EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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...... 205 Queixas Noturnas ......................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra . 157 A Meretriz ............ 129 A Caridade ................ 179 Estrofes Sentidas ................................................................. 200 Mãos ................................ 212 5 .............................. 168 Noite de um Visionário .................... 176 Ave Libertas ................................................................................................... 141 Os Doentes ....................................................... 204 Viagem de um Vencido .......................... 180 Canto Íntimo ......................................................... 170 A Vitória do Espírito ...... 195 Numa Forja .............................................. 156 Gemidos de Arte ................... 175 Barcarola ............................................................................................................... 162 Versos de Amor ............................................................... 184 Idealizações .................................................... 186 Insônia ....................................................................128 As Cismas do Destino ................................................................................................ 203 Vênus Morta ...... 142 À Mesa .............................. 199 Tristezas de um Quarto Minguante ............... 173 A Ilha de Cipango ...... 182 Canto de Agonia .............................................. 183 História de Um Vencido .................................................................................................................................123 Uma noite no Cairo ............................................ 155 Duas Estrofes ................................... 166 A Luva .. 197 Quadras ...................................................................................................... 209 Poema Negro ............ 192 Ode ao Amor .......................................................... 183 Gozo Insatisfeito ...................... 190 Mistérios de um Fósforo ........................................................................................................................................................................................... 155 Mater ........................

1962) 6 . o eu fora do Eu. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Nalgum ponto. pois. Deste modo. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. Teria sido um neurótico para uns. ao menos. senão em mais de um. não conhecemos sequer a nossa. É preciso. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. paremos reverentes à porta do templo. na verdade. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. Nessa tentativa de interpretação psicológica. um psicastênico para outros. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. desejosos de. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. em suas mensagens de angústia.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. segundo as síndromes patológicas revelados. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. poder conhecer a árvore pelo fruto. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. e era aí. no que há de mais sutil e imponderável. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. isto é. Por conseguinte. ed. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. na chaga viva de sua consciência. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. nos moldes da velha orientação impressionista. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Gráfica Ouvidor. nesse estado de superexcitação. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. que o não convencia de todo. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. RJ. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. Não me parece. contudo. numa atitude de respeito e reflexão. quando. entrava em crise espiritual. Sua personalidade singular ali se projeta. compreendendo inclusive a estilística. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. que é de todas a menos operante. Fazer o elogio do poeta. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes.

sobre o seu caso clínico. reduzir tudo a categorismo. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. que já era constitucionalmente quase louca. nem os que vieram depois. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. Nietzche. estudante de medicina. fobias. causada pela perda imprevista de um irmão querido. A mãe do poeta. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. no final. além mesmo da gravidez. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. Obviamente. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. aos que se rebaixam para subir. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. não há negar também a dos psicológicos. de fundo genético. perturbou-a por muito tempo. a de Nietzche. Explica-se deste modo. sobretudo quando provém da linha materna. o refinamento de suas faculdades morais. menos a de Byron. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. todo o seu temperamento emocional. Byron. Pai e irmãos passavam por normais. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe.for. na classificação dos antropologistas do século passado. enfim. não é possível interpretar a obra de um escritor. repetindo conceitos. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. sestros. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. Juízo é coisa que todos julgam ter. Isto posto. com preocupações de grandeza e fidalguia. por motivos vários. como é do gosto da crítica científica. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. igualmente inteligentes. caracterizado por uma sensibilidade doentia. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. Assim como a mãe de Augusto. a partir de Lombroso. Augusto não era um homem igual aos outros. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. que nada explica. tiques nervosos. nas modalidades do caráter. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. da inteligência. Por seu parentesco espiritual. a de Byron. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. E por curiosa coincidência. aos que se acomodam. Sem o concurso da causa primária. só ele dava a impressão de um desajustado. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. a de Leopardi. a de Wilde. em relação com a casuística. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. Nem os que nasceram antes. choques emocionais. Ao que se sabe. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. tem sido Augusto comparado a Leopardi. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. do sentimento. enfim. por vezes controvertidos.

sem afastar-se do lar. saído da roça. aprendeu a ler e. Deste modo. que a metafísica estava morta. ao invés de um estudante bisonho. logo mais. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. em 1900. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. cuja vida corria sem obstáculos. com o título Eu e Outras Poesias. Falava nele o positivista que. em sua linha tomista. estavam a fazer dele um lírico. é a vocação que já revelava para o infortúnio. era um introvertido. conforme disse num soneto que não consta. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. Com seu pai. na várzea do Paraíba. como uma fatalidade. inspirado na natureza e no amor. a quietude da vida na província. do Eu. os quais o acompanhariam. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. evolvia para o evolucionismo de Speneer. visto ter nascido poeta. bradava para o conceituado mestre que o argüia. Era de fato um excêntrico. sofreu duros reveses. Coelho Rodrigues. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. como expressão do pensamento nacional. a sua própria vida sem problemas. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. mas no final 8 . A par disso. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. O rapazinho de 16 anos. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. Muito cedo. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. Alexandre dos Anjos. guiado apenas pela ilustração paterna. cinco anos após a sua morte. Logo mais. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. para maior complicação de sua personalidade. Já em 1875. para aprazimento intelectual das elites. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. O que há de singular nele não é. dr. até o túmulo. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. a rigor. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. mas não era somente isso. em Monólogos de uma Sombra. em contraste com a mocidade e a inteligência. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. A paisagem bucólica da várzea. sofregamente bebida nas academias. em prefácio à segunda edição do Eu. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. no último ano do século passado. o seu tipo de pássaro molhado. Sílvio Romero. segundo os primeiros retratos que temos dele. agravados por outros que irromperam na idade perigosa.Augusto com a sua personalidade psicológica. que lançou em 1919. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. Nada de admirar. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico.

um século antes de Hugo. ficava a escutar os companheiros. que. em sua. desde Haller. como toda substância animada. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. entre o mundo da forma e o mundo da razão. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. aliás. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Desta forma. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. nas concepções filosóficas de seus poemas. Ainda na fase preparatória de estudos. Augusto pouco falava. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Aliás. mas a origem simiesca do homem. como uma velharia do século. de onde saiu formado em 1907. O beatério era o último reduto do catolicismo. José Américo de Almeida. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. Laurindo Leão. ou mesmo. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. adepto do positivismo. já no seu ocaso. dupla feição de filósofo e de poeta. já lidos nos filósofos da natureza. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Os menos letrados. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. suportou a mais dura crise. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. confundidas ambas na unidade cósmica.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. o pensamento ao longe. Na Paraíba. de que católico era sinônimo de burro. Por todo o Nordeste. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. aliás bem pouco lisonjeiro. Embora educado na religião católica. faziam praça de livres pensadores. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. está sujeita também ao processo da evolução. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. firmava-se o conceito. Comte passou. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. tentou o milagre de 9 . os intelectuais mais dotados. que só cuidava de preocupações teológicas. Esquisitão que era. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. proceda ou não proceda. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. em seu livro Frases e Notas. Martins Júnior. com a evolução da matéria e do espírito. emancipou-se dela intelectualmente. conciliada. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. Ao que parece. Desses embates. se o diabo é tão feio como o pintam. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. introduziu entre nós a poesia científica. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. a velha Escolástica. a exemplo de Victor Hugo. Até no Piauí. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. isto é.

ora transfigurado em sátiro vilíssimo. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. Não sofre apenas a sua dor. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. vibra A alma dos movimentos rotatórios. que é a derrota da humanidade. Rimbaud escrevera Bateau ivre. identifica-se na substância primeva. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Integrado na sociedade. como bem observa Cavalcanti Proença. já diferenciado na mônada. terso na linguagem. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas.. facilmente o identifica. chega aos seres mais complexos. Da substância de todas as substâncias... já desiludido. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. nas duas composições uma coincidência de temas. a consciência 10 . Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. simultâneas. ampla. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Não há. fundado na unidade cósmica. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. Em minha ignota mônada. como amostra. O aspecto conceptual do poema. A saúde das forças subterrâneas. todavia. Do cosmopolitismo das moneras. E assim continua. “esse mineiro doido das origens”. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. por força das sucessivas mutações da matéria. Pólipo de recônditas reentrâncias. na larva que procede do caos telúrico. Encontra-se. começa então o drama crucial da consciência. que passou do reino vegetal para o animal. Quem já o leu uma vez. enfim. até adquirir a forma humana. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. 186 versos. ora transfigurado em filósofo moderno. A simbiose das coisas me equilibra. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. E é de mim que decorrem. É a sua confissão de f transformista. A partir da monera. Venho de outras eras. depois de infinitas transformações. trinta anos antes. sempre a evoluir em movimentos rotatórios.reduzir a um campo único a ciência e a arte. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. naquela mesma idade em que. numa caminhada de 31 estâncias. Aos 17 anos. Larva do caos telúrico. e—crente no tema. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. incomparável na forma musicada. Vejamos.

Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . noção trivialíssima das funções orgânicas. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. Nesse estado d’alma. o que vale dizer. natural de minha terra. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. que tinha os ouvidos totalmente tapados. dentro do mundo fenomenal. segundo querem os frenologistas. temos aí um transformismo metafísico. o remorso já acordado na caverna escura. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. uma espécie de fogo que devora e não consome. A partir dai. tantas vezes exaltada pelo poeta. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. O próprio Augusto. que faz quase lembrar a reencarnação. assombrado com o não-ser.No princípio era o Verbo. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. A rigor. chamando a si. centro de toda a acuidade sensorial. no princípio era a força. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. entendia o agregado abstrato da saudade. em esconderijos apropriados.conspurcada de gozo malsão. Por fim. manifestou o seu espanto. o sofrimento de toda a humanidade. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. diante das maravilhas do aparelho encefálico. no entanto. No tocante à transformação da matéria. cuido não estar proferindo uma heresia. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. com sótão e porão. há que distinguir um pormenor. dezenove séculos antes. do ponto de vista metafísico. o vidente de Patmos: . No fundo. numa espécie de solidariedade subjetiva. Nada obstante. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Por alma. A mesma coisa. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. ouvia mais que um tísico. entrega-se ao sacrifício. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. já havia dito. como está dito em Monólogos de uma Sombra. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. É a concepção monística. conheci um sujeito. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. que a ele não interessava considerar.

impreca. causa-lhe repugnância. que é o Deus materialista de Haeckel. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. O mundo em que vive é um vasto hospital. procura 12 . que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. o lado malsão da vida. onde imperam sombras. Ao invés de fecundação do espírito. admite o éter. só serviu para adensar o clima de alucinação. E há-de deixar-me apenas os cabelos. Custa crer que este soneto . Nem por isso admite Deus. rasgar do mundo o velário espêsso.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Este ambiente me causa repugnância. a matéria putrefata. No auge da inquietação. Exausto da luta. Monstro de escuridão e rutilância. Já o verme . perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. fonte inesgotável de vida. filho do carbono e do amoníaco. onde não há lugar para a alegria. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.este operário das ruínas. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Por toda parte. O próprio amor. A influência má dos signos do zodíaco. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Profundissimamente hipocondríaco. dominado por um ceticismo acabrunhador. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. uma natureza gasta. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. procura penetrar o mistério da substância universal. sem problemas materiais: Eu.Psicologia de um Vencido .. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. desde a epigênese da infância. na melhor das suposições. Sofro.Fazer a luz do cérebro que pensa. Querendo fugir a essas coisas. solta blasfêmias. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor.. vermes. Em tudo. o éter cósmico. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. cadáveres e bocas necrófagas.

Espera aí encontrar o seu nirvana. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Com efeito. evadido de si mesmo. numa atitude mental de fuga à realidade. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem.. A julgar pelos seus gemidos. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Antes de mais nada. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. coberto de desgraças. deve ter acontecido na sua juventude. monstros terríveis. Tudo isso. E via em mim. podia fazer dele um triste. já cansado de escutar a natureza.. uma desgraça na vida do poeta. Há. O resultado de bilhões de raças Que. com o poder de sua imaginação. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. gasta imensas energias e enche de culminâncias. que os anos não carcomem. Algo de mais grave. nem Haeckel compreenderam. Por um instante. o Eu e Outras Poesias. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. como se supunha. a perda da crença e. Nenhum pintor. diz ele. E para não capitular a esse apelo. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Mas o diabo não larga a sua presa. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. Até agora 13 . que exulta triunfante: Gozo o prazer. não há homem que sofra mais. que ele denomina um sonho ladrão. com efeito.refúgio na inexistência espiritual. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. a terrível moléstia que se atribui. O subconsciente o aturde. E é nesta manumissão schopenhauriana. paralelamente. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. Onde quer que se refugie. acompanham-no. no todo ou em parte. Grita a sua dor por toda parte e. em suas visões oníricas. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. tenta ir ao fundo da crença monística. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. sente o desejo. Depois disso.

que é o drama mais doloroso de sua consciência. Exatamente aí. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. dada a ausência de biografia. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. no capítulo do amor. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. de uma paixão. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. Por enquanto. inútil seria qualquer esforço. desespero virtual e não real. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Ele próprio. Por mais que Augusto negue o amor. Lembro-me bem. Por mais que procure fugir ao assunto. . Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. sempre se revela. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária.. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Iríamos a um país de eternas pazes. Gozei numa hora séculos de afagos. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. Trata-se.. Por suas próprias palavras. em . não pode ocultar que foi vítima dele.. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . pois.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. no tocante a esse drama. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

ao mesmo tempo que. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Depois de embebedado deste vinho.. Sonâmbulo. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. como é sabido. E invejo o sofrimento desta Santa. como em . Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Sonâmbulo.. que não é das mais invocadas. eu também vou passando Sonâmbulo. confessa mais uma vez a sua culpa. mas no poema .. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes.Queixas Noturnas .. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. contrito.extravasava desta forma o seu lamento: 19 .. nunca foi chegado a santos. O poeta. surpreende com a invocação de Santa Francisca.Insônia .referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. em mágoa.. Como um bemol ou como um sustenido. Noite.santa.

