P. 1
Paisagens Geograficas

Paisagens Geograficas

|Views: 614|Likes:
Publicado porcadusoares

More info:

Published by: cadusoares on Nov 13, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

01/25/2013

pdf

text

original

EOGRÁFICAS
Um tributo a Felisberto Cavalheiro

PAISAGENS GEOGRÁFICAS Um tributo a Felisberto Cavalheiro

Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão Diretor da FECILCAM - Anonio Carlos Aleixo Vice-Diretor - Éder Rogério Stela

Editora da FECILCAM Diretora - Ana Paula Colavite Vice-diretora - Dalva Helena de Medeiros Rosangela Maria Pontili - Coordenadora Geral Coordenador Consultivo - Edson Noriyuki Yokoo Secretário Executivo - Fernando Árthur de Medeiros Machado

Conselho Editorial Presidente - Ana Paula Colavite Cristina Satiê de Oliveira Pátaro Frank Antonio Mezzomo Luciana Aparecida Bastos Mario de Lima

Editora da FECILCAM Av. Comendador Norberto Marcondes,733, Cx. Postal 415 CEP 87303-100 - Campo Mourão - PR Telefone: (44) 3518-1838 - E-mail: editorafecilcam@gmail.com

Organizadores Douglas Gomes dos Santos IG-UFU João Carlos Nucci DGEOG-UFPR PAISAGENS GEOGRÁFICAS Um tributo a Felisberto Cavalheiro Campo Mourão 2009 .

Dos Autores Direitos desta edição reservados à Editora da FECILCAM Capa: Fotografia de Felisberto Cavalheiro Arte final e diagramação: Fernando Árthur de Medeiros Machado Editoração e composição: Editora da FECILCAM Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S237P PAISAGENS GEOGRÁFICAS: Um tributo a Felisberto Cavalheiro. Ecologia da Paisagem. Estudos aplicados. /Organização de Douglas Gomes dos Santos e João Carlos Nucci. 196 p. -. 2009. Geografia 2.© 2009. Vários Autores. 3. ISBN 978-85-88753-07-5 1.Campo Mourão: Editora da FECILCAM. Título CDD:910.2 . 4.

Muno Colesanti Paulo Celso D. Muno Colesanti Oriana Aparecida Fávero Valéria Nehme Guimarães . Rodrigues Gert Gröning Humberto Gallo Junior João Carlos Nucci Lívia de Oliveira Marlene T.Organizadores Douglas Gomes dos Santos João Carlos Nucci Autores Andréa Presotto Débora Olivato Douglas Gomes dos Santos Fabiane dos Santos Toledo Felisberto Cavalheiro Gelze Serrat S. C. Del Picchia Vânia Rosolen Yuri Tavares Rocha Equipe de Apoio Michelle Camilo Machado da Silva Marlene T.

C. Rodrigues Pedogênese e mudanças na paisagem: um exemplo da região Sudoeste da Amazônia Brasileira Vânia S.Sumário página Apresentação Douglas Gomes dos Santos Felisberto Cavalheiro e um exemplo de cooperação Brasil-Alemanha na cultura de jardins e desenvolvimento de espaços livres Gert Gröning Histórico do ordenamento da paisagem Paulo Celso D. Unidades de Conservação e gestão do território Humberto Gallo Junior Débora Olivato Planejamento e gestão de Unidades de Conservação Humberto Gallo Junior Débora Olivato Percepção ambiental Lívia de Oliveira Educação para o meio ambiente e Geografia Marlene T. políticas ambientais. Rosolen Pau-Brasil e a transformação da paisagem da Floresta Atlântica Yuri Tavares Rocha 08 10 1 2 3 4 5 18 50 65 78 6 103 7 118 8 135 9 10 153 164 11 170 12 181 . Del Picchia Ecologia e planejamento da paisagem João Carlos Nucci Urbanização e alterações ambientais Felisberto Cavalheiro Planejamento dos espaços livres localizados nas zonas urbanas João Carlos Nucci Andréa Presotto Um índice de áreas verdes para a cidade de Uberlândia/MG Fabiane S. Muno Colesanti Gelze Serrat S. Toledo Douglas Gomes dos Santos Legislação.

Infelizmente. desenvolvido em Uberlândia/MG. Yuri Tavares Rocha escreveu sobre o PauBrasil e a Floresta Atlântica. o livro em homenagem não só a Felisberto Cavalheiro. Felisberto Cavalheiro no Departamento de Geografia da FFLCH-USP. Não houve tempo suficiente para a publicação de obra tão importante. base dos estudos da Paisagem. um dos assuntos de sua tese de doutoramento orientada pelo professor Felisberto Cavalheiro. o Prof. O Prof. João Carlos Nucci se encarregou de escrever os capítulos ligados à Ecologia da Paisagem e do planejamento de espaços livres no espaço urbano (juntamente com Andréa Presotto). Eu. O arquiteto Paulo Celso Dornelles del Picchia contribuiu com um importante capítulo sobre o histórico do ordenamento da paisagem. sobre o índice de áreas verdes por habitante na área urbana da cidade. grande preocupação acadêmica de Felisberto Cavalheiro. a partir do ano 2000. Toledo e Douglas G. nos reunimos para dar os encaminhamentos necessários à publicação da obra. métodos e técnicas de Ecologia da Paisagem surgiu durante as aulas de TEORIA GEOGRÁFICA DA PAISAGEM. fez uma importante contribuição sobre a vida acadêmica do homenageado. juntamente com seus orientados de Mestrado e Doutorado. João Carlos Nucci. durante o EGAL (Encontro de Geógrafos da América Latina) no Departamento de Geografia da FFLCH-USP. escreveu sobre sua especialidade. As temáticas e os capítulos aqui apresentados correspondem de certa forma. Muno Colesanti e Gelze Serrat Rodrigues. ministradas pelo Prof. Assim. também. mas também à sua obra e sobre o conceito de Paisagem para a Geografia. A aluna Michelle teve. A Professora Lívia de Oliveira. Felisberto. Felisberto Cavalheiro na Alemanha nos anos de 1970. pois não contávamos mais com o apoio do nosso saudoso professor. assim como as Professoras Marlene T. então. Percepção Ambiental. organizaram o material das aulas para que. Tomava corpo. Douglas Gomes dos Santos. Fabiane S. Vânia Rosolen apresentou um outro estudo empírico. desde o início dos anos de 1990. e o seu texto foi traduzido para o português por João Carlos Nucci. Prof. Michelle Camilo Machado da Silva fomos os responsáveis por receber. sobre a influência da pedogênese na transformação da paisagem natural na Amazônia. Felisberto passou a apresentar uma série de problemas de saúde. unidades de conservação e gestão do território. O Prof. numa homenagem emocionante. que resultaram em seu falecimento no ano de 2003. Humberto Gallo Junior e Débora Olivato ficaram responsáveis pelos capítulos sobre legislação e políticas ambientais. assim. às aulas lecionadas pelo Professor. a cópia das transparências das aulas ministradas por Felisberto para que todos pudessem escrever o seu próprio texto.8 APRESENTAÇÃO A idéia de um livro abordando conceitos. um estudo de caso. que se debruçaram sobre as temáticas da Educação Ambiental e Paisagem. Em 2005. formassem uma linha mestra para a publicação do livro. Gert Gröening. Dr. eu. orientador do Prof. A Profa. distribuí entre os interessados em compor a obra. a importante incumbência de refazer todas as figuras constantes nesta obra. fato que a princípio nos deixou muito desorientados. juntamente com a aluna de graduação em Geografia. organizar e colaborar com os autores. . a partir das idéias e das temáticas já organizadas pelo Professor. Andréa Presotto e Humberto Gallo Jr. Santos publicam pesquisa empírica.

que é referência até os dias de hoje. Uberlândia. Douglas Gomes dos Santos Instituto de Geografia Universidade Federal de Uberlândia . e a escolha foi um artigo publicado em 1994 em obra organizada por Samia Tauk. Dr. Felisberto. Março de 2009 Prof.9 Por fim. eu e João Carlos Nucci discutimos sobre a necessidade de incorporar à obra um texto do Prof.

Isto não era tudo. Brasil”. Felisberto contou para sua “Kommilitonen”. o departamento de cemitérios e o departamento de floresta 1 O professor doutor Gert Gröning foi orientador do trabalho de tese de doutoramento de Felisberto Cavalheiro. Califórnia para Hanover. tais como Japão. encontrei estudantes de fora do mundo europeu. Durante meus estudos de pós-doutorado em Berkeley. isto se materializou no seminário “Questões gerais no Planejamento de Espaços Livres” que eu coordenei na Universidade de Hanover em 1974. A bolsa-de-estudos tinha o nome de Beatrix-FarrandGrant.CAPITULO 1 FELISBERTO CAVALHEIRO: um exemplo de cooperação Brasil-Alemanha na cultura de jardins e desenvolvimento de espaços livres Gert Gröning1 Berlim. Com um bem estabelecido programa de conferencistas e professores visitantes de todas as partes do mundo. também. em Hanover (Alemanha) e. naqueles anos. Isso foi possível graças à eminente arquiteta paisagista americana Beatrix Jones Farrand (1872-1959) que havia decidido doar sua herança profissional e algum dinheiro para bolsas-de-estudo na Universidade da Califórnia em Berkeley. 2006 Tradução: João Carlos Nucci Em 1974. Por alguma razão. a Universidade da Califórnia em Berkeley ofereceu uma oportunidade única de familiarização com os aspectos da arquitetura da paisagem que eu nunca tinha ouvido falar. a população de São Paulo crescia a uma taxa de cerca de 300. retornei de Berkeley. Alemanha). Aquele crescimento anual de São Paulo podia ser comparado ao número de habitantes da cidade de Hanover.000 habitantes por muitos anos. Alemanha. colegas bolsistas e a mim uma estória sobre espaços livres que nós achamos difícil de acreditar. que havia permanecido mais ou menos estável em 300. Em sua apresentação. Entre outros. A administração municipal dos espaços livres. Austrália e América do Sul. ter acesso a uma rara biblioteca do Campus. Faculdade de Design Ambiental. ele explicou que. departamento de parques e recreação. Os seis meses em Berkeley provaram ser um gratificante suplemento para meus estudos em Arquitetura da Paisagem na Alemanha. Pela primeira vez em minha vida. da Universidade da Califórnia em Berkeley. eu pude experienciar abertamente todos os tipos de assuntos estrangeiros e. Alemanha. ele apontou que as questões relacionadas aos espaços livres eram entendidas muito diferentemente do que se via na Alemanha. Ele apresentou um discurso sobre “Problemas específicos do planejamento de espaços livres em uma grande cidade de rápido crescimento – o exemplo de São Paulo. Para um estudante da Alemanha em arquitetura da paisagem era absolutamente singular o recebimento de uma concessão americana naqueles dias. a qual eu realmente apreciei. A bolsa foi fornecida pelo Departamento de Arquitetura da Paisagem. um brasileiro chamado Felisberto Cavalheiro sentiu-se atraído pelo tópico e participou desse seminário. trabalha com Cultura do Jardim e Desenvolvimento de Espaços Livres no Instituto para História e Teoria do Design da Universidade das Artes de Berlim (Berlim. . Alemanha. vindo de uma bolsa-de-estudo concedida para pesquisa a universitários já graduados. Minha experiência em Berkeley fortaleceu uma abertura e orientação internacional em meus campos de pesquisa e ensino.000 pessoas por ano. atualmente.

Daniel Joseph (org. Vinod 2006: From Inside Brazil. Em 1972. Berlin. Para nós. 4 veja por exemplo BERQUÓ. assim. Em 2 Para maiores detalhes sobre os 100 anos de desenvolvimento da administração de espaços livres em Hanover de 1890 a 1990 veja: GRÖNING. a magnitude do crescimento anual da população urbana de São Paulo estava além da imaginação. Apesar das numerosas deficiências para o desenvolvimento de espaços livres. vago campo de conhecimentos acerca da arquitetura da paisagem mundial. ainda. que vieram de vários países europeus. Tais estudos foram publicados trinta anos depois. suas várias regiões e enormes cidades. está se tornando o quinto colocado em tamanho de sua população e em área3. Ele trabalhou por doze anos no departamento de parques e recreação da cidade de São Paulo e. Population Change in Brazil: contemporary perspectives. com São Paulo em meu. in: Hogan. teve um íntimo conhecimento da administração de espaços livres. Esses lugares para a Alemanha. CA. Em 2006. eram muito interessantes. . Brazil. para a surpresa dos próprios brasileiros. e isto me incluía. o planejamento de espaços livres não era o maior problema e não havia nenhum programa universitário para a formação de arquitetos paisagistas. meu relacionamento com Felisberto tornou-se mais próximo.13-33. Ela permitiu-nos um vislumbre da vida real das cidades brasileiras e uma percepção razoável sobre as questões dos espaços livres. Stanford. os anos de 1970 na América do Sul. Com esse primeiro encontro. O conhecimento de Felisberto ajudou a consolidar algumas ligações com a América do Sul e. não tínhamos idéia da evolução demográfica de sua população que havia pulado de 71 milhões em 1960 para mais de 100 milhões em 1972.). no início do século XXI por Berquó4 e outros que ainda não estão disponíveis para nós. descobrimos alguns fatos sobre sua história e constituição social e não sabíamos nada sobre os “paulistas” e os “bandeirantes”. Felisberto foi voluntário por três meses no departamento de parques e recreação da cidade de Hamburgo na Alemanha. pois ele acreditava pudesse servir como um exemplo da cultura de jardins e desenvolvimento de espaços livres no Brasil e. No início dos anos 1970. Apesar do rápido crescimento das cidades brasileiras. fundada em 1892. especificamente nas cidades do Brasil. 3 veja THOMAS. Felisberto se mostrava muito entusiasmado e compromissado com seu caso brasileiro. Então. que o planejamento de espaços livres era quase desconhecido na metrópole de São Paulo. considerados uma liderança na Alemanha2. Campinas. Além disso. a imensidão de seus espaços livres. e. Development in a Land of Contrast. como apresentado. 100 Jahre kommunale Freiflächenverwaltung und Gartenkultur in Hannover (1890-1990). especialmente. com grandes falhas no hemisfério sul. em suas grandes cidades. especialmente. ambos originários de São Paulo. Aprendi muito com Felisberto e ele queria muito aprender a respeito da situação na Alemanha. em 1963. Por exemplo. Felisberto enfatizou em sua apresentação. o Brasil está se aproximando dos 190 milhões de habitantes e. SP. a apresentação de Felisberto foi uma real abertura-de-olhos. Tomei conhecimento de que ele havia nascido em São Paulo e lá permaneceu até iniciar seus estudos de graduação. Para os estudantes do seminário.11 em Hanover eram conhecidos por terem um bom time de funcionários e por serem muito bem equipados. pp. provavelmente para alguns outros países europeus. estariam associados com Carnaval e exotismo. Gert and Joachim WOLSCHKE-BULMAHN 1990: Von der Stadtgärtnerei zum Grünflächenamt. muito menos qualquer conhecimento acerca da sociedade brasileira. Também. Elza 2001: Demographic Evolution of the Brazilian Population during the Twentieth Century. mundialmente. na Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de São Paulo em Piracicaba. todos nós não tínhamos idéia do real tamanho do Brasil.

enfatizando seu rápido crescimento das cidades. Felisberto havia adquirido conhecimento suficiente em sua Universidade no Brasil. o arquiteto paisagista belga Arsênio Puttemans projetou. com base em nosso ponto de vista. ele não estava certo de que pudesse fazê-lo. e administração no Brasil e. O interesse em arquitetura da paisagem tornou-se claro para mim quando tive a chance de ver o parque em Piracicaba. professor de cultura de frutos e florestas da Escola Superior. Em 1909. na ocasião do I Fórum de Debates sobre Ecologia da Paisagem e Planejamento Ambiental. setores da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ obviamente tratavam de arquitetura da paisagem. supervisor: Prof. Contudo. assim. ele me contou quão impressionado estava pelo alto grau de realização na cultura de jardins e desenvolvimento de espaços livres apresentada por aquela administração e que ele sentia fortemente a necessidade de uma instituição comparável àquela em sua cidade de São Paulo. organizado por Felisberto. eu escrevi uma carta para o decano da Faculdade de Horticultura e Manutenção da terra (Fakultät für Gartenbau und Landespflege) da Universidade de Hanover juntamente com o professor Konrad Buchwald em outubro de 1976. na Escola Superior de Agricultura. e também com seus estudos adicionais na Universidade de Hanover. forneceu um exemplo local para os estudos de arquitetura da paisagem. é considerado único em todo Brasil5. especialmente. convencido de que seu compromisso com as questões profissionais da arquitetura da paisagem era sério e forte. Não obstante. por volta de 1907. . Department of Forest Sciences. ele também projetou o Parque da Independência. Porém. construído no estilo neoclássico em 1895. Se o decano concordasse com isso. sua educação formal não me parecia suficiente para uma qualificação como estudante de doutorado na Universidade de Hanover na Alemanha. Tornou-se claro para mim que Felisberto estava interessado em escrever sua tese de doutoramento e que ele acreditava que eu pudesse ajudá-lo na implementação de alguns aspectos relacionados com espaços livres. os que são aprovados nos exames. Com apoio de Luiz Teixeira Mendes. Felisberto veio para a Universidade de Hanover onde queria continuar seus estudos na arquitetura da paisagem. Brazil. Após um novo retorno para o Brasil. bem como durante sua passagem pela administração de espaços livres em São Paulo. algo de reminiscência dos Jardins de Versailles. em Rio Claro/ SP. Naqueles dias.12 muitas ocasiões. Dr. em 2000. França. Contudo. Embora estivesse claro para mim que o interesse de Felisberto era na arquitetura da paisagem. podem receber o título de Diplom-Ingenieur na Universidade de Hanover. não havia escola de arquitetura da paisagem no Brasil naqueles dias. Felisberto poderia iniciar sua tese de dou- 5 Ver BARBIN. A carta explicava que. Nós acreditávamos estar justificado que todos os seus estudos e sua experiência eram equivalentes a graduação em arquitetura da paisagem na qual. um parque para essa escola no estilo paisagístico inglês e supervisionou sua execução em 1909. University of São Paulo. O parque se localiza em frente ao Museu do Ipiranga. master thesis. Henrique Sundfeld 2001: Study of the transformations in display of arboreal/shrubs masses of the park of the Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” using vertical aerial pictures and floristic surveys of different times”. design. então. Até hoje o design inglês de Puttemans para o parque de Piracicaba/SP. Valdemar Antonio Demétrio. ele era um designer de espaços livres bem conhecido no Brasil. planejamento. que hoje é o Museu Paulista administrado pela Universidade de São Paulo. Seu receio se baseava no fato de que a ‘Luiz de Queiroz’ era uma escola de agricultura e não de arquitetura da paisagem. Puttemans também ensinou arquitetura da paisagem no departamento de horticultura da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’. Puttemans implantou claramente em seu conceito vários eixos de visão e.

Nesse projeto. viajou para São Paulo e começou seu trabalho com as entrevistas.Landschaftsplanung der Ballungsräume) na Universidade de Hanover. a mim endereçada. Foi a implementação e o estabelecimento da administração de espaços livres na cidade de São Paulo com todas as suas implicações e conseqüências. dargestellt am Beispiel São Paulo/Brasilien (Oportunidades e problemas da institucionalização de uma administração de espaços livres em uma metrópole do Terceiro Mundo em crescimento. Felizmente. Outras. de sua tese. isto é. realizou sua primeira apresentação em um colóquio de pesquisa que eu ofereci para estudantes de doutorado na cadeira de planejamento do verde – planejamento da paisagem de regiões metropolitanas (Grünplanung . Então. Algumas delas Felisberto queria verificar por meio de questionário. então. Alguns pareciam estar receosos de que ele pudesse citar suas opiniões em sua tese. um em história do planejamento de espaços livres e história de cidades verdes (Geschichte der Freiraumplanung und Geschichte des Stadtgrüns) com o professor Hennebo. o Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão (DAAD) concordou em fornecer a Felisberto um suporte para seu Promotions-Studium. Ele escreveu: “Die meisten wollen über alles sprechen aber nicht über das Thema” (A maioria quer falar acerca de tudo. Alguns se recusaram a falar quando ele solicitou o nome do entrevistado. Felisberto relatou acerca das dificuldades encontradas em São Paulo. mas não sobre meu tema). Alguns sentiram . com sucesso. e eu fiz um comentário sobre seus propósitos para o DAAD. ele preferiu verificar em entrevistas pessoais. O decano apresentou o caso para o conselho da faculdade (Engere Fakultät) que. Eu sugeri um ano adicional antes que Felisberto fosse capaz de concluir os exames finais. Em 11 de janeiro de 1977. No dia primeiro de fevereiro de 1977. uma verba adicional para a pesquisa empírica que ele planejara ao retornar para São Paulo. foi solicitado que ele enviasse um título preliminar de sua tese de doutoramento para a reunião do conselho da faculdade em 9 de fevereiro de 1977. determinou que Felisberto teria de fazer três exames adicionais. um árduo calendário para uma tese de doutorado. o decano informou a Felisberto que ele havia atingido todos os requisitos para a admissão como estudante de doutorado na Faculdade de Horticultura e Manutenção da terra. e outro em planejamento de espaços livres e planejamento do verde (Freiraumplanung und Grünplanung) comigo. o DAAD acolheu esse ponto de vista. em meu parecer para o DAAD sobre os planos de Felisberto. também. O que se seguiu foram semanas e meses intensos de estruturação da tese. Felisberto. Em uma carta do início de março de 1978. exemplo de São Paulo/Brasil). Após intensa preparação. Foi-lhe concedido. Felisberto desenvolveu uma série de hipóteses. Ele percebeu que algumas pessoas que ele havia selecionado para as entrevistas tentavam se esquivar das questões. Alguém sugeriu que ele mesmo deveria responder as questões porque ele sentiu que o tópico era sério demais para ser aplicado para o Brasil. em um ano e meio. e os resultados foram encaminhados para o conselho. mesmo com a concordância no início da entrevista. estudos que o conduziriam ao título de doctor rerum horticulturae na Universidade de Hanover.13 torado que seria essencial para seu interesse futuro de estabelecer uma disciplina de planejamento de espaços livres no Brasil. eu senti que deveria ser cauteloso. Como título de trabalho de sua tese Felisberto entregou Chancen und Probleme der Institutionalisierung einer Freiraumverwaltung in einer wachsenden Großstadt der Dritten Welt. Em dezembro de 1977. Logo após enviou um projeto para o Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão (DAAD). Seu tópico era evidente. planejadas para serem aplicadas a pessoas da administração de espaços livres e outros especialistas em São Paulo. Felisberto realizou os exames em dezembro de 1976 e janeiro de 1977. Um em planejamento da paisagem (Landschaftsplanung) com o professor Buchwald. explicando como gostaria de proceder com sua tese. Também. Felisberto mostrava acreditar que seria capaz de terminar sua tese no final de setembro de 1978. o disputatio. Além disso. embora tivesse garantido que não mencionaria seus nomes.

o geobotânico. a institucionalização da administração de espaços livres. A finalização das entrevistas consumiu muito mais tempo consumido do que Felisberto havia planejado.14 que por ele ter estado na Alemanha por muito tempo. No início de novembro de 1980. que realizou seu encontro anual em Setembro de 1978 no Brasil. e muitos outros da educação. finalmente. Cavalheiro para doctor rerum horticulturae. e talvez em todo o Brasil. Felisberto. estabelecimento de programas especiais para arquitetos paisagistas em universidades. Depois. teve que tomar muito cuidado no decorrer do ano. mas necessitava de alguns meses até o início de 1981. ele estava certo de que poderia fazê-lo no final do ano. e em Ouro Preto falou com funcionários do município. houve somente uma leve alteração para Die kommunale Freiraumverwaltung in São Paulo/Brasilien . Infelizmente. agricultura. o historiador de jardins. A banca para o mündliche Doktorprüfung (exame oral de doutoramento) foi constituída pelo ecólogo da paisagem. eu escrevi ao DAAD que Felisberto estava na fase final de sua tese. Todavia Felisberto lutou contra todas as adversidades. o co-orientador da tese. assumi que dado ao seu estado de saúde. a data esperada para o disputatio teve que ser postergada por dois meses. departamento de parques e recreação da cidade de São Paulo e de outras cidades tais como Rio de Janeiro. Obviamente devido à sobrecarga de trabalho durante o tempo em que esteve no Brasil. e devido ao seu interesse de pesquisa.rer. teve a oportunidade de realizar três conferências em São Paulo nas quais explanava sobre a contribuição que o desenvolvimento de espaços livres poderia trazer para o planejamento da cidade. economia e proteção da natureza. Como o professor Buchwald. isso acabou sendo a verdade. Isto significou um sério contratempo para o trabalho de sua tese. conforme conselhos médicos. habitação. Também. participou da preparação de dois encontros científicos no Brasil em 1978. F. Aqui Felisberto fazia parte de um grupo de pessoas que escreveu recomendações sobre legislação ambiental. Logo após retornar para Alemanha. Felisberto não seria capaz de realizar o seu disputatio antes do final de março de 1980. professor Hans Kiemstedt. Todos nós concordamos que Felisberto assentou a pedra fundamental do desenvolvimento dos estudos no campo do planejamento de espaços livres em São Paulo. o conselho do departamento de horticultura e manutenção da terra da Universidade de Hanover concordou com a promoção do Herr Eng. planejamento. conseguiu entregar sua tese. contudo. arquitetura. e também. legislação ambiental. o exame ocorreu em 29 de junho de 1981. Comparando o título de seu trabalho com o título final da tese. tivesse se tornado um “alemão”. mas uma séria doença favoreceu o atraso de seu trabalho.hort. esportes. Um deles foi organizado pela Associação Brasileira para o Progresso da Ciência. Em maio de 1980. No final. ele ficou satisfeito com o que pôde conseguir. e ele teve que cancelar os planos de entregá-la ao final de setembro. professor Konrad Buchwald. Em meu relato ao DAAD em junho de 1979. . Belo Horizonte. Finalmente. professor Dieter Hennebo e por mim. Ele conversou com pessoas do DEPAVE (Departamento de Parques e Áreas Verdes). O outro evento foi organizado pela Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas.Gegenwärtige Situation und Chancen zukünftiger Entwicklung (Administração Municipal de Espaços Livres em São Paulo/Brasil – situação atual e oportunidades para o desenvolvimento futuro). ativo como sempre foi. estava no Instituto de Engenharia Ambiental da Universidade Nacional de Taiwan. Agr. o planejador da paisagem. Dr. Nós concordamos que eram necessárias pessoas como ele para encaminhar as questões sobre meio ambiente. Isso foi aceito pelo DAAD e Felisberto teve a garantia de subsídios na reta final até maio de 1981. Como membro da Sociedade Brasileira de Paisagismo. Em 22 de abril de 1981. Felisberto foi para o hospital onde ficou por quase dois meses. para enfrentar os múltiplos problemas relatados sobre espaços livres que poderiam acompanhar o futuro desenvolvimento do Brasil. professor Hans Langer.

). aqueles interesses em espaços livres.15 De volta ao Brasil. a única região de floresta do sudeste de São Paulo. Sâmia Maria. Contudo. explicitamente. . FAPESP:SRT:FUNDUNESP. Também na mata atlântica do Estado de São Paulo. Nivar. Nova Odessa. Na pós-graduação. foi abundante.90. ele também orientou dissertações de mestrado e teses de doutorado. nesta pequena cidade. um trabalho pioneiro. Em 1998. in: Lorenzi. SP. 7 CAVALHEIRO. arborização. Então. Ele ensinou sobre planejamento de espaços livres urbanos bem como Teoria Geográfica da Paisagem e Biogeografia no curso de graduação em Geografia. a árvore da qual o Brasil recebeu seu nome. jardins. in: Tauk. que nunca foi construída. em 1982 e 1983. and Harold Gordon Fowler (org. planejamento. p. e foi ali onde iniciou a aplicação de sua experiência adquirida na Alemanha à realidade do Brasil. Felisberto alcançou a posição de professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia. Em 1986. Espírito Santo. ele cooperou ativamente no desenvolvimento de uma série de regulamentações legais e administrativas para o planejamento ambiental na recém criada Secretaria Especial de Meio Ambiente (SEMA) em Brasília. Felisberto teve dificuldades de encontrar um trabalho permanente. Felisberto foi presidente da Sociedade de Ecologia do Brasil e como tal. o pau-brasil (Caesalpinia echinata)6. São Paulo. De muitas conversas com Felisberto. Em 1992. RS. De 1998 a 2001. Comparado com São Paulo.161. publicou um artigo 6 Para uma breve descrição e algumas imagens ver Caesalpinia echinata Lam.88-99. orientou teses e dissertações. Com sua atividade interminável. Lá. Eu sou muito grato ao professor Yuri Tavares Rocha que presenteou-me com um exemplar desse livro único. Em 1983. Em 1991. Ele deu aulas sobre vários assuntos abordando a temática do planejamento de espaços livres. proteção da natureza e muitos temas associados a esses tópicos encontraram nele uma personalidade e um suporte muito ativos. Análise Ambiental: Uma visão multidisciplinar. Além de ensinar e orientar. novamente. participou ativamente dos encontros dessa sociedade com proeminente contribuição. surgiu seu “Urbanização e Alterações Ambientais” 7 no qual. Fora os muitos artigos. Ali. Ele continuava trabalhando em São Carlos. outrora. conseguiu aulas adicionais em planejamento do meio físico no programa de pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). capital do Brasil. se refere a literatura alemã e muitas outras fontes internacionais. gostaria de apontar apenas um pouco do que acredito indicar melhor seu contínuo interesse nos assuntos de educação e seu interesse em cooperar com os outros. Gobbi. Pelos 15 anos seguintes. A Guide to the Identification and Cultivation of Brazilian Native Trees. foi membro fundador da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU) e. organizou em 2001 o 5º Congresso de Ecologia do Brasil “Ambiente e Sociedade” em Porto Alegre. da qual restam somente menos de dez por cento de sua área original. em Vitória. Em 1988. lembro-me de sua grande preocupação com a mata atlântica. foi responsável pela Ecologia da Paisagem e design ambiental e. também. planejou-se a instalação de uma usina nuclear. e qualidade de vida nas cidades. Esse foi. A espécie está agora quase extinta no Brasil. Felisberto pareceu-me florescer. no final de 1981. Felisberto 1991: Urbanização e Alterações Ambientais. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). parques. Felisberto iniciou a publicação em vários periódicos e livros. pp. aqui p. Rio Claro era quase rural. Felisberto estabeleceu vários contatos e promoveu o desenvolvimento profissional do planejamento dos espaços livres no Brasil. ele se tornou professor do departamento de ecologia da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (UNESP) em Rio Claro. Harri 2002: Brazilian Trees. desde então.

Felisberto. 161p. 1990 GRÖNING. Campinas. Felisberto Cavalheiro (1945-2003) . Felisberto Cavalheiro (1945-2003) . 52.109-131.). Espaços Livres e Qualidade de Vida Urbana. 2001 BERQUÓ. 12. in: Dos Santos. Brazil. 2001 CAVALHEIRO. a guide to the identification and cultivation of Brazilian native trees.g. 2003 LORENZI. que hoje trabalha como professor da Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo. 57-58.9 Em 2001. volume 11.). Valdemar Antonio Demétrio. Brazil. e com isso eu concluo: por tudo que Felisberto Cavalheiro realizou.277-288. Harri.277-288. In TAUK. 52. pp.Ensaios. 88-99. Urbanização e alterações ambientais. . Gert. master thesis. Felisberto e João C.Ein Pionier der Freiraumplanung in Brasilien. volume 11. Felisberto publicou “Geografia e Educação Ambiental”. Department of Forest Sciences. Professor Dr. Brazilian Trees. Gert.10 Esses são apenas alguns exemplos das bem distribuídas atividades de Felisberto. University of São Paulo. que também se tornou atuante nessa área. supervisor: Prof. SP. Stadt und Grün. São Paulo: FAPESP : SRT : FUNDUNESP. Davis Gruber e Felisberto CAVALHEIRO 2001: Geografia e Educação Ambiental. 9 Ver e. Humanitas/FFLCH/USP. NUCCI.Ensaios. Stadt und Grün. João C.hort. 57-58.rer.13-33. Berlin.rer. 12. um de seus orientandos. 2002 8 Ver CAVALHEIRO. in: Hogan. Henrique Sundfeld Study of the transformations in display of arboreal/shrubs masses of the park of the Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” using vertical aerial pictures and floristic surveys of different times. São Paulo: Nova Odessa. Joachim WOLSCHKE-BULMAHN Von der Stadtgärtnerei zum Grünflächenamt.Ein Pionier der Freiraumplanung in Brasilien. 1991 CAVALHEIRO. Elza Demographic Evolution of the Brazilian Population during the Twentieth Century. Gert 2003: Professor Dr. ele pode ser considerado o pioneiro da cultura de jardins e do planejamento de espaços livres no Brasil. Brazil. 100 Jahre kommunale Freiflächenverwaltung und Gartenkultur in Hannover (1890-1990). São Paulo. Nucci. pp. José Eduardo and Michèle Sato (eds. in: Paisagem e Ambiente .11 REFERÊNCIAS BARBIN.hort. A Contribuição da Educação Ambiental à Esperança de Pandora. F. Brazil. Daniel Joseph (org. juntamente com Davis Gruber Sansolo. pp. João Carlos 2001: Qualidade Ambiental & Adensamento Urbano: Um estudo de Ecologia e Planejamento da Paisagem aplicado ao distrito de Santa Cecília (MSP). Curitiba/PR. Sâmia et al (orgs). professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná. Análise ambiental: uma visão multidisciplinar. agora. p.16 sobre “Espaços Livres e Qualidade de Vida Urbana” 8 juntamente com João Carlos Nucci. pp. Nucci 1998: Espaços Livres e Qualidade de Vida Urbana. outro orientando de Felisberto e. 11 Ver GRÖNING. 1998 GRONING. São Carlos. Population Change in Brazil: contemporary perspectives. Dr. SP. in: Paisagem e Ambiente . 10 Ver SANSOLO.

Stanford. Vinod From Inside Brazil.17 NUCCI. Qualidade Ambiental & Adensamento Urbano: Um estudo de Ecologia e Planejamento da Paisagem aplicado ao distrito de Santa Cecília (MSP). pp. Development in a Land of Contrast. José Eduardo and Michèle Sato (eds. Felisberto. Geografia e Educação Ambiental. Davis Gruber. 2006 .). São Carlos. CAVALHEIRO. João Carlos. 2001 SANSOLO. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP. 2001 THOMAS. A Contribuição da Educação Ambiental à Esperança de Pandora. in: Dos Santos. CA.109-131.

Bellini. No campo da arquitetura e do jardim. a pintura da paisagem é um ciclo em que o espírito humano procura criar harmonia com aquilo que o rodeia. que já tinham aprendido a controlar as forças naturais e passaram a encarar as ameaças da floresta e da inundação e podiam usá-las conscientemente para provocar um sentimento de horror. da “paisagem ideal” e da “visão natural”. Flores. Percorrendo os caminhos da pintura. ciclo que precedeu a época medieval. Departamento de Parques e Áreas Verdes . ainda. Cita Giorgione. Os sentidos nos desviariam da noção de Deus e poderiam induzir ao pecado. ele fala de uma “paisagem de símbolos”. maldade e fúria. 12 Arquiteto (FAUUSP). Fala da representação da luminosidade. pássaros. A concepção da natureza e o desenho da paisagem desenvolvem-se acompanhando a evolução histórica da Humanidade. Para ele “a pintura da paisagem marca as fases da nossa concepção da natureza”.CAPITULO 2 HISTÓRICO DO ORDENAMENTO DA PAISAGEM Paulo Celso D. da “paisagem dos fatos”. frutas. Altdorfer e Bosch que haviam visto cidades queimadas pelos mercenários. o equivalente seriam os pátios e claustros monásticos. Secretaria Municipal de Verde e Meio Ambiente. da “paisagem fantástica”. isolados do mundo exterior. Os elementos de realismo combinam-se com o sonho. que a Antiguidade Mediterrânea. poética. É a época dos “jardins do paraíso”. a Virgem. A “paisagem dos fatos” é apresentada por exemplos da pintura flamenga notadamente dos séculos XV e XVI. do estudo minucioso de cada objeto retratado e conclui que seguramente essas pinturas deviam mais à observação que à imaginação. Ao abordar a representação da paisagem na pintura. A paisagem era usada para fins decorativos sendo seus elementos apresentados como cenário para os feitos humanos. Como uma característica da espécie humana o fato de o Homem não ter um nicho restrito na face da Terra e o fato de ser cosmopolita determinou a necessidade de modificar o meio ambiente segundo as suas necessidades de sobrevivência. idealizada. da busca resoluta da verdade. o Homem tem ordenado a paisagem nos locais que habita. A representação da paisagem estava ligada à filosofia cristã medieval em que a vida terrena é passageira e o ambiente em que ela é vivida não deve absorver toda nossa atenção. jardins encerrados por muros. ligada à evolução cultural do Homem. conheceram as barbaridades da Guerra dos Camponeses e as guerras religiosas e pintaram aspectos da natureza que exprimiam as convulsões do espírito humano. A “paisagem de símbolos” da arte medieval não representava os objetos naturais em sua real aparência. historicamente. Desde a Idade Média. Clark (1961) mostra como a cultura ocidental está. Cita Grünewald. Poussin. cheio de trevas. Afirma. o mito da Idade de Ouro na qual o Homem vivia dos frutos da terra numa verdade antes poética que científica. A “paisagem fantástica” é a representação do misterioso e do desconhecido que começa já no século XV quando os artistas originários das cidades e que tinham como clientes as populações urbanas. estivera impregnada do sentido grego de valores humanos o que levou o conceito da natureza a desempenhar um papel secundário. o Unicórnio. Del Picchia12 Desde tempos imemoriais. A “paisagem ideal” reflete uma paisagem arcadiana.

rua arborizada. era algo que toda a gente estava de acordo em reconhecer como belo”. o peristilo tem cerca de 15 metros de comprimento por 8 metros de largura. “Uma cena calma. . Corot. diferentemente dos romanos. Esse amor pela natureza os fez constituir vastas propriedades e usufruir de suas belezas naturais. Os jardins dessas propriedades. foi tomada por colunatas ao lado das quais estavam caminhos a céu aberto. Em paredes cegas. (Figura 2. que entre os gregos significava um pórtico coberto debaixo do qual se exercitavam os atletas e. Os jardins de Pompéia são jardins urbanos. O Xystus. entre outras. A vila romana não tinha unidade. Os gregos. 1966). plantas. apareciam pinturas em trompe l’oeil retratando cenas de jardim com treliças cobertas por plantas. os romanos estavam ligados à terra. pilares de Hermes e. daí os romanos chamarem de Xystus as aléias dos seus jardins. para o encontro social. para os romanos as árvores. Outra fonte de conhecimento são as descrições de Plínio. dos jardins de suas vilas. Constable. Eram esses os jardins gregos. assim. o que nos faz supor a existência de plantas. em Pompéia eles eram em terra. o jovem. a paisagem nos princípios do século XIX passa a ser retratada numa “visão natural”. podemos perceber o que os romanos entendiam ser um jardim (CLIFFORD. estudado e culto. Ele era parte de um recinto cercado plantado com árvores onde os gregos treinavam para os jogos Olímpicos. Por essas pinturas. com água em primeiro plano refletindo o céu luminoso e enquadrada por árvores escuras. herói lendário da Ática. aléia de jardim. mais parecendo uma aldeia. sua essência era outra. Cita como expoentes dessa “visão natural” Turner. depois. Eram mais salas que jardins. os contrastes da folhagem. conhecemos pelas descrições do jovem Plínio. Nos peristilos existiam muitas bacias de água. 1966). aves. Na verdade. bosques com caráter sagrado dedicados a Academus. Na casa dos Vetii em Pompéia. não prezavam o luxo e a ostentação e dedicavam-se mais a uma vida coletiva e. que era um homem de riqueza. Diferentemente dos gregos ligados ao mar. a sensação de frescor e paz eram um fim em si mesmo que eles desfrutaram como homens do campo. em que eles praticavam seus esportes e discutiam filosoficamente suas idéias (CLIFFORD. OS JARDINS NA ANTIGUIDADE Os jardins da Antiguidade nos chegaram ao conhecimento mais por relatos literários. ligado ao conforto da sombra para conversar. cultural e desportivo. pequenas estátuas que serviam de condutores. O jardim como arte efêmera dificilmente deixa restos e os poucos que porventura tivessem se salvado foram destruídos por escavações outras que não deram atenção a seus remanescentes. Se na Grécia esses pátios eram pavimentados. Era constituída por um grupo de edifícios. Se os jardins dessas vilas eram herança dos gregos. Os jardins dos romanos viemos a conhecê-los graças à catástrofe de Pompéia. era uma construção de jardim que protegia os atletas em suas práticas do mau tempo. soterrada pela erupção do Vesúvio no ano 79 da era cristã e que foi descoberta em 1748. as vilas.19 Claude Lorrain. Nesses jardins eram erigidas estátuas dos heróis vencedores dos Jogos Olímpicos. seus jardins não eram privados como os dos romanos. o peristilo. o que dificulta o seu resgate. que podemos considerar de uso público. Essa área coberta. entre os romanos. São pátios descobertos cercados por colunas. provavelmente.1). no interior das residências. Se para os gregos o desfrutar da natureza era fortuito. Longe da idealização.

contrariamente. o jardim de Plínio está. neste protegido retiro. Esse jardim estático por muito tempo tomou pulso e teve desenvolvimento dinâmico primeiramente na Itália. Buxo ou alecrim deveria ser usado para fazer as bordas dos canteiros. conforme suas palavras: “Deixe..Maquete da Vila Adriana Em Tivoli – Roma. arte que foi primeiro praticada por Cnaius Martius. muitas vezes. usando como modelo os jardins do jovem Plínio. Arquitetura e verde se integravam e a topiária era um dos primeiros sinais de um amadurecimento e consciência das potencialidades materiais do jardim. meu amigo (porque é já tempo). As bordas cercadas para evitar as aves e cães transformaram-se no treliçado decorativo e daí desenvolveu-se para a balaustrada de cantaria. cavaleiros. os quais em formas arquitetônicas como pátios seriam apreciados. amigo de Augusto.20 Figura 2. 1996). então. A casa deveria ser colocada numa leve elevação de modo que se obtivesse belas vistas a partir dela. ciprestes. o nome do proprietário e. 1966). o do topiário. emancipe-se para seus estudos” (CLIFFORD. As estátuas dos jardins gregos foram substituídas pela topiária.1 . não havendo sinal dela antes dos tempos imperiais. Deveriam existir pórticos. Esse crescimento deveu-se à riqueza comercial e à relativa paz reinante na Itália. sendo suas prescrições uma mistura de clássico e . essencialmente. os restos do grande passado estavam pesadamente no solo mais do que em qualquer outro lugar (CLIFFORD. A água passou de funcional para ornamental. às outras partes da Europa. pérgolas e grutas de tufo. Diferentemente do jardim grego. as frutíferas deveriam ser mantidas em separado no pomar. Leone Battista Alberti (1404-1472) em seu De Re Aedificatoria descreveu como um jardim deveria ser. porém. a baixa e sórdida perseguição da vida aos outros e. cães. além do mais. Em buxo eram representadas batalhas navais. Não seria uma mera reprodução de Plínio. Círculos e semicírculos. Foto do autor 1999. voltado ao desfrute privado. Estátuas cômicas eram admitidas. O JARDIM DO RENASCIMENTO O jardim do Renascimento é concebido como parte integrante do edifício e divide a mesma criatividade que se requeria para a casa. Água corrente era desejável e seria melhor se jorrasse de surpresa em alguma gruta que tivesse sido decorada com conchas coloridas. caça. 1966). o suporte das vinhas desenvolveu-se para a pérgola e o caramanchão. O JARDIM NA IDADE MÉDIA O jardim da Idade Média formava uma unidade entre o jardim útil e o jardim artístico (ERMER et al. Vasos decorativos deveriam ser usados para cultivar flores e o nome do proprietário deveria estar escrito em buxo. delimitados por hera. Os jardins. foram mais funcionais que ornamentais. Haveria loureiros.

Bramante (Fermignano.suite101. Como este estivesse em posição mais alta que o Vaticano se fazia necessário procurar uma transição entre eles. procuravam-se as encostas para satisfazer o desejo de fontes. é que as escadas tornaram-se o mais importante elemento do desenho do jardim. o desequilíbrio entre as duas construções de proporções desiguais. de 1579 Fonte: www. casa e jardim fazem uma unidade reconhecível pelo olhar. O que se pode observar nos jardins desse período é o caráter público que assumem. agora. . 1444-1514) realizou. já que escadas sempre existiram no jardim. o som e o movimento da água corrente. No período de 1503 a 1573. os jardins assumem um caráter de mais ostentação. o uso era para o deleite do proprietário. sob a influência do gosto islâmico que chegou à Itália através da Espanha. Na Idade Média a água aparecia no jardim na forma de uma fonte ou poço. jogos de água. Posteriormente. Roma. Bramante utilizou um magnífico arranjo de escadarias e balaustradas e com isso compensou. a ligação do Vaticano com o Belvedere. (Figura 2. sendo seu uso mais social que privado.com/article. A presença de bosques fez com que essa vila tivesse um parque ao lado do jardim.21 medieval. também.Pátio Do Belvedere. Detalhe Da Gravura De Hendryck Van Schoel. Como as vilas dessa época foram construídas em Roma onde não havia muita disponibilidade de água. Sixto V e Paulo V realizaram obras para trazer a Roma água o suficiente para abastecer a cidade e seus jardins. Figura 2.3). como vamos encontrar em Versalhes e nos jardins ingleses.cfm/garden_design/111870 Neste período. numa inclinação. pois. poderia-se olhar sem dificuldade para o mundo fora dele (CLIFFORD. A Villa está localizada numa elevação suave. sob encomenda do Papa. A novidade aqui. Terraços e escadarias aparecem condicionados pela topografia. O jardim numa posição elevada. Para resolver o problema. de modo que não foi necessário um maciço arranjo de terraços para vencer a declividade.2). no século XV. a água vai desempenhar um novo papel. o jardim italiano se tornou um jardim de arquiteto.2 . No jardim do Renascimento. em geral disfarçadas no desenho. (Figura 2. A Villa Lante atribuída a Vignola é um exemplo da transição entre o jardim do arquiteto e o jardim do escultor. os Papas Sixto IV. Nos jardins de Plínio. a Casa Real de Nápoles era aragonesa. Outra característica do sítio era a presença de bosques e abundância de água. 1966). o que não sucedeu com as outras vilas próximas a Roma.

canino.5 e 2. a Villa D’Este é um dos poucos jardins que preservam uma unidade. Segundo Clifford (1966). 1966). 2.22 Figura 2.htm Distante do espírito da Villa Lante está a Villa D’Este em Tivoli desenhada por Pirro Ligorio. Se na Villa Lante tudo é moderação.Villa Lante.4.6) e na Villa Borghese em Roma. Planta Geral do Jardim e do Parque Fonte: www.3 . Bagnaia. na Villa D’Este tudo é exagero (CLIFFORD. Ele não vê a mesma unidade nos jardins Boboli de Florença (Figuras 2.info/inserti/tuscia/luoghi/villa-lante/index. .

Florença. . Florença. Figura 2.23 Figura 2.4 .5 .Planta dos Jardins Boboli. Foto do autor 1999.Jardins Boboli (Anfiteatro). Foto do autor 1999.

Para ele.9. aproveitando a presença do rio Ânio. Um linha central marcada por fontes. estátuas e as escuras entradas de grutas levam o olhar de volta para cima onde está a grande ênfase horizontal do próprio palácio. O plano do jardim tem uma certa simplicidade apesar do tamanho e complexidade de suas partes. se fez amplo uso da água.Jardins Boboli (Fontana Del Forcone).24 Figura 2.6 .7.8. fontes. Eixos paralelos ao principal levam calculadamente para algum enfático elemento arquitetônico (Figuras 2. Na Villa D’Este. cujas águas foram canalizadas para o jardim. 2. cascatas descem pelas escadarias numa engenhosidade espantosa. o famoso teatro das águas. Jogos de água. .10 e 2. o fascínio e engenhosidade de detalhe são os responsáveis por essa falta de unidade. Florença. Construções e grutas em tufo e conchas criam diversos motivos de interesse. criando ambientes diversos e imaginosos.11). jardins aquáticos com esculturas de fonte. Foto do autor 1999. 2. 2.

Tivoli. Figura 2. Tivoli. Vista do Eixo Central do Jardim a partir da Casa.Villa D’este. Foto do autor 1999. Roma. .Villa D’este. Roma.25 Figura 2. Vista dos Jardins Junto a Casa. Foto do autor 1999.8 .7 .

Vista do Eixo Principal do Jardim olhando para a casa. Foto do autor 1999. Roma. . Fontes e Jogos de Água.Villa D’este.10 .9 . Tivoli. Tivoli.26 Figura 2. Figura 2. Roma. Foto do autor 1999.Villa D’este.

Cellini (1500-1571) e outros de menor fama foram viver e trabalhar na França. O jardim italiano tinha uma unidade com a inter-relação arquitetônica dos terraços.27 Figura 2. As vilas situadas nas baixas encostas das colinas aproveitavam as brisas frescas e o som da água corrente. O castelo francês oferecia tudo que o proprietário necessitava. como no tempo de Plínio. levemente inclinados onde era mais fácil obter águas paradas do que cascatas e fontes. por segurança. vivia no campo só nos meses de verão. condicionaram o desenvolvimento dos jardins. fora de Paris. retornavam a sua casa da cidade como a aristocracia de Roma e Florença fazia habitualmente. O JARDIM FRANCÊS As aventuras dos franceses na Itália entre 1494 e 1524 colocaram-os em contato com o renascimento italiano. com poucas exceções. A população rica da Itália nos séculos XVI e XVII. Carlos VIII voltou da Itália trazendo artistas italianos e objets d’art. mais frios e mais úmidos que as vizinhanças de Roma. uma luxuosa cabana de piquenique. de Florença ou de Milão. mudando de um para outro em busca de variedade. Essa situação permitia vistas em distância. desde os dias de Luís XI.11 . a vila italiana era uma casa de verão. Os reis franceses viviam.Villa D’este. Fonte. Uma série de artistas italianos como Leonardo da Vinci (1442-1519). o barroco. inicialmente. Foto do autor 1999. o rei e os nobres viviam em seus castelos o ano inteiro. A sociedade italiana no século XVI sofreu uma mudança radical que produziu um novo estilo de arte. casa urbana e caça combinados. Os castelos rodeados de fossos e murados. Na França. construções terraceadas. As restrições da Guerra dos Cem Anos impôs aos franceses uma vida cercada e com fossos. Roma. Tivoli. Outra condicionante para essa diferença entre a Itália e a França no desenho dos jardins está na topografia e no clima. A diferença entre os jardins franceses e italianos deve-se à estrutura do país e sua história política. Raramente. A França tornou-se uma monarquia unificada com seu centro de gravidade na planície norte. O jardim francês desenvolveu-se em terrenos planos. Vistas nessa topografia só podiam ser obtidas por meio de vistas prolongadas e . Assim. O centro e o norte da França eram mais planos.

variedade.Monceaux-En-Brie. foi por causa dele que esses caminhos elevados continuaram a ser construídos mesmo quando as exigências defensivas já haviam desaparecido. no chão. a altura das árvores e sebes deveria estar relacionada com o comprimento e largura dos caminhos. (Figura 2. eles tendiam a ser menos altos. de acordo com o princípio medieval mesmo quando. Figura 2. A palavra parterre foi primeiramente usada no meio do século XVI e derivava de par terre. (Figura 2. a bíblia do parterrista.28 escrupulosamente organizadas. O parterre levou ao compartiment de broderie. no princípio dos século XVII. Esses caminhos elevados levaram ao parterre e. simetria e variedade. ele pedia. Caminhos elevados continuaram a ser construídos nos quatro lados do jardim. jardineiro de Henrique de Navarra escreveu em 1618 “Le Théâtre des Plans et Jardinages”.12). Mollet popularizou o uso do buxo que pelo seu crescimento lento. foram os grandes princípios que regeram.edu/instruct/dcollito/322/French/Part-two1. na Itália. . revelou-se a planta ideal para a definição do parterre. Essa proporção. O italiano Francesco Primaticcio (Bolonha 1504 – Paris 1570) criou em Monceaux-enBrie. Embora os terraços existissem. Jacques Boyceau (1560-1633). enfatizou em um livro publicado em 1638 a necessidade de proporção. pela facilidade de modelar. menos freqüentes e arquitetonicamente menos importantes.12 . um jardim para Catarina de Médici (1560-1633) que prenunciou o jardim de vista em Vaux-le-Vicomte e Versailles que dispunha um canteiro retangular atrás do outro. juntando-os no mesmo eixo da casa.ndsu. Claude Mollet (1564-1649).nodak.htm O jardim do castelo do Cardeal de Richelieu (1627-1637) faz a ligação entre Monceaux e Vaux-le-Vicomte. Primaticcio – Jardins Para Catarina De Médici Fonte: www. Além da proporção e simetria. também. A característica essencial do parterre é a perfeita simetria. eles já tivessem sido abandonados. daquela época em diante o jardim francês.13). pela sua coloração escura.

ele deveria ser relativamente estreito mas. Fouquet encarregou o arquiteto Le Vau da construção de um castelo. (Figura 2. Se o jardim era para ser visto num relance. que atraiu e uniu os grandes espíritos criativos de sua época. baseou-se num grande princípio: de que a completa extensão do enorme jardim deveria ser visível num relance. levar o olhar para a frente. Le Nôtre não surgiu do nada. As parterres são enfatizadas por avenidas e bosques e.ndsu. O jardim de Richelieu é contemporâneo do Buen Retiro do Conde-Duque de Olivarez na Espanha. No jardim de Vaux-le-Vicomte.nodak.htm Aqui podemos reconhecer a forma em “T” de Versalhes.29 Figura 2. impetuosa e fracionada do jardim espanhol e no método do pensamento francês com sua evidente confiança na razão e geometria. . Como em Monceaux e no castelo de Richelieu havia um bosque em cada lado da cadeia central de parterres. Em Vaux-le-Vicomte Le Nôtre. mas deveria. Vaux-le-Vicomte deve-se a Fouquet. Em Melun. Nesse caminho. também.Jardins Do Castelo Do Duque De Richelieu Fonte: www. o olhar de uma pessoa no mais alto terraço pode ver na distância. mesmo que houvesse variedade nas partes. Le Nôtre não iria planejar um lugar em que um homem culto iria encontrar seus amigos como ocorreu nos jardins dos Médici: foi para criar um estupendo teatro para festas. ele vinha de uma tradição jardinística que estava se formando e foi o expoente final dela. o ramo do “T” foi prolongado na forma de uma avenida cortada pelo parque envolvente. deveria ser comprido.14). de grande significação. sendo que sua madrinha de batismo foi a esposa de Claude Mollet. o jardim de vista nasceu e o pequeno jardim quadrado em fosso desenvolveu-se num enorme tapete estendido do terraço da casa a uma distancia remota que lhe pareceria muito mais um fundo de cenário do que uma realidade. essas deveriam estar subordinadas ao todo. havia um grande tema central ao qual tudo o mais era subordinado. O propósito desses bosques era ajudar a emoldurar a vista. Le Nôtre vinha de uma família de jardineiros. ser solicitado a mover-se de lado a lado. A diferença entre os dois está na forma desequilibrada. herdeiro da grandeza de pensamento de Richelieu. o pintor Charles Le Brun da decoração interna e o projeto do jardim coube a André Le Nôtre (1613-1700).edu/instruct/dcollito/322/French/Part-two1.13 . Ao ser chamado para executar Vaux-le-Vicomte. para ser impressionante pelo tamanho.

30 Figura 2. sem solo e. rodeados por bosques.Castelo De Vaux-Le-Vicomte Fonte: www. florestas. além do mais. Temos. sem vistas.php (vista aérea-Yan Arthus Bertrand) Luís XIV. (Figura 2. toda a terra adjacente era areia movediça ou brejo e o ar não poderia. assim. fez prender Fouquet que morreu 19 anos depois na Fortaleza de Pignerol. que davam a almejada diversidade. então. Tudo o que foi dito para Vaux-le-Vicomte pode ser dito de Versalhes como jardim. ser saudável.14 . tradução de Lucy Norton) Versalhes não era um sítio muito agradável. cit. água. e levou a equipe do projeto para construir Versalhes para ela. que não estava presente na festa inaugural do castelo. Em torno da famosa perspectiva outros jardins foram construídos e refeitos ao sabor das necessidades por festas da corte. Segundo o Marquês de Saint-Simon (op.vaux-le-vicomte. Versalhes foi a apoteose do jardim de vista francês. aquilo que os jardineiros franceses ao longo da história do jardim na França haviam preconizado: a grande perspectiva unificadora e os jardins em sua volta.com/vaux-images-chateau. . Saint-Simon at Versailles.15). Ele a descreve como o lugar mais sombrio e falto de interesse.

de cada lado. as paredes eram incrustadas de inúmeras conchas. Enquanto Le Nôtre viajava em missão diplomática a Roma. os cavalos do deus do sol guiados por tritões. Luís XIV encomendou a seus arquitetos o Palácio de Marly-le-Roy que tinha os mesmos defeitos apontados por Le Nôtre no “Bosquet de la Colonnade” construído por Charles Hardouin-Mansard para servir de substituto das funções teatrais da velha Gruta de Tétis. Versalhes. Este castelo que custou imensas somas e trabalhos ingratos. como se fossem três arcos do triunfo e. Paris. 2000. 1966). internamente.15 . o que diria? Vós transformastes um pedreiro em jardineiro e ele levou-vos a um dos truques de seu ofício”. Apolo e suas ninfas e. construído para satisfazer um capricho do rei. o chão era elegantemente pavimentado. . havia um grande reservatório de água que alimentava inúmeros dispositivos de gotejamento e esguicho de água. Le Nôtre disse: “Bem Sire. No teto. externamente. foi arrasado pelo povo durante a Revolução Francesa em seu ódio pelos desmandos da monarquia (CLIFFORD. Pressionado pelo rei a opinar. como três grandes alcovas ocupadas por grupos de estatuária. Um dos famosos exemplos desses arranjos periféricos é a famosa Gruta de Tétis que era descrita.Vista Do Eixo Central Dos Jardins Do Castelo De Versalhes.31 Figura 2. Foto do autor.

32 O JARDIM PAISAGÍSTICO INGLÊS Na Inglaterra, na terceira década do século XVIII, houve uma grande revolução na arte do jardim. As muralhas se foram, os fossos se foram, as linhas retas ainda permaneciam no jardim. Iniciou-se a rejeição dessas linhas retas. Despontou a noção da linha ondulante da beleza (the wavy line of beauty). O jardim de vista francês foi substituído por uma nova abordagem do desenho do jardim e foi na Inglaterra que isto ocorreu. Entre as razões para que isto sucedesse na Inglaterra estava o prazer do inglês em fazer um passeio pelo campo. Os jardins da Renascença Italiana eram museus onde os homens vadiavam, discursavam e conspiravam. Os jardins da França eram palcos para paradas e exibição. Os pátios da Espanha e Portugal eram salas ao ar livre nas quais se podia passar a siesta e desfrutar a sombra e o barulho da água corrente. Por outro lado, a Inglaterra não era lugar para a grande ocasião cerimonial en plein air sem a necessidade de um providencial abrigo. O clima inglês era diferente daquele da Île de France. Para os ingleses um jardim deveria ter sempre um lugar para caminhar e jogar e satisfazer a preferência do inglês pelo exercício físico como um prazer em si. O jardim inglês visava à economia, à parcimônia, o que inviabilizava o modelo de jardim francês. A economia passou a ser um dos principais fatores para o bom desenho do jardim, por isso dever-se-ia afastar as decorações com buxo e outros ornamentos e substituí-los por gramados e bosques. O plantio e disposição de árvores constituiu a nova tarefa do jardineiro. Os filósofos haviam descoberto a beleza do mundo antes do pecado original. Os economistas haviam descoberto que a sujeição da vegetação era excessivamente cara. O velho desenho do jardim não permitia mais introduzir novidades. O olhar do mundo elegante estava familiarizado com os padrões assimétricos da porcelana, laca e sedas chinesas. O despotismo monárquico estava morto, o despotismo clerical foi rejeitado, tudo conspirava para o desfrutar de um mundo cheio de surpresas e suspense. Se a paisagem deveria ser admirada, não haveria nada de mais valor que a paisagem inglesa. Negaram-se as árvores podadas e as avenidas retas. Se o jardim até agora era considerado uma extensão da casa e, assim, uma questão arquitetônica, a partir de então a natureza deveria ser “idealizada” até às paredes da casa. O primeiro e fundamental passo para o novo jardim foi a aparente remoção dos limites do jardim. O objetivo do jardineiro francês era que a natureza parecesse subordinada a sua arte. Removendo a inevitável linha divisória para o mais longe do eixo central, ele pode ignorar a existência do dia-a-dia do campo a sua volta. A intenção do jardineiro inglês ao ocultar a linha divisória era fazer parecer que os jardins eram parte do mundo total da natureza, embora sendo uma parte idealizada dela. O método adotado para disfarçar o limite do jardim foi o ha-ha. Perto do final do século XVII, na França, apareceu o método de ocultar a linha divisória por uma cerca oculta dentro de um fosso. No século XVIII, o conceito de natureza só era claro num ponto: era que se detestava a linha reta. Este era o dizer favorito de William Kent (1645-1748) o pioneiro do jardim “natural” que vai desenvolver-se no jardim paisagístico inglês (Figura 2.16).

