira fala como devemos nos
devotar corretamente a um guia espiritual. Há seis ritos preparatórios que devem ser
seguidos nesta prática específica. Venho ensinando os seis ritos preparatórios numa
versão de discurso conciso, ou seja, O Caminho Rápido. Ontem, falei sobre os três
primeiros ritos. O quarto é o seguinte:

(D) FAZENDO SÚPLICAS AO CAMPO DE MÉRITOS

Como disse o grande Tsongkapa, quando nossa mente está muito debilitada – ou
seja, quando estudamos mas não conseguimos reter as palavras, quando contemplamos
mas não compreendemos, e quando meditamos mas nada se desenvolve em nosso
contínuo mental – somos instruídos a confiar no poder do campo de méritos.
Somos oprimidos por uma grossa camada de obscurecimentos kármicos; nossa
posição é desesperada porque não retemos as palavras que estudamos, não temos uma
compreensão adequada apesar de nossas contemplações, e apesar de nossas meditações
não desenvolvemos nenhuma realização em nossos contínuos mentais. Mas, se
fizermos súplicas a este campo de mérito especial, acumulamos [méritos], e
purificamos obscurecimentos, e em breve obteremos resultados. O grande Tsongkapa
perguntou a Manjushri em que método deveria se empenhar para rapidamente
desenvolver realizações em seu contínuo mental. Manjushri disse-lhe que deveria se
concentrar numa combinação de tres coisas: fazer súplicas ao seu guru; considerar seu
guru como inseparável de sua deidade meditacional enquanto trabalha duro construindo
a sua acumulação de méritos; e continuando principalmente a internalizar os tópicos de
meditação que constituem a prática.
Portanto, construir sua acumulação [de méritos] e purificar seus obscurecimentos

117
amadurecerá seu contínuo mental. Você não desenvolverá realizações se continuar
internalizando os tópicos de meditação de Lam-rim sem invocar as bençãos do campo
de méritos através de súplicas; apesar de sua perseverança, seu progresso será
dolorosamente lento. Mas, se amadurecer o seu contínuo mental, desenvolverá
realizações sem muito problema e seus defeitos amadurecerão rapidamente – como se
facilmente livrando-se de pús. Suas boas qualidades também amadurecerão e estarão
prontas para serem apreciadas – tal como uma fruta madura prestes a cair da árvore. O
grande Tsongkapa nos deu exemplo quando energicamente acumulou [méritos] e fez
auto-purificação em Oelga Choelung através de prosternações, oferecimentos de
mandala, e assim por diante. Ele teve então uma visão de Nagarjuna e seus quatro
discípulos. Um destes discípulos na visão, Buddhapalita, abençoou Tsongkapa
colocando sobre sua cabeça uma cópia em sânscrito do comentário do próprio
Buddhapalita, A Busca da Budeidade. Naquele dia Tsongkapa teve um desejo de ler
este comentário, e, enquanto para a aparência comum, ele repassava o décimo-oitavo
capítulo, na realidade desenvolvia a realização da visão imaculada dos Prasangikas. Ele
já havia lido este comentário várias vezes mas, para as aparências comuns desta vez seu
contínuo mental estava maduro para este tipo de realização.
Há muitos incidentes semelhantes nas biografias de outros santos do passado. Je
Kelzang Tenzin é um dos gurus de linhagem deste Dharma. Certo dia, estava para ir à
vila Hrungpa em Dagpo para ler escrituras na casa de alguém. Ele pediu a Kelzang
Kedrub um livro para levar para a leitura. Foi-lhe dado uma antologia Kadampa que
continha um cântico vajra baseado na prática do treinamento da mente. Assim que
Kelzang Tenzin leu, ele desenvolveu a bodhicitta autêntica em seu contínuo mental. No
dia seguinte, enquanto fazia súplicas ao campo de mérito durante seus ritos
preparatórios, chegou à parte que invoca os nomes dos autores do Lam-rim. Esta
passagem começa: “Oh Virtuosos, que cuidam com amor dos seres sencientes...”
Naquele momento, dizem que ele sentiu uma nítida sensação de calor intenso em sua
testa.
Assim, quando um contínuo mental está suficientemente maduro, desenvolve-se
realizações repentinamente, até mesmo a partir das circunstâncias mais triviais. Como
Dolpa Rinpoche afirmou:

Se com coragem você também constrói a sua coleção [de méritos], purifica
seus obscurecimentos, e faz súplicas aos seus gurus e deidades, vai
desenvolver realizações que julgava nunca poder desenvolver, mesmo após
cem anos de tentativas; isto acontece com todos os fenômenos condicionais;
eles não permanecem estáticos.

Os santos do passado tradicionalmente davam esta instrução oral: “Quando você


não constrói o seu estoque de méritos, você é como uma semente sem umidade.”
Assim, a acumulação, a auto-purificação, e a súplica ao campo de mérito são cruciais.
As pessoas em grandes mosteiros não só debatem o tempo inteiro; também cantam

118
muito durante suas assembléias, práticas de debate, e assim por diante. Deve-se levar
essas coisas a sério; o seu propósito é a acumulação e a auto-purificação.
A quem fazemos súplicas para acumular mérito e nos purificarmos? As súplicas são
feitas ao campo de mérito. Portanto, a meditação no campo de mérito é vital, e foi
tratada sob um título separado. O termo “campo de mérito” significa que esta
visualização é um campo fértil para construir seu estoque de méritos. As pessoas
valorizam um campo comum que produz boas safras, o campo de mérito dá grande
força para a sua acumulação, auto-purificação e súplicas. Portanto, é preciso que a
visualização deste campo de mérito seja levada a sério. Um campo comum só produzirá
alguns alqueires. O campo de méritos produzirá resultados de energia imensurável a
partir de pequenas sementes. Os campos comuns só podem ser plantados durante certas
épocas do ano. O campo de mérito está sempre pronto para ser plantado em qualquer
estação do ano, com as sementes de saúde e felicidade. É uma pena deixar este campo
sem ser aproveitado e não semear nele algumas sementes de mérito. Como o grande
Tsongkapa disse:

Há um sutra que diz: “Este santo campo – a fonte de toda saúde e


felicidade – está sempre pronto para ser plantado com sementes de saúde
e felicidade, a todo tempo, em qualquer estação. Revire, portanto, este
campo com o arado da fé.” Que grande pena se nada fizer com este
campo!

Também:

Não damos ao campo de mérito, o campo supremo, o mesmo respeito que


damos aos campos comuns. Não agimos da maneira correta.

Assim, se é tão crucial fazer súplicas ao campo de mérito, você pode agora estar se
indagando: “Como devo fazer isto?” Então, explicarei este processo, começando com a
versão do campo de mérito segundo O Caminho Rápido, porque cada texto de Lam-rim
tem sua própria versão dos ritos preparatórios.
Neste ponto talvez esteja pensando: “Antes que eu possa começar a visualização do
campo de mérito, devo dissolver a visualização do refúgio. Como devo fazer isso, se os
textos não são claros neste ponto?” Existem três instruções diferentes sobre a
dissolução da visualização do refúgio. Elas não são discutidas claramente de forma que
dê alguma elucidação. Estas instruções são: a visualização do refúgio se transforma em
luz amarela, que se dissolve no espaço entre as suas sobrancelhas; ou então imagine
que a visualização se transforma em vacuidade não-focalizada, ou então toda a
visualização do refúgio sobe ao espaço e após visualizar o campo de mérito abaixo
dele, a visualização do refúgio se funde ao campo de mérito na hora em que os seres de
sabedoria entram no campo de mérito. Estas três instruções são vagas e é preciso recitá-
las oralmente.

119
O primeiro passo para visualizar o campo de méritos é a consagração da superfície
da terra. Recite [do Ornamento para as Gargantas dos Afortunados, de Jampel
Lhundrub]:

Que o chão em todos os lugares


Não tenha nenhuma pedrinha, e coisas assim,
Seja plano como a palma da mão,
Tenha a natureza de lapis-lazuli
E no entanto continue macia.

Pense que tudo o que segue acontece dentro dos limites do seu quarto. Visualize
que toda a superfície do chão é vasta – como se estivesse no meio de uma vasta
planície. Esta superfície é plana, e feita de ouro encrustado com desenhos em lapis-
lazuli, ou de lapis-lazuli com desenhos em ouro. A superfície cede ao ser tocada e
recupera a forma quando não há pressão. Só de tocá-la sente-se bem-aventurança. A
superfície está pontilhada de árvores preciosas, e vários pássaros mágicos pousam nas
árvores e cantam o Dharma. Existem piscinas de água, e seus fundos estão cobertos
com pó de ouro. Toda a planície está rodeada por montanhas de jóias e coisas assim.
Visualize segundo o Sutra da Exposição dos Campos Puros. Pedrinhas também
incluem pedras ásperas e cacos de argila – na India, costumava-se jogar fora os
recipientes velhos e o país ficava cheio de fragmentos de argila. A superfície é
ambientalmente perfeita e não está prejudicada por fissuras nem fossas.
Os oferecimentos devem ser consagrados. Na realidade, talvez tenha apenas
colocado um conjunto de sete tigelas de água e acendido um bastão de incenso, mas se
em sua meditação pensar que toda a terra e o céu estão repletos de uma grande
abundância de oferecimentos - como o de Arya Samantabhadra37- acumulará os méritos
destes vastos oferecimentos. Como está dito no Sutra de Avatamsaka: “A maioria dos
oferecimentos são oferecimentos de pavilhões...” Em outras palavras, as coisas
oferecidas são: parassóis, dosséis, e estandartes de vitória. Deve-se também incluir
flores, incenso, lamparinas, perfume, comida, etc. A comida, por exemplo, deve ser
suntuosa e visualizada cercada por uma rede de raios de luz. É bom recitar o mantra
para a abundância dos oferecimentos ou o mantra de oferecimentos:

Om namo bhagavate, vajra sara pramadane tathagataya, arhate, samyaksam


buddhaya, tayatha, om vajre, vajre, maha vajre, maha tejra vajre, maha vidya
vajre, maha bodhicitta vajre, maha bodhi mandopa samkramana vajre, sarwa
karma avarana vishodhana vajre soha.

Dizem que ao recitar este mantra, uma enorme quantidade de oferecimentos cairá
37
O Bodhisattva Samantabhadra é reconhecido pelos seus vastos oferecimentos aos Budas. Há duas maneiras de
visualizar a grande profusão de oferecimentos de Samntabhadra: segundo o sutra e segundo o tantra. Os oferecimentos
segundo o sutra são oferecimentos de tudo que é bom e suntuoso, no meio de raios de luzes de cinco cores. Oferecimento
tântrico é êxtase e vacuidade combinados.

120
ao redor dos Vitoriosos e seus Filhos, mesmo que se tenha colocado apenas os mais
simples oferecimentos físicos.
Depois, invoca-se o poder da verdade [do Ornamento para as Gargantas dos
Afortunados, de Jampel Lhundrub]:

Pela verdade das Três Jóias; pela grande força das bençãos de todos os
Budas e Bodhisattvas, juntamente com a força por ter completado as
acumulações; pelo poder da pureza do inconcebível dharmadhatu [esfera da
verdade], que tudo se transforme em vacuidade.

Ao dizer “que tudo se transforme em vacuidade” suas visualizações se transformam


em vacuidade – não importando quão grande ou pequena seja a visualização.
Vamos agora ao processo da visualização do campo de mérito. Segundo O
Caminho Rápido, há duas maneiras de visualizar o campo de mérito. Uma segue os
discursos concisos, a outra segue o Guru Puja – uma extraordinária instrução tirada do
Livro Milagroso dos Gelugpas. Esta prática era o ioga de Gyalwa Ensapa e Chokyi
Dorje, outro grande adepto. Eles alcançaram a unificação em uma única vida por meio
da visualização dos seres de compromisso, de sabedoria e de concentração, um dentro
do outro.
Neste ponto recite [de Ornamento para a Garganta dos Afortunados, de Jampel
Lhundrub]:

No espaço, a ampla estrada usada pelos deuses,


Vista como a combinação de êxtase e vacuidade,
No centro de várias nuvens sobrepostas
Com oferecimentos de Samantabhadra,
Há uma árvore que realiza desejos
Ornada com folhas, flores e frutas.
No seu topo, há um trono precioso
Flamejante com cinco cores de luzes;
Sobre isto repousa um enorme lótus
Com discos solar e lunar,
E sobre estes, está sentado o meu guru-raiz
Que é triplamente bondoso comigo.
Ele é, por natureza, todos os Budas;
No aspecto de um monge com manto cor-de-açafrão,
Possui uma face, duas mãos e um sorriso radiante.
Sua mão direita faz o mudra de ensinar o Dharma;
A esquerda, o gesto de absorção meditativa
Enquanto segura uma tigela de esmolar cheia de néctar
Ele veste os três mantos do Dharma cor-de-açafrão,
Sobre sua cabeça, há um chapéu amarelo de pandita.

121
Em seu coração, Shakyamuni e Vajradhara azul
De uma face, duas mãos, segurando o sino e o vajra.
Vajradhara está sentado em união com Dhatvoshvari;
Eles experimentam a combinação de êxtase e vacuidade;
Usam ornamentos preciosos e mantos de seda celestial.

Neste ponto, a sua mente apreende a sabedoria primal de êxtase e vacuidade


inseparáveis; esta sabedoria toma a forma de espaço – “a estrada usada pelos deuses.”
Dentro deste espaço, constrói-se a visualização do campo de mérito. A razão para este
primeiro passo é para ver tudo como uma combinação de êxtase e vacuidade. Aqui, eu
poderia discutir muitas coisas profundas sobre a como se convencer do êxtase e a
vacuidade associados ao significado do mantra evam [vacuidade] e então, dentro desta
apreensão, você surgir como uma deidade. Há, no entanto, entre a audiência, pessoas
que ainda não foram iniciadas [nos tantras superiores], portanto não é hora de falar
dessas coisas. Ficaremos por aqui. Em qualquer caso, deve-se visualizar os
oferecimentos de Samantabhadra sobre nuvens elevadas.
No centro do chão precioso, há um lago de leite, onde há a árvore que realiza
desejos. A árvore é feita de sete substâncias preciosas: raizes douradas, tronco de prata,
galhos de lapis-lazuli, folhas de cristais, pérolas vermelhas para as flores, pétalas de
jade, e frutas de diamante. Todas as partes da árvore – as raizes, por exemplo-- são
múltiplos de sete. A árvore realiza todo o seu desejo, exatamente como se deseja, de
forma igual à jóia que realiza os desejos. O roscar de suas folhas, e coisas assim, nos
fala dos quatro sêlos do Dharma – ou seja, impermanência, ausência-de-ego,
[sofrimento e nirvana]. Um trono precioso se encontra no centro da árvore sobre uma
flor enorme. O trono está sustentado por oito leões, que têm o seguinte significado. Os
grandes Bodhisattvas tomam a forma de leões e sustentam o trono para demonstrar
respeito, e coisas assim; e assim como o leão domina todos os outros animais
selvagens, os Budas dominam todos os deuses mundanos e Tirthikas. Existem oito
leões para simbolizar as oito fortunas, e estão agrupados em quatro pares para indicar
os quatro destemores.
Sobre este trono, há onze bases de lótus. Quanto mais alta a base de lótus, maior é a
distância entre os níveis. A base mais elevada tem quatro pétalas. Um disco-solar, feito
de valioso cristal de água, repousa na antera do lótus. Um disco-lunar feito de cristal de
água repousa sobre o disco-solar. Estes dois discos são como duas péles de tambor
horizontais (estes tambores não possuem alças).
O lótus simboliza a renúncia. Um lótus cresce na lama, mas permanece imaculado.
De maneira similar, a renúncia fica imaculada dos defeitos do samsara. O sol
amadurece o que não está maduro; assim, o disco-solar simboliza o efeito
amadurecedor que a suprema bobhicitta [a sabedoria que compreende a vacuidade, vide
Dia 22] tem sobre o contínuo mental. Os raios brancos da lua aliviam o calor. O disco-
lunar simboliza a bodhicitta relativa [a mente que aspira a iluminação] – algo branco
por natureza que alivia o sentimento de hostilidade. As bases de lótus são feitas destes

122
três componentes para simbolizar que os que estão sobre elas são mestres dos três
pilares do caminho. O lótus simboliza também os Níveis de Pequena e Média
Capacidade; os discos solar e lunar simbolizam o Nível de Grande Capacidade.
Depois, visualize a figura principal nesta base de lótus. Quem é a figura principal
do campo de méritos do Guru Puja? Alguns dizem que é Je Rinpoche; outros afirmam
que é seu guru-raiz; outros o chamam até de Guru Puja Je Lama. Mas ele é chamado
Lama Losang Tubwang Dorje Chang. É chamado Lama porque ele é o seu guru;
Lozang porque é Tsongkapa [cujo nome de ordenação era Lozang Dragpa]; Tubwang
porque ele é nosso Mestre Shakyamuni, e Dorje Chang porque ele é Buda Vajradhara.
Portanto, ele é quatro coisas, mas as quatro são inseparáveis. É esta a figura principal
da visualização do campo de mérito. Isto significaria que os quatro contínuo-mentais
diferentes estão combinados? Não é isto que realmente acontece; como poderíamos
fazer quatro contínuo-mentais diferentes em um! Os quatro são uma única entidade
desde o início. Podemos concebê-los como contínuo-mentais separados, mas há provas
usando a lógica e autoridade escritural que devem convencê-lo de que estes quatro são
na realidade um só.
Os quatro são uma entidade. Mas para nós, Vajradhara é azul, segura um vajra e um
sino, e usa roupas do sambhogakaya; Shakyamuni tem a cabeça raspada, não usa nada
nos pés, e se veste como nirmanakaya. Assim, nunca associamos os dois juntos. Isto
não é correto. Buda demonstrou a sua suprema forma nirmankaya sempre que ensinou
o vinaya ou o sutra. Quando ensinou os tantras, ele apresentava a sua forma Vajradhara.
Além disso, quando ensinou o tantra de Guhyasamaja, ele apareceu como Vajradhara
com tres faces e seis mãos. Ele apareceu como Heruka de quatro cabeças com doze
mãos enquanto ensinava o tantra de Heruka. E assim por diante. Ele apareceu num
número infinito de formas para adequar um determinado sutra ou tantra, mas ainda era
Shakyamuni. Assim, Vajradhara e Shakyamuni são uma entidade: eles não são
contínuo-mentais separados. Quando Shakyamuni não tinha mais nenhum discípulo
direto, entrou no nirvana. Mas mesmo depois disto, apareceu muitas vezes na India
como panditas e adeptos, e ensinou o Dharma com estas formas. Durante a primeira
disseminação dos ensinamentos no Tibet, apareceu como Shantarakshita,
Padmasambhava, etc., e ensinou o Dharma. Na segunda disseminação no Tibet, ele se
manifestou como muitos eruditas-adeptos para ensinar o Dharma: Atisha, Je
Tsongkapa, e assim por diante. Mas Je Lozang Dragpa é por natureza a mesma entidade
que Shakyamuni.
Buda disse que Shakyamuni-Vajradhara no futuro tomaria a forma de gurus quando
prevalecessem as cinco degenerações. Portanto, você pode estar se indagando, “Quem.
então, é a emanação de Shakyamuni-Vajradhara que deveria estar trabalhando agora
pelo meu bem?” Não procure além de seu guru. O Tantra Shrikhasama diz:

Todos estes seres são a personificação


Dos cinco Dhyani Budas;
Eles aparecerão de tantas maneiras

123
Tal como outras versões de um retrato
Ainda personificam o mesmo grande êxtase;
Ainda sentem o mesmo grande êxtase,
Mas aparecem de diversas maneiras.

Pode-se tomar esta citação de muitas maneiras. Poderia se aplicar ao isolamento do


nível do corpo do estágio de consumação; ou poderia se aplicar à como deve devotar-se
ao seu guia espiritual, conforme segue:
Suponha que o dançarino principal [num ritual monástico] vista o traje do Chapéu
Negro e faz a sua entrada. As pessoas dirão, “Lá vem o Chapéu Negro,” mas no entanto
é apenas o dançarino. Então, ele sai e coloca a máscara Dharmaraja [tornando-se Yama,
o protetor do Dharma], e quando entra novamente as pessoas dirão, “Aquele é o
Dharmaraja.” Mas na realidade é apenas o mesmo dançarino, apesar dos diferentes
trajes e nomes. O Vitorioso, Vajradhara, de forma semelhante, apareceu como
Shakyamuni, Je Tsongkapa, or seu próprio guru. Todos estes são a mesma entidade.
A principal figura do campo de mérito deve ser visualizada com esta convicção.
Então esta figura recebeu o nome de Lama Lozang Tubwang Dorge Chang. Mas é mais
ainda, como se diz, “Ele é por natureza todos os Budas.” Você deve se convencer que o
guru é uma entidade que inclui toda a sabedoria primordial de todos os Budas
personificada em uma única forma física. Discutirei isto com mais detalhes na seção
sobre devoção ao guia espiritual.
Sem uma compreensão correta destas coisas, suas meditações nos profundos guru
iogas serão apenas um pálida reflexo, não importa o quanto medite. Encontramos em
Os Grandes Estágios do Caminho:

Deve-se compreender o acima como as famosas instruções chamadas


"guru ioga". Mas em nada resultará se meditar apenas algumas poucas
vezes.

A recitação refere-se a três tipos de bondade. De acordo com as tradições do sutra


são: conceder votos, transmissões e discursos. Na tradição do tantra são: conceder
iniciações principais, discutir o tantra, e dar instruções. Dizemos “triplamente bondoso”
porque recebemos os três tipos de bondade de um guru.
Externamente, a figura principal toma a forma do Vitorioso, o grande Tsongkhapa,
um monge envolto em manto cor-de-açafrão. Este açafrão específico é mais ou menos
da cor do pato selvagem: esta é a cor dos mantos [externos] que usa. Sua mão direita
faz o gesto de ensinar o Dharma; sua mão esquerda segura uma tigela de esmolar cheia
de néctar, enquanto mantém o gesto de absorção meditativa. O polegar e o indicador de
ambas as mãos seguram a haste de lótus azuis [ou uptala]. Estes lótus estão em plena
floração, as pétalas estão niveladas com os seus ombros. A espada da sabedoria se
encontra sobre a flor à sua direita. A ponta da espada está em fogo. Uma cópia do Sutra
de Oito Mil Versos da Perfeição da Sabedoria está sobre o lótus à sua esquerda; o livro

124
fala de seu conteúdo. Pode-se também imaginar que o texto é um em que esteja se
especializando em seu estudo, contemplação ou meditação.
Os três mantos que usa são cor de açafrão. Há na realidade três tipos de cores de
açafrão: amarelo, amarelo-avermelhado, e vermelho. Estas cores correspondem ao xale,
vestimenta superior sem manga, e vestimenta inferior. Ele usa um chapéu amarelo de
pandita; com a ponta ereta. Estas cores diferentes significam muitas coisas, mas tomaria
muito tempo para discutí-las. Estes detalhes podem ser encontrados nos discursos sobre
as práticas As Cem Deidades de Tushita e Guru Puja.
Visualize Shakyamuni sentado no coração de Tsongkapa. Vajradhara está sentado
no coração de Shakyamuni. No coração de Vajradhara se encontra o ser de
concentração – a sílaba hum azul. Estas figuras não são seres separados sentados um
dentro do outro, como um conjunto de recipientes. Shakyamuni está no coração de
Tsongkapa para mostrar que externamente o guru parece tomar a forma de um monge,
mas internamente é Shakyamuni. E Vajradhara está no coração de Shakyamuni para
mostrar que o guru é secretamente Vajradhara. Falamos dos “três seres sentados um
dentro do outro”, então pode-se ficar tentado a pensar que as três figuras acima serão
suficientes. Mas, os dois primeiros são seres de compromisso. O Vitorioso Vajradhara é
o ser de sabedoria. Portanto, é necessário visualizar um hum azul em seu coração para
servir de ser de concentração. Esta meditação nos três seres é uma das chaves mais
profundas do tantra, e não ouso discutí-la aqui.
A recitação continua [segundo Um Ornamento para as Gargantas dos
Afortunados]:

Meu guru possui as marcas e sinais,


E irradia milhares de raios de luz;
Um arco-iris de cinco cores o circula.
Ele se senta na postura vajra;
Seus puros agregados são os cinco Dhyani Budas;
Seus quatro constituintes, as quatro consortes;
Seus sentidos, veias, músculos e juntas
São na realidade Bodhisattvas;
Os poros de sua péle são os vinte e um mil Arhats;
Seus membros --os poderosos irados.
Os raios de luz de seu corpo são os protetores das direções.
Indra, Brahma e outros deuses se jogam aos seus pés.
Ao seu redor estão sentados: Meus próprios lamas,
Uma profusão de deuses tutelares,
Suas mandalas e seus deuses atendentes
Os Budas e Bodhisattvas,
Dakas e protetores dos ensinamentos.
Todas as suas três portas estão marcadas com os três vajras
Raios de luz em forma de ganchos irradiam de suas sílabas hum.

125
E ao voltar trazem os seres de sabedoria de suas moradas naturais.
E eles indistinguivelmente se fundem e se estabilizam.

O guru está sentado na posição vajra. Medite que seus [cinco] agregados [vide Dia
22] são os cinco Dhyani Buddhas, e assim por diante. Esta meditação é tirada do tantra
raiz da mandala do corpo de Guhyasamaja. Discutirei isto apenas sucintamente. Esta
instrução é dada em detalhes em A Guirlanda Vajra, o tantra explicativo [de
Guhyasamaja]. Nossa meditação é a mesma da mandala do corpo de Guhyasamaja de
três faces e seis mãos. Se não conseguir isto, visualize conforme a versão de uma face e
duas mãos discutidas nos Ioga Tantras. O agregado da forma [simbólica] do guru, se
extende da ponta da protuberância na coroa de sua cabeça, até sua linha-de-cabelo; este
agregado é por natureza o Buda Vairochana. O agregado de cognição se extende de sua
linha-de-cabelo até sua garganta; este agregado é por natureza o Buda Amitabha. E
assim por diante, [conforme descrito no tantra de Guhyasamaja].
Portanto, os cinco Dhyani Buddas, símbolos dos cinco agregados, sentam-se um
sobre o outro. A protuberância na coroa da cabeça de um toca a base de lótus do
Dhyani Buda acima dele. Gere esta visualização no centro do corpo do guru --como o
cerne de uma árvore. Os seus quatro constituintes físicos são representados pelas quatro
consortes que abraçam estes Budas. Os oito Bodhisattvas – Kshitagarbha e os outros –
representam suas veias, músculos e juntas, bem como os seus seis sentidos; seus olhos,
etc. Suas veias e músculos, por natureza Maitreya, que está sentado em sua
protuberância na coroa. Samantabhadra está sentado nas oito juntas principais do guru.
A recitação não menciona explicitamente as cinco consortes vajra – Vajrarupa, etc. –
mas, como na mandala do corpo de Guhyasamaja, elas estão em união sexual com
alguns destes Bodhisattvas masculinos.
O texto afirma “seus poros são...Arhats.” Estes Arhats não são Shravakas e
Pratyekabuddhas: são Arhats Mahayana, isto é, Arya Budas. De fato, cada poro da
figura central é um campo-búdico. Pense que nestes campos, números infinitos de
Budas estão fazendo os doze feitos: alguns estão subjugando Mara, outros giram a roda
do Dharma, e assim por diante. Este é o significado da expressão “todos os campos-
búdicos aparecem no corpo de um Buda.” [vide Dia 12]. Um dos tantras de
Avalokiteshvara cita o nome de cada campo-búdico destes poros, bem como o nome do
Tathagata que lá reside. Deve-se aplicar esta informação a todas as figuras de Buda. A
maioria dos textos dá o número de vinte e um mil, mas o número exato não está fixado.
Visualize as dez deidades iradas sobre os dez segmentos de seus membros, e tendo
a mesma natureza deles – por exemplo, Yamantaka na sua mão direita.
Existem agora cinco deidades no coração da figura central. A maneira como
colocam é a seguinte: O maior é Akshobhya [Dhyani Buda]. Shakyamuni senta em seu
coração. Vajradhara está no coração de Shakyamuni. Mamaki senta em frente a
Akshobya, em união sexual com ele. Manjushri [um dos oito Bodhisattvas] senta atrás
de Akshobya, virado para a frente.
O corpo da figura principal emite raios de luz, com várias emanações na ponta

126
destes raios – emanações como os protetores das direções, e assim por diante. Pense
que grandes deuses como Indra e Brahma estão prostrados sob as pernas da figura
principal.
Embora talvez não esteja visualizando isto muito claramente, mesmo assim é vital
ter a convicção de que os agregados, os constituintes físicos, sentidos, etc. de seu guru,
são na realidade os cinco Dhyani Budas, as quatro consortes, deidades iradas, etc. Isto
basta quanto a maneira de visualizar a figura principal. Segue agora como se visualiza o
seu séqüito.
Raios de luz fluem do coração da figura principal. Alguns vão à direita e se alargam
– sobre eles sentam-se [os lamas da] Linhagem de Feitos Extensos; outros raios vão
para a esquerda e se alargam para [os lamas da] Linhagem da Visão Profunda. Alguns
raios fluem à frente até os gurus que pessoalmente lhe ensinou o Dharma; outros raios
fluem para traz – e [os lamas da] Linhagem das Práticas Consagradas sentam-se sobre
eles, mas num nível ligeiramente mais alto do que os outros grupos.
Agora, há muitos pontos profundos sobre a maneira como são colocados os
membros da Linhagem das Práticas Consagradas. Os membros mais conhecidos desta
linhagem são Vajradhara, Tilopa, Naropa, Dombhipa, Atisha, e assim por diante. Mas,
como Drubkang Geleg Gyatso salientou, os membros das outras duas linhagens
transmitiram a Linhagem das Práticas Consagradas de um guru para outro, sem deixar a
linhagem se degenerar. Portanto, não é necessário visualizar uma outra linhagem.
Kardo Lozang Gomchung, por outro lado, alega que a Linhagem das Práticas
Consagradas, consiste de membros das linhagens de Guhyasamaja, Heruka e
Yamantaka. Je Ngagwang Jampa e Lama Yongdzin Rinpoche alegam que ela é
composta principalmente por duas linhagens: As Dezesseis Gotas do tantra dos
Kadampas e a Linhagem Secreta Gelupga.
Uma instrução profunda que recebi de meu próprio precioso guru mostra como
combinar estas três versões diferentes. Agora, a transmitirei sem reter nada. Visualize
uma coluna vertical de imagens neste grupo atrás da figura principal. Todas as figuras
nesta coluna – com exceção de Vajradhara [a figura mais ao alto] – tomam o formato
de Manjushri, começando pelo próprio Manjushri e indo até o seu próprio guru. À
direita desta coluna vertical estão os gurus dos tantras de Guhyasamaja e Yamantaka.
Cada uma destas duas linhagens forma suas próprias colunas verticais. À esquerda das
imagens de Manjushri estão as linhagens do tantra de Heruka e do tantra das Dezesseis
Gotas. Novamente, cada um forma sua própria coluna vertical. Je Sherab Gyatso em
seus escritos descreveu um arranjo semelhante. Existem outras instruções, mas para
maiores detalhes consulte O Livro dos Kadampas, as obras de Kachen Namkha Dorje
sobre Guru Puja, discursos gravados de Tutor Tsechogling sobre Guru Puja, as auto-
biografias dos gurus de linhagem desta prática, e os textos de Sherab Gyatso, acima
mencionados.
Há também uma instrução oral muito especial em como colocar os gurus das
escolas dos antigos e novos-Kadampas [vide Dia 6]. Isto é suficiente quanto a
visualização dos gurus.

127
A base de lótus do primeiro nível tem quatro pétalas. Coloque as trinta e duas
deidades do sistema vajra de Akshobya do grupo de Guhyasamaja na pétala frontal; as
treze deidades do tantra de Yamantaka estão de pé na pétala à direita de Guhyasamaha;
as sessenta e duas deidades da versão Luipa do tantra de Heruka estão sobre a pétala à
esquerda de Guhyasamaja. As nove deidades da versão Kapalin de Hevajra estão em pé
sobre a pétala traseira.
Segundo outras tradições, visualize Guhyasamaja – o principal tantra pai – em pé
sobre a pétala à direita da figura principal. As deidades de Heruka – o principal tantra
mãe – estão em pé à esquerda da figura principal. As deidades de Yamantaka – o tantra
que tem todos os pontos chaves tanto do tantra pai como do tantra mãe – estão na pétala
do meio em frente à figura principal.
De qualquer forma, visualize a mandala completa de cada tantra juntamente com
suas respectivas deidades residentes. Se isto fôr demais para você, visualize as deidades
principais e seus séquitos completos [sem suas mandalas]. Se também não conseguir
isto, visualize apenas as deidades principais.
No segundo nível abaixo, visualize as outras deidades do Ioga Tantra Superior, com
Kalachakra na frente. As deidades do Ioga Tantra pertencem ao terceiro nível. As
deidades do Charya Tantra estão no quarto nível. As deidades do Krya Tantra estão no
quinto. No sexto, temos os Buddhas, tomando suas formas nirmanakaya. No sétimo os
Bodhisattvas. No oitavo os Pratyekabuddhas. O nono tem os Sravakas. O décimo, os
dakas e dakinis. E no décimo-primeiro, visualize os protetores do Dharma.
As letras-sílabas – por natureza os três vajras [corpo, palavra e mente iluminados] –
estão visíveis nos três pontos dos corpos das figuras do campo de mérito: isto é, um om
branco, a natureza do corpo vajra e do Buda Vairocana, sobre a coroa de suas cabeças,
[um ah vermelho (a palavra vajra e Buda Amitabha) sobre suas gargantas; e um hum
azul (a mente vajra e Buda Akshobhya) em seus corações]. Embora os textos de
recitação não digam explicitamente, afirmam que um sva amarelo deve estar visível em
seus umbigos ( Buda Ratnasambhava por natureza). Um ha vermelho também deve
estar localizado nas partes intimas de cada figura; sua natureza é o Buda
Amoghasiddhi. Os três vajras são exclusivos dos Budas. Assim, deve-se considerar
todo o campo de mérito como Budas por natureza – mesmo os Shravakas,
Pratyekabuddhas, e assim por diante, que aqui são apenas formas manifestas de Budas.
Compreenda-os também como sendo, sem exceção, emanações de seu guru. Há até
uma instrução para ver cada um como seres de compromisso, de sabedoria e de
concentração.
Também nos dizem para desenvolvermos outras três atitudes com relação ao campo
de mérito: a clareza de que sua aparência é impressionante, que seja considerada como
real, e que acredite que um objeto maravilhoso a se fazer oferecimentos.
Ao completar este processo de visualização convide os seres de sabedoria. Na
verdade, eles não precisam ser convidados, irão até você se imaginá-los. Um sutra diz:
“Os Munis virão perante qualquer um que faça um esforço para visualizá-los.”
Nos debates, ouvimos a afirmação que “não há lugar que não seja percebido pela

128
cognição válida dos Budas.” Devemos colocar tais afirmações em bom uso. Podemos
facilmente comparar isto com um ponto do tantra: quando os seres que atingiram o
êxtase da unificação, a mente e corpo iluminados se tornaram uma mesma entidade.

Em apenas um momento, sua onisciência


Permeia a mandala de tudo conhecível...
Onde quer que sua sabedoria primordial permeie
Igualmente o fazem seus corpos.

Ou seja, qualquer lugar permeado por sua onisciência é também permeado pelo
corpo iluminado. Se tentamos apenas visualizar as deidades do campo de mérito, as
deidades tomarão seus lugares à nossa frente – só não conseguimos vê-las devido ao
nosso karma e obscurecimentos [resultantes]. Isto é mostrado nas estórias sobre como
Asanga alcançou a visão de Maitreya, ou como Chandragomin o fez com
Avalokiteshvara. Portanto, os Munis vêm sem esforço à nossa frente como o reflexo da
lua que aparece na superfície de água em potes ao ar livre. Assim que começamos a
visualizar o campo de mérito, os Budas vêm até nós, mas não os vemos. De forma
similar, não vemos, por exemplo, os nagas e os espíritos que vivem em buracos de água
ou em santuários à beira de estradas.
Mesmo assim, se as bençãos ou méritos [da presença dos Budas] são recebidas ou
não, depende de se ter a atitude de que eles estão alí em pessoa. O convite é feito para
afastar o receio de que estes seres – seu refúgio – possam não vir e também para
estabilizar a sua visualização.

Recita-se então [de Um Ornamento para as Gargantas dos Afortunados]:

Protetores de todo e cada ser senciente.


Deuses que conquistam o poderoso Mara e sua horda,
Oh Bhagavan Buddhas e seu séquito,
Que conhecem perfeitamente todas as coisas --
Peço que venham aqui. Ja hum bam hoh:
Você, assim, se torna inseparável
Dos seres de compromisso.

Enquanto recita estas palavras, pense: “Os seres do campo de mérito possuem as
qualidades de onisciência, amor e habilidade. Portanto, assim como na estória de
Magadhabhadri, todos estão vindo em procissão infinita e mágica.38 Ao mesmo tempo,
luz irradia dos corações dos seres no campo de mérito. Esta luz toca o coração de todos
os Budas nas dez direções e campos de méritos inteiros saem do coração de cada Buda.

38
A filha de Anathapindika (vide Dia 4) casou-se com um rei estrangeiro e foi viver longe da India Central. Em sua dor,
rezou ao Buda e, certa manhã, em resposta ás suas preces, Buda veio até ela junto com o seu séquito de Sravakas. [vide
Dia 9].

129
Todos estes campos de méritos se fundem num campo que paira sobre a visualização
original. Este campo então irradia vários conjuntos completos de seres de sabedoria,
que se dissolvem em cada membro de seu campo de mérito. Imagine que cada ser de
seu campo de mérito agora, por natureza, personifica totalmente seu local de refúgio.
Se fizermos esta visualização, não faremos julgamento do valor do campo de
mérito; a visualização também é um gesto auspicioso para o futuro quando estaremos
verdadeiramente trilhando o caminho e apreciarndo seus frutos.
Aliás, esta é uma tradição tântrica, portanto os seres de sabedoria são atraídos, vêm,
se unem aos seres de compromisso, e depois os agradamos [com oferecimentos].
Depois disto, banhamos as figuras. O campo de mérito é imaculado de pecados,
obscurecimentos kármicos, sujeira, e coisas assim, mas certa vez foi dito: “O
Dharmakaya não tem máculas; mas para serví-lo e render-lhe respeito...” Em outras
palavras, faremos esta prática para purificarmos a nós mesmos dos karmas,
obscurecimentos, etc.
Há várias maneiras de visualizar a casa de banho mas, como esta prática específica
está relacionada ao Ioga Tantra Superior, a casa de banho tem quatro portas e fachadas
ornamentadas [como palácios celestiais no coração de uma mandala tântrica]. A casa
tem apenas um andar; o pagode é sustentado por quatro pilares feitos de substâncias
preciosas. Dentro do prédio, a face inferior está decorada com pérolas. Há uma piscina
no centro do prédio. O fundo da piscina é de cristal coberto por uma camada de pó de
ouro, o centro é ligeiramente mais alto do que as bordas – como casco de tartaruga. Os
outros detalhes arquiteturais seguem as descrições habituais dos Iogas Tantras
Superiores. Há um número específico de plataformas de madeira ou tronos para
acomodar os seres do campo de mérito; passagens levam até estes tronos ou
plataformas de três lados e cada passagem tem quatro degraus. Um muro baixo feito de
substâncias preciosas circula o prêdio; neste muro há um nicho de jóias para colocar as
roupas daqueles do campo de mérito que em breve serão descartadas. Visualize as
roupas novas que irá oferecer ao campo de mérito, os jarros [da casa de banho] e assim
por diante.
Se tiver os implementos do ritual do banho, use a tigela para representar a piscina.
Coloque um pouco de água de seu vaso de iniciação na tigela. Desenhe duas linhas
horizontais em seu espelho com a água do vaso [use penas de pavão que ornam o vaso
como instrumento de escrita]; então faça duas linhas verticais, formando nove espaços
num arranjo quadrado. Com mais água do vaso desenhe os pontos; um no quadrado do
centro, e um em cada uma das quatro direções cardinais [deixando os quadrados dos
cantos vazios]. O desenho quadrado representa a casa de banho; os cinco pontos, as
cinco familias de Dhyani Budas.
Recite a seguir:

Eis uma casa de banho perfumada;


Com piso claro e brilhante de cristal;
Com pilares primorosos e radiantes

130
Feitos de substâncias preciosas;
Adornada com um dossel de finas pérolas.
Logo após o nascimento [de Buda],
Os deuses lavaram seu corpo;
Então, também lavarei com águas celestiais
Os corpos dos Sugatas.
Om sarwa tathagata abhishekata samaya shriye ah hum
Corpo nascido de dez milhões de virtudes e excelências,
Palavra que realiza as esperanças de infinitos seres,
Mente que vê todo conhecível tal como são:
Eu lavo o corpo de Shakyamuni-Vajradhara.
Om sarwa tathagata abhishekata samaya shriye ah hum
Eu lavo os corpos da Linhagem de Feitos Vastos.
Eu lavo os corpos da Linhagem da Visão Profunda.
Eu lavo os corpos da Linhagem de Práticas Consagradas.
Eu lavo os corpos dos gurus de minha linhagem.
Om sarwa tathagata abhishekata samaya shriye ah hum
Eu lavo os corpos dos Budas, nossos mestres,
Eu lavo o corpo do santo Dharma, nosso protetor.
Eu lavo os corpos da Sangha, nossos salvadores,
Eu lavo os corpos das Três Jóias, nosso refúgio.
Om sarwa tathagata abhishekata samaya shriye ah hum

No início desta passagem, visualize que o campo de mérito desce até a casa de
banho, ou visualize escadarias que os seres usam para descer. Em qualquer caso, recite
o mantra “Om sarwa tathagata...” e emane três deusas de oferecimentos para cada um
dos seres do campo de mérito. Uma deusa lava a frente do corpo, uma unge o corpo, e
uma coloca as roupas novas. Enquanto os seres são lavados, imagine que a primeira
deusa pega água da piscina e derrama sobre o ser do campo do mérito; as mentes do
campo de mérito desenvolvem grande êxtase enquanto isto acontece.
Depois do banho, seus corpos são enxugados enquanto este verso e mantra são
recitados:

Eu enxugo seus corpos com tecido inigualável --


Limpo e embebido em excelente perfume.
Om hum tram hrih ah kaya vishodhanaye soha

A prática segue as cerimônias tradicionais de consagração. O segundo conjunto de


deusas secam os seres do campo de mérito enxugando os cinco pontos de seus corpos:
testa, garganta, coração, e ambos os ombros – pois toda a água de seus corpos se
acomodou nestes pontos. Eles não precisam ser enxugados da cabeça aos pés como nós.
131
Elas então os ungem. Recite:

Eu consagro os corpos deslumbrantes dos Munis


--Tão deslumbrante quanto ouro refinado polido--
Com as mais excelentes fragrâncias
Que bilhões de mundos têm a oferecer.

A loção é dourada, de perfume excelente, e nada oleosa.

Então imagine que o terceiro conjunto de deusas dão as roupas novas. Recite:

Movido por fé incessante,


Ofereço mantos celestiais --macios, leves,
Diáfonos --Áqueles que alcançaram
O corpo vajra indestrutível.
Possa eu, também, obter um corpo vajra.

Cada ser recebe uma veste apropriada: roupas de uma deidade pacífica, ou deidade
irada. Imagine que Dromtenpa recebe um casaco azul forrado com pele de lince; ele
também recebe um cinto que dá seis voltas na sua cintura. Suas roupas simbolizam que
o caminho dos três níveis de capacidade está coberto com as seis perfeições. Fazer isto
é um gesto dos mais auspiciosos.
As deusas então dão ao campo de mérito seus ornamentos e implementos
apropriados. Recite:

Como os Vitoriosos são naturalmente adornados


Com as marcas e sinais,
Eles não precisam de outros adôrnos;
Mas ofereço as melhores jóias e adôrnos
Para que todos os seres possam obter
Um corpo com estas mesmas marcas.

As figuras então retomam os seus lugares acima; enquanto você recita:

Por causa do amor dos Bhagavans


Todos os seres, inclusive eu,
Pedimos que permaneçam
Através de seus poderes mágicos
Enquanto eu estiver fazendo-lhes oferecimentos.

As velhas roupas deixadas pelas deidades nos nichos ornados de jóias antes de
entrar na casa de banhos, se transformam em luz, que dissolve entre suas

132
sombrancelhas. Alternativamente, imagine que um representante de cada um dos seis
tipos de renascimentos se apresenta para receber a sua parte destas relíquias. Seis
canaletas saem da piscina e levam a água do banho aos seis reinos; sinta que esta água
remove todos os sofrimentos de todos os outros seres. Também – como seres humanos
são insaciáveis – visualize que a água se transforma em bens para suprir toda possível e
imaginável necessidade humana. Pense então que a casa de banho e tudo o mais se
dissolvem na vacuidade.

(E) OFERECIMENTO DA ORAÇÃO DOS SETE RAMOS E DE MANDALA –


PRÁTICAS QUE CONTÉM TODOS OS PONTOS CHAVES PARA
ACUMULAÇÃO DE MÉRITO E AUTO-PURIFICAÇÃO.

Geshe Dolpa disse:

Se você constrói corajosamente sua coleção [de mérito], purifica seus


obscurecimentos, e faz súplicas aos seus gurus e deidades, desenvolverá
realizações que julgava que nunca iria desenvolver, mesmo após cem
anos de tentativas; isto acontece para todos os fenômenos condicionais;
eles não permanecem estáticos. Um dia você os desenvolverá.

Ou seja, é vital construir seu estoque de méritos. As práticas da oração de sete


ramos e oferecimento de mandala contêm os pontos chaves deste processo de
construção. Estas práticas são cruciais durante toda a sua prática.
Algumas pessoas podem não dar importância a estas práticas pensando: “Elas são
para pessoas que não podem praticar grande quantidade de virtude,” ou “São apenas
práticas introdutórias que são supérfluas à prática principal.” O caso não é este; não há
melhor maneira, nem no sutra nem no tantra, de se purificar do que construir a
acumulação [de mérito] e purificar seus obscurecimentos fazendo a oração dos sete
ramos ao supremo campo de mérito – isto é ao seu guru, aos Vitoriosos e seus Filhos. A
oração de sete ramos é ainda mais importante no contexto do tantra. As quatro classes
do tantra discutem amplamente os sete ramos; diz-se que mesmo no estágio de geração
do Ioga Tantra Superior deve-se construir a acumulação e purificar os obscurecimentos
fazendo a oração dos sete ramos ao campo de mérito, isto é através de homenagem,
oferecimento etc. O grande Tsongkapa – a própria personificação de Manjushri –
realizou práticas de acumulação e auto-purificação em Oelga e, como resultado,
desenvolveu experiências e visão extraordinária. Este é um exemplo de realizações
desenvolvidas rapidamente quando o contínuo mental do praticante foi suficientemente
amadurecido. Até Bodhisattvas dos [dez] estágios trabalham principalmente pela
acumulação e auto-purificação. Os Bodhisattvas do primeiro estágio emanam centenas
de corpos; estes corpos vão a centenas de campos búdicos e fazem oferecimentos. Os
Boshisattvas do segundo estágio em diante, emanam mais e mais corpos fazendo mais e
mais oferecimentos até que alcançam a Budeidade. É, portanto, claro que também

133
devemos fazer oferecimentos.

Kyabje Pabongka Rinpoche discutiu isto mais detalhadamente.

Assim, as práticas dos sete ramos são indispensáveis para as acumulações e


purificações, tanto sutricas quanto tântricas. Alguns exemplos: seus erros amadurecerão
como uma bolha pronta a explodir, e suas boas qualidades amadurecerão como uma
fruta madura pronta a se colher. Os santos do passado nos instruiram: “Você será como
uma semente seca se não construir as suas acumulações.” Em outras palavras, enquanto
continua a internalizar os tópicos de suas meditações do Lam-rim, você deve
definitivamente trabalhar duro na acumulação e auto-purificação por meio da oração
dos sete ramos. Dizem que não se conseguirá nada no caminho se só praticar as partes
que lhe parecem plausíveis.
Posso ilustrar o nome “sete ramos” como segue: Suponha que seja construído de
sete partes mecânicas: uma carroça, por exemplo, não andará se uma delas estiver
faltando. Também, se um dos sete ramos estiver faltando, a sua acumulação de méritos
e auto-purificação não prosseguirá adequadamente.

Discutirei, agora, os sete ramos.

O PRIMEIRO RAMO: HOMENAGEM

Existem três tipos de homenagem: prosternação do corpo, homenagem verbal e


homenagem mental. [A seguinte oração de sete ramos é tirada de A Oração Real dos
Feitos Nobres]:

A todos os Tathagatas dos três tempos --estes leões entre humanos--


Que são encontrados nas dez direções do universo,
Rendo homenagem, a todo e a cada um
Com o corpo, palavra e mente limpos.

Com esta poderosa oração de nobres atos,


Eu me prosterno perante todos os Vitoriosos:
Imagino que tenho tantos corpos
Quanto átomos no mundo.

Segundo os ensinamentos escritos sobre esta oração, cada corpo que você emana
deve ter um número infinito de cabeças. Isto pode não ser conveniente! Basta imaginar
todos os corpos com que você nasceu desde os tempos sem princípio --mas sob a forma
humana.

A oração continua:

134
Em cada átomo existem tantos Budas
Quanto existem átomos [no universo], e aqueles Budas
Se sentam entre Bodhisattvas. Portanto também acredito que
Todos Os Vitoriosos preenchem a amplitude de todos os fenômenos.

Este verso significa que todo Buda na existência pode se sentar sobre um único e
pequenino átomo. Suponha que cem pessoas olham um grão de cevada
simultaneamente; aquele único grão ocupa a consciência do olho de cem pessoas. A
sabedoria primal de todos os Budas pode igualmente se ocupar com um único átomo. O
corpo físico de um Buda é também encontrado em qualquer átomo tendo a sabedoria
primal de Buda. Isto é uma propriedade da unificação e, porque sua mente e energia
dos ventos são sempre encontrados juntos.

A oração continua:

Eu canto as qualidades de todos os Vitoriosos


Com um oceano inexaustível de louvor.
Com um grande oceano de todo som melodioso,
Assim canto louvor a todos os Sugatas.

Até mesmo levantar um único dedo ao campo de mérito em respeito é render


homenagem com o corpo. Há uma relação de diferentes maneiras de render
homenagem física. Tocar os quatro membros e a cabeça no chão chama-se “semi-
prosternação”. “Prosternação completa” é deitar o corpo inteiro no chão. A
prosternação completa foi inicialmente mencionada no Sutra de Exposição das Varetas,
onde afirma:

Para se prosternar, deite todo o seu corpo no chão como uma árvore caída
sobre o chão, assim como fez Kumara Manibhadra.

Os benefícios de se prosternar são: O Sutra de Classificação do Karma menciona


dez benefícios – você terá um belo corpo, uma tez dourada, e assim por diante. Outros
sutras dizem que adquire-se méritos para tornar-se um imperador do mundo em número
igual ao dos átomos no chão que fôr coberto pelo corpo. A semi-prosternação foi
discutida nos tantras; era como Pandita Naropa fazia suas prosternações. Purchog
Ngagwang Jampa teria dito, “Se acredita nos benefícios de fazer prosternações, sentirá
'Ah se meu corpo, mãos e pés fossem mais longos.'”
Antes de se prosternar, uma as palmas de suas mãos. Os Tirthikas tradicionalmente
pressionavam suas palmas, mas não seguimos esta prática: nós colocamos os polegares
dentro da cavidade das mãos para que nossas mãos não fiquem vazias. O formato das
mãos então se assemelha à jóia que realiza todos os desejos.

135
Com suas mãos assim unidas toque o topo de sua cabeça; isto concede o potencial
para alcançar a protuberância na coroa da cabeça. Toque então suas mãos entre suas
sombrancelhas. Isto concede o potencial para atingir o urna –o cabelo encaracolado na
testa. Então toque suas mãos na sua garganta, o que concede o potencial para alcançar a
fala iluminada, uma voz com as sessenta nuances melodiosas. Então toque suas mãos
no seu coração, para ter o potencial de alcançar a mente iluminada. Todas estas ações,
colecionar méritos e purificar-se; purificam o karma e os obscurecimentos de seu
corpo, palavra e mente.
Se você se abaixa e se levanta do chão com as mãos curvas, dizem que poderá
renascer como um animal com cascos redondos. Deve-se então manter os dedos juntos
e achatá-los no chão. Não faça um punho. Estas ações o ajudarão a conseguir teias de
luz entre seus dedos das mãos e dos pés [uma das marcas de um Buda]. Toque o chão
com suas mãos e testa. Note que há um relacionamento entre como se levanta do chão e
o tempo em que transcenderá o samsara – portanto, você deve se levantar tão
rapidamente quanto uma raposa correndo. Também, caso não se levante
suficientemente rápido, mas permaneça sonolento no chão, poderá renascer como uma
espécie animal que se arrasta – um réptil por exemplo. Portanto, não se renda à tentação
de descansar no chão. Se não endireitar seu corpo entre as prosternações [após se
levantar], mas deixar as costas meio curvas, poderá renascer como um animal que não
fica em pé sobre as pernas trazeiras. Portanto, endireite seu corpo. Não faça um grande
número de prosternações apressadas; faça cada uma delas corretamente. Je Rinpoche
nos aconselhou não só a acumular um grande número de prosternações – fazer cem mil
como prática preliminar, e assim por diante; mas a preferir a qualidade.
Alguns podem alegar “Vou fazer meu retiro de preliminares”,39 e encurtam suas
prosternações. Isto é errado. Deve-se construir as acumulações e purificar os
obscurecimentos sempre, até que se alcance a iluminação. Os principiantes como nós
devemos trabalhar arduamente nas acumulações e purificações durante todas as nossas
vidas. Acumulação e auto-purificação são muito mais importantes do que meditação:
você não alcançará absolutamente nada se alegar “Terminei meu retiro de preliminares”
e então facilitar as coisas depois disso.
Se suas prosternações já estão aumentando seu estoque de méritos e já estão
purificando os seus osbcurecimentos, você não deve se preocupar se ainda não
completou as cem mil prosternações. Isto é mostrado por uma estória. Havia quatro
pessoas fazendo um retiro juntas. Uma delas não havia completado um grande número
[de repetições da fórmula do refúgio], e as outras três perguntaram quantos ele havia
alcançado. Ele respondeu: “Vocês só têm como meta um grande número?” Idealmente
deve-se completar um grande número de prosternações feitas corretamente; se não,

39
A maioria das tradições do budismo tibetano recomenda fazer um retiro de preliminares antes de receber ensinamentos
ou fazer um longo retiro de deidade. Isto inclue pelo menos recitar as formulas de refúgio e bodhicitta, fazer oferecimentos
de mandala, prosternações, e recitar o mantra de Vajrasattva junto com a visualização, fazendo-se cada uma delas cem mil
vezes. A tradição Gelug coloca ênfase em fazer estes métodos de purificação e acumulação de méritos continuamente e
não uma única vez.

136
conte suas prosternações para que as pessoas possam se alegrar com sua virtude.
Pode-se normalmente render homenagem enquanto cuida de sua rotina diária. Ao
andar por uma rua e ver, por exemplo, os símbolos do corpo, palavra e mente
iluminados, deve-se unir as mãos. Esta é uma forma de homenagem: dizem que se você
realmente souber como praticar, poderá converter todos os movimentos de seu corpo
em Dharma.

O SEGUNDO RAMO: OFERECIMENTOS (49)

A Oração Real dos Feitos Nobres continua:

Ofereço aos Vitoriosos


Flores excelentes, guirlandas mais finas,
A batida de címbalos, a melhor
Das loções, de parassóis,
Das lamparinas e os melhores incensos.
Ofereço aos Vitoriosos
Mantos finos, a melhor das fragrâncias,
Montes de pós de incensos tão altos quanto o Meru--
Um sublime cortejo de coisas incomparáveis.
Todos estes inigualáveis e vastos oferecimentos
Visualizo para todos os Vitoriosos.
A todos os Vitoriosos rendo esta homenagem,
Fazendo este oferecimento pelo poder
De minha fé nos atos nobres.

Achamos que é uma grande vergonha deixar um campo produtivo sem ser plantado
durante um ano, mas isto não é nada. É cem mil vezes mais desafortunado não
acumularmos nenhum mérito através do campo de mérito. Embora qualquer virtude-
raiz que acumulamos não seja Dharmica se for feita com pelo menos o anseio por um
renascimento melhor, o resultado final é sempre o mesmo quando se trata do campo de
mérito. Se você acumula mérito com o campo de mérito ao render-lhe homenagem,
fazer oferecimentos e assim por diante, aquele mérito definitivamente será causa para
alcançar a Budeidade – mesmo que sua motivação não seja nem mesmo o desejo de um
renascimento melhor. Mesmo se fizer oferecimentos aos Budas com maus motivos, esta
ação contribuirá para a sua iluminação. Os resultados que se obtém são especiais por
causa do poder do campo de mérito. Uma ilustração: mesmo se não plantar a semente
corretamente num campo fértil, você ainda pode estar certo de obter bons resultados.
Nos versos acima, a loção mencionada é um líquido feito fervendo-se vários
ingredientes aromáticos, como incenso. As “flores excelentes” e assim por diante
podem não ser oferecimentos supremos, mas a frase “Um sublime cortejo...” deve se
referir a todos os oferecimentos mencionados antes. O “incenso” deve ser de apenas um

137
tipo – sândalo, por exemplo. Os “pós de incensos” são de sândalo, etc. “Montes”
referem-se a montículos de pós de incenso. “Montes de pós de incenso”, no entanto,
tem outra interpretação. “Pós de incenso”significa pós aromáticos; “montes” pode ser
um sachet de tecido que guarda estes pós. Os sachets são presos em dosséis e liberam
fragrância ao serem soprados pelo vento. A Oração de Nobres Atos menciona sete tipos
de oferecimentos – flores excelentes, e assim por diante.
Supremos oferecimentos são as mais sublimes emanações de Budas e Bodhisattvas,
que produzem através de suas bodhicitta e orações. Embora não possamos fazer este
tipo de oferecimento, há o que podemos oferecer. O Sutra Solicitado por Sagaramati
menciona dois: manter o Dharma, e desenvolver o desejo pela suprema iluminação. O
Sutra do Lótus Branco da Compaixão menciona um terceiro – utilizar seus estudos ao
colocá-los em prática. Nossos gurus nos instruem a fazer um quarto tipo de
oferecimento supremo: nossa virtude-raiz transformada em oferecimentos materiais.
O supremo oferecimento de “manter o Dharma” abrange desde manter os
ensinamentos transmitidos e realizados até mesmo memorizar uma única sílaba de um
mantra. “Colocar os estudos em prática” significa praticar o significado de qualquer
coisa que tenhamos estudado ou memorizado. Devemos seguir o exemplo de Geshe
Chaen Ngawa lendo o livro do vinaya e tirando a sua pele de couro [vide Dia 3]. Dizem
que se ficarmos esperando por alinhamentos auspiciosos dos planetas para começar
nossas práticas, poderemos morrer primeiro. Mesmo colocando em prática o que sabe
sobre limpar sua casa é um oferecimento de sua prática. Pessoas que são bem versadas
nos clássicos não devem fazer nada além de colocar os estudos em prática. Como
Butoen Rinpoche disse,

Querem vencer e humilhar os outros;


Agem fraudulentamente; usam linguagem baixa;
Falam todos os tipos de disparates, enfurecem os outros:
Este tipo de debate leva-os ao inferno!

