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LIBERAÇÃOLIBERAÇÃOLIBERAÇÃOLIBERAÇÃO NANANANA PALMAPALMAPALMAPALMA DADADADA SUASUASUASUA MÃOMÃOMÃOMÃO

INTRODUÇÃO

Em 1921, cerca de setecentos monges, monjas e leigos tibetanos reuniram-se no Eremitério de Chuzang, perto de Lhasa, para receber os ensinamentos de Lam-rim do renomado mestre Kyabje Pabongka Rimpoche. Nos vinte-e-quatro dias seguintes, eles ouviram o que se tornou um dos mais famosos ensinamentos que já foram dados no Tibet. O termo Lam-rim – passos no caminho até a iluminação – refere-se a um grupo de ensinamentos que foram desenvolvidos no Tibet durante o último milênio baseado no texto conciso e original chamado Uma Luz no Caminho do grande mestre indiano Atisha (Dipamkara Shrijñana, 982-1054). De alguma maneira, Liberação na Palma de Sua Mão representa a culminação da tradição Lam-rim no Tibet. Certamente para os ocidentais, este livro tornou-se um dos Lam-rims mais significativos. Há mais de 2.500 anos, Buda Shakyamuni passou quarenta e cinco anos transmitindo uma vasta gama de ensinamentos para uma enorme variedade de pessoas. Ele não ensinou a partir de um resumo pré-determinado, mas sim segundo as necessidades espirituais dos ouvintes. Portanto, qualquer indivíduo que estude a coletânea das obras de Buda acharia extremamente difícil discernir um caminho claro que pudesse colocar em prática. A importância do Lam-rim de Atisha foi ter colocado os ensinamentos de Buda em uma ordem lógica, um passo a passo compreendido e praticado por qualquer pessoa que queira seguir um caminho budista, independentemente de seu nível de desenvolvimento.

Atisha não só confiou no que o próprio Buda ensinou, mas também levou ao Tibet a tradição oral viva destes ensinamentos – as linhagens ininterruptas de método e sabedoria que foram transmitidas por Buda, respectivamente, a Maitreya e a Manjushri,

e depois transmitidos até Asanga, Nagarjuna e muitos outros grandes iogues indianos

até os mestres espirituais do próprio Atisha. Assim, além de escrever o primeiro texto de Lam-rim, Atisha também transmitiu estas tradições orais tão importantes, que ainda existem, e que estão sendo transmitidas aos ocidentais pelos grandes lamas contemporâneos como Sua Santidade o XIV Dalai Lama. Os discípulos de Atisha fundaram uma escola conhecida como Kadam, e a maioria de sua tradição foi absorvida pela escola Gelug do Budismo Tibetano, que foi fundada pelo grande Tsongkapa (1357-1419). Muitos lamas Kadam e Gelug escreveram comentários sobre o Lam-rim, sendo o mais famoso a obra-prima de Tsongkapa, Os Grandes Estágios do Caminho (Lam-rim Chen-mo): Pabongka Rimpoche seguiu as linhas gerais deste texto no seu ensinamento de 1921, que acabou se transformando no Liberação na Palma de Sua Mão. Mas, enquanto a obra de Tsongkapa tem uma ênfase acadêmica, Pabongka Rimpoche focaliza mais as necessidades dos praticantes. Ele

entra em grandes detalhes em temas sobre como preparar-se para meditar, o guru ioga e

o desenvolvimento da bodhicitta. Portanto, Liberação é um texto altamente prático e tão relevante aos praticantes ocidentais como foi aos tibetanos que lá estiveram. Presente em 1921 estava Kyabje Trijang Dorje Chang (1901-1981), um dos

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discípulos mais próximos de Pabongka, Tutor Junior do XIV Dalai Lama, e guru-raiz de muitos lamas Gelug que fugiram do Tibet em 1959. Trijang Rimpoche tomou notas dos ensinamentos e durante os trinta-e-sete anos seguintes editou-as incansavelmente até estarem prontas para publicação em tibetano como Liberação na Palma de Sua Mão.

Pabongka Rimpoche foi provavelmente o lama Gelug mais influente do século, detentor de todas as linhagens importantes dos sutras e tantras, repassando-as aos mais importantes lamas Gelug das duas gerações seguintes; a relação de seus ensinamentos orais é vasta em profundidade e amplitude. Ele foi também o guru-raiz de Kyabje Ling Rimpoche (1903-1983), Tutor Sênior do Dalai Lama, Trijang Rimpoche, e muitos outros mestres altamente respeitados. A coletânea de suas obras ocupa quinze grandes volumes e cobre todos os aspectos do budismo. Se você já recebeu ensinamento de um lama Gelug, você foi influenciado por Pabongka Rimpoche. Um texto de Lam-rim como Liberação jamais pode ser escrito novamente, e assim este livro representa a culminação da tradição Lam-rim. Existem quatro escolas principais do Budismo Tibetano, e em todas há ensinamentos de Lam-rim, mas as escolas Nyingma, Sakya e Kagyu não enfatizam o Lam-rim como a Gelug. Embora normalmente no currículo Gelug monástico o Lam- rim só seja ensinado aos monges em um estágio mais avançado de suas carreiras, muitas vezes este é o primeiro ensinamento dado aos ocidentais. Liberação é o Lam- rim mais ensinado pelos mestres Gelug e tem sido o favorito de lamas como Sua Santidade o Dalai Lama, seus dois tutores, Serkong Rimpoche, Song Rimpoche, Geshe Ngawang Dhargyey, Geshe Rabten, Geshe Sopa, Lama Thubten Yeshe e Lama Thubten Zopa Rimpoche. Em sua breve introdução, Kyabje Trijang Rimpoche transmite uma forte sensação do que foi estar presente nestes ensinamentos. Este texto é verdadeiramente incomum entre as obras tibetanas porque é a transcrição editada de um discurso oral e não uma composição literária. Assim, não só recebemos alguns ensinamentos muito preciosos –

a essência dos oito Lam-rims principais – mas também temos uma visão de como estes

ensinamentos eram dados no Tibet. Os pontos que detalham as características especiais

deste ensinamento podem ser encontrados na introdução de Trijang Rimpoche e no final do Dia Um. Cada capítulo corresponde a um dia de ensinamentos e normalmente começa com uma breve palestra para acertar a motivação dos ouvintes. (Para uma visão geral dos detalhes do caminho completo à iluminação conforme aqui apresentado, veja o resumo do texto nos Apêndices). No livro, as motivações foram abreviadas em benefício do novo material, mas o notável Dia Um tanto é uma motivação elaborada quanto uma

excelente meditação compacta de todo o Lam-rim. Em certo sentido, o restante do livro

é um comentário sobre este capítulo. Como Pabongka Rimpoche deixa bem claro do

começo ao fim, dedicar-se ao desenvolvimento da bodhicitta é a maneira mais significativa de direcionar sua vida, e as realizações graduais mostradas no Dia Um o levará a esta meta. No final do livro, Pabongka Rimpoche diz, "Pratique o que puder,

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para que os meus ensinamentos não tenham sido em vão

bodhicitta a sua prática principal." Estes ensinamentos contêm muitas coisas novas e nada familiares, especialmente para os ocidentais, mas assim como em qualquer objetivo significativo, o estudo e a reflexão trazem clareza e compreensão.

NOTA DA TRADUÇÃO EM INGLÊS

Procurei dar a leitura mais fácil possível sem prejudicar a precisão. No entanto, como Trijang Rimpoche era um poeta renomado, sem dúvida parte da beleza do texto tibetano foi perdida. Mesmo assim, penso que preservei a natureza coloquial e prática dos discursos de Pabongka Rimpoche, dando a esta obra a proximidade e o poder do original. Para ajudar os leitores ocidentais apresentei uma hierarquia estrutural do material de uma maneira que os livros tibetanos não fazem. São onze níveis de subdivisões que no original é simplesmente em texto direto: o sumário destes títulos e subtítulos estão claramente expostos no Apêndice I e serve como um índice elaborado. Não traduzi todos os termos técnicos, preferindo deixar a palavra em sânscrito onde não há equivalente adequado em inglês. É preferível a forjar um termo em inglês que pode até ser menos familiar ao leitor do que o sânscrito, e novas palavras sânscritas budistas estão sempre entrando nos dicionários ingleses. No corpo principal do texto todas as palavras tibetanas e nomes próprios estão apresentados apenas em fonética; as transliterações estão no glossário. A transliteração do sânscrito é padrão, com exceção do s' ser escrito como sh, c como ch e ch como chh para ajudar aos leitores na pronúncia.

AGRADECIMENTOS

Mas, acima de tudo, faça da

Sinceros agradecimentos ao meu precioso guru-raiz, Gen Rimpoche Geshe Ngawang Dhargyey, por ensinar este texto na Library of Tibetan Works and Archives (Biblioteca de Arquivos e Obras Tibetanas), e por me conceder a transmissão oral completa em 1979. Sou também profundamente grato ao Venerável Amchok Rimpoche, que trabalhou longa e arduamente durante cinco anos, revendo comigo todo o texto e aprimorando minha tradução com excelentes sugestões. Agradecimentos também a Gala Rimpoche que me ajudou com os dias Onze e Doze na Austrália, em 1980-81, e Rilbur Rimpoche, um dos poucos discípulos vivos de Pabongka Rimpoche, forneceu uma biografia de seu guru. Agradeço também aos muitos amigos e colegas em Dharamsala pela ajuda, encorajamento e apoio: Losang Gyatso, na época, tradutor de Geshe Dhargyey, por sugerir que eu traduzisse este livro; Gyatso Tsering e sua equipe na Biblioteca Tibetana; todos do Hospital Delek e a Jean-Pierre Urolixes e Mervyn Stringer pela ajuda após meu acidente automobilístico em 1983; David Stuart, que recuperou a minuta da tradução dos Dias Nove e Dez de Jammu, onde foram concluídas após o acidente; Cathy Graham e Jeremy Russell, que ofereceram valiosas sugestões para

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aprimorar o manuscrito; minha mãe e meu falecido pai, que sempre me ajudaram e apoiaram; Alan Hanlay, Lisa Heath e Michael Perrott; meus falecidos amigos Keith, Kevan e Andy Brennand; e minha querida esposa, Angela, que compartilhou comigo todas as dificuldades trazidas por este longo projeto, mantendo sempre a esperança e a paciência; seu encorajamento e sacrifício foram inestimáveis. Finalmente, gostaria de agradecer a Eva Van Dam e Robert Beer por suas belas ilustrações, Gareth Sparham e Trisha Donnelly por entrevistarem Rilbur Rimpoche; Ven. Sonan Jampa pelo índice, e aos da Wisdom Publications que editaram e produziram este livro: Nick Ribush, Robina Courtin, Sarah Thresher, Lydia Muellbauer e Maurice Walshe.

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PABONGKA RIMPOCHE Uma Biografia por Rilbur Rimpoche

Meu três vezes, bondoso guru, cujo nome acho difícil sussurrar, o Senhor Pabongka Vajradhara Dechen Nyingpo Pael Zangpo, nasceu ao norte de Lhasa em 1878. Seu pai era um oficial, mas a família não era rica. Apesar da noite escura, uma luz brilhou no quarto, e as pessoas de fora da casa tiveram a visão de um protetor no telhado. Pabongka Rimpoche era uma emanação do grande erudita Jangkya Rolpai Dorje (1717-1786), embora inicialmente pensava-se que fosse a reencarnação de um grande geshe Kadam do Mosteiro de Sera-me. Rimpoche entrou no mosteiro aos sete anos de idade, fez os estudos normais de um monge, recebeu sua graduação como geshe e passou dois anos no Colégio Tântrico Gyuto. Seu guru-raiz era Dagpo Lama Rimpoche Jampel Lhumdrub Gyatso, de Lhoka. Ele era definitivamente um bodhisattva, e Pabongka Rimpoche era seu principal discípulo. Ele viveu numa caverna em Pasang e sua prática principal era a bodhicitta; sua principal deidade era Avalokiteshvara e ele recitava 50.000 manis [o mantra om mani padme hum] todas as noites. Quando Kyabje Pabongka Rimpoche encontrou Dagpo Rimpoche pela primeira vez em uma cerimônia de oferecimento de tsog em Lhasa, ele chorou do começo ao fim movido por reverência. Quando Pabongka Rimpoche terminou seus estudos, ele visitou Dagpo Lama Rimpoche em sua caverna e foi então encaminhado a um retiro de Lam-rim nas proximidades. Dagpo Lama Rimpoche ensinava-lhe um tópico de Lam-rim e depois Pabongka Rimpoche partia e meditava no tópico. Depois, voltava e contava o que havia compreendido. Se tivesse conseguido alguma realização, Dagpo Lama Rimpoche ensinava um pouco mais e Pabongka Rimpoche voltava a meditar no assunto. Isto continuou por dez anos (se isto não é surpreendente, o que será!) Os quatro principais discípulos de Pabongka Rimpoche foram Kyabje Ling Rimpoche, Kyabje Trijang Rimpoche, Khangsar Rimpoche e Tathag Rimpoche, um dos regentes do Tibet. Tathag Rimpoche era o mestre principal de Sua Santidade o Dalai Lama na infância e concedeu-lhe sua ordenação de monge noviço. Eu nasci em Khan, no Nordeste do Tibet, e dois dos meus primeiros mestres foram discípulos de Pabongka Rimpoche, então cresci num ambiente de completa fé em Pabongka Rimpoche como se ele fosse o próprio Buda. Um destes mestres tinha um retrato de Pabongka Rimpoche que soltava pequenas gotas de néctar entre as sobrancelhas. Eu vi isto com meus próprios olhos, portanto podem imaginar o tamanho da fé que eu tinha em Rimpoche quando finalmente cheguei à sua presença. Mas eu também tinha um motivo pessoal para ter tamanha fé nele. Eu era o filho único de uma família importante, e embora o XIII Dalai Lama tivesse me reconhecido como um lama reencarnado e o próprio Pabongka Rimpoche tivesse dito que eu deveria entrar para o Mosteiro Sera em Lhasa, meus pais não estavam felizes com esta idéia. Mas meu pai morreu pouco depois disto e eu finalmente pude ir para o Tibet central. Vocês podem imaginar minha empolgação ao embarcar numa viagem de dois meses a

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cavalo? Eu só tinha quatorze anos e ser um monge era a coisa certa para um rapaz da minha idade fazer. Eu senti que a oportunidade de ir a Lhasa, de me ordenar e viver como um Rimpoche conforme o Dalai Lama havia dito, era tudo uma maravilhosa obra de Pabongka Rimpoche. Na época de minha chegada a Lhasa, Pabongka Rimpoche vivia em Tashi Choeling, uma caverna acima do Mosteiro Sera. Marcamos um encontro e alguns dias mais tarde minha mãe, meu chang-dze (o homem encarregado de meus assuntos pessoais), e eu fomos a cavalo. Embora Rimpoche estivesse nos esperando naquele dia, nós não tínhamos marcado um horário. Mesmo assim, havia acabado de pedir ao seu próprio chang-dze para preparar chá e arroz doce que nos aguardava na chegada. Isto me convenceu que Rimpoche era clarividente, uma manifestação do próprio Vajradhara, que tudo vê. Depois que comemos, fomos visitar Rimpoche. Lembro-me como se fosse hoje. Uma escada estreita levava ao pequeno quarto de Pabongka Rimpoche, onde ele estava sentado em sua cama. Ele parecia igual às fotos – baixo e gordo! Ele disse, "Eu sabia que você viria – agora nos encontramos," e afagou o lado de minha face. Enquanto eu estava sentado lá, um recém-geshe de Sera veio oferecer Rimpoche um prato especial de tsam-pa que só é feito na ocasião especial de receber o grau de geshe. Rimpoche comentou como era auspicioso este novo geshe ter vindo enquanto eu estava lá e como ele havia enchido a minha tigela igual à sua. Imaginem o que isto fez à minha mente. Quase não havia nada no quarto. O mais surpreendente era uma estátua de duas polegadas de ouro puro de Dagpo Lama Rimpoche, o guru-raiz de Pabongka Rimpoche, rodeado por pequenos oferecimentos. Atrás de Rimpoche havia cinco thangkas de Tsongkapa depois de seu falecimento, da visão de Kedrub Je. A única outra coisa no quarto era um lugar para uma xícara de chá. Eu também conseguia ver uma pequena sala de meditação ao lado e ficava espiando-a (eu só tinha quatorze anos e era muito curioso). Rimpoche me disse para ir até a sala e dar uma olhada lá dentro. Tudo o que tinha era uma caixa de meditação e um pequeno altar: da esquerda para a direita havia Lama Tsongkapa, Heruka, Yamantaka, Naljorma e Pelgon Dramze, uma emanação de Mahakala. Abaixo das estátuas havia oferecimentos, arrumados ao longo do altar. Eu ainda não era um monge, então Jamyang, o antigo empregado indicado a Pabongka Rimpoche por Dagpo Lama Rimpoche, que sempre ficava no quarto de Rimpoche, foi enviado para buscar um calendário e marcar uma data para minha ordenação, embora eu não a tivesse pedido. Rimpoche estava me dando tudo que eu sempre quis e pude sentir como ele era tão bondoso. Quando parti, eu voava em uma nuvem de total estado de beatitude! O chang-dze de Rimpoche era um homem de cara muito feroz considerado a emanação de um protetor. Certa vez, enquanto Rimpoche fazia uma longa viagem, o chang-dez movido por devoção demoliu o pequeno e velho prédio onde Rimpoche vivia e construiu uma grande residência ornamentada que rivalizava com as acomodações pessoais do Dalai Lama. Quando Rimpoche retornou, ele não ficou nada

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satisfeito e disse, "Eu sou apenas um pequeno lama eremita e você não deveria ter construído algo assim para mim. Eu não sou famoso e a essência do que ensino é a renúncia da vida mundana. Portanto, estou envergonhado com estas acomodações". Recebi muitas vezes ensinamentos de Lam-rim de Pabongka Rimpoche. Os chineses confiscaram as minhas anotações, mas como resultado de seus ensinamentos, eu ainda carrego em meu interior algo muito especial. Sempre que ele ensinava, eu ficava inspirado a tornar-me um verdadeiro iogue, retirando-me para uma caverna, cobrindo-me de cinzas e meditando. À medida que eu crescia, passei a sentir isto cada vez menos, e agora não penso mais nisto. Mas, naquela época, eu realmente queria ser um verdadeiro iogue, como ele. Ele deu muitas iniciações, como Yamantaka, Heruka e Guhyasamaja. Eu mesmo recebi estas iniciações dele. Nós íamos até a sua residência para as iniciações secretas importantes e ele descia até o mosteiro para dar ensinamentos mais gerais. Às vezes, fazíamos uma turnê a vários mosteiros. Visitar Pabongka Rimpoche era, provavelmente, igual ao que acontecia ao visitar Lama Tsongkapa quando ele estava vivo. Ao ensinar, ele sentava-se sem se mexer por até oito horas. Cerca de duas mil pessoas assistiam aos seus ensinamentos e iniciações, e um número menor assistiam os ensinamentos especiais. Mas quando dava os votos de bodhisattva apareciam até dez mil pessoas. Quando dava a iniciação de Heruka, ele tinha uma aparência especial. Seus olhos ficavam abertos e penetrantes e eu quase o via como Heruka, com uma perna esticada e a outra dobrada. Era tão intenso que eu começava a chorar, como se a própria divindade Heruka estivesse ali Isto era muito poderoso, muito especial. Para a minha mente, ele era o lama tibetano mais importante de todos. Todas as pessoas sabem como os seus quatro principais discípulos foram grandiosos – bem, ele era o mestre deles. Ele passou muito tempo pensando no sentido prático dos ensinamentos e tendo uma realização interna deles, e havia praticado e realizado tudo que tinha aprendido, até o estágio de consumação. Ele não jorrava simplesmente as palavras, ele experimentava as coisas por si mesmo. E também nunca ficava com raiva; toda raiva tinha sido totalmente pacificada por sua bodhicitta. Muitas vezes havia longas filas de pessoas aguardando suas bênçãos, mas Rimpoche perguntava um por um como estavam e tocava-lhes na cabeça. Às vezes dava remédios. Ele era sempre gentil. Tudo isto o fazia ser muito especial. Eu diria que ele tinha duas qualidades principais: do ponto de vista tântrico, as suas realizações e habilidades de apresentar Heruka, e do ponto de vista do sutra, a sua habilidade de ensinar o Lam-rim. Pouco antes de falecer, ele foi convidado a explicar um Lam-rim abreviado no mosteiro Dagpo Shidag Ling, in Lhoka, de seu guru-raiz. Ele escolheu um texto chamado O Caminho Rápido, do Segundo Panchen Lama. Este foi o primeiro Lam-rim que Dapgo Lama Rimpoche lhe ensinou e Pabongka Rimpoche dizia que seria o último que ele, Pagongka Rimpoche, ensinaria. Sempre que visitava o mosteiro de seu lama, Rimpoche desmontava do cavalo assim que o mosteiro estivesse à vista e se

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prosternava até chegar à porta de entrada – o que não era fácil devido ao seu corpo volumoso; ao partir, ele andava de costas até o mosteiro ficar fora do alcance de sua vista. Desta vez, quando partiu do mosteiro, ele fez uma prosternação quando estava quase fora do alcance, e foi pernoitar em uma casa próxima. Tendo manifestado um pequeno desconforto em seu estômago, Rimpoche recolheu-se aos seus aposentos. Ele pediu que seus atendentes o deixassem enquanto fazia suas preces, que cantou mais alto do que o normal. Depois, parecia que estava dando um ensinamento de Lam-rim. Quando terminou, seus atendentes entraram no quarto e viram que ele tinha falecido. Embora Tathag Rimpoche estivesse extremamente desconcertado, ele nos disse o que fazer. Estávamos todos perturbados. O corpo de Pabongka Rimpoche foi vestido em brocado e cremado da maneira tradicional. Um relicário incrível foi construído, mas os chineses o demoliram. No entanto, consegui recuperar algumas das relíquias de Rimpoche e dei-as ao Mosteiro Sera-me. Agora elas podem ser vistas lá. Eu tive certo sucesso como estudioso, e como lama, sou conhecido, mas estas coisas não são importantes. A única coisa que me interessa é que fui discípulo de Pabongka Rimpoche.

O Venerável Rilbur Rimpoche nasceu no Nordeste do Tibet em 1923. Aos cinco anos

foi reconhecido pelo XIII Dalai Lama como a sexta encarnação de Rilbur Rimpoche de

Sera-me. Ele entrou na Universidade Monástica de Lhasa aos quatorze anos e tornou-

se geshe aos vinte-e-quatro. Meditou e ensinou o Dharma até 1959, quando passou a

sofrer sob intensa opressão chinesa durante vinte-e-um anos. Em 1980 recebeu permissão para fazer algumas atividades religiosas, e ajudou a construir uma nova stupa para Pabongka Rimpoche em Sera, já que os chineses haviam destruído a

original. Ele então veio a Índia e atualmente mora no Mosteiro Namgyal, em Dharamsala.

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O Texto

Uma Instrução Profunda e Totalmente Inequívoca de conceder A Liberação na Palma de Sua Mão, Essência dos Pensamentos do Inigualável Rei do Dharma [Tsongkapa], O registro escrito do Ensinamento Conciso sobre Os Estágios do Caminho à Iluminação, Cerne de Todas as Escrituras, Essência do Néctar das Instruções.

Introdução por Trijang Rimpoche

Prasarin parana syaklutaki yanta, Trayan guhyanata tigolama eka, Sudhi vajradharottarah muni aksha, Prayachha tashubham valaruga kota.

Oh Lama Lozang Dragpa, Uno com Shakyamuni e Vajradhara, Oh união de todo perfeito refígio, Oh aspecto total de mandala Com os três mistérios da iluminação, Faça chover sobre nós dez milhões de bondades.

Oh meu guru, meu protetor, Que através do Veículo Supremo, Superou o extremo da paz egoísta, Que, sem apego aos confortos mundanos, Sustentou os três treinamentos superiores E os ensinamentos dos Vitoriosos, Cujas obras boas e nobres permaneceram Livres de máculas das oito preocupações mundanas Oh, a própria fonte de bondade.

Tudo o que disse foi remédio para eliminar centenas de doenças; Nossas mentes infantis foram recipientes impróprios Para um oceano tão vasto de ensinamentos. Oh, preciosa fonte de qualidades, Como seria triste se estes ensinamentos fossem esquecidos! Aqui, registrei apenas alguns deles.

Uma quantidade imensa e incontável de Budas veio no passado. Mas seres desafortunados como eu, não fomos dignos o bastante para sermos discípulos diretos de Shakyamuni, o melhor dos protetores, que sobressai como um lótus branco entre milhares de grandes Budas salvadores deste éon afortunado. Primeiro, foi preciso que fossemos forçados a desenvolver até mesmo um pensamento salutar momentâneo; isto nos levou ao perfeito renascimento como humano. Fomos ensinados este caminho perfeitamente inequívoco, que nos leva ao nível da onisciência, quando então, alcançamos nossa liberdade. Mas, para ser breve, fui salvo contínuas vezes de uma infinidade de males diferentes, e fui levado mais próximo de uma infinidade de coisas magníficas. Meu glorioso e santo guru fez isto. Sua bondade é sem par. Ele foi – e agora direi seu nome em vista de meu propósito – Jampa Tenzin Trinle Gyatso Pelzangpo. Embora pessoas

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como eu sejamos imaturos, sem cultura e sem regeneração, houve uma época em que eu festejava suas instruções orais do Mahayana [o Veículo Supremo ou Grande] no Eremitério Chuzang, um belo local abençoado pela presença de grandes meditadores. Ele começou este ensinamento informal no décimo terceiro dia do sétimo mês do Ano Ferro Pássaro (1921), e durou vinte-e-quatro dias. As pessoas passaram por grandes dificuldades para chegar lá vindo dos três principais mosteiros de Lhasa, da Província Central, e de Tsang, Amdo e Kham para saborear o néctar de seus ensinamentos orais, igual a sedentos que anseiam por água. Havia cerca de trinta lamas e reencarnações de lamas, e muitos sustentadores das três cestas dos ensinamentos – ao todo uma reunião de mais de setecentos. O ensinamento informal combinou as várias tradições do Lam-rim – os estágios do caminho à iluminação. Havia as duas linhagens orais relacionadas ao texto Lam-rim denominado As Palavras do Próprio Manjushri. Uma destas linhagens era bastante detalhada e havia sido desenvolvida na Província Central; uma outra linhagem de um ensinamento mais curto florescia ao sul do Tibet. Ele também incluiu o ensinamento conciso, o Lam-rim O Caminho Rápido; e na parte das seções do Grande Alcance que trata de trocar-se pelos outros, ele ensinou o treinamento da mente em sete pontos. Cada parte do ensinamento foi enriquecida com instruções tiradas das linhagens orais secretas. Cada seção foi ilustrada com analogias, lógica conclusiva formal, estórias surpreendentes, e citações confiáveis. O ensinamento era facilmente compreendido por principiantes e, no entanto, era talhado para todos os níveis de inteligência. Isto era benéfico para a mente porque era muito inspirador. Às vezes éramos levados aos risos, ficando bastante despertos e vivos. Às vezes éramos levados às lágrimas e chorávamos desconsolados. Outras vezes ficávamos com medo e éramos levados a sentir, "Eu abandonaria com prazer esta vida e me devotaria somente à minha prática." Este sentimento de renúncia era imenso. Estas foram algumas das maneiras que estes ensinamentos foram tão extraordinários. Como eu poderia efetivamente colocar tudo isto em papel! No entanto, seria uma pena se todos os pontos-chaves contidos nestas instruções inspiradoras fossem perdidos. Este pensamento deu-me a coragem para escrever este livro Como mais tarde o meu precioso guru aconselhou-me, "Algumas pessoas presentes não conseguiam seguir os ensinamentos, Confesso que não confio em todas as anotações feitas pelas elas durante os ensinamentos. Peço, portanto, que você publique um livro, colocando nele tudo aquilo que tiver certeza." Neste livro, registrei com precisão os ensinamentos de meu lama na esperança de que este substituto ao seu ensinamento será benéfico aos meus amigos que queiram ter sucesso em suas práticas.

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Primeira Parte AS PRELIMINARES

DIA UM

Kyabje Pabongka Rinpoche, um inigualável rei do Dharma, falou um pouco para acertar a nossa motivação para os ensinamentos. Ele disse:

O grande Tsongkapa, o rei do Dharma dos três reinos, disse:

Esta oportuna forma física Vale mais do que a jóia que realiza desejos. Só a conseguimos uma única vez. Ela é tão difícil de se conseguir, tão facilmente destruída, É rápida como um raio atravessando o céu.

Contemple isto e compreenderá Que todas as ações mundanas são como palhas ao vento. Todos os dias e todas as noites você deve Extrair alguma essência de sua vida. Eu, o iogue, assim pratico; Você, que quer a liberação, faça o mesmo!

Desde tempos sem princípio, tivemos infindáveis corpos, mas não tiramos deles nenhuma essência. Não há sofrimento que não vivenciamos, nem felicidade que não experimentamos. Mas, independente de quantos corpos já tivemos, não conseguimos extrair deles nenhuma essência. Agora, que conseguimos esta perfeita forma humana, devemos fazer algo para tirar alguma essência. Enquanto continuarmos sem discernimento, não daremos importância a esta forma humana tão significativa e não lamentaremos desperdiçar este perfeito renascimento humano. Provavelmente lamentaríamos muito mais desperdiçar dinheiro. Mas esta forma física que temos agora

é cem mil vezes mais valiosa do que qualquer jóia que realiza desejos. Se limpar uma jóia que realiza desejos lavando-a três vezes e depois colocá-la no topo de um estandarte de vitória, obterá sem esforço as boas coisas desta vida – comida, roupas, etc. Mesmo se conseguir cem, mil, dez mil, e ou até cem mil jóias dessas, elas não poderão fazer por você nem o mínimo que pode conseguir com este renascimento, porque elas não podem ser usadas para evitar que seu próximo renascimento seja nos reinos inferiores. Com sua forma física atual, você pode evitar cair novamente nos reinos inferiores. Além disso, se quiser conseguir o renascimento físico de um Brâmane, Indra, etc., poderá consegui-lo com o seu renascimento atual. Se quiser ir aos reinos puros como Abhirati, Sukhavati, ou Tushita, poderá fazê-lo por meio de seu atual renascimento físico. E não é só isto, pois poderá até mesmo alcançar

os estados de liberação ou onisciência através do atual renascimento. Tudo que precisa

é aproveitar a oportunidade. O mais importante é que através deste renascimento físico poderá alcançar o estado de Vajradhara [a unificação do corpo ilusório e do grande prazer sublime] dentro de uma vida curta desta era degenerada; coisa que, de outra forma, demoraria incontáveis eons para conseguir. Assim, este renascimento vale mais

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do que mil bilhões de jóias preciosas. Se desperdiçar este renascimento, isto será uma lástima maior do que desperdiçar mil bilhões de jóias preciosas. Não há perda maior; nada poderia cegar mais; nenhuma auto-decepção poderia ser maior. O protetor Shantideva disse:

Após ter conseguido tal oportunidade Nenhuma auto-decepção poderia ser pior Do que não usá-la para fins virtuosos! Nada traria maior cegueira!

Então, você deve tentar extrair agora alguma essência de sua vida. Você certamente vai morrer, e não há como saber quando isto acontecerá. Estamos agora ouvindo este ensinamento de Dharma, mas nenhum de nós estará vivo daqui a cem anos. No passado, Buda, o nosso mestre, reuniu as duas coletâneas [de mérito e sabedoria primordial] durante muitos eons, conseguindo assim obter um corpo vajra. Mas, para as aparências comuns, até ele entrou em nirvana [além do sofrimento]. Depois, vieram os estudiosos, adeptos, tradutores, e panditas, tanto na Índia quanto no Tibet, mas todos também já partiram desta vida. Deles, nada sobrou a não ser seus nomes e o que ainda falam sobre eles. Enfim, não há ninguém que tenha sido poupado pela morte. Como pode então esperar que só você vá viver para sempre? Não há esperança alguma de que seja poupado! Então, não só você vai realmente morrer, como também não pode ter certeza de quando acontecerá. Não pode estar certo que no próximo ano ainda estará vivo neste seu corpo humano, muito menos que ainda estará usando os três mantos de um monge. 1 No ano que vem, nesta mesma época, talvez já terá renascido como um animal peludo e com chifres na cabeça. Ou talvez, terá renascido como um fantasma faminto, por exemplo, tendo que viver sem conseguir encontrar qualquer tipo de comida, nem mesmo uma gota de água. Ou então poderá ter renascido nos infernos, tendo que experimentar as misérias de sentir calor, frio, ser fervido, ou estar pegando fogo. Após a morte, a sua mente continua; ela tomará um renascimento. Só há duas migrações para este renascimento – os reinos superiores e os inferiores. Se renascer no Inferno Sem Descanso, ficará lá com seu corpo indistinguível do fogo do inferno. Nos infernos mais amenos, como o Inferno da Ressurreição Contínua, você será morto e reavivado centenas de vezes por dia, e sofrerá tormentos contínuos. Mas como poderá suportar isto, se não consegue suportar nem mesmo queimar sua mão no fogo? E vamos sofrer nos infernos assim como sofreríamos com este calor em nossos corpos atuais. Podemos questionar: "Não será mais fácil suportar o calor lá, e assim o sofrimento não ser tão grande?", mas não é assim. Se renascer como fantasma faminto, não conseguirá encontrar uma única gota de água durante anos. Você acha difícil fazer um retiro em jejum, como então suportar tal

1 Embora a audiência de Pabongka Rinpoche consistisse de lamas, geshes, monges e monjas comuns, e leigos, muito freqüentemente dirigia-se às primeiras filas de lamas e geshes estudiosos enquanto ensinava.

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renascimento? E quanto ao reino animal, veja o caso de um cachorro. Examinem detalhadamente os lugares onde vive, como precisam procurar comida e que tipo de comida acabam encontrando. Você suportaria viver uma vida assim? Você pode pensar, "Os reinos inferiores estão muito distantes." Mas entre você e os reinos inferiores só há o fato de que você ainda respira. Enquanto continuarmos sem discernimento, nunca suspeitaremos que poderemos ir aos reinos inferiores. Provavelmente, pensamos que, bem ou mal, guardamos os nossos votos, fazemos a maioria de nossas práticas diárias, e não cometemos nenhuma negatividade grave, como matar uma pessoa ou fugir com o seu cavalo. O problema é que não temos observado as coisas corretamente. Devemos repensá-las em detalhes. Então, veremos que não somos livres para escolher se vamos aos reinos inferiores ou não. Isto é determinado pelo nosso karma. Temos em nosso contínuo mental uma mistura de karma virtuoso e não-virtuoso. Ao morrermos, o mais forte dos dois será acionado pelo desejo e apego. Quando analisamos qual dos dois é mais forte em nosso contínuo mental, vemos que a não-virtude é mais forte. O grau de sua força é determinado pela força do motivo, ato, e passo final. Assim, embora possamos pensar que só cometemos pequenas não-virtudes, na realidade, a sua força é enorme. Veja um exemplo. Suponha que você ralhe com seus alunos. Você faz isto motivado por forte hostilidade. Quanto ao ato, você usa palavras ásperas, que realmente magoam. Quanto ao passo final, fica orgulhoso e com uma opinião inflada de si mesmo. Estas três partes – motivo, ato e passo final – não poderiam ser melhores! Suponha que você mate um piolho. O seu motivo é hostilidade forte. Você rola o piolho entre os dedos, torturando-o por um longo tempo, depois eventualmente o mata. Para o passo final, você fica arrogante e sente-se muito beneficiado com o ato. A não-virtude fica muito poderosa. Podemos pensar que a nossa virtude seja muito forte, mas de fato ela é muito fraca. O ato, o motivo – a parte principal do ato– e o passo final – dedicação da virtude, etc.– precisam ser feitos com pureza para que a virtude seja muito forte. Contraste isto com a virtude que nós fazemos. Inicialmente, há o nosso motivo. Raramente somos motivados até mesmo pelo menor dos motivos: o anseio por um renascimento melhor – muito menos pelo melhor dos motivos: a bodhicitta [a mente que aspira a iluminação], ou o segundo melhor motivo: a renúncia. Normalmente aspiramos os desejos relacionados às banalidades desta vida; qualquer oração feita com esta finalidade é de fato pecaminosa. Depois, na parte principal do ato, tudo o que fazemos é trabalhoso; quando recitamos um rosário de om mani padme hum, por exemplo, não conseguimos fixar a nossa mente na tarefa o tempo todo. Tudo é sono ou distração! É difícil fazer as coisas bem, mesmo pelo tempo que leva recitar As Cem Deidades de Tushita uma única vez. E, quando chega a hora das orações finais e dedicações, escorregamos novamente, direcionando- as para esta vida. Assim, embora possamos pensar que fazemos grandes virtudes, na realidade elas são frágeis. Às vezes não fazemos a ação corretamente; outras vezes estragamos o motivo ou passo final; e outras vezes ainda, não fazemos nada corretamente. Assim, em nosso

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contínuo mental, só o karma não-virtuoso é muito forte; e é a única coisa possível de ser ativada ao morrermos. Se for isto efetivamente o que ocorre, o nosso destino só poderá ser os reinos inferiores. É por esta razão que certamente renasceremos nos reinos inferiores. Dizemos que nossos lamas são clarividentes, e pedimos que façam adivinhações com dados, ou profecias sobre onde vamos renascer. Ficamos aliviados se nos dizem, “Você terá um bom renascimento,” e temerosos se a resposta for, “Não será bom.” Mas como podemos confiar nestas previsões? Não precisamos de adivinhações, profecias ou horóscopos que nos digam aonde iremos em nossas próximas vidas. O nosso Mestre Compassivo já fez esta previsão no cesto do sutra [sutra pitaka]. Já recebemos esta previsão de muitos panditas e adeptos, tanto da Índia quanto do Tibet. Por exemplo, Arya Nagarjuna diz em Guirlanda Preciosa:

Da não-virtude vem todo sofrimento, E também todos os reinos inferiores. Da virtude vem todos os reinos superiores, E todos os renascimentos felizes.

Não podemos ter certeza – mesmo por meio de cognição válida direta – sobre onde teremos nossos futuros renascimentos. Mas, nosso Mestre percebeu corretamente este assunto tão obscuro de cognição válida, e o ensinou sem erro. Portanto, a certeza só é possível por inferência, e devemos acreditar nos pronunciamentos autênticos do Buda sobre o assunto. Portanto, se é tão definitivo que renasceremos nos reinos inferiores, a partir de agora devemos buscar uma maneira de evitar que isto aconteça. Se quisermos realmente ficar livre dos reinos inferiores, devemos buscar um refúgio que nos proteja. Por exemplo, um criminoso sentenciado à execução vai buscar a proteção de uma autoridade influente para escapar da punição. Se estivermos maculados por karma muito negativo devido aos nossos maus atos, estaremos correndo o risco da punição pela lei [do karma] e iremos para os reinos inferiores. Devemos buscar o refúgio nas Três Jóias [Buda, Dharma e Sangha], porque só elas podem nos proteger. Mas, não devemos apenas buscar este refúgio, devemos também modificar nosso comportamento conforme os ensinamentos. Se existisse alguma maneira dos Budas nos livrar de nossas negatividades e obscurecimentos, lavando-os com água ou guiando-nos pela mão, por exemplo, eles já o teriam feito e agora não teríamos mais sofrimentos. Mas, eles não podem fazer isto. O Vitorioso ensinou o Dharma; mas somos nós que devemos modificar o nosso comportamento segundo a lei das causas e efeito, e fazê-lo de forma inequívoca. Um sutra diz:

Os Vitoriosos não lavam as negatividades com água; Não livram os seres de sofrimento com o toque de suas mãos; Não transferem as suas realizações de vacuidade para os outros. Eles libertam ensinando a verdade da vacuidade.

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Assim, pode-se pensar, “Buscarei refúgio nas Três Jóias para ficar livre dos reinos inferiores, e adotarei meios para libertar-me destes reinos. Modificarei meu comportamento segundo as leis de causa e efeito.” Isto coloca a sua motivação no nível do Lam-rim compartilhado com o nível de Pequena Capacidade. Será que, basta livrar-se apenas dos reinos inferiores? Não, não basta. Você só conseguirá um ou dois renascimentos nos reinos superiores antes de recair nos reinos inferiores quando seu mau karma alcançá-lo. Esta não é a resposta final, não é algo que podemos confiar. De fato, conseguimos muitos renascimentos nos reinos superiores e depois recaímos nos reinos inferiores. Certamente vamos recair novamente. Em nossos renascimentos passados, tivemos a forma dos deuses poderosos Brahma e Indra, e vivemos em palácios celestiais. Isto já aconteceu muitas vezes mas deixamos estes renascimentos para nos contorcermos na superfície de ferro incandescente dos infernos. Isto aconteceu vezes seguidas. Nos reinos celestiais, desfrutamos o néctar dos deuses; depois, quando deixamos estes renascimentos, tivemos que beber o cobre fundido nos infernos. Nos divertimos na companhia de muitos deuses e deusas, depois vivemos cercados pelos terríveis guardiões dos infernos. Renascemos como imperadores universais e reinamos sobre centenas de milhares de súditos; depois renascemos como servos e escravos, como condutores de mulas e vaqueiros. Às vezes renascemos como deuses do sol e da lua, e nossos corpos irradiavam tanta luz que iluminávamos os quatros continentes. 2 Depois renascemos nas profundezas dos oceanos, entre continentes, onde era tão escuro que não conseguíamos enxergar os movimentos de nossos próprios membros. Independente do que conseguimos com este tipo de felicidade mundana, ela não é confiável e não tem essência alguma.

Já vivenciamos muitos sofrimentos, mas enquanto não nos libertarmos do samsara [a existência cíclica], ainda vamos experimentar muitos mais. Se toda sujeira e imundície que já comemos em nossos renascimentos passados como animais, tais como cães e porcos, fossem empilhadas, o monte de esterco seria maior do que o Monte Meru, o rei das montanhas. Mas, ainda vamos comer muita imundície enquanto estivermos presos ao samsara. Se todas as nossas cabeças cortadas pelos nossos inimigos no passado fossem empilhadas, o topo deste monte seria ainda maior do que o reino de Brahma. Mas, se não dermos um fim à nossa existência cíclica, ainda vamos perder mais cabeças. Nos nossos renascimentos passados no inferno, água fervente foi despejada em nossas gargantas – mais água do que as que existem nos grandes oceanos – mas vamos beber ainda mais enquanto estivermos presos ao samsara. Portanto, devemos ficar desalentados ao pensar como vagamos sem rumo por não termos dado um fim à nossa existência cíclica.

2 Os quatro continentes aqui mencionados são os da cosmologia budista, que descreve cada sistema mundial (existem ao total bilhões deles) como sendo um disco achatado com uma cerca de ferro em seu perímetro. Dentro há oceanos, e ao centro uma enorme montanha chamada Meru, cercada por sete cadeias de montanhas douradas e quatro continentes, cada um com seus dois sub-continentes, um de cada lado. O Monte Meru tem quatro níveis acima das águas do oceano e quatro níveis abaixo.

