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CAPÍTULO II.

DEFORMATÓRIO

6. As Crianças Fantasmagóricas

Ele levantou as mãos em exasperação. “Eu não estou sendo sarcástico, estou tentando usar um
pouco de tratamento verbal chocante para fazer vocês verem como vocês dois parecem loucos!
Vocês estão falando sobre um maldito pseudônimo voltando a vida!”. – Stephen King, O Lado Negro.

MARILYN Manson era um perfeito protagonista de história para um escritor frustrado como eu.
Ele era uma personagem que, por causa de seu desprezo pelo mundo a sua volta e,
mais ainda, por ele mesmo, faz tudo o que pode trapacear as pessoas para uni-las.
E ai, já que ele ganhou suas confianças, ele a usa para destruí-los.
Ele estaria numa longa pequena história, de umas seis páginas. O título seria “A
Recuperação de Investimentos”, e seria rejeitada por quarenta revistas. Hoje, estaria na garagem
da casa dos meus pais na Flórida, borrado e descolorido com todas as outras histórias.
Mas era uma idéia boa demais para apodrecer. O ano era 1989 e o 2 Live Crew de Miami
estava começando a fazer matérias porque os donos do estoque ao redor do país estavam sendo
presos por venderem seus álbuns – classificados como obscenos – pela minoria. Eruditas e
celebridades estavam correndo para ajudar a banda, para provar que suas letras não eram
comichão e sim arte. Uma corrente culturalmente significante de eventos foi estabelecida em
moção simplesmente por causa das poesias já nascidas sujas como: “A pequena senhorita Muffet
sentado numa almofada com suas pernas bem abertas/ De cima veio uma aranha, olhou dentro
dela e disse, ‘essa boceta é grande’”.
Na época eu estava lendo livros sobre filosofia, hipnose, psicologia criminal e psicologia
em massa (em preto com um pouco do oculto e verdadeiras brochuras criminais). Acima de tudo,
eu estava completamente entediado, vivendo sentado assistindo reprises dos Anos Incríveis e
programas de entrevistas e percebendo o quanto a América era estúpida. Tudo isso me inspirou a
criar meu próprio projeto de ciências e ver se uma banda branca que não fosse de rap podia
escapar impunemente de atos muito mais ofensivos e ilícitos que as rimas sujas do 2 Live Crew.
Como um intérprete, eu queria ser o mais alto, o alarme de relógio mais persistente que eu
pudesse ser, porque parecia não haver outra maneira de dizer algo desagradável do Cristianismo
para a sociedade sem induzir um coma à mídia.
Já que ninguém estava publicando minhas histórias, eu convenci Jack Kearnie, o dono do
Squeeze, um pequeno clube no meio de um shopping, a iniciar uma noite para saraus. Dessa
forma, eu poderia no mínimo conseguir um pouco de exposição para as minhas escrituras. Toda
segunda-feira, eu sentava lá estranho e vulnerável atrás do microfone no pequeno e recitava um
punhado de poemas e pedaços de prosa para um público insuficiente. Todas as personagens
bizarras que prestaram atenção me disseram que minhas poesias eram péssimas, mas eu tinha
uma boa voz e que ninguém realmente gostava de poesia, e seus conselhos estavam certos – pelo
menos porque ninguém que eu entrevistei ou escutei estava escrevendo músicas com alguma
inteligência. Eu sempre sonhava em fazer música porque essa era uma parte importante de minha
vida, mas até aí eu nunca tive confiança ou fé em minhas habilidades para persegui-las
seriamente. Tudo o que eu precisava era de um punhado de almas flexíveis para atravessar o
Inferno comigo.
O Kitchen Club era o epicentro do fluxo da cena do underground industrial de South Beach

Ciclo Seis – Os Hereges

Miami e uma obsessão regular minha desde a época que abriu naquele mesmo ano, enfiado
dentro de um hotel decrépito habitado por prostitutas, viciados e vagabundos. Tinha uma piscina
nos fundos com água suja de tanto ser usada como um misto de banheira e máquina lava-roupas
automática por alcoólatras que mijavam e cagavam lá. Eu ia ao hotel toda sexta-feira à noite,
alugava um quarto e no final do fim-de-semana estava sozinho e infeliz, vomitando na banheira por
ter ingerido muita anfetamina e muita vodca com suco de laranja.
Numa sexta-feira, eu cheguei no clube com um amigo da aula de teatro, Brian Tutunick. Eu
estava enfeitado com um casaco impermeável azul-marinho com “Jesus Salva” pitado nas costas,
meias listradas e botas de combate. Na hora eu pensei e achei, legal, mas em retrospecto eu
parecia um otário. (“Jesus Salva”?) Enquanto entrávamos, nós percebemos um cara louro jogado
contra um pilar com um corte de cabelo engraçado pendurado em sua cara. Ele estava fumando
um cigarro e rindo. Eu achei que ele estivesse rindo, mas quando eu passei, ele nem virou a
cabeça. Ele estava só olhando para o nada, tagarelando como um maluco.
Como a versão da marcha militar iugoslava de Laibach “Life Is Life” emanada de um som,
eu reconheci uma garota com cabelos negros e grandes seios (os quais eram chamados de
biscoitos de Drácula quando estavam numa garota gótica como ela). Gritando contra a música, eu
expliquei a ela que eu tinha um quarto de hotel e tentei convencê-la a ir comigo. Mas, pela
nonagésima nona vez naquele verão, eu fui negado porque ela veio ao clube com um ficante, que
se revelou ser um cara alegre. Ela me trouxe até o pilar em que ele estava encostado, e eu o
perguntei do que ele estava rindo. Sua resposta veio na forma de um preceptor de maneiras
corretas de cometer suicídio, que incluía detalhes essenciais como o ângulo exato de segurar a
arma e que tipo de munição usar. O tempo todo ele estava tendo aquele jeito estranho de rir de
tudo o que ele dizia. Ele só começava a tagarelar, e com essa mesma tagarelice ele repetia o que
ele tinha acabado de dizer – palavras como doze de medida ou córtex cerebral – tanto que você e
ele nem sabiam o que era mais engraçado.
Seu nome era Stephen, mas ele explicou no seminário subseqüente que se alguém o
chamasse de Steve, isso o tirava do sério. Se alguém soletrasse seu nome com um V em vez de
um PH, isso o tirava do sério também. O assunto dos nomes não mudou até o “Stigmata” do
Ministry tocar e os góticos e pseudopunks pararem de dançar e começar d violentamente a se
espancarem. A maioria do tumulto estava sendo estimulada por um cara efeminado, parecendo um
Crispy Glover com cabelo roxo, uma mini-saia e uma malha de pele-de-leopardo. Ele
eventualmente se tornaria nosso segundo baixista. Completamente distraído da atividade a sua
volta, Stephen me contou que se eu gostasse de Ministry, eu devia ouvir Big Black. Ele então
mergulhou numa análise detalhando o toque da guitarra de Steve Albini – as técnicas que ele
usava e os tons que ele produzia – seguido de uma dissertação dos métodos de produção de Albini
e o conteúdo de seu álbum Songs About Fucking.
Eu não transei naquela noite, o que me deixou puto, embora não fosse nada novo. Mas eu
troquei telefones com Stephen. Ele me ligou na semana seguinte e disse que ele queria gravar um
cassete do Songs About Fucking para mim e me trazer algo mais que ele achou que eu fosse
extremamente interessado. Ele não dizia o que era. Ele só queria vir e me dar isso.
Em vez do Big Black, ele me trouxe uma fita de uma banda chamada Rapeman, e ele
passou várias horas improvisando a linhagem entre as duas bandas, indo e vindo de forma autista
todo o tempo. Eu depois aprendi que ele tinha um problema de hiper-atividade quando criança, o
que seus pais tratavam com Ritalin. Agora que ele não estava tomando o remédio, ele se
transformava freqüentemente numa névoa tagarela que era vertiginosa de se ver. Sua surpresa
misteriosa era uma lata enferrujada de sardinha temperada que venceu desde junho de 1986. Ela
nunca deu uma explicação para aquilo, e eu nunca entendi. Talvez ele pensou que eu estava indo
abrir uma Andy Warhol e fazer camisas com aquilo.
Começamos a passar muito tempo juntos, expondo minhas poesias e indo a shows
desagradáveis do sul da Flórida que eu achava serem medianamente decentes na época. Depois
de um show numa noite, fomos para minha casa e manipulamos poemas que eu escrevi. Eu
estava esperando que ele tocasse um instrumento já que ele parecia saber tudo o que tinha de se
saber sobre todas as coisas elétricas, mecânicas e farmacêuticas. Ai eu perguntei. A resposta veio
na forma de um monólogo prolixo sobre como seu irmão era um músico de Jazz e tocou uma
variedade de palhetas, teclados e instrumentos de percussão.
Eventualmente, ele confessou, “eu sei tocar bateria – eh, eh, eh, bateria, eh, eh – um
pouco – eh, eh, um pouco, eh!”
Mas na minha visão não incluía bateria. Eu queria começar uma banda de Rock que usava
uma bateria eletrônica, o que parecia um pouco insólito na época em que só bandas com som
industrial, dance e hip-hop usam baterias eletrônicas. “Apenas compre um teclado e começaremos
uma banda”, eu disse a ele.
Stephen não terminou na primeira encarnação do grupo. Nem a outra pessoa que
encontrei que eu gostei. Eu estava numa loja de discos no Coral Square Mall comprando cassetes
do Judas Priest e Mission U.K. como presentes de aniversário do meu primo Chad. Um empregado
da loja moreno que parecia um esqueleto exótico do centro-oeste com um afro maior do que o de
Brian May veio a mim e tentou me insinuar a comprar os álbuns do Love And Rockets. Seu nome o
identificava como Jeordie White. Um de seus cooperadores, uma garota chamada Lynn, já fez
boquetes e muito mais no cenário do sul da Flórida, me excluindo, mas incluindo Jeordie (embora
ele negue isso até hoje). Quase um ano depois, Jeordie e eu formaríamos uma banda só de
sacanagem chamada Mrs. Scabtree e faríamos uma música sobre o legado de Lynn para o cenário
musical. Era chamada de “Herpes”. Jeordie cantou vestido de Diana Ross e eu toquei bateria
usando um penico como baqueta. Jeordie iria tocar em minha banda como Twiggy Ramirez. Mas
por enquanto, Jeordie só era um doente amistoso numa camisa do Bauhaus tentando achar
alguém que o entendesse.
Na outra vez que encontrei Jeordie no shopping, ele estava tocando baixo numa banda de
Death Metal chamada Amboog-A-Lard. Ai eu nem me incomodei em tentar persuadi-lo a sair. Eu só
perguntei se ele poderia recomendar um bom baixista, mas ele insistiu que não havia muitos no sul
da Flórida. E ele estava certo. Eu acabei falando para Brian Tutunick, meu colega das aulas de
teatro, para tocar baixo conosco. Eu sabia que isso estava errado à princípio porque ele tinha
falado em formar sua própria banda algum dia, e não tinha a intenção de me incluir. Ele deve ter
achado que ele estava fazendo um favor para mim quando entrou no Marilyn Manson And The
Spooky Kids como parte da seção rítmica em vez de como o representante que ele queria ser, mas
isso não foi muito um favor porque ele era um péssimo baixista, um cabeleireiro gordo, um
aspirante a vegetariano e um devoto do Boy George, o que o colocou no fundo do fim dos índices
da agressividade. Ele durou dois shows antes de nós o expulsarmos. Ele acertou contas formando
o Collapsing Lungs, uma banda de metal industrial péssima e diluída com músicas como “Who Put
A Hole In My Rubber?”. Eles achavam que eram uma dádiva de Deus para o sul da Flórida,
especialmente depois que assinaram com a Atlantic Records. Mas eu joguei praga neles. Agora
eles são dádivas de Deus para a classe do desemprego, embora eu não possa levar inteiramente o
crédito por sua ruína. Um instrumentista péssimo e músicas de metal industrial sobre salvar
tartarugas marinhas não ajudavam a carreira deles.
Eu encontrei a outra parte da banda numa festa embriagada numa casa. Um pateta
intoxicado e com cara de torta com cabelos sebosos castanhos e longos braços de macaco
arriados no sofá perto de mim, fingindo que ele era gay e falando sobre a decoração. Ele se
apresentou como Scott Putesky. Ele parecia saber muitas informações técnicas sobre produção de
músicas e, até melhor, ele tinha um gravador de cassetes de quatro faixas. Eu tinha um conceito
mas nenhuma habilidade musical realmente, e eu estava facilmente impressionado. Scott foi o
primeiro músico real que entrei em contato, por isso eu pedi para ele entrar na banda e mais tarde
o rebatizei de Daisy Berkowitz. Ele imediatamente provou ser um cara miserável quando eu liguei
para ele no dia seguinte ao da festa e sua mãe abrasiva falou de forma rouca pelo nariz para mim,
“desculpe, Scott não está. Ele está preso”. Eu achei que ele estava brincando, mas revelou-se que
ele foi pego dirigindo bêbado à caminho de casa da festa.
Scott já estava em muitas bandas de Rock e New Wave locais antes, e quase todo mundo
com quem ele trabalhou queriam o matar porque ele era muito pretensioso e iludia si mesmo
achando que era muito mais talentoso do que ele realmente era. Algumas pessoas conversam
melhor do que tocam, mas Scott fazia os dois muito bem. Ele sempre soube o que fazer para
atazanar as pessoas. Ele falava para as garotas, “você parece ótima da cintura para baixo”, e
achava que isso era um elogio.
Eu fiz uma performance usando meu próprio nome, mas eu precisava de uma identidade
secreta par escrever sobre minha música na 25th Parallel. Por isso eu cuidadosamente escolhi um
pseudônimo, um cognome com um elo mágico como hocus-pocus ou abracadabra. As palavras
Marilyn Manson pareciam um símbolo capaz para a América nos seus tempos modernos, e no
minuto em que os escrevi no papel pela primeira vez eu sabia que seriam o que eu queria me
tornar. Todos os hipócritas da minha vida desde a Sra. Price até Mary Beth Kroger me ajudaram a
perceber que todos têm um lado bom e mau, e um não pode existir sem o outro. Eu me lembro de
ter lido Paraíso Perdido no colegial e ficar abalado pelo fato de que depois que o Satã e seus anjos
companheiros se rebelassem contra o Céu, Deus reagiria contra o ultraje criando o homem para
que ele pudesse ter uma criatura companheira menos poderosa à sua imagem. Em outras
palavras, na opinião de John Milton, no mínimo a existência do homem – não é apenas um
resultado da benevolência de Deus, mas também da malevolência do Satã.
Como um animal bípede, o homem por natureza (se você chama isso de instinto ou
pecado original) gravita ao lado do fluxo mau, o que pode ser uma das razões do porquê que as
pessoas sempre me perguntam sobre a metade negra do meu nome, mas nunca sobre Marilyn
Monroe. Embora ela permaneça como um símbolo da beleza e glamour, Marilyn Monroe tem um
lado negro assim como Charles Manson tem um lado bom e inteligente. O equilíbrio entre o bem e
o mau, e as escolhas que fazemos entre eles, são provavelmente o único aspecto mais importante
que modela nossas personalidades e humanidade. Eu poderia detalhar mais, mas está tudo na
internet (tente o grupo do alt.life que só é digno de viver se você puder colocar-los on-line mais
tarde.) Tudo que vou adicionar é que o primeiro artigo escrito sobre o Marilyn Manson foi de Brian
Warner. E ele entendeu completamente errado o que eu estava tentando dizer.
Na época, Charles Manson tinha sido ressuscitado como um ícone nos jornais e especiais
de TV em nome do ibope Nielsen. No colegial eu comprei seu álbum Lie, o qual vinha com ele
cantando bizarro, quase cômico, com músicas originais bem como “Garbage Dump” e “Mechanical
Man”, o que eu incorporei como um de meus próprios poemas, “My Monkey”. “Eu tinha um
macaquinho/Eu o mandei para o interior e o alimentava com bolo-de-gengibre/Daí veio um chu-
chu, bateu em meu macaco cu-cu/E agora ele está morto/Pelo menos ele parecia estar, mas quem
não faria de novo/(O que eu faço é o que eu sou, eu não posso ser eterno)”.
“Mechanical Man” foi o começo de minha identificação com Manson. Ele era um filosofo
dotado, mais poderoso intelectualmente que aqueles que o condenaram. Mas, ao mesmo tempo,
sua inteligência (talvez até mais isso do que as ações que ele praticou para realizar algo para si)
fez ele parecer excêntrico e maluco, porque extremos – se bons ou maus – não se encaixam na
definição de normalidade da sociedade. Embora “Mechanical Man” fosse uma rima infantil
superficialmente, ela também funcionava como uma metáfora para a AIDS, a última manifestação
do habito antigo do homem de destruir a si mesmo com sua própria ignorância, seja na ciência,
religião, sexo ou drogas.
Depois de converter quatro ou cinco de meus poemas e idéias em músicas, nós sentimos
que estávamos prontos para que o sul da Flórida visse nossas caras feias, as quais cobrimos
estrategicamente com maquiagem. Infelizmente, Stephen ainda não tinha comprado um teclado,
por isso encontramos um nerd com a cara cheia de acne chamado Perry para completar.
Outro problema dentre as tantas neuroses que a escola cristã implantou em mim era um
pequeno temor de palcos. Na 4a série, o professor de teatro me escolheu para retratar Jesus numa
peça da escola. Para a cena da crucificação, ele queria que eu usasse uma tanga. Esquecendo
das crueldades que as crianças eram capazes de fazer, eu peguei emprestada uma toalha
absorvente desgastada de meu pai e a usei sem cueca. Depois de morrer na cruz, eu fui para os
bastidores, onde várias crianças mais velhas puxaram a toalha de mim, começando a me chicotear
com ela, e a me perseguirem pelo corredor. Esse era o clássico pesadelo de um pré-adolescente
se tornando realidade: correr por um corredor pelado na frente de todas as garotas que você gosta
e de todos os meninos que te odeiam. Estranhamente, eu venci meu medo de me expor no palco,
mas eu nunca venci meu ressentimento de Jesus por ter me traumatizado.
Nosso primeiro show foi no Churchill’s Hideaway em Miami. Vinte pessoas foram, mesmo
que agora fôssemos famosos, ao menos umas vinte e uma estiveram lá. Brian, o cabeleireiro gordo
(com o nome mudado para nossa combinação superstar-assassino de Olivia Newton-Bundy),
tocava baixo; Perry, o cara-de-acne (que se renomeou de Zsa Zsa Speck sem perceber o
trocadilho de sua pele salpicada), tocava teclado; e Scott, o fascista das quatro faixas (Daisy
Berkowitz), tocava guitarra. Nós usávamos a bateria eletrônica Yamaha RX-8 de Scott (a qual,
como Scott, nos deixaria um dia, embora a bateria eletrônica nunca mais fosse mencionada
novamente).
Sendo de mente bem literal, eu usava uma camisa de Marilyn Monroe, mas eu adicionei
uma suástica do estilo de Manson na testa dela. Gotículas de sangue vazaram pela camisa,
manchando o olho esquerdo de Marilyn Monroe, um resultado de eu ter um sinal potencialmente
canceroso recentemente removido debaixo de meu mamilo, no mesmo lugar onde Jesus foi ferido.

Ciclo Sete – Os Violentos – Contra Si Mesmos


Embora o médico ter me advertido a não tocar na área em volta da incisão, assim que eu retornei
em casa, eu estiquei a pele em volta dela o mais distendido que pude. As conseqüências foram
mais primeiros novos hobbies como Marilyn Manson: flagelação e modificação corporal, o que eu
mais perseguir com um cirurgião plástico, que tosquiou meus lóbulos caídos nas orelhas para um
tamanho humano.
O palco no Churchill consistia em vários pedaços de compensado por cima de filas de
tijolos, e a aparelhagem de som era basicamente um par de fones de walkman enormes e
colocados com Durex® nas paredes de cada lado do palco. Nós abrimos com um de meus poemas
favoritos, “The Telephone”.
“Eu sou acordado por toques incessantes do telefone”, eu comecei, meu coaxar virou um
rosnado enquanto eu imaginava se havia caos bastante no palco para manter a atenção do
público. “Eu ainda tenho sonhos molhados pelas curvas dos meus olhos e minha boca está seca e
tem um gosto desagradável”.
“De novo – o toque. Lentamente, eu saio da cama. As reminiscências de uma ereção inda
permanecem em meu short como um convidado incômodo”.
“De novo o toque. Cuidadosamente, eu me escondo no banheiro para não mostrar minha
masculinidade para os outros. Lá, eu faço as caras perfunctórias da manhã, as quais sempre
parecem preceder minha contribuição diária para a água, uma vez azul, da privada, que eu gosto
sempre de deixar verde”.
“De novo o toque. Eu me mexo duas vezes como todas as outras vezes, enquanto eu
estou perturbado pelo pingar que sempre parece restar, causando uma pequena monção de
umidade na frente de meus suspiros. Eu lentamente, languidamente, preguiçosamente,
loucamente tropeço no gabinete onde meu pai fuma toda vez. Cigarros em sua simples cadeira”.
“Oh, que fedor!”
A música continuou, o show continuou, e eu perdi a noção do que eu estava fazendo até
posteriormente, quando eu corri para o banheiro do clube e vomitei na privada. Eu pensei que
tivesse sido um show péssimo para ambos espectador e músico. Mas uma coisa hilária aconteceu
enquanto eu me inclinava sobre a mistura podre de pizza, cerveja e comprimidos. Eu ouvi
aplausos, e de repente, eu senti algo nascer dentro de mim e não era vômito. Era o sentimento de
orgulho, talento e satisfação própria forte o bastante para eclipsar a imagem pessoal murcha e meu
passado pesado e difícil. Era a primeira vez em minha vida que me senti assim. E eu queria me
sentir assim novamente. Eu queria ser aplaudido, eu queria ser vaiado, eu queria fazer as pessoas
ficarem revoltadas.
Poucas histórias em minha vida estão sem um anticlímax, e essa veio enquanto eu voltava
para Fort Lauderdale às 3:00 AM naquela noite no Fiero vermelho de minha mãe. No viaduto
arqueado sobre o gueto do crime organizado de Little Havana, o rádio digital pifou em meu carro.
Eu encostei no meio-fio para ver o que estava errado, e descobri que não pude dar a partida no
carro. A correia alternadora estava quebrada e, em menos de uma hora depois de ter achado
minha verdadeira profissão, eu estava compenetrado em procurar por um telefone em Little
Havana, onde as chances de um palhaço pintado de maquiagem chamado Marilyn Manson não ser
espancado eram quase nulas. A única coisa boa que saiu da experiência foi que, sempre que o
reboque não chegasse até às 10:00 AM, eu me acostumaria a não dormir depois de um show tão
cedo em minha carreira.
Nosso primeiro show de verdade aconteceu no Reunion Room. Eu agendei isso dizendo
ao gerente e DJ, Tim, “olha, eu tenho essa banda e vamos tocar aqui e queremos US$: 500”.
Normalmente bandas são pagas de US$: 50 até US$: 150, mas Tim concordou com meu preço.
Essa foi a primeira lição da manipulação na indústria da música: Se você age como um rockstar,
você será tratado como um. Depois do show, nós expulsamos o cara-de-acne e o gordo da banda
e eles, sem dúvida, foram embora para fazer sanduíches, espremer espinhas e estrelas num
seriado cômico de TV Cara-de-Acne e o Gordo, o qual durou uns dois episódios.
Daí nos atraímos por Brad Steward, que parecia um Crispin Glover do Kitchen Club, que
estava saindo de uma banda rival, Insanity Assassin, que incorporou Joe Vomit no baixo e nos
vocais Nick Rage, um cara baixinho e grosso que de algum jeito se iludia pensando que era um
cara alto, magrelo e atrativo. Não foi difícil convencer Brad a tocar baixo conosco (embora ele
tenha tocado guitarra no Insanity Assassin) já que nós tínhamos propósitos musicais similares – e
melhores nomes de palco. Ele se tornou Gidget Gein. Nós deixamos Stephen entrar na banda
como Madonna Wayne Gacy, embora ele não tivesse um teclado. Em vez disso, ele brincava com
soldadinhos de brinquedo no palco.
Para melhorar, porém no final para piorar, mais uma personagem acabou em nosso show
doente. Seu nome era Nancy, e ela era psicótica de todas as formas erradas. Ela conhecia minha
namorada Teresa, que era uma das primeiras pessoas que eu conheci depois que Rachelle me fez
de besta. Eu estava procurando uma figura materna em vez de uma figura de modelo, e eu a
encontrei no show Saigon Kick no Button South. Teresa veio da mesma fábrica que Tina Potts,
Jennifer e a maioria das outras garotas com quem fiquei em Ohio. Ela tinha uma dentição frágil,
mãos delicadas e umas mechas de cabelo louro iguais as de Stephen. Os dois eram eternamente
confundidos com gêmeos.
Eu tinha visto Nancy uma vez antes, quando eu trabalhava na loja de discos, uma gótica-
hipopótamo parecendo uma imbecil num vestido negro de casamento. Quando Teresa me
apresentou a ela um ano mais tarde, Nancy tinha perdido vinte e dois quilos e tinha uma atitude de
“eu estou magra e vou pagar na mesma moeda o mundo por todas as vezes que eu era gorda e
não conseguia transar”. Ela tinha cabelos pretos e encaracolados até o ombro, seios murchos que
se expunham à mostra num top de puta, características hispânicas, uma cara pálida, e um fedor
permanente um pouco de flores, e meio insalubre. Uma vez eu falei para ela sobre as idéias
artísticas de performances que eu tinha para shows futuros, não havia escapatória: Ela penetrou
na banda como um carrapato fazendo seu caminho por baixo da pele de um elefante. Qualquer
idéia que eu tinha que envolvesse garotas – não importava quanto ela fosse extrema e humilhante
– ela imediatamente se indicava como voluntária. Já que ela estava desejando e eu desesperado –
e também porque ela parecia com alguém que outras pessoas detestariam tanto quanto me
detestariam – eu cedi.
Nossas palhaçadas rapidamente cresceram de monótonas para depravadas. A primeira
vez que atuamos juntos, eu cantava enquanto a segurava numa coleira o tempo todo – para
colocar em questão nossa sociedade patriarcal, claro, e não porque a sociedade me fez agarrar
uma mulher vestida escassamente pelo palco por uma coleira de couro. Logo mais tarde, Nancy
me pediu par dar um soco na cara dela, assim eu comecei a dar para ela progressivas porradas
cada vez mais cruéis em cada show.

Ciclo Sete – Os Violentos – Contra Seus Vizinhos

Isso deve ter causado algum dano cerebral porque ela começou a se apaixonar por mim –
embora eu estivesse saindo com Teresa, que era uma boa amiga do namorado de Nancy, Carl, um
cara desajeitado, alto, tolo e bem-intencionado com quadris grandes e uma aparência macia e de
menina. Essa situação Na Real insatisfatória ficou pior quando Nancy e eu começamos a explorar
a sexualidade assim como a dor e a dominação no palco. Eu transei com ela e chupei seus seios,
e ela se ajoelhou e acariciou o que ela encontrou lá embaixo. Sem foder, nós levamos isso o mais
longe que pudemos sem conseguir problemas com minha namorada, o namorado dela e a lei.
Durante um show, nós a colocamos numa gaiola, e, enquanto a banda tocava “People Who
Died” de Jim Carrol Band, eu liguei uma serra-elétrica e tentei serrar o metal. Mas a correia saiu da
lâmina, me acertou nos olhos e fez um talho enorme em minha testa, jogando sangue pela minha
cara. Eu apenas tive que interromper o show porque tudo o que eu conseguia ver estava vermelho.
Como qualquer outra boa performance artística, havia uma mensagem por trás da
violência. Na maioria das vezes, eu não estava interessado em infligir dor em mim e aos outros a
não ser que isso fosse de um jeito que eu fizesse as pessoas refletirem sobre o modo como agem,
a sociedade em que eles vivem ou apenas as coisas que eles acham corretas. Algumas vezes,
como um dever concreto de fazer suposições, eu joguei na platéia dúzias de vasilhas – metade
delas cheias de chocolates, a outra metade com merda de gato.
Eu também estava interessado no perigo e na ameaça dos filmes, livros e objetos
aparentemente infantis, como lancheiras de metal, que foram banidas da Flórida porque o Estado
estava preocupado se as crianças as usassem para espancar os outros insensatamente. Durante
“Lunchbox”, eu regularmente tocava fogo numa lancheira de metal, tirava minhas roupas e
dançava em volta dela, tentando exorcizar seus demônios. Numa tentativa de repetir a lição de
Willy Wonka em meu próprio estilo durante outros shows. Eu suspendi uma vasilha besta sobre a
multidão e coloquei uma vara na beira do palco. Assim eu advertia, “por favor, não abram isso. Eu
imploro a vocês”. A psicologia humana sendo como ela é, crianças na multidão invariavelmente
agarrariam a vara e quebrariam a vasilha, forçando todos a sofrerem as conseqüências, que nesse
caso era uma chuveirada de cérebros de vaca, fígados de galinha e intestinos de porco de um
jumento estripado. As pessoas pulavam freneticamente e escorregavam no monte de carne recém-
estragada, quebrando suas cabeças numa excitação intestinal total. As proezas abusivas, porém,
vieram depois, após uma viagem desastrosa para Manhattam durante a qual eu compus minha
primeira música de verdade.
Uma garota com um nome pretensioso de Asia, que eu conheci enquanto ela estava
trabalhando num McDonald’s em Fort Lauderdale, estava passando o verão em Nova Iorque e se
ofereceu para me levar à Nova Iorque num fim-de-semana. Embora eu estivesse saindo com
Teresa, eu aceitei – principalmente porque eu não gostava de Asia e só queria uma viagem de
graça para Nova Iorque. Eu achei que talvez eu pudesse encontrar um executivo de uma
gravadora para contratar nossa banda, por isso eu levei uma fita demo tosca. Eu nunca estava feliz
com nossas demos, que Scott sempre gravava, porque nós soávamos como uma banda industrial
estranha e eu imaginávamos tocando mais agressivamente, um punk rock mais imediato.
Manhattam revelou-se ser um desastre. Eu descobri que Asia mentiu para mim sobre o seu
nome e sua idade. Ela usou a identidade de sua irmã para conseguir um emprego no McDonald’s
porque ela era muito jovem. Eu pirei – essa não foi aquela grande oportunidade, mas era outro
caso de uma garota me traindo – e me escafedi do apartamento dela. Na rua, por coincidência ou
não, eu me bati com dois baixinhos dos clubes do sul da Flórida, Andrew e Suzie, um casal de
sexualidade incerta. Eu sempre achei que eles pareciam destacados e estilosos nos clubes, mas
os vendo pela primeira vez na luz do dia naquela tarde eu percebi que eles usavam maquiagem e
escuridão para praticarem enganos góticos. No sol da tarde, eles pareciam ter corpos
decompostos e aparentavam no mínimo serem dez anos mais velhos do que eu.
No quarto de hotel deles, a TV a cabo tinha canais de acesso público, um fenômeno
completamente novo para mim. Eu passei horas trocando de canais, assistindo Pat Robertson
pregar sobre os males da sociedade e então pedia para as pessoas o telefonarem com os números
dos cartões de crédito delas. No canal adjacente, um cara estava lambuzando seu pau com
vaselina e pedindo para as pessoas o telefonaram com os números dos cartões de crédito delas.
Eu agarrei o bloco de notas do hotel e comecei a escrever frases: “grana na mão e pau na tela,
quem disse que Deus sempre foi limpo?”. Eu imaginei Pat Robertson finalizando sua tagarelice
“mais certa que a sua”, e então ligando para 1-900-VASELINA. “Bíblia-cinto em volta do anglo-
gasto, colocando os pecadores em seus lugares / É, está certo, seria ótimo se você fosse bom o
bastante para explicar a merda melada em sua cara”. Assim “Cake And Sodomy” nascia.
Eu tinha escrito outras músicas que achava serem boas, mas Cake And Sodomy era mais
que apenas uma boa música. Era como um hino para a América hipócrita babando sobre os seios
do cristianismo, ela era um projeto para nossa mensagem futura. Se televangelistas estavam
fazendo o mundo parecer tão ruim, eu estava dando à eles algo real para eles chorarem. E um ano
depois, eles choraram. A mesma pessoa que inspirou “Cake And Sodomy”, Pat Robertson,
continuou a citar as letras da música e as mal-interpretar para seu rebanho no The 700 Club.
Quando eu voltei de Nova Iorque, meus verdadeiros problemas começaram. Teresa estava
de ir me pegar no aeroporto, mas ela nunca apareceu e ninguém atendia ao telefone na casa dela.
Ai eu telefonei para Carl e Nancy, já que eles moravam perto do aeroporto.
“Você sabe onde está a maldita Teresa?” eu perguntei. “Eu tive momentos desagradáveis
em Nova Iorque, estou enfiado no aeroporto sem dinheiro e tudo o que eu quero fazer é ir para
casa e dormir”.
“A Teresa saiu com o Carl”, disse Nancy, o tom gélido da sua voz traía uma insinuação de
ciúmes que eu também tinha sentido”.
Nancy se ofereceu para me pegar e me levar para casa. Quando chegamos, ela me seguiu
até lá dentro. Eu só queria desmaiar, mas eu não queria ser cruel depois que ela me salvou. Eu
desmaiei na cama, e ela caiu em cima de mim, subiu em mim mais pesadamente (todos os
trocadilhos intencionados) que nunca. Ela enfiou sua língua pela minha garganta e agarrou meu
pau. Eu estava muito apreensivo, principalmente porque eu não queria ser pego. Por agora, eu
comecei a sentir-me deslocado do mundo cotidiano da moralidade. A culpa se tornou mais um
medo de ser preso do que qualquer sentimento de certo ou errado.
Eu acabei deixando ela me fazer um boquete, porque Teresa nunca desceu em mim. Mas,
como no palco, eu não deixaria ela transar comigo. Quando Teresa e Carl apareceram na minha
casa há menos de quinze minutos depois, nós estávamos sentados na cama inocentemente
assistindo televisão. Carl instintivamente foi até Nancy e a beijou na boca, desconhecendo que
minutos atrás todos os seus orifícios receberam muitos milhões de meus espermatozóides.
Na hora, eu achei engraçado e convenientemente vingativo, mas eu não percebi que esse
solitário ato de sexo oral fosse o começo de um reinado de seis meses de terror gótico completo.