Isto é não se deve agir assim.

Ainda a respeito de oferecer suas virtudes-raiz transformadas em oferecimentos


materiais: imagine virtudes que tenha conseguido dos estudos e assim por diante como
materiais de oferecimentos físicos – como nestas citações: “No meio de um oceano
cujas águas são pura ética...” ou “Um oferecimento no calmo lago dos estudos...” E no
Guru Puja encontramos: “Num lago que realiza os desejos estão meus oferecimentos,
tanto os reais como os imaginados...” Isto é um oferecimento de seus méritos,
imaginados sob a forma de um jardim aprazível.
“Desenvolver o desejo pela suprema iluminação” significa desenvolver a bodhicitta
e oferecê-la aos Vitoriosos e seus Filhos para agradá-los.
Estes quatro é o tipo de oferecimento supremo que podemos fazer. Não pode haver
melhor oferecimento do que estes quatro. Aqueles de nós que são ordenados devem

138
oferecer principalmente o que praticamos então, quando somos pobres, não
praticaremos comportamentos errados. Mesmo se tiverem dinheiro, as pessoas
ordenadas devem trabalhar mais duramente apenas no oferecimento de sua prática.
Drolungpa diz em seu Estágios dos Ensinamentos:

Existem três tipos de oferecimentos de realizações;


Estátuas, stupas, o real e o imaginado,
O que você fez por si mesmo,
O que os outros fizeram por você
O seu serviço, e sua ausência de estreiteza mental.

Portanto, ele alega que devemos também fazer estes oferecimentos.


Neste ponto faça um oferecimento de mandala. As Palavras do Próprio Manjushri
difere dos Lam-rims do Caminho Rápido e do Caminho Fácil. Segundo estes dois
últimos textos, faz-se primeiro seus oferecimentos, e depois faz-se o oferecimento de
mandala. As Palavras do Próprio de Manjushri afirma que devemos fazer primeiro o
oferecimento de mandala; isto segue a prática de se fazer primeiro o oferecimento ao
guru, e assim por diante.
“Mandala” em tibetano é kyil kor [circulando o centro]. Kyil ou “centro” implica
em “essência”; kor ou “circulando” implica em “extraindo.” Portanto, a palavra
“mandala” significa “extrair a essência.” Isto tem grande significância.
A mandala é normalmente circular. Seu formato, no entanto, deve estar de acôrdo
com suas tendências kármicas --portanto são aceitáveis mandalas quadradas e coisas
assim.
Alguns alegam, “Oferecimentos externos não são tão importantes quanto absorção
meditativa interna,” mas, no contexto tântrico, encontramos os Cinquenta Versos ao
Guru [de Ashvagosha], que afirma:

Com as mãos unidas,


Ofereça ao seu guru, seu mestre,
Mandalas e flores.

Certo dia Dromtoenpa visitou o grande iogue Gampopa. Gampopa passava o tempo
todo em meditação uni-focada, e seu conjunto de mandala ficava negligenciado,
coberto por poeira. Drom perguntou porque ele não estava oferecendo mandalas.
Gampopa disse a Drom que por ora estava contemplando coisas internas, e havia se
tornado profundamente absorto. “O que está querendo dizer?” disse Drom em
reprovação. “Atisha foi muito melhor meditador do que você, e no entanto fazia
oferecimento de mandalas três vezes ao dia.” Depois disso, Gampopa se esforçou mais
em fazer oferecimentos de mandala e, como resultado, desenvolveu realizações.
Se você for rico, deve ter um conjunto de mandala feito de ouro, prata, cobre ou
semelhante. Caso contrário, servem as de pedra, lousa, cerâmica ou madeira. Je

139
Rinpoche usou uma mandala de pedra durante seu retiro em Oelga. O conteúdo da
mandala deve ser jóias, grãos, e remédios. Ou então bastam pedrinhas, areia, e coisas
assim. Se for rico, construirá uma enorme coleção de méritos ao oferecer o melhor. A
base da mandala deve ser a maior possível e pelo menos não deve ser menor do que o
seu próprio prato de comida. Você deve oferecer mandalas ao menos uma vez por ano,
ou uma vez por mês.
Coloque uma gota de perfume nas pontas dos dedos. Então, ou coloque o polegar
no centro [acima da base] e mova seus dedos em torno da borda, ou coloque seus dedos
no centro e mova o polegar ao redor da borda.
Faça o oferecimento conforme segue: Segure a base de mandala em sua mão
esquerda com um pouco de grãos [na palma]. Com seu antebraço [direito], esfreque a
base muitas vezes no sentido horário. Imagine que está afastando suas negatividades e
obscurecimentos. Então, esfregue a base três vezes na direção contrária: imagine que
seu tempo de vida, corpo, palavra e mente estão sendo abençoados. Recite então [as
orações de oferecimento de mandala longa, curta ou interna].
Há várias maneiras tradicionais para preencher a mandala. Tome o leste da base da
mandala como sendo ou aquele lado que está voltado ao campo de mérito – os seres a
quem faz os oferecimentos – ou o lado voltado para si. Durante um oferecimento de
mandala, tome o leste como sendo o lado da base da mandala voltado para os seres a
quem faz o oferecimento. Use o lado voltado para si como sendo o leste quando for
fazer uma mandala de súplicas. É melhor adotar aqui a segunda convenção, porque
você está pedindo ao campo de mérito para condeder suas bençãos.
A versão dos trinta-e-sete montes da mandala pertence à tradição de Sakya Drogoen
Choepag. Estes trinta-e-sete montes representam: Monte Meru (1); os [quatro]
continentes (4); os [oito] continentes adjacentes (8); as montanhas preciosas (1); as
árvores que realizam os desejos (1); as vacas que realizam os desejos (1), a lavoura
silvestre não-arada (1); os sete símbolos de poder real [a roda preciosa, etc] (7); o vaso
da fortuna (1); as oito deusas (8); sol (1); lua (1); parassol (1); estandarte da vitória (1).
Je Rinpoche segue a tradição dos vinte-três montes. A diferença entre esta e a
mandala de vinte-cinco montes é que não se faz dois montes para a mais poderosa base
de ouro e para a cadeia de montanha de ferro.
O lay-out da visualização do Monte Meru e os quatro continentes na mandala segue
o Tesouro de Metafísica [de Vasubandhu]. Refira-se a este livro para uma descrição
detalhada do lay-out. Os oceanos e o Monte Meru estão rodeados por um círculo de
montanhas de ferro. No seu centro estão Monte Meru, que é feito de quatro tipos de
substâncias preciosas. A face leste é branca; a face sul, azul; a oeste, vermelho; e a
norte, dourada.
Imagine que há vastas quantidades de montanhas preciosas e coisas assim em cada
um dos continentes. Estas montanhas preciosas, árvores que realizam os desejos, etc.,
são recursos de cada continente específico. A vaca que realiza desejos é feita de
substâncias preciosas; sua urina e estêrco são de ouro. A lavoura silvestre não-arada é
um tipo de arroz sem casca. Se colhida pela manhã, já cresceu até o anoitecer; se

140
colhida ao anoitecer, já cresceu novamente pela manhã.No oferecimento de mandala de
vinte-cinco montes, não se faz montes separados para cada um destes quatro itens –
eles estão implicitamente incluídos no oferecimento dos quatro continentes.
Aliás, os sete símbolos preciosos de poder real são mencionados no verso: “Feito de
ouro do Oceano Jambuna...” Estes sete itens [mais o vaso da fortuna] flutuam no
espaço, ocupando as direções cardinais e sub-direções entre os continentes e o Monte
Meru. Os montes representando as oito deusas – a deusa da beleza, etc. – pertencem ao
oferecimento de trinta-e-sete montes mencionado acima, embora as deusas devem estar
em pé sobre as saliências ao redor do Monte Meru [na visualização]. Mas na versão dos
vinte-cinco montes não se faz nenhum monte para representar estas deusas, pois já se
ofereceu um monte representando o próprio Monte Meru.
O monte que representa o sol é colocado à esquerda do Monte Meru; o da lua vai à
direita da montanha; o do precioso parassol atrás do Monte Meru; o do estandarte da
vitória é colocado em frente às montanhas e em sua direção – é auspicioso fazer isto.
Alternativamente, pode-se colocar o sol no oeste, a lua no leste, o parassol ao norte, e o
estandarte da vitória ao sul. Isto também é auspicioso.
Ofereça riquezas de deuses e humanos enquanto faz um monte no centro. Não
visualize a mandala maior do que é, mas visualize os quatro continentes, os reinos
celestiais e tudo o mais, de tal maneira que também não diminuam. Tutor Tsechogling,
enquanto estava em Tashi Lhuenpo, deu um exemplo muito útil: Pode-se ver todo o
rosto de uma pessoa em uma bolha na superfície de uma tigela de chá. É também como
ver um pequeno rosto num espelho [curvo], ou uma montanha através do olho de uma
agulha.
Deve-se trabalhar gradualmente a visualização de bilhões de universos em três
estágios – cada vez, multiplique as visualizações por mil. Em outras palavras, comece
com um grupo de mil mundos, depois mil grupos de mil mundos cada um, depois mil
deste tipo de grupos.
Em minha opinião, o verso “Ofereço esta base, consagrada com perfume...” foi
usado por Sadaprarudita quando fez oferecimentos a Dharmodgata [vide Dia 7]. Há
duas versões para este verso. Uma diz “Tudo visualizado para o campo búdico...” O
“para” significa que a visualização é feita “para os Budas no campo de mérito.” Mas
pode ser errado oferecer-lhes o mundo impuro do Monte Meru e os quatro continentes.
Assim “Em um campo búdico...” significa que o Monte Meru, os quatro continentes e
tudo o mais, são um mundo impuro apenas no primeiro momento [da visualização]; no
segundo momento todos se transmutam num campo puro. Estas duas visualizações têm
seus próprios benefícios correspondentes.
Dagpo Rinpoche afirme em seu Versos sobre a Mandala: “Brahma e Indra dão
assistência àquele que mantem o voto...” Ou seja, está dizendo que deve-se imaginar
que Brahma o ajuda [a fazer oferecimento de mandala] caso mantem os votos de
monges e monjas. Se não tiver estes votos, deve ter também um monge ajudando-o.
Mas o Monte Meru e os quatro continentes foram formados pelo karma coletivo dos
seres sencientes; portanto, você não precisa da ajuda de Brahma e Indra, etc, para fazer

141
os oferecimentos; o sistema mundial completo do Monte Meru e os continentes são o
resultado ambiental de sua própria parcela daquele karma coletivo.
Visualize um bilhão de conjuntos de Monte Meru e os quatro continentes --se
conseguir fazer esta visualização. Se não, basta visualizar apenas um sistema mundial.
Oferecer a mandala corretamente, é tão benéfico quanto realmente oferecer os quatro
continentes, Monte Meru, e assim por diante. Por exemplo, quando o Dharmaraja
Ashoka era criança num renascimento anterior, colocou sujeira na tigela de esmolar de
Buda Vipashyin, imaginando que a sujeira era ouro. Mas, ele recebeu os mesmos
benefícios de oferecer ouro verdadeiro, e como resultado, em seu renascimento como
Ashoka, construiu dez milhões de stupas em um único dia. Assim, não há nada melhor
do que oferecer uma mandala mundial para acumular méritos --completa a sua
acumulação, é conveniente e direto de se fazer. Portanto, esta base redonda de cobre é
algo crucial de se ter!
Ao final do oferecimento de mandala, incline a base em sua direção ou na direção
contrária, despejando o conteúdo de volta ao tecido recipiente. Se quiser receber mais
bençãos, despeje o conteúdo em sua direção; despeje-os na direção contrária quando
procura afastar as interferências.
Coloque ênfase em fazer corretamente a visualização em vez de fazer um grande
número de oferecimentos de mandala. Se quiser acumular um grande número de
qualquer coisa, basta fazer esta seção de oferecimentos dos ritos preparatórios muitas
vezes. Recite o verso “Ofereço esta base, consagrada com perfume...” junto com “Até a
iluminação, eu tomo refúgio no Buda, Dharma e na suprema assembléia...”, e então
faça os oferecimentos de sete-montes: um para o Monte Meru, quatro para os
continentes, um para o sol e um para a lua.
Bhikshuni Lakshmi teve sua visão de Arya Avalokiteshvara depois de fazer vários
oferecimentos de mandala; Je Tsongkapa fez vigorosamente oferecimentos de mandala,
e assim por diante, enquanto esteve em Oelga Choelung --e como resultado
desenvolveu a visão correta. Assim, todos devem se esforçar para fazer esta prática.

142
DIA SEIS

Acharya Chandragomin disse:

Se um elefante macho for atraído


Até alguns capins e folhas secas
Na beira de um poço profundo,
Pode ser que não as alcance,
E ao invés disto, caia no poço.
O desejo por prazeres da vida mundana
É exatamente assim.

Em outras palavras, quando um elefante vai até a beira de um penhasco assustador,


por causa de seu apego pelo capim que cresce na beirada, ele pode cair. De forma
similar, quando nos apegamos somente à felicidade desta vida, cometemos várias ações
não virtuosas, e eventualmente cairemos no penhasco dos reinos inferiores, então será
muito difícil nos libertarmos deles. Devemos, portanto, alcançar nossa esperança
eterna. Não há melhor maneira de fazer isto do que seguir corretamente os estágios do
caminho à iluminação. Devemos acertar a nossa motivação pensando: “Vou alcançar a
Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes. Portanto ouvirei este ensinamento de
Lam-rim, e o colocarei em prática.”

Então Kyabje Pabongka fez uma revisão dos títulos que já havia falado

A sessão de meditação é dividida em três partes, os ritos preliminares, a parte


principal e a conclusão. Há seis ritos preparatórios; o quinto destes ritos é o
oferecimento da oração de sete ramos e da mandala externa. Eu terminei de falar sobre
o segundo ramo.

O TERCEIRO RAMO: A CONFISSÃO DAS NEGATIVIDADES

Não desenvolvemos em nosso contínuo-mental nenhuma nova realização que já não


tivermos desenvolvido, e as que já desenvolvemos estão se degenerando. Nossas
negatividades e obscurecimentos são responsáveis por isto. Além do mais, nossas
negatividades serão responsáveis por todas as coisas desafortunadas nesta vida e em
nossa próxima vida também. Se não quisermos que isto aconteça, devemos expiar
nossos erros.
Através da confissão, podemos purificar uma quantidade infinita de karma – até
mesmo os [cinco] crimes hediondos ou grandes pecados cujos resultados normalmente
teríamos que passar. O sistema de princípios Vaibhashika alega que não se pode
purificar tais ações, mas os Prasangikas alegam que esta purificação é possível. Na
Carta [de Nagarjuna], encontramos:

143
Quem certa vez foi descuidado,
Poderá se tornar escrupuloso;
São então tão graciosos
Quanto a lua sem nuvens,
Assim como Nanda, Angulimala,
Ajatashatru e Shrankara.

Foi também dito: “As ações negativas pesadas dos habilidosos são muito leves; o
mais leve pecado do tolo é pesado.” Ou seja, o fator determinante é ser ou não
habilidoso em expiar nossas negatividades. O Brahmin Shankara matou sua própria
mãe, Angulimala matou novecentos e noventa e nove pessoas; Ajatashatru executou o
próprio pai. Mas, depois de terem cometido estes crimes hediondos, foram capazes de
ver a verdade [ou seja, entrar no caminho da visão] por causa de suas confissões
fervorosas.
Com a forma mais forte de confissão, purifica-se as ações negativas até a própria
raiz; a forma mediana de confissão torna as ações mais leves; e a forma mais leve de
confissão evita que a força dessas negatividades aumente. Mas se não confessar suas
ações negativas de forma alguma, a sua força duplica a cada dia, fazendo com que uma
ação negativa pequena se transforme numa grande. Por exemplo, matar um piolho é um
pecado leve. Mas se não expiá-lo, depois de quinze dias a ação fica 16.384 vezes mais
forte. É quase o mesmo de matar um ser humano.
Não queremos confessar nossas ações negativas; nossa falta de crença nas leis da
causa e efeito está falha e significa que não temos medo de cometer delitos. Se
tivéssemos esta crença, evitaríamos cometer até mesmo o menor dos delitos. Por
exemplo, sempre que Atisha cometia um pequeno delito enquanto viajava, ele parava e
purificava-o rigorosamente, mesmo em público. Poderíamos fazer isto também, mas
normalmente pensamos que não temos nenhum grande pecado a confessar --isto é só
porque não pensamos em como cometemos tais ações. Se fossemos pensar
profundamente nisto, saberíamos exatamente quantas ações não-virtuosas cometemos
com nossa mente, e palavra --más intenções, tagarelice, fofoca, insultos, etc-- desde que
acordamos hoje. Podemos ser ordenados, por exemplo --mas, deixando de lado
qualquer voto majoritário que tenhamos quebrado, não só quebramos nossos outros
votos com a freqüência de gotas de chuva numa carga d'água, como também falamos
que isto não prejudica. No entanto, não colocar nossas vestes inferiores de forma reta,
por exemplo, é o bastante para quebrar um voto tântrico majoritário.40 Quebramos os
votos majoritários de Bodhisattva tão freqüentemente quanto as gotas de chuva.
Quebrar um voto minoritário de Bodhisattva é cem mil vezes pior do que quebrar um
voto pratimoksha majoritário de um monge. Quebrar um voto majoritário de

40
Quando um monge coloca suas vestes de forma errada, na realidade só quebra um voto minoritário. Mas, há também
um voto tântrico majoritário de nunca desprezar seus votos pratimoksha, então, ao quebrar um, ele também quebra o outro.

144
Bodhisattva é cem mil vezes mais sério do que quebrar um voto minoritário de
Bodhisattva; quebrar um voto tântrico secundário é cem mil vezes mais sério, e quebrar
um voto tântrico raiz, é ainda cem mil vezes mais sério. Então, se contarmos os maus
atos que cometemos desde que acordamos esta manhã, veremos que temos muitas
causas completas para renascermos nos reinos inferiores. O dia inteiro somos
oprimidos por muitas atos maus –as dez ações não virtuosas, os três venenos, etc. O
pior destes nos levará a um renascimento nos reinos dos infernos; o mediano, nos
levará a renascimento como espíritos famintos; e o mais leve, a renascimento como
animais. Um “grande pecado” não precisa ser matar uma pessoa ou roubar seu cavalo;
pode até ser chamar um aluno de cachorro num momento de raiva. Algo como criticar
seres karmicamente potentes é também um grande pecado. Só no dia de hoje,
adquirimos todas as causas para nos levar aos reinos inferiores.
Você deve estar se indagando, “Se o caso é este, o que pode ser feito?” De nada
adianta ficar simplesmente amedrontado com isso; --ao fazer centenas de milhares de
prosternações, você deve recitar o mantra de cem sílabas, e coisas assim-- expiar e
purificar todas as ações negativas cometidas desde o princípio do samsara. A menos
que receba os sinais de que estas ações foram purificadas, você deve fazer estas práticas
até a sua morte. Estes sinais foram mencionados no Encanto de Kandakari, refira-se a
Os Grandes Estágios do Caminho e outros assim. Portanto, faça a meditação de
Vajrasattva e recite vinte e uma vezes o mantra de cem sílabas à noite, antes de dormir.
Deve-se também fazer incansávelmente as prosternações completas enquanto se recita
o Sutra da Confissão de Quedas Morais. Confesse à noite os votos quebrados durante o
dia; pela manhã, confesse os votos quebrados na noite anterior. Não deixe que um
único voto quebrado passe um dia inteiro sem ser purificado. Mesmo se não fizer
muitas outras práticas, trabalhar arduamente nesta será mais do que suficiente.
Suas ações não virtuosas são fonte de todo sofrimento nesta vida e em vidas futuras.
Se puder expiá-los, estará se livrando do sofrimento e desenvolvendo realizações e
insight. Por exemplo, quando você adoece neste renascimento, o que faz com que fique
doente é algum tipo de não-virtude já acumulada, portanto ter rituais e coisas assim
feitos em seu benefício pode não ajudar, porque os resultados destes rituais
amadurecerão independente da doença. Mas, não tenha a visão errônea de que tais
rituais não trazem benefícios. Suponha que algumas ervilhas já estão crescendo num
campo e você semeia cevada para que as ervilhas não cresçam mais; isto teria mais ou
menos o mesmo efeito dos rituais. Se uma ação negativa já rendeu frutos, não há nada
que se possa fazer a respeito. Por isso, você deve confessar suas ações negativas antes
de experimentar seus resultados; isto é como destruir as sementes. Se expiar pequenos
delitos, eles serão purificados; delitos maiores serão enfraquecidos. Se confessar suas
grandes ações negativas e as ações negativas cujos resultados certamente teria que
experimentar nos reinos inferiores, elas irão, ao contrário, amadurecer nesta vida, como
febres fortes e coisas assim. Embora as ações negativas não têm nenhuma qualidade
boa, elas possuem a propriedade de poderem ser purificadas. De fato, não há nenhuma
ação não virtuosa que não possa ser purificada com a confissão. A extensão em que

145
uma ação não virtuosa pode ser purificada é determinada pelo poder de sua intenção e
das ações para expiá-la. Portanto, deve-se ter um grande remorso, exercitar a restrição e
coisas assim.
Alguns praticantes do Dharma sofrem nesta vida muitas coisas indesejáveis, mas
isto é bom porque significa que o mau karma, cujos resultados estes praticantes de
outra forma vivenciariam em renascimentos futuros, amadureceu para eles nesta vida.
Estes praticantes podem sofrer uma queda em seus padrões de vida, por exemplo, mas
isto significa que algum karma que teria resultado num renascimento como espíritos
ávidos amadureceu nesta vida. Alguns pecadores parecem ter toda a sorte, têm longa
vida, e coisas assim. Isto é resultado de uma reminiscência de ações virtuosas em suas
vidas passadas que aconteceu de ter amadurecido nesta vida, mais tarde terão que
descer aos estados onde serão atormentados pelo sofrimento. Um exemplo de praticante
que sofre é Dromtoenpa -um verdadeiro ser do Dharma- que contraiu lepra no final da
vida. Portanto, não mantenha visões errôneas, fique feliz quando estiver doente e coisas
assim. Sofre-se uma perda enorme se destruir alguma virtude com a raiva; também
lucra-se muito com os pecados que purifica.
Para purificar uma ação negativa, deve-se ter o conjunto completo dos quatro
poderes oponentes.
O poder da base é o de reconhecer exatamente a quem fazer a confissão. Mas, em
nossa tradição significa que se acumulou um pecado com relação a uma base em
particular, a purificação daquela ação depende daquela mesma base, assim como ao cair
no chão, dependemos do chão para levantar novamente. Portanto, se cometeu ações
negativas com relação ao Buda ou aos seres sencientes, o poder da base é tomar refúgio
[nos Budas e assim por diante] e desenvolver a bodhicitta [para com os seres
sencientes]. Já expliquei ambas anteriormente.
O poder do repúdio é o arrependimento; se tiver isto, evitará [cometer a mesma
ação novamente]. Deve-se conhecer as leis da causa e efeito para que isto aconteça com
alguma força. Suponha que três pessoas ingeriram comidas envenenadas. Uma delas
morre, uma adoece, e uma não sofre nenhum efeito [por enquanto]. Esta última pessoa
terá grande remorso, tentará quaisquer meios para retirar o veneno de seu organismo, e
decidirá nunca mais comer aquilo novamente. Os seres sencientes acumularam as
mesmas ações não-virtuosas, que se assemelham a venenos. Alguns já renasceram nos
reinos inferiores. Outros estão sofrendo constantemente as doenças sérias e crônicas
dos três venenos --isto se assemelha à segunda pessoa, que adoece. Eles também terão
que cair nos três reinos inferiores. Nós já cometemos estas mesmas ações karmicas,
portanto devemos sentir arrependimento e evitamos cometê-las novamente.
O poder de abster-se de más ações significa restrição. Deve-se fazer isto
adequadamente: com resolução extremamente firme. E não se deve permanecer apático
depois de estudar os benefícios de confessar nossas falhas. Exercita-se restrição da
seguinte maneira. As ações que está propenso a fazer, como usar linguagem áspera,
também ameaçam transformar em mentira a sua promessa de nunca mais repetí-las. Se
não exercitar a restrição, os quatro poderes não estarão completos. Abandone até a raiz

146
as coisas que puder abandonar. Há ainda algumas coisas que se poderá abandonar por
apenas um ano; outras que se poderá abandonar por apenas um mês. Mas se todo dia
decidir abandonar estas coisas, estará abandonando as coisas que pode abandonar por
apenas um dia. O motivo de treinar-se desta maneira é para quebrar a continuidade de
se fazer tais coisas. Isto é uma instrução particularmente habilidosa e muito útil que
recebi de meu próprio precioso guru.
Dizem que há seis tipos principais de “poder de aplicar todos os antídotos”. Estes
são os próprios meios para purificar as ações que lhe causaram arrependimento.
Portanto este poder é qualquer ação feita com relação aos nomes dos Tathagatas,
qualquer mantra, qualquer sutra, meditação na vacuidade, fazer oferecimentos, e
qualquer coisa feita com relação a imagens. Você na realidade não precisa dizer: “Eu
admito estes, eu confesso estes”: [que são palavras da Confissão das Quedas Morais],
mas se fizer alguma ação virtuosa --mesmo recitar um certo número do mantra om mani
padme hum-- para purificar algum pecado, esta ação é então um poder de aplicar todos
os antídotos. Se nós, monges e monjas comuns pensarmos que, como ato de
purificação, estamos passando por todas as dificuldades de calor e frio para podermos
assistir os ensinamentos, estes atos também passam a ser exemplos deste poder em
particular.
Deve-se fazer uso de todos os quatro poderes. O mais fácil dos seis tipos de poder
de aplicar todos os antídotos são as ações feitas com relação aos nomes [dos Budas];
era a prática dos santos do passado fazer prosternações enquanto recitavam As
Confissões das Quedas Morais [também conhecido por Sutra dos Tres Montes Nobres].
Esta recitação contém todos os quatro poderes e é tão benéfica que o grande Je
Rinpoche, cujas boas obras eram tão extensas quanto o próprio espaço, costumava usá-
la para construir suas acumulações e fazer auto-purificação. Portanto, foi prática do
grande Je Rinpoche fazer esta confissão recitando este sutra. Mesmo os grandes
adeptos como Namkha Gyaeltsaen de Lhodrag purificaram seus obscurecimentos desta
maneira. Todos os adeptos-estudiosos posteriores fizeram esta prática e o grande adepto
Lozang Namgyael afirmou que esta era a mais nobre das práticas. Quando purifica seus
pecados, a sua mente fica tranqüila --como alguém que pagou os juros de um grande
empréstimo.
As pessoas que estejam fazendo um grande número de prosternações devem colocar
seus pensamentos de forma correta enquanto fazem o ramo da homenagem; mas tudo
que precisam fazer [fisicamente] naquela parte específica da oração dos sete ramos é
juntar as palmas das mãos, porque é melhor incorporar o ato de fazer um grande
número de prosternações ao ramo da confissão.
Faça esta prática da seguinte maneira. Primeiro, recite três vezes o mantra de
multiplicar virtude: Om sambhara sambhara vimanasara maha vajra hum. Om smara
smara vimanaskara maha vajra hum. Então recite a Confissão das Quedas Morais.
Embora as deidades deste sutra já sejam membros do campo de mérito, faça a
seguinte visualização para dar-lhes proeminência especial: Trinta e quatro raios de
luzes irradiam do coração de seu guru, dez raios para cima, dez para baixo. Sete raios

147
vão para a direita de seu guru e outros sete para a esquerda. Há trinta e quatro tronos
preciosos, cada um repousando num destes raios. Os tronos são sustentados por
elefantes e decorados com pérolas. O elefante é o animal mais forte, portanto os tronos
têm elefantes sustentando-os como um símbolo de que estes Budas têm o maior poder
de purificar as ações negativas. Todas as trinta e cinco deidades possuem corpos de
cores diferentes e seguram implementos simbólicos diferentes, mas para simplificar,
divida-os em cinco grupos de sete, com cada grupo tendo o corpo da mesma cor e os
mesmos implementos dos cinco Dhyani Buddhas. O primeiro grupo de sete toma a
forma de Akshobhya; depois, Vairochana; depois Ratnasambhava; Amitabha; e
Amogashiddha. Há duas exceções a este esquema. Buda Shakyamuni pertence na
realidade ao primeiro grupo de sete, mas a figura de Shakyamuni no coração do guru é
suficiente. O Rei dos Poderosos Nagas [Geyaraja] é branco do pescoço para cima; o
resto de seu corpo é azul. Ele faz o gesto de subjugar os nagas: os dedos medianos
mantidos eretos e se tocando. Todas estas figuras estão de alguma forma em frente ao
campo de méritos.
Há três maneiras de recitar este sutra. Uma delas é recitar o sutra inteiro do começo
ao fim um certo número de vezes. Ou pode-se recitar um certo número de vezes só a
primeira parte, começando com nosso Mestre Buda Shakyamuni e terminando com
Buda, Rei do Senhor das Montanhas [Shailendraraja]; neste sistema repete-se apenas os
nomes algumas vezes [e a segunda parte só uma única vez]. Ou, suponha que vá recitar
o sutra vinte e cinco vezes em uma sessão de meditação; recite então o nome de cada
Tathagata vinte e cinco vezes individualmente. Esta terceira instrução torna fácil
dirigir-se a cada Buda e receber sua ajuda individual. Assim como no segundo sistema,
depois de terminar de recitar os nomes, basta recitar o resto do sutra apenas uma vez.
Há muitos benefícios em recitar os nomes de cada Tathagata. Refira-se aos
comentários relevantes. Se os nomes dos sete Budas da Medicina forem acrescentados
aos outros trinta e cinco, diz-se que quaisquer orações feitas nestes tempos
degenerados, enquanto ainda existirem ensinamentos budistas, se realizarão [vide Dia
Quatro]. Devemos estar ansiosos por benefícios e bênçãos imediatos, portanto faça
mais prosternações enquanto recita os nomes destes sete Budas.
Todas as repetições da palavra “Tathagata” em nossa versão da Confissão das
Quedas Morais não aparecem no sutra original, mas não seria correto recitar os nomes
destes Budas sem um epíteto. Deve-se portanto acrescentar o título “Tathagata” antes
de cada nome, tal como Je Rinpoche costumava fazer.
Recite então A Confissão Geral, ou semelhante. Este texto diz “apego,
hostilidade...”; suas causas são os três venenos. As três portas são corpo, palavra e
mente que teriam então a natureza não virtuosa.
Aliás: A Confissão de Quedas Morais afirma, “Confesso todo e cada pecado”, isto
significa que esta é uma maneira de confessar as transgressões de cada um dos três
tipos de votos. O ponto é trazer nossa atenção às ações não-virtuosas que estamos
sempre cometendo para que possamos levar a sério a sua purificação.

148
A Oração Real de Feitos Nobres diz:

Sob o poder do apego, hostilidade


E da mais profunda ignorância, cometi ações não-virtuosas
Com meu corpo, palavra e mente.
Confesso todas elas individualmente
O QUARTO RAMO: REJUBILAR-SE

Rejubilar-se é uma prática de Bodhisattva, portanto é difícil fazermos isto até


mesmo em pensamentos. Mas se fizermos isto bem, não há melhor maneira de construir
nossas acumulações, e coisas assim. Certa vez, Sutara o mendigo rejubilou-se com as
doações que o Rei Prasenajit fez ao Buda e seus Shravakas; o mendigo recebeu mais
benefícios do que o rei. Como Je Tsongkapa diz:

Para dar grande impulso à sua coleção de méritos,


E, no entanto, fazer apenas um mínimo de esforço,
Dizem: o melhor é rejubilar-se com a virtude.

Em outras palavras, não há necessidade de desgastar seu corpo e sua voz, pois você
pode colecionar um estoque incomensurável de méritos ao rejubilar-se tranqüilamente.
O Rei Prasenajit certa vez pediu a Buda que lhe ensinasse algum Dharma que fosse
conveniente para praticar enquanto cuidava de suas obrigações reais. Foi-lhe dito para
praticar três coisas: rejubilar-se, desenvolver a bodhicitta, e dedicar sua virtude. Mas o
júbilo deve estar isento de pensamentos de ciúmes ou competitividade. Se alguém que
não gosta de nós faz algo virtuoso, por causa do ciúme dizemos, “Eles só estão fazendo
isto por causa das aparências --não traz benefício algum.” Não devemos agir assim. Se
nós, monges comuns por exemplo, nos rejubilamos corretamente quando nosso
companheiro de quarto faz uma cerimônia de centenas de oferecimentos, certamente
receberemos algum benefício. Se o nível [de realização ou ordenação] dele for menor
do que o nosso, receberemos duplamente o benefício do que ele fez; se ele é nosso
igual, ganhamos o mesmo benefício; mesmo se ele for superior, ainda assim ganhamos
metade. O que poderia ser mais lucrativo? E se rejubilarmos com os feitos dos Budas e
Bodhisattvas do passado, e assim por diante, receberemos um décimo dos benefícios
porque o contínuo mental deles é muito mais elevado do que o nosso. Se
trabalhássemos as práticas virtuosas durante todo o nosso tempo de vida, alcançaríamos
apenas uma fração das virtudes-raiz feitas num único dia por um Bodhisattva do
primeiro nível, enquanto as virtudes-raiz de um Buda estariam bastante além de nós.
Mas se rejubilarmos com as virtudes destes Bodhisattvas poderemos receber metade do
que eles têm. Esta única técnica mental é a maneira mais efetiva de construir uma
grande coleção [de méritos]. O Dharma está florescendo aqui na Província Central, e
muitas pessoas fazem prosternações, oferecimentos, circumambulações, servem [os
mestres], meditam, estudam, e assim por diante. Se nos rejubilarmos com tudo isto,

149
receberemos uma grande quantidade de virtudes raiz.

A Oração Real de Feitos Nobres, afirma:

Rejubilo-me com todos os méritos


Dos Vitoriosos das dez direções,
De seus Filhos, Pratyekabuddhas,
Ainda-aprendizes e Não-mais-aprendizes,
E de todos os outros seres.

Neste ponto, os gurus tratariam deste assunto na seguinte ordem: rejubilar-se com
feitos como quando aqueles [que em breve serão] Budas desenvolveram a bodhicitta
pela primeira vez; depois rejubilar-se com os feitos dos estudiosos e adeptos do passado
na India e no Tibet; e rejubilar-se com as recitações dos seus companheiros de quarto.
No entanto, existem duas outras maneiras de meditar neste ramo: (1) rejubilar-se com
sua própria virtude; (2) rejubilar-se com a virtude dos outros.

 REJUBILAR-SE COM SUA PRÓPRIA VIRTUDE

Isto tem dois sub-títulos: (1) rejubilar-se com a virtude feita em suas vidas
passadas que pode ser medida por meio de cognição válida inferida; (2) rejubilar-se
com suas virtudes desta vida que podem ser medidas por meio de cognição válida
direta.

o REJUBILAR-SE COM A VIRTUDE FEITA EM SUAS VIDAS


PASSADAS QUE PODE SER MEDIDA POR MEIO DE COGNIÇÃO
VÁLIDA INFERENCIAL

Você recebeu um bom renascimento físico nesta vida. Veja as condições


favoráveis que herdou para praticar o Dharma, e pense repetidas vezes em como nos
renascimentos anteriores você manteve a ética, praticou a generosidade, paciência, etc.,
e fez estas coisas muito bem. Pense nisto continuamente. Você não deve ter se
equivocado sobre como fazer algo significativo para si mesmo, porque sua vida atual é
este seu magnífico e ótimo renascimento humano. Oh monge, agora você sabe o que
fazer para conseguir renascimentos semelhantes da próxima vez! Alguns santos do
passado disseram:

Suas valiosas vidas passadas


Lhe deu seu atual precioso corpo humano.
Portanto, venerável monge,
Não caia no precipício em sua próxima vida!

150
Se examinarmos nosso atual comportamento, poderemos ver aonde
renasceremos em nossas vidas futuras. Não precisaremos pedir a pessoas com poderes
clarividentes para fazer adivinhações e coisas assim.

o REJUBILAR-SE COM SUAS VIRTUDES DESTA VIDA QUE PODEM


SER MEDIDAS POR MEIO DE COGNIÇÃO VÁLIDA DIRETA

Você deve se recordar de todas as virtudes que já fez pessoalmente: qualquer


recitação; qualquer generosidade; qualquer serviço prestado; qualquer estudo,
contemplação, ou ato de ouvir ensinamentos; freqüentar cerimônia pública ou prática
de debate. Então, sem o sentimento de arrogância, rejubile-se com estas coisas; se
sentir-se orgulhoso, suas virtudes-raiz diminuirão. É este o tipo de cálculo que deve
estar fazendo.
Muitas vezes calculamos nossas finanças, etc., mas não importa o quanto
aumentamos os nossos pertences, só recebemos um pouco da felicidade desta vida. Se
aumentarmos nossas virtudes, receberemos bons renascimentos físicos como deuses ou
humanos --os benefícios continuarão até nossa iluminação. Nossas ações negativas nos
levarão a lugares como o Inferno Vajra que está muitos yojanas sob o chão.
Kyabje Pagongka Rinpoche contou então a estória de Geshe Baen Gung-gyael
que costumava calcular as virtudes e pecados [que cometia cada dia. vide Dia Treze]
Estes são os tipos de cálculos que devemos estar fazendo a partir de agora.
Estaremos desamparados quando a grande avaliação [de nossos pecados e virtudes] for
feita na presença de Yama.

 REJUBILAR-SE COM AS VIRTUDES DOS OUTROS

Isto significa rejubilar-se com as virtudes de seus inimigos, amigos e estranhos;


ou com as virtudes de pessoas dos cinco tipos de renascimentos; ou com feitos dos
santos do passado ao ler a história de suas vidas. Com esta forma de júbilo, desenvolve-
se méritos novamente; ao rejubilar-se com suas virtudes, aumenta-se o mérito antigo.
Como Gungtang Rinpoche disse:

Como realizar grandes virtudes enquanto se relaxa:


Rejubile-se!

Vivemos no Tibet, uma terra com o Dharma; portanto, será suficiente se


fizermos a nossa prática o rejubilar enquanto andamos, sentamos ou descansamos. Mas,
nosso júbilo deve ser aquele de um Bodhisattva: feito com um anseio para beneficiar os
outros. Suponha que todas as pessoas de uma família em particular estão
completamente dependentes do pai para o seu padrão de vida. Nada faria o pai mais
feliz do que se o filho mais velho conseguisse sustentar a si mesmo. Esta é a ligeira
diferença entre a prática em geral e a forma específica [de um Bodhisattva].

151
O QUINTO RAMO: PEDIR PARA GIRAR A RODA DO DHARMA

Originalmente, nosso Mestre o Buda não girou a roda do Dharma durante sete
semanas [após a sua iluminação], mas como está dito:

Eles [os cinco discípulos]


Tiveram fé em Brahma
Que pediu [ao Buda];
E portanto, a roda foi girada.

Em outras palavras, o deus Brahma pediu a Buda para ensinar, portanto Buda
girou a roda do Dharma pela primeira vez, ensinando as quatro nobres verdades aos
cinco primeiros discípulos. Buda relacionou as quatro verdades por três vezes; portanto,
ele falou sobre doze aspectos. Isto girou a roda do Dharma transmitido. Então Ajnata-
kaundinya tornou-se o primeiro destes cinco a alcançar o estado de arhat, e os outros
quatro se tornaram Os-que-Entraram-na-Corrente. Portanto os discípulos conseguiram
alcançar a girada da roda do Dharma realizado em seus próprios contínuos mentais; isto
precisa ser antecedido pelo recebimento da roda do Dharma transmitido. Por sua vez,
isto deve ser precedido pelo pedido para que seja girada a roda do Dharma transmitido.
É por isso que pedir para girar a roda do Dharma é um dos sete ramos. Como
[Vasubandhu] disse em seu Tesouro de Metafísica:

[Primeiro, girar] a roda do Dharma,


[Segue-se então] o caminho da visão...

Aquela passagem elabora sobre o rumo dos eventos.


Quando pedir para girar a roda do Dharma, se tiver um conjunto de mandala,
arrume nove punhados na base e visualize isto como um roda dourada de mil raios
enquanto faz o pedido. Visualize-se então como o grande Brahma. Depois, Emane
inúmeras réplicas de si mesmo, que vão até os Budas das dez direções. Se isto for além
de sua capacidade, emane uma réplica de si mesmo para cada membro do campo de
mérito. E se mesmo isso for demais, imagine apenas que um de vocês oferece uma roda
a eles.

A Oração Real de Feitos Nobres continua:

Oh lamparinas dos mundos das dez direções,


Tu que alcançastes o não-apego
E o nível dos Budas iluminados,
Oh protetores, eu vos suplico:
Girai a roda suprema!

152
O SEXTO RAMO: SUPLICAR AO CAMPO DE MÉRITO PARA NÃO
ENTRAR EM NIRVANA

Um sutra afirma: “Os Budas nunca entram em nirvana...” Em outras palavras, os


Budas em geral não entram em nirvana, nem o Dharma desaparece, mas para as
aparências comuns, o supremo nirmanakaya entra em nirvana. Deve-se portanto pedir a
Buda, o Mestre, que não entre em nirvana. É uma falha grave não fazer isto. Quando
Buda estava para entrar em nirvana, ele disse a Ananda, “Os Tathagatas ficaram muito
acostumados a depender dos quatro destemores e quatro pernas milagrosas. Budas
alcançam um corpo semelhante a vajra, logo podem viver por um éon ou mais se
quiserem.” Ananda, no entanto, não entendeu o sentido do que Buda disse, porque
estava possuído por um demônio. Portanto, Ananda não fez este pedido ao nosso
Mestre: como resultado, para as aparências comuns, Buda entrou em nirvana em seus
oitenta e poucos anos. Portanto, é vital fazer este pedido antes que seja tarde demais.
Aqui, deve-se colocar cinco punhados na base de sua mandala e imaginar que seja um
trono vajra. Você pode imaginar que oferece um trono a cada membro do campo de
méritos, ou se não conseguir isto, que oferece apenas um trono vajra que se dissolve no
trono do campo de méritos.

A Oração Real de Feitos Nobres diz:

Para aqueles que, para as aparências comuns,


Intencionam entrar em seus nirvanas,
De mãos juntas eu suplico:
Fiquem por tantos éons
Quanto o número de átomos neste mundo.

Enquanto estiver fazendo o ramo de petição e o ramo das súplicas, você deve
imaginar que os membros do campo de méritos aceitam ambos os pedidos.

O SÉTIMO RAMO: A DEDICAÇÃO

É vital então dedicar seus méritos. Os Kadampas em seus textos de treinamento


da mente dizem:

Duas coisas a serem feitas:


Uma no começo, uma no fim.

Isto se refere a acertar a sua motivação [no começo] e dedicar [os méritos no
final]. Dedicações são necessariamente uma forma de oração, mas para uma oração ser
uma dedicação, deve haver algo a ser dado em dedicação.

153
Há seis pontos a serem feitos aqui: (1) O que está sendo dedicado? Suas virtudes-
raiz. (2) Porque são dedicadas? Para que não se percam. (3) Para que fins são
dedicadas? Para sua suprema iluminação. (4) Para o bem de quem são dedicadas? Pelo
bem de todos os seres sencientes. (5) Como são dedicadas? Como diz o Ornamento à
Realização: “Através de método e percepção correta.” Ou seja, faz-se a dedicação com
o pensamento que combina método e sabedoria tendo, por exemplo, a percepção correta
dos três componentes do ato de dedicação [ou seja, que o que se está dedicando, o fim a
que é dedicado, e os seres a quem se dedica não possuem existência inerente]. Isto evita
o apego ao que está sendo dedicado como se fosse algo estabelecido como verdadeiro.
(6) A natureza da dedicação: é feita juntamente com o desejo de que suas virtudes-raiz
não desapareçam; faça isto junto com o desejo de converter a virtude em causa para a
sua completa iluminação.
Este tipo de oração tem muito poder. Por exemplo, no momento não nos falta o
Dharma por virtude das orações feitas pelo nosso Mestre, o Buda. Shariputra se tornou
o sábio dos sábios, pelo poder de suas preces, dedicações, e coisas assim. Nossa virtude
é como o cavalo; nossas orações, a rédea. Além disto, matérias primas, como ouro e
prata, podem ser moldadas tanto na estátua de uma deidade como num recipiente
comum --tudo depende do artesão. De forma similar, os resultados de nossas virtudes
serão altos ou baixos, dependendo de nossas orações e dedicações. Certa vez havia um
homem que tinha as mais poderosas virtudes-raiz, que agiriam como causas para que
renascesse seis vezes como um brâmane. Mas na hora da morte, viu um elefante
particularmente belo e desenvolveu o apego, e como resultado renasceu como
Bhumisudrda, o elefante que serve como montaria de Indra.
Desde que eu era criancinha, sempre recitei esta oração:

Onde quer que os preciosos ensinamentos ainda não alcançaram,


Ou onde desde então começaram a declinar,
Possa eu, movido por grande compaixão,
Derramar luz sobre estes tesouros benéficos.

Como resultado, agora estou sempre ensinando! Lamento que eu não tenha ao
contrário rezado para praticar unifocadamente numa montanha deserta.
Em suas orações, não dedique suas virtudes para a felicidade desta vida. Se não
dedicar [a virtude], ela poderá ser destruída quando ficar com raiva. Está escrito no
Engajando-se nos Feitos do Bodhisattva:

Não importa quantos feitos excelentes


Você possa ter realizado durante mil éons,
Tais como generosidade ou fazer oferecimentos aos Tathagatas,
Todos irão perecer num acesso de raiva.

Ou seja, a raiva destrói as virtudes-raiz colecionadas durante mil éons. Chandrakirti

154
afirma em seu Engajando-se no Caminho do Meio:

Quando fica com raiva dos Filhos dos Budas,


Você destrói num momento
A virtude colecionada durante cem éons
Através da generosidade e da ética.
Portanto, nada é pior do que perder a paciência.

Isto é, a raiva destrói as virtudes-raiz colecionadas em cem éons. Destruímos


valores de mil ou cem éons de virtudes-raiz, dependendo do nível de nossa realização e
do sujeito de nossa raiva. Se alguém que não seja Bodhisattva ficar com raiva de
Bodhisattvas, dizem que destroem as virtudes-raiz colecionadas em mil éons. Se
Bodhisattvas elevados ficam com raiva de um Bodhisattva menor, destroem cem éons
de virtudes-raiz.
Os meios para prevenir que as virtudes-raiz sejam destruídas pela raiva são
discutidos em O Sutra Solicitado por Sagaramati:

Assim como gotas de água despejadas num grande oceano


Não desaparecerão até que o oceano fique seco,
Da mesma forma as virtudes dedicadas à iluminação
Não desaparecerão antes que a iluminação seja alcançada.

Nossas virtudes-raiz são como as gotas; as virtudes-raiz dos Vitoriosos e seus


Filhos são como o oceano. Misturamos nossas virtudes-raiz com as deles quando as
dedicamos, e portanto estas virtudes não desaparecerão quando alcançarmos a
iluminação.
Kyabje Pabongka Rinpoche fez a analogia dos dois mensageiros que misturaram
suas farinhas de cevada de diferentes granulações.41

As citações acima não estão na bastante conhecida e atual versão daquele sutra, mas
Buda ensinou muitos sutras, e é provável que Sagaramati tenha solicitado mais de um.
Um sutra diz como fazer a dedicação [de méritos]: “Compartilhe-as com os seres
sencientes.” O Ornamento à Realização, de Maitreya, afirma:

É melhor executar
Esta forma extraordinária
De dedicá-las totalmente.
Esta forma é um aspecto
41
Um dos mensageiros tinha uma grande quantidade de finíssima farinha de cevada, o outro tinha uma pequena
quantidade de farinha de cevada negra de baixa granulação. O segundo ardilosamente sugeriu que misturassem suas
farinhas. O primeiro mensageiro consentiu, e depois reclamou. Mas já era muito tarde, pois à esta altura as duas farinhas já
estavam misturadas e o segundo mensageiro havia comido mais do que sua cota justa.

155
Da percepção correta,
E é caracterizada
Pela correta [apreensão].

Em outras palavras, faça esta prática porque ela é extraordinária: evita o apego à
idéia] das coisas serem estabelecidas como verdadeiras.
A forma mais conhecida de dedicar a virtude para a nossa completa iluminação é o
pensamento: “Que por esta virtude, eu possa alcançar a completa iluminação pelo bem
dos outros.” Ainda assim, estamos compartilhando nossas virtudes-raiz com todos os
seres sencientes, e é como misturar estas virtudes com as virtudes dos Vitoriosos --
virtudes-raiz que resultaram de seus feitos extensos pelo bem dos outros e que nunca se
soube que possam se acabar. Também, oferecemos nossas virtudes-raiz para contribuir
para os feitos realizados pelo bem dos outros, e portanto é vital orar para que estas
virtudes levem todos os seres sencientes à iluminação. [Maitreya] afirma no Um
Ornamento aos Sutras:

Dedicações com firmeza


São feitas com aspiração.

Em outras palavras, antes de recitar a dedicação, tem-se um pensamento --um fator


mental-- que será responsável pelo não desaparecimento das virtudes-raiz.
Uma palavra sobre o testemunho do ato de dedicação. Pede-se aos Vitoriosos e seus
Filhos para serem testemunhas, assim como pediria alguém para comparecer a um
tribunal em seu nome. Antes de dissolver a visualização da assembléia secreta do tantra
de Guhyasamaja, é necessário recitar certas orações: sua finalidade é pedir à assembléia
para agir como testemunhas.
Temos apenas uma pequena quantidade de virtude, mas se a dedicarmos à nossa
completa iluminação, esta virtude não desaparecerá antes que tenhamos alcançado a
iluminação.
Há três maneiras de dedicar nossas virtudes: dedicando-a para que os ensinamentos
de Buda se espalhem nos contínuos mentais dos outros e em nosso próprio contínuo
mental; dedicando-as para sermos guiados por nosso mestre espiritual em todas as
nossas vidas futuras; e dedicando-as para alcançar a inigualável e completa iluminação.
Qualquer dedicação deve ser feita segundo uma destas três grandes maneiras. Como
está dito: “As orações dos Filhos dos Vitoriosos --vastas como o Rio Ganges...” Em
outras palavras, sustentar o santo Dharma se torna causa para que os ensinamentos se
espalhem. Por “santo Dharma” nos referimos aos ensinamentos transmitidos e aos
ensinamentos realizados. Portanto, dedica-se as virtudes para que ambos se espalhem.
Na Oração Real de Feitos Nobres, está dito:

Qualquer pequena virtude que acumulei


Por render homenagens, fazer oferecimentos, confissões,

156
Rejubilar-me, fazer pedidos, e suplicar
Dedico-as todas à minha iluminação.

Em outras palavras, dedicar estas coisas resulta em sua completa iluminação. Mas
tanto reter o santo Dharma em seu contínuo mental quanto o resultado de se fazer isto --
alcançar a completa iluminação-- dependem de você estar sendo guiado por um mestre
espiritual. Portanto:

Que eu tenha encontrado os ensinamentos


Do Mestre Supremo é devido
À bondade de meu guru:
Assim, dedico esta virtude
Para que todos os seres sencientes
Possam ser guiados por santos mestres espirituais.

Ou seja, é suficiente dedicar sua virtude para ser guiado por um guru. Portanto faça
as suas dedicações em uma das três maneiras acima.
As palavras “pequena virtude” derrotam a opinião inflada que temos de nós
mesmos: então, não ficamos orgulhosos. “Qualquer... virtude que eu tenha acumulado”
significa todo karma que tivermos acumulado. A linha “Dedico-as todas à minha
iluminação” é a própria dedicação da virtude para alcançar a completa iluminação.
Não há diferença entre dedicar algo para se tornar uma causa, ou dedicar para que
resulte em outra coisa --assim como não há diferença entre pedir cevada, o ingrediente
principal, ou tsampa [a comida feita de cevada tostada], que é o resultado.
De qualquer maneira, não sabemos como fazer estas dedicações corretamente,
portanto também recitamos:

Assim como o heróico Manjushri fazia,


Assim como Samantabhadra também fazia,
Dedico toda esta virtude para que
Eu possa aprender a seguir todas as suas maneiras.

Dedico todas as minhas virtudes-raiz


Em qualquer forma que todos os Tathagatas
Dos três tempos louvaram como sendo a melhor:
Dedico-as para estes nobres feitos.

Dizem que esta é a melhor prece que já foi feita pelos Budas de todos os três
tempos. Estes Budas então trabalham para realizar esta oração. Dizem que estes dois
versos contêm as milhões de preces incontáveis feitas pelos Filhos dos Vitoriosos que
dedicaram suas virtudes da mesma maneira com que Manjushri e Samantabhadra o
fizeram. Mas notem: além disto, devemos fazer este ramo juntamente com a percepção

157
correta em concordância com a visão.
Aqui está a maneira como a oração de sete ramos age como um antídoto aos três
venenos. A Homenagem age contra o orgulho; Oferecimento, contra a avareza;
Confissão, contra todos os três venenos; Rejubilar-se, contra o ciúme; Pedir para Girar
a Roda do Dharma age contra estar privado do Dharma; Súplica para não entrar em
Nirvana, contra inadvertidamente caluniar o guru; Dedicação, como um antídoto para a
raiva. Além disto, os sete ramos incluem os processos de acumulação, auto-purificação,
e aumento. Quatro ramos e meio constroem a acumulação. O ramo da Confissão é a
purificação. Metade do ramo de Rejubilar-se e todo o ramo de Dedicação aumentam as
nossas próprias virtudes-raiz.
Os textos não estão claros quanto a isto, mas segundo a tradição oral de Kyabchog
Dagpo Rinpoche, cada um destes sete ramos deixam diferentes traços kármicos. O
ramo de Prosternação deixa traços no sentido de conceder a protuberância na coroa do
praticante; já mencionei este fato [vide Dia Cinco]. Oferecimento deixa traços que irão
permitir que se consiga riqueza ou o siddhi “tesouro-espacial”42; Confissão, traços para
alcançar o completo abandono dos dois tipos de obscurecimentos; Rejubilar-se, um
corpo carismático; Pedir para girar a roda do Dharma, [a voz brâmane de um Buda];
traços de Suplicar para não entrar em Nirvana permitirá que se consiga um corpo vajra
ou o conhecimento de como prolongar a vida; Dedicação, resulta em obter todas as
qualidades de um Buda em geral.
Então oferece-se outra mandala antes de fazer a próxima súplica, ou então pode-se
oferecê-la depois disto. A súplica é a seguinte:

Refugio-me no Guru e nas Três Jóias Preciosas. Por favor, abençoem meu
contínuo mental. Por favor, abençoem-nos para que eu e todos os seres
sencientes, que foram minhas mães, deixemos de ter todos os tipos de
pensamentos errôneos, desde o desrespeito aos nossos mestres espirituais até
o apego aos sinais dualísticos do ego. Por favor, abençoem-nos para que
possamos desenvolver facilmente todos os tipos de pensamentos corretos --
desde respeitar nossos mestres espirituais, e assim por diante. Por favor,
abençoem-nos e pacifiquem todas as nossas circunstâncias internas e
externas de impedimentos.

A prática, no entanto, é oferecer primeiro a mandala. Se for pedir a um rei algo de


vital importância, deve-se primeiro dar-lhe um enorme presente. Queremos pedir ao
campo de méritos três coisas de importância vital, portanto, devemos oferecer uma
mandala. Estas três grandes coisas não são para o nosso benefício --ter uma longa vida,
boa saúde, e coisas semelhantes. Uma destas três é deixarmos de ter qualquer tipo de
pensamento errôneo, tal como o desrespeito a nosso mestre espiritual; outra é para nos
permitir desenvolver todos os pensamentos corretos; e a terceira é ter nossos

42
Esta é a habilidade de magicamente produzir riquezas.

158
impedimentos internos e externos pacificados. Do ponto de vista tântrico, é preferível
dizer: “...desde ter desrespeitado nosso mestres espirituais até as aparências dualísticas
mais sutis que ocorrem durante as alucinações, a luminescência interna, e as fases do
portal” [que ocorre antes de entrar no estado da clara luz]. O texto que usamos para os
ritos preparatórios na realidade não afirma isto após as palavras “...desde desrespeitar
nossos mestres espirituais...”, mas penso que podemos substituir esta versão tântrica
pelas palavras que seguem. Dizem que não há nada Dharmico que não possa ser
incluído nas três coisas acima. Os impedimentos são os seguintes. Impedimentos
externos à prática são guerras, reis perseguindo o Dharma, e coisas assim.
Impedimentos internos são doenças e coisas assim, ou os impedimentos secretos devido
a nossa mente ser incapaz de fazer uso do Dharma ou não estar adaptada para isto.
É nossa prática habitual, acrescentar as palavras "Por favor, abençoem-nos..."

(F) OUTRAS SÚPLICAS QUE SEGUEM AS INSTRUÇÕES ORAIS, E QUE


SÃO FEITAS PARA ASSEGURAR QUE SEU CONTÍNUO MENTAL FOI
SUFICIENTEMENTE IMBUÍDO POR SUAS MEDITAÇÕES.