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Até os renascimentos de deuses e humanos não transcenderam a natureza do sofrimento. No renascimento humano há os sofrimentos de nascimento, velhice, doença e morte; há o sofrimento de separar-se das coisas queridas, enfrentar situações desagradáveis, e buscar sem encontrar o que se deseja. Os semideuses também sofrem, pois são mutilados ou feridos quando vão às batalhas, e sempre sofrem de inveja inquietante. Ao renascer como um deus do Reino dos Desejos sofre ao exibir os sinais da morte. Os deuses dos [dois] reinos superiores não manifestam nenhum sofrimento. Mas, por natureza, ainda estão sob a influência do sofrimento aplicável a todos os fenômenos condicionais porque não conseguiram liberdade suficiente para manter suas situações atuais. No final, cairão e por isto ainda não transcenderam o sofrimento. Enfim, enquanto não nos livrarmos de vez do samsara, a natureza do sofrimento ainda não terá sido transcendida. Portanto, é preciso ficarmos definitivamente livres do samsara; e é preciso fazê-lo neste nosso atual renascimento. Normalmente dizemos, “Não posso fazer isto neste renascimento,” e rezamos pelo nosso renascimento futuro. Mas, é possível sim fazê-lo neste renascimento. Temos um perfeito renascimento humano, e esta é a forma física mais vantajosa para a prática do Dharma. Encontramos as condições certas – encontramos os ensinamentos do Buda, e assim por diante. Temos todas as condições certas, e então se não conseguirmos a liberação agora, quando poderemos conseguí-la? Portanto, você pode pensar, “Devo definitivamente libertar-me do samsara, haja o que houver. A liberação só é conseguida por meio dos três treinamentos superiores. Então, vou treinar-me nos três, e conseguir a minha liberação deste grande oceano de sofrimento.” Ao pensar assim estará ajustando a sua motivação ao nível do Lam-rim que é compartilhado com a Média Capacidade. Mas será isto suficiente? Mais uma vez, não. Se conseguir o estado de Shravaka [Ouvinte] ou Arhat Pratyekabuddha [Realizador Solitário] pelo seu próprio bem, não terá realizado nem mesmo suas próprias necessidades e nada terá sido feito pelo bem dos outros. Isto porque você ainda não abandonou algumas coisas, como os obscurecimentos à onisciência e as quatro causas da ignorância. É como ter que atravessar o mesmo rio duas vezes: embora possa ter alcançado todos os passos até o estado de arhat no caminho Hinayana [Pequeno Veículo], será preciso desenvolver a bodhicitta e treinar-se nas tarefas de um Filho dos Vitoriosos desde os passos básicos, começando assim o caminho Mahayana de Acumulação. É como entrar num mosteiro e trabalhar seu caminho de ajudante de cozinha até abade. Depois, entrar em outro mosteiro e ter que começar tudo novamente, trabalhando na cozinha. [Chandragomim] disse em sua Carta a um Discípulo:

Eles são como parentes perdidos no oceano do samsara, Parecem ter caído na correnteza do oceano; Mas, devido ao nascimento, morte e renascimentos, Você não os reconhece, você os ignora. Você seria mais do que desprezível se só libertasse a si mesmo.

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Ou seja, embora não reconheçamos uns aos outros, não há um único ser senciente que não tenha sido sua mãe. E assim como você teve incontáveis renascimentos, teve também incontáveis mães. E cada vez que foram suas mães, a bondade que tiveram com você foi igual à bondade de sua mãe atual. Não há a menor diferença entre a bondade de sua mãe atual por você e a de todos os outros seres sencientes. Mas, alguns podem sentir, “Todos os seres não são minhas mães. Se fossem, eu as reconheceria e isto não acontece.” Mas é bem possível que muitos não reconheçam a própria mãe desta vida. O mero não-reconhecimento não é razão suficiente para que alguém não seja sua mãe. Outros podem pensar, “Mães de vidas passadas pertencem ao passado. Não há consistência em dizer que ainda são nossas mães bondosas.” Mas a bondade de suas mães no passado e a bondade demonstrada pela sua mãe atual em nada

difere. Se alguém lhe deu uma jóia no ano passado ou neste ano, a bondade é a mesma.

A época do ato não altera o grau de bondade. Assim, todos os seres sencientes foram

bondosos com você. Como pode ignorar suas bondosas mães, que caíram no oceano do samsara, e só trabalhar por sua própria libertação? Seria como crianças cantando e dançando na beira da praia enquanto suas mães caem nas correntezas do oceano. A correnteza as carrega para o oceano e apavoradas elas gritam por socorro, mas as crianças estão totalmente esquecidas delas. O que é mais insensível ou desprezível? Dizem que as correntezas nos oceanos [como na citação acima] são redemoinhos e é terrível quando um barco, uma canoa, etc., caem no remoinho, pois certamente serão sugados. Parece que agora você não tem relação com todos os seres sencientes, que na analogia caíram nas correntezas do oceano do samsara. Mas não é assim. Todos são suas mães bondosas e você deve retribuir-lhes estas bondades. Dar comida aos famintos, bebida aos sedentos, riqueza aos pobres, etc. e satisfazer suas necessidades, retribuiria parte da bondade; mas isto não traria grandes benefícios. A melhor forma de retribuir suas bondades é dando- lhes as causas para que tenham toda felicidade e nenhum tipo de sofrimento. Não há melhor forma de retribuir as suas bondades. Com estes pensamentos, você será levado a pensar, “Que estes seres sencientes tenham toda felicidade,” e assim desenvolverá o amor. Você também pensa, “Que eles fiquem sem nenhum sofrimento,” e assim você desenvolverá a compaixão. O altruísmo

é desenvolvido ao sentir, “A responsabilidade de fazer com que estas duas coisas

aconteçam caiu sobre mim. Sozinho, vou trabalhar para este fim.” Ainda assim, conseguirá fazê-lo? Você não consegue trabalhar nem mesmo pelo bem de um único ser senciente, muito menos por todos eles. Quem então poderá? Os Bodhisattvas que residem nos níveis puros 3 e os Shravakas ou Pratyekabuddhas podem beneficiar os seres sencientes até certo nível; mas só conseguem fazer um pouco do que

os Budas podem fazer. Cada raio de luz do corpo de um Buda pode levar inúmeros seres sencientes a um estado de amadurecimento, ou até mesmo à liberação. Os Budas

3 Há dez níveis de desenvolvimento dos Bodhisattvas – seres determinados a iluminarem-se pelo bem de todos os seres sencientes. Os níveis puros são os oitavo, nono e décimo. A partir do oitavo nível o Bodhisattva alcançou os estágios irreversíveis e a iluminação está garantida. Isto é descrito em maiores detalhes no Dia Doze.

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emanam corpos que aparecem diante de cada ser senciente. Estas formas são talhadas conforme as disposições, faculdades [mentais], desejos e instintos destes seres. Os Budas ensinam-lhes o Dharma em suas próprias línguas. Estas são algumas das qualidades dos Budas. Os Budas são realmente incomparáveis na maneira de trabalhar pelo bem dos seres sencientes. Mesmo assim, poderemos alcançar esta Budeidade? Sim, e o melhor renascimento físico para conseguí-lo é o perfeito renascimento humano. Conseguimos um tipo muito especial de renascimento físico: nascemos do útero de um ser humano do Continente Sul, e temos os seis tipos de constituintes físicos. Tudo que precisamos é aproveitar esta oportunidade para alcançar o estado de Vajradhara numa única vida. Nós conseguimos obter este renascimento físico. O meio para alcançar a Budeidade é o Dharma do Veículo Supremo; e os ensinamentos do Segundo Vitorioso [Je Tsongkapa] são totalmente inequívocos. Os seus ensinamentos imaculados combinam os sutras e os tantras. E, agora, encontramos estes ensinamentos. Em suma, encontramos todas as condições corretas e estamos livres de quaisquer condições desfavoráveis. Só extraviaremos se não fizermos esforço algum para alcançar a Budeidade. Não teremos sempre um renascimento físico como este, e nem este Dharma. Alguns podem alegar, “Agora é um tempo degenerado; nossa hora é ruim.” Mas desde a existência cíclica sem princípio nunca tivemos um tempo potencialmente mais benéfico para nós do que agora. A nossa hora não poderia ser melhor. Encontramos uma situação como esta apenas uma vez. Devemos portanto trabalhar pela nossa Budeidade, haja o que houver. Assim, isto deve levá-lo a sentir, “Farei tudo que puder para alcançar a minha meta:

a incomparável e total iluminação pelo bem de todos os seres sencientes.” Este pensamento invoca a bodhicitta, e é a maneira de ajustar a motivação segundo o Lam- rim de Grande Capacidade. Você terá desenvolvido a bodhicitta se tiver este pensamento de maneira sincera e não forçada. Você deve praticar para alcançar esta Budeidade, e deve saber o que praticar para ter sucesso. Algumas pessoas querem praticar o Dharma, mas não sabem o que fazer, podem ir a um local solitário e recitar alguns mantras, fazer algumas orações, ou até alcançar alguns dos [nove] estados mentais [que levam à quietude mental], mas não saberão fazer mais nada. Você deve estudar as instruções inequívocas que nada deixam de fora sobre a prática do Dharma. Assim, saberá todas estas coisas. E a instrução mais soberana é o Lam-rim, os estágios do caminho à iluminação. Portanto, desenvolva a motivação: “Ouvirei atentamente o Lam-rim, e depois o colocarei em prática.”

Em geral, é vital ter uma destas três motivações no início de cada prática, mas, o mais importante, é que ao ouvir um ensinamento do Lam-rim, qualquer uma destas motivações não basta. Você deve pelo menos ouvir tendo uma forma de bodhicitta forçada ou produzida. Para quem já experimentou o desenvolvimento da bodhicitta, pode ser suficiente refletir sobre uma frase curta como “Pelo bem de todos os seres ” mas isto não basta para transformar a mente de um principiante. Se refletir no Lam-rim,

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começando pela imensa dificuldade de conseguir um perfeito renascimento humano, sua mente vai se voltar para a bodhicitta. Isto não se aplica só ao Lam-rim. Quando Gelugpas freqüentam um ensinamento, iniciação, transmissão oral, ou coisas assim, devem repassar todo o Lam-rim como uma preliminar para acertar a nossa motivação. Até orações curtas devem incluir todos os três níveis do Lam-rim. Esta é uma característica suprema de distinção dos ensinamentos dos antigos Kadampas, e nossa os neo-Kadampas. 4 Meu precioso guru disse isto várias vezes. Aqueles de vocês que terão a responsabilidade de preservar estes ensinamentos devem estudar assim. (Mas, ao dar uma iniciação de longa vida, a prática é não falar sobre impermanência, [morte], e coisas assim, já que não seria um gesto auspicioso: deve-se falar só da dificuldade de obter este benéfico e perfeito renascimento humano). Algumas pessoas podem sentir num ensinamento de Dharma, “Sou muito afortunado de estar estudando isto, mas não consigo colocá-lo em prática”. Alguns freqüentam porque imitam os outros – “se você for, eu também vou.” Ninguém freqüenta estes ensinamentos para ganhar dinheiro fazendo rituais nas casas das pessoas, mas isto acontece com outros ensinamentos como as iniciações principais. Ao freqüentar outros ensinamentos – iniciações, por exemplo – você pode pensar que receberá o poder de subjugar os maus espíritos recitando mantra, e coisas assim; ou pode pensar que vai subjugar doenças ou espíritos, conseguir riquezas, adquirir poder, etc. Outros ainda, não importa quantos ensinamentos recebam, tratam o Dharma como se fosse, por exemplo, um capital para começar um negócio; parecem pessoas prontas para ir à Mongólia em uma viagem de negócios. Estas pessoas acumulam enormes negatividades. Buda, o nosso Mestre, discutiu os meios de alcançar a liberação e a onisciência. Explorar tais ensinamentos para fins mundanos equivale a forçar um rei a sair de seu trono e varrer o chão. Portanto, se tiver alguma das más motivações acima, livre-se dela; faça surgir alguma forma de bodhicitta produzida e então ouça os ensinamentos. Isto é suficiente para ajustar a motivação. Segue aqui o corpo principal dos ensinamentos. Primeiro, o Dharma que você vai praticar deve ter vindo do Buda e discutido pelos panditas [indianos]. A sua prática deve ser uma de onde os grandes adeptos tiraram as suas compreensões e realizações; caso contrário, uma instrução poderia ser chamada de “profunda” mesmo não sendo algo dito pelo Buda e sendo desconhecido pelos outros adeptos eruditos. Se meditar nestas instruções, correrá o perigo de obter um resultado nunca antes conseguido – nem mesmo pelos Budas! Portanto, examine bem o Dharma que será a sua prática. Como disse Sakya Pandita:

4 Das quatro principais escolas do Budismo Tibetano –Nyingma, Sakya, Kagyu e Gelug– Pabongka Rinpoche foi um grande lama da tradição Gelug. Os antepassados desta tradição foram os Kadampas, praticantes dos ensinamentos de Atisha. Na realidade, as escolas Kagyu e Gelug vêm dos Kadampas. Os Gelugpas são às vezes chamados de neo- Kadampas. Esta evolução está indicada no Dia Seis na explicação de como os três grupos de Kadampas na visualização do campo de méritos foram passados por Je Rinpoche a um grupo de mestres Gelug.

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Ao fazer negócios com cavalos, jóias e coisas assim, Você questiona tudo, examina tudo. Vejo como você é diligente Com as pequenas ações desta vida!

O bem ou o mal em todas as suas vidas futuras vem do santo Dharma, Mas você trata o Dharma como um cão engolindo a comida:

Você é respeitoso com qualquer coisa que apareça, Sem primeiro verificar se aquilo é bom ou ruim.

Quando compra um cavalo, por exemplo, você examina muitas coisas, faz adivinhações prévias e muitas perguntas aos outros. Veja o exemplo de um monge comum. Mesmo ao comprar chá prensado, ele verifica várias vezes a cor, peso, e formato. Ele procura certificar-se de que o chá não foi danificado pela água, etc., e pede a opinião de outras pessoas. Mas, se não tivesse sorte, isto só afetaria algumas xícaras de chá. Você investiga estas coisas incansavelmente, embora só tenham valor temporário. Mas não investiga o Dharma que vai praticar, embora seja a base de sua esperança pelo resto de seus renascimentos. É assim que um cão engole a sua comida. Como isto é errado! Se errar aqui, estará arruinando a sua esperança eterna. Então, é preciso examinar o Dharma que pretende praticar antes de engajar-se nele. Se examinar este Dharma, o Lam-rim, verá que é o melhor de todos. A profundidade extraordinária dos tantras secretos vem do Lam-rim. Se não desenvolver os três pilares do caminho [renúncia, bodhicitta, e visão correta da vacuidade] em seu contínuo-mental, você não poderá iluminar-se nesta vida. Ouvi falar de muitos ensinamentos supostamente profundos que vêm de visões ou poderes ocultos – e, em comparação, os três pilares do caminho pode não parecer uma peça de instrução particularmente excitante. Mas, o Lam-rim não foi inventado por Je Rinpoche [Lama Tsongkapa], Atisha, etc.

A sua linhagem vem do próprio Buda, perfeitamente iluminado, e só dele. Mas, quando

compreender que algumas coisas recebem o nome de Lam-rim e outras não, verá que

todas as escrituras são Lam-rim. O precioso conjunto Sutras da Perfeição da Sabedoria

é supremo entre todas as escrituras de nosso Mestre. Nestes sutras ele ensinou

ostensivamente a parte profunda dos estágios do caminho [a sabedoria da vacuidade] que é o cerne dos oitenta e quatro mil Dharmas; também ensinou secretamente a parte vasta do caminho do Lam-rim [os métodos dos Budas]. Esta então é a fonte da linhagem. A parte vasta foi transmitida a Maitreya, o principal discípulo de Buda, que por sua vez a transmitiu a Asanga. A parte profunda do Lam-rim foi transmitida por Manjushri a Nagarjuna. Foi assim que a linhagem do Lam-rim dividiu-se em duas – a Profunda e a Vasta. Visando tornar o Lam-rim mais claro, Maitreya compôs Os Cinco Tratados, Asanga escreveu os Cinco Textos sobre Os Níveis, e Nagarjuna escreveu Os Seis Tratados Lógicos, e assim por diante. Portanto, as linhagens Profunda e Vasta do Lam-

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rim desceram separadamente até o grande e inigualável Atisha. Ele recebeu a Linhagem Vasta de Suvarnadvipi e a Profunda de Vidyakokila e combinou as duas em um único fluxo. Herdou também a Linhagem dos Mais Poderosos Feitos que Shantideva recebeu de Manjushri, bem como as linhagens dos tantras secretos, e assim por diante. Assim, as linhagens que herdou continham os sutras e os tantras completos. Atisha compôs a Luz no Caminho à Iluminação no Tibet. Este trabalho combina os pontos chaves da doutrina completa. Mais tarde estes ensinamentos adquiriram o nome de Lam-rim. Desde os tempos de Atisha, as linhagens relativas à visão profunda e às tarefas vastas foram combinadas em um único fluxo. Mas isto foi novamente dividido em três durante o período Kadampa: as linhagens dos Clássicos, Estágios do Caminho, e Instruções, que concentravam em aspectos diferentes. Ainda mais tarde, Je Tsongkapa recebeu todas as três linhagens de Namka Gyeltsen, de Lhodrag, ele próprio um grande adepto, e de Chokyab Zangpo, o abade de Dragor. Desde então, passou a ser uma única linhagem. O grande Je Rinpoche fez súplicas em suas preces [aos detentores da linhagem desta tradição] ao lado da Rocha do Leão em Retreng, norte de Lhasa; e lá começou a escrever um livro sobre o caminho. Ele carregava uma estátua de Atisha. A estátua retratava Atisha com sua cabeça inclinada para um lado. Sempre que Rinpoche fazia súplicas a esta estátua, ele tinha visões de todos os gurus da linhagem do Lam-rim e discutia o Dharma com eles. Além disto, teve visões de Atisha, Dromtempa, Potowa, e Sharawa durante um mês. Estes últimos três se dissolveram em Atisha, que colocou a mão na cabeça de Je Rinpoche e disse, “Dê este ensinamento e eu o ajudarei.” Isto significa que foi ele quem pediu a Tsongkapa para escrever Os Grandes Estágios do Caminho. Je Rinpoche escreveu até a parte final que trata de quietude mental. O Venerável Manjushri pediu então que ele concluísse o livro. Como resultado, Je Rinpoche escreveu a seção sobre a visão especial. Portanto, fique certo de que o livro é um verdadeiro tesouro de bênçãos, mesmo sem considerar as outras pessoas que também pediram a Je Rinpoche para compô-lo. Isto é veladamente ensinado na passagem do final do livro que diz, “Ao reunir as boas obras dos Vitoriosos e seus Filhos ” Mais tarde ele compôs Os Estágios Médios do Caminho resumindo a essência do que não foi tratado em Os Grandes Estágios do Caminho. Este trabalho de média extensão trata principalmente das linhagens orais diretas e linhagens mais antigas dos ensinamentos; os dois Lam-rims complementam-se com diferentes pontos chaves das instruções orais. Talvez você não saiba como integrar estes textos em sua prática. Je Rinpoche mais tarde disse:

Quem acha quase impossível compreender como colocar em prática estes ensinamentos deve referir-se aos textos mais curtos que mostram como fazê-lo.

Portanto, leia os seguintes textos: O [Terceiro] Dalai Lama, Sonan Gyatso, escreveu

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A Essência de Ouro Puro. O grande Quinto Dalai Lama escreveu o Lam-rim As Palavras do Próprio Manjushri como um comentário a este texto. O Panchen Lama Lozang Choekyi Gyeltsen escreveu O Caminho Fácil, e Lozang Yeshe [uma outra encarnação do Panchen Lama] compôs o seu comentário, O Caminho Rápido. O próprio Je Rinpoche escreveu três Lam-rims: O Grande, O Médio, e O Pequeno (também conhecido como Cânticos da Experiência). Além destes quatro ensinamentos concisos dos Dalai Lamas e Panchen Lamas, Ngawang Dragpa de Dagpo escreveu O Caminho da Escritura Excelente. Estes são os oito ensinamentos mais famosos do Lam-rim. Você deve receber, separadamente, os ensinamentos da linhagem para estes textos raiz e os comentários. Não basta receber apenas um deles. E há, ainda, duas linhagens de ensinamentos sobre As Palavras do Próprio Manjushri, uma mais detalhada do que a outra. Uma destas foi preservada na Província Central, e a outra no sul; isto resultou na divisão das duas. Você deve também receber separadamente os discursos destas duas linhagens. O Chanceler Tagpugpa e seus seguidores avaliaram mais tarde as linhagens deste texto. Ele alegou que se tivesse lido este texto mais cedo, não teria tido tantos problemas com os tópicos de meditação Lam-rim. Como ele disse: os ensinamentos concisos de O Caminho Rápido e as duas linhas de As Palavras do Próprio Manjushri fazem, juntos, algo particularmente profundo. Quando Buda ensinou, não havia nenhuma tradição de duas linhagens – uma para transmissões orais e uma para discursos orais. Só mais tarde, quando seus ensinamentos já não eram totalmente compreensíveis, os discursos foram ensinados separadamente. Os discursos com uma discussão detalhada das palavras de um texto foram chamados discursos formais. Um discurso conciso refere-se aos ensinamentos orais que não elaboram muito as palavras do texto, mas expõem o cerne da instrução, muito semelhante a um médico habilidoso dissecando um cadáver perante seus alunos. A maneira como apontam os cinco órgãos sólidos, os seis órgãos ocos, etc., daria uma introdução clara. No discurso informal, o lama fala a partir de sua própria experiência, e o ensinamento é projetado para ter o máximo efeito no contínuo-mental de seus discípulos. O ensinamento prático é o seguinte: Os discípulos ficam juntos em uma casa de retiro. O lama ensina um tópico, e os discípulos começam a meditar nele, e só recebem ensinamentos no tópico seguinte quando alcançam alguma compreensão. Este tipo de discurso chega a nós em linhagens abençoadas por realizações. Eles são muito benéficos para pacificar o contínuo-mental. O ensinamento que darei agora é um discurso informal. Poucos aqui presentes não são afortunados porque só têm tempo para assistir a este tipo de ensinamento uma ou duas vezes. Eles estão interessados nestes ensinamentos, embora mais tarde possam seguir caminhos separados. Pelo bem deles, estarei combinando O Caminho Rápido e as duas linhagens de As Palavras do Próprio Manjushri. Mais tarde, quando chegar nesta parte, ensinarei o Treinamento da Mente em Sete Pontos e o Trocar-se pelos Outros. Não tenho inibição alguma de dar este ensinamento. Isto vai criar méritos-raiz para

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estes dois nobres falecidos, em cujas memórias, dou este ensinamento. Ao ensinar o Lam-rim, não preciso medir os benefícios ou perigos para o guru ou para o discípulo, algo que preciso fazer quando dou outros ensinamentos, como as iniciações. Um ensinamento de Lam-rim só pode ser muito benéfico. Todos vocês: pratiquem o que puderem; e rezem por estes dois nobres homens que já se foram.

Kyabje Pabongka Rinpoche deu uma breve transmissão oral das linhas de abertura destes textos de Lam-rim. Depois, fomos dispensados.

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DIA DOIS

Lama Pabongka Rimpoche começou:

O Grande Tsongkapa escreveu [na introdução de Os Três Pilares do Caminho]:

Vou explicar, o melhor que puder, a importância Da essência de todas as escrituras dos Vitoriosos,

O

caminho louvado pelos santos Vitoriosos e seus Filhos

O

portal para os afortunados que querem a liberação.

Este ensinamento é a quintessência de todas as escrituras do Vitorioso. Na seção de Pequena Capacidade, somos levados a renunciar os reinos inferiores e na Média Capacidade somos levados a renunciar ao samsara inteiro, e assim por diante. Mas não conseguiremos estas metas se não dependermos do Lam-rim. A preciosa bodhichitta 5 é

o caminho louvado pelos santos Vitoriosos e seus Filhos. O portal para quem quer a

liberação é a visão [correta da vacuidade] que é livre dos dois extremos [eternalismo e niilismo]. Mas só conseguiremos isto se dependermos dos ensinamentos do Lam-rim. Portanto, para alcançar a Budeidade, é preciso desenvolver estes três pilares do caminho em seu contínuo mental 6 Devemos depender do Lam-rim para gerar estes três em nosso contínuo-mental. Então, logo no início, adote a seguinte motivação: “Vou alcançar a Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes – e por esta razão vou ouvir

este discurso informal sobre os três diferentes níveis de capacidade do Lam-rim.” Coloque a sua motivação e suas ações alinhadas com tais pensamentos e, somente então, ouça. Qual será o Dharma que vamos ouvir? É o Dharma do Veículo Supremo, que leva os afortunados ao nível da Budeidade. É o caminho tradicional dos dois grandes

precursores – Nagarjuna e Asanga. É a essência do pensamento do inigualável Atisha e do grande Tsongkapa, o rei do Dharma nos três reinos. Isto mostra como a instrução é profunda. Ela contém cada ponto-chave que podemos encontrar na essência das oitenta

e quatro mil escrituras, e organiza as práticas que levam à iluminação seguindo a seqüência apropriada.

Os discursos informais dos estágios do caminho até a iluminação podem ser classificados sob um título básico: Os Ensinamentos Efetivos. Mas, outros títulos foram introduzidos para fixar a natureza do Lam-rim, suas diversas relações, e a seqüência do ensinamento. É preciso familiarizar-se com estes títulos para ter a certeza sob qual título cai um certo tópico de meditação, como ele é explicado, as citações mencionadas,

a linhagem de seus ensinamentos orais, e suas instruções. Ao contrário, se receber um

ensinamento puxado do punho da manga, sem nenhum título, será difícil fazer a meditação benéfica para o seu contínuo mental. Seria como tentar usar chá, manteiga, sal, soda, etc., que foram guardados juntos em um mesmo jarro. Há muitos conjuntos

5 N.T. - A mente altruísta que busca a iluminação pelo bem de todos os seres.

6 N.T. - Os três pilares são: renúncia, bodhicitta e visão correta da vacuidade.

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diferentes de títulos – alguns para os Lam-rim curtos, outros para as versões mais longas. Você deve seguir os títulos específicos dos ensinamentos que tiver recebido. Seguirei principalmente a prática de meu precioso guru de aplicar títulos ao texto O Caminho Rápido. Este conjunto específico de títulos está adornado de muitas instruções orais, que nunca foram escritas antes. Mas ele era muito cuidadoso ao ensiná-las em público, e eu também as recebi em particular. Tive muito cuidado ao reuni-las e passá-las ao papel. Elas não são curtas demais, nem longas demais, e possuem características bem peculiares, que se mostraram efetivas. Os estudiosos do Mosteiro de Nalanda costumavam falar de três purezas antes de um ensinamento: a pureza dos ensinamentos orais do mestre; a pureza do contínuo- mental dos discípulos; e a pureza do Dharma a ser apresentado. Os estudiosos de Vikramashila, em suas introduções, costumavam discutir a grandeza do autor, a grandeza do Dharma, e como ouvir os ensinamentos. Eu vou seguir esta última tradição. Este discurso nos estágios do caminho até a iluminação tem quatro partes principais: (1) a grandeza dos autores, para mostrar que o ensinamento vem de uma fonte imaculada; (2) a grandeza do Dharma, ensinada para aumentar a nossa fé nas instruções; (3) a forma correta de ensinar e ouvir o Dharma que possui estas duas grandezas; (4) a seqüência que os discípulos devem receber estas instruções. Os quatro títulos são encontrados em Os Grandes Estágios do Caminho [de Tsongkapa]. Independente de qual Lam-rim esteja sendo apresentado – O Caminho Fácil, O Caminho Rápido, etc. – e independente da quantidade de detalhes que esteja sendo dada, a tradição oral diz que devemos começar com estes títulos, caso contrário, as pessoas não desenvolverão suficiente convicção.

I - A GRANDEZA DOS AUTORES, PARA MOSTRAR QUE O ENSINAMENTO VEM DE UMA FONTE IMACULADA.

Como disse antes, segundo a tradição dos estudiosos da Índia, o Dharma que se vai praticar deve ter sido ensinado pelo Buda, descrito pelos panditas, e utilizado nas meditações de adeptos grandes e poderosos para produzir realizações e compreensões no seu contínuo-mental. De nossa parte precisamos mais fé, sabedoria e perseverança: se praticarmos um Dharma que vemos só como razoável, não teremos resultado algum. Já vimos muitas pessoas com sabedoria e perseverança desperdiçarem o seu tempo assim. Além disto, independente do quanto dizem que um ensinamento vindo de visões é um ensinamento profundo, Os Três Pilares do Caminho carrega o maior peso da experiência – mais do que sadhanas [métodos para realizações] ou ensinamentos de como conseguir poderes milagrosos, já que estes não passariam de uma introdução aos três refúgios. Para traçar um rio de volta à sua nascente, é preciso voltar até os picos nevados. Assim também devemos traçar o Dharma até o Buda, o nosso Mestre. Se houvesse tempo e eu soubesse o suficiente para discutir isto detalhadamente, eu teria que tomar o Buda como o meu ponto de partida e contar as biografias de todos os gurus de

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linhagem, dizendo como eles usaram este caminho para alcançar seus estados evoluídos. Mas não temos tempo para um assunto tão longo. Falarei só um pouco sobre isto.

Pabongka Dorge Chang [Vajradhara] então falou um pouco de como passaram a existir duas linhagens de Buda até Atisha; e como Atisha combinou as duas num único fluxo. Depois, continuou:

Atisha escreveu A Luz no Caminho no Tibet; o termo Lam-rim veio mais tarde. O texto raiz utilizado nos temas de todos os ensinamentos como o Lam-rim, o caminho supremo, os ensinamentos graduais e assim por diante, é a sua obra-prima, A Luz no Caminho. Assim, Atisha tornou-se virtualmente o autor de todos eles. Até o grande Je Tsongkapa escreveu, “O autor disto é na realidade Atisha.” Portanto, eu realmente deveria contar-lhes a biografia detalhada de Atisha, mas só há tempo para uma versão mais curta. Farei isto em três títulos: (1) como nasceu em uma das famílias mais ricas; (2) como alcançou suas boas qualidades naquele renascimento; (3) após conseguir estas qualidades, o que fez para propagar a doutrina.

1.1 COMO ATISHA NASCEU EM UMA DAS FAMILIAS MAIS RICAS

Atisha nasceu na festejada terra da Índia Oriental chamada Bengala, uma grande cidade de cem mil famílias – ao todo uma população de três milhões e meio.7 O palácio de seu pai chama-se Palácio dos Estandartes de Vitória Dourados. Tinha treze pagodes dourados e vinte e cinco mil estandartes de vitória dourados. A família era extremamente rica e poderosa. Seu pai era o Rei Kalyanashri; sua mãe chamava-se Prabhavati. No seu nascimento foram observados muitos sinais milagrosos.

1.2 COMO ELE CONSEGUIU SUAS BOAS QUALIDADES NAQUELA MESMA VIDA

Quando o pequeno príncipe tinha apenas dezoito meses, seus pais visitaram um templo próximo em Vikramapuri. 8 Todas as pessoas da cidade se alinharam nas ruas para ver o jovem príncipe. Ele viu a multidão e perguntou aos seus pais: “Quem são eles?” Seus pais responderam, “São seus súditos.” A criança olhou para o povo com compaixão e disse o seguinte em verso:

Ah se eles fossem como eu:

Rico, com méritos incríveis;

7 Os números no original são confusos. O texto tibetano diz “uma população de trinta e cinco mil” mas isto seria muito pequeno para cem mil familias. Amchok Rimpoche sugere o numero de três milhões e meio.

8 O livro Atisha e o Tibete de Aloka Chattopadhyaya (R.D.Press, Calcutta, 1967) identifica isto como a moderna Dacca, em Bangladesh.

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Herdeiro de um rei, um poderoso príncipe. Que todos eles possam seguir o santo Dharma!

Isto surpreendeu a todos. No templo, todos os outros, inclusive sua mãe e seu pai, rezaram para que tivessem vidas longas e livres de doenças, muita riqueza, para que não caíssem nos reinos inferiores, para que renascessem nos reinos superiores, e coisas assim. O príncipe no entanto rezou:

Eu consegui um perfeito renascimento humano,

E o renascimento de um homem privilegiado.

Meus órgãos dos sentidos são todos perfeitos,

E encontrei as Três Jóias,

Possa eu sempre tocar respeitosamente

As Três Jóias à coroa de minha cabeça.

A partir de hoje, que elas sejam o meu refúgio.

Que eu nunca mais fique preso a obrigações domésticas; Que eu seja dotado com o Dharma no meio da Sangha. Sem nenhum orgulho, que eu possa Fazer oferecimentos às Três Jóias;

E olhar a todos os seres com compaixão.

Aos dezoito meses de idade, o príncipe já falava de refúgio e do desenvolvimento da bodhicitta. Neste ponto de sua vida, ele já objeto de nossa fé. O Livro dos Kadampas nos conta de seu desenvolvimento precoce:

Aos três anos de idade, Ele era habilidoso com números, literatura e poesia. Aos seis anos de idade, Ele sabia distinguir entre budismo e não-budismo.

Distinguir entre o budismo e o não-budismo é na realidade muito difícil. Talvez o seguinte possa dar uma idéia. Atisha certa vez disse:

Na Índia só três pessoas sabiam distinguir budismo do não-budismo:

Naropa, Shantipa e eu. Naropa já morreu, e eu vim para o Tibet. Quando a Índia esteve em pior situação?

O próprio fato de que Atisha fazia isto aos seis anos me parece um sinal de que mesmo então ele tinha grandes conhecimentos. Aos onze anos, muitas princesas adequadas a serem suas concubinas passaram a empregar várias artes de sedução perante o príncipe, como cantar e dançar; mas isto só inspirava-lhe renúncia e recuo. Uma jovem menina de tez escura, que era uma emanação de Tara, implorou-lhe:

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Sua Alteza! Não se apegue! Oh afortunado, não se apegue! Se um herói como Sua Alteza ficasse preso no pântano do desejo, Seria como um elefante atolado no meio do junco num brejo. Pessoas trajadas com ética não se rebaixam.

Vamos considerar o que ela dizia. Ela pedia para ele não se apegar, em primeiro lugar, às coisas desta vida e, em segundo lugar, ao samsara em geral. A imagem do elefante preso na armadilha, significa o seguinte: um elefante tem um corpo enorme e é mais difícil de ser desatolado. Ela comparava esta imagem com sua afirmação, “Se um ”

Se uma pessoa comum comete uma má ação,

isto só prejudica a si própria e não pode prejudicar os ensinamentos. Mas, se os grandes lamas ou as reencarnações dos lamas agem sem consistência, isto enfraquece os

ensinamentos naquela área. Se estas pessoas agem corretamente, isto promove os ensinamentos naquela área. Parece-me também que ela dizia que é muito importante que pessoas grandiosas, como vocês, tenham conhecimento, ética e bondade, e que devem preservar as puras tradições Gelugpas. O príncipe disse-lhe que a sua súplica havia lhe agradado muito. Logo depois, o rei cercou o príncipe com cento e trinta cavaleiros armados. Habilidosamente, o príncipe fingiu que ia explorar as montanhas rochosas nos arredores. Seu verdadeiro propósito era procurar um guru. Ele conheceu o brâmane Jitari que vivia numa destas montanhas. Jitari deu ao príncipe o refúgio e os votos de Bodhisattva, e falou sobre Bodhibadra, de Nalanda, com quem Atisha tinha elos kármicos do passado. Então, o príncipe foi ver este guru e fez-lhe um oferecimento de jóias. Isto agradou a Bodhibadra. O guru entrou em estado de absorção meditativa e abençoou as três portas [corpo, palavra e mente] do príncipe. Ele também deu ao príncipe muitas instruções de como desenvolver a bodhichitta, e depois encaminhou Atisha ao Guru Vidyakokila, que também deu instruções para desenvolver a bodhichitta. Vidyakokila enviou Atisha a um outro guru do seu passado, Avadhutipa [Vidyakokila, o mais jovem]. Ele se encontrou com Avadhutipa, que disse, “Volte hoje ao reino de seu pai. Analise as desvantagens da viver como um leigo!” Assim, ele voltou para casa, muito para a alegria de seus pais, “Onde esteve, Chandragarbha?” perguntaram-lhe. “Você está cansado? Está triste? Que bom que voltou!” Ele respondeu:

herói como Sua Alteza ficasse preso

Estive em busca de um guru, Que é a jóia do refúgio de Buda. Estive em cavernas nas montanhas E lugares desertos em minha busca. Mas onde quer que eu fosse, Eu via as desvantagens do samsara. Todos com quem fiz amizade

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Contaram-me das desvantagens do samsara. Embora eu tenha feito tudo isto, ainda estou insatisfeito – Deixem-me livre, e eu me voltarei para o Dharma!

Seus pais disseram que se o samsara o fazia tão infeliz, ele deveria assumir as suas obrigações reais. Então, poderia fazer oferecimentos às Três Jóias, doações aos pobres, construir templos, convidar a Sangha, e assim por diante. E, então, seria totalmente feliz. “Eu já vi muito do samsara,” ele respondeu. “Não tenho a menor atração pelas armadilhas da vida real. Um palácio dourado não é diferente de uma prisão. Rainhas não são diferentes das filhas de Mara [as forças do mal]. As três substâncias doces não são diferentes de carne de cachorro, pus e sangue. Não há a menor diferença entre usar belas sedas e jóias ou um cobertor sujo. Entrarei na floresta para poder estar sempre meditando. Hoje, me dê um pouco de carne, leite, mel e cana de açúcar; vou ver o venerável Avadhutipa.” Esta foi a essência dos cânticos cantados aos seus pais. Sua mãe e seu pai deram-lhe permissão para fazer o que quisesse, e ele partiu para a floresta com mil cavalheiros. Ele tornou-se seguidor de Avadhutipa, que o iniciou no desenvolvimento da bodhichitta. “Vá até o templo de Krshnagir [a Montanha Negra],” disse-lhe Abadhutipa, “Lá vive Shri Rahulagupta. Ele, também, já foi seu guru.” Guru Rahula estava dando um ensinamento tântrico quando viu o príncipe chegando e, embora soubesse que Atisha vinha em busca do Dharma, lançou um raio no príncipe para testá-lo. Depois Rahula foi até o topo da montanha onde havia uma stupa Tirthika negra. Seu séquito de iogues perguntaram-lhe quem era aquela pessoa. Rahula respondeu, “Durante quinhentos e cinqüenta e dois renascimentos ele não foi outra coisa senão panditas estudiosos. Atualmente é herdeiro de Kalyanashri, o rei do Dharma de Bengala. Ele é desapegado da vida real e quer levar uma vida de práticas ascetas." Todos ficaram surpresos. Eles se levantaram e convidaram o príncipe a juntar-se a eles. Ao encontrar este guru, Atisha disse:

Santo guru, ouça-me! Deixei o meu lar. Desejo alcançar a liberação Mas nasci em uma família famosa E corro o risco de ficar preso a Bengala. Eu me devotei a Jitari, Bodhibhadra, Vidyakokila e Avadhutipa-- Gurus com poderes psíquicos; No entanto, até agora, não estou livre de minhas obrigações reais. Agora fui enviado até aqui oh guru; Inicie-me no Mahayana e no desenvolvimento da bodhichitta. Que eu fique livre destes meus vínculos!

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Ele continuou a implorar ao guru durante treze dias. O guru respondeu dando a iniciação de Hevajra e todas as instruções somente para o príncipe. A ele foi dado o nome de Jñanaguhyavajra. Rahula então disse aos oito iogues e ioguines nus com surpreendentes poderes psíquicos: “Siga-o até Bengala. O rei mudará de idéia. Quando for liberado de suas obrigações reais, vá com ele até o seu guru, Avadhutipa.”

O príncipe vestiu-se como Heruka e foi até as terras palacianas. Todos que o viram

o reconheceram e tiveram medo. Ele vagou sem rumo por três meses, comportando-se como um louco. Os iogues e ioguines corriam e pulavam por toda parte. Todos acharam que ele não estava mais apto a governar, e não conseguiam conter o choro. Seu pai foi o mais atingido, e disse:

Oh filho meu! Desde o seu excelente nascimento Eu vi o seu maravilhoso valor Pensei que fosse cumprir suas obrigações reais. Quem poderia ter comandado maior felicidade?

O que o retiro na floresta fez à sua mente?

O príncipe respondeu:

Se eu assumisse as minhas obrigações reais Só poderia estar consigo, meu pai, enquanto esta vida durar,

Mas pai e filho não se reconheceriam em todas as vidas seguintes Como é errado fazer algo que não traz benefício mas, só prejudica. Se eu deixar de lado as grandes exigências da vida real

E praticar o caminho seguro à liberação e à iluminação,

Estaremos juntos e felizes em todas as nossas vidas futuras.

Portanto, por favor, deixem-me livre!

Sua mãe disse:

De que adianta? Eu não consigo convencê-lo. O karma é o fator principal Que nos joga em todos os nossos renascimentos. Oh ser santo, pratique o Dharma que julgar o melhor. Rezarei para que você esteja comigo Em todas as minhas vidas futuras.

E

então, seus pais deram-lhe a permissão.

O

príncipe, iogues e ioguines partiram ao primeiro clarão do dia para o eremitério

do Guru Avadhutipa na floresta, onde ele estudou o Dharma da escola Madhyamika. Atisha recebeu ensinamentos nas sutilezas da lei de causa e efeito, e dos vinte e um aos

vinte e nove anos igualou-se a Avadhutipa. Enfim, ele contemplou e meditou em tudo que havia estudado. O Livro Azul dos Encantos diz: “Ele seguiu Avadhutipa por sete

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anos.” Atisha poderia ter sido um rei cujo esplendor se igualaria ao do Imperador chinês Li Shih-min. Cem mil famílias moravam no palácio real com seus estandartes da vitória, vinte e cinco mil piscinas, setecentos e vinte bosques de lazer, e cinqüenta e seis mil palmeiras. Ele poderia ter tido três milhões e quinhentos mil súditos. O palácio era

cercado por sete paredes interligadas por trezentas e sessenta e três pontes. Tinha vinte

e cinco mil estandartes da vitória dourados, e o palácio central tinha treze pagodes. Mas

o grande Atisha entregou-se ao Dharma e livrou-se das incontáveis armadilhas do poder real com uma facilidade igual à de cuspir na poeira. Nosso Mestre, o Buda, fez o mesmo: embora tivesse o poder de um imperador universal na palma de sua mão, ele renunciou para tornar-se um monge. Então, leia avidamente suas biografias. Se alguém dissesse agora, “Abandone os seus votos e será nomeado governador de um estado,” nós o faríamos sem hesitação; isto nos mostra a extensão de nossa determinação. Achamos difícil abandonar até mesmo pequenas coisas em nossos quartinhos apertados, o que não dizer do poder de um príncipe. Contraste isto com o grande Atisha, que desistiu de sua posição real, tratando-a como uma cuspidela na poeira, e durante sete anos dependeu principalmente de Abadhutipa. Ele também estudou o Vajrayana com muitos outros gurus que eram também dotados de poderes psíquicos. Tornou-se erudita em todos os clássicos e todas as instruções. Certa vez, surgiu-lhe o pensamento, “Serei bem versado nos tantras secretos.” Mas perdeu o orgulho quando uma dakini mostrou-lhe em sonho muitos volumes de tantra que ele nunca vira antes. E quando pensou, “Conseguirei os poderes psíquicos supremos do mahamudra [o grande selo] nesta vida se adotar um modo mais tântrico de comportamento” [isto é, tomando uma consorte], o Guru Rahulagupta veio até ele passando milagrosamente através de uma parede. “O que?” disse o guru. “Você está se esquecendo dos seres sencientes? Ordene-se! Isto beneficiará os ensinamentos e muitos seres sencientes.” Então Shri Heruka apareceu diante de Atisha e fez um apelo semelhante. Nosso Mestre Shakyamuni e o Protetor Maitreya pediram também, nos sonhos de Atisha, que ele se ordenasse. Ele recebeu a ordenação completa de Shilaraksha, um abade da sub- seita Mahasamgika, que havia atingido o nível de paciência do caminho da preparação. 9 Atisha ordenou-se aos vinte e nove anos. Atisha teve cento e cinqüenta e sete gurus; estudou todas as ciências, sutras, e tantras junto com as suas instruções orais. Fez um estudo específico de todos os pontos chaves das quatro divisões de A Transmissão do Vinaya com o Guru Dharmarakshita, assim como um texto enorme que, em cento e oito poemas, sobre todas as sete divisões do Abhidharma [a metafísica] chamada A Grande Discussão dos Particulares. Ele ouviu este ensinamento durante doze anos, estudando-o inteiramente. Conhecia

9 Há cinco caminhos Mahayana de desenvolvimento mental até a iluminação. Os primeiros quatro – caminhos de acumulação, preparação, visão e meditação – são os “ainda-a-aprender”; o último é o caminho de não-mais-aprender, ou seja, a iluminação. Cada um dos quatro primeiros são sub-divididos em outros quatro, e o nível da paciência é a terceira sub-divisão do caminho da preparação. Há uma descrição mais detalhada em A Tradição Tibetana do Desenvolvimento Mental, Geshe Dhargyey (LTWA; Índia, 1985).

