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pesca |(H HF UAL Vi ie) Trajetoria Filosofica ee eel (ae Ce UM) da hermenéutica TMT MT atm ada Hubert L. Dreyfus e Paul Rabinow MICHEL FOUCAULT Uma Trajetoria Filosofica Para além do estruturalismo e da hermenéutica Tradugao: Vera Porto Carrero Introdugdo; Traduzida por Antonio Carlos Maia FORENSE UNIVERSITARIA, Wedgie beasties — 1995 © Copyright “Tho Universey of Chica, Cakcagy, il, U.S.A. (CW-Brastl, Catalogagdo-ue-fout Sindleata Nacloral dos Editses de Livrs, RJ. D837 Devpfus, Hubeet L, ‘Miche! Poucoult, une tnjetéria Silestea: (para ale do struuralisno ¢ de hermentaniea} {Hubert Dreyfus, Pel Rabinow: tndagéo ée Veen Por Carrere. —~ Rio de Jenete: Foreree Universiti, 1995, ‘Tradbgéo de: Miche] Foucaute: beyond siructurlism and hermensues ISBN 35:218-01580 |. Foucent, Miche, 1926-1984. 2, Floofia francesa, 1. Rabinow, Pau IL Tinto. 10, Sie 95-1445 cpp iss eDu 1448p Proibida a rprodugio tora ou parcial, bei come a reprodusia de apoutias.a pani dens Toro, de qualquer forma ou par ‘qualquer meio letrénico ou mecinico inclsive-stravés de pracesson xerogrifics, de fotoc Spins ee grovacio, sem peerissB0 do Bditoe (Lei n? 5.98 de 1.12.73), Capa: Bitz Des Ectorodo Blazénioa: Delis Une Reseevades 01 dztitos de propricdade desis edigho pela EDITORA PORENSE UNIVERSITARIA ‘Ron Sé Freire, 25 — 20930-440 — Ria de Janeiro — RU — Tel: 4021) $40.07 76 Large de So Francisca, 20 — 01005010 — So Paulo — SP — Tel: (011) 604-2005, feapresto a0 Brasil Prined in Bract Colegio Campe Teérico Dirigida por Manuel Barros da Motta e Severino Bezerra Cabral Filho Da mesma colegio: Do Mundo Fechado ao Universe Infinito Alexandre Koyré Estudos de Histéria do Pensamento Cientifico Alexandre Koyré O Nascimento da Clinica Michel Foucault ONormat e 0 Paoligico Georges Canguilhem Da Psicose Parandica em suas Relagées com a Personalidade Jacques Lacan Estudos de Histéria do Pensamento Filoséfico Alexandre Koyté A Arqueologia do Saber Michel Foucault A Daniei e Genevieve Prefacio Este livro nasceu de um debate entre amigos. Paul Rabinow, a0 participar de um semindtio realizado, em 1979, por Hubert Dreyfus e John Scarle, que discutiam, entre outros temas, o pensamento de Michel Foucault, objetou a caractetizagdo de Foucault como um tipico “estruturalista’. Essa discordancia iniciou uma polémica que os levou 4 idéia de escrever um artigo econjunto. Tornou-se evidente, no decorrer da diseussio que durou todo o verio, que o “artigo” tornar-se-ia um pequeno livro, E hoje um livro de médias proporgdes que deveria ter sido bem mais iongo. O livro em questéo chamou-se, primeiramente, Michel Foucault: do Estruturalismo & Hermenéutica. Achamos que Foucault havia adotado, em As Palavras ¢ as Coisas ¢ Arqueologia do Saber, um ponto de vista que poderiamos considerar estruturalista, mas que, contudo, apresentava uma posigao interpretativa em seus Ultimos trabalhos sobre as prisdes ¢ a sexuali- dade. Um gnupo de literatos ¢ filésofos, ao qual apresentamos nossas idéias, nos assegurou, com grande convicgao, que Foucault nunca tinha sido um estruturalista e detestava interpretagées. © segundo titulo de nosso livro foi Michel Foucault — para Além do Estruturalismo e da Hermenéutica. A esta altura, achamos que, estricta sensu, Foucault nao foi um cstraturalista; apenas considerava o estrutura- lismo a posigo mais avangada no campo das ciéncias humanas. Entretanto, ele ndo estava praticando as ciéncias humanas: estava analisando, na quali- dade de observador extemno, 0 discurso como um dominic auténomo. Desta vez, estavamos na pista certa. Foucault nos contou que o verdadeiro subtitulo de As Palavras e as Coisas cta Uma Arqueoiogia do Estruturalismo. Nossa opinido, entéo, era de que, apesar de sua linguagem e abordagem se apresen- tarem fortemente influenciadas pela moda francesa do estruturalismo, Fou- caultnunca produziu uma teoria universal do discurso; ao contério, limitou- se a deserever as formas histéricas assumidas pelas praticas discursivas. Apresentamos nossa versio a Foucault ¢ ele concordou que aunca tinha sido estruturalista, mas que, talvez, nao tivesse sido tio resistente quanto deveria aos avangos sedutores da terminologia desta corrente. Nao se tratava, sem diivida, apenas de uma sitwples questo termi- noldgica. Foucault nao nega que, em meados dos anos sessenta, seu trabalho Xx desviou-se de um interesse pelas priticas sociais, que formavam as insti- tuigées € 0 discurso, e encaminhou-se em diregao a uma preocupagao quase que exclusiva com as praticas lingiiisticas. No seu limite, esta abordagem conduz, através de sua propria Idgica ¢ contra um melhor juigamento de Foucauit, a uma descri¢ao objetiva da maneira regulada pela qual o discurso organiza nfio somente a si mesmo, mas também as praticas sociais ¢ as instituigdes, e também a negligenciar a id¢ia de que as priticas discursivas so influenciadas pelas praticas sociais nas quais estao, juitamente com investigador, inseridas. A isto chamamos ilusao do discurso auténomo. Nossa tese é que esta teoria das praticas discursivas ¢ insustentavel, e que em seu Ultimo trabalho Foucault fez da terminologia estruturalista, que engendrava esta iluséo do discutso auténomo, o objeto da andlise critica. Uma segunda tese era que, cxatamente do mesmo modo como Fou- cault nunca foi um esiruwralista, apesar de tentado pelo estruturalismo, ele estava além da hermenéutica, embora sensivel a seus atrativos, Estévamos na pista certa. Aconteceu que ele planejava escrevet uma “arqueologia da hermenéntica”, o outro pelo das cigncias humanas. Alguns