Já disse que o melhor método para desenvolver realizações no seu contínuo mental
é fazer súplicas ao seu guru, enquanto o considera inseparável de sua deidade tutelar.
Desenvolveremos experiências e realizações religiosas em nosso contínuo mental por
força das bênçãos que recebemos; e as bênçãos dos Vitoriosos e seus Filhos serão
absorvidas em nosso contínuo mental como resultado de nossas petições.
Tais petições são trabalhadas de maneiras diferentes, mas a seguinte passagem é a
mais abençoada de todas. Dizem que é uma pena se não usar esta versão em sua
recitação.

[Súplica ao guru raiz]


Meu precioso guru raiz, tome seu lugar
Sobre o lótus e disco lunar em minha coroa;
Pela sua grande compaixão, cuide de mim,
E me conceda os siddhis de corpo, palavra e mente.
[Súplica à Linhagem de Feitos Extensos]
Nosso Mestre, o Bhagavan, o salvador inigualável,
Maitreya o Invencível, o sagrado regente do Vitorioso,
Arya Asanga, que foi previsto pelo Vitorioso:
Eu suplico aos três Budas e Bodhisattvas.
Vasubhandu, jóia suprema dos estudiosos de Jambudvipa
Arya Vimuktisena, que encontrou o caminho do meio,
Vimuktisenagomim, que ainda comanda a fé:
Eu suplico aos três que abriram os olhos do mundo.

159
Paranasena, que atingiu o mais maravilhoso estado,
Vinitasena, que treinou sua mente em caminhos profundos,
Vairochana, estimado por seus feitos poderosos:
Eu suplico aos três amigos dos seres.
Haribhadra, que espalhou o caminho de aperfeiçoar a sabedoria,
Kusali, que manteve todas as instruções dos Vitoriosos,
Ratnasena, que cuidou de todos com amor;
Eu suplico aos três capitães dos seres.
Survanadvipi, cuja mente possui a bodhicitta,
Dipamkara Atisha, que manteve a tradição dos antepassados,
Dromtoenpa, que tornou claro o caminho nobre:
Eu suplico às três colunas dos ensinamentos.
[Súplicas à Linhagem da Visão Profunda]
Shakyamuni, expoente inigualável, salvador supremo,
Manjushri, que personifica toda a onisciência dos Vitoriosos,
Nagarjuna, o mais exaltado Arya a ver o significado profundo,
Eu suplico às três sublimes jóias dos filósofos.
Chandrakirti, que esclareceu os pensamentos dos Aryas,
Vidyakokila, o melhor discípulo de Chandrakirti,
Vidyakokila mais jovem, um verdadeiro [Filho] do Vitorioso
Eu suplico aos três intelectos poderosos.
Dipamkara Atisha, que percebeu corretamente a profundidade
Da mútua dependência e manteve o caminho dos antecessores,
E Dromtoenpa, que esclareceu o nobre caminho
Eu suplico às duas jóias de Jambudvipa.

A parte que começa “Nosso Mestre, o Baghavan, o inigualável salvador...” se refere


à Linhagem de Feitos Extensos. “Shakyamuni, expoente inigualável, salvador
supremo...” se refere à Linhagem da Visão Profunda. Ambas suplicam ao nosso Mestre
que iniciou ambas as linhagens. Uma passagem também se refere à parte profunda: sua
magnífica onisciência. “Expoente inigualável” é uma maneira de louvar Shakyamuni
que ensinou a doutrina da originação interdependente.
Quando necessitar consultar uma autoridade sobre um assunto muito importante,
precisa de uma pessoa de boas ligações para agir como seu defensor. Assim, uma
réplica se separa da figura de seu guru-raiz à sua frente, tal como você normalmente o
vê. Esta réplica vem sobre a coroa de sua cabeça. Imagine que ele suplica por você aos
Vitoriosos e seus Filhos. Ao recitar a primeira repetição da última linha do verso “Meu
precioso guru raiz... os siddhis de corpo, palavra, e mente,” então a réplica se transfere
à coroa de sua cabeça e faz a súplica ao campo de méritos junto com você. Néctares
purificadores descem durante a segunda repetição e outra réplica do guru se dissolve

160
em você.
Na realidade, nos ritos preparatórios de As Palavras do Próprio Manjushri,
tradicionalmente não se recita a quarta linha de todos os versos duas vezes; mas nos
ritos preparatórios do Caminho Rápido e Caminho Fácil, recita-se.
Enquanto recita a última linha do verso “Meu precioso guru...” pela primeira vez,
imagine que esteja purificado de todos os impedimentos para desenvolver em seu
contínuo mental os estágios de ambas as partes extensa e profunda do caminho. Ao
recitar pela primeira vez as linhas de aberturas dos versos da Linhagem de Feitos
Extensos, imagine que purificou todos os impedimentos para que desenvolva em seu
contínuo mental os estágios da parte extensa do caminho; para a Linhagem da Visão
Profunda, imagine o mesmo acontecendo para as partes profundas do caminho.
Quando recitar estas linhas pela segunda vez, imagine que as réplicas daqueles
gurus particularmente mencionados se dissolvem em você e você desenvolve as
realizações nos caminhos profundo ou extenso.
Então segue-se os gurus da Tradição Kadampa do Lam-Rim.

[Súplicas à Linhagem da Tradição do Lam-Rim]:


Gampopa, aquele esplêndido e poderoso iogue,
Neuzurpa, de profunda concentração uni-focada,
Tagmapa, que sustentou todos os ramos do vinaya;
Eu suplico às três lâmpadas que iluminam estas remotas regiões.
Namkha Senge, que praticou com grande diligência,
Namkha Gyaelpo, que foi abençoado por aqueles Santos,
Senge Zangpo, que abandonou suas oito preocupações mundanas;
Eu suplico a Gyaelsae Zangpo
Ao que com bodhicitta viu todos os seres como seus filhos,
Ao que foi abençoado e cuidado pelo deus dos deuses [Vajrapani]
Ao que foi guia supremo dos seres em tempos degenerados:
Eu suplico a Namkha Gyaltsaen.

Note que estes gurus de linhagem são colocados depois dos gurus da Linhagem de
Feitos Extensos. Isto pode levar à indagação: “Será que pertencem à Linhagem de
Feitos Extensos?” Não, não pertencem, embora estes gurus tenham vindo depois
daquela linhagem.

[Súplicas à Linhagem da Tradição Clássica]


Geshe Potowa, o regente do Vitorioso.
Sharawa, cuja sabedoria não tem igual,
Chaekawa, sustentador da linhagem da bodhicitta;
Eu suplico aos três que atenderam as esperanças dos seres.
Chibupa, Bodhisattva, senhor de transmissões e insights.

161
Lhalung Wangchug, grande estudioso afiado nas escrituras,
Goenpo Tinpoche, protetor dos seres de todos os três reinos;
Eu suplico aos três grandes Anciões.
Zangchenpa, cuja ética era imaculada,
Tsonawa, que sustentou as cem mil seções do vinaya,
Moendrapa, que aperfeiçoou as vastas metafísicas;
Eu suplico aos três grandes salvadores dos seres.
Senhor de vastos e profundos Dharmas,
Que protegeu todos os seres afortunados,
Cujas nobres obras espalharam os ensinamentos;
Eu suplico ao glorioso guru.

Note que este ultimo verso é uma súplica a Choekyab Zangpo, o abade de Dragor
[vide Dia Um]. A oração da linhagem continua:

[Súplica à Linhagem da Tradição das Instruções]


Tsultrimbar, o grande príncipe dos adeptos,
Zhoenue Oe, que cultivou seu mestre espiritual
Gyergompa, cuja mente treinou o caminho do Veículo Supremo;
Eu suplico aos três [Filhos] dos Vitoriosos.
Sangyaeboen, tesouro de qualidades maravilhosas,
Namkha Gyaelpo, abançoado pelos santos,
Senge Zangpo, que abandonou as oito preocupações mundanas;
Eu suplico a Gyaelsae Zangpo
Ao que com bodhicitta viu todos os seres como seus filhos
Ao que foi abençoado e cuidado pelo deus dos deuses
Ao que foi guia supremo dos seres em tempos degenerados:
Eu suplico a Namkha Gyaltsaen.

Estas linhagens parecem desordenadas, mas não estão. A recitação se encaixa com
a seguinte instrução oral. Depois que a Linhagem de Feitos Extensos foi passada até
Atisha, ele a combinou com a Linhagem da Visão Profunda. Assim, Atisha também
passou a Linhagem da Visão Profunda a seu discípulo principal Dromtoenpa. As três
linhagens Kadampa estão relacionadas separadamente. Gampopa é o primeiro da
Tradição Kadampa do Lam-rim; esta linhagem foi passada até Namkha Gyaeltsaen.
Depois, a Tradição Clássica vai de Potowa a Choekyab Zangpo. A Tradição das
Instruções vai de Chaen Ngawa Tsultrimbar a Namkha Gyaeltsaen. Neste ponto as três
linhagens passam a ser uma única linha. Começa-se a petição a Je Rinpoche, uma
[forma modificada de] seu mantra, para receber uma benção muito especial:

Avalokiteshvara, grande tesouro da percepção correta do amor,


162
Manjushri, poderosa e imaculada onisciência,
Tsongkapa, jóia suprema dos estudiosos da Terra das Neves;
Eu suplico a Lozang Dragpa.

Na visualização do campo de méritos, Maitreya e Manjushri estão rodeados das


linhagens ou dos gurus dos Feitos Extensos ou da Visão Profunda, e ambas as
linhagens terminam com Atisha e Dromtoenpa. Visualize a Tradição Kadampa do Lam-
rim diretamente na frente de ambas as linhagens de Feitos Extensos e da Visão
Profunda; este grupo consiste de Gampopa rodeado por Neuzurpa e assim por diante.
Eles formam um tipo de grupo de ensinamento. A Tradição Clássica --Geshe Potowa
rodeado por outros nove gurus da linhagem-- ou estão à esquerda ou à direita da
Tradição do Lam-rim.43 Visualize Chaen Ngawa, rodeado pelos sete gurus [da Tradição
das Instruções], do outro lado do grupo da Tradição do Lam-rim.
Je Rinpoche está sentado na frente destes três grupos. Os gurus neo-Kadampas
estão enfileirados aos seus lados.

[Súplicas à Linhagem Gelug]


Jampael Gyatso, grande príncipe dos adeptos,
Kaedrub Rinpoche, sol dos filósofos e adeptos,
Basoje, que acumulou instruções secretas;
Eu suplico aos três gurus imaculados.
Choekye Dorje, que atingiu a unificação,
Gyalwa Ensapa, que alcançou os três kayas,
Sangyae Yeshe, que sustentou tanto transmissões quanto insights;
Eu suplico aos três grandes eruditas-adeptos.
Lozang Choekyi Gyaltsaen, que sustentou o estandarte da vitória dos
ensinamentos
Koenchog Gyaltsaen, seu discípulo mais próximo,
Lozang Yeshe, que iluminou o nobre caminho;
Eu suplico aos três veneráveis lamas.
Ngagwang Jampa, que espalhou os ensinamentos de Shakyamuni,
Lozang Nyandrag, considerado seu discípulo mais próximo,
Yoentaen Ta-yae, que possuía infinitas boas qualidades;
Eu suplico aos três bondosos gurus.
Taenpa Rabgyae, que espalhou os ensinamentos de Lozang Yeshe
43
Desde que Atisha combinou as linhagens dos ensinamentos profundos e extensos, há dois grupos idênticos de gurus da
Tradição Clássica. Um é colocado em frente dos gurus de Feitos Extensos, o outro em frente daqueles da Visão Profunda.
Isto significa que existem também dois conjuntos idênticos de cada uma das outras duas tradições Kadampa. Muitas
pinturas religiosas adotam um arranjo simétrico: A Linhagem Clássica mais para dentro; a Linhagem das Instruções, mais
afastada.

163
Lodroe Zangpo, que trabalhou para a liberação de todos os seres,
Lozang Gyatso, habilidoso na maneira correta de ensinar;
Eu suplico aos três inigualáveis gurus.
Ao meu supremamente bondoso guru raiz [Jimpa Gyatso];
O inigualável, que sustentou tanto ensinamentos quanto práticas,
Que concedeu tanto transmissões quanto insight;
A quatro tipos de afortunados receptivos;
Com grande reverência de corpo, palavra e mente, eu suplico.
Ao que muito estudou, que estendeu
A mandala da instrução oral
E revelou as práticas ocultas dos dois estágios;
Eu suplico a Tenzin Kaedrub
O mais bondoso lama encarnado, cujo corpo
Continha todo o refúgio passado, presente e futuro,
Cuja palavra ensinou com a eloqüência de Manjushri,
Cuja mente era um oceano de sabedoria espontânea
Dos três treinamentos superiores e da causa e efeito;
Eu suplico a Lozang Lhuendrub Gyatso. 44
Sois olhos que vêem todos os vastos ensinamentos,
E o melhor portal para a liberação dos afortunados,
Motivado por amor, usastes meios hábeis;
Eu suplico a estes mestres espirituais, doadores de luz.

Esta súplica é bem curta, mas cada verso contém todos os pontos principais da
biografia de cada guru. Se memorizar estes versos virá a rejubilar-se e desejará estudar.
Ao repetir a última linha de cada verso pela segunda vez, ou ao recitar as outras linhas
contendo o sumário das biografias individuais, sinta que está recebendo as mesmas
qualidades que eles receberam dos ensinamentos transmitidos e realizados.
Tradicionalmente, acrescenta-se mais um verso no fim: “Glorioso lama, em sua
biografia...” Então, se não for fazer separadamente uma meditação retrospectiva no
Lam-rim, deve-se recitar O Alicerce de Todas as Boas Qualidades [de Je Rinpoche]. Se
for fazer a meditação retrospectiva separadamente, não há necessidade de recitar isto; é
também melhor dissolver a visualização do campo de mérito. O processo de dissolução
é o seguinte. Visualize que raios de luzes fluem do coração de Guru Vajradjara e
iluminam as outras figuras. Então, mais ou menos como a evaporação da condensação
num espelho, as figuras mais abaixo do campo de mérito, isto é. os quatro maharajas e

44
Mais dois versos de louvor a Pabongka e Trijang Rinpoche, respectivamente, são incluídos neste ponto da oração
completa da linhagem de gurus do Lama-rim, que pode ser encontrada na versão completa do rito preliminar Um
Ornamento para a Garganta dos Afortunados

164
assim por diante, são progressivamente absorvidas nas figuras acima; isto acontece até
chegar às deidades que estão de pé sobre as quatro pétalas no lótus mais elevado. Estas
quatro deidades recolhem-se na figura de Vajradhara no coração de Buda Shakyamuni.
Os gurus da Linhagem da Visão Profunda recolhem-se no Guru Manjushri; os dos
Feitos Extensos, no Guru Maitreya; os da Linhagem de Práticas Consagradas, no Guru
Vajradhara; e seus próprios gurus, de quem recebeu ensinamentos, recolhem-se na
figura de seu guru raiz em sua forma comum --como normalmente o vê. Enquanto
mantém a clareza de sua visualização pense, “Como sou afortunado por ter realmente
visto os Budas e Bodhisattvas.” Maitreya e Manjushri então se dissolvem em luz, que
se dissolve na figura principal. Vajradhara se dissolve na figura principal como um ser
de sabedoria. A figura de seu próprio guru raiz em seu aspecto normal não deve, no
entanto, se dissolver em luz --isto seria um gesto inauspicioso enquanto ele ainda está
vivo. Portanto, esteja vivo ou não, ele se dissolve em Vajradhara no coração da figura
principal de forma semelhante a de empurrar um grão de cevada em um naco de
manteiga. A árvore que realiza os desejos, o trono de leões e tudo o mais, se dissolvem
na base do lótus da figura principal. A própria figura principal então se dissolve em luz,
que por sua vez se dissolve em seu guru que está sentado na coroa de sua cabeça. Então
a base de lótus usada pela figura principal se dissolve na base de lótus de seu guru
sobre a sua coroa. Depois, visualize que seu guru raiz em sua cabeça se transforma em
nosso Mestre Shakyamuni; considere-o como a personificação de todos os refúgios, e
faça-lhe a oração de sete ramos curta e um oferecimento de mandala. Faça então
súplicas fervorosas somente a seu guru. Continue a fazer estas súplicas a um único guru
--meio semelhante a ser travado num ponto por meio de um pino enfiado no chão. Não
sinta que poderia ser melhor se fizesse as súplicas a uma outra pessoa. Não faz sentido
fazer esta petição a muitas pessoas.
Faça a petição assim como faria à personificação das Três Jóias e de todos os
refúgios. Os seguintes versos são tirados do Livro Milagroso dos Gelugpas, portanto,
são especialmente abençoados:

Meu mais divino guru, senhor dos quatro kayas


Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, senhor do dharmakaya desimpedido
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, senhor do bem-aventurado sambhogakaya
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, senhor de vários nirmanakayas,
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, personificação de todos os gurus
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, personificação de todas as deidades,
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, personificação de todos os Budas,

165
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, personificação de todo o Dharma,
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, personificação de toda a Sangha,
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, personificação de todos os dakas,
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, personificação de todos os Dharmapalas,
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.
Meu divino guru, personificação de todos os refúgios,
Eu suplico-lhe, oh Shakyamuni-Vajradhara.

Note porem: os comprimentos das linhas devem ser iguais, não estrague a métrica
dizendo, por exemplo, “Meu mais divino guru, senhor do dharmakaya desimpedido...”
Durante as práticas do treinamento da mente, quando estiver treinando-se na meditação
de igualar-se aos outros, já que Arya Avalokiteshvara é a suprema deidade da
compaixão, troque estes versos pelos seguintes: “Meu mais divino guru, senhor dos
quatro kayas, Eu suplico-lhe, oh Guru-Avalokiteshvara...” Faça o mesmo com
Manjushri quando meditar na vacuidade.
Aqui termina os ritos preparatórios. Neste ponto, segue um tópico de meditação de
Lam-rim, que vai desde o primeiro tópico – devoção ao seu mestre espiritual – até a
quietude mental e visão extraordinária. Não dissolva a figura de seu guru sobre sua
cabeça; ele continua sentado lá enquanto você medita. Se perder a visualização,
visualize-o novamente e ofereça uma mandala.
Portanto, comece agora a parte principal da sessão de meditação. Medite no Lam-
rim de sua escolha, seja uma versão curta ou longa – O Caminho Fácil, O Caminho
Rápido, e assim por diante. Depois, além disto, faça as práticas do treinamento da
mente. Então, faça súplicas para desenvolver as realizações de uma seção específica do
Lam-rim que acabou de meditar; os cinco néctares descem do corpo de seu guru; pense
que os néctares estão purificando-o das coisas que são seus empecilhos naquela seção
do Lam-rim em particular. Os néctares também o fazem desenvolver aquela parte do
caminho em seu contínuo mental. Note que os ritos preparatórios que antecede as
palavras: “Eu suplico-lhe, Shakyamuni-Vajradhara” são as mesmas para todos os
tópicos de meditação que segue.
A passagem: “Desde os tempos sem princípio, eu e todos os seres sencientes, que
foram minhas mães, nascemos no samsara e por um longo tempo até agora temos
experimentado os muitos sofrimentos diferentes do samsara...” é tirado diretamente de
O Caminho Fácil. Se estiver meditando na Grande Capacidade, omita as palavras
“nascemos no samsara e por um longo tempo” quando fizer esta oração.

2) COMO SEGUIR A PARTE PRINCIPAL DA SESSÃO

166
Agora, medite durante a parte principal da sessão. As técnicas de familiarização
direcionadas a um assunto único é o que chamamos de meditação. Temos pensamentos
de falta de fé em nosso mestre espiritual, portanto, dirigimos nossa atenção aos
pensamentos de fé nele; usamos esta técnica para nos familiarizarmos com estes
pensamentos e para ganharmos o controle sobre eles. Isto é meditação.
Nossas mentes estão sob o poder dos enganos, e para cessar isto, nossa atenção é
dirigida a outra coisa.
Há dois tipos de meditação: meditação analítica e de fixação. A meditação analítica
é pensar repetidas vezes sobre as citações, raciocínios, lógica formal, e assim por
diante. Discutirei isto num nível simples. Na realidade, fazemos meditação analítica o
tempo todo, mas a direcionamos de maneira errada -é meditação analítica nos três
venenos.
Tome o exemplo da raiva. Primeiro você não se lembra de seu inimigo e não
desenvolve nenhuma raiva, só desenvolve a raiva ao recordar-se dele. Internamente,
você se lembra do que ele fez, das injustiças que fez, e até da maneira como lhe olhou.
Externamente, sua face ruboriza e suas axilas ficam suadas. Se aquele seu inimigo
estivesse à sua frente, sem dúvida daria-lhe um soco na cabeça! Em outras palavras,
você fez uma meditação analítica --e é a mesma coisa com o apego, etc.
Quando debatemos, involuntariamente pensamos apenas em usar o debate para
derrotar os outros. Se analisarmos como nossa mente pensa, veremos que é da
meditação analítica que estou falando. Num sentido somos grandes meditadores --
fazemos meditação analítica exclusivamente nos enganos e nos três venenos, e
alcançaremos algo muito diferente dos outros grandes meditadores; dizem que
corremos o perigo de ir a um mundo onde todos os morros e vales são brasas
vermelhas. Em vez de fazer tais meditações analíticas que não são benéficas, devemos
fazer meditação analítica sobre o que constitui um precioso renascimento humano,
porque este tipo de renascimento é tão difícil de se conseguir, como ele é tão benéfico,
e assim por diante.
Deve-se estar seguro dos títulos individuais do Lam-rim. Na seção que trata da
meditação do precioso renascimento humano e como ele é difícil de se conseguir,
medita-se em coisas específicas, e é um grande empecilho seguir meditações num
tópico de Lam-rim excentricamente, fazendo o que bem entender durante a sessão toda,
porque sente que “É Dharma, nada pode andar errado”. Isto é como misturar soda num
jarro de sal. Tal meditação fica arruinada pelo excitamento e torpor; as práticas
virtuosas que praticar por toda sua vida serão falhas. Se isto acontecer, pode sentir,
“Meditei sobre este tópico,” mas não se deve confiar em tais pensamentos.
Não deixe que isto aconteça. Veja o caso da meditação sobre a morte e
impermanência. É suficiente meditar nas citações, raciocínios, lógica formal, e
exemplos dados sobre o assunto --poderia até acrescentar alguns itens como, por
exemplo, a pessoa que morreu hoje em sua vila. Além disto, tome os ensinamentos
orais do seu guru como raiz, e acrescente a isto até mesmo as coisas como o folio que
encontrou num santuário no caminho. Se pensar sobre os tópicos por muitos ângulos,

167
desenvolverá realizações com facilidade, assim como desenvolveu sentimentos de
hostilidade ao pensar sobre coisas por vários ângulos.
Até alcançar a quietude mental, suas meditações são apenas analíticas. Depois de
atingir a quietude mental, poderá fazer a meditação de fixação, onde a mente é dirigida
a uma coisa. Algumas pessoas alegam que meditação de fixação é para suplicantes,
enquanto meditação analítica é para estudiosos; que meditação analítica é um
detrimento à meditação de fixação, e coisas assim. Tudo isto é bobagem.

168
Terceira Parte
OS ALICERCES DO CAMINHO

169
DIA SETE

Kyabje Pabongka Rinpoche começou:

Para citar o grande Bodhisattva Shantideva:

Ao confiar no barco do renascimento humano


Você pode se libertar do grande rio do sofrimento.
Este barco será difícil de se conseguir novamente;
Oh cego, desta vez não fique adormecido!

Você obteve um perfeito renascimento, um renascimento humano, que é como um


barco para se libertar do grande oceano do samsara. A felicidade que só dura até a sua
morte é indesejável. Além disto, se não alcançar a esperança eterna para todos os seus
renascimentos futuros, será difícil encontrar novamente tal renascimento físico, ou seja,
um outro barco para libertá-lo deste grande oceano de sofrimento. Por isso, deve agora
realizar suas esperanças eternas, e deve saber como fazê-lo. Ajuste sua motivação
pensando: “Vou alcançar a completa Iluminação pelo bem de todos os seres, que foram
minhas mães no passado. Vou, portanto, ouvir estes profundos ensinamentos sobre os
três níveis de capacidades do Lam-rim e depois praticá-los corretamente”.
Aqui estão os títulos relevantes...

Depois de discutir os títulos que já havia ensinado, Pabongka Rinpoche continuou:

O quarto título principal, “A Seqüência para ensinar as Instruções aos Discípulos”,


tem dois sub-títulos: (1) a raiz do caminho: devoção ao guia espiritual, e (2) o
treinamento gradual correto a ser seguido após começar a confiar nele. Discutirei agora
como devotar-se ao guia espiritual.
Não se pode cobrir a matéria dos ritos preparatórios por quatro vezes, mas deve-se
fazer isto quando ensinar a parte principal dos discursos do Lam-rim --começando pela
seção da devoção ao guia espiritual. Isto inclui um resumo [no início da sessão do dia
seguinte]. A minha intenção é seguir esta tradição.
Vocês podem ver que carpinteiros e escultores, por exemplo, primeiro devem
estudar sob a orientação de um mestre antes que possam trabalhar sozinhos. Portanto,
não há necessidade de dizer que devem confiar num guia espiritual para saber
corretamente o caminho que realizará suas esperanças eternas levando-os ao mesmo
nível dos Budas. Alguns pensam que podem conhecer o caminho lendo livros e sem ter
nenhum guru, mas isto não é bom o bastante – você deve confiar num guru qualificado.
Se você fosse à Índia; você definitivamente teria que encontrar um guia e este não
poderia ser qualquer um --teria que confiar em alguém que já tenha ido até lá. De
maneira similar, um guia espiritual deve ser alguém capaz de levá-lo no caminho à
Budeidade. Se confiar em qualquer um, em má companhia ou coisa assim, você não

170
será guiado corretamente no caminho, e poderá se extraviar. Assim, é vital confiar
desde o início em um guia espiritual. Observe também as palavras de Je Rinpoche [que
diz que o mestre é a “raiz do caminho.”]
A maneira de devotar-se a um guia espiritual começa com quatro títulos: (1) as
vantagens de confiar num guia espiritual; (2) as desvantagens de não confiar num guia
espiritual ou de descuidar de sua devoção; (3) devotando-se através de pensamento; (4)
devotando-se através de ações.

(A) AS VANTAGENS DE CONFIAR NUM GUIA ESPIRITUAL

Só quando se pensa nas vantagens de confiar num guia espiritual e nas


desvantagens de não confiar, é que se fica realmente feliz por fazê-lo.
Os benefícios de confiar num guia espiritual são discutidos no O Caminho Rápido e
segundo a tradição oral de nossos gurus, isto é tratado em oito sub-títulos.

VOCÊ SE APROXIMA DA BUDEIDADE

Na tradição oral de meu próprio guru, Dagpo Rinpoche, este título é sub-dividido
em dois: (1) você se aproxima da Budeidade praticando as instruções que lhe foram
ensinadas; (2) você também se aproxima da Budeidade fazendo oferecimentos e
servindo ao guru.

 VOCÊ SE APROXIMA DA BUDEIDADE PRATICANDO AS


INSTRUÇÕES QUE FORAM ENSINADAS

Um benefício geral de confiar num guia espiritual é que se ficará mais próximo
da Budeidade. Embora outros caminhos e seus estágios necessitam de muitos
incontáveis éons para alcançar a Budeidade, algumas pessoas podem ser guiadas a este
estado em uma única vida porque devotaram-se a um guia espiritual. Os mais altos
tantras alcançam isto muito rapidamente --guru ioga é também o sangue-vital do
caminho tântrico. Isto pode ser visto, por exemplo, na estória de vida de Je Milarepa.
Eu poderia citar versos como: “Através de sua bondade, o estado de grande
beatitude...” ou, “Através de sua compaixão, a esfera de grande beatitude...” Ou seja,
devotando-se corretamente ao guru, pela sua bondade e compaixão ele lhe concederá o
estado do dharmakaya --a esfera de grande beatitude-- em uma vida única e breve, o
que nestes tempos degenerados nada mais é do que um instante. A duração da vida
humana é apenas um instante se comparada ao tempo de vida dos seres nos infernos
abaixo ou dos deuses acima.

Para ilustrar isto, Kyabje Pabongka Rinpoche contou a estória da viagem de

171
Asanga a Tushita. 45

Além disso, o tempo de vida humana é só um instante comparado ao do tempo


em que estamos no samsara.
Se não devotar-se corretamente ao guru, não desenvolverá nem mesmo a menor
das realizações nos estágios do caminho, independente da prática que estiver
cultivando, mesmo se for dos tantras superiores. Mas, devotando-se corretamente, logo
obterá o estado de unificação, embora [normalmente] sejam necessários muitos éons
para alcançar isto. Como está dito no Lam-rim A Essência de Néctar:

A grande unificação é o mais difícil de se alcançar


Mesmo depois de uma perseverança cuja força é multiplicada
Por oceanos de incontáveis éons. Mas dizem que
É possível alcançá-la facilmente em uma vida breve.
Nestes tempos degenerados, ao confiar no poder do guru

Mesmo na tradição dos sutras, o caminho é rapidamente trilhado se a devoção ao


guru for excepcional.

Pabongka Rinpoche contou então a estória da vida do Bodhisattva


Sadaprarudita.

Se conhecêssemos um Buda, pensaríamos, “Este Buda é mais elevado do que o


meu guru.” Esta é uma reação natural, mas Sadaprarudita viu incontáveis Budas e
mesmo assim não ficou satisfeito: mas, procurou um guru. Isto é vital. Se não
encontrarmos um guru com quem temos um relacionamento kármico em todos os
nossos renascimentos futuros, teremos perdido a mais benéfica das coisas. Se
fizéssemos oferecimentos nesta vida e isto fosse causa para Indra nos dar a jóia que
realiza todos os desejos, ficaríamos satisfeitos. Mas Sadaprarudita cortou a carne do
próprio corpo e sangrou-se para servir seu guru Dharmodgata. Fez isto para dar mais
força à sua construção dos dois tipos de acumulações. Sadaprarudita já havia alcançado
a concentração uni-focada chamada “Dharma contínuo” quando teve estas visões de
muitos Budas; ele estava, de fato, no grande nível Mahayana do caminho da
acumulação. Então encontrou Dharmodgata que lhe ensinou o Dharma. Sadaprarudita
dominou os oito níveis de Bodhisattva após ter desenvolvido pela primeira vez o nível
de paciência no Dharma [do caminho da preparação]. Ele alcançou isto tão rapidamente
devido à sua inigualável devoção ao seu guia espiritual. Dizem que outros Bodhisattvas
tiveram que passar um interminável grande éon construindo suas acumulações durante
os primeiros sete níveis impuros dos dez níveis de Bodhisattva.
Então, ter ou não a devoção correta ao guru, determinará se a Iluminação será

45
Asanga passou apenas uma única manhã em Tushita recebendo ensinamentos de Maitreya, mas quando retornou à terra,
descobriu que haviam se passado cinqüenta anos.

172
alcançada com rapidez ou não. Se confiar nele, se colocar em prática as suas instruções,
você se aproximará da Iluminação. E alcançará a Iluminação mais cedo se confiar em
quem pode ensinar o caminho completo, em vez de confiar em quem só pode ensinar o
nível da Pequena Capacidade. Se um discípulo que for um receptáculo adequado [isto
é, alguém que pode suportar austeridades], encontrar um guru capaz de ensinar o
caminho completo, dizem que todas as dificuldades se derretem. É quase como se os
próprios Budas tivessem arrumado isto. Padampa Sangye disse:

Você alcançará qualquer lugar que queira


Se o guru carregá-lo até lá--
Portanto, povo de Dingri, renda-lhe
Reverência e respeito como o preço da viagem.

Nagarjuna disse:

Se uma pessoa caísse do pico


Da mais soberana das montanhas,
Ele cairia, mesmo se pensasse,
“Eu não vou cair.”
Se você recebe ensinamentos benéficos
Por bondade do guru,
Ainda assim será liberado,
Apesar de pensar, “Eu não o serei.”

Ou seja, se caísse do topo de uma montanha alta, não poderia evitar sua queda
mesmo se sentisse, “Posso voltar”. De maneira similar, se sua devoção ao guru for
sólida, isto o levará à liberação do samsara, apesar de pensar, “Eu não serei liberado”.
Mas você não poderá trilhar nem mesmo o mais trivial dos caminhos se não confiar
num guru.

 VOCÊ TAMBÉM SE APROXIMA DA BUDEIDADE FAZENDO


OFERECIMENTOS E SERVINDO AO GURU

Deve-se reunir uma coleção imensurável de sabedoria e méritos para alcançar a


Budeidade. Mas esta enorme coleção é facilmente adquirida; a melhor forma é fazendo-
se oferecimentos ao guru. Como está dito:

Um oferecimento a um único poro do guru


Concede mérito superior a um oferecimento
Aos Budas das dez direções
E aos Bodhisattvas.
Assim, Budas e Bodhisattvas vêem
173
Quando alguém faz oferecimentos a um mestre.

Em outras palavras, como consta em muitos tantras e comentários, é mais


benéfico fazer oferecimentos a um único poro do corpo do guru do que a todos os
Budas das dez direções e a seus Filhos. Sakya Pandita diz:

O estoque de [mérito] conseguido ao seguir as [seis] perfeições


E sacrificando cabeça, braços, e pernas por milhares de éons
É ganho num simples momento através do caminho do guru.
Você não deveria estar rejubilando-se ao serví-lo?

Ou seja, ganhamos um enorme estoque [de méritos] quando sacrificamos nossa


cabeça, braços, e pernas por milhares de éons, mas podemos adquirir o mesmo estoque
num único momento ao agradar o guru. Pode-se chegar mais perto da Budeidade
porque é tão fácil construir rapidamente o estoque [de méritos].
É mais poderoso fazer oferecimentos a seres humanos do que aos animais; é
ainda mais poderoso fazer oferecimentos a Shravakas; mais poderoso ainda é fazer
oferecimentos a Pratyekabuddhas; e ainda mais poderoso, oferecer aos Budas e
Bodhisattvas; mas o guru é o objeto mais poderoso de um oferecimento. Geshe
Toelungpa certa vez disse:

Eu ganho mais mérito dando comida ao cachorro de [meu guru],


Lopa, do que ensinando à Sangha de Toelung como fazer
oferecimentos.

Dizem que este geshe costumava recolher a manteiga congelada que ficava em
suas tigelas após as refeições e dá-la ao cachorro de Lopa.
Está dito num tantra: “É melhor oferecer a um poro do guru do que a todos os
Budas dos três tempos.” Note que a frase “oferecer a um poro do guru” significa
oferecer ao cavalo do guru; seu cão-de-guarda; atendentes, e assim por diante. Não
significa seus poros corpóreos comuns.

VOCÊ AGRADA AOS VITORIOSOS

Há duas maneiras de se pensar sobre este título:

 OS BUDAS DAS DEZ DIREÇÕES ESTÃO DISPOSTOS A ENSINAR


O DHARMA, MAS VOCÊ NÃO É AFORTUNADO O BASTANTE
PARA VER O SUPREMO NIRMANAKAYA, MUITO MENOS O
SAMBHOGAKAYA, PORQUE ESTES SÓ APARECEM AOS SERES
COMUNS COM KARMA PURO.

174
Buda manifestou a nós o seu corpo [na suprema forma nirmanakaya] mas não
fomos suficientemente afortunados para receber ensinamentos do Dharma dele
[naquele aspecto]. Precisamos, portanto, de um corpo iluminado adequado ao nosso
grau de boa fortuna para nos ensinar o Dharma. Assim, os Vitoriosos das dez direções
se emanam como gurus pelo nosso bem é um pouco como uma comitiva moderna
nomeando um porta-voz. Quando nos devotamos corretamente ao guru, os Budas
sabem disto e ficam satisfeitos. [O Lam-rim A Essência de Néctar] diz:

Quando você confia corretamente


Em seu guia espiritual, em breve
Será libertado da existência cíclica.
Tal como uma mãe ao ver seu filho recebendo ajuda,
Todos os Vitoriosos ficam satisfeitos
Até o mais profundo de seus corações.

Ou seja, Os Vitoriosos nos amam assim como uma mãe ama seu filho único. Os
Budas sabem disto e ficam satisfeitos quando nos devotamos corretamente aos nossos
gurus --a raiz de toda saúde e felicidade e o único meio de nos libertar dos sofrimentos
do samsara e dos reinos inferiores.

 SE NÃO CONFIAR CORRETAMENTE EM SEU GURU, NÃO


AGRADARÁ OS BUDAS, NÃO IMPORTA QUANTOS
OFERECIMENTOS FAÇA-LHES

O Quinto Dalai Lama citou as seguintes linhas de As Palavras do Próprio


Manjushri. Ao devotar-se corretamente:

Residirei nos corpos


Das pessoas que possuam estas qualificações.
Quando estes outros seres realizados
Aceitarem seus oferecimentos e ficarem satisfeitos,
Seus contínuos mentais serão purificados
De obscurecimentos kármicos.

Ou seja, Os Vitoriosos podem não ter sido realmente invocados, mas mesmo
assim tomam seus lugares no corpo de seu guru. Quando o guru fica satisfeito com seus
oferecimentos, eles também ficam. Mas se só fizéssemos oferecimentos aos Vitoriosos
e seus Filhos, só receberíamos os benefícios de fazer oferecimentos, e não os de agradá-
los também. Fazer oferecimentos ao guru traz os dois benefícios: o oferecimento em si
e o de agradar os Budas.

175
VOCÊ NÃO SERÁ PERTURBADO POR DEMÔNIOS OU MÁS
COMPANHIAS

Como está dito num sutra, por causa de sua confiança correta num mestre
espiritual, seu mérito aumentou muito. Devido a este aumento, você não será
perturbado por demônios e más companhias. O Sutra da Grande Peça nos diz:

O desejo daqueles com méritos serão realizados;


Eles derrotaram os demônios
E em breve alcançarão a iluminação.

Também nos é dito: "Deuses e demônios não podem impedir [aqueles com]
méritos."

VOCÊ AUTOMATICAMENTE DÁ UM FIM A TODO ENGANO E MAUS


ATOS.

Quando confiar num guia espiritual, saberá como modificar seu comportamento,
e realmente agirá desta maneira --da mesma forma como agora você cessa
automaticamente seus maus atos quando está perto de seu guia espiritual ou na casa de
seu mestre. O Sutra de Colocar Estacas afirma:
“Coisas feitas por pessoas movidas por karma e enganos são difíceis [de serem
feitas] por Bodhisattvas [que estão] sob os cuidados de virtuosos guias espirituais.”
O Lam-rim A Essência de Néctar diz: “Enquanto confiar respeitosamente nele,
você automaticamente cessará todos os enganos e malfeitos...”

SEUS INSIGHTS E REALIZAÇÕES NOS NÍVEIS DO CAMINHO


AUMENTARÃO

Dromtempa e Amé Jangchub Rinpoche, serviram Atisha diligentemente [um


como atendente e o outro como cozinheiro]. Em termos de concentração e realizações,
eles tiveram mais insight e experiências do que Mahayogi, que só praticou meditações;
tiveram também mais desenvolvimentos nos estágios do caminho do que Majayogi.
Atisha podia ver isto por clarividência e disse a Drom, “Você trilhou o caminho
meramente servindo seu guru, um monge grisalho”.
Algumas pessoas pensam que só os abades famosos e pessoas que ensinam o
Dharma sentados em tronos elevados são gurus, como os mestres vajra que dão
iniciações. Isto não é assim. Você deve devotar-se corretamente também ao mestre que
lhe ensinou a ler, e ao que compartilha o mesmo quarto consigo.
Quando Atisha ficou doente, Drom não considerava suas fezes como algo sujo, e
carregava-as para fora com suas próprias mãos. Como resultado disto, desenvolveu
repentinamente uma clarividência tal que podia ler os trabalhos mais sutis das mentes

176
de formigas num local tão distante que um abutre levaria dezoito dias para alcançá-lo.
Até hoje, ele é afamado como o avô dos ensinamentos Kadampa. E os bons trabalhos
do próprio grande Atisha só foram feitos pelo poder de sua correta devoção ao guru.
A extensão do trabalho de um santo dependerá de sua devoção. Zhoenue Oe, que
veio de Jayul, confiou no Geshe Chaen Ngawa e serviu-o bem. Certo dia ao levar o lixo
para fora, deu apenas três passos quando desenvolveu a concentração contínua uni-
focada do Dharma.
Quando Sakya Pandita certa vez pediu [a seu tio] o venerável Dragpa Gyeltsen
para compor um trabalho sobre guru ioga, Dragpa em princípio disse, “Você só me
considera um tio, não um guru” e não escreveu a obra. Mais tarde, quando Dragpa caiu
doente, Sakya Pandita cuidou dele, e então o guru escreveu sobre guru ioga. A partir de
então, Sakya Pandita o considerou como um Buda, e não apenas um tio, e tornou-se um
pandita sábio nas cinco ciências.
Tenpa Rabgye, que mais tarde ocupou o trono Ganden, preocupava-se tanto
quando seu tutor ficava doente que ele mesmo quase morria. Tenpa realizou a visão
porque cuidou de seu tutor tão bem.
Purchog Ngagwang Jampa um dia carregou para a casa de Drubkang Geleg
Gyatso um enorme saco de esterco seco [usado como combustível para cozinhar].
Purchog passou por muitas dificuldades, e Drubkang Geleg Gyatso deu-lhe um antigo
solidéu cheio de “oferecimento interno” consagrado. Purchog bebeu a oferenda e seu
contínuo mental foi abençoado, desenvolvendo uma intensa renúncia e cansaço do
samsara.
Portanto, se confiar em um guru, seus insight e experiências no caminho
aumentarão muito. O Lam-rim A Essência de Néctar afirma:

Experiências e realizações
Nos estágios do caminho
Se desenvolverão e aumentarão como resultado.

VOCÊ NÃO SERÁ PRIVADO DE GUIAS ESPIRITUAIS VIRTUOSOS


EM TODOS OS RENASCIMENTOS FUTUROS.

Geshe Potowa diz no Livro Azul dos Encantos:

Muitos não examinam seus


Relacionamentos com o Dharma.
Examine isto, e então renda respeito
Ao guru que cuida de você.
As coisas são tais que no futuro
Você não ficará privado do Dharma,
Porque o karma não desaparece.

177
Isto é, devotando-se corretamente ao seu guia espiritual, esta ação dará um
resultado similar: você não será privado de guias espirituais virtuosos em todas as suas
vidas futuras. Se considerar seu atual guia espiritual, que é um ser comum e mediano,
como sendo realmente um Buda, e devotar-se corretamente a ele, mais tarde encontrar
gurus como Maitreya e Manjushri, ouvirá seus ensinamentos. É por isto que o Lam-rim
A Essência de Néctar diz:

Render nesta vida o correto respeito ao seu guru,


O fará encontrar guias supremos espirituais
Em todas as suas vidas futuras, e ouvir
Deles todo o Dharma infalível,
Porque os resultados se harmonizam com as causas.

VOCÊ NÃO CAIRÁ NOS REINOS INFERIORES

Dedicando-se corretamente ao seu guia espiritual, você esgota o karma


arremessador que o levaria aos reinos inferiores. Isto acontece até quando ele o
repreende. Sempre que Geshe Lhazowa visitava Geshe Telungpa, por exemplo,
Lhazowa só era repreendido. Nyagmo, um dos discípulos do próprio Lhazowa, o
criticava. Mas Lhazowa respondia “Não diga isto. Sempre que ele faz isto, é como estar
sendo abençoado por Heruka.”
Drogoen Tsangpa Gyare disse:

Se você é golpeado, é uma iniciação:


Se tomar como uma benção, você será abençoado.
Uma reprimenda dura é como um mantra irado
Que remove todo empecilho.

Em outras palavras, você esgota o karma para renascer nos reinos inferiores. O
Sutra para Kshitagarbha diz:

Ao fazer isto, você purifica o karma que [de outra forma] o faria vagar
pelos reinos inferiores por milhões de imensuráveis éons; este karma
ocorrerá na vida atual como coisas prejudiciais ao corpo e mente --
fome, epidemia, e coisas assim. [O karma] é purificado até mesmo por
uma reprimenda, ou por pesadelos. Você pode suplantar o karma numa
manhã dando seus méritos-raiz a um número imensurável de Budas, ou
guardando seus votos.

Reflita sobre estas citações.

VOCÊ ALCANÇARÁ SEM ESFORÇO TODOS OS OBJETIVOS DE

178
CURTO E LONGO PRAZOS

Em suma, a correta devoção ao guru é a raiz de todas as qualidades mundanas e


supramundanas. Poderia até ser tomada como pré-requisito para não cair nos reinos
inferiores. Tudo que se necessita para alcançar a Iluminação vem sem esforço quando
se confia num guia espiritual. Je Rinpoche disse: “Oh, bondoso e venerável, o alicerce
de todas as boas qualidades...”

O Lam-rim A Essência de Néctar diz:


Você estará livre de todos os estados desfavoráveis
E alcançará bons renascimentos como deuses e humanos.
Finalmente, todo o sofrimento do samsara terminará
E você alcançará o estado excelente e supremo.

Atisha disse que havia confiado em cento e cinqüenta e dois gurus, mas nunca
perturbou uma única vez a paz de espírito de nenhum deles. Assim, suas boas obras na
Índia e no Tibet foram tão extensas quanto o próprio espaço por causa de sua excelente
devoção aos seus guias espirituais.

(B) AS DESVANTAGENS DE NÃO CONFIAR NUM GUIA ESPIRITUAL OU


DE DESCUIDAR-SE DE SUA DEVOÇÃO

As desvantagens de não confiar num guru são as opostas das oito vantagens acima:
ou seja, você não se aproximará da Budeidade, e assim por diante.
Há 8 desvantagens de descuidar-se de sua devoção. Quando começar a confiar num
guru, é um ato muito grave descuidar-se de sua devoção; deve-se, portanto, receber
ensinamentos de Dharma só depois de investigar completamente se tal pessoa tem ou
não valor.

SE INADVERTIDAMENTE DEPRECIAR SEU GURU, VOCÊ INSULTA


TODOS OS VITORIOSOS

O guru é a personificação física de todos os Budas e veio para subjugá-lo; num


sentido ele é como um representante com delegações. Então, se inadvertidamente o
depreciar, estará criticando todos os Budas. Se devemos ter cuidado para não depreciar
um único Buda, imagine então o cuidado que devemos ter para não insultar todos os
Budas! Por “guru” queremos dizer alguém que quer ensinar, e um “discípulo” é alguém
que quer ouvir – mesmo algo tão pequenino como um verso.
Levamos nossa devoção ao guru com firmeza para com os gurus mais famosos,
mas tratamos com displicência os outros, como aquele que nos ensinou o alfabeto. Isto
não é correto: Je Drubkang Geleg Gyatso não desenvolveu nenhuma realização
enquanto não viu como puro o monge que lhe havia ensinado o alfabeto, e que havia

179
largado a ordenação. O Lam-rim A Essência de Néctar diz:

Todos os Budas fazem suas boas obras através de guias espirituais.


Eles aparecem como o seu próprio guru.
Portanto o desrespeito ao guru é desrespeito a todos os Vitoriosos,
Assim, dizem: O efeito amadurecedor é por isso muito pesado.
O comentário sobre o Kalayamari Tantra afirma:
Aquele que ao ouvir até mesmo um verso [de ensinamento]
Não considerar [aquela pessoa] como um lama
Renascerá cem vezes como um cachorro
E depois nos piores dos infernos

E Ashvaghosha diz em Os Cinquenta Versos do Guru:

Se depreciar seu guru após sentir que ele é seu protetor


E ter tornado seu discípulo,
Você estará depreciando todos os Budas.
O sofrimento então será sempre a sua sina.

AO TER PENSAMENTOS DE RAIVA COM RELAÇÃO AO SEU GURU,


VOCÊ DESTRÓI SEUS MÉRITOS RAIZ E RENASCE NOS INFERNOS PELO
NÚMERO DE ÉONS IGUAIS AOS NÚMEROS DE MOMENTOS [DE SUA
RAIVA]

Se ficar com raiva de seu guru, você destrói [a quantidade equivalente de]
méritos raiz igual ao número de momentos que sua raiva durou desde o início até o fim.
Você deve então ficar nos infernos pelo mesmo número [de éons]. Do Tantra de
Kalachakra:

Conte os momentos que teve raiva de seu guru.


Você destrói as virtudes-raizes que construiu durante éons;
Você experimentará sofrimento intenso no inferno,
E assim por diante, por aquele mesmo número de éons.

Suponha que fique com raiva pelo tempo de um estalar de dedos. [Dizem que
estalos de dedos duram sessenta e cinco momentos]. Você destrói as virtudes-raiz
acumuladas em sessenta e cinco grandes éons e deve permanecer no Inferno Sem
Descanso por aquela duração de tempo. Portanto, se desrespeita ou deprecia seu guru,
ou tem raiva dele, ou o desagrada, você deve expiar estas negatividades em sua
presença enquanto ele ainda estiver vivo; caso contrário, deverá expiá-las perante
alguma de suas relíquias.

180
VOCÊ NÃO ALCANÇARÁ O ESTADO SUPREMO, MESMO SE
CONFIAR NO TANTRA

O Tantra Raiz de Guhyasamaja afirma:

Um ser senciente pode ter cometido


Grandes pecados como crimes hediondos,
Mas ele ainda pode ser bem sucedido no Veículo Supremo,
O grande oceano do Vajrayana.
Mas alguém que, do fundo do coração, despreze seu mestre
Poderá praticar, mas não terá sucesso.

Não importa que grande pecador possa ser, ter cometido os cinco crimes
hediondos e assim por diante, em breve você alcançará a meta suprema se confiar, por
exemplo, no caminho do tantra Guhyasamaja. Mas, se de coração desprezar seu mestre,
dizem que não atingirá a meta suprema não importa o quanto pratique.

EMBORA BUSQUE OS BENEFÍCIOS DO TANTRA, SÓ CONSEGUIRÁ


ALCANÇAR COM SUA PRÁTICA O INFERNO E COISAS ASSIM

Não importa quão arduamente possa praticar alguém que descuida dos
compromissos [tântricos] com seu mestre, ele só alcançará os infernos. O Ornamento
ao Tantra Vajrahrdaya diz:

Quem desprezar seu mestre perfeito,


Apesar de ser o melhor praticante de todos os tantras,
Apesar de desistir de toda a sociedade e do sono
E praticar bem durante mil éons,

O que alcançará será o inferno, e coisas assim

VOCÊ NÃO DESENVOLVERÁ NOVAS QUALIDADES AINDA NÃO


DESENVOLVIDAS, E AS QUE JÁ POSSUIR SE DEGENERARÃO

Criticar inadvertidamente seu guru impede que desenvolva novas realizações


nesta vida, e aquelas que já desenvolveu se declinarão. Acharya Krshnacharya
desobedeceu ligeiramente uma ordem de seu guru, Jalandharapa, e assim não realizou a
meta suprema naquela vida. Rechunga desobedeceu Milarepa três vezes e não atingiu a
meta suprema; dizem que teve mais três renascimentos para conseguí-la.
Certa vez, um Acharya de baixa casta tinha um discípulo de alta casta. Este
discípulo conseguia voar no ar. Um dia ele voou sobre seu guru pensando, “Nem
mesmo meu guru pode fazer isto”. Imediatamente o seu poder declinou e ele caiu.

181
Pandita Naropa esqueceu a ordem de seu guru e debateu com alguns Tirthikas e assim
não alcançou a meta suprema naquela vida, mas teve que esperar até chegar ao bardo.
Manjushri previu que dois noviços específicos de Khotan alcançariam a meta suprema
naquela vida, mas os dois desenvolveram visões errôneas sobre o Dharmaraja Songtsen
Gampo. Por causa de suas dúvidas, em vez de alcançar o siddhi supremo [da
Budeidade], quando voltaram à sua terra natal, só conseguiram o siddhi de serem
capazes de encher sacos com ouro. Portanto, se tiver visão errônea sobre seu guru, isto
vai adiar o seu desenvolvimento de insight e realizações e enfraquecer as causas que
produzem os siddhis principais.
Ao se misturar com más companhias, seus insight e realizações se turvam. Seja
cuidadoso com isto. Hoje em dia, a maioria das pessoas se apega a esta vida; todos
supervalorizam esta vida. Mesmo pessoas de quem você gosta e pensa que o ajudou,
são na realidade más companhias. “Más companhias” não usam capotes pesados, nem
têm chifres nas cabeças; “más companhias” são pessoas que fazem você fazer algo não
virtuoso movido por preocupação com seu bem-estar, ou que lhe impede de fazer algo
virtuoso. Ignore estas pessoas, seja quem for. Considere-as perigosas como elefantes
alucinados ou um bando de mongóis, e evite-as. Há ainda pessoas que têm poucos
desejos e estão contentes. A elas dizem coisas como, “Só desista de pouco. Não é bom
desistir de muito!” Isto parece plausível, mas as pessoas que dizem isto na realidade são
más companhias. Mas não as contradiga nem as insulte, esta não é a maneira correta de
praticar.

NESTA VIDA FICARÁ CHEIO DE DOENÇAS INDESEJADAS E


COISAS ASSIM

Os Cinqüenta Versos do Guru, afirma:

Deprecie seu mestre e,


Grande tolo! Morrerá
De pragas, doenças dolorosas,
Espíritos, epidemias, e veneno.
Você será morto por
Reis, fogo, cobras, veneno, enchentes,
Bruxas, ladrões, demônios, espíritos;
Então, ser senciente, você vai para o inferno.

Nunca perturbe as mentes


De seus mestres;
Se o fizer movido por cegueira,
Certamente torrará no inferno.

Àqueles que depreciam seus mestres

182
Corretamente permanecerão
Em qualquer dos infernos aterrorizantes,
Como o Inferno Sem Descanso.

Ou seja, se inadvertidamente depreciar seu mestre, você sofrerá muitos tipos de


doenças nesta vida.
Certa vez na Índia antiga, Acharya Buddhajñana estava dando um ensinamento
de Dharma. Seu guru, um mahasiddha, criava suínos. O guru chegou durante o
ensinamento e Buddhajñana fingiu não vê-lo. Mais tarde Buddhajñana mentiu ao seu
guru dizendo “Eu não o vi”, então seus olhos imediatamente pularam e caíram no chão.
Tsultrim, um vizinho de Dagpo Jampel Lhuendrub Rinpoche, era desrespeitoso
com o Rinpoche. Mais tarde um ladrão esmagou a cabeça de Tsultrim com uma pedra
no Desfiladeiro Goecker, e ele morreu.
Um dos discípulos de Neuzurpa quebrou seus compromissos [tântricos] e teve
visões aterrorizantes quando morreu.

VOCÊ VAGARÁ INCESSANTEMENTE PELOS REINOS INFERIORES


EM SUAS PRÓXIMAS VIDAS

O Tantra da Iniciavo de Vajrapani afirma que esta é a pior penalidade para quem
deprecia seus gurus. Os sutras contam muitas estórias sobre os infernos, mas este tantra
não ensina que uma pessoa que deprecia seu guru renascerá nos infernos; o tantra
afirma:

Vajrapani perguntou: “Oh Bhagavan! Quais são os efeitos amadurecidos


de depreciar o próprio mestre?”

O Bhagavan deu esta resposta ao pedido de explicação destes efeitos


amadurecidos: “Oh Vajrapani, eu não lhe direi pois aterrorizaria o mundo, os deuses e
todos. Mas, Oh Senhor do Esotérico, direi apenas isto”:

Heróis prestem atenção, ouçam!


Digo que tais pessoas permanecerão
Em qualquer um dos poderosos infernos que ensinei
Sobre os crimes hediondos e coisas assim.
E isto será por infinitos éons!
Nunca, portanto, desprezem seus mestres.

Em outras palavras, Buda não ousou entrar em detalhes porque sabia que o
mundo desmaiaria. Ele ensinou apenas que tais pessoas ficariam no Inferno Sem
Descanso por muitos anos.
Nunca é correto depreciar seu guru. Além de não depreciá-lo pessoalmente, não

183
se deve olhar nem mesmo para quem já fez isto, como diz esta estória. Uma vez,
enquanto o grande adepto Lingrepa ensinava o Dharma, um discípulo de Chag o
tradutor apareceu. Este discípulo tinha quebrado seus compromissos [tântricos]. De
repente, a boca de Lingrepa ficou paralisada; ele foi incapaz de ensinar e partiu.

VOCÊ SERÁ PRIVADO DE GUIAS ESPIRITUAIS EM TODAS AS


VIDAS FUTURAS

Isto é o oposto da vantagem mencionada anteriormente sobre confiar num mestre


espiritual. Não apenas não encontrará gurus, mas você só nascerá em lugares onde não
há sequer a chance de ouvir uma palavra do Dharma. Em suma, como disse Je
Rinpoche: “Assim, qualquer boa fortuna que você possa ter...” Ou seja, toda sua boa
fortuna mundana vem de confiar num guia espiritual; qualquer má fortuna ou é
resultado de não confiar num mestre ou de descuidar-se de sua devoção. Se sua
devoção for descuidada, você será privado de guias espirituais não só nesta vida mas
também em renascimentos futuros. O lam-rim A Essência de Néctar afirma:

Embora ocasionalmente possa atingir renascimentos


Nos reinos superiores, os resultados de seu desrespeito
Estará de acordo com a causa:
Você renascerá em lugares sem oportunidade alguma
Você não ouvirá uma palavra do santo Dharma,
Nem uma palavra de um guia espiritual.

Não só não pensamos sobre nossa devoção ao guru, mas nunca nem mesmo
analisamos nossas ações e fazemos gestos auspiciosos e inauspiciosos com nossos
gurus. Foi um gesto inauspicioso quando Milarepa ofereceu a Marpa um pote de cobre
vazio. Quando Marpa inicialmente ofereceu-lhe uma cerveja, Milarepa bebeu tudo --
isto foi um gesto inauspicioso. Quando Marpa se prosternou a uma deidade tutelar [em
vez de fazê-lo ao seu guru Naropa], foi um gesto inauspicioso.

Kyabje Pabongka Rinpoche falou detalhadamente de como Dromtoenpa confiou em


Setsuen e Atisha; Atisha confiou em Suvarnadvipi; Milarepa em Marpa; como Je
Tsongkapa folheou de ouro as paredes do quarto onde Kyungpa Lhaepa deu-lhe
iniciações; e assim por diante.

Portanto, devoção a um guia espiritual é vital, Mesmo o menor gesto auspicioso


ou inauspicioso tem suas conseqüências.