7. O Rockstar Sujo

“O ímpeto perto do amor, leva-o até os seus limites, é um ímpeto perto da morte”.
– Marquês de Sade.

O lugar é Fort Lauderdale, Flórida. A data é 4 de julho de 1990. A coisa na palma de uma
mão esticada na minha frente é uma tira de LSD, e em um momento isso vai apagar todos aqueles
fatos.
Teresa, minha namorada, já usou LSD antes. Nancy, a psicótica, já usou. Eu não. Eu o
deixei assentar-se em minha boca até me irritar, ai traguei e voltei para ajeitar os restos da primeira
performance de quintal do Marilyn Manson And The Spooky Kids, confiante de que minha força de
vontade fosse mais forte do que seja lá o que esse pequeno quadrado de papel estivesse
guardando para mim. Andrew e Suzie, o casal que me deu a tira conspirativamente. Eu pisquei,
incerto do que eles estavam tentando comunicar.
Minutos passaram-se, e nada acontecia. Eu deitei na grama e concentrei-me em entender
se o ácido estava funcionando – se meu corpo parecia diferente, se minha percepção mudou, se
meus pensamentos estavam se deformando. “Você está sentindo?” veio uma voz, respirando de
forma fétida e doentiamente em meu ouvido. Eu abri meus olhos para ver Nancy sorrindo
masoquistamente pelos seus cabelos negros.
“Não, não”, eu disse ativamente, tentando me livrar dela, especialmente já que a minha
namorada estava por lá.
“Eu preciso falar com você”, ela insistiu.
“Está certo”.
“Estou começando a perceber algumas coisas. Sobre nós. Digo, Teresa é minha amiga e
de Carl, eu não me importo com Carl mais. Mas nós precisamos os contar como nos sentimos um
com o outro. Porque eu te amo. E eu sei que você me ama, mesmo que você não saiba disso. Não
precisa ser eterno. Eu sei como você é com coisas como essa. Eu não quero que isso se ponha no
caminho da nossa banda” – nossa banda – “e a química que temos no palco. Mas podemos tentar.
Assim, amar...”.
Assim que ela disse amor naquela última vez, seu rosto parecia clarear-se contra o fundo
do gramado, como quadro de anúncios divulgando decepção própria. A palavra amor parecia
pendurada suspensa no ar naquele momento, mascarando o resto da frase. Tudo estava sutil
demais. Mas eu percebi então que eu estava delirando, e não havia volta.
“Você sentiu – a diferença?” eu perguntei, confuso.
“Sim, claro”, ela disse avidamente, como se nós estivéssemos na mesma onda. Eu preciso
de alguém em minha onda porque eu acho que estou enlouquecendo. Mas eu não queria que
fosse ela. Oh Deus, eu não quero que seja ela.
Eu levantei e comecei a procurar Teresa, andando pela casa ligeiramente desorientado.
Todos estavam amontoados em cantos conversando em pequenos grupos, cada aglomerado de
pessoas sorriam para mim e acenavam para eu me juntar à eles. Eu continuei andando. A casa
parecia sem fim. Eu explorei cem quartos, incerto se eles eram todos os mesmos ou não, antes de
desistir, confiante de que minha namorada estava se divertindo em algum lugar que eu não estava.
Eu acabei no gramado. Mas esse não era o mesmo gramado. Era negro, estava vazio e algo
parecia errado. Não estava certo de quanto tempo estive dentro da casa.
Eu fui para fora e fiquei vagando. Desenhos confusos, como rabiscos de lápis, apareciam
no ar, só sendo apagados momentos depois. Eu viajei neles por um momento antes de perceber
que estava chovendo. Não importava realmente. Eu me sentia leve e incorpóreo, a chuva parecia
passar por mim, penetrando nas camadas de luz que o meu corpo que estava emanando. Nancy
veio até mim e tentou me tocar e entender. Agora eu estava definitivamente enlouquecendo.
Com Nancy por perto, enchendo o ar com o aroma abundante de flores mortas, eu desci a
colina até uma pequena enseada artificial. Por toda parte havia sapos de pele cinzenta, pulando
sobre as pedras e na grama. Cada passo que eu dava, eu esmagava muitos deles, espirrando
sangue cinza azulado. Suas entranhas grudavam em meu sapato, algo como folhas de grama
descoloradas, mortas e amarelas presas nas vigas de metal da mobília gramada. Eu estava
amalucando tentando não matar essas coisas, que tinham filhos e pais e vidas para reaverem.
Nancy estava tentando relatar para mim e eu estava tentando fingir que não prestava atenção. Mas
tudo no que eu conseguia pensar era nos sapos mortos. Eu me sentia bem confiante de que essa
era como uma viajada ruim parecia – porque se essa fosse uma boa viajada, então Timothy Leary
tinha muito que explicar.
Eu sentei numa pedra e tentei me re-agrupar, de contar a mim mesmo que isso tudo era só
uma droga pensando por mim, que o verdadeiro Marilyn Manson retornaria num instante. Ou esse
agora mesmo é o verdadeiro Marilyn Manson, e o outro apenas uma representação superficial?
Minha cabeça rodopiava como uma roda de roleta em volta de minha consciência. Eu
reconhecia algumas imagens – as escadas arrepiantes de meu velho quarto no porão, Nancy
atuando como morta numa jaula, os cartazes da Sra. Price. Outros não – um policial de expressão
maliciosa usando um turbante da igreja Batista, fotos de uma boceta encharcada de sangue, uma
mulher coberta de cascões amarrada tortuosamente, uma multidão de crianças rasgando uma
bandeira americana. De repente, a roda parou em uma imagem. Ela sacudia para cima e para
baixo indistintamente em minha cabeça várias vezes antes que eu pudesse distinguir. É um rosto,
largo e sem expressão. Sua pele é pálida e amarelada, como se amarelada de hepatite. Seus
lábios são completamente pretos, e em volta de cada olho uma figura grossa preta, como uma
runa, foi desenhada. Lentamente, foi ficando claro que o rosto é meu.
Minha cabeça estava sobre uma mesa perto de uma cama. Eu cheguei a toca-la, e percebi
que meus braços estão desenhados com as tatuagens em que estive pensando em fazer. Meu
rosto é um papel, ele está na capa de uma revista grande e importante, e é por isso que o telefone
está tocando. Eu o atendi, e percebo que eu estou em algum lugar que eu não reconheço. Alguém
que se identifica como Traci está tentando me dizer que ela viu a revista com meu rosto e isso a
deixa excitada. Eu supostamente conheço essa pessoa, porque ela se desculpa por não ter tido
contato por tanto tempo. Ela quer me ver representando hoje à noite num grande auditório que eu
nunca ouvi falar. Eu a digo que eu irei pensar porque eu estou feliz por ela querer vir mas
desapontado porque isso tudo é só porque ela viu minha cara no papel. Ai eu deitei numa cama
que não é minha e vou dormir.
“Os tiras estão aqui!”
Alguém gritou para mim, e eu abro meus olhos. Eu espero que talvez seja de manhã e tudo
está terminando, mas ainda estou sentando numa pedra cercado de sapos mortos. Nancy e um
cara gritam que a polícia está invadindo a festa. Eu não consigo entender qual dessas coisas é
pior.
Eu sempre fui paranóico quando se fala da polícia, porque até quando não estou fazendo
nada ilegal eu estou pensando em fazer algo ilegal. Por isso sempre que estou perto de um tira, eu
fico desconfortável e nervoso, preocupado se eles me prenderiam de qualquer jeito. Estando
completamente fora de mim com as drogas não ajudava a situação de forma alguma.
Nós começamos a fugir. A chuva estava parada e tudo está molhado e macio por baixo de
meus pés, por isso eu me sinto como se estivesse afundando no chão em vez de correndo.
Totalmente confuso por causa do LSD, a situação tomava proporções gigantescas em minha
mente, e eu me sentia como se estivesse fugindo de minha vida. Meu futuro todo depende de não
ser preso. Nós chegamos e paramos quase mortos na frente de um chevrolet coberto do capuz até
o porta-malas com sangue fresco e gotejado. Estou viajando mesmo.
“Que porra é essa que está acontecendo?” eu pergunto para todos a minha volta. “O que é
isso? O que está acontecendo? Alguém pode me explicar?”
Nancy me alcança, e eu a empurro e acho Teresa. Ela me leva para dentro do seu carro –
escuro, com cheiro de novo e claustrofóbico – e tenta me acalmar, me dizendo que o outro carro
está apenas pintado de vermelho, e o vermelho parece sangue porque a chuva úmida estava sobre
ele. Mas estou completamente azoado: sapos mortos, tiras, um carro sangrento. Eu vejo a
conexão. Todo mundo está contra mim. Eu posso ouvir eu mesmo gritando, mas não ser o que
estou dizendo. Eu tento sair do carro. Eu fiz isso dando um murro no pára-brisa, colocando meu
punho através do vidro supostamente a prova de choque. Os cacos na teia-de-aranha de vidro em
volta de minha mão, e meus nós dos dedos sangrando pareciam uma fileira de canos de esgoto
jorrando restos.
Ai nós sentamos, e Teresa sussurra coisas em meu ouvido e me conta que ela sabe como
estou me sentindo. Eu acredito nela, e eu acho que ela acreditou em si mesma também. Nós
entramos naquele estágio do LSD onde nós não temos que conversar mais para saber o que o
outro está pensando, e eu comecei a me acalmar.
Nós voltamos a festa. As pessoas ainda estavam lá, embora tivessem menos delas, e não
havia evidência de que os tiras tivessem estado lá. Justamente quando eu estava começando a
cruzar a fronteira da má experiência com drogas para uma mais tolerável, alguém – sem perceber
que estou extremamente viajado – tenta me empurrar na piscina só para zoar. Não se precisa ser
um doutor em matemática para entender que LSD mais piscina é igual à morte na certa. Por isso
eu entrei em pânico e comecei a perder o equilíbrio. Logo, estávamos brigando, e estou arrasando
ele como se fosse um boneco que estou tentando quebrar. Eu dei um murro na cara dela com
meus punhos virgens e despelados e nem senti a dor.
Depois que ele se distanciou, eu percebo todo mundo olhando para mim boquiabertos.
“Olha, vamos para minha casa”, eu digo para as pessoas a minha volta. Nós nos esprememos
dentro do carro – sou eu, minha namorada, Nancy e o namorado dela – os quatro ingredientes
exatamente necessários numa receita para a miséria pessoal. De volta a casa dos meus pais na
capital, nós fomos ao meu quarto, onde encontramos Stephen, meu tecladista sem teclado, deitado
na cama como gasolina esperando por um fósforo. Ele tenta nos deixar interessados no filme que
ele está assistindo, Slaughterhouse 5, o tipo de filme estranho e desconectado à viajadas no qual
você não quer pensar quando você toma LSD.
Carl logo ficou concentrado no filme, a televisão brilhava passando o filme sobre sua boca
aberta e babada. Sem dizer uma palavra, Nancy levanta-se de forma apressada – irritantemente –
e marcha ao banheiro. Estou sentando na cama com minha namorada, minha mente cintila do
mesmo jeito do filme brilhando sobre Carl. Stephen tagarela sobre como os efeitos especiais do
filme eram feitos. Do banheiro, eu ouvi um som áspero espasmódico, como as garras de dúzias de
ratos deslizando em volta da banheira. Num raro momento de lucidez, eu percebi que o som é de
um lápis escrevendo furiosamente num papel. O som ficou alto e mais alto ainda, abafando o som
da televisão, Stephen e tudo mais no quarto, e eu sei que Nancy está escrevendo algo que vai me
deixar completamente infeliz e arruinar minha vida. Quanto mais alto o som fica, mais loucas e
distorcidas eu imagino as palavras ficando.
Nancy emerge do banheiro num incêndio de glória vingativa e me entrega o bilhete.
Ninguém parece notar. Isso é entre nós. Eu olho para a televisão para ganhar forças. Estou
olhando tão avidamente que nem consigo focalizar a imagem mais. De fato, ela nem parecia uma
televisão. Parece uma luz piscando. Eu me viro, e olho para Nancy. Mas não vejo Nancy. Eu vejo
uma linda mulher rabugenta com longos cabelos soltos e uma camisa do Alien Sex Fiend
escondendo suas curvas. Essa deve ser a mulher do telefone... Traci.
Em vez de riscos de lápis, eu ouço David Bowie: “Eu. Eu serei rei. E você. Você será
rainha”.
Eu tenho os dedos de Traci numa mão e uma garrafa de Jack Daniel’s na outra. Estamos
num balcão numa festa, que parece ser em minha homenagem. “Eu nunca soube que você era
tudo isso”, ela ronronava, se desculpando por algo no passado que eu desconheço. “Eu achei que
você fosse diferente”.
Há luzes e holofotes, Bowie está cantando “nós poderíamos ser heróis só por um dia”, e
todos estão sorrindo agradavelmente para nós. Ela parece ser tão famosa quanto eu pareço.
“Eu passei minha adolescência me masturbando por aquela puta”, um motorista – meu? –
gargalha em minha cara.
“Quem” eu pergunto.
“Aquela”.
“Quem é aquela?”
“Traci Lords, seu maldito sortudo”.
No andar embaixo do nosso há um homem alto e curvado com longos cabelos pretos e
uma cara pintada de branco. Ela está usando plataformas, e meias-calças rasgadas, calça de
couro preto e uma camisa preta retalhada. Ela parece justamente comigo, ou uma paródia minha.
Eu imagino se ele é eu.
Uma garota gorda com varas metálicas e argolas enfiadas no meio de seus rosto e lábios
imundos me nota olhando para o homem alto. Ela sobe, empurra para trás um guarda-costas
atarracado – meu? – e, enquanto seu rosto pisca grotescamente sobre a luz, explica, “você quer
saber quem é aquele cara? Ninguém realmente sabe seu nome. Ele esta totalmente sem lar. Ele
ganha seu dinheiro roubando, e então o gasta para ficar como você. Ele sempre vem aqui e dança
com suas músicas”.
Eu ouço a música novamente. O DJ colocou “Sweet Dreams” do Eurythmics. Mas está
mais lenta, obscura, maléfica. E a voz cantando é a minha. Eu preciso escapar dessa cena surreal,
de todas essas pessoas que estão me tratando como se eu fosse algum tipo de famoso do qual
eles podem sugar um pouco do brilho. Traci pega em minha mão e me conduz para fora, se
movendo como mercúrio pelo termômetro. Nós passamos por uma cortina branca e fina até uma
sala VIP vazia com iguarias como sanduíches intocados e sentamos. Em algo em minhas mãos...
um pedaço de papel. Eu tento focalizar as grossas linhas borradas. “Querido Amado Brian”,
começa. “Eu quero terminar com meu namorado, e eu te quero para ficar comigo. Você disse
semana passada que você não estava feliz com o caminho com que as coisas estavam tomando
com Teresa” – porra, é da Nancy – “eu vou te fazer tão feliz. Eu sei que posso. Ninguém vai cuidar
de você como eu vou. Ninguém vai transar com você como eu. Eu tenho tanto para te dar”.
Eu o abaixo. Não consigo tratar disso agora, não enquanto eu estiver nessa viagem. Eu
vou sair dessa viagem? Nancy está no vão do banheiro me olhando, seu diafragma nu está
ligeiramente distendido embaixo de sua camisa apertada e azul-marinho. Seu polegar está enfiado
no cós de seu jeans e ele está mordendo seu lábio inferior. Ela não parece sexy. Ela parece mais
doente ainda e disforme, como uma foto de Joel-Peter Witkin. Eu levanto e vou até ela. Teresa e
Carl estão sentados em minha cama assistindo o filme, completamente esquecidos de nós e da
tagarelice doente de Stephen.
Os sopros de brisa entram frescos e lógicos por eu ter aberto a janela de meu banheiro,
que é bem preta, embora as luzes sobre minha cabeça estejam cintilando. Eu tateio a beirada de
porcelana da banheira e sento, tentando aquietar minha cabeça giratória e lembrar-me do que eu
estava indo dizer para Nancy. Eu posso ouvir música agora, bem ampla e alta do meu banheiro. Eu
me sinto desmaiando e tento lutar contra isso.
A música aumenta mais ainda em minha cabeça. “Essa não é a minha linda casa! Essa
não é minha linda esposa!”.
A música não está só em minha cabeça mais. É o Talking Heads, “Once In A Lifetime”, e
está toda encima de mim, vibrando contra as minhas costas. Estou deitado no chão, piscando
meus olhos e tentando recuperar a consciência.
“E você deve estar se perguntando, ‘sim, como eu cheguei aqui?’”
Ela – Traci – está apoiada em mim, puxando minha camisa sobre cicatrizes em forma de
borboleta que nunca soube que tinha. Sua outra mão está desabotoando os botões de minhas
calças. Sua boca é quente e viscosa, e eu posso sentir o gosto de cigarros e Jack Daniel’s. Ela
começa a fazer coisas com aquela boca e aquelas mãos pequenas e unhas avermelhadas como
romãs como as que milhões de homens têm assistido em filmes B há anos – filmes em que eu
nunca fui interessado, apesar de minha fascinação por suas existências. Ela abaixa minhas calças
e, com braços perfeitamente cruzados, tira o seu top. Ela levanta a sua saia, não para tira-las, mas
para me mostrar que ela não está usando calcinha. Estou paralisado. Ela não parece ser suja,
como se ela não estivesse atuando num filme pornô, até mesmo quando ela está me fazendo um
boquete. Ela é delicada, protetora e angelical, uma pluma suspensa no meio do céu sobre um
incêndio de depravação e carnografia. Estou bêbado e, por aquela fração de segundo, também
estou apaixonado. Através do fino laço da cortina separando nossa confusão lingual, unhas e carne
do resto do clube, eu consigo ver a silhueta do guarda-costas contra a luz cintilante, guardando o
portão como São Pedro.
“Uma vez na vida...”
Eu estou penetrando nela agora, e ela grita. Eu agarro seus cabelos, mas em vez de
longos cabelos soltos amarelos, eu pego algo curto, cheio e duro que chega a ferir minhas mãos.
Meus braços estão cortados de tatuagens, e os gemidos, abafados pela minha mão, ecoam contra
o silêncio. Merda, estou fodendo Nancy. O que estou fazendo? Esse não é o tipo de erro do qual
você consegue se safar impunemente. Fodendo uma psicótica é tão bom quanto matar uma. Há
conseqüências, repercussões, preços à pagar. Em flashes cintilantes, eu vejo a cara de Nancy
olhando para mim enquanto ela senta na banheira, com suas pernas abertas e se apertando para
não se fecharem, espumando molhadas como as mandíbulas de um cão voraz. Com cada flash, o
rosto vai ficando mais distorcido, mais contorcido e desumano, mais... demoníaco. Esse é o mundo
certo. Meu corpo continua se movendo, a fodendo forte, mas minha mente está gritando para isso
parar.
É isso. Estou fodido. Estou trepando com o demônio. Eu vendi minha alma.
“E você deve estar se perguntando, ‘para onde vai essa estrada?’”

Ciclo Sete – Os Violentos – Contra Deus

Alguém morde a cartilagem de minha orelha. Eu acho que é Traci, porque eu gosto disso.
Ela agarra meu colarinho e puxa minha cabeça para perto da dela. Com sua respiração, quente é
úmida em meu ouvido, sussurra: “eu quero que você entre em mim”.
A música pára, os flashes param e eu entro em Nancy como um buquê de lírios brancos
como o leite arrebentando-se numa cova. Sua cara está morta e autista. Seus olhos são como
holofotes quebrados. É daí de onde os flashes estão vindo?
“E você deve estar se perguntando, ‘estou certo? Estou errado?’ E você deve estar se
dizendo, ‘meu deus! O que foi que eu fiz!’”

8. Para Todas As Pessoas Que Não Morreram

“Maldoror foi virtuoso durante seus primeiros anos, virtuoso e feliz. Depois ele ficou consciente de
que ele nasceu mau. Estranha fatalidade! Ele dissimilou seu caráter o melhor que ele pôde por
muitos anos, mas no final, já que tamanha concentração era incomum para ele, todo dia o sangue
se alojava sobre sua cabeça até a pressão chegar a um ponto em que ele pudesse não mais
suportar viver uma vida e ele cedeu-se resolutamente à uma carreira maléfica... Atmosfera doce!
Quem poderia ter percebido que sempre que ele abraçava uma jovem criança de bochechas
rosadas ele desejava cortar essas bochechas com uma lâmina, e ele fez isso tantas vezes que ele
não se conteu pelo sentimento de justiça com seu cortejo penitencial do longo funeral.
– Comte de Lautréamont, Maldoror.

SEMANAS
após a viajada, eu estava depressivo e aterrorizado, caçado e capturado por
Nancy. Eu deixei ela tomar decisões criativas para a banda e, até pior, fodia ela
toda hora por trás de Teresa. O sexo era bom, mas eu não queria aquilo. De
alguma forma, todas as direções em que eu ia, ela estava lá. E toda vez que ela estava lá, ela
queria ficar nua. Eu estava completamente possesso. Ela fazia eu cometer coisas que eu sabia
que não devia, como tomar LSD novamente. Dessa vez foi antes de uma performance.
Eu recebi um telefonema de Bob Slade, um DJ punk rock de Miami com um corte de
cabelo estilo Monkees parecendo um cachimbo. Nós não tínhamos um empresário na época, por
isso eu estava lidando com os negócios.
“Olha”, ele disse com sua voz nasal e detestável de rádio. “Nós precisamos de vocês para
abrir para o Nine Inch Nails no Club Nu”. Club Nu era um bar em Miami que todos nós odiávamos.
Embora nós só tivéssemos sete músicas, Brad ainda estivesse aprendendo a tocar baixo e
Stephen sem ter comprado um teclado ainda, eu concordei. Era uma oportunidade muito boa para
se jogar fora porque éramos uma merda. Antes do show, Nancy me deu uma tira de LSD. Como se
o 4 de julho tivesse apenas sido um sonho ruim que não tinha nada à ver com drogas, eu a
coloquei por debaixo de minha língua sem pensar duas vezes até mais posteriormente.
No palco, eu usava um short, vestido laranja e arrastava Nancy pela sua coleira habitual.
Por alguma razão, eu não enlouqueci por causa do LSD: Nancy sim. Ela chorava e gritava por todo
o show, me implorando para eu bater mais e mais forte, até que os debruns se levantassem de
suas pálidas costas anêmicas. Eu estava amedrontado pelo que eu estava me vendo fazer, mas
excitado também, principalmente porque o público estava ficando entretido com o nosso drama
psicodélico sadomasoquista.
Depois do show, o qual acho que nem Trent Reznor viu, eu fui ao backstage dele.
“Lembra de mim?” eu perguntei, tentando fingir que não estava viajando, embora meus
olhos ultradilatados provavelmente me entregassem. “Eu te entrevistei para a 25th Parallel”.
Ele educadamente fingiu lembrar-se de mim, e eu dei para ele uma fita e corri antes que eu
pudesse falar alguma coisa muito estúpida. Delirando por causa de drogas e ainda sob a praga de
Nancy, eu fui tropeçando para uma área do backstage hospitaleira – como o vestuário do Nine Inch
Nails – onde eu a encontrei me esperando. Nós fizemos sexo, e eu vi o demônio nos olhos dela de
novo. Mas eu não estava assustado. Nós estávamos já muito bem familiarizados até então.
Quando nós acabamos, nós vestimos nossas roupas e fomos até o saguão, onde nós nos
batemos com o namorado de Nancy, Carl, e minha namorada, Teresa. Era um momento estranho
de reconhecimento que parecia parado no tempo. Nós olhamos para eles e nos sentíamos como
se eles parecessem culpados. Eles olharam para a gente e sentiram-se como se fôssemos
culpados. Ninguém disse nada sobre isso. Nós todos apenas sabíamos, ou achávamos que
sabíamos.
Algo me incomodava em Teresa mesmo assim. Desde o começo do nosso relacionamento,
havia um elemento misterioso nela, como se houvesse um esqueleto que ela mantinha trancado no
armário pardo de sua mente. Ela vivia numa pequena casa com sua mãe, que dormia num sofá na
sala, e seu irmão, um paradoxo ambulante. Ele era um caipira caminhoneiro eternamente bêbado
que também gostava de hip-hop e cultura b-boy. Teoricamente, isso significava que ele devia se
espancar.
Não era muito divertido dormir na casa de Teresa, porque seu irmão costumava ficar
violento e bater fortemente na porta dela, e o cachorro dela tinha pulgas já que eu ficava metade
da noite me coçando. Embora tivesse sido melhor para nós dois se apenas terminássemos, eu
estava muito inseguro e muito receoso de seguir em frente sem usá-la como bengala. Não era o
sexo, era o apoio – ela pagava por tudo, me dava conselhos, me tratava como criança, e tolerava
meus abusos mentais. Ela era doce, simples, e materna, que era o que eu estava procurando
depois de minha experiência com Rachelle, que tinha um coração de pedra, era cheia de si e
manipulativa.
Mas quando eu visitei Teresa em sua casa no Dia das Mães, seus olhos, que sempre
foram envoltos com escuridão, estavam mais pretos e mais nublados que o normal. Eu perguntei
para ela o que estava errado, e, depois de tentar fazer de conta que não ouviu a pergunta, ela
admitiu que ela ficou grávida no colegial, ficou com a criança por uns tempos e depois o colocou
para adoção. Depois que ela me disso isso, eu comecei a olhá-la diferente, percebendo as macas
esticadas dos seus lábios e o jeito materno que ela tratava todo mundo. Eu me senti como se
estivesse fodendo minha própria mãe quando eu dormia com ela. Embora eu estivesse traindo ela
com Nancy, eu também não ajudava muito sendo hipócrita e me sentindo rancoroso de que, como
toda mulher com quem eu saí até a época – desde a pretensiosa Asia até Rachelle nas duas vezes
– Teresa mentiu para mim e me traiu. Até hoje eu ainda tenho um complexo de que toda garota que
conheço tem um filho ou vai tentar ter um filho comigo. Geralmente, estou certo.
Eu também comecei a notar que Teresa e Nancy estavam conectadas por algum tipo de
equilíbrio que mantinha seus pesos coletivos balanceados. Enquanto Teresa ficava gorda, Nancy
ficava magrela. Parte da razão do porquê que eu cai sobre a influência da praga de Nancy foi que
ela viu os buracos abertos em minha armadura e concentrou-se em entrar como a ferrugem
corrosiva que ela é.
Quando o efeito do LSD passou naquela manhã depois do show do Nine Inch Nails, eu
também me libertei da praga de Nancy. Era como se eu tivesse estado numa longa viajada desde 4
de julho. Eu adormeci furioso e confuso, tentando descobrir o que estava de errado comigo nesses
poucos meses que se passaram. Ela me ligou tarde naquela tarde – justamente depois que eu
acordei com o refrão da pior música que já escrevi, “ela não é minha namorada/não sou quem você
pensa que eu sou”, em minha cabeça – e me informou de sua merda habitual sobre ter expulsado
Carl de casa e me colocado lá dentro. Mas dessa vez eu não aceitei.
“Não, de jeito nenhum”, eu explodi. “Sabe, isso é tudo merda. Primeiro, essa coisa toda
com a banda não vai durar. Eu quero você fora dela”.
“Mas, é minha banda também”, ela insistiu.
“Não, é minha banda. Nunca foi sua banda. Você nem está na banda. Você é um extra, um
acessório, e eu aprecio o que você tem feito por nós no palco, mas é hora de mudar”.
“Mas e o que será de nós? Assim, vamos continuar...”.
“Não. Também acabou. Seja lá o que tivemos, foi um erro e eu quero terminar isso. Agora
mesmo. Teresa é e sempre será minha namorada. Desculpe se pareço um otário, apenas estou
tentando terminar isso”.
Foi aí que ela se empolgou, pior que quando ela estava viajando na noite anterior. Ela
gritava e chorava meio rouca, me ameaçando com tudo o que ela tinha. A conversa acabou comigo
tentando a convencer a não contar para Teresa nem a Carl de nós. Ela concordou. Mas horas
depois, Teresa ligou.
“Olha”, ela disse, colocando o telefone perto de sua secretária eletrônica. Havia uma
mensagem de Nancy, mas ela estava gritando tão freneticamente no telefone que estava difícil de
se entender. Era algo como: “sua puta... que porra que você... eu te disse... nunca... te matar... se
eu te ver... apuros... espalhar sua feiúra... maldita... sangue por todas as paredes (clique)”.
Daí, a situação perdeu o controle. Nancy telefonou para clubes e cancelou shows do
Marilyn Manson And The Spooky Kids; ela aparecia em nossos shows, ameaçava as pessoas da
platéia, e até escalou o palco e atacou a garota que a substituiu, Missi. Ela ligou para todas as
pessoas que eu conhecia e as dizia o bundão que eu era, e ela começou a deixar recados
obscenos e pacotes para mim. Uma manhã eu achei um colar que ela me pediu emprestado
jogado no degrau da porta. Mas ele estava esmagado aos pedaços, coberto com algo que parecia
sangue e lacrado ritualisticamente num jarro de argila com algum tipo de cabelo. Era como uma
macumba que o irmão de John Crowell tentaria rogar.
Nunca em minha vida ninguém me deixou tão violentamente furioso antes. Ela estava
arruinando minha vida quando estávamos dormindo juntos, e agora que não estamos mais, ela
está a destruindo mais completamente ainda. Toda noite quando eu voltava para casa havia uma
nova ameaça de morte me esperando. Eu já tinha vários sentimentos fortes por Nancy:
repugnância, medo, lascívia, incômodo, chateação e o conhecimento de que qualquer garota que
gostasse de mim deveria ser maluca. Mas elas todas estão suplantadas por um ódio profundo,
negro e cáustico, que latejava fulgurantemente pelas minhas veias toda vez que seus nomes eram
falados. Eu finalmente liguei para ela e deixei isso na linha: “além de você não estar mais na
banda, se você não sair da cidade eu vou te matar”. Eu não estava exagerando. Eu estava
enfurecido, eu não tinha nada a perder e eu estava emocionalmente tão envolvido na situação que
eu não tinha perspectivas. Não era só Nancy que era como John Crowell, era eu, porque eu estava
perdendo minha própria identidade por causa do ódio pelas pessoas que eu pensava que
estivessem tentando o destruir.
Meu respeito pela vida humana há muito tempo tinha ficado inerte para mim. Eu percebi
isso justamente semanas antes quando eu estava saindo do Reunion Room e testemunhei uma
batida frontal enquanto eu estava atravessando a rua. Um homem de meia-idade saiu tropeçando
do um carro, um Chevrolet azul, com sua mão na testa gritando por socorro. Ele cambaleava pela
rua, desorientado e em choque, e então tirou sua mão de testa. O pedaço de pele cobrindo o alto
da sua cabeça caiu por cima de seu rosto, e ele desmaiou numa crescente poça de sangue,
tremendo e tendo convulsões enquanto a morte o agarrava e finalmente o aquietou. Quando eu fui
até o outro lado da rua, onde o outro carro bateu, havia uma mulher calma e lúcida, como se ela
tivesse aceitado o fato de que seu mundo estava quase acabando. Enquanto eu prosseguia, ela
lentamente virou sua cabeça até eu e me suplicou para que a abraçasse. “Por favor, alguém me
abrace”, ela implorou, arrepiada. “Onde estou? Não diga para minha irmã... Alguém, por favor. Me
abrace”. Eu podia ver a humanidade e o desespero bem-informados em seus olhos castanhos. Ela
apenas queria algum tipo de contato físico ou materno enquanto ela morria. Mas eu continuei
andando. Eu não fazia parte disso e não queria tomar parte disso. Eu me sentia desconectado,
como se eu estivesse assistindo a um filme. Eu sabia que eu estava sendo um otário, mas eu fiquei
imaginando, será que ela – ou alguém – pararia para mim? Ou eles estariam muito preocupados
com si mesmos – com medo de que eu sangrasse em suas roupas, os deixar atrasados para uma
reunião ou os infectar com HIV, hepatite ou algo pior.
Com Nancy, enquanto eu não achava certo tirar uma vida humana, eu também não achava
certo negar para mim mesmo a chance de fazer alguém morrer, especialmente a existência de
quem significava tão pouco para o mundo e si mesma. Na época, tirar a vida de alguém parecia
uma experiência positiva e educativa, como perder sua virgindade ou ter um filho. Eu comecei a
planejar formas diferentes de lidar com minhas ameaças à Nancy com a mínima possibilidade de
risco para mim. Haveria alguém que eu conhecia que estivesse tão desesperado que mataria ela
por quinze dólares? Ou será que eu conseguiria fazer isso sozinho, talvez a empurrando num lago
e fingir que foi um acidente? Talvez eu pudesse me esgueirar no apartamento dela e envenenar a
comida dela? Essa foi a primeira vez em que eu considerei seriamente um assassinato. Eu não
estava certo do que fazer. Ai eu liguei para uma pessoa que eu sabia que era um expert. Stephen,
nosso tecladista, que nós começamos a chamar de Pogo naquela época porque nem Madonna
nem Gacy pareciam se encaixarem em sua personalidade e Pogo era o apelido de palhaço do
John Wayne Gacy.
Eu perguntei a Pogo tudo o que havia para se saber sobre assassinatos e o descarte de
corpos. Eu não iria aceitar uma outra alternativa. Ela tinha que morrer. Em minha cabeça, eu a
construí dentro de um símbolo, uma representação de todos que tentaram me possuir ou controlar
minha cabeça, seja o Cristianismo ou o sexo, e eu queria vingança – compensação – pelo garoto
que eles deformaram e destruíram. Pogo e eu trabalhamos nisso meticulosamente. Nós tramamos
um assassinato perfeito, não apenas sem evidências de que estávamos envolvidos, mas sem
evidências de que houve um assassinato. Nós a seguimos, examinamos a casa dela e
pesquisamos sua rotina antes de virmos com a solução: incêndio premeditado.
Naquela quinta-feira à noite, Pogo e eu nos vestimos todos de preto (o que não era muito
diferente de como nós nos vestíamos normalmente); enchemos uma mochila de querosene,
fósforos e esses molambos; e bebemos um pouco de coragem no Squeeze. Antes de sair do clube,
eu telefonei para Nancy para ter certeza de que ela estava em casa. Assim que ela atendeu, eu
desliguei. Estávamos prontos.
Ela morava numa área da cidade chamada New River, debaixo de uma ponte que abrigava
a maioria da população desabrigada de Fort Lauderdale. Enquanto Pogo e eu nos aproximávamos
de sua casa, um vagabundo preto ficou nos perseguindo. “Eu, o que é isso, Halloween?” ele
gritava enquanto se aproximava, o fedor fétido de sua respiração sinalizou sua chegada. Ele tinha
um anel longo dourado por entre seus nós dos dedos que soletrava seu nome, Hollywood, e ele
continuava nos falando sobre as drogas que ele tinha para vender. O fato de que ele parecia Frog,
o garoto que me deu porrada no ringue de patinação, só serviu para compor o ódio que eu sentia
no momento e o adicionar à minha determinação de matar aquela garota.
Mas Hollywood continuou nos seguindo, até a porta de Nancy. Pogo e eu olhamos um para
o outro. Nós não nos antecipamos tendo uma testemunha naquela vizinhança deserta. O olhar que
demos um ao outro era uma pergunta: Nós o matamos também? Ou nós abandonamos o plano de
hoje à noite?
Nós decidimos andar pelo quarteirão e fingir que o apartamento de Nancy não era nosso
destino. Mas ele continuou nos seguindo e tentando nos fazer comprar craque. Se eu o
conhecesse melhor na época, eu provavelmente aceitaria sua oferta.
Enquanto nos aproximávamos da casa de Nancy pela segunda vez, nós ouvimos sirenes.
Dois carros de bombeiros zumbiam, seguidos de um carro da polícia e uma ambulância. Nós
ficamos tão fortemente ofegantes que partimos para a direção oposta, deixando Hollywood, Nancy
e New River vivos e ilesos.
Eu sempre penso em Hollywood como algum tipo de mensageiro, um presságio das coisas
boas que eu tinha que realizar. Porque depois daquela noite, eu fiquei muito paranóico para matar
Nancy, com muito medo de ser pego e ir para a prisão. Eu despertei-me para o fato de que eu tinha
contado para muitas pessoas do meu ódio por ela, e até o melhor plano que Pogo e eu
pudéssemos bolar não seria o bastante para nos proteger dos acontecimentos arriscados como se
passasse um carro da polícia. Por isso eu comecei a fazer mal à Nancy de um modo que ela nunca
poderia me rastrear novamente. Em todo o momento malicioso do meu acordar matinal, eu
visualizava a sua destruição, sua miséria, seu desaparecimento de Fort Lauderdale e de minha
vida. Eu andava pelas ruas envolvido por uma nuvem de ódio. Para rogar uma praga, nem Satã e
nem O Necronomicon eram necessários; o poder estava dentro de mim. E na tarde seguinte,
depois de contar para Carl (o único amigo que restou dela) que ela estava terminando com ele,
Nancy desapareceu.
Em vez de ficar contra mim, Carl começou a competir comigo. Talvez essa seja a maneira
de ele negar que eu tinha dormido com a sua namorada. Teresa estupidamente me perdoou
porque ela sabia como Nancy era louca. Seria um final feliz, mas eu comecei a me sentir
desconfortável com o monte de tempo que Teresa e Carl estavam passando juntos.
Numa tarde eu mostrei a Teresa uma capa de uma fita demo que eu tinha desenhado com
uma árvore contorcida e entrelaçada parecendo alguma coisa do Mágico de Oz. Dias depois, um
pôster do show que Carl desenhou para outra banda apareceu emplastrado por toda a cidade com
a mesma árvore nele. Eu estava furioso com Teresa por ela ter dado minha idéia para Carl (irritado
pelo fato de que eu só estava chateado com ela apenas), e enojado pelo comportamento bajulador
de Carl. Eu me assegurei de que eles estariam no nosso próximo show e cantei uma música sobre
Carl, “Thingmaker”, um longo arengo sobre como eu estava enojado por ele tentar parecer e agir
como eu, e enojado especialmente por ele ter me roubado. Mas os roubos não pararam por aí,
porque ele e Teresa logo começaram a namorar, uma abominação até os dias de hoje. Frustrado e
traído no dia em que fiz vinte e dois anos, eu fui fazer minhas primeiras tatuagens – uma cabeça
de bode em um braço e, no outro, a mesma árvore que ele imitou de mim. Era a minha maneira de
fazer um copyright dela.
Embora eu ouvisse rumores sobre Nancy, eu não a vi novamente até uns quatro anos
depois no Squeeze. De primeira, eu pensei em fazer as pazes com ela. Ela estava só, e toda vez
que ela passava por mim, ela jogava seu corpo no meu violentamente sem dizer uma palavra.
Minha namorada ciumenta, que estava provavelmente no primário quando tudo com Nancy
aconteceu, ficou retada. “Vou dar uma porrada nela se ela fizer isso de novo”, ela disse depois que
Nancy bateu de novo em nós pela quarta vez naquela noite.
Quando Nancy passou novamente, minha namorada bloqueou a passagem dela e gritou
na cara dela, “qual é o seu problema, sua puta feiosa?”. Nancy pegou uma garrafa e quebrou na
cabeça dela. Minha namorada deve ter tido experiência no assunto, pois sem nem parecer
atordoada, ela tirou meu anel com garra de meu dedo e socou Nancy cinco vezes com ele, a
danificando tão malmente que eu ficaria surpreso se ela não ficasse permanentemente daquela
forma. Porque eu tinha algum tipo de influência na época, os seguranças expulsaram Nancy do
clube. O velho ódio surgiu novamente, e eu queria fazer algo abominável e mais permanente nela,
mas eu não pude descobrir onde ela morava.

