r Dedos Internacionais de Catalogação na Publicação (OP) (Câmara Brasileira do Uvro, SP, Brasil) Dejours, Chhstophe, 1949D373I A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia

do tratelho/Christophe Dejours; tradução de Ana Isabel Paraguay e Ltf-cia Leal Ferreira. - 5! ed. ampliada São Paulo : Cartaz — Oboré, 1992. Bibliografia. ISBN 85-249-0101-2 1. Estresse do trabalho 2. Trabalho - Aspectos psicológicos 3. Trabalho e classes trabalhadoras Doenças 4. Trabalho e classes trabalhadoras - Saúde mental I. Título. II. Estudo de psicopatologia do trabalho. CDD-158.7 -362.2 -616.9803 87-1748 NLMWA400 índices para catálogo sistemático: 1. Estresse do trabalho: Medicina 616.9803 2. Loucura do trabalho: Medicina 616.9803 3. Psicologia do trabalho 158.7 4. Trabalhadores: Distúrbios mentais: Patologia soeU 3622 5. Trabalhadores: Saúde mental: Patologia social 362.2 6. Trabalho: Aspectos psicológicos 158.7 7. Trabalho: Doenças: Medicina 616.9803 Christophe Dejours, 38 anos, nasceu e vive em Paris. É doutor em medicina, especialista em medicina do trabalho, psiquiatra, psicanalista, ergonomista e ex-professor da Faculdade de Medicina de Paris. Hz pesquisas sobre temas situados nas fronteiras da psicopatologia: psicossomática e psicopatologia do trabalho. Trabalha no Centro Hospitalar de Orsay. E casado com uma psiquiatra e tem duas filhas. Além deste A loucura do trabalho, editado na França em 1980 e agora traduzido para o português com um anexo metodológico inédito em seu país de origem, publicou em 1986 Les corps entre biologie etpsychanaiyse, participou nas obras coletivas Corps malade et corps érotique (1983) e Psycliopatologie du travatí (1985), tendo editado 67 artigos nas mais diversas publicações especializadas entre 1973 e 1986. Foi o organizador do Primeiro Colóquio sobre Psicopatologia do trabalho, realizado em Paris, em setembro de 1984. Já esteve no Brasil, em São Paulo, em 1983, participando do / Colóquio franco-brasileiro sobre divisão do trabalho, divisão dos riscos e saúde k

Christophe Dejours A loucura do trabalho estudo de psicopatologia do trabalho Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira 5a edição ampliada 4a reimpressão OBORÍ

© Édiuons du Centurion, 1980. Direitos de tradução e edição em língua portugvett reservados por OBORÉ Editorial Ltda. Rua Vergueiro, 727, 7° andar - 01504-001 São Paulo, Brasil. Telefone: (011) 278.6100. Fax: (011) 277.2749 Capa, projeto gráfico e produção: Sônia Rangel e Cerifa. BC/BIBLIOTECA DE CIflNCIAS HUMANAS E EDUCA60 ^ HOÍSS LIMONAD y ^ # R$ Terio No. 22/02/99 9.60 131/99 Registro:289,666 © da tradução, 1987, de Ana Isabel Paraguay (capítulos 3, 5, 6 e Anexo) e de Lúcia Leal Ferreira (introdução, capítulos 1, 2,4 e conclusões). Publicação e comercialização CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 387 - Tel.: (OU) 864-0111 05009 -São Paulo -SP Impresso no Brasil - Abnl de 1998

................................ 48 Insatisfação e conteúdo ergonômico do trabalho........... 18 Terceiro período: após 1968 ..................... 75 > As diferentes formas de ansiedade........ 9 Introdução ........................ 27 Os mecanismos de defesa individual contra a organização do trabalho: o exemplo do trabalho repetitivo .......................................................................... 22 Capítulo 1 — As estratégias defensivas ................................................................... 27 As "ideologias defensivas" (o caso do subproletariado) .................................. 69 ° medo em tarefas submetidas a ritmos de trabalho........... 37 \~*»Capítulo 2 — Que sofrimento?..... 14 Da Primeira Guerra Mundial a 1968............................................................................................................................................................................................................................................................ 63 Os sinais diretos do medo................. 48 "**O Insatisfação e conteúdo significativo da tarefa................................................... 11 O século XIX e a luta pela sobrevivência.......................................................................................... 73 ■ A ansiedade e as relações de trabalho.............. 53 •* Capítulo 3— Trabalho e medo ....................................................Sumário Apresentação................................................................................ 77 I ....................... 65 Os sinais indiretos do medo: a ideologia ocupacional defensiva..

........................................................... 96 / A exploração da frustração..Capítulo 4— Um contra-exemplo: a aviação de caça ..................................................... 97 \ A exploração da ansiedade.............................................................................. 126 Conclusões .................. 133 Anexo: A metodologia em psicopatologia do trabalho ....................................................................................................................... .................................. 104 Capítulo 6 — A organização dó trabalho e a doença .................................................................... 159 Entrevista ....................... 119 A doença mental........................... 122 A doença somática .................................................................................................................................................... 141 Bibliografia ............................................ 80 Capítulo 5 — A exploração do sofrimento .................. I 164 ........................

amplia-se notavelmente o próprio objeto de estudo da psicopatologia do trabalho.Apresentação A 5* edição brasileira de "A Loucura do Trabalho". não a loucura. Este livro faz avançar uma disciplina que tem permanecido até agora muito embrionária: a psicopatologia do trabalho. em 1987 e sua incansável e brilhante participação em inúmeras reuniões e debates acadêmicos e sindicais^ as entrevistas que concedeu a vários órgãos de imprensa. Várias teses de mestrado e doutorado brasileiras apoiaram-se na abordagem de psicopatologia do trabalho de Dejours. O objeto de estudo passa a ser. mas o sofrimento no trabalho. Não se trata de estudar as doenças mentais descompensadas. começou com a presença do autor aqui no Brasil para o lançamento da 1! edição. Que. nos escritórios e é submetida a pressões no seu dia a dia. "um estado compatível com a normalidade mas que implica numa série de mecanismos de regulação". aliás. nas usinas. A receita deste sucesso está na reunião de três ingredientes básicos: o fascínio do tema abordado . tradução de "Travail. mas sim todos os trabalhadores. medicina social. Todo este trabalho de divulgação deu frutos. Em várias regiões do Brasil formaram-se grupos de estudo informais para ler e discutir o livro. . a população real e "normal" que está nas fábricas. administração e até engenharia de produção. psicologia. recomendada por professores das mais diversas áreas acadêmicas: sociologia. _O mais estimulante no trabalho de Dejours é exatamente a questão que ele se propõe a responder: como fazem os trabalhadores para resistir aos ataques ao seu funcionamento psíquico provocados pelo seu trabalho? O que fazem para não ficarem loucos? Com esta questão. "A Loucura do Trabalho" passou a ser uma referência básica. o seu método de investigação e a forma pelo qual Dejours os trata.as relações entre trabalho e saúde mental -. Usure Mentale" de Christophe Dejours é um atestado de sucesso. ou os trabalhadores por elas atingidos.

a divisão das tarefas entre os operadores. aparece outro conceito base na teoria de Dejours: o papel da organização do trabalho. Seus exemplos são eloqüentes. numa relação de intersubjetividade entre eles e os pesquisadores. "'A Loucura do Trabalho" é um livro que abre a cabeça para novas idéias e novas interpretações sobre o homem. então emerge um sofrimento patogênico. Trabalhadores e pesquisadores formam um grupo de trabalho com o objetivo explícito de entender as relações que podem eventualmente se estabelecer entre organização do trabalho e sofrimento psíquico. É na organização do trabalho que devem ser procuradas estas forças. na realidade exige vários requisitos da parte dos pesquisadores e tem de seguir regras deontológicas bem estritas. um estado de luta do sujeito contra forcas que o estio empurrando em direção à doença mental. os sujeitos criam estratégias defensivas para se proteger. Os conceitos que estão na base da teoria de psicopatologia do trabalho de Dejours foram elaborados e continuam sendo enriquecidos -por exemplo. Os conceitos e o método ganham uma coloração especial pelo modo como são expostos por Dejours. a falta das quais pode representar uma insuportável violação do equilíbrio psíquico dos trabalhadores. Leda Leal Ferreira Ergonomista 10 . representada pelas hierarquias. E ele esclarece que entende por organização do trabalho não só a divisão do trabalho. Este método aparentemente simples. e sobretudo. Mas como isto tudo é um processo dinâmico. Um assunto apaixonante que pode ser a chave para a compreensão de vários pontos ainda obscuros do comportamento humano. "quando estão bloqueadas todas as possibilidades de adaptação entre a organização do trabalho e o desejo dos sujeitos". a divisac dos homens para garantir esta divisão de tarefas.a partir de um material empírico obtido através de um método de investigação também novo. com os quais vem trabalhando mais recentemente . Quando a organização do trabalho entra em conflito com o funcionamento psíquico dos homens. Ele tem uma linguagem ao mesmo tempo precisa e sem tecnicismos que cativa os leitores. as repartições de responsabilidade e os sistemas de controle. antes de tudo. isto é. os ritmos impostos e os modos operatórios prescritos mas também. como elas surgem e evoluem. ou de sofrimento criativo e sofrimento patogênico. Implica. Aí.A noção de sofrimento é central para Dejours. Tudo então se passará em torno da interpretação da fala e dos silêncios dos trabalhadores. as noções de prazer no trabalho. Ele tem o mérito fundamental de tratar corajosamente de um assunto que é ainda muito pouco explorado: as relações entre o trabalho e a vida psíquica. E este é o terceiro ponto da teoria de Dejours: explicar no que consistem estas estratégias.

falaremos dos serviços públicos. ficou no estado embrionário. Evocar o sofrimento e a doença é. Em se tratando do trabalho. no escritório. das fábricas. da linha de produção. sempre há o que descobrir neste domínio. a critica social e levanta a questão explosiva das escolhas políticas. poderíamos nos satisfazer com as inumeráveis descrições que foram dadas sobre a violência na fábrica. no afron-lamento do homem com sua tarefa. Apesar de tudo o que se pôde dizer e escrever sobre a infelicidade. Assunto dentre os mais perigosos. cada um tivesse em si experiência suficiente para falar do inferno e nunca do paraíso. das indústrias de processo. na oficina. na verdade. Como se. Quando se conhece o desenvolvimento de que se . por causa das paixões que ele desencandeia. das telefonistas etc. nós procuraremos divulgar aquilo que. à Vivência alguns passos de vantagem sobre a Palavra. infalivelmente. em contrapartida. apesar de alguns trabalhos importantes dos anos 50 (57-59). assunto que suscita. para usar um truísmo. para revelar certos sofrimentos que. Sabe-se que a psicopatologia do trabalho. Curioso paradoxo. definitivamente. a exemplo de Dante. tanto da parte dos trabalhadores quanto da parte dos dirigentes e dos especialistas. põe em perigo sua vida mental.Introdução Falar da saúde é sempre difícil. foram negligenciados até hoje pelos especialistas do homem no trabalho. que dá. mais fácil: todo mundo o faz. Mais precisamente. no entanto.

Olhando-se de perto.beneficiaram as ciências humanas. deliberadamente. Assim. na medida em que estas são regidas por regras que não se deixam reduzir ao jogo das relações chamadas de "objetais". em outras palavras. os esquemas de padrões comportamentais. as características postas em evidência pela análise dual. ou de'irredutível. É inegável que a posição de destaque ocupada pela psicanálise não deixa de ocultar o que não pode ser articulado com sua teoria. ou um conselho de administração. podemos nos espantar com a lentidão da psicopatologia do trabalho. de uma vez por todas. a própria vida mental. as observações quantitativas. os fantasmas. as falhas do comportamento produtivo.. O campo da psicanálise é centrado sobre a vida de relação e. no máximo. E não de uma vivência operária que seria um denominador comum a todas as situações de trabalho. o de evidenciar o que há de único. a essa asserção. em conquistar seu lugar de distinção. Entretanto.. num grupo de operários de uma fábrica automobilística em relação a um grupo de pessoas em férias. Podemos propor várias explicações para este fenômeno. o dasein — para 12 . a psicossociologia não procura apenas evidenciar os pontos comuns a todos os grupos. da psiquiatria e da psicanálise. que deixa à margem. ou o aumento das performances. todos os sentimentos experimentados que escapam à observação chamada de "objetiva". Mais aceitável seria a interpretação que atribuiria o subdesenvolvimento da psicopatologia do trabalho ao superdesenvolvimento das disciplinas tradicionais. na dinâmica dos pequenos grupos. jamais. na literatura. O ponto de vista dinâmico. A primeira seria atribuí-lo à imaturidade da psicologia. desejamos fazer com que apareçam vivências diferenciadas e irredutíveis umas às outras. tanto no espírito do público quanto nos meios de comunicação de massa. a três. têm por objetivo encontrar. Nós deixaremos de lado. Ao contrário. ou. Seu objetivo não é. os questionários abertos ou fechados. a vivência hic et nunc. as estatísticas. há vários anos. Num caso ou no outro. toda a psicologia abstrata. a economia dos gestos repetidos. essas disciplinas. sobre a vida a dois. no sentido de Politzer(86). a emoção.. a psicanálise de grupo e a psicossociologia. a psicanálise é imprópria para dar conta das relações de trabalho. a raiva. de um século para cá. Evidentemente. de aparição muito mais recente. o amor. É precisamente sobre a especificidade da vivência operária que queremos chamar a atenção. é notável o lugar privilegiado que essas disciplinas ocupam. na arte e na medicina. mais precisamente. oporemos. a angústia. o sonho. e dos dramas. que sempre dariam conta das experiências concretas.

Além de não conseguirem dar conta da unicidade do drama existencial vivido pelos trabalhadores.de saúde dos trabalhadores não pode ser dissociada do desenvolvimento das lutas e das reivindicações operárias em geral. é sempre vencendo tais situações. onde o interesse econômico se reuniu momentaneamente ao dos trabalhadores. o subdesenvolvimento prolongado da psicopatologia do trabalho se explica. (Exceto em certos períodos. como um subcapítulo da história popular. a "frente pela saúde" só progrediu graças a uma luta perpétua. entenderemos não só a história dos operários.retomar os autores existencialistas alemães — teráv prioridade. por fenômenos de ordem histórica. Esse ponto é de tal importância que não poderemos evitar voltar um pouco atrás e narrar "a história da saúde dos trabalhadores". afinal. Assim. Por história. Se a psicopatologia do trabalho não foi mais estudada. psicossociologia e psicologia abstrata. É apenas graças a uma leitura especializada da história que se podem enumerar os elementos necessários à reconstrução da história da'' frente pela saúde''.) "A história da saúde dos trabalhadores" aparece. essas disciplinas fornecem um quadro de referências teóricas e conceituais que perturbam a elaboração de concepções diferentes. as guerras. que aparecem disciplinas novas. antes de mais nada. coiri dissemos. Mas não há a? nada de excepcional e. 13 . é porque as condições para seu crescimento ainda não estavam reunidas. portanto. que não retomaremos aqui. pela psicanálise. pois as melhorias das condições de trabalho e de saúde foram raramente oferecidas graciosamente pelos parceiros sociais. O campo potencial da psicopatologia do trabalho é ocupado. ao contrário do que acontece agora. patrões e Estado. Além do mais. assim. apesar de nem sempre conseguirmos escapar à tentação metapsicológica. mas principalmente a história do movimento operário e da correlação de forças entre trabalhadores. A evolução das condições de vida e de trabalho e. durante as quais foram tomadas medidas especiais para proteger uma mãode-obra que se tornava preciosa.

aos acidentes. a duração do trabalho. por volta de 1830. Nessa época. eram precisos 153 inscritos das classes privilegiadas para obter 100 homens aptos para o serviço militar. e. identifica-se com a luta pela sobrevivência: "viver. Concebida como um flagelo. a resposta social ao perigo. Guépin (49). O movimento higienista é. dramáticos por sua gravidade e número. é preciso que seja assegurada a subsistência. Como sublinhamos (29). Villermé (99). a partir dos 7 anos (98). pelo êxodo rural e pela concentração de novas populações urbanas. 72. Villermé demonstra sem dificuldade que "a mortalidade cresce em razão inversa ao bem-estar". para o operário. é não morrer". não cabe falar de "saúde" em relação à classe operária do século XIX. com freqüência. Antes. o emprego de crianças na produção industrial. mas 383 nas classes pobres". pontecializam seus respectivos efeitos e criam condições de uma alta morbidade. Penot (85). (29. sobretudo. O salários são muito baixos e. Os períodos de desemprego põem imediatamente em perigo a sobrevivência da família. subalimentação. que atinge correntemente 12. nesta época. algumas vezes a partir dos 3 anos. nos reportaremos aos autores de então. comparável a uma doença contagiosa. o período de desenvolvimento do capitalismo industrial caracteriza-se pelo crescimento da produção. e. A moradia se reduz.O século XIX e a luta pela sobrevivência Para o que nos interessa aqui. de uma alta mortalidade e de uma longevidade formidavelmente reduzida (99). freqüentemente. independentemente da doença. Benoiston de Chateauneuf (ver in 98). no espírito dos notáveis. acusa riscos de sofrimento específico. A luta pela saúde. de certa forma. esgotamento físico. ela é. descrito na literatura da época sob o nome de miséria operária. 14 . insuficientes para assegurar o estritamente necessário. (50) No que concerne às condições de trabalho da época. 43) Falta de higiene. pauperizandose. Disso decorrem condições de vida que foram descritas em pesquisas como as de Parent du Chatelet (83). a um pardieiro. (11) Em vista de tal quadro. Alguns elementos marcantes podem ser retidos. A gravidade da situação se revela no serviço militar: "Em Amiens. mais freqüentemente. (11 p. promiscuidade. 91) A intensidade das exigências de trabalho e de vida ameaça a própria mão-de-obra que. 14 ou mesmo 16 horas por dia. acidentes de trabalho.

enfim. de todas as nuanças de posições sociais. ela deduz reflexões e conselhos que não deixam de influir na força e na riqueza dos Estados. que é preciso trabalhar para curar ou. as influências dos climas. na ordem moral. ds erradicação da drenagem etc. aos cemitérios etc. do banditismo. Da investigação dos hábitos. às zo-onoses. E os meios de cura serão mais poderosos quando inspirarem seu modo de ação nas revelações do homem físico e intelectual e quando a fisiologia e a higiene emprestarem suas luzes à ciência do governo. Ela se estende a tudo o que diz respeito às endemias. do regime dos soldados. É ela que observa as variedades. Ela deve esclarecer o moralista. por sua associação com a filosofia e a legislação. enfim. dos marinheiros. que é a arte de conservar a saúde dos homens em sociedade. Mas ela ainda tem pela frente um outro futuro. das profissões. além das preocupações com saúde. resta por empreender e por realizar nesta parte da ciência. 15 . do direito e da razão"." (83) Este texto faz com que apareçam. que informa os meios da salubridade pública. A higiene designa os meios a serem postos em prática para preservai a saúde das classes privilegiadas e não a da classe operária. miséria. Ela pode. Ela trata da qualidade e da limpeza dos comestíveis e das bebidas. os objetivos concernentes à restauração da ordem moral e da ordem social nas aglomerações operárias. As faltas e os crimes são as doenças da sociedade. pelo menos diminuir. numa época onde os movimentos sociais e sindicais são ainda limitados. Não há nada de espantoso nessa situação. Com efeito.a miséria assimilada a uma doença "permite a introdução da linguagem do isolamento. nesse domínio. exercer uma grande influência na marcha do espírito humano. Ela deverá "restabelecer. Vê-se quanto. Ela faz sentir a necessidade das leis sanitárias. (98) Quando a burguesia perde sua credibilidade e sua imagem de >■**. às epidemias. aos presídios. de uma certa eficácia". aos cabarés. as oposições. Eis como ela é definida pelos autores do primeiro número dos Annales: "â higiene pública. da violência e da prostituição. às inumações. deve receber um grande desenvolvimento e fornecer numerosas aplicações ao aperfeiçoamento de nossas instituições. e concorrer para a nobre tarefa de diminuir o número de enfermidades sociais. apenas nesses limites. Questionar a religião e a família representa séria ameaça à ordem social. aos hospícios. os fatos morais e políticos. promiscuidade e fome associam-se para criar condições favoráveis ao desenvolvimento da delinqüência. se um papel importante for conferido à Academia de Ciências Morais e Políticas. a autoridade da ciência. aos hospitais.

Pinei. mais tarde. Inicia-se então um movimento complexo. Os conflitos entre trabalhadores e empregadores eram. onde os médicos ocupam uma posição de destaque. ao movimento de revolta. sob a imagem do "trabalhosocial". apela-se para os especialistas e cientistas. é preciso encontrar novas soluções. etapa necessária para a formação de operários disciplinados. . O médico faz sua entrada triunfal no arsenal do controle social. O Estado torna-se o árbitro necessário. quando apelava para a polícia ou para o exército. aparece o movimento dos "grandes alienistas" (Esquirol. Seu papel será o de estudar a situação e propor soluções para restabelecer a ordem moral e. sobretudo. constituídos pelos "desvios" e atentados individuais à ordem social. mais respeitáveis e mais neutros do que os patrões. Por outro lado. unicamente. Paralelamente ao "movimento" das Ciências Morais e Políticas.cunho humanista. Três correntes. a organização dos operários confere.d^Jiigjejie^js^ejco^ejtaijie PasiejirJ_uj3ij3Quco___ maisTãraeTasjjÊSQuisas em ps^a^mtria. a autoridade da família. até aí. Orfila etc) suscitado pela curiosidade pelos fenômenos insólitos. devido ao seu comportamento em relação à classe operária. onde o Estado é depositário de uma missão mais importante. para reprimir uma greve. Higienistas. Mas o desenvolvimento do movimento operário conduz a greves mais amplas. Frente à amplitude do movimento de organização da classe operária. O Estado é chamado a intervir cada vez mais freqüentemente.jyfojlej!]^^ positiva da atividade médicaLjí sobre ela que se apoia a resposta social à explosão da miséria operária. uma força que pode derrotar o poder do empregador isolado. no qual o Estado aparece como ator estratégico. O desenTOMmentij. Mas a medicalização do controle social não seria suficiente. enquanto uma outra forma de atentado à ordem moral e social vai ganhar corpo na solidariedade operaria. e que reencontraremos. O patrão era livre para escolher as soluções que quisessse e. A este segundo perigo é dada uma resposta específica: a repressão estatal. 16 . forjando um utensílio que terá grandes destinos. nos movimentos de luta e no desenvolvimento de uma ideologia operária revolucionária. e. do atentado à propriedade privada. por sua amplitude. o representante do Estado agia em nome. de fato. regulados localmente. o movimento das ciências morais e políticas e o movimento dos grandes alienistas. portanto: o movimento higienista. é aos próprios operários que se devem as principais melhorias materiais da condição operária. moralistas e alienistas só podem responder ao desvio.

durante quase 50 anos. com freqüência.Concentrações operárias criadas em funçAo das necessidades da produção emergem das novas relações sociais. No que concerne ão que se poderia chamar de "pré-história da saúde dos trabalhadores". Entre um projeto de lei e sua votação é preciso. 93). Nove anos para a supressão da caderneta operária (1881-1890). Só a partir do fim do século são obtidas leis sociais pertinentes. não haverá praticamente nenhum progresso na limitação do tempo de trabalho. questionadas por leis que voltam ao statu quo ante por inumeráveis derrogações e por recusas de aplicação. vinte e sete anos para o repouso semanal (1879-1906). As conquistas serão. As discussões governamentais serão intermináveis. quarenta anos para a jornada de 10 horas (1879-1919). Sob o Segundo Império. quinze anos para a lei sobre acidentes de trabalho (1883-1898) (11 p. especificamente. onze anos para a lei sobre a higiene e a segurança (1882-1893). não sem resistência da parte desta última (90). vê-se emergir uma palavra de ordem que vai. 1898: lei sobre os acidentes de tra17 . 1893: lei sobre a higiene e a segurança dos trabalhadores da indústria (61). de delegados de segurança. os tra£^. nas minas. As reivindicações operárias chegam a um nível propriamente político. A aparição das câmaras sindicais. o debate está praticamente fechado. em sua tutela patronal. das federações nacionais e dos partidos políticos dá ao movimento operário uma dimensão significativa. Compreende-se facilmente que asJutas operáriasjie_s_te período histórico tenham essencialmente dois objetivos: o diteitp à vida (ou à~~ sobrevivência) e a construção çLo instrumento necessário à sua corr^ /. treze anos para o projeto de lei sobre a redução do tempo de trabalho das mulheres e crianças (1879-1892). muitas vezes.qiusia. balhps particularmente penqso&rNaos^uais não se terá mais o direito^. vinte anos. 3e_subjneler certas pessqas^o^rgpojiso semanal^_. sob diferente^ formas: o limite de idade abaixo do qual as crianças nScíterãii^ mãislo direito de serem postas a trabalhar. vinte e três anos para a jornada de 8 horas nas minas (1890-1913) (8). vinte e cinco anos para a jornada de 8 horas (1894-1919). esperar dez. cobrir todo o século XIX: a redução da jornada de trabalho. por assim dizer. As lutas operárias marcarão todo o século. a duração do trabalho propriamente dito. Ajpressãp retorna. principalmente a partir da Comuna. progressivamente. a proteção das mulheres. Apesar dos verdadeiros discursos de defesa de Villermé. das associações. ó trabalho noturno.Laliberdade de organização. permitindo ao Estado tornar-se autônomo. em seguida. à saúde dos trabalhadores: 1890: criação.

no reservatório de \ mão-de-obra. Sendo. Mas. as experiências insólitas de redução da ^i duração de trabalho nas indústrias de armamento. formam as condições de uma reviravolta na relação (jjojnem-trabalho. a organização científica do 18 . os esforços da reconstrução. especialmente no setor terciário. podem aparecer reivindicações mais diversificadas. Nova tecnologia de submissão. re-1 sultante do número de mortos e feridos de guerra. a reinserção dos inválidos na produção. concernente a suas conseqüências sobre a saúde mental. onde a proteção do corpo é a preocupação dominante. prevenir as doenças profissionais e as intoxicações por produtos industriais. o movimento operário adquiriu bases sólidas e atingiu a dimensão de uma força política que iria crescendo no tabuleiro de xadrez das relações de força. O desfalque. poder-se-ia dizer que a organização dos trabalhadores traduziu-se na conquista primordial do direito de viver. o taylorismo será objeto de um estudo particular. assegurar aos trabalhadores cuidados e tratamentos convenientes. Entre elas se manifesta uma frente específica. Salvar o corpo dos acidentes. ainda hoje. 1910: apo-" sentadoria para o conjunto dos trabalhadores após 65 anos ("aposentadoria para os mortos". uma modalidade de organização do trabalho que continua ganhando terreno. q esforço de produção para / as necessidades da guerra. focalizaremos sobretudo o / salto qualitativo na produção industrial. mesmo se as condições de existência estavam longe de serem unificadas para o conjunto da classe operária. jà que nesta época apenas 15 % dos franceses atingem essa idade). j Por que tomar a guerra de 14-18 como (Jata de referência? Entre \ os elementos que presidem esta escolha. 1905: aposentadoria dos mineiros.balho e sua indenização. esse é o eixo em torno do qual se desenvolvem as lutas na frente pela saúde. dizem os sindicatos. que concerne à proteção da saúde. Um lugar particular deve ser dedicado à introdução do taylorismo. de disciplina do corpo. é preciso assinalar as repercussões do sistema Taylor na saúde do corpo. Da Primeira Guerra Mundial a 1968 A partir de então. assim mesmo. A partir daí. dos quais se beneficiavam até então sobretudo as classes abastadas. Para esquematizar. Há um vasto programa.

corpo fragilizado pela privação de seu protetor natural. e do papel do Estado como interlocutor privilegiado. o sistema Taylor neutraliza a atividade mental dos operários. a empresa-piloto das vitórias operárias. definitivamente relegado à categoria de instrumento inútil. onde o trabalho tem um valor econômico estratégico (setores de ponta ou centros vitais da economia nacional) que a evolução da relação saúde-trabalho é mais rápida. entregue. o movimento operário não é ainda capaz de controlar sua aplicação por toda parte.trabalho gera exigências fisiológicas até então desconhecidas. nas regiões pouco industrializadas. sem obstáculos. pode-se encontrar. à injunção da organização do trabalho. O movimento operário tenta obter melhorias da relação saúde-trabalho e mudanças aplicáveis ao conjunto dos trabalhadores. ti. o trabalho intelectual do trabalho manual. nas empresas isoladas. que se tornará. progressivamente. portanto. ou que corre o risco de tornar-se doente. *™ 19 . sobretudo. Em razão do desenvolvimento do movimento operário a nível nacional. onde os efetivos são pouco numerosos e pouco sindicalizados. as condições de trabalho são incomparavelmente piores do que nas grandes empresas. quando a proporção de trabalhadores estrangeiros é importante. radicalmente. Ao separar. Ao contrário. mas muitas vezes leva a um aumento das diferenças. que substituirão a proteção natural do "instinto de conservação". Apesar da votação de leis de caráter geral. Às vezes consegue. nessas condições. não é o aparelho psíquico que aparece como primeira vitima do sistema. mas ao conjunto dos operários da produção de massa. Corpo sem defesa. mas sobretudo o corpo dócil e disciplinado. ao engenheiro de produção e à direção hierarquizada do comando. As performances exigidas são absolutamente novas. a ligação de causa e efeito entre tal luta operária e tal lei social. etapas importantes vão ser transpostas. muito mais facilmente do que no período precedente. ao mesmo tempo em que se perfila uma diversificação das condições de trabalho e de saúde. onde os trabalhadores são suficientemente numerosos (grandes empresas). no surgimento de lutas enérgicas para arrancar leis. Deste modo. como a empresa Renault. É. por exemplo. especialmente as exigências de tempo e ritmo de trabalho. adequação não dissociada pela inércia do tempo que passa. Corpo doente. que é o aparelho mental. isto é. corpo explorado. e fazem com que o corpo apareça como principal ponto de impacto dos prejuízos do trabalho. O esgotamento físico não concerne somente aos trabalhadores braçais. Não há nada de espantoso. A partir da guerra. onde ele é mais poderoso.

A guerra favorece as iniciativas em favor da proteção de uma mão-de-obra gravemente desfalcada pelas necessidades do front. Os principais progressos cristalizam-se em torno da jornada de trabalho» da medicina do trabalho e da indenização das anomalias contraídas no trabalho: Albert Thomas, em 1916, reduz a jornada de trabalho para 8 horas por dia e constata o efeito paradoxal desta medida, sobre a produção... que aumenta! A lei de 1898 sobre os acidentes de trabalho previa a criação de ambulatórios de fábricas a cargo dos seguros privados. Os decretos de 1913 levam certas empresas a organizar exames pré-admissionais e de controle, em período de trabalho. Em 1915, aparecem as bases de uma verdadeira medicina do trabalho, com a inspeção médica das fábricas de guerra, organizada por A. Thomas (61). Após a Grande Guerra essa tendência acentua-se, com a institucionalização da medicina do trabalho em certos setores, especialmente nas minas, enquanto certos empregadores contratam um médico, a título individual, para fazer seleção na contratação, e para se protegerem de certos riscos que, a partir de então, estão ligados a penalidades financeiras (indenizações, etc) (61). Pouco a pouco, elabora-se uma doutrina implícita da medicina do trabalho. No que concerne à indenização das doenças e aos cuidados com os doentes, é sobretudo no fim da guerra que leis importantes são votadas: reconhecimento das doenças profissionais, em 1919; criação de uma.comissão de higiene industrial, em outubro de 1919; criação de um comitê consultivo de seguros contra os acidentes de trabalho. Uma tendência aparece, a partir da lei de 1903, em favor da atenuação dos perigos e da insalubridade, isto é, da supressão das causas de acidente e de doença. Ela só ganhará corpo, verdadeiramente, na lei de 1919, modificada em 1951, que prevê que as máquinas ou partes de máquinas perigosas, para as quais existam dispositivos de proteção de eficácia reconhecida, não possam ser desprovidas destes dispositivos. (61) Após este período, fecundo para a melhoria da relação saúde-tra-balho, não haverá progresso significativo até o Front Populaire, que dá momentaneamente vantagem aos operários. A semana de 40 horas é votada em 1936, assim com as férias pagas, e os acordos Matignon instituem as convenções coletivas e os delegados de pessoal, reconhecendo o direito à livre adesão aos sindicatos e o direito à greve, Pode-se dizer que em 1936 as condições de trabalho tornam-se 20

reaimente um tema específico do movimento operário, mesmo se a fórmula só veio à moda mais recentemente, aliás com um conteúdo um poucu diferente. A última onda de medidas sociais relativas à saúde dos trabalhadores data da Segunda Guerra Mundial .e resulta da relação de forças recém-conquistada na Resistência O programa da Resistência, parcialmente aplicado, faz nascerem novas esperanças, com a institucionalização da Medicina do Trabalho (1946), da Previdência Social (1945), dos Comitês de Higiene e de Segurança (1947). Durante todo esse período, que começa em 1944, o movimento operário continua a desenvolver sua ação para a melhoria das condições de vida (duração do trabalho, férias, aposentadorias, salários) mas, simultaneamente, se destaca uma frente própria, concernente à saúde. Olhando-se de perto, as palavras de ordem neste domínio concernem à prevenção de acidentes, a luta contra as doenças, ao direito aos cuidados médicos, isto é, à saúde do corpo. Pode-se dizer que esse segundo período da "história da saúde dos trabalhadores" caracteriza-se pela revelação do corpo como ponto de impacto da exploração. Essa noção é fundamental, na medida em que leva as análises, tanto provenientes dos sindicatos quanto dos especialistas, a se preocuparem com um aspecto da saúde que consideramos, hoje em dia, indevidamente limitado. O alvo da exploração seria o corpo, e só o corpo. Também as análises econômicas críticas do sistema capitalista argumentam suas teses sobre a exploração a partir do corpo lesado, do corpo doente, da mortalidade crescente dos operários em relação ao resto da população. A proposição é exata, e seria um erro pô-la em dúvida. Mas é muito limitada. Como se os mecanismos invisíveis da exploração exigissem, para serem evidenciados, uma demonstração dos seus efeitos visíveis no corpo. Estamos talvez autorizados, hoje, a revisar o ponto de vista segundo o qual a exploração teria por alvo, diretamente, o corpo. E a inverter a problemática, insistindo nas mediações em jogo no exercício das exigências corporais. Tudo se daria como se as condições de trabalho nocivas só atingissem o corpo após tê-lo submetido, domes-ticado e adestrado como a um cavalo de tração. Docilidade que, como vamos ver, depende de uma estratégia inicialmente concernente ao aparelho mental, para dele anular as resistências que ele opõe, espontaneamente, à exploração. Seja como for, se o corpo aparece durante este período da história como primeira vítima do trabalho industrial, resta saber o que lhe é especificamente prejudicial. A periculosidade das máquinas, os produtos industriais, os gases 21

e os vapores, as poeiiab tóxicas, os parasitas, os vírus e as bactérias são, progressivamente, designados e estigmatizados como causa do sofrimento físico. De 1914 a 1968, é progressivamente o tema das condições de trabalho que se depreende das reivindicações operárias na frente pela saúde. A luta pela sobrevivência deu lugar à luta pela saúde do corpo. A palavra de ordem da redução da jornada de trabalho deu lugar à luta pela melhoria das condições de trabalho, pela Segurança, pela Higiene e pela Prevenção de doenças. "Melhoria das condições de trabalho!" Palavra de ordem que chegou à maturidade em 1968; revelação, denominação, formulação tardia do tema que, no entanto, já animara durante cinqüenta anos todas as lutas operárias na frente pela saúde. Não há nada de surpreendente nisso, como mostram muitos outros fatos históricos, que falam de coisas quando elas já estão ultrapassadas, quando já se desenha uma nova etapa: neste caso, as lutas pela proteção da saúde' mental. Miséria operária, luta pela sobrevivência, redução da jornada de trabalho, corrente das ciências morais e políticas, corrente higienista e corrente alienista deram lugar, respectivamente, ao corpo doente, à luta pela saúde, à melhoria das condições de trabalho, e à corrente contemporânea da medicina do trabalho, da fisiologia do trabalho e da ergonomia. li Ü Terceiro período: após 1968 O desenvolvimento desigual das forças produtivas, das ciências, das técnicas, das máquinas, do processo de trabalho, da organização e das condições de trabalho culmina numa situação muito heterogênea para que se possa fazer uma análise global da relação saúde-trabalho. No centro deste mosaico de fenômenos diversificados, só se pode reconhecer um novo material e tendências que ampliam a problemática tradicional das questões da saúde. Nós designamos aqui & saúde mental. Apesar da existência de uma literatura, a bem dizer restrita, de psicopatologia do trabalho (Girardon Amiel - Sivadon - Veil - Leroy...) é preciso reconhecer que o conflito que opõe o trabalho à vida mental é um território quase desconhecido. É verdade que os especialistas do homem no trabalho se concentraram, em matéria de psicologia, em definir métodos de seleção psicológica. Especialistas do homem, sua atividade, que entretanto é bem real, se desdobra fora das questões de saúde mental. 22

onde as greves. Denunciado de maneira exageradamente estereotipada. mas também por uma parte do patronato. principalmente pelos operários. a rotatividade.)' 23 . A primeira diz respeito ao esgotamento do sistema Taylor. no terreno do controle social. sente-se por todas as partes uma nova força: a luta operária pela saúde mental está hoje iniciada. A reestruturação das tarefas.C. o discurso operário não é mais prolixo sobre este assunto. efetivamente. no terreno econômico. cimenteiras.T. O desenvolvimento destas indústrias confronta os operários a novas condições de trabalho e fazem-nos descobrir sofrimentos insuspeitos. as operações padrão. Hoje em dia.T.Do lado dos trabalhadores. o sofrimento psíquico permanece praticamente não analisado. a discussão sobre um terreno que é particularmente complexo. Primeiramente. faz nascerem amplas discussões sobre o objetivo do trabalho. Em seguida. o absenteísmo. No terreno ideológico. Reputadas como isentas de exigências físicas graves. A isso é preciso somar as vozes dos operários de linha de produção.C. E entretanto. como mostraremos mais adiante. na medida do desenvolvimento do setor terciário. P«H' silêncio é testemunha da dificuldade do movimento operário em levai. A sensibilidade às cargas intelectuais e psicossensoriais de trabalho preparam o terreno para as preocupações com a saúde mental. o desperdício. nuclear. do T. mesmo se sua elaboração continua balbuciante. onde este sistema organizacional não garante mais sua superioridade. estamos longe das afirmações de Taylor.C.T. sobre a relação homem-tarefa. as tarefas de escritório tornam-se cada vez mais numerosas. como alternativa para a O.* (96). A "crise de civilização". Para este fenômeno podemos encontrar várias razões. que são operadores das indústrias de processo (petroquímica. as paralisações de produção. a sabotagem da produção e a "alergia ao trabalho" (89) levam a procurar soluções alternativas. como a de processo e a indústria nuclear. testemunha preocupações aparecidas com a nova onda". e acentua a dimensão mental do trabalho industrial. é assim que se designa uma série de contestações da sociedade. onde o sistema Taylor é denunciado como desumanizante e acusado de todos os vícios. sobre a inexistência de greve nas fábricas que adotaram a O. enfim. — Organização Científica do Trabalho. O mesmo se dá com os operários que têm uma fraca carga física. de uns anos para cá. que cresceu com a desilusão do após-guerra e se O. dos trabalhadores do setor terciário e das novas indústrias. etc). (N.

o desenvolvimento de um inegável cinismo. que mergulha o patronato e o Estado numa verdadeira confusão.31. o trabalho foi reconhecido como causa principal da alienação. em segundo I 24 . e que diz respeito tanto aos filhos da burguesia quanto aos da classe operária. é preciso lembrar. Passada à força nos meios de comunicação de massas.52. 3. provavelmente. No centro do discurso de maio de 68 encontramos a luta contra a sociedade de consumo e contra a alienação. hoje em dia. no cinema. A "libertação da palavra": se 1968 aparece como uma data representativa na história da relação saúdetrabalho. As greves selvagens confirmam a escolha de 1968 como referência histórica. as prisões e todas as instituições. são testemunhas de uma nova procura. representam um papel na formulação das dificuldades existenciais sentidas. muitas vezes. Elas rompem a tradição reivindicativa e marcam a eclosão de temas novos: "mudar a vida". para designar as novas tendências nos conflitos sociais. em escala das massas. A droga e as toxicomanias. o prazer de viver. da necessidade de levar em conta as reivindicações qualitativas da classe operária (2. o mundo do trabalho. o exercício maciço das práticas psicote-rapêuticas nas escolas. que tende a atenuar todas as reivindicações qualitativas. inclusive pelos estudantes. dificilmente redutível. A perda de confiança na capacidade da sociedade industrial em trazer a felicidade. por parte do patronato. sobretudo. (30-80) O avanço da psiquiatria. pelo patronato e pelo Estado. Simultaneamente.88).ampliou com a contestação da "sociedade de consumo". na publicidade e no marketing. pelo menos até a atual crise econômica. dot período atual. onde interessa. deveria emergir o tema da relação saúde mental-trabalho. palavra de ordem fundamentalmente original. a nível dos órgãoi dirigentes. exprimiam este tema nos muros da capital. Maio de 68 é também a referência utilizada. temas privilegiados da "crise de civilização". acabam numa contestação do modo de vida como um todo. Milhares de cartazes. nem mesmo os trabalhadores. à margem das iniciativas sindicais. Numerosas publicações confirmam que esta data marca o reconhecimento. Greves selvagens e greves de operários não-qualificados eclodem espontaneamente. pnmeiro como tema de reflexão das organizações operárias. maio de 68 é uma referência fundamental. Do relatório patronal de 1972 ao relatório Sudreau (94). a psicologia não poupa mais ninguém. Estes diferentes elementos concorrem para fazer pensar que. é primeiramente em razão do desencadeamento verbal ocorrido durante os acontecimentos de maio de 68.

E na contracorrente desta inspiração. sem intermediário. Palavras de ordem como "abaixo as cadências infernais". cadências e comportamentos produtivos.como objeto de trabalhos científicos. fumaças etc). em psicopatologia do trabalho. poeiras. concretizado pela organização do trabalho. ele resulta da organização do trabalho. aparentada do behaviorisrho. a exemplo do que se pode observar sobve as condições de trabalho com a medicina do trabalho eaergonomia. . irradiação. e as características antropométricas do posto de trabalho. questionários abertos ou fechados. as questões de responsabilidade etc. A questão é de uma importância crucial. ritmos. o conteúdo da tarefa (na medida em que ele dela deriva). vapores e gases tóxicos. * fjtr A psicopatologia do trabalho Geralmente.e. gestos. Por organização do trabalho designamos a divisão do trabalho. Por condição de trabalho é preciso entender. barulho. antes de tudo. no trabalho. o ambiente biológico (vírus. A partir de então se confrontam. de segurança. parasitas. fungos). todavia. em termos de custo ou de itens orçamentários. A luta pela saúde do corpo conduzia à denúncia das condições de trabalho. pesquisas. ambiente físico (temperatura. ambiente químico (produtos manipulados. "abaixo a separação trabalho intelectualtrabalho manual". Seu objetivo é o de explicar o campo não-comportamental. números e quantificações devem ser abandonados por não serem capazes de dar conta do processo. Seu caráter qualitativo não pode ser traduzido. bactérias. simplesmente. o sistema hierárquico. altitude etc). as relações de poder. estatísticas. acentuam-se os comportamentos humanos. Quanto ao sofrimento mental. a vontade e o desejo dos trabalhadores e o comando do patrão. A luta pela sobrevivência condenava a duração excessiva do trabalho. pode-se perguntar o quê. que se coloca esta pesquisa. as condições de higiene. ocupado — do mesmo modo Que um inimigo ocupa um país — pelos atos impostos: movimentos. é acusado como fonte específica de nocividade para vida mental. 25 . vibração. as modalidades de comando. "mudar a vida" atacam diretamente a organização do trabalho. tste tema está efetivamente presente há uma década-. pressão. Testes.