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também todas as diferentes práticas das dezoito sub-escolas [da seita Vaibhashika] como quais membros da Shanga devem dar aos monges uma parcela de suas esmolas, ou qual água é própria para beber; portanto, tornou-se a jóia suprema de todas as dezoito destas sub-escolas da Índia. Mas, embora tenha recebido e praticado todo o Dharma do sutra e tantra que existia

na Índia naquela época, ele continuou a se perguntar qual era o caminho mais rápido para a iluminação. E Rahulagupta, que vivia numa caverna no Monte Krshnagiri sabia disto através de sua clarividência. Ele foi até Atisha e disse, “Qual a vantagem de simplesmente ter visões de deidades, manifestar diversos grupos de deidades em suas mandalas, conseguir muitos poderes psíquicos, ou ter uma concentração uni-focada firme como uma montanha? Treine sua mente no amor e na bodhichitta! Avalokiteshvara de Mil-Braços é a deidade da compaixão. Adote-o como a sua deidade tutelar e comprometa-se a trabalhar pelo bem dos seres sencientes até que o samsara se esgote.” Um dia, Atisha andava ao redor do trono vajra da iluminação em Bodhgaya. Enquanto andava no caminho de circumambulação 10 ele presenciou a conversa entre duas estátuas. Em outra ocasião, duas meninas que haviam transcendido as limitações do corpo humano, estavam conversando no céu ao sul de Bodhgaya. “Em que Dharma deve treinar-se alguém que queira uma iluminação rápida e completa?” perguntou uma das meninas.

A outra respondeu, “Treinar-se na bodhichitta!”

“Sim, o treinamento da bodhichitta é o meio mais nobre.” Ele havia parado de circumambular para ouvir, e acolheu isto em seu coração assim como um vaso recebendo todo o conteúdo de outro.

Certa vez, ele estava em pé ao lado do muro de pedras construído pelo Acharya Nagarjuna. Havia uma velha e uma menina. “Qualquer um que queira rapidamente a

iluminação completa,” disse a mulher para a menina, “deve treinar-se na bodhichitta.”

A estátua de Buda sob a sacada do Grande Templo em Bodhgaya certa vez falou

com ele enquanto ele circumambulava. “Oh mendigo!” disse, “Se quer se iluminar logo, treine-se no amor, na compaixão, e na bodhichitta.” Certa vez, enquanto circulava ao redor de uma pequena cela de paredes de pedra, uma estátua de marfim do Buda Shakyamuni disse-lhe, “Oh iogue! Treine-se na bodhichitta se quiser logo a iluminação completa!” Portanto, Atisha desenvolveu mais bodhichitta do que jamais havia conseguido antes e para desenvolvê-la ao máximo, questionou-se, “Quem detém as instruções completas sobre este assunto?” Ele indagou e descobriu que o grande Guru Suvarnadvipe era famoso por ser um mestre de bodhichitta. Atisha fez planos para ir até Suvarnadvipa [na Indonésia] para receber as instruções completas da bodhichitta. Ele navegou o oceano durante treze meses num barco com alguns mercadores que

10 N.T. Circumambulação é uma prática em que o praticante anda ao redor de objetos e monumentos sagrados, recitando mantras, fazendo práticas de purificação, com as devidas visualizações, etc. Em todo monumento sagrado há um caminho ao seu redor próprio para esta prática. Aqui no caso ele andava em volta do trono vajra, i.e. o local onde Buda se iluminou em Bodhgaya, na Índia, onde foi construída uma “stupa", monumento que simboliza a mente de Buda.

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viajavam a negócios. Kamadeva, o poderoso deus-demônio da luxúria, não suportava ver os ensinamentos de Buda se espalharem e, para obstruir a bodhichitta de Atisha, fez o barco virar para o lado contrário soprando um vento frontal. Então, bloqueou a passagem do barco com uma enorme baleia monstruosa, do tamanho de uma montanha, lançou raios do céu, e coisas assim. Isto causou muita devastação, e o Pandita Kshitagarbha implorou a Atisha que usasse seus poderes de deidades iradas. Atisha entrou em estado de meditação de Yamantaka Vermelho e subjugou as hostes dos demônios. Eventualmente a sua comitiva chegou à Indonésia. Atisha já era um grande estudioso e adepto. Aos dezoito meses de idade e sem que ninguém o estimulasse, disse palavras que provavam que ele já era familiarizado com a bodhichitta. Mas, ele suportou de bom grado todas estas dificuldades para chegar à Indonésia, o que deve nos convencer que nada é mais fundamental no Mahayana do que a preciosa bodhichitta. Atisha passou treze meses nesta viagem, e nunca tirou os seus mantos, o sinal de sua ordenação. Ele não viajou como nós. Atualmente, quando os monges viajam em peregrinação, colocam roupas leigas assim que cruzam os limites do mosteiro. Alguns até carregam longas lanças. Eu acho que os estranhos devem sentir medo deles e pensar, “Será que estes homens são degoladores?” No futuro, devemos dar exemplo não retirando os nossos mantos – o sinal de que somos ordenados. Isto vai beneficiar os ensinamentos. O onisciente Kedrub Rimpoche disse:

Os corpos dos seres ordenados São embelezados pelos dois mantos cor de açafrão. Quando os ordenados adotarem os sinais das pessoas leigas, Este tipo de comportamento arruinará os ensinamentos.

Alguns alegam, “Devemos estar amadurecidos por dentro”, e não preservar coisas externas. Isto não é um bom exemplo para os ensinamentos. Todas as ações externas da Sangha devem ser feitas de forma calma e disciplinada. Shariputra foi guiado à verdade [do caminho da visão] pelas maneiras de Arya Ashvajit. Voltando à estória, Atisha chegou à Indonésia. Aportaram na ilha e viram alguns meditadores, discípulos do grande Suvarnadvipi. Atisha e todos os seus discípulos descansaram uma quinzena, e pediram aos meditadores que contassem a vida do Guru Suvarnadvipi. Se estivéssemos lá, teríamos ido o mais rápido possível até a sua presença, mas Atisha não. Ele examinou a vida do guru. Ele estava nos dando um exemplo: devemos primeiro investigar corretamente um guru. Alguns meditadores correram na frente até o Guru Suvarnadvipi e contaram-lhe, “O grande erudito Dipankara Shrijñana, o principal estudioso de toda a Índia oriental e ocidental, juntamente com cento e vinte e cinco discípulos, viajaram por mar durante treze meses, passando por grandes dificuldades. Eles vieram receber do senhor, oh guru, a mãe fundamental [O Sutra da Perfeição da Sabedoria] que fez nascer todos os Vitoriosos dos três tempos. Eles também vieram pela prática Mahayana do treinamento da mente para desenvolver a bodhichitta em suas formas de aspiração e atuante.”

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“Que maravilha que tal grande erudita tenha vindo à nossa terra,” disse Suvarnadvipi. “Devemos dar-lhe as boas-vindas.” Enquanto o grande Atisha se aproximava do palácio do Guru Suvarnadvipi, ele e seu grupo viram uma procissão distante vindo para dar-lhes as boas-vindas. O próprio Guru Suvarnadvipi a liderava. Atrás dele vinham quinhentos e trinta e cinco monges. Eles pareciam Arhats. Usavam os três mantos da cor adequada de um monge, carregavam os vasos próprios para água e seguravam belos bastões de ferro. Sessenta e dois noviços participaram. Ao todo, eram quinhentos e noventa e sete pessoas ordenadas. Assim que a comitiva de Atisha viu esta imponente procissão, tão semelhante às dos Arhats da época do Buda, eles se alegraram do fundo de seus corações. Então, os panditas versados nas cinco ciências, como Atisha e o Pandita Kshitigarbha, e os monges instruídos nas três cestas, partiram para a residência de Guru Suvarnadvipi. Eles usavam sandálias próprias de um monge, e cada um usava os três mantos belamente tingidos com açafrão de Kashmir tão apreciado pela escola Mahasamgika. Para que as pessoas pudessem fazer o gesto muito auspicioso de dar esmolas, todos carregavam tigelas de esmolar de ferro em bom estado. Traziam com eles todos os utensílios prescritos, como um recipiente de latão para água com capacidade de uma drona,medida do país de Magadha, e o bastão de ferro que o Senhor dos Ensinamentos tanto louvava. Todos usavam chapéus de pandita com pontas rombudas – para indicar falta de orgulho – e seguravam leques cerimoniais. Os cento e vinte e cinco seguiram Atisha em fila única, mantendo entre eles a distância prescrita – uma linha [tão perfeita] quanto o arco-íris de cinco cores. Tudo era tão magnífico; os deuses virtuosos estavam satisfeitos e fizeram cair uma chuva de flores em sinal de respeito. Todos da ilha se admiraram com as ações dos dois gurus, e sua fé aumentou. Atisha deu ao guru um vaso totalmente transparente. Podia-se ver que estava cheio de ouro, prata, pérolas, corais e lápis-lázuli. Este gesto auspicioso previa que ele receberia as instruções completas nos treinamentos da bodhichitta, como um vaso que recebe todo o conteúdo do outro. Eles se retiraram para o quarto do guru no Palácio do Pára-sol Prateado, Lá, Guru Suvarnadvipi ensinou inicialmente quinze [dos setenta] tópicos de Um Ornamento à Realização, de Maitreya, juntamente com suas respectivas instruções orais, como um gesto ainda maior de auspiciosidade. O mestre imediatamente se afeiçoou a Atisha, e compartilharam as mesmas acomodações. Assim, começaram doze anos em que Atisha e seus discípulos receberam as instruções completas de todos os significados ocultos dos Sutras da Perfei-ção da Sabedoria – a “sagrada mãe” – da linhagem que Maitreya passou a Asanga. Receberam, também, instruções exclusivas no treinamento da mente na bodhichitta por meio de trocar-se pelos outros; a linhagem para isto foi dada por Manjushri a Shantideva. Eles estudaram, contemplaram, e meditaram completa e exaustivamente estas instruções. Por meio do trocar-se pelos outros; eles desenvolveram, aos pés deste guru, a genuína bodhichitta em suas mentes. O guru certa vez dirigiu-se a Atisha, agora senhor da doutrina, e previu que ele teria

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discípulos se fosse ao Tibet.

Sua Alteza, não permaneça aqui. Vá para o norte, ao norte, para a Terra das Neves.

1.3 APÓS ADQUIRIR ESTAS QUALIDADES, O QUE FEZ PARA PROPAGAR A DOUTRINA

COMO ATUOU NA ÍNDIA

Ao voltar a Magadha, Atisha viveu em Bodhgaya, e derrotou três vezes em debate os detentores das religiões Tirthikas nocivas, convertendo-os ao budismo. Ele também promoveu os ensinamentos de outras formas. O Rei Mahabala o encarregou da biblioteca do Mosteiro Vikramashila. Embora Atisha seguisse principalmente as tradições da escola Mahasamgika, ele também era bem versado nas tradições das outras escolas; e como não demonstrou sectarismo algum, tornou-se a jóia suprema de toda a Sangha em Magadha e em toda a Índia. Ele era o mestre reconhecido de todos os ensinamentos do sutra e do tantra encontrados nas três cestas e nas quatro classes de tantra. E, quanto aos ensinamentos em si, era como se o próprio Vitorioso tivesse retornado.

COMO ATUOU NO TIBET

Os primeiros ensinamentos difundidos no Tibet, à esta altura, haviam se extinguido. A última propagação dos ensinamentos ganhava movimento. Mas algumas pessoas se concentravam no vinaya e desprezavam o tantra; outras faziam justamente o oposto. Sutra e tantra haviam se tornado tão oposto quando quente e frio. Muitos panditas famosos vieram da Índia ao Tibet, atraídos pelas perspectivas de ouro. Eles enganaram

o povo do Tibet com muitos mantras nocivos e sexo tântrico, e estava muito difícil para

os ensinamentos puros do Vitorioso se espalharem. O rei tibetano Lhalama Yeshe Oe não estava feliz com esta situação, e para propagar os ensinamentos puros, enviou vinte

e quatro brilhantes estudantes tibetanos até a Índia para trazer de volta os panditas que tanto benefício poderiam trazer para o Tibet. Todos morreram, menos dois deles; o grande Rinchen Zangpo e Legden Sherab tornaram-se muito experientes no Dharma, mas mesmo assim, não conseguiram trazer Atisha com eles. Quando retornaram ao Tibet, tiveram uma audiência com o rei sobre como harmonizar os sutras e os tantras com as práticas e crenças de todos os estudiosos da Índia. “Estes outros panditas não estão beneficiando o Tibet”, disseram. “Em Vikramashila, vive um monge de nascimento real que alcançou a liberação. Seu nome é Dipankara Shrijñana. Se convidá-lo, é certo que trará benefícios ao Tibet.” Eles disseram que todos os outros panditas também concordavam com isto. Estas palavras acalmaram as dúvidas do rei mas, o mais importante foi que ele desenvolveu uma fé firme e inabalável em Atisha só de ouvir seu nome. Ele enviou

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Gyatsoen Senge, juntamente com outros oito, para trazer Atisha. Eles levaram muito ouro, mas não conseguiram. O próprio rei do Dharma foi em busca de mais ouro para ajudar a trazer o pandita de volta.

O khan de Garlog sabia que o rei estava agindo para propagar a doutrina, então,

capturou Yeshe Oe e ameaçou-o de morte se ele não abandonasse seus ensinamentos. O

rei foi jogado na prisão. O seu sobrinho paterno, Jangchub Oe, foi até lá tentar libertar seu tio, apenas para ouvir do khan de Garlog, “Ou você abandona os seus planos de trazer o pandita e se torna meu servo ou então me traga o peso do rei em ouro. Com qualquer uma destas alternativas, eu o libertarei.” Jangchub Oe prometeu entregar o ouro. Ele ofereceu ao khan duzentos onças de ouro que tinha consigo, mas o khan não aceitou. Eventualmente, ele trouxe ao khan o peso do rei em ouro, menos a cabeça. O khan de Garlog não estava interessado, “Quero

a cabeça e tudo,” ele disse. Jangchub Oe não tinha mais meios de conseguir mais ouro. Então, foi até o portão

da prisão de Yeshe Oe. “Tio,” ele exclamou, “você tem sido extremamente bom. Você

é uma vítima de suas ações do passado. Se eu declarar guerra contra este homem para

derrotá-lo, muitas pessoas morrerão, e temo que renasçam nos reinos inferiores. Este homem me disse para não convidar o pandita, mas em vez disto tornar-me seu servo. Mas, se abandonarmos o Dharma, teremos nos rendido a este rei pecaminoso. Penso que será melhor que você permaneça fiel ao Dharma. Ele me disse que queria o seu peso em ouro. Eu tenho buscado ouro, mas só consegui o suficiente para igualar o peso de seu corpo sem a cabeça. Isto não o satisfez, e agora preciso buscar o restante. Voltarei com o resgate. Até lá, pense em seu karma passado, faça súplicas às Três Jóias e, acima de tudo, tenha coragem e crie méritos.”

Seu tio riu e disse, “Eu pensava que você levava uma vida fácil e era mimado demais para enfrentar dificuldades ou ter alguma coragem. Agora vejo que, quando eu morrer, você manterá as tradições de nossos ancestrais. Você agiu bem. Isto me deixa contente. Eu achava que seria errado eu morrer sem ter estabelecido no Tibet um governo impecável do Dharma. Estou velho e se não morresse agora, viveria mais uns dez anos. Se der tanto ouro só para isto, vai desagradar às Três Jóias! Em minhas infindáveis vidas passadas, não morri nenhuma vez pelo Dharma. Então, não dê ao

khan nem mesmo uma partícula de ouro; será maravilhoso morrer pelo Dharma. Onde encontraríamos ouro para a minha cabeça? Leve todo o ouro à Índia, e faça o que puder para trazer o Pandita Atisha.” “Se ele recebê-lo, diga-lhe: ‘Entreguei minha vida ao khan de Garlog pelos ensinamentos de Buda e por seu próprio bem. Olhe-me com compaixão pelo resto de minhas vidas. Meu único pensamento era que viesse ao Tibet. Só fiz isto para que os ensinamentos de Buda espalharem no Tibet. Então, faça o que peço. Abençoe-me para definitivamente nos encontrarmos em vidas futuras.’ Meu sobrinho, esqueça de mim; pense nos ensinamentos do Buda!”

O tio estava muito enfraquecido, e o som de sua voz era muito comovente. Mas,

Jangchub O e podia ver que seu tio tinha a coragem de só pensar nos seres sencientes do Tibet, nos ensinamentos do Buda, e em Atisha. Ele forçou-se a deixar o tio. Sua

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coragem saiu fortalecida e ele agiu inteiramente segundo os desejos do tio. No Tibet, muitas pessoas faziam várias religiões rudes passarem por tantra. Algumas destas pessoas eram o Acharya Saias Vermelhas, o infame Pandita Saias Azuis, e os Dezoito Mendigos de Artso. Para derrotar estas pessoas pacificamente, o rei Jangchub Oe rezou às Três Jóias pedindo orientação sobre qual de seus súditos seria a pessoa certa para trazer Atisha. Todas as consultas com dados e cálculos astrológicos indicavam Nagtso, o tradutor. Na ocasião Nagtso vivia no Templo Dourado de Gungtang. O rei convocou-o até Ngari, mas temia que o tradutor não fosse à Índia. Então, o rei Jangchub Oe fez Nagtso sentar-se no trono real e ofereceu-lhe presentes. “Implore a Atisha,” disse o rei. “Diga-lhe, ‘Você tem sido muito louvado por seu conhecimento, ética e bom coração. Meus ancestrais, reis e ministros de estado do passado, estabeleceram aqui os ensinamentos do Buda, que virou hábito, floresceram e se espalharam. Agora os ensinamentos do Buda estão em estado lastimável. Uma raça de demônios tomou posse. Os já falecidos estudiosos do passado ficariam tristes com isto. Tanto eu quanto meu tio enviamos muito ouro à Índia, mas depois de tantos gastos, de riqueza e de homens, ainda não trouxemos Atisha de volta. Nosso rei não suportou isto e foi em busca de ouro. Ele foi aprisionado por um khan malvado. Sua Majestade deu a sua vida. Se desapontar a nós, seres sencientes ignorantes da remota terra do Tibet depois de termos demonstrado tamanha coragem, como poderemos considerá-lo compassivo e objeto de refúgio dos seres sencientes?” “Eu tenho mil e quatrocentas onças de ouro. Leve-as e coloque-as nas mãos do guru. Diga-lhe, ‘O nosso Tibet é como a cidade de fantasmas famintos, encontrar ouro em nosso país é como procurar um único piolho numa ovelha, é muito difícil de se achar. O ouro que vê aqui é toda a riqueza do povo do Tibet. Mas, Oh protetor, se não for ao Tibet, isto mostrará que tem pouca compaixão. Então nunca faríamos nada para sermos melhores.’ Nagtso, você sustenta o vinaya. Conte nossa estória pessoalmente a Atisha. Se ele ainda recusar, explique a situação até que ele a entenda completamente.” O rei chorava tanto que havia lágrimas em seu colo e na mesa à sua frente. Nagtso o tradutor, cujo nome verdadeiro era Tsultrim Gyaelwa, não havia viajado muito antes e não estava nada ávido para partir para terras distantes, mas ele não conseguia negar. Temos um provérbio: “Quem vê alguém chorando começará a chorar também.” Ele nunca havia encontrado Yeshe Oe antes, mas sabia bem que o rei dizia a verdade. Ele estava ciente de que o tio havia gasto muita fortuna, e que os dois haviam dado as suas próprias felicidades pelo bem do Tibet para que pudéssemos ser felizes. O rei, um homem de alta posição, havia tocado profundamente a Nagtso. Ele estava sem fala, seu corpo tremia, sua face estava coberta de lágrimas e era incapaz de encarar o rei. O rei pedia-lhe que arriscasse tanto a sua vida quanto os seus membros, mas Nagtso não era apegado a nenhuma das felicidades desta vida, e então disse que iria. Ele recebeu as mil e quatrocentas onças de ouro do rei e seus sete ministros, e tomou o caminho da Índia. O rei acompanhou-o por longa distância. “Monge, você está fazendo isto por mim,” disse o rei. “Está arriscando sua vida e membros. Com grande perseverança está agora viajando a lugares que vão lhe criar muitas dificuldades.

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Quando voltar, retribuirei a sua bondade.” O rei afastou-se um pouco e depois disse, “Faça súplicas ao Grande Compassivo [Avalokiteshvara] enquanto estiver viajando.” Quando Nagtso o tradutor e sua comitiva chegaram ao reino do Nepal, encontraram um homem alto que disse, “Creio que você está indo a lugares distantes numa grande missão. Você terá sucesso em sua missão se enquanto viajar repetir: ‘Homenagem às Três Jóias! Que o santo Dharma, a fonte dos Budas dos três tempos, se espalhe na Terra das Neves!’ Diga isto enquanto viaja. Assim, sua viagem será fácil.” Perguntaram quem ele era. “Vocês saberão quem sou,” ele disse. Havia também muitas emanações diferentes de Dromtoenpa [que em breve seria o principal discípulo de Atisha]. Estas emanações removiam os muitos perigos que ameaçavam Nagtso e sua comitiva na estrada. Enfim, chegaram aos portões de Vikramashila. Havia um parapeito sobre o portão, e Gyatsoen Senge, que entendia a língua tibetana, gritou-lhes de uma fenda no parapeito: “Senhores tibetanos, de onde vieram?” “Viemos do Alto Ngari,” responderam. “Há um porteiro. Deixem todas as suas coisas com ele. Tenham uma boa noite de sono em algum abrigo. O portão será aberto logo ao primeiro sinal de luz.” Eles entregaram o ouro ao filho do porteiro, que o guardou num quarto interno. “Confiem em mim como confiariam em seu melhor amigo” ele disse. “Não se preocupem. Durmam bem.” Eles acharam que a pequena criança, dizendo estas coisas não poderia ser uma pessoa comum. Isto deixou suas mentes em paz. Na manhã seguinte, assim que o portão foi aberto, uma criancinha apareceu. Ele usava um chapéu pontudo e se vestia como um nômade tibetano – com os trajes completos de duas camadas de lã e carregando uma pequena tigela de madeira. “De onde vieram vocês tibetanos?” a criança perguntou. “Vocês não parecem mal pela a viagem.” A comitiva de Nagtso achou encorajador encontrar alguém falando o dialeto dos nômades. “Viemos de Alto Ngari,” disseram. “Tivemos uma viagem tranqüila. O que o traz aqui? Para onde está indo?” “Eu também sou tibetano,”respondeu a criança. “Estamos indo ao Tibet. Nós tibetanos temos a língua muito solta. Somos muito ingênuos. Não sabemos guardar um segredo. As coisas importantes devem ser feitas em segredo. Gyatsoen Senge está hospedado nas acomodações tibetanas. Perguntem por aí e encontrarão.” E com isto, ele se foi. Eles entraram numa longa alameda, seguiram por ela, e encontraram um homem santo e velho com um bastão de bambu para caminhar “De onde vieram?”, perguntou. “O que os trouxe aqui de tão importante?” “Viemos do Alto Ngari,” responderam. “Viemos buscar o ilustre Atisha. Onde fica a casa de Gyatsoen Senge?” O santo velho homem inclinou o seu bastão e virou seus olhos. “A criança que encontraram esta manhã disse a verdade. Os tibetanos não conseguem ficar de bocas fechadas! Vocês contam todos seus segredos às pessoas espreitando nos becos. Como

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podem esperar conseguir alguma coisa assim! É bom que tenham me contado. Mas não digam isto a ninguém a não ser Atisha. Eu lhes mostrarei a porta de Gyatsoen Senge.” O velho abriu o caminho lentamente, mas Nagtso não conseguia acompanhá-lo. Nagtso encontrou-o esperando na soleira das acomodações tibetanas. “Coisas importantes devem ser feitas lentamente” disse o velho. “Apresse-se lentamente. O que você quer está muito longe e é preciso subir uma montanha passo a passo. Esta é a casa dele.” Nagtso entrou e fez um oferecimento de ouro a Gyatsoen Senge, o tradutor. Gyatsoen perguntou-lhe. “De onde vieram?” Ele contou sua estória detalhadamente. “Parece que você já foi meu discípulo,” disse Gyatsoen, “mas não o reconheço. Não diga a ninguém que veio convidar Atisha. Diga que veio aprender. Há um Ancião chamado Ratnakarashanti, que é muito poderoso aqui e é o mestre de Atisha. Ele não deve suspeitar de suas intenções. Devemos agora fazer-lhe um oferecimento de uma onça de ouro. Diga-lhe ‘Fracassamos em convidar qualquer pandita.’ Depois, não se apresse; não deixe nada lhe preocupar. Na hora certa, habilmente convidaremos Atisha para vir aqui.” Nagtso e Gyatsoen Senge foram ver o Ancião Ratnakarashanti presenteando-o com uma onça de ouro. Nagtso conversou com ele por um tempo, contando a estória combinada. O Ancião então disse, “Isto é maravilhoso! Os outros panditas não conseguem subjugar os seres sencientes. Isto não é nenhum exagero. Os ensinamentos do Buda podem ter originado na Índia, mas sem Atisha, os méritos dos seres sencientes aqui vão declinar.” Ele também disse muitas outras coisas. Durante algum tempo foi muito difícil encontrar Atisha. Mesmo assim, emanações de Avalokiteshvara haviam proporcionado muitas oportunidades auspiciosas para Atisha viajar ao Tibet. Então chegou o dia em que não havia nenhum outro pandita ou rei por perto para suspeitar o que estava acontecendo; Gyatsoen Senge chamou Nagtso e levou-o ao quarto de Atisha. Eles ofereceram a Atisha uma mandala-mundial de um cúbito de altura, montada sobre uma peça de ouro que era rodeada de outras pequenas peças de ouro. O tradutor Gyatsoen Senge falou por ambos. Ele contou como o rei do Tibet era um Bodhisattva, e como o Dharma havia se espalhado sob os três Dharmarajas [Songtsen Gampo, Trisong Detsen e Raelpa Chaen]. Ele contou como o rei Langdarma havia perseguido os ensinamentos e como o grande lama Gompa Rabsael havia conseguido preservar a Sangha e aumentar o seu número. Falou do sacrifício que o tio do rei fez para levar Atisha ao Tibet. Deu o recado de Jangchub Oe, e descreveu o tipo pervertido de Dharma que prevalecia no Tibet. “O rei Bodhisattva do Tibet,” Gyatsoen disse, “enviou este homem para convidá-lo, oh valoroso protetor. Não nos iluda dizendo que irá no ano que vem. Olhe compassivamente para o Tibet!” “O rei tibetano é um Bodhisattva,” disse Atisha. “Os três Dharmarajas eram

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emanações de Bodhisattvas. Gompa Rabsael era uma emanação de um Bodhisattva, se não fosse como poderia ter reacendido as brasas dos ensinamentos. Os reis do Tibet são Bodhisattvas. Não seria correto desobedecer as ordens de um Bodhisattva. Sinto-me envergonhado perante este rei. Ele gastou uma fortuna. Vocês tibetanos estão em estado lastimável, mas eu sou responsável por muitas chaves [de templos e mosteiros] e já estou velho. Tenho muitos ofícios a executar. Não posso esperar poder voltar do Tibet. Mesmo assim, investigarei este assunto. Por enquanto, guarde o seu ouro.” Ele então os dispensou. Atisha investigou se seria benéfico para os ensinamentos do Buda se ele fosse ao Tibet movido por amor aos seus possíveis discípulos tibetanos. Verificou, também, se haveria um impedimento à sua própria vida. Avalokiteshvara, Tara, e assim por diante, disseram que, se ele fosse, isto seria muito benéfico para os seres sencientes e para os ensinamentos. Mas, se fosse, o seu tempo de vida seria encurtado. Atisha perguntou quanto seria. E disseram-lhe que, se não fosse, viveria até noventa e um anos, e se fosse só viveria até setenta e três anos, o que significa que sua vida seria encurtada em quase vinte anos. Neste ponto Atisha pensou em todos os benefícios de sua ida ao Tibet e que, se isto implicasse em ter uma vida mais curta, ele aceitaria. Ele havia desenvolvido tanta determinação que não se preocupava com sua própria vida. Mas Atisha não queria ir imediatamente ao Tibet, porque a Sangha da Índia e seus benfeitores diriam que a Índia, a própria nascente dos ensinamentos, iria declinar. Para evitar tal conversa, Atisha usou seus meios hábeis: em vez de dizer que estava indo ao Tibet, disse que ia fazer uma longa peregrinação de ofere-cimentos em Bodhgaya e outros lugares sagrados, e que passaria bastante tempo viajando. Dromtoenpa, sendo um Dharmaraja no verdadeiro sentido, habilmente se manifestou na forma de comerciantes. Sem que ninguém suspeitasse, eles levaram de volta para o Tibet, muitas estátuas santas do Arya Manjuvajra [uma forma de Guhyasamaya], etc. --os símbolos dos corpos dos Budas-- bem como muitas escrituras --os símbolos da palavra iluminada dos Budas. Atisha pediu permissão ao Ancião para viajar ao Nepal e Tibet. Lá havia muitas stupas excepcionais e locais de peregrinação, e ele só ficaria ausente o tempo necessário para vê-los. O Ancião observou que Atisha estava bastante inclinado a ir e que os tibetanos estavam determinados a levá-lo, então permitiu que fosse por período de tempo pequeno. Nagtso o tradutor prometeu traze-lo de volta em de três anos. Assim, Atisha e seus discípulos deixaram a Índia rumo ao reino do Nepal. O rei tibetano veio com trezentos cavaleiros e deu-lhes exuberantes boas-vindas. Dizem que o povo local instantaneamente desenvolvia fé só ao vê-lo, e que os seus contínuos- mentais foram subjugados.

Pabongka Dorje Chang falou detalhadamente do encontro entre Atisha e o grande Rinchen Zangpo.

O rei Jangchub Oe submeteu seu pedido a Atisha. Ele contou como no passado os três Dharmarajas haviam suportado centenas de dificuldades para estabelecer os

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ensinamentos do Buda aqui ao norte, na Terra das Neves. Mas Langdarma havia perseguido os ensinamentos. Os próprios ancestrais de Jangchub Oe, os Dharmarajas de Ngari, haviam restabelecido os ensinamentos do Buda no Tibet sem considerar suas próprias vidas. Mas agora algumas pessoas se ocupavam do tantra e ignoravam o vinaya. Outros juraram pelo vinaya e ignoravam os tantras. Os sutras e tantras eram tidos como opostos, como quente e frio. As pessoas faziam suas próprias práticas fantasiosas e, mais precisamente Acharya Saias Vermelhas e Acharya Saias Azuis ensinavam uma doutrina de liberação através de relações sexuais com os praticantes de cabelos longos dos tantras antigos. Os ensinamentos haviam declinado tanto que eram como balelas sem sentido. Ele continuou com muitos detalhes e seus olhos se encheram de lágrimas. “Compassivo Atisha,” ele disse, “por ora, não ensine os Dharmas mais profundos e surpreendentes aos seus discípulos não-civilizados do Tibet. Peço que, em vez disto, ensine o Dharma da lei de causa e efeito. Também, que seja do agrado do protetor ensinar compassivamente algum Dharma sem erro e fácil de praticar, um que você mesmo pratique, que inclua todo o caminho, que seja benéfico aos tibetanos em geral, e que englobe todas as escrituras do Vitorioso --os sutras, tantras e comentários.” “Além disto, é preciso que alguém tenha os votos pratimoksha [de liberação individual] 11 para ser um candidato aos votos de bodhichitta em sua forma atuante? Alguém consegue se iluminar sem a combinação de método e sabedoria? É permitido a alguém assistir a um ensinamento do tantra sem ter recebido a iniciação? É permitido a alguém conceder a efetiva iniciação de sabedoria [onde o discípulo recebe uma consorte real] às pessoas com votos de celibato? É permitido realizar práticas secretas do caminho tântrico sem ter obtido a iniciação de um mestre vajra?” Estas são algumas das perguntas feitas por ele. Atisha estava altamente satisfeito com isto, e então compôs Uma Luz no Caminho à Iluminação. Em apenas três fólios ele elucida os pensamentos dos sutras e tantras. E começa assim:

As mais respeitosas homenagens

A todos os Vitoriosos dos três tempos,

Ao seu Dharma, e à Sangha.

A pedido de meu nobre discípulo

Jangchub Oe, acenderei Uma Luz no Caminho à Iluminação.

Atisha não disse “meu nobre discípulo Janchub Oe” porque havia recebido muitos oferecimentos dele; mas sim porque estava muito satisfeito com a maneira como Jangchub Oe havia perguntado sobre o Dharma. Meu próprio precioso guru me disse:

“Atisha não teria ficado nada satisfeito se ele tivesse pedido, ‘Por favor conceda-me uma grande iniciação ou uma iniciação menor.’”

11 N.T. - Votos pratimoksha são: não matar, não roubar, não mentir, não tomar intoxicantes, não o ter má conduta sexual.

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Uma Luz no Caminho responde as perguntas de Jangchub Oe. Logo depois de ter surgido, os ensinamentos rudes e perversos no Tibet desapareceram de volta para onde haviam vindo. Atisha promoveu ainda mais a doutrina na área de Ngari, mas quando os três anos estavam quase acabando, e devido à sua promessa ao Ancião, Nagtso o tradutor disse, “Agora devemos retornar à Índia.” Atisha pareceu consentir, então foram até Puhreng. Mas Tara havia dito anteriormente várias vezes a Atisha, “Seria muito benéfico para os ensinamentos se você acolhesse um grande upasika [praticante leigo] do Tibet.” Agora ela dizia repetidamente, “O upasika logo chegará aqui,” então Atisha estava sempre atento à sua espera. “Meu upasika não chegou,” ele disse, “Como poderia Tara mentir!” Certo dia Dromtoenpa apareceu enquanto Atisha estava visitando um benfeitor. Drom foi até o quarto de Atisha e lá soube que Atisha havia ido ver seu benfeitor mas já deveria estar voltando. “Não posso esperar mais nem um momento,”disse Drom Rimpoche, “preso aqui enquanto ainda não me encontrei com meu guia espiritual Mahayana. Vou até onde ele está.” Ele saiu e encontrou Atisha numa viela. Drom Rimpoche fez prosternações longas 12 e aproximou-se de Atisha, que colocou suas mãos na cabeça de Drom enquanto pronunciava muitas coisas auspiciosas em sânscrito. Enquanto Atisha esteve com seu benfeitor, ele havia dito, “Preciso de um pouco de comida para meu afortunado upasika,” então ele trazia a comida. Atisha era um vegetariano rigoroso, e a comida que havia recebido consistia de bolas de massa de cevada fritas em ghee, Drom comeu a massa de cevada, mas guardou a manteiga clarificada, colocando-a numa lamparina de manteiga grande o bastante para ficar acesa a noite toda. Ele colocou-a ao lado do travesseiro de Atisha, e dizem que ele continuou colocando lamparinas semelhantes ao lado do travesseiro de seu mestre todos os dias pelo resto da vida de Atisha. Naquela noite Atisha deu a Drom Rimpoche uma iniciação majoritária e adotou-o como seu filho espiritual. Eles partiram de Puhreng e foram para Kyirong no distrito de Mangyul, com a intenção de atravessar o Nepal a caminho da Índia, mas a passagem estava bloqueada porque havia estourado uma guerra. Eles não podiam mais prosseguir. Então, Drom insistiu com Atisha para que voltassem ao Tibet, enquanto Nagtso suplicava para que continuassem a viagem à Índia; o tradutor estava frustrado porque não podiam viajar de volta à Índia. Atisha disse-lhe, “Você não deve se preocupar muito. Você não fez nada errado, pois não é possível cumprir a sua promessa." Isto deixou o tradutor muito feliz: “Muito bem,” ele disse. “Vamos voltar ao Tibet.” Então, Atisha decidiu regressar ao Tibet. Ele não podia prosseguir até a Índia

12 N.T. - A prosternação é a prática de reverenciar um objeto sagrado ou ser superior. Há a prosternação mental (feita com o pensamento), de palavra (através de recitação de mantras) e de corpo. A prosternação de corpo pode ser pequena ou longa. Na primeira, toca-se o chão com os joelhos e mãos e leva-se a cabeça até o chão, na outra, leva-se o corpo inteiro ao chão. Uma forma mais simples de prosternação de corpo é unir as palmas das mãos (como fazemos ao rezar) na direção do objeto ou pessoa sendo reverenciada.

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porque a estrada estava bloqueada na ocasião como resultado do karma coletivo dos tibetanos. Eles enviaram uma mensagem à Índia dizendo, “Atisha não pode voltar pelo Nepal como o Ancião havia ordenado devido à luta que está sendo travada. Isto significa que teremos que regressar ao Tibet por uns tempos. Vocês podem convidar Atisha de volta assim que os problemas se acalmarem? Como seria muito benéfico para os seres sencientes, podem permitir que Atisha permaneça no Tibet? Enquanto ele estiver aqui, ele escreverá mais tratados como o que segue anexo.”Eles enviaram uma cópia autografada de Uma Luz no Caminho de Atisha, junto com bastante ouro. Naquela época, a Índia não era como o Tibet [do tempo atual]. Os novos livros do ano eram submetidos a uma assembléia de panditas e cada um dos fólios passava por fileiras de juizes para ser avaliado. Os livros que não tinham erros gramaticais ou de conteúdo eram apresentados ao rei, e o autor recompensado. A estes trabalhos era concedida a publicação. Os tratados de conteúdo falho – mesmo escritos impecavelmente em versos – eram amarrados ao rabo de um cão. O cão era levado pelas das ruelas da cidade, e assim tanto o autor quanto o livro eram ridicularizados. Depois, pediam ao rei para que não publicasse tal tratado. A composição do Grande Atisha na realidade não precisava ser submetida a este teste. Mesmo assim, foi submetida aos panditas. Estes ficaram muito impressionados, porque o trabalho, de apenas três fólios, ensinava sucintamente todos os assuntos de todo o sutra e tantra e se alguém dependesse deste trabalho, iria considerar todas as escrituras como instruções para si mesmo. Satisfeitos, declararam unanimemente, “A ida de Atisha ao Tibet não foi excelente só para os tibetanos, mas também provou ser o melhor para os indianos. Atisha não teria escrito isto se tivesse permanecido na Índia, porque os indianos são mais sábios e tem mais perseverança. Ele sabe que os tibetanos são obtusos e de pouca perseverança, então escreveu este tratado breve e muito benéfico.” Eles foram pródigos em louvar a estada de Atisha no Tibet. Ratnakarashanti o Ancião escreveu-lhes: “Foi assim que ele foi louvado pelos panditas, portanto dou minha permissão para que permaneça no Tibet, já que isto será tão benéfico para os seres. Só peço que ele escreva um comentário a esta obra como compensação por não estar aqui.” (Mas, a obra encontrada nas edições dos comentários traduzidos, sendo supostamente o comentário do próprio Atisha, é tida como adulterada). Nagtso ficou muito feliz. “Eu carreguei uma montanha de responsabilidade que me foi imposta pelo Ancião. Hoje a tirei de meus ombros.” Pouco antes de Atisha ir à Província Central, Drom Rimpoche escreveu às pessoas importantes de lá, dizendo: “Eu me esforcei muito para Atisha ir à Província Central, portanto quando receberem a minha próxima carta, partam imediatamente para dar-lhe as boas-vindas.” Mais tarde ele escreveu, “Que os mestres da Província Central, como Kawa Shakya Wangchug, etc. partam imediatamente para dar-lhe as boas-vindas.” Drom destacou este Kawa como o mestre mais importante do Tibet.

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No início desta jornada, uma pessoa chamada Kutoenpa reclamou, “Onde está o meu nome?” e responderam-lhe, “Você foi incluído entre os etceteras.” “Eu não sou homem que mereça estar relegado aos etceteras!” disse, e tentou estar à frente da procissão. Então todos começaram a se empurrar para ficar na posição de liderança. Nesta época, os mestres tibetanos costumavam usar chapéus de abas largas, capas de brocado, e coisas assim --um costume que indicava os grandes lamas. Assim que Atisha viu estas pessoas vindo à distância, ele disse: “Muitos espíritos nocivos do Tibet apareceram por aqui!” e cobriu sua cabeça com seu manto. Os grandes lamas então desmontaram, colocaram os três tipos de mantos e se aproximaram. Isto agradou a Atisha, que então os recebeu. Eventualmente, chegou à Província Central, e lá fez muito para girar a roda do Dharma. Ele provou ser uma grande força atrás dos ensinamentos. Passou três anos no Alto Ngari, nove anos em Nyetang, e cinco nas Províncias Central e Tsang – um total de dezessete anos no Tibet. Obras como A História dos Kadampas afirmam que ele só esteve lá por treze anos, mas nossa tradição de dezessete anos começou com o grande Tsongkapa. Segundo ele disse:

“O próprio Nagtso devotou-se a ele durante dois anos na Índia, e dezessete anos no Tibet. Assim, ele serviu e se dedicou a Atisha durante dezenove anos.”

O motivo essencial de o grande Jangchub Oe esforçar-se tanto para levar Atisha ao Tibet, foi para que ele ensinasse o Dharma, e o mais importante de seus ensinamentos foi Uma Luz no Caminho à Iluminação. A sua viagem ao Tibet havia sido prevista por Tara. O seu próprio guru, Halkrshna, disse:

Se você for ao Tibet, os filhos serão mais ricos do que os pais. Os netos serão mais ricos do que os filhos. Os bisnetos serão mais ricos do que os netos. Os tataranetos serão mais ricos do que os bisnetos. Então será menos rigoroso.

Aqui, o pai é Atisha. Os filhos são Dromtoenpa, Legden Sherab, etc. Os netos são os três Irmãos Kadampas [Potowa, Gampopa, Chaen Ngawa]. Os bisnetos são Langri Tangpa, Geshe Sharawa, e assim por diante. Os tataranetos são Sangye Boenton, Sangye Gompa, e outros daquela geração. O significado de “serão mais ricos” é que os ensinamentos se espalharão sendo transmitidos de geração a geração. Atisha reavivou as tradições dos ensinamentos que haviam esmorecido, e espalhou outras raras tradições. Ele expurgou qualquer idéia errônea que estava maculando e diluindo os ensinamentos, e portanto fez com que os preciosos ensinamentos ficassem imaculados. Mas, a partir de então, este ensinamento nos estágios e níveis do caminho foram obscurecidos por certos tantras inúteis e iniciações menores, e assim o ensinamento ficou um tanto corrompido.

