r Dedos Internacionais de Catalogação na Publicação (OP) (Câmara Brasileira do Uvro, SP, Brasil) Dejours, Chhstophe, 1949D373I A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia

do tratelho/Christophe Dejours; tradução de Ana Isabel Paraguay e Ltf-cia Leal Ferreira. - 5! ed. ampliada São Paulo : Cartaz — Oboré, 1992. Bibliografia. ISBN 85-249-0101-2 1. Estresse do trabalho 2. Trabalho - Aspectos psicológicos 3. Trabalho e classes trabalhadoras Doenças 4. Trabalho e classes trabalhadoras - Saúde mental I. Título. II. Estudo de psicopatologia do trabalho. CDD-158.7 -362.2 -616.9803 87-1748 NLMWA400 índices para catálogo sistemático: 1. Estresse do trabalho: Medicina 616.9803 2. Loucura do trabalho: Medicina 616.9803 3. Psicologia do trabalho 158.7 4. Trabalhadores: Distúrbios mentais: Patologia soeU 3622 5. Trabalhadores: Saúde mental: Patologia social 362.2 6. Trabalho: Aspectos psicológicos 158.7 7. Trabalho: Doenças: Medicina 616.9803 Christophe Dejours, 38 anos, nasceu e vive em Paris. É doutor em medicina, especialista em medicina do trabalho, psiquiatra, psicanalista, ergonomista e ex-professor da Faculdade de Medicina de Paris. Hz pesquisas sobre temas situados nas fronteiras da psicopatologia: psicossomática e psicopatologia do trabalho. Trabalha no Centro Hospitalar de Orsay. E casado com uma psiquiatra e tem duas filhas. Além deste A loucura do trabalho, editado na França em 1980 e agora traduzido para o português com um anexo metodológico inédito em seu país de origem, publicou em 1986 Les corps entre biologie etpsychanaiyse, participou nas obras coletivas Corps malade et corps érotique (1983) e Psycliopatologie du travatí (1985), tendo editado 67 artigos nas mais diversas publicações especializadas entre 1973 e 1986. Foi o organizador do Primeiro Colóquio sobre Psicopatologia do trabalho, realizado em Paris, em setembro de 1984. Já esteve no Brasil, em São Paulo, em 1983, participando do / Colóquio franco-brasileiro sobre divisão do trabalho, divisão dos riscos e saúde k

Christophe Dejours A loucura do trabalho estudo de psicopatologia do trabalho Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira 5a edição ampliada 4a reimpressão OBORÍ

© Édiuons du Centurion, 1980. Direitos de tradução e edição em língua portugvett reservados por OBORÉ Editorial Ltda. Rua Vergueiro, 727, 7° andar - 01504-001 São Paulo, Brasil. Telefone: (011) 278.6100. Fax: (011) 277.2749 Capa, projeto gráfico e produção: Sônia Rangel e Cerifa. BC/BIBLIOTECA DE CIflNCIAS HUMANAS E EDUCA60 ^ HOÍSS LIMONAD y ^ # R$ Terio No. 22/02/99 9.60 131/99 Registro:289,666 © da tradução, 1987, de Ana Isabel Paraguay (capítulos 3, 5, 6 e Anexo) e de Lúcia Leal Ferreira (introdução, capítulos 1, 2,4 e conclusões). Publicação e comercialização CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 387 - Tel.: (OU) 864-0111 05009 -São Paulo -SP Impresso no Brasil - Abnl de 1998

................................................................................... 27 Os mecanismos de defesa individual contra a organização do trabalho: o exemplo do trabalho repetitivo ............................ 9 Introdução ......................................Sumário Apresentação............... 53 •* Capítulo 3— Trabalho e medo ................................................................................................................................. 27 As "ideologias defensivas" (o caso do subproletariado) ...................... 48 "**O Insatisfação e conteúdo significativo da tarefa............................................... 63 Os sinais diretos do medo.................................................................. 75 > As diferentes formas de ansiedade................................................................ 77 I ....... 48 Insatisfação e conteúdo ergonômico do trabalho....................................... 69 ° medo em tarefas submetidas a ritmos de trabalho............................................................................. 37 \~*»Capítulo 2 — Que sofrimento?.............. 14 Da Primeira Guerra Mundial a 1968................................................. 22 Capítulo 1 — As estratégias defensivas ........................... 65 Os sinais indiretos do medo: a ideologia ocupacional defensiva........................................ 11 O século XIX e a luta pela sobrevivência............................ 18 Terceiro período: após 1968 .............................................................................. 73 ■ A ansiedade e as relações de trabalho.................

.... 97 \ A exploração da ansiedade......................................................... 159 Entrevista .................................. ....................................................... 119 A doença mental................................................... 96 / A exploração da frustração.............................................................................................. 141 Bibliografia .................................... 133 Anexo: A metodologia em psicopatologia do trabalho ................................................. 122 A doença somática ...... 80 Capítulo 5 — A exploração do sofrimento ...................................................................Capítulo 4— Um contra-exemplo: a aviação de caça .......................................................................................................... I 164 ................................................................................................................................. 126 Conclusões ................. 104 Capítulo 6 — A organização dó trabalho e a doença ..........

mas sim todos os trabalhadores. Em várias regiões do Brasil formaram-se grupos de estudo informais para ler e discutir o livro. Este livro faz avançar uma disciplina que tem permanecido até agora muito embrionária: a psicopatologia do trabalho. "um estado compatível com a normalidade mas que implica numa série de mecanismos de regulação". . administração e até engenharia de produção. tradução de "Travail. Todo este trabalho de divulgação deu frutos. Várias teses de mestrado e doutorado brasileiras apoiaram-se na abordagem de psicopatologia do trabalho de Dejours. "A Loucura do Trabalho" passou a ser uma referência básica. _O mais estimulante no trabalho de Dejours é exatamente a questão que ele se propõe a responder: como fazem os trabalhadores para resistir aos ataques ao seu funcionamento psíquico provocados pelo seu trabalho? O que fazem para não ficarem loucos? Com esta questão. o seu método de investigação e a forma pelo qual Dejours os trata.Apresentação A 5* edição brasileira de "A Loucura do Trabalho". medicina social. em 1987 e sua incansável e brilhante participação em inúmeras reuniões e debates acadêmicos e sindicais^ as entrevistas que concedeu a vários órgãos de imprensa. aliás. ou os trabalhadores por elas atingidos. Que. começou com a presença do autor aqui no Brasil para o lançamento da 1! edição. A receita deste sucesso está na reunião de três ingredientes básicos: o fascínio do tema abordado . nos escritórios e é submetida a pressões no seu dia a dia. amplia-se notavelmente o próprio objeto de estudo da psicopatologia do trabalho. a população real e "normal" que está nas fábricas. O objeto de estudo passa a ser. Não se trata de estudar as doenças mentais descompensadas.as relações entre trabalho e saúde mental -. não a loucura. psicologia. mas o sofrimento no trabalho. recomendada por professores das mais diversas áreas acadêmicas: sociologia. nas usinas. Usure Mentale" de Christophe Dejours é um atestado de sucesso.

a partir de um material empírico obtido através de um método de investigação também novo. as repartições de responsabilidade e os sistemas de controle. Leda Leal Ferreira Ergonomista 10 . Um assunto apaixonante que pode ser a chave para a compreensão de vários pontos ainda obscuros do comportamento humano. um estado de luta do sujeito contra forcas que o estio empurrando em direção à doença mental. Os conceitos que estão na base da teoria de psicopatologia do trabalho de Dejours foram elaborados e continuam sendo enriquecidos -por exemplo. Ele tem uma linguagem ao mesmo tempo precisa e sem tecnicismos que cativa os leitores. representada pelas hierarquias. a falta das quais pode representar uma insuportável violação do equilíbrio psíquico dos trabalhadores. a divisão das tarefas entre os operadores. É na organização do trabalho que devem ser procuradas estas forças. antes de tudo. aparece outro conceito base na teoria de Dejours: o papel da organização do trabalho. com os quais vem trabalhando mais recentemente . Ele tem o mérito fundamental de tratar corajosamente de um assunto que é ainda muito pouco explorado: as relações entre o trabalho e a vida psíquica. Quando a organização do trabalho entra em conflito com o funcionamento psíquico dos homens. ou de sofrimento criativo e sofrimento patogênico. os sujeitos criam estratégias defensivas para se proteger. numa relação de intersubjetividade entre eles e os pesquisadores. as noções de prazer no trabalho. Os conceitos e o método ganham uma coloração especial pelo modo como são expostos por Dejours. E ele esclarece que entende por organização do trabalho não só a divisão do trabalho. Implica.A noção de sofrimento é central para Dejours. como elas surgem e evoluem. e sobretudo. então emerge um sofrimento patogênico. os ritmos impostos e os modos operatórios prescritos mas também. Aí. isto é. Este método aparentemente simples. E este é o terceiro ponto da teoria de Dejours: explicar no que consistem estas estratégias. na realidade exige vários requisitos da parte dos pesquisadores e tem de seguir regras deontológicas bem estritas. Seus exemplos são eloqüentes. Mas como isto tudo é um processo dinâmico. "quando estão bloqueadas todas as possibilidades de adaptação entre a organização do trabalho e o desejo dos sujeitos". Tudo então se passará em torno da interpretação da fala e dos silêncios dos trabalhadores. "'A Loucura do Trabalho" é um livro que abre a cabeça para novas idéias e novas interpretações sobre o homem. a divisac dos homens para garantir esta divisão de tarefas. Trabalhadores e pesquisadores formam um grupo de trabalho com o objetivo explícito de entender as relações que podem eventualmente se estabelecer entre organização do trabalho e sofrimento psíquico.

no entanto. à Vivência alguns passos de vantagem sobre a Palavra.Introdução Falar da saúde é sempre difícil. na oficina. Como se. das fábricas. falaremos dos serviços públicos. no afron-lamento do homem com sua tarefa. da linha de produção. apesar de alguns trabalhos importantes dos anos 50 (57-59). definitivamente. Quando se conhece o desenvolvimento de que se . das telefonistas etc. na verdade. a critica social e levanta a questão explosiva das escolhas políticas. mais fácil: todo mundo o faz. ficou no estado embrionário. das indústrias de processo. poderíamos nos satisfazer com as inumeráveis descrições que foram dadas sobre a violência na fábrica. Em se tratando do trabalho. põe em perigo sua vida mental. por causa das paixões que ele desencandeia. sempre há o que descobrir neste domínio. a exemplo de Dante. Curioso paradoxo. infalivelmente. que dá. Apesar de tudo o que se pôde dizer e escrever sobre a infelicidade. cada um tivesse em si experiência suficiente para falar do inferno e nunca do paraíso. nós procuraremos divulgar aquilo que. no escritório. foram negligenciados até hoje pelos especialistas do homem no trabalho. assunto que suscita. para usar um truísmo. Sabe-se que a psicopatologia do trabalho. Assunto dentre os mais perigosos. tanto da parte dos trabalhadores quanto da parte dos dirigentes e dos especialistas. em contrapartida. Evocar o sofrimento e a doença é. Mais precisamente. para revelar certos sofrimentos que.

todos os sentimentos experimentados que escapam à observação chamada de "objetiva". da psiquiatria e da psicanálise. têm por objetivo encontrar. oporemos. tanto no espírito do público quanto nos meios de comunicação de massa. Num caso ou no outro. é notável o lugar privilegiado que essas disciplinas ocupam.. na dinâmica dos pequenos grupos. as estatísticas. ou um conselho de administração. Ao contrário. de uma vez por todas. o de evidenciar o que há de único. de um século para cá. a raiva. as observações quantitativas. ou o aumento das performances. a psicanálise de grupo e a psicossociologia. a três. E não de uma vivência operária que seria um denominador comum a todas as situações de trabalho. os questionários abertos ou fechados. toda a psicologia abstrata. Nós deixaremos de lado. É precisamente sobre a especificidade da vivência operária que queremos chamar a atenção. O campo da psicanálise é centrado sobre a vida de relação e. a economia dos gestos repetidos.. o dasein — para 12 . na literatura. em outras palavras. Evidentemente. essas disciplinas. os fantasmas. ou de'irredutível. no máximo. Olhando-se de perto.beneficiaram as ciências humanas. podemos nos espantar com a lentidão da psicopatologia do trabalho. O ponto de vista dinâmico. Seu objetivo não é. ou. mais precisamente.. Assim. Entretanto. a psicossociologia não procura apenas evidenciar os pontos comuns a todos os grupos. que sempre dariam conta das experiências concretas. há vários anos. a angústia. a emoção. na arte e na medicina. em conquistar seu lugar de distinção. num grupo de operários de uma fábrica automobilística em relação a um grupo de pessoas em férias. a vivência hic et nunc. Mais aceitável seria a interpretação que atribuiria o subdesenvolvimento da psicopatologia do trabalho ao superdesenvolvimento das disciplinas tradicionais. o amor. a própria vida mental. de aparição muito mais recente. jamais. sobre a vida a dois. e dos dramas. A primeira seria atribuí-lo à imaturidade da psicologia. no sentido de Politzer(86). a psicanálise é imprópria para dar conta das relações de trabalho. desejamos fazer com que apareçam vivências diferenciadas e irredutíveis umas às outras. deliberadamente. É inegável que a posição de destaque ocupada pela psicanálise não deixa de ocultar o que não pode ser articulado com sua teoria. as características postas em evidência pela análise dual. Podemos propor várias explicações para este fenômeno. os esquemas de padrões comportamentais. a essa asserção. que deixa à margem. as falhas do comportamento produtivo. na medida em que estas são regidas por regras que não se deixam reduzir ao jogo das relações chamadas de "objetais". o sonho.

Se a psicopatologia do trabalho não foi mais estudada. que aparecem disciplinas novas. pois as melhorias das condições de trabalho e de saúde foram raramente oferecidas graciosamente pelos parceiros sociais. as guerras. portanto. por fenômenos de ordem histórica. é sempre vencendo tais situações. A evolução das condições de vida e de trabalho e. durante as quais foram tomadas medidas especiais para proteger uma mãode-obra que se tornava preciosa.de saúde dos trabalhadores não pode ser dissociada do desenvolvimento das lutas e das reivindicações operárias em geral. antes de mais nada.retomar os autores existencialistas alemães — teráv prioridade. Além do mais. coiri dissemos. é porque as condições para seu crescimento ainda não estavam reunidas. psicossociologia e psicologia abstrata. que não retomaremos aqui. patrões e Estado. É apenas graças a uma leitura especializada da história que se podem enumerar os elementos necessários à reconstrução da história da'' frente pela saúde''. Esse ponto é de tal importância que não poderemos evitar voltar um pouco atrás e narrar "a história da saúde dos trabalhadores". onde o interesse econômico se reuniu momentaneamente ao dos trabalhadores. Assim. Mas não há a? nada de excepcional e. 13 . entenderemos não só a história dos operários.) "A história da saúde dos trabalhadores" aparece. pela psicanálise. como um subcapítulo da história popular. O campo potencial da psicopatologia do trabalho é ocupado. mas principalmente a história do movimento operário e da correlação de forças entre trabalhadores. Além de não conseguirem dar conta da unicidade do drama existencial vivido pelos trabalhadores. Por história. o subdesenvolvimento prolongado da psicopatologia do trabalho se explica. essas disciplinas fornecem um quadro de referências teóricas e conceituais que perturbam a elaboração de concepções diferentes. apesar de nem sempre conseguirmos escapar à tentação metapsicológica. ao contrário do que acontece agora. afinal. (Exceto em certos períodos. a "frente pela saúde" só progrediu graças a uma luta perpétua. assim.

freqüentemente. O salários são muito baixos e. insuficientes para assegurar o estritamente necessário. Villermé demonstra sem dificuldade que "a mortalidade cresce em razão inversa ao bem-estar". (11) Em vista de tal quadro. (29. Benoiston de Chateauneuf (ver in 98). é não morrer". A gravidade da situação se revela no serviço militar: "Em Amiens. e. para o operário. dramáticos por sua gravidade e número. não cabe falar de "saúde" em relação à classe operária do século XIX. pontecializam seus respectivos efeitos e criam condições de uma alta morbidade. independentemente da doença. comparável a uma doença contagiosa. pelo êxodo rural e pela concentração de novas populações urbanas. é preciso que seja assegurada a subsistência. Villermé (99). Nessa época. nos reportaremos aos autores de então. acusa riscos de sofrimento específico. Concebida como um flagelo. Penot (85). 72. o período de desenvolvimento do capitalismo industrial caracteriza-se pelo crescimento da produção. no espírito dos notáveis. nesta época. com freqüência. (50) No que concerne às condições de trabalho da época. a partir dos 7 anos (98). Os períodos de desemprego põem imediatamente em perigo a sobrevivência da família. e. ela é. pauperizandose. A luta pela saúde. de certa forma. Disso decorrem condições de vida que foram descritas em pesquisas como as de Parent du Chatelet (83). 91) A intensidade das exigências de trabalho e de vida ameaça a própria mão-de-obra que. que atinge correntemente 12.O século XIX e a luta pela sobrevivência Para o que nos interessa aqui. 14 . aos acidentes. a um pardieiro. promiscuidade. sobretudo. Antes. A moradia se reduz. Alguns elementos marcantes podem ser retidos. eram precisos 153 inscritos das classes privilegiadas para obter 100 homens aptos para o serviço militar. mas 383 nas classes pobres". Como sublinhamos (29). o emprego de crianças na produção industrial. esgotamento físico. 14 ou mesmo 16 horas por dia. identifica-se com a luta pela sobrevivência: "viver. subalimentação. de uma alta mortalidade e de uma longevidade formidavelmente reduzida (99). acidentes de trabalho. algumas vezes a partir dos 3 anos. por volta de 1830. mais freqüentemente. (11 p. a duração do trabalho. a resposta social ao perigo. O movimento higienista é. 43) Falta de higiene. Guépin (49). descrito na literatura da época sob o nome de miséria operária.

do direito e da razão". Ela faz sentir a necessidade das leis sanitárias. Não há nada de espantoso nessa situação. na ordem moral. Ela pode. às epidemias. enfim. As faltas e os crimes são as doenças da sociedade. numa época onde os movimentos sociais e sindicais são ainda limitados.a miséria assimilada a uma doença "permite a introdução da linguagem do isolamento. nesse domínio. Mas ela ainda tem pela frente um outro futuro. aos cabarés. a autoridade da ciência. de uma certa eficácia". ela deduz reflexões e conselhos que não deixam de influir na força e na riqueza dos Estados. ds erradicação da drenagem etc. da violência e da prostituição. promiscuidade e fome associam-se para criar condições favoráveis ao desenvolvimento da delinqüência. do regime dos soldados. miséria. que é preciso trabalhar para curar ou. às zo-onoses. se um papel importante for conferido à Academia de Ciências Morais e Políticas. do banditismo. aos hospícios. Ela se estende a tudo o que diz respeito às endemias. exercer uma grande influência na marcha do espírito humano. das profissões. aos presídios. A higiene designa os meios a serem postos em prática para preservai a saúde das classes privilegiadas e não a da classe operária. os fatos morais e políticos. aos cemitérios etc. as influências dos climas. É ela que observa as variedades. que é a arte de conservar a saúde dos homens em sociedade. Vê-se quanto. Eis como ela é definida pelos autores do primeiro número dos Annales: "â higiene pública. às inumações. os objetivos concernentes à restauração da ordem moral e da ordem social nas aglomerações operárias. resta por empreender e por realizar nesta parte da ciência. além das preocupações com saúde. enfim. Ela deve esclarecer o moralista. as oposições. Com efeito. por sua associação com a filosofia e a legislação. deve receber um grande desenvolvimento e fornecer numerosas aplicações ao aperfeiçoamento de nossas instituições. 15 . Da investigação dos hábitos. Ela deverá "restabelecer. E os meios de cura serão mais poderosos quando inspirarem seu modo de ação nas revelações do homem físico e intelectual e quando a fisiologia e a higiene emprestarem suas luzes à ciência do governo. apenas nesses limites. e concorrer para a nobre tarefa de diminuir o número de enfermidades sociais. de todas as nuanças de posições sociais. Questionar a religião e a família representa séria ameaça à ordem social. Ela trata da qualidade e da limpeza dos comestíveis e das bebidas. (98) Quando a burguesia perde sua credibilidade e sua imagem de >■**. que informa os meios da salubridade pública." (83) Este texto faz com que apareçam. aos hospitais. dos marinheiros. pelo menos diminuir.

aparece o movimento dos "grandes alienistas" (Esquirol.jyfojlej!]^^ positiva da atividade médicaLjí sobre ela que se apoia a resposta social à explosão da miséria operária. Higienistas. do atentado à propriedade privada. sobretudo. Seu papel será o de estudar a situação e propor soluções para restabelecer a ordem moral e. . Por outro lado. mais respeitáveis e mais neutros do que os patrões. Três correntes. uma força que pode derrotar o poder do empregador isolado. Os conflitos entre trabalhadores e empregadores eram. no qual o Estado aparece como ator estratégico. unicamente. O patrão era livre para escolher as soluções que quisessse e. o movimento das ciências morais e políticas e o movimento dos grandes alienistas. a organização dos operários confere. O desenTOMmentij. a autoridade da família. e que reencontraremos. para reprimir uma greve. Orfila etc) suscitado pela curiosidade pelos fenômenos insólitos. etapa necessária para a formação de operários disciplinados. até aí. regulados localmente. O médico faz sua entrada triunfal no arsenal do controle social. é preciso encontrar novas soluções. e. sob a imagem do "trabalhosocial". nos movimentos de luta e no desenvolvimento de uma ideologia operária revolucionária. Paralelamente ao "movimento" das Ciências Morais e Políticas. onde o Estado é depositário de uma missão mais importante. Mas a medicalização do controle social não seria suficiente. O Estado torna-se o árbitro necessário. Pinei. o representante do Estado agia em nome. A este segundo perigo é dada uma resposta específica: a repressão estatal. Inicia-se então um movimento complexo. enquanto uma outra forma de atentado à ordem moral e social vai ganhar corpo na solidariedade operaria. quando apelava para a polícia ou para o exército. portanto: o movimento higienista. apela-se para os especialistas e cientistas. mais tarde.d^Jiigjejie^js^ejco^ejtaijie PasiejirJ_uj3ij3Quco___ maisTãraeTasjjÊSQuisas em ps^a^mtria.cunho humanista. Mas o desenvolvimento do movimento operário conduz a greves mais amplas. O Estado é chamado a intervir cada vez mais freqüentemente. moralistas e alienistas só podem responder ao desvio. onde os médicos ocupam uma posição de destaque. por sua amplitude. devido ao seu comportamento em relação à classe operária. de fato. forjando um utensílio que terá grandes destinos. ao movimento de revolta. constituídos pelos "desvios" e atentados individuais à ordem social. é aos próprios operários que se devem as principais melhorias materiais da condição operária. Frente à amplitude do movimento de organização da classe operária. 16 .

esperar dez. balhps particularmente penqso&rNaos^uais não se terá mais o direito^. Ajpressãp retorna. sob diferente^ formas: o limite de idade abaixo do qual as crianças nScíterãii^ mãislo direito de serem postas a trabalhar. principalmente a partir da Comuna. As discussões governamentais serão intermináveis. As conquistas serão. vinte e três anos para a jornada de 8 horas nas minas (1890-1913) (8). cobrir todo o século XIX: a redução da jornada de trabalho. não haverá praticamente nenhum progresso na limitação do tempo de trabalho. durante quase 50 anos. onze anos para a lei sobre a higiene e a segurança (1882-1893). vê-se emergir uma palavra de ordem que vai. das associações. questionadas por leis que voltam ao statu quo ante por inumeráveis derrogações e por recusas de aplicação.Laliberdade de organização. a duração do trabalho propriamente dito. A aparição das câmaras sindicais. Nove anos para a supressão da caderneta operária (1881-1890). vinte e cinco anos para a jornada de 8 horas (1894-1919). Sob o Segundo Império. progressivamente. Compreende-se facilmente que asJutas operáriasjie_s_te período histórico tenham essencialmente dois objetivos: o diteitp à vida (ou à~~ sobrevivência) e a construção çLo instrumento necessário à sua corr^ /. muitas vezes. em sua tutela patronal. os tra£^. 3e_subjneler certas pessqas^o^rgpojiso semanal^_. Só a partir do fim do século são obtidas leis sociais pertinentes. com freqüência. por assim dizer. especificamente. quarenta anos para a jornada de 10 horas (1879-1919). a proteção das mulheres. Apesar dos verdadeiros discursos de defesa de Villermé.qiusia. As lutas operárias marcarão todo o século. quinze anos para a lei sobre acidentes de trabalho (1883-1898) (11 p. nas minas. em seguida. No que concerne ão que se poderia chamar de "pré-história da saúde dos trabalhadores". 93). o debate está praticamente fechado. vinte anos. Entre um projeto de lei e sua votação é preciso. permitindo ao Estado tornar-se autônomo. não sem resistência da parte desta última (90). ó trabalho noturno. 1898: lei sobre os acidentes de tra17 .Concentrações operárias criadas em funçAo das necessidades da produção emergem das novas relações sociais. treze anos para o projeto de lei sobre a redução do tempo de trabalho das mulheres e crianças (1879-1892). As reivindicações operárias chegam a um nível propriamente político. 1893: lei sobre a higiene e a segurança dos trabalhadores da indústria (61). à saúde dos trabalhadores: 1890: criação. de delegados de segurança. vinte e sete anos para o repouso semanal (1879-1906). das federações nacionais e dos partidos políticos dá ao movimento operário uma dimensão significativa.

Nova tecnologia de submissão. prevenir as doenças profissionais e as intoxicações por produtos industriais. de disciplina do corpo. esse é o eixo em torno do qual se desenvolvem as lutas na frente pela saúde. dizem os sindicatos. 1910: apo-" sentadoria para o conjunto dos trabalhadores após 65 anos ("aposentadoria para os mortos". Sendo. Da Primeira Guerra Mundial a 1968 A partir de então. concernente a suas conseqüências sobre a saúde mental. a reinserção dos inválidos na produção. o movimento operário adquiriu bases sólidas e atingiu a dimensão de uma força política que iria crescendo no tabuleiro de xadrez das relações de força. as experiências insólitas de redução da ^i duração de trabalho nas indústrias de armamento. focalizaremos sobretudo o / salto qualitativo na produção industrial. O desfalque. Entre elas se manifesta uma frente específica. re-1 sultante do número de mortos e feridos de guerra. a organização científica do 18 . assim mesmo. q esforço de produção para / as necessidades da guerra. poder-se-ia dizer que a organização dos trabalhadores traduziu-se na conquista primordial do direito de viver. ainda hoje.balho e sua indenização. Para esquematizar. o taylorismo será objeto de um estudo particular. os esforços da reconstrução. j Por que tomar a guerra de 14-18 como (Jata de referência? Entre \ os elementos que presidem esta escolha. assegurar aos trabalhadores cuidados e tratamentos convenientes. Salvar o corpo dos acidentes. é preciso assinalar as repercussões do sistema Taylor na saúde do corpo. mesmo se as condições de existência estavam longe de serem unificadas para o conjunto da classe operária. especialmente no setor terciário. Mas. que concerne à proteção da saúde. A partir daí. 1905: aposentadoria dos mineiros. Há um vasto programa. jà que nesta época apenas 15 % dos franceses atingem essa idade). no reservatório de \ mão-de-obra. Um lugar particular deve ser dedicado à introdução do taylorismo. podem aparecer reivindicações mais diversificadas. formam as condições de uma reviravolta na relação (jjojnem-trabalho. onde a proteção do corpo é a preocupação dominante. uma modalidade de organização do trabalho que continua ganhando terreno. dos quais se beneficiavam até então sobretudo as classes abastadas.

ou que corre o risco de tornar-se doente. adequação não dissociada pela inércia do tempo que passa. entregue. e do papel do Estado como interlocutor privilegiado. a empresa-piloto das vitórias operárias. à injunção da organização do trabalho. As performances exigidas são absolutamente novas. Em razão do desenvolvimento do movimento operário a nível nacional. É. muito mais facilmente do que no período precedente. ao engenheiro de produção e à direção hierarquizada do comando. nas empresas isoladas. que substituirão a proteção natural do "instinto de conservação". Às vezes consegue. corpo fragilizado pela privação de seu protetor natural. Corpo sem defesa.trabalho gera exigências fisiológicas até então desconhecidas. a ligação de causa e efeito entre tal luta operária e tal lei social. que se tornará. Ao separar. onde os trabalhadores são suficientemente numerosos (grandes empresas). por exemplo. portanto. O esgotamento físico não concerne somente aos trabalhadores braçais. pode-se encontrar. Ao contrário. o movimento operário não é ainda capaz de controlar sua aplicação por toda parte. quando a proporção de trabalhadores estrangeiros é importante. Não há nada de espantoso. onde os efetivos são pouco numerosos e pouco sindicalizados. mas muitas vezes leva a um aumento das diferenças. ti. ao mesmo tempo em que se perfila uma diversificação das condições de trabalho e de saúde. que é o aparelho mental. onde ele é mais poderoso. nas regiões pouco industrializadas. mas sobretudo o corpo dócil e disciplinado. o trabalho intelectual do trabalho manual. e fazem com que o corpo apareça como principal ponto de impacto dos prejuízos do trabalho. isto é. no surgimento de lutas enérgicas para arrancar leis. corpo explorado. nessas condições. progressivamente. não é o aparelho psíquico que aparece como primeira vitima do sistema. Deste modo. as condições de trabalho são incomparavelmente piores do que nas grandes empresas. *™ 19 . sobretudo. Apesar da votação de leis de caráter geral. O movimento operário tenta obter melhorias da relação saúde-trabalho e mudanças aplicáveis ao conjunto dos trabalhadores. como a empresa Renault. Corpo doente. especialmente as exigências de tempo e ritmo de trabalho. radicalmente. onde o trabalho tem um valor econômico estratégico (setores de ponta ou centros vitais da economia nacional) que a evolução da relação saúde-trabalho é mais rápida. definitivamente relegado à categoria de instrumento inútil. o sistema Taylor neutraliza a atividade mental dos operários. A partir da guerra. sem obstáculos. mas ao conjunto dos operários da produção de massa. etapas importantes vão ser transpostas.

A guerra favorece as iniciativas em favor da proteção de uma mão-de-obra gravemente desfalcada pelas necessidades do front. Os principais progressos cristalizam-se em torno da jornada de trabalho» da medicina do trabalho e da indenização das anomalias contraídas no trabalho: Albert Thomas, em 1916, reduz a jornada de trabalho para 8 horas por dia e constata o efeito paradoxal desta medida, sobre a produção... que aumenta! A lei de 1898 sobre os acidentes de trabalho previa a criação de ambulatórios de fábricas a cargo dos seguros privados. Os decretos de 1913 levam certas empresas a organizar exames pré-admissionais e de controle, em período de trabalho. Em 1915, aparecem as bases de uma verdadeira medicina do trabalho, com a inspeção médica das fábricas de guerra, organizada por A. Thomas (61). Após a Grande Guerra essa tendência acentua-se, com a institucionalização da medicina do trabalho em certos setores, especialmente nas minas, enquanto certos empregadores contratam um médico, a título individual, para fazer seleção na contratação, e para se protegerem de certos riscos que, a partir de então, estão ligados a penalidades financeiras (indenizações, etc) (61). Pouco a pouco, elabora-se uma doutrina implícita da medicina do trabalho. No que concerne à indenização das doenças e aos cuidados com os doentes, é sobretudo no fim da guerra que leis importantes são votadas: reconhecimento das doenças profissionais, em 1919; criação de uma.comissão de higiene industrial, em outubro de 1919; criação de um comitê consultivo de seguros contra os acidentes de trabalho. Uma tendência aparece, a partir da lei de 1903, em favor da atenuação dos perigos e da insalubridade, isto é, da supressão das causas de acidente e de doença. Ela só ganhará corpo, verdadeiramente, na lei de 1919, modificada em 1951, que prevê que as máquinas ou partes de máquinas perigosas, para as quais existam dispositivos de proteção de eficácia reconhecida, não possam ser desprovidas destes dispositivos. (61) Após este período, fecundo para a melhoria da relação saúde-tra-balho, não haverá progresso significativo até o Front Populaire, que dá momentaneamente vantagem aos operários. A semana de 40 horas é votada em 1936, assim com as férias pagas, e os acordos Matignon instituem as convenções coletivas e os delegados de pessoal, reconhecendo o direito à livre adesão aos sindicatos e o direito à greve, Pode-se dizer que em 1936 as condições de trabalho tornam-se 20

reaimente um tema específico do movimento operário, mesmo se a fórmula só veio à moda mais recentemente, aliás com um conteúdo um poucu diferente. A última onda de medidas sociais relativas à saúde dos trabalhadores data da Segunda Guerra Mundial .e resulta da relação de forças recém-conquistada na Resistência O programa da Resistência, parcialmente aplicado, faz nascerem novas esperanças, com a institucionalização da Medicina do Trabalho (1946), da Previdência Social (1945), dos Comitês de Higiene e de Segurança (1947). Durante todo esse período, que começa em 1944, o movimento operário continua a desenvolver sua ação para a melhoria das condições de vida (duração do trabalho, férias, aposentadorias, salários) mas, simultaneamente, se destaca uma frente própria, concernente à saúde. Olhando-se de perto, as palavras de ordem neste domínio concernem à prevenção de acidentes, a luta contra as doenças, ao direito aos cuidados médicos, isto é, à saúde do corpo. Pode-se dizer que esse segundo período da "história da saúde dos trabalhadores" caracteriza-se pela revelação do corpo como ponto de impacto da exploração. Essa noção é fundamental, na medida em que leva as análises, tanto provenientes dos sindicatos quanto dos especialistas, a se preocuparem com um aspecto da saúde que consideramos, hoje em dia, indevidamente limitado. O alvo da exploração seria o corpo, e só o corpo. Também as análises econômicas críticas do sistema capitalista argumentam suas teses sobre a exploração a partir do corpo lesado, do corpo doente, da mortalidade crescente dos operários em relação ao resto da população. A proposição é exata, e seria um erro pô-la em dúvida. Mas é muito limitada. Como se os mecanismos invisíveis da exploração exigissem, para serem evidenciados, uma demonstração dos seus efeitos visíveis no corpo. Estamos talvez autorizados, hoje, a revisar o ponto de vista segundo o qual a exploração teria por alvo, diretamente, o corpo. E a inverter a problemática, insistindo nas mediações em jogo no exercício das exigências corporais. Tudo se daria como se as condições de trabalho nocivas só atingissem o corpo após tê-lo submetido, domes-ticado e adestrado como a um cavalo de tração. Docilidade que, como vamos ver, depende de uma estratégia inicialmente concernente ao aparelho mental, para dele anular as resistências que ele opõe, espontaneamente, à exploração. Seja como for, se o corpo aparece durante este período da história como primeira vítima do trabalho industrial, resta saber o que lhe é especificamente prejudicial. A periculosidade das máquinas, os produtos industriais, os gases 21

e os vapores, as poeiiab tóxicas, os parasitas, os vírus e as bactérias são, progressivamente, designados e estigmatizados como causa do sofrimento físico. De 1914 a 1968, é progressivamente o tema das condições de trabalho que se depreende das reivindicações operárias na frente pela saúde. A luta pela sobrevivência deu lugar à luta pela saúde do corpo. A palavra de ordem da redução da jornada de trabalho deu lugar à luta pela melhoria das condições de trabalho, pela Segurança, pela Higiene e pela Prevenção de doenças. "Melhoria das condições de trabalho!" Palavra de ordem que chegou à maturidade em 1968; revelação, denominação, formulação tardia do tema que, no entanto, já animara durante cinqüenta anos todas as lutas operárias na frente pela saúde. Não há nada de surpreendente nisso, como mostram muitos outros fatos históricos, que falam de coisas quando elas já estão ultrapassadas, quando já se desenha uma nova etapa: neste caso, as lutas pela proteção da saúde' mental. Miséria operária, luta pela sobrevivência, redução da jornada de trabalho, corrente das ciências morais e políticas, corrente higienista e corrente alienista deram lugar, respectivamente, ao corpo doente, à luta pela saúde, à melhoria das condições de trabalho, e à corrente contemporânea da medicina do trabalho, da fisiologia do trabalho e da ergonomia. li Ü Terceiro período: após 1968 O desenvolvimento desigual das forças produtivas, das ciências, das técnicas, das máquinas, do processo de trabalho, da organização e das condições de trabalho culmina numa situação muito heterogênea para que se possa fazer uma análise global da relação saúde-trabalho. No centro deste mosaico de fenômenos diversificados, só se pode reconhecer um novo material e tendências que ampliam a problemática tradicional das questões da saúde. Nós designamos aqui & saúde mental. Apesar da existência de uma literatura, a bem dizer restrita, de psicopatologia do trabalho (Girardon Amiel - Sivadon - Veil - Leroy...) é preciso reconhecer que o conflito que opõe o trabalho à vida mental é um território quase desconhecido. É verdade que os especialistas do homem no trabalho se concentraram, em matéria de psicologia, em definir métodos de seleção psicológica. Especialistas do homem, sua atividade, que entretanto é bem real, se desdobra fora das questões de saúde mental. 22

A reestruturação das tarefas. o sofrimento psíquico permanece praticamente não analisado. no terreno do controle social. faz nascerem amplas discussões sobre o objetivo do trabalho. onde o sistema Taylor é denunciado como desumanizante e acusado de todos os vícios.)' 23 . como alternativa para a O. que cresceu com a desilusão do após-guerra e se O. como mostraremos mais adiante. testemunha preocupações aparecidas com a nova onda". o absenteísmo. onde as greves. a sabotagem da produção e a "alergia ao trabalho" (89) levam a procurar soluções alternativas. No terreno ideológico. enfim. mesmo se sua elaboração continua balbuciante.C. efetivamente. como a de processo e a indústria nuclear. P«H' silêncio é testemunha da dificuldade do movimento operário em levai. sobre a relação homem-tarefa. a discussão sobre um terreno que é particularmente complexo. Denunciado de maneira exageradamente estereotipada. A primeira diz respeito ao esgotamento do sistema Taylor. o desperdício. a rotatividade. as operações padrão. Em seguida.T.T. do T. (N. Reputadas como isentas de exigências físicas graves. A "crise de civilização". A sensibilidade às cargas intelectuais e psicossensoriais de trabalho preparam o terreno para as preocupações com a saúde mental. principalmente pelos operários. mas também por uma parte do patronato. Para este fenômeno podemos encontrar várias razões. as tarefas de escritório tornam-se cada vez mais numerosas. O desenvolvimento destas indústrias confronta os operários a novas condições de trabalho e fazem-nos descobrir sofrimentos insuspeitos. de uns anos para cá. — Organização Científica do Trabalho.C.* (96). na medida do desenvolvimento do setor terciário. etc).C. nuclear. Hoje em dia. cimenteiras. dos trabalhadores do setor terciário e das novas indústrias. é assim que se designa uma série de contestações da sociedade. onde este sistema organizacional não garante mais sua superioridade. e acentua a dimensão mental do trabalho industrial. as paralisações de produção. Primeiramente. que são operadores das indústrias de processo (petroquímica. sente-se por todas as partes uma nova força: a luta operária pela saúde mental está hoje iniciada. no terreno econômico. A isso é preciso somar as vozes dos operários de linha de produção. sobre a inexistência de greve nas fábricas que adotaram a O.Do lado dos trabalhadores. E entretanto. o discurso operário não é mais prolixo sobre este assunto. estamos longe das afirmações de Taylor.T. O mesmo se dá com os operários que têm uma fraca carga física.

por parte do patronato. nem mesmo os trabalhadores. As greves selvagens confirmam a escolha de 1968 como referência histórica. inclusive pelos estudantes. exprimiam este tema nos muros da capital. o exercício maciço das práticas psicote-rapêuticas nas escolas. é primeiramente em razão do desencadeamento verbal ocorrido durante os acontecimentos de maio de 68. são testemunhas de uma nova procura. A perda de confiança na capacidade da sociedade industrial em trazer a felicidade. o mundo do trabalho. sobretudo. Numerosas publicações confirmam que esta data marca o reconhecimento. dot período atual. e que diz respeito tanto aos filhos da burguesia quanto aos da classe operária.31. o prazer de viver. 3. Simultaneamente. Maio de 68 é também a referência utilizada. acabam numa contestação do modo de vida como um todo. deveria emergir o tema da relação saúde mental-trabalho. A "libertação da palavra": se 1968 aparece como uma data representativa na história da relação saúdetrabalho. onde interessa. Elas rompem a tradição reivindicativa e marcam a eclosão de temas novos: "mudar a vida". temas privilegiados da "crise de civilização". da necessidade de levar em conta as reivindicações qualitativas da classe operária (2. pelo patronato e pelo Estado. o desenvolvimento de um inegável cinismo. provavelmente. maio de 68 é uma referência fundamental. na publicidade e no marketing. que tende a atenuar todas as reivindicações qualitativas. que mergulha o patronato e o Estado numa verdadeira confusão. o trabalho foi reconhecido como causa principal da alienação. a nível dos órgãoi dirigentes. muitas vezes. Passada à força nos meios de comunicação de massas. as prisões e todas as instituições. (30-80) O avanço da psiquiatria. A droga e as toxicomanias. representam um papel na formulação das dificuldades existenciais sentidas. palavra de ordem fundamentalmente original. para designar as novas tendências nos conflitos sociais. No centro do discurso de maio de 68 encontramos a luta contra a sociedade de consumo e contra a alienação. Estes diferentes elementos concorrem para fazer pensar que.52. em escala das massas. hoje em dia.ampliou com a contestação da "sociedade de consumo". pelo menos até a atual crise econômica. Do relatório patronal de 1972 ao relatório Sudreau (94). dificilmente redutível.88). em segundo I 24 . é preciso lembrar. Milhares de cartazes. pnmeiro como tema de reflexão das organizações operárias. Greves selvagens e greves de operários não-qualificados eclodem espontaneamente. no cinema. à margem das iniciativas sindicais. a psicologia não poupa mais ninguém.