33

Figura 2.16 - William Kent, Jardins de Stowe. Fonte: CLIFFORD, 1966, prancha 62

Um exemplo remanescente do seu trabalho é o jardim de Rousham em Oxfordshire. A grande influência de Kent foi sua viagem à Itália. No século XVIII, os jardins do Renascimento tinham 200 anos de idade e o que Kent viu e esforçou-se por reproduzir foram imagens isoladas de um bosque super desenvolvido escondendo parcialmente um templo, uma piscina sombreada por árvores, que antes constituíram uma sebe, uma fila de estátuas, um semicírculo de bustos em nichos (CLIFFORD, 1966). Nos primórdios do jardim paisagístico, estavam se desenvolvendo três tipos distintos de jardim “natural”. O primeiro era o “pitoresco”, o segundo era o “poético” e o terceiro era o jardim “abstrato”. O jardim “pitoresco” derivava das técnicas dos pintores paisagistas criando em três dimensões o que estava representado por eles em duas dimensões. O jardim “poético” baseava-se no reconhecimento e na reprodução de aparências. O jardim “abstrato” não deveria suscitar emoção por reconhecimento, nem por imitação de outra arte, porém, dar vida a certas sensações. Um quarto tipo falhou em desenvolver-se, foi a ferme ornèe, fazenda ornamentada. Quem parece ter primeiro tentado este tipo foi Dufresnoy, o sucessor de Le Nôtre no “Hameau de la Reine” em Versalhes, a “fazendinha” de Maria Antonieta. Na Inglaterra, o fracasso da ferme ornèe se deveu ao fato de que a agricultura era regida por linhas retas e linhas retas estavam fora de cogitação para o gosto da época. Dos três

34 famosos jardins da metade do século XVIII que mais devem à paisagem estão Painshill, Leasowes e Stourhead. Leasowes era obra do poeta Shenstone. O trabalho começou em 1743 e, de acordo com Shenstone, as cenas do jardim poderiam ser divididas entre o sublime, o belo e o melancólico ou pensativo. A despretensiosa casa de Shenstone estava em um gramado envolvida por um ha-ha. O restante do terreno estava arranjado numa sucessão de cenas ou perspectivas a serem vistas de um caminho-cinturão. O cinturão no jardim da metade do século XVIII era mais importante que o ha-ha. Consistia em um plantio irregular de árvores envolvendo a propriedade e provendo um caminho ou estrada no seu perímetro. Significativo porque o jardim era para ser visto olhando-se para dentro. O cinturão refletia uma mudança do ponto de vista. Shenstone fez das sucessivas vistas cruzadas de seu “cinturão-caminho” a principal característica de Leasowes. Como ele não era um homem rico como Lord Cobham, ele não pôde construir casas de verão como em Stowe; ao invés disso ele espalhou urnas, bancos de jardim e placas com versos apropriados indicando os sentimentos apropriados a cada lugar. Embora seu jardim fosse desenhado como uma série de paisagens pictóricas, não havia realmente pinturas satisfatórias nele. O segundo tipo de jardim foi o “jardim poético”. O assim chamado “jardim pitoresco” deve muito ao “jardim poético”. A confusão entre um e outro vem da natureza dos pintores que eram, na verdade, pintores poéticos. O “jardim poético” era uma questão de atmosfera. O freqüentador ligava-se na “solenidade”, no “sublime”, na “grandeza”, “dignidade” ou “elegância”, conforme a porção do jardim em que estivesse. Abismos, uma pedra com textos melancólicos, templos clássicos, uma ruína gótica, deveriam evocar as sensações apropriadas. Os arranjos no jardim deveriam criar, evocando, um genius loci, o espírito do lugar. Numa sociedade burguesa, Figuras, estátuas, vasos de flores, urnas etc., pré-fabricados, deveriam fornecer decorações poéticas ao jardim. Assim, o arquiteto voltava ao jardim fornecendo o mobiliário poético a ele. O visitante deveria vagar de uma sensação para outra numa série de cenas evocativas. O resultado foi que esses jardins perderam sua unidade artística. Um dos elementos do “jardim poético” era o “eremitério”, habitado, logicamente, pelo seu “eremita”, uma pessoa contratada para desempenhar um papel relacionado à cena que habitava. Se um tonel no jardim, o eremita evocaria Diógenes. O “jardim poético”, como toda manifestação romântica, sofreu de uma falta de disciplina e, em 1780, a grande revolução do jardim na Inglaterra, e em toda parte, havia perdido seu rumo. A teoria da “linha ondulante de beleza” (the wavy line of beauty) apareceu cedo, no século XVIII, e tornou-se um princípio estético muito forte. William Kent proclamou que “a natureza detesta a linha reta”. A teoria da linha ondulante da beleza foi subscrita por todos os produtores de jardins, seja os poéticos ou os pitorescos. Em 1750, apareceu o grande mestre do jardim paisagístico inglês: Lancelot Capability Brown (1716 – 1783). Os elementos poéticos e pitorescos do jardim foram banidos, restando só o domínio da linha ondulante da beleza. Lancelot Brown recebeu o cognome de Capability porque costumava dizer que podia ver capabilities of improvement nas áreas que deveria tratar paisagísticamente. Ele abandonou o uso de estatuária, usou bem menos edificações que os jardineiros poéticos e concentrou-se quase, inteiramente, oo uso das ondulações contrastadas e relacionadas. A cor desempenhou pouco ou nada em suas idéias. Usou o contraste tonal, luz e sombra para dispor a harmoniosa organização da linha. Ele mesmo comparou sua arte com a composição literária, como se usasse vírgulas, parênteses e, assim, dirigisse a vista e comandasse os temas em seus jardins. Capability Brown usou poucos meios criando tramas simples. Contornos de grama verde, ondulações do terreno, espelhos d’água, poucas espécies de árvores usadas isoladamente ou em grupos ou em cinturões lineares e intencionais (CLIFFORD, 1966) (Figura 2.17).

é mais racional mostrar que os dois objetos são separados. quarto. segundo. a “jardinagem paisagística”: primeiro mostram-se as belezas naturais e escondem-se os defeitos naturais de cada situação. O não banimento do jardim de flores. da horta e dos estábulos da vizinhança da casa era o principal objetivo da plataforma de Repton. com seu ecletismo. . terceiro.35 Figura 2. Fonte: CLIFFORD 1966. deve-se dar a aparência de amplidão e liberdade. Brown os havia escondido bem longe da casa.Os Jardins De Stowe Modificados Por Lancelot Brown.17 . com a qual o cenário é melhorado. Repton era governado pelo pensamento lógico. Foi o momento de Humphrey Repton (1752 – 1818) que se definiu como um “jardineiro paisagista”. que separa o gramado cortado do gramado que alimenta o gado. Repton combateu a necessidade de perspectivas em toda a parte do jardim dizendo que um pouco de reclusão era necessário. procurando satisfazer as necessidades do jardineiro florista e do colecionador botânico. na impossibilidade de torná-los ornamentais ou de tomar parte própria no cenário geral. deve-se. devem ser removidos ou apagados. sua cultura deve ser toda trabalho artístico. por mais que custosa. O estilo de Repton influenciou a jardinagem vitoriana e. Repton definiu o que ele considera como os princípios de sua arte. todos os objetos de mera conveniência ou conforto. e ao invés da linha invisível ou cerca escondida (Ha-Ha). o jardim é um objeto artificial e não tem pretensão de ser natural sendo conseqüência do crescimento das plantas que o adornam. estudadamente. sua influência chegou até o Brasil no princípio do século XX. Para ele. composto mais de gramados e árvores alcançou um ponto de saturação e o jardineiro florista reagiu e reapareceu com suas flores no desenho do jardim trazendo de volta a cor e o perfume. prancha 64 O jardim de Brown com sua economia de meios. o que passou a ser considerado não funcional. disfarçando-se cuidadosamente ou escondendo-se as divisas da propriedade. dissimular toda interferência de arte. Sob a base de Brown ele procurou construir alguma coisa que pudesse incluir ao mesmo tempo as belezas de Le Nôtre e os jardins pitorescos.

uma estrutura de ligação entre o parque e os próprios jardins”(PÜCKLER-MUSKAU 1988). mas de jardineiros.19). Esse jardim das cidades desenvolveram-se com a riqueza do café em São Paulo.18). o velho bosquete. o jardim passou a ser obra não de filósofos. mirava distantemente o parque. um meio termo. Era o chamado estilo “jardinístico” (CLIFFORD. O ESTILO PAISAGÍSTICO MODERNO NO BRASIL É o jardim eclético que vamos encontrar no princípio do século XX no Brasil. hoje chamado Parque da Luz. atravessado por caminhos serpenteantes. Como exemplos podem ser citados o Jardim da Luz. arbustos. Os elementos dos jardins passaram a ser o gramado.18 – Gruta. a Praça N. em São Paulo (Figura 2. Esses terraços elevados constituem uma marca reconhecível de muitos jardins de Repton. O domínio dos jardineiros no desenho do jardim estabeleceu que as plantas deveriam ser plantadas onde melhor crescessem e não onde tivessem o melhor efeito.36 Isto levaria a uma segregação do parque e do jardim o que ele evitou provendo um terraço balaustrado que servia como cerca entre a parte plantada e o parque e servia. . sendo. Foi Repton quem ensinou como a irresistível enchente de novas plantas foi organizada na estrutura de um pleasure ground13 e justificou sua presença no jardim. uma expansão da grama aparada pontuada com arbustos exóticos e árvores em grande variedade. Foto do autor 2005. Figura 2. da Conceição em Franca-SP. em Rio Claro-SP. o Jardim da Praça Cônego Joaquim Alves em Batatais-SP. O ecletismo de Humphrey Repton está relacionado com o jardim de todo o século XIX. também. Pleasure Ground significa um terreno ornamentado e cercado junto à casa. 13 Hermann Fürst von Pückler-Muskau faz a seguinte observação sobre o „pleasure ground“: „A palavra pleasure ground é difícil de traduzir-se para o alemão e eu tenho por mim que é melhor deixá-la em inglês. que assumiu o papel de um parque paisagístico em miniatura. Parque Da Luz. poetas e arquitetos. Com a introdução de plantas novas e exóticas e de flores. densamente plantado e com grande variedade de espécies. que substituiu o parterre. o Parque Municipal de Belo Horizonte-MG (Figura 2. com dimensão bastante grande para ser tratado como jardim. como uma plataforma visual elevada.S. São Paulo. 1966). tudo em escala reduzida. a estufa em estrutura de ferro substituiu a orangerie. o caminho-terraço. de certo modo.

Entre os livros que pertenceram a Arthur Etzel.37 Figura 2. Minas Gerais. estão bem descritos por Georges Lefebvre que aborda o “estilo paisagístico moderno”.21). 1909) que mostra modelos de jardins semelhantes a esses.20 e 2. Foto do autor 2005. . Esses jardins parecem ter chegado até nós através de modelos franceses. dos trabalhos de Jean Charles Adolphe Alphand (Figuras 2. Esses modelos que se expandiram da Paris de Haussmann. estava o livro “Les Parcs et Jardins au commencement du XX éme siécle” (VACHEROT. Belo Horizonte.19 . filho de Antonio Etzel que deu ao Jardim da Luz o seu desenho atual.Parque Municipal. e se espalharam pelo mundo.

38 Figura 2.20 . . Paris.Parque De Buttes-Chaumont. Foto do autor 2000.

Um exemplo desse estilo composto. as aléias eram numerosas. o jardim paisagístico ou inglês foi adaptado a jardins menores. servem para compor corbelhas dispostas sobre os gramados em grupos isolados ou junto aos maciços de arbustos (LEFEBVRE. e se perdem nas extremidades em direção aos maciços vegetais e aléias. 1897). encontrávamos em Franca – SP. na Praça Nossa Senhora da Conceição. dividindo terreno em um grande número de pequenos gramados com maciços de vegetação minúsculos. 1991) (Figura 2.Parque De Buttes-Chaumont. Paris.21 . antes que esta fosse modificada em meados dos anos 1950 (FERREIRA. notadamente. as aléias tornaram-se menos numerosas. no projeto de Chauviére (DEL PICCHIA. No início desse novo estilo. As ondulações do gramado (vallonnement) modelam a superfície em curvas côncavas graciosas no centro do terreno. as flores. eclético. nesse novo traçado das aléias. Após a Revolução Francesa.39 Figura 2. Depois. As modificações que essa escola moderna fez acontecer no estilo paisagístico antigo vê-se. Foto do autor 2000. tendo-se o cuidado de estudar o acordo dos dois estilos de modo a criar um conjunto harmonioso (LEFEBVRE. 1983). sem a fragmentação exagerada do terreno. criaram-se aléias curvas alongando as distâncias e oferecendo sempre novos pontos de vista ao visitante. Georges Lefebvre fala ainda do estilo misto ou composto.22). Enfim. as superfícies gramadas maiores. Esse modelo de jardim ainda encontramos no Parque da Luz e no desenho original da Praça da República em São Paulo. com o colapso das grandes fortunas. 1897). que haviam sido abandonadas até Capability Brown e retomadas por Repton e seus seguidores. no modelado dos gramados em ondulações (vallonnement) e na criação de canteiros floridos. . hoje destruído pelas constantes intervenções espúrias. O estilo misto é um composto do jardim regular ou francês e do jardim paisagístico ou inglês onde se aplica às duas partes da composição as teorias que lhe concernem. Para remediar a insuficiência de extensão das propriedades.

perfumes. Esse jardim difere. Esses espaços independentes entre si mais parecem salas ao ar livre. 2. porém sofreu modificações posteriores pelos reis espanhóis que sucederam os árabes. Vice-Rei de Nápoles. Portugal e Espanha apresentam jardins de marcada influência mourisca. O JARDIM DA PENÍNSULA IBERICA Os jardins do Alhambra e o Generalife de Granada são em sua maior parte mouriscos e datam do século XV e da última fase do governo muçulmano na Espanha. as plantas em espaldeira. Pedro Alvarez de Toledo. 2. 1966). p. Assim. a caniçada. os jardins Boboli. filha de D. CARDOSO 1990) (Figuras 2. seguindo um eixo ou diretriz principal como os jardins italianos e franceses. .Praça Nossa Senhora da Conceição. CLIFFORD. É interessante observar que no Palácio Pitti em Florença. segundo um eixo ou diretriz clara e definida. flores. os jardins portugueses e espanhóis não apresentam uma concepção ordenada. do restante dos jardins italianos do palácio. CARDOSO. esses jardins têm uma singularidade que os distinguem dos jardins do resto da Europa. a topiária e as esculturas (CARITA. destacados da paisagem ao seu redor. O uso da água não era limitado às suas qualidades de espelho ou à sua sugestão de frescor. 1990. frutos (CARITA. Por causa da influencia da cultura moura.120. os embrechados. O jardim do Alcazar de Sevilha é anterior ao jardim do Alhambra. vamos encontrar um jardim recluso construído na parte posterior do palácio para Leonor de Toledo. os alegretes. Os jardins portugueses e espanhóis se caracterizam por uma sucessão de espaços fechados em si. O controle dos jatos de água foi ensinado pelos árabes à Espanha cristã que depois levou essas técnicas à Itália e a toda a Europa (CLIFFORD. Franca. 1966). salvo por alguma abertura nos muros que permitem que o espaço exterior seja observado discretamente do interior do jardim. sendo encerrados por muros.27. No jardim português.22 . 2.23. que não se articulam.29).26.28 e 2. 1991. A tradição helenístico-mourisca da privacidade do espaço domiciliar levou à criação de espaços externos recatados onde se podia gozar uma atmosfera fresca junto aos elementos da natureza: água. Fonte: DEL PICCHIA. O peculiar uso da água é a mais distintiva característica do jardim islâmico. esposa de Cosimo I de Médici. os azulejos. as tijoleiras. Esse jardim é encerrado por muros e tem uma abertura em janela para observar uma rua com uma vista para a paisagem circundante. 2. São Paulo.40 Figura 2. as latadas. flagrantemente. encontramos uma série de elementos singulares que o compõem: os espelhos d’água.24. O uso da água em movimento foi responsável pelos arranjos engenhosos e decorativos das fontes. 2.25. onde estão os célebres jardins Boboli.

Portugal. Palácio dos Marqueses de Fronteira. Figura 2. Lisboa. . Foto do autor 2002.41 Figura 2.Azulejos e piso de tijoleira.24 – Embrechados. Quinta da Bacalhoa.23 . Foto do autor 2002. Vila Fresca do Azeitão. Benfica.

26 – Latada. Benfica.42 Figura 2. Lisboa. Palácio do Marques de Pombal.25 . Oeiras. Portugal. . Foto do autor 2002. Figura 2. Foto do autor 2002.Alegrete (Canteiro Elevado). Palácio dos Marqueses de Fronteira.

43

Figura 2.27 – Caniçada, Palácio dos Marqueses de Fronteira, Benfica, Lisboa. Foto do autor 2002.

Figura 2.28 – Topiária, Casa de Mateus, Vila Real, Portugal. Foto do autor 2002.

44

Figura 2.29 – Escultura, Palácio dos Marqueses de Fronteira, Benfica, Lisboa. Foto do autor 2002.

É interessante observar que não se conhece similares desses jardins no Brasil, salvo uma observação sobre dois pavilhões que existiram no Passeio Público do Rio de Janeiro de Mestre Valentim. Nos extremos do terraço que descortinava a Baía da Guanabara e que ficava no fim do eixo principal do jardim em oposição ao Chafariz das Marrecas, erguiam-se dois pavilhões hexagonais em que se exibia a arte muralista de painéis com conchas e penas, obras de Francisco dos Santos Xavier - Xavier das Conchas, e de Francisco Xavier Cardoso Caldeira Xavier dos Pássaros (CAVALCANTI, 2004). Esta arte muralista de conchas seria, talvez, a dos embrechados portugueses, existindo no Museu dos Oratórios de Ouro Preto de autoria de Xavier das Conchas.

CHINA E O JAPÃO O jardim chinês se desenvolve sob a influência do pensamento de Lao Tsé e de Confúcio. O primeiro sustenta que não se deve viver a vida mas, deixar a vida viver. O segundo, procurando conquistar a liberdade da calma espiritual recomenda, como meio de atingi-la, uma vida de serviço público e cooperação em uma comunidade bem estruturada, pregando

45 uma vida de moderação. A isto se adicionaram os ensinamentos de Buda que cultivava a calma, a contemplação, a libertação de todas as formas de desejo, num nível místico. No caráter cultural chinês, estavam unidos o amor à natureza e uma magnífica receptividade passiva à sensação. Esta é a origem do jardim chinês, cuja primeira função era induzir um desejável estado de espírito. Por seu caráter selvagem mais do que urbano, a geometria não tinha lugar no jardim chinês. O jardim era projetado como uma série de cenários como num rolo de pintura de paisagens, cada uma delas completa em si mesma. Como esses jardins eram réplicas escalares de cenários naturais, a escala relativa tinha especial importância. O esqueleto do jardim eram as pedras, não as pedras esculpidas, porém, as pedras naturais e elas desempenhavam o mesmo papel que as esculturas no jardim ocidental. O mesmo acontecia no jardim japonês. A qualidade procurada pelos chineses em seus jardins era o “pitoresco/emotivo” (CLIFFORD, 1966). Os japoneses reduziram a uma regra o modo como os chineses usaram os ingredientes da paisagem natural, produzindo, assim, algo original (CLIFFORD, 1966). O jardim japonês aconteceu no século VI, conforme o modelo do jardim chinês. Nas residências da aristocracia nos séculos X a XII, o jardim era colocado ao sul dos edifícios do palácio. Seu ponto central era um tanque com uma colina ao fundo. Nesse tanque, navegava-se num barco exótico desfrutando poesia e música. O jardim era plantado com diversas plantas floridas. Este jardim teve forte influência Zen, cultura do sul da China. Importante é que antes, em relação com o monastério, apareceu uma outra arte do jardim, um jardim plano. Pensamentos filosóficos influenciavam a forma do jardim que tinha uma significação simbólica. Com o desenvolvimento da cerimônia do chá desenvolveu-se um novo tipo de jardim, o jardim do chá. Pedras delineavam o caminho, lanternas de pedra, bacias de água em pedra tornaram-se elementos indispensáveis do jardim da cerimônia do chá. Árvores de folhagem perene, principalmente coníferas, distribuíam uma impressão de calma. O jardim do chá é importante por ser a forma básica que deu origem ao jardim japonês. Dos séculos XVIII até o XIX o jardim japonês tipificou-se, dividindo-se em dois tipos principais: o jardim com colinas (Figura 2.30) e o jardim plano (Figura 2.31).

Figura 2.30 - Jardim Com Colinas Fonte: YOSHIDA 1954 P. 170

destacou-se no desenho de jardins completamente diferenciados dos modelos do passado recente. Gyô deve ser observado como uma forma intermediária entre Shin e Sô. Fernando Chacel. Todos esses jardins foram popularizados e normatizados de modo que sua forma foi tornada possível para cada jardineiro. se destacam o Parque do Ibirapuera e o jardim da atual Fundação Maria Luísa e Oscar Americano em São Paulo (MARIANO. porém. a natureza apresenta-se simplificada e simbolizada. Em 1934. lembramos quatro Figuras no desenho do jardim contemporâneo. tornando-se uma das grandes personalidades do desenho do jardim contemporâneo. Shin apresenta um jardim que procura ser construído. Roberto Burle Marx realizou os primeiros jardins com senso ecológico em Pernambuco utilizando plantas da caatinga. O DESENHO DO JARDIM APÓS O ECLETISMO Por volta de 1929. 1983). No Sô. artista plástico. os japoneses mantiveram no fundo do coração a tradição do próprio jardim japonês (YOSHIDA. Otavio Augusto Teixeira Mendes. entre seus trabalhos como paisagista.31 . trabalhou com botânicos. Otavio Augusto Teixeira Mendes (1907 . . Em São Paulo. passou a se autointitular arquiteto paisagista. Roberto Burle Marx. Roberto Coelho Cardoso e Rodolfo Geiser. contrariamente ao que usavam os paisagistas como Agache e Glaziou (MOTTA. a sensação é leve e amigável. engenheiro agrônomo. ao voltar de uma pós-graduação na Universidade de Columbia nos Estados Unidos.46 Figura 2.1988). arquiteto. Teve ação destacada no Serviço Florestal do Estado de São Paulo como precursor de políticas ambientais e. trabalhou no escritório Burle Marx e carregou um pouco do seu desenho de jardim. Gyô e Sô. 171 Cada um desses dois tipos foi depois estruturado em três tipos: Shin.Jardim Plano Fonte: YOSHIDA 1954 P. 1954). A influência européia se fez sentir nos jardins japoneses modernos. Waldemar Cordeiro. No Rio de Janeiro. segundo a natureza e tem um aspecto formal. Alfred Agache realizava os jardins da Praça Paris no Rio de Janeiro com um desenho de jardim do ecletismo vigente ainda nos princípios do século XX. 2005).

como paisagista. professor de paisagismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). praças e parques públicos. São Paulo (DEL PICCHIA e CAVALHEIRO. condomínios residenciais.32 . Antes de sua partida para a Alemanha. inclusive por propor afastar o sistema viário das margens do rio. da elaboração das primeiras leis ambientais federais que organizaram o Sistema Nacional do Meio Ambiente – SISNAMA. de renaturalização. depois. 1987) (Figura 2. fez doutoramento. fato que só recentemente teve acolhida no planejamento urbano brasileiro. Após sua volta da Alemanha. projetos paisagísticos para instalações industriais e recuperação de áreas degradadas. um trabalho pioneiro. sob todos os aspectos. sendo que a presença do Modelo Filogenético no jardim foi proposição sua. ao ensino de paisagismo em escolas públicas e privadas. o engenheiro agrônomo Felisberto Cavalheiro começou a atuar no. Roberto Coelho Cardoso. Permaneceu no Departamento até sua partida para a Alemanha onde. Seus projetos.32). Projetou e implantou várias áreas verdes de São Paulo. o engenheiro agrônomo Rodolfo Ricardo Geiser que tem se dedicado ao projeto paisagístico de residências. Figura 2. 1986. também. também. então. 1. em Hannover. então. pintor concretista. de Otávio Augusto Teixeira Mendes. Roberto Coelho Cardoso chegou ao Brasil com uma recomendação de Garrett Eckbo. Como professor .Projeto Paisagístico Para O Vale Do Rio Jahu – Perímetro Urbano – Jahu-SP Fonte: DEL PICCHIA e CAVALHEIRO (1988) Vol. Participou do projeto do Jardim Botânico de Brasília. Dedicou-se. 239 Trata-se de um projeto de recuperação de paisagem. dão ênfase maior ao uso da vegetação na conformação espacial do jardim como é o caso. 1981). também. Sendo um trabalho desenvolvido em 1974 ele é. Em São Paulo atuou. 2004). Departamento de Parques e Jardins. trabalhou na Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA que mais tarde se transformou no Ministério do Meio Ambiente. MEDEIROS. participou da elaboração do “Projeto Urbanístico para o Vale do Rio Jahu. perímetro urbano” e do projeto de um parque junto ao Rio Jahu em Jahu.47 Waldemar Cordeiro (1925 – 1973). tendo recebido o título de Doctor Rerum Horticulturae com a dissertação “Die Kommunale Freiraumverwaltung in São Paulo/ Brasilien” (CAVALHEIRO. diferentemente dos arquitetos que se formaram com Roberto Coelho Cardoso. Jardins e Cemitérios da Prefeitura do município de São Paulo. dos Estados Unidos e passou a lecionar na FAUUSP. P. atuou. influenciou muitos jovens paisagistas que atuam em São Paulo e que trabalharam com ele. Seus jardins refletem os propósitos de sua pintura (BELLUZZO. também. Participou. Serviço de Parques. Segundo relato do arquiteto João Batista Villanova Artigas. No ano de 1967.

C. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. 2004. il... 1990. FERREIRA.. P. MOTTA. A History of Garden Design.. CLIFFORD.. il. 252 p. 195 p. 1988. F. 1991. Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal. Andeutungen über Landschaftsgärtnerei: verbunden mit der . DEL PICCHIA. São Paulo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. F. In: XXXVIII CONGRESSO NACIONAL DE BOTÂNICA. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. MARIANO. 357 p... Sociedade Botânica do Brasil. 2005. 443 p. 425 p. 2004. New York: Frederick A. Arte paisagem: a partir de Waldemar Cordeiro. L. 171 p. MEDEIROS. os Landespfleger.C. 2 V. 1983. CARITA. A. São Paulo: Annablume. M. Batatais e Franca: Análise da Paisagem Urbana. Waldemar Cordeiro: uma aventura da razão. G. Fapesp. Parcs et Jardins Publics.. Vol. Projeto urbanístico para o vale do rio Jahu: projeto paisagístico. il. Paisagem na Arte. Brodowski. Praeger. A.. il. Franca: itinerário urbano. Universidade de São Paulo. Acta Botanica Brasilica/Anais do XXXVIII Congresso Nacional de Botânica. Die Kommunale Freiraumverwaltung in São Paulo/ Brasilien: Gegenwärtige Situation und Chancen zukünftiger Entwicklung. São Paulo. 1983. da USP e da pós-graduação da UFSCar deixou um legado inestimável para a questão do planejamento da paisagem de acordo com os princípios defendidos pelos arquitetos paisagistas alemães. D. 365p. Paris: P. Plantations d’Alignement: Promenades. 1981. G. D. H. F. Portugal: Círculo de Leitores. Franca-SP: Laboratório das Artes de Franca. CLARK. 184 p. São Paulo: Nobel. K. LEFEBVRE. 231-241.D e CAVALHEIRO. 193 p. CARDOSO. REFERÊNCIAS BELLUZZO. Hannover. Roberto Burle-Marx e a nova visão da paisagem. L. Lisboa: Editora Ulisseia. 1897.1. il. 1987. il. il. 1966. São Paulo. Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. PÜCKLER-MUSKAU. H..48 da UNESP. DEL PICCHIA. il. Preservação e Paisagismo em São Paulo: Otávio Augusto Teixeira Mendes. M. Nireu. 1986. C. F. p. 247 p. Universität Hannover. M. 1961. il. ou da originalidade e desaires desta arte. H. P. São Paulo. CAVALHEIRO. 319 p. Vicq-Dunod e Cie. Tese (Doutoramento) – Fakultät für Gartenbau und Landeskultur. Tese (Doutoramento) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. O Rio de Janeiro Setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte. CAVALCANTI.

.... J. 1954. il.49 Beschreibung ihrer praktischen Anwendung in Muskau. 1988. Tübingen: Ernst Wasmuth. YOSHIDA. Paris: Octave Doin. Frankfurt am Main: Insel. Das Japanische Wohnhaus. 377 p. 475 p. 204 p. Les Parcs et Jardins au commencement du XXéme Siècle. il. VACHEROT. 1909.(Insel Taschenbuch). T. il.

eliminando a desordem e as contradições existentes. sociais e culturais. simplificando o complexo. Um dos entraves para a busca de um desenvolvimento baseado em um planejamento com visão sistêmica encontra-se na forma fragmentada de produção e aplicação do conhecimento. ou seja. em seguida. (. este capítulo tratará primeiramente do surgimento da Ciência da Paisagem no século XIX.. quando os estudos da paisagem passaram a ser considerados científicos. a concepção sistêmica da paisagem.. profunda e grave entre os saberes separados. na Universidade a pulverização dos saberes em uma miríade de disciplinas. Professor Doutor. corre o risco de modificar 14 Biólogo (IB-USP). transversais. mas também os inconvenientes da superespecialização. conveniente resgatar o Planejamento da Paisagem que.. a Ciência ignora a multiplicidade e a diversidade. poderia ser considerado como uma possível base teórica para uma visão mais integradora das questões naturais. Departamento de Geografia . Monteiro (1992) afirma que.CAPITULO 3 ECOLOGIA E PLANEJAMENTO DA PAISAGEM João Carlos Nucci14 Transformar a natureza para satisfação das necessidades humanas é um processo inevitável. atualmente. transnacionais. o que destrói a complexidade do ambiente. Sendo assim. esclarecer algumas questões sobre o Planejamento da Paisagem. será abordado o surgimento da Ecologia da Paisagem como uma concepção que prometia um avanço em direção à interdisciplinariedade. há inadequação cada vez mais ampla. de modo a estimular a rivalidade e o espírito de “corporação”.UFPR . a tentativa de compreender as leis da natureza – sempre vistas “em separado” da permanente e perene ação derivadora do homem sob a coerção das forças sociais e do determinismo econômico – resulta apenas em frustração. mas que. por outro lado. com o objetivo principal de divulgar e. o Geossistema. planetários. fragmentados.) os conhecimentos fragmentados só servem para usos técnicos (MORIN. econômicas. e que se baseia em questões isoladas.. realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares. quem sabe. Para Monteiro (1992). mas também a ignorância e a cegueira (. na opinião do Professor Doutor Felisberto Cavalheiro. separando o que é inseparável. porém essa transformação realizada sem um planejamento com visão sistêmica. multidimensionais. agora.) os desenvolvimentos disciplinares das ciências não só trouxeram as vantagens da divisão do trabalho. faculdades ou institutos) ajuda a expressar este caos em um negócio de concepções profissionais fragmentadas. Portanto. do confinamento e do despedaçamento do saber. Não só produziram o conhecimento e a elucidação. organizadas em departamentos estanques e estruturadas em unidades (escolas. globais. 2000). compartimentados entre disciplinas e. um reflexo da visão cartesiano-newtoniana desenvolvida a partir do século XVI. Para Morin (2000). torna-se. Ao fragmentar a realidade. provoca profundas modificações com conseqüências indesejáveis.

segmentando a unidade da Geografia Física de Humboldt em um número cada vez maior de disciplinas especializadas (BECK. Todavia. na Geomorfologia Ambiental. Foram também especialistas que. quando de forma isolada. Geografia Física significava descrever as formas da terra firme como base da vida humana. a fim de demonstrar a harmonia invisível que liga a diversidade enorme de objetos naturais. Geografia Econômica. empírica e filosófica da Natureza. não são Geografia. 1999). como. Mesmo com a crescente especialização da Geografia Física. Durante o trabalho de décadas na obra sobre a viagem à América surgiram gradualmente novas disciplinas especializadas. Interessante lembrar que o “Espaço Geográfico desde os tempos mais remotos (gregos) sempre foi encarado de forma integrada. o grande pioneiro da moderna geobotânica e geografia física. continua sendo Geomorfologia e não Geografia. 2004). Geografia Urbana. biosfera e noosfera (do grego noos . o precário. entre outras. Na língua alemã. A CIÊNCIA DA PAISAGEM O termo paisagem apresenta ao longo de sua história vários significados e. diferentemente da paisagem com significado de cenário encontrado nas artes e na literatura. nos transportes. na Zoogeografia. por exemplo.mente). Para Humboldt. na Climatologia. e mesmo que haja pontes para outras disciplinas. Para Troppmair (2004). A Geografia Física de Humboldt não se interessava em descobrir novas espécies. 39). . serão apresentados os princípios e metas do Planejamento da Paisagem como uma possível teoria integradora. na colonização. Sem negar a astúcia dos estudos específicos. finalmente. na Hidrologia. ou seja. embora a especialização já estivera fixando os domínios de vizinhança entre as disciplinas recém-emergentes. A paisagem foi introduzida como termo científico-geográfico no início do século XIX pelo alemão Alexander von Humboldt (1769-1859). Geomorfologia. mas em correlacionar os fenômenos já conhecidos. mas como uma entidade espacial e visual da totalidade do espaço de vida humano. visão esta que desapareceu com o tempo até ressurgir com ênfase com A. sobretudo as áreas do esquema de ordenamento geográfico com modernas disciplinas individuais. 1999 – p. Humboldt aderiu a uma perspectiva. von Humboldt” (TROPPMAIR. Ricotta (2003) afirma que. são disciplinas ou ramos independentes como Climatologia. na população. no comércio. nos homens. SCHOENWALDT. desde o início do século XX. na cidade e na aldeia e na sociedade. o elemento isolado em um grande sistema da Natureza. Humboldt era incansável. as numerosas disciplinas que se originaram da subdivisão da Geografia e das fusões com outras áreas do conhecimento. uma semente. na Fitogeografia. integrando geosfera. vem retomando sua importância nos estudos que tratam tanto da natureza quanto da cultura. confundiram. descobrir os nexos (BECK e SCHOENWALDT. correlacionando a caracterização morfológica da evolução da paisagem. com base na Geologia. o termo paisagem (Landschaft) contém uma conotação geográfico-espacial no prefixo land. Hidrologia. tinha a convicção de que a legitimidade de seus limites nunca constituiria obstáculo para reunir o disperso. ao mesmo tempo.51 seu rumo e. na economia. permaneceu nos biogeógrafos europeus que viam a paisagem não apenas como uma visão estética (como a maioria dos arquitetos da paisagem) ou como parte do ambiente físico (como a maioria dos geógrafos). desde 1870.

as idéias de Troll que. Sotchava (op cit. Climatologia. o resultado da combi- .) afirma. um termo utilizado por todos os especialistas da Ciência da Paisagem. no século XX. em uma determinada porção do espaço. ao contrário. pode ocupar posições firmes na moderna geografia aplicada voltada ao planejamento. influenciado pelos fatores econômicos e sociais. em 1939. método que representou um progresso sobre os estudos fragmentados por tentar reagrupar todos os elementos da paisagem sem se esquecer do ser humano. 1988).52 Então. que podem transformar sua estrutura e suas peculiaridades espaciais. O Geossistema corresponde à aplicação do conceito de “sistema” a paisagem. a ciência da paisagem pôde se desenvolver. assim. categoricamente. entre eles Passarge. A passagem da visão dos complexos naturais de Dokoutchaev para uma visão mais sistêmica. sendo a sua principal concepção a conexão da natureza com a sociedade humana. que elaborou o primeiro livro dedicado à paisagem (Grundlagen der Landschaftskunde – 1919. os estados variáveis e primitivos dos geossistemas naturais (SOTCHAVA. o conceito de sistema foi plenamente incorporado aos estudos da paisagem. Com os avanços da Ecologia e da Teoria Geral dos Sistemas na primeira metade do século XX. O conceito de Geossistema foi utilizado em 1967 pelo geógrafo inglês Stoddart e em 1969. questionando. Para ele. que seria necessário renunciar a determinar unidades sintéticas com base nas unidades elementares delimitadas pelas disciplinas mais especializadas (Geologia. na década de 1930. Definiu a paisagem não como uma simples adição de elementos geográficos disparatados. Além da continuidade dada por esses pupilos de Humboldt. às outras ciências. graças aos discípulos de Humboldt. devendo-se entender não somente a morfologia da paisagem. e que a Geografia Física deve estudar. baseada nos princípios sistêmicos. em 1963. 1977). a paisagem é. Na procura por uma síntese da paisagem. Pedologia. paralelamente. tornando-se. ou seja. ou à concepção sistêmica da paisagem (PASSOS. considerando a paisagem dividida em ecótopos (Landschaftzellen) ou células da paisagem e relatava que a paisagem poderia ser considerada um sistema energético. um complicado sistema de interações do complexo natural. Geomorfologia. 2004). criador do termo Ecologia da Paisagem. ou seja. mas as conexões entre eles. aconteceu com Sotchava que lançou. pelo alemão Neff. surgindo dessas influências as paisagens antropogênicas. Bertrand (op cit. também foi resgatada por Bertrand (1972) como uma entidade holística corroborando. estrutura funcional e conexões. a Ciência da Paisagem. etc). Para ele. que se deveríamos considerar apenas as interações funcionais da paisagem natural ou se as ligações funcionais das ações humanas não deveriam ser também pesquisadas e entendidas. mas também a sua dinâmica. então. dado pelo edafólogo russo Dokoutchaev (1848-1903). Além do termo Ecologia da Paisagem (Landschaftökologie) Carl Troll também cunhou o termo Geo-ecologia (Geo-ökologie). A paisagem. cujo estudo se deveria lançar em termos de suas próprias transformações e de suas produtividades bioquímicas. não os componentes da natureza. seria preciso procurar talhar diretamente a paisagem global tal qual ela se apresenta. a noção de geossistema como um fenômeno natural. ainda. também se desenvolveu na ex União Soviética com o nome de Geografia Física Complexa. o solo é resultado da interação dos elementos da paisagem. lançara as bases da Ecologia da Paisagem. uma questão de difícil entendimento para nossa visão ainda fragmentada (NUCCI. mas que. Hamburgo) e Troll. enfatizando que “a síntese vem felizmente no caso substituir a análise”.) afirma que a Geografia Física. como um conceito científico introduzido por Humboldt.

O esboço metodológico de Bertrand (1972) apresenta uma Geografia Física Global que se nutre dos estudos especializados tradicionais procurando entender as combinações. de elementos físicos. biológicos e antrópicos que. 2004). o geossistema seria composto por três componentes: os abióticos (litosfera. também influenciado pela visão sistêmica. o que passa na história recente (.) o meio ambiente toma a dimensão cultural.. (TROPPMAIR. não para fazer sociologia.. muito necessária nos dias atuais (NUCCI. portanto instável. Troppmair destaca a contribuição de Georges Bertrand dada ao estudo dos Geossistemas. fazem da paisagem um conjunto único e indissociável. afirmando que Bertrand: (. esboçou uma interessante definição teórica de geossistema considerando-o como o resultado de relações entre o potencial ecológico. como Tricart. Esse seu trabalho constitui. reagindo dialeticamente uns sobre os outros. 1972). e se abre para os problemas de ordenamento das paisagens.. solo. sintética e integrativa. mas estudar o meio ambiente (. a exploração biológica e a ação antrópica (Figura 3. mas da paisagem total integrando todas as implicações da ação antrópica (BERTRAND. É preciso frisar bem que não se trata somente da paisagem “natural”. da história..) ressalta que na pesquisa dos geossistemas.) quer dizer. Além de Bertrand. hidrosfera). e nós trabalhamos com a diversidade’.: FÁVERO. hidrologia etc) e bióticos (flora e fauna) ‘é necessário utilizarmos elementos da sociedade. da economia. avançaram nos estudos atuais das paisagens naturais. 2001). Para Rougerie e Beroutchachvili (1991). Figura 3.53 nação dinâmica. mais um material básico que vem auxiliando na mudança da abordagem somente analítica e linear para uma abordagem com orientação sistêmica. atmosfera.1 – Esquema das relações entre os elementos de um Geossistema (Fonte: BERTRAND. a dinâmica e evolução das paisagens.. além do estudo dos elementos abióticos (clima.1). Org. Bertrand (op cit. 1972: 13. portanto. em particular.. os bióticos (flora e fauna) e os antrópicos (o homem e suas atividades).). outros biogeógrafos próximos das Ciências Biológicas. 2004) . analisar o meio ambiente de épocas passadas e. em perpétua evolução. como Rougerie seguidos por geomorfólogos.

O primeiro trabalho sobre o tema escrito em inglês por Naveh e Lieberman (1984). ao estudar questões relacionadas ao uso da terra por meio de fotografias aéreas e interpretação das paisagens. com a Ecologia da Paisagem. (Zonneveld. A ECOLOGIA DA PAISAGEM Em meados do século XX. Geógrafos e Ecólogos na Europa Central. a aproximação “horizontal” do geógrafo examinando a interação espacial dos fenômenos. inclusive aquela praticada pelo homem. culturais e industriais. Com a sugestão desse termo. realizou-se em Wageningen (Holanda). 1982 apud NAVEH. que paisagem é um fato concreto. sendo a Alemanha e a Holanda os primeiros países com a maior quantidade de trabalhos produzidos nessa área. Em 1981. Entre os anos de 1945 e 1975. a Ecologia da Paisagem de Troll foi uma tentativa de casamento entre a Geografia (paisagem) e a Biologia (Ecologia). com a inclusão das demandas naturais. no estudo das interações funcionais de um dado lugar. na prática. 1984). a mais ampla e compreensível definição foi apresentada por Isaak S. A intenção de Troll poderia ser entendida como uma esperança de estudos que pudessem considerar o ser humano. o primeiro presidente da IALE: a ecologia da paisagem deveria ser considerada como uma ciência Bio-GeoHumana e com abordagem. como uma disciplina científica emergente. Naveh e Liebernam (1984) afirmam que. culturais e sócioeconômicas e. após a II Guerra Mundial. assim. o 1º Congresso Internacional de Ecologia da Paisagem. atitude e pensamento holísticos. entre as várias definições para a Ecologia da Paisagem. por exemplo. procuravam construir uma noção de Ecologia da Paisagem como uma ciência interdisciplinar que conduzisse a um inter-relacionamento entre a sociedade humana e seu espaço de vida – suas paisagens construídas ou não. e. surgiram várias pesquisas nessa área. 2000). novas fronteiras foram traçadas em relação à Teoria Geral dos Sistemas. considerando-se o termo “holístico” como uma total integração do natural com o elaborado pelo homem. Uma importante contribuição para esse campo foi o estabelecimento de áreas especiais para a Ecologia da Paisagem nas principais universidades da Alemanha com o objetivo de se considerar o complexo inter-relacionamento entre o homem e suas paisagens naturais. o enriquecimento do ambiente biótico natural. O termo Ecologia da Paisagem. que conduziu a criação da Internacional Association of Landscape Ecology (IALE) em 1984. Troll teve a intenção de incentivar uma colaboração entre a Geografia e a Ecologia combinando. introduzido nos EUA e em outros países de língua inglesa. Durante o congresso. esses autores sugeriram um novo .54 Troppmair (2004) conclui que o Geossistema é um sistema natural. 1967) que salientavam o caráter interdisciplinar dessa abordagem. os trabalhos de Neef (1956. a Ecologia da Paisagem despontou com raízes na Europa Central e Ocidental. a sociedade e o meio físico como um conjunto. Profissionais das mais diversas áreas se uniram com a intenção de criar uma ponte entre o sistema natural. complexo e integrado onde há circulação de energia e matéria e onde ocorre exploração biológica. Zonneveld. pois a paisagem é a fisionomia do próprio Geossistema. foi a Ecologia da Paisagem. um termo fundamental e de importante significado para a geografia. foi cunhado por Troll em 1939. Para Zonneveld (1990). organizado pela The Netherlands Society of Landscape Ecology. o rural e o urbano. com a aproximação “vertical” dos ecólogos. ou “ecótopo” (NAVEH e LIEBERMAN. ao mesmo tempo. como.

1984). uma definição bem biocêntrica. portanto. é condenar todo conceito que não seja traduzido por uma medida: “Ora. 1993). planta e animal) e não nos aspectos das ciências sociais e das humanidades. . ao arruamento. geografia e cultura (NAVEH E LIEBERMAN. ou seja.55 conceito. aos limites políticos e. e este deveria ser considerado o maior paradigma holístico da Ecologia da Paisagem. por exemplo. clima. como. no qual os homens seriam integrados com seu ambiente total. fogo. paisagens produtivas e atrativas para o próximo milênio. saúde. A Ecologia da Paisagem é vista na Europa como uma base científica para o planejamento. o Total Human Ecosystem (THE) – como um supersistema físico-geosférico. existem problemas fundamentais para os quais técnicas nãomatemáticas são mais adequadas (. Para Forman e Godron (1986). Há. Perante os desafios de salvaguardar e criar sustentabilidade. é muito aceitável que ocorra uma série de concepções diferentes para a Ecologia da Paisagem. Pearson (2002). Formam (1995). conservação. principalmente na escola americana. a Ecologia da Paisagem necessitaria de uma concepção bem mais holística. nem a existência.) seria melhor um modelo não-matemático (verbal) do que iniciar com um modelo matemático e. uma insatisfação com a atual Ecologia da Paisagem quando Naveh (2000) observa a necessidade da inclusão do ser humano e sua dimensão cultural-social e econômica como parte integral de uma ecologia global. entretanto. em um capítulo de livro que se propõe a ensinar conceitos e técnicas em Ecologia da Paisagem. Ela sobrepujou os objetivos puramente naturais da bioecologia clássica e tem tentado incluir as áreas nas quais o ser humano é o centro da questão – sociopsicologia. em um trabalho de 632 páginas sobre Ecologia da Paisagem. Existem modelos matematicamente muito sofisticados. ainda. prender-se ao axioma de Galileu. economia. ao uso da terra. mental e espiritual. um considerável número de ecologistas da paisagem que se agarram a um paradigma mecanicista e reducionista. exclui propositadamente o ser humano de suas pesquisas. Constata-se. muitas vezes.. acreditando que a Ecologia da Paisagem somente poderá alcançar uma “maturidade científica” se for capaz de fazer predições exatas de acordo com uma visão mecanicista. mas que são dúbios quando são aplicados em casos concretos. Até mesmo Bertalanffy concorda com uma certa incongruência entre modelo e realidade. A Ecologia da Paisagem. afirma logo de início que a ênfase será dada nos processos naturais (relevo. a Ecologia da Paisagem estuda a distribuição de padrões de comunidades e ecossistemas e os processos ecológicos que afetam esses padrões. água. 2000). Como uma ciência ainda muito jovem. assim. nem o sujeito podem ser expressos matematicamente ou por meio de fórmulas” (MORIN. Para Morin (2000).. justifica sua escolha por modelos de paisagens. justificando que sendo os mapas produtos humanos estes apresentam uma perspectiva antropocêntrica. não refletem as características importantes da vida selvagem. restringir o campo de visão (BERTALANFFY. O THE seria considerado o mais alto nível de integração ecológica. às cidades. interpretados sob a perspectiva de diferentes espécies (excluindo a humana). no qual os fenômenos só devem ser descritos com a ajuda de quantidades mensuráveis. nem o ser. desenvolvimento e melhoria da paisagem. possivelmente. tendendo a se reportarem às necessidades humanas e aos sistemas econômcos. como a Física Naveh (2000). solo. manejo. utilizando mapas de cobertura da terra.

De Groot e Zonneveld na Holanda. a Ecologia e a Geografia. Felisberto também salientava que havia. poderia ser trabalhada como um aglutinador de diferentes disciplinas com o objetivo de entendimento da complexidade do ambiente e quem sabe não se poderia aventar por uma possível “unidade teórico-metodológica” como sugere Monteiro (1978). Urban Ecology – scientific and practical aspects. Nas décadas de 30 e 40 (séc.. fechados e burocratizados (. UHLMANN. 714p. ainda. durante a década de 90 e início do século XXI. o biólogo. Steinitz e Turner nos Estados Unidos e Monteiro. Conseqüentemente. In: BREUSTE. as resistências são inacreditáveis. desprezar quaisquer pesquisas sejam elas mais integradoras ou mais analíticas. sendo muito difícil trocarem palavras de um “casulo” para outro. Haber. alguns pesquisadores que poderiam ser incluídos no campo da Ecologia da Paisagem. H. J. Ab’Sáber e Troppmair como precursores e divulgadores da obra de Troll no Brasil e citava. 1981). a uma enorme quantidade de dados. A Ecologia da Paisagem deveria dar sua colaboração ao planejamento em geral. o surgimento da Ecologia Urbana. que se mencionar que em função dos estudos de Ecologia da Paisagem. Rougerie e Tricart na França. Naveh em Israel. Neef. . Berlim: Springer.) Estes (os professores). pelo modelo da especialização fechada que formam as mentes tornando insensato um conhecimento para além de uma especialização. Porto e Joly. o psicólogo e o cientista social são encapsulados em seus universos privados. pois. 2000). Não se pretende. e isso não deveria acontecer com a Ecologia da Paisagem (BERTALANFFY. Ellenberg. Bertrand. Gerasimov e Sotchava na Rússia. Risser. 1998. XX) surge a primeira tentativa de síntese geral dos estudos de Ecologia Urbana (Stadtökologie). McHarg. ainda mais. Essa área do conhecimento.) Urban Ecology. inclusive ao planejamento urbano e não ficar apenas restrita ao estudo das unidades naturais (KLINK. que surgiu com a integração de duas importantes ciências. Berutchavili.. fazem com que a ciência seja dividida em inúmeras disciplinas que. apontando como seu mais importante expoente o alemão Herbert Sukopp da Universidade Técnica de Berlim15. SUKOPP. Kiemstedt. 15 Segundo Sukopp (1998) foi Schouw que em 1823 usou a expressão “plantae urbanae” para as plantas que ocorriam perto das vilas e cidades e que por volta de 1850 as investigação da ocorrência e distribuição da flora e da fauna de áreas urbanas eram considerados estudos de “História Natural”. levando-se em conta. Na década de 50 esses estudos investigam as plantas ruderais que cresciam nas ruínas da 2ª Guerra Mundial e somente na década de 70 é que ocorre uma intensificação dos estudos de Ecologia Urbana (SUKOPP. um ramo mais especializado surgia. também do Brasil. os mecanismos são rígidos. (Eds. é claro. Liebermann. Forman. A crescente especialização que caracteriza a ciência moderna. a complexidade de técnicas e de estruturas teóricas dentro de cada campo de estudo. Leser. 1998). Tanto no campo da pesquisa quanto no da educação. como Buchwald. se justificadas de acordo com a teoria adotada. Schmitthüsen e Tüxen na Alemanha. O. o físico. H. geram outras novas subdisciplinas. inflexíveis. como dizia Curien.. já apresentam uma razão de ser. 1993). portanto. continuamente.. ainda. FELDMANN. ou seja. são como os lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que nele penetram (MORIN. As dificuldades para se alcançar essa “unidade teórico-metodológica” se justificam com a mesma explicação que Morin utiliza para o sistema educacional. Drosdov. Godron. o desempenho do ser humano nas relações ecológicas da paisagem e comunicava.56 O professor Felisberto Cavalheiro destacava em suas aulas.

dos estudos alemães sobre paisagem. O PLANEJAMENTO DA PAISAGEM: A BUSCA POR UMA TEORIA INTEGRADORA Acredita-se que nenhuma ciência em particular teria condições de sozinha resolver os problemas da complexidade do mundo de hoje.) A pedagogia da complexidade ambiental abre o encontro infinito de seres diversos dialogando a partir de suas identidades e diferenças” (LEFF. a Ecologia.. entre outros. bem como a oportunidade para a exposição de trabalhos de alunos. . presidido por Felisberto Cavalheiro16 . nos primórdios do século XIX. principalmente. aconteceu no I Fórum de Debates sobre Ecologia da Paisagem e Planejamento Ambiental. A diversidade de profissionais convidados. a Agronomia e a Arquitetura. essa área do conhecimento estava voltada mais para o embelezamento da paisagem.a concepção sistêmica da vida – proposta. na Alemanha. o Planejamento da Paisagem teve um papel muito importante na reconstrução do país destruído. especialmente aquelas que se projetam multidisciplinarmente. onde é uma atividade prevista em lei. A eleição de uma única teoria para explicar o mundo parece ser um equívoco. Até mesmo a nova visão da realidade . que atravancam os estudos no campo das preocupações ambientais. No seu início. principalmente de pós-graduação. políticos e a oportunidade de. 2001). principalmente. Desde então. presidindo em 2000 o I Fórum de Debates sobre Ecologia da Paisagem (Rio Claro/SP). realizado em Rio Claro/SP em junho de 2000. de professores e outros pesquisadores. o trabalho em equipes multidisciplinares e a utilização de conceitos e teorias mais integradoras trariam uma possibilidade de um melhor entendimento e posicionamento perante as questões relacionadas com a complexidade do mundo. mas durante a Revolução Industrial surgiram preocupações com o desenvolvimento caótico das cidades e com o crescimento da destruição da natureza.. fizeram do I Fórum um marco da Ecologia da Paisagem no Brasil (vide programação do Fórum – anexo 1). também. muitos conhecidos internacionalmente. de programas com o propósito de combinar os aspectos tradicionais do embelezamento da paisagem com as novas questões relacionadas com a proteção dos recursos naturais. mesas redondas e debates. 1998). presença de representantes de diferentes comunidades. entre elas a Geografia. A troca de conhecimento. contra a industrialização (KIEMSTEDT et al. É necessário compreender que “A complexidade ambiental incorpora um processo de construção coletiva do saber (. Nos anos de 1990 voltou parte de suas preocupações para um resgate. Uma tentativa de se romper essas barreiras. a Ecologia da Paisagem passou a fazer parte dos Congressos Brasileiros de Ecologia como área de divulgação de trabalhos. Atualmente. Houve um grande incentivo para a abertura nas universidades.. Nessa época surgiram na Alemanha os movimentos de “retorno à natureza”. pós 2ª Guerra Mundial. o Planejamento da Paisagem se constitui um importante instrumento para a organização do espaço utilizado em diversos países. 16 O doutor Felisberto Cavalheiro (1945-2003). por Capra (1982) pode ser criticada por reduzir todas as questões humanas e da sociedade a peças de engrenagens controladas por mecanismos de retroalimentação. Na Alemanha. por meio de excursões. vivenciar concretamente as belas paisagens da região. é muito reduzida. para as conferências. foi professor do Departamento de Geografia (FFLCHUSP) e transitava muito bem pelas diferentes áreas que tratam da questão ambiental.57 Monteiro (1978) afirma que nossa tradição em realizar pesquisas em equipe.

a água e o clima por meio da regulamentação de seus usos e regeneração dos recursos. tem como base a capacidad de acogida del território. e uma linha da oferta. este último desenvolvido em área urbana. em adição. Outros trabalhos. revegetação. hidrologia. o Ato Federal de Proteção da Natureza. solo e habitat da vida selvagem) e.  salvaguardar as paisagens. da permeabilidade dos solos.  salvaguardar o solo. seus elementos e os espaços livres em áreas urbanas para fornecer a oportunidade de contato contemplativo e recreativo na natureza em contraste com as atividades recreativas comerciais. O Planejamento da Paisagem na Alemanha é um instrumento de proteção e desenvolvimento da natureza com o objetivo de salvaguardar a capacidade dos ecossistemas e o potencial recreativo da paisagem como partes fundamentais para a vida humana e segundo Kiemstedt e Gustedt (1990) e Kiemstedt et al. em estudos de planejamento para a localização espacial das atividades para a província de Madrid. que estuda a problemática econômica e social da população e define os objetivos a conseguir. preliminarmente ao estudo do zoneamento. Segundo Kiemstedt e Gustedt (1990) e Kiemstedt et al. principalmente. a composição indica áreas sobre o terreno onde mais de um uso pode ser suportado. aprovado em 20. conceito que significa a tolerância do território para acolher os usos do solo objeto de localização. reflorestamento. (1998). tal como residencial. comercial. e metas de qualidade ambiental como subsídio à Avaliação de Impactos Ambientais. dos ruídos e da poluição. culminando na mais importante fundamentação legal para o Planejamento da Paisagem. sendo que essas áreas precisam ser designadas e protegidas do impacto visual. etc. também. conservação e recreação ativa ou passiva. Gomes Orea (1978). que regulamentam as leis federais. suas metas seriam:  salvaguardar a diversidade animal e vegetal e suas biocenoses por meio do desenvolvimento de uma rede interligada de áreas protegidas.58 Durante a década de 70. dos aqüíferos e da poluição utilizando a vegetação como forma de controle e  definir recomendações sobre a qualidade da natureza e das paisagens. as conferências internacionais sobre meio ambiente e o surgimento de ONGs influenciaram a política ambiental alemã. que examina as carac- .12. os muitos trabalhos de interesse ambiental publicados. apontam para a idéia da necessidade de limitar a utilização antrópica da paisagem considerando que o meio natural apresenta fragilidades. Segundo Gómez Orea (1978). ou seja. as limitações por eles impostas. que procura incorporar os fatores do meio físico no planejamento com o mapeamento dos fatores intrínsecos do meio natural (clima. geologia. Pode-se citar como propostas metodológicas no campo do Planejamento da Paisagem a de McHarg (1971).1976 e os Atos Estaduais de Proteção da Natureza. industrial. controle do escoamento superficial. sem que se produzam deteriorações irreversíveis por sobre os limites toleráveis. renaturalização de cursos d’água. Essa susceptibilidade do solo a certos usos também se encontra no pensamento de Tricart (1977) quando argumenta que a organização ou reorganização do território exige um diagnóstico preliminar. (1998). combinando os mapas dentro de uma simples composição que indica (por cores e tons usados por vários fatores) a susceptibilidade intrínseca da terra por vários usos. torna-se necessário conhecer as aptidões dos terrenos para construção. o processo de planejamento pode estruturar-se segundo duas linhas paralelas: uma linha da demanda. essas leis definem os objetivos do Planejamento da Paisagem como os de proteção e manejo da natureza e da paisagem em áreas urbanizadas ou não. depois. podendo-se citar Ross (1994 e 1995) e Nucci (2001).

pode ser assim resumida: a) Dimensão física da planificação (oferta). Figura 3. b) Descrição da seqüência. todos esses termos utilizados para nomear os níveis escalares da paisagem (geossistema. perceptivas e culturais do território. portanto. 1978. O conceito de Geossistema. Para Troppmair (2004). porém com a perda de precisão do termo “ambiente”.: NUCCI. unidades de paisagens na escala 1:10. Entretanto. quando se trata de áreas muito limitadas. o autor passou a utilizar “planejamento do meio físico”.). há necessidade de recorrermos a subdivisões como geofácies. Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro (comunicação pessoal). podendo-se acrescentar ainda. 1974) buscando identificar as “descontinuidades na paisagem” (BERTRAND. pedótopo. por exemplo.  estabelecimento dos objetivos.  valoração dos temas inventariados em termos de sua qualidade ou grau de excelência intrínseco. definindo as possibilidades atuais e potenciais de satisfazer a demanda (Figura 3. quer dizer. biológicas. facilitando. geótopos. Org. 2001).2 – Esquema Genérico de um Processo de Planejamento. geofácies. portanto. ditado por Sotchava (1977) de forma muito flexível. Os dados são expressos em mapas e o inventário se expressa.  predição que consiste na relação uso x território. abrangendo sempre áreas com centenas e mesmo milhares de quilômetros quadrados. biótopo. DELPOUX. 1978. ecótopo. .2). para o Prof.  inventário das características físicas. etc. por exemplo. a compreensão. é o comportamento do território supondo que sobre ele se estabeleça qualquer dos usos em questão. Um outro procedimento fundamental no planejamento da paisagem é o da classificação da paisagem em conjuntos de subespaços afins de modo a facilitar sua compreensão e prognósticos. pode-se utilizar o “critério da homogeneidade” (GOMES OREA. segundo Gomes Orea (1978). deveriam ser substituídos apenas pelo termo “unidade de paisagem” acompanhado da escala. fora aplicado às amplas áreas da ex União Soviética.000. na forma de mapas temáticos. 1972). 17 Interessante ressaltar que Gomes Orea utilizava o termo Planejamento Ambiental ou Planificacion del médio ambiente. Tal relação tem uma dupla vertente: impacto (mudança de valor dos recursos diante de sua dedicação ao uso concreto) e a aptidão (expressão do potencial de cada recurso para cada uso). entre outros. Para tanto. (Fonte: GÓMEZ OREA. A seqüência sumária de um processo de planejamento do meio físico17. geótopo.59 terísticas do meio em que se desenvolvem as atividades humanas.