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Este ensinamento sobre os estágios do caminho à iluminação foi dado a Drom. Drom perguntou, “Porque os outros receberam instruções nos tantras, e o Lam-rim foi dado só para mim?” Atisha respondeu, “Não encontrei ninguém, além de você a quem confiá-lo.” Ele deu o ensinamento a Drom em privacidade. Drom deu-o em público, e a partir de então surgiram três linhagens. A Tradição Clássica Kadampa, foi a linhagem que foi passada de Potowa a Sharawa. Ela tratava dos estágios do caminho à iluminação através dos grandes clássicos. A Tradição Kadampa de Lam-rim foi a linhagem que foi passada de Gampopa a Neuzurpa. Este era um tratamento mais curto do Lam-rim, dando os estágios do caminho em sua seqüência. A Tradição da Instrução Oral Kadampa veio através do Geshe Chen Ngawa a Zhoenue Oe. Este tratamento seguiu as instruções dos gurus em ensinamentos como a essência dos doze elos interdependentes. Estes ensinamentos ainda existem, mas não mais sob estes nomes. A interpretação tradicional que se ramifica desde Ngagwang Norbu, um ocupante do trono de Ganden 13 , afirma que os academicamente mais inclinados devem praticar o Lam-rim segundo os cinco principais tópicos de debate. 14 Isto segue a Tradição Clássica. As pessoas que não conseguem praticar assim, mas têm percepção aguçada e perseverança, devem estudar e contemplar os Lam-rims grande e médio [de Tsongkapa]. Esta prática segue a Tradição Kadampa de Lam-rim. Quem não consegue praticar estas, deve trabalhar com alguma instrução sucinta, como O Caminho Fácil ou O Caminho Rápido. Elas estariam seguindo todas as seções dos estágios do caminho. Isto seria a Tradição da Instrução Oral Kadampa. O meu próprio precioso guru, meu refúgio supremo, me deu esta interpretação tradicional. Como já disse, Je Tsongkapa pegou estas três linhagens e combinou-as em uma única. Também já contei como o grande Tsongkapa escreveu os Lam-rims grande, médio e pequeno. Manjushri aparecia sempre a Je Rimpoche, e eles tiveram uma relação guru-discípulo. Manjushri deu a Tsongkapa uma quantidade infinita de Dharma profundo de sutra e tantra. Isto está na biografia de Je Rimpoche. Portanto, alguém pode alegar que Je Rimpoche recebeu o Lam-rim de Manjushri, mas o próprio Je Rimpoche concentrou-se no trabalho de traçar a linhagem de volta até o nosso Mestre Shakyamuni. Ele nunca disse que tivesse vindo de qualquer visão, ou de qualquer linhagem mais recente, e coisas assim. Este é um dos prodígios de sua biografia 15 Quando Je Rimpoche estava escrevendo Os Grandes Estágios do Caminho e havia chegado à parte da visão especial, Manjushri disse-lhe jocosamente, “Tudo isto não vem sob o meu ensinamento chamado Os Três Pilares do Caminho?” Tsongkapa disse a Manjushri que escreveria o livro da seguinte maneira. Ele utilizaria os três pilares como força vital do caminho, e utilizaria os assuntos discutidos em Uma Luz no Caminho como ponto de partida. Então daria corpo à obra com muitas

13 N.T. O “ocupante do trono de Ganden” refere-se ao abade do Mosteiro de Ganden. 14 Estas são: o caminho do meio (Madhyamaka), cognição válida (pramana), metafísica (abhidharma), Perfeição da Sabedoria (Prajnaparamita), e disciplina (vinaya).

15 N.T. Para melhor entender esta linhagem, favor observar o organograma e relação da linhagem que foram preparados pela tradutora e que seguem anexos no fim do texto.

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outras instruções Kadampa. Mas Tsongkapa pensava que mesmo se escrevesse a parte sobre visão especial em seu grande Lam-rim, não ajudaria muito os seres sencientes. Manjushri disse, “Escreva sobre a visão especial, pois isto trará benefício mediano aos seres sencientes." Há muitos destes detalhes biográficos místicos e inconcebíveis sobre ele. Neste ponto do ensinamento eu deveria contar-lhes a biografia de Je Tsongkapa em detalhes, mas não há tempo para isto. Vocês devem fazer um estudo detalhado das obras sobre a sua biografia. Este ensinamento de Je Tsongkapa inclui todos os ensinamentos de Atisha. Ele também contém instruções inigualáveis de excepcional profundidade, através das quais pode-se alcançar a unificação do Não-mais-aprender dentro de uma única vida, mesmo nestes tempos degenerados. O Lam-rim de Je Rimpoche contém muitas coisas particularmente profundas que não são encontrados nem nos Lam-rims dos Kadampas do passado; pode-se ver isto ao lê-los em detalhes. Agora, existem muitas linhagens tradicionais que vêm de Tsongkapa sobre o Lam- rim. As mais famosas destas linhagens principais são as oito tradições orais associadas aos oito grandes ensinamentos. Ontem vimos isto. Tanto A Essência de Ouro Puro e As Palavras do Próprio Manjushri são consideradas composições segundo os sutras. O Caminho Fácil e O Caminho Rápido são relacionadas aos tantras. Segue aqui um pouco de como a Linhagem do Sul de As Palavras do Próprio Manjushri foi transmitida. Este é o mais curto dos dois tipos de ensinamentos deste texto. O Quinto Dalai Lama indicou um ensinamento mais curto quando marcou certas passagens no texto. Ele também deu um conjunto de instruções diferentes para a visualização do refúgio, a visualização do campo de mérito, e as visualizações da casa de banho, etc. Estas instruções são bastante diferentes daquelas das linhagens da Província Central. O Dalai Lama passou a Linhagem do Sul ao Lama Purchog Ngagwang Jampa Rimpoche de Epa, que por sua vez a transmitiu a Lozang Ketsuen, a autoridade monástica responsável pelas acomodações do Dalai Lama. A biografia de Lozang Ketsuen tem um detalhe extraordinário. Ele era excepcionalmente inteligente e legou muitas variantes dos ensinamentos --algumas com mais detalhes, outras com menos. Para afastar a sua confusão, ele sabia que teria que perguntar ao próprio senhor do Dharma, o Quinto Dalai Lama. Ele teve uma audiência e recebeu todo o ensinamento em uma hora ou duas. O Dalai Lama nomeou-o abade de Potala. Lozang Ketsuen passou a última parte de sua vida praticando num local solitário chamado Lam-rim Choeding, onde atingiu um alto grau de realizações. Lozang Ketsuen passou o ensinamento a Puentsog Gyatso, o grande adepto de Yerpa, que completou todo o discurso prático (vide Dia Um) em três meses. Puentsog Gyatso desenvolveu uma extraordinária realização de quietude mental e visão especial. Ele passou este discurso prático a muitos discípulos em Yerpa. Ele desenvolveu os seus poderes através da prática da mandala do corpo de Heruka, e considera-se que a maioria dos lamas da Linhagem Sul seguiu este padrão. Puentsog Gyatso passou a linhagem ao Lama Kacho Tendar de Epa, que passou ao

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Abade Gedun Jamyang. Gedun Jamyang escreveu uma obra à parte sobre a Linhagem do Sul, porque ele temia que alguns erros estavam se perpetuando quanto a quais passagens de As Palavras do Próprio Manjushri haviam realmente sido marcadas pelo Quinto Dalai Lama para o benefício da Linhagem do Sul. O livro de Gedun Jamyang circulou só em cópias manuscritas até que Kyabje Drubkang Geleg Gyatso gravou-o em blocos de madeira. Gedun Jamyang passou a linhagem para Je Ngagwang Tutob, que por sua vez a transmitiu a Tempa Gyatso, abade do Colégio de Dagpo. Enquanto Tempa Gyatso completava os seus estudos, ele foi escalado para várias tarefas domésticas e dizem que alcançou a visão do caminho do meio [a correta visão da vacuidade] enquanto cortava lenha. Ele por sua vez a transmitiu ao Seto Lama Kalden. A biografia de Seto Lama tem um fato surpreendente: Ele era totalmente desapegado de qualquer oferecimento que recebia, não importa o que fosse: dinheiro, lenços cerimoniais, roupa de lã, e coisas semelhantes. Ele também não dava estas coisas. Ele simplesmente as jogava numa caverna próxima. Várias gerações depois, as moedas e a lã roída pelas traças foram encontradas após uma busca. Ele não as tinha dado porque temia que isto mais tarde pudesse aumentar a sua arrogância. Então o Seto Lama passou os ensinamentos a Je Lozang Choepel, que os transmitiu ao Geshe Tubten Rabgye. Sempre que Tubten Rabgye meditava, ele cantava a oração de súplicas do Lam-rim e depois ficava em silêncio. Quando outras pessoas vinham visitá-lo, achavam que ele estava dormindo, mas de fato testemunhavam sua meditação uni-focada. Ele transmitiu a linhagem ao monge chamado Jangchub Togme. Este homem era só um simples monge, não um geshe ou um lama. Ele vivia no Eremitério Dragri. Depois de oferecer bolos rituais, ele praticava o Lam-rim uni- focadamente todos os dias no gramado do lado de fora do eremitério. Ele desenvolveu tal amor e compaixão em seu contínuo-mental que sempre estava triste. Todos os dias os meninos que cuidavam dos rebanhos se divertiam observando-o secretamente. Para eles, ele parecia ser apenas um velho se lastimando. Nesta época, a Linhagem do Sul de As Palavras do Próprio Manjushri corria o risco de se extinguir porque a linhagem deste discurso só havia sido dada a este monge. Um abade aposentado do Colégio de Dagpo, Lozang Jinpa, que ordenou o meu próprio precioso guru, fez uma busca detalhada de outras pessoas que teriam recebido o discurso da Linhagem do Sul, mas descobriu que só este monge o havia realmente recebido. Lozang Jinpo duvidou que ele fosse capaz de dar um discurso informal, mas se não pedisse o discurso, a linhagem seria quebrada. Certo dia, ele foi até o monge e disse, “Não há mais ninguém que detenha o discurso da Linhagem do Sul de As Palavras do Próprio Manjushri. Seria uma grande lástima se esta linhagem se quebrasse! Você poderia transmiti-la a mim só pelo bem da linhagem? Eu então poderia transmiti-la a você, mas desta vez embelezado com referências escriturais e provas lógicas.” “Como alguém como eu pode transmitir isto?” perguntou o monge. Ele continuou alegando ser incapaz de fazê-lo, mas quando finalmente deu o

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discurso, acrescentou muitas instruções profundas que eram unicamente resultado de suas experiências pessoais. Je Lozang Jinpa ficou atônito. Em seu louvor Lozang disse, “Para a minha vergonha eu disse-lhe, ‘Vim só para receber a transmissão.’ Ele é um grande geshe Kadampa da Tradição das Instruções Orais.” O próprio Lozang Jinpa havia alcançado uma extraordinária concentração uni- focada de quietude mental e visão especial. Ele, também, desenvolveu isto com a prática da mandala do corpo de Heruka. Ele vivia no Mosteiro Bangrim Choede do Baixo Dagpo. Je Kelzang Tenzin era o seu irmão mais novo, que mais tarde foi viver no Eremitério Lhading no Alto Dagpo. Ele muitas vezes dizia que Je Lozang visitaria Lhading, mas Lozang nunca conseguia se afastar. Algum tempo depois, enquanto estava em absorção meditativa, Lozang viu cada detalhe do eremitério, tanto do lado de dentro quanto de fora. “Eu dei uma olhada em seu eremitério e vi tudo,” Lozang disse a Kelzang Tenzin quando recebeu sua visita. Ele até falou a Kenzang de detalhes como as árvores de zimbro à direita e à esquerda da casa. “E há uma coisa grande e branca que se mexia numa das sacadas da casa. O que é isto?” perguntou. Era uma cortina sendo agitada pelo vento. Lozang Jinpa havia visto isto em sua absorção meditativa. Lozang Jinpa passou a linhagem ao seu irmão Kelzang Tenzin. Kelzang mais tarde tornou-se um grande adepto de sutra e tantra. Quando dava ensinamentos, raios brancos de luz eram emitidos pelos seus olhos e circulavam toda a platéia de discípulos. Ao final dos ensinamentos, os raios se dissolviam e voltavam aos seus olhos. As pessoas viram isto muitas vezes. Muitos ficavam pasmos ao vê-lo dando ensinamentos enquanto ao mesmo tempo andava no caminho de circumambulação, e coisas assim. Ele tinha visões de todo o campo de mérito da prática do Guru Puja. Quando morreu, havia no topo de seu crânio um desenho milagroso do campo de mérito do Guru Puja. Isto ainda está no Eremitério de Lhading. Ele deu ensinamentos a Kelzang Kedrub, que também conseguiu poderes clarividentes através das práticas de Heruka. Por sua vez, ele as transmitiu ao meu próprio e precioso guru, meu refúgio e protetor. Esta foi a explicação rápida de como a Linhagem do Sul de As Palavras do Próprio Manjushri chegou até nós. Vocês devem conhecer isto em mais detalhes. Procurem nas biografias. Agora, quanto a Linhagem da Província Central de As Palavras do Próprio Manjushri. O grande Quinto Dalai Lama transmitiu-a a Jinpa Gyatso, um ocupante do trono de Ganden. Eventualmente a linhagem veio até Lozang Lundrub, outro sucessor do trono de Ganden. Je Lozang Jinpa a recebeu dele. Os discursos informais de O Caminho Rápido têm a seguinte história. O Que Tudo- Vê, Panchen Lama Lozang Yeshe, ditou o texto mas nunca ninguém solicitou os discursos de linhagem. O Panchen Lama ficou parcialmente cego na velhice, e quando alguém queria uma transmissão oral de algumas páginas importantes do texto elas tinham que ser re-escritas em letras bem graúdas. O grande adepto Lozang Namgyal

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estava na época no Eremitério Jadrel. Ele leu O Caminho Rápido e achou que a posteridade ficaria empobrecida se não obtivesse a linhagem de seus discursos. Ele embrulhou seus pertences e foi até Tashi Lhumpo. Lá, disse ao atendente do Panchen Lama que queria a transmissão da Coletânea de Obras do Panchen Lama; e que estava especialmente interessado em receber o discurso de O Caminho Rápido. Agora, Lozang Namgyel era apenas um monge comum, mas estava pedindo muito e a visão do Panchen Lama estava fraca. O atendente ficou perplexo e ralhou com Lozang Namgyal redondamente; Lozang voltou para casa mas não podia suportar a situação. Ele fez o pedido mais três vezes, mas o atendente nada fez a respeito. Em desespero, Lozang Namgyel disse, “Ouça, eu não estou pedindo a você para dar um ensinamento! Leve meu pedido ao Panchen Lama!” O atendente perdeu a calma e contou ao Panchen Lama ainda sentindo raiva. O Panchen Lama, no entanto, estava muito feliz em dar a transmissão a Lozang Namgyal, e durante todo o ensinamento ele não teve nenhum problema com sua visão. O meu próprio e precioso guru me contou esta estória várias vezes. Mesmo assim, Lozang Namgyal não está na lista oficial de nossos gurus de linhagem Supõe-se que tenha vindo até nós através de Purchog Ngagwang Jampa como está claro na recitação do rito preparatório intitulado Um Ornamento para as Gargantas dos Afortunados. [vide Dia Seis] Portanto, agora dei um breve esboço da grandeza dos autores, embora não tenha mencionado todos os lamas e seus discípulos. Se fosse fazê-lo em detalhes, teria que seguir os dois volumes de biografias dos gurus de linhagens escritas por [Yeshe Gyaltsen] um tutor de Sua Santidade o Dalai Lama. Pelo menos foi isto que meu próprio precioso guru disse. Não temos tempo para isto, mas se conseguirem uma cópia do livro, devem lê-la sempre. Agora, ao fim de qualquer ensinamento sobre uma estória de vida, devemos fazer orações como:

Oh guru, que o meu corpo seja Exatamente como o seu, Que o meu séquito, vida, e arredores Se tornem os mesmos que os seus; Que até meu próprio nome Seja o seu nome supremo.

Devemos também meditar na alegria que devemos sentir.

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B U

D A

 
 
 
 
Maitreya Manjushri Método Sabedoria Parte Extensa Parte Profunda Bodhichitta Vacuidade Asanga Nagarjuna Atisha
Maitreya
Manjushri
Método
Sabedoria
Parte Extensa
Parte Profunda
Bodhichitta
Vacuidade
Asanga
Nagarjuna
Atisha
Lam-rim
Kadampas
Estágios do
Clássicos
Caminho
Instruções de
Linhagem
Je Tsong Khapa

A Linhagem destes Ensinamentos

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Guru Buda Shakyamuni

Linhagem dos Feitos Vastos

Linhagem da Visão Profunda

Maitreya

Asanga

Vasubhandu

Vimuktisena

Vimuktisenagomin

Paranasena

Vititasena

Cairochana

Haribhadra

Kusali

Ratnasena

Suvarnavipi

Lam-rim Lineage

Atisha

Dromtoenpa

Classical Lineage

Manjushri Nagarjuna Chandrakirti Vidyakokila mais velho Vidyakokila mais jovem (Avadhutipa)

Instruction Lineage

Gampopa Neuzurpa Tagmapa Namkha Senge Namkha Gyelpo Senge Zangpo Namka Gyeltsen

Potowa Sharawa Chibuba Lhalung Wangchug Goempo Rimpoche Zangchenpa Tsonawa Moendrapa Chokyab Zangpo

Gelugpa Lineage

Chaen Ngawa Tsultrimbar Zhoenue Oe Gyergompa Sangyeboen Namkha Gyalpo Senge Zangpo Gyealtse Zangpo Namka Gyealtsen

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Je Tsongkhapa Jampel Gyatso Kaedrup Rinpoche Basoje Choekye Dorge Gyalwa Ensapa Sangye Yeshe Lozang Choekyi Gyaeltsen (Primeiro Panchen Lama) Koenchog Gyaelsen Lozang Yeshe (Segundo Panchen Lama) Purchog Ngagwang Jampa Lozang Nyaendrag Yoentaen Ta –yae Tempa Rabgye Lodroe Zangpo Lozang Gyatso Tenzin Kedrub Lozang Lhumdrub Gyatso Jampa Tenzin Trinle Gyatso (Pabongka Rimpoche) Lozang Yeshe Tenzin Gyatso (Trijang Rinpoche)

N.T.: Trijang Rimpoche foi tutor de S.S. o 14º Dalai Lama S.S. o 14º Dalai Lama é um dos mestres de Kyabje Zopa Rimpoche

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DIA TRÊS

Como disse Shantideva:

Eu consegui um perfeito renascimento humano, Tão difícil de encontrar, mas que pode Alcançar os objetivos de uma pessoa. Se eu não tirar nenhum benefício disto, Como poderei ter esperanças de herdar Novamente um renascimento puro como este?

Ou seja, agora que conseguimos um perfeito renascimento físico, não devemos desejar só a felicidade para esta vida. Nem devemos ficar imersos em subjugar nossos inimigos, proteger os que amamos, e coisas assim: até os animais são capazes de fazer estas coisas. Se, no tempo que nos resta não praticarmos o Dharma – algo que certamente beneficiará nossos futuros renascimentos e que nos diferencia dos animais – será difícil conseguirmos tal renascimento no futuro. Agora que conseguimos isto, devemos considerá-lo com seriedade. Os benefícios de suas vidas futuras dependem de praticar este Dharma: os estágios do caminho à iluminação. Portanto, você deve fazer da bodhicitta a sua motivação e sentir, “Alcançarei a Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes. Portanto, vou ouvir estas instruções profundas nos estágios do caminho à iluminação e colocá-las efetivamente em prática.” Só então ouça os ensinamentos. Qual é o Dharma que está prestes a ouvir? É o Dharma Mahayana, o Dharma que leva os afortunados ao nível da Budeidade

Kyabje Pabongka Rinpoche continuou na mesma linha de ontem. Depois, repassou os quatro títulos já mencionados, que estão sob o título geral “Os Discursos dos Estágios do Caminho à Iluminação." Embora já tivesse coberto ontem o primeiro destes quatro títulos, ele nos lembrou como este ensinamento foi passado adiante pelo nosso Mestre,o Buda. Ele também reviu brevemente como, muito mais tarde, surgiram muitas variáveis dos ensinamentos, como o Lam-rim, os estágios dos ensinamentos, e assim por diante. Mas todos estes usaram "A Luz no Caminho" como texto-raiz. Isto é visto em grandes detalhes nas biografias dos gurus de linhagem do Lam-rim. Depois, ele continuou:

Hoje, ensinarei o segundo destes ensinamentos.

II - A GRANDEZA DO DHARMA, PARA AUMENTAR O RESPEITO PELAS INSTRUÇÕES

O Lam-rim tem quatro grandezas e três características que o diferencia dos outros textos clássicos. As quatro grandezas são: (1) a grandeza de permitir-se perceber que todos os ensinamentos são consistentes, (2) a grandeza de permitir que todas as

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escrituras se apresentem como instruções, (3) a grandeza de permitir que se descubra facilmente o verdadeiro pensamento dos Vitoriosos (4) a grandeza de permitir salvar-se dos piores atos.

2.1 A GRANDEZA DE PERMITIR-SE PERCEBER QUE TODOS OS ENSINAMENTOS SÃO CONSISTENTES

Aqui, ensinamentos referem-se às escrituras dos Vitoriosos. Como consta do comentário A Luz da Sabedoria [de Bhavaviveka]:

“Ensinamento” significa o seguinte: as escrituras do Bhagavan que ensinam sem distorções o que deuses e humanos que queiram alcançar o estado semelhante ao néctar devem saber, o que devem abandonar, o que devem fazer manifestar, e em que devem meditar.

“Perceber que todos os ensinamentos são consistentes” significa que cada pessoa coloca em prática estes ensinamentos para se iluminar. “Ser consistente” significa “ser harmonioso.” O Mahayana, Hinayana, Vinaya, tantras, etc. parecem se contradizer se analisados do ponto de vista literal, mas todos eles ou são a prática principal que nos leva à iluminação, ou um caminho secreto que leva à iluminação. São, portanto, consistentes. Suponha que você esteja com uma febre alta. Inicialmente o seu médico proibirá o consumo de carne, álcool, etc. Ele diz: “Se não abandoná-los, pode ser fatal para você.” Mais tarde, quando a febre sair da crise e houver um excesso de vento 16 o médico recomenda comer carne, álcool, etc. Agora, isto foi dito só a uma pessoa e só há uma pessoa dizendo-o. As duas afirmações, a primeira proibindo carne e álcool, e a posterior permitindo-os, parecem inconsistentes, mas não é assim. Ambas foram ditas visando a cura do paciente. Você pode também sentir, “Hinayana, Mahayana, sutras, tantras, etc foram talhados para discípulos específicos então estes ensinamentos não são todos obrigatórios na prática de uma pessoa para iluminar-se.” Novamente, isto não está certo. Quem falou, estava falando a uma pessoa sobre as práticas para a iluminação. Quando aquela pessoa estava no nível de Pequena e Média Capacidades, o Buda explicou primeiro a cesta Hinayana dos ensinamentos 17 A pessoa deveria meditar em coisas como impermanência e sofrimento. Depois de algum progresso, a pessoa chegaria então ao nível de Grande Capacidade, e ele então explicava a cesta Mahayana. Neste nível a pessoa recebia as explicações sobre bodhichitta, as seis perfeições, e coisas assim. 18 Então, a pessoa se tornava um recipiente adequado para os tantras, e Buda explicava o

16 Segundo a medicina tibetana, três humores governam a condição dos seres sencientes: vento, bilis e fleugma. Quando estão equilibrados, a saúde é mantida, mas o menor desequilíbrio produz a doença.

17 N.T. Os ensinamentos eram guardados em rolos dentro de cestas e eram agrupados nas cestas conforme o conteúdo, por exemplo, a cesta de Abidharma (ensinamentos metafísicos) a cesta do vinaya (votos e regras monásticas), e a cesta dos sutras (ensinamentos).

18 N.T. Bodhichitta é a mente altruísta que almeja a iluminação pelo bem de todos. As seis perfeições são: generosidade, moralidade, paciência, esforço entusiástico, concentração e sabedoria.

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Vajrayana, os dois estágios [de Tantras Iogas Superiores] e as práticas tântricas [de consorte]. Mas, todas estas práticas são adequadas para que alguém como você siga e alcance a iluminação. Assim, qualquer escrituras do Vitorioso pertence ou ao fluxo principal do caminho ou a um de seus caminhos secretos; nenhuma destas escrituras é supérflua para a prática que leva à iluminação.

A principal preocupação de um Bodhisattva é trabalhar pelo bem dos seres

sencientes. Portanto, o Bodhisattva deve ensinar os três caminhos que levam aos três tipos de discípulos [Shravaka, Pratyekabuda, e Bodhisattva] às suas formas particulares de liberação. Mas se os Bodhisattvas não conhecerem estes caminhos não poderão ensiná-los aos outros. [Dharmakirti] diz em seu Comentário de Coisas Válidas: “Os meios para estes fins são obscuros; e é difícil discuti-los.” O caminho que leva a uma compreensão dos caminhos que pertencem aos três veículos é algo que os Bodhisattvas devem desenvolver em seus contínuos-mentais para terem certeza das rotas diferentes para conseguir algum benefício para os outros. Um sutra diz:

O Subhuti, os Bodhisattvas desenvolvem-se em todos os caminhos, seja caminho dos Shravakas, o caminho do Pratyekabuda, ou caminho do Bodhisattva. Eles compreendem todos os caminhos.

Em O Ornamento à Realização [de Maitreya] encontramos: “Aqueles que querem trabalhar pelo bem dos seres, devem beneficiar o mundo ao conhecer os caminhos.” Outro ponto: a meta é a Budeidade, o estado que possui todas as boas qualidades e

onde todos os enganos foram eliminados. Para alcançar este estado, o caminho Mahayana deve causar a cessação de todos os enganos da pessoa e deve tornar efetivas todas as boas qualidades. Como não há uma única escritura que não elimina algum tipo de engano ou desenvolva algum tipo de qualidade, certamente todas as escrituras devem ser incluídas nas divisões do Mahayana. Vamos examinar esta questão da consistência escritural em mais detalhes. Há duas maneiras: como compreender que todos os ensinamentos transmitidos – isto é, as apresentações dos temas – são consistentes; e como compreender que os ensinamentos realizados – isto é, o próprio tema – são consistentes.

As três cestas, as quatro classes de tantra, e assim por diante, formam as escrituras e

seus comentários. E, como já expliquei, constituem uma prática harmoniosa para levar

a pessoa à iluminação. É assim que todos os ensinamentos transmitidos devem ser compreendidos como sendo consistentes.

Os tópicos destes ensinamentos podem ser incluídos em todos os diversos caminhos

das três capacidades. O nível de seres de Pequena Capacidade cobre todas as causas para alcançar estados de renascimentos elevados como deuses e humanos. Estas causas são, de fato, a moralidade de abandonar as dez não virtudes, etc. O nível de Média Capacidade inclui as práticas que são causas para alcançar a excelência definitiva da liberação – como as práticas de abandonar [as duas primeiras das] quatro nobres

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verdades, e trabalhar pelas [duas últimas destas verdades] 19 e a prática dos três treinamentos superiores. 20 O nível de Grande Capacidade contém as práticas que causam a excelência definitiva da onisciência – práticas como desenvolver a bodhichitta, as seis perfeições, etc. Portanto, todos estes tópicos formam uma prática harmoniosa que leva a pessoa até a iluminação e devem ser compreendidas como sendo completamente consistentes. Dromtempa, um dos reis do Dharma, disse: “Meu lama sabe como considerar todos os ensinamentos como os quatro cantos de um caminho de quatro lados.” Estas são suas palavras exatas, que já foram interpretadas de várias formas. Os quatro cantos são as três Capacidades, com o tantra sendo a quarta. Ou então, não importa como se joga um dado, uma face quadrada sempre cai virada para cima, de forma similar, cada tópico de meditação inclui em si todo o caminho. Pode-se seguir estas explicações, mas meu próprio precioso guru, meu refúgio e protetor, disse-me:

Quando você puxa um canto de um tapete quadrado, o tapete inteiro se mexe. De forma similar, o tópico de uma escritura específica, mais seus comentários, se reduzem à prática que iluminará alguém, como se você estivesse puxando um dos cantos desta prática.

Esta é uma interpretação muito importante.

2.2 A GRANDEZA DE PERMITIR QUE TODAS AS ESCRITURAS SE APRESENTEM COMO INSTRUÇÕES

Se ainda não encontrou [este sistema] dos estágios do caminho à iluminação, todas as escrituras não se apresentarão a você como instruções. Mas as instruções supremas são as escrituras dos Vitoriosos e os grandes clássicos que as comentam. Nunca houve melhor mestre no mundo que Buda Shakyamuni, o Bhagavan, o transcendente, o totalmente realizado destruidor de todos os obscurecimentos. Suas escrituras são a melhor de todas as instruções. O Sublime Contínuo do Grande Veículo [de Maitreya] diz:

Que erudita neste mundo

É maior do que O Vitorioso!

Com onisciência ele conhece a suprema vacuidade

E tudo o mais; os outros não.

Portanto, não adultere nada que este sábio Colocou nos seus próprios sutras Porque isto destruiria o sistema de Shakyamuni; Isto prejudicaria o Santo Dharma.

19 N.T. As quatro nobres verdades são: (1) a verdade do sofrimento: o sofrimento existe; (2) a verdade da causa: há uma causa; (3) a verdade da cessação: o sofrimento pode cessar; (4) a verdade do caminho: o caminho para cessar o sofrimento.

20 N.T. Os três treinamentos superiores são: ética, concentração e sabedoria que compreende a vacuidade.

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Atualmente, ninguém considera as escrituras dos Vitoriosos – como, por exemplo, As Palavras de Buda Traduzidas como algo a ser colocado em prática, mas sim como algo a ser recitado em cerimônias. As pessoas realmente estudam os clássicos dos dois antepassados [Asanga e Nagarjuna] que comentam estas escrituras, mas o fazem apenas para citá-los nos debates. Até mesmo o mais erudita dos estudiosos, quando está preste a embarcar em alguma prática de meditação, não sabe como integrar qualquer um destes textos às suas práticas, apesar de uma vida inteira estudando e contemplando-os. Eles procuram pessoas com a reputação de grande meditador, mas na realidade não sabem nada, ou estudam algumas sadhanas de como observar o funcionamento consciente da mente; depois, servilmente, meditam nessas coisas. O Grande Tsongkapa disse o seguinte:

Eles estudaram muito, mas são pobres de Dharma; Culpe isto por não tomarem as escrituras como instruções.

Ou seja, é prejudicial não considerar as escrituras como sendo instruções. Por exemplo, havia um geshe em nosso mosteiro que visitou sua terra natal em Kham. Ele pediu instruções práticas a um lama Nyingma e depois meditou nas instruções sumárias do lama. Por causa disto, o povo local disse que o Dharma Gelugpa só servia para debates, e não era algo a se praticar. Assim, eles ignoraram os ensinamentos Gelugpa. Penso que este geshe deu um mau exemplo; e acho isto bastante deprimente. Devemos colocar em prática qualquer coisa cujo significado determinamos através de nosso estudo ou contemplação; e o significado do que praticarmos deve ter sido ratificado por estudo e contemplação. Se você ratificar algo através do estudo e contemplação, e depois praticar outra coisa, é como apontar uma pista de corrida para alguém e depois usar outro terreno para a corrida de cavalos. Os Grandes Estágios do Caminho utiliza estas exatas palavras. Talvez alguma explicação seja necessária. Você está querendo fazer uma corrida de cavalos, e aponta um lugar específico dizendo, “Aqui será a corrida de cavalos de amanhã.” Mas no dia da corrida, você faz a corrida em outro lugar. Portanto, se você é incapaz de tomar as escrituras como instruções, é porque não compreendeu os estágios do caminho à iluminação. Mas, com esta compreensão vem o conhecimento de que toda a literatura clássica – as escrituras do Vitorioso, por exemplo – pode ser incluída no Lam-rim, e são coisas a serem colocadas em prática totalmente. Ngawang Chogden certa vez ocupou o trono Ganden. Após completar seu treinamento monástico, recebeu várias instruções de Jamyang Shaypa como Os Três Pilares do Caminho [de Tsongkapa]. Ele foi apresentado à maneira de meditar nos pensamentos contidos em todo o conjunto dos sutras e tantras. Mais tarde ele disse que passou a compreender que durante seus estudos dos vastos campos da literatura clássica, ele havia estudado de fato Os Grandes Estágios do Caminho. Isto mostra que as escrituras foram instruções para ele. Quando o grande adepto Lozang Namgyal dava uma transmissão oral do Sutra da

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Perfeição da Sabedoria em Oito Mil Versos, de tempos em tempos comentava, “Ah, se eu não fosse tão velho! Isto é algo que eu deveria meditar!” Quando se compreende o Lam-rim, toda a sua prática de debates no pátio do mosteiro também é Lam-rim: a prática de debate seria vista como uma forma de instrução de meditação. Suponha que estivesse debatendo o desenvolvimento da bodhichitta: você imediatamente faria comparações com a seção da Grande Capacidade sobre o treinamento da mente em bodhichitta. Ou compararia um debate sobre os doze elos interdependentes com a Média Capacidade. Ou, faria o mesmo com o debate sobre os estados das concentrações dhyani dos Reinos da Forma e os níveis dos Reinos Sem Formas, comparando-os com a seção sobre quietude mental do Lam-rim. Até ao recitar algum ritual do Dharma você deve ser capaz de integrá-lo ao Lam-rim, não importando de qual escritura tenha sido tirado. Você seria até capaz de fazer isto ao bater os olhos na página de um livro deixado num santuário à beira da estrada. Certa vez, quando eu era muito jovem, vi uma página largada num santuário no caminho ao redor de um mosteiro. A página continha um dos cânticos do Sétimo Dalai Lama, Kelzang Gyatso.

A jovem abelha no rododentro

Voa de flor a flor colorida.

Veja como se move rapidamente de uma a outra.

O meu cântico explica esta imagem:

Muitas pessoas nestes tempos degenerados Têm mentes impuras e mergulham em banalidades. Veja como num momento são amigos, no seguinte, inimigos. Não encontrei um amigo constante.

Em outras palavras, associei prontamente minhas experiências no santuário com a seção de Média Capacidade que trata da incerteza do samsara. Je Rimpoche perguntou a Rinchen Pel, um grande estudioso, qual era o significado da palavra “Kadam” [literalmente, “escritura-instrução”]. A resposta de Rinchen Pel foi, “Ter até mesmo uma única letra ‘N’ das escrituras aparecer para você como uma instrução que não deve ser ignorada.” Isto agradou Je Rinpoche tanto que ele disse em louvor enquanto dava um ensinamento público: “Hoje, um estudioso expandiu o meu pensamento. Realmente, é como ele disse.” Portanto, todas as escrituras – mesmo uma página deixada no santuário – são instruções que guiam a pessoa até a iluminação. Isto se aplica a você e sua iluminação. É como se o Buda e os outros autores tivessem dado estas escrituras especialmente para você Esta atitude vai lhe proporcionar uma fé suprema em todas elas. Como disse o iogue Jangchub Rinchen: “Não nos disseram para buscar instruções de alcançar a iluminação em alguma antologia de mantras, devemos procurar instruções em todas as escrituras.” Devemos pensar assim; estas palavras atingem a própria raiz. Portanto, há muita relevância em tomar todas as escrituras como instruções.

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Você pode indagar, “Será realmente suficiente só estudar o Lam-rim?” O significado das escrituras e seus comentários estão contidos no Lam-rim: desde a primeira seção em confiar no guia espiritual até a seção de quietude mental. Um Lam- rim específico pode ter um conjunto de títulos elaborados, e um outro pode ser sucinto. Alguns destes títulos pedem meditação analítica, enquanto outros exigem meditação estabilizadora. Quando tiver dominado a estrutura destes títulos, saberá que meditação deve ser aplicada a cada título. Com esta compreensão, você prontamente associará qualquer escritura que encontre com a prática de um tópico específico de meditação do Lam-rim – isto mostra que você está tomando as escrituras como instruções. Eis uma analogia fácil que meu precioso lama costumava fazer. Suponha que alguém que não tenha um lugar para estocar arroz, trigo, feijão, e coisas assim, encontre um punhado de arroz. Ele não saberá o que fazer com o arroz e provavelmente o jogará fora. Portanto, se não compreendeu toda a estrutura do caminho, e acontece de ver algum texto escritural, não perceberá que deve associá-lo [com algum tópico do Lam- rim]. Você não saberá como colocar a escritura em prática. Se, por acaso, você só tiver um bre 21 de cada um: arroz, farinha e feijão, e conseguir outro punhado de arroz, com satisfação acrescentará aquele arroz ao seu estoque de comida. Se tiver uma compreensão completa da estrutura dos tópicos de meditação do Lam-rim, você prontamente associará qualquer escritura com um [título de Lam-rim] específico.

Então, Rimpoche falou um detalhadamente de como um texto do Lam-rim que tenha toda a estrutura do Lam-rim pode levá-lo pelo caminho, independente do tamanho do texto. Ele comparou isto a dois quartos, um de um oficial do governo e o outro de um simples monge: ambos contém móveis suficientes que suprem suas necessidades

Note também: há uma diferença entre realizar que toda escritura é consistente e tomar todas as escrituras como instruções. Ter a primeira realização não significa necessariamente que tenha a segunda. Mas se tiver a segunda, necessariamente terá a primeira.

2.3 A GRANDEZA DE PERMITIR QUE SE DESCUBRA FACILMENTE O VERDADEIRO PENSAMENTO DOS VITORIOSOS

Como já disse, as escrituras e seus comentários são a melhor das instruções. Mas, você não conseguirá descobrir os pensamentos supremos do Vitorioso simplesmente referindo-se a estes grandes clássicos sem nenhuma instrução de seu guru sobre os estágios do caminho à iluminação como seu ponto de referência, apesar dos tópicos destes clássicos expressarem os pensamentos supremos dos Vitoriosos. Para descobrir estes pensamentos [só com os clássicos], é preciso trabalhar com estes textos por um longo tempo. Se depender do Lam-rim, você os descobrirá facilmente sem tanto esforço. Talvez esteja se indagando, “Quais sãos estes pensamentos dos Vitoriosos?” Meu

21 Literalmente, um “bre”, que a grosso modo é certa de quinhentas gramas

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próprio precioso guru, meu refúgio e protetor, disse-me que em geral eles são os três níveis do Lam-rim; porém, e mais importante, eles reduzem-se à necessidade de praticar os três pilares do caminho. Isto certamente é correto. O grande Tsongkapa esclareceu os pensamentos dos Vitoriosos sobre a visão correta. Em Os Três Pilares do Caminho Tsongkapa disse:

A aparência de que as coisas são mutuamente interdependentes

Não é uma ilusão; mas existem aqueles que compreendem

A vacuidade como algo destituído desta aparência.

Enquanto para você elas forem duas coisas separadas,

Você nunca realizará os pensamentos do Grandioso.

Na realidade, isto diz que você não terá compreendido os pensamentos do Vitorioso

se não tiver realizado a visão correta – o que significa que a força da sua realização daquela visão é que lhe permite finalmente alcançar os pensamentos do Vitorioso. No

importância da essência das escrituras dos

caminho

louvado pelos Vitoriosos e seus Filhos

ele diz, “

visão correta. Portanto, está implícito que você ainda precisa dos outros dois pilares:

renúncia e bodhichitta. Portanto, ao confiar no Lam-rim, você descobre com facilidade que o tópico dos grandes clássicos almeja o desenvolvimento destes três pilares em seu contínuo-mental. Então, você terá facilmente descoberto os pensamentos do Vitorioso. Suponha que os grandes clássicos fossem um oceano. Os pensamentos do Vitorioso – os três pilares do caminho, por exemplo – seriam as jóias dentro deste oceano; o Lam-rim seria o barco; o guru que ensina o Lam-rim seria o capitão. Embora o oceano contenha três jóias, você só perderia a sua vida se as procurasse sem o barco. Se não fizer um uso similar do Lam-rim, será difícil descobrir os pensamentos do Vitorioso, mesmo se consultar estes grandes clássicos. Você deve depender de um guru, o hábil capitão, subir no barco, o Lam-rim, e então facilmente encontrará as jóias nos clássicos:

estes pensamentos supremos.

Isto se refere ao pilar da

Vitoriosos

Isto se refere ao pilar da bodhichitta. Por fim, ”

mesmo poema, Tsongkapa diz, “ ”

a

Isto se refere ao pilar da renúncia. Ele continua dizendo, “

portal dos afortunados que desejam a liberação

o

o

2.4 A GRANDEZA DE PERMITIR SALVAR-SE DE COMETER OS PIORES ATOS

Aqui, Os Grandes Estágios do Caminho e outros textos ensinam explicitamente que não devemos fazer nada que crie o karma de abandonar o Dharma e os obscurecimentos resultantes. Mas, se você não aceitou no coração as três primeiras destas quatro grandezas, você estará sempre fazendo distinções mesquinhas que o fazem respeitar uma parte do Dharma mais que outras – distinções como Mahayana contra Hinayana, ou Dharma teórico contra Dharma prático. Abandonar uma parte do Dharma produz um fluxo contínuo do karma do pior tipo;

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os obscurecimentos que resultam são muito graves. O Sutra Tecendo Tudo Junto diz:

Manjushri, os obscurecimentos que resultam do karma de abandonar o santo Dharma são sutis. Manjushri, abandona-se o Dharma quando considera alguma escritura do Tathagata boa e outra ruim. Quem abandona o Dharma, como resultado, também deprecia os Tathagatas; e também fala mal da Sangha. Abandona-se o Dharma ao alegar, “Esta [escritura] é correta,” e “Esta é incorreta.” Abandona-se o Dharma ao alegar, “Isto foi ensinado para Bodhisattvas,” ou “Isto foi ensinado para Shravakas.” Abandona-se o Dharma ao alegar, “Isto foi ensinado para Pratyeka-buddhas.” Abandona-se o Dharma ao alegar, “Isto não é algo em que um Bodhisattva deve treinar-se.”

Abandonar o Dharma é um ato extremamente perigoso, pois como diz o Sutra Soberano da Concentração Uni-Focada:

Abandonar a cesta do sutra

É uma ação nociva mais pesada

Do que destruir todas as stupas No Continente Sul. Abandonar a cesta do sutra

É uma ação nociva mais pesada

Do que matar tantos Arhats Quantos grãos de areia No leito do Rio Ganges.

Se estiver convencido das três primeiras destas grandezas, você não vai ignorar nenhum dos ensinamentos do Vitorioso; e renderá o mesmo respeito a todos eles, pois todos são para serem postos em prática. Você deve se proteger contra considerar alguma parte do Dharma boa e outra parte ruim – o maior fator que contribui para o abandono do Dharma. Além do mais, se pensar em como se devotar corretamente ao seu guia espiritual, você estará livrando-se de quaisquer obscurecimentos kármicos que possa ter em relação a ele. E, ao se convencer, por exemplo, da verdade do perfeito renascimento humano ou da impermanência, automaticamente deixará de cometer atos nocivos relacionados ao apego a esta vida. Você cessará o seu comportamento instável associado à auto-estima egoísta quando seguir o tópico de meditação sobre bodhichitta. Você então se treinará no tópico de meditação sobre a ausência do ego, ocasião em que dará um fim ao seu apego ao ego. Automaticamente você cessa todo o seu comportamento mais instável e não-Dharmico como resultado de desenvolver a realização de cada tópico de meditação do Lam-rim. Vou dar um exemplo para explicar como estas três primeiras grandezas promovem

o seu desenvolvimento. Suponha que vá pintar uma imagem religiosa. Como você sabe,

é preciso reunir as condições certas: você deve ter todo o material para a pintura – uma

tela, tintas, pincéis, etc. Este conhecimento é análogo à realização de que toda escritura

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é consistente. Você deve saber como pintar, como utilizar todo este material – assim

como deve tomar todas as escrituras como peças de instruções. E fazer um bom trabalho de pintura é similar a descobrir com facilidade os pensamentos do Vitorioso. Estas quatro grandezas são tomadas convencionalmente de duas maneiras: as quatro grandezas da apresentação (as próprias palavras usadas), e as quatro grandezas do

tópico (o significado destas palavras). As escrituras têm estas quatro associadas à apresentação. Porém, dizem que é mais importante que a pessoa tenha as quatro associadas ao tópico. Isto conclui as quatro grandezas. O Lam-rim possui, além destas quatro, mais três características: (1) o lam-rim é completo porque contém todos os tópicos do sutra e tantra; (2) é fácil de se colocar em prática porque enfatiza os passos para domar a mente; (3) é superior às outras tradições porque contém instruções dos dois gurus que estudaram nas tradições dos dois antepassados.