fragmentos deste projeto se evidenciam em certos escritos sobre Nietzsche durante essa fase. Foucault nunca foi tentado pela pesquisa de um significado profundo, mas foi nitidamente influenciado pela leitura interpretativa de Nietzsche sobre.a histria do Ocidente, enquanto nada revelava que desse margem a uma interpretagdo profunda sobre através das nogdes de loucura, morte e sexo como subjacentes ao discurso ¢ resistentes 4 apropriagao lingiistica. A partir dos anos setenta, o trabalho de Foucault representou um esforgo bem-sucedido de desenvolver um novo método. Este novo método combina um tipo de anilise arqueolégica, que preserva o efeito distanciador do estruwuralismo, e uma dimensio interpretativa que desenvolve a visio hermenéutica de que o investigador esta sempre situado ¢ deve compreender © significado de suas préticas culturais a partir do seu proprio interior. Com este método, Foucault consegue explicar a légica da idéia de o estruturalismo ser uma ciéncia objetiva, além da aparente validade da contra-afirmagio da hermenéutica de que as ciéncias humanas sé podem proceder legitimamente através da compreensio do significado mais profundo do sujeito e de sua tradigao. Usando este nove método, que chamamos de analitica interpreta- tiva, Foucault pode mostrar como, em nossa cultura, os seres humanos tomaram-se uma espécie de objeto e sujeitos analisados e descobertos pelo estruturalismo ¢ pela hermenéutica. Sem dhivida, a nogio de poder é fundamental para o diagndstico de Foucault sobre a contemporancidade. Contudo, conforme afirmamos no iexto, no € uma das éreas mais desenvolvidas por ele. Debatendo com Foucault, ele concordou que seu conceito de poder é pouco explicito, porém importante. Concordou também em remediar esta questi, oferecendo-nos a x possibilidade de incluir neste livro um texto inédito sobre o poder, pelo que lhe somos extremamente gratos, Gostariamos de agradecer a varias pessoas, especialmente aquelas que participaram de nossos encontros em Berkeley, fornecendo-nos valiosas sugestdes. Hubert Dreyfus gostaria de fazer um agradecimento especial a David Hoy, Richard Rorty, Hans Sluga ¢, principalmente, a Jane Rubin por sua colaboragao. Paul Rabinow gostaria de agradecer especialmente a Gewn Wright, Lew Friedland, Martin Jay e Michael Meranze. Além de tudo, gostariamos de agradecer a Michel Foucault por horas. e horas de uma conversa estimulante ¢ revisdes rapidas ¢ feitas com muita paciéncia. Introducao Como estudar os seres humanos ¢ 0 que aprendemos deste estudo: eis 0 objeto deste livro. Nossa tese é que as mais influentes tentativas medernas de alcangar este entendimento — a fenomenologia, o estruturalismo ¢ a hermenéutica — nao cumpriram as expectativas a que se propuseram, Michel Foucault oferece, em nossa opiniao, elementos de um coerente ¢ podcroso recurso alternativo de compreenséo. Sentimos que seu trabalho representa 0 mais importante esforgo contemporineo nio sé de desenvolver um método para o estudo dos seres humanos, como de diagnosticar a situagdo atual de nossa sociedade. Neste livto discutimos os trabathos de Foucault em ordem cro- noldégica para mostrar como ele procurou refinar os seus instrumentos de andlise ¢ agucar sua perspectiva critica em relagdo a sociedade moderna e seus descontentamentos. Tentamos também sitar o pensamento de Foucault entre o de outros pensadores com quem sua abordagem apresenta temas comuns. Foucault mostrou, de modo amplo, que biografias oficiais e opinides correntemente aceitas entre eminentes intelectuais néo contém nenhuma verdade transparente. Além dos dossiés ¢ da propria consciéncia de qualquer época, existem as praticas historicamente organizadas que tornam possivel, dao sentido e situam eni um campo politico estes monumentos do discurso oficial. Os dados presentes em tais documentos sao, todavia, relevantes ¢ essenciais. Talvez a mais irdnica ¢ eficiente — senio a melhor — maneira de comegar um livro sobte Michet Foucault seja, simplesmente, reproduzir resumo que esti exposto na traducdo inglesa de seus ttabalhos: Miche! Foucault nasceu em Poitiers, na Franga, em 1926. Ele tem feito conferéncias em diversas universidades, em todo o mundo; foi diretor do Instituto Francés de Hambutgo e do Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Clermont-Ferrand. Escreve freqlientemente em jomais c revistas francesas, ¢ ¢ titular de uma cadeira — Historia dos Sistemas de Pensamento — na mus prestigiosa instituigao francesa: © Collage de France, Além de seu estudo classico Historia da Loucura, XU M. Foucault é autor de @ Nascimento da Clinica, As Palavras eas Coisas, A Arqueologia do Saber ¢ Eu, Pierre Riviere... Seu iltimo livto, Vigiar ¢ Punir: 0 Nascimento da Prisdo, foi publicado pela Pantheon em 1978. Este resumo foi publicado no final da tradugao inglesa da Historia da Sexuatidade. Podemos actescentar que Foucault também publicou um longo ensaio introdutério a um livro do psicanalista heideggeriano Ludwig Bins- wanger, um livro sobre o escritor surrealista Raymond Roussel, e outro sobre doenga mental ¢ psicologia. Passando do dossié para a acolhida oficial pela alta intelligentzia, numa resenha do The New York Review of Books de Cliford Geertz, professor de Ciéncias Sociais no Instituto de Estudos Avangados de Princeton, temos: Michel Foucault irrompeu no cenatio intelectual no inicio dos anos sessenta com a sua Histéria da Loucura, uma néo convencional, mas ainda razoavelmente reconhecivel historia da experiéncia ocidental da lovcura. Eke se tomou, a partir daqueles anos, uma espécie de objeto ‘impossivel: um historiador