r Dedos Internacionais de Catalogação na Publicação (OP) (Câmara Brasileira do Uvro, SP, Brasil) Dejours, Chhstophe, 1949D373I A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia

do tratelho/Christophe Dejours; tradução de Ana Isabel Paraguay e Ltf-cia Leal Ferreira. - 5! ed. ampliada São Paulo : Cartaz — Oboré, 1992. Bibliografia. ISBN 85-249-0101-2 1. Estresse do trabalho 2. Trabalho - Aspectos psicológicos 3. Trabalho e classes trabalhadoras Doenças 4. Trabalho e classes trabalhadoras - Saúde mental I. Título. II. Estudo de psicopatologia do trabalho. CDD-158.7 -362.2 -616.9803 87-1748 NLMWA400 índices para catálogo sistemático: 1. Estresse do trabalho: Medicina 616.9803 2. Loucura do trabalho: Medicina 616.9803 3. Psicologia do trabalho 158.7 4. Trabalhadores: Distúrbios mentais: Patologia soeU 3622 5. Trabalhadores: Saúde mental: Patologia social 362.2 6. Trabalho: Aspectos psicológicos 158.7 7. Trabalho: Doenças: Medicina 616.9803 Christophe Dejours, 38 anos, nasceu e vive em Paris. É doutor em medicina, especialista em medicina do trabalho, psiquiatra, psicanalista, ergonomista e ex-professor da Faculdade de Medicina de Paris. Hz pesquisas sobre temas situados nas fronteiras da psicopatologia: psicossomática e psicopatologia do trabalho. Trabalha no Centro Hospitalar de Orsay. E casado com uma psiquiatra e tem duas filhas. Além deste A loucura do trabalho, editado na França em 1980 e agora traduzido para o português com um anexo metodológico inédito em seu país de origem, publicou em 1986 Les corps entre biologie etpsychanaiyse, participou nas obras coletivas Corps malade et corps érotique (1983) e Psycliopatologie du travatí (1985), tendo editado 67 artigos nas mais diversas publicações especializadas entre 1973 e 1986. Foi o organizador do Primeiro Colóquio sobre Psicopatologia do trabalho, realizado em Paris, em setembro de 1984. Já esteve no Brasil, em São Paulo, em 1983, participando do / Colóquio franco-brasileiro sobre divisão do trabalho, divisão dos riscos e saúde k

Christophe Dejours A loucura do trabalho estudo de psicopatologia do trabalho Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira 5a edição ampliada 4a reimpressão OBORÍ

© Édiuons du Centurion, 1980. Direitos de tradução e edição em língua portugvett reservados por OBORÉ Editorial Ltda. Rua Vergueiro, 727, 7° andar - 01504-001 São Paulo, Brasil. Telefone: (011) 278.6100. Fax: (011) 277.2749 Capa, projeto gráfico e produção: Sônia Rangel e Cerifa. BC/BIBLIOTECA DE CIflNCIAS HUMANAS E EDUCA60 ^ HOÍSS LIMONAD y ^ # R$ Terio No. 22/02/99 9.60 131/99 Registro:289,666 © da tradução, 1987, de Ana Isabel Paraguay (capítulos 3, 5, 6 e Anexo) e de Lúcia Leal Ferreira (introdução, capítulos 1, 2,4 e conclusões). Publicação e comercialização CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 387 - Tel.: (OU) 864-0111 05009 -São Paulo -SP Impresso no Brasil - Abnl de 1998

..................................... 63 Os sinais diretos do medo.......................... 11 O século XIX e a luta pela sobrevivência................................ 22 Capítulo 1 — As estratégias defensivas . 75 > As diferentes formas de ansiedade................. 37 \~*»Capítulo 2 — Que sofrimento?............................. 27 Os mecanismos de defesa individual contra a organização do trabalho: o exemplo do trabalho repetitivo ........................................ 73 ■ A ansiedade e as relações de trabalho................................................................................................................................................................................................... 27 As "ideologias defensivas" (o caso do subproletariado) ...................... 18 Terceiro período: após 1968 ....................................................................... 48 "**O Insatisfação e conteúdo significativo da tarefa.............. 53 •* Capítulo 3— Trabalho e medo ............................... 48 Insatisfação e conteúdo ergonômico do trabalho.Sumário Apresentação..................................... 65 Os sinais indiretos do medo: a ideologia ocupacional defensiva......................................................................................................... 77 I ................. 69 ° medo em tarefas submetidas a ritmos de trabalho................................................................................................................................................................................ 9 Introdução .... 14 Da Primeira Guerra Mundial a 1968.............

................... I 164 ..................................................... 96 / A exploração da frustração.................................................. 133 Anexo: A metodologia em psicopatologia do trabalho .........................................Capítulo 4— Um contra-exemplo: a aviação de caça ......................... 122 A doença somática ................................................. 119 A doença mental....................................................................................... 141 Bibliografia ................. 159 Entrevista ........................................................ 80 Capítulo 5 — A exploração do sofrimento ..................................................... 126 Conclusões .............................................. 104 Capítulo 6 — A organização dó trabalho e a doença .................... ........... 97 \ A exploração da ansiedade............................................................................................................................................................................................

aliás. Este livro faz avançar uma disciplina que tem permanecido até agora muito embrionária: a psicopatologia do trabalho. mas sim todos os trabalhadores. Que. a população real e "normal" que está nas fábricas. mas o sofrimento no trabalho. Várias teses de mestrado e doutorado brasileiras apoiaram-se na abordagem de psicopatologia do trabalho de Dejours. O objeto de estudo passa a ser. tradução de "Travail. não a loucura. o seu método de investigação e a forma pelo qual Dejours os trata. começou com a presença do autor aqui no Brasil para o lançamento da 1! edição. psicologia. ou os trabalhadores por elas atingidos. Todo este trabalho de divulgação deu frutos. recomendada por professores das mais diversas áreas acadêmicas: sociologia. Não se trata de estudar as doenças mentais descompensadas. A receita deste sucesso está na reunião de três ingredientes básicos: o fascínio do tema abordado . amplia-se notavelmente o próprio objeto de estudo da psicopatologia do trabalho. nas usinas. "A Loucura do Trabalho" passou a ser uma referência básica. _O mais estimulante no trabalho de Dejours é exatamente a questão que ele se propõe a responder: como fazem os trabalhadores para resistir aos ataques ao seu funcionamento psíquico provocados pelo seu trabalho? O que fazem para não ficarem loucos? Com esta questão.as relações entre trabalho e saúde mental -. nos escritórios e é submetida a pressões no seu dia a dia. administração e até engenharia de produção. "um estado compatível com a normalidade mas que implica numa série de mecanismos de regulação". . em 1987 e sua incansável e brilhante participação em inúmeras reuniões e debates acadêmicos e sindicais^ as entrevistas que concedeu a vários órgãos de imprensa. Usure Mentale" de Christophe Dejours é um atestado de sucesso.Apresentação A 5* edição brasileira de "A Loucura do Trabalho". Em várias regiões do Brasil formaram-se grupos de estudo informais para ler e discutir o livro. medicina social.

na realidade exige vários requisitos da parte dos pesquisadores e tem de seguir regras deontológicas bem estritas. Trabalhadores e pesquisadores formam um grupo de trabalho com o objetivo explícito de entender as relações que podem eventualmente se estabelecer entre organização do trabalho e sofrimento psíquico. um estado de luta do sujeito contra forcas que o estio empurrando em direção à doença mental. E ele esclarece que entende por organização do trabalho não só a divisão do trabalho. com os quais vem trabalhando mais recentemente . representada pelas hierarquias. Ele tem uma linguagem ao mesmo tempo precisa e sem tecnicismos que cativa os leitores. Aí. Ele tem o mérito fundamental de tratar corajosamente de um assunto que é ainda muito pouco explorado: as relações entre o trabalho e a vida psíquica. "quando estão bloqueadas todas as possibilidades de adaptação entre a organização do trabalho e o desejo dos sujeitos". então emerge um sofrimento patogênico.a partir de um material empírico obtido através de um método de investigação também novo. antes de tudo. Quando a organização do trabalho entra em conflito com o funcionamento psíquico dos homens. Este método aparentemente simples. as noções de prazer no trabalho. os ritmos impostos e os modos operatórios prescritos mas também. como elas surgem e evoluem. É na organização do trabalho que devem ser procuradas estas forças. Implica. Um assunto apaixonante que pode ser a chave para a compreensão de vários pontos ainda obscuros do comportamento humano. isto é. a divisão das tarefas entre os operadores. aparece outro conceito base na teoria de Dejours: o papel da organização do trabalho. Tudo então se passará em torno da interpretação da fala e dos silêncios dos trabalhadores. "'A Loucura do Trabalho" é um livro que abre a cabeça para novas idéias e novas interpretações sobre o homem. e sobretudo. numa relação de intersubjetividade entre eles e os pesquisadores. ou de sofrimento criativo e sofrimento patogênico. Seus exemplos são eloqüentes.A noção de sofrimento é central para Dejours. Mas como isto tudo é um processo dinâmico. Os conceitos que estão na base da teoria de psicopatologia do trabalho de Dejours foram elaborados e continuam sendo enriquecidos -por exemplo. Leda Leal Ferreira Ergonomista 10 . os sujeitos criam estratégias defensivas para se proteger. Os conceitos e o método ganham uma coloração especial pelo modo como são expostos por Dejours. E este é o terceiro ponto da teoria de Dejours: explicar no que consistem estas estratégias. a falta das quais pode representar uma insuportável violação do equilíbrio psíquico dos trabalhadores. a divisac dos homens para garantir esta divisão de tarefas. as repartições de responsabilidade e os sistemas de controle.

a critica social e levanta a questão explosiva das escolhas políticas. infalivelmente. na verdade. Em se tratando do trabalho. tanto da parte dos trabalhadores quanto da parte dos dirigentes e dos especialistas. ficou no estado embrionário. Mais precisamente. Sabe-se que a psicopatologia do trabalho. Assunto dentre os mais perigosos. das indústrias de processo. foram negligenciados até hoje pelos especialistas do homem no trabalho. cada um tivesse em si experiência suficiente para falar do inferno e nunca do paraíso. à Vivência alguns passos de vantagem sobre a Palavra. que dá. a exemplo de Dante. Curioso paradoxo. apesar de alguns trabalhos importantes dos anos 50 (57-59).Introdução Falar da saúde é sempre difícil. no entanto. da linha de produção. falaremos dos serviços públicos. poderíamos nos satisfazer com as inumeráveis descrições que foram dadas sobre a violência na fábrica. Quando se conhece o desenvolvimento de que se . Evocar o sofrimento e a doença é. Como se. no afron-lamento do homem com sua tarefa. na oficina. em contrapartida. assunto que suscita. sempre há o que descobrir neste domínio. no escritório. das telefonistas etc. põe em perigo sua vida mental. mais fácil: todo mundo o faz. nós procuraremos divulgar aquilo que. definitivamente. para usar um truísmo. Apesar de tudo o que se pôde dizer e escrever sobre a infelicidade. por causa das paixões que ele desencandeia. para revelar certos sofrimentos que. das fábricas.

deliberadamente. na medida em que estas são regidas por regras que não se deixam reduzir ao jogo das relações chamadas de "objetais". ou um conselho de administração.beneficiaram as ciências humanas. a raiva. É inegável que a posição de destaque ocupada pela psicanálise não deixa de ocultar o que não pode ser articulado com sua teoria. a essa asserção. da psiquiatria e da psicanálise. Num caso ou no outro. e dos dramas. Evidentemente. no máximo. Assim. E não de uma vivência operária que seria um denominador comum a todas as situações de trabalho. a três. O campo da psicanálise é centrado sobre a vida de relação e. Seu objetivo não é.. os questionários abertos ou fechados. tanto no espírito do público quanto nos meios de comunicação de massa. num grupo de operários de uma fábrica automobilística em relação a um grupo de pessoas em férias. em outras palavras. O ponto de vista dinâmico. mais precisamente. a angústia. a economia dos gestos repetidos. as estatísticas.. toda a psicologia abstrata. o sonho. os fantasmas. de aparição muito mais recente. essas disciplinas. de uma vez por todas. a emoção. ou de'irredutível. na arte e na medicina. podemos nos espantar com a lentidão da psicopatologia do trabalho. a própria vida mental. as falhas do comportamento produtivo. em conquistar seu lugar de distinção. todos os sentimentos experimentados que escapam à observação chamada de "objetiva".. desejamos fazer com que apareçam vivências diferenciadas e irredutíveis umas às outras. as características postas em evidência pela análise dual. o de evidenciar o que há de único. é notável o lugar privilegiado que essas disciplinas ocupam. Entretanto. há vários anos. oporemos. Podemos propor várias explicações para este fenômeno. os esquemas de padrões comportamentais. a vivência hic et nunc. sobre a vida a dois. a psicanálise é imprópria para dar conta das relações de trabalho. no sentido de Politzer(86). Nós deixaremos de lado. na dinâmica dos pequenos grupos. que sempre dariam conta das experiências concretas. É precisamente sobre a especificidade da vivência operária que queremos chamar a atenção. as observações quantitativas. que deixa à margem. ou o aumento das performances. Olhando-se de perto. o amor. A primeira seria atribuí-lo à imaturidade da psicologia. a psicossociologia não procura apenas evidenciar os pontos comuns a todos os grupos. Ao contrário. jamais. o dasein — para 12 . têm por objetivo encontrar. Mais aceitável seria a interpretação que atribuiria o subdesenvolvimento da psicopatologia do trabalho ao superdesenvolvimento das disciplinas tradicionais. ou. de um século para cá. a psicanálise de grupo e a psicossociologia. na literatura.

Por história. as guerras. como um subcapítulo da história popular.de saúde dos trabalhadores não pode ser dissociada do desenvolvimento das lutas e das reivindicações operárias em geral. por fenômenos de ordem histórica. assim. O campo potencial da psicopatologia do trabalho é ocupado. é porque as condições para seu crescimento ainda não estavam reunidas. É apenas graças a uma leitura especializada da história que se podem enumerar os elementos necessários à reconstrução da história da'' frente pela saúde''. Além de não conseguirem dar conta da unicidade do drama existencial vivido pelos trabalhadores. Mas não há a? nada de excepcional e. 13 . pois as melhorias das condições de trabalho e de saúde foram raramente oferecidas graciosamente pelos parceiros sociais. apesar de nem sempre conseguirmos escapar à tentação metapsicológica. ao contrário do que acontece agora.) "A história da saúde dos trabalhadores" aparece. antes de mais nada. é sempre vencendo tais situações. A evolução das condições de vida e de trabalho e. pela psicanálise. o subdesenvolvimento prolongado da psicopatologia do trabalho se explica. (Exceto em certos períodos. que aparecem disciplinas novas. que não retomaremos aqui. Além do mais. mas principalmente a história do movimento operário e da correlação de forças entre trabalhadores. durante as quais foram tomadas medidas especiais para proteger uma mãode-obra que se tornava preciosa. patrões e Estado. Se a psicopatologia do trabalho não foi mais estudada.retomar os autores existencialistas alemães — teráv prioridade. Assim. entenderemos não só a história dos operários. Esse ponto é de tal importância que não poderemos evitar voltar um pouco atrás e narrar "a história da saúde dos trabalhadores". onde o interesse econômico se reuniu momentaneamente ao dos trabalhadores. portanto. afinal. essas disciplinas fornecem um quadro de referências teóricas e conceituais que perturbam a elaboração de concepções diferentes. psicossociologia e psicologia abstrata. coiri dissemos. a "frente pela saúde" só progrediu graças a uma luta perpétua.

Benoiston de Chateauneuf (ver in 98). a resposta social ao perigo. 91) A intensidade das exigências de trabalho e de vida ameaça a própria mão-de-obra que. que atinge correntemente 12. Villermé (99). O salários são muito baixos e. o emprego de crianças na produção industrial. subalimentação. independentemente da doença. Guépin (49). Villermé demonstra sem dificuldade que "a mortalidade cresce em razão inversa ao bem-estar". a partir dos 7 anos (98). (11 p. Disso decorrem condições de vida que foram descritas em pesquisas como as de Parent du Chatelet (83). nos reportaremos aos autores de então. e. A gravidade da situação se revela no serviço militar: "Em Amiens. acidentes de trabalho. a um pardieiro. nesta época. mais freqüentemente. insuficientes para assegurar o estritamente necessário. a duração do trabalho. (29. é preciso que seja assegurada a subsistência. ela é. esgotamento físico. para o operário. acusa riscos de sofrimento específico. Nessa época. O movimento higienista é.O século XIX e a luta pela sobrevivência Para o que nos interessa aqui. Alguns elementos marcantes podem ser retidos. 14 . Os períodos de desemprego põem imediatamente em perigo a sobrevivência da família. promiscuidade. pontecializam seus respectivos efeitos e criam condições de uma alta morbidade. não cabe falar de "saúde" em relação à classe operária do século XIX. A moradia se reduz. 72. Penot (85). algumas vezes a partir dos 3 anos. 14 ou mesmo 16 horas por dia. de certa forma. dramáticos por sua gravidade e número. eram precisos 153 inscritos das classes privilegiadas para obter 100 homens aptos para o serviço militar. 43) Falta de higiene. Antes. descrito na literatura da época sob o nome de miséria operária. no espírito dos notáveis. é não morrer". Concebida como um flagelo. freqüentemente. aos acidentes. (50) No que concerne às condições de trabalho da época. (11) Em vista de tal quadro. de uma alta mortalidade e de uma longevidade formidavelmente reduzida (99). Como sublinhamos (29). por volta de 1830. sobretudo. com freqüência. A luta pela saúde. mas 383 nas classes pobres". o período de desenvolvimento do capitalismo industrial caracteriza-se pelo crescimento da produção. e. comparável a uma doença contagiosa. identifica-se com a luta pela sobrevivência: "viver. pauperizandose. pelo êxodo rural e pela concentração de novas populações urbanas.

deve receber um grande desenvolvimento e fornecer numerosas aplicações ao aperfeiçoamento de nossas instituições. às inumações. do regime dos soldados. da violência e da prostituição. de uma certa eficácia". E os meios de cura serão mais poderosos quando inspirarem seu modo de ação nas revelações do homem físico e intelectual e quando a fisiologia e a higiene emprestarem suas luzes à ciência do governo. Questionar a religião e a família representa séria ameaça à ordem social. do direito e da razão". que é a arte de conservar a saúde dos homens em sociedade. Ela se estende a tudo o que diz respeito às endemias. ds erradicação da drenagem etc. aos cemitérios etc. (98) Quando a burguesia perde sua credibilidade e sua imagem de >■**. apenas nesses limites. de todas as nuanças de posições sociais. que é preciso trabalhar para curar ou. as oposições. promiscuidade e fome associam-se para criar condições favoráveis ao desenvolvimento da delinqüência. a autoridade da ciência. aos hospitais. Vê-se quanto. As faltas e os crimes são as doenças da sociedade. Eis como ela é definida pelos autores do primeiro número dos Annales: "â higiene pública. Ela faz sentir a necessidade das leis sanitárias. Com efeito. que informa os meios da salubridade pública. das profissões. É ela que observa as variedades. Ela trata da qualidade e da limpeza dos comestíveis e das bebidas. dos marinheiros. exercer uma grande influência na marcha do espírito humano. aos presídios.a miséria assimilada a uma doença "permite a introdução da linguagem do isolamento. ela deduz reflexões e conselhos que não deixam de influir na força e na riqueza dos Estados." (83) Este texto faz com que apareçam. aos hospícios. Ela pode. e concorrer para a nobre tarefa de diminuir o número de enfermidades sociais. se um papel importante for conferido à Academia de Ciências Morais e Políticas. resta por empreender e por realizar nesta parte da ciência. às epidemias. miséria. Ela deve esclarecer o moralista. Mas ela ainda tem pela frente um outro futuro. enfim. as influências dos climas. numa época onde os movimentos sociais e sindicais são ainda limitados. A higiene designa os meios a serem postos em prática para preservai a saúde das classes privilegiadas e não a da classe operária. os fatos morais e políticos. 15 . Ela deverá "restabelecer. aos cabarés. por sua associação com a filosofia e a legislação. nesse domínio. pelo menos diminuir. na ordem moral. os objetivos concernentes à restauração da ordem moral e da ordem social nas aglomerações operárias. Da investigação dos hábitos. além das preocupações com saúde. enfim. às zo-onoses. Não há nada de espantoso nessa situação. do banditismo.

Seu papel será o de estudar a situação e propor soluções para restabelecer a ordem moral e.d^Jiigjejie^js^ejco^ejtaijie PasiejirJ_uj3ij3Quco___ maisTãraeTasjjÊSQuisas em ps^a^mtria. onde o Estado é depositário de uma missão mais importante. quando apelava para a polícia ou para o exército. O desenTOMmentij. regulados localmente. . é preciso encontrar novas soluções. ao movimento de revolta. a organização dos operários confere. forjando um utensílio que terá grandes destinos. etapa necessária para a formação de operários disciplinados. Mas a medicalização do controle social não seria suficiente. O Estado é chamado a intervir cada vez mais freqüentemente. Paralelamente ao "movimento" das Ciências Morais e Políticas. devido ao seu comportamento em relação à classe operária. no qual o Estado aparece como ator estratégico. Por outro lado. é aos próprios operários que se devem as principais melhorias materiais da condição operária. Três correntes. Frente à amplitude do movimento de organização da classe operária. sobretudo. unicamente. Inicia-se então um movimento complexo. Pinei. o representante do Estado agia em nome. A este segundo perigo é dada uma resposta específica: a repressão estatal. a autoridade da família. portanto: o movimento higienista. Os conflitos entre trabalhadores e empregadores eram. aparece o movimento dos "grandes alienistas" (Esquirol. mais tarde. O médico faz sua entrada triunfal no arsenal do controle social. para reprimir uma greve. O patrão era livre para escolher as soluções que quisessse e. 16 . de fato. constituídos pelos "desvios" e atentados individuais à ordem social. enquanto uma outra forma de atentado à ordem moral e social vai ganhar corpo na solidariedade operaria. Orfila etc) suscitado pela curiosidade pelos fenômenos insólitos. mais respeitáveis e mais neutros do que os patrões.jyfojlej!]^^ positiva da atividade médicaLjí sobre ela que se apoia a resposta social à explosão da miséria operária. e. Higienistas.cunho humanista. sob a imagem do "trabalhosocial". uma força que pode derrotar o poder do empregador isolado. até aí. apela-se para os especialistas e cientistas. onde os médicos ocupam uma posição de destaque. por sua amplitude. Mas o desenvolvimento do movimento operário conduz a greves mais amplas. e que reencontraremos. moralistas e alienistas só podem responder ao desvio. O Estado torna-se o árbitro necessário. do atentado à propriedade privada. nos movimentos de luta e no desenvolvimento de uma ideologia operária revolucionária. o movimento das ciências morais e políticas e o movimento dos grandes alienistas.