2.5 O LAM-RIM É COMPLETO PORQUE CONTÉM TODOS OS TÓPICOS DO SUTRA E TANTRA

Embora seja impossível incluir no Lam-Rim todas as palavras de escrituras e comentários, ele inclui e ensina efetivamente todo o seu significado principal. Até o menor texto do Lam-rim faz isto. O significado completo das escrituras e comentários se encaixam sob os três níveis do Lam-rim; o Lam-rim inclui e ensina os tópicos de todo o conjunto de escrituras e comentários. O grande Tsongkapa disse em uma carta ao Lama Umapa

Esta instrução de Dipamkara Shrijana –os estágios do caminho à iluminação– parece incorporar em seus ensinamentos todas as instruções das escrituras e seus comentários. Se alguém souber como ensiná-lo ou estudá-lo, o Lam-rim não só parece uma miscelânea de instruções para a nossa própria prática, mas também a síntese de todas as escrituras. Portanto, eu não ensino uma longa lista de tipos diferentes de ensinamentos.

Os ensinamentos das outras escolas têm várias listas de ensinamentos: os quatro grandes ensinamentos sobre as práticas preliminares, como tomar refúgio e coisas assim; ensinamentos das práticas principais, etc. Mesmo assim, os Kadampas originais

e nós, os neo-Kadampas, tradicionalmente dispensamos tais listas longas e ensinamos tudo conforme o Lam-rim. Uma Luz no Caminho ensina a síntese de todos os tópicos das escrituras dentro do espaço de três fólios. Todos os outros textos de Lam-rim condensam, de maneira similar, todo este material, porque tomam Uma Luz no Caminho como texto-raiz. Portanto, o grande Tsongkapa disse:

Ele condensa a essência de todas as escrituras. Ao ensinar e estudar este sistema

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Mesmo por um tempo pequeno, ganha-se Os benefícios de estudar e discutir Todo o santo Dharma. Contemple seu significado, Pois isto certamente é poderoso.

Em outras palavras, estudar, contemplar, ensinar e receber um ensinamento do Lam-rim é o mesmo que estudar, contemplar e aprender todo o significado completo das escrituras e seus comentários. Ao fazer até mesmo uma única seqüência de meditações retrospectivas do Lam-rim, este tipo de prática meditativa abrange o significado das escrituras e comentários. A grande personalidade Kadampa, Geshe Telungpa disse:

Quando ensino os estágios do caminho à iluminação, vocês ganham uma compreensão conceitual de todos os livros e volumes do mundo. Todos estes livros sentem, "Aquele velho monge grisalho nos arrancou o coração!" e tremem com este pensamento.

Quão verdadeiro, porque se um ensinamento do Lam-rim foi bem dado, e a audiência esteve atenta, a essência de todos os livros do mundo foram discutidas naquele ensinamento. Então, por um lado, o Lam-rim contém o significado de todas as escrituras, por outro lado, é a chave que abre as escrituras. Não poderia haver resumo melhor do Dharma. Então, é por isso que Geshe Telungpa disse do tópico do ensinamento do Lam-rim: "Eu esquartejei o grande yak do Dharma." As pessoas que pensam num nível inferior podem não compreender os textos de Lam-rim mais elaborados; mas podem ainda utilizar um texto mais curto – por exemplo, um dos ensinamentos concisos – que contém toda a estrutura do Lam-rim. Este ensinamento conciso ainda é capaz de guiá-los no caminho. Mas se o texto deixa de lado até só um dos tópicos de meditação, não poderá guiar ninguém no caminho. Vejamos, por exemplo, o remédio Cânfora 25 para febre 22 você não precisa sair e conseguir um pacote grande de cada um dos vinte e cinco ingredientes e depois tomá- los individualmente; se o remédio foi composto corretamente com todos os vinte e cinco ingredientes, a febre vai baixar rapidamente. Mas se faltar um ingrediente, o remédio não vai livrá-lo da febre, não importa quantos você tomar. Agora que foi afortunado o bastante para encontrar estas instruções nobres, deve se especializar nelas.

2.6 LAM-RIM É FÁCIL DE SE COLOCAR EM PRÁTICA PORQUE ENFATIZA OS PASSOS PARA DOMAR A MENTE

Já passamos por muitos e variados sofrimentos do samsara, e já tivemos o mais

22 Os remédios tibetanos muitas vezes são chamados pelo nome do principal ingrediente seguido de um número para indicar quantos ingredientes são no total.

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elevado êxtase que o samsara pode oferecer. Nossas próprias mentes foram responsáveis por isto. Nada é considerado melhor do que o Lam-rim para pacificar a mente; o Lam-rim dá grande ênfase nos meios para alcançarmos isto. Portanto, o Lam- rim é fácil de ser colocado em prática.

2.7 LAM-RIM É SUPERIOR ÀS OUTRAS TRADIÇÕES PORQUE CONTÉM INSTRUÇÕES DOS DOIS GURUS QUE ESTUDARAM NAS TRADIÇÔES DOS DOIS ANTEPASSADOS

O guru que pertenceu à escola de Nagarjuna foi Vidyakokila; o Guru Suvarnadvipi pertenceu à escola de Asanga 23 Este ensinamento está enriquecido com as suas instruções e, portanto, é superior a todas as outras tradições. Como disse o grande Je Tsongkapa:

Os estágios do caminho à iluminação Se ramificam de Nagarjuna e Asanga-- As jóias supremas dos estudiosos do mundo, Cujas famas entre os seres sobressaem como bandeiras.

Nem O Ornamento à Realização [de Maitreya] tem estas três características. Até mesmo o rei dos tantras, Shri Guhyasamaja [O Tantra de Guhyasamaja} não as possui. Esses dois textos não contêm todos os tópicos do sutra e tantra, nem enfatizam como domar a mente. Agora que você é afortunado o bastante para estudar, contemplar e meditar neste Lam-rim com tais grandezas e características, você não deve satisfazer-se com instruções incompletas ou apenas razoáveis. É vital que coloque o máximo de esforço neste caminho. Isto completa o segundo título principal, “A Grandeza do Dharma.”

III - A MANEIRA CORRETA DE ENSINAR E OUVIR O DHARMA QUE POSSUI ESTAS DUAS GRANDEZAS

Este é um título muito importante. Ngagwang Dragpa, um grande meditador de Dagpo, disse:

A melhor instrução preliminar

É sobre como se deve ensinar e ouvir.

Estime-a com carinho

Ou seja, este título determinará se os ensinamentos que seguem terão efeito sobre seu contínuo-mental. Será difícil traduzir meus ensinamentos em contemplação e meditação se não entender este título, assim como erraria todas as datas até o décimo

23 N.T. Estes são os gurus que lideram as linhagens de sabedoria (vacuidade) e método (compaixão) conforme foi visto no Dia Dois.

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quinto dia [lua cheia] se tomar o dia errado como sendo o primeiro do mês lunar [lua nova]. Há três títulos neste ponto: (1) como ouvir o Dharma; (2) como ensinar o Dharma; (3) o que discípulos e mestre devem fazer juntos ao final.

3.1 COMO OUVIR O DHARMA

Há aqui três subtítulos: (1) contemplando os benefícios de estudar o Dharma; (2) como demonstrar respeito ao Dharma e seu mestre; (3) como efetivamente ouvir o Dharma.

CONTEMPLANDO OS BENEFÍCIOS DE ESTUDAR O DHARMA

É vital contemplar primeiro os benefícios de estudar o Dharma, porque só então poderá desenvolver a vontade firme de estudá-lo. Se a contemplação for feita corretamente, você ficará extremamente feliz em embarcar nesse estudo. Em As Palavras do Buda encontramos:

Por causa de seu estudo, você compreende o Dharma, Por causa de seu estudo, você deixa de pecar, Por causa de seu estudo, você abandona coisas sem sentido Por causa de seu estudo, você atinge o nirvana.

Isto é, por virtude de seu estudo, você saberá todos os pontos chaves para modificar o seu comportamento. Você compreenderá o significado da cesta vinaya e, como resultado, deixará de cometer ações nocivas por estar seguindo o treinamento superior da ética. Você compreenderá o significado da cesta do sutra, e como resultado abandonará coisas sem sentido como distrações [triviais], por seguir o treinamento superior da concentração uni-focada. Você compreenderá o significado da cesta abhidharma, e então abandonará os enganos por meio do treinamento superior da sabedoria. Portanto, o seu estudo o permitirá atingir o nirvana. Em Os Contos de Jataka está dito;

O estudo é a luz que afasta

A escuridão da ignorância.

É a melhor das posses,

Os ladrões não podem tirá-la de você.

É uma arma para derrotar o seu inimigo:

A sua cegueira a todas as coisas.

É seu melhor amigo

Que lhe ensina os métodos;

É

um parente que não

O

abandonará quando você ficar pobre.

É

um remédio contra o sofrimento

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Que não lhe faz nenhum mal.

É a melhor das forças tarefas

Para despachar contra seus maus atos.

É um fundo supremo

De fama e glória. Você não tem melhor talento Ao encontrar pessoas dotadas. Você impressionará os eruditas De qualquer assembléia.

O estudo é como uma lamparina que afasta a escuridão da mais profunda ignorância. Meu próprio e precioso guru me disse que ao conhecer uma letra do alfabeto, fica-se livre da ignorância com relação à letra e aumenta-se o estoque de sabedoria. Então, ao conhecer as outras letras, afastará sua ignorância com relação a elas também, e acrescentará mais à sua sabedoria. Sem nenhum estudo, não seríamos capazes de reconhecer a letra A, mesmo se fosse escrita do tamanho da cabeça de asno. Desconcertados, só poderíamos sacudir as nossas cabeças. Pense nas pessoas de sua família que não sabem nada e compreenderão o que quero dizer. A quantidade de ignorância que consegue afastar depende também de quanto estudou. A luz de sua sabedoria cresce proporcionalmente. Em Os Dizeres do Buda encontramos:

Embora alguém possa estar muito familiarizado com uma casa, Apesar dos seus olhos, Ele não verá nenhuma forma visual Enquanto estiver num quarto de escuro como azeviche. De forma semelhante, o discípulo Pode ser perspicaz, mas, até que estude, Ele não distinguirá o mal da virtude. Quando uma pessoa com visão Tem uma lamparina nas mãos, Ele verá formas visuais; Assim também, através do estudo, uma pessoa Saberá a virtude e o mal.

Em outras palavras, não se pode ver nada num quarto totalmente escuro, apesar de estar cercado por muitas coisas e ter os olhos bem abertos. De forma similar, você pode ter o olho da sabedoria, mas sem a lamparina do estudo, nada saberá dos pontos exigidos para modificar o comportamento. Se acender uma lamparina no quarto escuro, você conseguirá ver com nitidez todas as coisas dentro dele; assim, com a lamparina do estudo e o olho da sabedoria você poderá compreender todos os fenômenos. Os Níveis de Bodhisattva [de Asanga] fala em detalhe destes benefícios, e de como ouvir os ensinamentos com as cinco atitudes. A primeira atitude é considerar o

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ensinamento como um olho, por meio do qual desenvolve-se cada vez mais sabedoria. Depois, deve-se considerar o ensinamento como uma luz, pela qual este olho de sabedoria vê a verdade relativa e suprema. Deve-se considerá-lo como algo precioso que só ocorre raramente no mundo. Considere o ensinamento como muito benéfico, e através dele obterá os frutos apreciados pelos grandes Bodhisattvas. Por último, deve-se considerá-lo como algo totalmente não proibido, porque vai lhe capacitar alcançar a quietude mental e a visão especial. Os seus estudos são também posses supremas que ninguém pode tirar-lhe. Ladrões podem carregar seus bens mundanos, mas não podem tirar-lhe as sete jóias dos Aryas – ou seja, seus estudos, etc – nem as boas qualidades da educação, ética e bom coração. Até nos melhores tempos, os seus bens materiais dão muita dor de cabeça, por exemplo, quando retorna à sua cidade natal, que posse levará na viagem? Os seus estudos não são assim. Você pode até levá-los consigo quando morrer. Por isso dizem que é muito importante que nós, simples monges, não devemos ansiar por chaleiras ricamente decoradas com alças de bronze, ou por panelas de cobre, e coisas assim; devemos ansiar é pelas sete jóias dos Aryas. O estudo é como uma arma para vencer seu inimigo: a sua cegueira. Pelo estudo, você destruirá todos os seus enganos – o seu verdadeiro inimigo. O estudo é também o seu melhor amigo, que nunca lhe dará um conselho errado. Os seus estudos anteriores o aconselharão sobre qualquer ação específica: se a hora é certa para agir, como agir na hora certa, como evitar agir se a hora é errada, seus benefícios, suas desvantagens, etc. Meu próprio e precioso guru me disse, “Enquanto o Rei Lhalama Yeshe Oe estava sozinho na prisão, ele ficou cada dia mais determinado. Isto aconteceu por causa dos conselhos que recebeu de seu companheiro – seus estudos anteriores.” O estudo é também um parente que nunca lhe esquece em tempos difíceis. Parentes comuns fingem ser seus amigos quando você está bem de vida; quando os tempos estão ruins, eles fingem não reconhecê-lo. Mas o estudo é o melhor dos parentes, pois lhe será particularmente útil quando a época for difícil e você estiver sofrendo, doente, morrendo, etc. Antes do grande Tsechogling Rimpoche se tornar tutor de um dos Dalai Lamas, havia uma época em que ele era pobre. Ele encontrou na estrada um tio que viajava para fazer comércio. Tsechogling Rimpoche disse-lhe algo, mas o tio falou como se não conhecesse Rimpoche. Quando Rimpoche passou a ser tutor do Dalai Lama e ocupou uma das mais altas posições de autoridade, o tio foi vê-lo, apresentando-se como tio. Certa vez havia um homem que começou a vida pobre. Ninguém se dizia seu parente. Depois ele ganhou um dinheiro com o comércio e muitas pessoas apareceram alegando serem parentes. Ele chamou todos para almoçar com ele. Ele colocou montes de dinheiro na cabeceira da mesa, e depois, recitou o seguinte verso enquanto se prosternava perante o dinheiro: "Um homem que não era meu tio tornou-se meu tio. Oh montes encantadores de dinheiro, eu vos rendo homenagem!" Ou seja, não se pode confiar em parentes comuns.

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Se devemos buscar nossos parentes há muito perdidos, porque não buscar o estudo,

a contemplação e a meditação. Aliás, no Lam-rim de Ketsang a última linha do verso

mencionado acima diz: “Oh, meu vale-refeição, eu rendo-lhe homenagem!” Mas a versão que dei é exatamente como o meu próprio precioso guru costumava contar esta história.

O estudo é também o remédio para os enganos, e um exército a ser despachado

contra a não-virtude. É também o melhor deposito de fama e glória; o melhor prêmio a

se obter dos seres santos; a melhor maneira de conseguir o respeito dos eruditos. Os Contos de Jataka também diz:

Quem quer que tenha estudado, desenvolverá fé Será firme e se deleitará na excelência; Desenvolverá a sabedoria, e não terá ignorância alguma. É correto até vender a própria carne para obtê-lo.

Isto é, o estudo tem infinitas qualidades boas. Você desenvolverá fé nas boas qualidades das Três Jóias através do estudo; e então se esforçará para fazer

oferecimentos aos Budas e assim por diante. E também por causa de sua fé nas leis fixas do karma, ficará feliz em modificar o seu comportamento, etc. Você compreenderá os defeitos das duas primeiras das quatro verdades [sofrimento e origem do sofrimento], e as boas qualidades das duas últimas [a cessação e o caminho]. Portanto, estará sempre trabalhando para chegar à sua meta final [a Budeidade]. Nos dizem, “É correto até cortar e vender a própria carne para conseguir estudar.” Mas, agora que consegue estudar no conforto, sem precisar mutilar o seu corpo, você deve estudar o melhor possível. O verso acima foi dado ao Bodhisattva [Principe] Chandra [Vyilingalita, uma das vidas prévias de Shakyamuni], depois que ele pregou mil pregos em seu corpo para cada linha no verso.

A profundidade do estudo determina quantas vezes você precisa contemplar. Esta

quantidade determina o tempo para desenvolver a compreensão através de suas meditações e, por sua vez, você chegará a ter sabedoria. Os jovens devem estudar os cinco temas de debates, quando entram nos grandes mosteiros. Há uma enorme diferença entre quem estudou e quem não estudou – mesmo

o que reconhece ser as Três Jóias. Talvez você tenha filhos para cuidar. Se você leu

muito pouco, não deve criá-los para ser como você. Faça-os estudar e em sua próxima vida desenvolverá a mesma sabedoria deles agora. Os velhos com pouca inteligência podem querer estudar os grandes clássicos, mas a morte interromperá seus estudos antes que se livrem dos conceitos errôneos. Estas pessoas são, portanto, incapazes de completar muito estudo. Mas estudando algo como o Lam-rim, podem conseguir certa compreensão de todo o caminho. Tsongkapa certa vez disse ao Panchen Lama Lozang Choekyi Gyalten em sonho:

Para beneficiar a si e aos outros, Nunca se satisfaça com seus estudos.

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Observem os Bodhisattvas no terceiro nível, Eles estão insatisfeitos com a quantidade de seus estudos.

Vocês devem fazer o que ele sugere. Independente da capacidade que as pessoas julgam ter, certamente podem encontrar tempo para estudar um ensinamento conciso do Lam-rim, por exemplo. Como não saberiam como faze-lo? Como poderiam viver a vida com uma parcela tão pequena do Dharma? Como poderiam afirmar que não são do tipo intelectual? Até cavalos, vacas e ovelhas sabem, sozinhos, conseguir o que precisam. Você deve estudar em seu próprio nível intelectual. Mas, o que estudar, seja texto pequeno ou elaborado, deve conter toda gama de tópicos de meditação: desde confiar num guia espiritual até a unificação do Não-Mais-Aprendiz. Se um texto estiver incompleto, não terá todos os tópicos de meditação. Mesmo se tiver muitos detalhes em uns tópicos, isto não compensará a falta de outros tópicos. Seria como ter cem tapetes no seu quarto, mas nenhuma roupa para vestir; ou ter cem coisas para vestir e nenhum tapete. Se o texto estiver completo, vai guiá-lo pelo caminho, independente de quantos detalhes oferecer – assim como um grande quarto de um ministro de estado e a cela de um monge servem ambos a seus propósitos.

COMO DEMOSTRAR RESPEITO AO DHARMA E SEU MESTRE

O Sutra para Kshitagarbha diz:

Ouça o Dharma com fé e respeito Não zomba nem deprecie seus mestres; Faça oferecimentos aos mestres do Dharma, Desenvolva a atitude que eles são iguais ao Buda.

Ao ouvir seus ensinamentos, renda aos mestres do Dharma o mesmo respeito que renderia a nosso Mestre Buda. Os Níveis do Bodhisattva de Asanga, diz que devemos ouvir livres de enganos e sem a mente se distrair com as cinco coisas (abaixo). Devemos também estar livre de orgulho. Há ainda a menção de seis coisas que devem estar presentes ao ouvir: (1) o momento certo; (2) consideração; (3) respeito; (4) falta de raiva; (5) o fato que mais tarde colocará os ensinamentos em prática; (6) não procurar defeitos no mestre. Vejamos o primeiro: o momento certo. O guru deve dar um ensinamento se isto o deixa feliz, se não tem outras ocupações naquele momento, etc. Então, não devemos pedir ou ouvir seus ensinamentos sempre que nos for conveniente, pois isto seria muito presunçoso e egoísta. Geshe Potowa certa vez se hospedou no Mosteiro Kakang no planalto da Província Central para editar vários textos escriturais. Um homem veio até ele e pediu ensinamentos. Geshe Potowa levantou e adotando uma atitude zangada, mandou o homem embora. O homem saiu logo, o que mostra que devemos ser habilidosos quanto ao momento certo.

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Mostra-se “consideração” fazendo prosternações e levantando-se na presença do mestre. Render “respeito” inclui lavar suas mãos e pés. “Falta de raiva” é não se aborrecer se precisar fazer algum trabalho por ele. “Procurar defeitos” é reclamar. Poderia significar também desprezar o Dharma e seus mestres – um ato relacionado aos seus enganos. Também não se deve fixar-se em cinco coisas: sua ética degenerada, sua casta baixa, suas roupas pobres, sua voz desagradável ou maneira pobre de falar, e seu uso de palavras rudes. Deve-se abandonar qualquer idéia de ver estas cinco coisas como defeitos.

COMO EFETIVAMENTE OUVIR O DHARMA

Isto tem duas partes: (1) abandonar os três tipos de falhas que impedem a pessoa de se tornar um recipiente digno, (2) cultivar as seis atitudes auxiliares.

1) ABANDONAR OS TRÊS TIPOS DE FALHAS QUE IMPEDEM A PESSOA DE SE TORNAR UM RECIPIENTE DIGNO

Estes três são: (1) a falha de ser como um recipiente virado para baixo; (2) a falha de ser como um recipiente sujo; (3) a falha de ser como um recipiente com um vazamento no fundo.

(A) A FALHA DE SER COMO UM RECIPIENTE VIRADO PARA BAIXO

Se um recipiente está virado para baixo, não importa quanto líquido nutritivo seja despejado nele, nada entrará. Você pode estar assistindo a um ensinamento, mas nada compreenderá se sua mente estiver distraída e seus ouvidos não estiverem captando o que está sendo dito. Não há diferença entre isto e não ir ao ensinamento. Você deve ouvir como uma corça – um animal muito apegado ao som. Dê toda a atenção ao ensinamento. Mas, “dar toda a atenção” não é ouvir o Dharma só com metade da atenção e ter a outra metade da mente distraída. Significa que deve acompanhar todo o ensinamento de perto. Seja como a corça: devido ao seu apego ao som, fica tão absorta [quando alguém toca uma flauta] que um caçador pode atirar suas flechas com facilidade.

(B) A FALHA DE SER COMO UM RECIPIENTE SUJO

Um recipiente pode não estar virado para baixo, mas se conter veneno então tudo que for despejado nele não servirá mais para ser usado, mesmo se antes era salutar. Os seus ouvidos podem estar captando tudo, mas alguns de vocês podem estar motivados por pensamentos de progredir nos estudos, e outros motivados por pensamentos de

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repetir o que ouviram para outras pessoas, e coisas assim. Ser motivado por um anseio pela paz [da liberação] só para si é um progresso nestas motivações, mas ainda é falho e então se assemelha a um recipiente sujo. Portanto, é preciso pelo menos ouvir com a bodhicitta induzida como sua motivação.

(C) A FALHA DE SER COMO UM RECIPIENTE COM UM VAZAMENTO NO FUNDO

Um recipiente pode não estar virado para baixo nem sujo, mas se o fundo estiver vazando não reterá líquido algum, não importa o quanto despejar nele. Os seus ouvidos podem estar captando tudo e a sua motivação pode ser impecável, mas a menos que ouça cuidadosamente você esquecerá tudo imediatamente. É muito difícil tomar as medidas para evitar esquecer um ensinamento, portanto devemos usar algo como um lembrete – um livro ou um conjunto de subtítulos por exemplo. Devemos repassar continuamente o material pensando, “O que foi ensinado neste ponto específico?” E, o mais importante, reunam-se entre as sessões dos ensinamentos e repassem um pouco o que foi dito. Quanto a abandonar estas falhas do recipiente, em um sutra o Bhagavan salientou “ouvir bem, ouvir da melhor maneira, e reter na mente.” “Ouvir bem” refere-se a

abandonar a falha do recipiente sujo, “ouvir da melhor maneira” refere-se a abandonar

a falha do recipiente virado para baixo; e “reter na mente” significa abandonar a falha do recipiente com um vazamento no fundo. É assim, então, que devemos ouvir.

2) CULTIVANDO AS SEIS ATITUDES AUXILIARES

Estas são: (1) a atitude que você é como um paciente; (2) a atitude que o Dharma é

como o remédio; (3) a atitude que o seu guia espiritual é como um médico habilidoso; (4) a atitude que a prática diligente é como a cura; (5) a atitude que o seu guia espiritual

é um ser santo como os Tathagatas; (6) a atitude que o Dharma deve permanecer por muito tempo.

(A)

PACIENTE

DESENVOLVENDO

A

ATITUDE

QUE

VOCÊ

É

COMO

UM

Esta atitude é vital, pois as outras seguirão naturalmente. Pode parecer perverso meditar que somos pacientes quando não estamos doentes, mas o ponto aqui é que estamos seriamente doentes com a doença dos enganos. Como o Geshe Kamaba disse, pode ser perverso alguém que não esteja doente meditar assim mas, embora não

saibamos, estamos de fato com a doença grave e crônica dos três venenos: apego, raiva

e ignorância. Podemos estar pensando: “Como posso estar doente sem saber?” Mas, quando temos uma febre alta, podemos delirar, cantar, etc. e não nos sentirmos doentes.

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Estamos também seriamente doentes com os enganos e não temos consciência disto. Novamente, você pode pensar: “Se eu tenho uma doença não deveria sentir dores? Mas não sinto.” Mas de vez em quando você sente as dores agudas que vem dos três venenos. Você pode estar pensando, “Como assim?” Suponha que vá ao mercado e veja um artigo atraente que é muito caro. Quando volta para casa, fica muito aborrecido pensando em como conseguí-lo. Esta é a dor do apego. Quando vê, ouve ou recorda algo desagradável – um comentário ferino, por exemplo – você se sente angustiado. Isto é um exemplo da dor da hostilidade. Examine esta parte em detalhe e analise o orgulho, ciúme, etc. Os enganos são doenças sérias, dolorosas, intoleráveis e crônicas. Assim, você contraiu muitas doenças – as doenças do apego, hostilidade, ciúme, e assim por diante. Você é cuidadoso para não contrair nem mesmo uma doença comum, mas sofrer dos vários enganos em nada o preocupa. Shantideva afirma em Engajando- se nos Feitos dos Bodhisattvas:

Se é preciso obedecer as ordens do seu médico Quando tem uma doença normal,

O que não dizer quanto

A doença que sempre tem tido,

Cem vezes mais perigosa que o apego?

Ficamos com muito medo se estamos doentes e a doença já está durando um ou dois meses. Mas temos sofrido da doença dos enganos desde o samsara sem princípio até agora. É impossível recuperarmos desta doença enquanto não conseguirmos a liberação da existência cíclica. Como disse Geshe Potowa: “O paciente que nunca fica ”

Este é uma perfeita descrição de nós

bom, o viajante que nunca chega ao destino mesmos

(B) DESENVOLVENDO A

ATITUDE QUE O DHARMA É COMO O

REMÉDIO

Quando os pacientes percebem que estão doentes, precisam procurar o remédio certo. O único remédio que pacificará a doença dos enganos é o santo Dharma. É este remédio que devemos buscar.

(C) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE SEU GUIA ESPIRITUAL É

COMO UM MÉDICO HABILIDOSO

Se você está doente, não tem médico e simplesmente toma um remédio por conta própria, você pode se enganar quanto à sua condição – se é doença quente ou fria, por exemplo – e quanto aos estágios que a doença alcançou. O remédio que toma pode não ajudar e pode até colocar em risco a sua vida. Seguramente, é preciso confiar num médico habilidoso. Talvez você não confia num guia espiritual, mas acha que é

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suficiente praticar Dharma dos livros. Mas, não desenvolverá realizações ou compreensões de suas recitações, meditações etc. O seu contínuo-mental ficará cada vez mais fixo em suas próprias maneiras. Então, quando decidir que deve praticar o Dharma, deve confiar seriamente num guia espiritual assim como confiaria num médico habilidoso. Como paciente, você fica muito feliz quando encontra o médico certo. Você escutará o que o médico diz, e o tratará respeitosamente. Você deve fazer o mesmo quando encontrar um guia espiritual. Como está dito em O Sumário das Qualidades Boas e Preciosas:

Assim, o sábio que tem o forte desejo de buscar A sagrada iluminação deve subjugar completamente seu orgulho Assim como os pacientes que querem se curar Confiam nos médicos, assim também aquele que procura Confia firmemente num guia espiritual

(D) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE A PRÀTICA DILIGENTE É

COMO A CURA

É o remédio que ajuda o paciente, mas talvez você não siga o conselho do médico e simplesmente deixa o remédio ao lado de sua cama. Se não melhorar, não pode culpar o médico, porque não seguiu suas recomendações e não pode culpar o remédio porque nem mesmo o tomou. O guia espiritual é como um médico habilidoso, mas se ouvir muitas instruções orais, que são como o remédio para pacificar a doença dos enganos, e não colocá-las em prática, as instruções não trarão benefício ao seu contínuo-mental, não importa quão profundas ou vastas sejam. Você não deve culpar o guru, nem culpar o Dharma. A falha foi toda sua. Como diz O Sutra Soberano da Concentração Uni-focada:

Após busca constante; o paciente encontra Um médico habilidoso e inteligente Que, vendo-o, diz com muita compaixão, “Tome este remédio,” que ele prepara, Mas o paciente não toma o remédio Tão precioso e salutar, a cura em potencial. Não culpe o médico; A culpa não é do remédio; Mas o próprio paciente deve ser culpado. Assim é também com as pessoas ordenadas nesta doutrina:

Eles podem saber muito bem a respeito Das [dez] forças, as concentrações dhyani, os [dez] poderes- Mas nenhum esforço verdadeiro é feito para meditar. Como poderia o nirvana vir sem o esforço correto?

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Eu lhe ensinei bem o Dharma, Se não fizer um bom uso de seus estudos, Você será como o paciente que deixa o remédio Dentro da caixa, pensando, “Isto não pode curar a minha doença.”

Shantideva diz em Engajando-se nos Feitos dos Bodhisattvas:

Fisicamente utilize o seguinte:

Meras palavras nada realizam. Será o doente tratado Só por ler a receita médica?

Então, não basta ter o remédio; para ser curado é preciso administrá-lo corretamente e seguir os conselhos do médico. Você deve aplicar o seu conhecimento no significado das instruções orais para pacificar esta doença dos enganos e colocar estas instruções em prática. Em Os Grandes Estágios do Caminho [de Tsongkapa] encontramos:

Com o estudo vem a compreensão, mas ela deve ser utilizada. É, portanto, vital colocar em prática o máximo possível do que estudou. Em O Sutra de Súplica ao Altruísmo diz o seguinte sobre as pessoas cujos hábitos tem sido o de ter uma longa lista de iniciações e ensinamentos recebidos, mas nada colocar em prática:

A

casca da cana-de-açúcar não tem suco algum;

O

gosto delicioso está dentro.

As pessoas que mastigam a casca não conseguem

Descobrir o sabor da cana-de-açúcar. Agora, a casca é como meras palavras;

O sabor é pensar no significado.

Em outras palavras, tais pessoas são como quem deseja cana-de-açúcar mas estão mais apegados ao gosto da casca – e será só o que comerão da cana.

Eles são como pessoas que vão assistir uma peça teatral, Como pessoas que cantam louvores a outros heróis. Eles perderam as essências, Como o perigo de ser super apegados a ensinamentos orais.

Eles são como pessoas que imitam os atores numa peça. Você não deve praticar só estudando; deve tentar colocar os estudos em prática. Se não fizer isto, o Dharma o torna intratável e quase mais nada. Estudo demais e muito pouca prática é chamado de “causa para tornar-se inflexível com o Dharma.” Nos primeiros estágios dos estudos, a

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meditação parece ser apenas de benefício marginal para sua mente. Mas seus estudos causarão menos impacto ainda se não levá-los adiante através de freqüentes meditações e reflexões. Eventualmente se cansará dos ensinamentos, mesmo se forem as instruções mais profundas. Os seus estudos não trará nenhum benefício ao seu contínuo-mental. Você terá se tornado inflexível com o Dharma, e como disse o Acharya Bararuchi em Cem Versos:

O

monge que largou os mantos,

A

mulher que abandonou três maridos,

O

chacal que escapou da armadilha --

Conheça bem estes três tipos astuciosos!

Os antigos Kadampas costumavam dizer:

O Dharma domará os pecadores

Mas ninguém inflexível com o Dharma.

O óleo amacia o couro

Mas não a pele usada para carregar manteiga 24

Em outras palavras, isto é o pior que poderia acontecer. Se pessoas que se tornaram inflexíveis a outros ensinamentos receberem ensinamentos do Lam-rim, elas podem ser subjugadas; mas se forem inflexíveis também com o Lam-rim, é bastante impossível subjuga-las. Você deve, portanto, cuidar deste ponto. Estude qualquer coisa que vai praticar, e relacione ao seu próprio contínuo-mental tudo que estudar. O rei do Dharma, Dromtempa, disse o seguinte da necessidade de combinar estudo, contemplação e meditação:

Quando estudo, aumento minha contemplação e meditação. Quando contemplo, aumento meu estudo e minha meditação Quando medito, aumento meu estudo e contemplação. Eu acrescento todos eles a uma única base; Portanto sei como usar o Dharma como o meu caminho, Sou um Kadampa e não faço as coisas pela metade. As pessoas que usam grandes viseiras se enganam; Aqueles que compreendem bem isto, são Kadampas.

Se leprosos com mãos e pés deformados tomarem remédio só uma ou duas vezes, as suas condições não mudam; eles precisam tomar um remédio poderoso durante um longo período. Vimos sofrendo a doença crônica e virulenta dos enganos desde os tempos sem princípio, e não basta colocar o significado de uma instrução em prática apenas uma ou duas vezes. É preciso que haja um esforço sério – tão constante quanto

24 N.T. Os tibetanos carregam a manteiga em recipientes feitos de couro que com o uso ficam extremamente rígidos.

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o fluir de um rio. Acharya Chandragomin disse:

Mas a mente tem estado sempre cega Com esta doença crônica e duradoura; Como poderia um leproso com mãos e pés mutilados Tirar algum benefício de seu remédio Se toma-lo apenas umas poucas vezes?

É preciso colocar tudo imediatamente em prática, assim como Geshe Chaen Ngawa. Ele estava lendo um trecho do vinaya que discute couro e peles; e leu que era proibido

o manuseio do couro por alguém ordenado. Na ocasião, ele estava sentado num tapete

de couro. Ele imediatamente retirou-o. Continuando a leitura, viu que esta regra pode ser relaxada em países remotos onde os seres ordenados podem lidar com couro. Então, ele pegou o couro e recolocou-o em seu assento.

(E) DESENVOLVENDO A ATITUDE QUE SEU GUIA ESPIRITUAL É UM SER SANTO COMO OS TATHAGATAS

A primeira pessoa a ensinar o Dharma foi o nosso Mestre o Buda, e ele próprio manifestou o caminho e seus resultados. Ele ensinou o Dharma adequadamente aos outros, e os pontos que ensinou de como modificar nosso comportamento são inequívocos. Portanto, ele é uma autoridade. Ao lembrar estes fatos sobre o Buda, deve-se sentir, “Como poderiam estar equivocados os seus ensinamentos do Dharma?” Podemos ir além e compará-lo com a atitude de que um ser santo que ensina na mesma tradição seja um Tathagata. Deve-se então pensar “Este santo ser – o meu guru – é uma emanação do Tathagata Shakyamuni."

(F) DESENVOLVENDO

A

ATITUDE

QUE

O

DHARMA

DEVE

PERMANECER POR MUITO TEMPO

Esta atitude, que resulta de ouvir o Dharma, é o pensamento “Como seria maravilhoso se os ensinamentos do Vitorioso fossem preservados neste mundo por muito tempo!” As cinco primeiras atitudes são exemplos de recordar a bondade do Tathagata. [Esta] sexta atitude é a meditação em retribuir a bondade do Buda. Ouvir o Dharma é crucial. A razão de assistir os ensinamentos é trazer alguma pressão sobre o seu contínuo-mental, caso contrário sua mente continuaria como está. Se não experimentou nenhuma mudança após ouvir um ensinamento, então não houve benefício algum para você embora as instruções possam ter sido especialmente profundas e você tenha ouvido atentamente. Um exemplo: você precisa olhar no espelho para ver se seu rosto está limpo, depois pode remover qualquer sujeira que encontrar. Você examina o seu próprio contínuo-mental no espelho do Dharma: você

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ouve o Dharma para saber se sua mente tem algumas falhas. Se descobrir algo, deve ficar aflito e pensar, “Minha mente chegou até isto!” Então, vai querer fazer o possível para se livrar das falhas. Os Contos de Jataka diz:

Quando vejo a forma de meus maus atos Claramente no espelho do Dharma; Minha mente fica atormentada; Irei agora me voltar para o Dharma.

Sudasaputra – também conhecido como Príncipe Kalmashapada – disse isto ao Príncipe Chandra. Esta estória serve de exemplo a todos nós. Quando o Abençoado Buda ainda era um Aprendiz trilhando o caminho, ele renasceu como o Príncipe [Bodhisattva] Chandra. Havia um homem chamado Sudasaputra, que costumava matar pessoas e comer suas vítimas. Um dia, o príncipe entrou num bosque e um brâmane eloqüente veio até ele. Enquanto o príncipe recebia ensinamentos de Dharma deste brâmane, repentinamente, ouviram um enorme barulho. Algumas pessoas foram enviadas para ver o que estava acontecendo e descobriram que Sudasaputra estava chegando. Os seguranças do príncipe disseram, “Sudasaputra Kalmashapada come gente. Ele é um homem a ser temido; nossos exércitos se retiraram com todos os nossos cavalos, elefantes e charretes. O que vamos fazer? Chegou a hora de conversar com ele.” Esta idéia agradou ao príncipe e, surdo às suplicas de suas esposas e súditos, foi até onde vinha o grande clamor. O príncipe viu Sudasaputra perseguindo o exército do rei com fúria, com sua espada e escudo ao alto. Mas o príncipe destemidamente e sem hesitação disse: “Eu sou o Príncipe Chandra. Venha a mim.” Sudasaputra partiu em direção ao príncipe dizendo enquanto corria: “ É você que eu quero!” Ele jogou o príncipe sobre os ombros e correu com ele até seu covil. Este lugar terrível estava cheio de esqueletos humanos; o chão estava todo vermelho e todo o lugar ressoava com gritos sombrios de carnívoros ferozes como chacais, abutres e rapinas. O covil estava preto de fumaça de cadáveres assados. Sudasaputra colocou o príncipe no chão e descansou – mas com seus olhos fixos no belo corpo do príncipe. O príncipe pensou para si, “Eu não tive oportunidade de fazer um oferecimento àquele eloqüente brâmane no bosque pelo Dharma que recebi.” E este pensamento o fez chorar. “Pare com isso!” disse Sudasaputra. “Príncipe Chandra, você é afamado por não se deixar perturbar. Que estranho chorar agora que o capturei. Eles dizem, ‘A capacidade de não se perturbar é inútil quando se sente dor. Os estudos não ajudam se você sofre. Todos tremem ao ser abatidos.’ Você sabe, eu acho que isto é verdade. Diga-me honestamente: você tem medo que eu vá matá-lo? Você tem medo de se separar de seus amigos, parentes, esposas, filhos e pais? Diga a verdade: porque está chorando?” “Eu estava recebendo o Dharma de um brâmane,” respondeu o príncipe, “mas não consegui fazer um oferecimento a ele. Deixe-me ir dar algo a ele e eu definitivamente

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voltarei para cá.” Então, Sudasaputra disse, “Não importa o que você diga, isto não pode ser verdade. Depois de ser salvo uma vez das garras do Senhor da Morte, quem voltaria à sua presença?” “Eu não lhe dei a minha palavra e prometi voltar? Eu sou o Príncipe Chandra, e valorizo a verdade tanto quanto a minha própria vida.” “Eu não confio no que diz; mas estou disposto a experimentar. Volte e veremos se o

que diz realmente é verdade. Volte, complete o seu negócio com o brâmane – seja o que for – e depois volte rapidamente. Eu estarei preparando o fogo para assá-lo. Vou esperá-lo.”

O príncipe voltou para casa e deu ao brâmane quatro mil onças de ouro como

pagamento para os quatro versos que o brâmane havia ensinado. O pai do príncipe tentou por vários meios impedi-lo sem conseguir. O príncipe voltou ao covil. “Você parece surpreso de me ver à distância,” disse o príncipe, “agora você pode me comer.” “Sei que chegou a hora de comê-lo,” respondeu Sudasaputra, “mas o fogo está soltando muito fumaça. Se eu assar a sua carne agora, a carne ficaria estragada e cheirando a fumaça. Enquanto isto, o que foi que o brâmane disse que você valorizou tanto? Eu gostaria que você me ensinasse.” “As palavras eloqüentes do brâmane mostraram como distinguir entre o Dharma e o não-Dharma. As suas maneiras são piores do que os rakshas carnívoros. Que benefício teria com o estudo?” Sudasaputra não suportou este comentário, “Pare! Vocês reis matam gazelas com suas armas. Certamente isto vai contra o Dharma!”

“Os reis que matam gazelas infringem o Dharma,” respondeu o príncipe Chandra, “mas comer carne humana é pior. Os humanos são superiores às gazelas. E se é errado comer a carne de alguém que morreu de morte natural, como poderia matar e comer pessoas ser algo correto?” Sudasaputra então disse, “Se voltou a mim, você não aprendeu muito com as escrituras.” “Eu voltei para manter a minha palavra, portanto eu aprendi muito com as escrituras.” “Os outros homens tinham medo quando eu os tinha em minhas garras. Mas você

provou ser um herói, você não perdeu a compostura. Você não tem medo de morrer.” “Aqueles homens estavam cheios de remorso porque haviam cometido ações nocivas,” disse o príncipe. “Mas não há ação nociva que eu me lembre de ter cometido. Portanto, não temo. Eu me ofereço a você pode me comer.”

A esta altura, Sudasaputra havia desenvolvido fé no príncipe. Seus olhos estavam

cheios de lágrimas e os pelos de seus corpos arrepiados. Ele olhou o príncipe com admiração e falou de seus pecados. Sudasaputra disse, “Cometer deliberadamente uma ação nociva contra você seria como beber um poderoso veneno. Por favor, ensine-me o que o brâmane tão eloqüentemente lhe ensinou.” Então ele recitou o verso acima:

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Quando vejo a forma de meus maus atos Claramente no espelho do Dharma; Minha mente fica atormentada; Irei agora me voltar para o Dharma.

Príncipe Chandra viu que ele havia se tornado um recipiente adequado ao Dharma, e disse:

Beba o néctar destas palavras Enquanto estiver sentado num assento baixo

Enquanto maravilhosamente subjugado em suas maneiras

E os seus olhos brilhando de alegria.

Desenvolva respeito, ouça uni-focadamente. Escute estas palavras como um paciente atento ao médico,

E tire delas a inspiração imaculada.

Ouça o Dharma com reverência.

Sudasaputra estendeu seu manto numa pedra achatada e convidou o Príncipe Chandra para se sentar. Ele sentou-se na frente do príncipe e, enquanto contemplava sua face, disse: “Oh Nobre, ensine-me agora.” Então, o Príncipe Chandra começou:

Não importa quantos desejos tenha, Você só precisa conhecer um homem santo apenas uma vez. Não é preciso que o conheça há muito tempo; Isto ainda o fará ser imperturbável.