nao-histérico, um cientista humano anti-ho- manista, ¢ um estruturalista contra-cstruturalista, Se acrescentarmos a isto seu estilo denso, sempre compactado, que consegue, ao mesmo tempo, parecer imperativo ¢ perspassado de dlividas e de um método que sustenta seus amplos tesumos com excéntricos detalhes, a semelhanga de seu trabalho com uma gravura de Escher é completa — escadas subindo para plataformas mais baixas que elas mesmas, portas conduzindo para fora, © que, a0 mesmo tempo, nos trazem de volta para dentro. “Nao me pergunte quem eu sou, néo me pega para permanceer o mesino”, ele escteve na introdugao do seu unico trabalho cxclusivamente meto- doldgico, A Arqueologia do Saber. Este livro contém, na sua maior parte, negativas quanto a posigdes que ele no essume, mas das quais considera ter sido acusado pelos “comediantes © acrobatas” da vida intelectual. “Deixe para os nossos burocratas e a nossa policia ver se os nesses papéis esto em otdem’, ele afirma, “ao menos nos livre da sua moralidade quando escrevemos™. Quem quer que ele seja, ou o que quer que seja, ele éoque qualquer sibio francés parece necessitar ser nestes dias: dificil de compreender. Porém (c nisto ele difere de muito do que tom ocorrido em Paris desde © aparecimento do estruturalismo), a dificuldade do seu trabalho surge. nao somente devido a sua auto-estima ¢ ao desejo de fundar uma scita intelectual 4 qual somente os iniciados podem se unir, quanto a uma poderosa ¢ genuina originalidade do pensamento. Como pretende nada menos do que fazer um Grande Inquérito sobre as ciéneias humanas, nio ¢ de admirar que ele seja por vezes obscuto ou, quando consegue efeti- vamente clareza, seja nao menos desconcertante. © dossié apresenta os fatos essenciais, a resenha critica os situa, Podemos, agora, passat aos livros de Foucault. Contraremos nossa andlise XIV nos problemas que Foucault apreendeu em seus trabalhos. Nosso livro niio & uma biografia, uma histéria psicoldgica, uma historia intelectual, ov um suméario do trabalho de Foucault, embora clementos dos tiltimos dois, obvia- mente, estejam presentes. E uma leitura de seu trabalho tendo em mente um certo conjunto de problemas, i.e., uma interpreiacao; assim, de Foucault, levamos em consideragio aquilo que é util para enfocd-los ¢ tratd-los. Como. estamos utilizando o trabalho de Foucault para nos auxiliar, nao pretendemos abranget completamente o amplo espectro de assuntos que, em diferentes momentos, tem sido seu objeto de estudos. Isto nos parece justo ja que é, precisameate, desta maneira que Foucault lida com os grandes pensadores do pasado, Foucault actedita que o estudo dos seres humanos apresentou-se de uma forma radicalmente diferente no final do século XVII, quando os seres. humanos vietam a ser interpretadas como sujeitos de conhecimento e, a0 mesmo tempo, objetos do seu proprio conhecimento. Esta interpretagio. kantiana define o “homem”™. Kant introduziu a idéia de que o homem é 0 Unico ser totalmente envolvido pela natureza (seu corpo), pela sociedade (relagées historicas, politicas ¢ econémicas) ¢ pela lingua (sua lingua materna), ¢ ao mesmo tempo, encontra uma sélida base para todos estes envolvimentos em sua atividade organizadora ¢ doadora de sentido. Iremos acompanhar a andlise de Foucault sobre as varias formas segundo as quais. esta problemitica se apresentou, nos dois séeulos subseqiientes — a que Foucault chama em As Patavras e as Coisas de “Analitica da Finitude”. E importante, para situar Foucault, partir da idéia de que as ciéneias humanas, nas duas ultimas décadas, se dividiram em duas reagdes meto- dolégicas tadicais em relagdo a fenomelogia; ambas hetdam, mas procuram transcender a divisio kantiana sujeitofobjeto. Estas duas concepgées meto- dologicas procuram eliminar a nogdo husscrliana de um sujeito transcen- dental doador de sentido. A abordagem esiruturalista tenta eliminar tanto © sujeito quanto o sentido, buscando leis objetivas que governam toda a atividade humana. A posi¢’o oposta, que reunimos sob a rubrica geral de hermenéutica, abandona a tentativa fenomenolégica de compreender o homem como um sujeito doador de sentido, mas tenta preservar o sentido a0 localizé-lo nas praticas sociais ¢ nos textos literdrios produzidos pelo homem. Para situar os movinientos de Foucault é importante consegnir- mos definir precisamente trés posigSes: estruturalismo, fenomenologia e hermenéutica. Os estruturalistas tentam tratar a atividade humana cientificamente, procurando elementos basicos (conccitos, agGes, classes de palavras) ¢ regras ou Ieis, através das quais eles s4o agrupados. Existem dois tipos de estrutu- ralismo: estrutaralismo atomista, onde os elementos sio completamente especificados, separadamente do papel que representam em algum conjunto mais abrangente (por exemplo, os elementos das narrativas foleléricas de XV Propp);' ¢ o estrutmralismo holista ou diacrénico, onde 0 que é considerado como um elemento possivel ¢ definido separadamente do sistema de elemen- tos, mas o que conta como um elemento real é uma fungao de todo o sistema de diferengas do qual o clemento dado é uma parte, Foucault, como veremos, distingue explicitamente seu método do estruturalismo atomista. Assim, estamos comparando ¢ contrastando seu método arqueolégico com aquele a0 qual ele mais se assemetha: o método estruturalista holista. Lévy-Strauss sinteticamente expde este método: © metodo que adotamos (...) consiste nas seguintes operagées: 1) definir o fendmeno estudado como uma reiagao entre dois ou mais termos, reais ou supostos; 2) construit uma sdibuna de