*boceta*boceta*

A substituta de Nancy, Missi, não apenas bem preenchia a saída de Nancy no palco, como
a brecha que Nancy queria preencher em minha vida. Eu conheci Missi no meio do psicodrama de
Nancy, do lado de fora de um show do Amboog-A-Lard no Button South, um palácio do heavy
metal onde provavelmente ainda é legal gostar de Slaughter e Skid Row. Brad e eu estávamos
distribuindo panfletos promovendo um show nosso. Era uma ótima forma de conhecer garotas,
porque se elas gostassem de você, elas sabiam onde te encontrar. Mas não foi isso que aconteceu
com Missi. Nós trocamos telefones logo no começo, e duas noites depois nós estávamos sentados
na praia bebendo garrafões de Colt 45. Eu falava sobre minhas aspirações para a banda. Ela ouvia
pacientemente, como ela ouviria por anos e anos.
Eu estava muito inseguro em terminar com Teresa primeiramente, e Missi e eu ficamos
amigos. Eu não tinha um carro, um emprego, ou outra coisa na vida, assim ela me pegava em casa
e íamos ver uma matinê enquanto Teresa ainda estava no restaurante onde ela trabalhava.
Assim que nossa amizade começou a crescer como um relacionamento naquele inverno,
eu perguntei a Missi se ela queria estar num show. Desde nossos primeiros shows, nós nomeamos
o canto atrás do palco de Pogo’s Payhouse, e lá ele tinha todos os tipos de aparelhos feitos em
casa, geringonças e instrumentos de tortura – mais particularmente uma enorme jaula de leão
retangular que ele usava como suporte para o teclado que ele aprendeu a tocar em menos tempo
que enquanto ele juntava dinheiro para compra-lo. Para a estréia de Missi, nós a colocamos na
jaula cheia de galinhas. Ela estava perfeita: uma pálida de topless, de 18 anos com longos cabelos
pretos numa cueca branca camuflada pelas penas de meia dúzia de galinhas.
Quando as pessoas perceberam que Nancy saiu da banda, aberrações de toda a Flórida
queriam entrar na banda. Por isso nós deixamos. Algumas vezes nós os recrutávamos meramente
como parte de um provocativo (e esperançosamente desconfortável) espetáculo, como quando,
inspirados pelo filme de John Waters Pink Flamingos, nós tivemos duas mulheres gordas
transando num chiqueirinho. Nas outras vezes, nós nos asseguramos de que espetáculo viria
anexado a uma idéia. Durante um show, nós tínhamos uma garota no palco com bobs em seu
cabelo e um travesseiro enfiado dentro de sua camisa para fazer parecer-se grávida. Ela ficava em
frente a uma tábua de passar roupa, e enquanto cantávamos, ela passava uma bandeira nazista.
Enquanto o show prosseguia, ela sentou toda aberta na tábua e fingiu fazer um aborto nela
mesmo. Ai ela embrulhou o feto falso na bandeira suástica e a ofereceu ritualisticamente para uma
televisão brilhante em sua frente. Se nós não deixamos claro nosso objetivo de que o fascismo da
televisão e o modo como a família nuclear americana sacrifica seus filhos para essa babá barata e
que não está nem aí, pelo menos nós parecíamos ótimos tentando.
Nem todo show saía de acordo com o plano: numa de nossas primeiras performances em
Tampa, nós trouxemos uma lata gigante cheia com uns quinhentos grilos com os quais eu queria
me cobrir. Mas quando eu abri a lata, eles todos estavam mortos. O fedor era uma das coisas mais
rançosas que eu já inalei, e o odor se impregnou pelas minhas mãos tão fortemente como o cheiro
que a boceta de Tina Potts tinha. Eu larguei instantaneamente, e como resposta, meia dúzia de
pessoas na platéia, incluindo nosso futuro baixista, Jeordie White, fizeram o mesmo. Mesmo que
eu não tivesse começado o show com uma mensagem em mente, eu terminei com uma: nojo é
contagioso.
Ativistas dos direitos dos animais nos perseguiram tão incessantemente quanto eles fazem
hoje, mas, fora esse massacre acidental de grilos, nós nunca matamos qualquer animal – só
réplicas de animais. Num de nossos momentos mais cartunistas, nós passamos uma semana
construindo uma vaca gigante em tamanho natural de papel-machê e tela de arame. Numa mistura
entre Willy Wonka, Apocalypse Now e uma das revistas bestiais de meu avô, eu enfiei minha mão
no traseiro da vaca e puxei galões de calda de chocolate, cobrindo o público com ela enquanto
Pogo fazia um sample do arengo de Marlon Brando, do Last Tango In Paris, “Até você entrar no
rabo da Morte, dentro de seu rabo, você acha o útero do medo. E então, talvez...”. Para contrariar
as pessoas dos direitos dos animais mais ainda, nós comprávamos gatos mecânicos e porcos que
se moviam em resposta ao som e seguravam sacos de lixo cheios de intestinos pelo palco, para
que assim que esses brinquedos começassem a se moverem espasmodicamente e naturalmente
devido aos atos de crueldade cometidos aos animais quando, de fato, nós estávamos cometendo
atos de crueldade contra os ativistas mesmo. Só os direitos humanos que nós engaiolávamos, e
contra os fãs – mas ninguém parecia se importar com isso.
Cada show era uma nova aventura na arte da performance. Desde que os clubes
gostassem de nos reservar nos feriados, nós sempre tentávamos fazer algo especial nessas
noites. Para nosso primeiro show na véspera do ano-novo, eu usava um smoking e uma cartola.
Para o segundo show, uma garota chamada Terri se disfarçou de mim, usando uma peruca preta,
um smoking, uma cartola e uma pica de plástico pendurada muito realista. Quando ela foi ao palco,
todos acharam que fosse eu com meu pau de pendurado para fora das minhas calças, o que não
era nada novo até aí. Enquanto a banda começou sua versão de “Cake And Sodomy”, eu
engatinhei em volta dela e fiz um boquete nela, para que parecesse que eu estava chupando meu
próprio pau. Talvez seja aí que o rumor de que eu removi cirurgicamente minhas costelas para
poder praticar sodomia em mim mesmo começou.
Em 14 de fevereiro, Missi e eu tentamos ser presos num clube local para que pudéssemos
passar o Dia dos Namorados juntos na cadeia. O clube chega estava corcunda com o tanto de
enfeites dourados que tinha e seus empregados tinham mais fichas policiais que a nossa. Havia
tiras por todo o clube naquela noite, por isso eu trouxe Missi de topless com uma máscara. Dessa
vez, eu estava acabando de receber um boquete. Eu zombei dos tiras, os desafiavam a me
prender, enquanto ela violava várias leis da Flórida. Mas nós não fomos presos. As palmas das
mãos dos tiras estavam muito ensebadas.
Fora dos palcos, Missi continuava sendo uma colaboradora perfeita. (Ela se tornaria a
garota que socou Nancy no Squeeze) Nós começamos a sair em dezembro, e eu estava
determinado tentar ser fiel por uma vez, especialmente depois que, diferente de todas as outras
relações que eu tive até a época, essa começou com um estabelecimento estável de amizade.
Além do mais, eu era o mais velho e me senti na obrigação de cuidar dela e a moldar como se ela
fosse uma protegida minha.
Nossa relação começou durante a época dos assassinatos de Gainesville, quando oito
colegas de escola foram esfaqueados, por isso eu tirei um monte de fotos de Missi deitada nua
coberta de sangue, como se ela tivesse sido brutalmente chacinada. Nós tiramos fotos de seus
seios, sua boceta, sua boca – toda carnuda bem feita, encharcada de sangue e com icterícias.
Algumas vezes eu cobria a cabeça dela com sacos plásticos pretos para fazer ela parecer ter sido
asfixiada, ou escondia sua cabeça com um pano preto e colocava maquiagem sangrenta em seu
pescoço para que ela parecesse decapitada. Nós deixamos nossas fotos em restaurantes e em
ônibus onde as pessoas pudessem as achar e fazer o que suas consciências ditassem.
O único problema era que nós nunca podíamos ver os resultados de nosso esforço. Por
isso nós propomos uma nova sacanagem em que nós notássemos que as pessoas encontrariam
as cenas de natividade em seus gramados no Natal. Apesar da minha antipatia para com religiões
organizadas, eu sempre gostei do Natal, provavelmente porque meus pais me criaram numa
família muito profana (a coisa mais religiosa que eles já fizeram foi me mandar para a escola cristã)
e eu nunca associei Natal com o nascimento de Cristo. Isso só significava pendurar troços numa
árvore, receber presentes e assistir as ruas ficarem caóticas com decorações luminosas. Mas só
porque eu gostava do feriado não significa que eu não deixaria ele vir na forma de uma boa piada.
Muitos dias após o Natal, Missi e eu fomos à mercearia do Albertson, que entre as horas
de uma da manhã e três da mesma era freqüentada por adolescentes procurando por suprimentos
para várias brincadeiras. Embora eu pudesse comprar qualquer coisa que eu quisesse, eu roubava
coisas assim mesmo porque eu me sentia na necessidade de mostrar minha superioridade sobre
os otários nervosos que trabalhavam lá. E, além disso, eu sempre acreditei que roubos comerciais
deviam ser punidos com pena de morte, porque é tão fácil que se você for pego, você merece
morrer mesmo.
Naquela noite nós guelamos um punhado de tesouras cortadoras de arame e lanternas. No
carro cheio de roubos de Missi, nós passeamos pela vizinhança, parando na frente de todo
gramado com uma cena de natividade e roubando duas coisas: o bebê Jesus e o rei-mago negro.
Nossa intenção era sabotar o máximo de cenas de natividade numa única vizinhança para que as
pessoas pensassem que fosse uma conspiração. Ai nós planejamos mandar um bilhete casual
falso de um grupo militar negro para cada casa, declarando, “nós sentimos que a América iluminou
falsamente e plastificaram falsamente o rei-mago negro com sua propaganda racista sobre seu
suposto ‘natal branco’”. A única chatice de nosso plano era que ninguém prestava atenção. Não
havia nenhuma palavra sobre ele nos jornais.
Nos natais seguintes nós decidimos fazer algo mais blasfematório e compramos um monte
de presuntos enormes salgados no Albertson. Infelizmente, eles eram muito grandes para se
roubar, mas eu sempre estive preparado para pagar um preço pela minha arte. Nós os
desembalamos e voltamos as mesmas casas, substituindo os meninos Jesus pela carne podre.
Era uma imagem linda, especialmente quando, com nossos presuntos restantes, nós sabotávamos
as cenas de natividade de igrejas locais e, como um simbólico golpe de misericórdia, deixávamos
carne de porco em manjedouras de módulos policias.
Poucas empresas do sul da Flórida estavam livres de nossas brincadeiras, especialmente
lugares freqüentados por crianças, como o Toy “R” Us e a Disneylândia. Um dia, Missi, Jeordie e
eu estávamos na Disneylândia com alguns brinquedos novos que nós compramos numa loja de
mágicas – um atirador de fogo que propelia chamas de nossas mãos e um barbeador anexado a
um tubo cheio de sangue, para que pudéssemos criar ferimentos falsos. Nós todos estávamos
viajando em LSD e tendo alucinações de que todo mundo no parque de diversões estava afiliado
com o Serviço Secreto. Eles todos pareciam estar falando às escondidas, reportando todos os
nossos movimentos aos quartéis generais, embora na verdade eles estivessem provavelmente
tentando tirar seus filhos de nosso caminho. Nós estávamos convencidos de que eles todos
sabiam que tomamos LSD, o que estava confirmado (em nossas cabeças) quando fomos no
passeio à casa mal-assombrada e, no meio do passeio, os carros pararam e uma voz anunciou,
“favor tenha certeza de que não há nenhum fantasma em seus carrinhos da morte”, aparentemente
uma referência deliberada a música do Marilyn Manson And The Spooky Kids “Dune Buggy”.
Quando o carrinho chacoalhava para começar novamente, eles disseram ou nós imaginamos o
anúncio, “divirta-se o resto de sua viagem”. Depois, nós paramos numa loja de animais e, enquanto
Jeordie tentava se comunicar com as galinhas, eu olhava fascinado por uma hora toda dentro de
uma enorme boceta rosa latejante e coberta de lama de uma porca, não diferente daquela que eu
montaria anos depois no vídeo de “Sweet Dreams”.
Num dos mundos da fantasia plástica do parque, havia uma dúzia de famílias sentadas em
mesas de piquenique, felizes e satisfeitos enquanto comiam pernas gigantescas de peru. Era uma
celebração selvagem da comilança carnívora dando uma distorção irônica pelo fato de haver
pombos e gaivotas voando sobre suas cabeças, óbvios de que a carnificina era cometida contra
seus companheiros comestíveis. Não sou um vegetariano, mas todo o espetáculo alegremente
parecia errado e nojento. Aí eu fui até um grupo de gêmeos que se vestiam iguais, parecendo algo
tirado do Children Of The Damned. Enquanto eles ficavam sentados lá rasgando seus ossos de
peru, eu fiquei na frente deles, tirei meus óculos-de-sol para revelar meus olhos incompatíveis, os
dei o sorriso mais venenoso que pude tirar de minha situação, e peguei minha gilete e fatiei meu
braço. Eu deixei o sangue sair de meu pulso e escorrer por cima dos ingressos rasgados
descartados e grãos de pipoca no chão. Eles largaram suas carnes e correram gritando enquanto
eu ia embora animado pelo meu sucesso, porque não há nada melhor do que o sentimento de
saber que você fez alguma diferença na vida de alguém, mesmo que essa diferença seja uma vida
inteira de pesadelos e uma fortuna em comprimidos terapêuticos.
Voltando para Fort Lauderdale no dia seguinte, nós passamos no Reunion Room e, na
mesma curva onde eu vi a batida de carros, havia um perfil demonstrador, um homem esquelético
de cabelos grisalhos vestido com uma camisa social de manga curta com um negócio por baixo e
uma calça social azul. Todas as tardes ele marchava para cima e para baixo pelo quarteirão como
um velho operário em greve, mas em vez de uma placa exigindo mais benefícios à saúde, ele
estava ornado com figuras de fetos abortados. Qualquer pessoa que ouvisse recebia um longo
sermão sobre como vamos todos para o Inferno por matar os não-nascidos.
Ainda cheios de piadas do dia anterior e parecendo tão horrorosos, pálidos e sujos como
cadáveres, nós paramos perto dele e o chamamos até o carro. Excitado por talvez ter realmente
encontrado alguém para discutir suas opiniões sobre condenação, ele se aproximou de nós.
Quando ele estava perto o bastante para ver através da janela aberta, eu apertei sua mão. “Eu falei
com o Demônio hoje, e ele me disse para te mandar um oi”, eu rosnei, atirando uma chama em sua
direção. Explodiu na sua cara, e ele soltou um grito impiedoso, jogando sua placa para o alto e
correndo. Eu não vi mais ele na curva. Mas eu acho que fiz na verdade um favor para ele já que
ele provavelmente se tornou um herói folclórico em sua igreja local; todo mundo sabe que, como
Job, você tem que ser muito sagrado e justo para receber o mérito da atenção do demônio.
Jeordie e eu começamos a ficar próximos a partir de então, embora ele ainda não fosse um
membro da banda. O vínculo que nos unia era a música, um amor por criar destruição e uma
obsessão mútua por brinquedos velhos de criança, particularmente as parafernálias de Guerra nas
Estrelas, As Panteras e Kiss. Eu falei com Jeordie poucas vezes no shopping, mas nós ficamos
primeiramente amigos quando eu estava num show com Pogo. Eu estava levando uma das minhas
lancheiras de metal da minha coleção, e Jeordie se bateu conosco e disse, “eu conheço alguém
que tem mais dessas. Se você quiser, eu te levo até ele. Ele tem toneladas de lancheiras”. Nós
trocamos telefones, e no dia seguinte ele me levou até uma loja gerenciada por um bárbaro
corpulento chamado John Jacobas. Era um paraíso de fotos de Guerra nas Estrelas, bonecos do
Muhamed Ali, macacos enferrujados de corda com pratos e, em particular, coisas da segunda
guerra mundial que provavelmente eram de onde ele tirava a maioria de seu dinheiro. Ele apenas
te olhava, avaliava o grau de desespero em seus olhos e então te oferecia a coisa mais cara que
você aceitaria. Ele era um profissional, e ele te atraia para a loja toda semana com a promessa de
que traria seu tesouro em lancheiras, que, como o fim de um arco-íris, ele nunca conseguiu achar,
se existia realmente.
Jeordie e eu também descobrimos que estávamos apaixonados pela mesma garota, uma
morena quente que parecia o tipo de pessoa que deveria estar trabalhando no shopping. E, de
fato, ela trabalhava – no Templo do Piercing. Mas ela nem reconheceria nossa humanidade, não
importa qual parte do corpo pedíssemos para ela furar. Por isso eu recuei para o meu jeito
costumeiro e diferente de conseguir a atenção de uma garota: comportamento malicioso e
estúpido. Todos os dias por quase um mês, Jeordie e eu nos encontrávamos num telefone público
na esquina do templo, onde nós podíamos vê-la, mas ela não conseguia nos ver. A princípio, os
telefonemas eram inofensivos. Mas eles rapidamente ficaram mais vis. “Estamos te observando”,
nós a ameaçávamos à altura de nossa lascívia mascarada de malevolência. “É melhor você não
sair do trabalho hoje à noite, porque vamos te estuprar no estacionamento e então te atropelar com
nosso carro”. Eu sabia como ela devia estar se sentindo, porque Nancy costumava deixar
mensagens similares para mim.

Ciclo Oito – Fraude – Hipócritas


Jeordie estava infeliz no Amboog-A-Lard porque ele era o único da banda com presença
marcante no palco e uma ambição de ser algo mais que só uma versão mais pesada do Metallica.
Eu sempre disse que queria que ele fosse um Spooky Kid, e ele sempre disse que ele estava mais
interessado no que minha banda estava fazendo do que no que a dele fazia. Mas eu tinha todos os
músicos que precisava e ele estava atolado no Amboog-A-Lard, cujos membros eu comecei a
deixá-los contra ele porque ele era muito parecido conosco. Aí a gente teve que nos contentar com
projetos à parte como o Satan On Fire, uma banda de falso death metal cristão com músicas como
“Mosh For Jesus”. Nosso objetivo era se infiltrar na comunidade cristã (uma fantasia que eu ainda
tenho), mas a comunidade cristã local nunca nos agendaria.
Talvez por ele não poder estar no Marilyn Manson And The Spooky Kids, Jeordie acabou
estimulando a confusão no nosso show mais notório. Nós tocamos num clube chamado Weekends
In Boca Raton, o equivalente da Flórida à Bervelly Hills, e o show estava cheio de garotas ricas de
Boca, bárbaros conservadores e uma facção rebelde de surfistas insatisfeitos. Enquanto nós
estávamos tocando, Jeordie trepou-se no palco e abaixou suas calças, o que era um
comportamento normal para ele. Embora ele não se importasse que por toda a sua vida as
pessoas o diziam que ele parecia uma menina, algumas vezes ele sentia a necessidade de provar
que ele não era uma. A única coisa estranha foi que ele não tentou botar fogo nos seus pêlos
pubianos, como ele habitualmente fazia quando suas calças estavam abaixadas em público e
quando ele não estava transando. Já que ele estava perto de mim e eu tinha uma mão livre, eu
comecei a masturbá-lo. Os esnobes de Boca ficaram horrorizados, e daquele dia em diante havia
um rumor de que nós éramos amantes gays. Era um boato que fazíamos de tudo para encorajar e
espalhar.
Jeordie trouxe seu irmão de dez anos em outro show, e, para o passar às escondidas no
clube, nós fingimos que ele era parte da banda e o confinamos na jaula do teclado de Pogo. Atrás
dele, Missi estava amarrada numa cruz, usando só uma máscara preta e uma lambuzada de
sangue. Eu pensei na cena como uma pintura retratando a idéia de que isso era tão horroroso e
brutal que a humanidade poderia nascer com alguma esperança e redenção. A crucificação cristã
não parecia diferente do sacrifício pagão, no qual as pessoas achavam que poderiam melhorar
suas próprias condições derramando o sangue de alguém, um conceito que particularmente me
atraiu para a seqüela do meu desejo de morte à Nancy. No final do show, o irmão de Jeordie
estava tão dominado pela emoção de querer tentar por si mesmo a arte da performance que ele
saiu da jaula e mostrou suas partes de baixo para o público. Aquele show começou outra lenda que
persiste até os dias de hoje, que tínhamos crianças nuas no palco.
Num dia mais útil, Jeordie nos apresentou a nosso primeiro empresário, John Tovar, que
também lidava com o Amboog-A-Lard. Ele era um cubano enorme, suado e viciado em charutos
constantemente vestido com um paletó preto e gravata preta com colônia barata afogando seu
odor corporal. Ele parecia uma mistura de Fidel Castro e Jabba, o Hutt. Como se a natureza já não
tivesse o defraudado, ele também era um narcoléptico e caia no sono durante uma checagem de
som diretamente em frente à caixa de som. Nós levamos vantagem da oportunidade de conduzir
pesquisas médicas valiosas e experimentávamos palavras diferentes para o acordar, gritando em
seu ouvido que ele era um monte de merda ou que o lugar estava em chamas. Mas ele não parava
de roncar e agitar seu intestino. Só as palavras “milkshake de baunilha” e “Lou Gramm” o
despertavam e ele abria suas pálpebras grossas e supervenosas, lentamente rodava seus globos
oculares medicinais olhando para o céu e voltava ao normal. Assim ele habitualmente me chamava
e sussurrava algum tipo de conselho bem-intencionado, tipo, “vocês precisam, você sabe, atenuar
isso um pouco para que possamos tocar no Slammy. Talvez você possa fazer um show com o
Amboog-A-Lard, os garotos assustadores”. (O Slammies era a festa de premiação ao hard rock da
Flórida).
O máximo que chegamos para satisfazer o seu desejo foi encurtar nosso nome para
Marilyn Manson, aposentando nossa bateria eletrônica e fazendo entrevistas para um baterista
humano. A única pessoa que apareceu para tentar foi um carinha manco chamado Freddy
Streihorst, e nosso guitarrista, Scott Putesky, insistiu para nós o contratarmos já que eles tocaram
juntos numa banda pop de maricas chamada India Loves You. Como a maioria de todos na nossa
banda, Freddy logo teve vários apelidos. No palco, ele era conhecido como Sara Lee Lucas. Mas
nós os chamávamos de Freddy, a Roda. O nome veio de uma de nossas primeiras groupies,
Jessicka, que formaria o Jack And Jill, uma banda que eu renomeei de Jack Off Jill, e a mantinha
sob meus cuidados resumidamente, fazendo performances com eles algumas vezes. Quando
Freddy era um adolescente, ele sofreu um acidente e, enquanto ele estava no hospital, os
músculos de suas pernas atrofiaram a ponto de ficarem deformados. Como pare de sua
reabilitação, ele aprendeu a tocar bateria.
Freddy era um cara bom e eu nunca o tratei diferentemente dos outros. Mas eu sempre me
senti mal por o forçar a tocar melhor – ele era um péssimo baterista e todos sabiam disso menos
Scott. Jessicka, contudo, não teve qualquer escrúpulo ao zombar dele. Ela decidiu que Freddy
tinha uma roda num pé e devia doravante ser conhecido como Freddy, a Roda. Ela percebeu isso,
claro, depois de transar com ele, ai ela estava sem moral para zombar de ninguém porque ela se
ajoelhou diante da Roda e, de fato, foi pega por ela.
No final das contas, Freddy acabou saindo com Shana, uma aspirante a Sioux com quem
eu fiquei rapidamente antes de conhecer Teresa. Nossa relação não durou muito porque eu tive
uma gripe, e ela vinha tomar conta de mim e transar. A luz do dia não era uma boa hora para se
ficar íntimo dela porque ela estava entre as praticantes de decepção gótica do sul da Flórida. Não
era só porque a maquiagem escondia as crateras em sua cara descamada no sol, eu também
percebi um círculo branco misterioso em volta da vagina dela. Eu nunca pude decidir se isso era
uma doença venérea, alguma forma de muco, uma infecção lêveda, a película de cima de um
pudim ou uma rosquinha vitrificada que alguém deve ter deixado acidentalmente lá depois de uma
relação sexual. Descobrir isso foi uma experiência tão horrível e perturbada quanto meu ensaio de
infância com o catarro de Lisa, e eu parei de ver ela. Scott Putesky, um abutre de bocetas que já
tinha tentado apressar Teresa, começou a se apaixonar por ela, mas foi recusado quando Freddy a
roubou como pequeno manco e de fato se tornou o Senhor dos Anéis.