E assim continuou. Ele domou a mente de Sudasaputra com o ensinamento do Dharma. Sudasaputra, para retribuir esta gentileza, presenteou Chandra com noventa e um príncipes que ele mantinha prisioneiros para devorá-los; ele prometeu guardar um comportamento correto e, a partir de então, abandonar matar qualquer ser senciente e de comer carne humana. Então, quando ouvir o Dharma, investigue a sua própria mente o tempo todo. Se fizer isto, o seu contínuo-mental será domado – mesmo se for tão selvagem quanto o de Sudasaputra. Mas se permanecer intocável pelo Dharma enquanto ouvir, não vai ter benefício algum, não importa a qualidade do lama, não importa a penetração das instruções. Ao ouvir o Dharma algumas pessoas pensam, “O que ele dirá que eu já não conheço, ou já não estudei?” Ouvir assim não traz benefício algum. Outros só prestam atenção em anedotas interessantes, e não levam a sério alguns pontos profundos das

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instruções. Um exemplo: Quando Kelsang Gyatso, o Sétimo Dalai Lama, dava um ensinamento de Lam-rim, ouviu-se um homem comentar: “Hoje foi realmente muito informativo! O Dalai Lama nos disse que a Fortaleza Lundrub no Distrito de Pempo também era conhecida como “Fortaleza Mayi Cha.” Outros ficam observando se os ensinamentos do lama seguem os textos. Lama Tsechogling Rinpoche, tutor de um dos Dalai Lamas, disse “Atualmente os discípulos parecem verificar a precisão dos lamas.” Ouvir um ensinamento assim nunca trará benefícios. É muito importante observar a sua mente enquanto escuta. Quando os lamas ensinam o Lam-rim, sua maior preocupação não deve ser se eles cometem algum erro; eles ensinam principalmente para domar os contínuos-mentais de seus discípulos. Num ensinamento os discípulos não devem ouvir da maneira descrita acima. Qualquer coisa que o lama falar deve desafiá-lo. Você deve ouvir principalmente para domar sua mente. Se agir assim, desenvolverá as suas primeiras realizações durante aquele ensinamento. Isto é algo que não acontece quando um lama visita o seu quarto e você oferece uma tigela de chá – mesmo se ele for um lama que dá ensinamentos sentado num trono alto. Mesmo ao estudar sozinho, seus estudos não causam o mesmo impacto que ouvir um ensinamento. Tudo que Geshe Potowa ensinava beneficiava as mentes das pessoas – até suas anedotas sobre pássaros. Havia também um grande estudioso chamado Geshe Chokyi Oezer, mas suas instruções não eram benéficas para a mente, mesmo as mais profundas ou vastas. Algumas pessoas mencionaram isto a Potowa, e Potowa disse, “Todos os ensinamentos dele são excelentes, mas há uma diferença entre a maneira como ensinamos.” Pediram a Potowa para explicar mais. “Ele ensina para comunicar fatos, enquanto todo o meu Dharma é direcionado para dentro. Esta é a diferença.” Geshe Chokyi Oezer ouviu o comentário e foi receber ensinamentos de Geshe Potowa. Os ensinamentos provaram ser muito benéficos, mesmo não havendo nada no ensinamento que ele já não soubesse. Geshe Chokyi mais tarde comentou, “Compreendi coisas que nunca havia compreendido antes.” Devemos fazer como Geshe Dromtempa ensinou:

Explicarei o que significa “gurus Mahayana.” Eles dão infinita compreensão às pessoas. Ensinam qualquer prática que será útil após os ensinamentos. E ensinam qualquer coisa que trará benefício direto.

A frase “após os ensinamentos” foi interpretada de várias maneiras. Segundo a tradição oral de meu próprio precioso guru, significa que, não importa quanto Dharma você ensine, ele deve ser do maior benefício para o contínuo-mental do discípulo depois que o ensinamento terminou. Este conjunto específico de títulos contém as instruções de como ouvir os ensinamentos no caminho. Como eu já disse, um erro neste ponto poderia ser desastroso, assim como foi dito que se tomarmos a data errada para o primeiro dia do mês lunar, erraremos o décimo quinto dia [lua cheia]. Independente de quão vastos ou

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sejam os ensinamentos do Dharma que receba, você poderá transformá-los num demônio; e o Dharma só alimentaria os seus enganos. Eu penso que isto é muito comum. Devemos cuidar disto com seriedade.

3.2 COMO ENSINAR O DHARMA

Isto tem quatro partes: (1) pensando nos benefícios de ensinar o Dharma; (2) sendo respeitoso com o Dharma e seu mestre; (3) o que pensar e fazer enquanto ensina; (4) a diferença entre quem você deve e quem você não deve ensinar.

PENSANDO NOS BENEFÍCIOS DE ENSINAR O DHARMA

É vital que quem estiver ensinando o Dharma não transforme o ato de dar o Dharma

aos outros em algo motivado por enganos. [Vasubandhu] diz em Um Tesouro de

Metafísica:

O generoso ato de dar o Dharma aos outros Não deve ser um ato com enganos. Ensine corretamente os sutras e outros ensinamentos puros.

Se ensinar com a esperança de ganhar oferecimentos, ou para que seus discípulos rendam-lhe respeito, ou para se tornar famoso e conhecido como erudita e coisas assim, os seus ensinamentos, em vez de benéficos serão prejudiciais. Até seus méritos vão declinar. Você deve ensinar compassivamente pelo bem de seus discípulos, e não considerar quaisquer efeitos kármicos que possa receber do ato de dar o ensinamento. Como disse Chuzang Lama Rinpoche Yeshe Gyatso:

Eu o ouvi dando Ensinamentos e iniciações:

Ele faz isto bem Mas me deixa doente No mais fundo do coração, Quando ele ansiosamente Recebeu garantias de doações.

Em outras palavras, isto não deve acontecer: um ensinamento é muito benéfico quando o mestre não se importa com oferecimentos materiais:

O Sutra da Súplica do Altruísmo menciona vinte benefícios:

Maitreya, qualquer ato de dar o Dharma, feito sem desejo de receber oferecimentos materiais ou de ser respeitado, tem vinte benefícios. Quais

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são eles? São: a pessoa terá boa memória; terá discernimento; ficará inteligente; será firme; terá sabedoria; obterá realização completa da sabedoria transcendental; o apego diminuirá; a hostilidade diminuirá; sua ignorância profunda diminuirá; não será perturbado por demônios; receberá a atenção dos Budas; receberá proteção de não-humanos; os deuses concederão seus brilhos; desafetos não levarão a melhor; não será separado de seus entes queridos; suas palavras terão peso; terá destemor; terá a mente mais pacificada; será louvado pelos estudiosos; o seu ato de dar o Dharma será digno de ser lembrado.

O primeiro dos benefícios, ter boa memória, significa que não esquecerá do Dharma. Ter discernimento se refere à convicção que se ganha nas formas supremas de meditação. Ter inteligência se refere à convicção que se ganha com as contemplações mais habituais. Firmeza significa que você não poderá ser influenciado. Ter sabedoria se refere à sabedoria mundana adquirida nos caminhos de acumulação e preparação; sabedoria supramundana é a sabedoria adquirida durante os caminhos da visão e da meditação. Seis destes vinte benefícios são resultados que correspondem à causa inicial. Quatro outros benefícios resultam dos estados de separação. Seis benefícios são resultados ambientais e há um resultado de maturação kármica. [mais detalhes no Dia Treze]

Pabongka Dorge Chang na realidade falou mais longamente deste assunto do que aqui registrado.

Outros benefícios são mencionados em O Sutra Solicitado por Ugra, onde diz que uma pessoa ordenada adquire mais méritos através do ato dar até mesmo um verso de Dharma, do que uma pessoa leiga pode receber com inúmeros atos de generosidade material. Você deve ter estes benefícios em mente. Assim, vai querer ensinar e sentirá que a sua própria felicidade resultará disto. Estes benefícios não vêm apenas de ensinar o Dharma de um trono alto de meditação. Mestres que instruem seus alunos também recebem estes benefícios. Quando recitar um texto do Dharma, você deve imaginar que está lendo para uma audiência de deuses, nagas (seres semelhantes a serpentes), criaturas, etc. que estão todos ao seu redor. Você receberá os mesmos benefícios se fizer isto. Faça o mesmo ao memorizar um texto. Você receberá estes benefícios de suas conversas com outras pessoas se ensinar os pontos-chaves de como modificar o comportamento. Mas note: faz também uma diferença se você for o guru da pessoa ou não.

SENDO RESPEITOSO COM O DHARMA E SEU MESTRE

Ngawang Dragpa de Dagpo disse: “O Buda, nosso Mestre, arrumou o seu próprio

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trono quando ensinou a 'sagrada mãe.' ” Isto é quando o Bhagavan ensinou o conjunto dos Sutras da Sabedoria da Perfeição, ele fez para si um trono de ensinamentos com suas próprias mãos – mãos que carregavam as marcas e sinais de um Buda e eram tão belas quanto um ramo estendido de uma árvore dourada. Quando o Dharma merece este respeito até mesmo dos Budas, devemos ensiná-lo realmente com grande reverência. Quando aconteceu a primeira assembléia budista, Ananda e os outros oradores foram sentados em cima de quinhentos mantos de açafrão fornecidos pelos outros

Arhats. Fizeram isto por respeito à grandeza do Dharma que estava sendo ensinado. (Aqui, devo acrescentar que os três mantos de um monge era a roupa adotada por Buda, mas muitos monges atualmente usam seus mantos para limpar objetos ou como almofada. É muito errado fazer isto.)

O Dharma deve ser respeitado por causa de sua grandeza. Vocês devem recordar as

boas qualidades de nosso Mestre e a sua bondade, e desenvolver respeito.

O QUE PENSAR E FAZER ENQUANTO ENSINA

1) O QUE PENSAR:

Ngagwang Dragpa de Dagpo disse:

Abandone a mesquinhez, o auto-elogio, Sonolência ao ensinar; discutir os defeitos alheios, Adiar ensinamentos, e ciúmes. Tenha amor por seus seguidores, e ensine adequadamente Enquanto mantém as cinco atitudes. Pense que a virtude lhe concederá a felicidade.

Ou seja, você não deve esconder os pontos-chaves das instruções, pois isto seria uma forma de avareza com os ensinamentos. Durante seus ensinamentos de Dharma, você não deve fazer auto-elogios dizendo, “No passado eu fiz isto e aquilo, etc.” Você não deve ficar sonolento enquanto ensina. Não deve discutir os defeitos alheios com apego ou hostilidade como motivação. Não deve ter preguiça e adiar um ensinamento porque realmente não quer ensiná-lo. E, deve abandonar o ciúme que surge porque suspeita que outros estão sendo promovidos. Você deve ter amor e compaixão fortes para com seus ouvintes; e deve também manter as cinco atitudes. Estas cinco são as mesmas que as seis atitudes acima, omitindo a atitude de que a prática diligente do Dharma vai curá-lo. Em outras

palavras, estas cinco atitudes são: eles são os pacientes, o Dharma é o remédio, você é o médico, e assim por diante. Você deve então sentir que a virtude que resulta de ensinar corretamente enquanto mantém estas cinco atitudes lhe dará felicidade.

A razão porque uma das seis foi omitida é porque ela se aplica mais aos discípulos

do que ao mestre.

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2) O QUE FAZER ENQUANTO ENSINA:

Você deve lavar-se antecipadamente; sua aparência deve ser limpa com roupas novas. Sente-se em um trono elevado. As suas maneiras devem ser alegres. Ensine por meio de analogias, citações, e lógica formal para que o significado fique claro. Mesmo assim, fico muito encabulado e meio infeliz de sentar neste trono alto quando há altos lamas encarnados sentados abaixo de mim. Mas, devo sentar-me aqui em respeito à grandeza do Dharma. De fato, é maravilhoso que este costume não tenha morrido nas províncias Central e de Tsang. Como uma estória conta, se este costume não fosse mais seguido, e o lama se sentasse em um trono baixo para ensinar, as pessoas estranhariam ouvir: “Eu recebi esta linhagem de vários grandes lamas.” “As suas maneiras devem ser alegres" significa que deve sorrir aos seus discípulos enquanto ensina. Longdoel Lama Rinpoche por outro lado costumava ralhar com seus discípulos e ameaçá-los com uma vara na mão enquanto ensinava. Se confundir-se com a ordem dos títulos, os ensinamentos serão tão confusos quando o ninho de um corvo. Se omitir os pontos difíceis e só ensinar as partes fáceis, os seus ensinamentos serão como mingau de um velho. Os mestres que não compreendem corretamente o significado interno do ensinamento e precisam recorrer a palpites são como pessoas cegas dependendo de suas bengalas. Isto é errado. Meu próprio precioso guru, meu refúgio supremo, contou-me o seguinte. Quando estiver pronto a ensinar o Dharma, acerte a sua motivação corretamente enquanto caminha de seu quarto ao local do ensinamento. Imagine que os gurus-raiz da linhagem do Dharma que vai ensinar estão sentados no seu trono, um guru sobre o outro. Prosterne-se três vezes ao trono. Os gurus se fundem nos outros, um por um; finalmente todos se fundem em seu próprio guru raiz. Enquanto sobe no trono, o seu próprio guru se funde em você. Depois, quando sentar-se, estale seus dedos e recite um verso sobre a impermanência, como o seguinte:

Como lamparinas flamejantes Que duram poucos minutos,

A

felicidade é uma ilusão

E

dura como uma bolha, um sonho,

Um relâmpago ou um dia. Todos os fenômenos são assim.

Você deve sentir, “Isto é só por uns poucos minutos, é apenas algo impermanente.” Você deve suprimir qualquer opinião inflada de si mesmo, senão, como disse meu lama, você pode desenvolver orgulho ao sentar no trono elevado e sentir, “Agora sou alguém importante!” Dizem que se deve recitar mantras para derrotar os demônios, mas tradicionalmente recitamos O Sutra do Coração e batemos palmas três vezes. Je Drubkang Geleg Gyatso

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costumava seguir a tradição de usar melodias e cânticos lentos para os seis ritos preparatórios. De fato, quando deu um ensinamento de Lam-rim, ele adotou ritmos bem lentos para estes ritos. Algumas pessoas pediram-lhe para encurtar os ritos preparatórios, porque estavam prolongando o ensinamento. Ele respondeu, “O que é isso? Todo o sucesso do ensinamento depende dos ritos preparatórios.” E ele não os encurtou. Como já disse, pode-se desenvolver o primeiro tipo de realização do Lam-rim durante este ensinamento. Mas deve-se dar uma oportunidade para que as realizações se desenvolvam, e seu desenvolvimento depende de se construir as acumulações [de mérito e sabedoria primordial], purificar obscurecimentos, fazer súplicas em orações, e coisas assim. Este é o pensamento por trás da prática preparatória durante os ensinamentos. Não se deve ficar distraído o tempo todo – os olhos vagando, a boca recitando fórmulas automaticamente – durante os ritos. Leve a sério esta acumulação de méritos, auto-purificação, e súplicas, pois são cruciais para desenvolver alguma compreensão dos tópicos de meditação enquanto assiste os ensinamentos. Agora, voltando a como conduzir um ensinamento. Após oferecer uma mandala- mundial [Dia Cinco], toque a sua cópia do texto à sua cabeça [em respeito e como uma benção], e acerte novamente a sua motivação. Reze para que o que está prestes a fazer beneficie o contínuo-mental de seus ouvintes. A prática de Dubkang Geleg Gyatso era fazer estas orações não só quando tocava o livro à sua cabeça, mas também quando colocava o seu chapéu. Agora, a maioria de vocês sabe que quando um ensinamento está para ser dado, há uma ligeira mudança no verso do refúgio. Este verso normalmente é:

Até atingir a iluminação, eu me refugio No Buda, Dharma e Assembléia Suprema. Pelos méritos adquiridos pela generosidade, e outras Que eu alcance a Budeidade pelo bem de todos os seres.

” enquanto

os discípulos dizem, “Pelos méritos adquiridos através de ouvir o Dharma ” Outra coisa que devo mencionar é a tradição de ler em voz alta parte do texto do Lam-rim a ser ensinado naquele dia. Considera-se melhor que quem estiver dando o

ensinamento faça a leitura todos os dias, ou pelo menos uns dois dias e depois a tarefa fique a cargo de um dos seus principais discípulos. De qualquer forma, era preciso contar quais são as tradições. Enquanto ensinar, deve imaginar que deuses como Indra, nagas e outros espíritos vieram ouvir. Você deve fazer o gesto de dar o Dharma enquanto recita o verso, ”

Aparentemente, os deuses não suportam sentar no chão. Então o

“Deuses e espíritos

guru deve imaginar que está dando-lhes permissão para permanecer no ar e ouvir. As pessoas que sustentaram a responsabilidade de preservar a doutrina devem guardar no coração estas tradições.

O Lama diz, “Pelos méritos adquiridos através do ato de dar o Dharma

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A DIFERENÇA ENTRE QUEM VOCÊ DEVE E QUEM VOCÊ NÃO DEVE ENSINAR

Em geral, conforme está dito em A Transmissão do Vinaya: “Não ensine nada que não tenha sido pedido.” Ou seja, não é correto ensinar algo que não foi solicitado. E não deve também concordar imediatamente a ensinar no momento em que é feito o pedido. Você deve dizer, movido por modéstia, “Eu não compreendo este assunto corretamente, portanto não posso ensiná-lo,” ou “Como eu poderia ensinar isto a pessoas tão elevadas como vocês.” Você deve testar o desejo das pessoas de ter um ensinamento, e só ensinar quando tiver certeza que sejam recipientes adequados. O Sutra Soberano da Concentração Uni-focada diz:

Prakasha, diga-lhes primeiro estas palavras: “Eu sou inexperiente.” Depois, se você for conhecedor e habilidoso, Diga-lhes, “Como posso discutir isto Perante pessoas elevadas como vocês?”

Mas, você é obrigado a ensinar certas pessoas algo não solicitado se existir motivo imperativo para fazê-lo. Como disse Je Tsong Khapa, “Conhecendo um recipiente adequado, ensine mesmo sem ser solicitado.” Está dito que você também deve seguir as vinte e seis regras estabelecidas no vinaya: não deve ensinar a pessoas que estejam sentadas enquanto você ainda estiver de pé ou a pessoas reclinadas [no chão]; ou a pessoas que ocupam um assento mais elevado, [e assim por diante]. Chegamos, então, ao nosso terceiro título principal.

3.3 O QUE DISCÍPULOS E MESTRE DEVEM FAZER JUNTO NO FINAL

Após oferecer uma mandala de agradecimento, o mestre e a audiência devem dedicar os méritos-raiz que adquiriram durante o ensinamento para o progresso dos ensinamentos e para a própria e completa iluminação, recitando A Oração de Lam-rim [da obra de Tsongkapa, Os Grandes Estágios do Caminho]. As pessoas não devem sair todas juntas apressadamente quando o tempo do ensinamento acabar. A prática é que sair em fila um por um, como que sentindo pesar de separar-se do guru e seus ensinamentos.

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ORAÇÃO DE LAM-RIM Lama Tsong Khapa

Pelas duas acumulações que reuni com muito esforço e por tanto tempo, Que preenchem uma vastidão como o céu, Possa eu tornar-me um Vitorioso, poderoso, líder de seres Àqueles cujos olhos mentais estão fechados pela ignorância.

A partir de agora e por todas as minhas vidas,

Que Manjushri cuide de mim com carinho. Que eu encontre o caminho supremo de todos os ensinamentos, Pratique-o e agrade a todos os Vitoriosos.

Usando o que tiver realizado sobre os pontos do caminho, Possa eu afastar a escuridão mental dos seres Através do amor poderoso e de meios hábeis honestos; Possa eu sustentar por longo tempo a doutrina do Vitorioso.

Em qualquer lugar onde os ensinamentos preciosos cheguem, Ou nos locais onde eles declinem, Possa eu, movido por grande compaixão. Derramar luz sobre estes tesouros benéficos.

Pelas surpreendentes boas obras dos Vitoriosos e seus Filhos

E a excelente prática do caminho à iluminação em estágios,

Possam as mentes dos buscadores de liberação ser enriquecida

E os feitos dos Vitoriosos persistirem por muito tempo.

Que tudo conduza à prática do caminho salutar; Que o que não conduz seja afastado, Em todas suas vidas, que todos os humanos e não-humanos Não sejam afastados do caminho louvado pelos Vitoriosos.

Sempre que os ritos preparatórios do Veículo Supremo Forem praticados corretamente com [muito] esforço, Possam os poderosos sempre proclamá-lo,

E um oceano de auspiciosidade permeie todas as direções

Segunda Parte:

OS RITOS PRELIMINARES

DIA QUATRO

Pabongka Dorje Chang começou o ensinamento da seguinte maneira:

Como disse o glorioso Chandrakirti:

Agora que você tem liberdade, Agora que está num estado favorável, Se não tirar proveito E perder a sua liberdade Caindo nos reinos inferiores, Quem irá levantá-lo novamente?

Em outras palavras, agora estamos livres de estados desafortunados porque recebemos o renascimento humano perfeito; somos livres para praticar o Dharma. Mas se não tirarmos proveito de nossa situação para alcançarmos nossa eterna esperança, vamos cair novamente nos sofrimentos dos reinos inferiores, onde não seremos afortunados o bastante nem para ouvir a palavra “Dharma.” Se cairmos em tal estado, quem será capaz de nos tirar de lá? Então, enquanto ainda estamos livres, devemos tentar alcançar a nossa esperança eterna, haja o que houver. Poderíamos realizar esta esperança por meio do Lam-rim. Devemos portanto sentir, “Eu alcançarei a Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes; então vou ouvir e colocar em prática estes ensinamentos dos estágios do caminho a iluminação.” Só após acertar a sua motivação desta maneira, é que deve ouvir este ensinamento. E qual é o ensinamento que está ouvindo? É o Dharma da tradição do Veículo Supremo, o Dharma que leva os afortunados ao estado de Buda. Depois desta introdução, Pabongka Rinpoche repassou os títulos já transmitidos até aqui. Ele também reviu brevemente o material ensinado ontem. Então, começou o ensinamento do dia:

IV

DISCÍPULOS

A

SEQUÊNCIA

-

DE

TRANSMITIR

OS

ENSINAMENTOS

AOS

Isto está subdividido em: (1) a raiz do caminho: devoção a um guia espiritual, e (2) o correto treinamento a seguir após confiar no guia espiritual. Estes títulos foram tirados dos textos do grande Tsongkapa. Eles ensinam um dos pontos mais cruciais para nossa prática. As palavras “a raiz do caminho” afirma o seguinte. Todas as folhas, frutos, ramos, e tronco de uma árvore são resultado de suas raízes. Todas as compreensões e realizações – desde a dificuldade de obter o perfeito renascimento humano até a unificação do Não-Mais-Aprendiz – de forma semelhante, derivam exclusivamente da nossa devoção a um guia espiritual. A palavra após em “o correto treinamento a seguir após confiar no guia espiritual” nos diz que ação deve vir

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primeiro. Afirma que receberemos todas as realizações até a unificação quando tivermos

a devoção correta ao nosso guia espiritual. Assim, é vital logo de início, ter a devoção a um guia espiritual. Os primeiros três títulos principais que já cobrimos são também encontrados em Os Grandes Estágios do Caminho. Os títulos que seguem são diferentes; eles são tirados dos ensinamentos concisos.

4.1 A RAIZ DO CAMINHO: A DEVOÇÃO AO GUIA ESPIRITUAL

Isto tem duas partes principais: (1) o que fazer durante suas sessões de meditação. (2)

o que fazer entre as sessões de meditação. O ponto mais importante está aqui nestes dois títulos, um destinado às sessões de meditação e o outro aos intervalos entre as meditações. Toda rotina diária de uma pessoa pode ser dividida em períodos, e cada um destes períodos pode ser dividido entre o que acontece durante as sessões de meditação e o que acontece fora das sessões. Assim, cada ação de seu corpo, palavra e mente ocorre num desses períodos de meditação ou períodos entre as sessões de meditação. Se tornar estes períodos frutíferos, todo o dia se torna frutífero. Estenda isso por um período de meses, anos, etc., e toda a sua vida se torna significativa. Isto é crucial.

O QUE FAZER DURANTE SUAS SESSÕES DE MEDITAÇÃO

Este título tem três passos: (1) os ritos preparatórios; (2) como fazer a parte principal da sessão; (3) o que fazer na ultima parte da sessão. É errado dar pouca atenção aos preparativos. Se quiser fazer uma boa xícara de chá, por exemplo, você deve levar a sério o ato de comprar chá. De forma semelhante, se quiser desenvolver experiências religiosas durante a parte principal da sessão de meditação, antes você deve fazer corretamente os ritos preparatórios.

1) OS RITOS PREPARATÓRIOS

São seis: (1) limpar o quarto e arrumar os símbolos do corpo, palavra e mente iluminados; (2) obter oferecimentos honestamente e arrumá-los harmoniosamente; (3) adotar a posição de sete-pontos de Vairochana, sentado num assento confortável, e depois tomar refúgio, desenvolver a bodhicitta, etc., com um estado mental especialmente virtuoso; (4) fazer súplicas ao campo de mérito; (5) oferecer a oração de sete ramos e mandala – práticas que contém todos os pontos-chaves para acumular [méritos] e auto- purificação; (6) outras súplicas feitas, segundo as instruções orais, para assegurar que seu contínuo mental foi adequadamente impregnado [pelas suas meditações].

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(A)

PALAVRA E MENTE ILUMINADOS

LIMPAR

O

QUARTO

E

ARRUMAR

OS

SÍMBOLOS

DO

CORPO,

Guru Suvardnavipi, segundo sua biografia, costumava limpar seu próprio quarto. A origem desta prática é um sutra que afirma: “O Bodhisattva senta de pernas cruzadas num ambiente limpo.” A razão de limpar o seu quarto e a seguinte. Se seu guru ou alguma autoridade lhe fizesse uma visita, você faria uma boa limpeza, não é? Similarmente, quando convida seu guru, os Vitoriosos e seus Filhos ao seu quarto [durante a meditação], você deve limpá-lo em seu respeito. Não haverá benefício algum se o fizer com a mesma motivação dos faxineiros leigos de Potala, Sera ou Drepung, por exemplo, porque eles fazem seus trabalhos pelas suas próprias felicidades, ou para impressionar os outros. Ao contrário, você deve sentir que está fazendo-o em respeito ao campo de mérito, que convidará ao seu quarto como prelúdio de um tópico de meditação específico do Lam-rim; você estará meditando para alcançar a Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes. E muito benéfico pensar assim. Um sutra fala de cinco benefícios: a sua mente fica clara, as mentes dos outros ficam claras, agrada os deuses, acumula-se karma para ser belo, e quando deixar este corpo renascerá nos reinos celestiais. Meu próprio precioso guru disse-me que os deuses que sustentam a virtude estão constantemente visitando os reinos humanos e protegendo quem pratica o Dharma corretamente. Mas não limpar seu quarto desencoraja-os e eles não podem oferecer proteção, porque evitam coisas que não estejam limpas. Limpar seu quarto agrada o seu guru, os Budas e assim por diante, e não apenas os deuses que sustentam a virtude. Você acumula karma para ser belo. Isto se refere não só à beleza física, mas também será causa de ter uma ética pura. Ética pura não faz o corpo bonito, mas é algo muito belo para a percepção dos Budas e seus Filhos. Como disse Tsongkapa:

Os perspicazes se vestem com a modéstia:

Isto e ética – e não cetins finos. A eloquência adorna suas gargantas – e não um colar. Seu guru e sua jóia suprema – e não uma pedra qualquer.

Dizem que renasceremos nos reinos celestiais, mas devemos considerar isto como sendo, acima de tudo, os campos búdicos. Arya Chudapanthaka alcançou o estado de arhat limpando o quarto. Vou contar rapidamente a sua estória.

Na cidade de Shravasti, houve certa vez um brâmane. Todos os seus filhos morreram

ao

nascer. Uma das velhas da vizinhança disse-lhe, “Se tiver um outro filho, me chame.”

O

brâmane teve outro filho, então chamou a mulher. Ela disse-lhe para lavar o bebê,

envolvê-lo em tecido branco, encher sua boca com manteiga e entregá-lo a uma menina

82

para cuidar. O brâmane foi instruído a dizer à menina para levar o bebê a uma certa encruzilhada onde quatro estradas se encontravam. Ela deveria render respeito a qualquer homem santo ou brâmane que passasse, dizendo-lhes, “Este bebê rende homenagem aos seus nobres pés.” Se o bebê sobrevivesse, ela deveria voltar com ele ao entardecer; se morresse, ela deveria abandoná-lo.

A menina foi conscienciosa e passou o dia na grande encruzilhada. Primeiro alguns

sacerdotes Tirtikas passaram, e a menina seguiu as ordens da velha senhora. Os sacerdotes disseram, “Que esta criança sobreviva, que sua vida seja longa, e os desejos de seus pais se realizem.” Mais tarde passaram alguns monges, que disseram quase a mesma coisa. A menina então levou a criança até a estrada do Bosque Jetavana. Ela encontrou Buda em sua ronda de esmola, e fez o mesmo que antes. Buda disse o mesmo que os outros, acrescentando, “Que seus pais tenham todos seus desejos do Dharma satisfeitos.” Ao entardecer, a menina viu que o bebê ainda vivia, então levou-o de volta para casa.

O bebê recebeu o nome de Mahapanthaka [Grande Estrada], porque havia sido levado à estrada. Mahapanthaka cresceu e tornou-se um sábio em todos os ramos do saber védico. Ele ensinou os ensinamentos esotéricos a cem meninos brâmanes.

O brâmane teve outro filho, e novamente chamou a anciã. A mesma rotina se repetiu,

mas desta vez o bebê ficou com uma menina preguiçosa que só levou o bebê até uma pequena viela. Nenhum homem santo ou brâmane passou por lá. O Buda, que constantemente olha por todos os seres, noite e dia, sabia que ninguém passaria na viela, então foi ate lá. A menina rezou para ele, e ele respondeu com as mesmas palavras que antes. Mais tarde, ela viu que a criança ainda estava viva e levou-a para casa. Ele foi chamado de Chudapanthaka [Pequena Estrada]. Quando cresceu, tentou aprender a ler.

Ele precisava aprender palavras como siddham, mas quando lia a sílaba sid se esquecia do dham. Quando conseguia lembrar-se do dham, havia se esquecido do sid. O mestre de Chuda disse a seu pai, o brâmane, “Preciso ensinar muitos outros meninos brâmanes. Não posso ensinar este menino.” Chudapanthaka foi enviado a um declamador profissional dos Vedas para ler. Primeiro ele estudou a palavra om blu. Quando aprendia o om, se esquecia do blu. Quando aprendia o blu, se esquecia do om. Isto levou seu mestre ao desespero. O mestre disse ao pai do menino, “Seu outro filho Mahapanthaka compreende com um mínimo de instrução, mas eu não posso ensinar a este – tenho que ensinar a outros meninos.” Então o nome Chudapanthaka passou a significar “lerdo”, “o mais lerdos dos lerdos”, “pequeno” e “o menor dos pequenos.” Depois os pais dos dois Panthakas morreram. Mahapanthaka tornou-se budista e monge. Ele tornou-se um estudioso das três cestas e um Arhat. A herança de Chudapanthaka acabou e ele foi ao encontro de seu irmão mais velho. Mahapanthaka examinou seu irmão para ver se ele tinha algum potencial para o Dharma. Maha descobriu que ele mesmo poderia desenvolver o potencial do irmão e então ordenou Chuda. Chuda passou os próximos três meses tentando aprender este verso:

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Não deixe seu corpo, palavra ou mente pecar. Fique livre do desejo que aflige todo mundano Tenha memória, esteja vigilante; Evite tudo que prejudica, e qualquer sofrimento.

Os vaqueiros da redondeza ouviram o verso e até eles conseguiram aprender, mas Chuda não conseguia. Um dia Arya Mahapanthaka pensou, “Como posso domar Chuda? Devo elogiá-lo ou insultá-lo?” Ele percebeu que insultá-lo seria mais efetivo, então repreendeu Chuda, agarrou-o pelo colarinho e levou-o até o Bosque Jetavana. Maha disse, “Você é o mais lerdo dos lerdos. Não sei porque fui ordená-lo. Fique aqui!” Chuda pensou para si, “Agora já não sou um asceta. Nem mesmo sou mais um brâmane,” e chorou. Buda, o nosso Mestre, foi até ele movido por grande compaixão. “Panthaka, porque esta chorando?” perguntou Buda. “Meu abade me insultou.”

Buda disse:

Qualquer coisa louvado pelos chulos

É depreciado pelos sábios,

É melhor ser depreciado por um sábio

Do que ser louvado por um chulo.

“Meu filho, o seu abade não suportou tantas dificuldades durante três incontáveis eons para completar as seis perfeições. Ele não compôs um verso para você – eu, sim. Não poderá o Tatagatha ensinar-lhe e ler?” "Oh, monge," disse Chudapanthaka, "Eu sou o mais lerdos dos lerdos, o menor dos menores. Como poderia aprender a ler?" Buda, nosso Mestre, respondeu:

O

chulo que sabe que é um chulo

É

verdadeiramente um sábio

O

chulo que se orgulha de sua erudição

É

o maior chulo de todos.

Buda então deu as seguintes palavras para Pathanka memorizar: “Abandone a sujeira, abandone as máculas.” Mas novamente isto foi demais para Chudapanthaka. O Bhagavan Buda então pensou, “Vou purificá-lo deste seu karma.” “Panthaka, você pode engraxar as sandálias dos monges?” perguntou Buda. Chuda respondeu, “Oh sim, monge, eu posso.”

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“Então engraxe as sandálias e os sapatos dos monges,” disse o Buda. “Vocês monges devem deixá-lo fazer isto para que ele possa purificar o seu karma. Vocês devem recitar estas palavras para que eventualmente ele acabe aprendendo.” Então, quando Chuda havia aprendido esta segunda recitação, o Buda disse-lhe, “Você não precisa mais engraxar as sandálias. Faça a segunda recitação enquanto varre o templo.” Agora que Chuda tinha recebido a tarefa de varrer o templo, ele desenvolveu perseverança enquanto varria. Mas quando acabava de varrer o lado direito, o lado esquerdo já tinha ficado sujo, e quando acabava de varrer o lado esquerdo, o lado direito já estava novamente sujo. Isto acontecia pelo poder do Buda. Mesmo assim, Panthaka persistiu, e seu karma e obscurecimentos foram purificados. Então, teve o pensamento, “Quando o Mestre disse, ‘Abandone a sujeira, abandone as máculas,’ será que ele estava se referindo à sujeira interna ou externa?" Então, surgiu em sua mente três versos que ele nunca ouvira antes:

Aqui, “sujeira” é apego, não sujeira. “Sujeira” é um nome para apego, não sujeira. Os sábios rejeitam este tipo de sujeira. Eles seguem escrupulosamente os ensinamentos do Sugata.

Aqui “sujeira” é hostilidade, não sujeira “Sujeira” é um nome para a hostilidade, não sujeira. Os sábios rejeitam este tipo de sujeira. Eles seguem escrupulosamente os ensinamentos do Sugata.

Aqui “sujeira” é ignorância profunda, não sujeira

E assim por diante. Ele tentou compreender estes versos e através de suas meditações alcançou o estado de arhat. Aliás, é assim que os versos aparecem no sutra. Os textos dos ritos preparatórios, e a tradição oral dos gurus, dão a seguinte versão para os versos:

“Sujeira” não é a sujeira do chão:

É a sujeira do apego.

Em termos de prática, isto é mais fácil de compreender. Mas ainda assim, é melhor consultar a versão original. Buda então anunciou a todos as boas qualidades de Panthaka dizendo, “Ananda, vá e diga a Panthaka, ‘Você deve ensinar o Dharma às monjas.’ e também diga às monjas, ‘O seu mestre agora é Panthaka.’” Panthaka compreendeu que Buda estava agora anunciado suas boas qualidades, então prometeu cumprir o que lhe foi pedido.

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As monjas ficaram espantadas com a notícia e disseram, “Vejam como estão rindo de nós mulheres! Ele não conseguia aprender nem mesmo um único verso em três meses. Como poderia ensinar a nós, que sustentamos os três cestos?” Mais tarde algumas delas disseram, “Vamos fazer algo para não termos que agüentar esse ignorante.” Doze monjas se reuniram. Algumas construíram um trono extremamente alto, mas sem escadas. Outras foram até à grande cidade de Shravasti e anunciaram a seus habitantes, “Amanhã nosso mestre estará nos visitando. Ele é um dos maiores Shravakas. Vamos ouvir o seu Dharma. Quem ainda não viu a verdade [ou seja, quem não alcançou o caminho da visão] deve vir e ouvi-lo para que não fiquem vagando longamente no samsara.” Centenas de milhares de pessoas foram ao ensinamento. Alguns foram buscando diversão, outros na esperança de acumular virtudes raiz. Naquele dia Panthaka saiu para esmolar. Depois, liderou os outros monges, depois de terem saído do estado de absorção meditativa, até a casa de retiro de monção das monjas onde iria ensinar o Dharma. Assim que se aproximou do trono, viu que era muito alto. E pensou, “Ou elas tem muita fé em mim, ou estão me testando.” Ele entrou em absorção meditativa por um instante, e viu que estavam testando-lhe. Ele esticou seus braços, como um elefante estica a tromba, e puxou o trono para baixo. Algumas pessoas viram isto e outras não. Ele se sentou no trono e novamente entrou em absorção meditativa. Do trono, Panthaka subiu até o céu e produziu os quatro tipos de emanações milagrosas em cada um dos quatro pontos cardeais do compasso. Estas voltaram e se absorveram nele, e agora o seu trono passou a ser sustentado por leões. “Irmãs,” ele começou, “eu demorei três meses para aprender um único verso. Agora, durante os próximos sete dias e noites, vou explicar o seu significado. O Baghavan disse, ‘Não deixe seu corpo, palavra ou mente pecar.’ Ele estava nos ensinando a abandonar as dez não-virtudes. Quando ele disse, ‘todo mundano,’ ele se referia aos cinco agregados. A palavra ‘aflige’ refere-se ao apego, hostilidade e profunda ignorância que aflige estes agregados ” Ele só ensinou detalhadamente o significado da primeira metade deste verso, e mesmo assim doze mil seres chegaram a ver a verdade [suprema]. Outros manifestaram um dos quatro tipos de resultados [tornando-se O-Que-Entrou-na-Corrente, O-Que- Retorna-Uma-Vez, O-Que-Não-Mais-Retorna, ou um Arhat]. Algumas pessoas tornaram- se Shravakas, outras Pratyekabuddhas, e ainda outras entraram no Mahayana; cada uma desenvolveu o desejo de conseguir seu tipo específico de iluminação [como um Arhat Mahayana ou Hinayana]. A maioria dos presentes desenvolveu fé nas Três Jóias. Quando Panthaka voltou mais tarde ao Bosque Jetavana, o Mestre Buda declarou, “Entre meus Shravakas, Panthaka e o mais hábil em converter pessoas.” Portanto, é errado sentir, “A meditação tem mais valor; ações como varrer tem pouco valor.” Mesmo Anathapindika [o homem que doou o Bosque Jetavana à Sangha] costumava aparecer todos os dias para varrer o bosque. Um dia ele estava muito ocupado para ir, e como não havia mais ninguém para varrer em seu lugar, o próprio Buda – como relatam os sutras – segurou uma vassoura comum em suas mãos douradas e varreu o

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bosque. Meu próprio precioso guru costumava me dizer que as várias reencarnações do onisciente Dalai Lama tinha o hábito de praticar os ritos preparatórios. De tanto varrer, eles gastavam suas vassouras e não sobravam pelos – as vassouras pareciam rabos de asnos. Muitas delas foram preservadas com fitas amarelas amarradas nos cabos para mostrar que certa vez foram propriedades do Dalai Lama. Isto é um detalhe biográfico muito importante; demonstra que principiantes como nos devemos levar estas coisas a sério. É melhor varrer seu quarto antes de cada sessão de meditação, quer o quarto precise ou não. No mínimo, deve varrer seu quarto todos os dias. De qualquer forma, a sua motivação deve ser a que expliquei acima. Imagine que está varrendo para fora as máculas obscurecendo os contínuos-mentais dos outros seres sencientes e o seu. Imagine que as varridas da vassoura estão aperfeiçoando, amadurecendo, e purificando, fazendo com que seu quarto seja purificado num campo búdico. Você deve recitar algo enquanto varre, assim como Chudapanthaka feza. Você pode dizer, “Abandone a sujeira, abandone as máculas,” ou melhor ainda:

Aqui, “sujeira” é apego, não sujeira. “Sujeira” é um nome para apego, não sujeira. Os sábios rejeitam este tipo de sujeira. Eles seguem escrupulosamente os ensinamentos do Sugata.

Repita o verso, substituindo “apego” por “hostilidade” e “ignorância profunda.” Quando tiver se especializando nas práticas relacionadas à sua devoção a um guia espiritual, o verso passa a ser: “Aqui, ”

Na realidade, você pode fazer a sujeira representar

qualquer coisa – até o aferramento dualista. Você deve saber como modificar a recitação para se adequar à prática específica que na ocasião estiver fazendo. Se estiver muito velho ou doente para varrer, peça a um de seus discípulos para fazê- lo; enquanto ele varre, recite os versos e faça as visualizações. A profundidade de sua motivação também fará uma enorme diferença no benefício que você consegue com cada golpe da vassoura. Você deve colocar quatro pedras fora de seu quarto e imaginar que elas são os quatro maharajas. 25 Ou pode visualizar uma pedra como sendo os quatro mahajaras. Você pode até visualizar a pedra como sendo Vaishravana sozinho. Dizem que é muito importante fazer estas visualizações porque você não terá nenhum impedimento e sua ética será pura. Se viver em um grande mosteiro, talvez não seja conveniente colocar pedras do lado de

‘sujeira’ é falta de fé, não sujeira

25 Marcadores de pequenas pedras, palhas colocadas num jarro ou imagens tsa-tsa de argila, são normalmente colocadas do lado de fora de uma sala de retiro para marcar as fronteiras do retiro, a menos que esteja sendo conduzida dentro de um mosteiro. Neste caso, não é possível colocar um marcador na verdadeira fronteira do retiro, então coloca-se no parapeito na janela da cabana. Para um retiro de Lam-rim, estes marcadores são visualizados como os quatro maharajas, os guardiãos das quatro direções cardeais de cada sistema-mundial, para afastar interferências. Quando apenas um marcador é usado, ele é visualizado como Vaishravana, o protetor do Leste e também da ética e riqueza material.