Kyabje Pabongka contou então a estória de Gyaeltsab Rinpoche, e de sua intenção de

184
debater com Je Rinpoche antes de se conhecerem. 46

Os motivos de Gyaeltsab Rinpoche eram desafortunados, mas passaram a ser


auspiciosos. Muitas coisas podem acontecer, bons motivos podem se tornar
inauspiciosos. Deve-se ter cuidado!
Quando usamos o nome de nosso guru, dizemos “Kuzhu [tradução aproximada
de Senhor] fulano de tal” ou “Kuzhu fulano de tal. Não faça isto”, devemos usar
alguma forma honorífica junto com seu nome, tal como “Sua Reverência...” Sempre
que Atisha dizia o nome de Suvarnadvipi, ele unia as palmas de suas mãos e o chamava
“o grande Suvarnadvipi”. Se alguém sussurrava o nome de Suvarnadvipi, ele se
levantava rapidamente. Eu não estou tentando me colocar na frente, mas sinto-me
infeliz sempre que vejo o nome de meu próprio e precioso guru ser usado casualmente.
Se seu guru ainda estiver vivo, você não deve usar a frase honorífica “cujo nome
pronuncio com dificuldade”.
Kyabje Pabongka Rinpoche reviu então os títulos acima duas vezes; uma com algum
detalhe e outra muito sucintamente.

46
Gyaltsab Rinpoche já era um grande sábio antes de se tornar discípulo de Je Tsongkapa. Procurou originalmente este
famoso mestre com a intenção de derrotá-lo em debate. Quando eventualmente o encontrou, Tsongkapa estava ensinando
uma grande multidão. Sem nenhum temor, Gyaltsab subiu os degraus do trono com seu chapéu e mochila enquanto
Tsongkapa chegava um pouco para o lado para deixá-lo sentar. À medida que os ensinamentos progrediam, Gyaltsab
primeiro retirou seu chapéu, depois a mochila, e finalmente desceu os degraus, fez três prosternações e se sentou. Isto
acabou sendo um bom augúrio: antes de morrer, Tsongkapa passou seu manto e coroa a Gyaltsab e nomeou-o seu sucessor
ao trono de Ganden --a posição mais elevada na escola Gelugpa.

185
DIA OITO

Kyabje Pabongka Rinpoche citou este verso de Je Rinpoche

Qualquer um que, desapegado da felicidade mundana


E desejando dar um sentido ao seu ótimo renascimento,
Siga um caminho que agrade aos Vitoriosos,
Oh, afortunados, ouçam com as mentes claras!

A primeira linha se refere à visão correta segundo a Capacidade Mediana; a


segunda, se refere à seção do caminho da Pequena Capacidade; a terceira linha se refere
à bodhicitta e à Grande Capacidade...
Tendo dado esta introdução para acertar nossa motivação, ele relacionou os títulos
já cobertos, e reviu os dois primeiros tópicos maiores do corpo principal do discurso do
Lam-rim. Estes títulos dizem respeito à devoção ao guia espiritual. Depois, continuou:
Estes títulos específicos tratam o assunto só como um tópico de meditação. O
Caminho Rápido e o Caminho Fácil não são claros de como se deve investigar um guia
espiritual [em potencial]; portanto, quero agora discutir isto segundo As Palavras do
Próprio Manjushri.
Se, como está dito acima, confiar no guia espiritual traz tais benefícios e se não
confiar num guia espiritual traz tais desvantagens, como devemos então confiar em tal
guia?
Não basta confiar em qualquer guia espiritual; deve-se confiar num que possa
ensinar o caminho completo. Alguém que só tenha algumas boas qualidades --ser
extremamente bondoso, por exemplo-- pode não ser capaz de ensinar o caminho
completo. Embora os discípulos tenham fé, sabedoria e perseverança, se o guru não
dominou inteiramente os sutras e os tantras, o discípulo passará toda sua vida humana
praticando apenas algumas coisas: refúgio, algumas sadhanas de deidades, meditação
nos ventos-energias e canais, e coisas assim. O oportuno renascimento do discípulo não
terá se tornado significativo. Deve-se portanto confiar num guia espiritual totalmente
qualificado.
Existem muitas qualificações individuais: a habilidade de conceder votos
pratimoksha, votos tântricos e de bodhicitta, etc. Aqui, tratarei das qualificações de um
guia espiritual que possa ensinar o Lam-rim completo. Deve-se investigar para saber se
um mestre possui estas qualificações antes de confiar nele. Não só você deve investigar
as qualificações de qualquer guru em quem queira confiar como seu guia espiritual, mas
também qualquer um que queira dar orientação espiritual no vinaya, sutras ou tantras
deve examinar a si mesmo para ver se tem as qualificações para ser guru nestes
assuntos. Se não for totalmente qualificado, deverá trabalhar para passar a ser. O fato de
ter toda a parafernália tântrica, como vaso de longa-vida ou equipamento do banho
ritual [vide Dia Cinco], e ter memorizado as cerimônias não faz ninguém ser um guru
totalmente qualificado.

186
Existem conjuntos individuais de qualificações: um para ser um abade ou mestre de
ordenação capaz de ensinar o vinaya; um para ser um guia espiritual do Mahayana; e
um para ser um mestre vajra dos tantras secretos. Descreverei principalmente as
qualificações de um guia espiritual Mahayana. [Maytreia] diz em seu Ornamento dos
Sutras:

Confie num guia espiritual que seja


Subjugado, pacificado, muito pacificado,
Que possua mais qualidades do que você
Perseverança, uma riqueza de escritura,
Realizações da talidade,
Que seja um hábil orador, tenha amor,
E que tenha abandonado os desapontamentos
Com a atuação dos discípulos].

Estas são, ao todo, dez qualificações: o contínuo mental dos gurus deve ser
subjugado pela ética. Suas distrações mentais devem ser pacificadas pela concentração
uni-focada. O apego ao ego deve ser muito pacificado pela sabedoria. Quando um
bastão de incenso é colocado entre outras peças de madeira, a madeira adquire a sua
fragrância; o discípulo também adquire as boas qualidades e os defeitos do guru. Assim,
os gurus devem ter qualidades melhores do que as suas. Quanto a realizações da
talidade, isto é o seguinte: eles descobriram a visão por meio da sabedoria alcançada
com os seus estudos. A visão é a que segue a escola Prasangika. Isto é sabedoria
superior; não estou me referindo à sabedoria que vem de descobrir a visão através das
escola Svatantrika e das outras escolas. [vide Dia Vinte e dois]. O resto da citação é
fácil.
Os gurus devem ter todas estas qualificações, e devem definitivamente ter ao menos
estas cinco: um contínuo mental subjugado por cada um dos três treinamentos
superiores [ética, concentração, sabedoria], amor e compaixão, e realização da talidade.
Geshe Potowa disse:

Todos da família de meu mestre Yerpa acreditava que Yerpa nunca havia
estudado muito e que não tinha paciência quando ficava frustrado. Tudo isto não
vale nada. Yerpa possuía as cinco qualificações e qualquer um que o
encontrasse era beneficiado.
Nyentenpa não tinha absolutamente nenhuma habilidade para ensinar,
embora pudesse discutir todos os tópicos exigidos. Não pensaríamos que alguém
que freqüentasse os ensinamentos de Nyentenpa poderia compreendê-los, mas
não é bem assim. Ele possuía as cinco qualificações e qualquer um que estivesse
próximo a ele era beneficiado.

Embora pessoas assim serão raras até o fim dos tempos, o ponto é que devemos

187
confiar em alguém que tenha principalmente boas qualidades em vez de defeitos, que
coloque vidas futuras antes da vida atual, e os outros antes de si próprio. Se não fizer
isto e encontrar um guia não-virtuoso, você poderá acabar como Angulimala, a quem
um guia espiritual errado ensinou um caminho pervertido e então cometeu pecados
horríveis. Então, investigue completamente o guru, e só confie nele após se certificar de
que é digno disto.
Discípulos também devem ter cinco qualificações: devem ser honestos, não devem
ter apego a seus próprios grupos e serem hostis a outros grupos; devem ter sabedoria de
distinguir o certo e o errado; devem ansiar pelos ensinamentos; devem ter grande
respeito por seus gurus; e devem ouvir com suas mentes colocadas adequadamente [ou
seja, ter uma sólida motivação]. Se tiverem estas cinco, progredirão no Dharma.
Então, como se faz para se devotar a um guru?

(C) DEVOTANDO-SE ATRAVÉS DO PENSAMENTO

Isto tem dois sub-títulos: (1) a raiz: treinando-se para ter fé em seu guru; (2)
lembrando a bondade do guru e desenvolvendo respeito por ele.
Estes dois títulos usam tanto escrituras quanto lógica, formando assim uma
edificação incontestável. Se você meditar neles, ficará muito feliz de devotar-se
corretamente ao seu guia espiritual. Se não meditar neles, você só vai querer pedir-lhe
ensinamentos [sem ter nenhum outro relacionamento].

A RAIZ: TREINANDO-SE PARA TER FÉ EM SEU GURU

Isto tem três títulos.


Aqui, fé significa a atitude de que o guru é na realidade um Buda. Isto, e a
compreensão de que todos os seres sencientes já foram suas mães, são os dois tópicos
de meditação do Lam-rim mais difíceis de desenvolver. Embora sejam difíceis, você
não desenvolverá os outros caminhos em seu contínuo-mental se não se esforçar nestes
dois tópicos.
A fé geralmente é a base ou raiz para o desenvolvimento de todas as coisas
positivas. O Sutra da Lamparina das Três Jóias diz:

A fé é a preparação; como uma mãe, ela concede o nascimento:


Ela nutre todas as boas qualidades e aumenta-as...

Em certa ocasião, um homem pediu duas vezes a Atisha, “Atisha, por favor me
dê instruções.” Atisha não disse absolutamente nada e o homem repetiu novamente o
seu pedido --desta vez gritando.
“Ei! Ei!” disse Atisha, “Sinto que minha audição é sólida, bastante sólida! Aqui
está minha instrução: Tenha Fé! Fé! Fé!”
O grande Gyaelwa Ensapa disse:

188
Suas experiências e realizações serão grandes ou pequenas
Conforme sua familiaridade com a fé seja grande ou pequena
Seu bom guru é a fonte de todos os siddhis.
Contemple as qualidades e ignore as falhas de seu guru.
Mantenha as instruções do guru na palma de sua mão,
E prometa guardá-las até o fim.

Em outras palavras, o desenvolvimento de realizações depende de se ter fé e se


esta fé é grande ou pequena. Se quiser alcançar o siddhi supremo [da iluminação], você
deve ter a fé de considerar seu guru como sendo realmente um Buda; portanto, você
definitivamente não deve se equivocar quanto as instruções que receber.
Mesmo se entender as instruções de forma errada, ainda poderá alcançar os
siddhis menos comuns se acreditar nas instruções. Um homem na Índia pediu uma
instrução ao guru. O guru disse: Marileja, que significa “vá embora”. O homem não
entendeu e achou que era uma instrução. Ele conseguiu curar sua própria doença e as
doenças dos outros recitando aquela palavra um certo número de vezes.
Outra pessoa compreendeu om vale vale vunde soha como sendo o mantra da
deusa Chunda. Os “v”s estão errados: devem ser “ch”s. Ela recitou isto um número de
vezes e durante uma época de fome conseguiu cozinhar e comer pedras.
Se lhe falta fé nada conseguirá com a sua sabedoria. Há três tipos de fé. A fé a ser
treinada nesta seção do Lam-rim é a “fé purificadora”: a fé que considera seu guia
espiritual como sendo na realidade um Buda.
Há uma técnica para desenvolver este tipo de fé segundo a linhagem ramificada
de Ketsang Jamyang e seus discípulos, e tem três partes. São elas:

 A RAZÃO PORQUE DEVE-SE CONSIDERAR SEU GURU COMO


UM BUDA

Você deve vê-lo como um Buda porque quer ganho e não perda. Você quer
ganho, logo se considerar seu guru como um Buda, seja ele um Buda ou não, você
alcançará sem esforço todos os seus desejos nesta vida e em vidas futuras --certamente
um grande ganho. Para ilustrar isto: uma velha tinha fé no dente de um cão [acreditando
que fosse o dente do Buda]; o dente então produziu pílulas-relíquia. O Livro Azul dos
Encantos diz:

As bênçãos do guru não são realmente


Grandes ou pequenas: tudo depende de você

Ou seja, a benção do guru em si pode ser grande ou pequena. Mas, a benção que
se recebe depende de quanto se consegue vê-lo como um Buda, um Bodhisattva, etc. Se
alcançará ou não os siddhis, vai depender se sua reverência a ele é grande ou pequena.

189
Atisha disse que o Tibet não tinha adeptos porque os tibetanos só consideravam os
gurus como pessoas comuns.
O guru pode realmente ser um Buda, mas se não treinar para ter fé não
conseguirá ver suas qualidades; ao contrário, só sustentará uma perda: diferentes tipos
de sofrimento. O Buda tem infinitas qualidades mas Devadatta e Upadhana só viam a
aura de luz da largura igual ao comprimento do braço; não conseguiam ver as outras
qualidades do Buda. Logo, sofreram uma grande perda. Geshe Potowa disse:

Se você não tem nenhum respeito pelos gurus,


Não ajudará nem mesmo confiar no próprio Buda,
Assim como aconteceu com Upadhana.

 A RAZÃO DE CONSEGUIR VÊ-LO ASSIM

Não só devemos ver o guru como um Buda, mas também podemos de fato fazê-
lo. Há dois meios para isto: se só aprecia parte de suas qualidades, pode pôr um fim à
sua falta de fé e, esta fé vai suplantar qualquer pequeno defeito que possa ver nele.
Deve-se usar estes dois meios para fazer com que os defeitos que veja nele alimente a
sua fé. Pense nisto.
Em O Tantra de Iniciação de Vajrapani encontramos:

Perceba as qualidades de seu mestre.


Nunca se agarre aos seus defeitos.
Você alcançará siddhis
Quando perceber suas qualidades;
Você não alcançará sidhhis
Quando se agarrar aos seus defeitos.

Em outras palavras, por causa de nossos maus instintos karmicos, só vemos os


defeitos de nosso guru. Devemos, ao contrário, só nos deter nas suas boas qualidades, e
isto automaticamente cessará qualquer pensamento de ver seus defeitos, tal como o sol
brilha mais do que a lua no céu. Isto é ilustrado pelo fato de que você não pensa nos
seus próprios defeitos, por isso não consegue vê-los. Você pode ver alguns pequenos
defeitos em seu guru, mas pensar nos meios hábeis que ele usa para subjugar seus
discípulos deve ser o suficiente para alimentar sua fé.
Além disso, no momento somos principiantes e [para nós] nossos gurus são
pessoas comuns. Quando alcançarmos a concentração contínua e uni-focada do
Dharma, encontraremos os Supremos Nirmanakayas; quando chegarmos ao primeiro
nível de Bodhisattva, encontraremos os Sambhogakayas, e assim por diante. Um dia,
até mesmo o universo nos parecerá completamente puro.

190
 COMO CONSIDERÁ-LO CORRETAMENTE

Aqui, devemos [provar que o guru é um Buda] usando as escrituras e a lógica


para alcançarmos a convicção inabalável. Isto tem quatro sub-títulos.

o VAJRADHARA AFIRMOU QUE O GURU É UM BUDA

Há o perigo que alguns possam pensar: “Mestres espirituais na realizade não são
Budas, portanto devemos repensar a seção do Lam-rim que trata da devoção ao mestre
espiritual.” Mas o ponto é que não devemos colocar conceitos errôneos como este no
mais profundo recôndito de nossa mente.
Devemos pensar assim: O guru é um Buda mas você não o percebe. A razão é a
seguinte: Vajradhara está presente entre nós, tomando a forma de gurus. O Tantra Real
de Hevajra afirma:

Em tempos futuros, minha forma física


Será aquela dos mestres...

Também, por cinco milênios


Tomarei a forma dos mestres.
Pense que eles sou eu,
E desenvolva-lhes respeito nestes tempos...

Nos tempos degenerados do futuro


Minha forma será a dos rudes camponeses;
Estes são os vários meios que empregarei
Para me mostrar nestas formas.

Um sutra nos diz:

Oh! Como é significativo me ver!


Nos tempos futuros, me mostrarei
Fisicamente como abades.

Ou seja, muitos sutras e tantras dizem que em tempos degenerados o próprio


Vajradhara virá sob forma de mestres. Movido por amor, ele pensou: “Você me
encontrará”, e “Não se desespere, você me reconhecerá”. Isto significa literalmente o
que foi dito. Devemos assumir o tempo presente como sendo estes “tempos
degenerados”. Vajradhara nos percebe com seu amor e sabe como nos tornamos
patéticos devido ao karma e ilusões, portanto ele se manifesta entre nossos próprios
gurus. Em nosso renascimento atual somos capazes de saber como modificar nosso
comportamento, praticar as instruções, etc. Portanto, ele sabe que não há melhor época

191
para trabalhar pelo nosso bem.
Se pensa que não é assim, e procura motivos para todo guru não ser uma destas
emanações de Vajradhara, este processo de eliminação o deixará sem nenhuma
emanação de Vajradhara. Isto contradiz as citações acima; deve haver entre eles [pelo
menos] uma emanação de Buda. Reflita nisto. Se só buscar motivos para que não sejam
Budas, você não encontrará a emanação, logo seu pensamento é falho. Ao contrário,
sinta: “Todos os meus gurus nada mais são do que emanações do Buda”.
Estas citações são suficientes para aquele tipo de pessoa que acha fácil acreditar.
Mas, será muito mais convincente se o provarmos pela lógica.

o PROVA DE QUE O GURU É O AGENTE DAS BOAS OBRAS DE


TODOS OS BUDAS

Como mencionei na seção sobre o campo de mérito, a única lua no céu dá vários
reflexos distintos nas superfícies de água contida em vários recipientes diferentes. De
forma similar, a sabedoria primordial das mentes de todos os Budas, a sabedoria
primordial que é a combinação de beatitude e vacuidade, é inseparável do Dharmadhatu
[esfera da verdade], e aparece aos discípulos sob vários aspectos: como Sravakas aos
discípulos melhor subjugados por Sravakas; como Pratyekabuddhas aos discípulos
melhor subjugados por Pratyekabuddhas; e [como Bodhisattvas ou Budas] aos
discípulos melhor subjugados por Bodhisattvas ou Budas. No Sutra do Encontro de Pai
e Filho encontramos:

Pelo bem dos seres sencientes


Eles se disfarçam de Indra e Brahma;
Para alguns, eles se disfarçam de demônios.
Os mundanos não conseguem ver isto.

Em outras palavras, os Budas tomam vários aspectos: como demônios ou


Brahma para pessoas melhor subjugadas por demônios ou Brahma, e mesmo como
pássaros ou feras selvagens para pessoas melhor subjugadas por pássaros, feras, etc.
Dentro dos limites de nossa boa fortuna se mostram como mestres espirituais comuns.
Eles não têm nenhum outro meio para nos guiar; podem nos mostrar aspectos
superiores ao de um guru comum, como o Sambhogakaya e coisas assim, mas não
podemos vê-los. Se eles fossem se mostrar em aspectos inferiores como pássaros, etc,
não ajudaria porque não acreditaríamos neles.

Como está dito [no Lama Chopa]:

Eu vos suplico, refúgio e protetor compassivo:


Sois a mandala dos tres kayas preciosos dos Sugatas;
Mas por meios hábeis

192
Guiais os seres como uma criatura comum;
Como uma rede mágica que nos recolher.

Ou seja, os três kayas de todos os Budas estão contidos nos três mistérios do
guru [vide Dia 12]. O guru é uma emanação de todos os Budas criados para realizar
boas obras. Suponha que o principal dançarino de um ritual monástico se vista de
Acharya [um papel cômico] e dance. Depois se veste como Dharmaraja e dança aquela
parte. Ele só trocou de roupa; mas ainda é o mesmo dançarino. Ou então, pode-se
escrever muitas coisas diferentes com a mesma tinta vermelha, mas todas têm a mesma
natureza da tinta vermelha. Pense então, “Nossos gurus nada mais são do que
emanações de Vajradjara, que usa os meios hábeis para nos subjugar.”
Um inflamável não pega fogo se não for usada uma lente de aumento [para
captar os raios solares]. Você pode ter tipos diferentes de comida, mas a comida não
chegará ao estomago se não passar pela boca. Ao confiar no guru, você recebe
igualmente bênçãos e karma positivo dos Budas. O guru é o agente de todas as boas
obras dos Budas porque ele faz você executar todas as suas ações positivas.
Se o caso é este, não tenho nenhum receio de que ele seja o Buda. As boas obras
dos Budas são as bênçãos que concedem enquanto trabalham pelo bem dos seres
sencientes. Estas bênçãos são recebidas na dependência do guru. Se isto é
necessariamente o caso, é impossível que os gurus sejam comuns; eles têm de ser
Budas. Se fossem seres comuns, então o agente das boas obras dos Budas seria um ser
senciente. Se este fosse o caso, significaria que os Budas precisam da assistência de
seres comuns. Os Budas não precisam de tal assistência. Quando os Budas trabalham
pelo bem de seres sencientes, não precisam nem mesmo da ajuda de Shravakas,
Pratyekabuddhas ou dos grandes Bodhisattvas, portanto, como poderíamos falar de
serem assistidos por seres comuns!
Portanto, Budas se emanam como seres comuns para que os seres sencientes
sejam afortunados o bastante para vê-los. Eles também se emanam como barcos,
pontes, etc, mas estas coisas nos parecem meramente como trabalho de carpintaria --não
detectamos nada mais sobre eles.
Sakya Pandita citou o exemplo das lentes:

Embora os raios de sol sejam quentes,


Não pode haver fogo sem uma lente;
De forma similar, sem um guru, não se pode receber
As bênçãos dos Budas.

E Da Oe Rinchen, um lama Kagyu, cita a mesma ilustração:

Interponha uma lente clara entre


Os raios do sol
E focalize-a sobre o inflamável...

193
Os discípulos recebem as boas obras dos Budas na dependência de um guru. Se
o guru não fosse um Buda, os Budas não precisariam de sua assistência, assim como o
rico não precisa da ajuda de pedintes. Pense nisso: gurus e Budas são um e o mesmo; a
razão disto é que de outra forma os Budas dependeriam dos gurus.

o BUDAS E BODHISATTVAS AINDA ESTÃO TRABALHANDO PELO


BEM DOS SERES SENCIENTES

Vajradjara se emana no presente e trabalha pelo bem de todos os seres. Os


Budas conhecem, sem equívocos, a situação dos seres sencientes, ama-os até mais do
que uma mãe ama seu filho, e fazem sempre o máximo para realizar boas obras. Como
poderiam não trabalhar pelo nosso bem, estando os tempos atuais como estão?
Quando os Budas desenvolveram a bodhicitta pela primeira vez, o fizeram só
pelo nosso bem. Eles também construíram suas [duas] acumulações pelo nosso bem.
Até mesmo se iluminaram pelo bem dos seres sencientes. Agora que alcançaram o
fruto, seria impossível que não continuassem nos beneficiando. Todos os Budas não
poderiam insensivelmente nos abandonar e não trabalhar pelo nosso bem. Eles
certamente trabalham.
Se todos os Budas definitivamente nos beneficiam, não há outra maneira de
fazerem do que a seguinte:

Os Grandiosos não lavam os pecados com água;


Não livram os seres de sofrimento
Com o toque de suas mãos;
Não transferem aos outros
As suas realizações de vacuidade.
Eles liberam ensinando a verdade da vacuidade.

Emanações dos Budas estão fazendo isto; não há mais ninguém para nos ensinar
os meios para benefícios supremos, renascimentos superiores e excelência definitiva.

Na Oração de Ketsang Jamyang encontramos:

Budas e Bodhisattvas do passado


Ainda trabalham pelo bem dos seres.
Saiba que isto não é apenas uma afirmação,
É verdadeiro para os gurus qualificados.

Meu próprio guru disse, “Há um Buda guardião sentado sobre a cabeça de
cada ser senciente!”

194
o NÃO SE PODE ESTAR CERTO DAS APARÊNCIAS

Você deve se assegurar de que os seus gurus atuais são na realidade Budas e
agentes das boas obras de todos os Budas. Mesmo assim, você não os vê como Budas e
alega: “Eu os vejo como seres comuns porque vejo este e aquele defeito neles”. Vamos
analisar isso.
O que vemos não é certo e nem confiável. Nossa perspectiva vem de nosso
karma. Adquirimos uns tipos de karma e não outros; mas não podemos afirmar que
temos um certo karma e não temos um outro. [Chandrakirti] diz em Engajando no
Caminho do Meio: “Um espírito faminto pensa que um rio corrente é pus...” Ou seja,
quando três tipos diferentes de seres kármicos --um deus, um humano e um espírito
faminto-- vêem uma tigela de líquido refrescante, um vê néctar, outro vê água, e outro
vê pus e sangue. Para espíritos famintos a lua no verão parece quente e o sol no inverno
parece frio. O tantra de Kalachakra e o abhidharma [metafísica] foram formulados para
dois tipos de discípulos; num ensinamento, o Monte Meru é descrito como sendo
redondo; noutro, é quadrado. Arya Asanga viu o venerável Maitreya como um cão com
as pernas trapeiras paralíticas e infestadas de vermes. Buddhajñana viu Acharya
Manjushrimitra como um monge que vivia com uma mulher, lavrava o campo, e comia
sopa de minhocas. O povo local achava que Tilopa era só um pescador louco e nunca
suspeitou que fosse um grande adepto, até mesmo Naropa o viu grelhando um peixe
vivo. Krishnacharya viu Vajravaratu como uma leprosa. Portanto, devemos ficar felizes
que nossos mestres espirituais não nos aparecem como um cavalo, um cachorro ou um
asno – nós o vemos como um ser humano. Chaen Ngawa Lodroe Gyeltsen disse:

[Considerando nossa grande] medida de karma negativo


E conseqüentes obscurecimentos,
Podemos nos consolar
Em ver o guru como um humano
Temos grande mérito em não
Vê-lo como um cachorro ou um asno.
Renda-lhe reverência do coração,
Oh Filho de Shakyamuni.

Além disso, as aparências enganam; já que tudo parece estabelecido como


verdadeiramente existente, pode-se tirar a conclusão errada de que por isso as coisas
existam verdadeiramente.
Certa vez um monge sedento saiu em busca de água e teve a visão de um
espírito faminto. O espírito não podia ver o Ganges apesar de na realidade estar
andando no rio.
Além do mais, só porque você não vê os espíritos isto não é prova de que eles
não existam. Devo mencionar aqui a discussão contida no Comentário sobre Coisas
Válidas [de Dharmakirti], na seção de lógica formal que trata dos fenômenos invisíveis

195
imperceptíveis.
Você não é afortunado o bastante para ver o guru como um verdadeiro Buda
porque não tem o contínuo mental de alguém suficientemente afortunado para vê-lo.
Isto é você não tem a cognição válida especial para ver o guru assim.
Isto completa nossa análise.
Mesmo quando alguém não parece ser um Buda, isto não quer dizer que não
seja um Buda; e mesmo quando ele realmente parece ser um Buda, não se pode ter a
certeza de que o seja. Certa vez quando o Arhat Upagupta, o quarto patriarca budista,
estava ensinando o Dharma, o demônio Kamadeva causou uma perturbação. Upagupta
subjugou o demônio e disse: “Nunca conheci o Buda, portanto por favor emane uma
semelhança exata dele”. O demônio emanou uma forma igual ao Buda, completa com
marcas e sinais, etc., sem nenhuma omissão ou acréscimo. Upagupta estava à beira de
se prosternar porque estava agora vendo o Buda em pessoa, mas o demônio desfez a
emanação muito rapidamente [para que pudesse fazê-lo].
Nos tempos antigos os grandes adeptos como Nagarjuna pareciam às aparências
normais como monges comuns, mas na verdade eram Budas.
Ainda assim, se surgir uma concepção errônea sobre os defeitos do guru, você
não deve dar um fim neles imediatamente. Por exemplo, antes de lavar roupas sujas,
primeiro você verifica cada mancha. De forma similar, você deve permitir que tais
concepções errôneas [a respeito dos defeitos de seu guru] surjam. Porque? Porque você
não sabe se o guru tem estes defeitos aparentes ou não. Como já salientei, as aparências
kármicas não podem estar erradas? Uma concha branca parece amarela a alguém com
uma doença biliosa; alguém com doença do tipo vento vê uma montanha nevada como
sendo azulada; para alguém sentado num barco, as árvores na praia parecem se mover;
pessoas com cataratas têm ilusões de ver cabelos caindo, e assim por diante.
Se estas causas triviais e temporárias de erros podem obscurecer tanto, porque
não estaríamos errados quanto às coisas existentes já que estamos permeados de
inúmeras causas de erros – karma e enganos.
Conheço um lama encarnado que contraiu uma doença biliosa quando estava em
peregrinação. Três caixas de prata de relíquias na sua hospedaria pareceram-lhe ser de
ouro, porém mais tarde, quando estava livre da doença, as caixas novamente pareciam
ser de prata.
Quando Gyaelwa Ensapa visitou a grande estátua de Maitreya em Rong, ele
debateu com alguns estudiosos Sakya de lá, mas eles não compreenderam um ponto
difícil da terminologia budista. Ensapa citou o Sutra de Oito Versos da Perfeição da
Sabedoria em sânscrito para salientar o significado desses termos, mas os Sakyas não
acreditaram nele. Eles disseram que ele era um espírito maligno, não um homem da
seita Gelugpa. Portanto, não veja o exterior; veja as boas qualidades, as realizações e as
renúncias das pessoas.
Só os próprios Budas percebem o dharmakaya [corpo da verdade]. Nem mesmo
o Arya Bodhisattva pode percebê-lo; mas pode ver o sambhogakaya. Até para ser capaz
de ver o supremo nirmanakaya, deve-se definitivamente ser um ente comum com karma

196
puro. O lam-rim A Essência de Néctar afirma:

Enquanto não estiver livre


Do véu de karma e obscurecimentos,
Mesmo se todos os Budas viessem realmente até você
Você não teria a boa fortuna de ver
Seus supremos corpos adornados
Com as marcas e sinais;
Você é apenas afortunado o bastante
Para ver o que lhe aparece no presente.

Mesmo na época da vida de Buda, haviam Tirtikas que não podiam ver suas
marcas e sinais; só conseguiam ver nele uma massa de defeitos. Devadatta considerou
os feitos de Buda como uma simples fraude.
Uma perspectiva correta é ver o guru como uma medida de seu valor. Um chefe
de bandidos de Golag Arig Superior viajou a Lhasa para ver a estátua de Shakyamuni
no templo principal, mas ele não conseguia ver coisas como lamparinas de manteiga,
muito menos a estátua. A encarnação anterior de Oen Gyelsae Rinpoche disse-lhe para
purificar seus karmas e obscurecimentos. O bandido então fez realizar uma cerimônia
com dez mil oferecimentos e circumambulou locais sagrados, mas ainda não conseguia
ver a estátua. No entanto, começou a ver as lamparinas de manteiga.
Quando Lozang Doendaen Rinpoche da Universidade de Gomang [parte do
Mosteiro Drepung] dava uma transmissão oral de As Palavras Traduzidas de Buda, um
monge na audiência não conseguia ouvir a transmissão ou ver o livro. Em vez disso, via
carne picada na frente de Rinpoche. Enquanto Rinpoche dava a transmissão, o monge
imaginava que Rinpoche comia a carne, e no final do dia imaginava que via pessoas
recolhendo a carne.
Qualquer coisa é possível quando nossa perspectiva é só aparências kármicas. A
quantidade de purificação de nossos karmas e obscurecimento determina o nível das
aparências.
Sua perspectiva não é confiável: assim, longe de avaliar seu guru, você não pode
avaliar ninguém -colegas, amigos, cães-de-guarda, deuses, etc. Só pode avaliar a si
mesmo. Despreze isto e estará sujeito a dúvidas.
Quando Gyaelwa Ensapa estava para atingir a unificação, havia pessoas que o
chamavam de Ensa Louco. O Dharmaraja Karmayama distinguiu-se como discípulo de
Je Rinpoche. Certa vez, Je Rinpoche ia revelar uns pontos profundos e difíceis sobre os
tantras secretos e Karmayama o impediu. Isto aborreceu Gyeltsen Zangpo, e Kedrup
Rinpoche teve de dizê-lo para não fazer tanto rebuliço.
O Bhagavan Buda disse, “Só seres como eu podemos avaliar o valor de uma
pessoa”.
Na Índia, um noviço foi até a Ilha Vachigira para confirmar o relato de que
todos os homens de lá eram dakas e suas mulheres eram dakinis. Mas, enquanto esteve

197
lá não conseguia ver as boas qualidades de ninguém e, em vez disto, desenvolveu fé em
um charlatão.
Naro Boenchung disse o seguinte sobre Milarepa:

As pessoas que não viram o famoso Milarepa


Falam coisas grandiosas sobre ele:
“Ele é como os grandes adeptos da Índia!”
Quando essas pessoas vão vê-lo
Encontram um velho homem nu que dorme...

Estas estórias caçoam de tudo que vemos. Então, não sabemos nada nem mesmo
sobre nossos amigos mais íntimos. Assim, como segurança, treine-se para ver tudo
como sendo puro. Muitos estudiosos achavam que o grande Shantideva, um verdadeiro
Filho dos Vitoriosos, só vivia para três coisas: comer, dormir e se aliviar. Eles não
conseguiam ver suas boas qualidades. De forma semelhante, nossa perspectiva também
não é confiável.
Não se pode estar seguro de que o que vê como um defeito seja na realidade um
defeito. A forma de ver e reconhecer as coisas anda junto. Upadhana, um monge que
conhecia as três cestas, permaneceu errado em seus pensamentos e pontos de vistas
porque achava: “Vejo o Buda pelo que é seus ensinamentos sobre as causas do karma
são fraudes que servem aos seus propósitos. Não é verdade que ele não tenha mais
nenhum defeito”. Se Upadhana errou, o que diríamos de nós!
Quando um mestre fica sem dormir e dia-e-noite faz recitações, os alunos que
gostam muito de dormir verão isso, do fundo do coração, como defeito. Se os alunos
bebem cerveja, podem achar que têm sorte se seu mestre também bebe cerveja; tomarão
isto como uma boa qualidade. Portanto, muitas coisas vistas como defeitos não são
defeitos e, além disso, não se pode estar certo do que são boas qualidades. Você não
pode estar certo de que o guru não esteja apenas simulando um defeito como um
ensinamento para o seu próprio bem. O Sutra do Encontro de Pai e Filho e O Grande
Sutra do Nirvana de Buda relatam como os Tathagatas, sempre que for benéfico, se
manifestam como pessoas hostis, miseráveis, aleijadas, loucas, imorais, etc.
Sutras e tantras podem ser, geralmente, definitivos ou interpretativos. Há muitas
interpretações quanto a uma escritura ser tomada literalmente ou não. Mas quando o
Vitorioso Vajradhara disse que no futuro apareceria no aspecto de gurus, a afirmação
foi literal e distinta, algo que podemos verificar por nós mesmos. Podemos
compreender que não há ninguém a não ser o guru para nos ensinar o caminho à
liberação e à onisciência. Seria contraditório e anticonvincente pensarmos: “Meu guru,
que segundo Vajradhara é um Buda, não é um Buda porque tem tal e tal defeito”.
O que está dito acima é prova positiva: pode-se compreender que o guru tem
sido um Buda desde o princípio. Você desenvolverá realizações de como se devotar ao
guia espiritual quando se convencer de que a lógica e as referências escriturais acima
provam que o guru é um Buda e experimentará um tipo de mescla do guru com todos os

198
Budas.
Quanto a mesclar sua própria mente com a mente do guru, é o seguinte: quando
se está totalmente iluminado, a sua mente e a mente dos gurus, que é beatitude e
dharmakaya, se mesclam e se tornam uma só Neste ponto você está iluminado, e tornou
um guru por natureza; atingiu o estado do guru. Seu corpo, palavra e mente estão
totalmente mesclados com os do guru. É por isso que você deve ter um relacionamento
próximo com ele; sua mente deve continuamente se aproximar e se amoldar à mente do
guru.

DESENVOLVENDO-LHE RESPEITO AO LEMBRAR DE SUA BONDADE

Segundo Ketsang Jamyang e seus discípulos, isto tem quatro títulos: (1) o guru é
muito mais bondoso do que os Budas; (2) sua bondade em ensinar Dharma; (3) sua
bondade em abençoar sua mente e seu contínuo mental; (4) sua bondade em atraí-lo ao
seu círculo através de presentes materiais.

 O GURU É MUITO MAIS BONDOSO DO QUE OS BUDAS

Isto tem duas partes:

o ELE É MUITO MAIS BONDOSO DO QUE TODOS OS BUDAS

Em termos de boas qualidades, o guru é igual aos Budas; mas sua bondade
geralmente é maior do que todos os Budas. Infinitos Budas guiaram incontáveis seres
sencientes durante imensuráveis éons no passado, mas nós não estávamos entre eles. O
Guru Puja afirma:

Vos suplico, refúgio e protetor compassivo:


Ensinastes corretamente o nobre caminho dos Sugatas
Aos seres destes tempos degenerados difíceis de serem domados
Que eram inadequados para serem domados
Pelos incontáveis Budas do passado.

Ou seja, 75 mil Budas, outros 76 mil Budas, e mais 77 mil outros, e assim por
diante, vieram ao mundo para ser objeto da construção de acumulações de Buda nosso
Mestre. Além disso, só neste éon, os Budas Krakuchchanda, Kanakamuni, Kashyapa, e
etc., guiaram um ilimitado número de discípulos, mas não conseguiram nos subjugar. O
guru está nos ensinando agora o caminho completo e inequívoco. Até mesmo as
manifestações anteriores dos Budas não poderiam fazer melhor. Assim, embora o guru
e os Budas sejam iguais em termos de boas qualidades, o guru é superior em termos de
bondade.
Geshe Potowa disse que o guru é como alguém que dá comida a quem está

199
morrendo de inanição, enquanto os Budas são como os que dão pedaços de carne em
épocas de fartura. Suponha que tivéssemos escapado da pobreza e enriquecido e alguém
então nos desse comida e propriedade. De forma similar, quando já tivermos alcançado
os caminhos mais elevados, teremos visões de muitos Budas, receberemos inspirações
deles, e coisas assim, mas no presente isto não nos ajuda em nada enquanto estivermos
em estado tão deplorável. O guru, como alguém que dá comida quando somos pobres,
nos ensina quando estamos prestes a cair no grande precipício dos reinos inferiores. Isto
é um meio de nos guiar para que tenhamos alguma esperança de alcançar a Budeidade.
Isto é bondade do guru. Kedrub Rinpoche diz: “Guru supremo e sem igual, mais
bondoso do que todos os Vitoriosos...” Ou seja, podemos ter fé em outros Budas e
Bodhisattvas mas não os encontramos. Agora que estamos privados do Dharma, o guru
nos ensina o próprio Dharma, portanto ele é mais compassivo.

o ELE É ATÉ MESMO MAIS BONDOSO DO QUE BUDA SHAKYAMUNI

O Imperador Universal Aranemi tinha mil filhos e cada um deles desenvolveu a


bodhicitta, prometendo cuidar de um certo grupo de discípulos. Mas viram que os
discípulos seriam difíceis de serem subjugados naqueles tempos difíceis quando a
duração da vida humana era de apenas cem anos, portanto os ignoraram. Nosso Mestre,
que na ocasião era o Brâmane Samandraraja, também desenvolveu a bodhicitta naquela
época e prometeu subjugar os seres sencientes naqueles tempos difíceis. Shakyamuni
nosso Mestre foi então mais bondoso com os discípulos em tempos anteriores quando
os humanos viviam até cem anos. Mas para seres comuns como nós, o guru é muito
mais bondoso do que até mesmo Shakyamuni.
Depois do Buda, existiram muitos panditas e adeptos na Índia,47 como os sete
patriarcas dos ensinamentos, os oitenta mahasiddhas, as seis jóias da Índia, e os dois
seres supremos. E o Tibet tinha muitos santos: na primeira disseminação dos
ensinamentos havia Padmasambhava, Rei Trisong Detsaen, Shantirakshita, e os demais
vinte e cinco discípulos de Padmasambhava; durante a disseminação posterior, havia os
cinco senhores dos Sakyas, Marpa, Milarepa, Atisha e seus discípulos, Je Tsongkapa e
seus discípulos, e assim por diante. Mas nenhum deles nos ensinou pessoalmente o
néctar do santo Dharma, os meios para nos socorrer do grande oceano de sofrimento.
Em suma, como diz Shantideva em Engajando nos Feitos do Bodhisattva:

47
Neste curto parágrafo, Pabongka relaciona muitas figuras da transmissão dos ensinamentos de Buda tanto na Índia
quanto no Tibet. Os sete patriarcas dos ensinamentos eram sucessores de Guru Buda Shakyamuni a quem foram confiados
a responsabilidade de manter e espalhar sua doutrina. Os oitenta mahasiddhas eram iogues tântricos com realizações na
Linhagem de Práticas Consagradas. As seis jóias da Índia eram os grandes panditas Nagarjuna, Asanga, Aryadeva,
Vasubandhu, Dignaga e Dharmakirti; os dois seres supremos eram os mestres vinaya Gunaprabha e Shakyaprabha.
No Tibet, Padmasambhava era o grande santo que veio da terra mística de Oddiyana para afastar os
obstáculos para que o Dharma se espalhasse sob o Rei Trisong Detsen e o mestre Indiano Shantarakshita --começando o
que mais tarde ficou conhecido como a escola Nyingma do Budismo Tibetano. Os cinco senhores dos Sakyas eram os
cinco primeiros grandes mestres que estabeleceram a escola Sakya. Marpa e seu discípulo Milarepa eram os pais
fundadores da escola Kagyu. Atisha e seus discípulos introduziram as linhagens da escola Kadampa. Je Tsongkapa
combinou todas estas linhagens juntamente com as práticas das outras três escolas e fundou a escola Gelug.

200
Incontáveis Budas que trabalharam
Pelo bem de todos os seres sencientes
Partiram e devido aos meus maus atos
Não estive entre os que foram curados por eles.

Em outras palavras, devemos pensar como segue: “Não nascemos nos lugares
certos, nem fomos aos locais visitados por ele; também, todos os santos do passado ou
não conseguiram ou desistiram de nos guiar. Somos a escória das escórias. Que grande
compaixão tem o nosso guru em nos socorrer”.

 SUA BONDADE EM ENSINAR DHARMA

Um grande Bodhisattva certa vez entregou-se, junto com seus filhos, filhas, e
parentes aos ferozes yashas pelo bem de um verso de Dharma. Quando nosso Mestre
renasceu como Vylingalita, ele enfiou mil estacas de ferro em seu corpo para receber os
ensinamentos do Dharma. Ao renasceR como Rei Ganashava, queimou sua carne com
mil lamparinas e pulou numa vala em fogo; como Rei Paramavarna, usou sua pele
como papel e sua costela como caneta. O Grande Atisha suportou grandes dificuldades
navegando o oceano durante treze meses para receber ensinamentos de Lam-rim,
desatento aos perigos de tempestade, monstros marinhos, e coisas assim. Pessoas como
Marpa e Milarepa passaram por muitas dificuldades para receber ensinamento do
Dharma. Mesmo hoje em dia não é fácil viajar à Índia, mas os tradutores do passado
arriscavam suas vidas para ir até lá e receber os ensinamentos do Dharma; em
retribuição aos ensinamentos, sempre ofereciam mandalas de ouro aos seus gurus. Só
recordar as dificuldades que haviam passado fazia-os tremer. Então, como seu guru é
bondoso ao lhe ensinar o caminho completo --nem mesmo os Budas poderiam dar um
ensinamento melhor sem exigir que você suportasse a menor dificuldade! Atisha disse:

Que grande mérito você deve ter para receber um Dharma tão profundo
sem passar por nenhuma dificuldade! Seja sério! E pratique bem!

Suponha que alguém esteja para morrer por ter ingerido remédio, comida e
veneno. Um médico estaria demonstrando grande bondade se o fizesse vomitar o
veneno e se transformasse o remédio em ambrosia da imortalidade. Pois bem, temos
cometido ações não-virtuosas que nos levará aos reinos inferiores: isto é como ingerir
veneno. O guru nos faz purificar tais ações. Normalmente, acumulamos virtude visando
coisas desta vida: vida longa, boa saúde, presentes e fortuna. O guru nos faz mudar de
direção, ter motivação sólida, fazer orações puras, e dedicar nossa virtude. Assim, nossa
virtude se transforma em algo que beneficia as vidas futuras. Ele também faz-nos
transformar a virtude que colecionamos para alcançarmos um renascimento superior e
liberação até a suprema e completa Budeidade. Quem poderia então ser mais bondoso?
O Lam-rim A Essência de Néctar afirma:

201
Se dizem que não podemos retribuir
A bondade de termos sido ensinado um verso,
Mesmo se fizermos oferecimentos por tantos éons
Quanto o número de letras do verso,
Como retribuir a bondade
De termos sido ensinado o caminho nobre completo?

Que grande bondade seria


Retirar um homem da prisão
E estabelecê-lo na fartura!
Mas o guru nos ensina os meios
Para nos libertarmos dos três reinos inferiores.
Ele é realmente bondoso, pois então gozaríamos
Toda a abundância desejada por deuses e humanos.

Ele ensina muito bem os meios supremos


De pacificar todos os infortúnios do samsara e do nirvana.
Ele nos guia a um estado santo: Os três kayas.
O que poderia ser maior bondade?

 SUA BONDADE EM ABENÇOAR SUA MENTE E CONTÍNUO


MENTAL

Todas as realizações desenvolvidas em seu contínuo mental vem das bênçãos do


guru, porque fez-lhes súplicas. Se tomar o guru ioga como a própria força-vital do
caminho, fará um grande progresso no caminho: este é o exato sentido das bênçãos do
guru. Quando Tilopa golpeou Naropa no rosto com uma mandala de barro, a habilidade
de Naropa de manter a concentração uni-focada se estendeu imediatamente por sete
dias. Até por exemplo, o fato de que podemos nos lembrar de ensinamentos diferentes
do Dharma que antes não conseguíamos lembrar é devido às bênçãos de nosso guru.
Este ano, no vigésimo quarto dia do quarto mês, recebi um sinal claro que
meu precioso guru, meu refúgio e protetor, havia me abençoado; aquela benção está
fazendo com que este ensinamento de Lam-rim corra tão bem. Certa vez meu guru, meu
refúgio e protetor, fazia uma cerimônia de oferecimentos em Dagpo com cerca de vinte
e cinco geshes. Eu também participava, mas estava tão emocionado que meus olhos
estavam cheios de lágrimas durante todo o Guru Puja de Vacuidade e Gozo
Inseparáveis.48 Até isto foi uma benção do guru.
Se fizer súplicas ao guru, alcançará todas as coisas boas e tudo que desejar
nesta vida e na próxima. O Mahasiddha Tilopa disse: “A coisa mais útil é o guru,
Naropa!” E Gyaelwa Goetsand disse:
48
Uma versão maior do Guru Puja incluindo elementos das sessenta e duas deidades do tantra de Heruka.

202
Muitos meditam no estágio de geração
Mas a meditação no guru é mais elevada.
Muitos fazem recitações
Mas fazer súplicas ao guru é mais elevado.
Se você sempre suplica-lhe
Certamente vai vivenciar
Sua inseparabilidade dele.

Kyabje Pabongka contou algumas estórias:como certa vez um homem de Retreng


ofereceu lamparinas de manteira a uma estátua de Dromtenpa e seus desejos se
realizaram, como Atisha foi abençoado por Dombhipa; como Drubkang Geleg Gyatso
abençoou Purchog Ngagwang Jampa; e assim por diante.

 A BONDADE DO GURU EM ATRAÍ-LO AO SEU CÍRCULO


ATRAVÉS DE PRESENTES MATERIAIS

Atualmente as pessoas esperam presentes; então, o guru atrai pessoas ao seu


círculo com presentes materiais, e depois as guia até o Dharma.
Quando meu precioso guru, meu refúgio e protetor, vivia num eremitério, um
servo da família Frimé Tengka, um homem de Kongpo Superior, foi enviado para pedir
uma adivinhação de dados; como oferecimento, carregava um couro cheio de manteiga.
Meu guru estava no alto de uma montanha, e portanto o homem estava fadigado. Ele
chegou à presença de meu guru dizendo: “Este lama deve ser como um animal
selvagem para querer viver no topo de uma montanha como esta!” Meu guru deu-lhe
um pouco de chá, boa comida e oferecimentos; o homem desenvolveu fé e depois teve
de admitir, “Aquele lama concede grandes bênçãos. Seus oferecimentos eram
deliciosos!” Ele foi levado ao círculo do guru e desenvolveu fé.
Não há limite para “presentes materiais”: que incluem, por exemplo, um
mestre cuidando de seus discípulos.Atisha disse que qualquer boa qualidade sua era
devido aos seus gurus. Ele quis dizer que obtemos todas as nossas boas qualidades pela
bondade do guru. Não analisamos as coisas e pensamos que a nossa atual felicidade,
conforto e reputação vieram pelo nosso próprio esforço, mas não é assim. Tomem o
exemplo de dois irmãos; um é colocado num mosteiro e outro se torna membro da
Sangha --um objeto em que o outro irmão toma refúgio. Quando o irmão ordenado
encontra o outro por acaso num templo; vão agir conforme suas diferentes sinas: um
Dharmico, o outro materialista.
Você pode ser um monge e ter muitas responsabilidades; isto é devido à
bondade de seu abade e do mestre de ordenação que concedeu seus votos, porque você
não é como nosso Mestre que naturalmente [sem intervenção de um abade] teve a
ordenação completa. Agora, você pode ler centenas de páginas por dia e analisar seus
sentido; isto é devido à bondade de quem lhe ensinou o alfabeto. Se você ainda não teve

203
nenhuma iniciação para amadurecê-lo ou prepará-lo, não pode nem mesmo ler livros
sobre o tantra. Uma pessoa com iniciação entrou no portal dos tantras secretos, coisa
muito mais rara do que a vinda dos Budas. É por bondade que o mestre vajra coloca
sementes em seu contínuo mental, que certamente amadurecerão em resultados (os
quatro kayas), dentro de dezesseis vidas se seus votos ainda estiverem intactos. Conte
as bondades de seu guru e pense: “Ele me deu isto, isto, isto...” Mas isto não é tudo.
Você obteve um corpo humano, pode ser feliz neste renascimento, ter riqueza, e coisas
assim. Tudo é resultado de ter seguido a ética e praticado a generosidade em vidas
passadas, e isto foi devido à bondade dos mestres que o fizeram praticar. Assim,
qualquer felicidade que possa ter é devido à bondade do guru.
Você pode então pensar: “Não é sempre o mesmo guru: diferentes gurus em
épocas diferentes contribuíram cada um com sua própria bondade individual”. Mas
estes gurus se emanaram da mesma base, as mentes de todos os Budas, a sabedoria
primordial de beatitude e vacuidade combinadas, que é una com o dharmadhatu. Os
gurus são todos o próprio Vajradjara se manifestando em diferentes aspectos. No Tibet,
por exemplo, havia o ser que era progenitor de nossa raça;49 havia as pessoas que
estabeleciam as leis; os tradutores do Dharma; Reis e seus ministros que espalharam e
sustentaram os ensinamentos; os mestres-tradutores e panditas; as reencarnações dos
Dalai Lamas; e coisas assim. Todos na realidade eram diferentes aspectos de Arya
Avalokiteshvara, o Sustentador do Lótus. De maneira similar, nossos gurus são uma
mesma entidade.
Je Rinpoche diz:

Deve-se compreender o que foi dito acima como sendo a famosa


instrução chamada “guru ioga”. Mas nada acontecerá se meditar só
algumas poucas vezes.

Ou seja, para compreender que o guru é a personificação de todos os Budas, que


ele é todos os Budas em outro aspecto, deve-se praticar o Guru Puja e coisas assim,
mas se não compreender o significado e só recitar as palavras, nada acontecerá.
Portanto, quando compreender que a mente de todos os Budas são unas com a
essência do dharmakaya, beatitude e vacuidade, que a partir daí surgem como o guru,
compreenderá que todos os Budas – as cem famílias de Budas, as cinco famílias, três, e
uma família de Buda – são o guru em aspectos diferentes. Se não compreender isto, terá
dúvidas em render grande respeito até aos gurus famosos que ensinam em tronos
elevados; você também estaria, por exemplo, correndo o risco de não respeitar o monge
humilde de seu mosteiro que lhe ensinou a ler. Quando tiver esta compreensão, o
treinamento para ver o guru como puro o treinará para ver todos eles da mesma forma;
49
Segundo uma lenda tibetana, a raça surgiu de uma ogresa com rosto de macaco e um grande símio branco. O símio na
realidade era uma emanação de Avalokiteshvara e praticava intensas austeridades meditativas numa caverna durante anos
enquanto a ogresa chorava e gemia do lado de fora, ansiando por acasalar com ele. Finalmente, ele cedeu e o resultado
foram os tibetanos. Dele, os tibetanos herdaram o bom coração, e dela, a natureza supersticiosa, obstinada, miserável e
sensual.

204
então agradar um será igual a agradar a todos. O mesmo com o desagradar; desagradar
um é igual a desagradar a todos eles. Você deve considerar todos como igualmente
bondosos e não demonstrar favoritismo em sua devoção.
Dizem que devemos recitar versos sobre a bondade do guru quando
contemplamos sua grande bondade. Os versos a seguir foram ditos por Kumara
Minibhadra na seção sobre a bondade do guia espiritual [no Sutra de Colocar as
Estacas]:

Meus guias espirituais, meus expoentes do Dharma


São qualificados para me ensinar todo o Dharma;
Vieram com um só pensamento: o de me ensinar
As tarefas enfrentadas pelo Bodhisattva.
Eles são como minhas mães em meu desenvolvimento;
São amas me alimentando o leite de boas qualidades;
Eles treinaram completamente nos caminhos à iluminação.
Estes guias espirituais põem um fim em meus aspectos prejudiciais.
Eles são como médicos, que me libertam da morte e velhice
Ou como Indra, o senhor celestial, que fazem chover néctares;
Eles aumentam o Dharma branco como a lua crescente,
E, como o sol brilhante, mostram o caminho para a paz.
Eles são como montanhas: irremovíveis por amigos ou inimigos.
Suas mentes são imperturbáveis como os oceanos.
São os muito queridos que protegem completamente --
Estes pensamentos que me levaram até eles.
Bodhisattvas, que estão desenvolvendo minha mente;
Filhos dos Budas que me trazem a iluminação;
Eles me guiam, os Budas cantam seus louvores --
Venho a eles com estes pensamentos virtuosos.
Eles são como heróis, pois me escudam do mundo;
São meus capitães, meu refúgio e proteção;
Eles são meus próprios olhos, meu conforto --

O Lam-rim A Essência de Néctar diz:

Abandonei minha família, aquele vala de fogo,


E realizei em solidão os feitos dos Sábios;
Provei o néctar suculento do Dharma.
Isto é por bondade de meus veneráveis gurus.
Encontrei os ensinamentos de Tsongkhapa,

205
Difíceis de encontrar após mil éons de busca;
Isto é por bondade de meus santos tutores.
Estes, meus guias espirituais,
São protetores que me escudam dos reinos inferiores,
Capitães que me libertam do oceano do samsara,
Guias que me guiam a renascimento elevado e liberação.
Médicos que me curam dos enganos crônicos,
Rios que apagam os grandes fogos do sofrimento,
Lamparinas que removem a escuridão da ignorância,
Sóis que iluminam o caminho à liberação.
Libertadores das limitadoras prisões do samsara,
Nuvens que com gentileza chovem o santo Dharma,
Amigos queridos que me ajudam, afastando o mal,
Pais bondosos e sempre amorosos...

Contemple estes versos enquanto os recita, e lembre-se da bondade de seus


próprios gurus.
Devotar-se através de ações será discutido segundo As Palavras do Próprio
Manjushri. Não se deve confundir aquela seção com os últimos três ritos preparatórios.

Então Kyabje Pabongka Rinpoche repassou cada tópico de meditação e antes de cada
tópico, fez uma súplica e visualizou a descida de néctares purificadores.

206
DIA NOVE

Kyabje Pabongka Rinpoche falou um pouco para ajustar nossa motivação, citando o
incomparável Atisha:

Há muita evidência de que esta vida será curta,


Mas não se pode saber sua duração exata;
Tire da vida as coisas mais desejáveis;
Assim como um cisne separa partículas de leite da água.

Ele repassou os títulos anteriores e então reviu brevemente o tema da devoção ao guia
espiritual.

(D) DEVOTANDO-SE ATRAVÉS DE AÇÕES

No Ornamento aos Sutras encontramos o seguinte:

Confie num guia espiritual


Dando-lhe presentes,
Prestando-lhe serviços,
E através de sua prática.

Em outras palavras, há três maneiras de devotar-se através de ações: a menor


(presentes), a mediana (serviços), e a melhor (sua prática). Quando, por exemplo, os
alunos confiam no seu mestre, estão se devotando de todas estas três maneiras; então, a
devoção correta ao mestre (ou guru) é guru ioga. Se a sua confiança no guru está
baseada num relacionamento pessoal, não é necessário buscar visualizações para o seu
guru ioga. Quando ele não está pessoalmente consigo, você deve gerar a visualização
do campo de mérito, fazer a cerimônia do banho ao campo de mérito e fazer súplicas,
prosternações, oferecimentos, etc.
O melhor meio de agradar seu mestre espiritual é oferecer-lhe a sua prática das
instruções que ele lhe deu. Milarepa disse:

Não tenho nenhuma riqueza material ou presentes a oferecer.


Minha prática retribui meu bondoso pai-guru...
Pratico corajosamente, ignorando as dificuldades;
Estes são os presentes ao meu pai-guru.

As duas tradições de As Palavras do Próprio Manjushri, as versões curta


[Linhagem do Sul] e a mais extensa [Linhagem Central], ensinam que devoção através
de ações vem sob o quarto rito preparatório. Neste texto, devoção ao mestre espiritual
através de pensamento é ensinado ao final do terceiro rito preparatório.