* * *

Como um carro suado que continua enguiçando com novos problemas toda vez que um
velho é consertado, a banda estava começando a se unir quando nós começamos a ter problemas
com nosso baixista, Brad. Quando mais ele tocava conosco, mais as pessoas vinham a mim e
reclamavam, “esse cara é um maldito drogado”. Eu sempre o protegi porque eu era completamente
ingênuo e nunca tinha usado drogas além de pílulas, maconha, LSD e cola talvez. Brad era
inseguro no começo e estava sempre tentando impressionar t
Todos a sua volta. Por isso sempre que ele mencionava drogas eu só achava que ele
estava tentando ser legal.
Brad era estúpido e, diferentemente de Scott, sabia disso. Eu gostava dele, por isso eu
habitualmente acabava emprestando dinheiro para ele e tomando conta dele. Eventualmente, eu
encontrei alguém para cuidar dele como uma mãe, uma advogada rica e mais velha chamada
Jeanine. Eu dormi com ela algumas vezes e, mesmo que ela comprasse qualquer coisa que eu
quisesse, decidi que Brad precisava mais dela do que eu.
Dentro de dois meses, eles estavam vivendo juntos. Mas sempre que eu parava por lá nas
tardes para o visitar enquanto Jeanine estava no trabalho, ele parecia apreensivo, como se ele não
me quisesse lá. Numa tarde, ele estava agindo mais estranho do que de costume, tentando me
botar para fora do apartamento. Naturalmente, eu não queria sair porque eu estava curioso sobre o
que ele estava escondendo. Depois que passei quinze minutos o assistindo agir
desconfortavelmente com seus dreadlocks verdes e roxos, duas garotas negras emergiram
sorrindo no armário numa nuvem de fumaça e carregando pequenos tubos de vidro. Enquanto elas
conversavam, tornou-se claro para mim que os tubos eram charutos de crack, as garotas eram
prostitutas e Brad era um drogado. Aqui estava outra pessoa que eu achava que conhecia, mas
depois percebi que tinha uma vida secreta.
Já que eu estava ciente de que ele era um viciado em heroína, os sinais eram óbvios. Ele
parecia uma merda, passava por revertérios de humor selvagem, era incrivelmente paranóico,
bebia muito, perdia shows, perdia peso diariamente, vinha tarde para praticar, nunca teve energia,
e sempre pedia dinheiro emprestado. Ele e sua namorada anterior, Trish, achavam que eram Sid e
Nancy, mas eu nunca entendi porque suas homenagens foram tão longe. Toda vez que eu o olhava
agora, tudo que eu queria sentir era ódio e nojo. Minha mensagem toda e tudo que eu começava a
me empenhar em ser como uma pessoa ia de encontro a Brad. Eu queria ser forte e independente,
pensar por mim mesmo e ajudar outras pessoa a pensarem por si mesmas. Eu não podia (e ainda
não posso) tolerar ágüem que é um maldito fraco sobrevivendo como um idiota e enchendo o saco
dos outros.
Uma noite Jeanine telefonou a me acordou. “Brad morreu!”, ela ficava gritando. “Eu devia
tê-lo parado. Ele está morto! Ele finalmente fez isso consigo mesmo. Ele está morto! O que devo
fazer? Me ajude!”.
Eu corri para a casa, mas eu cheguei tarde demais. Uma ambulância já estava saindo.
Jeanine estava no telefone com seus advogados porque sempre que alguém tem uma overdose e
os médicos acham agulhas hipodérmicas, drogas e tal, eles são obrigados a chamar a polícia. Eu
fiquei com Jeanine naquela noite até nós descobrirmos que Brad foi ressuscitado e então
prontamente preso. Nós conversamos por horas sobre isso. Eu tive pena de Brad porque ele era
um cara criativo e afável e eu amava compor músicas com ele. Mas ele era também um drogado e
um fodido. Uma parte de mim desejava que ele tivesse fatalmente tido uma overdose, para sua
própria e nossa paz de espírito. Até então sua vida era heroína. Tocar baixo era só um jeito de
passar o tempo entre as doses.
Quando eu vi Brad novamente, eu estava sentado e, pela primeira vez, percebi o quanto
essa banda era realmente importante para mim e quanto eu não toleraria alguém a destruindo. Isso
não era mais um jogo. “Olha”, eu disse para ele. “Você teve sua última chance. Fique limpo ou
você está fora da banda”.
Brad se descontrolou e começou a chorar, se desculpando em soluços interrompidos por
seu comportamento e prometeu não se injetar mais. Por não ter tido nenhuma experiência anterior
com drogados, eu acreditei nele. Eu acreditei nele na segunda e na terceira vez também. Ele
chegava ao local fraco ainda em meu coração negro: a pena, uma palavra que durante o decurso
do ano duro que viria estaria amputada de meu vocabulário.
Meses depois, não fomos para Orlando numa demonstração importante para várias
gravadoras interessadas em nos contratar. Na noite anterior eu recebi outro telefonema apavorado
de Jeanine, que estava assustada porque Brad estava usando heroína de novo e bateu um
boquete num cara naquela noite. Eu defrontei: Brad, e ele estavam negando seu uso de drogas,
mas ele não parava de se vangloriar por ter realizado sua fantasia de chupar um cara, um
cabeleireiro promíscuo que trabalhava num salão que ele ia para tingir seu cabelo (o que era um
tanto irônico já que os dreadlocks de Brad estavam sempre sujos e fedidos).
No palco, Brad parecia deslocado, mas eu tinha coisas mais importantes em minha cabeça
que seus braços cheios de tatuagens. Depois do show, ele desapareceu, mas novamente eu tinha
coisas mais importantes em minha cabeça porque nós estávamos com umas garotas
engraçadinhas. Normalmente eu estava preocupado, mas estava enjoado de cuidar dele.
As três da manhã, ele invadiu a casa com três strippers que nenhum de nós conhecia. Ele
ainda estava usando seu traje do show – uma camisa dos anos 70 sem manga roxa com estrelas
prateadas, calças curtas pequenas brilhantes de mulher sobre meias vermelhas com armas nelas e
botas de combate – e ele estava acabado. Seus olhos estavam disparados de um lado para o outro
tão rapidamente que eles eram uma névoa e ele estava irrequieto de forma maníaca com seu
piercing da boca enquanto ele tagarelava incoerentemente sobre algo que parecia importante para
ele. Prosseguindo, as strippers tinham pernas, braços e pescoços machucados e descoloridos,
como se elas ficassem sem veias para se injetar. Seus dentes eram falhos e retorcidos em suas
bocas como velas brancas derretendo sobre um bolo de chocolate remexido. Enquanto eles
cambaleavam desagradavelmente pelo quarto, oferecendo para todos heroína, tranqüilizante e
tudo mais que estava agarrado no algodão de seus bolsos, Brad parecia estar desmaiado,
murchando-se no sofá e ficando tão desorientado que nem ele sabia seu próprio nome. O suor
estava escorrendo pelo seu rosto e caindo na forma de gotas em suas roupas. Por um segundo,
ele parecia ter retomado seus sentidos. Ele me olhou diretamente nos olhos, daí caiu no chão,
desmaiado. Sua cara estava verde e pálida do tingimento do cabelo que filtrava seu suor nas
dobras oleosas de sua testa e de suas unhas dos dedos sem esmalte que estavam agora
manchadas de roxo e azul.
As strippers, provavelmente acostumadas com essa situação, foram embora da casa. A
princípio, eu tentei acordar Brad – todo mundo ajudou rolando ele pelo quarto, dando tapas nele e
jogando baldes de água nele. Mas o que eu queria mesmo era dar um chute nas costelas dele. Eu
estava sobrecarregado de ódio por ele e o clichê que sua vida se tornou. Eu já tinha adorado Brad
como um irmãozinho, o que faz ficar fácil o odiar. Não só o amor e o ódio são emoções muito
proximamente relacionadas, mas é muito fácil odiar alguém que você gosta do que alguém que
você nunca teve contato.
Nós nos afastamos de seu corpo imóvel e multicor e conversamos – não sobre como nos
poderíamos ajudá-lo, mas sobre como nós poderíamos machucá-lo. Eu sugeri virar e deixá-lo
sufocar em seu próprio vômito. Se o magistrado que investiga mortes suspeitas não pudesse dizer
se ele foi virado, a morte de Brad seria atribuída a sua própria estupidez. Nós ficamos em debate,
tentando determinar se nós seríamos presos e acusados de homicídio. Embora eu ainda sentisse
uma pontada de pena, eu pensei em sua morte como um suicídio ajudado. Realmente de fato, eu
me sentia como se ele já estivesse cometido suicídio, porque o Brad que conheci no Kitchen Club
quando eu primeiramente imaginei a banda há anos atrás estava morto, um estranho para ambos
de nós.
Mas eu não o queria para pôr em risco de morte a banda como o que ele fez com a sua
própria vida. No final das contas, era somente o medo de sermos pegos que nos impediu de matá-
lo. Era uma monstruosa maneira de pensar, mas eu não podia fazer nada. Eu estava me tornando
o monstro gélido e emocionalmente danificado que eu sempre quis ser, e eu não estava certo de
que eu gostava disso. Mas era tarde demais, a metamorfose já estava acontecendo.
No dia seguinte eu telefonei para o estúdio onde Jeordie estava trabalhando no primeiro
álbum independente do Amboog-A-Lard. Era uma grande oportunidade para Jeordie, porque ele
estava tocando baixo e guitarra assim como produzindo. Mas eu também sabia que ele queria
tanto entrar no Marilyn Manson que ele realmente amparou Brad e estava saindo com ele para
beber e se drogas depois que Brad foi advertido a se limpar. Eu sempre imaginei se esse era um
ato deliberado de sabotagem da parte do Jeordie ou não. Se foi, era muito esperto.
“Você quer entrar na nossa banda?” eu perguntei.
“Bem, estou na metade das gravações desse álbum”, Jeordie suspirou.
“Você sempre pertenceu a nossa banda”.
“É, eu sei”.
“E sua banda odeia sua maldita determinação e quer te destruir”.
“Eu vou te ligar”, ele disse, e eu sei que tinha conseguido ele.

Ciclo Oito – Fraude – Ladrões

Brad estava praticamente morto, Nancy estava praticamente morta e minha moralidade
estava praticamente morta. O Marilyn Manson finalmente estava no seu caminho para se tornar a
banda que eu queria que fosse.

9. As Regras

“Faças o que tu desejas ser dentro de todas as leis”.


– Aleister Crowley, Diário De Um Drogado.

Ciclo Oito – Fraude – Conselheiros Fraudulentos

AS pessoas sempre querem saber sobre minhas crenças religiosas e filosofais. Mas poucas
pessoas já me perguntaram sobre minha ética cotidiana – as regras que eu uso quando lido
com a sociedade no dia-a-dia. Aqui estão um pouco delas. Sinta-se livre para as cortar daqui
e colocar elas na porta da geladeira de sua mãe para ter uma referência fácil.

DROGAS
Existe um estereótipo entre as pessoas que nunca viajaram de que todo mundo que já
usou drogas, não importa qual a droga, é viciado. A verdade é que o vício não tem nada a ver com
quais drogas você usa e com qual freqüência você as usa. Existem outros fatores, como a
extensão que você as deixa correrem pela sua vida e sua habilidade de funcionar normalmente
sem elas. Eu não faço segredos do meu uso de drogas. Mas ao mesmo tempo eu não tenho nada
mais à não ser o desprezo total por qualquer pessoa que é viciada em drogas. São as pessoas que
abusam das drogas que fazem as pessoas que apenas as usam parecerem ruins. Aqui estão
algumas regras simples para ajudar você a determinar se você é um usuário ou um “abusuário” de
cocaína, maconha e outras substâncias. Se considere viciado se...

1. Você realmente paga por drogas.


2. Você usa um canudo como oposição a uma nota de dólar enrolada.
3. Você usa a palavra tragar.
4. Você é homem e você está no backstage de um show do Marilyn Manson (a menos que
você seja um traficante ou um policial).
5. Você tem mais de um CD do Pink Floyd.
6. Você usa cocaína durante um show. (Se você usar depois do show, está tudo OK com
você. Se for antes, você está ultrapassando os limites).
7. A mera menção de cocaína te faz ficar ofegante ou a imagem dela te faz querer cagar.
8. Você já escreveu mais de duas músicas que se refiram a drogas.
9. Você é expulso de uma banda por ser viciado em drogas.
10. Você é amigo de um modelo.
11. Você mora em Nova Orleans.
12. Você paga pela sua comida com notas de dólar enroladas.
13. Você já esteve no Dr. Hook ou conhece uma letra de uma música do Dr. Hook.
14. Os números em alto-relevo, particularmente os zeros, seis e noves, em seu cartão de
crédito estão cheios com um misterioso pó branco.
15. Você está sozinho no seu quarto de hotel em turnê e você usa drogas.
16. Você usa drogas antes das seis da tarde ou depois das seis da manhã.
17. Você odeia todo mundo. (Se você gosta de todo mundo, você usou êxtase e eu sou contra
você).
18. Você sabe o nome da dobra carnuda entre seu polegar e seu dedo indicador.
19. Você já disse, “essa é minha última linha” ou, inversamente, “qual é a linha maior?”.
20. Você convida pessoas para ficar em sua casa enquanto você está sob efeito de drogas.
21. Você diz para alguém sobre sua infância enquanto você está sob efeito de drogas.
22. Você não está pensando em seios agora.
23. Você diz, “eu só faço isso quando estou com você”.
24. Você coloca seu guarda-costas na porta quando você vai ao banheiro.
25. Você é um homem e você conversa com uma garota que tem um namorado por mais de
cinco minutos porque ela está sob efeito de drogas.
26. Você é um ator infantil.
27. Se você faz desse livro um jogo e traga uma linha toda vez que drogas são mencionadas,
ai você não é um viciado mais você também deve estar morto.

REGRAS QUE QUEBREI: 1, 4 (mas essa não conta), 5, 6 (e eu voltei ao palco com a nota de
dólar pendurada no meu nariz), 7, 8 (eu escrevi dúzias), 12, 13, 14 (a menos que eu tenha
esvaziado eles porque estava atravessando uma fronteira), 15, 16, 17, 19, 20, 21 (mas só
para esse livro), 24 e 25.

HOMOSSEXUALIDADE
Minha filosofia sobre a sexualidade é que eu não tenho nenhum problema com qualquer
coisa que qualquer pessoa faz de jeito algum. Tudo o que eu peço é que você conheça as regras.
Eu chupei os paus de vários caras, o que muitos caras honestos não iriam admitir terem feito ou
que queiram fazer. Mas assim como beijar uma garota não pode deixa-la grávida, chupar o pau de
um cara não faz de você gay (a menos que você quebre a regra número 3). Não é que eu seja
contra ser gay – eu apenas quero deixar claro o que faz de você gay. Por favor, perceba que essa
lista só se refere a homens: todas as mulheres são lésbicas por natureza. Por isso vamos
esclarecer as coisas (nenhum trocadilho intencionado) – se você se familiarizar com alguma das
qualificações abaixo, você é gay.

1. Se o esperma de alguém cair em você.


2. Se você já teve um álbum do Smiths.
3. Se você se excitar quando está chupando o pau de um cara. Senão, está tudo OK com
você – a menos que caia esperma dele em você.
4. Se Michael Stipe está num quarto com você e você está transando com uma mulher, você
é bissexual.
5. Se você está num bar gay, você não é gay. Mas se você estiver num bar normal e você
conversa com outro cara mais que com uma garota, você é gay.
6. Se você bate o pé no chão numa música do Smiths.
7. Se você discute sobre arte por mais de quarenta e cinco minutos.
8. Se você já teve uma boina.
9. Se você beija um cara e ele fica excitado, você não é gay a não ser que você fique
excitado também.
10. Se você tem qualquer tipo de sexo – com um homem ou com uma mulher – ao som dos
Smiths, você é gay.
11. Se seu único propósito na vida é engravidar garotas para que elas consigam mais garotas
para fazer sexo lésbico juntas.
12. Se você se masturba e goza em você.
13. Se você fica agoniado assistindo a Gilligan’s Island.
14. Se você fica agoniado assistindo a Bewitched.
15. Se tiver uma música do Smiths num bar e você está no banheiro com seu pau na mão.
16. Se seu nome for Richard e te chamam de Dick.
17. Se você é amigo de alguém chamado Dick.
18. Se você não trai sua esposa, você está somente com ela como um disfarce para fazer as
pessoas acharem que você não é gay.
19. Se você é amigo de um modelo.
20. Se você fode uma garota que gosta do Smiths.
21. Se você não come carne porque o álbum do Smiths Meat Is Murder teve um impacto em
sua vida.
22. Se você faz algo espiritual.
23. Se você fode uma garota grávida e ela está grávida de um menino, você é gay. Se você
jogar esperma no saco amniótico, o bebê vai nascer gay também.
24. Se você já teve um corte de cabelo como o de Morrissey.
25. Se você já cortou o cabelo com o álbum do Morrissey ou do Smiths tocando no lugar.
26. Se você já conversou sobre ou já teve um cristal – especialmente se for lapidado.
27. Se você já colocou band-aids em seus mamilos porque estava na moda.
28. Se você já passou mais de uma semana em South Beach.
29. Se você não está pensando em seios agora mesmo.
30. Se você ainda gosta do Judas Priest depois que você ouviu o rumor de que Rob Halford
era gay.
31. Se você fica excitado enquanto está cagando.
32. Se você sabe qual é o gosto do esperma (especialmente se ele for seu).
33. Se você beija uma garota depois que ela engoliu seu gozo.
34. Se você fica excitado enquanto lê isso.
35. Se você sabe os nomes de qualquer pessoa que já esteve no Smiths fora Morrissey e
Johnny Marr.
36. Se você é um modelo masculino.
37. Se você chora ao ouvir o “Boys Don’t Cry” do The Cure.
38. Se você é um estilista.

REGRAS QUE QUEBREI: 1, 2, 12 (isso provavelmente faz todos nós de gays), 20 (mais
foi involuntariamente), 26, 30, 33 e 38 (eu desenho minhas roupas).

TRAIÇÂO
Embora nós termos uma reputação de saqueadores flagrantes de todos os seios livres e
caros que vêem por sermos rockstars, a verdade é que nós todos somos completamente fiéis às
nossas namoradas. Eu posso dizer honestamente que eu nunca traí minha namorada e é porque
eu vivo de regras, que está listadas abaixo para seu uso e instrução.
1. Você consegue apertar seios falsos porque eles não são realmente reais, então você não
está traindo.
2. Se você não se lembra dos nomes deles, isso não conta.
3. Se você não liga para eles depois, isso não conta.
4. Boquetes não contam – eles são como apertos de mão e autógrafos.
5. Se você abraça fortemente, você está traindo.
6. Se você está num lugar de mesmo fuso-horário que está defronte ao lugar de mesmo fuso-
horário que sua namorada está, usa a equação seguinte para determinar se você vai ou
não trair: deixe X ser a diferença de tempo entre os dois lugares e deixe Y ser o número de
horas que se passaram desde que você dormiu com outra mulher. Se você conversa com
sua namorada e Y<X, então você não traiu porque isso não aconteceu ainda. Se Y>X,
você traiu.
7. Se você está na Europa, Canadá, América do Sul ou Japão, sua licença de casamento não
é válida. Então você pode dormir com qualquer pessoa que quiser.
8. Se você fode alguém na noite antes de ver sua namorada, está tudo bem com você porque
isso só é prática para assegurar que você não vai ejacular precocemente com sua
namorada.
9. Se for parte de uma performance pública, não conta.
10. Se você está fazendo isso para ajudar sua carreira, não conta. Mas se ela acha que você
pode ajudar a carreira dela, então você está traindo.
11. Se você se lembra do nome de uma garota com quem alguém passou a noite, então você
traiu porque você pensou nisso mais que a pessoa que transou com ela. Se você não tem
uma namorada, isso só te deixa desesperado e conta como uma traição contra sua futura
namorada.
12. Se for aniversário de alguém, não conta (especialmente se for o seu).
13. Se a garota tem uma tatuagem com seu nome nela, então isso é apenas uma cortesia
comum para transar com ela.
14. Se você fez sexo anal com alguém, não conta porque não é coito.
15. Se ela tem o mesmo nome de sua namorada, não é o mesmo. Se nenhum desses se
aplicam, jogue o perfume favorito de sua namorada nela antes de transar e estará tudo
bem com você.
16. Se você diz para elas com as respeita pela manhã e é verdade, você é gay.

REGRAS QUE QUEBREI: nenhuma.

10. Tudo Por Nada

“Eu vi que [ele] era um gênio do sofrimento e no sentido de vários ditos de Nietzsche, ele criou
dentro de si mesmo com um gênio positivo uma ilimitada e espantosa capacidade de dor. Eu vi ao
mesmo tempo em que a raiz do seu pessimismo não era o desprezo pelo mundo, mas o próprio
desprezo; por mais impiedosamente que ele pudesse aniquilar instituições e pessoas com sua
conversa, ele nunca se poupou. Era sempre em si mesmo primeiramente que ele apontava o eixo
de transmissão, nele primeiro e depois em quem ele odiava e desprezava”.
– Herman Kesse, Steppenwolf.

O REI DA SUJEIRA FICA LIMPO:


Parte 1 de uma história de duas partes
Por Sarah Fim
Empyrean Magazine, 1995*

Fotos de garotas nuas e corpos apodrecendo tremulam na tela da televisão no quarto de


hotel do Marilyn Manson enquanto ele tira seus óculos-escuros e acomoda-se no sofá. Fotos,
roupas e papéis estão espalhados pelo chão, os escombros de um ano conturbado para Manson, o
líder da banda controversa com um rock chocante de mesmo nome. Praticamente da noite para o
dia, o quinteto foi impulsionado de uma banda local da Flórida para uma banda que lota estádios
graças a um contrato com a Nothing Records, a gravadora do Trent Reznor do Nine Inch Nails.
Desde então, Manson, cujo verdadeiro nome é Brian Warner, foi preso, banido e espancado. Ele foi
acusado de torturar mulheres, matar animais e tocar fogo em seu baterista. Hoje, pela primeira vez,
ele concordou em conversar sinceramente e registrar os eventos dos passados dois anos. Para ter
certeza de que ele não voltaria atrás com essa promessa, nós o entupimos de bebidas alcoólicas e
drogas e alugamos um de seus filmes favoritos, o alucinógeno faroeste El Topo.
Jogado do outro lado da mesa de vidro, diretamente de frente para ele está o CD British
Steel do Judas Priest, aquele com a gilete na capa. Essa é uma imagem apropriada porque
alinhada em longas carreiras brancas sobre ele está uma das cocaínas mais finas que os editores
da Empyrean puderam comprar. Manson enrola uma nota de vinte dólares e traga metade de uma
linha por sua narina. Ele inclina sua cabeça para trás e balança seus longos cabelos negros, daí
abaixa sua cabeça e inala o resto da linha pela outra narina. Na música, assim como na vida,
Marilyn Manson não tem favoritos. Ele gosta de destruir tudo do mesmo jeito.

*Essa série de artigos foi originalmente escrito pela Empyrean Magazine, volume 7, números 2 e 3, com datas de
lançamento de maio e junho, 1995. Nunca foi publicado conforme essa cópia da matéria por parte do editor da Empyrean, a
Centaur Entreprises, que acreditava que a revista seguiu procedimentos antiéticos para extrair informações do Mr. Manson.
A revista faliu pouco depois.

Empyrean: Você parece exausto.


Manson: É. Eu acordei às sete da manhã, e eu estava tentando achar alguém para
expressar minhas idéias, mas não consegui. Eu estava vagando como um maluco. Deve haver
algo de errado com todos que são capazes de gostar de mim, porque não sou uma pessoa
agradável.

Talvez você devesse tragar uma linha.


Eu tragaria uma linha, e então...

Ver se você precisa de outra?


Bem, você nunca precisa de uma logo de primeira.

Mas você sempre precisa de outra.


É, porque já que você já tragou aquela, você precisa do resto para fazer a manutenção.
[som de trago]

Vamos falar sobre como você se expandiu de Fort Lauderdale.


Está certo, o que aconteceu na época foi que eu encurtei o nome da banda para Marilyn
Manson, que era como as pessoas sempre nos chamavam mesmo. A banda ficou menos
cartunista e adquiriu um ar mais sério. Várias gravadoras estavam interessadas em nós. A Epic
Records nos fez ir para Nova Iorque para fazer uma apresentação para eles. Nós estávamos
sendo favorecidos por um cara chamado Michael Goldstone que na época assinou com o Pearl
Jam. O álbum deles não tinha saído ainda e eu consegui um para ouvir, e achei muito medíocre.
Ao mesmo tempo em que eu era idealista em relação a nossa música e ao sucesso dela. Por isso
ela não era muito boa para meu ego quando a Epic acabou não gostando de nós. Foi um
desapontamento enorme porque nós gastamos três mil dólares de nosso dinheiro para chegar em
Nova Iorque.

Então como você acabou trabalhando com Trent Reznor?


Começou quando nós voltamos para casa praticamente revoltados. Missi e eu fomos à loja
de discos onde eu costumava trabalhar e compramos o Broken do Nine Inch Nails, que tinha sido
lançado naquele dia. Eu estava achando que eu não falei mais com Trent por aqueles tempos
porque ele sempre ligava apenas para dizer oi e manter o contato. Enquanto eu o estava ouvindo,
eu recebi um telefonema do empresário do Trent pedindo uma cópia de nossa fita demo. (Esses
tipos de coincidências sempre acontecem comigo.) Eu não sabia por que ele queria uma cópia de
nossa fita demo. Talvez ele só quisesse ouvir ela.
Alguns dias depois eu recebi uma ligação: “ei, é o Trent”.
E eu, “ei, e aí?”.
Ele disse, ”olha, você nunca vai acreditar em onde eu estou. Estou morando na casa de
Sharon Tate”. Era hilário porque quando eu o conheci eu disse para ele que um de meus sonhos
era gravar o “My Monkey”, nossa versão de uma música do Charles Manson, na casa onde Sharon
Tate viveu. Eu gostava da ironia disso. E vejam só, Trent estava lá agora.
Ele disse, “por que você não vem? Estamos gravando um clipe para uma das minhas
músicas, e eu quero que você toque guitarra nele”.
Eu disse para ele, “olha, eu não toco guitarra”. Mas eu fui lá mesmo assim e fingi tocar
guitarra num clipe que nunca foi realmente lançado chamado “Gave Up”.

Então ele te contratou na Nothing?


Na verdade, eu ainda não sabia que Trent estava inaugurando uma gravadora. Nós apenas
saíamos juntos e tivemos bons momentos, e é aí que nós realmente ficamos próximos e
estabelecemos uma amizade.

Você consegue lembrar de algo mais específico desse momento?


Eu me lembro que numa noite que Trent deu um fora na namorada dele, uma putinha
adolescente rica que ficou tão obsessiva por ele que ela tatuou suas iniciais em sua bunda, e nós
fomos num bar em Los Angeles chamado Smalls, onde conhecemos algumas garotas que hoje eu
nem deixaria colocarem meu lixo para fora. Mas na época elas pareciam pessoas piores tentando
gastar minhas forças tentando foder porque eu não as conhecia melhor.
Na verdade, nós não estávamos interessados em sexo. Nós estávamos mais interessados
em nos divertir porque nós tínhamos essa nova amizade. Aí nós convidamos um desses indivíduos
horríveis para a casa dele, e eu me lembro que um de seus nomes era Kelly, o que eu achava
interessante, porque como a sua cara, ela teria pertencido a um homem ou uma mulher. Nós
fizemos um vídeo que eu perdi. Mas ela era conhecida somente por “O Cu da Kelly”. Você pode
imaginar porquê.

Não, não posso. Por favor, me conte.


Bem, o que fizemos foi que inventamos que eu fiquei bem famoso. Dar-se uma garrafa
enorme de tequila para seu adversário, ou vítima, e pega uma garrafa enorme de cerveja para
você e fingi que o seu era tequila também. Você convence as a tomar tudo da garrafona até elas
vomitarem e desmaiarem e estarem fora de si. Uma brincadeira similar foi feita comigo quando eu
era mais novo.
Ai a brincadeira deu certo, como sempre funcionou, e Kelly e sua amiga estavam bêbadas
e correndo pelo gramado onde os amigos de Sharon Tate foram assassinados. Elas pularam na
piscina e de alguma forma eu fui convencido a juntar-me a elas. Essa é uma coisa que eu não
gosto de fazer porque eu não sei nadar. Então eu estava na piscina com a perca, eu suponho que
você a chame assim. Pelo cheiro ela era algum tipo de mulher-peixe-toninha, e visualmente ela
parecia um monstro marinho. Tentando criar algum tipo de diversão para todos, eu disse, “por que
não brincamos de Adivinha Quem Está Te Tocando? Nós vamos colocar uma venda em você e
tente adivinhar de quem são as mãos que estão em você”. Ai Trent e eu levamos essa perca de
volta para a sala de estar dele. A outra garota já havia desmaiado e estava esperançosamente se
afogando em seu próprio vômito.
Nós vendamos a criatura marinha. Não, eu acho que nós só enrolamos uma toalha em
volta da cabeça dela, que também cobria sua cara e nos fazia sentir melhor. Não que o corpo dela
fosse melhor que sua cara. Era tudo terrível. Eu estou ficando envergonhado de mim mesmo agora
enquanto estou falando isso.
Ai nós começamos a apertar seus seios e cutucar os genitais dela e essas coisas. Nós
estávamos rindo porque estávamos ambos bêbados, embora nem tão bêbados quanto ela. No
fundo um álbum do Ween estava tocando, “empurre as pequenas margaridas e as faça vir...”
enquanto eu e o jovem Trent Reznor enfiávamos nossos dedos na cavidade de nascimento de uma
mulher-peixe bizarra à procura de algum tipo de caviar. Mas o que acabamos encontramos foi um
misterioso nódulo – talvez fosse penugem branca ou um pedaço de calo – que ela tinha na região
externa de seu reto. Isso nos horrorizou e nós olhamos com nojo e choque. Mas nós sabíamos que
devíamos continuar com nossa depravação a essa pobre pessoa sem desconfiança. Aí eu achei
um isqueiro, e eu comecei a queimar os pêlos pubianos dela. Embora isso não a machucasse, ele
não ajudou as coisas para cheirarem melhor do que como estavam.
Infelizmente, não há um clímax verdadeiro em nossa história além de que eu achava que
ela queria se aconchegar com alguém e nós dois saímos fora.

Ela pegou vocês?


Eu acho que Trent acabou acariciando ela porque ele tinha uma pequena queda por
mulheres desagradáveis. Não que nós todos não tenhamos uma inclinação por adotar garotas
feias na esperança de que elas estejam melhores pela manhã. Mas elas sempre eram piores.
Aí eu fui dormir e esperar que isso tudo fosse embora. No dia seguinte isso aconteceu e
nós sentimos bem unidos um com o outro. Ele me disse que ele estava começando sua própria
gravadora pela Interscope Records chamada Nothing, e ele queria que o Marilyn Manson fosse a
primeira banda dela. Eu achava que essa era a melhor gravadora para se estar porque Trent
estava muito perturbado com suas experiências em sua antiga gravadora, TVT, e que um de seus
maiores objetivos era nunca trair ou maltratar as bandas da Nothing.
Trent disse que ele estava particularmente impressionado com a fita demo que nós
gravamos na época, chamado Live As Hell. Ela foi gravada na estação de rádio Tampa Bay e era
terrivelmente pesada. Foi com nosso então baterista, Freddy, a Roda (Sara Lee Lucas), do qual o
ritmo era tão impressionante quanto o cu da Kelly.

Conte-me sobre as gravações do seu primeiro álbum, o Portrait Of An American


Family, que foi de fato o número um em nossa votação de leitores do ano passado.
Foi um desastre no começo. Nós fomos gravar em Hollywood, Flórida, no Criteria Studios,
que é dos Bee Gees. O cara com qual estávamos trabalhando era Roli Mossiman, que era uma
figura estranha, eu me esqueci se ele é suíço ou alemão – um país onde eles nunca descobriram a
escovação dentária. Ele tinha uns seis – talvez oito – dentes na boca. E enquanto nós estávamos
em estúdio gravando ele perdeu dois deles. Eles estavam apenas caindo de sua boca, podres, e
ele fumava o tempo todo. Você sabe como eu me sentia com isso?

Seu empresário me disse que você desprezava.


Isso, e Roli vinha ao estúdio fumando às duas da manhã e queria sair algumas horas
depois. Ela passou todo o seu tempo falando sobre quando ele costumava viver à toa, que era uma
das razões pelas quais o pegamos. Mas ele só trabalhava talvez cinco ou seis minutos por dia.
Quando nós finalmente acabávamos, Roli tinha feito o oposto do que esperávamos. Eu
achava que ele iria vir com algum tipo de elemento obscuro. Mas ele estava tentando polir todos os
sons agudos e nos fazer mais que uma banda de rock, uma banda de pop, que na época eu não
estava interessado. Eu achei que o álbum que fizemos com ele aparecia suave e morto. Trent
achou a mesma coisa e daí ele se voluntariou a nos ajudar a consertar o que foi danificado.

Ai a banda foi para Los Angeles?


Não, eu fui lá. Eu mesmo primeiro para tentar remixar as faixas que eu achava ainda
estarem salváveis. Uma coisa engraçada aconteceu quando eu acabei. Eu telefonei de casa para a
Flórida para falar com Daisy (Berkowitz, guitarrista) e acabei falando com Pogo (tecladista,
Madonna Wayne Gacy). Ele me contou que eles estavam no Squeeze e estavam acabados. Daisy
não continha seu álcool e de repente desmaiou enquanto estava andando e caiu de cara. Ele
quebrou seu queixo e perdeu a consciência. Ele não sabia quem ele era quando acordou, e
continuava dizendo, “onde está meu carro? Onde está meu carro?”, ele achou que teve um
acidente de carro. Eu telefonei para ele, e ele parecia outra pessoa. Eu não podia me comunicar
com ele. Ele não entendeu nada do que eu estava tentando dizer e provavelmente nem sabia
quem eu era. Os médicos o disseram que ele estava com uma bolha no cérebro.

Houve alguma tensão ou hostilidade na banda na época?


Eu tive impressões de Trent no início de que havia problemas com a banda. Ele e todo
mundo com quem ele trabalhava sabia que Freddy, a Roda era um elo fraco. E Brad Steward
(antigo baixista, Gidget Gein) também ainda estava na banda, e eu sabia que ele era um elo mais
fraco ainda porque na época ele já overdoses três ou quatro vezes. Eu estava à beira de o
expulsar e o substituir por Twiggy Ramirez.
Eu também recebi impressões de muitas pessoas de que Daisy não era só desgostado
como pessoa por causa da sua personalidade abrasiva mas também porque ninguém estava mais
particularmente impressionado por sua habilidade na guitarra – embora eu achasse que ele fosse
legal e não tivesse problemas ocorrendo a ele. Eu sabia que nós estávamos ficando famosos mas
eu não estava satisfeito. O Marilyn Manson não era a banda que era. Eu sabia que eu teria de
passar pelo Inferno para levar a banda aonde eu queria que ela estivesse. E ainda estou passando
pelo Inferno. Você sabe, o único jeito de escapar é passar pelo caminho todo, até pelo fundão.

Desculpe. Tem outra linha.


Fungou poeira? Está certo [som de corte e de trago. Som de trago]. Onde nós estávamos?

Estávamos falando de Daisy.


Ai quando Daisy saiu do hospital, nós dissemos a ele, “vamos lá. Venha ouvir os mixes.
Vamos trabalhar no reparo dessas outras músicas”. No dia em que ele estava saindo, ele perdeu
seu vôo e chegou tarde. Ele veio ao estúdio, e Trent nunca o tinha conhecido pessoalmente antes.
Trent disse oi para ele e Daisy foi um pouco abrasivo e escorregadio. Ele sempre pareceu ter óleo
de bebê escorrendo de sua cara e de seu cabelo. O cara precisava de um pouco de Stridex . Ai ele
veio, e ele parecia, assim, aquele cara espinhento, oleoso e raivoso com cigarros saindo de todos
os buracos de seu corpo, e Trent estava assim, “você quer ouvir os mixes?”.
E Daisy disse, “não, eu quero ir fumar um cigarro”. Ele era um bundão de cara, o que me
fez sentir desconfortável porque eu tinha que o defender. Quando Daisy eventualmente ouviu os
mixes, ele nem prestou atenção ou fez um comentário. Ele apenas continuou se vangloriando pela
merda que ele sabia fazer.
Nós passamos o mês seguinte e tal tentando gravar músicas e reparar coisas, e todo
mundo aprendeu logo que Daisy não era alguém fácil de se trabalhar. Ele era cabeçudo e nunca
teve uma música ou o álbum em mente. Ele só tinha seu repertório pessoal como um músico. Ele
queria mostrar sua idéia de como eram seus talentos. Algumas vezes ficava frustrante fazer o
álbum. Mas a maio parte do tempo era engraçado. Era novo. A vida ainda parecia ter algo ainda
para poder se divertir.
Enquanto estávamos trabalhando no Portrait, Trent estava começando seu álbum The
Downward Spiral, e nós tivemos alguns bons momentos juntos. Eu achava que era como se fazia
música de verdade. Todo mundo estava bem sóbrio exceto por talvez umas saideiras do final da
noite, e eu não consigo me lembrar de ninguém usando drogas exceto por Brad Steward ter
desmaiado por causa de heroína. Tudo com que eu devia estar com raiva era com o resto do
mundo, as coisas que não faziam parte de minha vida, o jeito de como eu via a vida de todos os
outros. Até então ainda era legal ser idealista, eu não fui magoado pelo sexo ruim, pelas drogas e
pela turnê que viria posteriormente.

Você consegue lembrar de algum desses bons momentos?


Olha, o estúdio tinha uma janela enorme por onde você podia ver a sala de estar, e uma
noite nós queríamos que alguém divertisse todos nós. Assim nós colocamos cento e cinqüenta
dólares nas portas de dentro do estúdio – Trent e eu colocamos setenta e cinco dólares cada uma.
Para ganhar aquele dinheiro e conseguir nossa boa vontade, o desafio era ir para fora do estúdio,
que ficava no Santa Monica Boulevard onde todos os travestis e as prostitutas transexuais ficavam
depois do anoitecer como baratinhas hermafroditas, e pegar uma delas e a/o trazer.