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fora de seu quarto. Neste caso, visualize as paredes externas de seu quarto como os maharajas; esta tradição oral específica vem de Purchog Ngagwang Jampa. Vamos agora ver como os símbolos do corpo, palavra e mente iluminados são arrumados. O guru, a deidade de meditação, etc., devem seguir a mesma ordem da visualização do campo de mérito [Dia Cinco]. Mas você pode se afastar um pouco desta ordem se eles não couberem no altar. Algumas pessoas pensam que é mais efetivo rezar aos protetores do Dharma, espíritos-reis, espíritos de poder e coisas assim; e dão a eles uma posição mais proeminente do que a estátua de Buda. Já vi isto várias vezes. Isto é sinal de que estas pessoas não tomaram refúgio adequado: o ato de tomar refúgio não está dentro de seus contínuos-mentais. Algumas pessoas dão o lugar principal a qualquer estátua feita de ouro, prata ou bronze; mas colocam as estátuas de argila no fim da fila. Isto é um sinal que só consideram estas figuras como pedaços de propriedade. Também não é correto arrumar as pinturas religiosas segundo a antigüidade. Algumas pessoas até penduram suas pinturas nas cortinas que usam como porta. Como poderia isto estar certo? Há pessoas que dormem com os pés apontando para as imagens de Budas e Bodhisattvas. Isto é muito desrespeitoso – um claro sinal de que não tomaram refúgio. Outros tratam estátuas, pinturas, etc. velhas e esfarrapadas como sujeira, abandonando-as em algum santuário à beira de estrada. Dizem que isto é como tirar seus méritos de dentro de sua casa. Você deve considerar estas estátuas e imagens como se realmente fossem aquele Buda ou Bodhisattva específico. Talvez não tenha muitos destes símbolos de corpo, palavra e mente iluminados, mas para simbolizar o corpo iluminado, você deve usar definitivamente a imagem de nosso Mestre, o Buda, para se lembrar dele, bem como uma imagem de Je Rinpoche para se lembrar de seu guru. Um pequeno sutra ou cópia do Lam-rim serve como símbolo da palavra iluminada. Um “tsa-tsa” [pequeno cone de argila formando uma stupa] servirá para simbolizar a mente iluminada. Se tiver um vajra e sino, eles poderiam simbolizar a mente iluminada. Algumas pessoas parecem considerar vajra e sino apenas como implementos simbólicos manuseados por deidades; na realidade eles representam a mente iluminada. E um grave ato subvalorizar seu vajra e sino. Você não precisa arrumar seu altar todos os dias, mas deve considerar as imagens em seu altar como verdadeiras quando olhá-las. É errado sentir que você já viu as imagens em seu quarto tantas vezes que já se cansou delas. Todas as vezes que vê-las durante o dia, você é inundado de instintos extraordinariamente fortes. Dizem que é dezesseis vezes mais benéfico olhar uma representação do Buda do que olhar a figura verdadeira. Como está dito no Sutra do Lótus Branco:

Se alguém olha a imagem do Sugata numa parede [Mesmo] estando num estado mental de raiva, Eventualmente chegará a ver dez milhões de Budas.

Na realidade o sutra diz, “Se alguém faz oferecimento à imagem do Sugata

88

”;

a

versão que citei segue a tradição oral. Se nos dizem que é benéfico olhar a imagem do Buda quando estamos com raiva, pense nos benefícios que recebemos olhando-as com fé! Arya Shariputra era um dos dois principais discípulos de Buda e estava constantemente ao seu lado. Isto é considerado como resultado de uma ação feita numa vida passada: ele olhou um desenho do Buda e ficou maravilhado. Arya Shariputra era um mensageiro naquela vida passada. Certa noite viu um templo

e entrou. Ele acendeu uma lamparina bem brilhante e começou a consertar suas botas

enquanto descansava. Ele viu o mural do Tathagata na parede oposta, e pensou, “Que ser maravilhoso! Eu gostaria muito de encontrá-lo pessoalmente.” Ele fez orações silenciosas

e dizem que, como resultado, tornou-se um dos principais discípulos do Buda. Agora vemos Budas feitos de argila, bronze, etc., mas quando tivermos a concentração uni-focada chamada “a corrente do Dharma,” veremos nirmanakayas supremos [corpos de emanação]. E quando alcançarmos o primeiro dos dez níveis de Bodhisattva, encontraremos os sambhogakayas [corpos de utilidade]. E por isso é importante manter a atitude de que as estátuas de Budas são Budas verdadeiros.

(B)

HARMONIOSAMENTE

OBTER

OFERECIMENTOS

HONESTAMENTE

E

ARRUMÁ-LOS

Aqui, “honestamente” se refere a uma ausência de duas coisas: Falsidade com respeito aos objetos sendo oferecidos e motivos falsos. “Falsidade com respeito aos objetos sendo oferecidos” significa que alguma ação

errada foi cometida para obter o oferecimento. Isto é, ou uma pessoa ordenada conseguiu

o objeto por meio dos cinco meios de vida errado, ou uma pessoa leiga obteve-o por meio

de tirar a vida, negociatas ou algum outro meio nocivo. É melhor não fazer um oferecimento de tais objetos. A palavra em sânscrito para “oferecimento” e “puja”, que tem a conotação de “agradar.” Então, o oferecimento que fizer deve agradar os Vitoriosos e Seus Filhos. Como poderia agradá-los oferecendo este tipo de coisa? Mesmo assim, se já tiver obtido oferecimentos das maneiras descritas acima, é bom oferecê-las como meio de purificar a ação negativa que naturalmente seguiu

o ato de adquirir estes bens. Os cinco meios de vida errôneos são: bajulação, insinuação, dar para receber, pressionar os outros, mostrar o melhor comportamento. “Bajulação” é o seguinte: Você elogia seu benfeitor, por exemplo, na esperança de receber algo em troca. Se ele realmente lhe der algo, o ato de bajulação tornou-se um meio de vida errado. Mas, se elogiar alguém sinceramente e sem a motivação acima, não

é um meio de vida errado, mesmo se receber alguma coisa dele. “Insinuação” é contar ao seu benfeitor coisas como: “Eu tenho chá e manteiga no momento, mas não tenho muitos grãos,” com a esperança de conseguir um presente. Ou você pode dizer, “A farinha de centeio que me deu no ano passado foi uma ajuda enorme.” Em outras palavras, você está insinuando que quer grãos ou farinha de cevada. Mas, se falar destas coisas com toda honestidade e sem qualquer motivação de receber

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um presente, então não será “insinuação.” “Dar para receber,” é dar alguma bagatela para receber algo melhor. Por exemplo, você pode levar ao seu benfeitor um lenço cerimonial ou um pote de chá, ou qualquer outra coisa, para que ele o recompense ou faça um oferecimento ao seu mosteiro em seu nome. Em outras palavras, você usou o presente como meio de conseguir algo melhor. Atualmente chamamos isto de “mordendo a isca.” Hoje em dia as pessoas estão bem espertas em cometer este tipo de meio de vida errado. Mas, presentear seus benfeitores sinceramente e sem esta motivação, não é um meio de vida errado – mesmo se eles o recompensar. “Pressionar os outros” significa importunar alguém por algo que ele não quer dar, ou fazer alguém dar-lhe algo que iria dar a outra pessoa. Ou, você poderia dizer coisas como, "Meu benfeitor fulano-de-tal me deu chá e manteiga realmente bons.” Mas se disser estas coisas sinceramente, sem a intenção de receber presentes, não é meio de vida errado de “pressionar os outros.” “Mostrar o melhor comportamento,” significa fazer o que gosta na privacidade de seu quarto, mas agindo, na frente de seus benfeitores, como um bom monge que observa todas as normas, com a esperança de receber algo por causa de seu comportamento disciplinado. Mas meu próprio precioso lama, meu refúgio e protetor, me disse que se não tiver estas intenções, mas sentir que “Não seria correto perturbar esta pessoa leiga,” e comportar-se como um bom monge – contrastando com a maneira com que se comporta em casa – você não esta “mostrando o seu melhor comportamento.” Um outro ponto: se pessoas ordenadas, como nós, quebrarem as restrições relativas aos três tipos de votos que tomamos e obterem ganhos materiais pela venda de coisas, sofreremos conseqüências pesadas se usarmos estes materiais nos oferecimentos. “Motivos falsos” sifnifica fazer oferecimentos movido pelo desejo de fama ou para impressionar os outros. Em outras palavras, as ações são influenciadas por más motivações. Como disse Drogen Rinpoche: “Até os oferecimentos que faz às Três Jóias só são feitos para serem vistos pelos outros.” Em outras palavras, todo oferecimento que fazemos é feito com o desejo de fama, auto-progresso, e coisas assim. Caímos novamente nas oito preocupações mundanas. Certamente é melhor fazer oferecimentos com a motivação de simplesmente querer uma vida longa ou ficar livre de doença. Algumas pessoas dizem que estão fazendo oferecimentos a Sangha motivadas por profundo respeito pela Sangha, e não na esperança de receber méritos. Na realidade, estão fazendo- o principalmente por reputação. Se estivesse esperando alguém em sua casa hoje, você varreria com mais cuidado e colocaria mais oferecimentos em seu altar do que normalmente faz. Você não ofereceria só uma lamparina, e encheria a casa com incenso aromático. Mas é difícil dizer se você só está querendo impressionar a sua visita, ou se o oferecimento vai lhe beneficiar ou prejudicar. Geshe Ben Gungyel soube que um benfeitor vinha visitá-lo. Geshe Ben arrumou os melhores oferecimentos que conseguiu encontrar para oferecer às Três Jóias. Depois, sentou em sua almofada de meditação e examinou sua motivação. Ele viu que havia feito o oferecimento para impressionar seu benfeitor. Então, pulou de seu assento e

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jogou cinzas em cima de todo o oferecimento, dizendo, “Oh monge! Não tente enganar- se!” E deixou os oferecimentos cobertos de cinzas. Padampa Sangye ouviu isso enquanto estava em Langkor, no Alto Dingri, e em louvor disse que, de todos os oferecimentos feitos no Tibet, o mais nobre era de Ben Gungyel. As pessoas perguntaram porque isto era assim. Padampa respondeu que o geshe havia conseguido encher de cinzas a boca das oito preocupações mundanas. Padampa estava extremamente feliz, mas obviamente não estava elogiando os oferecimentos que Geshe Ben havia feito originalmente. Ele estava louvando o ato de cobrí-los com cinzas! Então e muito importante fazer um oferecimento junto com bodhicitta. Não faça as oito preocupações mundanas a sua motivação, nem faça oferecimentos para conseguir um renascimento superior, a excelência definitiva [da liberação], e coisas assim. Nos dizem para “arrumá-los harmoniosamente.” Algumas pessoas podem pensar, “Eu não quero impressionar os outros,” e podem arrumar seus oferecimentos de qualquer jeito. Você não deve fazer isto: deve se esforçar para arrumá-los da forma mais bonita possível. Nos dizem que arrumar belamente seu altar agirá como causa para as marcas e sinais de um Buda quando se iluminar. Você mesmo deve colocar os oferecimentos; se mandar seus discípulos ou empregados arrumar os oferecimentos, você não receberá nenhum dos méritos. Quando Atisha estava extremamente doente, ele mesmo oferecia as tigelas de água embora suas pernas estivessem sem firmeza. As pessoas diziam-lhe “Oh, Atisha, isso é demais para você. Nós podemos fazer isto por você.” A resposta de Atisha era, “Então, quando eu como você não deveria me dizer, ‘Oh Atisha, isto e muito difícil,’ e comer a minha porção de comida por mim?” Quando os Dharmarajas da Índia antiga praticavam grandes atos de generosidade, eles não mandavam algum ministro ou outra autoridade distribuir os presentes. Mas, o rajá construía um pavilhão e se sentava dentro dele cercado por pilhas de jóias para distribuição, que ele mesmo pessoalmente entregava. Isto era chamado de “prática extraordinária de generosidade.” Então é muito importante colocarmos os oferecimentos com nossas próprias mãos. Você também deve oferecer a primeira porção de sua comida – mas apenas a melhor parte; você não deve oferecer legumes murchos ou, caso seja rico, a parte bolorenta de seu tue [um doce tibetano]. Temos a tendência de guardar a melhor manteiga e farinha de cevada para nosso próprio uso, e deixar de lado a pior parte dizendo, “Isto é para os oferecimentos!” Isto não seria igual a varrer nossos méritos? Mesmo assim, lamparinas de manteiga são oferecimentos de luzes e não de manteiga derretida, então alegam que não tem problema oferecer manteiga um pouco rançosa. Não é preciso sentir-se intimidado com tudo isso se você for pobre. Tendo abandonado levar uma vida normal pode levá-lo a pensar que não tem nada a oferecer. Mas se sua fé for forte o bastante, você também poderá fazer oferecimentos, mesmo se não tiver nada que possa dar. Como disse o grande Atisha:

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A água no Tibet tem oito propriedades, então basta oferecer tigelas de água no Tibet. Se existisse na Índia algumas destas flores silvestres, as pessoas dariam ouro por elas.

Então, você pode não ter nada a oferecer, mas ainda pode ter grande força atrás de sua acumulação de méritos se só oferecer tigelas d’água. Agora discutirei estas oito propriedades da água. Seguirei as explicações de meu próprio e precioso guru sobre os benefícios karmicos que se ganha de cada uma destas oito propriedades. Em O Comentário ao Tesouro de Metafísica de Vasubandhu, de Jampelyang, estas oito propriedades são explicadas:

Fresca, deliciosa, leve, e suave, Clara, sem odor, fácil para a garganta, E boa para o estômago é a água Com as oito propriedades.

Os oito benefícios [karmicos] correspondentes são os seguintes. Sua ética será pura porque a água oferecida é fresca. Por ser deliciosa, você apreciará os alimentos mais deliciosos. A leveza da água significa que sua mente e corpo ficarão em forma. A suavidade da água resulta num contínuo-mental gentil. Uma mente clara resulta da clareza da água. Sua ausência de odor purificará seus obscurecimentos [kármicos]. Como a água não fere o estômago, seu corpo estará livre de doenças. Ser fácil para a garganta significa que você terá voz agradável. Quando Drubkang Geleg Gyatso entrou pela primeira vez numa casa de retiros do Mosteiro Sera Je, ele tinha muitos poucos pertences e mantimentos. Ele nem mesmo tinha um conjunto de tigelas para seus oferecimentos de água. Para fazer o oferecimento, ele tinha de dar uma boa lavada em sua tigela de comida e então colocar o seu oferecimento de água dentro. Se quisesse beber chá, primeiro pedia licença às Três Jóias para pegar a tigela emprestada. Ele usava a tigela e quando acabava de tomar seu chá, lavava novamente a tigela e fazia outro oferecimento de água. Você pode oferecer mentalmente qualquer coisa. Pode ser flores de verão, frutas, água clara e fresca, e coisas assim. Meu próprio precioso guru me disse, “Você pode também consagrar os oferecimentos recitando o mantra para aumentar os oferecimentos [Dia Cinco] e depois dedicar a virtude. Busque detalhes na biografia de Tridagpo Tsepel.” De qualquer forma, a sua fé e o principal fator – não o que você esta oferecendo. Alguns podem pensar que basta oferecer água, flores, etc. 26 , o que pode levá-los a pensar se poderiam reservar as coisas realmente valiosas para seus próprios fins. Tais pensamentos poderiam causar seu renascimento como fantasma faminto. Você deve oferecer o melhor do que tiver. Alguns monges comuns que renunciaram a todo trabalho mundano podem pensar,

26 N.T. - Aqui ele se refere aos oferecimentos tradicionais que são: água de lavar, agua de beber, flores, incenso, luzes, perfume, comida e música.

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“Eu não devo fazer oferecimentos materiais. Dizem que seres ordenados devem se concentrar em oferecer o que conseguiram realizar através de suas práticas [meditativas]. Basta eu fazer este tipo de oferecimento.” Mas se este pensamento levá-lo a nunca fazer qualquer oferecimento material, então em renascimentos após renascimentos, você nem mesmo terá pequenas coisas para oferecer! Se tudo o que tiver a oferecer for pequeninos bolos rituais e meio bastão de incenso, não subestime o seu valor. Você aumentará os seus méritos se oferecê-los. Mais tarde este mérito lhe trará bens materiais para fazer oferecimentos mais grandiosos. Isto é ilustrado pela vida de Geshe Puchungwa. Como o próprio Geshe Puchungwa disse:

No início eu só queimava genciana como incenso; Eu ofereci tanto, que faziam meus olhos lacrimejar. Mais tarde eu tinha incenso de aroma doce feito dos quatro ingredientes. Atualmente, eu ofereço a fragrância de myrobalan, duraka e coisas assim.

De fato, certa vez ele ofereceu incenso que valia vinte e duas moedas de ouro. Mesmo assim, alguns podem alegar, “Geshe Puchung era um ser realizado que se devotou inteiramente à meditação. Não espere conseguir a iluminação de tais atos externos.” Uma alegação destas demonstra como estão pouco familiarizados com o Dharma. Você deve pensar que os Bodhisattvas que alcançaram um dos dez níveis fazem oferecimentos aos Vitoriosos durante eons, por meio de centenas de milhares de corpos de emanação, cada um com centenas e ate milhares de braços. Certamente você deve fazer o maior número de oferecimentos que puder. Agora, segue um pouco sobre como fazer oferecimentos. Vamos fazer oferecimentos de tigelas de água, por exemplo. Você deve limpar bem as tigelas. Deve colocar as tigelas em uma linha reta. Elas não devem estar muito afastadas umas das outras, porque isto pode resultar em você se separar de seu guru. Se estiverem muito juntas e se tocarem, você poderá se tornar lento de inteligência. Se colocar as tigelas fazendo muito barulho, poderá ficar louco, e coisas assim. Evite fazer estes tipos de coisas. Se colocar as tigelas enquanto ainda estiverem vazias, os seus méritos diminuirão. Você deve segurar a pilha de tigelas em sua mão e despejar um pouco de água na tigela de cima. 27 Consagre isto com as três sílabas om ah hum. Despeje quase toda a água na tigela seguinte, deixando só um pouco na primeira tigela. Coloque a primeira tigela no altar e continue este processo com todas as tigelas. Assim, não estará colocando tigelas vazias no altar. Depois acabe de encher as tigelas do altar, evitando segurar o jarro de água só com uma mão, pois isto é considerado desrespeitoso. Você deve agir como se estivesse servindo chá a um maharaja. Um grão de cevada é grosso no meio e fino em ambas pontas; e assim que deve despejar a água [isto é, no início um pouco, depois bastante, e depois ir afilando]. Se

27 N.T. As tigelas tibetanas próprias para oferecimentos se encaixam uma dentro da outra, cabendo todas elas fácilmente empilhadas na palma da mão.

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deixar a água transbordar, pode resultar que a sua ética fique frouxa, mas se as tigelas forem enchidas insuficientemente, o seu padrão de vida pode declinar. A superfície da água deve estar abaixo do nível da borda das tigelas em uma distância igual a espessura do grão de cevada. Lamparinas de manteiga são oferecimentos de luzes, então elas devem ter uma chama com muita luz. Dizem que devem queimar o máximo possível, porque isto e um gesto auspicioso para ter uma vida longa. Você deve decidir por si mesmo como oferecer as outras coisas, como flores. Os sutras dizem que cada oferecimento que fizer tem dez vantagens.

(C) NUM ASSENTO CONFORTÁVEL, ADOTAR A POSIÇÃO SENTADA DE OITO-PONTOS – OU A POSIÇÃO MAIS CONFORTÁVEL – ENTÃO, TOMAR REFÚGIO, DESENVOLVER A BODHICITTA, ETC., COM ESTADO MENTAL ESPECIALMENTE VIRTUOSO, CERTIFICANDO-SE QUE ESTAS PRÁTICAS INUNDAM ADEQUADAMENTE O SEU CONTÍNUO-MENTAL

A parte traseira de sua almofada de meditação deve ser ligeiramente mais alta. Isto

tem um significado tântrico profundo; e também evitará dores em suas nádegas quando se sentar em meditação por longos períodos. Debaixo do tapete de sua almofada, você deve desenhar, com giz branco, uma suástica no sentido dos ponteiros do relógio. A suástica significa a cruz vajra e deve recordá-lo da passagem da vida de Buda quando ele sentou no trono vajra [em Bodhgaya]. Simboliza também que a sua prática ficará firme. Mas, não é correto sentar em uma cruz vajra verdadeira, já que é um dos implementos simbólicos que as deidades

tutelares seguram. Coloque capim durva [um capim longo com muitos segmentos] e capim kusha sobre a suástica. Mais uma vez, a fonte desta prática é a vida de Buda. O capim durva aumenta o seu tempo de vida. Está dito nos sutras: “Durva aumenta o tempo ”

Ou seja, a sua vida aumenta ao sentar-se nele. E, também, “Kusha é limpo e

de vida

virtuoso.” Em outras palavras, kusha é uma substância que elimina a poluição e a sujeira. 28 Quando os brâmanes indianos recebiam uma poluição de casta, eles passavam a noite num monte de capim kusha. Espalhe o kusha debaixo de seu assento para eliminar

estas coisas.

A “postura de oito pontos” mencionada no título acima, se refere à postura de sete

pontos de Vairochana, sendo o oitavo ponto o ato de contar a sua respiração. Gyalwa Ensapa disse:

As pernas, mãos e costas são três, Que são levados a quatro pelos dentes, lábios e língua. A cabeça, os olhos, ombros e respiração são outros quatro Estas são as oito práticas de Vairochana.

28 N.T. O capim kusha é longo e reto, simbolizando também a mente unificada. Este capim macio é muito usado na India como uma vassoura.

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As pernas ficam na posição vajra [ou “lótus completo”]. E também permitido sentar na posição de meio lótus ou simplesmente de pernas cruzadas como a “postura do Bodhisattva.” Mas, a posição vajra é obrigatória para as meditações tântricas do estágio de consumação. Coloque as suas duas mãos na postura de absorção meditativa. A mão direita repousa sobre a mão esquerda. 29 As pontas dos dois polegares se tocam mais ou menos na altura do umbigo. As suas costas devem estar retas, com as vértebras tão retas quanto uma pilha de moedas. Dizem que os canais vento-energia são endireitados quando o corpo está reto; os ventos-energia podem então ser regulados e a mente fica mais maleável. Os dentes e lábios não devem estar muito fechados nem muito abertos, o melhor e deixá-los na posição natural. Coloque a ponta da língua em seu céu-da-boca, para que a sua boca não fique seca. Quando entrar em absorção meditativa profunda, vai evitar também que a saliva escorra de sua boca.

A sua cabeça deve estar ligeiramente inclinada para baixo, fazendo uma ligeira

pressão em seu pomo-de-adão. Dizem que “os olhos devem estar focalizados na ponta de nosso nariz”, mas você só precisa realmente focalizar seus olhos para que vejam os dois

lados de seu nariz. O propósito disto é que fica mais fácil cortar o torpor ou agitação mental [Dia Vinte e Um]. Algumas pessoas fecham bem os olhos quando fazem visualizações. Isto é incorreto. Outras seitas dizem para dirigir os olhos para cima, imitando pessoas que possuem as melhores faculdades dos sentidos, cuja percepção é a percepção do dharmakaya [o corpo da verdade]. Mas isto é estranho à nossa tradição.

Os ombros devem estar nivelados, e não um mais alto do que o outro.

Estes são os sete pontos da postura Vairochana. Eles tem significado da maior profundidade para o estágio de consumação, mas agora não é hora de falarmos disto. Esta postura sentada é de importância crucial, como Marpa de Lhodrag diz: “A soma de todas as meditações tibetanas não se iguala à maneira como eu, Marpa, o tradutor, senta.” A postura é atribuída ao Buda Vairochana porque ele é o aspecto purificado do agregado da forma sob o formato de uma deidade. O oitavo ponto é o ato de contar a sua respiração. Quando a mente primária é não- virtuosa, os fatores mentais secundários que a acompanham também são não-virtuosos.

Nesta situação, é difícil gerar um estado mental extremamente virtuoso. Por exemplo, você pode passar mecanicamente pelo procedimento de desenvolver a bodhichitta enquanto está com muita raiva, e recitar, “Pelo bem de todos os seres sencientes, que ”

mas você não tentará gerar um estado mental virtuoso enquanto a

foram minhas mães

mente primária e os fatores mentais secundários que a acompanham permanecerem não- virtuosos. Você deve, ao contrário, mudar o seu estado mental para um estado neutro. Suponha que um tecido de algodão seja branco, mas com manchas pretas. É difícil tingi- lo de outra cor. Mas se lavar bem o tecido na água, ele fica totalmente branco e é muito mais fácil tingí-lo de vermelho, amarelo, ou de qualquer cor que queira.

29 N.T. Ambas as palmas viradas para cima.

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O chamado estado mental neutro não é nem virtuoso nem não-virtuoso. É como o tecido de algodão sem as manchas. Você pode perguntar, “Qual é a técnica para contar a respiração e mudar o nosso estado mental para neutro?” Dirija a sua mente para dentro e examine a sua motivação. Se achar que está sob o poder do apego, hostilidade, e coisas assim, você deve respirar de uma maneira mais relaxada. Não deixe a sua respiração passar ruidosamente pelas narinas. Ela não deve ser nem muito forte nem muito irregular. Depois, enquanto inspira, pense, “Eu estou inspirando. Esta é a primeira vez.” Depois, repita uma segunda vez. Continue a contar, sete, onze, quinze, vinte-e-um, ou quantas forem, mas não use o seu rosário guardar a conta. Não se deixe distrair de contar. Seres comuns não conseguem reter duas coisas ao mesmo tempo na mente, e por isso a mente mudará de um estado hostil ou apegado para um estado neutro. Dizem que se deve fazer a seguinte visualização. Ao expirar, imagine que os seus enganos tomam a forma de raios negros situados dentro do ar que sai. Ao inspirar, as bênçãos dos Vitoriosos e seus Filhos vêm dentro do ar que entra, desta vez na forma de raios brancos de luz. Mas, isto não é obrigatório, e apenas algo que mostrou ser útil. Uma vez que a mente tenha se tornado neutra, é mais fácil gerar um estado mental virtuoso. O meu próprio precioso lama me deu este exemplo. Suponha que seja um inverno terrivelmente frio, e só há uma almofada no chão – a sua, mas alguém já está sentado nela. Se você mandá-lo se levantar grosseiramente, ele recusará. Se, em vez disso, se afastar um pouco e disser, “Que grande coisa está acontecendo ali!” E parecer dar uma olhada. A pessoa se levantará para ver. Você poderá sentar-se na sua almofada se for rápido o bastante! De maneira semelhante, é difícil deixar de ter apego enquanto cultiva um estado mental não-virtuoso, não importa o quanto tente. Se fixar a sua mente nos movimentos da sua respiração, isto redireciona a mente e pacifica os enganos. Então é mais fácil gerar um estado mental virtuoso. Mas lembre-se que ainda é fácil gerar um estado mental virtuoso se a mente primária e os fatores mentais que a acompanham não forem não-virtuosos; assim, pode ser que não precise contar a respiração. Este é o motivo de dizer que existem sete ou oito pontos. Talvez não precise contar a respiração, mas mesmo assim deve gerar um estado mental virtuoso no início de sua sessão de meditação. Quando começar qualquer prática virtuosa, é vital acertar a sua motivação corretamente logo no início. O Grande Tsongkapa escreveu Perguntas sobre o Altruísmo Mais Branco, onde ele indica uma série de coisas aos mestres de meditação no Tibet. Uma das perguntas foi: “O que é tão importante no início da meditação quanto as palavras 'em sânscrito' no início de um texto? 30 O Panchen Lama Lozang Chokyi Gyaltsen respondeu esta e outras questões em seu texto O Riso Melodioso de Lozang Dragpa - Respostas às "Perguntas sobre o Altruísmo Mais Branco.” Ele disse:

Antes de qualquer meditação [deve-se] Examinar adequadamente o próprio contínuo mental,

30 Todas as traduções das escrituras Budistas começam com as palavras "Em sânscrito" seguidas pelo título original em sânscrito; isto garante a sua autenticidade.

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Assim como as palavras “Em sânscrito” Devem aparecer no início de um texto. Foi isto que você quis afirmar, oh guru inigualável.

Em outras palavras, é crucial acertar a sua motivação antes de qualquer meditação. Encontramos num sutra: “As suas aspirações continuam a ser o principal fator de todo o Dharma.” Acharya Nagarjuna disse:

A não-virtude segue o desenvolvimento

De apego, hostilidade e ignorância.

A virtude segue o desenvolvimento de falta

De apego, hostilidade e ignorância.

Atisha disse:

“Se a raiz for venenosa, os galhos e as folhas também serão venenosas. Se a raiz for medicinal, os galhos e folhas também serão medicinais. De maneira semelhante, se a raiz for apego, hostilidade e ignorância, o que quer que faça será não-virtuoso.”

Em outras palavras, se estiver motivado por enganos, qualquer estudo, contemplação ou meditação que fizer só amadurecerá num resultado kármico muito indesejável. Mas se estiver motivado por pensamentos nobres e cometer algo não-virtuoso como matar, isto será um grande ímpeto para concluir a sua acumulação [de mérito e sabedoria primordial]. Quando nosso mestre, o Buda, ainda trilhava o caminho, num de seus renascimentos ele foi um capitão de navio chamado Mahasattva. Ele foi ao mar com quinhentos mercadores numa expedição para encontrar jóias. Havia também a bordo um Dravidiano, chamado Shakti, que estava determinado a matar os quinhentos mercadores. Com grande compaixão, o capitão matou o Dravidiano para salvar a vida dos mercadores. Mas ele também tinha uma meta a longo prazo: fez isto para que o homem não renascesse eventualmente num reino inferior. Dizem que este ato acumulou mais mérito do que normalmente se poderia acumular por quarenta mil grandes eons. Embora seja impossível que o resultado de um ato de matar complete a coletânea de méritos, houve um grande impulso para completar a coletânea por causa da força de sua compaixão motivadora. A motivação controla tudo: virtude, não-virtude, amadurecimento do karma em efeitos desejáveis ou indesejáveis, a força relativa do próprio karma, e coisas assim. Certa vez, na Índia, havia dois brâmanes e um pedinte da casta [real ou militar] “kshatriya”. Estes brâmanes foram esmolar na hora errada do dia; ninguém deu nada aos brâmanes porque a Sangha só dava comida depois que já tinha comido. O kshatriya foi mais habilidoso na escolha do horário: ele foi esmolar quando as sobras estavam para ser jogadas fora. Como resultado, ele recebeu uma grande quantidade de comida.

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“Vocês não conseguiram nada?” ele perguntou aos brâmanes. Eles perderam a calma e disseram: “Se tivéssemos a oportunidade, cortaríamos as cabeças de todos os homens santos de Shakyamuni e as deixava apodrecendo no chão.” O kshatriya havia desenvolvido fé [na Sangha] porque havia recebido muita comida. “Quando eu for rico,” disse, “eu gostaria de dar ao Buda e sua Sangha alimentos com cem sabores diferentes todos os dias.” Eles estavam andando enquanto falavam, e todos os três tinham chegado a cidade de Shravasti. Eles pararam para cochilar em frente a uma árvore. Uma carreta extraviada passou por eles e as suas rodas deceparam as cabeças dos dois brâmanes. Mais ou menos ao mesmo tempo, um mercador morreu em Shravasti. Ele não tinha tido filhos, e todos os homens livres de Shravasti se reuniram para decidir quem tinha méritos mais grandiosos, pois tal pessoa se tornaria o herdeiro do mercador. Eles encontraram o kshatriya dormindo; ele sempre estava debaixo da sombra da árvore apesar das sombras das outras árvores mudarem de lugar. Então, tornou-se chefe dos mercadores. O kshatriya era tão bom quanto a sua palavra e fez doações ao Buda e a Sangha. Ele ouviu o Dharma e chegou a ver a verdade. Como está dito naquele sutra específico:

A mente tem precedência sobre as outras coisas.

A mente trabalha rapidamente; ela é a raiz.

Se sua mente é nociva, tudo o que fizer ou disser Só trará sofrimento --como os dois homens Cujas cabeças foram decepadas pelas rodas da carreta. Se sua mente é purificada, tudo o que fizer ou disser

Só trará felicidade --como o homem Que era seguido pela sombra da árvore.

Em outras palavras, resultados kármicos tangíveis como estes seguem a motivação – seja ela boa ou má. Ainda assim, você não deve ter uma boa motivação só no início de alguma prática virtuosa; é crucial ter boas motivações o tempo inteiro. Atualmente, costumamos perguntar as pessoas sobre sua saúde, mas Atisha costumava perguntar, “Você tem um bom coração?” Como disse Tsonkapa:

Karma preto ou branco Vem de motivos bons ou maus Se a motivação for boa Assim também será o caminho e seus níveis. Se a motivação for má Então baixo será o caminho e seus níveis. Tudo depende de sua motivação.

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Nossa motivação faz uma diferença enorme no tipo de resultado kármico virtuoso que vamos receber, e na força destes resultados. Suponha que quatro pessoas estejam recitando juntas um rosário de preces a Tara. Um tem bodhichitta como motivação. Outro está motivado pela renúncia. O terceiro anseia por um melhor renascimento. O último só aspira as preocupações desta vida, boa saúde e coisas assim. Embora os quatro recitem a

mesma quantidade, há uma grande diferença no tipo de resultados kármicos que vão obter. A recitação da primeira pessoa foi feita com o desenvolvimento da bodhichitta; a recitação agirá, portanto, como causa para sua iluminação. E também um feito de um Filho dos Vitoriosos, e Dharma Mahayana. Isto não se aplica aos outros três.

A recitação da segunda pessoa foi feita junto com renúncia. Portanto, agirá como

causa para a liberação e será um antídoto contra o samsara. É um Dharma do nível de Capacidade Média. A recitação das outras duas pessoas não contribuirão nem mesmo para suas liberações; as recitações estariam classificadas sob a verdade da origem do sofrimento.

A recitação da terceira pessoa não contribui para a onisciência nem para a liberação.

É só um meio de evitar que renasça nos reinos inferiores. É um Dharma do nível de

Capacidade Pequena.

A recitação da quarta pessoa só pertence a esta vida e portanto, nem mesmo e

Dharma. E será difícil que tenha qualquer efeito nesta vida. Como disse Atisha:

Pergunte-me quais são os resultados de só pensar nesta vida e eu direi: são apenas os resultados desta vida. Pergunte-me o que acontecerá em suas próximas vidas e eu direi:

você estará no inferno ou será um fantasma faminto ou um animal. Portanto, quando nós monges vamos a cerimônias ou prática de debates, devemos fazê-lo com a motivação de bodhichitta; depois até mesmo os nossos passos serão atos de

um Filho dos Vitoriosos. Cada passo valerá mais do que cem mil moedas de ouro. Mas se fizermos qualquer doação de chá, sopa, ou o que for, para que a hierarquia monástica fique satisfeita conosco, a doação só se encaixará na descrição de Atisha.

A motivação do meditador também determina se as meditações terão sentido. Atisha

disse que a verdadeira meditação preciosa era a meditação no guru. Se meditar movido pelo desejo de receber chá, peças de seda e coisas assim, todas as suas meditações serão maculadas. Se meditar até mesmo com o mais leve pensamento de colocar um fim no oceano de renascimentos, os méritos que receber vão transbordar os próprios limites do espaço. Assim, se não adotar as motivações corretas para algumas práticas de virtude – sejam pequenas ou grandes – a prática não levará a nada. Tais práticas incluem estudo, contemplação, meditação, fazer donativos, prática da generosidade, e assim por diante. Portanto, é preciso ter seriedade, adotando uma motivação correta logo de início. Alem disso, como isto é Dharma Mahayana, não basta adotar intenções virtuosas, você deve fazer suas práticas com um tipo muito especial de estado mental virtuoso – a bodhichitta. Se sua bodhichitta for espontânea, ela se desenvolverá por si só e você não terá que fazer o seguinte. Se a sua bochichitta for do tipo produzido, você deve ativá-la conscientemente. A sua mente não mudará de rumo se, sem qualquer preparação, você

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simplesmente recitar: “Pelo bem de todos os seres sencientes

começar com algo como, “Eu consegui um perfeito renascimento humano

com “Vou alcançar a iluminação pelo bem de todos os seres. Portanto, vou meditar neste ensinamento dos estágios do caminho a iluminação." Falei sobre isso alguns dias atrás. Em outras palavras, você deve trabalhar o seu caminho indo desde o tema da dificuldade de se obter um perfeito renascimento humano até a seção de desenvolvimento da bodhichitta. Então, a sua mente será transformada. Os santos do passado deram vários ensinamentos – alguns breves, alguns detalhados – de como acertar a motivação. Alguns alegaram que se não tivéssemos sido capazes de realizar alguma transformação mental através de algum processo de transformação do pensamento, seria suficiente acertar a nossa motivação por meio de certas recitações. Mas, é a mente que acerta a nossa motivação, não a boca. Assim, devemos transformar nossa mente inundando-a com o significado do texto que estamos recitando. Portanto, estando neste estado mental especialmente virtuoso, você deve agora tomar refúgio. Mas cuidado: estou combinando os três textos de Lam-rim neste ensinamento e você não deve ficar confuso, pois cada texto tem sua própria versão dos ritos preparatórios, da visualização do Refúgio, e do campo de méritos. Parece que agora a prática e ensinar os ritos preparatórios segundo a versão da Linhagem do Sul por causa de sua conveniência. Mas, você deve usar a versão de O Caminho Rápido em sua recitação diária. Antes de tomar refúgio, você pode invocar a visualização do refúgio. A versão desta visualização em O Caminho Rápido é a seguinte. 31 Visualize à sua frente um trono enorme e precioso, sustentado por oito enormes leões. Se situar o trono muito alto, a sua mente se tornara muito agitada, se muito baixo, sua mente ficara entorpecida. O ideal seria visualizar o trono nivelado com o espaço entre as suas sobrancelhas. Cinco tronos menores se encontram neste trono grande: um no centro e os outro quatro ao seu redor nas quatro direções cardeais. O trono central e ligeiramente mais alto que os outros quatro. Gere a visualização de Buda Shakyamuni, nosso Mestre, neste trono central. Por natureza ele é o seu guru raiz que lhe ensina o Dharma. Os detalhes desta visualização do Buda devem seguir o texto que estiver recitando. Você deve sentir que ele é o seu guru por natureza, porque é na

e terminar

Você deve, ao contrário, ”

dependência de seu guru que você desenvolverá todas as realizações – os resultados de seguir o caminho. O seu guru tem o aspecto de Buda Shakyamuni porque Shakyamuni e o Senhor dos Ensinamentos, a própria fonte do Dharma. Sua mão direita adota o mudra (gesto) de tocar-a-terra, significando a derrota de Kamadeva, o demônio da luxúria. A mão esquerda de Shakyamuni segura uma tigela de esmolar, que contém vários néctares. Um deles é o néctar que tudo cura, significando a derrota dos cinco agregados demoníacos. Depois há o néctar da imortalidade – significando a derrota do Senhor da Morte [Yama}. O néctar da sabedoria primordial não-contaminada significa a derrota dos

31 N.T. Para facilitar o entendimento e evitar confusão, a descrição da prática segundo O Caminho Rápido se encontra em negrito.

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enganos. Você deve pensar que isto significa que Buda derrotou estes quatro demônios que o afligiam e que nós também em breve vamos derrotar os nossos quatro demônios. No coração de Buda está Vajradhara; este é o ser de sabedoria. No coração de Vajradhara há uma sílaba hum azul, isto é o ser de concentração. Você deve visualizar estes três seres estando um dentro do outro. Esta visualização está relacionada ao tantra. Você pode estar indagando: “Muitas pessoas já me ensinaram o Lam-rim. Quais destes deverei visualizar como a figura central?” Adote como seu guru principal aquele que mais beneficiou o seu contínuo-mental. Maitreya está sentado no trono menor à direita de Buda. Maitreya está cercado por tronos ainda menores, onde sentam-se os gurus da Linhagem de Feitos Extensos. Manjushri está sentado no trono menor à esquerda do trono de Buda. Como o anterior, ele também está cercado por tronos menores, onde sentam-se os gurus da Linhagem da Visão Profunda. Vajradhara está sentado no trono atrás de Buda; Vajradhara está cercado pelos gurus da Linhagem das Práticas Consagradas. 32 No trono em frente ao Buda está sentado o seu próprio guru-raiz, desta vez em seu aspecto normal. Você não deve visualizar seus defeitos físicos; por exemplo, na vida real ele pode ser cego, mas você não o visualiza assim. A sua mão direita faz o gesto de ensinar o Dharma, a mão esquerda faz o gesto da absorção meditativa. Um vaso de iniciação doador de vida, cheio de néctar de imortalidade, repousa na palma de sua mão esquerda. Estes dois gestos indicam que ele é um Buda, pois pode ensinar o Dharma enquanto permanece absorvido na meditação da vacuidade. O gesto de ensinar o Dharma também encoraja os seus discípulos a estudar; o gesto de absorção meditativa os encoraja a colocar os seus estudos em prática. O Grande Tsongkapa disse:

As principais coisas impedindo os afortunados De praticar o caminho a liberação são:

Enganos, que derrotam a mente, E Yama, que derrota o corpo.

Em outras palavras, os impedimentos para a prática do Dharma são os enganos, pois dominam a mente, e o Senhor da Morte, pois este conquista o corpo. Como medida defensiva, o seu guru faz o gesto de ensinar o Dharma para significar a derrota dos enganos por seus ensinamentos do Dharma. O vaso doador-de-vida e o néctar da imortalidade significam a derrota do Senhor da Morte. Há muitos outros pontos profundos que poderia salientar aqui sobre como conseguir os quatro tipos de poderes milagrosos – o poder de paz, aumento, influência, e força – devotando-se ao seu guru. O seu guru esta cercado pelos gurus de quem você já recebeu ensinamentos de Dharma, começando com a pessoa que lhe ensinou a ler. Se alguém nos pergunta quantos

32 N.T. A Linhagem de Feitos extensos é a linhagem do Método, a linhagem de todos os mestres de realizações e ensinamentos da bochichitta, o bom coração, a mente altruísta que busca a iluminação pelo bem de todos os seres. A Linhagem da Visão Profunda é a linhagem da Sabedoria, a linhagem de todos os mestres de realizações e ensinamentos da vacuidade, a visão correta da existência de todos os fenômenos. A Linhagem das Práticas Consagradas é a linhagem de todos os mestres com realizações e ensinamentos do Tantra.

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gurus temos, não temos nenhuma idéia e precisamos contá-los em nosso rosário. Mas podemos imediatamente dizer quanto dinheiro temos em nosso bolso! Isto mostra como não consideramos seriamente o guru como a raiz do caminho. Nesta visualização, os seus gurus que ainda estão vivos estão sentados em almofadas. Aqueles que já morreram, sentam-se em lótus e discos lunares. Estaremos usando o termo “os cinco conjuntos de gurus” porque os gurus nesta visualização estão sentados em cinco grupos. As outras figuras no campo de mérito – desde as deidades tutelares até os protetores do Dharma – circulam estes gurus. As outras figuras estão em pé ou sentados no trono maior que sustenta os cinco tronos menores. Na tradição oral de meu próprio e precioso guru as deidades de meditação se posicionam ao redor dos cinco conjuntos de gurus. Isto segue a prática do Tutor Tsechogling Rinpoche. As deidades do círculo mais interno são as do Ioga Tantra Superior. Elas estão rodeadas pelas deidades do Ioga Tantra. Depois vem aqueles do Charya Tantra [Tantra de Atuação], e o Kriya Tantra [Tantra de Ação]. Chuzang Lama Yeshe Gyatso coloca os quatro tipos de deidades nas quatro direções cardeais: o Ioga Tantra Superior na frente, o Ioga Tantra à direita, etc. Devido a esta arrumação, em desenhos da versão de Chuzang da visualização do campo de mérito, só estão visíveis as deidades do Ioga Tantra Superior. Em todo caso, as deidades de meditação estão cercadas pelos Budas em sua forma suprema nirmanakaya. Proeminente neste grupo estão os mil Budas deste eon afortunado, os oito Tathagatas [Suvanam, Ratna, etc.], os trinta e cinco Budas de Confissão, etc. A finalidade disto é a seguinte. Há, em geral, um número infinito de Budas; mas nosso relacionamento mais forte é com estes Budas deste eon afortunado. Nos dizem que orações feitas aos outro sete Tathagatas durante o reinado dos ensinamentos do Buda serão bem sucedidas. Os trinta e cinco Budas de Confissão têm grande poder para purificar ações negativas e votos quebrados [Dia Seis]. Os Budas por sua vez estão cercados pelos Bodhisattvas, como os oito Filhos mais próximos [do Buda Shakyamuni: Manjushri, Vajrapani, etc.]. Estes tomam a forma de deuses masculinos. Os Bodhisattvas estão cercados pelos Pratyekabuddhas, como os doze Pratyekabuddas. Eles estão rodeados pelos Shravakas – os Dezesseis Arhats Superiores [Angaja, Ajita, etc.] e assim por diante. Todos tomam a forma de monges. Eles exibem as boas qualidades de pureza, seguram tigelas de esmolar, cajados de ferro e livros de folhas de palmeiras. Os Shravakas podem ser distinguidos dos Pratyekabuddhas pela protuberância ligeiramente menor na coroa de suas cabeças. Na realidade, este grupo exibe marcas semelhantes às marcas e sinais [dos Budas]. Os Shravakas estão rodeados pelos dakas e dakinis1 tais como Khandakapala e Prachandali. Eles tomam as formas descritas no Tantra de Heruka. Os dakas e dakinis 33 estão rodeados pelos protetores supramundanos do Dharma – principalmente pelos senhores do Dharma dos três níveis do Lam-rim [Mahakala de seis braços, Vaishravana e Kamayama].

