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RENÉ MENARD

VOLUME II
Titulo do original francês
LA MYTHOLOGIE DANS L'ART ANCIEN ET MODERNE

EDITOR PIETRO MACERA

DIREÇÃO EDITORIAL

TRADUÇÃO

REVISÃO FINAL
SALVATORE MACERA NETO
MONTAGEM E ARTE FINAL

EQUIPE DE ARTE

ALDO DELLA NINA


EQUIPE DE REDAÇÃO

Nossos agradecimentos pelo constante incentivo que recebemos de:

MARGHERITA STEFANELLI MACERA IN MEMORIAM


R. MARIO STEFANELLI
SALVATORE
CHRISTINA MACERA NICOLA
STEFANELLI
ANGELINO MACERA GIOVANNI GRILO
EMILIA GIOVANNA A. MACERA JOSÉ LASTORINA
MARIANA MACERA

ANTONIETA MACERA
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser
reproduzida ou utilizada de qualquer forma ou por qualquer método, eletrônico ou
mecânico, sem autorização prévia por escrito dos Editores.

1ª Edição 1985
2 ª Edição 1991

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Dados Internacionais de Catalogação na
Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ménard, René, 1827-1887.


Mitologia greco-romana / Rene Menard ; tradução
Aldo Della Nina. — São Paulo : Opus, 1991.

Obra em 3 v.

1. Mitologia grega 2. Mitologia romana I. Título.

91-1334 CDD-292

Índices para catálogo sistemático:


1. Mitologia greco-romana 292
LIVRO III

APOLO E DIANA
CAPÍTULO I

LATONA E SEUS FILHOS

Nascimento de Apolo e Diana. — Latona


e a serpente Pitão. — Os camponeses
carianos.

Nascimento de Apolo e Diana

Apolo e Diana são filhos de Júpiter e de Latona,


personificação da Noite, divindade poderosa cuja união com
Júpiter produziu o Universo. Segundo a tradição, Latona vê-se,
em seguida, relegada ao segundo lugar e quase não aparece na
mitologia a não ser como vítima de Juno. A Terra, por
instigação de Juno, quis impedi-la de achar lugar onde
pudesse dar à luz os filhos que trazia no seio. Entretanto,
Netuno, vendo que a infeliz deusa não encontrava abrigo onde
quer que fosse, comoveu-se e fez sair do mar a ilha de Delos.
Sendo essa ilha, a princípio, flutuante, não pertencia à Terra,
que assim não pôde nela exercer a sua funesta ação.
"Delos, diz o hino homérico, rejubilou-se com o
nascimento do deus que atira os seus dardos para longe.
Durante nove dias e nove noites, foi Latona dilacerada pelas
cruéis dores do parto. Todas as deusas, as mais ilustres,
reúnem-se-lhe em torno. Dionéia, Réa, Têmis que persegue os
culpados, a gemedora Anfitrite, todas, exceto Juno dos braços
de alabastro, que ficou no palácio do formidando Júpiter.
Entretanto, somente Ilitia, deusa dos partos, é que ignorava a
nova; achava-se sentada no topo do Olimpo, numa nuvem de
ouro, retida pelos

Fig. 181 — Apolo, Diana e Latona (segundo Flaxman).

conselhos de Juno, que sofria um ciúme furioso, porque


Latona dos cabelos formosos iria certamente dar à luz um
filho poderoso e perfeito.
"Então, a fim de levarem Ilitia, as demais deusas
enviaram de Delos a ligeira Íris, prometendo-lhe um colar de
fios de ouro, com nove cúbitos de comprimento.
Recomendam-lhe sobretudo que a advirta, à revelia de Juno,
de medo que esta a detenha com as suas palavras. Iris,
rápida como os ventos, mal recebe a ordem, parte e cruza o
espaço num instante.
"Chegada à mansão dos deuses no topo do Olimpo, Íris
persuadiu Ilitia, e ambas voam como tímidas pombas. Quando a
deusa que preside aos partos chegou a Delos, Latona
experimentava as mais vivas dores. Prestes a dar à luz,
abraçava uma palmeira e os joelhos apertavam a relva mole. Em
breve nasce o deus; todas as deusas dão um grito religioso.
Imediatamente, divino Febo, elas te lavam castamente,
purificam-te em límpida água e te envolvem num véu branco,
tecido delicado, que elas cingem com um cinto de ouro. Latona
não aleitou Apolo de gládio resplendente. Têmis, com as suas
imortais mãos, oferece-lhe o néctar e a divina ambrósia. Latona
alegrou-se enormemente por ter gerado o valoroso filho que
empunha um temível arco."
Apolo e Diana nasceram, pois, em Delos, e é por isso que
Apolo se chama, freqüentemente, o deus de Delos. Uma linda
composição de Flaxman mostra Ilitia que acaba de assistir a
Latona no penoso parto das duas jovens divindades.

Fig. 182 — Latona perseguida pela serpente Pitão (segundo uma


pintura de vaso).
Latona e a serpente Pitão

Entretanto Juno, não conseguindo perdoar à rival ter sido


amada por Júpiter, instigou contra ela um monstruoso dragão,
filho da Terra, chamado Delfíneo ou Pitão, que fora incumbido
da guarda dos oráculos da Terra, perto da fonte de Castalia.
Obedecendo às sugestões de Juno, Pitão perseguia sem cessar a
infeliz deusa, que escapava da sua presença apertando entre os
braços os filhos. Num vaso antigo, vemo-lo sob a forma de uma
longa serpente que ergue a cabeça, desenrolando o corpo, e
persegue Latona. A deusa teme, enquanto os filhos, que não
percebem o perigo, estendem os bracinhos para o monstro.

Os camponeses carianos

Quando Latona, perseguida pela implacável Juno, fugia


com os dois filhos ao colo, chegou à Caria. Num dia de intenso
calor, deteve-se aniquilada pela sede e pelo cansaço às margens
de um tanque do qual não ousava aproximar-se. Mas alguns
camponeses ocupados em arrancar caniços impediram-na de
beber, expulsando-a brutalmente. A infeliz Latona rogou-lhes,
em nome dos filhinhos, que lhe permitissem sorver umas gotas
de água, mas eles a ameaçaram se se não afastasse quanto
antes, e turvaram as águas com os pés e as mãos, a fim de que
a lama revolvida aparecesse à tona. A cólera de que Latona se
sentiu possuída fez com que se esquecesse da sede, e
lembrando-se de que era deusa: "Pois bem, disse-lhes, erguendo
as mãos ao céu, ficareis para sempre neste tanque." O efeito
seguiu de perto a ameaça, e
aqueles desalmados se viram transformados em rãs. Desde
então, não cessam de coaxar com voz rouca e de chafurdar na
lama. Alguns lobos, mais humanos que os camponeses,
conduziram-na às margens do Xanto, e Latona pôde fazer as
suas abluções nesse rio, que foi consagrado a Apolo. Rubens, no
museu de Munich e Albane no Louvre possuem quadros em que
vemos Latona e os filhos na presença dos camponeses de Caria,
que a repelem e se transformam em rãs. Na fonte de Latona, em
Versalhes, Balthazar Marsy representou a deusa, com os dois
meninos, implorando a vingança do céu contra os insultos dos
camponeses. Cá e lá, rãs, lagartos, tartarugas, camponeses e
camponesas cuja metamorfose se inicia, lançam contra Latona
jatos de água que se cruzam em todos os sentidos.

Fig. 183 — Latona e seus filhos (em Versalhes)


CAPÍTULO II

FEBO-APOLO

O tipo de Apolo — Jacinto


metamorfoseado em flor. — Ciparissa e
o seu cervo.

O tipo de Apolo

Esplendente é o epíteto que se dá a Apolo, considerado


deus solar. Apolo atira ao longe as suas setas, por-que o sol
dardeja ao longe os seus raios. É o deus profeta, porque o sol
ilumina na sua frente e vê, por conseguinte, o que vai suceder;
é o condutor das Musas e o deus da inspiração, porque o sol
preside às harmonias da natureza; é o deus da medicina,
porque o sol cura os doentes com o seu benéfico calor.
Apolo, o Sol, o mais belo dos poderes celestes, o vencedor
das trevas e das forças maléficas, tem sido representado pela
arte sob vários aspectos. Nos tempos primitivos, um pilar
cônico, colocado nas grandes estradas, bastava para lembrar o
poder tutelar do deus.
Quando nele se pendem as armas, é o deus vingador que premia
e castiga; quando nele se pendura uma cítara,

Fig. 184 — Apolo (segundo um busto antigo).

torna-se o deus cujos harmoniosos acordes devolvem a calma à


alma agitada.
O Apolo de Amicleu, reproduzido em medalhas, pode dar
uma idéia do que eram, na época arcaica, as

Fig. 185 — Apolo de Amicleu


primeiras imagens do deus, sensivelmente afastadas do tipo que
a arte adotou mais tarde. Em bronzes de data menos antiga, mas
ainda anteriores à grande época. Apolo está representado com
formas mais vigorosas do que elegantes, e os anéis achatados da
sua cabeleira o aproximam um pouco das figuras de Mercúrio.
No tipo que tem dominado, Apolo usa cabelos longuíssimos,
separados por uma risca no meio da cabeça e afastados de cada
lado da testa. Às vezes, eles se prendem atrás, na nuca, mas,
outras, flutuam. Vários bustos e moedas nos mostram tais
diferentes aspectos.
"A figura oval-alongada, diz Ottfried Mueller, que o cróbilo
freqüentemente colocado sobre a testa mais ainda alonga,
servindo, por assim dizer, de topo à figura inteira que parece
aspirar à morada divina, revela uma doce plenitude, uma energia
completa e uma força cheia de maturidade. Em todas as feições
respira um senti-mento elevado, altivo e franco, sejam quais
forem as modificações a que o artista submete a ideal figura. As
formas dos membros são delgadas e moles ; os quadris altos

Fig 186 — Apolo (segundo moedas antigas).

as coxas longas; os músculos, sem serem salientes, e muito ao


contrário bem fundidos na massa do corpo, são, no entanto,
suficientemente ressaltados para porem em evidência a
maleabilidade do corpo e o vigor dos seus movimentos."
Apolo é sempre representado jovem e imberbe, por-que o sol
não envelhece. Algumas das suas estátuas o mostram até com os
caracteres cia adolescência, por
Fig. 187 — Apolo Sauróctone (segundo uma estátua antiga).
exemplo o Apollino de Florença. No Apolo Sauróctone, o jovem
deus está acompanhado de um lagarto, que ele sem dúvida
acaba de excitar com a flecha para o arrancar ao torpor e
obrigá-lo a caminhar. Apolo, nesse caráter, é considerado o sol
nascente, ou o sol da primavera, porque a presença do lagarto
coincide com os seus primeiros raios (fig. 188).
O grifo é um animal fantástico, que vemos freqüentemente
perto da imagem do deus (fig. 189) ou atrelado ao seu carro.
Tem a cabeça e as asas de águia, com

Fig. 188 — Combate dos grifos contra os arimaspes.

corpo, patas e cauda de leão. Os grifos têm por missão guardar


os tesouros que as entranhas da terra ocultam, e é para obter o
ouro de que são detentores, que os Arimaspes lutam
constantemente contra eles. Os combates constituem o tema de
grandíssimo número de representações, principalmente em
terracotas ou em vasos. Os Arimaspes são guerreiros fabulosos,
que usam vestes análogas às das amazonas. Uma pintura de
vaso no-los mostra combatendo grifos, providos de cristas e
penachos,
Fig. 189 — Apolo e o grifo.
Jacinto metamorfoseado em flor

Teve Apolo vários amigos, entre outros Jacinto, jovem


lacedemônio dotado de maravilhosa beleza. "Um lia, diz
Ovídio, por volta do meio-dia, após tirarem as vestes e
fazerem escoar pelos membros o lúcido suco da oliva, o
jovem e o deus desafiaram-se para um jogo de disco. Apolo
começa; o seu disco parte, fende a nuvem e só cai sobre a
terra muito tempo depois; o deus pretendia demonstrar toda
a sua habilidade e força. Arrebatado pelo ardor do jogo, o
jovem corre a recolher o disco; mas, repelido pela terra, o
disco salta e bate-lhe em pleno rosto ; ) adolescente
empalidece, e o próprio deus empalidece; Apolo acorre,
aperta entre os braços o infeliz Jacinto e estanca-lhe o
sangue da ferida; emprega todos os recursos da sua arte
para conservar-lhe a vida. Mas é em vão! O ferimento era
mortal. Assim como vemos o lírio, a papoula e a violeta, cuja
haste se partiu, curvar-se para ) chão, agonizantes, a cabeça
do jovem Jacinto, já coberta peja palidez da morte, cai-lhe
sobre os ombros ... Enquanto Apolo se entrega à dor, o
sangue espalhado pela relva desaparece; uma flor nova
nasce, uma flor mais brilhante que a púrpura e de formato
semelhante ao do lírio. Não basta ao deus prestar tão triste
homenagem à memória do amigo; quer ainda que aquela flor
prove

Fig. 190 — Jacinto (segundo uma estátua de Bosio, museu do Louvre).


para sempre o seu infortúnio; liga-lhe a expressão e os sinais da
dor, traçando nela as letras Ai!" (Ovídio).
O jacinto de Peloponeso tem matiz escuro; os antigos o
consideravam emblema da morte.
Uma estátua de Apolo foi erguida em Amicleu sobre o
túmulo de Jacinto, e no pedestal, via-se num baixo-relevo o
jovem levado ao céu. Uma linda pedra gravada mostra Jacinto
durante a sua metamorfose em flor. Há no Louvre, no museu de
escultura, uma estátua de Callamard que representa Jacinto
levando a mão ao ferimento que acaba de receber na testa : o
disco que o feriu está-lhe aos pés. Bosio, numa encantadora
estátua, esculpiu Jacinto semideitado e vendo Apolo atirar,
enquanto aguarda a sua vez (fig. 190).

Ciparissa e o seu cervo

Outro amigo de Apolo, Ciparissa, foi vítima de singular


metamorfose. Havia um cervo, cujas pontas eram douradas, e as
ninfas, às quais ele era consagrado, o tinham enfeitado com
brincos e um lindo colar de pérolas. O cervo era bem manso, e
entrava de boa vontade nas casas para que o acariciassem; mas
ninguém o amava tanto quanto Ciparissa, o mais belo rapaz da
ilha de Cos. Tinha o cuidado de levá-lo aos melhores pastos e de
fazê-lo beber nas fontes mais puras, e ornava-lhe as pontas com
grinaldas de flores. Um dia, enquanto o cervo repousava num
bosque, Ciparissa, que o viu sem o reconhecer, o varou com uma
seta, e sentiu tal pesar que preferiu matar-se. Apolo, vendo-o
agonizar, transformou-o em cipreste.
CAPÍTULO III

O TRIPÉ DE APOLO

Delfos, centro do mundo. — Apolo,


vencedor de Pitão. — A disputa do tripé.
— O oráculo de Delfos. — Predições a
Laio. — Édipo e Laio. — A esfinge. — As
desventuras de Édipo. — Édipo e
Antígona.

Delfos, centro do mundo

O sol vê antes dos homens porque produz a luz com os


seus raios; é por isso que prevê o futuro e pode revelá-lo aos
homens. Esse caráter profético é um dos atributos essenciais de
Apolo; dá os seus oráculos no templo de Delfos, situado no
centro do mundo. Ninguém duvida de tal fato, porque tendo
Júpiter soltado duas pombas nas duas extremidades da terra,
elas voltaram a encontrar-se justamente no ponto em que está o
altar de Apolo. Assim, em vários vasos, vemos Apolo sentado no
omphalos (o umbigo da terra), de onde dá os oráculos (fig. 191).
Apolo, vencedor de Pitão

Delfos chama-se também às vezes Pito, do nome da


serpente Pitão, que ali foi morta por Apolo.
Apolo, provido de temíveis setas, quis experimentá-las
ferindo o perseguidor da sua mãe. Mal o monstro se sente
atingido, é presa das mais vivas dores e, respirando com
esforço, rola sobre a areia, assobia espantosa-mente, torce-se
em todas as direções, atira-se ao meio da floresta e morre
exalando o hálito empestado.

Fig. 191 — Apolo no omphalos.

Apolo contentíssimo com o triunfo, exclama : "Que o teu


corpo seco apodreça nesta terra fértil; não serás mais o
flagelo dos mortais que se nutrem dos frutos da terra
fecunda, e eles virão imolar-me aqui magníficas hecatombes;
nem Tifeu, nem a odiosa Quimera poderão arrancar-te à
morte; a terra e o sol no seu curso celeste farão apodrecer
aqui o teu cadáver." (Hino homérico).
Aquecido pelos raios do sol, o monstro começa a apodrecer.
Foi assim que aquela região tomou o nome de Pito : os
habitantes deram ao deus o nome de Pítio, porque em tais
lugares o sol, com os seus raios devoradores, decompôs o terrível
monstro.
Segundo as narrações dos poetas, o fato deve ter-se
verificado quando Apolo era ainda adolescente, mas o
crescimento dos deuses não está submetido às mesmas leis que
o dos homens, e quando os escultores representam a vitória de
Apolo, mostram o deus com as feições de um jovem que já
atingiu a plenitude da força. É o que se nos depara numa das
maiores obras-primas da escultura antiga, o Apolo do Belvedere.
Essa estátua, de mármore de Luni, foi descoberta no fim do
século quinze, perto de Capo d'Anzo, outrora Antium, e,
adquirida pelo papa Júlio II, então cardeal em vésperas de ser
eleito para o pontificado, mandou ele a colocassem nos jardins
do Belvedere (fig. 192).
Todas as fórmulas da admiração foram esgotadas diante do
Apolo do Belvedere, e a estátua, desde que se tornou conhecida,
não deixou de provocar o entusiasmo dos artistas. Eis a
descrição que dela faz Winckelmann, na sua História da arte: "A
estatura do deus é superior à do homem e a sua atitude revela
majestade. Uma eterna primavera, tal qual a que reina nos
campos felizes do Elísio, reveste de simpática mocidade os
encantos do seu corpo, e brilha com doçura na orgulhosa
estrutura dos seus membros... Perseguiu Pitão, contra o qual
tendeu pela primeira vez o temível arco; no seu rápido curso,
atingiu-o e infligiu-lhe golpe mortal. Do alto do seu con-
tentamento, o seu augusto olhar, penetrando no infinito, se
estende para muito além da vitória. Nos lábios se lhe vê o
desdém; mas uma inalterável tranqüilidade se lhe imprime na
testa, e os olhos estão repletos de doçura, como se ele se achasse
no meio das Musas. . ."
O triunfo de Apolo está representado num baixo-relevo
antigo, onde a Vitória personificada, Nicé, verte o licor sagrado
ao deus que empunha a lira e está seguido de Diana que segura
o facho, e de Latona. O Deus apresta-se a cantar a vitória, diante
do seu altar que se vê no primeiro plano; no fundo, aparece o
templo de Apolo (fig. 193).
Fig. 192 — Apolo do Belvedere (segundo uma estátua antiga.
em Roma).
Apolo, após matar a serpente Pitão, envolveu o tripé com a
pele do monstro que, antes dele, possuía o oráculo. Uma
medalha de Crotona nos mostra o tripé entre Apolo e a serpente
: o deus dispara a seta contra o inimigo. Foi por ocasião dessa
vitória que Apolo instituiu os jogos pítios.

Fig. 193 — Apolo, Diana e Latona (segundo um baixo-relevo antigo).

A disputa do tripé

Uma vivíssima disputa, freqüentemente representada nos


baixos-relevos da época arcaica, verificou-se entre Apolo e
Hércules em torno do famoso tripé. Hércules consulta Pítia em
circunstância na qual esta se recusara a responder. O herói,
enfurecido, apoderou-se do tripé, que Apolo resolveu
imediatamente reconquistar. Foi tão viva a luta entre os dois
combatentes que Júpiter se viu obrigado a intervir mediante o
raio (fig. 194).
O tripé de Apolo foi freqüentemente representado na arte
antiga, e restam-nos monumentos em que vemos até que ponto
se unia o bom gosto à riqueza na escultura ornamental dos
antigos.

Fig. 194 — Apolo combatendo Hércules que rapta o tripé de Delfos


(segundo um baixo-relevo antigo, museu do Louvre).

O oráculo de Delfos

O oráculo de Apolo, em Delfos, era o mais famoso da


Grécia. Foi o acaso que levou ao descobrimento do lugar em que
deveria erguer-se o santuário. Umas cabras errantes nos
rochedos do Parnaso, aproximando-se de um buraco
do qual saíam exalações malignas, furam tornadas de
convulsões. Acorrendo à notícia daquele prodígio, os habitantes
da vizinhança quiseram respirar as mesmas exalações e
experimentar os mesmos efeitos, uma espécie de loucura misto
de contorsões e brados, e seguida do dom da profecia. Tendo-se
alguns frenéticos atirado ao abismo de onde proviam os vapores
proféticos, colocou-se sobre o buraco uma máquina chamada
tripé, por ter três pés sobre os quais pousava, e escolheu-se uma
mulher para a ele subir e poder, sem risco, receber a
embriagadora exalação.
Na origem, a resposta do deus, tal qual a davam os
sacerdotes, era sempre formulada em versos; mas tendo tido um
filósofo a idéia de perguntar porque o deus da poesia se exprimia
em maus versos, a ironia foi repetida por todos, e o deus passou
a falar somente em prosa, o que lhe aumentou o prestígio.
A crença de que o futuro pudesse ser predito de maneira
certa pelos oráculos, desenvolveu singularmente na antiguidade
a idéia da fatalidade, que em nenhuma parte transparece tão
nitidamente como na lenda de Édipo; os seus esforços não
conseguem livrá-lo à sentença que lhe foi anunciada pelo
oráculo, e tudo quanto ele faz para evitar o destino só lhe acelera
os inclementes decretos.

Predições a Laio

Laio, filho de Lábdaco, rei de Tebas, subiu ao trono pela


morte de seu tio Lico que se havia apoderado do poder, em
detrimento do sobrinho. Não tendo filhos, foi consultar Apolo e
rogou-lhe lhe concedesse filhos. Respondeu-lhe o deus: "Rei de
Tebas, dos valorosos corcéis, teme tornar-te pai, apesar dos
deuses! Se deres nasci-mento a um filho, este há de fazer-te
morrer, e toda a família nadará no sangue." Nada obstante, teve
Laio um
filho, e, lembrando-se do oráculo do deus, entregou-os aos
pastores, a fim de que o expusessem num prado consagrado a
Juno, no pico do Citerônio, após furar-lhe os calcanhares com
um ferro pontudo; tinha o menino o nome de Édipo. Outros
pastores, recolhendo-o, entregaram-no à ama que o confiou a
uma nutriz, dando ao mesmo tempo a crer ao marido que o dera
à luz. Uma bela estátua de Chaudet, que se encontra no Louvre,
nos mostra o pastor Forbas, segurando nos braços o peque-nino
Édipo, a quem dá de beber. Forbas era um pastor de Políbio de
quem Édipo se julgava filho (fig. 195).

Édipo e Laio

Entretanto, quando Édipo chegou à idade adulta, uma


conversação ouvida num festim lhe suscitou dúvidas sobre o seu
nascimento, e desejando conhecer o autor dos seus das, foi a
Delfos consultar o oráculo de Apolo. Mas o deus, sem lhe
esclarecer as dúvidas. declara-lhe que o seu destino é matar o
pai e desposar a mãe Horrorizado com tal oráculo resolveu Édipo
não voltar para perto dos pais. que o haviam criado, e
enveredando por uma estrada oposta, encaminhou-se para o
lado de Tebas. Pelo caminho, encontrou um carro, cujo cocheiro
lhe gritou com imperiosidade : "Estrangeiro, afasta-te, dá
passagem ao rei." Ao mesmo tempo o carro passa brutalmente e
lhe faz sangrar os pés. Trava-se luta, e Édipo Inata o homem que
viajava no carro. Esse homem era Laio, que, ansioso por saber se
o menino que mandara expor estava realmente morto e se não
havia mais razão de temer a antiga profecia, fora a Delfos
consultar o deus. Assim, Édipo, sem o saber, tornou-se
assassino do próprio pai.
Fig. 195 — O pastor Forbas dando de beber a Édipo (grupo de
Chaudet, museu do Louvre),
A esfinge

Uma terrível esfinge, nascida de Tifão e de Equidna, levou,


pouco após a morte de Laio, a desolação às cercanias de Tebas.
Ocupando a estrada, propunha enigmas aos viajantes, e matava
os que não logravam adivinhar o sentido. Assim pereceu elevado
número de infelizes, e tendo o rei Laio morrido recentemente,
propuseram os tebanos a coroa e a mão da rainha a quem os
livrasse daquele flagelo. Édipo apresentou-se : "Qual é,
perguntou-lhe a esfinge, o animal que tem quatro pés de manhã,
dois ao meio-dia, e três ao cair da noite? — É o homem, res-
pondeu Édipo; na infância, anda de gatinhas; na velhice, apoia-
se a um bordão." Então e em conformidade com a decisão do
oráculo, foi a esfinge atirar-se às ondas.
A esfinge, ou antes a esfinge de Tebas, é talvez,
mitologicamente, uma recordação da esfinge egípcia, mas a arte
lhe dá forma assaz diferente. As moedas a mostram com a
cabeça e peito de mulher, unidos ao corpo de leoa (fig. 196).
Assim aparece em várias pedras gravadas.

Fig. 196 — A esfinge (segundo uma moeda antiga).

Numa delas, a esfinge está sentada no alto de um rochedo,


diante de Édipo que se encontra de pé, respondendo à pergunta.
Ossadas humanas revelam a sorte reservada aos que não
souberam decifrar o enigma (fig. 197). Em outra pedra gravada,
a esfinge atira-se contra Édipo, que apresenta o escudo no qual
ela se fixa; o herói está
nu e empunha a espada (fig. 198). Na arte dos últimos séculos,
um célebre quadro de lugres representa Édipo interrogando a
esfinge, cujas últimas vítimas surgem à beira do precipício.

Fig. 197 — Édipo diante da esfinge (segundo uma pedra gravada antiga).

As desventuras de Édipo

Édipo tornou-se rei de Tebas, e, de acordo com o que fora


predito, desposou a viúva elo rei Laio, sem saber que era sua
própria mãe. Espantosas calamidades tombaram então sobre a
cidade de Tebas; o povo rumou para o palácio de Édipo, certo de
que o que soubera livrá-lo da esfinge conseguiria também aliviar-
lhe os males. Foi o grão-sacerdote que falou em nome de todos.
"Édipo,
disse ele, soberano do meu país, vês que multidão se amontoa
em torno dos altares diante cio teu palácio, crianças que mal se
sustêm de pé, sacerdotes arcados ao peso da velhice, eu,
pontífice de Júpiter, e o escol da mocidade; o resto do povo, com
ramos de oliveira, se dissemina pelas praças públicas, diante dos
dois templos de Palas, perto do profético altar de Apolo. Tebas, já
demasiadamente batida pela tormenta, não mais pode erguer a
cabeça do mar de sangue em que mergulhou; a morte atinge os
germes dos frutos nas entranhas da terra; a morte fere os
rebanhos e faz perecer o filho no seio da mãe; uma divindade
inimiga, a peste devoradora, devasta a cidade

Fig. 198 — Édipo atacado pela esfinge (segundo uma pedra


gravada antiga).

e despovoa a raça de Cadmo, o negro Plutão se locupleta com as


nossas lágrimas e os nossos gemidos... Foste tu que, vindo à
cidade de Cadmo, a livraste do tributo que ela pagava à esfinge
cruel, e com o auxílio dos deuses te tornaste nosso libertador.
Hoje, outra vez, Édipo, suplicamos-te um remédio aos nossos
males, quer te ilumine um deus com os seus oráculos, quer um
homem com os seus conselhos. Vem, tu que és o melhor dos
mortais, reergue a cidade abatida: vela por nós, pois é a ti, hoje,
que esta cidade chama seu salvador, em virtude dos serviços
passados." (Sófocles).
Para conhecer a causa dos males que afligiam a cidade,
Édipo enviou a Delfos um representante que consultasse o
oráculo. "O flagelo, respondeu o deus, só cessará quando os
tebanos tiverem expulsado do seu território o assassino de Laio."
Imediatamente ordena Édipo que se façam por toda parte buscas
para descobrir o paradeiro do assassino, e indignado com a idéia
de que um só homem tem a culpa das desgraças de um povo
inteiro, lança contra ele imprecações: "Seja quem for esse
indivíduo, proíbo a todo habitante desta cidade em que reino que
o receba, que lhe dirija a palavra, que o admita às preces e aos
sacrifícios divinos, que lhe apresente a água lustral; que todos o
repilam das suas casas como flagelo da pátria; assim mo
ordenou o oráculo do deus que adoramos em Delfos. Assim
procedendo, obedeço ao deus, e vingo o rei que já não existe
Amaldiçoo o autor oculto do crime, quer o tenha cometido
sozinho, quer tenha tido cúmplices; proscrito, deverá arrastar
uma vida miserável. E se for admitido ao meu palácio, ao meu
lar, e com o meu consentimento, submeto-me eu também às
imprecações que lanço contra os culpados." (Sófocles).
Entretanto, como não havia índice nenhum para descobrir o
culpado, e como o flagelo assumisse proporções fantásticas,
Édipo mandou procurar o adivinhador Tirésias. O adivinho
recusa-se a princípio a responder, mas o rei o ameaça, e começa
a supor a verdade. O infeliz Édipo, retirado no seu palácio,
manda chamar o pastor que outrora o abandonara, e termina
por conhecer a sua situação. O povo aguardava, apinhado à
porta do palácio, nada sabendo do que ali se passava.
Ouve-se então a nova de que uma terrível desgraça
sucedeu, e que a rainha acaba de morrer. Um mensageiro não
tarda em trazer a fatal notícia. "Jocasta morreu! exclama. Matou-
se com as suas próprias mãos. Sacudida por sombrio furor,
desde que atravessou o limiar do palácio, correu ao quarto
nupcial, arrancando os cabelos; uma vez ali, fechou
violentamente as portas pelo lado de dentro, evocou a sombra de
Laio, lembrando-lhe a recordação do filho esquecido, por cuja
mão ele pereceria. Não vi como faleceu, porque Édipo correu
dando altos
brados, o que nos impediu de ver a morte de Jocasta; mas os
nossos olhares se voltam para ele, que ia de um lado a outro.
Pede-nos uma espada, atira-se contra as portas, faz saltar os
batentes dos gonzos, e entra no aposento. Ali vemos Jocasta,
ainda pendente do laço fatal que lhe terminou os dias. Diante
daquele espetáculo, o desgraçado ruge como leão, e desfaz o
laço; mas quando o corpo da desventurada tocou o chão,
deparou-se-nos medonha cena: arrancando os colchetes de ouro
da veste que cobria Jocasta, Édipo fere os próprios olhos,
porque, dizia, não tinham visto nem as suas desgraças, nem os
seus crimes, e agora, nas trevas, já não veriam os que ele não
devia ver, já não reconheceriam os que lhe houveram sido
agradável reconhecer. Assim falando, bate e dilacera
repetidamente as pálpebras; ao mesmo tempo, os olhos,
ensangüentados, lhe banhavam o rosto, e não eram apenas
gotas que deles caiam, era uma chuva de sangue. Aí estão os
males comuns a ambos: felizes noutros tempos, desfrutavam de
uma felicidade merecida, mas hoje os gemidos, o desespero, o
opróbrio e a morte, nenhuma espécie de desgraça falta."
(Sófocles).
Os filhos de Édipo, Etéoclo e Polinice, em vez de acudirem
ao infeliz pai, só tiveram a preocupação de apoderar-se do trono,
e o ancião, cego e sem recursos, foi obrigado a buscar asilo em
terra estrangeira, na companhia das filhas que não quiseram
abandoná-lo. Um baixo-relevo antigo nos mostra Etéoclo e
Polinice conduzindo o pai para fora dos muros da cidade em que
ele nunca mais pode entrar (fig. 199).

Édipo e Antígona

Édipo deixou, pois, o país que a sua presença conspurcava


e onde era apenas objeto de opróbrio. Sua filha Antígona tornou-
se-lhe o único apoio, e o seu nome ficou
como tipo do amor filial. Foi ela que, guiando os passos do pai
cego implorava dos viajantes caridade por quem fôra um rei
poderoso e honrado: "Estrangeiro piedoso, dizia ela, se não
queres ouvir de meu velho pai a narração dos seus crimes
involuntários, suplico-te que te compadeças do meu infortúnio,
eu que te imploro por meu pai, eu que te suplico, cravando nos
teus os meus olhos, e peço compaixão por este desgraçado.
Imploro-te pelo que te é mais caro, teu filho, tua promessa, o
Deus que adoras." (Sófocles).

Fig. 199 — Édipo expulso pelos filhos (segundo um baixo-relevo antigo).

O infeliz Édipo encontrava na admiração que lhe inspiravam


as virtudes da filha uma espécie de alívio aos males. "Minha
filha, dizia, desde que saiu da infância e desde que o seu corpo
se fortaleceu, sempre errante e infeliz comigo, acompanhou a
minha velhice, suportou a fome, caminhou descalça através das
florestas e, desafiando chuvas e raios do sol, desprezou todos os
prazeres de Tebas, para prover à existência do pai." (Sófocles).
Enquanto Édipo, refugiado na Ática, buscava um asilo com
Teseu, seus dois filhos lutavam em Tebas pela posse do trono, ao
qual ambos aspiravam, Finalmente,
concordaram em reinar ambos, sucedendo-se um ao outro, ao
cabo de um ano de governo. Mas Etéoclo, que foi rei em primeiro
lugar, recusou-se em seguida a permitir a entrada do irmão, que
se refugiou em Argos, onde tratou de armar um exército para
marchar sobre Tebas.
Ficou decidido, então, consultar o oráculo. Respondeu este
que o rei não teria segurança no trono senão depois de voltar à
pátria o velho Édipo. Os dois irmãos, então, mandaram procurar
Édipo, que respondeu com imprecações contra eles: "Filhos que
teriam podido socorrer o pai recusaram-se a dar-lhe assistência,
e, na falta de uma palavra da parte deles, fui entregue ao exílio e
à indigência. Minhas filhas, na medida que lhes permite a
fraqueza do sexo, me nutrem, me abrigam e me dispensam todos
os cuidados da piedade filial ; eles, pelo contrário, à salvação do
pai preferiram o trono e o poder soberano. Assim, jamais obterão
o meu auxílio, jamais terão o tranqüilo gozo do reino de Cadmo.
Não, que os deuses jamais extingam as suas fatais discórdias!
Que o que hoje possui o cetro fique privado dele, e que o exilado
jamais torne a passar pelos muros de que foi expulso! Eles que
viram o pai indignamente expulso da pátria, sem retê-lo nem
defendê-lo!" (Sófocles).
Édipo morreu na Ática após proferir a maldição contra os
filhos. Diz Pausânias que o seu túmulo estava perto de Atenas
no recinto consagrado aos Eumênidas.
CAPÍTULO IV

O LOURO DE APOLO

Apolo e o Amor. — A metamorfose de


Dafne. — Desespero de Clítia.

Apolo e o Amor

O louro com o qual se coroam os poetas provém de uma


metamorfose operada por Apolo. Orgulhoso da vitória que lograra
contra a serpente Pitão, encontrou o deus o filho de Vênus, que
empunhava o arco, e riu-se do uso que ele fazia da arma.
Cupido, irritado, resolveu vingar-se: possui esse deus duas
espécies de setas, das quais umas inspiram o desejo, outras a
repulsão. Havia no bosque vizinho uma encantadora ninfa,
Dafne, filha do rio Penou. Sabendo que Apolo devia passar pelo
ponto em que ela se achava, Cupido disparou contra o deus a
flecha do desejo, e contra Dafne a flecha da repulsão.
A metamorfose de Dafne

Mal Apolo percebeu a ninfa, sentiu o coração perturbado e


quis aproximar-se dela, para contar-lhe a recente vitória,
esperando, dessarte, agradar-lhe. Visto que ela fugia,
acrescentou que era o deus da luz, honrado em toda a Grécia,
filho do poderoso Júpiter, inventor da mezinha e benfeitor dos
homens. Mas em vez de ouvi-lo, a ninfa, que sentia por ele
irresistível aversão, pôs-se a correr

Fig. 200 — Apolo e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga).

através dos bosques. Apolo, não compreendendo tal


procedimento, seguiu-a dizendo: "Espera, formosa ninfa : o que
te segue não é inimigo. A ovelha foge do lobo, a novilha foge do
leão, a tímida pomba foge da águia; mas eles são inimigos, ao
passo que o que me obriga a seguir-te é apenas o amor. Pára,
tenho medo de que os espinhos te firam, e eu seja a causa dos
teus ferimentos." (Ovídio).
Apolo parou, temendo que ela, na fuga, tombasse
perigosamente.
Mas notando que a ninfa redobrava a velocidade, em vez de
diminuir os passos, julgou que ela o não tivesse ouvido, e que
lhe seria dado convencê-la facilmente, se conseguisse aproximar-
se-lhe. Atirou-se, então, à perseguição, como os cães no rasto
das lebres, e terminou por alcançá-la no momento em que a
ninfa chegava à margem do rio Peneu, seu pai. Dafne suplica,
então, ao rio que lhe arranque tão funesta beleza, e sente
imediatamente os membros engordar e o corpo cobrir-se de fina
casca; os cabelos se lhe mudam em folhas, os braços tornam-se
ramos, os pés, outrora tão leves, prendem-se à terra, a cabeça
transforma-se-lhe em copa. Estava metamorfoseada em loureiro:
Apolo quer tocar a árvore, e sente sob a casca palpitar um
coração. Tece uma coroa para com ela ornar a sua lira de ouro, e
desde então os vencedores recebem ramos de loureiro em lugar
dos ramos de carvalho de antes.
Várias pinturas de Herculanum nos mostram a aventura de
Dafne cuja metamorfose está muito bem fixada numa estátua de
Villa Borghese. Na escultura dos últimos séculos, Coustou
compôs um grupo de Apolo perseguindo Dafne, e que podemos
ver no jardim das Tulherias (fig. 201). Le Bernin compôs também
um famoso grupo que se encontra em Roma. Entre os quadros
executados sobre o mesmo tema, os mais conhecidos são os de
Poussin, Rúbens e Carle Maratte (fig. 202). Há, outrossim, no
Louvre um quadrinho de Albane em que se nos depara a ninfa
fugindo velozmente de Apolo, enquanto o Amor voa, sorridente,
nas nuvens.
O século dezoito só viu nessa lenda uma aventura galante, e
como é proverbial a beleza de Apolo, concluiu-se que. se o deus
não soube agradar à ninfa, foi exclusiva-mente por culpa sua:

"Cruelle, arrêtez-vous de grâce!


Je suis le régent du Parnasse,
le fils naturel de Jupin;
je suis poete, médecin,
je suis chimiste, botaniste,
je suis peintre, musicien,
exécutant et syntphoniste;
je suis danseur, grammairien,
astrologue, physicien;
je suis..." Pour fléchir une belle,
au lieu de lui parler de soi,
il est plus adroit, selon moi,
et plus doux de lui parler d'elle.

(Demoustier) (1)

Fig. 201 — Estátuas de Guillaume Coustou (no jardim das Tulherias).

(1) Cruel, detém-te, por favor'


Sou o regente do Parnaso,
filho natural de Júpiter;
Sou poeta, médico,
Sou químico, botânico, Sou
pintor, sou músico,
executante e sinfonista. Sou
dançarino, gramático,
astrólogo, físico;
sou..." Para seduzir mulher bela,
em. lugar de falarmos de nós,
é mais certo, a meu ver. e
mais suave, falarmos dela.
(Demoustier)
Os mitologistas modernos vêem no mito de Dafne uma
personificação da aurora. Assim, quando dizemos: a aurora
desaparece, mal o sol desponta, os gregos teriam dito na sua
linguagem mitológica: Dafne foge quando Apolo pretende
aproximar-se dela.

Desespero de Clítia

De resto, se Apolo foi desdenhado por Dafne, vingou-se bem


contra a infeliz ninfa Clítia, que morria de

Fig. 202 — Apolo perseguindo Dafne (segundo um quadro de C. Maratti).


amor, enquanto ele se mantinha indiferente. O desprezo atirou-a
a um terrível desespero e a companhia das ninfas tornou-se-lhe
insuportável. Deitada noite e dia sobre o chão, cabelos esparsos,
ela desfazia-se em lágrimas, e não queria outro alimento senão o
orvalho do céu. Voltava sem cessar os olhos para o sol e
acompanhava-o durante todo o seu curso. O corpo terminou por
se lhe enraizar na terra, e o rosto tornou-se-lhe uma flor que
continua a voltar-se para o lado do sol, de modo que, apesar da
metamorfose. ela revela sempre o amor que sempre teve por
Apolo.
CAPÍTULO V

A LIRA DE APOLO

A lira e a flauta. — O sileno Mársias.


— As orelhas do rei Midas.

A lira e a flauta

O sol, pela regularidade com a qual difunde todos os


dias a luz, era considerado pelos antigos o príncipe que
preside às harmonias do universo. A astronomia era uma
Musa, cujas leis não diferiam das que regem a música. Apolo
foi, portanto, encarado desde logo como deus da harmonia, e
a lira passou a ser-lhe o atributo. É então considerado
príncipe da inspiração poética e torna-se condutor das
Musas. A arte o apresenta coroado de louro e com uma longa
túnica, e ele assume o nome de Apolo Musageta. Uma
esplêndida estátua do Vaticano o representa sob tal aspecto.
Essa estátua serviu de modelo às medalhas de Nero, que
representam o
imperador disputando no teatro o prêmio de citara, Foi
descoberta em Tivoli, em 1774, assim como sete estátuas de
Musas (fig. 204).
A lira aparece como atributo de Apolo, mesmo quando já
não é condutor das Musas, e de certo modo faz parte do seu
costume, como a aljava e as setas. Em grande número de
monumentos, Apolo empunha a lira, embora esteja nu.
Para os gregos. era a lira um instrumento nacional, por
oposição à flauta que representava a música frigia.