Sob o Segundo Império. à saúde dos trabalhadores: 1890: criação. Só a partir do fim do século são obtidas leis sociais pertinentes. 3e_subjneler certas pessqas^o^rgpojiso semanal^_. especificamente. cobrir todo o século XIX: a redução da jornada de trabalho. vê-se emergir uma palavra de ordem que vai. As lutas operárias marcarão todo o século. balhps particularmente penqso&rNaos^uais não se terá mais o direito^. a duração do trabalho propriamente dito. quinze anos para a lei sobre acidentes de trabalho (1883-1898) (11 p. onze anos para a lei sobre a higiene e a segurança (1882-1893). durante quase 50 anos. não haverá praticamente nenhum progresso na limitação do tempo de trabalho. vinte anos. não sem resistência da parte desta última (90). a proteção das mulheres. No que concerne ão que se poderia chamar de "pré-história da saúde dos trabalhadores". o debate está praticamente fechado. com freqüência. Nove anos para a supressão da caderneta operária (1881-1890). progressivamente. em sua tutela patronal. nas minas. As discussões governamentais serão intermináveis. quarenta anos para a jornada de 10 horas (1879-1919). sob diferente^ formas: o limite de idade abaixo do qual as crianças nScíterãii^ mãislo direito de serem postas a trabalhar. permitindo ao Estado tornar-se autônomo. por assim dizer. esperar dez. questionadas por leis que voltam ao statu quo ante por inumeráveis derrogações e por recusas de aplicação. vinte e cinco anos para a jornada de 8 horas (1894-1919). treze anos para o projeto de lei sobre a redução do tempo de trabalho das mulheres e crianças (1879-1892). ó trabalho noturno. A aparição das câmaras sindicais. Ajpressãp retorna. vinte e sete anos para o repouso semanal (1879-1906). Apesar dos verdadeiros discursos de defesa de Villermé. 1898: lei sobre os acidentes de tra17 . Entre um projeto de lei e sua votação é preciso. As reivindicações operárias chegam a um nível propriamente político. 1893: lei sobre a higiene e a segurança dos trabalhadores da indústria (61). das associações. em seguida.Concentrações operárias criadas em funçAo das necessidades da produção emergem das novas relações sociais. principalmente a partir da Comuna. 93). de delegados de segurança. As conquistas serão. Compreende-se facilmente que asJutas operáriasjie_s_te período histórico tenham essencialmente dois objetivos: o diteitp à vida (ou à~~ sobrevivência) e a construção çLo instrumento necessário à sua corr^ /.Laliberdade de organização. das federações nacionais e dos partidos políticos dá ao movimento operário uma dimensão significativa. vinte e três anos para a jornada de 8 horas nas minas (1890-1913) (8).qiusia. muitas vezes. os tra£^.

mesmo se as condições de existência estavam longe de serem unificadas para o conjunto da classe operária. poder-se-ia dizer que a organização dos trabalhadores traduziu-se na conquista primordial do direito de viver. Nova tecnologia de submissão. O desfalque. Mas. no reservatório de \ mão-de-obra. jà que nesta época apenas 15 % dos franceses atingem essa idade). de disciplina do corpo. A partir daí. especialmente no setor terciário. prevenir as doenças profissionais e as intoxicações por produtos industriais. esse é o eixo em torno do qual se desenvolvem as lutas na frente pela saúde. Há um vasto programa. o taylorismo será objeto de um estudo particular. re-1 sultante do número de mortos e feridos de guerra. q esforço de produção para / as necessidades da guerra. Um lugar particular deve ser dedicado à introdução do taylorismo. Salvar o corpo dos acidentes. Entre elas se manifesta uma frente específica. Da Primeira Guerra Mundial a 1968 A partir de então. dos quais se beneficiavam até então sobretudo as classes abastadas. assegurar aos trabalhadores cuidados e tratamentos convenientes. focalizaremos sobretudo o / salto qualitativo na produção industrial. a reinserção dos inválidos na produção. que concerne à proteção da saúde. concernente a suas conseqüências sobre a saúde mental. assim mesmo. a organização científica do 18 .balho e sua indenização. Sendo. j Por que tomar a guerra de 14-18 como (Jata de referência? Entre \ os elementos que presidem esta escolha. o movimento operário adquiriu bases sólidas e atingiu a dimensão de uma força política que iria crescendo no tabuleiro de xadrez das relações de força. as experiências insólitas de redução da ^i duração de trabalho nas indústrias de armamento. ainda hoje. onde a proteção do corpo é a preocupação dominante. dizem os sindicatos. 1905: aposentadoria dos mineiros. 1910: apo-" sentadoria para o conjunto dos trabalhadores após 65 anos ("aposentadoria para os mortos". podem aparecer reivindicações mais diversificadas. os esforços da reconstrução. uma modalidade de organização do trabalho que continua ganhando terreno. é preciso assinalar as repercussões do sistema Taylor na saúde do corpo. formam as condições de uma reviravolta na relação (jjojnem-trabalho. Para esquematizar.

mas sobretudo o corpo dócil e disciplinado. A partir da guerra. muito mais facilmente do que no período precedente. como a empresa Renault. corpo fragilizado pela privação de seu protetor natural. e do papel do Estado como interlocutor privilegiado. Corpo sem defesa. Ao separar. pode-se encontrar. Não há nada de espantoso. por exemplo. especialmente as exigências de tempo e ritmo de trabalho. onde os efetivos são pouco numerosos e pouco sindicalizados. onde ele é mais poderoso. progressivamente. definitivamente relegado à categoria de instrumento inútil. e fazem com que o corpo apareça como principal ponto de impacto dos prejuízos do trabalho. à injunção da organização do trabalho. isto é. Em razão do desenvolvimento do movimento operário a nível nacional.trabalho gera exigências fisiológicas até então desconhecidas. O movimento operário tenta obter melhorias da relação saúde-trabalho e mudanças aplicáveis ao conjunto dos trabalhadores. Apesar da votação de leis de caráter geral. nas empresas isoladas. As performances exigidas são absolutamente novas. a ligação de causa e efeito entre tal luta operária e tal lei social. quando a proporção de trabalhadores estrangeiros é importante. que é o aparelho mental. no surgimento de lutas enérgicas para arrancar leis. etapas importantes vão ser transpostas. É. mas muitas vezes leva a um aumento das diferenças. portanto. nas regiões pouco industrializadas. radicalmente. ti. mas ao conjunto dos operários da produção de massa. que substituirão a proteção natural do "instinto de conservação". que se tornará. o movimento operário não é ainda capaz de controlar sua aplicação por toda parte. as condições de trabalho são incomparavelmente piores do que nas grandes empresas. Ao contrário. Corpo doente. Às vezes consegue. onde os trabalhadores são suficientemente numerosos (grandes empresas). ao mesmo tempo em que se perfila uma diversificação das condições de trabalho e de saúde. nessas condições. o trabalho intelectual do trabalho manual. *™ 19 . não é o aparelho psíquico que aparece como primeira vitima do sistema. O esgotamento físico não concerne somente aos trabalhadores braçais. entregue. adequação não dissociada pela inércia do tempo que passa. o sistema Taylor neutraliza a atividade mental dos operários. a empresa-piloto das vitórias operárias. sobretudo. ao engenheiro de produção e à direção hierarquizada do comando. onde o trabalho tem um valor econômico estratégico (setores de ponta ou centros vitais da economia nacional) que a evolução da relação saúde-trabalho é mais rápida. sem obstáculos. corpo explorado. ou que corre o risco de tornar-se doente. Deste modo.

A guerra favorece as iniciativas em favor da proteção de uma mão-de-obra gravemente desfalcada pelas necessidades do front. Os principais progressos cristalizam-se em torno da jornada de trabalho» da medicina do trabalho e da indenização das anomalias contraídas no trabalho: Albert Thomas, em 1916, reduz a jornada de trabalho para 8 horas por dia e constata o efeito paradoxal desta medida, sobre a produção... que aumenta! A lei de 1898 sobre os acidentes de trabalho previa a criação de ambulatórios de fábricas a cargo dos seguros privados. Os decretos de 1913 levam certas empresas a organizar exames pré-admissionais e de controle, em período de trabalho. Em 1915, aparecem as bases de uma verdadeira medicina do trabalho, com a inspeção médica das fábricas de guerra, organizada por A. Thomas (61). Após a Grande Guerra essa tendência acentua-se, com a institucionalização da medicina do trabalho em certos setores, especialmente nas minas, enquanto certos empregadores contratam um médico, a título individual, para fazer seleção na contratação, e para se protegerem de certos riscos que, a partir de então, estão ligados a penalidades financeiras (indenizações, etc) (61). Pouco a pouco, elabora-se uma doutrina implícita da medicina do trabalho. No que concerne à indenização das doenças e aos cuidados com os doentes, é sobretudo no fim da guerra que leis importantes são votadas: reconhecimento das doenças profissionais, em 1919; criação de uma.comissão de higiene industrial, em outubro de 1919; criação de um comitê consultivo de seguros contra os acidentes de trabalho. Uma tendência aparece, a partir da lei de 1903, em favor da atenuação dos perigos e da insalubridade, isto é, da supressão das causas de acidente e de doença. Ela só ganhará corpo, verdadeiramente, na lei de 1919, modificada em 1951, que prevê que as máquinas ou partes de máquinas perigosas, para as quais existam dispositivos de proteção de eficácia reconhecida, não possam ser desprovidas destes dispositivos. (61) Após este período, fecundo para a melhoria da relação saúde-tra-balho, não haverá progresso significativo até o Front Populaire, que dá momentaneamente vantagem aos operários. A semana de 40 horas é votada em 1936, assim com as férias pagas, e os acordos Matignon instituem as convenções coletivas e os delegados de pessoal, reconhecendo o direito à livre adesão aos sindicatos e o direito à greve, Pode-se dizer que em 1936 as condições de trabalho tornam-se 20

reaimente um tema específico do movimento operário, mesmo se a fórmula só veio à moda mais recentemente, aliás com um conteúdo um poucu diferente. A última onda de medidas sociais relativas à saúde dos trabalhadores data da Segunda Guerra Mundial .e resulta da relação de forças recém-conquistada na Resistência O programa da Resistência, parcialmente aplicado, faz nascerem novas esperanças, com a institucionalização da Medicina do Trabalho (1946), da Previdência Social (1945), dos Comitês de Higiene e de Segurança (1947). Durante todo esse período, que começa em 1944, o movimento operário continua a desenvolver sua ação para a melhoria das condições de vida (duração do trabalho, férias, aposentadorias, salários) mas, simultaneamente, se destaca uma frente própria, concernente à saúde. Olhando-se de perto, as palavras de ordem neste domínio concernem à prevenção de acidentes, a luta contra as doenças, ao direito aos cuidados médicos, isto é, à saúde do corpo. Pode-se dizer que esse segundo período da "história da saúde dos trabalhadores" caracteriza-se pela revelação do corpo como ponto de impacto da exploração. Essa noção é fundamental, na medida em que leva as análises, tanto provenientes dos sindicatos quanto dos especialistas, a se preocuparem com um aspecto da saúde que consideramos, hoje em dia, indevidamente limitado. O alvo da exploração seria o corpo, e só o corpo. Também as análises econômicas críticas do sistema capitalista argumentam suas teses sobre a exploração a partir do corpo lesado, do corpo doente, da mortalidade crescente dos operários em relação ao resto da população. A proposição é exata, e seria um erro pô-la em dúvida. Mas é muito limitada. Como se os mecanismos invisíveis da exploração exigissem, para serem evidenciados, uma demonstração dos seus efeitos visíveis no corpo. Estamos talvez autorizados, hoje, a revisar o ponto de vista segundo o qual a exploração teria por alvo, diretamente, o corpo. E a inverter a problemática, insistindo nas mediações em jogo no exercício das exigências corporais. Tudo se daria como se as condições de trabalho nocivas só atingissem o corpo após tê-lo submetido, domes-ticado e adestrado como a um cavalo de tração. Docilidade que, como vamos ver, depende de uma estratégia inicialmente concernente ao aparelho mental, para dele anular as resistências que ele opõe, espontaneamente, à exploração. Seja como for, se o corpo aparece durante este período da história como primeira vítima do trabalho industrial, resta saber o que lhe é especificamente prejudicial. A periculosidade das máquinas, os produtos industriais, os gases 21

e os vapores, as poeiiab tóxicas, os parasitas, os vírus e as bactérias são, progressivamente, designados e estigmatizados como causa do sofrimento físico. De 1914 a 1968, é progressivamente o tema das condições de trabalho que se depreende das reivindicações operárias na frente pela saúde. A luta pela sobrevivência deu lugar à luta pela saúde do corpo. A palavra de ordem da redução da jornada de trabalho deu lugar à luta pela melhoria das condições de trabalho, pela Segurança, pela Higiene e pela Prevenção de doenças. "Melhoria das condições de trabalho!" Palavra de ordem que chegou à maturidade em 1968; revelação, denominação, formulação tardia do tema que, no entanto, já animara durante cinqüenta anos todas as lutas operárias na frente pela saúde. Não há nada de surpreendente nisso, como mostram muitos outros fatos históricos, que falam de coisas quando elas já estão ultrapassadas, quando já se desenha uma nova etapa: neste caso, as lutas pela proteção da saúde' mental. Miséria operária, luta pela sobrevivência, redução da jornada de trabalho, corrente das ciências morais e políticas, corrente higienista e corrente alienista deram lugar, respectivamente, ao corpo doente, à luta pela saúde, à melhoria das condições de trabalho, e à corrente contemporânea da medicina do trabalho, da fisiologia do trabalho e da ergonomia. li Ü Terceiro período: após 1968 O desenvolvimento desigual das forças produtivas, das ciências, das técnicas, das máquinas, do processo de trabalho, da organização e das condições de trabalho culmina numa situação muito heterogênea para que se possa fazer uma análise global da relação saúde-trabalho. No centro deste mosaico de fenômenos diversificados, só se pode reconhecer um novo material e tendências que ampliam a problemática tradicional das questões da saúde. Nós designamos aqui & saúde mental. Apesar da existência de uma literatura, a bem dizer restrita, de psicopatologia do trabalho (Girardon Amiel - Sivadon - Veil - Leroy...) é preciso reconhecer que o conflito que opõe o trabalho à vida mental é um território quase desconhecido. É verdade que os especialistas do homem no trabalho se concentraram, em matéria de psicologia, em definir métodos de seleção psicológica. Especialistas do homem, sua atividade, que entretanto é bem real, se desdobra fora das questões de saúde mental. 22

de uns anos para cá. Denunciado de maneira exageradamente estereotipada. sobre a inexistência de greve nas fábricas que adotaram a O. Primeiramente. as operações padrão.T.T.Do lado dos trabalhadores. A reestruturação das tarefas. como a de processo e a indústria nuclear.C. como mostraremos mais adiante. Hoje em dia. A sensibilidade às cargas intelectuais e psicossensoriais de trabalho preparam o terreno para as preocupações com a saúde mental. testemunha preocupações aparecidas com a nova onda". a rotatividade. e acentua a dimensão mental do trabalho industrial. que cresceu com a desilusão do após-guerra e se O. nuclear. efetivamente. (N. a sabotagem da produção e a "alergia ao trabalho" (89) levam a procurar soluções alternativas. principalmente pelos operários. E entretanto. é assim que se designa uma série de contestações da sociedade. o sofrimento psíquico permanece praticamente não analisado. A "crise de civilização". onde as greves. Em seguida.T. Para este fenômeno podemos encontrar várias razões. dos trabalhadores do setor terciário e das novas indústrias. mas também por uma parte do patronato. sobre a relação homem-tarefa. o discurso operário não é mais prolixo sobre este assunto. Reputadas como isentas de exigências físicas graves. no terreno do controle social. as tarefas de escritório tornam-se cada vez mais numerosas.C.* (96). faz nascerem amplas discussões sobre o objetivo do trabalho. etc). mesmo se sua elaboração continua balbuciante. no terreno econômico. onde este sistema organizacional não garante mais sua superioridade. — Organização Científica do Trabalho. onde o sistema Taylor é denunciado como desumanizante e acusado de todos os vícios. sente-se por todas as partes uma nova força: a luta operária pela saúde mental está hoje iniciada. estamos longe das afirmações de Taylor.C.)' 23 . No terreno ideológico. O desenvolvimento destas indústrias confronta os operários a novas condições de trabalho e fazem-nos descobrir sofrimentos insuspeitos. cimenteiras. as paralisações de produção. como alternativa para a O. O mesmo se dá com os operários que têm uma fraca carga física. do T. P«H' silêncio é testemunha da dificuldade do movimento operário em levai. enfim. a discussão sobre um terreno que é particularmente complexo. que são operadores das indústrias de processo (petroquímica. o desperdício. o absenteísmo. A primeira diz respeito ao esgotamento do sistema Taylor. na medida do desenvolvimento do setor terciário. A isso é preciso somar as vozes dos operários de linha de produção.

a nível dos órgãoi dirigentes. pelo menos até a atual crise econômica. (30-80) O avanço da psiquiatria. Numerosas publicações confirmam que esta data marca o reconhecimento. A droga e as toxicomanias. A "libertação da palavra": se 1968 aparece como uma data representativa na história da relação saúdetrabalho. na publicidade e no marketing. Estes diferentes elementos concorrem para fazer pensar que. deveria emergir o tema da relação saúde mental-trabalho. onde interessa. Do relatório patronal de 1972 ao relatório Sudreau (94). representam um papel na formulação das dificuldades existenciais sentidas. nem mesmo os trabalhadores. pelo patronato e pelo Estado. à margem das iniciativas sindicais. a psicologia não poupa mais ninguém. é preciso lembrar. o trabalho foi reconhecido como causa principal da alienação. e que diz respeito tanto aos filhos da burguesia quanto aos da classe operária. pnmeiro como tema de reflexão das organizações operárias. da necessidade de levar em conta as reivindicações qualitativas da classe operária (2. o mundo do trabalho.52. dificilmente redutível. Passada à força nos meios de comunicação de massas. o desenvolvimento de um inegável cinismo.ampliou com a contestação da "sociedade de consumo". acabam numa contestação do modo de vida como um todo. No centro do discurso de maio de 68 encontramos a luta contra a sociedade de consumo e contra a alienação. A perda de confiança na capacidade da sociedade industrial em trazer a felicidade. inclusive pelos estudantes.88). o exercício maciço das práticas psicote-rapêuticas nas escolas. as prisões e todas as instituições. que mergulha o patronato e o Estado numa verdadeira confusão. em escala das massas. maio de 68 é uma referência fundamental. são testemunhas de uma nova procura. sobretudo. em segundo I 24 . Simultaneamente. temas privilegiados da "crise de civilização". 3. dot período atual. exprimiam este tema nos muros da capital. que tende a atenuar todas as reivindicações qualitativas. Elas rompem a tradição reivindicativa e marcam a eclosão de temas novos: "mudar a vida". para designar as novas tendências nos conflitos sociais. muitas vezes. Maio de 68 é também a referência utilizada. hoje em dia. o prazer de viver. é primeiramente em razão do desencadeamento verbal ocorrido durante os acontecimentos de maio de 68. palavra de ordem fundamentalmente original.31. As greves selvagens confirmam a escolha de 1968 como referência histórica. por parte do patronato. Milhares de cartazes. provavelmente. Greves selvagens e greves de operários não-qualificados eclodem espontaneamente. no cinema.

acentuam-se os comportamentos humanos. e as características antropométricas do posto de trabalho. A luta pela saúde do corpo conduzia à denúncia das condições de trabalho. pode-se perguntar o quê. ambiente químico (produtos manipulados. . Por organização do trabalho designamos a divisão do trabalho. Seu caráter qualitativo não pode ser traduzido. o ambiente biológico (vírus. barulho. concretizado pela organização do trabalho. aparentada do behaviorisrho. "mudar a vida" atacam diretamente a organização do trabalho. a exemplo do que se pode observar sobve as condições de trabalho com a medicina do trabalho eaergonomia. vibração. que se coloca esta pesquisa. em psicopatologia do trabalho. simplesmente. números e quantificações devem ser abandonados por não serem capazes de dar conta do processo. pesquisas. o conteúdo da tarefa (na medida em que ele dela deriva). * fjtr A psicopatologia do trabalho Geralmente. E na contracorrente desta inspiração. A luta pela sobrevivência condenava a duração excessiva do trabalho. as modalidades de comando. A questão é de uma importância crucial. o sistema hierárquico. fumaças etc). questionários abertos ou fechados. sem intermediário. a vontade e o desejo dos trabalhadores e o comando do patrão. pressão. em termos de custo ou de itens orçamentários. antes de tudo. é acusado como fonte específica de nocividade para vida mental. ritmos. cadências e comportamentos produtivos. ambiente físico (temperatura. Palavras de ordem como "abaixo as cadências infernais". "abaixo a separação trabalho intelectualtrabalho manual". altitude etc). as questões de responsabilidade etc. as relações de poder. Testes.e. Quanto ao sofrimento mental. ele resulta da organização do trabalho. no trabalho. poeiras. A partir de então se confrontam. Por condição de trabalho é preciso entender. gestos. irradiação. ocupado — do mesmo modo Que um inimigo ocupa um país — pelos atos impostos: movimentos. estatísticas.como objeto de trabalhos científicos. tste tema está efetivamente presente há uma década-. 25 . fungos). bactérias. vapores e gases tóxicos. todavia. de segurança. Seu objetivo é o de explicar o campo não-comportamental. as condições de higiene. parasitas.

possuir luzes. nós tentaremos desalojar o sofrimento no que ele tem de empobrecedor. e quer. nesse caso. mas um padrão comportamental que contém uma tentativa de transformar a realidade circundante conforme os desejos próprios do sujeito.A física gestual e comportamental do "operârio-massa" (18) está para sua personalidade assim como o aparelho administrativo do ocupante está para as estruturas do país invadido. A questão fundamental aqui colocada diz respeito à localização do processo de anulação de um comportamento livre. de apoiar a descrição do louco em seus comportamentos aberrantes e prolíficos (delírio. desencadear a tempestade. impulsões). Projeto temerário. talvez. isto é. mais que um estado. mas também mal conhecido pelos próprios operários. As relações de um e de outro são primeiramente de dominação. de anulação dos "comportamentos livres". é preciso ir à sua procura. e depois de ocultação. Ocultação e coarctação de seus desejos no esconderijo secreto de uma clandestinidade imposta. qualifica uma orientação na direção do prazer. nem mesmo iraduzir-lhes o conteúdo. Nosso projeto diz respeito à elucidação do trajeto que vai do comportamento livre ao comportamento estereotipado. em psiquiatria. alucinações. De nossa parte. o processo de exclusão do desejo se faz sem prejuízo para o operário? Tem-se o costume. Revelar as aspirações não é nosso projeto. operação mais difícil do que a observação direta de um comportamento abertamente patológico ou desadaptado. E. ocupados que estão em seus esforços para garantir a produção. não somente desconhecido fora da fábrica. sobre essas coisas. Esta é tarefa do militante político que pretende. aquecendo os desejos hibernados. descobrir o sofrimento operário. Dominação da vida mental do operário pela organização do trabalho. O comportamento produtivo estereotipado do operário-massa não ocupa o lugar de um comportamento livre? Comportamento livre que podemos perceber em outros trabalhadores ou em operários libertos da organização autoritária do trabalho. 26 . Para conhecê-la. Por comportamento livre nós não entendemos a liberdade metafísica. Livre. A anulação é muda e invisível.

Não se trata aqui de uma classe social no sentido que os homens políticos italianos.As estratégias defensivas 1. Mas sua natureza pede para ser decifrada. A miséria "descrita pelos acadêmicos do século XIX". poderia parecer insólito tomá-la como exemplo num estudo de psicopatologia do trabalho. traduz antes de tudo o pensamento social dominante na época. Mais do que em outros lugares. Entretanto. se procedemos desta maneira é porque. Ao contrário. a miséria operária concebida como uma doença epidêmica (13). nesse universo do subúrbio. pode-se ver então-trm ceno tipe-fte defesa. o que a une é mais o não-trabalho e o subemprego. mas não dá conta da vivência partilhada pelos homens do subproletariado. O sofrimento aí aparece maciço e evidente. Por isso.'M>.. que nós descrevemos sob o nome de '(ideologia defensiva") O que vai prender nossa atenção é a vivência ctessa populaçao-em relação a saúde.as E EDUCAÇÃO . Esta população não se caracteriza pela participação comum em uma mesma tarefa industrial. As "ideologias defensivas" (o caso do subproletariado) O subproletariado de que vamos falar é aquele que habita as zonas periurbanas. geralmente jogados na periferia das grandes cidades. mais precisamente em relação à doença. entendem. as contradições aparecem ainda mais gritantes do que em qualquer outro lugar. por exemplo. Não se trata de desDE CIÊNCIAS H(. Mas da fração da população que ocupa as favelas ou os cortiços.

as carroças e os H. que continua a ser ainda um flagelo na população adulta. Como veremos. um dia alguns conhecem a prisão. formam muitas vezes os futuros contingentes de marginais e. 20% estão abaixo de dois desvios-padrão. os casais são freqüentemente separados. particularmente nas crianças. à assistência médica subseqüente a uma doença grave ou um acidente). e a alimentação consome. Mais significativo ainda é o fato notório de que. Galland (44). e a maior parte da morbidade continua mal conhecida. banheiros. (N. Os jovens.L. 60% se encontram na camada inferior. Esta população. A comida è pobre.M.*. mas por razões de ordem material (impossibilidade de acesso às convalescenças. a promiscuidade favorece a transmissão de doenças infecciosas. poços d'água. aliás. logo. com um atraso de crescimento que chega às vezes a —14% (limite do nanismo). se 80% das crianças estão nos limites de dois desviospadrão quanto ao desenvolvimento de estatura e peso (contra 95% na região parisiense). — Habitation a Loyer Moderée. Esies trabalhos mostram que o subproletariado é vítima de uma taxa de morbidez muito superior à da população em geral. às vezes. a maior parte do orçamento familiar. O alcoolismo é freqüente. Pode-se notar também a importância das seqüelas de acidentes e doenças: elas são testemunhas de tratamentos mal conduzidos ou incompletos e. do T. quando fizermos referência aos importantes trabalhos publicados pelo Dr. esgotos. por razões de ordem não só sócioeconômica e cultural. pouco escolarizados. muitas doenças continuam desconhecidas ou escondidas. aos cuidados pós-operatórios e à reeducação fisioterápica. de uma menor eficácia das técnicas médico-cirúrgicas sobre uma população que não pode aproveitar delas como o resto da população. a carne é rara.decrever as condições reais de saúde. de vários milhares de habitantes. e a estrutura familiar é. A estrutura familiar caracteriza-se pelo grande número de filhos: a maioria das famílias tem de 8 a 10 filhos. depósitos de lixo caseiro) formam também condições favoráveis à doença e às contaminações coletivas. quebrada. podemos citar a incidência importante de doenças infecciosas. Por outro lado.L M. no conjunto. de La Gorce (47) e pelo Dr. A pobreza dos meios sanitários (canalizações. e da tuberculose.) 28 . Elas so serão lembradas como informação. Conjuntos habitacionais populares. A título de exemplo significativo. há um deslocamento global *H. mora em conjuntos que ficam no meio termo entre a favela.