é preciso ir à sua procura. Livre. impulsões). qualifica uma orientação na direção do prazer. Dominação da vida mental do operário pela organização do trabalho. Revelar as aspirações não é nosso projeto. Nosso projeto diz respeito à elucidação do trajeto que vai do comportamento livre ao comportamento estereotipado.A física gestual e comportamental do "operârio-massa" (18) está para sua personalidade assim como o aparelho administrativo do ocupante está para as estruturas do país invadido. e quer. possuir luzes. desencadear a tempestade. De nossa parte. talvez. Esta é tarefa do militante político que pretende. descobrir o sofrimento operário. o processo de exclusão do desejo se faz sem prejuízo para o operário? Tem-se o costume. Projeto temerário. mais que um estado. operação mais difícil do que a observação direta de um comportamento abertamente patológico ou desadaptado. nem mesmo iraduzir-lhes o conteúdo. isto é. O comportamento produtivo estereotipado do operário-massa não ocupa o lugar de um comportamento livre? Comportamento livre que podemos perceber em outros trabalhadores ou em operários libertos da organização autoritária do trabalho. Por comportamento livre nós não entendemos a liberdade metafísica. alucinações. 26 . não somente desconhecido fora da fábrica. ocupados que estão em seus esforços para garantir a produção. nesse caso. mas um padrão comportamental que contém uma tentativa de transformar a realidade circundante conforme os desejos próprios do sujeito. Para conhecê-la. As relações de um e de outro são primeiramente de dominação. de anulação dos "comportamentos livres". A questão fundamental aqui colocada diz respeito à localização do processo de anulação de um comportamento livre. E. sobre essas coisas. de apoiar a descrição do louco em seus comportamentos aberrantes e prolíficos (delírio. A anulação é muda e invisível. em psiquiatria. aquecendo os desejos hibernados. nós tentaremos desalojar o sofrimento no que ele tem de empobrecedor. mas também mal conhecido pelos próprios operários. e depois de ocultação. Ocultação e coarctação de seus desejos no esconderijo secreto de uma clandestinidade imposta.

a miséria operária concebida como uma doença epidêmica (13).As estratégias defensivas 1. Mas sua natureza pede para ser decifrada. Não se trata aqui de uma classe social no sentido que os homens políticos italianos. geralmente jogados na periferia das grandes cidades. poderia parecer insólito tomá-la como exemplo num estudo de psicopatologia do trabalho. que nós descrevemos sob o nome de '(ideologia defensiva") O que vai prender nossa atenção é a vivência ctessa populaçao-em relação a saúde. as contradições aparecem ainda mais gritantes do que em qualquer outro lugar. mas não dá conta da vivência partilhada pelos homens do subproletariado.'M>.. nesse universo do subúrbio. Não se trata de desDE CIÊNCIAS H(. pode-se ver então-trm ceno tipe-fte defesa. mais precisamente em relação à doença. Por isso. O sofrimento aí aparece maciço e evidente. As "ideologias defensivas" (o caso do subproletariado) O subproletariado de que vamos falar é aquele que habita as zonas periurbanas. traduz antes de tudo o pensamento social dominante na época. Esta população não se caracteriza pela participação comum em uma mesma tarefa industrial. por exemplo. Ao contrário. o que a une é mais o não-trabalho e o subemprego.as E EDUCAÇÃO . Entretanto. Mais do que em outros lugares. se procedemos desta maneira é porque. Mas da fração da população que ocupa as favelas ou os cortiços. entendem. A miséria "descrita pelos acadêmicos do século XIX".

banheiros. Como veremos. A título de exemplo significativo. mas por razões de ordem material (impossibilidade de acesso às convalescenças. as carroças e os H. a maior parte do orçamento familiar. particularmente nas crianças. há um deslocamento global *H. — Habitation a Loyer Moderée. de vários milhares de habitantes. que continua a ser ainda um flagelo na população adulta. mora em conjuntos que ficam no meio termo entre a favela.M. aos cuidados pós-operatórios e à reeducação fisioterápica. com um atraso de crescimento que chega às vezes a —14% (limite do nanismo).L M. 60% se encontram na camada inferior. A pobreza dos meios sanitários (canalizações. Esies trabalhos mostram que o subproletariado é vítima de uma taxa de morbidez muito superior à da população em geral. à assistência médica subseqüente a uma doença grave ou um acidente). Os jovens. a promiscuidade favorece a transmissão de doenças infecciosas. Mais significativo ainda é o fato notório de que. podemos citar a incidência importante de doenças infecciosas. formam muitas vezes os futuros contingentes de marginais e. às vezes. os casais são freqüentemente separados. quebrada.L. do T. esgotos. quando fizermos referência aos importantes trabalhos publicados pelo Dr. aliás. pouco escolarizados. Pode-se notar também a importância das seqüelas de acidentes e doenças: elas são testemunhas de tratamentos mal conduzidos ou incompletos e. A estrutura familiar caracteriza-se pelo grande número de filhos: a maioria das famílias tem de 8 a 10 filhos. um dia alguns conhecem a prisão. poços d'água. (N. Elas so serão lembradas como informação.) 28 . a carne é rara. 20% estão abaixo de dois desvios-padrão. se 80% das crianças estão nos limites de dois desviospadrão quanto ao desenvolvimento de estatura e peso (contra 95% na região parisiense). e a estrutura familiar é.*. no conjunto. por razões de ordem não só sócioeconômica e cultural. e a maior parte da morbidade continua mal conhecida. depósitos de lixo caseiro) formam também condições favoráveis à doença e às contaminações coletivas. Conjuntos habitacionais populares. e a alimentação consome. Esta população. O alcoolismo é freqüente. Galland (44). e da tuberculose. A comida è pobre. de uma menor eficácia das técnicas médico-cirúrgicas sobre uma população que não pode aproveitar delas como o resto da população. de La Gorce (47) e pelo Dr. Por outro lado. muitas doenças continuam desconhecidas ou escondidas.decrever as condições reais de saúde. logo.

a atingir a vivência da doença. mas também da família e dos vizinhos. em particular de assistentes sociais e de enfermeiras). tenta-se esconder o fato dos outros. acusam esse cara de passividade". mas não íeria o caso de pensar que os próprios pais tiveram seu desenvolvimento entravado pelas carências? O estudo das condições de vida parece bastante significaiivo. é porque ele quer e porque ele cede à passividade. e sim de um sentimento coletivo de vergonha: "Não é de propósito que a gente está doente". às vezes. é porque é preguiçoso"." Acusação cuja origem não se conhece claramente. Tais observações lembram as descrições do século XIX. de vários trabalhadores sociais. võTün-tana: se a gente está doente. com efeito."Concepção dominada pela acusação. Essa atitude em relação à doença pode ir muito longe: "Quando um cara está doente. o subdesenvolvimento de estatura e de peso dessa população é particularmente significativo das más condições de saúde. Do ponto de vista médico-sanitário. de uma carência . Maciçamente. em particular. venham numerosas justificativas. emerge uma verdadeira concépçIcTdirdoença. E nós somos levados a pensar que o atraso da estatura observado provém. como se fosse preciso se desculpar. nenhum médico instalado na região que. já que algumas destas crianças provêm de pais de pequena estatura. no entanto. de higiene e de educação. A reticência maciça em falar da doença e do sofrimento. sempre difícil de ser avaliada (23)."Toda doença sêfíã. própria ao meio. acusação pelo grupo social no seu conjunto. na maioria dos casos das crianças estudadas. Seja em relação à prática médica ou à pesquisa a respeito da saúde. com uma porcentagem inferior a -6 Poderíamos ser tentados a invocar fatores genéticos. concentra uma população de vários milhares de indivíduos (inserção. se sente julgado pelos outros. uma primeira observação se impõe de imediato.para baixo. entretanto. "Quando a gente está doente. os meios de que dispõem essas populações são bastante rudimentares: pouco ou nenhum ambulatório local. e se ele se afunda mais na doença e no sofrimento. dè~ãtguma torma. em seguida.nutricional devida tanto a fatores econômicos quanto a fatores culturais (hábitos alimentares). e podemos ainda encontrá-las nos países do Terceiro Mundo e. (47) Mais que a morbidade. que se confirma como vergonhosa: bastou uma doença ser evocada para que. Não se trata da culpa no sentido próprio que refletiria uma vivência individual. na América Latina. Quando se está doente. A associação entre doença e vaga29 . É somente após longas voltas que se chega. concernentes à população masculina submetida ao exame de admissão ao serviço militar.

de imediato. Podemos reencontrar esta mesma fórmula em outros lugares além do subproletariado. no subproletariado. Entretanto. não se gosta de ir procurar o médico. Não tanto por causa da vergonha experimentada face a um personagem de um outro mundo mas porque tem-se medo que ele descubra "um monte de coisas que a gente prefere não saber". então o ânimo se abate e como se diz no subúrbio "quando a gente está sem ânimo. na medida em que isso não significasse. um enfraquecimento fisiológico que signifique uma síndrome deficitária grave. a cura não deve ser compreendida como desaparecimento do processo patogênico. infalivelmente. são todas doentes. "Sarar esomente não sofrer. Somente são reconhecidas aquelas que se exprimem por sintomas muito evidentes para serem escondidos: uma tosse com hemoptise. é preciso que a doença tenha atingido uma gravidade tal que ela impeça a continuidade seja da atividade profissional. de alguma maneira. Pois. no subúrbio. não se trata de evitar a doença. às vezes. Aqui. tudo é estruturado. caso se trate de um homem ou de uma mulher: "Um homem que está doente é realmente um vagabundo''. É preciso compreender esta fórmula tomando-a palavra por palavra. mantidas à distância pelo desprezo. Para que uma doença seja reconhecida. Üm verdadeiro consenso social se depreende assim. tudo é organizado. que : "vlsã à~con3êhar a doença e o doente. As mulheres. Mas mesmo nestes casos.' Seja que o sintoma de enfermidade desapareça ou que se consiga 30 . seja das atividades domésticas e familiares. Apesar de tudo. muitas infecções crônicas desconhecidas. e voltaremos adiante sobre a sua "significação. ela nunca tem um sentido tão forte quanto aqui. no julgamento. dizem. mas essas doenças são. Seria mais tolerável que uma mulher estivesse doente. a gente não pode sarar". para que se resigne a consultar um médico. em seguida ao exame. Aliás. Cuidar de oito ou dez filhos nas condições materiais que foram citadas representa uma carga de trabalho e de angústia muito maior do que em qualquer outra parte. tudo converge para a salvaguarda da vida da criança. no caso dos homens. contê-la. para que se aceite ir ao hospital. o problema é domesticá-la. é antes dejtudo_um problema de ânimo. controlá-la. Uma nuança aparece. por causa dos filhos. ao pé da letra. corrigir essa asseiváo. uma ruptura do trabalho profissional. o trabalho das mulheres não é comparável ao que encontramos nas outras classes sociais e nem mesmo na classe operária. no caso das mulheres. Se o médico mencionar. Mas uma noção implícita vem. Sarar. um emagrecimento evidente. viver com ela. Quando se é mulher não se pode permitir estar doente. Finalmente. nota-se uma atitude um pouco mais flexível em relação à doença das crianças.bundagem è característica do meio.

dos meses e dos anos. Mas o verdadeiro problema. se estaria mais inclinado a falar das doenças que atingem as mulheres do que das doenças que atingem os homens. restrições alimentares para toda a família até a hora do reembolso. sobre a vida sexual e sobre as crianças. do T. mas não o do medicamento. apesar de tudo. Freqüentemente. É preciso ir rápido. ao longo dos dias. Uma estadia no hospital é. muito mais prosaica.) 31 . É o caso extremo"■qliè~slTprÒcura~êvRàr"'cüTte_o que custãFTÉ isso siT compreende se peris~"ánríos"qüTã"hospifalízaçltoT. é. Todo ato médico termina infalivelmente por uma receita. o que mais se teme. a ruína de todo o sistema de contenção da doença. O mais freqüente é oferecerem-se medicamentos que foram anteriormente prescritos para um outro filho. (N. pode-se considerar como sarado. Um lugar à parte deve ser dedicado ao discurso sobre a mulher. Para estes últimos. das semanas. Num grau "menor. isto é. levar um filho. isso supõe. face à prática médica. Além do mais. Ir até o consultório do médico na cidade já representa um certo número de dificuldades materiais: está certo. na prática. de dent (de ciente) tem a mesma sonoridade de dedans (dentro). no subúrbio. mas o que fazer dos oito ou nove outros durante este tempo? Esta realidade é tão forte que. de fato. É assim que "a dor de dente é a dor do amor"*. o ato médico acaba na consulta. de alguma maneira. é o ponto de irreversibílidade que marca a Brecha do sistema coletivo de defesa contra ¥ doença." õTrãcassõ. uma mulher nunca se afasta do lugar que eles "elegeram como domicílio". é o do dinheiro. consultar um médico "consiste igualmente num non-sens. supõe adiantar quantias algumas vezes importantes. Isto conduz às práticas médicas "selvagens". Administra-se o tratamento com o bom-senso possível. neste contexto. A gente tem a impressão de que eles não acreditam em nós". é com uma vizinha de relações privilegiadas que se decide pelo tratamento a ser dado a um filho. logo: a dor de dentro é a dor do amor. ou se estiver. Comprar medicamentos. da "vivência do sofrimento. não se gosta dos médicos: "Os doutores não escutam a gente. ou este dinheiro não está disponível. Certas fórmulas de caráter proverbial têm ainda aqui uma função real que foi esquecida para não reter senão seu caráter humorístico ou poético. Às vezes.domesticar a dor. Quando se está mal de saúde se diz: "Temos problemas". à vaga* Em francês. Nós dissemos que. Adiantar o preço de uma consulta é possível. a doença eqüivale à paralisação do trabalho.

Um dos caminhos pelos quais se desemboca no subúrbio é precisamente a família. para as mulheres não há "paralisação do trabalho. como justificar cuidados ou tratamentos quando se atingiu a idade da "aposentadoria" do trabalho familiar? Com bastante freqüência.'' A ideologia da vergonha: dessas atitudes e desses comportamentos em relação à doença. Se ainda teria sido justificável tratar-se quando havia filhos a educar. somente o corpo que trabalha. O corpo só pode ser aceito no silêncio "dos órgãos". vê-se que é toda a vida sexual que é vergonhosa. após ter tirados os filhos das dificuldades^ após ter trabalhado toda sua vida para eles. Seja a sexualidade. tudo deve ser recoberto de silêncio. fonte de vergonha. Para a mulher a doença nâo pode autorizar aj?aralisacjip 3õlrãbaIho. A gravidez. o corpo trabalhador da mulher são 32 . reprimida. Uma mulher grávida esconde dos outros seu estado o quanto ela pode. todos os esforços são feitos em vista de assegurar seu desenvolvimento. Além da própria gravidez. dar à luz e fazer filhos". quando elas atingiram a idade de 40 ou 50 anos. das despesas etc. quando se tem muitos filhos. Incapazes de enfrentar as despesas de moradia. o corpo produtivo do homem. podemos extrair duas características: a primeira diz respeito ao corpo. isto é. "A gente não é mais útil. diz-se em cochicho: "Ela só sabe fazer isso. "Chega uma hora em que a gente não terr mais vontade de sarar. até proibida. "A partir de uma certa idade. para que pensar em si?" Quando esta missão social fundamental esfá cumprida. vestuário com um só salário (pois a mulher é inteiramente ocupada em cuidar dos filhos). alimentação. Quando se fica sabendo que uma mulher espera um filho. não há mais nenhuma justificativa para viver. escandalosa. doze filhos são freqüentes. no subproletariado. é levada a um processo implacável de marginalização pelo endividamento. Mais do que em qualquer outro meio. a própria gravidez aparece como uma vergonha. como se diz nesses lugares.bundagem. mais características ainda. os filhos ocupam o centro da vida da mãe. a gravidez ou a doença. que termina no círculo vicioso da doença. dez. bastam alguns meses para levar a mulher a uma doença fatal. origem das condenações. a família. uma vez que os filhos cresceram. é situada no mesmo registro que a doença. a gente se deixa levar". Mas. Neste contexto. As famílias de oito. Mas quando os filhos chegam. freqüentemente de origem operária. não há medicina do trabalho"._Não sò~põrquFbs filhos não podem ficar sem os cui-Hãdos de suas mães mas também porque. são as atitudes em relação ao estado de gravidez.

logo. Para a mulher. são as gestações e as doenças que põem em questão o trabalho colossal da educação dos filhos e as cargas domésticas. somente entào se decide consultar um médico mas "que falta de sorte. Mas mesmo fora dessa situação. é _som'o~se ele estivesse doente". O outro mecanismo mais freqüente é o da doença ou do acidente. aceitos quanto menos se tiver necessidade de falar deles. exemplar. Não se sabe o que significa sentir-se bem no corpo. mais exatamente. A vergonha transparece desta maneira: "se a dor passou. Vê-se que o trabalho atravessa profundamente a vivência da doença: doença-avesso-do-tra-jbajho. que exagera a importância numérica dos habitantes do subúrbio. Então. é porque a gente está inventado história". de estar num corpo incapaliltãdo. tanto mais. em si. todo estado anormal do corpo traz infalivelmente de volta a questão do trabalho ou do emprego. Para o homem a doença corresponde sempre à ideologia da vergonha de parar de trabalhar. O conjunto dessa população sofre q subemprego. neste sentido. Doençae trabalho! Estepar indissoluvelmente ligado guarda um conteúdo específico: a ideologia da vergonha erigida pelo subproleta33 . uma Ideologia defensiva contra uma ansiedade precisa. A atitude em reíaçâo à dor é. Em primeira aná-lise^pode-se considerar que a vergonha instituida aqui como sistema constitui uma verdadeira ideologia elaborada coletivamente. Homem ou mulher. a tal ponto que i~7alti~dê~trabalho torna-se. E isso lembra bem o que foi dito anteriormente. os benefícios de invalidez concedidos não são suficientes para assegurar a sobrevivência da família. Nós dissemos que um dos modos de acesso ao subúrbio é uma família muito numerosa.aceitos. um sinôJnimõde doença: "Quando ãlgüerncfiz para um cara que ele está muito ^lh bl l é i d ^glho para trabalhar ou que ele não é mais capaz de continuar. a de estar doente ou. 5~"sègunda característica desses comportamentos relativos à doença diz respeito à relação existente entre doença e trabalho. para falar dele. quando a gente chega a dor passa". é preciso que haja uma dor. As compensações materiais. particularmente crítico em período de crise econômica. Mas é também uma auto-acusação. sempre existe um contingente de mão-de-obra subempregada marginalizado. às vezes começa o processo inelutável que conduz ao subproletariadó. sobre o medo de que o médico descubra efetivamente alguma coisa. Um operário até então eficaz no seu trabalho sofre de uma doença crônica que o invalida ou das conseqüências de um acidente de trabalho. "A gente não conhece o corpo. O corpo? Não exisie nem palavra nem linguagem para falar do corpo no subnroletariado." Quando esta dor torna-se insurpotável ou torna impossível o trabalho.

fracassos isolados da ideologia da vergonha. Esta situação não é somente uma hipótese. a doença ou à morte. mas a doença enquanto impedimento ao trabalho. não se encontra nunca. nem mesmo no proletariado. Quando ele luta contra a dor. Curar é trabalho do médico ou do especialista. Aparecem então comportamentos individuais específicos: a principal saída frente à ansiedade concreta da morte é o alcoolismo. às vezes. em razão da utilização rápida do 34 . à subalimentação e à morte. a ansiedade relativa à sobrevivência transformar-se-ia em problema individual. Vêem-se. O alcoolismo é uma saída individual e gravemente condenada pelo grupo social. a destruição do corpo enquanto força capaz de produzir trabalho. a ideologia da vergonha consiste em manter à distância o risco de afastamento do corpo ao trabalho e. quando ele tenta negar seu sofrimento. O alcoolismo nesta situação corresponde a uma fuga em direção a uma decadência mais rápida e a um destino mental e somático particularmente grave. o homem do subproletariado não pretende ter uma atitude terapêutica relativa ao processo patogênico Ele sabe que procura somente fazê-lo calar. e eventualmente avaliar seu custo social. Mas o alcoolismo não reveste jamais uma forma nem coletiva nem "epidêmica". a angústia que ele ataca é. Função da ideologia defensiva: além da finalidade desse sistema defensivo. conseqüentemente. uma angústia específica relativa à saúde. falta compreender como* ele funciona. Esta observação e importante na medida em que ela é praticamente específica do subproletariado e em que não a encontramos em nenhuma outra classse social. Quando as condições de sobrevivência são tão precárias quanto as que observamos no subproletariado ou nas populações dos países subdesenvolvidos. que atinge um certo número de indivíduos. Além da doença. no decurso do subproletariado. Com efeito. Ela está possivelmente oculta pela questão relativa à sobrevivência a exemplo do que foi descrito a propósitõlfo século XIX e da história da relação saúde-trabalho antes da guerra de 1914. A doença é vivida como um fenômeno totalmente exterior resultante do destino e dependente da intervenção exterior: o médico. à miséria. não há lugar pai a a ansiedade face à doeüçã enquanto tal (o que não significa que tal angústia não exista!). como nós vimos. De coletiva. o hospital. através da doença. por que ele é posto em jogo e em que consiste sua positividade.A angústia contra a qual é dirigida a ideologia da vergonha não é a do sofrimento.riado não visa a doença enquanto tal. Pode-se perguntar o que aconteceria se essa ideologia defensiva viesse a fracassar. da doença ou da morte.

dinheiro que não permite mais assegurar uma alimentação conveniente. A segunda saida é representada pela emergência de atos de violência "anti-social", em geral desesperados e individuais. A terceira saída é a loucura com todas as formas de descompensação, psicóticas, caracteriais e depressivas. Enfim, sem poder usar estas diferentes "portas de saida", o risco é a morte. Mortalidade por subnutrição agravando a evolução de uma doença intercorrente. Nota-se, a esse respeito, a freqüência de mortes precoces nos jovens entre 35 e 50 anos (44). Confrontados individualmente ao perigo de não poder sobreviver por razões materiais, poucos resistem. O esforço material e econômico fornecido pelas famílias do subproletariado para sobreviver seria incompreensível se ele não fosse sustentado por um sistema mental muito sólido. Este sistema funciona porque é coletivamente elaborado e alimentado. Tal é a positividade da ideologia da vergonha. Resta apreciar seu custo. O silêncio que envolve as questões de saúde, doença, vida sexual, gravidez e medicina conduz esta população a agravar mais ainda os efeitos do precário sistema médico-sanitá-rio. Calar sobre a doença e o sofrimento leva, de maneira coerente, a recusar os cuidados, a evitar as consultas médicas, a temer as hospita-lizações. É assim que muitas pessoas do subproletariado poderiam beneficiar-se de proteções sociais tais como a gratuidade dos cuidados e as assistências gratuitas. Não é tanto por ignorância que os homens do subproletariado não se beneficiam com essas medidas. A presença de trabalhadores sociais seria suscetível de paliar esta dificuldade. Mas, pela própria experiência desses trabalhadores sociais vê-se que existe uma verdadeira resistência da parte do subproletariado em tomar ou mandar tomar as providências necessárias. Poder-se-ia, numa tal situação, acusar o subproletariado de complacência para com o sofrimento e a miséria. Mas não é possível, se se levar em conta a coerência necessária da ideologia da vergonha: manter a doença, a miséria e a fome à distância é também manter tudo o que pode lembrá-la, direta ou indiretamente, à distância. Assim, a aproximação de toda medida médico-sanitária ou de higiene reativa uma ansiedade fundamental, ansiedade esta que não é suscetível de ser acalmada. A partir do exemplo do subproletariado, podemos propor algumas características do que sei a uma ideologia defensiva. Em primeiro lujar> a ideologia defensiva funcional tem por objetivo mascarar, conter e ocultar uma ansiedade particularmente grave. Em segundo jugarreli nivel da ideologia defensiva, enquanto mecanisrricTde defesa jãbõrado por um grupo social particular, que devemos procurar JÍ

uma especificidade. Encontraremos, a respeito dos trabalhadores da ^construção civil, tais ideologias defensivas. Neste caso. os caracteres específicos deverão ser relacionados à natureza da organização do trabalho. No caso do subproletariado, não se pode falar em organização do trabalho enquanto tal. Seria mais uma questão de sub-emprego e de desemprego. A especificidade da_ ideologia defensiva da vergonha resulta, por um lado, da~natureza da ansiedade a conter e, por outro lado, da população que participa na sua vTaboração^, Em terceiro Tugar, o que caracteriza uma ideologia defensiva é o fato de ela ser dirigida não contra uma angustia proveniente de conflitos intra-psíquicos de natureza mental, e sim ler destinada a lutar contra um perigo e um risco reais. Em quarto lugar, aideologia defensiva, para ser operatória, deve obter ã participação de todos oTTnteres-sados. Aquele que não contribui ou que não partilha do conteúdo da ideologia é, cedo ou tarde, excluído. No caso da construção civil, é ser mandado embora do canteiro de obras; no caso do subproletariado, é o isolamento progressivo que conduz à morte nor intermédio das doenças físicas ou mentais. Em quinto lugar, uma ideo-logia defensiva, para ser funcional, deve ser dotada de uma certa coerência. O que supõe certos arranjos relativamente rígidos com a realidade. Daí os riscos que decorrem em conseqüências mais ou menos graves no plano prático e concreto (resistência às proteções médico-sanitárias, recusa da contracepção). Veremos, a propósito da construção civil, que o custo de elaboração do funcionamento da ideologia defensiva profissional ;é igualmente grande (resistência frente às campanhas de segurança). Em sexto lugar, a ideologia defensiva tem sempre um caráter vital, fundamental, necessário. Tão inevitável quanto a própria realidade, a ideolõgTa defensiva tor-^ na-se obrigatória. Ela substitui os mecanismos de defesãlndivíduais. Ela os torna impotentes ."Esta observação é de uma grande importância clínica na medida em que é a partir dela que se pode compre^" ender porque um indivíduo isolado de seu~grupo social se encontra ürutalménte desprovidoi 5ê~ defesas"fãce"5"'fèãMã'de ã"que ele é con-~ frontado. À participação na ideologia defensTvTcoletiva exige que õsí mecanismos He" defesa ajam em surdihãT mecanismos estes que só teriam razão de ser frente a conflitos de ordem mental, os quais só podem aparecer quando um ^domínio mínimo da fealidade^perigosa está assegurado. Nós veremos que todas essas características da ideologia da vergonha podem ser encontradas nas ideologias defensivas profissionais, seja dos trabalhadores da construção civil ou dos operadores das indústrias de processo. 36

I 2. Oj mecanismos de defesa individual contra a organização do trabalho: o exemplo do trabalho repetitivo. í de uma situarão totalmente diferente que vamos tratar agora: o trabalho repetitivo, seja na linha de produção, no trabalho por peças ou em certos trabalhos de escritório de informática, de seguro ou nos bancos. Trabalho "taylorizado" cuja organização é tão rígida que domina não somente a vida durante as horas de trabalho, mas invade igualmente, como vamos ver, o tempo fora do trabalho. Para introduzir o ponto de vista da psicopatologia neste domínio, não podemos evitar de retomar certos aspectos da Organização Cien-tífica do Trabalho concebida por Taylor. (96) Õ objetivo deste sistema, pode-se advinhar caso ainda não se saiba, é o aumento da produtividade. Taylor, que, durante seus estudos, teve uma aprendizagem de operário, formulava contra os operários a reprimenda de "vadiagem" (op. cít. pg. 230). A "vadiagem no local de trabalho" não eram tanto os momentos de repouso que se intercalavam no trabalho, mas as fases durante as quais os operários, pensava ele, trabalhavam num ritmo menor do que aquele que poderiam ou deveriam adotar. A vadiagem foi assim denunciada como perda de tempo, de produção e de dinheiro. O que Taylor condena, este vício da classe" trabalhadora, é talvez outra coisa bem diferente. Nós tentaremos mostrar que, além de uma simples freada da produção, este tempo, aparentemente morto, é na realidade uma etapa do trabalho durante a qual agem operações de regulagem do binômio homem-trabalho, destinadas a assegurar a continuidade da tarefa e a proteção da vida mental do trabalhador. Assim, o projeto de Taylor indentifica-se à redução, nçLsentjdo. radical, poderíamos dizer ortopédico, da vadiagem operária. O principal obstáculo que ele encontra no seu projeto é a vantagem indiscutível do operário-artesão sobre o empregador na discussão dos tempos e dos ritmos de trabalho. O conhecimento da tarefa e do modo operatório faz parte do campo do operário e traem cruelmente a argumentação do engenheiro. Experiência profissional e know-how técnico são ainda complexos numa época em que o operário continua, em muitos casos, sendo um artesão qualificado. O saber operário emerge, então, na luta como segredo coletivamente detido pela corporação operária. (62) saber — segredo — chave das relações de força de que Taylor vai apoderar-se. Ele 37

Adaptação i que. Resta. dividindo o modo operatório complexo em gestos elementares mais fáceis de controlar por unidades. A O. A questão tornava-se então: como verificar o respeito ao modo operatório e sua execução no tempo fixado? Em outras palavras. Desapropriação de um saber. de que vigilância. é testemunha da originalidade de cada operário em relação à sua tarefa. declara-o "modo operatório cientificamente estabelecido". certo. 82). mais aiém. o que. sobre este critério.T. chamaram pouca atenção. não é coisa fácil. idade. Adaptação espontânea do trabalho ao homem que não esperou os especialistas para inscrever-se na tradição operária. cada seqüência. Pois ela diz respeito. cit. de fato. de que hierarquia. Ele sistematizou este mtuodo e o instituiu em princípio: vários gestos 38 . Nós voltaremos detalhadamente a esta questão (Capitulo II). cada movimento na sua forma e no seu ritmo. como veremos. Taylor escolhe o mais rápido e. de reorganização ou de adaptação do trabalho. As variedades de modos operatórios. Era preciso ainda pô-lo em prática. não se limita a uma desapropriação do saber. evidentemente. Insistiu-se com justiça sobre a desapropriação do know-hon coletivo (62) pela organização científica do trabalho. impô-io a todos os operários sem distinção de altura. p. vê-se logo. à integridade do aparelho psíquico e. daí para frente. Ele só-se deièmaa^djversidade insólita destes modos opera-tórios para^condenar os mais lentos sem se interrogar sobre as razões desta variabili3adc atiibuida implicitamente à burrice ou a má vontade dos menos rápidos (op. mas também desapropriação da liberdade de invenção. 80). ao contrário. de que comando devia-se dotar a nova organização do trabalho? Taylor imaginou então um meio de vigiar cada gesto. Originalidade que não se poderia comprazer em reconhecer como qualidade estética ou valor moral. sexo ou estrutura mental. cit. Erro ou cegueira intencional? Uma vez coligidos os diferentes modos operatórios. operatório. p. à saúde do corpo através do processo de "so-matização". exige uma atividade intelectual e cognitiva que será proibida pelo trabalho taylorizado/ ^" Mais grave ainda é a dimensão psicológica e psicoeconômica desta liberdade de organizaçãoreorganização-modulação do modo.empreende a análise sistemática dos modos operaíórios em uso (op. Ela amordaça a liberdade de organização. Trata-se de uma inventividade fundamenta! que autoriza cada operário a adaptar intuitivamente a organização de seu trabalho às necessidades de seu organismo e às suas aptidões fisiológicas. A estratégia de Taylor não poderia se limitar à designação do "modo operatório cientificamente estabelecido". do que o processo no seu conjunto. Pois esta diversidade.C.

A ansiedade. por exemplo. individualmente e na solidão. cadêit£ÍdeZ dauor8anizacao do trabalho. o anonimato das relações de trabalho. (Organização Cientifica do Trabalho) traduz-se por uma tripla divisão: divisão do modo operatório. divisão dos homens.Às vezes é até Pior> P™ o a"10 em Oposição aos outros.segundos no ciclo operatório. o intercâmbio dos operários 39 . à aceleração das cadências. ele deverá assumi-los individualmente.C.«fim. ^ O. O homem no trabalho.despossuído de seu equipamento mtelectual e de seu aparelho mental.do 9ue P°ntos ^ união.No trabalho taylorizado não há rivin r? C°mUm> "em Obra coletiva' como e ° caso da construção civil ou da pesca marítima. cronometristas etc. racãoT^ a°i° P°r PCÇaS' à imagem dos prêmios. o . as exigências temporais. o "truque" que lhe permitirá ganhar . Mesmo se eles partilham co-f d° 1OCal dC trabalho' do barulho. mais divisões mdn?duos.Z um tífica SoTríhíhnW P«col*toIàW«>. o operário está desesperadamente só. as oanon '. artesão. as violências da produtividade. o controle. cria o anonimato e o intercâmbio enquanto individualiza os homens frente ao sojrimento. mesmo se exHníHoT~-----Uma colméia> Porque as comunicações estão mak f f 3S VCZeS aíC Proibidas. divisão do organismo entre órgãos de a^o Sm í C°nf PÇà°intelectua!. da cadência do tríhSíí ' ° C QUe' Pda própria estrut«ra desta organização men e e na^rH-OPeranO^SaO confrontados um por um. ^^^-H0 taí°rÍZado enSendra. Tal é o paradoxo do sistema que dilui as diferenças.Ultrapassado pelas nacorenr °H°peran0 1ue "atra«a" atrapalha os que estão atrás dele na corrente dos gestos produtivos. SwmblftCS de trabalho' ° estüo decomando. compar t a mStres *£ f™! ^^-^ ^^^"lente incha/a de SiÍSSS í u . definitivamente. desapareceu para dar a luz a um abortcr um corpo instrumentalizado-operário de massa (18) . É ele que encontrar a ajuda.T. Além do T^è OPeT° 11S°lad° d°S Outros.ÍS de equipe' re8ulad°res.

a psicopatologia do trabalho corre o risco de reatar com a interpretação sociológica da vivência psíquica que atribui somente às condições materiais e econômicas as causas do sofrimento.tudo parece rigorosamente partilhado pelos numerosos trabalhadores ligados à mesma linha de produção. Armadilha teórica considerável que provavelmente bloqueou qualquer elaboração sobre a vivência do operário taylorizado. Os resíduos das defesas coletivas No caso do trabalho de caráter coletivo (construção civil e obras públicas) trata-se de tarefas de grande envergadura que exigem vários dias ou mesmo várias semanas ou meses para sua realização. Aqui. no caso do trabalho taylorizado. Não há mais lugar praticamente para as defesas coletivas. à mesma oficina. porque ela anula as defesas coletivas. nada parecido com isso ocorre. ao contrário. A uniformização aparente das exigências do trabalho parece indicar a direção que a observação psicopatológica deveria usar: privilegiar o que há de comum e de coletivo na vivência ao invés de se ater ao que separa os indivíduos. e reduz a dor a um reflexo simples da luta de classes. mesmo se ela é_ antes de tudo uniformizante. em certos 40 . Além do mais. porque ela apaga as iniciativas espon-_ tâneas. a uma diferenciação do sofrimentó"d~e~iim trabalhador e de outro. a monotonia da tarefa. uma tal opção parece coerente com as análises sociológica e política. porque ela quebra as responsabilidades êlTsaber. O trabalho em equipe e a participação num grupo de operação cujo sentido e compreendido pelo conjunto dos operários tornam possível a realização de defesas coletivas. A divisão do trabalho conduz — os operários não deixam de afirmar— a um non-sens: a maioria dos trabalhadores ignora o sentido do trabalho e o destino de sua tarefa. paradoxal-mente. o sofri-mento que a organização do trabalho engendra exige respostas defen-sivas fortemente personalizadas. A repetividade dos gestos. Parece-nos. Todavia. Ao empregar uma abordagem deste tipo. a robotização não poupam nenhum operário de base. que a individualização. a indivicTualizáçâo conduz. Por causa do fracionãmêrito Ha coletividade operária. ~~A falta de sentido da tarefa individual e o desconhecimento do sentido da tarefa coletiva só tomam a sua verdadeira dimensão psicológica na divisão e na separação dos homens.

as cadências e a organização do trabalho. E nós não temos condições de admitir que estes mecanismos sejam suficientes na luta contra a angústia e a dor mental. podem-se ver ressurgir traços de defesa coletiva. É assim que em L 'Éiabü (63) é descrito um grupo de operários iugoslavos da linha de produção da? indústrias Citroen. como perigo real. se podemos considerá-lo assim. o jogo. Pode-se então falar realmente de defesa coletiva? Sim. Nós vemos que a realidade dos riscos no trabalho taylorizado não é tanto devida às cadências em si mas à violência que esta organização do. é o conjunto dos trabalhadores que participa do acontecido. tira suas virtudes de seu caráter simbólico. o ritmo. Não seria justo subestimar o benefício mental de uma operação "de caráter simbólico. No grupo. unidos por sua nacionalidade comum. a propósito do subpro-letariado. Neste caso. Aliás. Este momento. como uma espécie de vitória coletiva sobre a rigidez e a violência da organização do trabalho. ser mais forte do que a organização do trabalho. desafiar as cadências. eles conseguem ganhar alguns minutos do ritmo imposto pela organização do trabalho. Em outros casos. sua eficácia é muito limitada. Estes poucos minutos arrancados do tempo e do ritmo da linha são aproveitados coletivamente. Graças à realização de táticas operatórias espontâneas. Mas nós também não podemos deixar passar em silêncio seu modesto valor funcional e sua dimensão estreita face à imensidão do sofrimento. mais acima. Limitada em relação ao que nós caracterizamos. É preciso admitir que é sobretudo individualmente que çaçte operário deve se defender dos efeitos penosos da organização do trabalho.momentos privilegiados. um dos três pode então deixar a linha e fumar ostensivamente um cigarro enquanto o conjunto dos outros trabalhadores continua indefinidamente a repetir os mesmos gestos. Com efeito. como descreve Linhart. que eficácia real contém uma tal atitude? Em contrapartida. na medida em que esta atitude tomada coletivamente contra o sofrimento só dura alguns momentos. Em número de rês. Não. dominar o tempo._ trabalho exerce no funcionamento mental. se o que é coletivamente desafiado com este comportamento é o tempo. eles estabelecem entre si um sistema de convivência e de solidariedade. é até mesmo vivido com intensa alegria. 41 . assiste-se ã uma "aceleração coletiva" dos operários da linha de produção de tal modo que dois ou três operários do começo da linha conseguem deixar seu posto durante alguns minutos que eles-usam a seu bel prazer.

sobre o aparelho mental. O que parece correto do ponto de vista da produtividade é falso do ponto de vista da economia do corpo. uma vez desmantelada a coletividade operária uma vez quebrada a livre adaptação da organização do trabalho às necessidades do organismo. Se nos debruçarmos sobre as conseqüências da O. do seu sistema. para que executem seu trabalho seguindo novos métodos até que eles apliquem de uma maneira contínua e habitual. A última peça do sistema pode então ser introduzida sem obstáculos: é preciso adestrar. não restam senão corpos isolados e dóceis. constataremos que desordens ignoradas pelo autor do sistema aparecem no funcionamento físico. ele Têvà em conta não somente o presente más também o Futuro. o operário consegue encontrar o melfíõT rendimento de que é capaz respeitando seu equilíbrio fisiológico e que^ desta forma. Poisj^operário ^efjt|vamerUejo_rna^indicado para saber o que é compatível com a sua saúde. Mesmo se seu modo operatório não é ~sêmpré~ ò~^iãís~êfTcaz do ponto lie vista do rendimento em gera^jo estudo do trabalho artesanal mostra que. via" de regra. "a multiplicação das relações operário-empregador vem acompanhada de uma simplicidade em conceber o homem ao trabalho": o homem-macaco de Taylor nasceu (Taylor. uma maneira científica de trabalhar (método que foi realizado por outra pessoa). considerado desumano na época. treinar. é conhecida a famosa resposta de Taylor à Corte Suprema dos Estados Unidos quando ele teve que prestar contas. Aliás. E para justificar suas inovações. p.C. sob a condução de um professor competente. "A idéia de treinar os operários um após o outro. esta idéia é diretamente contrária à velha idéia segundo a qual cada operário é a pessoa mais qualificada para determinar seu modo pessoal de execução do trabalho. 100). 100). è o que anuncia o próprio Taylor. o próprio Taylor comparou o novo operário ao chipanzé como argumento convincente para conseguir a adesão do júri (Taylor [96] p. 42 . Aliás. uma vez realizada a toda poderosa vigilância.T.O operário-macaco de Taylor Uma vez conseguida a desapropriação do know-how. condicionar esta força potencial que não tem mais forma humana." Taylor estava errado. desprovidos de toda iniciativa. frente aos juizes.

e a organização do trabalho. emergem uma vivência e um sqfrimento_quej>odeníõlTèhtar esclarecer. fosse regulada. o corpo obedecia ao pensamento. portadora de uma injunção despersonalizante. Imagine-se o que aconteceria se. por subtração do estágio intermediário.: É necessário. tudo se passava como se o trabalho físico. que dá à torre sua coerência e sua finalidade. para o operário-artesão pré-tayioriano. O último andar. Com efeito. à. repartida e equilibrada em função das aptidões e do cansaço do trabalhador pór intermédio da programação intelectual espontânea do trabalho. com seu emissor de televisão seria o aparelho psíquico. da-imaginação e dos afetos1. bruscamente. Poder-se-ia dar desta imagem uma representação espacial: o primeiro andar e a base da Torre Eiffel seriam o corpo. O desastre arquitetônico viria acompanhado de uma alteração significativa da qualidade das emissões de televisão! É precisamente isto que deve ser estudado pela psicopatoí logia do trabalho. isto é. isto é. de alguma maneira. O segundo andar seria a sede da atividade intelectual. que por sua vez era controlado pelo aparelho psíquico. que fique bem clara a diferença entre atividade intelectual e vida psíquica (ou mental). Se nos referirmos a certas concepções patronais. A clínica psicanalitica mostra que há casos em que uma atividade intelectual pode desenvolver-se independentemente de produção fantasmática (69). I 43 . a atividade intelectual engajada pelo operàrio-artesão no seu trabalho." Não chegou ao fim o debate sobre o que se passa na cabeça de « um operário que trabalha por peças. Um raciocínio matemático é diferente de um fantasma. lugar do desejo e do prazer. a atividade motora. Neste edifício hierarquizado. modulada.efeitos do trabalho repetitivo sobre a atividade fmtjuic Entre a organização do trabalho e o aparelho mental desapareceu o amortecedor que constituía até aí a responsabilidade de conceber e de realizar a tarefa em função do know-how. não há dúvida sobre a existência de uma atividade mental que acompanha o tra' Ij so áx. para a seqüência do texto. lugar da atividade cognitiva e intelectual. O sistema Taylor age. o segundo andar fosse retirado. o que acontece com a vida psíquica do trabalhador desprovido de sua atividade intelectual pelã^organizacãò científica do trabalho! ~ Dó choque entre um indivíduo. ou de um digitador num serviço de informática. dotado de uma história personalizada.

Ao invés de adotar uma opinião categórica sobre esse assunto. evitaria devaneios impróprios. outros apoíando-se em testemunhos operários. familiares Fmateriais. Ao contrário.(9) Para Haraszti.o. constata-se que o uso da válvula fantas-mática está submetida a duas condições. ao contrário. Os especialistas do homem no trabalho estão também divididos neste assunto. entfêgãm-se^brutalmente a uma cadência desêriireãfla para esquecer ãs~3ificuldades durante o "tempo de trabalho. o poder de descarga e de alívio que possui por vezes o fantasma. Segundo certos autores (105) até os devaneios aos quais o operário se livra são nefastos para a produção e seria conveniente um fim a isso através de um meio que falta determinar Não só o espírito entregue à deriva distrai o operário de sua tarefa arriscando uma alteração na qualidade e quantidade do trabalho mas também a imaginação liberta alimenta ilusões insensatas. Mas o gesto repetido não é regularmente ritmado como no trabalho por peças. acham. outros só sobrevivem ao trabalho repetitivo jraças à ãutonòmIã~Hentãl ju£des^cõnseguem conservar. Por "valor funcional" nós entendemos. podemos tomar como referência dois livros-teste-munhas da condição operária: Le salaire aux pièces (52 bis) e La nuit des machines. Em La nuit des machines o trabalho é monótono (trata-se sempre de amarrar os fios quebrados do material a ser tecido). mesmo na fábrica. A operária. Em Boyadjiam. Segu balho repetitivo. ao contrário. 44 . A segunda condição é relativa à organização do trabalho. sempre lembrando a cadência. não seria possível admitir que as duas situações são possíveis? Por exemplo. Numerosos casos pessoais mostram que certos trabalhadores^desgastados por problemas pessoais. a evasão fantas-mátia domina seu livro e sua vivência. que a organização científica do trabalho não autoriza nenhuma evasão mental. A primeira é de ordem individual: a possibilidade de fantasiar não é dada a todas as pessoas de maneira idêntica e o valor funcional do fantasma é desigual de uma pessoa para outra (10). Outros autores propuseram introduzir no local de trabalho uma música à base de percussões ritmadas que. parece evidente que o espírito é totalmente absorvido pela dificuldade em realizar as quotas exigidas pelo salário e pelos prêmios. Olhando de mais perto. no presente caso. colocada no posto de trabalho dos assentos do modelo "2 CV" descrita por Linhart (63) parece funcionar como um autpmato desumanizado. As tarefas repetitivas deixam espaço para a emergência das lembranças da véspera ou do fim-de-semana (101)? Se alguns são bastante afirmativos na resposta.

O uso do tempo fora do trabalho Compensação aparentemente natural das violências do trabalho. relativas às equipes esportivas de empresa.T. notoriamentT agravado. Certos trabalhadores enfrentam a monotonia da tarefa com possibilidades defensivas individuais muito menos eficazes (defesas íompòftámêntãisje seu sofrimento é. Em Le sataire aux pièces. de maneira a contrabalançar os efeitos mais nocivos da O. alguns dentre eles conseguem usá-lo harmoniosamente. poucos são os trabalhadores e as trabalhadoras que podem organizar o lazer de acordo com seus desejos e suas necessidades fisiológicas: todavia. N~5s~véíèmõs áTcohsèqüênciás~deste sofrimento sobre o estado 5e saúde destes trabalhadores. Mesmo aí. formação profissional) e do tempo absorvido pelas atividades inelásticas (tarefas domésticas. . A evasão fantasmática é. com isso.C. 45 . às vezes possível. cultura. o uso do tempo fora do trabalho é muitas vezes situado à distância da coletividade dos trabalhadores. assim. Esta eventualidade é perigosa no plano da saúde como mostraremos mais para frente (Capitulo V). Nós voltaremos ulteriormente a este ponto que nos parece fundamental: até indivíduos dotados de uma sólida estrutura psíquica podem ser vítimas de uma paralisia mental induzida pela organização do trabalho. mesmo nas práticas paternalistas em vigor no começo do século. fortemente individualizado. e permanece enquanto sistema defensivo. (despersonalização e formação profissional em cursos noturnos — exigências posturais dos empregados e esporte etc). o espírito interinamente voltado para a performance psicomotora não é nunca livre. ao contrário. e.Alguns momentos são ocupados numa tarefa de vigilância feita sem exigência direta de tempo. deslocamentos). o tempo fora do trabalho não traz para todos as vantagens que poderíamos esperar.nã" há escapatória fantasmática possível. Se levarmos em conta o custo financeiro das atividades fora do trabalho (esporte.Ao contrário. uma organização do trabalho do tipo daquela apresentada em La nuit des machines não implica automaticamente que todos os operários se defendam individualmente tão bem quanto o autor.