como referiu vagamente em As Cismas do Destino. sem resolver a verdade interior. apenas três vezes. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Mãe. que parece se deixou levar por pressão da família. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.. num carro azul de glórias. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. dormir primeiro. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. mas para os que crêem há ainda uma esperança. não para ele. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Madrugada de treze de janeiro. Rezo. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. que não admite a vida espiritual. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida.As Cismas do Destino . em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. expressa a sua mágoa numa comovente unção. quando a morte o olhar lhe vidra. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. luta por fugir dela. sonhando. A morte é o fim de tudo. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. como perseguido pela sinistra ceifeira. entre as estrelas flóreas. Mas pareceu-me. Como Elias. pouco fala. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Em . Ao vê-lo morto. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. o ofício da agonia.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Da mãe. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu.. entre estes monstros. Minha alma sai agoniada. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. ama-o até mesmo na atômica desordem.brada: 20 . entretanto. Nem uma névoa no estrelado véu. Ao pai.

cheio de imperfeições. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. Aqui. Nestas condições. Minha filosofia te repele. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente.. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. Por tua causa apodreci nas cruzes. Não me parece tenha razão 21 . O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. devia ter na época. Forma difusa da matéria imbele.. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. habitado por monstros humanos. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Procura assim desoprimir o coração. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. Já que não crê em Deus. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. que Augusto era um cerebral. não cria em Deus. E ainda. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. 22 anos de idade. Vivia um mundo à parte. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. escravo do raciocínio frio.. como em toda a obra. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. Acha Flósculo da Nóbrega. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Ao invés de ajustá-lo à realidade.Morte. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. embora ansiasse por encontrá-lo. levava-o a recolher-se em si mesmo. ponto final da última cena. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. as palavras também servem para ocultar o pensamento. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. quando recebeu os 22 açoites da natureza. ardendo em indagações subjectivas. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe.. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Nada o consolava nesse estado de espírito.

um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. conforme declarou nesta honesta confissão. volta-se vez por outra contra a sociedade. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. sua musa empalideceu à falta de ambiente. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. noite a dentro. tinha-se na conta de um doente. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. Não que tenha recebido ofensas dela. entrava em crise espiritual. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. O que produziu no sul do País. um homem excluído do mundo.o ilustre intelectual paraibano. Ao contemplar esse ambiente. foram produzidos no Pau D’Arco. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. como um sonâmbulo. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. mas no particular. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Punha-se então a passear. em 1912. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. Nem ele próprio se conhecia. o cérebro em fogo. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. de vez que ninguém o compreendia. mas porque se sente um desajustado. A inspiração despertava com a dor. passos largos. No fundo. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. além de pouco. Os seus melhores versos. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. e a mim pergunto. nunca recebeu hostilidades. torturado no sentimento do desamparo. os de maior densidade emocional. que o acolhia com carinho. Não importa que tenha morrido de pneumonia. De um modo geral. que o 22 . Depois que o poeta deixou a Paraíba. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Desta. ao contrário. Há. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Era. ao redor da capela do engenho. contudo. no caso. andar bamboleante. que só repugnância lhe causava. Fosse como ele diz. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. Na luta em que Augusto se debate. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia.

num desalento ainda maior. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Essa real ou imaginária doença. em Os Doentes. Perdido o amor. “na urbe natal do Desconsolo”. que admirar chore um dia a crença perdida. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. onde os anjos cantavam. Lá para o fim do poema. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Eu bem sabia. pois. hosanas ao Senhor. numa emoção que comove.próprio poeta confessava. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. atormenta-se com a idéia de que. entra a descrever a cidade dos lázaros. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. passa a chorar a sua dor e a alheia. à guisa de ácido resíduo. aliada à descrença. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. sob os seus pés. fez dele um misantropo. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. imaginária cidade à margem do Paraíba. Mais adiante. em serenata. Na ascensão barométrica da calma. na terra onde pisava. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. Depois disso. Parece que desperta para a vida. ansiado e contrafeito. os acordes saudosos do coração. como ele chamava. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. como um arrependido. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. De início. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. como se já tivesse perdido o alento de viver. Não há. 23 . Já cansado do ceticismo. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. confessa-se minado pela tuberculose. Em As Cismas do Destino. eis que escuta. Era ali. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. o soneto Vandalismo. perdeu também a crença.

em serenatas. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. Flóscolo da Nóbrega. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. ler. era apenas o meio de formular soluções. José Américo de Almeida. para ele. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. que não é biografia e não chega a ser estudo. há sempre o que referir. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . No desespero dos iconoclastas. Onde um nume de amor. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias.Meu coração tem catedrais imensas. pois. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Santos Neto. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Enfim. Raul Machado. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. por exemplo. Sua obra. No final de contas. Canta a aleluia virginal das crenças. este último. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. João Lélis. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. tenham bordejado na superfície do abismo em. destaco Órris Soares. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. Assim é que. Dos outros. apenas como autor de um livro apologético. Templos de priscas e longínquas datas. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Álvaro de Carvalho. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Não é. já na 27ª edição. A arte. na Academia Paraibana de Letras. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria.. posto que. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. em gemidos de dor. Ao contrário da incontinente afirmativa. Sabe-se como compunha. Nesse decurso. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. que se afundava a alma do poeta.. quase todos. muitas opiniões foram veiculadas. João Lélis e De Castro e Silva.

disse que uma das suas forças. entrava disciplinada em seus versos. associado à vibração sonora. Euclides da Cunha. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Órris Soares. Só depois de elaborada é que ia para o papel. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Por tudo isso. reside justamente no termo técnico. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. claro que avulta ainda mais o seu mérito. com efeito. este na prosa. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. a densidade. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. duendes. lábios crispados. como em compasso de música. lá fora. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. Em ter ficado sozinho. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. essa linguagem. Cavalcanti Proença. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. certa preocupação inclusive dos simbolistas. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. impressionam pelo poder da dialética. o sentimento parece ter outra dimensão. No entanto. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. insulado em sua própria grandeza. olhar perdido no espaço. o que acabava de compor. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. que pretende ser de interpretação psicológica. entre nós. Os versos espoucavam no momento da inspiração. Poe e Rimbaud. o que era. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. o outro 25 anos depois. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. figuras espectrais e outras visões sinistras. Neles. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Muitas vezes. como lamenta o crítico. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. de um a outro canto da sala. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. Essa crítica. vermes. túmulos. que não tenha fecundado a poesia nacional. enquanto forjava mentalmente a composição. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. Em ambos. à primeira vista incompatível com a poesia. sobretudo da crítica provinciana. um em 1920. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. sangue de vísceras dilaceradas. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. na época.devoradoras. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. num timbre especial de voz. escarros. Seus versos. Foi então que recitou de inopino. a passear a esmo. a sua personalidade psicológica. também 25 . em 1945. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico.

a fim de atingir. de sentido mais profundo. na interpretação de um drama emocional. Não pode o critico ser ortodoxo. nem tudo pode ter cabimento. pela tristeza indefinível da alma. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. pelas crises espirituais porque ambos passaram. é mais uma aversão de olfato alérgico. Há. num dos seus últimos sonetos. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. no duelo da carne. elogios ou restrições. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. como se vê. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. por isso mesmo poética. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. aparelhou. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. com efeito. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. neste ensaio de exegese literária. mesmo doentia. Mas é preciso notar que essa musa. reconheça-se que essa poesia é humana. Com Baudelaire.ficaram sem seguidores. 26 . na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. O anojamento de Álvaro de Carvalho. está em tempo de ser feita. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Nem por isso. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Ou então. Eis porque. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. Com Verlaine. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. não lhe tira o vigor da expressão verbal. que apenas transparece em linguagem evasiva. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Com Mallarmé.

Augusto lembra Rimbaud. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam.. na terra santa. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. em tropos ousados. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. palavras raras e eruditas. num artigo publicado em 1914. sensações simples e cenestesias. Também no amor os dois se assemelham. Não fica apenas aí o confronto. Segundo Delahaye. “Na Eternidade. como neste exemplo: 27 . pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Com Antero do Quental. Honesto em tudo. visionário. O único que mencionou Rimbaud. que dialoga com os elementos imponderáveis. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. para a neologia e o vocábulo raro. Com Leopardi. um grande medo toma conta do poeta.através da sensação. na postura de um campônio rústico. pelo sentido da dor universal. Só com Rimbaud. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. os mesmos descuidos de metro e rima. foi José Américo de Almeida. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. Vez por outra. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. De lá de fora. só nesse ponto dissimula o pensamento. de uma honestidade quase bravia. assentado sobre cacos de pote e urtigas. Ouvindo isso. desde a sua fase inicial. de mistura com alucinações. citado por Augusto Meyer. havia acentuada tendência do poeta. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. encontra-se em Roma.. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. guardando o corpo do Divino Mestre. em grupos prosternados. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. Súbito. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. em termos de comparação. A mesma coisa ocorre com Augusto. vem o barulho das matracas. temida pelo outro. no ar de minha terra. desejada por um.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. crematismos. É. as mesmas figuras de linguagem. a idéia pura das coisas. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. Até nas aliterações e metáforas. um mês após a morte de Augusto. Encontra-se. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. por sua natureza. numa sexta-feira santa. a filosofia da dor. isso mesmo de passagem. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. em quem se acumulam.

onde se casou com uma nativa da Abissínia. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. uma diferença de fundo entre os dois poetas. provo-a. por causas várias. A toda boca que o não prova engana. vítima de injustiças humanas. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Rimbaud. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. Motivos escabrosos. é como a cana azeda. na Bélgica. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. embora tenham se casado e tido filhos. ilusão treda! O amor. como Tântalo. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. que era o seu anseio máximo. No tempo de jovem. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. exacerbava-a. poeta. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. a julgar pelos seus lamentos. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua.”.. Não sou capaz de amar mulher alguma. é inútil. em suma.. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. Nem há mulher talvez capaz de amar-me.. Ninguém sofre mais do que ele. à beira da água. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. Augusto sentia-se puro. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. o bem e o mal caminhando juntos. um suave concerto espiritual na natureza. segundo é fama. Há. chupo-a. homens de bem cheios de nobres intenções. Depois desse fato. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. mas que o levaram ao resultado conhecido. E como não 28 . Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. em busca do paraíso terrestre. andou conspurcado de sensações súcubas. . sente-se que há um complexo de culpa. Em cada um deles. é verdade. é improfícuo. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. largou-se para a África. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. contudo. filha legítima de sua alma. Descasco-a.

som. do qual se considerava prisioneiro. tudo quanto desperta a alma. segundo apregoam os fundibulários da crítica. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . dessa conversão ao materialismo. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud.Une Saison en Enfer . tudo quanto eleva os sentidos. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. revolta-se contra o mundo. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. a criação. Possuído do demônio da dúvida. mas nem isso acredito tenha havido. imitação. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Mesmo assim. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. Um problema sempre gera outro. contra a sua grei. perdia-se no estado de dúvida. deixava-se ficar no interior da concha. isto é. 29 . quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Augusto vai irredento até o fim. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. Foi a partir daí. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. silvos de labaredas e suspiros de empestados. A vida. Há muitas espécies de conversões em literatura. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis.espécie de autobiografia moral. Neste passo. entre a voz do sentimento e a da razão. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. cor. depois que perdeu a ilusão dos homens. beleza. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. os mistérios da natureza. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. quando muito. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. isto é. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. numa reação inócua.. porém. sem preencher esse vácuo. contra a sociedade. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. conforme confissão feita a Mário de Alencar. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. chegaríamos por certo ao pai Homero que. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. luz. onde não faltavam o ranger de dentes. como fontes de inspiração. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma.pode reformar o mundo. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. martelada em versos magníficos e candentes. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. o amor. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. perfume. Tais similitudes valeriam. Por curioso paradoxo. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Não raras vezes.

uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. afetando melindres de devotos. Os oradores. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. a meu ver. que se veja na blasfêmia. é. a propósito. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. Apurada a eleição e com base no resultado. Convém. na realidade. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. mas os que o seguem desconhecem. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. em torrentes de eloqüência. se manifesta ainda escravo do batismo. todavia. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo.Enredado em idéias preconcebidas. Ao cabo do bombardeio oratório. é questão que não deve ser formulada. se sucediam na tribuna. Se há Deus. Ora. É o que há. Alguns críticos. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. tal como Rimbaud. Todos nós. com raríssimas exceções. viram nisso o pecado da blasfêmia. um pedido de socorro. uns afirmando. resolveu o presidente submeter a questão a votos. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Isso mostra que ele. outros negando. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. via de regra. porquanto Deus é princípio e é fim. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. 30 . alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. em meio a tantas emoções extravasadas. heresia maior que a do poeta quando. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. No meio em que viveu era querido e admirado. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. no desespero de tantos sofrimentos. Na prática. supria-se do mais no magistério particular. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Vale mencionar. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. aceitar as imperfeições do mundo. a essência dos Evangelhos. se não há Deus. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. proclamou que Deus não existe. quando não proferida por modo vulgar e chulo. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. como ninguém ainda se entendesse. Se o Cristo não vem em seu auxílio. nas Alterosas.

os filósofos iônios. através dos séculos. coisa que não cabe na boca de um ateu. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. como se vê.atormentado por visões escatológicas. vem de muito longe. o sacrifício da linda moça Polixena. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. como uma caixa derradeira. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. E como era sincero e honesto. explodiu em As Cismas do Destino. A denominação. começa o poema “Sou uma Sombra. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Por outro lado. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . entendiam a alma. dá à alma a denominação de sombra.Debaixo do Tamarindo. Abraçada com a própria Eternidade. De inflexões mentais sua obra anda cheia. De outras vezes. desde Tales de Mileto. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. 31 . No tempo de meu Pai. Voltando à pátria da homogeneidade. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. por mãos de seu filho Pirro. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. sob estes galhos. virtudes que cultivava com extremado zelo. Como uma vela fúnebre de cera. Só muito raramente soltava uma blasfêmia.

em briga com o dualismo. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. 32 . !" Este trabalho. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. assaltado de alucinações. sua intimidade numenal. para ele. que procede do éter cósmico. tal como a entendiam os filósofos iônios. Até Deus. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. da substância de todas as substâncias. É a substância primeva. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. mas com o que ai está me contento. nas composições que vão até o fim do livro. desde o declínio das crenças mitológicas. tal como se apresenta. isto é. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. Mais poderia dizer agora. acrescenta. até mesmo num grão de areia. a 12 de novembro de 1914. como entidade eterna. na Federação das Academias de Letras do Brasil. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. Que outros. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. era uma mônada. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. larva do caos telúrico. perdendo-se novamente no enleio cósmico. aos 30 anos de idade. em soluços quase humanos. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. até que morre numa cidade das Alterosas. Choram ainda dentro dele. Assim vai.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. mas dentro da alma aflita Via Deus . então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. em Leopoldina. vacilante na ciência fria.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. as formas microscópicas do mundo. virtualidade espiritual. Daí por diante.

dos Anjos e D. Córdula C. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Tenho insônia raras vezes. 33 . Conservo de memória tudo quanto produzo. de abusar um pouco do café. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. R. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Eu. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Sofre de insônia. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Rio de Janeiro. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. da chamada vida física. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. o que não impede. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. presumo. Engenho Pau d'Arco. entretanto. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R.