É somente após longas voltas que se chega. em particular de assistentes sociais e de enfermeiras). E nós somos levados a pensar que o atraso da estatura observado provém. võTün-tana: se a gente está doente. de higiene e de educação. concernentes à população masculina submetida ao exame de admissão ao serviço militar."Concepção dominada pela acusação. a atingir a vivência da doença. (47) Mais que a morbidade. Quando se está doente. acusação pelo grupo social no seu conjunto. venham numerosas justificativas. com efeito. de vários trabalhadores sociais. Tais observações lembram as descrições do século XIX. própria ao meio. dè~ãtguma torma. acusam esse cara de passividade". Do ponto de vista médico-sanitário.nutricional devida tanto a fatores econômicos quanto a fatores culturais (hábitos alimentares). se sente julgado pelos outros. sempre difícil de ser avaliada (23). e podemos ainda encontrá-las nos países do Terceiro Mundo e. como se fosse preciso se desculpar. de uma carência . com uma porcentagem inferior a -6 Poderíamos ser tentados a invocar fatores genéticos."Toda doença sêfíã. uma primeira observação se impõe de imediato. Maciçamente. nenhum médico instalado na região que. mas não íeria o caso de pensar que os próprios pais tiveram seu desenvolvimento entravado pelas carências? O estudo das condições de vida parece bastante significaiivo. entretanto. e sim de um sentimento coletivo de vergonha: "Não é de propósito que a gente está doente". Seja em relação à prática médica ou à pesquisa a respeito da saúde. em seguida. emerge uma verdadeira concépçIcTdirdoença. já que algumas destas crianças provêm de pais de pequena estatura. os meios de que dispõem essas populações são bastante rudimentares: pouco ou nenhum ambulatório local. concentra uma população de vários milhares de indivíduos (inserção. o subdesenvolvimento de estatura e de peso dessa população é particularmente significativo das más condições de saúde. na maioria dos casos das crianças estudadas. na América Latina." Acusação cuja origem não se conhece claramente. é porque é preguiçoso". é porque ele quer e porque ele cede à passividade. "Quando a gente está doente. A reticência maciça em falar da doença e do sofrimento. tenta-se esconder o fato dos outros. Não se trata da culpa no sentido próprio que refletiria uma vivência individual. mas também da família e dos vizinhos. A associação entre doença e vaga29 .para baixo. Essa atitude em relação à doença pode ir muito longe: "Quando um cara está doente. em particular. às vezes. no entanto. que se confirma como vergonhosa: bastou uma doença ser evocada para que. e se ele se afunda mais na doença e no sofrimento.

às vezes. uma ruptura do trabalho profissional. As mulheres.' Seja que o sintoma de enfermidade desapareça ou que se consiga 30 . dizem. por causa dos filhos. para que se aceite ir ao hospital. contê-la. em seguida ao exame. Üm verdadeiro consenso social se depreende assim. para que se resigne a consultar um médico. então o ânimo se abate e como se diz no subúrbio "quando a gente está sem ânimo. na medida em que isso não significasse. e voltaremos adiante sobre a sua "significação. Não tanto por causa da vergonha experimentada face a um personagem de um outro mundo mas porque tem-se medo que ele descubra "um monte de coisas que a gente prefere não saber". tudo converge para a salvaguarda da vida da criança. a cura não deve ser compreendida como desaparecimento do processo patogênico. Somente são reconhecidas aquelas que se exprimem por sintomas muito evidentes para serem escondidos: uma tosse com hemoptise. Quando se é mulher não se pode permitir estar doente. no subúrbio. são todas doentes. Uma nuança aparece. é antes dejtudo_um problema de ânimo. Aliás. caso se trate de um homem ou de uma mulher: "Um homem que está doente é realmente um vagabundo''. a gente não pode sarar". corrigir essa asseiváo. Para que uma doença seja reconhecida. Mas mesmo nestes casos. seja das atividades domésticas e familiares. de imediato. "Sarar esomente não sofrer. Aqui. infalivelmente. no caso das mulheres. É preciso compreender esta fórmula tomando-a palavra por palavra. Finalmente. Apesar de tudo. nota-se uma atitude um pouco mais flexível em relação à doença das crianças. Entretanto. Pois. ela nunca tem um sentido tão forte quanto aqui. no caso dos homens. controlá-la.bundagem è característica do meio. Sarar. no julgamento. no subproletariado. o problema é domesticá-la. tudo é organizado. muitas infecções crônicas desconhecidas. mantidas à distância pelo desprezo. um enfraquecimento fisiológico que signifique uma síndrome deficitária grave. Mas uma noção implícita vem. não se gosta de ir procurar o médico. Se o médico mencionar. Cuidar de oito ou dez filhos nas condições materiais que foram citadas representa uma carga de trabalho e de angústia muito maior do que em qualquer outra parte. de alguma maneira. é preciso que a doença tenha atingido uma gravidade tal que ela impeça a continuidade seja da atividade profissional. um emagrecimento evidente. Podemos reencontrar esta mesma fórmula em outros lugares além do subproletariado. mas essas doenças são. ao pé da letra. tudo é estruturado. não se trata de evitar a doença. viver com ela. o trabalho das mulheres não é comparável ao que encontramos nas outras classes sociais e nem mesmo na classe operária. que : "vlsã à~con3êhar a doença e o doente. Seria mais tolerável que uma mulher estivesse doente.

sobre a vida sexual e sobre as crianças. a doença eqüivale à paralisação do trabalho. do T. Comprar medicamentos. Mas o verdadeiro problema. Para estes últimos. consultar um médico "consiste igualmente num non-sens." õTrãcassõ. da "vivência do sofrimento. é com uma vizinha de relações privilegiadas que se decide pelo tratamento a ser dado a um filho. É preciso ir rápido. A gente tem a impressão de que eles não acreditam em nós". a ruína de todo o sistema de contenção da doença. isso supõe. Além do mais. levar um filho. neste contexto. Nós dissemos que. o que mais se teme.) 31 . É assim que "a dor de dente é a dor do amor"*. o ato médico acaba na consulta. face à prática médica. é o ponto de irreversibílidade que marca a Brecha do sistema coletivo de defesa contra ¥ doença. (N. Um lugar à parte deve ser dedicado ao discurso sobre a mulher. Isto conduz às práticas médicas "selvagens". ao longo dos dias. ou se estiver. isto é. O mais freqüente é oferecerem-se medicamentos que foram anteriormente prescritos para um outro filho. na prática. pode-se considerar como sarado. uma mulher nunca se afasta do lugar que eles "elegeram como domicílio". dos meses e dos anos. no subúrbio. apesar de tudo. é o do dinheiro. mas não o do medicamento. supõe adiantar quantias algumas vezes importantes. de fato. Ir até o consultório do médico na cidade já representa um certo número de dificuldades materiais: está certo. à vaga* Em francês. Quando se está mal de saúde se diz: "Temos problemas". ou este dinheiro não está disponível. mas o que fazer dos oito ou nove outros durante este tempo? Esta realidade é tão forte que. muito mais prosaica. das semanas. Adiantar o preço de uma consulta é possível. de alguma maneira.domesticar a dor. Certas fórmulas de caráter proverbial têm ainda aqui uma função real que foi esquecida para não reter senão seu caráter humorístico ou poético. logo: a dor de dentro é a dor do amor. Freqüentemente. Num grau "menor. Às vezes. É o caso extremo"■qliè~slTprÒcura~êvRàr"'cüTte_o que custãFTÉ isso siT compreende se peris~"ánríos"qüTã"hospifalízaçltoT. restrições alimentares para toda a família até a hora do reembolso. Uma estadia no hospital é. é. de dent (de ciente) tem a mesma sonoridade de dedans (dentro). se estaria mais inclinado a falar das doenças que atingem as mulheres do que das doenças que atingem os homens. Administra-se o tratamento com o bom-senso possível. não se gosta dos médicos: "Os doutores não escutam a gente. Todo ato médico termina infalivelmente por uma receita.

doze filhos são freqüentes. o corpo trabalhador da mulher são 32 . no subproletariado. até proibida. O corpo só pode ser aceito no silêncio "dos órgãos". bastam alguns meses para levar a mulher a uma doença fatal. a família. Quando se fica sabendo que uma mulher espera um filho. Mais do que em qualquer outro meio. todos os esforços são feitos em vista de assegurar seu desenvolvimento. escandalosa. Uma mulher grávida esconde dos outros seu estado o quanto ela pode. quando elas atingiram a idade de 40 ou 50 anos. Além da própria gravidez. freqüentemente de origem operária. vê-se que é toda a vida sexual que é vergonhosa. isto é. dar à luz e fazer filhos". quando se tem muitos filhos. somente o corpo que trabalha. "A gente não é mais útil. é levada a um processo implacável de marginalização pelo endividamento. Neste contexto. a própria gravidez aparece como uma vergonha. a gravidez ou a doença.'' A ideologia da vergonha: dessas atitudes e desses comportamentos em relação à doença.bundagem. após ter tirados os filhos das dificuldades^ após ter trabalhado toda sua vida para eles. é situada no mesmo registro que a doença. podemos extrair duas características: a primeira diz respeito ao corpo. Mas quando os filhos chegam. das despesas etc. origem das condenações. que termina no círculo vicioso da doença. Se ainda teria sido justificável tratar-se quando havia filhos a educar. mais características ainda. para as mulheres não há "paralisação do trabalho. fonte de vergonha. "Chega uma hora em que a gente não terr mais vontade de sarar. As famílias de oito. como justificar cuidados ou tratamentos quando se atingiu a idade da "aposentadoria" do trabalho familiar? Com bastante freqüência. diz-se em cochicho: "Ela só sabe fazer isso._Não sò~põrquFbs filhos não podem ficar sem os cui-Hãdos de suas mães mas também porque. dez. o corpo produtivo do homem. Para a mulher a doença nâo pode autorizar aj?aralisacjip 3õlrãbaIho. reprimida. alimentação. como se diz nesses lugares. "A partir de uma certa idade. tudo deve ser recoberto de silêncio. não há medicina do trabalho". Seja a sexualidade. uma vez que os filhos cresceram. Incapazes de enfrentar as despesas de moradia. os filhos ocupam o centro da vida da mãe. A gravidez. a gente se deixa levar". são as atitudes em relação ao estado de gravidez. Mas. para que pensar em si?" Quando esta missão social fundamental esfá cumprida. Um dos caminhos pelos quais se desemboca no subúrbio é precisamente a família. não há mais nenhuma justificativa para viver. vestuário com um só salário (pois a mulher é inteiramente ocupada em cuidar dos filhos).

todo estado anormal do corpo traz infalivelmente de volta a questão do trabalho ou do emprego. Homem ou mulher. é _som'o~se ele estivesse doente". Para o homem a doença corresponde sempre à ideologia da vergonha de parar de trabalhar.aceitos. Vê-se que o trabalho atravessa profundamente a vivência da doença: doença-avesso-do-tra-jbajho. aceitos quanto menos se tiver necessidade de falar deles. Para a mulher. é porque a gente está inventado história". Então. neste sentido. mais exatamente. é preciso que haja uma dor. Doençae trabalho! Estepar indissoluvelmente ligado guarda um conteúdo específico: a ideologia da vergonha erigida pelo subproleta33 . os benefícios de invalidez concedidos não são suficientes para assegurar a sobrevivência da família. às vezes começa o processo inelutável que conduz ao subproletariadó. Em primeira aná-lise^pode-se considerar que a vergonha instituida aqui como sistema constitui uma verdadeira ideologia elaborada coletivamente. sempre existe um contingente de mão-de-obra subempregada marginalizado. O conjunto dessa população sofre q subemprego. tanto mais. sobre o medo de que o médico descubra efetivamente alguma coisa. são as gestações e as doenças que põem em questão o trabalho colossal da educação dos filhos e as cargas domésticas. exemplar." Quando esta dor torna-se insurpotável ou torna impossível o trabalho. A vergonha transparece desta maneira: "se a dor passou. Um operário até então eficaz no seu trabalho sofre de uma doença crônica que o invalida ou das conseqüências de um acidente de trabalho. um sinôJnimõde doença: "Quando ãlgüerncfiz para um cara que ele está muito ^lh bl l é i d ^glho para trabalhar ou que ele não é mais capaz de continuar. de estar num corpo incapaliltãdo. logo. 5~"sègunda característica desses comportamentos relativos à doença diz respeito à relação existente entre doença e trabalho. quando a gente chega a dor passa". que exagera a importância numérica dos habitantes do subúrbio. Não se sabe o que significa sentir-se bem no corpo. Mas mesmo fora dessa situação. O outro mecanismo mais freqüente é o da doença ou do acidente. a de estar doente ou. particularmente crítico em período de crise econômica. O corpo? Não exisie nem palavra nem linguagem para falar do corpo no subnroletariado. As compensações materiais. E isso lembra bem o que foi dito anteriormente. em si. "A gente não conhece o corpo. somente entào se decide consultar um médico mas "que falta de sorte. Mas é também uma auto-acusação. a tal ponto que i~7alti~dê~trabalho torna-se. Nós dissemos que um dos modos de acesso ao subúrbio é uma família muito numerosa. uma Ideologia defensiva contra uma ansiedade precisa. para falar dele. A atitude em reíaçâo à dor é.

Quando as condições de sobrevivência são tão precárias quanto as que observamos no subproletariado ou nas populações dos países subdesenvolvidos. falta compreender como* ele funciona. O alcoolismo nesta situação corresponde a uma fuga em direção a uma decadência mais rápida e a um destino mental e somático particularmente grave. como nós vimos. em razão da utilização rápida do 34 . não há lugar pai a a ansiedade face à doeüçã enquanto tal (o que não significa que tal angústia não exista!). A doença é vivida como um fenômeno totalmente exterior resultante do destino e dependente da intervenção exterior: o médico. Quando ele luta contra a dor. a angústia que ele ataca é. uma angústia específica relativa à saúde. Além da doença. Curar é trabalho do médico ou do especialista.riado não visa a doença enquanto tal. fracassos isolados da ideologia da vergonha. o hospital. O alcoolismo é uma saída individual e gravemente condenada pelo grupo social. Esta situação não é somente uma hipótese. Pode-se perguntar o que aconteceria se essa ideologia defensiva viesse a fracassar. não se encontra nunca. Com efeito. conseqüentemente. à miséria.A angústia contra a qual é dirigida a ideologia da vergonha não é a do sofrimento. por que ele é posto em jogo e em que consiste sua positividade. nem mesmo no proletariado. da doença ou da morte. à subalimentação e à morte. Aparecem então comportamentos individuais específicos: a principal saída frente à ansiedade concreta da morte é o alcoolismo. a destruição do corpo enquanto força capaz de produzir trabalho. Função da ideologia defensiva: além da finalidade desse sistema defensivo. a ideologia da vergonha consiste em manter à distância o risco de afastamento do corpo ao trabalho e. quando ele tenta negar seu sofrimento. Mas o alcoolismo não reveste jamais uma forma nem coletiva nem "epidêmica". às vezes. a doença ou à morte. e eventualmente avaliar seu custo social. Esta observação e importante na medida em que ela é praticamente específica do subproletariado e em que não a encontramos em nenhuma outra classse social. o homem do subproletariado não pretende ter uma atitude terapêutica relativa ao processo patogênico Ele sabe que procura somente fazê-lo calar. a ansiedade relativa à sobrevivência transformar-se-ia em problema individual. no decurso do subproletariado. Ela está possivelmente oculta pela questão relativa à sobrevivência a exemplo do que foi descrito a propósitõlfo século XIX e da história da relação saúde-trabalho antes da guerra de 1914. mas a doença enquanto impedimento ao trabalho. Vêem-se. que atinge um certo número de indivíduos. De coletiva. através da doença.

dinheiro que não permite mais assegurar uma alimentação conveniente. A segunda saida é representada pela emergência de atos de violência "anti-social", em geral desesperados e individuais. A terceira saída é a loucura com todas as formas de descompensação, psicóticas, caracteriais e depressivas. Enfim, sem poder usar estas diferentes "portas de saida", o risco é a morte. Mortalidade por subnutrição agravando a evolução de uma doença intercorrente. Nota-se, a esse respeito, a freqüência de mortes precoces nos jovens entre 35 e 50 anos (44). Confrontados individualmente ao perigo de não poder sobreviver por razões materiais, poucos resistem. O esforço material e econômico fornecido pelas famílias do subproletariado para sobreviver seria incompreensível se ele não fosse sustentado por um sistema mental muito sólido. Este sistema funciona porque é coletivamente elaborado e alimentado. Tal é a positividade da ideologia da vergonha. Resta apreciar seu custo. O silêncio que envolve as questões de saúde, doença, vida sexual, gravidez e medicina conduz esta população a agravar mais ainda os efeitos do precário sistema médico-sanitá-rio. Calar sobre a doença e o sofrimento leva, de maneira coerente, a recusar os cuidados, a evitar as consultas médicas, a temer as hospita-lizações. É assim que muitas pessoas do subproletariado poderiam beneficiar-se de proteções sociais tais como a gratuidade dos cuidados e as assistências gratuitas. Não é tanto por ignorância que os homens do subproletariado não se beneficiam com essas medidas. A presença de trabalhadores sociais seria suscetível de paliar esta dificuldade. Mas, pela própria experiência desses trabalhadores sociais vê-se que existe uma verdadeira resistência da parte do subproletariado em tomar ou mandar tomar as providências necessárias. Poder-se-ia, numa tal situação, acusar o subproletariado de complacência para com o sofrimento e a miséria. Mas não é possível, se se levar em conta a coerência necessária da ideologia da vergonha: manter a doença, a miséria e a fome à distância é também manter tudo o que pode lembrá-la, direta ou indiretamente, à distância. Assim, a aproximação de toda medida médico-sanitária ou de higiene reativa uma ansiedade fundamental, ansiedade esta que não é suscetível de ser acalmada. A partir do exemplo do subproletariado, podemos propor algumas características do que sei a uma ideologia defensiva. Em primeiro lujar> a ideologia defensiva funcional tem por objetivo mascarar, conter e ocultar uma ansiedade particularmente grave. Em segundo jugarreli nivel da ideologia defensiva, enquanto mecanisrricTde defesa jãbõrado por um grupo social particular, que devemos procurar JÍ

uma especificidade. Encontraremos, a respeito dos trabalhadores da ^construção civil, tais ideologias defensivas. Neste caso. os caracteres específicos deverão ser relacionados à natureza da organização do trabalho. No caso do subproletariado, não se pode falar em organização do trabalho enquanto tal. Seria mais uma questão de sub-emprego e de desemprego. A especificidade da_ ideologia defensiva da vergonha resulta, por um lado, da~natureza da ansiedade a conter e, por outro lado, da população que participa na sua vTaboração^, Em terceiro Tugar, o que caracteriza uma ideologia defensiva é o fato de ela ser dirigida não contra uma angustia proveniente de conflitos intra-psíquicos de natureza mental, e sim ler destinada a lutar contra um perigo e um risco reais. Em quarto lugar, aideologia defensiva, para ser operatória, deve obter ã participação de todos oTTnteres-sados. Aquele que não contribui ou que não partilha do conteúdo da ideologia é, cedo ou tarde, excluído. No caso da construção civil, é ser mandado embora do canteiro de obras; no caso do subproletariado, é o isolamento progressivo que conduz à morte nor intermédio das doenças físicas ou mentais. Em quinto lugar, uma ideo-logia defensiva, para ser funcional, deve ser dotada de uma certa coerência. O que supõe certos arranjos relativamente rígidos com a realidade. Daí os riscos que decorrem em conseqüências mais ou menos graves no plano prático e concreto (resistência às proteções médico-sanitárias, recusa da contracepção). Veremos, a propósito da construção civil, que o custo de elaboração do funcionamento da ideologia defensiva profissional ;é igualmente grande (resistência frente às campanhas de segurança). Em sexto lugar, a ideologia defensiva tem sempre um caráter vital, fundamental, necessário. Tão inevitável quanto a própria realidade, a ideolõgTa defensiva tor-^ na-se obrigatória. Ela substitui os mecanismos de defesãlndivíduais. Ela os torna impotentes ."Esta observação é de uma grande importância clínica na medida em que é a partir dela que se pode compre^" ender porque um indivíduo isolado de seu~grupo social se encontra ürutalménte desprovidoi 5ê~ defesas"fãce"5"'fèãMã'de ã"que ele é con-~ frontado. À participação na ideologia defensTvTcoletiva exige que õsí mecanismos He" defesa ajam em surdihãT mecanismos estes que só teriam razão de ser frente a conflitos de ordem mental, os quais só podem aparecer quando um ^domínio mínimo da fealidade^perigosa está assegurado. Nós veremos que todas essas características da ideologia da vergonha podem ser encontradas nas ideologias defensivas profissionais, seja dos trabalhadores da construção civil ou dos operadores das indústrias de processo. 36

I 2. Oj mecanismos de defesa individual contra a organização do trabalho: o exemplo do trabalho repetitivo. í de uma situarão totalmente diferente que vamos tratar agora: o trabalho repetitivo, seja na linha de produção, no trabalho por peças ou em certos trabalhos de escritório de informática, de seguro ou nos bancos. Trabalho "taylorizado" cuja organização é tão rígida que domina não somente a vida durante as horas de trabalho, mas invade igualmente, como vamos ver, o tempo fora do trabalho. Para introduzir o ponto de vista da psicopatologia neste domínio, não podemos evitar de retomar certos aspectos da Organização Cien-tífica do Trabalho concebida por Taylor. (96) Õ objetivo deste sistema, pode-se advinhar caso ainda não se saiba, é o aumento da produtividade. Taylor, que, durante seus estudos, teve uma aprendizagem de operário, formulava contra os operários a reprimenda de "vadiagem" (op. cít. pg. 230). A "vadiagem no local de trabalho" não eram tanto os momentos de repouso que se intercalavam no trabalho, mas as fases durante as quais os operários, pensava ele, trabalhavam num ritmo menor do que aquele que poderiam ou deveriam adotar. A vadiagem foi assim denunciada como perda de tempo, de produção e de dinheiro. O que Taylor condena, este vício da classe" trabalhadora, é talvez outra coisa bem diferente. Nós tentaremos mostrar que, além de uma simples freada da produção, este tempo, aparentemente morto, é na realidade uma etapa do trabalho durante a qual agem operações de regulagem do binômio homem-trabalho, destinadas a assegurar a continuidade da tarefa e a proteção da vida mental do trabalhador. Assim, o projeto de Taylor indentifica-se à redução, nçLsentjdo. radical, poderíamos dizer ortopédico, da vadiagem operária. O principal obstáculo que ele encontra no seu projeto é a vantagem indiscutível do operário-artesão sobre o empregador na discussão dos tempos e dos ritmos de trabalho. O conhecimento da tarefa e do modo operatório faz parte do campo do operário e traem cruelmente a argumentação do engenheiro. Experiência profissional e know-how técnico são ainda complexos numa época em que o operário continua, em muitos casos, sendo um artesão qualificado. O saber operário emerge, então, na luta como segredo coletivamente detido pela corporação operária. (62) saber — segredo — chave das relações de força de que Taylor vai apoderar-se. Ele 37

operatório. Adaptação espontânea do trabalho ao homem que não esperou os especialistas para inscrever-se na tradição operária. dividindo o modo operatório complexo em gestos elementares mais fáceis de controlar por unidades. de que comando devia-se dotar a nova organização do trabalho? Taylor imaginou então um meio de vigiar cada gesto. mais aiém. mas também desapropriação da liberdade de invenção. Ela amordaça a liberdade de organização.C. Desapropriação de um saber. Insistiu-se com justiça sobre a desapropriação do know-hon coletivo (62) pela organização científica do trabalho. cada movimento na sua forma e no seu ritmo. à integridade do aparelho psíquico e. de reorganização ou de adaptação do trabalho. Trata-se de uma inventividade fundamenta! que autoriza cada operário a adaptar intuitivamente a organização de seu trabalho às necessidades de seu organismo e às suas aptidões fisiológicas. p. Erro ou cegueira intencional? Uma vez coligidos os diferentes modos operatórios. Ele só-se deièmaa^djversidade insólita destes modos opera-tórios para^condenar os mais lentos sem se interrogar sobre as razões desta variabili3adc atiibuida implicitamente à burrice ou a má vontade dos menos rápidos (op. de que hierarquia. cit. chamaram pouca atenção.T. Pois esta diversidade. As variedades de modos operatórios.empreende a análise sistemática dos modos operaíórios em uso (op. declara-o "modo operatório cientificamente estabelecido". à saúde do corpo através do processo de "so-matização". do que o processo no seu conjunto. Era preciso ainda pô-lo em prática. de que vigilância. daí para frente. A estratégia de Taylor não poderia se limitar à designação do "modo operatório cientificamente estabelecido". vê-se logo. impô-io a todos os operários sem distinção de altura. ao contrário. cada seqüência. não se limita a uma desapropriação do saber. A O. é testemunha da originalidade de cada operário em relação à sua tarefa. Adaptação i que. cit. certo. Taylor escolhe o mais rápido e. idade. não é coisa fácil. A questão tornava-se então: como verificar o respeito ao modo operatório e sua execução no tempo fixado? Em outras palavras. evidentemente. o que. Ele sistematizou este mtuodo e o instituiu em princípio: vários gestos 38 . Nós voltaremos detalhadamente a esta questão (Capitulo II). Pois ela diz respeito. sobre este critério. exige uma atividade intelectual e cognitiva que será proibida pelo trabalho taylorizado/ ^" Mais grave ainda é a dimensão psicológica e psicoeconômica desta liberdade de organizaçãoreorganização-modulação do modo. de fato. como veremos. Originalidade que não se poderia comprazer em reconhecer como qualidade estética ou valor moral. 80). sexo ou estrutura mental. Resta. 82). p.