possiveis permutagées entre estes termos, 3) tomar esta tébua como o objeto geral de anélise que, somente neste nivel, pode produzir conexdes necessarias, scndo os fendmenosempiricos considerados, de inicio, apenas uma combinagao possivel entre outras, cujo sistema completo deve ser reconstruido de antemio? Tudo gira em torno do critério de individuagiio dos termos ou elemen- tos. Pata os estruturalistas holistas, como Lévi-Strauss, todos os termos devem ser definidos (identificados) separadamente de qualquer sistema especifico; o sistema especifico de termos, entdo, determina quais os termos. possiveis que efetivamente devem ser considerados como elementos, isto é, © sistema estabelece a individuacdo dos elementos. Para Lévi-Strauss, por exemplo, em Cru e Cozido,’ cru, cozido ¢ podre sao identificados como trés elementos posstveis; cada sistema real de elementos, entio, determina de que modo, neste sistema, estes trés elementos possiveis seriam individuados. Por exemplo, eles podem ser agrupados em divisdes bindrias como cru versus cozido e podre, ou cru ¢ podre versus cozido, ou cada um dos irés elementos pode ser considerado em si mesmo. A fenomenologia transcendental, como definida ¢ praticeda por Edmund Husserl, é diametralmente oposta ao estruturalismo. Ela aceita 0 ponto de vista de que o homem ¢ totalmente objeto ¢ totalmente sujeito, ¢ investiga a atividade doadora de sentido do ego transcentental, que di sentido a todos os objetos incluindo seu proprio corpo, sua propria personalidade empirica, além da cultura ¢ da historia, que “estabelece” como condiciohando seu ser. A fenomenologia transcendental de Husser! deu origem ao conira- movimento existencialista, liderado na Alemanha por Heidegger e por Mer- 1 Peopp, Vladimir Ja. Morphology of the Folktale, The Hague, Mouton, 1958, 2 Lévi-Strauss, Claude. Toremion, Boston, Beacon Press, 1963, p. 16-(grifo nosso). 3 Lévi-Strauss, Claude. The Raw and the Cooked, New York, Harper and Row, 1969, XVI Jeau-Ponty na Franga. Foucault foi influenciado pelo pensamento destes dois fenomendloges existencialistas. Na Sorbonne, assistiu 4 explicago de Mer- Ieau-Ponty daquilo que ele chamaria mais tarde fenomenologia da experién- cia vivida. Em suas conferéncias € no seu influente livro, Fenomenologia da Percepgdo, Merleau-Ponty tentou mostrar que o corpo vivido mais do que 0 ego transcendental organizava a experiéncia, e que o corpo, como um. cone junto integrado de habilidades, nao era submetido ao tipo de andlise intelec- tualista, através de regras, desenvolvidas por Husserl. Foucault também estudou a clissica reelaboragio da fenomenologia feita por Heidegger, em Ser e Tempo, ¢ apresentou favoravelmente a hermenéutica ontolégica de Heidegger, em seu primeito trabalho publicado, uma longa introdugdo a um ensaio do psicanalista heideggeriano, Ludwig Binswanger." A fenomenologia de Heidegger enfatiza a idéia de que os sujeitos humanos sio formados pelas praticas histérico-culturais nas quais eles se desenvolvem. Estas priticas formam um background que nao pode nunca totnar-se completamente explicito, ¢ assim nao pode ser entendido em termos das crengas do sujeito doador de sentido. As praticas que constituem este background podem, entretanto, conter um sentido. Blas incorporam uma maneira de compreender ¢ lidar com as coisas, pessoas ¢ instituigdes. Heideg- get chama de uma interpretacdo este sentido existente nas praticas, ¢ propde tomar manifestas certas caracteristicas gerais desta interpretagao. Em Ser Tempo ele chama este método, que consiste em dar uma interpretagdo 4 interpretagdo incorporada as praticas cotidianas, hermenéutica. O uso deste termo por Heidegger remonta a Schlicrmacher, que com ele indicava a interpretagio do sentido dos textos sagrados, ¢ a Duilthey que aplicou 0 método interptetativo de Schlietmacher a histéria, Heidegger, ao generalizar o trabaiho de Duilthey e. a0 desenvolvé-lo com 0 objetivo de criar um método. geral de compreensio do ser humano, introduziu o termo ¢ a abordagem no pensamento contemporaneo. De fato, existem duas maneiras diferentes de investigacdo hermenéu- tica em Ser ¢ Tempo, correspondendo a Divisio I ¢ Divisio II. Cada uma delas foi desenvolvida por uma das duas escolas de filosofia contemporanea que chama seu trabalho de hermenéutica. Na Divisio I, Heidegger elabora o que ele denomina “uma interpre- tagdo do Dasein* na sua “cotidianidade™’* Lé ele expoe o modo pelo qual o Dasein sc interpreta em sua atividade cotidiana. Este “entendimento primor- dial” de nossas praticas ¢ discursos cotidianos, nao pereebido pelos agentes 4 Binswanger, Ludwig. Le Reve et L’esistence. Tred, Jacqueline Verdeaux. Introdugioe notas M. Foucault, Patis, Deselée de Brower, 1956, 5 Heidegger, Martin. Being and Time, Nova York, Harper and Row, (962, p. 76. * Mantido o termo Dasein (estar, existir) em aleméo, conforme o original em inglés. XVIL destas praticas, mas por eles reconhecido, se lhes fosse chamada a atengao, é tema de recentes investigages hermenéuticas, O socidlogo Harold Gat- finkel® ¢ 0 cientista politico Charles Taylor’ se identificam explicitamente com tal método hermenéutico. Uma ramificagao deste tipo de hermenéutica do cotidiano € a aplicagzo deste mesmo método a outras culturas (por exemplo, o trabalho antcopologico de Cliford Geertz)" ou a outras épocas de nossa cultura (a aplicagdo do que agora Tomas Kuhn explicitamente chama método hermenéutico da fisica atistotélica)? Na Divisio I do Ser e Tempo Heidegger mostra que o entendimento das nossas ptaticas cotidianas é parcial ¢ conseqiientemente distorcido. Essa