Ergo-me a tremer. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau.. filho do carbono e do amoníaco. e à vida em geral declara guerra. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. E vejo-o ainda. A influência má dos signos do zodíaco. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. igual a um olho. Meu Deus! E este morcego! E. Ao meu quarto me recolho.Digo. Anda a espreitar meus olhos para roê-los..este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Chego A tocá-lo. Produndissimamente hipocondríaco. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Monstro de escuridão e rutilância. Já o verme -.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. E há de deixar-me apenas os cabelos. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Fecho o ferrolho E olho o teto. Sofro. Minh’alma se concentra. agora. Esforços faço. Este ambiente me causa repugnância..” -. desde a epigênese da infância. “Vou mandar levantar outra parede..

. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. raquítica.. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Delibera. Deixa circunferências de peçonha. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. de repente. Mas. Riem as meretrizes no Cassino. e quase morta. Quebra a força centrípeta que a amarra. quando sonha. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. e depois.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Que. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Chega em seguida às cordas da laringe. em desintegrações maravilhosas... Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. mínima. Anoitece. tênue. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Tísica. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. À noite.

. Que poder embriológico fatal Destruiu. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . com a sinergia de um gigante..IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . E. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Em que lugar irás passar a infância. Fruto rubro de carne agonizante. em vez de achar a luz que os Céus inflama. feto esquecido. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Agregado infeliz de sangue e cal. Realizavam-se os partos mais obscuros.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Tragicamente anônimo. em letras garrafais.

Filho da teleológica matéria. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. Suficientíssima é. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. arrima-a.é o seu nome obscuro de batismo. pelos séculos adiante. em que tu dormes. Verme -. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Ah! Para ele é que a carne podre fica.. Livre das roupas do antropomorfismo. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. E vive em contubérnio com a bactéria. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes.. Janta hidrópicos. Almoça a podridão das drupas agras. Na superabundância ou na miséria. para provar A incógnita alma. afaga-a.. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a.. E irás assim.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. ampara-a. Cão! -. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 .

portanto.corte Minha singularíssima pessoa. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se.. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. e. esta árvore... como uma caixa derradeira. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Dr. Guarda. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 .DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. sob estes galhos. Como uma vela fúnebre de cera. de amplos agasalhos. Voltando à pátria da homogeneidade. esta tesoura.

Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. por toda a pro-dinâmica infinita. como quem tudo repele. Na guturalidade do meu brado. -. com o esqueleto ao lado. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. Como um pagão no altar de Proserpina. Alheio ao velho cálculo dos dias. Por trás dos ermos túmulos. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. mas dentro da alma aflita Via Deus -.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia..Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . com uma ânsia sibarita. um dia..SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.

autônoma e sem normas.. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. talvez.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. moços do mundo. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Nos estados prodrômicos da vida.. Em que é mister que o gênero humano entre. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Onde os bandalhos. Dentro do ângulo diedro da parede. como um gado vivo. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. nesta rede. Ah! De ti foi que. vede: É o grande bebedeouro coletivo. Todas as noites. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Como quase impalpável gelatina. mísera e mofina. Oh! Mãe original das outras formas.

como o filósofo mais crente. É a morte. O mundo fique imaterializado -. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. é o ego sum qui sum .este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que.IDEALISMO Falas de amor. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum.. é o pneuma . perante a evolução imensa. Amo o coveiro -. para o amor sagrado. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. É.. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. Creio. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira.

Cinzas. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. se hoje volto assim. improficuamente. Comi meus olhos crus no cemitério. caixas cranianas. Mas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Era tarde! Fazia muito frio. À meia-noite. inclusas. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. nele. cartilagens Oriundas. com a alma às escuras. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente.. como os sonhos dos selvagens.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. talvez as Musas.. e. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Vaguei um século.. subi talvez às máximas alturas. Pelas monotonias siderais..

Se fosses Deus. no Dia de Juízo. trilhos. glebas. Pelo muito que em vida nos amamos. Tu. Eu. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. Na multiplicidade dos teus ramos. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. com o envelhecimento da nervura. Depois da morte. tuas sementes! E assim. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. pois.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. inda teremos filhos! 43 . porém. Tamarindo de minha desventura. selvas.fontes de perdão -. reunidos. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. em diferentes Florestas. para o Futuro. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. vales. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer.

INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. nos doze meses. Ganem todos os vícios de uma vez. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Na orgia heliogabálica do mundo. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa.. Como a cinza que vive junto à brasa. É-me grato adstringir-me. Ter o destino de uma larva fria.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . na hierarquia Das formas vivas. Perseguido por todos os reveses. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -.. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Apraz-me. à categoria Das organizações liliputianas. Como os Goncourts.. É meu destino viver junto a esa asa. asa De mau agouro que.. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas.

Ouvindo a Escada e o Mar. o Homem. puxa e repuxa a língua. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. a mim. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. É como o paralítico que. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. conquanto ainda hoje em dia. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. mamífero inferior. violento. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. rasga o papel. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. “À luz da epicurista ataraxia.. aos soluços. “Homem.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. com os dedos brutos Para falar. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. o Hércules.. em desalento. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar.

Que a mim somente cabe o furto feito. afetava Susceptibilidade de menina: “-. em minha cama. entretanto. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . agora.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram.. como cruéis e hórridas hastas. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. o ouro que brilha. Em sucessivas atuações nefastas. após tudo perdido. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. mas eu. Vejo. Sinhá-Mocinha. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Ele hoje vê que.. minha ama.Não. não fora ela! --“ E maldizia a sina. ralhava. então. hipócrita.. Que ela absolutamente não furtava. Furtaste a moeda só. minha Mãe. Eu furtei mais.. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Tu só furtaste a moeda.

. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta.. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo.a mãe comum -.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. à noite.. aos reais convivas. num festim. E tu mesmo. Hoje.. Assim Tântalo. É noite. Hás de engolir... a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. e. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. porém. após a árdua e atra refrega. igual a um porco. do que este que palmilho E que me assombra..o brilho Destes meus olhos apagou!.

Deus não havia de magoar-te assim! 48 . O Amor e a Paz.. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. Às alegrias juntam-se as tristezas. para onde fores. Eu... para amenizar as dores tuas. Tu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. Irei também. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. meu Pai?! Que mão sombria. e sendo justo. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. o Ódio e a Carnificina. pois. O que o homem ama e o que o homem abomina.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. é justo. e o ângulo reto. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. gemendo.. Pai. Deus. trilhando as mesmas ruas. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto.

Rezo. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . num carro azul de glórias. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!.. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. entre as estrelas flóreas. sonhando. cuidei que ele dormia. Como Elias. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Mãe. E a marcha das moléculas regulam. Mas pareceu-me.. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. o ofício da agonia. Nem uma névoa no estrelado véu. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza... assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam.

. Livre deste cadeado de peçonha. enfim. Caiu aos golpes do machado bronco. Esta árvore. É preciso cortá-la... pois. Para que eu tenha uma velhice calma! -.Disse -. pai... -. olhando a pátria serra. numa rogativa: “Não mate a árvore. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. meu filho. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. Apraz-me.. para que eu viva!” E quando a árvore.. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . possui minh’alma!. no junquilho. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa.e ajoelhou-se. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. meu pai.Meu pai.As árvores. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. sôfrega e ansiosa.. meu filho.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter.

o amplo éter belo. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Pões-te a assobiar. Tu nunca mais verás a liberdade!. de à antiga rota Voar. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. mergulhou a cabeça no Infinito. Foi este mundo que me fez tão triste. bruto... desde o mais prístino mito. Continua a comer teu milho alpiste.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota.. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. preto e amarelo. Olha a atmosfera livre. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. não tens mais! E pois..

Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Canta a aleluia virginal das crenças. Noite alta. Onde um nume de amor. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. Ante o telúrico recorte.. na diuturna discórdia. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 ..ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. em serenatas. Templos de priscas e longínquas datas. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.. ególatra céptico. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. cismava Em meu destino!.

e.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Toma um fósforo. toma A adaga de aço. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Apedreja essa mão vil que te afaga. Veio depois um domador de hienas E outro mais. por fim.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. E qual mais pronto. nesta terra miserável. uns cem.. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. que. amigo. Meu coração triunfava nas arenas. Acende teu cigarro! o beijo. Mora. Vieram todos. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. é a véspera do escarro. E à rutilância das espadas. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . entre feras. por fim. E não pôde domá-lo enfim ninguém. veio um atleta. e doma Meu coração -. guerreiro.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. o gládio de aço. Somente a Ingratidão -. sente invevitável Necessidade de também ser fera. ao todo..

podendo mover milhões de mundos. pois... o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Quer resistir. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. chorando. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. E é em suma. Sabe que sofre.. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo.. No rudimentarismo do Desejo! 54 . do Orbe oriundos.. nada há que traga Consolo à Mágoa. Da luz que não chegou a ser lampejo. pancada por pancada. a que só ele assiste. Da transcendência que se não realiza. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. A sucessividade dos segundos. Ouço. a escutar. Que. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. em sons subterrâneos.

Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. que os anos não carcomem. afinal. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Parem as vidas. me desencarcero. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. num grito de emoção. pensando. De que. sincero Encontrei. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Morto o comércio físico nefando. Foi que eu. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Oh! Nauta aflito do Subliminal. eu. Cesse a luz. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. a animar o cosmos ermo. Como a última expressão da Dor sem termo. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. feito força.

ao sol posto. sem retumbância. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. numa alta aclamação. A dardejar relampejantes brilhos. Era.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. há inúmeros milênios. pois. Diafragmas.. Em tua podridão a herança horrenda. E o Homem — negro e heteróclito composto. Dói-me ver.. decompondo-se. e.. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Onde a alva flama psíquica trabalha. o olfato e o gosto! Carne. feixe de mônadas bastardas. muito embora a alma te acenda. a irmanar diamantes e hulhas. o ouvido. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. a vista. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. sem gritos.. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. arpões. "Com essa intuição monística dos gênios.

Este pântano é o túmulo absoluto. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. à espera de quem passa Para abrir-lhe. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. É a síntese. Tragicamente. E o nada do meu homem interior! 57 . E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. na noite escura. sem dor.. é o transunto.. e. às escâncaras. A convulsão meteórica do vento. Que produz muita vez. para mim que a Natureza escuto. é a essência pura. no Mundo. opondo-se à Inércia. meus semelhantes! Mas. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. a porta. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho.O PÂNTANO Podem vê-lo.

rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. Teu desenvolvimento continua! Antes. Reconcentrando-se em si mesma. Volvas à antiga inexistência calma!. um dia. Vence o granito.. em conjugação com a terra nua. no teu silêncio. causa do Mundo.A UM GÉRMEN Começaste a existir. O espanto Convulsiona os espíritos. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . porventura. tanto Que. que ainda haveres De atingir.. ainda algum dia. deprimindo-o . entanto.. e. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. geléia humana. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. não progridas E em retrogradações indefinidas. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. Antes o Nada.. como o gérmen de outros seres. em realidade. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. E hás de crescer. é natural. geléia crua. oh! gérmen.

que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . .As ambições que se fizeram troncos. é transporte.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. Vivem só. descendo A irracionalidade primitiva.Todas as hermenêuticas sondagens... Como um convite para estranhas viagens... E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.. traçando arcos de ogivas. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. nele.. É a Natureza que. E a coorte Das raças todas. é ânsia. na ordem cósmica. é o instinto horrendo De subir. no seu arcano.. Bracejamentos de álamos selvagens. São absolutamente negativas! Araucárias. ... trancada num disfarce.. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. os elementos broncos. é inquietude.

.. saúde dos seres que se fanam. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. oh! Dor. acérrima e latente. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . Dói-lhe. assim. Que o sarcófago. sem convulsão que me alvorece.. E. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda.. inteira. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. sol do cérebro..O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.. À humana comoção impondo-a. psíquico tesouro. Riqueza da alma. em suma. ancoradouro Dos desgraçados.

.. em épocas futuras. ) Com o vosso catalítico prestígio. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. que. Expressões do universo radioativo. Dai-me asas.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante.. pois.. Ions emanados do meu próprio ideal.. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Haveis de ser no mundo subjetivo. Dai-me alma.. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Benditos vós. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . Minha continuidade emocional! 61 . pois. para o último remígio.