ÍS de equipe' re8ulad°res. Mesmo se eles partilham co-f d° 1OCal dC trabalho' do barulho. compar t a mStres *£ f™! ^^-^ ^^^"lente incha/a de SiÍSSS í u . o anonimato das relações de trabalho. É ele que encontrar a ajuda. o .Ultrapassado pelas nacorenr °H°peran0 1ue "atra«a" atrapalha os que estão atrás dele na corrente dos gestos produtivos. o controle. cadêit£ÍdeZ dauor8anizacao do trabalho. mais divisões mdn?duos. definitivamente.C. as oanon '.No trabalho taylorizado não há rivin r? C°mUm> "em Obra coletiva' como e ° caso da construção civil ou da pesca marítima. à aceleração das cadências. Tal é o paradoxo do sistema que dilui as diferenças.segundos no ciclo operatório. ele deverá assumi-los individualmente. as violências da produtividade. mesmo se exHníHoT~-----Uma colméia> Porque as comunicações estão mak f f 3S VCZeS aíC Proibidas. desapareceu para dar a luz a um abortcr um corpo instrumentalizado-operário de massa (18) . SwmblftCS de trabalho' ° estüo decomando. as exigências temporais. ^^^-H0 taí°rÍZado enSendra. artesão. da cadência do tríhSíí ' ° C QUe' Pda própria estrut«ra desta organização men e e na^rH-OPeranO^SaO confrontados um por um. (Organização Cientifica do Trabalho) traduz-se por uma tripla divisão: divisão do modo operatório. Além do T^è OPeT° 11S°lad° d°S Outros.T. divisão do organismo entre órgãos de a^o Sm í C°nf PÇà°intelectua!.do 9ue P°ntos ^ união.Z um tífica SoTríhíhnW P«col*toIàW«>. O homem no trabalho. por exemplo. o intercâmbio dos operários 39 . o operário está desesperadamente só. divisão dos homens.«fim. ^ O. racãoT^ a°i° P°r PCÇaS' à imagem dos prêmios. cronometristas etc. A ansiedade.Às vezes é até Pior> P™ o a"10 em Oposição aos outros.despossuído de seu equipamento mtelectual e de seu aparelho mental. cria o anonimato e o intercâmbio enquanto individualiza os homens frente ao sojrimento. o "truque" que lhe permitirá ganhar . individualmente e na solidão.

no caso do trabalho taylorizado. à mesma oficina.tudo parece rigorosamente partilhado pelos numerosos trabalhadores ligados à mesma linha de produção. nada parecido com isso ocorre. A repetividade dos gestos. A uniformização aparente das exigências do trabalho parece indicar a direção que a observação psicopatológica deveria usar: privilegiar o que há de comum e de coletivo na vivência ao invés de se ater ao que separa os indivíduos. a robotização não poupam nenhum operário de base. Parece-nos. porque ela apaga as iniciativas espon-_ tâneas. o sofri-mento que a organização do trabalho engendra exige respostas defen-sivas fortemente personalizadas. Além do mais. uma tal opção parece coerente com as análises sociológica e política. O trabalho em equipe e a participação num grupo de operação cujo sentido e compreendido pelo conjunto dos operários tornam possível a realização de defesas coletivas. a indivicTualizáçâo conduz. Por causa do fracionãmêrito Ha coletividade operária. a monotonia da tarefa. Os resíduos das defesas coletivas No caso do trabalho de caráter coletivo (construção civil e obras públicas) trata-se de tarefas de grande envergadura que exigem vários dias ou mesmo várias semanas ou meses para sua realização. ~~A falta de sentido da tarefa individual e o desconhecimento do sentido da tarefa coletiva só tomam a sua verdadeira dimensão psicológica na divisão e na separação dos homens. porque ela anula as defesas coletivas. Aqui. Todavia. a psicopatologia do trabalho corre o risco de reatar com a interpretação sociológica da vivência psíquica que atribui somente às condições materiais e econômicas as causas do sofrimento. Armadilha teórica considerável que provavelmente bloqueou qualquer elaboração sobre a vivência do operário taylorizado. paradoxal-mente. Ao empregar uma abordagem deste tipo. Não há mais lugar praticamente para as defesas coletivas. em certos 40 . porque ela quebra as responsabilidades êlTsaber. que a individualização. ao contrário. e reduz a dor a um reflexo simples da luta de classes. mesmo se ela é_ antes de tudo uniformizante. a uma diferenciação do sofrimentó"d~e~iim trabalhador e de outro. A divisão do trabalho conduz — os operários não deixam de afirmar— a um non-sens: a maioria dos trabalhadores ignora o sentido do trabalho e o destino de sua tarefa.

é o conjunto dos trabalhadores que participa do acontecido. Estes poucos minutos arrancados do tempo e do ritmo da linha são aproveitados coletivamente. Aliás. Limitada em relação ao que nós caracterizamos. as cadências e a organização do trabalho. é até mesmo vivido com intensa alegria. E nós não temos condições de admitir que estes mecanismos sejam suficientes na luta contra a angústia e a dor mental._ trabalho exerce no funcionamento mental. eles estabelecem entre si um sistema de convivência e de solidariedade. se o que é coletivamente desafiado com este comportamento é o tempo. assiste-se ã uma "aceleração coletiva" dos operários da linha de produção de tal modo que dois ou três operários do começo da linha conseguem deixar seu posto durante alguns minutos que eles-usam a seu bel prazer. como perigo real. Graças à realização de táticas operatórias espontâneas. Nós vemos que a realidade dos riscos no trabalho taylorizado não é tanto devida às cadências em si mas à violência que esta organização do. ser mais forte do que a organização do trabalho. 41 . desafiar as cadências. como uma espécie de vitória coletiva sobre a rigidez e a violência da organização do trabalho. Pode-se então falar realmente de defesa coletiva? Sim. tira suas virtudes de seu caráter simbólico. um dos três pode então deixar a linha e fumar ostensivamente um cigarro enquanto o conjunto dos outros trabalhadores continua indefinidamente a repetir os mesmos gestos. o ritmo. No grupo. podem-se ver ressurgir traços de defesa coletiva. dominar o tempo. a propósito do subpro-letariado. É preciso admitir que é sobretudo individualmente que çaçte operário deve se defender dos efeitos penosos da organização do trabalho. Mas nós também não podemos deixar passar em silêncio seu modesto valor funcional e sua dimensão estreita face à imensidão do sofrimento. na medida em que esta atitude tomada coletivamente contra o sofrimento só dura alguns momentos.momentos privilegiados. Em outros casos. mais acima. Com efeito. Neste caso. se podemos considerá-lo assim. Em número de rês. unidos por sua nacionalidade comum. eles conseguem ganhar alguns minutos do ritmo imposto pela organização do trabalho. sua eficácia é muito limitada. como descreve Linhart. Não. que eficácia real contém uma tal atitude? Em contrapartida. Não seria justo subestimar o benefício mental de uma operação "de caráter simbólico. Este momento. o jogo. É assim que em L 'Éiabü (63) é descrito um grupo de operários iugoslavos da linha de produção da? indústrias Citroen.

considerado desumano na época. via" de regra. do seu sistema. é conhecida a famosa resposta de Taylor à Corte Suprema dos Estados Unidos quando ele teve que prestar contas. para que executem seu trabalho seguindo novos métodos até que eles apliquem de uma maneira contínua e habitual. treinar. frente aos juizes. "A idéia de treinar os operários um após o outro. 100). "a multiplicação das relações operário-empregador vem acompanhada de uma simplicidade em conceber o homem ao trabalho": o homem-macaco de Taylor nasceu (Taylor. esta idéia é diretamente contrária à velha idéia segundo a qual cada operário é a pessoa mais qualificada para determinar seu modo pessoal de execução do trabalho. o operário consegue encontrar o melfíõT rendimento de que é capaz respeitando seu equilíbrio fisiológico e que^ desta forma. è o que anuncia o próprio Taylor.T. Se nos debruçarmos sobre as conseqüências da O. constataremos que desordens ignoradas pelo autor do sistema aparecem no funcionamento físico. uma vez realizada a toda poderosa vigilância. 100). uma vez desmantelada a coletividade operária uma vez quebrada a livre adaptação da organização do trabalho às necessidades do organismo. desprovidos de toda iniciativa." Taylor estava errado. Mesmo se seu modo operatório não é ~sêmpré~ ò~^iãís~êfTcaz do ponto lie vista do rendimento em gera^jo estudo do trabalho artesanal mostra que. A última peça do sistema pode então ser introduzida sem obstáculos: é preciso adestrar. o próprio Taylor comparou o novo operário ao chipanzé como argumento convincente para conseguir a adesão do júri (Taylor [96] p. condicionar esta força potencial que não tem mais forma humana. não restam senão corpos isolados e dóceis. Poisj^operário ^efjt|vamerUejo_rna^indicado para saber o que é compatível com a sua saúde. sobre o aparelho mental. Aliás.C. 42 . ele Têvà em conta não somente o presente más também o Futuro.O operário-macaco de Taylor Uma vez conseguida a desapropriação do know-how. E para justificar suas inovações. Aliás. uma maneira científica de trabalhar (método que foi realizado por outra pessoa). sob a condução de um professor competente. p. O que parece correto do ponto de vista da produtividade é falso do ponto de vista da economia do corpo.

" Não chegou ao fim o debate sobre o que se passa na cabeça de « um operário que trabalha por peças. de alguma maneira. fosse regulada. para a seqüência do texto. lugar da atividade cognitiva e intelectual. para o operário-artesão pré-tayioriano. tudo se passava como se o trabalho físico. emergem uma vivência e um sqfrimento_quej>odeníõlTèhtar esclarecer. ou de um digitador num serviço de informática. Neste edifício hierarquizado. que fique bem clara a diferença entre atividade intelectual e vida psíquica (ou mental). A clínica psicanalitica mostra que há casos em que uma atividade intelectual pode desenvolver-se independentemente de produção fantasmática (69). portadora de uma injunção despersonalizante. da-imaginação e dos afetos1. O sistema Taylor age.: É necessário. Se nos referirmos a certas concepções patronais. Um raciocínio matemático é diferente de um fantasma. não há dúvida sobre a existência de uma atividade mental que acompanha o tra' Ij so áx. por subtração do estágio intermediário. e a organização do trabalho. o segundo andar fosse retirado. Com efeito. lugar do desejo e do prazer. o que acontece com a vida psíquica do trabalhador desprovido de sua atividade intelectual pelã^organizacãò científica do trabalho! ~ Dó choque entre um indivíduo. à. O último andar.efeitos do trabalho repetitivo sobre a atividade fmtjuic Entre a organização do trabalho e o aparelho mental desapareceu o amortecedor que constituía até aí a responsabilidade de conceber e de realizar a tarefa em função do know-how. a atividade motora. isto é. Imagine-se o que aconteceria se. com seu emissor de televisão seria o aparelho psíquico. a atividade intelectual engajada pelo operàrio-artesão no seu trabalho. o corpo obedecia ao pensamento. modulada. repartida e equilibrada em função das aptidões e do cansaço do trabalhador pór intermédio da programação intelectual espontânea do trabalho. I 43 . dotado de uma história personalizada. O segundo andar seria a sede da atividade intelectual. O desastre arquitetônico viria acompanhado de uma alteração significativa da qualidade das emissões de televisão! É precisamente isto que deve ser estudado pela psicopatoí logia do trabalho. que dá à torre sua coerência e sua finalidade. que por sua vez era controlado pelo aparelho psíquico. bruscamente. Poder-se-ia dar desta imagem uma representação espacial: o primeiro andar e a base da Torre Eiffel seriam o corpo. isto é.

(9) Para Haraszti. Olhando de mais perto. colocada no posto de trabalho dos assentos do modelo "2 CV" descrita por Linhart (63) parece funcionar como um autpmato desumanizado. que a organização científica do trabalho não autoriza nenhuma evasão mental. Os especialistas do homem no trabalho estão também divididos neste assunto. no presente caso. A segunda condição é relativa à organização do trabalho. podemos tomar como referência dois livros-teste-munhas da condição operária: Le salaire aux pièces (52 bis) e La nuit des machines. 44 . Mas o gesto repetido não é regularmente ritmado como no trabalho por peças. Em Boyadjiam. A operária. a evasão fantas-mátia domina seu livro e sua vivência. Ao invés de adotar uma opinião categórica sobre esse assunto. ao contrário. acham. entfêgãm-se^brutalmente a uma cadência desêriireãfla para esquecer ãs~3ificuldades durante o "tempo de trabalho. Segu balho repetitivo.o. outros apoíando-se em testemunhos operários. Outros autores propuseram introduzir no local de trabalho uma música à base de percussões ritmadas que. Numerosos casos pessoais mostram que certos trabalhadores^desgastados por problemas pessoais. constata-se que o uso da válvula fantas-mática está submetida a duas condições. sempre lembrando a cadência. o poder de descarga e de alívio que possui por vezes o fantasma. outros só sobrevivem ao trabalho repetitivo jraças à ãutonòmIã~Hentãl ju£des^cõnseguem conservar. não seria possível admitir que as duas situações são possíveis? Por exemplo. A primeira é de ordem individual: a possibilidade de fantasiar não é dada a todas as pessoas de maneira idêntica e o valor funcional do fantasma é desigual de uma pessoa para outra (10). Por "valor funcional" nós entendemos. familiares Fmateriais. As tarefas repetitivas deixam espaço para a emergência das lembranças da véspera ou do fim-de-semana (101)? Se alguns são bastante afirmativos na resposta. ao contrário. Ao contrário. evitaria devaneios impróprios. mesmo na fábrica. Segundo certos autores (105) até os devaneios aos quais o operário se livra são nefastos para a produção e seria conveniente um fim a isso através de um meio que falta determinar Não só o espírito entregue à deriva distrai o operário de sua tarefa arriscando uma alteração na qualidade e quantidade do trabalho mas também a imaginação liberta alimenta ilusões insensatas. parece evidente que o espírito é totalmente absorvido pela dificuldade em realizar as quotas exigidas pelo salário e pelos prêmios. Em La nuit des machines o trabalho é monótono (trata-se sempre de amarrar os fios quebrados do material a ser tecido).

deslocamentos). O uso do tempo fora do trabalho Compensação aparentemente natural das violências do trabalho. uma organização do trabalho do tipo daquela apresentada em La nuit des machines não implica automaticamente que todos os operários se defendam individualmente tão bem quanto o autor. mesmo nas práticas paternalistas em vigor no começo do século. Esta eventualidade é perigosa no plano da saúde como mostraremos mais para frente (Capitulo V).C.T. 45 . ao contrário. N~5s~véíèmõs áTcohsèqüênciás~deste sofrimento sobre o estado 5e saúde destes trabalhadores. Se levarmos em conta o custo financeiro das atividades fora do trabalho (esporte. assim. relativas às equipes esportivas de empresa. às vezes possível. formação profissional) e do tempo absorvido pelas atividades inelásticas (tarefas domésticas. e permanece enquanto sistema defensivo.Alguns momentos são ocupados numa tarefa de vigilância feita sem exigência direta de tempo. com isso. fortemente individualizado. A evasão fantasmática é. (despersonalização e formação profissional em cursos noturnos — exigências posturais dos empregados e esporte etc). Em Le sataire aux pièces. o espírito interinamente voltado para a performance psicomotora não é nunca livre. Certos trabalhadores enfrentam a monotonia da tarefa com possibilidades defensivas individuais muito menos eficazes (defesas íompòftámêntãisje seu sofrimento é. Mesmo aí. o uso do tempo fora do trabalho é muitas vezes situado à distância da coletividade dos trabalhadores. Nós voltaremos ulteriormente a este ponto que nos parece fundamental: até indivíduos dotados de uma sólida estrutura psíquica podem ser vítimas de uma paralisia mental induzida pela organização do trabalho. alguns dentre eles conseguem usá-lo harmoniosamente. notoriamentT agravado.Ao contrário. o tempo fora do trabalho não traz para todos as vantagens que poderíamos esperar. de maneira a contrabalançar os efeitos mais nocivos da O. poucos são os trabalhadores e as trabalhadoras que podem organizar o lazer de acordo com seus desejos e suas necessidades fisiológicas: todavia.nã" há escapatória fantasmática possível. e. cultura. .

E bem possíveTque as atividades feitas às pressas em casa não sejam o resultado de uma atitude passiva. o barulho das portas automáticas) descritos por Bégoin sob o nome impróprio de "lapso". Uma vez süpèrãclãs as dificuldades. e os estereótipos comportamentais não seriam testemunhas apenas de alguns resíduos anedóticos. no metrô. Numerosos são os autores que insistem sobre a contradição I entre divisão dos tempos de trabalho/tempo livre de um lado. 50 e 100) nova. e tora da fábrica. Ao contrário. ele permanecerá despersonalizado em sua casa. Saindo da fábrica. desligo" ao ouvir. "Não há ninguém. mas que exijam também um esforço. resta_ manter a performance. no trabalho põr peças. As mulheres se queixam de executar os trabalhos domésticos com um ritmo acelerado que só faz prolongar o tempo entrecortado do trabalho na fábrica. ele conserva a mesma pele e a mesma cabeça. todos os esforços são dirigidos para o escore produtivo. Nada é mais penoso do que a adaptação a uma tarefa repetitiva (92 p. O que quer dizer isso senão que "o homem não pode ser dividido em uma metade produtora e uma metade consumidora"? É o homem inteiro que é condicionado ao comportamento produtivo pela organização do trabalho. Será queTüãcT seríaTpossível tirar daí a unidade estrutural do tempo na fabrica e fora da fábrica? O tempo fora do trabalho não seria nem livre e nem virgem. tempo de trabalho e tempo fora do trabalho formariam uma continuum dificilmente dissociável. Como nós já ressaltamos. é cTfasedV treino que a precede. (21) A maioria dos autores concorda ao interpretar estgs fatos como uma contaminação involuntáriadol&npo fora do trabalho.A "contaminação" do tempo fora do trabalho Mais complicada é a questão das estruturas do tempo fora do trabalho. Despersonalizado no trabalho. A produção esperada exige um total engajamento da personalidade físi46 . e / unidade da pessoa (28). toda a concentração. Maisdifícil'que a manutenção da própria performance produtiva. como se eles continuassem a observar as cadências aprendidas no trabalho. é isso que se observa. Em todo caso. As telefonistas (6) sofrem de estereótipos fora do trabalho (dizer "alô" ao puxar a descarga. reconhecemos os loucos de Thomson pela maneira de dirigir nas estradas. e é disso que se queixam os operários (15). por exemplo.

Este "presenteísmo" pode ter outras origens (de ordem salarial) mas há casos em que a causa é a luta individual para preservar um condicionamento produtivo arduamente adquirido. para evitar algo_ ainda "pior. Aparece nesta atitude o círculo vicioso sinistro da alienação pelo sistema Taylor~ onde cT comportamento condicionado e o tempo. encontram às vezes este fenômeno que não é excepcional e que se traduz pela recusa de certos operários em aceitar as paralisações de trabalho prescritas pelo médico que o está tratando. A injustiça quer que. a partir de então. inevitavelmente. Os médicos do trabalho. Assim. formam umá verdadeira síndrome psicopatológica que o operário. um novo aprendizado. uma espécie de vigilância permanente para não deitar apagar q ccuidicionamenío mental ao comportamento produtivo. " Ãülm. adaptação que exigirá. para o operário.Ç. é a adaptação do condicionamento mental à cadência. o próprio operário torne-se o artesão de seu sofrimento. um programa onde atividades e repouso são verdadeiramente coman-Hados pelo~cfõnómetro. li 47 . que mantêm ativamente. jecqrtãdo sob as medidas da organizaçãõ"do trabaífiõ. eles conservam presente a preo "cupação ininterrupta do tempo permitido a cada gesto. _Nu. O mais perigoso.merojos_são_os_Qperários_e empregados.Tsè Vê obrigado a reforçar também ele. o ritmo do tempo fora do trabalho não é somente uma contaminação. destinada a manter eficazmente a^pj^ãoTosjçm^oj^ag^tos^sjj^n^ânejosj que marcariam i ^pj^jç^j^g^^j^^ uma brecha no condicionamento produtivo. no fim.submetidos à O. fora do trabalho e durantej» dias de folga.ca e mental. na prática da fábrica. mas antes uma estratégia.T.

no discurso dos trabalhadores. Se nos referirmos aos trabalhos sobre este assunto constataremos que a maioria dos autores. interessa-se mais pela questão da satisfação da motivação do que pela da insatisfação. Não há um só texto. descreveremos provisoriamente dois sofrimentos fundamentais organizados atrás de dois sintomas: _a_ iasalisfaçãq e_a ansiedade. infelizmente é preciso ser esquemático. A insatisfação. uma só entrevista. para fins expositivos. Isso resulta de uma preocupação em esclarecerem-se os indicadores dos comportamentos operários (88). bem pouco estudada. uma só pesquisa ou greve em que não apareça. ipsta d^rf>hrir Tmfrfl " qiip plp': construídos.Que sofrimento? 1. Insatisfação e "conteúdo significativo"da tarefa Uma vez que os sistemas defensivos individuais e coletivos não são supérfluos. sua finalidade^Para ser claro. sob 48 . na verdade. Do discurso operário podem-se extrair vários temas que se repetem obstinadamente como um refrão obsessivo. como sua coerência interna e a extensão de seu campo de aplicação poderiam indicar. isto é. o sofrimento operário é dividido em dois componentes isso não significa que existam dois tipos distintos de sofrimento. Na vivência operária. Se. foi. Existe uma vivência global cuja deci-fração leva à descoberta de vários aspectos. embora implicitamente designada em numerosos trabalhos.

miserável. humanista ou político. esquematicamente. podem-se considerar. elevam-se queixas sobre adesqualificação. altruísta. ampliando-os. via de regra. Desqualifi-cação cujo sentido não se esgota nos índices e nos salários. A vivência depressiva condensa de alguma maneira os sentimentos de indignidade. Sentimento \ experimentado maciçamente na classe üperária. primeiramente^àJalta de qualificação e de finalidade do trabalhgjQ operário da linha de produção como o escriturário de üm serviço de contabilidade muitas vezes não conhecem a própria significação de seu trabalho em relação ao conjunto da atividade da empresa. condicionamento ao comportamento produtivo. de paralisia da imaginação e marca o triunfo do. de formação não é. suficiente em relação às aspirações. Mas. ciclo por ciclo. 49 . No que diz respeito à relação do homem com o conteúdo "significativo" do trabalho. mas que resulta sobretudo do estado dos trabalhadores taylorizados . o sentimentQjie.i §ànte que nasce uma jmagejn de mdigrudad&jV falta de significação^ a" frustração narcísica. indignidade operária. o da vergonha de ser / robotizado. inutL Udãde remete. Cansaço que se origina não só dos esforços musculares e psicossensoriais. tanto mais honroso se a tarefa é complexa. tanto mais admirada pelos outros se ela exige um know-how. uma imagem narcísica pálida. de inutilidade e de desqualificação. Durante o trabalho.JxficutajLjima tarefa sem investimentojnateriaí ou afetivo exige a produção de esforço e de voHfã3êí"«ni-QUtras çlr^ cjtimtâncjã£j^ vivência depressivã~ãíimenta-se da sensação de adormecimento intelectual. Cor^ relativamente. nem para o grupo social e nem para o quadro de um ideal social. responsabilidade.í suas múltiplas variantes. Trata-se mais da imagem de si que repercute do trabalho. Esta depressão é dominada pelo cansaço. vários elementos contam na formação da imagem de si. Ela não significa nada para a família. de não ser mais que um apêndice da máquina. mais do que isso. formam. Raros são aqueles que ainda creêm no mito do progresso social ou na participação à uma obra útil. sua tarefa não tem significação humana. Outra vivência. isto é. o tema àa. nem para os amigos. às vezes de jser sujo. riscos. a inutilidade dos gestos. dois componentes: o conteúdo significativo em relação ao Sujeito e o conteúdo significativo em relação ao Objeto. do narcisismo: O nível de qualificação. não menos presente do que a da indignidade. de anquilose mental. É do contato forçado com uma tarefa. O sofrimento começa quando a evolução desta relação é bloqueada (22). de estar desper-/sonaiizado etc. de não ter mais imaginação ou inteligência. feia.