"mudar a vida" atacam diretamente a organização do trabalho. estatísticas. Quanto ao sofrimento mental. . altitude etc). no trabalho. em psicopatologia do trabalho. ambiente químico (produtos manipulados. e as características antropométricas do posto de trabalho. é acusado como fonte específica de nocividade para vida mental. pode-se perguntar o quê. o conteúdo da tarefa (na medida em que ele dela deriva). * fjtr A psicopatologia do trabalho Geralmente. tste tema está efetivamente presente há uma década-. as modalidades de comando. a exemplo do que se pode observar sobve as condições de trabalho com a medicina do trabalho eaergonomia. simplesmente. cadências e comportamentos produtivos. sem intermediário. ocupado — do mesmo modo Que um inimigo ocupa um país — pelos atos impostos: movimentos. A luta pela saúde do corpo conduzia à denúncia das condições de trabalho. gestos. a vontade e o desejo dos trabalhadores e o comando do patrão. E na contracorrente desta inspiração. Seu caráter qualitativo não pode ser traduzido. as condições de higiene. bactérias. fumaças etc). Por organização do trabalho designamos a divisão do trabalho. de segurança. poeiras. questionários abertos ou fechados. que se coloca esta pesquisa. barulho. pressão. ele resulta da organização do trabalho. vapores e gases tóxicos. vibração. parasitas. todavia. em termos de custo ou de itens orçamentários. o ambiente biológico (vírus. antes de tudo. A luta pela sobrevivência condenava a duração excessiva do trabalho.como objeto de trabalhos científicos. concretizado pela organização do trabalho. as questões de responsabilidade etc. as relações de poder. irradiação. A questão é de uma importância crucial. 25 . A partir de então se confrontam.e. números e quantificações devem ser abandonados por não serem capazes de dar conta do processo. ambiente físico (temperatura. Testes. pesquisas. Seu objetivo é o de explicar o campo não-comportamental. "abaixo a separação trabalho intelectualtrabalho manual". acentuam-se os comportamentos humanos. ritmos. aparentada do behaviorisrho. o sistema hierárquico. Por condição de trabalho é preciso entender. fungos). Palavras de ordem como "abaixo as cadências infernais".

possuir luzes. Projeto temerário. qualifica uma orientação na direção do prazer. é preciso ir à sua procura. desencadear a tempestade. mas um padrão comportamental que contém uma tentativa de transformar a realidade circundante conforme os desejos próprios do sujeito. Nosso projeto diz respeito à elucidação do trajeto que vai do comportamento livre ao comportamento estereotipado. As relações de um e de outro são primeiramente de dominação. mais que um estado.A física gestual e comportamental do "operârio-massa" (18) está para sua personalidade assim como o aparelho administrativo do ocupante está para as estruturas do país invadido. operação mais difícil do que a observação direta de um comportamento abertamente patológico ou desadaptado. ocupados que estão em seus esforços para garantir a produção. Para conhecê-la. em psiquiatria. De nossa parte. Revelar as aspirações não é nosso projeto. de anulação dos "comportamentos livres". isto é. e depois de ocultação. alucinações. nesse caso. Por comportamento livre nós não entendemos a liberdade metafísica. Dominação da vida mental do operário pela organização do trabalho. E. sobre essas coisas. Ocultação e coarctação de seus desejos no esconderijo secreto de uma clandestinidade imposta. A anulação é muda e invisível. impulsões). aquecendo os desejos hibernados. 26 . descobrir o sofrimento operário. nem mesmo iraduzir-lhes o conteúdo. Livre. talvez. o processo de exclusão do desejo se faz sem prejuízo para o operário? Tem-se o costume. de apoiar a descrição do louco em seus comportamentos aberrantes e prolíficos (delírio. A questão fundamental aqui colocada diz respeito à localização do processo de anulação de um comportamento livre. nós tentaremos desalojar o sofrimento no que ele tem de empobrecedor. mas também mal conhecido pelos próprios operários. Esta é tarefa do militante político que pretende. O comportamento produtivo estereotipado do operário-massa não ocupa o lugar de um comportamento livre? Comportamento livre que podemos perceber em outros trabalhadores ou em operários libertos da organização autoritária do trabalho. não somente desconhecido fora da fábrica. e quer.

as E EDUCAÇÃO . as contradições aparecem ainda mais gritantes do que em qualquer outro lugar. geralmente jogados na periferia das grandes cidades.. por exemplo. Esta população não se caracteriza pela participação comum em uma mesma tarefa industrial. A miséria "descrita pelos acadêmicos do século XIX". As "ideologias defensivas" (o caso do subproletariado) O subproletariado de que vamos falar é aquele que habita as zonas periurbanas. Não se trata de desDE CIÊNCIAS H(. Mas da fração da população que ocupa as favelas ou os cortiços.As estratégias defensivas 1. Não se trata aqui de uma classe social no sentido que os homens políticos italianos.'M>. traduz antes de tudo o pensamento social dominante na época. a miséria operária concebida como uma doença epidêmica (13). Por isso. que nós descrevemos sob o nome de '(ideologia defensiva") O que vai prender nossa atenção é a vivência ctessa populaçao-em relação a saúde. se procedemos desta maneira é porque. Entretanto. poderia parecer insólito tomá-la como exemplo num estudo de psicopatologia do trabalho. Ao contrário. mas não dá conta da vivência partilhada pelos homens do subproletariado. pode-se ver então-trm ceno tipe-fte defesa. mais precisamente em relação à doença. O sofrimento aí aparece maciço e evidente. entendem. nesse universo do subúrbio. Mas sua natureza pede para ser decifrada. o que a une é mais o não-trabalho e o subemprego. Mais do que em outros lugares.

de uma menor eficácia das técnicas médico-cirúrgicas sobre uma população que não pode aproveitar delas como o resto da população. os casais são freqüentemente separados.*. podemos citar a incidência importante de doenças infecciosas. Pode-se notar também a importância das seqüelas de acidentes e doenças: elas são testemunhas de tratamentos mal conduzidos ou incompletos e. e a estrutura familiar é. quando fizermos referência aos importantes trabalhos publicados pelo Dr. no conjunto. — Habitation a Loyer Moderée. logo. Elas so serão lembradas como informação. as carroças e os H.L. 20% estão abaixo de dois desvios-padrão. às vezes. e da tuberculose. Como veremos. particularmente nas crianças. com um atraso de crescimento que chega às vezes a —14% (limite do nanismo).M. a promiscuidade favorece a transmissão de doenças infecciosas. se 80% das crianças estão nos limites de dois desviospadrão quanto ao desenvolvimento de estatura e peso (contra 95% na região parisiense). a maior parte do orçamento familiar. do T. Galland (44). depósitos de lixo caseiro) formam também condições favoráveis à doença e às contaminações coletivas. A pobreza dos meios sanitários (canalizações. muitas doenças continuam desconhecidas ou escondidas. aliás. esgotos. pouco escolarizados. aos cuidados pós-operatórios e à reeducação fisioterápica. banheiros. formam muitas vezes os futuros contingentes de marginais e. mora em conjuntos que ficam no meio termo entre a favela. 60% se encontram na camada inferior. A título de exemplo significativo. Mais significativo ainda é o fato notório de que. quebrada. O alcoolismo é freqüente.L M. A estrutura familiar caracteriza-se pelo grande número de filhos: a maioria das famílias tem de 8 a 10 filhos. (N.) 28 . que continua a ser ainda um flagelo na população adulta. mas por razões de ordem material (impossibilidade de acesso às convalescenças. à assistência médica subseqüente a uma doença grave ou um acidente). há um deslocamento global *H. um dia alguns conhecem a prisão. e a maior parte da morbidade continua mal conhecida. Conjuntos habitacionais populares. a carne é rara. Esies trabalhos mostram que o subproletariado é vítima de uma taxa de morbidez muito superior à da população em geral. poços d'água. Por outro lado. de La Gorce (47) e pelo Dr.decrever as condições reais de saúde. A comida è pobre. e a alimentação consome. de vários milhares de habitantes. Esta população. Os jovens. por razões de ordem não só sócioeconômica e cultural.

para baixo. A reticência maciça em falar da doença e do sofrimento. A associação entre doença e vaga29 . a atingir a vivência da doença. no entanto. acusação pelo grupo social no seu conjunto. e podemos ainda encontrá-las nos países do Terceiro Mundo e. emerge uma verdadeira concépçIcTdirdoença. concernentes à população masculina submetida ao exame de admissão ao serviço militar. Não se trata da culpa no sentido próprio que refletiria uma vivência individual. acusam esse cara de passividade"." Acusação cuja origem não se conhece claramente. é porque ele quer e porque ele cede à passividade. Tais observações lembram as descrições do século XIX. o subdesenvolvimento de estatura e de peso dessa população é particularmente significativo das más condições de saúde. que se confirma como vergonhosa: bastou uma doença ser evocada para que. e se ele se afunda mais na doença e no sofrimento. Maciçamente. entretanto. na América Latina. venham numerosas justificativas. mas não íeria o caso de pensar que os próprios pais tiveram seu desenvolvimento entravado pelas carências? O estudo das condições de vida parece bastante significaiivo. (47) Mais que a morbidade. com uma porcentagem inferior a -6 Poderíamos ser tentados a invocar fatores genéticos. dè~ãtguma torma. Quando se está doente. já que algumas destas crianças provêm de pais de pequena estatura. na maioria dos casos das crianças estudadas. se sente julgado pelos outros. "Quando a gente está doente. em particular de assistentes sociais e de enfermeiras). concentra uma população de vários milhares de indivíduos (inserção. Seja em relação à prática médica ou à pesquisa a respeito da saúde.nutricional devida tanto a fatores econômicos quanto a fatores culturais (hábitos alimentares). em particular."Concepção dominada pela acusação. de uma carência . Essa atitude em relação à doença pode ir muito longe: "Quando um cara está doente. às vezes. própria ao meio. como se fosse preciso se desculpar. tenta-se esconder o fato dos outros. nenhum médico instalado na região que. os meios de que dispõem essas populações são bastante rudimentares: pouco ou nenhum ambulatório local. e sim de um sentimento coletivo de vergonha: "Não é de propósito que a gente está doente". Do ponto de vista médico-sanitário. com efeito. é porque é preguiçoso". mas também da família e dos vizinhos. sempre difícil de ser avaliada (23). võTün-tana: se a gente está doente. de higiene e de educação."Toda doença sêfíã. em seguida. de vários trabalhadores sociais. E nós somos levados a pensar que o atraso da estatura observado provém. É somente após longas voltas que se chega. uma primeira observação se impõe de imediato.

Seria mais tolerável que uma mulher estivesse doente. Somente são reconhecidas aquelas que se exprimem por sintomas muito evidentes para serem escondidos: uma tosse com hemoptise. mantidas à distância pelo desprezo. um emagrecimento evidente. muitas infecções crônicas desconhecidas. às vezes. Sarar. de imediato. corrigir essa asseiváo. dizem. o trabalho das mulheres não é comparável ao que encontramos nas outras classes sociais e nem mesmo na classe operária. "Sarar esomente não sofrer. a gente não pode sarar". Não tanto por causa da vergonha experimentada face a um personagem de um outro mundo mas porque tem-se medo que ele descubra "um monte de coisas que a gente prefere não saber". Apesar de tudo. infalivelmente. a cura não deve ser compreendida como desaparecimento do processo patogênico. As mulheres. Uma nuança aparece. um enfraquecimento fisiológico que signifique uma síndrome deficitária grave. não se gosta de ir procurar o médico. ela nunca tem um sentido tão forte quanto aqui.' Seja que o sintoma de enfermidade desapareça ou que se consiga 30 . então o ânimo se abate e como se diz no subúrbio "quando a gente está sem ânimo. uma ruptura do trabalho profissional. mas essas doenças são. no caso das mulheres. no subúrbio. e voltaremos adiante sobre a sua "significação. para que se resigne a consultar um médico. Aqui. Pois. nota-se uma atitude um pouco mais flexível em relação à doença das crianças. é antes dejtudo_um problema de ânimo. controlá-la. o problema é domesticá-la. no subproletariado. não se trata de evitar a doença. viver com ela. para que se aceite ir ao hospital. É preciso compreender esta fórmula tomando-a palavra por palavra. tudo converge para a salvaguarda da vida da criança. caso se trate de um homem ou de uma mulher: "Um homem que está doente é realmente um vagabundo''. Se o médico mencionar. Podemos reencontrar esta mesma fórmula em outros lugares além do subproletariado. tudo é organizado. Mas uma noção implícita vem. de alguma maneira. Entretanto. Üm verdadeiro consenso social se depreende assim. Finalmente. são todas doentes. tudo é estruturado. por causa dos filhos. Cuidar de oito ou dez filhos nas condições materiais que foram citadas representa uma carga de trabalho e de angústia muito maior do que em qualquer outra parte. Quando se é mulher não se pode permitir estar doente. é preciso que a doença tenha atingido uma gravidade tal que ela impeça a continuidade seja da atividade profissional. contê-la. na medida em que isso não significasse. Aliás. Mas mesmo nestes casos. no julgamento. no caso dos homens. ao pé da letra. Para que uma doença seja reconhecida.bundagem è característica do meio. que : "vlsã à~con3êhar a doença e o doente. em seguida ao exame. seja das atividades domésticas e familiares.

pode-se considerar como sarado. muito mais prosaica. Para estes últimos. Freqüentemente. a doença eqüivale à paralisação do trabalho. Comprar medicamentos. Administra-se o tratamento com o bom-senso possível. logo: a dor de dentro é a dor do amor. supõe adiantar quantias algumas vezes importantes. o que mais se teme. O mais freqüente é oferecerem-se medicamentos que foram anteriormente prescritos para um outro filho. ao longo dos dias. Num grau "menor. apesar de tudo. Quando se está mal de saúde se diz: "Temos problemas". de fato. (N. isto é. mas não o do medicamento. É o caso extremo"■qliè~slTprÒcura~êvRàr"'cüTte_o que custãFTÉ isso siT compreende se peris~"ánríos"qüTã"hospifalízaçltoT.domesticar a dor. Adiantar o preço de uma consulta é possível." õTrãcassõ. Ir até o consultório do médico na cidade já representa um certo número de dificuldades materiais: está certo. Às vezes. não se gosta dos médicos: "Os doutores não escutam a gente. isso supõe. é o do dinheiro. das semanas. de alguma maneira. É preciso ir rápido. uma mulher nunca se afasta do lugar que eles "elegeram como domicílio". É assim que "a dor de dente é a dor do amor"*. da "vivência do sofrimento. Certas fórmulas de caráter proverbial têm ainda aqui uma função real que foi esquecida para não reter senão seu caráter humorístico ou poético. na prática. face à prática médica. restrições alimentares para toda a família até a hora do reembolso. é o ponto de irreversibílidade que marca a Brecha do sistema coletivo de defesa contra ¥ doença. Todo ato médico termina infalivelmente por uma receita.) 31 . Além do mais. Isto conduz às práticas médicas "selvagens". ou este dinheiro não está disponível. sobre a vida sexual e sobre as crianças. mas o que fazer dos oito ou nove outros durante este tempo? Esta realidade é tão forte que. é. ou se estiver. no subúrbio. levar um filho. se estaria mais inclinado a falar das doenças que atingem as mulheres do que das doenças que atingem os homens. Nós dissemos que. o ato médico acaba na consulta. Uma estadia no hospital é. Mas o verdadeiro problema. A gente tem a impressão de que eles não acreditam em nós". Um lugar à parte deve ser dedicado ao discurso sobre a mulher. de dent (de ciente) tem a mesma sonoridade de dedans (dentro). dos meses e dos anos. à vaga* Em francês. do T. a ruína de todo o sistema de contenção da doença. consultar um médico "consiste igualmente num non-sens. é com uma vizinha de relações privilegiadas que se decide pelo tratamento a ser dado a um filho. neste contexto.

Um dos caminhos pelos quais se desemboca no subúrbio é precisamente a família. O corpo só pode ser aceito no silêncio "dos órgãos". que termina no círculo vicioso da doença. "A gente não é mais útil. não há medicina do trabalho". freqüentemente de origem operária. como justificar cuidados ou tratamentos quando se atingiu a idade da "aposentadoria" do trabalho familiar? Com bastante freqüência. como se diz nesses lugares. alimentação. para as mulheres não há "paralisação do trabalho. Neste contexto. origem das condenações. Quando se fica sabendo que uma mulher espera um filho. dez. somente o corpo que trabalha. fonte de vergonha. escandalosa. Mas quando os filhos chegam. A gravidez. a família.'' A ideologia da vergonha: dessas atitudes e desses comportamentos em relação à doença. vê-se que é toda a vida sexual que é vergonhosa. Incapazes de enfrentar as despesas de moradia._Não sò~põrquFbs filhos não podem ficar sem os cui-Hãdos de suas mães mas também porque. tudo deve ser recoberto de silêncio. das despesas etc. para que pensar em si?" Quando esta missão social fundamental esfá cumprida. As famílias de oito. Seja a sexualidade. quando elas atingiram a idade de 40 ou 50 anos. doze filhos são freqüentes. Uma mulher grávida esconde dos outros seu estado o quanto ela pode. mais características ainda. os filhos ocupam o centro da vida da mãe. não há mais nenhuma justificativa para viver. é situada no mesmo registro que a doença. bastam alguns meses para levar a mulher a uma doença fatal. uma vez que os filhos cresceram. diz-se em cochicho: "Ela só sabe fazer isso. é levada a um processo implacável de marginalização pelo endividamento. dar à luz e fazer filhos". Além da própria gravidez. o corpo trabalhador da mulher são 32 . reprimida. a própria gravidez aparece como uma vergonha.bundagem. isto é. Mas. no subproletariado. podemos extrair duas características: a primeira diz respeito ao corpo. Se ainda teria sido justificável tratar-se quando havia filhos a educar. a gravidez ou a doença. após ter tirados os filhos das dificuldades^ após ter trabalhado toda sua vida para eles. todos os esforços são feitos em vista de assegurar seu desenvolvimento. Mais do que em qualquer outro meio. quando se tem muitos filhos. vestuário com um só salário (pois a mulher é inteiramente ocupada em cuidar dos filhos). Para a mulher a doença nâo pode autorizar aj?aralisacjip 3õlrãbaIho. o corpo produtivo do homem. são as atitudes em relação ao estado de gravidez. "A partir de uma certa idade. até proibida. a gente se deixa levar". "Chega uma hora em que a gente não terr mais vontade de sarar.

O corpo? Não exisie nem palavra nem linguagem para falar do corpo no subnroletariado. é preciso que haja uma dor. Um operário até então eficaz no seu trabalho sofre de uma doença crônica que o invalida ou das conseqüências de um acidente de trabalho." Quando esta dor torna-se insurpotável ou torna impossível o trabalho. é porque a gente está inventado história". é _som'o~se ele estivesse doente". os benefícios de invalidez concedidos não são suficientes para assegurar a sobrevivência da família. em si. neste sentido. Para o homem a doença corresponde sempre à ideologia da vergonha de parar de trabalhar. quando a gente chega a dor passa". E isso lembra bem o que foi dito anteriormente. para falar dele. sobre o medo de que o médico descubra efetivamente alguma coisa. um sinôJnimõde doença: "Quando ãlgüerncfiz para um cara que ele está muito ^lh bl l é i d ^glho para trabalhar ou que ele não é mais capaz de continuar. mais exatamente. Mas mesmo fora dessa situação. somente entào se decide consultar um médico mas "que falta de sorte. a tal ponto que i~7alti~dê~trabalho torna-se. aceitos quanto menos se tiver necessidade de falar deles. Para a mulher. exemplar. Nós dissemos que um dos modos de acesso ao subúrbio é uma família muito numerosa.aceitos. O outro mecanismo mais freqüente é o da doença ou do acidente. Não se sabe o que significa sentir-se bem no corpo. A atitude em reíaçâo à dor é. Homem ou mulher. a de estar doente ou. sempre existe um contingente de mão-de-obra subempregada marginalizado. Doençae trabalho! Estepar indissoluvelmente ligado guarda um conteúdo específico: a ideologia da vergonha erigida pelo subproleta33 . "A gente não conhece o corpo. uma Ideologia defensiva contra uma ansiedade precisa. logo. Então. às vezes começa o processo inelutável que conduz ao subproletariadó. todo estado anormal do corpo traz infalivelmente de volta a questão do trabalho ou do emprego. 5~"sègunda característica desses comportamentos relativos à doença diz respeito à relação existente entre doença e trabalho. O conjunto dessa população sofre q subemprego. Em primeira aná-lise^pode-se considerar que a vergonha instituida aqui como sistema constitui uma verdadeira ideologia elaborada coletivamente. são as gestações e as doenças que põem em questão o trabalho colossal da educação dos filhos e as cargas domésticas. tanto mais. particularmente crítico em período de crise econômica. que exagera a importância numérica dos habitantes do subúrbio. As compensações materiais. Mas é também uma auto-acusação. Vê-se que o trabalho atravessa profundamente a vivência da doença: doença-avesso-do-tra-jbajho. A vergonha transparece desta maneira: "se a dor passou. de estar num corpo incapaliltãdo.

Com efeito. Esta situação não é somente uma hipótese. fracassos isolados da ideologia da vergonha. não há lugar pai a a ansiedade face à doeüçã enquanto tal (o que não significa que tal angústia não exista!). Pode-se perguntar o que aconteceria se essa ideologia defensiva viesse a fracassar. a ansiedade relativa à sobrevivência transformar-se-ia em problema individual. não se encontra nunca. em razão da utilização rápida do 34 . Curar é trabalho do médico ou do especialista.A angústia contra a qual é dirigida a ideologia da vergonha não é a do sofrimento. a angústia que ele ataca é. e eventualmente avaliar seu custo social.riado não visa a doença enquanto tal. Além da doença. Ela está possivelmente oculta pela questão relativa à sobrevivência a exemplo do que foi descrito a propósitõlfo século XIX e da história da relação saúde-trabalho antes da guerra de 1914. a destruição do corpo enquanto força capaz de produzir trabalho. a doença ou à morte. como nós vimos. Aparecem então comportamentos individuais específicos: a principal saída frente à ansiedade concreta da morte é o alcoolismo. uma angústia específica relativa à saúde. conseqüentemente. Esta observação e importante na medida em que ela é praticamente específica do subproletariado e em que não a encontramos em nenhuma outra classse social. falta compreender como* ele funciona. nem mesmo no proletariado. o homem do subproletariado não pretende ter uma atitude terapêutica relativa ao processo patogênico Ele sabe que procura somente fazê-lo calar. por que ele é posto em jogo e em que consiste sua positividade. Função da ideologia defensiva: além da finalidade desse sistema defensivo. às vezes. no decurso do subproletariado. Quando as condições de sobrevivência são tão precárias quanto as que observamos no subproletariado ou nas populações dos países subdesenvolvidos. a ideologia da vergonha consiste em manter à distância o risco de afastamento do corpo ao trabalho e. O alcoolismo nesta situação corresponde a uma fuga em direção a uma decadência mais rápida e a um destino mental e somático particularmente grave. à miséria. que atinge um certo número de indivíduos. Mas o alcoolismo não reveste jamais uma forma nem coletiva nem "epidêmica". De coletiva. Vêem-se. Quando ele luta contra a dor. através da doença. O alcoolismo é uma saída individual e gravemente condenada pelo grupo social. da doença ou da morte. à subalimentação e à morte. mas a doença enquanto impedimento ao trabalho. quando ele tenta negar seu sofrimento. A doença é vivida como um fenômeno totalmente exterior resultante do destino e dependente da intervenção exterior: o médico. o hospital.

dinheiro que não permite mais assegurar uma alimentação conveniente. A segunda saida é representada pela emergência de atos de violência "anti-social", em geral desesperados e individuais. A terceira saída é a loucura com todas as formas de descompensação, psicóticas, caracteriais e depressivas. Enfim, sem poder usar estas diferentes "portas de saida", o risco é a morte. Mortalidade por subnutrição agravando a evolução de uma doença intercorrente. Nota-se, a esse respeito, a freqüência de mortes precoces nos jovens entre 35 e 50 anos (44). Confrontados individualmente ao perigo de não poder sobreviver por razões materiais, poucos resistem. O esforço material e econômico fornecido pelas famílias do subproletariado para sobreviver seria incompreensível se ele não fosse sustentado por um sistema mental muito sólido. Este sistema funciona porque é coletivamente elaborado e alimentado. Tal é a positividade da ideologia da vergonha. Resta apreciar seu custo. O silêncio que envolve as questões de saúde, doença, vida sexual, gravidez e medicina conduz esta população a agravar mais ainda os efeitos do precário sistema médico-sanitá-rio. Calar sobre a doença e o sofrimento leva, de maneira coerente, a recusar os cuidados, a evitar as consultas médicas, a temer as hospita-lizações. É assim que muitas pessoas do subproletariado poderiam beneficiar-se de proteções sociais tais como a gratuidade dos cuidados e as assistências gratuitas. Não é tanto por ignorância que os homens do subproletariado não se beneficiam com essas medidas. A presença de trabalhadores sociais seria suscetível de paliar esta dificuldade. Mas, pela própria experiência desses trabalhadores sociais vê-se que existe uma verdadeira resistência da parte do subproletariado em tomar ou mandar tomar as providências necessárias. Poder-se-ia, numa tal situação, acusar o subproletariado de complacência para com o sofrimento e a miséria. Mas não é possível, se se levar em conta a coerência necessária da ideologia da vergonha: manter a doença, a miséria e a fome à distância é também manter tudo o que pode lembrá-la, direta ou indiretamente, à distância. Assim, a aproximação de toda medida médico-sanitária ou de higiene reativa uma ansiedade fundamental, ansiedade esta que não é suscetível de ser acalmada. A partir do exemplo do subproletariado, podemos propor algumas características do que sei a uma ideologia defensiva. Em primeiro lujar> a ideologia defensiva funcional tem por objetivo mascarar, conter e ocultar uma ansiedade particularmente grave. Em segundo jugarreli nivel da ideologia defensiva, enquanto mecanisrricTde defesa jãbõrado por um grupo social particular, que devemos procurar JÍ

uma especificidade. Encontraremos, a respeito dos trabalhadores da ^construção civil, tais ideologias defensivas. Neste caso. os caracteres específicos deverão ser relacionados à natureza da organização do trabalho. No caso do subproletariado, não se pode falar em organização do trabalho enquanto tal. Seria mais uma questão de sub-emprego e de desemprego. A especificidade da_ ideologia defensiva da vergonha resulta, por um lado, da~natureza da ansiedade a conter e, por outro lado, da população que participa na sua vTaboração^, Em terceiro Tugar, o que caracteriza uma ideologia defensiva é o fato de ela ser dirigida não contra uma angustia proveniente de conflitos intra-psíquicos de natureza mental, e sim ler destinada a lutar contra um perigo e um risco reais. Em quarto lugar, aideologia defensiva, para ser operatória, deve obter ã participação de todos oTTnteres-sados. Aquele que não contribui ou que não partilha do conteúdo da ideologia é, cedo ou tarde, excluído. No caso da construção civil, é ser mandado embora do canteiro de obras; no caso do subproletariado, é o isolamento progressivo que conduz à morte nor intermédio das doenças físicas ou mentais. Em quinto lugar, uma ideo-logia defensiva, para ser funcional, deve ser dotada de uma certa coerência. O que supõe certos arranjos relativamente rígidos com a realidade. Daí os riscos que decorrem em conseqüências mais ou menos graves no plano prático e concreto (resistência às proteções médico-sanitárias, recusa da contracepção). Veremos, a propósito da construção civil, que o custo de elaboração do funcionamento da ideologia defensiva profissional ;é igualmente grande (resistência frente às campanhas de segurança). Em sexto lugar, a ideologia defensiva tem sempre um caráter vital, fundamental, necessário. Tão inevitável quanto a própria realidade, a ideolõgTa defensiva tor-^ na-se obrigatória. Ela substitui os mecanismos de defesãlndivíduais. Ela os torna impotentes ."Esta observação é de uma grande importância clínica na medida em que é a partir dela que se pode compre^" ender porque um indivíduo isolado de seu~grupo social se encontra ürutalménte desprovidoi 5ê~ defesas"fãce"5"'fèãMã'de ã"que ele é con-~ frontado. À participação na ideologia defensTvTcoletiva exige que õsí mecanismos He" defesa ajam em surdihãT mecanismos estes que só teriam razão de ser frente a conflitos de ordem mental, os quais só podem aparecer quando um ^domínio mínimo da fealidade^perigosa está assegurado. Nós veremos que todas essas características da ideologia da vergonha podem ser encontradas nas ideologias defensivas profissionais, seja dos trabalhadores da construção civil ou dos operadores das indústrias de processo. 36

I 2. Oj mecanismos de defesa individual contra a organização do trabalho: o exemplo do trabalho repetitivo. í de uma situarão totalmente diferente que vamos tratar agora: o trabalho repetitivo, seja na linha de produção, no trabalho por peças ou em certos trabalhos de escritório de informática, de seguro ou nos bancos. Trabalho "taylorizado" cuja organização é tão rígida que domina não somente a vida durante as horas de trabalho, mas invade igualmente, como vamos ver, o tempo fora do trabalho. Para introduzir o ponto de vista da psicopatologia neste domínio, não podemos evitar de retomar certos aspectos da Organização Cien-tífica do Trabalho concebida por Taylor. (96) Õ objetivo deste sistema, pode-se advinhar caso ainda não se saiba, é o aumento da produtividade. Taylor, que, durante seus estudos, teve uma aprendizagem de operário, formulava contra os operários a reprimenda de "vadiagem" (op. cít. pg. 230). A "vadiagem no local de trabalho" não eram tanto os momentos de repouso que se intercalavam no trabalho, mas as fases durante as quais os operários, pensava ele, trabalhavam num ritmo menor do que aquele que poderiam ou deveriam adotar. A vadiagem foi assim denunciada como perda de tempo, de produção e de dinheiro. O que Taylor condena, este vício da classe" trabalhadora, é talvez outra coisa bem diferente. Nós tentaremos mostrar que, além de uma simples freada da produção, este tempo, aparentemente morto, é na realidade uma etapa do trabalho durante a qual agem operações de regulagem do binômio homem-trabalho, destinadas a assegurar a continuidade da tarefa e a proteção da vida mental do trabalhador. Assim, o projeto de Taylor indentifica-se à redução, nçLsentjdo. radical, poderíamos dizer ortopédico, da vadiagem operária. O principal obstáculo que ele encontra no seu projeto é a vantagem indiscutível do operário-artesão sobre o empregador na discussão dos tempos e dos ritmos de trabalho. O conhecimento da tarefa e do modo operatório faz parte do campo do operário e traem cruelmente a argumentação do engenheiro. Experiência profissional e know-how técnico são ainda complexos numa época em que o operário continua, em muitos casos, sendo um artesão qualificado. O saber operário emerge, então, na luta como segredo coletivamente detido pela corporação operária. (62) saber — segredo — chave das relações de força de que Taylor vai apoderar-se. Ele 37

A questão tornava-se então: como verificar o respeito ao modo operatório e sua execução no tempo fixado? Em outras palavras. operatório. chamaram pouca atenção. Pois ela diz respeito. Adaptação i que. não se limita a uma desapropriação do saber. As variedades de modos operatórios. Originalidade que não se poderia comprazer em reconhecer como qualidade estética ou valor moral. evidentemente. cit. certo. Erro ou cegueira intencional? Uma vez coligidos os diferentes modos operatórios.empreende a análise sistemática dos modos operaíórios em uso (op. 80). é testemunha da originalidade de cada operário em relação à sua tarefa. mais aiém. ao contrário. de que vigilância. dividindo o modo operatório complexo em gestos elementares mais fáceis de controlar por unidades. Ela amordaça a liberdade de organização. A O. 82). Era preciso ainda pô-lo em prática. de que hierarquia. p. exige uma atividade intelectual e cognitiva que será proibida pelo trabalho taylorizado/ ^" Mais grave ainda é a dimensão psicológica e psicoeconômica desta liberdade de organizaçãoreorganização-modulação do modo. daí para frente. à saúde do corpo através do processo de "so-matização". à integridade do aparelho psíquico e. sobre este critério. Trata-se de uma inventividade fundamenta! que autoriza cada operário a adaptar intuitivamente a organização de seu trabalho às necessidades de seu organismo e às suas aptidões fisiológicas. mas também desapropriação da liberdade de invenção. cada movimento na sua forma e no seu ritmo. idade. Desapropriação de um saber. Resta. cit. cada seqüência. vê-se logo.C. declara-o "modo operatório cientificamente estabelecido". p. de fato. o que. Ele sistematizou este mtuodo e o instituiu em princípio: vários gestos 38 . como veremos. Ele só-se deièmaa^djversidade insólita destes modos opera-tórios para^condenar os mais lentos sem se interrogar sobre as razões desta variabili3adc atiibuida implicitamente à burrice ou a má vontade dos menos rápidos (op.T. Nós voltaremos detalhadamente a esta questão (Capitulo II). de reorganização ou de adaptação do trabalho. Insistiu-se com justiça sobre a desapropriação do know-hon coletivo (62) pela organização científica do trabalho. não é coisa fácil. Taylor escolhe o mais rápido e. sexo ou estrutura mental. A estratégia de Taylor não poderia se limitar à designação do "modo operatório cientificamente estabelecido". Pois esta diversidade. de que comando devia-se dotar a nova organização do trabalho? Taylor imaginou então um meio de vigiar cada gesto. impô-io a todos os operários sem distinção de altura. do que o processo no seu conjunto. Adaptação espontânea do trabalho ao homem que não esperou os especialistas para inscrever-se na tradição operária.

racãoT^ a°i° P°r PCÇaS' à imagem dos prêmios.segundos no ciclo operatório.C. individualmente e na solidão. Tal é o paradoxo do sistema que dilui as diferenças. da cadência do tríhSíí ' ° C QUe' Pda própria estrut«ra desta organização men e e na^rH-OPeranO^SaO confrontados um por um. as violências da produtividade. à aceleração das cadências. O homem no trabalho. Além do T^è OPeT° 11S°lad° d°S Outros. É ele que encontrar a ajuda. ele deverá assumi-los individualmente.T. desapareceu para dar a luz a um abortcr um corpo instrumentalizado-operário de massa (18) .Z um tífica SoTríhíhnW P«col*toIàW«>. ^ O. A ansiedade.«fim. (Organização Cientifica do Trabalho) traduz-se por uma tripla divisão: divisão do modo operatório.Às vezes é até Pior> P™ o a"10 em Oposição aos outros. SwmblftCS de trabalho' ° estüo decomando. o operário está desesperadamente só. mais divisões mdn?duos. divisão do organismo entre órgãos de a^o Sm í C°nf PÇà°intelectua!. artesão.despossuído de seu equipamento mtelectual e de seu aparelho mental. cadêit£ÍdeZ dauor8anizacao do trabalho. as exigências temporais. o anonimato das relações de trabalho. o controle. mesmo se exHníHoT~-----Uma colméia> Porque as comunicações estão mak f f 3S VCZeS aíC Proibidas. Mesmo se eles partilham co-f d° 1OCal dC trabalho' do barulho.do 9ue P°ntos ^ união. divisão dos homens. as oanon '. compar t a mStres *£ f™! ^^-^ ^^^"lente incha/a de SiÍSSS í u .No trabalho taylorizado não há rivin r? C°mUm> "em Obra coletiva' como e ° caso da construção civil ou da pesca marítima. cronometristas etc. definitivamente. o . o intercâmbio dos operários 39 . por exemplo.ÍS de equipe' re8ulad°res. cria o anonimato e o intercâmbio enquanto individualiza os homens frente ao sojrimento.Ultrapassado pelas nacorenr °H°peran0 1ue "atra«a" atrapalha os que estão atrás dele na corrente dos gestos produtivos. ^^^-H0 taí°rÍZado enSendra. o "truque" que lhe permitirá ganhar .

que a individualização. e reduz a dor a um reflexo simples da luta de classes. a indivicTualizáçâo conduz. porque ela anula as defesas coletivas.tudo parece rigorosamente partilhado pelos numerosos trabalhadores ligados à mesma linha de produção. nada parecido com isso ocorre. Todavia. porque ela apaga as iniciativas espon-_ tâneas. A divisão do trabalho conduz — os operários não deixam de afirmar— a um non-sens: a maioria dos trabalhadores ignora o sentido do trabalho e o destino de sua tarefa. mesmo se ela é_ antes de tudo uniformizante. a robotização não poupam nenhum operário de base. Ao empregar uma abordagem deste tipo. o sofri-mento que a organização do trabalho engendra exige respostas defen-sivas fortemente personalizadas. Armadilha teórica considerável que provavelmente bloqueou qualquer elaboração sobre a vivência do operário taylorizado. Os resíduos das defesas coletivas No caso do trabalho de caráter coletivo (construção civil e obras públicas) trata-se de tarefas de grande envergadura que exigem vários dias ou mesmo várias semanas ou meses para sua realização. Por causa do fracionãmêrito Ha coletividade operária. à mesma oficina. ~~A falta de sentido da tarefa individual e o desconhecimento do sentido da tarefa coletiva só tomam a sua verdadeira dimensão psicológica na divisão e na separação dos homens. a uma diferenciação do sofrimentó"d~e~iim trabalhador e de outro. O trabalho em equipe e a participação num grupo de operação cujo sentido e compreendido pelo conjunto dos operários tornam possível a realização de defesas coletivas. em certos 40 . A uniformização aparente das exigências do trabalho parece indicar a direção que a observação psicopatológica deveria usar: privilegiar o que há de comum e de coletivo na vivência ao invés de se ater ao que separa os indivíduos. a monotonia da tarefa. Além do mais. no caso do trabalho taylorizado. Parece-nos. ao contrário. paradoxal-mente. Aqui. a psicopatologia do trabalho corre o risco de reatar com a interpretação sociológica da vivência psíquica que atribui somente às condições materiais e econômicas as causas do sofrimento. porque ela quebra as responsabilidades êlTsaber. A repetividade dos gestos. uma tal opção parece coerente com as análises sociológica e política. Não há mais lugar praticamente para as defesas coletivas.

como perigo real. o jogo. mais acima. é até mesmo vivido com intensa alegria. Neste caso. Este momento. eles conseguem ganhar alguns minutos do ritmo imposto pela organização do trabalho. como descreve Linhart. Aliás._ trabalho exerce no funcionamento mental. podem-se ver ressurgir traços de defesa coletiva. No grupo. que eficácia real contém uma tal atitude? Em contrapartida. um dos três pode então deixar a linha e fumar ostensivamente um cigarro enquanto o conjunto dos outros trabalhadores continua indefinidamente a repetir os mesmos gestos. unidos por sua nacionalidade comum. se podemos considerá-lo assim. na medida em que esta atitude tomada coletivamente contra o sofrimento só dura alguns momentos. Em número de rês. Não. se o que é coletivamente desafiado com este comportamento é o tempo. E nós não temos condições de admitir que estes mecanismos sejam suficientes na luta contra a angústia e a dor mental. Limitada em relação ao que nós caracterizamos. Com efeito. dominar o tempo. Pode-se então falar realmente de defesa coletiva? Sim. as cadências e a organização do trabalho. sua eficácia é muito limitada. ser mais forte do que a organização do trabalho.momentos privilegiados. Não seria justo subestimar o benefício mental de uma operação "de caráter simbólico. a propósito do subpro-letariado. Em outros casos. desafiar as cadências. assiste-se ã uma "aceleração coletiva" dos operários da linha de produção de tal modo que dois ou três operários do começo da linha conseguem deixar seu posto durante alguns minutos que eles-usam a seu bel prazer. Graças à realização de táticas operatórias espontâneas. É assim que em L 'Éiabü (63) é descrito um grupo de operários iugoslavos da linha de produção da? indústrias Citroen. o ritmo. como uma espécie de vitória coletiva sobre a rigidez e a violência da organização do trabalho. é o conjunto dos trabalhadores que participa do acontecido. Mas nós também não podemos deixar passar em silêncio seu modesto valor funcional e sua dimensão estreita face à imensidão do sofrimento. É preciso admitir que é sobretudo individualmente que çaçte operário deve se defender dos efeitos penosos da organização do trabalho. tira suas virtudes de seu caráter simbólico. Nós vemos que a realidade dos riscos no trabalho taylorizado não é tanto devida às cadências em si mas à violência que esta organização do. Estes poucos minutos arrancados do tempo e do ritmo da linha são aproveitados coletivamente. 41 . eles estabelecem entre si um sistema de convivência e de solidariedade.

Se nos debruçarmos sobre as conseqüências da O. sob a condução de um professor competente. ele Têvà em conta não somente o presente más também o Futuro. considerado desumano na época. não restam senão corpos isolados e dóceis. 42 . A última peça do sistema pode então ser introduzida sem obstáculos: é preciso adestrar. frente aos juizes. uma vez desmantelada a coletividade operária uma vez quebrada a livre adaptação da organização do trabalho às necessidades do organismo. E para justificar suas inovações. via" de regra. sobre o aparelho mental. desprovidos de toda iniciativa. è o que anuncia o próprio Taylor. O que parece correto do ponto de vista da produtividade é falso do ponto de vista da economia do corpo. Aliás.O operário-macaco de Taylor Uma vez conseguida a desapropriação do know-how.T. uma vez realizada a toda poderosa vigilância. treinar. o operário consegue encontrar o melfíõT rendimento de que é capaz respeitando seu equilíbrio fisiológico e que^ desta forma. é conhecida a famosa resposta de Taylor à Corte Suprema dos Estados Unidos quando ele teve que prestar contas." Taylor estava errado. Poisj^operário ^efjt|vamerUejo_rna^indicado para saber o que é compatível com a sua saúde. condicionar esta força potencial que não tem mais forma humana. para que executem seu trabalho seguindo novos métodos até que eles apliquem de uma maneira contínua e habitual. do seu sistema.C. uma maneira científica de trabalhar (método que foi realizado por outra pessoa). 100). 100). Aliás. Mesmo se seu modo operatório não é ~sêmpré~ ò~^iãís~êfTcaz do ponto lie vista do rendimento em gera^jo estudo do trabalho artesanal mostra que. p. "a multiplicação das relações operário-empregador vem acompanhada de uma simplicidade em conceber o homem ao trabalho": o homem-macaco de Taylor nasceu (Taylor. constataremos que desordens ignoradas pelo autor do sistema aparecem no funcionamento físico. o próprio Taylor comparou o novo operário ao chipanzé como argumento convincente para conseguir a adesão do júri (Taylor [96] p. esta idéia é diretamente contrária à velha idéia segundo a qual cada operário é a pessoa mais qualificada para determinar seu modo pessoal de execução do trabalho. "A idéia de treinar os operários um após o outro.

à. com seu emissor de televisão seria o aparelho psíquico. O último andar.: É necessário. que por sua vez era controlado pelo aparelho psíquico. bruscamente. modulada. lugar do desejo e do prazer. de alguma maneira. lugar da atividade cognitiva e intelectual. a atividade motora. que dá à torre sua coerência e sua finalidade." Não chegou ao fim o debate sobre o que se passa na cabeça de « um operário que trabalha por peças. isto é. da-imaginação e dos afetos1. O sistema Taylor age. Imagine-se o que aconteceria se. não há dúvida sobre a existência de uma atividade mental que acompanha o tra' Ij so áx. que fique bem clara a diferença entre atividade intelectual e vida psíquica (ou mental). fosse regulada. e a organização do trabalho. A clínica psicanalitica mostra que há casos em que uma atividade intelectual pode desenvolver-se independentemente de produção fantasmática (69). ou de um digitador num serviço de informática. Se nos referirmos a certas concepções patronais. Com efeito. emergem uma vivência e um sqfrimento_quej>odeníõlTèhtar esclarecer. tudo se passava como se o trabalho físico. O segundo andar seria a sede da atividade intelectual. a atividade intelectual engajada pelo operàrio-artesão no seu trabalho.efeitos do trabalho repetitivo sobre a atividade fmtjuic Entre a organização do trabalho e o aparelho mental desapareceu o amortecedor que constituía até aí a responsabilidade de conceber e de realizar a tarefa em função do know-how. Um raciocínio matemático é diferente de um fantasma. dotado de uma história personalizada. Neste edifício hierarquizado. o corpo obedecia ao pensamento. O desastre arquitetônico viria acompanhado de uma alteração significativa da qualidade das emissões de televisão! É precisamente isto que deve ser estudado pela psicopatoí logia do trabalho. o segundo andar fosse retirado. I 43 . portadora de uma injunção despersonalizante. o que acontece com a vida psíquica do trabalhador desprovido de sua atividade intelectual pelã^organizacãò científica do trabalho! ~ Dó choque entre um indivíduo. por subtração do estágio intermediário. para a seqüência do texto. repartida e equilibrada em função das aptidões e do cansaço do trabalhador pór intermédio da programação intelectual espontânea do trabalho. isto é. para o operário-artesão pré-tayioriano. Poder-se-ia dar desta imagem uma representação espacial: o primeiro andar e a base da Torre Eiffel seriam o corpo.

A primeira é de ordem individual: a possibilidade de fantasiar não é dada a todas as pessoas de maneira idêntica e o valor funcional do fantasma é desigual de uma pessoa para outra (10). Os especialistas do homem no trabalho estão também divididos neste assunto. Olhando de mais perto. no presente caso. Numerosos casos pessoais mostram que certos trabalhadores^desgastados por problemas pessoais. Em La nuit des machines o trabalho é monótono (trata-se sempre de amarrar os fios quebrados do material a ser tecido). o poder de descarga e de alívio que possui por vezes o fantasma. Por "valor funcional" nós entendemos. 44 . evitaria devaneios impróprios. constata-se que o uso da válvula fantas-mática está submetida a duas condições. A segunda condição é relativa à organização do trabalho. As tarefas repetitivas deixam espaço para a emergência das lembranças da véspera ou do fim-de-semana (101)? Se alguns são bastante afirmativos na resposta. não seria possível admitir que as duas situações são possíveis? Por exemplo. acham. A operária.o. Outros autores propuseram introduzir no local de trabalho uma música à base de percussões ritmadas que. familiares Fmateriais. ao contrário. entfêgãm-se^brutalmente a uma cadência desêriireãfla para esquecer ãs~3ificuldades durante o "tempo de trabalho. podemos tomar como referência dois livros-teste-munhas da condição operária: Le salaire aux pièces (52 bis) e La nuit des machines. Segu balho repetitivo. que a organização científica do trabalho não autoriza nenhuma evasão mental. Ao invés de adotar uma opinião categórica sobre esse assunto. a evasão fantas-mátia domina seu livro e sua vivência. Ao contrário. sempre lembrando a cadência. parece evidente que o espírito é totalmente absorvido pela dificuldade em realizar as quotas exigidas pelo salário e pelos prêmios. outros apoíando-se em testemunhos operários. Mas o gesto repetido não é regularmente ritmado como no trabalho por peças. mesmo na fábrica. Em Boyadjiam.(9) Para Haraszti. Segundo certos autores (105) até os devaneios aos quais o operário se livra são nefastos para a produção e seria conveniente um fim a isso através de um meio que falta determinar Não só o espírito entregue à deriva distrai o operário de sua tarefa arriscando uma alteração na qualidade e quantidade do trabalho mas também a imaginação liberta alimenta ilusões insensatas. ao contrário. colocada no posto de trabalho dos assentos do modelo "2 CV" descrita por Linhart (63) parece funcionar como um autpmato desumanizado. outros só sobrevivem ao trabalho repetitivo jraças à ãutonòmIã~Hentãl ju£des^cõnseguem conservar.

o uso do tempo fora do trabalho é muitas vezes situado à distância da coletividade dos trabalhadores. notoriamentT agravado. A evasão fantasmática é. assim. Se levarmos em conta o custo financeiro das atividades fora do trabalho (esporte. mesmo nas práticas paternalistas em vigor no começo do século. Mesmo aí. . formação profissional) e do tempo absorvido pelas atividades inelásticas (tarefas domésticas. e permanece enquanto sistema defensivo. ao contrário. Certos trabalhadores enfrentam a monotonia da tarefa com possibilidades defensivas individuais muito menos eficazes (defesas íompòftámêntãisje seu sofrimento é. de maneira a contrabalançar os efeitos mais nocivos da O. com isso. o tempo fora do trabalho não traz para todos as vantagens que poderíamos esperar.Ao contrário. Esta eventualidade é perigosa no plano da saúde como mostraremos mais para frente (Capitulo V). Em Le sataire aux pièces.nã" há escapatória fantasmática possível. e. O uso do tempo fora do trabalho Compensação aparentemente natural das violências do trabalho.Alguns momentos são ocupados numa tarefa de vigilância feita sem exigência direta de tempo. Nós voltaremos ulteriormente a este ponto que nos parece fundamental: até indivíduos dotados de uma sólida estrutura psíquica podem ser vítimas de uma paralisia mental induzida pela organização do trabalho. N~5s~véíèmõs áTcohsèqüênciás~deste sofrimento sobre o estado 5e saúde destes trabalhadores.C.T. às vezes possível. cultura. uma organização do trabalho do tipo daquela apresentada em La nuit des machines não implica automaticamente que todos os operários se defendam individualmente tão bem quanto o autor. alguns dentre eles conseguem usá-lo harmoniosamente. relativas às equipes esportivas de empresa. 45 . deslocamentos). o espírito interinamente voltado para a performance psicomotora não é nunca livre. (despersonalização e formação profissional em cursos noturnos — exigências posturais dos empregados e esporte etc). fortemente individualizado. poucos são os trabalhadores e as trabalhadoras que podem organizar o lazer de acordo com seus desejos e suas necessidades fisiológicas: todavia.

e os estereótipos comportamentais não seriam testemunhas apenas de alguns resíduos anedóticos. O que quer dizer isso senão que "o homem não pode ser dividido em uma metade produtora e uma metade consumidora"? É o homem inteiro que é condicionado ao comportamento produtivo pela organização do trabalho. (21) A maioria dos autores concorda ao interpretar estgs fatos como uma contaminação involuntáriadol&npo fora do trabalho. Como nós já ressaltamos. Em todo caso. é isso que se observa. desligo" ao ouvir. reconhecemos os loucos de Thomson pela maneira de dirigir nas estradas. Maisdifícil'que a manutenção da própria performance produtiva.A "contaminação" do tempo fora do trabalho Mais complicada é a questão das estruturas do tempo fora do trabalho. por exemplo. no trabalho põr peças. tempo de trabalho e tempo fora do trabalho formariam uma continuum dificilmente dissociável. Será queTüãcT seríaTpossível tirar daí a unidade estrutural do tempo na fabrica e fora da fábrica? O tempo fora do trabalho não seria nem livre e nem virgem. todos os esforços são dirigidos para o escore produtivo. resta_ manter a performance. e / unidade da pessoa (28). "Não há ninguém. E bem possíveTque as atividades feitas às pressas em casa não sejam o resultado de uma atitude passiva. e tora da fábrica. 50 e 100) nova. Numerosos são os autores que insistem sobre a contradição I entre divisão dos tempos de trabalho/tempo livre de um lado. Despersonalizado no trabalho. toda a concentração. ele conserva a mesma pele e a mesma cabeça. As telefonistas (6) sofrem de estereótipos fora do trabalho (dizer "alô" ao puxar a descarga. e é disso que se queixam os operários (15). Ao contrário. o barulho das portas automáticas) descritos por Bégoin sob o nome impróprio de "lapso". ele permanecerá despersonalizado em sua casa. A produção esperada exige um total engajamento da personalidade físi46 . no metrô. Saindo da fábrica. Nada é mais penoso do que a adaptação a uma tarefa repetitiva (92 p. As mulheres se queixam de executar os trabalhos domésticos com um ritmo acelerado que só faz prolongar o tempo entrecortado do trabalho na fábrica. Uma vez süpèrãclãs as dificuldades. mas que exijam também um esforço. é cTfasedV treino que a precede. como se eles continuassem a observar as cadências aprendidas no trabalho.

inevitavelmente. na prática da fábrica. a partir de então. mas antes uma estratégia. é a adaptação do condicionamento mental à cadência. um novo aprendizado. Assim.merojos_são_os_Qperários_e empregados. no fim.Tsè Vê obrigado a reforçar também ele. encontram às vezes este fenômeno que não é excepcional e que se traduz pela recusa de certos operários em aceitar as paralisações de trabalho prescritas pelo médico que o está tratando. eles conservam presente a preo "cupação ininterrupta do tempo permitido a cada gesto. formam umá verdadeira síndrome psicopatológica que o operário. li 47 . O mais perigoso. destinada a manter eficazmente a^pj^ãoTosjçm^oj^ag^tos^sjj^n^ânejosj que marcariam i ^pj^jç^j^g^^j^^ uma brecha no condicionamento produtivo. uma espécie de vigilância permanente para não deitar apagar q ccuidicionamenío mental ao comportamento produtivo. o próprio operário torne-se o artesão de seu sofrimento. Aparece nesta atitude o círculo vicioso sinistro da alienação pelo sistema Taylor~ onde cT comportamento condicionado e o tempo. que mantêm ativamente. para evitar algo_ ainda "pior.submetidos à O. Os médicos do trabalho.T. Este "presenteísmo" pode ter outras origens (de ordem salarial) mas há casos em que a causa é a luta individual para preservar um condicionamento produtivo arduamente adquirido.ca e mental. um programa onde atividades e repouso são verdadeiramente coman-Hados pelo~cfõnómetro. o ritmo do tempo fora do trabalho não é somente uma contaminação. adaptação que exigirá. A injustiça quer que. jecqrtãdo sob as medidas da organizaçãõ"do trabaífiõ. fora do trabalho e durantej» dias de folga. _Nu. " Ãülm.Ç. para o operário.

isto é. Existe uma vivência global cuja deci-fração leva à descoberta de vários aspectos. sob 48 . para fins expositivos. uma só entrevista. bem pouco estudada. no discurso dos trabalhadores. como sua coerência interna e a extensão de seu campo de aplicação poderiam indicar. Se nos referirmos aos trabalhos sobre este assunto constataremos que a maioria dos autores. Se. uma só pesquisa ou greve em que não apareça. descreveremos provisoriamente dois sofrimentos fundamentais organizados atrás de dois sintomas: _a_ iasalisfaçãq e_a ansiedade. na verdade. Na vivência operária. Do discurso operário podem-se extrair vários temas que se repetem obstinadamente como um refrão obsessivo. embora implicitamente designada em numerosos trabalhos. Insatisfação e "conteúdo significativo"da tarefa Uma vez que os sistemas defensivos individuais e coletivos não são supérfluos. interessa-se mais pela questão da satisfação da motivação do que pela da insatisfação. o sofrimento operário é dividido em dois componentes isso não significa que existam dois tipos distintos de sofrimento. Não há um só texto. ipsta d^rf>hrir Tmfrfl " qiip plp': construídos. infelizmente é preciso ser esquemático. foi. Isso resulta de uma preocupação em esclarecerem-se os indicadores dos comportamentos operários (88).Que sofrimento? 1. sua finalidade^Para ser claro. A insatisfação.