Emoções extraordinárias sinto. A alma arde. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.. A espaços As cabeças.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. as mãos. então. Arranco do meu crânio as nebulosas. os pés e os braços Tombara... Eu sinto.. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. O cosmos sintético da Idéa Surge. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . Subitamente a cerebral coréa Pára. A carne é fogo. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.

tragando a ambiência vasta. Deixa a tua alegria aos seres brutos. Teu coração se desagrega. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. e. ávida. No desembestamento que os arrasta. Realidade geográfica infeliz. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . na superfície do planeta. criatura cega. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno.. Hebdômadas hostis Passam. Receando outras mandíbulas a esbangem. Porque. carne sem luz. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Rugindo. Excrescência de terra singular. o alfa e o omega Amarguram-te.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. na ânsia voraz que. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim.. entretanto. aumenta. Superexcitadíssimos. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Os dentes antropófagos que rangem. os dois Representam. Montão de estercorária argila preta. enquanto as almas se confrangem. Sangram-te os olhos.

O Amor. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou... talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . Que força alguma inibitória acalma. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. mordem-se. o Inferno. Da dor humana..MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. a Glória. a Ciência. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. aparelhou.. homens felizes. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Sob pena. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. E trago em mim. sou maior que Dante. soluçando.

Que. Entoado asperamente. não cabendo mais dentro dos peitos. Uiva. O epitalâmio da Suprema Falta. urdo o crime. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. (Hoje. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal... a exigir que os sãos enfermem. à luz de fantástica ribalta. em voz muito alta. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 .. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres.O CANTO DOS PRESOS Troa. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere.. cresto o sonho. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. Existo Como o cancro. Teço a infâmia. È a saudade dos erros satisfeitos. a alardear bárbaros sons abstrusos. ontem.

VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -.. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. o Infinito se levanta À luz do luar.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. Transponho ousadamente o átomo rude E. por fim. como um corvo. o Céu e o Inferno absorvo. invado. dona. enfim. Feita dos mais variáveis elementos. minha alma. Ceva-se em minha carne. O Infinitésimo e o Indeterminado. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando... de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. ausculto. à noite. transmudado em rutilância fria. Nos paroxismos da hiperestesia. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro.. agarro. apreendo.

Átropos.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Como a luz que arde. virgem. arder. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. como um astro.. Eu. Laquesis. Siva. Tifon.. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto.. aos trismos Da epilepsia horrenda. projetado muito além da História. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. E acima deles.. como a luz do amanhecer. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Sentia dos fenômenos o fim. num monturo.

.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. alarga-se em meu hausto. Folhas e frutos. Grita em meu grito.) Quem sou eu.. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 .. nem mesmo ao ronco Do furacão que. a soluçar de dor?! -. às apalpadelas e às escuras. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça... nas minhas formas carcomidas.Trilhões de células vencidas. entanto. Branda.. esse mundo incoerente. Nutrindo uma efeméride inferior. Roem-na amarguras Talvez humanas. remoinha. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. rábido. tenta transpor o Ideal. E.. Hão de encontrar as gerações futuras Só. A estrutura de um mundo superior! Alta noite.. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. a afagar tantas feridas. neste ergástulo das vidas Danadamente.

A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. Penetro a essência plásmica infinita. Apreendo. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . sânie e perfume. hirto. desconforto E ataraxia. aliando Buda ao sibarita. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. -. em que me inundo. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia.. em cisma abismadora absorto. -. Sou eu que.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Massa palpável e éter. ateando da alma o ocíduo lume. feto vivo e aborto. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que.. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo.

infinita como os próprios números. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . A aritmética hedionda dos coveiros! Um. quatro. rádios e úmeros.Tal é.. na abismal sustância informe. dois.. em fúlgidos letreiros. somente em. crânios.. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. Porque. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. três. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. sem complicados silogismos. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. Reduzir carnes podres a algarismos. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado.. cérebros. cinco. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. por hipótese. -.

porventura. Por um abortamento de mecânica. De onde rebenta. me semente. e dize-me. amam jazer. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . perscruta O puerpério geológico interior. recalcados.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. Qual é. a alma. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. assim. oh! delumbrada alma. Estacionadas. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Quem sabe. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. na natureza espiritual. em contrações de dor. afinal. alma. íngremes. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos.

. alçando o hirto esporão guerreiro. A íngreme cordoalha úmida fica. que o Éter indica. da Massa. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos... sonha! Mágoas. Zarpa. subjugue-as ou difarce-as. a amarra agarrada à âncora. Pára e. e. derrubadas. babando.. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. É a subversão universal que ameaça A Natureza. E eu só. Federações sidéricas quebradas.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. se as Tem. o último a ser.. pelo orbe adiante. integérrima.. em noite aziaga e ignota. derrota Na atual força. Espião da cataclísmica surpresa. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões.

adstrito à ciência grave.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Para a perpetuação da Espécie forte.. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. Dentro dos ossos. Em convulsivas contorções sensuais. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. ao cabo do último milênio. cave. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. num triunfo surpreendente. Tragicamente. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. em que arde o Ser. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. Haurindo o gás sulfídrico das covas. E quando. o dolo sáxeo. vazio! 73 .. Os nossos esqueletos descarnados. que ela encheu. Arrancar. ainda depois da morte. e. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Sôfrego.

. Somente. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. E amou. Horrível! O osso Frontal em fogo. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. Era tão moço. Disse. há instantes.. Extraordinariamente atordoadora.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Olhou-se no espelho. Viu vísceras vermelhas pelo chão. A água transubstancia-se. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. iguais a espiões que acordam cedo. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada.. com um berro bárbaro de gozo. Ia talvez morrer. eis que viu. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . antes do almoço.... mancha a gleba.. fora. Na mão dos açougueiros. E. vendo sangue. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada..

. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.... dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino... E em tudo igual a Goethe. me não consolo.. Rasgo dos mundos o velário espesso. ante obras tais. E.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. reconheço O império da substância universal ! 75 .VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. Leio o obsoleto Rig-Veda. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. No mar de humana proliferação. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.

A Idéia estertorava-se. E o coração me rasga atroz. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. P’ra iluminar-me a alma descontente. atro e subterrâneo. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Fora da sucessão. E assim afeito às mágoas e ao tormento. imensa. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. resignado. Era de vê-lo. estranho ao mundo. 76 . No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. E à dor e ao sofrimento eterno afeito.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Tragicamente de si mesmo oriundo. imóvel. ao meu lado. Mas que no entanto me alimenta a vida.. Se acende o círio triste da Saudade. Para dar vida à dor e ao sofrimento. em meio. Porque eu hoje só vivo da descrença. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. Parecia dIzer-me: "É tarde. Eu a bendigo da descrença. Hirta.

Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. Fraco que sou. Cansado de lutar no mundo insano.Todas se foram num festivo bando. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. gárrulos voando . entre o medo que o meu Ser aterra. Não sei se viva p’ra morrer na terra.Oh! Deus. Onde a dúvida ergueu altar profano.o exorcismo Terrível me feriu. de ilusões tão bela. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. volvi ao ceticismo. sombras cor-de-rosa . Da Igreja . De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. seu olhar magoado. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. em fundo misticismo: . Hoje ela habita a erma soledade. Fugazes sonhos. eu creio em ti. Ah. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. e então sereno.a Grande Mãe . desgraçado réu.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 .

Desfeitas todas num guaiar dorido. Ouvi. Exausto de pisar mágoas pisadas. Morreram todas. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Cansado de chorar pelas estradas. senhora. Eterno pegureiro caminhando.MÁGOAS Quando nasci. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. SENHORA Ouvi. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. amei. de amor ferido. num mês de tantas flores. langorosas. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Minh’alma levo aflita à Eternidade. pálidas agora. triste pela vida afora. senhora. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Revolvo as cinzas de passadas eras. tristes. Todas murcharam. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Tristes fanaram redolentes rosas. Quando a morte matar meus dissabores. todas sem olores. senhora. triste e descrido. E que tornou-o assim. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. Sombrio e mudo e glacial.

E fica no teu ermo entristecida. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Tu que. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. e o pesar negro e profundo. olímpica e singela! E partiu. Louco vivia. Vivia alegre o vate apaixonado.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. enamorado dela. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. coração amargurado. Era o soldado. um tresloucado. Altivo lutador. na estrada da existência em fora. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. 79 . Oh! Tu. mas a fronte aureolada. Cantaste e riste. venceu batalhas. Alma viúva das paixões da vida. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Mas a Pátria chamou-o. Ao chegar. Alma arrancada do prazer do mundo. pendeu triste e desmaiada. E voltou. No sepulcro da loura virgem bela. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Esconde à Natureza o sofrimento.

N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Ambos unidos soluçara um beijo. soturnais. São minhas crenças divinais. a brisa respondia. ardentes . Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. funéreos. Chegara enfim o dia desejado. silentes. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Fora no campo pássaros trinavam.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Há de chegar. pálidos. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. E a mesma frase o noivo repetia. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. no eternal soluço. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Desliza então a lúgubre coorte. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Quando da vida. Vinha rompendo a aurora majestosa.

Assim a turba inconsciente passa. Dores que ferem corações de pedra. A morte me será vingança eterna. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Em luta co’a natura sempiterna. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. E espuma e ruge a cólera entranhada. Aí existe a mágoa em sua essência. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Espumando e rugindo em marulhada. Já que do mundo não vinguei-me em vida. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Mas se das minhas dores ao calvário. porém. No delírio. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. 81 .

estulto." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Pois se da Religião fizeste culto. dão-te enganos. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Enquanto outros que podem. bonecos de formoso busto. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Tu’alma ri-se descuidosamente. Somente assim festejarei teus anos. Irmão querido. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Foste do amor o mártir sacrossanto. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. num abraço de ternura santa. bom Papá. Morrera um dia desvairado. Jóias. Su’alma livre para o Céu se alara. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Quantos. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Mostrar-te o afeto que meu peito sente.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre.

A chama cruel que arrasta os corações. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. Os seios brancos.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. amigo verdadeiro. mornos. palpitantes. divina. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. Moldada pela mão da Natureza. Do fado. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. Dançavam-lhe no colo perfumado. esta mulher de grã beleza. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Balbuciou. Do destino fatal. tomando a enxada gravemente. No entanto. presa. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. aveludado. Bela. Tornou-se a pecadora vil.

Repercute. No sigilo das rezas misteriosas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. não acordeis. E as mesmas portas impassíveis. Eleonora. addio! 84 . desnudas. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. úmidas arcadas. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Ai! não. mavioso. Subindo pelo Azul da Inspiração. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Que guardam cinzas de ilusões passadas. addio. pouco a pouco. Trovador torturado e angustioso.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas.Addio. . mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. dolente. os sons esmorecendo. E à noute quando rezam na clausura. Assim canta também meu coração.

Vai morta em vida assim pelo caminho.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Arca sagrada de cerúleos sonhos. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Eu sei a sua história. Num sepulcro de rosas e de flores. gargalha. Moça. O cabelo revolto em desalinho. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. soluça .A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: .coração saudoso. porém.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Chora. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Canta. Na auréola azul dos dias teus risonhos.a veste desgrenhada. . PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Primavera. .O segredo d’um peito torturado E hoje. tão moça e já desventurada. Da desdita ferida pelo espinho. para guardar a mágoa oculta. o triste outono. No sudário de mágoa sepultada. os teus fulgores. a desgraçada estulta.

O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. O berço onde as venturas se embalaram. não busques saber por que. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. Sonâmbulo da dor angustiado. tristonha . 86 . ela não cansa. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Sirva-te a crença de fanal bendito.avança! E eu. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Muita gente infeliz assim não pensa. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Voltam sonhos nas asas da Esperança. portanto. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. túm’lo do prazer finado. que vivo atrelado ao desalento. Foi outrora do riso abençoado. Salve-te a glória no futuro . Também como ela não sucumbe a Crença. eu trajo o luto do passado. Senhora. Mas não queiras saber nunca.A ESPERANÇA A Esperança não murcha.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. risonha. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. ergue o teu grito. É minha sina perenal. delirante e vário. Também espero o fim do meu tormento.

santíssima. Tenta às vezes. Bela na Dor. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 .o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Chora . Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Quem me dera morrer então risonho. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Mas volta logo um negro desconforto. Quando o rosário de seu pranto rola. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. porém. sublime na Descrença. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Sombra perdida lá do meu Passado.

As níveas pomas do candor da rosa. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana.. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Essa sublime adoração do crente. ama. Branca. e. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . nevada. Estende o teu olhar à Natureza. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. mimosa. a seu lado Medita. Enquanto o amante pálido. Na altura Imensa.. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. a fronte triste. Dorme talvez. Rendilhando-lhe o colo de sultana. crê em Deus. púbere. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. pois. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana.

A alma saudosa pelo amor vibrada. coveiro. A romaria eterna dos aflitos.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . Dos romeiros saudosos da desgraça.TEMPOS IDOS Não enterres. dos proscritos. . Eu vivo dessas crenças que passaram. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. porém. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. Tem pena dessas cinzas que ficaram. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. o meu Passado. lânguida e bela. além.Quero abraçar o meu passado morto. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . . A procissão dos tristes. Vai Corina mendiga e esfarrapada. E na choça a lamúria que traspassa O coração. Entre todos.

ADEUS. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Hermeto Lima Adeus. Sulcando o espaço. adeus! E. Saí deixando morta a minha amada. devassando a terra. Cheia da luz do cintilar de um astro. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. suspirando. 90 . Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. Fitando o abismo sepulcral dos mares. É como um despertar de estranho mito. Voa.eu disse. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. ADEUS. adeus. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. se eleva em busca do infinito. Auroreando a humana consciência. Perto. Vencendo o azul que ante si s’erguera. ADEUS! E. apenas restam mágoas. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava.

onde não pousa a desventura. Viu o adeus que do Céu ela enviava. triste.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. com ela Negras sombras também foram chegando. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. E eu disse . Mas a noute chegou. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A.LIRIAL Por que choras assim. .A sombra deste afeto estiolado. Minh’alma que de longe a acompanhava. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . tristonho lírio. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Envolto da tristeza no delírio. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Disse. Estrela esmaecida do Martírio. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa.Vai-te. Lá onde nunca chegue esta saudade. irmã pálida da Aurora.

Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso.o criminoso . isento de pecado. o olhar enlanguescido. E dos lábios de Dulce cai um beijo. E na atitude do Crucificado. O olhar azul pregado n’amplidão. e eu gemo o último harpejo. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. A praça estava cheia. E todo o dia eu vou como um perdido De dor.e estertorada A minha voz soluça num gemido. E eu balbucio trêmula balada: . E ela fita-me. o algoz . perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. Estendo à Dulce a mão. Puro de crime.então. a minha bem amada. Depois. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola.. 92 . a fé perdida. Pedir a Dulce. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Vítima augusta de indelével falso. A esmola dum carinho apetecido. perdão.. por entre a dolorosa estrada. Morre-me a voz.Senhora. dai-me u’a esmola .A PRAÇA ESTAVA CHEIA.

E as trevas moram. acolhe-me N’asa da Morte redentora. assassino. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses.crença Perdida . Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres... E hás de tombar um dia em mágoas lentas.. ave negra da Desgraça. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. acolhe-me. obumbra-me em teu seio.. e. Há perfumes d’amor .AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Gênio das trevas lúgubres. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. Num desespero rábido. onde d’água raso O olhar não trago. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.segue a trilha que te traça O Destino. Empenhada na sanha dos abutres. Lá.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.

sem nenhuma Nuvem sequer. num mar de esp’rança. só descanta. Abismados na bruma enegrecida.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Que o guia e o leva ao porto da bonança. então. dentre a escura Treva do oceano. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Que o céu reflete. e a alma é a Flâmula do sonho. O MAR O mar é triste como um cemitério. Banhando a fria solidão das fragas. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Quando vos vejo. a vida é qual risonho Batel. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Treme na treva a púrpura da tarde. Mas quando o céu é límpido. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Os nimbos das procelas desta vida. Reflete a luz do sol que já não arde. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . sem bruma Que a transparência tolde. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza.

O grande Sol de afeto . foge . Adeus oh! Dia escuro. FOGE! Aurora morta. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora..eu busco a virgem loura! Pau d’Arco .) Nessas paragens desoladas.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Aurora morta. Hoje é trevas. é desengano. Agora. agita as tuas asas.. oh! Minha Mágoa. E eu ergo preces que ninguém responde. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Anseios d’alma aqui se perdem. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. o meu único Norte. meu Futuro..1902 AURORA MORTA.o Sol que as almas doura! Fugiu. quem dera Voar est’alma a ti. Ascende à Claridade. Dia do meu Passado! Irrompe. é dor. Cantarias do amor a primavera. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. e em si a Luz consoladora Do amor . Nem vibra a corda que a saudade esconde. lá nos espaços.1902 95 . Triste criança virginal.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco .

Pendem e caem . e. Chora a corrente múrmura. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. E há.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. ao luar. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. entretanto. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . despertando sonhos..a Louca tenebrosa. No alto. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Bendito o riso assim que se desata . Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. Ah! num delíquio de ventura louca. emergindo às trevas que a negrejam.. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Quando. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .NO CAMPO Tarde.1902 96 .Cítara suave dos apaixonados. Branca. à dolente Unção da noute. as águas límpidas alvejam Com cristais. chorando enfloram. nitente. no teu riso de anjos encantados. Sonorizando os sonhos já passados.

CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Eu. se duas eu tivera. Flor dos mistérios d'alma. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. sacrossantos. E a lua é como um pálido sacrário. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. Pau d'Arco -1902. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. que a virgem chora. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. noctâmbulo da Dor e da Saudade. toda a cálida Mística essência desse alampadário. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. virginais aromas De essência estranha. Derramam a urna dum perfume vário. P'ra desvendar os seus segredos santos. é como os prantos Níveos. eterna noctâmbula do Amor. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Também envolta num sudário — a Dor. Ah! como a branca e merencórea lua. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. 97 . Se evolarn castos.

Teu canto.. soluças. a lua é triste e calma. Tanto que cantas. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. sonhar novas idades. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Um dia morto da Ilusão às bordas. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . pompeia a luz da branca aurora. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. vindo de profundas fráguas. . Ali. Tanto que gemes. Quando alta noute.. bandolim do Fado. Que desespero insano me apavora! Aqui.Quero partir em busca do Passado. e ilusões acordas. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. E vais aos poucos soluçando mágoas. Choras.Quero Correr em busca do Futuro. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . chora um ocaso sepultado.

também ria! 99 . cindindo os céus risonhos. E.. Na etérea limpidez de um sonho branco. e como Lúcia. mas eis que neste enleio. Caíste morta ao celestial preceito. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. E Lúcia disse à bruma lutulenta: .ARA MALDITA Como um'ave. Fulgia a bruma para sempre.Foge. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. grave e lenta. tu vinhas a cindir os ares. qual hóstia. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. E beijei-te. Quiseste-me beijar a ara do peito. Tocando n'ara negra o níveo seio. NA ETÉREA LIMPIDEZ. O céu tremia em seu trevoso flanco. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. E eu quis beijar-te o lábio redolente.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. à voz de Lúcia. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. caindo dos altares. Meiga. E eu vi os seios teus virem inconhos . O sol. alegre e rubro. agora. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta..

o círio Da Quimera Falaz. a Virgem Mãe dos céus escampos. o Mundo se concentre. E em mim como no Templo. Diluis teu peito em sensações profundas. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . urnas de Sonho. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. E a rasgar. eis que emerges. a rasgar o lúrido sacrário. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . E a lua. Nua.A colunata êxul do Sonho Morto . às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. Que beija a terra e que abençoa os campos. e. E. Longe das sombras aurorais e amadas. ao ver-te nua. Sentes o peito em ânsias revoltadas. e. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. o túmulo da Crença.ei-lo que avisto. Flores mortas da Aurora. em bando. ante o branco estendal das madrugadas. Que. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Agora. luminosa. em banho ideal de amor te inundas. Mas. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas.

o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. . formosa entre as formosas.Fúlgido foco de escaldantes brasas .A PESTE Filha da raiva de Jeová .. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. entre esplendores.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. A alma diluída em eterais cismares. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. semeando a Morte... Como o Cristo sagrado dos altares.. ela. enquanto Vai devastando o coração das casas.É o castigo de Deus que passa mudo! . Colmado o seio de virentes flores. tudo! Quando Ela passa. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. 101 . Embaladas no albor da adolescência. Todos dizem co'os olhos para a Sorte ..a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.O sol a segue. como o sol . Quero-te assim . tudo chora. formosa.. e a Peste ri-se. Etéreo como as Wilis vaporosas. Plena de graça.

Eu venho arrependido.Irei agora. Açucena de Deus.... . insânia.. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. pois. meu anjo. E para mim. assim.. a teus pés..Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho.... E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. insânia. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . penseroso e pasmo.CÍTARA MÍSTICA Cantas. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. pátria da Aurora exilada do Sonho! . perdoa o teu vencido. Chegou a Noite. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. o meu Sonho morreu! Perdão.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. Como o santo levita dos Martírios. ah! ninguém me responde. eis-me a teus pés. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. pelo mundo.

que da Desgraça veio Maldito seja. Em ânsia de repouso. Mas. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. porém. Por um Cocito ardente e luxurioso. Da Messalina fria no regaço. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . . Banhou-me o peito... e. Turificando a languidez dum seio! O amor..Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. supremos. no Inferno do Gozo. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Onde nunca gemeu o humano passo. sem Calvário.. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira.

. a noute é tumbal.. eu que te almejo.. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. lá dos braços hercúleos.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. também da Dor.. e a saudade da infância.. Sombra de gelo que me apaga a febre. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta.. Como um'alma de mãe. Ah! que um dia da Vida... E vi-te triste. E estavas morta. a sós. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. estes dardos acúleos Caíam. .. eu vi.. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. ...SOMBRA IMORTAL .Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. desvalida e nua! E o olhar perdi. mulher.E tu velas. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.

Choras. Pérolas e ouro pela serrania. tu. Bendita a Santa do Carinho. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 .. Alva d'aurora. te acolheu a mata. e no Santo harpejo.. virginal. Que canto é este. ajoelhando à imagem do Carinho.. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.... E um canto vai morrer no vale fundo. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . Branca bem como empalecido arminho. no negror me abrasa.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL... Chegaste.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. entanto. e é noute de fatais abrolhos. profundo?! Rumores santos. Somente tristes os teus olhos vejo. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. Alvorejando em arrebol de prata. o seio branco. O roble altivo entreteceu4e um ninho. inata! E. chegando. Que luz é esta que das brumas vasa. e. Uma pantera foi se ajoelhando..

cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa... e lânguida. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Fria como um crepúsculo da Judéia. mórbidos encantos. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. no Alto. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos..PELO MUNDO Ânsias que pungem. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. 106 . Já Vésper. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Triste como um soluço de Dalila. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila.. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros.

Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. coração. No ar.. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .. clown da Sorte .Ele. Na Via-Látea fria do Nirvana. QUERIDA! Vamos. os gaturamos Num recesso de névoa.quem mede-o?! . saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.A hora dos tristes e dos descontentes.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. querida! Já é Ave-Maria . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Riso.o voltairesco clown .. adormecida.O RISO "Ri. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . e a todo o seu assédio.. sonolento e tardo. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. que ao frio alvor da Mágoa Humana.Fogo sagrado nos festins da Morte . Silfos morriam.Eterno fogo.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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.) Chove. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 .. Vibra.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão.. Saio de casa.. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. Os ventos. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. De encontro ás torres e de encontro aos muros. mas meus movimentos Susto. A incandescência irial dos candelabros. violentos. Os passos mal seguros Trêmulo movo. diante do vulto dos conventos. vão bater. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. Desencadeados. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Negro. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. E em meio ás refrações verdes e hialinas. batendo em todas as retinas. LÁ FORA.. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer.. Surge agora a Lua. NOTURNO (CHOVE. O dia Foge.

E hoje.. poetas.. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.. os vermes vis. Que há muito tempo não cantava lá. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. outono. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. inverno! 113 . Primavera.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.. Já que perdi a última batalha! E.. verão. enquanto o Tédio a carne me trabalha.. Diluiu o silêncio em litanias. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões.. .

Pare chorando nesta Terra Santa. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra.. Gemem poetas . e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. enxuta A face. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. Carpem na sombra pássaros ascetas. . e quando passa. ela.A DOR Chama-se a Dor. Ela. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. Aqui é o Campo-Santo.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. E se cantar como a Saudade canta. enxuto o olhar. ao noturno açoute.. onde. abraçado às campas dos poetas. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada.pássaros da Noute! 114 . e o travo há de sentir. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. inda altiva.

e por fim. a crença e o amor. nada há que o abata e o vença! Por isso. eu penso na Ventura! E o pensamento. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. e morrem os vermes que o consomem. Vence. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas.O SONHO. Luta. A CRENÇA E O AMOR O sonho. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. surjam tédios na Descrença. assomem Descrenças. poeta. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. o sonho. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . na Suprema Altura Sinto.

O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. De que te serviu. por fim. profundo.PARA QUEM TEM NA VIDA. Foi-te mister sondar a substância das cousas . Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.... auríferos tesouros. e.Construíste de ilusões um mundo diferente. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade.. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.. para penetrar o mistério das lousas. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . Feito no decurso de dois minutos... Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.. pois. nada achaste. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. por fim. estudares. Tesouros reais.

E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.. no entanto. dois gigantes mudos.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . ela subiu. São dois colossos. Embora oculta. em ânsias..santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te... Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.O NEGRO Oh! Negro. . o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. . Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido...as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .

Nisto. como eu. como eu..Quer fugir. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. Daí a pouco.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. .. Mas eu não contarei nunca a ninguém. Quantos também.Se ao menos voasse! .. Saiu. O Sol ardia.Era o suplício!. ela seria morta. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. Trás de mim. .Novo Sileno. ira-o morrer também. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava .. ouve o canto aziago da coruja! ..em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava.E o horror começa! Rasga As vestes.. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 .. ver Se nesta ânsia suprema de beber. Implora a Deus como a um fetiche vago. na atra estrada que trilhei. e não vê por onde fuja. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! .. Buscava Em verdes nuanças de miragens. quantos também deixei. foram buscar a Glória E que.

Continua a cantar.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. vivia. pressentindo a lousa. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes.. a alma serena.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.. Mas.... de repente. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho." Pau d'Arco -1905 119 .. Por isso... diz ao povo: "É pena! . ele a morrer. E afora disto. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. Não há quem nele um só tremor denote! .Foi saudade? Foi dor? .Aqui ainda havia alguma cousa. Sei que na infância nunca tive auroras. Olha essa neve pura! . Assim como uma casa abandonada. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste..

Dizes Tudo que sentes. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. o vulto ia a meu lado E desde então. . em Tebas . não andei mais sozinho! Abraçou-me. E eu me elevava. E. Não mentes. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 .. persuadido fica do que diz.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. A múmia de um herói do tempo de Ísis. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. Bem como tu... que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. Para onde eu ia.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz.. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim.. Diz que ele não morreu.. Da tribo alegre que povoa os ares.. diz que ele é vivo. inda com o braço altivo..a tumbal cidade. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.

por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. Nada se altere em sua marcha infinda .E apesar disto. A percorrer desertos e desertos. onde. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. assombrado.O tamarindo reverdeça ainda. Saiu aos tombos. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. de saudades me despedaçando De novo.. amigos. A lua continue sempre a nascer! 121 .NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. Existo! . morrer. E. aos tropeços.. assim como o de Jesus Cristo. quando Eu. Por toda a parte. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. Teve sede e fome. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. antes de viver! Meu corpo. à tarde. com medo do Infinito. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. ia. assim. como um cão covarde.... triste e sem cantar. pois..