Ciclo Oito – Fraude – Simonistas

No começo, todos nós fomos e passamos por lá. Havia várias pessoas passando e eles
pareciam estarem tendo uma boa sorte pegando essas pessoas. Mas as prostitutas estavam
claramente com medo da gente, e nós voltamos frustrados e comemos o jantar.
Pogo, que era um skinhead com um cavanhaque longo então, foi no banheiro e raspou a
cabeça. Ele sempre carregava com ele maquiagem de palhaço porque em situações casuais ele
gostava de sair vestido de palhaço. Ele maquiou sua cara no estilo Gene Simmons e saiu sozinho.
Nós estávamos começando a gravar algumas faixas quando de repente Pogo chegou com algum
“êla” e a levou para a sala de estar. Tudo o que nós tínhamos que fazer era ligar os microfones que
estavam gravando a bateria e nós poderíamos ouvir a conversa deles. Aparentemente o nome
dessa pessoa era Marie, e de longe ela parecia muito com uma mulher, e não aquela coisa que
não é atraente, ao menos para uma prostituta. Mas após uma longa inspeção nós conseguimos ver
que por baixo das meias-calças dela havia algumas feridas abertas em suas pernas que pareciam
que estavam lá por terem sido queimadas com cigarros gigantes ou os primeiros estágios de
alguma coisa que nós nem queríamos saber
O que acabou acontecendo foi que ela era mais esperta que nós pensávamos. Ela sabia
que nós estávamos observando e queria cobrar um extra. Nós não estávamos tão envolvidos
assim por isso Pogo foi à outra sala e, até onde nós sabemos, ela se masturbou sobre os peitos de
homem dela – e não estou certo do que isso faz dele, além de depravado, claro.

Foi assustador trabalhar na casa de Sharon Tate?


Uma coisa estranha que aconteceu foi que nós estávamos mixando a música “Wrapped In
Plastic”, que é sobre como a típica família americana embala seus sofás com plástico e a questão,
“ele vai manter a sujeira fora ou ele vai deixar a sujeira por dentro?”. Às vezes as pessoas que
parecem as mais limpas são na verdade as mais sujas. Nós estávamos usando um computador
porque tínhamos amostras e seqüências. Enquanto estávamos trabalhando naquelas, as letras de
Charles Manson do “My Monkey” começaram a aparecer no mix. De repente, nós ouvimos na
música, “por que uma criança chega à um ponto e mata seu pai e sua mãe?”. E nós não
conseguíamos entender o que estava acontecendo. O refrão de “Wrapped In Plastic” é, “venha em
nossa casa/espero que você fique/”. E estávamos na casa de Sharon Tate, só eu e Sean Beavan [o
produtor de gravação]. Nós ficamos totalmente assustados e a gente ficou assim, tipo, “já chega
por hoje”. Nós voltamos no dia seguinte e ela estava normal. As amostras de Charles Manson não
estavam nem na fita mais. Não há explicação lógica ou técnica do porquê que elas apareceram.
Foi um momento sobrenatural verdadeiro que me adoidou.

Por que você acha que ficou tão na moda os músicos fazerem referências ao Charles
Manson em suas músicas?
Isso me deixa puto. Axl Rose estava numa tempestade porque gravou uma música de
Manson, e eu vou te contar como ele conseguiu essa idéia num minuto. Enquanto Trent estava
morando na casa de Sharon Tate, acabou ficando parecendo que eu sou esse tal Marilyn Manson
porque fui na onda de Trent Reznor, o que é meio engraçado. Mas eu nunca fiquei incomodado. Eu
nunca me importei porque senão eu nunca teria conseguido gravar lá e dormir lá e me assustar
com os fantasmas de lá.

Essa é uma boa atitude. Por que você não traga outra linha?
Está certo, mas essa é a última [som de trago].
Ai o que aconteceu com os Guns N’ Roses foi que Trent me levou num show do U2 numa
noite e eu conheci Axl Rose no backstage. Ele estava muito neurótico e estava me contando sobre
todos os seus problemas psicológicos, seus espasmos de personalidade, e eu achei, “esse cara é
um maldito cara totalmente pessimista”. Dando uma de superzeloso, eu comecei a falar de minha
banda. E eu disse, “fizemos uma música chamada ‘My Monkey’ e é uma adaptação de uma música
do Charles Manson tirada do seu álbum Lie”.
E ele, “eu nunca ouvi falar dela antes”.
Eu o disse, “você devia ouvir o álbum, é massa”. E, vejam só, seis meses depois os Guns
N’ Roses lançaram o The Spaghetti Incident e o Axl Rose faz uma cover do “Look At Your Game,
Girl” do álbum Lie.
Daí ele começou a ficar simpatizado pela irmã de Sharon Tate e todo mundo. Quando
nosso álbum terminou depois disso, nós tínhamos a música “My Monkey” nele mas eu coloquei o
Robert Pierce de cinco anos cantando nela. Era a grande ironia: aqui está uma criança que está
cantando uma música que para ele é uma rima inocula e infantil mas para todos os outros era
aquela coisa horrorosa.
Depois que nós entregamos o álbum, eu recebi uma ligação de Trent e John Malm, que é o
empresário de Trent e gerencia a Nothing Records. E eles, “olha, você poderia lançar o álbum sem
a música ‘My Monkey’ nele?”.
Eu perguntei, “por que?”.
E eles disseram, “bem, a Interscope está tendo problemas por causa da merda que Axl
Rose fez. Ele teve que doar o dinheiro apurado da música para as famílias das vítimas”.
Eu disse, “eu não quero nem saber. Apenas me expliquem o que vai acontecer”. (A música
toda não era do Charles Manson. Eu só peguei emprestadas algumas letras e o resto era meu.)
No fim, a Interscope insistiu para que nós tirássemos a música. Eu disse, “não”. Ai eles nos
disseram que eles não iriam lançar o álbum.
De repente nós passamos da mais nova brava esperança do sul da Flórida para a única
banda que nunca vai sair de lá, de sermos como uma banda local sem contrato novamente. E isso
era podre. Foi o período mais destruidor de almas em minha vida porque nós tínhamos um álbum
pronto e todo mundo estava na expectativa de que estaria nas lojas. Enquanto isso, meu baixista
original [Brian Tutunick, também conhecido como Olívia Newton-Bundy], tinha começado sua
própria banda chamada Collapsing Lungs e estavam contratados na Atlantic e tinham uma atitude
total em nossa frente porque eles achavam que eles iriam ser grandes rockstars. E agora seu
substituto, Brad, estava tão fodido na heroína que nós tivemos que o expulsar da banda porque
nós estávamos passando mais tempo cuidando dele do que ensaiando. Ai houve uns tempos lá em
que eu me senti derrotado. Eu queria desistir. Eu achei que estava tudo acabado e minhas idéias
eram muito fortes para as pessoas. Eu pensei em tentar outro meio, mas eu sabia em minha
cabeça que um ou dois anos depois seria um momento melhor para minha música.

Como foi que a Interscope voltou atrás?


Enquanto tudo estava pelos ares, Trent nos apoiou e nos ajudou. Ele nos disse para não
nos preocuparmos porque ele tinha uma opção de lançar o álbum por qualquer outra gravadora
como parte de seu contrato com a Interscope, mesmo que ela fosse tecnicamente a dona da
Nothing. Ai nós conseguimos o Guy Oseary da Maverick Records [a gravadora da Madonna] vir
nos ver e ele trouxe Freddy DeMann, o empresário da Madonna. A coisa mais hilária nesses caras
era que a primeira coisa que eles me perguntaram depois do show foi isso aqui, “vocês são
judeus?”. E nosso tecladista disse, “é, sou judeu, mas não sou religioso, eu não pratico”, e eles
disseram, “é, está bem, legal. Nós precisamos manter contato”.
Nós tínhamos esse vínculo. Ai eles voltaram para Nova Iorque e nosso empresário recebeu
um telefonema dois dias depois. Eles disseram, “nós não temos nenhum problema com a imagem
de Manson, suas tatuagens, suas associações com o Oculto e o Satanismo. Mas há algo que
devemos saber: Manson tem alguma suástica tatuada nele?”. E ele, “não. Do que você está
falando?”.
Eles disseram, “bem, nós só queremos checar porque se houver algum tipo de mensagem
anti-semita então não seria algo com que queríamos nos envolver”. Tudo que eu estava fazendo
era mais sobre falar em defesa dos desfavorecidos que eu nem entender como eles conseguiram
desassociar o que eu estava fazendo dessa forma. Foi estranho. Depois da checagem de minhas
tatuagens, eles realmente nos ofereceram um acordo. Isso deve ter incomodado a Interscope
porque de repente a Interscope voltou atrás e disse, “olha, nós estamos dispostos a lançar o álbum
e nós vamos até pagar por isso”. Nós concordamos porque nós sempre quisemos a Interscope
desde o começo. Eu tinha fé naquela gravadora. Eu ainda tenho. Eles tinham um contrato com a
Time Warner, que foi quem causou os problemas.

Ai a Interscope deixou você colocar o “My Monkey” no álbum?


Sim, mas nós continuamos a ter problemas. Eu queria usar uma foto no encarte do álbum
de eu pelado num sofá quando eu era criança. Quando você mostra algo para as pessoas,
geralmente o que elas vêem nesta coisa é o que está dentro deles em primeiro lugar. E foi isso que
aconteceu porque os advogados da Interscope disseram, “primeiro, essa foto vai ser considerada
pornografia infantil, e não só as lojas não venderão os álbuns mas como nós seremos submetidos
à punições legais por causa dela”. Eles disseram que se um juiz olhasse aquilo, a lei declara que
se uma foto de um menor extrai excitação sexual assim será considerada pornografia infantil. Eu
disse, “esse é exatamente meu objetivo. Essa é uma foto que foi tirada por minha mãe, e é
extremamente inocente e muito normal. Mas se você a vê como pornografia, por que eu sou a
pessoa culpada? Você é a pessoa que se excitou! Por que você não é punido?”. Esse é o ponto
em que eu gostaria de chegar. A moralidade das pessoas é muito ridícula: se elas ficassem
excitadas, ai seria errado.
[Manson procura em suas malas e tira o encarte original do álbum, que tem uma
reprodução de uma figura da cara de um palhaço, sem texto.]
Veja, nós também tínhamos uma figura do John Wayne Gacy na capa, e olhe a outra foto
de dentro. É uma de minhas fotos prediletas e eu nunca a usei. É uma foto de um desses bonecos
dos anos 60 que você puxa uma corda nas costas dele e os olhos ficam bem grandes e mudam de
cor. Em volta dele está esse círculo de dentes do siso, e bombons, e balas de hortelã, e essas
fotos no formato Polaroid de uma garota completamente mutilada. Mas foi uma coisa que eu
falsifiquei. Não era real mas parecia muito autêntica. Ai eles telefonaram de novo e disseram, “olha.
Primeiramente nós não vamos imprimir esse tipo de foto, e segundo, nós não poderíamos fazer
isso porque a não ser que você nos providencie com um nome e um atestado escrito da pessoa da
foto, nós vamos presos por distribuir isso”. Eles ainda acharam que ela era real, ai eu os disse para
acharem que fosse real. Isso sempre foi um jogo de não-conciliação mas também conhecendo
seus limites e fazendo o melhor que você possa dentro desses limites.

Então você não está aborrecido sobre as experiências iniciais com a Interscope?
Olha, sempre havia sempre um verdadeiro incômodo por nossa parte porque o álbum
nunca realmente explodiu da gravadora como nós achamos que ele merecia. Era melhor mesmo
fazermos nossa turnê até nos desgastarmos. Nós fizemos a turnê por dois longos anos, abrindo
para o Nine Inch Nails por um ano e então fazendo nossos próprios shows. Era tudo referente à
perseverança.

Resumindo isso, você está contente com o álbum?


Bem, o objetivo todo do álbum era que eu queria dizer um monte de coisas que tenho dito
em entrevistas. Mas agora eu me sinto pequeno, como se eu não tivesse dito direito. Talvez eu era
muito vago ou talvez as músicas não fossem boas o bastante., ou seja lá o que for. Mas eu queria
conduzir à hipocrisia dos programas de entrevistas que são a América, como os morais usam algo
como um distintivo para fazer deles bonzinhos e como é muito mais fácil falar sobre suas crenças
que viverem para elas.
Eu estava muito envolvido na concepção de que enquanto crianças crescem, um monte de
coisas são apresentadas a elas que têm significados tão profundos que nossos pais não querem
que nós as vejamos, como Willy Wonka e os Irmãos Grimm. Assim o que eu estava tentando
mostrar era que quando nossos pais escondem a verdade de nós, isso é mais danoso que se eles
nos expusessem a coisas como o Marilyn Manson em primeiro lugar. Meu objetivo era que dessa
forma eu sou um anti-herói. Eu acho que eu vou ser capaz de dizer isso melhor no próximo álbum.

AMÉRICA, CONHEÇA MARILYN MANSON:


Parte 2 de uma história de duas partes
Por Sarah Fim
Empyrean Magazine, 1995

Quando nós encontramos Marilyn Manson, ele estava em seu quarto de hotel tragando
cocaína e dando uma exclusiva para a Empyrean no meio dos eventos do ano passado. A hora
agora é quatro da manhã nessa mesma noite e logo que ele estava preparando-se para se lançar
nas histórias de carnificina de suas turnês com o Nine Inch Nails (com o show complementar do
Circo do Jim Rose e, mais tarde, o Hole abrindo), há alguém batendo na porta. Ele esconde seu
CD do Judas Priest coberto de drogas atrás de uma caixa de papelão e levanta, alisando sua
camisa Amigo ou Inimigo do Adam Ant. Ele olha cautelosamente pelo olho-mágico, quase
esperando para ver o fugitivo psicótico que como um escravo seguia todos os seus movimentos e
dormia com sua equipe (e ocasionalmente muito desesperados membros da banda) para descobrir
seu último paradeiro.
Mas a visão encarando ele quando ele abria a porta é a muito mais pavorosa: é Twiggy
Ramirez, o baixista da banda, com uma garrafa de vinho em sua mão e uma expressão de puro
terror e desprezo em sua cara. Ele se queixa sobre o quanto ele é infeliz porque ele tragou muita
cocaína. Ai ele tragou outra linha e sentou-se numa poltrona no canto do quarto, dobrando seus
joelhos em sua camisa vermelha-e-branca de botões. Em vez de o fazer ficar falador, a cocaína
estava o derrubando. Cada questão que perguntava à ele, tudo que ele responde é “uísque e
anfetamina”.
Eu penso se sua presença não vai manter Marilyn Manson aberto e sendo honesto, mas
Manson diz para não se preocupar enquanto ele bebe uma garrafona de vinho.

Trague mais disso e então vamos começar novamente.


É bom tomar pó. [Grande trago.] Ufa. [Ele é assustado por uma cena do videocassete de
pessoas em desvantagem sendo massacradas.]

Quando você começou a tomar cocaína?


Não é muito tempo. A primeira vez foi na turnê do Nine Inch Nails. Nós tínhamos acabado
de tocar em Chicago, e um dos rodies chamou Twiggy e eu no vestuário de Trent. Ele estava lá
com alguém da banda. O quarto estava destruído. Havia comida por todo o lugar. Merda esmagada
no chão. Roupas sujas estavam espalhadas. E tudo estava coberto de farinha porque aqueles
caras costumavam jogar farinha neles mesmos.
No meio dos destroços havia um estranho hippie de cabelos grisalhos bexiguento que
subornou sua entrada no backstage com drogas e moldou algo parecido com três linhas num
balcão de aço inoxidável no banheiro. Era algum amontoado de drogas de rockstars, algo maluco.
E ele, “você quer um pouco?”, e a gente, “nós nunca fizemos isso antes”. E ele disse,
“experimente”. Ai nós experimentamos, e nós fomos tele-transportados de nossas mentes.
Estávamos tragando carreirinhas como loucos.
Eu estava usando uma cueca de plástico que foi feita com uma abertura para o pau; eu a
usei o tempo todo naquela turnê. E havia duas garotas que estavam no backstage. Uma era loira e
a outra era ruiva e elas duas eram lindinhas. Uma estava estudando para ser uma psiquiatra, e a
outra era só uma puta. Eu me lembro estar bem viajado e realmente confuso e ainda estar vestido
com as minhas calças porque eu nunca tirava até eu estar na cama. E eu estava fodendo as duas
na sala de estar dos fundos com essa cueca como se eu fosse algum tipo de versão depravada do
Super-Homem. Minha pele nunca as tocava. Era como usar uma camisinha no corpo.

Você estava com medo que seu coração parasse por causa da cocaína?
Isso não me incomodava mesmo na época. Nós achávamos isso muito engraçado porque
isso era quase um clichê. Só pessoas estúpidas são levadas pelas drogas. Como John Belushi e
Corey Feldman.

Aquela turnê toda deve ter sido espantosa. De repente você sai do nada para viver
essa vida de rockstar nesses shows enormes!
Ninguém ouvir falar de nós, e nosso álbum nem tinha sido lançado ainda. Havia apenas
rumores sobre nós por um pequeno grupo da mídia que conseguimos com a nossa publicitária,
Sioux Z., que estava muito excitada em levar seu projeto à frente mesmo que ela provavelmente
nem o entendesse. Eu sempre queria mais. Esse era meu problema: eu sempre queria mais. E
quando eu me deparei daquele jeito com minha publicitária ou com minha gravadora ou com meu
produtor me diziam para ter paciência e não ficar muito na expectativa ou ficar esperançoso. Até
Trent e o empresário dele, quando eles nos contrataram eles disseram algo como “algum dia eu
acho que vocês vão vender tantos álbuns quanto o Ministry”.

São mais ou menos duzentos mil álbuns.


Exatamente. E sempre em minha cabeça isso parecia derrotado. Eu quero ser maior que o
Kiss. Eu não quero ser alguma maldita coisa dispensável. Eu provavelmente não devia dizer isso,
mas que porra, ninguém lê sua revista. [Ele endireita uma linha e traga metade dela.]
De qualquer forma, eu senti que havia sempre competição desde o começo. Não por
minha culpa mas por culpa deles. Isso me fazia me sentir derrotado porque eu sempre estive na
minha frente de mim mesmo. Eu estava sempre pensando na grande foto, e mais ninguém. Isso
era muito decepcionante o tempo todo. O que ninguém entendia era isso: o único jeito de você
realizar o que você quer e satisfazer seus desejos e se tornar grandioso é exigindo esse tipo de
atenção. Você tem que fazer isso acontecer. E eu acho que ninguém viu isso além de mim e de
minha banda, ou pelo menos o núcleo da banda, que era Pogo, Twiggy e eu.

Vamos voltar à turnê.


Sim, tudo bem. Nós tínhamos um monte de coisas interessantes que aconteceram com o
Jim Rose [líder de uma trupe viajante de doentes e contorcionistas chamada Jim Rose’s
Sideshow]. Sempre era uma grande emoção estar com ele porque ele instigava um monte de
histórias interessantes. Havia uma garota que nos seguiu por muitas das cidades, e ela era um tipo
de gorda bonitinha, como um coala com tetas góticas, eu suponho. De algum jeito uma noite ela foi
persuadida a ficar nua e se abaixar para todo mundo ter sua vez de tentar cuspir no cu dela, um
jogo que até eu achei rude e não pude fazer parte daquilo.

Você só está dizendo isso para meu benefício.


Não, não é verdade. Por um momento eu pensei, “bem, talvez”. Mas eu estava
desconfortável porque eu senti pena dela. Ela parecia o tipo de pessoa que só queria na verdade
ser aceita. Ela estava basicamente sendo explorada por sua ansiedade e sua necessidade, e eu
tenho uma pequena queda por pessoas como essa porque estou tão acostumado a querer ser
aceito que eu deixo as pessoas me explorarem. Havia na verdade certas retas que eu traçarei o
mais longe que eu puder. Não estou tentando ser justo para mim mesmo: eu achei que isso fosse
divertimento. Eu só não participei.
Havia coisas que eu tomei parte, apesar de tudo. A mais memorável foi a respeito do fim da
temporada do Jim Rose na turnê quando nós estávamos ficando muito turbulentos. O que
aconteceu foi que Jim Rose arrecadou um grupo considerável de pessoas dessa vez. Ele
realmente trabalhou bem. Ele tinha umas dez garotas, muitas em idade de casar e prontas para
serem fodidas. Infelizmente isso não foi o que aconteceu com elas. Tendo certeza de que elas
ficaram desapontadas.
Em vez disso, ele inventou uma disputa de movimentos intestinais para ver quem poderia
receber uma lavagem intestinal e a segurar por mais tempo. A pessoa que cagasse primeiro perdia.
Três garotas concordaram para completar, e elas todas eram um tanto quanto atraentes para as
pessoas participavam do tal evento. Eu acabei dando as lavagens intestinais, e também segurava
uma bacia debaixo de cada cu deles. A primeira garota despejou logo – borrifando uma água
marrom que nem era merda realmente. Era algum tipo de líquido. E o Sr. Lifto, que é um cara
robusto do show de Jim Rose exceto que ele usa seu pau em vez de seus bíceps, comeu a tigela
de cereais. A garota que acabou ganhando nem soltou nada.

Ela foi recompensada?


Ela foi recompensada com nosso respeito e admiração.

Você se sentiu justificado voltando para Fort Lauderdale como um rockstar?


Na verdade, nossa primeira grade volta para casa foi em Miami, e todos estavam na
platéia. Meus pais, todas as garotas com quem já dormi, e todo mundo que eu expulsei da banda.
Mas o que aconteceu foi que enquanto nós estávamos fazendo a performance, Robin [Finck], o
guitarrista do Nine Inch Nails, entrou no palco com uma tanga de strip-tease e com algum tipo de
doce cheio de farinha que ele planejava despejar em mim por alguma razão. No meio de seu
atentado de sabotagem, eu o agarrei e baixei sua tanga e localizei seu pênis mole e salgado com
minha mão e tipo, assim, o mordi por uns momentos, mas não o bastante para realmente constitui-
lo como um boquete. Deve ser visto que eu não me excitei, o que deve me livrar de qualquer
acusação de ser gay. Depois, ele saiu do palco meio que embaraçado e eu tive que fugir dos tiras
quando o show acabou. Eles vieram no backstage procurando por mim, e eu me escondi no
banheiro onde, convenientemente, algumas drogas foram escondidas. Por sorte, eles nunca
emitiram um mandato da minha prisão ou me processaram por aquele incidente particular.
Nós organizamos um bis particular muitos dias após do incidente original. Nós recontamos
a anedota pela vigésima vez numa festa pós-show do Nine Inch Nails cheia com um elenco de
personagens que Jim Rose tinha escolhido a dedo – suavemente garotas atraentes que apreciam
tolas o bastante para fazerem qualquer coisa que ele suferisse. E eu fui chamado para fazer uma
reprise da performance, daí eu fui e a fiz novamente só para provar que isso não era só pela arte,
mas pelo prazer mesmo. Dessa vez, eu fiz um trabalho melhor e mais uma vez não fiquei excitado,
embora eu acredite que ele já ficou uma vez.

O que mais aconteceu naquela turnê?


Eu acho que minha primeira experiência verdadeira com o mundo do Rock N’ Roll foi em
Cleveland no dia em que o Hole entrou na turnê. A ordem era na verdade Marilyn Manson, Hole e
Nine Inch Nails. Courtney chegou tarde. Ela chegou e estava acabada quando ela foi fazer o show.
Ela foi tocar provavelmente um dos piores shows da vida dela, e estou certo de que ela admitiria
isso. Ela tirou seu top, disse algo sarcástico especulando se Trent Reznor estava querendo ou não
irritar a platéia, e então mergulhou na multidão. Um monte de pessoas tentaram pegar nos seios
dela e rasgar o resto de suas roupas.
Depois que ela acabou, ela decidiu vir ao nosso vestuário porque nós éramos adjacentes.
Ela era muito mais por baixo de sua calcinha e seu sutiã, e vivia toda caída a Berta, drogada ou
bêbada. Não estou certo qual, provavelmente uma combinação dos dois. Eu estava um pouco
confuso pela situação porque – além de Trent – ela foi uma das primeiras “infamosas” (menos que
famosa) pessoas que eu já conheci. Por isso eu mantive distância. Não estou certo se eu estava
com medo dela ou se eu só não queria me envolver.
Ela estava experimentando as roupas de todo mundo, e eu me lembro que Daisy estava
me azucrinando porque, num mal-gosto particular, ele estava tentando trocar algumas de suas
roupas para conseguir fazer ela lhe dar uma das guitarras do Kurt Cobain. Ela estava bem legal
com isso e não se ofendeu.

Você quer mais vinho?


Claro. Eu preciso ir dormir afinal. [Ele enche seu copo.]

Agora, Courtney sempre diz que ela teve um tipo de relacionamento com Trent mas
Trent sempre negou isso. Qual é a verdade?
Eu provavelmente não deveria falar sobre isso. Tudo o que eu direi é que prece que Trent
colocou o Hole na turnê como um pouco de novidade. Ele parecia desgostar da grandiosidade
dela, e eu acho que ele a queria na turnê ou para a ridicularizar ou só para a estudar. Mas
enquanto a turnê prosseguia, eu percebi que Trent e Courtney estavam saindo muito juntos, e essa
era uma parte da turnê que ele não comentava muito conosco. Ele desapareceu em seu próprio
mundo – ou no dela.

Então você não sabia realmente se eles estavam dormindo juntos?


Bem, as coisas começaram a ficar mais estranhas um mês mais ou menos quando a turnê
estava acabando. Courtney apareceu na casa de campo de Trent tentando derrubar a porta e fazer
alguma outra coisa que eu esqueci porque eu estava bêbado. Mas ela estava naquele alvoroço
todo que viria apenas de uma garota que você fodeu. Daí eu posso dizer que havia algo
acontecendo que Trent não estava nos contando, especialmente desde que ele estava passando
no quarto de hotel dela por certas horas da noite que eram muito suspeitas. Ainda nos dias de hoje
ele não admitiria para nenhum de nós o que aconteceu. Assim você pode fazer seu próprio
julgamento.

Eu achei que essa entrevista fosse para contar a verdade sobre tudo o que
aconteceu no ano passado.
Estou dizendo a verdade, mas Twiggy pode provavelmente te contar mais porque ele teve
um relacionamento não-documentado e não-revelado com ela tempos depois.

Isso é verdade Twiggy?


TWIGGY: A verdade é que preciso de uísque e anfetamina.
MANSON: O que aconteceu foi que depois que a fase da turnê com o Hole acabou, por
alguma razão nós continuamos procurando Courtney. Sempre que ela aparecia subitamente, isso
causava um montão de estresse para Trent. Ele é uma pessoa não-briguenta tanto que ele se
conciliaria com esse incidente que o atormentava tanto.
Houve uma noite em que nós todos estávamos festejando. Eu acho que foi em Houston, e
Trent estava trabalhando na trilha-sonora do Natural Born Killers. Twiggy e eu saímos para um bar
e um cara nos deus drogas. Nós tivemos nossa primeira noite de terror verdadeiro onde eu pensei
que iria morrer, e eu queria ligar para todo mundo que eu conhecia para dizer para eles que eu os
amava e que eu estava assustado. No meio do terror, Twiggy sumiu porque ele recebeu algum
telefonema frenético no meio da noite. Aparentemente Courtney estava na cidade e o disse, “venha
cá. Estou enlouquecendo!”.
Ele não voltou até as sete da manhã seguinte. Eu perguntei o que aconteceu, e ele tirou
sua camisa e mostrou aquelas marcas vermelhas gigantescas de unhas em suas costas. Ele, meio
sonolento, admitiu ter feito alguns atos sexuais muito representativos e obscenos. Bem legal. Vou
deixar por conta de sua imaginação.
Ai eles continuaram tendo esse relacionamento secreto, provavelmente porque Twiggy não
era famoso o bastante na época para Courtney assumir que estava fazendo sexo com ele.

Você acha que ela estava manipulando ele para conseguir o Trent?
Não sei, mas Trent parecia achar isso. E funcionou. Porque não muito depois nós
recebemos uma ligação de John Malm, o presidente da Nothing. Durante a turnê, nós despedimos
nosso empresariado da Flórida, que estava mais ocupado tomando conta das bandas sertanejas
que a Maverick cuidava, e deixou a Nothing assumir. Daí então John Malm, nosso novo
empresário, estava dizendo para a gente, “olhem, vocês não podem sair com Courtney porque ela
está tentando descobrir onde Trent está e ela vai usar vocês para isso”.

Então o que você escolheu, Twiggy? A paz interior de Trent ou seu relacionamento
insipiente com a Courtney?
TWIGGY: Uísque e anfetamina.
MANSON: Ele continua vendo ela, mas não para prejudicar ninguém. Ele só estava
transando com ela. Eu acho que ele também foi afetado por Courtney porque ela nunca teve um
relacionamento com alguém da estatura dela. Na época eu não entendia realmente Courtney e
estava do lado de Trent. Eu simpatizava por ele e acreditava em sua parte da história. Eu achava
que Courtney era uma coisa ruim e eu não queria tomar parte disso. [De repente Twiggy levanta de
sua cadeira, ligeiramente ruborizado.]
TWIGGY: Tudo mundo estava me acusando de estar sendo usado quando na época isso
era genuíno. Significava algo. Eu aprendi muito com aquele relacionamento, mais que qualquer
outro. Ele me inspirava. Mas quanto mais perto nós ficávamos um do outro, mais pressão havia. Eu
acho que também houve a idéia inicial de que eu estava difamando o troféu do Trent. [Ele cai na
cadeira.] Eu acho que a cronometragem estava errada.

Existe algo mais que você queira acrescentar, Twiggy?


TWIGGY: Uísque e anfetamina.
MANSON: Eu nunca tive uma conversa de verdade com Courtney até recentemente,
quando eu descobri que ela é uma pessoa muito esperta e mais controlada do que muitas pessoas
achavam. Nós estávamos tocando em algum lugar do West Coast e alguém bateu na porta do
nosso ônibus de turnê. Eu ouvi aquela voz bêbada e áspera gritando: “Jeordie! Jeordie! Onde está
o maldito Jeordie?”. E Courtney entrou mancando no ônibus porque aparentemente na noite
anterior ela caiu e machucou a perna. Ela viu uma garota sentada lá e imediatamente começou a
dizer para ela, “você não precisa ficar no ônibus. Você devia pegar um teclado e começar sua
própria banda. Aí esses caras vão estar no seu ônibus”.
Então ela olhou para o ônibus e perguntou, “você tem rosquinhas aí?”. Eu tinha comprado
uma dúzia de rosquinhas lustrosas e ela pegou quatro e as devorou antes que eu visse a sua boca
aberta. Daí ela tirou sua atadura e a jogou em nosso empresário de turnê, que começou a pirar
porque cair sangue nele, mesmo que ela pertencesse a alguém famoso ou não, não estava em seu
contrato. Quando Twiggy voltou do fundo do ônibus, sem dúvida escondendo as milhares de
garotas adolescentes que ele envergonhou com a situação. Foi aí que eu comecei a gostar da
Courtney e ganhei um respeito bizarro por ela porque ela me fez rir e eu achei que ela fosse legal.
Contaram-me que na última noite da turnê, o Nine Inch Nails se vingou de você. Isso
é verdade?
Não foi exatamente uma vingança. Tradicionalmente na última noite da turnê a banda de
abertura espera ser ridicularizada pela banda principal. Assim no último show da turnê na Filadélfia
eu estava saindo do banheiro do backstage antes do nosso show quando eu vi duas garotas nuas
transando e tocando uma na outra. Perto delas havia um cara bissexual estranho. Todos de nossa
banda e do Nine Inch Nails estavam lá assistindo. Ai o cara veio até mim, “eu ouvi você dizer que
se alguém tivesse coragem, você iria foder ele com as mãos no backstage. Eu gostaria de saber se
eu posso aceitar essa oferta”.
O Nine Inch Nails acharam que iriam jogar alguém para cima de mim porque eu tinha um
hábito de dizer no palco, “quem vai vir no backstage deixar eu enfiar minha mão em seu cu?”. Eles
acharam, “ah, vamos mostrar a ele. Nós vamos trazer alguém aqui e ele vai avacalhar”. Mas, mais
para destruir seus planos do que evitar ser chamado de fingido, eu disse, “está certo. Sem
problemas”. Eu coloquei uma luva de borracha que ia até o meu pulso, e não tinha nenhum tipo de
lubrificante por perto além de margarina. Ai eu passei pela minha mão toda e ai tentei ao máximo
enfiar minha mão toda, provavelmente até mais do que meu pulso, dentro do reto ansioso e
espichado do cara.
Eu achei que isso era tudo. Mas quando eu fui para o palco cinco minutos depois, o Nine
Inch Nails nos armaram uma emboscada e nos cobriram com todas as coisas nojentas que eles
puderam encontrar no backstage – farinha, salsa, vaselina, guacamole, ketchup, talco de bebê. Ai
nós tivemos que ir ao palco cobertos dessa merda toda, e enquanto nós estávamos fazendo a
performance cinco strippers homens vieram no palco e começaram a dançar. Eu senti como se
talvez isso tivesse ido longe demais porque agora eles estavam esculhambando nossa
performance, e eu não queria que o público pensasse que eu fosse responsável por algo tão
estúpido.
Nós saímos do palco prontos para acabar com Trent e sua banda para pagar na mesma
moeda por uma palhaçada que foi muito longe, mas não tinha acabado. Eu estava usando só um
par de calças curtas de couro e meias molhadas, e nós todos estávamos cobertos de cerveja, suor,
batom e todos os temperos do backstage imagináveis. Antes mesmo de nós podermos alcançar a
segurança de nosso vestuário, nós fomos emboscados novamente e nossos gritos foram
sufocados. Um bando de seguranças nos agarrou e algemou nossas mãos pelas costas, nos
levaram para a entrada do backstage e nos jogaram numa pick-up.
Eles fecharam as portas e deram uma arrancada, e até esse ponto isso tinha ido muito
além de uma piada. Recordando, estou impressionado pela trama que rolou. Mas na época eu
estava assustado que nem a porra porque eles nos levaram por meia hora. Nós acabamos no
centro da cidade, Philly, onde eles nos empurraram da caminhonete e jogaram as chaves das
algemas numa lata de lixo. Eles amassaram uma nota de um dólar, a jogaram no chão e riram,
“isso é para ajudar vocês a voltarem para o show”.
Estava uns quatro graus e nós estávamos praticamente nus e congelando, especialmente
porque nós estávamos encharcados de porcarias na noite. Nós parecíamos tão assustadores,
patéticos e degenerados que ninguém nem andava do mesmo lado da rua que nós. Nós acabamos
implorando para uns universitários para nos levarem de volta para a arena.

