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Evolucao Historica Da Producao

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Evolução Histórica da Produção: Compreendendo as Mudanças de Paradigma

José Vicente Bandeira de Mello Cordeiro

1. Introdução
A produção de bens existe desde os primórdios da civilização humana. Ainda na Idade da Pedra o homem iniciou o processo de transformação de materiais utilizando ferramentas precárias encontradas na própria natureza. Entretanto, os primeiros sistemas produtivos realmente organizados para este fim, surgiram de forma simultânea na Suméria (atual Iraque), Egito e outras partes do globo por volta de 3000 a.C.. A partir deste momento, os sistemas de produção desenvolveram-se de maneira constante, sem entretanto apresentar nenhuma ruptura no paradigma produtivo vigente. De uma maneira geral, existiam dois tipos de sistemas produtivos: grandes projetos e produção artesanal. No primeiro tipo, os bens eram produzidos geralmente com o financiamento do estado, e se constituíam em grandes obras em termos de porte e mesmo duração. Desta forma foram produzidas as grandes pirâmides do Egito Antigo e as embarcações sumérias. O segundo tipo, caracterizava-se pela produção de uma maior quantidade de bens, porém de porte muito menor. Estes produtos eram normalmente utensílios para as residências (mobiliário, louças, etc...), armas e material de transporte (rodas, eixos e outras peças para carroças e carruagens). Foi a produção artesanal, iniciada algumas dezenas de séculos antes de Cristo, que manteve sua essência praticamente intacta até o final da Idade Média, quando a expansão do Mercantilismo fez surgir uma nova classe social na Europa, formada por comerciantes dotados de muitos recursos para investir. A atuação destes aprendizes de capitalistas deu origem a primeira grande mudança de paradigma dos sistemas de produção, caracterizada pelo surgimento de fábricas, trabalho assalariado e desprovido de conteúdo. Entretanto, ao contrário do paradigma artesanal, que sobreviveu durante muitas centenas de anos, o paradigma industrial da Produção em Massa vem mostrando sinais de esgotamento em menos de um século de vigência. No seu lugar, surge a chamada sociedade pós-industrial, caracterizada pela uso intensivo do conhecimento e da tecnologia da informação no lugar do capital e dos ativos físicos predominantes na Era Industrial. Neste novo paradigma, o trabalho nas fábricas é novamente enriquecido, os trabalhadores devem ser motivados e qualificados e seu grau de autonomia aumenta de forma significativa. A maioria dos

a concorrência. Além disso. 2. Este artigo pretende mostrar de que forma o setor industrial. mostrando as origens mais remotas do novo paradigma a partir da tentativa de adaptação dos princípios da produção em massa pelos japoneses. o Capítulo 5 apresenta as considerações finais e algumas questões sobre as tendências relacionadas ao futuro dos Sistemas de Produção.especialistas na área vem chamando este novo paradigma industrial de Produção Enxuta. Em seguida. egípcia. o foco deste capítulo será a história recente da Produção Artesanal. concorrência. mercadológicas e tecnológicas aconteciam. mercadológicas e tecnológicas para as respectivas mudanças de paradigma. Entretanto. Por fim. Em seguida. partindo da produção artesanal. em termos de mercado. dividindo-a em diferentes “sub-eras”. O capítulo 4 caracteriza o “Second Industrial Divide”. novamente. o mesmo capítulo caracteriza a Produção em Massa. São detalhadas as mudanças. São apresentadas justificativas econômicas. grega e romana. é feita uma caracterização detalhada de cada um dos paradigmas produtivos. O capítulo 3 caracteriza o “First Industrial Divide”. que sucediam a medida que as mudanças econômicas. usando como exemplo as fábricas de automóveis norteamericanas das décadas de 1950 e 1960. apresentando as mudanças ocorridas na transição da Produção Artesanal para a Produção em Massa. Para cada “sub-era” são caracterizados os mercados consumidores. a organização da produção e a tecnologia empregada. apresenta-se as principais características da Produção Enxuta. Pré Industrialização extensiva – Produção Artesanal Aquilo que costuma-se denominar Produção Artesanal já era a forma predominante de organização da produção desde muitos séculos antes de Cristo. elencando suas principais características e suas diferenças para a Produção em Massa. poucos séculos antes . organização da produção e tecnologia. O sistema baseado no conhecimento técnico e pratico do artesão especializado já era utilizado nas antigas civilizações suméria. O capítulo 2 apresenta a Produção Artesanal de maneira detalhada. converteu-se a Produção em Massa e em seguida vem se convertendo a Produção Enxuta.