é cTfasedV treino que a precede. é isso que se observa. por exemplo. Em todo caso. Numerosos são os autores que insistem sobre a contradição I entre divisão dos tempos de trabalho/tempo livre de um lado. Despersonalizado no trabalho. resta_ manter a performance. e é disso que se queixam os operários (15). (21) A maioria dos autores concorda ao interpretar estgs fatos como uma contaminação involuntáriadol&npo fora do trabalho. tempo de trabalho e tempo fora do trabalho formariam uma continuum dificilmente dissociável. "Não há ninguém. e tora da fábrica. todos os esforços são dirigidos para o escore produtivo. 50 e 100) nova. As mulheres se queixam de executar os trabalhos domésticos com um ritmo acelerado que só faz prolongar o tempo entrecortado do trabalho na fábrica. como se eles continuassem a observar as cadências aprendidas no trabalho. Nada é mais penoso do que a adaptação a uma tarefa repetitiva (92 p. no metrô. Como nós já ressaltamos. Maisdifícil'que a manutenção da própria performance produtiva. ele conserva a mesma pele e a mesma cabeça. ele permanecerá despersonalizado em sua casa. Será queTüãcT seríaTpossível tirar daí a unidade estrutural do tempo na fabrica e fora da fábrica? O tempo fora do trabalho não seria nem livre e nem virgem. As telefonistas (6) sofrem de estereótipos fora do trabalho (dizer "alô" ao puxar a descarga. e / unidade da pessoa (28). e os estereótipos comportamentais não seriam testemunhas apenas de alguns resíduos anedóticos. Uma vez süpèrãclãs as dificuldades. O que quer dizer isso senão que "o homem não pode ser dividido em uma metade produtora e uma metade consumidora"? É o homem inteiro que é condicionado ao comportamento produtivo pela organização do trabalho. Ao contrário. desligo" ao ouvir. o barulho das portas automáticas) descritos por Bégoin sob o nome impróprio de "lapso". Saindo da fábrica. A produção esperada exige um total engajamento da personalidade físi46 . toda a concentração. mas que exijam também um esforço. reconhecemos os loucos de Thomson pela maneira de dirigir nas estradas. E bem possíveTque as atividades feitas às pressas em casa não sejam o resultado de uma atitude passiva.A "contaminação" do tempo fora do trabalho Mais complicada é a questão das estruturas do tempo fora do trabalho. no trabalho põr peças.

" Ãülm.Tsè Vê obrigado a reforçar também ele. na prática da fábrica. destinada a manter eficazmente a^pj^ãoTosjçm^oj^ag^tos^sjj^n^ânejosj que marcariam i ^pj^jç^j^g^^j^^ uma brecha no condicionamento produtivo. o ritmo do tempo fora do trabalho não é somente uma contaminação. um novo aprendizado. Aparece nesta atitude o círculo vicioso sinistro da alienação pelo sistema Taylor~ onde cT comportamento condicionado e o tempo. eles conservam presente a preo "cupação ininterrupta do tempo permitido a cada gesto. o próprio operário torne-se o artesão de seu sofrimento. O mais perigoso. A injustiça quer que.Ç. _Nu. para evitar algo_ ainda "pior. adaptação que exigirá. no fim. para o operário. Assim. mas antes uma estratégia. que mantêm ativamente. Este "presenteísmo" pode ter outras origens (de ordem salarial) mas há casos em que a causa é a luta individual para preservar um condicionamento produtivo arduamente adquirido. encontram às vezes este fenômeno que não é excepcional e que se traduz pela recusa de certos operários em aceitar as paralisações de trabalho prescritas pelo médico que o está tratando. jecqrtãdo sob as medidas da organizaçãõ"do trabaífiõ. a partir de então. um programa onde atividades e repouso são verdadeiramente coman-Hados pelo~cfõnómetro. uma espécie de vigilância permanente para não deitar apagar q ccuidicionamenío mental ao comportamento produtivo.ca e mental. fora do trabalho e durantej» dias de folga.T. formam umá verdadeira síndrome psicopatológica que o operário. inevitavelmente. é a adaptação do condicionamento mental à cadência. li 47 .submetidos à O.merojos_são_os_Qperários_e empregados. Os médicos do trabalho.

Se. na verdade. descreveremos provisoriamente dois sofrimentos fundamentais organizados atrás de dois sintomas: _a_ iasalisfaçãq e_a ansiedade. ipsta d^rf>hrir Tmfrfl " qiip plp': construídos. sob 48 . Existe uma vivência global cuja deci-fração leva à descoberta de vários aspectos. Do discurso operário podem-se extrair vários temas que se repetem obstinadamente como um refrão obsessivo. foi. Se nos referirmos aos trabalhos sobre este assunto constataremos que a maioria dos autores. como sua coerência interna e a extensão de seu campo de aplicação poderiam indicar. infelizmente é preciso ser esquemático.Que sofrimento? 1. isto é. o sofrimento operário é dividido em dois componentes isso não significa que existam dois tipos distintos de sofrimento. A insatisfação. embora implicitamente designada em numerosos trabalhos. Não há um só texto. bem pouco estudada. sua finalidade^Para ser claro. Na vivência operária. uma só entrevista. uma só pesquisa ou greve em que não apareça. interessa-se mais pela questão da satisfação da motivação do que pela da insatisfação. para fins expositivos. Isso resulta de uma preocupação em esclarecerem-se os indicadores dos comportamentos operários (88). no discurso dos trabalhadores. Insatisfação e "conteúdo significativo"da tarefa Uma vez que os sistemas defensivos individuais e coletivos não são supérfluos.

responsabilidade. via de regra. Mas. Esta depressão é dominada pelo cansaço. No que diz respeito à relação do homem com o conteúdo "significativo" do trabalho. A vivência depressiva condensa de alguma maneira os sentimentos de indignidade. de paralisia da imaginação e marca o triunfo do. do narcisismo: O nível de qualificação. condicionamento ao comportamento produtivo. de formação não é.JxficutajLjima tarefa sem investimentojnateriaí ou afetivo exige a produção de esforço e de voHfã3êí"«ni-QUtras çlr^ cjtimtâncjã£j^ vivência depressivã~ãíimenta-se da sensação de adormecimento intelectual. o tema àa. ampliando-os. mais do que isso. primeiramente^àJalta de qualificação e de finalidade do trabalhgjQ operário da linha de produção como o escriturário de üm serviço de contabilidade muitas vezes não conhecem a própria significação de seu trabalho em relação ao conjunto da atividade da empresa. indignidade operária. de não ter mais imaginação ou inteligência. ciclo por ciclo. humanista ou político. Sentimento \ experimentado maciçamente na classe üperária. Outra vivência. o sentimentQjie. às vezes de jser sujo. riscos. inutL Udãde remete. Ela não significa nada para a família. altruísta.i §ànte que nasce uma jmagejn de mdigrudad&jV falta de significação^ a" frustração narcísica. É do contato forçado com uma tarefa. uma imagem narcísica pálida. tanto mais honroso se a tarefa é complexa. feia. o da vergonha de ser / robotizado. Desqualifi-cação cujo sentido não se esgota nos índices e nos salários. tanto mais admirada pelos outros se ela exige um know-how. não menos presente do que a da indignidade. suficiente em relação às aspirações. Cor^ relativamente. nem para os amigos. Durante o trabalho. 49 . Raros são aqueles que ainda creêm no mito do progresso social ou na participação à uma obra útil. Trata-se mais da imagem de si que repercute do trabalho. sua tarefa não tem significação humana. Cansaço que se origina não só dos esforços musculares e psicossensoriais. de não ser mais que um apêndice da máquina. miserável. esquematicamente. O sofrimento começa quando a evolução desta relação é bloqueada (22).í suas múltiplas variantes. a inutilidade dos gestos. formam. podem-se considerar. dois componentes: o conteúdo significativo em relação ao Sujeito e o conteúdo significativo em relação ao Objeto. nem para o grupo social e nem para o quadro de um ideal social. de inutilidade e de desqualificação. de anquilose mental. de estar desper-/sonaiizado etc. mas que resulta sobretudo do estado dos trabalhadores taylorizados . elevam-se queixas sobre adesqualificação. isto é. vários elementos contam na formação da imagem de si.

O conteúdo significativo do trabalho em relação ao objeto: ao mesmo tempo que a atividade de trabalho comporta uma significação narcisica. A significação em relação ao Objeto põe em questão a vida passada e presente do sujeito. veicula um certo número de símbolos. da vida interior do sujeito. do que ele põe. Responder a um. A significação profunda do trabalho para cada indivíduo só pode ser revelada por técnicas parti50 . pela atmosfera na qual ela opera. O investimento narcísico só pode renovar-se graças ao investimento objetai e vice-versa. esta parte não é mais do que a ponta do iceberg. na medida em que as regras de troca de investimento não se deixam assim separar. De maneira que. Acontece inevitavelmente que o interlocutor interior e os personagens reais que o trabalhador encontra opõem-se. ao contrário. correndo assim o risco de um fracasso. Se uma parte desta relação é consciente. A atividade do trabalho.li Na adaptação do conteúdo da tarefa às competências reais do trabalhador. do que ele introduz de sentido simbólico no que o rodeia e no que ele faz. pelos gestos que ela implica. Todas estas significações concretas e abstratas organizam-se na dialética com o Objeto. Objeto exterior e real por um lado. A tarefa pode também veicular uma mensagem simbólica para alguém. cujo papel é decisivo na vida. em situação muito complexa. No conteúdo significativo do trabalho em relação ao sujeito. objeto interiorizado por outro. ela pode suportar investimentos simbólicos e materiais destinados a um outro. para cada trabalhador. não implica necessariamente em responder simultaneamente ao outro. pelo material tratado. A natureza e o encadeamento destes símbolos dependem. sua vida íntima e sua história pessoal. socialmente reconhecidos ou efetivamente desconhecidos não causam o mesmo impacto sobre o narcisismo. isto é. ou contra alguém. isto é. Estender-se mais sobre este assunto conduziria a mergulhar em generalidades. De fato. Separar assim conteúdos significativos em relação ao sujeito e ao objeto é naturalmente arbitrário. esta dialética do Objeto é específica e única. ao mesmo tempo. o sujeito pode encontrar-se em situação de subemprego de suas capacidades ou. a significação da tarefa acabada em relação a uma profissão (noção que contém ao mesmo tempo a idéia de evolução pessoal e de aperfeiçoamento) e o estatuto social implicitamente ligado ao posto de trabalho determinado. Sucesso ou fracasso de um trabalho obrigatório: sucessos reais. ao Objeto. A complexidade do problema provém do fato de que o essencial da significação do trabalho é subjetivo. toda atividade contém os dois termos. entra a dificuldade prática da tarefa. pelos instrumentos que ela movimenta.

a produção como função social. Nós nos limitairmos. concebida por um serviço especializado"da empresa. mais precisamente. enfim. pode pôr em jogo relações complicadas. ganhar as férias.-A coletividade operária sabe quais são os postos mais duros e quais os mais tranqüilos. Ao invés de fazer referência à noção de carga psíquica do trabalho. então. antes de tudo. da mesma maneira que as mudanças de posto. o salário pode veicular todas as s ignificações negativas que implicam as limitações materiais que ele inxpõe. choca-se frontalmente com a vida mental e. não há jamais neutralidade dos trabalhadores em relação ao que eles produzem. às vezes. Fadiga. No caso inverso. Th organização do trabalho. é melhor interrogar-se sobre o custo humano da insatisfação. ele pode falar de sua tarefa ou deve calar-se. Resta a significação das relações do trabalho fora da fábrica. Sabemos também que a decifração desta relação com as camadas pro-fundis da vida mental não pertence à psicopaioiogia do trabalho. fonte de vergonha e obstáculo para a vida afetiva e sexual. O próprio posto de trabalho tem assim uma significação em relação aos conflitos da oficina ou da fábrica. de seu suor nos quais o produto elimina-se. a reconhecer o lugar importante da vida interior e subjetiva. Até no leito conjugai.culares (psicanálise individual). pagar as dívidas) mas também mais abstratas na medida em que o salário contém sonhos. não só do ponto de vista da produção mas também do ponto de vista da ordem e da disciplina na empresa. o salário. Tal posto eqüivale a "ser protegido do chefe" ou. Ser colocado em um posto de trabalho particularmente duro tem uma significação em relação aos colegas. à preocupação em apresentar uma concepção coerente com a ergonomia contemporânea. "ser sua vítima". Receber uma peça bem preparada. pagar as melhorias da casa. os trabalhadores que inalam o hexaclorocicloriexano não podem livrar-se do cheiro nauseabundo dè seu hálito. que contém numerosas significações: primei ramente concretas (sustentar a família. no conteúdo significativo do trabalho em relação ao Objeto. têm um valor em relação às lutas atuais ou latentes'. A tarefa não é nunca neutra em relação ao meio afetivo do trabalhador. ao contrário. que corresponde. confiá-la bem montada ao operário que a receberá em seguida. é preciso esconder dos outros o conteúdo de seu trabalho: por exemplo. ■Entra em consideração. econômica e política. o cheiro permanece ligado ao corpo como uma sombra impossível de ser mascarada. carga de trabalho e insatisfação. com 51 . fantasias e projetos de realizações possíveis. estranho aos trabalhadores. Resta. mesmo se só podemos apreendê-la através de seus efeitos i*idireitos e concretos. Mesmo se o engajamento pessoal no objetivo social da produção não é possível.

quanto mais a organização do trabalho é rígida. existe um segundo compo52 . adaptar o trabalho às suas aspirações e às suas competências. quando foram esgotados os meios de defesa contra a exigência física. Quando um trabalhador usou de tudo de quf dispunha de saber e de poder na organização do trabalho e quando ele não pode mais mudar de tarefa: isto é. a escolha das técnicas operatórias. Correlativamente. mais a divisão do trabalho é acentuada. ao emprego e à experimentação de um compromisso entre os desejos e a realidade. podemos perceber um movimento consciente de luta contra a insatisfação ou contra a indignidade. O sofrimento começa quando a relação homem-organização do trabalho está bloqueada. dentro de certos limites é claro. A certeza de que o nível atingido de insatisfação não pode mais diminuir marca o começo do sofrimento. os instrumentos e os materiais empregados permitem ao trabalhador. rege as tarefas muito qualificadas. a desqualificaçãff e a depressão. de aprendizagem e de adaptação. parcelado. uma parte da organização do trabalho provém do própTio operador. em grande parte. Da análise do conteúdo significativo do trabalho. nenhuma adaptação do trabalho à personalidade é possível. graças aos privilégios de uma organização do trabalho deixada. Em termos de economia psíquica. As frustrações resultantes de um conteúdo significativo inadequado às potencialidades e às necessidades da personalidade podem ser uma fonte de grandes esforços de adaptação. O sofrimento proveniente do pouco conteúdo significativo do trabalho taylorizado não é mais um mistério e é denunciado não só pelos operários mas também pelos ergonomistas e por certos meios do patronato "progressista". menor é o conteúdo significativo do trabalho e menores são as possibilidades de mudá-lo. no conjunto. ainda hoje. Mesmo as más condições de trabalho são.a esfera das aspirações. menos temíveis do que uma organização de trabalho rígida e imutável. Num trabalho rigidamente organizado. à descoberta. a inutilidade. Ao contrário. psicoafetivas. é preciso reter a antinomia entre satisfação e organização do trabalho. A organização temporal do trabalho. à discreção do trabalhador. mesmo se ele não for muito dividido. quando o trabalhador usou o máximo de suas faculdades intelectuais. Não são tanto as exigências mentais ou psíquicas do trabalho que fazem surgir o sofrimento (se bem que este fator seja evidentemente importante quanto à impossibilidade de toda a evolução em direção ao seu alívio). o sofrimento aumenta. No trabalho artesanal que precedia a organização científica do trabalho e. Em tais condições. das motivações e dos desejos. esta adaptação esponiânea do trabalho ao homem corresponde à procura. Via de regra.

são esclarecidas as sugestões de modificação do posto. medidas do ambiente físico (barulho. são às vezes reconhecidas e classificadas as principais exigências do posto de trabalho. intensificação da iluminação etc. atenuação do barulho. cadência etc). Para situar o problema. melhoria da posição do trabalhador no posto. chega-se ao balanço da intervenção. Uma vez terminada a realização dos trabalhos aconselhados pela equipe ergonômica. a insatisfação resultante de uma inadaptação do conteúdo ergonômico do trabalho ao homem está na origem não só de numerosos sofrimentos somáticos de determinismo físico direto. Diferentes técnicas são utilizadas para este efeito: observação direta do especialista. vibração. registro das diversas variáveis fisiológicas do operador. ou as que são propostas pelo laboratório de sociologia do trabalho de Aix-enProvence) (48) etc. uma posição fundamental na problemática da relação saúde-trabalho. resposta às "fichas de posto" estabelecidas de antemão segundo um modelo estandardizado (tais como as que são utilizadas nas Empresas Renault (95). num último momento. o mais simples é talvez recorrer ao estudo da eficácia da ergonomia. iluminação. Este balanço é às vezes limitado pelos especialistas a uma análise comparativa relativa a critérios de ambiente. Muitas vezes negligenciada ou desconhecida. fazer o balanço não mais dos elementos da análise do I 53 . o custo das medidas corretivas propostas pode ser discutido com a direção da empresa e é adotado um compromisso que constituirá a base dos trabalhos de mudança do posto. uma positividade da ação ergonômica: diminuição do custo cardiovascular. Num terceiro momento.nentc da insatisfação no trabalho que é totalmente desconhecido: o que resulta da inadequação da relação homem-tonteúdo ergonômico do trabalho. Insatisfação e conteúdo ergonçmico do trabalho Esta segunda vertente da satisfação do trabalho ocupa. entretanto. geralmente. Se se procurar. mas também de outras doenças do corpo mediatizadas por algo que atinge o aparelho mental. A intervenção ergonômica começa no "campo" pelo que se chama de "análise do posto" (102). eventualmente a critérios de fisiologia ou de produtividade. Enfim. umidade. observação clínica. Se tal é a perspectiva do balanço. destinadas a aliviar os males detectados (73). 2. poeiras. encontra-se. segundo pensamos. temperatura. Num segundo momento.

isto é. a intervenção médica é nefasta pois o alívio dado ao doente. este balanço é positivo. Após administração de morfina a dor desaparece enquanto o doente parece aliviado. mas sua atenção teria sido chamada da mesma forma se os trabalhadores não se tivessem queixado? Numerosos exemplos similares na pratica mostram que não é sempre muito fácil 54 . A pesquisa de um indicador global de melhoria das condições do trabalho teria uma utilidade que nem é necessário demonstrar. Por falta deste indicador. Se se limitar o balanço da intervenção médica à comparação de um elemento da análise da situação. muitas vezes. Por que escolher a vivência subjetiva dos trabalhadores? Esta escolha não pretende resolver a questão de um indicador global de melhoria das condições de trabalho. ao contrário. a avaliação e muito mais complexa. Por exemplo. No estado atual desta questão. se se tomar um ponto de vista global. para a observação sobre uma tela de visualização (60). precipitou um homem na morte. como para o trabalhador. parece-nos fundamental não negligenciar a apreciação dos trabalhadores sobre a intervenção ergonômica e de nos pôr à escuta de sua "vivência subjetiva" antes e depois da intervenção. às vezes. a resultados curiosos: os trabalhadores exprimem seu descontentamento acusando as novas condições de trabalho de aumentar seu cansaço. Uma comparação tomada da patologia médica poderia ilustrar este ponto de vista. alguns autores sublinharam a dificuldade em avaliar a eficácia da ergonomia e das disciplinas do homem no trabalho (97). por exemplo. elemento necessário ao diagnóstico de úlcera perfurada. de fato. Sob esta ótica conta. não varia sempre no mesmo sentido que as condições do trabalho. do desaparecimento de um estímulo sensorial (barulho) útil à manutenção da vigilância necessária. fazendo desaparecer a dor. Esta. Para os psicopatologistas do trabalho. um doente hospitalizado com urgência com uma dor abdominal aguda. a vivência subjetiva é um objeto privilegiado de análise que nos leva. mas ele morre algumas horas mais tarde de uma hemorragia interna por perfuração de úlcera duodenal.nosto (comparados um a um antes e apu» a intervenção) mas sobre a situação global. Nossa perspectiva aqui é citada somente pelo interesse que nós conferimos à relação saúde-trabalho. a entrar em contradição com os especialistas das condições de trabalho. a dor. Este fenômeno foi com certeza estudado pelos ergonomistas. acima de tudo. Isto resulta. A atenuação do barulho que reina numa oficina por dispositivos de insonorização eficazes leva. Voltemos à intervenção ergonômica: o indicador global de melhoria das condições de trabalho que permitiria julgar a eficácia da ergonomia não existe até hoje (74). a condição do trabalhador. como veremos. o ergonomista ou o engenheiro de produção.

36. num primeiro momento. de um doente queixar-se mais de seu estado quando sua saúde está melhorando. os operários experimentem um benefício real da intervenção ergonômica: melhoria da postura de trabalho. de várias causas concorrentes: — o hábito — a revelação de outros prejuízos até então mascarados — o fato de que. vantagens que são inegáveis contituem o que poderíamos chamar de "positividade da prática ergonômica". quando um doente começa a protestar. 55 . Isto confirma. pode-se recorrer à vivência subjetiva coletiva. A revolta assinala uma melhoria de seu estado. convém distinguir vivência subjetiva a curto prazo e vivência subjetiva a longo prazo: é bastante freqüente que. os fenômenos observados em matéria de ergonomia de correção seriam coerentes com os resultados da psicologia da sensação. o interesse que o médico ou o psicopatologista deve ter pela "vivência subjetiva" dos trabalhadores. em geral. no fundo. e se esta mudança produzir-se mais rapidamente. a substituição de um banco por um assento de encosto regulável é. Se acreditarmos nos mestres da psicofísica (35. De maneira que se referir à "vivência subjetiva" tem sempre o risco de induzir também em certos erros. uma apreciação "global dos efeitos da iniervenção ergonômica que vai direto ao objetivo" Mas há também casos em que a avaliação subjetiva dos trabalhadores opõe-se ao ponto de vista médico-sanitário. uma vivência subjetiva coletiva que envolve as variações individuais. um operário que utiliza o tricloroetileno para dissolver a graxa escondida nas dobras cutâneas acha que é vantajoso conservar este hábito enquanto que o médico do trabalho sabe a nocividade deste produto para o organismo. a nossos olhos. Estas. Assim. Em certos casos. às vezes. Com efeito. diminuição das lombalgias. do grupo emana. mas mais freqüentemente em algumas semanas. é porque precisamente ele está melhor. no começo. esta última reflete. A sensação subjetiva de alívio é mais intensa se a melhoria da situação for mais substancial. até. Ao contrário. Esta erosão do poder benéfico da "melhoria das condições de trabalho" resulta. a discordância "vivência subjetiva"—"estado de saúde" é observada sobretudo na economia individual de um sujeito. nada mudou. Entretanto. o mais freqüente é que o sentimento de melhoria e de alívio desfaz-se bastante rapidamente. Com efeito. na verdade. Ao contrário. acontece. 93). a defender-se e a queixar-se. Em matéria de intervenção ergonômica. Para levantar este obstáculo. às vezes em alguns dias.prever os efeitos de uma "melhoria objetiva" das condições de trabalho. Assim. facilitação de um trabalho de precisão através de uma iluminação mais racional etc. muitas vezes.

Aliviado deste mal. com efeito. Todavia. Para utilizar outra fórmula. Isto pode explicar. simultaneamente. O alívio da carga de trabalho permite a intensificação da produtividade. em parte. a subtração de uma exigência do trabalho pode revelar uma violência mascarada. anteriormente. ele aprende. conteúdo da tarefa. bonificações. O inconveniente da intervenção ergonômica é sua ação limitada. trabalho repetitivo etc). pouco a pouco. Para o operário que trabalha com peças. hoje em dia a distinção entre "ergo56 . Há casos muito conhecidos onde as condições de trabalho são terríveis e. por exemplo. pode libertar um operador de lombalgias relativas a uma tòrsão da coluna por defeito de postura. a conhecer uma outra dor que tomou lugar da precedente: cervicalgia. em relação com a posição da cabeça e a distância olho-tarefa.apreciada pelo operador. para faiar ao interlocutor. Admite-se correntemente. É que. faz-se às vezes aparecerem os de um nível inferior e assim por diante. Além do mais. ele nâo tem mais consciência desta melhoria e. subjacente. A toda esta análise poderíamos opor "a ergonomia de concepção" (102). A intervenção ergonômica. a correção ergonômica é às vezes irrisória face à enormidade das exigências organizacionais (salários. as dores lombares atingiam um tal nível de intensidade que ocultavam as dores da nuca. Quando se faz desaparecerem os prejuízos que ocupam o alto da hierarquia sintomática. prêmios. Assim somos levados a admitir a existência de uma espécie de edifício estra-tifiçado de prejuízos hierarquizados. Assim. poder-se-ia dizer que a intervenção ergonômica não atinge a situação de trabalho em profundidade pois ela permanece aquém da organização do trabalho. o limite último da ação ergonômica. referente aos pilotos de caça). consideravelmente bem toleradas (conforme Capítulo III. pois esta melhoria não é mais perceptível atualmente. Em todo caso. provavelmente. o alívio trazido pela correção ergonômica é recuperada pela organização do trabalho. ela só consegue aliviar parcialmente os trabalhadores e este é. O que foi ganho de um lado é perdido do outro. a apreciação ambivalente dos trabalhadores em relação à ergonomia. apesar do que afirmam os psicofísicos. Esta questão fundamental é a questão do valor relativo das melhorias ergonômicas em relação à economia global da relação homem-trabalho. Este elemento de "habituação" desempenha certamente um papel na obsolescência da vivência da melhoria e do alívio. E o esgotamento psicofísico da sensação não e suficiente para dar conta do fenômeno observado. há casos em que não se observa uma tal diminuição da sensação. Mas após um mês de trabalho. em muitos casos. ele tem que evocar a lembrança do momento desta substituição do assento.

De uma relação desarmoniosa entre o conteúdo ergonômico do trabalho (exigências físicas. havia batido com violência no médico. Mas é então preciso cuidar de seus problemas metabólicos. A investigação permite o esclarecimento de alguns elementos recentes. seu estado melhora rapidamente. de insatisfação é de frustração antes de tudo concretas. Movimentos de agressividade alternavam-se com frases de ansiedade evidente. a exemplo da insatisfação em relação com o conteúdo significativo do trabalho. após uma correção ergonômica? E. sua glicemia é rapidamente controlada. mais ainda. a ergonomia de concepção só excepcionalmente é posta em prova na realidade e parte mais do direior de uma empresa e de seu? conselheiros diretos. A ergonomia de que falamos até aqui é uma ergonomia de "correção" mas. Esta insatisfação não está. Este segundo componente da insatisfação no trabalho não é de ordem "significativa". outras questões foram levantadas: o que é este sentimento de satisfação experimentado. um sofrimento que são de natureza mental e não física. mas seu estado mental dominado pela ansiedade. No hospital. Levado a Paris por um serviço especializado. cor-relativamente. o que são estes agravamentos da relação saúde-trabalho ocasionados por correções ergonômicas limitadas? Estas questões vão permitir-nos introduzir um novo ponto de vista na insatisfação do trabalho. Trata-se desta vez. após ter apresentado uma ilustração clínica. alucinações terríveis e vozes ordenavam certos comportamentos particulares como andar de quatro e comer flores e plantas verdes presentes na casa. do que de projetos elaborados pelos especialistas ou ergonomistas. só poderá trazer alívio limitado.nomia de correção" e "ergonomia de concepção". mas de ordem "econômica". tratado com fortes doses de neurolépticos e de ansiolíticos. uma vez que o paciente sofre de uma diabete insulino-dependente. quando da construção de novas instalações. permanece muito preocupante. químicas. situada no registro simbólico. biológicas) e a estrutura da personalidade pode emergir uma insatisfação e. Um homem de aproximadamente trinta anos é conduzido ao hospital psiquiátrico de uma cidade do interior. Esta digressão pela ergonomia prática poderia traduzir-se em termos de psicopatologia do trabalho pela seguinte fórmula: enquanto a ergonomia não trouxer satisfação suplementar ao nível do conteúdo significativo do trabalho. Mais para frente nós voltaremos a este conceito de economia psicossomática. a bem dizer. Na noite anterior ele apresentava alguns sinais de agitação e no próprio dia seu estado se tinha agravado: ele mantinha diálogos incoerentes. que fora chamado às pressas pela família em pânico frente ao estado do paciente. mesmo brevemente. Mas. determinantes na apa57 .

Muito mal adaptado a este trabalho sedentário. sua função era de organizar e de controlar o trabalho de uma equipe de uma dúzia de operários. Procurando. nada mudava. as dificuldades profissionais continuavam. (23) Este exemplo ilustra bastante bem como uma adequação entre o conteúdo ergonômico do trabalho e a estrutura da personalidade pode 58 . Entretanto. o paciente havia finalmente renunciado. ele punha "a mão na massa" e. ele deveria retomar seu antigo posto de chefe de armazém. Vários meses após ter retomado seu trabalho na fábrica ele não tinha tido nenhuma recaída e nem consumia mais medicamento.rição do episódio agudo. ele deveria logo sucumbir à fadiga e ao esgotamento. Diante do esforço conjugado de sua mulher e de seus amigos. Esta solução favorável não é excepcional. Uma "investigação psicossomática" precisa (69) deveria mostrar que se tratava de uma descompensação sob forma de síndrome con-fusional ocorrida num sujeito que apresentava uma neurose de comportamento. havia vários meses. gerente de um salão de beleza. Foi decidido com o paciente e a família que. deixando o hospital. Jogador de futebol. as atividades psicomotoras. Lá. Como é o caso com esse tipo de sujeito. seu trabalho consistia em ler autos policiais de seguro e verificar sua conformidade. insistia. a seu trabalho na fábrica para aceitar um emprego numa companhia de seguros. além de suas funções de vigilância. ele assistia. Foi neste momento de hipogli-cemia provocada por um esforço físico não compensado por um suporte alimentar suficiente que o precipitou na descompensação psiquiátrica de que falamos. impotente à acumulação de autos sobre sua mesa. compensar os efeitos nocivos de seu novo emprego. esportivas ou os trabalhos de forte carga física são as úricas defesas verdadeiramente funcionais para assegurar o equilíbrio. Esta simples decisão foi suficiente para acalmar a angústia do paciente e para permitir um controle rigoroso do metabolismo após a suspensão dos tratamentos psicofarmacológicos. assumia um trabalho equivalente ao dos operários que ele dirigia. ele havia encontrado um meio de gastar sua energia e de descarregar sua tensão. com seu marido para que ele abandonasse seu emprego por uma profissão mais "respeitável". Sua esposa. Entretanto. numa fuga desenfreada fora do trabalho. a contragosto. ele tinha se tornado em algumas semanas presidente do clube municipal e esta atividade secundária particularmente intensa lhe proporcionava o relaxamento que não lhe ofereciam suas horas no escritório. Este homem ocupava há cerca de dez anos um posto de chefe de armazém numa fábrica de sua região. No fim de dias de trabalho particularmente esgotantes. Contramestre.

estimada por estas personalidades e necessárias ao seu equilíbrio. neste exemplo.67. Estas pessoas têm necessidade de um trabalho variado. a inadaptação entre as necessidades provenientes da estrutura mental e o conteúdo ergonômico da tarefa traduz-se por uma insatisfação ou por um sofrimento. E a curto ou a médio prazo a evolução faz-se. pode conduzir a uma catástrofe a nível da economia geral do indivíduo com suas traduções clínicas patológicas. O que outros não poderiam suportar. barulho. menos monotonia e rotina. se for aplicada cegamente. corridas desenfreadas de moto. Uma tarefa muitas vezes apreciada por tais personalidades é a de condutor e de piloto de máquinas. músicas a volume alto. toda uma pa-nóplia de tarefas de alto grau de violência psicossensorial é. fora do trabalho. (24) Apoiando-nos nestas conclusões. Fora de um relaxamento e de um prazer trazidos por tais atividades. com diminuição da carga física. estes sujeitos ficam não só insatisfeitos mas muitas vezes em posição delicada em relação à saúde. eles querem avidamente. Estas aptidões são às vezes acompanhadas de uma verdadeira necessidade de alimentação de impressões sonoras. ou até mesmo 59 . ao mesmo tempo. dos pesos pesados aos guindastes. uma sez que o debate foi concluído em outro lugar. admitiremos que o papel determinante na descompensação psiquiátrica deste doente foi desempenhado pela neutralização das defesas compor-tamentais na ocasião de uma mudança de posto de trabalho. Do carro à moto. estímulos psicossensoriais etc. dos carros de corrida aos aviões. o mais freqüentemente. consumo impressionante de espetáculos onde as aventuras são o assunto de predileção. em direção a uma doença somática em virtude das regras da economia psíco-somática. O importante aqui é compreender a simultaneidade do prazer e da necessidade. sem levar em conta as necessidades da personalidade. Outras personalidades têm aptidões para tarefas que comportem fortes exigências psicossensoriais. Pode-se ver bem. Mas este período de compensação é pouco.levar a um sofrimento e até a uma síndrome psicopatológica caracterizada. (64. colocando o sujeito em face de uma organização do trabalho e de um conteúdo ergonômico radicalmente diferentes. atividades musicais mais apreciadas por sua riqueza sonora do que pelo tema musical etc. Outras hipóteses explicativas do caso deste paciente poderiam ser propostas. elucidadas há cerca de vinte anos. Nós não as discutiremos aqui.77) Na vivência dos trabalhadores. Quanto mais mudanças. como uma "melhoria" das condições de trabalho. a atividades que possuam as mesmas características: longos percursos noturnos de carro. imagens visuais. melhor se sentem. Eles conseguem às vezes manter o equilíbrio recorrendo.

no fim de alguns meses. mas igualmente pela ausência de fracasso ao longo de um curso que parece poder se desenvolver sem nenhum incidente. O primeiro é relativo às exigências de ordem física e psicomotora. mental e somaticamente. nas profissões de caráter social geralmente elevado.79) Neste estudo da insatisfação com o trabalho relacionado ao conteúdo ergonômico da tarefa é preciso tirar duas conclusões: Primeiro.por um estado de ansiedade raramente traduzido em palavras. rara* mente precisada. Contrariamente ao que se poderia crer. Certos sujeitos apresentam aptidões particulares no campo do raciocínio intelectual lógico e racional. é que a insatisfação com o trabalho não corresponde só ao conteúdo significativo do trabalho nem ao seu conteúdo simbólico. raramente explicitada pelo próprio trabalhador. no sentido físico e nervoso. inventivas ou criativas. Outras são de ordem psicossensorial e as últimas são de ordem intelectual. Se. Se lhe interditarem o trabalho. ao mesmo tempo. não apenas por suas aptidões para os estudos. a rhaioria dos sujeitos que apresentam um tal perfil de carreira são. uma predileção pelas atividades mentais de tipo matemático. no trabalho. paralelamente na profissão. Tais personalidades se fazem notar. Para esquematizar esta relação sutil entre o conteúdo ergonômica1 do trabalho e a estrutura da personalidade. em conseqüência de um acidente. uma via privilegiada para descarregar suas necessidades de atividade. mais do que por atividades intelectuais que necessitem de faculdades imaginativas. a atividade intelectual na base de sua tarefa profissional toma um caráter de necessidade para seu equilíbrio mental. Tais personalidades foram estudadas por certos autores. uma satisfação em relação com o exercício do corpo. Estes sujeitos têm. a contabilidade etc. a econometria. toda carga de trabalho supõe uma composição específica de cargas elementares dependentes de cada um destes setores. (68. O ponto de im- . encontram-se imobilizados num emprego sedentário e apresentam. portanto. eles não têm aptidão particular para a produção de fantasias o devaneio e a imaginação. desde muitos jovens.76. diges-. tiva ou reumatológica. relativamente frágeis. podemos tomar. 78) Estes casos não são mais excepcionais do que os de trabalhadores que apresentam defesas situadas essencialmente no setor da atividade motora que. três componentes principais. se forem vítimas de um afastamento ou se se aposentarem. não é raro que seu organismo seja vítima de uma doença coronária ou um infarto do miocárdio após um prazo de alguns dias ou de algumas semanas. uma doença somática. (75. antes de tudo. A atividade intelectual não escapa ao esquema de que falamos. mas que existe. pelo cálculo. Alguns dentre estes encontram nas atividades intelectuais deste tipo e.

A insatisfação proveniente de um conteúdo ergonômico inadaptado à estrutura da personalidade não é outra coisa do que uma carga de trabalho psíquica. assim. a evolução do processo de desorganização teria terminado na morte. Aparece. Presente em todos os tipos de sofrimento.) (33) A insatisfação em relação com o conteúdo significativo da tarefa engendra um sofrimento cujo ponto de impacto é. um custo individual da tarefa notoriamente diferente daquele que revela o estudo objetivo das exigências: é a carga de trabalho. Esta carga de trabalho não é idêntica à carga de trabalho física ou psicossensomotora. As articulações psico-dinâmicas e psicoeconômicas serão retomadas ulteriormente em outro capítulo. é preciso considerar. a carga de trabalho é chamada astreinte) (73). Os efeitos desta carga e o sofrimento estão no registro mental e se ocasionam desordens no corpo. A síndrome confusional isolada artificiaJ-mente nesta observação mostrava a existência de uma etapa no processo de "desorganização psicossomática" (67) Se uma terapêutica conveniente não tivesse sido rapidamente proposta. a partir da estrutura da personalidade de cada indivíduo. ela aparece particularmente importante no caso da insatisfação com o conteúdo ergonômico do trabalho. o corpo e não o aparelho mental (o exemplo dü trabalhador diabeúco mostrou que uma descompensação mental poderia provir da inadaptação homem-tarefa). não são equivalentes às doenças diretamente infligidas ao organismo pelas condições de trabalho. A carga de trabalho psíquica representada pelo sofrimento proveniente de um desconforto do corpo coloca 61 . sofrimento mental resultante de uma frustração a nível do conteúdo significativo da tarefa pode. igualmente. Analisar o conteúdo do trabalho em termos de exigências ou obrigações é insuficiente. em oposição ao sofrimento resultante do conteúdo ergonômico da tarefa. com efeito.pacto do sofrimento proveniente da inadequação do conteúdo ergonômico da tarefa às aptidões e as necessidades do trabalhador é. Todavia. A segunda conclusão diz respeito à introdução da estrutura da personalidade na relação homemtrabalho. (A síndrome confusional é. mental. levar a doenças somáticas. Por outro lado. primeiro. por intermédio de uma descompensação e de complicações do diabetes insulino-depen-dente. o que representa para ele o confronto com esta tarefa. (Na nomenclatura internacional e segundo as normas Afnor. uma entidade psiquiátrica um pouco à parte do limite entre a desorganização mental e a desorganização somática. como já o mostravam os ergonomistas. As exigências da tarefa são o que nós descrevemos sob o nome de conteúdo ergonômico. antes de tudo. as exigências da tarefa são chamadas contraintes.

a vivência do trabalhador ocupa um lugar particular que lhe é conferido pela posição privilegiada do aparelho psíquico na economia psicossomática. Estas satisfações concretas analizam-se em termos de economia psicossomática. Assim. num capítulo ulterior. Não é mais questão das necessidades como no caso do corpo. como levar em conta estes diferentes elementos numa aproximação global e mais sintética da relação homem-trabalho. sensoriais e intelectuais segundo proporções que estejam em concordância com a economia psicossomática individual. num arranjo da realidade suscetível de produzir. isto é. Nós veremos. primeiramente. ao bem-estar físico. Mas compreenderemos facilmente que as coisas intrincam-se de maneira muito mais complexa na realidade de cada caso. As satisfações simbólicas: desta vez. O conflito não é outro senão o que opõe o homem à organização do trabalho (na medida em que o conteúdo ergonômico do trabalho resulta da divisão do trabalho). As satisfações concretas dizem respeito à proteção da vida. Isto depende do que a tarefa veicula do ponto de vista simbólico. trata-se da vivência qualitativa da tarefa. a significação do trabalho que importam nas suas relações com o desejo. à saúde do corpo. segundo duas linhas diretrizes: subtrair o corpo à nocividade do trabalho e permitir ao corpo entregar-se à atividade capaz de ofercer as vias melhor adaptadas à descarga da energia. O aparelho psíquico seria. mas dos desejos ou das motivações.inteiramente o trabalhador e sua personalidade à prova de uma realidade material. No centro da relação saúde-trabalho. separar os dois setores da satisfação com o trabalho é uma necessidade de exposição. É o sentido. satisfações concretas e simbólicas. simultaneamente. biológico e nervoso. de alguma maneira encarregado de representar e de fazer triunfar as aspirações do sujeito. I 62 . Isto é: fornecer atividades físicas.

cujas características só podem ser esclarecidas pela referência contínua à história individual. inclusive nas tarefas repetitivas e nos trabalhos de escritório. Faz-se necessário uma precisão semiológica: a angústia resulta de um conflito intrapsíquico. isto é. (39) A investigação da angústia só deve ser realizada pela psicanálise. entre duas instâncias (ego e super-ego). onde parece ocupar um papel modesto. entre dois sistemas (por exemplo: consciente e inconsciente). Pode tratar-se de uma oposição entre duas pulsões. na medida em que constitui uma abordagem específica da relação do homem çom a realidade. Mas nosso assunto aqui é o medo. de uma contradição entre dois impulsos inconciliáveis. Algumas categorias profissionais são expostas a riscos relacio63 . Falaremos aqui de medo. A angústia é uma produção individual. entre dois desejos. um conceito que não é propriamente psicanalítico — e que responde por um aspecto concreto da realidade e exige sistemas defensivos específicos. O que vamos tentar mostrar é que o medo está presente eni todos os tipos de ocupações profissionais. não de angústia. à estrutura de personalidade e ao modo específico de relação objetai.Trabalho e medo O medo constitui uma das dimensões da vivência dos trabalhadores quase sempre ignorada por todos os estudos em psicopatologia do trabalho. A psicopatologia do trabalho encontra-se muito bem colocada para ressaltar esta problemática nova. essencialmente mal conhecidos até hoje.

É o que se observa muitas vezes neste tipo de acidente.asfixia. Enfim. que podem ter um caráter material (dispositivos de proteção) ou um caráter psicológico (regras de segurança). seja porque o risco ou suas manifestações são mal conhecidos.que operam em fluxo contínuo. Às vezes. Ao lado do risco real precisamos mencionar ainda o risco suposto. os riscos estão relacionados ao corpo do indivíduo. sem que nenhuma prevenção seja colocada à disposição dos operários. uma explosão. o próprio risco continua. por exemplo. De qualquer maneira. Por outro lado. o risco è mais personalizado. onde muito freqüentemente é um acidente que revela a existência de um risco até então desconhecido. É o caso das indústrias. Pode tratar-se de . dos trabalhos em profundidade. São eficazes apenas as medidas de proteção chamadas de "proteções coletivas" — por exemplo: as telas de proteção ao longo dos andaimes. ele quase sempre conta com uma prevenção incompleta pela organização do trabalho.nados à integridade física. o que caracteriza o risco residual que não é completamente eliminado pela organização do trabalho. da vontade do trabalhador. por tabela. coletivo. freqüentemente (mas nem sempre) o risco é coletivo: numa indústria química um escapamento de gás pode provocar a intoxicação ou morte de vários trabalhadores. se atingido por um choque elétrico deixa cair a carga sobre um grupo de trabalhadores que trabalha no solo. por exemplo. acidente. mesmo se o risco é combatido por medidas e regras de segurança. independente. via de regra. é que deve ser assumido individualmente. fratura. Mas mesmo nestes casos. um escapamento de gás tóxico. irregularidades no funcionamento de um instrumento ou de uma máquina. das indústrias de preparação de produtos tóxicos etc. inerente ao trabalho. da pesca em alto-mar. 64 . na maioria das situações de trabalho onde vários operários colaboram na mesma tarefa. Quase sempre propõe-se aos trabalhadores apenas medidas preventivas individuais. O problema do medo no trabalho surge desta oposição entre a natureza coletiva e material do risco residual e a natureza individual e psicológica da prevenção a cada instante de trabalho. muitas vezes o acidente que acontece com o operário pode. circunstâncias atmosféricas. da construção civil. um acidente de descompres-são. morte violenta. ferimento. Podemos descrever diversas características destes riscos: o risco é exterior e na maioria das vezes. Em todos estes casos. queimadura. O risco é. A causa material do dano físico pode ser um incêndio. seja devido à limitação dos investimentos necessários. É com um passo falso que o operário cai dos andaimes. então. atingir outros: um operador de grua. afogamento. É o caso. Às vezes.

em vez de beneficiar do regime de "doença profissional". As lesões eczematiformes dos dedos não são raras.. para esiudá-la. è fonte de uma ansiedade específica. Assim.conhecido em seus detalhes. como para todo e qualquer problema médico que não tenha nenhuma relação com o trabalho. como também as lesões por fricção e os pruridos. onde o trabalho é organizado em . Ou quatro operários mortos numa oficina onde se lidava com desfo-lhantes. ao ouvirmos os operadores de sala de controle. O trabalhador doente é coberto pela Previdência Social por causa da doença. o câncer do fígado. Temos ainda as mortes por inalação de fosgênio. bem ou mal. os trabalhadores elaboram defesas específicas. Comra este medo e a impressão dolorosa de que deve ser. Em outro caso. teria causado a morte de vários trabalhadores. inteiramente a cargo do trabalhador. pois os operários que nela trabalhavam manipulavam pentaclorofenol e sofriam quase todos de um prurido. é preciso procurar pelos sinais indiretos que são justamente estes sistemas defensivos. 65 . os infartos do miocárdio. Quando são muito eficazes. os doentes hospitalizados com urgência (18 operários de uma só vez. Os trabalhadores evocam as "doenças profissionais" e as "afecções de caráter profissional" — cuja origem está bem situada no trabalho mas que não estão inscritas no quadro oficial das doenças profissionais. o trabalho administrativo é considerado limpo. as numerosas úlceras de duodeno. a notável diminuição da longevidade (a média é de 57 anos). provocado pelo cloreto de vinila. que dá direito ao complemento salarial e às eventuais indenizações por invalidez. os infartos de miocárdio entre 30 e 40 anos. os problemas sexuais na oficina de«bromato de isopropila. os riscos de complicação com o menor ferimento. praticamente não se encontra mais nenhum traço de medo no discurso do trabalhador. dele temos somente um quadro difuso. assumida individualmente. os mal-estares.fluxo contínuo. Entretanto. numa das fábricas pesquisadas). l.. cujo caráter imprevisível e ressaltado pelas pesquisas a respeito. o envelhecimento precoce. O risco confirmado pelos acidentes. Uma oficina ficou assim denominda de "oficina da sarna". constatamos inevitavelmente a extensão das preocupações relativas à saúde física. Os sinais diretos do medo Na indústria química.