limitago € corrigida na Divisio II, onde a interpretagao da Divisio [ nao é levada em conta pelo que apresenta 4 primeira vista, mas como um mascara- mento motivado da verdade, De acordo com Heidegger: O tipe de ser do Dasein (...) exige que qualquer interpretagio on- tolégica que se coloca a finalidade de exibir o fendmeno em sua primordiali- dade deveria apreender o ser desta entidade, apesar da tendéncia desta propria entidade de encobrir as coisas. A andlise existencial, portanto, constantemente tem @ caracteristica de violentar, tanto. as afirmacé interpretagao cotidiana, quanto a sua complacéncia ¢ trangiiila obviedade.'” Heidegger acredita descobrir que a verdade profunda, escondida pelas praticas cotidianas, ¢ a perturbadora falta de fundamento da maneita de ser queé, por assim dizer, sempre interpretagao. Esta “descoberta” é um exemplo do que Paul Ricocur chamou hermenéutica da suspeita. Poderiamos ter acreditado que a verdade fundamental oculta fosse a luta de classes, conforme desvendado pot Marx, ou os desvios e as transfotmagdes da libido, conforme revelado por Freud. Em qualquer destes casos, alguma autoridade que ja tenha visto a verdade deve conduzir o individuo iludido a vé-fa também. Em Ser ¢ Tempo esta autoridade € chamada voz da consciéncia. Ademais, em cada caso 0 individuo deve confirmar a verdade desta interpretagao profunda, reconhecendo-a. E visto que em cada caso o sofrimento é causado pelas defesas repressivas, encarar a verdade resulta cm alguma espécie de li- betagio; seja pelo aumento de flexibilidade que advém da compreensio de 6 Cf. Garfinkel, Harold, Studies in Ethnomerodology, Englowood Cliffs, N.J., Prentice Hall, 1967, 7 Cf. Taylor, Charles. “Interpretation and the Sciences of Man”, in P. Rabinow ¢ W. Sullivan (eds.), Interpretative Social Sciences, Berkeley, University of California Press, 1973. 8 Cf. Gentz, Clifford. The Interpretation of Cudnures, Nova York, Harper and Row, 1973. 9 Ch Kuhn, Thomas 8. The Essential Tension, Chicago, University of Chicago Press, 1977, p. Xm 10 Heidegger. Being and Time, p. 359. XVO—O que nada € fundamentado e de que no hé linhas diretrizes, como sustenta Heidegger, seja pelo poder liberado através da compreensio de que sua classe 6 explorada, ou ainda a maturidade ganha por encarar as segredos profundos da propria sexualidade. Hans-Georg Gadamer, em Verdade e Método,'' da & hermenéutica profunda uma dire¢gio mais positiva, como um método de reapropriagao dos entendimento profundo do Ser, preservado em praticas lingiiisticas tadicio- nais. De acordo. com Gadamer, reinterpretar esta verdade salvadora é a nossa Unica esperanga em face do niilismo. Foucault nao esté interessado em recuperar a nao percebida auto-in- terpretagao cotidiane do homem. Ele concorda com Nietzsche ¢ com a hermenéutica da suspeita que tal interpretagdo est certamente iludida acerca do que esta realmente acontecendo. Foucault néo acredita que uma verdade profunda oculta seja a causa da interpretago equivocada incorporada ao nosso auto-entendimento cotidiano. Ele apreende todas estas posigdes, assim como a de Gadamer, num nivel de abstragao apropriado quando define o que chama de comentétio ... como a retomada através do sentido manifesto de um discurso, de um sentido ao mesmo tempo secundirio e primario, isto é, mais escondido porém mais fundamental”.* Considerar assim a interpre- tagao, ele afirma, “nos condena a uma tarefa infindivel... (porque ela) repousa no postulado de que a fala é um ato de ‘tradugao" (...) uma exegese, que escuta (...) a palavra de Deus sempre secreta, sempre além de si mesmo”. Foucault descarta esta abordagem com a observacao: “Por séculos temos esperado em vao pela decisio da Patavra de Deus.”"* Obviamente, a terminologia nesta drea nao é sé confusa como causa confuséo. Em nossa discussdo separaremos os varios tipos de interpretagzo ou exegese usando “hermenéutica” como um amplo termo neutro, “comen- tirlo” para a recupetagao de sigaificados ¢ verdades oriundas de nossas Praticas cotidianas ¢ das de outta época ou cultura, ¢ “hermenéutica da suspeita” para a busca de uma verdade profunda que foi propositalmente escondida, Veremos, ao acompanhar as diferentes estratégias de Foucault para o estudo dos seres humanos, que ele constantemente procurou se mover além das alternativas que acabamos de discutir — as tnicas alternativas que sobraram para alqueles que ainda estéo tentando compreender os seres humanos dentro da problemética deixada pela ruptura da perspective huma- 41 Gadamer, Hans-Georg. Truth and Method, Nova York, Seaburyy Press, 1975. 42 Foucault, M. Les Mots et les choses, p, 384. 13 Faucault, M. Naissance de la clinique. Une archéologie du regard médical. Paris, PUP, Gallien, 1963. 14 Ibidem. xX nista. Ele tentou evitar a andlise estruturalista que eliminava totalmente a nogiio de sentido, substituindo-a por um modelo formal de comportamento humano que apresenta transformagées, governadas por regras, de elementos sem significado; ele tentou evitar 0 projeto fenomenoldgico de ligar todo 0 sentido a atividade de dar sentido de um snjeito auténomo ¢ transcendental; ©, finaimente, cvitar a tentativa do comentirio de ler o sentide implicito das praticas sociais, assim comoo desvelar feito pela hermenéutica de um sentido diferente e mais profundo do qual os atores sociais tem uma vaga consciéncia. Os primeiros tabalhos de Foucault (Histéria da Loucura, Nas- cimento da Clinica) estio centrados na andlise de sistemas de instituigdes ¢ praticas discursivas historicamente situados, As praticas discursivas so distinguidas