províncias e vigários. O sistema administrativo do Império fora substituído pela tradição administrativa da Igreja Católica. as guildas eram responsáveis pela determinação do preço padrão a ser praticado pelos diversos associados. o conhecimento acerca do ofício era transmitido do mestre-artesão para seus aprendizes. Em uma determinada região geográfica. Estas guildas tinham como função preservar os seus associados da concorrência desleal. logo após a queda do Império Romano. que manteve não só muitas praticas dos romanos. aprendizes e diaristas). ii) Sistema Doméstico e iii) Sistema Fabril. por exemplo). Desta forma.1 Sistema Familiar – Era das Corporações O sistema político-social da Idade Média européia era uma evolução natural do sistema predominante na época do Império Romano. responsáveis pela propagação da fé e zelo pela doutrina. denominadas guildas1. Neste caso. membros do clero e outros artesãos. predominava desde os tempos do Império Romano uma estrutura organizacional centrada na figura do mestre-artesão. 2. Esta produção era orientada para o atendimento de um mercado estritamente local. como também o próprio nome das subdivisões territoriais. O preço justo era normalmente calculado tendo como base o custo de matéria-prima e a remuneração dos envolvidos (mestre. formado por nobres.deste sistema perder a hegemonia de sistema predominante para a Produção em Massa. Na prática. uma forte administração central em Roma controlava a distância dioceses. o período coberto por este trabalho será aquele iniciado na Europa da Idade Média. Normalmente. Por este motivo. esta “sub-era” é denominada por muitos de Sistema de Corporações. A partir deste ponto serão caracterizadas três diferentes “sub-eras”. . era comum a formação de associações de artesãos de um mesmo ramo (armas. Desta forma. Esta remuneração deveria ser suficiente para a manutenção das famílias do mestre e seus aprendizes durante o período de tempo 1 Muitos autores classificam as guildas como a primeira forma de coorporativismo empresarial. era comum que uma determinada família e seus descendentes se especializasse na produção de um determinado tipo de bem. normalmente parentes ou agregado deste. No que tange a produção de bens. a produção de um item se dava a partir da encomenda de quem necessitava deste. As oficinas nas quais se dava a produção eram extensões das residências dos mestres-artesãos. quais sejam: i) Sistema Familiar e de Corporações. O preço a ser pago pelos clientes obedecia uma regra denominada “preço-justo”. Desta forma.

predominavam os valores da Igreja Católica. Por trás do enfraquecimento dos senhores feudais e o fortalecimento dos soberanos de países e cidades estados. os capitalistas buscam os agenciadores de matéria-prima como forma de obtê-la de maneira mais rápida e passam a entrega-la às oficinas para sua posterior transformação e produto acabado. pagamento do trabalho dos diaristas e para custear a renovação de ferramentas e a manutenção da oficina. Cada produto encomendado era produzido como único. como os revendedores de bens acabados e os agenciadores de matéria-prima e mão de obra. mecanização ou sistematização. Este produto passa a ser vendido em um mercado que rompe as fronteiras dos antigos feudos. padronização. Em uma mesma região haviam poucas oficinas que produziam itens semelhantes e. Aprendizes e diaristas davam suas opiniões diante de problemas ocorridos no processo produtivo e ajudavam a resolvêlos. sendo o mestre artesão e seus aprendizes responsáveis pela sua execução do início ao final do processo. O conhecimento do mestre tinha base prática e experimental. Desta forma. o processo decisório dentro das oficinas era geralmente coletivo. sem embasamento teórico sólido. Desta forma. predominava a transmissão do conhecimento via treinamento “on the job”. do artesão para os aprendizes. Esta nova classe social tinha sido formada a partir do comércio de especiarias do oriente. passa a predominar a encomenda de produtos pelo intermediário capitalista e não mais pelos seus destinatários finais. Neste momento. O trabalho nas oficinas não possuía qualquer tipo de especialização. estava o poder econômico da burguesia capitalista. na maioria das vezes estas pertenciam a uma mesma família. para a qual o lucro utilizando o trabalho duro de outros era visto como pecado.que durasse o empreendimento. A competição praticamente não existia e a produtividade do trabalho aumentava de maneira lenta com o passar do tempo. o poder de controlar o mercado atribuído as guildas era em parte desnecessário. Aos poucos. O Renascimento e a transição para a Idade Moderna tinham na figura do capitalista mercantil o seu grande motor econômico. mas a partir do século XV passava a atuar também como intermediária comercial em operações relacionadas a produção de bens. Ao final do século XV o sistema familiar ou de corporações sofria um duro choque na maioria da Europa ocidental. De uma maneira geral. Apesar da hierarquia centrada na figura do artesão. O aumento .