.A LÁGRIMA . . Ah! Basta isto.O farmacêutico me obtemperou. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.. água e albumina.

. E é de mim que decorrem. A podridão me serve de Evangelho. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. Pólipo de recônditas reentrâncias. simultâneas. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. procedo Da escuridão do cósmico segredo. sem bramânicas tesouras. Não conheço o acidente da Senectus -. Em minha ignota mônada. Como um dorso de azêmola passiva.. possuo uma arma -. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana..Esta universitária sanguessuga Que produz. 123 . Amo o esterco. Amarguradamente se me antolha. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. ampla. sem dispêndio algum de vírus. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Larva de caos telúrico. vibra A alma dos movimentos rotatórios.... os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha.O metafisicismo de Abidarma -E trago.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Do cosmopolitismo das moneras. À luz do americano plenilúnio.

Raio X. O horror dessa mecânica nefasta. o Homem. já nos últimos momentos. 124 . E apenas encontrou na idéia gasta. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. a coçar chagas plebéias. Fonte de repulsões e de prazeres. Como quem se submete a uma charqueada. Que. causa ubíqua de gozo. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Ao clarão tropical da luz danada. Quimiotaxia. Sonoridade potencial dos seres. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. a boca. -. iguais a fogos passageiros. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. A vida fenomênica das Formas. amanhã. Aí vem sujo. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Com a cara hirta.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. luzem. ondulação aérea. abdômen. magnetismo misterioso. O espólio dos seus dedos peçonhentos. quebrando estéreis normas. em síntese. O coração. bestas agrestes.

Brancas bacantes bêbadas o beijam. Suas artérias hírcicas latejam. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. à noite. E após tantas vigílias. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. E até os membros da família engulham. consumir-se. pelos cenóbios?!.. o monstro as vítimas aguarda.. Como no babilônico sansara . vai gozar. No sombrio bazer domeretrício. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. fazendo um s. Sentindo o odor das carnações abstêmias..A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Do seu zooplasma ofídico resulta. ébrio de vício.. No horror de sua anômala nevrose. Uivando. Num suicídio graduado.. brincam. igual à luz que o ar acomete. Negra paixão congênita. Sôfrego. Como que. Numa glutonaria hedionda. E à noite. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo.. Toda a sensualidade da simbiose. em lúbricos arroubos. E explode. 125 . À guisa de um faquir.. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. em suas clélulas vilíssimas.. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. bastarda.

Reconhecendo. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . As alucinações tácteis pululam. em rembrandtescas telas várias. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. quando a noite avança. esculpindo a humana mágoa. Abranda as rochas rígidas. Mas muitas vezes. se estende Dentro da noite má. Quando o prazer barbaramente a ataca.Macbeths da patológica vigília.. Assim também.. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Hirto.. Numa coreografia de danados. Mostrando. E de su’alma na caverna escura. observa a ciência crua. Acorda. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. bêbedo de sono.. A família alarmada dos remorsos. A asa negra das moscas o horroriza.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Sente que megatérios o estrangulam. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. com os candeeiros apagados. Somente a Arte. Essa necessidade de horroroso. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Na própria ânsia dionísica do gozo. Que tateando nas tênebras.

Julgava ouvir monótonas corujas. Há-de ferir-me as auditivas portas. Executando. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo.. Na produção do sangue humano imenso. Continua o martírio das criaturas: -. entre daveiras sujas. em suas bases.E reduz. -.. sem que. a desintegre. E.O homicídio nas vielas mais escuras. Era a canção da Natureza exausta. entanto. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. ouvindo estes vocábulos. -. Prostituído talvez. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Da luz da lua aos pálidos venábulos. À condição de uma planície alegre. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. até que minha efêmera cabeça.

discutindo. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Embaixo. Dorme soturna a natureza sábia.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito.. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia.. conversando. Num quiosque em festa alegre turba grita. um saltimbanco da Ásia. O céu claro e produndo Fulgura. exposto ao luar. Vaga no espaço um silfo solitário.. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. das pirâmides o quedo E atro perfil. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Resplandece a celeste superfície. Apenas como um velho stradivário. Convulso e roto. O Cairo é de uma formosura arcaica. A Lua cheia Está sinistra. Os mastins negros vão ladrando à lua. no apogeu da fúria. A rua é triste.. Tonto do vinho.. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. na mais próxima planície. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres..

e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. então. Mas.. A ponte era comprida. de asfalto rijo. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Lembro-me bem. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Apregoando e alardeando a cor nojenta. 129 .. Livres de microscópios e escalpelos. E a minha sombra enorme enchia a ponte. indo em direção à casa do Agra. Pensava no Destino.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Ponte Buarque de Macedo. Fazendo à noite os homens do Futuro. Assombrado com a minha sombra magra. A matilha espantada dos instintos! Era como se. O calçamento Sáxeo. Uivava dentro do eu . E aprofundando o raciocínio obscuro. O trabalho genésico dos sexos. na alma da cidade. Eu. Atravessando uma estação deserta. Eu vi. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Copiava a polidez de um crânio alvo. Profundamente lúbrica e revolta. atro e vidrento. parodiando saraus cínicos. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Mostrando as carnes. com a boca aberta. à luz de áureos reflexos. Dançavam. a irritar-me os globos oculares.

ainda na placenta. E. 130 .Fetos magros. na ígnea crosta do Cruzeiro. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. como um réu confesso. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. pelo menos. Ah! Com certeza. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Ninguém compreendia o meu soluço. É bem possível que eu umdia cegue. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Deus me castigava! Por toda a parte. No ardor desta letal tórrida zona. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária.

Que eu. para não cuspir por toda a parte. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Benditas sejam todas essas glândulas. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Não! Não era o meu cuspo. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. aos poucos. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. cujas caudais meus beiços regam. quotidianamente. cinco. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. de tal arte. Na ascensão barométrica da calma. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Arrebatada pelos aneurismas. ansiado e contrafeito. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Ia engolindo. quatro. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. estranha. 131 . à guisa de ácido resíduo. três. Que.E até ao fim. Eu bem sabia. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Sob a forma de mínimas camândulas. em minha boca.

Buscando uma taverna que os açoite. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. lembrava ante o meu rosto. a espiar-me. estava ali. de certo. Ninguém. A companhia dos ladrões da noite. E o luar. Siva e Arimã. sem pudicícia. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . os duendes. então.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Davam pancadas no adro das igrejas. Vai pela escuridão pensando crimes. para hipnotizar-me! Em tudo. ali posto De propósito. Com a força visualística do lince. da cor de um doente de icterícia. Livres do acre fedor das carnes mortas. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Mas um lampião. maior talvez que Vinci. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. A camisa vermelha dos incestos. Perpetravam-se os atos mais funestos. Um sugestionador olho. Nessa hora de monólogos sublimes. o In e os trasgos. Rodopiavam. com as brancas tíbias tortas. Imitando o barulho dos engasgos. Iluminava. À anatomia mínima da caspa. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. a rir.

distingo-a. A pedra dura. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Na atra dissoluçào que tudo inverte. 133 . Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. E a palavra embrulhar-se na laringe. Cansados de viver na paz de Buda. em que. Todos os personagens da tragédia. e vence-O. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. E o meu sonho crescia nosilâncio. Como bolhas febris de água.

Iam depois dormir nos lupanares Onde. Aquela humanidade parasita. aflita. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Os bêbedos alvares que me olhavam. na glória da concupiscência. Como um bicho inferior. refletindo. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Fabricavam destarte os bastodermas.A planta que a canícula ígnea torra. sobre o meu caso Vi que. 134 . Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Um conjunto de gosmas amarelas. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . na dor forte do vômito. No meu temperamento de covarde! Mas. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. a sós. berrava. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. igual a um amniota subterrâneo. E apesar de já não ser assim tão tarde.

Minha morada equilibrada e firme! Nisto. Forma difusa da matéria embele. o eco particular do meu Destino. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. embora o homem te aceite.e. nas catedrais mais ricas. Rolam sem eficácia os amuletos. Ao pensar nas pessoas que perdera. 135 . por tua causa. num fundo de caverna. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. numa ânsia rara. pior que o remorso do assassino. tal qual. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Nessas perquisições que não têm pausa. ponto final da última cena. a morte é ingrata. Numa impressionadora voz interna.Prostituição ou outro qualquer nome. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Fazer da parte abstrada do Universo. como um cordão. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Minha filosofia te repele. em tudo imerso... Reboou.

sondas A estéril terra. A formação molecular da mirra. Trazes. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. para que a Dor perscrutes. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. E se. e a hialina lâmpada oca. se divide. Mesmo ainda assim. por vezes. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. o cordeiro simbólico da Páscoa. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. 136 . antes Fosses.Jamais. estriada. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. em síntese. a refletir teus semelhantes. fora Mister que. não como és. magro homem. espirra. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. com a bronca enxada árdega. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado.

O antagonismo de Tífon e Osíris. 137 . O fogão apagado de uma casa. O tecido da roupa que se gasta. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. -. as nódoas mais espessas.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. Deixa os homens deitados. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. O achatamento ignóbil das cabeças. abalando os solos. As pálpebras inchadas na vigília. Onde morreu o chefe da família. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. Que ainda degrada os povos hotentotes. a fera ultriz que o fojo Entra. Os terremotos que. Lembram paióis de pólvora explodindo. O Amor e a Fome. A cristalização da massa térrea. Como uma pincelada rembrandtesca. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. Na sangueira concreta dos massacres. A mentira meteórica do arco-íris. As aves moças que perderam a asa.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. As projeções flamívomas que ofuscam. à espera que a mansa vítima o entre. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. sem mortalha.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. A Paraíba indígena se lava! A manga. de errante rio. magnânima e magnífica. Em cuja álgida unção. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. a ameixa.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. Além jazia os pés da serra. a abóbora. Criando as superstições de minha terra. como as ervas. o urro Reboava. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. a amêndoa. Benigna água. No Alto. satisfeito. Apenas eu compreendo. alto e hórrido. 143 . A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. Meu ser estacionava. branda e beatífica. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. olhando os campos Circunjacentes. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. em quaisquer horas. sobre as hortas.

dores não recebem.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Adivinhando o frio que há nas lousas. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. como inúmeros soldados. aos bocados. os micróbios assanhados Passearem. a existência Numa bacia autômata de barro. Um português cansado e incompreensível. Cortanto as raízes do último vocábulo. Vômitos impregnados de ptialina. entre estrépitos e estouros. adstritos ao quimiotropismo Erótico. OH! desespero das pessoas tísicas. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. 144 . por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Estas não cospem sangue. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Alucinado. Restos repugnantíssimos de bílis. O ruído de uma tosse hereditária. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Reboando pelos séculos vindouros. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava.

hoje. Consoante a minha concepção vesânica. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. naquele instante. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Onde a Resignação os braços cruza. Pelas algentes Ruas. magras mulheres. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. a água. com o vexame de uma fusa. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. com efeito. resfriando-vos o rosto. Saía. me acorda. Nos ardores danados da febre hética. A mágoa gaguejada de um cretino. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. em sonhos mórbidos. 145 . Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. no Amazonas. É a alfândega. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover.

. E agora. acordando na desgraça. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. por fim. Recebeu. caladas. Desterrado na sua própria terra. sem difíceis nuanças dúbias.Fedia. Com uma clarividência aterradora. 146 . espantada. adstrito à étnica escória. Jazem. todas as inúbias. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra.. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Na tumba de Iracema!. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. tendo o horror no rosto impresso. entregue a vísceras glutonas. A carcaça esquecida de um selvagem.. como um lúgubre ciclone.. De repente. Ah! Tudo. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. diante a xantocróide raça loura. Viu toda a podridão de sua raça. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. A civilização entrou na taba Em que ele estava.

ex. No horror daquela noite monstruosa.: o homem e o ofídio. rolando sobre o lixo. 147 . Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. A peçonha inicial de onde nascemos. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. roído pelos medos. E eu. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. Todos os vocativos dos blasfemos. Maldiziam. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. com voz estentorosa. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser.

como Cristo. Sem diferenciação de espécie alguma. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. na terráquea superfície. cansado. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. o anelo instável De. porém. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã.E. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Consubstanciar-me todo com a imundície. Eu voltarei. 148 . veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . como um homem doido que se enforca. às vezes. Anelava ficar um dia. Tentava. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. por epigênese. em suma. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. perante a cova. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Reduzido à plastídula homogênea.

Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. derreada de cansaço. As prostitutas. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. e as mãos. entre oscilantes chamas.. até que. virgem fostes. vítima última da insânia. e. no horizonte.. ignóbil. agora.. embalde. a saraiva Caindo. Mas. com violência. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. Se extenuavam nas camas. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. De certo. Quase que escangalhada pelo vício.. Nem tínheis. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. alva. Estendestes ao mundo. quando o éreis.. Uma. para além.. à-toa. análoga era. 149 . doentes de hematúria. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Acordavam os bairros da luxúria.

150 . na craniana caixa tosca. argots e aljâmias. inquieto. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. eu. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. E estais velha! -. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Como quem nada encontra que o perturbe.De vós o mundo é farto. Eu pensava nas coisas que perecem. porém. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Como uma associação de monopólio. A racionalidade dessa mosca. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. E hoje. no chão frio da igreja. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. A consciência terrível desse inseto! Regougando. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. Sentia. que a sociedade vos enxota.

Dá-me a impressão de um boulevard que fede. roubada à humana coorte Morre de fome. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. Vem para aqui. com o ar de quem empesta. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. escorraçando a festa. palpável. E o cemitério. estriges voam. Rugindo fundamente nos neurônios. E a ébria turba que escaras sujas masca. Apareceu. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca.A estática fatal das paixões cegas. Sem ter. como Ugolino. sobre a palha espessa. de repente. Já podre. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho.Aquilo era uma negra eucaristia. Absorvia com gáudio absinto. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Mas. nos braços de um canalha 151 . Quanta gente. Pela degradação dos que o povoam. O fácies do morfético assombrava! -. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. em que eu entrei adrede. À falta idiossincrásica de escrúpulo. após baixar ao caos budista. assim inchado. nesta hora. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas.