do que ele introduz de sentido simbólico no que o rodeia e no que ele faz. esta dialética do Objeto é específica e única. pelos instrumentos que ela movimenta. objeto interiorizado por outro. Todas estas significações concretas e abstratas organizam-se na dialética com o Objeto. socialmente reconhecidos ou efetivamente desconhecidos não causam o mesmo impacto sobre o narcisismo. O conteúdo significativo do trabalho em relação ao objeto: ao mesmo tempo que a atividade de trabalho comporta uma significação narcisica. No conteúdo significativo do trabalho em relação ao sujeito. isto é. ela pode suportar investimentos simbólicos e materiais destinados a um outro. Responder a um. veicula um certo número de símbolos. para cada trabalhador. do que ele põe. correndo assim o risco de um fracasso. o sujeito pode encontrar-se em situação de subemprego de suas capacidades ou. pelos gestos que ela implica. A significação profunda do trabalho para cada indivíduo só pode ser revelada por técnicas parti50 . O investimento narcísico só pode renovar-se graças ao investimento objetai e vice-versa. ao Objeto. isto é. a significação da tarefa acabada em relação a uma profissão (noção que contém ao mesmo tempo a idéia de evolução pessoal e de aperfeiçoamento) e o estatuto social implicitamente ligado ao posto de trabalho determinado. toda atividade contém os dois termos. cujo papel é decisivo na vida. não implica necessariamente em responder simultaneamente ao outro. em situação muito complexa. A natureza e o encadeamento destes símbolos dependem. A atividade do trabalho. ou contra alguém. A tarefa pode também veicular uma mensagem simbólica para alguém. pela atmosfera na qual ela opera. na medida em que as regras de troca de investimento não se deixam assim separar. Sucesso ou fracasso de um trabalho obrigatório: sucessos reais. Objeto exterior e real por um lado. De fato. Separar assim conteúdos significativos em relação ao sujeito e ao objeto é naturalmente arbitrário.li Na adaptação do conteúdo da tarefa às competências reais do trabalhador. A significação em relação ao Objeto põe em questão a vida passada e presente do sujeito. ao contrário. Estender-se mais sobre este assunto conduziria a mergulhar em generalidades. ao mesmo tempo. Se uma parte desta relação é consciente. De maneira que. da vida interior do sujeito. sua vida íntima e sua história pessoal. esta parte não é mais do que a ponta do iceberg. Acontece inevitavelmente que o interlocutor interior e os personagens reais que o trabalhador encontra opõem-se. A complexidade do problema provém do fato de que o essencial da significação do trabalho é subjetivo. pelo material tratado. entra a dificuldade prática da tarefa.

fonte de vergonha e obstáculo para a vida afetiva e sexual. enfim. fantasias e projetos de realizações possíveis. Mesmo se o engajamento pessoal no objetivo social da produção não é possível. Ser colocado em um posto de trabalho particularmente duro tem uma significação em relação aos colegas. os trabalhadores que inalam o hexaclorocicloriexano não podem livrar-se do cheiro nauseabundo dè seu hálito. então. Ao invés de fazer referência à noção de carga psíquica do trabalho. carga de trabalho e insatisfação. antes de tudo. O próprio posto de trabalho tem assim uma significação em relação aos conflitos da oficina ou da fábrica. mesmo se só podemos apreendê-la através de seus efeitos i*idireitos e concretos. da mesma maneira que as mudanças de posto. A tarefa não é nunca neutra em relação ao meio afetivo do trabalhador. ganhar as férias. estranho aos trabalhadores. Resta a significação das relações do trabalho fora da fábrica. não há jamais neutralidade dos trabalhadores em relação ao que eles produzem. é melhor interrogar-se sobre o custo humano da insatisfação. ■Entra em consideração. pagar as dívidas) mas também mais abstratas na medida em que o salário contém sonhos. que corresponde. à preocupação em apresentar uma concepção coerente com a ergonomia contemporânea. Resta. pode pôr em jogo relações complicadas. Até no leito conjugai. pagar as melhorias da casa. Sabemos também que a decifração desta relação com as camadas pro-fundis da vida mental não pertence à psicopaioiogia do trabalho. Receber uma peça bem preparada. é preciso esconder dos outros o conteúdo de seu trabalho: por exemplo. o salário pode veicular todas as s ignificações negativas que implicam as limitações materiais que ele inxpõe. ele pode falar de sua tarefa ou deve calar-se. de seu suor nos quais o produto elimina-se. confiá-la bem montada ao operário que a receberá em seguida. choca-se frontalmente com a vida mental e. Th organização do trabalho.-A coletividade operária sabe quais são os postos mais duros e quais os mais tranqüilos. no conteúdo significativo do trabalho em relação ao Objeto. No caso inverso. ao contrário. Nós nos limitairmos. concebida por um serviço especializado"da empresa. a produção como função social. a reconhecer o lugar importante da vida interior e subjetiva. Tal posto eqüivale a "ser protegido do chefe" ou. Fadiga. não só do ponto de vista da produção mas também do ponto de vista da ordem e da disciplina na empresa. que contém numerosas significações: primei ramente concretas (sustentar a família. têm um valor em relação às lutas atuais ou latentes'. com 51 . o cheiro permanece ligado ao corpo como uma sombra impossível de ser mascarada. às vezes.culares (psicanálise individual). o salário. econômica e política. "ser sua vítima". mais precisamente.

Ao contrário. No trabalho artesanal que precedia a organização científica do trabalho e. A organização temporal do trabalho. Não são tanto as exigências mentais ou psíquicas do trabalho que fazem surgir o sofrimento (se bem que este fator seja evidentemente importante quanto à impossibilidade de toda a evolução em direção ao seu alívio). ainda hoje. Em tais condições. Da análise do conteúdo significativo do trabalho. Mesmo as más condições de trabalho são. Quando um trabalhador usou de tudo de quf dispunha de saber e de poder na organização do trabalho e quando ele não pode mais mudar de tarefa: isto é. podemos perceber um movimento consciente de luta contra a insatisfação ou contra a indignidade. Via de regra. psicoafetivas. Em termos de economia psíquica. a desqualificaçãff e a depressão. As frustrações resultantes de um conteúdo significativo inadequado às potencialidades e às necessidades da personalidade podem ser uma fonte de grandes esforços de adaptação. no conjunto. rege as tarefas muito qualificadas. os instrumentos e os materiais empregados permitem ao trabalhador. uma parte da organização do trabalho provém do própTio operador. O sofrimento proveniente do pouco conteúdo significativo do trabalho taylorizado não é mais um mistério e é denunciado não só pelos operários mas também pelos ergonomistas e por certos meios do patronato "progressista". Num trabalho rigidamente organizado. ao emprego e à experimentação de um compromisso entre os desejos e a realidade. O sofrimento começa quando a relação homem-organização do trabalho está bloqueada. graças aos privilégios de uma organização do trabalho deixada. à discreção do trabalhador. de aprendizagem e de adaptação. a escolha das técnicas operatórias. adaptar o trabalho às suas aspirações e às suas competências. é preciso reter a antinomia entre satisfação e organização do trabalho. em grande parte. existe um segundo compo52 . parcelado. dentro de certos limites é claro. esta adaptação esponiânea do trabalho ao homem corresponde à procura. à descoberta. das motivações e dos desejos. a inutilidade. A certeza de que o nível atingido de insatisfação não pode mais diminuir marca o começo do sofrimento. quando foram esgotados os meios de defesa contra a exigência física. quanto mais a organização do trabalho é rígida. menor é o conteúdo significativo do trabalho e menores são as possibilidades de mudá-lo. menos temíveis do que uma organização de trabalho rígida e imutável. mais a divisão do trabalho é acentuada. mesmo se ele não for muito dividido. o sofrimento aumenta. Correlativamente.a esfera das aspirações. quando o trabalhador usou o máximo de suas faculdades intelectuais. nenhuma adaptação do trabalho à personalidade é possível.

registro das diversas variáveis fisiológicas do operador. melhoria da posição do trabalhador no posto. num último momento. Diferentes técnicas são utilizadas para este efeito: observação direta do especialista. geralmente. iluminação. A intervenção ergonômica começa no "campo" pelo que se chama de "análise do posto" (102). ou as que são propostas pelo laboratório de sociologia do trabalho de Aix-enProvence) (48) etc. intensificação da iluminação etc. mas também de outras doenças do corpo mediatizadas por algo que atinge o aparelho mental. Uma vez terminada a realização dos trabalhos aconselhados pela equipe ergonômica. resposta às "fichas de posto" estabelecidas de antemão segundo um modelo estandardizado (tais como as que são utilizadas nas Empresas Renault (95). entretanto. fazer o balanço não mais dos elementos da análise do I 53 . Num segundo momento. cadência etc). encontra-se. Enfim. são às vezes reconhecidas e classificadas as principais exigências do posto de trabalho. Insatisfação e conteúdo ergonçmico do trabalho Esta segunda vertente da satisfação do trabalho ocupa. observação clínica. Este balanço é às vezes limitado pelos especialistas a uma análise comparativa relativa a critérios de ambiente. poeiras. medidas do ambiente físico (barulho. segundo pensamos. Num terceiro momento.nentc da insatisfação no trabalho que é totalmente desconhecido: o que resulta da inadequação da relação homem-tonteúdo ergonômico do trabalho. uma positividade da ação ergonômica: diminuição do custo cardiovascular. Se tal é a perspectiva do balanço. vibração. Para situar o problema. umidade. o mais simples é talvez recorrer ao estudo da eficácia da ergonomia. Se se procurar. destinadas a aliviar os males detectados (73). temperatura. a insatisfação resultante de uma inadaptação do conteúdo ergonômico do trabalho ao homem está na origem não só de numerosos sofrimentos somáticos de determinismo físico direto. chega-se ao balanço da intervenção. uma posição fundamental na problemática da relação saúde-trabalho. eventualmente a critérios de fisiologia ou de produtividade. atenuação do barulho. são esclarecidas as sugestões de modificação do posto. 2. Muitas vezes negligenciada ou desconhecida. o custo das medidas corretivas propostas pode ser discutido com a direção da empresa e é adotado um compromisso que constituirá a base dos trabalhos de mudança do posto.

Por exemplo. Após administração de morfina a dor desaparece enquanto o doente parece aliviado. às vezes. muitas vezes. a entrar em contradição com os especialistas das condições de trabalho. A atenuação do barulho que reina numa oficina por dispositivos de insonorização eficazes leva. a vivência subjetiva é um objeto privilegiado de análise que nos leva. parece-nos fundamental não negligenciar a apreciação dos trabalhadores sobre a intervenção ergonômica e de nos pôr à escuta de sua "vivência subjetiva" antes e depois da intervenção. acima de tudo. Este fenômeno foi com certeza estudado pelos ergonomistas. Se se limitar o balanço da intervenção médica à comparação de um elemento da análise da situação. mas sua atenção teria sido chamada da mesma forma se os trabalhadores não se tivessem queixado? Numerosos exemplos similares na pratica mostram que não é sempre muito fácil 54 . para a observação sobre uma tela de visualização (60). como para o trabalhador. como veremos. ao contrário. Uma comparação tomada da patologia médica poderia ilustrar este ponto de vista. Para os psicopatologistas do trabalho. Por que escolher a vivência subjetiva dos trabalhadores? Esta escolha não pretende resolver a questão de um indicador global de melhoria das condições de trabalho. Nossa perspectiva aqui é citada somente pelo interesse que nós conferimos à relação saúde-trabalho. mas ele morre algumas horas mais tarde de uma hemorragia interna por perfuração de úlcera duodenal. a intervenção médica é nefasta pois o alívio dado ao doente. A pesquisa de um indicador global de melhoria das condições do trabalho teria uma utilidade que nem é necessário demonstrar. o ergonomista ou o engenheiro de produção. Por falta deste indicador. precipitou um homem na morte. a avaliação e muito mais complexa. de fato. por exemplo. isto é. Sob esta ótica conta. Esta. alguns autores sublinharam a dificuldade em avaliar a eficácia da ergonomia e das disciplinas do homem no trabalho (97). um doente hospitalizado com urgência com uma dor abdominal aguda. a dor. a resultados curiosos: os trabalhadores exprimem seu descontentamento acusando as novas condições de trabalho de aumentar seu cansaço.nosto (comparados um a um antes e apu» a intervenção) mas sobre a situação global. No estado atual desta questão. Isto resulta. do desaparecimento de um estímulo sensorial (barulho) útil à manutenção da vigilância necessária. este balanço é positivo. a condição do trabalhador. não varia sempre no mesmo sentido que as condições do trabalho. se se tomar um ponto de vista global. elemento necessário ao diagnóstico de úlcera perfurada. Voltemos à intervenção ergonômica: o indicador global de melhoria das condições de trabalho que permitiria julgar a eficácia da ergonomia não existe até hoje (74). fazendo desaparecer a dor.

vantagens que são inegáveis contituem o que poderíamos chamar de "positividade da prática ergonômica". o interesse que o médico ou o psicopatologista deve ter pela "vivência subjetiva" dos trabalhadores. convém distinguir vivência subjetiva a curto prazo e vivência subjetiva a longo prazo: é bastante freqüente que. facilitação de um trabalho de precisão através de uma iluminação mais racional etc. na verdade. muitas vezes. diminuição das lombalgias. 93). é porque precisamente ele está melhor. Entretanto. mas mais freqüentemente em algumas semanas. às vezes em alguns dias. a substituição de um banco por um assento de encosto regulável é. Com efeito. Se acreditarmos nos mestres da psicofísica (35. Assim. e se esta mudança produzir-se mais rapidamente. esta última reflete. De maneira que se referir à "vivência subjetiva" tem sempre o risco de induzir também em certos erros. a defender-se e a queixar-se. Ao contrário. Em matéria de intervenção ergonômica. os fenômenos observados em matéria de ergonomia de correção seriam coerentes com os resultados da psicologia da sensação. nada mudou. 55 . quando um doente começa a protestar. acontece. uma vivência subjetiva coletiva que envolve as variações individuais. A revolta assinala uma melhoria de seu estado. 36. num primeiro momento. Ao contrário. de várias causas concorrentes: — o hábito — a revelação de outros prejuízos até então mascarados — o fato de que. no fundo. em geral. a nossos olhos. um operário que utiliza o tricloroetileno para dissolver a graxa escondida nas dobras cutâneas acha que é vantajoso conservar este hábito enquanto que o médico do trabalho sabe a nocividade deste produto para o organismo. no começo. Esta erosão do poder benéfico da "melhoria das condições de trabalho" resulta. às vezes. Isto confirma. Com efeito. do grupo emana. A sensação subjetiva de alívio é mais intensa se a melhoria da situação for mais substancial. pode-se recorrer à vivência subjetiva coletiva. Assim. os operários experimentem um benefício real da intervenção ergonômica: melhoria da postura de trabalho. uma apreciação "global dos efeitos da iniervenção ergonômica que vai direto ao objetivo" Mas há também casos em que a avaliação subjetiva dos trabalhadores opõe-se ao ponto de vista médico-sanitário.prever os efeitos de uma "melhoria objetiva" das condições de trabalho. Para levantar este obstáculo. o mais freqüente é que o sentimento de melhoria e de alívio desfaz-se bastante rapidamente. de um doente queixar-se mais de seu estado quando sua saúde está melhorando. Estas. até. Em certos casos. a discordância "vivência subjetiva"—"estado de saúde" é observada sobretudo na economia individual de um sujeito.

Esta questão fundamental é a questão do valor relativo das melhorias ergonômicas em relação à economia global da relação homem-trabalho. A toda esta análise poderíamos opor "a ergonomia de concepção" (102). Para o operário que trabalha com peças. Admite-se correntemente. referente aos pilotos de caça). O que foi ganho de um lado é perdido do outro. ele nâo tem mais consciência desta melhoria e. ela só consegue aliviar parcialmente os trabalhadores e este é. Além do mais. Isto pode explicar. Assim. faz-se às vezes aparecerem os de um nível inferior e assim por diante. bonificações. Este elemento de "habituação" desempenha certamente um papel na obsolescência da vivência da melhoria e do alívio. conteúdo da tarefa. E o esgotamento psicofísico da sensação não e suficiente para dar conta do fenômeno observado. por exemplo. em relação com a posição da cabeça e a distância olho-tarefa. pois esta melhoria não é mais perceptível atualmente. O alívio da carga de trabalho permite a intensificação da produtividade. o limite último da ação ergonômica. Todavia. prêmios. Mas após um mês de trabalho. Assim somos levados a admitir a existência de uma espécie de edifício estra-tifiçado de prejuízos hierarquizados.apreciada pelo operador. apesar do que afirmam os psicofísicos. há casos em que não se observa uma tal diminuição da sensação. hoje em dia a distinção entre "ergo56 . ele tem que evocar a lembrança do momento desta substituição do assento. o alívio trazido pela correção ergonômica é recuperada pela organização do trabalho. pouco a pouco. Para utilizar outra fórmula. a correção ergonômica é às vezes irrisória face à enormidade das exigências organizacionais (salários. para faiar ao interlocutor. provavelmente. a subtração de uma exigência do trabalho pode revelar uma violência mascarada. trabalho repetitivo etc). pode libertar um operador de lombalgias relativas a uma tòrsão da coluna por defeito de postura. Há casos muito conhecidos onde as condições de trabalho são terríveis e. consideravelmente bem toleradas (conforme Capítulo III. Em todo caso. Quando se faz desaparecerem os prejuízos que ocupam o alto da hierarquia sintomática. a apreciação ambivalente dos trabalhadores em relação à ergonomia. anteriormente. em muitos casos. O inconveniente da intervenção ergonômica é sua ação limitada. Aliviado deste mal. a conhecer uma outra dor que tomou lugar da precedente: cervicalgia. poder-se-ia dizer que a intervenção ergonômica não atinge a situação de trabalho em profundidade pois ela permanece aquém da organização do trabalho. ele aprende. É que. com efeito. simultaneamente. A intervenção ergonômica. em parte. subjacente. as dores lombares atingiam um tal nível de intensidade que ocultavam as dores da nuca.

a ergonomia de concepção só excepcionalmente é posta em prova na realidade e parte mais do direior de uma empresa e de seu? conselheiros diretos. do que de projetos elaborados pelos especialistas ou ergonomistas. um sofrimento que são de natureza mental e não física. determinantes na apa57 . A ergonomia de que falamos até aqui é uma ergonomia de "correção" mas. mais ainda. após ter apresentado uma ilustração clínica. Mas. situada no registro simbólico. outras questões foram levantadas: o que é este sentimento de satisfação experimentado. a bem dizer. havia batido com violência no médico. de insatisfação é de frustração antes de tudo concretas. cor-relativamente. Mais para frente nós voltaremos a este conceito de economia psicossomática. quando da construção de novas instalações. uma vez que o paciente sofre de uma diabete insulino-dependente. alucinações terríveis e vozes ordenavam certos comportamentos particulares como andar de quatro e comer flores e plantas verdes presentes na casa.nomia de correção" e "ergonomia de concepção". Esta digressão pela ergonomia prática poderia traduzir-se em termos de psicopatologia do trabalho pela seguinte fórmula: enquanto a ergonomia não trouxer satisfação suplementar ao nível do conteúdo significativo do trabalho. A investigação permite o esclarecimento de alguns elementos recentes. De uma relação desarmoniosa entre o conteúdo ergonômico do trabalho (exigências físicas. que fora chamado às pressas pela família em pânico frente ao estado do paciente. químicas. Movimentos de agressividade alternavam-se com frases de ansiedade evidente. a exemplo da insatisfação em relação com o conteúdo significativo do trabalho. Este segundo componente da insatisfação no trabalho não é de ordem "significativa". permanece muito preocupante. mas de ordem "econômica". biológicas) e a estrutura da personalidade pode emergir uma insatisfação e. após uma correção ergonômica? E. Esta insatisfação não está. Mas é então preciso cuidar de seus problemas metabólicos. Um homem de aproximadamente trinta anos é conduzido ao hospital psiquiátrico de uma cidade do interior. tratado com fortes doses de neurolépticos e de ansiolíticos. Levado a Paris por um serviço especializado. mas seu estado mental dominado pela ansiedade. No hospital. Trata-se desta vez. o que são estes agravamentos da relação saúde-trabalho ocasionados por correções ergonômicas limitadas? Estas questões vão permitir-nos introduzir um novo ponto de vista na insatisfação do trabalho. Na noite anterior ele apresentava alguns sinais de agitação e no próprio dia seu estado se tinha agravado: ele mantinha diálogos incoerentes. mesmo brevemente. seu estado melhora rapidamente. só poderá trazer alívio limitado. sua glicemia é rapidamente controlada.

as dificuldades profissionais continuavam. Jogador de futebol. Foi decidido com o paciente e a família que. ele deveria logo sucumbir à fadiga e ao esgotamento. ele deveria retomar seu antigo posto de chefe de armazém.rição do episódio agudo. gerente de um salão de beleza. Foi neste momento de hipogli-cemia provocada por um esforço físico não compensado por um suporte alimentar suficiente que o precipitou na descompensação psiquiátrica de que falamos. ele tinha se tornado em algumas semanas presidente do clube municipal e esta atividade secundária particularmente intensa lhe proporcionava o relaxamento que não lhe ofereciam suas horas no escritório. Esta solução favorável não é excepcional. o paciente havia finalmente renunciado. Vários meses após ter retomado seu trabalho na fábrica ele não tinha tido nenhuma recaída e nem consumia mais medicamento. Este homem ocupava há cerca de dez anos um posto de chefe de armazém numa fábrica de sua região. Lá. além de suas funções de vigilância. nada mudava. esportivas ou os trabalhos de forte carga física são as úricas defesas verdadeiramente funcionais para assegurar o equilíbrio. compensar os efeitos nocivos de seu novo emprego. Entretanto. impotente à acumulação de autos sobre sua mesa. seu trabalho consistia em ler autos policiais de seguro e verificar sua conformidade. a contragosto. havia vários meses. com seu marido para que ele abandonasse seu emprego por uma profissão mais "respeitável". Muito mal adaptado a este trabalho sedentário. ele punha "a mão na massa" e. numa fuga desenfreada fora do trabalho. Procurando. Entretanto. Contramestre. assumia um trabalho equivalente ao dos operários que ele dirigia. Uma "investigação psicossomática" precisa (69) deveria mostrar que se tratava de uma descompensação sob forma de síndrome con-fusional ocorrida num sujeito que apresentava uma neurose de comportamento. as atividades psicomotoras. insistia. deixando o hospital. Sua esposa. ele havia encontrado um meio de gastar sua energia e de descarregar sua tensão. (23) Este exemplo ilustra bastante bem como uma adequação entre o conteúdo ergonômico do trabalho e a estrutura da personalidade pode 58 . ele assistia. No fim de dias de trabalho particularmente esgotantes. sua função era de organizar e de controlar o trabalho de uma equipe de uma dúzia de operários. Diante do esforço conjugado de sua mulher e de seus amigos. a seu trabalho na fábrica para aceitar um emprego numa companhia de seguros. Esta simples decisão foi suficiente para acalmar a angústia do paciente e para permitir um controle rigoroso do metabolismo após a suspensão dos tratamentos psicofarmacológicos. Como é o caso com esse tipo de sujeito.