A partir daí o capitalista estabelecia prazos para a entrega do produto acabado e pagava a oficina pela transformação do matéria-prima. também chamado de sistema doméstico ou pré-fabril. o capital para o financiamento de novos investimentos ficava mais abundante. surgimento da máquina a vapor trazia uma nova motivação para aqueles que pretendiam viver do comércio de produtos manufaturados. 2. Esta solução iria se mostrar a mais adequada a partir dos fatos novos ocorridos a partir da metade do século XVIII. já predominava na produção da maioria dos utensílios. O mercado alvo para os produtos que os capitalistas compravam das oficinas se expandia de forma progressiva. Apesar da compra de matéria-prima barata e do uso cada vez maior da divisão do trabalho. em pouco tempo vários comerciantes de produtos manufaturados estavam atuando em um determinado mercado. que permitia o aumento do número de diaristas em detrimento dos aprendizes. a produtividade das oficinas não aumentava a contento dos capitalistas. Desta forma.da demanda faz com que comece a existir competição entre diferentes oficinas e o preço pago pelo capitalista aos artesãos pelo produto passa a ser baseado no valor de mercado. fato que comprometia seus lucros. Além disso. Nesta época. e surgiam pressões para queda de preços. A divisão do . A competição se tornava algo real. Este sistema. Muitos deles chegavam a comercializar utensílios manufaturados a várias centenas de quilômetros de distância destas. consistia da entrega de toda a matéria-prima necessária para produção de um lote de bens pelo capitalista ao mestre-artesão. Com isso. numa tentativa de aumentar o controle sobre os trabalhadores. que havia começado no setor têxtil inglês.2 Sistema Doméstico – Era Pré Fabril O interesse dos capitalistas pela produção de bens foi crescendo a medida que o número de comerciantes de especiarias e produtos agrícolas crescia e a concorrência neste setor aumentava. Uma das soluções tentadas por alguns era o estabelecimento da própria oficina. os comerciantes de produtos acabados continuavam sua busca no sentido de aumentar a produtividade do trabalho e desta forma tornarem-se mais competitivos no mercado. o que forçava o capitalista a buscar formas de redução de custo e aumento da produtividade. tem início o segundo período cronológico da Produção Artesanal. Eram freqüentes os atrasos na entrega dos produtos. De qualquer forma. Em pouco tempo. o sistema de “fabricação para fora”.

a têmpera e outras atividades comuns a fabricação de utensílios de metal. Isso motivou muitos capitalistas a adotarem esta solução. parte do trabalho a ser realizado permanecia sob responsabilidade dos artesãos qualificados. O número de trabalhadores desqualificados aumentava de forma crescente nas fábricas. o Sistema Fabril. A esta altura. De uma maneira geral. repetitivas e desprovidas de conteúdo. 2 . De uma maneira geral. pois esta era a única força motriz disponível. sendo comuns jornadas de 14 horas diárias sem intervalo. as condições de trabalho nas fábricas deixavam muito a desejar. já encontravam grande aceitação no meio empresarial. em virtude do surgimento de atividades de curta duração. Estes trabalhadores qualificados eram os únicos que dominavam processos como a conformação de metais. que na verdade eram grandes fábricas. Este grupo era formado pela nobreza e pela burguesia principalmente. Alguns artesãos qualificados também tinham algum poder de compra. muitos produtos industrializados já eram comercializados a milhares de quilômetros de sua origem. 2. ou seja. Entretanto. a maioria dos mestres artesãos e seus aprendizes estavam trabalhando sob regime de pagamento horário em “oficinas” de terceiros. A existência desta “caixa-preta”. Os empresários eram obrigados a contratar grande quantidade de artesãos qualificados se quisessem produzir grandes quantidades em pouco tempo. relacionadas a divisão do trabalho. Em pouco tempo. a base consumidora de produtos manufaturados tinha se expandido muito pouco em termos sociais. Entretanto.3 Sistema Fabril Ao término do período caracterizado como sistema pré-fabril. todas as fábricas que utilizavam força não humana para a realização de atividades fabris localizavam-se na beira de rios. Este momento marca a transição para a terceira e última fazer da Produção Artesanal. os “herdeiros” dos antigos mestres artesãos. Os mercados haviam se expandido de forma significativa em termos geográficos.trabalho aliado ao uso de máquinas permitiria a construção de fábricas em regiões de acesso mais fácil. As atividades que podiam ser divididas segundo o conceito de Adam Smith apresentavam produtividade muito superior àquelas realizadas pelos artesãos. para a maioria dos itens manufaturados. as idéias de Adam Smith. mas estes eram minoria entre os trabalhadores industriais. os principais consumidores de produtos industrializados permaneciam sendo membros de um grupo restrito. Antes da invenção da máquina a vapor por James Watt em 1764. próximo às urbanizações2. obstruía de forma significativa os esforços de aumento de produtividade.