. Cada unidade deve passar por uma avaliação. como a Geografia. ao subjetivo. Por exemplo. etc. uma valoração em termos de suas qualidades ou grau de excelência intrínseco (GÓMEZ OREA.). A busca dessa homogeneidade para a delimitação de unidades de paisagem pode se reduzir aos indicadores ambientais mais importantes. ou seja. op. econômicas.). classes de declividade. Talvez o experiente professor Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro possa fornecer um caminho ao acreditar que a ciência do homem acena com a possibilidade de se desvelar do caos em que se encontra a humanidade. a homogeneidade foi estabelecida atendendo. também. cit. pois a construção desse tipo de teoria constitui um dos desafios das ciências integradoras ou de síntese. formas de relevo. sociais e culturais. pode-se. Além do levantamento da situação original (primitiva) e do diagnóstico da situação atual. Como um fato concreto e a feição (fisionomia) da estrutura. O Planejamento da Paisagem pode ser entendido como o processo positivo que pretende acomodar certos usos nas terras com melhores capacidades de acolhimento para os mesmos e como um processo negativo. Como ponto de partida e com a intenção de enfrentar esse desafio. basicamente. um tipo de zoneamento. às características da vegetação e das formas de relevo. mas conciliemos o físico ao metafísico. valorizando ou não certas características da paisagem: tipos de solo. sendo alcançado por meio de uma classificação do território em setores homogêneos como. características fundamentais do Planejamento da Paisagem. e afirma que: (. no estudo sobre a província de Madri (GÓMEZ OREA. cit. sugere-se entender a paisagem como um termo fundamental e de importante significado para a Geografia. das questões naturais. das inter-relações e da evolução que ocorrem em determinada área. adicionando ao probabilístico. ao mesmo tempo. vegetação. A delimitação de Unidades de Paisagem não pode ser entendida como um fim em si mesmo. em sua totalidade. por meio do cruzamento de cartas temáticas. obrigatória aos projetos de conservação e otimização do ambiente em torno do homem. formações rochosas.60 Essa delimitação de unidades de paisagens. mas deve-se acrescentar a ela a prognose de acordo com as diferentes possibilidades de usos requisitados pela sociedade. 1992) CONSIDERAÇÕES FINAIS Até o momento. do exato.não sejamos tolhidos pelo trauma imposto pela obsessão do objetivo. Desde que – como já admite a ciência . (GÓMEZ OREA. estabelecida em um plano. ao aproximativo. que pretende evitar a deterioração ou consumo dos recursos naturais.. sugerir cenários futuros de acordo com o tipo de desenvolvimento imaginado para a paisagem em questão. não se encontrou uma teoria única com base científica capaz de tratar.. do verdadeiro. os planos poderão abrir-se a novas utopias (MONTEIRO. pode ser entendida como uma proposta de organização do espaço. 1975). a prognose da dinâmica normal é condição necessária para a utilização racional da natureza. 1978). como o solo agrícola e a água de boa qualidade (LAURIE. em via de elaborar-se no momento presente. op. como as culturais. Pode-se perceber pelo exposto que o Planejamento da Paisagem volta-se mais para as questões da natureza relacionadas com a sua utilização pela sociedade. Para Sotchava (1977). por exemplo. sem se considerar outras questões.) o planejamento será presidido por uma nova “razão”.

. mas individualizadas através das relações entre elas que organizam um todo complexo (sistema) verdadeiro conjunto solidário em perpétua evolução” MONTEIRO (2000. General System Theory. DELPOUX. F. Caderno de Ciências da Terra No. Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) – DG/FFLCH/USP. 13. São Paulo: FFLCH/USP. Métodos em Questão 7. Dr. para uma primeira e possível aproximação dessa complexa questão. 1999. O Ponto de Mutação. 2001. Esses estudos apresentam como objetivo principal estudar as paisagens. São Paulo: Instituto de Geografia – USP.61 O conceito de paisagem indicado pelo professor Felisberto Cavalheiro em suas aulas e orientações é o proposto pelo geógrafo Prof. Seguindo pelo mesmo caminho. Do Berço da Siderurgia Brasileira à Conservação de Recursos Naturais . Foundations. A. FÁVERO. para fins de proposições de ordenamento do uso e da ocupação das diferentes unidades de paisagem. 257 p. New York: George Braziller. 1a. estão sendo desenvolvidos no Laboratório de Biogeografia e Solos (LABS) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 1995. M. Land mosaics. 1968). envolvendo questões da natureza e da cultura. Ainda. development. 1974. São Paulo. 18 Estudos de Planejamento da Paisagem. FORMAN. 48 p.Um Estudo da Paisagem da Floresta Nacional de Ipanema (Iperó/SP). von. Ed. REFERÊNCIAS BECK. The ecology of landscapes and regions. Esboço Metodológico. de qualquer modo sempre resultado de integração dinâmica e. biológicos e antrópicos). sugere-se o método “Planejamento da Paisagem” como uma ferramenta de pesquisa e aplicação interdisciplinar que busca uma proposição ótima de uso e ocupação do solo18. Bonn: Inter Nationes. 11ª ed. com ênfase em seus aspectos naturais e culturais. applications. São Paulo: Cultrix.T. portanto. toma-se a liberdade de indicar o trabalho de Bertrand (1972) por apresentar uma Geografia Física Global que se nutre dos estudos especializados tradicionais para entender as combinações. expressa em partes delimitáveis infinitamente. como subsídio parcial para compreensão e utilização. Carlos Augusto Figueiredo Monteiro: a paisagem é a “Entidade espacial delimitada segundo um nível de resolução do pesquisador. L. BERTALANFFY. das potencialidades da natureza (limites e aptidões) e necessidades/desejos da sociedade. 1972. de forma operativa (dados facilmente aplicados ao planejamento). G. Paisagem e Geografia Física Global. espacializada (expressão cartográfica) e integrada (análise sistêmica). H. Alexander von Humboldt. Modenesi. p. New York: Cambridge University Press. a dinâmica e evolução das paisagens. (Trad. (1ª ed. 632 p. Ecossistema e Paisagem. . 23 p. 447 p. 295 p. 1982. 01-27 p. 1993. a partir dos objetivos centrais da análise. CAPRA. visando a um ambiente saudável e viável em longo prazo para o uso humano. BERTRAND. 15). O. instável dos elementos de suporte e cobertura (físicos. SCHOENWALDT. P. 1972).T. R. O último dos grandes.

Curitiba: DGEOG/UFPR. 304 p. Lieberman. Qualidade ambiental & adensamento urbano. Geossistemas: a História de uma Procura. C. LEFF. Monteiro. J. KLINK. I. SIMPÓSIO SOBRE A COMUNIDADE VEGETAL COMO UNIDADE BIOLÓGICA. H. R.T. Landscape Planning: contents and procedures. nº 8. Biogeografia 17.. 39 p. A. Z. Landscape Ecology. Introducción a la arquitectura del paisaje. de F. M. Anais . A. de Geografia/USP. 127 p. GÓMEZ OREA. ed. v. 15. TURÍSTICA E ECONÔMICA. . Z.J. 240 p. MONTEIRO. M. Geoecologia e regionalização natural (bases para pesquisa ambiental). C. 1975). H. Biogeografia e Paisagem. 105 p. 2000. Landschaftsplanung als Instrument umfassender Umweltvorsoge (Conferência Internacional). New York: Wilen et Sons.Bertrand. MÖNNECKE. Landscape and Urban Planning 50 (2000) 7±26. São Paulo: Inst. de Geociências – CCH. 2004. MORIN. Florianópolis: Depto. GUSTEDT./1992.C. KIEMSTEDT. D. Presidente Prudente: edição do autor. 1978. São Paulo: ACIESP nº. A interação homem-natureza no futuro da cidade. MONTEIRO. 1998. 128 p. M.. 1983 (original em inglês – New York. 1971. 2001. 1978... El Medio Fisico y la Planificación. A cabeça bem-feita: repensar a reforma – reformar o pensamento. Epistemologia ambiental. (Resenha do artigo Paisagem e Geografia Física Global . 2001. 1988. Hanover: The Federal Ministry for the Environment. 1990. NAVEH. GEOSUL 14.. São Paulo: Contexto. Derivações antropogênicas dos geossistemas terrestres no Brasil e alterações climáticas: perspectivas urbanas e agrárias ao problema da elaboração de modelos de avaliação. 1974). NUCCI. C. KIEMSTEDT. J. M. A. São Paulo: Humanitas/FAPESP. Paperback edition. Landscape Ecology. 1a. Ed. L. Madrid: Cuadernos del CIFCA. 2º sem. 619 p. dos. de F.62 FORMAN. C. Nature Conservation and Nuclear Safety. McHARG. 1986.137-139. p. A. NUCCI.C. MONTEIRO. 236 p.2.T.. 1981 (Trad.1 e v. 1972) PASSOS. 1984. E. S. 43-74. Design with Nature.. São Paulo: Cortez. von HAAREN. LAURIE. Theory and Application. E. 2000. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. New York: The American Museum of Natural History. H. RA’EGA – o espaço geográfico em análise.. p. OTT. E. GODRON. New York: Springer-Verlag. de F. Naveh. Universidade de Hanover.. What is holistic landscape ecology? A conceptual introduction. 198 p.S. M. Barcelona: Gustavo Gili.

Geossistemas Paulistas e Ecologia da Paisagem.M. 1995.G. S.01-52. FELDMANN. Análises e Sínteses na Abordagem Geográfica da Pesquisa para o Planejamento Ambiental. Berlin: SpringVerlag. J. 215 p. p. de Geografia. H.E. J. nº 8 . 1977. 1994. 2004. Urban Ecology – scientific and practical aspects. Scope and concepts of landscape ecology as na emerging science.) Learning Landscape Ecology.) Changing Landscapes: an ecological perspective. A practical guide to concepts and techniques. V. TRICART.) Urban Ecology. Revista do Depto. Ecodinâmica. 187-198 RICOTTA. S. In: Zonneveld e Forman (eds. M. Berlim: Springer. Ciência e Estética em Alexander von Humboldt. São Paulo: FIBGE. 1977. Geossistemas. ROSS. Análise Empírica da Fragilidade dos Ambientes Naturais e Antropizados. J.. São Paulo: FFLCH/USP. São Paulo: Instituto de Geografia/USP. 1998. Rio Claro: edição do autor. S. Sistemas. SUKOPP. 2002.63 278 p. 714 p. nº 09. p. p. 130 p. ZONNEVELD. Revista do Depto.S. . de Geografia. L. TURNER. Interprerting landscape patterns from organism-based perspectives. ROSS. (Eds. H. In: GERGEL. In: BREUSTE. L. S. 63-74. J. L.. Natureza.. O Estudo de Geossistemas. I. São Paulo. 65-75 p. SOTCHAVA. B. (Eds. TROPPMAIR. Rio de Janeiro: MAUAD. New York: Spring-Verlag. 1990. PEARSON.FFLCH/USP. 2003. Métodos em Questão nº 16. O. UHLMANN. H. 286 p.

Biologia. Ecologia. outras). Civil. Público-Alvo: profissionais de universidades. Letras e Ciências Humanas – USP PPG-ERN/UFSCar – Programa de Pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais IF – Instituto Florestal – SMA PMRC – Prefeitura Municipal de Rio Claro SBAU – Sociedade Brasileira de Arborização Urbana Programa (principais palestras e convidados):  Ecologia da Paisagem: uma restrospectiva – Helmut Troppmair (Unesp – Rio Claro/ SP). Sociologia. Serviços Públicos Federais.Alemanha). Florestal. Urbanismo. Realização: SEB – Sociedade de Ecologia do Brasil CEA – Centro de Estudos Ambientais – Unesp IB – Instituto de Biociências – USP IGCE – Instituto de Geociências e Ciências Exatas – Unesp CEAPLA – Centro de Análise e Planejamento Ambiental – Unesp FFLCH – Faculdade de Filosofia.  Considerações sobre Preferências Culturais e Propostas para Planejamento Ambiental – Henri Décamps (Universidade de Toulouse – França).  Questões Ambientais no Brasil – Carlos Augusto Figueiredo Monteiro (USP – São Paulo/SP).  Alcance Profissional da Jardinocultura e Desenvolvimento de Espaços Livres na AleO manha – Gert Gröning (Universidade de Artes de Berlim .  Agenda 21 – Peter Meyer (Parlamento da Alemanha). Arquitetura. Escritórios de Planejamento. Empresas Construtoras e Alunos de Graduação e de Pós-graduação.  Instabilidade de Vertentes em Áreas Tropicais – Lylian Coltrinari (USP – São Paulo/ SP).64 ANEXO 1 Programação parcial do I Fórum de Debates ECOLOGIA DA PAISAGEM E PLANEJAMENTO AMBIENTAL Período: de 04 a 08 de junho de 2000 Local: Horto Florestal Navarro de Andrade e Instituto Biociências/Unesp – Rio Claro/SP – Brasil. Geoecologia. Geografia. Engenharia (Agronômica. Estaduais e Municipais.  Parque Ecológico do Tietê: para contornar problemas de inundação em São Paulo (Ruy Ohtake). .  Cartografia de Biótopos – Markus Weber (Grupo Brandt Meio Ambiente – Belo Horizonte/MG).

88-99 20 DG-FFLCH-USP. requerer todo um aparato técnico e de equipes de especialistas. Ao que tudo indica. se não for bem administrado. A urbanização consome grande quantidade de áreas. para as grandes cidades. essa situação não se reverteu.000km estão construídos (CONTI.742 km das nove regiões metropolitanas. desde a Revolução Industrial na Inglaterra. No caso da Grande São Paulo. principalmente. tamponando-as.564. principalmente. das águas 19 Artigo originalmente publicado no livro “Análise ambiental: uma visão multidisciplinar” (Sâmia TAUK et al. Baseando-se nos dados de Mota (1981) verifica-se que teria havido um acréscimo proporcional dessa população. ecossistemas raros e valiosos são perdidos. povoados. biótipos. A natureza e a paisagem como sistemas complexos raramente são incluídas nessas reflexões. embora entre 1980-1987 tenha havido um decréscimo na taxa. Com isso. Os processos de urbanização são hoje universais e suscitam na opinião da população e nas autoridades políticas e científicas grande preocupação. em considerações tecnológicas. além disso.861 viveriam nos 43. p. da ordem de 2. Se por um lado a tendência à urbanização apresenta um desafio para os técnicos. preponderantemente. o tipo de paisagem mais severamente ameaçado por poluição do ar. Assim. 1991. A EMPLASA (1989) divulgou que sua área urbanizada cresceu à razão de 3. nos séculos XVIII e XIX. França e Alemanha. as alterações ambientais e conseqüente modificações das paisagens vêm sendo registradas. As estimativas do IBGE (1982) previam que em 1985. ela ainda era alta. 40. dos 8.763km.5% do território nacional. o que deverá ser constatado no próximo Recenseamento Geral da Nação. e que 145 ha/dia são destinados ao desenvolvimento urbano e movimentos de terra. em nível mundial. De fato.632. Cada vez mais chega-se à conclusão de que não basta que se tome mão só de medidas tecnológicas para controle das degradações ambientais. 1. pelo contrário deve ter-se acentuado. administrativos e planejadores. pois. em cidades.500 ha/ano entre 1974-1987 e que. ou seja. Kiemstedt e Gustedt (1990) relatam que 18% da Republica Federal da Alemanha é ocupada por cidades. é bastante oneroso e. 30% da população brasileira concentrar-se-iam em 0. solos férteis. a concentração humana e das atividades a ela relacionada provocam uma ruptura do funcionamento do ambiente natural.000 habitantes do Brasil. Como lembram Sukopp e Kunick (1973) a discussão sobre o ambiente do ser humano e seus riscos de sobrevivência concentramse. da ordem de 3% entre 1975 e 1985. muitas vezes. (orgs). dos 135. perecível em curtíssimo prazo. indústrias e sistemas rodoviários e ferroviários. o mais lógico parece ser: primeiro tirar partido do que a natureza pode oferecer no tocante à auto-regeneração. 1945-2003 . Isso vale.CAPITULO 4 URBANIZAÇÃO E ALTERAÇÕES AMBIENTAIS19 Felisberto Cavalheiro20 A população da Terra vem apresentando um crescimento intenso e. passou a concentrar-se. Rio Claro/SP : UNESP/FAPESP. para então estudar quais devem ser as tecnologias mais compatíveis a serem utilizadas. 1981).000 ha/ano.

Deve-se ressaltar que em cidades pequenas as alterações podem ser significativas. porém sempre houve a tendência de estudá-los isoladamente. Assim. esquece-se que a paisagem urbana nada mais é do que uma paisagem alterada. as principais alterações ambientais induzidas pelo ser humano em grandes cidades. entretanto via de regra são pouco perceptíveis. como muitos desejam. (1985) têm buscado dar uma interpretação holística nesse sentido. Para se fazer uma reversão dessa situação. em uma determinada porção do espaço. derivada da natural. . ou. Talvez a aversão que os pesquisadores das ciências naturais têm em relação às cidades deva-se à pressuposição de que estas sejam menos convenientes para estudar-se a natureza e as repetitivas afirmações de que o meio urbano é. Monteiro et al. em geral. A preocupação da pesquisa das alterações dos diversos componentes da paisagem urbana não é recente. estudar. analisar e prognosticar as degradações e impactos ambientais. o resultado da combinação dinâmica. fazem da paisagem um conjunto único e indissociável. de forma esquemática. É. Embora elas sejam o ambiente mais importante do homem hodierno. No Brasil.66 e por resíduos sólidos. são esparsas as tentativas de estudá-las. portanto instável. em perpétua evolução. sobre as quais será feita uma discussão melhor mais adiante. sem inter-relacioná-los. nocivo à vida. reagindo dialeticamente uns sobre os outros. há necessidade de uma reflexão no conceito de paisagem proposto por Bertrand (1972): A paisagem não é a simples adição de elementos geográficos disparatados. considerá-las e reconhecê-las como unidades funcionais (ecossistemas). A Figura 4. de elementos físicos. é na paisagem alterada que se deve ir buscar.1 procura representar. Nessas considerações. biológicos e antrópicos que.

. Sukopp (1972). Michelle C. Dansereau (1978). contudo. sem cruzarem com o tipo de revestimento de solo que induz à modificação. Carvalho (1982).67 Figura 4.Principais alterações da biosfera em áreas urbanizadas (Fonte: Sukopp e Kunick. (1983). 1989). Chevallerie (1976). cita-se Monteiro (1975). Nischizawa e Yamashita (1967). Eriksen (1983). modificado por Cavalheiro. Eriksen (1983). Milano (1984. mormente no que tange ao fenômeno relativo à ilha de calor. referentes. 1983) e Douglas (1983). Rapoport (1976). à temperatura e umidade. 1919). Já na literatura alemã se encontra Bernatzky (1974). encaram a cidade como um todo homogêneo. Univ. (1974). Entre os autores da atualidade. No século XIX Howard (1883) estudou as alterações no clima londrino. Estudos que diferenciam os diversos tipos de cobertura são raros e indicam antes uma constatação do fato do que proposições para o planejamento urbano Bach (1972). Sukopp et al. 1970). merecendo maiores referências à vegetação e alguns trabalhos sobre animais: Usteri (1911. 1977. Cavalheiro e Caetano (1984). Freiburg e Hohenheim (1977). (1972). Finke (1976). principalmente. os estudos iniciaram-se com Monteiro et al. Bordreuil (1977). 2006. Sukopp e Kunick (1973). Outros componentes dos ecossistemas urbanos são ainda escassamente estudados. Rapoport et al. Richter (1981). pode-se mencionar Landsberg (1956. um dos trabalhos que propõe diretrizes nesse sentido é o de Lombardo (1985). Como pioneiro. No entanto. 1991). Monteiro e Tarifa (1973). 1977). Siegler (1981). M. 1973. isto é. Org: SILVA. Bernatzky (1969. no sentido de proposição de teoria relativa ao clima urbano. 1987). Entre nós. Troppmair (1976. que estudaram de perto a influência da urbanização sobre o clima. 1974). Entre nós.1 . todos os estudos enfocam muito mais o efeito clima (TARIFA. Estes estudos foram isolados. Fowler (1982..

sem duvida. Significaria. falar de um clima urbano que. 2006. também. é diferenciado microclimaticamente em função da cobertura do solo e do balanço térmico urbano. que está representado de forma esquemática na Figura 4. Os estudos realizados até agora indicam que o fenômeno denominado ilha de calor deve-se menos ao efeito estufa e muito mais a fatores urbanos específicos. M. de não se dar oportunidade para que especialistas de diversos ramos da ciência demonstrem suas capacidades. já que a paisagem é um todo contínuo (BERTRAND. Deve-se ressaltar que os valores apresentados referemse a valores médios.1 mostra de forma evidente que os parâmetros metereológicos sofrem tal alteração que se pode dizer que a cidade é transferida para um outro local diferente daquele em que. Michelle C. e isso. 1972). mas que em casos isolados podem ser bem maiores. cores albedo e tipo de material constituinte).2. A seguir passa-se a relatar com mais precisão as principais alterações nos diversos componentes urbanos.O domo de poluição urbana (Baseado em Marcus e Detwyler. Pode-se. tais como: efeito da transferência de energia nas construções urbanas. Se melhor interpretado. mais ou menos. Justamente. peca pelo reducionismo.2 . abandonar o corporativismo tão arraigado entre nós e usado como rótulo de defesa profissional. embora regido pelas condições mesoclimáticas. pressupõe um esforço interdisciplinar de vários especialistas. com formas especiais (estruturas verticais.68 Seria importante que as pesquisas de ecologia urbana passassem a ser mais desenvolvidas.. inicialmente. da paisagem que a circunda é um fato já há muito constatado. CLIMA Que o clima de uma cidade diferencia-se. no entanto. Org: SILVA. Figura 4. A Tabela 4. deve ser entendido como uma estratégia de “lobbies”. evaporação reduzida e conseqüentemente falta . se desenvolveu. alertando-se para o fato de que tal análise. quando feita de forma isolada. esses casos extremos são os que produzem condições “estressantes” para os seres humanos e têm efeitos ecológicos diretos sobre a biota urbana. 1972). mesmo.

19 Total 120. Baseado Muller.5ºC mais alta 1-2 ºC mais alta 2% menor 8-10% menor 100% mais 30% mais 5-10% maior 5-10% maior 5-10% maior 10% mais 20-30% menos 5-20% mais 5-25% maior 10 vezes mais menor maior Resumindo.22 53. inundações. Deve-se lembrar que a ilha de calor. trânsito e residências (ERIKSEN. Não menos graves são os “estresses” bioclimáticos ocasionados na população. > 100.69 do efeito refrescante a ela associado (pouco revestimento vegetal e rápido esgotamento das águas pluviais por canalizações).12 Zona Rural 31.000 hab.000 Pneumonia 47. pode-se dizer que a importância do clima urbano para o homem moderno traduz-se no aumento das chuvas fortes. Eriksen.75 < 50. Infelizmente faltam-nos dados brasileiros. Radiação Temperatura Umidade Relativa Neblina Nuvens Precipitação Vento Poluição Gastos financeiros Modificado de Landsberg. 1980. 1970.82 9.2 para a Inglaterra. radiação global ultravioleta média anual mínima no inverno inverno verão inverno verão cobertura média neve com mais de 5 mm média calmarias gasosa part.. sólido calefação refrigeração 15-20% a menos 30% a menos 0. produção de energia antropogênica pelos processos realizados nas indústrias.000 35. 1983). 1974. internamente.94 9. de forma “viciada” (Figura 4. cardíacos.77 10.2 – Afecções pulmonares em cidades de diversos tamanhos na Inglaterra. tais como problemas circulatórios. tais como os apresentados na Tabela 4.90 Bronquite 61.75 48.65 50.000 39. e Sukopp et al.1 – Alterações ambientais em cidade em comparação com o entorno não-urbanizado.56 Outras 11. induzidas pela urbanização. dificulta ou mesmo impede a troca de ar da cidade com seu entorno não-urbanizado e a circulação do ar passa a processar-se.71 102. 1980. respiratórios e de insônia.60 95.15 . quando instalada. bem como na formação de corredores de vento que podem ocasionar grandes catástrofes e que frequentemente são relatadas na imprensa. TABELA 4. “Causa Mortis” p/ Habitantes 10. TABELA 4.55 36.66 78. que identifica a natureza como a grande vilã causadora dessas desgraças.5-1.000-100.3).

Com o agravante de que.3 . 1988 e 1989. quando se deseja ajardinar uma área urbana. como o clima e ciclos hidrológicos. Michelle C. Org: SILVA. Rio de Janeiro. Por falta de normas e legislação específica. se de um lado eles suportam a cidade. também influenciam outros ecofatores. está desenvolvendo uma norma técnica para proteção do solo “vegetal”. 2006. Conseqüências da falta de reflexões acuradas na ocupação do solo podem ser constatadas. proposto pela Comissão Técnica de Poluição do Solo. Isso porque. mas também para os ecossistemas urbanos. na Favela Nova Republica em São Paulo. e pode-se ainda apontar para os casos isolados ocorridos em diversas cidades. como os deslizamentos de massa havidos em Petrópolis em 1987.70 Figura 4. em quase todas as obras urbanas. busca-se solo fértil em ambientes não degradados. 1983). 1989. através do projeto 1:63. infelizmente. M. de forma significativa. no Brasil. capaz de suportar a vida vegetal. a conformação urbana. e determinam. em todo o Brasil. . Para tentar solucionar o problema.03-002. verifica-se a destruição da camada superficial. para a incorporação nas áreas a serem plantadas. a Associação Brasileira de Normas Técnicas. RELEVO E SOLOS Relevo e solo representam fatores ecofuncionais relevantes em todos os ecossistemas. Essa assertiva vale não só para ecossistemas naturais e agrários. sem grandes preocupações com as “feridas” abertas nessas paisagens..Representação esquemática das radiações e balanço térmico em cidades (Baseado em Eriksen. fértil de solo.

entre as quais citam-se os esgotos domésticos e industriais. uma poluição significativa das águas de diversas causas. o poder de transporte das águas nas cidades é muito grande. Deve-se lembrar. Com isso. concomitantemente. O resultado será seu assoreamento ou entupimento. não se dão conta que estarão agravando o fenômeno ilha de calor. sendo que desses 33. como também para as canalizações responsáveis pelo esgotamento. à montante dessa obra. se não houver contínua retirada de material aportado aos canais. também. Deve-se considerar. somente 33 contam com Estação de Tratamento de Esgotos. nas cidades o ideal é que as águas cheguem com rapidez e também sejam esgotadas em grande velocidade. Digno de nota é ressaltar que dos 572 Municípios do Estado de São Paulo. ou as margens dos canais criados. que. que isso não significa que todo esgoto desses Municípios é tratado. o ideal é que as águas fluam o mais lentamente possível para que a produção de biomassa seja grande.71 ÁGUAS E CICLO HIDROLÓGICO Há uma alteração profunda tanto na configuração quanto no funcionamento e na qualidade das águas dentro das cidades. . levando para os corpos d’água. o que já foi dito em relação ao poder de transporte das águas nas cidades. Freqüentemente. também. favorecendo as inundações. como no caso do Município de São Paulo. grande quantidade de material sólido. ocorrerão bloqueios que produzirão inundações. que intensificará a pluviosidade. poderá causar inundações. as administrações municipais canalizam e/ou retificam os cursos d’água que cortam seus Municípios e muitas vezes utilizam o local do antigo leito. 1988). que conta com estações primária e secundária e continua a lançar nos rios e represas grande quantidade de esgotos sem tratamento. Assim. dentro de um enfoque ecológico. por sua vez. para solucionar problemas relacionados com inundações.4 proporciona um painel do funcionamento dos ciclos hidrológicos urbanos. A Figura 4. Enquanto. Há. o que em geral ocasiona um trabalho de erosão intenso. para a implantação de sistema viário. uma vez que. 25 têm tratamento primário e somente 8 secundário (SEADE. além de não se importarem com o que vai acontecer.

entre as .72 Figura 4. além de serem influenciadas pelos demais fatores ambientais. Michelle C. cita-se o trabalho de Troppmair (1977). sua composição florística é muito semelhante. têm. Nas cidades. constatou-se que. por sua vez. Um exemplo a ser citado é o caso dos líquenes. Em relação à flora nota-se uma grande homogeneidade na sua composição nas cidades brasileiras e pode-se quase que generalizar que.. orientado pelo autor em três bairros da cidade de Rio Claro/SP. indicam ambiente não poluído.4 – Esquema do balanço hídrico em áreas urbanas (Baseado em Plate. uma influência muito grande sobre eles. para as cidades onde não ocorrem geadas severas. podem servir como indicadores biológicos da qualidade ambiental. 2006. 1976). M. que fez um estudo biogeográfico de líquenes como vegetais indicadores da poluição aérea da cidade de Campinas. pois. A VEGETAÇÃO E A FLORA URBANA Sabe-se de sobejo a importância da vegetação para os ecossistemas. Org: SILVA. como já foi comentado no caso do clima. além dessas influências. além de indicarem que se está em presença de clima úmido. Em relação a este tópico. que quanto maior for sua cobertura e diversidade. Em levantamento realizado por Camargo.

terrenos baldios e outros. a sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides Benth). R. Digno também para o relato é o caso das plantas ruderais (as que crescem sobre escombros). que. lembre-se também que muitas espécies (não nativas) cultivadas nas cidades são exóticas. ou diversas espécies do gênero Euphorbia da família das euforbiáceas e outras. da família das euforbiáceas. a Eleusine indica Gaertn. das quais são exemplo a mamona (Ricinus comunis). Michelle C. servindo como bioindicadores. entre outras: Alternanthera brasiliana O.5% desse total (Figura 4.73 espécies utilizadas na arborização de ruas. perpétua-do-mato. Kuntze. na verdade. o gracioso Eragrostis pilosa Beauv.. que por serem muito sensíveis à poluição não subsistem em áreas altamente urbanizadas. colonizando trincas de calçamento. Além da homogeneidade florística.. (capim-mimoso). cinco delas perfaziam mais de 80% do total. (grama-seda). seja porque as condições ambientais foram tão alteradas que as espécies nativas não têm mais condições de prosperar nesses locais. Figura 4. como o Cynodon dactylon Pers. das ulmáceas. A.5). Outra particularidade da flora urbana é a grande escassez de epífitas. e a gurindiva (Trema micrantha Blume). Exemplos comuns de ruderais em nossas cidades são. 2006. .5 – Espécies utilizadas na arborização de três bairros de Rio Claro (SP). perfazer 52. (capimde-pé-de-galinha). seja por razões culturais. ficoidea. conhecidos por caruru.Br. com o agravante da mais freqüente. não se deve esquecer de que entre as ruderais urbanas existem muitas espécies arbustivas e arborescentes. nada mais são que as pioneiras dos ambientes urbanos. Embora tenha sido feito o registro de plantas ruderais rasteiras. diversos Amaranthus. Org: SILVA. muitas gramíneas. conforme já foi relatado para os líquenes. M. conhecidas por sempre-vivas.

funcionando como corredores da fauna e contribuindo para a Conservação da Natureza. no geral. C. entretanto. razão porque deixamos de relatá-las. diminuição significativa da diversidade. que o planejamento urbano. Outras espécies são lembradas quando se trata de cidades: ratos e baratas. as tendências que se verificam em relação aos animais nas cidades são: diminuição abrupta da diversidade específica de algumas ordens. principalmente os espaços livres de construção.Esboço Metodológico. . IG/USP. setorização de atividades. tem-se evidente a importância da arborização de ruas (que deveria ser a mais diversificada possível) para integração das praças e parques. causam grandes danos e são significativos vetores de doenças. além de diversos abrigos. Da mesma forma. REFERÊNCIAS BERTRAND. a preferência de alguns animais pela cidade. G. e não como lembra Cavalheiro et al. que tendo à disposição. Nesse contexto. p. Isso para que se tenha mais ou menos claro qual deveria ser a proporção ideal de espaços construídos e livres de construção que suporta o ecossistema. O. que essas considerações deveriam ser feitas em trabalhos específicos. poder-se-ia optar por uma composição orgânica das cidades.Paisagem e Geografia Física Global . com o objetivo equilíbrio numérico das diversas atividades urbanas. Dessa forma. Julgamos.74 OS ANIMAIS NA CIDADE Segundo Müller (1977). está inserido na estratégia geral do consumo: grande preocupação com o sistema viário eficiente. 27. em Cincinnati (Ohio). O mesmo relata uma bióloga polonesa para o caso da formiga Nonomorium faraonis. devido a sua grande abundância. São Paulo. culturais e econômicas que as áreas verdes deveriam desempenhar nas cidades. demonstraram que os parques urbanos funcionam como ilhas para os dípteros e coleópteros. que em Varsóvia aproveitava-se da grande quantidade de lixo e dos “conduítes” de eletricidade ocos atrás de azulejos habitacionais construídos nas décadas de 1960-1970. Estudos realizados por Faeth e Kane (1978). La . para a referência bibliográfica. proliferam em demasia. Trad. . (1983). muita alimentação. visando funcionalidade e proporcionalização dos espaços. como para a desobstrução de várias canalizações urbanas. Outra questão a ser tratada é a preocupação com melhor integração dos diversos tipos de espaços urbanos. evitou-se abordar as funções estéticas. 13. seria necessário que fosse feito à luz de análise e diagnose da paisagem. Infelizmente. Série Caderno de Ciências da Terra. BORDREUIL. Claro que se poderia discorrer sobre muitas outras proposições como melhoria das condições de sobrevivência das árvores nas cidades e que importâncias específicas elas desempenham nos ecossistemas urbanos. Porém. funcionando para eles a fórmula de biogeografia de ilhas de McArthur e Wilson (1967). Cruz. PROPOSIÇÕES Em uma breve consideração sobre o ordenamento de solo urbano. deve-se identificar essas espécies como importantes para a decomposição de resíduos. v. não se dispõem dos dados da publicação.1972.Influence de 1’urbanisation sür Ia pluviometrie de Ia Region Marsellaise. Em visão não maniqueísta.

M.O novo clima urbano.B.. 244p. . DBZ. LOMBARDO. Ed. . Hannover. Lisboa.264p. . p. Biol. 9.Micrometeorological temperature on the differentiation through urbanization. J.Social insects as urban pests: an analysis of seasonality and human perception. H.l. v. 1983.32. . ERIKSEM. 39p. Material und organismen. In: SYMPOSIUM ON URBAN CLIMATES AND BUILDING CLIMATOLOGY. 9-100. The Contribution of Landscape Planning to Environmental Protection. 1980. CHEVALLERIE. v. LANDSBERG. . e Centro de Est. In: Man’s role in changing the face of earth. Oecologia.As Áreas Verdes de Piracicaba. FOWLER. Geogr. Wiesbaden. CARVALHO. 138p. . Centro de Eng.1977. Corwhilz e Co. v. Censo Demográfico: famílias e domicílios: IX recenseamento geral do Brasil. . 137-143. H. Campinas. KANE. J. Shopping News. CAVALHEIRO. E. In: Int. 585-601.Ecologia aplicada ao Ordenamento.G. v. In: SEMINÁRIO SOBRE COEXISTÊNCIA DE SISTEMAS ELÉTRICOS E ARBORIZAÇÃO URBANA. out.1982.Okologie der Strassenbaume.E. CONTI. Instituto de Geociências e Ciências Exatas. São Paulo: Hucitec. J. . 291. 893-896. KIEMSTEDT.Funções da arborização urbana. Bruxelas. H. Londres: J. 2. 1983. 7.1978.Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.The climate of towns. 1982. . Urban Ecology. . UNESP. 1981. p. São Paulo. F. 3 vol. H..6.G.Die Stadt als Okosystem. In: Fragenkreise. Tese (Mestrado). L. p. 192p. 1983.H.C. MA. V. S. and Arch. t. 1983. LANDSBERG. . 1985. Rio de Janeiro: IBGE. n0 19. FOWLER..E. 93-105. F. Konf. . Paderbom e Munique: Ferdinand Schoning e Blutenburg Verlag. . v.Landschaftsaplanung in der Bundesrepublik Deutschland.Human effects on nest survivership of urban synanthropic wasps. P.M. . GUSTEDT. IBGE . p.. 1982. 18. HOWARD. . 1956. 1990.. T.A Ilha de Calor da Metrópole de São Paulo. p. DANSEREAU. William L. 127-133. CAETANO. 1978.75 Meteorologie Appliquée. Rio Claro. CPFL. 1970.The climats of London deduced from meteorological observation made in the metropolis and at various places around it.E. Universidade Estadual Paulista. v. FAETH. W. 1976. 1984.Urban biogeography: city parks as islands for Diptera and Coleoptera.

76

MARCUS, M.G.; DETWYLER, T.R. - Urbanization and Environment. Belmont/Cal, Duxbury Press, 1972. 286p. MILANO, M.S. - Avaliação da Arborização de Curitiba. Curitiba: UFPR, 1984. Tese (Doutorado). Universidade Federal do Paraná, 1984. MILANO, M.S. - Avaliação da Arborização de Maringá. Curitiba, UFPR, 1989. Tese (Doutorado). Universidade Federal do Paraná, 1989. MONTEIRO, CA.F. - Teoria e Clima Urbano. São Paulo: USP, 1975, 219p. Tese (Livre-Docência). Dep. de Geografia, Universidade de São Paulo, 1975. MONTEIRO, CA.F.; TARIFA, J.R. - Contribuição ao estudo do clima de Marabá, 1973. MOTA, S. Planejamento Urbano e Preservação Ambiental. Fortaleza: UFC, 1981. 242p. MÜLLER, P. - Okologische Krityerien für die Raum-Stadtplanung. In: Umwelt-Saar. Saarbrücken, 1981. 242p. NISHIZAWA, T., YAMASHITA , S. – On attenuation of solar radiation in the large cities. Jap. Prog. in Clim., Tóquio, 66-70, nov. 1967. PLATE, E. - Auswirkung der Urbanisierung auf den Wasserhaushalt. In Wasserwirtschaft, v. 66, n. 1/1, p. 7-14, 1976. RAPOPORT, E.H. - Espécies transportadas por el hombre un tipo distinto de contaminación. In: SEMINARIO SOBRE METODOLOGIAS PARA LA EVALUACIÓN DE IMPACTOS AMBIENTALES. S. Carlos de Bariloche, CIFCA, 1977. 67p. RICHTER, G. - Formen und Funktionen des Stadtgruns. In: RICHTER, G. Handbuch Stadtgrun. Munique, Viena e Zurique, BLV., 1981. p. 33-76. SEADE - Anuário Estatístico do Estado de São Paulo, 1983. São Paulo-SEP, 1984. SIEGLER, IA. - A Fauna Urbana de Uberlândia (MG) com destaque à Avifauna: um estudo de biogeografia ecológica. Rio Claro, IBGE-UNESP, 1981, 177p. Tese (Mestrado). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Universidade Estadual Paulista, 1981. SUKOPP, H. - Wandel von Flora und Vegetation unter dem Einfluss des Menschen. Berihte uber Landwirt, Hamburgo e Berlim, v. 50, n. l, 1972. SUKOPP, H., KUNICK, W. - Die Gross-Stadt als Gegenstand Okolagischer Forschung. Zeit der T.U. Beriin, Berlim, v. 5, p.710-716,1973. TARIFA, J.R. - Análise comparativa da temperatura e umidade na área urbana e rural de São José dos Campos (SP), Geografia, v. 2, n. 4, p. 59-80, out., 1977. TROPPMAIR, H. - Biogeografia e meio ambiente. 3 ed. Rio Claro, s.c.p., 1989.258p.

77

TROPPMAIR, H. - Estudo biogeográfico de liquens como vegetais indicadores de poluição aérea da cidade de Campinas (SP). Geografia, v. 2, n. 4, p. 1-38, out., 1977. TROPPMAIR, H. - Metodologias simples para pesquisar o meio ambiente. Rio Claro, 1988. 232p. UNIV. FREIBURB, UNIV. HOHENHEIM - Freiraume in Stadtlandschaften. Ludwigsburg e Esslingen: Urg. + Ulmer, 1977.154p. USTERI, A. - Flora der Umgebung São Paulo. Jen: Gustav Fischer Verl., 1911.271p. USTERI, A. - Guia Botânico da Praça da República e do Jardim da Luz. São Paulo: PMSP, 1919. 62p.

CAPITULO 5 PLANEJAMENTO DOS ESPAÇOS LIVRES LOCALIZADOS NAS ZONAS URBANAS João Carlos Nucci21 Andréa Presotto22

Para muitos, cidade e natureza devem ser consideradas como conceitos opostos. A cidade representaria um meio adaptado às necessidades da espécie humana e não às necessidades das espécies vegetais e animais. A urbanização se caracteriza pela substituição dos ecossistemas naturais por centros de grande densidade criados pelo homem, em que a espécie dominante é a humana e o meio está organizado para permitir a sua sobrevivência. Mas para Sukopp e Werner (1991), expoentes no reconhecimento da importância da conservação da natureza nos assentamentos humanos, a cidade deve mostrar as condições ideais para a conservação da natureza e da paisagem. O Professor Dr. Felisberto Cavalheiro, no prefácio de Nucci (2001), observa que somente depois da década de 1970, principalmente, na antiga República Federal da Alemanha, é que pesquisadores tentam fazer estudos integrados sobre o ambiente urbano, ressaltando que as cidades têm que ser enfocadas tanto pelos estudos sociais e de engenharia como pelos de ecologia de forma integrada. Também, no Brasil, inicia-se uma preocupação com a conservação da natureza em áreas urbanizadas, fato que pode ser comprovado pelo Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001), o qual prevê que para cumprir o objetivo de ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade, a política urbana deverá promover, entre outras diretrizes gerais, a ordenação e controle do uso do solo, utilizando como instrumento a instituição de unidades de conservação (BRASIL, 2001). É evidente a preocupação geral em se conservar a natureza em áreas urbanas. Para tanto, são necessárias pesquisas que forneçam métodos, técnicas e indicadores para a avaliação da paisagem urbanizada objetivando-se a conservação da natureza. Porém, a substituição de hábitats naturais por edificações, derrubada de florestas, erradicação de animais e ervas daninhas, introdução de espécies exóticas, poluição atmosférica, hídrica e dos solos, mudanças nos padrões naturais de percolação das águas, etc, fazem das áreas urbanas sinônimos de perturbação de ecossistemas e de erosão da diversidade biológica (MURPHY, 1997). Para Sukopp e Werner (1991), as condições ideais para a conservação da natureza nas áreas urbanas poderiam ser assim resumidas:  Otimização da distribuição dos espaços verdes na totalidade da área urbana.  Favorecimento de uma ampla conexão entre os espaços verdes do centro da cidade e de seus arredores.  Redução dos gradientes de intensidades de uso entre o centro e a periferia, sendo que somente dois terços da superfície do centro poderiam ser pavimentados e edifi-

21 22

Biólogo (IB-USP), Professor Doutor, Departamento de Geografia - UFPR. Geógrafa, Doutora em Geografia Física (DG-USP)

 folhas e ramos caídos das árvores não devem ser eliminados. assim. aumento da carga de compostos poluidores. contaminação. comporem o sistema de espaços verdes urbanos. aumento de partículas em suspensão com diminuição da visibilidade.  cemitérios também deveriam ser planejados com base em programas especiais de Os conservação da natureza e. reforço de margens.  terreno baldio de grande tamanho e que esteja em um estado avançado de sucesUm são.  Considerar os terrenos baldios com vegetação espontânea como biótopos potenciais muito especiais. podas. etc) e agressões (pisoteio.  Evitar ao máximo a pavimentação excessiva dos espaços verdes. A relação de itens acima poderia ser utilizada como uma lista de checagem na avaliação das paisagens urbanizadas. apontam problemas nas características dos parques urbanos:  Muitas espécies animais e vegetais não se adaptam aos altos níveis de tensão (ruído. destruição da vegetação natural das margens.  Adequação e integração da vegetação espontânea da zona verde. também. cercados por edificações e fragmentados pelo sisteNos ma viário. em se tratando da conservação da natureza sugeridas por Sukopp e Werner (1991). impactos negativos que não permitem a sobrevivência da fauna e flora nativas e de outros seres vivos em condições equilibradas. pois são hábitats para As artrópodos. De acordo com as características da cidade-ideal. deveria ser conservado como zona verde merecedora de proteção e não transformado em estacionamento e posteriormente edificado. do uso de fertilizantes e de pesticidas nos pequenos jardins privados.79 cados. Algumas espécies de aves 23 No anexo 1.  edificação em terrenos baldios deve ser considerada perda de espaço verde e deveA ria ser compensada.  Integração dos pequenos jardins privados criando superfícies comuns que sirvam como pontos de união entre os espaços verdes. etc. etc) a que estão submetidas. provocam assoreamento. . que são os recursos alimentícios de pequenos mamíferos e aves.  Implantação de zonas verdes de grandes dimensões e com alto grau de conexão entre elas.  Substituir o gramado por campo com plantas ruderais que apresentam uma maior diversidade de espécies e cumprem melhor as funções ecológicas para a fauna. as espécies nativas não resistem e desaparecem.  Favorecimento das espécies ruderais e das árvores nativas.  Evitar os gramados ornamentais primorosamente cortados e árvores exóticas que são mantidos com alto custo e com utilização de fertilizantes e pesticidas. poucas são as áreas urbanas que realmente colaboram com a conservação da natureza e.  Evitar a construção de tanques que não permitem a instalação natural da flora e da fauna.  alteração das condições hidrológicas originais (retificação de cursos d’água.  Fomento ao reverdecimento de telhados e de fachadas23. encontra-se um exemplo de como esse fomento poderia ser calculado com base no valor do biótopo.  parques de tamanho reduzido. pois podem constituir zonas de refúgio para espécies e apresentar grande biodiversidade. etc). diminuição da pavimentação. consA trução de represas.

Van Kamp et al. aumento da capacidade de assimilação de biomassa. Verifica-se. a cada dia. Breuste e Wohlleber (1998) afirmam que. além dos problemas sócioeconômicos. Em um parque urbano há poucas zonas tranqüilas nas quais os seres vivos possam se desenvolver naturalmente. portanto. integra espacialmente ruas e a cidade. que a qualidade ambiental vem. corredores verdes regionais deveriam contribuir com a conexão entre as áreas verdes intra-urbanas e a paisagem aberta. também. Os pesquisadores ainda se questionam sobre quais fatores poderiam determinar a qualidade ambiental.. piorando e que as medidas de planejamento sugeridas são paliativas e adeptas do populismo. pavimentação de caminhos. por exemplo.  manutenção excessiva de um parque urbano (eliminação do material vegetal vivo A e morto situado debaixo das árvores. proteção do solo e de cortes de aterros. por mais de 20 anos. Por outro lado. as leis de conservação da natureza da República Federal da Alemanha têm encorajado a conservação da natureza e proteção da paisagem para assegurar o básico para a vida das pessoas e. Essas atitudes constituem pontos básicos para o planejamento geral da conservação da natureza e proteção da paisagem nas áreas urbanas. reflexão e desvio de ruídos.  instalações desportivas e as piscinas públicas ao ar livre não apresentam grande vaAs lor do ponto de vista da conservação da natureza e não deveriam ser incluídas como parte do sistema de espaços verdes se não conseguem cumprir as funções relacionadas com a conservação da natureza. 1983). que mesmo nos parques urbanos. assegurar a satisfação das necessidades de recreação em contato com a natureza. (2003) afirmam que a identificação da qualidade ambiental urbana é uma estratégia que vem sendo adotada em vários países e que está presente em uma série de publicações científicas. em Nucci (1996. formando um “Sistema Combinado Ecologicamente”.) e a sua superutilização provocam uma diminuição das possibilidades para a vida nativa.  parques dos centros urbanos são criados para cumprir uma função fundamentalOs mente recreativa e. criação de microclimas benéficos ao ser humano. fornece anteparo . corre-se o risco de não se efetivar plenamente a conservação da natureza. no plano estético. não atingindo as causas da degradação ambiental. de acordo com suas características. então. formações de grupos de árvores isoladas sem conexão com os bosques. A vegetação em áreas urbanas pode exercer uma série de funções como conservação de biótopos. Os autores recomendam que as paisagens urbanas deveriam ser estruturadas por meio de uma rede de áreas verdes criadas para as pessoas terem contato com a natureza e poderem relaxar nas imediações de seu ambiente de vida. elemento purificador da atmosfera pela fixação de forma mecânica de partículas suspensas. etc. as possibilidades de melhorar a situação da flora e da fauna por meio de sistemas mais naturais são limitadas. 2001) pode-se encontrar uma forma simples de avaliar a qualidade ambiental urbana. necessitam de pelo menos 0. alta porcentagem de árvores e arbustos não nativos. (BREUSTE e WOHLLEBER. a vegetação facilita a relação ser humano-natureza por meio de adequada distribuição e composição de cenários.2 ha de bosque tranqüilo para nidificar (GOLDSTAEIN et al.80 de floresta. 1998) A VEGETAÇÃO NAS ÁREAS URBANIZADAS Constata-se nas grandes cidades que. incluindo a cobertura vegetal como um dos indicadores de qualidade.

000 e 1:10. podem melhorar a qualidade do ambiente urbano e melhorar também a saúde física e emocional de seus residentes. enquanto que a praça vem a ser um espaço aberto na natureza. por pequeno agrupamento de árvores. 2004).1994). que poderiam ser consideradas como uma possível resposta para o problema levantado e. os esforços para promover o reverdecimento urbano requerem mais do que conhecimento dos benefícios para a saúde humana.000. tais como: qual a proporção de espaços urbanos está coberta por árvores isoladas. que já é utilizado no levantamento da vegetação. arbustos e outros tipos de vegetação? Esta proporção varia de acordo com o tipo de zona de uso (industrial. mais do que ocorre com o jardim. segundo Saldanha (1993 apud HENRIQUE. evidenciando nitidamente a necessidade de padronização deste conceito. geralmente. a uma eliminação da natureza. segundo Attwell (2000). 2001). mas não no levantamento da vegetação em áreas urbanizadas e nem em escalas maiores. à qualidade e à distribuição da vegetação urbana. a Lei Federal brasileira conhecida como Estatuto da Cidade (BRASIL.) o advento da praça corresponde.000. se encontra a proposta de conceituação do termo cobertura vegetal. os responsáveis pela fiscalização. não deveria. Pode-se dizer que até mesmo o termo “praça” em oposição ao conceito de “jardim”. como também por estudos que permitam definir metodologias para o estabelecimento de índices de cobertura vegetal como indicadores de qualidade de vida (SBAU.. espaços bem planejados e projetados com o auxílio da vegetação.81 visual para construções desordenadas. não estabelece parâmetros de comparação (NUCCI. como a . No intuito de colaborar para a solução desses problemas. 2001) exige a adoção de padrões relacionados com a proteção e a recuperação do meio ambiente natural e construído. em escalas cartográficas menores do que 1:10. fazendo com que a comparação de índices entre cidades seja um equívoco. em muitos casos. à quantidade. bosques. ou melhor. Além disso. etc. senão contra ela (. entre 1. residencial ou institucional)? Há terras ociosas nas zonas urbanas que poderiam receber um incremento de vegetação? No Brasil. pois outras questões também precisam ser respondidas. locais onde não existe sequer uma única árvore (LIMA et. hierarquização e classificação do verde urbano. entre os quais se podem incluir os relativos aos tipos. entre elas. Para a padronização de conceitos. especialmente com cobertura arbórea. também. al. depende de indicadores relativos à qualidade ambiental. também. (1999) fornecem algumas sugestões. de uma administração municipal para outra. Portanto.. acerca do conceito de “área verde”. Estudos posteriores reafirmaram que uma das dificuldades de utilização do “verde urbano” no planejamento é a existência de uma enorme confusão na conceituação de termos utilizados por várias prefeituras do país que consideram. pois o índice desacompanhado da definição dos termos. Cavalheiro et al. pesquisas no Brasil sobre o ambiente urbano têm difundido o conceito de cobertura vegetal. ser considerado como uma área verde. clamam por pesquisas que possam ajudar na conceituação. já que. como áreas verdes. além de exigir o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) que. Todavia. Contudo. aqueles que estão na linha de frente do planejamento. ou seja. por exemplo. por exemplo. da escala espacial e do método de coleta dos dados. sem dúvida o jardim concentra e registra a privacidade retendo uma porção da natureza. Lorusso (1992) afirma que o que se considera área verde urbana varia e difere de cidade para cidade.5. 2004). por exemplo. pelos projetos e pela formulação de leis.

havia 52% de superfícies pavimentadas. no caso as fotografias aéreas. em média. Levantamentos bibliográficos recentes demonstram que essas proposições e suas aplicações não estão descoladas do que vem sendo pesquisado e publicado em outros países sobre o estudo da vegetação urbana. Os resultados desses levantamentos podem ser encontrados no Anexo 2. sugerida por Cavalheiro et al. Essa conceituação. simplesmente. (1999). (2000) e por Nucci e Ito (2002) e em Curitiba/PR e região por Nucci et al. Na área central de Sacramento (EUA).82 projeção do verde em cartas planimétricas que pode ser identificada por meio de fotografias aéreas. podendo-se citar em São Paulo/SP por Nucci e Cavalheiro (1999) e por Nucci (2001). (2003). por meio de programas de computador ou. os limites de cada área de cobertura vegetal são digitalizados em uma base cartográfica ou delimitados em sua posição exata em uma folha de acetato (overlay) colocada sobre a fotografia aérea. Para Akbari et al. Nesse método. Em uma revisão sobre os métodos utilizados para a determinação da cobertura urbana por meio de fotografias aéreas. e vem se mostrando de fácil entendimento e de grande utilidade para o planejamento e avaliação da qualidade dos espaços urbanos. que poderia também ser utilizado na análise da cobertura vegetal em áreas urbanas. Moura e Nucci (2005). a pavimentação atingia 50-70% da área e que nas áreas residenciais atingia. mas isso não desmerece o levantamento da quantidade de cobertura vegetal mesmo que seja apenas constituída por copas de árvores. deve ser considerada a localização e a configuração das manchas em mapas. também. esses autores encontraram. no prelo) e por Netto (2005). . (2004) discutiram e aplicaram. em áreas rurais. A definição não inclui está técnica com o intuito de simplificar e facilitar o levantamento da cobertura vegetal com o mínimo de treinamento e sem o auxílio de instrumentos que poderiam onerar o procedimento. Akbari et al. espaços livres e espaços de integração) e as encontradas nas Unidades de Conservação. abaixo dessa cobertura. 25 Fávero et al. 35% da área. (1996) consideram importante saber a proporção de copas de árvores em relação ao total de superfícies verdes e. o conceito de vegetação natural potencial. se pública ou privada. Novak et al. 26% de telhados e 12% de gramados. medindo-se as áreas com técnicas tradicionais. que a vegetação cobria 30% da área enquanto que. (2003) é importante que se faça uma caracterização do tipo de estrutura encontrada abaixo da copa das árvores. Considera-se toda a cobertura vegetal existente nos três sistemas de espaços (espaços construídos. Novak et al. (1996) afirmam que o “Scanning method” é o mais preciso e detalhado método de análise. sem auxilio de esteroscopia24. A escala da foto deve acompanhar os índices de cobertura vegetal. na maioria das áreas não residenciais. A cobertura vegetal pode ser quantificada com base no mapeamento. inclusive na zona rural. bem como uma análise para se saber 24 A esteroscopia é uma técnica utilizada na visualização tridimensional de objetos planos. vem sendo aplicada em bairros de algumas cidades brasileiras. a “vegetação natural potencial”25 que é a vegetação que existiria hoje se os seres humanos não tivessem removido e tivessem permitido a continuidade da sucessão vegetal até o estágio de clímax. Buccheri Filho e Nucci (2005. Esse fato mostra que se deve tomar cuidado ao se tentar uma relação direta entre quantidade de cobertura vegetal e taxa de permeabilidade dos terrenos. por observação aérea. (2003) também enfatizam a necessidade de se classificar a cobertura vegetal com base na propriedade. em Guarulhos/SP por Nucci et al. verificaram também que. pois estas também executam um importante papel na qualidade ambiental. especificando o uso e o tipo de superfície. Em termos de análise da cobertura vegetal.

arbustiva ou herbácea. em áreas ocupadas por apartamentos. etc). podendo essa classificação ser realizada por meio de fotografias aéreas e verificação de campo. (2003) observam que os índices de cobertura vegetal não devem ser extrapolados para outras regiões.. para cidades localizadas em regiões de savanas. pois em cidades onde a evapotranspiração é menor do que a precipitação há um potencial para uma maior cobertura vegetal. pois essa distribuição está relacionada com conforto térmico e qualidade do ar. Attwell (2000). com o mapeamento e análise de toda cobertura vegetal (árvores. suas escalas. principalmente. foram encontrados 48% de cobertura vegetal.000. foram encontrados de 5 a 39% (média de 19%) de cobertura vegetal arbórea. pois certas estruturas podem criar dificuldades para o desenvolvimento da vegetação. (1996) fazem um alerta sobre o perigo de se comparar índices de cobertura vegetal de locais muito diferentes. o uso da terra é outro fator importante. em área de habitação unifamiliar. mas o tipo de análise utilizado deveria ser aplicado para muitas outras cidades. Porém. dentre eles os autores apontam os dois principais: o ambiente natural do entorno e o uso da terra. segundo Attwell (2000). mas não verticalizada. geralmente. sendo 82% herbácea. Assim. Portanto. parques e áreas residenciais em regiões de floresta. enquanto que cidades que se desenvolvem.4 a 26% (média de 10%). pois muitos fatores podem influenciar no desenvolvimento da vegetação. a extrapolação e a comparação com outras cidades podem ser feitas se forem tomados os devidos cuidados referentes à explanação minuciosa sobre as bases de informações (fotografias aéreas. e em cidades localizadas em desertos de 0. às técnicas de mapea- . a data.. sendo 60% herbácea. Por exemplo. na escala 1:6. 1996). (1996) citam estudos em que foram encontrados de 15 a 55% (média de 31%) de cobertura de copas de árvores em cidades localizadas em regiões de florestas. terras ociosas. Akbari et al. foram encontrados 25% de cobertura vegetal sendo 59% herbácea. para o município de KØge (Dinamarca). mas não de acordo com a cobertura de árvores e arbustos. foram encontrados 53% de cobertura vegetal. e o cenário de uma paisagem pastoril das paisagens dos jardins ingleses ainda pode ser visto como uma inspiração costumeira (ATTWELL. Novak et al. gramados e árvores isoladas e alguns arbustos são os elementos predominantes e os agrupamentos de árvores e bosques são raros. concluindo que as cidades estudadas são verdes com base na vegetação total. apresentam maiores coberturas e em áreas comerciais e industriais a cobertura vegetal tende a ser menor (NOVAK et al.83 o quanto existe de vegetação arbórea. constatando que os centros urbanos dinamarqueses estudados apresentaram em média 25% de vegetação florestal e que 75% da área vegetada são constituídos. interpretadas com auxílio de esteroscopia. Attwell (2000) mostra que estudos realizados em cidades da Dinamarca. apresentam menor cobertura vegetal. Justifica-se o resultado encontrado devido ao fato de que a maior parte das áreas recreativas dos centros urbanos estudados foi elaborada com base na tradição de parques e jardins e não de acordo com o conceito de reflorestamento. assevera que os gramados podem ser considerados como “desertos verdes” devido a sua baixa biodiversidade e ao dispendioso controle humano para mantê-lo. por gramados. do ano de 1996. geralmente. Dentro da cidade. em regiões desérticas. Novak et al. por exemplo. verificaram que a maior parte da vegetação é herbácea. 45% de cobertura vegetal com 67% herbácea e. 2000). em áreas de alta densidade de residências. no centro da cidade. imagens de satélite. utilizando fotografias aéreas preto-e-branco. antes de se iniciar as comparações seria importante fazer um levantamento das condições de precipitação e de evapotranspiração. arbustos e herbáceas).

ainda. mapeamento e quantificação da cobertura vegetal como um todo. (1979). 50% de área de florestas em zona de agricultura. Como visto. uma caracterização básica (meio físico e uso da terra) da área de estudo. a cidade ideal de Sukopp e Werner (1991). com uma redução dos gradientes entre esses dois tipos de uso. arbustiva e arbórea. 2001) e 1:6. escoamento superficial. Nos estudos realizados 26 Para Sukopp et al. aproximadamente. portanto. sendo que áreas com índice de arborização inferior a 5% determinam características semelhantes às de um deserto26. 27 Sukopp et. poderia edificar ou pavimentar. com utilização de fotografia aérea 1:8. as áreas centrais das cidades podem ser consideradas como um “deserto de epífitas”. anteriormente. sendo 15% para árvores e arbustos. . 2002) apontam para áreas com alto grau de urbanização. a zona de edifícios altos ou de alta intensidade de urbanização e as áreas industriais e comerciais apresentaram. a meta é de 20% de cobertura vegetal com 10% para árvores e arbustos.000 (NUCCI. ou seja. afirmam que a área urbana construída de Berlim Ocidental apresenta 32% de sua superfície cobertos por vegetação. as áreas ocupadas por florestas devem estar relacionadas ao tipo de uso da terra. afirmando ser uma situação encontrada em desertos (Anexo 1). Nas áreas centrais da cidade. a meta é de 30% de cobertura vegetal. em geral. 33% da área central da cidade deveriam ser permeáveis e não edificadas e deveria apresentar ampla conexão entre a vegetação da zona rural e a das zonas centrais. Para as áreas residenciais de baixa verticalização.000 (NUCCI e ITO. Ruszczyk (1986) constatou que em Porto Alegre (RS). Oke (1973 apud LOMBARDO. É interessante salientar que em outros países a preocupação não se restringe mais e tão somente à quantificação e às qualidades estéticas dos espaços livres. a cobertura vegetal esteve abaixo de 15%. com uma quantidade insuficiente de cobertura vegetal (de 4 a 7%). (1979). Também. batizado por Douglas (1983) como “deserto florístico”. etc. porém. estão relacionadas com conforto térmico. Ainda sobre a quantificação. a preocupação tem se voltado para a conceituação. valores abaixo de 20% de cobertura vegetal. acrescentando-se. para as áreas industriais. um passo deve ser dado em direção à classificação. no Brasil. sendo que o valor mínimo de 7% ocorreu nas imediações da Estação Rodoviária. ou seja. ou seja. para Munique. a meta para Munique é de 50% de cobertura vegetal. segundo o Forest Conservation Act – Maryland/1991 (EUA). sendo 25% de cobertura de árvores e arbustos. Miller (1997) afirma que. a metade de qualquer quantidade total de cobertura vegetal deveria ser constituída por floresta (PAULEIT e DUHME. mal distribuída e desconexa (Anexo 2). para área ocupada por complexo de apartamentos. 25% de floresta em áreas residencial de média densidade e zonas institucionais e 15% de florestas em zonas residenciais de alta densidade. comerciais e industriais. al. somente dois terços da superfície do centro.27 Resultados de levantamentos realizados com base em fotografias aéreas em escalas que variam entre 1:10. já que a quantidade e distribuição das principais categorias de cobertura vegetal. Até o momento.84 mento e quantificação. para mostrar condições ideais para a conservação da natureza e da paisagem. Estudos sobre vegetação urbana na Alemanha estabeleceram objetivos para a cobertura vegetal baseados nas melhores práticas executadas em Munique. herbácea. 1985) estima que um índice de cobertura vegetal na faixa de 30% seja o recomendável para proporcionar um adequado balanço térmico em áreas urbanas. com a qualidade do ar. 2000). 1995 apud ATTWELL.000 e quantificação com papel vegetal milimetrado e extrapolação de dados.

na distribuição da flora e da fauna. os pesquisadores. Então. uma intensificação do uso e da ocupação do solo das regiões centrais dos municípios. uma estratégia que vem sendo adotada em vários países e que está presente em uma série de publicações científicas. aumento da poluição atmosférica. vários estudos comprovam que o adensamento. qualificação e quantificação dos espaços urbanos. certamente. que os estudos de conceituação. também houve a preocupação de se avaliar a qualidade dos habitats. é uma medida que vem sendo proposta com o intuito de se evitar a expansão em direção às áreas periféricas e sem infra-estrutura suficiente para suportar o crescimento populacional. acredita-se. No entanto. a quantificação e a classificação da cobertura vegetal podem fornecer subsídios para o esclarecimento e monitoramento pelos cidadãos. também. do tratamento das massas edificadas e do tratamento dos espaços livres de edificação e até de construção. se questionam sobre quais fatores poderiam determiná-la. classificação. Lorusso (1992) ensina que uma das metas do planejamento dos municípios deveria ser a definição dos espaços que não deverão ser urbanizados e as formas de urbanização adequadas para determinados sítios. nas formas do relevo. enchentes. há poucos terrenos sem edificação. como desconforto térmico. distribuição espacial. que tem sido considerada uma ameaça para as condições de vida nas cidades. Um dos produtos finais desse planejamento seria o estabelecimento de um sistema de espaços livres. citados anteriormente. hídrica e do solo. com conseqüências indesejáveis. Além dos estudos sobre a cobertura vegetal em áreas urbanizadas. erosão do solo. na dinâmica da água. afirmando ainda que a imagem final da cidade depende dos volumes arquitetônicos. Como as áreas centrais já são intensamente ocupadas. a de se viver em um meio com qualidade e. por exemplo. assoreamento dos corpos hídricos. respeitando-se os impedimentos do meio físico e sem prejuízo para a qualidade ambiental. e uma série de outros problemas relacionados diretamente com as necessidades humanas como. Justifica-se que as áreas centrais dos municípios apresentam infra-estrutura ociosa e que. na ciclagem dos nutrientes. da qualidade ambiental dos centros urbanos. ou seja. Nas áreas urbanas é muito comum um desequilíbrio entre a quantidade e distribuição dos diferentes espaços. as áreas com vegetação arbórea.85 em algumas cidades da Dinamarca. nas dimensões horizontal e vertical. para isso. O adensamento urbano. provoca alterações no clima. devido a uma ocupação intensa e não planejada. que em essência se contrapõe aos espaços construídos. podem contribuir para a avaliação da qualidade ambiental. mas os espaços ocupados por gramado e/ou por superfícies impermeáveis foram considerados como elementos negativos. da relação entre os cheios e os vazios. portanto. Porém. o adensamento só pode ocorrer por meio da construção vertical (verticalização das edificações). a falta de oportunidades para . arbustiva e herbácea constituída por plantas ruderais (relvado) e as áreas com água foram consideradas elementos positivos. ESPAÇOS LIVRES A qualidade ambiental é um paradigma atual dos profissionais do planejamento. Entre as diversas necessidades do ser humano está. tem-se a certeza de que o mapeamento. poderiam ser adensadas. ainda.