Mas este período de compensação é pouco. neste exemplo.77) Na vivência dos trabalhadores. Fora de um relaxamento e de um prazer trazidos por tais atividades. uma sez que o debate foi concluído em outro lugar. Outras personalidades têm aptidões para tarefas que comportem fortes exigências psicossensoriais. dos pesos pesados aos guindastes. pode conduzir a uma catástrofe a nível da economia geral do indivíduo com suas traduções clínicas patológicas. músicas a volume alto. a inadaptação entre as necessidades provenientes da estrutura mental e o conteúdo ergonômico da tarefa traduz-se por uma insatisfação ou por um sofrimento. elucidadas há cerca de vinte anos. menos monotonia e rotina. a atividades que possuam as mesmas características: longos percursos noturnos de carro. (64. estímulos psicossensoriais etc. imagens visuais. em direção a uma doença somática em virtude das regras da economia psíco-somática. O importante aqui é compreender a simultaneidade do prazer e da necessidade. ao mesmo tempo. estes sujeitos ficam não só insatisfeitos mas muitas vezes em posição delicada em relação à saúde. toda uma pa-nóplia de tarefas de alto grau de violência psicossensorial é. atividades musicais mais apreciadas por sua riqueza sonora do que pelo tema musical etc. fora do trabalho. melhor se sentem. estimada por estas personalidades e necessárias ao seu equilíbrio. se for aplicada cegamente. Estas aptidões são às vezes acompanhadas de uma verdadeira necessidade de alimentação de impressões sonoras. Outras hipóteses explicativas do caso deste paciente poderiam ser propostas. com diminuição da carga física. Estas pessoas têm necessidade de um trabalho variado. (24) Apoiando-nos nestas conclusões. sem levar em conta as necessidades da personalidade. o mais freqüentemente. Eles conseguem às vezes manter o equilíbrio recorrendo. Uma tarefa muitas vezes apreciada por tais personalidades é a de condutor e de piloto de máquinas. Quanto mais mudanças. Nós não as discutiremos aqui. barulho. admitiremos que o papel determinante na descompensação psiquiátrica deste doente foi desempenhado pela neutralização das defesas compor-tamentais na ocasião de uma mudança de posto de trabalho. O que outros não poderiam suportar. dos carros de corrida aos aviões. E a curto ou a médio prazo a evolução faz-se. eles querem avidamente. como uma "melhoria" das condições de trabalho. Do carro à moto. corridas desenfreadas de moto. Pode-se ver bem. colocando o sujeito em face de uma organização do trabalho e de um conteúdo ergonômico radicalmente diferentes.levar a um sofrimento e até a uma síndrome psicopatológica caracterizada. consumo impressionante de espetáculos onde as aventuras são o assunto de predileção. ou até mesmo 59 .67.

não apenas por suas aptidões para os estudos. 78) Estes casos não são mais excepcionais do que os de trabalhadores que apresentam defesas situadas essencialmente no setor da atividade motora que. portanto. antes de tudo. se forem vítimas de um afastamento ou se se aposentarem. eles não têm aptidão particular para a produção de fantasias o devaneio e a imaginação. ao mesmo tempo. O primeiro é relativo às exigências de ordem física e psicomotora.79) Neste estudo da insatisfação com o trabalho relacionado ao conteúdo ergonômico da tarefa é preciso tirar duas conclusões: Primeiro.76. uma via privilegiada para descarregar suas necessidades de atividade. uma predileção pelas atividades mentais de tipo matemático. paralelamente na profissão. (68. encontram-se imobilizados num emprego sedentário e apresentam. O ponto de im- . a rhaioria dos sujeitos que apresentam um tal perfil de carreira são. pelo cálculo. Tais personalidades foram estudadas por certos autores. Contrariamente ao que se poderia crer.por um estado de ansiedade raramente traduzido em palavras. mas igualmente pela ausência de fracasso ao longo de um curso que parece poder se desenvolver sem nenhum incidente. no fim de alguns meses. uma doença somática. Tais personalidades se fazem notar. tiva ou reumatológica. uma satisfação em relação com o exercício do corpo. no trabalho. a contabilidade etc. podemos tomar. Estes sujeitos têm. relativamente frágeis. a econometria. mental e somaticamente. desde muitos jovens. no sentido físico e nervoso. a atividade intelectual na base de sua tarefa profissional toma um caráter de necessidade para seu equilíbrio mental. não é raro que seu organismo seja vítima de uma doença coronária ou um infarto do miocárdio após um prazo de alguns dias ou de algumas semanas. rara* mente precisada. raramente explicitada pelo próprio trabalhador. três componentes principais. Para esquematizar esta relação sutil entre o conteúdo ergonômica1 do trabalho e a estrutura da personalidade. nas profissões de caráter social geralmente elevado. (75. mais do que por atividades intelectuais que necessitem de faculdades imaginativas. toda carga de trabalho supõe uma composição específica de cargas elementares dependentes de cada um destes setores. é que a insatisfação com o trabalho não corresponde só ao conteúdo significativo do trabalho nem ao seu conteúdo simbólico. Se. inventivas ou criativas. A atividade intelectual não escapa ao esquema de que falamos. Alguns dentre estes encontram nas atividades intelectuais deste tipo e. Se lhe interditarem o trabalho. diges-. Outras são de ordem psicossensorial e as últimas são de ordem intelectual. mas que existe. em conseqüência de um acidente. Certos sujeitos apresentam aptidões particulares no campo do raciocínio intelectual lógico e racional.

o que representa para ele o confronto com esta tarefa. como já o mostravam os ergonomistas. com efeito. a carga de trabalho é chamada astreinte) (73). A carga de trabalho psíquica representada pelo sofrimento proveniente de um desconforto do corpo coloca 61 . em oposição ao sofrimento resultante do conteúdo ergonômico da tarefa.pacto do sofrimento proveniente da inadequação do conteúdo ergonômico da tarefa às aptidões e as necessidades do trabalhador é. ela aparece particularmente importante no caso da insatisfação com o conteúdo ergonômico do trabalho. primeiro. Esta carga de trabalho não é idêntica à carga de trabalho física ou psicossensomotora. um custo individual da tarefa notoriamente diferente daquele que revela o estudo objetivo das exigências: é a carga de trabalho. igualmente. A insatisfação proveniente de um conteúdo ergonômico inadaptado à estrutura da personalidade não é outra coisa do que uma carga de trabalho psíquica. Por outro lado. antes de tudo. Os efeitos desta carga e o sofrimento estão no registro mental e se ocasionam desordens no corpo. as exigências da tarefa são chamadas contraintes. A segunda conclusão diz respeito à introdução da estrutura da personalidade na relação homemtrabalho. por intermédio de uma descompensação e de complicações do diabetes insulino-depen-dente. Todavia. (A síndrome confusional é. levar a doenças somáticas. é preciso considerar. não são equivalentes às doenças diretamente infligidas ao organismo pelas condições de trabalho. As exigências da tarefa são o que nós descrevemos sob o nome de conteúdo ergonômico. Presente em todos os tipos de sofrimento. As articulações psico-dinâmicas e psicoeconômicas serão retomadas ulteriormente em outro capítulo. sofrimento mental resultante de uma frustração a nível do conteúdo significativo da tarefa pode. o corpo e não o aparelho mental (o exemplo dü trabalhador diabeúco mostrou que uma descompensação mental poderia provir da inadaptação homem-tarefa). Analisar o conteúdo do trabalho em termos de exigências ou obrigações é insuficiente. a partir da estrutura da personalidade de cada indivíduo. A síndrome confusional isolada artificiaJ-mente nesta observação mostrava a existência de uma etapa no processo de "desorganização psicossomática" (67) Se uma terapêutica conveniente não tivesse sido rapidamente proposta. Aparece.) (33) A insatisfação em relação com o conteúdo significativo da tarefa engendra um sofrimento cujo ponto de impacto é. a evolução do processo de desorganização teria terminado na morte. assim. mental. (Na nomenclatura internacional e segundo as normas Afnor. uma entidade psiquiátrica um pouco à parte do limite entre a desorganização mental e a desorganização somática.

O conflito não é outro senão o que opõe o homem à organização do trabalho (na medida em que o conteúdo ergonômico do trabalho resulta da divisão do trabalho). de alguma maneira encarregado de representar e de fazer triunfar as aspirações do sujeito. Nós veremos. Assim. isto é. simultaneamente. Mas compreenderemos facilmente que as coisas intrincam-se de maneira muito mais complexa na realidade de cada caso. ao bem-estar físico. sensoriais e intelectuais segundo proporções que estejam em concordância com a economia psicossomática individual. separar os dois setores da satisfação com o trabalho é uma necessidade de exposição. Isto depende do que a tarefa veicula do ponto de vista simbólico. como levar em conta estes diferentes elementos numa aproximação global e mais sintética da relação homem-trabalho. I 62 . a vivência do trabalhador ocupa um lugar particular que lhe é conferido pela posição privilegiada do aparelho psíquico na economia psicossomática. satisfações concretas e simbólicas. Não é mais questão das necessidades como no caso do corpo. trata-se da vivência qualitativa da tarefa. num capítulo ulterior. a significação do trabalho que importam nas suas relações com o desejo.inteiramente o trabalhador e sua personalidade à prova de uma realidade material. segundo duas linhas diretrizes: subtrair o corpo à nocividade do trabalho e permitir ao corpo entregar-se à atividade capaz de ofercer as vias melhor adaptadas à descarga da energia. à saúde do corpo. As satisfações concretas dizem respeito à proteção da vida. As satisfações simbólicas: desta vez. Estas satisfações concretas analizam-se em termos de economia psicossomática. No centro da relação saúde-trabalho. O aparelho psíquico seria. É o sentido. biológico e nervoso. primeiramente. mas dos desejos ou das motivações. Isto é: fornecer atividades físicas. num arranjo da realidade suscetível de produzir.

Faz-se necessário uma precisão semiológica: a angústia resulta de um conflito intrapsíquico. (39) A investigação da angústia só deve ser realizada pela psicanálise. de uma contradição entre dois impulsos inconciliáveis. isto é. cujas características só podem ser esclarecidas pela referência contínua à história individual. essencialmente mal conhecidos até hoje. à estrutura de personalidade e ao modo específico de relação objetai. não de angústia. onde parece ocupar um papel modesto. O que vamos tentar mostrar é que o medo está presente eni todos os tipos de ocupações profissionais. inclusive nas tarefas repetitivas e nos trabalhos de escritório. um conceito que não é propriamente psicanalítico — e que responde por um aspecto concreto da realidade e exige sistemas defensivos específicos. Algumas categorias profissionais são expostas a riscos relacio63 . entre dois sistemas (por exemplo: consciente e inconsciente). Pode tratar-se de uma oposição entre duas pulsões. entre duas instâncias (ego e super-ego). A angústia é uma produção individual. A psicopatologia do trabalho encontra-se muito bem colocada para ressaltar esta problemática nova. entre dois desejos. Falaremos aqui de medo.Trabalho e medo O medo constitui uma das dimensões da vivência dos trabalhadores quase sempre ignorada por todos os estudos em psicopatologia do trabalho. Mas nosso assunto aqui é o medo. na medida em que constitui uma abordagem específica da relação do homem çom a realidade.

O problema do medo no trabalho surge desta oposição entre a natureza coletiva e material do risco residual e a natureza individual e psicológica da prevenção a cada instante de trabalho. seja devido à limitação dos investimentos necessários. por exemplo. se atingido por um choque elétrico deixa cair a carga sobre um grupo de trabalhadores que trabalha no solo. da pesca em alto-mar. seja porque o risco ou suas manifestações são mal conhecidos. 64 . uma explosão. afogamento. É com um passo falso que o operário cai dos andaimes. Enfim. independente. circunstâncias atmosféricas. freqüentemente (mas nem sempre) o risco é coletivo: numa indústria química um escapamento de gás pode provocar a intoxicação ou morte de vários trabalhadores. São eficazes apenas as medidas de proteção chamadas de "proteções coletivas" — por exemplo: as telas de proteção ao longo dos andaimes. na maioria das situações de trabalho onde vários operários colaboram na mesma tarefa. então.asfixia. muitas vezes o acidente que acontece com o operário pode. onde muito freqüentemente é um acidente que revela a existência de um risco até então desconhecido. Às vezes. queimadura. ferimento. um acidente de descompres-são. ele quase sempre conta com uma prevenção incompleta pela organização do trabalho. sem que nenhuma prevenção seja colocada à disposição dos operários. da vontade do trabalhador. Podemos descrever diversas características destes riscos: o risco é exterior e na maioria das vezes. das indústrias de preparação de produtos tóxicos etc. irregularidades no funcionamento de um instrumento ou de uma máquina. De qualquer maneira. por exemplo. é que deve ser assumido individualmente. É o que se observa muitas vezes neste tipo de acidente. É o caso.nados à integridade física. mesmo se o risco é combatido por medidas e regras de segurança. Pode tratar-se de . inerente ao trabalho. dos trabalhos em profundidade. um escapamento de gás tóxico. o que caracteriza o risco residual que não é completamente eliminado pela organização do trabalho. atingir outros: um operador de grua. via de regra. Por outro lado. acidente. o próprio risco continua. o risco è mais personalizado. por tabela. que podem ter um caráter material (dispositivos de proteção) ou um caráter psicológico (regras de segurança). Quase sempre propõe-se aos trabalhadores apenas medidas preventivas individuais. morte violenta. da construção civil. os riscos estão relacionados ao corpo do indivíduo. fratura. coletivo. A causa material do dano físico pode ser um incêndio.que operam em fluxo contínuo. O risco é. Ao lado do risco real precisamos mencionar ainda o risco suposto. Às vezes. É o caso das indústrias. Em todos estes casos. Mas mesmo nestes casos.

os doentes hospitalizados com urgência (18 operários de uma só vez. como para todo e qualquer problema médico que não tenha nenhuma relação com o trabalho. assumida individualmente. os infartos de miocárdio entre 30 e 40 anos. Uma oficina ficou assim denominda de "oficina da sarna".conhecido em seus detalhes. constatamos inevitavelmente a extensão das preocupações relativas à saúde física. os problemas sexuais na oficina de«bromato de isopropila. O risco confirmado pelos acidentes. os riscos de complicação com o menor ferimento. como também as lesões por fricção e os pruridos. pois os operários que nela trabalhavam manipulavam pentaclorofenol e sofriam quase todos de um prurido. As lesões eczematiformes dos dedos não são raras. Comra este medo e a impressão dolorosa de que deve ser. 65 . teria causado a morte de vários trabalhadores. os infartos do miocárdio. Ou quatro operários mortos numa oficina onde se lidava com desfo-lhantes.. o trabalho administrativo é considerado limpo. l. è fonte de uma ansiedade específica. bem ou mal. é preciso procurar pelos sinais indiretos que são justamente estes sistemas defensivos. Em outro caso. praticamente não se encontra mais nenhum traço de medo no discurso do trabalhador. numa das fábricas pesquisadas).. Quando são muito eficazes. cujo caráter imprevisível e ressaltado pelas pesquisas a respeito. ao ouvirmos os operadores de sala de controle. o envelhecimento precoce. inteiramente a cargo do trabalhador. Entretanto. Os trabalhadores evocam as "doenças profissionais" e as "afecções de caráter profissional" — cuja origem está bem situada no trabalho mas que não estão inscritas no quadro oficial das doenças profissionais. Os sinais diretos do medo Na indústria química. a notável diminuição da longevidade (a média é de 57 anos). dele temos somente um quadro difuso. Assim. em vez de beneficiar do regime de "doença profissional". os trabalhadores elaboram defesas específicas. para esiudá-la. que dá direito ao complemento salarial e às eventuais indenizações por invalidez.fluxo contínuo. provocado pelo cloreto de vinila. Temos ainda as mortes por inalação de fosgênio. o câncer do fígado. onde o trabalho é organizado em . as numerosas úlceras de duodeno. os mal-estares. O trabalhador doente é coberto pela Previdência Social por causa da doença.

Se a relação corpo-condições de trabalho muitas vezes é estudada corretamente.. as pressões. Os riscos relativos à integridade física têm ainda uma grande importância. assim como seus efeitos que se fazem sentir sobretudo a nível da vida mental. (N.em resumo: as condições/ís/cas e químicas de trabalho. O medo relativo ao risco pode ficar sensivelmente amplificado pelo desconhecimento dos limites deste risco ou pela ignorância dos métodos de prevenção eficazes. Além de ser um coeficiente de * Astreinte — significa limitação. negligenciamos em geral a própria palavra. ao contrário. Acontece também de o tempo de começar uma reação já ser suficiente para se ter vapores acumulando-se em toda a oficina. Ora. de explosão ou de incêndio. A limpeza dos refratários é perigosa: é preciso entrar nas caldeiras ou fornos para se descascar as paredes com um martelo. É possível ter concentrações importantes de vapores tóxicos. de que as condições de trabalho são prejudiciais para o corpo.doT. antes de tudo. são as condições de trabalho que são acusadas: os vapores. as temperaturas. Mencionam-se igualmente fraturas. o ruído. A propósito deste discurso trabalhador sobre a saúde física. da carga (de trabalho) psíquica inerente ao trabalho perigoso que. estreitamento.) 66 . é muito comum se colocar a ênfase analítica no que está mais imediatamente expresso. Aos prejuízos físicos. sujeição no sentido mais amplo.Poderíamos citar ainda as condições de temperatura. entretanto. e mesmo em algumas fábricas são claramente majoritárias as questões relativas à saúde física. queimaduras. os gases tóxicos. o momento em que é pronunciada e o tom no qual se expressa. é necessário acrescentar os riscos de acidente. ou seja. os vapores e poeiras. o ruído a 80-90 decibéis de algumas oficinas. nunca se faz menção das repercussões do perigo real a nível mental. esta palavra é uma palavra carregada de ansiedade. T Saúde física e condições de trabalho: estas são claramente apontadas pelos trabalhadores como fonte de perigo para o corpo. faz parte do desgaste do organismo (astreinte)*.. quando esperaríamos encontrar basicamente reclamações que dizem respeito à saúde mental. Mesmo sendo incontestável tal realidade. corpos estranhos nos olhos etc. frio ou calor contínuos. até mesmo no posto de controle: "muitas vezes a gente começa e já temos vapores quase até a cintura".

luvas (ao alcance das mãos. tudo lembra a possibilidade de ocorrência de um acidente ou incidente: cartazes. Aliás. isto não seria suficiente. isto pouco importa. O próprio aspecto exterior da fábrica não é indiferente para os trabalhadores. a questão principal evocada espontaneamente. sinais luminosos. existem outros componentes do medo que vamos estudar a seguir. a ignorância aumenta também o custo mental ou psíquico do trabalho. 67 . e não como se poderia pensar. ele gera um estado de medo quase permanente que todos os trabalhadores. os efeitos da vigilância. de ficar uma pilha". Mas ao lado deste medo "diretamente determinado". alarmes sonoros e visuais. mergulhadas no barulho das máquinas e iluminadas sombriamente por luzes que dão às formas do prédio e das chaminés uma silhueta estranha. da tensão de concentração. pois o risco real existe em todo lugar. em relação à qual se estrutura tudo o que diz respeito ao sofrimento mental dos trabalhadores. com "os nervos à flor de pele" etc. ou como os trabalhos de certos especialistas (6 bis) instigam a considerar a questão: isto é. pois um só acidente é susceptível de desorganizar a hierarquia estatística. mas não quantificável Sobre que bases podemos afirmar que tal empresa apresenta mais riscos do que outra? Sobre seu número de feridos? Sem dúvida. fala-se da ansiedade justamente quando se fala da "tensão nervosa". cuspindo fogo e vapores. em noites. No discurso trabalhador em indústrias químicas. "Medo" e "tensão nervosa" No discurso de trabalhadores da indústria petroquímica. presença de capacetes. justamente — mais do que constituir uma verdadeira proteção. destinadas principalmente a estimular a atenção — provocando medo. da memorização etc. Na empresa. que compreende. é claro. por exemplo. sem exceção. mesmo se esta carga existe e contribui parcialmente para o sofrimento sentido. é a ansiedade. pelos efeitos da "carga psicos-sensorial".multiplicação do medo. máscaras. manifestam durante uma discussão. Imaginemos estas fábricas que se estendem por muitos quilômetros. Qualquer que seja sua amplitude. mas freqüentemente cobertas de poeira). É por aí. banhadas por uma atmosfera poluida de cheiros horríveis e sufocantes! Risco real.

Sobretudo. "Enquanto estamos na fábrica. Ao contrário.'' I "A fábrica é como um animal enorme que a gente. a todos os riscos que não são controlados pela prevenção coletiva. mesmo quando não estamos trabalhando. — A convicção de que a fábrica oculta uma violência própria. Entretanto. organizarem jogos. sei» saber em que momento ele pode entrar em erupção. pois sem esforço aparente os operadores continuam a identificar os ruídos específicos de certos alarmes)." Todas estas representações da fábrica no discurso operário enfatizam os seguintes pontos: — A ignorância dolorosa em que se encontram os trabalhadores do que se produz efetivamente nas "reações químicas". Raramente constaia-se um estado de sofrimento resultante de uma sobrecarga de trabalho ou de uma carga psicossensório-motora muito elevada. no discurso dos trabalhadores. é primeiramente a ansiedade que domina. sem saber o que se passa no interior de seu corpo. fazerem palavras cruzadas etc. sobretudo. soníferos à noite e psicoestimulantes pela manhã. — O sentimento penoso de que a fábrica é susceptível de. Uma prova a mais da intensidade deste medo é fornecida pelos problemas de sono e. estão pouco ocupados por suas atribuições e longe de serem sobrecarregados. 68 ." "Medo"e "representação" .Na realidade. explosiva e mortal. definitivamente. escapar ao controle dos operadores. pelo consumo de medicamentos psi-cotrópicos pela maioria do pessoal trabalhando numa fábrica: ansiolíticos durante o dia. estas representações mostram a extensão do medo que responde. bem ou malt faz andar. ao nível psicológico. muito freqüentemente — e este não é o aspecto menos paradoxal das pesquisas — 05 trabalhadores não hesitam em esclarecer que. até durante o tempo que passam no posto de trabalho. nunca ficamos descontraídos.1 "Todo mundo sabe que trabalhamos sobre um barril de pólvora™ "A fábrica é um vulcão em cujas encostas nós batalhamos. Há tempo suficiente para discutirem entre si. os trabalhadores jamais abandonam a "tensão nervosa". e que pode a qualquer momento ficar furioso e destruir tudo o que está construído à sua volta. mesmo durante as atividades onde a carga de trabalho é pouco elevada (mas nunca eliminada. a qualquer momento.

de algum modo. Por exemplo. O desprezo. Nesta categoria profissional. Os sinais indiretos do medo: a ideologia ocupacional defensiva Mesmo existindo nas indústrias químicas uma ideologia defensiva específica. São bem conhecidas as atitudes com relação ao risco de acidentes. É como se os trabalhadores da construção civil não estivessem conscientes dos riscos a que se submetem. disto são testemunhas os numerosos acidentes mortais ou com invalidez que. a ignorância e a inconsciência em relação ao risco são apenas uma fachada. os trabalhadores con69 . existe um insólito conhecido por resistência dos trabalhadores às normas de segurança. O que foi acima descrito corresponde a uma certa realidade. Tais conselhos suscitam freqüentemente respostas do trabalhador do tipo "não sou uma mocinha e não vou fazer como você diz". Não podemos admitir sem questionar que os operários da construção civil sejam. como acontece muitas vezes. utilizando os ossinhos móveis que são as vértebras e ocasionando assim "mal jeito nas costas". de incons-ciência diante da realidade. Depois que o momento de desafio já passou. é preferível a inclinar-se o tronco e aprumar-se acionando a musculatura dorsal mais frágil. bravura. até mesmo respostas de desprezo são freqüentes. como também a recusa de certas regras de segurança. rivalidade. lombalgia e ciáticas. no conjunto geral dos acidentes mortais. Na verdade. os da construção civil perfazem a metade. ausência de disciplina. os perigos têm um peso real e uma importância que é inútil sublinhar. Esta atitude de desprezo pelo risco não pode ser tomada ao pé da letra. os conselhos relativos ao levantamento manual de carga: ajoelhar-se. Entretanto. Este fato levou alguns autores a dizerem que a "psicologia dos operários da construção civil" caracterizava-se por um gosto pronunciado pelo perigo e pela performance física através de traços caracteriais dominados pelo orgulho. segurar a carga no chão e levantar-se utilizando os quadríceps. os mais ignorantes sobre os riscos que eles próprios enfrentam. que são os músculos mais poderosos do corpo.2. até mesmo encontrando nisto um certo prazer. tendência ao individualismo etc. dorsalgia. valores ligados a sinais exteriores de virilidade. ou seja. mas também de temeridade. nossas pesquisas mostraram que esta fachada pode desmanchar-se e deixar emergir uma ansiedade imprevista e dramática. tomaremos o caso da construção civil para ilustrar a questão da ideologia defensiva contra o medo. Aliás.

Mas esta estratégia não é suficiente. cefaléias. Estes são absolutamente necessários. independentemente de suas vontades. Não discutiremos aqui sua justificativa do ponu> de vista da finalidade destes mecanismos. não deixam dúvida alguma pelo tom da expressão e da emoção. mesmo sem maiores envolvimentos emocionais. As atitudes de negação e de desprezo pelo perigo são uma simples inversão da afirmação relativa ao risco. Criar uma situação ou agravá-la é. E o risco? Melhor que os outros. Conjurar o risco exige sacrifícios e provas das mais absolutas. Para outras pessoas. Nestes testes rivalizam entre si. de certo modo. para funcionar. pois encontra-se contida. a avaliação correta do risco impediria completamente o trabalho na construção civil. Apesar do risco de crítica. em matéria de interpretação de psico-patologia do trabalho. Assim que tais revelações aparecem. na realidade. neste caso os trabalhadores não poderiam continuar suas tarefas por muito tempo mais.tam os acidentes a que assistiram ou dos quais foram vitimas. Este estratagema tem um valor simbólico que afirma a iniciativa e o domínio dos trabalhadores sobre o perigo. os trabalhadores é que o conhecem e vivenciam no dia-a-dia. de um sistema defensivo destinado a controlar o medo. impotências funcionais diversas — bem conhecidas dos médicos clínicos e médicos do trabalho (84). este sistema necessita de 70 . e não existe sempre sem motivos. não o inverso. afirmamos que se o medo não fosse assim neutralizado. Este sistema defensivo é partilhado por todas as categorias profissionais da construção civil. mas ao fazê-lo.-segunda especificidade é seu caráter coletivo. A vivência do medo existe efetivamente. este caso é freqüente: o medo é uma causa importante da "inadaptação profissional" na construção civil. Aliás. obrigaria o trabalhador a tomar tantas precauções individuais que ele se tornaria ineficaz do ponto de vista da produtividade. no mínimo. É por isto que os trabalhadores as vezes acrescentam ao risco do trabalho o risco das performances pessoais e de verdadeiros concursos de habilidade e de bravura. mas só raramente aparece à superfície. se pudesse aparecer a qualquer momento durante o trabalho. domina Ia. A. tudo se passa se fossem eles que criassem cada risco. Evocam também as famílias dos feridos. Falam dos amigos mortos ou feridos no trabalho. pelos mecanismos de defesa. Na verdade. A consciência aguda do risco de acidente. Mas mesmo fora da situação de trabalho o medo só aparece camuflado: é a ladainha dos sintomas medicalizados da ansiedade sob forma de vertigens. A primeira característica desta fachada — a pseudoinconsciência do perigo — resulta. e não mais o perigo que se abate sobre todos.