pela PUC-Rio. Da produção Artesanal a Produção em Massa3 O ano de 1908 é visto como um marco na história da indústria moderna. no final do século XIX. Taylor. . conseguiu também a intercambiabilidade da mão-de-obra. O ciclo de trabalho é o tempo decorrido entre duas realizações de uma mesma atividade. utilizando menos peças e ajustando-as perfeitamente umas às outras. passando-o para o dono do empreendimento. 3 4 Capítulo baseado na Dissertação de Mestrado do autor. com o ciclo de trabalho médio dos operários ultrapassando oito horas4. foram viabilizados diversos projetos inovadores. Antes disso. em uma planta totalmente baseada na divisão do trabalho em tarefas o mais simples possíveis. Para chegar a sua linha de montagem. tendo em vista o elevado desgaste apresentado pelas ferramentas utilizadas nestas operações. um automóvel levava mais de 40 dias para ser fabricado em sua totalidade e por mais que o projeto fosse o mesmo. até que. que passaram a utilizar ferramentas de aço pré endurecido. a Administração Científica de Taylor. substituindo os qualificados artesãos por imigrantes estrangeiros sem qualquer qualificação. utilizado mão de obra qualificada para poder cortar e conformar as chapas metálicas de maneira apropriada. A partir daí.Esta situação só seria revertida a partir da utilização das idéias de Frederick W. possibilitada pela intercambiabilidade das peças usadas em sua fabricação. um carro nunca era igual ao outro. Devido a todas essas limitações. baseado nos conceitos da Administração Científica de Taylor. Ford passou a perseguir a intercambiabilidade das peças de maneira fanática. Cada carro era feito levando em consideração os desejos de seu abastado comprador. a fabricação de um automóvel era uma verdadeira “obra de arte”. Esta mudança marca o início do fim da Produção Artesanal. Neste ano começo a produção do modelo T da Ford. Na prática. Beneficiado pelo avanço das máquinas ferramenta. 3. sistematizou uma metodologia para implementar a divisão do trabalho mesmo nos processos que exigiam maior qualificação por parte dos funcionários. A utilização das idéias de Taylor em grande escala foram responsáveis pela desapropriação do conhecimento por parte do trabalhador qualificado. Henry Ford começou exigindo que um mesmo sistema de medidas fosse utilizado em todas as peças ao longo do processo de fabricação.

Desta forma reduziu-se o tempo médio de fabricação de um automóvel para 93 horas. As prensas são enormes e extremamente caras e suas matrizes continuavam a exigir trabalho qualificado para serem moldadas e trocadas. uma vez que quase todos iam trabalhar de carro. gerando enormes ganhos de produtividade. ela se torna mais eficiente quanto maior a escala de produção. era possível ter poucas prensas para realizar a estampagem de toda a carroceria do modelo T. difundindo seus princípios por outras indústrias e iniciando a era da Produção em Massa. Ford também alardeava o fato de pagar os melhores salários do mercado. mesmo antes da introdução da linha de montagem móvel. pressionando a fabricação das peças em lotes imensos. a parte mais cara de uma planta era a seção de prensagem das chapas metálicas que compunham a carroceria do carro. Como a variedade dos modelos era nula no caso de Ford. O passo seguinte seria a introdução da linha de montagem. a Produção em Massa atingiu seu auge após o final da Segunda Guerra Mundial. o automóvel havia se transformado em um produto acessível a grande parte da população. levandoos de encontro a cada posto de trabalho. Em termos de indústria automobilística. Ford se orgulhava de vender os automóveis mais baratos do mercado e incentivava seus operários a adquiri-los. Os enormes ganhos de produtividade e a conseqüente redução no preço de seus produtos geraram grande curiosidade acerca dos métodos utilizados por Ford. o ciclo de trabalho médio dos operários já havia caído para pouco mais de 2 minutos. Com pode-se perceber.19 minutos. e de Max Weber e Henry Fayol com sua “Burocracia Mecânica”. Com as contribuições organizacionais de Alfred Sloan. O salário médio de um operário da Ford em 1914 era de 170 dólares. transforma esta nação na grande potência econômica mundial.Com isso. A fábrica de Ford foi a primeira indústria a ter um grande espaço de estacionamento para seus funcionários. Com isso.00. O pioneirismo de Ford e dos EUA. da General Motors. nos anos 20. A principal característica deste sistema é que. . com o ciclo de trabalho de cada montador atingindo 1. o sistema de Produção em Massa se consolida e provoca a maior revolução econômica já vista até então. que não passava de duas esteiras rolantes sob os componentes. enquanto um automóvel era vendido por U$ 360. devido aos altos custos de instalação de uma planta industrial e a necessidade de se ter um trabalhador para cada uma das várias tarefas de montagem.