Trata-se mais da imagem de si que repercute do trabalho. Cor^ relativamente. do narcisismo: O nível de qualificação. de anquilose mental. via de regra. esquematicamente. a inutilidade dos gestos. inutL Udãde remete.í suas múltiplas variantes. de estar desper-/sonaiizado etc. de inutilidade e de desqualificação. Ela não significa nada para a família. miserável. o tema àa. feia. o da vergonha de ser / robotizado. primeiramente^àJalta de qualificação e de finalidade do trabalhgjQ operário da linha de produção como o escriturário de üm serviço de contabilidade muitas vezes não conhecem a própria significação de seu trabalho em relação ao conjunto da atividade da empresa. O sofrimento começa quando a evolução desta relação é bloqueada (22). de não ser mais que um apêndice da máquina. podem-se considerar. ampliando-os. às vezes de jser sujo. não menos presente do que a da indignidade. o sentimentQjie. elevam-se queixas sobre adesqualificação.JxficutajLjima tarefa sem investimentojnateriaí ou afetivo exige a produção de esforço e de voHfã3êí"«ni-QUtras çlr^ cjtimtâncjã£j^ vivência depressivã~ãíimenta-se da sensação de adormecimento intelectual. Raros são aqueles que ainda creêm no mito do progresso social ou na participação à uma obra útil. isto é. responsabilidade. nem para o grupo social e nem para o quadro de um ideal social. de paralisia da imaginação e marca o triunfo do. Desqualifi-cação cujo sentido não se esgota nos índices e nos salários. Cansaço que se origina não só dos esforços musculares e psicossensoriais. Outra vivência. uma imagem narcísica pálida. A vivência depressiva condensa de alguma maneira os sentimentos de indignidade.i §ànte que nasce uma jmagejn de mdigrudad&jV falta de significação^ a" frustração narcísica. tanto mais honroso se a tarefa é complexa. suficiente em relação às aspirações. formam. Esta depressão é dominada pelo cansaço. No que diz respeito à relação do homem com o conteúdo "significativo" do trabalho. ciclo por ciclo. mais do que isso. dois componentes: o conteúdo significativo em relação ao Sujeito e o conteúdo significativo em relação ao Objeto. condicionamento ao comportamento produtivo. mas que resulta sobretudo do estado dos trabalhadores taylorizados . Mas. humanista ou político. Sentimento \ experimentado maciçamente na classe üperária. de formação não é. É do contato forçado com uma tarefa. sua tarefa não tem significação humana. 49 . Durante o trabalho. altruísta. de não ter mais imaginação ou inteligência. riscos. nem para os amigos. tanto mais admirada pelos outros se ela exige um know-how. vários elementos contam na formação da imagem de si. indignidade operária.

O investimento narcísico só pode renovar-se graças ao investimento objetai e vice-versa. Sucesso ou fracasso de um trabalho obrigatório: sucessos reais. veicula um certo número de símbolos. Acontece inevitavelmente que o interlocutor interior e os personagens reais que o trabalhador encontra opõem-se. No conteúdo significativo do trabalho em relação ao sujeito. esta dialética do Objeto é específica e única. do que ele introduz de sentido simbólico no que o rodeia e no que ele faz. o sujeito pode encontrar-se em situação de subemprego de suas capacidades ou. ou contra alguém. Objeto exterior e real por um lado. ao mesmo tempo. isto é. pelos gestos que ela implica. isto é. ao contrário. sua vida íntima e sua história pessoal. entra a dificuldade prática da tarefa. do que ele põe. não implica necessariamente em responder simultaneamente ao outro. pela atmosfera na qual ela opera. para cada trabalhador. cujo papel é decisivo na vida. objeto interiorizado por outro. A atividade do trabalho. toda atividade contém os dois termos. O conteúdo significativo do trabalho em relação ao objeto: ao mesmo tempo que a atividade de trabalho comporta uma significação narcisica. De fato. esta parte não é mais do que a ponta do iceberg. pelos instrumentos que ela movimenta. correndo assim o risco de um fracasso. ao Objeto. Responder a um. Todas estas significações concretas e abstratas organizam-se na dialética com o Objeto. De maneira que. na medida em que as regras de troca de investimento não se deixam assim separar. A significação profunda do trabalho para cada indivíduo só pode ser revelada por técnicas parti50 . em situação muito complexa. socialmente reconhecidos ou efetivamente desconhecidos não causam o mesmo impacto sobre o narcisismo. A tarefa pode também veicular uma mensagem simbólica para alguém. A significação em relação ao Objeto põe em questão a vida passada e presente do sujeito. pelo material tratado.li Na adaptação do conteúdo da tarefa às competências reais do trabalhador. Separar assim conteúdos significativos em relação ao sujeito e ao objeto é naturalmente arbitrário. Se uma parte desta relação é consciente. A complexidade do problema provém do fato de que o essencial da significação do trabalho é subjetivo. A natureza e o encadeamento destes símbolos dependem. ela pode suportar investimentos simbólicos e materiais destinados a um outro. a significação da tarefa acabada em relação a uma profissão (noção que contém ao mesmo tempo a idéia de evolução pessoal e de aperfeiçoamento) e o estatuto social implicitamente ligado ao posto de trabalho determinado. Estender-se mais sobre este assunto conduziria a mergulhar em generalidades. da vida interior do sujeito.

pagar as dívidas) mas também mais abstratas na medida em que o salário contém sonhos. Nós nos limitairmos. Ao invés de fazer referência à noção de carga psíquica do trabalho. No caso inverso. Tal posto eqüivale a "ser protegido do chefe" ou. os trabalhadores que inalam o hexaclorocicloriexano não podem livrar-se do cheiro nauseabundo dè seu hálito. econômica e política. carga de trabalho e insatisfação. ele pode falar de sua tarefa ou deve calar-se. pagar as melhorias da casa. então. Mesmo se o engajamento pessoal no objetivo social da produção não é possível. é melhor interrogar-se sobre o custo humano da insatisfação. às vezes. não há jamais neutralidade dos trabalhadores em relação ao que eles produzem. ao contrário.culares (psicanálise individual). enfim. pode pôr em jogo relações complicadas. ■Entra em consideração. a produção como função social. antes de tudo. no conteúdo significativo do trabalho em relação ao Objeto. Receber uma peça bem preparada.-A coletividade operária sabe quais são os postos mais duros e quais os mais tranqüilos. ganhar as férias. Th organização do trabalho. choca-se frontalmente com a vida mental e. confiá-la bem montada ao operário que a receberá em seguida. A tarefa não é nunca neutra em relação ao meio afetivo do trabalhador. O próprio posto de trabalho tem assim uma significação em relação aos conflitos da oficina ou da fábrica. à preocupação em apresentar uma concepção coerente com a ergonomia contemporânea. estranho aos trabalhadores. não só do ponto de vista da produção mas também do ponto de vista da ordem e da disciplina na empresa. fantasias e projetos de realizações possíveis. Resta. é preciso esconder dos outros o conteúdo de seu trabalho: por exemplo. mais precisamente. concebida por um serviço especializado"da empresa. Fadiga. a reconhecer o lugar importante da vida interior e subjetiva. o salário. da mesma maneira que as mudanças de posto. têm um valor em relação às lutas atuais ou latentes'. "ser sua vítima". Até no leito conjugai. Sabemos também que a decifração desta relação com as camadas pro-fundis da vida mental não pertence à psicopaioiogia do trabalho. o cheiro permanece ligado ao corpo como uma sombra impossível de ser mascarada. o salário pode veicular todas as s ignificações negativas que implicam as limitações materiais que ele inxpõe. com 51 . mesmo se só podemos apreendê-la através de seus efeitos i*idireitos e concretos. que corresponde. de seu suor nos quais o produto elimina-se. Resta a significação das relações do trabalho fora da fábrica. que contém numerosas significações: primei ramente concretas (sustentar a família. fonte de vergonha e obstáculo para a vida afetiva e sexual. Ser colocado em um posto de trabalho particularmente duro tem uma significação em relação aos colegas.

No trabalho artesanal que precedia a organização científica do trabalho e. As frustrações resultantes de um conteúdo significativo inadequado às potencialidades e às necessidades da personalidade podem ser uma fonte de grandes esforços de adaptação. Ao contrário. existe um segundo compo52 . ao emprego e à experimentação de um compromisso entre os desejos e a realidade. Da análise do conteúdo significativo do trabalho. Em termos de economia psíquica.a esfera das aspirações. psicoafetivas. Quando um trabalhador usou de tudo de quf dispunha de saber e de poder na organização do trabalho e quando ele não pode mais mudar de tarefa: isto é. menor é o conteúdo significativo do trabalho e menores são as possibilidades de mudá-lo. à discreção do trabalhador. à descoberta. rege as tarefas muito qualificadas. a inutilidade. graças aos privilégios de uma organização do trabalho deixada. das motivações e dos desejos. O sofrimento proveniente do pouco conteúdo significativo do trabalho taylorizado não é mais um mistério e é denunciado não só pelos operários mas também pelos ergonomistas e por certos meios do patronato "progressista". adaptar o trabalho às suas aspirações e às suas competências. quando o trabalhador usou o máximo de suas faculdades intelectuais. mais a divisão do trabalho é acentuada. A certeza de que o nível atingido de insatisfação não pode mais diminuir marca o começo do sofrimento. Correlativamente. o sofrimento aumenta. esta adaptação esponiânea do trabalho ao homem corresponde à procura. os instrumentos e os materiais empregados permitem ao trabalhador. Em tais condições. de aprendizagem e de adaptação. Não são tanto as exigências mentais ou psíquicas do trabalho que fazem surgir o sofrimento (se bem que este fator seja evidentemente importante quanto à impossibilidade de toda a evolução em direção ao seu alívio). a desqualificaçãff e a depressão. menos temíveis do que uma organização de trabalho rígida e imutável. O sofrimento começa quando a relação homem-organização do trabalho está bloqueada. Mesmo as más condições de trabalho são. mesmo se ele não for muito dividido. podemos perceber um movimento consciente de luta contra a insatisfação ou contra a indignidade. quando foram esgotados os meios de defesa contra a exigência física. Via de regra. quanto mais a organização do trabalho é rígida. A organização temporal do trabalho. uma parte da organização do trabalho provém do própTio operador. Num trabalho rigidamente organizado. dentro de certos limites é claro. no conjunto. parcelado. é preciso reter a antinomia entre satisfação e organização do trabalho. ainda hoje. nenhuma adaptação do trabalho à personalidade é possível. a escolha das técnicas operatórias. em grande parte.

chega-se ao balanço da intervenção. ou as que são propostas pelo laboratório de sociologia do trabalho de Aix-enProvence) (48) etc. são às vezes reconhecidas e classificadas as principais exigências do posto de trabalho. temperatura. medidas do ambiente físico (barulho. o mais simples é talvez recorrer ao estudo da eficácia da ergonomia. registro das diversas variáveis fisiológicas do operador. a insatisfação resultante de uma inadaptação do conteúdo ergonômico do trabalho ao homem está na origem não só de numerosos sofrimentos somáticos de determinismo físico direto. iluminação. são esclarecidas as sugestões de modificação do posto. A intervenção ergonômica começa no "campo" pelo que se chama de "análise do posto" (102). resposta às "fichas de posto" estabelecidas de antemão segundo um modelo estandardizado (tais como as que são utilizadas nas Empresas Renault (95). encontra-se. entretanto. uma positividade da ação ergonômica: diminuição do custo cardiovascular. Uma vez terminada a realização dos trabalhos aconselhados pela equipe ergonômica. Se se procurar. o custo das medidas corretivas propostas pode ser discutido com a direção da empresa e é adotado um compromisso que constituirá a base dos trabalhos de mudança do posto. Diferentes técnicas são utilizadas para este efeito: observação direta do especialista. atenuação do barulho. poeiras. vibração. mas também de outras doenças do corpo mediatizadas por algo que atinge o aparelho mental. cadência etc). geralmente. fazer o balanço não mais dos elementos da análise do I 53 .nentc da insatisfação no trabalho que é totalmente desconhecido: o que resulta da inadequação da relação homem-tonteúdo ergonômico do trabalho. intensificação da iluminação etc. destinadas a aliviar os males detectados (73). Insatisfação e conteúdo ergonçmico do trabalho Esta segunda vertente da satisfação do trabalho ocupa. Este balanço é às vezes limitado pelos especialistas a uma análise comparativa relativa a critérios de ambiente. Enfim. Se tal é a perspectiva do balanço. umidade. uma posição fundamental na problemática da relação saúde-trabalho. melhoria da posição do trabalhador no posto. observação clínica. Para situar o problema. segundo pensamos. num último momento. 2. Num terceiro momento. Num segundo momento. eventualmente a critérios de fisiologia ou de produtividade. Muitas vezes negligenciada ou desconhecida.

a condição do trabalhador. A pesquisa de um indicador global de melhoria das condições do trabalho teria uma utilidade que nem é necessário demonstrar. do desaparecimento de um estímulo sensorial (barulho) útil à manutenção da vigilância necessária. No estado atual desta questão. acima de tudo. a avaliação e muito mais complexa. a vivência subjetiva é um objeto privilegiado de análise que nos leva. se se tomar um ponto de vista global. Isto resulta. muitas vezes. Uma comparação tomada da patologia médica poderia ilustrar este ponto de vista. às vezes. Este fenômeno foi com certeza estudado pelos ergonomistas. mas ele morre algumas horas mais tarde de uma hemorragia interna por perfuração de úlcera duodenal. isto é. como veremos.nosto (comparados um a um antes e apu» a intervenção) mas sobre a situação global. este balanço é positivo. para a observação sobre uma tela de visualização (60). Esta. A atenuação do barulho que reina numa oficina por dispositivos de insonorização eficazes leva. Voltemos à intervenção ergonômica: o indicador global de melhoria das condições de trabalho que permitiria julgar a eficácia da ergonomia não existe até hoje (74). a dor. precipitou um homem na morte. fazendo desaparecer a dor. não varia sempre no mesmo sentido que as condições do trabalho. elemento necessário ao diagnóstico de úlcera perfurada. um doente hospitalizado com urgência com uma dor abdominal aguda. Por falta deste indicador. a resultados curiosos: os trabalhadores exprimem seu descontentamento acusando as novas condições de trabalho de aumentar seu cansaço. Se se limitar o balanço da intervenção médica à comparação de um elemento da análise da situação. como para o trabalhador. alguns autores sublinharam a dificuldade em avaliar a eficácia da ergonomia e das disciplinas do homem no trabalho (97). Por que escolher a vivência subjetiva dos trabalhadores? Esta escolha não pretende resolver a questão de um indicador global de melhoria das condições de trabalho. por exemplo. Após administração de morfina a dor desaparece enquanto o doente parece aliviado. a entrar em contradição com os especialistas das condições de trabalho. o ergonomista ou o engenheiro de produção. Para os psicopatologistas do trabalho. Nossa perspectiva aqui é citada somente pelo interesse que nós conferimos à relação saúde-trabalho. de fato. a intervenção médica é nefasta pois o alívio dado ao doente. Sob esta ótica conta. mas sua atenção teria sido chamada da mesma forma se os trabalhadores não se tivessem queixado? Numerosos exemplos similares na pratica mostram que não é sempre muito fácil 54 . parece-nos fundamental não negligenciar a apreciação dos trabalhadores sobre a intervenção ergonômica e de nos pôr à escuta de sua "vivência subjetiva" antes e depois da intervenção. Por exemplo. ao contrário.

Em certos casos. esta última reflete. a nossos olhos. de várias causas concorrentes: — o hábito — a revelação de outros prejuízos até então mascarados — o fato de que.prever os efeitos de uma "melhoria objetiva" das condições de trabalho. Se acreditarmos nos mestres da psicofísica (35. uma vivência subjetiva coletiva que envolve as variações individuais. pode-se recorrer à vivência subjetiva coletiva. Esta erosão do poder benéfico da "melhoria das condições de trabalho" resulta. na verdade. 36. o mais freqüente é que o sentimento de melhoria e de alívio desfaz-se bastante rapidamente. muitas vezes. em geral. Em matéria de intervenção ergonômica. Assim. a substituição de um banco por um assento de encosto regulável é. vantagens que são inegáveis contituem o que poderíamos chamar de "positividade da prática ergonômica". nada mudou. quando um doente começa a protestar. num primeiro momento. no fundo. é porque precisamente ele está melhor. de um doente queixar-se mais de seu estado quando sua saúde está melhorando. os fenômenos observados em matéria de ergonomia de correção seriam coerentes com os resultados da psicologia da sensação. até. De maneira que se referir à "vivência subjetiva" tem sempre o risco de induzir também em certos erros. no começo. e se esta mudança produzir-se mais rapidamente. mas mais freqüentemente em algumas semanas. às vezes em alguns dias. Entretanto. 93). Com efeito. o interesse que o médico ou o psicopatologista deve ter pela "vivência subjetiva" dos trabalhadores. diminuição das lombalgias. 55 . a defender-se e a queixar-se. Ao contrário. a discordância "vivência subjetiva"—"estado de saúde" é observada sobretudo na economia individual de um sujeito. convém distinguir vivência subjetiva a curto prazo e vivência subjetiva a longo prazo: é bastante freqüente que. Com efeito. Ao contrário. do grupo emana. Para levantar este obstáculo. A revolta assinala uma melhoria de seu estado. uma apreciação "global dos efeitos da iniervenção ergonômica que vai direto ao objetivo" Mas há também casos em que a avaliação subjetiva dos trabalhadores opõe-se ao ponto de vista médico-sanitário. às vezes. facilitação de um trabalho de precisão através de uma iluminação mais racional etc. um operário que utiliza o tricloroetileno para dissolver a graxa escondida nas dobras cutâneas acha que é vantajoso conservar este hábito enquanto que o médico do trabalho sabe a nocividade deste produto para o organismo. acontece. os operários experimentem um benefício real da intervenção ergonômica: melhoria da postura de trabalho. Assim. Estas. Isto confirma. A sensação subjetiva de alívio é mais intensa se a melhoria da situação for mais substancial.

Para utilizar outra fórmula. Em todo caso. ele aprende. a correção ergonômica é às vezes irrisória face à enormidade das exigências organizacionais (salários. trabalho repetitivo etc). Mas após um mês de trabalho. Esta questão fundamental é a questão do valor relativo das melhorias ergonômicas em relação à economia global da relação homem-trabalho. bonificações. ele nâo tem mais consciência desta melhoria e. por exemplo. anteriormente. faz-se às vezes aparecerem os de um nível inferior e assim por diante. a subtração de uma exigência do trabalho pode revelar uma violência mascarada. em parte. A intervenção ergonômica. subjacente. Este elemento de "habituação" desempenha certamente um papel na obsolescência da vivência da melhoria e do alívio. ela só consegue aliviar parcialmente os trabalhadores e este é. conteúdo da tarefa. hoje em dia a distinção entre "ergo56 . O inconveniente da intervenção ergonômica é sua ação limitada. simultaneamente. referente aos pilotos de caça). Isto pode explicar. há casos em que não se observa uma tal diminuição da sensação. o limite último da ação ergonômica.apreciada pelo operador. pois esta melhoria não é mais perceptível atualmente. E o esgotamento psicofísico da sensação não e suficiente para dar conta do fenômeno observado. O alívio da carga de trabalho permite a intensificação da produtividade. para faiar ao interlocutor. consideravelmente bem toleradas (conforme Capítulo III. em relação com a posição da cabeça e a distância olho-tarefa. Há casos muito conhecidos onde as condições de trabalho são terríveis e. a apreciação ambivalente dos trabalhadores em relação à ergonomia. apesar do que afirmam os psicofísicos. É que. Todavia. as dores lombares atingiam um tal nível de intensidade que ocultavam as dores da nuca. Para o operário que trabalha com peças. pode libertar um operador de lombalgias relativas a uma tòrsão da coluna por defeito de postura. Aliviado deste mal. Assim. prêmios. Admite-se correntemente. em muitos casos. poder-se-ia dizer que a intervenção ergonômica não atinge a situação de trabalho em profundidade pois ela permanece aquém da organização do trabalho. Quando se faz desaparecerem os prejuízos que ocupam o alto da hierarquia sintomática. O que foi ganho de um lado é perdido do outro. A toda esta análise poderíamos opor "a ergonomia de concepção" (102). o alívio trazido pela correção ergonômica é recuperada pela organização do trabalho. provavelmente. com efeito. Além do mais. Assim somos levados a admitir a existência de uma espécie de edifício estra-tifiçado de prejuízos hierarquizados. ele tem que evocar a lembrança do momento desta substituição do assento. a conhecer uma outra dor que tomou lugar da precedente: cervicalgia. pouco a pouco.

Este segundo componente da insatisfação no trabalho não é de ordem "significativa". seu estado melhora rapidamente. havia batido com violência no médico. Mas. um sofrimento que são de natureza mental e não física. Esta digressão pela ergonomia prática poderia traduzir-se em termos de psicopatologia do trabalho pela seguinte fórmula: enquanto a ergonomia não trouxer satisfação suplementar ao nível do conteúdo significativo do trabalho. químicas. determinantes na apa57 . A investigação permite o esclarecimento de alguns elementos recentes. após ter apresentado uma ilustração clínica. Trata-se desta vez. sua glicemia é rapidamente controlada. quando da construção de novas instalações. alucinações terríveis e vozes ordenavam certos comportamentos particulares como andar de quatro e comer flores e plantas verdes presentes na casa. a bem dizer. o que são estes agravamentos da relação saúde-trabalho ocasionados por correções ergonômicas limitadas? Estas questões vão permitir-nos introduzir um novo ponto de vista na insatisfação do trabalho. No hospital. a ergonomia de concepção só excepcionalmente é posta em prova na realidade e parte mais do direior de uma empresa e de seu? conselheiros diretos. a exemplo da insatisfação em relação com o conteúdo significativo do trabalho. mais ainda. uma vez que o paciente sofre de uma diabete insulino-dependente. A ergonomia de que falamos até aqui é uma ergonomia de "correção" mas. que fora chamado às pressas pela família em pânico frente ao estado do paciente. biológicas) e a estrutura da personalidade pode emergir uma insatisfação e. Movimentos de agressividade alternavam-se com frases de ansiedade evidente. outras questões foram levantadas: o que é este sentimento de satisfação experimentado. Mais para frente nós voltaremos a este conceito de economia psicossomática. De uma relação desarmoniosa entre o conteúdo ergonômico do trabalho (exigências físicas. mesmo brevemente. Um homem de aproximadamente trinta anos é conduzido ao hospital psiquiátrico de uma cidade do interior. cor-relativamente.nomia de correção" e "ergonomia de concepção". mas seu estado mental dominado pela ansiedade. após uma correção ergonômica? E. Esta insatisfação não está. Na noite anterior ele apresentava alguns sinais de agitação e no próprio dia seu estado se tinha agravado: ele mantinha diálogos incoerentes. tratado com fortes doses de neurolépticos e de ansiolíticos. Mas é então preciso cuidar de seus problemas metabólicos. mas de ordem "econômica". só poderá trazer alívio limitado. do que de projetos elaborados pelos especialistas ou ergonomistas. permanece muito preocupante. de insatisfação é de frustração antes de tudo concretas. Levado a Paris por um serviço especializado. situada no registro simbólico.

seu trabalho consistia em ler autos policiais de seguro e verificar sua conformidade. Uma "investigação psicossomática" precisa (69) deveria mostrar que se tratava de uma descompensação sob forma de síndrome con-fusional ocorrida num sujeito que apresentava uma neurose de comportamento. Este homem ocupava há cerca de dez anos um posto de chefe de armazém numa fábrica de sua região. as dificuldades profissionais continuavam. (23) Este exemplo ilustra bastante bem como uma adequação entre o conteúdo ergonômico do trabalho e a estrutura da personalidade pode 58 . Esta simples decisão foi suficiente para acalmar a angústia do paciente e para permitir um controle rigoroso do metabolismo após a suspensão dos tratamentos psicofarmacológicos. ele assistia. além de suas funções de vigilância. gerente de um salão de beleza. Diante do esforço conjugado de sua mulher e de seus amigos. ele punha "a mão na massa" e. Jogador de futebol. Procurando. Esta solução favorável não é excepcional. havia vários meses. Sua esposa. Como é o caso com esse tipo de sujeito. ele havia encontrado um meio de gastar sua energia e de descarregar sua tensão. ele deveria logo sucumbir à fadiga e ao esgotamento. deixando o hospital. Foi neste momento de hipogli-cemia provocada por um esforço físico não compensado por um suporte alimentar suficiente que o precipitou na descompensação psiquiátrica de que falamos. Lá.rição do episódio agudo. compensar os efeitos nocivos de seu novo emprego. o paciente havia finalmente renunciado. impotente à acumulação de autos sobre sua mesa. Entretanto. Contramestre. nada mudava. numa fuga desenfreada fora do trabalho. assumia um trabalho equivalente ao dos operários que ele dirigia. Foi decidido com o paciente e a família que. Vários meses após ter retomado seu trabalho na fábrica ele não tinha tido nenhuma recaída e nem consumia mais medicamento. Muito mal adaptado a este trabalho sedentário. as atividades psicomotoras. Entretanto. insistia. a contragosto. ele deveria retomar seu antigo posto de chefe de armazém. No fim de dias de trabalho particularmente esgotantes. esportivas ou os trabalhos de forte carga física são as úricas defesas verdadeiramente funcionais para assegurar o equilíbrio. a seu trabalho na fábrica para aceitar um emprego numa companhia de seguros. sua função era de organizar e de controlar o trabalho de uma equipe de uma dúzia de operários. ele tinha se tornado em algumas semanas presidente do clube municipal e esta atividade secundária particularmente intensa lhe proporcionava o relaxamento que não lhe ofereciam suas horas no escritório. com seu marido para que ele abandonasse seu emprego por uma profissão mais "respeitável".

ao mesmo tempo. Mas este período de compensação é pouco. Uma tarefa muitas vezes apreciada por tais personalidades é a de condutor e de piloto de máquinas. E a curto ou a médio prazo a evolução faz-se. com diminuição da carga física. fora do trabalho. Nós não as discutiremos aqui. Quanto mais mudanças. o mais freqüentemente. Do carro à moto. como uma "melhoria" das condições de trabalho. eles querem avidamente. melhor se sentem. neste exemplo. menos monotonia e rotina. barulho. O importante aqui é compreender a simultaneidade do prazer e da necessidade. estímulos psicossensoriais etc. uma sez que o debate foi concluído em outro lugar. sem levar em conta as necessidades da personalidade.levar a um sofrimento e até a uma síndrome psicopatológica caracterizada. (64. se for aplicada cegamente. colocando o sujeito em face de uma organização do trabalho e de um conteúdo ergonômico radicalmente diferentes. Eles conseguem às vezes manter o equilíbrio recorrendo. Outras personalidades têm aptidões para tarefas que comportem fortes exigências psicossensoriais. pode conduzir a uma catástrofe a nível da economia geral do indivíduo com suas traduções clínicas patológicas. dos carros de corrida aos aviões. a atividades que possuam as mesmas características: longos percursos noturnos de carro. estimada por estas personalidades e necessárias ao seu equilíbrio. Outras hipóteses explicativas do caso deste paciente poderiam ser propostas. corridas desenfreadas de moto. músicas a volume alto. a inadaptação entre as necessidades provenientes da estrutura mental e o conteúdo ergonômico da tarefa traduz-se por uma insatisfação ou por um sofrimento. imagens visuais. em direção a uma doença somática em virtude das regras da economia psíco-somática. (24) Apoiando-nos nestas conclusões. elucidadas há cerca de vinte anos. Estas pessoas têm necessidade de um trabalho variado. toda uma pa-nóplia de tarefas de alto grau de violência psicossensorial é. admitiremos que o papel determinante na descompensação psiquiátrica deste doente foi desempenhado pela neutralização das defesas compor-tamentais na ocasião de uma mudança de posto de trabalho. consumo impressionante de espetáculos onde as aventuras são o assunto de predileção. ou até mesmo 59 .77) Na vivência dos trabalhadores. O que outros não poderiam suportar. Fora de um relaxamento e de um prazer trazidos por tais atividades. Pode-se ver bem. estes sujeitos ficam não só insatisfeitos mas muitas vezes em posição delicada em relação à saúde. Estas aptidões são às vezes acompanhadas de uma verdadeira necessidade de alimentação de impressões sonoras. atividades musicais mais apreciadas por sua riqueza sonora do que pelo tema musical etc. dos pesos pesados aos guindastes.67.

uma predileção pelas atividades mentais de tipo matemático. 78) Estes casos não são mais excepcionais do que os de trabalhadores que apresentam defesas situadas essencialmente no setor da atividade motora que. desde muitos jovens. a atividade intelectual na base de sua tarefa profissional toma um caráter de necessidade para seu equilíbrio mental. antes de tudo. Se lhe interditarem o trabalho. no sentido físico e nervoso. tiva ou reumatológica. a econometria. uma doença somática. não é raro que seu organismo seja vítima de uma doença coronária ou um infarto do miocárdio após um prazo de alguns dias ou de algumas semanas. paralelamente na profissão. A atividade intelectual não escapa ao esquema de que falamos. portanto. uma via privilegiada para descarregar suas necessidades de atividade. mas igualmente pela ausência de fracasso ao longo de um curso que parece poder se desenvolver sem nenhum incidente. inventivas ou criativas. Tais personalidades se fazem notar. Se. mental e somaticamente. uma satisfação em relação com o exercício do corpo. rara* mente precisada. a rhaioria dos sujeitos que apresentam um tal perfil de carreira são. em conseqüência de um acidente. O ponto de im- . Alguns dentre estes encontram nas atividades intelectuais deste tipo e. toda carga de trabalho supõe uma composição específica de cargas elementares dependentes de cada um destes setores. (75. nas profissões de caráter social geralmente elevado. é que a insatisfação com o trabalho não corresponde só ao conteúdo significativo do trabalho nem ao seu conteúdo simbólico. no trabalho. não apenas por suas aptidões para os estudos. encontram-se imobilizados num emprego sedentário e apresentam.79) Neste estudo da insatisfação com o trabalho relacionado ao conteúdo ergonômico da tarefa é preciso tirar duas conclusões: Primeiro. Tais personalidades foram estudadas por certos autores. três componentes principais. (68.por um estado de ansiedade raramente traduzido em palavras. podemos tomar. diges-. se forem vítimas de um afastamento ou se se aposentarem. pelo cálculo. Certos sujeitos apresentam aptidões particulares no campo do raciocínio intelectual lógico e racional. a contabilidade etc. no fim de alguns meses. relativamente frágeis. Outras são de ordem psicossensorial e as últimas são de ordem intelectual. ao mesmo tempo. Estes sujeitos têm. eles não têm aptidão particular para a produção de fantasias o devaneio e a imaginação. mas que existe.76. raramente explicitada pelo próprio trabalhador. Para esquematizar esta relação sutil entre o conteúdo ergonômica1 do trabalho e a estrutura da personalidade. O primeiro é relativo às exigências de ordem física e psicomotora. Contrariamente ao que se poderia crer. mais do que por atividades intelectuais que necessitem de faculdades imaginativas.

A segunda conclusão diz respeito à introdução da estrutura da personalidade na relação homemtrabalho. sofrimento mental resultante de uma frustração a nível do conteúdo significativo da tarefa pode. primeiro. levar a doenças somáticas. (A síndrome confusional é. Todavia. Presente em todos os tipos de sofrimento. Por outro lado. o corpo e não o aparelho mental (o exemplo dü trabalhador diabeúco mostrou que uma descompensação mental poderia provir da inadaptação homem-tarefa). A síndrome confusional isolada artificiaJ-mente nesta observação mostrava a existência de uma etapa no processo de "desorganização psicossomática" (67) Se uma terapêutica conveniente não tivesse sido rapidamente proposta. assim. não são equivalentes às doenças diretamente infligidas ao organismo pelas condições de trabalho. a carga de trabalho é chamada astreinte) (73). ela aparece particularmente importante no caso da insatisfação com o conteúdo ergonômico do trabalho. uma entidade psiquiátrica um pouco à parte do limite entre a desorganização mental e a desorganização somática. A insatisfação proveniente de um conteúdo ergonômico inadaptado à estrutura da personalidade não é outra coisa do que uma carga de trabalho psíquica.) (33) A insatisfação em relação com o conteúdo significativo da tarefa engendra um sofrimento cujo ponto de impacto é. é preciso considerar. A carga de trabalho psíquica representada pelo sofrimento proveniente de um desconforto do corpo coloca 61 . Os efeitos desta carga e o sofrimento estão no registro mental e se ocasionam desordens no corpo. (Na nomenclatura internacional e segundo as normas Afnor. a evolução do processo de desorganização teria terminado na morte. as exigências da tarefa são chamadas contraintes. As exigências da tarefa são o que nós descrevemos sob o nome de conteúdo ergonômico. Esta carga de trabalho não é idêntica à carga de trabalho física ou psicossensomotora. por intermédio de uma descompensação e de complicações do diabetes insulino-depen-dente. antes de tudo. igualmente. mental. As articulações psico-dinâmicas e psicoeconômicas serão retomadas ulteriormente em outro capítulo. como já o mostravam os ergonomistas. um custo individual da tarefa notoriamente diferente daquele que revela o estudo objetivo das exigências: é a carga de trabalho. com efeito. Analisar o conteúdo do trabalho em termos de exigências ou obrigações é insuficiente. em oposição ao sofrimento resultante do conteúdo ergonômico da tarefa. a partir da estrutura da personalidade de cada indivíduo.pacto do sofrimento proveniente da inadequação do conteúdo ergonômico da tarefa às aptidões e as necessidades do trabalhador é. Aparece. o que representa para ele o confronto com esta tarefa.

I 62 . separar os dois setores da satisfação com o trabalho é uma necessidade de exposição. Isto é: fornecer atividades físicas. Isto depende do que a tarefa veicula do ponto de vista simbólico. No centro da relação saúde-trabalho. Não é mais questão das necessidades como no caso do corpo. a significação do trabalho que importam nas suas relações com o desejo. primeiramente. As satisfações concretas dizem respeito à proteção da vida. simultaneamente. à saúde do corpo. As satisfações simbólicas: desta vez. biológico e nervoso. a vivência do trabalhador ocupa um lugar particular que lhe é conferido pela posição privilegiada do aparelho psíquico na economia psicossomática. trata-se da vivência qualitativa da tarefa. O conflito não é outro senão o que opõe o homem à organização do trabalho (na medida em que o conteúdo ergonômico do trabalho resulta da divisão do trabalho). Estas satisfações concretas analizam-se em termos de economia psicossomática. num capítulo ulterior. Assim. sensoriais e intelectuais segundo proporções que estejam em concordância com a economia psicossomática individual. Mas compreenderemos facilmente que as coisas intrincam-se de maneira muito mais complexa na realidade de cada caso. É o sentido.inteiramente o trabalhador e sua personalidade à prova de uma realidade material. num arranjo da realidade suscetível de produzir. Nós veremos. mas dos desejos ou das motivações. isto é. ao bem-estar físico. segundo duas linhas diretrizes: subtrair o corpo à nocividade do trabalho e permitir ao corpo entregar-se à atividade capaz de ofercer as vias melhor adaptadas à descarga da energia. O aparelho psíquico seria. de alguma maneira encarregado de representar e de fazer triunfar as aspirações do sujeito. satisfações concretas e simbólicas. como levar em conta estes diferentes elementos numa aproximação global e mais sintética da relação homem-trabalho.