Você teve algum ressentimento?


Não. Se eu posso lidar com isso, eu tenho que estar preparado para isso. Eu não estava
tão calmo na hora, mas agora eu vejo isso como uma boa sacanagem, definitivamente mais
elaborada e cruel que qualquer coisa que eu pudesse bolar. Aquele tipo simbolizou o fim de nosso
ano de calouros assim por dizer. Nós tínhamos passado de ano para a próxima série.

Mas não sem derramamento de sangue, como seu baterista e várias galinhas, certo?
Sim, é melhor eu explicar isso. Certas pessoas acham que nós matamos uma galinha
durante um show no Texas; algumas pessoas dizem que ela não morreu. A verdade é que depois
que nós saímos da turnê do Nine Inch Nails, nós fizemos alguns shows próprios antes de ir para
Nova Orleans para trabalhar no EP que estamos fazendo agora, Smells Like Children. Eu disse em
nossa viagem na turnê que a gente tinha que ter uma galinha viva no palco como uma piada. Eu
acho que no Texas é bem banal ter galinhas correndo por aí porque no meio de nosso backstage
bagunçado e cheio de Jack Daniels em um de nossos shows lá nós achamos uma galinha
cacarejando numa gaiola. Eu a chamei de Jebediah, e eu estava particularmente apegado a ela.
Eu não queria a matar realmente. Mas nosso palco parecia um cruzamento entre Ziggy Stardust e
O Massacre da Serra-Elétrica do Texas, e eu achava que visualmente a galinha adicionava algo
para o que nós estávamos tentando apresentar. Ai nós deixamos ela fazer a turnê conosco, e
alguma vezes eu até botava ela no microfone e a deixava cantar. Mas durante um show a galinha
voou para a platéia. Eles a chacoalharam toda, mas ela não morreu. Ela voltou para a fazenda,
embora ela seja provavelmente um McNuggets agora. O céu me proíbe de matar uma galinha, mas
está tudo bem se for o Ronald McDonalds.
A partir de então, “matem a galinha” se tornou um eufemismo por ficar drogado ou por ser
rueiro. Se nós estivéssemos prontos para fazer um show, em vez de dar uns aos outros um
cumprimento ou dizer “vamos nessa”, nós diríamos, “vamos matar a galinha”.

Há mais uma linha. Quem a quer?


Eu acho que eu preciso dormir cedo. O que eu poderia realmente usar é tranqüilizante.
[Ele abre um compartimento escondido em um anel em seu dedo indicador esquerdo e tira um
comprimido com pó azul, que ele lava com um pouco de vinho.]

Antes de eu te deixar ir dormir, o que aconteceu com Freddy?


No último dia da turnê, nós estávamos tocando num bar gay na Carolina do Sul. Não havia
muitas pessoas na platéia assim nós achamos que poderíamos fazer algo diferente. Twiggy
colocou um paletó e eu coloquei um chapéu de vaqueiro preto, um longo casaco preto, e pintei
uma linha preta de minha testa até meu pau. Pogo estava sem camisa e ele estava usando minha
cueca com o buraco para o pau e um cinto enorme de abotoar de couro que se lia Ódio em letras
vermelhas. Ele parecia um grande bebezão horripilante com uma cabeça fetal careca, um peito
peludo flácido, algum tipo de cinto de luta livre do esteróide do Olympics, um pau flácido envolvido
com um vinil preto e botas de combate. Ele definitivamente era a pessoa mais parecida com gay no
lugar. Eu tentei instigar Daisy a fazer algo diferente e se divertir mais, e ele disse algo ridículo tipo
[falando numa voz lenta e lerda], “ah, entendi. Eu devia ter me tornado mais o personagem de
Daisy Berkowitz”.
Todos sabiam que Freddy ia ser despedido exceto Freddy porque uma semana antes
enquanto Freddy, a Roda estava polindo seus aros ou algo assim, ele entrevistou um baterista
mais velho e quieto de Las Vegas chamado Kenny Wilson e o pediu para ele entrar na banda como
Ginger Fish. Ele na verdade passeou conosco no ônibus da turnê uma noite e nós dissemos a
Freddy que ele era só um amigo do nosso empresário de turnê.
Nós não queríamos ser cruéis com Freddy porque gostávamos dele como pessoa. Nós só
nos sentimos obrigados a fazer de seu último show com a banda um memorável. Twiggy e eu
raspamos nossas sobrancelhas, mas ele ainda estava com seu cavanhaque e um corte de cabelo
que era só uma franja preta caída em frente da uma então cabeça raspada. Eu acho que ele fez
aquelas franjas porque ele estava começando a ficar careca por trás. Ele era uma pessoa muito
consciente de si mesma. Mas de algum jeito nós o convencemos a raspar sua cabeça toda e sua
cara, e ele acabou parecendo uma versão estranha de um paciente com câncer de Fester de A
Família Addams. Nós achávamos que foi a aparência mais legal que ele teve, e queríamos por um
segundo que ele ainda estivesse na banda.
Aí nós fomos para o palco e imediatamente não tivemos bons momentos porque a equipe
decidiu que, como sua maneira de acabar a turnê com uma brincadeira memorável, eles colocaram
pés de galinha crus por todo o palco. Ai eu escorreguei e cai sobre uma garrafa de cerveja, e ela se
espatifou. Eu estava tão virado na porra que eu peguei ela e lasquei meu peito de um lado para o
outro. E aquele foi meu primeiro ato verdadeiro de alto-mutilação na frente de pessoas. Nós
sacrificamos Freddy botando fogo em seu bumbo, mas a bateria toda pegou fogo, seguida por
Freddy. Enquanto Freddy escapava para o backstage para encontrar um extintor de incêndio nós
começamos a quebrar tudo. Ai aquele último dia da turnê foi realmente a crisálida de uma nova era
do nosso desenvolvimento, um tipo de ritual de sangria seguido de um sacrifício para o que nós
estávamos nos tornando, que eu não consigo explicar inteiramente agora porque eu não entendo
isso plenamente.
Você nunca despediu Freddy realmente?
Não. Nós não contamos que ele foi despedido e ele não nos contou que ele sairia. Eu acho
que ele foi sacrificado porque no dia seguinte ele apenas pegou um avião e foi para casa. Eu
nunca pude dizer tchau para ele, e eu não disse mais nenhuma palavra para ele desde então. Ele
foi muito pacifico com isso, e eu o respeito por isso. Por isso se ele me processar hoje, eu vou
quebrar a rótula dele.

11. Paramos Para Ver O Mago

“Até onde eu sei, não há uma palavra dos evangélicos em louvor da inteligência”.
– Bertran Russel, “A Religião Fez Contribuições Úteis Á Civilização?”.

EU escrevi, eu chamei, eu supliquei. Finalmente, eu fui abençoado com um encontro. Durante


um dia de folgada turnê ’94 do Nine Inch Nails em São Francisco em outubro, o telefone do
hotel tocou.
“O doutor quer te conhecer”, veio uma voz de mulher, severa e rouca.
Eu a perguntei se o doutor se importaria de ver nosso show na noite seguinte. Eu sabia
tudo que havia para se saber sobre o doutor mas ele sabia pouco de mim.
“O doutor nunca sai de casa”, ela respondeu friamente.
“Tudo bem, quando você quer que eu vá? Estou na cidade por alguns dias”.
“O doutor quer realmente te conhecer”, ela respondeu. “Você pode vir entre as uma e duas
da noite?”.
Não importava que horas o doutor me telefonasse e onde ele me convocasse, eu planejava
estar lá. Eu admirava e o respeitava. Nós tínhamos muitas coisas em comum: nós tivemos
experiências como apresentadores extravagantes, rogamos pragas bem-sucedidas em pessoas,
estudamos criminologia e serial-killers, achamos um espírito familiar nas escrituras de Nietzsche, e
construímos uma filosofia contra a repressão e em apoio à não-conformidade. Em resumo, nós
dois nos dedicamos pela melhor parte de nossas vidas a destruir o cristianismo com o peso de sua
própria hipocrisia, e como um resultado por sermos usados como bodes-expiatórios para justificar
a existência do cristianismo.
“Ah”, a atendente acrescentou antes de desligar. “Tenha certeza de que virá sozinho”.
O doutor era o nome preferido de Anton Szandor LaVey, fundador e sumo sacerdote da
Igreja do Satã. O que quase todo mundo em minha vida – desde John Crowell até a Sra. Price –
mal-interpretaram sobre o satanismo era que ele não tem nada a ver com rituais de sacrifícios,
cavar covas e cultuar o demônio. O demônio não existe. O satanismo é cultuar você mesmo,
porque você é responsável por seu próprio bem e mal. A guerra do cristianismo contra o demônio
foi sempre uma luta contra os instintos mais naturais do homem – pelo sexo, pela violência, pela
satisfação própria – e uma recusa da ligação do homem com o reino animal. A idéia do céu só é
um dito do cristianismo para criar um inferno na Terra.
Eu não sou e nunca fui um porta-voz do satanismo. Ele é simplesmente parte do que eu
acredito, junto com Dr. Seuss, Dr. Hook, Nietzsche e a Bíblia, que eu também acredito. Eu só tenho
minha própria interpretação.
Naquela noite em São Francisco, eu não disse a ninguém para onde eu estava indo. Eu
peguei um táxi para a casa do LaVey numa das vias públicas principais da cidade. Ele morava num
prédio preto discreto rodeado por uma cerca de arame farpado alta e de aparência brutal. Depois
de pagar ao taxista, eu fui até o portão e percebi que não havia campainha. Enquanto eu a
contemplava me virando para trás, o portão abriu rangendo. Eu estava tão nervoso quanto
excitado, porque, diferentemente da maioria das experiências onde você conhece alguém que você
idolatra, eu poderia já dizer que essa não seria uma decepção.
Eu timidamente entrei na casa e não vi ninguém até eu estar na metade das escadas. Um
homem gordo de paletó com um penteado de cabelos pretos sebosos cobrindo sua parte careca
que estava encima. Sem dizer uma palavra, ele me gesticulou para o seguir. Nas vezes em que eu
visitei LaVey, o gordo nunca se apresentou ou falou.
Ele levou até um corredor e fechou uma porta enorme, bloqueando completamente a luz.
Eu nem podia ver o homem gordo para seguí-lo mais. Assim que eu entrei em pânico, ele agarrou
meu braço e puxou pelo resto do caminho. Enquanto nós seguíamos a curva do corredor, meu
quadril colidiu com uma maçaneta, a fazendo virar ligeiramente. Raivoso, o gordo me puxou. Seja
lá o que havia lá atrás, estava fora dos limites dos convidados.
Ele finalmente abriu uma porta, e me deixou só num escritório vagamente iluminado. Junto
da porta havia um retrato prodigamente detalhado de LaVey ao lado de um leão que ele costumava
ter como bicho-de-estimação. A parede oposta estava coberta de livros – uma mistura de biografia
de Hitler e Stálin, terror de Bram Stoker e Mary Shelley, filosofia de Nietzsche e Hegel e manuais
de hipnose e controle da mente. A maioria do espaço estava tomado por um sofá rebuscado, sobre
o qual tinha várias pinturas macabras que pareciam tiradas da Galeria Noturna de Rob Serling. As
coisas mais estranhas no quarto eram enormes chiqueirinhos no canto e a televisão, que parecia
fora de lugar, um sinal do consumismo descartável num mudo de contemplação e desprezo.
Para algumas pessoas, isso parecia completamente bobo. Para outros, seria terrível. Para
mim, era excitante. Vários anos antes eu li a biografia de LaVey por Blanche Barton e estava
impressionado por como ele parecia esperto. (Em retrospecto, eu acho que o livro pode ter sido
ligeiramente influenciado já que a autora é também a mãe de um de seus filhos.) Todo o poder que
LaVey tinha ele ganhou através do medo – a medo do público a uma palavra: Satã. Por dizer as
pessoas que ele era um satanista, LaVey se tornou o Satã em seus olhos – o que não é diferente
de minha atitude por me tornar um rockstar. “Um odeia o que o outro teme”, LaVey escreveu. “Eu
adquiri poder sem esforço consciente, por simplesmente existir”. Aquelas linhas poderiam ser
assim como foram algo que eu escrevi. Como importante, cômicas, o que não tem lugar no dogma
do cristianismo, é essencial para o satanismo como uma reação válida para um mundo grotesco e
disforme dominado por uma raça de cretinos.
LaVey foi acusado de ser nazista e fascista, mas sua viagem toda era no elitismo, que é o
princípio básico por trás da misantropia. De um modo, seu tipo de elitismo intelectual (e o meu) é
na verdade politicamente correto porque ele não julga as pessoas pela raça ou credo mas pelo
alcance, a oportunidade igual de critérios da inteligência. O maior pecado no satanismo não é
assassinato, nem a gentileza. É a estupidez. Eu escrevi originalmente para LaVey não para falar
sobre a natureza humana e sim para o perguntar se ele tocaria teremim para o Portrait Of An
American Family, porque eu soube que ele era o único registrado no sindicato de músicas de
teremim da América. Ele nunca tomou conhecimento do pedido diretamente.
Depois de sentar-me na sala por mim mesmo por vários minutos, uma mulher entrou. Ela
estava com um lápis azul brilhante, uma touca não-natural de cabelos lisos desbotados secados
com um secador, e batom rose borrado como um desenho de criança do lado de fora das linhas de
um livro de colorir. Ela usava um suéter azul-bebê apertado, uma mini-saia e meias cor-de-pele
com uma cinta-liga dos anos 40 e salto-alto. A seguindo estava uma pequena criança, Xerxes
Satan LaVey, que correu até mim e tentou tirar meus anéis.
“Espero que você esteja bem”, Blanche disse rigidamente e formalmente. “Sou Blanche, a
mulher com quem você falou ao telefone. Hail Satã”.
Eu sabia que eu devia responder com algum tipo de frase de boas maneiras que
terminasse com “hail satã”, mas eu não pude me fazer disse isso. Parecia muito vazio e ritualístico,
como usar um uniforme numa escola cristã. Em vez disso, eu só olhei para o garoto e disse, “ele
tem os olhos do pai”, um trecho de O Bebê de Rosemary que eu tinha toda a certeza de que era
familiar para ela.
Enquanto ela saía, sem dúvida desapontada pelas minhas maneiras, Blanche me informou,
“o doutor virá em um minuto”.
As formalidades que eu vi até então, combinadas com tudo o que eu sabia sobre o
passado de LaVey – como treinador de animais de circo, assistente de mágico, fotógrafo policial,
pianista de salão burlesco e um garoto de programa versátil – me levou a esperar uma grande
entrada. Eu não fui desapontado.
LaVey não entrou no quarto – ele apareceu. Tudo que estava faltando era um som de
explosão ou uma rajada de fumaça. Ele usava um capuz de marinheiro preto, um terno preto feito
por alfaiate e óculos-escuros, mesmo que ele estivesse dentro de casa às duas e meia da manhã.
Ele veio até mim, apertou minha mão e disse de cara com sua voz áspera, “eu aprecio o nome
Marilyn Manson porque ele está colocando extremos diferentes juntos, o que é o que o satanismo
prega. Mas eu não posso te chamar de Marilyn. Posso te chamar de Brian?”.
“Claro, como você mais se sentir confortável”, eu respondi.
“É por causa de meu relacionamento com Marilyn nos anos 60, eu me sinto desconfortável
porque ela tem um lugar especial em meu coração”, LaVey disse, fechando seus olhos gentilmente
enquanto ele falava. Ele começou a falar sobre uma relação sexual que ele teve com Monroe que
começou quando ele era o organista num clube onde ela era uma stripper. Em nossa conversa, ele
plantou a semente e que sua amizade com ela fez sua carreira desabrochar. Levar crédito por
tantas coisas fazia parte do estilo de LaVey, mas ele nunca fez isso arrogantemente. Isso era
sempre feito naturalmente, como se fosse um fato conhecido.
Ele tirou seus óculos-escuros de sua cabeça de gárgula e de cavanhaque, familiar para
milhares de perversores de adolescentes da contracapa de A Bíblia Satânica, e instantaneamente
nós estávamos enrolados numa conversa intensa. Eu tinha acabado de conhecer Traci Lords no
backstage depois de um show no Universal Amphiteather em Los Angeles e ela me convidou para
uma festa com ela na noite seguinte. Nada sexual aconteceu, mas essa foi uma experiência muito
boa porque ela era como uma versão feminina de mim – bem mandona e constantemente fazendo
jogos mentais. Já que LaVey teve um relacionamento com outro símbolo sexual, eu achei que
talvez ele pudesse me dar algum conselho sobre o que fazer com Traci, pela qual eu estava ambos
confuso e cativado.
O conselho que resultou foi muito enigmático, que era sem dúvida outra maneira de ele
manter o poder. Quanto menos são as pessoas que te entendem, mais esperto elas te acham. “Eu
sinto como se vocês dois pertencessem um ao outro, e eu acho que algo muito importante vai
acontecer com seu relacionamento”, ele concluiu. Parecia mais com a conseqüência de quinze
dólares e cinco minutos gastos ligando para o Psychic Friends Network do que algo que eu
esperasse que LaVey dissesse. Mas eu fingi que eu estava grato e impressionado, porque LaVey
não era alguém que você pode criticar.

Ciclo Oito – Fraude – Bajuladores

Ele continuou compartilhando os detalhes sórdidos de sua vida sexual com Jayne
Mansfield e disse que depois desse tempo todo ele ainda se sente responsável pela sua morte
num acidente de carro porque ele jogou uma praga no empresário e namorado dela, Sam Brody,
depois de uma luta com ele. Infelizmente para Jayne Mansfield, ela estava com ele naquela noite
em Nova Orleans quando um caminhão-tanque de repelente de insetos bateu no carro dele,
matando os dois brutalmente. Embora eu estivesse desconfiado de algumas afirmações de LaVey,
sua retórica e confiança eram convincentes. Ele tinha uma voz hipnotizante, talvez por sua
experiência como um hipnotizador. A coisa mais valiosa que ele fez naquele dia foi me ajudar a
entender e entrar em acordo com a mortalidade, a dureza e a apatia que eu estava sentindo de
mim mesmo e do mundo a minha volta, explicando que isso tudo era necessário, uma etapa
intermediária da evolução de uma criança inocente para um ser inteligente e poderoso capaz de
deixar uma marca no mundo.
Um aspecto da personalidade de LaVey era que ele gostava de se alinhar com as estrelas
como Jayne Mansfield e Sammy Davis Jr., que eram todos membros da Igreja do Satã. Portanto
isso não era surpreendente enquanto eu o deixava me encorajar a trazer Traci para o visitar.
No dia seguinte, Traci tomou um vôo de Los Angeles para nosso show em Oakland. Eu
estava muito machucado e debilitado depois do show, ai ela voltou para o hotel, onde ela me deu
banho e cuidou de mim. Mas, mais uma vez, eu não dormi com ela porque eu ainda estava
determinado a ser fiel a Missi, embora Traci fosse a primeira pessoa que eu conheci que parecia
capaz de derreter esse meu alvará. Eu contei para ela sobre conhecer LaVey, e ela me deu um
complexo cristal curativo, Profecia Celestina, de Deepak Chopra, um rap meio new age sobre o
destino, ressurreição e a pós-vida. Ela não parecia entender o que ele era, assim eu tentei auxiliar
ela a entender enquanto eu mergulhava num sono impaciente: “esse cara tem um ponto de vista
interessante. Você o devia escutar”.
Quando eu a trouxe na casa dele no dia seguinte, ela foi muito mais cínica e certinha que
eu – a princípio. Ela veio com a atitude de que ele era uma piada e hipócrita, ai ela o debatia
sempre que ela descordava até mesmo ligeiramente com algo. Mas quando ele disse que um
piolho tem mais direito de viver que um humano ou que os desastres naturais são bons para a
humanidade ou que o conceito de igualdade é besteira, ele estava preparando para reforçá-los
inteligentemente. Ela deixou a casa em silêncio com dúzias de idéias novas rodopiando por sua
cabeça.
Naquela visita, LaVey me mostrou um pouco mais da casa – o banheiro, que era infestado
de teias-de-aranha verdadeiras ou falsas, e a cozinha, que era infestada de cobras, instrumentos
eletrônicos para safras de bons vinhos e canecas de café com pentagramas. Como qualquer bom
expositor, LaVey só deixa você saber o que ele era em pequenas partes e revelações, e quanto
mais informações ele te dá mais você percebe como era pequeno o que você sabia sobre ele.
Quase no fim de nossa visita, ele disse, “eu quero fazer de você um reverendo”, e me deu um
cartão vermelho certificando-me como um ministro da Igreja do Satã. Pouco eu sabia que
aceitando aquele cartão seria uma das coisas mais controversas que eu fiz até a época; isso
parecia então (e ainda parece) que meu mandamento foi simplesmente um gesto de respeito. Era
como uma graduação honorária numa universidade.
Era também o jeito de LaVey passar o cargo, porque ele era semiaposentado e cansado de
passar tantos anos promovendo os mesmos argumentos. Nenhum roqueiro do mainstream
defendeu o satanismo de nenhuma forma lúcida, inteligente e acessível desde talvez os Rolling
Stones, que na “Monkey Man” propuseram com um verso que poderia ter sido minha crença, “bem
eu espero que não sejamos muito messiânicos/ou um pouquinho muito satânicos”. Enquanto eu ia
embora, LaVey colocou uma mão ossuda em meu ombro e, enquanto ela se assentava lá
friamente, ele disse, “você vai fazer uma grande lesão. Você vai deixar uma marca no mundo”.
As profecias e predições de LaVey logo se tornaram verdade. Algo importante aconteceu
com meu relacionamento com Traci, e eu comecei a fazer uma lesão maior no mundo.
O dia em que eu me tornei um satanista também foi o dia em que as forças aliadas do
cristianismo e do conservadorismo começaram a se mobilizar contra mim. Logo após nosso
encontro, me disseram que o Delta Center, onde nós estávamos tocando em Salt Lake City, não
nos permitia entrar em cartaz com o Nine Inch Nails. Nos ofereceram, pela primeira vez mas não a
última, dinheiro para não tocar – nesse caso, dez mil dólares. Embora nós tivéssemos sido
removidos do cartaz, Trent Reznor me trouxe como convidado, e eu condensei minha deixa toda
em um único gesto, repetindo “Ele me ama, Ele não me ama” enquanto eu rasgava a Bíblia
Mórmon.
Sempre desde que a humanidade criou suas primeiras leis e códigos de conduta
comunitária, aqueles que quebram eles têm tido uma técnica de evitação à sua disposição: correr.
E foi isso que nós fizemos depois do show, fugindo para o ônibus de turnê e escapando de uma
noite trancafiados na penitenciária de Salt Lake City. Nós nunca conseguimos nossos dez mil
dólares, mas a declaração pareceu mais válida que o dinheiro.
Nós fizemos uma escapada similar mais cedo na turnê numa das cidades mais
conservadoras da Flórida, Jacksonville, onde os batistas que administravam a cidade ameaçaram
nos prender depois do show. Mas quando nós retornamos para fazer um show em Jacksonville
numa de nossas rotas principais depois da turnê do Nine Inch Nails, eu não fui tão sortudo.
Por baixo de minhas calças eu usava minha cueca preta de borracha com o buraco para o
pau, que até agora forneceu seu bom compartilhamento de sangue, cuspe e manchas de sêmen.
Como de costume, no meio do caminho para o palco eu me despir até a cueca, me encharquei de
água e me chacoalhei violentamente, balançando bruscamente meus cabelos e corpo para trás e
para frente e jogando gotas de água pelo palco. Nenhuma parte imprópria do corpo estava tão
exposta porque meu pau estava enfiado seguramente dentro de sua cobertura de borracha. Mas o
esquadrão vício, estacionado em cada saída do Club Five, viu o que ele queria ver, que era eu me
masturbando com uma pica de plástico presa (que eu nem tinha) e mijando na platéia.
Perto do fim de nossos shows eu costumava melar minha cara com batom vermelho e, se
houvesse garotas na parte da frente do palco que eu quisesse conhecer, eu as agarrava e transava
com elas, deixando em suas caras a marca da Besta, que servia de ingresso para a entrada no
inferno que era e sempre será nosso backstage.
Depois da performance, eu saí do palco e subi as escadas para o vestuário. Vindo por trás
de mim, contudo, era Frankie, nosso empresário. Ele ou era um viciado em drogas ou um ex-
viciado, dependente de quem você estava conversando. Ele parecia Vince Nail do Mötley Crue,
apenas com grandes círculos pretos embaixo de seus olhos.
“Os tiras estão aqui”, ele desembuchava em pânico. “E eles estão vindo te prender!”.
Eu corri para cima e fiz uma tentativa fútil de parecer respeitável, o que significava tirar
minha cueca de borracha e colocar um par de calças jeans e uma camisa de manga preta. Houve
um tumulto no corredor, e dois policiais clandestinos entraram e gritaram, “você está preso por
violação do código de entretenimento adulto”, uma frase que soava como “uma torta num casaco
novo castanho” no techno que o clube estava ecoando. Eles me algemaram pelas minhas costas,
me tiraram do clube e me levaram para o posto policial. Eu não estava preocupado porque eles
não pareciam ter rancor ou outro sentimento malévolo de mim. Eles só estavam fazendo seu
trabalho. Mas tudo aquilo mudou quando nós chegamos no posto policial, e eu fui apresentado a
vários caipiras robustos com uniformes policiais que pareciam que eles queriam fazer mais que
apenas seu trabalho.
Um em particular, com um bigode grosso preto, uma aparência atarracada e um boné
dizendo PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE JACKSONVILLE, parecia querer isso comigo. Ele e seus amigos tiras
fizeram inúmeras piadas ignorantes de mim, e então posaram comigo para fotos, provavelmente
assim eles poderiam mostrar à suas esposas o macaco com quem eles brincaram no serviço. Foi
uma noite lenta, e eu era claramente o entretenimento.
Mesmo assim não tenho reclamações. Afinal, eu sou um comunicador. Mas aí veio um cara
preto enorme, possivelmente a maior pessoa que eu já vi em minha vida. Suas mãos pareciam
cobrir uma sombra sobre meu corpo todo e cada veia protuberante em seu pescoço era
provavelmente tão grossa quanto o meu próprio pescoço. Ele me empurrou dentro de uma
pequena cela com uma geringonça misteriosa de aço inoxidável que devia ser uma combinação de
privada, pia e bebedouro. Enquanto eu estava tentando adivinhar qual parte era a privada e qual
era a pia, o “colosso” me mandou lavar a maquiagem da cara. Tudo que eu tinha era água e uma
toalha de papel, que era inútil. Depois de me assisti meu esforço todo, ele abriu a grade e gritou,
“use isso”, jogando uma vasilha de plástico daquelas que se limpa chão rosa para mim.
Com minha cara esfregada natural e rosa, eu sentei na cela abatido e abandonado,
esperando por socorro do mundo externo. O colosso voltou, batendo a grade atrás de mim. “Muito
bem”, ele mandou numa voz de sargento em treinamento que tremia o chão. “Você vai ter que tirar
suas roupas todas”.
Não importa o quanto exibicionista você seja, quando você fica pelado na frente de alguém
por muitas vezes, o tamanho do seu poder para fazer algo que eles queiram que você faça e poder
escapar impunemente, você de repente aprende a apreciar raiom, algodão, poliéster e todos os
maravilhosos tecidos que protegem seu corpo do contato físico direto. Lentamente,
minuciosamente e com a ameaça constante de violência de suas mãos imbecis e calosas, ele me
revistou de cima para baixo e por dentro.
Quando ele saiu, uma briga rebentou-se do outro lado da grade de minha cela. O colosso
estava discutindo com outros dois policiais. Em minha cabeça, eu tentei observar o que eles
estavam debatendo porque eu sabia que o resultado de sua discussão determinaria meu destino
na prisão. Eu finalmente decidi que ou alguém queria me soltar com base na falta de evidências ou
alguém queria ser meu namorado.
A discurssão acabou e o colosso voltou e perguntou tão bruscamente quanto possível,
embora eu pudesse dizer que ele ficou na verdade embaraçado, “cadê a pica de plástico?”. Antes
que eu pudesse continuar com meus instintos espertinhos em jogo, eu perguntei delicadamente,
“por que você quer uma pica de plástico?”. E daí o tumulto todo começou.
A cara dele ficou tão vermelha quanto se ela tivesse sido escaldada com ferro, seu tórax se
expandiu como o do Incrível Hulk, e ele jogou meu corpo nu, pálido e tremendo contra a parede. O
outro tira, o bundão batista, espremeu meu rosto e, soltando um bafo quente de porco pela minha
garganta, me interrogou. Nós tivemos um confronto de quando o show acabou também com a
existência da pica de plástico que com a qual eu supostamente cometi atos lúdicos e obscenos.
Após um tempo, eles pareciam estar sucumbindo, mas mais uma vez começaram a discutir entre
si tentando adivinhar se eles cometeram um engano.
Quando eles acabaram, o colosso mandou eu me vestir e me jogou dentro de uma outra
cela com meia dúzia de pessoas que nem sentavam no mesmo banco que eu porque minha
aparência os assustava. Minha única companhia foi um cara com uma capacidade mental de um
menino de oito anos e um físico de um molestador infantil gordo e solitário. Ele parecia como eu
imaginava Lenny do Of Mice And Men. Ele me disse que sua mãe, com quem ele ainda vivia, o fez
forjar um cheque em nome dela. Eu queria perguntar para ele se ele foi apreendido passando o
cheque no Dunkin’ Donuts, mas dessa vez me conti e o bom senso me pegou num bom dia. Nossa
conversa me lembrou de quando eu conheci Pogo, porque Lenny começou a compartilhar dicas
convenientes e que economizavam tempo no descarte de cadáveres. A única diferença era que
esse cara tinha realmente matado alguém, e seu método de descarte era o mesmo que o que
Pogo e eu imaginamos para o incêndio de Nancy.
Pelas nove horas subseqüentes, Lenny me acompanhou e cortejou, regularmente
interrompido pelos tiras, que continuavam me levando pelo posto policial para mostrarem seu
prêmio de caça. Depois do oitavo desfile da noite, eles não me levaram para a cela. Em vez disso,
eles disseram para mim que fui transferido para a “população geral”. No caminho, eles me levarem
até uma enfermeira, que me deu um texto psicológico. Qualquer psicótico esperto sabe como lidar
com um teste desses: existem respostas de pessoas normais, respostas de pessoas malucas e
existem pegadinhas nas quais eles tentam encurralar pessoas malucas para verem se elas estão
apenas fingindo serem normais. Eu olhei as perguntas – “como você se sente em relação às
autoridades?”, “você acredita em Deus?”, “é correto ferir alguém se este de feriu primeiro?” – e os
dei as respostas que queriam, e assim evitando uma pequena turnê na ala psiquiátrica.

Ciclo Oito – Fraude – Falsificadores de Metais, Pessoas, Moedas e Palavras

Tendo sido julgado como normal, eu fui levado até um médico para fazer uns exames. A
primeira coisa que ele fez foi trazer um par de alicates. “Você vai ter que tirar isso”, ele disse,
apontando para o piercing de meu lábio.
“Ele não sai”.
“Se nós não tirarmos ele, alguém vai rasgar isso fora para você quando você for jogado na
população geral”, ele disse em tons médios, as curvas de sua boca insinuavam-se para cima num
sorriso sadista que ele podia apenas conter.
Eles cortaram o piercing e me levaram até um corredor. Havia dois caminhos para a
população geral: um ficava depois de um rebanho de homenzarrões forçudos se exercitando com
pesos procurando por alguém de cabelos longos para transar. O outro ficava depois dos restos
naufragados da sociedade – bêbados, vagabundos e drogados. Por alguma razão, os tiras me
conduziram quebrando seu código de sadismo não-mencionado e me levaram pelo caminho mais
fácil. Ninguém tentou me foder e, aliviado, eu cai no sono instantaneamente.
Eu fiquei acordado por um espaço indeterminado de tempo para achar um prato de alfaces
murchos picados com vinagre aguado, um pedaço de pão velho, e, para a sobremesa, as boas
novas de que alguém pagou minha fiança para mim. Contaram-me que eu fiquei na cadeia por
dezesseis horas. A pior parte disso tudo foi que meu empresário pagou a fiança no minuto em que
eu estava sendo aprisionado. Mas esse tipo de informação viaja lentamente quando você é alguém
que a polícia odeia. Normalmente, a merda de um evento como esse seria avisado à publicidade
gratuita posteriormente, algo que nós precisávamos desesperadamente na época. Mas isso nunca
saiu nos jornais porque, como uma precaução, o juiz fez um acordo com meus advogados de que
se eu falasse com a imprensa ou publicasse o incidente, eles pegariam mais pesado comigo. Já
que a polícia não tinha evidências, as acusações foram eventualmente derrubadas mesmo.
Quando eu me encontrei com LaVey posteriormente um ano e meio depois em nossa turnê
Antichrist Superstar em 1996, nós tínhamos muito para discutir. Eu vi os inimigos com quem estava
contra e eles não só foram capazes de cancelar shows e fazerem exigências absurdas em nossas
performances, como eles foram capazes também de obstruir, sem razão aparente, a coisa que
LaVey e eu ambos representávamos: liberdade pessoal. Com LaVey, eu também descobri o que
acontece quando você diz algo poderoso que faz as pessoas pensarem. Elas ficam com medo de
você, e eles neutralizam sua mensagem te dando uma gravadora que não é aberta a
interpretações – como um fascista, adorador do demônio ou um defensor do estupro e da violência.
Nessa visita à casa de LaVey, eu trouxe Twiggy comigo. Nos permitiram entrar numa das
únicas salas de sua casa de trezes andares em que eu não estive. Ficava atrás daquela porta que
o seu mordomo gordo me puxou quando eu visitei a casa na primeira vez. A sala era um museu
privado de enigmas. A entrada era um sarcófago gigante egípcio que foi sustentado contra o vão.
Havia uma cadeira de balanço que pertenceu supostamente a Rasputin, o sofá de Aleister forrado
com o pêlo de algumas espécies em extinção. Nós sentamos numa velha mesa de jantar de
madeira (provavelmente algo que Aleister Crowley usou para tragar heroína) e comemos bife.
Nós falamos sobre religião, e o quanto ela só é um costume preservando códigos práticos
de saúde, moralidade e justiça que não são mais necessários para uma sobrevivência em grupo
(como não comer animais com cascos agarrados). Faz muito mais sentido seguir A Bíblia Satânica,
escrita com a humanidade do vigésimo século em mente, que é um livro escrito como uma
associação a uma cultura há muito tempo extinta. Quem diz que daqui a cem anos algum idiota
não vai achar uma camisa do Marilyn Manson – ou um boné de beisebol do Collapsing Lungs se
esse for o problema – pregá-la numa parede e decidir orar por ela.
Enquanto nós discutíamos isso, há cada dez minutos LaVey saia da sala. Eu tive a
impressão de que ele estaria nos observando pelos olhos de algum de seus quadros a óleo, assim
eu conscientemente fiquei quieto quando ele não estava por perto.
Nós também discutimos sobre Traci Lords porque LaVey me perguntou o que aconteceu
com ela. Eu disse para ele que ela tinha me largado e seu presságio otimista sobre o nosso
relacionamento estava errado. Mas depois de nosso show no dia seguinte, eu descobri que ela
tentou me caçar até me capturar por todo o tempo. Desde que eu tinha um álbum no primeiro lugar
da paradas e estava na capa da Rolling Stones, nosso relacionamento mudou de eixo, assim como
LaVey disse que aconteceria. Quando eu conheci Traci o fato de que ela era uma estrela a fez
parecer distante e inalcançável. Isso acabava comigo, o que me deixava mais forte, me enchendo
com o desejo – a necessidade – de me tornar mais que um maldito rockstar. Agora, eu me tornei
um. Dessa vez eu estava no comando, e eu não estava nem aí porque eu só a queria quando eu
não podia ter ela.
Alguns dias após o Halloween do ano seguinte, eu recebi um telefonema as quatro da
manhã dizendo que LaVey tinha falecido. Eu estava surpreso pelo quanto triste eu fiquei, porque
ele na verdade se tornara uma figura paterna para mim e eu nunca tive a chance de dizer adeus
para ele ou até mesmo o agradecer por sua inspiração. Mas ao mesmo tempo eu sabia que
mesmo que o mundo tivesse perdido um grande filósofo, o Inferno ganhou um novo líder.