dos atos de fala da vida cotidjana. A Foucault interessa apenas © que chamaremos atos de fala sérios: os que os peritos dizem quando falam como peritos. E, além disso, ele restringe suas andlises aos atos de fala sérios das “dibias” disciplinas que vieram a sex chamadas ciéncias humanas. Na Arqueologia do Saber cle procura purificar suas anélises do discurso ao afastar temporariamente suas andlises institucionais. Ele sustenta que aquilo que denominamos, sem maior rigor, de ciéncias do homem pode ser tratado como sistemas auténomos de discurso, mas ele nunca abandona suas posigdes iniciais de que as instituigdes sociais influenciam as praticas dis- eursivas. Na Arqueologia ele, entretanto, efetivamente tents mostrar que as ciéneias humanas poderiam ser analisadas como tendo umaregulagéo interna propria ¢ uma auténoma. Outrossim, ele propée tratar dos discursos das ciéncias humanas arqueologicamente, isto ¢, evitar tomar-se envolvido em argumentos sobre se o que elas afirmam ¢ verdade, ou até mesino se suas assertivas fazem sentido. Preferivelmente, ele propée tratar tudo que € dito nas ciéncias humanas como um “‘discurso-objeto’. Foucault esclarece que seu método arqueolégico, ja que deve permanecer neutro no que conceme a verdade ¢ ao sentido dos sistemas discursivos que ele estuda, nao € outra teoria sobre a relagdo das palavras ¢ coisas, Ble sustenta, todavia, que € uma teoria sobre o discurso — ortogonal a todas as disciplinas, com seus conceitos aceitos, sujeitos legitimados, objetos inquestionados ¢ estratégias preferidas que produzem afirmativas justificadas de verdade. Como ele afirma: “Eu acteditava que eu falava do mesmo lugar daquele discurso e que ao definir seu espago eu estava situando minhas observagdes; mas devo agora reconhe- cer que néo posso mais falar do mesmo Jugar de onde mostrei que eles falavam.”** Foucault nunca foi um estrututalista estritamente falando, ou um pés-estruturalista, ¢ mais tarde ele até mesmo recua em relagdo a suas enfaticas afirmagoes na Arqueologia de que o discurso é um sistema gover- 15 Foucault, M, "Réponse an cercle d'Epistéemologe,” in Cahiers pour l’Aualyse, 0. 9, 1968, KX nado por regras semelhantes ao apresentado por varias versées do estrutura- lismo, e que é auténomo ¢ auto-referente, como os pés-estruturalistas afir- mavam naquela époce. Entretanto, ¢ importante confrontar a posigéo de Focault na Arqueologia exatamente porque ela compartilha alguns pressu- postos fundamentais com a abordagei estraturalista. Argumentaremos de- talhadamente que © projeto da Arqueologia fracassa por duas cazdes. Em primeiro lugar, o poder causal atribuido as regras que governam os sistemas discursivos é ininteligivel e torna incompreensivel 0 tipo de influéncia que as instituigdes sociais tem — uma influéncia que tem estado sempre no centro das preocupagées de Foucault. Em segundo lugar, na medida em que ele considera # arqueologia como um fim em si mesmo, ele exclui a possibilidade de apresentar suas andlises criticas em relago ds suas preocupagées sociais. Diante deste impasse, no qual o método da arqucologia nao permitia a Foucault continuar investigando a séric de problemas © questées que informavam o seu trabalho, cle passou algum tempo repensando e remode- lando seus instrumentos intelectuais. Depois da Arqueotogia ele desvia bruscamente da tentativa de desenvolver uma teoria do discurso, ¢ usa a genealogia de Nietzsche como ponto de partida para o desenvolvimento de um método que lhe permitia tematizar a relacdo entre verdade, teoria, valores e as instituigdes e praticas sociais nas quais eles emergem. Isso 0 leva a prestar uma crescente atengao a0 poder e a0 corpo nas suas relagdes com as ciéncias humanas. Porém, o método arqueologico nao é rejeitado. Foucault abandona somentea tentativa de elaborar ume teoria das regras que governam os sistemas de praticas discursivas. Como uma técnica, 9 arqueologia serve para isolar discursos-objetos, cla serve para distanciar ¢ desfamiliarizar os discursos sérios das ciéncias humanas. Isto, por sua vez, permite a Foucault levantar as questes genealégicas. Como sio estes discursos utilizados? Que papel eles representam na sociedade? A Arqueotogia apareceu em 1969. © préximo livro de Foucault, Vigiar e Punir, sutgiu seis anos mais tarde. Pretendemos demonstrar que neste livro Foucault concentra-se nas praticas “carcerarias” que deram origem as ciéncias do homem e deram ao homem e a sociedade uma forma que € possivel 4 andlise objetiva arqueolégica. Dai varios dos termos-chaves como “governo”, “regulamentagao”, “transformagao”, “elemento”, “regra”, “séries”, “externalidade”, “sistema”, em torno dos quais gita Arqueologia, demonstram ser uma rede de interpretagio gerada por praticas histdricas especificas. Além disso, em Histéria da Sexualidade (1977), Foucault contesta a crenga hermenéutica em um significado profundo, ao tragar a emergéncia da confissdo sexual c ao relaciona-la 4s praticas de dominagao social. Ele mostra a importancia das priticas confessionais — tais como a psicoterapia ¢ os Procedimentos médicos — reveladas pelo enorme crescimento do interesse na psique em todos os setores da vida. Praticas como estas, que supostamente XXI revelavam © significado profundo, acessivel somente a uma interpretago interminavel e alegorica, produzem a proliferagdo de discursos dos “sujeitos que falam”. Acreditamos que Foucault esta indicando com isto que ndo podemos simplesmente assumir que existem significados profundos a inves- tigar somente porque nossa cultura nos diz que eles existem. Esta ¢ apenas outra maneira