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Augusto Dos Anjos - Eu, Todos Os Sonetos e Outas Poesias

Augusto Dos Anjos - Eu, Todos Os Sonetos e Outas Poesias

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Sections

  • O MORCEGO
  • PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
  • IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
  • SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO
  • VERSOS A UM CÃO
  • O DEUS-VERME
  • DEBAIXO DO TAMARINDO
  • BUDISMO MODERNO
  • SONHO DE UM MONISTA
  • MATER ORIGINALIS
  • O LUPANAR
  • IDEALISMO
  • ÚLTIMO CREDO
  • SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO
  • A UM CARNEIRO MORTO
  • VOZES DA MORTE
  • INSÂNIA DE UM SIMPLES
  • ASA DE CORVO
  • O MARTÍRIO DO ARTISTA
  • O MAR, A ESCADA E O HOMEM
  • RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ
  • A UM MASCARADO
  • VOZES DE UM TÚMULO
  • CONTRASTES
  • DEPOIS DA ORGIA
  • A ÁRVORE DA SERRA
  • VENCIDO
  • VANDALISMO
  • VERSOS ÍNTIMOS
  • VENCEDOR
  • ETERNA MÁGOA
  • O LAMENTO DAS COISAS
  • O MEU NIRVANA
  • CAPUT IMMORTALE
  • LOUVOR A UNIDADE
  • SUPREME CONVULSION
  • NATUREZA ÍNTIMA
  • A FLORESTA
  • GUERRA
  • ÚLTIMA VISIO
  • AOS MEUS FILHOS
  • O POETA DO HEDIONDO
  • A FOME E O AMOR
  • HOMO INFIMUS
  • MINHA FINALIDADE
  • NOLI ME TANGERE
  • O CANTO DOS PRESOS
  • VÍTIMA DO DUALISMO
  • AO LUAR
  • CANTO DA ONIPOTÊNCIA
  • ANSEIO (QUEM SOU EU...)
  • VERSOS A UM COVEIRO
  • TREVAS
  • AS MONTANHAS
  • APOCALIPSE
  • A NAU
  • O FIM DAS COISAS
  • A NOITE
  • A OBSESSÃO DO SANGUE
  • VOX VICTIMAE
  • AGONIA DE UM FILÓSOFO
  • O ÚLTIMO NÚMERO
  • SAUDADE
  • ABANDONADA
  • CETICISMO
  • OUVI, SENHORA
  • TRISTE REGRESSO
  • INFELIZ
  • N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS
  • NOIVADO
  • NO MEU PEITO ARDE
  • AMOR E RELIGIÃO
  • CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA
  • O COVEIRO
  • PECADORA
  • NO CLAUSTRO
  • IL TROVATORE
  • A LOUCA
  • PRIMAVERA
  • SENHORA, EU TRAJO O LUTO DO PASSADO
  • SOFREDORA
  • ECOS D’ALMA
  • AMOR E CRENÇA
  • ARIANA
  • TEMPOS IDOS
  • NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA
  • ADEUS, ADEUS, ADEUS! E, SUSPIRANDO
  • A AERONAVE
  • LIRIAL
  • A MINHA ESTRELA
  • A ESMOLA DE DULCE
  • AVE DOLOROSA
  • NIMBOS
  • O MAR
  • ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS...)
  • AURORA MORTA, FOGE!
  • NO CAMPO
  • CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA
  • CRAVO DE NOIVA
  • O BANDOLIM
  • ARA MALDITA
  • TREVA E LUZ
  • O TEMPLO DA DESCRENÇA
  • A PESTE
  • IDEAL
  • AFETOS
  • MARTÍRIO SUPREMO
  • SOMBRA IMORTAL
  • NOTURNO (PARA O VALE NOITAL..)
  • SEDUTORA
  • PELO MUNDO
  • E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA
  • O RISO
  • VAMOS, QUERIDA!
  • A UMA MÁRTIR
  • PELO MAR
  • PALLIDA LUNA
  • A MORTE DE VÊNUS
  • MÁRTIR DA FOME
  • SONHO DE AMOR
  • A ORGIA MATA A MOCIDADE
  • FESTIVAL
  • NOTURNO (CHOVE, LÁ FORA...)
  • E ELE MORREU
  • A DOR
  • O SONHO, A CRENÇA E O AMOR
  • MEDITANDO
  • PARA QUEM TEM NA VIDA
  • SONETO A FREDERICO NIETZCHE
  • O NEGRO
  • VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA
  • O ÉBRIO
  • O CANTO DA CORUJA
  • SENECTUDE PRECOCE
  • MYSTICA VISIO
  • NOME MALDITO
  • MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
  • UMA NOITE NO CAIRO
  • AS CISMAS DO DESTINO
  • A CARIDADE
  • OS DOENTES
  • À MESA
  • DUAS ESTROFES
  • MATER
  • GEMIDOS DE ARTE
  • A MERETRIZ
  • VERSOS DE AMOR

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenções do mercado pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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....................... 170 A Vitória do Espírito ....... 192 Ode ao Amor ...........................................................128 As Cismas do Destino ...................................................... 195 Numa Forja ............................................................. 141 Os Doentes ......................................................................................... 155 Mater ...................................................................................................................................................................................................................... 166 A Luva .......... 183 Gozo Insatisfeito ......................... 156 Gemidos de Arte ............123 Uma noite no Cairo .......... 184 Idealizações .................................................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .............. 162 Versos de Amor ...................................... 173 A Ilha de Cipango .. 179 Estrofes Sentidas ................................................................................................................................................... 212 5 ........................... 129 A Caridade ......................................... 176 Ave Libertas ...................................................................................................................................... 197 Quadras ..................................................... 183 História de Um Vencido ......................................................................................... 142 À Mesa . 190 Mistérios de um Fósforo ....... 168 Noite de um Visionário ............ 199 Tristezas de um Quarto Minguante .............. 186 Insônia .... 180 Canto Íntimo ...................................... 157 A Meretriz ............. 155 Duas Estrofes ....................................................................................... 200 Mãos ............................................................................................................................. 175 Barcarola .... 203 Vênus Morta .................................................................... 205 Queixas Noturnas .............. 209 Poema Negro ................. 182 Canto de Agonia .................................................... 204 Viagem de um Vencido ......

RJ. na verdade. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. É preciso. contudo. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. Teria sido um neurótico para uns. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. poder conhecer a árvore pelo fruto. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. quando. nos moldes da velha orientação impressionista. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. Sua personalidade singular ali se projeta. não conhecemos sequer a nossa. um psicastênico para outros. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. ed. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. pois. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. Deste modo. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. em suas mensagens de angústia. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. que é de todas a menos operante. Por conseguinte. paremos reverentes à porta do templo. no que há de mais sutil e imponderável. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. ao menos. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. na chaga viva de sua consciência.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. segundo as síndromes patológicas revelados. Nessa tentativa de interpretação psicológica. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. desejosos de. senão em mais de um. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. e era aí. Fazer o elogio do poeta. 1962) 6 . já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. Nalgum ponto. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. nesse estado de superexcitação. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. numa atitude de respeito e reflexão. que o não convencia de todo. o eu fora do Eu. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. entrava em crise espiritual. compreendendo inclusive a estilística. isto é. Gráfica Ouvidor. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. Não me parece.

Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. só ele dava a impressão de um desajustado. Explica-se deste modo. não é possível interpretar a obra de um escritor. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . ficou desajustada da mente pelo resto da vida. com preocupações de grandeza e fidalguia. que já era constitucionalmente quase louca. em relação com a casuística. sobre o seu caso clínico. Obviamente. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. sobretudo quando provém da linha materna. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. por motivos vários. Nietzche. nas modalidades do caráter. o refinamento de suas faculdades morais. Nem os que nasceram antes. reduzir tudo a categorismo. A mãe do poeta. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. Por seu parentesco espiritual. choques emocionais. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. além mesmo da gravidez. de fundo genético. aos que se rebaixam para subir. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. tiques nervosos. Augusto não era um homem igual aos outros. nem os que vieram depois. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Juízo é coisa que todos julgam ter. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. na classificação dos antropologistas do século passado. a de Byron. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. menos a de Byron. enfim. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. perturbou-a por muito tempo. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. da inteligência. estudante de medicina. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. repetindo conceitos. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. por vezes controvertidos. enfim. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. igualmente inteligentes. do sentimento.for. Assim como a mãe de Augusto. Sem o concurso da causa primária. a de Nietzche. causada pela perda imprevista de um irmão querido. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. Byron. a partir de Lombroso. sestros. a de Leopardi. aos que se acomodam. no final. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. fobias. como é do gosto da crítica científica. não há negar também a dos psicológicos. Ao que se sabe. E por curiosa coincidência. todo o seu temperamento emocional. tem sido Augusto comparado a Leopardi. Pai e irmãos passavam por normais. a de Wilde. que nada explica. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. Isto posto.

Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. Falava nele o positivista que. do Eu. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. O que há de singular nele não é. em contraste com a mocidade e a inteligência. Alexandre dos Anjos. é a vocação que já revelava para o infortúnio. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. como uma fatalidade. aprendeu a ler e. Era de fato um excêntrico. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. cuja vida corria sem obstáculos. a sua própria vida sem problemas. Com seu pai. cinco anos após a sua morte. como expressão do pensamento nacional. mas não era somente isso. os quais o acompanhariam. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. em Monólogos de uma Sombra. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. logo mais. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. A par disso. para maior complicação de sua personalidade. segundo os primeiros retratos que temos dele.Augusto com a sua personalidade psicológica. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. dr. que a metafísica estava morta. saído da roça. sofregamente bebida nas academias. mas no final 8 . o seu tipo de pássaro molhado. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. na várzea do Paraíba. em 1900. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. Sílvio Romero. em prefácio à segunda edição do Eu. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. sem afastar-se do lar. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. Deste modo. em sua linha tomista. a quietude da vida na província. Muito cedo. Nada de admirar. A paisagem bucólica da várzea. evolvia para o evolucionismo de Speneer. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. Logo mais. Já em 1875. visto ter nascido poeta. Coelho Rodrigues. guiado apenas pela ilustração paterna. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. ao invés de um estudante bisonho. com o título Eu e Outras Poesias. era um introvertido. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. até o túmulo. para aprazimento intelectual das elites. que lançou em 1919. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. a rigor. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. bradava para o conceituado mestre que o argüia. O rapazinho de 16 anos. sofreu duros reveses. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. no último ano do século passado. conforme disse num soneto que não consta. estavam a fazer dele um lírico. inspirado na natureza e no amor.

formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. desde Haller. aliás. nas concepções filosóficas de seus poemas. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. José Américo de Almeida. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. suportou a mais dura crise. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. Desta forma. emancipou-se dela intelectualmente.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. mas a origem simiesca do homem. um século antes de Hugo. ficava a escutar os companheiros. Comte passou. Aliás. adepto do positivismo. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. O beatério era o último reduto do catolicismo. está sujeita também ao processo da evolução. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. Nas rodas que se faziam na Paraíba. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. que. faziam praça de livres pensadores. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Esquisitão que era. que só cuidava de preocupações teológicas. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. Ao que parece. Martins Júnior. proceda ou não proceda. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. de onde saiu formado em 1907. Na Paraíba. tentou o milagre de 9 . os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. firmava-se o conceito. Por todo o Nordeste. a exemplo de Victor Hugo. Ainda na fase preparatória de estudos. Laurindo Leão. com a evolução da matéria e do espírito. introduziu entre nós a poesia científica. Os menos letrados. dupla feição de filósofo e de poeta. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. aliás bem pouco lisonjeiro. isto é. já no seu ocaso. Desses embates. se o diabo é tão feio como o pintam. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. como toda substância animada. em sua. conciliada. já lidos nos filósofos da natureza. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. de que católico era sinônimo de burro. confundidas ambas na unidade cósmica. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. em seu livro Frases e Notas. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. o pensamento ao longe. Augusto pouco falava. a velha Escolástica. Até no Piauí. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. os intelectuais mais dotados. entre o mundo da forma e o mundo da razão. ou mesmo. como uma velharia do século. Embora educado na religião católica.

reduzir a um campo único a ciência e a arte. que passou do reino vegetal para o animal. ampla. Pólipo de recônditas reentrâncias. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. Não sofre apenas a sua dor. naquela mesma idade em que. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. A saúde das forças subterrâneas. por força das sucessivas mutações da matéria. Vejamos. já diferenciado na mônada. E assim continua. A partir da monera. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. enfim. como bem observa Cavalcanti Proença. E é de mim que decorrem. poema que abre o Eu e Outras Poesias. na larva que procede do caos telúrico. Quem já o leu uma vez. a consciência 10 . facilmente o identifica. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche.. Integrado na sociedade. identifica-se na substância primeva. já desiludido. ora transfigurado em filósofo moderno. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. Larva do caos telúrico. procedo Da escuridão do cósmico segredo. vibra A alma dos movimentos rotatórios. e—crente no tema. nas duas composições uma coincidência de temas. Da substância de todas as substâncias. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. começa então o drama crucial da consciência. “esse mineiro doido das origens”.. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. chega aos seres mais complexos. trinta anos antes. A simbiose das coisas me equilibra. terso na linguagem.. que é a derrota da humanidade. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. Em minha ignota mônada. fundado na unidade cósmica. Do cosmopolitismo das moneras. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Aos 17 anos. depois de infinitas transformações. Venho de outras eras.. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Rimbaud escrevera Bateau ivre. todavia. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. O aspecto conceptual do poema. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. É a sua confissão de f transformista. numa caminhada de 31 estâncias. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. 186 versos. Não há. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. até adquirir a forma humana. Encontra-se. simultâneas. incomparável na forma musicada. como amostra.