A Produção em Massa chegava ao seu auge. Aproveitando-se deste fato. Entretanto. . o veículo seria fabricado em várias cores e deveria sofrer alterações freqüentes a cada 2 ou 3 anos. com quem Sloan sabia ser impossível concorrer em termos de preço. Alfred Sloan. como geladeiras. A GM entendeu isso e fez a Produção em Massa chegar ao seu auge. o Chevrolet. e se transformando na maior empresa do mundo. propôs que a empresa fabricasse de maneira simultânea 5 veículos diferentes. cada uma deles com diferentes opções de acabamento.Já não existia um mercado de dimensões infinitas a ser atendido simplesmente pelo rebaixamento dos preços. a escala seria inferior a de Ford. ao assumir o cargo de principal diretor da General Motors. O cliente que já tinha o básico começava a querer mais. Tudo isso por reconhecer que reduzir custos e padronizar produtos não eram uma forma de obter lucros indefinidamente. Cada cliente passava a querer satisfazer necessidades distintas. fogões. Além disso. que prestava contas para a matriz e compartilhava serviços de apoio. Um outro ponto importante da filosofia de Sloan era o fato de cada automóvel ser produzido e comercializado por uma divisão autônoma. por um preço até 40% superior ao do modelo T de Ford. aquecedores. Mas ela começaria a morrer pelo mesmo motivo que a levou ao auge. que a essa altura era o mesmo (preto e sem alterações de design interno e externo) desde 1908. Com estas iniciativas.. acrescentando a ela as disciplinas de Marketing e Organizações. coisa que não ocorria com o Modelo T de Ford. O carro tinha se tornado um produto popular e o mesmo ocorria com outros itens que eram produzidos de acordo com o sistema de Ford. Sloan inventou a Administração Moderna. A forma de produção seria a Produção em Massa. A idéia de Sloan era oferecer seu modelo mais barato.Por volta de 1920.. com a GM ultrapassando a Ford ainda na década de 1920. etc. utilizando um sistema de produção que não possuía qualquer vocação para a variedade. o mercado americano de automóveis começava a dar sinais de saturação. Isso tornava possível administrar a grande complexidade de produzir 5 modelos distintos de automóveis.

para um único modelo de veículo. seguiu-se a primeira grande revolução do sistema de produção da Toyota: foi constatado que era mais barato produzir as chapas em pequenos lotes do 5 6 Este capítulo se baseia na Dissertação de Mestrado do autor pela PUC-Rio. para conhecer de perto o sistema de produção mais eficiente do mundo. SMED – Single Minute Exchange of Die – troca de matrizes em apenas um minuto. . Esgotamento da Produção em Massa – A Produção Enxuta5 Com o término da Segunda Guerra Mundial. a conformação de único paralama exigia a utilização de pelo menos três prensas dedicadas somente a esta operação. Entre os principais problemas vislumbrados por Ohno. Taiichi Ohno. a Toyota desenvolveu um sistema de troca de matrizes realizada pelos próprios trabalhadores da linha de montagem.4. Cabia a Toyota. Dentro deste esforço. diversos engenheiros japoneses foram enviados aos Estados Unidos. engenheiro responsável pela produção da Toyota voltou convencido de que a Produção em Massa jamais funcionaria no Japão. aliados a escassez de recursos para adquirir as tecnologias ocidentais e à impossibilidade de tratar a mão de obra como custo variável. e essa dedicação era justificada pelo fato de a troca de matrizes requerer a utilização de trabalhadores qualificados e a parada da produção por pelo menos um dia de trabalho. O primeiro problema atacado pelos engenheiros da Toyota foi justamente a prensagem das peças constituintes da carroceria. que determinava o que cada fabricante deveria produzir. despendendo pouco mais de um minuto nesta operação6 . Cada prensa operava com uma mesma matriz durante mais de um mês. tornavam produção no esquema fordista totalmente inviável. o governo japonês empreendeu grande esforço para reerguer seu parque industrial. A grande variedade e pequeno volume deviam-se principalemnte ao mercado arrasado pela guerra e ao plano governamental de produção. A partir daí. por exemplo. Nas plantas mais eficientes da América do Norte. baseado na ajuda financeira ocidental. fabricar ambulâncias e carros de polícia para abastecer as necessidades do mercado interno. Depois de longos estudos. fazendo com que e escala mínima de produção fosse extremamente alta. estavam o pequeno volume e a grande variedade demandados pelo mercado japonês que.