Designamos com isto o que poderíamos chamar de exploração da ansiedade. tornar-lhes as tarefas ainda mais difíceis. Os trabalhadores nâo gostam de ser lembrados do que tão penosamente procuram exconjurar. Ninguém pode ter medo. E estas instruções implícitas são respeitadas. se um trabalhador não conseguiu incorporar a ideologia defensiva de sua profissão por conta própria. mas. Esta é uma das i azoes pelas quais as campanhas de segurança encontram tanta resistência. Se a ideologia defensiva da profissão tem um valor funcional para os trabalhadores de um canteiro de obras. armado da ideologia defensiva. Na verdade. de uma verdadeira "ideologia defensiva" característica da profissão. antes de tudo. Exagerou. Além disso. Ninguém deve demonstrá-lo. ou seja. Do mesmo modo. Obrigar a que as coloquem é. de uma conduta deliberada visando a suportar justamente um risco que não seria completamente atenuado por medidas de segurança ridículas em relação à importância do risco. A eficácia simbólica da estratégia defensiva somente é assegurada pela participação de todos. E que se possa avaliar o que trazem estes sacrifícios: "Se ele morreu é porque queria. Sem dúvida. pois mais carregadas de ansiedade. Vemos que o sistema de defesa requer uma grande coesão e uma solidez a toda prova. elimina aquele que não 71 . acidente. Esta ideologia necessita seus sacrifícios e seus mártires. tem igualmente um valor no que concerne aos trabalhadores que não participam do trabalho. Ninguém pode ficar à margem deste código profissional. procurou isto. mas isto permite sobretudo que os outros pensem que não querer é suficiente para não ser vítima." Talvez seja correto. Ninguém pode recusar sua contribuição individual para o sistema de defesa. será obrigado a parar de trabalhar. a ideologia defensiva tem um valor funcional em relação à produtividade. sim. nem do medo. relembrar-lhes que o perigo existe mesmo e. É exato que certos acidentes resultam destas condutas perigosas e destas competições desafiando o risco. se não consegue superar a própria apreensão. a recusa e as resistências encontradas na construção civil não são feitas de uma suposta inconsciência ou imaturidade. Nunca se deve falar de perigo. é por este motivo que este sistema chega a ser uma tradição da profissão. risco. Os trabalhadores" bem sabem que as rédeas da segurança não evitarão todos os acidentes. A exploração do sofrimento mental e dos mecanismos de defesa que são colocados em prática para lutar contra este sofrimento serão tema de um capítulo posterior. Seu grupo profissional. ao mesmo tempo. uma fórmula altamente capaz para se acalmar o medo.encontrar sua confirmação.

em alguns casos. o que acontece de tempos em tempos. O papel psicológico emprestado ao vinho reencontra de maneira não fortuita a tradição e os hábitos de vida dos trabalhadores. uma dose de álcool ajuda por seu valor simbólico e por sua atividade psicofarmacológica. O papel do vinho e do álcool articula-se com esta ideologia. por outro lado. que ajuda a enfrentar as condições de trabalho. Um outro exemplo pode ser fornecido neste mesmo sentido. estes sistemas possuem certa analogia.. é a garantia da produtividade. e é funcional também a nível do trabalho. não é raro que sejam submetidos a um verdadeiro teste: São "gozados" durante as refeições com respeito à própria virilidade. Antes de retornar ao trabalho. Após estes esclarecimentos. Em numerososas profissões.. farão parte do grupo de modo integral. a aparente "inconsciência" dos trabalhadores muda de significada. Além disto. o que se mostrar mais frágil será objeto dos riscos dos outros. onde a ideologia defensiva é radicalmente diferente da ideologia defensiva na construção civil. deverão demitir-se. Constitui-se. Se não renunciar a esta posição ousada em relação ao grupo. assim. A ideologia defensiva é funcional a nível do grupo. de sua coesão. a aguardente. É o caso da indústria química. recém-chegados a uma equipe. E o que poderíamos chamar de "enquadramento" dos jovens trabalhadores. harmoniza-se com a sede provocada pelo esforço físico. a importância da ideologia-defesa na continuidade do trabalho. são uma dose de energia nem tanto física mas psicológica. será eliminado deste. A última característica da ideologia defensiva é a seguinte: para 72 . Se não suportarem este ambiente de trabalho. de sua coragem. defende-se do medo reavivado ao nível individual e ao nível coletivo pelo discurso e comportamento do "medroso". exigem-se certas proezas físicas. são observados. Desta maneira. mais cedo ou mais tarde. Na realidade. em outros casos são notoriamente diferentes e específicos por profissão. O vinho. do mesmo modo que incorporarão os elementos constitutivos da defesa coletiva. reencontramos assim sistemas defensivos que estão profundamente estruturados pela natureza do risco em questão. Se. Na verdade. pois constitui o preço que devem pagar para superar a carga de medo que pressupõe o trabalho. Se são aprovados. O grupo não somente efetua uma verdadeira seleção que garante o valor operacional de cada trabalhador que está no canteiro de obras mas.consegue suportar o risco. são submetidos ao teste da ideologia-defesa.

de produção. A ansiedade responde então aos ritmo de trabalho. Com a diferença de que. mesmo quando um certo hábito foi incorporado. esta ansiedade permeia todos os textos escritos por trabalhadores e todas as suas falas espontâneas. O medo em tarefas submetidas a ritmos de trabalho Os especialistas do homem em situação de trabalho nunca sequer mencionaram a ansiedade dos trabalhadores em linha de montagem ou na produção por peças. não apenas uma comunidade que trabalhe num mesmo local. Esta ansiedade de que raramente se fala. isto é. A situação de trabalho por produção é completamente impregnada pelo risco de não acompanhar o ritmo imposto e de "perder o trem". à velocidade e. há pouco espaço para a elaboração de ideologias defensivas (Vide Capitulo 1). ou em razão das súbitas mudanças de posto de trabalho impostas pela hierarquia. Entretanto. ao preço de esforços e de ansiedade ao longo do tempo e da experiência de trabalho. De onde provém esta ansiedade? Provém muito menos das condições fisicoquímicas do trabalho. Entretanto. para "quebrar um galho" onde faltam trabalhadores por licen-ça-saúde ou acidente. da cadência e das cotas de produção a serem respeitadas. pois há pouca ou nenhuma formação para as tarefas desqualificadas. participa do mesmo modo que a carga física do trabalho. ou seja. ao contrário do que observamos nas profissões onde o trabalho se faz em grupo. Esta ansiedade aparece especialmente em trabalhadores que começam num novo posto. aos prêmios. através destes aspectos. Mesmo quando este jeito habilidoso já foi adquirido. onde há pouca comunicação entre os trabalhadores e onde a organização do trabalho é muito rigida. por menor atenção que se lhes dê. naquele caso não há senão possibilidades mínimas de produzirem II 73 . o resultado obtido é sempre colocado em xeque pelo aumento da cadência imposta que surgirá um dia ou outro. do que do rendimento exigido. às bonificações. 3. No caso do trabalho parcelado e repetitivo. mas com um trabalho que exija uma divisão de tarefas entre os membros de uma equipe. ao salário. estas exigem um jeito e uma habilidade que são conquistas de um aprendizado (56 bis). ao esgotamento progressivo e ao desgaste dos trabalhadores. do ritmo.sua elaboração é preciso a participação de um grupo trabalhador.

É o que alguns psicólogos chamam de "resistência à mudança"! (92) Ao lado do medo dos ritmos de trabalho. os trabalhadores falam sem disfarces dos riscos à sua integridade física que estão implicados nas condições físicas. as velocidades e os tempos impostos. não é grande coisa parar de trabalhar alguns minutos numa jornada de trabalho de dez horas diárias. O medo. Em L'Eíabli (63). sobretudo. de modo a não perder tais vantagens através de uma troca de posto.defesas coletivas. 74 . seja proveniente de ritmos de trabalho ou de riscos originários das más condições de trabalho. tenha-se passado ao largo deste medo massivo. desmanchada. que a ansiedade da luta ininterrupta contra os tempos impostos conduza o trabalhador. podia sempre parar de trabalhar durante alguns minutos. destrói a saúde mental dos trabalhadores de modo progressivo e inelutável. em rodízio. Quando um deles pára. Já contamos anteriormente um exemplo. A grande maioria tem a impressão de ser consumida interiormente. não está usufruindo sozinho pois todos aproveitam. participando também desta brincadeira simbólica de grande valor significativo. espantar-nos que. a agarrarem-se a este. simbolicamente. que a longevidade da categoria é de dez a quinze anos inferior à dos professores primários (54). O essencial da ansiedade deverá então ser assumido individualmente. Este medo patente é expresso desta maneira direta pela maioria dos trabalhadores das indústrias. o grupo de trabalhadores venceu o ritmo. Compreendemos. Justificada pelos fatos. químicas e biológicas de seu trabalho. tanto em relação à vitória sobre a hierarquia como em relação à solidariedade que une os trabalhadores neste instante. A única defesa coletiva que pudemos observar é a chamada "reestruturação coletiva da linha de montagem''. nestas condições. Robert Li-nhart conta como um grupo de trabalhadores conseguiu organizar-se e dividir as tarefas de tal maneira que um deles. degradada. como o carvão que asfixia os pulmões do mineiro com silicose. Sabem que apresentam um nível de morbidade superior ao resto da população e. Podemos. este medo é parte integrante da carga de trabalho. em relação à psicopatologia do trabalho. Mas. corroída. assim que tiverem adquirido um certo hábito e rendimentos de controle de seu posto de trabalho. então. Prática e concretamente. usada ou intoxicada.

É uma ansiedade superposta na medida em que a supervisão tem por encargo especificico manter esta ansiedade com relação ao rendimento de cada trabalhador. do atraso autorizado ou punido etc. sempre que o trabalho não é organizado de maneira taylorista. Temos o hábito de apresentar estas relações de trabalho em termos políticos ou em termos de poder. nos serviços. O chefe da equipe e o contramestre utilizam freqüentemente repreensões e favoritismos para dividir os trabalhadores.4.às vezes desagradáveis. Não podemos considerar como epifenômeno ou como questão acessória a discriminação que opera a hierarquia com relação aos trabalhadores. à produtividade. muitas vezes não conseguem encontrar uma saída. de maneira que à ansiedade relativa à produtividade. Falsas esperanças. a revolta e a agressividade reativas. É preciso fazer uma observação particular no que diz respeito às táticas de lideranças empresariais. A situação mais exemplar a este respeito é a do setor terciário e dos funcionários de escritórios. acrescenta-se então a ansiedade resultante do que chamaríamos de "cara feia do chefe". hostilidade ou perversidade. como veremos a seguir. podemos obsemfTTma técnica-espeçífica de Y comando. mais particularmente de(técnicas de discriminação\A avaliação do chefe influencia os p^nt^^r-*^ sâo r1f"Vs para-^s rálmin do salário. com a supervisão. sobretudo sobre promoções.-* 75 . de rendimento. Ela faz parte integrante das táticas de comando. de avaliação de tarefas. Nos serviços de contabilidade. Conhecemos muito mal os efeitos da repressão desta agressividade sobre o funcionamento mental dos trabalhadores. às cotas de produção. Mas a frustração. mesmo que não seja explicitamente incluída no papel da hierarquia. até insuportáveis. As mulheres são as principais vítimas deste sistema de . nas grandes administrações. A desigualdade na divisão do trabalho (100) ê uma arma terrível de que se servem os chefes a bel-prazer da própria agressividade. nos bancos. se bem que possamos presumir sua importância na relação saúde/trabalho. com as chefias. No caso de indústrias onde o trabalho é submetido a um ritmo imposto. são habilmente mantidas. podemos considerar que as relações hierarquias são fonte de uma ansiedade que se superpõe àquela que mencionamos com relação ao ritmo. A ansiedade e as "relações de trabalho " Entendemos por "relação do trabalho" todos os laços humanos criados pela organização do trabalho: relações com a hierarquia. aos prêmios e bonificações. com os outros trabalhadores — e que são.

comando. Podemos nos perguntar porque a manipulação psicológica tem esta extensão no setor terciário. Nesta mesma perspectiva. certas confidencias provocadas serão em seguida usadas para uma manipulação psicológica. tornando difícil afuga ou_até _a não-participação ao sistema. rivalidades e perversidade de uns para com os outros. o que lhes permite. o chefe tem interesse de nelas participar. a vergonha e a culpa são provocadas em qualquer ocasião. onde todos os trabalhadores estão ligados à mesma cadência pela velocidade da própria linha de montagem. Apenas considerar as exigências de posturas ou a carga psicossensória é um erro enorme. cujo debate se desloca para questões pessoais. nos serviços. a rivalidade e a discriminação ass^^ramjanLgrande poder à supervisão^ O chefe tenta também que os empregados falem de seus colegas. Fica assim deslocado o conflito do poder. À falta de inte-resse pelo trabalho soma-se a ansiedade resultante das relações humanasjrojundjimenté Trm^^ 76 J . _e_o_que não consegue obter diretamente do interessado. a direção e os chefes de seção procuram meticulosamente as causas das licenças de trabalho e a natureza dos tratamentos seguidos. mas às vezes também são tornadas públicas. ativando ou reativando os conflitos e as rivalidades entre empregados. Assim. Encoraja-se o funcionário a falar de suas dificuldades familiares e materiais. a permanência do controle deve ser relembrada_j3gx_outrps meios: assim. Uma trama assim jelaborada é bastante densa e coerente. acaba extor-quindo dos colegas maí-intencionados. uma vez mais. No escritório da chefia as ameaças são substituídas por uma mudança de atitude. Em algumas administrações. Este clima psicológico não é nada excepcional. Fica assim escamoteada a questão do trabalho. Os tempos e os ritmos de trabalho são aí mais difíceis de se fazer respeitar que numa linha de montagem. No trabalho de escritório não se consegue efetivar o controle mediado pelo cronômetro da fábrica. criar suspeitas. os chefes freqüentemente recorrem a uma convocação individual dos empregados. serviremse do segredo como alavanca de manipulação psicológica. benevolência e paternalismo. Esta atmosfera de trabalho tem como efeito principal envenenar as reiações entre os empregados. è muito mais a regra nos serviços de escritório. De um conflito no sentido vertical. Então. A partir do momento que existem tais rivalidades. assim. com o poder que lhe é conferido por sua posição hierárquica. as contradições passam a se dar então no plano horizontal. Constitui-se então todo um sistema de relações de suspeita e de espionagem. E não somente as informações assim obtidas são depois utilizadas como meio de pressão.

onde se constrói uma linha segundo a seqüência seguinte: um operário árabe. A produção das relações afetivas no terciário e sua desestru-turação no trabalho em linha de montagem são também fonte suplementar de sofrimento. de não limitar a investigação cientifica ás relações individuais ou coletivas com a organização do trabalho. como por exemplo a construção civil. Em geral. 5. um português etc. numa modificação das relações espontâneas que poderiam existir entre os empregados? No caso do trabalho taylorizado. e a própria rede relacionai que. um italiano.O exemplo do setor terciário é especialmente próprio à introdução de uma nova questão. ou seja. um francês. A desorganização dos investimentos afetivos provocada pela organização do trabalho pode colocar em perigo o equilíbrio mental dos trabalhadores. A partir da organização do trabalho e das exigências a que ela submete o funcionamento mental (insatisfação e ansiedade). de algum modo. de seu envenenamento pela discriminação e suspeita. não podemos buscar as repercussões nas relações interindividuais. relativa às relações da vida mental e trabalho. aumentando-as ainda mais. No caso das profissões expostas a uma forte carga de medo. A primeira resulta da desestruturação das relações psico-afetivas espontâneas com os colegas de trabalho. depois um iugoslavo. de modo a impedir toda e qualquer comunicação durante o trabalho. pudemos constatar os efeitos acumulados da ideologia ocupa-cional defensiva. Um exemplo caricatural desta desestruturação da linha de montagem é dado por certas fábricas automobilísticas da região parisiense. eles têm consciência deste 77 . um espanhol. Trata-se. As diferentes formas de ansiedade Podemos agrupar esquematicamente os diferentes componentes da ansiedade em três itens: a) ansiedade relativa à degradação do funcionamento mental e do equilíbrio psicoafetivo: do que foi dito no parágrafo anterior podemos extrair dois tipos de ansiedade. a frustração e a ansiedade serão vivenciadas no isolamento e na solidão afetiva. fica dissolvida. Assim. na realidade. um turco. ou de sua implicação forçada nas relações de violência e de agressividade com a hierarquia.

doenças "psicossomáticas". A esta ansiedade alguns autores deram o nome de "'disciplina da fome" (27). como também para o espírito. ferimentos.risco. Às vezes. de regressão intelectual. o consumo dos psicotrópicos destinados a um melhor controle da agressividade e da tensão interna constitui um último recurso. A ansiedade é a seqüela psíquica do risco que a nocivi-dade das condições de trabalho impõe ao corpo. morte). A partir dos efeitos específicos da organização do trabalho sobre a vida mental dos trabalhadores resulta uma ansiedade particular partilhada por uma grande parte da população trabalhadora. das relações familiares. No capítulo sobre a insatisfação no trabalho dissemos que as exigências da tareía terminam numa auto-repressão do funcionamento mental individual e num esforço para manter os comportamentos condicionados. de despersonalização. o recurso às bebidas alcoólicas é uma maneira de atenuar a tensão interna. A necessidade de descarregar a agressividade provoca a contaminação das relações fora da fábrica. enquanto que na organização do trabalho o alvo é o funcionamento mental. O segundo tipo de ansiedade diz respeito à desorganização do funcionamento mental. b) Ansiedade relativa à degradação do organismo: a segunda forma de ansiedade resulta do risco que paira sobre a saúde física. Precisamos acrescentar ainda que as más condições de trabalho não somente trazem prejuízos para o corpo. aumento do índice de morbidade. De certo modo. Em todo caso. As más condições de trabalho colocam o corpo em perigo de duas maneiras: risco de acidente de caráter súbito e de grave amplitude (queimaduras. Dissemos anteriormente que nas . c) Ansiedade gerada pela "disciplina da fome": apesar do sofrimento mental que não pode mais passar ignorado. doenças profissionais ou de caráter profissional. Mesmo se parcialmente oculta na classe operária. Enfim. É de natureza mental a ansiedade resultante das ameaças à integridade física. os trabalhadores continuam em seus postos de trabalho expondo seu equilíbrio e seu funcionamento mental à ameaça contida no trabalho. diminuição do período de vida. em contrapartida está particularmente explícita no subproletariado (Vide Capítulo 1). e em particular. de paralisia da imaginação. a disciplina da fome não faz parte direta78 . condições de trabalho é o corpo que recebe o impacto. Ansiedade da morte. para enfrentar uma exigência ainda mais imperiosa: sobreviver. é o sentimento de esclerose mental. fraturas.

Antes de retomar a insatisfação e a ansiedade para analisarmos seus efeitos sobre a saúde.mente da relação homem-organizaçào do trabalho. mas é. Veremos então que. sua condição. 79 . Havíamos esclarecido antes que a distinção entre estes dois aspectos da carga psiquica era arbitrária e adotada por necessidades didáticas. citaremos um caso particular da relação homem-trabalho onde se acumula uma quantidade impressionante de prejuizos. estas condições de trabalho são origem de uma excepcional adequação homem-tarefa. O capítulo seguinte destina-se a mostrar que a análise dos detalhes não deve superar a observação do conjunto. Este resultado mental insólito no que diz respeito ao perigo resulta de relações complexas entre satisfação e ansiedade. no lugar de suscitar uma ansiedade equivalente. acima de tudo.

Em comparação com os pi fotos de transporte.Um contra-exemplo: a aviação de caça Apresentação da situação Uma base de aviação de caça apresenta-se como uma imensa coletividade reunindo vánQs milharem de pessoas engajadas num trabalho comum como os operários de uma colméia. Cada uma destas características §. que mostram ter um contato mais fácil. O piloto de caça não gosta de íalar de si com um estranho em termos pessoais. Esta ideologia não é Kim efeito secundário do trabalho mas. destinada a evitar as discussões impor-mnas que poderiam questionar seu orgulho de "cavaleiros do céu". interessam-se voluntariamente pelas questões médicas 80 . como veremos mais adiante. Aparece assim um corte entre o pessoal da navegação e o resto da coletividade. ^ma verdadeira necessidade para manter um moral feito de orgulha. como poderíamos mostrar. a ideologia da profissão". para tornar possível a missão dos pilotos que sao apenas algumas dezenas. a existência de um sistema defensivo específico. de insolência e de agressividade. nem mesmo das razões que o levaram «* escolher tal profissão ou de seu trabalho. Para esta atitude psicológica poderiam dar-se várias explicações entre as quais encontraria lugar. indispensável para enfrentar as condições de trabalho. mais uma vez. aliás um corte ativamente apoiado p&ios próprios pilotos.

leva até mesmo à surdez profissional: aeronaval). o que ocasiona desordens no sistema cardiovascular. reduzido ao mínimo. nas mãos luvas e mais luvas são indispensáveis para lutar contra o frio. sobre a cabeça. hiperbarismo. As vibrações de baixa freqüência.e abrem-se com boa vontade sobre a natureza de seu trabalho e de suas condições. ele quase não pode mexer-se. Amarrado por múltiplos cintos que. As condições de ilumimÜ 81 . Às vezes. hipóxia. podem ser consideradas difíceis de suportar e podem expor o piloto a riscos de aeroembolismo.. As variações de temperatura assim como as mudanças de pressão. sem media-tização.lhe imobilizam o peito e as coxas. deixa-lhe apenas o lugar para que se sente desconfortavelmente sobre um assento metálico (cuja rigidez é justificada por argumentos de segurança em relação à ejeção). o trabalho exige que se empregue uma grande força física (para acionar o cabo que fica temivelmente rígido em certas posições do aparelho). as trepidações do aparelho são muito penosas e o capacete não é útil para Proteger a cabeça das batidas contra o vidro. nos ligamentos suspensores das vísceras etc. o nariz e a boca são cobertos com uma máscara ligada por tubo às reservas de oxigênio do avião. na pressão arterial. por acidentes durante os vôos seguintes. e talvez seja conveniente respeitar este afastamento sem o qual uma conversa deslocada poderia traduzir-se. o capacete é bastante justo para não se soltar em caso de ejeção. As condições de trabalho Num avião de caça. O espaço de que dispõe. Parece que os pilotos de caça têm com seu trabalho uma relação muito mais tensa que os pilotos de transporte. Representemos um piloto de caça na sua cabine: sua situação não tem nada de invejável. encontra-se reunida uma quantidade impressionante de exigências relativas ao ambiente. As acelerações positivas ou negativas podem atingir 7g. O grupo de pilotos de caça vive à margem para proteger seu modo de funcionamento. os pilotos de caça têm uma atitude verdadeiramente diferente. e até a desmaios. O barulho é às vezes muito intenso (em certos aviões. que o equilíbrio psicológico realizado individualmente e em grupo (nas esquadrilhas) a respeito da vivência do trabalho è muito mais custoso e exige ser protegido de olhares indiscretos e sobretudo de qualquer conversa ou discussão que versassem sobre as questões de segurança e de acidente..

se o horizonte artificial desviar lentamente. as informações visuais ou sonoras. enquanto ofuscação e penumbra alternam-se. qualquer um destes elementos pode levá-lo à morte. se sua vigilância for neutralizada por um segundo por causa de uma aceleração mal tolerada. apesar das perturbações neurovegetativas. e sobretudo sofrem algumas variações de um aparelho a outro. das perturbações da pressão arterial — portanto. dos suores. da interdição das falhas materiais. a hora do vôo. o que torna particularmente fastidiosa a leitura dos instrumentos de bordo.. enfim. das perturbações visuais (diminuição do campo visual. das dificuldades respiratórias nas grandes acelerações. significar a morte. apesar das náuseas. O funcionamento homem-máquina exige a perfeição. se ele hesitar em um procedimento em caso de incidente. A menor falha neste mecanismo complexo pode. das dores abdominais. Além disso. Os argumentos de ordem material são de pouco peso se considerarmos que uma parte importante dos pilotos de caça è recrutada 82 . riscos de explosão e de queimadura. vapores. A justa apreciação destas enormes exigências de trabalho só é possível para aqueles que fizeram a experiência do aviào de caça. ele tem que vigiar o exterior e manter comunicação com os companheiros. Apesar das dores de ouvido.. o controle aéreo terrestre e isto em duas línguas (francês e inglês) segundo cada interlocutor. e durante um mesmo vôo em função da altitude. Se acrescentarmos a essa descrição o fato de que certos instrumentos de navegação. se o piloto sucumbir a urn instante de distração. Há. se soubermos que os acidentes graves não são excepcionais. se ele se perturbar com uma ordem mal anunciada pelo chefe de patrulha. O meio químico. enfim. diplopia). as telas do radar. podemos nos perguntar por que ainda há gente para enfrentar tais condições de trabalho. os controles de alarme. das hiperssiaiorréias. Se o altímetro der uma indicação errada. se estiver um pouco "tenso" em razão de algum acontecimento familiar. visão negra. pode ser poluído por inalações de gases queimados. ou gases tóxicos. físicas ou psíquicas emerge uma ansiedade que só tem equivalente na dimensão fora do comum dos riscos que comporta uma missão aérea. de tiro ou de pilotagem nem sempre são precisos. apesar de todos esses prejuízos —. se aparecer um escapamento de óleo. Desta proximidade permanente com a morte. o piloto tem que conservar intactas toda sua vigilância e suas faculdades psicossensoriais para observar o painel. em uma fração de segundo.nação mudam com a meteorologia. os sinais luminosos coloridos ou alternativos. das cefaléias.