é importante enfatizar que o mito. uma análise mais aprofundada mostra que dos 95. nada adianta dizer que a cidade de Vitória (ES) tem 95. Não há dúvida de que as áreas centrais de alguns municípios apresentam infra-estrutura ociosa. pois o índice desacompanhado da definição do termo “área verde”. 2001). apenas. trevos/canteiros. 35. à recuperação do suporte natural nas cidades são questões que dizem respeito ao ordenamento dos espaços urbanos.31m2/hab são Unidades de Conservação. 2001) já demonstrou isso ao estudar Santa Cecília. os impedimentos do meio físico. 55. da luz natural.55m2/hab de área verde se esse valor não for explicado. um bairro central do município de São Paulo. Di Bernardo (1998) afirma que o grande aumento das populações urbanas exige uma preocupação com a importância do impacto sobre o suporte natural e que seria necessário estudar os sistemas urbanos com base em um “mosaico de natureza interconectada”. da escala espacial e do método de coleta dos dados. pesquisadores e outros interessados quando se trata do “verde urbano”. ao controle do uso e da ocupação dos espaços para as diferentes atividades humanas como condição essencial para um adequado desenvolvimento urbano. Segundo Douglas (1983). do acesso visual e físico aos espaços livres. foi derrubado por Lötsch (1984 apud NUCCI.09m2/hab de áreas verdes públicas que englobam praças. já se constatou que não há um consenso entre os planejadores. (1994) constataram. 28 No Anexo 3 encontra-se um fluxograma das conseqüências do adensamento por verticalização das edificações. não estabelece parâmetros de comparação. sobrando. Pensando. uma enorme confusão na conceituação do termo “área verde” utilizado por várias prefeituras do país. os jardins urbanos e lotes vagos são. que consideram como áreas verdes locais onde não existe sequer uma única árvore. uma trama de espaços com solos destinados à produção de alimentos. é um componente vital para o ecossistema urbano. há fortes argumentos relativos à saúde pública para a incorporação do verde. podem influenciar o clima urbano. de uma trama de espaços com solos destinados à produção de alimentos.27m2/hab são áreas verdes particulares.55m2/hab. de que ocorre um ganho de espaços livres à medida que se verticaliza uma área. além de fornecerem alimento. 2.86 que o cidadão interaja com a natureza (NUCCI. mas elas apresentam qualidade ambiental suficiente para suportar um adensamento. ao demonstrar que acima de quatro pavimentos o ganho de espaços livres é negligenciável. ainda. Essa constatação não permite uma comparação de índices de áreas verdes e de cobertura vegetal entre cidades. como visto anteriormente. Encontrar e utilizar significados precisos para as palavras é questão fundamental para uma boa e confiável comunicação. Para Jackson (2003). considerando-se. Por exemplo. Daí a importância de jardins e quintais com hortas e frutíferas que. . Por exemplo. ou seja. Lima et al. de luz natural e acesso visual e físico aos espaços livres verdes perto das residências e em outros pontos da cidade. à recuperação do suporte natural e à ocupação dos espaços construídos.88m2/hab são arborização de rua. ainda. 2. ou seja. alamedas e calçadões. principalmente pelo grande número de apartamentos desocupados. Nucci (1996. veiculado por interesses escusos. Incorporação do verde. 2001)28. um componente significante do abastecimento de alimento e vida social das cidades ocidentais e que o uso temporário para as terras vagas dos lotes com hortas. Sobre o tema em questão. Além disso. colaborando para a conversão em larga escala da energia solar em alimento.

a falta de definição clara do termo “área verde” e seus correlatos pode levar a falsas interpretações. cit). A contraposição entre “área construída” e “espaço livre” pode trazer alguma confusão. devem ser .86m2/hab). entendiendo a este. dentro do sistema de espaços livres. espaço aberto. Para Llardent (1982) um Sistema de Espaços Livres poderia ser definido como sendo o Conjunto de espacios urbanos al aire libre. inclusive as águas superficiais e que o termo espaço aberto trata-se de um anglicismo. estaria classificado. como contraposición de Ias personas que se mueven por Ia ciudad en un medio motorizado. ou seja. seria necessário. em um uso direto da população (recreação em áreas públicas) e em contato com a natureza (áreas com vegetação). uma certa quantidade de zonas verdes. tendo sido. Em Henke-Oliveira et al. Estas sim. porém. en general. ou seja. Área de jogos equipados (0. ainda. Área de jogos livres (2. pois a palavra inglesa é open space e não free space. quiosques. ainda. que para existir espaço aberto em urbanismo. as zonas de repouso.6% de ruas arborizadas. (1994). então. áreas impermeabilizadas para facilitar as caminhadas e os jogos. incluindo.. Argumentam. os espaços livres não são. erroneamente traduzido.. pode-se constatar que os espaços livres são livres de edificação e não de construção. uma quadra poliesportiva. que pode ser de concreto. a arborização de rua deveria ser computada apenas no índice de cobertura vegetal e não no de áreas verdes.6%). O autor também define área verde como “Cualquier espado libre en el que predominen Ias áreas plantadas de vegetación (. para el descanso. os caminhos. há espaços livres destinados a jogos. talvez sanitários. sempre que possível. da seguinte maneira: Jardim de jogos infantis (0. retirar dos 2..6m2/hab.09 m2/hab de áreas verdes públicas.86m2/hab).30m2/hab) e Zonas verdes (5. Ia práctica del deporte y. tais como rede elétrica. Todavia. as áreas de jogos. (1999). mas pela listagem acima dos tipos de espaços livres.) destinado al peatón. poderia ter seus espaços divididos em:  área construída (37. Lima et al. necessariamente. os trevos/canteiros e alamedas. de acordo com a proposição de Cavalheiro et al.8%).  sistema viário e estacionamentos (19. Porém. um conjunto residencial. volvemos a insistir. uma infra-estrutura mínima para o uso dos espaços. Zonas de repouso (2. dever-se-ia contar com o termo área aberta (que é bidimensional).87 portanto. bancos. (1994). como por exemplo. encontram-se índices referentes à cidade de Maringá (PR) que contaria com um índice de área verde de 20. revestidos totalmente por vegetação. el paseo.6%) e  sistema de espaços livres (42.30m2/hab). em português. O Sistema de Espaços Livres. para poder dar-lhe a tridimensionalidade que seria. de forma simplificada.4% de áreas verdes com os 67. por ser mais abrangente. segundo Llardent (op. certamente apresentam construções. Todavia. Rede de passeios a pé (6. devem apresentar poucas edificações. deve-se reservar. em português ao pé da letra. Para Llardent (1982). ou seja.00m2/hab). a cidade apresenta esse índice somando-se os 32.. também concordam que um conceito mais abrangente e que poderia ser utilizado no ordenamento da paisagem parece ser o de Espaço Livre.32m2/hab. É oportuno citar que Cavalheiro e Del Picchia (1992) apresentam a opinião de que o termo “espaço livre” deveria ser preferido ao de “área verde”. el recreo y entretenimiento de sus horas de ocio (. de água e de esgoto. com 17.)”. destinados bojo todo tipo de conceptos al peatón. Portanto.0m2/hab). Por exemplo e apenas como sugestão.

somente as calçadas isoladas do sistema viário para veículos motorizados devem fazer parte do sistema de espaços livres. pois em exercendo sua função recreativa. como por exemplo.) na Hungria estão fazendo esforços para não permitir que mais de 50% dos terrenos urbanizáveis sejam edificados ou pavimentados (. Para Llardent (op. ajudando a equilibrar as dimensões e espaços. andando normalmente. ou quem sabe.. Parques de Esportes. cit. fornecer uma noção de referência escalar. enquanto Sukopp et al. mais do que 10 (dez) minutos para alcançar o equipamento mais próximo. mas devem-se considerar a sua qualidade e sua distribuição espacial. “Um grande peso é a distância entre o usuário e o espaço livre” (distâncias maiores do que 10 a 15 minutos. Parque de Atrações. Esses espaços. desempenhar a função de facilitador da realização social da personalidade. a pé. Um espaço livre poderá ou não. dependendo de sua qualificação. Lorusso (1992) também orienta para uma melhor distribuição e maior ampliação do “Sistema de Áreas Verdes”. (1979) afirmam que a área urbana de Berlim Ocidental apresenta 32% de sua superfície cobertos por vegetação. o que difere das “dotações esportivas”.88 livres de edificação e. 1985). de modo que o usufrutuário não tenha que dispender. que para Llardent (op cit) a rede de passeios a pé (rede de peatones) deve oferecer segurança e comodidade com separação total da calçada em relação aos veículos. por si. os espaços livres podem colaborar na delimitação de espaços e representam. com uma infraestrutura mínima para o uso. também sugeridas por Llardent (op cit). Enfim. são realmente livres com apenas algumas regras mínimas de convivência.. Observa-se. o Sistema de Espaços Livres teria 50. de construção. Áreas para usos Especiais e Parque Urbano.. O Sistema de Espaços Livres na escala de cidade conta com os seguintes aparelhos: Parque de Jogos. 1991). além da quantificação.000 habitantes um total de 21 a 30m2 de espaços livres públicos por habitante. também. os caminhos devem ser agradáveis. questão fundamental. pensando na facilidade de uso pela população. a possibilidade de vivência espacial. A identificação e análise das funções que um espaço livre pode exercer são ações que ajudam na caraterização da qualidade desse espaço. Zoológico. também.). Henke-Oliveira et al. se considera como ponto crítico que um município utilize mais de 50% de sua superfície para construção (. as trilhas para facilitar o contato com a natureza. (1994).. Jámbor e Szilágyi (1984) sugerem para cidades com mais de 10.0m2/hab. pois não basta apenas a existência do espaço livre. que se possa edificar ou pavimentar no máximo dois terços ‘66%’ da superfície do centro (SUKOPP e WERNER. que estariam mais relacionados com a escala dos conjuntos residenciais ou escala de bairro. Neste caso. Jardim Botânico. um dos maiores requisitos do espaço livre seria sua localização em relação aos usuários. à caracterização de ruas. que devem contar com 4m2/hab. sendo 35m2/hab totalmente públicos e livres de regras rígidas. além do levantamento quantitativo das áreas verdes de . A densidade de construção deverá também se planificar de tal maneira que se consiga uma densidade média em vez de uma densidade máxima (por exemplo. favorecer o contato entre pessoas. é muito importante que os espaços livres sejam localizados em mapas com a indicação de seus raios de influência. Em um informe sobre as áreas recreativas de Nordrhein-Westfalen (República Federal da Alemanha). Portanto. logradouros com a noção de referencial para toda a cidade. variados e pitorescos. a utilização decai) (DI FIDIO. talvez. porém esse espaço seria semipúblico pois estaria sob regras mais rígidas de utilização.) A densidade de edificações determina as possibilidades de reverdecimento do centro urbano.

não restando quase nada que favoreça um contato maior do indivíduo com a natureza. pois exercem um importante papel na qualidade ambiental e de vida dos habitantes das zonas urbanizadas..) valor social bastante comprometido. aventura. a proteção de áreas já existentes e o planejamento da ocupação do solo. por exemplo: (. atividades lúdicas (. uma vez que a acessibilidade é baixa. A recreação é algo mais do que uma atividade física qualquer. Dependendo da qualidade do espaço livre pode-se ter a oportunidade de ter experiências com sons. Às vezes a área verde não apresenta condições de uso. 29 Uma lista de checagem para avaliação dos espaços livres... devido ao intenso tráfego de veículos e o fato de que os canteiros centrais têm pouca extensão (. as espécies vegetais naturais e as exóticas. de obra. unidade. 29 Os espaços livres. abertura. a acessibilidade. ouvir. lugares de simultaneidade e de encontros. previsibilidade. que está na idade das sensações e impressões.. segundo o seu gosto e sob a própria responsabilidade.. tráfego. valor ecológico. paladar da natureza. Esse é um procedimento muito importante. iluminação. além de acomodações e instalações variadas. são elementos fundamentais no planejamento dos usos e ocupações. estacionamento. certeza. Para assegurar o bem-estar dos cidadãos.. Compete ao Poder Público planejar.. solidão.. comunicação. a porcentagem de área permeável.. sanitários.) necessidades sociais (.) esta praça não tem função social devido à inexistência de manutenção (. avifauna.). os equipamentos de recreação. simbolismo. a legislação que disciplina o desenvolvimento urbano deve observar as taxas mínimas de espaços livres. diferença. acumular energias. lugares onde a troca não seria tomada pelo valor de troca.) As necessidades urbanas específicas não seriam necessidades de lugares qualificados. calçamento. portanto. a função social. pois não basta ter a área à disposição da população. pode ser consultada no anexo 4. elaborada pelo professor Felisberto Cavalheiro. manutenção. texturas. Lefebvre (1969) fala sobre a importância da existência de lugar e tempo para o cumprimento das necessidades sociais: (.. como. imaginário. . mas também o ordenamento da vegetação.. dessas trocas? Não bastam centros esportivos onde a área construída e os equipamentos ocupem quase a totalidade do espaço.) segurança. serviços. na análise de um espaço livre deve-se considerar não só a sua área. odores. a altura da vegetação. informações. organização do trabalho e do jogo. de modo a facilitar a cada pessoa fazer escolhas acertadas de lazer. gastar energias. fazem uma análise qualitativa dessas áreas. as barreiras de vegetação que propiciam um isolamento da área em relação aos transtornos da rua. atividade criadora. imprevisto. isolamento visual. sombras. etc. descrevendo algumas praças. valor estético. a densidade de vegetação. importantes árvores frutíferas (. pelo comércio e pelo lucro? Não seria também a necessidade de um tempo desses encontros. o contato com a natureza é fundamental.. Sendo assim..) lugares para andar descalço: areia. ver. principalmente para o pré-escolar (abaixo dos 6 anos). independência. encontro. portanto.. bancos. tocar. degustar. isolamento.89 São Carlos (SP). telefonia. desperdiçar energia no jogo. após a qualificação dos espaços livres dever-se-ia trabalhar com dois índices: um indicando a quantidade total de espaços livres e outro indicando a quantidade de espaços livres utilizáveis pela comunidade de acordo com suas qualificações. criar e ajudar a manter ambientes agradáveis e estéticos. o entorno.

variados e pitorescos. Cavalheiro e Del Picchia (1992) chamam a atenção para uma indicação de índices urbanísticos para espaços livres sugerida pela “Conferência Permanente dos Diretores de Parques e Jardins da República Federal da Alemanha”. 2. etc. embora não haja leis. Cavalheiro et al. indústria. por:  Sistema de espaços com construções (habitação. observa-se que os espaços de integração viária constituem 10-20% do território urbano. destinados a todo tipo de utilização que se relacione com caminhadas. escolas. entre outras32. um mínimo de 40% e.. águas superficiais. O quadro do anexo 6 apresenta uma classificação para parques e outros tipos de espaços.. os locais de passeios a pé devem oferecer segurança e comodidade com separação total da calçada em relação aos veículos. a distância da resi- 30 Sobre os usos dos termos “construção” e “edificação” em se tratando de Espaços Livres. a proporção entre área e população.. Ficando assim destinados aos espaços livres de construção. os caminhos devem ser agradáveis. encontra-se uma convenção de representação cartográfica do zoneamento dos espaços urbanos. garagem subterrânea só podem ser construídas nos espaços destinados à integração viária e as construções”( CAVALHEIRO e DEL PICCHIA. 1992). hospitais. a área mínima para cada categoria.  Sistema de espaços livres de construção30 (praças. e os parques e espaços livres têm este papel (.) (LUTZIN e STOREY. a recreação e entretenimento em horas de ócio. cujo perímetro declarado por lei municipal. quase sempre. Os espaços livres podem ser privados. os construídos de 40-50% e os livres de construção outros tanto 40-50%. 3. ou seja.) sons e cores criados pelas árvores (. (1999). indica-se o trabalho de Cavalheiro. principalmente. Com o objetivo de colaborar com os estudos para a padronização de conceitos. de expansão urbana e zona rural.) experiências que já não encontramos tão facilmente e que fazem parte da segurança e saúde psíquica do cidadão (. potencialmente coletivos ou públicos e podem desempenhar. e como termos de comparação entre cidades diferentes (Anexo 6). nem normas que obriguem que se siga uma certa proporcionalidade. com base no uso da população. consideram-se as faixas etárias dos usuários. 1973).) e  Sistema de espaços de integração urbana (rede rodo-ferroviária)31. os locais onde as pessoas se locomovem por meios motorizados não devem ser considerados como espaços livres.). parques. 31 “Na República Federal da Alemanha. Primeiramente deve-se entender que a legislação brasileira estabelece que o município está dividido em zona urbana... segundo indicação de Cavalheiro e Del Picchia (1992) e do ponto de vista físico. em geral. 32 No Anexo 5. A zona urbana.. depois de designados no zoneamento urbano. . Presotto e Rocha (2003). não são mais permitidos usos que venham impermeabilizar esses espaços.. Assim. fornecem algumas sugestões: 1..90 gramado (. passeios. poderia ser constituída. Os espaços livres de construção constituem-se de espaços urbanos ao ar livre. práticas de esportes e.. etc. funções estética. de lazer e ecológicoambiental.) Nós precisamos resgatar a vida harmônica com a natureza. que serve como apoio para reflexão sobre a qualidade e disponibilidade de diversas categorias de espaços livres. embora não explicitamente colocada na legislação.) contato com aves e pequenos mamíferos (. descanso. comércio..

Somos levados a supor. para a localização de áreas que não devem ser construídas no município e região de entorno. dentro da malha urbana. as operacionalidades no planejamento de espaços livres. estariam relacionadas com o projeto de espaços livres. Segundo Cavalheiro e Del Picchia (1992). Escalas ainda maiores. também. bem como em nível do planejamento das cidades (escalas espaciais maiores). em escalas da ordem de 1:10. ou seja. visando a uma integração da natureza com a cultura do ser humano. Segundo a lei. Como 33 Gert Gröning é professor doutor da Universidade de Artes de Berlim. é necessário que sejam abordados de forma integrada no planejamento urbano. sugerindo um adequado ordenamento dos espaços livres urbanos. Gert Gröning33 (1976) apresenta. tão somente às necessidades de parque de bairro e distritais/setoriais. ou a OMS.até a localização de diferentes tipos de espaços livres em bairros. A política urbana deverá promover o ordenamento e controle do uso do solo.91 dência e se o acesso é para todos.000 até 1:50. ainda. ou se há barreiras de acesso como nos espaços privados. os planos diretores deverão conter diretrizes voltadas à preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído. o Brasil se coloca entre os países que não pretendem considerar cidade e natureza como conceitos opostos. quantitativos e de espacialização) para a conservação da natureza nas cidades devem ser incentivadas. devem ser sempre públicos e oferecem possibilidade de lazer ao ar livre (CAVALHEIRO e DEL PICCHIA. Segundo Gröning. por carta. intenções. de acordo com a escala espacial adotada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o Estatuto da Cidade (Lei nº 10. Foi orientador no doutoramento do professor Felisberto Cavalheiro em Hanover/Alemanha. não é conhecido entre as faculdades de paisagismo da República Federal da Alemanha. que o paisagista tenha sua ação. na forma de quadro (Anexo 7). Cavalheiro e Del Picchia (1992) ressaltam.000. entre 1:500 e 1:5. Um outro aspecto muito importante quando se trata de espaços livres. quadras e conjuntos residenciais. suas funções. tanto em nível da “grande paisagem” (escalas espaciais menores). Para tanto. que esse índice (12m2/ hab. conteúdos. público. não pôde ser comprovada pelas pesquisas. ou a FAO consideram ideal que cada cidade dispusesse de 12m2 de área verde por habitante. de 10 de julho de 2001). para que os espaços livres possam desempenhar. difundida e arraigada no Brasil de que a ONU. podendo-se utilizar como instrumento a instituição de unidades de conservação. apontando as diferentes designações para a ações.) se refira.000 a 1:500. depois de termos realizado muitos estudos. como o modelo do Greenbelt (Cinturão Verde) de Londres . que os índices não são receitas a serem seguidas. antes eles servem como apoio científico para o planejamento e que a assertiva. ou seja. que os autores fizeram junto a essas organizações e esse índice. . incluindo os detalhes de construção. em escalas da ordem de 1:100. está relacionado com o planejamento desses espaços. pesquisas referentes à eleição de indicadores (qualitativos. dever-se-ia pensar desde o Planejamento do Sistema de Espaços Livres. Instituto de História e Teoria do Design e trabalha com Desenvolvimento de Espaços Livres e Cultura de Jardins. 1992). já que são os que. satisfatoriamente. ao se pensar em planejamento.257.

em torno e além de cada centro urbano em curso de desenvolvimento consiste em reservar espaços livres definitivos. REFERÊNCIAS AKBARI. toda a reserva de verde necessária a qualidade de vida das cidades. 714p. Os esforços encaminhados para a conservação da natureza darão frutos se estiverem em conexão com o desenvolvimento de um programa de proteção ambiental total sendo.com/locate/ landurbplan Acesso em: 20/05/2004. SBAU (Sociedade Brasileira de Arborização Urbana). Finalizando.. que acabarão por aniquilar todos os recursos estéticos da paisagem. 4º ENCONTRO NACIONAL SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA. . H. J. objetivos e diretrizes para o planejamento. Vitória. Goals and measures of nature conservation and landscape protection in urban cultural landscapes of Central Europe – examples from Leipzig. 1998.. indispensável a união das diversas esferas de governo. BREUSTE. S. NUCCI.D.htm Acesso em: 18/07/2001. BUCCHERI FILHO.92 ponto de partida para as análises da eficiência dos espaços urbanos na conservação da natureza. J.DG/USP. 2005 (no prelo) CAVALHEIRO. Lei Federal nº 10. 1º CONGRESSO BRASILEIRO SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA... Curitiba/PR.. pode-se concluir que o planejamento da paisagem deve fazer parte do planejamento integral. medidas políticas necessárias devem ser tomadas para preservar e estabelecer a “matriz verde” das cidades. Espaços livres. pois a tarefa pública mais importante. Disponível em: www.gov. L. Esta citação de Munford (1964). FELDMANN. (Eds. F. de 10 de julho de 2001 (Estatuto da Cidade).. BRASIL.S. 1992. A. reflete a preocupação efetiva com as tendências urbanísticas “devoradoras de espaço”. Para que tal catástrofe não ocorra.planalto. Revista do Departamento de Geografia . Nos tempos atuais com uma tendência de ocupação de todos espaços livres urbanos por edificações. H. Landscape and Urban Planning 63 (2003) 1-14. 116-117). (LORUSSO. ROSE. ou destinados à preservação das potencialidades paisagísticas e ecológicas. DEL PICCHIA.br/ccivil_03/Leis?LEIS_2001/L10257. WOHLLEBER. suscetíveis de serem dedicados ao lazer e à recreação.C. anteriormente listados.com/locate/landurbplan Acesso em: 20/05/2004. Urban land resources and urban planting – case studies from Denmark. áreas verdes e cobertura vegetal no bairro Alto da XV. p. Analyzing the land cover of na urban environment using high-resolution orthophotos. acredita-se ser conveniente. Áreas verdes: conceitos. Landscape and Urban Planning 52 (2000) 145-163. devendo ser elaborado sob a ótica conjunta da relação natureza e sociedade. ATTWELL.elsevier.257. Disponível em: www.C. P. Anais .T.. Disponível em: www.. In: BREUSTE. TAHA. O. portanto. K. sem dúvida teremos de começar por nos sentirmos donos da paisagem e por reestruturá-la em seu conjunto”. 1992. Berlim: Springer. UHLMANN. sugere-se a utilização dos pontos salientados por Sukopp e Werner (1991). com a mesma crença de Cavalheiro e Del Picchia (1992). J.) Urban Ecology. H. resgatar e transcrever as conclusões de Lorusso (1992): Para voltar a nos sentirmos donos de nós mesmos.elsevier.

DORST. R. Naturaleza y ciudad.. Planificación urbana y procesos ecológicos. Gustavo Gili. 1998.brocku. F.A.. Tese de doutoramento em Geografia. Barcelona. Dissertação de mestrado em Eng. FÁVERO. Departamento de Geografia – USP.. J. SILVA.. São luís.C. A força do ser vivo.F. J.93 CAVALHEIRO. Landscape and Urban Planning 64 (2003) 191-200. Planejamento e projeto paisagístico e a identificação de unidades de paisagem: o caso da Lagoa Seca do bairro Jardim América. CASTILHO. J.) Ltda. e BARBOSA. GUZZO. A. 315p. p.. O. J. John.com/locate/landurbplan Acesso em: 20/05/2004. Curitiba. H. Curitiba/PR: Departamento de Geografia/UFPR. Wildlife and greenspace planing in mediumscale residential developments. NUCCI.E. O direito à natureza na cidade. ROCHA. The urban environment. RA’E GA: O espaço geográfico em análise. L. PRESOTTO. 1983. C. 229p.. In: II CONGRESSO NACIONAL SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA. M. O... n. 1995.L.T. E. 1994. Rio de Janeiro. Proposição de terminologia para o verde urbano..L..M. Mosaico de naturaleza interconectado. SILVA. 3 . n.. HENKE-OLIVEIRA. 302p.Caracterização preliminar das áreas verdes públicas em São Carlos . Paisaje ambiental de alta diversidad. R. R. 2004.ca/epi/lebk/lebk..A. Acesso em: 02/03/2005.. CAVALHEIRO. Urban Ecology 7. NUCCI. R. GOLDSTEIN. Ed. Pirola editore. SANTOS.Jul/ago/set de 1999. Disponível em: www. E.elsevier. R. 1981. da USP.. GROSS. 175p.M. SÁ. SANTOS. uma manera de recuperar el soporte en las áreas urbanas. Instituto de Geociências e Ciências Exatas – UNESP.. DeGRAFF.C. F.N. HENRIQUE. LIMA. . . S. de 18 a 24 de Setembro de 1994. 2004. DI FIDIO. M. M..T. Y.. GEOUSP 13. Disponível em: http://www.M. I. São Paulo: Melhoramentos/Ed. ALBRECHT. Ideologias e práticas na História. 1983. DOUGLAS. F.Architettura dei paesaggio-criteri di pianificazione e construzione con numerosi schemi e illustrazioni. Florestal – UFPR.C.M. 2003. Y. Subsídios ao planejamento de sistemas de áreas verdes baseado em princípios de ecologia urbana: aplicação à Curitiba – PR.) La ecologia del paisaje como base para el desarrollo sustentable em América Latina. 1985. . J.T. ano VII. M. HOUGH. . R.P.html.7. Middleton.. In: Salinas Cháves.8. Milano. ROCHA. Eduardo. L.R. Iperó/SP: Conservação e Gestão Ambiental.T. JACKSON. (Orgs. Rio Claro/ SP.SP. Vegetação natural potencial e mapeamento da vegetação e usos atuais da terras da Floresta Nacional de Ipanema. Rio Claro (SP). HARDT. CAVALHEIRO. DI BERNARDO. 201-214.J.E. The relationship of urban design to human health and condition. M. Londres: Edward Arnold (Pub. Boletim Informativo da SBAU (Sociedade Brasileira de Arborização Urbana). P. W. p. FOSCHINI.. DI BIASE.

NUCCI.A.M.O.com/locate/landurbplan Acesso em: 20/05/2004.. K. .M.. S. 2005. New Jersey: Prentice-Hall. Cobertura vegetal no bairro Centro de Curitiba/PR. península. WESTPHALEN. SOUZA.D. 1982. J. São Paulo: Hucitec. McPHERSON. NOVAK. 538p. The Municipal Management Series. Curitiba. de Estúdios de Administración Local. M. 1990.C. . nov. In: WILSON.O direito à cidade. Cobertura vegetal no Centro de São José dos Pinhais – Região Metropolitana de Curitiba. FIALHO. Cobertura vegetal do bairro Jardim Tranqüilidade (Guarulhos/SP). LOMBARDO.L. SISINNI. Anais . NETTO.94 JÁMBOR. M. A. STEVENS. 7 p.) Biodiversidade. p. NEVES. MILLER.C. 2003 (CDROM). de F. E. Measuring and analyzing urban tree cover. LIMA. D. GEOSUL Ver.D. e DEL PICCHIA. 1976.Grünplanung im Rahmen der Stadtentwicklung. LUTZIN. 2005. J.G. In. número especial. 244p.T. K.Managing municipal leisure services. 30-35.. Disponível em: www. DC. .C.. p.P. OLIVEIRA. A interação homem-natureza no futuro da cidade. e STOREY. e SZILÁGYI. NUCCI. 1985. C. I. MURPHY. J. D.elsevier.A. NUCCI.. NUCCI. A. XI SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA. E.H. N. F. Urban Forestry: planning and managing urban greenspaces.W. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.M. 1-13. Florianópolis. 14.... Rio de Janeiro. 657p. Análise da cobertura vegetal do bairro de Santa Felicidade.. LEFEBVRE.C. (Org. 1992. Curitiba-PR. .D.R. del B. E. n.A. D. de O. 502p.Zonas verdes y espadas libres en Ia ciudad. Landscape and Urban Planning 36 (1996) 49-57. Desafios à diversidade biológica em áreas urbanas. Vitória.A. .C.R. 13º .. Madrid. S. Inst. SBAU (Sociedade Brasileira de Arborização Urbana). 4º ENCONTRO NACIONAL SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA.. 1969 -Espado y Política. MONTEIRO.A. J. KERKMANN. FUPEF/PR. A.C. BUCCHERI Fº. 1997. D. 1973. J.Vegetação e clima.C. Ilha de calor nas metrópoles. M. Curitiba/PR. R. Garten + Landschaft.H. Anais . 1992. M.. In: III ENCONTRO NACIONAL SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA. J. KRÖKER. LLARDENT.R. de 18 a 24 de Setembro de 1994. H. 539-549.. .. 1997. LOMBARDO. áreas verdes e correlates.. 1º CONGRESSO BRASILEIRO SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA. R. MOURA. GEOUERJ. Intemational City Management Association. Nacional.. Do Departamento de Geociências – CCH.. P.A. R. Ed.L. L. E.. 282p. II CONGRESSO BRASILEIRO DE ARBORIZAÇÃO URBANA.Problemas de utilização na conceituação de termos como espaços livres.G. F. São Luís. Ed.. ITO. ano VII 2º sem. O exemplo de São Paulo.A. CAVALHEIRO.A.S. LORUSSO. Wahington. Gestão de áreas verdes urbanas.J. São Paulo: DG-FFLCH-USP. L. ROWNTREE. Monografia de bacharelado em Geografia – UFPR. S..

P. I. 548p. 2005. de L. VAN KAMP. 1996. Cobertura vegetal em áreas urbanas – conceito e método. Departamento de Geografia – FFLCH – USP (tese de doutorado). F. e KUNICK. J. GEOUSP 6. São Pedro/SP. pp. A.com. A. NUCCI. NUCCI.M. 9-15. NUCCI.B.. 1979. NUCCI. DE HOLLANDER. Julho de 1995. H. H. 29-36. São Paulo: Humanitas/Fapesp. pp.. F. Boletim Informativo da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana . .. E. elsevier. Naturaleza en las ciudades. J.. de 25 a 28 e março de 2002. Carta de São Paulo . LEIDELMEIJER. YÁZIGI.. São Paulo: Depto. SCHMIDT. de Geografia/ USP. Revista Brasileira de Botânica 9:225-229 (1986). 2000. M. KRÖKER. M.C. I. Áreas verdes de Guarulhos/SP – classificação e quantificação. Resumos .P. BLUME. SBAU. Disponível em: www.C. P..C. Departamento de Geografia – FFLCH – USP.br.. Acesso em: 14/02/2005. (Ed. de Geografia/USP. U. Anais .The soil.. MS).. NUCCI.com/locate/landurbplan Acesso em: 20/05/2004.C.C. O mundo das calçadas.. São Paulo: DG-FFLCH-USP. Porque não caiar trocos de árvores. de. São Paulo: Depto.5) SUKOPP.. SOUSA. RUSZCZYK. Towards a concepts framework and demarcation of concepts. MANTOVANI. 236p. Qualidade ambiental & adensamento urbano. BUCCHERI FILHO. a literature study. W. Chichester.. nº 2. Ano III.. RS. Espaços livres públicos: um estudo no município de Ilhabela (SP).sbau. CAVALHEIRO. Método para o mapeamento da qualidade ambiental urbana. J.2004.A..95 ENCONTRO DE BIÓLOGOS DO CONSELHO REGIONAL DE BIOLOGIA (CRBio-1/SP. MT.. Disponível em: www. In: Laurie. K.. SUKOPP. A. G. CAMPOS.P. flora and vegetation of Berlin’s waste lands. H. Análise da cobertura vegetal da cidade de Porto Alegre. ALVES. Desarrollo de flora y fauna en áreas urbanas. p. XI SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA. MARSMAN.): Nature in cities_ Wiley. SBAU – Sociedade Brasileira de Arborização Urbana.T. 1999. R. E. . Landscape and Urban Planning 65 (2003) 5-18. 2001. Madrid: Ministério de Obras Públicas y Transportes (MOPT). WERNER. Urban environmental quality and human wellbeing. São Paulo. LOPES. J.C. Qualidade ambiental e adensamento: um estudo de planejamento da paisagem do distrito de Santa Cecília (MSP). 1991. A. Monografias de la Secretaria de Estado para las Políticas del Agua y el Medio Ambiente. PREZOTTO. 2004 (dissertação de mestrado). São Paulo: Humanitas FFLCH-USP/Imprensa Oficial. 2000. GEOUSP 8. M. J.

96 ANEXO 1 O quadro abaixo foi organizado com base em transparência das aulas do professor Felisberto Cavalheiro. Piso permeável.3 0. Nucci.5 0. sem vegetação – mosaicos.asfalto.. 2001). sem crescimento de vegetação . P a r c i a l m e n t e Piso permeável ao ar e água. com percolação de água e com Meio abertas vegetação – placas..0 (fator de multiplicação) = 0m 2 2  59m com grades com grama x 0. quando realizam classificações dos tipos de áreas associando-se a elas um valor de biótopo que é utilizado nos cálculos do desconto no imposto urbano” (NUCCI..5 (fator de multiplicação) = 30m 2 2  solo permeável x 1. paralelepípedos unidos com areia. grades com grama Com vegetação Jardins sobre laje com menos de 80cm de espessura sem ligação com Jardins sobre laje com mais de 80cm de espessura o solo Com vegetação e ligação com o Áreas propícias ao desenvolvimento da flora e fauna solo Percolação Para cada m2 de telhado – água da chuva conduzida da chuva em para a percolação no solo telhados Vegetação vertical Até 10m de altura em pedras e muros com vegetação Vegetação sobre Telhado cultivado extensivamente e intensivamente telhado 0.5 0. impermeável placas.0 (fator de multiplicação) = 1m 1m Total = 31m 2 2 Valor do biótopo = 31 ÷ 479 = 0.2 0. Tipos de áreas 1 2 3 4 5 6 Impermeabilizada Explicação .5 0. .exemplos Fator de multiplicação zero 0. 2006 Piso impermeável para ar e água. “Estudos realizados na Alemanha demonstram um interesse no aspecto de reverdecimento de fachadas.. 2001):  Superfície do terreno = 478m2 2  Superfície com edificação = 279m 2  Superfície livre de edificação = 200m Dos 200m livres de edificação: 2 2  140m asfaltados x 0.06 .7 1.0 7 8 9 Org. concreto. .7 Exemplo de cálculo (NUCCI.

(2003) HARDT (1994) RUSZCZYK (1986) % 7. 2. Cobertura Vegetal Área estudada Distrito de Santa Cecília Foto aérea Fonte NUCCI (2001) NUCCI e ITO (2002) NUCCI et al.12 HENKE-OLIVEIRA et --al.000 – colorida 1999 12.: João Carlos Nucci (2006).20 Org.00 4.52 / 1:10.60 25.00 a --15.00 12.97 ANEXO 2 Quadro 1 – Cobertura vegetal em algumas localidades brasileiras.70 --- de 7.24 155.000 – colorida Centro de Curitiba/PR 2000 Município de Curitiba/ --PR Porto Alegre/RS (Área 1:8.96 2.000 – colorida 2000 1:8. (1994) BUCCHERI FILHO e 16.000 – colorida 2000 1:5.85 NUCCI (2005) MOURA E NUCCI 31.00 20.000 central) Cidade de Maringá/PR Alto da XV (Curitiba/ PR) Santa Felicidade (Curitiba/PR) Centro de São José dos Pinhais (RMC) --1:8. .56 60.000 – colorida (Guarulhos/SP) 2000 1:8.000 preto e branco / 1989 Jd.00 m2 hab.20 (2005) NETTO (2005) 24.00 77. Tranqüilidade 1:6.

de acordo com Nucci (1996. M.98 ANEXO 3 Fluxograma das conseqüências do adensamento por verticalização das edificações.: SILVA. 2006. Fonte: Nucci (1996. M. 2001). C. 2001) Org. ..

Horta Comunitária 5. Verde Viário Arborizado Canteiro central Jardim Quintal [ ] [ ] [ ] [ ] [ ] [ [ [ [ ] ] ] ] Clube Escola Terreno Outros [ [ [ [ [ ] [ ] ] ] ] ] [ ] [ ] [ ] Quais: _____________________________________________________________ 4. igrejas) Unidade espacial em metros quadrados (aproximadamente): _________________ Impermeabilização Área impermeabilizada Parcialmente impermeável Áreas meio abertas Áreas com vegetação sem ligação com o solo Áreas com vegetação com ligação com o solo Impermeabilização Área impermeabilizada Parcialmente impermeável Estrutura e Situação Bancos Playground Placas Lixeira Sinalização Segurança (pessoas) Portaria Lagos artificiais Cobertura Vegetal [ Gramado [ Canteiros Ajardinado [ Horta (comunitária) [ Vegetação espontânea [ Vegetação vertical [ Arborização com efeito regional [ Cobertura vegetal [ Lagos Relativamente Naturais Lixo (sujeira) [ Amontoado de galhos [ Árvores especiais [ Muros vegetados [ Corredores [ Areia e pedras [ Outros [ Quais:________________________ [ [ [ [ [ [ [ [ ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] [ [ [ [ [ [ [ [ ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] ] . 2002 in Presotto. A. Jardim de Ornamentação 2.99 ANEXO 4 Ficha de levantamento de campo de Espaços Livres (Fonte: Cavalheiro. Presotto. 2002/ Org. F. Verde Religioso (cemitério. Espaço de Lazer Praça Parque Setorial Distrital Regional 3. 2004) Nome do Bairro: ______________________________________________________________ Endereço da Área: ____________________________________________________________ Privado Potencialmente Coletivo Público CATEGORIAS: 1.

: Nucci (2006). residenciais mistas e centrais industriais especiais verdes conservação da natureza agrícolas com água rodovias e avenidas principais ferrovias. inclusive Metrô Cor na planta vermelho marrom (sépia) cinza laranja verde claro verde escuro verde limão azul amarelo violeta .100 ANEXO 5 Segundo o professor Felisberto Cavalheiro (transparência das aulas da disciplina Teoria Geográfica da Paisagem). no Exterior a representação em planta do zoneamento é simples e de fácil leitura. Tipos de Uso Espaços construídos Espaços livres Espaços de integração Org.

públ. 1.10. Jantzen.5 1. ou partic. ou partic.000 m2 10 ha 100 ha 200 ha área com água sem referência 3-5 ha 1. até 100 m até 500 m l./veiculo qualquer parte da cidade sem referência perto das escolas perto das escolas (mod.75 6.500 hab.000 m l.0 12. 2 ha 0. públ. ou partic.7.0 6. 2004.Sugestão de índices urbanísticos para espaços livres elaborada pela “Conferência Permanente dos Diretores de Parques e Jardins da República Federal da Alemanha”.5 5. Organização: João Carlos Nucci. ou partic. Categorias de parques Vizinhança até 6 anos 6 a 10 anos 10 a 17 anos parque de bairro parque distrital ou setorial parque regional cemitério área para esporte balneário h o r t a comunitária verde viário Área/Pop. 1992).000 m ou 10min. públ.0 s/ref.0 . 4. ou partic.0 Sem referência Área mínima 150 m2 450 m2 5. público público público público públ.2 ha 300 m2 Sem referência Distância residência da Acesso públ.101 ANEXO 6 Sugestão de índices urbanísticos para espaços livres Quadro 2 . (m2/hab) 0. junto ao sistema público viário .200m ou 30 min. Sem referência públ.75 0. DEL PICCHIA. 1973 apud CAVALHEIRO. ou partic.75 0.0 .

.000 a 1:20.000 a 1:50. regiões Representação disparidades 1:10. Org.000 Exemplos Situação de espaços livres em quarteirões deteriorados.000 Reavaliação de Planejamento de Sistema de Espaços Livres Plano de Sistemas de Espaços Modelo de Livres Conteúdo Localização de áreas a não serem construídas nas comunidades urbanas e municípios Representação do projeto e fundamentos Intenção para a construção Escalas 1:5 a 1:500 espaciais E s c a l a s + congelada Jardins.000 a 1:100.000 1:50. conjuntos residenciais modernos etc.000 das 1:20.ANEXO 7 Operacionalidade no Planejamento de Espaços Livres Projeto de Espaços Planejamento de Espaços Livres Livres Projeto de Instalação Planejamento de Estruturas de Espaços Livres de Espaços Livres Designação Projeto de detalhes do Plano EL Localização ordenamento Espaços Livres com Plano de conjunto de Plano de tipos de Espaços Livres Espaços Livres Localização de diferentes e tipos de espaços livres Localização de um tipo de espaço de em quadras. 1976 102 .: Cavalheiro. chácaras temporais Pátio de escolas Parques Cemitérios Camping etc. quarteirões livre em comunidades urbanas ou conjuntos Delimitação de região de Delimitação projeto deficitárias 1:500 a 1:10. 2001 Plano de Play-Grounds Plano de áreas livres de Plano de áreas para esporte Hamburg Plano de “Kleingarten” Plano paisagístico de Modelo de Plano de Cemitérios Salzburg faixa de Regiões para conservação da Ordenamento do verde de natureza Hannover Áreas de proteção ambiental Fonte: Gröning. F.

qualidade e a distribuição da mesma dentro da área urbana. Em vários trabalhos de renomados pesquisadores tem-se discutido o valor dessas áreas para a qualidade de vida da população. filtram o ar. Instituto de Geografia . tendo em vista que a impermeabilização crescente e progressiva do solo prejudica o escoamento superficial. IG-UFU Geógrafo (DG-FFLCH-USP). Atualmente. pois impedem que substâncias poluidoras escorram para os rios. Segundo Nucci (2001): As áreas verdes estabilizam as superfícies por meio da fixação do solo pelas raízes das plantas. diminuem a poeira em suspensão. abrigam a fauna. Citada por Barbin (2003) a carta de Atenas (1969). reduzem o barulho. criam obstáculos contra o vento. contribuem para a organização e composição de espaços no desenvolvimento das atividades humanas. equilibram os índices de umidade no ar.CAPITULO 6 UM ÍNDICE DE ÁREAS VERDES PARA A CIDADE DE UBERLÂNDIA/MG Fabiane dos Santos Toledo34 Douglas Gomes dos Santos35 A existência de espaços livres nas cidades é uma necessidade quando também vinculada aos benefícios deles oriundos. O índice de áreas verdes é determinado pela quantidade de espaços livres de uso público por habitante da cidade.UFU . Há também que se pensar nos locais reservados a essas áreas. colaboram com a saúde do homem e também atenuam o impacto pluvial. o que eleva ainda mais as importância das áreas verdes. Foi difundida a idéia de que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a ONU utilizam o índice de 12m² de área verde por habitante como 34 35 Geógrafa. documento elaborado no IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. as áreas verdes são essenciais a qualquer planejamento urbano aliado segundo a análise da distribuição espacial da população atual e futura (estimativa). o percentual de áreas verdes e o Índice de Áreas Verdes. auxiliando na captação de águas pluviais. em que a falta de superfícies livres no interior das cidades faz com que as áreas verdes se situem na periferia. Para Sanchotene (2004): O inventário e cadastramento das áreas verdes de um município bem como da arborização de vias públicas são procedimentos básicos de capital importância para o estabelecimento de um Plano Diretor de Áreas Verdes. O propósito dessas áreas está relacionado à quantidade. já alertava para esse problema. Conforme a cidade cresce. Professor Doutor. não tendo a rede de captação de águas pluviais capacidade suficiente para escoar de modo rápido o grande volume de água que faz transbordar os córregos e se acumula nos vales do sítio urbano. protegem a qualidade da água. surge a necessidade da manutenção ou criação das áreas verdes. pois a política de um sistema de áreas verdes não deve se limitar às grandes reservas na periferia da cidade. Pode-se falar em muitos índices ou em muitos elementos fundamentais a serem considerados para esse cálculo. A partir do cadastro físico das áreas verdes poderá ser estabelecido um diagnóstico sócio-ambiental considerando a densidade populacional. perdendo muitas vezes o caráter de prolongamento direto ou indireto da habitação.

respectivamente. apesar de serem imprescindíveis pesquisas e estudos nessa composição. e estimada em 600. com população de 501. também não adotam nem declaram sua existência trabalhando. primordialmente. no âmbito do Triângulo Mineiro. sejam parques. . Cavalheiro e Del Picchia (1992). em forma de parques. mais precisamente as áreas verdes de maior consideração como os parques e as praças. mas como não existe um padrão único convencionado a comparação entre elas não fará parte deste capítulo. praças e canteiros ajardinados. o que se diversifica acerca dos autores. além da análise e relação entre a proporção dessas áreas com a população no Município. As pesquisas relacionadas ao índice ideal denotam a existência de diversas metodologias. como os parques e as praças. nas cidades em crescimento. como destacado abaixo. também nos artigos 122. Diante das considerações apontadas torna-se urgente a realização de pesquisas que envolvam os espaços livres. bosques. com os objetivos principais de verificar a real existência do Índice de Áreas Verdes proposto na Lei Orgânica. É importante ressaltar a evidência de que tal análise é apenas uma das primeiras a se considerar para efetuar uma conclusão efetiva da qualidade de vida da população relacionada às áreas verdes.368 com data de referência em 1º de julho de 2006 também pelo IBGE. Este capítulo tem a perspectiva de quantificar as áreas verdes da extensão urbana de Uberlândia. assim como há também uma variedade de conceitos para defini-las. reverter quadros corrigindo possíveis equívocos. Além disso. já que a política de espaços verdes urbanos é responsabilidade do município e deve ser estabelecida pelos Planos Diretores e Leis de uso do solo dos municípios.104 ideal. embasados em consultas e pesquisas. além de fornecer subsídios ao planejamento urbanístico-ambiental do município e propor alternativas para tais estratégias. nem possuem estudos nesse sentido. como é embasado nos artigos 4º e 22 da Lei 6766/79. com autores que propõem outros índices. o que torna propensa a avaliação da questão ambiental. Uberlândia se enquadra nessas circunstâncias. já que está em fase de expansão e crescimento populacional acelerado.” Aprofundar tal questão é de extrema importância tanto para população como para os órgãos públicos. nesse contexto. mediante: I . 176 . embasados em outros fatores. consideradas de maior relevância. se for o caso. bem como a associação desses espaços com a população para. se fazer o diagnóstico da qualidade de vida dos habitantes. posteriormente. O planejamento de áreas verdes requer.reserva de espaços verdes ou livres. para que ainda seja possível um planejamento preventivo de caráter ambiental ou. Lei do Parcelamento do Solo.O Município proporcionará meios de recreação sadia e construtiva à comunidade. áreas de conservação de mananciais e de cerrado típico. Art. (2004) Uberlândia já convive “com a carência de arborização e espaços livres. Como em várias cidades brasileiras. o conhecimento sobre a quantidade e a distribuição das mesmas na malha urbana. Uberlândia tem um número muito pequeno de trabalhos que analisam tal problemática e discutam o papel das áreas verdes nos centros urbanos. Existem várias metodologias para o estudo das áreas verdes urbanas. como base física da recreação urbana. inclusive. pois como já detectaram Soares et al. O município possui um importante centro urbano regional. jardins e assemelhados. 176 e 202 da Lei Orgânica do Município – do Desenvolvimento e Política Urbanos. Desporto e Lazer e da Proteção ao Meio Ambiente. 2000).214 (IBGE. porém tais organizações não reconhecem esse índice.

para calcular o índice de área verde. Dentre as várias técnicas e métodos existentes para se computar o Índice de Áreas Verdes. o índice de áreas verdes é aquele que denota a quantidade de espaços livres de uso público. foi desenvolvida. foram realizadas visitas e entrevistas na PMU. sendo talvez. No entanto. Para identificação das áreas verdes. Além disso. a quantificação. com o aporte dos principais autores no assunto. selecionadas no portal eletrônica da Prefeitura Municipal de Uberlândia (PMU). na Coordenação do Núcleo de Pesquisa Estatística e Banco de Dados do Município de Uberlândia. Para se obter a somatória dessas áreas. alertam que o confronto de índices de áreas verdes entre cidades pode ser um equívoco. índices de áreas verdes. para diferentes cidades. praças. áreas verdes. primeiramente. uma pesquisa teórica acerca dos conceitos como espaços livres. Para Sanchotene (2004). considerando o somatório das áreas verdes em metros quadrados (m²) dividido pela população da área estudada. a cartografia temática já fornece a possibilidade da visão integrada do espaço urbano. mapas colhidos na PMU/SEDUR (2004). uma conseqüência da falta de consenso entre os conceitos. embasada nas considerações de Nucci (2001) as quais afirmam que. já discutida neste livro. possibilitado assim a compreensão e a escolha do embasamento e dos indicadores que foram considerados. além de visitas aos próprios locais para confirmação de dados. em diversas escalas. sabe-se que muitas administrações aumentam seus índices colocando todo espaço não construído como área verde e/ou até consideram a projeção das copas das árvores sobre as calçadas. Por si só. ou seja. foi escolhida a metodologia mais utilizada para o cálculo. Utilizouse também figuras. entende-se por índice de área verde por habitante a relação entre a densidade populacional e a metra- . em km² (quilômetro quadrado) ou m² (metro quadrado) dividido pela quantidade de habitantes de uma cidade. Na execução prática para se definir os aspectos do município proeminentes ao estudo das áreas verdes fez-se o uso do Banco de Dados Integrados de Uberlândia (BDI) 2006 obtido na SEPLAMA. e outros que se fizeram necessários ao longo do trabalho. os quais possibilitaram a elaboração e organização dos mapas e a formação de tabelas e figuras para a escala de abordagem necessária. Cavalheiro e Nucci (1998). das áreas verdes urbanas de Uberlândia tendo como destaques os parques e as praças. parques. A proposta de utilização da cartografia digital como a base principal para representar as áreas verdes do município (parques e praças) encontra respaldo na importante ferramenta que representa na análise urbana. e a análise. junto à Secretaria de Planejamento Urbano e recolhidas informações no memorial descritivo da mesma. ÍNDICE DE ÁREAS VERDES Os índices de áreas verdes são expostos de diferentes formas por diferentes pesquisadores. simplificada. referenciando a idéia de realizar o levantamento. em termos gerais. posteriormente organizados de acordo com intenção de exibição das mesmas. Como ilustrações dos principais pontos de áreas verdes da área urbana foram realizados diversos trabalhos em campo para o recolhimento de fotografias e informações. Os dados censitários da área foram recolhidos em dois momentos. pois o índice desacompanhado da definição de termo “área verde” não estabelece parâmetros para comparações.105 Para atingir os objetivos propostos. além da carta base do município. foram usadas. e no outro na SEPLAMA. primeiro no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). devem ser consideradas somente as áreas verdes públicas localizadas na zona urbana e ligadas ao uso direto da população residente nessa área.