de dizer que a nogao de significado profundo é uma construgio cultural. Foucault assim nos da uma concreta demonstragao das duas dimen- des estratégicas do desenvolvimento gradual das priticas tolalizadoras, que ndo somente produzem, mas, o que é mais impottante, presetvam 0 homem como Sujeito ¢ objeto na nossa sociedade objetivada ¢ obcecada por significado. Esta combinacao permite a Foucault desenvolver um diagnéstico geral de nossa atual situacio cultural. Ele isola e identifica a difusa organi- zagdo de nossa sociedade como “poder biotécnico”. Biopoder é 0 crescente ordenamento em todas as esferas sob o ptetexto de desenvolver o bem-estar dos individuos e das populagdes. Para o genealogista esta ordem se revela como sendo uma estratégia, sem ninguém a dirigi-ta, e todos cada vez mais emaranhados nela, que tem como tinica finalidade o aumento da ordem edo proprio poder. Hi varias outras maneiras de ler a nossa histéria e Foucault no é 0 primeiro a ler neste sentido. Ele est claramente numa linha de pensadores como Nietzsche, Weber, o tiltimo Heidegger e Adorno. Todavia, sua con- tribuigéo constitui-se numa sofisticagéo metodologica ¢ numa énfase tinica 20 corpo como o lugar em que as minuciosas ¢ localizadas priticas sociais esto ligadas com as macroorganizagdes de poder. Foucault combina o melhor da reflexdo filosdfica com uma escrupu- losa atengao ao detalhe empirico, No entanto, ele, de mancira consciente, permanece frustrantemente evasivo quando se trata de captar nossa situagao atual em uma formula geral, como a tentativa de Heidegger de definir a esséncia da tecnologia como a agdo de situar, otdenar e colocar 4 nossa disposigaio todos os setes. Mas Foucault esta sendo cocrente quanto as conseqiiéncias de suas anélises, isto é, que tais generalizagées ou so vazias ou podem servir como justificagio para incentivar exatamente aquilo # que Foucault quer resistir. Desde que se veja a difusao, dispersio, complexidade, contingéncia ¢ superposigao de nossas priticas sociais, se vé também que qualquer tentantiva de resumir 0 que ocorre atualmente esta fadada a ser uma distorgao potenciaimente perigosa. Além disso, Foucault perturba muitos ao insistir em um objetivo pragmitico em toda historiografia significativa. Foucault afirma estat escre- vendo a histéria do presente, e chamamos o método que Ihe permite fazer esse tipo de historia de analitica interpretativa, Isto quer dizer que, enquanto a andlise das prdticas atuais ¢ do seu desenvolvimento histérico é uma disciplinada 2 concreta demonstragéo que poderia servir como base de programas de pesquisa, o diagnéstico de que a crescente otganizacio de tudo. XXII é 0 tema central do nosso tempo no ¢ de modo algum empiricamente demonstrdvel, mas antes emerge come uma interpretacao, Esta interpretagao origina-se de preocupacdes pragmticas ¢ tem um propdsite pragmatico, ¢ por esta razdo pode ser contestada por outtas interpretagdes que tenham origem em outras preocupagdes. Agora podemos compreender em que sentido o trabalho de Foucault se situa ¢ sempre se situou além do estruturalismo ¢ da hermenéutica. Durante © periodo da Arqueologia, sua redugao do sujeito a uma fungao do discurso sua tentativa de tratar o discutso sério como um sistema auténomo gover- nado por regras (apesar de ele nunca ter afirmado encontrar leis universais a-histéricas) o levaram a dizer que seu método era “nao inteiramente estranho ao que era chamado andilise estrutural”.' No entanto, com o abandono da arqueologia como um projeto tedrico, Foucault nao somente se distancia do estruturalismo, mias também situa 0 projeto estruturalista historicamente, em uum contexto de crescentes praticas isoladoras ordenadoras ¢ sistematizadoras conseqiiéncias do que ele chamou tecnologia disciplinar. Entretanto, ele conserva a técnica estrutural de enfocar o discursoe também aquele que fala como objetos construidos, um passo necessario para se libettar de considerar os discursos e as praticas desta sociedade como simplesmente expressando. a maneira como as coisas so. Antes de adotar as técnicas estruturalistas, em um de seus primeiros trabalhos publicados, a introducdo a um ensaio de Binswanger, Foucault claramente se identifiea com a tradigéo da ontologia hermenéutica, que se ofigina em Ser e Tempo de Heidegger. Porém, como seu interesse nos efeitos sociais — mais do que no sentido implicito das praticas cotidianas — se desenvolveu, Foucault simplesmente abandonou as preocupagdes da pasigao hermenéutica. Sua leitura de Nietzsche foi o veiculo através do qual ele novamente se voltou para as necessidades e perigos da abordagem interpre- tative. A genealogia nietzschiana, da maneita como o poder usa a ilusio do sentido para se favorecer, da a ele boas razies para ser critico da hormenén- tica, tanto em sua forma de um comentario da vida cotidiana, quanto na sua forma correlata de exegese profunda do que as priticas cotidianas enccbrem. No entanto, esta mesma anélise genealégica levou Foucaulta posigao que ele denomina déchiffrement.'” Isto significa um entendimento das praticas so- ciais portador de uma inteligibilidade radicalmente diferente daquela dis- ponivel avs atores, que, dle acordo com a avaliagao hermenéutica, percebem as praticas como superficialmente significativas, profundamente significati- vas, ou até mesmo profundamente sem sentido. 