Fig 203 - Medalha com os atributos de Apolo.

O sileno Mársias

O sileno Mársias é o fiel seguidor de Cíbele e desempenha


ao pé dela papel análogo ao que o outro sileno desempenha ao pé
de Baco de quem foi benfeitor. Mársias. que os monumentos nos
apresentam freqüentemente dando uma aula ao jovem Olimpo,
seu discípulo (fig. 205), é uma personificação da música frigia, e
sobretudo da flauta, por oposição à lira usada na Europa. Numa
invasão levada a efeito pelos gálatas na Frigia. Mársias fez
transbordar as águas dos rios, ao som da flauta, e salvou o país
da conquista.
Mársias, orgulhoso do seu talento na flauta, ousou desafiar
Apolo, e ficou estabelecido que o vencido se
Fig. 204 — Apolo Musageta (estátua antiga, em Roma).
submeteria à mercê do vencedor. Apolo cantou enquanto tocava
a lira, e as Musas, escolhidas como juízes, lhe concederam a
vitória. O pobre Mársias foi pendurado a um pinheiro e
impiedosamente esfolado. Os sátiros e as ninfas choraram
tanto, que as suas lágrimas formaram um rio o qual lhe traz o
nome. As flautas do infeliz frígio caíram na correnteza, e foram
levadas. O movimento das ondas conduziu-as às praias de
Sícion. Um pastor pegou-as, e consagrou-as num templo
dedicado a Apolo. Quanto à pele do vencido, fez com ela um
odre que foi colocado na cidade de Celene, pátria de Mársias, e
pendurado a uma

Fig 205 — Mársias e Olimpo.

coluna. Quando alguém tocava flauta à moda frigia, a pele


agitava-se em sinal de satisfação, enquanto ao som da lira,
permanecia em completa imobilidade. O jovem frígio que, nas
representações antigas do suplício de Mársias, aparece atrás de
Apolo e, às vezes, lhe segura a seta, parece ser Olimpo, que,
quase sempre, intercede pelo amo.
Mársias em geral pende de uma árvore: assim é a famosa
estátua do Louvre, onde o sileno tem os pés
pousados numa cabeça de bode (fig. 207). No Mársias da galeria
Giustiniani, Apolo segura a pele do sileno, que, em outras
ocasiões, está presa à lira do deus de Delfos. O suplício de
Mársias figura igualmente num baixo-relevo do museu Pio-
Clementino e numa multidão de pedras gravadas.
Às vezes é o próprio Apolo que esfola a sua vitima; mais
freqüentemente, porém, assiste ao suplício infligido ao infeliz
por escravos citas. Uma belíssima estátua antiga do museu de
Florença, conhecida pelo nome de Amolador, representa um cita
afiando a faca. Havia, com

Fig, 206 — Apolo e Mársias (segundo uma pedra gravada antiga).

efeito, em Atenas uma companhia de citas encarregados das


execuções, e é o que explica essa tradição.
A luta entre Mársias e Apolo figura nos monumentos
antigos tanto quanto o suplício. Em vasos é-nos dado ver Apolo
tocando diante da assembléia dos deuses, enquanto Mársias e o
seu discípulo Olimpo o ouvem com atenção; noutros, é, pelo
contrário, Mársias que toca diante de Apolo coroado de louros, e
Baco assiste à cena.
Fig. 207 — Mársias (segundo urna estátua antiga. museu do Louvre).
Enfim, várias medalhas, notadamente as de Apameu, na Frigia,
mostram Mársias tocando a flauta. Um quadro de Zêuxis,
representando o suplício de Mársias, gozou na antiguidade de
enorme fama. Após a conquista romana, foi roubado aos gregos e
levado a Roma, para decorar o templo da Concórdia. Rúbens, le
Guerchin, le Guide e outros mestres pintaram o suplício de
Mársias.
A rivalidade entre o Oriente e o Ocidente reaparece sob mil
formas na Fábula, mais particularmente, todavia, sob a relação
musical. A história de Mársias no-la mostra com o caráter
selvagem que os povos primitivos sempre dão à luta. Não parece
que os escritores da antiguidade tenham ficado vivamente
impressionados pela crueldade do deus da música, mas vários
emitiram dúvidas sobre a legitimidade da sua vitória.
Eis como o historiador Diodoro de Sicília narra a aventura:
"Apolo e Mársias, diz ele, apostaram em quem seria capaz de
originar maior prazer e efeito, cada um no seu instrumento;
tiveram por juízes os habitantes de Misa. O deus tocou uma ária
na lira. Em seguida, Mársias pegou a dupla flauta, e os juízes,
encantados com a doçura e a novidade dos sons que dela o
artista soube tirar, lhe deram a preferencia. Apolo, após
conseguir que se realizasse outra prova, uniu a voz ao som da
lira e arrebatou os votos. Mársias, então, reclamou, dizendo que
se tratava de julgar do instrumento e não da voz, e que, aliás,
era injusto opor uma única arte a duas reunidas. Diante daquilo,
respondeu o deus que só empregava os meios de que se valia o
próprio Mársias, ou seja, a boca e os dedos; a razão foi tida por
sensata, e na terceira prova Apolo foi novamente declarado
vencedor. Indignado da ousadia de Mársias, o deus esfolou-o
vivo."
Os poetas cômicos apoderaram-se de Mársias, para dele
fazer o tipo do ignorante presunçoso, e Mársias tornou-se
personagem burlesca. O mito revestiu-se, sob o domínio romano,
de importância totalmente diversa; foi então considerado uma
alegoria da justiça equitativa, mas inexorável. É o que explica
porque a lenda está tão freqüentemente representada nos
monumentos artísticos. As estátuas de Mársias esfolado
figuravam nas praças públicas que se faziam os julgamentos, e
em todas as colônias romanas era visto perto do tribunal.
As orelhas do rei Midas

Análogo concurso, mas seguido de efeitos mais ridículos


que desastrosos, ocorreu entre Apolo e o deus Pã. Este deus,
orgulhosíssimo do seu talento musical, levou um dia a vaidade
ao ponto de desafiar Apolo, cuja lira e cuja voz não tinham rivais.
Todos os assistentes deram a vitória ao deus da luz, com exceção
de Midas, rei da

Fig. 208 — Apolo e Mársias, numa medalha de Antonino, com


atributos do deus.

Frigia, o único que ousou contradizer o julgamento. Apolo, não


querendo que orelhas tão grosseiras conservassem por mais
tempo o formato das dos outros homens, alongou-lhas, cobriu-
lhas de pelos e tornou-lhas móveis; numa palavra, deu-lhe
orelhas de burro. O resto do corpo manteve-se o mesmo.
Midas para ocultar a deformidade, cobria-a sob magnífica
tiara. O cabeleireiro incumbido dos seus cabelos percebera tudo,
mas não tivera ânimo para transmitir a descoberta a ninguém.
Importunado por tal segredo, vai a um lugar afastado, faz um
buraco no chão, aproxima-se o mais possível, e diz em voz baixa
que o seu amo tinha orelhas de burro; em seguida, tapa o
buraco, julgando ter assim encerrado para sempre o segredo, e
retira-se. Mas uns caniços traíram-lhe o segredo, pois toda vez
que havia vento, repetiam: O rei Midas tem orelhas de burro. Le
Guide compôs um Julgamento de Midas, em que Apolo toca
rabeca. Rubens pintou o mesmo tema num quadro do museu de
Madri.
CAPÍTULO VI

AS MUSAS

Júpiter e Mnemósina. — Atributos das


Musas. — As filhas de Piero. — As
Musas vitoriosas contra as sereias.

Júpiter e Mnemósina

As Musas pertencem originariamente à família das


ninfas: são as fontes inspiradoras que comunicam aos homens
a faculdade poética e lhes ensinam as divinas cadências. O
seu número tem variado bastante segundo os tempos e as
localidades; mas primitivamente eram apenas três, Melete (A
Meditação), Mneme (A Memória) e Aoide (O Canto).
Habitualmente são nove irmãs que Hesíodo diz terem nascido
de Júpiter e Mnemósina, a Memória. "Na Pieria, Mnemósina,
que reinava sobre as
colinas de Eleutério, unida ao filho de Saturno, deu à luz essas
virgens que proporcionam o esquecimento dos males e o fim das
dores. Durante nove noites, o prudente Júpiter, deitando-se no
leito sagrado, dormiu ao lado de Mnemósina, longe de todos os
imortais. Um ano depois, tendo as estações e os meses
percorrido o seu curso, bem como os dias, Mnemósina deu à luz
nove filhas animadas do mesmo espírito, sensíveis ao encanto da
música e trazendo no peito um coração isento de inquietações;
deu-as à luz perto do pico elevado do nevoso OIimpo no qual elas
formam coros brilhantes e possuem pacíficas moradas. Ao seu
lado, postam-se as Graças e o Desejo nos festins, em que a sua
boca, expandindo amável harmonia, canta as leis do universo e
as respeitáveis funções dos deuses. Orgulhosas da belíssima voz
e dos seus divinos concertos, subiram ao Olimpo; a terra negra
ecoava-lhes os acordes, e sob os seus pés se erguia um ruído
sedutor, enquanto elas rumavam para o autor dos seus dias, o
rei do céu, o senhor do trovão e do raio ardente, o qual, poderoso
vencedor de seu pai Saturno, distribuiu eqüitativamente entre
todos os deuses as incumbências e honras. Eis o que cantavam
as Musas moradoras do Olimpo, as nove filhas do grande
Júpiter, Clio, Euterpe, Talia, Melpômene, Terpsícore, Erato,
Polímnia, Urânia e Calíope, a mais poderosa de todas, pois serve
de companheira aos veneráveis reis. Quando as filhas do grande
Júpiter querem honrar um desses reis, filhos dos céus, mal o
vêem nascer derramam-lhe sobre a língua um delicado orvalho, e
as palavras lhe fluem da boca como verdadeiro mel. Eis o divino
privilégio que as Musas concedem aos mortais." (Hesíodo).
As Musas eram respeitadíssimas e o talento dos artistas
tido como dom das nove irmãs. Nas suas estátuas, liam-se
inscrições como a seguinte : "Ó deus, o músico Xenocles mandou
erguer-vos esta estátua de mármore, monumento da gratidão.
Todos dirão: 'Na glória que lhe proporcionou o seu talento,
Xenocles não se esqueceu daquelas que o inspiraram'."
(Teócrito).
Atributos das Musas

Para compreendermos as honras que os antigos prestavam


às Musas, devemos lembrar-nos de que nas épocas primitivas a
poesia é um dos agentes mais poderosos da civilização. A arte
representa as Musas sob a forma de jovens cobertas de longas
túnicas; usam, às vezes, plumas na cabeça, como recordação da
vitória obtida contra as sereias, mulheres-pássaros. As Musas
foram sendo, pouco a pouco, caracterizadas por atributos
especiais, e a arte reservou a cada uma delas um papel
particular.
Clio, a musa da história, está caracterizada pelo rolo que
segura.
Calíope preside aos poemas destinados a celebrar heróis. A
escultura a representou sentada num rochedo do Parnaso;
parece meditar e prepara-se para escrever versos em tabuinhas
que segura numa das mãos.
A máscara trágica, a coroa báquica e o coturno de que está
calçada Melpômene a dão a reconhecer por musa da tragédia.
Usa, às vezes, os atributos de Hércules para exprimir o terror ; a
sua coroa báquica lembra que a tragédia foi inventada para
celebrar as festas de Baco. Há no Louvre uma estátua colossal
de Melpômene que pertence à mais bela época da arte grega (fig.
209).
Terpsícore, Musa da poesia lírica, da dança e dos coros,
está habitualmente coroada de louros e toca lira para animar a
dança (fig. 210).
A máscara cômica, a coroa de hera, o cajado de pastor, de
que se serviam os atores na antiguidade, o tímpano ou tambor
em uso nas festas báquicas são os atributos comuns de Talia,
musa da comédia.
Erato é a Musa da poesia amorosa, e em geral empunha
uma lira. Tinha Erato grande importância nas festas que se
realizavam por ocasião das núpcias (fig. 211).
A Musa que preside à música, Euterpe, empunha uma
flauta. Temos no Louvre várias estátuas de Euterpe notáveis. A
Musa da música está, por vezes, acompanhada do corvo, ave de
Apolo.
Fig. 209 — A Musa Melpômene (segundo uma estátua antiga,
museu do Louvre).
Urânia, Musa da astronomia, segura um globo numa das
mãos e na outra um rádio, varinha que servia para indicar os
sinais vistos no céu.
Polímnia, Musa da eloqüência e da pantomima, está sempre
envolta num grande manto e em atitude de meditação. Muitas
vezes tem uma coroa de rosas. Uma belíssima estátua do Louvre
a mostra apoiada ao rochedo do Parnaso, com a cabeça sustida
pelo braço direito. Está figurada na mesma posição num baixo-
relevo representando a apoteose de Homero.
Nos monumentos antigos, Apolo aparece freqüente-mente
como condutor das Musas. Chama-se, então, Musagete, e usa
uma longa túnica. Esse tema agradava bastante aos artistas da
Renascença, que o representaram com freqüência. O belo quadro
de Mantegna, que o catálogo do Louvre designa sob o nome de
Parnaso, representa Apolo fazendo dançar as Musas ao som da
lira, na

Fig 210 — A Musa Terpsíore (segundo uma pedra gravada antiga).


presença de Marte, Vênus e Cupido colocados sobre uma
elevação. No canto, Mercúrio empunhando um longo caduceu
apóia-se sobre o cavalo Pégaso. Rafael, no célebre afresco do
Vaticano, também coloca as Musas sob a presidência de Apolo,
conforme à tradição, que as faz seguir o deus da lira. O próprio
Apolo dança com as Musas, na famosa ronda das Musas,
pintada por Jules Romain. O lugar das Musas era naturalmente
assinalado nos sarcófagos, assim como as máscaras de teatro
que ali

Fig. 211 — Erato e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga).

vemos freqüentemente esculpidas. A vida era considerada um


papel que cada um desempenhava ao passar pela terra, e
quando era bem desempenhado, conduzia à ilha dos
Venturosos. Todos esses velhos usos desapareceram pelo fim do
império, e o papel civilizador que se atribuíra às Musas foi
esquecido. Um dos últimos escritores pagãos, contemporâneo
das invasões bárbaras, o historiador Zózimo, fala da destruição
das imagens das Musas do Helicão, que haviam sido
conservadas ainda na época de Constantino. "Então, diz ele, fez-
se guerra às coisas santas,
mas a destruição das Musas pelo fogo foi um presságio da
ignorância em que o povo iria tombar."
Baco, tão freqüentemente quanto Apolo, está representado
conduzindo o coro das Musas, e até parece que acabou por ter
mais importância em tal papel do que o deus de Delfos. A
inspiração vem da ebriedade divina, e aliás Baco é o inventor do
teatro. No coro das Musas, a declamação não podia deixar de
ocupar o seu posto ao lado da invenção.
O magnífico túmulo conhecido pelo nome de Sarcófago das
musas, no Louvre, foi descoberto no começo do século XVIII, a
uma légua de Roma, na estrada de Óstia. O baixo-relevo
principal representa as nove Musas, caracterizadas pelos seus
atributos distintivos. Calíope, empunhando o cetro está em
companhia de Homero e Erato conversa com Sócrates: eis o
tema dos dois baixos-relevos que ornam as faces laterais. Na
lousa, vê-se um festim báquico, em alusão às alegrias da vida
futura.

As filhas de Piero

As nove filhas de Piero, rei da Macedônia, eram tão


vaidosas em virtude do seu talento de executantes de música,
que resolveram desafiar as Musas. Cantaram o combate dos
Gigantes, ridicularizando bastante os deuses, que tinham sido
obrigados a transformar-se em animais para escapar ao
espantoso Tifão. Ouvindo falar tão mal de Apolo, as Musas,
suas companheiras, mal lograram refrear a indignação. Mas
como todas as ninfas da região tivessem sido convocadas como
juizes da contenda, foi preciso dar a réplica, e após preludiar no
alaúde, cantou Calíope o misterioso rapto de Prosérpina. A
Musa saiu vitoriosa da luta, mas não reconhecendo o veredicto
das ninfas que elas haviam chamado como juízes, as filhas de
Piero tentaram agredir as Musas sagradas do Helicão. O castigo
não se fez esperar, pois foram metamorfoseadas
em pegas ; conservando sempre a mesma vaidade e o mesmo
desejo de falar, fazem ecoar nos bosques os seus gritos
importunos e a voz enrouquecida. Reconhece-mos em tal
tradição a paixão que caracteriza as rivalidades de escola nas
artes.
Um lindo quadrinho do Louvre, outrora atribuído a Perino
del Vaga, e atualmente a Rosso, representa as Musas e as filhas
de Piero, ao pé de um cabeço sombreado onde as divindades as
ouvem e julgam.

As Musas vitoriosas contra as sereias

As sereias participam simultaneamente da mulher e da ave;


mas os monumentos primitivos lhes dão apenas a cabeça e os
braços de mulher com corpo de ave (fig. 213), ao passo que em
época posterior lhes foi atribuído corpo de mulher com patas e
asas de ave (fig. 212). Os deuses concederam-lhes asas para que
elas pudessem

Fig. 212 — Sereia.


procurar Prosérpina, quando esta deusa foi raptada por
Plutão.
As sereias, que eram consideradas Musas da morte,
eram célebres pela doçura do canto. Passavam a vida em
rochedos, onde faziam morrer os navegantes atraídos pelo

Fig. 213 — Sereia.

seu canto. Homero chama às sereias sedutoras de todos os


homens que delas se acercam : "Aquele, diz ele, que impelido
pela imprudência, escutar a voz das sereias, nunca mais verá
a esposa, nem os filhos queridos os quais, no entanto,
ficariam contentíssimos com o seu

Fig. 214 — As sereias depenadas pelas Musas (baixo-relevo antigo).


Dafne. Apolo.
regresso; as sereias deitadas num prado cativá-lo-ão com as
suas vozes harmoniosas. Em torno delas estão as ossadas e as
carnes ressecadas das vítimas." (Odisséia).
As sereias ousaram medir-se com as Musas, mas estas
saíram vitoriosas do combate e depenaram as pobres sereias. A
cena figura num baixo-relevo antigo. Como lembrança dessa
vitória é que as Musas usam, às vezes, penas na cabeça. Parece
que as sereias se atiraram, desesperadas, à água, e é talvez por
isso que os artistas dos últimos séculos, confundindo-as com as
tritônidas, lhes dão sempre a forma de mulheres-peixes.
CAPÍTULO VII

ORFEU

A lira de Orfeu. — Orfeu e Eurídice. —


Orfeu dilacerado pelas bacantes.

A lira de Orfeu

As Musas são divindades virgens, que só apreciam a poesia


e os versos. Vênus perguntou um dia a seu filho Cupido por que
motivo jamais as ferira com as suas setas. "Respeito-as, minha
mãe, respondeu Cupido, por serem respeitáveis, sempre imersas
na meditação, e sempre ocupadas em cantos; mas acerco-me
delas com freqüência, seduzido pelas suas melodias." (Luciano).
A castidade das Musas era proverbial na antiguidade; mas
na linguagem alegórica, dizia-se de um grandíssimo poeta ou
músico que era filho das Musas. É a esse título que Orfeu era
chamado filho de Calíope e Apolo. Orfeu exprime
mitologicamente o arroubo que a música causava
nos povos primitivos. A sua voz melodiosa e a sua lira feiticeira
operam por toda parte prodígios. Quando os argonautas partem
em busca do velocino de ouro, o navio Argos, que devia conduzi-
los, mantinha-se imóvel na praia; ao som da lira de Orfeu,
desliza sozinho para as águas. As árvores inclinam-se para ouvir
o divino músico, os rochedos mudam de lugar para melhor
escutá-lo, os rios suspendem o seu curso, as feras, subitamente
amansadas, rastejam-lhe aos pés (fig. 215).

Fig. 215 — Orfeu.

Homero e Hesíodo não falam de Orfeu, e Aristóteles põe em


dúvida a sua existência histórica; mas os platônicos atribuíram
grande importância a essa personagem, que aos olhos deles se
torna um sábio poeta e teólogo, iniciado nas doutrinas do antigo
Egito, e fundador, para a Grécia, dos mistérios de Ceres. Embora
tenha sido dilacerado pelas bacantes, passa também por ter
propagado o culto de Baco.
Orfeu e Eurídice

Um encantador baixo-relevo antigo nos mostra Orfeu


voltando-se para ver Eurídice que Mercúrio lhe conduz (fig. 216).
Eurídice, a quem ele amava apaixonadamente, fora picada por
uma serpente, e o poeta resolveu ir procurá-la entre as sombras.
Aos sons da sua lira, os obstáculos desapareciam como que por
encanto. As sombras esqueciam-se dos seus trabalhos e dos
tormentos, para se unirem às suas lágrimas. Tântalo não
pensava mais na sede, Sísifo já não rolava a pedra, as Danaides
descuidavam o tonel, os abutres não dilaceravam o coração de
Titio, e a roda de Ixião deixava de girar. As próprias Fúrias
tornavam-se sensíveis e se enterneciam diante da dor de Orfeu.
Plutão, subjugado pelos ais do infeliz esposo, consentiu em lhe
devolver Eurídice, impondo, no entanto, a condição de que ele a
não fitasse, antes de sair dos infernos, Mas rio momento em que
Eurídice, seguindo o esposo, já ultrapassara todos os obstáculos,
Orfeu, a quem só restava um passo para tornar a entrar no país
da luz, esqueceu-se do juramento e voltou a cabeça para ver a
mulher amada. Eurídice estende-lhe os braços, e Orfeu quer
pegá-la, mas ela desaparece nas moradas subterrâneas dizendo-
lhe um eterno adeus.

Orfeu dilacerado pelas bacantes

Após assim perder a sua Eurídice, Orfeu chorou sete dias


inteiros nas margens do Aqueronte, sem querer nutrir-se;
depois, retirou-se para a Trácia, evitando os homens e vivendo
no meio dos animais, que os seus cantos
queixosos atraíam. As bacantes, no entanto, descobriram-lhe
o refúgio e tentaram fazer com que ele contraísse novos laços
matrimoniais; irritadas com o desdém dele, atacaram-no,
gritando, e cobrindo-lhe a voz com o ruído dos seus
tambores, atiraram-se furiosas sobre ele e o despedaçaram. A
sua cabeça e a lira, lançadas ao rio que as levou ao mar,
encantavam as margens com melodiosos sons.

Fig. 216 — Orfeu e Eurídice.


Fig. 217 — Orfeu no inferno (pedra gravada).

Fig. 218 — Orfeu perde Eurídice (segundo o quadro de Drolling).


Numerosas pedras gravadas antigas nos mostram Orfeu
rodeado de animais a que encanta com os seus acordes (figs. 215
e 217). A lenda inspirou numerosos mestres dos últimos séculos,
entre outros Rúbens, de quem temos no museu de Madri uma
Eurídice reencontrando o esposo nos infernos, e um Orfeu no
meio das feras. O mesmo tema foi tratado por Paul Potter, num
quadro famosíssimo que faz parte do museu de Amsterdão, mas
a inspiração mitológica do pintor holandês é bastante inferior, a
nosso ver, às suas cenas campestres nas quais mostra
simplesmente o que viu.
A descida de Orfeu aos infernos constitui o tema do
primeiro trabalho tentado por Canova. Um quadro de Drolling,
conhecido pela gravura e que, outrora, fazia parte do museu de
Luxemburgo, mostra Orfeu no momento em que perde Eurídice,
levada de volta aos infernos por Mercúrio (fig. 218).
CAPÍTULO VIII

AS SETAS DE APOLO

Júpiter e Antíope. — Os filhos de Níobe

Júpiter e Antíope

Lico, neto de Cadmo e rei de Tebas, desposara Antíope,


filha do rio Asopo, que lhe deu dois filhos, Anfião e Zeto. Antíope
foi amada de Júpiter que a visitava sob a forma de sátiro, como
nos mostra Correggio num soberbo quadro do Louvre (fig. 219).
Repudiada pelo marido, Antíope foi colocada sob a vigilância de
Dircéia, que se tornara esposa do rei. Esta maltratou
cruelmente a rival e mandou que a encerrassem numa
acanhada prisão. Mas os grilhões de que Antíope estava
carregada se quebraram sozinhos, e ela procurou refúgio ao pé
dos filhos que, a princípio, não reconheceram sua mãe. Dircéia,
dedicadíssima ao culto de Baco, quis matar Antíope
Fig. 219 — Antíope (segundo um quadro de Correggio, museu do
Louvre).

mandando que a amarrassem às presas de um touro, enquanto


se celebravam as bacanais. Um pastor que criara Anfião e Zeto,
fez com que estes a reconhecessem enfim, ministrando-lhes
sinais certos de ser-lhes Antíope mãe, e eles, atirando-se contra
as bacantes, libertaram a prisioneira, prenderam Dircéia às
pontas do animal e mataram-na com o suplício por ela destinada
à rival. O
suplício de Dircéia forma o tema de um grupo antigo célebre, no
museu de Nápoles (fig. 220).
Dircéia, após a morte, transformou-se em fonte, por obra
de Baco, que feriu Antíope de loucura furiosa; a infeliz
percorreu por algum tempo a Grécia em tais

Fig. 220 — Suplício de Dircéia (segundo um quadro antigo do museu


de Nápoles).

condições, mas acabou sendo curada por Foco que a desposou.


Lico foi expulso da cidade com toda a família, e Anfião tornou-se
rei do país. Anfião foi o primeiro em erguer um altar a Mercúrio,
e o deus para premiar-lhe o zelo deu-lhe de presente uma lira.
Aos sons da lira de Anfião,
toda a natureza se comovia e as pedras se ergueram por si
próprias para formar os muros d Tebas.
O baluarte teve sete portas, tantas quantas eram as cordas
da lira.

Os filhos de Níobe

Anfião desposou Níobe que, orgulhosa dos seus numerosos


filhos, ousara rir-se da deusa Latona que só tinha dois.
Pretendia receber as honras divinas, de modo que o culto de
Latona era negligenciado. A deusa, ofendida, ordenou à profetisa
Manto, filha do adivinho Tirésias, que reavivasse o zelo do povo.
Impelida por uma inspiração divina, a profetisa põe-se a
percorrer as ruas de Tebas, gritando: "Mulheres tebanas, coroai-
vos do louro, e oferecei incenso a Latona e a seus dois filhos; é a
própria deusa quem vo-lo ordena pela minha boca."
Todos obedecem; já todas as mulheres da cidade, trazendo
coroas na cabeça, se apressavam em acender em honra a essas
divindades o fogo sagrado, e em unir os seus votos à chama que
se ergue sobre os seus altares. Entretanto, Níobe, esposa de
Anfião e rainha de Tebas, vestida de uma túnica frigia toda
esplendente de ouro. chega seguida do cortejo real. Detém-se e
põe-se na frente da procissão: "Por que cegueira, diz ela, preferis
supostos deuses aos que tendes diante dos vossos olhos, e como
tendes a ousadia de oferecer sacrifícios a Latona, se ainda não
queimastes incenso nos meus altares? Ignorais que sou esposa
de Anfião, que ergueu os vossos muros ao som da sua lira, que
sou filha de Tântalo, e que tenho por mãe uma das Plêiades? O
grande Atlas, que sustenta o céu sobre os ombros, é meu avô, e
o próprio Júpiter é simultaneamente meu avô e meu sogro. Os
povos da Frigia me prestam honras que me são devidas, e vós
preferis a mim essa Latona, errante e fugitiva, que o Céu, a Terra
e a Água repelem igualmente, e que se jacta de ter posto no
mundo dois filhos, quando eu sou mãe de catorze!" Ordena,
então, que se interrompa a cerimônia, e cada um lança a sua
coroa de louro, para obedecer à rainha.
Latona encarregou os filhos de vingar o ultraje. São Apolo e
Diana que causam as mortes súbitas: quando se fala de alguém
que foi atingido de morte fulminante, e cuja causa é
desconhecida, diz-se: recebeu uma seta de Apolo. Um dia,
quando Níobe estava rodeada dos seus catorze filhos cuja beleza
ela admirava, ouve-se no ar uma espécie de silvo de seta e um
dos filhos tomba morto sobre a areia. Seus sete filhos jazem aos
seus pés, e a mesma sorte cabe, em breve, às sete filhas que
tombam feridas por Diana. A morte dos catorze filhos de Níobe é
instantânea; o pai, a mãe, as nutrizes e os pedagogos os vêem
cair sem poderem prestar-lhes o menor auxílio.
Estupefata, a infeliz Níobe imobiliza-se, e os seus próprios cabelos já
não são mais agitados pelo vento; um palor mortal lhe cobre o rosto; os olhos
estão fixos e sem movimento, a língua cola-se à boca ; ela se metamorfoseia
em pedra. No entanto, ainda sabe chorar, pois as lágrimas que verte formam
uma fonte que vemos jorrar de um pedaço de mármore.
Anfião, seu esposo, matou-se, segundo alguns mitólogos; segundo
outros, armou um exército para destruir o templo de Apolo em Delfos, e foi
atingido pelo próprio deus, antes de lá chegar.
A história dos filhos de Níobe, popularíssima na
antiguidade, foi representada em famosas estátuas, dentre as
quais algumas figuram entre as obras-primas cia arte.

Le fatal courroux des dieux


changea cette femme en pierre;
le sculpteur a fait bien mieux,
il a fait tout le contraire.

(Voltaire) (1)

______________________
(1) A fatal cólera dos deuses mudou esta mulher em pedra: o
escultor fez muito mais, pois fez exatamente o contrário.
Plínio, falando do famoso grupo das Niobidas, não sabe se
deve atribuí-lo a Scopas ou a Praxíteles (fig. 221). Seja quem for
o autor do grupo, revela uma arte que se compraz em reproduzir
temas adequados a remexer profundamente a alma, mas que, ao
mesmo tempo, os trata com a temperança e a nobre reserva
exigidas pelo gosto helênico nos mais belos tempos da arte. Se o
artista não

Fig. 221 — Niobe e a menor de suas filhas (segundo um grupo antigo).

poupa nada para nos comover em favor de uma família, objeto


da cólera dos deuses, a forma cheia de nobreza e de grandeza
dos rostos não está absolutamente desfigurada pela dor física e
pelo temor de um perigo iminente. A fisionomia da mãe,
personagem principal da cena, exprime o desespero do amor
materno e na maneira mais pura e elevada: a tradição poética
nos ensina que a desventurada, emudecida pelo excesso de dor,
foi trans-
formada em pedra, e o artista, conformando-se ao fato, evitou
as desgraciosas contrações do rosto. As estátuas desse grupo
foram descobertas em Roma, perto da porta de São Paulo, e
acham-se atualmente em Florença. Mas há em outros museus
estátuas isoladas famosíssimas, notadamente a de Munique. A
morte dos Niobidas figura

Fig. 222 — O Pedagogo e um dos filhos de Niobe (segundo um


grupo antigo).

freqüentemente em sarcófagos, e representa sempre a muda


prece da mãe que perdeu os filhos de morte súbita. A trágica
lenda era na antiguidade o tipo dos golpes imprevistos do
destino.
CAPÍTULO IX

APOLO PASTOR

A ninfa Coronis. — O nascimento de


Esculápio. — Apolo na corte de Admeto.
— O pastor Aristeu.

A ninfa Coronis

Apolo está munido de uma aljava cujas flechas são


inevitáveis : é ele que envia as pestes e as epidemias. Mas é ele
também que cura as doenças, e em tais ocasiões todos os
invocam. O título de deus salvador e reparador dos males
convém perfeitamente ao sol personificado: contudo, o poder
curativo de Apolo aparece sobretudo em seu filho Esculápio, tido
da ninfa Coronis. Apolo apaixonara-se pela ninfa, mas tendo-lhe
dito o corvo que ela amava outro, o deus, num acesso de ciúme,
matou-a com uma das suas setas. Arrependeu-se imediatamente
e metamorfoseou Coronis (palavra que significa gralha) na ave
que traz esse nome; depois, para punir o corvo pela sua
tagarelice, fê-lo negro, tirando-lhe a cor branca que o carac-
terizava. Foi depois dessa aventura que as duas aves passaram a
ser consagradas a Apolo.
O nascimento de Esculápio

Quando Coronis morreu, estava para dar à luz um filho,


que Apolo lhe tirou do seio e que foi Esculápio, cuja educação
ficou atribuída ao centauro Quirão.
A filha de Quirão, Ociroé, senhora do dom da profecia,
exclamou ao vê-lo: "Cresce para o sol do mundo, menino! Os
mortais dever-te-ão freqüentemente a existência. Ser-te-á dado
até o dom de ressuscitar os mortos. Mas por o teres
experimentado uma vez, a despeito da ordem estabelecida pelos
deuses, o raio de teu avô impe-dirá que o tentes de novo."
(Ovídio).
A profetisa tinha razão, pois Esculápio seria fulminado por
Júpiter por ter ressuscitado Hipólito; mas os que sabem ler o
futuro nem sempre o devem revelar, e Ociroé pagou caro a
indiscreção. Compreende imediata-mente que atraiu a cólera dos
deuses, e vê-se transformada em égua. Quer chorar e o que se
ouve são relinchos. Os dedos se lhe colam um ao outro, as
unhas reunidas se transformam em cascos, a boca lhe cresce, o
pescoço se alonga, a orla da túnica se lhe muda em cauda e os
cabelos esparsos formam a crina, que lhe cai à direita do
pescoço.
Não tardou em espalhar-se a notícia de que o menino que
acabava de nascer em Epidauro sabia curar todas as doenças e
até ressuscitar os mortos.
Esculápio realizou grande número de maravilhosas curas;
mas a sua reputação se deve sobretudo às ressurreições.
Quando ressuscitou Hipólito. filho de Teseu, que um monstro
marinho matara, Plutão queixou-se a Júpiter, afirmando que lhe
arrancavam direitos, retirando-lhe súditos, e o senhor dos
deuses, achando justa a queixa, fulminou Esculápio,
Apolo na corte de Admeto

Apolo, furioso por ver que Júpiter lhe fulminara o filho


Esculápio, pegou aljava e setas, e foi matar todos os ciclopes,
obreiros incumbidos de fabricar o raio. Júpiter expulsou-o do
céu, e Apolo, reduzido à condição de simples mortal, viu-se
obrigado, para ganhar a vida, a guardar os rebanhos de Admeto,
rei da Tessália. Em seguida, com Netuno, foi erguer os muros de
Tróia para Laomedon, que lhe recusou a recompensa, quando a
obra ficou pronta. Apolo vingou-se, enviando uma epidemia à
região. Finalmente, após viver algum tempo na terra, em
condição assaz humilde, Júpiter perdoou-lhe e permitiu-lhe
subir de novo ao Olimpo.
Albane, não podendo admitir que um deus como Apolo
desempenhasse por muito tempo as funções de pastor, no-lo
mostra no momento em que Mercúrio lhe anuncia a libertação e
o fim do exílio. O deus, que com uma das mãos segura a lira e
com a outra o cajado de pastor, percebe ao longe as Musas
reunidas nas margens do Hipocrene, e Pégaso no topo do
Helicão; no céu, as divindades do Olimpo, sobre nuvens,
aprestam-se em lhe dar as boas-vindas.

O pastor Aristeu

O pastor Aristeu é uma divindade que preside os rebanhos,


mas a sua missão especial é sobretudo a educação das abelhas.
Era filho de Apolo e da ninfa Cirene. Apolo apaixonou-se por
essa ninfa, e desejando saber quem era e a que família pertencia,
perguntou-o ao
Fig 223 — Aristeu (segundo uma estátua antiga do Louvre).
centauro Quirão, o qual era adivinho. Este pareceu admirado
com a pergunta. Tu me perguntas, respondeu, qual a origem da
ninfa, tu que conheces o imperioso destino de todos os seres, tu
que contas as folhas que surgem na terra, durante a primavera,
e os grãos de areia que as vagas e os ventos fazem rolar nos rios
e nos mares, tu cuja vista penetrante descobre tudo quanto
existe, tudo quanto há de existir! Mas já que ordenas, vou
responder-te: a sorte conduz-te a estes páramos para seres
esposo de Cirene e levá-la além dos mares, aos deliciosos jardins
de Júpiter. Lá, numa colina rodeada de formosos campos, se
erguerá uma cidade poderosa, povoada por uma colônia de
insulares da qual a farás rainha.
"Em teu favor, a vasta e fecunda Líbia receberá com carinho
essa ninfa destinada a dar leis a uma região igualmente famosa
pela fertilidade e pelos animais ferozes que nutre. Lá, dará ela à
luz um filho que Mercúrio roubará aos beijos da mãe para
confiá-lo as cuidados da Terra e das Horas, de tronos
esplendentes. Essas deusas acolherão o menino divino, pô-lo-ão
ao colo, far-lhe-ão escorrer pelos lábios o néctar e a ambrósia e o
tornarão imortal como Júpiter e Apolo. Será a alegria dos
amigos, vigiará numerosos rebanhos, e o seu gosto aos trabalhos
dos caçadores e dos pastores fará com que o chamem de
Aristeu." (Píndaro).
O pastor Aristeu foi, sobretudo, grande criador de abelhas,
mas é como bom pastor que aparece, em geral, na arte. Inúmeros
monumentos o representam trazendo uma ovelha aos ombros, e
os artistas cristãos adotaram esse tipo que aparece
freqüentemente nos seus trabalhos. Nas catacumbas de Roma,
Jesus Cristo está representado sob a forma e com os atributos
do pastor Aristeu.
CAPÍTULO X

ESCULÁPIO

Esculápio e Higéia. — A serpente de


Esculápio. — O templo de Epidauro. —
Os tratamentos de Esculápio. — Esculá-
pio em Roma. — Hércules e Esculápio.

Esculápio e Higéia

Esculápio aparece na arte com as feições de homem


maduro, expressão suave e risonha, de pé e a cabeleira
amarrada por uma faixa ; segura na mão direita um bordão em
torno do qual se enrola a serpente. Liga-se freqüentemente a
um ,jovem, Telésforo (fig. 224). o génio da cura. ou a filha
Higéia, deusa da saúde, de quem a arte fez uma jovem com a
testa diademada e traz uma taça onde bebe uma serpente (fig.
229). Tivera de sua mulher Epíona (a calmante), vários filhos
dentre os quais os mais famosos foram Podalira e Macaon. Hoje
são encantadoras borboletas, mas na época da guerra de Tróia,
foram prodigiosos médicos.
A serpente de Esculápio

A serpente é consagrada a Esculápio e considerada


emblema da medicina. Há várias razões para isso: segundo
Plínio, é porque ela se renova mudando de pele. O homem
renova-se igualmente pela medicina, pois os remédios lhe dão
como que um corpo novo. Segundo

Fig. 224 — Telésforo (segundo uma estátua antiga).

Higino, foi observando as serpentes, que o deus da medicina


descobriu o segredo de ressuscitar os mortos. Estando um dia
Esculápio perto de um enfermo, uma serpente enrolou-se-lhe em
torno do bordão; Esculápio matou-a. Mas, imediatamente
depois, outra, trazendo na boca uma erva, com ela ressuscitou a
primeira. O deus pegou a
F g . 225 — Esculápio (segundo urna estátua antiga).
erva, mal percebeu a maravilhosa propriedade, e dela se valeu a
partir de então.
Parece, todavia, que a serpente de Esculápio difere da que
se vê habitualmente.
"Embora, em geral, as serpentes sejam consagradas a
Esculápio, essa prerrogativa pertence, no entanto, a uma espécie
particular cuja cor dá para o amarelo. Aquelas não fazem mal
aos homens e o Epidauro é a única região em que se encontram."
(Pausânias).
Um baixo-relevo do Vaticano nos mostra Esculápio
visitando um enfermo deitado no leito. No seu quadro da Oferta
a Esculápio, Guérin nos apresenta um ancião

Fig. 226 — Esculápio, Higéia e Telésforo.

conduzido pelos filhos à presença da imagem do deus; a filha


ajoelhada, contempla a serpente que se ergue acima do altar.
O culto de Esculápio é velhíssimo na Grécia. Pausânias
atribui-lhe a origem a Alexanor, neto de Esculápio, que teria
vivido cerca de cinqüenta anos após a guerra de Tróia.
"Alexanor, filho de Macaon e neto de Esculápio, veio à
Sicionia, e construiu em Titano um templo em honra a
Esculápio. Em volta, plantou-se um bosque de ciprestes,
atualmente muito velho; as cercanias do templo são habitadas
por várias pessoas, e notadamente pelos ministros do deus.
Quanto à estátua que ali se vê, ninguém
saberia dizer de que matéria é feita, com exceção do próprio
Alexanor. Está coberta por uma túnica de lã branca e por cima
uma manta, de modo que só aparecem o rosto, os pés e as mãos.
O mesmo se dá com a estátua de Higéia, perto, pois não a vemos
facilmente, de tal maneira está oculta, quer pela quantidade de
cabelos que mulheres devotadas lhes sacrificaram, quer pelos
pedaços de pano de seda de que a ornaram. Quem quer que
entre no templo para ali orar é obrigado, em seguida, a dirigir os
seus rogos à deusa Higéia." (Pausânias) .

Fig. 227 — Esculápio visitando um doente.


O templo de Epidauro

Epidauro era famosíssima na antiguidade pelo seu templo


de Esculápio, rodeado por um bosque sagrado de ciprestes.
Encontraram-se nele ruínas que se julgam ter pertencido ao
santuário do deus. Imensa quantidade de enfermos iam de
todas as partes da Grécia a Epidauro em busca de saúde e
distração. O culto de Esculápio, que se espalhou por toda parte,
fez com que se lhe erguessem grande número de templos,
sempre situados nos lugares onde havia águas famosas, e os
doentes ali se reuniam
como nos cassinos, nas nossas estações de águas, durante os
lazeres que lhes deixava o tratamento.