(N. as pressões. entretanto. o momento em que é pronunciada e o tom no qual se expressa. Ora.. são as condições de trabalho que são acusadas: os vapores.. nunca se faz menção das repercussões do perigo real a nível mental. Além de ser um coeficiente de * Astreinte — significa limitação. O medo relativo ao risco pode ficar sensivelmente amplificado pelo desconhecimento dos limites deste risco ou pela ignorância dos métodos de prevenção eficazes. quando esperaríamos encontrar basicamente reclamações que dizem respeito à saúde mental. Os riscos relativos à integridade física têm ainda uma grande importância.em resumo: as condições/ís/cas e químicas de trabalho. Mencionam-se igualmente fraturas. Mesmo sendo incontestável tal realidade. é necessário acrescentar os riscos de acidente. queimaduras. esta palavra é uma palavra carregada de ansiedade. Aos prejuízos físicos. É possível ter concentrações importantes de vapores tóxicos. sujeição no sentido mais amplo. assim como seus efeitos que se fazem sentir sobretudo a nível da vida mental. as temperaturas. Acontece também de o tempo de começar uma reação já ser suficiente para se ter vapores acumulando-se em toda a oficina. ao contrário. e mesmo em algumas fábricas são claramente majoritárias as questões relativas à saúde física. Se a relação corpo-condições de trabalho muitas vezes é estudada corretamente. os vapores e poeiras. A limpeza dos refratários é perigosa: é preciso entrar nas caldeiras ou fornos para se descascar as paredes com um martelo.Poderíamos citar ainda as condições de temperatura. negligenciamos em geral a própria palavra. de explosão ou de incêndio. frio ou calor contínuos.) 66 . é muito comum se colocar a ênfase analítica no que está mais imediatamente expresso. corpos estranhos nos olhos etc. A propósito deste discurso trabalhador sobre a saúde física. T Saúde física e condições de trabalho: estas são claramente apontadas pelos trabalhadores como fonte de perigo para o corpo. faz parte do desgaste do organismo (astreinte)*. de que as condições de trabalho são prejudiciais para o corpo. o ruído.doT. da carga (de trabalho) psíquica inerente ao trabalho perigoso que. antes de tudo. os gases tóxicos. estreitamento. o ruído a 80-90 decibéis de algumas oficinas. ou seja. até mesmo no posto de controle: "muitas vezes a gente começa e já temos vapores quase até a cintura".

manifestam durante uma discussão. com "os nervos à flor de pele" etc. é a ansiedade. é claro. banhadas por uma atmosfera poluida de cheiros horríveis e sufocantes! Risco real. Aliás. justamente — mais do que constituir uma verdadeira proteção. Qualquer que seja sua amplitude. cuspindo fogo e vapores. por exemplo. a ignorância aumenta também o custo mental ou psíquico do trabalho. O próprio aspecto exterior da fábrica não é indiferente para os trabalhadores. a questão principal evocada espontaneamente. tudo lembra a possibilidade de ocorrência de um acidente ou incidente: cartazes. ou como os trabalhos de certos especialistas (6 bis) instigam a considerar a questão: isto é. mas freqüentemente cobertas de poeira). em relação à qual se estrutura tudo o que diz respeito ao sofrimento mental dos trabalhadores. pois o risco real existe em todo lugar. "Medo" e "tensão nervosa" No discurso de trabalhadores da indústria petroquímica. destinadas principalmente a estimular a atenção — provocando medo. Mas ao lado deste medo "diretamente determinado".multiplicação do medo. os efeitos da vigilância. mesmo se esta carga existe e contribui parcialmente para o sofrimento sentido. isto não seria suficiente. existem outros componentes do medo que vamos estudar a seguir. máscaras. mas não quantificável Sobre que bases podemos afirmar que tal empresa apresenta mais riscos do que outra? Sobre seu número de feridos? Sem dúvida. ele gera um estado de medo quase permanente que todos os trabalhadores. No discurso trabalhador em indústrias químicas. alarmes sonoros e visuais. sem exceção. e não como se poderia pensar. luvas (ao alcance das mãos. sinais luminosos. que compreende. em noites. mergulhadas no barulho das máquinas e iluminadas sombriamente por luzes que dão às formas do prédio e das chaminés uma silhueta estranha. É por aí. presença de capacetes. Imaginemos estas fábricas que se estendem por muitos quilômetros. Na empresa. isto pouco importa. fala-se da ansiedade justamente quando se fala da "tensão nervosa". pelos efeitos da "carga psicos-sensorial". pois um só acidente é susceptível de desorganizar a hierarquia estatística. de ficar uma pilha". 67 . da memorização etc. da tensão de concentração.

a todos os riscos que não são controlados pela prevenção coletiva." Todas estas representações da fábrica no discurso operário enfatizam os seguintes pontos: — A ignorância dolorosa em que se encontram os trabalhadores do que se produz efetivamente nas "reações químicas". ao nível psicológico. pois sem esforço aparente os operadores continuam a identificar os ruídos específicos de certos alarmes).Na realidade. sobretudo. pelo consumo de medicamentos psi-cotrópicos pela maioria do pessoal trabalhando numa fábrica: ansiolíticos durante o dia. mesmo durante as atividades onde a carga de trabalho é pouco elevada (mas nunca eliminada. Sobretudo. estão pouco ocupados por suas atribuições e longe de serem sobrecarregados. — O sentimento penoso de que a fábrica é susceptível de. é primeiramente a ansiedade que domina.'' I "A fábrica é como um animal enorme que a gente. Raramente constaia-se um estado de sofrimento resultante de uma sobrecarga de trabalho ou de uma carga psicossensório-motora muito elevada. fazerem palavras cruzadas etc. estas representações mostram a extensão do medo que responde. até durante o tempo que passam no posto de trabalho. soníferos à noite e psicoestimulantes pela manhã. definitivamente. e que pode a qualquer momento ficar furioso e destruir tudo o que está construído à sua volta. sem saber o que se passa no interior de seu corpo. Há tempo suficiente para discutirem entre si. — A convicção de que a fábrica oculta uma violência própria. Uma prova a mais da intensidade deste medo é fornecida pelos problemas de sono e. escapar ao controle dos operadores. Ao contrário. mesmo quando não estamos trabalhando. explosiva e mortal. "Enquanto estamos na fábrica. nunca ficamos descontraídos. a qualquer momento. sei» saber em que momento ele pode entrar em erupção.1 "Todo mundo sabe que trabalhamos sobre um barril de pólvora™ "A fábrica é um vulcão em cujas encostas nós batalhamos." "Medo"e "representação" . os trabalhadores jamais abandonam a "tensão nervosa". bem ou malt faz andar. 68 . no discurso dos trabalhadores. muito freqüentemente — e este não é o aspecto menos paradoxal das pesquisas — 05 trabalhadores não hesitam em esclarecer que. organizarem jogos. Entretanto.

como acontece muitas vezes. dorsalgia. no conjunto geral dos acidentes mortais. tendência ao individualismo etc. mas também de temeridade. São bem conhecidas as atitudes com relação ao risco de acidentes. Na verdade. lombalgia e ciáticas. Os sinais indiretos do medo: a ideologia ocupacional defensiva Mesmo existindo nas indústrias químicas uma ideologia defensiva específica. de algum modo. valores ligados a sinais exteriores de virilidade. Aliás. de incons-ciência diante da realidade. rivalidade. utilizando os ossinhos móveis que são as vértebras e ocasionando assim "mal jeito nas costas". tomaremos o caso da construção civil para ilustrar a questão da ideologia defensiva contra o medo. como também a recusa de certas regras de segurança. os trabalhadores con69 . disto são testemunhas os numerosos acidentes mortais ou com invalidez que. os da construção civil perfazem a metade. que são os músculos mais poderosos do corpo. a ignorância e a inconsciência em relação ao risco são apenas uma fachada. Depois que o momento de desafio já passou. Entretanto. nossas pesquisas mostraram que esta fachada pode desmanchar-se e deixar emergir uma ansiedade imprevista e dramática. Este fato levou alguns autores a dizerem que a "psicologia dos operários da construção civil" caracterizava-se por um gosto pronunciado pelo perigo e pela performance física através de traços caracteriais dominados pelo orgulho. Nesta categoria profissional. até mesmo encontrando nisto um certo prazer. segurar a carga no chão e levantar-se utilizando os quadríceps. os conselhos relativos ao levantamento manual de carga: ajoelhar-se. É como se os trabalhadores da construção civil não estivessem conscientes dos riscos a que se submetem. Esta atitude de desprezo pelo risco não pode ser tomada ao pé da letra. ou seja. Tais conselhos suscitam freqüentemente respostas do trabalhador do tipo "não sou uma mocinha e não vou fazer como você diz". é preferível a inclinar-se o tronco e aprumar-se acionando a musculatura dorsal mais frágil. O que foi acima descrito corresponde a uma certa realidade. existe um insólito conhecido por resistência dos trabalhadores às normas de segurança. ausência de disciplina. Por exemplo. os mais ignorantes sobre os riscos que eles próprios enfrentam. os perigos têm um peso real e uma importância que é inútil sublinhar. até mesmo respostas de desprezo são freqüentes. bravura.2. O desprezo. Não podemos admitir sem questionar que os operários da construção civil sejam.

pelos mecanismos de defesa. A vivência do medo existe efetivamente. no mínimo. Assim que tais revelações aparecem. os trabalhadores é que o conhecem e vivenciam no dia-a-dia. na realidade. A primeira característica desta fachada — a pseudoinconsciência do perigo — resulta. afirmamos que se o medo não fosse assim neutralizado. Evocam também as famílias dos feridos. este sistema necessita de 70 . para funcionar. mas ao fazê-lo. pois encontra-se contida. se pudesse aparecer a qualquer momento durante o trabalho. não o inverso. Mas esta estratégia não é suficiente. obrigaria o trabalhador a tomar tantas precauções individuais que ele se tornaria ineficaz do ponto de vista da produtividade.-segunda especificidade é seu caráter coletivo. de certo modo. Este sistema defensivo é partilhado por todas as categorias profissionais da construção civil. Para outras pessoas. impotências funcionais diversas — bem conhecidas dos médicos clínicos e médicos do trabalho (84). em matéria de interpretação de psico-patologia do trabalho. A. A consciência aguda do risco de acidente. Criar uma situação ou agravá-la é. domina Ia. tudo se passa se fossem eles que criassem cada risco. As atitudes de negação e de desprezo pelo perigo são uma simples inversão da afirmação relativa ao risco. Não discutiremos aqui sua justificativa do ponu> de vista da finalidade destes mecanismos. mas só raramente aparece à superfície. mesmo sem maiores envolvimentos emocionais. Este estratagema tem um valor simbólico que afirma a iniciativa e o domínio dos trabalhadores sobre o perigo. Conjurar o risco exige sacrifícios e provas das mais absolutas. neste caso os trabalhadores não poderiam continuar suas tarefas por muito tempo mais. independentemente de suas vontades. de um sistema defensivo destinado a controlar o medo. Estes são absolutamente necessários. não deixam dúvida alguma pelo tom da expressão e da emoção. E o risco? Melhor que os outros. É por isto que os trabalhadores as vezes acrescentam ao risco do trabalho o risco das performances pessoais e de verdadeiros concursos de habilidade e de bravura. Mas mesmo fora da situação de trabalho o medo só aparece camuflado: é a ladainha dos sintomas medicalizados da ansiedade sob forma de vertigens. este caso é freqüente: o medo é uma causa importante da "inadaptação profissional" na construção civil. Aliás. Na verdade. Apesar do risco de crítica. e não mais o perigo que se abate sobre todos. cefaléias. e não existe sempre sem motivos. a avaliação correta do risco impediria completamente o trabalho na construção civil. Nestes testes rivalizam entre si. Falam dos amigos mortos ou feridos no trabalho.tam os acidentes a que assistiram ou dos quais foram vitimas.

tem igualmente um valor no que concerne aos trabalhadores que não participam do trabalho. Ninguém deve demonstrá-lo. armado da ideologia defensiva. Do mesmo modo." Talvez seja correto. risco. E estas instruções implícitas são respeitadas. Exagerou. Ninguém pode ter medo. será obrigado a parar de trabalhar. nem do medo. Além disso. Nunca se deve falar de perigo. pois mais carregadas de ansiedade. acidente. E que se possa avaliar o que trazem estes sacrifícios: "Se ele morreu é porque queria. a recusa e as resistências encontradas na construção civil não são feitas de uma suposta inconsciência ou imaturidade. procurou isto. Ninguém pode ficar à margem deste código profissional. elimina aquele que não 71 . A eficácia simbólica da estratégia defensiva somente é assegurada pela participação de todos. ou seja. mas isto permite sobretudo que os outros pensem que não querer é suficiente para não ser vítima. a ideologia defensiva tem um valor funcional em relação à produtividade. Obrigar a que as coloquem é. Ninguém pode recusar sua contribuição individual para o sistema de defesa. Na verdade. de uma verdadeira "ideologia defensiva" característica da profissão. se um trabalhador não conseguiu incorporar a ideologia defensiva de sua profissão por conta própria. Os trabalhadores nâo gostam de ser lembrados do que tão penosamente procuram exconjurar. tornar-lhes as tarefas ainda mais difíceis. Seu grupo profissional. É exato que certos acidentes resultam destas condutas perigosas e destas competições desafiando o risco. se não consegue superar a própria apreensão. é por este motivo que este sistema chega a ser uma tradição da profissão.encontrar sua confirmação. Esta ideologia necessita seus sacrifícios e seus mártires. Vemos que o sistema de defesa requer uma grande coesão e uma solidez a toda prova. Designamos com isto o que poderíamos chamar de exploração da ansiedade. antes de tudo. Sem dúvida. relembrar-lhes que o perigo existe mesmo e. A exploração do sofrimento mental e dos mecanismos de defesa que são colocados em prática para lutar contra este sofrimento serão tema de um capítulo posterior. de uma conduta deliberada visando a suportar justamente um risco que não seria completamente atenuado por medidas de segurança ridículas em relação à importância do risco. uma fórmula altamente capaz para se acalmar o medo. ao mesmo tempo. sim. Esta é uma das i azoes pelas quais as campanhas de segurança encontram tanta resistência. Os trabalhadores" bem sabem que as rédeas da segurança não evitarão todos os acidentes. Se a ideologia defensiva da profissão tem um valor funcional para os trabalhadores de um canteiro de obras. mas.

Antes de retornar ao trabalho. são submetidos ao teste da ideologia-defesa. a aparente "inconsciência" dos trabalhadores muda de significada. harmoniza-se com a sede provocada pelo esforço físico. O papel do vinho e do álcool articula-se com esta ideologia. não é raro que sejam submetidos a um verdadeiro teste: São "gozados" durante as refeições com respeito à própria virilidade. Desta maneira. O grupo não somente efetua uma verdadeira seleção que garante o valor operacional de cada trabalhador que está no canteiro de obras mas. Constitui-se. é a garantia da produtividade. a importância da ideologia-defesa na continuidade do trabalho. Além disto. Na realidade. A última característica da ideologia defensiva é a seguinte: para 72 . Se não renunciar a esta posição ousada em relação ao grupo. reencontramos assim sistemas defensivos que estão profundamente estruturados pela natureza do risco em questão. em alguns casos. que ajuda a enfrentar as condições de trabalho. recém-chegados a uma equipe. exigem-se certas proezas físicas. o que se mostrar mais frágil será objeto dos riscos dos outros. do mesmo modo que incorporarão os elementos constitutivos da defesa coletiva. deverão demitir-se. a aguardente. uma dose de álcool ajuda por seu valor simbólico e por sua atividade psicofarmacológica. Se não suportarem este ambiente de trabalho.. por outro lado. farão parte do grupo de modo integral. Em numerososas profissões. O vinho. será eliminado deste. são uma dose de energia nem tanto física mas psicológica. Se. o que acontece de tempos em tempos. estes sistemas possuem certa analogia. A ideologia defensiva é funcional a nível do grupo. Na verdade. assim. defende-se do medo reavivado ao nível individual e ao nível coletivo pelo discurso e comportamento do "medroso". mais cedo ou mais tarde. Após estes esclarecimentos. Se são aprovados. O papel psicológico emprestado ao vinho reencontra de maneira não fortuita a tradição e os hábitos de vida dos trabalhadores. de sua coesão.consegue suportar o risco. E o que poderíamos chamar de "enquadramento" dos jovens trabalhadores. pois constitui o preço que devem pagar para superar a carga de medo que pressupõe o trabalho. e é funcional também a nível do trabalho. de sua coragem. são observados. É o caso da indústria química. onde a ideologia defensiva é radicalmente diferente da ideologia defensiva na construção civil.. em outros casos são notoriamente diferentes e específicos por profissão. Um outro exemplo pode ser fornecido neste mesmo sentido.

sua elaboração é preciso a participação de um grupo trabalhador. isto é. por menor atenção que se lhes dê. participa do mesmo modo que a carga física do trabalho. onde há pouca comunicação entre os trabalhadores e onde a organização do trabalho é muito rigida. ao esgotamento progressivo e ao desgaste dos trabalhadores. não apenas uma comunidade que trabalhe num mesmo local. 3. ao contrário do que observamos nas profissões onde o trabalho se faz em grupo. do ritmo. o resultado obtido é sempre colocado em xeque pelo aumento da cadência imposta que surgirá um dia ou outro. há pouco espaço para a elaboração de ideologias defensivas (Vide Capitulo 1). Entretanto. esta ansiedade permeia todos os textos escritos por trabalhadores e todas as suas falas espontâneas. mesmo quando um certo hábito foi incorporado. pois há pouca ou nenhuma formação para as tarefas desqualificadas. ou seja. mas com um trabalho que exija uma divisão de tarefas entre os membros de uma equipe. A ansiedade responde então aos ritmo de trabalho. aos prêmios. ao salário. ao preço de esforços e de ansiedade ao longo do tempo e da experiência de trabalho. Mesmo quando este jeito habilidoso já foi adquirido. Esta ansiedade aparece especialmente em trabalhadores que começam num novo posto. para "quebrar um galho" onde faltam trabalhadores por licen-ça-saúde ou acidente. O medo em tarefas submetidas a ritmos de trabalho Os especialistas do homem em situação de trabalho nunca sequer mencionaram a ansiedade dos trabalhadores em linha de montagem ou na produção por peças. No caso do trabalho parcelado e repetitivo. através destes aspectos. da cadência e das cotas de produção a serem respeitadas. de produção. naquele caso não há senão possibilidades mínimas de produzirem II 73 . à velocidade e. Esta ansiedade de que raramente se fala. Com a diferença de que. ou em razão das súbitas mudanças de posto de trabalho impostas pela hierarquia. Entretanto. estas exigem um jeito e uma habilidade que são conquistas de um aprendizado (56 bis). do que do rendimento exigido. A situação de trabalho por produção é completamente impregnada pelo risco de não acompanhar o ritmo imposto e de "perder o trem". às bonificações. De onde provém esta ansiedade? Provém muito menos das condições fisicoquímicas do trabalho.

Mas. o grupo de trabalhadores venceu o ritmo. como o carvão que asfixia os pulmões do mineiro com silicose. este medo é parte integrante da carga de trabalho. Justificada pelos fatos. O essencial da ansiedade deverá então ser assumido individualmente. usada ou intoxicada. em relação à psicopatologia do trabalho. químicas e biológicas de seu trabalho. sobretudo. que a longevidade da categoria é de dez a quinze anos inferior à dos professores primários (54). Compreendemos. Já contamos anteriormente um exemplo. os trabalhadores falam sem disfarces dos riscos à sua integridade física que estão implicados nas condições físicas. A única defesa coletiva que pudemos observar é a chamada "reestruturação coletiva da linha de montagem''. não está usufruindo sozinho pois todos aproveitam. então. espantar-nos que. Prática e concretamente. A grande maioria tem a impressão de ser consumida interiormente. assim que tiverem adquirido um certo hábito e rendimentos de controle de seu posto de trabalho. participando também desta brincadeira simbólica de grande valor significativo. Robert Li-nhart conta como um grupo de trabalhadores conseguiu organizar-se e dividir as tarefas de tal maneira que um deles. que a ansiedade da luta ininterrupta contra os tempos impostos conduza o trabalhador. corroída. Este medo patente é expresso desta maneira direta pela maioria dos trabalhadores das indústrias. tanto em relação à vitória sobre a hierarquia como em relação à solidariedade que une os trabalhadores neste instante. tenha-se passado ao largo deste medo massivo. as velocidades e os tempos impostos. O medo. de modo a não perder tais vantagens através de uma troca de posto. 74 . seja proveniente de ritmos de trabalho ou de riscos originários das más condições de trabalho.defesas coletivas. em rodízio. não é grande coisa parar de trabalhar alguns minutos numa jornada de trabalho de dez horas diárias. Quando um deles pára. Podemos. simbolicamente. degradada. podia sempre parar de trabalhar durante alguns minutos. destrói a saúde mental dos trabalhadores de modo progressivo e inelutável. Em L'Eíabli (63). a agarrarem-se a este. Sabem que apresentam um nível de morbidade superior ao resto da população e. É o que alguns psicólogos chamam de "resistência à mudança"! (92) Ao lado do medo dos ritmos de trabalho. nestas condições. desmanchada.

O chefe da equipe e o contramestre utilizam freqüentemente repreensões e favoritismos para dividir os trabalhadores. sempre que o trabalho não é organizado de maneira taylorista. acrescenta-se então a ansiedade resultante do que chamaríamos de "cara feia do chefe". nos bancos. sobretudo sobre promoções. como veremos a seguir. A ansiedade e as "relações de trabalho " Entendemos por "relação do trabalho" todos os laços humanos criados pela organização do trabalho: relações com a hierarquia.4. às cotas de produção. são habilmente mantidas. a revolta e a agressividade reativas. As mulheres são as principais vítimas deste sistema de . à produtividade. A desigualdade na divisão do trabalho (100) ê uma arma terrível de que se servem os chefes a bel-prazer da própria agressividade. É uma ansiedade superposta na medida em que a supervisão tem por encargo especificico manter esta ansiedade com relação ao rendimento de cada trabalhador. Ela faz parte integrante das táticas de comando. podemos obsemfTTma técnica-espeçífica de Y comando. até insuportáveis. aos prêmios e bonificações. com os outros trabalhadores — e que são. do atraso autorizado ou punido etc. nas grandes administrações. Falsas esperanças. de maneira que à ansiedade relativa à produtividade. mais particularmente de(técnicas de discriminação\A avaliação do chefe influencia os p^nt^^r-*^ sâo r1f"Vs para-^s rálmin do salário. com as chefias. se bem que possamos presumir sua importância na relação saúde/trabalho. Não podemos considerar como epifenômeno ou como questão acessória a discriminação que opera a hierarquia com relação aos trabalhadores. Nos serviços de contabilidade. nos serviços. É preciso fazer uma observação particular no que diz respeito às táticas de lideranças empresariais. mesmo que não seja explicitamente incluída no papel da hierarquia. No caso de indústrias onde o trabalho é submetido a um ritmo imposto. A situação mais exemplar a este respeito é a do setor terciário e dos funcionários de escritórios. com a supervisão.às vezes desagradáveis. de avaliação de tarefas. podemos considerar que as relações hierarquias são fonte de uma ansiedade que se superpõe àquela que mencionamos com relação ao ritmo. Mas a frustração. hostilidade ou perversidade. muitas vezes não conseguem encontrar uma saída. Conhecemos muito mal os efeitos da repressão desta agressividade sobre o funcionamento mental dos trabalhadores.-* 75 . Temos o hábito de apresentar estas relações de trabalho em termos políticos ou em termos de poder. de rendimento.

a permanência do controle deve ser relembrada_j3gx_outrps meios: assim. onde todos os trabalhadores estão ligados à mesma cadência pela velocidade da própria linha de montagem. assim. Assim. E não somente as informações assim obtidas são depois utilizadas como meio de pressão. No trabalho de escritório não se consegue efetivar o controle mediado pelo cronômetro da fábrica. No escritório da chefia as ameaças são substituídas por uma mudança de atitude. acaba extor-quindo dos colegas maí-intencionados. os chefes freqüentemente recorrem a uma convocação individual dos empregados. criar suspeitas. cujo debate se desloca para questões pessoais. com o poder que lhe é conferido por sua posição hierárquica. ativando ou reativando os conflitos e as rivalidades entre empregados. Fica assim escamoteada a questão do trabalho. A partir do momento que existem tais rivalidades. a rivalidade e a discriminação ass^^ramjanLgrande poder à supervisão^ O chefe tenta também que os empregados falem de seus colegas. Nesta mesma perspectiva. a direção e os chefes de seção procuram meticulosamente as causas das licenças de trabalho e a natureza dos tratamentos seguidos. è muito mais a regra nos serviços de escritório. mas às vezes também são tornadas públicas. Os tempos e os ritmos de trabalho são aí mais difíceis de se fazer respeitar que numa linha de montagem. Encoraja-se o funcionário a falar de suas dificuldades familiares e materiais. Então. Constitui-se então todo um sistema de relações de suspeita e de espionagem. as contradições passam a se dar então no plano horizontal. o que lhes permite. tornando difícil afuga ou_até _a não-participação ao sistema. Uma trama assim jelaborada é bastante densa e coerente. Podemos nos perguntar porque a manipulação psicológica tem esta extensão no setor terciário. a vergonha e a culpa são provocadas em qualquer ocasião. Esta atmosfera de trabalho tem como efeito principal envenenar as reiações entre os empregados. serviremse do segredo como alavanca de manipulação psicológica. nos serviços. Apenas considerar as exigências de posturas ou a carga psicossensória é um erro enorme. o chefe tem interesse de nelas participar. Fica assim deslocado o conflito do poder. benevolência e paternalismo.comando. À falta de inte-resse pelo trabalho soma-se a ansiedade resultante das relações humanasjrojundjimenté Trm^^ 76 J . _e_o_que não consegue obter diretamente do interessado. rivalidades e perversidade de uns para com os outros. De um conflito no sentido vertical. Em algumas administrações. Este clima psicológico não é nada excepcional. certas confidencias provocadas serão em seguida usadas para uma manipulação psicológica. uma vez mais.

No caso das profissões expostas a uma forte carga de medo. um espanhol. As diferentes formas de ansiedade Podemos agrupar esquematicamente os diferentes componentes da ansiedade em três itens: a) ansiedade relativa à degradação do funcionamento mental e do equilíbrio psicoafetivo: do que foi dito no parágrafo anterior podemos extrair dois tipos de ansiedade. e a própria rede relacionai que. depois um iugoslavo. de não limitar a investigação cientifica ás relações individuais ou coletivas com a organização do trabalho. um francês. um português etc. um turco. um italiano. pudemos constatar os efeitos acumulados da ideologia ocupa-cional defensiva. Trata-se. ou de sua implicação forçada nas relações de violência e de agressividade com a hierarquia. Em geral. Assim. Um exemplo caricatural desta desestruturação da linha de montagem é dado por certas fábricas automobilísticas da região parisiense. numa modificação das relações espontâneas que poderiam existir entre os empregados? No caso do trabalho taylorizado. fica dissolvida. na realidade.O exemplo do setor terciário é especialmente próprio à introdução de uma nova questão. ou seja. A partir da organização do trabalho e das exigências a que ela submete o funcionamento mental (insatisfação e ansiedade). de seu envenenamento pela discriminação e suspeita. A produção das relações afetivas no terciário e sua desestru-turação no trabalho em linha de montagem são também fonte suplementar de sofrimento. A primeira resulta da desestruturação das relações psico-afetivas espontâneas com os colegas de trabalho. a frustração e a ansiedade serão vivenciadas no isolamento e na solidão afetiva. eles têm consciência deste 77 . aumentando-as ainda mais. onde se constrói uma linha segundo a seqüência seguinte: um operário árabe. A desorganização dos investimentos afetivos provocada pela organização do trabalho pode colocar em perigo o equilíbrio mental dos trabalhadores. como por exemplo a construção civil. relativa às relações da vida mental e trabalho. não podemos buscar as repercussões nas relações interindividuais. de algum modo. 5. de modo a impedir toda e qualquer comunicação durante o trabalho.

aumento do índice de morbidade. como também para o espírito. das relações familiares. os trabalhadores continuam em seus postos de trabalho expondo seu equilíbrio e seu funcionamento mental à ameaça contida no trabalho. diminuição do período de vida. O segundo tipo de ansiedade diz respeito à desorganização do funcionamento mental. Às vezes. A necessidade de descarregar a agressividade provoca a contaminação das relações fora da fábrica. para enfrentar uma exigência ainda mais imperiosa: sobreviver. e em particular. É de natureza mental a ansiedade resultante das ameaças à integridade física. c) Ansiedade gerada pela "disciplina da fome": apesar do sofrimento mental que não pode mais passar ignorado. morte). Em todo caso. Ansiedade da morte. doenças "psicossomáticas". de regressão intelectual. é o sentimento de esclerose mental. Enfim. a disciplina da fome não faz parte direta78 . Dissemos anteriormente que nas . o recurso às bebidas alcoólicas é uma maneira de atenuar a tensão interna. em contrapartida está particularmente explícita no subproletariado (Vide Capítulo 1). A ansiedade é a seqüela psíquica do risco que a nocivi-dade das condições de trabalho impõe ao corpo. A partir dos efeitos específicos da organização do trabalho sobre a vida mental dos trabalhadores resulta uma ansiedade particular partilhada por uma grande parte da população trabalhadora. b) Ansiedade relativa à degradação do organismo: a segunda forma de ansiedade resulta do risco que paira sobre a saúde física. A esta ansiedade alguns autores deram o nome de "'disciplina da fome" (27). de despersonalização. As más condições de trabalho colocam o corpo em perigo de duas maneiras: risco de acidente de caráter súbito e de grave amplitude (queimaduras. o consumo dos psicotrópicos destinados a um melhor controle da agressividade e da tensão interna constitui um último recurso. condições de trabalho é o corpo que recebe o impacto. doenças profissionais ou de caráter profissional.risco. enquanto que na organização do trabalho o alvo é o funcionamento mental. de paralisia da imaginação. Precisamos acrescentar ainda que as más condições de trabalho não somente trazem prejuízos para o corpo. No capítulo sobre a insatisfação no trabalho dissemos que as exigências da tareía terminam numa auto-repressão do funcionamento mental individual e num esforço para manter os comportamentos condicionados. Mesmo se parcialmente oculta na classe operária. De certo modo. ferimentos. fraturas.

Havíamos esclarecido antes que a distinção entre estes dois aspectos da carga psiquica era arbitrária e adotada por necessidades didáticas.mente da relação homem-organizaçào do trabalho. estas condições de trabalho são origem de uma excepcional adequação homem-tarefa. citaremos um caso particular da relação homem-trabalho onde se acumula uma quantidade impressionante de prejuizos. Este resultado mental insólito no que diz respeito ao perigo resulta de relações complexas entre satisfação e ansiedade. sua condição. Veremos então que. acima de tudo. O capítulo seguinte destina-se a mostrar que a análise dos detalhes não deve superar a observação do conjunto. no lugar de suscitar uma ansiedade equivalente. Antes de retomar a insatisfação e a ansiedade para analisarmos seus efeitos sobre a saúde. mas é. 79 .

interessam-se voluntariamente pelas questões médicas 80 . para tornar possível a missão dos pilotos que sao apenas algumas dezenas. mais uma vez. a ideologia da profissão". Cada uma destas características §. a existência de um sistema defensivo específico. Para esta atitude psicológica poderiam dar-se várias explicações entre as quais encontraria lugar. como poderíamos mostrar. ^ma verdadeira necessidade para manter um moral feito de orgulha. que mostram ter um contato mais fácil. O piloto de caça não gosta de íalar de si com um estranho em termos pessoais. como veremos mais adiante. nem mesmo das razões que o levaram «* escolher tal profissão ou de seu trabalho. de insolência e de agressividade. Esta ideologia não é Kim efeito secundário do trabalho mas. indispensável para enfrentar as condições de trabalho. Em comparação com os pi fotos de transporte. aliás um corte ativamente apoiado p&ios próprios pilotos. destinada a evitar as discussões impor-mnas que poderiam questionar seu orgulho de "cavaleiros do céu".Um contra-exemplo: a aviação de caça Apresentação da situação Uma base de aviação de caça apresenta-se como uma imensa coletividade reunindo vánQs milharem de pessoas engajadas num trabalho comum como os operários de uma colméia. Aparece assim um corte entre o pessoal da navegação e o resto da coletividade.

que o equilíbrio psicológico realizado individualmente e em grupo (nas esquadrilhas) a respeito da vivência do trabalho è muito mais custoso e exige ser protegido de olhares indiscretos e sobretudo de qualquer conversa ou discussão que versassem sobre as questões de segurança e de acidente. leva até mesmo à surdez profissional: aeronaval). As vibrações de baixa freqüência. o capacete é bastante justo para não se soltar em caso de ejeção. e talvez seja conveniente respeitar este afastamento sem o qual uma conversa deslocada poderia traduzir-se. na pressão arterial. os pilotos de caça têm uma atitude verdadeiramente diferente. nos ligamentos suspensores das vísceras etc. as trepidações do aparelho são muito penosas e o capacete não é útil para Proteger a cabeça das batidas contra o vidro. deixa-lhe apenas o lugar para que se sente desconfortavelmente sobre um assento metálico (cuja rigidez é justificada por argumentos de segurança em relação à ejeção). o nariz e a boca são cobertos com uma máscara ligada por tubo às reservas de oxigênio do avião.e abrem-se com boa vontade sobre a natureza de seu trabalho e de suas condições. O espaço de que dispõe. Às vezes. O barulho é às vezes muito intenso (em certos aviões. As variações de temperatura assim como as mudanças de pressão. nas mãos luvas e mais luvas são indispensáveis para lutar contra o frio.lhe imobilizam o peito e as coxas. sobre a cabeça. As acelerações positivas ou negativas podem atingir 7g. reduzido ao mínimo. o que ocasiona desordens no sistema cardiovascular. Representemos um piloto de caça na sua cabine: sua situação não tem nada de invejável. As condições de trabalho Num avião de caça. As condições de ilumimÜ 81 . e até a desmaios. O grupo de pilotos de caça vive à margem para proteger seu modo de funcionamento. Amarrado por múltiplos cintos que. podem ser consideradas difíceis de suportar e podem expor o piloto a riscos de aeroembolismo. hiperbarismo. hipóxia. por acidentes durante os vôos seguintes. o trabalho exige que se empregue uma grande força física (para acionar o cabo que fica temivelmente rígido em certas posições do aparelho). sem media-tização.. encontra-se reunida uma quantidade impressionante de exigências relativas ao ambiente.. Parece que os pilotos de caça têm com seu trabalho uma relação muito mais tensa que os pilotos de transporte. ele quase não pode mexer-se.

os controles de alarme. físicas ou psíquicas emerge uma ansiedade que só tem equivalente na dimensão fora do comum dos riscos que comporta uma missão aérea. A menor falha neste mecanismo complexo pode. Se acrescentarmos a essa descrição o fato de que certos instrumentos de navegação. enfim. as telas do radar. em uma fração de segundo. apesar das náuseas. e sobretudo sofrem algumas variações de um aparelho a outro. Além disso. o que torna particularmente fastidiosa a leitura dos instrumentos de bordo. podemos nos perguntar por que ainda há gente para enfrentar tais condições de trabalho. Apesar das dores de ouvido. Há. das perturbações visuais (diminuição do campo visual. se o horizonte artificial desviar lentamente. qualquer um destes elementos pode levá-lo à morte. as informações visuais ou sonoras. Os argumentos de ordem material são de pouco peso se considerarmos que uma parte importante dos pilotos de caça è recrutada 82 . ele tem que vigiar o exterior e manter comunicação com os companheiros. e durante um mesmo vôo em função da altitude. Desta proximidade permanente com a morte. O funcionamento homem-máquina exige a perfeição. pode ser poluído por inalações de gases queimados. o piloto tem que conservar intactas toda sua vigilância e suas faculdades psicossensoriais para observar o painel. enfim. dos suores. a hora do vôo. visão negra. das perturbações da pressão arterial — portanto. Se o altímetro der uma indicação errada. de tiro ou de pilotagem nem sempre são precisos. se soubermos que os acidentes graves não são excepcionais. se aparecer um escapamento de óleo. das hiperssiaiorréias. vapores. riscos de explosão e de queimadura. o controle aéreo terrestre e isto em duas línguas (francês e inglês) segundo cada interlocutor. enquanto ofuscação e penumbra alternam-se. se estiver um pouco "tenso" em razão de algum acontecimento familiar. A justa apreciação destas enormes exigências de trabalho só é possível para aqueles que fizeram a experiência do aviào de caça. se sua vigilância for neutralizada por um segundo por causa de uma aceleração mal tolerada. diplopia).. O meio químico.nação mudam com a meteorologia. das cefaléias. apesar de todos esses prejuízos —. da interdição das falhas materiais. se o piloto sucumbir a urn instante de distração. se ele hesitar em um procedimento em caso de incidente. das dificuldades respiratórias nas grandes acelerações. ou gases tóxicos. significar a morte. apesar das perturbações neurovegetativas. das dores abdominais.. se ele se perturbar com uma ordem mal anunciada pelo chefe de patrulha. os sinais luminosos coloridos ou alternativos.

climatização. Podemos. Adaptação do trabalho ao homem As técnicas utilizadas para adaptar o trabalho ao homem não conhecem maiores realizações do que na aeronáutica. concepção do posto de trabalho. será preciso procurar em outra parte as explicações. automatização dos cálculos. Além do mais. um piloto custa caro. apontar três eixos principais em torno dos quais orientam-se os esforços de melhoria das relações homem-máquina. petróleo destinados à instrução etc. mas também se dedica inteiramente a favorecer o trabalho dos pilotos. duplicação dos instrumentos para servir à segurança. A operacionalização da aviação de caça depende das performances dos pilotos e da boa adaptação homem-máquina. pres-surização. Portanto. pela sua formação (avião. 83 . Foi bem antes da recente campanha de melhoria das condições de trabalho que foram feitos progressos consideráveis na insonorização. Posição original da relação saúde-organizaçâo do trabalho Diferentemente do que se observa na produção industrial ou na construção civil. apresentação racional dos instrumentos. constata-se que.) de maneira que sua própria vida é objeto de todas as atenções.entre os subof iciais cujo salário é quase igual ao de um empregado de escritório. iluminação. na organização do trabalho. divisão do trabalho entre os operadores etc. meios de telecomunicação. pilotos e comando concordam geralmente em melhorar a relação saúde-trabalho. base-escola. na aviação de caça. Eis porque a organização do trabalho preocupa-se não com o progresso técnico. Cada avião representa uma verdadeira fortuna e para assegurar o retorno à base é preciso que o piloto esteja "em boa saúde". que conduziram aos aviões de transporte que conhecemos e que não são "mais seguros ao que os ônibus".

As atitudes levianas. temerárias. Certamente seria mais prudente construir aparelhos bimotores. na ação. Eles efetivamente sabem fazê-lo. a desprezar a segurança. o que não é o casb numa indústria. ser rigoroso no incidente. na proeza.. mas isso custaria mais caro. voar em altitude mais baixa que a prevista. uma palavra vazia. utilizar a reserva de combustível. hierarquia e pilotos estão de acordo em melhorar a segurança. é seu destino radicalmente diferente daquele que observamos na construção civil.correr riscos inúteis. e é preciso prever a perda de aparelhos em caso de guerra. por exemplo. Fazer uma acrobacia a mais ou a menos. neste caso. limitação da segurança a nível dos homens. um esforço considerável é feito pela hierarquia para que os pilotos adquiram um verdadeiro domínio sobre o risco. no heroísmo. segurança demais leva à transformação da aeronáutica em uma vasta escola e não em um instrumento operacional.. no sucesso a qualquer preço. nós não somos motoristas de ônibus". aventureiras são proscritas e sancionadas. é preciso que os pilotos aprendam a repor em funcionamento seu único motor em caso de pane durante o vôo. etc. Toda melhoria das performances do avião ou de suas potencialidades permite ao piloto correr ainda riscos. mas também a nível dos aparelhos. na aviação de caça. A primeira característica da relação do homem com seu trabalho e da ansiedade ao risco. ou na petroquímica. Aqui. respeitar as regras de tiro não tem importância. não fazer nenhuma proeza. O fim prima sobre os meios. considerar profissionalismo e seriedade como as melhores qualidades. tudo é centrado na agressividade. O fim integra os meios. Só conta o resultado. organização do trabalho. e a aprendizagem não é. Na caça. "Aqui. pois este incidente muito freqüente acontece muitas vezes na carreira de um piloto de caça. 86 . O que é preciso é ser operacional. Por outro lado. pronto a correr todos os riscos. Logo. Aqui também a situação é diferente da que se observa na indústria. na coragem. Também numerosos são os que tiveram que se jogar em seguida de um desligamento do cotnpressor. Apesar da manutenção minuciosa de um risco residual. Portanto. isto é.

Os pilotos de caça pensam formar uma elite. Poucas profissões realizam uma tal unidade teórico-prática e poucas situações pedem tantas capacidades de um só sujeito. façanha e domínio da angústia são indissoluvelmente ligados e tiram seu valor um do outro. psicológicas e físicas. — Primeiramente. r O lugar excepcional da motivação Na profissão de piloto de caça. primeiramente. Admiração. miseravelmente reduzida ao seu estado terrestre. da aviação. como já sublinhamos. Elite no seio do exército. O interesse do trabalho: a tarefa do piloto de caça é efetivamente de uma complexidade incomum e necessita. e da caça.A questão da satisfação no trabalho-*Apesar da adaptação do trabalho ao homem e da adaptação do homem ao trabalho. cultivado. O eli-tismo é admitido. e os pilotos de caça têm um profundo desprezo por todo o resto da humanidade. a motivação é objeto de uma atenção exemplar da parte da hierarquia. elite em relação à nação e admirada por todo mundo: heróis. incidentes e acidentes não são excepcionais. a perfeita associação de todas às qualidades intelectuais. pois a aeronáutica é mais respeitada que a marinha. Ele é procedente de várias origens: A ideologia dos caçadores: o piloto de caça toma para si os objetivos do exército. os riscos permanecem grandes. eles representam o ideal de potência total que encontramos em todas as crianças e que está adormecido em muitos adultos. onde entre os critérios de escolha de candidato. simultaneamente. orgulho. as condições de trabalho continuam sendo de uma dureza excepcional. O jogo da satisfação no trabalho permite eliminar este desvio. É entre eles que se recruta o estado-maior da aeronáutica. dá-se importância especial aos jogos de infância: 87 . e a marinha mais que o exército. a nível da seleção. pois eles são os "cavaleiros do céu". A admiração de que eles são objeto e o orgulho inigualável em relação às outras profissões são precisamente fundados na confrontação com este perigo exemplar da profissão. Enfim. em seguida. eles encaram a síntese da coragem individual e da competência técnica. A valorização do corpo e do espírito pela situação de trabalho é exemplar da síntese trabalho intelectual-trabalho manual. Elite da aeronáutica.

se ele não tiver mais vontade de voar. — Em seguida. a qualificação requerida. não ocupam uma posição de mesmo nível na dinâmica psicopatológica. à procura de missões perigosas. Se seu desejo abater-se durante alguns dias ou algumas semanas. particularmente. j A estrutura mental dos pilotos de caça A propósito deste exemplo é fácil observar-se a dificuldade em distinguir na insatisfação no trabalho o que é proveniente do conteúdo significativo e o que é proveniente do conteúdo ergonômico do trabalho. Em outras palavras. é preciso estar motivado a todo instante sem o que o afron-tamento com o perigo corre o risco de terminar em catástrofe. tudo isto sob o titulo de "dinamismo". basta que ele não queira trabalhar para ser automaticamente dispensado. — Enfim. A importância acordada neste trabalho à motivação modifica. a desqualificação não tardará. à "agres. os efeitos do medo ocasionados pela organização do trabalho são sujeitos ao multiplicador ou ao divisor que depende da satisfação do trabalho. Este exemplo ao contrário mostra que os dois sofrimentos principais provenientes da relação homemorganização do trabalho. o lugar ocupado pela motivação.. o aperfeiçoamento permanente. A aviação de caça mostra que um medo de uma intensidade considerável pode ser perfeitamente tolerada contanto que ela seja contrabalanceada pelo jogo do sistema motivação-satisfação. a complexidade da tarefa. o exercício simultâneo de todas as potencialidades físicas. isto» é. nesta profissão. Pois. Dada a diversidade das exigências da tarefa. histórias de piloto. e a quantidade de aptidões e de qualidades psicomo88 . psicossensoriais e intelectuais coloca a aviação de caça numa oposição em relação ao que descrevemos na indústria e.! Hesitação. radicalmente os dados relativos à psicopatologia do trabalho en|| relação ao que se observa na classe operária. experiência em aeroclubes etc.. A diversidade do trabalho. gosto pela mecânica. a livre escolha da tarefa. desânimo.gosto pelo aeromodelismo. durante toda a vida do piloto de caça. sividade" do aluno piloto. de um lado o medo e do owtro a insatisfação. durante toda a formação. nas tarefas repetitivas. a hierarquia concede um valor ao desejo de voar. prevenidos e levados em consideração. leitura de aventuras. queda de motivação são minuciosamente observados. a multiplicidade dos prejuízos.

as motivações do piloto de caça? O desejo de voar condensa as aspirações de superpotência. é suspenso. é fácil constatar que não se pode impor estas. e o prazer que delas provém. ele indubitavelmente procura ser par em seus colegas. a exemplo do que se passa nos outros ramos de atividade. Nós dissemos que o medo relativo ao risco que supõe uma tarefa pode ser modulado de alguma maneira pela relação com a satisfação. só podem contribuir se existir de antemão um engajamento fundado sobre o prazer oriundo da relação com o conteúdo significativo da tarefa. Este comportamento é evidente nas esquadras. 89 . de ultrapassagem e de libertação em relação aos limites do homem: livrar-se do peso. Tomado por seu narci-sismo. Voar sozinho é o supremo prazer em que o piloto deixa-se levar pelo gozo narcísico. Em alguns instantes privilegiados. de vitória e de exaltação. assim. O desejo de receber uma confirmação narcísica de seus semelhantes leva o sujeito a exibir-se na frente deles. Quais são. é uma verdadeira reconciliação entre o eu adulto e as aspirações arcaicas de ideal (ideal do ego). e só é capaz de identificação e de amor por objetos que possam ocupar um lugar estimado por seu ideal do ego. fogoso geralmente. à esquadra. o ideal do eu fica sendo o principal motor da atividade profissional: se ele for capaz de desprezar o perigo que enfrenta quotidianamente é porque o piloto de caça é levado por aspirações essencialmente viradas para a auto-superação. Dados os riscos materiais e estratégias. A aplicação das aptidões físicas e psicossensoriais.toras e psicossensoriais requeridas. não tanto psíquicas quanto materiais. é fácil constatai que este trabalho só pode convir a um número limitado de indivíduos. é uma das características do piloto de caça. O piloto de caça aspira libertar-se das amarras. Entre os dois componentes da satisfação no trabalho (em relação ao conteúdo ergonômico e ao conteúdo significativo). tarefas a qualquer trabalhador. existe igualmente uma relação hierárquica. fonte de um sentimento de bem-estar. o aluno-piloto. Após vários fracassos em vôo. O ideal do ego representa ainda um outro papel na vida do piloto de caça: o fato de pertencer ao grupo de pilotos. Durante a formação. A homossexualidade latente. Eis porque devemos insistir um pouco mais detalhadamente no jogo significativo e no prazer da missão do piloto de caça. das limitações de distância e de velocidade. Voar sozinho é uma situação muito estimada pelo pilotos de caça. Voar quer dizer libertar-se das leis da física. Em seguida. portanto. encontramos às vezes alunos que não conseguem conciliar seu ideal com a realidade. o que se opõe à divisão do trabalho presente nas equipes de vários homens dos aviões de transporte. ao esquadrão.