207
[Segundo este texto], quando estiver em algum lugar sem seu guru, deve devotar-se
através de ações realizando os três primeiros ritos preparatórios: isto é, começar
invocando o guru e o campo de méritos, e depois lhes fazer oferecimentos, e assim por
diante. Assim, agrada seu guru com presentes materiais.
Consagre a superfície da terra como já foi explicado [Dia Cinco] e depois invoque o
poder da verdade. Visualize a superfície da terra como lapis lazuli com cruzes de vajra
desenhadas em ouro, o que parece sobressair em relevo, mas tocando-as percebe-se que
estão niveladas com a superfície.
[Segundo as linhagens da Província Central] no centro da superfície do chão há um
palácio quadrado. Ele tem quatro entradas e nenhuma fachada ornamental, portanto
assemelha-se ao palácio na mandala do Buda da Medicina. O palácio é enorme; em seu
centro há quatro plataformas sobre um grande trono suportado por leões --como uma
stupa sem o domo redondo.
Visualize sobre a plataforma [mais elevada] três tronos de leões. Eles estão no
fundo da plataforma; no trono do meio está sentado o Vitorioso Shakyamuni. Maitreya
senta-se no trono à sua direita e Manjushri no trono à sua esquerda. Os gurus de
linhagen dos Feitos Extensos e da Visão Profunda estão sentados atrás de cada um dos
dois. Há três tronos de leões na parte frontal da plataforma; Atisha, Nagtso o tradutor, e
Drontempa sentam-se neles.
Há um grupo de três tronos de leões na segunda plataforma. Tsongkapa o Vitorioso
está sentado no trono do meio, Sherab Senge à sua direita, Gedun Drub [o Primeiro
Dalai Lama] à sua esquerda. Na terceira plataforma há um outro grupo de três tronos de
leões. O grandioso Quinto Dalai Lama está sentado no trono central; à sua direita, Jinpa
Gyatso; à esquerda do Dalai Lama, Jampa Choedaen, ele próprio um guru
verdadeiramente glorioso.
Na quarta plataforma, o seu guru raiz está sentado no trono do meio. O texto diz
que seus discípulos principais devem se sentar à sua direita e à sua esquerda, mas
segundo as instruções orais, o guru do seu guru senta-se no trono à direita e o guru do
guru de seu guru senta-se no trono à esquerda. Seus outros gurus se sentam sob
almofadas de seda.
Uma tradição coloca todos os gurus das três cestas sentados nos três lados restantes
das plataformas; os Budas, Bodhisattvas, Shravakas, Pratyekabudas, protetores do
Dharma, etc. estão na parte traseira das plataformas.
Em outra tradição, visualiza-se os gurus de linhagem dos Feitos Extensos e da
Visão Profunda, em suas ordens adequadas, colocados à direita e à esquerda dos trios
de gurus. Visualiza-se uma linhagem de gurus de outra cesta vinaya nos lados direitos
das plataformas, os gurus da cesta abhidharma estão à esquerda e os gurus da cesta de
sutra estão no fundo da plataforma. Não é preciso visualizar as divindades tutelares, etc.
Se quiser fazer esta meditação, basta pensar que estas figuras estão presentes em
pessoa, embora não possa vê-las claramente. As figuras na parte traseira da plataforma
não estão escondidas pelos tronos de leões [do grupo frontal dos três gurus] e também
estão de frente para você.

208
A casa de banho tem quatro entradas. Dentro, há um conjunto completo de tronos
para o campo de mérito. Não há piscina na parte interna, e no centro do chão há uma
elevação. A oração de sete ramos e o resto é igual.
A Linhagem do Sul é bem diferente. Visualize à sua frente um grande trono que
sustenta sete plataformas, como o formato da stupa Kadampa. Os estágios são feitos de
sete substâncias preciosas; refira-se aos textos para detalhes. Os leões [que sustentam o
grande trono] estão sobre o chão. Há três escadarias construídas na frente dos tronos de
leões. O topo da plataforma tem uma tela ou cortina de fundo semelhante aos encostos
dos tronos dos grandes lamas com dois detalhes decorativos como ganchos nos cantos
superiores, segundo o texto “feitos de ferro temperado”. Estas decorações se parecem a
alças. O tecido é decorado com entalhes feitos com substâncias preciosas. Cada
plataforma tem também pequenas escadarias douradas que descem até as outras escadas
na frente dos tronos de leões.
A ponta da tela curva-se para cima e acima há um pináculo dourado com
estandartes de vitória à direita e à esquerda. No meio da primeira plataforma [a mais
alta] há um trono com encosto, para Shakyamuni. O trono é sustentado por seis
criaturas --naga, garuda, etc.-- simbolizando as seis perfeições. Há cinco almofadas de
brocado no trono de Shakyamuni. Maitreya senta-se à sua direita e Manjushri à sua
esquerda, em tronos com três almofadas cada. Estes tronos não são sustentados por
leões. Seu guru, em seu aspecto normal, senta-se à frente deles, sobre duas almofadas e
não precisa de trono. O guru de seu guru senta-se à sua direita; o guru do guru de seu
guru à esquerda. Cada um senta-se numa almofada. Seus outros gurus, que ainda estão
vivos sentam-se sobre tapetes. A parte central da plataforma fica vazia deixando um
caminho de passagem.
Seu guru, no aspecto normal, faz o gesto de ensinar o Dharma com a mão direita.
Na mão esquerda, segura um livro tibetano de folhas soltas, que está envolto por um
porta-livros ornamental de cinco camadas de seda.
Os gurus das linhagens de Feitos Extensos e Visão Profunda sentam-se
respectivamente à direita de Maitreya e à esquerda de Manjushri. A Tradição Kadampa
do Lam-rim continua após o final da Linhagem de Feitos Extensos e como um
importante gesto simbólico, o último assento da linhagem é deixado vago. Seus outros
gurus, que não estão na primeira plataforma, ocupam a segunda e terceira plataformas.
Os gurus da Tradição de Instruções Kadampa sentam-se enfileirados na quarta
plataforma com Chaen Ngawa ao centro. Os Bodhisattvas sentam-se na quinta
plataforma. Os Budas sentam-se nos cantos à direita e à esquerda das quatro primeiras
plataformas. Os Shravakas sentam-se na sexta; e os protetores do Dharma, na sétima.
Esta é uma tradição do sutra, portanto não se visualiza os gurus da Linhagem de
Práticas Consagradas. Se quiser incluí-los, imagine que estão lá em forma imanifesta.
As duas linhagens de As Palavras do Próprio Manjushri são tradições do sutra,
então não se deve gerar a visualização de seres de compromisso e coisas assim. As
figuras são invocadas, ou convidadas, como hóspedes. Para ilustrar: antes de
convidarmos nossos hóspedes a se sentarem para o jantar, devemos primeiro

209
providenciar os assentos. Assim, primeiro consagra-se os oferecimentos [vide Dia
Cinco] e depois convida-se os seres de sabedoria, que tomam seus lugares nos assentos
próprios. Você os convida e a maneira como visualiza-os vindo até você “assemelha-se
à maneira que Buda e sua comitiva foi até Magadhabhadri”.

Kyabje Pabongka Rinpoche contou então esta estória e discutiu detalhadamente a


prática.

Depois banhe seus corpos. Ao contrário do acima, a casa de banho tem quatro
portas de vidro, uma em cada direção cardinal. Não há nenhuma piscina central, mas há
muitos jarros. O teto tem um sistema de vigas e um pagode onde estão pendurados
sacos ou potes porosos contendo perfume. Durante a cerimônia do banho, imagine que
a água é despejada diretamente dos jarros. Os monges [do campo de mérito] descem em
grupos de três. Eles tomam seus lugares nos tronos [da casa de banhos] como acima, e
as roupas retiradas estão sob forma de raios amarelos de luz. As figuras são então
banhadas. O resto é igual ao acima.
Nem sempre há tempo para fazer a visualização completa dos jarros, etc. De fato,
não é necessário fazer sempre a cerimônia do banho durante os ritos preparatórios;
mesmo se só o fizer ocasionalmente, se livrará de obscurecimentos, impurezas
[mentais], e coisas assim. O resto da cerimônia do banho segue a seção que ensinei do
O Caminho Rápido [Dia Cinco].
Quando se dá um ensinamento baseado apenas em As Palavras do Próprio
Manjushri, deve-se neste ponto discutir a prática da não-dissolução da visualização do
campo de mérito. Quando, por exemplo, estiver fazendo um certo número de repetições
dos ritos preparatórios, recite O Alicerce de Todas as Boas Qualidades [de Tsongkapa]
na última parte da sessão. Se ainda não dissolveu o campo de mérito, comece a próxima
repetição do texto dos ritos após a fórmula para uma abundância de oferecimentos. Se
já dissolveu o campo de mérito, faça então só a oração de sete ramos, um certo número
de vezes.
Nos dias atuais deve-se fazer os ritos preparatórios segundo Um Ornamento para as
Gargantas dos Afortunados, em vez de seguir o discutido em As Palavras do Próprio
Manjushri, porque a primeira versão é particularmente profunda e é uma peça de
instruções abençoada e melhor do que qualquer outra.

3) O QUE FAZER NA ÚLTIMA PARTE DA SESSÃO

Ao final de uma meditação específica num tópico de Lam-rim, recite o mantra de


Buda Shakyamuni, e faça orações e dedicações.

O QUE FAZER ENTRE AS SESSÕES DE MEDITAÇÃO

Não há tempo que não possa ser incluído ou na própria sessão de meditação ou

210
entre sessões. É vital fazer uso correto dos períodos entre as sessões. Se treinar sua
mente durante uma sessão de meditação e então permiti-la ficar distraída entre as
sessões, isto vai prejudicar sua prática quando voltar à sessão de meditação. Mas, se o
período entre as sessões correr bem, seu perfeito renascimento humano se torna
significativo. É por isso que, em seus ensinamentos e textos, Je Rinpoche colocou tanta
ênfase no tempo entre as sessões quanto durante a própria sessão de meditação.
Tomemos este tópico específico de meditação como exemplo. Entre sessões, você
deve ler os relatos nos comentários autênticos sobre devoção ao guia espiritual. Como,
por exemplo, Naropa devotou-se a Tilopa, Milarepa a Marpa, Dromtempa a Lama
Setsuen e Atisha. Dizem que sua sabedoria enfraquece quando você lê outros tipos de
livros. Ler estórias, por exemplo, faz aumentar a sua hostilidade --portanto, para
aumentar sua sabedoria, não leia-os.
Para que não surja nem mesmo um pouco de ilusões, entre as sessões de meditação,
devemos nos tornar tão contidos que não usamos nem mesmo os nossos sentidos de
modo que possa causar distrações. Mas ainda não atingimos isto, portanto devemos
ficar sempre vigilantes com nossas três portas, e mesmo se, por exemplo, vermos algo
atraente, não devemos permitir que nossa mente se desvie.
Refira-se ao capítulo Mantendo a Vigilância da obra de Shantideva Guia do
Caminho do Bodhisattva para mais detalhes. O cerne daquele capítulo é:

A todo tempo examine


O estado de seu corpo e sua mente.
Para ser breve: a natureza da vigilância
Deve ser uma sentinela.

Ou seja, é vital manter a vigilância.


Você deve fazer as ações de suas três portas --os movimentos de seu corpo, aquilo
que fala, e os pensamentos que passam pela sua mente-- dando a estes assuntos a
devida consideração. Suponha que entre num quarto que só tenha duas portas. Só há
duas maneiras de entrar ou sair do quarto: por estas duas portas. Assim, ao guardar
estas portas, barra-se os ladrões do quarto. De maneira semelhante, ao guardar suas três
portas, e não abandonar a sua memória, você fecha a porta contra cometer maus atos.
Há uma estória sobre Geshe Ben Gungyel: ele protegeu sua mente e recusou a
coalhada.50 -Ele gritou “Eu sou um ladrão!” Devemos estar de guarda da mesma forma.
Se ficarmos sonhando acordado para sempre; correremos o perigo de vermos o seguinte
acontecer conosco. Um homem decidiu dar o nome de Dawa Dragpa a seu filho antes
que da criança sequer nascer. Em sua alegria, o homem começou a dançar e

50
Geshe Bem era parte de um grande grupo de monges recebendo oferecimentos de coalhada no templo. Bem Gung-Gyal
viu que seria um dos últimos a ser servido. Ele se viu sentindo inveja daqueles que já tinham recebido a sua, portanto,
quando chegou a sua vez, recusou a sua parte gritando, para a surpresa de todos, “Eu sou um ladrão.”

211
imediatamente morreu. 51
Atisha disse: “Verifique sua palavra quando estiver acompanhado; verifique sua
mente quando estiver só”. Cometemos ações não virtuosas quando estamos distraídos e
sem memórias. No momento, não sabemos nem mesmo o que é uma ação negativa.
Enquanto estamos sentados ou conversando, podemos distraidamente matar um piolho,
enquanto absteríamos de matá-lo se estivéssemos vigilante e pensássemos: “Não faça
isto, isto é pecaminoso”. De maneira semelhante, quando estamos num grande grupo de
amigos, e surgem vários assuntos na conversa, com uma parte de nossa mente devemos
verificar: “Exatamente o que estou prestes a falar?” Se estamos prestes a usar palavras
ásperas ou conversa fiada, devemos segurar nossa língua. Quando estamos sós,
devemos mentalmente verificar, “O que estou lembrando?” Devemos manter nossas
memórias e vigilância pensando: “Se eu me esquecer de guardar minha mente, não
estarei imediatamente consciente de que isto aconteceu. Portanto, não devo me
esquecer.”
Geshe Karag Gomchung certa vez escreveu quatro avisos e colocou-os nas paredes
de seu quarto. Ele escreveu: “Nada de pensamento distraído!” Mas nós não somos
como ele; valorizamos slogans como: “Quero o máximo de dinheiro possível!” e estes
são os nossos únicos lemas.
O tempo entre as sessões de meditação é extremamente importante, até mesmo
durante um retiro. Você pode ter uma pedra ao lado de sua porta para demonstrar que
está em retiro [Dia Quatro], e permanecer em alguma montanha nevada, mas seus
pensamentos podem não estar atentos. Meu guru disse, “Qualquer um cujo corpo está
em retiro deve também ser um praticante cuja mente está em retiro de atenção e
vigilância”. Faça sempre as coisas juntamente com atenção e vigilância; use estes
meios hábeis para deixar de ser distraído.
Je Milarepa disse que as banalidades mundanas podem agir como seus livros. Em
outras palavras, tudo o que você ver deve estimular seu amor, compaixão, renúncia, e
assim por diante. Por exemplo, Je Drubkang Geleg Gyatso viu uma formiga sendo
picada por uma abelha, e assim ganhou a convicção sobre a lei da causa e efeito.
Quando vamos ao mercado desenvolvemos ilusões como apego; ações não-
virtuosas acompanham cada passo que tomamos. Quando chega a hora de voltar para
casa estaremos carregando nas costas um enorme e pesado saco de pecados. Mas se
estivermos corretamente analíticos, e formos ao mercado com atenção e vigilância, isto
pode ser um estímulo supremo para nossa renúncia e [realização da] impermanência.
Precisamos transformar tudo o que for trivial num estímulo para a prática do Dharma
nessas linhas.

51
Há várias versões para esta estória. Segundo Geshe Ngawang Dhargyi , o homem ficou tão absorto com seus devaneios
que não percebeu que um rato estava roendo uma corda com um saco de farinha de cevada na ponta. A corda se ropeu, o
saco o atingiu na cabeça e ele morreu.

212
Kyabje Pabongka Rinpoche falou sobre a comida e como regular o seu consumo. Ele
também falou em oferecer diariamente bolos rituais (tormas) aos espíritos famintos. O
texto que discute isto com maior clareza chama-se: "Programações Diárias" e devemos
seguí-lo. Então, falou sobre os grandes benefícios que até mesmo os corvos [que
comerem o bolo] irão receber

4.2 O TREINAMENTO GRADUAL ADEQUADO A SER SEGUIDO QUANDO


PASSAR A CONFIAR NO GUIA ESPIRITUAL

Isto tem dois tópicos principais: (1) o estímulo de tomar a essência de seu perfeito
renascimento humano; (2) como extrair a essência.

O ESTÍMULO DE TOMAR A ESSÊNCIA DE SEU ÓTIMO RENASCIMENTO


HUMANO

O estímulo vem de pensar sobre os grandes benefícios do perfeito renascimento


humano e como é difícil conseguí-lo. Há duas subdivisões: (1) uma breve discussão
para convencê-lo, (2) um breve ensinamento em como seguir a prática.
1) UMA BREVE DISCUSSÂO PARA CONVENCÊ-LO

Os dois últimos títulos formam um esquema que se aplica a todos os tópicos de


meditação a seguir; isto é a maneira tradicional de combinar o material do discurso
formal com o material dos discursos informais. Você deve substituir cada tópico de
meditação, como o que agora irei discutir sob o título acima, pelo título em como seguir
a parte principal da sessão de meditação. Você deve fazer o que expliquei na seção
sobre devoção ao seu mestre espiritual; juntar esse tópico de meditação ao final dos
ritos preparatórios, e então seguí-lo na última parte da sessão, e assim por diante.
Não vemos nada errado em ter nossas bocas abertas o tempo inteiro com conversas
fiadas --isto é porque não pensamos nos grandes benefícios e na raridade de um perfeito
renascimento humano. Pensar nestas coisas seria um forte estímulo para praticarmos o
Dharma.
Quando se pensa nos grandes benefícios e na raridade de um perfeito renascimento
humano, involuntariamente se sentirá feliz, e quando se pensa na morte e
impermanência, involuntariamente se sentirá triste.
Há aqui três títulos: (1) identificando o perfeito renascimento humano; (2) pensando
nos seus grandes benefícios; (3) pensando como é difícil de ser conseguido.

(A) IDENTIFICANDO O PERFEITO RENASCIMENTO HUMANO

Isto tem duas partes: (1) as liberdades e (2) os dotes.

213
AS LIBERDADES

Deve-se identificar o perfeito renascimento humano antes de poder extrair a sua


essência. As pedras do seu forno podem ser feitas de ouro, mas se não souber disto,
continuará um pobretão. Deve-se também identificar as liberdades --isto é, estar livre
dos oito estados desfavoráveis para a prática do Dharma.
Estes oito estados desfavoráveis são mencionados na "Carta" de Nagarjuna:

Manter visões errôneas, ser um animal


Espírito faminto, ou nascer no inferno,
Não ter acesso aos ensinamentos de um Vitorioso
Nascer num lugar remoto, ou como um bárbaro,
Como um idiota ou mudo, como um deus de longa-vida;
Qualquer um desses renascimentos é um dos oito
Estados desfavoráveis e defeituosos.
Já que você conseguiu um estado favorável,
Livre desses, esforce-se para evitar
Que jamais renasça novamente num destes estados.

Há quatro estados desfavoráveis como criaturas não-humanas e quatro como seres


humanos.
Os quatro estados desfavoráveis não-humanos são os seguintes. Os infernos são
desfavoráveis à prática do Dharma por causa dos sofrimentos intensos de calor e frio
que existem lá. Se alguém colocasse uma brasa incandescente em sua cabeça e
ordenasse que meditasse ao mesmo tempo, a dor não lhe deixaria nem mesmo começar
a meditar. Se renascêssemos no inferno agora, sentiríamos cem mil vezes mais
sofrimento do que um rato [vivo] sente ao ser colocado numa frigideira de ferro
incandescente. Portanto, longe de praticarmos o Dharma, ou até mesmo ouvirmos uma
palavra do Dharma, nossas mentes estariam preenchidas unicamente com o sofrimento.
Devemos nos sentir afortunados por não ter renascido lá.
Um renascimento como um espírito faminto é desfavorável à prática do Dharma
por causa da grande sede e fome. Quando estamos extremamente famintos e nosso
guru, por exemplo, nos urge a praticar o Dharma, nós ao contrário só ansiamos por
comida e bebida. Este renascimento também é desfavorável à prática do Dharma. Que
sorte não termos renascido como espíritos famintos!
Um renascimento como animal é desfavorável à prática do Dharma por causa da
Profunda estupidez e ignorância dos animais. Por exemplo, se alguém dissesse a um
cachorro ou asno, “Recite um rosário de om mani padme hum e se iluminará” eles não
compreenderiam nada. E se não sabem recitar nem mesmo uma sílaba do om mani
padme hum, como poderiam compreender qualquer outro Dharma? Portanto, os
animais só vivenciam suas formas específicas de sofrimento, e isto é desfavorável à
prática do Dharma. Que sorte não termos renascido como um animal!

214
No momento presente, sempre que dizemos “Que sorte!” estamos nos referindo a
algum dinheiro que possamos ter ganho, mas isto na realidade não é sorte. Quando
vemos os animais como cães e asnos, não devemos tratá-los como objetos de
curiosidade; devemos sentir: “Que sorte que eu não sou assim!”
Os deuses de longa-vida são como segue: renascer nos reinos da forma e sem forma
é um dos maiores resultados [kármicos] que se possa ter. No entanto, quando os deuses
nascem nesses reinos, eles sentem: “Renasci como um deus” e quando finalmente
deixam aquele renascimento, sentem “Estou deixando este renascimento como um
deus.” O resto do tempo estão absorto em concentração uni-focada tamanha que é como
se estivesse dormindo --eles desperdiçam todo o renascimento desta maneira totalmente
sem sentido. Como Asanga nos conta em seu Níveis de Shravakas, os deuses em outros
reinos celestiais podem ter alguns grandes instintos como virtudes, mas normalmente
passam o tempo todo absorto em prazeres e não recebem nenhum Dharma. O rei dos
doutores, Jivaka Kumarabhrata, quando ainda era um ser humano, foi discípulo de
Shariputra. Sempre que Jivaka estava fora andando num elefante e por acaso via
Shariputra, sem um momento de hesitação ele desceria do elefante. Mais tarde, Jivaka
renasceu nos reinos dos deuses e Shariputra foi até lá para ensinar-lhe o Dharma, mas
Jivaka estava tão absorto nos prazeres celestiais que ele simplesmente só levantou um
dedo [em reconhecimento e então voltou às suas diversões, não dando a Shariputra
nenhuma chance de ensinar-lhe o Dharma. É assim que no reino dos deuses não há
absolutamente nenhum pensamento de praticar o Dharma ou a renúncia. Eles só têm
tambores celestiais, pássaros mágicos, etc., que lhes falam sobre o Dharma; eles não
têm gurus como os nossos para dar-lhes instruções detalhadas.
Os quatro estados humanos desfavoráveis são os seguintes: se renascer numa região
remota, isto é, bárbara, não ouvirá uma palavra do Dharma. Se renascer num local
aonde o Buda não veio, não saberá como praticar o Dharma, ou mesmo que o pratique,
não o fará corretamente. O que faríamos se renascêssemos agora dessas formas? Pense
que sorte que não somos assim!
Mesmo se renascer num local central [isto é, budista], se renascer como um idiota
com uma mente defeituosa ou pouco clara, ou como um mudo com defeito na fala, ou
você não compreenderá o verdadeiro propósito do Dharma ou vai apenas fazer os
gestos e não praticará corretamente.
O maior empecilho para assumir o Dharma é ser uma pessoa com visões errôneas --
é por isso que Nagarjuna em sua Carta menciona isto em primeiro lugar. É muito
desafortunado se renascer agora como um muçulmano, por exemplo, porque nunca vai
adquirir a virtude-raiz de recitar até mesmo um rosário de om mani padme hum, mesmo
se sua vida for longa.
Portanto, conseguimos alcançar estes oito --embora na realidade seja difícil
alcançá-los todos adequadamente. É vital compreender que isto é o que queremos dizer
por sorte: que sorte seria maior do que a de termos estas oito coisas tão difíceis de
criar?

215
OS DOTES

Existem dez dotes; cinco são pessoais e cinco se relacionam aos outros.

 OS CINCO DOTES PESSOAIS

Os Níveis de Shravakas nos diz:

Ser um ser humano e nascer numa terra central,


Ter todos os seus órgãos; não ser pervertido
Pelos crimes hediondos, e ter fé duradoura.

O primeiro dote pessoal é ser um humano. Isto é superior às outras migrações


em seu potencial de fazer práticas que beneficiem seus renascimentos futuros. Agora,
somos definitivamente seres humanos, mas não parece que isto tenha nos ajudado.
Nascer numa terra central – já que só permanecem partes do Dharma – significa
renascer em local onde haja pelo menos quatro membros da Sangha. Ter todos os
órgãos é ter todos os seus órgãos desde o nascimento. Hermafroditas, eunucos, etc,
também não são candidatos aos votos pratimoksha. Como você não renasceu como um
deles, tem “todos os seus órgãos”. Não ser pervertido pelos crimes hediondos significa
que não se atingirá o estado de arhat nesta vida caso tenha cometido estes crimes. Nós
não os cometemos, portanto, não somos “pervertidos pelos crimes hediondos”. Fé
duradoura é tida como a fé no vinaya, mas aqui deve ser a fé nas três cestas e no
sistema do Lam-rim.
Já que cada um de nós deve possuir estes dotes, eles são “dotes pessoais.”

 OS CINCO DOTES EM RELAÇÂO AOS OUTROS

Buda veio e ensinou o Dharma


Os ensinamentos permaneceram e são seguidos;
E os outros geralmente possuem amor em seus corações.

Se nenhum Buda foi a um mundo específico, lá não haverá o santo Dharma. Se


um Buda veio mas, por exemplo, morreu antes de ensinar o Dharma, a sua vinda terá
sido em vão. Estes dois primeiros dotes não foram cumpridos no sentido exato, mas
nossos gurus ainda estão vivos e substituem o Buda, portanto estes dois dotes estão
virtualmente cumpridos.
Os ensinamentos devem permanecer num estado não-degenerado e postos em
prática de forma que através deles as pessoas alcancem o caminho próprio dos Aryas.
Atualmente, os cinco mil anos de transmissão [dos ensinamentos do Buda] não
acabaram. Mesmo assim, apesar dos ensinamentos ainda estarem sendo transmitidos, o
fruto desses ensinamentos só florescerá em seu contínuo mental se você desenvolver a

216
realização dos ensinamentos. Como dizem os antigos Kadampas, isto não aconteceu;
não temos os ensinamentos em nosso contínuo-mental, portanto não devemos deixar
morrer a nossa parcela dos ensinamentos. Ou seja, os ensinamentos de Buda florescem
externamente, mas se os ensinamentos morrem em seu contínuo mental, a sua parcela
dos ensinamentos morre.
Os ensinamentos de Buda não só devem permanecer como devem sobreviver
intactos. De todos os princípio das seitas Indianas e das primeiras e subseqüentes seitas
tibetanas, os mais preciosos e imaculados são aqueles que combinam a visão pura e a
prática de sutra e tantra-- por exemplo, os ensinamentos de Je Rinpoche o Reformador,
a personificação de Manjushri o Protetor, ensinamentos que são ouro puríssimo. Eles
prevalecem em todo o Tibet, e você os encontrou. Para isto acontecer é muito mais do
que raro. Os ensinamentos de Je Rinpoche sobre sutras e tantras são mais eloqüentes do
que os que os antecederam. Tagtsang o tradutor, por exemplo, veio ver as
características especiais dos ensinamentos de Je Rinpoche num momento mais
avançado em sua vida e se disse vencido, que haviam acertado o alvo. Houve muitos
outros louvores semelhantes, mas mesmo após dias contando-lhes em detalhes como
estes ensinamentos de sutra e tantra são superiores aos outros, eu ainda não teria
terminado. Certa vez um mongol deu um presente ao Panchen Lama e foi-lhe dito que
teria um renascimento humano. Isto também teria acontecido se tivesse rezado para
encontrar os ensinamentos de Buda. Quem pode afirmar o que teria acontecido se
tivesse feito orações para encontrar os ensinamentos de Je Rinpoche!
Você encontrou tais ensinamentos, e não só isto: o quarto destes dotes também
está cumprido --os ensinamentos estão sendo seguidos-- porque, não havendo nenhuma
outra circunstância de impedimento, é fácil desistir de sua vida leiga e se ordenar. Na
realidade, “os ensinamentos estão sendo seguidos” significa que manifestadamente
pode-se ver que há pessoas obtendo um dos quatro resultados [como Aquele-Que-
Entrou-na-Corrente, Aquele-de-Um-Retôrno, Sem-mais-retornos, ou Arhat]. Portanto,
o quarto dote relativo aos outros, como está na realidade discutida em Níveis de
Shravakas, só se aplica a pessoas como o monge Udayi,52 e não ao Protetor Nagarjuna,
por exemplo. Durante o período de “ensinamentos da visão” [o período mais antigo dos
ensinamentos], as pessoas que obtiveram os quatro resultados deram o exemplo;
mesmo agora, os feitos dos santos são exemplos, portanto este fato serve de substituto
para se cumprir o quarto dote.
O quinto dote relacionado aos outros --que as pessoas em geral possuam amor
em seus corações-- significa que benfeitores, etc., forneçam as condições favoráveis aos
praticantes do Dharma, e que as pessoas em geral tenham um bom coração. Portanto,
este dote também está cumprido. É extremamente raro conseguir todos estes dezoito
pontos tão benéficos, no entanto, temos todos eles. Nós as alcançamos porque fizemos
todas as orações certas em nossas vidas humanas passadas: rezamos para receber dez

52
Udayi era um monge da época de Buda que, como não tinha realizações, frequentemente fazia coisas com repercussão
desafortunada. Para refrear e restringir tal comportamento, Buda estabeleceu o código de conduta vinaya –regras de
disciplina com a intenção de servir de guias para treinar e proteger a mente de seus seguidores.

217
itens e não receber os outros oito. Portanto, temos agora oito liberdades e dez dotes.

2) PENSANDO NOS GRANDES BENEFÍCIOS DO PERFEITO


RENASCIMENTO HUMANO

Isto tem três títulos: (1) os grandes benefícios a curto prazo; (2) os grandes
benefícios do ponto de vista supremo; (3) pensando sucintamente em como cada
momento pode ser muito benéfico.

(A) OS GRANDES BENEFÍCIOS A CURTO PRAZO

Não importa que renascimento superior mereça ou que renascimento inferior queira
evitar, você pode ter sucesso usando bem a sua atual vida humana. Para alcançar um
renascimento superior deve-se praticar o seguinte: para ser abastado pratique a
generosidade, e para ter um séqüito magnífico pratique a paciência. Tudo isto você
pode praticar agora, neste renascimento humano. Você pode se indagar: “Como jamais
poderei alcançar renascimentos elevados como deuses e humanos e ter suas riquezas e
felicidades?” mas não há dúvidas de que você pode --é só praticar.
Se quiser alcançar seu próximo renascimento como um Brahma, Indra, ou um
monarca universal, você pode. Se quiser um renascimento que tenha as oito boas
qualidades de amadurecimentos kármicos [resultados] [vide Dia Treze], ou um
renascimento elevado com as sete boas qualidades, ou o renascimento físico correto
para as quatro rodas do Veículo Supremo [as quatro classes de tantra], você pode
alcançá-los.
Neste renascimento você também pode alcançar as causas para renascer nas terras
puras, Sukhavati, Shambhala, e assim por diante. O Lama Longdoel tornou seu perfeito
renascimento humano significativo ao praticar num eremitério; ele demonstrou pouco
interesse até mesmo em uma única tigela de farinha de cevada. Ele praticou para reunir
as causas para renascer como Rei de Shambala. Após fazer estas orações, pensou que
deveria então fazer um oferecimento ao Panchen Lama Palden Yeshe. E, perguntou ao
Panchen Lama: “Vou alcançar a minha meta?”
O Panchen Lama sabia da sua intenção e respondeu: “O velho lama está sendo
muito voraz! Sim, você conseguirá alcançar a sua meta”.

(B) OS GRANDES BENEFÍCIOS DO PONTO DE VISTA SUPREMO

Para alcançar a liberação, deve-se cultivar o caminho do Dharma dos três


treinamentos superiores, o primeiro dos quais é a ética. Vamos tomar como exemplo os
votos pratimoksha. A renúncia deve ser cultivada para desenvolver [ou ter impressões]
destes votos em seu contínuo mental, mas ainda é difícil desenvolver coisas como
renúncia em outros estados migratórios, como os deuses e assim por diante. Assim, os
habitantes de Kuru [o Continente Norte] não são candidatos adequados a estes votos. E,

218
dos humanos nos outros três continentes, aqueles de Jambudvipa [o Continente Sul] são
os melhores candidatos.
A bodhicitta mais poderosa é desenvolvida nos renascimentos humanos.
[Chandragomin] nos diz em sua Carta a um Discípulo:

Os humanos atingem a bodhicitta mais forte;


Os deuses e nagas não alcançam isto no caminho;
Nem tão pouco os semi-deuses, garudas,
Detentores-do-conhecimento ou répteis.

O mesmo se aplica aos votos dos tantras secretos.


A forma humana é também o renascimento mais poderoso para alcançar a
onisciência. Até mesmo um principiante neste tipo de renascimento pode, através do
caminho secreto tântrico, se iluminar em uma vida, em um corpo humano. Isto porque é
necessário ter karmicamente os seis constituintes físicos para renascer do útero de um
humano no Continente Sul. Nós recebemos tal renascimento.
Devemos rezar para receber novamente um renascimento como este; até mesmo os
Bodhisattvas em Sukhavati rezam para renascer neste continente. Não poderíamos ter
encontrado renascimento melhor do que o atual --a única exceção é aqueles entre nós
que não nasceram como homens.53
A estátua de Shakyamuni no Templo de Lhasa tem, supostamente, em seus joelhos,
uma jóia-que-realiza-desejos.54 Algumas pessoas circumambulam a estátua dizendo:
“Que eu alcance qualquer coisa que suplicar”. Eles fazem tais orações banais! Se você
tivesse muitas centenas de milhares de jóias que realizam desejos e transformasse
algumas delas em almofadas, elas não ajudariam a mantê-lo fora dos reinos inferiores
quando você morrer. Mas, por meio deste renascimento, você pode alcançar a grande e
eterna meta, como já expliquei acima. Seu atual renascimento é mais benéfico aos seus
renascimentos futuros do que ter uma jóia que realiza os desejos por um dia, ou mesmo
por cem anos humanos, por que com o renascimento atinge-se a felicidade eterna.
Cada um de nós recebeu o mesmo renascimento que Je Milarepa, só que não
praticamos o Dharma. Nenhuma distinção qualitativa pode ser traçada entre o
renascimento de Milarepa e o nosso. Por exemplo, podemos compreender que há uma
diferença entre Milarepa e o rei dos nagas. O rei dos nagas tem pilhas de jóias que
realizam desejos em seu tesouro e usa ornamentos de jóias na cabeça; mas não
conseguiu evitar seu renascimento como um animal, muito menos acumular as causas
para a sua iluminação. Milarepa era tão pobre que não tinha nem mesmo farinha de
cevada para comer, mas recebeu este precioso e perfeito renascimento humano e assim

53
Ser do sexo feminino é considerado um nascimento menos favorável porque as mulheres normalmente enfrentam mais
impedimentos para praticar o Dharma do que os homens, seus corpos são geralmente menos poderosos, etc. Isto é tratado
com mais detalhe no Dia 13.
54
Segundo Amchok Rinpoche, os tibetanos leigos acreditam que esta famosa estátua no templo principal de Lhasa contém
uma jóia-que-realiza-desejos que circula através de seu corpo. Quem colocar a cabeça no joelho da estátua no momento
em que a jóia estiver passando por lá, terá seus desejos realizados.

219
se iluminou naquela mesma vida.
Tais pensamentos dão sentido ao perfeito renascimento humano. Mahayogi disse a
Geshe Chaen Ngawa que [esta prática] era mais do que suficiente.
Um perfeito renascimento humano é portanto difícil de adquirir. Que grande pena
se não usar de maneira significativa este renascimento que conseguiu. Isto seria como
um pobre encontrando um saco cheio de ouro e perdendo-o depois de gastar só uma
pequenina parcela.

(C) PENSANDO SUCINTAMENTE COMO CADA MOMENTO PODE SER


MUITO BENÉFICO

Os textos não são claros quanto a este título, que complementa os outros dois sobre
as maneiras do perfeito renascimento humano ser tão benéfico. A instrução oral é a
seguinte:
Este renascimento tem o grande benefício adicional de “manter grande benefício a
todo dia, a todo momento”, você criará causas imensuráveis para sua liberação e
onisciência se não deixar passar nem mesmo o pouco tempo que leva queimar um
bastão de incenso, sem fazer uso dele, como por exemplo trabalhar arduamente na
construção de suas acumulações e purificar-se dos obscurecimentos. É um erro não
lamentar ter desperdiçado o perfeito renascimento humano, e no entanto lamentar ter
desperdiçado uma ou duas moedas de prata. Aryasudra [Ashvagosha] disse: “Como um
mercador que foi a uma ilha de jóias e retornou para casa de mãos vazias...” Em outras
palavras, o mercador vai a uma ilha de jóias, não adquire nenhuma, contrai dívidas
pesadas, e volta para casa de mãos vazias. Nós adquirimos este perfeito renascimento
humano só uma vez. Não haveria pena maior do que se deixássemos de praticar o
Dharma, só acumulássemos ações negativas, e depois fôssemos aos reinos inferiores.

3) PENSANDO EM COMO É DIFÍCIL OBTER UM PERFEITO


RENASCIMENTO HUMANO
Esta seção tem três títulos.
(A) PENSANDO NAS CAUSAS DE SER TÃO DIFÍCIL CONSEGUÍ-LO
O seu perfeito renascimento humano, que poderia ser muito benéfico, é
extremamente difícil de conseguir: você não o recebe vezes seguidas. Se não fosse tão
difícil de conseguir, você poderia deixar de utilizá-lo de maneira significativa; então
quando o conseguisse uma outra vez, bastaria certificar-se de que o próximo
renascimento seria usado de forma significativa. Mas este renascimento humano
plenamente dotado que recebeu foi criado por muitas causas e condições. Você teve
sorte por virtude de seu mérito e das orações que fez. Será difícil receber a mesma coisa
no futuro.
Certa vez, quando um lama mongol dava este ensinamento do Dharma, um chinês
disse, “Aquele lama nunca esteve na China --há muita gente por lá!” Isto é bastante
220
errado. Embora em geral existam muitas pessoas, qual o benefício disto se você for
para os reinos inferiores? Independente de existirem ou não muitos seres humanos no
mundo externo, você deve olhar com uma cognição válida para ver se não há em seu
contínuo mental todas as causas [necessárias] para o perfeito renascimento: você pode
saber se será difícil ou não receber tal renascimento no futuro. Por exemplo, no mundo
externo, toda a colheita de outono de cevada, trigo, etc, é o resultado das plantações da
primavera. Além do mais, não se consegue nenhuma flor num vaso se antes disto não
plantar as sementes lá. De forma similar, para receber um perfeito renascimento
humano é preciso criar muitas causas para que isto aconteça.
Geralmente, só para receber um alto renascimento nos reinos superiores --o de um
deus, por exemplo – é preciso seguir algumas formas de ética. Como Nagarjuna disse,
para obter tal renascimento humano perfeito, as causas são: “Generosidade, que dará
riquezas; ética que dará felicidade...” Está dito no Breve Sutra da Perfeição da
Sabedoria o seguinte:

Através da ética, abandona-se


Os oito estados desfavoráveis e
As formas de muitas migrações animais;
Então, sempre se recebe um renascimento oportuno.

Assim, ficamos sabendo que a base é a ética pura; a generosidade e as demais


paramitas auxiliam. Dizem que deve-se também estabelecer conexões kármicas fazendo
orações infindáveis e sinceras ou viver uma vida sem manchas de anseios. Se não
guardar sua ética mas praticar a generosidade, você renascerá como um naga. Se
manter sua ética mas não praticar a generosidade, irá renascer pobre. E assim por
diante.
Não temos auto-crítica e agora alegamos que nossa ética é imaculadamente branca,
mas como um geshe mongol disse: “Quando se tem os votos, não se conhece o vinaya.
Conhece-se o vinaya quando não mais se tem os votos.”
Se analisarmos corretamente, veremos que raramente guardamos um tipo de ética
de maneira satisfatória. Nossos únicos pensamentos são os enganos, nossas únicas
ações, as negativas. Se não sabemos corretamente sequer a relação das transgressões-
raiz e infrações secundárias dos votos tântricos, dos votos de Bodhisattvas, etc., como
podemos falar em guardar estes votos?
Esperar, como resultado, um perfeito renascimento futuro quando não se tem as
causas para recebê-lo, é como esperar pela colheita da cevada no outono quando o que
se plantou na primavera foram sementes de plantas venenosas.
Em Guia do Caminho dos Bodhisattvas, [Shantideva] diz:

Se dizem que uma ação negativa de um único momento


Manterá alguém no Inferno Sem Descanso
Por éons, como pode alguém dizer

221
Que irá aos reinos superiores
Quando colecionou ações negativas
Desde os princípios do samsara.

Em outras palavras, se uma única ação negativa pode lhe jogar assim nos reinos
inferiores, não há esperança de alcançar os reinos superiores quando considerar que tem
em seu contínuo mental um monte de ações negativas tão grande quanto o guarda-
tesouro do rei que você acumulou desde os tempos sem princípio.
Podemos sentir, “Mas o meu próximo renascimento não será imaculado devido à
bondade de meus preciosos gurus?” Mas se deixarmos de praticar o Dharma,
destruiremos tudo que nossos preciosos gurus fizeram por nós, assim como Buda não
pôde salvar seu primo Devadatta de cair no inferno.
Desperdiçar este bom renascimento, que recebeu só esta vez, e depois querer
receber outro perfeito renascimento humano para usar beneficamente é como um
homem pobre que encontra uma pepita e joga na água, pensando: “Se eu tivesse uma
outra, então a usaria”.
É difícil rezar sem nenhuma expectativa [de benefícios] nesta vida. Quando vemos
Shakyamuni no Templo de Lhasa e rezamos, fazemos logo orações para uma longa-
vida, sem doença, e com boa sorte. Conforme está dito em Guia do Caminho dos
Bodhisattvas:

Por causa de atos como estes


Não receberei um corpo humano;
Se não receber um corpo humano,
Só terei ações negativas e nenhuma virtude.

Em outras palavras, é certo que, em geral, não praticaremos corretamente o Dharma


neste renascimento. Se isto acontecer, cairemos nos reinos inferiores; então naquele
renascimento só alcançaremos as causas para novamente renascermos nos reinos
inferiores, e assim ficarmos vagando sem fim nesses reinos. Não teremos nem mesmo
um mínimo de virtudes como fé, sabedoria ou renúncia; o renascimento nos faria
cometer atos kármicos não-virtuosos como apego, hostilidade, e orgulho -tudo que nos
leva à degradação. Podemos compreender isto, por exemplo, observando os cães.
Uma vez que tenha renascido nos reinos inferiores, a luta para alcançar a
iluminação é muito maior do que em seu renascimento [atual]. Receber um corpo
humano agora é como carregar um seixo rolado meio-caminho montanha acima. Você
pode subir mais com o seixo a partir da marca do meio-caminho. Se não conseguir
subir mais, não deixe o seixo cair, pois será ainda mais difícil alcançar novamente o
meio do caminho. De maneira similar, se neste renascimento você não conseguir
alcançar realização nos caminhos mais elevados, como a liberação e a onisciência, pelo
menos não caia nos reinos inferiores. Você não deve fazer mal uso deste perfeito
renascimento humano, porque se cair, vagará de reino inferior a reino inferior, e ficará

222
virtualmente sem nenhuma chance de liberação. Quando se toma o caminho errado,
fica-se progressivamente mais distante de onde deveria estar indo; é por isso que não se
deve usar este renascimento atual para ir no caminho errado. Mas não diga que é muito
tarde; se você já for velho, não deve ter preguiça e tudo correrá bem. Veja o caso do
chefe de família Shrijata [Dia Quatorze].

(B) ALGUMAS ANALOGIAS PARA AS DIFICULDADES EM ADQUIRÍ-LO

Geshe Potowa diz em seu Analogias: “Grama no teto; pescoço da tartaruga...” o que
quer dizer:
Renascimentos nos reinos superiores são geralmente tão freqüentes quanto grama
crescendo nos declives das montanhas. Mas um renascimento humano com todas as
liberdades e dotes é extremamente raro --tão raro quanto placas de grama nos tetos das
casas.
O “pescoço da tartaruga” significa o seguinte: Suponha que haja uma bóia dourada
flutuando no oceano e sendo levada pelo vento. A bóia tem apenas um buraco e uma
tartaruga cega que mora no oceano põe sua cabeça para fora da superfície do oceano
uma vez a cada cem anos. A cabeça da tartaruga [provavelmente] não subiria
exatamente através da canga. De forma semelhante estamos no grande oceano do
samsara; por causa do poder de nossos enganos, os olhos de nossa sabedoria estão
fechados e normalmente vagamos de um estado dos reinos inferiores a outro.
Ocasionalmente nos libertamos dos reinos inferiores e conseguimos um renascimento
ímpar num estado humano por virtude das leis da probabilidade. Mas o mundo é
enorme e existem mundos em todos os pontos cardinais e intermediários do compasso;
não se pode estar certo se nestes mundos os ensinamentos de Buda florescem ou para
onde estão indo. Estes ensinamentos são como a bóia, e encontrá-los é também
extremamente raro.
Se uma tartaruga nadasse constantemente à superfície do oceano, provavelmente
encontraria a bóia de tempos em tempos; mas se ela só sobe à superfície a cada cem
anos, provavelmente [jamais] a encontrará uma única vez. Como na analogia, se
recebêssemos renascimentos humanos freqüentemente, é possível que poderíamos
encontrar o ensinamento de um Buda sempre que isto ocorrer. Porém, o caso não é este:
só ocasionalmente recebemos um ou dois renascimentos humanos.
Se a bóia dourada ficasse num único lugar, durante muito tempo a tartaruga não
subiria ao local exato, mas pelo menos haveria uma chance de que poderia acertar o
local algumas vezes, e então achar a bóia. Mas na realidade o caso não é este: a bóia se
move ao léu em todas as dez direções sobre a imensa superfície do oceano. E, como na
analogia, se os ensinamentos de Buda permanecessem sempre no mesmo mundo,
possivelmente poderíamos encontrá-los algumas vezes num renascimento humano. Mas
não podemos estar certos de que os ensinamentos de um Buda permaneçam num
mundo em particular. [De qualquer forma] tais ensinamentos só permaneceriam lá por
um tempo muito breve.

223
Não se pode alegar que a bóia e a tartaruga nunca se encontrarão, mas o caso é
praticamente este. Receber um perfeito renascimento humano é ainda mais raro, mas
isto não impede que ocorra até o fim do samsara.
Os elementos desta analogia significam o seguinte: O oceano é o estado samsárico;
a tartaruga somos nós; sua cegueira é a ignorância; a bóia são os ensinamentos de
Buda; e assim por diante. Esta interpretação da contemplação da dificuldade de receber
este perfeito renascimento é tida como uma tradição oral vinda de Je Drebkang Geleg
Gyatso.
Geshe Potowa diz ainda, em Analogias: “O menino de Loding...” Drom Loding
tinha um filho que sabia garimpar ouro. Este menino fez uma viagem comercial com
alguns amigos. O povo da localidade ficou sabendo da reputação do filho de Loding e
dizia: “Ah, se eu fosse o filho de Loding! Se eu soubesse garimpar ouro!” Ele ouviu
falar disso, mas continuou negociando. Só mais tarde decidiu garimpar. De forma
similar, recebemos um renascimento tão bom que é tema de orações dos Bodhisattvas
em Sukhavati. Mas seria uma grande pena se, após recebê-lo, não nos beneficiássemos
com isto.
Geshe Potowa disse: “E o peixe do homem de Tsang...” Certa vez um homem de
Tsang foi até a Província Central e comeu alguns peixes. Ele de fato se empanturrou e
estava a ponto de vomitar. Ele disse: “Seria uma pena vomitar uma comida tão
deliciosa!” e amarrou seu pescoço. Se é uma pena vomitar algumas vezes uma comida
apetitosa, o que não dizer de não se beneficiar com um renascimento que é tão difícil de
encontrar, e que só é conseguido uma vez em muitos éons.
Geshe Potowa então fala de: “Uma minhoca se prosternando...” Parece impossível
que uma minhoca vermelha e viscosa poderia sair da terra e se prosternar ao Buda. É
assim tão impossível para nós minhocas subirmos à superfície dos reinos inferiores,
tomarmos formas humanas, e até mesmo estudar e contemplar o Dharma.
Pense nestas várias analogias mostrando como os perfeitos renascimentos humanos
que adquirimos são tão raros e difíceis de conseguir.

(C) A NATUREZA DA DIFICULDADE DE CONSEGUÍ-LO

Muitos seres praticam a não-virtude, poucos praticam a virtude. Quando os seres


deixam os seus renascimentos nos reinos superior e inferior, a grande maioria vai para
reinos inferiores. Portanto, muitos poucos deixam o renascimento nesses reinos e vão
para reinos superiores. O Tathagata, em seus ensinamentos do vinaya, disse que os
seres que vão de reinos superiores a reinos inferiores, ou de inferiores de volta aos
inferiores, são como as partículas de poeira na terra vasta. O número de seres que vão
dos reinos inferiores aos superiores, ou dos superiores de volta aos superiores, são
como partículas de poeira que cabem na ponta do dedo. Entre os seis tipos de
renascimentos há geralmente muitos poucos seres humanos. Há menos espíritos
famintos do que seres infernais; há ainda menos animais; e menos animais terrestres do
que marinhos. É assim que centenas de milhões de moscas cabem num espaço onde só

224
cabem dez humanos. Há muitos seres no bardo; tantos que é como muitas centenas de
milhares de moscas que imediatamente se juntam ao redor do cadáver de um cavalo, ou
até mesmo uma centena de tais cadáveres.
Mesmo entre os renascimentos humanos, é extremamente raro nascer durante os
éons de iluminação, isto é, num éon em que o Buda vem ao mundo. E cada átomo da
iluminação é separado por muitas dezenas de milhares de éons de escuridão. Mesmo
dentro de cada éon de iluminação existem oitenta éons secundários, sendo vinte éons
secundários de vácuo e vinte de cada um dos seguintes: formação, estagnação e
destruição. Budas não vêm a um mundo durante sessenta destes éons secundários –
durante os éons de vácuo, formação e destruição. Nem vêm a um mundo em certas
épocas durante os vinte éons secundários de estagnação – durante o primeiro e o último
destes vinte éons secundários, quando os humanos tem vidas de duração imensurável, e
nas épocas em que a duração da vida humana está aumentando. Os Budas só vêm
durante as “eras escuras” quando o tempo de vida está diminuindo.55
Vamos falar do nosso tempo atual deste nascimento no Continente Sul. Os Budas
vêm durante os dezoito éons secundários intervenientes quando a duração da vida
humana segue um padrão cíclico. Poderíamos ter nascido quando, para as aparências
comuns, um Buda anterior tivesse entrado no nirvana e sua doutrina desaparecido. O
nascimento durante este período antes da vinda do próximo Buda não é diferente de
nascimento em um éon de escuridão. Mas não nascemos em tal época. Dizem que
depois que estes ensinamentos desaparecerem, 4,9 bilhões de anos humanos passarão
antes que o Buda Maitreya venha, mas nós também não nascemos durante esta era
escura interveniente: os ensinamentos de Buda ainda existem e nascemos no Continente
Sul, o único local sagrado onde estes ensinamentos podem ser encontrados. Nascemos
num dos poucos paises deste continente onde os ensinamentos são muito difundidos, e
paises como Tibet e Mongólia, são minoria. Nascemos no Tibet, um dos alicerces que
permite que o Dharma prospere. Mas aqui está um exemplo do que acontece no Tibet.
Gushri Kaelzang [um mongol], certa vez disse:

“Quando fui ao Mosteiro Tashikyil em Amdo, havia muitos milhares de


monges. Destes, cerca de quinhentos eram geshes, cerca de quinhentos
eram comerciantes, e cerca de quinhentos não era uma coisa nem
outra...”
55
A idéia budista da evolução é explicada em Tesouros da Metafísica de Vasubandhu como segue. Quando um sistema-
mundial passa pela destruição, a maioria dos seres deste sistema ou renasce mais acima no mesmo sistema mundial até
alcançar o quarto plano dhyani do Reino da Forma ou o mais elevado Reino Sem Forma (pois é só esses patamares
supreiores que não são destruídos) ou renascem em algum outro sistema-mundial. Depois da destruição, quando o sistema-
mundial começa a se formar novamente, todos os seres que migraram para cima começarão a descer novamente. Muitos
éons mais tarde, alguns seres terão atingido niveis de existência tão baixos que começarão a viver no Continente Sul na
superfície da terra. Estes humanos possuem uma duração de vida imensurável. Cada geração humana sucessiva neste
continente tem uma vida de duração mais curta até que, um éon secundário mais tarde, a vida dura apenas dez anos.
Durante o éon secundário seguinte, a duração de vida aumenta o dobro da taxa anterior, alcançando o ápice de 80.000 anos
no meio deste segundo éon secundário e depois voltando a cair até 10 anos no final deste mesmo éon. Este ciclo se repete
mais dezessete vezes após o que passa um outro éon secundário inteiro até que a duração do tempo de vida alcança
novamente durações imensuráveis. Então, recomeçam as migrações para cima.

225
Em uma única família pode haver dez irmãos, mas só dois ou três deles entram para
um mosteiro. Até mesmo entre as pessoas nos mosteiros, os que praticam o Dharma
com pureza, colocando o Lam-rim em prática, são muito raros. Mas apesar de tudo isto,
não nascemos num lugar sem liberdade [para praticar].
Segundo a tradição oral de meu próprio precioso guru, o perfeito renascimento
humano é difícil de conseguir porque é difícil de ser alcançado, porque é por natureza
algo difícil de ser criado, e porque suas probabilidades, por analogias, provaram ser
baixas.

Kyabje Pabongka Rinpoche então discutiu como devemos pensar nestas três
razões.

Este renascimento que conseguimos pode realizar nossos mais afeiçoados desejos,
sejam eles bons ou maus. Estamos no limiar entre os reinos superiores e inferiores. Não
devemos colocar nossas esperanças em nada mais. Somos livres para escolher, portanto
não devemos nos enganar quanto a qual escolha leva à felicidade e qual leva à miséria.
Se nos enganarmos, o engano não vai durar só um ou dois dias --vai estragar nossas
esperanças eternas de todos os nossos renascimentos.
Que bom seria se você não fosse morrer! Só deve lhe restar um tempo desta vida:
dois anos, três anos, ou seja o que for. Se isto não motivar-lhe para realizar austeridades
dia-e-noite para praticar algum santo Dharma, pense: “Ousarei arriscar a voltar aos
reinos inferiores?”
É vital não deixarmos este nosso renascimento oportuno ser desperdiçado; um
precioso renascimento que só conseguimos uma vez, um renascimento sem preço,
criado de dezoito coisas. Suponha que um mercador vai a uma ilha de jóias e em vez de
pegar qualquer pedra preciosa, só passa seu tempo cantando, dançando, etc., até mesmo
se endividando com os outros mercadores. O que poderia ser mais insano do que
eventualmente retornar sem nenhuma jóia? Agora, você pode colecionar as jóias da
liberação e da onisciência. Não se poderia ser mais cego ou mais estúpido se não levar
estas jóias, mas ao contrário, criar as causas para ir aos reinos inferiores. Shantideva
diz:

Nenhuma auto-decepção pode ser pior


Depois de obter tal oportunidade
Do que não usá-la para fins virtuosos!
Nada seria uma cegueira maior!

Você deve extrair alguma essência deste bom renascimento que conseguiu – este
renascimento é tudo o que se precisa para extrair a essência. Construa suas
acumulações e algumas auto-purificações ao menos durante o tempo que leva beber
uma xícara cheia de chá! No melhor, você poderá se iluminar em uma vida, em um

226
corpo. Se não, você poderá alcançar a liberação. Se isto não acontecer, esforce-se pelo
menos para não cair nos reinos inferiores. O Sutra Soberano da Concentração Uni-
focada afirma:

Contudo, o paciente não toma este muito salutar


E precioso remédio, a cura potencial.
Não culpe o médico;
O remédio não está errado.
Certamente o próprio paciente é culpado.
Assim também, as pessoas ordenadas neta doutrina:
Elas podem saber tudo muito bem sobre
As dez forças, as concentrações dhyani, os dez poderes-
Mas não fazem nenhum esforço real para meditar.
Como pode o nirvana vir sem o esforço correto?...
Ensinei-lhes o Dharma bem.
Se não fizerem bom uso de seus estudos,
Serão como o paciente que deixa o remédio
Dentro da caixa, pensando,
“Isto não pode curar a minha doença.”

O Guia do Caminho dos Bodhisattvas diz:

Fisicamente faça uso disto:


Meras palavras não realizam nada.
Será o doente ajudado
Só de ler as receitas médicas?

Em outras palavras, seu virtuoso guia espiritual pode ensinar-lhe corretamente o


caminho que leva à liberação e à onisciência, mas se não colocar estas coisas em
prática, você será como o paciente que não toma os diversos remédios que um médico
hábil prescreveu --e então, não pode ser curado. Se vai praticar ou não as instruções e
ensinamentos de seu guru é uma decisão só sua. Você deve se esforçar para fazer de
seu perfeito renascimento humano algo significativo e integrar o Dharma em sua vida
até o último momento.
Agora, vou rever os tópicos acima e ensinar-lhes sucintamente como seguir esta
prática. Faça súplicas à imagem de seu guru visualizado sobre sua cabeça. Depois,
medite conforme os tópicos acima. Os critérios de desenvolver realizações neste tópico
é como segue. Geshe Potowa disse:

Como pode alegremente desperdiçar sua vida


Quando compreende como é difícil conseguir
O perfeito renascimento humano?

227
Je Tsongkapa diz:

Se soubesse como é difícil de conseguir,


Seria impossível viver uma vida comum.
Se visse seus grandes benefícios
Lamentaria se ela ficasse sem sentido.
Se pensasse sobre a morte,
Faria preparações para suas vidas futuras.
Se pensasse sobre causa e efeito
Deixaria de ser negligente.

Como o esplêndido iogue Gampopa disse, você desenvolveu realizações de como o


perfeito renascimento humano é benéfico e difícil de ser conseguido quando, por
exemplo, não pausaria para extrair um espinho que tivesse se alojado em sua coxa, mas,
ao contrário, continuasse a meditar.

228
DIA DEZ

Kyabje Pagongka Rinpoche citou o seguinte louvor aos escritos do grande adepto,
Gedun Tenzin Gyatso:

Isto não é um Dharma falso, inventado,


Porque é o ápice dos autênticos ensinamentos orais.
Isto não é conversa tola, porque vem
Dos textos clássicos dos grandes antepassados.
Isto não é uma miragem tremulante,
Porque foi testado pelos eruditos e santos adeptos.
Isto não é um penhasco perigoso,
Porque é a via expressa à mais elevada iluminação.