Por fim. em esconderijos apropriados. no princípio era a força. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. conheci um sujeito. centro de toda a acuidade sensorial. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. natural de minha terra. uma espécie de fogo que devora e não consome. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . numa espécie de solidariedade subjetiva. A partir dai. como está dito em Monólogos de uma Sombra. com sótão e porão. No tocante à transformação da matéria. ouvia mais que um tísico. cuido não estar proferindo uma heresia. É a concepção monística. Nada obstante. No fundo. noção trivialíssima das funções orgânicas. Por alma. que faz quase lembrar a reencarnação. já havia dito. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. O próprio Augusto. A mesma coisa. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. chamando a si. segundo querem os frenologistas. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. o sofrimento de toda a humanidade. o remorso já acordado na caverna escura. assombrado com o não-ser. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. do ponto de vista metafísico. dezenove séculos antes. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. dentro do mundo fenomenal. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. que tinha os ouvidos totalmente tapados. diante das maravilhas do aparelho encefálico.No princípio era o Verbo. tantas vezes exaltada pelo poeta. no entanto. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. que a ele não interessava considerar. Nesse estado d’alma. o que vale dizer. há que distinguir um pormenor. A rigor. o vidente de Patmos: . entrega-se ao sacrifício. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. temos aí um transformismo metafísico. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. manifestou o seu espanto. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve.conspurcada de gozo malsão. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. entendia o agregado abstrato da saudade.

perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. Exausto da luta. Sofro.este operário das ruínas. A influência má dos signos do zodíaco. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Querendo fugir a essas coisas. desde a epigênese da infância. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Custa crer que este soneto .Psicologia de um Vencido .. que é o Deus materialista de Haeckel. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. onde não há lugar para a alegria. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal.. sem problemas materiais: Eu. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida.Fazer a luz do cérebro que pensa. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. dominado por um ceticismo acabrunhador. rasgar do mundo o velário espêsso. o lado malsão da vida. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Por toda parte. filho do carbono e do amoníaco. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. admite o éter. Este ambiente me causa repugnância. Já o verme . uma natureza gasta. fonte inesgotável de vida. o éter cósmico. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. procura 12 . Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. O mundo em que vive é um vasto hospital. E há-de deixar-me apenas os cabelos. procura penetrar o mistério da substância universal. Profundissimamente hipocondríaco. vermes. impreca. só serviu para adensar o clima de alucinação. Em tudo. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. cadáveres e bocas necrófagas. O próprio amor. na melhor das suposições. solta blasfêmias. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Nem por isso admite Deus. No auge da inquietação. onde imperam sombras. Monstro de escuridão e rutilância. a matéria putrefata. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Ao invés de fecundação do espírito. causa-lhe repugnância.

paralelamente. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. monstros terríveis. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. sente o desejo. gasta imensas energias e enche de culminâncias. tenta ir ao fundo da crença monística..refúgio na inexistência espiritual. Antes de mais nada. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. como se supunha. Com efeito. O resultado de bilhões de raças Que. acompanham-no. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. evadido de si mesmo. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. Grita a sua dor por toda parte e. Nenhum pintor. Mas o diabo não larga a sua presa. Por um instante.. nem Haeckel compreenderam. O subconsciente o aturde. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. que os anos não carcomem. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. deve ter acontecido na sua juventude. a terrível moléstia que se atribui. uma desgraça na vida do poeta. E via em mim. Algo de mais grave. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. E é nesta manumissão schopenhauriana. Até agora 13 . com o poder de sua imaginação. já cansado de escutar a natureza. a perda da crença e. com efeito. diz ele. Espera aí encontrar o seu nirvana. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. E para não capitular a esse apelo. que ele denomina um sonho ladrão. que exulta triunfante: Gozo o prazer. no todo ou em parte. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. coberto de desgraças. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. o Eu e Outras Poesias. não há homem que sofra mais. Onde quer que se refugie. em suas visões oníricas. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. numa atitude mental de fuga à realidade. Depois disso. Tudo isso. Há. podia fazer dele um triste. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. A julgar pelos seus gemidos. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero.

Gozei numa hora séculos de afagos. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Por suas próprias palavras. Por mais que procure fugir ao assunto. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Por mais que Augusto negue o amor. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Por enquanto. Exatamente aí. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Ele próprio. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. não pode ocultar que foi vítima dele. inútil seria qualquer esforço. de uma paixão. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Iríamos a um país de eternas pazes. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Lembro-me bem. . Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. pois. em . Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . no capítulo do amor. sempre se revela.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. desespero virtual e não real... no tocante a esse drama. dada a ausência de biografia. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo.. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Trata-se. que é o drama mais doloroso de sua consciência.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Depois de embebedado deste vinho. ao mesmo tempo que. como em . Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Noite. Sonâmbulo. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes.santa.. surpreende com a invocação de Santa Francisca. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. como é sabido. Sonâmbulo. O poeta.. confessa mais uma vez a sua culpa. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta... em mágoa.Queixas Noturnas . Como um bemol ou como um sustenido.. eu também vou passando Sonâmbulo. nunca foi chegado a santos. E invejo o sofrimento desta Santa. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.extravasava desta forma o seu lamento: 19 ..Insônia . que não é das mais invocadas. contrito. mas no poema .referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada.

Como Elias. ama-o até mesmo na atômica desordem. quando a morte o olhar lhe vidra. o ofício da agonia. sonhando.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Mãe. expressa a sua mágoa numa comovente unção. num carro azul de glórias. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.. Nem uma névoa no estrelado véu.. apenas três vezes. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Ao pai. entre as estrelas flóreas.brada: 20 . mas para os que crêem há ainda uma esperança. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Minha alma sai agoniada. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. sem resolver a verdade interior. dormir primeiro. Ao vê-lo morto. Rezo. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. entretanto.As Cismas do Destino . Mas pareceu-me. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. como perseguido pela sinistra ceifeira. não para ele. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. luta por fugir dela. pouco fala. Madrugada de treze de janeiro. que parece se deixou levar por pressão da família. entre estes monstros. A morte é o fim de tudo. Em . que não admite a vida espiritual. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Da mãe. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.

Nestas condições. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. habitado por monstros humanos. levava-o a recolher-se em si mesmo. as palavras também servem para ocultar o pensamento. Vivia um mundo à parte. E ainda.. Forma difusa da matéria imbele. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. Ao invés de ajustá-lo à realidade.Morte. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente.. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Não me parece tenha razão 21 . devia ter na época. embora ansiasse por encontrá-lo. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. ardendo em indagações subjectivas. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. que Augusto era um cerebral. cheio de imperfeições. Por tua causa apodreci nas cruzes. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Aqui. não cria em Deus. Acha Flósculo da Nóbrega. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. escravo do raciocínio frio.. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. Minha filosofia te repele. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Nada o consolava nesse estado de espírito. 22 anos de idade. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços.. como em toda a obra. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Procura assim desoprimir o coração. Já que não crê em Deus. ponto final da última cena.

e a mim pergunto. além de pouco. ao contrário. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. que o acolhia com carinho. O que produziu no sul do País. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. mas no particular. conforme declarou nesta honesta confissão. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. noite a dentro. tinha-se na conta de um doente. contudo. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. Depois que o poeta deixou a Paraíba. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. De um modo geral. nunca recebeu hostilidades. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Nem ele próprio se conhecia. Os seus melhores versos. A inspiração despertava com a dor. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. andar bamboleante. sua musa empalideceu à falta de ambiente. passos largos. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. torturado no sentimento do desamparo. os de maior densidade emocional. No fundo. volta-se vez por outra contra a sociedade. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. Há. mas porque se sente um desajustado. que o 22 . o cérebro em fogo. como um sonâmbulo. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. Era. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. ao redor da capela do engenho. de vez que ninguém o compreendia. foram produzidos no Pau D’Arco. Fosse como ele diz. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. no caso. Não que tenha recebido ofensas dela. em 1912. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Desta. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. um homem excluído do mundo. Ao contemplar esse ambiente. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Punha-se então a passear. Na luta em que Augusto se debate. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. As suas relações com a sociedade parecem rompidas.o ilustre intelectual paraibano. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. que só repugnância lhe causava. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. entrava em crise espiritual. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho.

“na urbe natal do Desconsolo”. entra a descrever a cidade dos lázaros. Depois disso. hosanas ao Senhor. aliada à descrença. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. 23 . Na ascensão barométrica da calma. Mais adiante. num desalento ainda maior. à guisa de ácido resíduo. perdeu também a crença. Em As Cismas do Destino. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Eu bem sabia. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. o soneto Vandalismo. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. onde os anjos cantavam. Lá para o fim do poema. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. na terra onde pisava. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. em Os Doentes. De início. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Parece que desperta para a vida. fez dele um misantropo. numa emoção que comove.próprio poeta confessava. sob os seus pés. ansiado e contrafeito. Essa real ou imaginária doença. Era ali. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. como ele chamava. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Não há. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. que admirar chore um dia a crença perdida. atormenta-se com a idéia de que. Perdido o amor. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. eis que escuta. imaginária cidade à margem do Paraíba. confessa-se minado pela tuberculose. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. como se já tivesse perdido o alento de viver. passa a chorar a sua dor e a alheia. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. em serenata. pois. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. Já cansado do ceticismo. os acordes saudosos do coração. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. como um arrependido.

continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. pois.. No final de contas. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. que se afundava a alma do poeta. Não é. há sempre o que referir. Ao contrário da incontinente afirmativa.. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. apenas como autor de um livro apologético. Assim é que. Sabe-se como compunha. ler. para ele. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. Álvaro de Carvalho.Meu coração tem catedrais imensas. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. muitas opiniões foram veiculadas. na Academia Paraibana de Letras. Onde um nume de amor. Santos Neto. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. já na 27ª edição. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. em gemidos de dor. No desespero dos iconoclastas. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Flóscolo da Nóbrega. em serenatas. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. João Lélis. tenham bordejado na superfície do abismo em. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . destaco Órris Soares. que não é biografia e não chega a ser estudo. José Américo de Almeida. Sua obra. posto que. quase todos. era apenas o meio de formular soluções. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. gostar e não gostar é coisa que se não discute. João Lélis e De Castro e Silva. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. Raul Machado. este último. Nesse decurso. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. por exemplo. Canta a aleluia virginal das crenças. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. A arte. Templos de priscas e longínquas datas. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Enfim. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Dos outros. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos.

o que era. lá fora. sangue de vísceras dilaceradas. que não tenha fecundado a poesia nacional. duendes. vermes. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. Por tudo isso. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. claro que avulta ainda mais o seu mérito. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. um em 1920. certa preocupação inclusive dos simbolistas. a passear a esmo. de um a outro canto da sala. como em compasso de música. a sua personalidade psicológica. figuras espectrais e outras visões sinistras. Muitas vezes. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. Seus versos. com efeito. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. este na prosa. lábios crispados. Em ter ficado sozinho. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. a densidade. impressionam pelo poder da dialética. Neles. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha.devoradoras. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. túmulos. Foi então que recitou de inopino. Essa crítica. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. entre nós. na época. em 1945. Órris Soares. Essa incompreensão a respeito de Augusto. disse que uma das suas forças. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. sobretudo da crítica provinciana. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. Euclides da Cunha. associado à vibração sonora. Poe e Rimbaud. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. o que acabava de compor. Só depois de elaborada é que ia para o papel. entrava disciplinada em seus versos. Cavalcanti Proença. o sentimento parece ter outra dimensão. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. escarros. enquanto forjava mentalmente a composição. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. também 25 . por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. Os versos espoucavam no momento da inspiração. que pretende ser de interpretação psicológica. o outro 25 anos depois. como lamenta o crítico. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. reside justamente no termo técnico. insulado em sua própria grandeza. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. No entanto. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. essa linguagem. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. olhar perdido no espaço. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. Em ambos. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. à primeira vista incompatível com a poesia. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. num timbre especial de voz.

Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. é mais uma aversão de olfato alérgico. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Com Baudelaire. nem tudo pode ter cabimento. Com Verlaine. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. como se vê. Ou então. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Com Mallarmé. por isso mesmo poética. na interpretação de um drama emocional. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas.ficaram sem seguidores. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. Há. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. num dos seus últimos sonetos. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Não pode o critico ser ortodoxo. neste ensaio de exegese literária. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. reconheça-se que essa poesia é humana. pela tristeza indefinível da alma. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. com efeito. O anojamento de Álvaro de Carvalho. mesmo doentia. 26 . O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. aparelhou. está em tempo de ser feita. que apenas transparece em linguagem evasiva. elogios ou restrições. Mas é preciso notar que essa musa. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. no duelo da carne. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. Eis porque. de sentido mais profundo. Nem por isso. a fim de atingir. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes.

crematismos. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. em tropos ousados. a idéia pura das coisas. sensações simples e cenestesias. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. A mesma coisa ocorre com Augusto. “Na Eternidade. os mesmos descuidos de metro e rima. em quem se acumulam. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. em termos de comparação. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. um mês após a morte de Augusto. de uma honestidade quase bravia. temida pelo outro. Com Leopardi. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. assentado sobre cacos de pote e urtigas. É. como neste exemplo: 27 . Não fica apenas aí o confronto. guardando o corpo do Divino Mestre. palavras raras e eruditas. vem o barulho das matracas. foi José Américo de Almeida. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Até nas aliterações e metáforas. no ar de minha terra. desejada por um. Augusto lembra Rimbaud. por sua natureza. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Encontra-se.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. visionário. O único que mencionou Rimbaud. que dialoga com os elementos imponderáveis. na postura de um campônio rústico. Honesto em tudo. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. as mesmas figuras de linguagem. na terra santa. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. numa sexta-feira santa. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. Súbito. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. para a neologia e o vocábulo raro. desde a sua fase inicial. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. Com Antero do Quental. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. De lá de fora. um grande medo toma conta do poeta. a filosofia da dor. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. de mistura com alucinações. pelo sentido da dor universal. em grupos prosternados. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. Vez por outra. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. Também no amor os dois se assemelham... havia acentuada tendência do poeta. Ouvindo isso. só nesse ponto dissimula o pensamento. Só com Rimbaud. encontra-se em Roma.através da sensação. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. Segundo Delahaye. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. num artigo publicado em 1914. citado por Augusto Meyer. isso mesmo de passagem.

Em cada um deles. embora tenham se casado e tido filhos. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. mas que o levaram ao resultado conhecido. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. à beira da água. provo-a. largou-se para a África. contudo. é verdade. Rimbaud. é inútil.. por causas várias. E como não 28 . enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. um suave concerto espiritual na natureza. é improfícuo. sente-se que há um complexo de culpa. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. Descasco-a. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. filha legítima de sua alma. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. Não sou capaz de amar mulher alguma.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual.. é como a cana azeda. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede.. o bem e o mal caminhando juntos. Ninguém sofre mais do que ele. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. onde se casou com uma nativa da Abissínia. em busca do paraíso terrestre. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. andou conspurcado de sensações súcubas. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. ilusão treda! O amor. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. que era o seu anseio máximo. em suma. Augusto sentia-se puro. vítima de injustiças humanas. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. chupo-a. Há. uma diferença de fundo entre os dois poetas. homens de bem cheios de nobres intenções. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. a julgar pelos seus lamentos. A toda boca que o não prova engana. na Bélgica. No tempo de jovem. exacerbava-a. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. segundo é fama. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. poeta. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. como Tântalo. Motivos escabrosos.”. . Depois desse fato. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine.

Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. revolta-se contra o mundo. sem preencher esse vácuo. Neste passo. 29 . perdia-se no estado de dúvida. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. som. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. como Camões na de Petrarca e de Vergílio.Une Saison en Enfer . quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. perfume. isto é. Não raras vezes. isto é. onde não faltavam o ranger de dentes. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. o amor. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. os mistérios da natureza. Um problema sempre gera outro. conforme confissão feita a Mário de Alencar. como fontes de inspiração. martelada em versos magníficos e candentes. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. a criação. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. entre a voz do sentimento e a da razão. cor. do qual se considerava prisioneiro. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. tudo quanto desperta a alma. imitação. Há muitas espécies de conversões em literatura. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Augusto vai irredento até o fim.. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . tudo quanto eleva os sentidos. luz. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. A vida. contra a sua grei. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. Foi a partir daí. segundo apregoam os fundibulários da crítica. quando muito. contra a sociedade. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Possuído do demônio da dúvida. chegaríamos por certo ao pai Homero que. depois que perdeu a ilusão dos homens. dessa conversão ao materialismo. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. silvos de labaredas e suspiros de empestados. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. Mesmo assim. Por curioso paradoxo. deixava-se ficar no interior da concha. porém. numa reação inócua.espécie de autobiografia moral. mas nem isso acredito tenha havido. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. Tais similitudes valeriam. beleza.pode reformar o mundo. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental.

No meio em que viveu era querido e admirado. uns afirmando. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. afetando melindres de devotos. se manifesta ainda escravo do batismo.Enredado em idéias preconcebidas. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. Ora. Convém. se não há Deus. Todos nós. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. é. Se há Deus. a meu ver. É o que há. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. mas os que o seguem desconhecem. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. a propósito. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. Os oradores. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. a essência dos Evangelhos. Isso mostra que ele. Ao cabo do bombardeio oratório. Na prática. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. como ninguém ainda se entendesse. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. quando não proferida por modo vulgar e chulo. supria-se do mais no magistério particular. que se veja na blasfêmia. em meio a tantas emoções extravasadas. resolveu o presidente submeter a questão a votos. Alguns críticos. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. porquanto Deus é princípio e é fim. outros negando. aceitar as imperfeições do mundo. um pedido de socorro. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Vale mencionar. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. com raríssimas exceções. Se o Cristo não vem em seu auxílio. 30 . proclamou que Deus não existe. nas Alterosas. Apurada a eleição e com base no resultado. tal como Rimbaud. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. em torrentes de eloqüência. heresia maior que a do poeta quando. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. no desespero de tantos sofrimentos. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. se sucediam na tribuna. viram nisso o pecado da blasfêmia. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. na realidade. é questão que não deve ser formulada. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. todavia. via de regra.

De inflexões mentais sua obra anda cheia. No tempo de meu Pai. entendiam a alma.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . dá à alma a denominação de sombra. A denominação. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Voltando à pátria da homogeneidade. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Como uma vela fúnebre de cera. o sacrifício da linda moça Polixena. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Por outro lado.atormentado por visões escatológicas. coisa que não cabe na boca de um ateu. De outras vezes. sob estes galhos. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. através dos séculos. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje.Debaixo do Tamarindo. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. começa o poema “Sou uma Sombra. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. desde Tales de Mileto. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Abraçada com a própria Eternidade. E como era sincero e honesto. explodiu em As Cismas do Destino. 31 . depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. os filósofos iônios. como uma caixa derradeira. como se vê. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. vem de muito longe. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. virtudes que cultivava com extremado zelo. por mãos de seu filho Pirro.

mais dotados de inteligência e espírito de penetração. em Leopoldina. que procede do éter cósmico. Mais poderia dizer agora. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. sua intimidade numenal. acrescenta. mas dentro da alma aflita Via Deus . larva do caos telúrico. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. até que morre numa cidade das Alterosas. tal como se apresenta. a 12 de novembro de 1914. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. em soluços quase humanos. vacilante na ciência fria. como entidade eterna. assaltado de alucinações. Daí por diante. desde o declínio das crenças mitológicas. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. Assim vai. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. perdendo-se novamente no enleio cósmico. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. para ele. Que outros. Até Deus. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. as formas microscópicas do mundo. da substância de todas as substâncias. mas com o que ai está me contento. em briga com o dualismo. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. virtualidade espiritual. !" Este trabalho.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. 32 . Fala como um crente da cegueira da criatura humana. era uma mônada. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. na Federação das Academias de Letras do Brasil. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. Choram ainda dentro dele.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. É a substância primeva. até mesmo num grão de areia. aos 30 anos de idade. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. tal como a entendiam os filósofos iônios. isto é. nas composições que vão até o fim do livro.

1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. de abusar um pouco do café. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Córdula C. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Tenho insônia raras vezes. o que não impede. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. dos Anjos e D. entretanto. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Conservo de memória tudo quanto produzo. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Eu. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. 33 . numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Engenho Pau d'Arco. da chamada vida física. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. R. Sofre de insônia. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Rio de Janeiro. presumo.

A influência má dos signos do zodíaco. e à vida em geral declara guerra. Ergo-me a tremer. Este ambiente me causa repugnância. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Minh’alma se concentra. “Vou mandar levantar outra parede. Monstro de escuridão e rutilância.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. E vejo-o ainda.” -. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . agora.Digo. Meu Deus! E este morcego! E..este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. desde a epigênese da infância.. filho do carbono e do amoníaco. Chego A tocá-lo. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.. Ao meu quarto me recolho. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Já o verme -. E há de deixar-me apenas os cabelos. Sofro. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. igual a um olho. Produndissimamente hipocondríaco. Fecho o ferrolho E olho o teto.. Esforços faço.

raquítica.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Que. Mas. mínima. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. em desintegrações maravilhosas. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Quebra a força centrípeta que a amarra. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Anoitece. quando sonha. Deixa circunferências de peçonha. e quase morta. e depois. Chega em seguida às cordas da laringe.. À noite. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Delibera.. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Tísica.. tênue. Riem as meretrizes no Cassino. de repente..

em vez de achar a luz que os Céus inflama. Agregado infeliz de sangue e cal. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Tragicamente anônimo. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 .IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros .. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Em que lugar irás passar a infância.. Realizavam-se os partos mais obscuros. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Fruto rubro de carne agonizante. feto esquecido. E. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. em letras garrafais. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. com a sinergia de um gigante.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Que poder embriológico fatal Destruiu.

Janta hidrópicos. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência.é o seu nome obscuro de batismo. Verme -. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. ampara-a. Almoça a podridão das drupas agras. em que tu dormes. afaga-a. Na superabundância ou na miséria. E vive em contubérnio com a bactéria. E irás assim. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a.... Livre das roupas do antropomorfismo. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Suficientíssima é. arrima-a.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Cão! -. pelos séculos adiante.. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Ah! Para ele é que a carne podre fica. Filho da teleológica matéria. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. para provar A incógnita alma.

Dr. portanto. esta árvore. esta tesoura.corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Guarda.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai.. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . Como uma vela fúnebre de cera. Voltando à pátria da homogeneidade. e. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. sob estes galhos. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri.. de amplos agasalhos. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. como uma caixa derradeira. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje..

Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. -. Alheio ao velho cálculo dos dias.. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. mas dentro da alma aflita Via Deus -.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . por toda a pro-dinâmica infinita. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. Como um pagão no altar de Proserpina. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. com o esqueleto ao lado. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Na guturalidade do meu brado. Por trás dos ermos túmulos.. um dia. com uma ânsia sibarita. como quem tudo repele.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.

mísera e mofina. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. Todas as noites. Ah! De ti foi que. Oh! Mãe original das outras formas. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és.. Dentro do ângulo diedro da parede. Como quase impalpável gelatina. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Em que é mister que o gênero humano entre. vede: É o grande bebedeouro coletivo. como um gado vivo. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . talvez. Onde os bandalhos. Nos estados prodrômicos da vida. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. moços do mundo. autônoma e sem normas.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. nesta rede.. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre.

Amo o coveiro -. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio.. perante a evolução imensa. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira.IDEALISMO Falas de amor. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. para o amor sagrado. é o pneuma . De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. O mundo fique imaterializado -.. Creio. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . É. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. É a morte. é o ego sum qui sum . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. como o filósofo mais crente.

talvez as Musas. Mas. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. se hoje volto assim. cartilagens Oriundas. Cinzas. Era tarde! Fazia muito frio.. Vaguei um século. improficuamente. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Pelas monotonias siderais. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. À meia-noite. com a alma às escuras. caixas cranianas. e.. nele. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . como os sonhos dos selvagens. Comi meus olhos crus no cemitério.. inclusas. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. subi talvez às máximas alturas..O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente.

tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. trilhos. Depois da morte. Pelo muito que em vida nos amamos. selvas. reunidos. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. vales. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. porém. com o envelhecimento da nervura. Tamarindo de minha desventura. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão.fontes de perdão -. Eu. inda teremos filhos! 43 . tuas sementes! E assim. Na multiplicidade dos teus ramos. em diferentes Florestas. Tu. pois.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. no Dia de Juízo. para o Futuro. glebas. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Se fosses Deus. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro.

Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. Apraz-me... nos doze meses. Como a cinza que vive junto à brasa. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde.. Ganem todos os vícios de uma vez. Na orgia heliogabálica do mundo. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Ter o destino de uma larva fria..INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. à categoria Das organizações liliputianas. É meu destino viver junto a esa asa.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . Como os Goncourts. asa De mau agouro que. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. É-me grato adstringir-me. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. Perseguido por todos os reveses. na hierarquia Das formas vivas.

já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. É como o paralítico que. Ouvindo a Escada e o Mar. violento. “Homem. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. mamífero inferior. a mim. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. aos soluços. o Homem. puxa e repuxa a língua. conquanto ainda hoje em dia.. com os dedos brutos Para falar. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . em desalento. o Hércules. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. “À luz da epicurista ataraxia.. rasga o papel.

porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Tu só furtaste a moeda. mas eu. Eu furtei mais. em minha cama. Furtaste a moeda só. minha Mãe. não fora ela! --“ E maldizia a sina.. o ouro que brilha.. Vejo.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Que a mim somente cabe o furto feito. como cruéis e hórridas hastas. afetava Susceptibilidade de menina: “-. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama.Não. após tudo perdido. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. ralhava. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas.. então. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Sinhá-Mocinha. minha ama. agora.. Que ela absolutamente não furtava. hipócrita. Em sucessivas atuações nefastas. entretanto. Ele hoje vê que. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava.

. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. e. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . Hoje.. do que este que palmilho E que me assombra. Assim Tântalo.. E tu mesmo.. à noite. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. Hás de engolir...a mãe comum -. igual a um porco.. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.o brilho Destes meus olhos apagou!. aos reais convivas.. porém. É noite. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. num festim. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. após a árdua e atra refrega.

e sendo justo. para amenizar as dores tuas. meu Pai?! Que mão sombria. O Amor e a Paz. Pai.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. Eu. é justo. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . o Ódio e a Carnificina.. Deus.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. pois. O que o homem ama e o que o homem abomina. Tu. Às alegrias juntam-se as tristezas. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes.. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!.. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. para onde fores.. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. gemendo. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. trilhando as mesmas ruas. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. Irei também. e o ângulo reto.

Como Elias.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . o ofício da agonia. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Mas pareceu-me. Rezo. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. E a marcha das moléculas regulam. num carro azul de glórias. Nem uma névoa no estrelado véu.. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. cuidei que ele dormia.. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. sonhando... Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Mãe. entre as estrelas flóreas.

e ajoelhou-se. -.. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros.As árvores.. meu filho.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. pai. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza..Disse -. Livre deste cadeado de peçonha. meu pai.. para que eu viva!” E quando a árvore. no junquilho.. Apraz-me. olhando a pátria serra... Para que eu tenha uma velhice calma! -. sôfrega e ansiosa. numa rogativa: “Não mate a árvore. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . pois.Meu pai.. Caiu aos golpes do machado bronco. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. Esta árvore. enfim. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. É preciso cortá-la. meu filho. possui minh’alma!.

desde o mais prístino mito.. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. de à antiga rota Voar.. não tens mais! E pois. Olha a atmosfera livre. Continua a comer teu milho alpiste. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota.. bruto. Pões-te a assobiar. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. mergulhou a cabeça no Infinito. Foi este mundo que me fez tão triste. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . o amplo éter belo. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito..VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. preto e amarelo. Tu nunca mais verás a liberdade!. Ah! Tu somente ainda és igual a mim.

No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu... Ante o telúrico recorte. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. E erguendo os gládios e brandindo as hastas... em serenatas. ególatra céptico. Onde um nume de amor. Templos de priscas e longínquas datas. Noite alta. na diuturna discórdia. cismava Em meu destino!. Canta a aleluia virginal das crenças.

E à rutilância das espadas. E qual mais pronto. é a véspera do escarro. A mão que afaga é a mesma que apedreja. E não pôde domá-lo enfim ninguém.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. sente invevitável Necessidade de também ser fera. por fim. que. Acende teu cigarro! o beijo. toma A adaga de aço. entre feras. Se a alguém causa inda pena a tua chaga.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. veio um atleta. guerreiro. ao todo. nesta terra miserável. e. o gládio de aço. Toma um fósforo. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . por fim.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. Mora.. Somente a Ingratidão -. Veio depois um domador de hienas E outro mais. amigo. Vieram todos. e doma Meu coração -. Meu coração triunfava nas arenas. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. Apedreja essa mão vil que te afaga. uns cem.. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro.

pancada por pancada. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. pois. Da luz que não chegou a ser lampejo.. Que. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. Sabe que sofre. A sucessividade dos segundos.. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. do Orbe oriundos. Ouço. nada há que traga Consolo à Mágoa. Da transcendência que se não realiza. a que só ele assiste. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. Quer resistir. a escutar. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.. podendo mover milhões de mundos.. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. No rudimentarismo do Desejo! 54 . e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.. chorando. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. em sons subterrâneos.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo.. E é em suma.

o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Como a última expressão da Dor sem termo. eu. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Morto o comércio físico nefando. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Foi que eu. Parem as vidas. sincero Encontrei.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Cesse a luz. Oh! Nauta aflito do Subliminal. que os anos não carcomem. De que. num grito de emoção. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. a animar o cosmos ermo. feito força. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. afinal. me desencarcero. pensando.

sem gritos. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. A dardejar relampejantes brilhos.. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . sem retumbância. arpões.. pois. E o Homem — negro e heteróclito composto. decompondo-se. Em tua podridão a herança horrenda. Diafragmas. o ouvido. Dói-me ver.. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. a irmanar diamantes e hulhas. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. há inúmeros milênios. "Com essa intuição monística dos gênios. Era. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. ao sol posto. e. a vista. Onde a alva flama psíquica trabalha. numa alta aclamação.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. feixe de mônadas bastardas. o olfato e o gosto! Carne. muito embora a alma te acenda. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha.. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto.

— libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. e. Tragicamente. na noite escura. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. é o transunto. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. a porta. é a essência pura..O PÂNTANO Podem vê-lo. E o nada do meu homem interior! 57 . sem dor. meus semelhantes! Mas. Que produz muita vez. A convulsão meteórica do vento. às escâncaras. no Mundo. opondo-se à Inércia. à espera de quem passa Para abrir-lhe. É a síntese.. para mim que a Natureza escuto. Este pântano é o túmulo absoluto. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga.

"Menos interiormente me conheça?!" 58 . Vence o granito. deprimindo-o . é natural. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. causa do Mundo.. Reconcentrando-se em si mesma. entanto.A UM GÉRMEN Começaste a existir. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. porventura. Antes o Nada. no teu silêncio. em realidade. como o gérmen de outros seres.. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. em conjugação com a terra nua. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. não progridas E em retrogradações indefinidas. Teu desenvolvimento continua! Antes. geléia crua.. oh! gérmen. O espanto Convulsiona os espíritos. E hás de crescer. um dia. tanto Que.. e. ainda algum dia. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. Volvas à antiga inexistência calma!. que ainda haveres De atingir. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. geléia humana.

é ânsia.. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. . os elementos broncos.As ambições que se fizeram troncos. na ordem cósmica. trancada num disfarce. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. é transporte. traçando arcos de ogivas.. nele. . é inquietude.Todas as hermenêuticas sondagens..A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!... E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante.. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. é o instinto horrendo De subir... São absolutamente negativas! Araucárias. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue.. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. no seu arcano. E a coorte Das raças todas. descendo A irracionalidade primitiva.. Vivem só. É a Natureza que. Como um convite para estranhas viagens. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . Bracejamentos de álamos selvagens.

ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. acérrima e latente. À humana comoção impondo-a. sol do cérebro. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. Dói-lhe.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.. ancoradouro Dos desgraçados. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. inteira... Que o sarcófago. assim. Riqueza da alma. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. saúde dos seres que se fanam.. em suma. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda.. psíquico tesouro. E.. oh! Dor.. sem convulsão que me alvorece. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas.

Benditos vós. pois.. pois.. Ions emanados do meu próprio ideal.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. ) Com o vosso catalítico prestígio. Dai-me asas. Expressões do universo radioativo. em épocas futuras. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira.. Minha continuidade emocional! 61 . Dai-me alma. para o último remígio.. que. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o .. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea.. Haveis de ser no mundo subjetivo. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito.

E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.. O cosmos sintético da Idéa Surge. Arranco do meu crânio as nebulosas. as mãos. os pés e os braços Tombara. então.. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Subitamente a cerebral coréa Pára. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . A alma arde. Eu sinto. Emoções extraordinárias sinto... A espaços As cabeças. A carne é fogo.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa.

Os dentes antropófagos que rangem. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. aumenta. Superexcitadíssimos. carne sem luz. Teu coração se desagrega. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. No desembestamento que os arrasta. na ânsia voraz que. Montão de estercorária argila preta. Sangram-te os olhos.. Receando outras mandíbulas a esbangem. os dois Representam. Hebdômadas hostis Passam. e. ávida. entretanto. enquanto as almas se confrangem.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E.. Rugindo. Porque. na superfície do planeta. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Deixa a tua alegria aos seres brutos. criatura cega. Excrescência de terra singular. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . o alfa e o omega Amarguram-te. tragando a ambiência vasta. Realidade geográfica infeliz. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta.

talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. a Ciência. a Glória. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. Da dor humana.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. Sob pena. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. soluçando. homens felizes. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. O Amor. mordem-se. aparelhou. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . o Inferno.. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. sou maior que Dante.. E trago em mim. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou.. Que força alguma inibitória acalma..

Uiva. (Hoje. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. não cabendo mais dentro dos peitos.. urdo o crime. Teço a infâmia. em voz muito alta. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal.. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. a alardear bárbaros sons abstrusos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . à luz de fantástica ribalta. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Que. È a saudade dos erros satisfeitos.O CANTO DOS PRESOS Troa. O epitalâmio da Suprema Falta. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. Existo Como o cancro. Entoado asperamente.. cresto o sonho.. a exigir que os sãos enfermem. ontem. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere.

de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos... Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. como um corvo. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. O Infinitésimo e o Indeterminado. o Céu e o Inferno absorvo.. Ceva-se em minha carne. à noite. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. apreendo. ausculto. Transponho ousadamente o átomo rude E. Feita dos mais variáveis elementos. o Infinito se levanta À luz do luar. Nos paroxismos da hiperestesia. por fim. enfim.. transmudado em rutilância fria. invado. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. agarro. dona. minha alma.

como um astro. num monturo. Sentia dos fenômenos o fim. Tifon. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. E acima deles. Átropos. arder. Laquesis. projetado muito além da História. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Siva.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . aos trismos Da epilepsia horrenda.. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. como a luz do amanhecer.. Como a luz que arde. Eu.. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto.. virgem.

sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. remoinha. Grita em meu grito. Hão de encontrar as gerações futuras Só.. Nutrindo uma efeméride inferior. nas minhas formas carcomidas.. às apalpadelas e às escuras.. a soluçar de dor?! -. rábido. alarga-se em meu hausto. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. E. entanto.. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. neste ergástulo das vidas Danadamente.. Branda.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. a afagar tantas feridas.Trilhões de células vencidas. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. Folhas e frutos. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . nem mesmo ao ronco Do furacão que. Roem-na amarguras Talvez humanas. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça... esse mundo incoerente. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que..) Quem sou eu. tenta transpor o Ideal.

Massa palpável e éter. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. hirto. em que me inundo. Penetro a essência plásmica infinita. -. em cisma abismadora absorto. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 .. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. ateando da alma o ocíduo lume. Sou eu que. sânie e perfume..Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. -. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. feto vivo e aborto.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. Apreendo. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. aliando Buda ao sibarita. desconforto E ataraxia. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que.

por hipótese. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. cinco. na abismal sustância informe. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. A aritmética hedionda dos coveiros! Um..Tal é. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. cérebros.. três. quatro. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. infinita como os próprios números. dois. em fúlgidos letreiros.. Reduzir carnes podres a algarismos. Porque. sem complicados silogismos. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. -. rádios e úmeros. crânios.. somente em.

Qual é. na natureza espiritual. recalcados. De onde rebenta. Quem sabe. em contrações de dor. assim. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. me semente. e dize-me. íngremes. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. porventura. amam jazer. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. afinal. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. a alma. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. alma.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. Estacionadas. Por um abortamento de mecânica. oh! delumbrada alma. perscruta O puerpério geológico interior. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 .

A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. que o Éter indica. sonha! Mágoas. babando. subjugue-as ou difarce-as. derrubadas. Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica.. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 ... a amarra agarrada à âncora. Espião da cataclísmica surpresa. E eu só. alçando o hirto esporão guerreiro. integérrima. e.. o último a ser. É a subversão universal que ameaça A Natureza. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. se as Tem. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. da Massa.. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. pelo orbe adiante. derrota Na atual força.. Pára e. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. em noite aziaga e ignota. Federações sidéricas quebradas.

Em convulsivas contorções sensuais.. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Haurindo o gás sulfídrico das covas. E quando. Arrancar. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. ao cabo do último milênio. adstrito à ciência grave. Sôfrego. Dentro dos ossos.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. e. Tragicamente.. cave. ainda depois da morte. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. em que arde o Ser. vazio! 73 . num triunfo surpreendente. Para a perpetuação da Espécie forte. Os nossos esqueletos descarnados. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. o dolo sáxeo. que ela encheu. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados.

iguais a espiões que acordam cedo. Ia talvez morrer.. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Horrível! O osso Frontal em fogo. Disse. há instantes.. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa..A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. vendo sangue. E. mancha a gleba. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada.. E amou. Extraordinariamente atordoadora.. A água transubstancia-se. antes do almoço. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Viu vísceras vermelhas pelo chão. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. Era tão moço. fora. Na mão dos açougueiros. eis que viu. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. com um berro bárbaro de gozo... Somente.. Olhou-se no espelho.

No mar de humana proliferação. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. E em tudo igual a Goethe. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. reconheço O império da substância universal ! 75 . Leio o obsoleto Rig-Veda.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. me não consolo.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.. E... ante obras tais. Rasgo dos mundos o velário espesso... percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!..

imensa. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente.. Fora da sucessão. Porque eu hoje só vivo da descrença. Tragicamente de si mesmo oriundo. em meio. atro e subterrâneo. resignado. Hirta. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. E assim afeito às mágoas e ao tormento. A Idéia estertorava-se. E o coração me rasga atroz. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Mas que no entanto me alimenta a vida.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. P’ra iluminar-me a alma descontente. Parecia dIzer-me: "É tarde. estranho ao mundo. Eu a bendigo da descrença. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Para dar vida à dor e ao sofrimento. 76 . Era de vê-lo. ao meu lado. imóvel. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Se acende o círio triste da Saudade.

Ah. Fugazes sonhos. eu creio em ti. Hoje ela habita a erma soledade. entre o medo que o meu Ser aterra. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . de ilusões tão bela. Onde a dúvida ergueu altar profano. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.Oh! Deus. em fundo misticismo: .Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo.o exorcismo Terrível me feriu. seu olhar magoado. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. sombras cor-de-rosa .Todas se foram num festivo bando.a Grande Mãe . Fraco que sou. volvi ao ceticismo. gárrulos voando . Cansado de lutar no mundo insano. Da Igreja . Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. desgraçado réu. e então sereno. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. Não sei se viva p’ra morrer na terra. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo.

triste pela vida afora. todas sem olores. Sombrio e mudo e glacial. pálidas agora.MÁGOAS Quando nasci. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Eterno pegureiro caminhando. triste e descrido. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Quando a morte matar meus dissabores. de amor ferido. Morreram todas. E que tornou-o assim. Desfeitas todas num guaiar dorido. Cansado de chorar pelas estradas. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. SENHORA Ouvi. senhora. Revolvo as cinzas de passadas eras. num mês de tantas flores. senhora. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. langorosas. Exausto de pisar mágoas pisadas. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Ouvi. Tristes fanaram redolentes rosas. Minh’alma levo aflita à Eternidade. senhora. tristes. amei. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Todas murcharam.

Louco vivia. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Altivo lutador. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. olímpica e singela! E partiu. um tresloucado. Tu que. Esconde à Natureza o sofrimento. coração amargurado. Vivia alegre o vate apaixonado. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Cantaste e riste. pendeu triste e desmaiada. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Oh! Tu. E fica no teu ermo entristecida. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Era o soldado. Alma arrancada do prazer do mundo. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Alma viúva das paixões da vida. Ao chegar. No sepulcro da loura virgem bela. venceu batalhas. na estrada da existência em fora.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. mas a fronte aureolada. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Mas a Pátria chamou-o. enamorado dela. e o pesar negro e profundo. E voltou. 79 .

Era o supremo beijo de noivado! 80 . Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. São minhas crenças divinais. Chegara enfim o dia desejado. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. pálidos. E a mesma frase o noivo repetia. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Há de chegar. funéreos.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Ambos unidos soluçara um beijo. soturnais. ardentes . Resvalando nas sombras dos ciprestes. silentes. Desliza então a lúgubre coorte. Vinha rompendo a aurora majestosa. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. no eternal soluço. Quando da vida. a brisa respondia. Fora no campo pássaros trinavam. Quando há de ser!? E os pássaros falavam.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. E rompe a orquestra sepulcral da morte.

E onde a vida borbulha e o sangue medra. Espumando e rugindo em marulhada. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. 81 . porém. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Assim a turba inconsciente passa. Mas se das minhas dores ao calvário. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Já que do mundo não vinguei-me em vida. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Em luta co’a natura sempiterna. No delírio. E espuma e ruge a cólera entranhada.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Aí existe a mágoa em sua essência. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. A morte me será vingança eterna. Dores que ferem corações de pedra.

Tu’alma ri-se descuidosamente. num abraço de ternura santa. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Foste do amor o mártir sacrossanto. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Morrera um dia desvairado. Jóias. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Pois se da Religião fizeste culto. dão-te enganos.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Somente assim festejarei teus anos. estulto. Quantos. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. bom Papá. Enquanto outros que podem. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Su’alma livre para o Céu se alara. Irmão querido. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. bonecos de formoso busto. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta.

esta mulher de grã beleza. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . divina. Tornou-se a pecadora vil. mornos. Bela. No entanto. Do destino fatal. Moldada pela mão da Natureza. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. A chama cruel que arrasta os corações. palpitantes. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Dançavam-lhe no colo perfumado. Os seios brancos. tomando a enxada gravemente. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. presa.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. aveludado. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Balbuciou. Do fado. amigo verdadeiro.

Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Subindo pelo Azul da Inspiração. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. . Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. addio! 84 . E à noute quando rezam na clausura. E as mesmas portas impassíveis. addio. Trovador torturado e angustioso. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Que guardam cinzas de ilusões passadas. No sigilo das rezas misteriosas. os sons esmorecendo. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. dolente. Eleonora. Ai! não. Assim canta também meu coração. não acordeis. Que guardam pér’las de funéreas rosas. pouco a pouco. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. úmidas arcadas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus.Addio. Repercute. desnudas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. mavioso.

Primavera gentil dos meus amores! 85 .O segredo d’um peito torturado E hoje. tão moça e já desventurada.a veste desgrenhada. O cabelo revolto em desalinho. para guardar a mágoa oculta.Arca cerúlea de ilusões etéreas.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . Eu sei a sua história. . os teus fulgores. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Na auréola azul dos dias teus risonhos. No sudário de mágoa sepultada. o triste outono. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores.coração saudoso. Canta. Num sepulcro de rosas e de flores. a desgraçada estulta. Moça. soluça . Chora. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Vai morta em vida assim pelo caminho. Arca sagrada de cerúleos sonhos.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . gargalha. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. . Da desdita ferida pelo espinho. Primavera. porém.