Pode tratar-se de uma oposição entre duas pulsões. (39) A investigação da angústia só deve ser realizada pela psicanálise. entre dois sistemas (por exemplo: consciente e inconsciente). entre dois desejos. de uma contradição entre dois impulsos inconciliáveis. na medida em que constitui uma abordagem específica da relação do homem çom a realidade. um conceito que não é propriamente psicanalítico — e que responde por um aspecto concreto da realidade e exige sistemas defensivos específicos. à estrutura de personalidade e ao modo específico de relação objetai. isto é. Mas nosso assunto aqui é o medo. Falaremos aqui de medo. não de angústia. O que vamos tentar mostrar é que o medo está presente eni todos os tipos de ocupações profissionais.Trabalho e medo O medo constitui uma das dimensões da vivência dos trabalhadores quase sempre ignorada por todos os estudos em psicopatologia do trabalho. essencialmente mal conhecidos até hoje. A angústia é uma produção individual. entre duas instâncias (ego e super-ego). inclusive nas tarefas repetitivas e nos trabalhos de escritório. A psicopatologia do trabalho encontra-se muito bem colocada para ressaltar esta problemática nova. onde parece ocupar um papel modesto. Faz-se necessário uma precisão semiológica: a angústia resulta de um conflito intrapsíquico. Algumas categorias profissionais são expostas a riscos relacio63 . cujas características só podem ser esclarecidas pela referência contínua à história individual.

que podem ter um caráter material (dispositivos de proteção) ou um caráter psicológico (regras de segurança). dos trabalhos em profundidade. muitas vezes o acidente que acontece com o operário pode. É com um passo falso que o operário cai dos andaimes. É o que se observa muitas vezes neste tipo de acidente. por tabela. morte violenta. mesmo se o risco é combatido por medidas e regras de segurança. Quase sempre propõe-se aos trabalhadores apenas medidas preventivas individuais. irregularidades no funcionamento de um instrumento ou de uma máquina. por exemplo. circunstâncias atmosféricas. seja porque o risco ou suas manifestações são mal conhecidos. o risco è mais personalizado. uma explosão. o próprio risco continua. queimadura. coletivo. independente. da vontade do trabalhador. é que deve ser assumido individualmente. ele quase sempre conta com uma prevenção incompleta pela organização do trabalho. um escapamento de gás tóxico. da construção civil. das indústrias de preparação de produtos tóxicos etc. Em todos estes casos. acidente. via de regra. Enfim. então. O risco é. De qualquer maneira. fratura. sem que nenhuma prevenção seja colocada à disposição dos operários. 64 . inerente ao trabalho. ferimento. Pode tratar-se de . É o caso das indústrias. um acidente de descompres-são. O problema do medo no trabalho surge desta oposição entre a natureza coletiva e material do risco residual e a natureza individual e psicológica da prevenção a cada instante de trabalho. Mas mesmo nestes casos. afogamento. A causa material do dano físico pode ser um incêndio. Às vezes. Podemos descrever diversas características destes riscos: o risco é exterior e na maioria das vezes. atingir outros: um operador de grua.nados à integridade física. São eficazes apenas as medidas de proteção chamadas de "proteções coletivas" — por exemplo: as telas de proteção ao longo dos andaimes. É o caso. onde muito freqüentemente é um acidente que revela a existência de um risco até então desconhecido.asfixia. seja devido à limitação dos investimentos necessários. da pesca em alto-mar. por exemplo. Às vezes. se atingido por um choque elétrico deixa cair a carga sobre um grupo de trabalhadores que trabalha no solo. Por outro lado.que operam em fluxo contínuo. o que caracteriza o risco residual que não é completamente eliminado pela organização do trabalho. freqüentemente (mas nem sempre) o risco é coletivo: numa indústria química um escapamento de gás pode provocar a intoxicação ou morte de vários trabalhadores. Ao lado do risco real precisamos mencionar ainda o risco suposto. na maioria das situações de trabalho onde vários operários colaboram na mesma tarefa. os riscos estão relacionados ao corpo do indivíduo.

inteiramente a cargo do trabalhador. Quando são muito eficazes. Ou quatro operários mortos numa oficina onde se lidava com desfo-lhantes. os mal-estares. numa das fábricas pesquisadas). a notável diminuição da longevidade (a média é de 57 anos). Os trabalhadores evocam as "doenças profissionais" e as "afecções de caráter profissional" — cuja origem está bem situada no trabalho mas que não estão inscritas no quadro oficial das doenças profissionais. cujo caráter imprevisível e ressaltado pelas pesquisas a respeito. como também as lesões por fricção e os pruridos. os infartos do miocárdio. l. Em outro caso. os trabalhadores elaboram defesas específicas. como para todo e qualquer problema médico que não tenha nenhuma relação com o trabalho. è fonte de uma ansiedade específica. provocado pelo cloreto de vinila. 65 .. bem ou mal. ao ouvirmos os operadores de sala de controle. é preciso procurar pelos sinais indiretos que são justamente estes sistemas defensivos. os infartos de miocárdio entre 30 e 40 anos. Temos ainda as mortes por inalação de fosgênio. pois os operários que nela trabalhavam manipulavam pentaclorofenol e sofriam quase todos de um prurido. o câncer do fígado. As lesões eczematiformes dos dedos não são raras. o trabalho administrativo é considerado limpo. O trabalhador doente é coberto pela Previdência Social por causa da doença. O risco confirmado pelos acidentes. os problemas sexuais na oficina de«bromato de isopropila. dele temos somente um quadro difuso. praticamente não se encontra mais nenhum traço de medo no discurso do trabalhador. Os sinais diretos do medo Na indústria química. os riscos de complicação com o menor ferimento. teria causado a morte de vários trabalhadores. Comra este medo e a impressão dolorosa de que deve ser. Entretanto. Uma oficina ficou assim denominda de "oficina da sarna". constatamos inevitavelmente a extensão das preocupações relativas à saúde física. que dá direito ao complemento salarial e às eventuais indenizações por invalidez. assumida individualmente.. os doentes hospitalizados com urgência (18 operários de uma só vez.conhecido em seus detalhes. onde o trabalho é organizado em . para esiudá-la.fluxo contínuo. as numerosas úlceras de duodeno. Assim. em vez de beneficiar do regime de "doença profissional". o envelhecimento precoce.

quando esperaríamos encontrar basicamente reclamações que dizem respeito à saúde mental. Mencionam-se igualmente fraturas. o ruído. nunca se faz menção das repercussões do perigo real a nível mental. A propósito deste discurso trabalhador sobre a saúde física. É possível ter concentrações importantes de vapores tóxicos. os gases tóxicos. as pressões. os vapores e poeiras. negligenciamos em geral a própria palavra. O medo relativo ao risco pode ficar sensivelmente amplificado pelo desconhecimento dos limites deste risco ou pela ignorância dos métodos de prevenção eficazes. Se a relação corpo-condições de trabalho muitas vezes é estudada corretamente. até mesmo no posto de controle: "muitas vezes a gente começa e já temos vapores quase até a cintura". Acontece também de o tempo de começar uma reação já ser suficiente para se ter vapores acumulando-se em toda a oficina. Mesmo sendo incontestável tal realidade. T Saúde física e condições de trabalho: estas são claramente apontadas pelos trabalhadores como fonte de perigo para o corpo. Aos prejuízos físicos. faz parte do desgaste do organismo (astreinte)*. sujeição no sentido mais amplo. Ora. (N.) 66 . ao contrário. de explosão ou de incêndio. as temperaturas. Os riscos relativos à integridade física têm ainda uma grande importância. Além de ser um coeficiente de * Astreinte — significa limitação. A limpeza dos refratários é perigosa: é preciso entrar nas caldeiras ou fornos para se descascar as paredes com um martelo. queimaduras. e mesmo em algumas fábricas são claramente majoritárias as questões relativas à saúde física. é muito comum se colocar a ênfase analítica no que está mais imediatamente expresso. assim como seus efeitos que se fazem sentir sobretudo a nível da vida mental. corpos estranhos nos olhos etc.em resumo: as condições/ís/cas e químicas de trabalho. o ruído a 80-90 decibéis de algumas oficinas.doT. antes de tudo. é necessário acrescentar os riscos de acidente. esta palavra é uma palavra carregada de ansiedade. frio ou calor contínuos. o momento em que é pronunciada e o tom no qual se expressa.. da carga (de trabalho) psíquica inerente ao trabalho perigoso que. ou seja. entretanto. de que as condições de trabalho são prejudiciais para o corpo.Poderíamos citar ainda as condições de temperatura.. são as condições de trabalho que são acusadas: os vapores. estreitamento.

cuspindo fogo e vapores. presença de capacetes. é a ansiedade. em noites. por exemplo. pois um só acidente é susceptível de desorganizar a hierarquia estatística. justamente — mais do que constituir uma verdadeira proteção. Qualquer que seja sua amplitude. 67 . a ignorância aumenta também o custo mental ou psíquico do trabalho. É por aí. da tensão de concentração. mas não quantificável Sobre que bases podemos afirmar que tal empresa apresenta mais riscos do que outra? Sobre seu número de feridos? Sem dúvida.multiplicação do medo. mergulhadas no barulho das máquinas e iluminadas sombriamente por luzes que dão às formas do prédio e das chaminés uma silhueta estranha. destinadas principalmente a estimular a atenção — provocando medo. existem outros componentes do medo que vamos estudar a seguir. Mas ao lado deste medo "diretamente determinado". manifestam durante uma discussão. pois o risco real existe em todo lugar. a questão principal evocada espontaneamente. em relação à qual se estrutura tudo o que diz respeito ao sofrimento mental dos trabalhadores. que compreende. luvas (ao alcance das mãos. No discurso trabalhador em indústrias químicas. tudo lembra a possibilidade de ocorrência de um acidente ou incidente: cartazes. os efeitos da vigilância. é claro. da memorização etc. mesmo se esta carga existe e contribui parcialmente para o sofrimento sentido. mas freqüentemente cobertas de poeira). alarmes sonoros e visuais. sem exceção. Imaginemos estas fábricas que se estendem por muitos quilômetros. banhadas por uma atmosfera poluida de cheiros horríveis e sufocantes! Risco real. sinais luminosos. fala-se da ansiedade justamente quando se fala da "tensão nervosa". máscaras. Na empresa. O próprio aspecto exterior da fábrica não é indiferente para os trabalhadores. de ficar uma pilha". pelos efeitos da "carga psicos-sensorial". e não como se poderia pensar. com "os nervos à flor de pele" etc. isto não seria suficiente. ou como os trabalhos de certos especialistas (6 bis) instigam a considerar a questão: isto é. "Medo" e "tensão nervosa" No discurso de trabalhadores da indústria petroquímica. isto pouco importa. ele gera um estado de medo quase permanente que todos os trabalhadores. Aliás.

estas representações mostram a extensão do medo que responde. sobretudo.Na realidade. Há tempo suficiente para discutirem entre si. nunca ficamos descontraídos. os trabalhadores jamais abandonam a "tensão nervosa". no discurso dos trabalhadores. 68 ." "Medo"e "representação" . Raramente constaia-se um estado de sofrimento resultante de uma sobrecarga de trabalho ou de uma carga psicossensório-motora muito elevada. muito freqüentemente — e este não é o aspecto menos paradoxal das pesquisas — 05 trabalhadores não hesitam em esclarecer que. mesmo durante as atividades onde a carga de trabalho é pouco elevada (mas nunca eliminada. organizarem jogos. estão pouco ocupados por suas atribuições e longe de serem sobrecarregados. explosiva e mortal." Todas estas representações da fábrica no discurso operário enfatizam os seguintes pontos: — A ignorância dolorosa em que se encontram os trabalhadores do que se produz efetivamente nas "reações químicas". a todos os riscos que não são controlados pela prevenção coletiva. — A convicção de que a fábrica oculta uma violência própria. — O sentimento penoso de que a fábrica é susceptível de. mesmo quando não estamos trabalhando. Uma prova a mais da intensidade deste medo é fornecida pelos problemas de sono e.'' I "A fábrica é como um animal enorme que a gente. bem ou malt faz andar. até durante o tempo que passam no posto de trabalho. é primeiramente a ansiedade que domina.1 "Todo mundo sabe que trabalhamos sobre um barril de pólvora™ "A fábrica é um vulcão em cujas encostas nós batalhamos. Sobretudo. sei» saber em que momento ele pode entrar em erupção. pelo consumo de medicamentos psi-cotrópicos pela maioria do pessoal trabalhando numa fábrica: ansiolíticos durante o dia. definitivamente. pois sem esforço aparente os operadores continuam a identificar os ruídos específicos de certos alarmes). Entretanto. a qualquer momento. escapar ao controle dos operadores. e que pode a qualquer momento ficar furioso e destruir tudo o que está construído à sua volta. soníferos à noite e psicoestimulantes pela manhã. sem saber o que se passa no interior de seu corpo. "Enquanto estamos na fábrica. ao nível psicológico. fazerem palavras cruzadas etc. Ao contrário.

os trabalhadores con69 . rivalidade. utilizando os ossinhos móveis que são as vértebras e ocasionando assim "mal jeito nas costas". os da construção civil perfazem a metade. Este fato levou alguns autores a dizerem que a "psicologia dos operários da construção civil" caracterizava-se por um gosto pronunciado pelo perigo e pela performance física através de traços caracteriais dominados pelo orgulho. Não podemos admitir sem questionar que os operários da construção civil sejam. tendência ao individualismo etc. os mais ignorantes sobre os riscos que eles próprios enfrentam. a ignorância e a inconsciência em relação ao risco são apenas uma fachada. existe um insólito conhecido por resistência dos trabalhadores às normas de segurança. lombalgia e ciáticas. O desprezo. Nesta categoria profissional. no conjunto geral dos acidentes mortais. disto são testemunhas os numerosos acidentes mortais ou com invalidez que. É como se os trabalhadores da construção civil não estivessem conscientes dos riscos a que se submetem. Na verdade. Por exemplo. é preferível a inclinar-se o tronco e aprumar-se acionando a musculatura dorsal mais frágil. São bem conhecidas as atitudes com relação ao risco de acidentes. até mesmo encontrando nisto um certo prazer. segurar a carga no chão e levantar-se utilizando os quadríceps. mas também de temeridade. como também a recusa de certas regras de segurança. Os sinais indiretos do medo: a ideologia ocupacional defensiva Mesmo existindo nas indústrias químicas uma ideologia defensiva específica. até mesmo respostas de desprezo são freqüentes. valores ligados a sinais exteriores de virilidade. que são os músculos mais poderosos do corpo. os conselhos relativos ao levantamento manual de carga: ajoelhar-se. de algum modo. O que foi acima descrito corresponde a uma certa realidade. Esta atitude de desprezo pelo risco não pode ser tomada ao pé da letra. ausência de disciplina. Aliás.2. ou seja. de incons-ciência diante da realidade. Tais conselhos suscitam freqüentemente respostas do trabalhador do tipo "não sou uma mocinha e não vou fazer como você diz". os perigos têm um peso real e uma importância que é inútil sublinhar. bravura. tomaremos o caso da construção civil para ilustrar a questão da ideologia defensiva contra o medo. nossas pesquisas mostraram que esta fachada pode desmanchar-se e deixar emergir uma ansiedade imprevista e dramática. Entretanto. Depois que o momento de desafio já passou. dorsalgia. como acontece muitas vezes.

obrigaria o trabalhador a tomar tantas precauções individuais que ele se tornaria ineficaz do ponto de vista da produtividade. na realidade. A primeira característica desta fachada — a pseudoinconsciência do perigo — resulta. As atitudes de negação e de desprezo pelo perigo são uma simples inversão da afirmação relativa ao risco. Mas mesmo fora da situação de trabalho o medo só aparece camuflado: é a ladainha dos sintomas medicalizados da ansiedade sob forma de vertigens. de certo modo. mas ao fazê-lo. E o risco? Melhor que os outros. domina Ia. Assim que tais revelações aparecem. pelos mecanismos de defesa. Este estratagema tem um valor simbólico que afirma a iniciativa e o domínio dos trabalhadores sobre o perigo. Mas esta estratégia não é suficiente. impotências funcionais diversas — bem conhecidas dos médicos clínicos e médicos do trabalho (84). Este sistema defensivo é partilhado por todas as categorias profissionais da construção civil. Não discutiremos aqui sua justificativa do ponu> de vista da finalidade destes mecanismos. para funcionar. pois encontra-se contida. Criar uma situação ou agravá-la é. Apesar do risco de crítica. se pudesse aparecer a qualquer momento durante o trabalho.-segunda especificidade é seu caráter coletivo. Para outras pessoas. Aliás. neste caso os trabalhadores não poderiam continuar suas tarefas por muito tempo mais. e não existe sempre sem motivos. mesmo sem maiores envolvimentos emocionais. de um sistema defensivo destinado a controlar o medo. tudo se passa se fossem eles que criassem cada risco. A. não o inverso. Conjurar o risco exige sacrifícios e provas das mais absolutas. A vivência do medo existe efetivamente. e não mais o perigo que se abate sobre todos. A consciência aguda do risco de acidente. É por isto que os trabalhadores as vezes acrescentam ao risco do trabalho o risco das performances pessoais e de verdadeiros concursos de habilidade e de bravura. mas só raramente aparece à superfície. este caso é freqüente: o medo é uma causa importante da "inadaptação profissional" na construção civil. Na verdade. a avaliação correta do risco impediria completamente o trabalho na construção civil. no mínimo. independentemente de suas vontades. afirmamos que se o medo não fosse assim neutralizado. cefaléias. este sistema necessita de 70 . em matéria de interpretação de psico-patologia do trabalho.tam os acidentes a que assistiram ou dos quais foram vitimas. Estes são absolutamente necessários. Evocam também as famílias dos feridos. os trabalhadores é que o conhecem e vivenciam no dia-a-dia. não deixam dúvida alguma pelo tom da expressão e da emoção. Falam dos amigos mortos ou feridos no trabalho. Nestes testes rivalizam entre si.

de uma conduta deliberada visando a suportar justamente um risco que não seria completamente atenuado por medidas de segurança ridículas em relação à importância do risco. a ideologia defensiva tem um valor funcional em relação à produtividade. elimina aquele que não 71 . Do mesmo modo. Designamos com isto o que poderíamos chamar de exploração da ansiedade. Esta ideologia necessita seus sacrifícios e seus mártires. uma fórmula altamente capaz para se acalmar o medo. mas isto permite sobretudo que os outros pensem que não querer é suficiente para não ser vítima. risco. tem igualmente um valor no que concerne aos trabalhadores que não participam do trabalho. Nunca se deve falar de perigo. É exato que certos acidentes resultam destas condutas perigosas e destas competições desafiando o risco.encontrar sua confirmação. ou seja. antes de tudo." Talvez seja correto. Os trabalhadores" bem sabem que as rédeas da segurança não evitarão todos os acidentes. a recusa e as resistências encontradas na construção civil não são feitas de uma suposta inconsciência ou imaturidade. E estas instruções implícitas são respeitadas. armado da ideologia defensiva. Ninguém pode recusar sua contribuição individual para o sistema de defesa. Se a ideologia defensiva da profissão tem um valor funcional para os trabalhadores de um canteiro de obras. Seu grupo profissional. se um trabalhador não conseguiu incorporar a ideologia defensiva de sua profissão por conta própria. Ninguém pode ter medo. Vemos que o sistema de defesa requer uma grande coesão e uma solidez a toda prova. ao mesmo tempo. relembrar-lhes que o perigo existe mesmo e. é por este motivo que este sistema chega a ser uma tradição da profissão. Esta é uma das i azoes pelas quais as campanhas de segurança encontram tanta resistência. procurou isto. acidente. Ninguém pode ficar à margem deste código profissional. de uma verdadeira "ideologia defensiva" característica da profissão. Obrigar a que as coloquem é. será obrigado a parar de trabalhar. A eficácia simbólica da estratégia defensiva somente é assegurada pela participação de todos. sim. tornar-lhes as tarefas ainda mais difíceis. Ninguém deve demonstrá-lo. E que se possa avaliar o que trazem estes sacrifícios: "Se ele morreu é porque queria. nem do medo. Os trabalhadores nâo gostam de ser lembrados do que tão penosamente procuram exconjurar. Sem dúvida. se não consegue superar a própria apreensão. pois mais carregadas de ansiedade. mas. Exagerou. Além disso. Na verdade. A exploração do sofrimento mental e dos mecanismos de defesa que são colocados em prática para lutar contra este sofrimento serão tema de um capítulo posterior.

Desta maneira. em alguns casos. É o caso da indústria química. harmoniza-se com a sede provocada pelo esforço físico. de sua coesão. O vinho... de sua coragem. uma dose de álcool ajuda por seu valor simbólico e por sua atividade psicofarmacológica. Além disto. O papel do vinho e do álcool articula-se com esta ideologia. Na realidade. A ideologia defensiva é funcional a nível do grupo. será eliminado deste. não é raro que sejam submetidos a um verdadeiro teste: São "gozados" durante as refeições com respeito à própria virilidade. Constitui-se. em outros casos são notoriamente diferentes e específicos por profissão. o que se mostrar mais frágil será objeto dos riscos dos outros. mais cedo ou mais tarde. são observados. pois constitui o preço que devem pagar para superar a carga de medo que pressupõe o trabalho. E o que poderíamos chamar de "enquadramento" dos jovens trabalhadores. são uma dose de energia nem tanto física mas psicológica. o que acontece de tempos em tempos. que ajuda a enfrentar as condições de trabalho. farão parte do grupo de modo integral. Um outro exemplo pode ser fornecido neste mesmo sentido. onde a ideologia defensiva é radicalmente diferente da ideologia defensiva na construção civil. defende-se do medo reavivado ao nível individual e ao nível coletivo pelo discurso e comportamento do "medroso". por outro lado. deverão demitir-se. exigem-se certas proezas físicas. Se não renunciar a esta posição ousada em relação ao grupo. a importância da ideologia-defesa na continuidade do trabalho. O grupo não somente efetua uma verdadeira seleção que garante o valor operacional de cada trabalhador que está no canteiro de obras mas. é a garantia da produtividade. estes sistemas possuem certa analogia. Se. e é funcional também a nível do trabalho. A última característica da ideologia defensiva é a seguinte: para 72 . Após estes esclarecimentos. assim. reencontramos assim sistemas defensivos que estão profundamente estruturados pela natureza do risco em questão. Em numerososas profissões. Na verdade. Antes de retornar ao trabalho. a aparente "inconsciência" dos trabalhadores muda de significada. são submetidos ao teste da ideologia-defesa.consegue suportar o risco. do mesmo modo que incorporarão os elementos constitutivos da defesa coletiva. O papel psicológico emprestado ao vinho reencontra de maneira não fortuita a tradição e os hábitos de vida dos trabalhadores. Se não suportarem este ambiente de trabalho. recém-chegados a uma equipe. a aguardente. Se são aprovados.

através destes aspectos. mas com um trabalho que exija uma divisão de tarefas entre os membros de uma equipe. Entretanto. às bonificações. à velocidade e. onde há pouca comunicação entre os trabalhadores e onde a organização do trabalho é muito rigida. pois há pouca ou nenhuma formação para as tarefas desqualificadas. não apenas uma comunidade que trabalhe num mesmo local. estas exigem um jeito e uma habilidade que são conquistas de um aprendizado (56 bis). do que do rendimento exigido. A ansiedade responde então aos ritmo de trabalho. da cadência e das cotas de produção a serem respeitadas. mesmo quando um certo hábito foi incorporado. De onde provém esta ansiedade? Provém muito menos das condições fisicoquímicas do trabalho. há pouco espaço para a elaboração de ideologias defensivas (Vide Capitulo 1). participa do mesmo modo que a carga física do trabalho. ao contrário do que observamos nas profissões onde o trabalho se faz em grupo. ou em razão das súbitas mudanças de posto de trabalho impostas pela hierarquia. 3. o resultado obtido é sempre colocado em xeque pelo aumento da cadência imposta que surgirá um dia ou outro.sua elaboração é preciso a participação de um grupo trabalhador. Entretanto. para "quebrar um galho" onde faltam trabalhadores por licen-ça-saúde ou acidente. ao preço de esforços e de ansiedade ao longo do tempo e da experiência de trabalho. ou seja. esta ansiedade permeia todos os textos escritos por trabalhadores e todas as suas falas espontâneas. por menor atenção que se lhes dê. O medo em tarefas submetidas a ritmos de trabalho Os especialistas do homem em situação de trabalho nunca sequer mencionaram a ansiedade dos trabalhadores em linha de montagem ou na produção por peças. ao salário. aos prêmios. naquele caso não há senão possibilidades mínimas de produzirem II 73 . No caso do trabalho parcelado e repetitivo. Esta ansiedade aparece especialmente em trabalhadores que começam num novo posto. Esta ansiedade de que raramente se fala. de produção. Mesmo quando este jeito habilidoso já foi adquirido. A situação de trabalho por produção é completamente impregnada pelo risco de não acompanhar o ritmo imposto e de "perder o trem". Com a diferença de que. isto é. ao esgotamento progressivo e ao desgaste dos trabalhadores. do ritmo.

destrói a saúde mental dos trabalhadores de modo progressivo e inelutável. sobretudo. que a ansiedade da luta ininterrupta contra os tempos impostos conduza o trabalhador. simbolicamente.defesas coletivas. nestas condições. Justificada pelos fatos. desmanchada. corroída. tanto em relação à vitória sobre a hierarquia como em relação à solidariedade que une os trabalhadores neste instante. Podemos. participando também desta brincadeira simbólica de grande valor significativo. O essencial da ansiedade deverá então ser assumido individualmente. químicas e biológicas de seu trabalho. em relação à psicopatologia do trabalho. tenha-se passado ao largo deste medo massivo. Sabem que apresentam um nível de morbidade superior ao resto da população e. os trabalhadores falam sem disfarces dos riscos à sua integridade física que estão implicados nas condições físicas. Robert Li-nhart conta como um grupo de trabalhadores conseguiu organizar-se e dividir as tarefas de tal maneira que um deles. espantar-nos que. A única defesa coletiva que pudemos observar é a chamada "reestruturação coletiva da linha de montagem''. Prática e concretamente. não é grande coisa parar de trabalhar alguns minutos numa jornada de trabalho de dez horas diárias. 74 . em rodízio. este medo é parte integrante da carga de trabalho. a agarrarem-se a este. seja proveniente de ritmos de trabalho ou de riscos originários das más condições de trabalho. Compreendemos. podia sempre parar de trabalhar durante alguns minutos. Mas. Este medo patente é expresso desta maneira direta pela maioria dos trabalhadores das indústrias. assim que tiverem adquirido um certo hábito e rendimentos de controle de seu posto de trabalho. então. É o que alguns psicólogos chamam de "resistência à mudança"! (92) Ao lado do medo dos ritmos de trabalho. O medo. que a longevidade da categoria é de dez a quinze anos inferior à dos professores primários (54). A grande maioria tem a impressão de ser consumida interiormente. como o carvão que asfixia os pulmões do mineiro com silicose. o grupo de trabalhadores venceu o ritmo. de modo a não perder tais vantagens através de uma troca de posto. não está usufruindo sozinho pois todos aproveitam. Já contamos anteriormente um exemplo. Em L'Eíabli (63). Quando um deles pára. as velocidades e os tempos impostos. degradada. usada ou intoxicada.

Temos o hábito de apresentar estas relações de trabalho em termos políticos ou em termos de poder. sempre que o trabalho não é organizado de maneira taylorista. às cotas de produção. com a supervisão. Falsas esperanças. Ela faz parte integrante das táticas de comando.-* 75 . A desigualdade na divisão do trabalho (100) ê uma arma terrível de que se servem os chefes a bel-prazer da própria agressividade. a revolta e a agressividade reativas. A situação mais exemplar a este respeito é a do setor terciário e dos funcionários de escritórios. nas grandes administrações. de avaliação de tarefas.às vezes desagradáveis. à produtividade. Mas a frustração. No caso de indústrias onde o trabalho é submetido a um ritmo imposto. de maneira que à ansiedade relativa à produtividade.4. nos bancos. se bem que possamos presumir sua importância na relação saúde/trabalho. são habilmente mantidas. As mulheres são as principais vítimas deste sistema de . aos prêmios e bonificações. nos serviços. do atraso autorizado ou punido etc. É preciso fazer uma observação particular no que diz respeito às táticas de lideranças empresariais. É uma ansiedade superposta na medida em que a supervisão tem por encargo especificico manter esta ansiedade com relação ao rendimento de cada trabalhador. sobretudo sobre promoções. podemos obsemfTTma técnica-espeçífica de Y comando. muitas vezes não conseguem encontrar uma saída. mais particularmente de(técnicas de discriminação\A avaliação do chefe influencia os p^nt^^r-*^ sâo r1f"Vs para-^s rálmin do salário. podemos considerar que as relações hierarquias são fonte de uma ansiedade que se superpõe àquela que mencionamos com relação ao ritmo. com os outros trabalhadores — e que são. acrescenta-se então a ansiedade resultante do que chamaríamos de "cara feia do chefe". hostilidade ou perversidade. Nos serviços de contabilidade. Não podemos considerar como epifenômeno ou como questão acessória a discriminação que opera a hierarquia com relação aos trabalhadores. até insuportáveis. como veremos a seguir. O chefe da equipe e o contramestre utilizam freqüentemente repreensões e favoritismos para dividir os trabalhadores. com as chefias. mesmo que não seja explicitamente incluída no papel da hierarquia. A ansiedade e as "relações de trabalho " Entendemos por "relação do trabalho" todos os laços humanos criados pela organização do trabalho: relações com a hierarquia. Conhecemos muito mal os efeitos da repressão desta agressividade sobre o funcionamento mental dos trabalhadores. de rendimento.

Assim. a permanência do controle deve ser relembrada_j3gx_outrps meios: assim. No trabalho de escritório não se consegue efetivar o controle mediado pelo cronômetro da fábrica. De um conflito no sentido vertical. com o poder que lhe é conferido por sua posição hierárquica. Podemos nos perguntar porque a manipulação psicológica tem esta extensão no setor terciário. A partir do momento que existem tais rivalidades. Encoraja-se o funcionário a falar de suas dificuldades familiares e materiais. a vergonha e a culpa são provocadas em qualquer ocasião. a direção e os chefes de seção procuram meticulosamente as causas das licenças de trabalho e a natureza dos tratamentos seguidos. assim. serviremse do segredo como alavanca de manipulação psicológica. onde todos os trabalhadores estão ligados à mesma cadência pela velocidade da própria linha de montagem. E não somente as informações assim obtidas são depois utilizadas como meio de pressão. as contradições passam a se dar então no plano horizontal. Nesta mesma perspectiva. Apenas considerar as exigências de posturas ou a carga psicossensória é um erro enorme. o que lhes permite. Fica assim escamoteada a questão do trabalho. Em algumas administrações. nos serviços. mas às vezes também são tornadas públicas. Uma trama assim jelaborada é bastante densa e coerente. o chefe tem interesse de nelas participar. os chefes freqüentemente recorrem a uma convocação individual dos empregados. a rivalidade e a discriminação ass^^ramjanLgrande poder à supervisão^ O chefe tenta também que os empregados falem de seus colegas. ativando ou reativando os conflitos e as rivalidades entre empregados. acaba extor-quindo dos colegas maí-intencionados. Os tempos e os ritmos de trabalho são aí mais difíceis de se fazer respeitar que numa linha de montagem. criar suspeitas. Esta atmosfera de trabalho tem como efeito principal envenenar as reiações entre os empregados. Este clima psicológico não é nada excepcional. No escritório da chefia as ameaças são substituídas por uma mudança de atitude. Então. Constitui-se então todo um sistema de relações de suspeita e de espionagem. è muito mais a regra nos serviços de escritório. certas confidencias provocadas serão em seguida usadas para uma manipulação psicológica. À falta de inte-resse pelo trabalho soma-se a ansiedade resultante das relações humanasjrojundjimenté Trm^^ 76 J . rivalidades e perversidade de uns para com os outros. benevolência e paternalismo.comando. uma vez mais. tornando difícil afuga ou_até _a não-participação ao sistema. _e_o_que não consegue obter diretamente do interessado. Fica assim deslocado o conflito do poder. cujo debate se desloca para questões pessoais.

um espanhol. de não limitar a investigação cientifica ás relações individuais ou coletivas com a organização do trabalho. eles têm consciência deste 77 . ou seja. fica dissolvida. de modo a impedir toda e qualquer comunicação durante o trabalho. numa modificação das relações espontâneas que poderiam existir entre os empregados? No caso do trabalho taylorizado. Em geral. um português etc. um italiano. Assim. de seu envenenamento pela discriminação e suspeita. na realidade.O exemplo do setor terciário é especialmente próprio à introdução de uma nova questão. A primeira resulta da desestruturação das relações psico-afetivas espontâneas com os colegas de trabalho. A partir da organização do trabalho e das exigências a que ela submete o funcionamento mental (insatisfação e ansiedade). relativa às relações da vida mental e trabalho. 5. a frustração e a ansiedade serão vivenciadas no isolamento e na solidão afetiva. Trata-se. depois um iugoslavo. e a própria rede relacionai que. não podemos buscar as repercussões nas relações interindividuais. Um exemplo caricatural desta desestruturação da linha de montagem é dado por certas fábricas automobilísticas da região parisiense. A desorganização dos investimentos afetivos provocada pela organização do trabalho pode colocar em perigo o equilíbrio mental dos trabalhadores. um turco. aumentando-as ainda mais. de algum modo. como por exemplo a construção civil. No caso das profissões expostas a uma forte carga de medo. onde se constrói uma linha segundo a seqüência seguinte: um operário árabe. A produção das relações afetivas no terciário e sua desestru-turação no trabalho em linha de montagem são também fonte suplementar de sofrimento. ou de sua implicação forçada nas relações de violência e de agressividade com a hierarquia. um francês. pudemos constatar os efeitos acumulados da ideologia ocupa-cional defensiva. As diferentes formas de ansiedade Podemos agrupar esquematicamente os diferentes componentes da ansiedade em três itens: a) ansiedade relativa à degradação do funcionamento mental e do equilíbrio psicoafetivo: do que foi dito no parágrafo anterior podemos extrair dois tipos de ansiedade.

e em particular. enquanto que na organização do trabalho o alvo é o funcionamento mental. para enfrentar uma exigência ainda mais imperiosa: sobreviver. como também para o espírito. O segundo tipo de ansiedade diz respeito à desorganização do funcionamento mental. das relações familiares. As más condições de trabalho colocam o corpo em perigo de duas maneiras: risco de acidente de caráter súbito e de grave amplitude (queimaduras. aumento do índice de morbidade. a disciplina da fome não faz parte direta78 . de paralisia da imaginação. Às vezes. É de natureza mental a ansiedade resultante das ameaças à integridade física. Em todo caso. Dissemos anteriormente que nas . fraturas. b) Ansiedade relativa à degradação do organismo: a segunda forma de ansiedade resulta do risco que paira sobre a saúde física. doenças profissionais ou de caráter profissional. c) Ansiedade gerada pela "disciplina da fome": apesar do sofrimento mental que não pode mais passar ignorado. A ansiedade é a seqüela psíquica do risco que a nocivi-dade das condições de trabalho impõe ao corpo. em contrapartida está particularmente explícita no subproletariado (Vide Capítulo 1). A esta ansiedade alguns autores deram o nome de "'disciplina da fome" (27). Mesmo se parcialmente oculta na classe operária. Enfim. o recurso às bebidas alcoólicas é uma maneira de atenuar a tensão interna. de regressão intelectual. A necessidade de descarregar a agressividade provoca a contaminação das relações fora da fábrica. A partir dos efeitos específicos da organização do trabalho sobre a vida mental dos trabalhadores resulta uma ansiedade particular partilhada por uma grande parte da população trabalhadora. Ansiedade da morte. Precisamos acrescentar ainda que as más condições de trabalho não somente trazem prejuízos para o corpo. De certo modo. de despersonalização. o consumo dos psicotrópicos destinados a um melhor controle da agressividade e da tensão interna constitui um último recurso.risco. doenças "psicossomáticas". No capítulo sobre a insatisfação no trabalho dissemos que as exigências da tareía terminam numa auto-repressão do funcionamento mental individual e num esforço para manter os comportamentos condicionados. condições de trabalho é o corpo que recebe o impacto. ferimentos. os trabalhadores continuam em seus postos de trabalho expondo seu equilíbrio e seu funcionamento mental à ameaça contida no trabalho. é o sentimento de esclerose mental. diminuição do período de vida. morte).

Havíamos esclarecido antes que a distinção entre estes dois aspectos da carga psiquica era arbitrária e adotada por necessidades didáticas. acima de tudo. 79 . O capítulo seguinte destina-se a mostrar que a análise dos detalhes não deve superar a observação do conjunto. estas condições de trabalho são origem de uma excepcional adequação homem-tarefa. Antes de retomar a insatisfação e a ansiedade para analisarmos seus efeitos sobre a saúde. Este resultado mental insólito no que diz respeito ao perigo resulta de relações complexas entre satisfação e ansiedade. mas é. sua condição. Veremos então que.mente da relação homem-organizaçào do trabalho. no lugar de suscitar uma ansiedade equivalente. citaremos um caso particular da relação homem-trabalho onde se acumula uma quantidade impressionante de prejuizos.

para tornar possível a missão dos pilotos que sao apenas algumas dezenas. nem mesmo das razões que o levaram «* escolher tal profissão ou de seu trabalho. Cada uma destas características §. Aparece assim um corte entre o pessoal da navegação e o resto da coletividade. destinada a evitar as discussões impor-mnas que poderiam questionar seu orgulho de "cavaleiros do céu". que mostram ter um contato mais fácil. interessam-se voluntariamente pelas questões médicas 80 . indispensável para enfrentar as condições de trabalho. aliás um corte ativamente apoiado p&ios próprios pilotos.Um contra-exemplo: a aviação de caça Apresentação da situação Uma base de aviação de caça apresenta-se como uma imensa coletividade reunindo vánQs milharem de pessoas engajadas num trabalho comum como os operários de uma colméia. Em comparação com os pi fotos de transporte. a ideologia da profissão". Esta ideologia não é Kim efeito secundário do trabalho mas. como poderíamos mostrar. mais uma vez. de insolência e de agressividade. a existência de um sistema defensivo específico. ^ma verdadeira necessidade para manter um moral feito de orgulha. como veremos mais adiante. O piloto de caça não gosta de íalar de si com um estranho em termos pessoais. Para esta atitude psicológica poderiam dar-se várias explicações entre as quais encontraria lugar.

reduzido ao mínimo. que o equilíbrio psicológico realizado individualmente e em grupo (nas esquadrilhas) a respeito da vivência do trabalho è muito mais custoso e exige ser protegido de olhares indiscretos e sobretudo de qualquer conversa ou discussão que versassem sobre as questões de segurança e de acidente. leva até mesmo à surdez profissional: aeronaval). sobre a cabeça.e abrem-se com boa vontade sobre a natureza de seu trabalho e de suas condições. o trabalho exige que se empregue uma grande força física (para acionar o cabo que fica temivelmente rígido em certas posições do aparelho). o capacete é bastante justo para não se soltar em caso de ejeção. podem ser consideradas difíceis de suportar e podem expor o piloto a riscos de aeroembolismo. As variações de temperatura assim como as mudanças de pressão. O grupo de pilotos de caça vive à margem para proteger seu modo de funcionamento. nos ligamentos suspensores das vísceras etc. As acelerações positivas ou negativas podem atingir 7g. Amarrado por múltiplos cintos que. hiperbarismo. na pressão arterial.. sem media-tização. as trepidações do aparelho são muito penosas e o capacete não é útil para Proteger a cabeça das batidas contra o vidro. O barulho é às vezes muito intenso (em certos aviões. Representemos um piloto de caça na sua cabine: sua situação não tem nada de invejável. e até a desmaios. os pilotos de caça têm uma atitude verdadeiramente diferente. ele quase não pode mexer-se. Parece que os pilotos de caça têm com seu trabalho uma relação muito mais tensa que os pilotos de transporte. hipóxia. As condições de ilumimÜ 81 . encontra-se reunida uma quantidade impressionante de exigências relativas ao ambiente. por acidentes durante os vôos seguintes.. As vibrações de baixa freqüência. o que ocasiona desordens no sistema cardiovascular. nas mãos luvas e mais luvas são indispensáveis para lutar contra o frio.lhe imobilizam o peito e as coxas. o nariz e a boca são cobertos com uma máscara ligada por tubo às reservas de oxigênio do avião. O espaço de que dispõe. Às vezes. As condições de trabalho Num avião de caça. e talvez seja conveniente respeitar este afastamento sem o qual uma conversa deslocada poderia traduzir-se. deixa-lhe apenas o lugar para que se sente desconfortavelmente sobre um assento metálico (cuja rigidez é justificada por argumentos de segurança em relação à ejeção).

das dores abdominais. Se acrescentarmos a essa descrição o fato de que certos instrumentos de navegação. dos suores. riscos de explosão e de queimadura. enquanto ofuscação e penumbra alternam-se.. a hora do vôo. Desta proximidade permanente com a morte. em uma fração de segundo. e durante um mesmo vôo em função da altitude. apesar de todos esses prejuízos —. da interdição das falhas materiais. de tiro ou de pilotagem nem sempre são precisos. o que torna particularmente fastidiosa a leitura dos instrumentos de bordo. Há. enfim. o controle aéreo terrestre e isto em duas línguas (francês e inglês) segundo cada interlocutor. se ele se perturbar com uma ordem mal anunciada pelo chefe de patrulha. A justa apreciação destas enormes exigências de trabalho só é possível para aqueles que fizeram a experiência do aviào de caça. se ele hesitar em um procedimento em caso de incidente. Se o altímetro der uma indicação errada. O meio químico. das dificuldades respiratórias nas grandes acelerações. se sua vigilância for neutralizada por um segundo por causa de uma aceleração mal tolerada. ele tem que vigiar o exterior e manter comunicação com os companheiros. A menor falha neste mecanismo complexo pode. se aparecer um escapamento de óleo. ou gases tóxicos. Os argumentos de ordem material são de pouco peso se considerarmos que uma parte importante dos pilotos de caça è recrutada 82 . os sinais luminosos coloridos ou alternativos. os controles de alarme. das perturbações visuais (diminuição do campo visual. as telas do radar. visão negra. as informações visuais ou sonoras. das perturbações da pressão arterial — portanto. apesar das perturbações neurovegetativas. significar a morte. apesar das náuseas. qualquer um destes elementos pode levá-lo à morte. o piloto tem que conservar intactas toda sua vigilância e suas faculdades psicossensoriais para observar o painel. das hiperssiaiorréias. das cefaléias. Além disso. pode ser poluído por inalações de gases queimados. O funcionamento homem-máquina exige a perfeição. se o horizonte artificial desviar lentamente. Apesar das dores de ouvido. diplopia). se estiver um pouco "tenso" em razão de algum acontecimento familiar. e sobretudo sofrem algumas variações de um aparelho a outro. físicas ou psíquicas emerge uma ansiedade que só tem equivalente na dimensão fora do comum dos riscos que comporta uma missão aérea. enfim.. se o piloto sucumbir a urn instante de distração. podemos nos perguntar por que ainda há gente para enfrentar tais condições de trabalho. se soubermos que os acidentes graves não são excepcionais.nação mudam com a meteorologia. vapores.

concepção do posto de trabalho. Adaptação do trabalho ao homem As técnicas utilizadas para adaptar o trabalho ao homem não conhecem maiores realizações do que na aeronáutica. apresentação racional dos instrumentos. automatização dos cálculos. na organização do trabalho. divisão do trabalho entre os operadores etc. base-escola. constata-se que.entre os subof iciais cujo salário é quase igual ao de um empregado de escritório. duplicação dos instrumentos para servir à segurança. meios de telecomunicação. Foi bem antes da recente campanha de melhoria das condições de trabalho que foram feitos progressos consideráveis na insonorização. apontar três eixos principais em torno dos quais orientam-se os esforços de melhoria das relações homem-máquina. pres-surização. será preciso procurar em outra parte as explicações. Eis porque a organização do trabalho preocupa-se não com o progresso técnico. pilotos e comando concordam geralmente em melhorar a relação saúde-trabalho. na aviação de caça. A operacionalização da aviação de caça depende das performances dos pilotos e da boa adaptação homem-máquina. climatização. iluminação. um piloto custa caro. que conduziram aos aviões de transporte que conhecemos e que não são "mais seguros ao que os ônibus". mas também se dedica inteiramente a favorecer o trabalho dos pilotos. Podemos. petróleo destinados à instrução etc. pela sua formação (avião. Posição original da relação saúde-organizaçâo do trabalho Diferentemente do que se observa na produção industrial ou na construção civil. 83 . Cada avião representa uma verdadeira fortuna e para assegurar o retorno à base é preciso que o piloto esteja "em boa saúde".) de maneira que sua própria vida é objeto de todas as atenções. Portanto. Além do mais.

Toda melhoria das performances do avião ou de suas potencialidades permite ao piloto correr ainda riscos. segurança demais leva à transformação da aeronáutica em uma vasta escola e não em um instrumento operacional. e a aprendizagem não é.. O fim prima sobre os meios. nós não somos motoristas de ônibus". hierarquia e pilotos estão de acordo em melhorar a segurança. respeitar as regras de tiro não tem importância. Fazer uma acrobacia a mais ou a menos. mas isso custaria mais caro. limitação da segurança a nível dos homens. "Aqui. utilizar a reserva de combustível. uma palavra vazia. Aqui. é seu destino radicalmente diferente daquele que observamos na construção civil.correr riscos inúteis. tudo é centrado na agressividade. organização do trabalho. na ação. etc. A primeira característica da relação do homem com seu trabalho e da ansiedade ao risco. no sucesso a qualquer preço. voar em altitude mais baixa que a prevista. Por outro lado. ou na petroquímica. ser rigoroso no incidente. um esforço considerável é feito pela hierarquia para que os pilotos adquiram um verdadeiro domínio sobre o risco. O que é preciso é ser operacional. Logo.. pois este incidente muito freqüente acontece muitas vezes na carreira de um piloto de caça. na proeza. 86 . não fazer nenhuma proeza. Aqui também a situação é diferente da que se observa na indústria. Portanto. neste caso. na coragem. a desprezar a segurança. na aviação de caça. As atitudes levianas. O fim integra os meios. pronto a correr todos os riscos. isto é. considerar profissionalismo e seriedade como as melhores qualidades. temerárias. mas também a nível dos aparelhos. e é preciso prever a perda de aparelhos em caso de guerra. Só conta o resultado. o que não é o casb numa indústria. Certamente seria mais prudente construir aparelhos bimotores. Também numerosos são os que tiveram que se jogar em seguida de um desligamento do cotnpressor. por exemplo. aventureiras são proscritas e sancionadas. Na caça. no heroísmo. Eles efetivamente sabem fazê-lo. é preciso que os pilotos aprendam a repor em funcionamento seu único motor em caso de pane durante o vôo. Apesar da manutenção minuciosa de um risco residual.

Admiração. Elite da aeronáutica. Ele é procedente de várias origens: A ideologia dos caçadores: o piloto de caça toma para si os objetivos do exército. A admiração de que eles são objeto e o orgulho inigualável em relação às outras profissões são precisamente fundados na confrontação com este perigo exemplar da profissão. em seguida. cultivado. e da caça. psicológicas e físicas. da aviação. e a marinha mais que o exército. a motivação é objeto de uma atenção exemplar da parte da hierarquia. O jogo da satisfação no trabalho permite eliminar este desvio. Enfim. r O lugar excepcional da motivação Na profissão de piloto de caça. façanha e domínio da angústia são indissoluvelmente ligados e tiram seu valor um do outro. Elite no seio do exército. Poucas profissões realizam uma tal unidade teórico-prática e poucas situações pedem tantas capacidades de um só sujeito.A questão da satisfação no trabalho-*Apesar da adaptação do trabalho ao homem e da adaptação do homem ao trabalho. Os pilotos de caça pensam formar uma elite. incidentes e acidentes não são excepcionais. É entre eles que se recruta o estado-maior da aeronáutica. elite em relação à nação e admirada por todo mundo: heróis. e os pilotos de caça têm um profundo desprezo por todo o resto da humanidade. as condições de trabalho continuam sendo de uma dureza excepcional. eles representam o ideal de potência total que encontramos em todas as crianças e que está adormecido em muitos adultos. pois a aeronáutica é mais respeitada que a marinha. miseravelmente reduzida ao seu estado terrestre. orgulho. a perfeita associação de todas às qualidades intelectuais. os riscos permanecem grandes. — Primeiramente. como já sublinhamos. O interesse do trabalho: a tarefa do piloto de caça é efetivamente de uma complexidade incomum e necessita. onde entre os critérios de escolha de candidato. primeiramente. A valorização do corpo e do espírito pela situação de trabalho é exemplar da síntese trabalho intelectual-trabalho manual. simultaneamente. dá-se importância especial aos jogos de infância: 87 . pois eles são os "cavaleiros do céu". O eli-tismo é admitido. a nível da seleção. eles encaram a síntese da coragem individual e da competência técnica.

. a qualificação requerida. e a quantidade de aptidões e de qualidades psicomo88 . o lugar ocupado pela motivação. a complexidade da tarefa. A importância acordada neste trabalho à motivação modifica. gosto pela mecânica. à "agres. durante toda a formação. A aviação de caça mostra que um medo de uma intensidade considerável pode ser perfeitamente tolerada contanto que ela seja contrabalanceada pelo jogo do sistema motivação-satisfação. de um lado o medo e do owtro a insatisfação. prevenidos e levados em consideração. sividade" do aluno piloto. histórias de piloto. a multiplicidade dos prejuízos. os efeitos do medo ocasionados pela organização do trabalho são sujeitos ao multiplicador ou ao divisor que depende da satisfação do trabalho. isto» é. experiência em aeroclubes etc. o exercício simultâneo de todas as potencialidades físicas. Dada a diversidade das exigências da tarefa. se ele não tiver mais vontade de voar. Se seu desejo abater-se durante alguns dias ou algumas semanas. nesta profissão. a hierarquia concede um valor ao desejo de voar. — Enfim. é preciso estar motivado a todo instante sem o que o afron-tamento com o perigo corre o risco de terminar em catástrofe. tudo isto sob o titulo de "dinamismo". particularmente. Pois.gosto pelo aeromodelismo. durante toda a vida do piloto de caça. — Em seguida.! Hesitação. nas tarefas repetitivas. queda de motivação são minuciosamente observados. radicalmente os dados relativos à psicopatologia do trabalho en|| relação ao que se observa na classe operária. A diversidade do trabalho. a livre escolha da tarefa. leitura de aventuras. psicossensoriais e intelectuais coloca a aviação de caça numa oposição em relação ao que descrevemos na indústria e. não ocupam uma posição de mesmo nível na dinâmica psicopatológica.. Em outras palavras. j A estrutura mental dos pilotos de caça A propósito deste exemplo é fácil observar-se a dificuldade em distinguir na insatisfação no trabalho o que é proveniente do conteúdo significativo e o que é proveniente do conteúdo ergonômico do trabalho. basta que ele não queira trabalhar para ser automaticamente dispensado. à procura de missões perigosas. a desqualificação não tardará. o aperfeiçoamento permanente. desânimo. Este exemplo ao contrário mostra que os dois sofrimentos principais provenientes da relação homemorganização do trabalho.