Isto foi citado como parte de uma curta palestra para acertar a nossa motivação. Ele
relacionou os títulos já dados, e reviu o material que vem após o sub-título
“Devotando-se através de Ações”, que é parte da seção sobre “A Raiz do Caminho:
Devoção ao Guia Espiritual.”
Entre as meditações, leie principalmente livros que ensinem sobre o perfeito
renascimento humano. Se depois de pensar nas dificuldades de obter este renascimento
humano muito benéfico, você desenvolver o desejo de extrair alguma essência dêle,
você deve treinar sua mente nos três níveis do Lam-rim. A extensão de seu treinamento
da mente nesses três níveis determina o quanto irá extrair da pequena, média e grande
essência.
Se quisermos alcançar a Budeidade, devemos primeiro desenvolver realizações nas
seções iniciais do caminho; ou não desenvolveremos realizações nas partes posteriores.
Por exemplo, os Khampas deixam suas casas para verem a estátua de Shakyamuni no
Templo de Lhasa. As estradas os trazem pouco a pouco até aqui; é impossível pular
qualquer parte do caminho. Você também não pode desenvolver realizações nas partes
mais elevadas do caminho, como a compaixão, enquanto não tiver realizado as partes
mais baixas como renúncia, e assim por diante. [Shantideva] afirma em seu Guia do
Caminho dos Bodhisattvas:

Se você nem sonhou


Em beneficiar a si mesmo
Antes de sonhar isto para os seres sencientes,
Como poderia beneficiar os outros?

Quando falamos de Pequena e Média Capacidade, estamos falando de treinar a


mente nos estágios do caminho que são compartilhados pelos níveis de Pequena e
Média Capacidade; não nos referimos a treinar a mente nas partes pequena e média do
caminho em si. Suponha que há três pessoas; uma indo a Tashi Lhuenpo, uma a Rong,

229
e a outra a Chushur. A primeira quer ir para Tashi Lhunpo, mas deve primeiro
compartilhar parte do caminho com as outras duas. As três pessoas têm três coisas
diferentes em mente: duas viajam para Rong ou Chushur e a primeira pretende
continuar adiante até Tashi Lhuenpo.
Deve-se recorrer às seções das Pequena e Média Capacidades do Lam-rim,
expressamente para alcançar a Iluminação pelo bem dos seres sencientes. A prática em
si é o desenvolvimento da Bodhicitta, as partes dos níveis de Pequena e Média
Capacidade do caminho são apenas prelúdios. Você pode estar se indagando, “Neste
caso, basta ensinar o nível de Grande Capacidade logo de início. Duvido que os níveis
Pequeno e Médio sejam necessários.” Há dois motivos para que todos os três sejam
discutidos. Há pessoas que não podem treinar suas mentes inicialmente na Grande
Capacidade, assim, elas precisam praticar estágios através das Pequena e Média
Capacidades. Esta maneira é mais benéfica para pessoas com mentes boas, medianas ou
inferiores. Além disto, sem nenhuma familiaridade com as partes iniciais do caminho,
não se consegue desenvolver nenhuma renúncia no contínuo-mental, portanto, é preciso
derrotar qualquer orgulho que possa ter por ser um praticante do Mahayana ou um
seguidor dos tantras secretos.
Para desenvolver a prática em si, a bodhicitta, é preciso desenvolver uma
compaixão tamanha que você simplesmente não suporta que outros seres sejam
atormentados pelo sofrimento. Mas, para desenvolver esta compaixão, é preciso saber
com exatidão como você está infestado pelo sofrimento. E deve compreender que todo
o samsara, por natureza, é sofrimento. Mas primeiro é preciso temer os reinos
inferiores, porque sem isso não há nenhuma renúncia da felicidade humana e celestial.
Portanto, você deve treinar sua mente nas partes das Pequena e Média Capacidades.
Este treinamento é como o alicerce e as paredes que sustentam uma casa.
Ainda não alcançamos resultados avançados, mas eles viriam se treinássemos no
material introdutório. Je Milarepa treinou-os sob a tutela de Marpa, e muitos de seus
cânticos são sobre o seu desenvolvimento nessas realizações. O Lam-rim é necessário
para conseguir o progresso especialmente rápido prometido nos tantras secretos. É esta
a implicação dos nomes O Caminho Fácil e O Caminho Rápido. Milarepa alcançou a
unificação em uma vida não só devido ao tantra; ele já havia treinado no caminho dos
três níveis em vidas anteriores. Numa de suas vidas passadas, por exemplo, ele foi o
Kadampa Chagtrichog.
Embora quem embarque nos tantras secretos deva treinar-se previamente nas partes
compartilhadas do caminho, não fazemos isto: embarcamos direto nos tantras secretos,
não mantemos nossos compromissos tântricos e nem meditamos nos dois estágios.
Dizem que muitas pessoas assim vão para o Inferno Vajra.
Você deve ter, de saída, uma visão ampla. Deve sentir, “Estou preparado para usar
toda a minha vida humana para seguir apenas um tópico de meditação do Lam-rim”.
Mas nossa visão ampla é de coisas mundanas, que é a forma errada e contrária. Seja
míope com relação a coisas mundanas, não ao Dharma. Se achar: “É impossível
conseguir qualquer coisa no Dharma”, você não vai praticar corajosamente e não vai

230
querer passar um mês ou um ano meditando num único tópico de meditação.
Geshe Kamaba disse:

“Você diz: ‘Nossas contemplações não alcançam nada.’ Porque você


acha que isto acontece? Não minta; você passa o dia distraído e à noite
cai no sono!”

Ou seja, esqueça quanto a passarmos um mês num tópico de meditação, não temos
meditado num único tópico nem mesmo durante toda a duração de uma única sessão. E
como é irreal sentir, “Até agora não desenvolvi nenhuma realização!” Nós não fazemos
de uma certa prática o nosso ponto de partida, no entanto, rolamos os olhos para o topo
da cabeça [e fingimos meditar] quando fazemos apenas uma recitação de, por exemplo,
O Alicerce de Todas as Boas Qualidades [de Tsongkapa]. Se agimos assim, nosso
desejo de desenvolver insights e realizações no Lam-rim é muito ganancioso. É aí que
está o erro.
Karag Gomchung Rinpoche, um Kadampa, disse:

Olhe bem para frente


Tenha visão ampla
Se ligue.

Estas três coisas são vitais. Você deve olhar bem para frente para a meta da
onisciência; ter visão ampla a respeito pelos níveis de Pequena e Média Capacidade; e
meditar para alcançar o ápice correto. Quando acontecer de receber o Dharma
oralmente de seu guru e então praticar freneticamente por uns poucos dias com
renúncia superficial, isto é um sinal certo de que não haverá progresso.

COMO EXTRAIR A ESSÊNCIA DE SEU ÓTIMO RENASCIMENTO


HUMANO

Isto tem três seções: (1) treinando sua mente nos estágios do caminho compartilhado
com a Pequena Capacidade; (2) treinando sua mente nos estágios do caminho
compartilhado com a Média Capacidade; (3) treinando sua mente nos estágios do
caminho da Grande Capacidade.

1) TREINANDO SUA MENTE NOS ESTÁGIOS DO CAMINHO


COMPARTILHADO COM A PEQUENA CAPACIDADE

Isto tem dois sub-títulos: (1) desenvolvendo o anseio por um bom renascimento; (2)
ensinando os meios para a felicidade em seu próximo renascimento.

231
(A) DESENVOLVENDO UM ANSEIO PARA UM BOM RENASCIMENTO

Isto tem duas sub-divisões: (1) lembrando que seu atual renascimento não vai durar e
que você vai morrer; (2) pensando no tipo de felicidade ou sofrimento que vai ter em
seu próximo renascimento em algum dos dois tipos de migrações.

LEMBRANDO QUE SEU ATUAL RENASCIMENTO NÂO VAI DURAR


E QUE VOCÊ VAI MORRER

Isto tem três sub-títulos: (1) as desvantagens de não lembrar da morte; (2) as vantagens
de lembrar da morte; (3) a maneira de lembrar da morte.

 AS DESVANTAGENS DE NÃO LEMBRAR DA MORTE

Existem seis seções aqui:

o A DESVANTAGEM DE QUE NÃO SE LEMBRARÁ DO DHARMA

Se não se lembrar da morte, só pensará nesta vida e se verá envolvido com


muitas exigências – comida, roupas, e coisas assim – e então não praticará o Dharma.
Se lembrar-se da morte, trabalhará arduamente para preparar-se para as suas próximas
vidas, assim como um Khampa prestes a viajar trabalharia com afinco nos preparativos
e bagagens. Sua enorme ânsia por comida, moda, reputação, e coisas assim pode ter a
culpa atribuída a você não se recordar da impermanência. Todo dia que passa sem se
recordar da impermanência é um dia desperdiçado em sua vida.

o A DESVANTAGEM DE QUE SE LEMBRAR DO DHARMA MAS NÃO


DE PRATICÁ-LO

Je Tsongkapa disse:

Todos pensam: “A morte eventualmente virá”. Mas guardam o


pensamento nocivo: “Mas não morrerei hoje. Não morrerei hoje”,
até o momento em que estiverem morrendo.

Você se agarra à idéia de que não vai morrer e pensa, “Ah, eu posso praticar o
Dharma o ano que vem, ou o ano depois”. Você está sempre adiando. Você pensa no
Dharma, mas não o pratica; permanece absorto com pensamentos como, “Eu quero este
objeto de valor”. Enquanto isto, sua vida humana está se esgotando.”

232
o A DESVANTAGEM DE QUE VAI PRATICAR MAS NÃO
CORRETAMENTE

No momento somos praticantes do Dharma, mas como não ignoramos as


banalidades desta vida, a nossa prática não é nada pura. Devemos estudar e contemplar,
mas desintencionalmente queremos ser eruditos ou famosos. Meditamos, fazemos
recitações, e coisas assim, pensando que isto vai remover as circunstâncias
desfavoráveis da vida. Mesmo os grandes eremitas meditadores não estão livres de
involuntariamente desejarem ser famosos e coisas assim. Como disse o grande Atisha:

Pergunte-me quais são os resultados de só se pensar nesta vida e eu lhe


direi: são apenas os resultados para esta vida. Pergunta-me o que
acontecerá em sua próxima vida e lhe direi: renascerá no inferno, como
um espírito faminto, ou como um animal.

Em outras palavras, você alcançará os poucos benefícios desta vida e suas vidas
futuras resultarão em renascimentos nos reinos inferiores.
Se agir assim, não estará sendo diferente de um leigo. Um praticante de Dharma
deve, antes de tudo, ignorar esta vida. Eu não estou dizendo que você deve ficar pobre,
até mesmo os pobres não ignoram esta vida e continuam vagando no samsara. O que
deve ser ignorado são as oito preocupações mundanas. Qualquer coisa misturada a estas
preocupações não é Dharma. O iogue Chagtrichog perguntou a Atisha: “Eu devo
meditar? Devo ensinar? Ou às vezes ensinar e às vezes meditar?” Atisha disse: “Essas
coisas não ajudarão”. Chagtrichog perguntou então o que deveria fazer e ele respondeu:
“Abandone as coisas mundanas”.
Lama Gyampa disse:

Seus tolos, vocês não tiveram sucesso


Num único tipo de prática.
No entanto se orgulham de serem praticantes do Dharma!
Vejam se têm o primeiro de todos os Dharmas
Em seus contínuos-mentais:
O de ignorar esta vida.

Como disse o Geshe Telungpa, é bom se um nobre pratica a generosidade, mas


é melhor ainda se pratica o próprio Dharma. Em outras palavras, o Dharma e as coisas
mundanas são opostos --mesmo em ações como estas.
Geshe Potowa disse que não é possível costurar com uma agulha de duas pontas
rombudas. Se não pensar na morte, não vai ignorar esta vida. Se não ignorar esta vida,
ficará influenciado pelas oito preocupações mundanas: ficar feliz por receber presentes
e infeliz por não recebê-los; feliz por ter conforto e infeliz por não tê-lo; feliz por ter
fama e infeliz por não tê-la; feliz ao ser elogiado e infeliz ao ser criticado. Nagarjuna

233
falou o seguinte sobre estas oito:

Por oito preocupações mundanas queremos dizer:


Os pensamentos mundanos [de receber]
Presentes ou nenhum presente, conforto ou desconforto,
Fama ou notoriedade, elogio ou crítica.
Mantenha a cabeça nivelada:
Estes não são assuntos para seus pensamentos.

Compare isto com a estória do Geshe Potowa e o oferecimento de jade.


Lingraepa disse:

No samsara, a cidade dos preconceitos,


Vagam os zumbis das oito preocupações mundanas.
Você está numa terrível terra sepulcral;
Peça ao seu guru para fazer um exorcismo.

Portanto, ignore esta vida e devote-se ao Dharma de todo o coração. Se depois


você se perguntar se vai conseguir sustentar-se, sinta que tudo estará bem mesmo se
não puder fazê-lo, e esteja preparado para ficar pobre. Nosso Mestre deixou sua casa e
tornou-se um monge desabrigado; ele renunciou a toda riqueza de sua posição real,
passou a usar roupas que encontrava nos montes de lixo, e coisas assim. Ele devotou-se
ao Dharma de todo coração. Ele estava preparado para ficar pobre. Je Rinpoche disse o
mesmo. Mas você pode questionar, “Se eu ficar pobre, não morrerei por não conseguir
comida?” Você deve estar preparado para morrer como um mendigo e dizer a si
mesmo: “Se eu morrer enquanto estiver passando dificuldades pelo bem do Dharma,
então que o seja.”
Você deve ignorar esta vida; mas não há estórias de praticante do Dharma
morrendo de fome depois de deixar de ganhar seu sustento. Nosso bondoso Mestre
dedicou os méritos [equivalentes a] 60.000 [renascimentos como] imperadores
universais para que os seus seguidores não morressem de fome, mesmo em tempos de
fome tão grande que pérolas seriam trocadas por farinha. Como dizem:

Se o grande meditador
Não rolar morro abaixo
O macarrão rolará morro acima até ele.

Geshe Gaen Gung-gyaed também disse:

Quando eu era um leigo, usava uma espada afiada, flecha e lança no meu
cinto, mas tinha muitos inimigos e poucos amigos, Quando eu era solteiro
tinha campos que podiam render meia tonelada de trigo, portanto as

234
pessoas me apelidaram de “Bandido de Meia-tonelada”56 Eu costumava
assaltar as pessoas de dia e roubar as vilas Á noite; mas mesmo assim,
roupa e comida eram escassos. Agora que pratico o Dharma, não me falta
nem comida nem roupa, e meus inimigos me deixam em paz.

Como ele disse:

Se um anseio se transformasse
Num cadáver humano,
As coisas que você deseja
Afluiriam como abutres.

As boas obras de pessoas como Je Tsongkapa são vastas como o espaço; e isto é
porque ignoraram esta vida e praticaram o Dharma corretamente. Segundo uma estória,
um Sakyapa [que não percebeu isto, mas ao contrário pensou] que Je Rinpoche tinha
alcançado o poder de acumular riquezas, [chegou até mesmo] a perguntá-lo: “Qual é o
poder mais profundo para acumular riquezas?”
Quando morrer e seu cadáver for desfeito, será que você vai precisar até mesmo
a menor posse material? Na hora da morte, aceite-a completamente e diga a si mesmo:
“Vou morrer não importa o que eu faça, portanto, deixe que eu morra.”

Kyabje Pabongka Rinpoche continuou em mais detalhes, falando da necessidade de


termos as dez posses que os Kadampas guardam com o maior cuidado. 57 Falou
também da contemplação total descrita por Milarepa; e que não teremos ninguém
enlutado e nosso esquife nenhum seguidor.

Pense como as pessoas terão de pagar para se livrarem do seu cadáver; ficarão
nauseadas e farão qualquer coisa para se livrarem dele. Não tenha dúvida de que seu
corpo será retirado do seu leito de morte.
Assim, decida-se a ignorar as oito preocupações mundanas, e terá conforto,
felicidade e fama desta vida como se as tivesse cortejado. Portanto, quem anseia pelas
oito preocupações mundanas, é uma pessoa mundana; quem ignora esta vida é um
praticante do Dharma. Geshe Potowa perguntou a Dromtoempa, “Qual é a estreita linha
divisória entre o Dharma e o não-Dharma?”
Drom respondeu-lhe: “Se for um antídoto para enganos e ilusões, é Dharma;
caso contrário, não é Dharma. Se não tiver a concordância de todas as pessoas
mundanas, é Dharma; se todos concordarem, não é Dharma.”
56
Esta é a minha tradução para quarenta khal. O khal é uma medida de peso tibetana equivalente a 25 a 30 quilos,
portanto, quarenta khal é suficientemente próximo a meia-tonelada, por isso o apelido.
57
Estas são mencionadas de passagem. A relação completa é: 1) ignorar esta vida e se dedicar inteiramente ao Dharma; 2)
estar preparado para ficar pobre; 3) estar preparado para morrer pobre; 4) estar preparado para morrer sozinho sem
ninguém para cuidar de seu corpo; 5) estar determinado a praticar o Dharma independente de reputação; 6) estar
determinado a manter todos os votos puros; 7) estar determinado a evitar o desânimo; 8) estar preparado para ser proscrito;
9) aceitar o status mais baixo; 10) atingir a suprema Budeidade como resultado natural da prática.

235
O fato é que Dharma e coisas mundanas são opostos: quem tem tempo para
fazer recitações e cuidar da casa? Nossos corpos são pálidos reflexos dos corpos de
praticantes do Dharma e nossas mentes não são diferentes das dos mundanos; fazemos
das oito preocupações mundanas a nossa prática básica.
Tendo virado as costas para esta vida, a técnica principal para praticar o
Dharma de forma pura é meditar na morte e impermanência. Se você não ignorar esta
vida, qualquer Dharma que pratique vai involuntariamente fazê-lo escorregar de volta
para esta vida. Não deixe que sua cabeça vire por causa das oito preocupações
mundanas. Ignore sua ânsia por comida, roupas, e reputação. O critério disto é querer
ser como o Sétimo Dalai Lama, Kelzang Gyatso, ou o Panchen Lama Lozang Yeshe. O
Sétimo Dalai Lama disse que só possuía seus vajra, sino e três mantos – nada mais.
Contam que até mesmo um oferecimento de cem lingotes de prata não agradou ao
Panchen Lama Lozang Yeshe.
Pode ser que você não anseie necessariamente todos os três: comida, roupa ou
reputação. Alguns de nós podemos estar presos a apenas um deles; outros por dois;
outros de fato pelos três. Mas, dos três, o mais difícil de se abandonar é a reputação.
Muitas pessoas, não importa quem – eruditos, monges, mestres, meditadores –
querem boa reputação ou fama. Drogoen Rinpoche, Gyer Drowai Goenpo, disse:

Nesta vida, você pode ser


Um erudita, um monge ou um grande meditador;
Mas quer ser chamado de
“Erudito” ou “monge”.
Você pode colocar na sua porta um aviso
Informando que está fazendo um retiro,
Você pode ser um grande meditador
Que evita as outras pessoas,
Mas, grande meditador desta vida,
Você quer que falem bem de você...
São feitos só para serem vistos pelos outros...

Algumas pessoas se julgam grandes meditadores ou adeptos; abandonam roupa


e comida, e trabalham com austeridades como a de tomar a essência de flores ou seixos.

A prática de tomar a essência ou chue laen é uma forma tântrica de jejum


usada pelos iogues para permanecerem em retiro por longos períodos de
tempo sem precisarem de comida ordinária. A prática comum é comer por
dia uma ou mais pílulas feitas com pétalas de flores, minerais ou até
mesmo relíquias abençoadas, etc. Assim, o iogue bem sucedido pode se
sustentar por vários anos e de fato se tornar física e mentalmente mais
saudável.

236
Mas, são raras as pessoas que no íntimo não têm absolutamente nenhum desejo
de reputação. Geshe Potowa disse em sua Analogias: “A raposa e o macaco [espreitam
próximos à] porta do galináceo...” Em outras palavras, em vez de examinar o inferno
que se aloja em sua própria porta, você explora lugares longínquos; isto é, explora os
caminhos mais elevados, os níveis de Buda, tantra, e assim por diante, e não nota seu
anseio pelas banalidades desta vida. Você não está livre destas prisões. Esta é uma das
desvantagens de não se lembrar da morte.

o AS DESVANTAGENS DE NÃO PRATICAR SERIAMENTE

Se não se lembrar da morte, não vai praticar o Dharma com seriedade, nem
conseguirá praticá-lo continuamente. Atualmente, não temos muita perseverança em
nossas práticas virtuosas; só praticamos até ficarmos entediados. A razão disso é que
não nos recordamos da morte e a impermanência. Geshe Karag Gomchung, por se
recordar da impermanência, nunca chegou a cortar o arbusto de espinhos em sua porta
de entrada. Milarepa costumava se vestir com pedaços de tecido e sacos de farinha de
cevada, e quando eventualmente caíam aos pedaços, nem mesmo se dava o trabalho de
costurá-los mas, em vez disto, praticava a virtude. Se tivéssemos uma recordação
semelhante da impermanência, não nos esforçaríamos em outras atividades;
trabalharíamos arduamente nas práticas virtuosas e não ficaríamos desanimados cada
vez que começássemos: ficaríamos tão somente muito satisfeitos em fazê-las.

o AS DESVANTAGENS DE AGIR VULGARMENTE

Quando não lembra a morte, seu anseio pelas coisas desta vida aumenta e, para
conseguí-las, você ajuda algumas pessoas, prejudica outras, e assim por diante; você
desenvolve apego, hostilidade, ou profunda ignorância, e briga e discute com as
pessoas. Você vira alvo da conversa vulgar dos outros, e eventualmente seu próprio
comportamento vulgar o leva até mesmo a ferir-se na cabeça: todas as coisas levando à
sua degeneração.

o AS DESVANTAGENS DE TER QUE MORRER COM


ARREPENDIMENTOS

Se não lembrar da morte, sua prática do Dharma será apenas um pálido reflexo
que será diluído pelo seu anseio pelas coisas desta vida. Então, um dia, de repente se
confrontará com um inimigo chamado “morrendo sem ter praticado o Dharma.” Você
verá que suas posses, aquilo que tanto desejou no passado, não traz nenhum benefício,
e saberá que não obteve nenhum Dharma divino, algo que certamente lhe teria ajudado.
Desenvolverá um remorso insuportável, mas tudo estará terminado – menos o seu
sofrimento. Cair de febre é conhecido como “a hora de fazer suas preces.” De forma

237
semelhante, ao saber que vai morrer, você murmurará palavras de arrependimento.
Geshe Kamaba disse que devemos temer a morte agora. Queremos morrer com
dignidade, mas ocorrerá o oposto: não temos medo agora, mas na hora da morte
estaremos batendo no peito. Em outras palavras, devemos temer a morte e a
impermanência desde o início, assim não precisaremos ter medo quando morrermos.
Mas agimos de forma contrária. Nunca pensamos, “Eu poderia morrer agora”, e por
isso continuamos complacentes. Que morte horrível teremos!
Pode-se ser rico e ter cem peças de ouro, ou ser um rei que reina sobre
todos os paises, mas tudo isto é oco e não traz nenhum beneficio na hora da morte.
Podemos ser repentinamente tomados por alguma doença virulenta e fatal, mas
ainda não conseguimos uma única coisa em que podemos confiar na hora da morte. Se
não morrêssemos logo, poderíamos sentir, “Agora vou definitivamente praticar o
Dharma”- mas nossa vida estaria chegando ao fim. Isto ajudaria tanto quanto segurar
um pouco de comida na mão, mas não decidir comê-la até aparecer um cachorro e
carregá-la com ele.
São estas as seis desvantagens.

 AS VANTAGENS DE LEMBRAR A MORTE

Existem seis vantagens.

o A VANTAGEM DE SER EXTREMAMENTE BENÉFICO

Lembrar-se da morte é extremamente benéfico. Como Buda, nosso Mestre,


disse no Grande Sutra do Nirvana de Buda: entre as trilhas de animais, a do elefante é
a melhor; entre todas as atitudes, a da morte e impermanência é a melhor. Em outras
palavras, você praticará o Dharma sem erro quando se lembrar da morte. Se quiser
conseguir um bom renascimento, pratique a generosidade, mantenha a ética, e coisas
assim. Em suma, lembrar-se da morte o levará por todo o Lam-rim, através dos três
níveis de capacidade, direto até a unificação.
Quando o benfeitor de Yungtenpa morreu, isto inspirou Milarepa [discípulo de
Yungtenpa] a praticar o Dharma. Muitos dos grandes adeptos costumavam segurar
taças-de-crânios, trompetes feitos de fêmur humano, e coisas assim, para melhorar suas
consciências da morte e impermanência. Pelas mesmas razões, o vinaya fala de guardar
desenhos de esqueletos nas casas de banho. Geshe Chaen Ngawa disse:

Se você não fizer pelo menos uma sessão de meditação sobre a


impermanência pela manhã penso que vai dedicar o seu dia inteiro
a esta vida.

Zhangtsen Yerpa disse que se você não se lembrar da impermanência pela


manhã, vai dedicar sua manhã a esta vida e se não desenvolver esta recordação ao

238
meio-dia, vai dedicar a tarde a esta vida. Se dedicar-se a esta vida, o que quer que faça
não será Dharma.

o A VANTAGEM DE SER EXTREMAMENTE PODEROSO

Se você se recordar da morte e impermanência, destruirá as coisas não-


Dharmicas como apego, raiva, e coisas assim. Você terá grande poder atrás de si para
completar as acumulações, e ao mesmo tempo conseguirá destruir suas ilusões e ações
nocivas.

É IMPORTANTE NO INÍCIO
Recordar-se da morte no início age como causa para embarcar no Dharma.

É IMPORTANTE NO MEIO
No meio, age como condição para estimulá-lo a trabalhar arduamente no
Dharma.

É IMPORTANTE NO FINAL
No final, levará sua prática do Dharma até o fim do estágio de
consumação.

o A VANTAGEM DE MORRER FELIZ E SATISFEITO

Na hora da morte, você terá a confiança que vem por ter praticado o Dharma
infalível, e será como um filho que retorna à casa do pai. Lama Longdoel Rinpoche
disse:

Não tenho medo de ser impermanente. Pela manhã serei


um velho monge e terei o corpo de um deus naquela
noite.

Portanto, os praticantes do Dharma no início estão felizes em morrer; no


entremeio morrem com dignidade; e no final não têm remorsos. Sentirão, “Pratiquei
bem o Dharma; será fácil morrer agora,”e sem nenhum arrependimento. Como Je
Milarepa disse:

Fugi para as montanhas


Porque temia a morte;
Realizei a vacuidade,
A forma primordial da existência da mente.
Mesmo se eu morresse agora,
Não teria nenhum lamento.

239
 COMO SE LEMBRAR DA MORTE

Isto tem duas seções: (1) a meditação de nove partes sobre a morte; (2)
meditação nos aspectos da morte.
Nem mesmo os antigos Kadampas tinham isto detalhado: consiste de instruções
tiradas da obra de Tsongkapa. Estas obras têm muitas instruções profundas, detalhadas
e únicas. Elas contêm os pensamentos dos tratados clássicos indianos sobre o tantra,
têm pontos especiais tirados da [própria] experiência [de Tsonghapa], seus títulos não
estão em desordem, e assim por diante.

o A MEDITAÇÃO DE NOVE PARTES SOBRE A MORTE

Isto tem três raízes: (1) pensar na inevitabilidade da morte; (2) pensar na
incerteza da hora de sua morte; (3) pensar em como ao morrer nada pode ajudá-lo
exceto o Dharma. Para cada raiz, são dados três motivos, totalizando as nove partes.

A PRIMEIRA RAIZ: PENSAR NA INEVITABILIDADE DA MORTE

O primeiro dos três motivos é:

PRIMEIRO MOTIVO: O SENHOR DA MORTE INEVITAVELMENTE


VIRÁ E ABSOLUTAMENTE NADA PODERÁ IMPEDIR ISTO

Você inevitavelmente vai morrer. Não importa que tipo de corpo tenha, não
importa aonde vá, não importa que métodos usa, você não pode parar o Senhor da
Morte. Nem mesmo um corpo sólido o impedirá. Os Dizeres de Buda sobre a
Impermanência nos diz:

Se todos --até mesmo os Budas,


Pratyekabuddhas e Sravakas discípulos
Dos Budas-- deixam seus corpos,
É preciso falar de seres comuns?

Em outras palavras, quando contamos estórias sobre o Bhagavan Buda que


alcançou um corpo vajra, e sobre muitos adeptos da Índia e Tibet que atingiram a
unificação, pode parecer que eles ainda estão entre nós, mas, no entanto eles entraram
em nirvana. Se, para as aparências comuns, nosso Mestre Buda e os outros morreram, e
seus corpos vajra foram destruídos, porque pessoas como nós não morreríamos?
Quando nosso Mestre estava para entrar em nirvana, muitas dezenas de
milhares de seguidores, Shariputra e outros, entraram em nirvana antes dele. Então
Buda, nosso Mestre, enquanto estava em Kushinagari, mandou que seu último leito do
sono fosse construído entre duas árvores shala. Depois, subjugou seus dois últimos

240
discípulos: Pramudita, o rei dos músicos celestiais, e Subhadra, o sacerdote brâmane
que não era budista. Eles não conseguiam suportar ver o Buda entrar em nirvana, e
Subhadra imediatamente faleceu. Quando nosso Mestre estava para entrar em nirvana,
ele tirou suas vestes superiores e insistiu para que as pessoas olhassem bem, pois é
difícil conseguir ver o corpo de um Tathagata. Seus últimos ensinamentos foram
concentrados na impermanência. Então, para mostrar que esta meditação era
fundamental, ele disse:

“Todos os fenômenos condicionados são impermanentes”.


Este foi o último ensinamento do Tathagata.

Buda então entrou em nirvana. Quando a maioria dos Arhats, que haviam
alcançado a liberdade [kármica] parcial ou completa, compreenderam o que havia
acontecido, eles também faleceram e entraram em nirvana; eles eram cerca de
quinhentos.
Além disso, os panditas indianos tais como os sete hierarcas dos ensinamentos,
os oitenta grandes adeptos, os seis ornamentos, os dois seres supremos, e assim por
diante; e no Tibet, Shantarakshita, Acharya Padmasambhava, o Dharmaraja Trisong
Detsaen, Atisha e seus discípulos, Tsongkapa e seus discípulos, e assim por diante,
todos entraram em nirvana, agora só restam suas reputações. Como poderíamos nós
escaparmos da morte?
Quando o Lama Tsechogling Rinpoche, um tutor do Dalai Lama, dava
ensinamentos de Lam-rim, dizem que na audiência havia muitos milhares de pessoas;
agora nenhum destes lamas ou discípulos estão vivos. Chuzang Lama Rinpoche dava
ensinamentos muito semelhantes a este que estamos dando, neste mesmo local; agora
só resta a sua reputação. Dentro de uns meros cem anos, tudo o que vai restar de todos
nós será o relato de que algo aconteceu aqui. Se depois de apenas cem anos todas as
pessoas que estão agora no Continente Sul --China, Tibet, Mongólia e assim por diante-
- até mesmo os bebês que nasceram hoje, certamente estarão mortos, nenhum
permanecerá vivo, então nenhum destino melhor nos espera.
De forma igual, se seu tempo chegou, não há local que não signifique a morte
para você. Os Dizeres de Buda sobre a Impermanência afirma:

Onde quer que você esteja, não haverá lugar


Que não signifique a sua morte:
Nem no céu, nem no mar,
Nem mesmo na montanha.

Certa vez o Príncipe Virudhaka, o filho do Rei Prasenajit, tinha a intenção de


massacrar os Sakyas. Maudgalyana pensou em usar seus poderes miraculosos para
enviar Virudhaka e seu exército para o esquecimento. Mas Buda disse que era
impossível impedi-los. Alguns homens e mulheres Sakya foram escondidos dentro da

241
tigela de esmolas do Tathagata; alguns foram colocados dentro do palácio no sol. Os
Sakyas foram mortos, e o dia de seu massacre há muito ficou para trás.
Fugir, subornar, usar a força, etc., tudo será bastante inútil se você for morrer.
Em Os Dizeres do Buda está dito:

Qualquer um com os cinco poderes clarividentes


De grande rshis, capaz de ir longe no céu,
Não pode ir a um lugar que
Não esteja sob a jurisdição da morte.

Em outras palavras, se a fuga pudesse libertá-lo da morte, então os poderes


milagrosos ou os cinco poderes clarividentes dos rshis seria suficiente para fugir do
Senhor da Morte, mas até mesmo tais pessoas não podem escapar e vão morrer.
Nem mesmo a força pode impedir o Senhor da Morte. O leão é tão poderoso
que pode derrotar elefantes ferindo-lhes as cabeças com suas garras, mas a morte vem,
os leões morrem com suas patas inertes. Mesmo um poderoso imperador universal
morre, todo o seu poder não pode ajudar. Nós gostamos de riquezas e posses, e
julgamos que tais coisas são suficientes para subornar o Senhor da Morte; mas está dito
que ele não pode ser subornado nem com a jóia que realiza desejos, como podem
pessoas suborná-lo? No Sutra das Instruções ao Rei, encontramos:

Suponha que existam quatro grandes montanhas nas quatro direções


cardinais; elas são firmes, estáveis, possuem essência, são indestrutíveis, sem
rachaduras, implacáveis, e extremamente duras; as quatro estão se movendo
juntas para o mesmo ponto; elas tocam o céu e furam o chão. As montanhas
vão chegar e moer tudo em pó: capins, árvores, varas, galhos e folhas, todos
os seres sencientes, insetos, e elementos. Elas não podem ser paradas por
fuga, por força, por riqueza, por substâncias, mantras ou remédios.
Grande rei, de maneira similar, os quatro grandes terrores estão
chegando; e não podem ser impedidos por fuga, por força, por riqueza, por
substâncias, mantras ou remédios. Quais são estes quatro terrores? Velhice,
doença, decadência e morte. Grande rei, a velhice virá e destruirá sua
maturidade. A doença virá e destruirá sua saúde. A decadência virá e
destruirá todo o seu esplendor. A morte virá e destruirá sua força-vital. Estes
quatro não podem ser pacificados por fuga, por força, por riqueza, ou
substâncias, mantras ou remédios.

Em outras palavras, se as grandes quatro montanhas, firmes e rápidas, vindo das


quatro direções cardinais se colidissem, iriam pulverizar o capim, as árvores, e assim
por diante; seria difícil pará-las, não importa o quanto tentássemos. As quatro
montanhas da velhice, doença, decadência e morte são igualmente difíceis de impedir.

242
SEGUNDO MOTIVO: PENSANDO EM COMO NADA ESTÁ SENDO
ACRESCENTADO AO SEU TEMPO DE VIDA, QUE ESTÁ SEMPRE
DIMINUINDO

Você definitivamente morrerá. Nada que seja precipitado por karma passado
pode receber outros acréscimos [e isto se aplica ao seu tempo de vida]. A cada
momento você se aproxima cada vez mais do Senhor da Morte. [Shantideva] afirma em
Engajando nos Feitos dos Bodhisattvas:

Porque então não devo morrer,


Se todo dia, sem falta,
Esta vida está sempre se encurtando
E nenhum acréscimo virá de lugar algum?

E, de Os Dizeres de Buda:

Suponha que alguém esticasse um cordão


E uma criança o seguisse pouco a pouco;
Eventualmente a criança chegaria ao fim do cordão.
Assim também é a vida das pessoas.

O Sétimo Dalai Lama, Kelzang Gyatso disse:

Depois do nascimento, não há a liberdade


De descansar por um momento de sua corrida
Em direção a Yama, o Senhor da Morte.
O que chamamos de “viver” nada mais é
Do que uma viagem na auto-estrada da morte.
Infeliz é a mente
Do criminoso sendo levado
Ao seu local de execução.

Em outras palavras, uma vez que tenha nascido, corre-se até a morte mais
rápido do que um cavalo-de-corrida, e não há descanso nem pelo tempo que leva
algumas poucas respirações. É possível que os cavaleiros de uma corrida de cavalo
possam conseguir um pouco de descanso, mas as pessoas destinadas a morrer não
conseguem nem um momento de descanso em suas corridas: cada momento os
aproxima de suas mortes. Em Os Dizeres de Buda está dito:

Aqueles que serão massacrados


Se aproximam de seus executores
A cada passo que dão.

243
É assim também com a vida das pessoas.

Assim como um carneiro sendo levado ao matadouro se aproxima da morte a


cada passo que dá uma vez que tenhamos nascido, nunca nos desviamos da direção de
nossa morte. Já gastamos um tempo de nossa vida, não nos resta muito mais. Além
disso, gastamos nossas respirações, horas, dias, meses e anos; aproxima-se o dia em
que morreremos. A hora de partirmos chega de repente. Portanto, não devemos ser
complacentes e pensar, “Eu não vou morrer.” Quando dormimos, podemos estar
relaxados e felizes, no entanto ainda estamos correndo diretamente rumo ao Senhor da
Morte.

TERCEIRO MOTIVO: PENSANDO EM COMO VOCÊ DEFINITIVAMENTE


VAI MORRER ANTES QUE CHEGUE A PRATICAR O DHARMA

A vida é muito curta e você provavelmente encontrará a morte antes que


comece a praticar o Dharma. Suponha que você viva sessenta anos. Você dorme a noite
inteira, então gasta nisto metade de sua vida. Os outros trinta anos são interrompidos
com o tempo que gasta comendo e coisas assim. Isto nos deixa com apenas uns cinco
anos para dedicarmos à pratica do Dharma, mesmo se você passou todo o tempo em
retiro, fazendo quatro sessões [de meditação] por dia. No Ano Novo dizemos, “Vamos
dar uma festa!” e comemoramos. Todo mês tem seu nome devido a alguma festividade,
como o Grande Festival de Orações; o ano passa rapidamente num emaranhado de
distrações. Gungtang Rinpoche disse:

Talvez vinte anos lembrando que deve praticar.


Talvez vinte anos estando sempre prestes a praticar.
Talvez uns outros dez anos dizendo, “Eu nunca fiz uma prática”
É esta a estória de uma vida humana vazia e desperdiçada.

Em outras palavras, no começo como criança você não se lembrava do Dharma.


Mais tarde, pode ter desejado praticar o Dharma e sentia: “Eu devo praticar. Eu devo
praticar”, no entanto não praticou, e não conseguiu realizar o Dharma. Depois, quando
já estava velho, não faz nada, mas diz: “Tudo o que posso fazer agora é recitar preces
para meu próximo renascimento”.
Algumas pessoas estão agora absorvidas nesta vida e sentem, “Eu deveria
praticar”; muitas outras já alcançaram a hora em que lamentam não ter praticado o
Dharma. Quando vemos essas pessoas, devemos ver o estrago causado por suas ações;
devemos ter a coragem de não dar nenhuma importância às ações sem sentido que nos
deixam, todos os dias, sem tempo para praticar o Dharma. Devemos praticar o máximo
possível de Dharma antes que Yama, o Senhor da Morte, nos fulmine. Purchog
Ngagwang Jampa disse:

244
Suponha que haja um grande monte de cevada no meio de uma planície.
As mulheres da localidade percebem que há uma enchente chegando, que
vai carregar a cevada. Mesmo assim, não fazem nada. A enchente vai
varrer a pilha embora antes que elas consigam pegar um único grão. Se,
em vez disso, trabalharem duro o tempo todo, sem se distraírem e pegarem
o máximo que puderem, talvez acabem conseguindo pegar um quarto ou
até mesmo metade da cevada. Se tiverem sorte, podem até pegar a cevada
toda e assim suprir suas necessidades. De forma similar, devemos praticar
o máximo possível o caminho das três capacidades antes que a morte
venha.

Pense nestes três motivos e vai sentir, “Definitivamente, vou morrer”; então
você vai decidir praticar o Dharma.

A SEGUNDA RAIZ: PENSANDO NA INCERTEZA DE QUANDO VAI


MORRER

Existem três motivos para isto.

PRIMEIRO MOTIVO: O TEMPO DE VIDA DAS PESSOAS DO


CONTINENTE SUL NÃO É FIXO, ESPECIALMENTE COM RELAÇÂO ÀS
VIDAS NESTES TEMPOS DEGENERADOS.

Se pudesse ter certeza de quando vai morrer, primeiro você faria todos os seus
trabalhos mundanos --subjugar seus inimigos, proteger os entes queridos, e assim por
diante. Depois, enquanto estiver vivendo na felicidade, você poderia praticar o Dharma.
Mas, não pode ter tanta certeza, portanto, é vital pensar na incerteza da hora da morte.
O Tesouro da Metafísica afirma:

Os habitantes de Kuru vivem mil anos;


Em dois [dos outros continentes,
As vidas], diminuem pela
Metade e novamente pela metade.

Ou seja, na maioria dos outros continentes, a duração das vidas dos habitantes é
fixa.

Aqui [a duração da vida] não é fixa:


No princípio, ela é imensurável,
E acaba sendo de dez anos.

Dizem que no início, os habitantes do Continente Sul tinham vidas tão longas

245
que não podiam ser medidas por anos; eventualmente suas vidas só duram dez anos.
Assim, o tempo de vida dos habitantes do Continente Sul, em geral não é fixo e isto é
especialmente verdadeiro nos tempos degenerados.
Geralmente não pensamos, “Eu nunca vou morrer,” mas, até que estejamos
morrendo, sempre pensamos “Vou morrer, mas não este ano”. Pode haver motivo para
se pensar assim. Alguns podem pensar “Eu não vou morrer ainda, porque sou jovem”.
Mas não adianta nada ser jovem. A ordem que a morte abate não segue a idade:
crianças freqüentemente morrem jovens e seus pais têm de enterrá-las. Além disso,
muitas pessoas mais jovens do que você já morreram. Alguns morrem assim que
nascem.
Outros pensam: "Eu não vou morrer, porque não estou doente”. Até isso não é
definitivo. Pacientes podem ser confinados às suas camas e mesmo assim não
morrerem, enquanto muitas pessoas saudáveis morrem de morte súbita. Alguns morrem
no meio de uma refeição, sem nunca ter tido a menor premonição de que iriam morrer
antes de acabar de comer. Alguns presentes em grandes cerimônias [num mosteiro]
foram ao templo com seus próprios pés, só para serem carregados de lá como cadáveres
numa maca. Muitas autoridades do governo preparam programas políticos grandiosos,
mas nunca chegam a executá-los, porque morrem antes de concluírem seus trabalhos.
Nas coletâneas de obras de muitos santos, aparece a anotação “inacabada”; eles só
conseguiram compor o título e alguns fragmentos de versos, e morreram antes de
terminar.
Dentre os parentes e amigos que nos rodeiam, podemos dizer que fulano
morreu, mas não pensamos “Isto também vai acontecer comigo”. Tratamos isto como
um simples objeto de curiosidade. Podemos até ouvir as pessoas dizendo, “Ele tem um
bom manto de açafrão. Espero que seja eu a ganhá-lo”.
A morte definitivamente o abaterá no futuro, mas é incerto quando isso vai
acontecer. Como dizem:

Não há como dizer o que virá primeiro


O amanhã ou o seu próximo renascimento.
Não coloque esforço nos planos de amanhã;
É correto trabalhar com afinco para sua próxima vida.

De Os Dizeres de Buda:

Algumas das muitas pessoas


Que você vê pela manhã,
Não serão vistas à noite,
Algumas das muitas pessoas
Que você vê à noite,
Não serão vistas pela manhã...

246
Como pode estar tão seguro de que não vai morrer amanhã?
Não nos preparamos para a morte que sabemos que vamos experimentar e cuja
hora de chegada é incerta. Não é certo que viveremos até uma idade avançada. Lembre-
se de que definitivamente é um erro fazer muitos preparativos para uma velhice
agradável.
Se não suporta pensar na chegada da morte hoje, amanhã, ou no dia seguinte,
deve pelo menos pensar como a morte pode abater qualquer um desde agora até o ano
que vem. Você não pode estar seguro quais das pessoas sentadas aqui vão morrer
primeiro --alguém na primeira fila, ou no meio, ou no fundo.
Não haverá um recado alertando-o: “Prepare-se para morrer agora”, de repente
a morte o abaterá um dia e você terá de deixar o que quer que esteja fazendo. Até
simples monges têm que parar de beber o chá com manteiga, comer farinha de cevada
ou massa e partirem para suas próximas vidas; isto mostra como a hora da morte é
incerta.
Agarrar-se à permanência é enganoso e faz você pensar que ainda tem muitos
anos de vida, mas chegará o dia em que vai morrer. Pessoas que vão morrer hoje de
doença ainda estão pensando, “Eu não vou morrer hoje”. Quando alguns alcançam um
ano astrologicamente desfavorável, podem pensar na morte e indagar: “Será que
morrerei este ano?” Mas mesmo se não houver um ano assim, não há um ano, desde o
seu primeiro até o centésimo, em que possa afirmar: “Não morrerei este ano”. Suponha
que tenha vinte e oito anos. Você deve pensar, “Eu posso morrer este ano. Fulano e
beltrano morreram com esta idade”.
Podemos dizer, “Juro que não morrerei este ano”, mas não podemos cumprir tal
juramento.
Não somos analíticos e podemos nos deixar levar quando vivemos em grandes
cidades ou comunidades. A morte e a impermanência são temas práticos para a
meditação porque não são difíceis de serem compreendidos como a ausência de ego.
São coisas que podemos ver por nós mesmos, são tangíveis.
Meu próprio precioso guru, meu refúgio e protetor, disse:

Se você não morrer dentro de um mês ou dois, eu rezo para que possa
conseguir algum benefício para seus próximos renascimentos; e, se
você não morrer em um ano ou dois, para que possa conseguir suas
esperanças eternas para todos os seus renascimentos!

Você deve repensar esta seção da maneira que eu ensinei, com as citações e
tudo o mais.

247
SEGUNDO MOTIVO: É INCERTO QUANDO IRÁ MORRER PORQUE HÁ
MUITOS FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A SUA MORTE E
POUCOS QUE CONTRIBUEM PARA A SUA VIDA

Só somos protegidos por nossas orações do passado, nossos méritos, e a


compaixão dos Budas. Há muitos fatores que contribuem para a nossa morte. Como
moscas zunindo ao redor de carne podre, oitenta mil tipos de espíritos nocivos
diferentes nos rodeiam enquanto estamos vivos, e serão fatores que contribuem para a
nossa morte. Eles indagam, “Quando poderemos comer você? Quando poderemos tirar-
lhe o seu sopro?” Os quatrocentos e quatro tipos de doença fervilham ao nosso redor
como uma névoa. Os trezentos e sessenta tipos de espíritos nocivos, os quinze grandes
espíritos nocivos que atacam crianças, os trezentos e sessenta espíritos devoradores, e
assim por diante, estão ávidos por nossas vidas.
Não há só estes fatores contributórios externos. Se colocarmos quatro cobras
num recipiente, a mais forte comerá as outras. Se os humores, como vento, bile e
fleuma, ou os quatro elementos, ficarem um pouco fora do equilíbrio, isto pode ser um
fator contributório para a perda da vida.

Muitos fatores contribuem para a sua morte


Muitos poucos contribuem para a sua vida--
E, até mesmo estes, podem contribuir para sua morte.
Portanto, pratique sempre o Dharma.

Não só existem muitos fatores internos e externos que contribuem para a morte,
mas muitos dos fatores que contribuem para a vida podem também contribuir para a
morte. Casas podem ruir, barcos podem rachar ou virar, cavalos podem pinotear e
pisoteá-lo, seus amigos podem enganá-lo, a comida pode não lhe fazer bem, e assim
por diante. Muitas coisas podem agir como fatores que contribuem para a morte.
Nossa força-vital é como o gás incandescente na chama de uma lamparina;
como Nagarjuna diz:

O Senhor da Morte reside dentro de circunstâncias,


Como o gás incandescente na chama de uma lamparina.

TERCEIRO MOTIVO: É INCERTO QUANDO IRÁ MORRER PORQUE O


CORPO É BASTANTE INSIGNIFICANTE.

Se nossos corpos fossem firmes e duráveis, não poderiam ser prejudicados,


apesar de muitas coisas contribuírem para a morte. Mas nossos corpos são como bolhas
na água: para morrermos, não precisamos dos principais fatores contributórios,
podemos morrer simplesmente do ferimento de um espinho. De qualquer maneira,
mesmo se nossos corpos fossem firmes e duráveis, isto não ajudaria; como Nagarjuna

248
diz em suas Cartas:
Sete sóis queimarão a terra, o Monte Meru, os oceanos,
E todos os seres sansáricos irão
Virar cinzas --nada permanecerá.
O que não dizer de pessoas extremamente insignificantes e coisas assim!
Muita coisa pode prejudicar o seu tempo de vida
Ele é mais impermanente do que bolhas na água soprada pelo vento.
Como é surpreendente que ainda acordamos respirando
Depois de termos dormido!

Em outras palavras, quando vai dormir, sua respiração grosseira é suprimida e o


elemento vento-sutil pode se movimentar livremente em suas narinas; é surpreendente
que você não morra ao retomar sua respiração do elemento vento-grosseiro.
Pense nisso; a hora de sua morte é incerta. Você deve então sentir que precisa
praticar o Dharma agora. Isto é como ter certeza de que um inimigo vai matá-lo, mas
não sabe quando --a partir desse dia você vai tentar impedi-lo. Se quiser praticar o
Dharma, mas em vez disto tem um trabalho que vai durar este ano ou o próximo e
pensar, “Vou praticar o Dharma depois de terminar o trabalho”, você está se
enganando. Gungtang Rinpoche disse:

“Parece que este trabalho só vai durar um mês, ou ano;


Quando eu tiver terminado, vou praticar o Dharma puro.”
Este pensamento é o espírito nocivo e destrutivo
Que a todos engana.
Sentimos, “Vou praticar o Dharma depois de terminar este ou aquele projeto”.
[Mas:]

Trabalho inacabado é como o bigode de um velho:


Quanto mais apara, mais cresce.

Em outras palavras, você nunca chega a fazer a sua prática quando um projeto
termina; em vez disto, surge um outro projeto e então você adia a prática até que aquele
projeto acabe. Depois haverá um outro e você pensará, “Vou atrasar minha prática até
que isto seja feito”. O trabalho mundano é como um rio; ele nunca pára. Como
Gungtang Rinpoche disse:

O grande risco é que antes de chegar amanhã


Quando você ia praticar.
A hora de sua morte chega hoje.
Então, não deixe sua cabeça virar;
Se for praticar o Dharma,
Faça-o a partir de hoje.

249
Se adia as coisas e diz: “Quando isto acabar vou praticar o Dharma,” ou, “Vou
praticar o Dharma amanhã” o trabalho nunca acabará mas sua hora da morte certamente
chegará.
Pense nos três motivos porque a hora de sua morte é incerta e imediatamente
vai abandonar o trabalho mundano, decidir não desperdiçar nenhum tempo e praticar o
Dharma. Mas não é necessário que os alunos [de um mosteiro] interrompam seus
estudos ou práticas de debates em grupo e partam para alguma caverna numa
montanha. Ao contrário, devem transformar em Dharma tudo o que fizerem. Suponha
que você só recite as palavras dos textos; você pode recitar o verso “Até a iluminação,
eu tomo refúgio no Buda, Dharma, e na assembléia suprema...” milhares de vezes, mas
verifique se pensou corretamente no verso mesmo só uma única vez, e verá que
raramente o fez.
Não importa que esforço coloque nos negócios, na fazenda, e coisas assim, eles
nunca passarão a ser Dharma; mas nós que somos ordenados devemos converter o que
fazemos em Dharma. É uma pena não praticarmos o Dharma rotineiramente; não é
pena alguma se simplesmente não conhecermos os fatos.

A TERCEIRA RAIZ: PENSANDO EM COMO NADA, A NÃO SER O


DHARMA, PODERÁ AJUDÁ-LO QUANDO MORRER

PRIMEIRO MOTIVO: A RIQUEZA NÃO PODERÁ AJUDÁ-LO

Você pode ser como Brahma, Indra ou um imperador universal, mas quando
morrer, você não levará um único servo; não terá a liberdade de levar nem mesmo uma
única posse --estas coisas não ajudam nada nessa hora. Você pode ser o rei mais
poderoso, que reina sobre todos os países, mas quando a morte vier, não poderá levar
nem mesmo um grão de cevada. Não haverá distinção entre você e um mendigo; não
será permitido nem mesmo um bastão de caminhar. “O rei deixará para trás suas
pompas; o mendigo deixará para trás seu bastão.” O Sutra da Árvore Viva afirma:

Pode-se ter comida suficiente para cem anos,


E sentir fome após a morte;
Pode-se ter roupas suficientes para cem anos
E estar nú após a morte.

De Guia do Caminho dos Bodhisattvas:

Devo perder todas as minhas coisas,


No entanto, não compreendo isto
E cometo muitas ações nocivas
Com os que me são caros
E com aqueles que não me são caros...

250
Ao nascer, nascemos sozinho,
Ao morrer, ficamos igualmente só.
O que seus amigos intrometidos poderão fazer
Se eles não tomam para si um outro sofrimento?

De uma grande pedra, certa vez um homem esculpiu um cubo. Uma outra
pessoa perguntou o que ia fazer com aquilo. “Ah, nada”, respondeu, “Eu só vou deixá-
lo para trás”. Assim também você terá de deixar para trás toda sua riqueza e todas as
posses que adquiriu neste renascimento.

SEGUNDO MOTIVO: AMIGOS E PARENTES NÃO PODERÃO AJUDÁ-


LO

Um homem à morte pode estar cercado de servos, discípulos, e seus amigos


mais íntimos, alguns deles segurando seus braços e alguns segurando suas pernas, mas
eles não poderão ajudá-lo. O homem não poderá levar consigo um único deles; ele
viajará sozinho pela perigosa estrada do bardo. Maitrijyoki, um grande adepto, disse:

Sua majestade! Não importa


Quão rico possa ser,
Quando partir e seguir
Para outro renascimento neste mundo,
Será como um homem
Atacado por inimigos num deserto:
Sozinho, sem seus filhos,
Ou suas concubinas...

De Guia do Caminho dos Bodhisattvas:

Quando for pego pelos mensageiros de Yama,


Que ajuda poderão dar seus entes queridos?
Que ajuda poderão dar seus amigos?

O Panchen Lama Lozang Yeshe disse:

Você será para sempre separado


De seus amados e enlutados entes queridos...

Algumas pessoas certamente morrerão no meio do próximo inverno; então


quantos planos para o ano que vem conseguirão executar?
Se fôssemos agora para a Índia, China ou algum outro lugar, trataríamos isto
como algo muito importante. Prepararíamos nossa bagagem, e viajaríamos com

251
cavalos, mulas e servos. Mas quando dermos o grande passo para o nosso próximo
renascimento, estaremos sós, sem amigos, e incapazes de levarmos até mesmo uma
única de nossas posses.

TERCEIRO MOTIVO: ATÉ MESMO SEU CORPO NÃO PODERÁ


AJUDÁ-LO

Quando morrer, nada ajudará se todas as montanhas se transformarem em ouro


e todos os seres se tornarem seus entes queridos. Muito afastado de suas riquezas,
posses e parentes, você terá de deixar para trás seu corpo --aquilo que chama de “meu
corpo”, que nasceu com você do útero, que você protegeu da fome e do frio, que não
feriu nem mesmo com um espinho, que guardou e amou como uma jóia que realiza
desejos. Como disse o Panchem Lama Choekyu Gyaeltsen: “Esse corpo que tanto
estimou e protegeu se provará enganoso quando mais precisar dele...” Em outras
palavras, pense em como você será completamente separado desse corpo que tanto
estimou e protegeu.
Tendo pensado nesses três motivos, de nada ajuda ter medo ou ficar deprimido.
Como disse Gungtang Rinpoche Tempai Doenme:

Dharma é o seu guia ao caminho infalível;


Dharma lhe dá o suprimento para sua longa trilha;
Dharma é o capitão na viagem difícil;
A partir deste momento, pratique o Dharma com suas três portas.58

Je Milarepa disse:

Ange Nyama Paeldarbum!


Ouça, rica senhora, Você que tem fé:
Você tem suprimento suficiente
Para a longa estrada
Das vidas futuras após esta vida?
Se não tiver o bastante,
Pratique a generosidade
--Isso será o seu suprimento...

Ange Nuama Paeldarbum!


Você tem companheiros suficientes
Para encarar os grandes terrores
Nas vidas futuras após esta?
Se não tiver o bastante
Pratique o Dharma divino
58
As três portas são corpo, palavra e mente.

252
--Isto será o seu companheiro.

Em outras palavras, o Dharma é o seu guia, capitão e os suprimentos para sua


longa viagem ao morrer. Se não praticou o Dharma, sua morte não será diferente da
morte de um velho cão perdido em algum beco. Esta é uma maneira muito melhor de
pensar.
As pessoas indo visitar suas terras natais não fazem preparativos para ficar
[onde já estão]; elas colocam todas as suas energias em empacotar sua bagagem e nada
mais. Você também deve decidir praticar só o Dharma, algo que não é maculado pelos
obscurecimentos desta vida.

(B) A MEDITAÇÃO NOS ASPECTOS DA MORTE

Esta é uma instrução de meu precioso guru. Embora esteja centrada


principalmente em como seguir as meditações do “ensinamento prático” [vide Dia
Um], diz-se que é bom contemplar assim.
Você deve se recordar do que foi dito no texto: Refúgio Compassivo ou no texto
Súplicas para ser Libertado da Perigosa Estrada do Bardo do Panchen Lama Lozang
Choekyi Gyaltsaen.
Examine exatamente o que acontecerá quando morrer. Depois, quando a morte
estiver se aproximando, como está dito em As Súplicas para o Bardo [do Panchen
Lama]:

Quando os médicos desistirem de mim,


Quando os rituais já não funcionam,
Quando os amigos perderam a esperança pela minha vida,
Quando qualquer coisa que eu faça for inútil,
Que eu seja abençoado para me lembrar
Das instruções de meu guru.