Na impaciência do estômago vazio. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. como quem salta. entre fardos. Num prato de hospital. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Ao pegar num milhão de miolos gastos. cheio de vermes. Comendo carne humana. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Pisando. a camisa suada. ao clarão de alguns archotes. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. a alma aos arrancos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. À sodomia indigna dos moscardos. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. iguais a irmãs de caridade. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Vendo passar com as túnicas obscuras.

Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. após a noite de seis meses. às vezes. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. em vez de hiena ou lagarta. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. E eis-me a absorver a luz de fora. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Como o íncola do pólo ártico. Os raios caloríficos da aurora. Uma sobrevivência de Sidarta. De quem possui um sol dentro de casa. Absorve. O benefício de uma cova fresca. Dentro da filogênese moderna. Manhã. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. No céu calamitoso de vingança Desagregava. No frio matador das madrugadas. trazendo-me ao sol claro.Como indenização dos meus serviços. Proporcionando-me o prazer inédito. déspota e sem normas. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera.

a meu ver. com os pés atolados no Nirvana. com um prazer secreto. Acompanhava. em colônias fluídas. Igual a um parto. A gestação daquele grande feto. oh! Morte. Hirto de espanto.. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 .A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Vinha da original treva noturna. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto.. entanto. em vão teu ódio exerces! Mas. tudo a extenuar-se Estava. O Espaço abstrato que não morre Cansara.. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. corre. numa furna. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. O ar que. Eu sentia nascer-me n’alma.. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos.

têm carne. E agora.. amigo.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Ai! Como Os que. É a hora De comer. Como! E pois que a Razão me não reprime. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Antegozando a ensangüentada presa. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!.. como eu. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta.. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Apenas com uma diferença triste. bela como um brinco. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova.. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Coisa hedionda! Corro. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Rodeado pelas moscas repugnantes. não existes mais! 155 .

Há de crescer. que te esgotou as pomas. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. E o antigo leão. Clara. entre dores. Relembrarás chorando o que eu te disse. O Sol virá das épocas sadias. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. sujo de sangue. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Assim..MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. comparo. oh! Mãe. haurindo amplo deleite. nas vitrinas. quanto a mim. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Do que essa pequenina sanguessuga.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. a atmosfera se encherá de aromas. sem pretensões. à amostra. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. No lábio róseo a grande teta farta -.. um novo Ser.

com que guarda meus sapatos. haurindo o tépido ar sereno.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. eu vivo pelos matos. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. numa ininterrupta Adesão. Os pães -. Beber a acre e estagnada água do charco. roendo a substância córnea de unha. maior do que Laplace. também gira e redemoinham. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 .. nos fortes fulcros.. Por causa disto. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. as tesouras Brônzeas. mordendo glabros talos. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Magro.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Tais quais. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco.

e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Com a flexibilidade de um molusco. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. E eu vou andando. apalpa a úlcera cancerosa.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. goza O lodo. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. cheio de chamusco. Úmido. Dorme num leito de feridas. Beija a peçonha. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. no agudo grau da última crise.

quero. em vez do nome -. bolem Nas árvores.Augusto . Em grandes semicírculos aduncos. Eu. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. salta.. corte.. A câmara nupcial de cada ovário Se abre.. largando pêlos. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. no árdego trabalho. fustigue. morda!. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. Nos terrenos baixos. Entrançados.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. depois de tanta Tristeza. O ar cheira. De árvore em árvore e de galho em galho.. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto.. A terra cheira. No chão coleia a lagartixa.. queime. depois de morrer. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . Os ventos vagabundos batem. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. pelo ar. Com a rapidez duma semicolcheia.

Pintam caretas verdes nas taperas. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. como exóticos pintores. sem conchego nobre. batendo a cauda. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Aqui. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. outrora. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Urram os bois. Trôpega e antiga. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. O aziago ar morto a morte Fede. em vez de flores. À dura luz do sol resplandecente. Por saibros e por cem côncavos vales. Une todas as coisas do Universo! 160 . O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Quantas flores! Agora. Amontoadas em grossos feixes rijos. Na bruta dispersão de vítreos cacos. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Os musgos. Como pela avenida das Mappales. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Como um anel enorme de aliança. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Nédios. dos esconderijos. As lagartixas. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Viveu.

da mesma forma que o homem morre. arrebentando a horrenda calma.E assim pensando. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha.. De pé. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. A lamparina quando falta o azeite Morre.. Que por vezes me absorve. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. à luz da consciência infame. Só. aqui. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. é o óbolo obscuro. Julgo ver este Espírito sublime. Grito.. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. À carbonização dos próprios ossos! 161 .. sem pai que me ame.. como quem raspa a sarna. com a misericórdia de um tijolo!.. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. Súbito. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime.

a âmbulas moles. a arquivar credos desfeitos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. espremendo os peitos. de cabelos ruivos. Sente. Lúbrica. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. em contorções sombrias. O Vício estruge. recebe. como o estepe. Bramando. através os meus sentidos. hórridos uivos Na mesma esteira pública. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. Com as mãos chagadas. funcionária dos instintos. hirta. alta noite. Espicaça-a a ignomínia. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. à luz do olhar protervo. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. por fim. E a mulher. à lua. Entre farraparias e esplendores. Reduzidos. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. ébria e lasciva. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. em coréas doudas. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. urna de ovos mortos. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. 162 ... aliando. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria.

Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . filha do inferno. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. E a Carne que. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. Mais que a vaga incoercível na água oceânea... Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. E a dor profunda da incapacidade Que. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos..Chão de onde unia só planta não rebenta. Ei-la. em cada humana nebulosa. Fulgia.. de bruços. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início.. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido.. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente.. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. já morta essencialmente. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.. É o hino Da matéria incapaz. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Na óptica abreviatura de um reflexo.

. Numa cenografia de diorama.. sonhos de culminância. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 .O atavismo das raças sibaritas. Na homofagia hedionda que o consome. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia... talvez.. Mas que. hírcica.. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. ânsia De perfeição. adstrito a inferior plasma inconsútil. Irradiava-se-lhe. impune.. e a estraga Na delinqüência . A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Saem da infância embrionária e erguem-se. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias.. adultos. decerto. Pudera progredir.. Ficou rolando. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Que..... rubros. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. momentaneamente luz fecunda. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. Libertos da ancestral modorra calma.. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. como aborto inútil. Como o . radiando.

................. .................................................. ............................................................................... oca.................................................................................................................................................... .................................. Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos........... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E............ ................................. 165 ................................ ao trágico ditame.......................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto..Sugando a seiva da árvore a que se une! .................. ......................... ........ condenada..................................................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia......... ................................. ...... ......................... ................. Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto....................................................................................... ..

conheço o seu conteúdo. do egoísta Modo de ver.. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. ilusão treda! O amor. atenta a orelha cauta. é substância fluida. pois. o egoísta amor este é que acinte Amas. o ponto outro de vista Consoante o qual. em ânsias.. observo o amor. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. é como a cana azeda. Pudera eu ter. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . Integralmente desfibrado e mole. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. Cuida. tal como eu o estou amando. É Espírito. A toda a boca que o não prova engana. E hoje que. Oposto ideal ao meu ideal conservas. poeta. enfim. É assim como o ar que a gente pega e cuida. enfim.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. Diverso é. Quis saber que era o amor. eu que idolatro o estudo. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. amo Mas certo. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. oposto a mim. chupo-a. Imponderabilíssima e impalpável. Porque o amor. por experiência. Como Mársias -. Descasco-a. entretanto. provo-a. este o amor não é que. o observas. Para que. é éter. consoante o qual.

contra ele. opresso.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. . Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.. em ânsias. Que importa que.. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. com o seu grande grito. que devia.. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora.. Sem ter uma alma só que me idolatre. Entendi. depois disso.. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.A maldade do mundo é muito grande. a tumbal janela E diz. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. olhando o céu que além se expande: ". trabalhar contente. no quadrilátero da alcova. trágico e maldito. Trabalharei assim dias inteiros.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. abre. 167 . E só. Como Vulcano.. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. os monstros zombeteiros.

sacudindo-o todo.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Sobre a cidade geme a chuva. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Batem-lhe os nervos. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

alto. e absorve em cada viagem Minh’alma -. lhe entregue. Cortanto o melanismo da epiderme. 169 . por ver-vos. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. A essa hora. Que forma a coerência do ser vivo. e erguia.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Recebiam os cuspos do desprezo.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. Como um cara. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. recebendo injúrias. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. Com os ligamentos glóticos precisos. O reino mineral americano Dormia. nas telúrias reservas. íntegra. sob os pés do orgulho humano. E a cimalha minúscula das ervas. num canto de carro. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. oh! céu.Dizia. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. E não haver quem. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. Rua Direita. banhava minhas tíbias.

E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. O vibrião. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. me pediam. com a símplice sarcode. Onde minhas moléculas sofriam. com o ar horrível. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Com a abundância de um geyser deletério.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. em diástoles de guerra. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Pareciam talvez meu epitáfio. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Mais tristes que as elegais de Propércio. Pela alta frieza intrínseca. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. úmida e fresca.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. o ancilóstomo.

Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. e o olhar errante.Um vento frio começou gemendo. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. E pelas catacumbas desprezadas. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Feras rompiam tolos e balseiros. Parou em frente da mesquita morta. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Súbito alguém. Era uma viúva. funeral mesquita.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Mochos vagavam como sentinelas. foi transpondo a porta. dentro. Eternamente aberta ao sol e à chuva. ampla e brilhante. o passo constrangendo. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. A Lua encheu o espaço sem limites E.. Em passo lento. a viúva. .. Uma vez. nos altares esboroados. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite.

No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. E raivosas. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. arremetendo.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. infernais ardendo Todas as feras. Além. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. entretanto. entanto. Fora. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. Morria a noite. E sobre o corpo da viúva exangue. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. contra ela. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. Como uma exposição de carnes vivas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida.

À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.. Atravessando os ares bruscamente... Verde. Rica. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. quem diante duma cordilheira. Qual num sonho arrebatado fosse. no meio. tenho alucinações de toda a sorte.. trêmulo.. 173 . em plena podridão. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. afetando a forma de um losango. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. ostentando amplo floral risonho. exata. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. A saudade interior que há no meu peito.. brilha A árvore da perpétua maravilha. pela vez primeira. Pára. Assim. em luz perpétua... Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos.. Da qual.. entre assombros. num enleio doce. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Na ilha encantada de Cipango tombo. ao sol.

O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Passa o seu enterro!. E finalmente me cobri de flores. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Banhei-me na água de risonhos lagos. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio....... Gozei numa hora séculos de afagos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa...Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. A tarde morre.

O Céu. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. A Lua . choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Quem as esconda.. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue.BARCAROLA Cantam nautas. em lúcido véu. as esconda. esse vai Para o túmulo que o cobre. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . Vagueia um poeta num barco. outro se ergue e sonha. em reflexos. de cima. outro cai. Espelham-se os esplendores Do céu. Se um cai. nas Águas.globo de louça Surgiu. Vai uma onda..

E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. "Mas nunca mais. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . forte. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz.. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo..E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas... porém. "Viajeiro da Extrema-Unção. poeta da Morte!" . Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma...

Como um Tritão. A República rola-lhe nos ombros. Fulgente do valor da vossa glória. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. pois. risonho. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. oh Pátria. E ali do despotismo entre os escombros. .Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. fazei que destes brilhos. Vós. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Caia do santuário lá da História. A Liberdade assoma majestosa. Essa luz etereal bendita e calma. oh! Redentora d'alma. Não! que esse ideal puro. Da República a nova sublimada. Da liberdade ao toque alvissareiro. esplendorosa.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. e. Manchar não pode as aras da República. Oh! Liberdade. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. levando ao mundo inteiro.

.. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. Passa um rebanho de carneiros dóceis. desvairado. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Uma montanha que se desmorona. Na área em que estou. cantam óperas inteiras.Mas hoje.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Estremecendo em suas próprias bases. vendo o horror dos meus destroços. 178 . Além. ao matinal assomo. nas oliveiras. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. à luz das minhas frases. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. Aves de várias cores e de várias Espécies. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. E. O amor reduz-nos a uniformes placas. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo .

e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. Da observação nos elevados montes Prefiro. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. ébria de fumo e de ópio. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. E quando a Dor me dói. à frente dele. Tal qual ela é. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair.. demonstrando-a. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. heroicamente.. à nitidez real dos aspectos. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. sinto um violento Rancor da Vida .

De lá. Muito longe. Passo longos dias. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor.CANTO ÍNTIMO Meu amor. em sonhos erra. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. a esmo. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Que o amor abriu no meu peito. erra. dos grandes espaços. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. em sonhos. se duvidas. olha estas feridas. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Vem cá. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Muito longe.

. triste.. e o sofrimento De minha mocidade. Mas. amor e frio. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. ontem. vendo-a. murmura: . Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. uma nuvem que corre. experimento O mais profundo e abalador atrito. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. oração. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade.Diz e morre-lhe a voz. prece que ainda Entre saudades rezo. num volutuoso assomo. Caminha e vai. Numa prece de amor. Sem um domingo ao menos de repouso. Fazer parar a máquina do instinto. . Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. agonia bendita! . abraça a sombra e. Amor.. escuridão e eterna claridade..Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. agonia! .Misto de infinita mágoa e de crença infinita. numa delícia infinda.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei..CANTO DE AGONIA Agonia de amor. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . quanto mais me desespero. Neve da minha dor. Agonia de amar. o louco. Delícia que ainda gozo. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. Frio que me assassina. a sós.. agonia. agonia. Neve que me embala como um berço divino. neve. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita... neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia.

nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele.. Triste.. A terra escalda: é um forno. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. Mas o braço cansou! Trabalhou. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. oito vezes. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. foi aos poucos se arrastando. funéreo 182 . Por seis horas seu braço empenhado na luta. acende O pó. Fez reboar pelo solo. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto.. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. e o trabalho .. do agro solo. lúgubre e só. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. E em tudo que o rodeava. a superfície bruta. E o Velho veio para o labor cotidiano.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. Rasgando. mordendo a atra terra infecunda.