O ideal do ego representa ainda um outro papel na vida do piloto de caça: o fato de pertencer ao grupo de pilotos. as motivações do piloto de caça? O desejo de voar condensa as aspirações de superpotência. Durante a formação. de vitória e de exaltação. fonte de um sentimento de bem-estar. Quais são. O piloto de caça aspira libertar-se das amarras. Tomado por seu narci-sismo. o ideal do eu fica sendo o principal motor da atividade profissional: se ele for capaz de desprezar o perigo que enfrenta quotidianamente é porque o piloto de caça é levado por aspirações essencialmente viradas para a auto-superação. assim. Após vários fracassos em vôo. ele indubitavelmente procura ser par em seus colegas. é uma verdadeira reconciliação entre o eu adulto e as aspirações arcaicas de ideal (ideal do ego). o aluno-piloto. fogoso geralmente. Voar sozinho é uma situação muito estimada pelo pilotos de caça. A homossexualidade latente. Dados os riscos materiais e estratégias. existe igualmente uma relação hierárquica. Entre os dois componentes da satisfação no trabalho (em relação ao conteúdo ergonômico e ao conteúdo significativo). O desejo de receber uma confirmação narcísica de seus semelhantes leva o sujeito a exibir-se na frente deles. portanto. Nós dissemos que o medo relativo ao risco que supõe uma tarefa pode ser modulado de alguma maneira pela relação com a satisfação. só podem contribuir se existir de antemão um engajamento fundado sobre o prazer oriundo da relação com o conteúdo significativo da tarefa. a exemplo do que se passa nos outros ramos de atividade. Eis porque devemos insistir um pouco mais detalhadamente no jogo significativo e no prazer da missão do piloto de caça. 89 . e o prazer que delas provém. não tanto psíquicas quanto materiais. Em alguns instantes privilegiados. é fácil constatar que não se pode impor estas. das limitações de distância e de velocidade. à esquadra. Em seguida. o que se opõe à divisão do trabalho presente nas equipes de vários homens dos aviões de transporte. encontramos às vezes alunos que não conseguem conciliar seu ideal com a realidade. ao esquadrão. de ultrapassagem e de libertação em relação aos limites do homem: livrar-se do peso. Voar quer dizer libertar-se das leis da física. é suspenso. é fácil constatai que este trabalho só pode convir a um número limitado de indivíduos. e só é capaz de identificação e de amor por objetos que possam ocupar um lugar estimado por seu ideal do ego. é uma das características do piloto de caça. Voar sozinho é o supremo prazer em que o piloto deixa-se levar pelo gozo narcísico. tarefas a qualquer trabalhador.toras e psicossensoriais requeridas. A aplicação das aptidões físicas e psicossensoriais. Este comportamento é evidente nas esquadras.

Outra característica. a profissão de piloto de caça parece ligada a uma fixação a um estágio pré-edipiano e prégenital do desenvolvimento da personalidade. a formação militar ocupa um lugar importante. ela só encontra uns poucos obstáculos e. Ao lado da formação técnica. num questionamento da atividade de trabalho. muito valorizada. homossexualidade mais contemplativa. estoura um conflito entre a vida profissional e o engajamento familiar que termina muitas vezes na angústia durante uma missão e. também de maneira demonstrativa. narcísico. O conflito mais característico opõe o ego ao ideal do ego e a angústia que 90 . mas chega também à pessoa física e ao vestuário. importância do nar-cisismo relativa às relações objetais. Nestes casos. eles estabelecem com elas relações onde elas devem testemunhar aos olhos de todos sua virilidade e sua potência. a transgressão permanente que o trabalho supõe. nunca se vê um único traço de remorso. nâo traz nenhuma culpa. A agressividade. Pode-se perceber a potência do ideal do ego nos pilotos de caça. hipertrofia do ideal do ego em detrimento do superego. é uma exigência fundamental da profissão. Seja um combate aéreo ou a morte infligida ao adversário. Parece que todas estas disciplinas são ensinadas no solo num ambiente muito hierarquizado e muito militarizado. Quando um investimento mais importante aparece na vida familiar. ela está estreitamente ligada à vida militar. Esta observação faz pensar que a moderação necessária das aspirações do ideal do ego é assegurada pelo reforço exterior (a ordem militar) das necessidades da realidade. representativas. a profissão de piloto de caça exige simultaneamente um bom controle da realidade e sérias raízes no campo do conhecimento e da disciplina científica e técnica. comparativa e exibicionista do que realizada na prática. ela leva inevitavelmente à incapacidade psíquica de voar. caso contrário. Entretanto. As características da personalidade dos pilotos de caça podem se enunciar assim: imaturidade. atraentes. a desvalorização narcísica. Mas as relações conjugais nunca abalam o investimento libidinoso principal.onde o exibicionismo não se atem às qualidades profissionais. isto é. Assim. o que domina não é tanto a culpa mas a perda de confiança em si. em uma outra situação: freqüentemente casados com mulheres bonitas. da disciplina e das proibições. que se encontra no trabalho. pouco a pouco. do superego. interrupção do desenvolvimento mental no meio do caminho entre o estágio fálico e o estágio genital. ao mesmo tempo em que nasce uma sintomatologia de tipo depressivo. Este ponto é essencial: a formação no solo relativamente longa e repetitiva continua durante toda a carreira.

que ele ultrapassa sua angústia. situação que para todas as outras estruturas de personalidade pareceria temível. num avião monoplano. de ser levado a investir seus desejos em outra pessoa que não ele mesmo. portanto. No piloto de caça. e é neste combate.disso resulta situa-se. o que significa. de ser obrigado à modéstia. a de ser limitado. Qualquer variação em relação a este modelo leva cedo ou tarde a uma desquali-ficação. ela é uma saída para o conflito narcísico que opõe o piloto à sua imagem. um sistema de motivação não insólito? 91 . na verdade é a ele mesmo que está desafiando. o acidente. de algum modo. Ao contrário. a tal ponto que sua vida profissional aparece como uma resposta. Quando ele desafia a natureza. mutação ou acidente. de ser comparável ao comum dos mortais. desafiar a natureza. Isso se compreende se levarmos em conta o fato de que a menor queda da motivação. Esta descrição da personalidade do piloto de caça é menos caricatural do que poderíamos pensar. acima de tudo. Somos levados. antes de tudo. de dever reconhecer a existência do outro e de suas diferenças.a concluir que a "angústia dos limites" não é apenas reativada pelo vôo. e de não ser suficiente para si-mesmo. projetar-se numa situação de risco não representa para a personalidade do piloto a mesma performance que para um neurótico médio. de sua orientação. A vida profissional é uma resposta grandiosa para esta desmesurada angústia. A angústia fundamental cio piloto de caça seria. insustentável e monstruosa. Repetidas pesquisas mostram. sua situação de piloto solitário. a própria motivação do vôo. de suas escolhas. esta "angústia dos limites" está no centro da vida mental.. Estas constatações conduzem naturalmente a uma pergunta: como se consegue recrutar indivíduos que apresentem ao mesmo tempo aptidões em qualidade e em quantidade excepcionais e. Enfrentar a adversidade. Assim. o perigo. Estas personalidades sâo do tipo das que foram descritas por Kohut (55). desafiar os elementos. ele estima. no espaço do narcisismo. que todos os pilotos de caça operacionais apresentam características psicológicas verdadeiramente padronizadas. e sobretudo no sucesso. neste caso. simultaneamente. então. mas. uma espécie de exutório para sua angústia fundamental. no entusiasmo ou na agressividade podem imediatamente comprometer a qualidade da performance. com efeito.

assim como o número de missões e seu conteúdo. a orientação para os diferentes ramos da aviação militar de um mesmo aluno mudará. a participação também à sua elaboração coletiva e ao seu reforço. Se amanhã os Mirage III forem modificados. a tudo o que foi definido acima como o sistema defensivo produzido coletivamente pelo grupo de pilotos (esquadrilha. a adesão do jovem piloto não apenas às condições de trabalho propriamente ditas. os excluídos e os fracassados da progressão e da adaptação não serão mais os mesmos. o funcionamento da corrente seletiva é superdeterminado pelas condições de trabalho. mas também aos valores morais e à ideologia da esquadra. intelectuais e técnicas não estão mais em jogo. E durante a formação que se faz a orientação nas diferentes carreiras em função das características da personalidade de cada piloto. antes de tudo. A adaptação É a modalidade mais sutil e mais finamente psicológica da seleção dos pilotos de caça. os critérios implícitos da "adaptação" modificar-se-ão. a adesão aos valores existentes. os monitores vindos das esquadras mudarão. a relação monitor-aluno na parte prática da formação aeronáutica. Apesar de não ser objetiva. ela resulta do jogo oculto das relações que acompanham a progressão do aluno desde os testes de entrada até a qualificação de piloto operacional. esta orientação-seleção. mas lambem da sua representatividade psicçlógica em relação às qualidades psíquicas requeridas pelo trabalho que ele é encarregado de representar junto a seus alunos. . A adaptação representa. Em última instância. Deduz-se facilmente desta análise que a qualidade de um monitor não depende só de seu valor pedagógico. isto é. através do desenvolvimento de uma relação de identificação. feita sem coerência. Muito pelo contrário. nervosas.vias já descritas de seu narcisismo e de sua capacidade identifícatória. imediatamente o comando mudará. as competências físicas. Neste nível. De maneira que o nó principal da seleção psíquica dos pilotos de caça è. entretanto. não é menos eficaz. esquadra). de certa maneira. Diferente da tripla seleção física. O que conta é precisamente a qualidade das relações com os camaradas. apesar de ser dependente das características próprias do mestre ou do monitor. nervosa e intelectual (freqüentemente qualificada como objetiva) a "seleçãopsíquica" não é.

95 . pela organização do trabalho. Aparece. nós devemos dar uma volta pela análise de um ponto crucial: a exploração do sofrimento e dos mecanismos de defesa destinados a contê-lo. A boa qualidade da relação motivação-satisfação e. particularmente. assim. à escolha da natureza das relações interpessoais do grupo.As condições objetivas de trabalho determinam o nível e o conteúdo da adaptação e. que seja do nosso conhecimento. não deixa de ser de uma eficácia notável. Fica aberta a questão para saber se. não acontece em nenhuma outra situação de trabalho. a adequação homem-trabalho exige não apenas um conteúdo excepcionalmente interessante da tarefa mas também uma seleção rigorosa entre os candidatos à profissão. uma seleção psíquica dos pilotos de caça que. A estrutura mental muito particular dos pilotos de caça contém talvez um "grão de loucura" que não é inútil para ousar desafiar assim a morte a cada dia. o prazer proveniente do conteúdo significativo e simbólico do trabalho são absolutamente necessários à manutenção da performance "ergonômica" e à atenuação do medo. à agressividade indispensável. sua loucura não é racionalmente explorada pelo comando e pela organização do trabalho. assim como o corpo dos pilotos de caça. ao nível de angústia a tolerar e. antes de estudar as conseqüências do sofrimento assumido pelos trabalhadores. conseqüentemene. a excepcional adaptação do prazer tirado do trabalho ao desejo do piloto de caça permite-lhe enfrentar a cada dia as condições de trabalho particularmente nocivas e a tolerar um medo que. apesar de subterrânea. Para ser perfeita. ao fim. E. repercutem sobre toda a corrente que íeva ã escolha das qualidades psíquicas necessárias ao piloto de caça designado para o novo tipo de avião.

a exploração de uma loucura bem específica 96 . Toda doença física só pode ser prejudicial à produtividade e à rentabilidade da empresa. Nas tarefas repetitivas. nos capítulos precedentes. que depois de ter suscitado nossa própria incredulidade. alguns aspectos "funcionais" do sofrimento. A erosão da vida mental individual dos trabalhadores é útil para a implantação de um comportamento condicionado favorável à produção. não deixará de levantar dúvidas e suspeitas no leitor. para submeter os trabalhadores aos critérios de produtividade. tanto no que diz respeito à continuidade do trabalho com alto risco. deste modo. Esta é a diferença essencial. Na construção civil.A exploração do sofrimento Chegamos agora ao capítulo mais insólito. O sofrimento mental aparece como intermediário necessário à submissão do corpo. como no tocante à seleção de pessoal. Já mencionamos. que funda a oposição entre a medicina e a psicanálise. Na aviação de caça. não se deixa encerrar por esquemas explicativos forjados fora de sua coerência. A atitude espontânea consiste em tomar como referência o sofrimento físico. Mais do que isso. uma vez mais. estruturam toda a vida externa ao trabalho. já havíamos assinalado o valor funcional da ideologia ocupacional defensiva. os comportamentos condicionados não são unicamente conseqüências da organização do trabalho. ligados à produtividade. Mas eis que o sofrimento mental. contribuindo.

numa linguagem codificada." — "Em seguida. quer?" — "Em seguida. na linguagem codificada do PTT." — "De tanto ficarmos sentadas. por exemplo. depois de tê-la obtido." — "O trabalho é completamente falso. Depois." — "Por último." — "O que o Sr. Quando eu saio do trabalho. no caso de agradecimento do assinante. do T. Sobretudo no início. Télégrames et Télecommunication .). na França é a empresa estatal que agrupa os correios. deseja?" Não podemos dizer. ou seja.I permite encontrar homens capazes de se lançarem num desafio mortal com os elementos naturais. "o que o Sr. reformulá-la. é preciso guardar a informação e procurá-la nas microfichas. informações'.. faremos referência a dois exemplos tirados da indústria. devemos dar a informação sob forma de 'resposta'. — "O trabalho nos deixa idiotas." — "As frase que a gente tem que dizer são: '496. telégrafos e telefonia (N. ficamos com o traseiro achatado. 97 . falo com as pessoas com as frases do PTT. devemos repetir a informação pedida sob forma de pergunta. terminamos tendo uma bunda horrível. é a única situação em que temos o direito de dar uma resposta livremente escolhida. 1. a indústria petroquímica facilitará nossa demonstração de como o medo pode ser uma engrenagem determinante da organização do trabalho. A exploração da frustração Apresentamos a seguir notas tiradas de uma pesquisa com telefonistas (de Dominique Dessors." * Postes. não publicada)." — "Depois. Quando falamos. Para ilustrar nossa afirmação. é o PTT* que fala. Mas as coisas não param por aí. é preciso enquadrar a informação. Com as telefonistas." — "Enfim. veremos como o sofrimento proveniente da insatisfação pode ser utilizado para aumentai a produtividade.. esse esforço de memória não énada fácil. não podemos dizer 'bom dia'.

Daí a importância das notas. onde o trabalho é menos sobrecarregado e onde se reencontram com suas cidades de origem. que dá notas que ficam registradas num relatório. detestado mesmo. Depois. do interior (quase 90% delas). Pois é um trabalho mal conceituado. indestrutível.— "Não temos o direito de desligar. Há um controle exercido sobre dez a quinze pessoas. ainda é preciso esperar que o assinante tenha acabado de reclamar e desligado. seja que foi muito curta. seja que a resposta foi muito demorada." — "Não sabemos quantas chamadas vamos receber. em geral. e encontraram aí seu primeiro trabalho. Consta de: ' — contadores para o número de chamadas (45 a 50. É o assinante que deve desligar primeiro. para não dizer que o PTT não a possui. — contadores do tempo de cada chamada. Isso obriga a uma pesquisa mais longa. Assim. O que é mais difícil são as informações mal explicadas ou não mais válidas. Seja que a linguagem correta não foi usada." — "Durante nosso treinamento ou aprendizagem nos ensinam que não devemos ser muito amáveis. das quais depende a possibilidade de conseguir uma vaga no interior. não temos nenhum poder sobre o interlocutor. 120 para funções específicas). devemos responder que 'Esta informação não consta neste item'. As telefonistas são." a) Controle e hierarquia As telefonistas podem ser escutadas sem o saber a qualquer momento." "O serviço de informações existe porque o catálogo telefônico é incompreensível. geralmente. de tanto controlar a chefe do controle. e uma vem em seguida a anterior." Há um verdadeiro terror por causa dessa escuta da controladora. haverá sempre qualquer coisa para comentar. "Se a chefe do controle estiver de 'mau-humor'. Acabamos com torcicolo. Seja falso ou verdadeiro. è proibido fazer mais de três pesquisas para dar a resposta a uma pergunta). pois é preciso desencorajar as pessoas a recorrerem às informações telefônicas. Todas elas estão em fila de espera para serem transferidas para o interior. 98 . Não temos o direito de fazer mais de três fichas (quer dizer.

sabemos de cor uma informação. resmungar de modo incompreensível o número do posto em que estamos. no momento do 'clic' . 'deixa qualquer um completamente idiota'. de interferência com a voz do interlocutor. "Estas brigas só nos causam tensão. quando se sabe muito bem que não há ninguém." "Ficamos ligadas ao posto de trabalho por um equipamento munido de um fio bem curto. Devemos. se reduz o número de pessoal. semelhante ao do telefone: dizemos então o número do posto de trabalho. isso provoca um efeito de ruído. não confiamos em nossa memória. pois as mulheres nãt> têm o direito de trabalhar. Muitas funcionárias são das Antilhas e têm um sotaque bastante forte. na cidade de Paris." "Quando alguém na rua nos diz bom-dia. um assinante pede um numero de telefone do interior." "Por outro lado. Temos uma verdadeira sensação de estar acorrentadas. Mas repetir tudo isso três vezes. elas são Jevadas a dizerem coisas estúpidas. Uma única resposta desagradável pode acabar com um dia de trabalho. é preciso anunciar o número do posto receptor. só temos um único ponto de escuta no fone. Na realidade. A pessoa se irrita e pergunta se estão "gozando da cara dele". no trabalho. A noite." "Trocamos de posto a cada período de trabalho. Às vezes. e com a outra orelha ouvimos os ruídos da sala de trabalho e as outras colegas falando. são 1. a pesquisa de informações pode referir-se ao número do estado ou ao número do assinante. achamos um jeito. para que as reclamações dos assinantes possam identificar a responsável. Ora. 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando' — e este é o único caso em que se pode desligar primeiro. freqüentemente. mas não ousamos acreditar nisso. Então. pois se a gente se vira é detida pela extensão do fio. sobretudo quando se trata de uma mulher." "Só podemos desligar se não há nenhum assinante do outro lado do fio. Ficamos amarradas. 99 . no metrô. de maneira a se manter o mesmo ritmo de trabalho do dia. e a telefonista pergunta-lhe se ele tem o número de seu correspondente. recebem insultos racistas. respondemos: 'o que o senhor deseja?'.No centro telefônico em questão há 400 telefonistas. antes." "As vezes. Ha homens trabalhando durante a noite. Por exemplo. de modo que. manhã ou tarde. no começo de cada comunicação. no interior daquele estado." "Na saída do trabalho. que consiste.000 ao todo. as portas automáticas começam a fechar depois de um ruído. repetir: 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando'.

" As exigências de tempo e ritmo terminam por permear toda a vida. E menos cansativo falar assim do que falar normalmente. A finalidade da informação telefônica As informações telefônicas existem porque o catálogo é incompleto ou incompreensível. De maneira que começamos a responder mais depressa. sem gosto. Há jeito para se perguntar. — segundo. constatamos que quando estamos nervosas. as questões relativas à hierarquia. repensamos nos números que são freqüentemente citados com letras. Tudo é cinzento. só atravesso as ruas nos pontos marcados. O ambiente me parece sem cor. que desligue. ê preciso armar uma estratégia especial em relação às chefias. a finalidade da informação telefônica. Assim. — finalmente. não é levado em conta na ordem alfabética. Depois. BUS 84. destacando cada sílaba. Enfim. "Do ponto de vista do ritmo de trabalho. ao tipo de comando e à organização do trabalho. eu seguro o cor-rimão. nos acostumamos com uma certa forma de pronunciar as palavras. o que mais queremos é que o assinante desapareça.e verificamos tudo. mais depressa trabalhamos e mais chamadas respondemos. se 'a caixa está aberta'. mal ele desligou e já há um outro chamado. Mas aí. com medo de cair." b) Discussão Três elementos principais ressaltam dessas entrevistas: — primeiro. Por exemplo: "durante as pausas no trabalho a gente olha o relógio três vezes mais do que durante o trabalho. ou durante as pausas. E ao descer uma escada." "Ao sair do trabalho. por exemplo. O exemplo seguinte demonstra-o: o plural de "Aux Fleurs" (Às Flores). a forma e o conteúdo do trabalho. Não tenho mais confiança. pois somos então melhor compreendidas e não precisamos estar repetindo. para encontrar essa informação no 100 . na saída do trabalho. quanto mais nos enervamos. por exemplo. assim. continuamos a falar com essa voz nasal como naquelesketch de Yves Montand ("O telegrama"). nome de uma loja. o quê nunca fazia antes." "Para se ter pausas maiores ou suplementares. Depois. que fiquemos livres dele. sistematicamente.

transformando-o. na* letras A. Não somente é probido se expressar e passar. uma proibição de ser ela mesma. depurando-o. Mas também é necessário que não se ouça. a cada instante. a telefonista reprima suas intenções. suas iniciativas. Não se deve perceber seu tom desagradável. em resposta a um insulto. e não em A. dando-lhe a forma e o conteúdo P. a mínima parcela de desejo próprio. É preciso mencionar o nome "P. de agressividade. pelo fato de se poder ser controlado a qualquer momento. sua personalidade. ao controle e à organização do trabalho O eixo central dessa violência do poder baseia-se no estado permanente de poder ser controlado. de bom-humor ou de cansaço.catálogo. tudo aquilo que é próprio. nas respostas ao interlocutor. sua linguagem.U. Há uma contradição fundamental entre um serviço destinado à comunicação e a proibição de qualquer relação psico-afetiva.U X. Em outras palavras. forma e conteúdo são quase sinônimos: o conteúdo fica tão limitado.T. É nesse duplo sentido que tanto a forma como o conteúdo do trabalho impedem qualquer relacionamento.T. Não se deve escutar a maneira como se apresenta o discurso do outro.T." é. individualizante. Não se pode imaginar uma disciplina mais eficaz ou perfeita que a existente. sem mesmo saber em que mo101 . Deve-se substituir seu enunciado por uma tradução. ao comando. de prazer. na conversa dirigida ao silêncio: "Há alguém na linha? Há alguém? Desligando. nem no tempo utilizado para pronunciá-las! É obrigatório que.F. é preciso ir procurando. de algum modo.T.F. ridículo e estereotipado como a forma. por ocasião de uma conversa em que se comunicou com simpatia. Não se deve ouvir suas hesitações.". — O terceiro aspecto diz respeito à hierarquia. Falar "P." repetida três vezes. no número de frases. Podemos compreender como deve ser horrível passar 8 horas por dia sendo uma espécie de prolongamento do catálogo A forma e o conteúdo do trabalho Aqui. do interlocutor. Isso chega às raias do absurdo. Não se deve prestar atenção aos detalhes do que ele fala.T. Não se admite nenhuma variação no vocabulário. sucessivamente.T. nas palavras do outro. Do discurso do outro deve-se extrair apenas a informação solicitada.

A frustração e as provocações acumulam seus efeitos. Pois ter medo de ser vigiado é vigiar-se a si mesmo. Na impossibilidade de se encontrar uma saída direta. Diante da necessidade de respeitar a realidade (salário e disciplina da fome). um papel muito importante. a sintomatologia da neurose marcada pela organização do trabalho. em conjunto. O condicionamento constitui. Este exemplo traz uma ilustração do que acabamos de descrever. Quanto mais a telefonista se enerva. por intermédio de um retorno contra si mesma (41). pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. a telefonista tem interesse de orientar essa energia para uma adaptação à tarefa. A auto-agressào tem formas múltiplas. é a construção artificial de um autocontrole. permitiria mostrar que a única saída é de voltar a agressividade contra si mesmo (40). No primeiro plano. provocando. que não teremos como objetivo detalhar aqui. O medo e a ansiedade sâo os meios pelos quais se consegue fazer respeitar os preceitos hierárquicos. obedecer e proteger-se da ansiedade originada pelo risco de ser pego em erro. A exploração do sofrimento O trabalho de telefonistas propicia a ocasião de tratarmos da relação existente entre a "tensão nervosa" e a produtividade. De certo modo. a propósito do trabalho repetitivo como protótipo de um sistema disciplinar. discutido no Capítulo II. A telefonista transforma-se na artesã do seu pióprio condicionamento.mento esse controle é exercido. e a propósito dos comportamentos condicionados. é implantado um círculo vicioso. E esta agressividade que vai ser explorada pela organização do trabalho. Há um compromisso entre um "bem-estar" (em relação ao esforço requerido pela auto-repressão consciente) e um "bem-estar menor" (em relação à vida psíquica espontânea). As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor. onde a frustração alimenta a disciplina — base do comportamento condicionado. Mas a amplitude da organização do trabalho tem. mais se sente agressiva e mais deve intensificar a auto-repressão. Devido a um processo que transforma a agressividade em culpa. 102 . aparece a ansiedade: agir conforme as ordens recebidas. qual pode ser o destino dessa agressividade? Uma análise. a propósito do sofrimento resultante do conteúdo vazio de sentido da tarefa. de certa maneira. uma agressividade reativa. nesse caso.

103 . é trabalhar mais depressa. oferecida à agressividade reativa e à frustração. mas respeitando-se. o trabalho não causa O SOFRIMENTO.. de outro. mas porque o trabalho — dizem — as enerva. Contra o assinante desagradável. proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente. através de. que a controladora pode obter melhor rendimento.. a única solução autorizada ê reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa. É O SOFRIMENTO QUE PRODUZ O TRABALHO. a irritação e a tensão nervosa como meios de provocar um aumento de produção. Mais do que uma verdadeira organização do trabalho. também. Eis aí um fato extraordinário. De um lado. e consideramos "mais nervosas" aquelas que são mais facilmente irritáveis. O sistema de avaliação por notas e o modo de calcular a produção só fazem agravar esse estado de coisas (Bégoin. são "as mais nervosas" que têm os melhores rendimentos. não por excesso de zelo. que conduz a fazer aumentar a produtividade. Podemos dizer. De maneira que a única saída para a agressividade. mais rápido trabalham. Essa constatação já havia sido feita por Bégoin. mas não encontrava explicação na teoria pavloviana. pode implantar-se um circuito semelhante. para a realização de suas tarefas profissionais. exasperando as telefonistas. proibição de desligar. Proibição de responder agressivamente. No posto de trabalho. crises de nervos. "Algumas das telefonistas chegam a rendimentos excepcionais. Para aumentar a produção. o controle das telefonistas aparece como uma tecnologia de poder mediada pelo sofrimento psíquico. especificamente. temos a angústia como correia de transmissão da repressão e. é o próprio instrumento para obtenção do trabalho." Via de regra. os limites e as capacidades de cada um. longe de ser um epifenômeno. que o sofrimento psíquico. Mostra-se então. a reação agressiva não tem mais chances de se exteriorizar do que contra a controladora. nas condições atuais.Essa é a primeira saída possível. precisamente por causa do controle exercido. P 146). basta puxar a rédea do sofrimento psíquico. senão arrisca-se fazer descompensar uma ou outra. sem exagero. que o "nervosismo" das telefonistas (um dos elementos essenciais no quadro de sua neurose) é uma doença necessária. aliás bem restrita. De modo que não é tanto exortando-as a trabalhar rápido mas provocando irritação e a tensão nervosa nas telefonistas. nesse trabalho de informações telefônicas. e quanto mais nervosa ficam. menos pacientes etc. por exemplo.

entre tantos outros mecanógrafos. tinha selecionado sujeitos que apresentavam. são utilizadas especificamente para aumentar o ritmo de trabalho." (p. No caso das telefonistas.Um exemplo extraordinário da utilização do nervosismo é dado pelo próprio Bégoin. para um trabalho delicado. ÍJma anamnese detalhada. o nome da insta1 O hipertireoidismo corresponde a uma hiperatividade da glândula tireóide. E esse nervosismo que foi aqui selecionado. A sintomatologia é dominada por tremores nas extremidades. A exploração da ansiedade Nas indústrias químicas. haviam selecionado. mostrou que elas já apresentavam certos sintomas. dos diferentes equipamentos etc. 104 . antes de começar o trabalho. Têm apenas "dicas" de um saber descontínuo: o nome do produto de entrada e de saída. e é tão ilustrativo que dispensa qualquer comentário: "Um médico do trabalho trouxe-nos um exemplo impressionante (. uma tendência hipertireoidiana. mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. assim como a tensão e o nervosismo. sobretudo. Colocadas num trabalho que era particularmente intensivo. 196). O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento. Concluiu-se que a seleção profissional. aceleração do ritmo cardíaco c. com vistas a um trabalho difícil. reina a ignorância sobre os processos e seus incidentes. por um nervosismo extremo. 1 2. em si mesmo. que expulsa o desejo próprio do sujeito. que se estrutura em função dos incidentes que se deve enfrentar. como fonte de aumento da produção. um certo número dentre as "melhores mecanógrafas" da firma. os trabalhadores ignoram o funcionamento exato do processo industrial. que requeria uma habilidade profissional superior. simultaneamente e por uma espécie de coincidência. em razão da própria natureza do trabalho. A frustração e a agressividade resultantes. avaliados como manifestações de hipertireoidismo. pouco tempo depois todas foram obrigadas a parar de trabalhar devido a problemas graves.. espontaneamente. o sofrimento resulta da organização do trabalho "robotizante".)• Numa empresa. A direção não pode fornecer um organograma das tarefas. Podemos relacionar essa utilização do hipertireoidismo1 em mecanógrafas à da loucura narcísica nos pilotos de caça.. A ignorância dos trabalhadores: na maioria dos casos.

seus rendimentos globais. do mesmo modo. ainda assim. a pressão. não se trata aqui de detalhes secundários! O essencial do saber é veiculado e utilizado de operário a operário. não está indo bem e "faz bolhas".V. estas instruções são bastante insatisfatórias. esse saber pragmático é incompleto e pouco tranqüilizador. há um saber próprio. Ao longo de sua experiência e tempo de trabalho. não se formaliza. Mas não existe conhecimento coerente. que são a forma pragmática e operatória do saber do trabalhador. Entretanto. nem sobre o funcionamento das instalações. Os macetes funcionam. produto que entra na fabricação de certas matérias plásticas) que está indo bem. Eles aprendem. ao longo do tempo e por hábito. espontaneamente. nem sobre o próprio processo. como entre os artesões. Entretanto. sobre a qualidade final do produto. sem intervenção da direção da fábrica. uma série de "dicas". Este saber não está escrito. dos escritórios de projetos. fornecidos pelo painel da sala de controle. sua data de instalação.C. Não há saber contínuo. Os operários aprendem. um certo barulho corresponde a um P.iaçào. a esse respeito. O conjunto de "macetes" assim acumulados e coletivamente partilhados pelos trabalhadores é o que faz a fábrica funcionar. pela instalação de um novo equipamento de exaustão ou de novas autoclaves. de pressão etc. aos poucos. o operário associa os comentários dos colegas. Não existe nenhuma formação. não deve ultrapassar 25 atmosferas: em tal ponto. nem uma verdadeira formação ou uma 105 . (cloreto de poli-vilina. A transmissão desses conhecimentos é puramente oral. deve-se manter um volume inicial que "retire o calor". é claro. destinada aos trabalhadores. sua tonelagem. em tal nível. aos barulhos da máquina. O saber circula a nível dos engenheiros. ao contrário do que postula a Organização Científica do Trabalho.C.V. outro tipo de barulho significa que o P. quando existe um ambiente de trabalho onde há companheirismo. pois é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho. Existem apenas algumas instruções dadas pela direção: a temperatura de tal reservatório não deve ultrapassar 70°C. Na realidade. a interferir nas etapas intermediárias do processo de produção: para que a temperatura não ultrapasse tal nível. o fluxo de produção não deve descer abaixo de tantas toneladas por hora etc. da matriz na capital etc. mas simplesmente circula entre os trabalhadores. Não nos enganemos. alguns dados quantitativos relativos aos limites de temperatura. mas. mas não representam nem uma profissão com seu knowhow desenvolvido completamente. os trabalhadores detêm conhecimentos consideráveis sobre a empresa.

Foi assim que diminuímos o ritmo. A ignorância das chefias técnicas: os trabalhadores sabem que os técnicos de nível universitário desconhecem o funcionamento da empresa e de suas instalações. as instalações da fábrica. por seu lado. Isso. mas chegam na fábrica sem nenhum conhecimento prático. mas há também os incidentes estranhos e imprevisíveis. implicitamente. e que podem se repetir. em setores inteiros. cada um faz como pode". que são pobres em relação ao que representam os macetes dos operários. eles percebem que não chegam a lugar nenhum. às vezes. "ninguém a tinha previsto". às vezes. por ocasião da introdução de um novo catalisador. a direção pede aos operários para elaborar uma nova regra de trabalho. aparece uma ordem nova". Freqüentemente. tão insólita. escutam-nos educadamente e. O pessoal de nível universitário admite.formalidade de domínio completo sobre o instrumento de trabalho. a direção da fábrica manda-os visitar as instalações. refugiam-se em seus escritórios e nós não os vemos mais". Desse modo. depois. O conjunto de "macetes" permite o funcionamento da fábrica. a própria ignorância: "Quando um de nós dá uma ordem. únicos. mais do que 106 . E quando a direção autoriza-os a terminarem com as visitas. os acidentes sempre novos e. E nessas discussões que a direção se mostra. Nós percebemos então que eles não sabem até onde se pode ir. mas a soma das lacunas nesse saber pragmático produz um grande mistério sobre o andamento da produção. "No início. nós dicutimos as possíveis reduções de produção que não afetariam as instalações. implicitamente. E o que. O'único conhecimento prático se reduz às instruções oficiais. que não se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem. de um lado e do outro. A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos. quando viramos as costas. chama-se de "interpretação das ordens". então nós lhes damos 'dicas' que nada querem dizer. não saberiam fazer funcionar." E "depois de alguns dias dessa brincadeira. Existem os problemas comuns. O conhecimento teórico de que dispõem é insuficiente para tal prática industrial. reina a maior ignorância: "Quando há um acidente. dura vários dias. São detentores de um conhecimento teórico e formaram-se em grandes faculdades. Constata-se que os técnicos de nível universitário. "Durante as greves. sozinhos. Os procedimentos oficiais avançam passo a passo. Quando houve uma explosão.

haviam dito que seria possível, e nada explodiu. Uma outra vez. um colega antigo me disse que ja lhe acontecera de descer, uma vez, aíê 22%, e a esse nível tudo degringolou na produção, de vez." "Uma outra vez, eles nos disseram que era perigoso parar, porque reiniciar depois provocaria uma explosão. Eles sabiam disso porque houve uma explosão, na Inglaterra, com 15 mortos. Mas nós, a gente bem que começou a primeira vez, e eles não sabiam que havia um risco." "Todo mundo sabe que não se sabe." Quando acontece um acidente que não era previsível, na maioria das vezes, não é por falta de precaução, mas porque ninguém tinha antes nenhuma experiência a respeito. Essa ignorância, que permeia o funcionamento da empresa, tem um papel fundamental na constituição do Risco e no Medo dos Trabalhadores. Ignorância, medo e angústia O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/ trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em conseqüência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda conhecem os "macetes". O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que "a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes". Afirmação paradoxal! Pois poderíamos esperar que o trabalhador polivalente, tendo maior acesso aos "macetes", conseguiria um domínio maior do próprio instrumento de trabalho. Na verdade, acontece o contrário. Em sua própria função, o trabalhador — mesmo sabendo vagamente que ninguém sabe tudo — conforta-se com a divisão do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis desconhecidas. Quando se torna polivalente, descobre que as outras funções de trabalho são como a sua, e que a incerteza do colega vizinho é tão grande quanto a sua. O polivalente, na veidade, conhece um grande número de "macetes", mas acumula também zonas de ignorância, e assim está confrontado a uma extensão do risco. Cresce seu medo, e é freqüente, então, que assistamos a uma descompensação, conduzindo à licença médica, ao repouso forçado e a um tratamento medicamentoso "por depressão". 107

Segundo os próprios trabalhadores, são numerosos os companheiros que descompensam. De que maneira? Pode-se recuperar, nessa semiologia, os estigmas do trabalho? E bem provável que os trabalhadores vítimas desses episódios invoquem — mas nem sempre ; — o trabalho. Muitas vezes, na verdade, o que tentam é esconder o medo, que lhes parece vergonhoso, ou disfarçá-lo, tanto dos outros como de si mesmos. E mesmo quando acusam o trabalho, em contrapartida, nunca incriminam o risco, nem o medo. A descompensação^ | aparece então como um quadro misto, associado à angústia, à irritaI bilidade e à depressão. Para o médico, externo à empresa, não há aí nada de específico, pois a cristalização de todos os conflitos familiares, financeiros, sociais, acaba por conferir ao episódio um caráter mais pessoal do que específico do trabalho. Isso se explica, se admitirmos que, a partir de um certo nível, o f medo e a apreensão sofrem uma verdadeira dissolução na angústia; isso quer dizer que, transbordando, as defesas individuais deixam surgir conflitos intrapsíquicos, inevitavelmente reativado:, pela situação permanente de risco. Nenhum operário, como nenhum outro homem, está a salvo de uma explosão de angústia. Embora seja esquemática a separação entre medo e angústia, na prática, essa ligação é bem anterior, e, freqüentemente, não basta ao trabalhador sair da fábrica para ficar completamente confiante e calmo. Sobretudo se seus períodos de recuperação somatopsicológica forem cortados pela ruptura de seus ritmos de descanso (trabalho em turno alternado). A maioria dos operários precisa de remédios para dormir, mas também para se agüentar durante a jornada de trabalho. Os hipnóticos e ansiolíticos são largamente consumidos. Quando volta para casa, o trabalhador acorda de noite, angustiado, pois não sabe mais se fechou direito tal válvula. Será que pode explodir? Só ficará tranqüilo no dia seguinte, quando voltar ao posto de trabalho. E, pouco a pouco, toda a vida do operário é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho. Quanto maior for a ignorância sobre o trabalho, mais fácil será ultrapassar a fronteira entre o medo e a angústia. Na realidade, a ignorância consciente sobre o processo de trabalho aumenta o medo, porque torna o risco cada vez maior. Por outro lado, a ignorância facilita o aparecimento do medo. Sabemos que a atividade profissional, a qualificação, o know-how e o saber, em geral, representam um dos mecanismos de defesa fundamentais para a economia psíquica. O trabalho — uma das modalidades de resolução de certos conflitos e de regulação da vida psíquica e somática — é, para certas pessoas, um modo privilegiado de equilíbrio. Nas indústrias petroquí108

micas, o trabalho que traz em si riscos, gera o medo e destrói certas defesas contra a angústia, submete, assim, a vida psíquica dos trabalhadores a duras provas. As defesas coletivas contra o medo: "as condutas perigosas". Às vezes, a atividade dos trabalhadores em indústrias petroquímicas é interrompida por práticas insólitas; é verdade que o trabalho tem vários momentos de pausa, como já havíamos assinalado; esses tempos livres são utilizados para conversas entre os trabalhadores, mas são também oportunidade para jogos lúdicos, que vão dos jogos de cartas aos jogos perigosos, que põem em perigo a vida dos operários, passando pelas competições esportivas no próprio local de trabalho. Há verdadeiros jogos "olímpicos" no interior da usina; há rallyes, corridas e jogos de bola que duram a noite inteira. Há concursos, às vezes perigosos, que se prolongam por vários dias, como há também brincadeiras e gozações de dimensões inusitadas, que se prolongam por dias e às vezes semanas, constituindo-se verdadeiros cenários de ação, com regras absurdas e inventadas, de todos os tipos. Entre estas, as mais freqüentes dizem respeito aos "jogos relativos à segurança". Faz-se correr o boato de que é preciso vestir uma roupa especial de proteção contra certos riscos imaginários; durante muitos dias um bom número de trabalhadores crédulos seguem essa norma. Exagerando um pouco mais, induz-se os "patos" a se dirigirem à direção, para pedir novos equipamentos, de modo que a enganação seja descoberta. Freqüentemente, praticam-se jogos verdadeiramente perigosos. Atrás de uma pilastra, um trabalhador usa o extintor de incêndio dirigindo seu jato, bastante forte, contra os colegas que passam, com o risco de feri-los. De tempos em tempos acontecem acidentes. Foi assim que nos contaram que um operário negro, fugindo da brincadeira, teve a perna presa numa proteção de máquinas. Ainda caído por terra, um grupo de operários jogou-se sobre ele, começando a praticar uma série de massagens musculares na perna machucada, com o dorso das mãos. Durante algum tempo, e em meio aos risos e a uma folia geral, simularam gestos médico-ci-rúrgicos, até o momento em que se aperceberam que a perna estava fraturada. O operário negro foi levado embora, em ambulância, e nunca mais foi visto na fábrica. Foi indenizado e a direção pagou até suas dívidas, sem que nenhuma punição ou repreensão tivesse sido feita aos colegas responsáveis pelo incidente. A direção quis, manifestamente, enterrar este episódio. Os trabalhadores chamam tais I 109

!1 d° controle-" controladora' 98 . . ainda é preciso esperar 10*° dlzert'ueo PTT naoa P°ssui. J*"1 ° saber a «lualcluer m°-de: obre dez a quinze pessoas.. Seia ni.S. indestrutível.?! que da notas que ficam registradas „ ""^ ^ controladora' telefonistas são." os nenhum poder sobre o inter— "Não sabemos quantas cha™ em seguida a anterior.Dai a imPortância no interior P^sibihdade de conseguir uma vaga f ' ' Seja que foi muito curta. Não temos o direito de fa^V ° ga a uma Pesc»uisa mais proibido fazer mais de três nesáukL "^ de três fichas (quer dizer> e gunta). reclamaredesligado.S Vamos receber' e uma vem explicadas ou não mais validas I u'' Sã° aS informacões mal longa. das quais depende a «Sií ^"gem. jnão devemos ser muito amáveis noi aprendlzagem nos ensinam que a recorrerem às informações telefôn * pT^lso desencorajar as pessoas existe porque o catálogo telefônico é tacoSS^'^ Ínf°rmaçOeS a) Controle e hierarquia As telefonistas podem ser escutaHo mento." ° assir>ante tenha acabado de — "Durante nosso treinamento ™. Consta — contadores para o númrrn h ■_ 120 para funções específicas) chamadas (45 a 50.mau-humOT havera sempre qualseja que a resposta foi muito dem^jf1*86"1 COTreta nã° foi USada' Acabamos com torcicolo de tanto Háum verdadeiro terVor por ca. ■_ quer coisa para comentar. Todas elas estão errfrTJrabalho mal conceituado-feridas para o interior. Há um controle exercido sní. nào temn ^ ° assinante 1ue deve locutor. Assim.contadores do tempo dè cada chamada. As traram aí seu primeiro trabalho PofJ'01" (QUaSe 90% delas)' e encon" detestado mesmo. geralmente do int relatório. O Que é m* . em geral. Seja falso ou verdadeiro oV Para dar a resposta a uma Per" mação não consta neste itern' na'ra 5m°s resPonder que 'Esta infor-Depois.e 1 . "Se a chefe do controle estiver de'mo u . onde o 'rah n! -pera para serem tranS" onde se reencontram com suas cidart ? C men0S sobrecarregado e das notas.— "Não temos o direito de h* ■ desligar primeiro.

freqüentemente. 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando' — e este é o único caso em que se pode desligar primeiro. resmungar de modo incompreensível o número do posto em que estamos. pois as mulheres não têm o direito de trabalhar. na cidaae de Paris. respondemos: 'o que o senhor deseja?'. Na realidade." "Trocamos de posto a cada período de trabalho." "Só podemos desligar se não há nenhum assinante do outro lado do fio." "Ficamos ligadas ao posto de trabalho por um equipamento munido de um fio bem curto. repetir: 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando'. um assinante pede um número de telefone do interior. Uma única resposta desagradável pode acabar com um dia de trabalho. só temos um único ponto de escuta no fone. que consiste. no metrô. isso provoca um efeito de ruído. quando se sabe muito bem que não há ninguém. são 1 000 ao todo. a pesquisa de informações pode referir-se ao número do estado ou ao número do assinante. no interior daquele estado. e com a outra orelha ouvimos os ruídos da sala de trabalho e as outras colegas falando." "Por outro lado. Há homens trabalhando durante a noite. achamos um jeito. Por exemplo. Muitas funcionárias são das Antilhas e têm um sotaque bastante forte. "Estas brigas só nos causam tensão. e a telefonista pergunta-lhe se ele tem o número de seu correspondente. Temos uma verdadeira sensação de estar acorrentadas. A pessoa se irrita e pergunta se estão "gozando da cara dele". sabemos de cor uma informação. 'deixa qualquer um completamente idiota'. Então. sobretudo quando se trata de uma mulher. não confiamos em nossa memória. é preciso anunciar o número do posto receptor.No centro telefônico em questão há 400 telefonistas. pois se a gente se vira é detida pela extensão do fio. para que as reclamações dos assinantes possam identificar a responsável. antes." "Na saída do trabalho. Às vezes. de maneira a se manter o mesmo ritmo de trabalho do dia. no trabalho. se reduz o número de pessoal. no começo de cada comunicação." "As vezes." "Quando alguém na rua nos diz bom-dia. no momento do 'clic' . de interferência com a voz do interlocutor. Ficamos amarradas. semelhante ao do telefone: dizemos então o número do posto de trabalho. recebem insultos racistas. mas não ousamos acreditar nisso. manhã ou tarde. 99 . de modo que. elas são Jevadas a dizerem coisas estúpidas. A noite. as portas automáticas começam a fechar depois de um ruído. Mas repetir tudo isso três vezes. Devemos. Ora.

Mas ai. ao tipo de comando e à organização do trabalho. na saída do trabalho. sistematicamente. por exemplo. Por exemplo: "durante as pausas no trabalho a gente olha o relógio três vezes mais do que durante o trabalho. Enfim. De maneira que começamos a responder mais depressa." As exigências de tempo e ritmo terminam por permear toda a vida. as questões relativas à hierarquia. o que mais queremos é que o assinante desapareça. Depois. continuamos a falar com essa voz nasaí. assim. nome de uma loja." "Para se ter pausas maiores ou suplementares. Depois. ou durante as pausas. O ambiente me parece sem cor. E ao descer uma escada. com medo de cair. a finalidade da informação telefônica.e verificamos tudo. quanto mais nos enervamos." "Ao sair do trabalho. Há jeito para se perguntar. — segundo. que fiquemos livres dele." b) Discussão Três elementos principais ressaltam dessas entrevistas: — primeiro. O exemplo seguinte demonstra-o: o plural de "Aux Fleurs" (Às Flores). para encontrar essa informação no 10G . "Do ponto de vista do ritmo de trabalho. o que nunca fazia antes. — finalmente. é preciso armar uma estratégia especial em relação às chefias. Não tenho mais confiança. não é levado em conta na ordem alfabética. mais depressa trabalhamos e mais chamadas respondemos. que desligue. É menos cansativo falar assim do que falar normalmente. Assim. nos acostumamos com uma certa forma de pronunciar as palavras. repensamos nos números que são freqüentemente citados com letras. constatamos que quando estamos nervosas. BUS 84. destacando cada sílaba. Tudo é cinzento. a forma e o conteúdo do trabalho. eu seguro o cor-rimão. sem gosto. pois somos então melhor compreendidas e não precisamos estar repetindo. mal ele desligou e já há um outro chamado. A finalidade da informação telefônica As informações telefônicas existem porque o catálogo é incompleto ou incompreensível. só atravesso as ruas nos pontos marcados. como naquelesketch de Yves Montand ("O telegrama"). se 'a caixa está aberta'. por exemplo.