A ESPERANÇA A Esperança não murcha. delirante e vário. Também espero o fim do meu tormento. Também como ela não sucumbe a Crença. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. tristonha . O berço onde as venturas se embalaram. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Sirva-te a crença de fanal bendito. não busques saber por que. Senhora. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Salve-te a glória no futuro . Voltam sonhos nas asas da Esperança. ela não cansa. Foi outrora do riso abençoado. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. túm’lo do prazer finado. portanto.avança! E eu. Sonâmbulo da dor angustiado. risonha. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. É minha sina perenal. ergue o teu grito. que vivo atrelado ao desalento. Mas não queiras saber nunca. No entanto o mundo é uma ilusão completa. eu trajo o luto do passado. Muita gente infeliz assim não pensa. 86 .

porém. Bela na Dor. Chora . Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . santíssima. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Tenta às vezes. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Quando o rosário de seu pranto rola. Quem me dera morrer então risonho.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Mas volta logo um negro desconforto. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. sublime na Descrença. Sombra perdida lá do meu Passado.

Rendilhando-lhe o colo de sultana. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Essa sublime adoração do crente. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. nevada.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. As níveas pomas do candor da rosa. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. a fronte triste.. púbere. Estende o teu olhar à Natureza. Enquanto o amante pálido. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Na altura Imensa. mimosa. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 .. crê em Deus. Dorme talvez. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Branca. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. pois. ama. e. a seu lado Medita.

não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. E na choça a lamúria que traspassa O coração. Dos romeiros saudosos da desgraça. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. dos proscritos.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . coveiro. lânguida e bela. A alma saudosa pelo amor vibrada. além. Tem pena dessas cinzas que ficaram. Entre todos. A romaria eterna dos aflitos. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. o meu Passado. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Vai Corina mendiga e esfarrapada. A procissão dos tristes. porém.TEMPOS IDOS Não enterres. Eu vivo dessas crenças que passaram. .A Stella Matutina da Desgraça! 89 . .Quero abraçar o meu passado morto.

ADEUS. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Para mim no mundo Tudo acabou-se. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Saí deixando morta a minha amada. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. Voa. Sulcando o espaço. É como um despertar de estranho mito. adeus. Perto. Auroreando a humana consciência. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando.eu disse. Vencendo o azul que ante si s’erguera. apenas restam mágoas. 90 . adeus! E. Fitando o abismo sepulcral dos mares. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. se eleva em busca do infinito. suspirando. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Cheia da luz do cintilar de um astro. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. devassando a terra. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. ADEUS. ADEUS! E. Hermeto Lima Adeus.

com ela Negras sombras também foram chegando. Minh’alma que de longe a acompanhava. irmã pálida da Aurora. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Disse. Envolto da tristeza no delírio. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Estrela esmaecida do Martírio.A sombra deste afeto estiolado.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora .LIRIAL Por que choras assim. e a estrela foi p’ra o Céu subindo.Vai-te. . E eu disse . Viu o adeus que do Céu ela enviava. Lá onde nunca chegue esta saudade. onde não pousa a desventura. tristonho lírio. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Mas a noute chegou. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . triste.

A esmola dum carinho apetecido.então.o criminoso .Senhora.e estertorada A minha voz soluça num gemido.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. isento de pecado. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. E na atitude do Crucificado. Estendo à Dulce a mão. O olhar azul pregado n’amplidão. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. A praça estava cheia. a minha bem amada. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso.. Depois. o algoz . a fé perdida. E dos lábios de Dulce cai um beijo. o olhar enlanguescido.. por entre a dolorosa estrada. E ela fita-me. E eu balbucio trêmula balada: . dai-me u’a esmola . Morre-me a voz. 92 . Puro de crime. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. Pedir a Dulce. Vítima augusta de indelével falso. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. e eu gemo o último harpejo. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. perdão.

onde d’água raso O olhar não trago. Há perfumes d’amor . Empenhada na sanha dos abutres.. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. E as trevas moram. obumbra-me em teu seio. assassino. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.crença Perdida . nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES.segue a trilha que te traça O Destino. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. acolhe-me N’asa da Morte redentora. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. acolhe-me..venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora.. Lá. Num desespero rábido. ave negra da Desgraça. Gênio das trevas lúgubres. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. e.. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.

sem bruma Que a transparência tolde. Reflete a luz do sol que já não arde. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. sem nenhuma Nuvem sequer. Quando vos vejo. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. então. Banhando a fria solidão das fragas. Mas quando o céu é límpido.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Que o céu reflete. dentre a escura Treva do oceano. Treme na treva a púrpura da tarde. num mar de esp’rança. O MAR O mar é triste como um cemitério. Os nimbos das procelas desta vida. Abismados na bruma enegrecida. e a alma é a Flâmula do sonho. a vida é qual risonho Batel. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. só descanta.

Triste criança virginal. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Dia do meu Passado! Irrompe. é dor. Aurora morta.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco .) Nessas paragens desoladas. Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro. foge . o meu único Norte. Hoje é trevas. Agora.1902 AURORA MORTA. é desengano.1902 95 . Anseios d’alma aqui se perdem. O grande Sol de afeto . onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. e em si a Luz consoladora Do amor . FOGE! Aurora morta.. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. Nem vibra a corda que a saudade esconde. E eu ergo preces que ninguém responde.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. agita as tuas asas. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim.o Sol que as almas doura! Fugiu. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano..ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS.. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora.. Cantarias do amor a primavera. lá nos espaços. oh! Minha Mágoa. meu Futuro. quem dera Voar est’alma a ti.

no teu riso de anjos encantados. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. as águas límpidas alvejam Com cristais. Branca.. Chora a corrente múrmura.1902 96 . Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. E há.NO CAMPO Tarde. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Sonorizando os sonhos já passados. Pendem e caem . Um arroio canta pela umbrosa Estrada. despertando sonhos. Ah! num delíquio de ventura louca. nitente. ao luar.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. e. entretanto. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. chorando enfloram. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. No alto.a Louca tenebrosa. à dolente Unção da noute. Bendito o riso assim que se desata .Cítara suave dos apaixonados. emergindo às trevas que a negrejam. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .. Quando. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta.

Voga a lua na etérea imensidade! Ela. noctâmbulo da Dor e da Saudade. eterna noctâmbula do Amor. 97 . Também envolta num sudário — a Dor. Ah! como a branca e merencórea lua. Flor dos mistérios d'alma. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. E a lua é como um pálido sacrário. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Derramam a urna dum perfume vário. sacrossantos. Eu. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. se duas eu tivera. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. Pau d'Arco -1902.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. P'ra desvendar os seus segredos santos. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. virginais aromas De essência estranha. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. que a virgem chora. toda a cálida Mística essência desse alampadário. Se evolarn castos. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. é como os prantos Níveos. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras.

Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Choras. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Teu canto. . E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Tanto que gemes. e ilusões acordas. vindo de profundas fráguas. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Ali. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . sonhar novas idades. a lua é triste e calma.Quero Correr em busca do Futuro. bandolim do Fado. soluças. Tanto que cantas. E vais aos poucos soluçando mágoas. pompeia a luz da branca aurora. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Um dia morto da Ilusão às bordas... Quando alta noute. chora um ocaso sepultado. Que desespero insano me apavora! Aqui.Quero partir em busca do Passado.

E beijei-te. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. Tocando n'ara negra o níveo seio.Foge. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. cindindo os céus risonhos. mas eis que neste enleio. O sol. O céu tremia em seu trevoso flanco.ARA MALDITA Como um'ave.. e como Lúcia. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. Quiseste-me beijar a ara do peito. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . Meiga. tu vinhas a cindir os ares. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. qual hóstia. E. agora. E eu quis beijar-te o lábio redolente. NA ETÉREA LIMPIDEZ. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. grave e lenta.. caindo dos altares. alegre e rubro. E eu vi os seios teus virem inconhos . à voz de Lúcia. também ria! 99 . Na etérea limpidez de um sonho branco. Fulgia a bruma para sempre. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Caíste morta ao celestial preceito.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares.

a Virgem Mãe dos céus escampos. em bando. E a rasgar. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. a rasgar o lúrido sacrário. o Mundo se concentre. Flores mortas da Aurora. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. E. Diluis teu peito em sensações profundas. E em mim como no Templo. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. Mas. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. em banho ideal de amor te inundas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! .TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. Sentes o peito em ânsias revoltadas.ei-lo que avisto. eis que emerges. e. ante o branco estendal das madrugadas.A colunata êxul do Sonho Morto . Longe das sombras aurorais e amadas. e. E a lua. Nua. Que. Agora. o túmulo da Crença. Que beija a terra e que abençoa os campos. urnas de Sonho. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . luminosa. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. ao ver-te nua.o círio Da Quimera Falaz.

...e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.. Quero-te assim . como o sol . . Plena de graça.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. 101 . formosa entre as formosas. semeando a Morte. formosa.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. enquanto Vai devastando o coração das casas. ela.Fúlgido foco de escaldantes brasas . E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.A PESTE Filha da raiva de Jeová . Colmado o seio de virentes flores. e a Peste ri-se. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e.. tudo! Quando Ela passa. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. tudo chora. Etéreo como as Wilis vaporosas. A alma diluída em eterais cismares.. entre esplendores.É o castigo de Deus que passa mudo! . Como o Cristo sagrado dos altares.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. Embaladas no albor da adolescência.O sol a segue. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .

Açucena de Deus. o meu Sonho morreu! Perdão. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Chegou a Noite. pelo mundo. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . penseroso e pasmo.Irei agora. Como o santo levita dos Martírios.. assim. a teus pés. meu anjo. pátria da Aurora exilada do Sonho! .. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. Eu venho arrependido.. .dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. eis-me a teus pés. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. perdoa o teu vencido.CÍTARA MÍSTICA Cantas. E para mim. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me.. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . para onde Me levar o Destino abatido e tristonho... É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. pois. insânia... ah! ninguém me responde. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.. insânia. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido.

. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Da Messalina fria no regaço.. . Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. Turificando a languidez dum seio! O amor.. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. porém. Em ânsia de repouso. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Banhou-me o peito. sem Calvário. e. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Mas. supremos.. que da Desgraça veio Maldito seja. Onde nunca gemeu o humano passo.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. no Inferno do Gozo. Por um Cocito ardente e luxurioso.

Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. lá dos braços hercúleos.. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. E vi-te triste... a sós. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. eu que te almejo.. também da Dor. desvalida e nua! E o olhar perdi. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância.. . no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. Como um'alma de mãe. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. eu vi. Sombra de gelo que me apaga a febre..Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. E estavas morta.E tu velas.. a noute é tumbal.. Ah! que um dia da Vida.SOMBRA IMORTAL . e a saudade da infância. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua... ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. .. mulher. estes dardos acúleos Caíam..

inata! E. e é noute de fatais abrolhos. O roble altivo entreteceu4e um ninho.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL...) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol .. E um canto vai morrer no vale fundo. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. o seio branco. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.. virginal. Uma pantera foi se ajoelhando.. e. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. chegando. profundo?! Rumores santos. Alvorejando em arrebol de prata. Choras. Que canto é este.. e no Santo harpejo. Que luz é esta que das brumas vasa. tu. ajoelhando à imagem do Carinho. Pérolas e ouro pela serrania. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto.. Alva d'aurora.. entanto.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa.. Branca bem como empalecido arminho. no negror me abrasa. te acolheu a mata. Somente tristes os teus olhos vejo. Chegaste. Bendita a Santa do Carinho.

. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. 106 .. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Já Vésper. no Alto. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos.. Triste como um soluço de Dalila. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos.. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Fria como um crepúsculo da Judéia. e lânguida. mórbidos encantos. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo.PELO MUNDO Ânsias que pungem.

que ao frio alvor da Mágoa Humana. coração.o voltairesco clown ..Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho.A hora dos tristes e dos descontentes. adormecida. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.Fogo sagrado nos festins da Morte . Riso.. querida! Já é Ave-Maria ..O RISO "Ri.Ele. Silfos morriam. sonolento e tardo. No ar. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .quem mede-o?! . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.. e a todo o seu assédio. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. QUERIDA! Vamos. os gaturamos Num recesso de névoa. clown da Sorte .Eterno fogo. Na Via-Látea fria do Nirvana.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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violentos.. Os ventos.. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . vão bater.. NOTURNO (CHOVE. Negro.. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. mas meus movimentos Susto. Os passos mal seguros Trêmulo movo. diante do vulto dos conventos. De encontro ás torres e de encontro aos muros. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram.. batendo em todas as retinas. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. E em meio ás refrações verdes e hialinas. A incandescência irial dos candelabros. Desencadeados. O dia Foge. Saio de casa.) Chove.. Vibra. Surge agora a Lua. LÁ FORA.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível.

outono.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. Diluiu o silêncio em litanias.. .E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. poetas. Já que perdi a última batalha! E. inverno! 113 .. os vermes vis. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões.. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. verão. Primavera... Que há muito tempo não cantava lá. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. E hoje. enquanto o Tédio a carne me trabalha.. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.

ao noturno açoute. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. Gemem poetas . Pare chorando nesta Terra Santa. Ela.pássaros da Noute! 114 . abraçado às campas dos poetas.. enxuta A face. Carpem na sombra pássaros ascetas. e quando passa. e o travo há de sentir. inda altiva. enxuto o olhar. E se cantar como a Saudade canta. onde.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. ela.. . enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. Aqui é o Campo-Santo.A DOR Chama-se a Dor. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora.

Luta. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. A CRENÇA E O AMOR O sonho. Vence. a crença e o amor. e morrem os vermes que o consomem. nada há que o abata e o vença! Por isso. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. na Suprema Altura Sinto. surjam tédios na Descrença. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. poeta. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça.O SONHO. eu penso na Ventura! E o pensamento. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. e por fim. o sonho. assomem Descrenças. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento.

. por fim. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. profundo. pois. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. e. nada achaste.. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. estudares. por fim. De que te serviu.. Foi-te mister sondar a substância das cousas . para penetrar o mistério das lousas.. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações..PARA QUEM TEM NA VIDA. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. Feito no decurso de dois minutos... Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. Tesouros reais. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 .Construíste de ilusões um mundo diferente. auríferos tesouros.

. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. dois gigantes mudos.. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . Embora oculta. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.O NEGRO Oh! Negro. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido.. . ela subiu. em ânsias.. São dois colossos.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. no entanto....