12. Abuso, partes 1 e 2

“Eu acho terrível a noção de que os outros podem fazer coisas para mim que eu também posso
fazer para eles.” – Duran Duran, Barbarella

ABUSO: INFLIGIDO
Oitenta e oito quilos de carne abusiva, músculos atrofiados e ossos pesados, Tony Wiggins
era um aspirador-de-pó dos pecados. Seus olhos azuis brilhavam com a luz de uma festa perpétua
e seus lábios cianóticos se enrolavam e desenrolavam num convite ameaçador. Só seu charme
caipira, emanando um rabo-de-cavalo loiro e cavanhaque de coronel, sugerido em qualquer coisa
semelhante a boas maneiras, decência ou moralidade. Não importa onde ele estivesse a qualquer
hora – quanto menor era a cidade e mais improvável as circunstâncias melhor – Tony Wiggins
lidava com a sugação da sujeira, corrupção e decadência das ruas e trazia isso tudo para nós.
Nós conhecemos Tony Wiggins na hora certa, quando estávamos fracos e vulneráveis.
Aquele primeiro ano na estrada valeu a pena, não só na saúde e sanidade mas em nossas
amizades e relacionamentos. No meio-tempo, todos os nossos singles falharam, nossa música não
estava nas rádios e ninguém sabia de nós exceto por uma pequena legião de fãs do Nine Inch
Nails e uma pequena quantidade de doentes. Nós tínhamos um novo baterista, Ginger Fish, e
estávamos prontos para voltar para o estúdio, e dar mais uma chance para isso e, se nossos
próximos singles fracassassem, ver se o Collapsing Lungs precisava de alguns backing vocais.
Nós não queríamos ser uma banda desconhecida por toda a nossa vida. Nós sabíamos que nós
éramos melhores do que isso.
Mas, logo que nós estávamos nos preparando para gravar novas músicas em Nova
Orleans, nós fomos convidados para entrar na turnê Danzig’s Spring 1995 como a banda de
abertura. Era um convite que nós não podíamos recusar porque a gravadora o considerava uma
grande sorte e uma oportunidade excelente de promover o Portrait Of An American Family, um
álbum que, até onde nós sabíamos, estava morto. O fato de que durante nosso show de
aquecimento em Nevada uma garota me deu metanfetamina (me dizendo que era coca) não
ajudou muito. Eu vomitei por todo o show e não consegui dormir no ônibus o dia todo indo para
nosso primeiro show com o Danzig em São Francisco.
Eu fui para o palco naquela primeira noite usando um avental de manicômio, uma sunga
preta e botas. Meus olhos estavam vermelhos e turvos das três noites de insônia. Logo, eu senti
algo frio e pesado batendo em minha cara. Eu achei que era o microfone, mas ela se partiu no
chão e se despedaçou, jogando cacos de vidro espatifado em minha perna. Era uma garrafa vindo
da platéia. Em nossa segunda música, havia garrafas e lixo por todo o palco e um cara musculoso
e tatuado rejeitado na fila da frente me desafiava numa luta. Eu estava tão enfurecido na hora que
eu peguei uma garrafa de cerveja do palco, a estraçalhei na bateria e parei a música. “Se você
quer brigar comigo, venha aqui no palco, seu cuzão”, eu gritei. Ai eu peguei a metade da garrafa
estraçalhada e a afundei num dos lados de meu peito, arrastando-a pela minha pele até ela
alcançar o outro lado e me criar uma das mais profundas e maiores cicatrizes na treliça que é meu
torso.
Jorrando sangue, eu mergulhei na platéia e caí de cabeça. Quando o segurança me jogou
no palco de novo, eu estava completamente nu e quase todo mundo da primeira fila estava melada
de sangue. Eu agarrei o microfone e joguei-o precipitado no bumbo de Ginger, o destruindo. Ele
olhou para mim, furioso e confuso – era penas seu segundo show conosco desde que substituiu
Freddy, a Roda – mas rapidamente o pegou, esmurrando seu tambor. Twiggy levantou seu baixo
sobre sua cabeça e o jogou espatifado no supervisor do show. Daisy ergueu sua guitarra e a jogou
no seu pé. Nós destruímos tudo no palco menos nos mesmos.
Enquanto nós saíamos depois de nosso show de quatorze minutos, nós passamos por
Glenn Danzig, que deve dar uns dois e meio de mim (embora com dez vezes mais massa
muscular). Eu sorri maldosamente para ele, como se dissesse, “você nos chamou, e agora vai
pagar por isso”.
Nós não queríamos estar no palco tocando. Assim, toda a noite a gente não fazia nada. Os
shows continuavam a serem pequenas manobras de brutalidade e niilismo, e o mapa rodoviário do
meu peito começou a se expandir com cicatrizes, ferimentos e debruns. Nós todos nos tornamos
vasilhas desgraçadas, exaustas e vazias – autômatos do Westworld ficando furiosos. Mas assim
que até nossa própria violência estava começando a nos entediar e eu estava profundamente no
buraco da miséria porque Missi me telefonou e me disse que ela queria acabar com nosso namoro
– o primeiro relacionamento que significou algo para mim – porque eu nunca estava por perto, nós
conhecemos Tony Wiggins.
Ele emergiu do ônibus de turnê do Danzig com jeans pretos, uma camisa preta e um par
de óculos-escuros enormes bem pretos. Ele parecia o tipo de cara que esmurrava você
impiedosamente e então pedia desculpas depois. Eu o cumprimentei com seus óculos. Ele os tirou
de sua cabeça e, sem nem hesitar, disse, “tome, são seus”.
Daquele dia em diante, nós não estávamos na turnê com o Danzig mais. Nós estávamos
em turnê com o Tony Wiggins, o motorista deles. Toda manhã ele batia na porta do nosso ônibus
de turnê ou quarto de hotel e nos acordava com uma garrafa de Jagermeister e um punhado de
drogas. Quando seu cabelo estava num rabo-de-cavalo, que era raro, significava que ele estava
fazendo seu trabalho dirigindo o ônibus do Danzig. Quando o cabelo dele estava solto, ele estava
cuidando de nós, tendo certeza de que nossa autodestruição não estava limitada ao palco. Numa
noite num hotel barato e decrépito em Norfolk, Virginia, ele entrou cheio de cinzas de baseado e as
tragava. “Suba em minhas costas”, ele mandou. Twiggy pegou uma garrafa de Jack Daniels do
chão e concordou. Eu os ignorei porque eu estava ocupado escrevendo a letra de uma música
chamada “The Beautiful People”. Eles perambularam pela porta, uma besta bêbada de cu duplo
que a partir de agora seria referida como “Twiggins”, e partiram pela escadaria de fora. De repente
um barulho e uma série de obscenidades. No final das escadas, eu encontrei Twiggy caído de cara
numa poça de água da chuva e sangue. Nós corremos com ele para a sala de emergência, mas
nós parecíamos tão dementes – maquiagem manchada, água da chuva e sangue – que fomos
ignorados. Em vez de se queixar, Wiggins apenas pegou uma bandeja metálica de médico e
moldou várias outras carreirinhas. Aquilo era como as noites com Wiggins geralmente acabavam.
Ele bagunçava as coisas e não as deixava em paz até que alguém morresse, estivesse no hospital
ou desmaiado nos seus próprios vômitos. Se aquele não era ele mesmo, ele não pararia de
festejar até ser ele.
Eventualmente Wiggins, Twiggy e eu percebemos que havia maneiras para nós podermos
fazer nossas situações ficarem melhores e tentar nos educar e acumular conhecimentos valiosos
enquanto estivéssemos na estrada. Nós começamos a conduzir vários experimentos psicológicos,
como andar num grupinho e dar para só uma garota um ingresso para o backstage para testar
suas amizades.

Ciclo Oito – Fraude – Criadores de Escândalos e Cismas

Gradualmente, a tendência geral da turnê começou a mudar de uma turnê miserável para
uma mais memorável. Na turnê com o Nine Inch Nails e Jim Rose, eu me conti de uma das piadas
humanas mais estúpidas que eles já toleraram, mas agora eu não me importava mais. Enquanto
nós estávamos sentados encima de uma torre de aço enorme do lado de fora do clube chamado
Sloss Furnace em Biloxi, Mississipi, nos aquecendo para um show com Jagermeister e drogas,
Wiggins, Twiggy e eu juramos parar de explorar e humilhar garotas no backstage. Ao invés disso,
nós decidimos fazer trabalhos terapêuticos para elas. Para realizar nossos novos planos, tudo o
que precisávamos era de uma câmera e algumas garotas querendo confessar seus pecados mais
profundos e íntimos. Pouco nós sabíamos o quão negra e perturbada eram as vidas de nossos fãs.
Enquanto nós fazíamos a performance naquela noite, Wiggins faz os preparativos. Debaixo
do clube, nós achamos uma rede de catacumbas negras com grades metálicas, gotejando água e
a atmosfera geral de uma sessão de A Nightmare On Elm Street. Eu corri para encontrar com ele
lá depois do show, não só porque eu estava excitado mas também porque eu precisava me
esconder dos tiras, que queriam me prender por exposição indecente. Enquanto nosso empresário
de turnê os detia, Wiggins nos levou até as catacumbas, onde ele tinha dois pacientes prospectivos
aguardando. Nós não sabíamos se nosso plano de extrair confissões iria realmente funcionar e na
hora não entendemos realmente o que aquilo na verdade significava, estávamos sobrecarregados
pelo peso dos segredos mais obscuros. As pessoas não confiam necessariamente um no outro
para desabafarem assim. Eles querem algo: confiança, o que é um presente difícil de ser dar
convincentemente.
Por baixo de uma fuzilaria implacável e investigativa de perguntas do Wiggins, uma garota
sucumbiu e revelou que quando ela tinha onze anos, vários meninos na vizinhança só viviam
azucrinando ela. Numa noite ela acordou e achou sua janela aberta e quatro deles em seu quarto.
Sem dizer uma palavra, eles tiraram o pijama dela, rasgaram ele e a estupraram. Um por um.
Quando ela disse para seu pai no dia seguinte, ele ficou indiferente. Dentro de um ano, ele estava
molestando ela sexualmente também. Enquanto ela nos contava isso, ela olhou para mim em
expectativa com seus olhos molhados, os rastros de suas lágrimas tatuavam o rímel preto
escorrendo. Eu devia fazer algo, dizer algo, para a ajudar de alguma forma. Com minha música e
minhas entrevistas, eu nunca tive qualquer problema em dizer as pessoas sobre as vidas que elas
deviam estar levando e a independência que elas deviam exigir. Mas isso foi quando eu estava
conversando com uma massa total, um grupo indiferenciado de pessoas. Agora que eu estava cara
a cara e na verdade tive a oportunidade de mudar a vida de alguém, eu gelei momentaneamente.
Daí eu disse para ela que o fato de ela estar aqui e pudesse falar sobre isso provou que ela era
forte o bastante para passar por isso e aceitar.
Eu ainda imagino se algo que eu disse significou algo para ela, ou se eles eram apenas os
mesmos clichês que ela ouvia por toda a vida dela. Ela me disse que ela queria trocar de roupa
comigo e tirou sua camisa, que estava decorada com o slogan de Nietzsche “Deus Está Morto”
seguido da resposta de Deus, “Nietzsche Está Morto”. Eu ainda levo aquela camisa comigo para
todo o lugar que eu vou.
A primeira história foi tão dolorosa que eu ainda não consigo me lembrar da segunda
garota se confessando. Tudo que eu me lembro era que ela era uma linda garota loira com a
palavra fracasso entalhada em seu braço.
Em cada show, Wiggins refinava sua metodologia de inquisição. Sua arte era brutal e
sofisticada, e, alguns no campo da psicanálise diriam, antiético. Ele chegou a um ponto tão
avançado que para prosseguir com seu trabalho, ele teve que inventar seu próprio aparelho
investigativo. Ele o descobriu depois de um show em Indiana.
No backstage depois do show do Danzig, nós descobrimos nossa equipe filmando uma
pequena garota encorpada com cabelos brancos e pele pálida. Um garoto que parecia ser seu
irmão ou namorado, com mais ou menos dezenove anos, magrelo e afeminado com cabelos
vermelhos num corte de cabelo parecendo um cachimbo, um leve conhecimento superficial de
sardas e um ferimento descolorado em volta da maçã-do-rosto, estava do lado, ansiosamente
pegando um cigarro aceso em suas mãos. O cheiro de creme de barbear fresco estava no ar, e
eles persuadiram a garota a se raspar e a cometer outros atos indescritíveis. Parecia o tipo de
exploração tradicional que Wiggins e eu estávamos tentando evitar.
Assim que eles me viram, a garota e o menino puseram-se de joelhos. “Os deuses ouviram
nossas preces”, ela chorava.
“Eu só queria te conhecer”, ele me disse. “É por isso que estamos aqui”. Então,
naturalmente, Wiggins e eu pedimos para ele é que se eles tivessem algo para confessar, além das
atrocidades que a menina acabou de cometer com nossa equipe. Instantaneamente, a garota
olhou para o menino, e ele abaixou sua cabeça envergonhado e triste. Nós sabíamos que nós
tínhamos achado a pessoa certa para testar a nova invenção de Tony.
Wiggins perguntou ao garoto se ele se importaria de ser amarrado e contido, daí
trouxemos ele até o quarto dos fundos do vestuário, pedindo vários minutos para se restabelecer.
Quando eu entrei, ele estava impedido de se mover com suas mãos por trás de suas costas num
aparelho que o força a manter suas pernas num ângulo de noventa graus e suas mãos por trás de
suas costas. O aparelho é pretenso a mulheres, mas parecia ainda mais pervertido ver um cara
pelado todo aberto lá. Se ele movesse qualquer membro daquela posição, a corda em volta de seu
pescoço se apertaria e começaria a enforcá-lo. Para o impedir de se enforcar, ele tinha que lutar
para se manter naquela posição incômoda e vulnerável. Tony estava do lado dele com a câmera,
captando sua lutar de cada ângulo.
“Há algo que você queira confessar?” Wiggins começou num sotaque afetado do sul com
uma tendência ameaçadora. Do lado de fora, o “Master Of Puppets” do Metallica estabelecia uma
trilha-sonora para nossa tentativa de falsificar padres.
Ele hesitou, e tentou se contorcer numa posição desconfortável, o que era impossível. Com
uma mão livre, Tony levantou seu queixo até a câmera, e ele começou a falar. “Minha irmã e eu,
nós fugimos de casa há uns dois anos atrás. Daí...”. Suas palavras se encurtavam e se
fragmentavam enquanto ele se debatia com as cordas.
“Aquele é sua irmã lá fora?” Wiggins perguntou. Ele nunca deixava ninguém fugir com
imprecisão.
“Não. Só uma amiga. Ela mendiga nas ruas comigo”.
“Por que você fugiu?”.
“Abuso, sério. Apenas pelo abuso. Nosso padrasto, geralmente. Daí, de qualquer jeito, nós
precisávamos conseguir dinheiro para nossos ingressos. Para ver o show. E para outras coisas.
Assim nós pegamos uma carona até um estacionamento – uma parada de caminhões. Eu queria
vender ela. Seu corpo”.
“O que ela estava usando?”, a mente curiosa do Wiggins queria saber.
“Só com salto-alto que nós achamos. Um top. Jeans. Um pouco de maquiagem que
roubamos. Mas não era para fazer sexo. Apenas boquetes”.
“Foi a primeira vez que a prostituiu?”.
“Acho que sim”.
“Sim ou não?” Wiggins era um mestre.
“Por dinheiro, sim”.
“Daí o que aconteceu?”.
“Um caminhoneiro”. O garoto começou a chorar, e sua cara ficou vermelha de uma
combinação de emoção e o fato da corda estar o apertando pelo pescoço. Ele dobrou suas coxas
sardentas para o impedir de enforcar-se. “Esse caminhoneiro, ele a levou. Para o seu caminhão. E
eu a ouvi gritar, daí eu subi. Na janela. Mas antes que eu pudesse...”. Ele engasgou por um
instante, daí recuperou seu equilíbrio. “Ele me bateu. Ele me bateu. E...”. Ele estava chorando, e
suas pernas estavam tremendo. “E eu não sei onde ela está...”.
“Você quer dizer que ele a levou embora?” Wiggins perguntou incredulamente. Ele não
estava nem prestando atenção mais na câmera. Eu nunca o vi surpreso por nada antes e nós
estávamos com medo do garoto ser capaz de lidar com as cordas.
De repente, a música lá fora parou e nós ouvimos várias vozes gritando ordens. Eu abri a
porta e espiei o vestuário, onde dois tiras estavam revistando nossa sacola de maquiagens e
examinando as carteiras de motorista de várias garotas lá. Eu fechei a porta, tranquei e olhei para
todos em pânico. Eu tinha drogas no meu bolso e uma câmera documentando a coisa toda como
evidências. Nós o desamarramos rapidamente, e ele rolou, se encolhendo numa posição fetal.
Enquanto ele tomou ar e se reorientou, nós quietamente e estranhamente o vestimos com suas
roupas. Eu ouvia por trás da porta. As pessoas estavam rindo de novo, um sinal da certeza de que
a polícia tinha ido embora. Por algum golpe de sorte, eles não sabiam que havia uma porta dos
fundos. Eles estavam procurando pela filha de algum proeminente político local. O garoto parecia
querer nossa ajuda, mas, já que a polícia estava ainda no clube, nós insistimos para nosso novo
amigo procurar eles e os contar sua história, que continuava me assustando.
Comparado com muitos de meus fãs, eu tive uma vida fácil. Uma pessoa que me ajudou a
perceber isso foi Zepp, que conhecemos num show recente na Filadélfia. Enquanto nós estávamos
indo para nosso ônibus depois do show, um cara baixo de cabelos longos, e atarracado com um
maxilar quadrado e uma barba parecida com a de Anton Szandor LaVey acenou para nós do lado
de fora do estacionamento, prometendo nos dar uma lata de gás do riso se nós assinássemos algo
para ele. Já que eu nunca inalei gás do riso antes, eu concordei. Ele se apresentou a nós como
Zepp, depois de uma velha tatuagem lamentável do Led Zeppelin em seu ombro direito. Nos
nossos próximos mais ou menos doze shows, Zepp apareceu no backstage depois oferecendo
óxido nitroso ou pizza ou fotos de meninas adolescentes. Eventualmente, nós decidimos que como
ele estava tanto tempo conosco, ele poderia trabalhar conosco. Eu dei a ele uma câmera, o paguei
e ele começou a fazer a turnê com a gente. Eu sabia que ele se daria bem no dia em que eu abri a
porta da sala de estar no fundo do ônibus de turnê e o encontrei filmando Twiggy e Pogo, que
estavam fazendo sexo com uma boneca de plástico boqueteira que eu comprei de sacanagem.
Pogo estava com seu pau no cu dela, Twiggy estava com seu pau na boca dela, e eu esqueci de
checar se Zepp estava com seu pau na mão.
Gradualmente, nós aprendemos que Zepp não era apenas um cara normal da Pensilvânia.
Ele afirmava ter fodido trezentas garotas em sua cidade-natal, e um dia nós abrimos o vão de
bagagem do ônibus para encontrar ele lá encima da garota número trezentos e um. Ele costumava
injetar anfetamina com sua tia, e nos contou algumas histórias exóticas sobre como no auge de
seu vício insano eles se jogavam em poças de lama e uísque. Era um pequeno milagre ele ainda
estar vivo, e um afortunado, também, já que era Zepp que nos apresentou para slashers, duas
garotas que nos seguiam pelo país. Elas me lembravam das garotas de Charles Manson em 1969,
porque elas duas pareciam clássicas adolescentes suburbanas e patriotas com algo ligeiramente
errado. Nesse caso, era o fato de que aquela, uma garota de aparência inocente e cara rosada
com sobrancelhas brancas chamada Jeanette, gostava de rasgar a palavra Marilyn no seu tórax
antes de todo show e a outra, Alison, gostava de rasgar a palavra Manson em seu peito com o
corte do S ao contrário. Quase em todos os shows desde então, eu tenho visto elas cantando na
fila de frente com ferimentos auto-infligidos jorrando sangue em seus vestidos ou tops.
Entre Zepp, Tony Wiggins e minha própria loucura usurpadora, a turnê se tornou um dos
períodos mais caóticos, turbulentos e decadentes de minha vida. Um dos incidentes mais
perturbados aconteceu depois de um show em Boston. Eu estava no vestuário bebendo Jack
Daniels com o resto da banda quando Wiggins acenou para mim da porta.
“Eu tenho alguém que quer te dizer algo”, ele sussurrou maldosamente.
Ele me levou até um quarto difícil de se chegar onde uma garota de calcinha branca, sutiã
branco e meias rosas estava esperando por mim, amarrada e enrolada no aparelho sugador de
pecados do Wiggins. Ela seria atraente, mas com todo o corpo dela, particularmente em sua nuca
e na parte de trás de suas pernas, havia manchas vermelhas com ilhas elevadas de carne branca
pálida no meio. Era uma visão desconfortável porque, antes nem de ela confessar uma palavra, eu
já estava com pena dela. Apesar disso, eu estava também de certa forma ligado porque ela parecia
uma beleza que foi acerada pela Besta. E poucas coisas são tão boas quanto a beleza
desfigurada. Apesar de estranha, ela parecia familiar, como se eu já tinha visto ela em algum lugar
antes.
“O que aconteceu com você?”, eu perguntei. Era minha vez de ser o interrogador.
“Eu tenho uma doença na pele. Nada contagioso”.
“É isso que você quer confessar?”.
“Não”, ela disse, pausando para ganhar forças para o que ela ia dizer. “O que eu tenho
para confessar tem algo a ver com você”.
“Fantasias não valem”.
“Não. É de quando eu te conheci em pessoa. Há um ano atrás. Quando você estava na
turnê com o Nine Inch Nails”. Ela parou e moveu-se com dificuldade com as cordas. Ela estava
franzina e fraca.
“Continue”, eu disse, sabendo que se eu fiz algo indescritível com ela eu definitivamente
teria me lembrado daquelas manchas.
“Eu estava no backstage e você disse que oi para mim. Eu era a garota que foi para o hotel
com Trent naquela noite”.
“Sim, me lembro”, eu disse, e eu me lembrava mesmo.
“O que aconteceu foi que eu estava saindo com alguém na época, e ele estava com raiva
de mim porque eu queria ir ao backstage e dormir com Trent. Mas eu fiz isso mesmo assim”.
“Então ele acabou com você?”.
“Sim. Mas não é isso que eu... que eu estava tentando dizer. No dia seguinte, meu
estômago começou a doer e eu comecei a ter todas aquelas dores. Eu fui ao médico e ele me
disse que eu estava grávida há vários meses. Mas...”, ela começou a chorar, “eu nunca tive o bebê.
Eu abortei por ter feito sexo”.
Eu não sei se eu acreditei no que ela disse, mas ela parecia verdadeira. Sua última
palavra, “sexo”, escapou de sua garganta como um dardo de uma zarabatana. Ela ficou tão
arrasada pela lembrança que ela livrou a pressão de suas mãos e pernas e permitiu a geringonça
de Wiggins morder firmemente seu pescoço. Sua cabeça bateu no chão, inconsciente. Ainda
chocado pela confissão dela, eu me abaixei num atordoamento e comecei a remexer os nós da
corda, incapaz de fazer uma coisa enquanto o rosto dela estava inchado de vermelho para roxo.
Wiggins tirou uma faca do exército de seu bolso e cortou a corda que já estava marcando o
pescoço dela, livrando a tensão. Mas ela não acordava. Nós a estapeamos, gritamos nela,
jogamos água nela. Nada funcionava. Isso foi foda. Eu não queria ser o primeiro rockstar que
realmente matou uma garota devido a hedonismo de backstage.
Depois de três minutos, ela gemeu e piscou seus olhos. Essa foi provavelmente a última
vez que ela quis ir ao backstage novamente.

* * *

ABUSO: RECEBIDO
Quando nós voltamos para Nova Orleans para começar a gravar depois da turnê, nós achamos
que a vida voltaria ao normal. Mas logo que Wiggins nos mostrou o verdadeiro significado da
indulgência, uma palavra que nós só achávamos que entediamos apenas até então, Nova Orleans
nos ensinou sobre o ódio, a depressão e a frustração. As pessoas gostam de pensar no ódio e na
misantropia como uma concha protetora construída contra o mundo. Mas no meu caso, eles não
vieram da dureza mas sim do vazio, do fato de que minha humanidade estava se esgotando como
o sangue de todos os machucados que eu infligi em mim mesmo. Para sentir algo – prazer ou dor
– eu tinha que perseguir as experiências que eram mais que normais e mais que humanas. Nova
Orleans, onde a única coisa para se fazer é rir de como ela era depressiva, teve que ser o pior
lugar possível para se achar o calor no abraço de uma prostituta.Se a turnê extinguiu o pouco que
havia de minha moralidade, Nova Orleans devorou minha alma.
Quanto mais você ficava em Nova Orleans, mais feio você ficava. E as pessoas com quem
saíamos eram as mais feias possíveis. Elas eram traficantes de drogas, aleijados, a escória. A
única pessoa legal na cidade ou estava vindo do aeroporto ou a caminho de lá. Os locais que
visitávamos eram espeluncas vazias como o Vault, um bar gótico industrial do tamanho de um
quarto de hotel. O chão era cheio de uma lama misturada com mijo solidificado, cerveja e uma
atmosfera geral úmida e fétida como o clima da cidade. Unicamente usado para ingestão de
substancias de classe A, os banheiros nem eram toaletes. Nós passamos muitas noites no clube
tragando drogas com o DJ e o convencendo a tocar o Number Of The Beast do Iron Maiden todo
para assim nós podermos assistir a criançada gótica tentar dançar ela. Ao amanhecer, nós
voltávamos ao nosso apartamento, um flat miserável de dois quartos numa vizinhança cuzona
onde dois tiras recentemente tomaram um tiro na cabeça. Nós todos dormíamos no mesmo quarto
esquálido, inalando o odor de roupas sujas e nos esquivando dos insetos e ratos. Quando tudo
isso chegou ao limite, nós contratamos uma camareira guatemalteca, que limpava os escombros
por dez dólares a hora.
Todo mundo nos tratava como merdinhas em Nova Orleans, e nós desprezávamos todos
eles e em retorno os tratávamos como merdas. Uma garota continuava a nos perseguir tentando
nos entrevistar para seu fanzine, e numa noite eu me revoltei, peguei o mini-gravador dela e o
trouxe até o quarto, perguntando às pessoas o que elas achavam do Iron Maiden. Daí eu mijei no
microfone e o joguei nela. Mais e mais, nossas noites estavam se tornando longos fios de atos
niilistas.
Outra garota que nos perseguia era alguém que Trent me apresentou quando nós
estávamos em turnê com ele. Ela era conhecida como Big Darla, e ela vivia à altura de seu nome.
Ela pertencia à classe de vampiros que me rondavam em bares, esperando para fazer contato
visual e então eles poderiam se aproximar e sugar minha vida. Em nossa primeira noite em Nova
Orleans, ela veio até meu quarto usando uma camisa velha e obscura do Marilyn Manson com uma
caixa de guloseimas de Nova Orleans que pareciam bosta de vaca amassada com azeitonas,
mostarda e mijo de gato. Durante todo o resto de nossa estadia em Nova Orleans, ela e seus
sanduíches nos seguiam por todos os lugares, um incômodo constante.
No aniversário de Trent Reznor, nós estávamos andando pelas margens do rio Mississipi
tentando imaginar o que dar para ele, porque ele tem tudo e geralmente joga os presentes num
canto e nunca os vê novamente, quando eu avistei um mendigo de uma perna só, martelei a idéia
de ele ganhar seu próprio membro protético como um presente. Enquanto eu estava tentando o
convencer a tomar parte disso, uma garota fofinha e chupada passou, e eu comecei a conversar
com ela. Eu a perguntei se ela conhecia a música do Nine Inch Nails, e ela disse que sim. Ai ela
me mostrou uma cicatriz que ela tinha em seu braço, como se eu fosse capaz de relatar.
“Hoje é aniversário de Trent”, eu disse para ela. “Você quer vir e criar algum tipo de
surpresa legal?”.
Ela parecia que tinha dez anos, embora ela fosse muito mais velha. Ela revelou ser uma
stripper, e eu pensei em foder ela quando nós a trouxéssemos para o apartamento para se trocar
para o jantar. Mas ela começou a falar de craque e referindo-se à prostituição, e me assustou. Ai
nós a levamos ao Brennan’s, um dos restaurantes mais caros da cidade. Trent supôs que ela era
minha ficante, e nós não dissemos uma palavra de seu aniversário. Depois do jantar, Trent ficou
conversando, ela indiferentemente subiu na mesa, tirou suas roupas todas e ofendendo (ainda sim
excitando) os clientes ricos da alta classe do restaurante. Ela parecia Brooke Shields em Pretty
Baby, e ela sucedeu-se em constranger todos porque ela nos fez parecer um bando de crianças
pornográficas. Isso fez todas as bobagens rolarem, e nós ficamos bêbados, nós ficamos viajando,
e não falamos com pessoas que nós nunca normalmente falaríamos a não ser que estivéssemos
bêbados ou drogados. Como um final adequado para uma noite fodida, nós voltamos para casa e
abrimos a porta apenas para nos deparar com as costas largas, extensas e nuas de Big Darla.
Espremidas por baixo dela estavam duas pernas secas destacando-se bem perto da porta. Eram
de Scott, e ela parecia estar mais envergonhada por ter sido pega no ato que ele. Como crianças
do colegial que acabaram de pegar um colega se masturbando no banheiro, Trent e eu
escrachamos o espetáculo, adicionando a memória na nossa crescente lista de piadas internas –
embora Trent estivesse relutante em gozar ou de Scott ou de Big Darla porque ele tinha uma
pequena pena deles dois, por alguma razão.
No estúdio, a vida não era nem um pouco menos bizarra. O caos da turnê do Tony Wiggins
e a corrupção de Nova Orleans nos levavam numa bebedeira constante, e Twiggy e eu compomos
quinze canções, trabalhando tão juntos e tão sincronizados que nós nem tínhamos que nos falar
para comunicarmos nossas idéias. Quando nós colocamos todas as canções juntas numa fita
demo, nós vimos que nós criamos uma metáfora gigantesca de nosso passado, nosso presente e
nosso futuro. Era sobre uma evolução de uma criatura negra, distorcida e viciada com uma infância
gasta vivendo com medo até uma maioridade gasta semeando o medo, de um fraco para um
megalomaníaco, de um espancado para um espancador, de um verme para um destruidor mundial.
Nós tínhamos uma visão, nós tínhamos um conceito e, mesmo que ninguém mais acreditasse na
música, nós sabíamos que tínhamos a maior parte de nossas melhores músicas. Nós estávamos
prontos para começar a sintetizar nossas vidas em um álbum completamente realizado.
“Ele é a coluna vertebral do Marilyn Manson”, Trent advertiu. “O Marilyn Manson é
conhecido pelo seu estilo de guitarra”. John Malm, nosso empresário e diretor da gravadora,
concordou.
Uma onda de frustração agitou-se pelo meu corpo. Eu trabalhei pra caralho para me
manter. “Eu li centenas de artigos e nenhuma pessoa nem mencionava guitarras”, eu disse,
irritado. “De fato, ninguém nem fala das músicas. Eu quero escrever boas músicas para que as
pessoas falem mais delas”.
Eu me ofereci para lhes mostrar as letras, para abafar as músicas, para adicionar melodias
extras, mas ninguém tinha fé no projeto. Além disse, todo mundo achava que nós devíamos ainda
estar promovendo o Portrait Of An American Family. De várias maneiras, eu era meu pior inimigo
porque eu ainda não confiava em mim. Eu era tão novato nisso que eu olhava e acreditava nos
publicitários, advogados e diretores da gravadora. Eu segui seus instintos ao invés dos meus, por
isso eu esqueci das músicas que nós compomos e, pela primeira mais logo a última vez, fiz uma
concessão. Nós começamos a trabalhar num EP de remixes, covers e experiências com áudio
para condensar nossas cabeças, que estavam obscuras, caóticas e deterioradas por drogas.
Seja lá qual foi a falha que eu achei no Portrait, ela não foi nada em comparação ao o que
esse EP se transformou. Era como costurar um traje complexo para uma festa mas puxar a bainha
com uma unha quando sair de casa e assistir desamparadamente enquanto ele se descosturar e
se destrói. A unha, nesse caso, a Time Warner, a matriz da Interscope/Nothing.
O álbum pelo qual nós voltamos para a gravadora começou com uma das gravações mais
dolorosas que eu já fiz. Naturalmente, Tony Wiggins estava envolvido nisso. Era de uma garota que
ele trouxe no backstage bem no começo da turnê do Danzig. Ela implorou para ser humilhada e
abusada. Wiggins começou, de forma importuna, a cortar seus pêlos pubianos, ligeiramente a
chicoteando e enrolando uma corrente meio que agourento em volta do pescoço dela. Mas ela
continuava pedindo mais e mais abuso até que, finalmente, ela gritou que sua vida era imprestável
e implorou para ser morta à golpes. O vídeo com as confissões deixou Wiggins preocupado
pensando se ele foi longe demais. “Você está bem, não está?” ele perguntou enquanto ela deixava
escapar um conjunto de gritos que não mais se diferenciavam do prazer e da dor. “Você sabe que
não vou te matar”, ele tentou acalma-la.
“Eu não estou nem aí”, ela disse para ele. “Isso é tão bom”.
Foi a única vez que eu vi o trabalho de Wiggins reprimido.
No álbum, logo que ela disse que sua vida não importava e suplicou para ser morta lá foi
um choque forte, ambíguo e cataclísmico e então o som do baixo de “Diary Of A Dope Fiend”
lentamente foi saindo. Era um prefácio perfeito para um álbum sobre o abuso: abuso sexual, abuso
doméstico, abuso psicológico. Meio caminho andando nas gravações, nós incluímos uma das
confissões gravadas que nós coletamos, de uma garota que foi molestada por seu primo de sete
anos. Ela ressalta um enredo secundário no álbum, sobre o objetivo mais comum do abuso: a
inocência. Eu sempre gostei da idéia do Peter Pan de ser uma criança em mente e não em corpo,
e Smells Like Children devia ser um álbum de crianças para alguém que não é mais uma criança,
alguém que, como eu, quer sua inocência de volta agora que elas estão corrompidas demais para
as apreciar. Tendo recentemente nossa própria inocência abusada pelo nosso empresário de turnê,
Frankie, que nós despedimos quando descobrimos que ele acumulou vinte mil dólares em
despesas que ele não podia explicar, nós nos sentimos justificados em adicionar uma música sobre
ele chamada “Fuck Frankie”.
A cola segurando tudo isso era o diálogo do Willy Wonka E A Maravilhosa Fábrica De
Chocolate que foi tirada de contexto para parecer ter entenderes sexuais duplos. E a parte principal
era nossa regravação do “Sweet Dreams” do Eurythmics, que nós tínhamos tocado na turnê. Numa
letra só, ele resumia não só o álbum mas a mentalidade de quase todo mundo que eu conheci
desde que formei a banda: “alguns deles querem te abusar/alguns deles querem ser abusados”. A
gravadora se encaixava na primeira categoria de abuso. Eles queriam que nós amputássemos as
amostras de Willy Wonka porque eles não achavam que nós seríamos capazes de conseguir
permissão para as usar e – eu devia ter aprendido minha lição a partir de agora – disseram que
nós precisávamos de declarações juradas escritas das pessoas nas gravações de Tony Wiggins. A
maioria das gravadoras provavelmente teria chegado à mesma conclusão, o que é uma razão do
porquê a arte e o comercial são incompatíveis em essência.
Mas então, do nada, a Nothing chegou a uma decisão que ia rigorosamente de encontro
aos instintos comerciais. Eles não queriam lançar “Sweet Dreams” como um single, o que eu sabia
que seria uma música que até as pessoas que não gostavam da nossa banda adorariam. A
gravadora queria lançar nossa versão do “I Put A Spell On You” do Screaming Jay Hawkins, que
era muito mais obscura, esparramada e esotérica mesmo para alguns de nossos fãs. Nós lutamos
contra a gravadora dessa vez, e aprendemos que nós podíamos ganhar. A outra coisa que eu
aprendi foi me ligar em meus instintos, que geralmente acabavam me servindo melhor do que os
dos outros. Foi uma experiência desanimadora mas ela não machucou tanto quanto o fato de que
ninguém na gravadora nunca nos congratulou pelo sucesso da música. O que começou como uma
gravação bem perturbada se tornou uma gravação que só me perturbava.
O único consolo foi que por alguns erros lamentáveis alguém do departamento de
imprensa da gravadora fez vários milhares de cópias de nossa versão original do álbum, achando
que ele era o novo. Sem nem os ouvir, a gravadora as lançou como cópias promocionais para
rádios e jornalistas antes de perceber seu erro. Agora, elas estão disponíveis para qualquer um
que quiser as ouvir na internet. Embora alguém na gravadora ter realmente me acusado de tramar
isso, eu queria que eu fosse tão engenhoso. Deus, por mais irrelevante que ele possa ser para
mim, trabalha de formas misteriosas.
Outro mérito era que, apesar de ter que remover as gravações que fizemos na turnê, nós
éramos capazes de incluir Tony Wiggins na versão aprovada pelos advogados do álbum. O
resultado foi um dos momentos mais surpreendentes e irônicos das gravações, uma versão
acústica de “Cake And Sodomy”. Já que a música critica sulistas, cristãos brancos e pobres, nós
achamos que não havia jeito melhor de remixá-la senão ter o Wiggins arranhando um som no
violão e cantando pelo nariz uma versão caipira.
Durante nossa estadia toda em Nova Orleans nós tivemos exatamente um bom momento.
E nós tínhamos que agradecer para o Tony Wiggins.
Narcóticos eram tão abundantes lá que nós ficamos chateados só usando drogas. Para
nos entreter, nós tínhamos que adicionar jogos especiais, rituais e enredo nas experiências com
drogas. No aniversário de Twiggy, uma garçonete com cara de cachorro e parecida ser congênita
que trabalhava numa espelunca no French Quarter, apareceu com um amigo, um músico maneta
que tocava baixo com um gancho. Já que sua fonte primária de sustento era um traficante de
drogas, ele nos trouxe vários bolos de cocaína. Mas nós não queríamos apenas drogas. Nós
queríamos a combinação de drogas, rituais e situações em que Wiggins era capaz de nos meter.
Num bloco de notas, Twiggy e eu rascunhamos Wiggins com um lápis e um lápis-de-cor
vermelho, retratando ele morrendo como um santo na cruz, presidindo sobre a Última Ceia com
larvas e sangue, e descendo até a Terra disfarçado do Anjo da Morte. Numa bandeja no chão, nós
arrumamos várias linhas de cocaína próximas à várias doses de Jagermeister e galinha num
bolinho (para representar o alegado da matança das galinhas e o maçarico de nosso baterista
confirmado na turnê). Por trás deles, nós escoramos uma boneca espancada do Huggy Bear, o
cafetão de Starky And Hutch, que estava faltando uma perna. Dentro daquela cavidade de plástico
vazia era onde nós escondíamos nossas drogas por toda a turnê de Tony Wiggins. Sempre que
nós ingeríamos o conteúdo daquele orifício extra, nós nos referíamos a isso em código como
“dançando com o cafetão perneta”. E na noite do aniversário de Twiggy, nós ficamos dançando e
estávamos prontos para sermos esmurrados. Eu estava nu exceto por uma peruca loira, uma
máscara de galo com olhos brilhantes e uma coroa feita em casa de papel vermelha. Twiggy
estava usando um vestido xadrez azul que parecia uma toalha-de-mesa, meia-calça marrom, uma
peruca ruiva, e um chapéu de vaqueiro. Ele parecia uma dona-de-casa zumbi relaxada do Texas.
Nós telefonamos para Wiggins no seu celular e, assim que ele desligou, conduzindo nossa
própria comunhão, tentamos converter o corpo e o sangue de Tony Wiggins em nossa refeição de
intoxicantes. Nós tragamos uma carreirinha, lambemos a cabeça da Huggy Bear, mergulhamos a
boneca nos restos de coca e os esfregamos em nossos chicletes. Ai nós descemos um trago de
Jagermeister, e colocamos a hóstia de galinha em nossas bocas. Não durou mais de quarenta e
cinco segundos para Twiggy e eu completarmos essa corrida de obstáculos sagrada. Wiggins nos
reconheceu logo.