T. é preciso ir procurando. — O terceiro aspecto diz respeito à hierarquia. ao comando. pelo fato de se poder jer controlado a qualquer momento. suas iniciativas. Isso chega às raias do absurdo. Mas também é necessário que não se ouça. por ocasião de uma conversa em que se comunicou com simpatia. Falar "P. Não se pode imaginar uma disci-Püna mais eficaz ou perfeita que a existente. individualizante.T. Podemos compreender como deve ser horrível passar 8 horas por dia sendo uma espécie de prolongamento do catálogo. Não se deve perceber seu tom desagradável. É preciso mencionar o nome "P.".T." repetida três vezes. transformando-o.X. Não se deve ouvir suas hesitações. de algum modo. no número de frases. de agressividade. dando-lhe a forma e o conteúdo P. de bom-humor ou de cansaço.U. a telefonista reprima suas intenções. de prazer. forma e conteúdo são quase sinônimos: o conteúdo fica tão limitado. tudo aquilo que é próprio. sua linguagem. ao controle e à organização do trabalho O eixo central dessa violência do poder baseia-se no estado per-manente de poder ser controlado. Não somente é probido se expressar e passar. a mínima parcela de desejo próprio. Há uma contradição fundamental entre um serviço destinado à comunicação e a proibição de qualquer relação psico-afetiva. nas palavras do outro. Não se admite nenhuma variação no vocabulário. nas letras A.F.catálogo. A forma e o conteúdo do trabalho Aqui. sua personalidade.U.F. nem no tempo utilizado para pronunciá-las! É obrigatório que. Do discurso do outro deve-se extrair apenas a informação solicitada. É nesse duplo sentido que tanto a forma como o conteúdo do trabalho impedem qualquer relacionamento. sucessivamente. Não se deve prestar atenção aos detalhes do que ele fala.T. uma proibição de ser ela mesma. Deve-se substituir seu enunciado por uma tradução. do interlocutor. Em outras palavras. a cada instante. sem mesmo saber em que mo101 .T. ridículo e estereotipado como a forma." é. na conversa dirigida ao silêncio: "Há alguém na linha? Há alguém? Desligando. depurando-o. nas respostas aõ interlocutor. Não se deve escutar a maneira como se apresenta o discurso do outro. e não em A.T. em resposta a um insulto.

A auto-agressão tem formas múltiplas. O condicionamento constitui. 102 . Diante da necessidade de respeitar a realidade (salário e disciplina da fome). Mas a amplitude da organização do trabalho tem. As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor. é implantado um círculo vicioso. que não teremos como objetivo detalhar aqui. mais se sente agressiva e mais deve intensificar a auto-repressão. Há um compromisso entre um "bem-estar" (em relação ao esforço requerido pela autp-repressão consciente) e uns "bem-estar menor" (em relação à vida psíquica espontânea). de certa maneira. A frustração e as provocações acumulam seus efeitos. permitiria mostrar que a única saída é de voltar a agressividade contra si mesmo (40).mento esse controle é exercido. discutido no Capítulo 11. é a construção artificial de um autocontrole. qual pode ser o destino dessa agressividade? Uma análise. pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. O medo e a ansiedade são os meios pelos quais se consegue fazer respeitar os preceitos hierárquicos. a propósito do sofrimento resultante do conteúdo vazio de sentido da tarefa. Na impossibilidade de se encontrar uma saída direta. Devido a um processo que transforma a agressividade em culpa. Quanto mais a telefonista se enerva. um papel muito importante. obedecer e jproteger-se da ansiedade originada pelo risco de ser pego em erro. a propósito do trabalho repetitivo como protótipo de um sistema disciplinar. Pois ter medo de ser vigiado é vigiar-se a si mesmo. Este exemplo traz uma ilustração do que acabamos de descrever. a telefonista tem interesse de orientar essa energia para uma adaptação à tarefa. provocando. a sintomatologia da neurose marcada pela organização do trabalho. A exploração do sofrimento O trabalho de telefonistas propicia a ocasião de tratarmos da relação existente entre a "tensão nervosa" e a produtividade. uma agressividade reativa. por intermédio de um retorno contra si mesma (41). E esta agressividade que vai ser explorada pela organização do trabalho. em conjunto. nesse caso. A telefonista transforma-se na artesã do seu próprio condicionamento. No primeiro plano. aparece a ansiedade: agir conforme as ordens recebidas. e a propósito dos comportamentos condicionados. onde a frustração alimenta a disciplina — base do comportamento condicionado. De certo modo.

P. a reação agressiva não tem mais chances de se exteriorizar do que conira a controladora. proibição de desligar. De modo que não é tanto exortando-as a trabalhar rápido mas provocando irritação e a tensão nervosa nas telefonistas. que o sofrimento psíquico. sem exagero. crises de nervos. oferecida à agressividade reativa eà frustração.. a irritação e a tensão nervosa como meios de provocar um aumento de produção.Essa é a primeira saída possível. No posto de trabalho. também. o controle das telefonistas aparece como uma tecnologia de poder mediada pelo sofrimento psíquico. De um lado. de outro. que o "nervosismo" das telefonistas (um dos elementos essenciais no quadro de sua neurose) e uma doença necessária. mas porque o trabalho — dizem — as enerva. longe de ser um epifenômeno. basta puxar a rédea do sofrimento psíquico.. através de. mas respeitando-se. É O SOFRIMENTO QUE PRODUZ O TRABALHO. senão arrisca-se fazer descompensar uma ou outra. menos pacientes etc. e quanto mais nervosa ficam. os limites e as capacidades de cada um. nesse trabalho de informações telefônicas. Para aumentar a produção. por exemplo. Mostra-se então. "Algumas das telefonistas chegam a rendimentos excepcionais. De maneira que a única saída para a agressividade. proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente. O sistema de avaliação por notas e o modo de calcular a produção só fazem agravar esse estado de coisas (Bégoin. nas condições atuais." Via de regra. 103 . mas não encontrava explicação na teoria pavloviana. não por excesso de zelo. que a controladora pode obter melhor rendimento. são "as mais nervosas" que têm os melhores rendimentos. Mais do que uma verdadeira organização do trabalho. para a realização de suas tarefas profissionais. aliás bem restrita. O trabalho não causa O SOFRIMENTO. precisamente por causa do controle exercido. Proibição de responder agressivamente. mais rápido trabalham. Contra o assinante desagradável. exasperando as telefonistas. que conduz afazer aumentar a produtividade. a única solução autorizada é reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa. temos a angústia como correia de transmissão da repressão e. Essa constatação já havia sido feita por Bégoin. é o próprio instrumento para obtenção do trabalho. especificamente. Podemos dizer. é trabalhar mais depressa.146). Eis aí um fato extraordinário. pode implantar-se urr circuito semelhante. e consideramos "mais nervosas" aquelas que são mais facilmente irritáveis.

Têm apenas "dicas" de um saber descontínuo: o nome do produto de entrada e de saída. entre tantos outros mecanógrafos.Um exemplo extraordinário da utilização do nervosismo é dado pelo próprio Bégoin. reina a ignorância sobre os processos e seus incidentes. com vistas a um trabalho difícil. simultaneamente e por uma espécie de coincidência.. que requeria uma habilidade profissional superior." (p. assim como a tensão e o nervosismo. mostrou que elas já apresentavam certos sintomas. antes de começar o trabalho. pouco tempo depois todas foram obrigadas a parar de trabalhar devido a problemas graves.. um certo número dentre as "melhores mecanógrafas" da firma. 1Ü4 . 1%). o sofrimento resulta da organização do trabalho "robotizante". haviam selecionado. dos diferentes equipamentos etc. são utilizadas especificamente para aumentar o ritmo de trabalho. uma tendência hipertireoidiana. em razão da própria natureza do trabalho. mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. Colocadas num trabalho que era particularmente intensivo. e é tão ilustrativo que dispensa qualquer comentário: "Um médico do trabalho trouxe-nos um exempio impressionante (. A direção não pode fornecer um organograma das tarefas. os trabalhadores ignoram o funcionamento exato do processo industrial. A sintomatologia é dominada por tremores nas extremidades. sobretudo. E esse nervosismo que foi aqui selecionado. 2. para um trabalho delicado. que expulsa o desejo próprio do sujeito. espontaneamente. como fonte de aumento da produção. por um nervosismo extremo. Uma anamnese detalhada. No caso das telefonistas.)■ Numa empresa. tinha selecionado sujeitos que apresentavam. Concluiu-se que a seleção profissional. A frustração e a agressividade resultantes. o nome da insta1 O hipertireoidismo corresponde a uma hiperatividade da glândula tireóide. A exploração da ansiedade Nas indústrias químicas. aceleração do ritmo cardíaco e. avaliados como manifestações de hipertireoidismo. Podemos relacionar essa utilização do hipertireoidismo1 em mecanógrafas à da loucura narcísica nos pilotos de caça. A ignorância dos trabalhadores: na maioria dos casos. que se estrutura em função dos incidentes que se deve enfrentar. em si mesmo. O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento.

pois é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho. Na realidade. mas simplesmente circula entre os trabalhadores. O saber circula a nível dos engenheiros. nem sobie o próprio processo. é claro. quando existe um ambiente de trabalho onde há companheirismo. hà um saber próprio. estas instruções são bastante insatisfatórias. a esse respeito.V. sua dam de instalação. o fluxo de produção não deve descer abaixo de tantas toneladas por hora etc. dos escritórios de projetos. pela instalação de um novo equipamento de exaustão ou de novas autoclaves. sobre a qualidade final do produto. Os macetes funcionam. sem intervenção da direção da fábrica. O conjunto de "macetes" assim acumulados e coletivamente partilhados pelos trabalhadores é o que faz a fábrica funcionar. Mas não existe conhecimento coerente. Este saber não está escrito. alguns dados quantitativos relativos aos limites de temperatura. Existem apenas algumas instruções dadas pela direção: a temperatura de tal reservatório não deve ultrapassar 70°C. a pressão. nem sobre o funcionamento das instalações. ao longo do tempo e por hábito. espontaneamente. mas. não está indo bem e "faz bolhas". a interferir nas etapas intermediárias do processo de produção: para que a temperatura não ultrapasse tal nível. outro tipo de barulho significa que o P. nem uma verdadeira formação ou uma 105 . Ao longo de sua experiência e tempo de trabalho. Não nos enganemos. em tal nível. de pressão etc. Os operários aprendem. um certo barulho corresponde a um P. fornecidos pelo painel da sala de controle. o operário associa os comentários dos colegas.C. ainda assim.lação. não deve ultrapassar 25 atmosferas: em tal ponto. Entretanto. deve-se manter um volume inicial que "retire o calor". aos barulhos da máquina. (cloreto de poli-vilina. mas não representam nem uma profissão com seu knowhow desenvolvido completamente. do mesmo modo. uma série de "dicas".C. esse saber pragmático é incompleto e pouco tranqüilizador. seus rendimentos globais. Entretanto. ao contrário do que postula a Organização Científica do Trabalho. destinada aos trabalhadores. não se formaliza. da matriz na capital etc. aos poucos. como entre os artesões. Não há saber contínuo. os trabalhadores detêm conhecimentos consideráveis sobre a empresa. Eles aprendem. não se trata aqui de detalhes secundários! O essencial do saber é veiculado e utilizado de operário a operário. sua tonelagem. produto que entra na fabricação de certas matérias plásticas) que está indo bem. A transmissão desses conhecimentos é puramente oral. que são a forma pragmática e operatória do saber do trabalhador.V. Não existe nenhuma formação.

formalidade de domínio completo sobre o instrumento de trabalho. O conjunto de "macetes" permite o funcionamento da fábrica, mas a soma das lacunas nesse saber pragmático produz um grande mistério sobre o andamento da produção. A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos, que nãu se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem, e que podem se repetir. Existem os problemas comuns, mas há também os incidentes estranhos e imprevisíveis, os acidentes sempre novos e, às vezes, únicos. I A ignorância das chefias técnicas: os trabalhadores sabem que os técnicos de nível universitário desconhecem o funcionamento da empresa e de suas instalações. São detentores de um conhecimento teórico e formaram-se em grandes faculdades, mas chegam na fábrica sem nenhum conhecimento prático. "No início, a direção da fábrica manda-os visitar as instalações, então nós lhes damos 'dicas' que nada querem dizer. Isso, às vezes, dura vários dias." E "depois de alguns dias dessa brincadeira, eles percebem que não chegam a lugar nenhum. E quando a direção autoriza-os a terminarem com as visitas, refugiam-se em seus escritórios e nós não os vemos mais". Constata-se que os técnicos de nível universitário, por seu lado, não saberiam fazer funcionar, sozinhos, as instalações da fábrica. O conhecimento teórico de que depõem é insuficiente para tal prática industrial, tão insólita. O único conhecimento prático se reduz às instruções oficiais, que são pobres em relação ao que representam os macetes dos operários. O pessoal de nível universitário admite, implicitamente, a própria ignorância: "Quando um de nós dá uma ordem, escutam-nos educadamente e, depois, quando viramos as costas, cada um faz como pode". E o que, implicitamente, de um lado e do outro, chama-se de "interpretação das ordens". Desse modo, em setores inteiros, reina a maior ignorância: "Quando há um acidente, aparece uma ordem nova". Os procedimentos oficiais avançam passo a passo. Freqüentemente, a direção pede aos operários para elaborar uma nova regra de trabalho. Quando houve uma explosão, por ocasião da introdução de um novo catalisador, "ninguém a tinha previsto". "Durante as greves, nós dicutimos as possíveis reduções de produção que não afetariam as instalações. E nessas discussões que a direção se mostra, Nos percebemos então que eles não sabem até onde >e pode ir. Foi assim que diminuímos o ritmo, mais do que 106

haviam dito que seria possível, e nada explodiu. Uma outra vez, um colega antigo me disse que já lhe acontecera de descer, uma vez, até 22%, e a esse nível tudo degringolou na produção, de vez." "Uma outra vez, eies nos disseram que era perigoso parar, porque reiniciar depois provocaria uma explosão. Eles sabiam disso porque houve uma explosão, na Inglatena, com 15 mortos. Mas nós, a gente bem que começou a primeira vez, e eles não sabiam que havia um risco." "Todo mundo sabe que não se sabe. " Quando acontece um acidente que não era previsível, na maioria das vezes, não é por falta de precaução, mas porque ninguém tinha antes nenhuma experiência a respeito. Essa ignorância, que permeia o funcionamento da empresa, tem um papel fundamental na constituição do Risco e no Medo dos Trabalhadores. Ignorância, medo e angústia O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/ trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em conseqüência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda conhecem os "macetes". O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que "a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes". Afirmação paradoxal! Pois poderíamos esperar que o trabalhador polivalente, tendo maior acesso aos "macetes", conseguiria um domínio maior do próprio instrumento de trabalho. Na verdade, acontece o contrário. Em sua própria função, o trabalhador — mesmo sabendo vagamente que ninguém sabe tudo — conforta-se com a divisão do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis desconhecidas. Quando se torna polivalente, descobre que as outras funções de trabalho são como a sua, e que a incerteza do colega vizinho é tão grande quanto a sua. O polivalente, na verdade, conhece um grande número de "macetes", mas acumula também zonas de ignorância, e assim está confrontado a uma extensão do risco. Cresce seu medo, e é freqüente, então, que assistamos a uma descompensação, conduzindo à licença médica, ao repouso forçado e a um tratamento medicamentoso "por depressão". 107

Segundo os próprios trabalhadores, são numerosos os companheiros que descompensam. De que maneira? Pode-se recuperar, nessa semioíogia, os estigmas do trabalho? E bem provável que os trabalhadores vítimas desses episódios invoquem — mas nem sempre — o trabalho. Muitas vezes, na verdade, o que tentam é esconder o medo, que lhes parece vergonhoso, ou disfarçá-lo, tanto dos outros como de si mesmos. E mesmo quando acusam o trabalho, em contrapartida, nunca incriminam o risco, nem o medo. A descompensação aparece então como um quadro misto, associado à angustia, à irritabilidade e à depressão. Para o médico, externo à empresa, não há ai nada de específico, pois a cristalização de todos os conflitos familiares, financeiros, sociais, acaba por conferir ao episódio um caráter mais pessoal do que específico do trabalho. Isso se explica, se admitirmos que, a partir de um certo nível, o . medo e a apreensão sofrem uma verdadeira dissolução na angústia; isso quer dizer que, transbordando, as defesas individuais deixam surgir conflitos intrapsíquicos, inevitavelmente reativadoi pela situação permanente de risco. Nenhum operário, como nenhum outro homem, está a salvo de uma explosão de angústia. Embora seja esquemática a separação entre medo e angústia, na prática, essa ligação é bem anterior, e, freqüentemente, não basta ao trabalhador sair da fábrica para ficar completamente confiante e calmo. Sobretudo se seus períodos de recuperação somatopsicologica forem cortados pela ruptura de seus ritmos de descanso (trabalho em turno alternado). A maioria dos operários precisa de remédios para dormir, mas também para se agüentar durante a jornada de trabalho. Os hipnóticos e ansiolíticos são largamente consumidos. Quando volta para casa, o trabalhador acorda de noite, angustiado, pois não sabe mais se fechou direito tal válvula. Será que pode explodir? Só ficará tranqüilo no dia seguinte, quando voltar ao posto de trabalho. E, pouco a pouco, toda a vida do operário é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho. Quanto maior for a ignorância sobre o trabalho, mais fácil será ultrapassar a fronteira entre o medo e a angústia. Na realidade, a ignorância consciente sobre o processo de trabalho aumenta o medo, porque torna o risco cada vez maior. Por outro lado, a ignorância facilita o aparecimento do medo. Sabemos que a atividade profissional, a qualificação, o know-how e o saber, em gerai, representam um dos mecanismos de defesa fundamentais para a economia psíquica. O trabalho — uma das modalidades de resolução de certos conflitos e de regulação da vida psíquica e somática — é, para certas pessoas, um modo privilegiado de equilíbrio. Nas indústrias petroquí108

Durante algum tempo. e nunca mais foi visto na fábrica. há rallyes. em ambulância. de modo que a enganação seja descoberta. Entre estas. Freqüentemente. corridas e jogos de bola que duram a noite inteira. a atividade dos trabalhadores em indústrias petroquímicas é interrompida por práticas insólitas. Às vezes. Atrás de uma pilastra. induz-se os "patos" a se dirigirem à direção. Foi indenizado e a direção pagou até suas dívidas. é verdade que o trabalho tem vários momentos de pausa. gera o meuo e destrói certas defesas contra a angústia. Há concursos. bastante forte. um grupo de operários jogou-se sobre ele. Faz-se correr o boato de que é preciso vestir uma roupa especial de proteção contra certos riscos imaginários. às vezes perigosos. para pedir novos equipamentos. durante muitos dias um bom número de trabalhadores crédulos seguem essa norma. de todos os tipos. manifestamente. Ainda caído por terra. Os trabalhadores chamam tais 109 . como há também brincadeiras e gozações de dimensões inusitadas. assim. praticam-se jogos verdadeiramente perigosos. De tempos em tempos acontecem acidentes. As defesas coletivas contra o medo: "as condutas perigosas". com o dorso das mãos. um trabalhador usa o extintor de incêndio dirigindo seu jato. a vida psíquica dos trabalhadores a duras provas. com regras absurdas e inventadas. esses tempos livres são utilizados para conversas entre os trabalhadores. que se prolongam por dias e às vezes semanas. sem que nenhuma punição ou repreensão tivesse sido feita aos colegas responsáveis pelo incidente. O operário negro foi levado embora. Exagerando um pouco mais. teve a perna presa numa proteção de máquinas. constituindo-se verdadeiros cenários de ação. começando a praticar uma série de massagens musculares na perna machucada. como já havíamos assinalado. enterrar este episódio. simularam gestos médico-ci-rúrgicos. fugindo da brincadeira. até o momento em que se aperceberam que a perna estava fraturada. passando pelas competições esportivas no próprio local de trabalho. A direção quis. e em meio aos risos e a uma folia geral. o trabalho que traz em si riscos. Há verdadeiros jogos "olímpicos" no interior da usina. as mais freqüentes dizem respeito aos "jogos relativos à segurança". que se prolongam por vários dias. com o risco de feri-los. que põem em perigo a vida dos operários. Foi assim que nos contaram que um operário negro. mas são também oportunidade para jogos lúdicos. contra os Colegas que passam.micas. que vão dos jogos de cartas aos jogos perigosos. submete.

para assar costeletas em um segundo. ou seja.). as válvulas e liberar vapor sob pressão nos telhados da usina. eles riem. Uma outra prática freqüente é a dos janrares grandiosos. Quando falam desse hábito. obscuro. exprimindo um certo mal-estar sobre a quantidade de obesos que conhecem. senão simbólica. para ridicularizar aquelas já existentes (liberar vapor).' como de festas. acabam mal.dol.. que reúnem os trabalhadores para um verdadeiro festim. à noite. ao mesmo tempo. em inventar novas regras de segurança. isto destina-se. então. a provocar pânico entre os engenheiros que. 110 . sobretudo à noite. entretanto.000. a temática da ansiedade e a encenação da segurança..brincadeiras de "trotes e admitem que.000 francos. As encenações.** Se prestarmos atenção nas associações de idéias que permeiam o discurso dos operários. na verdade.) ** CetcadeUS$25. inúteis e simbólicas ("trotes"). Outra prática inútil e perigosa é de abrir. assim. prática que todos reconheciam. são acordados pelos alarmes no meio da noite.00(N. Isso significa que são voluntariamente levadas longe demais. Tais banquetes são também ocasião para uma teatralização da segurança. a champanhe e outras bebidas alcoólicas.òoT. Na verdade. largamente "regado" a vinho. liberaram vapor. ao acidente ou fim de uma carreira. a ponto das vítimas descompensaiem. mas. Uma vez. Essas condutas perigosas aparecem. em suas casas. em transgredir às vezes as regras mais elementares de salvaguarda (assar costeletas). exigiram que a direção mandasse um novo filtro de compressor. cerca de 170. reconheceremos facilmente o elo entre a situação de risco. freqüentemente. até mesmo em criar novos perigos. que não têm nenhuma outra relação. como perigosa. inutilmente. muitas vezes. acabam mal. conduzindo às vezes à depressão nervosa. em alguns instantes. com os perigos próprios ao processo de produção (os jogos perigosos que terminam em acidentes). como um enorme desafio ao risco. são queimadas 380 toneladas de combustível. E desse modo. tendo "depressões nervosas". a 800"C. adivinhando que esconda algo importante. tudo consiste. interrogam-se sobre seu significado. dado seu caráter estrondoso. Perguntam-se porque aqueles que trabalham em turnos comem tanto. que utilizaram como gr/7/ para assar pizzas! Nesse mesmo sentido.* Os trabalhadores têm o hábito de falar de seus "banquetes". e também como uma tentativa de domínio simbólico * Estamos na França' (N.

das fábricas em que trabalham (monstro feroz e misterioso etc). cria uma intensa coesão. são como marmitas". — A idade da fábrica. Em contrapartida. por outros de capacidade superior. o medo criado pelo clima psicológico do qual não participa. o tempo parece ter um papel essencial em relação à luta contra o medo. um dia ou outro será a vítima. assim. dentro de um esquema já clássico. como um sistema de seleção — pela exclusão dos vacilantes. para todos os outros que delas participam. Mas uma mudança de posto de trabalho. a cada dez anos. provavelmente. quando a comparamos com a representação que têm. Ao contrário. expressões significativas como "as caldeiras e cubas. efetivamente. como defesa contra o medo. sua ansiedade. Fica difícil avaiiar com exatidão os efeitos dessas defesas coletivas sobre a população operária como um todo. Na realidade. que encontramos também junto aos trabalhadores da construção civil. — O tempo de serviço dos trabalhadores dessa fábrica: freqüen- . funcionando então. Mas. O recurso surpreendente a uma comparação com um objeto familiar não poderia deixar de espantar. Se o jovem operário supera com sucesso seu teste de início do trabalho. De maneira que essas condutas perigosas funcionam. a implantação de novas usinas e a substituição dos velhos equipamentos. aquele que fica de lado nessas práticas. o hábito. além do medo criado pelos riscos do processo de trabalho. numa fábrica onde fizemos uma de nossas pesquisas. para ser eficaz como defesa contra a ansiedade e o medo. um clima de cumplicidade protetora. de regulação e manutenção diferentes. mostrou-se que o medo atingia um nível menor: — Retivemos aí. no discurso dos operários. a polivalência ou a instalação de um equipamento novo reativam a ansiedade. outros operários. Porém. as "dicas" e a participação na vida coletiva irão aliviar seus esforços.do medo. fazem reaparecer ainda mais a relação de ignorância que o operário tem para com seu trabalho e. Parece que. instalada há várias décadas na região (desde a Primeira Guerra Mundial) e que conhecera todas as gerações de equipamentos e processos. "O costume" E o último elemento a ser considerado nas defesas contra o medo. E a este preço que funciona o sistema defensivo. a encenação deve ser levada aos extremos e chegar a provocar vítimas. a multiplicidade de tarefas. ele deverá enfrentar. para nós.

a qualquer incidente no desenvolvimento do processo de produção. vazamento ou qualquer outro incidente. — A estabilidade do pessoal. e que a produção principal ficou sempre a mesma. o hábito venceu. não poderia dar. O medo partilhado cria uma verdadeira solidariedade na eficiência. de modo que em caso de quebra. Nas novas fábricas ainda não há tradição. mesmo se a ocorrência não for diretamente ligada a suas atribuições diretas. Deve-se ressaltar também o fato de que os próprios prédios da fábrica não se modificaram em várias décadas. na vida. O risco cria. do interior de um país da África do Norte. mais tranqüilos estarão. nas conversas. já haviam trabalhado nela. intervém imediatamente. os operários estão especialmente sensíveis e atentos a qualquer anomalia. O medo é utilizado pela direção como uma verdadeira alavanca para fazer trabalhar. implantada no pós-guerra. na própria cidade. o medo serve à produtividade. O contraste existente entre os operários dessa fábrica e aqueles que vivem a ansiedade permanente das novas fabricas lembra o contraste entre operários de países industrializados e os trabalhadores imigrantes. Lembrandp sem parar as diversas modalidades dos riscos. favorece a multiplicidade de tarefas e permite a economia de uma formação verdadeira. Efetivamente. A fábrica tem um aspecto vetusto. e confrontados brutalmente a um modo de trabalho que lhes é completamente estranho. Quanto melhor estiver o processo de produção. no Norte da França. direta ou indiretamente. conhece-se a empresa e o processo. que a direção. a ameaça não poupa ninguém.temente. espontaneamente. Pois toda a população local vive dela. Todos esses elementos favorecem o desenvolvimento de uma espécie de tradição local estabelecida por diversas gerações. e nesse caso é impensável "deixar o barco afundar" (como numa linha de montagem). E. Ficam atentos e ativos. Mas o medo foi substituído por uma tensão menor. a mina. o pai ou a mãe. a iniciativa. O exemplo dessa empresa. recentemente deslocados de seu campo. ou desejar uma deterioração do instrumento de trabalho. não há passado. a direção mantém voluntariamente os trabalhadores num estado de alerta permanente. A fábrica mata tanto como. leva a pensar que o tempo talvez tenha um papel importante na evolução do sofrimento psíquico dos operários em indústrias de processo contínuo. na familia. mais do que o perigo do momento. aliás. A fábrica já "entrou nos costumes". 112 . nas gerações. pois com esse tipo de atmosfera de trabalho. O risco diz respeito a todo mundo. por exemplo. e mesmo o avô. com o tempo. em comparação com as refinarias modernas.

De modo que o mais freqüente é que a greve seja feita sob forma de uma redução da produção. e que o mito repousa sobre a ignorância que reina. bloquear o fluxo de rea-gentes em certas canalizações etc. sob pena de provocar. permite a diminuição do ritmo do processo. e em torno do qual todos os movimentos reivindicatórios se organizam. a elevação perigosa de certas temperaturas. desativando parcialmente a ansiedade. nem cair aquém de uma produção mínima. se no começo essas normas são respeitadas. mas que fazem parte de uma escolha consciente. de ambos os lados. sozinho. de qualificação profissional ou Ide condições de trabalho. Para funcionar. ou durante certa campanha relativa a um produto que. demonstram o uso abusivo que dela faz a direção. Nesse mesmo sentido. por meio de processo e de uma técnica ainda não dominados. por assim dizer. para pressionar os trabalhadores e fazê-los trabalhar. Nesse sentido. por parte da direção. esse tipo de processo não deve nem ultrapassar um volume final máximo.O medo e a ordem social na empresa à O medo è também um instrumento de controle social na empresa. os trabalhadores em luta transgridem as regras de uma segurança que atingiu o estatuto de um mito indiscutível. O argumento usado pela direção. O medo é.. é impossível. da produção. Através disso. aqui ou ali. completa e original de exploração. conscientemente. 1 113 . ■O melhor exemplo e dado pela forma extraordinária que tomam os Bconflitos. vê-se bem que. segundo cotas que são objeto de negociações intermináveis entre a direção e os trabalhadores. instrumentalizado pela direção. é sempre a segurança. E fundamental que avaliemos a articulação: Ignorância-Risco-Medo-Segurança. e a sabotagem fica definitivamente excluída. em suas duas faces inseparáveis: — Como resultado. Quer se trate de salários. sobretudo. o mais freqüente é que a direção force sua ultrapassagem permanente).. as lutas têm um papel importante na desdramatização do cenário da segurança. as greves clássicas são raras e mesmo impossíveis em certas usinas petroquímicas. sobre os limites exatos que não se deve ultrapassar. a greve só pode começar em uma data fixada. fixado previamente pelo construtor (na realidade. quando certa instalação está em fase de manutenção ou quando se atingiu uma certa fase do processo. em alguns pontos. A paralisação da produção acarretaria não somente prejuízos para o instrumento de trabalho mas. representando uma forma total. arriscaria provocar acidentes. — Como instrumento de produtividade e de controle social. por isso. Entretanto. a prática demonstra que. A paralisação repentina. inevitável. as greves selvagens muito raras.

depois de uma série de incidentes que se reproduzem ao longo de dois anos. Mas. segundo os casos. de rápida obsolescência e grande capacidade de tratamento do produto colocasse a direção em posse de um material que poderia render muito dinheiro sob a condição de saber usá-lo e conserválo. Não nos enganemos: os "macetes" não são simples truques. O estado de medo e de alerta que não abandona o trabalhador durante todo o tempo. de certo modo. então. que um operário descobre a seqüência de variações. É neste corpo-a-corpo violento que se elabora o saber operário. em relação a tudo aquilo que diz respeito ao funcionamento e controle. É assim que. arrancada dos trabalhadores pelo medo. diferentemente dos artesãos. eles estão desarmados de um saber pragmático. ao longo de sua prática. modernas. "macetes" têm. a descoberta das "dicas" é. simul114 . ao contrário. descobrem e. São os trabalhadores que. graças à descoberta e à produção de conhecimentos pragmáticos sobre o próprio instrumento de trabalho. Não se trata de afirmar que tanto direção quanto engenheiros. que puderam elaborar e desenvolver um know-how. de algum modo.Medo e imaginação Tudo se passa como se a instalação de uma usina petroquímica. nesse caso. fruto das potencialidades criadoras e inventivas dos operários. como já mostramos. projetistas e construtores não sabem onde pisam. formulados em instruções de uso. que não são nada comparáveis. espicaça a imaginação e excita a curiosidade. Por outro lado. Assim. no que concerne ao processo de produção. mas o operário detectou dois ou três sinais. Não há nenhuma ligação lógica entre os diferentes elementos dessa seqüência. A implantação de uma fábrica é a prova de um certo conhecimento. Vemos. transmitem oralmente seus "macetes". de flutuações e de alarmes que levam ao incidente em questão. A descoberta e a produção dos "macetes" da profissão são. um caráter vital. nesse confronto entre equipamentos monstruosos e ameaçadores e operários sem nenhuma preparação ou formação efetiva. Mas. entre alguns dias e alguns anos. pressionados pela situação ansiógena a se adaptarem o mais depressa possível. através de séculos de prática. è preciso encontrar "macetes" ao longo de um tempo que se mede. dotada de instalações sofisticadas. às vezes. Freqüentemente. mas são fragmentados e não bastariam para fazer funcionar a empresa. É lógico que detêm certos conhecimentos técnicos. pois é graça a eles que os trabalhadores conseguem controlar ou dominar o processo. são fruto de muitos anos de observações cotidianas.

* Grifo da tradução. isto é. a mobilização dos operários. nas quais ainda não são eficazes. que consegue criar pontes na descontinuidade do saber do pessoal de nível superior. Do mesmo modo. para simplesmente reduzir a carga de trabalho. só que restam ainda muitas zonas obscuras. pode ser estimulado pelas chefias. depois de um incidente. Este tipo de saber não se articula com nenhum conhecimento teórico. inegavelmente. testemunham. pedir ao colega do posto vizinho para diminuir um outro parâmetro. sua articulação. mas é exatamente esse saber que faz a fábrica funcionar. quando o sofrimento é útil à produtividade. O mesmo vale para a ansiedade. e evitá-lo. a direção sabe muito bem a importância desse saber prático quando. a exploração do medo aumenta a produtividade. Por ocasião do relato sobre o trabalho das telefonistas. a temperatura lá. O que é fundamental nesse "sistema de "macetes". é que não se trata de simples "truques".lâncos ou sucessivos. que somente os operários conhecem de verdade. um outro operário descobriu uma espécie de receita para responder a ela: diminuir um pouc a pressão aqui. Mobilização cujo motor principal ainda é. já havíamos mostrado que. de agora em diante. 115 . como vemos em outras situações de trabalho. Por outro lado. quando aparecia certa anomalia. indispensáveis ao funcionamento da empresa. cujo valor "funcional" para produtividade pode conduzir à sua utilização como técnica organizacional de comando. prever o incidente que se produzirá alguns minutos mais tarde. sua colocação em prática e seu campo de extensão. exerce uma pressão no sentido da ordem social e estimula o processo de produção de "macetes". É puramente pragmático e resulta da experiência e da observação *. De qualquer modo. "dicas". a rapidez de desenvolvimento destes "macetes". aumentar a saída ali. a descoberta e a invenção de modos operatórios eficazes. evidentemente. pede aos trabalhadores para eles mesmos "bolarem uma fórmula" destinada a evitar sua repetição. o medo. Em resumo. ''As dicas" constituem um saber operacional e seu conjunto compõe um modo operatório. que vão lhe permitir.

como subtítulo: "a predisposição nunca é acidental. em relação a outras fábricas. é apenas o encadeamento. mais recentes. à aparente negligência dos operários. na realidade. FICHA M. pode-se sofrer 15 acidentes sem aí haver nenhum grave. E numa das fábricas pesquisadas onde melhor apareceu o papel dos especialistas. descrito no Capítulo 11]-c. o manual intitula uma página inteira com "Os poliacidentados predispostos são uma minoria de 1 a 2% que sofrem acidentes graves" e. demonstrando-se "que um acidente. inevitável. 2. Com relação ao item 2. Simultaneamente ao "costume". não tiraram nada de útil nem de prático... Se começarmos o estudo de sua ficha pelos gráficos iniciais. foram culpados pela noção de "poliacidentado predisposto". podemos afirmar a equivalência entre a exploração do medo e a exploração pelo medo. forneceram-lhes uma apostila onde se reproduzia um exemplo de acidente. devido ao envelhecimento da empresa e do pessoal.A participação dos psicólogos — A exploração pelo medo No caso em questão. de longas digressões em torno da seqüência de causalidades que intervém no determinismo dos acidentes. Para responder à questão. Trata-se justamente da fábrica onde elaborou-se uma espécie de tradição operária em relação ao processo de produção. constatamos que seus acidentes distribuem-se em: 116 i . acrescentava-se uma íreqüência de acidentes julgada bastante elevada pela direção central. da empresa matriz. Sobre o conteúdo desses estágios. os operários relatam que: 1." Estudaremos uma ficha de poliacidentado e politraumatizado. que reproduziremos por extenso. 13 acidentes declarados. enquanto fenômeno. Quem dirigia os estágios tinha se especializado em técnicas psicos-sociológicas nos Estados Unidos. a direção implantou uma "formação" interna sobre a segurança.2 Esse "mecânico polivalente" sofreu.. de causas preexistentes"! Com relação ao item 3. 11 dos quais com paralização do trabalho.. trata-se. em dez anos de trabalho. "encheram-lhes" a cabeça com teorias sobre a complexidade da causalidade em matéria de acidentes: 3.

— 9 acidentes são da categoria de base: — cruz vermelha. Cada vez que "comandava uma ação" com seu lado esquerdo. Por ocasião do 13'. é a idéia de "poliacidentado predisposto" e sua associação a uma deficiência psicológica. para que diminua seu "índice de acidentes". não há razão para que não o seja também num outro posto! O que aparece. tinha reflexos particularmente lentos. sem nenhum agrupamento: — em quatro dias. entorse. estiramento muscular. Ao retornar ao trabalho. o médico do trabalho submeteu-o a toda uma bateria de exames. — em quatro horas. Service Prévention Incendie. rue Ed.' acidente.) Concluindo. queimaduras.) (Apave Marseille. acima de tudo. (Todos os títulos. — dores. Isso explicava a maioria das lesões sofridas do lado esquerdo. ocorrido em uma prensa.. Esses exames mostraram que o operário em questão era portador de uma deficiência oriunda de um "acidente nervoso" sofrido quinze anos antes.. Rostand. Segunda constatação: os acidentes distribuemse regularmente no tempo. o que eqüivale a dizer que o que mudou na situação foram exatamente as condições de trabalho. O efeito í 117 . Se ele fosse realmente predisposto. — no mês. podemos verificar que basta transferir o operário de seção. para evitar o trabalho em máquinas. não o trabalhador. Somente após esse acidente se elaborou a ficha individual. 13006 Marseille. grafismos e palavras sublinhadas são do autor da apostila. contusão. — feridas. e com seu consentimento. entre os quais alguns testes psicotécnicos. 32. seu índice de acidentes melhorou sensivelmente. — / acidente da categoria intermediária: — triângulo preto. fraturas. Primeira constatação: a categoria de base e dominante. Transferido para uma oficina de "montagem de pequenas peças". — 3 acidentes oculares: — ponto vermelho. Esta dupla constatação indica que encontramos um poliacidenTADO PREDISPOSTO. NOTA: "A tomada de consciência desse caso só ocorreu a partir do acidente grave". os dedos indicador e médio da mão esquerda foram amputados pelo equipamento em movimento. picadas.

alguns deles. a causa é a mentalidade dos operários argelinos. ao se acidentarem em trabalho. idênticas às que são operacionais na França. Não tendo sido preparados. 118 [li . o mesmo acidente teria provocado a intervenção precipitada de vários operadores. são insensíveis às ameaças industriais e aos riscos. As refinarias importadas pela Argélia e completamente montadas no local. por séculos de civilização industrial. estimulados pelo medo de ver a pane desencadeando uma espiral de catástrofes. as estatísticas indicaram uma redução dos acidentes. pensaram imediatamente: "poliacidentado predisposto". Nessa instalação. Desse modo.principal obtido — e do qual testemunham os operários —. ficam sempre paradas. Um outro exemplo do papel representado pelo estímulo do medo nas indústrias petroquímicas encontra-se na entrevista de uin diretor de manutenção argelino. as fábricas. Na França. se não estiver diretamente ligado à sua tarefa específica. onde o essencial do trabalho consiste em intervir nos incidentes. Segundo o diretor.. è que se sentem culpados no final do estágio e. aos ritmos de trabalho intenso e ao medo.. e só foram declará-lo na enfermaria quando não havia gravidade evidente. Dessa maneira. mesmo posteriormente. não funcionam mais do que alguns meses por ano. ninguém intervém quando sobrevém um acidente.

Vamos mostrar. mas mais especializadas. cuja reputação é a de serem estritamente manuais. é que a exploração mental seja fonte de mais-valia nas tarefas desqualificadas. Nas páginas seguintes não manteremos mais a separação entre insatisfação e medo. Para avaliar os efeitos da exploração mental sobre a saúde. faremos referência à economia psíquica e somática global. nosso esforço de pesquisa e interpretação foi no sentido de revelar um sofrimento nãoreconhecido. justificável até agora por motivos didáticos. necessitamos recorrer a noções de psicopatologia mais clássicas. 119 . na abordagem psicopatológica da organização do trabalho. As estratégias defensivas. Talvez o mais insólito. como funcionam os diversos sistemas de defesa colocados em prática para contê-la.A organização do trabalho e a doença Até agora. Para encontrar. podem ser utilizadas pela organização do trabalho para aumentar a produtividade. a organização do trabalho como sua causa principal. em algumas doenças. A questão é saber se a exploração do sofrimento pode ter repercussões sobre a saúde dos trabalhadores. do mesmo modo que podemos observar com a exploração da força física. em seguida. por sua vez. provocado pela organização do trabalho.

geralmente com uma diminuição dos ritmos de trabalho! Basta diminuir a pressão organizacional para fazer desaparecer toda manifestação do sofrimento. dos nervos e desmaios. O outro exemplo será extraído de uma pesquisa com operários da fábrica Renault. as neuroses e psicoses descompensadas são imediatamente detectadas através dos critérios de rendimento na produção. então.O sofrimento invisível Com raras exceções. provavelmente. Agitada. a tremer e a gritar. freqüentemente os primeiros que aparecem. toda uma seção de trabalho. a chefia direta intervém. Mas se diversas operárias descompensam. psicoses e depressões em situação de trabalho são compensadas. a causa de certas descompensações. no escritório. indubitavelmente. todas as situações de que trataremos a seguir não deixam entrever nenhuma doença mental caracterizada. Alguns momentos depois. como uma doença contagiosa. Nos fins de semana. em cadeia. o 120 . na oficina. basicamente feminino. A primeira concerne ao aumento dos ritmos de trabalho na indústria eletrônica (101). As neuroses. que atingem. O pessoal. Mesmo intenso. por uma queda no desempenho produtivo. devemos nos perguntar porque não vemos nenhum vestígio dela na fábrica. uma operária começa. Resta saber se as descompensações são sempre evitáveis ou evitadas. de repente. o sofrimento ê razoavelmente bem controlado pelas estratégias defensivas. para impedir que se transforme em patologia. certas técnicas de seleção de pessoal. Assim. que se desencadeiam como epidemias. a mínima. Enquanto esse incidente fica isolado. em duas circunstâncias. a contraventora é conduzida à enfermaria. que nos servirão aqui como exemplos. A punição sistemática é a exclusão imediata do trabalho. Toda descompensação psiconeurótica fraduz-se. Os autores de um relatório sobre a análise do trabalho nesse ramo industrial mostram que o aumento da cadência. "uma série de descompensações". uma outra tem uma crise de choro e abandona sua função. a aceleração dos tempos e a exigência de desempenhos produtivos de rendimento crescente conduzem a descompensações rápidas. num quadro psicopatológico. pela utilização dos sistemas defensivos descritos anteriormente. a esse mecanismo de exclusão. Veremos a seguir como a organização do trabalho é. Segue-se. Se admitimos a possibilidade de descompensação. Esse fenômeno pode ser observado. quase que regularmente. para compreender que a seção de trabalho deve assegurar uma verdadeira "assepsia mental". descompensa em crises de choro. Basta acrescentar. precisamente.

seus efeitos se farão sentir não-somente à distância. a desquaHficação do sofrimento. 121 . muito mais defeituosos do que os carros do meio da semana. Duas soluções lhe são possíveis: largar o trabalho. Este exemplo mostra que se os ritmos de trabalho são mantidos no nível máximo da tolerância. São as fórmulas encobertas pela rotatividade. na medida em que se procura não-somente o deslocamento do conflito homem-trabalho para um terreno mais neutro. Mas. mas a medicalização visa. mas na mesma semana. trocar de posto ou mudar de empresa. os carros que saem da fábrica naqueles dias têm muito mais defeitos do que os que saem no começo da semana. o operário esgotado e á beira da descompensação psiconeurótica não pode abandonar a fábrica sem maiores explicações. Os carros do começo da semana e do fim de semana. mas também uma norma mental. não consiga manter os ritmos de trabalho ou manter seu equilíbrio mental. qualquer anomalia ou irregularidade. Explode. Só a doença é admissível. muitas vezes a linha de produção pára. entre o começo e o fim dela. isoladamente. Uma norma de produção. Voam parafusos pelo ar. via de regra. O sofrimento mental e a fadiga são proibidos de se manifestarem numa fábrica. Com a desordem instalada. Mesmo sabendo que não está propriamente doente.ambiente da seção fica bem especial. pode acontecer que um trabalhador. Os trabalhadores que têm problemas com seus carros próprios costumam dizer. Forçosamente. ainda assim. No fim. provocam irrupções coletivas de agressividade. Por isso. É assim que se define a norma. A consulta médica termina por disfarçar o sofrimento mental: é o processo de medicalização (53). o trabalhador deverá apresentar um atestado médico. ressoam gritos. a agressividade contra as chefias. diretamente. além disso. entre si: "é um carro de sexta-feira". aumentam as peças quebradas durante a produção. A segunda solução é representada pelo absen-teísmo. a saída será individual. são. quebram-se ferramentas. até mesmo a parada da produção. É geralmente nesses momentos que se vê também algumas brigas de socos. é lógico. geralmente acompanhado de uma receita de psicoestimulantes ou analgésicos. e rejeitadas ao fina!. e até mesmo entre o começo e o fim do dia. no que este pode ter de mental. que se distingue bastante do processo de psiquiatrização (14). as chefias esforçam-se para manter os ritmos de trabalho num nível tolerável pela maioria dos trabalhadores. Quando o limiar coletivo de tolerância não é ultrapassado. apesar do barulho das máquinas.

mesmo sem nenhuma ocorrência específica. A organização do trabalho talvez inscreva seus efeitos mais nas possibilidades de tratamento de uma doença mental. Certos trabalhos (19) consagraram-se ao estudo e à caracterização das situações reais que influenciam as descompensações psicóticas. a organização do trabalho. A estrutura de personalidade pode explicar a forma sob a qual aparece a descompensação e seu conteúdo. Mas não é suficiente para explicar o momento "escolhido" pela descompensação. adquirida muito antes do engajamento na produção. Deve-se levar em consideração três componentes da relação homem-organização do trabalho: a fadiga. Até os maiores e mais ferrenhos críticos da nosologia psiquiátrica não conseguiram provar a existência de uma patologia mental decorrente do trabalho. Mesmo que a realidade tratada nas descompensações psicóticas e neuróticas não tenha nenhum poder patogênico. Não existem psicoses de trabalho. tem provavelmente um efeito que favorece as descompensações psiconeuróticas.1. da estrutura (42) das personalidades. em última instância. do que em seu determinismo. clínica e paraclínica. o sistema frustraçãoagressividade reativa. A doença mental Contrariamente ao que se poderia imaginar. que faz com que o aparelho mental perca sua versatilidade. não se pode evidenciar nenhuma afecção somática. a não ser pelo conteúdo que veicula. pode favorecer o surgimento de uma descompensação. que deixa sem saída uma parte importante da energia pulsional. Um trabalhador de 26 anos é encaminhado a um serviço especializado de um hospital parisiense e hospitalizado por mal-estares cada vez mais freqüentes. a exploração do sofrimento pela organização do trabalho não cria doenças mentais específicas. Isso significa que a organização do trabalho não tem nenhuma importância nas doenças mentais? (5) As descompensações psicóticas e neuróticas dependem. II 122 . nem neuroses do trabalho. Apenas algumas interpretações simplistas atribuem à sociedade a causa de todas as doenças mentais (4). admitamos que a realidade. O surgimento de uma descompensação psiconeurótica não deixa de colocar alguma^ questões que ainda não foram resolvidas. O defeito crônico de uma vida mental sem saída mantido pela organização do trabalho. como correia de transmissão de uma vontade externa. Ilustraremos tais afirmações com um caso clínico. que se opõe aos investimentos das pulsões e às sublimações. Depois de uma pesquisa detalhada.