Todavia. ao terem seus componentes urbanos construídos com esses materiais. A construção de um índice sintético pode facilitar a ordenação ou comparação entre comunidades. os índices são instrumentos que devem ser utilizados como guia para questões muito complexas e por isso são muito subjetivos. atingir os índices mínimos de área verde por habitante estipulados pela Organização das Nações Unidas.estimular e contribuir para a recuperação da vegetação em áreas urbanas. retendo o seu significado essencial (Ott. A citar: XXIII . A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU) propôs como índice mínimo para áreas verdes públicas destinadas à recreação o valor de 15 m²/habitante (SBAU. com plantio de árvores preferencialmente frutíferas objetivando. atualizada até 08/02/2006. este índice está intimamente ligado à função de lazer que desempenham ou que venham a desempenhar. assegura os índices de área verde por habitante embasados nos possíveis valores propostos pela ONU. 1978). após uma avaliação do seu estado de uso e conservação. Como destaca Magalhães Jr (2007): O índice é um instrumento para reduzir uma grande quantidade de dados a uma forma mais simples. Posteriormente. para calcular o índice de área verde. as praças. os parques e os cemitérios. a vegetação natural foi. o índice deveria. recalculado. metais. ou seja. cerâmica. Acrescentando-se que para Guzzo (2003). sendo substituída por elementos da infra-estrutura urbana constituídos basicamente por concreto. aos poucos. chamado percentual de áreas verdes (PVA). foi estimado para grandes áreas da cidade. em última instância. Nucci (2001) afirmou que. especialmente. ser calculado em função da quantidade total das áreas existentes e. A PMU através do artigo 202 da Lei Orgânica do Município. que considerariam como ideal que cada cidade dispusesse de 12m² de área verde/habitante. considerando somente as áreas verdes públicas de acesso livre para a população. necessariamente. As cidades. demonstrando quantas dessas áreas estão sendo realmente utilizadas. Para aquele autor. sem contar a acessibilidade da população. o primeiro. o qual teria sido desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (OMS).106 gem quadrada total de áreas verdes de uma cidade ou de partes dela. Cavalheiro e Del Picchia (1992) referem-se ao índice mais difundido no Brasil. devem ser consideradas somente as áreas verdes públicas localizadas na zona urbana e ligadas ao uso direto da população residente nessa área. os autores mencionados e a ONU não o admitem. posteriormente. apud Rondino (2005) essa matemática é feita entre os espaços nos quais o acesso da população é livre. 1998) Oliveira (1996) fez um levantamento das áreas públicas do município de São Carlos/ SP e obteve dois índices diferentes. foi calculado o índice de áreas verdes (IAV). primeiramente. 12m² per capita. envolve algum juízo de valor. têm como resultante as super- . Significa dizr que os pesos atribuídos aos indicadores não são neutros e envolvem. mas “um índice envolve o problema da ponderação dos indicadores. DENSIDADE POPULACIONAL E ÁREAS VERDES Com o surgimento espontâneo e o crescimento rápido e desordenado das cidades. pela ONU e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Para Escada (1987). vidro e asfalto. Porém. o que. no qual entraram todas as áreas verdes públicas da cidade. a introdução de algum nível de arbítrio” (Ipea/FJP/Pnud. ou seja. 1996). O índice de áreas verdes para a cidade como um todo também foi calculado e considerado um indicador de qualidade de vida da população.

Barbin (2003). aos Estados e Distrito Federal legislar corretamente sobre: VII. A alta concentração da população gera a deterioração da qualidade de vida urbana acarretando o desconforto da mesma por meio da deficiência no abastecimento em geral. Está situado na Mesorregião do Triângulo Mineiro/ Alto Paranaíba.107 fícies com elevado índice de reflexão. artístico.) visando uma integração da natureza com a cultura do ser humano”. o número ideal para a densidade populacional varia entre 100 e 500 habitantes/ha. Estado de Minas Gerais... as cidades são constituídas. competição. conseqüentemente. no qual. ou seja. devido ao crescimento da área do município. sua área total é de 4. No final do século XIX e início do século XX. problemas na eliminação e deposição de lixo. Buscando as origens da crise urbana e. Região Sudeste do Brasil. proteção ao patrimônio histórico. Segundo Lima (1991). LEGISLAÇÃO REFERENTE ÀS ÁREAS VERDES É preciso indicar. que se encontravam sem efeito diante dos novos meios de transporte e. 24 esclarece que compete À União. espaços construídos e espaços livres “(. já com a Revolução Industrial. poluição. É dividido em 05 Distritos (Uberlândia – Distrito Sede. de espaços de integração urbana. aproximadamente. congestionamentos. cultural.896. 1996). o aumento populacional e a expansão da zona urbana. .82km². O perímetro urbano de Uberlândia foi estabelecido pelo Art. 1º da Lei 5969. é necessário que se tenha idéia das alterações ambientais provocadas pela urbanização. da crise ambiental atual. LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO O município de Uberlândia localiza-se a 18º55’07” de latitude Sul e 48º16’38” de longitude Oeste. os preceitos da Constituição Federal para o patrimônio histórico e paisagístico. de 07 de março de 1994. Martinésia. destes 219.115. PRUDENTE. ruídos. em seu Art. bem como a impermeabilidade quase total dos solos.  Aumentar os meios de circulação. Sendo este um problema que atinge a maioria das cidades de médio a grande porte.  Aumentar as chamadas “áreas verdes” visando gerar maior lazer e menor estresse aos novos trabalhadores urbanos. primeiramente. a cidade transformou-se em joguete dos interesses da especulação financeira e imobiliária. Para tal. 2005). modificar as dimensões das ruas. questiona-se um número que expresse a densidade populacional ideal (Nucci. surge o “urbanismo moderno” baseado em quatro objetivos fundamentais:  Descongestionar o centro das cidades para cumprir as exigências de fácil circulação.00km2 são de área urbana e 3. Cruzeiro dos Peixotos. do ponto de vista físico. Para este autor. turístico e paisagístico. ter-se-ia que procurar as causas e o período em que começaram a se dissolver os limites da cidade e as mudanças sócio-culturais que acompanharam essa dissolução. Miraporanga e Tapuirama).  Aumentar a densidade do centro das cidades para realizar o contato exigido pelos negócios oriundos no crescente mundo capitalista.82km2 de zona rural (BRITO. escassez de espaços livres para o lazer e falta de participação popular. Segundo Guzzo (1999).

que definirá os usos permitidos e os índices urbanísticos de parcelamento e ocupação do solo. 245 de 30 de novembro de 2000. com características naturais relevantes. inciso 1. são estruturados com base no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano que é o instrumento básico de definição do modelo de desenvolvimento para municípios com mais de vinte mil habitantes. áreas de preservação e unidades de conservação”. 2º: I – Unidade de conservação: espaço territorial e seus recursos ambientais. a bens e direitos de valor artístico. com plantio de árvores preferencialmente frutíferas objetivando. bosques. Porém. caso em que a porcentagem poderia ser reduzida. ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção. em seu artigo 4°. turístico e paisagístico. como base física da recreação urbana”. VI . histórico. no art. tem como diretriz ambiental.785 de 29 de janeiro de 1999. em geral. esportivas e contemplativas da população. calculadas sobre a área total loteável: I .proteção integral: manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por inter- . este dispositivo legal foi atualizado e alterado pela Lei n° 9.20% (vinte por cento) para o sistema viário. bosques e parques. subseção I.108 VIII. cívicas. 202. tais como praças. em forma de parques. 14. Os Sistemas de Áreas Verdes. as áreas mínimas e máximas de lotes e os coeficientes máximos de aproveitamento.º 432. “garantir a proteção dos recursos hídricos e vegetais. parágrafo 10. Os loteamentos e reloteamentos deverão destinar ao Município as seguintes áreas mínimas.000m² (quinze mil metros quadrados). incluindo as águas jurisdicionais.” Para o caso dos grupos de áreas verdes. do loteamento e reloteamento: Art. mediante “reserva de espaços verdes ou livres. 5º “Área de Recreação” sendo “aquela reservada a atividades culturais. incluindo. Modernamente está incorporando o enfoque ambiental passando a chamar-se Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (SANCHOTENE. regulamentou o parcelamento do solo urbano. a redução dos problemas de drenagem e a criação de áreas para lazer na concepção dos parques. responsabilidade por dano ao meio ambiente.766 de 19 de dezembro de 1979. não podendo ser inferiores a 35% (trinta e cinco por cento) da gleba. legalmente instituído pelo Poder Público.” O Plano Diretor de Uberlândia. o SNUC define em seu art. No Art. 176 estabelece que o município proporcionará meios de recreação sadia e construtiva à comunidade. no Art. de 19 de outubro de 2006. sob regime especial de administração. atingir os índices mínimos de área verde por habitante estipulados pela ONU. dispõe sobre o parcelamento e zoneamento do uso e ocupação do solo do município de Uberlândia. ao consumidor. III . no art. jardins e assemelhados. alínea III. especialmente.10% (dez por cento) para áreas de uso institucional. exceto nos loteamentos maiores que 15. obrigatoriamente. preconizando que os loteamentos deviam possuir áreas destinadas a espaços livres de usos públicos. Lei Complementar n. 2004). A Lei Complementar nº. Com relação ao que se dispõe ao lazer a Lei Orgânica do Município.7% (sete por cento) para áreas de recreação pública. proporcionais à densidade de ocupação prevista para a gleba. na qual a porcentagem destes espaços não é mais quantificada e deve ser prevista pelo Plano Diretor ou aprovada por Lei Municipal para a zona em que se situem. estético. A Lei n° 6. II . com objetivos de conservação e limites definidos. alínea XXIII esta Lei propõe: “estimular e contribuir para a recuperação da vegetação em áreas urbanas. Define ainda nessa Lei. 13.

de 23 de novembro de 1981 que regulamenta os Parques Estaduais. ou onde existam paisagens naturais de grande valor cênico.Possuam um ou mais ecossistemas totalmente inalterados ou parcialmente alterados pela ação do homem. das pesquisas em documentos no Núcleo de Coordenação das UCs e da análise dos decretos de criação dos espaços livres em Uberlândia. 017.017. recreativos e científicos. serão denominadas. nos quais as espécies vegetais e animais. ofereçam interesse especial do ponto de vista científico.724. naquela mesma Lei é que estes são unidade de conservação permanente destinada a resguardar atributos de natureza. criados para a proteção e preservação permanente de regiões dotadas de excepcionais atributos da natureza. conforme se aplica no art. educativo e recreativo. mas para as categorias ainda não há um Regulamento específico que defina essas áreas. 2º considera Parque Nacional aqueles que: I . postos à disposição do povo. Decreto nº 21. Ainda. A possível definição de praças é citada em um documento legal apenas para efeito do Decreto nº 7. de domínio público ou privado”. cultural. os sítios geomorfológicos e os “ habitats “. possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental. da fauna e das belezas naturais com a utilização para objetivos educacionais. Para o Estado. ÁREAS VERDES NO MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA De acordo com o memorial descritivo da SEPLAMA. ainda que Parques Florestais. “Art. O que se menciona sobre parques. § 4o As unidades dessa categoria. categorizando parques e praças (Mapa 1). ou de valor científico ou histórico. quando criadas pelo Estado ou Município. No Decreto no 84. 2º . que aprova o Regulamento do Parques Nacionais Brasileiros.383 de 04 de setembro de 1997. Assim fica estabelecido para este estudo.Os Parques Estaduais são bens do Estado de Minas Gerais. Art. recreativos e com caráter ornamental. respectivamente. conciliando a proteção integral da flora. O Parque Nacional tem como objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica. as Leis Federais e Estaduais existentes como a Lei 4.109 ferência humana. constatou-se: Parques Em termos de classificação foi verificado que o município não tem nenhum documento legal ou mesmo concordância entre as secretarias responsáveis pelo meio ambiente e patrimônio no que se refere ao conceito de parques municipais. .771. contemplativo e de melhoria da qualidade de vida”. com finalidade de instalação de equipamentos de lazer. Parque Estadual e Parque Natural Municipal. quer seja nativa ou não. o qual regulamenta o projeto “adote uma praça ou um canteiro central” como “logradouro público situado em vias públicas.” A PMU define área verde como “toda área onde predominar qualquer forma de vegetação. admitido apenas o uso indireto dos seus atributos naturais. de 15 de setembro de 1965. de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico. no art. 11. de 21 de setembro de 1979. 164 da Lei Complementar nº.

já que comparando os dados observam-se discrepâncias individuais.48 1. os Parques Municipais Santa Luzia. ou seja. o município de Uberlândia possui sete Parques Municipais de acordo com os Decretos n. que de acordo com o 2º art.95 202. é de se ressaltar também que ao observar as individualidades constata-se disparidades em todas as áreas. Tabela 6.840.SEPLAMA Fonte: SEPLAMA . alínea “a” do Código florestal. 2006.83m². 2006.34 55. parte dessas áreas se comprovaram. no grupo de Unidades de Proteção Integral.270. Todos os Decretos de criação determinam a finalidade dos Parques conforme o mesmo artigo 5º.33 Fonte: SEPLAMA – Divisão de Patrimônio.: TOLEDO.2. Em relação à área total dos mesmos foi comprovada uma divergência nas informações da SEPLAMA com os Decretos mencionados. 2006.80 232.849.984.05 51.400. S.3.311. n.900. por vezes menores em uma e maiores em outra e vice-versa. Tabela 6. a qual foi revogada pelo SNUC.1 – Distribuição de áreas dos Parques Municipais .19 187.: TOLEDO.967.09 2. Victório Siquierolli e Natural do Óleo são UCs.24 339.166 de 05 de maio de 2000 e n. Org.747.º 7. recreativos e científicos”.00 117. alínea “a”. da fauna e das belezas naturais com a utilização para objetivos educacionais.939.936. no BDI.611.198.19 1. .16 Como se verifica. Para este estudo foram consideradas as áreas referentes aos Decretos por se tratarem de medidas com respaldo legal e por contemplarem uma área maior.º 9.505 de 02 de junho de 2004. conforme resumida nas Tabelas 6. Além disso.00 282.110 o Código Florestal. conciliando a proteção integral da flora. Para ressaltar. F.º 8.25 238. Org. “de resguardar atributos excepcionais da natureza.696. que permite a criação dos parques nos termos do artigo 5º. admitido apenas o uso indireto dos seus atributos naturais.897.554.348. a qual também demonstra pequenas distorções nas quantidades.486.35 2.Divisão de Planejamento Integrado. alínea VI do SNUC entende-se por “manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por interferência humana.527. conforme Tabela 6. F.304.498.56 223. 2006.2 – Distribuição de áreas dos Parques Municipais – DECRETOS PARQUE Santa Luzia Luizote de Freitas Distrito Industrial Mansour Sabiá Victório Siquierolli Natural do Óleo TOTAL Área (m²) 271.” Assim. PARQUE Santa Luzia Luizote de Freitas Distrito Industrial Mansour Sabiá Victório Siquierolli Natural do Óleo TOTAL Área (m²) 268.. e ainda acrescentam a responsabilidade sob as condições do bem-estar público. referindo-se aqui ao total geral. S.1 e 6.452 de 27 de novembro de 1997. a diferença dos totais resulta em 44.

ou seja. pois sua criação é de 2004.83m². geográficos. A fim de conhecer a densidade populacional de cada setor os dados foram compilados e distribuídos na Tabela 6. somando um total de 909. meio-fio. bancos. playground e quadra esportiva. Destas. mas que ainda se encontram sem infra-estrutura. Art. Unidade de Conservação da Natureza de Proteção Integral. tendo como referência os dados censitários de 2000 e estimativas para 2006. não integrando.185 de 09 de junho de 2003).111 Tabela 6.956. Uberlândia possui 189 praças. observado na Tabela 6. . firma-se que o mesmo é localizado na zona rural do município.982 habitantes na área urbana do Município. Fica criado o Parque Ecológico São Francisco. a área estudada.º 9. 132 são consideradas urbanizadas. 1º. portanto. A distribuição dos parques urbanos e das praças no perímetro urbano de Uberlândia está apresentada no Mapa 1. POPULAÇÃO DO MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA Realizou-se um levantamento dos dados acerca do crescimento populacional da área. o que significa que há a disponibilidade da área. têm gramado. Praças De acordo com a conferência na lista de praças fornecida pelo Departamento de Serviços Urbanos da PMU. localizado na zona rural do Município de Uberlândia. estruturais e coletas fotográficas. 2006 Para os cálculos até 2000 não foi considerada a área do Parque Natural do Óleo. do ano de 2000.3. do IBGE e da Secretaria de Desenvolvimento e Planejamento Urbano. Apesar de o presente trabalho ter como foco principal as medidas totais foi imprescindível o estudo particular de cada parque para constatação de dados estatísticos. calçada. 9 são pré-urbanizadas. Primeiramente foram analisados os dados populacionais segundo estudos do IBGE.3 – Unidades de Conservação Ambiental – BDI (2006) Fonte: PMU/BDI. (Decreto n. Acerca do Parque Municipal São Francisco de Assis. de acordo com a subdivisão do perímetro urbano. apresentam arborização e grama.4. e 48 não são urbanizadas. o qual quantificou 488.

234 14. Adotando-se técnicas para determinação dos valores podem ser criados índices que sintetizem um conjunto de aspectos da realidade e que representem conceitos mais complexos como a qualidade de vida. conforme a seguinte fórmula: . Tabela 6. 2006) ÍNDICE DE ÁREA VERDE NO MUNICÍPIO Indicadores e índices são números que procuram descrever um determinado aspecto da realidade. Para se obter o IAV neste estudo foi escolhida a metodologia mais utilizada para o cálculo. sendo tal cálculo para todo o município de Uberlândia. ou apresentam uma relação entre vários deles.4 – Dados populacionais – Uberlândia / perímetro urbano (2000) Fonte: IBGE/Sec.190 103. a qual considera o somatório total das áreas verdes urbanas.436 População 87.982 A Tabela pode denotar futuras conclusões no que se refere à população em relação à distribuição de áreas verdes.841 108. S. 2006) Setor Central Oeste Leste Norte Sul Total Área (km2) 13.723 14.186 86. 2006) Foi constatada uma população urbana de 585.961 133.: TOLEDO.234 11. Tendo a configuração mostrada pela Tabela 6.645 600.368 * Censo/IBGE 2000/ ** Cálculos realizados pela estimativa/IBGE 2006 Fonte: IBGE/SEPLAMA.947 23. Dentre alguns indicadores que expressam a qualidade ambiental de uma cidade destacam-se: o Índice de Áreas Verdes (IAV) que mede a relação entre a quantidade de área verde (m²) e a população que vive em determinada cidade (OLIVEIRA. Esses dados foram resumidos e finalizados na Tabela 6.368 – também segundo o IBGE.: TOLEDO.728 37.662 23. Nucci (2001).5. aqui nas categorias parques e praças.682 90.6 – População 2000 e Estimativa 2006 Área Urbana Rural Total 2000* 488.247 488. Tabela 6.112 Tabela 6.723 Fonte: IBGE/Sec. dividido pelo número de habitantes da área urbana. S.: TOLEDO.274 25.232 501. F.6.503 108. devem ser consideradas somente as áreas verdes públicas localizadas na zona urbana e ligadas ao uso direto da população residente nessa área.982 12. 2006 (Org.108 585. afirma que para calcular o índice de área verde.511 111.5 – Estimativa populacional – Uberlândia / perímetro urbano (2006) Setor Central Oeste Leste Norte Sul Total Área (km²) 13. expresso em metro quadrado.).503 114.728 34. Planejamento e Desenvolvimento Urbano. Posteriormente foi utilizado o mesmo procedimento para a população estimada para 2006 – 600.723 habitantes para o ano de 2006.686 População 104. F. Planejamento e Desenvolvimento Urbano. 1996.623 135. 2006 (Org.309 25. 2006 (Org.356 113.214 2006** 585.

o índice de áreas verdes.6m²/habitante.861.956. O que nos atesta uma falha nos objetivos .818.16 + 909.64 Para 2006.894. ou seja.83 TAVC = 3.200. para a área urbana do município de Uberlândia.706.83 TAVC = 3.956.304.984. nas categorias praças e parques. TAVC = Σ áreas de parques (m²) + Σ áreas de praças (m²) TAVC = 2.64 IAV = TAVC NH IAV = 3.706. para o ano de 2000 (Censo IBGE) e 2006 (Estimativa e ano de parte da realização deste estudo).348.99 IAV = TAVC NH IAV = 3.796. TAVC = Σ áreas de parques (m²) + Σ áreas de praças (m²) TAVC = 2.44 Assim. os cálculos dos índices foram realizados em dois momentos com seus respectivos fatores. é de 6.113 TAVC = Σ áreas de parques (m²) + Σ áreas de praças (m²) IAV = TAVC NH Onde: TAVC = Total de áreas verdes consideradas (parques e praças) IAV = Índice de área verdes NH = Número de habitantes No intuito de analisar o índice de áreas verdes foram considerados os períodos relacionados tanto à população quanto à criação dos parques.81 + 909.812. Obtendo os seguintes resultados: Para 2000.818.

De uma forma geral as condições ambientais segundo o índice encontrado é de desejável alerta. hábitos e costumes. mesmo com criação de mais um parque. o que acaba minimizando a eficiência das mesmas para os fins propostos. Houve a constatação. do uso do solo urbano. entre outras funções. Um novo estudo. quando diz que a distribuição de espaços livres no tecido urbano depende das características físicas do sítio. Em nenhum parque existe o real Plano de Manejo que. a recreação e a educação dos freqüentadores. além da análise da distribuição populacional segundo sua densidade. Ainda sobre a distribuição espacial dos parques que não recebem visitantes. que envolvam o lazer. pois as mesmas podem perder seu caráter funcional. Observou-se que a distribuição das áreas verdes não segue a densidade populacional. verificou-se que.114 propostos pela PMU promulgados na Lei Orgânica do Município 001/91 (2006). o índice diminuiu em torno de 13% no período em referência. mas que aqui foram computadas. é preciso concordar com Cavalheiro e Del Picchia (1992): é importante que se ressalte que os índices existentes não são receitas a serem seguidas. Nos parques onde a visitação pública é permitida. gura os índices de área verde por habitante embasados nos possíveis valores propostos pela ONU. é necessário que se aponte que o sistema de regras de áreas verdes não pode se limitar à aquisição e reserva de grandes áreas na periferia da cidade. da falta de infra-estrutura e em alguns casos de pessoas capacitadas para atender a função social dos parques e praças. 12m² per capita. 2000 e 2006. antes eles servem como apoio científico para o planejamento. Desta maneira. Com os cálculos realizados para os períodos censitários. da existência de áreas históricas. planos de manejo e tantos outros. já que se deve lembrar que a ciência se preocupa com uma acumulação de conhecimento da humanidade e que se deve ter o apoio do que já foi gerado. Sendo o ambiente urbano heterogêneo. técnicos especializados. sem ao menos o conhecimento da população. em alguns espaços livres visitados. voltados para a preservação. o mesmo autor recomenda que se deve considerar as necessidades e desejo da população de acordo com a composição etária. daquelas em que a visitação não pode ocorrer (ou porque a praça é “não-urbanizada” ou o parque encontra-se fechado. além de servir como instrumento de reivindicação para a criação de novas áreas verdes públicas. E para finalizar. com certeza. é de vital importância na garantia da conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas dessas áreas. tanto nos aspectos quantitativos (objetivo dessa análise). por falta de infra-estrutura e pessoal). É preciso considerar também que alguns espaços livres não têm a função destinadas às áreas verdes. Os espaços livres para recreação devem ser planejados segundo a análise da distribuição espacial da população atual e futura (estimativa). há a necessidade de alguns projetos voltados para a informação do público. que separe as áreas onde o lazer e a recreação podem acontecer de forma pública (como é o caso das praças consideradas pela PMU como urbanizadas). este estudo teve o objetivo de apresentar os Procedimentos para o estabelecimento de um índice de áreas verdes por habitantes no perímetro urbano de Uber- . apresentará um índice mais alarmante para a cidade de Uberlândia. quanto nos conseqüentes qualitativos. da estrutura urbana. isto é. neste caso o Natural do Óleo. como é o caso das 48 praças não-urbanizadas do município. daí o alcance do objetivo das tabelas populacionais por setores e época. É de se concordar com Velasco citado por Escada (1992). a qual asse. ou seja. como também da distribuição da população residente no espaço urbano e de suas características (espaços recreacionais). necessários de serem estudados e aprofundados em projetos futuros. nível sócio econômico. da composição de infra-estrutura.

. Histórico da evolução do uso do solo e estudo dos espaços livres públicos de uma região do município de Piracicaba/SP. 144-153. F. 1992 CAVALHEIRO. Anais São Paulo: Silvicultura em São Paulo. de 29 de Janeiro de 1999. C. p.. P. 1988 BRASIL. Vitória/ES. S. Paisagem Ambiente Ensaios no 11. F. NUCCI. I. de 19 de Dezembro de 1979. C. P. Campos do Jordão. Rio Claro: UNESP : Instituto de Biociências. Tese (Doutorado). S. Lei Federal no 4. Piracicaba. O planejamento de espaços livres: o caso de São Paulo. por fim. 2003 BRASIL. 1982 CAVALHEIRO. Estudo dos espaços livres de uso público da cidade de Ribeirão Preto com . Constituição Federal.985 de 18 de Julho de 2000. Áreas verdes: conceitos. F. objetivos e diretrizes para o planejamento. p. utilizando as imagens CCD/CBERS 2.785. 13(15). Mapeamento do uso da terra e cobertura vegetal do município de Uberlândia – MG. J. I. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) BRITO.771. Lei Federal no 9. In: Congresso Nacional Sobre Essências Nativas. REFERÊNCIAS BARBIN. D. de 21 de Setembro de 1979 – Aprova o Regulamento dos Parques Nacionais brasileiros BRASIL. Caracterização dos espaços livres de uso público de São José dos Campos. como sempre ensinou e defendeu Felisberto Cavalheiro.115 lândia. Dispõe sobre o parcelamento do solo urbano BRASIL. H. Lei Federal no 84. Anais I e II. Revista Caminhos de Geografia. Jun/2005 CAVALHEIRO. M. 29-35. 1998 ESCADA.766. Espaços livres e qualidade de vida urbana. J. In: Congresso Brasileiro sobre Arborização Urbana. de 15 de Setembro de 1965 – Código Florestal BRASIL. 214 p. T. ressaltando a importância da conservação e da preservação para a qualidade ambiental urbana e. 29-38. L. Altera a Lei de uso e parcelamento do solo BRASIL.017. 277-288. DEL PICCHIA. para a qualidade de vida.. S. PRUDENTE. p.. Lei Federal no 9. funções sociais e ecológicas. além de permitir o contato direto do morador com os elementos do meio físico. Lei Federal no 6. A espacialização das áreas verdes pela cidade deve obedecer a critérios de acessibilidade. pois acreditamos que é a divulgação do índice o instrumento para reivindicação. 1987 GUZZO.

UBERLÂNDIA. PMU. et al. Londrina. Rio Claro. In: Boletim Informativo da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana. de 04 de Setembro de 1997. de 07 de Março de 1994. no 5.br (acesso em nov/dez/2006) LIMA. Itu e Campinas. Carta a Londrina e Ibiporã.. Lei no 21.. 3. Boletim Informativo.gov. S. de 23 de Novembro de 1981..htm UBERLÂNDIA. SANTOS.969.. p. Áreas verdes como redestinação de áreas degradadas pela mineração: estudo de casos nos municípios de Ribeirão Preto. R. C. Estado de São Paulo. Instituto de Biociências/UNESP. 1996 UBERLÂNDIA. 125 p. www. www. P. 126 p.ibge. 2004 SOCIEDADE BRASILEIRA DE ARBORIZAÇÃO URBANA – SBAU. J.gov. ESALQ/USP. Qualidade ambiental & adensamento urbano: um estudo de ecologia e planejamento da paisagem aplicado ao distrito de Santa Cecília (MSP). que estabelece o perímetro urbano da sede do município de Uberlândia UBERLÂNDIA. de 04 de Dezembro de 1991 – Dispõe sobre a política de proteção.) Gestão ambiental na bacia do Rio Araguari – rumo ao desenvolvimento sustentável. controle e conservação do meio ambiente. 4-9.. Lei no 5. no 1. Dinâmica urbana na bacia do Rio Araguari (MG) – 1970-2000. 1991.uberlandia. (orgs. Anais. C.724. 2005 SANCHOTENE. Decreto no 7. PMU.gov. In: LIMA. 27-39. Dissertação (Mestrado). B.mg. C. 2004 SOARES. p. 2001 OLIVEIRA. Lei complementar no 017. S. H. no 3. v. p.br/pmu/site UBERLÂNDIA. São Paulo: Humanitas. Retifica e dá nova redação à Lei 4. M. C. Aprova o Regulamento dos Parques Estaduais NUCCI.br/pmu/jsps/cidade/PATRIMONIO. Conceitos e composição do índice de áreas verdes. Uberlândia: UFU : IG. Indicadores ambientais e recursos hídricos: realidade e perspectivas para o Brasil a partir da experiência francesa. Piracicaba. 181 p.383. C. São Carlos. T. 1996 RONDINO. Regulamenta o projeto “adote uma praça ou um canteiro central” . www. 3. 2007 MINAS GERAIS. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Londrina: UEL. A.mg. UFSCar. Dissertação (Mestrado). 1991 MAGALHÃES JR.uberlandia. Dissertação (Mestrado). Brasília : CNPq. E. Planejamento ambiental na cidade de São Carlos/SP com ênfase nas áreas públicas e ares verdes: diagnóstico e propostas. J.790/88. In: Encontro Nacional de Estudos Sobre o Meio Ambiente. Verde urbano: uma questão de qualidade ambiental. 1999 IBGE.116 detalhamento da cobertura vegetal e áreas verdes públicas de dois setores urbanos.

117 UBERLÂNDIA. revoga a Lei Complementar no 078 de 27 de Abril de 1994 . estabelece os princípio básicos e as diretrizes para sua implantação. Lei complementar no 245. Lei Orgânica do Município de Uberlândia. 2006 UBERLÂNDIA. Aprova o Plano Diretor do município de Uberlândia. de 30 de Novembro de 2000. de 09 de Junho de 2003.185. 8ª edição. Parcelamento e zoneamento do uso e ocupação do solo do município de Uberlândia UBERLÂNDIA. Lei complementar no 432. Decreto no 9. Dispõe sobre a criação da Unidade de Conservação do Parque Ecológico São Francisco de Assis UBERLÂNDIA. de 19 de Outubro de 2006.

Mestre em Geografia Física / USP. Pesquisador Científico do Instituto Florestal / SMA-SP. o planejamento territorial. Geógrafa.CAPITULO 7 LEGISLAÇÃO. como o Código Florestal Brasileiro de 1965. particularmente o Código Florestal Brasileiro (Lei 4. Humberto Gallo Junior 36 Débora Olivato37 No Brasil. e 4. que deu início às primeiras ações em relação à proteção do meio ambiente em território nacional.771/65). a Política Nacional de Meio Ambiente de 1981 e o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) de 2000. no primeiro mandato do presidente Getúlio Vargas. teve início em 1934. 3. finalidades. que instituiu o SNUC. as políticas ambientais estão ancoradas na formulação de uma base legal e na construção de uma estrutura administrativa. A EVOLUÇÃO DAS POLÍTICAS AMBIENTAIS NO BRASIL No Brasil. A primeira etapa. do Código de Minas e do Código Florestal Brasileiro. com a criação do Código das Águas. estabelecendo uma categorização em que o subdivide em quatro etapas: 1. . coordenação. o Decreto Federal 750/93 e a Lei 9. bem como no que tange à formulação de uma legislação específica para a conservação da natureza e proteção ambiental. 2. Este capítulo apresenta uma análise do papel e da importância das políticas ambientais. foram focadas as leis e demais instrumentos legais e normativos cuja aplicação pressupõe a delimitação de áreas no espaço físico-territorial. POLÍTICAS AMBIENTAIS. Em relação à legislação ambiental. Doutor em Geografia Física / USP. O SNUC é enfocado do ponto de vista das categorias de manejo que integram as duas modalidades previstas . o capítulo de Meio Ambiente da Constituição Federal de 1988. Monosowski (1989) fez uma análise do processo histórico de evolução das políticas ambientais no Brasil. além da criação. do Parque Nacional de Itatiaia e da legislação de prote- 36 37 Geógrafo. normas e inserção no ordenamento territorial brasileiro.Proteção Integral e Uso Sustentável. com a criação de órgãos e agências responsáveis pelo seu planejamento. o controle da poluição industrial. a gestão integrada de recursos naturais.985/2000. para o ordenamento e a gestão do território brasileiro. São analisados importantes marcos legais do processo de formulação das políticas ambientais em âmbito federal. em 1937. particularmente. a administração dos recursos naturais. UNIDADES DE CONSERVAÇÃO E GESTÃO DO TERRITÓRIO. analisando-se os seus objetivos. uma análise da evolução das políticas ambientais permite verificar que houve muitos avanços no que diz respeito ao aumento da capacidade institucional. da política referente aos sistemas de unidades de conservação. implementação. fiscalização e gestão nas diversas escalas de atuação.

apenas. demonstrando uma postura reacionária em relação aos problemas ambientais em discussão. estabelecendo os órgãos responsáveis pela gestão dos recursos naturais em âmbito nacional. fiscalizar. A criação da SEMA foi uma resposta às pressões internacionais. A sua consolidação se deu com a promulgação da Constituição Brasileira de 1988. que inicialmente esteve vinculada ao Ministério do Interior. pelo Decreto Federal nº. com ênfase no controle da poluição. que institui a Política Nacional de Meio Ambiente e o Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA). que estabeleceu as diretrizes de zoneamento industrial podem ser citadas como exemplos dessa fase. que além de definir critérios para a prospecção e exploração de jazidas. controle. coordenar e elaborar programas de trabalho para os “Parques Nacionais”. de 02/07/80. um ano após a realização da Conferência de Estocolmo. A quarta e última fase iniciou-se com a promulgação da Lei nº. o governo federal criou o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais . Segundo Nogueira Neto (1991). 6. educação ambiental e conservação de ecossistemas. de 31 de agosto de 1981. que definiu as diretrizes de parcelamento do uso do solo urbano e a Lei nº.766. Em relação às áreas protegidas.030. 289 de 1967. A Lei nº. a administração.421. devido à considerada má participação do Brasil naquela Conferência Internacional. em especial. duas novas categorias de proteção em relação aos Parques Nacionais e Reservas Biológicas criadas e administradas pelo IBDF. 73. Em 1963 o Serviço Florestal foi substituído pelo Departamento de Recursos Naturais Renováveis. como uma autarquia do Ministério da Agricultura. Um exemplo claro desta postura é o Código de Mineração.119 ção ao patrimônio histórico e artístico nacional. desta forma. O quadro se completou com a instituição do Código de Pesca em 1938. O que caracteriza essa etapa é a pretensão de uma gestão integrada dos recursos naturais. dissociou o direito de propriedade do solo do direito de exploração do subsolo. 4. os planos de zoneamento de uso e ocupação do solo e os planos de zoneamento para bacias hidrográficas.938. marca o início da criação de uma série de outros órgãos responsáveis pela fiscalização e controle de poluição industrial. incumbindo ao Estado e à coletividade a responsabilidade pela manutenção de sua qualidade. ficando este último sob domínio da União. Segundo a análise de Monosowski (1989). Em 1989. que dedica um capítulo ao Meio Ambiente e o torna um bem comum de todos. de 19/12/1979. que foi transformado no Instituto Brasileiro para o Desenvolvimento Florestal (IBDF) pelo decreto-lei nº. com o encargo de orientar. fiscalização e outorga da utilização dos recursos naturais no Brasil. com a participação de órgãos governamentais. Essa primeira etapa se caracterizou pelo controle do Estado sobre a utilização dos recursos naturais. os Parques Nacionais. A terceira etapa teve início com a formulação de um conjunto de instrumentos de proteção ambiental e podem ser destacadas as leis metropolitanas de zoneamento industrial e de proteção dos mananciais. A criação desta Secretaria. no caso de pressões externas exercidas por agências de financiamento internacional. Coube ao Estado. por meio da instituição de áreas de preservação permanente e áreas legalmente protegidas. a criação da SEMA objetivou a conservação do meio ambiente e o uso racional dos recursos naturais. Brito (2000) destaca que o Serviço Florestal já havia sido criado em 1921 pelo Decreto legislativo nº. A SEMA promoveu o estabelecimento de Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental. ficando vetadas as possibilidades de ocupação e uso humano dessas áreas. A segunda etapa teve início com a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA) em 1973. as ações de controle implementadas nesta fase estão voltadas para o setor privado e os projetos governamentais são objeto de controle. 6. da iniciativa privada e da sociedade civil organizada. 6.803.

985. 7803. A criação de áreas protegidas toma uma dimensão nacional. os selos ISO 14. b) O período que compreende a ditadura militar (1964-1984). posteriormente alterada pela lei nº. que prevê a responsabilização e a aplicação de penalidades para os causadores de danos ao meio ambiente. sendo substituída pela Lei nº. que teve a sua primeira versão promulgada em 1934. O CÓDIGO FLORESTAL BRASILEIRO Uma das mais importantes leis federais para a conservação da natureza em território nacional é o Código Florestal Brasileiro. Além disso. quando os instrumentos criados no período anterior são revisados e outros novos são instituídos.433/97). 9. Deve ser também citada em relação à temática ambiental. a SEMA (Ministério do Interior) e das Superintendências do Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE) e do Desenvolvimento da Borracha (SUDHEVEA). como por exemplo.120 Renováveis (IBAMA). tendo como resultado prático uma clara mudança de estratégia em relação à tradição empregada nos períodos anteriores. 7. Este autor destaca três grandes fases no movimento de criação de unidades de conservação no país: a) Os primeiros anos da República até 1963. mas. regulamentado pela Lei nº. O estabelecimento do Sistema Nacional de Unidades de Conservação em 2000.735. a Política Nacional de Recursos Hídricos (lei nº. representou um marco fundamental neste processo. Medeiros (2004) reconhece as unidades de conservação como um instrumento geopolítico de controle do território. c) Pós 1985. fundindo a SEMA a órgãos de florestas. fruto da estratégia geopolítica do Estado de integrar e desenvolver todas as regiões do país. de 1965. de . pesca e borracha. concedidos para empresas que adotem práticas que promovam a diminuição dos impactos causados ao meio ambiente. pela lei federal nº. devem ser mencionados os sistemas de certificação ambiental. visando à manutenção da qualidade ambiental e à recuperação de áreas degradadas.000 e ISO 14. Conforme ressaltou BRITO (2000). No que diz respeito à participação do setor privado. ambas do Ministério da Agricultura. que visa ao gerenciamento dos recursos hídricos em território nacional por meio da delimitação de bacias hidrográficas e da formação de comitês para a sua gestão. A seguir passaremos à análise dos principais marcos legais que caracterizam a evolução das políticas ambientais no Brasil. entendendo que a política de criação de áreas protegidas no Brasil é resultado de um longo e lento processo de aparelhamento e estruturação do Estado. bem como a obrigatoriedade de licenciamento e estudo de impactos ambientais para a instalação de empreendimentos e atividades potencialmente danosas ao meio ambiente. foram estabelecidas uma série de normas e critérios para a utilização dos recursos naturais. sobretudo na década de 30. A redemocratização do país levou a uma nova fase de expansão e reestruturação da proteção da natureza no país. 4771. 9.001. O IBAMA resultou da consolidação das instituições de meio ambiente anteriormente existentes. como o IBDF (Secretaria da Agricultura). cuja culminância é a instituição do primeiro Parque Nacional. que marca o surgimento os primeiros instrumentos legais voltados para a criação de áreas protegidas no país. de 22 de fevereiro de 1989. Também merece destaque a Lei de Crimes Ambientais de 1998.

a biodiversidade. montanhas e serras (terço superior).08. devendo obter autorização prévia do Poder Executivo Federal. atividades ou projetos previstos em resolução do CONAMA – Conselho Nacional de Meio Ambiente. 2) de 50 (cinqüenta) metros para os cursos d’água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinqüenta) metros de largura. c) a formar as faixas de proteção ao longo das rodovias e ferrovias. Para efeito da aplicação da referida lei. destinadas exclusivamente à proteção integral dos recursos naturais.121 1989. g) Nas bordas dos tabuleiros ou chapadas. e as demais obras. saneamento e energia. o fluxo gênico de fauna e flora. h) Em altitude superior a 1. O Código Florestal instituiu. de 24. São consideradas de utilidade pública as atividades de segurança nacional e proteção sanitária. com a função ambiental de preservar os recursos hídricos. A retirada da vegetação em Áreas de Preservação Permanente só é admitida em virtude da necessidade de execução de obras. h) a assegurar condições de bem-estar público. 2. b) a fixar as dunas. coberta ou não por vegetação nativa.2001. d) No topo de morros. parcela da propriedade rural obrigatoriamente reservada para a proteção ambiental.166-67. as obras essenciais de infra-estrutura destinadas aos serviços públicos de transporte.166-67. a estabilidade geológica. num raio mínimo de 50 metros de largura. f) Nas restingas. 3) de 100 (cem) metros para os cursos d’água que tenham de 50 (cinqüenta) a 200 (duzentos) metros de largura. g) a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas. as Áreas de Preservação Permanente. a paisagem. c) Nas nascentes. ainda que intermitentes e nos chamados “olhos d’água”. e) a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico ou histórico. e a Reserva Legal. São consideradas de interesse social as atividades imprescindíveis à proteção da in- . como: área protegida nos termos dos artigos 2º e 3º desta Lei. estadual ou municipal). b) Ao redor das lagoas. lagos ou reservatórios d’água naturais ou artificiais. sendo proibido qualquer tipo de uso. Área de Preservação Permanente foi definida na Medida Provisória nº. Também são consideradas de preservação permanente. qualquer que seja a vegetação. em faixa nunca inferior a 100 metros em projeções horizontais. atividades ou projetos de utilidade pública e interesse social. d) a auxiliar a defesa do território nacional. como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues. f) a asilar exemplares da fauna ou flora ameaçados de extinção. 5) de 500 (quinhentos) metros para os cursos d’água que tenham largura superior a 600 (seiscentos) metros. 2. as florestas e demais formas de vegetação natural destinadas: a) a atenuar a erosão de terras. embora necessitando de Declaração do Poder Público (federal. qualquer que seja a sua situação topográfica. a partir da linha de ruptura do relevo. planos. e) Nas encostas ou partes destas com declividade superior a 45º. de 24 de agosto de 2001. montes. proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas. e pela Medida Provisória nº. planos. entre outros aspectos. foram consideradas áreas de preservação permanente: a) Ao longo dos rios ou de qualquer curso d’água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima seja: 1) de 30 (trinta) metros para os cursos d’água de menos de 10 (dez) metros de largura.800 metros. 4) de 200 (duzentos) metros para os cursos d’água que tenham de 200 (duzentos) a 500 (quinhentos) metros de largura.

Segundo Guillaumon (2000). Reserva Legal foi definida na Medida Provisória nº.atender às exigências fundamentais de ordenação da cidade contidas no plano diretor. e as demais obras. passou de 20% para 50%. necessária ao uso sustentável dos recursos naturais. houve uma alteração pela Medida Provisória 2. c) observância das disposições que regulam as relações de trabalho. ficando a distribuição atual da seguinte forma: 80% em área de floresta localizada na Amazônia Legal. atividades ou projetos definidos em resolução do CONAMA. 2) propriedade rural – a) aproveitamento racional e adequado. o valor das indenizações em processos de desapropriações para fins de reforma agrária ou para criação de Parques. No restante do país.122 tegridade da vegetação nativa. à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna flora nativa. que reivindicava a diminuição do percentual correspondente à Reserva Legal na Amazônia. excetuada a de preservação permanente. combate e controle do fogo. prevalece atualmente no direito brasileiro o princípio da função social da propriedade. o que condiciona o seu uso à satisfação do interesse coletivo. No caso da Amazônia. Segundo Brandão (2001). b) utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente. controle da erosão. A Constituição Federal definiu os seguintes requisitos para o atendimento da função social da propriedade: 1) propriedade urbana . variando de acordo com a região em que está situada. planos.166-67. Em 1996. que não descaracterizem a cobertura vegetal e não prejudiquem a função ambiental da área. a Constituição de 1988 consagrou a trilogia propriedade. O percentual da propriedade que deve ser declarado como Reserva Legal não é uniforme em todo país. erradicação de invasoras e proteção de plantios com espécies nativas.2001.166-67. 35% em área de cerrado localizada na Amazônia Legal. as atividades de manejo agroflorestal sustentável praticadas na pequena propriedade ou posse rural familiar. Estações Ecológicas e outras Unidades de Conservação aumentaria significativamente. como: área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural. a bancada ruralista também pretendia permitir o uso econômico das APPs. que é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de ordenamento da expansão urbana obrigatório para as cidades com mais de vinte mil habitantes. que ampliou o percentual das Reservas Legais em cada propriedade rural. função social da propriedade e proteção ambiental. se a proposta de permissão do uso econômico das APPs fosse aprovada. 20% em área de floresta ou outras formas de vegetação nativa nas demais regiões do País. de 24. Desta forma. Para ele. da Constituição Federal de 1988. o Código Florestal foi alterado por meio de Medida Provisória editada pelo Presidente da República. que era de 80%. principalmente. 2. Depois de ampla discussão com a bancada ruralista no Congresso Nacional. 20% em área de campos gerais localizada em qualquer região do país. que apresentava elevados índices anuais de desmatamento registrados por meio de imagens de satélite. para criação de Unidades de Conservação. tais como: prevenção. 2001) . em média. à conservação e reabilitação dos processos ecológicos. XXIII. O autor explica que as APP não são indenizáveis por não serem de uso econômico e representam. de acordo com artigo 5º. conforme resolução do CONAMA.08. apontando a utilização adequada dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente como requisitos básicos para o cumprimento da função social da propriedade rural. além de reduzir os percentuais das APPs e Reservas Legais. 30% a menos no valor das indenizações pagas aos proprietários desapropriados. d) exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores (BRANDÃO. passou de 50% para 80% da propriedade.

o mar territorial. Dentre os conceitos a serem empregados na implementação desta Política. condições ao desenvolvimento sócio-econômico. conforme preconiza a Constituição brasileira de 1988. os estuários. da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos. destaca-se o de Meio Ambiente. No artigo 2º. pelo fato de ser a primeira vez em que é definido legalmente.939. no País. bem como o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental. o solo. No artigo 4º da Lei 6. V – recursos ambientais – a atmosfera. A POLÍTICA NACIONAL DE MEIO AMBIENTE A Lei nº.939/81. IV – O licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras. o subsolo e os elementos da biosfera. e ÁRIES (Federal/Estadual/Municipal). visando assegurar. atendidos os seguintes princípios: Dentre os princípios apresentados pela referida Política. são apresentados os objetivos da Política Nacional de Meio Ambiente. de 06 de junho de 1990). de 31 de agosto de 1981 (regulamentada pelo Decreto nº. II – O zoneamento ambiental. são apresentados alguns dos instrumentos definidos pela Política Nacional de Meio Ambiente. . instituindo o Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA). conforme segue: A Política Nacional de Meio Ambiente tem por objetivo a preservação. destaca-se o que se refere ao controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras. definidos na Lei federal supra-citada: I – O estabelecimento de padrões de qualidade ambiental. da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e. superficiais e subterrâneas. ao poluidor e ao predador.123 Assim. ficou definido que a Política Nacional do Meio Ambiente visará: I – à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico. influências e interações de ordem física. leis. e o de Recursos Ambientais: I – meio ambiente – o conjunto de condições. as águas interiores. 99. bem comum de todos e essencial à sadia qualidade de vida. estabeleceu a Política Nacional de Meio Ambiente. VII – à imposição. III – A avaliação de impactos ambientais. A seguir. abriga e rege a vida em todas as suas formas. APAs. VI – A criação de RESECs.274. aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. 6. melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida. ao usuário. que permite. III – ao estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais VI – à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente. as APPs e as Reservas Legais instituídas pelo Código Florestal fazem parte dos limites internos do direito de propriedade. concorrendo para manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida. química e biológica. tendo em vista a manutenção do meio ambiente ecologicamente equilibrado. V – Os incentivos à produção e instalação de equipamentos e criação e absorção de tecnologia.

O Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) funciona como Órgão Consultivo-Deliberativo. dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal (MMA). O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) é o Órgão Executivo do Sistema. A Lei também define os órgãos e competências relacionadas à implementação e aplicação da Política. no CONAMA e no Conselho de Governo.Órgão Executor . Os itens e artigos destacados demonstram que a Política Nacional do Meio Ambiente busca estabelecer padrões e critérios para a utilização dos recursos naturais.Órgão Central . . criada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso em 1997.órgãos ou entidades estaduais e municipais. como o zoneamento. como as Secretarias e Fundações da Administração Pública federal. estabelecendo uma estrutura hierárquica de atuação. e Órgãos Locais. concentrando atribuições relativas à fiscalização e controle. doações e uma parcela do orçamento. bem como à administração das Unidades de Conservação em nível federal. estabelecendo um Sistema de gestão. VI . de acordo com as competências estabelecidas pela Constituição Federal.Órgão Superior .Órgão Consultivo Deliberativo . contando com empréstimos do BIRD – Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento. fundações e órgãos e entidades estaduais. VIII – O Cadastro Técnico Federal de Atividades e instrumentos de defesa ambiental X – As penalidades disciplinares e compensatórias.Órgãos Locais . sendo responsável pela implementação e aplicação da Política. com o intuito de manter o controle sobre as atividades potencialmente danosas ao meio ambiente. O MMA possui diversas Comissões para o tratamento de assuntos específicos. o licenciamento e a avaliação de impactos. o IBAMA sofreu uma reformulação que o dividiu em dois.Órgãos ou entidades da Administração Pública Federal direta ou indireta. que funciona como Órgão Superior. dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal. com o intuito de implementar a Agenda 21 brasileira. Em 2007. constituídos por órgãos e entidades estaduais e municipais responsáveis pela aplicação da Política. tendo como finalidade assessorar o Presidente da República na formulação de políticas relacionadas ao meio ambiente. É permitido aos Estados e Municípios formular a sua Política de Meio Ambiente.124 VII – O sistema nacional de informações sobre o meio ambiente.Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Cabe ao Ministério do Meio Ambiente. como Órgão Central. bem como as responsabilidades atribuídas a cada componente do Sistema. direta e indireta. O Sistema conta ainda com Órgãos Setoriais. IV . que seleciona e financia projetos que visem à defesa do meio ambiente.Ministério do Meio Ambiente. De acordo com MMA (1998). V . controle e fiscalização. II . e o Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA). O Conselho de Governo é um Colegiado Interministerial. inclusive no Fundo Nacional de Meio Ambiente. coordenar o Sistema e promover a articulação entre os órgãos que o compõem.Órgãos Setoriais . exclusivamente).Conselho de Governo. III . das quais estão destacadas no organograma a Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional. a estrutura do SISNAMA apresenta a seguinte configuração: I . e o IBAMA (responsável pelos licenciamentos. por meio de medidas restritivas. o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (responsável pela administração e controle das Unidades de Conservação). que tem representantes na maioria dos Órgãos Colegiados do Sistema. É importante destacar a possibilidade de participação da sociedade civil organizada. com leis específicas.Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). controle e fiscalização das atividades em sua área de atuação. sendo responsável pela formulação de normas e padrões de qualidade ambiental a serem aplicados nos Estados da Federação.

Em relação à distribuição de competências. planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas. 1998) tem o Capítulo VI destinado ao Meio Ambiente. a Mata Atlântica. demonstrando a tendência à restrição e controle. como por exemplo as recobertas por Cerrado e Caatinga: § 4º. e a IV. espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos.Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios . a que se dará publicidade. A Floresta Amazônica brasileira. dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente. independentemente da obrigação de reparar os danos causados. as secas e as inundações. 225 . diretamente ou mediante autorização. O 4º parágrafo do artigo em questão considera algumas áreas do território brasileiro como patrimônio nacional. Dentre as incumbências delegadas ao Poder Público no § 1º. IV – Exigir. em todas as unidades da Federação. ficou estabelecido que cabe exclusivamente à União: explorar. na forma de lei. a Serra do Mar. um dos instrumentos da Política Nacional estabelecida em 1981. no que tange ao meio ambiente. impondo a obrigatoriedade de reparo dos danos causados e mencionando a possibilidade de sansões penais e administrativas. inclusive quanto ao uso dos recursos naturais. impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. os serviços e instalações de energia elétrica e o aproveitamento energético dos cursos d’água. determinando que todo cidadão tem o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.125 O MEIO AMBIENTE NA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 A Constituição Brasileira de 1988 (BRASIL. conforme segue: § 2º Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio ambiente degradado. Os parágrafos 2º e 3º do referido artigo corroboram a tendência da legislação federal a responsabilizar e punir os causadores de impactos ambientais. sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei. § 3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores. destacou-se a III. em articulação com os Estados onde se situam os potenciais hidroenergéticos. o Pantanal MatoGrossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional. incluído no Título VIII – Da Ordem Social. e o Poder Público tem a responsabilidade de criação e gerenciamento de áreas de proteção ambiental no país: Art. estudo prévio de impacto ambiental. na forma da lei. bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. em detrimento de outras. pessoas físicas ou jurídicas. a sansões penais e administrativas. vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção. especialmente. e sua utilização far-se-á. para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente. de acordo com solução técnica exigida pelo órgão público competente. que se refere à criação de áreas legalmente protegidas em território nacional. relativa à obrigatoriedade de avaliação de impacto ambiental de obra ou atividade potencialmente danosa ao meio ambiente. na forma da lei. no que diz respeito à utilização dos recursos naturais: III – definir.

fauna. II – as áreas. as paisagens notáveis e os sítios arqueológicos. do parcelamento e da ocupação do solo urbano. VI – o mar territorial. informática. ressalvadas. conservação da natureza. III – as ilhas fluviais e lacustres não pertencentes à União. as praias marítimas. Art. adequado ordenamento territorial. fluentes. 26. Capítulo II – Da União. neste caso. IX – os recursos minerais. regime dos portos. energia. os rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio. artístico e cultural. 20 – São bens da União: I – os que atualmente lhe pertencem e os que lhe vierem a ser atribuídos. mediante planejamento e controle do uso. Art. as ilhas oceânicas e as costeiras. A Constituição determina que os Estados devem organizar-se e reger-se pelas Constituições e leis que adotarem. preservar as florestas. Municípios ou terceiros. telecomunicações e radiodifusão. navegação lacustre. dos Estados. populações indígenas. jazidas. baseado nos Artigos 20º do Capítulo II e 26º do Capítulo III da Constituição Federal de 1988. registrar. Ficou estabelecido. as obras e outros bens de valor histórico. VIII – os potenciais de energia hidráulica. cultural.Incluem-se entre os bens dos Estados: I – as águas superficiais ou subterrâneas. ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham. as áreas referidas no art. os monumentos. excluídas. ou que banhem mais de um Estado. IV – as ilhas fluviais e lacustres nas zonas limítrofes com outros países. na forma da lei. as decorrentes de obras da União. proteção ao patrimônio histórico. enquanto que aos Municípios cabe legislar sobre assuntos de interesse local. II – as terras devolutas indispensáveis à defesa da fronteiras. turístico e paisagístico. definidas em lei. defesa do solo e dos recursos naturais. aérea e aeroespacial. ao consumidor. emergentes e em depósito. do Distrito Federal e dos Municípios proteger os documentos. responsabilidade por dano ao meio ambiente. IV – as terras devolutas não compreendidas entre as da União. das fortificações e construções militares. proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas. proteção do meio ambiente e controle da poluição. II. Capítulo III – Dos Estados Federados. fluvial. a fauna e a flora. também. outros recursos minerais e metalurgia. No que diz respeito aos aspectos legais. a bens de valor artístico. nas ilhas oceânicas e costeiras. no que couber. os Estados e o Distrito Federal devem legislar concorrentemente sobre os seguintes assuntos: florestas. 26 . VII – os terrenos de marinha e seus acrescidos. com a possibilidade de suplementar a legislação federal e estadual no que couber. acompanhar e fiscalizar as concessões de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios. minas. excluídas aquelas sob domínio da União. sirvam de limites com outros países. ficou estabelecido que compete privativamente à União legislar sobre: águas. . histórico. que a União. que estiverem no seu domínio. V – os recursos naturais da plataforma continental e da zona econômica exclusiva. atividades nucleares de qualquer natureza. turístico e paisagístico. III – os lagos. das vias federais de comunicação e à preservação ambiental. pesca.126 de outorga de direitos de seu uso. marítima. É competência comum da União. inclusive os do subsolo. XI – as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. e promover. estético. artístico. bem como os terrenos marginais e as praias fluviais. caça. Abaixo segue a distribuição de bens entre União e Estados. X – as cavidades naturais subterrâneas e os sítios arqueológicos e pré-históricos.

9. 750. sob regime especial de administração. foram consideradas como integrantes deste Domínio as formações classificadas como Floresta Ombrófila Densa Atlântica.127 O DECRETO FEDERAL 750 O Decreto Federal nº. . definindo as categorias de áreas protegidas e suas respectivas finalidades. brejos interioranos e encraves florestais do Nordeste. padrões e limites para a sua efetiva aplicação. elas são editadas para regulamentar o que determina a Lei 6. especificando os trâmites. Esta lei instituiu oficialmente o Sistema Nacional de Unidades de Conservação brasileiro. segundo a delimitação estabelecida pelo Mapa de Vegetação do Brasil do IBGE de 1988. ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção. a exploração e a supressão de vegetação primária ou nos estágios avançado e médio de regeneração no domínio da Mata Atlântica. o que segundo a Constituição Federal. transformando-se na Lei nº. anuência do IBAMA e autorização do CONAMA. 2000). legalmente instituído pelo Poder Público. com a apresentação de EIA/RIMA. atividades ou projetos de utilidade pública ou interesse social. o fato é que o Decreto 750 tem sido aplicado e. resoluções. elaborado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN) em duas etapas (1979 e 1982). premissas e normas a serem seguidas em âmbito federal. transformou-se em Projeto de Lei em 1992. Floresta Ombrófila Aberta. proibiu o corte. que tem força de lei. Floresta Estacional Semidecidual. Floresta Ombrófila Mista. Unidade de Conservação foi definida como: Espaço territorial e seus recursos ambientais.985 (BRASIL. Cabe aos decretos. foi aprovado na Câmara Federal no ano de 1999 e recebeu a sanção presidencial em 18 de julho de 2000. Alguns juristas defendem a inconstitucionalidade deste Decreto. do ponto de vista legal.. portarias etc. manguezais. ainda é. regulamentar o que foi estabelecido em lei. só é legalmente permitida em casos de execução de obras. A supressão de vegetação inclusa nessas formações. com características naturais relevantes. Floresta Estacional Decidual. Porém. Para efeito de aplicação da lei. No caso das Resoluções CONAMA. campos de altitude. de 10 de fevereiro de 1993. que criou a Política Nacional de Meio Ambiente. Após ampla discussão no Congresso Nacional. formas. em estágio avançado ou médio de regeneração. O Decreto 750 também proíbe a exploração de vegetação com função de proteção de espécies da flora e fauna silvestres ameaçados de extinção. restingas. com objetivos de conservação e limites definidos. Também são proibidas de utilização as formações vegetais que formam corredores entre remanescentes de vegetação primária ou em estágio avançado e médio de regeneração.939/81. planos. só pode ser efetuado via Lei. objetivos. um dos principais instrumentos de proteção dos remanescentes florestais do Domínio da Mata Atlântica. incluindo as águas jurisdicionais. O SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA (SNUC) O Plano do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). alegando que ele impõe restrições em nível de direitos e deveres. bem como do entorno de unidades de conservação e em áreas de preservação permanente (APP) definidas pelo Código Florestal Brasileiro.

o solo. Preservação foi definida como: conjunto de métodos. exceto com objetivos educacionais Permitida. . a manutenção. procedimentos e políticas que visem a proteção a longo prazo das espécies. as águas interiores.128 Conservação da natureza foi definida como: O manejo do uso humano da natureza. prevenindo a simplificação dos sistemas naturais. 4. compreendendo a preservação. os elementos da biosfera. desde que seja efetuado de forma a garantir a sua manutenção.340. mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras. de 22 de agosto de 2002. a fauna e a flora”. às atuais gerações. além da manutenção dos processos ecológicos.1 – Unidades de Proteção Integral do SNUC (Lei no 9. a visitação é permitida exclusivamente para fins de educação ambiental. desde que previamente autorizadas pela administração da unidade. sendo dada ênfase à preservação dos ecossistemas presentes no interior da unidade. Sujeita às normas e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da Unidade Permitida.9. de acordo com as diretrizes e restrições do plano de manejo elaborado para a área. a restauração e a recuperação do ambiente natural. As unidades de conservação integrantes do SNUC foram divididas em duas categorias: Proteção Integral (Quadro 7.1) e Uso Sustentável (Quadro 7. singulares ou de grande Público / beleza cênica. Sujeita às normas e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da Unidade PESQUISA CIENTÍFICA Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC Depende de autorização prévia do órgão responsável pela UC E s t a ç ã o Preservação da natureza e realização de pesquisas Público científicas Ecológica Preservação integral da biota e demais atributos naturais R e s e r v a existentes em seus limites.985) CATEGORIA OBJETIVOS POSSE / VISITAÇÃO DOMÍNIO PúBLICA Proibida. que regulamenta alguns 38 Na lei 9. para que possa produzir o maior benefício. o subsolo. Sujeita às normas e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da Unidade. exceto com objetivos educacionais Proibida. Privado Natural R e f ú g i o Proteger ambientes naturais onde se assegurem condições Público / de Vida para a existência ou reprodução de espécies ou comunidades Privado da flora local e da fauna residentes ou migratória Silvestre (Fonte: BRASIL. Preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica. Permitida. de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico. o mar territorial. em bases sustentáveis. Por meio do Decreto nº. e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral. habitats e ecossistemas. Nas categorias Estação Ecológica e Reserva Biológica.985 é apresentada a seguinte definição para recurso ambiental: “a atmosfera.2). Entre os usos possíveis. Quadro 7. estão a pesquisa científica e a visitação pública para fins de educação e recreação em contato com a natureza. Nas unidades de proteção integral não é permitida a utilização direta dos recursos ambientais. 2000 / Organização: GALLO JUNIOR. superficiais e subterrâneas. os estuários. Monumento Preservar sítios naturais raros. possibilitando a realização de P a r q u e pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades Público Nacional de educação e interpretação ambiental. sem interferência humana direta Público Biológica ou modificações ambientais. 2004) Nas categorias de uso sustentável é possível o uso direto dos recursos ambientais38. a utilização sustentável.