Sua implementação. os trabalhadores da linha de montagem final deveriam para toda a produção da linha sempre que alguma coisa saísse errada. 7 W. embora não conheça como fazer todo o produto. Primeiramente. Isso faz com que tal operador conheça o que fazer para evitar um determinado problema e saiba como fazer uma boa parte do produto que fabrica.que em grandes lotes como ocorria nas montadoras norte-americanas. ou seja. porém. Incorporando as idéias de detecção de problemas na fonte. além disso. Nasciam então os fundamentos do Just-in-time9. foram agrupadas de forma a aumentar ligeiramente a amplitude do trabalho. . Além deste fato contribuir para diminuir a monotonia. só produzindo o que for solicitado pela etapa seguinte. um mesmo trabalhador passava a conhecer o trabalho de um cliente interno seu. de um trabalhador que tem como inputs de sua micro-operação os outputs da micro-operação do posto de trabalho precedente. Passou-se a utilizar freqüentemente a rotatividade de postos de trabalho. veio possibilitar o funcionamento da linha sem praticamente nenhum estoque. comuns as linhas de montagem da Produção em Massa. Agrupados em equipes. a produção em pequenos lotes antes da montagem das peças fazia com que os erros de prensagem fossem detectados quase que instantaneamente. uma vez que os produtos fabricados nas operações de lote sempre se ajustavam ao carro por terem qualidade perfeita. produzir em pequenos lotes eliminava o custo financeiro dos imensos estoques requeridos pela produção em grandes lotes e. a Toyota expandiu a filosofia do kaisen e da Qualidade Total8 às demais etapas da produção de veículos. 9 Sistema de gestão de estoques no qual cada etapa da operação produtiva mantém estoque apenas para alguns minutos de produção. as atividades muito simplificadas e de ciclo muito curto. 8 Qualidade Total significa controle da qualidade por todos na empresa. o objetivo desta medida era o de evitar gastos com retrabalho e melhorar a qualidade. com os erros se propagando por toda a linha e exigindo grande retrabalho ao final. nas indústrias ocidentais da Produção em Massa era expressamente proibido parar a produção. pregadas por Deming e Juran7. Além disso. Enquanto isso. Edwards Deming e Joseph Juran foram dois dos principais “gurus” do movimento pela Qualidade Total. Isso se devia a basicamente dois fatores: primeiramente.

aumentava-se de forma significativa o conteúdo do trabalho no chão-de-fábrica. que então faziam propostas que continham preço e qualidade (número máximo de defeitos por mil unidades). Uma vez encontrada a causa fundamental. não eram repassados a montadora. todos se comprometiam a trabalhar de acordo com o padrão elaborado. Além disso. devido ao rodízio realizado entre os postos de trabalho. com base na sua qualificação tecnológica e não pelo preço. principalmente pelo fato de todos conhecerem o trabalho inteiro de uma determinada seção. se existissem. Essa filosofia. pois só fabricavam de acordo com os projetos da montadora. os próprios operadores tratavam de elaborar um padrão operacional para garantir que o problema não voltasse a ocorrer. Nas indústrias ocidentais. ao longo do período no qual o produto ficava no mercado. Como resultado. era comum solicitarem aumento de preço. Como conseqüência. A equipe de engenheiros da Toyota revolucionou este sistema. Outra grande mudança introduzida pelo sistema de produção desenvolvido pela Toyota foi quanto ao tipo de relacionamento existente entre a montadora e seus fornecedores. A partir daquele momento. Ganhos de produtividade também. porém. Se por um lado. organizados em equipe. seu desempenho deveria ser avaliado conjuntamente. integrando fornecedores de primeiro nível a fábrica e os de segundo nível a esses. justificado com base no aumento de salários e de matérias primas como o aço. O desenvolvimento de um novo automóvel passou a ser feito simultaneamente pela montadora e seus fornecedores. Os trabalhos de melhoria eram extremamente produtivos. buscavam juntos as causas fundamentais para os problemas de qualidade e produtividade encontrados na produção. os componentes básicos dos automóveis eram projetados pelos engenheiros das montadoras. com todos trabalhando conjuntamente em uma filosofia de melhoria contínua de produtos e processos. tornando o trabalho operacional desafiador e motivante. o sistema enxuto de projeto de produto e . os ganhos de produtividade dos fornecedores eram repartidos entre estes e a montadora. sendo os projetos entregues aos candidatos a fornecedores. a concorrência era a melhor forma de conduzir o assunto.Os círculos de qualidade eram a estrutura organizacional na qual os trabalhadores. Com o tempo. o fornecedor tendia a ser escolhido antes do início do projeto do produto. os fornecedores não desenvolviam nenhum projeto de melhoria integrada de um sistema inteiro do automóvel. Por essa ótica. não leva em conta que se duas peças iam trabalhar juntas.