Uma anamnese psiquiátrica permite afirmar que se trata de uma descompensação de uma neurose histerofóbica. a consolidação de uma fratura ou a cura de uma intoxicação aguda. com a crise econômica impedindo qualquer esperança de reciclagem profissional. A organização do trabalho. efeitos esses susceptíveis de favorecer acidentes de trabalho. poderia ter um papel importante no que chamamos atualmente de casos inanalisáveis (87). era contraindicado em razão dos efeitos desses medicamentos sobre a vigilância. Seria uma situação absurda na ausência de outras qualificações profissionais. pedreiro de profissão. Em geral. uma entidade. ou pela persistência anormal de um sintoma que apa123 . O recurso a terapêuticas psicofarmacológicas. sem substrato orgânico. em especial nas tarefas de pouca qualificação profissional. Esse exemplo mostra como o tratamento de alguns doentes entra em contradição com a organização do trabalho. sem dúvida. em geral. parar de trabalhar. entretanto. Estando resolvidas as questões materiais. No momento em que numerosas psicoterapias e psicanálises são reembolsadas pela Previdência Social. em 100%. Trata-se da "síndrome subjetiva pós-traumática". A técnica psicoterápica estava desde o início condenada ao fracasso. aliás pouco úteis nesse caso. Continuar a psicoterapia acarretaria então. não apresentava nenhum problema no trabalho. Essa síndrome aparece. Entretanto. como foi descrita no Capítulo III. em si mesmo. Caracteriza-se por uma grande variedade de problemas "funcionais". uma demonstração. Esse exemplo não é. a psicoterapia foi impossível e deixada de lado por interferências de cunho profissional: trabalhador em construção civil. após a cicatrização de uma ferida. ou seja. podemos nos perguntar se essa contradição entre o trabalho psicoterápico e a organização do trabalho não é questionada pela raridade de operários que se beneficiam de tais tratamentos. não se mantém mais de pé os argumentos de ordem financeira como a única explicação capaz de dar conta da discriminação social no que concerne ao tratamento psicoterápico e psicanalítico. se a organização do trabalho não pode ser considerada como fonte de doença mental. A análise das defesas fóbicas implicava simultaneamente no questionamento de um sistema defensivo necessário à continuação do trabalho (em virtude de uma semelhança de estruturas entre defesa fóbica e ideologia defensiva da profissão). como conseqüência primeira. uma psicoterapia era tratamento do qual poderia se beneficiar qualquer paciente No entanto. psicopatológica. poderia talvez encontrar assim uma explicação original. devia participar da ideologia defensiva da profissão. subseqüente ao recente nascimento do primeiro filho. O operário.

partilhava da ideologia ocupacional defensiva. o doente não se beneficia de um tratamento realmente eficaz. recusar-se a retomar o trabalho. cefaléias. reconhecer sua falência. o medo. eqüivaleria à demissão. A coragem. sua impotência. por ansiedade. somente o sofrimento físico pode ser reconhecido pela organização do trabalho. Seria. Assim. ao ser colocado em mãos de um psiquiatra. A referência à ideologia defensiva das profissões da construção civil permite estabelecer uma explicação psicopatológica: tudo se passaria como se o aeidente comprovasse. O papel do acidente é. dissemos anteriormente. não têm o direito de existir no local de trabalho. automaticamente. Instaura-se então um diálogo de surdos entre o operário. enfrentar individualmente o perigo e o medo. aí também. a ineficácia da ideologia ocupacional. de algum modo. a virilidade e o desafio ao medo teriam mostrado sua fragilidade através do acidente e de sua impotência para proteger o operário. Convencido da realidade do risco e excluído da ideologia ocupacional. Ora. Muitas vezes. Às vezes. Para esta síndrome. longe de ser inadequado. freqüentemente conduzindo q paciente a um estado misto. a ansiedade. Por outro lado. Assim. sem indenização nem pensão. impressões estranhas na cabeça. nenhuma explicação psicopatológica foi até hoje proposta (1). deste ponto de vista. O estudo de numerosos casos clínicos mostra que esta síndrome atinge essencialmente os operários da construção civil e os trabalhadores com tarefas perigosas. seu medo. uma ferida no couro cabeludo provocada pela queda de uma pedra. a partir de então. Ao mesmo tempo. tal comportamento é difícil de ser assumido por um operário que. A evolução da síndrome subjetiva póstraumática é de uma cronicidade terrível. continua durante meses a produzir pruridos na superfície do crânio. enquanto que o sofrimento mental e. limitado àquele de "fator reativo" ou "elemento desencadeador".receu depois do acidente. até então. o trabalhador acidentado deverá. compreende-se que o trabalhador acidentado recuse energicamente retomar o trabalho. o médico e a Previdência Social. No final da estória. feito de reivindicação e de depressão. Já mostramos (Capítulo III) que a consciência exata do risco presente durante o trabalho torna impossível a continuidade da tarefa. vertigens etc. de algum modo. em particular. Somente uma doença mental caracterizada permitiria a aquisição de um status de ínvalidez. esses sintomas subjetivos impedem o retorno ao trabalho. geralmente. não chegam a nenhuma conclusão. depois da raspagem e cura. não pode absolutamente ser 124 . é interpretada como descompensação hipocron-dríaca de uma estrutura neurótica subjacente e preexistente ao acidente. As pesquisas clínicas e paraclínicas. Nessas condições.

anualmente. de equilíbrio sine matéria é bem adequada. essa síndrome revela uma resistência excepcional ao tratamento psiquiátrico. é preciso notar que. Mesmo se médicos e psiquiatras costumam atribuir à síndrome subjetiva pós-traumática uma hipotética estrutura neurótica. milhares de trabalhadores acidentados (11). de seu determinismo. que só permite que o sofrimento mental deixe sua máscara no final de sua evolução: a doença mental caracterizada. então. A persistência de cefaléias. num círculo vicioso de incompreensões. seja porque. antes de tudo sociopro-fissional. A única saída é. e não psicoafetivo. Dois argumentos vão no mesmo sentido de nossa hipótese etiológica. servindo de ponto de apoio e de apelo ao processo de medicaJização. uma "medi-calização" (vet parágrafo precedente) do medo. assim. A impossibilidade de analisar essa síndrome resulta. a única entidade clínica reconhecidamente de origem bem limitada à organização do trabalho.considerado uma doença mental. vertigens. Como regra geral. 125 . gradualmente. A síndrome subjetiva pós-traumática é. pré-formada e característica dessa síndrome. diferente dos outros domínios da psicopatologia das neuroses. Na prática. É essa a lógica da organização do trabalho. são concedidas apenas devido ao status reconhecido da doença mental. na natureza das condições e da organização do trabalho. ela é reconhecida com pouca freqüência. que conseguiram redirecionar a sintomatologia. ao contrário. residem. A invalidez e as pensões. e não uma estrutura neurótica única. Não conhecemos nenhuma publicação de sucesso psico-terápico nessa patologia. Há casos. constituise uma verdadeira afecção psiquiátrica. Seu sentido e seu significado não podem ser desvelados pela história passada do sujeito. embora atinja. de reclassificação profissional ou de admissão da condição de invalidez. provavelmente. A investigação psicossomática Os pacientes com síndrome subjetiva pós-traumática mostram que encontramos entre eles uma grande variedade de estruturas mentais. depois de alguns meses ou alguns anos de evolução. tanto mais modestas quanto mais jovem for o acidentado. problemas visuais. Seja porque a cronicidade de problemas sine matéria não justificaria um tratamento médico. os doentes são tratados por psiquiatras.

— Ao contrário. pode conduzir à desorganização. A doença somática No Capítulo II nós apresentamos a observação sobre uma desorganização psicossomática num operário diabético.2. é preciso saber que o inverso também é possível: a contribuição exagerada de uma defesa comportamental ou de um sistema defensivo caracterial. que não consegue se descarregar. Para ser mais exato. 71). Havíamos então insistido. ausência de sintomas psiconeuróticos. — As defesas que não são psiconeuróticas. em detrimento de outros mecanismos de defesa não colocados em prática. de neurose de comportamento (69) ou de estruturação edeestado-limite(7). mas pelo aparecimento de uma doença somática (67). O efeito principal da neutralização das defesas caracteriais e comportamentais é o aparecimento de uma doença somática. basicamente. nem de um modo psicótico. ou seja. Não apresentaremos aqui uma demonstração dessas afirmações. as defesas de caráter e de comportamento são menos flexíveis que as defesas mentais. que tomaram corpo numa teoria conhecida pelo nome de Teoria da Escola Psicossomática de Paris (64. tais sujeitos não descompensam de um modo neurótico. há o risco de uma acumulação de energia pulsional. nos efeitos possíveis da inadequação entre a estrutura da personalidade e o conteúdo ergonômico do trabalho. — Quando as defesas caracteriais e comportamentais não conseguem conter a gravidade dos conflitos ou a realidade. fala-se de neurose de caráter. para que compreendamos os efeitos da organização do trabalho na economia psicossomática: — As doenças somáticas aparecem sobretudo em indivíduos que apresentam uma estrutura mental caracterizada pela pobreza ou ineficácia das defesas mentais (Çalta de vida onírica ou de atividades fantasmáticas. Quando as defesas caracteriais e comportamentais não conseguem se exercer durante o trabalho. que deve ser lembrado. a maioria das doenças somáticas aparece em 126 . os sujeitos que apresentam esse tipo de estrutura são mais frágeis diante dos acontecimentos da vida e das situações conflituais do que os sujeitos que apresentam uma estrutura neurótica. Para caracterizar esse tipo de estrutura mental. Há um ponto fundamental nessa teoria. Por causa disso. A desorganização à qual sucumbe o doente não se traduz por sintomas mentais. má qualidade do funcionamento mental: ineficácia funcional do pré-consciente) (78).

inversamente. A somatização é encontrada. visam à economia toda do corpo em situação de trabalho. — Mas a somatízaçâo — processo pelo qual um conflito que não consegue encontrar uma resolução menial desencadeia. vai se aperfeiçoando em função de critérios que não são nada ao acaso.). numa seqüência de gestos. 24. Basta enfatizar que a organização do trabalho determina o conteúdo da tarefa através da divisão do trabalho. A organização do tempo em fases de> trabalho e em fases de descanso respeita as necessidades da economia psicossomática. quando seu funcionamento mental é. espontaneamente. protege o corpo contra uma sobrecarga comporta* Aménagement. a observação demonstra que os diferentes modos operatórios. são extremamente personalizados. A elaboração de um modo operatório espontâneo. as atitudes individuais. 127 . Ao contrário. Não somente o conteúdo significativo (mais restrito quanto mais profunda for a divisão do trabalho). escolhendo os instrumentos adequados. A mesma tarefa. colocado fora de circuito (65). A referência a essa teoria facilita compreender como a organização do trabalho age sobre a economia psicossomática. no original: arrumação. A livre organização do trabalho é apenas uma estruturação* do modo operatório. procura arrumá-la numa ordem. nem sempre é realizada segundo um mesmo e único protocolo. o trabalhador. os gestos. enfim. mas também o conteúdo ergonômico. 56). ponto de partida de uma doença* somática (25) — pode atingir um sujeito com estrutura neurótica ou psicótica verdadeira. quaisquer que sejam sua origem ou natureza (76. que aparecem espontaneamente. momentaneamente. a postura e os ambientes físicos e químicos que. realizada por diferentes trabalhadores. de certo modo. que leva em consideração. em sujeitos com estrutura psiconeurótica. no corpo. executando de certa maneira uma organização de trabalho de compromisso. ao longo de sucessivas modificações. 89 bis. organização (N. desordens endócrino-metabólicas. Isso é válido para todas as doenças.66. do T. as necessidades da personalidade. onde cada gesto harmoniza-se espontaneamente com as defesas com-portamentais e caracteriais. os sujeitos portadores de doenças somáticas graves estão relativamente protegidos das neuroses e psicoses) (26). Essa situação é bastante rara nesse tipo de sujeito (mostrou-se que os neuróticos e os psicóticos apresentam uma resistência excepcional à doença somática e. Quando se ocupa de uma tarefa. quer dizer. então.sujeitos que já apresentavam uma estrutura caractcrial ou compor-tarnental.

enfrentam. Esses casos não são raros. As mesmas observações aplicam-se à diminuição da longevidade dos trabalhadores à medida que se desce na hierarquia socioprofissional. mais rigidamente determinada é a organização do trabalho que os trabalhadores.mental. Às piores condições de trabalho dos operários desqualificados somam-se não somente uma resposta médico-social de qualidade inferior à das profissões mais favorecidas (noção clássica. A avaliação do papel da organização do trabalho na morbidade operária. químicas e biológicas do trabalho. A organização do trabalho é causa de uma fragilização somática. neste sentido. 'É provável que uma parte não négligenciável da morbidade somática observada entre os trabalhadores tenha sua origem numa organização do trabalho inadequada. pode comprometer imediatamente o equilíbrio psicossomático. Quanto mais rígida for a organização do trabalho. fixada externamente pelas chefias. em relação às duas outras causas. Deste modo. e a acreditar nos psiquiatras e psicanalistas contemporâneos. que caracteriza o trabalho artesanal. atualmente). A organização do trabalho. na medida em que ela pode bloquear os esforços do trabalhador para adequar o modo operatório às necessidades de sua estrutura mental. pois — via de regra — quanto mais se desce no status social. mas também os efeitos nefastos da organização do trabalho. e possibilita ao sujeito meios de canalizar suas pulsões durante o trabalho. que poderia ser prejudicial. pode. entrar em choque com o compromisso operatório favorável. menos ela facilitará estruturações favoráveis à economia psicossomática individual. aos trabalhadores que apresentam uma estrutura caracterial ou comportamental de pouca flexibilidade. Ao inverso da livre estruturação do modo operatório. Talvez tenhamos uma tripla explicação para o aumento do nível de morbidade e para a diminuição da longevidade nas classes sociais desfavorecidas. não foi até este momento bem elaborada. que caracteriza a maior parte das tarefas industriais. inicialmente. as ver128 . aparece. A organização do trabalho. em certos casos. A proposição que acaba de ser formulada di/ respeito. antes cie tudo. a livre organização do trabalho torna-se uma peça essencial do equilíbrio psicossomático e da satisfação. na medida em que o conflito entre a economia psicossomática e a organização do trabalho potencializa os efeitos patogênicos das más condições físicas. que o trabalhador teria instituído espontaneamente. a organização do trabalho rígida e imposta. como um obstáculo à livre estruturação da tarefa. Mas nossa experiência clínica nos leva a pensar que seu papel não é nem um pouco négligenciável.

o sistema taylorista — pode provocar no funcionamento mental. o autor mostra os efeitos imediatos do desemprego parcial (imposto pelas dificuldades econômicas da empresa) sobre a retomada de um trabalho mental de uma outra envergadura: tudo acontece como se. Mesmo não sendo precisamente ortodoxa. investimentos afetivos. na situação de contradição que o opõe à organização do trabalho? Parece-nos que as aptidões ligadas à mentalização e à produção de fantasmas* constituem a melhor válvula de escape à tensão imposta à economia psicossomática. e aí está um dos pontos mais interessantes de seu livro. pelo choque com a organização do trabalho. do T. pelo desemprego. Entretanto.dadeiras estruturas neuróticas tenderiam a tornar-se muito raras. na situação descrita. Efetiva-se assim. parcialmente liberado. sendo então capaz. preocupações. é preciso que a organização do trabalho facilite o livre jogo do funcionamento mental. com Boyadjian (9) que. novamente. o trabalhador encontra-se. * "Fantasmas" no sentido psicanalítico (N. Nesse sentido. de certo modo. Ainda assim. o primeiro passo para uma desorganização psicossomática experimental. seus desejos. em particular. as doenças somáticas são extraordinariamente mais raras do que em sujeitos com menor capacidade de mentalizar. essa proposição parece ter sido pressentida de longe por alguns autores (34). em relação à teoria psicossomática. Nós propomos a seguinte hipótese: a organização do trabalho e. artificialmente. Numerosos casos clínicos comprovam que. de fazer projetos. 129 Jt . uma das maiores causas da doença somática é o bloqueio contínuo que a organização do trabalho — e. seu posto de trabalho na indústria têxtil deixa um pouco de espaço e de tempo para a vida fantasmática. Em nossa opinião. em situações semelhantes.). aumentando as estruturas caracteriaís e comportamentais (64). em especial. da luta individual contra a organização do trabalho (com a respectiva redução de fadigas). Vimos. o sujeito retomasse contato com o próprio corpo. sua caricatura no sistema taylorista e na produção por peças é capaz de neutralizar completamente a vida mental durante o trabalho*. lesado em suas potencialidades neuróticas e obrigado a funcionar como uma estrutura caracterial ou comportamental. * Grifo da tradução. O que acontece ao sujeito que apresenta uma estrutura neurótica autêntica.

vários autores desqualificam a fadiga como se ela fosse "psicogênica". 51). e principalmente. pela fadiga. Não há nenhuma necessidade. falsa e verdadeira. sobretudo. Um exemplo caricatural foi-nos dado por uma empresa. já mencionada no Capitulo II. Contrariamente a certas afirmações. as secretárias I3u . É psíquica porque corresponde a um obstáculo para o psicossomático. Por ser uma vivência subjetiva. Na realidade. A fadiga pode encontrar sua origem também na inatividade. e também por ser uma vivência subjetiva. Mas é também. A fadiga não provém somente da sobrecarga de um órgão ou de um aparelho. uma repressão — inibição da atividade espontânea. mesmo não havendo uma doença autêntica. não tem prazer nenhum com a inatividade duradoura. nesta perspectiva. na qual a redução da atividade tinha provocado o repouso forçado de uma seção inteira. quase uma simulação. os operários não reivindicam o direito à ociosidade permanente. imediatamente. para sua energia pulsional. da fisiologia e das experiências clássicas sobre energética e esforço muscular. a exemplo das crianças. em uma doença somática. Essa afirmação é. Compreendemos melhor. ao mesmo tempo. errada. na realidade. cuja expressão é específica e distingue-se da insatisfação em relação ao conteúdo significativo da tarefa. sobretudo. Vários autores já debateram a fisiopatologia dessa fadiga misteriosa. Talvez fosse mais correto dizer mesmo que não há ainda uma doença somática. ao contrário. somática porque sua origem está claramente no corpo. o fracasso do funcionamento mental e a inadequação da organização do trabalho (conteúdo ergonômico) às necessidades da economia psicossomática não se traduzem. Essa inatividade é fatigante porque não é um simples repouso mas. A maioria das pessoas.concreta (12. Entretanto. caracteriais e mentais. que não corresponde a nenhuma fisiopatologia . está incompleta. Tal concepção é fortemente influenciada pela herança histórica da biologia. porque à fadiga não corresponde sempre uma excessiva carga física de trabalho. não há nada mais surpreendente do que observar essa vivência subjetiva tornar-se uma queixa somática. ou seja. Quando a organização do trabalho entra em choque com a economia psicossomática. Primeiro. aparece uma vivência de insatisfação. O que pode parecer estranho é que não corresponde a um esforço muito grande dos órgãos do corpo.Clinicamente. o trabalhador deve desenvolver todos os recursos de que dispõe para compensar o estreitamento — pela organização do trabalho — de todos os canais comportamentais. A fadiga é simultaneamente psíquica e somática. de se ter um desempenho físico excessivo para justificar a sensação de fadiga. Essa vivência exprime-se. mas a uma repressão da atividade espontânea desses órgãos (motores e sensoriais). mas.

Ao mesmo tempo. Mas o problema apareceu novamente numa fábrica da mesma sociedade. na região central da França. os operários não reagiram clara e visivelmente ao esforço exigido. para saber se não havia. quase nenhum trabalho lhes foi dado.. fazer palavras cruzadas etc).estavam submetidas à disciplina dos horáros e ao controle de uma chefia. "licenças de trabalho"! Para ilustrar nossa proposição relativa aos possíveis efeitos da organização do trabalho sobre a economia psicossomática.. À aplicação dos mesmos métodos de produtividade seguiu-se uma recrudescência nítida de sinais sangüíneos ligados à intoxicação por chumbo Essas observações parecem demonstrar que se. que a fadiga e a difícil adaptação a um ritmo de produção elevado provocaram perturbações passageiras nas defesas do organismo. retrospectivamente. Nas fichas do pessoal pertencente a novas linhas de fabri-ção. A fadiga física não se manifestou de maneira muito clara. para um bom número de operários. O trabalho de diferentes pesquisas e estudos realizados mostrou que as condições de trabalho eram praticamente as mesmas. ocorreu uma indiscutível recrudescência de intoxicação por chumbo.. seis meses depois. havendo sobrecarga. Mas a única modificação ocorrida relacionava-se ao ritmo de rabalho. foi-lhes proibido terem atividades não-profis-sionais (proibição de tricotar. transcrevemos trechos de um artigo que apareceu há cerca de vinte anos (31): "Havíamos feito uma organização dos ritmos de trabalho e de fabricação que correspondia a uma produção muito mais elevada. aparentemente. no interior..). um outro fator susceptível de explicar essa recrudescência da intoxicação. foi possível constatar. Podemos supor. Mas pudemos constatar que. então. pelo menos do ponto de vista dos tóxicos.. além da diferença dos métodos de trabalho. Esse poderia ser um caso isolado.. A fadiga dos operários traduziu-se de outra maneira. resultam* dessa "organização do trabalho" foi o aparecimento de uma fadiga considerável que levou a . a fadiga caracterizou-se por uma predisposição maior à intoxicação por chumbo ou por uma eliminação menos eficaz dos tóxicos que tinham absorvido (. pelos resultados anormais do exame de sangue. O efeito principal. Durante alguns meses... onde os métodos de trabalho eram diferentes e comportavam uma certa margem de liberdade na produção. ue era até fácil situar. qual tinha sido a data da modificação do ritmo de trabalho." 131 ÈÍ . por um simples olhar. Estudei atentamente a questão. pelo menos inicialmente.

o aumento da morbidade em questão não poderia ser atribuída a causas físiço-químicas. em função de necessidades de sua economia psicossomâtica. nessas fábricas. 132 . de um aumento da poluição pelo chumbo. Exceto. O aumento de casos de saturnismo e a gravidade de intoxicação por chumbo não decorria. a única mudança fora a implantação de uma linha de produção com seu conjunto de ritmos de trabalho. a introdução da organização científica do trabalho nessa fábrica. Desse modo. desorganizou seus sistemas defensivos espontâneos e favoreceu o aparecimento de doenças somáticas. sem evocar os efeitos da mudança da organização do trabalho sobre a economia psicossomâtica? Podemos supor que a passagem dos métodos de trabalho que deixavam "certa margem de liberdade na produção" para uma organização rígida (sistema taylorista) teve como conseqüência o bloqueio da "livre estruturação do modo operatório". Em outras palavras. como bem enfatiza o autor. as modificações das condições de trabalho. de cadência e de fragmentação do trabalho. Como explicar esse fenômeno.Na fábrica de acumuladores de que trata o artigo em questão. pelos operários. tendo como ponto de impacto o funcionamento mental dos trabalhadores.

em virtude de regras que foram. de natureza mental. Ela é de certa forma uma porta de entrada para a doença. O trabalho repetitivo cria a insatisfação. havíamos extraído uma hipótese em torno da qual esse livro foi construído: a organização do trabalho exerce. o sofrimento só pode ser revelado 133 . cujo impacto é o aparelho psíquico. Em certas condições. no trabalho. portadora de projetos. de maneira que o sofrimento não é imediatamente identificável. em grande parte. dão origem a um medo específico. os operários elaboram estratégias defensivas. Esse sofrimento. quando a relação\ homem-trabalho é bloqueada. sobre o homem. emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual. já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais conforme às suas necessidades j fisiológicas e a seus desejos psicológicos — isso é. executadas na maioria das vezes em grupo. A forma de que se reveste o sofrimento varia com o tipo de organização do trabalho. de esperanças e de desejos. elucidadas. As tarefas perigosas. Assim disfarçado ou mascarado. assim como contra a insatisfação. cujas conseqüências não se limitam a um desgosto particular.Conclusões Da abordagem histórica. Contra a angústia do trabalho. e uma encruzilhada que se abre para as descompensações mentais ou doenças somáticas. começa quando o homem. e uma organização do trabalho que os ignora. uma ação específica.

também. simplesmente justaposto à musculatura. onde a con1 Isto é. especificamente. Sofrimento e doença. em cada caso. uma hipótese utilizável (26 a). mesmo na ausência de nocividade dos ambientes de trabalho1 (poj exemplo. de acordo com as necessidades do trabalhador considerado. contra os tóxicos industriais. é rara em comparação com a maioria das tarefas. os vírus e as condições climáticas. Sua desestruturação reper-curte sobre a saúde física e sobre a saúde mental. Quando a relação com a organização do trabalho é favorável. de "síndrome subjetiva da fadiga nervosa" ou de "síndrome de contaminação pelos comportamentos condicionados". é porque o aparelho mental não é um "compartimento" do organismo. O ponto de vista da economia psicossomática aparece. condições físicas. nos empregos de escritório). dissemos nós? Mas a relação entre organização do trabalho e aparelho mental não é tão unívoca. ao contrário. apoiado por uma análise precisa da psicodinâmica da relação homem/ trabalho. um patamar de integração do funcionamento dos diferentes órgãos. nas tarefas taylorizadas. — O conteúdo do trabalho é fonte de uma satisfação sublimató-ria: situação que. na construção civil ou nas indústrias químicas. um ponto de vista detalhado. a noção de carga psíquica de trabalho é. de tal maneira que o simples exercício da tarefa está na origem de uma descarga e de um "prazer de funcionar". /34 . como instrumento crucial da investigação em psicopatologia do trabalho. aos órgãos sensoriais e às vísceras. desse modo. criar doenças somáticas e não apenas psíquicas. é porque pelo menos uma das duas condições seguintes é realizada: — As exigências intelectuais. químicas e biológicas de trabalho. que constitui de certa forma sua sintomatologia. ao invés de ser conflituosa. Se a violência da organização do trabalho pode.através de uma capa própria a cada profissão. a bem dizer. encontrada em circunstâncias privilegiadas. rtalvez. Uma boa adequação entre a organização do trabalho e a estrutura mental do operário é possível. favorável ao equilíbrio mental e à saúde do corpo. Nesse sentido. e há casos em que o trabalho é. motoras ou psicossensoriais da tarefa estão. Pode até acontecer que ele confira ao organismo uma resistência maior contra a fadiga e a doença. A vida psíquica é. isso impõe. O sofrimento do trabalhador dá lugar a uma semiologia que é chamada de "ideologia defensiva de profissão".

em relação às quais a resistência cresce. Em certos casos. essa evolução é sensível. ditam as seqüências a serem suprimidas e a reiazer etc. toda tarefa é suscetível de servir. Essa ul ima formula e. Basta pensarmos no trabalho dos enfermeiros nos hospitais por exemplo. ele se revela propício à 135 . a ponto de o diretor não ser mais do que um excecutante como os outros. Sh S° Se encontram nas Profissões de artesão. Exigências materiais assim como salariais. A pnon. determinam os horários de trabalho. mesmo em profissões até agora poupadas. mas o prazer do trabalho lhes permite uma melhor defesa. Nao ha nada de espantoso. que esperam Esses fatos sugerem uma certa reserva e suscitam um pessimismo em relação ao futuro da maioria das profissões. endócrinos e psicoafe-tivos segumdo para isso sua vivência subjetiva que.em nartt H° ü ' d° ritm° de trabalho * do modo operatório é. São testemunhas disso os artistas e os pesquisadores. os sacrifícios materiais sejam fáceis. podemos mostrar. então. oLS^T 3 a° ffalhador.da qual o sistema laylor e a caricatura — compromete as possibilidades ao mesmo dTtarefT QUe dimmUÍ 3 eSC°lha C a margem deixada ao livre arranJ° Aliás. como a todo o mundo. pois seria falso imaginar que. para alguns. Mas é preciso reconhecer que a tendençia geral a divisão crescente do trabalho . sobre o qual se exerce a chantagem do afastamento e aa^substituição pelas centenas de colegas sem trabalho. que grandes dificuldades concretas do trabalho sejam facilmente aceitas. equivalente (por exemplo. Parece que o sofrimento mental que tentamos mostrar não poder ser considerado apenas como uma conseqüência deplorável ou um epilenômeno lamentável. atravessadas progressivamente por uma organização do trabalho cada vez mais auto-ntana. por exemplo.. para a maioria dessas categorias. onde as decisões administrativas impõem a escolha dos atores e do argumento. entre cs pilotos de caça) e pode oferecer uma ocasião única de sublimação. TnH Tnte Um eXCdente guia na Protecão da homeostasia. de suporte"' num processo de sublimação. nesse quadro. ou nas condições espantosas do trabalho de criação na televisão. censuram a montagem do filme. nas pro-L I entreí0S resP°nsáveis de alto nível: trabalho livree organizado ou deliberadamente escolhido e conquistado. na realidade. modificar â sTdades nn ASCUHtrabalhO ?°nf°rme SCU deseJ° ou suas n^-menfe Vnm * CaS°S> de P°de até fazê"la variar' espontaneaZ™hSCUS PrOP"OS ritm°s bioIóg'^s. Eles os fazem sofrer.E** Pode. rígida e parcelizante.

dissemos. a exploração passa também pela profundeza do aparelho mental. como as defesas coletivas da profissão. pois ele. Se não fosse sua especificidade. A desapropriação do corpo só é possível graças a uma operação específica sobre a estrutura da personalidade. Na maioria das tarefas. elas seriam totalmente opacas. da qual dependeria a submissão do corpo. Forma caricatural do saber-vivência. cujas peças podem ser desmontadas. Tornar dócil um corpo não é coisa simples. fazem parte integrante da carga de trabalho. seu poder de ocultação volta-se contra seus criadores. certamente. esquivar-se à verdade (invisibilidade cheia de conseqüências. servem para a manutenção da produtividade. a ansiedade e a insatisfação. A ponto de o sofrimento. chamado "personalidade". pois ela é de natureza a fazer reconsiderar as teorias econômicas da força de trabalho. Essa observação tem. o sofrimento não é reconhecido. etapa cujo sucesso seria assegurado pela própria organização do trabalho. mas os mecanismos de defesa empregados contra ele. :~ Com efeito. em certas condições. ou. a dor permanece desconhecida não apenas dos observadores. que permite adivinhai que as defesas escondem alguma coisa. Pois sem 136 . Não tanto o sofrimento em si. descrito por Foucault (37-38). tornar-se um instrumento de exploração e de rendimento. na maior parte dos casos. Contra o sofrimento. está submetido a seu chefe natural. etapa fundamental. de uma etapa primordial. Se a função primeira dos sintomas de defesa é aliviar o sofrimento. e este é. mesmo as mais desqualificadas. normalmente. por um efeito paradoxal. contribui para a aceleração das cadências. se constróem sistemas defensivos. desse modo. ao lado dos aspectos clássicos da exploração da força física. Assim. como a ansiedade.produtividade. que se opõe ao saber-poder. duráveis ou reversíveis segundo o caso. no caso das telefonistas. mas também dos próprios trabalhadores). Assim. mas resultaria. Vimos na construção civii. parece que a exploração do corpo passa sempre e necessariamente por uma neutralização prévia da vida mental. Apesar de vivenciado. cujos efeitos. um dos aspectos mais insólitos da pesquisa em psicopatologia do trabalho. através da organização do trabalho. uma grande importância. De maneira que o sofrimento pode. por exemplo. exatamente. a "carga psíquica" de trabalho não seria apenas um efeito acessório do trabalho. provavelmente. A submissão dos corpos só seria possível por meio de uma ação específica sobre os processos psíquicos. existe uma vertente do trabalho humano ignorada até agora. por intermédio de um sistema sutil. pois. somos levados a evidenciar que.

as escratégias defensivaá. _J A fadiga. de modo que o trabalhador acaba por confundir com seus desejos próprios a injunção organizacional que substituiu seu livre arbítrio. mais fácil no fim do ano do que após as férias. ■sto é. e difícil lutar eficazmente contra ele. que vai contra seus desejos. necessária para fechar o cadeado do círculo vicioso. o esgotamento do corpo (mesmo sem considerar as fortes exigências físicas provenientes das regras da economia psicos-somática) são uma peça necessária. é a fadiga que assegura sua perenidade. num nível menos medíocre. Nesse caso. embora insuficiente. a tal ponto poderosa que. da qual falamos. e mais durante a semana do que perto do fim de semana. A alienação seria. A investigação que propomos. ela deveria passar por um processo de desalie-lação. toma a forma de um conflito onde o desejo do trabalhador capitulou frente à injunção patronal. ele acaba por usar todos os seus esforços para tolerar esse enxerto contra sua natureza. A organização do trabalho aí aparece como veículo da vontade de um outro. Alienação no sentido em que Marx a compreendia nos manuscritos de 1844. que passa pelas ideologias defensivas. da alienação. no fim. A alienação é uma verdade clínica que. no caso do trabalho. da alienação pela organização do trabalho.conhecer a forma e o conteúdo desse sofrimento. tão controvertida. Vencido pela vontade contida na organização do trabalho. suas necessidades e sua saúde. talvez. Assim. a propósito da sujeição do corpo. isso não quer dizer que ele não seja válido no nível subjetivo e vivido. espécie de chave. Instalado o circuito. Alienação no sentido psiquiátrico também. a tolerância graduada segundo os trabalhadores de uma organização do trabalho. a etapa necessária e primeira. Se o conceito de alienação não for pertinente a nível da análise econômica. em razão da sua própria eficácia em relação ao equilíbrio mental. traz de volta a questão. Podemos também nos perguntar se o desmantelamento dos mecanismos da alienação não é uma condição 137 . em psicopatologia do trabalho. o trabalhador se sente habitado pelo estranho. de substituição da vontade própria do Sujeito pela do Objeto. opõem-se a uma evolução que poderia levar a uma estabilidade. ao invés de fazer triunfar sua própria vontade. No fim. trata-se de uma alienação. Se deve haver uma luta por novas relações sociais. sem transtorná-la. a alienação é mais fácil de ser obtida com os operários cansados. Podemos nos perguntar em que medida a prevalência concedida à mudança das relações de produção arrisca passar por cima da alienação. Por não ter sido objeto de um trabalho específico. a alienação r jrre o risco — a experiência histórica o mostra — de ser transposta tal qual.

para um projeto de transformação social. requer. O terreno da psique sempre foi ocupado por especialistas denunciados por uma posição ambígua na evolução social. admitir que a análise da exploração não exclui a da vivência operária. Tratando-se de uma vivência coletiva. 13?. a ser decodificada. como se diz hoje em dia. em relação a um projeto que não pode permanecer sem evoluir. É verdade que desde o movimento dos alienístas. mesmo na ausência de mudança social. talvez. antes de mais nada. libertação de seu exercício no trabalho e na atividade produtiva? Questões que talvez tenham sido negligenciadas por razões históricas. à positividade da História a revelação. como para toda vivência. e através dos sistemas defensivos. é um método que não pertence propriamente à psicopatologia do trabalho. Nós usamos um esquema de interpretação que é a própria organização do trabalho. que é preciso ler o sofrimento operário. e â modalidade particular de existência do saber. deformada pelas estratégias defensivas específicas. . não objetivo) a libertação da vida mental? E. em estado de segredo selado na vivência. Segredo que tem a particularidade de só existir na vivência coletiva do trabalho e de dissolver-se assim que há interesse pela vivência individual. seguido pela psiquiatria contemporânea. Deve-se. Nós ressaltamos várias vezes a função mascaradora dos sistemas defensivos contra o sofrimento. O projeto revolucionário nasceu numa época em que a relação saúde mental-trabalho era invisível. Mas as interrogações sobre esse tema são redibitoriamente suspeitas? A exemplo de André Theret (96 bis). os partidários da Organização do Trabalho atual tiveram um certo avanço. É na palavra. para ser abordado. louvada por uma sociedade que não teria por fundamento (fundamento.necessária. o discurso operário. Isso quer dizer necessidade de uma interpretação. a psicanálise não poderia ser de nenhuma valia. o recurso à palavra ou. a passagem de um conteúdo manifesio a um conteúdo latente. Segredo que. no século XIX. de questões novas e fecundas. em comparação à prioridade que era preciso dar à análise da exploração do corpo físico. Qual projeto nâo deixaria um lugar conseqüente para essa discussão? Que felicidade seria essa. leva a considerar esta última como lugar privilegiado do drama onde se atualiza o conflito entre o Trabalhador e o Podfer. Coloca-se aqui a questão do esquema interpretativo. a psicanálise e a psicos-sociologia anglo-saxônia. por meio dos avatares que ela sofre na sua interiorização coletiva. embora insuficiente. De resto. De outra ordem é a tradicional desconfiança para com as questões da vida psíquica.

à qual se opõe ponto por ponto. É provável que não exista solução ideal e que. aqui como em tudo mais. E de um duplo movimento. deverá ser julgado por sua capacidade de levar em conta a relação conflituosa entre a organização do trabalho e o aparelho mental. O mesmo acontece com relação à organização do trabalho. absolutamente. Em outras palavras. Não apenas de levá-la em conta. criar novos homens. é preciso compreender que as resistências individuais ao prazer acompanham resistências coletivas. Qualquer que seja o regime político considerado. que pode nascer uma evolução da relação saúde mental-trabalho. precisamente. estamos talvez em condições de examinar o que é obstáculo não à felicidade coletiva — noção suspeita — mas de examinar o que constitui um obstáculo coletivamente experimentado por cada grupo de trabalhadores. mas pelos rneios que ele usa para fazê-la evoluir em direção a um estado de menor tensão. no centro das quais se encontram.\ interpretação limilada ao conteúdo e não a uma transferência coloca a psicopatologia do trabalho nos antípodas da psicossocio-logia. 139 il . seja sobretudo a evolução a portadora de esperança. o problema não é. "A liberdade não se dá" dizem "ela se conquista". de transformação da organização do trabalho e de dissolução dos sistemas defensivos. Assim. Considerando o lugar dedicado ao trabalho na existência. no acesso a um trabalho mais satisfatório. Entretanto. as ideologias coletivas de profissão. mas encontrar soluções que permitiriam pôr fim à desestruturação de um certo número deles pelo trabalho. na medida em que ele pretende superar os obstáculos socioeconômicos à "felicidade". a questão é saber que tipo de homens a sociedade fabrica através da organização do trabalho.

i .

Segurança e Condições de Trabalho. o grupo homogêneo e o coletivo 4. A pesquisa inicial Para poder começar. A pesquisa propriamente dita 3. Segurança e Condições de Trabalho. Posteriormente. O método de interpretação 7. uma pesquisa deve basear-se numa solicitação. No momento.T.H.H. comissão de fábrica ou C.S.T. ou de um grupo sindical. não aceitamos nenhuma solicitação que não seja formulada pelos próprios interessados. vamos nos ater a este ponto: uma solicitação só pode ser considerada se for proveniente dos próprios trabalhadores. A solicitação. em substituição às antigas Comissões de Higiene e Segurança — C. no original. O material da pesquisa 5.* — Comissão de Higiene. * C. do T. A pesquisa inicial 2. ou Comissão de Higiene. Validação e refutação dos dados 8. Metodologia e teoria em psicopatologia do trabalho 1. de trabalhadores inicialmente isolados.S. A observação clínica 6.ANEXO: A Metodologia em Psicopatologia do Trabalho Uma pesquisa em Psicopatologia do Trabalho desenrola-se em várias fases: 1.H.S.C. (N. voltaremos à questão de como trabalhar a solicitação formulada.) 141 . Em outras palavras. que tanto pode vir de um grupo não institucionalizado de trabalhadores. implantada na França em julho de 1985.G.

a visita com os operadores enfatiza as questões relativas ao esforço. cerca de vários meses. às exigências do trabalho. não deixa de ser uma etapa interessante. O objetivo dessa fase de documentação sobre o processo de trabalho e das visitas não é chegar a uma descrição objetiva da relação homem/trabalho.1. começamos uma abordagem da organização do trabalho. Entendemos por esta não aquela elaborada pelo serviço de organização e métodos. o que geralmente toma bastante tempo. Isto pressupõe o acesso a documentos técnicos. 1. de uma investigação ergonômica clássica sobre a análise do trabalho. de que também necessitaremos. Primeiro. e pelo menos um deles não é psicopatologista. o que se passa. Num terceiro momento. o ambiente sensorial tem um papel importante na expressão do sofrimento e do prazer no trabalho. das condições ambientais do sofrimento.. pois a pesquisa fundamenta-se num coletivo constituído ad hoc. e ter à disposição uma representação. Reunir informações sobre o processo de trabalho e sua transformação ou mutações. 1. mas é importante também poder ter acesso aos locais de trabalho. quantos são e se estão disposto a acompanhai o trabalho até o fim.3. é necessário definir quem participará da pesquisa. em imagens. é preciso preparar a pesquisa. Ter acesso à empresa. das máquinas e dos locais correspondentes aos locais de trabalho dos operadores pesquisados. a segurança. Essas são questões importantes.Assim que a solicitação é recebida. como é o objetivo. podendo ser sociólogo. do ponto de vista humano. e não em indivíduos tomados isoladamente. econômicos e científicos. como pesquisador. por exemplo. Pode-se fazer uma visita oficial organizada pelo empregador. poder visitá-la em funcionamento e ter uma representação relativamente precisa das seções. as inovações tecnológicas etc. Vários objetivos devem ser atingidos durante esta fase de preparação da pesquisa: 1. depois do trabalho de documentação e da visita do local. Em seguida. Geralmente. isto é. O que se visa é obter a base concreta necessária para compreender do que falam os trabalhadores que participam da pesquisa. tendo por guia um trabalhador que participe da pesquisa. ergonomista ou economista. Teremos diferenças significativas entre as duas visitas: enquanto que a visita patronal ressalta sobretudo o aspecto técnico. devemos precisar quem participará. ao perigo.2. mas principalmente a que coloca em relevo o aspecto conflitual entre traba142 . Na verdade. a produtividade. isto é. pelos trabalhadores. há dois ou três pesquisadores.

as divisões e contradições entre os trabalhadores ou grupos sindicais etc. o salão da associação cultural que reúne habitualmente os trabalhadores etc.lhadores e hierarquia. pedimo-lhes para darem suas explicações e interpretações dos fatos que provocaram a solicitação: qual é sua opinião sobre tais suicídios. — Os pesquisadores apresentam-se claramente. insistimos.. do prazer associados ao trabalho. um grupo de trabalhadores que está a par do trabalho inicial e do objetivo da pesquisa. anunciando sua formação e área de trabalho: psiquiatra ou psicanalista. o comentário verbal feito pelos trabalhadores a propósito do conteúdo de sua solicitação. greves. pelos trabalhadores. A pesquisa propriamente dita Desenrola-se num local identificado com o trabalho: a sala da comissão de fábrica. Nós partimos sempre de uma reformulação do que nos foi colocado na solicitação do contexto. mas participando da pesquisa enquanto pesquisador da possível relação entre o trabalho e sofrimento não como psiquiatra clínico ou especialista. — O tema da pesquisa também é claramente enunciado: trata-se de estudar quais relações podem eventualmente se estabelecer entre a organização do trabalho. então. o restaurante da empresa. A pesquisa reúne. que não estamos basica143 . sobre o que nos interessa em psicopatologia do trabalho. de outro. de produção. Depois de haver formulado o tema aos trabalhadores. e o sofrimento psíquico. e. qual a interpretação desse consumo maciço de aspirina. etc. Desse modo. a supervisão. 2. ou seja. E importante conhecermos a história das lutas. que geralmente levanta questões de sofrimento. o que pensam das insônias e dos problemas relativos ao sono.Isto também permite esclarecer. a hierarquia. e situações conflitantes para entrarmos numa dimensão dinâmica dessas estórias e comprendermos bem as nego ciações concretas sobre o» ritmos de trabalho. incidentes.. desde o início. o Sindicato. qual é sua opinião sobre as circunstâncias ligadas aos trabalhadores que foram hospitalizados como pacientes psiquiátricos. as solidariedades explícuas. por um lado. ou psico-patologista. o que pensam dessas doenças profissionais? Etc. raramente. desde o começo. trabalhando em geral com doentes numa prática clínica hospitalar. o que pensam de tal problema de intoxicação alcoólica.

todo o trabalho da pesquisa trata justamente de identificar as modificações trazidas sucessivamente ao comentário inicial. A interpretação correta mantém e relança à discussão. é possível reformulá-lo e devolvê-lo ao grupo. e vemos que não são retomados ou discutidos pelo grupo. certificar-se de que o tema não é espontaneamente retomado pelo grupo. mas. Mas retoma-a num momento posterior. ao invés de provocar uma diminuição ou parada da discussão — o que ocorre quando se trata de uma interpretação inoportuna. que preconiza o interesse acima de tudo pelo que é dito pelo paciente. inicialmente. num segundo momento. ou seja. Nesse caso. Os pesquisadores efetuam um esforço especial. retomando-a e modificando-a. anedotas ou comentários novos que ampliam as idéias e encadeiam-se à interpretação — associam-se a esta-. para ver se desta vez será objeto de discussão e de que modo. do que é relatado. geralmente deturpada. durante a pesquisa.mente preocupados com a objetividade dos fatos. A técnica consiste então em detectar esse contraste ou paradoxo. Pode ser que certos comentários ou hipóteses explicativas propostas por um dos participantes possa parecer-nos — a nos. pouco importa quem seja o locutor. 2. pesquisadores — como especialmente convincentes. Na verdade. o que é importante é o que é objeto de um consenso ou pelo menos. pelo grupo. ou. de uma discussão contraditória entre os participantes do grupo de trabalhadores.1. novamente submetida à crítica do grupo. o que é essencial detectar. contribuindo para a elaboração coletiva do tema. as expressões positivas ou os silêncios claramente respeitados quanto a certos temas. inadequada ou falsa. retome essa hipótese abandonada pelo caminho. inspiramo-nos na psicanálise. Nada impede que o pesquisador. mais do que pela realidade. às vezes muito tempo depois. Nesse sentido. então. 144 . O trabalho dos pesquisadores confirma-se não tanto pelo reconhecimento da hipótese ou da interpretação. para detectar as relações existentes entre as expressões de sofrimento (ou de prazer). novos temas de discussão. Em seguida. investigamos particularmente o comentário formulado pelo grupo de trabalho. À medida que se desenrola o estudo. sobretudo por dois tipos de fatos: 2. é possível propô-las como uma interpretação. pois é preciso. A interpretação correta desencadeia material novo. Se identificamos tais relações. e que o grupo não as percebe. se novamente não interessa ao grupo. e as características da organização do trabalho.2. apesar da tentativa feita pelos pesquisadores.

z3 f--:r em relação ao objeto da pesquisa as interpretações que fizessem 145 .paralisaria o J0"' "1ade"uada.

seja porque a 146 . não sobre outro grupo.1. em grafologia. Já disse que a fonte. 3.eclodir as problemáticas individuais. O que se solicita? Essa questão diz respeito ao conteúdo da solicitação. em relação ao consumo do álcool nos canteiros de obras ou em certas oficinas de fabricação de produtos em série não é raro registrarem-se posições contraditórias. Em psicopatologia do trabalho. de uma sessão à outra. Para terminar. seja devido aos turnos de trabalho ou às urgências do mesmo. Nem sempre é possível dar continuidade ao que é pedido. quando se pede aos pesquisadores para provar que o uso de bebidas alcoólicas não é prejudicial aos trabalhadores cujas tarefas decorrem em condições de 'emperatura elevada —. em termos de posições ou de posturas diferenciadas. a origem da solicitação deveria ser bem esclarecida desde o início. poderemos constatar que quase não há inconveniente quando. Por exemplo. a análise da solicitação constitui uma fase importante da pesquisa. se conseguimos nos manter no plano das defesas coletivas. seja porque o problema está formulado em termos inaceitáveis e não negociáveis — por exemplo. varia o grupo que participa da pesquisa. ou seja: 3. onde podemos fazer uma analise a partir dos documentos que pertencem a uma pessoa que eventualmente até mesmo ignora como sua correspondência está sendo tratada.2. Em resumo. Ao contrário. o grupo homogêneo e o coletivo Em psicopatologia do trabalho. não atiapalham e nem são combatidas pelos pesquisadores. por exemplo. durante a pesquisa. na realidade. Quem formula a solicitação? Repetimos aqui que a solicitação só é aceita se a pesquisa for sobre aqueles que a solicitam. as substituições ocasionais do pessoal não prejudicam o andamento da pesquisa. E. que mostram que existem coletivos de defesa estruturados segundo modalidades diferentes no interior de uma mesma empresa ou seção de trabalho. por condicionar. não podemos fazer o que se faz. ao contrário. A solicitação. que têm geralmente um valor heurístico em relação aos sistemas defensivos. acrescentarei que as posições contraditórias que aparecem entre os trabalhadores. para reformulá-las em seguida. as "viabilidades" desta. 3. é muito interessante ressaltar e respeitar essas contradições.