É admitida a exploração de componentes dos ecossistemas naturais em regime de manejo sustentável e a substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis. e tem como objetivo manter os ecossistemas naturais de importância regional ou local e regular o uso admissível dessas áreas. que tem por objetivos básicos a preservação da biodiversidade e o desenvolvimento das atividades de pesquisa científica. adequadas para estudos técnico-científicos sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos Área natural que abriga populações tradicionais. 9. recreativos e educacionais. complementarmente. com o Privado do Patrimônio objetivo de conservar a diversidade biológica. Área natural com populações animais de espécies nativas.129 artigos da Lei nº. Natural. Uso concedido às populações tradicionais. com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas. Reserva Particular Área privada. Área utilizada por populações extrativistas tradicionais.COBRAMAB. o monitoramento ambiental. conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente. sendo regulado de acordo com o disposto no Art. desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica. com pouca ou nenhuma ocupação humana. com a finalidade de planejar. Reserva de Desenvolvi-mento Sustentável Público. estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas. A responsabilidade pelo seu gerenciamento fica a cargo da Comissão Brasileira para o Programa “O Homem e a Biosfera” . QUADRO 7. ao mesmo tempo. terrestres ou aquáticas. 23 desta Lei e regulamen-tação específica.985. extrativistas Exploração de recursos minerais tradicionais e caça amadorística proibidas.985) CATEGORIA OBJETIVOS Área em geral extensa. e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade. disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. Disporá de um Conselho Consultivo. na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte. a Reserva da Biosfera foi incorporada como mais uma categoria de proteção integrante do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). para aprofundar o conhecimento dessa diversidade biológica. Área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas e tem como objetivo básico o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica. Área em geral de pequena extensão. No referido Decreto. o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida das populações. Tem como objetivo básico preservar a natureza e. Público Visitação e pesquisa permitidas. a Reserva da Biosfera é definida como: um modelo de gestão integrada. bem como valorizar. Visitação e pesquisa permitidas. dotada de atributos bióticos. cuja subsistência baseia-se no extrativismo e. assegurar as condições e os meios necessários para a reprodução e melhoria dos modos e da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das populações tradicionais. com características naturais extraordinárias ou que abriga exemplares raros da biota regional. de organizações da sociedade civil e da população residentes.2 – Unidades de Uso Sustentável do SNUC (Lei nº. cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais. residentes ou migratórias. gravada com perpetuidade. Área de Proteção Ambiental Público / Privado Área de Relevante Interesse Ecológico Público / Privado Floresta Nacional R e s e r v a Extrativista Reserva de Fauna É admitida a permanência de populações tradicionais. coordenar e supervisionar as atividades relativas ao Programa. Fonte: BRASIL (2000) / Organização: GALLO JUNIOR (2004) Só serão permitidas a pesquisa científica e a visitação com objetivos turísticos. É proibido o exercício da caça Público amadorística ou profissional. 9. Será gerida por um Conselho Deliberativo. desenvolvido por estas populações POSSE / DOMÍNIO OBSERVAÇÕES Disporá de um Conselho presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes dos órgãos públicos. com certo grau de ocupação humana. Uso concedido Visitação pública e pesquisa às populações permitidas. e tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações. de que trata o Decreto de 21 de setembro de 1999. Será gerida por um Conselho Público. a educação ambiental. participativa e sustentável dos recursos naturais. Deliberativo. Maretti (2001) efetuou uma correlação entre as categorias de manejo do sistema nacio- . Visitação permitida. de modo a compatibilizá-lo com os objetivos de conservação de natureza. e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica.

que habitam o interior de unidades de conservação de Proteção Integral. ao reassentamento das populações tradicionais.  Categoria V – Conservação de paisagens territoriais. geográficas de terra e mar – incluindo o uso humano integrado e harmônico.  Categoria VI – Uso sustentável dos ecossistemas – incluindo o manejo dos recursos da área protegida. como as Reservas Extrativistas.OSCIP. pesquisa e turismo. preferencialmente por comunidades locais e tradicionais. correspondendo aproximadamente aos nossos Parques Nacionais. à autorização para exploração de bens e serviços nas unidades de conservação. correspondendo aproximadamente às nossas Reservas Extrativistas e Florestas Nacionais. com a responsabilidade de implementar o Sistema e administrar as unidades de conservação. que é constituído pelo conjunto de Unidades de Conservação federais.  Categoria II – Conservação de ecossistemas e turismo – para fins principalmente de conservação.  Categoria IV – Conservação com gestão ativa – com manejo ativo de habitats naturais e espécies. sendo delas solicitado.340/2002 regulamentou aspectos relativos à criação das unidades de conservação. Estaduais e Municipais. abriu-se a possibilidade de gestão de unidades de conservação por organizações não governamentais. praticamente sem correspondentes diretos no Brasil. correspondendo aproximadamente às nossas Áreas de Proteção Ambiental (APAs). Em relação à gestão do SNUC. o Conselho Nacional de Meio Ambiente ficou com a responsabilidade de acompanhar a implementação do Sistema. encontrando a seguinte correspondência:  Categoria I – Proteção estrita – com fins principalmente de preservação e pesquisa científica.130 nal unidades de conservação no Brasil e a classificação internacional estabelecida em 1994 pela UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza. estabelecendo diretrizes para a constituição de um Conselho de Mosaico. dois requisitos básicos: que tenham dentre seus objetivos institucionais a proteção do meio ambiente ou a promoção do desenvolvimento sustentável. Estaduais e Municipais. O artigo 21º do Decreto de regulamentação do SNUC trata da possibilidade de gestão compartilhada das unidades de conservação integrantes do Sistema com Organização da Sociedade Civil de Interesse Público . Desta forma. e o IBAMA e órgãos estaduais e municipais de caráter executivo. o Ministério do Meio Ambiente com a responsabilidade de coordenar o Sistema. à formação de Conselho Consultivo e Deliberativo para assessorar a gestão das unidades de conservação. Florestas Nacionais e Reservas de Desenvolvimento . correspondendo aproximadamente às nossas Reservas Biológicas e Estações Ecológicas. à compensação por significativo impacto ambiental. O Decreto Federal 4.  Categoria III – Conservação de características naturais específicas – correspondendo aproximadamente aos usualmente chamados Monumentos Naturais. e que comprovem a realização de atividades de proteção do meio ambiente ou desenvolvimento sustentável. o que deve ser efetuado por meio de termo de parceria firmado junto ao órgão executor. para tanto. preferencialmente na unidade de conservação ou no mesmo bioma. à elaboração do Plano de Manejo das unidades de conservação. ao Mosaico de unidades de conservação. enfocando a necessidade de estudos técnicos e a obrigatoriedade de realização de consulta pública. e à gestão compartilhada das unidades de conservação. estaduais e municipais. Algumas categorias do SNUC permitem a presença de populações humanas no seu interior.

131 Sustentável. Porém, nas unidades de proteção integral, a presença humana não é legalmente permitida. Um grande problema para a gestão dessas áreas é o fato de que grande parte das unidades de conservação de proteção integral brasileiras possuem comunidades vivendo no seu interior. A legislação determina que essas pessoas sejam realocadas, sendo sua permanência permitida apenas de forma temporária nas unidades de conservação, devendo ser regulada por contratos estabelecidos junto ao órgão gestor. O artigo da lei do SNUC, que tratava da conceituação sobre as comunidades tradicionais, foi vetado na íntegra, o que dificulta a caracterização e a tomada de decisões em relação a estas populações. Outro aspecto fundamental no SNUC é a questão da posse e domínio das terras protegidas pelas unidades de conservação. A presença conjunta de terras de domínio público e privado é permitida em algumas categorias, como as APAs, ARIEs, Monumentos Naturais e Refúgios de Vida Silvestre. Porém, a lei determina que nos Parques Nacionais, Reservas Biológicas, Estações Ecológicas, Florestas Nacionais, Reservas Extrativistas, Reservas de Fauna e Reservas de Desenvolvimento Sustentável, a posse e o domínio da terra deve ser integralmente do Estado. Desta forma, as terras particulares no interior das unidades das categorias citadas acima devem ser desapropriadas. Nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), a posse e o domínio da terra são integralmente particulares, sendo que a criação de unidades nesta categoria de manejo depende da iniciativa dos proprietários. As RPPN’s são relativamente recentes, tendo sua criação se iniciado no início da década de 1990. Segundo os dados do IBAMA39, no ano de 2001 existiam mais de 300 RPPN’s em território nacional, cobrindo uma área de mais de 450.000 ha.

AVALIAÇÃO DE IMPACTOS E LICENCIAMENTO AMBIENTAL Como um dos principais instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) consiste em exame sistemático dos impactos ambientais de uma ação proposta e de suas alternativas locacionais e tecnológicas, proposição de medidas de proteção ao meio ambiente (medidas mitigadoras) e proposição de medidas de compensação de impactos. A Resolução CONAMA nº. 001/86 define impacto ambiental como:
... qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia... que, direta ou indiretamente, afetem: I – a saúde, a segurança e o bem estar da população; II – as atividades sociais e econômicas; III – a biota; IV – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V – a qualidade dos recursos ambientais.

A Lei Federal nº. 6.938/81 (Política Nacional de Meio Ambiente) estabeleceu em seu artigo 10º que a construção, instalação, ampliação e funcionamento de estabelecimentos e atividades que utilizam recursos ambientais, considerados efetiva e potencialmente poluidores, bem como os capazes de causar degradação ambiental, dependerão de prévio licenciamento. Em seu artigo 225º, a Constituição brasileira de 1988 tornou obrigatória a exigência, na forma da lei, de estudo prévio de impacto ambiental para instalação de obra ou atividade

39

Dados compilados do site do IBAMA (www.ibama.gov.br). Consulta efetuada em setembro de 2004.

132 potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente. O Artigo 2º da Resolução CONAMA 001/86 condicionou a elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), à aprovação do órgão estadual competente, o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente, tais como:
I – estradas de rodagem com 2 (duas) ou mais faixas de rolamento; II – ferrovias III – portos e terminais de minério, petróleo e produtos químicos; IV – aeroportos; V – oleodutos, gasodutos, minerodutos, troncos coletores e emissários de esgotos sanitários; VI – linhas de transmissão de energia elétrica, acima de 230 kv; VII – obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos; VIII – extração de combustível fóssil; IX – extração de minério, inclusive os de Classe II (Código de Mineração); X – aterros sanitários, processamento e destino final de resíduos tóxicos ou perigosos; XI – usina de geração de eletricidade, qualquer que seja a fonte de energia primária, acima 10 MW; XII – complexos e unidades industriais e agroindustriais; XIII – distritos industriais e Zonas Estritamente Industriais; XIV – exploração econômica de madeira ou lenha (acima de 100 ha.); XV – projetos urbanísticos, acima de 100 ha.; XVI – qualquer atividade que utilizar carvão vegetal (acima de 10 t/dia); XVII – projetos agropecuários que contemplem áreas acima de 1000 ha.

A Resolução CONAMA 237/97 estabeleceu a distribuição de competências no que diz respeito ao licenciamento ambiental. Ficou definido que os empreendimentos e atividades serão licenciados em um único nível de poder público, contemplando a opinião das demais esferas. Cabe à União o licenciamento de empreendimentos e atividades com significativo impacto ambiental de âmbito nacional ou regional. Aos Estados e Distrito Federal cabe o licenciamento de empreendimentos ou atividades nas seguintes condições: a) empreendimentos localizados ou desenvolvidos em mais de um Município; b) em unidades de conservação de domínio estadual; c) nas florestas e demais formas de vegetação natural de preservação permanente, decorrente de normas federais, estaduais ou municipais; d) empreendimentos ou atividades cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites de um ou mais municípios; e) empreendimentos ou atividades delegados pela União ao Estado por instrumento legal ou convênio. Aos municípios foi delegado o licenciamento de empreendimentos ou atividades de impacto ambiental local e daquelas que lhes forem delegadas pelo Estado por instrumento legal ou convênio. É necessária a manifestação do IBAMA quando houver intervenção em área de preservação permanente (APP) e dos órgãos gestores de unidades de conservação, quando houver intervenção nessas áreas, incluindo o entorno de 10 km estabelecido pela Resolução CONAMA 13/90.

133 O processo de licenciamento ambiental é dividido em três fases:  Licença Prévia (LP) - É concedida na fase preliminar do planejamento do empreendimento ou atividade para aprovação da localização e concepção tecnológica, atestando a sua viabilidade ambiental. Possui validade de até 5 anos.  Licença de Instalação (LI) - Autoriza a instalação do empreendimento ou atividade, de acordo com as especificações constantes dos planos, programas e projetos aprovados e condicionantes estabelecidas. Possui validade de até 6 anos.  Licença de Operação (LO) - Autoriza a operação do empreendimento ou atividade, após a verificação do efetivo cumprimento do que consta nas licenças anteriores. Possui validade mínima de 2 anos e máxima de 10 anos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise da evolução das políticas ambientais brasileiras permite verificar que houve muitos avanços no que diz respeito ao aumento da capacidade institucional, bem como no que tange à formulação de uma legislação específica para a conservação da natureza e proteção ambiental. Existem atualmente leis específicas para diversos temas atinentes à questão ambiental e seria exaustivo referenciar toda a legislação existente. A instituição do SNUC pela Lei 9.985/2000 marca a tentativa do estabelecimento de uma política integrada para as áreas protegidas em território nacional e a sua regulamentação e aperfeiçoamento contribuirão, significativamente, para a conservação do patrimônio ambiental brasileiro. É importante ressaltar, porém, que a maioria dos órgãos responsáveis pela aplicação da legislação ambiental não dispõem de recursos humanos, técnicos e financeiros suficientes para promover as atividades de fiscalização e controle sobre os danos causados ao meio ambiente. Desta forma, conclui-se que embora exista um amplo aparato legal para a conservação da natureza e defesa do meio ambiente e dos recursos naturais no Brasil, ainda, não há uma estrutura administrativa compatível e a operacionalidade adequada para a sua efetiva aplicação. Quanto ao planejamento da paisagem, é fundamental que se considere, além dos aspectos do meio físico, biológico e antrópico, toda a legislação pertinente, principalmente, no processo de identificação e mapeamento de unidades de paisagem e na análise e elaboração de projetos que prevêem intervenção direta sobre o território.

REFERÊNCIAS BRANDÃO, J.C.L. Aspectos jurídicos das Florestas de Preservação Permanente e das Reservas Legais: Proteção ambiental e propriedade. In: Revista de Direito Ambiental V. 22, Ano 6, abril-junho de 2001, Ed. Revista dos Tribunais, p.114-146, 2001 BRASIL. Lei nº. 4.771/1965 - Institui o Novo Código Florestal Brasileiro.

Políticas ambientais e desenvolvimento no Brasil.W. M. São Paulo: FAPESP : Editora Annablume. 2000 GUILLAUMON. 2004 MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. 283 p. incisos I. 16(9): 15-24. 1988 BRASIL. institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) e dá outras providências.939/1981. p. II.C. 633-645.. 103 p. Curitiba-PR. Lei nº.5 – fevereiro/2001 – Florestas s Unidades de Conservação. A Política de criação de Áreas Protegidas no Brasil: Evolução. 2000 MARETTI. Vol. Ed. São Paulo: Instituto Florestal.. J. 224. Lei nº.R. 9. Editora Empresa das Artes. 66 p. BRITO. R. 1º. 601-611. 1989 NOGUEIRA NETO. p.134 BRASIL. Comentários sobre a situação das Unidades de Conservação no Brasil. Unidades de Conservação . promulgada em 5 de outubro de 1988. Primeiro Relatório Nacional para a Conservação sobre Diversidade Biológica – Brasil. Brasília. 1998 MONOSOWSKI. de 18 de Julho de 2000. Regulamenta o art. Planejamento e gerenciamento ambiental. DOS RECURSOS HÍDRICOS E DA AMAZÔNIA LEGAL (MMA). III e VII da Constituição Federal. P.. In: Revista de Direitos Difusos. Esplanada-ADCOAS.985. 1991 . Cadernos FUNDAP. Estações Ecológicas: uma saga de ecologia e de política ambiental. C. 6. cria o Sistema Nacional de Meio Ambiente e o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental BRASIL.. Brasília. Revista dos Tribunais. p. E. 230 p. contradições e conflitos.. Ed. Institui a Política Nacional de Meio Ambiente. 2001 MEDEIROS.Intenções e Resultados. 74 p. 4º Edição. In: Anais do IV Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Constituição da República Federativa do Brasil. Código Florestal Brasileiro: dados sobre as últimas atualizações do Código Florestal. São Paulo.

EVOLUÇÃO CONCEITUAL DO PLANEJAMENTO DE SISTEMAS DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO Paralelamente ao movimento de criação de Parques Nacionais. A criação e implementação de áreas protegidas é a forma mais adequada de se proteger ecossistemas naturais e garantir a conservação a longo prazo de espécies. normas. conceitos. Reservas Florestais e outras categorias de proteção em diversos países. que são fundamentais para subsidiar o planejamento e manejo das áreas naturais protegidas. à manutenção e melhoria da qualidade ambiental. tem se desenvolvido diversos estudos nas áreas de biologia da conservação.985/2000. Uma das primeiras realizações no âmbito internacional foi a Convenção para Preservação da Fauna e Flora em seu Estado Natural. como são designadas no Brasil. . com foco nas unidades de conservação de proteção integral42. 42 O Sistema Nacional de Unidades de Conservação. bem como ao controle e à manutenção destes recursos para utilização futura. realizada em Londres em 1933. e para a preservação de objetos de interesse estético. onde foram apresentadas algumas diretrizes para os parques nacionais. visando à conservação da natureza. e cujos limites não poderiam ser alterados. Mestre em Geografia Física / USP. critérios e categorias de gestão. às quais são atribuídos diversos graus de proteção. instituído pela Lei Federal 9. com a imposição de restrições à ocupação da terra e ao uso dos recursos naturais. são áreas delimitadas. ecologia da paisagem e manejo de ecossistemas. geológico. ocorreu um processo de estruturação e planificação das áreas protegidas. populações e comunidades em seu habitat natural. Recentemente. Doutor em Geografia Física / USP. a menos que decidido pelas autoridades legislativas competentes. espacialmente. considerando-se a base legal pertinente e os avanços trazidos por pesquisas realizadas no meio acadêmico. pré- 40 41 Geógrafo. apresentando alguns dos principais conceitos.CAPITULO 8 PLANEJAMENTO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO Humberto Gallo Junior40 Débora Olivato41 As áreas naturais protegidas ou unidades de conservação. b) que fossem estabelecidas para propagação. proteção e preservação da fauna silvestre e da vegetação nativa. na tentativa de estabelecimento de um sistema internacional com objetivos. estabeleceu duas modalidades de categorias de unidades de conservação: Proteção Integral e Uso Sustentável. Pesquisador Científico do Instituto Florestal / SMA-SP Geógrafa. onde nenhuma parte poderia estar sujeita a alienação. considerados como áreas: a) que fossem controladas pelo poder público. O presente capítulo analisa a evolução do planejamento de áreas naturais protegidas. critérios e procedimentos utilizados para o planejamento e o manejo adequado destas áreas.

e política ambiental. Em 1972. d) onde seriam construídas instalações para auxiliar o público em geral a observar a fauna e a flora. e c) que fosse permitida a entrada de visitantes sob condições especiais. Na 10º Assembléia Geral da UICN. foi criada e instalada a Comissão de Parques Nacionais e Áreas Protegidas (CPNAP) na UIPN. o Congresso Mundial de Parques foi realizado em Yellowstone (EUA). em Bali (Indonésia). (BRITO. c) onde a caça. a partir de 1965. (BRITO. A CMAP é uma das seis comissões que atualmente integram a IUCN e sua missão é promover o estabelecimento e gestão de uma rede mundial de áreas protegidas terrestres e marinhas. econômica e social. foi realizada. e a destruição ou a coleta da flora.43 Em 1962. realizada. exceto sob a direção ou controle das autoridades responsáveis. direito ambiental. foi realizada em Seatle (EUA) a I Conferência Mundial sobre Parques. passou a atuar com a denominação de União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). e sítios geomorfológicos e habitats fossem de especial interesse científico. foi a criação pela UNESCO da União Internacional para a Proteção da Natureza (UIPN) em 1948 e que. marcando o início de uma série de encontros internacionais para discussão de uma política internacional em relação a essa categoria de proteção. educação e comunicação. para o benefício e o desfrute do público em geral. pelo fato de os Parques Nacionais serem somente uma das diversas formas atualmente possíveis para as áreas protegidas. na medida do possível. arqueológico e outros de interesse científicos. culturais e recreativos. a CPNAP passou a se chamar Comissão Mundial de Áreas Protegidas (CMAP). educacional e recreativo. abate ou captura da fauna. deveriam ser proibidos. da Fauna e das Belezas Cênicas Naturais dos Países da América . em 1982. Em 1960. a exploração ou a ocupação de toda a área.136 histórico. A UICN é uma organização internacional que reúne organizações governamentais e não governamentais. foi concluído que um Parque Nacional deveria possuir uma área relativamente extensa e respeitar às seguintes condições: a) que um ou mais ecossistemas não estivessem materialmente alterados pela exploração e ocupação humana.“Convenção Panamericana”. a Conferência para a Proteção da Flora. em Washington. e mantivesse. em Nova Delhi. . 2000) No início da década de 1970. e onde espécies de plantas e animais. efetivamente. b) que a mais alta autoridade competente do país tomasse medidas no sentido de prevenir ou eliminar. em 1969. com o objetivo principal de incentivar o comprometimento dos países sul-americanos no processo de criação de áreas naturais protegidas. termo genérico tradicionalmente utilizado pela UICN. ou contivessem paisagens naturais de grande beleza. para fins educativos. em Durban (África do Sul). Um dos grandes marcos internacionais para as áreas naturais protegidas. geomorfológicos ou estéticos que justificaram o estabelecimento das referidas áreas. Em 1996. gestão de ecossistemas. a UNESCO criou uma categoria de proteção de áreas 43 As outras comissões da UICN estão relacionadas à sobrevivência de espécies. 2000) Em 1940. em 1992 em Caracas (Venezuela) e em 2002. com a missão de influenciar e ajudar as sociedades de todo o mundo a conservar a diversidade e a integridade da natureza e assegurar que qualquer utilização dos recursos naturais ocorra de maneira eqüitativa e ecologicamente sustentável. os aspectos ecológicos.

o que normalmente vinha sendo desconsiderado em outras categorias. Reserva da Biosfera. a conservação foi definida como: a gestão da utilização da biosfera pelo ser humano. bem como com a destruição das matas . em 1972. incorporou a questão da ocupação humana dessas áreas. internacionalmente. Zona de Interesse Histórico. c) Zonas Protegidas de Interesse Arqueológico ou Histórico: Zona de Interesse Arqueológico. no qual define prioridades. de acordo com a UICN. 1984). a preservação da diversidade genética e o aproveitamento perene das espécies e dos ecossistemas. De acordo com a UNESCO (1984). Neste documento.137 naturais protegidas denominada Reserva da Biosfera. sendo ratificadas pelo II Congresso Mundial de Parques Nacionais. a manutenção. como os Parques Nacionais. Reserva Manejada. treinamento e demonstração no campo e a conjunção de disciplinas da área das ciências sociais. Área de Uso Múltiplo. Essa categoria reconhecida. a conservação é positiva e compreende a preservação. de tal sorte que produza o maior benefício sustentado para as gerações atuais. as principais premissas das Reservas da Biosfera são: O envolvimento dos tomadores de decisão e a população local em projetos de pesquisa. a utilização sustentada. que são apresentadas a seguir: a) Zonas Naturais Protegidas: Zona de Proteção Integral Zona de Manejo dos Recursos. mas que mantenha sua potencialidade para satisfazer as necessidades e as aspirações das gerações futuras. Zona Primitiva ou Silvestre. Na referida Assembléia. devido à má utilização e conseqüente perda de solos e intensificação do processo de desertificação. a restauração e a melhoria do ambiente natural. que foi aplicado em muitos países e incluía as seguintes categorias: Reserva Natural Estrita. Reserva de Recursos. em Banff no Canadá. realizado em Yellowstone. Monumento Natural. com o objetivo de delimitar áreas nos países membros da ONU para a proteção dos ecossistemas naturais e para a realização de pesquisas científicas. As finalidades da conservação. em 1978. Reserva Antropológica. foram criadas 11 zonas. o princípio de zoneamento em parques nacionais foi incorporado na 11º Assembléia Geral da UICN. Brito (2000) menciona também que. a União Internacional para a Conservação da Natureza publicou o documento intitulado “Estratégia Mundial para a Conservação: A Conservação dos recursos vivos. Zonas com Antigas Formas de Cultivo. estratégias e metodologias para a conservação da natureza em nível global. a IUCN aprovou um sistema de áreas protegidas. a UICN demonstrava uma preocupação especial com os sistemas agrícolas. No final da década de 1970. são a manutenção dos processos ecológicos e dos sistemas vitais essenciais. Parque Nacional. Segundo Brito (op cit). biológicas e físicas para o direcionamento de problemas ambientais complexos. Na época. para um desenvolvimento sustentado” (UICN. Paisagem Protegida. Zona de Interesse Especial. e Sítio do Patrimônio Mundial. também em 1972. Portanto. b) Zonas Antropológicas Protegidas: Zona de Ambiente Natural com Culturas Humanas Autóctones.

na Política Nacional de Meio Ambiente de 1981 e no Sistema Nacional de Unidades de Conservação de 2000. propostos para o projeto das reservas naturais.138 e a degradação dos sistemas costeiros e das massas d’água continentais. maior será a possibilidade de conservação dos processos ecológicos vitais e da diversidade biológica. O referido documento. que sugere um conjunto de estratégias internacionais e nacionais. (UICN. Assim. serviu de base para as políticas ambientais nacionais. como pode ser verificado. em jardins zoológicos e botânicos. a fim de propiciar melhores condições para a conservação da diversidade genética (Figura 8. Tal sistema foi designado pela UICN como conservação In situ. FIGURA 8. Também foi sugerida a implementação de um sistema de áreas naturais protegidas como apoio à manutenção da diversidade genética. no capítulo destinado ao Meio Ambiente da Constituição de 1988.Princípios geométricos. a UICN apresenta alguns princípios a serem utilizados para a sua delimitação. sendo suas determinações adotadas em diversos países. Em relação à forma e à dimensão espacial das áreas naturais protegidas. bancos de germoplasma e de embriões. 1984) / FONTE: UICN (1984) / Organização: GALLO JUNIOR (2002) . recomendando-se a imposição de gradientes de proteção no seu entorno. pois as espécies são preservadas em seu ambiente natural. com usos e atividades não conflitantes com as premissas e objetivos da conservação. um dos requisitos considerados prioritários para a conservação da natureza. Uma outra forma de apoio é a conservação Ex situ. quanto maior for o tamanho da área protegida e quanto maior for o grau de conectividade entre os fragmentos isolados.1 . Também se reconheceu a necessidade de minorar o efeito de borda sobre a área abarcada pela unidade de conservação.1). Esses requisitos influenciaram a formulação das políticas ambientais adotadas em diversos países e inclusive no Brasil. por exemplo. procedentes de estudos biogeográficos insulares. em que as espécies são conservadas fora de seu habitat natural.

 Educação. e) falta de correlação entre os objetivos primários de conservação e as categorias de manejo existente nos países.  Proteção da vida selvagem. A UICN/CPNAP. A Comissão de Parques Nacionais e Áreas Protegidas da UICN estabeleceu.Área protegida manejada principalmente para a conservação de pai- . a Oficina Regional da FAO para América Latina e Caribe publicou em parceria com o PNUD o Manual de Planificacion de Sistemas Nacionales de Areas Silvestres Protegidas en America Latina (MOORE e ORMAZÁBAL.  Proteção dos aspectos naturais e culturais específicos. com intervenção em nível de gestão: (Área de manejo de Habitais / Espécies).139 Em 1988. h) falta de sistemas adequados de classificação da diversidade natural de cada país. en forma individual posean definiciones. Foram elencados por estes autores os principais problemas relacionados ao planejamento dos sistemas nacionais de áreas protegidas: a) falta de estruturação e manejo sistêmico. objectivos e características y tipos de manejo muy precisos y especializados y diferentes entre ellas y que al considerarlas y administrarlas como conjunto. d) duplicidade ou insuficiência de categorias de manejo. critérios e um roteiro metodológico para o estabelecimento dos sistemas nacionais de áreas protegidas nos países latinoamericanos.  Categoria IV .  Uso sustentável de recursos de ecossistemas naturais.Área protegida manejada principalmente para a conservação de características naturais específicas: (Monumento Natural). conceitos. sendo definidas as seguintes categorias de manejo:  Categoria I – Área protegida manejada principalmente com fins científicos ou para a proteção da natureza: (Reserva Natural / Área Natural Silvestre).1988). logren que el sistema funcione como um sólo ente y además presente la gama de posibilidades de manejo más amplia que sea recomendable. g) falta de critérios adequados para a seleção de áreas a serem protegidas. Neste trabalho. fornecendo uma série de informações. um sistema de categorias de áreas naturais protegidas.  Preservação das espécies e da diversidade genética. c) falta de definição dos objetivos de conservação. em 1994. f) falta de correspondência entre as características das áreas protegidas e os requerimentos das categorias em que foram declarados. CMMC (1994) apresentou um rol com os principais objetivos de manejo a serem implementados pelas diversas categorias de áreas naturais protegidas:  Pesquisa científica.  Categoria III .Área protegida manejada principalmente para a conservação de ecossistemas e para fins de recreação: (Parque Nacional). metas.Área protegida manejada principalmente para a conservação.  Categoria V .  Manutenção de atributos culturais tradicionais. b) falta de respaldo legal dos sistemas existentes.  Manutenção de serviços do meio ambiente.  Recreação e turismo. Moore e Ormazábal (1988) definiram o Sistema Nacional de Áreas Protegidas como: un conjunto coordinado e plenamente armónico de categorias de manejo que. de acuerdo al estado de conservación de los recursos y a los objectivos que se hayan fijado en el país para las áreas protegidas.  Categoria II .

 povos indígenas e as populações locais participam cada vez mais. Brito (2000) salienta que dentre todas as categorias de áreas naturais protegidas propostas. observando os princípios estabelecidos pela UICN. Desta forma. o seu Sistema Nacional de Unidades de Conservação.Área protegida manejada principalmente para a utilização sustentável dos recursos naturais: (Área Protegida com Recursos Manejados). os Parques Nacionais e as Reservas da Biosfera são as únicas que possuem uma política internacional delineada.  Diversas áreas protegidas têm sido ligadas por redes e corredores ecológicos no marco de grandes iniciativas regionais.  Tem-se reconhecido o valor dos conhecimentos tradicionais e outros conhecimentos sobre a conservação. Neste evento.140 sagens terrestres e marinhas e com fins de recreação: (Paisagem Terrestre e Marinha Protegida). existindo um maior reconhecimento dos vínculos entre as populações humanas e o meio ambiente. realizado na Austrália. Os  Estão se explorando novas formas de governar e se estão redescobrindo formas tradicionais de governar para fins de conservação. representam uma contribuição significativa para a paz.  fazer com que as áreas protegidas sejam geridas por. realizado em Durban (África do Sul) em 2002. Em 1997 a CMAP organizou um evento denominado “Áreas Protegidas no Século XXI: de ilhas a redes” (Protected Areas in the 21st century: from islands to networks). teve como tema “Benefícios para além das fronteiras”. No intuito de demonstrar a importância das áreas protegidas para os programas econômico.  Está para entrar em vigor o Protocolo de Kyoto. com 19% estritamente protegido no continente Antártico.  número de áreas protegidas e a proporção da superfície da Terra que tem a condiO ção de área protegida duplicou desde 1992 e agora abarca mais de 12% da superfície terrestre total. foram identificados neste evento os principais desafios para as áreas protegidas no século XXI:  mudar o enfoque das áreas protegidas de ilhas para redes. .  fazer com que as áreas protegidas se integrem às outras políticas públicas. demonstrando o intuito de ampliar o sistema mundial e fortalecer uma política internacional para as áreas protegidas.  Categoria VI . O V Congresso Mundial de Parques. social e ambiental. foram apontados os seguintes avanços em relação às áreas protegidas:  áreas protegidas se reconhecem como decisivas para a aplicação da Convenção As sobre Diversidade Biológica. a tendência é que os países definam.  áreas protegidas têm-se conectado com êxito para além das fronteiras nacionais e.  Tem-se estabelecido em diversas partes do mundo planos de ação regionais e nacionais. As em alguns casos. para e com as comunidades locais.  elevar os níveis de gestão e capacitação para que essas metas sejam atingidas.  Tem-se desenvolvido medidas para melhorar a efetividade de manejo.  quantidade de bens naturais e mistos do Patrimônio Mundial aumentou de 101 para A 172. de acordo com as suas especificidades.

o que compete a todas as autoridades.1). falta de recursos financeiros ou indisponibilidade de uso dos existentes. identificou as principais ameaças as unidades de conservação brasileiras (Tabela 8. falta de pessoal para manejo e gerenciamento. que está dividido em quatro categorias (níveis):  Ação internacional em nível intergovernamental por meio das Instituições da Nações Unidas. O trabalho de Queiroz et al. É possível verificar nesta tabela que em grande parte das unidades de conservação brasileiras não existem informações relativas às ameaças a sua integridade. organismos. órgãos e organizações pertinentes. burocracia da administração pública (a relação hierárquica entre as unidades e entre os órgãos). denominado “Plano de Ação de Durban”. o que também pode ser considerado um grande obstáculo ao manejo dessas áreas protegidas. (1997).8 % 6.  Ação nacional por parte dos governos nacionais e outros grupos de interesse.1 % 27. convênios e tratados.6 % 20.7 % Fonte: Amend e Amend (1995).2 % 11.6 % 21. com base na aplicação de questionários e análise de dados secundários.5 % 10. IDENTIFICAÇÃO DE AMEAÇAS À INTEGRIDADE E AO MANEJO DAS ÁREAS NATURAIS PROTEGIDAS No trabalho realizado por Amend e Amend (1995). Tabela 8.  Ação local por meio de administradores com autoridade delegada e da sociedade civil.2 % 12.1 – Principais problemas enfrentados pelos Parques na América do Sul Tipo de ameaça Extração de recursos Naturais do Parque Falta de pessoal qualificado Conflitos de propriedade de terra Exploração agropecuária Planejamento deficiente do manejo do Parque Ocupação ilegal Limites do Parque inadequados ou mal definidos Falta de controle ou vigilância Queimadas Ocupação ilegal Falta de recursos financeiros Falta de instalações físicas e infra-estrutura Colonização nos arredores do Parque Extração mineral e exploração de petróleo Pressão do turismo Poluição Falta de apoio político e institucional Organização supra-regional Atividades guerrilheiras e narcotráfico Introdução de espécies exóticas Percentual de parques que apresentam o problema (=148) 33. foi elaborado um plano de ação para as áreas protegidas. Milano (1993) apontou as principais dificuldades enfrentadas para o funcionamento das unidades de conservação no Brasil: falta de regularização fundiária.5 % 11.0 % 21.9 % 16.  Ação regional em nível intergovernamental por meio de convênios e outros mecanismos regionais.8 % 10.4 % 4.3 % 16.2 % 16.8 % 12.1 % 5. falta de qualificação e treinamento do pessoal existente.1 % 6. foram identificados diversos problemas que podem ser considerados como ameaças à integridade das unidades de conservação na América do Sul (Tabela 8.2).1 % 8.7 % 2. Modificado por Morsello (2001) .  Ação das autoridades responsáveis pelas áreas protegidas.141 No V Congresso Mundial de Parques.

linhas de transmissão de energia. presença de gado.4 % 62. queimadas: comércio de animais silvestres: retirada ilegal de madeira e outros produtos vegetais. Constatou-se que as principais pressões e ameaças à biota são a caça e a extração ilegal de palmito. Também devem ser citadas como ameaças a falta de funcionários dos órgãos responsáveis pela gestão das áreas protegidas. apresentando os resultados do trabalho desenvolvido pela WWF-Brasil em parceria com o Instituto Florestal e a Fundação Florestal / SMA-SP. mas também foram identificados outros problemas. Com relação aos impactos do uso público.4 % 20.9 % 60. a extração de plantas ornamentais.3 % 42. que avaliou a efetividade de gestão e manejo das unidades de conservação no estado de São Paulo. pesca comercial. garimpo. o pastoreio.2 % 6. Vale do Ribeira e Metropolitana. o fogo. o uso de defensivos agrícolas e a falta de regularização fundiária. a mineração e a extração ilegal de madeira. sal-gema e carvão e presença de gasodutos.9 % 60. criticidade. foi publicado o RAPPAM (Implementação da Avaliação Rápida e Priorização do Manejo de Unidades de Conservação do Instituto Florestal e da Fundação Florestal de São Paulo).142 Tabela 8. Em relação à tendência de ocorrência de pressões. Também são destacadas a ocupação irregular. coleta de ovos de tartaruga. Recentemente. seguido pela abertura de trilhas e a depredação do patrimônio ambiental.2 – Principais ameaças às UCs brasileiras Ameaça Caça e pesca Queimadas Garimpagem Mineração Conflito com áreas indígenas Conflitos com população residente Exploração de madeira Pressão de pólo de desenvolvimento Alteração do regime hídrico Estradas Existente 32. Litoral Sul.7 % 18. captação de água. Litoral Centro.1 % 26. os conflitos de uso. construção de reservatórios. O principal conflito identificado em relação aos objetivos e finalidades das unidades de conservação é a expansão urbana. o desmatamento.1 % 58. gás natural. tendência e probabilidade de ocorrência de pressões e ameaças sobre as unidades de conservação. utilizou-se a aplicação de questionários aos gestores das unidades de conservação e oficinas participativas. Para o desenvolvimento do trabalho.2 % 63. o turismo desordenado foi indicado como principal vetor de pressão. a pesca.4 % 25. 2004). A construção de estradas. o tráfico de animais e vegetais. invasões. (1997). envolvendo as regiões do Vale do Paraíba. O estudo foi dirigido a 17 parques estaduais.7 % 4.2 % 60. grau de vulnerabilidade. priorizando a análise integrada do sistema de áreas protegidas (WWF/IF/FF.5 % 60. fragmentação de ecossistemas no entorno das unidades. Modificado por Morsello (2001) O relatório síntese elaborado pelo IBAMA (1997) apontou as principais ameaças às unidades de conservação brasileiras: caça. extração de petróleo. Litoral Norte.6 % 6. instalação de torres de alta tensão e construção de dutos foram apontados como os problemas mais críticos em relação à implantação de infra-estrutura na área das unidades de conservação. presença de rodovias e transporte fluvial atravessando as unidades. como a introdução de espécies exóticas.8 % 51. turismo mal orientado. a agricultura. 5 estações ecológicas e 2 parques ecológicos administrados pela Divisão de Reservas e Parques Estaduais (DRPE) do Instituto Florestal e 1 parque estadual administrado pela Fundação Florestal. o impactos das atividades do entorno.4 % 18. a poluição por mineração. A discussão e análise dos dados focaram temas como a importância biológica e sócioeconômica. pressão de grandes núcleos urbanos sobre as unidades. a pressão urbana foi considerada .2 % 61. considerado o principal vetor de pressão sobre as áreas sob proteção.8 % Sem informação 62.4 % Fonte: Queiroz et al.

o que tem gerado um contínuo processo de fragmentação e perda de território. contextualizadas de forma sistêmica. doações etc. mas não estática. cobrança de outros serviços e taxas. correspondendo ao aporte de recursos financeiros para a manutenção das unidades de conservação. cobrança de ingressos. lucro das atividades no local (autofinanciamento). Em relação aos aspectos econômicos. implementação e monitoramento. considerando-se as fases de planejamento. queimadas. dentro de uma determinada. Diversos pesquisadores têm se dedicado a estudos para identificação dos impactos das atividades humanas sobre as áreas naturais protegidas e a busca de estratégias de manejo para a resolução dos problemas acarretados aos ecossistemas abrangidos. entre outros aspectos. doenças da fauna silvestres. presença de população e conflitos e questão fundiária. afetando consideravelmente a biota existente. em decorrência do crescimento dos centros urbanos. Inclui o espectro usual de atividades de planejamento e manejo. devem ser considerados os fatores que podem influenciar a integridade dos ecossistemas abrangidos pelas unidades de conservação: remoção de fauna. sendo enfocados aspectos relativos às dimensões ecológica. econômica e político-institucional. devem ser considerados os custos de manejo. a construção de estradas. funcionários e capacitação. base legal. vendas. Os aspectos político-institucionais dizem respeito à organização interinstitucional e intra-institucional. fundos. recursos de organizações privadas. participação de ONGs. No que diz respeito aos aspectos ecológicos. A extração ilegal de palmito. PLANEJAMENTO E MANEJO DE ECOSSISTEMAS NATURAIS O planejamento e o manejo de ecossistemas são pressupostos fundamentais para que as unidades de conservação consigam atingir seus objetivos e metas. estando submetidas a diversos tipos de pressão e ameaças. bem como as diversas possibilidades de fonte de recursos: recursos governamentais. suas entradas e saídas. introdução de espécies exóticas. Grumbine (1994) define o manejo de ecossistemas como: a integração de conhecimentos científicos das interações ecológicas a um complexo sóciopolítico e um quadro e valores. a caça e a pressão urbana foram indicadas como principais vetores no que se refere à probabilidade de ocorrência de ameaças à integridade dos ecossistemas protegidos. portanto. para alcançar condições socialmente desejáveis. . participação da sociedade na gestão da unidade de conservação. pesca e tráfico de animais. Verifica-se. tendo como objetivo geral proteger a integridade de ecossistemas nativos ao longo do tempo Morsello (2001) efetuou um amplo levantamento sobre os critérios e parâmetros para a seleção e manejo de áreas protegidas públicas e privadas. retirada da vegetação etc. caça. concessões. Para Gee e Johnson (1988) o manejo de ecossistemas envolve: a regulação da estrutura e da função internas do ecossistema. em virtude da sua crescente expansão em direção às unidades de conservação. que as unidades de conservação paulistas apresentam um alto grau de vulnerabilidade. delimitação geográfica.143 como o maior problema.

foram apontados como variáveis fundamentais para análise. ainda não conseguiram elaborar os seus planos.50. 2003. Foi estipulado um prazo de dois anos para a finalização dos planos e um intervalo de 5 anos para as atualizações subseqüentes. Utilizando-se desta metodologia. controlar a gestão e o uso de seus recursos e direcionar o desenvolvimento dos programas de manejo. linhas de transmissão e dutos. visto que não há necessidade de desapropriação das terras e nem tampouco grandes investimentos por parte do Estado. estabelecendo uma série de variáveis e sub-variáveis para análise. para a proteção da fauna ameaçada. principalmente. que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). legal. Cifuentes et al. a maior dificuldade para sanar a questão das lacunas identificadas é viabilizar politicamente a criação de novas unidades de conservação. tanto em nível federal quando estadual. Por outro lado. político. Áreas de Proteção Ambiental. incluindo a construção de estradas. grande parte das unidades de conservação brasileiras. tem sido priorizada a criação de áreas protegidas pertencentes ao grupo de Uso Sustentável. e PAGLIA A. Paglia et al. determina que todas as unidades de conservação devem elaborar o seu Plano de Manejo. As APAs funcionam muito mais como um instrumento de ordenamento e gestão do território. Advances in Applied Biodiversity Science 5. Curitiba (PR) p. planejamento. No entanto. A lei federal 9. Global Gap Analysis: towards a representative network of protected areas. usos legais e ilegais. características biogeográficas. 39. No entanto. 44 Sobre a metodologia de análise de lacunas de conservação ver RODRIGUEZ et al. dentre outros aspectos. o avanço dos assentamentos humanos e a implantação de infra-estrutura para desenvolvimento. programas de manejo. e não deveriam estar integradas no sistema de unidades de conservação da natureza. (2004) desenvolveram um estudo em que constatou-se que de 104 espécies de vertebrados ameaçadas (“espécies-lacuna”) analisados. (2000) desenvolveram uma metodologia para a avaliação da efetividade de manejo das unidades de conservação. essas áreas protegidas não possuem a mesma efetividade em relação à conservação da natureza que as unidades do grupo de proteção integral.985. Uma tendência dos estudos relativos a esta temática tem sido a análise de lacunas de conservação44. método que visa analisar a efetividade do sistema de áreas protegidas para a conservação das espécies animais e vegetais e identificar as áreas representativas que não possuem unidades de conservação legalmente instituídas. PLANEJAMENTO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE PROTEÇÃO INTEGRAL NO BRASIL. e ameaças. Há também uma preocupação crescente com o estabelecimento de critérios e parâmetros para a criação de novas unidades de conservação. Washington DC: Conservation International. agrupadas de acordo com o âmbito pertinente: administrativo. em virtude dos diversos tipos de uso e atividades permitidas. In: Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. O estudo aponta a necessidade urgente de ampliação das unidades de conservação no domínio da Mata Atlântica.144 Uma preocupação crescente entre os estudiosos e gestores das unidades de conservação tem sido a busca de critérios e parâmetros para a avaliação da sua efetividade de manejo. Lacunas de conservação e áreas insubstituíveis para vertebrados ameaçados da Mata Atlântica. conhecimentos. . Atualmente. documento que deve guiar o funcionamento da unidade. 2004. No âmbito das ameaças às áreas protegidas. 57 (mais de 50%) não estão protegidas pelo atual sistema de unidades de conservação da Mata Atlântica. ferrovias.

 Definição e mapeamento dos usos e zonas específicas dentro da área. Este processo de planejamento inclui. as unidades também podem elaborar Planos de Ações Emergenciais (PAE) e Planos Operativos Anuais (POA). determina o zoneamento de um Parque Nacional. conforme novas informações sobre a área forem sendo obtidas. caracterizando cada uma de suas zonas e propondo seu desenvolvimento físico. Entretanto. pois está sujeito a modificações. que segundo a definição apresentada pela lei do SNUC. que deve ser efetuadas em um período . Além dos Planos de Manejo. forma. ou em virtude de situações não abarcadas ou previstas em seu Plano de Manejo. todas as modificações devem ser realizadas de maneira a assegurar a continuidade do plano. entre outros aspectos. estratégias.  Listagem dos materiais. sua localização. tamanho. para ações a curto prazo. de acordo com suas finalidades. incluindo os custos e o tempo necessário para implantação. Desta forma. Deve-se. 84.: definição de setores ou zonas em uma unidade de conservação com objetivos de manejo e normas específicos. com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação. e também deve contemplar os seguintes aspectos:  Descrição das características físicas. bem como os bens. se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais.017/79. equipamentos e materiais necessários à sua implementação. O Plano de Manejo deve ser flexível. também. O Plano de Manejo deve estabelecer as diretrizes. utilizando técnicas de planejamento ecológico. com o propósito de proporcionar os meios e as condições para que todos os objetivos da unidade possam ser alcançados de forma harmônica e eficaz. Manejo foi definido de forma ampla. que regulamentou os Parques Nacionais Brasileiros. intensidade de uso. inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade”. é a. O Plano de Manejo foi definido na lei 9.985 (SNUC) como: documento técnico mediante o qual. dentro do contexto nacional. como “todo e qualquer procedimento que vise assegurar a conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas. normas.  Identificação dos itens que induziram a criação da unidade.145 O Decreto nº. interativo e sistemático de planejamento. biológicas. a escolha da categoria de manejo da área. sociais e culturais da área.  Lista em ordem cronológica das atividades a serem conduzidas para atingir os programas propostos. o que serviria de subsídio para a revisão e reformulação deste Plano. distribuição de atividades por zona de uso e metas de manejo. ações e atividades necessárias à gestão da unidade de conservação. Deve estar contido no plano de manejo o zoneamento da área.. sua categorização e os objetivos específicos de manejo. é importante que o referido plano esteja baseado em um processo contínuo. realizado por pessoal treinado e com responsabilidade direta pelo manejo da unidade de conservação implantada. 6º a seguinte definição para o Plano de Manejo: Entende-se por Plano de Manejo o projeto dinâmico que. apresenta em seu art. regional e local. mão-de-obra necessários à sua execução. indicar as formas e os meios necessários para que se atinjam essas metas e as formas de monitoramento e avaliação.. equipamentos.

. planejamento. contextualização.Parque Nacional. reuniões técnicas com pesquisadores. 9. 3. análise regional. O zoneamento é um aspecto fundamental para o ordenamento da área abrangida pela unidade de conservação. Declaração de Significância. Em relação à análise da região em que está inserida a unidade. equipamentos e serviços / Estrutura organizacional / Recursos financeiros / Cooperação Institucional). e deve ser definido de acordo com suas características físicas. Aspectos Institucionais da UC (Pessoal / Infra-estrutura. uso e ocupação da terra e problemas ambientais. Patrimônio Cultural Material e Imaterial 4. aspectos culturais e históricos. 2. Os tópicos foram divididos em 6 encartes: 1. Estadual e Municipal pertinente e potencial de apoio à unidade de conservação. são sugeridas como forma de envolvimento dos diversos atores nas diversas etapas de elaboração do plano: visitas a prefeituras. de acordo com os objetivos a serem atingidos. etc. visão das comunidades sobre a unidade de conservação. envolvendo todos os atores relacionados com a unidade de conservação. análise regional e analise da unidade de conservação). 6. que é um dos pressupostos fundamentais do roteiro. 2002). e c) Proposições. Atividades desenvolvidas na UC (Fiscalização / Pesquisa / Educação ambiental / Relações públicas / Divulgação / Visitação) 7. Informações gerais sobre a UC (Localização / acesso / origem do nome / histórico de criação). alternativas de desenvolvimento econômico sustentável. deslizamentos. gradativo. Para a análise da unidade de conservação. o IBAMA publicou um roteiro metodológico para a elaboração de planos de manejo nas unidades de proteção integral .146 de 5 anos. legislação Federal. a área de entorno ou zona de amortecimento e. flexível e participativo. enchentes. Ocorrências Excepcionais (Fogo. os corredores ecológicos. As três abordagens propostas pelo IBAMA envolvem: a) Enquadramento. são relacionados os seguintes requisitos: 1. federal e estadual. formação de conselhos consultivos para as unidades de conservação. 3. biológicas e antrópicas. 5.1 Atividades ou Situações conflitantes 8. análise da unidade de conservação. Caracterização dos fatores abióticos e bióticos (Geologia / Relevo / Geomorfologia / Solos / Espeleologia / Hidrografia / Hidrologia / Limnologia / Oceanografia / Vegetação / Fauna). Situação Fundiária 6.) 7. Estação Ecológica e Reserva Biológica (IBAMA. Sócioeconomia 5. e busca de cooperação institucional. O IBAMA estabelece dois . características da população. monitoria e avaliação. oficinas de planejamento. De acordo com o roteiro proposto. o Plano de Manejo deve envolver a área abrangida pela unidade de conservação. 4. é fundamental que sejam considerados os seguintes aspectos: caracterização ambiental. O roteiro estabelece que o processo de planejamento deve ser contínuo.. realização de reuniões abertas nos municípios. Em relação à participação. b) Diagnóstico (contextualização. também. quando for o caso. organizações governamentais e não governamentais. buscando avaliar a sua relevância para o sistema de áreas protegidas. O primeiro passo é a contextualização da unidade de conservação nos enfoques internacional. projetos específicos. 2. Em 2002.

Vol. incluindo o Vale do Ribeira. presença de infra-estrutura. No Estado de São Paulo. A partir de um aprofundamento e maior detalhamento do processo de planejamento. Parque Estadual da Ilha do Cardoso. numa cooperação financeira Alemanha-Brasil por meio do banco Kreditanstalt fur Wiederaufbau (KfW) e do Governo do Estado de São Paulo. 45 Sobre a definição da metodologia dos Planos de Manejo do IF ver MARETTI et al . Caraguatatuba. a análise dos problemas e vetores de pressão que afetam a área abrangida e a definição de estratégias.1 aresenta as Zonas estabelecidas pelo IBAMA (2002) para a implantação das unidades de conservação de proteção integral federais e estaduais. a susceptibilidade ambiental e a existência de sítios arqueológicos e paleontológicos. p. In: Anais do Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Foram realizados Planos de Gestão Ambiental para cinco dos oito núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar (São Sebastião.000Km2. abrangendo uma área de cerca de 17. compreendendo o levantamento de dados primários e a definição do zoneamento para a unidade de conservação. O Quadro 8. 1997 46 O Plano de Manejo do PESM foi aprovado pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA) em 19 de setembro de 2006. No que se refere à vocação de uso. a ocorrência de usos conflitantes com os objetivos da UC e a presença de populações no seu interior.  critérios indicativos das singularidades da UC. Parque Estadual da Ilhabela. o litoral paulista e parte do Vale do Paraíba.II. A metodologia utilizada para a realização dos Planos de Gestão Ambiental foi desenvolvida no âmbito do Projeto de Preservação da Mata Atlântica (PPMA). Curitiba-PR.234-247. a maior UC de proteção integral do Estado de São Paulo. Estação Ecológica de Chauás. como o grau de conservação da vegetação e a variabilidade de ambientes dentro da UC. Cubatão e Santa Virgínia).000 hectares de área46. Parque Estadual de Pariquera-Abaixo. um importante avanço na metodologia de elaboração dos Planos de Manejo foi o desenvolvimento dos Planos de Gestão Ambiental. como os valores para a conservação e a vocação de uso da área abrangida. a riqueza e/ou diversidade de espécies. O processo de elaboração envolveu o levantamento de informações sobre a unidade de conservação e a região em que está inserida. A Construção da Metodologia dos Planos de Gestão Ambiental para Unidades de Conservação em São Paulo. Picinguaba. podem ser citados como elementos norteadores o potencial para visitação e educação ambiental. alternativas e ações emergenciais para a sua resolução.  Dentre os valores para a conservação destacam-se a representatividade. Plano de Gestão do Parque Estadual de Intervales e Plano de Manejo Fase I do Parque Estadual Xixová-Japuí. a ocorrência de áreas de transição entre ecossistemas.147 tipos de critérios para a definição do zoneamento das unidades de proteção integral:  critérios físicos e mensuráveis. a elaboração em fases. Estação Ecológica do Bananal. com mais de 315. . foram estabelecidas as metas e atividades a serem desenvolvidas em cada programa de manejo. com as definições legais e os objetivos de manejo. utilizou uma metodologia tendo como pressupostos básicos a elaboração participativa e aberta a todos os atores sociais interessados na UC. Ao longo dos anos de 2005 e 2006 foi elaborado o Plano de Manejo do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM). e a preocupação com aspectos mais próximos da gestão (administração prática)45.

recreativos.500 há conforme previsto em lei. podendo apresentar algumas alterações acesso ao público com facilidade. apesar de oferecer naturais. Esta Zona permite Permanentes uso público somente para a educação É aquela que contêm as áreas necessárias à administração. objetivos de conservação da área. na periferia da UC. para fins educativos e humanas. É aquela onde tenha ocorrido pequena ou mínima intervenção humana. estudadas. sempre que possível. servindo à pesquisa. 9. O objetivo geral do manejo é deter a degradação dos É aquela que contém áreas consideravelmente recursos ou restaurar a área. localizar-se. sujeitas a negociação caso a caso entre a etnia. restauradas e interpretadas para o público. é constituída por áreas naturais ou alteradas pelo homem. limitada até 1. superpondo partes da UC. São áreas subordinadas a um regime especial de regulamentação. garantindo a evolução natural. barragens. captação de água. linhas de transmissão. 2º inciso XVIII). É aquela constituída por áreas naturais ou alteradas O objetivo geral do manejo é o de facilitar a recreação pelo homem. OBJETIVOS DO MANEJO ZONA DE SUPERPOSIÇÃO INDÍGENA ZONA DE INTERFERÊNCIA EXPERIMENTAL ZONA DE AMORTECIMENTO FONTE: IBAMA (2002) / Organização: GALLO JUNIOR (2005) O levantamento de dados primários do meio biótico foi realizado por meio de uma avaliação ecológica rápida (AER). Zona Provisória. contendo espécies da flora e da fauna ou fenômenos naturais de grande valor científico. Estas O objetivo geral do manejo é minorar o impacto da áreas serão escolhidas e controladas de forma a implantação das estruturas ou os efeitos das obras no não conflitarem com seu caráter natural e devem ambiente natural ou cultura da Unidade. ou arqueológicos. abrangendo habitações. será incorporada a uma das Zonas Permanentes É aquela que contêm áreas ocupadas por uma ou mais etnias indígenas. estradas. oficinas e outros. uma vez regularizadas as eventuais superposições. educação e uso científico. antenas.1 – Zonas Definidas Pelo IBAMA para as Unidades de Conservação de Proteção Integral ZONA ZONA INTANGÍVEL DEFINIÇÃO ZONA PRIMITIVA ZONA DE EXTENSIVO ZONA DE INTENSIVO USO É aquela onde a primitividade da natureza permanece o mais preservada possível. Art. dos recursos genéticos e ao monitoramento ambiental. O objetivo geral do manejo é a preservação do ambiente natural e ao mesmo tempo facilitar as atividades de pesquisa científica e educação ambiental permitindo-se formas primitivas de recreação O objetivo do manejo é a manutenção de um ambiente É aquela constituída em sua maior parte por áreas natural com mínimo impacto humano. O ambiente é mantido o mais próximo intensiva e educação ambiental em harmonia com o possível do natural. cabos óticos e outros. de pesquisas. O entorno de uma UC. manutenção e serviços da UC. devendo conter: centro de meio. Zona Provisória. a FUNAI e o IBAMA. oleodutos. outras facilidades e serviços É aquela onde são encontradas amostras do patrimônio histórico-cultural ou arqueoO objetivo geral do manejo é o de proteger sítios históricos paleontológico. estabelecidos antes da criação da Unidade. não se tolerando quaisquer alterações humanas. correspondendo ao máximo de três por cento da área total da estação ecológica. será incorporada a uma das zonas permanentes. São ocupadas estabelecendo procedimentos que minimizem os impactos por empreendimentos de utilidade pública. uma vez realocada a população. visitantes. sujeitas a alterações definidas no Artigo 9º parágrafo 4º e seus O seu objetivo é o desenvolvimento de pesquisas incisos da Lei do SNUC mediante o desenvolvimento comparativas em áreas preservadas. onde as atividades humanas estão sujeitas a normas e restrições específicas. metodologia em que são identificadas áreas de amostragem . museus. As espécies exóticas antropizadas. como sobre a UC. com o propósito de minorar os impactos negativos sobre a unidade (Lei nº. Zona provisória. Constituem-se em espaços localizados dentro de uma UC.148 Quadro 8. em harmonia com o meio ambiente. cujos usos e finalidades.985/2000. introduzidas deverão ser removidas e a restauração deverá será incorporada novamente a uma das Zonas ser natural ou naturalmente induzida. representando o mais alto grau de preservação. O objetivo básico do manejo é a preservação. que serão preservadas. uma vez restaurada. São áreas dentro das UC’s onde ocorrem concentrações de populações humanas residentes e as respectivas áreas de uso. gasodutos. Específica para as estações ecológicas. USO ZONA HISTÓRICOCULTURAL ZONA DE RECUPERAÇÃO ZONA DE ESPECIAL USO ZONA DE USO CONFLITANTE ZONA DE O C U P A Ç Ã O TEMPORÁRIA Esta zona é dedicada à proteção integral de ecossistemas. conflitam com os O objetivo de manejo é contemporizar a situação existente.