33 N.T. São deuses próprios do Tantra, sendo os Dakas deuses masculinos e as dakinis deusas femininas.

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Há duas tradições orais a respeito dos quatro maharajas dos quatro pontos cardeais. Uma tradição coloca-os no trono principal; a outra tradição, coloca-os em pé sobre almofadas de nuvens abaixo do trono. A razão disto é a seguinte. A primeira tradição considera estes maharajas figuras supramundanas. A segunda dá-lhes apenas o status mundano. É errado incluir figuras mundanas menores como espíritos-reis nesta visualização. Certa vez, mostraram uma pintura deste campo de méritos ao Lama Tsechogling Rinpoche, tutor de um dos Dalai Lamas. O artista havia desenhado um espírito-rei entre os protetores. Rimpoche apontou a figura e disse: “Ah, se ao invés disto ele tivesse pintado uma jóia que realiza desejos!” Visualize livros de Dharma na frente de cada uma das figuras nesta visualização do refúgio. Os livros são por natureza a jóia do Dharma realizado, mas tomam a forma de livros – isto é, o Dharma transmitido. Os livros estão embrulhados em seda e possuem marcadores coloridos. Visualize que estes livros estão lhe ensinando o Dharma [emitindo o som das palavras que eles contém]. Há muitas versões da visualização do refúgio. Uma tradição tem as Três Jóias unidas em uma única figura [a do guru], outra versão tem várias figuras de pé em níveis horizontais diferentes. Mas, a descrição acima tem todo o simbolismo necessário relacionado às Três Jóias. Mas notem: esta visualização não é bi-dimensional como uma pintura. Nem as figuras são sólidas como estátuas de argila: eles são corpos de arco-íris cuja natureza é de luz clara e brilhante. Eles estão aqui em pessoa, e irradiam luz brilhante. Em A Transmissão do Vinaya encontramos três comparações em louvor do corpo iluminado:

É como uma chama no formato de um corpo. É como algo cheio de línguas de chamas. É como um vaso dourado com uma lamparina de óleo.

As figuras estão também debatendo o Dharma entre si. De fato, há uma imensa quantidade de atividade acontecendo: alguns estão chegando enquanto outros vão realizar várias tarefas. Há muito ir e vir, como pessoas em negócios de estado entrando e saindo dos portões do palácio do rei. As figuras – desde Buda Shakyamuni até os maharajas – enviam emanações pelo bem dos seres sencientes, enquanto outras emanações retornam a eles. Cada poro destas figuras é também um campo de méritos. E assim por diante. A visualização deve ser a mais detalhada possível. Você também deve pensar que as figuras neste campo de méritos estão extremamente felizes com você. Como disse Drubkang Geleg Gyatso, normalmente você não faz aquilo que os Vitoriosos e Seus Filhos pedem; mas faz aquilo que eles pedem que não faça. Então, não há ocasião em que possam ficar felizes com o que fez. Mas, agora você esta fazendo algo para agradá-los. Suponha que uma mãe tenha um filho que seja o tempo todo malcriado. Se uma vez ele fizer algo de bom, isto agradará sua mãe mais do que qualquer outra coisa. Nós estamos sempre fazendo as coisas erradas. Mas, aqui estamos, tentando meditar no Lam-rim. Isto agrada os Vitoriosos e Seus Filhos mais do que qualquer outra coisa.

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Neste ponto, você gera a motivação para tomar refúgio. Você deve fazer isto através da seguinte recitação [de Um Ornamento para as Gargantas dos Afortunados, de Jampel Lhumdrub].

Desde os tempos sem princípio, eu e todos os seres sencientes, que já foram minhas mães, vimos renascendo no samsara e por muito tempo e até agora, experimentamos os vários sofrimentos diferentes do samsara em geral, e aqueles relativos aos três reinos inferiores em especial. Mesmo agora, é difícil compreender a extensão e a profundidade daquele sofrimento. Mas consegui algo especial que é difícil de se conseguir, e uma vez conseguido é muito benéfico: o perfeito renascimento humano. É difícil encontrar os preciosos ensinamentos do Buda. Agora que encontrei estes ensinamentos, se eu não alcançar a pura e completa Budeidade – a melhor forma de liberação de todo sofrimento do samsara – vou novamente experimentar todo tipo de sofrimento do samsara em geral, e o mais importante, os sofrimentos dos reinos inferiores. O poder de proteger-me destes sofrimentos está nos gurus e nas Três Jóias. Assim, pelo bem de todos os seres sencientes, minhas mães anteriores, eu alcançarei a completa Budeidade. Portanto, tomarei refúgio no guru e nas Três Jóias.

O resultado de gerar as causas para tomar refúgio será que você toma refúgio corretamente. Estas causas são medo e fé. O medo é dos sofrimentos gerais e específicos do samsara. A fé é a crença de que as Três Jóias podem protegê-lo destes sofrimentos. E, para tomar o refúgio incomum, do tipo Mahayana, você precisa de uma causa adicional:

amor e compaixão pelos outros seres atormentados por estes sofrimentos. Vou tratar deste assunto – as causas para tomar refúgio – em maiores detalhes durante a parte principal do ensinamento. Visualize-se rodeado por todos os seres sencientes juntamente com seus pais. Eles estão sentados juntos, e estão passando o sofrimento de seus diversos tipos de renascimentos nos diversos reinos, mas você os visualiza na forma de seres humanos – ou seja, como seres capazes de falar e compreender. Você os guia na recitação da fórmula do refúgio, e deve pensar que todos estes seres estão tomando refúgio com você. Dizem que quando você recita a fórmula quádrupla do refúgio em cerimônias públicas, você deve repeti-la na ordem, isto é:

Tomo refúgio no guru. Tomo refúgio no Buda. Tomo refúgio no Dharma. Tomo refúgio na Sangha. Tomo refúgio no guru, etc

34

34 N.T. Esta fórmula pode ser também recitada

Em sânscrito:

Namo Gurubhya

Namo Buddhaya

Namo Dharmaya

Namo Sanghaya

ou

Em tibetano:

Lama-la kyab su chio Sangye-la kyab su chio Chos-la kyab su chio Gedun-la kyab su chio

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Mas, ao tomar refúgio durante as suas meditações, você deve repetir cada parte da fórmula várias vezes isoladamente. Assim, quando estiver repetindo “Tomo refúgio no guru” (ou Namo Gurubhya) focalize sua atenção nos cinco conjuntos de gurus e tome refúgio enquanto recebe deles os néctares purificadores. Suponha que vá recitar um rosário desta parte da fórmula. Nas primeiras cinqüenta recitações você deve visualizar que os néctares estão purificando suas qualidades não-Dharmicas. Durante as últimas cinqüenta repetições, você visualiza que suas qualidades Dharmicas aumentam. Assim, para a primeira metade da recitação, você imagina que os cinco tipos de néctares coloridos, juntos com luzes das cinco cores [branco, vermelho, azul, amarelo e verde], descem dos gurus. O néctar branco predomina. Eles entram no seu próprio corpo e mente e também nos corpos e mentes de todos os demais seres sencientes. Os néctares purificam todas as ações negativas e obscurecimentos acumulados por você e pelos seres sencientes desde os tempos sem princípio. Isto se aplica especialmente a ações como colocar em perigo o corpo do guru, desobedecer as suas ordens, perturbar a sua paz mental, desprezá-lo, e não ter fé no guru – enfim, todas as ações negativas e obscurecimentos adquiridos com relação ao seu guru. Estas negatividades escorrem para fora de seu corpo sob forma de uma lama negra e você sente que foi totalmente purificado. A segunda parte da recitação é como segue. As qualidades Dharmicas a serem aumentadas são, por natureza, as boas qualidades do corpo, palavra e mente do guru. Mas elas tomam a forma dos cinco tipos de néctares e luzes coloridas. Desta vez, predomina o néctar amarelo. Eles descem [dos gurus]. Pense que você e todos os seres sencientes em geral recebem um aumento de duração de vida, méritos e boas qualidades dos ensinamentos transmitidos e realizados. Em particular, você e estes seres recebem as bênçãos do corpo, palavra e mente de seu guru. Quando recita “Eu tomo refúgio no Buda” (ou Namo Buddhaya) você repete quase a mesma coisa. Segundo os tantras, “Buda” significa as deidades tutelares das quatro classes de tantra; segundo o sutra, Budas são as formas nirmamakaya supremas. Néctares purificadores descem de ambos os tipos de Budas no campo de méritos. As negatividades que acumulamos com relação aos Budas são: com uma motivação nociva, fazer sangrar o corpo de um Tathagata, fazer julgamentos sobre as qualidades das imagens de Buda, penhorar imagens, considerar imagens como mercadorias a serem compradas ou vendidas, destruir os símbolos da mente iluminada [isto é, as stupas], e assim por diante. Um exemplo do primeiro tipo de ação negativa – causar sangramento em um Buda – foi Devadatta [o primo ciumento de Buda], que usou uma catapulta gigantesca para atirar pedras no Buda. [Dia Doze] Este ato fez o Buda sangrar. Nós não cometemos este tipo específico de ação nociva, mas já cometemos as demais. Quando examina imagens [de Buda] procurando defeitos no acabamento, você está julgando a sua qualidade. Certa vez, o Mahayogi mostrou a Atisha uma estátua de Manjushri. Ele perguntou a Atisha se a estátua era boa e se valia o preço para comprá-la

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com uma [moeda] sho de ouro que Rongpa Gargewa havia lhe dado. Atisha respondeu, “Uma estátua de Manjushri nunca poderia ser ruim. Mas o artista era apenas medíocre.” Em outras palavras, só fale da qualidade do artista, pois não é correto apontar os defeitos da própria imagem. Penhorar estátuas e ganhar dinheiro com elas são coisas corriqueiras. Você deve evitar fazer estas coisas a qualquer custo. Na segunda metade da recitação, quando você aumenta as suas boas qualidades, imagine que os dez poderes, os quatro destemores, as dezoito qualidades exclusivas, tomam a forma de néctares descendentes. O resto é igual ao que foi dito acima. Depois, recite “Tomo refúgio no Dharma” (ou Namo Dharmaya). Os néctares descem vindos dos livros na visualização. Este néctar é por natureza o Dharma realizado. As negatividades que acumulamos com relação ao Dharma são: abandonar o santo Dharma, vender escrituras, não mostrar o devido respeito pelas escrituras, lucrar com a venda de um livro, etc. Corremos o perigo de cometer estas ações negativas, e elas tem conseqüências extremamente pesadas. Abandonar o Dharma é depreciar o Mahayana e favorecer o Hinayana; depreciar o Hinayana e favorecer o Mahayana; jogar o sutra contra o tantra; favorecer uma das linhagens tibetanas – Sakya, Gelug, Kagyu, ou Nyingma – e depreciar as outras, etc. Em outras palavras, abandonamos o Dharma cada vez que favorecemos nossos próprios princípios e depreciamos o resto. Também abandonamos o Dharma quando passamos por cima de textos, jogamos fora algum texto, etc. Algumas pessoas fazem até coisas como sentar nos textos. Fazendo isto, acumulam propositadamente karma nocivo. Abandonar o Dharma é um ato extremamente pesado, como está dito em O Sutra Soberano das Concentrações Uni-focadas. Mas, eu já cobri isto em grandes detalhes [Dia Três]. É uma ação extremamente pesada vender escrituras, e lidar com elas como se fossem mercadorias comuns. Você não trata as escrituras com o devido respeito se colocá-las no chão sem sua capa de tecido. Se você limpa os dentes e usa a goma dentaria para grudar pedaços de papel colorido nas paginas 35 , se lamber o seu dedo para virar uma página, ou colocar coisas em cima dos livros de Dharma. Estas também são ações muito pesadas. Quando Atisha viu um escrivão usar o dedo para limpar os dentes e depois grudar um remendo colorido na página de um livro de Dharma, Atisha não suportou vê-lo. Ele se voltou ao tantrista e disse, “Ah, que errado, que errado!” Dizem que isto levantou a fé do tantrista em Atisha – de tal forma que buscou ensinamentos com ele. Pessoas como nós, que estamos sempre manuseando livros, devem ser especialmente cautelosas: sempre corremos o risco de cometer uma destas ações. Se usar algo comprado com dinheiro obtido com a venda de livros, você terá “lucrado com a venda de livros.” Isto também tem conseqüências pesadas. O quinto dos sete Shagpa Rimpoches, Denten Kyergampa, era um grande adepto do tantra de Avalokiteshvara. Seu benfeitor, um leigo, ficou sem dinheiro e vendeu um conjunto do

35 Os tibetanos não sublinham os trechos importantes nos livros. Mas grudam um pedaço de papel colorido no início do trecho, ou então passam aquarela vermelha ou amarela sobre as palavras a serem enfatizadas. Como não havia cola facilmente disponível no Tibet, os preguiçosos pegavam um pouco da película sobre seus dentes e a usavam como cola.

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Sutra da Perfeição da Sabedoria em Cem Mil Versos. O benfeitor convidou Kyergampa e três outros monges a sua casa, pensando que fazendo isto iria purificar a sua ação negativa. Ele serviu alimento comprado com o dinheiro recebido pela venda dos livros. Naquela noite, Kyergampa ficou seriamente doente. Kyergampa podia ver, quando em meditação uni-focada, uma letra “A” se movendo rapidamente pelo seu corpo. Isto causava-lhe dores agudas. Ele fez súplicas às suas deidades tutelares, e Avalokiteshvara veio até ele.

“Você e os outros,” disse Avalokiteshvara, “lucraram com a venda de uma escritura. Isto é muito sério. Você tem poucas negatividades e obscurecimentos, então o karma deste seu ato amadureceu sobre você nesta vida. Os outros só poderão cair nos infernos. Você deve escrever O Sutra da Perfeição da Sabedoria em Cem Mil Versos com tinta dourada para purificar esta negatividade. Deve também oferecer muitos bolos rituais aos nagas.” Kyergampa seguiu suas instruções, e a doença acabou. Quando chegar a visualização de aumentar, imagine que o Dharma, a verdade da cessação, a verdade do caminho, e coisas assim, descem sob forma de néctar.

A seguir, repita “Tomo refúgio na Sangha” (ou Namo Sanghaya). Segundo os sutras,

Shravakas, Pratyekabuddhas e Bodhisattvas compõem a Sangha. A Sangha tântrica são os dakas, dakinis e protetores do Dharma. Néctares purificadores descem destas figuras. As negatividades e obscurecimentos que acumula em relação à Sangha são: criar divisão na Sangha, roubar seus oferecimentos, criticá-los, e quebrar um compromisso de oferecer bolos rituais aos protetores do Dharma. Você deve tentar purificar quaisquer negatividades e obscurecimentos cometidos com a Sangha, mas será incapaz de purificá-los o suficiente para nunca experimentar qualquer efeito amadurecedor de karma. Refira-se a estória do mestre Supushpachandra. 36 Estas negatividades são muito mais sérias do que aquelas relacionadas ao Buda ou ao Dharma, porque esta negatividade é cometida com relação a muitas pessoas. Devemos ter muito cuidado, pois nos misturamos livremente com a Sangha, então corremos o risco de cometer este tipo de negatividade. Falando rigorosamente, só se pode causar divisão na Sangha durante a época da vida

de um Buda, portanto isto não pode acontecer agora. Mas, muitos atritos ocorrem entre a Sangha e isto se assemelha a divisão.

A Arya Sangha consiste de pessoas que perceberam diretamente a vacuidade. Seus

membros podem ser pessoas leigas, monges ou monjas. Quatro seres comuns [que não perceberam a vacuidade desta maneira] são considerados como Sangha se seus votos [pratimoksha] ainda estiverem puros. Mas, sejam os membros da Sangha seres comuns

ou não, eles podem se dividir em dois grupos de pelo menos quatro membros cada um sobre algum desentendimento porque alguém se envolve em conversa que dividem as

36 Embora prevendo que isto custaria sua vida, o Bodhisattva Supushpachandra foi alegramente até à terra do Rei Viradatta para espalhar o Dharma. Após guiar muitos seres à felicidade ele foi morto pelo rei num acesso de inveja. Mais tarde, o rei lamentou profundamente o seu ato e erigiu um santuario, colocando as reliquias do Bodhisattva numa stupa. Mas já era muito tarde, nada poderia trazer o mestre de volta à vida.

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pessoas, o que causa atrito entre os dois grupos. Todos os envolvidos, e não apenas a pessoa que causou a divisão – irão de mãos dadas aos reinos inferiores. Houve certa vez um geshe Kadampa chamado Selshe que causou divisão na Sangha. Mais tarde, após a morte do geshe, o Geshe Dromtempa comentou que se o seu discípulo Selshe tivesse morrido três anos antes, teria morrido como um mantenedor das três cestas, mas ele morreu três anos muito tarde. “O seu mosteiro Toepur,” disse Drom, “foi a sua ruína.” E segundo a tradição oral dos mestres de Lam-rim, Selshe ainda está no inferno. Dizem que o lugar onde uma divisão ocorre fica manchado pela negatividade: outras pessoas não conseguirão desenvolver realizações naquele lugar, mesmo se praticarem durante doze anos. Hostilidade ou apego pode dividir a Sangha em “panelinhas” cujos membros pensam em termos de “nós” e “eles” e “ah, se houvesse mais gente do nosso lado.” Eu penso que isto é a principal causa de atrito. Se os membros da Sangha não se entendem, não fazem nada para melhorar a leitura, estudo ou contemplação das pessoas – muito menos para ajudar as pessoas atingirem os estados de concentração dhyani que poderiam utilizar para abandonar os enganos [manifestados]. O pior prejuízo que este tipo de atrito pode causar

e levar os ensinamentos a um declínio. Um sutra afirma:

Monges e monjas da Sangha que concordam são felizes. Aqueles que se entendem acham o ascetismo fácil.

Esta citação nos diz, em outras palavras, que o principal para os membros da Sangha

é a boa convivência. “Roubar oferecimentos da Sangha é desapropriar os fundos da Sangha, não entregar à Sangha impostos arrecadados em seu nome, um membro da Sangha usar algo destinado à Sangha em geral, etc. Os administradores dos mosteiros são muito vulneráveis a estas coisas. Alguns monges cujo trabalho é lidar com benfeitores do mosteiro, tem mais preocupação pelo benfeitor, e pode dizer-lhe, “Não precisamos de tudo isto.” Isto é um ato de privar a Sangha. Privar a Sangha até de um pouco de manteiga é roubar da boca da comunidade em geral; é causa para renascer no Inferno Sem Descanso. Outras formas de desfalcar a Sangha resulta em renascimento nos infernos adjacentes. Isto está ilustrado pela estória de Arya Sangharakshita. Quando voltava de uma visita às regiões dos nagas, ele viu alguns seres num inferno ocasional à beira da praia. Aqueles seres-infernais tomavam muitas formas e formatos; alguns pareciam corda, alguns pareciam potes de argila, outros como vassouras, pilões, pilares, paredes e até uma pipa d'água. Eles estavam se lamentando e fazendo gemidos de doer o coração. Sangharakshita mais tarde perguntou ao Buda, “Que karma amadureceu em tais resultados?” Buda contou-lhe o seguinte. As criaturas dos infernos que eram como cordas e vassouras certa vez foram pessoas que privaram a Sangha de cordas e vassouras quando os ensinamentos do Buda Kashyapa [o Buda anterior] ainda existiam. As cordas e vassouras eram destinadas para o uso da Sangha em geral, mas estas pessoas colocou-as de lado para o seu próprio uso.

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A criatura que parecia um pote de argila havia sido um ajudante leigo da Sangha. Ele

estava fervendo algum tipo de remédio num pote de argila, e algum monge dirigiu-lhe comentários maldosos. Ele perdeu a calma e quebrou o pote. Isto foi o resultado daquela ação. A criatura-pilão havia sido um monge. Ele chamou um noviço em seu quarto e

mandou que amassasse alguns grãos num almofariz e pilão. O noviço estava ocupado e disse que o faria daqui um pouco. O monge perdeu a calma e disse, “Se eu colocasse as minhas mãos em seu pilão, eu o amassaria e não pensaria no grão!” Ele renasceu na forma de pilão como resultado destas palavras insultuosas. Os seres que pareciam paredes e pilares foram pessoas que cuspiam nos templos da Sangha. Alguns deles tinham até espirrado nas mãos e limpado as mãos nas paredes e pilares dos templos.

A criatura que parecia uma pipa d'água tinha uma cintura muito pequena. Isto foi o

efeito amadurecido do seguinte karma. Ele havia sido um monge que deixava a Sangha passar fome quando só distribuía os alimentos do verão no outono seguinte. Portanto, se pegar algo que pertence à Sangha sem permissão, mesmo algo como uma vareta da pilha de madeira da Sangha, você certamente renascerá no inferno ocasional. “Criticar a Sangha” significa abusar de seus membros com palavras ásperas, xingando-os, e coisas assim, seja pela frente ou pelas costas. Um brâmane chamado Manavagaura insultou membros da Sangha de Buda Kashyapa. Ele renasceu como um tipo de monstro-marinho. Eis uma pequena versão de sua estória. Na Índia houve certa vez quinhentos pescadores que costumavam jogar suas redes no rio Gandaka para pegar peixe, tartaruga, etc. Um dia, um tipo de monstro-marinho entrou pelo rio [um afluente no norte do rio Ganges]. O seu corpo era imenso. Os quinhentos pescadores não conseguiram pegar o monstro. Eles pediram ajuda a vaqueiros, cortadores-de-capim, trabalhadores na colheita e transeuntes. Centenas de milhares de pessoas deram uma mão e a coisa foi arrastada até à margem do rio. Eles viram que o monstro tinha dezoito cabeças e trinta e dois olhos. Muitas centenas de milhares de pessoas se reuniram para ver o espetáculo. Entre a multidão, havia seis mestres Tirthikas e outras pessoas assim. Buda, que tudo pode perceber, independente de quando ocorreu, foi até lá para fazer um pronunciamento sobre as leis de causa e efeito. Ele estava

acompanhado de muitos monges de sua Sangha. Scoffers disse, “Este santo homem Gautama alega estar além de tais espetáculos vulgares. Mas, lá vem ele!” As pessoas que acreditavam nele disseram, “Buda está acima destas coisas. Buda vai aproveitar esta oportunidade para ensinar algum Dharma maravilhoso a estas pessoas aqui.” Um trono foi arrumado, e Buda sentou-se nele, cercado por seus seguidores. Ele abençoou o monstro para que pudesse recordar suas vidas passadas e compreender a fala humana. Então Buda disse-lhe: “Você é Manavagaura, não é?”

“Sim,” ele disse, “eu sou Gaura.”

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“Você esta passando por um amadurecimento de alguma ma ação de corpo, palavra e mente?” “Sim, estou.” “Quem lhe orientou mal?” “Minha mãe.” “Onde ela renasceu?” “No inferno.” “Como você renasceu?” “Como um animal.’ “Quando morrer, aonde renascerá?’ “Eu renascerei no inferno.” E naquele instante, a criatura começou a chorar. Os seguidores de Buda estavam totalmente admirados. Por sua insistência, Ananda perguntou quem era esta criatura que podia lembrar vidas passadas e falar em língua humana. Buda então recitou sua estória. “Certa vez, no tempo de Buda Kashyapa, durante o reinado do Rei Krkin, alguns brâmanes vieram de um outro pais e desafiaram as pessoas a um debate. Um brâmane chamado Gaurashanti derrotou os outros filósofos em debate e o rei deu-lhe o título da montanha onde o debate ocorreu. O filho do brâmane tinha longos cabelos louros, e portanto foi chamado de Manavagaura [Brâmane Louro]. Este filho estudou a arte de escrever e coisas assim, e se tornou um sábio que também derrotava os outros em debates.” Seu pai morreu e sua mãe temia que os outros poderiam tirar-lhe os prêmios que ele havia ganho em debates. Ela pediu a seu filho, “Você pode derrotar qualquer filósofo em debates?” “Eu posso derrotar qualquer um, menos os homens santos de Kashyapa,” ele respondeu. “Até eles você vai derrotar,” ela disse. “Por respeito à sua mãe, ele foi debater com eles. Ele encontrou um monge que lhe perguntou qual era o significado de um certo verso. Ele não conseguiu apresentar uma resposta, desenvolveu fé na Sangha e voltou para casa.” “Você derrotou os homens santos?” sua mãe perguntou. “Mãe, se houvesse alguma testemunha, eu teria sido derrotado.” “Filho, neste caso leia as escrituras do Buda.” “Elas não são abertas para pessoas leigas.” “Então ordene-se. Depois que conseguir a sua sapiência, deixe de ser monge.” Ela foi tão insistente que ele se ordenou e tornou-se um erudita das três cestas. Novamente sua mãe perguntou, “Você derrotou estes homens santos?” “Mãe, eu só recebi as transmissão dos ensinamentos, eles tem as transmissões e as realizações dos ensinamentos. Eu não posso derrotá-los.” “Filho, independente do tema do Dharma que surgir no debate, você deve insultá-los. Eles têm medo de cometer qualquer má ação e nada dirão em retaliação. As pessoas pensarão que você venceu o debate.”

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“Gaura seguiu suas instruções. Quando debateu com os monges ele perdeu a calma e disse, “Seu cabeça de elefante! Como você poderia saber o que é Dharma e o que não é?” Ele também xingou-os de “Cabeça de cavalo,” “Cabeça de camelo,” “Cabeça de asno,” “Cabeça de Touro,” “Cabeça de Macaco,” “Cabeça de Leão,” “Cabeça de Tigre,” etc. Ele usou dezoito insultos diferentes contra eles. Como resultado desta ação negativa, ele renasceu como um tipo de monstro-marinho com dezoito cabeças.” Este foi o pronunciamento do Buda. Também é errado desprezar os membros comuns da Sangha. As pessoas podem dizer, por exemplo, “Aqueles monges depravados,” mas eu já mencionei que não há diferença entre quatro seres comuns que são monges e a Arya Sangha. Seria a mesma coisa que dizer estas coisas a Maitreya ou Manjushri. Tratamos os membros da Sangha de nossa própria classe social muito despretensiosamente. Podemos dizer, “Tomo refúgio na Sangha,” mas agimos de maneira diferente. Como meu próprio lama precioso disse, quando os seres ordenados sentam-se entre as fileiras [da Sangha no templo], todos devem considerar o outro como seu refúgio. Mas não é isto o que realmente fazem, mas ao contrário, procuram defeitos nos outros. Eles pensam: “Fulano, o velho monge no meio daquela fila, é muito avarento. Beltrano, o monge atrás dele, não é fácil, tem um gênio!” e assim por diante. Eles acham defeito em cada membro da Sangha. Você pode sentir, “Nenhum deles é melhor que eu!” mas a fórmula “Tomo refúgio na Sangha” se aplica a toda a Sangha que se possa encontrar nas dez direções. Talvez você deva compor a sua fórmula muito própria de refúgio. Que tal: “Tomo refúgio na Sangha, ”

menos nesta pessoa, naquela pessoa

Lama Konchog disse:

Sempre que vir seus amigos, a Arya Sangha, lembre-se:

Eles são amigos verdadeiros para ajudá-lo no caminho.

Em outras palavras, sempre que encontrar membros da Sangha comum ou a Arya Sangha, você deve considerá-los como seu refúgio, como pessoas que o ajudam a deixar um local de perigo. Na segunda metade da visualização, você novamente imagina que suas qualidades Dharmicas aumentam. Imagine néctar descendo. O néctar é na realidade as seis perfeições, que são as tarefas dos Bodhisattvas; as doze qualidades puras dos Shravakas e Pratyekabuddhas; os três treinamentos superiores; a sabedoria primordial na vacuidade sustentada pelos dakas e dakinis; os quatro tipos de boas obras realizadas pelos protetores do Dharma; e assim por diante. Estas qualidades tomam a forma de néctar. Quando recita a fórmula do refúgio muitas vezes, você visualiza os néctares purificadores descendo de três maneiras: a introdução, a parte longa, e a parte final. Para a introdução você repete “Tomo refúgio no guru” enquanto os néctares descem de todos os cinco grupos simultaneamente. Durante a parte longa, néctares descem de cada um dos cinco grupos de gurus, um de cada vez. Depois, na parte final, néctares descem novamente de todos os gurus. Suponha que você vá recitar um rosário de cada

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passo; o processo todo demoraria sete rosários para se completar. Você faz exatamente o mesmo com as outras três partes da fórmula de refúgio. Os Budas são todos nos cinco grupos seguintes: as deidades das quatro classes de tantra, e os Budas do sutra. Os cinco grupos de Dharma são: Dharma dos Shravakas, Dharma dos Pratyekabuddhas, Dharma Mahayana comum [do sutra], os Kriya Tantra, Charya Tantra, Ioga Tantra, e o Ioga Tantra Superior. Os cinco grupos da Sangha são: Bodhisattvas, Shravakas, Pratyekabuddhas, dakas e dakinis, e os protetores do Dharma. É também a prática recitar “Tomo refúgio no guru, nas deidades de meditação e nas Três Jóias,” seguido da visualização dos néctares purificadores descendentes. Mas, os textos não são explícitos quanto a isto. Dizem que a visualização dos néctares purificadores descendentes é uma tradição tântrica; as luzes purificadoras descendentes é uma tradição do sutra. Os néctares purificadores podem descer de três maneiras. Eles podem vir ate você dentro de um tubo de luz; podem descer ao redor de uma superfície cilíndrica de luz; ou eles podem descer como uma chuva pesada. Depois, você recita o trecho de Ornamento para as Gargantas dos Afortunados:

Até à iluminação, eu tomo refúgio No Buda, Dharma e Assembléia Suprema. Com os méritos que alcancei Com a generosidade e outras perfeições Possa eu atingir a Budeidade pelo bem de todos os seres

Tome refúgio na primeira parte, e desenvolva ainda mais a sua bodhichitta ao dizer ”

“Com os méritos que alcancei com a generosidade e outras perfeições

mesmo, “Pela virtude de meus méritos raiz, que adquiri através de praticar generosidade,

manter minha ética, praticar a paciência, etc., possa eu atingir a Budeidade pelo bem de todos os seres sencientes.” Eu não preciso dar agora mais nenhum detalhe sobre isto, já que mais adiante falarei sobre isto em detalhes de como internalizar este tópico [Dia Doze]. Tomar refúgio é como se tornar súdito de um rei; desenvolver a bodhichitta é como pagar-lhe tributos. Neste ponto visualize os resultados de ter desenvolvido a bodhichitta, e tome esta visualização como parte do caminho. Faça isto da seguinte maneira. Do coração do Guru Shakyamuni surge uma imagem duplicata dele que se dissolve em você. Você se torna por natureza Shakyamuni – isto é, um Buda. Incontáveis Shakyamunis se emanam de você e se dissolvem nos seres sencientes que também se tornam Shakyamuni por natureza; agora, eles também são Budas. Alegre-se e sinta, “Quando desenvolvi a bodhichitta, pensei 'Vou guiar todos os seres sencientes ao estado da Budeidade.' Agora eu atingi esta meta.” Esta visualização simula os resultados de desenvolver a bodhichitta: que você foi totalmente bem sucedido nos tantras e suas mandalas. Fazer esta visualização tem seus benefícios correspondentes, e também contém todos os pontos chaves encontrados em

Pense para si

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ensinamentos como Sacudindo para Fora o Conteúdo do Samsara, ou Purificação dos Seis Tipos de Seres Sencientes e Suas Moradas. Depois, você medita nos quatro imensuráveis. Pense assim: “Mas, na realidade sou incapaz de levar todos os seres sencientes a tal estado – posso apenas fazer isto em minha visualização. O que deve ser culpado por isto? Meus sentimentos de apego pelos seres de minha intimidade, e sentimentos de hostilidade pelos que estão distantes de mim.” Depois pense nas palavras de O Ornamento às Gargantas dos Afortunados de Jampel Lhumdrub, enquanto recita:

Como seria maravilhoso se todos os seres sencientes permanecessem num estado de equanimidade: livre de sentimentos de intimidade ou distanciamento, apego ou hostilidade. Que alcancem este estado! Eu os levarei até este estado. Que eu seja abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê-lo!

Como seria maravilhoso se todos os seres sencientes possuíssem a felicidade e suas causas. Que eles alcancem isto! Eu os farei alcançá-los. Que eu seja abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê-lo!

Como seria maravilhoso se todos os seres sencientes fossem livres do sofrimento e suas causas. Que eles fiquem livres deles! Eu os farei se libertarem deles. Que eu seja abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê -lo!

Como seria maravilhoso se todos os seres sencientes nunca fossem separados do sagrado êxtase de renascimento elevado e liberação. Que eles alcancem isto! Eu os farei alcançá-lo. Que eu seja abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê -lo!

Com isto você começa o processo de internalizar os quatro imensuráveis [equanimidade, amor, compaixão e alegria imensuráveis]. Você não faz só estes quatro imensuráveis, um após o outro; as palavras da recitação acima contém quatro outros imensuráveis adicionais dentro de cada imensurável

isto é uma aspiração

imensurável. O pensamento “Que eles alcancem isto!” é uma oração imensurável. Pensar

é altruísmo imensurável. Finalmente, o pensamento

“Que eu seja abençoado pelos meus gurus e deidades para poder fazê-lo!” e uma súplicas imensurável. Esta é a explicação oral tradicional.

os seres sencientes que já foram minhas

mães

usadas na recitação acima porque estas instruções dos quatro imensuráveis não se destina a ser usado no desenvolvimento inicial da bodhichittta, mas é para ser usado para aumentar a própria habilidade de desenvolver a bodhichitta. Seguem alguns pontos a mais sobre o desenvolvimento da equanimidade. Você pode

só se aplica ao desenvolvimento da bodhichitta. Assim, estas palavras não são

“Eu os farei

individual. Cada vez você pensa “Como seria maravilhoso se

ou “Eu os levarei

Mais especificamente, a fórmula “ ”

todos

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aumentar a sua bodhichitta pensando, “Vou alcançar a Budeidade para levar todos os seres sencientes, que são como crianças controvertidas, a um estado de equanimidade, livre de apego e hostilidade.” Ou pode pensar, “Vou alcançar a Budeidade para guiar todos os seres sencientes à felicidade – começando com a felicidade que resulta de eu esfriar os infernos quentes, e terminando com o êxtase completo da iluminação.” Ou pode

pensar, “Vou alcançar a iluminação para libertá-los do sofrimento – desde os sofrimentos dos infernos até os obscurecimentos mais sutis que impedem que se iluminem.” Cada uma destas três maneiras de desenvolver a equanimidade contém em si todo o caminho dos três níveis de capacidade. Você pode então questionar, “Neste caso, porque desenvolver a bodhichitta e o resto antes de treinar a mente na seção do caminho do nível de Pequena Capacidade?” Mas, mesmo quando você treina nas seções dos níveis de Média e Grande Capacidade, você segue estes treinamentos para desenvolver a sua bodhichitta – embora isto possa não estar óbvio. Você precisa apreciar este fato logo de início. Eis dois exemplos. Se quiser subir até o topo de um desfiladeiro, primeiro precisa ter o pensamento de ir até lá. Ou, quando desenha a imagem de uma deidade, você deve primeiro certificar-se de que as proporções

da imagem vão sair corretas, e para isto desenha um quadriculado, etc.

Há dois tipos de progressos rápidos. O primeiro tipo é alcançar a iluminação em uma vida fazendo um progresso mais rápido do que poderia fazer usando o Veículo da

Perfeição [Paramitayana]. O segundo tipo de progresso rápido é ainda mais rápido do que o primeiro: se iluminar nesta curta vida disponível a alguém nestes tempos degenerados.

O primeiro tipo é conseguido por meios dos tantras das primeiras classes; o segundo,

através da mais elevada das quatro classes de tantra. Há uma outra versão para estes dois tipos de progressos rápidos. O primeiro tipo é

atingir a iluminação em uma curta vida disponível nestes tempos degenerados por meio

da mais elevada classe dos tantras. Esta é uma característica comum a todas as escolas -

Sakya, Gelug, Nyingma e Kagyu. O segundo tipo, que se supõe mais rápida ainda, é conseguido considerando os Ioga Tantras Superiores segundo as instruções orais confidenciais da escola Gelug como o sangue-vital do caminho. Se praticar uma combinação dos tantras de Guhyasamaja, Heruka, e Yamantaka, poderá alcançar a iluminação em apenas doze anos. O que sair errado é devido ao praticante. Antes destas linhagens confidenciais evoluírem – elas se ramificam do grande Tsongkapa – havia pessoas que conseguiam suportar grandes austeridades – pessoas como Milarepa, Gyalwa Goetsang, etc. – que precisavam apenas de três anos para alcançar a iluminação. Esta interpretação é da tradição oral que vem desde Chanceler Tagpupa. O seu pensamento era que muitos dos mestres Gelugpa do passado, como Ensapa e seus discípulos, parecem ter alcançado a Budeidade em uma única vida sem muitos esforços heróicos. Eles seguiram a tradição de O Caminho Rápido de como tomar refúgio e desenvolver a bodhichitta. A linhagem de As Palavras do Próprio Manjushri da Província Central dá a visualização do campo de méritos, para ser usada como o local de nosso refúgio, igual à tradição que acabei de descrever. Este não é o caso da Linhagem do Sul: esta tradição apresenta uma visualização bem diferente do campo de mérito de nosso refúgio. É, de

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fato, uma tradição oral confidencial totalmente diferente.

A visualização da Linhagem do Sul é a seguinte. Visualize à sua frente muitos lótus

crescendo do chão. Eles crescem no meio de belas nuvens e arco-íris, e só as partes superiores das flores estão visíveis. A flor central é a maior e nela senta-se Shakyamuni. À sua direita e esquerda estão respectivamente Maitreya e Manjushri – cada um em sua

própria flor de lótus. Seus ombros estão nivelados com os de Buda. Atrás de Maitreya e Manjushri estão sentados os gurus que pertencem respectivamente às Linhagem de Feitos Extensos e Linhagem da Visão Profunda. Estes gurus formam duas filas: sentam-se um atrás do outro, os primeiros sentam-se atrás de Maitreya ou de Manjushri. As fileiras de gurus formam uma espiral, rodeando Shakyamuni. Os últimos gurus destas linhagens sentam-se um ao lado do outro. Deve-se visualizar que cada guru se senta em sua própria flor de lótus, à frente de Shakyamuni, mas em um nível ligeiramente mais baixo, sentam- se seus próprios gurus – aqueles de quem você realmente recebeu ensinamentos. Você não precisa visualizar a Linhagem das Práticas Consagradas. Os Budas sentam-se no alto do espaço entre nuvens e arco-íris; eles se alinham à direita e esquerda dos gurus. Abaixo dos Budas sentam-se os Bodhisattvas, Shravakas e Pratyekabuddhas; os protetores do Dharma estão abaixo deles. Abaixo de seu próprio guru há três flores de lótus multicoloridas. Na flor central esta Mahakala [De Seis Braços] de pé sobre um disco-solar. Ele está em sua forma Kurukellejnana. Ele é o senhor do Dharma do nível de Grande Capacidade. À sua direita está Vaishravana, sobre uma flor de lótus e disco-lunar. Ele é o senhor do Dharma do nível de Media Capacidade. À esquerda de Mahakala está Kamayama de pé sobre um disco-solar e flor de lótus. Ele é senhor do Dharma do nível de Pequena Capacidade. As razões para considerá-los como senhores do Dharma dos três níveis de capacidade são as seguintes. A forma Kurukellejnana de Mahakala é na realidade Avalokiteshvara, a personificação da compaixão de todos os Vitoriosos surgindo na forma de uma deidade protetora. O que está sendo apontado aqui é que você desenvolverá amor e compaixão seguindo o nível de Grande Capacidade se confiar neste protetor. No nível de Media Capacidade, a pessoa deve praticar principalmente os três treinamentos superiores – com maior ênfase no treinamento da ética. O Maharaja Vaishravana prometeu perante Buda guardar a parte das três cestas do vinaya, bem como o treinamento superior da ética. Confiando-se, em particular, neste protetor desenvolve-se estas partes do caminho no contínuo mental. O Dharmaraja Yama representa a impermanência de todos os renascimentos; ele também classifica as pessoas segundo as leis de causa e efeito e segundo as virtudes ou não-virtudes que cometeram. Se confiar neste protetor do Dharma, facilmente se desenvolve realizações do nível de Pequena Capacidade – isto é, da impermanência, causa e efeito, etc.

É assim que você deve se relacionar com estes protetores de Dharma enquanto eles o

guia pelo caminho. Há uma infinidade de pontos secretos e profundos de como os gurus, as deidades de meditação, etc. aceleram-lhe pelo caminho, levando-o muito rapidamente à sua iluminação. Manjushri ensinou estes pontos ao grande Tsongkapa, mas esta não é a hora para discuti-los.

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Outros protetores do Dharma estão à direita e à esquerda dos três senhores dos três níveis de capacidade. Estes três senhores devem também ser colocados de forma que suas bases de lótus estejam em níveis diferentes [com Mahakala no mais alto]. Os procedimentos para internalizar a tomada de refúgio e tudo o mais são iguais ao já explicado para a Linhagem do Norte. Esta linhagem em particular acrescenta então uma passagem chamada “Súplicas ao Refúgio.” A passagem diz, “Guru e Três Jóias preciosas, eu tomo refúgio e rendo-lhes homenagem. Por favor, abençoem meu contínuo-mental.” Isto está baseado nas instruções orais do grande Sakya Rimpoche.

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DIA CINCO

Pabongka Dorje Chang falou um pouco sobre como devemos acertar as nossas motivações. Ele citou este verso de Nagarjuna:

É estupidez despejar sujeira nauseante,

Num recipiente de ouro ornado com jóias,

É uma estupidez ainda maior alguém

Pecar após ter nascido como um ser humano.

Só se deve ouvir este ensinamento após acertar corretamente a sua motivação e

adotar o comportamento correto. O Dharma que está prestes a ouvir é Dharma que leva

o afortunado ao nível dos Budas

Então Rinpoche fez referência aos títulos que ele já havia falado:

O quarto principal título do Lam-Rim é: “A Seqüência para Ensinar as Instruções aos Discípulos.” Este título tem duas sub-divisões; a primeira fala como devemos nos devotar corretamente a um guia espiritual. Há seis ritos preparatórios que devem ser seguidos nesta prática específica. Venho ensinando os seis ritos preparatórios numa versão de discurso conciso, ou seja, O Caminho Rápido. Ontem, falei sobre os três primeiros ritos. O quarto é o seguinte:

(D) FAZENDO SÚPLICAS AO CAMPO DE MÉRITOS

Como disse o grande Tsongkapa, quando nossa mente está muito debilitada – ou seja, quando estudamos mas não conseguimos reter as palavras, quando contemplamos mas não compreendemos, e quando meditamos mas nada se desenvolve em nosso contínuo mental – somos instruídos a confiar no poder do campo de méritos. Somos oprimidos por uma grossa camada de obscurecimentos kármicos; nossa posição é desesperada porque não retemos as palavras que estudamos, não temos uma compreensão adequada apesar de nossas contemplações, e apesar de nossas meditações não desenvolvemos nenhuma realização em nossos contínuos mentais. Mas, se fizermos súplicas a este campo de mérito especial, acumulamos [m