Fig. 228 — Oferta a Esculápio (segundo um quadro de Guérin).

Pausânias nos legou uma descrição do templo de Esculápio


em Epidauro : "O bosque consagrado a Esculápio, diz ele, está
por todos os lados rodeado de grandes obstáculos; e nesse
recinto não é permitido que morram os doentes e dêem à luz as
mulheres, tal qual na ilha de Delos. Tudo quanto se sacrifica ao
deus deve ser consumido em tal recinto ; os epidaurianos, como
os estrangeiros, estão sujeitos a essa lei, e sei que a mesma coisa
Fig. 229 — Higéia (estátua antiga).
se observa em Titano. A estátua du deus e de ouro e marfim,
porém (luas vezes menor que a de Júpiter Olímpico em Atenas;
a inscrição afirma que se trata de uma obra de Trasímedo, filho
de Arignoto, e oriundo de Par-cos. O deus está representado
num trono, segurando com uma das mãos, e apoiando a outra
sobre a cabeça de uma serpente. Para além do templo,
construíram algumas casas para conforto das pessoas que vão
fazer as suas preces a Esculápio; mais perto há uma rotonda de
mármore branco que atrai a curiosidade; vêem-se ali

Fig. 230 — Higéia ou a Saúde (segundo uma pedra gravada antiga).

pinturas de Pausias; num dos lados um Cupido que se desfez do


arco e das setas e empunha uma lira; no outro, a Bebedeira que
sorve de uma garrafa de vidro. Através da garrafa, vemos um
rosto de mulher. Havia, outrora, no mesmo recinto grande
número de colunas, mas só restam atualmente seis, sobre as
quais se escrevem os nomes dos que o deus curou: tudo está
vazado na língua dórica. Numa antiga coluna que não está na
fileira das demais, está escrito que Hipólito consagrou um cavalo
de bronze a Esculápio, e os habitantes de Arícia possuem
uma tradição a tal respeito, pois dizem que Hipólito, tendo
morrido em virtude das imprecações do pai, foi ressuscitado por
Esculápio. Nunca perdoou a Teseu a sua crueldade, e, sem dar
atenção aos seus rogos, foi a Arícia, cidade da Itália, e ali reinou
e construiu um templo a Diana." (Pausânias).

Os tratamentos de Esculápio

Os doentes que iam consultar o deus eram primeiramente


submetidos a certas práticas higiênicas, como o jejum, as
abluções, os banhos, etc. Após tais preliminares, eram
autorizados a passar a noite no templo. O deus lhes aparecia a
maioria das vezes em sonho e prescrevia-lhes regulamentos que
os sacerdotes interpretavam em seguida. Aristófanes, na sua
comédia Plutus, faz, com a sua habitual rudeza, uma
interessante narração do que se realizava no templo segundo as
crenças populares. O doente de quem fala é um tal Plutus,
ferido de cegueira, e a personagem que faz a narração é o
escravo Cárion:
Cárion. — Mal chegamos ao templo de Esculápio com
Plutus, levamo-lo em primeiro lugar ao mar e ali o banhamos.
Em seguida, voltamos ao santuário do deus. Após consagrarmos
sobre o altar os presentes e outras oferendas, e após
entregarmos a flor de farinha à chama de Vulcano, deitamos
Plutus com as cerimônias exigidas e cada um de nós se dispôs
num leito de palha.
A mulher. — Havia também outras pessoas implorando o
deus?
Cárion. — Havia em primeiro lugar Neóclides (orador
acusado de ter roubado o dinheiro público), o qual, embora
cego, rouba com mais habilidade que os que vêem bem, depois
muitos outros, com toda espécie de doenças. Depois de apagar
as lâmpadas, o ministro do deus pediu-nos que dormíssemos e,
se ouvíssemos ruído,
que nos calássemos. Deitamo-nos, todos, tranqüilamente.
Quanto a mim, não conseguia conciliar o sono; certo prato de
papa, colocado à cabeceira de uma velha, excitava a minha
cobiça, e eu desejava ardentemente rastejar até lá. Ergo a
cabeça; vejo o sacerdote tirar os presentes e os figos secos da
mesa sagrada. Em seguida, dá a volta aos altares, um depois do
outro, e todos os presentes que encontrava guardava-os
cuidadosamente numa sacola.
Eu, convencido da grande santidade da ação, salto sobre o
prato de papa.
A mulher. — Miserável! Não temias o deus?
Cárion. — Sim, sem dúvida; temia que com a sua coroa
chegasse antes de mim ao prato; a atitude do sacerdote falava-
me claro; a velha, ouvindo um ruído, estendeu a mão para
retirar o prato; assobio então como serpente, e mordo-a.
Imediatamente ela retira a mão, e se envolve, calada, nas
cobertas, soltando, de medo, um gás mais pavoroso que o de um
gato. Como a papa, e torno a deitar-me de ventre cheio.
A mulher. — E o deus não vinha?
Cárion. — Não. Depois, todavia, fiz uma boa farsa: quando
ele se aproximou, fiz ressoar uma descarga das mais
estrondosas, pois tinha o ventre bem cheio.
A mulher. — Sem dúvida, rompeu em imprecações contra ti?
Cárion. — Limitou-se apenas a não dar atenção.
A mulher. — Queres dizer que este deus é grosseiro?
Cárion. — Não, mas gosta da imundície (1).
A mulher. — Ah, miserável!
Cárion. — Entretanto, afundei no leito, de medo. O deus deu
a volta e visitou gravemente todos os enfermos. Em seguida, um
escravo lhe trouxe um almofariz de pedra, um pilão e uma
caixinha.
A mulher. — Mas como pudeste ver tudo isso, uma vez que
te havias ocultado?
Cárion. — Vi tudo através do meu manto, que está repleto
de buracos. O deus pôs-se primeiramente a preparar um
cataplasma para os olhos de Neóclides : pegou três cabeças de
alho de Tenos, que amassou no almofariz, com uma mistura de
goma e de suco de lentisco; banhou

________________
(1) Alusão aos médicos que comprovam o estado do enfermo pela
inspeção dos excrementos.
tudo com vinagre esfetiano, depois aplicou-o no interior das
pálpebras, para tornar menos pungente a dor. Neóclides gritou
com toda a força e quis fugir. Mas o deus lhe disse, rindo: fica
aqui com o teu cataplasma; quero impedir que prodigues
perjúrios na assembléia.
A mulher. — Que deus sábio e patriota!
Cárion. — Em seguida, aproximou-se de Pluto; em primeiro
lugar, auscultou-lhe a testa, depois lhe enxugou os olhos com
um pano bem limpo: Panacéia cobriu-lhe a cabeça e o rosto com
um véu de púrpura; o deus assobiou, e imediatamente duas
enormes serpentes saíram do fundo do templo.
A mulher. — Grandes deuses!
Cárion. — Elas, depois de se infiltrarem suavemente sob o
véu de púrpura. lamberam, assim creio, as pálpebras do
enfermo; e em menos tempo do que levarias tu para beber dez
cótilos de vinho, Pluto recobrou a vista. Eu, contentíssimo, bati
as mãos e despertei o amo. Imediatamente o deus desapareceu, e
as serpentes se ocultaram no fundo cio templo Mas os que
dormiam perto de Pluto. com que afobação não o apertaram
entre os braços! Ficaram acordados a noite inteira, até o
aparecimento do dia. Quanto a mim, não cessava de agradecer
ao deus ter devolvido tão depressa a vista a Pluto, e aumentado a
cegueira de Neóclides.
A mulher. — Divino poder de Esculápio!... (Aristófanes).

Esculápio em Roma

Esculápio foi igualmente honradíssimo pelos romanos.


Havia três anos que uma enfermidade contagiosa fazia em Roma
grandes estragos, sem que nenhum remédio parecesse pôr cubro
ao terrível flagelo. Os pontífices, encarregados de consultar os
livros das Sibilas, verificaram
que o único meio de devolver a salubridade a Roma era mandar
vir Esculápio de Epidauro. Para tanto, foram ali enviados
embaixadores e o deus se mostrou favorável, visto que permitiu
que a sua serpente surgisse aos envia-dos de Roma. e com eles
embarcasse no navio. Os embaixadores, satisfeitíssimos,
apressaram-se em desfraldar as velas, após se informarem da
maneira pela qual a serpente devia ser homenageada. Mal o
navio entrou em Roma. a serpente, lançando-se a nado, arribou
à ilha onde, mais tarde se lhe ergueu o templo. A epidemia
cessou imediatamente. (Valério Máximo).

Fig. 231 — Esculápio na ilha do Tibre (segundo um medalhão


de Cômodo).

Hércules Esculápio

Esculápio recebeu após a morte honras divinas, e foi


admitido à mesa dos deuses, mas a darmos crédito as autores
cômicos, brigou com Hércules, por uma questão de
precedência. Júpiter tentou acalmá-los. "Cessai, disse-lhe, de
brigar como homens; é uma coisa inconveniente e indigna da
mesa dos deuses.
Hércules. — Queres, pois, Júpiter que este envenenador se
sente antes de mim?
Esculápio. — Certamente, pois que valho muito mais!
Hércules. — Como, cérebro queimado? Será por te haver
Júpiter fulminado por teres feito o que não devias fazer, e por
teres sido admitido por simples piedade a partilhar do nosso
imortal destino?
Esculápio. — Esqueces tu, Hércules, de que foste queimado
no Eta, tu que me censuras por ter passado pelo fogo.
Hércules. — Pretendes insinuar, com isso, que vive-mos da
mesma maneira? Filho de Júpiter, realizei prodigiosos trabalhos,
purificando o mundo, lutando contra os seus monstros, punindo
os bandidos que ultrajavam a humanidade; tu não passas de um
herborista, de um charlatão, bom no máximo para aplicar
remédios aos doentes, e nunca fizeste nada que fosse varonil.
Esculápio. — Tens razão. Mas fui eu quem curou as tuas
queimaduras, quando há pouco vieste ter aqui, com o corpo
assado num dos lados pela túnica do centauro, e no outro pelo
fogo. E se nada mais me restasse por dizer, não fui escravo como
tu, não cardei lã na Lídia. vestido por uma túnica de púrpura,
recebendo golpes da sandália dourada de Onfale, e sobretudo,
num acesso de fúria, não matei meus filhos nem minha mulher.
Hércules. — Se não acabares com as tuas insolências,
saberás daqui a pouco que a tua imortalidade não poderá
impedir que eu te agarre e te atire para fora do céu, de cabeça
para baixo.
Júpiter. — Calai-vos ambos, não perturbeis a reunião. Do
contrário, pôr-vos-ei fora da porta." (Luciano).
CAPÍTULO XI

O SOL

O Sol e a ilha de Rodes. — Os sinais do


Zodíaco. — O carro do Sol. — Queda de
Faetonte. — As irmãs de Faetonte. — O
rei Cicno.

O Sol e a ilha de Rodes

Hélios, o Sol, era na primitiva antiguidade inteiramente


diverso de Apolo, com o qual se identificou posteriormente. O Sol
vê tudo e revela tudo o que vê: ele é que denuncia a Vulcano a
infidelidade de sua mulher, a Ceres o rapto da filha; o crime de
Atreu o faz recuar horrorizado. Mas tais fatos não poderiam ser
relacionados a Apolo, a cujo lado vemos o Sol formando uma
personagem distinta, num baixo-relevo que representa Marte e
Vênus surpreendidos por Vulcano.
Uma antiga estátua nos mostra o Sol sob forma de jovem
vestido, segurando numa das mãos uma bola, e na outra a
cornucópia : os cavalos que lhe conduzem o carro estão
figurados em busto ao seu lado (fig. 232). O famoso colosso de
Rodes que, segundo uma tradição errônea, deixava os navios
passar com todas as velas enfunadas entre as pernas, era uma
imagem do Sol e a mesma efígie se vê nas medalhas de Rodes.
Quando, após a queda dos Titãs, os deuses olímpicos dividiram
entre si o mundo, o Sol, que lá não estava, foi esquecido:
queixou-se, e a ilha de Rodes saiu dos mares expressamente
para lhe ser consagrada. Um belo baixo-relevo, descoberto
recente-mente na antiga Tróia, mostra o Sol de cabeça radiada,
conduzindo o seu carro : numa pintura de Herculanum vemo-lo
conversando com uma das Horas.

Os sinais do Zodíaco

O Zodíaco é o espaço do céu que o sol percorre durante o


ano e que está dividido em doze partes, onde se encontram doze
constelações que correspondem aos seguintes sinais (fig. 233) :
— 1, o Carneiro (abril) está acompanhado da pomba de Vênus; —
2, o Touro (maio) tem ao seu lado o tripé de Apolo; — 3, os
Gêmeos (junho) estão seguidos da tartaruga de Mercúrio; — 4, o
Câncer (julho) está unido à águia de Júpiter; — 5, o Leão (agosto)
está unido ao cesto de Ceres, rodeado pela serpente mística; —
6, a Virgem (setembro) segura dois fachos e está acompanhada
do barrete de Vulcano; — 7, a Balança (outubro), segura por um
menino, tem perto a loba de Marte; — 8, o Escorpião (novembro)
tem o cão de Diana; — 9, o Sagitário (dezembro), tem a lâmpada
de cabeça de asno de Vesta; — 10, o Capricórnio (janeiro), o
pavão de Juno; — 11, o Aquário (fevereiro) os delfins
Fig. 232 — O Sol (segundo uma estátua antiga).
de Netuno; — 12, os Peixes (março) o mocho de Minerva. Cada
uma das doze grandes divindades vive, mais longa-mente, na
constelação que tem os seus atributos.

O carro do Sol

A marcha do Sol sobre a terra, na mitologia, não se


conforma aos princípios da moderna astronomia.
O Sol (Hélios) sai do rio Oceano no Oriente, ergue-se, no
meio-dia, até o ponto mais alto do céu, e em seguida ruma para
o Ocidente, até o ponto em que reina eterna obscuridade, e que
se chama Portas do Sol. Ali chegado, encontra um barco de ouro
feito por Vulcano, e durante a noite. descreve um semicírculo
sobre o rio Oceano que envolve a terra, e assim volta todas as
manhãs ao ponto de onde partiu na véspera. Visto que sempre
segue o mesmo caminho, o disco da terra está sempre iluminado
por um lado (o que olha para o equador), ao passo que o outro
lado (o que olha para o pólo) jamais recebe luz. É por isso que
um dos lados do rio Oceano assume o nome de Costa cio Dia e o
outro Costa da Noite.
Quando o Sol deixa as regiões do Oriente para iluminar a
terra, as Horas lhe abrem as portas do céu e atrelam ao seu
carro (obra de Vulcano) cavalos alados que vomitam chamas. Os
Dias, os Meses, os Anos, os Séculos, formam com as Horas o
cortejo habitual do Sol, cujo palácio está situado nas
extremidades do Oriente. No seu famoso quadro do palácio
Rospigliosi, cuja com-posição está calcada num baixo-relevo
antigo da Villa Borghese, Guido mostra o Sol escoltado pelas
Horas e pelos Dias que se seguram pelas mãos para indicar o
sucessivo encadeamento, e precedido da Aurora que semeia
profusamente flores diante do carro do deus.
O gigantesco Atlas, condenado, por se haver rebelado contra
Júpiter, a suportar o céu sobre os fortes ombros,
marca o ponto do universo em que o Dia e a Noite se seguem
alternativamente sem jamais se encontrarem. A costa das
Hespéridas, nos confins do mundo, constitui o seu império;
possui ele numerosos rebanhos, e vive num

Fig. 233 O Zodíaco (museu do Louvre).

esplêndido jardim, o jardim das Hespéridas, onde uma faiscante


folhagem de ouro sombreia maçãs também de ouro. A colocação
da morada do deus Montanha está, aliás, bastante mal
determinada na Fábula, e a posição
de Atlas varia segundo o lugar em que se situam os confins do
mundo. Assim, vemo-lo indistintamente no Cáucaso, na Líbia e
na Mauritânia. Quando os progressos da navegação
estabeleceram um sistema geográfico mais sério, Atlas passou a
ocupar o lugar onde ainda hoje o vemos.
O Atlas Farnese no museu de Nápoles, mostra o gigante
suportando o céu sobre os ombros (fig. 234) ;

Fig 234 — Atlas Farnese museu de Nápoles)

está representado da mesma maneira em várias pedras


gravadas.
Atlas é pai das Plêiades. constelações que aparecem no
signo do Touro, São em número de sete, mas há uma.
Merope, que não gosta de mostrar-se, por envergonhar-se de
aparecer aos homens. Somente ela, com efeito, foi que teve por
esposo um simples mortal, ao passo que as irmãs se uniram a
deuses. As Plêiades inspiraram a Flaxman uma das suas mais
graciosas composições (fig. 235).

Queda de Faetonte

Tinha o Sol um filho chamado Brilhante (Faetonte), e o


jovem tirava do nascimento uma vaidade extrema. Numa
divergência que teve um dia com um filho de Júpiter, Epafo,
este ousou suscitar dúvidas quanto à sua origem divina.
Faetonte em pranto foi procurar o pai, e suplicou-lhe que lhe
desse sinais certos que pudessem provar ao universo de quem
ele descendia. O Sol,

Fig. 235 — As Plêiades (segundo Flaxman).


enternecido pelo pesar do filho, jurou pelo Estige que lhe
concederia o que ele pedisse, e Faetonte imediatamente lhe
rogou permissão para conduzir o carro e iluminar o mundo
durante um dia apenas. O Sol, que não podia faltar ao
juramento, fez ao filho as mais sérias admoestações, para lhe
mostrar o perigo que havia em serem os fogosos cavalos guiados
por mãos inexperientes. Mas jurara pelo Estige, e a obstinação
de Faetonte o obrigou a manter a palavra Foi preciso, assim
resignar-se: quando as estrelas desapareceram e o crescente da
lua se apagou, o Sol ordenou às Horas que atrelassem os
cavalos, e Faetonte, encantado por segurar as rédeas e mostrar-
se, dessarte, ao mundo inteiro, saltou sobre o carro do pai._
Os quatro cavalos do Sol, enchendo o ar de rinchos e de
chamas, batem com a pata a barreira do mundo, cuja porta as
Horas abrem. Entretanto, percebem imediatamente que o carro
por eles puxado não traz o habitual condutor, e, abandonando a
estrada que ele os obrigava a seguir, perdem-se com espantosa
rapidez em caminhos desconhecidos. Faetonte, inquieto, começa
a empalidecer; mas quando notou o signo do Escorpião, que
parecia ameaçá-lo com a cauda recurvada e pontuda, o espanto
foi tal que abandonou as rédeas. Os cavalos, sentindo-as flutuar
no dorso, e vendo-se privados de guia, cedem ao impulso do
terror, e umas vezes se erguem até as estrelas do firmamento,
outras descem até a terra pela qual chegam a roçar. Já se seca a
relva, as árvores ardem, e terra se faz árida, as cidades desabam,
as florestas e as montanhas se incendeiam, inteiras regiões se
inutilizam para sempre, mares secam, e imensos desertos de
areia os substituem. Foi nesse dia que os habitantes da África
ficaram com a pele tostada. O Nilo, horrorizado, retira-se para as
extremidades do mundo, e oculta a sua nascente, que, desde
então, não pôde ser descoberta. As ninfas vêem as fontes secas,
os rios não têm mais água. Netuno, encolerizado, por três vezes
fura as águas do mar com os braços nervosos; e três vezes, o
calor o obriga a buscar um refúgio nas profundezas. (Ovídio).
Júpiter, verificando que a destruição do mundo seria geral,
quer fazer cair chuvas sobre a terra, mas já não encontra nem
nuvens, nem vapores. Pega então o raio e fulmina Faetonte, que
tomba do carro (fig. 236). O
infeliz Sol, vencido pela dor que lhe causa a morte do
filho, recusa-se a iluminar a terra, à qual só as brasas
serviram de luz durante algum tempo, e voltou a desempenhar
as funções exclusivamente por ordem expressa de Júpiter.

Fig. 236 — Queda de Faetonte (segundo uma pedra gravada,


museu de Florença).

As irmãs de Faetonte

As irmãs de Faetonte tiveram tal desgosto com a morte


do irmão que durante quatro meses não lhe abandonaram o
túmulo. Como não deixassem de chorar naquele lugar,
perceberam que os pés se lhes enraizavam na terra
e que o corpo se lhes cobria de casca. As lágrimas que corriam
das novas árvores se endureceram ao sol e tornaram-se gotas de
âmbar. Recebeu-as o Eridano e é ali que as vão buscar para o
fabrico das jóias com que se enfeitam as damas romanas.
(Ovídio).
Vemos em vários monumentos as Helíadas, irmãs de
Faetonte, chorando a morte do irmão e prestes a serem
metamorfoseadas em choupos. Rubens compôs sobre a queda de
Faetonte um quadro que se encontra em Viena na galeria
Lichtenstein. Na sua decoração do prédio Lambert, Lesuer
pintara Faetonte pedindo ao pai que o deixasse guiar o carro do
Sol. Finalmente, uma linda estátua de Teodonte, no museu do
Louvre, nos mostra Faetusa, uma das irmãs de Faetonte, no
momento da sua metamorfose (fig. 237).

O rei Cicno

O rei Cicno, que era amigo de Faetonte, foi testemunha de


tais prodígios. E ficou até de tal modo impressionado pela
catástrofe que atingiu o filho do Sol que, por ódio ao fogo, vivia
mergulhado na água fria. Como nunca deixasse a água, o corpo
acabou por se lhe transformar: os cabelos tornaram-se plumas
brancas, o pescoço se lhe alongou desmedidamente, os dedos se
reuniram um ao outro por uma membrana avermelhada, um fino
bico lhe substituiu a boca e grandes asas surgiram em cada lado
do corpo. Os deuses o tinham metamorfoseado em cisne.
Legou-nos a antiguidade alguns monumentos em torno
dessa lenda. Às vezes, vemos Faetonte estendido enquanto o
carro ainda inteiro está no meio dos ares, ou então o carro
despedaçado apresenta apenas uma roda e os cava-los,
terrorizados, fogem desordenadamente, Outras, o infeliz
condutor está ainda sobre o carro, mas o
movimento dos cavalos que se empinam dá a prever a sua
queda. Um baixo-relevo da Villa Borghese representa em várias
cenas a história de Faetonte. Num canto, em lugar elevado,
vemos Hélios, o Sol, trazendo a coroa radiada e segurando na
mão um facho e uma cornucópia. Seu jovem filho, posto na sua
frente, pede-lhe a licença fatal

Fig. 237 — Faetusa (segundo uma estátua do museu do Louvre).

e nos dois lados do monumento se nos deparam os dois ventos


opostos, que sopram em sentido contrário. Os cavalos arrastam
desordenadamente o carro desconjuntado: somente dois ainda se
acham atrelados, e são um pouco mantidos por Castor e Pólux,
os dois divinos cavaleiros,
reconhecíveis pelo barrete cônico. Na parte inferior, vemos no
lado direito, a Terra semi-deitada e perto dela os gênios das três
estações : na frente está o Mar segurando um remo, e a ele um
gênio apresenta uma concha. Entre eles, Júpiter e Juno
representam as divindades do ar. Segue-se o rio Eridano, de
costas voltadas para o mar, o qual recebe Faetonte, na queda
deste. Cicno chora a morte do amigo e conduz o cisne de cuja
forma se revestirá; segue-o o filho e as três irmãs de Faetonte,
que serão metamorfoseadas em choupos.
"O âmbar, se derdes crédito à lenda, diz Luciano, provém
das lágrimas vertidas pelos choupos do Eridano, que são as
irmãs de Faetonte, transformadas em árvores, de tanto chorar o
infeliz jovem, e destilando prantos que formam o âmbar.
Convencido da realidade da narração dos poetas, esperava eu
que. se uni dia me visse perto do Eridano, estenderia a borda da
minha túnica sob um dos choupos e recolheria algumas
lágrimas. Não há muito, obrigado a visitar o país por objetivo
inteiramente diverso, comecei a subir o Eridano; mas não
percebi nem choupos, nem âmbar, muito embora olhasse com
toda a atenção. Os habitantes nem sequer conhecem o nome de
Faetonte. Informo-me, pergunto quando chegaremos aos
choupos que destilam âmbar. Os barqueiros desatam a rir e
pedem-me que eu lhes explique com clareza o que pretendo
dizer. Conto-lhes a história de Faetonte. "Quem foi o mentiroso,
retrucam-me, quem foi o impostor que vos impingiu tudo isso?
Nunca vimos nenhum cocheiro cair aqui da boléia, e não temos
os choupos que nos atribuís. Crede-nos, se fosse verdade, como
haveríamos de nos cansar em remar por dois óbolos e a fazer
subir os barcos contra a correnteza do rio, se dependesse
exclusivamente de nós enriquecer-nos com a colheita das lágri-
mas desses choupos?" (Luciano).
CAPÍTULO XII

DIANA, IRMÃ DE APOLO

Tipo e atributos de Diana. — Diana


caçadora. — O castigo de Acteão. — As
ninfas de Diana. — Diana e Calisto.

Tipo e atributos de Diana

A irmã de Apolo, Diana (Artêmis) corresponde à lua, como


Apolo ao sol. A semelhança do crescente da lua com um arco
de ouro fez com que se lhe dessem os atributos de uma
caçadora. O arco e o facho são os seus característicos. O
penteado habitual de Diana é uma cabeleira amarrada num só
birote atrás da cabeça ou sobre a testa, segundo a moda
dórica. Originariamente, está envolta em longas vestes, e é
assim que se vê nas representações primitivas (fig. 238). Mais
tarde, modifica-se-lhe a vestimenta: na grande época da arte
está ela vestida com a curta camisola dórica. De pernas e
braços nus, corre nos bosques acompanhada das suas ninfas.
Freqüentemente, encontra-se no seu carro puxado
por cervos, ou então de pé e caminhando depressa, seguida do
seu animal predileto. Várias moedas representam a deusa ou os
seus atributos.

Fig. 238 — Diana (segundo uma estátua antiga do museu de Nápoles).

O hino antigo de Calímaco descreve exatamente os desejos


e as atribuições da deusa: "Cantemos Diana... (ai dos poetas
que dela se esquecem!) cantemos a deusa que se apraz em
lançar dardos, em perseguir gamos, em formar danças e jogos
no topo das montanhas. Lembremo-nos do dia em que Diana,
ainda criança, se achava sentada nos joelhos de Júpiter, e lhe
dirigia a sua prece. "Concede-me, ó meu pai, concede-me a
graça de permanecer sempre virgem e usar mais nomes que o
próprio Febo. Dá-me, como a Febo, um arco e flechas... Não,
meu pai, não cabe a ti armar tua filha; os ciclopes apressar-se-
ão em me preparar dardos, e aljava. Dá-me, porém, o atributo
distintivo de trazer fachos e revestir uma túnica
de franjas que só descera até os joelhos, para que me não veja
embaraçada durante a caçada. Destina ao meu séquito sessenta
filhas do Oceano, que tenham todas a idade em que ainda se não
usam cintos. Que outras vinte ninfas, destinadas a servir-me
nas horas em que eu deixar de ferir os linces e os cervos, se
incumbam dos meus coturnos e dos meus fiéis cães. Cede-me as
montanhas. Só peço uma cidade que será de tua escolha; Diana

Fig. 239 — Diana (segundo uma moeda antiga).

descera raramente às cidades. Habitarei os montes, e só me


aproximarei das cidades no momento em que as mulheres
torturadas pelas atrozes dores do parto, me chamarem em seu
auxílio. Sabes que no dia do meu nascimento, as Parcas me
impuseram a obrigação de as socorrer, porque o seio que me
gerou não conheceu a dor e se livrou sem sofrer do seu peso."
(Calímaco).

Fig. 240 — O cervo, atributo de Diana inuma moeda antiga).


Esse hino nos dá a explicação dos principais aspectos sob
os quais Diana está representada na arte. Dá-se-lhe o epíteto de
caçadora, quando persegue a caça ; chama-se Diana arcádia,
quando se banha com as ninfas nos frescos regatos da Arcádia,
Diana Lúcifer, quando traz fachos (fig. 241), Diana Ilitia, quando
preside ao nascimento das crianças.

Diana caçadora

Considerada deusa da caça, Diana está sempre armada das


suas flechas e da aljava. Catulo apresenta-a como soberana das
montanhas, dos bosques e dos rios; é sempre nos profundos
vales, à sombra das florestas ou na margem dos regatos que a
vemos aparecer em Virgílio, em Horácio e em geral em todos os
poetas. Nos baixos-relevos, nas moedas e nas pedras gravadas,
Diana está quase sempre representada em vestes de caçadora.
Tem habitualmente a atitude de pessoa que corre, segurando
com a mão esquerda um arco e levando a direita à aljava posta
às costas, como que para tirar dela uma flecha. Os cabelos,
amontoados num birote repousam sobre a

Fig. 241 — Diana Lúcifer.


testa, atrás da cabeça ou nu topo (fig. 242). A veste não desce até
os joelhos; pelo contrário, deixa-lhe descoberta uma parte da
coxa. Vemos que se trata de costume feito para em nada
atrapalhar a rapidez da corrida. Muitas vezes está a deusa
acompanhada de um cão ou de um cervo, mas o cervo, assim
como o cão, parece também perseguir outros animais, e figura
como companheiro de Diana, cuja agilidade ele simboliza.

Fig. 242 — Diana (segundo um busto antigo).

Entre as numerosas representações que a arte antiga nos


deixou dela, a mais famosa é a Diana e a corça do Louvre (fig.
243). Está ornada de um diadema e os seus cabelos se acham
amontoados no toutiço. A deusa, representada no momento de
uma veloz corrida, está coberta por uma túnica curta
delicadamente pregueada
Fig. 243 — Diana e a corça (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre).
que lhe deixa nus os braços e as pernas. A manta, atirada à
guisa de echarpe para cima do ombro, prende-se como cinto
sobre os quadris. Com a mão direita ela tira uma flecha da
aljava, ao passo que a esquerda empunhava provavelmente um
arco. A corça Cerinéia, cujas pontas eram de ouro, acompanha a
deusa, de quem era o animal favorito. Existem várias cópias
desse tipo, mas a estátua do Louvre é a mais bela.
Os escultores dos últimos séculos representam fre-
qüentemente Diana caçadora, e por vezes caíram no erro de
mostrá-la inteiramente nua. A nudez de uma mulher que corre
dificilmente se presta à plástica: não obstante, Houdon fez uma
graciosa figura com a sua Diana caçadora, que não tem outras
vestes senão o arco e as flechas (fig. 244). Na sua obra-prima do
Louvre (fig. 245),

Fig. 244 — Diana (estátua de bronze, no Louvre).


Fig. 245 - Diana (segundo um grupo de Jean Goujon, museu
do Louvre).
Fig. 246 — Diana de Gábies (estátua antiga, museu do Louvre).
Jean Goujon afasta-se menos da tradição mitológica, pois a
deusa está representada na atitude de repouso, acariciando o
cervo ao sair do banho. As tranças ornadas de jóias que o artista
pôs no trabalho são um penteado do século dezesseis, mas nada
prova que o rosto seja, como se tem pretendido, um retrato de
Diana de Poitiers.

O castigo de Acteão

Na arte antiga, Diana nunca aparece nua, pelo simples


motivo de que, quando se banha, nenhum ser humano a pode
contemplar impunemente: a história de Acteão é a prova. "Num
vale consagrado a Diana e sombreado de pinheiros e de ciprestes
havia um antro sombrio; embora tivesse sido formado apenas
pela natureza, todos o teriam tomado por obra de arte. Via-se
nele uma abóbada de conchinhas e pedras pomes; à direita
dessa arcada corria com doce murmúrio uma fonte de água
límpida, entre duas margens cobertas de relva e grama. A deusa
das florestas, quando se via fatigada, vinha banhar-se em tão
encantador regato. Ao chegar, entregava às companheiras o arco,
as flechas e a aljava, enquanto outras ninfas lhe desatavam os
coturnos e lhe prendiam os longos cabelos. Um dia, o caçador
Acteão, percorrendo o bosque, foi conduzido pela má sorte ao
lugar em que a deusa se banhava. Mal chegou à fonte. as ninfas,
percebendo que se expunham nuas ao olhar de um homem,
gritam e alinham-se em torno de Diana com o fito de ocultá-la:
mas a deusa, maior que as ninfas, ultrapassava-as por unia
cabeça. Um subitâneo rubor lhe cobriu o rosto que ela ocultou
imediatamente, e, não estando munida das suas flechas,
guardadas sob um arbusto, lançou algumas gotas de água sobre
a cabeça de Acteão ao mesmo tempo em que dizia: "Vai agora. se
podes, gabar-te de teres visto Diana banhar-se." Nu
mesmo instante, a cabeça do infeliz caçador se cobre de pontas,
o pescoço e as orelhas se lhe alongam, os braços se lhe tornam
pernas compridas e finas, e todo o seu corpo se cobre de uma
pele manchada. No coração, penetra-lhe, simultaneamente,
desconhecida timidez, e fugindo, ele se admira da velocidade com
que corre. Chegando à margem de um rio, vê a cabeça no cristal
da água e nota que está metamorfoseado em cervo. Quer gritar e
não encontra palavras humanas para exprimir-se. Enquanto
assim geme, os seus próprios cães o percebem e tombam sobre
ele. Acteão quer fugir, mas é atingido e dilacerado nos mesmos
lugares em que tantas vezes caçara." (Ovídio).
A arte nunca representa Acteão sob a forma de cervo, mas
somente com os seus rudimentos de pontas que

Fig. 247 — Acteão, devorado pelos seus cães (segundo uma estátua
antiga do museu Britânico. em Londres).
começam a crescer. É assim que ele aparece numa antiga
estátua do British Museum (fig. 247) e em vários baixos-relevos,
notadamente numa métopa de Selinonte.
A mesma cena está representada em vários quadros
famosos. Ticiano tinha oitenta anos quando pintou para Filipe II
o célebre quadro Diane e Acteão. Segundo um hábito bastante
freqüente na escola veneziana, enriqueceu a sua composição
com arquiteturas, e a cena se passa numa fonte circular, sob um
pórtico abobadado

Fig 248 — Acteão (segundo um baixo-relevo antigo).

sombreado por grandes árvores. Filippo Lauri, Poelenburg,


Albane, também houveram por bem reproduzir o tema que
convinha à natureza do seu talento: o museu do Louvre possui
três telas de Albane, sobre a metamorfose de Acteão (fig. 250). No
quadro que Lesueur pintara em aguada para a decoração do
prédio Lambert, a metamorfose de Acteão não está ainda pronta,
e o jovem caçador se detém ao perceber as banhantes (fig. 249).
O artista preferiu escolher o instante em que o pudor de Diana
se ofende, e não o instante em que a sua vingança se realiza. A
decoração ornava a sala de banhos do prédio, e o tema se
adequava perfeitamente. Depois. a sala tornou-se o quarto de
Voltaire. e foi com este nome que passou a ser conhecida.
As ninfas de Diana

Diana está freqüentemente acompanhada por ninfas;


preside-lhes aos jogos e doideja com as companheiras ao
longo dos regatos que refrescam s vales da Arcádia.

Fig. 249 — Diana surpreendida por Acteão (segundo um quadro


de Lesueur).

O banho de Diana e das suas ninfas constitui o tema de


uma multidão de quadros dos últimos séculos. Poelenburg
fez dele uma especialidade; Rubens também o fixou várias
vezes. Num célebre quadro da galeria Borghese, em Roma,
outro artista reuniu as ninfas de Diana em exercício de tiro
com arco. Um pau está fincado no campo para servir de alvo,
e a deusa, empunhando a sua arma, anima as
companheiras nos exercícios. No primeiro plano, algumas
ninfas se banham ou desatam os coturnos para mergulhar
na água.
A Diana de Gábies, uma das pérolas do museu dos
Antigos, no Louvre, mostra a deusa ocupada em vestir-se,
sem dúvida após o banho. Prende as duas extremidades da
manta com uma fivela sobre o ombro direito; a cabe-leira,
ondulada, está rodeada por uma faixa. Alguns arqueólogos viram
nessa bela estátua não a deusa, mas somente uma das ninfas do
seu séquito, e com efeito, ela não traz os atributos comuns de
Diana, mas se liga evidentemente ao séquito pelo seu costume e
pelo aspecto (fig. 246).

Diana e Calisto

As ninfas de Diana são sempre castas, e a deusa é


implacável nesse ponto. A ninfa Calisto que fazia parte do seu
cortejo experimentou um dia os efeitos da severidade da ama.
Um dia, enquanto Diana se banhava, percebeu que Calisto não
era mais digna de servi-la e a expulsou ignominiosamente da sua
presença.
Os rigores de Diana para com a pobre Calisto sugeriram mil
idéias graciosas aos artistas, e poucos temas foram tratados
mais freqüentemente pelos pintores, desde a Renascença.
Ticiano compôs um soberbo quadro representando Diana a
expulsar Calisto cuja falta ela descobriu. Rubens também tratou
várias vezes o mesmo assunto. Albane o concebeu de maneira
que lhe é toda particular. Mostra-nos ele um bando de Amores
adormecidos sobre coxins no meio de uma floresta. Mas as
ninfas de Diana, descobrindo-os, vêm desarmá-los durante o
sono. Uma delas se incumbe de cortar as asas de um pobre
Cupidozinho, outra lhe parte o arco, mais outra foge com a
aljava. Diana preside a tal pilhagem do alto do céu, onde repousa
sobre nuvens, enquanto a triste Calisto, repelida pelas
companheiras, desaparece solitária no fundo do quadro. Lesueur
também fez uma graciosíssima composição sobre Diana e
Calisto.
A vingativa Juno. incapaz de perdoar a Calisto ter agradado
a Júpiter, metamorfoseou-a em ursa. Calisto
tivera de Júpiter um filho chamado Arcas, que se tornara hábil
caçador. Um dia, atirou-se ele à perseguição de uma ursa, que
era precisamente sua mãe. Esta, vendo-se perseguida pelo
filho, refugiou-se ao pé de um templo de Júpiter; mas antes de
atingir o sagrado asilo, o jovem caçador viu-se no ponto
adequado para lançar o dardo: o pai dos Deuses e dos homens,
não podendo permitir semelhante ação na vizinhança do seu
templo, transformou Calisto em constelação, e está aí a origem
da Grande Ursa.
Juno indignou-se com a honra prestada a uma criatura a
quem odiava, mas, visto que nenhum deus pode desfazer o que
outro faz, foi visitar Tétis, que é uma personificação do mar, e
rogou-lhe que não desse acolhida a Calisto, como costuma
fazer para as demais estrelas. É por isso que a Grande Ursa é
sempre visível e jamais desce abaixo do horizonte.

Fig. 250 — Diana e Acteão (segundo um quadro de Albani).


CAPÍTULO XIII

DIANA DE ÉFESO

O tipo de Diana de Éfeso. — As


amazonas.

O tipo de Diana de Éfeso

Diana de Éfeso, personificação assaz vaga da fecundidade


da natureza, é uma divindade puramente asiática, e não tem
nenhuma relação com a irmã de Apolo, nem na arte, nem na
lenda. As amazonas haviam instituído o seu culto em Éfeso,
onde ela dispunha de magnífico templo, considerado uma das
sete maravilhas do mundo. A deusa, cujo emblema era a abelha,
tinha ali uma antiga imagem veneradíssima, apresentando a
forma de múmia. Os seus numerosos úberes indicam a
fecundidade da terra, e as cabeças de bois de que está coberta
simbolizam a agricultura.
As amazonas

As amazonas são mulheres guerreiras de grandíssima


importância na mitologia e na arte. Segundo a tradição, as
amazonas guerreiam durante um tempo determinado,
conservando a virgindade. Quando o tempo do serviço militar
está findo, casam-se para ter filhos; além disso, preenchem
todas as magistraturas e funções públicas. Os

Fig. 251 — Diana de Éfeso (segundo uma estátua antiga).

homens passam a vida em casa, como alhures as donas de casa,


e só se incumbem de trabalhos domésticos; são afastados do
exército, da magistratura e de qualquer outra função pública que
possa inspirar-lhes a idéia de libertar-se do jugo das mulheres.
Quando nasce uma criança, as amazonas confiam-na aos
cuidados dos homens que as nutrem com leite e outros
alimentos
convenientes à idade delas. Se a criança é do sexo feminino,
queimam-se-lhe as mamilas, com o fito de impedir que tais
órgãos se desenvolvam com o tempo. As mamilas salientes
seriam incômodas para o manejo do arco. Os escultores, todavia,
não levam em conta esse uso, e nas suas estátuas, as amazonas
têm sempre belíssimos seios.

Fig. 252 — Amazona combatente.

Atribuía-se a essas heroínas a fundação do templo de Éfeso,


e ali se realizou famoso concurso para lhes honrar a lembrança.
Fídias, Policleto, Fradmon, Clesilas figuravam entre os
concorrentes, que receberam a difícil missão de designar, eles
próprios, o vencedor. Cada um deles colocou, evidentemente, em
primeiro lugar o seu
trabalho ; mas como o voto dos rivais fura unânime em dar a
Policleto o segundo lugar, obteve ele o primeiro e Fídias o
segundo.
A bela estátua da Amazona do Vaticano passa por imitação
da que foi julgada vitoriosa e que se via no templo de Éfeso. É,
com Amazona ferida, do museu de Nápoles, a mais bela
representação que conhecemos de tais heroínas.
Em geral, os escultores apresentam as amazonas com os
braços e as pernas nuas e uma curta camisa a deixar-lhes
descoberto um dos seios. Às vezes, aparecem elas com uma
fisionomia oriental, caracterizada pelas calças e pelo gorro frígio;
assim é que figuram no célebre sarcófago do museu de Viena,
onde combatem contra guerreiros nus e de capacete. A presença
das amazonas nos sarcófagos parece ter sido homenagem ao
valor do morto. O machado, o dardo, o arco, a lança, o escudo de
dupla face, são as suas armas. Mas o costume de tais heroínas
não é o mesmo nas estátuas e nos vasos, onde se lhes vêem
freqüentemente vestes matizadas e calças colantes (fig. 253).