Em outras palavras, a doença piora apesar de tratamento médico adequado ou


de rituais; o que o médico lhe diz não é o mesmo que está dizendo aos outros; seus
parentes e amigos só lhe dizem coisas boas, mas secretamente se reúnem nas suas
costas e concordam que você vai morrer; você apresenta vários sintomas desagradáveis
internos e externos – seu calor corporal se dissipa, sua respiração é laboriosa, seu nariz
fica entupido, seus lábios se contorcem, sua tez fica pálida, e assim por diante. Você se
arrepende de seus pecados passados, mas não os expiou suficientemente, você não
evitou repeti-los, nem praticou suficientemente a virtude. Sua doença fatal lhe causa
sofrimento, e surgem em você os sinais da dissolução progressiva dos elementos. Você
tem várias alucinações aterrorizantes para evitar que surjam aspectos visuais de sua
vida atual. Seus agregados são enrolados num cobertor, colocados num canto de seu
quarto e escondidos atrás de uma cortina. As pessoas acendem uma lamparina de

253
manteiga barata. Se você for um lama, será vestido com seu traje de iniciação para ficar
com uma aparência melhor.
Atualmente, você pode trabalhar arduamente para ter uma casa boa ou
aquecida, roupas macias e tapetes, mas quando morrer, seu corpo será dobrado em três
partes, embrulhado com uma tira de couro e largado sobre pedras ou terra, e assim por
diante. Agora, você pode apreciar uma comida deliciosa, mas no futuro, terá de viver
do cheiro de oferecimentos queimados aos mortos. Atualmente, podem lhe chamar de
coisas boas como “Geshe”, “Senhor”, ou “Venerável monge”; no futuro chegará o
tempo em que o seu corpo será chamado de “cadáver”, e você será chamado de “o
falecido Fulano-de-Tal”. Sempre que vocês lamas verem seus trajes de iniciação,
devem lembrar que ao morrer, os seus restos mortais serão cobertos por eles. Ao
vermos nossos cobertores, devemos nos lembrar que nossos corpos serão embrulhados
nele. É assim que precisamos agir. Je Milarepa disse: “O aterrorizante nome de
‘cadáver’ será dado ao corpo do iogue”. Isto também se aplica ao seu corpo.
Depois da morte, você vai para o bardo, onde terá um medo inimaginável e
alucinações de tempestades de poeira e de fogo, de ser enterrado sob avalanches ou
montes de terra, de estar cercado por tições rodopiantes, de estar sendo varrido por água
ou vento, e assim por diante.
Alguns lamas alegam conceder à consciência das pessoas mortas uma
apresentação sólida do bardo e fazem o ritual de introdução ao lado da cabeça do
cadáver, mas a hora de dar uma verdadeira introdução ao bardo é agora. É mais
benéfico fazer isto antes de morrer. Podemos estar sempre certos de apreciarmos
comida e bebida, mas isto não acontecerá quando estivermos morrendo e tivermos de
dizer, “Ajude-me a sentar”. Como também é certo que não praticaremos o Dharma
nessa hora, já que não o praticamos agora que estamos vivos e bem. Mesmo assim,
esses rituais [de introdução da consciência do cadáver ao bardo] podem ser
ligeiramente benéficos, porque as bênçãos dos Budas são inconcebíveis.
Uma fonte das meditações nos aspectos da morte é Engajando-se nos Feitos dos
Bodhisattvas:

Vá a um terreno sepulcral e ficará provado que


Os esqueletos de outras pessoas e seu próprio corpo
São coisas perecíveis.
No futuro, você manterá uma cabeça mais equilibrada.

Quando alguém morre, seus ossos são espalhados em um terreno sepulcral.


Considere que esses ossos não são diferentes dos seus próprios ossos e você terá uma
cabeça mais equilibrada no futuro. Os cadáveres no terreno sepulcral originalmente
eram como o seu corpo: seres humanos costumavam estimá-los. Os grandes adeptos da
Índia costumavam segurar fêmur ou crânios humanos; eles não faziam isto porque
queriam aparecer aterrorizadores ou assustadores. Faziam isto para aumentar a atenção
consciente dos aspectos da morte. Até mesmo esta taça de crânio já foi a cabeça de

254
alguém que estimava a cabeça tanto, que se sua unha a arranhasse, ele dizia, “Ai!”
Se você for um monge comum, deixará sua cela vazia ao morrer e outra pessoa
se mudará para lá, dizendo: “Ele morreu tantos dias atrás e eu ganhei o quarto”.
Outra pessoa usará seus mantos de açafrão e dirá, “Eles eram do fulano-de-tal.
Eu os comprei.” E também, chegará definitivamente o tempo em que pessoas que no
momento não podem usar seus móveis, roupas, e assim por diante, vão comprá-los e
usá-los. É por isso que o Sétimo Dalai Lama Kelzang Gyatso disse: “Com o tempo
perderei até mesmo estas posses: estou feliz por ter tido tais jóias por empréstimo”. Em
outras palavras, são coisas que lhe foram emprestadas só por um breve tempo.
Se você não consegue pensar na sua própria morte, vá e testemunhe alguém
morrendo; é impossível não se recordar destas instruções em tal momento.
Não pensamos nisso, mas porque ficamos amedrontados quando vemos uma
corda [e a confundimos com uma cobra]? Este é o tamanho do medo que devemos ter.
Podemos morrer antes de gastarmos um manto cor-de-açafrão, por exemplo. Pense
nisto: nossas vidas são extremamente curtas.
Essas coisas são discutidas em Sutra das Instruções ao Rei. [Gedun Tenzin
Gyatso] em seu Lam-rim Chapéu Vermelho discute como a meditação na
impermanência pode ser um antídoto contra engordar numa época em que você tenha
acesso a roupas magníficas, comidas, e coisas assim. Ao ver suas posses, suas roupas e
coisas assim, sempre pense: “Estas coisas só estão disfarçadas como minhas. Chegará o
tempo em que outras pessoas vão dividi-las entre si, e não duvido que dirão, 'Isto
pertenceu ao morto.' Agora, eu estimo e cuido de meu corpo, mas chegará o tempo em
que se tornará o que chamamos de ‘cadáver’. Se eu o visse então, ficaria aterrorizado;
ficaria nauseado se o tocasse. Ele será amarrado com uma corda e todos os tipos de
coisas serão feitas com ele”. Pense como o resto de sua farinha de cevada será usada
em oferecimentos, como os rituais de introdução ao bardo serão feitos ao lado de sua
cabeça, e assim por diante. Algumas outras pessoas vão manusear seu crânio, dizendo,
“Este é o crânio dele. A qualidade não é tão ruim”. Um tempo assim está chegando, e a
partir de agora você deve fazer aquilo que não se lamentará.
O critério para que tenha desenvolvido realizações da morte e impermanência
em seu contínuo mental é se você quer ou não ser igual ao Geshe Karag Gomchung.

Kyabje Pabongka Rinpoche então reviu este material em mais detalhe.

255
DIA ONZE

Kyabje Pabongka Rinpoche disse que deveríamos ajustar a nossa motivação:

O Sutra do Grande Teatro afirma:

Os três reinos são impermanentes como nuvens de outono.


Os seres morrem e nascem: é como assistir a um teatro.
As vidas dos seres são breves como raios de relâmpagos no céu,
Ou correm como as cachoeiras de altas montanhas.

Em outras palavras, os três reinos – a terra, o Monte Meru e tudo – são como
nuvens de outono. Os seres nascem e morrem; é como assistir a um teatro, porque os
personagens podem mudar a cada momento. Nossas vidas não duram muito: são como
meros raios de relâmpagos. Elas passam por cessações de momento a momento, não
são estagnadas, e passam correndo como cachoeiras de montanhas altas. Portanto, você
deve pensar, “Vou praticar o Dharma imediatamente”. O Lam-rim é o melhor portal ao
caminho único seguido por todos os Budas dos três tempos. Assim, você deve assistir a
este ensinamento do Lam-rim para alcançar a Budeidade pelo bem de todos os seres
sencientes; depois, deverá colocá-lo em prática...
Então, ele relacionou os títulos já cobertos, e reviu o material da véspera sobre a
impermanência.
A seção “Desenvolvendo um Anseio por um Bom Renascimento”, tem uma
segunda sub-divisão:

PENSANDO EM QUE TIPO DE FELICIDADE OU SOFRIMENTO VOCÊ


TERÁ EM SEU PRÓXIMO RENASCIMENTO NUM DOS DOIS TIPOS
DE MIGRAÇÕES
A contemplação dos sofrimentos dos reinos superiores virá mais tarde no Nível
de Média Capacidade. Agora, discutirei os sofrimentos dos reinos inferiores.
Você certamente vai morrer, mas não está certo quando morrerá. Depois da
morte, sua consciência não termina; mas definitivamente toma um renascimento. Há
apenas dois lugares onde se pode renascer: os reinos superiores ou os reinos inferiores.
Inferencialmente você pode avaliar a qual dos dois você está indo. Como já disse antes,
fazemos horóscopos e adivinhações que nos digam onde renasceremos, mas estes não
são necessários. Buda já previu que iremos aos reinos superiores se tivermos sido
virtuosos e aos reinos inferiores se tivermos sido não-virtuosos. Contos de Jataka diz:

Esteja bem certo:


Seu próximo renascimento no mundo será feliz ou infeliz
Conforme o karma virtuoso ou não-virtuoso.
Portanto, abandone as ações nocivas e adote a virtude.

256
Nesta vida, fazemos muitos planos que chamamos de “pensar no futuro”. Não é
nada disto. Tenha uma visão ainda mais ampla: investigue onde vai renascer. Se fizer
isto, verá que não pode escapar de ir ao reino superior ou ao reino inferior, e que não há
liberdade de escolha. Se tivesse um escolha, quem ainda estaria agora nos reinos
inferiores? Portanto, aonde você renascerá depende do seu karma.
Se tiver um karma misto, algum karma virtuoso e algum não-virtuoso, o mais
forte amadurecerá primeiro. Se forem igualmente fortes, aquele com o qual você está
mais familiarizado amadurecerá primeiro. Se estiver igualmente familiarizado com
todos, então o tipo produzido primeiro amadurecerá primeiro. Os comentários de
Vasubhandu ao seu Tesouro de Metafísica diz:

O karma gira [a roda da vida]


O [karma] mais forte amadurece primeiro;
Depois, o mais próximo; depois o mais familiar;
Depois [as ações kármicas] feitas primeiro.

Para nós, o karma não-virtuoso é o mais forte dos dois. Nossos pensamentos
normalmente são só de apego e coisas assim. Assim sendo, todo karma produzido por
estes pensamentos é não-virtuoso. Mesmo nossas ações virtuosas inadvertidamente
ficam sob o poder de pensamentos não-virtuosos e muito pouco destas ações é dedicado
às nossas vidas futuras.
Veja o exemplo de repreender um discípulo. Sua motivação é de uma raiva muito
grande. Então, como a ação em si, você usa palavras que ferem os sentimentos da outra
pessoa. Como passo final, você se alegra com o que fez. Assim, a motivação, a ação em
si, e o passo final são todos muito poderosos.
A maioria de nossas ações nocivas são também muito poderosas, mas nossas
ações virtuosas são como segue: Certa vez havia um homem que costumava se distrair
com outros pensamentos sempre que recitava As Cem Deidades de Tushita. Ele
conversava com os outros enquanto recitava o texto muitas vezes do início ao fim. Nós
também verbalizamos as palavras dos textos, mas enquanto isto nossas mentes ficam
envolvidas com temas mundanos. Qualquer pequena virtude que tenhamos é destruída
por raiva ou visões errôneas. Até mesmo as nossas menores não-virtudes dobram de
tamanho a cada dia. Além disso, em nossas vidas passadas, quando renascemos como
insetos, criaturas, monstros marinhos, ferozes animais de rapina, e coisas assim,
cometemos muitas grandes ações nocivas. Estas, junto com as ações nocivas cometidas
nesta vida, constituem o vasto número de poderosas ações negativas que acumulamos.
Não somos capazes de remediar todas elas antes de nossa morte, expiando-as e
refreando-nos de repeti-las. Sabemos que isto é além de nossas capacidades atuais. Isto
prova por cognição válida direta que estamos mais familiarizados com a não-virtude; a
única possibilidade é que iremos aos reinos inferiores em nosso próximo renascimento.
Não poderemos ter certeza de que não iremos aos reinos inferiores até que
tenhamos alcançado o nível de paciência do caminho da preparação. Dizem que até os

257
mahatma Bodhisattvas renasceram lá.
Suponha que você durma esta noite como um monge no seu quarto confortável e
sua cama macia; então morre por causa de alguma ocorrência repentina desafortunada.
Na hora em que normalmente estaria acordando na manhã seguinte, você já pode ter
chegado ao local onde morros e vales estão cheios de fogo. Então o que você faria ?
Você não estará suficientemente movido a desenvolver a renúncia se
simplesmente meditar em como pode nascer nos reinos inferiores da mesma forma
como olha um objeto movido por curiosidade. Como disse Nagarjuna: “Lembre-se do
grande calor ou frio dos infernos como se tivesse passado um dia lá...” Ou seja, você
deve meditar para produzir insight em renascer neste ou naquele reino inferior (isto é
algo como as meditações do estágio de geração de uma deidade tutelar). Você deve
ficar com medo.
Temos em alta consideração as meditações de ter o corpo divino de uma deidade
tutelar, mas seria muito mais benéfico no início meditar por um tempo em ter o corpo
de um ser do inferno. Os sofrimentos dos infernos quentes vão facilitar nossa primeira
transformação mental e produzirão nosso primeiro desenvolvimento de renúncia. Isto é
um resultado salutar. Também ficaremos tristes; a tristeza tem grandes qualidades, ela
nos livra do orgulho arrogante, e coisas assim. Shantideva afirma:

A boa qualidade do sofrimento é que


Ele remove a arrogância através da dor,
Desenvolve-se compaixão pelos seres do samsara,
Evita-se as ações nocivas e rejubila-se na virtude.

É mais fácil desenvolvermos renúncia durante este útimo renascimento como um


ser humano. Por esta razão, devemos meditar no sofrimento.
A meditação no sofrimento dos reinos inferiores tem três partes: pensando nos
sofrimentos (1) dos infernos; (2) dos fantasmas famintos; (3) dos animais.

 PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DOS INFERNOS

Isto tem quatro sub-títulos.

o PENSANDO NO SOFRIMENTO DOS INFERNOS GRANDES, OU


QUENTES

Os infernos quentes estão localizados da seguinte maneira. O Inferno de


Ressurreição Contínua está 32.000 yojanas sob Bodhgaya na Índia. Os outros infernos
quentes estão abaixo deste inferno, com quatro mil yojanas entre eles. Todo o chão e
todas as montanhas nestes infernos são compostos inteiramente de ferro incandescente;
o chão, como o dos reinos humanos, não são nada plano, nada como a palma de sua
mão.

258
Quando se está prestes a renascer nos infernos quentes, [o que se pode fazer?}
Como disse Gungtang Rinpoche:

A vida humana é impermanente,


Uma breve rodada de sono
Povoado com sonhos sem sentido -
Alguns felizes, outros tristes.
Quando você repentinamente acordar
Para a vida nos reinos inferiores,
O que vai fazer?

Ou seja, no momento da morte você tem alucinações de estar com frio, então
desenvolve um anseio por calor, o que ativa o karma que leva a um renascimento nos
infernos quentes. Você morre; isto é como cair no sono. Você vivencia o bardo como se
fosse um sonho. Então, de repente, se encontra nos infernos quentes, que é como
acordar.
O fogo do inferno é sete vezes mais quente do que o fogo dos reinos humanos.
Vamos comparar estes dois tipos de fogo. Comparado ao fogo do inferno, o fogo
humano é tão frio que é como água refrescada por sândalo Goshirsha.59
Certa vez Maudgalyayana carregou uma pequena brasa dos infernos para o
reino humano e colocou-a na praia. Todos os seres humanos enlouqueceram com o
calor e não suportavam deixá-la onde estava. Se você renascer no meio de tal fogo, isto
não seria problema se seu corpo fosse pequeno e fosse imediatamente consumido pelo
fogo. Mas seu corpo é enorme, como uma cadeia de montanhas. Isto ainda não seria um
problema se as solas de seus pés fossem calejadas como a pele dos pés de alguns de
nós. Isto não acontece: seu corpo é como o corpo de um bebê no peito da mãe.
Portanto, os sofrimentos dos infernos quentes em geral são insuportáveis: o
sofrimento de ter um corpo --que está sendo queimado-- é enorme; o sofrimento de ter
a carne com tolerância à dor tão pequena quanto a de um recém-nascido; o sofrimento
que o que está queimando, o fogo, é extremamente quente, e assim por diante.
Existem oito destes infernos quentes.

O Inferno da Ressureição Contínua


Aqui, não há nenhum guardião do inferno. As pessoas nascidas neste inferno
são seres sencientes que renasceram aqui pelo poder do mau karma. Quando estes seres
sencientes vêem os outros, imediatamente ficam com raiva. Qualquer coisa que pegam
vira uma arma. Eles cortam uns aos outros em pedaços; todos desmaiam e caem no
chão. Então uma voz vinda do céu lhes diz: “Agora você será reavivado”. Um vento
fresco atinge seus corpos; este vento é um fator contributório para que seus ossos e

59
Um conceito na literatura sânscrita é que o sândalo refresca tudo o que toca; o sândalo Goshirsha (sândalo coração de
cobra) é tido como o melhor para isto.

259
carnes esparramados se reúnam. Seus corpos ficam curados e como antes. Então, eles
fazem a mesma coisa novamente. Todo dia eles têm estes desmaios mortais; todo dia
eles têm muitas centenas de mortes diferentes e são reavivados muitas centenas de
vezes. Devemos desenvolver insight do que seria renascer lá agora, ser estraçalhado por
armas, desmaiar, reavivar, e assim por diante. Se nesta vida somos esfaqueados por
uma pequena faca, isto só nos matará uma vez --e mesmo assim sofremos dor e pavor
inconcebíveis. Neste inferno, morremos muitas vezes todos os dias e sempre
experimentamos este [pavor e dor]. Lá, nosso tempo de vida também seria muito longo;
nossas vidas humanas anteriores não sustentam nenhuma comparação. Nagarjuna disse
em sua Carta:

O sofrimento de ser espetado


Trezentas vezes por uma lança num único dia
Não pode se comparar ao menor sofrimento no inferno,
Não pode competir, nem de longe se aproximar dele.

O Inferno da Linha Preta


A partir deste inferno e em todos os demais abaixo dele, existem guardiões,
como avas cabeças de elefantes e yakshas com cabeças de porcos. Os guardiões dos
infernos e os operários são imensos como montanhas, possuem olhos vermelhos e são
horríveis; eles gritam palavras como “batam” e “matem”. Em suas meditações você
deve sentir pavor de que eles destruam seu corpo. Os guardiões dos infernos o agarram
e o deitam de costas no chão de ferro ardente; eles fazem muitos vincos em seu corpo
enorme com cordas de ferro ardente que deixam marcas pretas. Alguns dos guardiões
serram ao longo das linhas como um carpinteiro serraria um pedaço de madeira. Outros
cortam ao longo das linhas com machados; outros usam machadinhas. Depois de ter
sido desmembrado desta forma, os pedaços de carne e gotas de sangue que caem na
superfície do chão de ferro ardente ainda estão conectados à sua consciência e
aumentam o sofrimento de sua experiência.
As causas para renascer neste inferno são cometer as dez ações não-virtuosas,
chicotear as pessoas, e assim por diante.

O Inferno Recompor e Esmagar


Renascimento aqui é normalmente o amadurecimento [do karma] de matar.
Duas montanhas que se assemelham, digamos, a cabeças de bodes e carneiros correm e
se chocam, esmagando-lhe entre elas; não há nenhum escape. As duas montanhas se
afastam e seu corpo volta ao estado anterior. O processo é repetido novamente várias
vezes. Alguns seres são moídos a pó entre esmeril; alguns são socados com pilão como
semente de gergelim; alguns são espremidos em tornos de ferro. Você pode ser
esmagado entre vários instrumentos diferentes: que tomam a forma de qualquer
instrumento que no passado você usou para matar. Suponha que tenha matado um
piolho entre suas unhas. Mais tarde no inferno você será morto esmagado entre duas

260
montanhas semelhantes a unhas.

O Inferno da Lamentação
Você é colocado dentro de uma casa de ferro incandescente. A casa não tem
portas e está ardendo em fogo, por dentro e por fora. Você sofre, pensando, “Não
encontrarei meio de escapar.” Seu grande sofrimento o faz gemer.

O Inferno da Grande Lamentação


Você é colocado dentro de uma casa de ferro, que é contida dentro de outra
casa, ambas semelhantes à descrita acima. Seu sofrimento é também duplamente forte.
Você pensa, “Eu poderei escapar de uma destas casas de ferro, mas não da outra,”e
então sofre.
Cometer as dez não-virtudes, ou beber álcool negligentemente pode causar
renascimento nestes infernos. Um sutra diz quase a mesma coisa:

Beba álcool e renascerá


Num lugar de lamentação
Pessoas que servem [bebidas] renascerão
No inferno adjacente.

O Inferno Mais Quente


Você é empalado num espeto de ferro incandescente que passa através de seu
ânus e sai pelo topo de sua cabeça; todo o seu interior queima e chamas estrondosas são
emitidas por sua boca, seus olhos, etc. Você é cozido num enorme caldeirão de água
fervente. Seus ossos são então recompostos e seu corpo volta à condição anterior, então
você é novamente cozido.

O Inferno Ainda Mais Quente


Este é duas vezes mais quente do que o inferno anterior. Sua carne, músculos e
entranhas são cozidos e saltam dos ossos. Quando só restam os ossos, você é
recomposto e sua forma original restaurada. Alguns seres são pressionados entre dois
pratos de ferro e seus corpos achatados. Arame de ferro ardente é amarrado ao redor
dos corpos de alguns seres; sua carne e ossos saem como massa sob pressão. Alguns
são empalados em espetos de três pontas de ferro ardente que correm através do ânus e
saem pelo topo da cabeça; suas línguas são esticadas até terem muitos yojanas de
comprimento, então sulcos são feitos por arados, e coisas assim. Alguns seres são
segurados entre duas peças de ferro semelhantes a capas de livros e seus corpos são
amassados como livros. Existem, assim, muitas maneiras de experimentar o sofrimento.

Kyabje Pabongka Rinpoche contou a estória de como Kokalika, uma pessoa do círculo
de Devadatta, renasceu neste inferno.

261
O Inferno Sem Descanso
Neste inferno não há chance de descansar; o sofrimento aqui é maior do que em
todos os infernos quentes mencionados acima. Quando queimamos pedras ou ferro no
fogo, elas não se distinguem do fogo. Os corpos dos seres que nascem neste inferno
ficam também indistinguíveis do fogo. Pode-se saber que existem seres sencientes
neste inferno apenas pelos sons patéticos que emitem. Eles são queimados por onze
fogos; os fogos dos quatro pontos cardinais, os quatro pontos intermediários, os fogos
do zênite e adir, e o fogo dentro de seus próprios corpos. Eles são como pavios. Seus
sofrimentos são ilimitados. Nagarjuna afirma em sua Carta:

Entre todas as causas de felicidade;


A eliminação do desejo
É o senhor das felicidades.
Entre todos os sofrimentos,
O sofrimento do Inferno Sem Descanso
É igualmente o mais intolerável.

Em outras palavras, o Inferno Sem Descanso contém mais sofrimento do que todo
o sofrimento dos outros três reinos --inclusive o Inferno Ainda Mais Quente.
Embora os infernos tenham estes sofrimentos, pensamos, “Eu não renascerei lá.”
Mas nunca poderemos estar certos de não renascer nestes infernos assim que deixarmos
esta vida. Não podemos estar confiantes de que não vamos para os reinos inferiores.
Definitivamente, acumulamos muitas causas para renascer no inferno; estas causas são
muito poderosas e não se degeneraram de forma alguma. Os piores casos de fazermos
qualquer uma das dez ações não-virtuosas causarão nosso renascimento nos infernos;
os casos medianos causarão nosso renascimento como fantasmas famintos; os casos
menores, renascimento como animais. Dizem que renasceremos no Inferno de
Ressurreição Contínua porque cometemos ações nocivas contra os votos pratimoksha
sem nos incomodarmos com isso; e no Inferno Sem Descanso porque não nos
importamos se quebramos os votos pratimoksha principais. Então, devemos ter
cuidado. Temos em nossos contínuos mentais muitas ações nocivas extremamente
graves; quebrar votos minoritários e delitos contra os votos pratimoksha e tântricos,
ficar com raiva de Bodhisattvas, desrespeitar os gurus, e coisas assim. Se tivermos
quebrado um voto tântrico principal renasceremos no Inferno Sem Descanso pelo
número de éons iguais aos momentos que se passaram até restaurarmos o voto,
retomando-o e expiando a ação nociva. No passado não ligamos quando quebramos um
voto pratimoksha minoritário; transgredimos as regras, e já acumulamos o karma para
renascermos em cada um dos oito infernos quentes a cada vez.
Nestes renascimentos vivenciamos o sofrimento até que os resultados dos meus
karmas se esgotem, pois não conseguiremos desligar nossa consciência de nossos
corpos. Nagarjuna diz em sua Carta:
Tais sofrimentos são completamente intoleráveis.

262
Os experimentaremos por bilhões de vezes;
Enquanto as não-virtudes não tiverem se esgotado
Não deixaremos de viver aquela vida.

A duração da vida nos oito infernos quentes é muito longa. O tempo de vida mais
curto é dos seres no Inferno da Ressurreição Contínua. Cinqüenta de nossos anos
humanos é igual a um dia para os deuses no Reino dos Quatro Maharajas; trinta destes
dias são como um de seus meses, doze destes meses, um de seus anos. Quinhentos
destes anos, à duração da vida de um ser no Reino dos Quatro Maharajas. Mas, isto é
apenas um dia no Inferno da Ressurreição Contínua. Trinta destes dias são como um
mês neste inferno, doze tais meses fazem um ano. A vida no Inferno da Ressurreição
Contínua é de quinhentos destes anos. Pode-se dizer que isto é 1,62 x1012 anos
humanos. As Palavras do Próprio Manjushri diz que é 1,66 x 1012 anos, mas isto é um
erro. Você deve consultar a edição do Mosteiro Meru deste texto ou os Lam-rims da
Linhagem do Sul.
Pode parecer estranho dizer que estes infernos quentes estão há tantas yojanas de
distância, mas não há nenhuma grande distância entre você e os reinos inferiores --
apenas o fato de que você ainda respira. Analise isto bem; você não pode ter certeza de
que não terá ido para um destes reinos no ano que vem, ou até mesmo amanhã. Se você
for a um destes reinos, o que vai fazer?
Como está não podemos suportar ver nossos corpos queimados por fogo ou
furados por uma agulha. Como então poderíamos suportar renascer num destes
infernos? Como disseram os Kadampas do passado, é como se só um de nossos pés está
no reino humano; já colocamos o outro na beira de um caldeirão do inferno, já criamos
a causa para renascer no inferno.
Tendo renascido nos reinos inferiores, é impossível ficarmos livres deles ou
encontrarmos qualquer refúgio. Assim, antes de renascermos lá, devemos trabalhar
duro enquanto ainda temos um resto de tempo de vida. Se não conseguirmos a melhor
coisa – a Budeidade – , ou a segunda melhor – ser um adepto ou um siddha – , devemos
pelo menos trabalhar com afinco para evitar que venhamos renascer nos reinos
inferiores, ao expiar nossas ações nocivas, e assim por diante.

o OS INFERNOS ADJACENTES

Do lado de fora, ao redor dos infernos quentes, como a cerca de ferro [que
rodeia este sistema mundial], há quatro infernos adjacentes: Vala Flamejante, o Pântano
Pútrido, o Plano de Facas Afiadas, e a Torrente Impenetrável.
Chega a época em que o karma dos seres renascidos nos infernos quentes
enfraquece; então estes seres escapam dos infernos quentes e vão aos infernos
adjacentes. Há também seres que renascem diretamente nestes infernos adjacentes.
Quando alguns dos seres estão prontos para escapar dos infernos quentes eles
ficam com a idéia de fugir; saem pelos portões dos infernos quentes, e chegam à Vala

263
Flamejante. Suas pernas queimam até os joelhos, e quando puxam suas pernas da vala,
elas se curam. Assim, as pernas se queimam a cada passo que dão. Eles passam muitas
centenas de milhares de anos atravessando a Vala Flamejante, sendo constantemente
atormentados com este sofrimento e desejando escapar.
Mais tarde, eles escapam da Vala, mas chegam ao Pântano Pútrido. Eles se
afundam até o pescoço e se contorcem; muitos vermes de bicos afiados como pássaros
furam seus corpos, comendo-os e deixando seus corpos como peneiras.
Os seres passam muitas centenas de milhares de anos atravessando o pântano,
esperando também escapar. Eles chegam ao Plano de Facas Afiadas. Este plano está
cheio de facas de ferro afiadas com as pontas viradas para cima. Eles vivenciam o
sofrimento das facas penetrando e cortando suas pernas. Eventualmente escapam e
chegam a uma floresta onde as arvores têm espadas em vez de folhas. Confundindo-as
com árvores verdadeiras, caminham debaixo delas. As folhas-espadas cortam seus
corpos, que então se curam e são novamente cortados. Estes são os sofrimentos que
experimentam. Quando os seres emergem da floresta, chegam ao tronco da árvore
Shalmali, que tem muitas lâminas de ferro afiadas. Os seres escutam os gritos de
pessoas que lhes foram mais caras vindo do topo da Shalmali. Mas ao escalá-la as
pontas das lâminas de ferro apontam para baixo perfurando seus corpos. Passando por
estes sofrimentos, continuam subindo. Quando chegam ao topo, pássaros pavorosos
arrancam seus olhos e cérebros. Então surge um grito vindo de baixo e os seres descem;
as lâminas de ferro apontam para cima e perfuram seus corpos. Quando chegam em
baixo, cães e feras selvagens os devoram a partir de seus pés. Os seres experimentam o
sofrimento de subir e descer assim até que seus karmas se esgotem.
Estes três tipos diferentes de ataques de armas devem ser contados como o
inferno adjacente.
Quando os seres se libertam destes, eles chegam à Torrente Impenetrável. A
água corrente está misturada com fogo, e queima e cozinha seus corpos como água
fervente cozinha ervilhas. Eles vivenciam este sofrimento por um longo tempo.
Estamos todos marcados para renascer nos infernos quentes. É vital, portanto,
trabalharmos arduamente nos meios de não renascer lá, isto é, modificando nosso
comportamento.

o PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DOS INFERNOS FRIOS

Os infernos frios estão no nível dos infernos quentes e se encontram ao norte.


Por isso a nossa terra é tão fria. Os infernos frios estão separados entre si verticalmente
por dois mil yojanas. Você pode estar se perguntando, “Neste caso, os infernos frios
não poderiam estar no mesmo nível dos infernos quentes porque os infernos quentes
estão separados entre si verticalmente por quatro yojanas”. Pode haver quatro mil
yojanas entre cada superfície dos infernos quentes, mas cada inferno frio tem
montanhas nevadas de dois mil yojanas de altura, então os infernos frios estão de fato
nivelados com os infernos quentes.

264
Se você desejar sensações corpóreas de frio no momento da morte, isto ativa o
karma de renascer nos infernos frios. Você experimenta o bardo como se fosse um
sonho; então renasce nos infernos frios, que é como acordar. Nestes locais existem
montanhas nevadas, cada uma com muitas yojanas de altura. Não há luz de sol, lua,
fogos, ou coisas assim. É tão escuro que não se consegue ver os movimentos dos
próprios braços. O chão é um campo de gelo; ao alto, uma nevasca devasta; entre estes
dois, sopra um vento frio. Não há nenhum meio de se aquecer --nenhum fogo, nenhum
sol, nenhuma roupa, nada.
Existem oito infernos frios, cada um progressivamente mais frio. Há o Inferno
de Bolhas, onde se desenvolve bolhas no corpo. O Inferno de Bolhas Estouradas é
ainda mais frio; lá as bolhas estouram, pingando sangue e linfa. O próximo inferno é
ainda mais frio; o corpo fica endurecido como pedra, não consegue se mexer e tudo o
que consegue dizer é “Achu” (“Brrr”).
O nome tibetano para este inferno é “Achu”. Esta é na realidade a palavra que
os tibetanos usam quando estão com frio, por isso equivale ao nosso som “Brrr”. A
palavra em sânscrito é “Huhuva”.
No próximo inferno, que é ainda mais frio, não se consegue dizer nem mesmo
isto, e só se consegue emitir o débil som “Hue” da garganta. No próximo inferno, não
se consegue emitir nem este som, a boca está firmemente fechada, os dentes cerrados.
O próximo inferno é ainda mais frio: seu corpo duro como um cadáver, tem cor azulada
e faz um som de rachar; ele racha como um lótus azul. O próximo é ainda mais frio; sua
carne racha como lótus vermelho. No próximo, sua carne desenvolve cem ou mil vezes
mais rachaduras semelhantes a lótus. No Inferno “Achu” e nos infernos abaixo deste, os
seres infernais salpicam os campos de gelo e as montanhas nevadas como enfeites de
jóias que decoram as stupas; seus corpos estão tão congelados que não conseguem se
mover. Chandragomin diz em Carta a Um Discípulo:

Um vento sem igual


Penetra seus ossos.
Seus corpos macilentos tremem
E se curvam e se agacham.
Insetos, produtos de seus karmas,
Se alimentam de centenas de bolhas estouradas,
Sua gordura, linfa, e tutano caem em pingos.

Isto é, muitas moscas com bicos venenosos se reúnem ao redor da linfa que
pinga das rachaduras dos corpos dos seres dos infernos, atacando-os. Até mesmo as
gotas de sangue que caem no chão ainda estão ligadas à consciência dos seres. Eles
vivenciam o sofrimento das gotas se congelando e rachando. Além disso, os seres
vivenciam tais sofrimentos como seres atormentados por várias doenças infecciosas.
Os Contos de Jataka mencionam as causas para renascer nestes infernos:

265
Aqueles que sustentam visões niilistas
Em todas as suas vidas futuras
Residirão nestes lugares
De escuridão e ventos frios.

Contrairão doenças
Que apodrecem seus próprios ossos;
Qual então o benefício
De ser perito em tais visões?

Em outras palavras, a causa é algo como manter visões erradas e niilistas, por
exemplo, a visão de que a lei da causa e efeito não existe.
Acumulamos muitas causas para renascermos nestes infernos, e desde então
elas não se degeneraram. Estas causas são as seguintes: roubar roupas dos outros,
retirar cobertas de estátuas, ou jogar seres sencientes, como piolhos, no frio congelante.
O tempo de vida dos seres nos infernos frios é como segue: Embora Asanga
afirme em Níveis de Shravakas que estes seres sencientes possuem um tempo de vida
tão longo quanto dos que renascem nos infernos grandes [ou quentes], o Tesouro de
Metafísica [de Vasubandu's] afirma:

Esvaziar um recipiente de gergelim


Tirando uma semente a cada cem anos
Dará o tempo de vida de seres no Inferno de Bolhas
Os outros tempos de vida aumentam vinte vezes cada um.

Em outras palavras, o tempo de vida é tão longo quanto o tempo que leva para
esvaziar um silo que guarda oitenta alqueires padrão de Magadha de gergelim jogando
fora uma semente de gergelim a cada cem anos. Um octogésimo de um alqueire tem
quinze mil sementes de gergelim [logo, demoraria 9,6 x 109 anos para esvaziar o silo].
Este é o tempo de vida dos seres no primeiro dos infernos frios, o Inferno de Bolhas.
Nos infernos abaixo deste, a duração da vida aumenta vinte vezes a cada nível.

o PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DOS INFERNOS OCASIONAIS

Estes infernos estão nos reinos humanos, à beira da praia, e coisas assim.
Certa vez alguns mercadores convidaram Arya Sangharakshita para
acompanhá-los até uma ilha. Ele desgarrou-se dos outros e andou até a beira da praia,
onde havia um belo templo. Os quinhentos membros da Sangha de lá o convidaram a
entrar. Os monges discutiam ao meio-dia, mas quando passava o meio-dia, tudo voltava
ao normal. Ele perguntou o motivo daquilo e lhe disseram que era o resultado de não
terem sido amistosos uns com os outros e lutado no passado quando os ensinamentos
de Buda Kashyapa ainda estavam em existência. O Arya também viu os seres infernais

266
na forma de paredes, pilares, pilões, cordas, vassouras, pipas de água, e potes de
cozinha. Mais tarde quando voltou de viagem, o Arya perguntou a Shakyamuni sobre
tudo aquilo. Já falamos da resposta de Buda quanto aos seres que se assemelham a
pilares, na seção dos ritos preparatórios [Dia Quatro]. A criatura com forma de pilão,
no entanto, havia sido um monge na época dos ensinamentos de Buda Kashyapa, que
perdeu a calma e disse a um novato: “Você deveria ser socado com um pilão”. Como
resultado destas palavras insultuosas, o monge havia se tornado uma criatura com a
forma de pilão.

Kyabje Pabongka Rinpoche contou como estes seres tinham experimentado estas
coisas desde o tempo dos ensinamentos de Buda Kashyapa até o momento presente.

Certa vez havia um capitão de navio chamado Kotikarna que havia nascido com
um brinco de uma pedra que valia dez milhões de peças de ouro. O Capitão Kotikarna
saiu navegando para obter jóias. Ele adormeceu na beira da praia e os outros
mercadores seguiram adiante sem ele. Ao acordar descobriu que um forte vento havia
apagado o caminho e até seu burro de carga não conseguia pegar o cheiro da trilha.
Kotikarna vagou, incapaz de encontrar o caminho. Viu uma casa como um palácio e
dentro um homem rodeado por quatro deusas. O capitão viu que à noite o homem tinha
uma beatitude tão grande como a dos deuses. Mas, durante o dia, a casa virava ferro
ardente lambida por fogo e as mulheres viravam quatro cães marrons. O homem caia
sobre seu rosto e os cães comiam sua carne pedaço por pedaço. Então, depois do sol se
pôr, tudo voltava ao estado original. Ele perguntou ao homem a causa daquilo. O
homem disse que havia sido um açougueiro na cidade de Sthira, mas seguindo o
conselho de Arya Katyayana, fez votos de não matar à noite, mas não foi capaz de
tomar estes votos de dia, e o resultado era este. O homem disse que tinha um filho em
Sthira que era açougueiro. Kotikarna deveria dar ao filho o seguinte recado: “Você não
deve matar; quando der esmola ao Arya Katyayana, deve dedicar as virtudes-raizes a
mim”. Como prova, o homem contou a Kotikarna que ele havia escondido um pote de
ouro no local [da casa do filho] onde eles guardavam as espadas.
Kotikarna seguiu em frente. Havia uma casa fina onde um homem e duas belas
mulheres apreciavam a felicidade e beatitude. Mas o homem viu que à noite, era bem o
oposto; as mulheres viravam cobras e comiam o homem a partir do topo da cabeça.
Kotikarna perguntou ao homem o motivo disto. O homem disse que quando havia sido
um brâmane em Sthira ele cometia adultério, mas tomou o voto com Katyayana para
não fazê-lo durante o dia. O resultado era este. Ele disse, “Vá e fale com meu filho em
Sthira”, e deu Kotikarna um recado para levar de volta. Como prova, contou a
Kotikarna que havia escondido um pote de ouro debaixo do fogão.
Então, o capitão seguiu adiante e viu um trono de quatro pés. Um fantasma
faminto segurava cada pé...

E Kyabje Pabongka Rinpoche contou o resto desta estória.

267
Estes são alguns infernos ocasionais. Existem infernos ocasionais nos reinos
humanos. Certa vez na Índia, quando o venerável Shirman cuidava de seus afazeres
diários, viu a forma de uma bela casa no céu; a casa estava ardendo em com fogo e nela
havia um homem, o renascimento de um açougueiro. O servo do açougueiro estava
dentro de uma montanha de ossos e passava por grande sofrimento.
Há uma estória de um castrador de animais que renasceu com o corpo imenso
como uma montanha. Este era o resultado kármico de suas ações.
Já acumulamos muitos casos de karma, cujos resultados certamente vivenciaremos
destas maneiras. Poderíamos jurar que todas estas coisas acontecerão conosco.
Um grande adepto viu um enorme peixe no Lago Yardrog. O peixe era o
renascimento de um homem chamado Tanag Lama da Província de Tsang. Quando
ainda era vivo, costumava comer muitos dos oferecimentos feitos a ele. O corpo do
peixe tinha metade da circunferência do Lago Yardrog e estava sendo comido por
muitas parasitas. O adepto apontou o peixe aos expectadores e disse, “Não comam
oferecimentos. Não comam oferecimentos”. Nós comemos oferecimentos porque
somos monges. Dizem que os pavões podem comer veneno, portanto, se praticamos o
Dharma e sabemos como comer os oferecimentos, podemos fazê-lo e este tipo de coisa
não acontecerá conosco. Mas não basta escolher o caminho mais fácil e comer
oferecimentos só porque você é ordenado. A Transmissão do Vinaya diz:

É melhor comer
Pedaços de ferro fundido
Queimando com línguas de chamas;
Pessoas com ética frouxa
Que não têm a restrição correta
Não devem comer as esmolas do distrito.

Ou seja, quando as pessoas com ética frouxa comem os oferecimentos de comida


dos fiéis é como se estivessem comendo pedaços de ferro fundido. Mas, aqueles que
guardam a ética e colocam o correto esforço nos seus estudos e no abandono [das
ilusões] podem comer tais oferecimentos. Se você não está colocando esforço nestas
direções, comer oferecimentos é como pegar emprestado. É muito fácil não fazer as
coisas corretamente e simplesmente colocar doações e oferecimentos em seu bolso, mas
um tempo difícil virá numa vida futura quando você pagará o empréstimo com sua
carne. Até mesmo quando os lamas recebem um pedido para rezar por alguém, se
simplesmente escreverem um recibo pelo dinheiro e não rezarem as orações e
dedicações, terão definitivamente de pagar o empréstimo com a carne de seus corpos
[numa vida futura].
Aqui vai uma destas estórias. Um grande sapo, com muitas criaturas menores se
alimentando nele foi encontrado dentro de um seixo. E um lama de Derge certa vez
pediu aos seus atendentes para lhe mostrar qualquer coisa que o rio havia varrido

268
naquele dia. Aconteceu de ser o tronco de uma árvore, e ao retirarem a casca
descobriram um enorme sapo sendo comido por muitas criaturas menores. Dizem que a
primeira criatura era um lama que havia comido os oferecimentos feitos a ele e o
segundo era o principal atendente de algum lama de Derge.
Meu guru, a personificação de Vajradhara, me disse pessoalmente que quando ele
foi a Kham havia no Lago Doshul um enorme animal parecido com uma tenda cabelo-
de-yak. A criatura ficava submersa no lago durante o verão, mas no inverno, quando o
lago congelava, suas costas se projetava na superfície e muitas criaturas, pássaros e
similares, se alimentavam ali.
Estes são infernos ocasionais. Temos criado e ainda estamos criando incontáveis
causas para tais renascimentos. Devemos, portanto, pensar e repensar muitas vezes
como ainda teremos de vivenciar tais sofrimentos.

 PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DOS FANTASMAS FAMINTOS

As Palavras do Próprio Manjushri discute primeiro os animais. Os fantasmas


famintos têm mais sabedoria do que os animais, e possuem o poder da compreensão. Se
o Dharma fosse ensinado a algum fantasma faminto, ele poderia compreendê-lo.
Animais são entorpecidos e estúpidos, é um renascimento inferior e um empecilho
maior para praticar o Dharma do que renascer como um fantasma faminto. Portanto, os
sofrimentos dos animais foram ensinados primeiro. Mas, O Caminho Rápido coloca os
fantasmas famintos primeiro: eles geralmente sofrem mais do que os animais.
Há duas sub-seções neste ponto: (1) pensando nos sofrimentos dos fantasmas
famintos em geral sob seis títulos: calor, frio, fome, sede, exaustão, e medo, (2)
pensando nos sofrimentos de tipos específicos de fantasmas famintos.

o PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DOS FANTASMAS FAMINTOS EM


GERAL SOB SEIS TÌTULOS --CALOR, FRIO, FOME, SEDE,
EXAUSTÃO E MEDO.

Pense assim. “No presente, não renasci no inferno, mas se tivesse renascido
como um fantasma faminto, seria muito atormentado por sofrimentos intoleráveis --
calor, frio, fome, sede, exaustão e medo-- que eu nem seria capaz de lembrar que
deveria praticar o Dharma, muito menos praticá-lo. Não tive tal renascimento, devido à
bondade de meus gurus. Como tenho um grande mérito de ser capaz de meditar até
mesmo superficialmente no Dharma do Lam-rim! Como tenho sorte!” Mas,
acumulamos em nossos contínuos-mentais muitos karmas que nos jogarão nesses
renascimentos; este karma ainda é poderoso e não se degenerou. Sabemos que está
além de nossa capacidade atual purificá-los a todos antes de morrermos.
E há mais. Nossos pensamentos no momento da morte são cruciais. Os
pecadores podem ter cometidos grandes ações nocivas nesta vida, mas se morrerem só
com pensamentos virtuosos em suas mentes vão ativar o karma virtuoso de uma vida

269
passada. Se os praticantes do Dharma estiverem com raiva, por exemplo, na hora da
morte, seu karma não-virtuoso será ativado. Normalmente, os pensamentos com os
quais temos mais familiaridade nesta vida serão os que se manifestarão no momento da
morte. Sempre tivemos familiaridade mais forte com os enganos, os três venenos, assim
nosso karma não-virtuoso será certamente ativado no momento da morte.
Pode-se ter aversão a comida e bebida, e sentir “Que eu nunca ouça novamente
a palavra comida”. Isto aciona o karma de renascer como fantasma faminto por seu
apego e hostilidade. Você não pode ter a certeza de que não renascerá nestes estado
desafortunado de um fantasma faminto; de fato, você normalmente renascerá como um.
Renascimentos de fantasmas famintos estão localizados em Kapilanagara, a
cidade dos fantasmas famintos, que está há mais de quinhentas yojanas sob o chão. Lá
não há absolutamente nenhuma grama, árvores ou água; todo o chão é devastado como
se ressecado pelo sol. Os corpos e membros dos fantasmas famintos são muito
desajeitados. Seus cabelos estão emaranhados em suas grandes cabeças, suas faces
enrugadas, e seus pescoços são extremamente finos e incapazes de suportar suas
cabeças. Eles possuem corpos enormes e pernas e braços que são finos como estacas e
incapazes de suportá-los. Eles têm cem vezes mais dificuldades de andar do que as
pessoas mais velhas de nosso reino humano. Durante muitos anos não encontram nada
para beber, portanto não há absolutamente nenhuma umidade em seus corpos, nenhum
sangue, linfa, etc. Seus músculos e veias estão envoltos por suas peles secas como um
tora seca envolta por couro marrom. Quando se movem, as juntas de seus braços e
pernas rangem como madeira seca ou como duas pedras se batendo. As juntas também
soltam fagulhas. Já que os fantasmas não tiveram nenhuma comida ou bebida por
centenas de milhares de anos, o seu sofrimento é imenso. Além disso, não há lugar
onde ainda não tenham estado em busca de comida e bebida. Eles ignoraram as
necessidades de seus corpos durante suas viagens e, portanto, estão exaustos. Estão
apavorados de verem Yamasujana [o rei da cidade de fantasmas famintos], temendo por
suas próprias vidas. No calor do verão, o luar os queima, e no inverno a luz do sol os
faz sentir frio. Portanto, são grandes os seus sofrimentos.

o PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DE TIPOS ESPECÍFICOS DE


FANTASMAS FAMINTOS

Fantasmas com Obscurecimentos Externos


Estes fantasmas famintos vêem água, árvores repletas de frutas e coisas assim,
para os quais marcham penosamente grandes distâncias, mas quando chegam lá estas
coisas desaparecem. Quando alguns fantasmas famintos conseguem alcançá-las, são
impedidos de apreciá-las por guardas armados. Além de seus sofrimentos de fome e
sede, eles também experimentam um sofrimento inconcebível devido a exaustão física
e depressão mental.

270
Fantasmas com Obscurecimentos Internos
Estes fantasmas famintos ocasionalmente conseguem comida mas esta não
passa em suas bocas. Seus pescoços têm nós que fazem com que seja muito difícil
engolir. Alguns fantasmas famintos têm de beber pus rançoso de seus próprios bócios.
Como diz a versão completa da estória de Katikarna, o alimento que comem tomam
várias formas correspondendo a diferentes tipos de karma que os fantasmas
acumularam: pedaços incandescentes de ferro fundido, cascas de grãos, pus ou sangue,
suas próprias carnes, e assim por diante. Os fantasmas devem aturar estes resultados
kármicos insuportáveis. Comida e bebida podem passar pelo pescoço de alguns
fantasmas famintos, mas se transformam em ferro fervente ao chegar no estômago, o
que além de não saciar a sede, cria um sofrimento ilimitado. Há um tipo de fantasma
faminto que não sofre isto, mas seus estômagos são tão grandes que a comida não os
sacia. Lâminas de chamas, o fogo da fome, saem das bocas de alguns destes fantasmas
famintos, o fogo-fátuo é simplesmente o fogo das bocas de tais fantasmas.

Fantasmas com Obscurecimentos dos Nós


Certa vez quando Ananda cuidava de seus afazeres diários, viu um fantasma
faminto feminino. Ela tinha três nós no pescoço e gritava os cinco tipos de palavras
aterrorizadoras. Fantasmas famintos deste tipo têm uma linha vertical de três nós em
seus pescoços, o que causa sofrimentos infinitos.

A Carta de Nagarjuna afirma:

Fantasmas famintos são também privados


Das coisas que desejam.
Isto faz surgir um sofrimento contínuo.
Agravado por intoleráveis
Fome, sede, frio, calor, fadiga e medo.
Alguns têm bocas tão pequenas
Quanto o olho de uma agulha, no entanto seus estômagos
São do tamanho de montanhas;
Eles são flagelados por fome
Mas falta-lhes o poder de digerir
A menor partícula de poeira.
Alguns andam nós, apesar de seus corpos
Serem só pele e osso.
Eles são magros como coqueiros
Alguns têm o órgão sexual e a boca em chamas;
A comida colocada em suas bocas se queima.
A maioria não consegue obter nem sujeira para comer --

271
Nem mesmo pus, fezes, sangue ou coisas assim.
Quando estes fantasmas se encontram cara-a-cara
Eles se imploram mutuamente por pus rançoso
Dos bócios em suas gargantas.
Nos dois meses mais quentes do verão,
Até o luar é quente para os fantasmas famintos
No inverno, sentem a luz do sol fria
E as árvores ficam sem frutos.
Bastam-lhes olhar para os rios
Para secá-los.

A Carta ao Discípulo [de Chadragomin] afirma:


Eles têm muita sede, e quando vêem
Um riacho claro na distância
Desejam beber sua água.
Vão até lá, mas a água
Está misturada com cabelos velhos,
Ervas daninhas e pus espesso.
A água fica cheia de lama, sangue e fezes.
Um vento levanta ondas e sua espuma
É fria como no topo das montanhas.
Quando vão até as verdes
Florestas de Malabar
Estas se tornam madeira em chamas,
Um mar de chamas afiadas.
Muitos fragmentos incandescentes caem
Sujando o chão.
Mesmo quando vão até um lago,
Suas ondas apavorantes com
Espumas deslumbrantes nas cristas,
A água se transforma em areias do deserto,
Um lugar atormentado com tempestades de areia que cegam
Varridos por ventos quentes e ferozes.
Quando pesadas nuvens de tempestade se reúnem
Sobre os fantasmas, as nuvens
Deixam cair chuvas de dardos de ferro sobre eles.
E os dardos ficam enterrados.
Diamantes brutos, grandes como pepitas
E lampejantes raios de relâmpagos alaranjados
Caem sobre seus corpos.
272
Enquanto são atormentados por calor
Até granizos lhes parecem quentes.
Quando se tornam impotentes com o vento,
Até o fogo os faz sentir frio
O efeito intolerável do karma amadurecido
Os cega completamente;
Eles têm várias aluminações muito errôneas.
Suas bocas são pequenas como o olho de uma agulha;
Seus estômagos pavorosos, muitas yojanas de circunferência.
Se estas criaturas patéticas fossem beber
A água de grandes oceanos,
Ela não desceria nem mesmo por suas goelas;
Suas bocas venenosas vaporizariam
A água até a última gota.

Kelzang Gyatso, o Sétimo Dalai Lama, disse algo parecido:

Seus estômagos são como montanhas;


Seus pescoços; seus membros, finos como capim;
Seus corpos secos cobertos de poeira;
As juntas de seus ossos soltam fagulhas como pedras;
Um mero olhar seca os rios
Estão sempre cansados, atormentados pela fome.
Possa uma chuva de comida, bebida e néctar cair
Sobre estes fantasmas famintos.

Não podemos ter a certeza de que no ano que vem não renasceremos como um
destes fantasmas famintos. As causas de tais renascimentos são: não ser generoso, ou
seja, ser miserável com suas posses; ter uma enorme cobiça; um apego tão grande às
suas posses que se afeiçoa repetidas vezes; impedir que outras pessoas pratiquem a
generosidade; roubar as posses dos outros; roubar oferecimentos feitos à Sangha;
abusar da caridade; e assim por diante. Outra causa é chamar os outros de fantasmas
famintos; por exemplo, se chamar um membro da Sangha de fantasma faminto, você
renascerá como um deles por quinhentas vezes.
Quando os fantasmas famintos do tipo com obscurecimentos de nós recebem uma
gota de água, é porque não foram miseráveis ao dar água no passado. Os outros não
têm a boa fortuna de apreciar qualquer tipo de água.
Acharya Buddhajñana foi ao reino dos fantasmas famintos. Um fantasma faminto
extremamente patético com quinhentos filhos deu a Acharya um recado para levar para
o seu marido quando Acharya regressou aos reinos humanos. “Há doze anos”, ela disse,
“meu marido saiu para procurar alimento e neste tempo dei à luz a quinhentos filhos.
Não consegui sequer uma gota de água e assim tenho passado muitas dificuldades e

273
sofrimentos. Acharya, diga a meu marido para me ajudar voltando rapidamente do
reino humano com qualquer comida que tenha encontrado”.
O Acharya disse-lhe, “E se lá houver muitos fantasmas famintos? Não saberei qual
é seu marido”.
“Ele tem umas marcas que o identificam dos outros. Ele perdeu um olho e um de
seus membros é deformado”.
Quando Acharya regressou ao reino humano, viu alguns fantasmas famintos. Um
era exatamente o fantasma a quem deveria dar o recado. O Acharya contou sua estória e
deu-lhe o recado.
O fantasma faminto disse, “Vim a essa distância tão longa, mas em doze anos tudo
o que encontrei foi esta comida”. Ele segurava um pequeno pedaço de cuspe seco em
seus punhos cerrados; isto foi a posse mais querida. “Um monge que manteve sua ética
cuspiu isto e dedicou-o [aos fantasmas famintos]. Muitas centenas de fantasmas
famintos brigaram por ele, e eu venci”.
A menos que tenhamos cuidado, nunca poderemos ter certeza de que não haverá
um tempo em que teremos que fazer um almoço de fleuma seca.
Há vinte e cinco anos, depois que a mãe do monge noviço Uttara morreu, ele viu
um fantasma faminto apavorante. O amedrontado Uttara estava prestes a fugir, quando
o fantasma disse: “Não fuja!” Então Uttara perguntou, “Quem é você?” e recebeu a
seguinte resposta:

Meu filho único, sou sua amada mãe


Renascida através de meu karma
Entre os fantasmas famintos
Que não têm comida ou bebida.
Vinte e cinco anos se passaram
Desde a hora de minha morte,
Não vi nenhuma água;
Não vi nenhum pedaço de comida.

O noviço pediu ao Buda para dedicar orações a ela. Buda usou seus meios hábeis e
quando o fantasma deixou aquele renascimento, ela renasceu como um fantasma
faminto chamado Mahidhika, que era muito rico. Sua avareza era seis vezes pior do que
antes e ela não praticava nenhuma generosidade. O noviço a convenceu a oferecer ao
Buda um pedaço de tecido, mas ela se arrependeu da ação e roubou-o de volta.
Segundo a estória, isto aconteceu muitas vezes.

Kyabje Pagonka Rinpoche contou a estória de um monge que tinha um belo manto de
açafrão.Ele ficou tão apegado a ele que depois de sua morte, renasceu como um
fantasma faminto vestido de manto de açafrão.

Hoje em dia as pessoas avarentas são elogiadas como sendo “espertas” mas a
274
avareza em si é causa para renascer como um fantasma faminto. Agimos de forma
avarenta, logo é quase certo que renasceremos como fantasmas famintos no ano que
vem, ou no máximo dentro de quarenta ou cinqüenta anos -- isto é, se não pegarmos um
renascimento no inferno.

 PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DOS ANIMAIS

Isto tem duas seções: (1) pensando nos sofrimentos dos animais em geral; (2)
pensando nos sofrimentos de tipos específicos de animais.

o PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DOS ANIMAIS EM GERAL

Os animais vivenciam cinco tipos de sofrimentos: comer uns aos outros; ser
estúpido e ignorante; sentir calor e frio; fome e sede; ser explorado ou forçado a
trabalhar.
Os sofrimentos dos animais são os menores dos três reinos inferiores, mas,
nestes renascimentos comem uns aos outros e sofrem. Animais com enormes corpos,
monstros marinhos e coisas assim, possuem corpos de muitas yojanas comprimento.
Alguns monstros marinhos são tipos de peixes, outros são baleias incapazes de engoli-
los, e existem baleias que podem engolir outras baleias. Muitos animais menores
infestam os corpos dos monstros marinhos, comendo-os. Chega ao ponto que não
suportam mais isto e esfregam seus corpos nas pedras [submarinas]; isto mata as
parasitas que vivem em seus corpos; e o oceano fica vermelho por muitas yojanas.
As criaturas maiores devoram as menores e as menores se alimentam das
maiores. Os animais dos grandes oceanos são empilhados uns sobre os outros e
comidos por trás. Criaturas nascidas nas profundezas escuras dos oceanos entre os
continentes não se reconhecem, as mães não reconhecem seus rebentos e vice-versa;
comem qualquer coisa que caia em suas bocas, e vivem se alimentando uns dos outros.
Mesmo os animais no reino humano comem-se mutuamente: falcões comem
pequenos pássaros, pássaros comem minhocas, rapinas e animais selvagens comem-se
mutuamente, cães de caça espreitam os animais selvagens e os mata, e assim por diante.
Você não deve ver todo este sofrimento como se isto estivesse acontecendo em
um lugar distante; mas deve meditar neles para adquirir o insight de como você estaria
desamparado se renascesse como um destes seres sencientes.
Animais são estúpidos e ignorantes; nem mesmo sabem se estão sendo levados
a um lugar para abate ou a um lugar para serem alimentados, quanto menos saber
qualquer outra coisa. Eles sofrem de calor e frio. No verão, queimam-se até a morte e
no inverno congelam até morrer, e assim por diante.