231p. Arlington. C. (Quadro 8. risco). (1996) 1. Alternativas de desenvolvimento. EUA: The Nature Conservancy. da biodiversidade (vegetação.149 para a coleta e análise integrada de dados primários referentes aos diversos grupos biológicos47.  Interação sócioambiental: relação com os atores. cronogramas e recursos necessários para que se consiga atingir os objetivos de manejo e gestão da unidade de conservação. ações. Educação Ambiental. Evaluacion Ecologica Rapida . Os programas de manejo são estabelecidos de acordo com a categoria de manejo e suas finalidades. Uso Público e Operações. Em relação à participação da sociedade. 1. Edición preliminar. Monitoramento 5. Fonte: PAGANI et al. 2. P. Integração externa.2 – Programas de Manejo das Unidades de Conservação. conforme estabelece a lei que criou o SNUC. 3. Os programas de manejo estabelecidos atualmente pelo Instituto Florestal para as unidades de conservação de proteção integral do Estado de São Paulo são os seguintes:  Gestão: administração. recuperação de áreas degradadas. instituições e comunidades no interior e entorno da unidade de conservação. fauna. Manejo de Recursos 4. conservação do patrimônio histórico-cultural. regularização fundiária. 2. Proteção Manutenção Administração O Roteiro Metodológico do IBAMA (2002) sugere o enquadramento das ações gerenciais nos seguintes programas temáticos: Proteção/manejo.  Manejo de recursos: manejo de fauna. Os conselhos são constitu- 47 Sobre a metodologia de avaliação ecológica rápida ver SOBREVILLA. 2.  Visitação pública: educação ambiental e ecoturismo.. (1996) apresentaram uma subdivisão dos programas de manejo em três grandes categorias: Meio Ambiente. 3. investimentos. solos. 6. sendo que para cada programa são planejadas as metas. atividades. patrimônio histórico e cultural.  Proteção: fiscalização e vigilância. planejamento. vetores de pressão. Pagani et al. . uso público (trilhas. BATH. flora). 1992. do uso da terra. a forma utilizada pelo Instituto Florestal para as UC do Estado de São Paulo tem sido a formação dos conselhos consultivos para as unidades de conservação. PROGRAMAS DE MANEJO MEIO AMBIENTE USO PúBLICO Recreação Interpretação da natureza Educação Turismo Relações Públicas Extensão OPERAÇÕES 1. VA.2) Quadro 8. Para a definição do zoneamento são cruzadas as informações das cartas temáticas realizadas nos diagnósticos do meio físico (geologia. Investigação 3.  Pesquisa científica. Pesquisa e monitoramento. geomorfologia.un manual para usuários de América Latina y el Caribe.  Comunicação e marketing. infra-estrutura para visitação). e Operacionalização. infra-estrutura.

C. p. a idéia é a de implantar conselhos consultivos para os seus oito núcleos administrativos. Quito and Gland: UICN and Parques Nacionales Y Conservacion Ambiental. é fundamental que se alie os conhecimentos oriundos de pesquisas científicas realizadas em Universidades. com o conhecimento empírico dos gestores e demais funcionários das unidades de conservação.150 ídos pelo diretor da unidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS No Brasil.1. R.W. M. T. a fim de implementarem projetos integrados de pesquisa sobre os parâmetros. além de um conselho gestor para o Parque como um todo. 449-466. 48 Sobre a metodologia da constituição dos conselhos consultivos ver RAIMUNDO. critérios e indicadores para o planejamento e manejo das áreas protegidas. A maior parte das unidades de conservação brasileiras. S. In: Conservation Biology. J.Intenções e Resultados. No caso do Parque Estadual da Serra do Mar. 1988 AMEND.672. ONGs e outras entidades. faz-se necessária uma maior aproximação entre os órgãos gestores das unidades de conservação e o meio acadêmico. What is ecosystem management?.K. E AMEND. D. que envolve 23 municípios. Grande parte das unidades de conservação estaduais está em fase de criação e estruturação dos seus conselhos consultivos. et al. REFERÊNCIAS AGEE.R. n. e JOHNSON. 2002 . Unidades de Conservação . Em face da carência de recursos humanos e financeiros dos órgãos gestores das áreas protegidas no Brasil. 2000 GRUMBINE. ainda não possuem planos de manejo ou documentos que especifiquem estratégias de gestão para as áreas abrangidas. Seatle and London: University of Washington Press. instituído no ano de 2000 pela lei federal 9. que é o seu coordenador e por representantes do governo e da sociedade. de 05 de junho de 2005.985.. seria interessante que o meio acadêmico estivesse também evolvido com a execução e implantação dos planos de manejo destas áreas.48 O Decreto Estadual 49. o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. 1995 BRITO.8. na perspectiva de gestão integrada e participativa. considerando-se os princípios da paridade e representatividade. Desta forma. (eds) Ecosystems management for parks and wilderness. visando à integração de esforços para a conservação da natureza e para a manutenção da qualidade ambiental. São Paulo: FAPESP / Editora Annablume. A criação dos Conselhos Consultivos nas Unidades de Conservação de Proteção Integral: Estudo de caso no Estado de São Paulo.In: Anais do Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. apresenta um rol de possibilidades de manejo para as áreas legalmente protegidas em território nacional. regulamentou o processo de criação e funcionamento dos Conselhos Consultivos das unidades de conservação de proteção integral do Estado de São Paulo. 230 p . Neste sentido. v.E. S. Balance sheet: Inhabitants in national parks – an unsolvable contradiction? In: National parks without people? The South American experience. tanto em nível federal quanto estadual. p. Institutos de Pesquisa.

v. la CMAP em acción. In: http//www. VHT IUNC World Parks Congress User Guide and Daily Programme. DF: MMA.org/themes/wcpa/wpc2003. In: Anais do III Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. 2002 UICN. p. Gland. 343 p. 1996 QUEIROZ.uicn. S. Roteiro Metodológico de Planejamento. A. et al. et al. Áreas Protegidas Públicas e Privadas..org.. Parque Nacional – Reserva Biológica – Estação Ecológica. 2003 UNESCO. Manual de planificación de sistemas nacionales de areas silvestres protegidas en La America Latina – Metodología y recomendaciones. p. 1994 UICN / CMAP. Curitiba. 223-233. São Paulo: CESP. In: LEMOS. 261 p. A. nº 4. C.151 27-38. C. Um banco de dados para a Rede de Unidades de Conservação do Brasil. et. Suiza. 1984 WWF/IF/FF. 2002 MARETTI. In: Anais do I Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. 1984 UICN / CMAP / CMMC. (Org) Turismo: impactos Sócio-ambientais.. XX. 2000 UICN. In: http// www. In: Anais do I Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. H. Áreas Protegidas: beneficios más allá de las Fronteras.C. A criação dos Conselhos Consultivos nas Unidades de Proteção Integral: Estudo de caso no Estado de São Paulo.. 1997 MOORE. 137 p. 1994 IBAMA. Action Plan for Biosphere Reserves. 17 p.. Brasília. Nature and Resources. Santiago: Proyecto FAO/PNUMA. Oficina Regional de la FAO para America Latina y el Caribe. p. para um desenvolvimento sustentado.. São Paulo: FAPESP : Editora Annablume. RAPPAN: Implementação da Avaliação Rápida e Priorização do Manejo de Unidades de Conservação do Instituto Florestal e da Fundação Florestal de São Paulo. Seleção e Manejo. Gland. 234-247. 2001 PAGANI. 1997 RAIMUNDO. A Construção da Metodologia dos Planos de Gestão Ambiental para Unidades de Conservação em São Paulo. Paris: UNESCO. 46 p.uicn. Hucitec. et al. e ORMAZÁBAL. São Paulo: Ed. As trilhas interpretativas da natureza e o ecoturismo. Directrices para las Categorias de Manejo de Areas Protegidas. al. p. 2004 . Curitiba-PR. M. 1988 MORSELLO. 901-912.I.I. Fortaleza-CE.PR. São Paulo. 135 p. 151-163.. Estratégia Mundial para a Conservação: A Conservação dos recursos vivos. 57 p.L.

passando pela rural. por conseguinte. segundo Piaget.CAPITULO 9 PERCEPÇÃO AMBIENTAL lívIa de OlIveIra49 O Homem deve aceitar a responsabilidade de administração da Terra. que consideramos básicas quando tratamos da percepção ambiental. gustativa e tato-cinestésica. Aqui. governo para o bem comum. o nosso contato com o mundo exterior se dá através dos nossos órgãos sensoriais. naturalmente. a audição. necessariamente passam pelos fil- 49 Geógrafa e Historiadora. a palavra administração implica. o olfato.Mesmo um conhecimento casual com uma geografia física e a abundância de formas de vida. Topofilia (p. muito nos dizem. olfativa. René Dubos: Uma Terra Somente (p. Para tanto.21) Neste capítulo queremos prestar nossas homenagens ao nosso saudoso e tão admirado colega de tantas lutas em prol da paisagem e do meio ambiente: o eminente biogeógrafo. desde o início. Cada órgão desempenha uma atividade correspondente: visual. cognição e representação conceitualmente. É difícil separá-los na prática. Nossos órgãos sensoriais agem concomitantemente. pois suas aulas cobriam uma gama enorme de assuntos ligados ao meio ambiente. nos propusemos a tecer algumas considerações sobre percepção ambiental. porque Felisberto Cavalheiro foi um grande professor de Biogeografia. NOÇÕES BÁSICAS SOBRE PERCEPÇÃO/COGNIÇÃO A superfície da Terra é extremamente variada. pois suas investigações procuravam sempre relacionar as pessoas com seu meio ambiente. auditiva. pesquisador e mestre. Procuraremos levantar questões de percepção ambiental urbana. percepção. 6) Convém. e um grande pesquisador. Esta é variável de acordo com o aparelho sensorial que estamos usando. de maneira seletiva e instantânea. A realidade “entra” em nosso mundo interior mediante: a visão. Yi-fu Tuan. chegando às regiões selvagens e tentando vislumbrar as perspectivas para uma percepção ambiental. nos propiciando a sensação. As sensações. ou melhor. atividade perceptiva. fazer uma varredura geográfica. Professora Voluntária Livre-Docente – UNESP-Rio Claro . nossas palavras-chaves são as seguintes: sensação. Nossa responsabilidade é dupla. partindo das noções básicas para melhor compreender e explicar a própria percepção ambiental. estabelecer as definições conceituais sobre as noções. do que ecológico. Convém lembrar que o que penetra pelos sentidos são os estímulos sensoriais. procuraremos analisar a conduta humana em relação ao meio ambiente. atingindo a própria conduta. mais do ponto de vista geográfico. Tentaremos. Ao partir da realidade que comporta as possibilidades de ocorrência. A porta de entrada. mas são mais variadas as maneiras como as pessoas percebem e avaliam essa superfície. o paladar e o tato-cinestesia. naturalmente.

enfim explorações. Estas duas compreendem um modo de organização. São tão importantes. A percepção só se dá no córtex cerebral. Os filtros culturais e individuais são produtos do interesse. Por sua vez. comparações no tempo. transposições. Assim. usaremos o da visão. engendrando nossa percepção visual em três dimensões. sociais. Entre a percepção e a inteligência se interpõe como um continuum em ambas direções. Portanto. que muitas vezes determinam as tomadas de decisões e nos conduzem às tomadas de consciência. esta atividade perceptiva está intimamente vinculada à cognitiva. Piaget reconhece atividades mentais intermediárias e define essa atividade perceptiva como um processo que supõe deslocamentos dos órgãos sensoriais no espaço. em seu aspecto dinâmico. Enquanto conhecer consiste em construir ou reconstruir o objeto do conhecimento para poder apreender o mecanismo de sua construção. A luz refletida pelos objetos. a atividade perceptiva. não sendo uma cópia do objeto.Esquema do Processo Perceptivo Cognitivo (Org. M.: CAMILLO. pois é esta que engendra aquela e a resposta do indivíduo se apresenta como resultado da equilibração entre as suas estruturas internas (biológicas e mentais) e as externas (ambientais. culturais. mas. segundo Piaget. apenas. entendemos. transforma-os em estímulos visuais que são projetados em duas dimensões na superfície plana da retina e são levados como impulsos nervosos até o ponto da visão. econômicas). a apreensão da realidade sempre envolve múltiplas inter-relações entre ações cognitivas e entre conceitos e compreensão que essas ações expressam. a imagem mental será considerada como uma imitação interiorizada. Cada ato de inteligência presume um tipo de estrutura intelectual e um modo de organização. e. com a percepção visual. a conduta humana é tão complexa . é aí que se recupera a terceira dimensão.1). Assim sendo. em um determinado momento correspondente à sensação. é também caracterizado pelos processos invariantes da assimilação e acomodação. na região occipital do córtex cerebral. em nossa percepção. 2007) Entre a percepção e a inteligência. inteligência como um sistema de ações e operações que são grupadas em estruturas sucessivas de acordo com um processo e um ritmo genéticos regidos pelas leis de equilíbrio.1 . Como exemplo.153 tros culturais e individuais para se tornarem percepções. sim um correlato (Figura 9. que constituem a cognição. a percepção como uma construção empírica que progride por etapas e que jamais se apresenta como uma “leitura da experiência”.. Isto se justifica porque em percepção e cognição ambientais trabalhamos quase que. antecipações. Figura 9. A função intelectual. da necessidade e da motivação.

representativo. todos aplicarão métodos qualitativos. será variada: cultural. hierarquização. juristas. organização etc. geográfica. que se está iniciando. Necessário se faz. Os processadores deste sistema não atuam somente em um plano. Yi-fu Tuan. função. cada um dando ênfase à sua especialidade. O que fica claro nesta obra. ou empírica. classificação. os valores e os símbolos revelam características espaciais em termos da natureza e da cultura. também.154 que não pode ser reduzida a simples termos convencionais. e em particular aqueles interessados em meio ambiente. muito mais que quantitativos. a adoção de uma teoria que conceitualize o espaço em termos de definição. da atitude. o que parece é que a maioria dos estudiosos vêm trabalhando mais com a percepção ambiental. pois o primeiro é mais abrangente. econômica. pois o sistema homem é alimentado por um tipo de energia tremendamente dinâmico e segundo ritmos e regulações muito sofisticados que é a afetividade. intuitivo. a noção de impacto ambiental se ampliou consideravelmente. quer científica. economistas. ou. Todas estas observações necessitam ser encaradas diante das tendências contemporâneas de uniformização de atitudes. quando adjetivamos a percepção restringimos o seu significado. tais como: sensório-motor. afetiva. ecológica. O que importa em se tratando de percepção ambiental é que todos se preocupam com os impactos ambientais que ocorrem no meio ambiente natural ou construído. Cada um atribuindo maior ou menor intensidade ao aspecto abordado. a representação é a capacidade e evocar por um signo ou símbolo o objeto ausente ou a atividade realizada. Porém. psicólogos. educadores até planejadores. independente da percepção. PERCEPÇÃO AMBIENTAL Os meios utilizados para atingir os resultados geralmente são mais impressionantes do que os próprios resultados. artística. Percepção ambiental. Contudo. é que foram abertas novas perspectivas para uma gama de profissionais e estudiosos. simbólico. Enquanto conceito difere segundo o estudioso. Neste século. geógrafos. Por outro lado. ao termo percepção ambiental. proceder a um parêntese para tecer algumas considerações sobre meio ambiente. opinião que o indivíduo tenha do espaço. 3) Alguns autores preferem a denominação percepção do meio ambiente. à sutileza de compreensão. Del Rio e Oliveira (1996) denominaram o seu livro pioneiro de “Percepção Ambiental: a experiência brasileira”. desde arquitetos. O que sabemos é que cada profissional atribuirá significados diferentes à percepção ambiental que pesquisará ou empregará em sua investigação. Isto equivale a dizer que subjacente à ação (perceptiva e cognitiva) exercida sobre um determinado espaço se constrói sempre uma noção de espaço e. perceptivo. mais ainda. urbanistas. As atitudes. não é de fácil definição. A resposta dada à percepção ambiental. São estes termos que determinam a escolha da representação cartográfica do espaço. ainda ao modo de expressão. sociólogos. mas sim em vários. mais vale experienciá-la do que definila. . já um clássico. operatório (concreto e formal). Convém lembrar que tanto a percepção/cognição como a conduta espacial estão na dependência do conhecimento. do que propriamente com a percepção do meio ambiente. homogeneização de valores e de transformação dos símbolos tendendo a se dissolver pela ação avassaladora da industrialização e urbanização modernas. mais compreensivo. Topofilia (p. limitação. histórica. ecólogos. atingindo um público em geral. biólogos.

as pessoas se aglomeravam em grupos por atividades. concebido. o visível e não visível. pode-se. é uma atitude. de visão de mundo. a idéia de que o meio ambiente é uma paisagem banal. pesquisar o meio ambiente deve-se recorrer a uma equipe interdisciplinar. como nos séculos XIX e XX foi a questão social. afirmar que é multidisciplinar. Desde o início. natural e humanizado. nem sempre renovável e inesgotável e não desenvolvemos uma afetividade em relação a ele. revelando um mo- . comerciais e culturais de um povo. necessariamente. esperando que o planejamento para o ambiental conte um número necessário de profissionais para se chegar a uma solução satisfatória. O que queremos dar ênfase. é experienciada em grupo ou particularizada. sempre sediou o rei. Maria Elaine Kohlsdorf. jardins e palácios e. de visão do meio ambiente físico. de uma nação. podendo-se dizer que é transdisciplinar. uma posição. PERCEPÇÃO AMBIENTAL URBANA A apreensão dos lugares dá-se. Assim. sim complexo. Contudo. o perto e o distante. um valor. mas. Ou seja. a capital do território. é que a abordagem perceptiva/cognitiva em relação ao ambiente exige uma plêiade de interessados. daí os desenhos geométricos de suas ruas. muito mais do que socioeconômico. conseqüentemente. simbolizavam o orgulho nacional. e a percepção ambiental.155 Atualmente. uma avaliação que se faz do nosso ambiente. Em geral. não é correta. eram homens livres que viviam intramuros nas urbes. o que amamos e não amamos. tranqüilo e imutável. para expressar os laços afetivos que desenvolvemos em relação ao nosso meio ambiente. cada elemento contribuindo para sua esfera. também serão intricadas. Suas construções indicavam a organização social. o concreto e o abstrato. arquitetônicos para atender as necessidades dos habitantes. muito dinâmico e implica afetividade. Quanto se trata de percepção ambiental.31) A cidade sempre se apresentou aos homens como um ideal. Enquanto ignoramos que o meio ambiente é finito. enquanto os servos e camponeses viviam no campo. do cotidiano e nosso planeta é estático. Através da história. ao contrário. trata-se. Concordamos com a maioria dos intelectuais que consideram a questão ambiental. suas construções seguiam padrões. a partir de sua forma física. mesmo. e também nos estudos centrados nos mecanismos cognitivos. apesar se ser silencioso e aprazível. direta ou simbolicamente. o governante. para nós. pois o problema não é simples. continuaremos a usá-lo e depredá-lo sem misericórdia e sem fim. A cidade atendia as necessidades simbólicas. eram cidadãos que viviam na cidade. conforme diversas abordagens arquitetônicas e geográficas da cidade. da cidade foi sempre percebida como uma simbolização cósmica. praças. A cidade sempre representou o poder. é tanto o social. este ambiente se apresenta de maneira explosiva e inesperada. no fundo. quanto o religioso. os problemas cruciais para o século XXI. as respostas. não estamos preparados tanto política quanto afetivamente para enfrentar as questões referentes às relações entre natureza e sociedade. como oportunidade de realizações. o sentido que se atribui ao termo meio ambiente é tudo e todos que nos rodeiam: o natural e o construído. para se estudar. A nosso ver a questão exige que equacionemos a solução para o problema sob um ponto de vista ético. Como as indagações são imbricadas. aqui. usando o neologismo topofilia. como se colocando acima das vicissitudes biológicas. Em outras palavras. rituais. A apreensão da forma da cidade (p. na maioria é sociocultural e parcialmente é individual. o sacerdote.

arborizadas. Especialmente. precisamos reconhecer os direitos da natureza. Os novos usuários procuram novas áreas de recreação. os planejadores e urbanistas ao implantarem uma área verde recreacional. Aqui os artesões. perfeitamente. árvores decepadas. valorizadas e consideradas. as construções de casas de moradia surgiram e se multiplicaram. que abrigava pássaros e animais. de prédios de trabalho. as edificações começaram a se especializar em: oficinas. elas necessitam de uma concretização no espaço. de edifícios públicos. canteiros cheios de mato. Ao ser fundada uma cidade. que as áreas recreacionais. não são respeitadas as leis da natureza do sítio urbano. e talvez. É preciso planejá-las através do tempo do espaço. de proporções metropolitanas. Na realidade. lojas. de acervos de museus. folgar. A percepção e cognição ambiental precisam ser equacionadas de maneira integrada. ali os comerciantes. de parques e praças. Os governantes e os planejadores devem partir de baixo para cima. o uso. Também. com bancos e canteiros floridos e muito agradáveis Ao correr dos anos se observam: bancos quebrados. principalmente por crianças. o mais importante formar atitudes e condutas positivas e afetivas para com o meio ambiente. tanto perceptivo como cognitivo. assim sendo as favelas. não podendo ser enfrentados separadamente. os córregos estouram as tubulações e os rios provocam enchentes. campinhos de futebol ou de basquete. sobre um solo. áreas verdes. A tendência é perceber em separado e procurar a resolver as questões. lindas. os distritos comerciais e culturais são partes do todo e não pólos da realidade. Só são lembradas quando. O exemplo da metrópole de São Paulo: as várzeas dos . que as águas drenadas eram limpas e potáveis. devem considerar a localização. também. que cresceram. se divertir.igrejas. Em geral. Aí que entra a percepção ambiental urbana. insetos e répteis. Do ponto de vista ambiental. também. que antes havia uma cobertura vegetal natural. enquanto são usadas. em geral. Como os indivíduos ou grupos percebem o meio ambiente.156 saico urbano. o que sonha. mais além os governantes. que sempre foram de seus domínios. de playground. indicando um desleixo generalizado por parte das autoridades e. estas lembranças são esquecidas. De que maneira este meio ambiente era e é visto pela sociedade. acolá os clérigos. pelos usuários. quer denominadas parques de diversão. o que espera do futuro. Portanto. não estamos preparados para enfrentar problemas ambientais urbanos de magnitudes metropolitanos. adolescentes e velhos. considerando as dimensões duração e extensão. em cidades grandes. de templos religiosos. As áreas recreacionais têm início e fim. desenvolver uma consciência pública e individual. sentir prazer ao ar livre. insistir na informação básica e na comunicação. moradores ou visitantes da cidade. após as chuvas torrenciais de verão. constituído de rochas e sedimentos. lixo espalhado. de uma extensão que comporte os equipamentos de recreação. as periferias. os bairros residenciais de classes alta e média. conduzindo toda a comunidade a reconhecer a topofilia como o elo afetivo fundamental entre as pessoas e os seus lugares. são locais onde se pode passar o tempo. a finalidade em relação aos citadinos. Em se tratando de percepção ambiental urbana é fundamental prever e organizar áreas recreacionais intra-urbanas. desde sofisticados aparelhos de diversão até uma simples bola. palácios. Lembrar à própria sociedade que a implantação de uma cidade está sobre um relevo. Precisamos mudar essa maneira de perceber e conhecer a natureza. separadas. Ao se estabelecerem relações perceptivas e cognitivas com o espaço urbano é preciso considerar os anseios da população: o que quer. Sabe-se. depois saber das necessidades e vontades da comunidade. perceber e conhecer a cidade como constituída de partes imbricadas e não segmentadas. Primeiro fornecer informações dos planos. As cidades modernas são vistas como conglomerados de casas residenciais. o que gosta/não gosta. cobrando seus espaços para espraiarem suas águas atingindo as várzeas. se tornaram adultos e se desinteressaram por essas áreas. quando instaladas ostentam-se limpas.

o campo necessita de que a cidade consuma seus produtos. do congestionamento do trânsito. a sazonalidade das chuvas. René Dubos. o mais marcante na paisagem rural seja a cor verde das plantações. As características próprias do rural são os campos de cultivo e de criação de animais. constituindo uma paisagem própria. nem foram preservadas as vegetações ribeirinhas. o arado puxado a animal e o carro de boi vêm desaparecendo. os praguicidas. aparecem as questões ambientais como não têm sido consideradas prioritárias. o relevo. PERCEPÇÃO AMBIENTAL RURAL Em quase todos os lugares da Terra. não seguindo as curvas de nível. como resposta à percepção ambiental agrava. Diante disso. da violência. impedidos de perceber que ameaçam. as ruas. constituindo um todo inseparável. tem marcado a paisagem rural. A cidade necessita das commodities produzidas pelo campo e. a grande cidade. que tem sido tão prejudicial para o meio ambiente. da modernidade. enchentes. tais como: erosão dos solos (voçorocas) poluição dos rios e dos lençóis freáticos. entremeadas pelos capões residuais de antigas florestas. que dizem respeito diretamente à percepção e cognição ambientais. porém sempre interligados. revelando uma falta de percepção e cognição ambientais elementares. às vezes. O campo sempre se opôs à cidade. quando antes eram elementos marcantes nas cenas do campo. derrubaram árvores para criar a lavoura e para estabelecer seus povoados. Talvez. pois a ação humana. escorregamentos de barrancos. também a nós mesmos. por sua vez. o arado. Estes dois aspectos são. Hoje em dia. quanto para a intoxicação dos trabalhadores rurais. São encontrados.157 rios e córregos foram ocupadas indiscriminadamente. Apesar das questões ambientais relevantes. o maquinário agrícola. a regulamentação do uso da terra etc. interdependentes. as moradias. são questões que exigem visibilidade. No panorama agrícola. são peças de museu e de curiosidade esses implementos agrícolas como a enxada. Acrescentam-se aos outros problemas: a ausência de informação às pessoas sobre o ciclo hidrológico da água. de outros inúmeros. do clímax da cultura. Namorando a Terra (p. a foice. apenas exemplos. imbricados. bem diferente daquela encontrada na cidade. vários elementos não são visíveis como os adubos. cada vez mais moderno. as inseminações artificiais. as estradas vicinais. o enxadão. não apenas. do bem-viver. das experiências estéticas. desde o Período Neolítico. mas. 60-61) O outro lado da moeda da percepção ambiental urbana é a percepção ambiental rural. . constituem a paisagem. pois a enxada. nem centrais. o meio ambiente. Isso tudo como contraposição aos frágeis arranjos dos sistemas da natureza. também não foi respeitado. a situação do campo. cada vez mais utilizado. cortam os taludes. queimadas. O maquinário agrícola. somente em agriculturas primitivas. É preciso mudar a maneira de se perceber o meio ambiente rural. mas intrinsecamente. permitindo o aparecimento de problemas insanáveis. o preparo das construções. pois estamos usando e consumindo o nosso patrimônio ambiental em ritmos absolutamente desastrosos. do aglomerado das multidões. permanece como símbolo cósmico da liberdade individual. ainda. Este mar verde dos cultivos esconde o mais grave problema ambiental: o uso desregrado dos agrotóxicos. as instalações próprias. Essa tendência se repete em todos os bairros. em geral. não mais como um recurso inesgotável.

Todas essas decisões a serem tomadas dependem diretamente das informações disponíveis e obtidas. é a “selva de pedras”. contanto com conduções próprias (automóveis e caminhonetes modernas e velozes). aos extensos desertos (do Saara. econômicas (custo / benefício). maquinárias (avançadas / obsoletas). Muitos. acadêmicos. luz elétrica. culturais (modernas / tradicionais). Essas tomadas de decisões são cruciais. Este cenário variado das plantações imensas e dos rebanhos numerosos marcam indelevelmente a cultura do agronegócio. de insegurança e de exótico. onde a pessoa experimenta perplexidade e confusão. a percepção ambiental rural é tão importante quanto a urbana porque nós. René Dubos. A natureza selvagem foi e. intercalados de vilas e povoados. dos Andes). não pelos rurais. banheiros. A palavra está ligada a lugar natural ou artificial. estão sempre submetidos a escolhas entre o mais rentável. do Atacama).158 Como não deixar de destacar as moradias rurais: com as casas dispondo de água encanada. cozinhas aparelhadas bem recentemente. mais produtivo e menos oneroso. inabitáveis. vários cômodos. mas pelos urbanos quando perceberam e constataram uma separação entre o homem e a natureza. pois precisam ser decididas rapidamente: o que plantar/criar. mas como uma busca de um enobrecimento emocional e intelectual. no atraso da decisão compromete toda uma vida de trabalho e dedicação.. às áreas pantanosas (da península da Flórida e do interior da Mongólia). entre pessoas cultas que sentiam necessidade de um contato com um ambiente selvagem. 66) O termo selvagem é genérico e é aplicado às regiões virgens. O meio ambiente selvagem só foi percebido e valorizado. limitados por estradas e caminhos. sem ou pouco contado com o civilizado. Namorando a Terra (p. o ambiente selvagem tornou-se tema de . Esta visão surgiu na Europa. globalizada e. intocado. puro. não por amor. intrinsecamente. mercado (alto / baixo). sementes (transgênicas / comuns). cultivos (lavouras / pastagens). quer como donos ou trabalhadores. Os empresários rurais. Para os ecólogos e ambientalistas. uma conotação de repulsa. PERCEPÇÃO AMBIENTAL DAS REGIÕES SELVAGENS O uso da frase “Namorando a Terra” por Tagore sugere que o relacionamento entre a espécie humana e a natureza devia ser de respeito e de amor e não de domínio. Uma fração de dias ou meses. refúgio do mal e de bruxaria. comercial. Estas constituem um contínuo territorial geográfico e histórico. ainda carrega. principalmente. Talvez. pois. A percepção ambiental da paisagem rural é sempre eivada de pobrezas e de riquezas. voltada para a exportação. Muitas vezes. Com o romantismo. não separamos a paisagem urbana da rural. também denominam de selvagem lugares urbanos de conjunto de edifícios amontoados indicando hostilidade e corrupção. às grandes geleiras (do Ártico e do Antártico). o campo está sempre subordinado quanto às dependências: climáticas (pouca / muita chuva). selvagem define todo e qualquer meio ambiente não tocado pelas atividades humanas. ainda é considerada como hostil e cruel. às ilhas oceânicas (do Pacífico. e frias (do Alasca). fundiárias (latifúndio / minifúndio).. o efeito é mais interessante quando ambos os parceiros conservam elementos de sua individualidade. de seu próprio estado primitivo. financiar ou não a safra. todos estes exemplos são partes do planeta. às cadeias montanhosas (do Himalaia. As regiões selvagens correspondem às florestas equatoriais (da Amazônia). que necessariamente vão influenciar em um futuro próximo ou longínquo. em geral. Porém. do Índico). além disso. essas escolhas dependem da percepção e da cognição do momento. em que terrenos/solos.

tanto habitantes das cidades. drenagem de mangues. ou as piores enchentes no Sudeste? Talvez porque sempre encaramos ou percebemos a natureza. como aquela natureza virgem. Reconhecemos que.159 conversas. são duas polaridades. uma paisagem tranqüila. os rios. Porque assistimos as piores secas. que não é rural nem urbano. seus meandros e lutando bravamente contra a poluição e o seu mau uso. os pântanos as ilhas isoladas abrigavam os maus espíritos e eram deformidades da superfície terrestre. suas várzeas. tais como a floresta. A destruição da cobertura florestal representada pela Mata Atlântica. abrigo de animais ferozes e plantas venenosas. o rio tem esse curso e vem construindo seu talvegue. um cenário silencioso. de maneira rápida e eficaz. Temos tido poder de destruição (devastação florestal. somente mais tarde é que foi enriquecida pela ciência. que é o selvagem. como do campo. não temos poder de reconstruir esses biomas. muito traiçoeira. é a beleza rude e exótica. de difícil conceituação. Foi deixada a idéia de que os desertos. entretanto é muito perigosa. como estática. de pintura. com a intensificação da tecnologia. O mito da natureza inesgotável. ou com estratégias racionais com a exploração dos minerais. as montanhas. no entanto. tem sido a tônica durante os milênios da ocupação do homem sobre a Terra. muitas pessoas. somos informados pela mídia. Tudo isso vem acontecendo diante dos nossos olhos. Apesar de terem passados séculos. é um sistema complexo. feitas inteiramente pelo homem. virou moda e a procura de lugares com belos atributos da natureza. Foi. Eram locais que gozavam de mistério e encantamento. vêm despertando cada vez mais interesse e exigindo necessidade de preservar os ecossistemas únicos e incomparáveis e de extensões maiores possíveis. nos esquecemos ou não nos apercebemos que a natureza é extremamente dinâmica. o selvagem é mais um símbolo dos processos naturais ordenados. Lembramos que o poder que temos sobre o meio ambiente não nos permite exercer controle sobre ele. A alteração do mundo natural atende aos propósitos imediatistas e individualistas. as savanas. Podemos descrevê-lo. então. não se preocupando com a reposição vegetal ou animal. A idéia que sempre prevaleceu entre as relações sociedade/natureza é que os biomas conservados representam entraves ao desenvolvimento econômico. a ocupação desordenada do cerrado do Brasil Central e mais recentemente a derrubada da floresta amazônica. experimentam sensações de insegurança quando se defrontam ou adentram lugares selvagens. As regiões selvagens. aprazível. brasileiro. agora denominado. que os cientistas e eruditos conheceram e perceberam estes fenômenos da natureza como expressão da ordem natural e das diversas obras humanas construídas. que se pode destruir e que sempre existirão recursos. contemporaneamente. Tanto o campo como a cidade são construções humanas. poluição dos rios e dos solos). é mais como um estado de espírito. contendo fluxos de matéria e energia e que o homem surgiu apenas há algum tempo sobre a superfície terrestre. é mais subjetivo do que objetivo. ao progresso. que sempre serão renovados. de literatura. Não conhecemos inteiramente as leis da natureza e queremos interferir nas mesmas. é mais uma descrição de uma paisagem longínqua. na atualidade. A ciência investiga a . como as da Amazônia. O exemplo clássico e mais perto de nós mesmos é a nossa ocupação do território. O que dizermos sobre a proposta governamental da transposição do rio São Francisco? Há milênios. A sociedade sempre utilizou os recursos naturais de uma maneira exploradora. nestes 500 anos de história. de onde surge um termo intermédio. Esta percepção das regiões selvagens. uma antítese da outra. não sabemos como redesenhar a nossa biosfera. diariamente. é a criação divina em seu estado puro. A natureza selvagem provoca sentimentos opostos. ainda sentem medo. Nem sempre o homem comum ou mesmo os administradores relacionam as causas aos efeitos. que não é o campo e nem o seu oposto que é a cidade.

“O admirável mundo novo” só previu e trabalhou com os controles biológicos. não queremos alterações em relação às nossas paisagens históricas. não libertando o Homem. estiagens prolongadas. porém. gostar da natureza.160 natureza. Nestas situações. também. preservar e conservar os animais e as plantas selvagens. oceânicos ou terrestres. não previu nem se interessou com os climáticos. inundações ou calores intensos. Para tanto. Por isso. De outro lado. avalanches. que entram os estudos de percepção e cognição ambiental. Aí. mas sim com a verdade científica. Talvez. sociais e culturais. Namorando a Terra (p. gerando conflitos entre a recreação e o turismo e a preservação e conservação das regiões selvagens. o meio ambiente. desprovido de valor. ambos são dependentes das condições ambientais em escalas variadas. 74) Para que a percepção ambiental ocupe um lugar de destaque dentre as prioridades atuais. atualmente. primordialmente. se sentem impotentes para lidar com os aspectos físicos geográficos da natureza. com a felicidade do homem. A presença humana é sempre um fator preponderamente nas relações sistêmicas com o meio ambiente. desempenha um papel decisivo em situações globais ou locais. premente e prioritária. é indispensável amar. por um lado. tectônicos. não com simples emoção. em relação a outros sistemas de crença e conhecimento. Sabemos que o conhecimento científico é neutro. Não basta conhecer. com seus biomas. atitudes e valores. mas tem profundas raízes no passado e é quase universal. “cativar”. rural ou selvagem. essencialmente. como nos caso de maremotos. as represas e canais artificiais. A ciência não se preocupa. . com a esperança de melhoramentos. Os ecossistemas naturais distinguem-se das comunidades humanas. Enquanto a população mundial fora relativamente pequena e a tecnologia não tinha atingido os atuais patamares de desenvolvimento. Urge que modifiquemos. a intervenção humana não era significativa. René Dubos. seja necessário e premente equacionar a questão ambiental como um todo. quer urbana. não abordando separadamente o econômico do social. os castelos e os arranha-céus. será preciso educar as pessoas a perceber e a conhecer o seu meio ambiente com suas fragilidade e seus poderes e. desenvolver sentimentos de afetividade. a questão se revela crucial. Necessitamos desenvolver uma tomada de consciência ambiental ao desenvolver uma atitude ética e afetiva em relação ao meio ambiente. PERSPECTIVAS PARA UMA PERCEPÇÃO AMBIENTAL A idéia de que podemos manejar a Terra e aperfeiçoar a natureza é provavelmente a expressão máxima da presunção humana. Nossas atitudes são ambivalentes. representantes de nosso patrimônio ambiental humanizado como os vinhedos da França. as fazendas coloniais. mas com o intelecto. chegando o mais perto possível da realidade. “o mundo novo” seria quase perfeito e equilibrado. os trajetos das rodovias e ferrovias modernas com seus túneis e viadutos. os seres humanos se vêem dependentes das fúrias naturais. Porém. porque reconhecemos seus direitos naturais. quando atingimos um contingente de bilhões e bilhões de habitantes e dispomos de técnicas sofisticadas de rapidez e eficácia para explorar e devastar a natureza. do ponto de vista ético. Mesmo. necessitamos de mais pesquisas de campo e de estudos metodológicos. atualizemos e transformemos nossas condutas. apenas aumenta o seu poder. Desejamos. terremotos. reverenciar e aceitar. Gostar implica respeitar. as pontes de madeiras e das de concreto. ciclones.

patrocinando a recuperação de cidades antigas. em todas as partes. fome. e a favor da habitação e da vida decentes. Mas. como uma experiência pessoal e coletiva e persistirá entre nós. Diríamos. não apenas admiração pelas belezas exóticas e únicas. assistimos a busca de uma topo-reabilitação para paisagens valorizadas e consideradas únicas. os transplantes de órgão vitais. das estradas conservadas. estamos desenvolvendo um sentimento de afetividade especial para com os animais e plantas selvagens. religião. que os códigos sejam acatados e. Quanto aos aspectos socioeconômicos. “incluindo todos os laços afetivos dos seres humanos com o meio ambiente material”. reclama que as leis sejam cumpridas e implementadas. da criança. lá e acolá. prepara a seu modo as relações ambientais. desnutrição). pobreza. podemos nos defrontar com um topocídio de um lugar. recuperar biomas degradados. Este século será marcado pelos direitos naturais. Chegamos até estruturar uma Nações Unidas para congregar as nações e os povos do planeta. Hoje. preservando a diversidade genética da biota. biólogos e outros mais. independente de etnia. que aprofundemos nossos conhecimentos em relação ao meio ambiente. edifícios. as lembranças. das minorias raciais e religiosos. conservação e recuperação ambiental. também. relacionadas com a emoção. Mais. os acontecimentos e sentem verdadeiras fobias por alguns lugares e espaços. pois. principalmente. no segundo quartel do século vinte. A política ambiental deve ser abordada tanto local como mundialmente. o combate de endemias (malária. Permanecem os ricos e abastados de um lado e os pobres e subdesenvolvidos de outro. prioriza algumas atitudes. relativamente se fez pouco: as diferenças de classes sociais e a distribuição de rendas. que a topofilia floresceu entre os homens. Quanto aos aspectos políticos assistimos a luta a favor das eleições livres e do combate ao autoritarismo. há ecólogos. as interações acontecem aqui e agora. Estes têm sido e deverão ser os direitos e os deveres humanos para com as construções históricas e modernas. trabalhando nessa área. Em grande parte. como Tuan. da água potável. Lembremos sempre que não vivemos em regiões selvagens. Organizamos associações governamentais e não governamentais para lutarem contra a discriminação. Ainda. a serem preservados para a posteridade. do idoso. valoriza certos aspectos.161 Nos últimos dois séculos do milênio anterior. Quanto aos aspectos ambientais defrontamos com um quadro mais ou menos semelhante aos demais: a percepção e a cognição em relação ao meio ambiente foram auspiciosas. ambientalistas. Este elo afetivo para com o lugar surgiu concreta e vividamente. também apresenta o seu reverso: o sentimento topofóbico. cada comunidade percebe de uma maneira. por empresas estatais e não estatais. atingimos patamares razoáveis. às ditaduras sangrentas e indiscriminadas. desamparo. Exemplo de desaparecimento de vilas e povoados resultantes da inundação de áreas para construir represas. estudando. em geral. estamos tomando consciência da necessidade da preservação. localização geográfica. do selvagem? Cada sociedade. Não devemos nos esquecer que o despertar de sentimento topofílico. mas. pesquisando. As perspectivas para uma percepção/cognição ambiental devem incluir. quais são os direitos e deveres para com o natural? O que preservar ou conservar. ou reconstruir do natural. da alimentação básica para todos. mas necessitamos delas para nossa sobrevivência psicológica e biológica. pois nos despertamos para a natureza. obras arquitetônicas e formação de profissionais para esse mister. hoje vivemos em uma “aldeia global”. principalmente nos aspectos sanitário e de higiene: a vacinação de crianças e adultos contra várias doenças endêmicas. nos interessamos pelo ambiente natural. assistimos revoluções e muitas discussões sobre os direitos humanos: direito da mulher. a coleta e tratamento do lixo. Reco- . recentemente. Temos tomado consciência de que a natureza exige atenção respeitosa. da energia elétrica. não é marcante nas paisagens geográficas. Muitas pessoas desenvolvem uma topofobia em relação a certos lugares. geógrafos. a recuperação de bacias hidrográficas.

Topofilia. 1996. através da mídia. para uma ética em relação ao manejo da Terra. mas é certamente uma atitude covarde desesperar dos fatos (p. . R. A apreensão da forma da cidade. Rio de Janeiro: Forense-Universitária. São razões estéticas e morais.. Y.E. V. 234) REFERÊNCIAS BALTRO. com a natureza intocada. São Paulo: Melhoramentos e EDUSP. O nosso contato com o selvagem. 1996. corais e algas? Por tudo isso e talvez muito mais é preciso passar da visão utópica para a ação efetiva. é imprescindível para manter nosso equilíbrio e harmonia com o meio ambiente como todo. M. TUAN. J. WARD. Um Deus Interior. DUBOS. Termino com as palavras de René Dubos. para uma afetividade positiva para com o nosso planeta. B. para preservar e conservar paisagens geográficas e históricas. OLIVEIRA. 1976. Rio de Janeiro: Forense-Universitária. 1980. São Paulo: Studio Nobel. 1973. Uma Terra Somente. indiretamente. L. R. atingindo a “corte amorosa da Terra”. DUBOS. temos tido. Seis Estudos de Psicologia. apesar de indireta e passageira. São Paulo: DIFEL. O pensamento de Jean Piaget.M. São Paulo: Melhoramentos e EDUSP. a experiência brasileira. além das econômicas e ecológicas.162 nhecemos que a nossa experiência com o selvagem. A. para “ver” os animais e principalmente as aves coloridas? Quem não fantasia uma viagem submarina para descortinar o fundo do mar e seus misteriosos peixes. 1975. DEL RIO. Quem não aprecia os vídeos e os filmes sobre as regiões selvagens? Quem não sonha em participar de um safári fotográfico no Pantanal ou nas savanas africanas. em seu livro “Um Deus Interior”: Muitas vezes é difícil manter a fé no destino do Homem. KOHLSDORF. 1973. PIAGET. Percepção ambiental. Brasilia: Editora UnB.

a Educação Ambiental implica uma nova concepção do papel da própria escola. Tendo em vista tal preocupação.CAPITULO 10 EDUCAÇÃO PARA O MEIO AMBIENTE E GEOGRAFIA Marlene T. portanto. o que antes não ocorria. Isso impulsiona a participação de setores da população nos debates e movimentos relacionados à problemática ambiental. foi no século XX que o acúmulo de saber e poder mais se acentuou. A interferência nessa dinâmica. a formação de uma consciência ecológica e uma nova postura ética do homem perante a natureza. têm suscitado preocupações sobre a possibilidade de vida futura no planeta. Doutora (IG-UFU). graves problemas ambientais também se processaram. no tempo e espaço com o meio natural. Para que isso ocorra é necessário. a necessidade de procurarmos compreender tanto os dinâmicos processos da natureza como as relações que o homem estabelece. Concomitantemente a essa grandeza tecnológica. sociais. porém. fome nas grandes concentrações urbanas. Com uma mudança de mentalidade em relação ao uso dos recursos naturais ainda disponíveis. Professora Doutora. Na verdade. também. a Educação Ambiental passa a ser um dos eixos fundamentais para impulsionar os processos de prevenção da deterioração ambiental. contudo. bem como perante a ele próprio. reorganização dos valores sociais em benefício de todos e vontade política. esta não é a conclusão correta. políticas e econômicas da realidade e a construção de uma sociedade baseada em princípios éticos e de solidariedade. pode-se pensar que o planeta se tornou inviável. propondo uma série de questões relacionadas com as diversas formas de degradação do meio ambiente. Tem-se colocado. miséria. muitas vezes catastróficas. Segundo Oliveira (1998). A articulação de seus conceitos. inclui dimensões ecológicas. métodos. culturais. estratégias e objetivos é complexa e ambiciosa. ainda é possível o resgate de uma relação outrora equilibrada entre o homem e a natureza. como por exemplo: poluição de recursos hídricos. muitas vezes operada de forma irreversível e as conseqüências dessas atitudes. Ao analisar-se tal paradoxo. considerando-se a grande revolução dos meios de informação trazida pelas novas tecnologias. 50 51 Geógrafa (UNESP). analista ambiental SEMA-MG . Instituto de Geografia -UFU Geógrafa (DG-FFLCH-USP). históricas. o aproveitamento sustentável dos nossos recursos e o reconhecimento dos direitos dos cidadãos a um ambiente saudável. Tal processo educacional deve visar à melhoria da qualidade de vida e à preservação do planeta para as gerações futuras. cada vez mais. necessário que se instrua o homem sobre os processos dinâmicos da natureza e as conseqüências advindas de suas ações e destas para a vida na Terra. de Muno Colesanti50 Gelze Serrat de Souza Campos Rodrigues51 A degradação das condições ambientais não é um fenômeno novo. O que adquire certo grau de modernidade são as discussões realizadas por inúmeros especialistas a respeito dos problemas ambientais. Faz-se.

Nessa Conferência.. que tais preocupações começaram a ganhar consistência. interferindo na hidrodinâmica dos corpos d’água e no uso dos mananciais para consumo de água pelas mesmas populações. dispensando-se a devida atenção ao setor das populações menos privilegiadas e aos empresários. em todo mundo. no deserto de Los Alamos. No começo dos anos setenta. mas ao mesmo tempo as primeiras sementes do ambientalismo contemporâneo eram plantadas. os desmatamentos. seriam jogadas as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki. em Estocolmo. Rachel Carson publica “Primavera Silenciosa”. Problemas ambientais têm ocorrido decorrentes do aumento populacional. propicia benefícios. aumentando. o não consumo.164 CONTEXTUALIZANDO . atendendo à necessidade de se estabelecer uma visão global comum que servisse de orientação para a preservação e melhoria do meio ambiente. a autonomia. água e solo. e causando a destruição da coleção de biodiversidade existente. de forma esparsa. Associadamente. Essa obra tornou-se um clássico do ambientalismo contemporâneo. apesar de muitos países não atentarem para a relevância da equação do problema desenvolvimento versus conservação do meio ambiente. Em 1962. somente. já que a necessidade de ampliar as atividades para atender a demanda da população faz com que novas terras tenham que ser preparadas para o plantio. A crise ambiental enfrentada era totalmente diferente do que havia ocorrido até então. A ocorrência desse conjunto de situações despertou o homem para a necessidade de conter o avanço dos impactos ambientais. realizada em 1972. Adquiria-se a autoconsciência da possibilidade de destruição completa do planeta. a partir de então. lançados no ar. por outro traz inúmeras desvantagens. relatando os problemas dos pesticidas na agricultura e mostrando o desaparecimento das espécies. principalmente. Desde meados da década de 1940. segundo o qual torna-se indispensável o trabalho de educação para o meio ambiente para combater a crise ambiental.. Após o dia 06 de agosto de 1945. Dois meses depois. se por um lado. Essa proposta visava tanto aos jovens como aos adultos. dentre os quais um relacionado à Educação Ambiental. já se fazia sentir em todo o mundo preocupações com o meio ambiente. já se fazem sentir. O homem havia conquistado. o mundo não seria mais o mesmo. causados por suas atividades e para adotar métodos racionais de manejo do ambiente. A proteção da natureza. o poder de destruição total de si próprio e de todas as demais espécies sobre a face da Terra. Warster (1985) identifica como marco simbólico do início da ecologização das sociedades ocidentais o ano de 1945. Estados Unidos. após a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. preocupações com o Meio Ambiente. com a finalidade de conter o ritmo da devastação ambiental mundial. portanto. a expansão das atividades industriais aumenta a poluição das cidades com o excesso de poluentes. Em julho desse ano. com a finalidade de assentarem-se as bases de uma opinião pública bem informada e de uma conduta responsá- . A expansão da agricultura também estimula investimentos maciços na irrigação que. foram formulados vinte e três princípios. A equipe científica liderada pelo físico Oppnheimer explodia experimentalmente a primeira bomba H. Assim. o azul do céu transformou-se subitamente em um clarão ofuscante. já que os danos tomavam uma escala mundial e a Terra começava a correr grande perigo. mas. Novo México. nas florestas tropicais. o pacifismo eram apenas algumas das muitas bandeiras empunhadas por aqueles que começavam a ser chamados de “ecologistas”. ações e pesquisas se sucederam em diversos países. indiscriminadamente.

a qual define metas. em todos os níveis. realizou-se em Belgrado. a intenção de se atingir todos os níveis de ensino. também. aptidões e motivação que favorecessem a consciência do meio ambiente e o interesse por ele e por seus problemas conexos. já que é necessário que as pessoas de diferentes idades e meios compreendam as relações fundamentais que vinculam o homem a seu padrão de vida. especialmente. os jovens e adultos indistintamente. Do final de 1976 a setembro de 1977. o que promoveria a proteção e melhoramento do meio ambiente em toda a sua dimensão humana. que todos os países empreendessem ações corretivas. a participação responsável e eficaz da população na concepção e aplicação das decisões que colocam em jogo a qualidade do meio ambiente.165 vel. Tbilise. com a criação. que de acordo com suas possibilidades. No Brasil. Durante o evento foi redigida a carta de Belgrado. os diversos aspectos da vida social em suas inter-relações com o meio biofísico. ainda. que instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente. a ter como meta principal proporcionar um processo de construção de conhecimentos. para o gozo constante de seu melhoramento. URSS. que as soluções para os problemas do meio ambiente não são possíveis sem uma mudança no ensino geral e especializado em todos os níveis. da adoção de medidas a fim de se formular um programa internacional de educação sobre o meio. Fala sobre a necessidade do estabelecimento de um padrão geral para a Educação Ambiental. Em 1975. da utilização racional dos recursos naturais. em nível nacional e internacional. visando à sua conservação. estabeleceu como parte de suas atribuições o desenvolvimento de programas que visassem ao esclarecimento sobre o conceito de meio ambiente e à educação do povo no tocante ao uso adequado dos recursos naturais. O documento afirma. deveria ter como principal preocupação a melhoria do nível de vida de todos os habitantes do planeta. da Secretaria Especial do Meio Ambiente. Tal esforço seria fruto do trabalho. A Educação Ambiental passaria. ainda. dedicando-se a preservar e a consolidar os equilíbrios essenciais para um melhoramento constante das condições de vida. com a participação de representantes de 60 países. Em 1981. a qual estabelece que a Educação Ambiental . Esta finalidade implicaria no esforço para o desenvolvimento sem o qual não seria possível colocar à disposição dos homens os bens necessários que dão dignidade à sua existência. o governo brasileiro. da tecnologia e. Estabelece. Europa e Estados Árabes. deveriam levar em conta. realizada em outubro de 1977. poderiam ordenar e controlar o meio ambiente. favorecendo. objetivos. num quadro de desenvolvimento planejado.938/81. a necessidade da universalização de uma ética mais humana que induzisse a adoção de atitudes e comportamentos consoantes com o lugar ocupado dentro da biosfera. Nessa Conferência foram elaboradas orientações gerais sobre Educação Ambiental para os países participantes e membros da UNESCO organizarem e desenvolverem os seus próprios programas. destinatários e princípios de orientação para os programas de Educação Ambiental. Previa-se que tal ação levaria tanto os jovens como os adultos a tomarem medidas protetoras. para tratar especificamente de Educação e preparar para a Primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental. portanto. A tônica do documento produzido nessa Conferência é a de que toda ação política. então. o público em geral. de enfoque interdisciplinar e com caráter formal e informal. o que favorece a existência de comportamentos responsáveis frente ao meio ambiente. América Latina e Caribe. nacional e internacional. o cidadão comum que vive nas zonas urbanas e rurais. o Seminário Internacional de Educação Ambiental. a Educação Ambiental também foi contemplada pela Lei nº 6. também. em 1973. foram realizadas reuniões regionais na África. Preconizava. sendo necessário. visando à melhor capacidade da Terra de produzir recursos vitais renováveis. as quais. Ásia. da organização social.

em parceria com as Universidades. a qual reafirma o seu papel na consolidação da sustentabilidade e. Tendo quase sempre. realizada no Rio de Janeiro. sem o qual não seria possível colocar à disposição dos homens os bens necessários que dão dignidade à sua existência. Para tanto. todos os países devem empreender ações integradas. visando à qualificação de recursos humanos. Ao mesmo tempo também foi produzida. uma problemática local e imediata. o que talvez sejam indicadores de um futuro mais promissor para a Educação Ambiental brasileira. as quais. É necessário que pessoas de diferentes idades e meios compreendam as relações fundamentais que vinculam o homem ao modo de vida. orientada por valores direcionados à transformação social. embora nem sempre de forma sistemática. em todos os níveis. Ainda nos anos 90. instituindo a Política Nacional de Educação Ambiental. foi criado o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. portanto. tanto formal quanto informal. denominada de RIO92. As soluções para os problemas do meio ambiente não serão possíveis sem uma mudança no ensino geral e especializado. documento elaborado pela sociedade civil e que expressa o entendimento da Educação Ambiental como um processo dinâmico em permanente construção. a Lei 9. com a participação do MEC. também. aproveitando o conteúdo específico de cada disciplina. para professores e técnicos preocupados com a questão ambiental.166 de ser trabalhada em todos os níveis de ensino. o desenvolvimento. influi de maneira mais intensa sobre o meio ambiente e a conseqüência disso são problemas que hoje enfrentam os países mais desenvolvidos. em nível nacional e internacional. Secretarias Estaduais e Municipais também estão tomando a iniciativa de elaborar material didático e de oferecer cursos. É imprescindível aplicar-se o enfoque interdisciplinar. em 27 de abril de 1999. a Carta Brasileira para Educação Ambiental. as iniciativas de Educação Ambiental no Brasil expandiram-se significativamente. atingindo todos os níveis de ensino.795 foi promulgada. os Parâmetros Curriculares Nacionais consolidaram a posição do Conselho Federal de Educação dispondo a Educação Ambiental como tema transversal. inclusive o público em geral. A proposição de atividades que levem o ser humano a compreender a natureza com- . Assim. em um quadro de desenvolvimento planejado. No Ensino Superior. compondo uma parte diversificada e flexibilizada do currículo escolar. mediante o progresso da ciência e da tecnologia. durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD/UNCED). deverão levar em conta. o que indica o seu pleno reconhecimento político. Da mesma forma. favorecendo a existência de condutas responsáveis em relação ao meio ambiente.” Em 1992. apesar dos inúmeros problemas ainda existentes para a sua real concretização. E. inclusive na comunidade em geral. especialmente o cidadão comum que vive tanto nas zonas urbanas quanto rurais. os diversos aspectos da vida social com suas inter-relações com o meio biofísico e dedicar-se a preservar e consolidar os equilíbrios essenciais para um melhoramento constante das condições de vida. algumas Universidades têm realizado cursos de pós-graduação. após anos de lutas dos ambientalistas. como objetivo. a Constituição “Cidadã” de 1988 considera no artigo 225. como instrumento para a conservação do planeta e para o alcance de uma melhor qualidade de vida. EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO: DESAFIOS A Educação Ambiental implica um esforço para o desenvolvimento. de modo a se adquirir uma perspectiva global para a Educação Ambiental. parágrafo 1º que a “Educação Ambiental deve ser promovida em todos os níveis de ensino.

dos recursos para a satisfação de suas necessidades materiais e espirituais. vem sendo usada em estudos geográficos. podem ter conseqüências de alcance mundial. auxiliam na desmistificação da noção de ambiente como algo restrito à fauna. sistematizada. resultante da interação de seus aspectos biológicos. além de propiciar o estudo da conexão dos elementos ambientais e dos efeitos da ação antrópica sobre o meio. principalmente. pois nos acostumamos a olhar e a conviver com as mesmas coisas. Essa prática. Nesse sentido. Dessa forma. sem reparar nas mudanças que vão ocorrendo. a diversidade de escalas em que os eventos e processos podem ser tratados e. O trabalho de campo incrementa a observação mais profunda da situação ambiental. a interdisciplinaridade. segundo Kopkinson (1973). Os geógrafos. relacionar. em espaços abertos e até mesmo na própria escola. muitas vezes percebida em sua aparência. . favorecer. apesar do espaço também ser trabalhado por outras disciplinas. no espaço e no tempo. cada vez mais. são uma atividade a ser utilizada em Educação Ambiental e que resultam em um grande avanço no processo de desenvolvimento do comprometimento dos alunos em relação à conservação do meio ambiente. solidificando. localizar. com clareza. O ambiente passa. e mais prudente. refletida e questionada. garantindo. para que as pessoas possam entender as leis que regem este planeta e passem a adquirir um certo respeito e um sentimento afetivo em relação ao meio ambiente. também. analisar as relações dos componentes do meio ambiente. Deve mostrar. sociais e culturais. A Educação Ambiental deve. em todos os níveis. trabalhos de campos e mapeamentos. assim. EDUCAÇÃO AMBIENTAL E GEOGRAFIA A contribuição da Geografia para a Educação para o Meio Ambiente e Desenvolvimento constitui-se na visão de espaço em seu todo. em um centro de pesquisa. grande parte das vezes. Nesse processo. frisando-se a importância dos trabalhos práticos. facilita o entendimento da interdependência dos diversos componentes do meio ambiente. especialmente. físicos. flora. a conservação e preservação do meio ambiente. de modo a favorecer a utilização mais reflexiva. os estudos de campo. desapercebido.167 plexa do meio ambiente. presentes e futuras. políticas e ecológicas do mundo moderno e o fato de que muitas decisões e condutas em um determinado país. eles podem ser realizados em diversos locais como. assim. têm a mesma tarefa que os professores de outras disciplinas. às margens de um rio. uma participação responsável e eficaz da população nas decisões que colocam em jogo a qualidade do meio ambiente. a Educação Ambiental desempenha função importante para a formação de uma atitude democrática de responsabilidade e solidariedade entre as pessoas. profundamente. as interdependências econômicas. de assegurar que o esquema de estudo seja coerente e apropriado à capacidade e habilidade do grupo. sendo pouco conhecida. Trabalhar com Educação Ambiental requer uma série de investigações e a contribuição de cada disciplina científica deve estar restrita a sua área de competência. no laboratório de uma indústria. fatos. Como os trabalhos de campo se constituem atividades fora do contexto de sala de aula. a Geografia poderá lançar mão de seus métodos de ensino: descrever. fenômenos e pessoas. a visão sistêmica que. por exemplo. O que diferencia a abordagem dada pela Geografia é a horizontalidade e. acima de tudo. caros aos geógrafos e professores de geografia. dando ênfase à importância dos fatores culturais que influenciam a percepção do meio ambiente e às possibilidades de uso desses recursos. corpos d’água.