Fig. 253 — As amazonas (segundo um vaso pintado, do museu


de Nápoles).

A Batalha das amazonas, de Rubens, em Munique, é um


dos mais famosos quadros do grande mestre flamengo.
As amazonas estão ligadas a todas as tradições nacionais
da Grécia e vemo-las alternadamente em luta com Hércules ou
Teseu. É na guerra de Tróia que elas surgem pela última vez.
Inimigas fidalgais dos gregos, são sempre vencidas, e o
vencedor, vendo-as tombar, admira-se com o extraordinário
valor delas. Entre as lendas heróicas dos gregos, nenhuma lhes
inspirava maior vaidade que

Fig. 254 — Os gregos e as amazonas (segundo um vaso pintado).

a luta contra as amazonas. Atenas e Megara mostravam com


orgulho o túmulo das suas rainhas, perto dos heróis que as
haviam vencido, e os seus gloriosos combates eram por toda
parte representados nos frisos ou nas métopas dos templos.
As estátuas apresentam as amazonas com-batendo umas
vezes a pé, outras a cavalo.
Hércules foi o primeiro que combateu com as amazonas e
as venceu. Assim, depois da sua apoteose, vemo-lo
figurar ao lado dos deuses protetores da Grécia nos com-bates
que se desenrolaram posteriormente. Num vaso pintado,
representando um combate entre gregos e ama-zonas, depara-
se-nos, na parte superior, Hércules deificado, na companhia de
Minerva, Apolo e Diana (fig. 254). Diana era a protetora das
amazonas, e M. Guigniaut faz observar, a propósito desse vaso,
que a aliança entre deuses e cultos parece representar a que
formaram final-mente, após demoradíssima luta, os colonos
jônicos e os indígenas asiáticos, primeiros adoradores de Diana
de Éfeso.
CAPÍTULO XIV

A LUA

A marcha da Lua. — O sono de


Endimião. — O deus Luno.

A marcha da Lua

A Lua (Selene) é irmã do Sol (Hélios), e percorr os ares num


carro seguindo o mesmo caminho que o irmão. Como ele, sai do
rio Oceano, do lado do Oriente, e ali torna a mergulhar pelo lado
oposto mal surge a Aurora. Em antigos monumentos vemos a
Lua deitar-se, e o rio Oceano, apoiado na sua uma, se apresta a
recebê-la. Selene tem sido freqüentemente identificada com
Diana, assim como Hélios com Apolo, mas é a ela que se
relaciona a lenda de Endimião.
O sono de Endimião

O sono foi personificado na mitologia pela personagem de


Endimião, que, naturalmente, foi amado pela lua. A lenda de
Endimião, diversíssima, apresenta-o umas vezes como rei cujo
irresistível poder se estende sobre todas as criaturas vivas,
outras como jovem pastor adormecido nas grutas do monte
Latmo. Filho querido de Júpiter, obtivera do senhor dos deuses a
graça de dormir eternamente sem despertar e sem envelhecer.
O jovem pastor do monte Latmo era tão belo que a lua por
ele se apaixonou, e não mais conseguia deixar de contemplá-lo.
Com os seus furtivos raios roubava-lhe um beijo, sem lhe
perturbar o repouso. A cena está freqüentemente representada
nos baixos-relevos e nas pinturas antigas. Às vezes, vemos
Endimião adormecido nos

Fig. 255 — Diana precedendo a Aurora (segundo um vaso pintado).

braços de Morfeu, e Selene, conduzida pelo Amor, desce do seu


carro para o contemplar. Os sarcófagos apresentam com
freqüência esse tema, e o artista não deixa de ali introduzir o
menino alado que segura o facho de cabeça para baixo, como
símbolo simultâneo do sono ou da morte.
Na arte dos últimos séculos, a lenda de Endimião foi
interpretada poeticamente por Girondet: enquanto o jovem
caçador dorme sob espessa folhagem, o Amor afasta, sor-ridente,
um ramo para deixar passar o raio indiscreto da lua que vem
tombar sobre o vulto de Endimião.

O deus Luno

A lua aparece, em alguns monumentos antigos, sob a forma


de adolescente (Luno) do sexo masculino. Está caracterizado pelo
crescente e, às vezes por um facho ou uma montanha que ele
segura com a mão (fig. 256). Não há lenda mitológica que se
relacione a essa divindade que é de origem frigia.

Fig. 256 — O deus Luno (segundo unja pedra gravada antiga).


CAPÍTULO XV

A AURORA

As portas do Oriente. — Titão e a Aurora.


— Céfalo e Prócris. — O gigante Orião.

As portas do Oriente

A Aurora é irmã de Hélios e de Selene. Ela é que todas as


manhãs abre as portas do Oriente; percorre o mundo num carro
puxado por dois ou quatro cavalos e obriga a Noite a depor o
véu. A Aurora é alada, e a sua atrelagem é rosada como
lembrança dos matizes com os quais tinge o horizonte. Empunha
um facho, numa linda pedra gravada (fig. 257) ; numa pintura de
vaso vêmo-la no seu carro, e precedida de Diana Lúcifer (fig.
255). Dizem os poetas que ela semeia flores sob os seus passos,
e Thorwaldsen a representou assim com um Amor segurando um
facho sobre a cabeça (fig. 258). A famosa pintura de Cherchin,
na Villa Ludovisi, gravada sob o
título de Carro da Noite, representa a Aurora deixando escapar
flores por entre os dedos.

Fig. 257 — A Aurora conduzindo os cavalos do Sol (segando uma


pedra gravada antiga).

Fig. 258 — A Aurora (por Thorwaldsen).


Titão P a Aurora

Titão é habitualmente considerado esposo da Aurora ; não


pertencia à estirpe dos deuses, mas a Aurora obteve para ele a
imortalidade. Porém, tendo-se esquecido de pedir ao mesmo
tempo a mocidade, Titão de tal maneira envelheceu, a sua
decrepitude foi tão horrível e o tornou tão infeliz que a Aurora,
apiedando-se, o metamorfoseou em cigarra. Desde esse dia, a
Aurora não cessa de chorar e as suas lágrimas constituem o
orvalho matutino. Memnon, que foi morto por Aquiles na guerra
de Tróia, era filho de Titão e da Aurora.

Céfalo e Prócris

Segundo outras tradições, o Orvalho, personificado em


Prócris, era pelo contrário rival da Aurora, pois ambas amavam
Céfalo, que os mitólogos modernos consideram o sol nascente
personificado. Céfalo, que amava Prócris tanto quanto era por
ela amado, desposou-a.
Céfalo era tão belo que a Aurora não se cansava de o
admirar. Num quadro de Guerin, vemos a Aurora, deixando
escapar por entre os dedos as rosas que ela faz nascere
soerguendo o véu da Noite para contemplar Céfalo adormecido.
Uma pintura de vaso de estilo arcaico nos mostra a Aurora
correndo empós de Céfalo que foge a toda velocidade (fig. 259),
pois, amando Prócris, não desejava abandoná-la, nem sequer por
uma deusa.
A Aurora, verificando que nada podia decidir Céfalo a unir-
se-lhe, imaginou um estratagema para o separar
de Prócris. Afirmou-lhe, assim, que o Amor que tinha à mulher
não era correspondido e, a fim de lhe permitir uma prova, deu-
lhe a faculdade de mudar de fisionomia. Céfalo, atormentado
pelo ciúme, fingiu abandonar a esposa e voltou ao cabo de algum
tempo com um rosto e um porte diferentes. Encontrou Prócris
debulhada em

Fig. 259 — A Aurora e Céfalo (segundo uma pintura de vaso).

lágrimas e recusando-se a ver quem quer que fosse; mas


quando soube que chegara um forasteiro que se dizia amigo do
marido, acolheu-o na esperança de ouvir ao menos falar
daquele a quem amava e que a deixara sem motivo. Céfalo,
curioso por impelir a aventura até o fim, tanto fez que
conseguiu convencer Prócris a aceitar novo himeneu; mas nem
bem havia ela proferido o sim que Céfalo se revestiu do seu
verdadeiro aspecto. Prócris, confusa, fugiu para os bosques e
tomou a resolução de nunca mais rever o esposo e de
consagrar-se ao culto de Diana.
A Aurora rejubilou-se com o resultado do ardil, esperando
substituir Prócris no coração de Céfalo. Mas Diana não
entendeu assim: entregou a Prócris uma aljava e flechas
maravilhosas que sempre atingiam o alvo e, tornando-a
inteiramente irreconhecível mediante a transformação a que lhe
submeteu a fisionomia, mandou que tentasse com Céfalo a
mesma experiência que Céfalo tentara com ela. Prócris
obedeceu e, aproximando-se de Céfalo, que não podia
reconhecê-la, mostrou-lhe as suas maravilhosas setas, que
pretendia levar como dote ao
marido. Enfim, houve-se tão bem que levou Céfalo a lhe propor
um himeneu e, mal ele consentiu, ela readquiriu o aspecto
primitivo.
Verificou-se a reconciliação; mas Prócris, com ciúmes da
Aurora cuja paixão lhe era conhecida, tomou o partido de
acompanhar o marido para onde ele se dirigisse, inclusive à
caça. Um dia, estando ela no meio de urzes, Céfalo ouviu um
ruído que lhe pareceu o de uma corça, e, atirando o dardo,
matou a infeliz Prócris. Desesperado, lançou-se ao mar, perto do
promontório de Leucádia.
Os mitólogos apresentam Céfalo como uma das nume-rosas
personificações do sol nascente na mitologia grega; é
simultaneamente amado pela Aurora e pelo Orvalho (Prócris),
mas não pode unir-se à Aurora, por mais que esta faça, ao passo
que busca avidamente o frescor do Orvalho, e o mata com os
seus tórridos raios.
Rúbens pintou a morte de Prócris. O pintor alemão
Elzeimer, que vivia pelo fim do século XVII, apresentou um estilo
tudesco na sua composição de Céfalo e Prócris. No meio de uma
paisagem, na qual todas as folhas estão minuciosamente
estudadas, vemos Céfalo ocupado em

Fig. 260 — Prócris e o seu cão (segundo uma pedra gravada antiga).
colher ervas medicinais para curar Prócris a quem acaba de ferir.
O holandês Poelenburg compreendeu melhor o tema : a sua
Prócris é verdadeiramente bela, e o gracioso movimento que faz
ao morrer parece uma censura dirigida ao amante que a
confundiu com uma corça.

O gigante Orião

A lenda não parou aí no tocante à Aurora, a quem atribui


ainda outras aventuras. Parece que ela agradara ao deus Marte,
e Vênus, por ciúme, lhe provocou inúmeros dissabores. Assim,
inspirou-lhe uma paixão pelo gigante Orião. Esse gigante viera
ao mundo em circunstâncias inteiramente excepcionais.
Seu pai era viúvo e sem filhos; prometera à mulher
agonizante que não tornaria a casar-se. Júpiter, Netuno e
Mercúrio chegaram um dia à sua cabana para pedir-lhe
hospitalidade, e o bom homem lhes sacrificou um boi que era
tudo quanto lhe pertencia. Comovidos, os deuses prometeram-
lhe satisfazer-lhe o desejo que apresentasse, e o desejo do ancião
foi ter um filho sem o concurso de mulher. nenhuma. Os deuses,
que nunca se embaraçam, lhe ordenaram que enterrasse a pele
do boi sacrificado, e não tocá-la durante nove meses. Na devida
época, o peque-nino recém-nascido foi encontrado na terra, em
lugar da pele de boi, e recebeu de seu pai o nome de Orião,
Já crescido, ou melhor gigantesco, uma vez que a cabeça
lhe atingia as nuvens, Orião apaixonou-se por Merope, filha de
Enopião, e pediu-a em casamento. Irritado pela recusa, raptou-a.
Enopião suplicou a Baco que não deixasse sem vingança o
ultraje; o deus enviou a Orião um profundo sono, durante o qual
Enopião lhe vazou os olhos. Entretanto, tendo um oráculo
predito a Orião que ele recobraria a vista com os primeiros raios
do sol nascente, voltou-se ele para o lado do Oriente, e foi sem
dúvida em tal ocasião que a Aurora, ao nota-lo, concebeu por ele
paixão tão viva que não hesitou em raptá-lo.
A união não durou muito, pois Apolo, percebendo que
Diana tinha certo pendor por Orião e temendo que ela cedesse,
fingiu um dia duvidar da habilidade da irmã no manejo do arco
e, mostrando-lhe sobre o mar um ponto negro que mal se
distinguia no horizonte, perguntou-lhe se seria capaz de acertá-
lo. Diana disparou a seta que atingiu Orião na cabeça, pois era
ele que estava nadando sem prever o perigo iminente. Foi assim
que Aurora, sempre infeliz no Amor, mais uma vez enviuvou. De
resto, Orião, após a morte, foi transformado numa brilhante
constelação que se representa sob a forma de homem armado de
gládio.
CAPÍTULO XVI

OS CREPÚSCULOS

O cisne de Leda. — Castor e Pólux. —


Hilária e Febe. — A imortalidade
partilhada. — A estrela da tarde e a
estrela da manhã.

O cisne de Leda

Os crepúsculos personificados, Castor e Pólux, vieram ao


mundo num ovo. Uma pintura de Herculanum representa-lhes
a mãe Leda, mostrando o ovo que contém os meninos, ao
esposo Tíndaro, rei de Esparta.
Leda agradara a Júpiter. O rei dos deuses, desejando
aproximar-se dela, metamorfoseou-se em cisne e rogou a
Vênus que se transformasse em águia e que fingisse persegui-
lo sem quartel. O cisne assim perseguido acercou-se das
margens do Eurotas e, no momento em que a águia ia atingi-lo,
refugiou-se ao pé de Leda, como que a pedir-lhe proteção. Leda
afugentou a águia, e o cisne
começou a bater as asas e ficou perto da protetora, para lhe ciar
provas do seu júbilo e do seu reconhecimento. Um grande
número de monumentos antigos, e sobretudo algumas pedras
gravadas, representam Leda ao lado do cisne. Os pintores dos
últimos séculos viram no tema um pretexto para opor a carnação
branca de uma mulher à plumagem ainda mais branca do cisne.
Correggio pintou Leda rodeada de suas companheiras e
brincando com o cisne. Paolo Veronese e Tintoretto também
representaram a cena; mas os venezianos não se importavam
muito com grande exatidão nas suas representações mitológicas.
Em vez de colocarem a aventura nas margens do Eurotas,
Tintoretto a coloca num aposento, e Leda, achando sem dúvida
que tão grande ave deve ser incomoda num recinto daqueles,
parece ordenar à criada que a instale num galinheiro onde já se
encontram outras aves. Um cãozinho salta atrás do cisne
importuno.

Castor e Pólux

Castor e Pólux eram gêmeos. Mas Castor, filho de Tíndaro e


de Leda, era mortal, enquanto Pólux, filho de Júpiter, tinha o
privilégio da divina imortalidade. Chamam-se indistintamente
Dióscuros, ou seja, filhos de Júpiter, ou então Tindárides, ou
seja, filhos de Tíndaro. Os dois heróis se distinguiram na grande
expedição dos argonautas. Pólux matou o terrível Amico, filho de
Netuno e rei dos bebrícios, que possuía uma extraordinária força
e obrigava os forasteiros a lutar contra ele, para matá-los depois
de os vencer. A famosa luta, e várias vitórias obtidas nos jogos
que Hércules fez celebrar em Elida, fizeram com que Pólux
passasse a ser considerado patrono dos atletas e do pugilato.
Uma belíssima estátua do Louvre representa Pólux preparando-
se para a luta.
Castor distingiu-se na corrida e na arte de domar cavalos.
Dois grupos antigos famosíssimos em Roma, representando os
Dióscuros, passavam antigamente por ser um de Fídias, outro de
Praxíteles: mas essas atribuições

Fig. 261 — Castor e Pólux (pedra gravada).

parecem hoje arbitrárias. Cada um dos dois heróis está ao lado


do seu cavalo.
A equitação e a navegação sempre estiveram ligadas na
mitologia, e o cavalo era consagrado a Netuno. Vemos os
Dióscuros, conhecidos como excelentes cavaleiros, exercendo o
seu poder sobre o mar. Talvez isso se relacione

Fig. 262 — Castor e Pólux.

também com a sua expedição dos argonautas e a destruição dos


piratas que a tradição lhes atribuía. Durante a tormenta que
assaltou os argonautas, vimos dois fogos
pairar em torno da cabeça de Castor e Pólux, e um momento
depois a tempestade cessou. Os fogos de Castor e Pólux
apareceram, depois, freqüentemente no mar nas horas de
tormenta.

Hilária e Febe

Idas e Linceu, heróis messênios, eram noivos de Hilária e


Febe, filhas de Leucipo. Mas s dois heróis espartanos, Castor e
Pólux, apaixonaram-se pelas duas jovens e tentaram raptá-las.
Seguiu-se um combate terrível, porque os heróis messênios não
estavam dispostos a permitir que lhes raptassem as noivas. É
fácil ver nessa tradição uma lembrança das antigas rivalidades
entre Esparta e Messena.
O rapto de Hilária e Febe está representado num vaso
pintado. Uma delas era sacerdotisa de Diana, a outra de
Minerva. Uma imagem hierática de Diana figura no alto e no
centro da composição. De um lado da deusa vemos um carro
lançado a galope, no qual Pólux rapta Hilária. Do outro, Crisipo,
o áuriga de Castor, montado num carro parado, aguarda Castor
que traz nos braços uma jovem. Castor está na parte inferior da
composição ao lado de um altar perto do qual se acha sentada
Vênus. Júpiter e três deuses assistem à cena.
O rapto das filhas de Leucipo pelos irmãos de Helena
ministrou a Rubens o tema de um admirável quadro, que se
encontra em Munique. As duas jovens oferecem aos gêmeos
vigorosa resistência, e, caídas que estão ao chão as suas vestes,
vê-se o frêmito dos seus lindos corpos, que os heróis arrebatam
com braços vigorosos, para os colocar sobre os cavalos, perto dos
quais paira o Amor (fig. 263).
A imortalidade partilhada

No combate que se feriu entre Idas e Linceu de um lado e


os Dióscuros de outro, em torno das filhas de Leucipo, Castor,
atingido por golpe mortal, foi o primeiro

Fig. 263 — Rapto de Hilária e Febe por Castor e Pólux (quadro


de Rubens. museu de Munique).

que sucumbiu. "Mas Pólux, diz Píndaro, acorre imediatamente e


põe em fuga os heróis messênios que, no entanto, se detêm
perto do túmulo de seu pai. Ali, pegando uma estátua de Plutão,
feita de mármore polido, atiram-na
contra o peito de Pólux. Em vez de recuar o herói nem sequer
estremece com o choque; e agarrando sem perda de tempo um
dardo cai sobre Linceu e enfia-lho no quadril. No mesmo
instante, Júpiter lança sobre Idas o seu raio vingador, e num
turbilhão de chamas e de fumaça, consome os restos mortais dos
dois irmãos, tal é a temeridade de medir forças com um ente
mais poderoso! Entretanto, o generoso Pólux acorre ao pé de
Castor, encontra-o respirando com dificuldade e prestes a exalar
o derradeiro suspiro. Banha-o de lágrimas, e no excesso de dor,
brada: "Filho de Saturno, ó meu pai ! Qual será o fim da minha
desgraça? Faze-me morrer com meu irmão; que encanto pode
haver na vida quem perdeu o que lhe é mais caro?"
"Assim Pólux dava vazão aos seus amargos queixumes.
Subitamente, Júpiter se lhe apresenta: "Tu és meu filho, diz-lhe,
mas teu irmão nasceu de um mortal. Dou-te a escolher dois
partidos: consente em partilhar da morada dos deuses com
Minerva e Marte, livre da morte ou dos aborrecimentos da
velhice, ou então, por Amor a teu irmão, consente em ligar-te ao
seu mortal destino, passando alternadamente, como ele, a
metade da vida na noite do túmulo e a outra metade no palácio
resplendente do Olimpo." Assim fala Júpiter, e Pólux não hesita.
Imediatamente, Castor torna a abrir os olhos à luz, e a sua voz
começa a fazer-se ouvir." (Píndaro).
Castor e Pólux, que vivem e morrem alternadamente,
formam no céu a constelação dos gêmeos.

A estrela da tarde e a estrela da manhã

Consideram-se também como a personificação da estrela da


tarde e da estrela da manhã. Os Dióscuros tinham templos em
várias cidades. Polignoto representara-lhes o casamento com as
filhas de Leucipo; Micon
fixou-lhe o embarque na expedição dos argonautas. Plínio elogia
o quadro de Apeles que os representava e que se via em Roma.
Em várias medalhas figuram como deuses jovens ornados de um
capacete cônico sobre o qual brilha uma estrela (fig. 265).
Quando aparecem aos homens, é

Fig. 264 — Castor e Pólux (segundo um grupo antigo. em Madri).

Fig. 265 — Castor e Pólux


quase sempre a cavalo, e é por tal motivo que o cavalo constituiu
quase sempre o seu atributo. Um grupo antigo, famoso,
representa Castor e Pólux de pé, um dos dois irmãos segura dois
fachos, um dos quais está de cabeça para baixo (fig. 264). É um
soberbo trabalho de escultura, mas de significado simbólico
assaz obscuro.
LIVRO IV

VULCANO E MINERVA
CAPÍTULO I

VULCANO

Nascimento de Vulcano. — Tipo e


atributos de Vulcano. — Vingança de
Vulcano. — Os fios de Vulcano. — As
forjas de Vulcano. — Os ciclopes.

Nascimento de Vulcano

Vulcano (Hephaistos), filho de Júpiter e de Juno, nasceu


fraco e corcunda. Juno, envergonhada de ter dado à luz uma
criança tão feia, atirou-o ao mar, onde ele foi recolhido por Tétis
e Eurinoma (fig. 266). Passou nove anos a fazer jóias para as
Nereidas. No entanto, subiu ao Olimpo, mas tendo assistido a
uma disputa entre Júpiter e Juno, desejou tomar o partido de
sua mãe. O rei dos deuses pegou-o por um dos pés e precipitou-
o do Olimpo. Vulcano rolou durante todo o dia no vácuo e caiu,
ao entardecer, na ilha de Lemnos, com apenas um sopro de
vida.
Fig. 266 — Tétis e Eurinoma recolhem Vulcano precipitado por sua
mãe do alto do Olimpo (segundo Flaxman).

Fig. 267 — Vulcano (segundo uma estátua antiga),


Vulcano é o fogo personificado: se é pequeno e mirrado ao
nascer, é porque o fogo começa sempre por uma faísca. Se é
precipitado do céu à terra, é por alusão ao raio. Finalmente, é
corcunda e tem pernas tortas, porque a chama nunca apresenta
linhas retas. Como a indústria nasceu do descobrimento do fogo,
Vulcano é o deus da indústria, e apresenta sob essa relação
grandes afinidades com Prometeu. Conservou-se na Antologia
um epigrama votivo de um ferreiro a Vulcano:
"Retirai da fornalha este martelo, estas tesouras, esta pinça,
oferenda que Polícrates dedicou a Vulcano. Foi com redobrados
golpes do seu martelo sobre a bigorna, que arranjou para os
filhos uma fortuna que deles afastará a triste miséria."

Tipo e atributos de Vulcano

Os poetas representam Vulcano com as feições de um hábil


ferreiro, mas ao mesmo tempo burlesco no aspecto, assaz
ridículo aos olhos dos Olímpicos, corcunda e de conformação
viciosa. Nos tempos primitivos, era representado sob a forma de
anão, mas nos belos tempos da arte passou a ser homem
vigoroso e barbudo, com um capacete cônico tendo como
atributos as ferramentas de ferreiro.
"Os que vão a Atenas, diz Valério Máximo, ali admiram a
estátua de Vulcano feita por Alcamene. Entre as demais
perfeições que imediatamente nos dispõem em favor do artista,
notamos em primeiro lugar a arte com a qual ele dá a entrever a
atitude torta do deus sob as próprias vestes que servem para lhe
ocultar a imperfeição: não parece ser defeito que ele haja
pretendido censurar em Vulcano, mas apenas um sinal
distintivo, próprio a dá-lo a reconhecer como deus do fogo."
Vulcano fabricara a primeira mulher, Pandora, como
Prometeu fizera o primeiro homem. É o divino obreiro do Olimpo,
e os deuses lhe deviam quase tudo o de que se utilizavam. A
égide e o cetro de Júpiter, o trono do Sono, a coroa de Ariadne, o
colar da Harmonia, os touros de bronze que guardavam o
velocino de ouro, as armas de Aquiles, eram trabalhos de
Vulcano. Era ele, ademais, autor do carro do Sol, e fizera para
Apolo uma admirável flecha que, após atingir o alvo, voltava por
si à mão que a havia lançado.

Fig. 268 - Cabeça de Vulcano (fragmento antigo)

Vingança de Vulcano

Para vingar-se dos pais que tão duramente o tinham


tratado, Vulcano imaginou o fabrico de uma cadeira de ouro, da
qual, quem nela se sentasse, só se levantaria com a sua
permissão. Juno, que não conhecia o segredo, sentou-se e
Vulcano não quis livrá-la. Uma curiosa pintura
de vaso (fig. 269) nos apresenta Juno sentada e Marte atacando
Vulcano para libertar sua mãe. Vulcano não tinha forças para
lutar contra o deus da guerra, e foi obrigado a ceder, mas a sua
irritação foi tal que não mais quis voltar ao Olimpo. Os deuses
afligiram-se com

Fig. 269 — Combate de Vulcano e Marte (pintura de vaso).

aquela resolução que os privava de todas as belas obras que lhes


fazia Vulcano. Baco resolveu levá-lo de novo ao céu e
embriagou-o. As pinturas de vaso nos mostram Vulcano
segurando o martelo e montado num burro. Baco, no seu
costume oriental, precede o burro e parece conduzir o deus
ferreiro, que ele conseguiu reconciliar com os demais imortais
(fig. 270).
Os fios de Vulcano

Na Odisséia, Vulcano é marido de Vênus. Outras tradições


fazem, pelo contrário, de Vênus, mulher de Marte. Como os
deuses tinham nas diversas localidades lendas diferentes e por
vezes contraditórias, a poesia, vendo Vênus unida a Marte, ou
unida a Vulcano, pretendeu conciliar as várias tradições por
meio de um adultério, e daí saiu a história dos fios de Vulcano.
Hesíodo dá por esposa a Vulcano Aglé, a mais jovem das
Graças. Mas a história dos fios de Vulcano prevaleceu e faz que
as outras sejam esquecidas. O que é notável nessa história é
que Vulcano parece unicamente preocupado com os presentes
que trouxe como dote à mulher e que ele pretende reaver.

Fig. 270 — Vulcano e Baco (pintura de vaso)

O Sol que vê tudo advertiu Vulcano das ligações existentes


entre sua mulher e o deus da guerra. Vulcano, então, coloca
sobre um cepo unia enorme bigorna e forma grilhões
indestrutíveis. Essas cadeias eram finas como teias de aranha, e
ninguém conseguia percebê-las, tal a
habilidade com que haviam sido feitas. Mal Vulcano viu os
dois culpados enredados nos fios, pôs-se a chamar todos os
deuses.
"Poderoso Júpiter, e vós, imortais afortunados, acorrei
para testemunhardes uma interessante cena que ninguém
poderia, no entanto, tolerar! Visto que eu sou disforme, a
filha de Júpiter me ultraja sem cessar; agora, une-se ao
pernicioso deus da guerra, por ser ele belo e esbelto, ao
passo que eu sou feio e corcunda! Meus pais são os únicos
culpados desta desgraça; jamais deveriam ter-me posto no
mundo!. . . Os laços que forjei para eles hão de retê-los até o
dia em que o pai de Vênus me devolver todos os presentes
que lhe dei para conquistar-lhe a impudente filha. Vênus é
bela, sem dúvida, mas não consegue dominar as suas
paixões." (Homero).
Embora tal narração seja apresentada sob forma
cômica, convém notar que é a confusão dos amantes que
leva os deuses a rir, e não a desventura do esposo, como
facilmente se supõe hoje.
Um baixo-relevo da Villa Albani nos mostra a cena dos
fios de Vulcano (fig. 271). O deus ferreiro, que tem atrás o
Sol reconhecível pela cabeça radiada, soergue um véu, e
.mostra aos deuses os dois culpados. Marte está assaz
confuso e Vênus volta-se para não ser vista por Júpiter.
Cupido está ao lado de Marte.

Fig. 271 — A rede de Vulcano (segundo um baixo-relevo antigo).


As forjas de Vulcano

Vulcano, trabalhando na sua forja, figura assaz fre-


qüentemente nas pedras gravadas. Vênus e Cupido estão
situados perto dele, e essa maneira de compreender a oficina de
Vulcano é a única que convém a jóias (fig. 272).

Fig. 272 — Vênus e Vulcano (segundo uma pedra gravada antiga).

Mas os verdadeiros companheiros de Vulcano aparecem noutros


monumentos. São os ciclopes, fabulosos obreiros que só têm um
olho no meio da testa e habitam as
profundezas aos vulcões. Os baixos-relevos nos apresentam às
vezes Vulcano na sua oficina, ocupado em fabricar a primeira
mulher, Pandora, que todos os deuses cumulam de dons. Juno,
a deusa dos casamentos, e Vênus, acompanhada da Persuasão
ou de uma das Graças, estão habitualmente colocadas ao lado
do divino artista. Vemo-lo também forjar as cadeias de Prometeu,
ou então receber a visita dos deuses.

Fig. 273 — Vênus e Vulcano (segundo um quadro de Jules Romain,


museu do Louvre).
Na arte dos últimos séculos, Velásquez pintou a oficina de
Vulcano no momento em que o Sol lhe revela a união de Vênus
e Marte. Vulcano abandona os seus trabalhos e os três ciclopes,
Arges, Brontes e Steropes, escutam com assinalada curiosidade
a aventura narrada pelo Sol, sem darem mostras de pesar pelo
infortúnio do mestre. Há no Louvre um pequeno quadro de
Jules Romain, no qual Vulcano, sentado perto- de Vênus,
parece alegrar-se em lhe mostrar as armas que acaba de
fabricar.

Os ciclopes

Os ciclopes, obreiros de Vulcano, são habitualmente


caracterizados pela enormidade do vulto e pelo único olho,
posto no meio da testa. Entretanto, Albane afastou-se muito
desse tipo. Incumbido de pintar os quatro elementos para o
cardeal de Sabóia, escolheu Vulcano e a sua forja para
representar o fogo. Mas o seu quadro nada possui de terrível.
Eis um fragmento da carta que ele escreveu ao cardeal
para lhe anunciar o envio do quadro pedido. "Pintei, como Vossa
Alteza verá, não somente o fogo celeste e propriamente
elementar, representado pelo pode-roso Júpiter, senão também
o fogo material e o do Amor, de que Vulcano e a deusa de Chipre
são os emblemas: não quis colocar nas forjas de Vulcano nem
Brontes, nem os demais ciclopes; preferi fixar três jovens
Amores, visto que as carnes de meninos dessa idade constituem
interessante oposição às amorenadas de Vulcano. Tive,
também, de me conformar nessa escolha ao desejo de Vossa
Alteza sereníssima, pois o embaixador me dissera que conviria
representasse eu grande número de Amores ferindo com as
suas setas irresistíveis o mármore mais duro, o aço, o diamante
e o próprio coração dos deuses."
Noutro quadro Albane coloca Vulcano ao lado de Vênus. A
sua oficina já não é uma forja, mas um prado coberto de flores.
Os seus obreiros não são mais s robustos ciclopes, e o ruído dos
seus martelos é temperado pelo das cascatas. Enquanto na
entrada de uma gruta recoberta de musgo, um deles aciona o
fole, outros apresentam a Vênus as armas que acabam de
fabricar para ela e para o filho : essas armas são naturalmente
setas. A deusa, deitada descuidadamente à sombra dos
bosquetes, sorri para tudo quanto a rodeia e seu esposo, o rude
Vulcano, que repousa ao seu lado, busca tornar-se amável para
não prejudicar o quadro.
Timanto pintara um quadrinho mencionado por Plínio como
obra famosa e representando um ciclope adormecido, cujo
polegar os sátiros medem com os seus tirsos. A gigantesca
estatura dos ciclopes e o barulho que fazem no fundo dos
vulcões que lhes servem de oficina constituíam tema de espanto
para os antigos.
Tais ferreiros enormes tornaram-se na imaginação popular
obreiros tipos, e foram-lhes atribuídas, como se fez para o diabo
na Idade Média, as construções cuja origem era desconhecida.
Os ciclopes sempre foram considerados como personagens
formidáveis. Quando Diana quis ter uma aljava e setas dignas da
sua habilidade, foi visitar Vulcano que ela encontrou na forja
rodeado pelos ciclopes seus obreiros
"As ninfas empalideceram à vista de tais gigantes
semelhantes a montanhas e cujo olho único, sob espessa
sobrancelha, brilhava ameaçadoramente. Uns faziam gemer
imensos foles; outros, levantando os pesados martelos. batiam
furiosamente o bronze que tiravam da fornalha. A bigorna
estremece, o Etna e a Sicília tremem, a Itália ecoa o estrondo e a
própria Córsega se sacode. Àquele terrível espetáculo, àquele
medonho fragor, as filhas do Oceano ficam estarrecidas... e
trata-se, aliás, de um estarrecimento perdoável; as próprias
filhas dos deuses, na sua infância, só encaram tais gigantes com
temor, e quando se recusam a obedecer, suas mães fingem
chamar Arges ou Steropes: Mercúrio acorre com as feições de um
desses ciclopes, de rosto coberto de cinza e fumaça;
imediatamente, a criança, aterrorizada, cobre os olhos com as
mãos e se atira tremendo ao seio materno." (Calímaco).
CAPÍTULO II

PROMETEU

Prometeu forma o homem. — As duas


partes de Prometeu. — O fogo
arrebatado aos homens. — A caixa de
Pandora. — Suplício e libertação de
Prometeu.

Prometeu forma o homem

Japeto representa o antepassado da humanidade. Talvez


seja preciso reconhecer, nessa personagem a que o Gênesis dá
por filho a Noé, Jafé, cujo nome personifica uma das grandes
raças primitivas. Era considerado pelos gregos o tipo do que há
de mais antigo e associa-se habitualmente a Saturno.
Desposara Ásia, filha do Oceano, e teve vários filhos, entre
outros Prometeu, Epimeteu e Atlas. O Titã Japeto não
desempenha papel na mitologia; a sua importância vem da
antiguidade que se lhe atribuía e que lhe dava o mesmo tempo
que os mais antigos deuses.
Embora seja o Titã Japeto tido como antepassado da
humanidade, parece que é a seu filho Prometeu que deve-mos a
forma particular que nos distingue dos animais. "Prometeu, diz
Ovídio, após destemperar um pouco de terra com água, formou o
homem à semelhança dos deuses; e enquanto os outros animais
têm a cabeça voltada para o chão, somente o homem a ergue
para o céu, e olha para o céu." A fabricação do homem por
Prometeu está representada em monumentos assaz numerosos,
mas que pertencem na sua maioria a uma baixa época. Uma
pedra gravada antiga nos mostra o autor do gênero humano sob
a forma de um escultor que estabelece a ossatura da sua figura;
é uma representação extremamente curiosa, em virtude do
esqueleto cuja imagem quase nunca aparece na arte dos antigos
(fig. 274). Outra pedra gravada representa o divino artista
ocupado em reunir os membros que esculpiu separadamente.

Fig. 274 — Prometeu modelando uni homem (segundo uma


pedra antiga).

Em todas as representações antigas, Prometeu aparece


como artesão que faz o homem materialmente, mas não como o
deus que o anima. Esse papel cabe a Minerva
(a Sabedoria divina): vários monumentos nos apresentam
nitidamente a parte que cabe a cada um na criação da
espécie humana. Num belo baixo-relevo, vemos Prometeu
sentado num rochedo à sombra de uma árvore (fig. 275). Na
sua frente, numa mesa de escultor, está um homenzinho, ou
antes um menino, de pé, aparentemente à espera de que o
artista termine a obra. Outros três meninos, esses
inteiramente terminados, avançam para Minerva que vai
colocar-lhes sobre a cabeça a borboleta, símbolo da alma na
antiguidade. Vê-se que não se trata de um único homem,
origem dos demais, mas sim de vários feitos na mesma época,
quando houve necessidade de povoar a terra.

Fig. 275 — Prometeu formando o homem (baixo-relevo antigo).


As duas partes de Prometeu

Prometeu orgulhava-se do seu trabalho; e tendo surgido


divergências entre os deuses e os homens primitivos, tomou ele o
partido destes. As divergências, das quais Hesíodo não nos diz a
causa, eram acertadas em Mecona (Sicíona) : Prometeu,
desejando saber se Júpiter era verdadeiramente digno das
honras divinas, excogitou um ardil para provar a sua
clarividência. "Expôs aos olhos de todos, diz Hesíodo, um enorme
boi. De um lado, encerrou na pele as carnes e os melhores
pedaços, envolvendo-os com o ventre da vítima; do outro, dispôs
com pérfida habilidade os ossos brancos que recobriu de gordura
lustrosa. O pai dos deuses e dos homens disse-lhe, então: "Filho
de Japeto, ó mais ilustre de todos os reis, amigo, com que
desigualdade dividiste as partes!" Prometeu, sorrindo
interiormente do ardil, rogou-lhe que escolhesse, e Júpiter,
apoderando-se da parte mais pesada, só ali encontrou ossos.'

O fogo arrebatado aos homens

Júpiter, furioso por ter sido enganado, quis vingar-se dos


homens, dos quais Prometeu é protetor, e roubou-lhes o fogo,
sem o qual todo e qualquer trabalho é impossível. Mas Prometeu
não se deu por vencido, e conseguiu roubar uma faísca do fogo
do céu, que se apressou em levar aos homens. Dessa vez,
Júpiter, vendo-se decididamente iludido pelo Titã, não conteve o
ressentimento e resolveu punir simultaneamente os homens e o
protetor. A grosseria dessa lenda é uma prova da sua grande
antiguidade;
no entanto, não deu origem a nenhuma representação plástica
no período arcaico. Mas uma lâmpada da época romana nos
faz ver Prometeu, nu e de cabelos esparsos, fugindo com o
fogo que acaba de roubar do carro do Sol (fig. 276). Nas
narrações dos poetas, o fogo estava contido numa folha e
invisível a todos os olhos; pelo contrário, o oleiro mostra a
chama a sair de um vasinho que o Titã segura com a mão.

Fig. 276 — Prometeu trazendo o fogo aos homens (segundo uma


lâmpada antiga).

Júpiter diz a Prometeu: "Filho de Japeto, rejubilas-te por


haveres roubado o fogo divino e iludido a minha sabedoria;
mas esse ato será fatal a ti e aos homens que hão de vir. Para
vingar-me, enviar-lhes-ei um funesto presente que os
enfeitiçará e fará com que amem o seu próprio flagelo."
(Hesíodo).
A caixa de Pandora

Prometeu tinha um irmão chamado Epimeteu.


Desconfiando de uma perfídia, recomendou-lhe que nada
aceitasse de Júpiter, pois o rei dos deuses tencionava fazer-lhe
um presente que seria fatal aos homens. Júpiter, por sua vez,
pretendendo realizar o seu plano, enviou aos homens um flagelo
revestido exteriormente do mais sedutor aspecto e que lhes
causou mil inquietações, embora estimadíssimo; eis a origem las
mulheres, segundo Hesíodo:
"De acordo com a vontade do filho de Saturno, Vulcano, o
ilustre deus, formou com um pouco de terra imagem semelhante
à de uma casta virgem. Minerva, dos olhos azuis, apressou-se
em ornamentá-la e vesti-la de uma túnica branca. Pôs-lhe sobre
a cabeça um véu engenhosamente trabalhado e admirável ; em
seguida, ornou-lhe a testa de graciosas grinaldas feitas de flores
recém-desabrochadas e de uma coroa de ouro, que Vulcano, o
deus ilustre, fabricara com as suas próprias mãos para agradar
ao poderoso Júpiter. Sobre essa coroa, ó prodígio, Vulcano
cinzelara os numerosos animais que o continente e o mar
nutrem no seu seio; por toda parte brilhava maravilhosa graça, e
as diversas figuras pareciam vivas. Quando terminou de fazer,
em vez de um trabalho útil, tão funesta obra-prima, levou à
assembléia dos deuses e dos homens a virgem orgulhosa dos
enfeites que lhe dera a deusa dos olhos azuis, filha de um
poderoso pai. Igual admiração transportou os deuses e os
homens, mal perceberam a fatal maravilha tão terrível aos
homens, pois dessa virgem saiu a raça de mulheres de seio
fecundo, dessas mulheres perigosas, flagelo cruel vivo entre os
homens e presas, não à triste pobreza, mas ao luxo ofuscante."
(Hesíodo).
Pandora, que foi mãe do gênero humano, foi, por
conseguinte, obra dos deuses olímpicos, ao passo que o homem
fora constituído pelo Titã Prometeu. Uma pintura arcaica, no
fundo duma taça de Nola, nos mostra a
primeira mulher entre Vulcano e Minerva, ocupados em orná-la
no momento em que acaba de ser formada (fig. 277). É bastante
menor que as duas divindades, e traz uma veste semeada de
estrelas. Minerva tem o peito protegido pela égide eriçada de
serpentes, mas não usa o capacete e a lança que constituem s
seus habituais atributos. Vulcano é imberbe e por vestes só tem
uma clâmide; empunha o martelo que lhe serve de emblema. É
interessante aproximar essa pintura da composição que Flaxman
executou sobre o mesmo tema (fig. 278). O escultor inglês
substituiu Vulcano por Mercúrio, que apoia o caduceu à cabeça
da primeira mulher, para lhe inspirar, segundo a expressão de
Hesíodo, "a arte da mentira e das palavras enganosas,"

Fig. 277 — Pandora entre Minerva e Vulcano.