amortecedores. evitando grandes alterações de projeto. Estes. devido a sua eliminação precoce ao longo do tempo de projeto. a velocidade das As montadoras japonesas são acionistas de seus principais fornecedores. c) Menor custo e maior manufaturabilidade: os automóveis eram projetados junto com os fornecedores e portanto já considerando o processo de fabricação das peças. dos quais comprava subconjuntos básicos (sistemas de freios. os produtos da Toyota e das demais montadoras japonesas começaram a chegar mais rápido ao mercado do que seus concorrentes americanos. No sistema de produção em massa era possível uma peça com o custo estimado em US$ 10. Isso favorece uma maior transparência na relação.. suspensão. 10 . Esse benefício era ainda mais enfatizado pela introdução da hierarquização dos fornecedores. Com isso.00 durante o projeto do automóvel acabar custando o dobro devido a peculiaridades do processo de fabricação que não eram diagnosticadas pela montadora e só seriam percebidas pelos fornecedores .fornecimento de peças apresentava as seguintes vantagens sobre seu similar na Produção em Massa: a) Desenvolvimento de produto mais rápido: a integração com o fornecedor durante o projeto do novo veículo fazia com que muitos problemas que normalmente só são descobertos quando são fabricadas as primeiras unidades do produto final fossem descobertos antes.. etc. favorecidas pelo sistema Keiretsu 10 . etc. comprando discos de embreagem. compravam as peças para estes subconjuntos de outros fornecedores (segundo nível). por sua vez. A Toyota tinha em 1980 pouco mais de 80 fornecedores diretos (de primeiro nível).). d) Maior desenvolvimento e inovação tecnológica: as parcerias de longo prazo com os fornecedores. sistemas de embreagem. permitem que um fabricante de autopeças tenha continuidade no trabalho com um determinado projeto e suas atualizações. favorecendo uma relação ganha-ganha.. cabos. b) Maior qualidade do produto: os automóveis projetados pelo sistema simultâneo da produção enxuta apresentavam menos defeitos ao final.. As montadoras americanas tinham em média mais de 1000 fornecedores diretos. o que elimina parte do receio de que estes obtenham lucro elevado a suas custas. discos de freio. Assim.

Em muitos casos. visando absorver os métodos e técnicas da produção enxuta. as reclamações prosseguiram. A partir da metade da década.inovações tecnológicas é muito maior do que nos sistemas de Produção em Massa. trabalho em equipe e grande envolvimento e participação dos operários na resolução dos problemas de produção. Em seguida as empresas americanas empreenderam um grande esforço de automação e utilização de métodos estatísticos de controle da qualidade por amostragem. Este novo paradigma tinha como principal ênfase a detecção dos defeitos na fonte. a produtividade chegava a cair com as mudanças introduzidas. a primeira reação dos três grandes fabricantes americanos (Ford. destaca-se a NUMMI – New United Motors Manufacturing Incorporation. que chegavam aos EUA apresentando grande variedade de modelos. imaginando serem estas as causas do sucesso japonês. que segundo os produtores americanos. com os fabricantes ameaçando automatizar ainda mais suas fábricas e produzir grande desemprego. A NUMMI é . ótima qualidade e preços bastante competitivos. com a invasão de carros japoneses. GM e Chrisler) foi solicitar a instituição de cotas de importação pelo governo. No início da década de 1980. começou a ganhar força a idéia de que o que estava por trás do sucesso japonês era um nova forma de se organizar a produção. de forma a poder competir com os japoneses. A esta nova forma de produção deu-se o nome de Produção Enxuta. Como na época os preços dos carros produzidos nos EUA não paravam de subir. o pedido das três grandes montadoras não foi aceito por completo. Essa seria a melhor forma de limitar a entrada desses veículos. baixos estoques. urilizando a entrada dos veículos japoneses como forma de pressionar para baixo os preços dos carros nacionais. reduzindo a inflação. Em pouco tempo. tendo o governo estabelecido cotas bastante elevadas. os grandes fabricantes de automóveis americanos buscaram desenvolver parcerias com os japoneses. tinham sua produção fortemente subsidiada em seu país de origem. não acompanhado pelas receitas. Sendo assim. O resultado prático desta empreitada foi um grande aumento do lado dos custos. parcerias de longo prazo com fornecedores. Dentre as principais parcerias formadas por estas empresas. um novo paradigma. na prática.