. ou de problemas do sono. e qualquer pedido do mesmo tipo que venha a surgir no desenrolar da pesquisa. — ao se efetuar esse tipo de pesquisa. e que são três: — pode ser que nada encontremos. é necessário que este ponto esteja bem claro anteriormente. Dirige-se a um pesquisador. necessariamente. ou de doentes trabalhando no setor de pessoal. que a solicitação se baseie em uma resposta prática: por exemplo. desmobilização em caso de luta). de maneira a afastar qualquer solicitação pessoal de tratamento. Enfim. mas outras coisas. tentativas repetidas de suicídio etc. os trabalhadores devem saber. — pode ser que não encontremos nada do que esperávamos. O terceiro aspecto importante do trabalho sobre a solicitação recebida concerne à explicitação dos riscos que estão implicados na pesquisa. crises de nervos. De maneira também a afastar toda conivência ou complacência em relação ao ponto de vista oficial ou sindical daqueles que formulam a solicitação. Ao dirigirem-se a pesquisadores e não a simpatizantes. que o rigor do trabalho 147 .. mas às más condições de trabalho.resposta já é dada de antemão aos problemas colocados pela solicitação — exemplo demonstrai que os suicídios não se devem a problemáticas individuais. à segurança. muito menos a um militante ou simpatizante. é importante podermos estar de acordo com os interlocutores no fato de que a relação de causalidade ou da efetiva carga psicopatogênica de uma tarefa possam ser formuladas em termos de hipótese. a solicitação não é dirigida a um psicanalista. até mesmo desestabilizadores. enquanto que as soluções concretas pertencem aos próprios trabalhadores. à violência. o que não quer dizer. ao medo. nem a um psiquiatra. com relação às práticas coletivas e aos mecanismos de "adaptação" à situação de trabalho. deve-se manter o ponto de interrogação. Para que a pesquisa seja viável. há os riscos de colocarmos o dedo em aspectos desagradáveis. 3. disfarçada. Em psicopatologia do trabalho. que não haja nada a ser pesquisado. a de encontrar uma solução concreta para os problemas decorrentes de certos comportamentos aberrantes em relação ao álcool. quer dizer.tais solicitações concretas "com caráter terapêutico" não podem ser aceitas.. A quem a solicitação é dirigida? Esse é o quarto ponto relativo à solicitação. ou de medicamentos e seus usos. 3.4.3. pois nosso trabalho em psicopatologia do trabalho limita-se à análise das situações. Ao "o que?" da solicitação. de antemão. que poderiam ter efeitos posteriores (por exemplo.

a impossibilidade de se efetuar pesquisas sobre qualquer grupo-controle (que não solicitaria nada). pois esse trabalho. pela qual são remunerados. 4. é.5. que consiste em sustentar uma solicitação (a de análise e compreensão de sua relação psíquica com o trabalho).de pesquisa pode levar a resultados contraditórios com as posições sindicais oficiais. A independência do pesquisador é uma condição especifica do trabalho de pesquisa. a parte mais difícil de ser formulada. A fonte das remunerações deverá ser sempre esclarecida. a pesquisa é sempre uma "pesquisa-ação". è necessário reunir condições que. no plano científico. status social ou profissional etc. 1 Ou seja. Resta o como da pesquisa. sobretudo em economia ou em epidemiologia. 148 . O material da pesquisa Na metodologia da psicopatologia do trabalho.). não se trata de uma obra beneficente e isto deve ser dito claramente. Isto é importante. Em relação às pesquisas clássicas. vemos que o "grupo homogêneo" não é definido pelas categorias objetivas (idade. sem dúvida. Vemos que a solicitação exige um trabalho específico de expli-citação. A maior limitação. uma parte das questões que serão objeto da pesquisa já estarão esclarecidas na fase incial da pesquisa. cheguem à formação de um coletivo ad hoc. as categorias que reúnem os indivíduos apresentando uma posição subjetiva comum. 3. do que pode ser reconhecido como "palavra". Esta operação trata do que foi dito. Nesse sentido. devido à sua formação. Em todo caso. mesmo se não for sempre justificada. concerne à definição do que constitui o material da pesquisa. seja através de um contrato de pesquisa ou pela posição de pesquisador. as questões materiais: os pesquisadores são pagos por esse trabalho. tem seus efeitos: para que a solicitação seja aceitável e viável. O material é o resultado de uma operação efetuada naquilo que foi antes discutido pelo coletivo. mas que. ou seja.. sexo. provoque efeitos sobre a situação. relativa a esse aspecto metodológico. um coletivo que se constitua em função das necessidades da pesquisa. De fato. sobre a solicitação. somadas. até mesmo sobre as relações sociais na empresa. mas sobretudo pelas categorias subjetivas*: são a solicitação e seu conteúdo que definem o coletivo pesquisado..

teremos uma listagem. Nosso objetivo não é a exposição da realidade do trabalho humano. esse comentário é marcado por uma ênfase interpessoal. os comentários que são objeto de discussão e de posições contraditórias no grupo. o modo operatório e as instruções de utilização que são divulgadas pelos enge-nheiros. interpretações e até mesmo citações. Não existe então o comentário. como.isto è. como "comentário". tipo piadas etc. E por isso que damos um valor específico ao que já avaliamos anteriormente. uma descrição ou um recenseamento dos riscos observados na situação de trabalho. tende a dissolver-se numa descrição da realidade. viva. Nossa pesquisa visa essencialmente a vivência subjetiva. por exemplo. sobretudo. vinda de grupo de trabalhadores. Em um outro momento da investigação. que nos toca. o que se poderia chamar de "exigências da tarefa" ("contraintes").. Há nele um aspecto de distanciamento em relação ao que vem do exterior. Descreve-se a situação exterior ou. nem possui um caráter de permanência absoluta. a formulação do pensar dos trabalhadores sobre sua própria situação. Além do mais. pelos trabalhadores. não nos interessamos pela realidade dos fatos na situação de trabalho. hipóteses sobre o porquê e o como da relação vivência-tra-balho. O comentário é o material por excelência para se tomar contato com a subjetividade dos trabalhadores. mas fica faltando um comentário que nos indicaria algo sobre a vivência desses riscos. tem um objetivo — o de convencer. que visa ser objetiva e operatória. do que constitui 149 . subjetiva.. a palavra sobre "o esforço despendido nas tarefas" ("astreinte"). de seus trabalhos. Diferentemente da abordagem de cenos ergonomistas. de modo que nos interessamos sobretudo pela dimensão do comentário: comentário que inclui concepções subjetivas. não há a introdução. ou seja. Freqüentemente. Possui uma finalidade explicativa. identificamos a prevalência da descrição operatória em relação ao comentário. esque-maticamente.e a hierarquia (até mesmo sindicatos). citaremos o que se passa quando abordamos a questão do perigo no trabalho. o comentário nem sempre é contínuo. engajada. A título de exemplo. Às vezes. em suas dimensões físicas e cognitivas. quer dizer. O comentário seria. por exemplo. Buscamos detectar o que tem valor de comentário e. o de informar o outro sobre a maneira pela qual o coletivo estrutura sua relação com o trabalho. seremos inclinados a reconhecer a expressão de um investimento maior. da dimensão subjetiva da vivência desses riscos. na discussão. Nesse caso. nem pela descrição efetuada. de certo modo. como Catherine Teiger e François Daniellou. o que é uma formulação original. Ora.

a negação de seu contrário etc. por essa razão. se temos como referência esse dado fundamental que estrutura toda nossa investigação ou seja. relativa especificamente à percepção dos riscos. a conjuração.a realidade extenor percebida. contra o patético. ou contra o sofrimento. eqüivaleria à posição de ocultação da relação entre realidade do risco epercepção do risco. a percepção do risco. ou seja. Mas. aliás. é porque há um dispositivo defensivo estabelecido para lutar contra a percepção. se há um conhecimento "teórico" dos riscos. pertence à categoria da descrição científica. ou seja. Observamos assim que. A percepção. em si. em geral. introduz no comentário a problemática do perigo. o risco definiria as características físicoquímicas. ou o discurso sindical. somos logo levados a procurar. Encontramo-lo facilmente nas formas classicamente reconhecidas em psicopatologia.. ao contrário. esclarecem as instituições oficiais. os sinais de um dispositivo defensivo. o discurso oficial nem mesmo menciona o perigo. parecenos que falar do risco. Nesse caso.. ■ . que remeteria especialmente para o lado humano os efeitos potenciais do risco na saúde. Como. Essa realidade é conhecida dos trabalhadores e é devolvida a eles pela pesquisa. entre realidade e percepção da realidade. Em outras palavras. são palavras e descrições pouco personalizadas: reconhecemos nelas o discurso oficial da segurança e da prevenção. A abordagem coletiva visa. entre descrição operatória e comentário subjetivo. quando identificamos essa ausência de comentário. aparece concerne à tática utilizada para lutar contra a percepção. não há a correlação que se poderia esperar.. a ausência de comentários na discussão e expressão do grupo pode ter um valor expressivo. a relação sofrimento/defesa. A "negação da percepção" desdobra-se numa inversão da proposição relativa à percepção e ao sofrimento: teremos uma série de formações reativas contra o medo. então. Descobrí15Q . tais como a bravata. o desafio. somos levados à interpretação devido à existência de uma clivagem entre o risco e o perigo. mecânicas ou biológicas das exigências da tarefa. De maneira que. No mínimo. em outra parte. É precisamente a partir desses dados que postulamos que haveria no silêncio de um comentário uma postura tão ativa e específica quanto na sua presença. Ou seja. inevitavelmente.itão. Nós postulamos que se o comentário desaparece. mas as palavras utilizadas não são palavras subjetivas. em termos impessoais ou oficiais. ao contrário.. ou o discurso da hierarquia etc. um discurso padronizado ou estereotipado. Supõe-se assim que o risco pertence à realidade exterior objetiva e. um comentário sobre o perigo. A questão que.

A. É aqui que seria importante articular "defesa coletiva" com "ideologia defensiva". No lugar de uma resposta direta podemos ter. da temática proposta. após uma breve hesitação. Ed. Toda a metodologia de coleta e recenseamento do material consiste em fazer aparecer o paradoxo. CHANLAT e M. um começo de comentário. Se nos atemos somente ao discurso direto ou a um só aspecto. Trata-se de um sistema defensivo. o know how. não dialético. 1985. 331-359. DEJOURS. Por exemplo: a discussão gira. Paris. ou por Abramowitch** a propósito da construção civil*** Segundo esses autores. C. pp. Edit. quais são os perigos que ameaçam fisicamente sua saúde?".remos assim a defesa coletiva especifica do trabalho. VEIL. *♦ ABRAMOWITCH. no Colóquio Nacional de Psicopatologia do Trabalho. A seguir. WISNER. a discussão dirige-se para anedotas relativas às condutas paradoxais e às condutas chamadas perigosas Estamos novamente num discurso personalizado. podemos ser levados a interpretações por demais uní-vocas. há alguw tempo. subjetivo.M. 102-104. Psychopatho-logiedu travail. os conhecimentos e a experiência. até mesmo de gozo. que tem valor de comentário. Organization. DUFOUR: A ruptura entre a empresa e os homens. pp. mais ou menos rapidamente. lançamos a hipótese de que o desafio ao risco é unia manobra de ridicularização e de conjuração da percepção do perigo e do medo. •** Ver relatório de APEC para o Ministério da Construção e o resumo fornecido por Abramowitch. que desvia a questão colocada. em torno dos riscos (segue-se uma listagem do que foi ditd>: "Então. afetivo. que é imediatamente verbalizada e íormulada em resposta à solicitação grupai sobff a relação entre risco e perigo. do tipo proposto por Bouchard* com relação aos caminhoneiros. EME. o que não é a mesma coisa. Tais dados são colocados pelo grupo como sendo suficientes para escapar à dimensão do perigo e do medo. S Être truckeur (routier)". fixando se em considerações sobre a habilidade. Voltaremos a esse aspecto mais tarde. Paris. "Etude éthnographique du vécu des taches de couver-ture dans le bâtiment" in C. engajado. J. os trabalhadores em questão teriam uma relação de prazer com o risco. a relacionar cada comentário ou ausência de comentário ao contexto e ao que se inscreve como contradição em relação ao tema principal. 1985. A ideologia defen* BOUCHARD. um movimento do grupo como um todo. in A. pois o que queremos situar é: onde se localiza a passagem da interpretação antropo-etno-lógica à interpretação psicopatológica? Em psicopatologia do trabalho. 151 .

trata-se não somente de restituir os comentários dos trabalhadores sobre o sofrimento. a defesa mascara-se em ideologia e oculta todo mecanismo intermediário. principalmente sob o domínio da pulsão de morte. é apenas uma defesa. Isso já foi particularmente argumentado no caso das toxico-manias. p. A partir desse ponto. creio eu. A confrontação com o risco aparece como uma escolha deliberada. a seguir. com o comentário subjetivo do pesquisador. e não de prazer. os movimentos existentes entre o grupo de trabalhadores e o grupo de pesquisadores. de certo modo. o que nos interessa é colocar por escrito o que foi detectado pelos pesquisadores durante o desenrolar da pesquisa. em etnologia -. julgamento de Deus pela água ou pelo fogo" (Littré. resumindo. contrabalançá-los ou contradizê-los. e não sob a pulsão de vida. A redação da obser152 . poderemos compreender que a confrontação com os riscos pode ter valor de gozo. "prova judicial através dos elementos naturais. Para voltarmos ao que constitui o "material" da investigação em psicopatologia do trabalho. à medida que se apresentam. 5. segundo Littré. num primeiro momento psicopatologico. Erige-se então em valor e funciona. literalmente.siva seria elaboração afirmativa de um procedimento defensivo. Como os fatos observados são subjetivos. Isso é conhecido em psicopatologia — e. O gozo indicaria aqui uma dimensão de descarga compulsiva. facilitando assim o acesso à dinâmica específica da pesquisa. diríamos que esse material se constitui nos comentários (e nas falhas ou faltas de comentários) completados e relacionados ao contexto. como uma operação que consiste em construir aquilo que. mas de ilustrá-los e articulá-los. como se tratasse de uma expressão do desejo. Se nos referimos à noção de ordália. como são rotulados nas ciências naturais. 1318). A observação clínica A observação clínica é um material essencial para a elaboração e a discussão psicopatológicas.sob o nome de conduta ordálica. Não se trata apenas da descrição dos "fatos observados". Parece-me que essa é a corrente interpre-tativa utilizada no artigo sobre os caminhoneiros. Em outras palavras. Esse par de contrários é interpretado em relação ao binômio sofrimento/ defesa. procurando justamente o que vem. que deve ser distinto do binômio sofrimento/prazer. Surge por último. por exemplo.

O que fica invisível é o trabalho psíquico do investigador e os efeitos do que restitui ao grupo sobre o desenvolvimento dos comentários e da discussão. facilitando depois. o resumo comentado de um pesquisador é muito mais interessante para uma discussão. ainda mais que com os fatos observados. Nessa ocasião.vação vai sendo feita depois. Uma observação é ainda mais interessante e útil se consegue mostrar os caminhos percorridos pelo pesquisador. com os instrumentos subjetivos da observação. os pesquisadores — e os trabalhadores. basicamente a partir da memória do pesquisador. ou então cada pesquisador redige sua observação. podemos nos basear nas notas tomadas durante a reunião ou visita e. em fitas gravadas. os desvios. a partir da própria pesquisa. seja porque decorrem da multiplicidade de observações ou da discussão sobre uma única observação. geralmente realizada por vários pesquisadores. há dois procedimentos diferentes: ou um dos pesquisadores redige a observação que será depois submetida aos outros pesquisadores. Ficam assim evidentes a movimentação. Esse resumo de pesquisa. quando se trabalha sistematicamente umas contra as outras. durante a pesquisa. E lógico que nessa observação escrita há uma parte substancial dedicada à palavra dos trabalhadores. que será entre153 . e que são provenientes do pesquisador que redige a observação. A observação clínica não tem nada a ver com um resumo ou uma decodificaçâo de fitas gravadas. Muito pelo contrário. vivo. as idas e vindas. Numa pesquisa desse tipo. O mérito desse segundo método é o de fazer aparecerem imediatamente. a experiência mostra que o texto literal do que foi dito não nos permite um trabalho muito rico de interpretação. para encontrar a formulação mais correta de um participante ou de um pesquisador. subjetivo. tanto de um lado como do outro. Em psieopatologia do trabalho. na situação concreta de pesquisa. interpretações divergentes. O objetivo da observação é mostrar o encadeamento. E um trabalho que consiste em evidenciar e explicitar o caminho tomado pelo pensamento do pesquisador. Esta redação é feita imediatamente após o término de cada encontro ou reunião de pesquisa. é necessariamente de natureza muito diferente de um resumo visando a objetividade. na mesma seqüência daquelas que não o foram. durante a pesquisa e o contato com os trabalhadores. A observação clínica ocupa-se. Se existem contradições que permanecem entre as diversas versões interpretativas. nem de discussão. excepcionalmente. as "interações" dos protagonistas da pesquisa entre eles — ou seja. Na realidade. as reações que surgem. as interpretações formuladas. comentado. trata-se de fazer aparecerem as idéias e comentários. insitu. elas serão então registradas no relatório.

e não apenas em psicopatologia do trabalho. Conhecemos exemplos famosos. ou seja. Uma das versões obterá um consenso e as outras serão rejeitadas. buscaremos saber se. a vivência. Se acontecer que diversas versões sejam simultaneamente mantidas pelo grupo. Dessa maneira. A nova interpretação. A partir da leitura de uma observação. propor novas interpretações para esta observação. as intervenções do pesquisador no grupo podem ser inadequadas. é possível argumentar porque a intervenção parece inadequada. o material de interpretação em psicopatologia do trabalho é uma observação comentada. o afeto e a dimensão subjetiva. só podem ser recolhidos através da subjetividade de um receptor do discurso. como já indiquei acima. mas é preciso levarmos em consideração que o sofrimento. isto é uma prática freqüente em psicopatologia. esse material clínico. fórmulas defensivas múltiplas. Nesse caso. existem subgrupos que produziriam relatos diferenciados em relação à situação de trabalho. apresenta a vantagem de poder ser retomado por outros pesquisadores que poderão. principalmente. como também é possível mostrar. Assim. O interesse da observação também fundamenta-se por tornar transparentes as bases sobre as quais foram propostas as interpretações. Isto é verdadeiro. ou aparecerão neste sob forma de perguntas. que trata fundamentalmente da relação do grupo com o observador. baseados nas próprias pesquisas. para a objetivação da intersubjetividade. deve ter um valor heurístico superior à primeira e ser mais econômica do que esta. observações essas que continuam a alimentar as dis154 . porque essa intervenção teve os efeitos em questão sobre a dinâmica intersubjetiva. o trabalho de objetivação afasta-se da oòjetivação do dizer dos trabalhadores. Como se dá então uma contestação científica? A intersubjetividade implica em originalidade e unidade absolutas? Torna impossível qualquer argumentação ou contestação? Não. Se assim for. apesar de aspectos contraditórios. o homem dos ratos e o pequeno Hans. a vantagem de poder ser submetida à discussão com pesquisadores que não participaram diretamente da pesquisa. Portanto. é possível que nasça a idéia de uma outra interpretação diferente daquela formulada pelo redator. Aliás. sob a nova interpretação. Pode-se objetar que com esse tipo de material distanciamo-nos do contato objetivo com a palavra e a vivência dos trabalhadores. no interior desse coletivo de trabalhadores. principalmente a respeito das observações de Freud com o homem dos lobos. dentro da nova interpretação proposta. assim como o prazer.gue aos trabalhadores. A observação clínica tem. para ser aceita. em geral.

rein-terpretação essa que elabora uma nova concepção das fobias e. Aubier-Montaigne. individual. psicanalítica ou de psicopatologia do trabalho em outras áreas. na verdade. segundo a opinião da maioria dos psicanalistas atuais ò de grande interesse. O método de interpretação O sofrimento e o prazer são. como testemunham. N. parece ser espantoso. as objeçòes e reconstruções ou reinterpretaçôes tratam sempre do relato literal fornecido da palavra do paciente por Freud. essencialmente. objetivamente. para o pesquisador. baseada em sua prática clínica. incompreensível. de não estar numa posição semelhante à dos trabalhadores com os quais se realiza a pesquisa. Esses dados passam pela subjetividade do pesquisador. agressor etc. Não se trata pois de um trabalho acadêmico. Em nossa opinião. de levar em conta a tensão que surge. Paris. por Nicolas Abraham e Maria Torok*.cussões e as interpretações. 155 . em relação ao conjunto do saber em psicopatologia. mas também da atitude de Freud. e a posição do pesquisador. em relação à experiência que possui. pressupomos que o pesquisador possa manter uma posição estrita de pesquisar. surpreendente. tanto na descrição como na identificação e formulação dos mesmos. Observamos que. "Lécorce et le noyau". M. Paris. subjetivos e seria ilusório querer objetivá-los. devido à distância entre a posição baseada no fato de ser trabalhador numa empresa. "Le verbier de 1'homme aux loups". Enfim. desgastante. como no da própria teoria psicanalítica. ou seja. mas de um trabalho de interpretação. também.. O que é importante considerar é a defasagem existente entre a palavra dos trabalhadores e a experiência do pesquisador. 6. a reinterpietação do caso do pequeno Hans e do homem dos lobos. uma posição terceira em relação aos trabalhadores que participam da investigação e análise da situação de trabalho. Ed. No encontro com os trabalhadores temos por objetivo formalizar o que. Ed. Trata-se. Aubier-Montaijgne. angustiante. de sua^ respostas ou interpretações. TOROK. o pesquisador só pode * ABR/VHAM. Em todo caso. por exemplo. tanto no plano da orientação da cura e da técnica de interpretação. seja essa psiquiátrica.

Em outras palavras. Essa postura é fecunda quando vemos que os trabalhadores acabam dizendo ao pesquisador coisas que não sabiam. do mesmo modo que falamos a uma terceira pessoa. geralmente. eventualmente. Se é possível um trabalho que emane de um coletivo de pesquisa. ou seja. e não como especialista. alguém a quem se aceita. um segundo momento. temas e comentários são feitos à medida que a discussão se desenrola. sendo então rejeitados ou retomados. em dois momentos. acreditamos que essa terceira posição é que torna possível a abertura para uma "palavra" que fale do sofrimento. justamente porque fica claro que o pesquisador é diferente deles. e que seja passível de uma escuta e interpretação. após a entrega do relatório-anterior-mente enviado aos trabalhadores para uma análise crítica. com os trabalhadores que participaram da pesquisa e. ' Grifo da tradução. geralmente. durante a própria pesquisa. as elaborações. com outros que se juntaram a ela. de verbalização. O trabalho de formulação. quando temos. a própria continuidade da investigação e seu seguimento. como também o investimento mantido pelos interessados. trabalhadores. é também porque — numa posição diferente dos trabalhadores — o pesquisador é alguém que não sabe*. formam o primeiro momento da validação das interpretações. eventualmente até aprofundados. essa é a questão fundamental. do prazer. Validação e refutação Evidentemente. uma reunião especificamente organizada para devolver-lhes uma síntese dos resultados. interpretações. dessa vez claramente dirigida para a relação sofrimento/organização do trabalho. Há. ou seja. explicar as coisas e fazer compreender o que ele desconhece. de expressão e de elaboração é potencialmente viável. Primeiro. A validação faz-se. 7. observações e interpretações. mais tarde. 156 .situar-se como interlocutor. como já dissemos a respeito do desenvolvimento da investigação. hipóteses. Em nossa opinião. Podemos assim avaliar as reações dos trabalhadores e modificar ou corrigir o relatório final. Uma nova discussão pode eventualmente acontecer. eventualmente. com novo material de análise.

em relação ao que temos de experiência do homem pela prática psiquiátrica. Na ótica objetiva só podemos conhecer as desregulações e as reequilibrações. se nos referimos também à psicossomática. Temos boas razões para pensar que uma crítica seja possível a partir de outras disciplinas. Um dos eixos da interpre tação está. a nível teórico e metodológico. de sofrimento. de desejo e de saúde mental e até de saúde física. Parece-nos que a crítica possa se dar. Resta ainda a questão da reiutação a nível estritamente cientifico. Metodologia e teoria em psicopatologia do trabalho E claro que a psicopatologia do trabalho baseia-se num modelo de homem e de subjetividade emprestado da psicanálise. ou seja. entre outros. originárias de disciplinas ou de metodologias diferentes daquelas utilizadas em psicopatologia do trabalho. 8. na medida em que este se apoia. no que se encontra expresso e representado pelo sujeito na cena do trabalho e no que parece estar excluído ou contido. como idéia central.I Com tai procedimento. Essa refutação é basicamente possível através de uma contra-pesquisa que possa fornecer outros resultados e interpretações. Resta saber se uma refutação seria possível a partir de outras disciplinas ou de outras pesquisas. teremos uma validação ou invalidações provenietues do coletivo dos trabalhadores. mas essa perspectiva não nos ensina muita coisa sobre a vivência subjetiva qualitativa. que o sofrimento e o prazer são. Temos. Nosso princípio de investigação. em suas origens. na exposição das contra dições e anomalias detectadas na clínica do coletivo de trabalha dores. pela comunidade científica. aprisionado. abrindo assim um caminho direto para debates teóricos internos. A outra idéia de base de nossa metodologia é que não conhecemos sofrimento ou prazer objetivos. justamente. principalmente. mas raramente sobre o material clínico propriamente dito. emaranhado ou reprimido desta cena. o que não deixa de ser importante. psicoterápica e psicanalítica. Esse modelo permanece subjacente à pesquisa e ao trabalho de interpretação. de análise de interpretação é que essas noções só podem ser elaboradas através das relações intersub157 . provenientes de uma relação específica com o inconsciente. em psicopatologia do trabalho. Nesse jogo entre pré-consciente e inconsciente é que se negociam as relações de prazer.

estudar os obstáculos que o trabalho coloca para essa ressonância metafórica e que parecem-nos ser um elemento determinante do poder estruturador ou desestruturador do trabalho em relação à economia psíquica dos trabalhadores. mais precisamente. no sentido que lhe dão os cognitivistas.jetivas. Enfim. a palavra é o mediador privilegiado dessa relação e ê sobre ela que trabalha psicopatologia do trabalho. o que tratamos de estudar é a posição dos sujeitos na relação de trabalho e. é a possibilidade dos autores da mesma pensarem sua situação em relação ao trabalho. o espaço possível do sujeito para utilizar-se do trabalho como "ressonância metafórica" na cena da angústia e do desejo. ou seja. que é preciso distinguir da atividade de pensar. 158 . A psicopatologia não é nem um pouco assimilável à etologia. devemos entender a fala. mas como um ato. mergulhar na dialética ator-sujeito. Nesse sentido. não como uma série de palavras. Ato que implica um ato de pensar. Ou. O que visamos. as conseqüências dessa relação na vida fora do trabalho e na vida em geral. Ao fazê-lo. ainda. através de uma pesquisa em psicopatologia do trabalho.

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Sob este aspecto. ocorrem importantes desigualdades entre os trabalhadores de um mesmo país e de um mesmo período histórico. o trabalho não é nunca neutro em relação à saúde. No sentido inverso. O termo trabalho deveria figurar na própria definição de saúde. isto é. mas torna-se totalmente inconsistente a partir do momento em que se trata das relações sociais e das questões de saúde. Finalmente. a divisão entre espaço de trabalho e espaço privado só é eventualmente pertinente na análise econômica. o prazer no trabalho e os benefícios provenientes da relação de trabalho no registro da saúde também têm repercussões favoráveis na economia das relações da família e no desenvolvimento psíquico e afetivo dos filhos).Houve mudanças na definição do conceito de saúde a partir de 1982? Dejours . os filhos e às vezes até os pais do trabalhador são atingidos indiretamente. O cônjuge. Por outro lado. seja a saúde. Toda a família é requisitada pelo trabalhador em seu esforço em enfrentar as dificuldades no trabalho. uma parte do alcoolismo e das doenças têm relação com as dificuldades no trabalhe e tocam todos os membros da família. ele é as vezes operador de saúde e de prazer. o trabalho ocupa um lugar muito mais importante na luta contra a doença do que se supunha até agora nas concepções cientificas. ressaltar que a relação saúde/trabalho não diz respeito apenas à pessoas diretamente engajadas no processo de trabalho.Normalidade. figurando na definição da Organização Mundial da Saúde. é importante. como uma fonte de doença ou de infelicidade. e outra relativa à relação entre saúde e normalidade. De qualquer maneira. Trabalho e Cidadania Três aspectos presentes no novo conceito de saúde discutido por Christophe Dejours Entrevista concedida à Comissão de Saúde do Conselho Regional de Psicologia — & Região e publicada no "Cadernos CRP -06" de Outubro de 1991. 1) O trabalho nem sempre aparece.Estão surgindo duas tendências uma relativa ao papel do trabalho na saúde. mas também fortemente. De modo que o trabalho deveria aparecer na própria definição do conceito de saúde. e particularmente no que concerne à definição do ideal do "bem estar social". Tradução de Lúcia Leal Ferreira. como teríamos a considerar há dez anos nas pesquisas de psicopatologia do trabalho. pelos efeitos dassituação do trabalho sobre aquele que nela se encontra exposto (uma parte da violência comum nas relações conjugais. aos trabalhadores. e favorece seja a doença. CRP-06 . ao contrário. Com efeito. como disse acims. mas acontece que as condições em função das quais o trabalho age como gerador de doença ou de saúde são muito contrastantes. por exemplo sob 164 .

Imediatamente descobrem-se a habilidade. e de obter em troca um reconhecimento social equivalente. sobreviver. apesar de condições de vida tão duras e desestabilizantes. isto é. A referência à normalidade e às estratégias defensivas. A normalidade é freqüentemente conquistada a custo de certas patologias crônicas. Esta maneira de apreender as coisas é determinante em tudo o que diz respeito à prevenção das doenças. Ela nunca é dada como um presente da natureza: ela supõe uma construção feita por cada um dos sujeitos. nos tratamentos médicos mobiliza o sujeito em seu tratamento. Isto não é nada original. a loucura e a morte. analisar e elucidar as estratégias que eles mesmos elaboram para lutar contra a doença. 2) As relações entre saúde e normalidade. deveria-se diminuir um pouco a parte dedicada às condutas prescritas ou ordenadas a sujeitos que devem executá-las pacientemente e com disciplina. sem compreender-lhes a razão. refazer o que se desfaz. tantas pessoas. dar mais ênfase à parte que. e até conquistar um pouco de felicidade? O novo problema que se coloca hoje é o da "normalidade". é preciso antes conhecer. Quanto mais avançamos nos estudos em psicopatologia do trabalho. Seria necessário. Mas o que ainda não foi suficientemente enfatizado é que. Normalidades e saúde não são exatamente equivalentes. para onde submerge uma parte do sofrimento que não consegue encontrar soluções adequadas. cuja amplitude é ao menos comparável: como compreender que. e já há muito tempo é bastante preconizado em diferentes grupos de clínicos e de pesquisadores. notadamente patologias somáticas. uma luta incessante para reconquistar o que se perde. reestabilizar o que se desestabiliza. a inteligência. por um lado. Somente a partir destas estratégias inventadas pelos doentes teremos chances de não mais preconizar esta orientação dos técnicos de tratamento como um ideal ou uma utopia. sem dúvida daria à concepção dos tratamentos uma orientação diferente da que prevalece nas abordagens médicas e psiquiátricas clássicas. * '£«. ao contrário. senão a maioria delas. assim como à inteligência do sujeito em relação à luta contra as dificuldades desestabilizantes e patogênicas. para poder partir da mobilização da inteligência dos doentes. I 165 . conseguem resistir. a loucura ou a morte. e em psicopatologia e em psicosaomática por outro. soluções que passem pela transformação da situação concreta de maneira a adequá-la melhor às necessidades e aos desejos do sujeito. a astúcia inacreditável dos homens e das mulheres em inventar estratégias defensivas que lhes permitem permanecer dentro da normalidade. dos acidentes e de todas as formas de atentado à integridade física e mental.a forma do direito fundamental de contribuir para a saúde e o trabalho social. Nas abordagens terapêuticas. Um novo problema científico emerge. Falar de "bem-estar social" sem dar a essas referências ao trababo um conteúdo preciao aparece hoje em dia como um erro. A normalidade é fundamentalmente enigmática. mais somos levado a nos espantar com o interesse exclusivo dedicado às pesquisas sobre a doença. por um lado.

existem relações extremamente precisa. de vantagens materiais. e de reconhecimento social. por outro. A questão crucial reside no par contribuição/retribuição. à sua própria evolução ou i emancipação de seus próximos ou de seus filhos. de sofrimento e de doença adquirem um sentido nas relações sociais. que são mediatizadas pelas soluções elaboradas pelas pessoas para enfrentar o sofrimento. A retribuição em forma de salário. então os problemas de saúde. mas que pediriam desenvolvimento complexos demais para o contexto desta conversa. pode ser considerado ou interpretado como o preço a ser pago por fazer sua contribuição à evolução das relações sociais. na medida em que seus próprios interesses identificam-se com as grandes questões tratadas no espaço público. está à altura da contribuição que o sujeito dá à sociedade. àqueles que encontra em suas relações sociais? Se esta retribuição é conveniente em relação à contribuição e às implicações dela provenientes em termos de sofrimento ou até de doença. chegamos à conclusão que existem relações preciosas entre saúde e civismo. O sofrimento pode também ser considerado uma provação divina. Enfim. Vê-se. Em contrapartida. a ausência de um sentido socialmente construído capaz de substituir o sofrimento vivido 166 . quando a retribuição. mas falar de engajamento nas relações sociais é insuficiente para dar conte da interpretação que cada sujeito dá de seu sofrimento. Sofrimento e doença podem ser vividos e interpretados pelas pessoas como golpes do destino ou como fatalidades. enquanto outras levam as pessoas a voltarem-se para o espaço público e as responsabilidades cívicas. Algumas dessas soluções direcionam-se diretamente para o espaço público. em relação à contribuição individual. é irrisória ou muito decepcionante.CRP-06 . Em contrapartida. portanto. Nas pesquisas que realizamos no Conservatoire National des Arts e Métiers. não há nenhuma chance de o sofrimento levar à formulação de opiniões enunciáveis no espaço público e na cidade. o sujeito tende a voltar-se para uma posição dita "individualista". Na falta de uma construção do sentido do sofrimento nas relações sociais. tio denunciada como um mal específico da atual "crise de civilização" Mu nío é nada disso.Existem relações entre saúde e engajamento cívico? Dejours . a seus próximos. de reconhecimento de identidade e de originalidade. que as condições sociais e éticas do par contribuição/retribuição são determinantes na construção do sentido do sofrimento e no engajamento dos sujeitos nas questões da cidade. o que contribui para mobilizar o sujeito em direção às coisas da cidade. por um lado. a questão coloca-se fundamentalmente em relação à construção do sentido ou da significação do sofrimento e da doença. de reconhecimento do mérito. o sofrimento só encontra sentido no espaço privado e na deliberação interior. a resposta que cada um dá individualmente ao sentido do seu sofrimento depende fundamentalmente da maneira pela qual está engajado nas relações sociais. esta retribuição. Em outras palavras. portanto. Na falta de retribuição suficiente no espaço das relações sociais para o sofrimento de cada sujeito.Sim. à empresa. Ora.

CRP-06 . e do que na Europa é chamado de "instrumentação dos corpos". que eu não poderei «desenvolver aqui. fora de uma construção social do sentido do sofrimento o risco principal é o non-sense da doença. isto é. ou. Por causa disso. as causas dessa ineficiência são "naturalizadas". que sabemos que muito contribuem para acelerar o curso dos processos mórbidos. transformando-a em vocação de "guardião". Será 167 . da psiquiatria e da assistência social. são atribuídas à incompetência e à falta de senso de responsabilidade dos profissionais. sem poder remontar até às condições sociais de extinção dos debates sobre saúde.Em nossos países. A solução. concernentes à relações entre saúde e civismo. A conseqüência disso e o desânimo. sobretudo da saúde mental. se houver uma. mental e somática do doente. a situação seleciona entre os que sofiem desta evolução e desta desvalorização uma população de pessoas que nem sempre é a mais motivada para a luta contra a doença. Rapidamente nascem conflitos entre os próprios profissionais que.O psicólogo pode fazer alguma coisa em favor da saúde dos profissionais da saúde? Dejours . Pouco a pouco. Hoje. acusam-se uns aos outros pelos fracassos técnicos*. por uma abordagem da prática terapêutica como se tratasse de um trabalho. O resultado é um grande desânimo entre as pessoas responsáveis pela saúde mental na França. segundo nosso ponto de vista. CRP-06 . notadamente. como parece testemunhar uma indubitável crise de doutrinas e da pesquisa clínica em psiquiatria em países como a França. Podemos temer que esta evolução leve a uma estagnação dos progressos e das pesquisas em matérias de melhoria da saúde mental. passa. que "toleram". o maior risco é que sejam cometidos enganos quanto à natureza e às causas do fracassos da medicina. existem problemas importantes que aparecem e que transtornam a paisagem. Até recentemente. pouco a pouco. colocam-se problemas muito sérios que dizem respeito não apenas à medicina. do desenvolvimento da medicina e das bio-íecnologias. às vezes até o desespero. Isto ocasiona uma preocupante regressão na vocação de tratar. tem conseqüências na evolução efetiva. Aqui. que vivem dela e dela se aproveitam.Como é a saúde mental dos profissionais responsáveis pela melhoria da saúde mental dos outros? Dejours . mas sobretudo ao modelo do homem que serve de referência ética e política à organização de nossas sociedade. Trata-se precisamente de técnicas de tratamentos. Os que resistem melhor são os que suportam bem a doença. pior ainda. da psiquiatria e das técnicas de tratamento. & decepcio. a restrições orçamentárias importantes no campo da saúde. o engajamento das pessoas na melhoria da saúde mental dos outros era considerado uma virtude.individualmente. Hí outras dimensões a tratar. assistimos a uma degradação das condições de trabalho.Quando não há mais debates públicos sobre os problemas da saúde mental.

tanto na França quanto no Canadá. a conduta terapêuticas depende não somente de um indivíduo. O profissional tem que se haver com as demandas e com t> sofrimento da família do doente. Assim. o psicólogo pode contribuir não mais tratando os profissionais e sim ajudando-os a elaborar sua relação com o trabalho e a catalisar a transformação e até melhoria da organização do trabalho. profissional. De" maneira que'. Perceberemos então que tratar não consiste simplesmente em executar as prescrições elaboradas ou prdBcritas em uma lógica estritamente médica. com a condição de aprender a decifrar a fala dos profissionais da saúde em relação ao esquema de organização do trabalho e não mais ao esquema da psicopatologia individual. O profissional tem que se haver com problemas de duração de estadia. mostram que o debate coletivo sobre a organização do trabalho de tratamento mobiliza a coordenação entre as pessoas e pode atenuar consideravelmente os antagonismos intenndividuais que. Eles lidam com sua inserção familiar. Os problemas a serem abordados nestes espaços de discussão diriam respeito à arbitragem em matéria de organização do trabalho de tratamento. com a aceitação ou a recusa pelo doente do tratamento que lhe é proposto etc. As experiências feitas neste sentido. teremos condições de descobrir em que consiste a irredutível deiasagem entre a organização' prescrita do trabalho de tratamento e os problemas realmente encontrados. V • ♦ • tr^ÍÊf$ í O papel do psicólogo poderia-wrtáo' consistir em organizar espaços de discussão no próprio local de trabalho. problemas ligados ao seu sofrimento singular. Descobrimos também que. os tratamentos dos doentes crônicos aparecem como muito mais problemáticos do que supWm»^mrtfjleK referência à doutrina médica. a loucura e a morte. ^agtogg uwversioadefeobuldomsm* §H2 SISTEMA DE BIBLIOTECAS 168 00051442 . Assim. apenas agravaram o sofrimento inevitavelmente produzido nos profissionais pelo confronto com a doença. Percebemos então que. mas da construção de consensos. Os profissionais lidam com problemas relativos às condições materiais c pecuniárias do doente. : Assim. até então. na realidade. no momento de arbitrar em meio a essas numerosas dificuldades concretas da realização do tratamento tal como ele é prescrit" pela ordem médiHr/aparecem opiniões divergentes entre os diferentes profissionais. sua dificuldade em manter seu próprio equilíbrio mental ou somático. com autorizações ou proibições de saídas dos doentes.necessário proceder a verdadeiras pesquisas de psicopatologia do trabalho sobre o trabalho dos profissionais da saúde. o sofrimento dos profissionais da saúde pode ganhar um sentido pela ação de transformação do trabalho real e tratamento. os tratamentos dos cancerosos. de acordos e de desacordos entre os membros de uma equipe. os tratamentos dos doentes mentais. Assim. Estes espaços de discussão não seriam exatamente destinados a fazer emergirem os problemas pessoais dos profissionais. afinal. mas pelo conjunto das equipes encarregadas dos doentes. uma grande quantidade de problemas é gerada não pelos médicos individualmente. sua inseivão social. ou seja.