"Após terminar tão atraente e perniciosa maravilha,


Júpiter ordenou a Mercúrio, o veloz mensageiro dos deuses, que
a conduzisse para Epimeteu. Este esqueceu-se
de que Prometeu lhe recomendara nada receber de Júpiter e de
lhe devolver todos os presentes. para evitar um flagelo terrível
aos mortais, e aceitou o fatal presente, para, dali a pouco,
reconhecer a imprudência cometida." (Hesíodo).

Fig. 278 — Pandora dotada por Mercúrio e Minerva (segundo Flaxman)

Foi de Pandora que saiu "essa raça fraca e delicada das


mulheres, que os mortais conservam para desgraça deles. Nunca
amigas da pobreza nem sequer da poupança. só amam o luxo e
os gastos." (Hesíodo).
Dando o fogo aos homens, Prometeu ensinara-lhes o
trabalho que só pode existir com o fogo: Júpiter fê-los
artistas, dando-lhes a mulher, que, além das primeiras
necessidades da vida, lhes impõe mil encantadoras
necessidades que somente um trabalho incessante pode
satisfazer.
Pandora recebera de Júpiter uma caixa cujo conteúdo ela
ignorava; impelida pela natural curiosidade do seu sexo, quis
abri-la, e todos os males se espalharam pela terra. Fechou
imediatamente a tampa, mas no fundo da caixa só ficou a
Esperança (fig. 279).

Fig. 279 — Pandora abre o vaso fatal (segundo Flaxman).

Suplício e libertação de Prometeu

Júpiter revelou-se cruel para com Prometeu e, a fim de


puni-lo por ter dado o fogo aos homens, agrilhoou-o ao
Cáucaso. Uma águia lhe dilacerava constantemente o fígado e a
sua carne renascia imediatamente para que o suplício se
renovasse todos os dias. A luta de Júpiter contra Prometeu foi
interpretada de maneiras assaz
diferentes, mas segundo os trágicos seria possível ver nela uma
vaga recordação de uma mudança de crenças. Na antiguidade,
Prometeu ficou como tipo da justiça esmagada pela força, da
consciência humana protestando contra um poder inexorável.
O suplício de Prometeu teria, no entanto, fim Hércules, o
matador dos monstros e grande reparador de erros, livrou o Titã
matando a águia que o roía. Prometeu, que conhecia o futuro,
predissera que quem desposasse a Nereida Tétis, teria um filho
mais poderoso que o pai, e o rei dos deuses, sabendo de tal
profecia, renunciou ao projeto de unir-se a Tétis. Como
recordação desse serviço, Júpiter não obstaculou a libertação de
Prometeu; mas já que afirmara que o suplício duraria milhares
de anos e que um deus não deve mentir, excogitou-se um
subterfúgio. De um dos elos da cadeia que agrilhoava o Titã se
fez um anel, no qual se introduziu um pedacinho do rochedo;
desse modo, Prometeu continuava sempre preso ao Cáucaso.

Um interessante sarcófago do museu Capitolino fixa em


várias cenas toda a lenda de Prometeu.

O tema, tratado de maneira completíssima, nos oferece a


imagem do Destino do homem, da sua origem e do seu fim,
enquadrado por assim dizer nos diferentes atos da lenda do seu
criador. No centro, Prometeu, sentado, segura nos joelhos um
homem que ele acaba de modelar com limo da terra e sobre cuja
cabeça Minerva coloca a borboleta, emblema da alma. Acima de
Prometeu, surgem as Parcas, Cloto com a roca na qual fia os
dias dos homens, e sua irmã Láquesis indicando num globo o
Destino que lhes é reservado. Atrás dele, a Terra, segurando uma
cornucópia sustentada pelos gênios do estio e do inverno, volta a
cabeça olhando para um cesto contendo o limo de que se vale
Prometeu para formar o homem. O Sol conduzindo o seu carro e
Oceano segurando um remo e montado num hipocampo
aparecem acima da Terra. Aos seus pés estão o Amor e Psique
que se abraçam para mostrar a união íntima entre o corpo e a
alma. Em seguida, vemos o grupo de Vulcano e dos seus
ciclopes, forjando os grilhões que prenderão Prometeu ao
Cáucaso.
O baixo-relevo termina com um casal de pé e nu sob uma
palmeira, que relembra de maneira impressionante Adão e Eva
da Bíblia, mas no qual reconhecemos geralmente Deucalião e
Pirra os quais, únicos sobreviventes das águas do dilúvio, têm
por missão perpetuar o gênero humano criado por Prometeu.
O outro lado do baixo-relevo mostra-nos os emblemas da
morte, os quais no monumento estão colocados imediatamente
atrás de Minerva. Um homem está estendido por terra e privado
de movimento: o gênio da morte segura o facho de cabeça para
baixo sobre o peito do cadáver, cuja alma, sob a forma de
borboleta, foge subindo ao longo do facho, enquanto a sombra do
defunto, representada por uma grande figura envolvida num
manto, se ergue acima dos seus pés. Do lado da cabeça do
morto, a terceira Parca, Átropos, sentada, segura sobre os
joelhos o livro do Destino. Sobre essa cena fúnebre aparece a lua
num carro conduzido por dois corcéis. No episódio seguinte,
Mercúrio, segurando numa das mãos o caduceu, leva para os
infernos a alma do defunto sob a forma de uma Psique de asas
de borboleta, e aos seus pés a Terra, segurando sempre a
cornucópia, dispõe-se a lhe receber os despejos mortais.
Chegamos, assim à terceira cena: Prometeu, agrilhoado a um
rochedo, tem o fígado devorado por uma águia contra a qual
Hércules dispara uma seta. A maça e a pele de leão do herói
estão atrás dele, aos pés do Cáucaso, personificado pelas feições
de um velho de cabelos eriçados, segurando numa das mãos um
dos pinheiros que o cobrem, e com a outra uma serpente
representando o gênio local do lugar em que se desenrola o
drama.
Há algumas variantes na história de Prometeu : alguns lhe
atribuem a fabricação da mulher, bem como a do homem, o que
tiraria toda razão de ser da linda Fábula de Pandora. Entretanto,
existem sobre essa versão monumentos que não podemos
desprezar. Um baixo-relevo antigo nos mostra Prometeu
segurando um desbastador e modelando a primeira mulher; um
homenzinho ainda não animado está deitado aos pés do escultor
a quem Mercúrio conduz uma alma, caracterizada pelas asas de
borboleta, e que irá habitar o corpo terminado por Prometeu.
Atrás de Mercúrio, vemos as três Parcas que fiarão
o destino da nova criatura. O touro, o burro e a lebre, colocados
perto do escultor, relembram uma tradição segundo a qual
Prometeu, ao formar a espécie humana, misturou ao limo de que
se servia as qualidades dos diversos animais (fig. 280).

Fig. 280 — Lenda de Prometeu com o nascimento e o Destino do


homem (segundo um sarcófago antigo do museu Capitolino).
CAPÍTULO III

DÉDALO

As invenções de Dédalo. — Minos e


Pasife. — As asas de Ícaro. — O
retrato de Hércules. — Os telquines e
os dúctilos.

As invenções de Dédalo

Reuniu-se, sob o nome mitológico de Dédalo, o grupo das


antigas corporações de artistas e artesãos que fabricavam as
imagens dos deuses. A tradição acumulou, assim, sobre uma
única personagem os trabalhos e as aventuras dos primeiros
obreiros, e as velhas estátuas de madeira às quais se atribuía
um caráter milagroso eram sempre consideradas obras de
Dédalo. Como Vulcano e Prometeu, é Dédalo um civilizador que
ensina aos homens a indústria; possui uma relação menos
direta com o fogo, mas, em compensação, é arquiteto e
mecânico.
Dédalo, cuja genealogia fabulosa é extremamente confusa, é
pelos atenienses reivindicado como filho do rei Erecteu. A
machadinha, o nível, a broca são instrumentos de sua invenção.
É também o primeiro autor das velas dos navios e soube dirigi-
los com o vento. Dédalo tinha um sobrinho, filho de sua irmã
Pérdix, ao qual ensinou os seus segredos, e que, por sua vez,
inventou a serra e a roda do oleiro. Dédalo matou-o por ciúme e
foi obrigado a deixar Atenas, para ir a Creta onde o acolheu
Minos, filho de Júpiter e de Europa e esposo de Pasife, filha do
Sol.

Minos e Pasife

Desejando ser bem recebido pelos súditos, que eram todos


marinhos, declarara-lhes Minos que Netuno lhe concederia tudo
quanto ele desejasse, e para dar-lhes a prova, pediu ao deus dos
mares que lhe enviasse um touro, o qual seria em seguida
sacrificado. No mesmo instante, um magnífico touro branco saiu
do mar; mas Minos achou-o tão belo que, em vez de o sacrificar,
mandou que o guardassem no seu rebanho e imolou outro.
Netuno, não podendo aceitar tamanho ultraje, incumbiu Vênus
de vingá-lo. A cruel deusa não descobriu coisa melhor do que
afligir Pasife com uma doida e irresistível paixão pelo formoso
animal.
Deram-se diversas explicações de tão singular Fábula. Já
fora sob o aspecto de touro que Júpiter se apresentara à Europa,
mãe do rei Minos, e a lenda de Pasife parece reproduzir a mesma
história sob forma diferente. Creta mantinha constantes relações
com a Fenícia, onde os deuses apresentam freqüentemente a
forma de touro, e com o Egito, onde o boi Ápis é uma encarnação
do Sol. Segundo Creuzer, Pasife seria simplesmente uma Lua
apaixonada pelo Sol, que em Creta aparece nas regiões vizinhas
sob a forma de touro.
As asas de Ícaro

A cólera de Netuno contra Minos produziu os seus frutos,


fazendo com que de Pasife nascesse um monstro de cabeça de
touro, chamado Minotauro, que se nutria de carne humana.
Dédalo construíra para o rei Minos um enorme recinto cujo
interior possuía mil giros, de sorte que era quase impossível dali
sair, uma vez que se entrasse. É o lugar que passou a ser
chamado Labirinto, e foi nele que se encerrou o Minotauro, mais
tarde morto por Teseu, como veremos a seguir. Minos,
descontente com Dédalo, a quem acusava de conivente na
questão, mandou que o atirassem à prisão com seu filho Ícaro. A
prisão achava-se num recife à beira do mar, em situação que
tornava qualquer idéia de evasão materialmente impossível. O
engenhoso Dédalo, a quem nunca faltavam expedientes,
concebeu um projeto jamais imaginado antes. Pegando algumas
penas, formou com elas um todo tão admirável que parecia
perfeitamente semelhante às asas das aves. As peninhas que
deviam constituir o fundo estavam presas com linha, as maiores
com cera. Deu-lhes, depois, a curvatura que se nota nas asas
naturais.
Ícaro, seu filho, não sabendo que preparava a própria
desgraça, reunia, risonho, as penas que o vento dispersava, ou
amolecia a cera com a qual seriam presas; às vezes contemplava,
gracejando, o trabalho do pai. Quando este ficou pronto, Dédalo
experimentou-o, e tomando impulso, manteve-se suspenso no
meio do ar; daí, voltando-se para o filho, disse-lhe: "Cuida, meu
filho, de voar sempre no meio dos ares; se desceres muito, a
umidade da água tornará muito mais pesadas as tuas asas; se te
ergueres demais, o calor do sol as queimará; mantém-te, por
conseguinte, no justo meio entre os dois extremos."
Após essa exortação, tremendo e com lágrimas nos olhos,
prendeu-lhe as asas e explicou-lhe em poucas palavras de que
maneira devia servir-se delas. Finalmente, abraça-o pela última
vez, e com ele galga a torre de onde ambos se atiram ao vôo.
Landon representou tal cena (fig. 282).
"Ferido de espanto à vista de tão inaudito prodígio e
querendo observá-lo mais à vontade, o pescador, que os toma
por dois deuses, apoia-se na vara, o pastor no cajado e o
lavrador no arado. Dédalo e Ícaro já tinham abandonado a ilha
de Samos, consagrada a Juno, as de Delos e Paros, quando o
jovem Ícaro, entusiasmando-se, começou a atirar-se para a
frente, e abandonou o guia, para subir mais. O ardor do sol
fundiu-lhe a cera que prendia as penas das asas, e foi inútil para
ele remexer os braços para suster-se e chamar o pai em auxílio;
pálido e trêmulo, caiu ao mar. Dédalo, que perdera de vista o
filho,

Fig. 281 — Dédalo preparando as asas de Ícaro (segundo uma pedra


gravada),

chamou-o em vão: "Ícaro, meu caro Ícaro, onde estás? Que te


aconteceu?" Falava ainda, quando notou o filho caído à beira do
mar, enquanto as penas flutuavam sobre as ondas". (Ovídio).
Numa pintura de Herculanum, Dédalo voa quando percebe
o filho morto (fig. 283). O escultor Slodtz fez uma estátua de
Ícaro, que lhe granjeou entrada na Academia.

Fig. 282 — Dédalo e Ícaro (segundo um quadro de Landon).

Após prestar as derradeiras homenagens ao filho, Dédalo


dirigiu-se para Cumes, onde fundou um templo de Apolo.
Consagrou a esse deus as suas asas, e pintou toda a história nos
muros do templo por ele erguido. Executou, ainda na Sicília,
várias obras notáveis, entre outras um rochedo elevadíssimo que
ele preparou de tal maneira que
pudesse construir uma cidade inexpugnável, pois ali só se acedia
por uma estreita senda tortuosa para cuja defesa bastavam três
ou quatro homens.

O retrato de Hércules

Como escultor, Dédalo passa por ser o primeiro que afastou


as pernas e abriu os olhos das suas personagens. Estava
intimamente ligado a Hércules, e para ser-lhe agradável, lhe
modelou a imagem, e colucou-a sobre o caminho que Hércules
seguia habitualmente, quando ia combater os monstros.
Exprimira tão bem a força do herói, e a estátua parecia de tal
modo viva, que Hércules, julgando estar lidando com um inimigo
digno dele, pegou enorme bloco de pedra, e atirou-o contra a
estátua que ficou pulverizada.
Toda a lenda de Dédalo mostra o espanto causado aos
primeiros homens pelas maravilhas da indústria nascente. À
mesma idéia podemos ligar as histórias dos telquines e dos
dáctilos.

Os telquines e os dáctilos

Os telquines, misteriosos gênios que se prendem às origens


da indústria humana, passam em certas tradições por serem os
primeiros instituidores do culto e inventores das artes. São
sobretudo habilíssimos metalurgistas e sabem dar aos metais
todas as formas que desejam.
Foram eles os primeiros em fazer as estátuas dos imortais, e
em fabricar a foice de Saturno e o tridente de Netuno. Os
telquines são, ao mesmo tempo, feiticeiros versadíssimos na
magia, revestem-se das formas que que-rem, e têm a
faculdade de lançar mau olhado aos inimigos. Julgamo-los
oriundos da ilha de Rodes.

Fig. 283 — Morte de Ícaro (segundo uma pintura de Herculanum).

Os mesmos talentos cabem aos dáctilos, gênios frígios,


que ensinaram aos homens a fundição dos metais e o
trabalho do ferro e do bronze. São também temidíssimos
como mágicos e as lendas que a eles dizem respeito, como
as que o dizem aos telquines, apresentam a maior confusão.
Prendem-se seguramente às antigas corporações de obreiros que
se formaram, quando os homens começaram a servir-se dos
metais, e cujos processos de trabalho assumiam aos olhos das
populações um caráter pronunciadíssimo de magia.
CAPÍTULO IV

MINERVA

Nascimento de Minerva. — Nascimento


de Erecteu. — Pandrosa. — Disputa de
Minerva e Netuno. — Tipo e atributos de
Minerva. — Minerva e Encélades. —
Minerva, e Tirésias. — Minerva e
Mársias. — Minerva higéia. — Minerva
obreira ou ergane. — Minerva e Aracne.
— A festa das Panatenéias.

Nascimento de Minerva

Métis, a reflexão personificada, fora a primeira esposa de


Júpiter. Foi ela que deu ao velho Saturno uma beberagem para
obrigá-lo a devolver os jovens deuses que ele havia engolido.
Estando grávida, predisse a Júpiter que teria em primeiro lugar
uma filha e, em seguida, um filho que se tornaria senhor do céu.
O rei dos deuses, espantado com tal profecia, engoliu Métis,
Algum tempo depois, foi acometido de violentíssima dor de
cabeça e rogou a Vulcano que lhe fendesse a cabeça com o
machado.
Mal recebeu o golpe de machado de Vulcano, saiu-lhe do
cérebro, armada de todas as suas peças, a filha Minerva, nova
encarnação da sabedoria divina. Essa lenda, de caráter assaz
bárbaro e, por conseguinte, velhíssima, está representada de
maneira ingênua num baixo-relevo onde, extraordinariamente,
Vulcano é um rapaz imberbe (fig. 285).
Num espelho etrusco vemos Ilitia, a deusa dos partos
assistindo ao rei dos deuses e tirando-lhe da cabeça Minerva,
que sai armada do capacete e da lança. No outro lado está Vênus
que também parece acorrer em auxílio a Júpiter e atrás da qual
vemos, empoleirada numa árvore, a pomba que lhe é
consagrada. Tais divindades trazem os seus nomes gravados no
espelho em língua etrusca (fig. 284).

Fig. 284 — Nascimento de Minerva (segundo um espelho etrusco.

O mesmo tema decorava um dos frontões do Partenão, mas


é provável que o nascimento estivesse ali concebido de maneira
inteiramente diversa. Infelizmente, nada
resta da parte central do frontão em que tal cena estava
representada.
Júpiter é a abóbada do céu donde jorra o raio luminoso e
súbito; como é também o senhor dos deuses, a sua sabedoria
não vacila absolutamente em lhe brotar do cérebro divino.
Minerva devia, pois, nascer inteiramente armada e provida de
todos os seus atributos. É assim que no-la apresentam as
estátuas, muitas vezes com a lança e o escudo, mas sempre com
o capacete e a égide.

Fig. 285 — Vulcano e Júpiter.

Luciano narrou o nascimento de Minerva sob forma de


diálogo:
"Vulcano. — Que devo fazer, Júpiter? Venho, por ordem tua,
armado de um machado afiadíssimo e que, se houvesse
necessidade, seria capaz de partir, de um só golpe, a mais dura
das pedras.
Júpiter. — Ótimo, Vulcano! Parte-me, pois, a cabeça.
Vulcano. — Queres submeter-me a uma prova, ou estás
louco? Dá-me uma ordem séria, dize o que queres que eu faça!
Júpiter, — Já to disse, parte-me a cabeça; bate com toda a
força e sem demora; não posso viver com as dores que me
dilaceram o cérebro.
Vulcano. — Acautela-te, Júpiter. Quem sabe se não vamos
cometer uma asneira? O meu machado é afiadíssimo, fará com
que te corra o sangue e não te libertará à guisa de Lucina.
Júpiter. — Bate, vamos, Vulcano! Nada temas. Sei o que
quero.
Vulcano. — Bato, mas contra a vontade. Que me resta, se
assim me ordenas?... Que estou vendo? Uma jovem armada da
cabeça aos pés! Safa, que dor de cabeça não devia ser a tua,
Júpiter! Não é de assombrar que te hajas mostrado irascível, se
trazias viva, sob a membrana do teu cérebro, uma jovem desta
estatura, e, ainda por cima, armada. Não sabíamos que tinhas
na cabeça um verdadeiro campo. Olha, ela salta ! Ei-la que
dança a pírrica, agita o escudo, brande a lança, e está dominada
pelo entusiasmo. O que é mais estranho é que, de súbito, se
tornou belíssima e pronta para casar. É verdade que tem olhos
cinzentos, mas o capacete compensa esse defeito. Júpiter, como
pagamento pelo serviço que te prestei, cede-ma por esposa.
Júpiter. — Tu me pedes o impossível, Vulcano; ela quer
permanecer virgem para sempre. Quanto a mim, não me oponho
ao que desejas.
Vulcano. — É o que quero. O resto fica por minha conta. Vou
levá-la." (Luciano).

Nascimento de Erecteu

Vulcano pôs-se imediatamente a procurar Minerva. e, certo


de que ela estivesse na Acrópole, rumou para Atenas. Mal a
percebeu, colocou-se-lhe na frente e quis dar os passos
necessários. Mas a deusa o recebeu de maneira tal que lhe tirou
qualquer desejo de recomeçar. O pobre ferreiro ficou
despeitadíssimo; para mostrar que saberia dispensá-la, resolveu
contrair núpcias no mesmo
instante. e dirigiu-se à Terra, boníssima criatura, que o aceitou
apesar das mãos negras. Dessa união nasceu Erecteu, que mais
tarde se tornou rei de Atenas. O que deu origem a tão singular
lenda foi o fato de os atenienses, já colocados sob a proteção de
Minerva, quererem, por um laço qualquer, prender-se ao deus do
fogo, que preside à indústria dos metais.
A Terra, mal gerou Erecteu, deixou o recém-nascido no
chão, sem mais com ele preocupar-se, como se fosse uma
simples cobra ou um verme. Minerva, percebendo-o,
compadeceu-se e, pegando-o, pô-lo num cesto e levou-o para o
seu santuário. Mas, apesar de todo o seu bom coração, não
conseguia livrar-se das preocupações guerreiras, e, estando a
galgar a Acrópole levando o cesto, notou que a sua cidade não
estava bastante fortificada do lado do Ocidente. Entrou na casa
de Cécrops, que tinha três filhas, Pandrosa, Aglaura e Herse, e,
confiando-lhes o cesto, muito bem fechado, proibiu-lhes que o
abrissem para verificar o conteúdo, e imediatamente partiu em
busca de uma montanha que julgava necessária para a
fortificação da cidade. Quando partiu, Aglaura e Herse, impelidas
pela curiosidade, pretenderam abrir o cesto, não obstante as
censuras de Pandrosa. Mas uma gralha, que tudo vira, foi contar
o fato a Minerva, que já segurava a montanha entre os braços e
que fortemente surpresa, a deixou cair. Eis aí a origem do monte
Licabeto.

Pandrosa

A deusa concebeu tal afeto por Pandrosa, que não somente


lhe confiou a educação do pequenino protegido, como também
exigiu que Pandrosa, após a morte, recebesse as honras divinas.
Quando Erecteu se tornou rei de Atenas, apressou-se em
satisfazer tal desejo, mas,
associando no seu reconhecimento a filha de Cécrops e a deusa
que o recolhera, elevou um templo em duas partes, uma das
quais foi dedicada a Minerva e outra a Pandrosa. A construção
foi queimada pelos persas, como todos os monumentos de
Atenas, e o que hoje existe foi erguido após as guerras médicas.

Disputa de Minerva e Netuno

Atenas tira o seu nome de Atena (nome grego de Minerva)


mas a honra de dar o nome à cidade que Cécrops acabava de
fundar deu origem a uma famosa disputa entre Netuno e a
deusa. Constituía ela o tema de um dos dois frontões do
Partenão, esculpidos por Fídias e cujos fragmentos mutilados
fazem hoje parte do Britsh Museum em Londres. Figura
igualmente em moedas antigas (fig. 286).

Fig. 286 — Minerva e Netuno (segundo uma medalha antiga).

Era preciso pôr a nova cidade sob a proteção de uma


divindade. Decidiu-se que se tomaria por protetor da cidade o
deus que produzisse a coisa mais útil. Netuno, batendo a terra
com o tridente, criou o cavalo e fez jorrar uma fonte de água do
mar, querendo com isso dizer que o seu povo seria navegador e
guerreiro. Mas Minerva
domou o cavalo para o transformar em animal doméstico, e,
batendo a terra com a ponta da lança, fez surgir uma oliveira
carregada de frutos, pretendendo com aquilo mostrar que o seu
povo seria grande pela agricultura e pela indústria.
Cécrops, embaraçado, consultou o povo, para saber a que
deus preferia entregar-se. Contudo, não se tendo naqueles
tempos tão remotos imaginado que as mulheres não pudessem
tão bem quanto os homens exercer direitos políticos, todos
votaram. Ora, sucedeu votarem todos os homens por Netuno e
todas as mulheres por Minerva; mas como entre s colonos que
acompanhavam Cécrops, houvesse uma mulher mais, Minerva
raptou-a. Netuno protestou contra essa maneira de julgar a
divergência, e apelou para o tribunal dos doze grandes deuses.
Estes chamaram Cécrops como testemunha, e tendo sido a
votação considerada regular, passou a cidade a ser consagrada
a Minerva. Os atenienses, no entanto, temendo a cólera de
Netuno que já ameaçara engoli-los, ergueram na Acrópole um
altar ao Olvido, monumento da reconciliação de Netuno e
Minerva; em seguida, Netuno participou das honras da deusa.
Eis como os atenienses se tornaram um povo navegador e ao
mesmo tempo agrícola e manufatureiro.
Minerva era para os atenienses a deusa por excelência e a
Acrópole a montanha santa. A Acrópole figura numa moeda de
Atenas, assaz grosseira, aliás (fig. 287).

Fig. 287 — Acrópole (segundo uma moeda antiga).

Não se vêem nela representações de edifícios, mas somente


dominar a grande Minerva de bronze, que s navegantes
saudavam de longe, como protetora da cidade.
A confiança inspirada por Minerva só desapareceu com a
influência cristã, e um dos derradeiros historiadores pagãos,
Zózimo, narra de que maneira se apresentou a deusa pela última
vez. "Alarico, diz ele, impaciente por se apoderar de Atenas, não
quis entreter-se com outro assédio. Apressou-se, pois, em ir a
Atenas na esperança de tomá-la, quer por ser dificílimo defender
a grande extensão das suas muralhas, quer por estar ele já de
posse do Pireu e por haver pouquíssimas provisões na cidade.
Eis a esperança nutrida por Alarico. Mas a cidade tão antiga
seria conservada pela providência dos deuses no meio de tão
terrível perigo. A maneira pela qual ela foi protegida é
demasiadamente milagrosa e demasiadamente capaz de inspirar
sentimentos de piedade, para que a silenciemos. Quando Alarico
se aproximou das muralhas à testa do seu exército, viu Minerva,
tal qual surge nas imagens, dar a volta à cidade, e Aquiles tal
qual o descreve Homero apareceu no alto das muralhas. Alarico,
estarrecido com o espetáculo, tratou de fazer a paz e abandonou
a luta." (Zózimo).

Tipo e atributos de Minerva

"A partir do dia, diz Ottfried Muller, em que Fídias terminou


de desenhar o caráter ideal de Minerva-atena, uma fisionomia
cheia de calma, uma força que tem consciência de si própria, um
espírito claro e lúcido, passaram a ser para sempre os principais
traços do caráter de Palas. A sua virgindade a coloca acima de
todas as fraquezas humanas; ela é demasiadamente viril para se
entregar a um homem. A testa muito pura, o nariz longo e fino, a
linha um pouco dura da boca e das faces, o queixo largo e quase
quadrado, os olhos pouco abertos e quase constantemente
voltados para a terra, a cabeleira atirada, sem arte, para cada
lado da testa e ondulada
sobre a nuca, traços nos quais transparece a rudeza primitiva,
correspondem perfeitamente a tão maravilhosa criação ideal."

Fig. 288 — Minerva arcaica (numa antiga moeda de Atenas).

Minerva se identifica completamente com a cidade que ela


protege, e se por vezes usa cavalos no capacete é para mostrar a
sua reconciliação com Netuno a quem era consagrado o cavalo, e
que, como deus dos mares, não podia deixar de ter grande
importância em Atenas. É o que vemos num medalhão antigo no
qual a cidade de Roma personificada se liga à de Atenas (fig.
289). (Palas-atena). As duas ilustres cidades se caracterizam
pelos seus atributos: a loba com os dois filhos é o atributo
comum de Roma, como a coruja é o habitual atributo de Atenas.
A deusa ateniense traz a égide com a cabeça de Górgona, e
quatro cavalos lhe ornam o capacete.
Os cavalos aparecem igualmente num soberbo entalhe
antigo. A pena do capacete é suportada por uma esfinge e dois
corcéis alados ou pégasos: a parte da frente está ornada de
quatro cavalos e o cobre-orelha de um grifo. Os enfeites da deusa
são luxuosos; além da égide de escamas bordadas de serpentes,
traz ela um colar de bolotas, e brincos em forma de cachos de
uvas (fig. 290).
Às vezes, como na medalha de Thurium, não é nem o
cavalo, nem o grito que ornam o capacete de Minerva, mas uma
Cila ou um monstro fantástico com cauda de serpente (fig. 291).
A deusa usa sempre um capacete, até quando desempenha
papel pacífico. O capacete tem, às vezes, asas para indicar o
caráter aéreo de Palas (fig. 295). Vemo-lo,
quanto ao resto, sob formas extremamente variadas, em
moedas gregas ou romanas.
A coruja, a ave que vê bem durante a noite, é
naturalmente consagrada a Minerva, deusa que personifica
simultaneamente o raio e a inteligência. Nas mais antigas
moedas de Atenas se nos depara a coruja, símbolo de uma
vigilância constantemente alerta (fig. 288).

Fig. 289 — Atenas e Roma.

Como deusa guerreira, Minerva combate com a lança. No


entanto, uma medalha da Macedônia, imitação de antiga figura
arcaica, no-la apresenta com o raio de
Júpiter (fig. 297). A Vitória está freqüentemente na mão da
deusa. É assim que ela aparece numa bela moeda de Lisímaco
(fig. 296).

Fig. 290 — Palas (segundo uma pedra gravada antiga).

Fig. 291 — Moeda de Thurium.

A arte dos tempos primitivos preferia a imagem de Palas às


das outras divindades; os antigos paládios representavam
ordinariamente a deusa com o escudo erguido, e brandindo a
lança. Entretanto, essa forma varia muito, até nos próprios
tempos primitivos, e Minerva se reveste de diferentes aspectos,
segundo as localidades.
Uma pintura de vaso nos mostra Hércules e Jasão
oferecendo um sacrifício a Minerva asiática; a deusa usa a coroa
radiada e está envolta numa túnica fechada e ricamente
bordada. Posto sobre uma coluna, o ídolo ergue as mãos em
atitude que exclui a idéia de qualquer atributo. Perto dela, está
uma vitória alada, seguida de um éfebo, que dá a impressão de
estar abrindo uma caixa contendo os utensílios sagrados (fig.
298).

Fig. 292 — Medalha romana (denário da gens Pompéia).

Fig. 293 — Moeda de Macedônia (cunhada sob Alexandre. o Grande).

Fig. 294 — Moeda grega (de Mantinéia ),

Uma medalha da Nova Ílion representa uma Palas troiana


cujo tipo, imitação de antiga figura arcaica, deve remontar a,
remota antiguidade. Está de pé e traz na mão
direita a lança apoiada ao ombro, enquanto a esquerda
empunha um facho. A ave sagrada está de pé diante da deusa,
cujo costume, e particularmente o capacete, se afastam
completamente do tipo habitual de Minerva.

Fig. 295 — Moeda romana (denário da gens Pompéia).

Fig. 296 — Minerva trazendo a Vitória (numa moeda de Lisímaco).

Fig. 297 — Minerva segurando o raio (numa moeda macedônia(

A égide é uma pele de cabra de que nos servimos como


escudo, mas significa igualmente a tempestade, e é em tal
sentido que Homero a entende, quando fala do
fogo e da luz que partem do escudo divino. Minerva, sendo na
ordem física o raio personificado, devia ter por atributo a
égide, e nos monumentos arcaicos podemos ver de que
maneira era empregada primitivamente. Na grande época da
arte, Minerva trá-la sobre o peito; a Górgona figura sempre na
égide.

Fig. 298 — Antigo ídolo de Minerva asiática (numa pintura de vaso).

A cabeça da Górgona é um dos atributos essenciais da


deusa e aparece quer sobre a égide, quer sobre o seu escudo.
Exprime o terror com o qual Palas fere os inimigos.
A Minerva arcaica de Herculanum está numa atitude
hierática : vestida do peplo de dobras tesas e engomadas,
que recobre a concha, marcha resolutamente para o combate
(fig, 300). A maneira pela qual a deusa traz aqui a égide é
característica: segura-a sobre o ombro para ter o braço
esquerdo inteiramente coberto. A égide é grandíssima, ao
passo que nos monumentos menos antigos, perde algo da
sua importância.
A égide usada por Júpiter passava por ser a pele da
cabra Amaltéia, que lhe foi nutriz. Mas há tradições
diferentes em torno da égide de Minerva. A deusa matara
o monstro Agis, filho da Terra, que vomitava chamas com uma
fumaça negra e espessa. O monstro desolou, a princípio, a
Frigia, em seguida o monte Cáucaso, cujas florestas queimou
até a Índia. Depois foi incendiar o monte Líbano e devastou
sucessivamente o Egito e a Líbia. Minerva, após o derrubar, o
traspassou com a lança e

Fig 299 — Atributos de Minerva com medalhas antigas.

da sua pele fez uma couraça, sobre a qual colocou


posteriormente a cabeça da Górgona, e que usava como troféu.
Quando a égide está colocada em volta do braço, como no-la
apresenta a Minerva de Herculanum, é sempre um sinal de
combate.
A Minerva de Egina segura a lança e o escudo no alto, mas
a égide, em vez de ser usada sobre o braço, serve de couraça
para garantir o peito e até as costas, sobre as quais recai. Essa
estátua, que hoje se encontra na Gliptoteca de Munique,
ocupava o centro do frontão ocidental do templo de Egina (fig.
301).

Fig. 300 — Minerva de Herculanum (museu de Nápoles).

A famosa Minerva de Fídias, no Partenão, era de marfim e


ouro. A deusa estava de pé, coberta da égide, e a sua túnica
descia até os calcanhares. Empunhava uma lança com uma das
mãos e com a outra uma vitória. O capacete estava encimado por
uma esfinge, emblema da inteligência celeste; nas partes laterais
havia dois grifos, cuja significação era a mesma que a da esfinge,
e, acima da viseira, oito cavalos a galope, imagem da rapidez com
a qual age o pensamento divino. A cabeça de Medusa figurava-
lhe no peito. Os braços e a cabeça da deusa eram de marfim,
com exceção dos olhos formados por duas pedras preciosas; as
vestes eram de ouro e podiam ser retiradas com facilidade, pois
era mister, quando a república se via em apertos, poder recorrer
ao tesouro público, do qual a deusa era depositária. Na face
exterior do escudo, posto aos pés da deusa, estava representado
o combate dos atenienses contra as amazonas, na face inferior o
dos gigantes contra os deuses : o nascimento de Pandora estava
esculpido no pedestal. Um trecho da Antologia grega compara a
Minerva de Fídias, em Atenas, à Vênus feita por Praxíteles em
Cnido: "Vendo a divina imagem de Vênus, filha dos mares, tu
dirás: subscrevo o juízo do frígio Páris. Se vires em seguida a
Minerva de Atenas, exclamarás: quem não lhe adjudicou o
primeiro era um boieiro!"

Fig. 301 — Minerva de Egina (museu de Munique).


A Minerva do escultor Simart, que fígurou no salão de 1855,
fora ordenada pelo duque de Luynes, o qual desejava ter uma
imitação da obra-prima perdida de Fídias, reproduzindo
exatamente a descrição a nós deixada por Pausânias (fig. 302).

Fig. 302 — Minerva de Fídias (reconstituída por Simart).

Essa estátua é certamente a mais curiosa tentativa de


reconstituição jamais tentada na arte dos últimos séculos. Eis a
descrição feita por Théophile Gautier, no relatório da Exposição
de 1855: "M. Simart, valendo-se de todos os recursos que a arte
dos últimos séculos punha à sua disposição, restaurou
felizmente a silhueta geral da estátua de Fídias: consultou os
textos e as medalhas. A sua Minerva não tem, ao que sabe bem,
a estatura da Minerva do Partenão; teve ele que limitar-se à
execução em quarto, o que dá ainda uma proporção de oito pés,
e basta para transmitir uma idéia cio original. A descrição que
acabamos de fazer ia estátua de Fídias nos dispensa
de falar pormenorizadamente de M. Simart, que se conformou
com a mais escrupulosa exatidão aos dados, por infelicidade
pouco precisos, deixados pelos antigos. A cabeça da sua estátua,
de perfil firme e severo, possui a expressão de serenidade fria e
de virgindade desdenhosa que convém à mais casta das
divindades do Olimpo; uma pedra de azulite, encastada na sua
pupila, relembra o epíteto de glauco pis, que Homero nunca
deixa de aplicar a Palas-atena, e dá ao seu olhar uma luz
estranha: dir-se-ia um olho vivo que cintila através de uma
máscara. Apreciamos bastante essa inquietadora esquisitice.
Brincos de ouro e pedras azuis acompanham as faces pálidas da
deusa; os braços, talhados num só pedaço de enormes presas de
marfim fóssil, são de rara beleza; a transparência ebúrnea,
atravessada de veios azulados e de alvores rasados, dá uma
perfeita ilusão de carne. Dir-se-ia ver a vida correr sob a formosa
substância tão polida, de grão tão fino que imita a derme
delicada de uma jovem criatura. Os pés são puros na forma,
como pés que nunca pisaram outra coisa senão o azul do céu ou
a neve brilhante do Olimpo. A túnica de ouro pálido, semelhante
ao eletro tão, celebrado na antiguidade, cai em dobras simples e
graves e forma o mais feliz contraste com os brancos matizes do
marfim. Os baixos-relevos do escudo e das sandálias possuem o
caráter helênico, e a serpente Erecteu estende de modo pitoresco
as suas escamas de ouro verde. .. A Vitória que Minerva segura
na mão, e que faz palpitar as suas vibrantes asas de ouro, é a
mais deliciosa estatueta criselefantina que possamos imaginar, e
M. Simart tem com Fídias a semelhança de haver principalmente
logrado bom êxito nessa figura. O artista, prosseguindo a
restauração, recompôs no pedestal da estátua o nascimento de
Pandora, dotada por todos os deuses como princesa de contos de
fada, do qual se afirma que Fídias ornara o soco do seu colosso.
Esse encantador baixo-relevo parece destacado de um friso do
templo da Vitória áptera; completa a estátua, cuja riqueza
necessitava tão elegante base."
A Palas de Velletri, do Louvre, é uma estátua de tamanho
colossal (fig. 303). É provável que segurasse uma Vitória de
bronze na mão esquerda, enquanto a mão direita se apoiava
sobre uma lança. Traz o capacete
coríntio, e a sua égide, formada de escamas e de peque-ninas
serpentes, está fechada por uma cabeça de Medusa que tem a
boca entreaberta e deixa ver os dentes. Foi descoberta em 1797
numa vila romana, nas cercanias de Velletri.

Fig. 303 — Palas de Velletri (segundo unia estátua antiga, museu


do Louvre).

A bela Minerva de bronze do museu de Turim, concebida


em estilo arcaico, passa por reprodução de uma obra célebre
na antiguidade (fig. 304). É uma das mais belas figuras da
deusa chegada até nós.
Não obstante o seu caráter belicoso, Palas não se
emparelha absolutamente a Marte, que exprime o tumulto e a
fúria do combate, enquanto Minerva caracteriza sobre-tudo a
inteligência guerreira e o que hoje chamaríamos de tática.
Minerva e Encélades

Minerva participou da guerra dos deuses contra os


gigantes e contribuiu poderosamente para a vitória de Júpiter.
Entre os inimigos por ela vencidos, o mais im-

Fig. 304 — Minerva (segundo uma estátua antiga do museu de Turim).

portante é Encélades. A força desse gigante era tal que, sozinho,


poderia ter lutado contra todos os deuses juntos. Num momento
em que Minerva se achava distante dos
companheiros de armas, Encélades, percebendo que ela estava
sozinha. dá um salto e posta-se-lhe na frente. A deusa o vê sem
empalidecer. reúne todas as forças e pegando com ambas as
mãos a Sicília, atira-a sobre o gigante que fica esmagado sob a
enorme massa. A-queda de Encélades termina a guerra dos
gigantes: às vezes tenta ele remexer-se, e é o que produz os
tremores de terra da região. A sua cabeça está situada sob o
monte Etna, por onde vomita chamas, o que leva um poeta
francês a dizei.:

Encelade, malgré son air rébarbatif,


dessous le mont Etna fut enterré tout vif;
là chaque fois qu'il étern:ue,
un volcan embrase les airs,
et quand par hasard il remue,
il met la Sicile à l'envers (1).

O tanque de Encélades em Versalhes mostra o gigante do


qual somente vemos a cabeça e os gigantescos braços no meio
dos fragmentos de rochedos. Mas a luta de Minerva contra esse
gigante, tal qual a descreveu a mitologia tem sido raramente
representada, por não ser do domínio da plástica. Uma medalha
de Górdio, cunhada na Selêucia, representa bem a vitória da
deusa, mas em vez de atirar a Sicília à cabeça do inimigo, ela o
traspassa com a lança (fig. 305).

Minerva e Tirésias

Virgem essencialmente casta, Minerva aparece sempre


vestida, e se os artistas dos últimos séculos a representam

_____________________________

(1) Encélades. apesar do seu aspecto rebarbativo, foi enterrado vivo


sob o monte Etna e ali cada vez que espirra, um vulcão incendia os ares,
e quando por acaso se remexe, põe a Sicília em desordem.
por vezes despida, notadamente no julgamento de Páris, é pela
ignorância em que se encontram quase sempre dos caracteres
distintivos da deusa. Um único homem, o tebano Tirésias,
observou um dia Minerva no banho, e foi imediatamente ferido
de cegueira, ou, segundo outros, metamorfoseado em mulher.
Uma bela estátua de Gatteaux representa a deusa no momento
em que nota que está sendo observada por um homem (fig. 306).

Fig. 305 — Medalha de Górdio, cunhada em Selêucia, mostrando


Minerva vitoriosa contra um gigante.