Mas as relações conjugais nunca abalam o investimento libidinoso principal. Seja um combate aéreo ou a morte infligida ao adversário. Outra característica. a formação militar ocupa um lugar importante. isto é. a profissão de piloto de caça exige simultaneamente um bom controle da realidade e sérias raízes no campo do conhecimento e da disciplina científica e técnica. eles estabelecem com elas relações onde elas devem testemunhar aos olhos de todos sua virilidade e sua potência. importância do nar-cisismo relativa às relações objetais. Este ponto é essencial: a formação no solo relativamente longa e repetitiva continua durante toda a carreira. A agressividade. estoura um conflito entre a vida profissional e o engajamento familiar que termina muitas vezes na angústia durante uma missão e. caso contrário. pouco a pouco. ao mesmo tempo em que nasce uma sintomatologia de tipo depressivo. Parece que todas estas disciplinas são ensinadas no solo num ambiente muito hierarquizado e muito militarizado. Nestes casos. nâo traz nenhuma culpa. o que domina não é tanto a culpa mas a perda de confiança em si. Pode-se perceber a potência do ideal do ego nos pilotos de caça. Esta observação faz pensar que a moderação necessária das aspirações do ideal do ego é assegurada pelo reforço exterior (a ordem militar) das necessidades da realidade. nunca se vê um único traço de remorso. num questionamento da atividade de trabalho.onde o exibicionismo não se atem às qualidades profissionais. comparativa e exibicionista do que realizada na prática. a transgressão permanente que o trabalho supõe. interrupção do desenvolvimento mental no meio do caminho entre o estágio fálico e o estágio genital. da disciplina e das proibições. é uma exigência fundamental da profissão. Assim. Ao lado da formação técnica. ela está estreitamente ligada à vida militar. que se encontra no trabalho. ela só encontra uns poucos obstáculos e. representativas. em uma outra situação: freqüentemente casados com mulheres bonitas. atraentes. muito valorizada. ela leva inevitavelmente à incapacidade psíquica de voar. narcísico. Entretanto. homossexualidade mais contemplativa. do superego. a profissão de piloto de caça parece ligada a uma fixação a um estágio pré-edipiano e prégenital do desenvolvimento da personalidade. O conflito mais característico opõe o ego ao ideal do ego e a angústia que 90 . mas chega também à pessoa física e ao vestuário. hipertrofia do ideal do ego em detrimento do superego. Quando um investimento mais importante aparece na vida familiar. a desvalorização narcísica. As características da personalidade dos pilotos de caça podem se enunciar assim: imaturidade. também de maneira demonstrativa.

e é neste combate. Estas constatações conduzem naturalmente a uma pergunta: como se consegue recrutar indivíduos que apresentem ao mesmo tempo aptidões em qualidade e em quantidade excepcionais e.. no entusiasmo ou na agressividade podem imediatamente comprometer a qualidade da performance. mas. ele estima. a tal ponto que sua vida profissional aparece como uma resposta. na verdade é a ele mesmo que está desafiando. ela é uma saída para o conflito narcísico que opõe o piloto à sua imagem. então. a de ser limitado. no espaço do narcisismo. de algum modo. Estas personalidades sâo do tipo das que foram descritas por Kohut (55). simultaneamente. No piloto de caça. portanto. que ele ultrapassa sua angústia. de suas escolhas. desafiar a natureza. sua situação de piloto solitário. de ser levado a investir seus desejos em outra pessoa que não ele mesmo. A vida profissional é uma resposta grandiosa para esta desmesurada angústia. a própria motivação do vôo. o acidente. uma espécie de exutório para sua angústia fundamental. um sistema de motivação não insólito? 91 . Ao contrário. com efeito. o que significa.a concluir que a "angústia dos limites" não é apenas reativada pelo vôo. Somos levados. e sobretudo no sucesso. Repetidas pesquisas mostram. Esta descrição da personalidade do piloto de caça é menos caricatural do que poderíamos pensar. antes de tudo. neste caso. A angústia fundamental cio piloto de caça seria. Enfrentar a adversidade.disso resulta situa-se. de ser comparável ao comum dos mortais. de ser obrigado à modéstia. num avião monoplano. Assim. que todos os pilotos de caça operacionais apresentam características psicológicas verdadeiramente padronizadas. Quando ele desafia a natureza. acima de tudo. de dever reconhecer a existência do outro e de suas diferenças. de sua orientação. projetar-se numa situação de risco não representa para a personalidade do piloto a mesma performance que para um neurótico médio. mutação ou acidente. esta "angústia dos limites" está no centro da vida mental. desafiar os elementos. e de não ser suficiente para si-mesmo. insustentável e monstruosa. o perigo. Isso se compreende se levarmos em conta o fato de que a menor queda da motivação. Qualquer variação em relação a este modelo leva cedo ou tarde a uma desquali-ficação. situação que para todas as outras estruturas de personalidade pareceria temível.

ela resulta do jogo oculto das relações que acompanham a progressão do aluno desde os testes de entrada até a qualificação de piloto operacional. os excluídos e os fracassados da progressão e da adaptação não serão mais os mesmos. o funcionamento da corrente seletiva é superdeterminado pelas condições de trabalho. E durante a formação que se faz a orientação nas diferentes carreiras em função das características da personalidade de cada piloto. assim como o número de missões e seu conteúdo. as competências físicas.vias já descritas de seu narcisismo e de sua capacidade identifícatória. a relação monitor-aluno na parte prática da formação aeronáutica. nervosas. apesar de ser dependente das características próprias do mestre ou do monitor. não é menos eficaz. esquadra). a adesão do jovem piloto não apenas às condições de trabalho propriamente ditas. os monitores vindos das esquadras mudarão. Em última instância. isto é. Apesar de não ser objetiva. entretanto. feita sem coerência. Se amanhã os Mirage III forem modificados. A adaptação representa. mas lambem da sua representatividade psicçlógica em relação às qualidades psíquicas requeridas pelo trabalho que ele é encarregado de representar junto a seus alunos. intelectuais e técnicas não estão mais em jogo. Neste nível. O que conta é precisamente a qualidade das relações com os camaradas. antes de tudo. A adaptação É a modalidade mais sutil e mais finamente psicológica da seleção dos pilotos de caça. . a orientação para os diferentes ramos da aviação militar de um mesmo aluno mudará. De maneira que o nó principal da seleção psíquica dos pilotos de caça è. a adesão aos valores existentes. esta orientação-seleção. Deduz-se facilmente desta análise que a qualidade de um monitor não depende só de seu valor pedagógico. Muito pelo contrário. os critérios implícitos da "adaptação" modificar-se-ão. através do desenvolvimento de uma relação de identificação. nervosa e intelectual (freqüentemente qualificada como objetiva) a "seleçãopsíquica" não é. de certa maneira. imediatamente o comando mudará. a participação também à sua elaboração coletiva e ao seu reforço. mas também aos valores morais e à ideologia da esquadra. a tudo o que foi definido acima como o sistema defensivo produzido coletivamente pelo grupo de pilotos (esquadrilha. Diferente da tripla seleção física.

particularmente. Aparece. pela organização do trabalho. A estrutura mental muito particular dos pilotos de caça contém talvez um "grão de loucura" que não é inútil para ousar desafiar assim a morte a cada dia. assim como o corpo dos pilotos de caça. 95 . conseqüentemene. não deixa de ser de uma eficácia notável. uma seleção psíquica dos pilotos de caça que. E. à agressividade indispensável.As condições objetivas de trabalho determinam o nível e o conteúdo da adaptação e. repercutem sobre toda a corrente que íeva ã escolha das qualidades psíquicas necessárias ao piloto de caça designado para o novo tipo de avião. o prazer proveniente do conteúdo significativo e simbólico do trabalho são absolutamente necessários à manutenção da performance "ergonômica" e à atenuação do medo. A boa qualidade da relação motivação-satisfação e. nós devemos dar uma volta pela análise de um ponto crucial: a exploração do sofrimento e dos mecanismos de defesa destinados a contê-lo. assim. apesar de subterrânea. não acontece em nenhuma outra situação de trabalho. a adequação homem-trabalho exige não apenas um conteúdo excepcionalmente interessante da tarefa mas também uma seleção rigorosa entre os candidatos à profissão. que seja do nosso conhecimento. Fica aberta a questão para saber se. ao nível de angústia a tolerar e. à escolha da natureza das relações interpessoais do grupo. ao fim. Para ser perfeita. antes de estudar as conseqüências do sofrimento assumido pelos trabalhadores. sua loucura não é racionalmente explorada pelo comando e pela organização do trabalho. a excepcional adaptação do prazer tirado do trabalho ao desejo do piloto de caça permite-lhe enfrentar a cada dia as condições de trabalho particularmente nocivas e a tolerar um medo que.

Na aviação de caça.A exploração do sofrimento Chegamos agora ao capítulo mais insólito. O sofrimento mental aparece como intermediário necessário à submissão do corpo. Mas eis que o sofrimento mental. A erosão da vida mental individual dos trabalhadores é útil para a implantação de um comportamento condicionado favorável à produção. nos capítulos precedentes. já havíamos assinalado o valor funcional da ideologia ocupacional defensiva. não deixará de levantar dúvidas e suspeitas no leitor. deste modo. como no tocante à seleção de pessoal. Na construção civil. a exploração de uma loucura bem específica 96 . Mais do que isso. uma vez mais. A atitude espontânea consiste em tomar como referência o sofrimento físico. que funda a oposição entre a medicina e a psicanálise. que depois de ter suscitado nossa própria incredulidade. tanto no que diz respeito à continuidade do trabalho com alto risco. Esta é a diferença essencial. Toda doença física só pode ser prejudicial à produtividade e à rentabilidade da empresa. alguns aspectos "funcionais" do sofrimento. Já mencionamos. Nas tarefas repetitivas. estruturam toda a vida externa ao trabalho. não se deixa encerrar por esquemas explicativos forjados fora de sua coerência. ligados à produtividade. contribuindo. os comportamentos condicionados não são unicamente conseqüências da organização do trabalho. para submeter os trabalhadores aos critérios de produtividade.

" — "Em seguida. devemos dar a informação sob forma de 'resposta'. Depois. — "O trabalho nos deixa idiotas." — "O que o Sr. 1. Com as telefonistas. ou seja." * Postes. por exemplo. esse esforço de memória não énada fácil. informações'. falo com as pessoas com as frases do PTT." — "Enfim. telégrafos e telefonia (N.).." — "As frase que a gente tem que dizer são: '496. depois de tê-la obtido.I permite encontrar homens capazes de se lançarem num desafio mortal com os elementos naturais. no caso de agradecimento do assinante. não podemos dizer 'bom dia'. é preciso guardar a informação e procurá-la nas microfichas. Télégrames et Télecommunication . Sobretudo no início. na linguagem codificada do PTT. A exploração da frustração Apresentamos a seguir notas tiradas de uma pesquisa com telefonistas (de Dominique Dessors." — "Por último. quer?" — "Em seguida." — "Depois." — "De tanto ficarmos sentadas. é o PTT* que fala. "o que o Sr. numa linguagem codificada. ficamos com o traseiro achatado. é a única situação em que temos o direito de dar uma resposta livremente escolhida. Mas as coisas não param por aí. devemos repetir a informação pedida sob forma de pergunta.. não publicada). deseja?" Não podemos dizer. a indústria petroquímica facilitará nossa demonstração de como o medo pode ser uma engrenagem determinante da organização do trabalho. faremos referência a dois exemplos tirados da indústria. veremos como o sofrimento proveniente da insatisfação pode ser utilizado para aumentai a produtividade." — "O trabalho é completamente falso. é preciso enquadrar a informação. terminamos tendo uma bunda horrível. Quando falamos. reformulá-la. do T. Quando eu saio do trabalho. na França é a empresa estatal que agrupa os correios. 97 . Para ilustrar nossa afirmação.

em geral. Seja que a linguagem correta não foi usada. geralmente. Há um controle exercido sobre dez a quinze pessoas." "O serviço de informações existe porque o catálogo telefônico é incompreensível. e encontraram aí seu primeiro trabalho. das quais depende a possibilidade de conseguir uma vaga no interior. onde o trabalho é menos sobrecarregado e onde se reencontram com suas cidades de origem. e uma vem em seguida a anterior. Consta de: ' — contadores para o número de chamadas (45 a 50.— "Não temos o direito de desligar. pois é preciso desencorajar as pessoas a recorrerem às informações telefônicas. "Se a chefe do controle estiver de 'mau-humor'. detestado mesmo. haverá sempre qualquer coisa para comentar." — "Não sabemos quantas chamadas vamos receber." a) Controle e hierarquia As telefonistas podem ser escutadas sem o saber a qualquer momento. O que é mais difícil são as informações mal explicadas ou não mais válidas. seja que a resposta foi muito demorada. — contadores do tempo de cada chamada. Daí a importância das notas. devemos responder que 'Esta informação não consta neste item'. É o assinante que deve desligar primeiro. 120 para funções específicas). Assim. Isso obriga a uma pesquisa mais longa. Todas elas estão em fila de espera para serem transferidas para o interior. Acabamos com torcicolo. Seja falso ou verdadeiro. de tanto controlar a chefe do controle. indestrutível. do interior (quase 90% delas). ainda é preciso esperar que o assinante tenha acabado de reclamar e desligado. è proibido fazer mais de três pesquisas para dar a resposta a uma pergunta). 98 . Não temos o direito de fazer mais de três fichas (quer dizer. que dá notas que ficam registradas num relatório. para não dizer que o PTT não a possui. não temos nenhum poder sobre o interlocutor. Depois." Há um verdadeiro terror por causa dessa escuta da controladora." — "Durante nosso treinamento ou aprendizagem nos ensinam que não devemos ser muito amáveis. Pois é um trabalho mal conceituado. As telefonistas são. seja que foi muito curta.

de interferência com a voz do interlocutor." "Quando alguém na rua nos diz bom-dia. um assinante pede um numero de telefone do interior. repetir: 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando'. Ficamos amarradas. no metrô. Uma única resposta desagradável pode acabar com um dia de trabalho. pois as mulheres nãt> têm o direito de trabalhar." "Só podemos desligar se não há nenhum assinante do outro lado do fio. a pesquisa de informações pode referir-se ao número do estado ou ao número do assinante. de modo que. Devemos. de maneira a se manter o mesmo ritmo de trabalho do dia. na cidade de Paris. achamos um jeito." "Na saída do trabalho. elas são Jevadas a dizerem coisas estúpidas." "As vezes.000 ao todo. 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando' — e este é o único caso em que se pode desligar primeiro. no interior daquele estado. no momento do 'clic' . Ha homens trabalhando durante a noite. recebem insultos racistas. e com a outra orelha ouvimos os ruídos da sala de trabalho e as outras colegas falando. 99 . não confiamos em nossa memória. sabemos de cor uma informação. é preciso anunciar o número do posto receptor. antes. sobretudo quando se trata de uma mulher. para que as reclamações dos assinantes possam identificar a responsável. Muitas funcionárias são das Antilhas e têm um sotaque bastante forte. pois se a gente se vira é detida pela extensão do fio. no começo de cada comunicação." "Trocamos de posto a cada período de trabalho. Ora. se reduz o número de pessoal. Mas repetir tudo isso três vezes. no trabalho. A noite." "Ficamos ligadas ao posto de trabalho por um equipamento munido de um fio bem curto. Então. Temos uma verdadeira sensação de estar acorrentadas. isso provoca um efeito de ruído. 'deixa qualquer um completamente idiota'. quando se sabe muito bem que não há ninguém. semelhante ao do telefone: dizemos então o número do posto de trabalho. Por exemplo. mas não ousamos acreditar nisso. que consiste. resmungar de modo incompreensível o número do posto em que estamos.No centro telefônico em questão há 400 telefonistas." "Por outro lado. A pessoa se irrita e pergunta se estão "gozando da cara dele". Na realidade. "Estas brigas só nos causam tensão. as portas automáticas começam a fechar depois de um ruído. e a telefonista pergunta-lhe se ele tem o número de seu correspondente. Às vezes. freqüentemente. manhã ou tarde. só temos um único ponto de escuta no fone. são 1. respondemos: 'o que o senhor deseja?'.

sistematicamente. o que mais queremos é que o assinante desapareça. só atravesso as ruas nos pontos marcados. por exemplo. "Do ponto de vista do ritmo de trabalho. Depois. pois somos então melhor compreendidas e não precisamos estar repetindo. para encontrar essa informação no 100 ." "Para se ter pausas maiores ou suplementares. destacando cada sílaba. Depois. BUS 84. ê preciso armar uma estratégia especial em relação às chefias. mal ele desligou e já há um outro chamado. ao tipo de comando e à organização do trabalho. E ao descer uma escada. — segundo. Não tenho mais confiança. por exemplo. nome de uma loja. na saída do trabalho. repensamos nos números que são freqüentemente citados com letras. O ambiente me parece sem cor. Enfim. as questões relativas à hierarquia. nos acostumamos com uma certa forma de pronunciar as palavras. eu seguro o cor-rimão. com medo de cair. que fiquemos livres dele. continuamos a falar com essa voz nasal como naquelesketch de Yves Montand ("O telegrama"). o quê nunca fazia antes. constatamos que quando estamos nervosas. sem gosto. — finalmente. Mas aí. E menos cansativo falar assim do que falar normalmente. assim. a finalidade da informação telefônica." As exigências de tempo e ritmo terminam por permear toda a vida. A finalidade da informação telefônica As informações telefônicas existem porque o catálogo é incompleto ou incompreensível. a forma e o conteúdo do trabalho." b) Discussão Três elementos principais ressaltam dessas entrevistas: — primeiro. Há jeito para se perguntar. Tudo é cinzento.e verificamos tudo. se 'a caixa está aberta'. mais depressa trabalhamos e mais chamadas respondemos. O exemplo seguinte demonstra-o: o plural de "Aux Fleurs" (Às Flores). De maneira que começamos a responder mais depressa. que desligue. não é levado em conta na ordem alfabética." "Ao sair do trabalho. Assim. Por exemplo: "durante as pausas no trabalho a gente olha o relógio três vezes mais do que durante o trabalho. ou durante as pausas. quanto mais nos enervamos.

". Não se admite nenhuma variação no vocabulário. É nesse duplo sentido que tanto a forma como o conteúdo do trabalho impedem qualquer relacionamento. na* letras A." repetida três vezes. transformando-o. pelo fato de se poder ser controlado a qualquer momento. a mínima parcela de desejo próprio. Não somente é probido se expressar e passar. de prazer. a cada instante. dando-lhe a forma e o conteúdo P. Podemos compreender como deve ser horrível passar 8 horas por dia sendo uma espécie de prolongamento do catálogo A forma e o conteúdo do trabalho Aqui. do interlocutor.F. de algum modo. Há uma contradição fundamental entre um serviço destinado à comunicação e a proibição de qualquer relação psico-afetiva.T. a telefonista reprima suas intenções. É preciso mencionar o nome "P. tudo aquilo que é próprio. Deve-se substituir seu enunciado por uma tradução. no número de frases.U X." é. nas respostas ao interlocutor.U.T. Isso chega às raias do absurdo. individualizante. sucessivamente. nas palavras do outro. de agressividade. Não se pode imaginar uma disciplina mais eficaz ou perfeita que a existente. depurando-o. nem no tempo utilizado para pronunciá-las! É obrigatório que. Mas também é necessário que não se ouça. ao comando. ao controle e à organização do trabalho O eixo central dessa violência do poder baseia-se no estado permanente de poder ser controlado. de bom-humor ou de cansaço. é preciso ir procurando.T.F. sua personalidade.T. suas iniciativas. Não se deve prestar atenção aos detalhes do que ele fala. e não em A. uma proibição de ser ela mesma. Falar "P.catálogo. ridículo e estereotipado como a forma. por ocasião de uma conversa em que se comunicou com simpatia. Do discurso do outro deve-se extrair apenas a informação solicitada. na conversa dirigida ao silêncio: "Há alguém na linha? Há alguém? Desligando. sua linguagem. Não se deve ouvir suas hesitações. sem mesmo saber em que mo101 . Não se deve escutar a maneira como se apresenta o discurso do outro. — O terceiro aspecto diz respeito à hierarquia.T.T. em resposta a um insulto. Não se deve perceber seu tom desagradável. Em outras palavras. forma e conteúdo são quase sinônimos: o conteúdo fica tão limitado.

obedecer e proteger-se da ansiedade originada pelo risco de ser pego em erro. onde a frustração alimenta a disciplina — base do comportamento condicionado. permitiria mostrar que a única saída é de voltar a agressividade contra si mesmo (40). a propósito do sofrimento resultante do conteúdo vazio de sentido da tarefa. de certa maneira. A exploração do sofrimento O trabalho de telefonistas propicia a ocasião de tratarmos da relação existente entre a "tensão nervosa" e a produtividade. discutido no Capítulo II. 102 . Quanto mais a telefonista se enerva. A telefonista transforma-se na artesã do seu pióprio condicionamento. que não teremos como objetivo detalhar aqui. por intermédio de um retorno contra si mesma (41). Este exemplo traz uma ilustração do que acabamos de descrever. Mas a amplitude da organização do trabalho tem. A frustração e as provocações acumulam seus efeitos. O condicionamento constitui. O medo e a ansiedade sâo os meios pelos quais se consegue fazer respeitar os preceitos hierárquicos. pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. E esta agressividade que vai ser explorada pela organização do trabalho. As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor. De certo modo. Devido a um processo que transforma a agressividade em culpa. Há um compromisso entre um "bem-estar" (em relação ao esforço requerido pela auto-repressão consciente) e um "bem-estar menor" (em relação à vida psíquica espontânea). um papel muito importante. Pois ter medo de ser vigiado é vigiar-se a si mesmo. e a propósito dos comportamentos condicionados. aparece a ansiedade: agir conforme as ordens recebidas. mais se sente agressiva e mais deve intensificar a auto-repressão. a propósito do trabalho repetitivo como protótipo de um sistema disciplinar. a telefonista tem interesse de orientar essa energia para uma adaptação à tarefa. nesse caso.mento esse controle é exercido. provocando. Diante da necessidade de respeitar a realidade (salário e disciplina da fome). uma agressividade reativa. A auto-agressào tem formas múltiplas. em conjunto. Na impossibilidade de se encontrar uma saída direta. é implantado um círculo vicioso. No primeiro plano. a sintomatologia da neurose marcada pela organização do trabalho. é a construção artificial de um autocontrole. qual pode ser o destino dessa agressividade? Uma análise.

nas condições atuais. basta puxar a rédea do sofrimento psíquico. senão arrisca-se fazer descompensar uma ou outra.. mas respeitando-se. são "as mais nervosas" que têm os melhores rendimentos. para a realização de suas tarefas profissionais. De um lado. Podemos dizer. proibição de desligar. mas não encontrava explicação na teoria pavloviana. É O SOFRIMENTO QUE PRODUZ O TRABALHO. longe de ser um epifenômeno. Essa constatação já havia sido feita por Bégoin. De maneira que a única saída para a agressividade. "Algumas das telefonistas chegam a rendimentos excepcionais. Para aumentar a produção. nesse trabalho de informações telefônicas. especificamente. O sistema de avaliação por notas e o modo de calcular a produção só fazem agravar esse estado de coisas (Bégoin. mais rápido trabalham. crises de nervos. pode implantar-se um circuito semelhante. não por excesso de zelo. Contra o assinante desagradável. 103 . No posto de trabalho. Mostra-se então. que conduz a fazer aumentar a produtividade. o controle das telefonistas aparece como uma tecnologia de poder mediada pelo sofrimento psíquico. que a controladora pode obter melhor rendimento. menos pacientes etc. é trabalhar mais depressa. a reação agressiva não tem mais chances de se exteriorizar do que contra a controladora. é o próprio instrumento para obtenção do trabalho.Essa é a primeira saída possível. aliás bem restrita. Mais do que uma verdadeira organização do trabalho. também. a irritação e a tensão nervosa como meios de provocar um aumento de produção. que o sofrimento psíquico. e quanto mais nervosa ficam. sem exagero. os limites e as capacidades de cada um. Proibição de responder agressivamente. precisamente por causa do controle exercido. De modo que não é tanto exortando-as a trabalhar rápido mas provocando irritação e a tensão nervosa nas telefonistas." Via de regra.. o trabalho não causa O SOFRIMENTO. de outro. temos a angústia como correia de transmissão da repressão e. P 146). e consideramos "mais nervosas" aquelas que são mais facilmente irritáveis. que o "nervosismo" das telefonistas (um dos elementos essenciais no quadro de sua neurose) é uma doença necessária. por exemplo. Eis aí um fato extraordinário. proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente. exasperando as telefonistas. através de. oferecida à agressividade reativa e à frustração. mas porque o trabalho — dizem — as enerva. a única solução autorizada ê reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa.

A ignorância dos trabalhadores: na maioria dos casos. que expulsa o desejo próprio do sujeito. como fonte de aumento da produção. aceleração do ritmo cardíaco c. Podemos relacionar essa utilização do hipertireoidismo1 em mecanógrafas à da loucura narcísica nos pilotos de caça. o sofrimento resulta da organização do trabalho "robotizante".. Têm apenas "dicas" de um saber descontínuo: o nome do produto de entrada e de saída. O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento. os trabalhadores ignoram o funcionamento exato do processo industrial. A frustração e a agressividade resultantes. que se estrutura em função dos incidentes que se deve enfrentar. avaliados como manifestações de hipertireoidismo. antes de começar o trabalho. simultaneamente e por uma espécie de coincidência. reina a ignorância sobre os processos e seus incidentes. Concluiu-se que a seleção profissional. 1 2. A exploração da ansiedade Nas indústrias químicas. tinha selecionado sujeitos que apresentavam. por um nervosismo extremo. dos diferentes equipamentos etc. e é tão ilustrativo que dispensa qualquer comentário: "Um médico do trabalho trouxe-nos um exemplo impressionante (. espontaneamente. mostrou que elas já apresentavam certos sintomas. assim como a tensão e o nervosismo. que requeria uma habilidade profissional superior. para um trabalho delicado.. No caso das telefonistas. pouco tempo depois todas foram obrigadas a parar de trabalhar devido a problemas graves. Colocadas num trabalho que era particularmente intensivo. um certo número dentre as "melhores mecanógrafas" da firma. A sintomatologia é dominada por tremores nas extremidades. em si mesmo. o nome da insta1 O hipertireoidismo corresponde a uma hiperatividade da glândula tireóide. uma tendência hipertireoidiana. mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. A direção não pode fornecer um organograma das tarefas. 196). ÍJma anamnese detalhada. 104 .)• Numa empresa. em razão da própria natureza do trabalho.Um exemplo extraordinário da utilização do nervosismo é dado pelo próprio Bégoin. haviam selecionado. com vistas a um trabalho difícil. E esse nervosismo que foi aqui selecionado. sobretudo." (p. entre tantos outros mecanógrafos. são utilizadas especificamente para aumentar o ritmo de trabalho.

estas instruções são bastante insatisfatórias. uma série de "dicas". Não existe nenhuma formação. pela instalação de um novo equipamento de exaustão ou de novas autoclaves. da matriz na capital etc. O saber circula a nível dos engenheiros. a esse respeito. não está indo bem e "faz bolhas". não se trata aqui de detalhes secundários! O essencial do saber é veiculado e utilizado de operário a operário. aos barulhos da máquina. quando existe um ambiente de trabalho onde há companheirismo. Mas não existe conhecimento coerente. aos poucos. Este saber não está escrito. sobre a qualidade final do produto. não se formaliza. Ao longo de sua experiência e tempo de trabalho. sua tonelagem. ainda assim. como entre os artesões. sem intervenção da direção da fábrica. de pressão etc. sua data de instalação.V. pois é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho.C. Os macetes funcionam. alguns dados quantitativos relativos aos limites de temperatura. (cloreto de poli-vilina. do mesmo modo. Eles aprendem.C. um certo barulho corresponde a um P. Entretanto. que são a forma pragmática e operatória do saber do trabalhador. mas não representam nem uma profissão com seu knowhow desenvolvido completamente. nem uma verdadeira formação ou uma 105 . nem sobre o próprio processo. mas simplesmente circula entre os trabalhadores. fornecidos pelo painel da sala de controle. Os operários aprendem. dos escritórios de projetos. a interferir nas etapas intermediárias do processo de produção: para que a temperatura não ultrapasse tal nível. Entretanto. os trabalhadores detêm conhecimentos consideráveis sobre a empresa. ao longo do tempo e por hábito. produto que entra na fabricação de certas matérias plásticas) que está indo bem. o operário associa os comentários dos colegas. outro tipo de barulho significa que o P. em tal nível. Existem apenas algumas instruções dadas pela direção: a temperatura de tal reservatório não deve ultrapassar 70°C. deve-se manter um volume inicial que "retire o calor". seus rendimentos globais. espontaneamente. ao contrário do que postula a Organização Científica do Trabalho.iaçào. nem sobre o funcionamento das instalações. destinada aos trabalhadores. O conjunto de "macetes" assim acumulados e coletivamente partilhados pelos trabalhadores é o que faz a fábrica funcionar. Na realidade. o fluxo de produção não deve descer abaixo de tantas toneladas por hora etc. Não há saber contínuo. mas. esse saber pragmático é incompleto e pouco tranqüilizador. a pressão. A transmissão desses conhecimentos é puramente oral. não deve ultrapassar 25 atmosferas: em tal ponto. Não nos enganemos.V. há um saber próprio. é claro.

depois. às vezes. quando viramos as costas. que são pobres em relação ao que representam os macetes dos operários. únicos. por ocasião da introdução de um novo catalisador. São detentores de um conhecimento teórico e formaram-se em grandes faculdades. de um lado e do outro." E "depois de alguns dias dessa brincadeira. que não se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem. mas há também os incidentes estranhos e imprevisíveis. por seu lado. e que podem se repetir. escutam-nos educadamente e. Freqüentemente. a direção pede aos operários para elaborar uma nova regra de trabalho. O'único conhecimento prático se reduz às instruções oficiais. sozinhos. Os procedimentos oficiais avançam passo a passo. a direção da fábrica manda-os visitar as instalações. nós dicutimos as possíveis reduções de produção que não afetariam as instalações. não saberiam fazer funcionar. "ninguém a tinha previsto". a própria ignorância: "Quando um de nós dá uma ordem. "No início. Quando houve uma explosão. às vezes.formalidade de domínio completo sobre o instrumento de trabalho. aparece uma ordem nova". as instalações da fábrica. "Durante as greves. dura vários dias. Constata-se que os técnicos de nível universitário. mais do que 106 . E o que. cada um faz como pode". eles percebem que não chegam a lugar nenhum. O pessoal de nível universitário admite. A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos. mas chegam na fábrica sem nenhum conhecimento prático. Nós percebemos então que eles não sabem até onde se pode ir. chama-se de "interpretação das ordens". O conjunto de "macetes" permite o funcionamento da fábrica. A ignorância das chefias técnicas: os trabalhadores sabem que os técnicos de nível universitário desconhecem o funcionamento da empresa e de suas instalações. refugiam-se em seus escritórios e nós não os vemos mais". implicitamente. reina a maior ignorância: "Quando há um acidente. implicitamente. mas a soma das lacunas nesse saber pragmático produz um grande mistério sobre o andamento da produção. então nós lhes damos 'dicas' que nada querem dizer. Desse modo. os acidentes sempre novos e. Isso. E nessas discussões que a direção se mostra. tão insólita. em setores inteiros. O conhecimento teórico de que dispõem é insuficiente para tal prática industrial. Foi assim que diminuímos o ritmo. Existem os problemas comuns. E quando a direção autoriza-os a terminarem com as visitas.

haviam dito que seria possível, e nada explodiu. Uma outra vez. um colega antigo me disse que ja lhe acontecera de descer, uma vez, aíê 22%, e a esse nível tudo degringolou na produção, de vez." "Uma outra vez, eles nos disseram que era perigoso parar, porque reiniciar depois provocaria uma explosão. Eles sabiam disso porque houve uma explosão, na Inglaterra, com 15 mortos. Mas nós, a gente bem que começou a primeira vez, e eles não sabiam que havia um risco." "Todo mundo sabe que não se sabe." Quando acontece um acidente que não era previsível, na maioria das vezes, não é por falta de precaução, mas porque ninguém tinha antes nenhuma experiência a respeito. Essa ignorância, que permeia o funcionamento da empresa, tem um papel fundamental na constituição do Risco e no Medo dos Trabalhadores. Ignorância, medo e angústia O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/ trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em conseqüência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda conhecem os "macetes". O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que "a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes". Afirmação paradoxal! Pois poderíamos esperar que o trabalhador polivalente, tendo maior acesso aos "macetes", conseguiria um domínio maior do próprio instrumento de trabalho. Na verdade, acontece o contrário. Em sua própria função, o trabalhador — mesmo sabendo vagamente que ninguém sabe tudo — conforta-se com a divisão do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis desconhecidas. Quando se torna polivalente, descobre que as outras funções de trabalho são como a sua, e que a incerteza do colega vizinho é tão grande quanto a sua. O polivalente, na veidade, conhece um grande número de "macetes", mas acumula também zonas de ignorância, e assim está confrontado a uma extensão do risco. Cresce seu medo, e é freqüente, então, que assistamos a uma descompensação, conduzindo à licença médica, ao repouso forçado e a um tratamento medicamentoso "por depressão". 107

Segundo os próprios trabalhadores, são numerosos os companheiros que descompensam. De que maneira? Pode-se recuperar, nessa semiologia, os estigmas do trabalho? E bem provável que os trabalhadores vítimas desses episódios invoquem — mas nem sempre ; — o trabalho. Muitas vezes, na verdade, o que tentam é esconder o medo, que lhes parece vergonhoso, ou disfarçá-lo, tanto dos outros como de si mesmos. E mesmo quando acusam o trabalho, em contrapartida, nunca incriminam o risco, nem o medo. A descompensação^ | aparece então como um quadro misto, associado à angústia, à irritaI bilidade e à depressão. Para o médico, externo à empresa, não há aí nada de específico, pois a cristalização de todos os conflitos familiares, financeiros, sociais, acaba por conferir ao episódio um caráter mais pessoal do que específico do trabalho. Isso se explica, se admitirmos que, a partir de um certo nível, o f medo e a apreensão sofrem uma verdadeira dissolução na angústia; isso quer dizer que, transbordando, as defesas individuais deixam surgir conflitos intrapsíquicos, inevitavelmente reativado:, pela situação permanente de risco. Nenhum operário, como nenhum outro homem, está a salvo de uma explosão de angústia. Embora seja esquemática a separação entre medo e angústia, na prática, essa ligação é bem anterior, e, freqüentemente, não basta ao trabalhador sair da fábrica para ficar completamente confiante e calmo. Sobretudo se seus períodos de recuperação somatopsicológica forem cortados pela ruptura de seus ritmos de descanso (trabalho em turno alternado). A maioria dos operários precisa de remédios para dormir, mas também para se agüentar durante a jornada de trabalho. Os hipnóticos e ansiolíticos são largamente consumidos. Quando volta para casa, o trabalhador acorda de noite, angustiado, pois não sabe mais se fechou direito tal válvula. Será que pode explodir? Só ficará tranqüilo no dia seguinte, quando voltar ao posto de trabalho. E, pouco a pouco, toda a vida do operário é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho. Quanto maior for a ignorância sobre o trabalho, mais fácil será ultrapassar a fronteira entre o medo e a angústia. Na realidade, a ignorância consciente sobre o processo de trabalho aumenta o medo, porque torna o risco cada vez maior. Por outro lado, a ignorância facilita o aparecimento do medo. Sabemos que a atividade profissional, a qualificação, o know-how e o saber, em geral, representam um dos mecanismos de defesa fundamentais para a economia psíquica. O trabalho — uma das modalidades de resolução de certos conflitos e de regulação da vida psíquica e somática — é, para certas pessoas, um modo privilegiado de equilíbrio. Nas indústrias petroquí108

micas, o trabalho que traz em si riscos, gera o medo e destrói certas defesas contra a angústia, submete, assim, a vida psíquica dos trabalhadores a duras provas. As defesas coletivas contra o medo: "as condutas perigosas". Às vezes, a atividade dos trabalhadores em indústrias petroquímicas é interrompida por práticas insólitas; é verdade que o trabalho tem vários momentos de pausa, como já havíamos assinalado; esses tempos livres são utilizados para conversas entre os trabalhadores, mas são também oportunidade para jogos lúdicos, que vão dos jogos de cartas aos jogos perigosos, que põem em perigo a vida dos operários, passando pelas competições esportivas no próprio local de trabalho. Há verdadeiros jogos "olímpicos" no interior da usina; há rallyes, corridas e jogos de bola que duram a noite inteira. Há concursos, às vezes perigosos, que se prolongam por vários dias, como há também brincadeiras e gozações de dimensões inusitadas, que se prolongam por dias e às vezes semanas, constituindo-se verdadeiros cenários de ação, com regras absurdas e inventadas, de todos os tipos. Entre estas, as mais freqüentes dizem respeito aos "jogos relativos à segurança". Faz-se correr o boato de que é preciso vestir uma roupa especial de proteção contra certos riscos imaginários; durante muitos dias um bom número de trabalhadores crédulos seguem essa norma. Exagerando um pouco mais, induz-se os "patos" a se dirigirem à direção, para pedir novos equipamentos, de modo que a enganação seja descoberta. Freqüentemente, praticam-se jogos verdadeiramente perigosos. Atrás de uma pilastra, um trabalhador usa o extintor de incêndio dirigindo seu jato, bastante forte, contra os colegas que passam, com o risco de feri-los. De tempos em tempos acontecem acidentes. Foi assim que nos contaram que um operário negro, fugindo da brincadeira, teve a perna presa numa proteção de máquinas. Ainda caído por terra, um grupo de operários jogou-se sobre ele, começando a praticar uma série de massagens musculares na perna machucada, com o dorso das mãos. Durante algum tempo, e em meio aos risos e a uma folia geral, simularam gestos médico-ci-rúrgicos, até o momento em que se aperceberam que a perna estava fraturada. O operário negro foi levado embora, em ambulância, e nunca mais foi visto na fábrica. Foi indenizado e a direção pagou até suas dívidas, sem que nenhuma punição ou repreensão tivesse sido feita aos colegas responsáveis pelo incidente. A direção quis, manifestamente, enterrar este episódio. Os trabalhadores chamam tais I 109

Consta — contadores para o númrrn h ■_ 120 para funções específicas) chamadas (45 a 50." ° assir>ante tenha acabado de — "Durante nosso treinamento ™. onde o 'rah n! -pera para serem tranS" onde se reencontram com suas cidart ? C men0S sobrecarregado e das notas." os nenhum poder sobre o inter— "Não sabemos quantas cha™ em seguida a anterior.S. . em geral. Não temos o direito de fa^V ° ga a uma Pesc»uisa mais proibido fazer mais de três nesáukL "^ de três fichas (quer dizer> e gunta). ainda é preciso esperar 10*° dlzert'ueo PTT naoa P°ssui. jnão devemos ser muito amáveis noi aprendlzagem nos ensinam que a recorrerem às informações telefôn * pT^lso desencorajar as pessoas existe porque o catálogo telefônico é tacoSS^'^ Ínf°rmaçOeS a) Controle e hierarquia As telefonistas podem ser escutaHo mento. J*"1 ° saber a «lualcluer m°-de: obre dez a quinze pessoas. ■_ quer coisa para comentar.?! que da notas que ficam registradas „ ""^ ^ controladora' telefonistas são. reclamaredesligado. indestrutível.mau-humOT havera sempre qualseja que a resposta foi muito dem^jf1*86"1 COTreta nã° foi USada' Acabamos com torcicolo de tanto Háum verdadeiro terVor por ca. nào temn ^ ° assinante 1ue deve locutor.!1 d° controle-" controladora' 98 .e 1 . Assim. Seia ni. geralmente do int relatório.. As traram aí seu primeiro trabalho PofJ'01" (QUaSe 90% delas)' e encon" detestado mesmo. das quais depende a «Sií ^"gem. Todas elas estão errfrTJrabalho mal conceituado-feridas para o interior.S Vamos receber' e uma vem explicadas ou não mais validas I u'' Sã° aS informacões mal longa.— "Não temos o direito de h* ■ desligar primeiro. O Que é m* . "Se a chefe do controle estiver de'mo u .Dai a imPortância no interior P^sibihdade de conseguir uma vaga f ' ' Seja que foi muito curta. Seja falso ou verdadeiro oV Para dar a resposta a uma Per" mação não consta neste itern' na'ra 5m°s resPonder que 'Esta infor-Depois. Há um controle exercido sní.contadores do tempo dè cada chamada.

achamos um jeito. A pessoa se irrita e pergunta se estão "gozando da cara dele". recebem insultos racistas." "Só podemos desligar se não há nenhum assinante do outro lado do fio." "Na saída do trabalho. no metrô." "As vezes. de maneira a se manter o mesmo ritmo de trabalho do dia. quando se sabe muito bem que não há ninguém. se reduz o número de pessoal. A noite. pois as mulheres não têm o direito de trabalhar. Muitas funcionárias são das Antilhas e têm um sotaque bastante forte. a pesquisa de informações pode referir-se ao número do estado ou ao número do assinante. Na realidade. Por exemplo. elas são Jevadas a dizerem coisas estúpidas. Temos uma verdadeira sensação de estar acorrentadas. as portas automáticas começam a fechar depois de um ruído." "Quando alguém na rua nos diz bom-dia.No centro telefônico em questão há 400 telefonistas. um assinante pede um número de telefone do interior. Uma única resposta desagradável pode acabar com um dia de trabalho. isso provoca um efeito de ruído. no trabalho. freqüentemente. Há homens trabalhando durante a noite. 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando' — e este é o único caso em que se pode desligar primeiro. Mas repetir tudo isso três vezes. no momento do 'clic' . Às vezes. sobretudo quando se trata de uma mulher. só temos um único ponto de escuta no fone. mas não ousamos acreditar nisso. 99 . pois se a gente se vira é detida pela extensão do fio. são 1 000 ao todo. para que as reclamações dos assinantes possam identificar a responsável. no interior daquele estado. na cidaae de Paris. que consiste. e com a outra orelha ouvimos os ruídos da sala de trabalho e as outras colegas falando. de interferência com a voz do interlocutor. é preciso anunciar o número do posto receptor. Ora. semelhante ao do telefone: dizemos então o número do posto de trabalho. e a telefonista pergunta-lhe se ele tem o número de seu correspondente." "Trocamos de posto a cada período de trabalho. manhã ou tarde." "Ficamos ligadas ao posto de trabalho por um equipamento munido de um fio bem curto. sabemos de cor uma informação. repetir: 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando'. respondemos: 'o que o senhor deseja?'. Então. Ficamos amarradas. 'deixa qualquer um completamente idiota'. antes. no começo de cada comunicação." "Por outro lado. "Estas brigas só nos causam tensão. resmungar de modo incompreensível o número do posto em que estamos. Devemos. de modo que. não confiamos em nossa memória.

"Do ponto de vista do ritmo de trabalho." "Para se ter pausas maiores ou suplementares. mais depressa trabalhamos e mais chamadas respondemos. que fiquemos livres dele. a finalidade da informação telefônica. como naquelesketch de Yves Montand ("O telegrama"). o que nunca fazia antes. sem gosto. eu seguro o cor-rimão. Depois. se 'a caixa está aberta'. com medo de cair. é preciso armar uma estratégia especial em relação às chefias. Enfim. para encontrar essa informação no 10G . BUS 84. — segundo. Depois. Não tenho mais confiança." b) Discussão Três elementos principais ressaltam dessas entrevistas: — primeiro. nos acostumamos com uma certa forma de pronunciar as palavras. De maneira que começamos a responder mais depressa. destacando cada sílaba. só atravesso as ruas nos pontos marcados. continuamos a falar com essa voz nasaí. por exemplo. — finalmente. O exemplo seguinte demonstra-o: o plural de "Aux Fleurs" (Às Flores). mal ele desligou e já há um outro chamado. a forma e o conteúdo do trabalho. o que mais queremos é que o assinante desapareça. Mas ai. por exemplo. pois somos então melhor compreendidas e não precisamos estar repetindo. Há jeito para se perguntar. Tudo é cinzento. na saída do trabalho. repensamos nos números que são freqüentemente citados com letras. O ambiente me parece sem cor. É menos cansativo falar assim do que falar normalmente. ao tipo de comando e à organização do trabalho." As exigências de tempo e ritmo terminam por permear toda a vida. A finalidade da informação telefônica As informações telefônicas existem porque o catálogo é incompleto ou incompreensível.e verificamos tudo. que desligue. nome de uma loja. constatamos que quando estamos nervosas." "Ao sair do trabalho. as questões relativas à hierarquia. Por exemplo: "durante as pausas no trabalho a gente olha o relógio três vezes mais do que durante o trabalho. sistematicamente. E ao descer uma escada. quanto mais nos enervamos. ou durante as pausas. assim. não é levado em conta na ordem alfabética. Assim.