Ciclo Oito – Fraude – Advinhos, Astrólogos e Magos

Como se tivesse comido o fruto do conhecimento, eu percebi que eu tinha que cobrir minha
nudez. Ai eu peguei o tubo de cartolina de um rolo de papéis-toalha e o enrolei em volta de meu
pau. Numa tentativa de enrola-lo numa cinta elástica rústica, eu embriagadamente arranquei a
televisão da parede e enrolei o cabo em volta de minha cintura como um cinto. Nós tentamos fazer
Pogo nos divertir ou suar algo para nos divertir, mas nossos esforços foram em vão. Nós
assistimos por uma hora uma garota megera bêbada com ferimentos em suas pernas ajoelhar-se
sobre sua cara com suas calças nos joelhos, tentando recuperar-se da ansiedade de sua
performance consistente em jogar mijo na boca ávida dele. Daí nós desafiamos Pogo a cortar seus
pulsos com uma faca, o que ele fez várias vezes, e borrifar creme de queijo em seus genitais e se
masturbar, o que ele também fez mas falhou, ou em se provocar ou em atrair nosso interesse.
Era uma noite típica: nós ingerimos e inalamos muitas drogas e começamos a nos
enlouquecer com uma energia nervosa até bem depois do sol raiar. Twiggy pegou seu violão e
empurrou um mini-gravador para emitir músicas estranhas parecidas com as dos Chipmunks. Já
que não era muito engraçado sem um público (ou que não fosse muito engraçado para alguém que
não estivesse viajando), nós corremos gritando pelas ruas em nosso grupinho caseiro, tropeçamos
num cara desabrigado na calçada. “Ei cara, que porra é que você está fazendo?” Twiggy
perguntou, tentando ser amigável. Mas o cara ou estava muito assustado para responder ou só
queria ficar sozinho em paz.
Sabendo que os tóxicos são os caminhos mais rápidos para o coração de um homem, nós
demos para ele uma garrafa de vodka. Agora que nós estávamos na mesma onda, nós achamos
que talvez ele entrasse em nosso circo viajante. Ai nós insistimos para que ele colocasse uma
peruca, dançar e cantar músicas conosco. Nós nos sentíamos como se tivéssemos quatro anos
novamente, e era bom.
“Ei, Joe”, Twiggy cantou para induzir o cavalheiro a agir. “Ei Joe, o que você está fazendo
hoje? Você acha que pode seguir nosso caminho?”. Mas Joe não dançou não foi à lugar nenhum.
Ele se mijou, molhando nossos pés desnudos com seu mijo todo.
Nós fomos pegos tão que de surpresa pela sua inesperada performance artística que nós
nem notamos as sirenes gemendo atrás de nós. Alguém deve ter chamado a polícia. Na turnê do
Danzig, eu na verdade tive uma briga tolerável com os tiras quando eles me prenderam por expor
minha bunda no palco e, em vez de me humilhar no posto, eles me deram uma notificação de
infração, desculpando-se pelo inconveniente e então um deles perguntou se ele podia tirar uma
foto comigo porque ele era um fã. Mas eu sabia que era apenas sorte, não uma tendência. Eu não
estava querendo perder minha chance em Nova Orleans, especialmente enquanto estava usado
nada além de uma bainha de cartolina no pau.
“Pare o que você está fazendo e coloque suas mãos na parede”, crepitou um alto-falante
por cima de uma das viaturas. Eu olhei para Twiggy. Twiggy olhou para Pogo. Pogo olhou para Joe.
Joe se mijou de novo.
Ai nós fizemos o que todo cidadão que se respeita faz na frente de uma autoridade maior.
Nós corremos, e nunca olhamos para trás. Depois de um breve intervalo que consistia em todos
nós desmaiarmos por várias horas e continuarmos nossas aventuras.
Seguindo em frente com o casal clichê tatuado, nós fomos à um cemitério fora da cidade
onde nos contaram que ossos brotavam do chão como flores. Ao invés de estátuas, sepulcros e
fileiras verticais de lápides que esperávamos, o lugar parecia um depósito do século IXX de
cadáveres. Havia dentes misturados com a sujeira e pedregulhos, e ossos nivelados
provavelmente por pneus num estacionamento. Nós vagamos por meia hora enchendo um saco
plástico de supermercado com ossos. Eu suponho que achamos que eles dariam bons presentes
para namoradas ou lembranças da festa do próximo aniversário do Twiggy.
Twiggy, bêbado de novo, queria levar algumas lápides também, o que eu desaprovei. Não
em respeito aos mortos – eu perdi a habilidade de respeitar tudo que é vivo, deixe os mortos em
paz – mas porque elas eram muito pesadas para se carregar. Nós as trouxemos ao apartamento
mesmo assim e as guardamos no armário do corredor. Aquilo provavelmente teve algo a ver com o
comportamento estranho de nossa empregada no dia seguinte, que se foi misteriosamente,
deixando seu rosário pendurado na maçaneta do armário.
Por toda a turnê do Smells Like Children, Twiggy arrastou os ossos de cidade em cidade,
dizendo a todos que perguntavam que eles eram os restos de nosso baterista anterior Freddy, que
nós queimamos vivo. Freddy, assim como aconteceu com a sacola de ossos, acabou incendiado
de novo em Los Angeles. Como de costume, Tony Wiggins estava envolvido.
Quando nós tínhamos prazer por nós mesmos, era geralmente em tributo à Tony Wiggins,
porque ele nos mostrou que não haviam limites. E desde então, sempre que ele recebia nossa
ligação e, quando nós estávamos bem infelizes e entediados, ele vinha voando até nós como um
poltergeist lascivo. Enquanto a turnê se desenrolava, ele se materializou no backstage antes de um
show no Palace em Los Angeles. Ele estava bêbado e viajando com algum tipo de anfetamina.
Provando que ele pode ser abusado assim como ele também pode dispensar isso, ele insistiu que
eu o cortasse. Já que eu nunca usei o corpo de ninguém além do meu como uma tela para infligir
ferimentos antes, eu obedeci, dando para ele uma tatuagem temporário na forma de uma estrela.
Ele passou o show todo do lado do palco, sangrando e tentando enfiar uísque goela abaixo sempre
que nós andávamos para trás. Era o tipo de comportamento que nós esperávamos dele.
Posteriormente, nós fomos numa festa no quarto de hotel do Wiggins no Sunset Boulevard.
A privada toda estava rodeada de cocaína e o quarto estava cheio de atores pretensiosos de Los
Angeles que estavam fazendo blasonarias como se isso estivesse saindo moda. Ao mesmo tempo,
eles estavam tomando notas mentalmente para que eles pudessem fazer blasonarias do Marilyn
Manson em outro quarto de hotel em outra noite.
Nós estávamos nos acabando na cerveja, o que resultou numa expedição improdutiva até
o supermercado Ralphs que envolvia Wiggins oferecendo à vários tiras quinhentos dólares para
comprar cerveja para ele. De volta ao hotel, ele doou o dinheiro para Twiggy e tudo estava ótimo
novamente – até nós nos acabarmos nas drogas. A noite toda, Twiggy e eu queríamos nada mais
que fazer aqueles tipos legais de Los Angeles fumando os ossos de Freddy como se eles fossem
uma marca registrada de cigarros franceses. Agora era nossa chance. Nós pegamos uma das
costelas de Freddy, cortamos em alguns pedaços, e os jogamos num cachimbo. Nós acendemos e
cada um tomou um trago, deixando nossos pulmões se encherem com a fumaça desse cadáver
desconhecido. Embora o quarto rapidamente se impregnou com o odor nojento de um cadáver
queimando, nós convencemos duas garotas chatas a tomarem um trago. Elas duas ficaram
enojadas e saíram do quarto, o que era o que nós queríamos em primeiro lugar. Twiggy acabou
sua noite no banheiro vomitando; eu acabei a minha sonhando que eu estava possuído por um
pastor batista velho da Louisiana no fim do século.
Em retrospecto, a experiência não foi tão ruim quanto alguns dos encontros que eu tive
com drogas vegetais normais. Quando nós estávamos saindo com o Nine Inch Nails logo antes do
incidente do fumo de ossos, eles me ofereceram um dos únicos narcóticos que eu não tinha
experimentado antes: cogumelos. Pogo, Twiggy, a maioria do Nine Inch Nails e eu ingerimos vários
chapéus enquanto nós íamos para um lugar chamado Mars Bar. Devia ser perto, mas levou uma
hora. No caminho, nós tomamos poucas latas de Budweiser com gosto. Mas não importa quantas
nós tínhamos bebido, nós nem conseguimos mais esvaziar nem mais uma. Ou alguém da
Budweiser era um gênio ou os cogumelos fizeram efeito.
O Mars Bar era exatamente o lugar errado para se estar em nosso estado de espírito. Era
um shopping horripilante abandonado à beira-mar, e o único jeito de chegar lá era pegando um
elevador sinuoso cheio de luzes negras. Alguém veio como uma má idéia de brincar de moléculas,
e começou a rodopiar e bater em todo mundo. Uma das pessoas com quem nós estávamos era Bill
Kennedy, um notório produtor de heavy metal, e enquanto ele se bateu em mim ele se transformou
num demônio de cabelos flamejantes, cascas de milho nos dentes e cobras contorcidas na cintura.
Quando ele deu risada, tocos de cigarro saíram voando para cima e para baixo de sua boca como
pipocas pulando dentro de uma pipoqueira. Era um pesadelo, e me lembrei tarde demais que eu
nunca devia ter tomado drogas psicodélicas.
Quando a porta do elevador finalmente abriu, era uma sala cheia de esqueletos marrons.
Todos eram magrelos e morenos e, na luz negra, lês pareciam terem um marrom sobrenatural. A
mobília era toda minúscula como algo tirado de Alice No País Das Maravilhas. E a música ficava
mudando: as músicas que eles estavam tocando tinham novas partes que eu nunca notei antes, ou
todas que fui capaz de ouvir eram os começos. Nós fomos levados pelo gerente do clube até
algum tipo de jaula ou zoológico, onde todo mundo podia olhar para a gente e chegar na gente e
ficar pegando na gente. Não havia nada para fazer além de sentar e ser tolo. Eu estava
enlouquecendo. Eu olhei para Pogo e ele estava com uma luz vermelha brilhando por baixo dele
como se ele estivesse sendo abduzido por alienígenas. “Você está bem?” eu perguntei. Ele apenas
sorriu para mim e respondeu, “vou matar todo mundo”. E ele estava falando sério, o que me
aterrorizou.
Uma saída estava convenientemente e temporariamente fornecida para mim quando um
cara aparentemente amigável chegou e disse que ele me conhecia. Eu me lembrei dele vagamente
como um garçom do Reunion Room, onde nós tocamos num dos nossos shows mais iniciais.
“Esse é o meu clube”, ele disse. “Eu gerencio esse lugar”.
“Legal”, eu respondi. “Há algum lugar onde você possa me levar para sair daqui? Estou
enlouquecendo?”.
Ele me levou para os fundos do clube e abriu a porta de um cárcere gigantesco. Eu entrei e
ele me seguiu, fechando a porta por trás dele. “Tipo” ele disse, “você costumava sair com uma de
minhas namoradas”.
Era uma coisa cruel para se fazer para alguém em meu precário estado de espírito. Eu
fiquei atento. Eu tentei aliviar ele e olhei para as paredes, entre as quais gárgulas grotescas
estavam me olhando maliciosamente e ameaçadoramente. Eu tentei pensar em outra coisa, e tudo
em que eu conseguia imaginar era que Pogo estava provavelmente matando alguém agora, e eu ia
ter que falar com os tiras. Eu não ligava em quem ele estava matando ou se ele ia ser executado
na cadeira elétrica; eu apenas não queria encarar a polícia enquanto eu estivesse sob o efeito dos
cogumelos.
De repente, a porta do cárcere se abriu e uma dúzia de pessoas que estavam procurando
por mim se amontoou lá dentro. Eu estava assustado, eu estava confuso, eu tinha que mijar, eu
tinha que cagar, eu tinha que fazer alguma coisa. Twiggy estava com eles, mas tudo o que ele
podia fazer era falar merdas como roubar um barco e escapar pelo porto.
Eu fugi para outra sala e achei uma alcova embaixo das escadas que, por alguma razão,
estava cheia de travesseiros. Eu deitei neles e curti a solidão. Eu podia ouvir todo mundo lá fora,
particularmente Twiggy, que estava tentando pular na água à procura do barco. Eu continuei
preocupado que ele se afogasse e eu tivesse que falar com os tiras. Aquela era minha
preocupação principal: eu não ligava para quem morreu ou estava morrendo. Eu só não queria
lidar com os tiras e ter que dizer para eles que eu estava viajando.
Quando o sol nasceu, eu comecei a ficar mais lúcido. Eu tropecei no quente ar úmido da
manhã e quase quatorze de nós nos empilhamos numa mini-van feita para dez. No caminho para
casa, Trent sugeriu passar numa lanchonete do McDonald’s, onde ele comprou Egg McMuffins,
bolinhos de carne com batata-frita, sucos de laranja, cocas-colas grandes, café e pãezinhos com
salsicha suficientes para alimentar a penitenciária inteira de Jacksonville.
Antes de nós termos tempo para comer, Trent, que como eu é um instigador, jogou um
bolinho de carne e batata-frita em Twiggy. Limpando batata de sua cara, Twiggy pegou um Egg
McMuffin, partiu ele e o jogou em Trent pedaço por pedaço. Logo carne, ovos, bebidas, pão, suco e
um monte de comida em vários estados de digestão estavam sendo jogados por toda a van cheia.
Era tudo uma McGuerra, mas com ketchup por todos os lados ao invés de sangue. Enquanto isso,
o carro estava desviando temerariamente de rua em rua enquanto nosso motorista, que estava
sóbrio, tentou manter-se no caminho de casa.
Se Trent é um instigador, Twiggy é um catalisador, sempre adicionando um aspecto mais
atraente extra na brincadeira, a temeridade ou a decadência para uma situação como aquela. Ele
vomitou em seu colo várias vezes. Robin, o guitarrista do Nine Inch Nails que eu chupei no palco,
estava sentado perto dele, estava no meio não de uma guerra de comida, mas de um pós-guerra
de comida. Twiggy à esse ponto já estava na verdade vomitando nas mãos de Robin, que estava
compartilhando a generosidade com todos nós. Na hora em que nós voltamos ao hotel, aqueles de
nós que não vomitaram estavam sãos. No grande dispêndio da realeza do “Head Like A Hole”, nós
deixamos o conteúdo da van para assar e secar no calor.
A primeira coisa que nós vimos quando saímos foi uma drag-queen saindo de um clube,
um certinho negro careca, com uma roupa de bailarina e luvas douradas. “Ei, gracinhas”, ele nos
saudou. “Ei, Sr. Queen”, alguém disse, e o convidou ao nosso quarto para usar drogas conosco.
Mais uma vez lá dentro, a primeira coisa que eu fiz foi telefonar para Missi, que decidiu
reatar comigo de novo. Relacionamentos nunca acabam livremente. Como um vaso valioso, eles
são quebrados e então colados novamente, quebrados colados, quebrados e colados até os
pedaços não mais se encaixarem. Eu estava coberto de bolinhos de carne e batata-frita e vômito,
eu tinha uma sacola de ossos embaixo da cama, eu tinha uma boneca Huggy Bear na mesa cheia
de cocaína, e eu cheguei a conclusão de que eu não me importava se alguém que eu conhecesse
morreu contanto que eu não tivesse que lidar com isso. No topo disso tudo, havia um traveco com
roupa de bailarina fumando craque na cama ao meu lado. Eu não contei sobre isso tudo para
Missi. Eu apenas disse para ela que eu estava enlouquecendo.
“Sabe de uma coisa?” ela respondeu. “Você precisa pensar sobre como é que você está
vivendo a sua vida”.
Foi a última coisa que eu queria ouvir naquele momento em particular.

13. Conhecendo* Os Fãs / Encontros e Cumprimentos

“[O bife] está no coração da carne, ele é carne em seu estado puro; e aquele que participa dele
assimila uma força parecida com a de um touro. O prestígio do bife evidentemente deriva-se de
sua semicrueza. Nele, o sangue é visível, natural, denso, imediatamente compacto e se pode
cortar com uma faca. Alguém pode muito bem imaginar a Ambrósia dos antepassados como esse
tipo de substância pesada que mingua debaixo dos dentes de alguém de tal forma como fazer com
que alguém ardorosamente consciente e ao mesmo tempo com sua força original, além de sua
aptidão, fluir dentro do sangue do todo homem”. – Roland Barthes, Mitologias

CÓPIA TRANSCRITA
Fita 7, lado A, 09/08/97

P: Você quer falar sobre o incidente com a carne hoje?


R: Certo. Então, a primeira vez que eu conheci Alyssa foi no último show que Brad Steward
tocou em nossa banda e foi o mostruário que nós fizemos para Freddy DeMann da Maverick
Records. Ela veio no backstage e ela era uma garotinha de cabelos loiros. Fofinha. Ela tinha um
rosto lindo, mas o mais notável é que ela tinha peitões. Apenas seios enormes. Uma garota que
você provavelmente veria num show do Warrant mesmo que ela estivesse vestida e pelo jeito que
ela agia. Eu imediatamente percebi que ela era surda por causa da forma como sua voz soava. Ela
me contou que podia sentir a música quando ela estava perto do palco e é por isso que ela se
diverte com isso. E ela veio até mim e queria fazer sexo ou algo assim. Mas eu não estava
realmente interessado na hora. Eu acho provavelmente porque minha namorada estava do outro
lado da porta. Talvez se ela não estivesse lá, eu estaria interessado.
Um ano depois, quando nós fomos gravar o lado-B do single de “Lunchbox”, nós
estávamos no South Beach Studios em Miami. E estava eu e minha banda, Trent [Reznor], Sean
Beavan [nosso produtor assistente] e Jonathan, que foi contratado pelo Nine Inch Nails como seu
documentarista de vídeo. Eu acho que eu me tornei o instigador ou diretor de fotografia. Ou o
Chefe Executivo da Sujeira.
Eu saí para conseguir alguma coisa para comer e me bati com Alyssa. Ai eu disse, “venha
para o estúdio”. Eu achei que seria divertido apresenta-la para todo mundo. E era irônico porque
naquele mesmo dia, Pogo estava dizendo que um de suas fantasias era transar com uma garota
surda porque assim ele poderia dizer o que ele quisesse sem contrariar ela ou fazer ela sentir-se
embaraçada. Ai eu trouxe ela no estúdio e a apresentei para todos. Para quebrar o gelo, eu
geralmente digo o que estiver na minha cabeça na esperança de que isso vai fazer todos rirem ou
que alguém vai na verdade continuar com isso. Ai eu disse, “por que não tiramos nossas roupas?”.
E ela riu e tirou todas as suas roupas, e ela só ficou de botas. Nós todos ficamos chocados e
impressionados porque estávamos comandando todo aquele poder sexual e havia uma garota
surda nua no estúdio.

P: Como ela foi capaz de entender o que você estava dizendo?


R: Ela era uma leitora impecável de lábios, uma habilidade que ela acumulou obviamente
de anos passados em frente da barulheira de shows de heavy metal, aprendendo as letras das
músicas podres como o “Fuck Like A Beast”, que nos levou até as carnes já que eu estava com o
autor do recente refrão de heavy metal, “eu quero te foder como um animal”.
Mais cedo naquele dia nós tínhamos coletado uma grande variedade de carnes. Grandes
pedaços redondos de carne que tinha o osso no meio, cachorros-quentes, cachorros-quentes com
queijo, salame, salsicha, bacon, pé de porco, pá de galinha, pernas de galinha, peito de galinha,
asa de galinha e moela de galinha. Todas carnes cruas. Ai nós construímos um capacete de carne
feito de grandes presuntos com ligamentos de pedaços de bacon, salsicha e coisas como essas
penduradas nele. Uma mutação de carne. Nós a coroamos com o capacete de carne, e eu peguei
um pouco de pimentão-doce para cobrir seus peitos. E nós colocamos várias fatias de lingüiça em
suas costas. Naquele dia nós todos definitivamente ganhamos ingressos no backstage para o
Inferno.
Antes de isso tudo começar, eu coloquei luvas amarelas de látex, basicamente porque eu
não queria pegar no salame. Nenhuma outra razão.
Nós tivemos uma hora e meia de puros saltos de carne. Manipulação de carne. Trabalhos
com carne. Abraços de carne. Besteiras de carne.

P: Nós poderíamos chamar esse capítulo de “Conhecendo* os Fãs”.


R: Eu também estava pensando em “Encontros* e Cumprimentos”.
*nota do tradutor: nesse caso, a palavra em inglês é meating, que faria uma analogia com carne (meat) e o verbo
meet que é o sentido verdadeiro da frase. Levando em conta também, claro, o título desse capítulo.

P: Legal. Continue.
R: Nós documentamos isso de poucas formas. Desenhos, fotos ,vídeos, de todo o jeito que
nós pudemos captar. Esse grande momento na história da arte. Na época, eu não achava que
aquilo era muito sexual. Era mais uma escultura viva e carne. O que aconteceu depois foi o
resultado de eu sempre tentando levar algo para um nível superior. Eu pedi para Twiggy e Pogo
para colar seus pênis com Durex para ver se ela podia colocar dois pênis na sua boca ao mesmo
tempo. Mas ficou claro que eles não conseguiam ficar um do lado do outro para criar isso, ai eles
colocaram seus paus frente a frente, e isso se tornou algo como um cabo de guerra de pênis. Ela
os lambeu como algum tipo de gaita peniana. Uma gaita enorme de paus. Foi aí que todo o
problema começou a acontecer. Porque foi aí que nós decidimos que Pogo tinha que realizar sua
fantasia e transar com a garota surda.
Ai ele colocou uma camisinha...

P: Espere aí. Como ele se separou de Twiggy?


R: Ela roeu o Durex como um rato procurando por um pedaço de queijo. E ai Pogo
colocou essa camisinha, o que fez seu pau parecer um sei lá o que. E ele começou a foder ela por
trás, o que era apropriado porque ela tinha uma coleira de cachorro na época e ele estava
segurando a coleira. Ai, ele gritou todas aquelas obscenidades para ela...
Eu devia mencionar que eu não achei que ela estava sendo explorada de forma alguma
porque, apesar das muitas câmeras, músicos de rua, e artistas plásticos que estavam na sala
batendo palmas e dançando ao som de Slayer ou o que estivesse tocando na hora, ela estava
muito excitada para tomar parte disso. Eu acho que ela, também, achou que isso era arte estava
se divertindo. Todo mundo estava se divertindo – exceto pelos caras do Nine Inch Nails, que
estavam mantendo distância.
Enquanto tudo isso estava acontecendo, Pogo disse algo, e nós não deveríamos querer
mencionar isso porque é bem ofensivo.

P: Diga. Nós sempre podemos tirar do livro depois se você quiser.


R: Ele gritou, “vou penetrar no seu canal auditivo inútil”, e isso pareceu soar pela sala como
talvez uma das coisas mais horríveis que nós já ouvimos. Na hora, eu senti que foi o fim da picada
o que eu fiz com os meninos Jesus, em comparação.
Ai o que aconteceu foi que Alyssa queria tomar um banho porque ela estava coberta com
visgo de carne e variados fluídos corporais do ato da sujeira. Ai, já que ela ia tomar banho mesmo,
eu perguntei, “podemos mijar em você?”. O que ela disse depois foi provavelmente mais obscuro e
mais profundo que o que Pogo disse. Ela disse, “mas não em minha botas”. E nós todos olhamos
uns aos outros, como quando você olha para alguém e diz: “sim, não entendi realmente”. Pelo
menos ela tinha um pouco de moral. E então, adicionando outra superfluidade – ou vestindo a
carne, nesse caso – ela nos disse, “e não joguem isso nos meus olhos. Arde”. Obviamente ela
tinha experiência com isso.
Ai ela entrou no boxe do chuveiro, e a equipe da câmera assistindo enquanto Twiggy e eu
colocamos uma perna do boxe e outra na privada e a regamos com mijo. Ela só sentou lá
impressionada e exibindo seus seios como pedaços de carne descamadas com a pressão do mijo.
Ai o que aconteceu foi que a pontaria do Twiggy entrou num curso errado e pegou nos
olhos dela, e foi aí que todo mundo na sala parou completamente e percebeu que as coisas tinham
ido longe demais.

Ciclo Nove – Traição – Traidores de Convidados

Sean Beavan disse algo que capturou completamente o momento. Nós continuamos a
repetir isso o tempo todo na turnê posteriormente. Mas eu não consigo lembrar o que foi agora.
Talvez Twiggy saiba.

[Pega o telefone, disca, espera.]

Ela não está. Ele vai retornar a ligação.


Agora, enquanto o mijo estava escorrendo pela sua bochecha, o Zelador Sexual [Daisy
Berkowitz] chegou e disse, “o que está havendo? O que vocês estão fazendo?”.
E a gente, “Alyssa está tomando banho”. Nós não nos sentimos na obrigação dizer para
ele tudo o que se passou antes porque ele era o Zelador Sexual e nós achamos que isso seria
divertido. Ai, nós, “Alyssa está tomando banho e quer que você se junte a ela”.
Eu acho que o fato de que ele tinha muito pouca experiência com garotas, bonitas e feias,
o fez entrar no chuveiro. Ai, Daisy tirou suas roupas bem em nossa frente – ele nem ligava – e
pulou no boxe com ela. A água nem tinha enxaguado ela ainda, e ele começou a transar com ela, o
mijo todo estava nos lábios dela e a gente se acabando de rir. Claro que, ele achou que nós
estávamos assim porque achávamos que ele era um tal de louco sexual, um dínamo e que
estávamos impressionados com o tamanho do pau dele. Se ele soubesse que ela estava coberta
de mijo, ele provavelmente não teria ligado mesmo.
Nós encerramos aquele pequeno episódio cinematográfico pegando o último pedaço de
carne que não se encaixou no programa – um grande salmão, cabeça, olhos, escamas, tudo – e o
jogamos no chuveiro e bloqueamos a porta. Esse foi o fim.

P: Você se lembrou do que Sean Beavan disse?


R: Sim, ele disse, “isso está muito errado”. Certifique-se de acentuar o muito quando você
escrever ele com vários O’s.