Pradier fizera um grupo de Minerva repelindo as setas de


Cupido: a idéia era justa mitologicamente. Vênus ofendeu-se
um dia pelo fato de seu filho nada poder contra a deusa
ateniense:
"Vênus. — Por que, pois, Amor, tu que venceste os demais
deuses, Júpiter, Netuno, Apolo, Réa, e eu própria, tua mãe, por
que poupas apenas Minerva? Contra ela o teu archote não tem
fogo, a tua aljava não tem setas, tu não tens arco... Não sabes
mais disparar uma seta?
Amor. — Tenho medo dela, minha mãe. Ela é terrível, os
seus olhos são terríveis, o seu aspecto imponente e viril. Todas
as vezes em que avanço contra ela para
lançar-lhe uma seta, ela me espanta agitando a sua pena; tremo
e as setas me fogem das mãos.
Vênus. — Marte, por acaso, não é mais terrível? E, no
entanto, tu o desarmaste e venceste.
Amor. — Sim, mas ele próprio é que se oferece aos meus
golpes: chama-os. Minerva, pelo contrário, sempre me fita com
desconfiança; um dia, quando por acaso voava para ela,
segurando o archote: "Se te aproximares

Fig. 306 — Minerva vista por Tirésias.

de mim, disse-me, juro por meu pai que te varo com esta lança,
pego-te pelo pé e atiro-te ao Tártaro, onde te dilacerarei com as
minhas próprias mãos para matar-te." São essas as suas
ameaças sem fim, e ao mesmo tempo
lança sobre mim olhares furiosos ; traz, ademais, sobre o peito
uma cabeça horrorosa, cuja cabeleira é feita de víboras e que
sempre me causa o maior terror. Creio estar vendo um fantasma
e fujo mal a percebo." (Luciano) .

Minerva e Mársias

Segundo uma velhíssima lenda, Minerva, tendo encontrado


um osso de cervo, dele se serviu para inventar a flauta. Mas
notando que tal instrumento a obrigava a umas caretas que a
afeavam, e que, quando pretendia tocar, as demais deusas se
riam, atirou para longe a desastrada flauta, e proferiu a
maldição mais terrível contra o que a recolhesse. O frígio
Mársias, que muito provavelmente pouco se importava com a
divindade de Atena, não atribuiu a menor importância a tais
imprecações, recolheu o instrumento e conseguiu tocá-lo com
grande perfeição. Havia na Acrópole de Atenas um grupo
representando Minerva a golpear Mársias, por ter ousado
recolher a flauta por ela atirada para longe e que ela desejava
fosse esquecida para todo o sempre. Num baixo-relevo, que está
em Roma, vemos Minerva tocando a flauta dupla, e Mársias, sob
a forma de um sátiro, a espreita para se apoderar do
instrumento, no momento oportuno. Mais habitualmente, a
deusa observa com atenção o que acaba de inventar. A mesma
razão que a obrigou a renunciar ao uso de tal instrumento,
impedia que os escultores a representassem com uma figura
deformada e careteira.
Uma medalha ática de bronze representa, no verso, Minerva
atirando fora a dupla flauta em presença do sátiro Mársias que
manifesta o seu assombro mediante gestos (fig. 307).
Minerva higéia

Vimos a serpente aparecer entre os atributos de Minerva.


Essa serpente é habitualmente o emblema de Erecteu, que foi
criado pela deusa. Mas Minerva era, por vezes, invocada como
protetora da saúde. Tinha então o nome de Minerva higéia, e a
serpente que ao seu lado surge come uma taça que a deusa
segura com a mão, como se a serpente estivesse perto da
companheira de Esculápio. Minerva higéia está representada
num baixo-relevo que decora um candelabro antigo do museu
Pio-Clementino de Roma (fia. 308).

Fig. 307 — Minerva e Mársias (segundo uma moeda antiga).

Fig. 308 — Minerva higéia (segundo um baixo-relevo antigo).


Museu Pio-Clementino.
Minerva obreira ou ergane

Minerva não é apenas guerreira. Dela é que nos vem a


indústria, e por isso tem sido denominada Minerva obreira.
Laboriosa tanto quanto guerreira, enriquece as cidades que a
honram ao mesmo tempo em que as protege. Ama a agricultura,
e ensinou aos homens o uso da oliveira: é por tal motivo que
essa árvore lhe é consagrada e que vemos figurar uma lâmpada
entre os seus atributos. A arquitetura, a escultura, a mecânica
cabem no domínio da deusa, que preside em geral a todos os
trabalhos do espírito e da imaginação. Está representada, com
tal aspecto, mas conservando o seu costume de guerra, num
interessante baixo-relevo, onde a vemos dirigir, com os seus
conselhos, um jovem escultor que cinzela um capitel, e outros
obreiros que lidam com uma máquina; Júpiter e Diana estão
atrás dela e seguidos de uma sacerdotisa fazendo uma libação, e
de uma grande serpente de cabeça de bode que representa o
gênio do teatro, como indica a inscrição mutilada que se lê
acima. A de baixo diz: "Lucéio Pecularis, empreiteiro do
proscênio, mandou colocar este baixo-relevo votivo segundo um
sonho tido."
As principais atribuições de Minerva ergane estão
resumidas num passo de Artemidoro: "Minerva é favorável aos
artesãos, em virtude do seu apelido de obreira; aos que desejam
contrair núpcias, pois pressagia que a esposa será casta e
apegada ao lar; aos filósofos, pois é a sabedoria nata do cérebro
de Júpiter. É ainda favorável aos lavradores, porque tem uma
idéia comum com a terra; e aos que vão à guerra, porque tem
uma idéia comum com Marte."
Foi Minerva obreira que inventou as velas dos barcos e a ela
se deve a construção do famoso navio Argos (v. fig. 138). Mas é
sobretudo pelos tecidos e trabalhos das mulheres que Minerva
assume importância toda especial, e tem por atributo a roca. É
também especialmente invocada pelas obreiras que preparam os
tecidos, como se pode ver neste trecho da Antologia :
"Ó Minerva, as filhas de Xuto e de Melita, Sátira, Heracléia,
Eufro, todas três de Samos, te consagram uma a sua longa roca,
com o fuso que obedecia aos seus dedos para se incumbir dos
fios mais soltos; outra a sua lançadeira harmoniosa que fabrica
as telas de tecido cerrado ; a terceira o seu cesto com os lindos
novelos de lã, instrumentos de trabalho que, até a velhice, lhes
sustentaram a laboriosa vida. Eis, augusta deusa, as ofertas das
tuas piedosas obreiras."

Minerva e Aracne

Os tecidos constituíam um dos ramos mais importantes da


indústria dos atenienses; mas as fábricas da Ásia, célebres em
todas as épocas, sobrepujavam em delicadeza as cidades gregas,
cujos tecidos menos delicados eram provavelmente mais sólidos.
Foi o que deu origem à lenda que nos pinta a rivalidade entre
Minerva e Aracne.
Aracne não era ilustre pelo nascimento, mas o seu talento e
a sua industriosidade a haviam tornado famosa. Seu pai era
tintureiro de lã na cidade de Colonon, e ela adquirira tal
reputação em todas as cidades da Lídia pela beleza dos seus
trabalhos, que as ninfas do Tmolo e do Pactolo abandonavam as
águas límpidas e os deliciosos bosquetes para lhe admirar os
trabalhos de agulha. Sabia fiar e fazer a lã, e embelezava os seus
tecidos com desenhos encantadores realçados por todas as cores
do arco-íris. Envaidecia-se, porém, de tal modo com o seu
talento, que por toda parte apregoava não ter receio de desafiar a
própria Minerva.
A deusa, ferida por tal intento, assumiu o aspecto de uma
anciã, cobriu de cabelos brancos a cabeça, e, indo procurar
Aracne, censurou-a em termos amigáveis pela inconveniência da
pretensão de uma simples mortal de se
comparar a uma deusa, e sobretudo à deusa da qual procede
toda a indústria humana. Aracne ofendeu-se, acolheu muito mal
a anciã, que assim lhe falava, e, fitando-a de sobrolho carregado,
avançou para ela disposta a golpeá-la, dizendo que, se Minerva
se apresentasse, saberia muito bem confundi-la, mas que a
deusa não ousaria, certamente, empreender uma luta que lhe
seria desvantajosa.
Minerva, diante daquelas palavras, reassume o seu
verdadeiro aspecto e declara que aceita o desafio. Ei-las a
prepararem os trabalhos, a disporem os tecidos e a iniciarem o
mister. Já corre a lançadeira com incrível rapidez, e o desejo que
ambas experimentam de vencer lhes redobra a atividade. Para
tornarem o trabalho mais perfeito, cada uma delas desenha
velhas histórias. Minerva representou no seu a disputa mantida
com Netuno em torno do nome que deveria ser usado pela cidade
de Atenas. Aracne houve por bem fixar histórias que não podiam
deixar de ser desagradáveis às divindades do Olimpo grego.
Viam-se as metamorfoses dos deuses, e as suas intrigas
amorosas figuradas de tal modo que nenhum prestígio lhes
advinha. Mas o trabalho de Aracne foi executado com tal
delicadeza e tão incrível perfeição que Minerva não logrou
descobrir sequer o menor defeito.
Esquecida, então, de que era deusa, para só se lembrar do
despeito provado por se ver igualada em finura por uma simples
mortal, Minerva rasgou o tecido da rival, que imediatamente se
enforcou de desespero. Minerva, tomada de piedade, sustentou-a
no ar, para impedir que se estrangulasse, e disse-lhe: "Viverás,
Aracne, mas ficarás para sempre pendurada desta maneira; será
o castigo teu e de toda a tua posteridade." Ao mesmo tempo,
Aracne sentiu que a cabeça e o corpo lhe diminuíam de volume;
mingudas patas lhes substituíram os braços e as pernas, e o
resto do corpo se transformou num enorme ventre. A partir de
então, as aranhas sempre continuaram a fiar, e a indústria
humana até hoje não conseguiu igualar a finura dos seus
tecidos. (Ovídio).
É fácil notar que esta lenda, na qual Minerva não revela
absolutamente um bom caráter, tem a sua origem nas cidades
gregas da Ásia. Aracne, que é lídia, mostra, aos olhos dos gregos,
uma singular audácia ao se comparar com a ateniense Minerva,
mas os tecidos do Oriente eram
inimitáveis, e procurados ansiosamente em todos os mercados
da Grécia ; não é no terreno do trabalho que Aracne é vencida, é
apenas mediante um resultado do poder divino, de que se acha
dotada a adversária, igual, senão superior a ela em talento.

A festa das Panatenéias

A grande festa das Panatenéias celebrava-se em Atenas, em


honra de Minerva (Atena), deusa tutelar da cidade, a quem ela
devera o nome. A festa compreendia diferentes exercícios, entre
outros corridas a pé e a cavalo, combates gímnicos, e concursos
de música e poesia. As lutas gímnicas se desenrolavam nas
margens do Ilisso. A festa terminava por uma grande procissão
figurada no friso da cela do Partenão.
O objetivo religioso da festa era cobrir a deusa de um véu
novo em substituição ao que fora gasto pelo tempo. Mas o
objetivo político era muito outro; tratava-se de mostrar que
Minerva era ateniense pelo coração, e que ninguém podia
invocar-lhe a proteção, se não fosse amigo de Atenas.
No monumento, vemos a sacerdotisa recebendo duas jovens
virgens que lhe entregam objetos misteriosos. As jovens são
crianças, pois segundo os ritos não podiam ter menos de sete
anos nem mais de onze. "Durante a noite que precede a festa, diz
Pausânias, põem elas sobre a cabeça o que a sacerdotisa lhes
ordena que carreguem. Ignoram o que se lhes dá: aquela que
lhes dá os objetos misteriosos também nada sabe Há na cidade,
perto da Vênus dos jardins, um recanto em que se acha um
caminho subterrâneo cavado pela própria natureza. As jovens
descem por aí, depõem o fardo, e em troca recebem outro,
cuidadosamente coberto. O precioso fardo contém a velha
vestimenta. e o que elas trazem de volta encerra a nova.
Como a cena se desenrola de noite, uma delas empunha um
archote."
Enquanto a sacerdotiza recebe a nova vestimenta da deusa,
o grão-sacerdote, assistido por um jovem rapaz, se ocupa em
dobrar o antigo peplo. O público não assiste à misteriosa cena do
santuário, mas os deuses, espectadores invisíveis, estão
sentados e dispostos em grupos simétricos. Entre eles, depara-
se-nos Pandrosa, recoberta do véu simbólico que caracteriza o
sacerdócio; mostra ela ao jovem Erecteu, ajoelhado, a cabeça cia
procissão que avança em direção ao santuário.
Vem antes um grupo de anciãos de andar grave, todos
envoltos nos seus mantos e quase todos a se apoiarem nos seus
bordões. São os guardas das leis e dos ritos sagra-dos, pois
alguns parecem dar instruções às jovens virgens atenienses que
os seguem. Trazem estas com gravidade o candelabro, o cesto, os
vasos, as páteras e os demais objetos destinados ao culto.
Depois das atenienses, surgem as filhas dos forasteiros fixados
em Atenas. Não têm o direito de carregar objetos tão santos, mas
seguram nas mãos os assentos dobradiços que servirão aos
canéforos. Vêm, depois, os arautos e os ordenadores da festa,
que precedem os bois destinados ao sacrifício, seguidos dos
meninos que conduzem um carneiro. Desfilam alguns homens
que seguram bacias e odres cheios de azeite. Finalmente os
músicos que tocam flauta ou lira, e um grupo de anciãos, todos
empunhando um ramo de oliveira.
Começa, então, o desfile dos carros puxados por quatro
cavalos e o longo cortejo dos cavaleiros. Sabia-se que Minerva
ensinara aos homens a arte de domar os cavalos e de os atrelar
ao carro, e a festa era sempre acompanhada de jogos eqüestres.
Todos conheciam, pelos moldes, a famosa cavalgata do Partenão.
Um cortejo de jovens, cuja clâmide flutua ao vento, doma os
cavalos tessalienses que se empinam e lhes resistem.
Os prêmios concedidos aos vencedores nos jogos realizados
em honra de Minerva consistiam ordinariamente em ânforas
cheias de azeite. Era um modo de lembrar que a deusa plantara
a oliveira que constituía a grande riqueza da Ática. O museu do
Louvre possui vários desses vasos, chamados panatenaicos. Têm
eles interessantes
decorações, nas quais vemos Minerva de pé, brandindo a lança e
segurando o escudo. A figura está concebida no estilo tradicional
das antigas figuras de estilo arcaico. Está situada entre duas
colunas que suportam, cada uma, um galo (fig. 309).
O galo era, com efeito, consagrado a Minerva obreira ;
Creuzer nos explica a razão: "O nome de ergane, diz ele,
exprimiu a princípio o próprio trabalho, a tarefa diária, e parece
ter-se aplicado primitivamente, como epíteto de Minerva, à
proteção especial que a deusa dispensava às

Fig. 309 — Vaso panatenaico (museu do Louvre).

ocupações das mulheres. Sob tal ponto de vista, era-lhe


consagrado o galo: quando o canto dessa ave anuncia o retorno
da Aurora, relembra-nos ao mesmo tempo o culto de Minerva
ergane e de Mercúrio agoreu, ou seja, os trabalhos da indústria e
do comércio."
CAPÍTULO V

A GÓRGONA

Danai e a chuva de ouro. — Infância de


Perseu. — Perseu e as Górgonas. —
Pégaso e Crísaor. — O coral. — Atlas
petrificado. — Perseu e Andrômeda. —
As núpcias de Perseu.

Danai e a chuva de ouro

Abas, filho de Linceu e Hipermnestra, a única Danaida que


não matou o marido, teve dois filhos, Acrísio e Proeto, que por
longo tempo disputaram o trono de Argos. Acrísio terminou por
vencer e, expulsando o irmão da cidade, tornou-se senhor único
do poder. Tinha ele uma filha chamada Dánai. Havendo um
oráculo predito que ele seria, um dia, destronado pelo neto,
Acrísio mandou encerrar a filha numa torre de bronze, para que
ela não contraísse núpcias. Danai, condenada pelo pai a
passar os dias naquela prisão, da qual jamais deveria sair, foi
vista por Júpiter, que, metamorfoseando-se em chuva de ouro,
conseguiu iludir a vigilância e penetrar ria torre.
O tema inspirou vários quadros famosos. Ticiano, numa
pintura do museu de Nápoles, mostra o próprio Júpiter, ainda
envolto nas nuvens e difundindo ouro a mancheias. Correggio
colocou perto de Dánai um Amor que a ajuda a recolher o
tesouro e Annibal Carraci adotou a mesma maneira de
apresentação.

Infância de Perseu

Da união de Júpiter com Dánai nasceu o herói Perseu.


Quando Acrísio soube que era avô, encolerizou-se
espantosamente e mandou encerrar Dánai e o filhinho num baú
que foi atirado ao mar. Mas um pescador, descobrindo o baú,
lançado pelas ondas às costas da ilha de Serifo, uma das
Ciciadas, abriu-o imediatamente, e, vendo nele pessoas vivas,
levou-as ao rei do país que se chamava Polidecto. Este deu-lhes
hospitalidade, mas ao ' cabo de algum tempo se apaixonou por
Dánai, e visto que Perseu, já crescido, lhe poderia prejudicar os
planos, resolveu desfazer-se dele. A oportunidade tardou, mas
notando que o jovem herói ardia do desejo de se assinalar,
pediu-lhe o rei a cabeça de Medusa, certíssimo de que os mais
valorosos jamais lograriam levar a efeito tão perigosa façanha
Perseu compreendeu os perigos que o ameaçavam, mas, decidido
a enfrentá-los, pediu emprestado a sua irmã Minerva o escudo, a
Plutão o capacete forjado por Vulcano, e a Mercúrio as asas
talares. Quando se viu equipado começou a procurar Medusa.
Perseu e as Górgonas

Eram as Górgonas três filhas de Fórcis, chamadas Euríala,


Medusa e Esteno. Somente Medusa era mortal, mas possuía
admirável beleza. Netuno, apaixonando-se por ela, marcou-lhe
encontro num templo de Minerva; a deusa, indignada com tal
profanação, mudou o rosto de Medusa, cujos cabelos se
tornaram serpentes (fig. 310).
As Górgonas eram assaz temidas. "São, diz Ésquilo, virgens
aladas, monstros detestados pelos mortais, e que ninguém
encara sem morrer." Era, por conseguinte,

Fig. 310 — Cabeça de Medusa (segundo uma moeda antiga).

dificílimo chegar à Medusa, e quando se conseguia, corria-se o


grave risco de ficar petrificado, pois a sua cabeça tinha a
propriedade de transformar em pedra todos os que a
contemplavam.
Era preciso, antes, penetrar num lugar fortificado com
elevadas muralhas, cuja guarda estava confiada às duas filhas
de Fórcis, que se mantinham à porta. Só tinham um olho para
ambas, do qual se valiam alternadamente. Enquanto uma
delas emprestava o olho à outra, Perseu apoderou-se dele com
habilidade, e tornou-se senhor da passagem. Penetrou, então,
por caminhos tortuosos e sombrios até o palácio das
Górgonas, que ele viu repleto de homens e animais
petrificados. Chegado ao pé de Medusa, só fitou a própria
imagem refletida pelo escudo, e preservando-se, dessarte, de
qualquer feitiço, cortou-lhe a cabeça.
Os monumentos nos mostram as precauções tomadas pelo
herói para não olhar uma inimiga cuja simples visão bastaria
para o petrificar. Numa pedra gravada antiga (fig. 311) Medusa,
cujo corpo está protegido por uma

Fig. 311 — Perseu mata Medusa voltando a cabeça para não ficar
petrificado (segundo uma pedra gravada).

égide, acaba de ser abatida por Perseu que, ao golpeá-la, volta a


cabeça para ver apenas a sua própria cabeça refletida no escudo.
Numa moeda de Galatia, a cena está fixada mais ou menos da
mesma maneira, mas Medusa tem o peito nu, e é a própria
Minerva que apresenta o escudo a Perseu, para que possa, sem
perigo, ver onde aplica os golpes (fig. 312).

Fig. 312 — Perseu é auxiliado por Minerva. na sua luta contra Medusa (segundo
uma moeda dos gálatas).
Pégaso e Crisaor

Medusa não tivera filhos, mas agradara a Netuno, que, para


dela acercar-se, assumira o aspecto de cavalo. Quando Perseu
lhe cortou a cabeça, o sangue que jorrou abundantemente
produziu imediatamente um cavalo alado de nome Pégaso, e
outra personagem misteriosa de nome Crisaor, que não possui
lenda pessoal, mas que, tornando-se esposo de Caliroé, foi pai de
Gerião, gigante de três cabeças, e da terrível Equidna, monstro
metade mulher e metade serpente. Foi da união de Equidna com
Tifão que nasceram a Quimera, o dragão de Cólquida, Cérbero, a
hidra de Lerna, etc.
O aparecimento de Pégaso e Crisaor está figurado num vaso
de estilo arcaico: lançam-se ambos do pescoço de Medusa
decapitada. Esta tem asas nas costas e nos pés. Uma de suas
irmãs, igualmente alada, com duas grandes serpentes nas mãos,
e outras nos cabelos, atira-se em perseguição a Perseu, mas sem
empregar na perseguição uma grande rapidez, como se vê
noutras figuras. Perseu tem aspecto assaz tranqüilo, sentindo-se
protegido por Minerva que está atrás e estende o manto para
impedir que as serpentes da Górgona atinjam o herói. Esta
Minerva, contrariamente ao hábito, não tem nem capacete, nem
lança. Quanto a Perseu, segura ele numa das mãos a harpe com
a qual cortou a cabeça de Medusa, e na outra um bastão em
forquilha terminado por cabeças de ser-pentes, o que constitui a
forma mais antiga de caduceu. Além disso, traz suspenso ao
ombro uma espécie de saco de cesto no qual colocou a cabeça de
Medusa que aparece. Essa composição, de um desenho
extremamente grosseiro, pertence ao mais antigo estilo, e está
numa ânfora de Nola.
A decapitação de Medusa está representada de maneira
estranha e ingênua noutro vaso de estilo arcaico. Perseu, que
acaba de cortar a cabeça de Medusa, foge velozmente, para evitar
as duas irmãs da vítima que o
perseguem, mostrando a língua (figs. 313 e 314). Minerva e
Mercúrio assistem à cena que se poderia acreditar haver sido
tirada de um passo de Hesíodo: "O filho de Dánai alongava-se
na corrida, semelhante a homem que precipita a fuga,
tremendo de terror; nas suas pegadas se atiram os monstros
inconquistáveis e funestos de no-mear, as Górgonas,
impacientes poro alcançarem." Perseu é o antepassado de
Hércules : é por isso que na descrição do escudo de Hércules,
Hesíodo lhe atribui grande importância.

Fig. 313 — Perseu perseguido pelas Górgonas (segundo uma


pintura de vaso).

Poucas lendas foram tão populares na antiguidade como


a que diz respeito a Perseu; uma série numerosíssima de
monumentos reproduz a sua vitória contra Medusa e alguns
remontam à alta antiguidade. Uma métopa de Selinonte, que é
uma das mais antigas esculturas chegadas até nós, mostra o
herói cortando a cabeça de Medusa perto da qual vemos surgir
Pégaso. O estilo desta escultura é absolutamente bárbaro.
Um espelho etrusco nos apresenta Perseu com o capacete
de Plutão, vestido da clâmide e segurando a harpe, espécie de
. faca recurva com a qual acaba de matar Medusa. Minerva, ao
seu lado, toca com a ponta da lança a cabeça de Medusa
atirada ao chão; essa cabeça tem o crânio despojado dos
cabelos de serpente que habitual-mente a ornam.

Fig. 314 — As Górgonas perseguindo Perseu (segundo uma


pintura de vaso).

O famoso escultor Myron fizera um Perseu vencedor de


Medusa que se achava na Acrópole de Atenas. A arte da
grande época raramente representou o próprio com-bate: os
artistas preferem mostrar o herói após o seu triunfo. Nas
pedras gravadas, o herói segura com uma das mãos a harpe, e
com a outra ergue a cabeça de Medusa (fig. 315).
Como formas, não tem Perseu tipo que lhe seja próprio,
mas participa da natureza de Mercúrio, com o qual apresenta
também grandes relações como costume, nos monumentos
arcaicos. Quando está representado nu, surge como efebo,
delgado, fino, nervoso, tal qual convém a um herói cuja
agilidade é um dos principais atributos.
Durante a Renascença, Benevenuto Cellini fez um Perseu
vitoríoso, pisando com es pés o corpo de Medusa, cuja cabeça
em sangue apresenta (fig. 316). O grupo pode ser visto em
Florença e pede ser considerado obra-prima do artista, que dele
fala longamente nas suas Memórias. No começo do século XIX,
quando os franceses despojaram os museus da Itália, Canova foi
incumbido

Fig. 315 — Perseu (segundo uma pedra gravada antiga).

de fazer um Perseu, e foi tal a admiração que excitou, que a


Itália julgou haver adquirido uma obra-prima eqüivalente às
perdidas. Mas a posteridade não ratifícou esse juízo; o Perseu
de Canova, cheio de delicadeza e langor, não corresponde ao
caráter do herói e, sol) tal ponto de vista, é assaz inferior ao de
Cellini.
Fig. 316 — Perseu (grupo de Benevenuto Cellini, em Florença).
O coral

Os poemas órficos nus explicam como se formou o coral


com o sangue de Medusa derramado sobre a relva.
"Perseu, de rápído vôo, não deve ser considerado um
monstro, pois foi ele que, nas extremidades escarpadas da
Atlântida, matou esta virgem feroz, senhora de infernal
aspecto. Destino horrível para todos! Os que ela fitasse com os
seus olhos injectados de sangue, os que contemplassem o
espantoso monstro morriam imediatamente e se
transformavam em pedra por uma vontade fatal ! A robusta
Minerva, por mais corajosa que fosse, não quis encará-la.
Perseu de gládio de ouro não conseguiu olhá-la nem sequer
após exterminá-la. Aliás, foi mediante uma astúcia que lhe
cortou a cabeça: aproximando-se-lhe por trás, cortou-lhe a
garganta com uma arma recurva. Embora estivesse morta,
continuava perigoso o seu aspecto, e muitos seriam os que
desceriam à morada de Plutão por causa da sua morte. O herói
molhado de sangue, aproximando-se da praia, para lavar-se,
depôs sobre a relva verdejante a cabeça da Górgona, ainda
quente e palpitante. Após refrescar-se, saiu daquela estrada
ardilosa e das suas perigosas lutas. As raízes das ervas que se
achavam sob a cabeça estavam umedecidas pelo sangue.
Imediatamente as filhas do mar, acorrendo, apressaram-se em
comprimi-las, e fizeram-no tão bem que se diria estar a erva
transformada em pedra sólida, e fora o que real-mente
sucedera : perdeu a cor verde, é verdade, mas não perdeu a
forma; conservou somente uma cor vermelha que vinha do
sangue. O herói intrépido ficou estupefato quando viu
subitamente aquele grande milagre. A prudente Minerva, filha
de Júpiter, surgiu então, admirou-o também, e para tornar
imortal a glória do irmão, quis que o coral tivesse a faculdade
de guardar para sempre a sua nova natureza."
Atlas petrificado

Perseu, depois da vitória, elevou-se nos ares, com o auxilio


das asas talares de Mercúrio; segurando firme-mente o seu
despojo, atravessou vários países, e as gotas de sangue que
caíam da cabeça de Medusa, formaram na África essa
quantidade assombrosa de serpentes e insetos que infestam a
região. Perseu, depois de percorrer o mundo, desde as regiões
em que o sol se ergue até as em que se deita, parou no reino de
Atlas, que se estendia sobre as últimas regiões do mundo. Mas
Atlas, lembrando-se de que um oráculo predissera que os frutos
dos seus jardins seriam um dia levados por um filho de Júpiter,
acolheu-o muito mal e pretendeu expulsá-lo da sua presença.
Perseu, indignado, mas não podendo pensar em lutar contra
um gigante do tamanho de Atlas, cuja força não havia quem
igualasse, apresentou-lhe a cabeça de Medusa, cujos olhos
tinham a propriedade de transformar em pedra todos os que a
vissem. O enorme Atlas, mal viu o que lhe era apresentado,
transformou-se em montanha: a sua barba e s seus cabelos
passaram a ser as árvores que a cobrem, os ombros formaram
as alturas, e os ossos tornaram-se os rochedos que ali se nos
deparam." (Ovídio).

Perseu e Aadrômeda

Tendo petrificado Atlas, Perseu rumou para a Etiópia, e


notou, presa a um rochedo, uma jovem que ele teria tomado por
estátua, se ao mesmo tempo não lhe tivesse visto flutuar ao
vento os cabelos, e os olhos derramar
lágrimas. Era a infeliz Andrômeda, filha do rei do país: sua mãe
Cassiopéia tivera a ousadia de disputar o prêmio de beleza a
Juno, e a vingativa deusa mandara ao país um monstro que o
devastava. O oráculo de Ammon declarou que, para apaziguar a
deusa, Andrômeda devia ser exposta aos furores do monstro, e a
infeliz jovem foi ligada ao rochedo fatal pelas próprias Nereidas.
Mal Perseu se aproximou dela, as ondas se agitaram
ruidosamente, e o mar vomitou um espantoso monstro cujo
corpo cobria enorme espaço. Andrômeda dá um grito, e seus
pais, desolados, já a supõem perdida; mas Perseu, batendo o pé
no chão, se eleva aos ares, e a sua sombra, refletindo-se na
água, irrita o monstro, que contra ela desencadeia toda a sua
cólera. Perseu, então, cai do meio dos ares sobre as costas do
dragão, e enfia-lhe no ombro direito a temida espada. Jorra daí
um sangue negro, e a fera, sentindo-se ferida, dá tremendos
saltos na superfície do mar, agitando-se como javali perseguido
por matilha de cães. Os rios de sangue que correm molham as
asas do herói, que compreende não poder suster-se por mais
tempo no ar. Apoiando-se, por conseguinte, com a mão esquerda
num rochedo, fura o monstro de lado a lado.
Nos monumentos antigos, Andrômeda, presa ao rochedo,
está quase sempre vestida de uma longa túnica que lhe desce até
os pés, e ela fita habitualmente os olhos no libertador. É assim
que a vemos num baixo-relevo do museu Capitolino, em que
Perseu, provido de asas na cabeça e nos pés, oculta a cabeça de
Medusa sob as vestes para não petrificar Andrômeda a quem
ajuda a descer do rochedo ao qual estava presa. O monstro
marinho que ia devorá-la jaz aos pés do herói (fig. 317).
Os artistas dos últimos séculos compreenderam de maneira
inteiramente diversa o tema. Sempre representam Andrômeda
em completo estado de nudez. Paolo Veronese e Rubens fazem
descer o herói do céu, e ele se precipita do alto para baixo a fim
de combater o monstro, mais ou menos como o arcanjo Miguel
quando abate o demônio. No grupo de Puget, que está no Louvre,
Perseu está atarefado em livrar Andrômeda dos grilhões. Esta,
inteiramente nua, apoia um dos braços já livre sobre o herói (fig.
318).
Para indicar as conseqüências da libertação, o es-cultor
imaginou colocar aos pés de Andrômeda um Cupido encadeado
como ela, e que não pode deixar de sorrir ao libertador. O grupo
fora ordenado para o parque de Versalhes, e quando foi
apresentado a Luís XIV, o rei se entusiasmou. No entanto,
fizeram-se algumas observações ao artista, quanto ao vulto de
Andrômeda, algo pequenina para Perseu. A estátua não vale,
enfim, o Milo de Crotona, do mesmo artista, ao qual, não
obstante, o rei a julgou superioríssima.

As núpcias de Perseu

A sala do festim estava preparada para celebrar a união de


Perseu com Andrômeda, e os convivas do herói ouviam a
narração dos seus feitos, quando subitamente alguns homens
armados se precipitaram para o meio do banquete, onde
imediatamente introduziram a desordem. À testa dos invasores
estava Fineu, que, outrora noivo de Andrômeda, não suportava a
idéia de vê-la casar-se com outro. Avançando em direção a
Perseu, e empunhando a lança, disse-lhe: "Vês aqui um rival que
deseja vingar a afronta que lhe atiraste ao rosto, roubando-lhe a
noiva. Nem as tuas asas, nem esse pretenso Júpiter que dizes
ter-se mudado em chuva de ouro para te dar a luz do dia, não
conseguirão salvar-te do castigo que mereces." Assim falando,
atira a lança contra o herói que se defende, abaixando-se.
Os amigos de Perseu querem ajudá-lo, mas são poucos, e o
príncipe grego vê-se imediatamente cercado por todos os lados.
Andrômeda grita que não quer outro marido senão o homem a
quem deve a vida, as mulheres que a rodeiam dão horríveis
gritos, mas nada detém Fineu e o seu bando. Perseu, cercado
por todos, busca defender-se dos dardos que lhe são atirados,
mas vendo que o
seu valor seria inútil contra tanta gente, diz: "Visto que a isso me
obrigais — e apresenta a cabeça de Medusa — chamarei em meu
auxílio o inimigo que venci. Vós, que lutais por mim, desviai o
olhar." Duzentos guerreiros, que se atiravam contra Perseu
imobilizam-se imediata-mente, e um profundo silêncio se sucede
ao tumulto. Vários dos amigos do herói, esquecidos do que lhes
fora recomendado, olham para o lado dele e ficam petrificados

Fig. 317 — Perseu e Andrômeda (segundo um baixo-relevo antigo).

como os inimigos; o palácio só contém em breve estátuas de


pedra em violentas atitudes de homens que combatem sem
quartel.
Depois de tais feitos Perseu resolveu voltar au seu país, e,
passando para Serifo, matou o rei Polidecto, que lhe ultrajara a
mãe Dánai. O retorno de Perseu a Serifo está representado num
vaso antigo; o herói segura com uma das mãos a harpe e volta-
se para não ver a cabeça
Fig. 3 1 8 — Perseu e Aixiri meda (grupo de P. Pugot, museu do Louvre).
de Medusa que apresenta a Polidecto; este se acha,
indubitavelmente, prestes a tornar-se pedra. Minerva
está de pé diante de Perseu, e atrás dela vemos Dánai
que assiste à cena, e provavelmente aguarda a libertação
(fig. 319).
Quando Acrísio soube da chegada de Perseu a
Argos, lembrou-se do oráculo e refugiou-se numa cidade
vizinha. Perseu resolvera nâo lhe fazer mal, mas,
realizando-se naquela cidade umas festas, para lá
rumou a fim de participar das lutas que se feririam.
Lançando o disco, atingiu involuntariamente Acrísio, que
morreu no mesmo instante. Assim, aconteceu o que o
oráculo previra.

Fig. 319 — Perseu mestra a Polidecto a cabeça de Medusa (segundo


uma pintura de vaso).
CAPÍTULO VI

O CAVALO PÉGASO

Pégaso cuidado pelas ninfas. — A fonte


Hipocrene. — Belerofonte e a Quimera.

Pégaso cuidado pelas ninfas

Quando o herói Perseu matou a Górgona Medusa, o sangue


que jorrou formou Pégaso, cavalo alado, filho de Netuno. Pégaso
foi ao Olimpo onde Júpiter lhe confiou a missão de conduzir o
carro da Aurora. Os monumentos antigos nos mostram as ninfas
ocupadas em cuidar do cavalo alado, cuja limpeza lhes cabe
(fig. 320).
Pégaso, além disso, estava em relações com as Musas, e foi
ele que fez surgir as fontes de Hipocrene, que lhes eram
consagradas. É uma idéia relativamente moderna mostrar
Pégaso como cavalo alado no qual empreendem a sua viagem os
poetas. Pégaso, é, antes. o cavalo dos heróis, e é mediante o seu
auxílio que Belerofonte pôde combater a odiosa Quimera.
Minerva, que ajudara Perseu na sua luta contra Górgona,
auxiliou também Belerofonte, quando este herói quis domar
Pégaso,
Fig. 320 — Pégaso cuidado pelas ninfas (segundo uma pintura de
Pompéia).

Fig. 321 — O cavalo Pégaso (segundo uma moeda antiga).


A fonte Hipocrene

Píndaro nos diz como foi o cavalo Pégaso domado pelo herói
cor-inflo Belerofonte: "Belerofonte ardia do desejo de domar
Pégaso que devia a luz a uma das Górgonas de cabelos eriçados
de serpentes; mas s seus esforços foram inúteis até o momento
em que a casta Palas lhe deu um freio enriquecido de rédeas de
ouro. Despertando, sobressaltado, (Te um profundo sono, vê-a
aparecer aos seus olhos e ouve-a proferir as seguintes palavras:
"Tu dormes, rei descendente de Éolo! Pega este filtro, que é o
único capaz de tornar dóceis os cavalos; depois de oferecê-lo a
Netuno, teu avô, imola um soberbo touro a esse deus que é hábil
em domar corcéis." A deusa de negra égide nada mais lhe diz no
meio do silêncio da noite. Belerofonte levanta-se imediatamente,
e, pegando o freio maravilhoso, leva-o ao filho de Cerauno, o
adivinho daquelas regiões. Conta-lhe a visão que teve, como,
obediente aos seus oráculos, adormeceu durante a noite no altar
da deusa, e como a deusa lhe deu pessoalmente o freio de ouro
com o qual irá domar Pégaso. O adivinho ordena-lhe que
sacrifique sem demora após o sonho, que erga um altar a
Minerva eqüestre, e que imole um touro a Netuno. Assim é que o
poder dos deuses torna fácil o que os mortais jurariam ser
impossível e desesperariam até de executar. Estremecendo de
júbilo, o intrépido Belerofonte pega o cavalo alado, e tal qual
beberagem calmante, o freio com o qual lhe aperta a boca
modera-lhe o impetuoso fogo: então, atirando-se-lhe ao lombo,
Belerofonte, devidamente armado, não tarda em transportar-se
com ele pelos ares."
Uma antiga moeda nos mostra Belerofonte pegando o cavalo
alado e domando-o (fig. 322). Quando o herói fugiu no lombo de
Pégaso, este, com uma patada fez jorrar a fonte Hipocrene,
consagrada às Musas. Entre-tanto, segundo outra versão, essa
fonte já existia, e foi
enquanto Pégaso ali matava a sede que Belerofonte conseguiu
domá-lo. Assim é que está representada a cena num baixo-relevo
antigo, proveniente do palácio Spada de Roma (fig. 323).

Belerofonte e a Quimera

Belerofonte não podia vencer a Quimera sem o auxílio de


Pégaso, e estava condenado a combate-la. Esse herói matara um
dos mais ilustres cidadãos de Corinto, sua pátria ; para pagar o
crime, foi obrigado a exilar-se. e recebeu hospitalidade com
Proeto, em Argos. A mulher de Proeto, cujo amor ele recusara,
caluniou-o, por vingança. com o marido e exigiu que fosse morto.
Proeto,

Fig. 322 — Pégaso domado por Belerofonte (segundo uma moeda


antiga).

não querendo ferir pessoalmente o hóspede, enviou-o ao


cunhado, Iobates, rei da Lícia, com uma ordem que mandava o
matassem.
Iobates, a princípio, fez muito boa acolhida a Belerofonte,
mas, ao abrir a mensagem, viu-se embaraçado, e ordenou que o
herói fosse combater a Quimera certo de
que o combate lhe seria fatal. Uma pintura de vaso nos mostra
Belerofonte despedindo-se de Iobates, rei da Lícia, e partindo em
companhia de Pégaso para ir lutar contra a Quimera (fig. 324).

Fig. 323 — Pegasus bebendo (segundo um baixo-relevo antigo).

Fig. 324 — Belerofonte despede-se do seu anfitrião.

A Quimera era um terrível monstro, filha de Tifão e Equidna


Tinha cabeça de leão, cauda de dragão e corpo de cabra, e,
segundo outros, as cabeças desses três
animais. Vomitava chamas pela garganta e devastava o país,
sem que ninguém ousasse atacá-la. Com efeito, para vencê-la,
era preciso possuir Pégaso. Montado no cavalo alado,
Belerofonte lutou contra a Quimera e matou-a do alto, com os
seus dardos.
Em seguida, partiu para a guerra contra as amazonas, e
cobriu-se de glória. Mas, refletindo que tudo lhe era permitido
por haver sabido domar Pégaso, pretendeu subir aos céus para
verificar o que faziam os olímpicos. Júpiter, não podendo
absolutamente tolerar semelhante audácia, mandou um
moscardo picar o cavalo Pégaso, e este, com o sobressalto, fez
com que o herói tombasse para morrer (fig. 325).

Fig. 325 — Combate contra a Quimera.

As aventuras de Belerofonte foram freqüentemente


representadas na antiguidade, e figuravam num tapete do
templo de Delfos. Vemo-las também em vasos: o herói, montado
em Pégaso, usa o barrete de viajante em combate a Quimera,
cujas duas cabeças já estão crivadas de setas.
O rei do país, perto dele, empunhando um longo cetro, admira-
lhe a coragem, e Minerva, visível apenas para o herói, lhe dirige o
feito. Vemo-lo igualmente precipitado ao chão, enquanto Pégaso
foge voando (fig. 326). As medalhas de Corinto mostram
Belerofonte matando a

Fig. 326 — Queda de Belerofonte (segundo uma pedra gravada antiga).

Quimera, e algumas pedras gravadas apresentam igual-mente o


herói colocando um freio no cavalo Pégaso ou percorrendo os
ares numa montaria alada. Rubens pintou o combate de
Belerofonte contra a Quimera, para uma decoração do arco de
triunfo erigido para a chegada do arquiduque Fernando a
Antuérpia.
LIVRO V

MARTE E VÊNUS
CAPÍTULO I

MARTE

Tipo e atributos de Marte. — Marte na


guerra dos Gigantes. — Vênus e Marte.
— Marte ferido por Diomedes. —
Filomela e Progne. — Os sacerdotes
sálios.