Podemos compreender como deve ser horrível passar 8 horas por dia sendo uma espécie de prolongamento do catálogo. É nesse duplo sentido que tanto a forma como o conteúdo do trabalho impedem qualquer relacionamento.catálogo. nas palavras do outro. na conversa dirigida ao silêncio: "Há alguém na linha? Há alguém? Desligando. A forma e o conteúdo do trabalho Aqui. Há uma contradição fundamental entre um serviço destinado à comunicação e a proibição de qualquer relação psico-afetiva.F. Mas também é necessário que não se ouça.T. Deve-se substituir seu enunciado por uma tradução. Não se deve ouvir suas hesitações. em resposta a um insulto. ao comando. nas respostas aõ interlocutor. e não em A. nem no tempo utilizado para pronunciá-las! É obrigatório que.". Falar "P. depurando-o.T. sucessivamente. Não se pode imaginar uma disci-Püna mais eficaz ou perfeita que a existente. tudo aquilo que é próprio. transformando-o.T. — O terceiro aspecto diz respeito à hierarquia. dando-lhe a forma e o conteúdo P. é preciso ir procurando. É preciso mencionar o nome "P.F. nas letras A. Em outras palavras. Não se deve prestar atenção aos detalhes do que ele fala." é. Isso chega às raias do absurdo.T. no número de frases.T. por ocasião de uma conversa em que se comunicou com simpatia. de algum modo. sua linguagem. suas iniciativas. pelo fato de se poder jer controlado a qualquer momento. a cada instante. sem mesmo saber em que mo101 . a telefonista reprima suas intenções. de agressividade.U.U. de prazer. Não se deve perceber seu tom desagradável. de bom-humor ou de cansaço. Não se deve escutar a maneira como se apresenta o discurso do outro. do interlocutor. sua personalidade. individualizante. forma e conteúdo são quase sinônimos: o conteúdo fica tão limitado. Não se admite nenhuma variação no vocabulário.T. ridículo e estereotipado como a forma. ao controle e à organização do trabalho O eixo central dessa violência do poder baseia-se no estado per-manente de poder ser controlado.X. Não somente é probido se expressar e passar. Do discurso do outro deve-se extrair apenas a informação solicitada. uma proibição de ser ela mesma. a mínima parcela de desejo próprio." repetida três vezes.

é implantado um círculo vicioso. é a construção artificial de um autocontrole. Este exemplo traz uma ilustração do que acabamos de descrever. No primeiro plano. O medo e a ansiedade são os meios pelos quais se consegue fazer respeitar os preceitos hierárquicos. uma agressividade reativa. Na impossibilidade de se encontrar uma saída direta. mais se sente agressiva e mais deve intensificar a auto-repressão. nesse caso. Há um compromisso entre um "bem-estar" (em relação ao esforço requerido pela autp-repressão consciente) e uns "bem-estar menor" (em relação à vida psíquica espontânea). A exploração do sofrimento O trabalho de telefonistas propicia a ocasião de tratarmos da relação existente entre a "tensão nervosa" e a produtividade. Quanto mais a telefonista se enerva. qual pode ser o destino dessa agressividade? Uma análise. em conjunto. E esta agressividade que vai ser explorada pela organização do trabalho. O condicionamento constitui. A telefonista transforma-se na artesã do seu próprio condicionamento. 102 .mento esse controle é exercido. provocando. por intermédio de um retorno contra si mesma (41). obedecer e jproteger-se da ansiedade originada pelo risco de ser pego em erro. Devido a um processo que transforma a agressividade em culpa. a sintomatologia da neurose marcada pela organização do trabalho. um papel muito importante. A auto-agressão tem formas múltiplas. aparece a ansiedade: agir conforme as ordens recebidas. pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. onde a frustração alimenta a disciplina — base do comportamento condicionado. Diante da necessidade de respeitar a realidade (salário e disciplina da fome). Pois ter medo de ser vigiado é vigiar-se a si mesmo. permitiria mostrar que a única saída é de voltar a agressividade contra si mesmo (40). Mas a amplitude da organização do trabalho tem. discutido no Capítulo 11. e a propósito dos comportamentos condicionados. De certo modo. que não teremos como objetivo detalhar aqui. a propósito do trabalho repetitivo como protótipo de um sistema disciplinar. As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor. A frustração e as provocações acumulam seus efeitos. de certa maneira. a propósito do sofrimento resultante do conteúdo vazio de sentido da tarefa. a telefonista tem interesse de orientar essa energia para uma adaptação à tarefa.

que o sofrimento psíquico. No posto de trabalho. através de. para a realização de suas tarefas profissionais. a única solução autorizada é reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa. Contra o assinante desagradável. senão arrisca-se fazer descompensar uma ou outra." Via de regra. é trabalhar mais depressa. sem exagero. proibição de desligar. 103 . e quanto mais nervosa ficam. mas respeitando-se. De modo que não é tanto exortando-as a trabalhar rápido mas provocando irritação e a tensão nervosa nas telefonistas. De um lado. Eis aí um fato extraordinário. mais rápido trabalham. que o "nervosismo" das telefonistas (um dos elementos essenciais no quadro de sua neurose) e uma doença necessária. que a controladora pode obter melhor rendimento. Mais do que uma verdadeira organização do trabalho. também.146). por exemplo. o controle das telefonistas aparece como uma tecnologia de poder mediada pelo sofrimento psíquico. nas condições atuais. Para aumentar a produção. mas porque o trabalho — dizem — as enerva. longe de ser um epifenômeno. P. menos pacientes etc. basta puxar a rédea do sofrimento psíquico. oferecida à agressividade reativa eà frustração. crises de nervos. exasperando as telefonistas. Podemos dizer. e consideramos "mais nervosas" aquelas que são mais facilmente irritáveis.. O trabalho não causa O SOFRIMENTO. pode implantar-se urr circuito semelhante. a reação agressiva não tem mais chances de se exteriorizar do que conira a controladora. De maneira que a única saída para a agressividade. mas não encontrava explicação na teoria pavloviana. especificamente. É O SOFRIMENTO QUE PRODUZ O TRABALHO. não por excesso de zelo. precisamente por causa do controle exercido. são "as mais nervosas" que têm os melhores rendimentos. O sistema de avaliação por notas e o modo de calcular a produção só fazem agravar esse estado de coisas (Bégoin. que conduz afazer aumentar a produtividade. a irritação e a tensão nervosa como meios de provocar um aumento de produção. Proibição de responder agressivamente. os limites e as capacidades de cada um.. temos a angústia como correia de transmissão da repressão e. de outro.Essa é a primeira saída possível. aliás bem restrita. proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente. Mostra-se então. nesse trabalho de informações telefônicas. "Algumas das telefonistas chegam a rendimentos excepcionais. é o próprio instrumento para obtenção do trabalho. Essa constatação já havia sido feita por Bégoin.

. A ignorância dos trabalhadores: na maioria dos casos. Uma anamnese detalhada." (p. Concluiu-se que a seleção profissional. são utilizadas especificamente para aumentar o ritmo de trabalho. A direção não pode fornecer um organograma das tarefas. como fonte de aumento da produção. para um trabalho delicado.)■ Numa empresa. haviam selecionado. com vistas a um trabalho difícil. aceleração do ritmo cardíaco e. um certo número dentre as "melhores mecanógrafas" da firma. Têm apenas "dicas" de um saber descontínuo: o nome do produto de entrada e de saída. em razão da própria natureza do trabalho. 2. antes de começar o trabalho. A exploração da ansiedade Nas indústrias químicas. Colocadas num trabalho que era particularmente intensivo. uma tendência hipertireoidiana.. em si mesmo. Podemos relacionar essa utilização do hipertireoidismo1 em mecanógrafas à da loucura narcísica nos pilotos de caça. O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento. o sofrimento resulta da organização do trabalho "robotizante". avaliados como manifestações de hipertireoidismo. A sintomatologia é dominada por tremores nas extremidades. 1%). No caso das telefonistas. simultaneamente e por uma espécie de coincidência. e é tão ilustrativo que dispensa qualquer comentário: "Um médico do trabalho trouxe-nos um exempio impressionante (. mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. que se estrutura em função dos incidentes que se deve enfrentar. que expulsa o desejo próprio do sujeito. entre tantos outros mecanógrafos. reina a ignorância sobre os processos e seus incidentes. espontaneamente. dos diferentes equipamentos etc. mostrou que elas já apresentavam certos sintomas. sobretudo. E esse nervosismo que foi aqui selecionado. por um nervosismo extremo.Um exemplo extraordinário da utilização do nervosismo é dado pelo próprio Bégoin. os trabalhadores ignoram o funcionamento exato do processo industrial. tinha selecionado sujeitos que apresentavam. A frustração e a agressividade resultantes. o nome da insta1 O hipertireoidismo corresponde a uma hiperatividade da glândula tireóide. 1Ü4 . pouco tempo depois todas foram obrigadas a parar de trabalhar devido a problemas graves. que requeria uma habilidade profissional superior. assim como a tensão e o nervosismo.

que são a forma pragmática e operatória do saber do trabalhador.V.V. ao longo do tempo e por hábito. Na realidade. Não há saber contínuo. ao contrário do que postula a Organização Científica do Trabalho. Não nos enganemos. seus rendimentos globais. (cloreto de poli-vilina. fornecidos pelo painel da sala de controle. ainda assim. a interferir nas etapas intermediárias do processo de produção: para que a temperatura não ultrapasse tal nível. alguns dados quantitativos relativos aos limites de temperatura. pela instalação de um novo equipamento de exaustão ou de novas autoclaves. do mesmo modo. Mas não existe conhecimento coerente. Ao longo de sua experiência e tempo de trabalho. dos escritórios de projetos. Os macetes funcionam. esse saber pragmático é incompleto e pouco tranqüilizador. nem uma verdadeira formação ou uma 105 . como entre os artesões. estas instruções são bastante insatisfatórias. não se formaliza. nem sobie o próprio processo. pois é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho. de pressão etc. Este saber não está escrito. o fluxo de produção não deve descer abaixo de tantas toneladas por hora etc. a pressão. sua dam de instalação. não está indo bem e "faz bolhas". uma série de "dicas". um certo barulho corresponde a um P. nem sobre o funcionamento das instalações. mas simplesmente circula entre os trabalhadores.lação. a esse respeito. aos barulhos da máquina. não se trata aqui de detalhes secundários! O essencial do saber é veiculado e utilizado de operário a operário. o operário associa os comentários dos colegas. Entretanto. A transmissão desses conhecimentos é puramente oral. em tal nível. produto que entra na fabricação de certas matérias plásticas) que está indo bem. Os operários aprendem. espontaneamente. mas. os trabalhadores detêm conhecimentos consideráveis sobre a empresa. sem intervenção da direção da fábrica. da matriz na capital etc. O saber circula a nível dos engenheiros. O conjunto de "macetes" assim acumulados e coletivamente partilhados pelos trabalhadores é o que faz a fábrica funcionar. deve-se manter um volume inicial que "retire o calor".C. quando existe um ambiente de trabalho onde há companheirismo.C. aos poucos. hà um saber próprio. mas não representam nem uma profissão com seu knowhow desenvolvido completamente. é claro. sua tonelagem. Entretanto. Eles aprendem. destinada aos trabalhadores. Não existe nenhuma formação. outro tipo de barulho significa que o P. sobre a qualidade final do produto. não deve ultrapassar 25 atmosferas: em tal ponto. Existem apenas algumas instruções dadas pela direção: a temperatura de tal reservatório não deve ultrapassar 70°C.

formalidade de domínio completo sobre o instrumento de trabalho. O conjunto de "macetes" permite o funcionamento da fábrica, mas a soma das lacunas nesse saber pragmático produz um grande mistério sobre o andamento da produção. A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos, que nãu se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem, e que podem se repetir. Existem os problemas comuns, mas há também os incidentes estranhos e imprevisíveis, os acidentes sempre novos e, às vezes, únicos. I A ignorância das chefias técnicas: os trabalhadores sabem que os técnicos de nível universitário desconhecem o funcionamento da empresa e de suas instalações. São detentores de um conhecimento teórico e formaram-se em grandes faculdades, mas chegam na fábrica sem nenhum conhecimento prático. "No início, a direção da fábrica manda-os visitar as instalações, então nós lhes damos 'dicas' que nada querem dizer. Isso, às vezes, dura vários dias." E "depois de alguns dias dessa brincadeira, eles percebem que não chegam a lugar nenhum. E quando a direção autoriza-os a terminarem com as visitas, refugiam-se em seus escritórios e nós não os vemos mais". Constata-se que os técnicos de nível universitário, por seu lado, não saberiam fazer funcionar, sozinhos, as instalações da fábrica. O conhecimento teórico de que depõem é insuficiente para tal prática industrial, tão insólita. O único conhecimento prático se reduz às instruções oficiais, que são pobres em relação ao que representam os macetes dos operários. O pessoal de nível universitário admite, implicitamente, a própria ignorância: "Quando um de nós dá uma ordem, escutam-nos educadamente e, depois, quando viramos as costas, cada um faz como pode". E o que, implicitamente, de um lado e do outro, chama-se de "interpretação das ordens". Desse modo, em setores inteiros, reina a maior ignorância: "Quando há um acidente, aparece uma ordem nova". Os procedimentos oficiais avançam passo a passo. Freqüentemente, a direção pede aos operários para elaborar uma nova regra de trabalho. Quando houve uma explosão, por ocasião da introdução de um novo catalisador, "ninguém a tinha previsto". "Durante as greves, nós dicutimos as possíveis reduções de produção que não afetariam as instalações. E nessas discussões que a direção se mostra, Nos percebemos então que eles não sabem até onde >e pode ir. Foi assim que diminuímos o ritmo, mais do que 106

haviam dito que seria possível, e nada explodiu. Uma outra vez, um colega antigo me disse que já lhe acontecera de descer, uma vez, até 22%, e a esse nível tudo degringolou na produção, de vez." "Uma outra vez, eies nos disseram que era perigoso parar, porque reiniciar depois provocaria uma explosão. Eles sabiam disso porque houve uma explosão, na Inglatena, com 15 mortos. Mas nós, a gente bem que começou a primeira vez, e eles não sabiam que havia um risco." "Todo mundo sabe que não se sabe. " Quando acontece um acidente que não era previsível, na maioria das vezes, não é por falta de precaução, mas porque ninguém tinha antes nenhuma experiência a respeito. Essa ignorância, que permeia o funcionamento da empresa, tem um papel fundamental na constituição do Risco e no Medo dos Trabalhadores. Ignorância, medo e angústia O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/ trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em conseqüência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda conhecem os "macetes". O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que "a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes". Afirmação paradoxal! Pois poderíamos esperar que o trabalhador polivalente, tendo maior acesso aos "macetes", conseguiria um domínio maior do próprio instrumento de trabalho. Na verdade, acontece o contrário. Em sua própria função, o trabalhador — mesmo sabendo vagamente que ninguém sabe tudo — conforta-se com a divisão do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis desconhecidas. Quando se torna polivalente, descobre que as outras funções de trabalho são como a sua, e que a incerteza do colega vizinho é tão grande quanto a sua. O polivalente, na verdade, conhece um grande número de "macetes", mas acumula também zonas de ignorância, e assim está confrontado a uma extensão do risco. Cresce seu medo, e é freqüente, então, que assistamos a uma descompensação, conduzindo à licença médica, ao repouso forçado e a um tratamento medicamentoso "por depressão". 107

Segundo os próprios trabalhadores, são numerosos os companheiros que descompensam. De que maneira? Pode-se recuperar, nessa semioíogia, os estigmas do trabalho? E bem provável que os trabalhadores vítimas desses episódios invoquem — mas nem sempre — o trabalho. Muitas vezes, na verdade, o que tentam é esconder o medo, que lhes parece vergonhoso, ou disfarçá-lo, tanto dos outros como de si mesmos. E mesmo quando acusam o trabalho, em contrapartida, nunca incriminam o risco, nem o medo. A descompensação aparece então como um quadro misto, associado à angustia, à irritabilidade e à depressão. Para o médico, externo à empresa, não há ai nada de específico, pois a cristalização de todos os conflitos familiares, financeiros, sociais, acaba por conferir ao episódio um caráter mais pessoal do que específico do trabalho. Isso se explica, se admitirmos que, a partir de um certo nível, o . medo e a apreensão sofrem uma verdadeira dissolução na angústia; isso quer dizer que, transbordando, as defesas individuais deixam surgir conflitos intrapsíquicos, inevitavelmente reativadoi pela situação permanente de risco. Nenhum operário, como nenhum outro homem, está a salvo de uma explosão de angústia. Embora seja esquemática a separação entre medo e angústia, na prática, essa ligação é bem anterior, e, freqüentemente, não basta ao trabalhador sair da fábrica para ficar completamente confiante e calmo. Sobretudo se seus períodos de recuperação somatopsicologica forem cortados pela ruptura de seus ritmos de descanso (trabalho em turno alternado). A maioria dos operários precisa de remédios para dormir, mas também para se agüentar durante a jornada de trabalho. Os hipnóticos e ansiolíticos são largamente consumidos. Quando volta para casa, o trabalhador acorda de noite, angustiado, pois não sabe mais se fechou direito tal válvula. Será que pode explodir? Só ficará tranqüilo no dia seguinte, quando voltar ao posto de trabalho. E, pouco a pouco, toda a vida do operário é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho. Quanto maior for a ignorância sobre o trabalho, mais fácil será ultrapassar a fronteira entre o medo e a angústia. Na realidade, a ignorância consciente sobre o processo de trabalho aumenta o medo, porque torna o risco cada vez maior. Por outro lado, a ignorância facilita o aparecimento do medo. Sabemos que a atividade profissional, a qualificação, o know-how e o saber, em gerai, representam um dos mecanismos de defesa fundamentais para a economia psíquica. O trabalho — uma das modalidades de resolução de certos conflitos e de regulação da vida psíquica e somática — é, para certas pessoas, um modo privilegiado de equilíbrio. Nas indústrias petroquí108

e nunca mais foi visto na fábrica. As defesas coletivas contra o medo: "as condutas perigosas". Os trabalhadores chamam tais 109 . O operário negro foi levado embora. que se prolongam por vários dias. um trabalhador usa o extintor de incêndio dirigindo seu jato. sem que nenhuma punição ou repreensão tivesse sido feita aos colegas responsáveis pelo incidente. em ambulância. Foi indenizado e a direção pagou até suas dívidas. um grupo de operários jogou-se sobre ele. Foi assim que nos contaram que um operário negro. a vida psíquica dos trabalhadores a duras provas. com regras absurdas e inventadas. passando pelas competições esportivas no próprio local de trabalho. começando a praticar uma série de massagens musculares na perna machucada. a atividade dos trabalhadores em indústrias petroquímicas é interrompida por práticas insólitas. as mais freqüentes dizem respeito aos "jogos relativos à segurança". como há também brincadeiras e gozações de dimensões inusitadas. corridas e jogos de bola que duram a noite inteira. Freqüentemente. Atrás de uma pilastra. às vezes perigosos. Às vezes. é verdade que o trabalho tem vários momentos de pausa. o trabalho que traz em si riscos. e em meio aos risos e a uma folia geral. mas são também oportunidade para jogos lúdicos. até o momento em que se aperceberam que a perna estava fraturada. Há concursos. induz-se os "patos" a se dirigirem à direção. Ainda caído por terra. que se prolongam por dias e às vezes semanas. com o dorso das mãos. praticam-se jogos verdadeiramente perigosos. A direção quis. Durante algum tempo. simularam gestos médico-ci-rúrgicos. que vão dos jogos de cartas aos jogos perigosos. há rallyes. constituindo-se verdadeiros cenários de ação. fugindo da brincadeira. de modo que a enganação seja descoberta. manifestamente. submete.micas. esses tempos livres são utilizados para conversas entre os trabalhadores. para pedir novos equipamentos. assim. Entre estas. de todos os tipos. contra os Colegas que passam. como já havíamos assinalado. gera o meuo e destrói certas defesas contra a angústia. Há verdadeiros jogos "olímpicos" no interior da usina. Faz-se correr o boato de que é preciso vestir uma roupa especial de proteção contra certos riscos imaginários. enterrar este episódio. que põem em perigo a vida dos operários. teve a perna presa numa proteção de máquinas. Exagerando um pouco mais. bastante forte. com o risco de feri-los. durante muitos dias um bom número de trabalhadores crédulos seguem essa norma. De tempos em tempos acontecem acidentes.

dado seu caráter estrondoso. as válvulas e liberar vapor sob pressão nos telhados da usina.' como de festas. largamente "regado" a vinho. ou seja.). acabam mal. inutilmente. reconheceremos facilmente o elo entre a situação de risco. adivinhando que esconda algo importante. entretanto.) ** CetcadeUS$25. Perguntam-se porque aqueles que trabalham em turnos comem tanto. então. a 800"C. a temática da ansiedade e a encenação da segurança. interrogam-se sobre seu significado. conduzindo às vezes à depressão nervosa. isto destina-se. Uma outra prática freqüente é a dos janrares grandiosos. em suas casas. são queimadas 380 toneladas de combustível. como um enorme desafio ao risco. Quando falam desse hábito.brincadeiras de "trotes e admitem que. ao mesmo tempo. exprimindo um certo mal-estar sobre a quantidade de obesos que conhecem. senão simbólica.000 francos. Outra prática inútil e perigosa é de abrir. são acordados pelos alarmes no meio da noite. eles riem. mas. acabam mal. As encenações. a ponto das vítimas descompensaiem. para ridicularizar aquelas já existentes (liberar vapor).000. tendo "depressões nervosas". muitas vezes. Isso significa que são voluntariamente levadas longe demais. 110 . e também como uma tentativa de domínio simbólico * Estamos na França' (N. que não têm nenhuma outra relação. a champanhe e outras bebidas alcoólicas. como perigosa. na verdade.. obscuro. à noite. cerca de 170. até mesmo em criar novos perigos. para assar costeletas em um segundo. prática que todos reconheciam. inúteis e simbólicas ("trotes"). que utilizaram como gr/7/ para assar pizzas! Nesse mesmo sentido. liberaram vapor. em transgredir às vezes as regras mais elementares de salvaguarda (assar costeletas).dol.òoT. em inventar novas regras de segurança. assim. freqüentemente. com os perigos próprios ao processo de produção (os jogos perigosos que terminam em acidentes).* Os trabalhadores têm o hábito de falar de seus "banquetes". Na verdade. exigiram que a direção mandasse um novo filtro de compressor. a provocar pânico entre os engenheiros que. Tais banquetes são também ocasião para uma teatralização da segurança. tudo consiste. sobretudo à noite. ao acidente ou fim de uma carreira. E desse modo. Uma vez..00(N. Essas condutas perigosas aparecem. em alguns instantes.** Se prestarmos atenção nas associações de idéias que permeiam o discurso dos operários. que reúnem os trabalhadores para um verdadeiro festim.

a multiplicidade de tarefas. funcionando então. provavelmente. para nós. são como marmitas". a implantação de novas usinas e a substituição dos velhos equipamentos. um dia ou outro será a vítima.do medo. um clima de cumplicidade protetora. a encenação deve ser levada aos extremos e chegar a provocar vítimas. o medo criado pelo clima psicológico do qual não participa. Mas. instalada há várias décadas na região (desde a Primeira Guerra Mundial) e que conhecera todas as gerações de equipamentos e processos. como defesa contra o medo. Ao contrário. E a este preço que funciona o sistema defensivo. mostrou-se que o medo atingia um nível menor: — Retivemos aí. Na realidade. O recurso surpreendente a uma comparação com um objeto familiar não poderia deixar de espantar. De maneira que essas condutas perigosas funcionam. Fica difícil avaiiar com exatidão os efeitos dessas defesas coletivas sobre a população operária como um todo. como um sistema de seleção — pela exclusão dos vacilantes. além do medo criado pelos riscos do processo de trabalho. Se o jovem operário supera com sucesso seu teste de início do trabalho. por outros de capacidade superior. Em contrapartida. o hábito. para todos os outros que delas participam. dentro de um esquema já clássico. numa fábrica onde fizemos uma de nossas pesquisas. cria uma intensa coesão. Parece que. ele deverá enfrentar. expressões significativas como "as caldeiras e cubas. — O tempo de serviço dos trabalhadores dessa fábrica: freqüen- . no discurso dos operários. para ser eficaz como defesa contra a ansiedade e o medo. que encontramos também junto aos trabalhadores da construção civil. das fábricas em que trabalham (monstro feroz e misterioso etc). outros operários. aquele que fica de lado nessas práticas. quando a comparamos com a representação que têm. Porém. a cada dez anos. sua ansiedade. as "dicas" e a participação na vida coletiva irão aliviar seus esforços. — A idade da fábrica. "O costume" E o último elemento a ser considerado nas defesas contra o medo. efetivamente. assim. fazem reaparecer ainda mais a relação de ignorância que o operário tem para com seu trabalho e. a polivalência ou a instalação de um equipamento novo reativam a ansiedade. de regulação e manutenção diferentes. o tempo parece ter um papel essencial em relação à luta contra o medo. Mas uma mudança de posto de trabalho.

no Norte da França. a qualquer incidente no desenvolvimento do processo de produção. recentemente deslocados de seu campo. os operários estão especialmente sensíveis e atentos a qualquer anomalia. E. direta ou indiretamente. a mina. ou desejar uma deterioração do instrumento de trabalho. por exemplo. favorece a multiplicidade de tarefas e permite a economia de uma formação verdadeira. A fábrica tem um aspecto vetusto. O medo é utilizado pela direção como uma verdadeira alavanca para fazer trabalhar. vazamento ou qualquer outro incidente. mais do que o perigo do momento. na vida. já haviam trabalhado nela. aliás. o medo serve à produtividade. O contraste existente entre os operários dessa fábrica e aqueles que vivem a ansiedade permanente das novas fabricas lembra o contraste entre operários de países industrializados e os trabalhadores imigrantes. a iniciativa. intervém imediatamente. e mesmo o avô. O medo partilhado cria uma verdadeira solidariedade na eficiência. Efetivamente. nas conversas. do interior de um país da África do Norte. em comparação com as refinarias modernas. a ameaça não poupa ninguém. Lembrandp sem parar as diversas modalidades dos riscos. mais tranqüilos estarão. O risco cria. e que a produção principal ficou sempre a mesma. Mas o medo foi substituído por uma tensão menor. implantada no pós-guerra. o hábito venceu. leva a pensar que o tempo talvez tenha um papel importante na evolução do sofrimento psíquico dos operários em indústrias de processo contínuo. Deve-se ressaltar também o fato de que os próprios prédios da fábrica não se modificaram em várias décadas. — A estabilidade do pessoal. O exemplo dessa empresa. Ficam atentos e ativos. A fábrica já "entrou nos costumes". Quanto melhor estiver o processo de produção. a direção mantém voluntariamente os trabalhadores num estado de alerta permanente. A fábrica mata tanto como. mesmo se a ocorrência não for diretamente ligada a suas atribuições diretas.temente. conhece-se a empresa e o processo. que a direção. com o tempo. nas gerações. na própria cidade. e confrontados brutalmente a um modo de trabalho que lhes é completamente estranho. o pai ou a mãe. e nesse caso é impensável "deixar o barco afundar" (como numa linha de montagem). de modo que em caso de quebra. espontaneamente. 112 . Todos esses elementos favorecem o desenvolvimento de uma espécie de tradição local estabelecida por diversas gerações. Nas novas fábricas ainda não há tradição. Pois toda a população local vive dela. não há passado. não poderia dar. O risco diz respeito a todo mundo. pois com esse tipo de atmosfera de trabalho. na familia.

ou durante certa campanha relativa a um produto que. em suas duas faces inseparáveis: — Como resultado. por assim dizer. os trabalhadores em luta transgridem as regras de uma segurança que atingiu o estatuto de um mito indiscutível. as greves selvagens muito raras. é impossível. sobretudo. as greves clássicas são raras e mesmo impossíveis em certas usinas petroquímicas. A paralisação da produção acarretaria não somente prejuízos para o instrumento de trabalho mas. Através disso. Entretanto. quando certa instalação está em fase de manutenção ou quando se atingiu uma certa fase do processo. Nesse sentido.. por meio de processo e de uma técnica ainda não dominados. — Como instrumento de produtividade e de controle social. inevitável. e em torno do qual todos os movimentos reivindicatórios se organizam. Para funcionar. sozinho. vê-se bem que. sobre os limites exatos que não se deve ultrapassar. representando uma forma total. a prática demonstra que. para pressionar os trabalhadores e fazê-los trabalhar. Quer se trate de salários. segundo cotas que são objeto de negociações intermináveis entre a direção e os trabalhadores. ■O melhor exemplo e dado pela forma extraordinária que tomam os Bconflitos. e que o mito repousa sobre a ignorância que reina. instrumentalizado pela direção. completa e original de exploração. O medo é. esse tipo de processo não deve nem ultrapassar um volume final máximo. conscientemente. por isso. em alguns pontos. e a sabotagem fica definitivamente excluída. aqui ou ali. de ambos os lados. mas que fazem parte de uma escolha consciente. de qualificação profissional ou Ide condições de trabalho. as lutas têm um papel importante na desdramatização do cenário da segurança. Nesse mesmo sentido. da produção. a elevação perigosa de certas temperaturas. o mais freqüente é que a direção force sua ultrapassagem permanente). é sempre a segurança. A paralisação repentina. demonstram o uso abusivo que dela faz a direção. O argumento usado pela direção.O medo e a ordem social na empresa à O medo è também um instrumento de controle social na empresa. E fundamental que avaliemos a articulação: Ignorância-Risco-Medo-Segurança. sob pena de provocar. permite a diminuição do ritmo do processo. por parte da direção. arriscaria provocar acidentes. 1 113 . nem cair aquém de uma produção mínima. desativando parcialmente a ansiedade. se no começo essas normas são respeitadas. De modo que o mais freqüente é que a greve seja feita sob forma de uma redução da produção. fixado previamente pelo construtor (na realidade.. a greve só pode começar em uma data fixada. bloquear o fluxo de rea-gentes em certas canalizações etc.

São os trabalhadores que. è preciso encontrar "macetes" ao longo de um tempo que se mede. formulados em instruções de uso. É lógico que detêm certos conhecimentos técnicos. fruto das potencialidades criadoras e inventivas dos operários. a descoberta das "dicas" é. segundo os casos. mas o operário detectou dois ou três sinais. Freqüentemente. entre alguns dias e alguns anos. de flutuações e de alarmes que levam ao incidente em questão. um caráter vital. modernas. então. que não são nada comparáveis. que puderam elaborar e desenvolver um know-how. Não nos enganemos: os "macetes" não são simples truques. no que concerne ao processo de produção. A implantação de uma fábrica é a prova de um certo conhecimento. Mas. nesse caso. de rápida obsolescência e grande capacidade de tratamento do produto colocasse a direção em posse de um material que poderia render muito dinheiro sob a condição de saber usá-lo e conserválo. como já mostramos. depois de uma série de incidentes que se reproduzem ao longo de dois anos. transmitem oralmente seus "macetes". A descoberta e a produção dos "macetes" da profissão são. Por outro lado. em relação a tudo aquilo que diz respeito ao funcionamento e controle. descobrem e. de algum modo. eles estão desarmados de um saber pragmático. são fruto de muitos anos de observações cotidianas. graças à descoberta e à produção de conhecimentos pragmáticos sobre o próprio instrumento de trabalho. Não há nenhuma ligação lógica entre os diferentes elementos dessa seqüência. É assim que. de certo modo. mas são fragmentados e não bastariam para fazer funcionar a empresa. É neste corpo-a-corpo violento que se elabora o saber operário. arrancada dos trabalhadores pelo medo. Não se trata de afirmar que tanto direção quanto engenheiros. Mas. espicaça a imaginação e excita a curiosidade. nesse confronto entre equipamentos monstruosos e ameaçadores e operários sem nenhuma preparação ou formação efetiva. O estado de medo e de alerta que não abandona o trabalhador durante todo o tempo. diferentemente dos artesãos. às vezes. que um operário descobre a seqüência de variações. Assim. através de séculos de prática. dotada de instalações sofisticadas. simul114 . "macetes" têm. ao contrário. Vemos. ao longo de sua prática. projetistas e construtores não sabem onde pisam.Medo e imaginação Tudo se passa como se a instalação de uma usina petroquímica. pressionados pela situação ansiógena a se adaptarem o mais depressa possível. pois é graça a eles que os trabalhadores conseguem controlar ou dominar o processo.

prever o incidente que se produzirá alguns minutos mais tarde. sua colocação em prática e seu campo de extensão. já havíamos mostrado que. O que é fundamental nesse "sistema de "macetes". Do mesmo modo. É puramente pragmático e resulta da experiência e da observação *. a exploração do medo aumenta a produtividade. pede aos trabalhadores para eles mesmos "bolarem uma fórmula" destinada a evitar sua repetição. inegavelmente. Mobilização cujo motor principal ainda é. evidentemente. ''As dicas" constituem um saber operacional e seu conjunto compõe um modo operatório. só que restam ainda muitas zonas obscuras. para simplesmente reduzir a carga de trabalho.lâncos ou sucessivos. a rapidez de desenvolvimento destes "macetes". quando aparecia certa anomalia. depois de um incidente. cujo valor "funcional" para produtividade pode conduzir à sua utilização como técnica organizacional de comando. quando o sofrimento é útil à produtividade. Por ocasião do relato sobre o trabalho das telefonistas. o medo. exerce uma pressão no sentido da ordem social e estimula o processo de produção de "macetes". indispensáveis ao funcionamento da empresa. um outro operário descobriu uma espécie de receita para responder a ela: diminuir um pouc a pressão aqui. nas quais ainda não são eficazes. como vemos em outras situações de trabalho. a temperatura lá. de agora em diante. mas é exatamente esse saber que faz a fábrica funcionar. Em resumo. e evitá-lo. testemunham. a direção sabe muito bem a importância desse saber prático quando. sua articulação. que somente os operários conhecem de verdade. pode ser estimulado pelas chefias. a descoberta e a invenção de modos operatórios eficazes. De qualquer modo. a mobilização dos operários. aumentar a saída ali. Por outro lado. que consegue criar pontes na descontinuidade do saber do pessoal de nível superior. Este tipo de saber não se articula com nenhum conhecimento teórico. "dicas". é que não se trata de simples "truques". * Grifo da tradução. que vão lhe permitir. 115 . pedir ao colega do posto vizinho para diminuir um outro parâmetro. O mesmo vale para a ansiedade. isto é.

. E numa das fábricas pesquisadas onde melhor apareceu o papel dos especialistas. devido ao envelhecimento da empresa e do pessoal.A participação dos psicólogos — A exploração pelo medo No caso em questão." Estudaremos uma ficha de poliacidentado e politraumatizado. de causas preexistentes"! Com relação ao item 3. 11 dos quais com paralização do trabalho. à aparente negligência dos operários. FICHA M. mais recentes. Sobre o conteúdo desses estágios. não tiraram nada de útil nem de prático. que reproduziremos por extenso. os operários relatam que: 1. enquanto fenômeno. acrescentava-se uma íreqüência de acidentes julgada bastante elevada pela direção central. Para responder à questão. podemos afirmar a equivalência entre a exploração do medo e a exploração pelo medo. 2. na realidade. de longas digressões em torno da seqüência de causalidades que intervém no determinismo dos acidentes. em dez anos de trabalho.. Com relação ao item 2. Simultaneamente ao "costume". foram culpados pela noção de "poliacidentado predisposto". o manual intitula uma página inteira com "Os poliacidentados predispostos são uma minoria de 1 a 2% que sofrem acidentes graves" e. forneceram-lhes uma apostila onde se reproduzia um exemplo de acidente. Quem dirigia os estágios tinha se especializado em técnicas psicos-sociológicas nos Estados Unidos. constatamos que seus acidentes distribuem-se em: 116 i . como subtítulo: "a predisposição nunca é acidental. descrito no Capítulo 11]-c.. demonstrando-se "que um acidente. Se começarmos o estudo de sua ficha pelos gráficos iniciais. pode-se sofrer 15 acidentes sem aí haver nenhum grave. Trata-se justamente da fábrica onde elaborou-se uma espécie de tradição operária em relação ao processo de produção.. é apenas o encadeamento. "encheram-lhes" a cabeça com teorias sobre a complexidade da causalidade em matéria de acidentes: 3. trata-se. em relação a outras fábricas. a direção implantou uma "formação" interna sobre a segurança. 13 acidentes declarados. inevitável.2 Esse "mecânico polivalente" sofreu. da empresa matriz.

não há razão para que não o seja também num outro posto! O que aparece. Service Prévention Incendie. grafismos e palavras sublinhadas são do autor da apostila. os dedos indicador e médio da mão esquerda foram amputados pelo equipamento em movimento. podemos verificar que basta transferir o operário de seção. NOTA: "A tomada de consciência desse caso só ocorreu a partir do acidente grave".— 9 acidentes são da categoria de base: — cruz vermelha. Segunda constatação: os acidentes distribuemse regularmente no tempo. rue Ed. entorse. Ao retornar ao trabalho. — 3 acidentes oculares: — ponto vermelho. Isso explicava a maioria das lesões sofridas do lado esquerdo. — feridas. Primeira constatação: a categoria de base e dominante. contusão.. acima de tudo. — em quatro horas. Rostand. Por ocasião do 13'. para que diminua seu "índice de acidentes". O efeito í 117 . é a idéia de "poliacidentado predisposto" e sua associação a uma deficiência psicológica. — dores. o médico do trabalho submeteu-o a toda uma bateria de exames. — no mês. 32. tinha reflexos particularmente lentos. para evitar o trabalho em máquinas. seu índice de acidentes melhorou sensivelmente. Esta dupla constatação indica que encontramos um poliacidenTADO PREDISPOSTO. o que eqüivale a dizer que o que mudou na situação foram exatamente as condições de trabalho. entre os quais alguns testes psicotécnicos. Transferido para uma oficina de "montagem de pequenas peças". 13006 Marseille.) (Apave Marseille. ocorrido em uma prensa. Somente após esse acidente se elaborou a ficha individual. estiramento muscular. picadas. queimaduras. Se ele fosse realmente predisposto. fraturas.) Concluindo.. (Todos os títulos. Cada vez que "comandava uma ação" com seu lado esquerdo. não o trabalhador. e com seu consentimento. Esses exames mostraram que o operário em questão era portador de uma deficiência oriunda de um "acidente nervoso" sofrido quinze anos antes.' acidente. sem nenhum agrupamento: — em quatro dias. — / acidente da categoria intermediária: — triângulo preto.

Dessa maneira. ao se acidentarem em trabalho. ninguém intervém quando sobrevém um acidente. Desse modo. aos ritmos de trabalho intenso e ao medo. è que se sentem culpados no final do estágio e.. se não estiver diretamente ligado à sua tarefa específica. são insensíveis às ameaças industriais e aos riscos. Um outro exemplo do papel representado pelo estímulo do medo nas indústrias petroquímicas encontra-se na entrevista de uin diretor de manutenção argelino.. ficam sempre paradas. a causa é a mentalidade dos operários argelinos. não funcionam mais do que alguns meses por ano. estimulados pelo medo de ver a pane desencadeando uma espiral de catástrofes.principal obtido — e do qual testemunham os operários —. Na França. onde o essencial do trabalho consiste em intervir nos incidentes. as fábricas. mesmo posteriormente. pensaram imediatamente: "poliacidentado predisposto". por séculos de civilização industrial. as estatísticas indicaram uma redução dos acidentes. o mesmo acidente teria provocado a intervenção precipitada de vários operadores. e só foram declará-lo na enfermaria quando não havia gravidade evidente. Não tendo sido preparados. idênticas às que são operacionais na França. 118 [li . As refinarias importadas pela Argélia e completamente montadas no local. Segundo o diretor. alguns deles. Nessa instalação.

Talvez o mais insólito. é que a exploração mental seja fonte de mais-valia nas tarefas desqualificadas. mas mais especializadas. cuja reputação é a de serem estritamente manuais. As estratégias defensivas. Nas páginas seguintes não manteremos mais a separação entre insatisfação e medo. Vamos mostrar. podem ser utilizadas pela organização do trabalho para aumentar a produtividade. na abordagem psicopatológica da organização do trabalho. como funcionam os diversos sistemas de defesa colocados em prática para contê-la.A organização do trabalho e a doença Até agora. necessitamos recorrer a noções de psicopatologia mais clássicas. justificável até agora por motivos didáticos. em algumas doenças. em seguida. 119 . Para avaliar os efeitos da exploração mental sobre a saúde. por sua vez. a organização do trabalho como sua causa principal. do mesmo modo que podemos observar com a exploração da força física. nosso esforço de pesquisa e interpretação foi no sentido de revelar um sofrimento nãoreconhecido. Para encontrar. provocado pela organização do trabalho. A questão é saber se a exploração do sofrimento pode ter repercussões sobre a saúde dos trabalhadores. faremos referência à economia psíquica e somática global.