Trás de mim. como eu. e não vê por onde fuja. Quantos também.Era o suplício!. O Sol ardia.Quer fugir. Daí a pouco. Mas eu não contarei nunca a ninguém. foram buscar a Glória E que. Saiu. ver Se nesta ânsia suprema de beber. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Implora a Deus como a um fetiche vago.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! ...Se ao menos voasse! ..O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.. . Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava .Novo Sileno.. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta.E o horror começa! Rasga As vestes. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. na atra estrada que trilhei. ouve o canto aziago da coruja! . ela seria morta. quantos também deixei. como eu.. . Nisto... ira-o morrer também. Buscava Em verdes nuanças de miragens.

SENECTUDE PRECOCE Envelheci...Aqui ainda havia alguma cousa. Mas.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica.. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. ele a morrer. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste. de repente.. diz ao povo: "É pena! . Assim como uma casa abandonada. pressentindo a lousa.. E afora disto. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Por isso. vivia. a alma serena.Foi saudade? Foi dor? . Não há quem nele um só tremor denote! .Continua a cantar. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina..... E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. Sei que na infância nunca tive auroras. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. Olha essa neve pura! .." Pau d'Arco -1905 119 .

Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. em Tebas .Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. persuadido fica do que diz. Não mentes. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim.. Bem como tu. o vulto ia a meu lado E desde então. E. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . não andei mais sozinho! Abraçou-me..MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. . Dizes Tudo que sentes.. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado.. E eu me elevava.a tumbal cidade.... inda com o braço altivo. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. Da tribo alegre que povoa os ares. diz que ele é vivo. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. A múmia de um herói do tempo de Ísis. Para onde eu ia.. Diz que ele não morreu.

E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver.. assim como o de Jesus Cristo. com medo do Infinito. como um cão covarde. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me.. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. A lua continue sempre a nascer! 121 . Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. Por toda a parte. quando Eu. morrer. triste e sem cantar. antes de viver! Meu corpo. assim. ia. A percorrer desertos e desertos. onde. Existo! . Teve sede e fome.. E.E apesar disto. de saudades me despedaçando De novo. aos tropeços..O tamarindo reverdeça ainda.. pois. à tarde.. Saiu aos tombos. assombrado.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. Nada se altere em sua marcha infinda . a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. amigos. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo.

.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. Ah! Basta isto. água e albumina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.A LÁGRIMA . .O farmacêutico me obtemperou.

sem dispêndio algum de vírus. ampla. A podridão me serve de Evangelho. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras...OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Como um dorso de azêmola passiva.. Pólipo de recônditas reentrâncias.. vibra A alma dos movimentos rotatórios. E é de mim que decorrem. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. À luz do americano plenilúnio. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. Larva de caos telúrico. sem bramânicas tesouras. Não conheço o acidente da Senectus -.O metafisicismo de Abidarma -E trago. Do cosmopolitismo das moneras...Esta universitária sanguessuga Que produz. Amo o esterco. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. possuo uma arma -. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Amarguradamente se me antolha. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. Em minha ignota mônada. simultâneas. 123 .

A vida fenomênica das Formas. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. Que. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Ao clarão tropical da luz danada. Raio X. -. O horror dessa mecânica nefasta. amanhã. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Sonoridade potencial dos seres. bestas agrestes.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. a coçar chagas plebéias. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Com a cara hirta. a boca. Como quem se submete a uma charqueada. E apenas encontrou na idéia gasta. O espólio dos seus dedos peçonhentos. abdômen. 124 . O coração. iguais a fogos passageiros. causa ubíqua de gozo. já nos últimos momentos. luzem. em síntese. Aí vem sujo. magnetismo misterioso.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. quebrando estéreis normas. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Fonte de repulsões e de prazeres. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. o Homem. ondulação aérea. Quimiotaxia.

Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. igual à luz que o ar acomete.. bastarda. fazendo um s. Como que. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. Numa glutonaria hedionda. À guisa de um faquir. Toda a sensualidade da simbiose. Suas artérias hírcicas latejam..A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. E à noite. No horror de sua anômala nevrose. o monstro as vítimas aguarda. E explode. Brancas bacantes bêbadas o beijam. E após tantas vigílias. No sombrio bazer domeretrício. pelos cenóbios?!. E até os membros da família engulham.. Uivando. à noite. consumir-se. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. Negra paixão congênita... Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Num suicídio graduado. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. O cuspo afrodisíaco das fêmeas.. Como no babilônico sansara . brincam. vai gozar. em suas clélulas vilíssimas. Sentindo o odor das carnações abstêmias. em lúbricos arroubos. Do seu zooplasma ofídico resulta. Sôfrego. ébrio de vício. 125 ...

. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Na própria ânsia dionísica do gozo. Acorda. Somente a Arte. Sente que megatérios o estrangulam. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Abranda as rochas rígidas. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. A asa negra das moscas o horroriza. Numa coreografia de danados. Assim também.. com os candeeiros apagados. Mostrando. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Que tateando nas tênebras. bêbedo de sono. As alucinações tácteis pululam. E de su’alma na caverna escura.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. em rembrandtescas telas várias.. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. observa a ciência crua. se estende Dentro da noite má. Essa necessidade de horroroso. A família alarmada dos remorsos. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .Macbeths da patológica vigília. Mas muitas vezes. quando a noite avança. Hirto.. Reconhecendo. esculpindo a humana mágoa. Quando o prazer barbaramente a ataca. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -.

Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. À condição de uma planície alegre. em suas bases. a desintegre. -. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Julgava ouvir monótonas corujas. Continua o martírio das criaturas: -.. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo.. Era a canção da Natureza exausta. entanto.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. entre daveiras sujas. Na produção do sangue humano imenso. Há-de ferir-me as auditivas portas. Prostituído talvez. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. -.O ferido que a hostil gleba atra escarva. ouvindo estes vocábulos. E.O homicídio nas vielas mais escuras.E reduz. Da luz da lua aos pálidos venábulos. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. até que minha efêmera cabeça. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Executando. sem que.

Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Num quiosque em festa alegre turba grita. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. no apogeu da fúria. exposto ao luar. A Lua cheia Está sinistra.. Embaixo. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . A rua é triste. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. na mais próxima planície. um saltimbanco da Ásia.. conversando..UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Tonto do vinho.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Vaga no espaço um silfo solitário. Apenas como um velho stradivário. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Os mastins negros vão ladrando à lua. Resplandece a celeste superfície.. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.. Convulso e roto. das pirâmides o quedo E atro perfil. O céu claro e produndo Fulgura. O Cairo é de uma formosura arcaica. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo.. Dorme soturna a natureza sábia. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. discutindo.

O calçamento Sáxeo. E a minha sombra enorme enchia a ponte. E aprofundando o raciocínio obscuro. Mostrando as carnes. a irritar-me os globos oculares. atro e vidrento. Mas. 129 . de asfalto rijo. Apregoando e alardeando a cor nojenta. indo em direção à casa do Agra. Lembro-me bem. Pensava no Destino. Livres de microscópios e escalpelos. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Assombrado com a minha sombra magra. à luz de áureos reflexos. Profundamente lúbrica e revolta. O trabalho genésico dos sexos.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Fazendo à noite os homens do Futuro.. Dançavam. Atravessando uma estação deserta. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. então. Ponte Buarque de Macedo. A ponte era comprida. com a boca aberta. na alma da cidade. Eu vi. Eu.. Copiava a polidez de um crânio alvo. Uivava dentro do eu . parodiando saraus cínicos.

na ígnea crosta do Cruzeiro.Fetos magros. E. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. ainda na placenta. 130 . Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Deus me castigava! Por toda a parte. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Ah! Com certeza. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. como um réu confesso. No ardor desta letal tórrida zona. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. É bem possível que eu umdia cegue. Ninguém compreendia o meu soluço. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. pelo menos.

Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Arrebatada pelos aneurismas. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. ansiado e contrafeito. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Que. três. quotidianamente. em minha boca. cinco.E até ao fim. Eu bem sabia. Não! Não era o meu cuspo. Que eu. de tal arte. Ia engolindo. Benditas sejam todas essas glândulas. Sob a forma de mínimas camândulas. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. aos poucos. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. estranha. cujas caudais meus beiços regam. à guisa de ácido resíduo. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. 131 . Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. quatro. para não cuspir por toda a parte. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Na ascensão barométrica da calma. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota.

sem pudicícia. E o luar. a espiar-me. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Imitando o barulho dos engasgos. de certo. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. estava ali. o In e os trasgos. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. A camisa vermelha dos incestos. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. ali posto De propósito. Buscando uma taverna que os açoite. Siva e Arimã. Iluminava. Com a força visualística do lince. A companhia dos ladrões da noite. então. Ninguém. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Vai pela escuridão pensando crimes. Mas um lampião. Davam pancadas no adro das igrejas. da cor de um doente de icterícia. Rodopiavam. lembrava ante o meu rosto. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . para hipnotizar-me! Em tudo. maior talvez que Vinci. Perpetravam-se os atos mais funestos. À anatomia mínima da caspa. com as brancas tíbias tortas. Livres do acre fedor das carnes mortas.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. a rir. Nessa hora de monólogos sublimes. Um sugestionador olho. os duendes.

fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Como bolhas febris de água. e vence-O. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. E a palavra embrulhar-se na laringe. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. 133 . os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Cansados de viver na paz de Buda. Na atra dissoluçào que tudo inverte.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. em que. E o meu sonho crescia nosilâncio. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Todos os personagens da tragédia. distingo-a. A pedra dura.

No meu temperamento de covarde! Mas. aflita. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Aquela humanidade parasita. a sós. refletindo. Um conjunto de gosmas amarelas. igual a um amniota subterrâneo. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. berrava. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo.A planta que a canícula ígnea torra. 134 . na glória da concupiscência. sobre o meu caso Vi que. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. na dor forte do vômito. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Fabricavam destarte os bastodermas. E apesar de já não ser assim tão tarde. Iam depois dormir nos lupanares Onde. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Os bêbedos alvares que me olhavam. Como um bicho inferior.

como um cordão.Prostituição ou outro qualquer nome. tal qual.. Nessas perquisições que não têm pausa. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. Ao pensar nas pessoas que perdera. num fundo de caverna. 135 . A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. nas catedrais mais ricas. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. Rolam sem eficácia os amuletos. o eco particular do meu Destino. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. embora o homem te aceite. Reboou. pior que o remorso do assassino. Forma difusa da matéria embele. Numa impressionadora voz interna.e. em tudo imerso. numa ânsia rara. por tua causa. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. Minha filosofia te repele. a morte é ingrata. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. ponto final da última cena. Fazer da parte abstrada do Universo.. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também.

e a hialina lâmpada oca. 136 . e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. com a bronca enxada árdega. estriada. E se. fora Mister que. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. A formação molecular da mirra. antes Fosses. por vezes. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. o cordeiro simbólico da Páscoa. não como és.Jamais. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. se divide. magro homem. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. sondas A estéril terra. espirra. Mesmo ainda assim. em síntese. para que a Dor perscrutes. a refletir teus semelhantes. Trazes.

-. As pálpebras inchadas na vigília. O fogão apagado de uma casa. Que ainda degrada os povos hotentotes. abalando os solos. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. Na sangueira concreta dos massacres. Deixa os homens deitados. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. 137 . A cristalização da massa térrea.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. à espera que a mansa vítima o entre. Onde morreu o chefe da família. as nódoas mais espessas. Lembram paióis de pólvora explodindo. O achatamento ignóbil das cabeças. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O Amor e a Fome. As projeções flamívomas que ofuscam. O tecido da roupa que se gasta. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. a fera ultriz que o fojo Entra. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. O antagonismo de Tífon e Osíris. sem mortalha. Os terremotos que. A mentira meteórica do arco-íris. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. As aves moças que perderam a asa. Como uma pincelada rembrandtesca.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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a amêndoa. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. satisfeito. 143 . Meu ser estacionava. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. o urro Reboava. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. sobre as hortas. Benigna água. A Paraíba indígena se lava! A manga. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. em quaisquer horas. Além jazia os pés da serra. a ameixa. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. a abóbora. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. No Alto. Apenas eu compreendo. Criando as superstições de minha terra. como as ervas. olhando os campos Circunjacentes. de errante rio. branda e beatífica. Em cuja álgida unção.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. alto e hórrido. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. magnânima e magnífica.

Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Restos repugnantíssimos de bílis. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. aos bocados. OH! desespero das pessoas tísicas. dores não recebem. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Reboando pelos séculos vindouros. Vômitos impregnados de ptialina. Alucinado. Cortanto as raízes do último vocábulo. O ruído de uma tosse hereditária.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. adstritos ao quimiotropismo Erótico. a existência Numa bacia autômata de barro. Adivinhando o frio que há nas lousas. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Estas não cospem sangue. entre estrépitos e estouros. como inúmeros soldados. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. 144 . Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Um português cansado e incompreensível. os micróbios assanhados Passearem.

resfriando-vos o rosto. É a alfândega. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. A mágoa gaguejada de um cretino. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Onde a Resignação os braços cruza. com o vexame de uma fusa. a água. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. hoje.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. no Amazonas. magras mulheres. Pelas algentes Ruas. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. com efeito. em sonhos mórbidos. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. 145 . Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. naquele instante. Nos ardores danados da febre hética. me acorda. Consoante a minha concepção vesânica. Saía. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite.

A civilização entrou na taba Em que ele estava. diante a xantocróide raça loura. Viu toda a podridão de sua raça. sem difíceis nuanças dúbias. Com uma clarividência aterradora. por fim. Jazem. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. todas as inúbias. De repente. Ah! Tudo. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone.. como um lúgubre ciclone. adstrito à étnica escória. tendo o horror no rosto impresso.. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Recebeu. Desterrado na sua própria terra. E agora. caladas. A carcaça esquecida de um selvagem... Na tumba de Iracema!. espantada. 146 . Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas.Fedia. entregue a vísceras glutonas. acordando na desgraça. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo .

Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. roído pelos medos. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. E eu. No horror daquela noite monstruosa. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. rolando sobre o lixo.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Maldiziam. com voz estentorosa. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. A peçonha inicial de onde nascemos. ex. 147 . Todos os vocativos dos blasfemos. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua.: o homem e o ofídio.

Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. Consubstanciar-me todo com a imundície. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Sem diferenciação de espécie alguma. perante a cova. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . como Cristo. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era.E. como um homem doido que se enforca. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. em suma. na terráquea superfície. às vezes. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. 148 . Eu voltarei. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. por epigênese. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Tentava. o anelo instável De. Anelava ficar um dia. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. porém. cansado. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Reduzido à plastídula homogênea.