Tipo e atributos de Marte

Marte (Ares), deus sangüinário e detestado pelos imortais,


nunca teve grande importância entre as populações helênicas.
Em numerosas localidades, parece até haver sido inteiramente
desconhecido, e se o seu culto conservou na Lacônia
importância maior que alhures, deve-se à rudeza dos
habitantes de tal país. Foi somente entre os romanos que
Marte adquiriu importância verdadeira e permanente; o tipo de
Palas conformava-se muito mais ao gênio grego. Com efeito,
Palas é a inteligência guerreira, ao passo que Marte nada mais
é do que a personificação da carnificina. Ávido de matar, pouco
lhe
importa saber de que lado está a justiça e cuida apenas de
tornar mais furiosa a luta.
O deus da guerra e da violência aparece-nos sempre em
atitude de repouso, e as estátuas antigas jamais o representam
lutando. Tem, por vezes, numa das mãos a Vitória, como
Júpiter ou Minerva. Vemo-lo com tal aspecto numa famosa
estátua da Villa Albani. Uma linda pedra gravada mostra Marte
segurando com uma das mãos a Vitória e com a outra a oliveira,
símbolo da paz proporcionada pela vitória (fig. 327).

Fig. 327 — Marte (segundo uma pedra gravada antiga).

A maioria das vezes usa um capacete e empunha uma lança


ou gládio Aparece, assim, em várias medalhas (fig. 328), mas as
estátuas que o representam isolada-mente não são
demasiadamente comuns entre os gregos. Entretanto, a bela
estátua do Louvre, conhecida pelo nome de Aquiles Borghese
passa hoje por ser um Marte. Explica-se o elo que usa num dos
pés pelo hábito de certos povos, e notadamente os lacedemônios,
de agrilhoarem o deus da guerra.
Parece ter sido o escultor Alcameno de Atenas quem fixou o
tipo de Marte, tal qual surge habitualmente nos
monumentos artísticos. Os atributos habituais do deus são o
lobo, o escudo e a lança com alguns troféus. Uma medalha
cunhada na época de Septímio Severo nos mostra Marte com
uma lança, um escudo e uma escada para o ataque. Sob tal
aspecto, Marte recebe o epíteto de Teichosipletes (que sacode as
muralhas) (fig. 329). Em geral, porém, não tem real importância
na arte a não ser pela sua ligação com Vênus.

Fig. 328 — Atributos de Marte.

Num célebre quadro da galeria de Florença, Rubens


representou Marte, que Vênus e Cupido se esforçam inutilmente
por reter, e que, de gládio empunhado, segue a Discórdia
precedida do Temor e do Espanto. As Artes chorosas, a Música,
a Arquitetura e a Pintura, são pisadas pelo feroz deus: o
comércio está destruído e os campos prestes a ser incendiados.
Noutro quadro do mesmo pintor, vemos, ao contrário, Marte
repelido por Minerva, enquanto a Terra oferece o seio fecundo do
qual o leite jorra ao lado de um grupo de crianças que acorrem a
ver uma cornucópia que lhes oferece Pã, o deus da agricultura.
Marte na guerra dos Gigantes

Claudiano descreveu o papel de Marte na guerra dos


Gigantes. "O deus impele os seus furiosos corcéis contra a
horda formidável e, imprimindo ao gládio um movi-mento
irresistível, o monstruoso Peloro é atingido no ponto em que,
por um estranho acoplamento, duas ser-pentes se lhe unem ao
corpo que elas sustentam. Marte vendo-o tombar, faz passar as
rodas do carro sobre o inimigo vencido, e o sangue que jorra
desse corpo enorme avermelha as montanhas vizinhas.

Fig. 329 — Marte fazendo estremecer as paredes (medalha antiga).

"Entretanto, Peloro tinha um irmão, o gigante Mi-mas, que,


ocupado em lutar noutra região, viu Peloro cair. Mimas pensa
exclusivamente na vingança e, curvando-se para o mar, quer
dele arrancar a ilha de Lemnos para atirá-la contra o deus.
Marte evita o choque e com um golpe de lança fura a cabeça de
Mimas, cujo cérebro se esparrama à direita e à esquerda
(fig. 330).
Marte foi menos feliz com outros Gigantes. Fôra
aprisionado por Oto e Efialtes que o haviam mantido agrilhoado
durante treze meses. O escultor Flaxman nos mostra o deus da
guerra em posição humilhante (fig. 331). Oto e Efialtes tinham
tentado escalar o céu colocando o monte Ossa sobre o Olimpo e
o Pélion sobre o
Ossa. Diana, para evitar-lhes a perseguição, viu-se obrigada a
transformar-se em corça, e estando a fugir precipitadamente, os
dois irmãos Gigantes, que vinham um em cada direção, atiraram
contra ela, ao mesmo tempo, os seus dardos, e dessa maneira
mataram um ao outro. (Apolodoro) .

Fig 330 — Marte matando Mimas (segundo uma pedra gravada


antiga).

Vênus e Marte

A aliança entre a guerra e o amor, entre a força e a beleza,


é uma idéia inteiramente conforme ao espírito grego. Apesar de
brutalíssimo, não pôde Marte resistir a Vênus que o subjuga e
domina com um sinal: da união de Marte e Vênus nasceu
Harmonia. Vários monumentos antigos, notadamente o famoso
grupo do museu de
Florença e o do museu Capitolino, reproduzem essa ligação
que também se vê em pedras gravadas (fig 332).
Os romanos gostavam de fazer-se representar com suas
mulheres, e usando os atributos de Marte e Vênus; era uma
alusão à coragem do homem e à beleza da mulher. Aliás, os
romanos consideravam Marte e Vênus autores

Fig. 331 — Marte agrilhoado é vigiado por Oto e Efialtes (segundo


Flaxman).

da sua raça, e durante a época imperial, dava-se freqüen-


temente aos deuses a feição dos imperadores. Assim é que
temos no Louvre um grupo, cuja personagem masculina
parece ser Adriano ou Marco Aurélio, e que representa Marte
ao lado de Vênus. Mas a imperatriz está vestida. Vários
arqueólogos pensam que a Vênus de Milo estava ao lado da
estátua de Marte. A arte dos últimos
séculos ligou igualmente as duas divindades e, num encantador
quadro do Louvre, le Poussin nos mostra o deus da guerra,
esquecido dos seus atributos e do seu papel, sorrindo para a
deusa, enquanto os cupidos brincam tranqüilamente com as
armas, no meio de risonha paisagem.

Fig. 332 — Marte e Vênus (segundo um grupo antigo).

Marte ferido por Diomedes

Marte, na guerra de Tróia acirrado inimigo dos gregos, foi


ferido por Diomedes e deu um grito semelhante ao clamor de dez
mil combatentes numa furiosa batalha. Subiu ao Olimpo para
dar vazão às suas queixas contra o herói grego e sobretudo
contra Minerva que dirigira o
golpe. "Tens por tua filha, diz a Júpiter, uma indigna fraqueza,
porque tu sozinho foste quem gerou tão funesta divindade. Ei-la
agora que excita contra os deuses o insensato furor de
Diomedes. Ousado! Em primeiro lugar feriu Vênus na mão,
depois atirou-se a mim, e se os meus pés velozes não me
houvessem subtraído à sua cólera, lá teria ficado eu estendido
sem força aos golpes do ferro."
Júpiter acolhe mal as queixas de Marte: "Divindade
inconstante, exclama, cessa de importunar-me com os teus
lamentos! De todos os habitantes do Olimpo, tu és o que eu
mais odeio, pois só amas a discórdia, a guerra. a carnificina.
Tens, sem dúvida, o intratável caráter de tua mãe Juno, que as
minhas ordens soberanas mal conseguem domar. Os males que
suportas hoje são o fruto dos seus conselhos. Mas não quero
que sofras por mais tempo, visto que sou teu pai." O rei dos
deuses manda, então, que se cure o filho e um bálsamo salutar
lhe acalma as dores, porque os deuses não podem morrer
Um interessante quadro da mocidade de Davi, que obteve o
segundo prêmio em 1771, mostra Diomedes no momento em
que acaba de lançar contra Marte o dardo

Fig. 333 — Vênus, marte e Cupido (segundo uma pedra gravada,


antiga).
dirigido por Minerva. Marte, ferido, está caído. O quadrinho é
valioso, porque nos dá a conhecer Davi numa época em que o
jovem artista não pensava absolutamente na reforma que.
posteriormente, introduziu na pintura, e em que todo o seu
talento estava impregnado do estilo dominante então na escola
francesa.

Filomela e Progne

O caráter feroz das lendas concernentes a Marte mais ainda


se exagera, quando elas se aplicam a seus filhos. Tivera ele de
uma ninfa um filho chamado Tereu, rei da Trácia, que desposou
Progne, filha do rei de Atenas Pandião. Tinha este outra filha
chamada Filomela. Progne exprimiu ao marido o desejo de rever
a irmã da qual se achava separada havia cinco anos. Tereu foi,
então, a Atenas procurar Filomela, mas no caminho abusou
dela, e, após lhe arrancar a língua para obrigá-la ao silêncio,
encerrou-a numa torre. Disse, em seguida, a Progne que sua
irmã morrera ; mas Filomela, do fundo da masmorra, descobriu
um modo de mandar à irmã, num pedaço de tela, a narração das
suas aventuras.
Progne, com o auxílio das festas de Baco, conseguiu libertar
Filomela, e ocultou-a num canto do palácio. Juntas, meditam
clamorosa vingança. Tereu tinha um filho muito moço, chamado
Ítis ; chamam-no, matam-no, e cozem-lhe os membros que, de
noite, Progne oferece ao marido. Tereu pergunta porque o filho
não está à mesa, mas só quando termina o repasto é que
Filomela, saindo subitamente do esconderijo, lhe anuncia que
comeu a carne do próprio filho e, ao mesmo tempo, para que ele
não duvide do que lhe afirma, lhe atira ao rosto a cabeça do
infeliz rapaz. Tereu, não se contendo, quer levantar-se para
estrangular as duas irmãs, mas os deuses, desejosos de pôr
cobro a tão horrível família, metamorfoseiam Progne em
andorinha, Filomela em rouxinol, Ítis em
pintassilgo e Tereu em pomba. A bárbara história ministrou a
Rubens tema para um quadro que está na Espanha ; vemos
Progne e Filomena mostrando a Tereu a cabeça do filho, cuja
carne ele acaba de comer.

Os sacerdotes sálios

O culto de Marte tinha grande importância em Roma. Era


exercido pelos sacerdotes sálios, instituídos por Numa para
guardarem os ancilos. Os ancilos tinham sido feitos em Roma
sobre o modelo de um escudo caído do céu, durante uma peste
que dizimava a cidade, e eram considerados o palácio romano.
Durante certas festas os sacerdotes sálios percorriam a cidade
levando a passeio os ancilos cuja forma nos foi conservada num
denário de prata cunhado sob Augusto. O barrete que está no
meio é o ápex do flâmine.

Fig. 334 — Os sacerdotes sálicos trazendo os escudos sagrados.

Fig. 335 — Os escudos sagrados e o ápex do flâmine.


CAPÍTULO II

AS SEQUAZES DE MARTE

Belona. — A Discórdia. — Etéoclo e


Polinice. — Anfiaraus. — Arquémoro. —
Combate dos dois irmãos. — Funerais
de Etéoclo e de Polinice.

Belona

A companheira habitual de Marte é Belona (Enio),


personificação da chacina. Tinha ela por missão especial
conduzir o carro do deus da guerra e excitar-lhe os cavalos com
a ponta de uma lança. As figuras antigas de Belona são
extremamente raras. Plínio narra que Apeles pintara um quadro
representando Belona, de mãos atadas atrás das costas e presa
ao carro triunfante de Alexandre: o quadro fora levado para
Roma como troféu.
A Discórdia

Nos poetas, Belona é escoltada pelo Espanto, pela Fuga e


pela Discórdia, divindades às quais a arte não destinou tipo
particular. Contudo, tem a Discórdia grande importância na
mitologia, pois foi ela que causou a ruína de Tróia, atirando a
maçã de ouro entre as deusas. Homero faz da Discórdia o retrato
seguinte: "Deusa que, fraca no nascimento, cresce e em breve
oculta a cabeça no céu, enquanto os pés lhe permanecem na
Terra; é ela que, atravessando a multidão dos guerreiros,
derrama em todos os corações o ódio fatal, precursor da
carnificina. Faz retumbar a voz, dá gritos alucinantes, terríveis, e
lança no coração de todos os guerreiros impressionante coragem.
Apraz-se em ouvir os gemidos do soldado que morre e, quando
todos os deuses se retiram do combate, é a única que permanece
no campo de batalha para dar, como pasto aos olhos, o
espetáculo dos mortos e dos moribundos."

Etéoclo e Polinice

A Discórdia preside às disputas que dividem os povos e as


famílias. A Fábula de Etéoclo e Polinice nos mostra a sua ação.
Os dois filhos de Édipo haviam expulsado o pai, que s cobriu de
maldições e lhes predisse que se matariam um ao outro. Os dois
irmãos, temendo que a maldição paterna fosse ratificada pelos
deuses, se continuassem a viver juntos, decidiram, de comum
acordo, que Polinice seria o primeiro em se exilar
voluntariamente da pátria, que deixaria o cetro a Etéoclo, e
voltaria depois,
para que cada um pudesse reinar, alternadamente, um ano. Mas
Etéoclo, uma vez no trono, recusou-se a descer e proibiu ao
irmão o regresso à pátria. Polinice, então, tratou de procurar
aliados para a defesa dos seus direitos.

Anfiarans

Adrasto, rei de Argos, acolheu Polinice, e prometeu-lhe


repo-lo no trono de Tebas. Buscou, por conseguinte, aliados para
empreender a luta, mas um poderoso chefe, Anfiaraus, tratou de
dissuadir ambos, por ser adivinho e por lhe haver a ciência
mostrado que a guerra seria fatal aos que a começassem, e que
todos morreriam, com exceção apenas de Adrasto. Anfiaraus
tinha uma mulher chamada Erifila, e por um velho juramento
que fizera a Adrasto, comprometera-se, no caso de divergências
entre eles, a submeter-se inteiramente à decisão de Erifila.
Quando Polinice soube disso, empregou um ardil para forçar
Anfiaraus a combater. Tinha em suas mãos o famoso colar que
Vênus dera, noutros tempos, à Harmonia, no dia das suas
núpcias com Cadmo. Deu-o de presente a Erifila, que, assim, se
deixou corromper, e Anfiaraus, apesar da certeza que tinha do
mau êxito do negócio, foi obrigado a combater com Adrasto e
Polinice.

Um poderoso exército se reuniu em breve para marchar


contra Tebas. Comandavam-no sete chefes : Adrasto, Polinice,
Capaneu, Partenopeu, Anfiaraus, Hipomedonte e Tideu. Juraram
todos que se auxiliariam mutuamente e partiram com os
soldados que iriam combater sob as suas ordens (fig. 336).
Arquémoro

Durante o caminho, faltou-lhes água, e o exército começou


a sofrer devoradora sede. Encontraram, então, uma criatura que
tinha um filhinho, e perguntaram-lhe se não havia no pais uma
fonte. Chamava-se o menino Ofeltes e era filho do rei de Neméia.
A mulher era Hipsipila, outrora rainha de Lemnos, mas que,
tendo sido vendida posteriormente como escrava, estava ao
serviço do rei de Neméia, que lhe confiara a tutela do filho.
Hipsipila pousou a criança sobre umas folhas de aipo e

Fig. 336 — Juramento dos sete chefes (segundo Flaxman).

conduziu os sete chefes a uma fonte das proximidades. Durante


a curta ausência, porém, uma serpente envolveu nas espiras a
criança abandonada e sufocou-a. Ao regres-sarem, os chefes
apressaram-se em matar a serpente e tomaram aos seus
cuidados Hipsipila, para livrá-la da ira do rei de Neméia. Deram
à criança o nome de Arquémoro,
realizaram-lhe um magnífico funeral e instituíram em sua honra
os jogos de Neméia, nos quais os vencedores se cobriam de luto e
se coroavam de aipo. Vemos numa pintura antiga Adrasto
golpeando a serpente (fig. 337).

Combate dos dois irmãos

Anfiaraus viu naquilo péssimo presságio. Mas era preciso


partir, e assim chegaram todos a Tebas. Uma terrível batalha se
feriu sob os muros da cidade, que Etéoclo não pretendia
entregar. Como o sangue escorresse por toda parte, Etéoclo
subiu a uma torre, mandou que se fizesse silêncio, e disse aos
exércitos : "Generais da Grécia, chefes dos argivos que a guerra
atrai para estes páramos, e vós, povo de Cadmo, não arrisqueis
mais a vida nem por Polinice, nem por mim. Quero eu, sozinho,
enfrentar o perigo, e desejo lutar contra meu irmão, de homem
para homem. Se o matar, governarei sozinho; se for vencido,
entregar-lhe-ei a cidade. Vós, portanto, abandonai o combate,
voltai para Argos, não venhais mais aqui perder a vida; o povo
tebano não deseja outras mortes." (Eurípides).

Feriu-se, então, entre os dois irmãos um combate singular


no qual foram mortos ambos. Os deuses haviam ouvido as
derradeiras imprecações de Édipo. Esse com-bate figura num
grandíssimo número de baixos-relevos antigos (fig. 338).

O exército sitiante foi vencido, e todos os chefes pereceram


com exceção de Adrasto, que deveu a vida à rapidez do seu
cavalo. Assim, realizou-se a profecia de Anfiaraus.
Funerais de Etéoclo e de Polinice

O senado de Tebas, que tomara partido pelos sitia-dos,


decidiu que Etéoclo seria sepultado com honra, mas que, seu
irmão Polinice seria, em virtude da traição, deixado sem
sepultura, para que o devorassem os cães e os

Fig. 337 — Arquémoro esmagado por uma serpente (segundo uma


pintura antiga)

abutres. Antígone quis enterrar o irmão, apesar das ordens


dadas, e, decidida a desobedecer, disse aos chefes do povo: "Pois
bem! Eis o que respondo eu aos chefes
dos de Cadmos. Se não há quem queira, comigo, enterrá-lo, hei
de conseguir sozinha, e assumirei toda a responsabilidade. Não
vejo vergonha nenhuma em sepultar meu irmão, nem que para
isso devesse, rebelada, ir de encontro aos desejos da cidade. É
coisa grave termos caído das mesmas entranhas, termos tido a
mesma mãe, uma infeliz, o mesmo pai, outro infeliz. Sim,
delibera-(lamente, hei de continuar irmã deste morto. Ah, não se
fartarão da sua carne os lobos de ventre faminto. Hei de sozinha,
apesar de mulher, incumbir-me de remover a terra e preparar
uma cova. Trarei o pó nas dobras desta tela, e eu própria
recobrirei com ele o cadáver. Ninguém objetará! Terei essa
coragem, e, o que é mais, terei ao meu lado todos os recursos de
uma alma que quer conseguir (fig. 339)." (Ésquilo).

Fig. 338 — Polinice e Etéoclo (segundo um baixo-relevo antigo. museu


do Louvre).

Pausânias, na narração das suas viagens, diz que viu o


túmulo dos filhos de Édipo. "Não assisti aos sacrifícios que ali se
realizam, mas pessoas dignas de fé me
asseguraram que nas ocasiões em que se assam as vítimas
imoladas aos dois irmãos irreconciliáveis, a chama e a fumaça se
dividem visivelmente por eles."

Fig. 339 — Funerais de Etéoclo e Polinice (segundo Flaxman).

Creonte, rei de Tebas, sabendo que, não obstante a


proibição, Antígone sepultara o irmão, pergunta-lhe se conhecia
o decreto. A jovem não nega : "Não pensei, responde, que as leis
dos mortais tivessem bastante força para superar as leis não
escritas, obra imutável dos deuses. Para mim, o traspasse não
tem nada de doloroso; mas se tivesse deixado sem sepultura o
filho de minha mãe, teria sido infeliz; quanto à morte que me
aguarda, em nada me assusta." Creonte, conformando-se à lei,
ordenou a morte de Antígone e as suas ordens foram executadas;
ao mesmo tempo, porém, soube da morte de seu filho único
Hemon, que amava Antígone, e que se ferira mortalmente. Sua
mulher morreu também ao saber da morte do filho, e Creonte
ficou sozinho com toda a amargura. Assim terminou a família de
Laio.
CAPÍTULO III

VÊNUS

Nascimento de Vênus. — Tipo e


atributos de Vênus. — Vênus celeste e
Vênus vulgar. — Pigmalião e a sua
estátua. — Vênus de Cnido. — Vênus
genitrix. — Vênus vitoriosa.

Nascimento de Vênus

Da espuma do mar, fecundada pelo sangue de Urano (o


Céu) nasceu uma jovem levada em primeiro lugar para a ilha de
Cítera e em seguida a Chipre. Deusa encantadora, não tardou
em percorrer a costa, e as flores nasciam sob os seus pés
delicados. Chama-se Afrodite (Vênus), ou Citeréia, do nome da
ilha a que aportou, ou ainda Cipris, do nome da ilha em que é
honrada. Pelo menos, é essa a tradição mais difundida, pois
algumas lendas diferentes vieram confundir-se em Vênus que, às
vezes, surge como filha de Júpiter e de Dionéia. É
também a que devemos adotar, pois os artistas que
representaram o nascimento de Vênus mostram sempre a deusa
no momento em que sai das vagas.
Nas pinturas antigas, Vênus é freqüentemente representada
deitada sobre uma simples concha; nas moedas, vemo-la num
carro puxado pelos Tritões e pelas Tritônidas. Finalmente,
numerosos baixos-relevos no-la apresentam seguida de
hipocampos ou centauros marinhos. No século dezoito, os
pintores franceses, e notadamente Boucher, viram no
nascimento de Vênus um tema infinitamente gracioso e útil à
decoração (fig. 340). Uma multidão de

Fig. 340 — Nascimento de Vênus (segundo um quadro d? Boucher).


pequenos cupidos paira noa ares ou escolta a deusa. Aliás, os
pintores franceses seguiram, nesse ponto, as tradições bebidas
na Itália.
Conformando-se à narração dos poetas, Albane colocou a
deusa num carro puxado por cavalos marinhos. Assim é que
ela vai ter a Cítera, onde a aguarda Peitho (a Persuasão), que,
na margem, estende os braços à jovem viajante. Cupido está
sentado perto do mar; as Nereidas e os Amores montados em
delfins formam o cortejo da deusa. Alegres Amores festejam a
chegada de Vênus, e outros esvoaçam no ar semeando flores
na passagem (fig. 341).

Fig: 341 — Vênus arribando a Cítera (segundo um quadro de Albane) Num


quadro dotado de grande frescor e brilho, que

faz parte do museu de Viena, Rúbens pintou a festa de Vênus


em Cítera. Ninfas, sátiros e faunos dançam em torno da sua
estátua, enquanto os Amores entrelaçam guirlandas de flores e
enchem os ares de alegres cadências. Ao fundo, mostrou o
pintor o templo da deusa.
O atavio de Vênus é um tema que a arte e a poesia fixaram
bem. Enquanto as Horas estavam incumbidas da educação da
deusa, as Graças presidiam as cuidados do seu atavio. Uma
multidão de quadros reproduziu tão encantadora cena, e os
pintores não deixaram de acrescentar todos os pormenores que
lhes sugeriu a imaginação. Quando Boucher faleceu, tinha sobre
o cavalete um quadro representando o atavio de Vênus. Prudhon
pintou Vênus estendida num leito antigo e servida pelos Amores
que lhe perfumam os cabelos, lhe estendem um espelho,
queimam perfumes em torno da deusa, trazem-lhe jóias e lhe
entrelaçam guirlandas de flores. Rubens também faz intervir
Cupido que segura um espelho no qual a mãe se fita;
infelizmente, é uma velha que lhe arranja s cabelos. A velhice
lenta e enrugada jamais deve aproximar-se de Vênus.
Albane. que está longe de ser artista de primeira ordem, é,
no entanto, o que mais lembra, pela natureza das suas
composições, as graciosas ficções da antiguidade sobre Vênus. O
Atavio de Vênus, quadro que infelizmente escureceu, é talvez, a
sua obra-prima como concepção mitológica. Num terraço, à
beira-mar, Vênus contempla-se num espelho que o Cupido lhe
apresenta, enquanto as Graças lhe perfumam a linda cabeleira. e
lhe arranjam os atavios. Diante dela está uma fonte onde um
Amor faz que matem a sede duas pombas. Um palácio aéreo,
como convém a Vênus, aparece no fundo de um tanque, ao
passo que, nas nuvens, Amores alados atrelam cisnes brancos
ao carro de ouro que vai conduzir a passeio a deusa, e enchem
os ares dos seus melodiosos concertos.

Tipo e atributos de Vênus

"O culto sírio de Astarte, diz Ottfried Mueller, parece,


encontrando na Grécia alguns inícios indígenas, ter dado
nascimento ao culto célebre e difundido por toda parte
de Vênus afrodite. A idéia fundamental da grande deusa
Natureza, sobre a qual ele repousava, nunca se perdeu
inteiramente; o elemento úmido que formava no Oriente o
império reservado a essa divindade continuou a ser submetido
ao poder de Vênus afrodite nas costas e nos portos em que era
venerada; sobretudo o mar, o mar tranqüilo e calmo, refletindo o
céu no espelho úmido das suas ondas, parecia, aos olhos dos
gregos, uma expressão da sua divinal natureza. Quando a arte,
no ciclo de Afrodite, deixou para trás as pedras grosseiras e os
ídolos informes do culto primitivo, a idéia de uma deusa cujo
poder se estende por toda parte e à qual ninguém pode resistir,
animou as suas criações; gostava-se de a representar sentada
num trono, segurando nas mãos os sinais simbólicos de uma
natureza repleta de mocidade e esplendor, de uma luxuriante
abundância; a deusa estava inteiramente envolta nas dobras das
suas vestes (a túnica mal lhe deixava à mostra uma parte do seio
esquerdo) que se distinguiam pela elegância, pois precisamente
nas imagens de Vênus, a graça rebuscada das vestes e dos movi-
mentos parecia pertencer ao caráter da deusa. Nas obras saídas
da escola de Fídias, ou produzidas sob a influência dessa escola,
a arte representa em Afrodite o princípio feminino e a união dos
sexos em toda a sua santidade e grandeza. Vê-se ali, antes, uma
união durável formada com o fito do bem geral, e não uma
aproximação efêmera que deve terminar com os prazeres
sensuais que ele proporciona. A nova arte ática foi a primeira
que tratou do tema de Afrodite com um entusiasmo puramente
sensual, e que divinizou, nas representações figuradas da deusa,
já não mais apenas um poder ao qual o mundo inteiro obedecia,
mas antes a individualidade da beleza feminina."
Vênus dá leis ao céu, à terra, às ondas e a todas as
criaturas vivas. "Foi ela que deu o germe das plantas e das
árvores, foi ela que reuniu nos laços da sociedade os primeiros
homens, espíritos ferozes e bárbaros, foi ela que ensinou a cada
ser a unir-se a uma companheira. Foi ela que nos proporcionou
as inúmeras espécies de aves e a multiplicação dos rebanhos. O
carneiro furioso luta, às chifradas, com o carneiro. Mas teme
ferir a ovelha. O touro cujos longos mugidos faziam ecoar os
vales e os bosques abandona a ferocidade, quando vê a novilha.
O mesmo poder sustenta tudo quanto vive sob os amplos mares
e povoa as águas de peixes sem conta. Vênus foi a primeira em
despojar os homens do aspecto feroz que lhes era peculiar. Dela
foi que nos vieram o atavio e o cuidado do próprio corpo."
(Ovídio).

Fig. 342 — Vênus marinha (segundo uma estátua antiga)


Vênus celeste e Vênus vulgar

Pausânias, na sua descrição de Tebas, assinala várias


estátuas de Vênus, da mais alta antiguidade, pois haviam sido
feitas com o lenho dos navios de Cadmo e consagra-das pela
própria Harmonia. "A primeira, diz ele, é Vênus celeste, a
segunda Vênus vulgar, e a terceira é chamada preservadora. Foi
a própria Harmonia que lhes impôs tais nomes para distinguir
essas três espécies de Amores: um celeste, ou seja casto, outro
vulgar, ou seja, preso ao corpo, o terceiro desordenado, que leva
os homens às uniões incestuosas e detestáveis. Era à Vênus
preser-

Fig. 343 — Medalha de Afrodite, com os atributos de Vênus.


vadora que se dirigiam as preces para a preservação dos desejos
culposos." (Pausânias).
Temos interessante exemplo desse último aspecto de Vênus,
numa decisão do senado romano, o qual, segundo os livros
sibilinos consultados pelos decênviros, ordenara a dedicação de
uma estátua a Vênus vesticordia (convertedora), como meio de
reconduzir as moças devassas ao pudor do sexo. (Valério
Máximo).
A tartaruga, emblema da castidade das mulheres, era
consagrada a Vênus celeste, e o bode, símbolo contrário,
consagrado à Vênus vulgar. As imagens da deusa, que se
encontravam em todas as casas, eram, além de tudo,
acompanhadas de inscrições que indicavam o seu caráter. Eis
aqui uma que chegou até nós: "Esta Vênus não é a Vênus
popular, é a Vênus urânia. A casta Crisógona colocou-a na casa
de Amphicles, a quem deu vários filhos, comoventes penhores da
sua ternura e fidelidade. Todos os anos, o primeiro cuidado
desses felizes esposos é de vos invocar, poderosa deusa, e em
premio da sua piedade, todos os anos lhes aumentais a ventura.
Prosperam sempre os mortais que honram os deuses." (Teócrito).

Vênus celeste está caracterizada pela veste estrelada. Vemo-


la figurada numa pintura de Pompéia onde está representada de
pé com um diadema na cabeça e um cetro na mão (fig. 344). O
famoso escultor Scopas fizera para a cidade de Élis uma Vênus
vulgar que pusera sentada sobre um bode; figura análoga se
encontra em outra pedra gravada antiga (fig. 345). No século
XIX, o pintor Gleyre compôs um belíssimo quadro sobre o
mesmo tema. Essa Vênus era sobretudo honrada em Corinto,
cidade marítima que sempre se celebrizou pelas cortesãs. Ali é
que vivia a famosa Laís, em torno da qual se lê o seguinte
epigrama na Antologia : "Eu, altiva Laís. de quem a Grécia era
joguete, eu que tinha à porta um enxame de jovens amantes,
consagro a Vênus este espelho, pois não desejo ver-me tal qual
sou, e já não posso ver-me tal qual era."
Encontra-se na mesma coletânea outro trecho ainda mais
interessante: "Minarete, que há pouco estendia os
fios da trama e sem cessar fazia ressoar a lançadeira de Minerva,
acaba de consagrar a Vênus o seu cesto de trabalho, as suas lãs
e os seus fusos, todos instrumentos seus de labor, queimando-os
no altar: "Desaparecei, exclamou, instrumentos que deixais
morrer de fome as pobres mulheres e murchais a beleza das
jovens!" Depois, pegou

Fig 344 — Vênus celeste (segundo uma pintura antiga do museu de Nápoles).

coroas, um alaúde e pôs se a levar vida alegre nas festas e nos


banquetes. "Ó Vênus, diz ela à deusa, hei de trazer-te o dízimo
dos meus benefícios: proporciona-me trabalho no teu interesse e
no meu." (Antologia).
Pigmalião e a estátua

A ilha de Chipre era particularmente renomada pelas


cortesãs. O escultor Pigmalião que ali vivia sentiu-se de tal modo
impressionado com a desfaçatez das mulheres do pais, que
resolveu viver no celibato. Mas como a sua imaginação sonhasse
constantemente com uma formosura de caráter diferente,
esculpiu uma estátua de marfim,

Fig. 345 — Vênus vulgar (segundo uma pedra gravada antiga).

representando uma mulher que à castidade de expressão unia a


pureza das formas. A imagem lhe agradou tanto, que por ela se
apaixonou ; infelizmente faltava a vida àquela pudica beleza, e
quando Pigmalião contemplava as mulheres vivas via nelas a
beleza mas nunca o pudor. Ao chegar o dia da festa de Vênus,
dia que com tamanha
magnificência se celebra na ilha de Chipre, Pigmalião dirigiu-se
ao templo da deusa, que encontrou perfumado com incenso, e
rodeado de novilhas brancas cuias pontas haviam sido
douradas e que seriam imoladas. "Grande deusa, exclamou,
abraçando o altar, faze com que me torne marido de mulher
perfeita como a estátua que esculpi!

Fig. 346 —Pigmalião animando a sua estátua (segundo um quadro de Girondet).

Parece que não estava em poder da deusa descobrir em


Chipre mulher provída da casta beleza sonhada pelo artista, pois
Vênus, para lhe ser agradável, preferiu recorrer ao milagre. Com
efeito, quando o escultor voltou, foi abraçar a estátua, e viu-lhe
as faces corar: o marfim amoleceu-se e a estátua animou-se.
Pigmalião, encantado.
agradeceu à deusa, que desejou pessoalmente assistir ao seu
himeneu.
A história de Pigmalião constitui o tema do último quadro
pintado por Girondet, e que figurou no salão de 1819. Não se
imagina a quantidade de brochuras aparecidas desde então para
louvar ou criticar o pintor. O mais interessante foi que os
médicos houveram por bem mesclar-se à discussão, e examinar,
com ridícula seriedade, a questão de saber se o artista tivera
razão em animar, primeiramente, a cabeça da estátua, cujas
pernas continuam ainda de marfim, e se teria sido mais
conveniente fazer começar a vida pelo peito, que encerra o
coração e os pulmões.
A estátua animada por Pigmalião deu-lhe um filho que foi o
fundador de Pafos, cidade de Chipre, célebre pelo culto ali
prestado a Vênus.

Vênus de Cnido

Na origem, não se tinha o hábito de representar Vênus, no


instante em que sai da espuma do mar, ou seja, inteiramente
nua. Assim, foi a obra de Praxíteles considerada novidade, e a
própria deusa testemunha, pela boca de um antigo autor, o
espanto por se ver assim desprovida de vestes. "Mostrei-me a
Páris, Anquises e Adônis é verdade; mas onde foi que Praxíteles
me viu?" (Antologia).
Narra Plínio que Praxíteles, a quem os habitantes de Cos
haviam encomendado uma Vênus, lhes deu a escolher entre
duas estátuas, uma das quais estava vestida, ao passo que a
outra estava nua. Preferiram eles a primeira, e Praxíteles vendeu
a segunda aos habitantes de Cuido que se congratularam com a
compra, pois ela granjeou reputação e fortuna ao país. A Vênus
de Cuido parece ter sido o tipo da maioria das estátuas da
deusa,
quando se representava no momento do nascimento. O Júpiter
de Fídias e a Vênus de Cnido por Praxíteles eram considerados,
nos diferentes gêneros, dois produtos dos mais perfeitos da
escultura. Dizia Plínio: "De todas as partes da terra, navega-se
em direção a Cnido, para

Fig 347 — Medalhas de Caldo.

contemplar a estátua de Vênus." O rei Nicomedes ofereceu aos


cnidianos, em troca da estátua, a totalidade das dívidas deles,
que eram importantes. Recusaram a oferta, e com razão,
acrescenta Plínio, pois a obra-prima
constitui o esplendor da cidade. Uma multidão de escritores da
antiguidade nos legou sinais da admiração que lhes inspirava a
obra-prima para a qual se fizera a seguinte inscrição: "Ao verem
a Vênus de Cnido, Minerva e Juno disseram uma à outra : Não
acusemos mais Páris."
Num dos seus diálogos, Luciano põe as seguintes palavras
na boca de um dos interlocutores: "Após examinar por longo
tempo e com prazer as plantas e os arbustos que margeiam as
aléias do templo de Cnido, entramos; no meio, eleva-se a estátua
da deusa, admirável obra, executada em mármore de Paros;
paira-lhe nos lábios um doce sorriso ; nenhuma veste lhe vela os
encantos; ela só oculta com uma das mãos, mediante um movi-
mento natural, o que o pudor não permite se mostre nem
tampouco se nomeie. A arte fez desaparecer a dureza da matéria;
em todas as partes desse belo corpo, o mármore possui a
suavidade e a sensibilidade da carne."
Se tão amplamente nos estendemos sobre a Vênus de Cnido
é porque essa obra-prima que tanto assombrou a antiguidade, e
que não mais existe, serviu de modelo à maior parte das Vênus
nuas das quais tantas reproduções se nos deparam nos museus.
Mas o documento mais importante que conhecemos é a figura
representada nas moedas dos cnidianos, a qual lembrava
certissimamente, embora com leves variações, a estátua original.
Um medalhão de Caracala cunhado em Cnido e uma moeda da
mesma cidade, onde a deusa está unida a Esculápio, nos
apresentam uma mulher nua, voltando levemente a cabeça para
um dos lados, e segurando com uma das mãos uma leve veste
erguida acima de um vaso. Esses dois monumentos foram
reunidos num florão de Gabriel de Saint-Aubin (fig. 347). O
artista suspendeu o medalhão acima de uma mesa coberta de
flores, de pedras, de orna-mentos preciosos, de vasos de formato
diferente e de diversos instrumentos do mais requintado luxo.
Quis, mediante tais objetos de atavio, aludir à famosa cortesã
Frinéia que, segundo se afirmava, servira de modelo a Praxíteles.
Compreende-se, todavia, que a gravura em medalha tem
exigências diversas das da escultura, e que seria difícil admitir
que uma moeda pudesse ser a reprodução literal uma estatua.
Assim, o braço que sustenta a
veste acima do vaso, produz pelo seu afastamento do corpo um
vácuo aceitabilíssimo em baixo-relevo, mas que seria lastimável
numa estátua. Ademais, na maioria das estátuas que passam
por imitações da Vênus de Cnido, vemos o movimento dos
membros superiores diferir sensivelmente do que é oferecido
pelas moedas: quase sempre um dos dois braços está dobrado
sobre o peito de maneira que a mão se vê na frente do seio. Na
Vênus do Capitólio, por exemplo, tal movimento é acentuadíssimo
e o vaso de perfumes recoberto de um pano, que se acha perto
da deusa, está completamente separado do braço, mas um
pouco mais aproximado da estátua para a consolidar.

Fig. 348 - Medalha de Tito com os atributos de Vênus e Cupido,

Entre as numerosíssimas estátuas que podem prender-se à


mesma série, a mais famosa é a Vênus de Médicis, situada na
tribuna da Galeria de Florença. Eis a descrição que dela fazia o
catálogo do Louvre, onde figurou
durante quinze anos: "A deusa dos Amores acaba de sair da
espuma do mar, onde nasceu ; a beleza virginal aparece, na
margem encantada de Cítera, sem outro véu que a atitude de
pudor. Se a cabeleira lhe não flutua sobre os divinos ombros, é
por que as Horas, com as suas mãos celestiais, acabam de lha
arranjar (Hino homérico). Um

Fig. 349 — Vênus do Capitólio.

delfim e uma concha estão aos seus pés: são os símbolos do


mar, elemento natal de Vênus. Os dois Amores que o encimam
não são os filhos da deusa. Um deles é o Amor primitivo (Eros)
que desemaranhou o Caos; o outro é o Desejo (Himeros) que
aparecera no mundo ao mesmo
tempo que o primeiro ser sensível. Ambos a viram nascer e
jamais se lhe afastaram dos passos (teogonia de Hesíodo). A
Vênus de Médicis tem as orelhas furadas, como já se observou
em outras estátuas da mesma deusa; sem dúvida pendiam
delas esplêndidos brincos. O braço esquerdo conserva no alto o
sinal evidente do bracelete chamado spinther, representado em
escultura em várias das suas imagens. Uma inscrição colocada
sobre o plinto nos diz que o autor da Vênus de Médicis é
Cleômenes, ateniense, filho de Apolodoro."
Vênus nem sempre está de pé quando sai das águas, e
uma numerosa série de estátuas (fig. 350),

Fig. 350 - Vênus agachada (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre).
ordinariamente designadas com o nome de Vênus agachadas,
apresenta-nos a deusa apoiando um dos joelhos ao chão para
tornar a erguer-se. O nome de Vênus no banho também lhes é
atribuído. Quando a deusa aperta a cabeleira úmida, chamam-
lhe de Vênus anadiomene. Apeles fizera uma Vênus anadiomene
da qual os antigos elogiavam bastante a beleza. Os habitantes de
Cos exigiram outra Vênus semelhante, do mesmo artista, mas
ele morreu deixando a obra incompleta.

Fíg. 351 — Trono de Marte.

A Vênus de Apeles foi celebrada várias vezes na Antologia:


"Esta Vênus, que sai do seio materno das águas, é obra do pincel
de Apeles. Vê como, pegando com

Fig. 352 — Trono de Vênus.

a mão a cabeleira molhada, espreme a água! Agora as próprias


Juno e Minerva dirão: "Não queremos mais disputar-te o prêmio
da beleza," (Antologia).
Uma estátua de bronze representando Vênus a sair
do mar e espremendo a água de que se acham embebidos
os cabelos, passa, em virtude da analogia do tema, por
ser imitação da Vênus pintada por Apeles (fig. 353).
Grande número de monumentos representa Vênus
anadiomene vogando sobre as águas com a sua escolta
de Tritões, de Nereidas ou de centauros marinhos. Numa
medalha de Agripina, cunhada em Corinto (fig. 354),

Fig. 353 — Vênus (segundo uma estátua antiga de bronze).

Fig. 354 — Vênus e os Tritões (segundo uma medalha antíga).


aparece a deusa num carro puxado por um Tritão que traz uma
concha e uma Nereida a tocar um clarim. Uma moeda dos
brutianos mostra-a sentada num hipocampo ou cavalo-
marinho: estende os braços para o Amor, que se acha sobre a
cauda do animal e dispara uma seta (fig. 355). Mas entre as
representações de tal gênero, a mais famosa é um baixo-relevo
antigo, cuja cópia se nos depara em várias coleções. Vênus está
sustentada sobre as águas por centauros marinhos: os Tritões
fazem soar as conchas,

Fig. 355 — Vênus num cavalo marinho (segundo uma


medalha antiga).

os Amores e as Nereidas rodeiam alegremente a deusa. Uma das


Nereidas segura, ao lado dela, um espelho, outra abraça um
Amor.
Numerosos quadros dos últimos séculos representam
Vênus anadiomene, e entre eles o mais famoso é o de Ticiano.