O outro exemplo será extraído de uma pesquisa com operários da fábrica Renault. as neuroses e psicoses descompensadas são imediatamente detectadas através dos critérios de rendimento na produção. Agitada. em cadeia. psicoses e depressões em situação de trabalho são compensadas. por uma queda no desempenho produtivo. a contraventora é conduzida à enfermaria. pela utilização dos sistemas defensivos descritos anteriormente. Resta saber se as descompensações são sempre evitáveis ou evitadas. Veremos a seguir como a organização do trabalho é. a chefia direta intervém. para impedir que se transforme em patologia. Esse fenômeno pode ser observado. como uma doença contagiosa. toda uma seção de trabalho. uma operária começa. basicamente feminino. em duas circunstâncias. As neuroses. Toda descompensação psiconeurótica fraduz-se. no escritório. que atingem. a causa de certas descompensações. freqüentemente os primeiros que aparecem. O pessoal. que se desencadeiam como epidemias. indubitavelmente. que nos servirão aqui como exemplos. Enquanto esse incidente fica isolado. devemos nos perguntar porque não vemos nenhum vestígio dela na fábrica. geralmente com uma diminuição dos ritmos de trabalho! Basta diminuir a pressão organizacional para fazer desaparecer toda manifestação do sofrimento. descompensa em crises de choro. Os autores de um relatório sobre a análise do trabalho nesse ramo industrial mostram que o aumento da cadência. Nos fins de semana. Mesmo intenso. uma outra tem uma crise de choro e abandona sua função. todas as situações de que trataremos a seguir não deixam entrever nenhuma doença mental caracterizada. a mínima. certas técnicas de seleção de pessoal. dos nervos e desmaios. Segue-se. o sofrimento ê razoavelmente bem controlado pelas estratégias defensivas. a tremer e a gritar. A primeira concerne ao aumento dos ritmos de trabalho na indústria eletrônica (101). de repente. provavelmente. quase que regularmente. precisamente. Alguns momentos depois. A punição sistemática é a exclusão imediata do trabalho. o 120 .O sofrimento invisível Com raras exceções. num quadro psicopatológico. na oficina. Se admitimos a possibilidade de descompensação. a aceleração dos tempos e a exigência de desempenhos produtivos de rendimento crescente conduzem a descompensações rápidas. Mas se diversas operárias descompensam. Basta acrescentar. a esse mecanismo de exclusão. Assim. para compreender que a seção de trabalho deve assegurar uma verdadeira "assepsia mental". então. "uma série de descompensações".

e até mesmo entre o começo e o fim do dia.ambiente da seção fica bem especial. Duas soluções lhe são possíveis: largar o trabalho. Forçosamente. e rejeitadas ao fina!. Por isso. que se distingue bastante do processo de psiquiatrização (14). Quando o limiar coletivo de tolerância não é ultrapassado. geralmente acompanhado de uma receita de psicoestimulantes ou analgésicos. É assim que se define a norma. A segunda solução é representada pelo absen-teísmo. a agressividade contra as chefias. mas também uma norma mental. mas a medicalização visa. São as fórmulas encobertas pela rotatividade. trocar de posto ou mudar de empresa. até mesmo a parada da produção. ainda assim. além disso. a saída será individual. 121 . Só a doença é admissível. muito mais defeituosos do que os carros do meio da semana. os carros que saem da fábrica naqueles dias têm muito mais defeitos do que os que saem no começo da semana. Mas. entre o começo e o fim dela. são. pode acontecer que um trabalhador. Os trabalhadores que têm problemas com seus carros próprios costumam dizer. diretamente. Com a desordem instalada. isoladamente. No fim. seus efeitos se farão sentir não-somente à distância. entre si: "é um carro de sexta-feira". o trabalhador deverá apresentar um atestado médico. Este exemplo mostra que se os ritmos de trabalho são mantidos no nível máximo da tolerância. é lógico. quebram-se ferramentas. Os carros do começo da semana e do fim de semana. muitas vezes a linha de produção pára. O sofrimento mental e a fadiga são proibidos de se manifestarem numa fábrica. o operário esgotado e á beira da descompensação psiconeurótica não pode abandonar a fábrica sem maiores explicações. mas na mesma semana. Explode. via de regra. na medida em que se procura não-somente o deslocamento do conflito homem-trabalho para um terreno mais neutro. no que este pode ter de mental. apesar do barulho das máquinas. Voam parafusos pelo ar. aumentam as peças quebradas durante a produção. a desquaHficação do sofrimento. Uma norma de produção. Mesmo sabendo que não está propriamente doente. provocam irrupções coletivas de agressividade. não consiga manter os ritmos de trabalho ou manter seu equilíbrio mental. A consulta médica termina por disfarçar o sofrimento mental: é o processo de medicalização (53). as chefias esforçam-se para manter os ritmos de trabalho num nível tolerável pela maioria dos trabalhadores. qualquer anomalia ou irregularidade. ressoam gritos. É geralmente nesses momentos que se vê também algumas brigas de socos.

que se opõe aos investimentos das pulsões e às sublimações. Mas não é suficiente para explicar o momento "escolhido" pela descompensação. como correia de transmissão de uma vontade externa. admitamos que a realidade. Depois de uma pesquisa detalhada. não se pode evidenciar nenhuma afecção somática. tem provavelmente um efeito que favorece as descompensações psiconeuróticas. Até os maiores e mais ferrenhos críticos da nosologia psiquiátrica não conseguiram provar a existência de uma patologia mental decorrente do trabalho. a exploração do sofrimento pela organização do trabalho não cria doenças mentais específicas.1. A organização do trabalho talvez inscreva seus efeitos mais nas possibilidades de tratamento de uma doença mental. O defeito crônico de uma vida mental sem saída mantido pela organização do trabalho. A estrutura de personalidade pode explicar a forma sob a qual aparece a descompensação e seu conteúdo. clínica e paraclínica. nem neuroses do trabalho. da estrutura (42) das personalidades. Não existem psicoses de trabalho. Certos trabalhos (19) consagraram-se ao estudo e à caracterização das situações reais que influenciam as descompensações psicóticas. O surgimento de uma descompensação psiconeurótica não deixa de colocar alguma^ questões que ainda não foram resolvidas. Um trabalhador de 26 anos é encaminhado a um serviço especializado de um hospital parisiense e hospitalizado por mal-estares cada vez mais freqüentes. Apenas algumas interpretações simplistas atribuem à sociedade a causa de todas as doenças mentais (4). a organização do trabalho. pode favorecer o surgimento de uma descompensação. que deixa sem saída uma parte importante da energia pulsional. que faz com que o aparelho mental perca sua versatilidade. Isso significa que a organização do trabalho não tem nenhuma importância nas doenças mentais? (5) As descompensações psicóticas e neuróticas dependem. mesmo sem nenhuma ocorrência específica. adquirida muito antes do engajamento na produção. Ilustraremos tais afirmações com um caso clínico. em última instância. II 122 . Mesmo que a realidade tratada nas descompensações psicóticas e neuróticas não tenha nenhum poder patogênico. o sistema frustraçãoagressividade reativa. Deve-se levar em consideração três componentes da relação homem-organização do trabalho: a fadiga. do que em seu determinismo. a não ser pelo conteúdo que veicula. A doença mental Contrariamente ao que se poderia imaginar.

a psicoterapia foi impossível e deixada de lado por interferências de cunho profissional: trabalhador em construção civil. com a crise econômica impedindo qualquer esperança de reciclagem profissional. sem substrato orgânico. após a cicatrização de uma ferida. não apresentava nenhum problema no trabalho. Estando resolvidas as questões materiais. em especial nas tarefas de pouca qualificação profissional. entretanto. efeitos esses susceptíveis de favorecer acidentes de trabalho. Entretanto. ou seja. A técnica psicoterápica estava desde o início condenada ao fracasso. como conseqüência primeira. A organização do trabalho. Em geral. uma entidade. Esse exemplo não é. No momento em que numerosas psicoterapias e psicanálises são reembolsadas pela Previdência Social. em si mesmo. Trata-se da "síndrome subjetiva pós-traumática". Caracteriza-se por uma grande variedade de problemas "funcionais". em geral. pedreiro de profissão. como foi descrita no Capítulo III. uma demonstração. poderia ter um papel importante no que chamamos atualmente de casos inanalisáveis (87). Continuar a psicoterapia acarretaria então.Uma anamnese psiquiátrica permite afirmar que se trata de uma descompensação de uma neurose histerofóbica. ou pela persistência anormal de um sintoma que apa123 . se a organização do trabalho não pode ser considerada como fonte de doença mental. podemos nos perguntar se essa contradição entre o trabalho psicoterápico e a organização do trabalho não é questionada pela raridade de operários que se beneficiam de tais tratamentos. Esse exemplo mostra como o tratamento de alguns doentes entra em contradição com a organização do trabalho. sem dúvida. Essa síndrome aparece. era contraindicado em razão dos efeitos desses medicamentos sobre a vigilância. Seria uma situação absurda na ausência de outras qualificações profissionais. em 100%. O recurso a terapêuticas psicofarmacológicas. subseqüente ao recente nascimento do primeiro filho. O operário. psicopatológica. aliás pouco úteis nesse caso. parar de trabalhar. devia participar da ideologia defensiva da profissão. A análise das defesas fóbicas implicava simultaneamente no questionamento de um sistema defensivo necessário à continuação do trabalho (em virtude de uma semelhança de estruturas entre defesa fóbica e ideologia defensiva da profissão). uma psicoterapia era tratamento do qual poderia se beneficiar qualquer paciente No entanto. não se mantém mais de pé os argumentos de ordem financeira como a única explicação capaz de dar conta da discriminação social no que concerne ao tratamento psicoterápico e psicanalítico. poderia talvez encontrar assim uma explicação original. a consolidação de uma fratura ou a cura de uma intoxicação aguda.

somente o sofrimento físico pode ser reconhecido pela organização do trabalho. uma ferida no couro cabeludo provocada pela queda de uma pedra. o doente não se beneficia de um tratamento realmente eficaz. longe de ser inadequado. por ansiedade. Às vezes. Seria. até então. continua durante meses a produzir pruridos na superfície do crânio. Somente uma doença mental caracterizada permitiria a aquisição de um status de ínvalidez. o medo. é interpretada como descompensação hipocron-dríaca de uma estrutura neurótica subjacente e preexistente ao acidente. Já mostramos (Capítulo III) que a consciência exata do risco presente durante o trabalho torna impossível a continuidade da tarefa. Nessas condições. No final da estória. não pode absolutamente ser 124 . A referência à ideologia defensiva das profissões da construção civil permite estabelecer uma explicação psicopatológica: tudo se passaria como se o aeidente comprovasse. impressões estranhas na cabeça. de algum modo. Ora. esses sintomas subjetivos impedem o retorno ao trabalho. O papel do acidente é. Convencido da realidade do risco e excluído da ideologia ocupacional. enquanto que o sofrimento mental e. deste ponto de vista.receu depois do acidente. sem indenização nem pensão. compreende-se que o trabalhador acidentado recuse energicamente retomar o trabalho. reconhecer sua falência. Ao mesmo tempo. aí também. cefaléias. sua impotência. dissemos anteriormente. enfrentar individualmente o perigo e o medo. Assim. Para esta síndrome. freqüentemente conduzindo q paciente a um estado misto. a virilidade e o desafio ao medo teriam mostrado sua fragilidade através do acidente e de sua impotência para proteger o operário. em particular. As pesquisas clínicas e paraclínicas. o médico e a Previdência Social. geralmente. a ineficácia da ideologia ocupacional. Muitas vezes. limitado àquele de "fator reativo" ou "elemento desencadeador". o trabalhador acidentado deverá. A coragem. ao ser colocado em mãos de um psiquiatra. feito de reivindicação e de depressão. não chegam a nenhuma conclusão. tal comportamento é difícil de ser assumido por um operário que. O estudo de numerosos casos clínicos mostra que esta síndrome atinge essencialmente os operários da construção civil e os trabalhadores com tarefas perigosas. automaticamente. eqüivaleria à demissão. não têm o direito de existir no local de trabalho. a partir de então. a ansiedade. depois da raspagem e cura. Assim. recusar-se a retomar o trabalho. A evolução da síndrome subjetiva póstraumática é de uma cronicidade terrível. de algum modo. partilhava da ideologia ocupacional defensiva. Por outro lado. seu medo. nenhuma explicação psicopatológica foi até hoje proposta (1). Instaura-se então um diálogo de surdos entre o operário. vertigens etc.

A invalidez e as pensões. são concedidas apenas devido ao status reconhecido da doença mental. diferente dos outros domínios da psicopatologia das neuroses. ao contrário. que conseguiram redirecionar a sintomatologia. antes de tudo sociopro-fissional. de reclassificação profissional ou de admissão da condição de invalidez. Seu sentido e seu significado não podem ser desvelados pela história passada do sujeito. embora atinja. é preciso notar que. e não uma estrutura neurótica única. Dois argumentos vão no mesmo sentido de nossa hipótese etiológica. pré-formada e característica dessa síndrome. Mesmo se médicos e psiquiatras costumam atribuir à síndrome subjetiva pós-traumática uma hipotética estrutura neurótica. É essa a lógica da organização do trabalho. tanto mais modestas quanto mais jovem for o acidentado. Há casos. Não conhecemos nenhuma publicação de sucesso psico-terápico nessa patologia. de seu determinismo. então. anualmente. Como regra geral. essa síndrome revela uma resistência excepcional ao tratamento psiquiátrico.considerado uma doença mental. A síndrome subjetiva pós-traumática é. depois de alguns meses ou alguns anos de evolução. na natureza das condições e da organização do trabalho. os doentes são tratados por psiquiatras. seja porque. a única entidade clínica reconhecidamente de origem bem limitada à organização do trabalho. milhares de trabalhadores acidentados (11). 125 . A investigação psicossomática Os pacientes com síndrome subjetiva pós-traumática mostram que encontramos entre eles uma grande variedade de estruturas mentais. num círculo vicioso de incompreensões. A persistência de cefaléias. constituise uma verdadeira afecção psiquiátrica. problemas visuais. uma "medi-calização" (vet parágrafo precedente) do medo. de equilíbrio sine matéria é bem adequada. que só permite que o sofrimento mental deixe sua máscara no final de sua evolução: a doença mental caracterizada. A única saída é. provavelmente. residem. e não psicoafetivo. Seja porque a cronicidade de problemas sine matéria não justificaria um tratamento médico. vertigens. Na prática. ela é reconhecida com pouca freqüência. A impossibilidade de analisar essa síndrome resulta. servindo de ponto de apoio e de apelo ao processo de medicaJização. gradualmente. assim.

as defesas de caráter e de comportamento são menos flexíveis que as defesas mentais. Havíamos então insistido. a maioria das doenças somáticas aparece em 126 . A doença somática No Capítulo II nós apresentamos a observação sobre uma desorganização psicossomática num operário diabético. mas pelo aparecimento de uma doença somática (67). que não consegue se descarregar. ou seja. pode conduzir à desorganização. — As defesas que não são psiconeuróticas. O efeito principal da neutralização das defesas caracteriais e comportamentais é o aparecimento de uma doença somática.2. nem de um modo psicótico. Por causa disso. que tomaram corpo numa teoria conhecida pelo nome de Teoria da Escola Psicossomática de Paris (64. para que compreendamos os efeitos da organização do trabalho na economia psicossomática: — As doenças somáticas aparecem sobretudo em indivíduos que apresentam uma estrutura mental caracterizada pela pobreza ou ineficácia das defesas mentais (Çalta de vida onírica ou de atividades fantasmáticas. que deve ser lembrado. Para ser mais exato. ausência de sintomas psiconeuróticos. tais sujeitos não descompensam de um modo neurótico. há o risco de uma acumulação de energia pulsional. os sujeitos que apresentam esse tipo de estrutura são mais frágeis diante dos acontecimentos da vida e das situações conflituais do que os sujeitos que apresentam uma estrutura neurótica. em detrimento de outros mecanismos de defesa não colocados em prática. fala-se de neurose de caráter. — Ao contrário. A desorganização à qual sucumbe o doente não se traduz por sintomas mentais. de neurose de comportamento (69) ou de estruturação edeestado-limite(7). nos efeitos possíveis da inadequação entre a estrutura da personalidade e o conteúdo ergonômico do trabalho. basicamente. 71). Não apresentaremos aqui uma demonstração dessas afirmações. má qualidade do funcionamento mental: ineficácia funcional do pré-consciente) (78). Quando as defesas caracteriais e comportamentais não conseguem se exercer durante o trabalho. — Quando as defesas caracteriais e comportamentais não conseguem conter a gravidade dos conflitos ou a realidade. Há um ponto fundamental nessa teoria. Para caracterizar esse tipo de estrutura mental. é preciso saber que o inverso também é possível: a contribuição exagerada de uma defesa comportamental ou de um sistema defensivo caracterial.

quando seu funcionamento mental é. onde cada gesto harmoniza-se espontaneamente com as defesas com-portamentais e caracteriais.sujeitos que já apresentavam uma estrutura caractcrial ou compor-tarnental. ponto de partida de uma doença* somática (25) — pode atingir um sujeito com estrutura neurótica ou psicótica verdadeira. colocado fora de circuito (65). — Mas a somatízaçâo — processo pelo qual um conflito que não consegue encontrar uma resolução menial desencadeia. no original: arrumação. organização (N. o trabalhador. numa seqüência de gestos. a observação demonstra que os diferentes modos operatórios. de certo modo. A elaboração de um modo operatório espontâneo. vai se aperfeiçoando em função de critérios que não são nada ao acaso. então. Ao contrário. A somatização é encontrada.). enfim. Não somente o conteúdo significativo (mais restrito quanto mais profunda for a divisão do trabalho). mas também o conteúdo ergonômico. quaisquer que sejam sua origem ou natureza (76. realizada por diferentes trabalhadores. protege o corpo contra uma sobrecarga comporta* Aménagement. ao longo de sucessivas modificações. Basta enfatizar que a organização do trabalho determina o conteúdo da tarefa através da divisão do trabalho. nem sempre é realizada segundo um mesmo e único protocolo. A livre organização do trabalho é apenas uma estruturação* do modo operatório. do T. inversamente. os sujeitos portadores de doenças somáticas graves estão relativamente protegidos das neuroses e psicoses) (26). no corpo. 24. A referência a essa teoria facilita compreender como a organização do trabalho age sobre a economia psicossomática. A organização do tempo em fases de> trabalho e em fases de descanso respeita as necessidades da economia psicossomática. quer dizer. visam à economia toda do corpo em situação de trabalho. 127 . desordens endócrino-metabólicas. que aparecem espontaneamente. Quando se ocupa de uma tarefa. as atitudes individuais. Isso é válido para todas as doenças. a postura e os ambientes físicos e químicos que. procura arrumá-la numa ordem. que leva em consideração. executando de certa maneira uma organização de trabalho de compromisso. são extremamente personalizados. 89 bis. espontaneamente. Essa situação é bastante rara nesse tipo de sujeito (mostrou-se que os neuróticos e os psicóticos apresentam uma resistência excepcional à doença somática e. os gestos. as necessidades da personalidade. momentaneamente. 56). em sujeitos com estrutura psiconeurótica. A mesma tarefa.66. escolhendo os instrumentos adequados.

não foi até este momento bem elaborada. A organização do trabalho.mental. pode. na medida em que ela pode bloquear os esforços do trabalhador para adequar o modo operatório às necessidades de sua estrutura mental. químicas e biológicas do trabalho. em certos casos. Esses casos não são raros. aos trabalhadores que apresentam uma estrutura caracterial ou comportamental de pouca flexibilidade. entrar em choque com o compromisso operatório favorável. que caracteriza o trabalho artesanal. inicialmente. pois — via de regra — quanto mais se desce no status social. menos ela facilitará estruturações favoráveis à economia psicossomática individual. pode comprometer imediatamente o equilíbrio psicossomático. enfrentam. aparece. Deste modo. antes cie tudo. As mesmas observações aplicam-se à diminuição da longevidade dos trabalhadores à medida que se desce na hierarquia socioprofissional. A proposição que acaba de ser formulada di/ respeito. fixada externamente pelas chefias. que poderia ser prejudicial. Mas nossa experiência clínica nos leva a pensar que seu papel não é nem um pouco négligenciável. que caracteriza a maior parte das tarefas industriais. 'É provável que uma parte não négligenciável da morbidade somática observada entre os trabalhadores tenha sua origem numa organização do trabalho inadequada. como um obstáculo à livre estruturação da tarefa. e possibilita ao sujeito meios de canalizar suas pulsões durante o trabalho. mas também os efeitos nefastos da organização do trabalho. Talvez tenhamos uma tripla explicação para o aumento do nível de morbidade e para a diminuição da longevidade nas classes sociais desfavorecidas. neste sentido. as ver128 . mais rigidamente determinada é a organização do trabalho que os trabalhadores. A avaliação do papel da organização do trabalho na morbidade operária. Às piores condições de trabalho dos operários desqualificados somam-se não somente uma resposta médico-social de qualidade inferior à das profissões mais favorecidas (noção clássica. atualmente). na medida em que o conflito entre a economia psicossomática e a organização do trabalho potencializa os efeitos patogênicos das más condições físicas. a organização do trabalho rígida e imposta. Ao inverso da livre estruturação do modo operatório. que o trabalhador teria instituído espontaneamente. em relação às duas outras causas. A organização do trabalho. A organização do trabalho é causa de uma fragilização somática. e a acreditar nos psiquiatras e psicanalistas contemporâneos. Quanto mais rígida for a organização do trabalho. a livre organização do trabalho torna-se uma peça essencial do equilíbrio psicossomático e da satisfação.

seu posto de trabalho na indústria têxtil deixa um pouco de espaço e de tempo para a vida fantasmática. pelo choque com a organização do trabalho. é preciso que a organização do trabalho facilite o livre jogo do funcionamento mental. Entretanto. sendo então capaz. preocupações. Ainda assim.). investimentos afetivos. as doenças somáticas são extraordinariamente mais raras do que em sujeitos com menor capacidade de mentalizar. aumentando as estruturas caracteriaís e comportamentais (64). e aí está um dos pontos mais interessantes de seu livro. * Grifo da tradução. o autor mostra os efeitos imediatos do desemprego parcial (imposto pelas dificuldades econômicas da empresa) sobre a retomada de um trabalho mental de uma outra envergadura: tudo acontece como se. Nesse sentido. essa proposição parece ter sido pressentida de longe por alguns autores (34). uma das maiores causas da doença somática é o bloqueio contínuo que a organização do trabalho — e. sua caricatura no sistema taylorista e na produção por peças é capaz de neutralizar completamente a vida mental durante o trabalho*. Vimos. 129 Jt . de fazer projetos. o sistema taylorista — pode provocar no funcionamento mental. Efetiva-se assim. na situação descrita. o sujeito retomasse contato com o próprio corpo. em particular. o primeiro passo para uma desorganização psicossomática experimental. do T. * "Fantasmas" no sentido psicanalítico (N. com Boyadjian (9) que. O que acontece ao sujeito que apresenta uma estrutura neurótica autêntica. em relação à teoria psicossomática. o trabalhador encontra-se. na situação de contradição que o opõe à organização do trabalho? Parece-nos que as aptidões ligadas à mentalização e à produção de fantasmas* constituem a melhor válvula de escape à tensão imposta à economia psicossomática. Numerosos casos clínicos comprovam que. artificialmente. parcialmente liberado. Nós propomos a seguinte hipótese: a organização do trabalho e. de certo modo.dadeiras estruturas neuróticas tenderiam a tornar-se muito raras. Mesmo não sendo precisamente ortodoxa. lesado em suas potencialidades neuróticas e obrigado a funcionar como uma estrutura caracterial ou comportamental. em situações semelhantes. da luta individual contra a organização do trabalho (com a respectiva redução de fadigas). pelo desemprego. em especial. novamente. Em nossa opinião. seus desejos.

e principalmente. Talvez fosse mais correto dizer mesmo que não há ainda uma doença somática. Entretanto. Essa inatividade é fatigante porque não é um simples repouso mas. Um exemplo caricatural foi-nos dado por uma empresa. Primeiro. Vários autores já debateram a fisiopatologia dessa fadiga misteriosa. O que pode parecer estranho é que não corresponde a um esforço muito grande dos órgãos do corpo. vários autores desqualificam a fadiga como se ela fosse "psicogênica". sobretudo. não há nada mais surpreendente do que observar essa vivência subjetiva tornar-se uma queixa somática. da fisiologia e das experiências clássicas sobre energética e esforço muscular. 51). Essa vivência exprime-se. ao mesmo tempo. pela fadiga. Tal concepção é fortemente influenciada pela herança histórica da biologia. Por ser uma vivência subjetiva. falsa e verdadeira.Clinicamente. A maioria das pessoas. Não há nenhuma necessidade. ou seja. Na realidade. em uma doença somática. as secretárias I3u . na qual a redução da atividade tinha provocado o repouso forçado de uma seção inteira. A fadiga não provém somente da sobrecarga de um órgão ou de um aparelho. caracteriais e mentais. está incompleta. Mas é também. ao contrário. mas. já mencionada no Capitulo II. Essa afirmação é. sobretudo. não tem prazer nenhum com a inatividade duradoura. quase uma simulação. que não corresponde a nenhuma fisiopatologia . a exemplo das crianças. o trabalhador deve desenvolver todos os recursos de que dispõe para compensar o estreitamento — pela organização do trabalho — de todos os canais comportamentais. o fracasso do funcionamento mental e a inadequação da organização do trabalho (conteúdo ergonômico) às necessidades da economia psicossomática não se traduzem. os operários não reivindicam o direito à ociosidade permanente. A fadiga pode encontrar sua origem também na inatividade. Compreendemos melhor. porque à fadiga não corresponde sempre uma excessiva carga física de trabalho. de se ter um desempenho físico excessivo para justificar a sensação de fadiga. nesta perspectiva.concreta (12. para sua energia pulsional. Contrariamente a certas afirmações. e também por ser uma vivência subjetiva. errada. A fadiga é simultaneamente psíquica e somática. cuja expressão é específica e distingue-se da insatisfação em relação ao conteúdo significativo da tarefa. mas a uma repressão da atividade espontânea desses órgãos (motores e sensoriais). uma repressão — inibição da atividade espontânea. imediatamente. Quando a organização do trabalho entra em choque com a economia psicossomática. aparece uma vivência de insatisfação. na realidade. mesmo não havendo uma doença autêntica. somática porque sua origem está claramente no corpo. É psíquica porque corresponde a um obstáculo para o psicossomático.

. além da diferença dos métodos de trabalho.. Nas fichas do pessoal pertencente a novas linhas de fabri-ção. ocorreu uma indiscutível recrudescência de intoxicação por chumbo.. "licenças de trabalho"! Para ilustrar nossa proposição relativa aos possíveis efeitos da organização do trabalho sobre a economia psicossomática. À aplicação dos mesmos métodos de produtividade seguiu-se uma recrudescência nítida de sinais sangüíneos ligados à intoxicação por chumbo Essas observações parecem demonstrar que se. na região central da França. Mas a única modificação ocorrida relacionava-se ao ritmo de rabalho. resultam* dessa "organização do trabalho" foi o aparecimento de uma fadiga considerável que levou a . O trabalho de diferentes pesquisas e estudos realizados mostrou que as condições de trabalho eram praticamente as mesmas. Estudei atentamente a questão. Mas o problema apareceu novamente numa fábrica da mesma sociedade. pelo menos do ponto de vista dos tóxicos.). aparentemente. quase nenhum trabalho lhes foi dado. foi possível constatar. ue era até fácil situar. A fadiga física não se manifestou de maneira muito clara.estavam submetidas à disciplina dos horáros e ao controle de uma chefia. Podemos supor.. onde os métodos de trabalho eram diferentes e comportavam uma certa margem de liberdade na produção. que a fadiga e a difícil adaptação a um ritmo de produção elevado provocaram perturbações passageiras nas defesas do organismo. para saber se não havia. para um bom número de operários.. Ao mesmo tempo. pelos resultados anormais do exame de sangue. fazer palavras cruzadas etc). por um simples olhar. transcrevemos trechos de um artigo que apareceu há cerca de vinte anos (31): "Havíamos feito uma organização dos ritmos de trabalho e de fabricação que correspondia a uma produção muito mais elevada. Esse poderia ser um caso isolado. a fadiga caracterizou-se por uma predisposição maior à intoxicação por chumbo ou por uma eliminação menos eficaz dos tóxicos que tinham absorvido (. no interior. seis meses depois. foi-lhes proibido terem atividades não-profis-sionais (proibição de tricotar. Durante alguns meses. qual tinha sido a data da modificação do ritmo de trabalho. havendo sobrecarga. os operários não reagiram clara e visivelmente ao esforço exigido. A fadiga dos operários traduziu-se de outra maneira. então." 131 ÈÍ .. retrospectivamente. Mas pudemos constatar que.. pelo menos inicialmente.. O efeito principal. um outro fator susceptível de explicar essa recrudescência da intoxicação.

Como explicar esse fenômeno. as modificações das condições de trabalho. a introdução da organização científica do trabalho nessa fábrica. 132 . de um aumento da poluição pelo chumbo. em função de necessidades de sua economia psicossomâtica. Desse modo. Em outras palavras. Exceto. pelos operários. de cadência e de fragmentação do trabalho. a única mudança fora a implantação de uma linha de produção com seu conjunto de ritmos de trabalho. O aumento de casos de saturnismo e a gravidade de intoxicação por chumbo não decorria. o aumento da morbidade em questão não poderia ser atribuída a causas físiço-químicas. sem evocar os efeitos da mudança da organização do trabalho sobre a economia psicossomâtica? Podemos supor que a passagem dos métodos de trabalho que deixavam "certa margem de liberdade na produção" para uma organização rígida (sistema taylorista) teve como conseqüência o bloqueio da "livre estruturação do modo operatório". como bem enfatiza o autor. desorganizou seus sistemas defensivos espontâneos e favoreceu o aparecimento de doenças somáticas. nessas fábricas.Na fábrica de acumuladores de que trata o artigo em questão. tendo como ponto de impacto o funcionamento mental dos trabalhadores.

em virtude de regras que foram. Esse sofrimento. no trabalho.Conclusões Da abordagem histórica. de esperanças e de desejos. Ela é de certa forma uma porta de entrada para a doença. cujo impacto é o aparelho psíquico. Assim disfarçado ou mascarado. em grande parte. portadora de projetos. assim como contra a insatisfação. elucidadas. começa quando o homem. os operários elaboram estratégias defensivas. Em certas condições. emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual. já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais conforme às suas necessidades j fisiológicas e a seus desejos psicológicos — isso é. sobre o homem. o sofrimento só pode ser revelado 133 . executadas na maioria das vezes em grupo. de natureza mental. O trabalho repetitivo cria a insatisfação. e uma organização do trabalho que os ignora. As tarefas perigosas. quando a relação\ homem-trabalho é bloqueada. uma ação específica. havíamos extraído uma hipótese em torno da qual esse livro foi construído: a organização do trabalho exerce. Contra a angústia do trabalho. de maneira que o sofrimento não é imediatamente identificável. e uma encruzilhada que se abre para as descompensações mentais ou doenças somáticas. A forma de que se reveste o sofrimento varia com o tipo de organização do trabalho. cujas conseqüências não se limitam a um desgosto particular. dão origem a um medo específico.

A vida psíquica é. criar doenças somáticas e não apenas psíquicas. — O conteúdo do trabalho é fonte de uma satisfação sublimató-ria: situação que. é porque pelo menos uma das duas condições seguintes é realizada: — As exigências intelectuais. especificamente.através de uma capa própria a cada profissão. e há casos em que o trabalho é. nos empregos de escritório). aos órgãos sensoriais e às vísceras. Se a violência da organização do trabalho pode. O sofrimento do trabalhador dá lugar a uma semiologia que é chamada de "ideologia defensiva de profissão". na construção civil ou nas indústrias químicas. Quando a relação com a organização do trabalho é favorável. O ponto de vista da economia psicossomática aparece. motoras ou psicossensoriais da tarefa estão. Sofrimento e doença. os vírus e as condições climáticas. um patamar de integração do funcionamento dos diferentes órgãos. ao contrário. condições físicas. nas tarefas taylorizadas. encontrada em circunstâncias privilegiadas. mesmo na ausência de nocividade dos ambientes de trabalho1 (poj exemplo. também. uma hipótese utilizável (26 a). Pode até acontecer que ele confira ao organismo uma resistência maior contra a fadiga e a doença. de acordo com as necessidades do trabalhador considerado. como instrumento crucial da investigação em psicopatologia do trabalho. de tal maneira que o simples exercício da tarefa está na origem de uma descarga e de um "prazer de funcionar". ao invés de ser conflituosa. isso impõe. a bem dizer. que constitui de certa forma sua sintomatologia. Sua desestruturação reper-curte sobre a saúde física e sobre a saúde mental. rtalvez. apoiado por uma análise precisa da psicodinâmica da relação homem/ trabalho. químicas e biológicas de trabalho. Uma boa adequação entre a organização do trabalho e a estrutura mental do operário é possível. onde a con1 Isto é. desse modo. é porque o aparelho mental não é um "compartimento" do organismo. simplesmente justaposto à musculatura. em cada caso. contra os tóxicos industriais. dissemos nós? Mas a relação entre organização do trabalho e aparelho mental não é tão unívoca. a noção de carga psíquica de trabalho é. é rara em comparação com a maioria das tarefas. um ponto de vista detalhado. favorável ao equilíbrio mental e à saúde do corpo. /34 . de "síndrome subjetiva da fadiga nervosa" ou de "síndrome de contaminação pelos comportamentos condicionados". Nesse sentido.

pois seria falso imaginar que. ele se revela propício à 135 . para a maioria dessas categorias. atravessadas progressivamente por uma organização do trabalho cada vez mais auto-ntana. de suporte"' num processo de sublimação. os sacrifícios materiais sejam fáceis. TnH Tnte Um eXCdente guia na Protecão da homeostasia. então. modificar â sTdades nn ASCUHtrabalhO ?°nf°rme SCU deseJ° ou suas n^-menfe Vnm * CaS°S> de P°de até fazê"la variar' espontaneaZ™hSCUS PrOP"OS ritm°s bioIóg'^s. por exemplo. São testemunhas disso os artistas e os pesquisadores. censuram a montagem do filme. Essa ul ima formula e. equivalente (por exemplo. sobre o qual se exerce a chantagem do afastamento e aa^substituição pelas centenas de colegas sem trabalho. Em certos casos. nesse quadro. determinam os horários de trabalho. essa evolução é sensível.da qual o sistema laylor e a caricatura — compromete as possibilidades ao mesmo dTtarefT QUe dimmUÍ 3 eSC°lha C a margem deixada ao livre arranJ° Aliás. como a todo o mundo. Sh S° Se encontram nas Profissões de artesão. toda tarefa é suscetível de servir. ditam as seqüências a serem suprimidas e a reiazer etc. Eles os fazem sofrer. para alguns. Basta pensarmos no trabalho dos enfermeiros nos hospitais por exemplo. mas o prazer do trabalho lhes permite uma melhor defesa. que esperam Esses fatos sugerem uma certa reserva e suscitam um pessimismo em relação ao futuro da maioria das profissões. na realidade. podemos mostrar. rígida e parcelizante. mesmo em profissões até agora poupadas.em nartt H° ü ' d° ritm° de trabalho * do modo operatório é. oLS^T 3 a° ffalhador. a ponto de o diretor não ser mais do que um excecutante como os outros. endócrinos e psicoafe-tivos segumdo para isso sua vivência subjetiva que. nas pro-L I entreí0S resP°nsáveis de alto nível: trabalho livree organizado ou deliberadamente escolhido e conquistado..E** Pode. Parece que o sofrimento mental que tentamos mostrar não poder ser considerado apenas como uma conseqüência deplorável ou um epilenômeno lamentável. Mas é preciso reconhecer que a tendençia geral a divisão crescente do trabalho . Exigências materiais assim como salariais. que grandes dificuldades concretas do trabalho sejam facilmente aceitas. ou nas condições espantosas do trabalho de criação na televisão. entre cs pilotos de caça) e pode oferecer uma ocasião única de sublimação. Nao ha nada de espantoso. em relação às quais a resistência cresce. A pnon. onde as decisões administrativas impõem a escolha dos atores e do argumento.

esquivar-se à verdade (invisibilidade cheia de conseqüências. que permite adivinhai que as defesas escondem alguma coisa. parece que a exploração do corpo passa sempre e necessariamente por uma neutralização prévia da vida mental. De maneira que o sofrimento pode. :~ Com efeito. se constróem sistemas defensivos. está submetido a seu chefe natural. e este é. através da organização do trabalho. mas os mecanismos de defesa empregados contra ele. pois ele. A ponto de o sofrimento. Pois sem 136 . elas seriam totalmente opacas. por um efeito paradoxal. um dos aspectos mais insólitos da pesquisa em psicopatologia do trabalho. descrito por Foucault (37-38). no caso das telefonistas. a exploração passa também pela profundeza do aparelho mental. seu poder de ocultação volta-se contra seus criadores. etapa cujo sucesso seria assegurado pela própria organização do trabalho. mesmo as mais desqualificadas. como as defesas coletivas da profissão. a "carga psíquica" de trabalho não seria apenas um efeito acessório do trabalho. por exemplo. etapa fundamental. certamente. chamado "personalidade". tornar-se um instrumento de exploração e de rendimento. ao lado dos aspectos clássicos da exploração da força física. de uma etapa primordial. ou. provavelmente. Não tanto o sofrimento em si. pois ela é de natureza a fazer reconsiderar as teorias econômicas da força de trabalho. duráveis ou reversíveis segundo o caso. A desapropriação do corpo só é possível graças a uma operação específica sobre a estrutura da personalidade. desse modo. Assim. Apesar de vivenciado. que se opõe ao saber-poder. mas resultaria. da qual dependeria a submissão do corpo. existe uma vertente do trabalho humano ignorada até agora. servem para a manutenção da produtividade. na maior parte dos casos. uma grande importância. Se a função primeira dos sintomas de defesa é aliviar o sofrimento. mas também dos próprios trabalhadores). como a ansiedade. dissemos. cujos efeitos. A submissão dos corpos só seria possível por meio de uma ação específica sobre os processos psíquicos. por intermédio de um sistema sutil.produtividade. cujas peças podem ser desmontadas. o sofrimento não é reconhecido. Forma caricatural do saber-vivência. somos levados a evidenciar que. a ansiedade e a insatisfação. Se não fosse sua especificidade. Assim. Essa observação tem. normalmente. pois. a dor permanece desconhecida não apenas dos observadores. Tornar dócil um corpo não é coisa simples. Vimos na construção civii. Na maioria das tarefas. contribui para a aceleração das cadências. em certas condições. exatamente. Contra o sofrimento. fazem parte integrante da carga de trabalho.

no caso do trabalho. ela deveria passar por um processo de desalie-lação. da qual falamos. Instalado o circuito. ■sto é. a alienação r jrre o risco — a experiência histórica o mostra — de ser transposta tal qual. Nesse caso. embora insuficiente. trata-se de uma alienação. Se deve haver uma luta por novas relações sociais. sem transtorná-la. que vai contra seus desejos. _J A fadiga. é a fadiga que assegura sua perenidade. a tal ponto poderosa que. ele acaba por usar todos os seus esforços para tolerar esse enxerto contra sua natureza. Alienação no sentido psiquiátrico também. que passa pelas ideologias defensivas. em psicopatologia do trabalho. Vencido pela vontade contida na organização do trabalho. isso não quer dizer que ele não seja válido no nível subjetivo e vivido. Assim. mais fácil no fim do ano do que após as férias. em razão da sua própria eficácia em relação ao equilíbrio mental. Alienação no sentido em que Marx a compreendia nos manuscritos de 1844. o trabalhador se sente habitado pelo estranho. de substituição da vontade própria do Sujeito pela do Objeto. toma a forma de um conflito onde o desejo do trabalhador capitulou frente à injunção patronal. a tolerância graduada segundo os trabalhadores de uma organização do trabalho. talvez. da alienação pela organização do trabalho. e mais durante a semana do que perto do fim de semana. A investigação que propomos. traz de volta a questão. No fim. suas necessidades e sua saúde. Por não ter sido objeto de um trabalho específico. o esgotamento do corpo (mesmo sem considerar as fortes exigências físicas provenientes das regras da economia psicos-somática) são uma peça necessária. A alienação é uma verdade clínica que. necessária para fechar o cadeado do círculo vicioso. espécie de chave. A alienação seria. opõem-se a uma evolução que poderia levar a uma estabilidade. num nível menos medíocre. as escratégias defensivaá. Se o conceito de alienação não for pertinente a nível da análise econômica. a propósito da sujeição do corpo.conhecer a forma e o conteúdo desse sofrimento. Podemos nos perguntar em que medida a prevalência concedida à mudança das relações de produção arrisca passar por cima da alienação. da alienação. a etapa necessária e primeira. tão controvertida. A organização do trabalho aí aparece como veículo da vontade de um outro. no fim. de modo que o trabalhador acaba por confundir com seus desejos próprios a injunção organizacional que substituiu seu livre arbítrio. e difícil lutar eficazmente contra ele. Podemos também nos perguntar se o desmantelamento dos mecanismos da alienação não é uma condição 137 . a alienação é mais fácil de ser obtida com os operários cansados. ao invés de fazer triunfar sua própria vontade.

O projeto revolucionário nasceu numa época em que a relação saúde mental-trabalho era invisível. embora insuficiente. talvez. É na palavra. leva a considerar esta última como lugar privilegiado do drama onde se atualiza o conflito entre o Trabalhador e o Podfer. como se diz hoje em dia. o discurso operário. Deve-se. requer. mesmo na ausência de mudança social. para um projeto de transformação social. no século XIX. deformada pelas estratégias defensivas específicas. não objetivo) a libertação da vida mental? E. Tratando-se de uma vivência coletiva. e através dos sistemas defensivos. o recurso à palavra ou. a psicanálise não poderia ser de nenhuma valia. em estado de segredo selado na vivência. de questões novas e fecundas. Mas as interrogações sobre esse tema são redibitoriamente suspeitas? A exemplo de André Theret (96 bis). por meio dos avatares que ela sofre na sua interiorização coletiva. em comparação à prioridade que era preciso dar à análise da exploração do corpo físico. seguido pela psiquiatria contemporânea. Isso quer dizer necessidade de uma interpretação. antes de mais nada. a ser decodificada. é um método que não pertence propriamente à psicopatologia do trabalho. Nós ressaltamos várias vezes a função mascaradora dos sistemas defensivos contra o sofrimento. em relação a um projeto que não pode permanecer sem evoluir.necessária. que é preciso ler o sofrimento operário. De outra ordem é a tradicional desconfiança para com as questões da vida psíquica. e â modalidade particular de existência do saber. como para toda vivência. os partidários da Organização do Trabalho atual tiveram um certo avanço. Nós usamos um esquema de interpretação que é a própria organização do trabalho. O terreno da psique sempre foi ocupado por especialistas denunciados por uma posição ambígua na evolução social. libertação de seu exercício no trabalho e na atividade produtiva? Questões que talvez tenham sido negligenciadas por razões históricas. Segredo que tem a particularidade de só existir na vivência coletiva do trabalho e de dissolver-se assim que há interesse pela vivência individual. 13?. Segredo que. Coloca-se aqui a questão do esquema interpretativo. louvada por uma sociedade que não teria por fundamento (fundamento. Qual projeto nâo deixaria um lugar conseqüente para essa discussão? Que felicidade seria essa. . para ser abordado. admitir que a análise da exploração não exclui a da vivência operária. à positividade da História a revelação. De resto. É verdade que desde o movimento dos alienístas. a passagem de um conteúdo manifesio a um conteúdo latente. a psicanálise e a psicos-sociologia anglo-saxônia.

seja sobretudo a evolução a portadora de esperança. que pode nascer uma evolução da relação saúde mental-trabalho. à qual se opõe ponto por ponto. Não apenas de levá-la em conta. 139 il . criar novos homens. no acesso a um trabalho mais satisfatório. é preciso compreender que as resistências individuais ao prazer acompanham resistências coletivas. deverá ser julgado por sua capacidade de levar em conta a relação conflituosa entre a organização do trabalho e o aparelho mental. a questão é saber que tipo de homens a sociedade fabrica através da organização do trabalho. "A liberdade não se dá" dizem "ela se conquista". Assim. É provável que não exista solução ideal e que. aqui como em tudo mais. Considerando o lugar dedicado ao trabalho na existência. o problema não é. Qualquer que seja o regime político considerado. Entretanto. mas encontrar soluções que permitiriam pôr fim à desestruturação de um certo número deles pelo trabalho. absolutamente. de transformação da organização do trabalho e de dissolução dos sistemas defensivos. as ideologias coletivas de profissão. O mesmo acontece com relação à organização do trabalho. no centro das quais se encontram.\ interpretação limilada ao conteúdo e não a uma transferência coloca a psicopatologia do trabalho nos antípodas da psicossocio-logia. estamos talvez em condições de examinar o que é obstáculo não à felicidade coletiva — noção suspeita — mas de examinar o que constitui um obstáculo coletivamente experimentado por cada grupo de trabalhadores. Em outras palavras. E de um duplo movimento. mas pelos rneios que ele usa para fazê-la evoluir em direção a um estado de menor tensão. precisamente. na medida em que ele pretende superar os obstáculos socioeconômicos à "felicidade".

i .

Metodologia e teoria em psicopatologia do trabalho 1.H. No momento.ANEXO: A Metodologia em Psicopatologia do Trabalho Uma pesquisa em Psicopatologia do Trabalho desenrola-se em várias fases: 1. Posteriormente. uma pesquisa deve basear-se numa solicitação. implantada na França em julho de 1985. * C. do T.S. O material da pesquisa 5. A solicitação. Em outras palavras. A observação clínica 6. ou Comissão de Higiene.* — Comissão de Higiene. A pesquisa inicial Para poder começar.H. A pesquisa propriamente dita 3.H.T. comissão de fábrica ou C. no original. que tanto pode vir de um grupo não institucionalizado de trabalhadores. não aceitamos nenhuma solicitação que não seja formulada pelos próprios interessados. o grupo homogêneo e o coletivo 4.S. de trabalhadores inicialmente isolados. voltaremos à questão de como trabalhar a solicitação formulada.) 141 . ou de um grupo sindical.G. vamos nos ater a este ponto: uma solicitação só pode ser considerada se for proveniente dos próprios trabalhadores.C. A pesquisa inicial 2.S. (N. em substituição às antigas Comissões de Higiene e Segurança — C. Segurança e Condições de Trabalho. Segurança e Condições de Trabalho.T. O método de interpretação 7. Validação e refutação dos dados 8.

pois a pesquisa fundamenta-se num coletivo constituído ad hoc. Num terceiro momento. e não em indivíduos tomados isoladamente. Em seguida. em imagens. quantos são e se estão disposto a acompanhai o trabalho até o fim. devemos precisar quem participará. Primeiro. não deixa de ser uma etapa interessante. e pelo menos um deles não é psicopatologista. a visita com os operadores enfatiza as questões relativas ao esforço. como é o objetivo. Isto pressupõe o acesso a documentos técnicos. das máquinas e dos locais correspondentes aos locais de trabalho dos operadores pesquisados. Reunir informações sobre o processo de trabalho e sua transformação ou mutações. ergonomista ou economista. do ponto de vista humano.1. ao perigo. as inovações tecnológicas etc. Entendemos por esta não aquela elaborada pelo serviço de organização e métodos. depois do trabalho de documentação e da visita do local. de uma investigação ergonômica clássica sobre a análise do trabalho. o que se passa. das condições ambientais do sofrimento. Vários objetivos devem ser atingidos durante esta fase de preparação da pesquisa: 1. econômicos e científicos. cerca de vários meses.3. 1. a segurança.2. isto é. por exemplo. poder visitá-la em funcionamento e ter uma representação relativamente precisa das seções. O objetivo dessa fase de documentação sobre o processo de trabalho e das visitas não é chegar a uma descrição objetiva da relação homem/trabalho. Na verdade. de que também necessitaremos. é necessário definir quem participará da pesquisa. mas principalmente a que coloca em relevo o aspecto conflitual entre traba142 . mas é importante também poder ter acesso aos locais de trabalho. Geralmente. Pode-se fazer uma visita oficial organizada pelo empregador. a produtividade. 1. e ter à disposição uma representação. o ambiente sensorial tem um papel importante na expressão do sofrimento e do prazer no trabalho. pelos trabalhadores. como pesquisador. Teremos diferenças significativas entre as duas visitas: enquanto que a visita patronal ressalta sobretudo o aspecto técnico. podendo ser sociólogo.. é preciso preparar a pesquisa. Essas são questões importantes. o que geralmente toma bastante tempo.Assim que a solicitação é recebida. tendo por guia um trabalhador que participe da pesquisa. há dois ou três pesquisadores. começamos uma abordagem da organização do trabalho. isto é. às exigências do trabalho. O que se visa é obter a base concreta necessária para compreender do que falam os trabalhadores que participam da pesquisa. Ter acesso à empresa.

trabalhando em geral com doentes numa prática clínica hospitalar. mas participando da pesquisa enquanto pesquisador da possível relação entre o trabalho e sofrimento não como psiquiatra clínico ou especialista. greves.lhadores e hierarquia. o Sindicato. Nós partimos sempre de uma reformulação do que nos foi colocado na solicitação do contexto. ou psico-patologista. o que pensam de tal problema de intoxicação alcoólica. o que pensam dessas doenças profissionais? Etc. desde o início. — O tema da pesquisa também é claramente enunciado: trata-se de estudar quais relações podem eventualmente se estabelecer entre a organização do trabalho. o restaurante da empresa. qual é sua opinião sobre as circunstâncias ligadas aos trabalhadores que foram hospitalizados como pacientes psiquiátricos. pedimo-lhes para darem suas explicações e interpretações dos fatos que provocaram a solicitação: qual é sua opinião sobre tais suicídios.. raramente. A pesquisa propriamente dita Desenrola-se num local identificado com o trabalho: a sala da comissão de fábrica. Desse modo. qual a interpretação desse consumo maciço de aspirina. de produção. pelos trabalhadores. e situações conflitantes para entrarmos numa dimensão dinâmica dessas estórias e comprendermos bem as nego ciações concretas sobre o» ritmos de trabalho. um grupo de trabalhadores que está a par do trabalho inicial e do objetivo da pesquisa. o salão da associação cultural que reúne habitualmente os trabalhadores etc. por um lado. as divisões e contradições entre os trabalhadores ou grupos sindicais etc. a hierarquia. desde o começo. as solidariedades explícuas. — Os pesquisadores apresentam-se claramente. anunciando sua formação e área de trabalho: psiquiatra ou psicanalista. o que pensam das insônias e dos problemas relativos ao sono. de outro. a supervisão. insistimos.. que não estamos basica143 . do prazer associados ao trabalho. e o sofrimento psíquico. E importante conhecermos a história das lutas. etc. ou seja. então. incidentes. Depois de haver formulado o tema aos trabalhadores. e.Isto também permite esclarecer. o comentário verbal feito pelos trabalhadores a propósito do conteúdo de sua solicitação. que geralmente levanta questões de sofrimento. sobre o que nos interessa em psicopatologia do trabalho. 2. A pesquisa reúne.

anedotas ou comentários novos que ampliam as idéias e encadeiam-se à interpretação — associam-se a esta-. para ver se desta vez será objeto de discussão e de que modo. pesquisadores — como especialmente convincentes. pois é preciso. de uma discussão contraditória entre os participantes do grupo de trabalhadores. sobretudo por dois tipos de fatos: 2. investigamos particularmente o comentário formulado pelo grupo de trabalho. pouco importa quem seja o locutor. Se identificamos tais relações. retome essa hipótese abandonada pelo caminho. é possível propô-las como uma interpretação. certificar-se de que o tema não é espontaneamente retomado pelo grupo. apesar da tentativa feita pelos pesquisadores. À medida que se desenrola o estudo. às vezes muito tempo depois. todo o trabalho da pesquisa trata justamente de identificar as modificações trazidas sucessivamente ao comentário inicial.mente preocupados com a objetividade dos fatos. O trabalho dos pesquisadores confirma-se não tanto pelo reconhecimento da hipótese ou da interpretação. retomando-a e modificando-a. ao invés de provocar uma diminuição ou parada da discussão — o que ocorre quando se trata de uma interpretação inoportuna. durante a pesquisa. mas. Nesse caso. contribuindo para a elaboração coletiva do tema. Os pesquisadores efetuam um esforço especial. Na verdade. num segundo momento. se novamente não interessa ao grupo. Pode ser que certos comentários ou hipóteses explicativas propostas por um dos participantes possa parecer-nos — a nos.2. e vemos que não são retomados ou discutidos pelo grupo. e as características da organização do trabalho. Em seguida. 144 . que preconiza o interesse acima de tudo pelo que é dito pelo paciente. então. A técnica consiste então em detectar esse contraste ou paradoxo. e que o grupo não as percebe. geralmente deturpada. novos temas de discussão.1. Nesse sentido. mais do que pela realidade. inadequada ou falsa. inicialmente. Nada impede que o pesquisador. Mas retoma-a num momento posterior. ou seja. 2. pelo grupo. ou. inspiramo-nos na psicanálise. A interpretação correta mantém e relança à discussão. para detectar as relações existentes entre as expressões de sofrimento (ou de prazer). do que é relatado. é possível reformulá-lo e devolvê-lo ao grupo. A interpretação correta desencadeia material novo. novamente submetida à crítica do grupo. as expressões positivas ou os silêncios claramente respeitados quanto a certos temas. o que é essencial detectar. o que é importante é o que é objeto de um consenso ou pelo menos.

paralisaria o J0"' "1ade"uada. z3 f--:r em relação ao objeto da pesquisa as interpretações que fizessem 145 .