16 Foucault, Michel, Areheotagie du Savoir, Paris, Gallimard, Bibl. des Sciences Humsines, 1969, 17 No original em francés, XXII Foucault desenvoive esta interpretagio — ¢ sustentamos que isto ¢ a sua mais original contribuigao, embora cle nao tematize desta forma — a0 apontar para exemplos notérios de como um dominio de atividade humana deveria set organizado. Estes exemplos, como a confissio cristi e a psica- nalitica, ¢ o Panepticon de Jeremy Bentham, nos mostram como nossa cultura tenta normalizar os individuos através de meios crescentemente racioalizados, transformando-os em sujeitos com sentido ¢ abjetos déceis. Isto nos auxilia a compreender de que maneira o estudo dos setes humanos, como sujeitos e objetos, assumiu este cardter central em nossa cultura, e por que as técnicas atuais utilizadas neste estudo — hermenéutica e estrutura- lismo — mostraram-se to poderosas. Assim, Foucault consegue ao mesmo tempo criticar ¢ utilizar — de um modo extremamente original — os dois meétodos dominantes disponiveis para o estudo dos seres humanos. Tradugo de Antonio C. Maia Sumario Primeira parte — A Huséo do Discurso Auténomo ..... 2... Capitulo I — Discursos e Praticas nos Primeiros Escritos de Foucault A historia da loucura A arqueologia da medicina . . Capitulo I — A Arqueologia das Ciéncias Humanas . O nascimento da representagéo na Epoca Clissica . O homem ¢ seus duplos: a analitica da finitude . . . O empirico e o wanscendencal bee Ocogite eo impensado .... . O recuo ¢ 0 retorno da origem . Conclusdo dos deplos : Capitulo IIE — Em Diregao a uma Teoria da Pratica Discursiva we Umi fenomenologia para por um fim a todas as fenomenologias Para além do estruturslismo: das condigoes de pessibilidade a as condicées de existéncia ..... . A analise das formagdes discursivas . . . Objetos do discurso.. 2. oe eee As modalidades enunciativas . 6.66. A formagao dos conceitos . .. . . A formagao das estratégias . As iransformagdes hisiéricas: a desordem como tipo de ordem . . As estratégias discursivas e o fundamental social 6.4... Capitulo IV — 0 Fracasso Metodolégico da Arqueologia . . . . . Do poder explicative .. ee Para além do sério e do sentido . Conclusio: dupla dificuldade . . Segunda parte — A Gencalogia do Individuo Modemo: a Analitica Interpretativa do Poder, da Verdade edo Corpo.......-- XX¥ 101 Capitulo V — A Analitica Interpretativa A genealogia A historia do presente ea analitiea interpretative beens Capitulo VI — Da Hipotese Repressiva o Biopoder seeeeee A hipotese repressiva .. . . Obiopoder.......--- Capitulo VIL — A Genealogia do Individuo Moderno como Objeto 158 Trés figuras de punigdo ......- . A tortura soberana : : oe A reforma humanista ... . A detengao normalizadora ..... ‘A tecnologia disciplinar . As ciéncias sociais objetivantes . . . Capitulo VII — A Genealogia do Individuo Modemno como Sujeito 185 Osexoeobiopoder..... 1 A tecnologia da confissio . . . As ciéncias sociais subjetivantes . Capitulo IX — Podere Verdade ... Opoder..... ee eee eee ee Os rituais meticulosos de poder Paradigmas e priticas ... . Podere verdade .... 6... Concluséo .... os Quesides .. . A verdade . we Aresisténcia .. 0.1... Opoder. oo... cece ee Apéndice . 0.0... 0.0 cece ee soe 229 OSujeitoeo Poder oe. ce eee 231 Por que estudat o poder: a questo do sujeito . 231 Como se exerce o poder 239 Apéndice da 2¢edigdo . 2... Seve eee eee n ee QE Michel Foucault Entrevistado por Hubert L Dreyfus © Paul Rabinow. 6... eee 253 Sobre 2 genealogia da éti wee 283 Histéria do projeto.......... Levee cece eee 253 Por que o mundo antigo nao foi a idade de ouro e, contudo, o que com ele podemos aprender... - 2... . . . 256 A estrututa da interpretaiio genealdgica . . . 262 Do eu classico ao sujeito moderno .... .. 268 A Analitica Interpretativa da Btica de Foucault... 2... . 2 279 XXVI Precisdes metodologicas . . . . O diagnéstico interpretative . . Agenealogia .... Aarqueclogia . Normas, razdes ¢ biopoder ras Para além de Foucault . 1 Indice Indice do apéndice da 2' edigo .. . pee e eee 279 XXVOI Primeira parte A Tlusao do Discurso Aut6nomo Capitulo I Discursos e Praticas nos Primeiros Escritos de Foucault A bistéria da loucura A Histéria da Loucura na Epoca Classica (1961) inicia-se com uma descrigdo de exclusio ¢ do confinamento dos feprosos numa vasta rede de leprosarios que, durante a Idade Média, se disseminaram nas proximidades das cidades européias. Fechados em seus muros, os leprosos eram separados dos outros habitantes da cidade ¢ mantidos isolados o suficiente para nao serem observados. Sua sitiacao liminar — nas margens, mas nao fora, das cidades — correspondia & profunda ambivaléncia com a qual eram conside- rados. Os leprosos eram tidos como perigosos e perniciosos, pois haviam sido punidos por Deus; contudo, eram, ao mesmo tempo, corporalmente depo- sitirios do poder divino e do dever da caridade. No final da Idade Média, os leprosétios da Evropa foram dramatica abruptamente esvaziados. Mas o espago fisico de segregagio social e de obrigagiio moral néio ficaria desocupado. Ao contririo, seria sucessivamente preenchido por novos ocupantes, com novos sighos ¢ novas formas sociais. “Com um significado totalmente novo ¢ uma cultura muito diferente, as formas subsistirao — essencialmente a forma maior de uma diviso rigorosa, que é a exclusio social, apesar de reintegrago espiritual.”' Estes dois temas paralelos — da exclusao espacial ¢ da integragdo cultural — estruturam toda & Historia da Loucura, ¢ sio apresentados logo em suas primeitas paginas. Foucault prossegue com as imagens de leprosos malditos, porét sagrados, através das descrigdes igualmente constrangedoras da “Nave dos Loucos”, Narrenschiff, Na Renascenga, os loucos eram embarcados em 1 Foucault, M. Histoire de la Folie d t'Age Classique. Paris, Gallimard, Bibl. des Histoires, 1972, p. 16,