Vênus genitrix

Considerada como geradora do gênero humano, Vênus está


sempre vestida. Nas. estátuas, as dobras da sua veste indicam
freqüentemente que está molhada, e às vezes traz um dos seios
descobertos, por ser a nutriz,
universal. As medalhas a mostram vestida e com os dois seios
cobertos, mas ela está freqüentemente acompanhada de um
menino: a deusa, nesse caso, recebe o nome de Vênus genitrix.
Temos no Louvre uma bela estátua de Vênus genitrix com um
seio descoberto (fig. 356) ; de resto, o mesmo tipo se encontra
quase idêntico em vários museus.

Vênus vitoriosa

Dá-se este nome a Vênus quando ela usa as armas de


Marte. Com efeito, vemos, em várias pedras gravadas, uma
figura de Vênus segurando na mão um capacete (fig. 357). Às
vezes está ainda acompanhada de um escudo ou de troféus de
armas. Outras, segura numa das mãos o capacete, e na outra
uma palma (fig. 358). Essas figuras nos mostram sempre Vênus
triunfante contra Marte, como conseqüência da mesma idéia que
deu nascimento à lenda de Hércules fiando aos pés de Onfales. É
sempre a beleza a dominar a força.
A associação de Marte e Vênus está igualmente fixada em
duas pinturas de Herculanum, onde se nos deparam Amores
preparando o trono das duas divindades. Um capacete está
representado no trono de Marte e uma pomba no de Vênus. A
pomba é, com efeito, o atributo especial de Vênus, como o
capacete é o atributo de Marte. (figs. 351 e 352).
Colocam-se, outrossim, entre as Vênus vitoriosas unia série
de estátuas que só têm vestes para cobrir os membros inferiores,
e que têm por caráter determinante a colocação de um dos pés
sobre uma pequena elevação. Tal postura implica a idéia da
dominação sobre Marte, quando é um capacete que suporta o pé,
e sobre o mundo, quando ele se apóia simplesmente num
rochedo. Neste caráter, não tem a deusa a graça que se lhe dá
como
Fig. 356 — Vênus genitrix (segundo uma estátua antiga museu
do Louvre).
Vênus nascente; pelo contrário, assume as atitudes de heroína.
As formas do corpo estão repletas de vigor e força e as feições
possuem uma expressão de brutalidade

Fíg. 357 — Vênus vitoriosa (segundo uma pedra gravada antiga).

Fig. 358 — Vênus vítoriosa (pedra gravada antiga).


Fig. 359 — Vénus de Milo (no museu do Louvre),
desdenhosa muito distante do sorriso. A Vênus de Milo é
considerada o tipo mais completo dessa classe de está-tuas (fig.
359). A beleza grave e sem afetação de tal figura nada tem do
agradável coquetismo que a maioria dos artistas dos últimos
séculos considera apanágio essencial da mulher. Foi no mês de
fevereiro de 1820 que um pobre camponês grego a descobriu,
remexendo as terras do seu jardim. A estátua, feita de mármore
de Paros, está constituída por dois blocos cuja reunião se oculta
mediante as dobras da túnica.
CAPÍTULO IV

ADÔNIS

Nascimento de Adônis. — A caçada de


Adônis. — A morte de Adônis. — As
festas de Adônis.

Nascimento de Adônis

Toda vez que Vênus pousa os pés na terra, o solo se cobre


imediatamente de flores. Não é de estranhar que a lenda a tenha
associado a Adônis que personifica a vegetação na primavera.
Com efeito, o nascimento e a ressurreição de Adonis se verificam
com a primeira vegetação. Abre-se uma árvore e nasce Adonis.
Era ele senhor de estonteante formosura, tanto que nunca se viu
quem o igualasse. Vênus estava no momento ocupada em
acariciar o filho Cupido; mas uma flecha do pequeno deus a feriu
acidentalmente, enquanto ela o abraçava, e imediatamente a
deusa sentiu-se dominada da mais viva paixão por Adonis. Era
este uni grande caçador, e Vênus,
habitualmente tão efeminada, pôs-se a acompanhá-lo nas suas
excursões O feroz Marte, que amava Vênus, criou então violento
ciúme, e a deusa foi prevenida por Diana de que Adônis corria
grandes perigos. Tratou, na medida do que lhe era possível. de o
reter, mas, apesar das suas recomendações, Adônis conseguiu
safar-se e entregar-se ao prazer favorito.

Fig. 360 — Adônis (segundo uma pedra gravada antiga).

A caçada de Adônis

A partida de Adônis constitui o tema de várias pinturas


antigas. A mais famosa é a que foi encontrada nos banhos de
Tito em Roma. O jovem caçador, precedido do seu cavalo e dos
seus cães, empunha o dardo e repele uma derradeira tentativa
feita por uma das sequazes de
Vênus para o dissuadir. A deusa, sentada, contempla-o com
tristeza, e as mulheres que a rodeiam deploram o perigo ao
qual se expõe o formoso rapaz (fig. 361).
A lenda de Adônis, de origem síria, raramente inspirou
os escultores da grande época. Entre as estátuas que o
representam, várias são indiscutivelmente obras apreciáveis,
mas nenhuma pode ser considerada obra-prima. Na
escultura e nas pedras gravadas (fig. 360), Adônis aparece
como adolescente de formas elegantes, mas desprovidas de
um caráter especial que possa constituir um tipo.

Fíg. 361 — Adônis partindo para a caça (segundo uma pintura antiga).

A arte dos últimos séculos tem representado com


freqüência Adônis ; num grupo de Canova, Vênus enlaça-o
com os braços e parece pedir-lhe um favor que ele recusa
com ternura. A cena deu origem também a vários quadros
famosíssimos na arte dos últimos séculos. Ticiano
representou Adônis, com as feições de Filipe II, para quem se
destinava a pintura, e que era muito jovem na época (fig.
362). Vênus parece testemunhar a Adônis o temor que
experimenta, e suplicar-lhe que não exponha tão querida
cabeça. Rubens também pintou as indecisões de Adônis: mas
aqui é Cupido que busca reter o jovem ao pé de Vênus,
enquanto outros Amores acompanham os cães e parecem
chamar o caçador.
Se Rubens e Ticiano mostraram o caçador Adônis,
desdenhoso das carícias de Vênus, Albane, tratando do
mesmo tema, empregou um pouco mais de galantaria. É
durante o sono da deusa que o caçador a abandona, e pouco
falta para que ele ceda às solicitações do Amor, que procura
retê-lo pelas vestes. O cão, no entanto, não parece
absolutamente participar da hesitação, e os verdadeiros
caçadores compreenderão que Adônis houvera sido crudelíssimo
não cedendo a tão prementes solicitações.

Fig. 362 — Partida de Adônis (segundo um quadro de Ticiano,

museu de Londres). Prudhon fez com Vênus e Adônis uma


composição na qual escreveu pessoalmente as seguintes linhas:
"No meio de uma floresta sombria, Vênus, sentada num cabeço,
retém Adônis ao seu lado pelo feitiço das carícias; o jovem
caçador embriagado parece esquecer-se de que deseja partir. À
margem da água, na frente, um Amor segura os cães; mais
longe, o Amor segura uma borboleta, símbolo da alma: e ao longe
vários outros Amores correm à caçada."
A morte de Adônis

Vênus, não vendo Adônis voltar, vai procurá-lo. O caminho


estava eriçado de espinhos que rasgavam a infeliz deusa; e as
suas gotas de sangue produziram as rosas. Adônis já estava
morto quando ela chegou, e ela o metamorfoseou em anêmona.
lima pintura antiga representa Adônis ferido na coxa por um
javali, expirando nos braços de Vênus. Tem perto o cão que o fita
com tristeza, e deixa esgueirar-se, da mão que desfalece, a lança.
Vênus só tem um dos seios descoberto (fig. 363).
O mesmo tema foi tratado por Poussin com a sua habitual
superioridade (fig. 364). O pintor mostra a deusa ajoelhada perto
de Adonis já morto derramando sobre os seus ferimentos o
néctar que o vai transformar em flor. Os Amores, chorando,
contemplam a cena, e, um pouco mais longe, se nos depara o rio
adormecido perto do carro da deusa.
O rio que desce do monte Líbano tinha a propriedade de
mudar as suas águas em sangue em determinada época do ano.
Vertia-se, então, no mar de que avermelhava considerável parte,
o que indicava aos habitantes de Biblos o momento de usar luto,
pois essa época correspondia à em que Adonis fora morto pelo
javali, fato que se teria verificado nas cercanias de Biblos,
segundo a tradição do país.
Quando Adônis chegou aos infernos, todas as sombras
ficaram maravilhadas com a sua beleza, e Prosérpina por ele se
apaixonou. Vênus, debulhada em lágrimas, implorara a Júpiter
que lhe devolvesse a criatura amada, mas Prosérpina não o
deixou partir. O pai dos deuses e dos homens, embaraçadíssimo
no julgamento da divergência urgida entre suas duas filhas, e
desejando satisfazê-las ambas, decidiu que Adônis passaria a
metade da vida nos infernos com Prosérpina, e a outra metade
na terra com Vênus. Esse mito, que relembra, com colorido mais
oriental, o de Prosérpina dividindo a vida entre a terra e os
infernos, pode explicar-se simbolicamente da mesma maneira. A
idéia do inverno sombrio e estéril, ao qual
se sucede a bela estação, está aqui traduzida por Adônis
passando seis meses do ano com Prosérpina. e seis meses
com Vênus.

Fig. 363 — Adônis expirando nos braços de Vênus (segundo uma


pintura antiga).

Fig. 364 — Morte de Adônis (segundo um quadro de Poussin).


As festas de Adônis

O culto sírio de Adonis espalhou-se rapidamente nas


cidades marítimas em que os marinheiros fenícios se achavam
em grande número. Em Atenas e em Alexandria, havia festas
célebres, que se realizavam na primavera e que duravam uma
semana. Chorava-se a morte do deus, depois todos se
rejubilavam em honra à sua ressurreição. Os atenienses viam
naquilo uma cerimonia que lembrava bastante o culto de
Elêusis, e, no Egito, identificava-se de boa vontade Adonis a
Osíris, do qual se celebrava igualmente o fim trágico e o
maravilhoso renascimento. Os Ptolomeus deram grandíssima
importância a tais festas na cidade marítima de Alexandria,
para onde elas atraíam imenso concurso de estrangeiros. Mas,
embora houvesse peregrinos que ali chegavam por verdadeira
devoção, havia também bom número de forasteiros e até de
habitantes do país, que naquilo enxergavam sobretudo uma
ocasião de espetáculo. A famosa peça de Teócrito, intitulada As
Siracusanas, dá excelente idéia da impressão produzida por tais
festas nos simples curiosos, seduzidos pela beleza das
cerimônias e pelo esplendor da música.
As festas da ressurreição de Adônis eram entremeadas de
cantos de alegria, que sucediam aos lamentos da véspera :
realizavam-se sempre nos primeiros dias da primavera.
Chorava-se, em primeiro lugar, a vegetação desaparecida;
depois, celebrava-se o seu regresso à terra. Vários hinos que se
cantavam nas festas de Adônis chegaram até os nossos dias.
Eis o de Bíon, o mais famoso: "Choro Adônis ; os Amores
respondem ao meu pranto. Uma cruel ferida dilacerou Adônis,
mas Vênus traz outra, muito mais profunda, no âmago do
coração. Em torno do jovem caçador, os seus fiéis cães uivaram,
e as ninfas das montanhas estão desfeitas em lágrimas. Vênus,
transtornada, erra pelas florestas, triste, descabelada, pés nus;
os espinhos a ferem e se tingem do sangue divino; ela enche os
ares de queixumes, atira-se através dos longos vales, exige aos
brados o formoso assírio que foi seu esposo! Entretanto, um
sangue negro jorra do ferimento
de Adônis, e lhe mancha o peito de marfim. Ai! Infeliz Vênus !
exclamam os Amores, chorando. Perdeu o formoso marido, e com
ele os encantos divinos. Era bela, Vênus, quando Adônis vivia;
com Adônis desapareceram os atrativos da deusa. Ai, ai! Todas
as montanhas e florestas repetem: "Ai. Adônis!" Os rios sentem a
dor de Vênus; as fontes, nas montanhas, choram Adonis, e os
rios, na sua tristeza, se tingem de sangue. Citeréia faz ecoar a
sua dor pelos montes e vales : "Ai, ai! Já não existe o belo
Adonis!" O eco responde: "Já não existe o belo Adônis!" Quem
recusaria lágrimas à infeliz Citeréia? Ai, ai, não repouses mais
sobre uma camada de folhas; levanta-te, infortunada deusa!
Veste o luto, bate o seio e dize à natureza: "Já não existe o belo
Adônis!" (Bíon).
CAPÍTULO V

AS GRAÇAS

Tipo e atributos das Graças

Nos monumentos da arte primitiva, as Graças estavam


sempre vestidas, e nós as vemos sob tal aspecto num dos baixos-
relevos do altar dos doze deuses no Louvre. O grupo apresenta
um caráter que não foi adotado pela arte dos tempos posteriores
(fig. 365). Estão todas de frente e tocam as mãos sem enlaçar os
braços. Vemos também as Graças vestidas, numa medalha da
época romana (fig. 371).
"Apesar de todas as minhas buscas, diz Pausânias, não
pude descobrir quem foi o primeiro escultor ou o primeiro pintor
que teve a idéia de representar as Graças inteiramente nuas. Em
todos os monumentos da antiguidade as Graças estão vestidas.
Não sei por que os pintores e escultores que vieram
posteriormente mudaram esse modo, pois hoje, e há muito, tanto
uns como outros representam as Graças inteiramente nuas."
(Pausânias).
Sabemos que as Graças esculpidas por Sócrates estavam
vestidas, assim como as que Apeles pintara. É provável,
portanto, que foi somente depois, em seguida
ao domínio macedônio, que se introduziu o uso de as
despojar de vestes.
O famoso grupo antigo das três Graças, que se
encontrava na catedral de Siena, foi transportado para o
museu desta cidade. Foi nesse grupo que se inspirou Rafael,
no primeiro quadro pagão que pintou. De resto existem
diversas variantes de tal grupo, e o museu do Louvre possui
uma belíssima cópia (fig. 366). Tornamos a ver ainda as três
Graças em Pompéia. Rubens e muitos pintores dos últimos
séculos houveram por bem reproduzir as Graças na sua
postura tradicional. Canova, Thorwaldsen e Pradier também
as esculpiram, sendo o grupo de Thorwaldsen o mais famoso.

Fig 365 — As três Graças (baixo-relevo antigo tirado do altar dos doze deuses,
museu do Louvre).

Entre as obras dos últimos séculos, a obra-prima de


Germain Pilou, no Louvre, é a única em que as Graças estão
vestidas. e é por isso que elas foram confundidas com as três
virtudes teologais, mas no pensamento do artista exprimiam
realmente as Graças. O agrupamento costas com costas não
se vê na antiguidade (fig. 367).
Fig. 366 — As três Graças (grupo antigo, museu do Louvre).
Embora as Graças sejam interpretadas geralmente no
sentido de benefícios, personificam tudo quanto constitui o
encanto da vida; o seu domínio é tudo quanto é belo e atraente.
É por esse título que estão incumbidas do atavio de Vênus.
Vemo-las freqüentemente ligadas a essa deusa, ou colocadas ao
lado do Amor. A própria filosofia julgava precisar das Graças
para não ser árida

Fig 367 — As três Graças. por Germain Pilon (museu do Louvre.

e repulsiva. Platão aconselhava a Xenócrates sacrificar às


Graças. Essas divindades desempenham, assim, múltiplas
funções. Tomadas num sentido puramente físico, o século
dezoito desnaturou a concepção primitiva dos gregos.
Com efeito, o nome de graça significa ao mesmo tempo
beneficio e elegância, e os antigos sempre o compreenderam
nos dois sentidos. Os artistas dos últimos séculos
negligenciaram o primeiro para ater-se exclusivamente ao
segundo, ao qual convém regressemos, se quisermos
compreender o sentido de certos monumentos antigos.
Assim, num baixo-relevo antigo do Vaticano, vemos um
enfermo agradecer a Esculápio graças que por este lhe
foram concedidas (fig. 368). As Graças estão na postura
habitual ao lado do deus da medicina.

Fig. 368 — As Graças e Esculápio (segundo um baixo-relevo


antigo)

Por análogo motivo, as Graças se prendem. às vezes, a


Apolo, que, antes de seu filho Esculápio, presidia as curas.
Uma pedra gravada nos mostra as três irmãs, postas na
mão direita de uma personagem de estilo arcaico, que
julgamos imitação de uma velha estátua de Apolo em Delos
(fig. 369)
Tendo os atenienses socorrido os habitantes do
Quersoneso, estes, para eternizarem a recordação de tal
benefício, elevaram um altar com a seguinte inscrição: Altar
consagrado às Graças, por serem elas que presidiam ao
reconhecimento. Os espartanos, antes do combate, costumavam
oferecer sacrifícios às Graças, e se o culto delas era tão difundido
na Grécia é porque era tomado no sentido de graça concedida.

Fig. 369 — Apolo trazendo as Graças (ssgundo uma pedra gravada antiga)

Tinham as Graças freqüentemente templos em comum com


outras divindades. Eram invocadas no começo do repasto para
presidirem à doce alegria e à harmonia das festas. Segundo
Píndaro, nunca faltavam nos coros e nos festins dos imortais,
donde a presença delas expulsa os cuidados e os pesares.
Finalmente, têm por missão proporcionar aos deuses e aos
homens tudo quanto torna a vida feliz.
Num vidro antigo, pintado, vemos as três Graças nuas, de
braços entrelaçados. Usam braceletes, e há flores no chão que
elas pisam. São evidentemente as Graças, mas a inscrição lhes
dá nomes especiais e significativos: Gelasia (doce sorriso), Lecori
(beleza brilhante) e Coma-sia (alegre conviva). É claro que houve
a intenção de representar o que constitui o encanto de um
banquete, a alegria, a beleza, a amabilidade. (fig. 370)
O número das Graças varia na mitologia. Certas regiões
admitiam apenas duas, mas os monumentos da arte apresentam
quase sempre três. Segundo a tradição mais difundida, são
filhas de Júpiter e Eurinoma, e os seus nomes variam; mas
geralmente se chamam Pasitéia, Caris e Aglaé. As Graças se
entrelaçam para indicar os serviços mútuos e o auxílio fraternal
que os homens devem uns aos outros. São jovens porque a
lembrança de um benefício não pode envelhecer. O símbolo
dessas três irmãs inseparáveis exprimia a idéia de serviço
prestado, e o papel delas era presidir ao reconhecimento.

Fig. 370 — As três Graças (segundo um vaso pintado antigo).

Fig. 371 — As três Graças (segundo uma medalha antiga),


ÍNDICE

GRAVURAS

Fig. 181 — Apolo, Diana e Latona (segundo Flaxman) 12


Fig. 182 — Latona perseguida pela serpente Pitão (segundo
uma pintura de vaso) 13
Fig. 183 — Latona e seus filhos (em Versalhes) 15
Fig. 184 — Apolo (segundo um busto antigo) 17
Fig. 185 — Apolo de Amicleu 17
Fig. 186 — Apolo (segundo moedas antigas) 18
Fig. 187 — Apolo Sauróctone (segundo uma estátua antiga) 19
Fig. 188 — Combate dos grifos contra os arimaspes 20
Fig. 189 — Apolo e o grifo 21
Fig. 190 — Jacinto (segundo uma estátua de Bosio, museu
do Louvre) 22
Fig. 191 — Apolo no omphalos 25
Fig. 192 — Apolo do Belvedere (segundo uma estátua
antiga, em Roma) 27
Fig. 193 — Apolo, Diana e Latona (segundo um baixo-
relevo antigo) 28
Fig. 194 — Apolo combatendo Hércules que rapta o tripé
de Delfos (segundo um baixo-relevo antigo,
museu do Louvre) 29
Fig. 195 — O pastor Forbas dando de beber a Édipo (grupo
de Chaudet, museu do Louvre) 32
Fig. 196 — A esfinge (segundo uma moeda antiga) 33
Fig. 197 — Édipo diante da esfinge (segundo uma pedra
gravada antiga) 34
Fig. 198 — Édipo atacado pela esfinge (segundo uma pedra
gravada antiga) 35
Fig. 199 — Édipo expulso pelos filhos (segundo um baixo-
relevo antigo) 38
Fig. 200 — Apolo e Cupido (segundo uma pedra gravada
antiga) 41
Fig. 201 — Estátuas de Guillaume Coustou (no jardim das
Tulherias) 43
Fig. 202 — Apolo perseguindo Dafne (segundo um quadro
de C. Maratti) 44
Fig. 203 — Medalha com os atributos de Apolo 47
Fig. 204 — Apolo Musageta (estátua antiga, em Roma) 48
Fig. 205 — Mársias e Olimpo 49
Fig. 206 — Apolo e Mársias (segundo uma pedra gravada
antiga) 50
Fig. 207 — Mársias (segundo uma estátua antiga, museu
do Louvre) 51
Fig. 208 — Apolo e Mársias, numa medalha de Antonino,
com atributos do deus 53
Fig. 209 — A Musa Melpômene (segundo uma estátua
antiga, museu do Louvre) 58
Fig. 210 — A Musa Terpsícore (segundo uma pedra
gravada antiga) 59
Fig. 211 — Erato e Cupido (segundo uma pedra gravada
antiga) 60
Fig. 212 — Sereia 62
Fig. 213 — Sereia 63
Fig. 214 — As sereias depenadas pelas Musas (baixo-relevo
antigo). Dafne. Apolo 63
Fig. 215 — Orfeu 66
Fig. 216 — Orfeu e Eurídice 68
Fig. 217 — Orfeu no inferno (pedra gravada) 69
Fig. 218 — Orfeu perde Eurídice (segundo o quadro de
Drolling) 69
Fig. 219 — Antíope (segundo um quadro de Correggio,
museu do Louvre) 72
Fig. 220 — Suplício de Dircéia (segundo um quadro antigo
do museu de Nápoles) 73
Fig. 221 — Niobe e a menor de suas filhas (segundo um
grupo antigo) 76
Fig. 222 — O Pedagogo e um dos filhos de Níobe (segundo
um grupo antigo) 77
Fig. 223 — Aristeu (segundo uma estátua antiga do
Louvre) 81
Fig. 224 — Telésforo (segundo uma estátua antiga) 84
Fig. 225 — Esculápio (segundo uma estátua antiga) 85
Fig. 226 — Esculápio, Higéia e Telésforo 86
Fig. 227 — Esculápio visitando um doente 87
Fig. 228 — Oferta a Esculápio (segundo um quadro de
Guérin) 88
Fig. 229 — Higéia (estátua antiga) 89
Fig. 230 — Higéia ou a Saúde (segundo uma pedra gravada
antiga) 90
Fig. 231 — Esculápio na ilha do Tibre (segundo um
medalhão de Cómodo) 94
Fig. 232 — O Sol (segundo uma estátua antiga) 98
Fig. 233 — O Zodíaco (museu do Louvre) 100
Fig. 234 — Atlas Farnese (museu de Nápoles) 101
Fig. 235 — As Plêiades (segundo Flaxman) 102
Fig. 236 — Queda de Faetonte (segundo uma pedra
gravada, museu de Florença) 104
Fig. 237 — Faetusa (segundo uma estátua do museu do
Louvre) 106
Fig. 238 — Diana (segundo uma estátua antiga do museu
de Nápoles) 109
Fig. 239 — Diana (segundo uma moeda antiga) 110
Fig. 240 — O cervo, atributo de Diana (numa moeda
antiga) 110
Fig. 241 — Diana Lúcifer 111
Fig. 242 — Diana — (segundo um busto antigo) 112
Fig. 243 — Diana e a corça (segundo uma estátua antiga,
museu do Louvre) 113
Fig. 244 — Diana (estátua de bronze, no Louvre) 114
Fig. 245 — Diana (segundo um grupo de Jean Goujon,
museu do Louvre) 115
Fig. 246 — Diana de Gábies (estátua antiga, museu do
Louvre) 116
Fig. 247 — Acteão, devorado pelos seus cães (segundo
uma estátua antiga do museu Britânico, em
Londres) 118
Fig. 248 — Acteão (segundo um baixo-relevo antigo) 119
Fig. 249 — Diana surpreendida por Acteão (segundo um
quadro de Lesueur) 120
Fig. 250 — Diana e Acteão (segundo um quadro de Albani) 122
Fig. 251 — Diana de Éfeso (segundo uma estátua antiga) 124
Fig. 252 — Amazona combatente 125
Fig. 253 — As amazonas (segundo um vaso pintado, do
museu de Nápoles) 126
Fig. 254 — Os gregos e as amazonas (segundo um vaso
pintado) 127
Fig. 255 — Diana precedendo a Aurora (segundo um vaso
pintado) 130
Fig. 256 — O deus Luno (segundo uma pedra gravada
antiga) 131
Fig. 257 — A Aurora conduzindo os cavalos do Sol
(segundo uma pedra gravada antiga) 133
Fig. 258 — A Aurora (por Thorwaldsen) 133
Fig. 259 — A Aurora e Céfalo (segundo uma pintura de
vaso) 135
Fig. 260 — Prócris e seu cão (segundo uma pedra gravada
antiga) 136
Fig. 261 — Castor e Pólux (pedra gravada) 141
Fig. 262 — Castor e Pólux 141
Fig. 263 — Rapto de Hilária e Febe por Castor e Pólux
(quadro de Rubens, museu de Munique) 143
Fig. 264 — Castor e Pólux (segundo um grupo antigo, em
Madri) 145
Fig. 265 — Castor e Pólux 145
Fig. 266 — Tétis e Eurinoma recolhem Vulcano precipitado
por sua mãe do alto do Olimpo (segundo
Flaxman) 150
Fig. 267 — Vulcano (segundo uma estátua antiga) 150
Fig. 268 — Cabeça de Vulcano (fragmento antigo) 152
Fig. 269 — Combate de Vulcano e Marte (pintura de vaso) 153
Fig. 270 — Vulcano e Baco (pintura de vaso) 154
Fig. 271 — A rede de Vulcano (segundo um baixo-relevo
antigo) 155
Fig. 272 — Vênus e Vulcano (segundo uma pedra gravada
antiga) 156
Fig. 273 — Vênus e Vulcano (segundo um quadro de Jules
Romain, museu do Louvre) 157
Fig. 274 — Prometeu modelando um homem (segundo uma
pedra antiga) 161
Fig. 275 — Prometeu formando o homem (baixo-relevo
antigo) 162
Fig. 276 — Prometeu trazendo o fogo aos homens (segundo
uma lâmpada antiga) 164
Fig. 277 — Pandora entre Minerva e Vulcano 166
Fig. 278 — Pandora dotada por Mercúrio e Minerva
(segundo Flaxman) 167
Fig. 279 — Pandora abre o vaso fatal (segundo Flaxman) 168
Fig. 280 — Lenda de Prometeu com o nascimento e o
Destino do homem (segundo um sarcófago
antigo do museu Capitolino) 171
Fig. 281 — Dédalo preparando as asas de Ícaro (segundo
uma pedra gravada) 175
Fig. 282 — Dédalo e Ícaro (segundo um quadro de Landon) 176
Fig. 283 — Morte de Ícaro (segundo uma pintura de
Herculanum) 178
Fig. 284 — Nascimento de Minerva (segundo um espelho
etrusco) 181
Fig. 285 — Vulcano e Júpiter 182
Fig. 286 — Minerva e Netuno (segundo uma medalha
antiga) 185
Fig. 287 — Acrópole (segundo uma moeda antiga) 186
Fig. 288 — Minerva arcaica (numa antiga moeda de
Arenas) 188
Fig. 289 — Atenas e Roma 189
Fig. 290 — Palas (segundo uma pedra gravada antiga) 190
Fig. 291 — Moedas de Thurium 190
Fig. 292 — Medalha romana (denário da gens Pompéia) 191
Fig. 293 — Moeda de Macedônia (cunhada sob Alexandre,
o Grande) 191
Fig. 294 — Moeda grega (de Mantinéia) 191
Fig. 295 — Moeda romana (denário da gens Pompéia) 192
Fig. 296 — Minerva trazendo a Vitória (numa moeda de
Lisímaco) 192
Fig. 297 — Minerva segurando o raio (numa moeda
macedônia) 192
Fig. 298 — Antigo ídolo de Minerva asiática (numa pintura
de vaso) 193
Fig. 299 — Atributos de Minerva com medalhas antigas 194
Fig. 300 — Minerva de Herculanum (museu de Nápoles) 195
Fig. 301 — Minerva de Egina (museu de Munique) 196
Fig. 302 — Minerva de Fídias (reconstituída por Simart) 197
Fig. 303 — Palas de Velletri (segundo uma estátua antiga,
museu do Louvre) 199
Fig. 304 — Minerva (segundo uma estátua antiga do
museu de Turim) 200
Fig. 305 — Medalha de Górdio, cunhada em Selêucia,
mostrando Minerva vitoriosa contra um gigante 202
Fig. 306 — Minerva vista por Tirésias 203
Fig. 307 — Minerva e Mársias (segundo uma moeda antiga) 205
Fig. 308 — Minerva higéia (segundo um baixo-relevo
antigo). Museu Pio-Clementino 205
Fig. 309 — Vaso panatenaico (museu do Louvre) 211
Fig. 310 — Cabeça de Medusa (segundo uma moeda
antiga) 214
Fig. 311 — Perseu mata Medusa voltando a cabeça para
não ficar petrificado (segundo uma pedra
gravada) 215
Fig. 312 — Perseu é auxiliado por Minerva na sua luta
contra Medusa (segundo uma moeda dos
gálatas) 215
Fig. 313 — Perseu perseguido pelas górgonas (segundo
uma pintura de vaso) 217
Fig. 314 — As górgonas perseguindo Perseu (segundo uma
pintura de vaso) 218
Fig. 315 — Perseu (segundo uma pedra gravada antiga) 219
Fig. 316 — Perseu (grupo de Benevenuto Cellini, em
Florença) 220
Fig. 317 — Perseu e Andrômeda (segundo um baixo-relevo
antigo) 225
Fig. 318 — Perseu e Andrômeda (grupo de P. Pugot, museu
do Louvre) 226
Fig. 319 — Perseu mostra a Polidecto a cabeça de Medusa
(segundo uma pintura de vaso) 227
Fig. 320 — Pégaso cuidado pelas ninfas (segundo uma
pintura de Pompéia) 229
Fig. 321 — O cavalo Pégaso (segundo uma moeda antiga) 229
Fig. 322 — Pégaso domado por Belerofonte (segundo uma
moeda antiga) 231
Fig. 323 — Pégaso bebendo (segundo um baixo-relevo
antigo) 232
Fig. 324 — Belerofonte despede-se do seu anfitrião 232
Fig. 325 — Combate contra a Quimera 233
Fig. 326 — Queda de Belerofonte (segundo uma pedra
gravada antiga) 234
Fig. 327 — Marte (segundo uma pedra gravada antiga) 238
Fig. 328 — Atributos de Marte 239
Fig. 329 — Marte fazendo estremecer as paredes (medalha
antiga) 240
Fig. 330 — Marte matando Mimas (segundo uma pedra
gravada antiga) 241
Fig. 331 — Marte agrilhoado é vigiado por Oto e Efialtes
(segundo Flaxman) 242
Fig. 332 — Marte e Vênus (segundo um grupo antigo) 243
Fig. 333 — Vênus, Marte e Cupido (segundo uma pedra
gravada antiga) 244
Fig. 334 — Os sacerdotes sálicos trazendo os escudos
sagrados 246
Fig. 335 — Os escudos sagrados e o ápex do flâmine 246
Fig. 336 — Juramento dos sete chefes (segundo Flaxman) 250
Fig. 337 — Arquémoro esmagado por uma serpente
(segundo uma pintura antiga) 252
Fig. 338 — Polinice e Etéoclo (segundo um baixo-relevo
antigo, museu do Louvre) 253
Fig. 339 — Funerais de Etéoclo e Polinice (segundo
Flaxman) 254
Fig. 340 — Nascimento de Vênus (segundo um quadro de
Boucher) 256
Fig. 341 — Vênus arribando a Crera (segundo um quadro
de Albani) 257
Fig. 342 — Vênus marinha (segundo uma estátua antiga) 260
Fig. 343 — Medalha de Afrodite, com os atributos de Vênus 261
Fig. 344 — Vênus celeste (segundo uma pintura antiga do
museu de Nápoles) 263
Fig. 345 — Vênus vulgar (segundo uma pedra gravada
antiga) 264
Fig. 346 — Pigmalião animando a sua estátua (segundo
um quadro de Girondet) 265
Fig. 347 — Medalhas de Cnido 267
Fig. 348 — Medalha de Tito com os atributos de Vênus e
Cupido 269
Fig. 349 — Vênus do Capitólio 270
Fig. 350 — Vênus agachada (segundo uma estátua antiga,
museu do Louvre) 271
Fig. 351 — Trono de Marte 272
Fig. 352 — Trono de Vênus 272
Fig. 353 — Vênus (segundo uma estátua antiga de bronze) 273
Fig. 354 — Vênus e os Tritões (segundo uma medalha
antiga) 273
Fig. 355 — Vênus num cavalo marinho (segundo uma
medalha antiga) 274
Fig. 356 — Vênus genitrix (segundo uma estátua antiga,
museu do Louvre) 276
Fig. 356 — Vênus vitoriosa (segundo uma pedra gravada
antiga) 277
Fig. 358 — Vênus vitoriosa (pedra gravada antiga) 277
Fig. 359 — Vênus de Milo (no museu do Louvre) 278
Fig. 360 — Adônis (segundo uma pedra gravada antiga) 281
Fig. 361 — Adônis partindo para a caça (segundo uma
pintura antiga) 282
Fig. 362 — Partida de Adônis (segundo um quadro de
Ticiano, museu de Londres) 283
Fig. 363 — Adônis expirando nos braços de Vênus
(segundo uma pintura antiga) 285
Fig. 364 — Morte de Adônis (segundo um quadro de
Poussin) 285
Fig. 365 — As três Graças (baixo-relevo antigo tirado do
altar dos doze deuses, museu do Louvre) 289
Fig. 366 — As três Graças (grupo antigo, museu do Louvre) 290
Fig. 367 — As três Graças, por Germain Pilon (museu do
Louvre) 291
Fig. 368 — As Graças e Esculápio (segundo um baixo-
relevo antigo) 292
Fig. 369 — Apolo trazendo as Graças (segundo uma pedra
gravada antiga) 293
Fig. 370 — As três Graças (segundo um vaso pintado
antigo) 294
Fig. 371 — As três Graças (segundo uma medalha antiga) 294
LIVRO III - APOLO E DIANA

CAPÍTULO I — Latona e seus Filhos

Nascimento de Apolo e Diana ................................................. 11


Latona e a serpente Pitão ....................................................... 14
Os camponeses carianos ........................................................ 14

CAPÍTULO II — Febo-Apolo

O tipo de Apolo ...................................................................... 16


Jacinto metamorfoseado em flor ............................................. 22
Ciparissa e o seu cervo ........................................................... 23

CAPÍTULO III — O Tripé de Apolo

Delfos, centro do mundo ........................................................ 24


Apolo, vencedor de Pitão ........................................................ 25
A disputa do tripé .................................................................. 28
O oráculo de Delfos ................................................................ 29
Predições a Laio ..................................................................... 30
Édipo e Laio ........................................................................... 31
A esfinge ................................................................................. 33
As desventuras de Édipo ........................................................ 34
Édipo e Antígona .................................................................... 37

CAPÍTULO IV — O Louro de Apolo

Apolo e o Amor ....................................................................... 40


A metamorfose de Dafne ........................................................ 41
Desespero de Clítia ................................................................ 44

CAPÍTULO V — A Lira de Apolo


A lira e a flauta ...................................................................... 46
O sileno Mársias .................................................................... 47
As orelhas do rei Midas .......................................................... 53

CAPÍTULO VI — As Musas

Júpiter e Mnemósina ............................................................. 55


Atributos das Musas .............................................................. 56
As filhas de Piero ................................................................... 61
As Musas vitoriosas contra as sereias .................................... 62
CAPÍTULO VII — Orfeu

A lira de Orfeu ....................................................................... 65


Orfeu e Eurídice ..................................................................... 67
Orfeu dilacerado pelas bacantes ............................................. 67

CAPÍTULO VIII — As Setas de Apolo

Júpiter e Antíope ................................................................... 71


Os filhos de Níobe .................................................................. 74

CAPÍTULO IX — Apolo Pastor

A ninfa Coronis ...................................................................... 78


O nascimento de Esculápio .................................................... 79
Apolo na corte de Admeto ....................................................... 80
O pastor Aristeu ..................................................................... 80

CAPÍTULO X — Esculápio
Esculápio e Higéia ..................................................................83
A serpente de Esculápio .........................................................84
O templo de Epidauro ............................................................87
Os tratamentos de Esculápio .................................................91
Esculápio em Roma ...............................................................93
Hércules e Esculápio ..............................................................94

CAPÍTULO XI — O Sol
O Sol e a ilha de Rodes ...........................................................96
Os sinais do Zodíaco ..............................................................97
O carro do Sol ........................................................................99
Queda de Faetonte ............................................................... 102
As irmãs de Faetonte ........................................................... 104
O rei Cicno ........................................................................... 105

CAPÍTULO XII — Diana, Irmã de Apolo

Tipo e atributos de Diana ..................................................... 108


Diana caçadora .................................................................... 111
O castigo de Acteão .............................................................. 117
As ninfas de Diana ............................................................... 120
Diana e Calisto .................................................................... 121
CAPÍTULO XIII — Diana de Éfeso

O tipo de Diana de Éfeso ...................................................... 123


As amazonas ........................................................................ 124

CAPÍTULO XIV — A Lua

A marcha da Lua ................................................................. 129


O sono de Endimião ............................................................. 130
O deus Luno ........................................................................ 131

CAPÍTULO XV — A Aurora

As portas do Oriente ............................................................ 132


Titão e a Aurora ................................................................... 134
Céfalo e Prócris .................................................................... 134
O gigante Orião .................................................................... 137

CAPÍTULO XVI — Os Crepúsculos

O cisne de Leda .................................................................... 139


Castor e Pólux ...................................................................... 140
Hilária e Febe ....................................................................... 142
A imortalidade partilhada ..................................................... 143
A estrela da tarde e a estrela da manhã ................................ 144

LIVRO IV - VULCANO E MINERVA

CAPÍTULO I — Vulcano

Nascimento de Vulcano ........................................................ 149


Tipo e atributos de Vulcano .................................................. 151
Vingança de Vulcano ........................................................... 152
Os fios de Vulcano ............................................................... 154
As forjas de Vulcano ............................................................ 156
Os ciclopes ........................................................................... 158

CAPÍTULO II — Prometeu

Prometeu forma o homem .................................................... 160


As duas partes de Prometeu ................................................. 163
O fogo arrebatado aos homens ............................................. 163
A caixa de Pandora .............................................................. 165
Suplício e libertação de Prometeu .......................................... 168
CAPÍTULO III — Dédalo

As invenções de Dédalo ........................................................ 172


Minos e Pasife ....................................................................... 173
As asas de Ícaro ................................................................... 174
O retrato de Hércules ........................................................... 177
Os telquines e os dáctilos ..................................................... 177

CAPÍTULO IV — Minerva

Nascimento de Minerva ........................................................ 180


Nascimento de Erecteu ........................................................ 183
Pandrosa ............................................................................. 184
Disputa de Minerva e Netuno ............................................... 185
Tipo e atributos de Minerva .................................................. 187
Minerva e Encélades ............................................................ 200
Minerva e Tirésias ................................................................ 201
Minerva e Mársias ................................................................ 204
Minerva higéia ..................................................................... 205
Minerva obreira ou ergane .................................................... 206
Minerva e Aracne ................................................................. 207
A festa das Panatenéias ....................................................... 209

CAPÍTULO V — A Górgona

Dánai e a chuva de ouro ...................................................... 212


Infância de Perseu ............................................................... 213
Perseu e as Górgonas ........................................................... 214
Pégaso e Crisaor .................................................................. 216
O coral ................................................................................. 221
Atlas petrificado ................................................................... 222
Perseu e Andrômeda ............................................................ 222
As núpcias de Perseu ........................................................... 223
CAPÍTULO VI — O Cavalo Pégaso

Pégaso cuidado pelas ninfas ................................................ 228


A fonte Hipocrene ................................................................ 230
Belerofonte e a Quimera ...................................................... 231

LIVRO V - MARTE E VÊNUS

CAPÍTULO I — Marte

Tipo e atributos de Marte .................................................... 237


Marte na guerra dos Gigantes ............................................. 240
Vênus e Marte ..................................................................... 241
Marte ferido por Diomedes .................................................. 243
Filomela e Progne ................................................................ 245
Os sacerdotes sálios ............................................................ 246

CAPÍTULO II — As Sequazes de Marte

Belona ................................................................................ 247


A Discórdia ......................................................................... 248
Etéoclo e Polinice ................................................................ 248
Anfiaraus .............................................................................249
Arquémoro .......................................................................... 250
Combate dos dois irmãos .................................................... 251
Funerais de Etéoclo e de Polinice ........................................ 252

CAPÍTULO III — Vênus

Nascimento de Vênus .......................................................... 255


Tipo e atributos de Vênus ................................................... 258
Vênus celeste e Vênus vulgar .............................................. 259
Pigmalião e a sua estátua .................................................... 264
Vênus de Cnido ................................................................... 266
Vênus genitrix ..................................................................... 274
Vênus vitoriosa ................................................................... 275
CAPÍTULO IV — Adônis

Nascimento de Adônis .......................................................... 280


A caçada de Adônis .............................................................. 281
A morte de Adônis ................................................................ 284
As festas de Adônis .............................................................. 286

CAPÍTULO V — As Graças

Tipo e atributos das Graças ................................................. 288


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