Para terminar. onde podemos fazer uma analise a partir dos documentos que pertencem a uma pessoa que eventualmente até mesmo ignora como sua correspondência está sendo tratada. Em psicopatologia do trabalho. a origem da solicitação deveria ser bem esclarecida desde o início. Por exemplo.eclodir as problemáticas individuais. em grafologia. O que se solicita? Essa questão diz respeito ao conteúdo da solicitação. não podemos fazer o que se faz. Em resumo. seja porque o problema está formulado em termos inaceitáveis e não negociáveis — por exemplo. o grupo homogêneo e o coletivo Em psicopatologia do trabalho. por exemplo.2. ou seja: 3. para reformulá-las em seguida. poderemos constatar que quase não há inconveniente quando. se conseguimos nos manter no plano das defesas coletivas. na realidade. A solicitação. Já disse que a fonte. as "viabilidades" desta. as substituições ocasionais do pessoal não prejudicam o andamento da pesquisa. ao contrário. de uma sessão à outra. quando se pede aos pesquisadores para provar que o uso de bebidas alcoólicas não é prejudicial aos trabalhadores cujas tarefas decorrem em condições de 'emperatura elevada —. que têm geralmente um valor heurístico em relação aos sistemas defensivos. Quem formula a solicitação? Repetimos aqui que a solicitação só é aceita se a pesquisa for sobre aqueles que a solicitam. 3. varia o grupo que participa da pesquisa. Ao contrário.1. acrescentarei que as posições contraditórias que aparecem entre os trabalhadores. 3. em termos de posições ou de posturas diferenciadas. que mostram que existem coletivos de defesa estruturados segundo modalidades diferentes no interior de uma mesma empresa ou seção de trabalho. durante a pesquisa. seja devido aos turnos de trabalho ou às urgências do mesmo. não atiapalham e nem são combatidas pelos pesquisadores. em relação ao consumo do álcool nos canteiros de obras ou em certas oficinas de fabricação de produtos em série não é raro registrarem-se posições contraditórias. E. a análise da solicitação constitui uma fase importante da pesquisa. seja porque a 146 . não sobre outro grupo. Nem sempre é possível dar continuidade ao que é pedido. por condicionar. é muito interessante ressaltar e respeitar essas contradições.

mas outras coisas. a de encontrar uma solução concreta para os problemas decorrentes de certos comportamentos aberrantes em relação ao álcool. tentativas repetidas de suicídio etc. e que são três: — pode ser que nada encontremos.3.tais solicitações concretas "com caráter terapêutico" não podem ser aceitas. à violência. muito menos a um militante ou simpatizante. Dirige-se a um pesquisador. ou de medicamentos e seus usos. necessariamente. a solicitação não é dirigida a um psicanalista. quer dizer. que poderiam ter efeitos posteriores (por exemplo. De maneira também a afastar toda conivência ou complacência em relação ao ponto de vista oficial ou sindical daqueles que formulam a solicitação. ao medo. mas às más condições de trabalho. com relação às práticas coletivas e aos mecanismos de "adaptação" à situação de trabalho. desmobilização em caso de luta). deve-se manter o ponto de interrogação. 3. que o rigor do trabalho 147 . Ao dirigirem-se a pesquisadores e não a simpatizantes. de maneira a afastar qualquer solicitação pessoal de tratamento.. até mesmo desestabilizadores. que a solicitação se baseie em uma resposta prática: por exemplo. é importante podermos estar de acordo com os interlocutores no fato de que a relação de causalidade ou da efetiva carga psicopatogênica de uma tarefa possam ser formuladas em termos de hipótese. — ao se efetuar esse tipo de pesquisa. nem a um psiquiatra. A quem a solicitação é dirigida? Esse é o quarto ponto relativo à solicitação. Para que a pesquisa seja viável. Ao "o que?" da solicitação. 3. enquanto que as soluções concretas pertencem aos próprios trabalhadores. — pode ser que não encontremos nada do que esperávamos. crises de nervos. que não haja nada a ser pesquisado. pois nosso trabalho em psicopatologia do trabalho limita-se à análise das situações. os trabalhadores devem saber. à segurança. ou de doentes trabalhando no setor de pessoal. disfarçada. ou de problemas do sono.. de antemão. Em psicopatologia do trabalho. o que não quer dizer. Enfim. há os riscos de colocarmos o dedo em aspectos desagradáveis. e qualquer pedido do mesmo tipo que venha a surgir no desenrolar da pesquisa.resposta já é dada de antemão aos problemas colocados pela solicitação — exemplo demonstrai que os suicídios não se devem a problemáticas individuais. O terceiro aspecto importante do trabalho sobre a solicitação recebida concerne à explicitação dos riscos que estão implicados na pesquisa. é necessário que este ponto esteja bem claro anteriormente.4..

A maior limitação.5. as categorias que reúnem os indivíduos apresentando uma posição subjetiva comum. provoque efeitos sobre a situação. a parte mais difícil de ser formulada.. De fato. uma parte das questões que serão objeto da pesquisa já estarão esclarecidas na fase incial da pesquisa. as questões materiais: os pesquisadores são pagos por esse trabalho. é. tem seus efeitos: para que a solicitação seja aceitável e viável. status social ou profissional etc. pois esse trabalho. cheguem à formação de um coletivo ad hoc. A fonte das remunerações deverá ser sempre esclarecida. 148 . Em relação às pesquisas clássicas. a impossibilidade de se efetuar pesquisas sobre qualquer grupo-controle (que não solicitaria nada). até mesmo sobre as relações sociais na empresa. Vemos que a solicitação exige um trabalho específico de expli-citação. a pesquisa é sempre uma "pesquisa-ação". sobretudo em economia ou em epidemiologia. 4. mas sobretudo pelas categorias subjetivas*: são a solicitação e seu conteúdo que definem o coletivo pesquisado. concerne à definição do que constitui o material da pesquisa. devido à sua formação. relativa a esse aspecto metodológico. sem dúvida. que consiste em sustentar uma solicitação (a de análise e compreensão de sua relação psíquica com o trabalho). vemos que o "grupo homogêneo" não é definido pelas categorias objetivas (idade. Isto é importante. seja através de um contrato de pesquisa ou pela posição de pesquisador. Resta o como da pesquisa. sobre a solicitação.de pesquisa pode levar a resultados contraditórios com as posições sindicais oficiais. mesmo se não for sempre justificada.). Nesse sentido. 3. 1 Ou seja. O material da pesquisa Na metodologia da psicopatologia do trabalho. è necessário reunir condições que. A independência do pesquisador é uma condição especifica do trabalho de pesquisa. um coletivo que se constitua em função das necessidades da pesquisa. O material é o resultado de uma operação efetuada naquilo que foi antes discutido pelo coletivo.. somadas. pela qual são remunerados. não se trata de uma obra beneficente e isto deve ser dito claramente. no plano científico. Esta operação trata do que foi dito. do que pode ser reconhecido como "palavra". Em todo caso. sexo. ou seja. mas que.

uma descrição ou um recenseamento dos riscos observados na situação de trabalho. de modo que nos interessamos sobretudo pela dimensão do comentário: comentário que inclui concepções subjetivas. A título de exemplo.e a hierarquia (até mesmo sindicatos). de seus trabalhos. Nossa pesquisa visa essencialmente a vivência subjetiva. que nos toca. a formulação do pensar dos trabalhadores sobre sua própria situação. Descreve-se a situação exterior ou. vinda de grupo de trabalhadores. Há nele um aspecto de distanciamento em relação ao que vem do exterior. viva. interpretações e até mesmo citações. esse comentário é marcado por uma ênfase interpessoal. do que constitui 149 . Nesse caso. por exemplo. por exemplo. de certo modo.. tipo piadas etc. Possui uma finalidade explicativa. em suas dimensões físicas e cognitivas. o que se poderia chamar de "exigências da tarefa" ("contraintes"). o comentário nem sempre é contínuo. engajada. tem um objetivo — o de convencer. nem possui um caráter de permanência absoluta. teremos uma listagem. não há a introdução. subjetiva. tende a dissolver-se numa descrição da realidade. o modo operatório e as instruções de utilização que são divulgadas pelos enge-nheiros. como "comentário". O comentário é o material por excelência para se tomar contato com a subjetividade dos trabalhadores. da dimensão subjetiva da vivência desses riscos. a palavra sobre "o esforço despendido nas tarefas" ("astreinte"). mas fica faltando um comentário que nos indicaria algo sobre a vivência desses riscos. E por isso que damos um valor específico ao que já avaliamos anteriormente. que visa ser objetiva e operatória. quer dizer. ou seja. como. o de informar o outro sobre a maneira pela qual o coletivo estrutura sua relação com o trabalho. o que é uma formulação original. hipóteses sobre o porquê e o como da relação vivência-tra-balho. seremos inclinados a reconhecer a expressão de um investimento maior. não nos interessamos pela realidade dos fatos na situação de trabalho. Ora. Não existe então o comentário. Freqüentemente. como Catherine Teiger e François Daniellou.. nem pela descrição efetuada. O comentário seria. Além do mais. Nosso objetivo não é a exposição da realidade do trabalho humano. identificamos a prevalência da descrição operatória em relação ao comentário. os comentários que são objeto de discussão e de posições contraditórias no grupo. sobretudo. esque-maticamente.isto è. Em um outro momento da investigação. Às vezes. pelos trabalhadores. na discussão. Diferentemente da abordagem de cenos ergonomistas. citaremos o que se passa quando abordamos a questão do perigo no trabalho. Buscamos detectar o que tem valor de comentário e.

um discurso padronizado ou estereotipado. Descobrí15Q . Ou seja. De maneira que. Como. a negação de seu contrário etc. A percepção. somos logo levados a procurar. ou contra o sofrimento. Supõe-se assim que o risco pertence à realidade exterior objetiva e. é porque há um dispositivo defensivo estabelecido para lutar contra a percepção. Nesse caso.. Mas.. introduz no comentário a problemática do perigo. em termos impessoais ou oficiais. É precisamente a partir desses dados que postulamos que haveria no silêncio de um comentário uma postura tão ativa e específica quanto na sua presença. A "negação da percepção" desdobra-se numa inversão da proposição relativa à percepção e ao sofrimento: teremos uma série de formações reativas contra o medo. aparece concerne à tática utilizada para lutar contra a percepção. A abordagem coletiva visa. são palavras e descrições pouco personalizadas: reconhecemos nelas o discurso oficial da segurança e da prevenção. esclarecem as instituições oficiais. relativa especificamente à percepção dos riscos.. Observamos assim que. ■ . somos levados à interpretação devido à existência de uma clivagem entre o risco e o perigo. ou o discurso sindical. quando identificamos essa ausência de comentário.. os sinais de um dispositivo defensivo. em si. o discurso oficial nem mesmo menciona o perigo. ao contrário. a relação sofrimento/defesa. então. por essa razão. a conjuração. em geral. aliás. entre realidade e percepção da realidade. se temos como referência esse dado fundamental que estrutura toda nossa investigação ou seja. a percepção do risco. pertence à categoria da descrição científica. se há um conhecimento "teórico" dos riscos. Em outras palavras. não há a correlação que se poderia esperar. mecânicas ou biológicas das exigências da tarefa. o desafio. Essa realidade é conhecida dos trabalhadores e é devolvida a eles pela pesquisa. ou o discurso da hierarquia etc. No mínimo. parecenos que falar do risco. entre descrição operatória e comentário subjetivo. que remeteria especialmente para o lado humano os efeitos potenciais do risco na saúde. mas as palavras utilizadas não são palavras subjetivas. o risco definiria as características físicoquímicas. Nós postulamos que se o comentário desaparece. ou seja. a ausência de comentários na discussão e expressão do grupo pode ter um valor expressivo. ao contrário. ou seja. em outra parte. A questão que. eqüivaleria à posição de ocultação da relação entre realidade do risco epercepção do risco. tais como a bravata. inevitavelmente. um comentário sobre o perigo.itão. contra o patético. Encontramo-lo facilmente nas formas classicamente reconhecidas em psicopatologia.a realidade extenor percebida.

DUFOUR: A ruptura entre a empresa e os homens.remos assim a defesa coletiva especifica do trabalho. Voltaremos a esse aspecto mais tarde. mais ou menos rapidamente. 151 . VEIL. o know how. Por exemplo: a discussão gira. a discussão dirige-se para anedotas relativas às condutas paradoxais e às condutas chamadas perigosas Estamos novamente num discurso personalizado. subjetivo. os conhecimentos e a experiência. É aqui que seria importante articular "defesa coletiva" com "ideologia defensiva". "Etude éthnographique du vécu des taches de couver-ture dans le bâtiment" in C. Edit. do tipo proposto por Bouchard* com relação aos caminhoneiros. lançamos a hipótese de que o desafio ao risco é unia manobra de ridicularização e de conjuração da percepção do perigo e do medo. in A. 102-104. há alguw tempo. Paris. quais são os perigos que ameaçam fisicamente sua saúde?". Paris. Psychopatho-logiedu travail. fixando se em considerações sobre a habilidade. um começo de comentário. que desvia a questão colocada. Ed. EME. A ideologia defen* BOUCHARD. até mesmo de gozo. Toda a metodologia de coleta e recenseamento do material consiste em fazer aparecer o paradoxo. que é imediatamente verbalizada e íormulada em resposta à solicitação grupai sobff a relação entre risco e perigo. que tem valor de comentário. da temática proposta. A seguir. Tais dados são colocados pelo grupo como sendo suficientes para escapar à dimensão do perigo e do medo. ou por Abramowitch** a propósito da construção civil*** Segundo esses autores. podemos ser levados a interpretações por demais uní-vocas. 1985. Trata-se de um sistema defensivo. pois o que queremos situar é: onde se localiza a passagem da interpretação antropo-etno-lógica à interpretação psicopatológica? Em psicopatologia do trabalho. o que não é a mesma coisa. a relacionar cada comentário ou ausência de comentário ao contexto e ao que se inscreve como contradição em relação ao tema principal. 331-359. No lugar de uma resposta direta podemos ter. S Être truckeur (routier)". J. no Colóquio Nacional de Psicopatologia do Trabalho. 1985. •** Ver relatório de APEC para o Ministério da Construção e o resumo fornecido por Abramowitch. afetivo. C. WISNER. após uma breve hesitação. os trabalhadores em questão teriam uma relação de prazer com o risco. CHANLAT e M. pp. pp. um movimento do grupo como um todo.M. *♦ ABRAMOWITCH. DEJOURS. A. engajado. em torno dos riscos (segue-se uma listagem do que foi ditd>: "Então. Se nos atemos somente ao discurso direto ou a um só aspecto. Organization. não dialético.

sob o nome de conduta ordálica. é apenas uma defesa. em etnologia -. A partir desse ponto. Em outras palavras. p. Como os fatos observados são subjetivos. creio eu. facilitando assim o acesso à dinâmica específica da pesquisa. Para voltarmos ao que constitui o "material" da investigação em psicopatologia do trabalho. Erige-se então em valor e funciona. o que nos interessa é colocar por escrito o que foi detectado pelos pesquisadores durante o desenrolar da pesquisa. trata-se não somente de restituir os comentários dos trabalhadores sobre o sofrimento. Se nos referimos à noção de ordália. Não se trata apenas da descrição dos "fatos observados". como são rotulados nas ciências naturais. Surge por último. procurando justamente o que vem. num primeiro momento psicopatologico. os movimentos existentes entre o grupo de trabalhadores e o grupo de pesquisadores. 1318).siva seria elaboração afirmativa de um procedimento defensivo. principalmente sob o domínio da pulsão de morte. que deve ser distinto do binômio sofrimento/prazer. A confrontação com o risco aparece como uma escolha deliberada. Isso é conhecido em psicopatologia — e. resumindo. segundo Littré. A redação da obser152 . 5. a defesa mascara-se em ideologia e oculta todo mecanismo intermediário. contrabalançá-los ou contradizê-los. O gozo indicaria aqui uma dimensão de descarga compulsiva. Esse par de contrários é interpretado em relação ao binômio sofrimento/ defesa. diríamos que esse material se constitui nos comentários (e nas falhas ou faltas de comentários) completados e relacionados ao contexto. poderemos compreender que a confrontação com os riscos pode ter valor de gozo. a seguir. de certo modo. como uma operação que consiste em construir aquilo que. literalmente. Parece-me que essa é a corrente interpre-tativa utilizada no artigo sobre os caminhoneiros. por exemplo. julgamento de Deus pela água ou pelo fogo" (Littré. "prova judicial através dos elementos naturais. A observação clínica A observação clínica é um material essencial para a elaboração e a discussão psicopatológicas. com o comentário subjetivo do pesquisador. mas de ilustrá-los e articulá-los. à medida que se apresentam. Isso já foi particularmente argumentado no caso das toxico-manias. como se tratasse de uma expressão do desejo. e não sob a pulsão de vida. e não de prazer.

A observação clínica não tem nada a ver com um resumo ou uma decodificaçâo de fitas gravadas. O que fica invisível é o trabalho psíquico do investigador e os efeitos do que restitui ao grupo sobre o desenvolvimento dos comentários e da discussão. ou então cada pesquisador redige sua observação. os pesquisadores — e os trabalhadores. tanto de um lado como do outro. Nessa ocasião. geralmente realizada por vários pesquisadores. excepcionalmente. facilitando depois. na mesma seqüência daquelas que não o foram. o resumo comentado de um pesquisador é muito mais interessante para uma discussão. interpretações divergentes. as idas e vindas. com os instrumentos subjetivos da observação. na situação concreta de pesquisa. as "interações" dos protagonistas da pesquisa entre eles — ou seja. Esse resumo de pesquisa. os desvios. que será entre153 . basicamente a partir da memória do pesquisador. durante a pesquisa e o contato com os trabalhadores. O mérito desse segundo método é o de fazer aparecerem imediatamente. podemos nos basear nas notas tomadas durante a reunião ou visita e. Ficam assim evidentes a movimentação. elas serão então registradas no relatório. quando se trabalha sistematicamente umas contra as outras. Muito pelo contrário. Na realidade. as interpretações formuladas. e que são provenientes do pesquisador que redige a observação. Em psieopatologia do trabalho. a partir da própria pesquisa. Numa pesquisa desse tipo. as reações que surgem. em fitas gravadas. Uma observação é ainda mais interessante e útil se consegue mostrar os caminhos percorridos pelo pesquisador. trata-se de fazer aparecerem as idéias e comentários. A observação clínica ocupa-se. Esta redação é feita imediatamente após o término de cada encontro ou reunião de pesquisa. insitu. ainda mais que com os fatos observados. há dois procedimentos diferentes: ou um dos pesquisadores redige a observação que será depois submetida aos outros pesquisadores. a experiência mostra que o texto literal do que foi dito não nos permite um trabalho muito rico de interpretação. nem de discussão. E lógico que nessa observação escrita há uma parte substancial dedicada à palavra dos trabalhadores. seja porque decorrem da multiplicidade de observações ou da discussão sobre uma única observação. Se existem contradições que permanecem entre as diversas versões interpretativas. subjetivo. para encontrar a formulação mais correta de um participante ou de um pesquisador. durante a pesquisa. vivo. comentado. O objetivo da observação é mostrar o encadeamento. é necessariamente de natureza muito diferente de um resumo visando a objetividade.vação vai sendo feita depois. E um trabalho que consiste em evidenciar e explicitar o caminho tomado pelo pensamento do pesquisador.

para ser aceita. como também é possível mostrar. Conhecemos exemplos famosos. buscaremos saber se. a vantagem de poder ser submetida à discussão com pesquisadores que não participaram diretamente da pesquisa. O interesse da observação também fundamenta-se por tornar transparentes as bases sobre as quais foram propostas as interpretações. A nova interpretação. que trata fundamentalmente da relação do grupo com o observador. baseados nas próprias pesquisas. porque essa intervenção teve os efeitos em questão sobre a dinâmica intersubjetiva. o homem dos ratos e o pequeno Hans. Assim. a vivência. o trabalho de objetivação afasta-se da oòjetivação do dizer dos trabalhadores. só podem ser recolhidos através da subjetividade de um receptor do discurso. em geral. ou seja. Se assim for. Pode-se objetar que com esse tipo de material distanciamo-nos do contato objetivo com a palavra e a vivência dos trabalhadores. Dessa maneira. para a objetivação da intersubjetividade. ou aparecerão neste sob forma de perguntas. Nesse caso. o afeto e a dimensão subjetiva. propor novas interpretações para esta observação. Como se dá então uma contestação científica? A intersubjetividade implica em originalidade e unidade absolutas? Torna impossível qualquer argumentação ou contestação? Não. assim como o prazer. sob a nova interpretação. Se acontecer que diversas versões sejam simultaneamente mantidas pelo grupo. Portanto. as intervenções do pesquisador no grupo podem ser inadequadas. observações essas que continuam a alimentar as dis154 . principalmente. isto é uma prática freqüente em psicopatologia. principalmente a respeito das observações de Freud com o homem dos lobos. o material de interpretação em psicopatologia do trabalho é uma observação comentada. deve ter um valor heurístico superior à primeira e ser mais econômica do que esta. apesar de aspectos contraditórios. Uma das versões obterá um consenso e as outras serão rejeitadas. dentro da nova interpretação proposta. A partir da leitura de uma observação. A observação clínica tem. existem subgrupos que produziriam relatos diferenciados em relação à situação de trabalho. Aliás. é possível que nasça a idéia de uma outra interpretação diferente daquela formulada pelo redator. esse material clínico. apresenta a vantagem de poder ser retomado por outros pesquisadores que poderão. fórmulas defensivas múltiplas. e não apenas em psicopatologia do trabalho. Isto é verdadeiro. é possível argumentar porque a intervenção parece inadequada.gue aos trabalhadores. como já indiquei acima. mas é preciso levarmos em consideração que o sofrimento. no interior desse coletivo de trabalhadores.

tanto na descrição como na identificação e formulação dos mesmos. segundo a opinião da maioria dos psicanalistas atuais ò de grande interesse. angustiante. ou seja. No encontro com os trabalhadores temos por objetivo formalizar o que. pressupomos que o pesquisador possa manter uma posição estrita de pesquisar. rein-terpretação essa que elabora uma nova concepção das fobias e. Aubier-Montaijgne. Trata-se. Observamos que. incompreensível. de não estar numa posição semelhante à dos trabalhadores com os quais se realiza a pesquisa. Não se trata pois de um trabalho acadêmico. mas também da atitude de Freud. objetivamente. mas de um trabalho de interpretação. 155 . agressor etc. baseada em sua prática clínica. "Lécorce et le noyau". individual. surpreendente. TOROK. uma posição terceira em relação aos trabalhadores que participam da investigação e análise da situação de trabalho. de levar em conta a tensão que surge. em relação ao conjunto do saber em psicopatologia. Em nossa opinião. desgastante. em relação à experiência que possui. Paris. a reinterpietação do caso do pequeno Hans e do homem dos lobos. Esses dados passam pela subjetividade do pesquisador. Aubier-Montaigne.cussões e as interpretações. por Nicolas Abraham e Maria Torok*. de sua^ respostas ou interpretações. M. para o pesquisador. subjetivos e seria ilusório querer objetivá-los. seja essa psiquiátrica. Em todo caso. parece ser espantoso.. na verdade. Paris. e a posição do pesquisador. as objeçòes e reconstruções ou reinterpretaçôes tratam sempre do relato literal fornecido da palavra do paciente por Freud. "Le verbier de 1'homme aux loups". como testemunham. psicanalítica ou de psicopatologia do trabalho em outras áreas. tanto no plano da orientação da cura e da técnica de interpretação. O método de interpretação O sofrimento e o prazer são. como no da própria teoria psicanalítica. N. O que é importante considerar é a defasagem existente entre a palavra dos trabalhadores e a experiência do pesquisador. também. o pesquisador só pode * ABR/VHAM. devido à distância entre a posição baseada no fato de ser trabalhador numa empresa. Ed. Ed. essencialmente. 6. por exemplo. Enfim.

eventualmente. ' Grifo da tradução. após a entrega do relatório-anterior-mente enviado aos trabalhadores para uma análise crítica. em dois momentos. as elaborações. justamente porque fica claro que o pesquisador é diferente deles. essa é a questão fundamental. sendo então rejeitados ou retomados. Podemos assim avaliar as reações dos trabalhadores e modificar ou corrigir o relatório final. 7. de expressão e de elaboração é potencialmente viável. Primeiro. interpretações. temas e comentários são feitos à medida que a discussão se desenrola. quando temos. como já dissemos a respeito do desenvolvimento da investigação. Em outras palavras. do prazer. a própria continuidade da investigação e seu seguimento. é também porque — numa posição diferente dos trabalhadores — o pesquisador é alguém que não sabe*. com os trabalhadores que participaram da pesquisa e. uma reunião especificamente organizada para devolver-lhes uma síntese dos resultados. eventualmente. Em nossa opinião. acreditamos que essa terceira posição é que torna possível a abertura para uma "palavra" que fale do sofrimento. ou seja. e que seja passível de uma escuta e interpretação. de verbalização. formam o primeiro momento da validação das interpretações. dessa vez claramente dirigida para a relação sofrimento/organização do trabalho. como também o investimento mantido pelos interessados. O trabalho de formulação. observações e interpretações. com novo material de análise. um segundo momento. eventualmente até aprofundados. mais tarde. e não como especialista. Essa postura é fecunda quando vemos que os trabalhadores acabam dizendo ao pesquisador coisas que não sabiam. A validação faz-se. geralmente. Se é possível um trabalho que emane de um coletivo de pesquisa. explicar as coisas e fazer compreender o que ele desconhece. 156 . hipóteses. com outros que se juntaram a ela. ou seja. durante a própria pesquisa.situar-se como interlocutor. alguém a quem se aceita. do mesmo modo que falamos a uma terceira pessoa. Uma nova discussão pode eventualmente acontecer. Validação e refutação Evidentemente. trabalhadores. geralmente. Há.

A outra idéia de base de nossa metodologia é que não conhecemos sofrimento ou prazer objetivos. teremos uma validação ou invalidações provenietues do coletivo dos trabalhadores. Temos. a nível teórico e metodológico. Na ótica objetiva só podemos conhecer as desregulações e as reequilibrações. originárias de disciplinas ou de metodologias diferentes daquelas utilizadas em psicopatologia do trabalho. na exposição das contra dições e anomalias detectadas na clínica do coletivo de trabalha dores. 8. psicoterápica e psicanalítica. principalmente. como idéia central. que o sofrimento e o prazer são. abrindo assim um caminho direto para debates teóricos internos. Temos boas razões para pensar que uma crítica seja possível a partir de outras disciplinas. pela comunidade científica. Resta ainda a questão da reiutação a nível estritamente cientifico. aprisionado. Metodologia e teoria em psicopatologia do trabalho E claro que a psicopatologia do trabalho baseia-se num modelo de homem e de subjetividade emprestado da psicanálise. mas raramente sobre o material clínico propriamente dito. Esse modelo permanece subjacente à pesquisa e ao trabalho de interpretação. provenientes de uma relação específica com o inconsciente. emaranhado ou reprimido desta cena. em relação ao que temos de experiência do homem pela prática psiquiátrica. Resta saber se uma refutação seria possível a partir de outras disciplinas ou de outras pesquisas. o que não deixa de ser importante. no que se encontra expresso e representado pelo sujeito na cena do trabalho e no que parece estar excluído ou contido. se nos referimos também à psicossomática. na medida em que este se apoia. ou seja. em psicopatologia do trabalho. Nosso princípio de investigação. Nesse jogo entre pré-consciente e inconsciente é que se negociam as relações de prazer. de análise de interpretação é que essas noções só podem ser elaboradas através das relações intersub157 . justamente. em suas origens. Um dos eixos da interpre tação está. Parece-nos que a crítica possa se dar. de desejo e de saúde mental e até de saúde física. de sofrimento. Essa refutação é basicamente possível através de uma contra-pesquisa que possa fornecer outros resultados e interpretações. entre outros. mas essa perspectiva não nos ensina muita coisa sobre a vivência subjetiva qualitativa.I Com tai procedimento.

mais precisamente. no sentido que lhe dão os cognitivistas. estudar os obstáculos que o trabalho coloca para essa ressonância metafórica e que parecem-nos ser um elemento determinante do poder estruturador ou desestruturador do trabalho em relação à economia psíquica dos trabalhadores. 158 . Ao fazê-lo. mas como um ato. A psicopatologia não é nem um pouco assimilável à etologia. O que visamos. Ato que implica um ato de pensar. a palavra é o mediador privilegiado dessa relação e ê sobre ela que trabalha psicopatologia do trabalho. Nesse sentido. ainda. não como uma série de palavras. que é preciso distinguir da atividade de pensar.jetivas. mergulhar na dialética ator-sujeito. devemos entender a fala. Enfim. Ou. o espaço possível do sujeito para utilizar-se do trabalho como "ressonância metafórica" na cena da angústia e do desejo. as conseqüências dessa relação na vida fora do trabalho e na vida em geral. ou seja. o que tratamos de estudar é a posição dos sujeitos na relação de trabalho e. através de uma pesquisa em psicopatologia do trabalho. é a possibilidade dos autores da mesma pensarem sua situação em relação ao trabalho.

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é importante. Tradução de Lúcia Leal Ferreira.Normalidade. uma parte do alcoolismo e das doenças têm relação com as dificuldades no trabalhe e tocam todos os membros da família. figurando na definição da Organização Mundial da Saúde. seja a saúde. De qualquer maneira. como teríamos a considerar há dez anos nas pesquisas de psicopatologia do trabalho. os filhos e às vezes até os pais do trabalhador são atingidos indiretamente. CRP-06 . isto é. ao contrário. ocorrem importantes desigualdades entre os trabalhadores de um mesmo país e de um mesmo período histórico. ressaltar que a relação saúde/trabalho não diz respeito apenas à pessoas diretamente engajadas no processo de trabalho. O cônjuge. mas acontece que as condições em função das quais o trabalho age como gerador de doença ou de saúde são muito contrastantes. a divisão entre espaço de trabalho e espaço privado só é eventualmente pertinente na análise econômica. como disse acims. e outra relativa à relação entre saúde e normalidade. o prazer no trabalho e os benefícios provenientes da relação de trabalho no registro da saúde também têm repercussões favoráveis na economia das relações da família e no desenvolvimento psíquico e afetivo dos filhos). Por outro lado. aos trabalhadores. De modo que o trabalho deveria aparecer na própria definição do conceito de saúde. mas também fortemente. Sob este aspecto. pelos efeitos dassituação do trabalho sobre aquele que nela se encontra exposto (uma parte da violência comum nas relações conjugais. O termo trabalho deveria figurar na própria definição de saúde. Finalmente. e particularmente no que concerne à definição do ideal do "bem estar social". como uma fonte de doença ou de infelicidade. e favorece seja a doença.Houve mudanças na definição do conceito de saúde a partir de 1982? Dejours . por exemplo sob 164 . o trabalho não é nunca neutro em relação à saúde. Toda a família é requisitada pelo trabalhador em seu esforço em enfrentar as dificuldades no trabalho.Estão surgindo duas tendências uma relativa ao papel do trabalho na saúde. 1) O trabalho nem sempre aparece. Trabalho e Cidadania Três aspectos presentes no novo conceito de saúde discutido por Christophe Dejours Entrevista concedida à Comissão de Saúde do Conselho Regional de Psicologia — & Região e publicada no "Cadernos CRP -06" de Outubro de 1991. ele é as vezes operador de saúde e de prazer. o trabalho ocupa um lugar muito mais importante na luta contra a doença do que se supunha até agora nas concepções cientificas. Com efeito. mas torna-se totalmente inconsistente a partir do momento em que se trata das relações sociais e das questões de saúde. No sentido inverso.

dos acidentes e de todas as formas de atentado à integridade física e mental. sem dúvida daria à concepção dos tratamentos uma orientação diferente da que prevalece nas abordagens médicas e psiquiátricas clássicas. Nas abordagens terapêuticas. * '£«. notadamente patologias somáticas. sem compreender-lhes a razão. I 165 . para onde submerge uma parte do sofrimento que não consegue encontrar soluções adequadas. a loucura e a morte. senão a maioria delas. e até conquistar um pouco de felicidade? O novo problema que se coloca hoje é o da "normalidade". A referência à normalidade e às estratégias defensivas. Ela nunca é dada como um presente da natureza: ela supõe uma construção feita por cada um dos sujeitos. isto é. e de obter em troca um reconhecimento social equivalente. apesar de condições de vida tão duras e desestabilizantes. Falar de "bem-estar social" sem dar a essas referências ao trababo um conteúdo preciao aparece hoje em dia como um erro. refazer o que se desfaz. por um lado. tantas pessoas. nos tratamentos médicos mobiliza o sujeito em seu tratamento. e em psicopatologia e em psicosaomática por outro. uma luta incessante para reconquistar o que se perde. é preciso antes conhecer. sobreviver. Isto não é nada original. Seria necessário. Imediatamente descobrem-se a habilidade. Mas o que ainda não foi suficientemente enfatizado é que. por um lado. e já há muito tempo é bastante preconizado em diferentes grupos de clínicos e de pesquisadores. mais somos levado a nos espantar com o interesse exclusivo dedicado às pesquisas sobre a doença. Esta maneira de apreender as coisas é determinante em tudo o que diz respeito à prevenção das doenças. deveria-se diminuir um pouco a parte dedicada às condutas prescritas ou ordenadas a sujeitos que devem executá-las pacientemente e com disciplina. A normalidade é freqüentemente conquistada a custo de certas patologias crônicas. para poder partir da mobilização da inteligência dos doentes. Somente a partir destas estratégias inventadas pelos doentes teremos chances de não mais preconizar esta orientação dos técnicos de tratamento como um ideal ou uma utopia. assim como à inteligência do sujeito em relação à luta contra as dificuldades desestabilizantes e patogênicas.a forma do direito fundamental de contribuir para a saúde e o trabalho social. a astúcia inacreditável dos homens e das mulheres em inventar estratégias defensivas que lhes permitem permanecer dentro da normalidade. cuja amplitude é ao menos comparável: como compreender que. conseguem resistir. dar mais ênfase à parte que. Um novo problema científico emerge. A normalidade é fundamentalmente enigmática. Quanto mais avançamos nos estudos em psicopatologia do trabalho. 2) As relações entre saúde e normalidade. soluções que passem pela transformação da situação concreta de maneira a adequá-la melhor às necessidades e aos desejos do sujeito. a loucura ou a morte. analisar e elucidar as estratégias que eles mesmos elaboram para lutar contra a doença. a inteligência. ao contrário. reestabilizar o que se desestabiliza. Normalidades e saúde não são exatamente equivalentes.

portanto. pode ser considerado ou interpretado como o preço a ser pago por fazer sua contribuição à evolução das relações sociais. que as condições sociais e éticas do par contribuição/retribuição são determinantes na construção do sentido do sofrimento e no engajamento dos sujeitos nas questões da cidade. Nas pesquisas que realizamos no Conservatoire National des Arts e Métiers. de reconhecimento de identidade e de originalidade.Sim. Algumas dessas soluções direcionam-se diretamente para o espaço público. por outro. Enfim. não há nenhuma chance de o sofrimento levar à formulação de opiniões enunciáveis no espaço público e na cidade. a ausência de um sentido socialmente construído capaz de substituir o sofrimento vivido 166 . de sofrimento e de doença adquirem um sentido nas relações sociais. mas falar de engajamento nas relações sociais é insuficiente para dar conte da interpretação que cada sujeito dá de seu sofrimento. então os problemas de saúde. mas que pediriam desenvolvimento complexos demais para o contexto desta conversa. A retribuição em forma de salário. é irrisória ou muito decepcionante.Existem relações entre saúde e engajamento cívico? Dejours . o sofrimento só encontra sentido no espaço privado e na deliberação interior. por um lado. esta retribuição. existem relações extremamente precisa. chegamos à conclusão que existem relações preciosas entre saúde e civismo. Na falta de retribuição suficiente no espaço das relações sociais para o sofrimento de cada sujeito. O sofrimento pode também ser considerado uma provação divina. que são mediatizadas pelas soluções elaboradas pelas pessoas para enfrentar o sofrimento. Ora. àqueles que encontra em suas relações sociais? Se esta retribuição é conveniente em relação à contribuição e às implicações dela provenientes em termos de sofrimento ou até de doença. em relação à contribuição individual. a questão coloca-se fundamentalmente em relação à construção do sentido ou da significação do sofrimento e da doença. quando a retribuição. enquanto outras levam as pessoas a voltarem-se para o espaço público e as responsabilidades cívicas. Sofrimento e doença podem ser vividos e interpretados pelas pessoas como golpes do destino ou como fatalidades. o que contribui para mobilizar o sujeito em direção às coisas da cidade. A questão crucial reside no par contribuição/retribuição. à empresa. a seus próximos.CRP-06 . o sujeito tende a voltar-se para uma posição dita "individualista". Na falta de uma construção do sentido do sofrimento nas relações sociais. tio denunciada como um mal específico da atual "crise de civilização" Mu nío é nada disso. Vê-se. Em contrapartida. Em outras palavras. Em contrapartida. à sua própria evolução ou i emancipação de seus próximos ou de seus filhos. a resposta que cada um dá individualmente ao sentido do seu sofrimento depende fundamentalmente da maneira pela qual está engajado nas relações sociais. na medida em que seus próprios interesses identificam-se com as grandes questões tratadas no espaço público. de vantagens materiais. portanto. de reconhecimento do mérito. e de reconhecimento social. está à altura da contribuição que o sujeito dá à sociedade.

do desenvolvimento da medicina e das bio-íecnologias. e do que na Europa é chamado de "instrumentação dos corpos". CRP-06 . pouco a pouco.individualmente. se houver uma. segundo nosso ponto de vista. tem conseqüências na evolução efetiva. assistimos a uma degradação das condições de trabalho.Em nossos países. Por causa disso. sem poder remontar até às condições sociais de extinção dos debates sobre saúde. da psiquiatria e das técnicas de tratamento. Hoje. Podemos temer que esta evolução leve a uma estagnação dos progressos e das pesquisas em matérias de melhoria da saúde mental. Trata-se precisamente de técnicas de tratamentos. A conseqüência disso e o desânimo. passa. transformando-a em vocação de "guardião". Aqui.O psicólogo pode fazer alguma coisa em favor da saúde dos profissionais da saúde? Dejours . o maior risco é que sejam cometidos enganos quanto à natureza e às causas do fracassos da medicina. que vivem dela e dela se aproveitam. fora de uma construção social do sentido do sofrimento o risco principal é o non-sense da doença. Pouco a pouco. as causas dessa ineficiência são "naturalizadas". O resultado é um grande desânimo entre as pessoas responsáveis pela saúde mental na França.Quando não há mais debates públicos sobre os problemas da saúde mental. às vezes até o desespero. & decepcio. que "toleram". mental e somática do doente. a situação seleciona entre os que sofiem desta evolução e desta desvalorização uma população de pessoas que nem sempre é a mais motivada para a luta contra a doença. Hí outras dimensões a tratar. mas sobretudo ao modelo do homem que serve de referência ética e política à organização de nossas sociedade. acusam-se uns aos outros pelos fracassos técnicos*. sobretudo da saúde mental. como parece testemunhar uma indubitável crise de doutrinas e da pesquisa clínica em psiquiatria em países como a França. isto é. A solução. Até recentemente. Será 167 . colocam-se problemas muito sérios que dizem respeito não apenas à medicina. ou. por uma abordagem da prática terapêutica como se tratasse de um trabalho. que sabemos que muito contribuem para acelerar o curso dos processos mórbidos. Os que resistem melhor são os que suportam bem a doença. existem problemas importantes que aparecem e que transtornam a paisagem. o engajamento das pessoas na melhoria da saúde mental dos outros era considerado uma virtude. pior ainda. concernentes à relações entre saúde e civismo.Como é a saúde mental dos profissionais responsáveis pela melhoria da saúde mental dos outros? Dejours . a restrições orçamentárias importantes no campo da saúde. da psiquiatria e da assistência social. que eu não poderei «desenvolver aqui. Rapidamente nascem conflitos entre os próprios profissionais que. são atribuídas à incompetência e à falta de senso de responsabilidade dos profissionais. CRP-06 . notadamente. Isto ocasiona uma preocupante regressão na vocação de tratar.

mas pelo conjunto das equipes encarregadas dos doentes. Percebemos então que. Assim. Os profissionais lidam com problemas relativos às condições materiais c pecuniárias do doente. a conduta terapêuticas depende não somente de um indivíduo. de acordos e de desacordos entre os membros de uma equipe. os tratamentos dos doentes crônicos aparecem como muito mais problemáticos do que supWm»^mrtfjleK referência à doutrina médica. até então. sua dificuldade em manter seu próprio equilíbrio mental ou somático. Estes espaços de discussão não seriam exatamente destinados a fazer emergirem os problemas pessoais dos profissionais. profissional. Assim. Assim. os tratamentos dos doentes mentais. o sofrimento dos profissionais da saúde pode ganhar um sentido pela ação de transformação do trabalho real e tratamento. Descobrimos também que. sua inseivão social. na realidade. no momento de arbitrar em meio a essas numerosas dificuldades concretas da realização do tratamento tal como ele é prescrit" pela ordem médiHr/aparecem opiniões divergentes entre os diferentes profissionais. com a condição de aprender a decifrar a fala dos profissionais da saúde em relação ao esquema de organização do trabalho e não mais ao esquema da psicopatologia individual. ^agtogg uwversioadefeobuldomsm* §H2 SISTEMA DE BIBLIOTECAS 168 00051442 . com autorizações ou proibições de saídas dos doentes. os tratamentos dos cancerosos. teremos condições de descobrir em que consiste a irredutível deiasagem entre a organização' prescrita do trabalho de tratamento e os problemas realmente encontrados. O profissional tem que se haver com problemas de duração de estadia. com a aceitação ou a recusa pelo doente do tratamento que lhe é proposto etc. O profissional tem que se haver com as demandas e com t> sofrimento da família do doente. : Assim. De" maneira que'. afinal. uma grande quantidade de problemas é gerada não pelos médicos individualmente. Perceberemos então que tratar não consiste simplesmente em executar as prescrições elaboradas ou prdBcritas em uma lógica estritamente médica. V • ♦ • tr^ÍÊf$ í O papel do psicólogo poderia-wrtáo' consistir em organizar espaços de discussão no próprio local de trabalho. As experiências feitas neste sentido. tanto na França quanto no Canadá. Os problemas a serem abordados nestes espaços de discussão diriam respeito à arbitragem em matéria de organização do trabalho de tratamento. a loucura e a morte. apenas agravaram o sofrimento inevitavelmente produzido nos profissionais pelo confronto com a doença. mas da construção de consensos. ou seja. o psicólogo pode contribuir não mais tratando os profissionais e sim ajudando-os a elaborar sua relação com o trabalho e a catalisar a transformação e até melhoria da organização do trabalho. problemas ligados ao seu sofrimento singular. mostram que o debate coletivo sobre a organização do trabalho de tratamento mobiliza a coordenação entre as pessoas e pode atenuar consideravelmente os antagonismos intenndividuais que.necessário proceder a verdadeiras pesquisas de psicopatologia do trabalho sobre o trabalho dos profissionais da saúde. Eles lidam com sua inserção familiar.

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