.. louco. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. pois! Somente morreria Se da Vida. ele pisasse os trilhos. o acalenta. sozinho.. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . bêbado de miragem. onde arde e floresce a Crença. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico.. a rugir-lhe aos pés. a toa. o peito arqueou-se. a flux d'água. a família! Não morreria.. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. E amplo. Nem viu que era chegado o termo da viagem. Num instante viu tudo. o precipício estava.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. flutua! Ninguém o vê. avistando uma frondosa tília Julgou.. e compreendendo tudo.o último esforço. o cansaço Empolgara-o. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. Quis fazer um esforço . o Velho caminhava. e o braço Pendeu exangue. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. e a sonhar.. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. avistar a Árvore da Esperança. era a turba trovadora Que assim cantava. ninguém o acalenta.. os filhos. Caminhava. tombando.

Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme.eis tudo! E no meu peito . E há no meu peito . mudo.. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. volaterizadas.. Negras. rubro.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. Descem os nimbos. Atros. alvas.ocaso nunca visto.. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Na majestade dum condor bendito. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. sangrento O sol. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. e. aos astrais desígnios. fulvos. a Sombra .Asas de corvo pelo coração. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. mudo. ígneo.. dourando as névoas dos espaços. . Subindo á majestade do Infinito. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. pompeiam (triste maldição!) . Raios flamejam e fuzilam ígneos.condensada treva A sombra desce. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. Além. E a Noite emerge. Trazem no peito o branco das manhãs 184 ... luminosas. mudo.

Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. se erguer. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. curvo ao seu destino. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. a Aurora. em plena e fulva reverberação. se. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. se tornassem ferros?! IV Poeta. A Mágoa ferve e estua. Fantástico. entre esplendores. Sírius me deslumbra. de que serve.. III De novo. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. 185 . Vésper me encanta.. como tombou outrora. O leão. como se esses raios N'alma caindo. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. lodo. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. ciclópico. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. Como Herculanum foi após as chamas. o mastodonte. o tigre. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Ah! Como tu. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. ontem moribundo. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. em lodo tudo acaba.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. há-de Alva. assassino Ébrio de fogo.o Sol . se. a lesma. Hoje de novo. em vão na luz do sol te inflamas. A alma se abate. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois.hóstia da Aurora. e hás de ser após as chamas. E corno a Aurora .

Então. banha As serranias duma luz estranha.. pelas penedias.. frias.. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem.Arrasta as almas pela Escuridão. e. E foi deixando essas funéreas. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte... Vésper me encanta. e minh'alma cobre-se de flores . sobe ao pedestal. foi valas funerais deixando. de ilusões te nutres. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Pelos rochedos. pelas escarpas. Canto.. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes.Fera rendida à música divina. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. E arrasta os coraç5es pela Descrença. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. a Lua que no céu se espalha. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. Como recordação da festa diurna. Ergue.. Medonhas valas. Iluminando as serranias. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. onde. Sírius me deslumbra. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. de ossos. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. como abutres Medonhos. pois poeta.

. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.. em mágoa.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. E invejo o sofrimento desta Santa.. 187 . sonâmbulo. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. nos céus altos...INSÔNIA Noite. Depois de embebedado deste vinho. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. triunfalmente.. Mas. sonâmbulo. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. eu também vou passando Sonâmbulo..

. Em que o Tédio. batendo na alma. Agora.. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. os corimbos. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. por exemplo. estronda Como um grande trovão extraordinário. Estou alegre. o funerário. O Sol. As árvores. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 .Vagueio pela Noite decaída. Com o olhar a verde periferia abarco. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. hedionda. Recordam santos nos seus próprios nichos. Aqui. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. as flores. porém. em mágoa imerso. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. neste silêncio e neste mato. equilibrando-se na esfera.. Cercado destas árvores. Atro dragão da escura noite. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera..

certo. por outra. E o que depois fica e depois Resta é um ou. barro. "Miniatura alegórica do chão. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. amorfo e lúrido. Mergulho. Todos os organismos são oriundos. através ovóide e hialino Vidro.Mucosa nojentíssima de pus. síntese má da podridão. Presto. harto.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. a esvaziar báquicos odres: . "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. Olho-o ainda."Cinza. "Onde os ventres maternos ficam podres. é mais de um. aparece. por epigênese geral. e na ínfima ânfora. "Na tua clandestina e erma alma vasta. porque um. os beiços na ânfora ínfima. Risco-o Depois. "Onde nenhuma lâmpada se acende. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . o arquitetural e íntegro aspecto 189 . Olho-o. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. ébrio. irrupto. Dois são. De onde. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo.

em segredo. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. do meu espírito. Move todos os meus nervos vibráteis. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Se escapa. cósmico zero. Vida. muito alto. na terra instável.. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . como nunca outro homem viu. sou eu. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. sois vós.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. Então. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Na síntese acrobática de um salto. que. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. ora. Depois. Em que todos os seres se resolvem! 190 .Do mundo o mesmo inda e. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. o que nele Morre. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. mônada vil. dentre as tênebras. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo.. é o céu abscôndito do Nada. Sob a morfologia de um moinho. sozinho. Migalha de albumina semifluida. é todo aquele Que vem de um ventre inchado.

. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. De onde quimicamente tu derivas. Adeus! Que eu veio enfim..Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . E eis-me outro fósforo a riscar. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.

Amor. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. . e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. Ora.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Retroa o sino. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. E. vezes. 192 . quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. Sinos além bimbalham.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem.. Cantas a Vida que sangrando matas.. chora e se lamenta e vibra. Troa o conúbio dos amores velhos . E em tudo estruge a tua dúlia . desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. ..Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. davas brandindo em seva e insana Fúria.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . medras Nalma de cada virgem. lembras. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.. tangendo tiorbas em volatas.

Irene. Cativo. Entre timbales e anafis estrídulos. eis-me de ti cativo! Cativaste-me.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. ontem.Essa dominação aterradora . quando Entre estrias de estrelas. impassível! Esta de amor ode queixosa. fosforeando. Irene. esse poder terrível. pois. . sonhei-a. beija os áureos pés dos ídolos. Irene. Eis o motivo porque fiz esta ode. aos astros. e eis o motivo. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Assim. 193 . Quedo.

Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. irritado. berrar. Quase com febre. Inopinadamente 194 . Dentro. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. num sardonismo doloroso De ingênita amargura.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. erguido do pó. Trinta e seis graus à sombra. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. bruta. Da qual. E eu nervoso. ao meio-dia. tinir. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza.

em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. A ouvir todo esse cosmos potencial.O ígneo jato vulcânico Que.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. . atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. afinal. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos.

. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Aperta-me em teu peito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. divina. Aperta-me em teu peito. Assim como Jesus.QUADRAS Embala-me em teus braços. Embala-me em teus braços! 196 . oh! morena . De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Morreu-te a redolência. E dá-me assim. perdeste a ciência.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito.. Eu quero o meu Calvário .

.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. através do vidro azul. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.. Aumentam-se-me então os grandes medos. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. e. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. Tenho 300 quilos no epigastro.. A conta recomeço. No bruto horror que me arrebata. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. 3 de maio. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . E aos tombos. quatro. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar.Uma. Vista. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! ... 6.. quando a noite cresce.. em suma. embora a lua o aclare.. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. duas. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. Dói-me a cabeça.ª-feira. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. três. em ânsias: .Uma.

. Súbito me ergo.... Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. . Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos .aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. numa festa.. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. A luz fulge abundante 198 .. E o amontoamento dos lençóis desmancho.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim.Sucede a uma tontura outra tontura. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Meu tormento é infindo.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa.."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram"... O suor me ensopa. Tomba uma torre sobre a minha testa. Ponho o chapéu num gancho. Tal urna planta aquática submersa. A lua é morta. Acho-me. . por exemplo. Mas aquilo mortalhas me recorda. Por muito tempo rolo no tapete. Cinco lençóis balançam numa corda. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.

no ato da entrega Do mato verde. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. longe do pão com que me nutres Nesta hora. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. Côncavo. a terra resfolega Estrumada. Entretanto. numa última cobiça. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. Vários reptis cortam os campos. observa A universal criação. em diâmetro. De mim diverso. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. A ouvir. hierática. Broncos e feios. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . cheia de adubos. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. Babujada por baixos beiços brutos. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. radiante e estriado. No húmus feraz. passei o dia inquieto. feliz. o céu.

a farpas de rochedo Completamente iguais. pituitárias Olfativas. Umas. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. em sangue. a delinqüentes natos. Assinalados pelo mancinismo.. Outras. às da neve. negras. Mãos que adquiriram olhos. E à noite.. tentáculos sutis.. vão cheirar. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. Monstruosíssimas mãos. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. 200 . ás dos cristais. Mãos adúlteras.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. Pertencentes talvez. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela..

Sonho abraçar-te. oh Quimera.. Mas neste sonho. Pareces reviver a antiga Ofélia. Guarda a saudade que levou do Mame. E como um nume de pesar. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.a Carne. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. . Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Rola a violeta santa dos teus olhos . Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria .Tufos de goivo em conchas de esmeralda. pálida camélia. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes.. langue e seminua. Opalescência trágica da lua! Tu. plangente. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 .

com soluços quase humanos. análogo ao peã de márcios brados. No desespero de não serem grandes! 202 . num ruidoso borborinho Bruto. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre... Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. uivando hoffmânnicos dizeres. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Aves com frio. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. na escuridão. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. O feto original. Cruzes na estrada.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. E. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Choravam. era só O ocaso sistemático de pó. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. enquanto eu tropeçava sobre os paus. como num chão profundo. Eu procurava. com uma vela acesa. Convulsionando Céus. Aprazia-me assim.

uma voz 203 . Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Brilhava. com a sidérica lanterna. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. Como o protesto de uma raça invicta. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. frias como lousas. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. perdido no Cosmos. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. vingadora. horrenda e monótona. na ânsia dos párias. me tornara A assembléia belígera malsã. Mas das árvores. ao colher simples gardênia. Noite alta. de onde se vê o Homem de rastros. Fluía. assim.Vinha-me á boca. Maior que o olhar que perseguiu Caim. A abstinência e a luxúria.

isto é. pois. Na prisão milenária dos subsolos. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. do Equador aos pólos. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Porque em todas as coisas. na ânsia cósmica. Rasgando avidamente o húmus malsão. iceberg.Tão grande. arvoredos desterrados. Se hoje.. amanhã píncaros galgas. árvore. tão profunda. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. a espiar enigmas. afinal. em suma. oh! filho dos terráqueos limos. que. obscuro. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. porque. Nós. Para erguer. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. montanha. Rimos. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. diante do Homem. ovário. Tragicamente. com a febre mais bravia. Para esconder-se nessa esfinge grande. enquanto Deus. Não trabalham. Crânio. choramos. entres Na química genésica dos ventres.. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos.

Reproduzida pelos arvoredos! Agora. em destroços. naquela noite de ânsia e inferno.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. desgraçadamente magro. a erguer-me. astro decrépito. alheio ao mundanário ruído. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . a escalar Céus e apogeus. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. Eu fora. A voz cavernosíssima de Deus. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. Eu.

Na ânsia incoercível de roubar a luz.. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. em coalhos. no combate. rolando dos últimos degraus. E muitas vezes a agonia é tanta Que. arrancado das prisões carnais. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. pela boca. Minh'alma sai agoniada. é o prélio enorme. Viver na luz dos astros imortais. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem.. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Para pintá-lo. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. entre estes monstros. quero até rompê-las! Quero. 206 . Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. armado de arcabuz. As minhas roupas.

Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.esta arca. é inútil. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça.. faz mal. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. E é tudo: o pão que como.. é improfícuo. A bênção matutina que recebo. E tombe para sempre nessas lutas. enfim. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. Seja este. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me.. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . a água que bebo. em suma..

. Como que. em trajes pretos e amarelos. sozinho. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. numa cova. a 1 de Janeiro. à meia-noite. Corro... abrindo todos os jazigos. -.. A Morte. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. e a mim pergunto. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. Então meu desvario se renova. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -.. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. ouvindo um grande estrondo. Mas de repente.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho.. Sai para assassinar o mundo inteiro. come. rio Sinistramente. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. na vertigem: -.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.Faminta e atra mulher que. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. estudo. Intimamente sei que não me iludo.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça.

os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. Vi que era pó. acorda em berros Acorda. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. e após gritar a última injúria. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. e de declínio Em declínio.. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. desta cova escura. Tu não és minha mãe. Por tua causa apodreci nas cruzes. que em mim dorme. e quando vi o que era. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Deixa-te estar. Quis ver o que era. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Com as longas fardas rubras. canalha. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. É Sexta-feira Santa.. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Perante a qual meus olhos se extasiam.. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. em grupos prosternados. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod.. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança.. Como as estalactites da caverna. Amarrado no horror de tua rede.. como a gula de uma fera.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Eu desafio. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma.

Como as chagas da morféia O medo. As luzes funerais arquejam fracas. somente eu. Na molécula e no átomo. Roma estremece! Além. Na Eternidade.Um esqueleto. vendo-o. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume.. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. Dentro da igreja de São Pedro. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. e a gente. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema.. quieta. Desperto. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. A desagregação da minha Idéia Aumenta. no ar de minha terra. A árvore dorme Eu.. O vento entoa cânticos de morte.. O céu dorme.

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