CONSIDERAÇÕES FINAIS A Educação Ambiental não deve ser uma disciplina isolada. A Educação Ambiental deve permear todas as disciplinas que compõem o currículo escolar e percolar todos os conteúdos. Precisamos criticar. mas desenvolver um sentimento intuitivo para o comportamento dinâmico deste mesmo sistema como um todo. da compreensão de valores alternativos e da real operação dos sistemas naturais pelo homem. global e integrado. chegar-se a uma solução para convencermos as pessoas de que a Terra é. em tempo e lugar variados. especialmente. Neste início de século. incluindo exemplos dos problemas ambientais locais. faz-se necessário que a nossa atuação seja mais ousada e efetiva. no entanto. nos quais os assuntos sobre meio ambiente tenham um enfoque holístico. da mesma forma. que proporcionem oportunidades de examinar e participar das complexidades de tomada de decisões. por meio de projetos. pensar não só racionalmente sobre as partes de um sistema complexo. a morada do Homem. econômicos. Requer. estudos de caso. realização de diagnósticos. Ligando consciência e construção de conceitos básicos ecológico-ambientais. propormos soluções. ou seja.168 O ensino e a pesquisa em Geografia. a Educação Ambiental envolve o desenvolvimento de processos afetivos. simulações e jogos que proporcionem oportunidades de examinar e participar das complexidades da tomada de decisões. geográficos. políticos. cognitivos e de habilidades. requerem um compromisso com a utilização e desenvolvimento de todas as situações que possam ser nutridas através de experiências e atividades que cultivem um profundo respeito e amor pelo mundo. dramatizações. mas sempre que possível. Fundamental e Médio. considerando a totalidade de ações e concepções produzidas pelos indivíduos e pelos diversos grupos humanos. Do mesmo modo. um compromisso com o desenvolvimento e com a utilização de todas as situações em que a aprendizagem possa ser nutrida através de experiências. relacionado às questões de Educação Ambiental. Este conhecimento deve traduzir-se em atitudes e atividades favoráveis à conservação e melhoria do meio ambiente já que para a assunção da ética sustentável de vida. na exploração do ego. auxilia o desenvolvimento dos processos de raciocínio do aluno. históricos. Isto significa pensar o meio ambiente em seus múltiplos aspectos: ecológicos. integrando todas as disciplinas da grade escolar nas escolas de Ensino Infantil. da compreensão de valores alternativos e pessoais e da real operação dos . é necessário que as pessoas reexaminem os seus valores e alterem suas atitudes. bem como na relação deste com o mundo natural. culturais e educacionais. delimitação de áreas. e continuará sendo. a vivência inábil de meras situações de levantamento de problemas. através de exemplos dos problemas ambientais locais. evitando. e atividades que cultivam um profundo respeito e amor pelo mundo natural. Deve ser tratada de forma interdisciplinar. As abordagens sobre meio ambiente devem ser feitas em seu sentido amplo. assim. organização de comissões sem. bem como estudos de caso. considerando os vários ângulos e implicações de um mesmo problema. para o desenvolvimento de atitudes e valores que motivam as pessoas a se envolverem com a solução de problemas ambientais. o que pode ser eficiente na solução de problemas ambientais complexos. O processo de ensino-aprendizagem de Educação Ambiental implica que se deve aprender a pensar em termos de sistemas de fatores que interagem.

implica em desenvolver um sentimento afetivo para a dinâmica desse sistema. cujas partes se interagem. VIANNA. de modo a trabalhar seus conteúdos e princípios. Deve-se ressaltar que essas proposições só serão alcançadas se os professores estiverem preparados para a Educação Ambiental. e. Brasília: Ministério da Educação e Cultura. Trabalhar com Educação Ambiental implica pensar o meio ambiente como um todo. M. com alguma freqüência e profundidade. visando à proposição de cenários desejáveis para o futuro. ALOÍSIO (org. São Paulo: SENAC. L. E.. buscando sempre desenvolver individualmente ou coletivamente uma nova ética nas relações entre as pessoas e delas com a natureza. finalmente. Campinas: Papirus. Textos da Série Educação Ambiental do Programa Salto para o Futuro. e não apenas sobre as partes do todo. visando à defesa. implica. Saber Ambiental. 1995. Política Nacional de Educação Ambiental. história. Brasília: Ministério da Educação. Educação Ambiental: as grandes orientações da Conferência de Tbilisi. propicie-se a sua participação. LEFF. 1999. preservação. assim. Educação Ambiental: princípios. In: RUCHEINSKI. . I. em enfatizar a participação ativa de todos na prevenção e solução de problemas ambientais. 1999. REFERÊNCIAS BRASIL. avaliando continuamente o presente. Educação Ambiental. 55 p. formação de professores. Política Nacional de Educação Ambiental. Petrópolis/RJ: Vozes. Brasília: Ministério do Meio Ambiente. et al. SP. Deve enfatizar a participação ativa na prevenção e solução de problemas ambientais. C. Porto Alegre: Artmed.169 sistemas naturais feitos pelo homem. BRASIL. Programa Nacional de Educação Ambiental – ProNEA: documento básico. Além disso. ser capaz de tomar decisões fundamentadas em bases sólidas de conhecimentos a respeito de um determinado problema. Política Nacional de Educação Ambiental e Construção da Cidadania: desafios contemporâneos. Brasília: IBAMA. 2004. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. conservação e utilização do meio. durante a permanência de uma criança ou adolescente na escola. Abordagens Múltiplas. M. A dimensão ambiental na educação. é de suma importância que. C. 2004 CARVALHO. Cortez. F. CASCINO. In: Ministério da Educação.). ONU. julho/2000. de modo que possa estabelecer a relação teoria-prática e. 2002. 2002. Diretoria de Educação Ambiental : Ministério da Educação : Coordenação Geral de Educação Ambiental. acompanhando de perto um problema. 1997. GUIMARÃES. em atividades práticas relacionadas ao meio ambiente. SAITO.

Professora Doutora. que enchem e transbordam durante as chuvas e secam durante a estiagem.CAPITULO 11 PEDOGÊNESE E MUDANÇAS NA PAISAGEM: um exemplo da região sudoeste da Amazônia brasileira Vânia Rosolen52 O intemperismo é um fenômeno fundamental para o desenvolvimento topográfico e a evolução das paisagens (TURKINGTON. 2005). As transformações físicas. é necessária e precursora para todo o tipo de denudação e é considerada como o agente primário e fundamental para a evolução das formas e das paisagens da superfície (VILES. O objetivo deste capítulo foi o de realizar um mapeamento detalhado dos solos em uma unidade da paisagem e reconhecer se as diferenciações internas provocadas pela pedogênese possuem relações estreitas com a topografia e a vegetação de contato floresta-savana. os modelos de evolução das paisagens refletem o balanço entre da taxa de alteração e remoção do manto de intemperismo. mas intervêm como agentes de aplainamento superficial (MILLOT. como por exemplo irregularidades microtopográficas ou variações litológicas. entre os rios Madeira e Solimões. O material gerado pelo intemperismo pode permanecer in situ ou ser removido por erosão. é uma vasta área de terras baixas aplainadas e com interflúvios tabulares. sustentados pelos sedimentos da formação Solimões (Plioceno superior/Pleistoceno inferior). químicas e biológicas que ocorrem in situ são fatores de transformação e degradação interna dos solos. Os mapeamentos do projeto RADAMBRASIL (1978a. algumas interligam-se. a savana é um enclave dentro da área de floresta. A região sudoeste da bacia amazônica brasileira. com pequenos desníveis (alguns metros). da perda de volume e de mudanças nas paisagens naturais. iniciando a formação de uma rede de drenagem secundária. Neste mosaico vegetacional. 1978b) individualizaram duas grandes unidades de solos: o Podzólico Vermelho-amarelo e a Laterita hidromórfica (Argissolo Vermelho-Amarelo e Plintossolo. 2005). que atua desde a escala do mineral até a evolução das paisagens. sob forma particulada ou dissolvida pelos fluxos de água superficial ou subsuperficial (PHILLIPS. A floresta tropical aberta é a cobertura vegetal característica das terras baixas não inundáveis da Amazônia e as savanas (arbórea e campos) constituem em enclaves e recobrem áreas nas posições de interflúvio dos platôs e os vales dos rios secundários. Tradicionalmente. Nas superfícies dos platôs. Ao transbordarem. PHILLIPS. 2005). 2001. 1983). com a persistência e o crescimento das pequenas perturbações e variações das condições iniciais (SCHEIDEGGER. Quando pequenos desvios existem. 52 Geógrafa (UNESP-Rio Claro). 2006). segundo a classificação EMBRAPA. que se desenvolvem desde a borda até o centro dos platôs. existem numerosas depressões topográficas. 1977).. a atividade dos processos exógenos é maior. TURKINGTON et al. Identificadas pelo RADAMBRASIL (1978a) foram denominadas de lagoas. 2005. Instituto de Geografia . Alteração e pedogênese não são apenas desagregação e dissolução.UFU . A ação dos processos de intemperismo.

principalmente. Foram identificadas pelo RADAMBRASIL (1978a) e denominadas de lagoas que enchem e transbordam durante as chuvas e secam durante a estiagem. Figura 11. algumas se interligam. apresentam numerosas depressões suaves. 2007) Essa região caracteriza-se como uma vasta área de terras baixas limitadas ao norte pelo escudo das Guianas. A precipitação média anual é de 2. ao sul pelo escudo Brasileiro e a oeste pela cordilheira dos Andes. O relevo é aplainado com altitude inferior a 250m. A escala de abrangência do mapeamento do RADAMBRASIL (1:1.1). com desníveis métricos.171 LOCALIZAÇÃO DA ÁREA A área de estudo situa-se na região sudoeste da bacia amazônica brasileira. próximo ao quilômetro 70 da rodovia BR-319 que liga as cidades de Porto Velho (RO) e Humaitá (AM) (figura 11. pouco ou muito dissecado e com interflúvios tabulares. As associações de solos são o Podzólico Vermelho-amarelo e a Laterita Hidromórfica (segundo a classificação adotada pelo Radambrasil. 1978a. iniciando a formação de uma rede de drenagem secundária. que se desenvolvem desde a borda até o centro dos platôs. Essas depressões possuem diferentes formas e tamanhos.1 – Localização da área de estudo (Org. OBSERVAÇÕES DE CAMPO E MAPEAMENTO DA COBERTURA PEDOLÓGICA NA BACIA ELEMENTAR Este trabalho foi realizado em duas escalas de observação: um estudo detalhado dos solos ao longo de uma vertente representativa da paisagem regional e.000) associa as Lateritas Hidromórficas com os campos de savana e o Podzólico Vermelho-amarelo com as áreas de floresta. constituída pela floresta tropical úmida e pelos campos de savana. na escala da bacia elementar em uma paisagem de contato floresta-savana. Ambos os estudos foram realizados seguindo o conceito da análise estrutural da cobertura pedológica proposto por Boulet . A temperatura média anual é de 23ºC. Predominam os sedimentos da Formação Solimões (Plioceno superior/Pleistoceno inferior) e os sedimentos fluviais holocênicos (VILLAS-BOAS. outro.200mm com uma curta época seca entre os meses de junho e agosto. Ao transbordarem. Os platôs. 1993).000. A vegetação natural é.: ROSOLEN. 1978b). separados pelos principais eixos de drenagem. entre as coordenadas de 8°18’ S e 63°48’ O.

Os horizontes manchados têm a gênese ligada à flutuação sazonal do lençol.5m de profundidade a montante no platô e de 5. 1996). Com o avanço da estação chuvosa. mais precisamente uma diminuição da pigmentação vermelha sem variação de estrutura ou textura. o lençol atinge entre 1 e 1. evoluem lateralmente de horizonte vermelho para bruno vivo e.3% no horizonte bruno vivo e 3% no esverdeado). A montante localiza-se na parte alta do platô sob cobertura de floresta e a jusante no centro de uma depressão sob cobertura de savana.5 a 5.172 et al. especificamente. 1982b). finalmente. seja por escoamento subsuperficial.5m de profundidade. espacialmente. Foram feitas 19 toposseqüências numa superfície de 10ha e elaborada a carta de isolinhas de diferenciação dos horizontes de solo. Os horizontes subsuperficiais. Lateralmente. A depressão fica submersa por aproximadamente 8 meses ao ano e apresenta uma seqüência de horizontes superficiais ricos em matéria orgânica sobre um horizonte branco. ou pelo transbordamento da água da depressão. o teto do lençol varia de 4.8 a 5. melhor drenado e mais fortemente alterado. Há um clareamento da matriz. porém sempre conservando relíquias dos horizontes precedentes. feições ligadas à erosão laminar. (1982a. Na estação seca. A evolução lateral corresponde à mudança de cor. Esses dados fornecem subsídios para avaliar a dinâmica do escoamento superficial e contribuem para o conhecimento da evolução do modelado e dos solos. . depósito e atividade biológica. É o domínio hidromórfico em meio confinado com drenagem parcialmente impedida. os horizontes superficiais da parte alta do platô e da meia encosta da vertente evoluem para os horizontes ricos em matéria orgânica da depressão (o teor de carbono orgânico aumenta de 3% para 10% e o teor de argila aumenta de 40 para 63%). devido à topografia e hidromorfia. 4. O perfil da depressão (jusante) está submetido a condições de hidromorfia temporária.5m acima do nível da superfície. O teto do lençol se eleva para 2m de profundidade na montante e alcança a superfície do solo na depressão. principalmente. Na escala da bacia elementar foi realizado o mapeamento através de tradagens em toposseqüências dispostas radialmente a partir do centro da depressão visando localizar o apacimento/desapacimento dos principais horizontes e definir. Esta etapa da pesquisa foi realizada tomando como exemplo o levantamento proposto por Valentin (1989). É o domínio ferralítico. Foi aberta uma trincheira de 90m de extensão e 2. Também foram delimitadas as áreas de floresta e savana. RELAÇÃO ENTRE OS SOLOS DO PLATÔ (MONTANTE) E DA DEPRESSÃO (JUSANTE) DA TOPOSSEQÜÊNCIA O perfil descrito na posição elevada do platô (montante) apresenta uma seqüência de horizontes superficial bruno e subsuperficial vermelho sobre um espesso horizonte manchado que corresponde à zona de flutuação do lençol.5m a montante e o nível da água na depressão sobe para 0. O esvaziamento da depressão ocorre através da sua conexão com o igarapé no interior da floresta.. Com o início da estação chuvosa a subida do lençol é rápida. Em seguida.8m de profundidade a jusante na depressão. foi realizado um mapa das feições da superfície do solo. A formação desta seqüência de horizontes subsuperficiais. seus limites. dispostos acima de um espesso horizonte manchado. para esverdeado. A mudança da cor está associada à perda de ferro (10% de Fe2O3 no horizonte vermelho. da formação de um horizonte amarelo e esverdeado está relacionado ao início das condições de hidromorfia devido à dissolução seletiva dos óxidos de ferro (PETERSCHIMITT et al.

Esta filiação genética entre horizontes desde a rocha alterada até o horizonte superficial é definida por Nahon (1991) como unidade estrutural original. . cor bruna e sem porosidade aberta. 1996. PETERSCHIMITT et al. Em direção a jusante. WILLIAMS e COVENTRY. Austrália. expandem-se os horizontes brancos sob a forma de cunha.173 A montante. A interrupção da argila manchada ocorre sob a forma língua próximo ao centro da depressão. FRITSCH e FITZPATRICK. Esta seqüência discordante da unidade original é denominada por Nahon (1991) de unidade estrutural derivada. onde se observam aspectos da mesofauna. cujo resultado é a formação do horizonte manchado composto basicamente por quartzo residual. A atividade da mesofauna é forte (presença de rejeitos e edifícios). 1975.. Ocorrem zonas circulares (3-5m de diâmetro) de vegetação arbórea que podem ser relíquias de floresta. Exibe serapilheira abundante (2 a 5cm de espessura) que cobre toda a superfície do solo. pois se inicia com a alteração do sedimento areno-siltoso da Formação Solimões em condições de flutuação de lençol. 1979. enquanto uma densa rede de raízes penetra no solo. 1999).. Rejeitos da mesofauna (micropeds de cupins e formigas). os restos vegetais estão incorporados ou não à parte superior do horizonte A do solo. bastante numerosos na superfície (50%). Existe uma relação genética entre os horizontes manchados do platô e da meia encosta da vertente com o horizonte branco da depressão (ROSOLEN et al. Nos espaços entre a vegetação herbácea. FEIÇÕES DA SUPERFÍCIE DO SOLO Foram individualizados três tipos de feições de superfície:  vegetação de floresta: na floresta. É composta essencialmente por vegetação herbácea reagrupada em tufos ligeiramente sobrelevados (até 10cm). É litodependente. freqüentemente estão incorporados à crosta de erosão. O horizonte subsuperficial vermelho possui matriz homogênea e reflete boas condições de drenagem que provoca a redistribuição de argila (caolinita e traços de vermiculita aluminosa) e difusão dos óxidos de ferro. Seqüências com horizontes similares foram estudadas em outros países como na Guiana. formando pequenas placas de espessura igual ou inferior a 5mm.  sob vegetação de savana não alagada: esta vegetação cobre aproximadamente 40% da superfície. A expansão destes horizontes são discordantes em relação à superfície e leva à transformação e desaparecimento dos horizontes da montante. progressivamente.. pouca ilita e óxidos de ferro. mais claros e com tamanho maior. variando de fina a grosseira (sempre inferior a 1cm de diâmetro). Sob a serapilheira. a seqüência de horizontes sobrepostos e diferenciados refletem uma evolução vertical : os horizontes manchados com predomínio de manchas vermelhas evoluem para o horizonte subsuperficial vermelho. Essa atividade pode ser verificada no horizonte de superfície do solo que apresenta porosidade aberta elevada. 2002). Índia e são consideradas pelos autores como a evolução pedogenética típica das regiões tropicais (DANIELS et al. O horizonte branco apresenta forte eluviação de argila em relação ao horizonte manchado (teor de 23% de argila no horizonte branco a 195 cm de profundidade e 54% no horizonte manchado a 155cm de profundidade). 1994. aparece crosta de erosão com superfície lisa. os volumes cinza do horizonte manchado tornam-se cada vez mais abundantes. Do centro da depressão em direção a montante. que chega a se separar da superfície do solo. a cobertura vegetal cobre aproximadamente 90% sob da superfície.. A dessecação provoca o rachamento dessa crosta. MELFI et al. caolinita.

Um eixo principal. As áreas deprimidas formam dois eixos.2b). a superfície do solo revela marcas de forte erosão superficial. A partir das zonas deprimidas. Os cupinzeiros ativos apresentam-se em forma de domo. apresentando desnível inferior ou igual a 10cm. com crostas pretas de dessecação constituídas de restos vegetais. próximo à depressão. de cor cinza. O resultado do mapeamento mostrou a estreita relação entre a distribuição dos principais horizontes e da topografia. grosso modo. algumas vezes com zonas mais pretas.5m de altura e 1. Nesse local.5m de diâmetro. os cupinzeiros estão reagrupados na parte baixa. a superfície do solo é sob plana e muito macia. Percebe-se que a presença dos horizontes ricos em matéria orgânica e dos horizontes brancos é sistemática e exclusivamente associada às áreas deprimidas. Podem estar ativos ou abandonados. A característica mais visível desse limite é a presença de “microfalésias”. no sentido norte–sul e um eixo secundário no sentido oeste–noroeste/leste–sudoeste que se conectam no sul do mapa e formam um talvegue drenando temporariamente as zonas deprimidas inundadas ao eixo de drenagem local. O recobrimento herbáceo é fraco (30 a 40% da superfície). a distribuição dos horizontes relacionados com as posições elevadas da vertente é radial.2a e 11. Na vertente. Os cupinzeiros inativos apresentam-se sob a forma de montículos de aproximadamente 0. . DISTRIBUIÇÃO DOS PRINCIPAIS HORIZONTES NA BACIA ELEMENTAR Há uma estreita relação entre a distribuição dos principais horizontes dos solos e a topografia e discordância com a vegetação (figuras 11.  vegetação de savana temporariamente alagada: nessa zona. e podem atingir 0. No limite com a zona não alagada pode apresentar uma linha descontínua de palmeiras.174 Os cupinzeiros em forma característica de cone com divertículos verticais são muito freqüentes (algumas vezes muito numerosos).5m de altura e 1 a 3m de diâmetro.

quanto áreas elevadas.2a – Feições da superfície do solo e relação com a vegetação (Dylat/Amazônia). com horizontes predominantemente vermelhos sobre argila manchada.175 Figura 11. O limite floresta–savana é discordante com a topografia e com as características do solo. A floresta está recobrindo tanto áreas deprimidas. com horizontes orgânicos acima de horizontes brancos. O mesmo ocorre sob a vegetação de savana. 2007 A comparação entre o mapa caracterizando a cobertura do solo e a cobertura vegetal mostra claramente a discordância da distribuição da vegetação com a organização dos horizontes.: ROSOLEN. Deste ponto de vista. Org. a toposseqüência estudada reflete as diferenciações determinadas pela topografia e não pela vegetação. .

2007 HIPÓTESE SOBRE A AMPLIAÇÃO DA DEPRESSÃO E EVOLUÇÃO DA PAISAGEM As transformações dos horizontes de solo na toposseqüência refletem a dinâmica evolutiva espacial e temporal do sistema na escala da bacia elementar. MgO e Al2O3. O horizonte branco é eluvial.176 Figura 11. dos horizontes hidromórficos que avançam para montante a partir do centro da depressão transformando os horizontes manchados e a base do horizonte subsuperficial esverdeado.: ROSOLEN. Este processo . Org.2b – Distribuição dos horizontes dos solos em uma área representativa de 10 ha. A diminuição do teor de argila é fraca na média vertente e forte na depressão e indica uma perda lateral no centro da depressão. a evolução geoquímica indica empobrecimento da cobertura pedológica através da partida do plasma argilo-ferruginoso e afeta os horizontes superficial e subsuperficial esverdeado da meia encosta (aproximadamente da superfície à profundidade de 1m) e. de forma muito mais marcante. As mais nítidas frentes de transformação lateral são provocadas pela expansão. com perda acentuada de argila e elementos químicos como o Fe2O3. K20. Globalmente. em cunha. o horizonte cinza da jusante onde foi determinda a perda seletiva de constituintes (óxidos de ferro e caolinita).

Nas regiões tropicais. . Agradecimentos: Gostaríamos de agradecer à FAPESP (Processos 96/1447 e 97/015500) pelo suporte financeiro ao projeto de pesquisa e ao NUPEGEL/USP pela infra-estrutura. existe uma regularidade na distribuição das depressões nas superfícies dos planaltos. A evolução das formas de relevo tende a aumentar a extensão das áreas com solos que exibem padrões e propriedades associados à estagnação de água. REFERÊNCIAS BOULET. HUMBEL. com lençol freático temporário superficial.. Analyse structurale et cartographie en pédologie: I. XIX (4) : 309-321. sér. Sua extensão espacial é lateral centrífuga em relação ao eixo da depressão (jusante da vertente) com uma dinâmica lateral remontante no modelado. Y. Pedol. . o esqueleto se reorganiza e há perda volume. 2005) se caracteriza por um progressivo alargamento e amplificação das pequenas variações iniciais. O avanço deste processo denominado de intemperismo centrífugo (FRITSCH et al. O alargamento ocorre pela progressão lateral remontante. A perda de matéria aprofunda a depressão sobre o platô e resulta em uma diminuição do desnivelamento topográfico. modificando a textura. R. a abertura do sistema e a ampliação do “ponto de fuga” é a conexão da depressão com o eixo de drenagem. PHILLIPS. F.177 se expande para o meio da vertente coincidindo com os limites do horizonte branco. a expansão das coberturas hidromórficas a partir das depressões topográficas é uma dinâmica evolutiva essencialmente lateral que resulta na exportação de matéria fina. 1986) ou divergente (PHILLIPS. 1982a. a estrutura e as propriedades geoquímicas da matriz. Em estações contrastadas. os processos de evolução do solo que levam a separação entre o plasma argilo-ferruginoso e o esqueleto quartzoso é o motor de severas transformações internas (MILLOT. 2005). de forma irregular e diâmetro maior (tipo “cárie”). Considerando que a área de estudo é representativa de uma grande região da Amazônia. O resultado é a perda de volume que tenderá a um progressivo aplainamento da vertente e abaixamento do interflúvio na paisagem. acredita-se que o processo de alargamento das depressões é generalizado.. aplainamento do relevo e aumento da extensão da área a ser alagada sazonalmente. O estudo realizado permite predizer que a dinâmica apresentada é típica da paisagem regional. 1977). 2000. CONCLUSÃO Na região sudoeste da Amazônia brasileira. expondo as transformações na topografia (GUNNELL e LOUCHET. a partir do ponto de fuga. Como resultado há uma homogeneização do tamanho das partículas na matriz do solo com predomínio do esqueleto quartzoso associado ao surgimento de uma nova porosidade. A. X. o plasma migra lateralmente. ORSTOM. . CHAUVEL. sobre os sedimentos areno-siltosos da Formação Solimões. No caso em estudo. Prise en compte de l’organisation bidimensionnelle de la coverture pédologique: les études de toposséquences et leurs principaux apports à la connaissance des sols. isto é. O aumento da porosidade acentua a permeabilidade e o grau de intemperismo. Cah. LUCAS. A progressão lateral do horizonte gerado (horizonte banco) é feita em detrimento da organização do solo original (seqüência vertical na montante no platô).. Há a formação e o aprofundamento da depressão por subtração de matéria.

XIX (4): 323-339. NICOULLAUD.. .. LAMOTTE. L.. Cah. ARAVENA. J. E. Soil Sci. 44: 33-57. Pedol. The influence of rock hardness and divergent weathering on the interpretation of apatite fission track denudation rates. FORMOSO.Aparecida. . 60: 895-901. G. R.178 BOULET.. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. BOULET. LUCAS. COUSIN. H. Y. Interpretation of soil features produced by ancient and modern processes in degraded landscapes: I.C. FITZPATRICK. H. F. X. E. Contribuição à geomorfologia da região de Guaratinguetá. Soc. CERRI. E. 1996 FRITSCH. distribution and degradation of lateritic pedological systems.L.. A. Brazil). a new method for constructing conceptual soil-water-landscape models. 1987 BRUAND. Am. I. E. 2000 MELFI. B... S. Backscattered electron scanning images of soil porosity for analysing soil compaction around roots. Geomorphology. Louchet. Une méthode d’analyse prenant en compte l’organisation tridimensionnelle des couvertures pédologiques. S. Sci. C. C. DUVAL. A. C.. 7-30... 1975 DANIELS. 38: 461-472. M. RIBEIRO. sér. Evolution and opening of closed depressions developed in a quartz-kaolinitic sedimentary substratum at Taubaté basin (São Paulo. Effect of water content on the fabric of a soil material: an experimental approach. 1999 MILLOT. Douala. C. L. M.. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. 2ª edição. GOUVEIA.. CERRI. . BÉGON... p. BOULET. R. FRITSCH. 2006 FILIZOLA. (Orgs. Géol. HUMBEL. Analyse structurale et cartographie en pédologie: II. W. 1986 FRITSCH. C.. ROSOLEN. 1982b BRUAND. PROST. R. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ciências. Origin and dynamics of soil organic matter and vegetation changes during the Holocene in a forest-savanna transitionzone.J. 1996 COLTRINARI. S.. Tropical soils : genesis. ORSTOM. 30 (4): 229-233. J. 16: 77-86. .. A. Y.. . E. Soil Sci. A. Rio de Janeiro. Workshop on tropical soils. Bull. R. 1975 EMBRAPA. J.. B. R. L. Res.. J... 1977 PESSENDA. Séminaire régional sur les latérites. Geochemie de la surface et formes du relief: présentation. Manual de métodos de análise de solos. H. O. 1994 Gunnell. 39: 335-340. ORSTOM. R. 59-76 p.. . 17.L. 212 p. A. R. Rio de Janeiro. 306 p. IGEOG-USP. Les transformations d´une paysage cuirassé au Nord-Ouest de la Coted´Ivoire sur formation gneisso-migmatitique. Z. F. Sistema Brasileiro de Classificação de solos. 1997 EMBRAPA. Free iron sources in an Aquult-Udult sequence from North Carolina.. . Soil Sci. Soil. BAILEY. Aust. Colloques et seminares. Am. In : FORMOSO. . V. L. Geomorphol. 156 p. série teses e monografias. M. 32: 889-907. and analogy to the slope evolution. BUOL.. R.). E.. Soc. São Paulo.. J. W. Southern Amazonas State. M. GAMBLE.

BOULET. The contrasting hydrology of red and yellow earths in a landscape of low relief. USA. D. Geoderma. (Int. J. Departamento de Produção Mineral. L. 40 p. MME/CPRM. 16. 1993 VILES. Rio de Janeiro. A. 1978a RADAMBRASIL. Weathering and landscape evolution. 1989 VILLAS-BOAS. Scales issues in weathering studies. P. HERBILLON.. . Geomorphology. RAJOT. Fac. 561 p. A. Sci. Paris.. K. E. COVENTRY. 67: 1-6. Rio de Janeiro. Geomorphology. ORSTOM.V.. D. 1979 VALENTIN. 1996 PHILLIPS. Relatório preliminar.. Série Geoscience. E. F. R. CAMPBELL. J. Estado de São Paulo. Proc. 2002 SCHEIDEGGER. Comptes Rendus de l´Académie de Sciences. A. ROUER. PHILLIPS. 17. Camberra Symp. Ministério das Minas e Energia. Contribuição à geologia da Bacia de Taubaté. In: The hydrology of Areas of Low Precipitation. Levantamento de recursos naturais. TRICHET. Ciênc. 2000 PETERSCHMITT. 1969 TURKINGTON. Projeto Alto Rio Negro. 1983 SUGUIO. bleaching and ferritisation processes in soil mantle of the Western Ghâts. Genesis of a mottled horizon by Fe-depletion within a laterite cover in the Amazon Basin. 2001 . 74: 235-253. Yellowing. The Holocene. J. 334: 187-195. J. 1978b ROSOLEN. S.). 67: 255272... FRITSCH. 27: 1-19. E. Weathering instability and landscape evolution. Z. 130 p. Porto Velho-SC-20. Vol. M. A. Vol. Ministério das Minas e Energia. R.. MELFI. 41: 63-71... The instability principle in geomorphic equilibrium. 663 p. Bassin versant de Booro-Borotou: carte des réorganizations superficielles à 1:2500.. Fil. Vale do Paraíba.J. V. 2005 RADAMBRASIL. J. 2005 WILLIAMS.179 Brazilian Amazon Region. . O. Purus-SB-20.. Departamento de Produção Mineral. J. Assoc.. South India. . Hydrol. C. Geomorphol. W. 11 (2): 250-254. J. H.. 128: 385-395. Geomorphology. Levantamento de recursos naturais. LAMOTTE. USP. A. Letr..

corte. em 1º de maio de 1500. sobrasil (Colubrina glandulosa). 1985). a braúna (Melanoxylon brauna). característica da colonização portuguesa no Brasil (Sodré.. e muitas outras valiosas madereiras como o jacarandá (Dalbergia nigra). O Domínio da Floresta Atlântica foi o primeiro a ter os recursos florestais explorados: “plantas madereiras. medicinais. reduzindo a grande floresta a pequenas manchas remanescentes” (Urban. 2000).]. entre outras” (Guedes-Bruni & Lima.). a interferência na natureza brasileira começou com o corte de uma árvore para fazer a cruz de madeira que compôs o altar da segunda missa realizada pelos descobridores portugueses no Brasil.. desenvolveu-se a civilização brasileira financiada pela mercancia dos estoques de nossos bens naturais sem chance de renovação” (Mello Filho. cultivo de cana-de-açúcar. a “devastação atravessou diferentes fases: extração do pau-brasil. Depois disso. 1991). Esse Domínio é um dos 25 hotspots mundiais (Figura 1) de importância para a conservação da natureza (Myers et al. o Domínio da Floresta Atlântica é que historicamente sofreu “um maior desgaste antrópico. as canelas (Ocotea spp. Sobre o substrato geobioecológico correspondente a esse sistema.. transporte e comércio do pau-brasil deram início a um tipo de economia chamada de predatória. De todos os domínios de natureza brasileiros. distribuída em fragmentos isolados. de uma árvore da Floresta Atlântica. 1998). o pau-brasil. por fim.. 53 Professor doutor do Departamento de Geografia – FFLCH/USP. o tapinhoã (Mezilaurus navalium).). Nectandra spp. o que dificulta a conservação dessa biodiversidade. a intensa ocupação urbana (. comestíveis e outras das mais diversas utilidades [. em sua grande maioria.. 1996).. dentre as quais destacaram-se o pau-brasil (Caesalpinia echinata). A Floresta Atlântica remanescente está. As atividades de procura. cacau e café e. algodão. .” Mello Filho (1991) INTRODUÇÃO Simbolicamente.CAPITULO 12 PAU-BRASIL E A TRANSFORMAÇÃO DA PAISAGEM DA FLORESTA ATLÂNTICA Yuri Tavares Rocha53 “Somos o único país do mundo cujo nome é o de uma árvore.

2000).. Usina Coruripe. significando um alto índice de biodiversidade e endemismo. chamada pelos índios de ibirapitanga (madeira vermelha). Alagoas (Rocha..1 – Os 25 hotspots mundiais de importância para a conservação da natureza (Myers et al. Figura 12.2 – Pau-brasil com cerca de 30m de altura. Leguminosae. foram encontradas 458 espécies de plantas lenhosas. 2004) . é uma dessas espécies endêmicas da Floresta Atlântica (Figuras 2 e 3). Coruripe. 2000) Para exemplificar sua importância em termos de biodiversidade. sendo que 8 mil espécies são consideradas endêmicas (Conservation Internacional do Brasil. o pau-brasil. A espécie Caesalpinia echinata Lam. o pau-brasil é uma das cerca de 20 mil espécies de plantas vasculares da Floresta Atlântica.181 Figura 12. pode-se citar o grande número de espécies arbóreas da Floresta Atlântica: num hectare dessa floresta no sul do estado da Bahia.

a espécie foi finalmente colocada na lista da Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora – CITES (Rocha & Simabukuro. Por causa da intensa exploração e posterior diminuição do Domínio Atlântico. Usina Coruripe. 2008). atual uso comercial da madeira. a Portaria IBAMA n. O pau-brasil foi explorado comercialmente desde o início do século XVI até meados do século XIX. podendo se observar o cerne (avermelhado) e o alburno (amarelado). 2008). laminados. O pau-brasil está listado no Anexo II. relativamente caro. seu estudo é de “extrema importância sob o ponto de vista biogeográfico e ambiental. 2009). Esse corante. somente pessoas mais ricas podiam ter roupas dessa cor. 1996). porquanto foi nessa fase da nossa história que se processaram os grandes desmatamentos que afetaram consideravelmente toda a região.182 Figura 12. 1977). indicando seu status social (Rocha. do qual o paubrasil é endêmico. . seda e algodão. ainda é pouco conhecida. entre 1876 e 1972. incluindo artigos de madeira não acabados utilizados para fabricação de arcos para instrumentos musicais de corda (CITES. Em 2007. Em 1992. tanto no que se refere à fitofisionomia quanto à desestabilização das condições ecológicas” (Coimbra-Filho & Câmara. madeira serrada. 2004) A história das alterações sofridas por esse Domínio.37-N declarou o pau-brasil como espécie da flora brasileira em perigo de extinção. durante os primeiros 300 anos de ocupação do Brasil. principalmente na área de ocorrência do pau-brasil (de estado do Rio de Janeiro até o estado do Rio Grande do Norte). principalmente pelo corante extraído de sua madeira. era utilizado para o tingimento de lã. Dessa maneira. Alagoas (Rocha. 2008). essa espécie foi considerada extinta durante cerca de 100 anos. dando a cor vermelha a esses tecidos. Coruripe. na zona de matas que primeiro forneceu o pau-brasil e depois as terras apropriadas para o plantio da cana-deaçúcar” (Ribeiro. sendo necessária emissão da licença de exportação CITES para exportação de toras.3 – Tronco de pau-brasil cortado. inúmeras ações a partir de 1973 têm sido realizadas para mudar essa situação de quase extinção (Rocha. Justamente a ocupação do Brasil “se iniciou pela costa atlântica.

. vilas e povoados. 2000). João III (1521-1557) a criar e distribuir as capitanias hereditárias a donatários que tinham a obrigação de colonizar suas áreas: o fracasso do comércio oriental. aliados à existência de pau-brasil e de indígenas mais amistosos. foram estabelecidos pontos de ocupação chamados de feitorias. enleada por parasitas e lianas. caracterizando “fenômenos de aculturação e de transfiguração étnica” (Ribeiro. climáticos e geomorfológicos. cuja comemoração ocorre em 3 de maio (Rocha. como a que foi fundada por Américo Vespúcio no Cabo Frio [no atual estado do Rio de Janeiro] e a de Itamaracá [no atual estado de Pernambuco]. havia [. determinaram a fixação de feitorias.. Com a evolução dos estudos fitogeográficos. Posteriormente. [. essências florestais. outros au- .. impossível de ser ignorada em qualquer análise da ocupação urbana do território brasileiro. baías e barras. além de feitorias permanentes onde já havia sinais de posse efetiva da terra. 2002). 1977). numa faixa de 200 a 300 quilômetros de largura desde o Nordeste até o extremo Sul do País. [.] do sul da Bahia até o vale do rio Doce. que designava a hoje conhecida Mata Atlântica ou Floresta Pluvial Atlântica (Joly et. América e Oriente (Prado Júnior. DEFINIÇÕES DO DOMÍNIO ATLÂNTICO No século XVI. ora alcançando a orla marítima. enseadas.. algumas dessas feitorias se transformaram em núcleos de colonização do Brasil. Tais feitorias tinham a função principal de fazer o escambo de pau-brasil cortado por indígenas e seu armazenamento. madeiras de lei. o pau-brasil é considerado a árvore nacional pela Lei Federal n. Ziebell. portos naturais.. feita pelo botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius em 1824 (Figura 4).] mata alta e espessa.. al. 2003). A extração do pau-brasil também provocou a “dissolução dos grupos tribais mais densos e sua dispersão pelas matas através do engajamento dos homens como remeiros e tarefeiros e das mulheres como amásias e produtoras de mantimentos”. para tornar a extração do pau-brasil mais eficiente. a Floresta Atlântica “se estendia ao longo da costa. Muitas vezes.] Na vertente oriental da Serra do Mar. oferecia grande variedade de contrastes em suas grimpadas pela morraria e descambamento sobre vales profundos. 1999). que contrabandeavam o pau-brasil (Andrade. 2000. ora avançando profundamente para o interior.. e se torna mais rala até confluir com os cerrados” (Ribeiro. 1997).183 Por ter desempenhado importante papel nos primórdios da história do Brasil e por ter fornecido o nome ao país. A instalação dessas feitorias e a posterior e progressiva ocupação do Brasil foram determinadas. [.1989. funcionários e militares para a defesa e servirem de postos de articulação entre as rotas marítimas entre Europa. por causa da fragilidade do domínio português na Índia. que eram responsáveis pelos bosques. 2004). a área de ocorrência do pau-brasil era a Província de Dryades. já que algumas razões levaram o rei português D. principalmente de carvalhos (Fernandes. Dryades ou Dríades foi um nome dado em referência às divindades imortais Dryas. a mata se prolonga em galerias. “temporárias. 2002). além de manter agentes comerciais.] a oeste. Nas três primeiras décadas do século XVI. Ziebell. 1977). e a presença dos corsários e piratas franceses na costa brasileira. Na classificação fisionômica e florística das províncias de vegetação do Brasil. mais organizada a partir de 1530. peles. fundada por Cristóvão Jaques” (Andrade. pela existência dos acidentes geográficos da costa (Mauro. acompanhando o curso dos rios.. 6.. algodão e papagaios. até a chegada das embarcações que transportariam o pau-brasil para a Europa. em que os habitantes cuidavam de armazenar toras de pau-brasil. uma das mais importantes conseqüências da exploração do pau-brasil na história do país. em grande parte.607 de 1978.

2002). 6 e 7 mostram as delimitações das províncias ou domínios brasileiros de acordo com vários autores (Ab’Saber. 1973.184 tores designaram e limitaram melhor essa mesma província ou domínio. Rizzini. Figura 12.4 – Classificação fisionômica e florística feita por von Martius em 1824 para as províncias de vegetação do Brasil (Fernandes.5 – Domínios morfoclimáticos brasileiros delimitados por Ab’Saber (1973) . Fernandes. 2003) Figura 12. 1979. As Figuras 5.

1970. ou simplesmente Domínio Atlântico.6 – Províncias brasileiras delimitadas por Rizzini (1979) Figura 12. a Floresta Pluvial Atlântica. 2003) designou o domínio onde ocorre o pau-brasil como Domínio dos Mares de Morros e Chapadões Florestados do Brasil Atlântico. com as influências climáticas do Oceano Atlântico e que apresentam a cobertura vegetal predominante de floresta. 1973. .7 – Províncias brasileiras delimitadas por Fernandes (2003) Ab’Saber (1966. como um domínio onde predominam morros de formas mamelonares e chapadões.185 Figura 12.

mascarando superfícies aplainadas de cimeira ou intermontanas de pedimentação e eventuais terraços (.186 Segue a descrição de Ab’Saber (2003): “Extensão espacial de segunda ordem. Presença de mais forte decomposição de rochas cristalinas e de processos de convexização em níveis intermontanos. todas acompanhando o contorno da costa brasileira”. 63% das espécies da Floresta Ombrófila Densa Atlântica também ocorrem em outras formações florestais (cerrado. como um conjunto de florestas ombrófilas: densa. principalmente no Pleistoceno. 2000). aberta e mista (Joly et. Espetaculares setores de mares de morros alternados com ‘pães-de-açúcar’. da combinação de fatores geomorfológicos. fato que faz suspeitar uma alternância entre a pedimentação e mamelonização nesses compartimentos. com aproximadamente 650 mil quilômetros quadrados de área. Planícies meândricas e predominância de depósitos finos nas calhas aluviais. essa por sua vez dividida no Setor da Cordilheira Meridional e no Setor do Planalto Meridional (com o Subsetor de Araucária ou de Floresta Aciculifolia e com o Subsetor Periférico ou de Floresta Latifoliada)”. A Floresta Atlântica pode ser entendida. e a cobertura florestal dos vales. São Paulo).100 e 1.300m de altitude no Brasil de Sudeste). predominam espécies arbóreas com distribuição restrita. Notáveis paisagens de exceção nos Campos de Jordão e nos altos campos de Bocaina. climáticos. floresta estacional semidecidual e floresta montana de Pernambuco). porém com substituições contínuas de suas espécies ao longo de toda sua extensão” (Scudeller. além dos ecossistemas associados. da floresta estacional semidecidual e da floresta estacional decidual (Conservation Internacional do Brasil. uma simplificação pode ser feita. Grau mais aperfeiçoado dos processos de mamelonização. A Floresta Atlântica é bastante heterogênea em termos florísticos.5000mm e 3 mil e 4 mil mm (Serra do Mar. al. classificando-se essas diferentes florestas “em função das grandes unidades de relevo: matas atlânticas de planície. na maioria dos casos. onde predominam chapadões florestados (subdomínio dos chapadões florestados dos planaltos interiores de São Paulo e norte do Paraná). conhecidos ao longo do cinturão de terras intertropicais do mundo. como mangue e restinga. em regiões costeiras (Rio de Janeiro) ou áreas interiores (Espírito Santo e nordeste de Minas Gerais)”. Florestas biodiversas. precipitações que variam entre 1. 2002). ou seja. Distribuição marcadamente azonal. Fernandes & Bezzera (1990) definiram a Província Atlântica como de “vegetação pluvial atlântica.). aliados aos eventos paleoclimáticos durante o período Quaternário. podendo ser dividida em Subprovíncia Litorânea e Subprovíncia Serrana. Área de mamelonização extensiva. 1999). hidrológicos e pedológicos. escarpas terminais tipo ‘Serra do Mar’ e setores serranos mamelonizados dos planaltos compartimentados e acidentados do Brasil de Sudeste. coberturas coluviais soterrando stone lines.. das restingas e das planícies litorâneas. dotadas de diferentes biotas. vicejante nas vertentes e nos cumes das serras. são de difícil separação de forma estanque já que têm uma grande heterogeneidade florística e substituição de espécies (Scudeller. primariamente recobrindo mais de 85% do espaço total. Freqüente presença de solos superpostos. e. Essa heterogeneidade fisionômica e florística do conjunto de florestas do Domínio da Floresta Atlântica é resultante. ao longo do Brasil Tropical Atlântico. Bocaina) e de cerrados em diversos compartimentos dos planaltos interiores. Florestas tropicais recobrindo níveis de morros costeiros. O Domínio da Floresta Atlântica pode ser considerado como “um bloco florestal heterogêneo. de acordo com o Mapa de Vegetação do Brasil.100-1. afetando todos os níveis da topografia (de 10-20m a 1. Enclaves de bosques de araucária em altitude (Campos de Jordão. serranas e de tabuleiros” (Brasil. 2000a). apesar das florestas ombrófilas e estacionais serem grupos florística e estruturalmente distintos... 2002). .

18 0. Organização: Rocha (2004). em 1961.23 0. restringe-se a menos de 8% de sua área original. Presotto & Cavalheiro. estado do Rio de Janeiro.000 % do Estado 93.000 14.000 316. 2007).000 10.000 36.00 0. Tabela 12. as áreas de florestas primitivas nos estados de ocorrência do pau-brasil. dos tacapes.300.000 170.187 TRANSFORMAÇÃO DA PAISAGEM DA FLORESTA ATLÂNTICA Os indígenas brasileiros não tocavam “nas matas senão para o fabrico das flechas. .000 10. De acordo com Urban (1998). limite sul da ocorrência.20 45. no início do século XVI (Tabela 1).000 km2 do Brasil. com uma densidade populacional média de 87 habitantes/km2.000 15.800km2 (Conservation Internacional do Brasil. 2009).72 Fonte: Urban (1998). Dados mais atuais da Conservation Internacional (2009) indicam uma redução da área original para 99.12 3.12 0. hoje. das lanças.42 2.944 km2. A Floresta Atlântica já chegou a ocupar 1.1 – Áreas de florestas primitivas nos estados brasileiros de ocorrência do pau-brasil no início do século XVI estimadas Alceo Magnanini em 1961.00 20.02 90. sendo que a média nacional é de 23 habitantes/km2 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. das pirogas” (Ribeyrolles. 2002).45 50. cerca de 15% de seu território brasileiro.87 - % do Brasil 0. 2000). A Figura 8 mostra essa variação de ocupação de área pela Floresta. aproximadamente 108. Estado Rio de Janeiro Espírito Santo Bahia Sergipe Alagoas Pernambuco Paraíba Rio Grande do Norte Total Área (km2) 41. o pesquisador Alceo Magnanini estimou.00 30.16 0. limite norte (Rocha. Já os portugueses começaram a explorar os recursos vegetais por motivos energéticos – lenha e madeira – e alimentares – palmitos e frutas (Filgueiras & Peixoto. até o estado do Rio Grande do Norte.49 0. 1980).40 26.31 18.000 20.

Pernambuco (PE). Várias atividades contribuíram para a eliminação das florestas do nordeste do Brasil: desmatamento para “facilitar a defesa dos colonos contra os ataques constantes de indígenas aguerridos e revoltados”. Já se comentou anteriormente que não se concorda com essa afirmação. Espírito Santo (ES). é mais um fator de pressão” sobre esse domínio (Landim de Souza & Siqueira. 2000) A Floresta Atlântica foi. inicialmente. Alagoas (AL). A construção inicial dos povoados na zona costeira. estados do Rio de Janeiro (RJ). em lutas dos colonizadores contra indígenas e no decorrer da expulsão de invasores estrangeiros”.8 – Variação de ocupação de área pela Floresta Atlântica na região de ocorrência do pau-brasil. e. o que permanece até hoje. 2001). muito difundida por . ela provocou “uma destruição impiedosa e em larga escala das florestas nativas donde se extraía a preciosa madeira” (Prado Júnior. 1989). Paraíba (PB) e Rio Grande do Norte (RN) – cujos remanescentes estão em verde (Conservation Internacional do Brasil.188 Figura 12. 1996). Sergipe (SE). a exploração do pau-brasil e de outras madeiras. com o crescente aumento em seus números e densidades. alterada pela “exploração da madeira de suas árvores. Quanto à exploração do pau-brasil. “a incessante atividade humana” (Coimbra-Filho & Câmara. Bahia (BA). “as queimadas deliberadas no curso das freqüentes escaramuças bélicas entre as tribos rivais. sendo em seguida substituída pela agricultura e pecuária.

resultando na existência de 2. atualmente. . Salvador e Recife) e onde vivem. mais de 104 milhões de habitantes. Depois. mais da metade da população brasileira estimada para 2007 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. entre os quais talvez sucederá perderem-se alguns de boa qualidade. mas não havendo outro método para continuarem as suas plantações nem para diminuírem o grande consumo que se faz de lenha nas fábricas de açúcar. Assim. até quatro anos é indispensável fazer as ditas derrubadas. As Figuras 9..189 vários autores.] entendo ser da maior importância que conserve cada um nas suas matas os paos de Ley. tornaram-se povoados. Um ofício de 7 de junho de 1798. 10 e 11 mostram a evolução desse povoamento na região de ocorrência natural do pau-brasil de acordo com Brasil (2000b). 1998). Arquivo Nacional).. 1996). parece-me conveniente conservar se em seu vigor a cláusula até agora declarada nas Cartas de Sesmarias permitindo-se também o corte dos mesmos paos para usos particulares com pleno conhecimento das suas precisões [. arraiáis. evidenciava o conflito entre o interesse da Coroa Portuguesa em conservar as madeiras de lei e as necessidades dos proprietários de fazendas e engenhos: “[. “os fazendeiros de café queimam hoje mais árvores do que antigamente elas caíam. e especialmente os que Vossa Majestade tem mandado reservar para o uso das Armadas Reais. 2009). porque depois de três.528 municípios brasileiros no Domínio Atlântico. as alterações ocorridas no Domínio Atlântico deixaram “remanescentes secundários reduzidíssimos. porém julgo ser de grande prejuízo aos moradores a proibição de fazerem derrubadas nas suas terras em que se acham algumas madeiras de construção. onde se localizam as principais capitais estaduais (São Paulo. 2009).. 2000). A figura 12 mostra a densidade populacional em 2000 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. cidades e metrópoles. 1980). a ocupação européia e colonizadora fez surgir algumas feitorias e portos que cresceram. 46% do total do Brasil (Conservation Internacional do Brasil. vilas. e lançar fogo aos paos cortados. distribuídos pelos estados que constituem a região nordeste” do Brasil (Coimbra-Filho & Câmara.]”. em meados do século XIX. em um século” (Ribeyrolles. a cultura da cana-de-açúcar foi “predatória da natureza. assinado no Rio de Janeiro pelo conde de Rezende e provavelmente dirigido à Rainha (Folhas 157 frente a 159 verso do volume 8 do Códice 69. com as atividades agrícolas.. Rio de Janeiro. Como conseqüência. Mais adiante. da flora e fauna nordestinas” (Gouvêa.

2000b) .9 – Povoamento da região de ocorrência do pau-brasil no século XVI (Brasil.190 Figura 12.

191 Figura 12.10 – Povoamento da região de ocorrência do pau-brasil no século XVII (Brasil. 2000b) .

2000b) .11 – Povoamento da região de ocorrência do pau-brasil no século XVIII (Brasil.192 Figura 12.

considerando os dados demográficos de 2000 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2009) CONSIDERAÇÕES FINAIS Pode-se considerar que houve certo determinismo geográfico na ocupação inicial do Brasil e. conseqüentemente. enseadas.193 Figura 12. de seu Domínio Atlântico. já que portos naturais. Pernambuco (PE). baías . Espírito Santo (ES). Paraíba (PB) e Rio Grande do Norte (RN). estados do Rio de Janeiro (RJ). Sergipe (SE). Alagoas (AL). Bahia (BA).12 – Densidade populacional na região de ocorrência do pau-brasil.

AB’SABER. que envolvia corte seletivo. São Paulo: IGEOUSP. 2000a. para evitar seu contrabando e a posse do Brasil reclamada por outros europeus. AB’SABER. BRASIL. Os descobrimentos portugueses: Brasil e África. no século XVI. AGRADECIMENTOS: Ao Prof. 13-37. N. A transformação das feitorias em vilas e povoados pode ser considerada uma das mais importantes conseqüências da exploração do pau-brasil e de sua presença na história do Brasil. S.) Brasil 500 anos: reflexões. As atividades de extração e exploração do pau-brasil. Felisberto Cavalheiro (In Memoriam). e de transporte do local da extração até os portos dos rios e praias. Brasil: 500 anos de povoamento. CÂMARA. Portanto. A. que auxiliavam essa exploração. Salvador (BA) e Recife (Pernambuco). Rio de Janeiro: Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 1966. não provocaram tantos danos às matas quanto sua total retirada para a implantação da lavoura da cana-de-açúcar. BRASIL. Os domínios de natureza do Brasil. O domínio dos mares de morros. A. essa ocupação está consolidada em muitas metrópoles distribuídas na Costa Atlântica Brasileira. São Paulo: IGEO-USP. N.2. I. CD-ROM (multimídia). que era a matriz energética. Geomorfologia. In: BRANDÃO. C. sempre! REFERÊNICAS AB’SABER. Províncias geológicas e domínios morfoclimáticos do Brasil. Para a implantação de seu sistema produtivo.41. n. tais como Rio de Janeiro (RJ). São Paulo: Ateliê Editorial. (Org. 2000b. A derruba da Floresta Atlântica de forma drástica começou na instalação da lavoura da cana-de-açúcar e de engenhos. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). COIMBRA-FILHO. Governo Federal. 1973. Um amigo. n. M. atualmente. algumas vezes com utilização do fogo. Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (IPJBRJ). pesquisador e professor. Governo Federal. determinaram a fixação de feitorias para sua extração e comércio. 2003. um orientador e um Mestre. AB’SABER. A. 2000b. que se transformaram em vilas e povoados. 1970. F. São Paulo: IGEO-USP.20. Geomorfologia. G. N. A. havia uma exigência muito maior em abertura de novos espaços e demanda de recursos naturais. Recife: Editora Universitária UFPE. incentivou a implantação de sua colonização por parte da Coroa Portuguesa. N. A organização natural das paisagens inter e subtropicais brasileiras Geomorfologia. a exploração do pau-brasil motivou a criação dessas feitorias e. p. n. Rio de Janeiro: Centro de Documentação e Disseminação de Informações.. água abundante e madeira em grande quantidade. A. atividades também iniciadas no século XVI. Os limites originais do bioma Mata Atlântica na . depois em cidades e. ANDRADE. tais como solo fértil.194 e barras de rios e a existência de pau-brasil a ser explorado e de tribos indígenas amistosas. Mata Atlântica: 500 anos. pelo exemplo de pessoa.

FERNANDES. 2002.. Available from: http://www. Caracterização florística e ecológica da Mata Atlântica de Sergipe. Acess in 12 may 2009. S. A. p. Eugeniana. A Floresta Atlântica. E. ed. F.cites. 17-21. Acess in 14 may 2009. 2000. Avaliação e ações prioritárias para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica e Campos Sulinos.org/eng/cop/14/prop/E14-P30. E. 1998. 262-272. Serrarias do estado do Rio de Janeiro: o conhecimento florístico atual e as implicações para a conservação da diversidade na Mata Atlântica.pdf. MAURO. FERNANDES. R. 51. et al. 1996. p. GOUVÊA. J. n. 2001. P. The Hotspot of Atlantic Forest.ibge. F. F. S. C.. T. Estudo fitogeográfico do Brasil. p. Floresta Atlântica.gov. JOLY. A. FILGUEIRAS. 1998. bras. Nova Friburgo. 1990... Fitogeografia brasileira. Maurício de Nassau e o Brasil Holandês: correspondência com os Estados Gerais. . SIQUEIRA. Fortaleza: Stylus. 1991. R. Mata Atlântica de Sergipe. PEIXOTO. COUTO. Banco de Dados – Estados. p. In SIQUEIRA.1999. 1996. Conexões florísticas do Brasil. H. 2002. Rio de Janeiro: Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza. C.aspx. Fortaleza: Multigraf. GUEDES-BRUNI. Fortaleza: Banco do Nordeste.1. L. v. A construção do Brasil: ameríndios. Lisboa: Edições Cosmo.biodiversityhotspots. CONSERVATION INTERNATONAL. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. R. In MONTEIRO. LIMA. 3.org/xp/hotspots/atlantic_forest/Pages/default. Available from: http://www. 408p. Portugal. CONSERVATION INTERNATONAL DO BRASIL. p. Acess in 13 may 2009. do início do povoamento a finais de Quinhentos. L. LANDIM DE SOUZA. o Brasil e o Atlântico (1570-1670). Recife: Editora Universitária UFPE. R. Ciência e Cultura. C. A. v. Acta bot. 331-348. n. 2. 1997. Evolution of the Brazilian phytogeography classification systems: implications for biodiversity conservation. Brasília: Ministério do Meio Ambiente. Lisboa: Estampa. RIBEIRO. BEZZERA. A. E. 16.195 região nordeste do Brasil. FERNANDES.. CONVENTION ON INTERNATIONAL TRADE IN ENDANGERED SPECIES OF WILD FAUNA AND FLORA – CITES. n.. VAZ. F. portugueses e africanos. 2003.. v. M. Flora e vegetação do Brasil na Carta de Caminha. 32. L. MELLO FILHO. Aracaju: Embrapa. Rio de Janeiro: Alumbramento. Available from: http:// www. A.br/estadosat. Consideration of proposals for amendment of Appendices I and II. 9-22. E. 5/6. 9-50.

C. Y. 1 ed.. São Paulo: IMESP.). BARBEDO. Curitiba: Editora da UFPR/Fundação O Boticário/Fundação MacArthur. 1977. ALVES. v. L. C. C. RIBEIRO. ROCHA. p. Campinas. Petrópolis: Vozes. 2004 (Tese de doutorado). C. 1989. p. Ibirapitanga: história. 1980. Saudade do matão: relembrando a história da conservação da natureza no Brasil. Universidade Estadual de Campinas. URBAN. PRESOTTO. São Paulo: Hucitec/Edusp. Terra dos canibais. G. S. 1. RIZZINI. E. J.. 204 f.. da Semente à Madeira: Conhecer para Conservar. . M. Brasil pitoresco (1859). 403. p. 1979. 1. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Análise fitogeográfica da Mata Atlântica – Brasil. PRADO JÚNIOR. Tratado de fitogeografia do Brasil: aspectos sociológicos e florísticos. J. R.. Available from: http://www. São Paulo: Brasiliense.br/scielo.. 101-114. 2 v. 853-858. T. In: FIGUEIREDO-RIBEIRO. A. L. Y. Os índios e a civilização. B. v. C. ZIEBELL. São Paulo. 2002. 9-32.. 7.. 2002.scielo. MITTERMEIER. p. C. J. A. São Paulo: Edusp. europeus e pau-brasil. D. (Brazilwood) in Sixteenth-and-Seventeenth-Century maps. v.196 MYERS. n. C. 79. SODRÉ. W. T. E. 2002. T. V. ALVES. São Paulo: IMESP. ROCHA. 1 ed. 1985. Estratégias de conservação in situ e ex situ do pau-brasil. Anais … Academia Brasileira de Ciências.) Pau-brasil. M. M. In: In: FIGUEIREDO-RIBEIRO. R. (Org. R. C. V. Nature. BARBEDO. Y. R.. (Org. SCUDELLER. 2007... v. BRAGA. 751-765... 2008.. Domingos.. História e desenvolvimento: a contribuição da historiografia para a teoria e prática do desenvolvimento brasileiro. N. Leguminosae) do descobrimento à atualidade. distribuição geográfica e conservação do pau-brasil (Caesalpinia echinata Lam. da Semente à Madeira: Conhecer para Conservar. E. Acess in 13 may 2009. F. N. MITTERMEIER. S. Tese (Doutorado em Biologia)–Instituto de Biologia. T. ROCHA. KENT. Pau-brasil. ROCHA. A. 2008. Z.. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. G. FONSECA. Belo Horizonte: Itatiaia. 6-8. T. R. p. M. 1998.php?script=sci_ arttext&pid=S0001-37652007000400014&lng=en&nrm=iso. T. CAVALHEIRO.. SIMABUKURO. A. 2000. Pau Brasil. A gênese da economia predatória do Brasil.. Domingos. BRAGA. RIBEYROLLES. Brasil. The representation of Caesalpinia echinata Lam. Y.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->