Kyabje Pabongka Rinpoche nos falou mais sobre os sofrimentos inconcebíveis que os
animais têm.

275
Certa vez um lama apanhou em sua mão um verme vermelho comprido e
perguntou-lhe, “Você não é um monge Khampa?”
“Sim, sou”, respondeu com a fala humana.
Não podemos estar seguros de que não renasceremos como vermes. Pode-se
citar esta estória. O pai de um aldeão Bonpo morreu e Milarepa previu a outro homem
no vale que o pai renasceria debaixo de um pedaço de esterco. Podemos nos indagar,
“Como poderíamos ter tal renascimento?” Mas isto pode estar apenas uma hora
distante. Quando renascemos como vermes temos de viver nos contorcendo debaixo da
terra -- a menos que nosso buraco tenha sido invadido. Ou podemos ser comidos por
pássaros. Mas mesmo se comessem a nossa parte superior, ainda assim não
morreríamos, nossa parte inferior continuaria a se contorcer. Como podemos ter certeza
de que não viveremos assim? Mesmo se não fizermos mais nada, devemos trabalhar
com afinco para evitar nosso renascimento em tal estado prejudicial.
Além disso, a maioria dos animais têm formas e cores feias. Alguns são
redondos, sem braços ou pernas. Eles também têm fome e sede e passam todo o dia em
busca de alimento, sofrendo porque não conseguem encontrá-lo.
Se não conseguimos suportar agora quando alguém nos chama de velho cão
sarnento, o que faríamos se realmente renascêssemos como um? Veja a comida, bebida,
lugares de dormir, etc. dos cães.
Os únicos lugares onde conseguem encontrar comida são dentro das casas dos
humanos, mas quando entram todos dizem, “Entrou um cachorro!” e o afugentam sem
razão. O que mais poderia ser isto senão o resultado do mau karma do cachorro? Em
alguns mosteiros os cães uivam quando as cornetas soam chamando os monges para se
reunirem. Isto é um sinal de que alguns monges renasceram como cães.
Certa vez um lama em Dagpo recebeu manteiga de um benfeitor leigo e carne
de outro, mas não as consagrou. Ele morreu e renasceu como uma yak fêmea que
costumava dar muito leite na casa do leigo que havia lhe oferecido a manteiga. Mais
tarde a yak caiu de um penhasco e o rio a carregou. O leigo que havia lhe dado a carne
encontrou a yak. Quando ele havia comido a sua carne, descobriu escritos gravados
numa das costelas: “Eu retribui minha dívida de carne com o leigo fulano-de-tal, e
minha dívida de manteiga com o leigo sicrano-de-tal.”
Lamas, oficiais monásticos, geshes eruditos, e semelhantes podem receber
tratamento especial nos mosteiros, mas a lei da causa e efeito não faz absolutamente
nenhuma exceção. Se não formos cuidadosos agora, não será difícil para o cabeça de
uma família trocar de lugar com seu asno ou cão-de-guarda. Há uma estória de um
leigo que costumava sacrificar animais aos ídolos Tirthika atrás de sua casa sempre que
sua sorte ia mal; as coisas então andavam bem. As palavras de seu pai ao morrer
haviam sido, “Faça mais sacrifícios animais”. O pai mais tarde renasceu como um touro
e seu próprio filho realizou o sacrifício sêxtuplo nele. Há também a estória do leigo que
renasceu como um peixe no lago atrás de sua casa. Não podemos ter a certeza de que
tais coisas não acontecerão conosco.
O sofrimento de ser explorado é como segue. Veja o exemplo de um asno. Ele é

276
obrigado a carregar cargas embora suas costas possam estar cobertas de chagas.
Quando está próximo da morte, ele é simplesmente abandonado em qualquer lugar, e
então morre enquanto os corvos arrancam seus olhos até mesmo antes que ele pare de
respirar.
Devemos pensar nestas coisas para desenvolver insight em como é impossível
suportar tais sofrimentos num renascimento destes.

o PENSANDO NOS SOFRIMENTOS DE ANIMAIS ESPECÍFICOS

Isto tem duas sub-divisões: pensando (1) no sofrimento dos animais que vivem
em ambientes superlotados; e (2) no sofrimento de animais mais dispersos.

Pensando no Sofrimento dos Animais que Vivem em Ambientes


Superlotados
A maior parte destes animais vivem nas profundezas dos grandes oceanos, as
profundezas escuras entre os continentes. Alguns deles vivem nos alcances mais baixo
e outros nos mais elevados, como pilhas de latas de cerveja descartadas. Os animais de
cima pressionam os animais de baixo, que têm até dificuldade para respirar.

Pensando no Sofrimento de Animais Mais Dispersos


Estes são os animais do reino humano, e eles têm inúmeras formas de padecer
sofrimentos.
Temos todas as causas possíveis para recebermos estes renascimentos; e estas
causas ainda são poderosas e numerosas. A mais poderosa delas é, por exemplo, ser
desrespeitoso com o Dharma e seus expoentes, e também celibatos chamando-se
mutuamente de animais. Estas são exemplificadas pelas estórias de Manavagaura [vide
Dia Quatro].
Certa vez na Índia, alguém agiu como benfeitor dos membros da Sangha que
faziam o retiro da monção, mas o benfeitor deu mercadorias de qualidade inferior. Ele
renasceu numa lama mal-cheirosa como um verme com cabeça de monge, e passou por
muitos sofrimentos. Uma vez alguém disse que um certo monge se parecia com um
macaco: por ter dito isto, ele teve quinhentos renascimentos como macaco. Estas
estórias vêm dos sutras.
As grandes ações não-virtuosas nos levam a renascimentos nos infernos; as
ações não-virtuosas medianas a renascimentos como fantasmas famintos, e pequenas
ações não-virtuosas a renascimentos como animais. A maneira como uma ação não-
virtuosa fica grande depende da intenção, do campo de mérito ou do objeto material
envolvido, e coisas assim. Por grandes ações não-virtuosas não queremos dizer coisas
óbvias como matar um ser humano. Nas vidas futuras vamos desaparecer nos reinos
inferiores por causa do karma de inadvertidamente fazer piada dos seres karmicos
potentes [como nossos pais], ou insultá-los em voz baixa. A certeza de não renascer nos
reinos inferiores só virá quando tivermos alcançado o estágio de paciência do Caminho

277
da Preparação. O Tesouro da Metafísica diz:

Aqueles que alcançaram o estágio de paciência


Nunca mais cairão nos reinos inferiores.

Isto não se aplica a nós. Sabemos de nossas capacidades atuais: antes de


morrermos não poderemos expiar as causas que já acumulamos e que levam aos reinos
inferiores. E uma vez que tenhamos renascido nos reinos inferiores não teremos meios
ou refúgio para nos libertar destes reinos. Engajando-se nos Feitos dos Bodhisattvas
afirma:

“Quem me protegerá
Destes grandes terrores?”
Com olhos arregalados
Percorrerei as quatro direções
Buscando um refugio.
Mas quando não encontrar nenhum refúgio
Nas quatro direções
Me entregarei ao total desespero.
Se estes lugares não tem refúgio,
Então, o que farei?

Observe e verá que o reino animal é o melhor dos três reinos inferiores, mas ainda
é impossível para os animais recitarem até mesmo um om mani padme hum, Não é
difícil para eles terem enganos poderosos ou os três venenos, e portanto acumulam
karma negativo novo e migram de reino inferior a reino inferior. Engajando-se nos
Feitos dos Bodhisattvas também afirma:

Se eu não tiver nenhuma virtude


Quando sou afortunado o bastante para poder praticar a virtude,
O que farei quando estiver completamente cego
Com os sofrimentos dos reinos inferiores?
Se eu não praticar nenhuma virtude
E acumular ações negativas ou malfeitos,
Não ouvirei nem mesmo as palavras
“Reinos superiores” durante bilhões de eons.

Em outras palavras, se não trabalharmos arduamente para alcançar algum refúgio


ou meio de nos libertarmos dos reinos inferiores em nossas vidas futuras antes que este
nosso renascimento chegue a um fim, será muito tarde quando já tivermos realmente
caído nos reinos inferiores.
A única coisa entre nós e os três infames reinos inferiores é o simples fato que

278
ainda não paramos de respirar. Num breve tempo --ainda este ano, ou no ano que vem,
ou no máximo dentro de alguns anos-- alguns de nós podemos renascer no inferno e
nossos corpos não se distinguirão do fogo. Outros podem renascer como fantasmas
famintos e não encontrarão nem mesmo uma gota de água ou pedaço de comida. Outros
renascerão como animais com chifres afiados nas cabeças e pêlos ásperos nos corpos.
Não podemos estar certos que não teremos tais renascimentos; seria tão fácil quanto
acordar de um sonho.
Ao recordarmos estas coisas não devemos vê-las como estórias que aconteceram
há muito tempo ou como mero objeto de curiosidade. O ponto é ter insight do que seria
renascer nestes reinos, e da certeza de que vamos renascer nestes reinos depois desta
vida. Suponha que fôssemos espectadores quando muitos criminosos estivessem sendo
punidos pelo edital do rei; então de repente fôssemos agarrados, levados da multidão, e
recebêssemos punição igual aos criminosos que nos antecederam. De maneira
semelhante, agora sentimos que muitos, muitos seres sencientes passam por
sofrimentos em algum lugar chamado “reinos inferiores” e olhamos com curiosidade
quando um açougueiro leva as ovelhas até o abatedouro; mas imagine o sofrimento e
medo que experimentaríamos se de repente chegássemos aos reinos inferiores, ou
virássemos uma ovelha e fôssemos pendurados de cabeça para baixo por algum
açougueiro e realmente sentíssemos sua espada entrar entre nossas costelas. Devemos
ter este tipo de insight. Buda, o Bhagavan, nos deu a seguinte predição:

No futuro, meus Sravakas, os seres irão aos reinos inferiores


como areia caindo de um saco virado.

Somos como os criminosos sentenciados a serem jogados de um penhasco e que


relaxa à beira do penhasco. Estamos inconscientes disto e em vez de fazermos aquilo
que nos tornariam Arhats, permanecemos complacentes: isto é um presságio de que
iremos aos reinos inferiores.
Veja se você pensa que será como a pequena quantidade de areia que
permanece para três nas costuras do saco virado.
Se nossas meditações nos dão insight quanto ao que é renascer nos reinos
inferiores, desenvolveremos a renúncia. Por isso, às vezes é melhor meditar nos
sofrimentos dos reinos inferiores do que nas deidades tutelares.
A quantidade de lembranças dos sofrimentos dos reinos inferiores que são
necessárias é o seguinte. Dois filhos da irmã de Ananda foram postos aos cuidados de
Maudgalyayana. Os meninos não estudavam e então Maudgalyayana mostrou-lhes os
infernos; como resultado, eles desenvolveram a renúncia natural.

Kyabje Pabongka Rinpoche reviu este material e também falou um pouco sobre como
seguir esta prática

279
DIA DOZE

Kyabje PabongkaRinpoche deu uma breve palestra para ajustar nossa motivação,
citando as palavras do grande Dharmaraja Tsongkapa:

O ótimo renascimento humano


É difícil de adquirir.
Esta vida não dura muito.
Familiarize sua mente com estas coisas
E afaste-se das banalidades da vida.

Então, depois de repassar os títulos anteriores, ele reviu o material sobre os


sofrimentos dos seres dos reinos inferiores, parte da seção "Pensando nos Tipos de
Felicidade ou Sofrimento que Terá em seu Próximo Renascimento num dos Dois Tipos
de Migrações."

Tais coisas o levam a querer extrair a essência de seu oportuno renascimento


humano. Quando pensar nos sofrimentos dos reinos inferiores você ficará tão
apavorado e vai querer buscar algum refúgio para protegê-lo, bem como um meio de
ser feliz em suas vidas futuras. O refúgio que se toma como proteção dos reinos
inferiores, é no guru e nas Três Jóias. Os meios [de ser feliz em suas vidas futuras] é
desenvolver fé na lei de causa e efeito --esta fé é a raiz de toda a saúde e felicidade-- e
então modificar seu comportamento de acordo.

(B) ENSINANDO MEIOS PARA A FELICIDADE EM SEU PRÓXIMO


RENASCIMENTO

Isto tem dois sub-títulos: (1) tomando refúgio, o santo portal para entrar nos
ensinamentos; (2) desenvolvendo fé na lei da causa e efeito --a raiz de toda saúde e
felicidade.

TOMANDO REFÚGIO, O SANTO PORTAL PARA ENTRAR NOS


ENSINAMENTOS

Isto tem cinco seções: (1) as causas nas quais a tomada de refúgio depende; (2)
em que tomar refúgio; (3) o critério para tomar refúgio; (4) os benefícios de tomar
refúgio; (5) conselho para quem já tomou refúgio.

 CAUSAS NAS QUAIS A TOMADA DE REFÚGIO DEPENDE

A correta tomada de refúgio depende de se ter ou não no contínuo-mental as


causas corretas para tomar refúgio. Estas causas são discutidas em O Riso Melodioso de

280
Lozang Dragpa --Respostas a 'Perguntas sobre o Mais Branco dos Altruísmos', [de
Lozang Chokyu Gyaeltsen], que diz:

A verdadeira natureza de tomar refúgio:


Toma-se refúgio porque se está com muito medo
Por si mesmo; e porque sabe-se que
As Três Jóias são capazes de proteger.

É isto o que quis dizer, oh Onisciente.


Em outras palavras, precisamos de ambas as causas: medo pessoal do samsara e
dos reinos inferiores, e acreditar que, uma vez que colocamos nossa confiança nas Três
Jóias, elas terão a habilidade de nos proteger destes terrores. Se não tivermos estas duas
causas, não tomaremos refúgio completamente. Se não temermos o sofrimento não
pensaremos em buscar um refúgio. Se não acreditamos no objeto de nosso refúgio, não
recordaremos nossa confiança nele --poderemos lembrar, mas só em palavras, porque
nosso coração não estará no ato de nossa entrega aos cuidados daquele refúgio. Cada
um dos três níveis de capacidade contém sua própria versão da [primeira] causa para
tomar refúgio. Para o nível de Pequena Capacidade, é o medo de ir aos reinos
inferiores. Para a Capacidade Mediana, é medo do samsara. Para a Grande Capacidade
é tamanho amor e compaixão que não consegue suportar que os outros sofram no
samsara. Nesta seção específica do Lam-rim a causa de tomar refúgio é o medo dos
reinos inferiores.

 EM QUE TOMAR REFÚGIO

São duas partes: 1) a identificação do objeto de refúgio; 2) as razões porque são


refúgios adequados.

o A IDENTIFICAÇÃO DO REFÚGIO

Os Cento e Cinquenta Versos de Louvor afirma:

Tome refúgio em quem


Não tenha nenhum defeito,
Absolutamente nenhuma cegueira, e em quem
Residem todos os aspectos de todas as boas qualidades...
Quando pensar nisto
Respeite aqueles que o louvam
E se mantém em seus ensinamentos.

Ou seja, quando pensar em como distinguir entre o que deve e o que não deve
ser seu refúgio, você vai querer tomar refúgio no Buda, o Mestre do budismo, em seus

281
ensinamentos, e naqueles que vivem segundo seus ensinamentos. A pessoa mundana
comum busca refúgio em criaturas mundanas: espíritos-reis, deuses, nagas, espíritos, e
coisas assim. Não-budistas buscam refúgio em Brahma, Indra, etc., mas estes são seres
ainda no samsara, portanto não são refúgios adequados.
Quem então é um refúgio adequado? Os Setenta Versos da Tomada de Refúgio
diz:

Buda, Dharma e Sangha


São os refúgios para os que buscam a liberação.

Ou seja, o único refúgio é as Três Jóias: Buda, Dharma, e Sangha. Mas se não
identificarmos corretamente os três, não tomaremos refúgio com pureza. Não somos
críticos e assim fingimos ser detentores-de-conhecimento Mahayana, mas quando algo
anda errado, surgem doenças e coisas assim, ou quando temos algum trabalho
importante a fazer, buscamos refúgio nos protetores de Dharma mundanos, em
espíritos-reis, deuses locais, etc, fazemos purificações com fumaça ou carregamos
talismãs de madeiras sob nossas axilas; corremos ao altar de qualquer deidade. Toda
esta atividade externa mostra nosso estado interno. Budistas devem se colocar sob os
cuidados das Três Jóias. De fato, podemos ter conseguido estar num mosteiro, mas não
somos nem mesmo qualificados para sermos budistas, muito menos detentores-de-
conhecimento Mahayana.
Nagas, espíritos-reis, e outros não têm estas três qualidades: onisciência, amor e
habilidade. Eles nem mesmo sabem quando vão morrer. Normalmente são da categoria
de animais ou fantasmas famintos, e seus renascimentos são inferiores aos nossos. Não
poderíamos usar um método pior do que confiar neles. Que meios poderiam ser pior do
que buscar refúgio neles? Longe de nos proteger do samsara e de sofrimentos dos
reinos inferiores, ou até mesmo dar-nos um pouco de ajuda, eles podem, ao contrário,
nos causar muito mal. Eis uma estória para ilustrar isto. Um homem com um bócio foi
certa vez até um lugar assombrado por espíritos comedores de carne. Um imposto de
carne que estes espíritos pagavam a outras criaturas estava vencido, portanto os
espíritos removeram o bócio do homem. Um outro homem com bócio foi até eles e
tomaram refúgio na esperança de conseguir os mesmos resultados, mas os espíritos não
destruíram seu bócio e sim fizeram-no maior. De forma similar, deuses mundanos e
espíritos malignos são às vezes benéficos e às vezes prejudiciais; eles nunca são
confiáveis.
Não-budistas fazem de Brahma, Indra, Shiva, Rudra, Ganesha, etc., seus
refúgios. Isto é um progresso com relação ao que foi dito acima, mas estes deuses ainda
não estão liberados do samsara e dos reinos inferiores, portanto não podem proteger
outros seres. Mas Buda, o Mestre do budismo, não é como eles. O Louvor Àquele
Digno de Louvor diz:

282
Você pode proclamar, "Eu sou amigo
De quem está sem proteção."
Sua grande compaixão pode abraçar todos os seres.
Oh Mestre, que tem grande compaixão,
Tem amor, age movido por amor.
É diligente, não é preguiçoso.
Quem mais poderia ser como você?
É protetor de todos os seres sencientes;
Um bom parente de todos.

Discutirei as qualidades de Buda individualmente em outra parte. Segundo


aquela seção, Buda tem três qualidades magníficas: onisciência, amor e habilidade. Os
espíritos-reis, espíritos malignos, e coisas assim não só não têm nem um pouco destas
boas qualidades, mas também a soma das boas qualidades dos refúgios mundanos,
deuses, nagas, e similares, não podem competir nem mesmo com as boas qualidades de
um único Shravaka Que-Entrou-Na-Corrente.
Buda é o refúgio supremo porque levou os dois benefícios [benefícios para si e
para os outros] aos seus níveis mais desenvolvidos. Nosso Mestre eliminou todos os
defeitos e possui todas as boas qualidades.
Colocado de forma simples, a jóia suprema do Buda é tida como os dois
dharmakayas, ou "corpos de verdade"; a jóia relativa do Buda, os dois kayas físicos [o
sambhogakaya, ou "corpo de beatitude", e o nirmanakaya, ou "corpo de emanação"].
A jóia do Dharma é como segue. A jóia suprema do Dharma é qualquer coisa
que esteja sob a verdade da cessação ou a verdade do caminho --estas são as [duas]
verdades purificadoras [em contraste com as duas verdades do sofrimento e da origem
do sofrimento] no contínuo-mental dos Aryas. Para servir de guia, tomamos "verdade
da cessação" significando em parte a liberdade [da "cessação" de] algum tipo de
obscurecimento, sendo esta liberdade uma função de um caminho específico sem
obstáculos. "A verdade do caminho" é tida como meios para os Aryas alcançarem estas
cessações e realizações em seus contínuos-mentais. Quem não estudou os clássicos e
pensa num nível inferior, pode ao contrário identificar os três níveis do Lam-rim como
uma aproximação grosseira da jóia suprema do Dharma.
A idéia geralmente aceita para a jóia do Dharma são coisas como as doze
divisões das escrituras.
A jóia da Sangha é o seguinte. A jóia suprema da Sangha são os Aryas que
possuem qualquer uma das oito boas qualidades da mente liberada.
Um grupo de quatro seres comuns mantendo os votos de ordenação completa de
um monge é a idéia geralmente aceita para a jóia da Sangha. Se ajudamos ou
prejudicamos estes seres receberemos resultados virtuosos ou não-virtuosos com
relação à Sangha.
Não é preciso todos estes três refúgios para ser protegido de algum tipo de
perigo; cada uma das Três Jóias pode protegê-lo. Certa vez um homem em Dokham fez

283
súplicas a Avalokiteshvara enquanto estava sendo arrastado por um tigre. O tigre
imediatamente colocou-o no chão e o homem ficou livre de todo perigo.
Depois que Purna havia se ordenado e alcançado o estado de Arhat, alguns
parentes e mercadores foram ao mar para conseguir sândalo de primeira, mas seus
navios começaram a desintegrar. Os parentes suplicaram ao Arhat Purna [em suas
orações] e foram salvos das águas.
O rei dos nagas fez uma chuva de armas cair no Rei Prasenajit; Maudgalyayana
a transformou numa chuva de flores.
No entanto, todas as Três Jóias são necessárias para protegê-lo totalmente do
samsara e dos reinos inferiores. Para curar um paciente de uma doença grave, são
necessárias três coisas: um médico, o remédio, e as enfermeiras. De forma similar, para
se libertar da séria doença dos sofrimentos do samsara e dos reinos inferiores, do perigo
da paz [de Arhats Hinayana], ou da existência [samsárica], definitivamente precisa-se
de todos estes: o Buda, o mestre do caminho libertador, que é como o médico; o
Dharma, o caminho libertador dos três níveis de capacidade, que é como o remédio; e a
Sangha, os amigos dos praticantes de Dharma, que são como as enfermeiras. Portanto,
estes três são objetos de refúgio.

o AS RAZÕES DE SEREM REFÚGIOS ADEQUADOS

As principais razões são as boas qualidades da jóia do Buda. Existem quatro


razões para isto.

A Primeira Razão
Buda se libertou de todos os perigos. Pessoas se afogando ou presas em areias
movediças não podem socorrer umas às outras. Se os Budas, os salvadores em quem
tomamos refúgio, não tivessem libertado a si próprios de todos os perigos, eles não
poderiam libertar os outros.
Buda, nosso Mestre, está liberado de todos os perigos. Devadatta queria matar o
Buda e usou um mecanismo para atirar pedras nele, mas não conseguia machucá-lo.
Em Rajagriha, Ajatashatru soltou Dhanapala, um elefante louco e indomado. Todos os
outros Arhats ficaram apavorados e fugiram para o céu, mas Buda não teve medo e
subjugou Dhanapala. Um chefe-de-família chamado Shrigupta imaginou um plano para
jogar Buda num buraco de fogo, mas Buda não se queimou. Shrigupta envenenou a
comida de Buda, mas isto também não foi bem sucedido.

Depois que Pabongka Rinpoche contou esta estória em detalhes, ele continuou:

Shrigupta, sua mulher, e os demais, consideravam nosso Mestre meramente


como um ser comum que poderia ser intimidado com buracos de fogo ou veneno. Pode-
se prontamente comparar isto com a seção sobre devoção ao seu mestre espiritual que
conta como não podemos ter certeza das aparências. Por ter Buda se libertado de todos

284
os perigos isto indica que ele abandonou os dois tipos de obscurecimentos, juntamente
com os seus instintos.

A Segunda Razão
Ele é habilidoso nos meios de libertar os outros dos perigos. Se estivesse livre
de todos os perigos pessoais, mas não fosse suficientemente hábil para saber como
proteger os demais, ele seria tão incapaz de proteger os outros quanto uma mãe com
braços amputados é capaz de salvar seu filho do afogamento. Mas o Bhagavan, o Buda,
é habilidoso nos meios de subjugar seus discípulos. Ele liberou pecadores tão grandes
como Angulimala, que era consumido por sentimentos de hostilidade; Pramudita, o rei
dos músicos celestiais; Uruvilvakashyapa, que era consumido pelo orgulho; criaturas
poderosas como yakshuni Hariti e yaksha Atavaka; pessoas com faculdades
entorpecidas como Chudapanthaka, que era consumido pela ignorância mais profunda;
pessoas velhas, que tinham tão poucos méritos-raiz como o chefe-de-família Shrijata; e
pessoas com grande luxúria como Nanda. É assim que Buda tem os meios hábeis de
subjugar discípulos.

A Terceira Razão
Ele reage compassivamente a tudo, sem sentimentos de intimidade ou
distanciamento. Se assim não fosse, ele só ajudaria aos que lhe são caros e não aos
inimigos. No entanto, Buda não tem sentimentos de intimidade ou distanciamento com
qualquer ser. Não há nenhuma diferença na ajuda que deu e na intimidade que sentiu
com Devadatta, seu inimigo jurado, e Rahula, seu próprio filho. Devadatta ingeriu uma
enorme quantidade de manteiga medicinal para competir [com um feito semelhante de
Buda], mas não conseguiu digeri-la e ficou muito doente. Buda, nosso Mestre, livrou
Devadatta da doença ao jurar que amava igualmente Devadatta e Rahula.
Buda Shakyamuni foi o Buda que veio em nosso atual sistema-mundial, mas se
fossemos comparar, veríamos que os outros Budas compartilham essas mesmas
qualidades.

A Quarta Razão
Buda trabalha pelo bem de todos, tenham eles ajudado ou não ao Buda. Nós não
fazemos isto: nem mesmo mantemos uma conversa com alguém oprimido ou
dirigimos-lhe algumas palavras amáveis, muito menos ajudá-lo. Trabalhamos pelo bem
de pessoas que nos tenham ajudado e não pelos que não o fizeram; portanto, não
protegemos os oprimidos. O Buda não age assim; ele trabalha pelo bem de todos, quer
tenham lhe ajudado ou não. Buda cuida dos doentes. Por exemplo, certa vez ele lavou o
corpo de um monge que estava tão doente que seu corpo estava coberto pelas próprias
fezes e urina. Ele cuidou de pessoas como o brâmane feio que tinha os dezoito sinais de
feiúra e que era proscrito mesmo entre os mendigos. Buda protegeu e cuidou de pessoas
que nunca tiveram sorte, como a filha do Rei Prasenajit chamada Vajri, que era
deformada e tinha o rosto de um porco; ou o filho do chefe-de-família Mahamati,

285
Svagata [Bem-vindo], que tinha tão poucos méritos que sua família aos poucos perdeu
toda a fortuna depois que ele nasceu. Svagata virou um mendigo, mas qualquer grupo
de mendigos a quem ele se juntava nunca conseguia comida. Ele foi renomeado de
Nada-bem-vindo. Onde quer que fosse, ninguém dava nada, assim tornou-se proscrito
entre os mendigos. Até mesmo quando ia em peregrinação, não o deixavam retornar.

Kyabje Pabongka Rinpoche falou em grande detalhe como Buda ofereceu sua
proteção.

Assim, Buda tem grande compaixão por todos e nenhum sentimento de


intimidade ou distancia. Além disto, ele trabalha pelo bem de todos, quer tenha
recebido ajuda ou não. Mas Buda ama especialmente os miseráveis. Se não fosse
amoroso ou não tivesse grande compaixão ele poderia não oferecer sua proteção
mesmo se fosse pedida. Mas Buda tem estas qualidades e elas mostram que ele
definitivamente oferece proteção até quando não é pedida.

Depois desta breve discussão, sobre as razões de tomar refúgio e em quem tomar
refúgio, Kyabje Pabongka Rinpoche continuou:

 A MEDIDA DE TER TOMADO REFÚGIO

Isto tem quatro sub-seções.

o TOMANDO REFÚGIO AO CONHECER AS BOAS QUALIDADES


DO OBJETO DE REFÚGIO

Deve-se tomar refúgio conhecendo as qualidades de cada uma das Três Jóias.
Portanto, isto tem três partes: (1) as boas qualidades do Buda; (2) as boas qualidades do
Dharma; (3) as boas qualidades da Sangha.

As Boas Qualidades do Buda

Buda tem quatro tipos de boas qualidades (1) de seu corpo; (2) de sua palavra.
(3) de sua mente; (4) de suas boas obras.

As Boas Qualidades do Seu Corpo

O Ornamento à Realização diz: “Suas mãos e pés [estão] marcadas por rodas,
suas [solas são macias e planas como o peito de uma] tartaruga. Em outras palavras, seu
corpo está adornado com os trinta-e-dois sinais”. O mesmo texto também fala das
“Unhas cor de cobre do Muni...” Ou seja, ele também está adornado com as oitenta
marcas.

286
Os “sinais” significam que ele tem o contínuo-mental de uma grande
personalidade. As “marcas” indicam que tipo de qualidades ele possui internamente. É
muito poderoso pensar sobre as qualidades naturais das marcas e sinais, as boas
qualidades e suas causas, e assim por diante. A Guirlanda Preciosa de Nagarjuna conta
que se somássemos todos os méritos do mundo, dos Pratyekabuddhas, dos Shravakas
Não-Mais-Aprendizes, dos imperadores do mundo, e assim por diante; todo este mérito
somado produziria um único poro do corpo de um Buda. Todos os méritos necessários
para produzir todos os poros de um Buda, multiplicados por cem, produziria uma das
marcas. Todos os méritos necessários para produzir todas estas oitenta marcas,
multiplicado por cem, produziria um destes sinais. Os méritos necessários para produzir
trinta destes sinais, multiplicados por mil, produziria o cabelo encaracolado urna [entre
as sobrancelhas de Buda]. Os méritos necessários para produzir este último sinal,
multiplicado por cem mil, produziria o Ushnisha. O mérito para produzir isto,
multiplicado por 1014 produziria a voz Brahma de um Buda. Mais ainda, toda parte do
corpo de um Tathagata, os sinais e as marcas, é um mestre de Dharma e executa os
feitos da palavra iluminada. Até mesmo seu ushnisha, seus poros, etc, executam os
feitos da mente iluminada e então percebem [os aspectos] relativo e supremo de tudo o
que é conhecível.
Acabei de seguir a tradição dos gurus de linhagem de Lam-rim do passado com
relação às qualidades do corpo iluminado com três linhas de um verso [de Cânticos da
Experiência, de Tsongkapa], cada linha tratando do corpo, palavra e mente iluminados.

Corpo nascido de dez milhões de virtudes e excelências,


Palavra que realiza as esperanças de infinitos seres
Mentes que vêem todo o conhecível como são;
Eu rendo homenagem ao chefe do clã Shakya

É por isso que o corpo iluminado permeia todo o conhecível.


Tudo que for permeado por seu corpo também é permeado por sua palavra e
mente. Portanto, “Todos os campos de Buda aparecem em seu corpo e seu corpo
permeia todos os campos de Buda”. Estes são os mistérios inconcebíveis do corpo
iluminado. Um sutra diz: “Onde quer que sua sabedoria primal permeie, assim também
o fazem seus corpos”. Sempre que alguém vê na cabeça de um Buda o famoso
ushnisha, ele só tem 4 polegadas de altura; mas quando foi medido pelo Bodhisattva
Vegadharin, ele subiu pelos seus poderes milagrosos até sistemas-mundiais
imensuráveis, mas não conseguiu chegar ao topo da protuberância da coroa do
Tathagata e estava muito cansado para completar a medição. Isto está no Sutra do
Inconcebível.
A roupa de um Buda mantém uma distância de 4 polegadas de seu corpo, mas
vista externamente ela acompanha o contorno do corpo. Seus pés não tocam o chão,
mas deixam o contorno das rodas como pegadas. Minhocas sob seus pés têm grande
beatitude por sete dias, e quando deixam seu estado animal, renascem nos reinos

287
celestiais. De Louvor em Símile:

Teu corpo está adornado com os sinais;


Tão belo, és néctar aos olhos,
Como um céu de outono sem nuvens
Adornado pelas constelações.
Muni, tua cor é dourada
E estás belamente vestido em mantos,
Como os picos das montanhas douradas
Surgindo acima de um amontoado de nuvens.
Protetor, não estás adornado com jóias;
Tua face-de-mandala está cheia de esplendor.
Nem mesmo a face da lua crescente
Sem nuvens pode igualá-la
Tua face de lótus
É um lótus aberto pelo sol
Discípulos, como abelhas, vêm o lótus
E corajosamente voam até ele.
Tua face dourada
É bela com dentes brancos,
Como uma serra de montanhas douradas
Banhada no luar de outono.
Oh Ser Digno de nossos oferecimentos
Tua mão direita está embelezada
Pelo sinal da roda;
Ela encoraja as pessoas
Amedrontadas com a roda do samsara.
Muni, quando andas
Teus dois pés são como lótus gloriosos;
Que deixam os contornos no chão
Oh Ser de Lótus, como és belo!

Lembre-se destas qualidades. Para mais detalhes, consultem as discussões em O


Ornamento à Realização e outros textos.

As Boas Qualidades do Sua Palavra

A palavra do Buda tem sessenta nuances; um tantra fala de sua [característica]


fundamental: “Embora ele possa dizer apenas uma coisa, o que é dito aparece
individualmente às multidões.” Tsongkapa, a personificação de Manjushri, disse em
seu Versos sobre o Ser Verdadeiro:

288
Se todos os seres sencientes do mundo fossem
Pedi-lo, ao mesmo tempo, para esclarecer suas dúvidas
Ele o faria, na frente de todos
De uma só vez, com uma só fala,
E usando um único corpo, realizaria o feito
De esclarecer suas concepções errôneas.

Isto significa que se vários seres fizessem perguntas simultaneamente ao


Tathagata, com uma única elocução ele responderia simultaneamente a todas as
perguntas na língua de cada ser e no nível das faculdades de cada um. Buda ensinou
simultaneamente as três versões do Sutra da Perfeição da Sabedoria, a longa, a média,
e a curta. Estas três versões surgiram por causa das faculdades extensas, médias e
estreitas dos discípulos.
Além disso, sua palavra pode ser compreendida independente da distância. O
Sutra do Inconcebível afirma que Maudgalyayana viajou por meio de seus poderes
miraculosos através de muitos campos-de-Buda para medir o poder de alcance da
palavra de Buda, quanto mais longe ia, ainda podia ouvi-la. Maudgalyayana, portanto,
não conseguiu medir o poder de alcance da palavra de Buda.

Sua palavra tem outras qualidades, como conta Os Cento e Cinquenta Versos
em Louvor:

Tua face é muito formosa de se ver;


Tua voz é como néctar pingando da lua.
Tua palavra é como uma nuvem de chuva
Que assenta a poeira do apego.
Como a garuda, ela expulsa a cobra da hostilidade.
Como um para-sol, ela conquista vez após vez
A insolação da ignorância.
Como um vajra, conquista de fato a montanha do orgulho.
Já vistes a realidade, portanto não te enganas.
Como não erras, és consistente,
Bem-construído, e fácil de compreender.
Tua palavra é eloquente;
Tua palavra eleva-se acima das outras,
Conquista a todos que a ouvem.
Mesmo numa lembrança posterior
Ela remove o apego e a ignorância.
Conforta o desolado, protege o descuidado,
E nos agita da complacência;
Portanto, tua palavra é adequada a todos.
Dá alegria aos eruditos,

289
Desenvolve as mentes dos medíocres,
E destrói a falta de clareza mental dos inferiores.
Tua palavra é remédio para todos.

Mas isto não é tudo: a palavra iluminada tem um número infinito de qualidades,
tais como realizar as ações do corpo e mente iluminados.

As Boas Qualidades do Sua Mente

Estas são discutidas em mais detalhes nos clássicos que mencionam as boas
qualidades devidas às vinte-e-uma divisões da consciência primal: os dez poderes, as
dezoito qualidades únicas, e coisas assim. Pessoas que estudam e contemplam os
clássicos precisam contemplar estes ensinamentos específicos para receber algum
benefício.
Em suma, há dois tipos de boas qualidades: as que vêm da onisciência e as que
vêm do amor. Como os Budas são oniscientes, mesmo quando estão em absorção
meditativa nas verdades supremas, eles estão cientes e percebem todo o conhecível tão
claramente quanto perceberiam uma fruta amlaka repousando em suas mãos. Pode-se
saber isto do Louvor Àquele Digno de Louvor:

Bhagavan, todos os fenômenos que estão


Dentro dos três tempos,
Todas as fontes de aspectos [kármicos],
Estão sob a jurisdição de sua mente
Como se fossem uma fruta amlaka na sua mão.
Todos os fenômenos, seja mutável
Ou imutável, seja único
Ou múltiplo, estão abertos para a sua mente.
Sem obstruções como se estivessem
Se movendo através do ar limpo do céu.

Certa vez um Shakya chamado Nandaka morreu. Os sacerdotes chamaram o


homem morto enquanto faziam os ritos funerários. A forma do homem morto se
manifestou e os sacerdotes deram-lhe comida e bebida: a forma comportou-se
exatamente como Nandaka. Os parentes do morto pensaram que era realmente
Nandaka, mas nosso Mestre disse-lhes que era uma semelhança do morto criada pelo
músico celestial, Vyakatva, o Yaksha Parasannakama, e assim por diante. Mas os
parentes não acreditaram no Buda.
Um sutra nos conta que nosso Mestre convidou cada um dos Shakyas para
trazer um grão com casca. Cada um deveria colocar sua própria marca de identificação
no seu grão. Tantos Shakyas ofereceram grãos com cascas que teriam sobrecarregado
um elefante. Buda identificou cada grão, dizendo “Este é de fulano” sem cometer um

290
único erro. Isto fez todos acreditarem.
A Transmissão do Vinaya diz que Buda recebeu pedaços de madeira que
haviam sido queimados e deixados num estado desordenado sob o oceano por um longo
tempo: ele reconheceu cada pedaço corretamente. Sem mais nada a orientá-lo, ele podia
afirmar que tal cinza era da madeira de tal distrito, e sabia se era do topo ou da base da
árvore.
Os poderes milagrosos da manifestação do corpo iluminado é a habilidade de
mostrar uma emanação a qualquer número de discípulos, dez milhões, um bilhão, ou o
que for. O poder milagroso da palavra iluminada é sua habilidade de falar a todos;
como já disse, a palavra ensina o Dharma simultaneamente na língua de cada ser
senciente e segundo o desejo de cada um. O poder milagroso da concentração uni-
focada da mente iluminada é o seguinte: Quando nosso Mestre tem um pensamento
mundano, as mentes dos outros seres sencientes, mesmo formigas, compreendem o que
o Tathagata quer dizer. Mas, quando ele tem um pensamento supra-mundano, até
mesmo os Bodhisattvas em sua última encarnação não podem compreender os
pensamentos do Buda. Quando o Buda ensinou os três Sutras da Perfeição da
Sabedoria, ele fez todos os mundos se transformarem em campos puros. Assim dizem
que a mente de Buda tem um número infinito de tais boas qualidades.
Suas boas qualidades de amor são descritas pelo Sétimo Dalai Lama:

Uma pessoa pode ser má,


Outros podem estar dominados pela raiva
E intencionados a matá-lo.
Mas pensas sempre em todos os seres viventes
Como teus filhos. Tens afastado
Qualquer pensamento prejudicial.
O amor que temos por nós mesmos
Não se compara com a chuva de compaixão de tua mente.

Em outras palavras, o tipo de amor que temos por nós mesmos não se compara
nem mesmo com uma fração do amor que Buda tem pelos seres sencientes. Além disto,
seu amor não é como a compaixão intermitente que sentimos: só temos compaixão
quando vemos um ser senciente sofrendo e não quando não vemos. Um Buda sempre
percebe que todos os seres sencientes estão atormentados pelo sofrimento; seu grande
amor e compaixão para com eles é ininterrupta, e sempre funcionando. A compaixão de
um Buda vem finalmente pela força de sua familiarização com os treinamentos desde
que entrou pela primeira vez no caminho. É este o significado quando Os Cento e
Cinquenta Versos de Louvor diz:

Todos estes seres não são diferentes:


Eles estão atados pelas ilusões.
Vós tendes estado atado

291
Por longo tempo pela compaixão
E liberarás todos os seres iludidos.

Do Versos do Ser Verdadeiro:

Todas as mentes de todos os seres estão sempre veladas


Pela escuridão da ignorância.
O Sábio Santo vê todos os internos
Da prisão do samsara, e desenvolve compaixão.

As Boas Qualidades do Suas Boas Obras

O Sublime Contínuo do Grande Veículo diz:

Eles são como Indra, o tambor,


Nuvens, Brahma, o sol,
Uma jóia preciosa. Os Tathagatas são como
Ecos, como o espaço, como a terra.

Suas contemplações devem seguir o ensinamento deste texto sobre as nove


similitudes: o reflexo de Indra aparece, sem qualquer dependência de esforço ou
conceitos [por parte de Indra], sobre a superfície da lápis lazuli [no topo do Monte
Meru]60. Quando os deuses inferiores vêem o reflexo, pensam, “Agirei para obter o
mesmo”. Então vão acumular as causas para alcançar o estado de Indra, senhor dos
deuses. De forma similar, quando vemos o corpo do Buda, adornado com as marcas e
sinais, pensamos em alcançar tal estado, e procuramos acumular as causas para que
aconteça. Estas são as boas obras do corpo iluminado.
No Reino dos Trinta-e-Três Deuses há um grande tambor chamado Vegadharin,
produzido através dos méritos dos deuses. Sem necessidade de tocador, o tambor emite
sons que ensinam os quatro selos do Dharma; estes sons estimulam os deuses a buscar a
liberação. De forma semelhante, os Budas não têm o esforço associado à motivação,
mas sua palavra se estende a todos os seres, guiando-os ao renascimento superior ou
excelência definitiva. As boas obras da palavra iluminada é a sua habilidade de ensinar
o Dharma a seres adequados afortunados.
A chuva cai das nuvens e a colheita cresce. As boas obras da mente iluminada
são semelhantes na sua habilidade de fazer a colheita da virtude crescer nos contínuos-
mentais dos discípulos.
O corpo iluminado faz milagres para subjugar os seres sencientes. As boas
obras da palavra iluminada é ensinar o Dharma. Os Budas executam as boas obras da

60
O palácio de Indra repousa no centro da superfície perfeitamente plana de lápis lazuli em cima do Monte Meru. O seu
reflexo pode ser visto de qualquer ponto avantajado no topo da montanha. Esta região é chamada o Reino dos Trinta-e-
Três Deuses porque Indra tem a companhia de trinta-e-três deuses menores que o ajudam a reinar.

292
mente iluminada na dependência da concentração uni-focada sem enganos.
Em suma, os Bodhisattvas do oitavo nível para baixo precisam fazer grandes
esforços; os Bodhisattvas acima destes níveis fazem um esforço sutil para ter
motivação. Como estes Bodhisattvas precisam fazer tais esforços, suas boas obras não
se estendem simultaneamente a todos os seres sencientes; mas as boas obras de um
Buda não depende de tais coisas, ou da motivação, isto é, de pensamentos como:
“Trabalharei pelo bem dos seres sencientes”. Como uma ilustração: a lua no céu não
pensa, “Vou refletir”, no entanto o seu reflexo aparece na gota de orvalho na ponta do
capim e na superfície da água em centenas de milhares de recipientes, desde que a água
esteja clara e calma. As boas obras do Buda fazem efeito espontaneamente e sem
esforço nos contínuos mentais dos discípulos quando a hora é certa para que sejam
domados. De fato, as boas obras do Buda depende do corpo de verdade da sabedoria
primal [dharmajñanakaya] como uma de suas causas; isto age como condição
ambiental. Estas boas obras são portanto tidas como o resultado de suas qualidades
boas e positivas.

As Boas Qualidades do Dharma

Se estudou os clássicos, pense no Dharma como o meio pelo qual os


obscurecimentos são abandonados como uma função de, digamos, caminhos
ininterruptos durante o caminho da visão. Se não compreende isto, pense assim: De
onde surgiram os Budas que devem ter as qualidades inconcebíveis mencionadas
acima? Eles surgiram, e vão surgir, na dependência do Dharma realizado, isto é, do
caminho da cessação e coisas assim, e do Dharma transmitido. Pense que o Dharma
tem a qualidade de produzir estes Budas.
Pode-se geralmente tomar a jóia do Dharma como sendo os dez níveis, os cinco
caminhos, e assim por diante --em outras palavras, a verdade da cessação, e caminhos
ininterruptos dentro dos caminhos da visão e da meditação. No entanto, a coisa mais
importante é subjugar nossos próprios contínuos-mentais; assim, em termos simples e
para dar-lhes uma ilustração por alto, pode-se tomar o Lam-rim como a jóia do
Dharma. Eu já disse isto.

As Boas Qualidades da Sangha

Tomemos o exemplo do Shravaka no caminho da acumulação. Ele foi levado a


renunciar a existência cíclica e então entrou no caminho de acumulação. Ele construiu
os treze pré-requisitos para este tipo de iluminação, alcançou as primeiras três [das
trinta-e-sete] alas da iluminação, emanou-se pelo bem dos outros, recebeu poderes
clarividentes, e coisas assim. Os Shravakas no caminho da preparação compreenderam
os dezesseis aspectos das quatro verdades através de imagens mentais de primeira-mão.
Shravakas no caminho da visão compreenderam diretamente a vacuidade sem imagens
mentais; no caminho da meditação eles abandonaram as oitenta-e-uma ordens de

293
objetos a serem abandonados. Quando os Shravakas alcançam o estado de Arhat, têm
muito mais boas qualidades; podem combinar juntos muitos objetos físicos; podem
produzir muitas emanações pela meditação uni-focada na terra, água, fogo, ar e espaço
com a exclusão de tudo o mais; podem ir a qualquer lugar onde haja um discípulo, e
coisas assim.
De fato, os Shravakas Arhats possuem imensuráveis boas qualidades. Depois
que nosso Mestre entrou em nirvana, Ananda subjugou os Tirthikas, guiando oitenta
mil pessoas à verdade, no espaço de sete dias. Há uma estória sobre Upagupta. Certa
vez quando ele estava dando um ensinamento, Kamadeva fez chover comida e jóias, e
também emanou dançarinos. Arya Upagupta colocou guirlandas de flores nos
dançarinos pouco antes de começarem a dançar; ele consagrou as guirlandas-de-flores,
que então se transformou numa coisa extremamente repulsiva. Atualmente as pessoas
consideram os Shravakas como inferiores, mas qualquer um com as suas boas
qualidades teria de ser considerado um grande adepto.
Pratyekabuddhas tem cem mil vezes mais boas qualidades do que os Shravakas
e construíram suas coleções durante cem eons.
Por comparação, as boas qualidades de um Bodhisattva são infinitas. Enquanto
ainda estão nos caminhos da acumulação e preparação, e ainda agindo movidos pela fé
eles estão sempre aumentando seus estudos, contemplações, e meditações na
vacuidade. Eles treinam-se na compaixão, bodhicitta, e na visão profunda, assim
enfraquecendo seus preconceitos dualistas manifestados e completando suas primeiras
e imensuráveis coletâneas. Quando os Bodhisattvas estão no caminho da visão, eles
primeiro alcançam a forma extraordinária da prática da generosidade [a primeira das
seis perfeições]. Quando estão no nono nível do caminho da meditação, alcançam a
forma extraordinária de todas as seis perfeições e treinamentos superiores pela virtude
de suas corretas percepções da talidade.
Os Bodhisattvas do primeiro nível emanam centenas de corpos, cada um
cercado por centenas de outros Bodhisattvas. Estes Bodhisattvas do primeiro nível
conseguem ter a visão de centenas de eons, viajam entre centenas de mundos, entram
centenas de concentrações uni-focadas, vêem centenas de Budas, recebem as bênçãos
destes Budas, se emanam em centenas de campos-de-Budas, viajam a centenas destes
campos, abrem as portas para centenas de Dharmas, amadurecem centenas de seres
sencientes, e vivem por centenas de eons. Todo momento, estes Bodhisattvas do
primeiro nível lidam com centenas [de exemplos] destes doze tipos de qualidades.
Pode-se fazer a comparação destas doze qualidades para os Bodhisattvas dos
outros níveis. Os Bodhisattvas do segundo-nível alcançam milhares destas qualidades;
os Bodhisattvas do terceiro-nível, centenas de milhares; os Bodhisattvas do quarto-
nível, bilhões; os do quinto-nível, dez bilhões; os do sexto-nível, milhares de bilhões;
os do sétimo-nível, 1023; os do oitavo nível, um número igual aos átomos em cem
bilhões de mundos; os do nono-nível, um número igual aos átomos em um milhão de
incontáveis bilhões de mundos; os Bodhisattvas do décimo-nível alcançam um número
destas qualidades iguais aos átomos de um bilhão de incontáveis bilhões de mundos.

294
Em suma, os Bodhisattvas dos primeiros sete níveis impuros gastam dois incontáveis
eons construindo suas [duas] acumulações, enquanto os Bodhisattvas dos três níveis
puros levam mais um incontável eon para completar as acumulações restantes.
Os grandes clássicos discutem estas coisas longamente, portanto, a Sangha
possui imensuráveis qualidades boas.

o TOMANDO REFÚGIO AO CONHECER AS DIFERENÇAS ENTRE AS


TRÊS JÓIAS

Existem seis tipos de diferenças: A diferença entre as características das Três


Jóias é a seguinte. Os Budas têm a característica da iluminação manifestada: eles
percebem totalmente e sem obstrução o modo de existência de todos os fenômenos, não
importa qual. Julga-se que a sílaba jang [em jangchub, a palavra tibetana para
“iluminação”] tem o significado convencional de “treinar”, como em memorizar uma
peça a ser recitada, portanto pode-se dizer que um Buda alcançou a mais completa e
desenvolvida realização. O Dharma tem a característica de ser resultado da vinda de um
Buda. Quando Buda girou a roda do Dharma das quatro verdades, seus cinco primeiros
discípulos desenvolveram várias realizações em seus contínuos-mentais, o caminho da
visão, e assim por diante. O mesmo aconteceu em outras situações [onde Buda girou a
roda do Dharma]. A Sangha tem a característica de ser os praticantes do Dharma.
A diferença entre as boas obras das Três Jóias é a seguinte. Os Budas ensinam o
Dharma dando transmissões orais. As boas obras do Dharma é diferente: causam-lhe
abandonar as coisas que devem ser abandonadas. A Sangha pratica o Dharma, e quando
alcançam os resultados do Dharma, os outros vêem isto e se engajam nas práticas.
Portanto, os que são da Sangha e os que não são, ajudam-se mutuamente. Esta é a boa
obra da Sangha: eles manifestadamente se alegram na virtude.
Estas são maneiras diferentes de considerar as Três Jóias quando se toma
refúgio. Para socorrer alguém da água, por exemplo, precisa-se de um barqueiro, seu
barco de couro, e dos assistentes que o acompanham. De forma similar, devemos
considerar os Budas como objetos de nossos oferecimentos e serviços; o Dharma como
a coisa a ser manifestada em nossos contínuos-mentais; e a Sangha como nossos
verdadeiros amigos.
As diferentes práticas [associadas às Três Jóias] são os meios de colocar em
prática estas três maneiras diferentes de considerar as Três Jóias.
As maneiras diferentes de recordá-los é lembrando as diferentes qualidades das
Três Jóias. Isto está explicado no Sutra da Recordação das Três Jóias, na passagem
que começa “Assim os Budas Bhagavan...”
As diferenças de como as Três Jóias aumentam nossos méritos é a seguinte.
Com os Budas, os méritos aumentam na dependência de uma única pessoa; com a
Sangha, os méritos aumentam na dependência de muitas pessoas. Portanto, no caso do
Buda e da Sangha, os méritos aumentam por virtude das pessoas. Com o Dharma a
diferença é que os méritos aumentam por virtude de algo impessoal.

295
Quando você toma refúgio o faz porque quer fazer oferecimentos, servir ao
Buda, e desenvolver o Dharma em seu próprio contínuo-mental.

o TOMANDO REFÚGIO DEVIDO ÀS PRÓPRIAS CRENÇAS

As próprias crenças são: o Buda ensina o refúgio, o Dharma é o próprio refúgio,


e a Sangha assiste os praticantes que tomam refúgio. Isto está ilustrado pelas diferentes
maneiras em que pacientes colocam suas esperanças em seus médicos, remédios, e
enfermeiras. Se através dos processos de realização e abandono, se desenvolve cada
parte do Dharma no contínuo mental, fica-se livre de todo tipo de perigo. Portanto, o
Dharma é o verdadeiro refúgio.

o TOMANDO REFÚGIO E NÃO DEFENDER OUTRA [RELIGIÃO]

Na India antiga, o Acharya Udbhatasiddhasvamin tinha dois irmãos que em


princípio eram não-budistas. Os dois foram até os Himalayas fazer oferecimentos a
Shiva mas viram o grande deus Shiva tomando refúgio no Buda. Logo, tornaram-se
budistas e grandes Acharyas no Mahayana. Udbhatasiddhasvamin compôs O Louvor
Supremo que fala das grandes qualidades do Buda.
Como está dito neste trabalho, tomamos refúgio em nosso Mestre e somos
discípulos de seus ensinamentos; tomamos refúgio para sempre e não podemos trocá-lo
por algum outro refúgio. Os dharmas dos Bonpos, Tirthikas, e coisas assim são não-
budistas e não devem ser tomados como nosso refúgio. Há uma diferença de
superioridade entre os mestres budistas e não-budistas, seus ensinamentos, e seus
discípulos. Como afirma O Louvor Supremo:

Abandonei os outros mestres


E tomei refúgio em vós, Oh Bhagavan.
Porque isto é tão fácil de se fazer?
Porque não tendes defeitos mas só boas qualidades...
Quanto mais eu considero
Os comentários dos Tirthikas
Mais minha mente cresce fiel
A vós, meu Protetor.

E Louvor aos Dignos de Louvor diz o mesmo:

Em que deve-se entrar


E o que deve-se abandonar?
A diferença é esta
Sua palavra, Oh Herói
Que é purificada de todas as ilusões

296
E a palavra dos outros.

Aqui no Tibet não há nenhum verdadeiro Tirthika, mas há algumas pessoas que
alegam ser praticantes e estudiosos, mas não vêem nada errado em pincelar o dharma
dos Bons ou dos bárbaros, para bajular os outros, ganhar grandes seguidores, ou ajudar
a livrarem-se de dificuldades ao encontrá-las. Eles tomaram refúgio com duas caras;
eles desapropriaram [o ato de] tomar refúgio de seus contínuos-mentais e se baniram do
rol de budistas.
Alguns dizem, “Um pouco budista, um pouco bom”, mas não há razão porque
os mestres Bon, seus dharmas ou seguidores sejam suficientemente dignos de serem
refúgios; os três não possuem todas as qualidades necessárias. Seus mestres não têm
todas as qualidades necessárias, isto é ter abandonado todos os defeitos e coisas assim.
Seu dharma não é nem mesmo um meio para diminuir as ilusões. Eles alegam que sua
sangha está baseada nos votos pratimokshha, mas seus votos não têm a linhagem.
Bon não é um refúgio para os budistas; não é digno de ser um refúgio. Mesmo
assim, budistas e bonpos dizem coisas uns aos outros levados por apego e hostilidade, e
isto dificilmente leva a um debate honesto. É vital que saibam as fontes da religião
Bon. Elas são discutidas em estórias autênticas nos escritos dos estudiosos do passado.
Vocês devem conhecer estas coisas em obras como a do escritor Tuken Dharmavajra
como O Espelho da Eloquência, que discute o que os diversos mestres defendem e as
fontes de todos os seus princípios.
Mestres bon e seus ensinamentos e visões [filosóficas] possuem visões e
meditações não-budistas. Eles também plagiaram as escrituras budistas. Seus falsos
dharmas foram inventados há muito tempo atrás e este sistema prejudicial agora
prevalece em todo lugar; mas não é um refúgio adequado para pessoas que anseiam por
liberação, nem tampouco é confiável. Com isto em mente, Drigung Jigten Goenpo
disse:

Quanto a meditações e visões [filosóficas] bon; em seus sistema parece


que o universo nasceu de ovos ou foi criado pelas deidades Cha, Shiva,
e coisas assim. Estes são empréstimos das visões dos Tirthikas.

A História dos Kadampas Posteriores afirma:

Tirthikas e Bonpos logo ganham siddhis,


Embora felizes agora,
Mais tarde vão
Aos reinos inferiores.
Tirthikas e Bonpos são como fogo:
Você se sente confortável
Quando fica a uma certa distância
Mas toque-o e se queimará

297
Je Milarepa, o senhor dos yogis, disse:

A fonte do Bon é o Dharma pervertido.


Uma criação dos nagas
E poderosos elementais,
Não leva ninguém ao caminho supremo.
Bon deve ser o mais inferior.
A diferença entre o Budismo e o resto
Depende dos refúgios;
O refúgio dos budistas é as Três Jóias;
Dos não-budistas, Brahma e Indra.
O Buda totalmente iluminado
Está, ele próprio, livre do samsara.
Portanto, ele é capaz de libertar os outros.
Deuses mundanos como Shiva e outros,
Estão, eles próprios, presos ao samsara,
Eles podem dar aos outros siddhis de curta-duração,
Mas como poderiam dar a completa liberação?...
Eles dizem, “Possa eu atingir a Budeidade
Nas mandalas das cinco famílias de nagas,
Encontradas na Antologia do Naga Branco.
No entanto os nagas são contados entre os animais.
A maioria dos Bonpos fazem ídolos como Kuenzang
E constroem várias mandalas; mas sinto
Que seja Dharma pervertido inventado pelos
Acharyas de Saias Azuis...

Kyabje Pabongka Rinpoche discutiu isto longamente.

Hoje em dia, algumas pessoas dizem que os deuses Bon, Shenrab e Oekar, são
uno com a deidade budista Avalokiteshvara. Eles alegam, “Para que todos os seres
sencientes possam ser discípulos dos Budas, muitas emanações de Budas e
Bodhisattvas apareceram entre o rol dos Bonpos. Portanto, seguir o sistema Bon não
prejudica em nada, só pode ser uma boa qualidade”. Eles fazem tais alegações
extravagantes movidos por suas cegueiras, pois seus contínuos-mentais foram afetados
por maus instintos formados com visões pervertidas. Se o que alegam fosse correto,
então imitar as ações de cães e porcos não prejudicariam em nada e só pode ser uma
boa qualidade, porque é possível que as emanações de Budas e Bodhisattvas apareçam
entre os animais. As pessoas que querem o melhor devem abandonar tais sistemas maus
e nauseantes, assim como descartariam as pedras que usam