Estendestes ao mundo.. a saraiva Caindo. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. Mas. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome.. análoga era. e. doentes de hematúria. 149 . no horizonte. derreada de cansaço.. agora. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Quase que escangalhada pelo vício. à-toa. quando o éreis. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. virgem fostes. e as mãos.. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido.. alva. Nem tínheis. vítima última da insânia. As prostitutas.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. embalde. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. ignóbil. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá.. De certo. com violência. Se extenuavam nas camas. para além. Acordavam os bairros da luxúria. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. até que. entre oscilantes chamas. Uma.

Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. na craniana caixa tosca. A racionalidade dessa mosca. no chão frio da igreja. que a sociedade vos enxota. Como uma associação de monopólio. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados.De vós o mundo é farto.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. argots e aljâmias. eu. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. inquieto. Eu pensava nas coisas que perecem. A consciência terrível desse inseto! Regougando. E hoje. porém. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. Sentia. E estais velha! -. Como quem nada encontra que o perturbe. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. 150 . Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos.

lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. assim inchado. Sem ter. Absorvia com gáudio absinto. À falta idiossincrásica de escrúpulo. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. de repente.A estática fatal das paixões cegas. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. com o ar de quem empesta. Apareceu. Vem para aqui. estriges voam. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. escorraçando a festa. E a ébria turba que escaras sujas masca. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. nos braços de um canalha 151 . Já podre. sobre a palha espessa. palpável. após baixar ao caos budista. Quanta gente.Aquilo era uma negra eucaristia. como Ugolino. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Pela degradação dos que o povoam. nesta hora. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. Rugindo fundamente nos neurônios. E o cemitério. em que eu entrei adrede. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. O ar ambiente cheirava a ácido acético. O fácies do morfético assombrava! -. roubada à humana coorte Morre de fome. Mas.

à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. À sodomia indigna dos moscardos. Na impaciência do estômago vazio. Comendo carne humana. ao clarão de alguns archotes. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . a camisa suada. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. iguais a irmãs de caridade.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Pisando. Num prato de hospital. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. a alma aos arrancos. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Vendo passar com as túnicas obscuras. entre fardos. cheio de vermes. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. como quem salta. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto.

Uma sobrevivência de Sidarta. E eis-me a absorver a luz de fora.Como indenização dos meus serviços. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Absorve. Como o íncola do pólo ártico. De quem possui um sol dentro de casa. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. após a noite de seis meses. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Manhã. déspota e sem normas. Os raios caloríficos da aurora. Dentro da filogênese moderna. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. No frio matador das madrugadas. trazendo-me ao sol claro. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. O benefício de uma cova fresca. às vezes. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Proporcionando-me o prazer inédito. em vez de hiena ou lagarta.

Acompanhava.. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. oh! Morte. com os pés atolados no Nirvana. O Espaço abstrato que não morre Cansara. numa furna. A gestação daquele grande feto. Eu sentia nascer-me n’alma. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. O ar que. em vão teu ódio exerces! Mas. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 .. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz... Hirto de espanto. com um prazer secreto. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. a meu ver. Vinha da original treva noturna. corre. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. em colônias fluídas. tudo a extenuar-se Estava. entanto. Igual a um parto. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral.

E agora.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago... Apenas com uma diferença triste. Como! E pois que a Razão me não reprime. não existes mais! 155 . Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. É a hora De comer. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Antegozando a ensangüentada presa. Rodeado pelas moscas repugnantes. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. como eu. têm carne. Com a diferença que Lisboa existe E tu. amigo. Coisa hedionda! Corro. bela como um brinco. Ai! Como Os que. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!.. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa..

quanto a mim.. entre dores. E o antigo leão. Relembrarás chorando o que eu te disse. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. haurindo amplo deleite. comparo. nas vitrinas. No lábio róseo a grande teta farta -. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. que te esgotou as pomas. um novo Ser. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. sujo de sangue. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Há de crescer. Clara. a atmosfera se encherá de aromas. Assim. À sombra dos sicômoros eternos! 156 .Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. oh! Mãe. Do que essa pequenina sanguessuga. sem pretensões..MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. O Sol virá das épocas sadias. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. à amostra.

maior do que Laplace. eu vivo pelos matos. Os pães -. roendo a substância córnea de unha.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Beber a acre e estagnada água do charco. nos fortes fulcros.. mordendo glabros talos. Tais quais. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Por causa disto.. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Magro. não prendi minha existência?! Por que Jeová. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. numa ininterrupta Adesão. também gira e redemoinham. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. as tesouras Brônzeas.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. haurindo o tépido ar sereno. com que guarda meus sapatos.

Mas a carne é que é humana! A alma é divina. cheio de chamusco. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Dorme num leito de feridas. Beija a peçonha. no agudo grau da última crise. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Com a flexibilidade de um molusco. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. goza O lodo. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. Úmido. apalpa a úlcera cancerosa. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. E eu vou andando. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto.

largando pêlos.. Nos terrenos baixos. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Em grandes semicírculos aduncos. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. pelo ar... bolem Nas árvores. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . O ar cheira.Augusto .. no árdego trabalho. Com a rapidez duma semicolcheia. De árvore em árvore e de galho em galho. Eu.. em vez do nome -. Os ventos vagabundos batem. depois de morrer. Entrançados. salta. fustigue. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. depois de tanta Tristeza. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto.. A terra cheira. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. morda!. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. quero. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. No chão coleia a lagartixa. corte. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. queime. Ladra furiosa a tribo dos podengos.

Trôpega e antiga. Une todas as coisas do Universo! 160 . Como um anel enorme de aliança. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Viveu. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Como pela avenida das Mappales. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. batendo a cauda. Os musgos. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Pintam caretas verdes nas taperas. Aqui. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. O aziago ar morto a morte Fede. Amontoadas em grossos feixes rijos. dos esconderijos. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Nédios. À dura luz do sol resplandecente. outrora. Urram os bois. Quantas flores! Agora. O lodo obscuro trepa-se nas portas. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. sem conchego nobre. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. em vez de flores. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. como exóticos pintores. As lagartixas. Por saibros e por cem côncavos vales.

. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. Só.. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. da mesma forma que o homem morre. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. Grito. é o óbolo obscuro. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. à luz da consciência infame.. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. Que por vezes me absorve. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. arrebentando a horrenda calma. Julgo ver este Espírito sublime.. Súbito. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. aqui.. sem pai que me ame.. De pé. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. como quem raspa a sarna. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha.E assim pensando. com a misericórdia de um tijolo!. À carbonização dos próprios ossos! 161 . A lamparina quando falta o azeite Morre.

Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. à lua. Ouvem-se os brados Da danação carnal. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Reduzidos. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. a âmbulas moles. espremendo os peitos. hirta. 162 . à luz do olhar protervo. através os meus sentidos. em contorções sombrias. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Espicaça-a a ignomínia. urna de ovos mortos. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Lúbrica. Com as mãos chagadas. a arquivar credos desfeitos. como o estepe. Sente. ébria e lasciva. por fim. E a mulher. hórridos uivos Na mesma esteira pública. recebe. Entre farraparias e esplendores. em coréas doudas. de cabelos ruivos.. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. funcionária dos instintos. alta noite. O Vício estruge. Bramando.. aliando. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que.

Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início.... E a dor profunda da incapacidade Que. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. Fulgia. filha do inferno.. de bruços. em cada humana nebulosa. já morta essencialmente. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos... Ei-la. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. Na óptica abreviatura de um reflexo. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente..Chão de onde unia só planta não rebenta. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza.. E a Carne que. É o hino Da matéria incapaz. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se.

Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. rubros. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. impune. Mas que.. Na homofagia hedionda que o consome. momentaneamente luz fecunda. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. talvez... Irradiava-se-lhe.. Libertos da ancestral modorra calma. Saem da infância embrionária e erguem-se. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. hírcica. sonhos de culminância.. Numa cenografia de diorama.. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. adstrito a inferior plasma inconsútil..... Pudera progredir. Como o . Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . e a estraga Na delinqüência . ânsia De perfeição. Que. radiando.. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. Ficou rolando.. como aborto inútil. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. adultos.O atavismo das raças sibaritas. decerto..

......................................................... ............... .......................... 165 . .... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E.................................... ao trágico ditame...................................................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto...................................... ................................................ .............. condenada....... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos............................................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto........ Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia...... ............................. ...................................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ........... oca.................... ............................................... ...................................................................... .............................................................................. ............................................................................

em ânsias. é éter. É Espírito. E hoje que. A toda a boca que o não prova engana.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. este o amor não é que. é substância fluida. o ponto outro de vista Consoante o qual. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. poeta. conheço o seu conteúdo. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. consoante o qual. enfim. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . tal como eu o estou amando. Imponderabilíssima e impalpável. Diverso é. do egoísta Modo de ver.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. o egoísta amor este é que acinte Amas. Oposto ideal ao meu ideal conservas. provo-a. pois. Porque o amor. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo.. Como Mársias -. eu que idolatro o estudo. oposto a mim.. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. Integralmente desfibrado e mole. Quis saber que era o amor. entretanto. chupo-a. é como a cana azeda. por experiência. Descasco-a. atenta a orelha cauta. observo o amor. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. o observas. enfim. amo Mas certo. É assim como o ar que a gente pega e cuida. ilusão treda! O amor. Cuida. Pudera eu ter. Para que.

trágico e maldito. em ânsias. depois disso.A maldade do mundo é muito grande. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. os monstros zombeteiros. 167 . E só. Entendi. trabalhar contente. . horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.. com o seu grande grito. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. Que importa que... Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. Como Vulcano.. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Trabalharei assim dias inteiros. que devia. no quadrilátero da alcova.. contra ele. abre. olhando o céu que além se expande: ".O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. opresso. Sem ter uma alma só que me idolatre. a tumbal janela E diz..

sacudindo-o todo. Sobre a cidade geme a chuva. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Batem-lhe os nervos.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. por ver-vos. A essa hora.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. num canto de carro. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia.Dizia. Recebiam os cuspos do desprezo. Com os ligamentos glóticos precisos. Cortanto o melanismo da epiderme. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. E não haver quem. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. O reino mineral americano Dormia. recebendo injúrias. E a cimalha minúscula das ervas. sob os pés do orgulho humano. lhe entregue. oh! céu. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. nas telúrias reservas.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. e absorve em cada viagem Minh’alma -. 169 . alto. e erguia. Rua Direita.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. íntegra. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. banhava minhas tíbias. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Que forma a coerência do ser vivo. Como um cara.

Pela alta frieza intrínseca. em diástoles de guerra. o ancilóstomo. com a símplice sarcode. O vibrião. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Pareciam talvez meu epitáfio. úmida e fresca. me pediam. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Onde minhas moléculas sofriam. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. O motor teleológico da Vida Parara! Agora.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Com a abundância de um geyser deletério. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. Mais tristes que as elegais de Propércio. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. com o ar horrível. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos.

Parou em frente da mesquita morta. Era uma viúva. o passo constrangendo. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Mochos vagavam como sentinelas. ampla e brilhante.. Eternamente aberta ao sol e à chuva. a viúva. A Lua encheu o espaço sem limites E. Uma vez. funeral mesquita. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. .. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. e o olhar errante. nos altares esboroados. Feras rompiam tolos e balseiros. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. dentro. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo.Um vento frio começou gemendo. Em passo lento. E pelas catacumbas desprezadas. Súbito alguém. foi transpondo a porta. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias.

A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . arremetendo. E raivosas. contra ela. Como uma exposição de carnes vivas. Morria a noite. infernais ardendo Todas as feras. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. E sobre o corpo da viúva exangue. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. entretanto. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. Fora. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Além. entanto. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.

Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. pela vez primeira. Da qual... ostentando amplo floral risonho.. quem diante duma cordilheira. Pára. Verde. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. afetando a forma de um losango. Rica. exata. no meio. brilha A árvore da perpétua maravilha. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia.... Assim. entre assombros. Atravessando os ares bruscamente.. em luz perpétua. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. tenho alucinações de toda a sorte. ao sol... A saudade interior que há no meu peito. trêmulo. Na ilha encantada de Cipango tombo. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. num enleio doce. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. em plena podridão. Qual num sonho arrebatado fosse. 173 . passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos.

Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe... A tarde morre. Gozei numa hora séculos de afagos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Banhei-me na água de risonhos lagos. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos...... E finalmente me cobri de flores.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Passa o seu enterro!. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.

Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . O Céu. Espelham-se os esplendores Do céu. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. outro cai. nas Águas. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados.BARCAROLA Cantam nautas. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. em lúcido véu.. Vagueia um poeta num barco. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. outro se ergue e sonha. esse vai Para o túmulo que o cobre.globo de louça Surgiu.. Se um cai. Vai uma onda. as esconda. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. em reflexos. A Lua . de cima. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. Quem as esconda. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam.

nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. porém. "Viajeiro da Extrema-Unção... Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . forte. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia... "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz.. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.. "Mas nunca mais. poeta da Morte!" . Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.

Oh! Liberdade. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Da República a nova sublimada. Caia do santuário lá da História. Não! que esse ideal puro. Como um Tritão. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. Fulgente do valor da vossa glória. Manchar não pode as aras da República. levando ao mundo inteiro. pois. risonho.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. E ali do despotismo entre os escombros. oh Pátria. Da liberdade ao toque alvissareiro. Essa luz etereal bendita e calma. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . A Liberdade assoma majestosa. fazei que destes brilhos. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. . e.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. esplendorosa. Vós. oh! Redentora d'alma. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. A República rola-lhe nos ombros. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro.

E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Estremecendo em suas próprias bases.. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. Passa um rebanho de carneiros dóceis. O amor reduz-nos a uniformes placas. 178 . Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia.. vendo o horror dos meus destroços.Mas hoje. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. cantam óperas inteiras. desvairado. Uma montanha que se desmorona. Além. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. E. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. nas oliveiras. ao matinal assomo.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Aves de várias cores e de várias Espécies. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. à luz das minhas frases. Na área em que estou.

eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. heroicamente.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. à frente dele. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. sinto um violento Rancor da Vida . E quando a Dor me dói. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 .. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. à nitidez real dos aspectos. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. ébria de fumo e de ópio. demonstrando-a. Tal qual ela é.. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. Da observação nos elevados montes Prefiro.Observo então a condição tristonha Da Humanidade.

Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Que o amor abriu no meu peito. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Muito longe. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. a esmo. olha estas feridas. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Passo longos dias. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Muito longe. em sonhos. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. De lá. dos grandes espaços. Vem cá. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. se duvidas. em sonhos erra.CANTO ÍNTIMO Meu amor. erra.

. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa.. o louco.. Amor.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. . Caminha e vai. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. uma nuvem que corre. numa delícia infinda. agonia... agonia.. oração. triste. Numa prece de amor. quanto mais me desespero. num volutuoso assomo. amor e frio. Delícia que ainda gozo. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. experimento O mais profundo e abalador atrito. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. neve. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia.Diz e morre-lhe a voz. agonia! . prece que ainda Entre saudades rezo.. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. vendo-a. a sós. ontem.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. Frio que me assassina.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. e o sofrimento De minha mocidade. Sem um domingo ao menos de repouso. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. Fazer parar a máquina do instinto. murmura: . Agonia de amar. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. abraça a sombra e.. escuridão e eterna claridade. Neve da minha dor. agonia bendita! . Neve que me embala como um berço divino.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. Mas. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 .

E o Velho veio para o labor cotidiano. funéreo 182 . alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada.. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. a superfície bruta. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. Por seis horas seu braço empenhado na luta. oito vezes. e o trabalho . lúgubre e só.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . Mas o braço cansou! Trabalhou. foi aos poucos se arrastando. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. mordendo a atra terra infecunda.. Fez reboar pelo solo. Triste. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim.. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. Rasgando. do agro solo. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. acende O pó.. E em tudo que o rodeava. A terra escalda: é um forno.

Caminhava. Nem viu que era chegado o termo da viagem. sozinho. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor... a flux d'água. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. Num instante viu tudo.. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. o acalenta. ele pisasse os trilhos. o cansaço Empolgara-o... e a sonhar. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. ninguém o acalenta. flutua! Ninguém o vê.o último esforço. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. louco. onde arde e floresce a Crença.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. tombando. o peito arqueou-se. era a turba trovadora Que assim cantava. a toa. E amplo. e o braço Pendeu exangue. bêbado de miragem. a família! Não morreria. avistando uma frondosa tília Julgou. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. o precipício estava. avistar a Árvore da Esperança. e compreendendo tudo... pois! Somente morreria Se da Vida. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. os filhos. Quis fazer um esforço . a rugir-lhe aos pés.. o Velho caminhava.

.. Atros. luminosas. e. Além. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. Descem os nimbos. a Sombra . E a Noite emerge.Asas de corvo pelo coração. E há no meu peito . aos astrais desígnios. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro.. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. Na majestade dum condor bendito. mudo. ígneo.condensada treva A sombra desce. pompeiam (triste maldição!) . santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. mudo.ocaso nunca visto. rubro..Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. sangrento O sol. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . Subindo á majestade do Infinito.. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. alvas. Negras.eis tudo! E no meu peito . . Raios flamejam e fuzilam ígneos. mudo. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. dourando as névoas dos espaços. fulvos. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. volaterizadas..

se erguer. Ah! Como tu. a lesma. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. Como Herculanum foi após as chamas. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. a Aurora.. lodo.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. como se esses raios N'alma caindo. há-de Alva. e hás de ser após as chamas. O leão. o mastodonte. III De novo. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. A Mágoa ferve e estua. E corno a Aurora .o Sol . em vão na luz do sol te inflamas. de que serve. em lodo tudo acaba. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. curvo ao seu destino. como tombou outrora. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Hoje de novo. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Fantástico. se tornassem ferros?! IV Poeta. se. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. Sírius me deslumbra. assassino Ébrio de fogo. Vésper me encanta. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. Ninguém se exime dessa lei imensa Que.hóstia da Aurora. se. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. em plena e fulva reverberação. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. entre esplendores. 185 . ontem moribundo. ciclópico. A alma se abate.. o tigre.

canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. e. Iluminando as serranias... E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Então. a Lua que no céu se espalha.. banha As serranias duma luz estranha. de ilusões te nutres.Arrasta as almas pela Escuridão.. Ergue. sobe ao pedestal. Vésper me encanta. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. foi valas funerais deixando. frias. como abutres Medonhos. Como recordação da festa diurna. Sírius me deslumbra.Fera rendida à música divina. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Pelos rochedos.. Medonhas valas.. de ossos. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. pelas penedias. pelas escarpas... um pedestal de tanta Treva e dor tanta. onde. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. E arrasta os coraç5es pela Descrença. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . E foi deixando essas funéreas. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. pois poeta. Canto. e minh'alma cobre-se de flores . Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar.

E invejo o sofrimento desta Santa... Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. triunfalmente. eu também vou passando Sonâmbulo... Mas.. 187 . Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! .. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo.. sonâmbulo. sonâmbulo. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. em mágoa. Depois de embebedado deste vinho.INSÔNIA Noite.. nos céus altos.

Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 .. os corimbos... em mágoa imerso. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. hedionda. As árvores. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. O Sol. Aqui. porém. batendo na alma.Vagueio pela Noite decaída. neste silêncio e neste mato. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Em que o Tédio. Recordam santos nos seus próprios nichos. Atro dragão da escura noite. Estou alegre. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. Com o olhar a verde periferia abarco. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Agora.. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. o funerário. as flores. Cercado destas árvores. equilibrando-se na esfera. por exemplo. estronda Como um grande trovão extraordinário.

o arquitetural e íntegro aspecto 189 . barro. a esvaziar báquicos odres: . harto. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. através ovóide e hialino Vidro. Presto. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. certo. os beiços na ânfora ínfima. De onde."Cinza. "Miniatura alegórica do chão. amorfo e lúrido. "Onde os ventres maternos ficam podres. e na ínfima ânfora. Dois são. Risco-o Depois. porque um. irrupto. Todos os organismos são oriundos. por outra. Olho-o ainda. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. Mergulho. "Onde nenhuma lâmpada se acende. síntese má da podridão. aparece. E o que depois fica e depois Resta é um ou.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. "Na tua clandestina e erma alma vasta. ébrio. Olho-o. por epigênese geral. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial.Mucosa nojentíssima de pus. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. é mais de um.

Na síntese acrobática de um salto. como nunca outro homem viu. Em que todos os seres se resolvem! 190 . é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. Depois. mônada vil.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. ora. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. muito alto. o que nele Morre. dentre as tênebras. Vida.Do mundo o mesmo inda e. Migalha de albumina semifluida. sozinho. na terra instável. sois vós. cósmico zero. Move todos os meus nervos vibráteis. que. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Se escapa. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Sob a morfologia de um moinho. é o céu abscôndito do Nada. Então. em segredo. do meu espírito... sou eu. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes.

Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. De onde quimicamente tu derivas. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.. Adeus! Que eu veio enfim. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.. E eis-me outro fósforo a riscar. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .

. chora e se lamenta e vibra..Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios... E. E em tudo estruge a tua dúlia . 192 . Retroa o sino. tangendo tiorbas em volatas. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .. vezes.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . lembras. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Ora. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. medras Nalma de cada virgem. Sinos além bimbalham. Amor. davas brandindo em seva e insana Fúria. Cantas a Vida que sangrando matas. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. Troa o conúbio dos amores velhos . e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. .

beija os áureos pés dos ídolos. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. Irene. Assim. quando Entre estrias de estrelas. ontem. impassível! Esta de amor ode queixosa. fosforeando. 193 . pois. aos astros. Irene. Eis o motivo porque fiz esta ode. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. esse poder terrível. Quedo. Irene. Cativo.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Entre timbales e anafis estrídulos. .E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. sonhei-a. e eis o motivo.Essa dominação aterradora .

Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Quase com febre. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Dentro. Trinta e seis graus à sombra. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. berrar. Da qual. E eu nervoso. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. irritado. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. erguido do pó. tinir. ao meio-dia. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. bruta. Inopinadamente 194 . provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria.

Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. . Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão.O ígneo jato vulcânico Que. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . afinal. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. A ouvir todo esse cosmos potencial.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte.

QUADRAS Embala-me em teus braços. De lírios e boninas Um veludíneo leito. divina. Embala-me em teus braços! 196 .. perdeste a ciência. Eu quero o meu Calvário . Morreu-te a redolência. Aperta-me em teu peito. oh! morena .. E dá-me assim. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Assim como Jesus. Aperta-me em teu peito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei.

No bruto horror que me arrebata. Aumentam-se-me então os grandes medos. embora a lua o aclare. Dói-me a cabeça. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .. 3 de maio. através do vidro azul. em ânsias: . e.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar.. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . três. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra..ª-feira.. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. quando a noite cresce.Uma. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. 6.Uma. A conta recomeço.. quatro. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Vista. Tenho 300 quilos no epigastro. duas.. em suma. E aos tombos.. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo.. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha.

. Por muito tempo rolo no tapete... A lua é morta. Mas aquilo mortalhas me recorda.. Acho-me. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. numa festa. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Súbito me ergo. Tomba uma torre sobre a minha testa.. por exemplo.. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Tal urna planta aquática submersa. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Cinco lençóis balançam numa corda. Ponho o chapéu num gancho.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse.. Meu tormento é infindo. .Sucede a uma tontura outra tontura. O suor me ensopa. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. ... Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. A luz fulge abundante 198 . Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . E o amontoamento dos lençóis desmancho. Elevam-se fumaças Do engenho enorme.

oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . feliz. Babujada por baixos beiços brutos. a terra resfolega Estrumada. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. o céu. De mim diverso. radiante e estriado. Broncos e feios. Côncavo. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. observa A universal criação. longe do pão com que me nutres Nesta hora.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. no ato da entrega Do mato verde. Entretanto. No húmus feraz. Vários reptis cortam os campos. cheia de adubos. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. passei o dia inquieto. numa última cobiça. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. hierática. em diâmetro. A ouvir. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos.

vão cheirar. ás dos cristais. 200 .MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. em sangue. pituitárias Olfativas. Outras. Mãos que adquiriram olhos.. Pertencentes talvez. Monstruosíssimas mãos. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Umas... Assinalados pelo mancinismo. negras. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. E à noite. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. às da neve. tentáculos sutis.. a delinqüentes natos. a farpas de rochedo Completamente iguais. Mãos adúlteras.

de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. E como um nume de pesar.. Pareces reviver a antiga Ofélia.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. oh Quimera.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. plangente. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . pálida camélia. . Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura.. Opalescência trágica da lua! Tu.a Carne. Guarda a saudade que levou do Mame. Mas neste sonho. Sonho abraçar-te. langue e seminua. Rola a violeta santa dos teus olhos . Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria .Tufos de goivo em conchas de esmeralda. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços.

Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. análogo ao peã de márcios brados. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza.. Eu procurava. com soluços quase humanos.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Choravam. Aprazia-me assim.. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. uivando hoffmânnicos dizeres. como num chão profundo. Aves com frio. O feto original. era só O ocaso sistemático de pó. na escuridão. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. E. Cruzes na estrada. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. No desespero de não serem grandes! 202 . num ruidoso borborinho Bruto. Convulsionando Céus. com uma vela acesa. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho.

Vinha-me á boca. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. na ânsia dos párias. uma voz 203 . Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. vingadora. Como o protesto de uma raça invicta. me tornara A assembléia belígera malsã. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. de onde se vê o Homem de rastros. Fluía. frias como lousas. A abstinência e a luxúria. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. Noite alta. assim. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. com a sidérica lanterna. perdido no Cosmos. Mas das árvores. Brilhava. Maior que o olhar que perseguiu Caim. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. horrenda e monótona. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. ao colher simples gardênia.

tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Se hoje. Para esconder-se nessa esfinge grande. porque. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Crânio. do Equador aos pólos. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. arvoredos desterrados. Rimos. ovário. montanha. isto é. enquanto Deus. Nós. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Porque em todas as coisas. choramos. Para erguer. oh! filho dos terráqueos limos. afinal.. iceberg. a espiar enigmas. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. amanhã píncaros galgas. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. diante do Homem. que. entres Na química genésica dos ventres. com a febre mais bravia. Rasgando avidamente o húmus malsão. Não trabalham. na ânsia cósmica. obscuro. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. árvore.. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. tão profunda. Na prisão milenária dos subsolos. Tragicamente.Tão grande. em suma. pois.

Eu fora. desgraçadamente magro. Eu. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. A voz cavernosíssima de Deus. naquela noite de ânsia e inferno. a escalar Céus e apogeus. alheio ao mundanário ruído. em destroços. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . astro decrépito. a erguer-me. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana.

no combate.. As minhas roupas. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. armado de arcabuz. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. quero até rompê-las! Quero. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Viver na luz dos astros imortais. 206 . O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Minh'alma sai agoniada. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. é o prélio enorme.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. arrancado das prisões carnais. rolando dos últimos degraus. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. em coalhos. pela boca. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. Na ânsia incoercível de roubar a luz.. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Para pintá-lo. entre estes monstros.

o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. em suma. A bênção matutina que recebo. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. a água que bebo. faz mal. é inútil. enfim. E tombe para sempre nessas lutas. E é tudo: o pão que como. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. Seja este.esta arca.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão... Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . é improfícuo. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força.. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã..

E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino.. numa cova. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me.. na vertigem: -.. ouvindo um grande estrondo. rio Sinistramente. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. A Morte. e a mim pergunto. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. Intimamente sei que não me iludo. sozinho.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. -. Como que. Mas de repente. Sai para assassinar o mundo inteiro.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Então meu desvario se renova. Corro. a 1 de Janeiro. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 .. à meia-noite.Faminta e atra mulher que. estudo. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. abrindo todos os jazigos. em trajes pretos e amarelos. come.

No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Tu não és minha mãe. Eu desafio. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. Perante a qual meus olhos se extasiam. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Deste-me fogo quanto eu tinha sede.. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. que em mim dorme... e após gritar a última injúria. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . Como as estalactites da caverna.. Quis ver o que era. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Amarrado no horror de tua rede.. Por tua causa apodreci nas cruzes.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. canalha. desta cova escura. e quando vi o que era. Com as longas fardas rubras. em grupos prosternados. Vi que era pó. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. como a gula de uma fera. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano.. acorda em berros Acorda. e de declínio Em declínio. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. É Sexta-feira Santa. Deixa-te estar. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza.

. O vento entoa cânticos de morte. Como as chagas da morféia O medo. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. A desagregação da minha Idéia Aumenta. no ar de minha terra.. Na molécula e no átomo. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Na Eternidade. As luzes funerais arquejam fracas. A árvore dorme Eu. Dentro da igreja de São Pedro. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. quieta. Desperto. Roma estremece! Além. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. vendo-o. somente eu. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . e a gente. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. O céu dorme.Um esqueleto...

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