A fábrica foi reaberta e passou a produzir dois modelos. mostrava claramente que o segredo da Produção Enxuta não era algo restrito a cultura japonesa. Além disso. que foram recontratados. A difusão da produção enxuta pelo ocidente tornou viável a produção de uma variedade muito maior de itens a um custo semelhante do que se uma pequena variedade no regime de Produção em Massa. De uma maneira geral. ao projeto modular14 dos produtos (viabilizado pela desenvolvimento simultâneo com a participação dos fornecedores) e. 12 Economias de escala: o custo médio unitário cai quanto maior a capacidade produtiva. e foi instalada numa antiga fábrica da GM. . A percepção de variedade do cliente é grande sem que o custo de produção suba significativamente. Estas economias de escopo deviam-se principalmente aos set up’s rápidos. somou-se às economias de escala12 obtidas pela Produção em Massa. Em menos de um ano de funcionamento com mais de 80% dos empregados antigos. 14 O projeto modular consiste na utilização dos mesmos subconjuntos de componentes em produtos distintos. desde que esta seja utilizada plenamente. a automação flexível de alguns processos. sendo um da GM (S10) e outro da Toyota (Pick up Hilux). a qualificação e a formação genéricas dos operários. Por todos os fatores apresentados acima. fechada devido a baixíssima produtividade (a pior da GM) e ao elevado grau de conflito com o sindicato dos metalúrgicos local. confere à Produção Enxuta uma grande capacidade de iniciar a fabricação de novos produtos. 11 Modalidade de sociedade na qual duas empresas criam uma terceira que tem seu capital controlada pelas suas criadoras. 13 O custo médio unitário de se produzir diferentes produtos em uma mesma planta é inferior do que o de produzir cada um dos itens em instalações separadas. Este fato. mais recentemente. associado a flexibilidade da fábrica.uma joint venture11 entre a GM e Toyota. percebe-se que a Produção Enxuta apresenta grandes vantagens sobre a Produção em Massa no que se refere às novas necessidades dos mercados modernos da maioria dos setores industriais. o processo de desenvolvimento simultâneo de produtos. a NUMMI era a planta de maior produtividade entre todas as da GM no mundo. a possibilidade de se obter economias de escopo13.

A iluminação e a limpeza. limpas. como um novo Paradigma Produtivo. além de criar um lugar adequado para se trabalhar. Assim. permitem que os motivados trabalhadores identifiquem pequenos vazamentos e vibrações nos equipamentos que poderiam comprometer seu desempenho futuro. a maioria dos especialistas em produção acreditavam que as industrias do ano 2000 estariam sintonizadas com o conceito de “fábrica escura”. De acordo com este conceito. seja no Japão. Considerações Finais Em meados da década de 1970. Essa fábrica seria uma “caixa-preta”. não precisando ter estoque para evitar surpresas desagradáveis para seus clientes. As fábricas mais produtivas hoje em dia são claras. manutenções preventivas são programadas e feitas pelos próprios operadores. adequado a esta transição entre a Idade Industrial e a Idade da Informação. com pouco estoque e possuem muitas pessoas altamente qualificadas trabalhando em seu interior. nos EUA. A Produção Enxuta mostra-se então. percebe-se que a profecia dos especialistas da década de 1970 não se confirmou. . e a empresa deixa de sofrer uma parada abrupta da produção. O ambiente fabril de hoje em dia exige trabalhadores qualificados e motivados para que possam resolver os problemas do dia a dia. Quando se observa uma fábrica típica da Produção Enxuta de hoje em dia. a crescente automação iria eliminando progressivamente a necessidade de pessoas trabalhando na fábrica o que culminaria numa fábrica onde só houvessem máquinas. O pouco estoque poupa recursos financeiros da empresa e permite que os erros apareçam imediatamente e possam ser corrigidos. controladas a distância por técnicos especializados. iluminadas de preferência pela luz solar. na Europa ou no Brasil.5. totalmente escura. uma vez que as máquinas não precisam de luz para “enxergar” o que devem fazer.

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