automatização dos cálculos. pela sua formação (avião. Cada avião representa uma verdadeira fortuna e para assegurar o retorno à base é preciso que o piloto esteja "em boa saúde". base-escola. concepção do posto de trabalho. iluminação. mas também se dedica inteiramente a favorecer o trabalho dos pilotos. 83 . será preciso procurar em outra parte as explicações. apresentação racional dos instrumentos. Portanto. Posição original da relação saúde-organizaçâo do trabalho Diferentemente do que se observa na produção industrial ou na construção civil. divisão do trabalho entre os operadores etc.entre os subof iciais cujo salário é quase igual ao de um empregado de escritório. apontar três eixos principais em torno dos quais orientam-se os esforços de melhoria das relações homem-máquina. na aviação de caça. constata-se que. Foi bem antes da recente campanha de melhoria das condições de trabalho que foram feitos progressos consideráveis na insonorização.) de maneira que sua própria vida é objeto de todas as atenções. petróleo destinados à instrução etc. Eis porque a organização do trabalho preocupa-se não com o progresso técnico. Podemos. Além do mais. na organização do trabalho. pres-surização. um piloto custa caro. Adaptação do trabalho ao homem As técnicas utilizadas para adaptar o trabalho ao homem não conhecem maiores realizações do que na aeronáutica. duplicação dos instrumentos para servir à segurança. meios de telecomunicação. que conduziram aos aviões de transporte que conhecemos e que não são "mais seguros ao que os ônibus". climatização. A operacionalização da aviação de caça depende das performances dos pilotos e da boa adaptação homem-máquina. pilotos e comando concordam geralmente em melhorar a relação saúde-trabalho.

no sucesso a qualquer preço. Só conta o resultado. Logo. Eles efetivamente sabem fazê-lo. nós não somos motoristas de ônibus". temerárias. Aqui. e é preciso prever a perda de aparelhos em caso de guerra. Na caça. mas isso custaria mais caro. Por outro lado. hierarquia e pilotos estão de acordo em melhorar a segurança. tudo é centrado na agressividade. mas também a nível dos aparelhos. no heroísmo. é seu destino radicalmente diferente daquele que observamos na construção civil. a desprezar a segurança. e a aprendizagem não é. voar em altitude mais baixa que a prevista. na coragem. etc. 86 . uma palavra vazia. respeitar as regras de tiro não tem importância. Portanto. ou na petroquímica. neste caso. na proeza. O fim integra os meios. utilizar a reserva de combustível. na aviação de caça. Toda melhoria das performances do avião ou de suas potencialidades permite ao piloto correr ainda riscos. o que não é o casb numa indústria. Aqui também a situação é diferente da que se observa na indústria. não fazer nenhuma proeza. Certamente seria mais prudente construir aparelhos bimotores. As atitudes levianas. por exemplo.correr riscos inúteis. um esforço considerável é feito pela hierarquia para que os pilotos adquiram um verdadeiro domínio sobre o risco. na ação. considerar profissionalismo e seriedade como as melhores qualidades. O que é preciso é ser operacional.. ser rigoroso no incidente. é preciso que os pilotos aprendam a repor em funcionamento seu único motor em caso de pane durante o vôo.. "Aqui. A primeira característica da relação do homem com seu trabalho e da ansiedade ao risco. segurança demais leva à transformação da aeronáutica em uma vasta escola e não em um instrumento operacional. limitação da segurança a nível dos homens. O fim prima sobre os meios. organização do trabalho. isto é. Apesar da manutenção minuciosa de um risco residual. Também numerosos são os que tiveram que se jogar em seguida de um desligamento do cotnpressor. pois este incidente muito freqüente acontece muitas vezes na carreira de um piloto de caça. Fazer uma acrobacia a mais ou a menos. aventureiras são proscritas e sancionadas. pronto a correr todos os riscos.

e da caça. Elite da aeronáutica. Enfim. em seguida. elite em relação à nação e admirada por todo mundo: heróis. e a marinha mais que o exército. r O lugar excepcional da motivação Na profissão de piloto de caça. simultaneamente. da aviação. como já sublinhamos. cultivado. — Primeiramente. e os pilotos de caça têm um profundo desprezo por todo o resto da humanidade. dá-se importância especial aos jogos de infância: 87 . miseravelmente reduzida ao seu estado terrestre. a motivação é objeto de uma atenção exemplar da parte da hierarquia.A questão da satisfação no trabalho-*Apesar da adaptação do trabalho ao homem e da adaptação do homem ao trabalho. eles encaram a síntese da coragem individual e da competência técnica. incidentes e acidentes não são excepcionais. pois eles são os "cavaleiros do céu". O interesse do trabalho: a tarefa do piloto de caça é efetivamente de uma complexidade incomum e necessita. A valorização do corpo e do espírito pela situação de trabalho é exemplar da síntese trabalho intelectual-trabalho manual. orgulho. O jogo da satisfação no trabalho permite eliminar este desvio. as condições de trabalho continuam sendo de uma dureza excepcional. eles representam o ideal de potência total que encontramos em todas as crianças e que está adormecido em muitos adultos. psicológicas e físicas. A admiração de que eles são objeto e o orgulho inigualável em relação às outras profissões são precisamente fundados na confrontação com este perigo exemplar da profissão. façanha e domínio da angústia são indissoluvelmente ligados e tiram seu valor um do outro. primeiramente. os riscos permanecem grandes. Elite no seio do exército. Os pilotos de caça pensam formar uma elite. Ele é procedente de várias origens: A ideologia dos caçadores: o piloto de caça toma para si os objetivos do exército. O eli-tismo é admitido. É entre eles que se recruta o estado-maior da aeronáutica. pois a aeronáutica é mais respeitada que a marinha. a nível da seleção. Poucas profissões realizam uma tal unidade teórico-prática e poucas situações pedem tantas capacidades de um só sujeito. Admiração. onde entre os critérios de escolha de candidato. a perfeita associação de todas às qualidades intelectuais.

A aviação de caça mostra que um medo de uma intensidade considerável pode ser perfeitamente tolerada contanto que ela seja contrabalanceada pelo jogo do sistema motivação-satisfação. A importância acordada neste trabalho à motivação modifica. Dada a diversidade das exigências da tarefa. leitura de aventuras. a desqualificação não tardará. se ele não tiver mais vontade de voar. psicossensoriais e intelectuais coloca a aviação de caça numa oposição em relação ao que descrevemos na indústria e. à "agres. gosto pela mecânica. tudo isto sob o titulo de "dinamismo". sividade" do aluno piloto. de um lado o medo e do owtro a insatisfação.. radicalmente os dados relativos à psicopatologia do trabalho en|| relação ao que se observa na classe operária. histórias de piloto.. queda de motivação são minuciosamente observados. a multiplicidade dos prejuízos. durante toda a vida do piloto de caça.! Hesitação. j A estrutura mental dos pilotos de caça A propósito deste exemplo é fácil observar-se a dificuldade em distinguir na insatisfação no trabalho o que é proveniente do conteúdo significativo e o que é proveniente do conteúdo ergonômico do trabalho. a livre escolha da tarefa. basta que ele não queira trabalhar para ser automaticamente dispensado. Este exemplo ao contrário mostra que os dois sofrimentos principais provenientes da relação homemorganização do trabalho. Em outras palavras. — Em seguida. Se seu desejo abater-se durante alguns dias ou algumas semanas. o lugar ocupado pela motivação. experiência em aeroclubes etc. nesta profissão. isto» é. o exercício simultâneo de todas as potencialidades físicas. à procura de missões perigosas.gosto pelo aeromodelismo. e a quantidade de aptidões e de qualidades psicomo88 . o aperfeiçoamento permanente. A diversidade do trabalho. não ocupam uma posição de mesmo nível na dinâmica psicopatológica. a complexidade da tarefa. a qualificação requerida. durante toda a formação. Pois. é preciso estar motivado a todo instante sem o que o afron-tamento com o perigo corre o risco de terminar em catástrofe. a hierarquia concede um valor ao desejo de voar. desânimo. prevenidos e levados em consideração. nas tarefas repetitivas. os efeitos do medo ocasionados pela organização do trabalho são sujeitos ao multiplicador ou ao divisor que depende da satisfação do trabalho. particularmente. — Enfim.

fonte de um sentimento de bem-estar. 89 . ao esquadrão. ele indubitavelmente procura ser par em seus colegas. O desejo de receber uma confirmação narcísica de seus semelhantes leva o sujeito a exibir-se na frente deles. Dados os riscos materiais e estratégias. assim. é suspenso.toras e psicossensoriais requeridas. é fácil constatar que não se pode impor estas. e o prazer que delas provém. é fácil constatai que este trabalho só pode convir a um número limitado de indivíduos. à esquadra. Eis porque devemos insistir um pouco mais detalhadamente no jogo significativo e no prazer da missão do piloto de caça. Após vários fracassos em vôo. o aluno-piloto. O ideal do ego representa ainda um outro papel na vida do piloto de caça: o fato de pertencer ao grupo de pilotos. encontramos às vezes alunos que não conseguem conciliar seu ideal com a realidade. é uma verdadeira reconciliação entre o eu adulto e as aspirações arcaicas de ideal (ideal do ego). Em alguns instantes privilegiados. Nós dissemos que o medo relativo ao risco que supõe uma tarefa pode ser modulado de alguma maneira pela relação com a satisfação. A homossexualidade latente. Em seguida. de vitória e de exaltação. portanto. existe igualmente uma relação hierárquica. a exemplo do que se passa nos outros ramos de atividade. Este comportamento é evidente nas esquadras. Voar sozinho é o supremo prazer em que o piloto deixa-se levar pelo gozo narcísico. de ultrapassagem e de libertação em relação aos limites do homem: livrar-se do peso. Quais são. o que se opõe à divisão do trabalho presente nas equipes de vários homens dos aviões de transporte. as motivações do piloto de caça? O desejo de voar condensa as aspirações de superpotência. fogoso geralmente. Tomado por seu narci-sismo. das limitações de distância e de velocidade. só podem contribuir se existir de antemão um engajamento fundado sobre o prazer oriundo da relação com o conteúdo significativo da tarefa. Voar sozinho é uma situação muito estimada pelo pilotos de caça. O piloto de caça aspira libertar-se das amarras. o ideal do eu fica sendo o principal motor da atividade profissional: se ele for capaz de desprezar o perigo que enfrenta quotidianamente é porque o piloto de caça é levado por aspirações essencialmente viradas para a auto-superação. A aplicação das aptidões físicas e psicossensoriais. tarefas a qualquer trabalhador. Voar quer dizer libertar-se das leis da física. e só é capaz de identificação e de amor por objetos que possam ocupar um lugar estimado por seu ideal do ego. é uma das características do piloto de caça. Entre os dois componentes da satisfação no trabalho (em relação ao conteúdo ergonômico e ao conteúdo significativo). Durante a formação. não tanto psíquicas quanto materiais.

O conflito mais característico opõe o ego ao ideal do ego e a angústia que 90 . comparativa e exibicionista do que realizada na prática. nâo traz nenhuma culpa. do superego. As características da personalidade dos pilotos de caça podem se enunciar assim: imaturidade. Outra característica. a transgressão permanente que o trabalho supõe. a profissão de piloto de caça parece ligada a uma fixação a um estágio pré-edipiano e prégenital do desenvolvimento da personalidade. da disciplina e das proibições. num questionamento da atividade de trabalho. ela está estreitamente ligada à vida militar. Entretanto. a formação militar ocupa um lugar importante. representativas. ela leva inevitavelmente à incapacidade psíquica de voar. é uma exigência fundamental da profissão. interrupção do desenvolvimento mental no meio do caminho entre o estágio fálico e o estágio genital. homossexualidade mais contemplativa. também de maneira demonstrativa. Quando um investimento mais importante aparece na vida familiar. importância do nar-cisismo relativa às relações objetais. Esta observação faz pensar que a moderação necessária das aspirações do ideal do ego é assegurada pelo reforço exterior (a ordem militar) das necessidades da realidade. pouco a pouco. A agressividade. hipertrofia do ideal do ego em detrimento do superego. narcísico. estoura um conflito entre a vida profissional e o engajamento familiar que termina muitas vezes na angústia durante uma missão e. Seja um combate aéreo ou a morte infligida ao adversário. atraentes. caso contrário. o que domina não é tanto a culpa mas a perda de confiança em si. que se encontra no trabalho. eles estabelecem com elas relações onde elas devem testemunhar aos olhos de todos sua virilidade e sua potência. nunca se vê um único traço de remorso. isto é. a desvalorização narcísica. Nestes casos. Mas as relações conjugais nunca abalam o investimento libidinoso principal. em uma outra situação: freqüentemente casados com mulheres bonitas. ela só encontra uns poucos obstáculos e. Assim. mas chega também à pessoa física e ao vestuário. a profissão de piloto de caça exige simultaneamente um bom controle da realidade e sérias raízes no campo do conhecimento e da disciplina científica e técnica.onde o exibicionismo não se atem às qualidades profissionais. Parece que todas estas disciplinas são ensinadas no solo num ambiente muito hierarquizado e muito militarizado. ao mesmo tempo em que nasce uma sintomatologia de tipo depressivo. Pode-se perceber a potência do ideal do ego nos pilotos de caça. Ao lado da formação técnica. muito valorizada. Este ponto é essencial: a formação no solo relativamente longa e repetitiva continua durante toda a carreira.

então. e é neste combate. Estas personalidades sâo do tipo das que foram descritas por Kohut (55). Ao contrário. mutação ou acidente. neste caso. projetar-se numa situação de risco não representa para a personalidade do piloto a mesma performance que para um neurótico médio. de dever reconhecer a existência do outro e de suas diferenças. de sua orientação. que todos os pilotos de caça operacionais apresentam características psicológicas verdadeiramente padronizadas. de ser levado a investir seus desejos em outra pessoa que não ele mesmo.disso resulta situa-se. esta "angústia dos limites" está no centro da vida mental. de algum modo.a concluir que a "angústia dos limites" não é apenas reativada pelo vôo. acima de tudo. o que significa. portanto. mas. Qualquer variação em relação a este modelo leva cedo ou tarde a uma desquali-ficação. de suas escolhas. um sistema de motivação não insólito? 91 . desafiar a natureza. e sobretudo no sucesso. uma espécie de exutório para sua angústia fundamental. que ele ultrapassa sua angústia. Assim. Esta descrição da personalidade do piloto de caça é menos caricatural do que poderíamos pensar. o acidente. insustentável e monstruosa. ele estima. a própria motivação do vôo. ela é uma saída para o conflito narcísico que opõe o piloto à sua imagem. no entusiasmo ou na agressividade podem imediatamente comprometer a qualidade da performance. no espaço do narcisismo. antes de tudo. A angústia fundamental cio piloto de caça seria. com efeito. Enfrentar a adversidade. situação que para todas as outras estruturas de personalidade pareceria temível. Repetidas pesquisas mostram. Somos levados. sua situação de piloto solitário. a de ser limitado. de ser obrigado à modéstia. a tal ponto que sua vida profissional aparece como uma resposta. num avião monoplano. Estas constatações conduzem naturalmente a uma pergunta: como se consegue recrutar indivíduos que apresentem ao mesmo tempo aptidões em qualidade e em quantidade excepcionais e. na verdade é a ele mesmo que está desafiando. e de não ser suficiente para si-mesmo.. desafiar os elementos. Isso se compreende se levarmos em conta o fato de que a menor queda da motivação. de ser comparável ao comum dos mortais. A vida profissional é uma resposta grandiosa para esta desmesurada angústia. No piloto de caça. simultaneamente. o perigo. Quando ele desafia a natureza.

De maneira que o nó principal da seleção psíquica dos pilotos de caça è. a orientação para os diferentes ramos da aviação militar de um mesmo aluno mudará. a tudo o que foi definido acima como o sistema defensivo produzido coletivamente pelo grupo de pilotos (esquadrilha.vias já descritas de seu narcisismo e de sua capacidade identifícatória. a adesão do jovem piloto não apenas às condições de trabalho propriamente ditas. isto é. Muito pelo contrário. esta orientação-seleção. através do desenvolvimento de uma relação de identificação. . as competências físicas. a relação monitor-aluno na parte prática da formação aeronáutica. A adaptação É a modalidade mais sutil e mais finamente psicológica da seleção dos pilotos de caça. Em última instância. Diferente da tripla seleção física. ela resulta do jogo oculto das relações que acompanham a progressão do aluno desde os testes de entrada até a qualificação de piloto operacional. mas lambem da sua representatividade psicçlógica em relação às qualidades psíquicas requeridas pelo trabalho que ele é encarregado de representar junto a seus alunos. A adaptação representa. Neste nível. intelectuais e técnicas não estão mais em jogo. apesar de ser dependente das características próprias do mestre ou do monitor. O que conta é precisamente a qualidade das relações com os camaradas. os critérios implícitos da "adaptação" modificar-se-ão. de certa maneira. o funcionamento da corrente seletiva é superdeterminado pelas condições de trabalho. E durante a formação que se faz a orientação nas diferentes carreiras em função das características da personalidade de cada piloto. não é menos eficaz. antes de tudo. nervosa e intelectual (freqüentemente qualificada como objetiva) a "seleçãopsíquica" não é. imediatamente o comando mudará. assim como o número de missões e seu conteúdo. a adesão aos valores existentes. nervosas. feita sem coerência. Se amanhã os Mirage III forem modificados. os monitores vindos das esquadras mudarão. Apesar de não ser objetiva. esquadra). entretanto. Deduz-se facilmente desta análise que a qualidade de um monitor não depende só de seu valor pedagógico. mas também aos valores morais e à ideologia da esquadra. a participação também à sua elaboração coletiva e ao seu reforço. os excluídos e os fracassados da progressão e da adaptação não serão mais os mesmos.

95 . a adequação homem-trabalho exige não apenas um conteúdo excepcionalmente interessante da tarefa mas também uma seleção rigorosa entre os candidatos à profissão. ao nível de angústia a tolerar e. Aparece.As condições objetivas de trabalho determinam o nível e o conteúdo da adaptação e. assim como o corpo dos pilotos de caça. Para ser perfeita. que seja do nosso conhecimento. apesar de subterrânea. sua loucura não é racionalmente explorada pelo comando e pela organização do trabalho. assim. particularmente. o prazer proveniente do conteúdo significativo e simbólico do trabalho são absolutamente necessários à manutenção da performance "ergonômica" e à atenuação do medo. conseqüentemene. antes de estudar as conseqüências do sofrimento assumido pelos trabalhadores. não acontece em nenhuma outra situação de trabalho. à agressividade indispensável. A boa qualidade da relação motivação-satisfação e. pela organização do trabalho. uma seleção psíquica dos pilotos de caça que. ao fim. a excepcional adaptação do prazer tirado do trabalho ao desejo do piloto de caça permite-lhe enfrentar a cada dia as condições de trabalho particularmente nocivas e a tolerar um medo que. A estrutura mental muito particular dos pilotos de caça contém talvez um "grão de loucura" que não é inútil para ousar desafiar assim a morte a cada dia. nós devemos dar uma volta pela análise de um ponto crucial: a exploração do sofrimento e dos mecanismos de defesa destinados a contê-lo. não deixa de ser de uma eficácia notável. repercutem sobre toda a corrente que íeva ã escolha das qualidades psíquicas necessárias ao piloto de caça designado para o novo tipo de avião. Fica aberta a questão para saber se. E. à escolha da natureza das relações interpessoais do grupo.

não se deixa encerrar por esquemas explicativos forjados fora de sua coerência. Esta é a diferença essencial. Nas tarefas repetitivas. não deixará de levantar dúvidas e suspeitas no leitor.A exploração do sofrimento Chegamos agora ao capítulo mais insólito. Mais do que isso. contribuindo. A erosão da vida mental individual dos trabalhadores é útil para a implantação de um comportamento condicionado favorável à produção. nos capítulos precedentes. a exploração de uma loucura bem específica 96 . A atitude espontânea consiste em tomar como referência o sofrimento físico. Na construção civil. estruturam toda a vida externa ao trabalho. tanto no que diz respeito à continuidade do trabalho com alto risco. O sofrimento mental aparece como intermediário necessário à submissão do corpo. como no tocante à seleção de pessoal. uma vez mais. Toda doença física só pode ser prejudicial à produtividade e à rentabilidade da empresa. já havíamos assinalado o valor funcional da ideologia ocupacional defensiva. ligados à produtividade. Na aviação de caça. que funda a oposição entre a medicina e a psicanálise. Já mencionamos. deste modo. para submeter os trabalhadores aos critérios de produtividade. os comportamentos condicionados não são unicamente conseqüências da organização do trabalho. que depois de ter suscitado nossa própria incredulidade. alguns aspectos "funcionais" do sofrimento. Mas eis que o sofrimento mental.

ou seja. Mas as coisas não param por aí.I permite encontrar homens capazes de se lançarem num desafio mortal com os elementos naturais." — "O trabalho é completamente falso. Quando falamos. faremos referência a dois exemplos tirados da indústria. Quando eu saio do trabalho. por exemplo. devemos repetir a informação pedida sob forma de pergunta. Para ilustrar nossa afirmação. devemos dar a informação sob forma de 'resposta'." — "Por último.). do T.. reformulá-la. veremos como o sofrimento proveniente da insatisfação pode ser utilizado para aumentai a produtividade. Com as telefonistas." — "De tanto ficarmos sentadas. não podemos dizer 'bom dia'. é preciso guardar a informação e procurá-la nas microfichas." — "Enfim. depois de tê-la obtido. Sobretudo no início. 97 . deseja?" Não podemos dizer. A exploração da frustração Apresentamos a seguir notas tiradas de uma pesquisa com telefonistas (de Dominique Dessors. telégrafos e telefonia (N. é a única situação em que temos o direito de dar uma resposta livremente escolhida. — "O trabalho nos deixa idiotas. não publicada). esse esforço de memória não énada fácil. a indústria petroquímica facilitará nossa demonstração de como o medo pode ser uma engrenagem determinante da organização do trabalho." — "Depois. informações'. Depois." — "Em seguida. terminamos tendo uma bunda horrível." — "As frase que a gente tem que dizer são: '496. Télégrames et Télecommunication . 1. é o PTT* que fala." — "O que o Sr. "o que o Sr. na França é a empresa estatal que agrupa os correios. numa linguagem codificada. na linguagem codificada do PTT. quer?" — "Em seguida. no caso de agradecimento do assinante. é preciso enquadrar a informação. falo com as pessoas com as frases do PTT.." * Postes. ficamos com o traseiro achatado.

" — "Durante nosso treinamento ou aprendizagem nos ensinam que não devemos ser muito amáveis. para não dizer que o PTT não a possui. è proibido fazer mais de três pesquisas para dar a resposta a uma pergunta). Seja falso ou verdadeiro. Isso obriga a uma pesquisa mais longa. e encontraram aí seu primeiro trabalho. em geral. Daí a importância das notas. As telefonistas são. 120 para funções específicas). haverá sempre qualquer coisa para comentar. — contadores do tempo de cada chamada. do interior (quase 90% delas). detestado mesmo. ainda é preciso esperar que o assinante tenha acabado de reclamar e desligado.— "Não temos o direito de desligar." Há um verdadeiro terror por causa dessa escuta da controladora. não temos nenhum poder sobre o interlocutor. seja que foi muito curta. geralmente. onde o trabalho é menos sobrecarregado e onde se reencontram com suas cidades de origem." — "Não sabemos quantas chamadas vamos receber. indestrutível. Depois. Assim. Há um controle exercido sobre dez a quinze pessoas. É o assinante que deve desligar primeiro. Todas elas estão em fila de espera para serem transferidas para o interior. pois é preciso desencorajar as pessoas a recorrerem às informações telefônicas. e uma vem em seguida a anterior. "Se a chefe do controle estiver de 'mau-humor'. 98 . das quais depende a possibilidade de conseguir uma vaga no interior. Consta de: ' — contadores para o número de chamadas (45 a 50. Acabamos com torcicolo. devemos responder que 'Esta informação não consta neste item'. O que é mais difícil são as informações mal explicadas ou não mais válidas." a) Controle e hierarquia As telefonistas podem ser escutadas sem o saber a qualquer momento. seja que a resposta foi muito demorada." "O serviço de informações existe porque o catálogo telefônico é incompreensível. de tanto controlar a chefe do controle. Não temos o direito de fazer mais de três fichas (quer dizer. Pois é um trabalho mal conceituado. Seja que a linguagem correta não foi usada. que dá notas que ficam registradas num relatório.

não confiamos em nossa memória. Na realidade. a pesquisa de informações pode referir-se ao número do estado ou ao número do assinante. no metrô." "Quando alguém na rua nos diz bom-dia." "Só podemos desligar se não há nenhum assinante do outro lado do fio. 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando' — e este é o único caso em que se pode desligar primeiro." "Trocamos de posto a cada período de trabalho. de maneira a se manter o mesmo ritmo de trabalho do dia. isso provoca um efeito de ruído. é preciso anunciar o número do posto receptor. de interferência com a voz do interlocutor. Então. quando se sabe muito bem que não há ninguém. pois se a gente se vira é detida pela extensão do fio." "Na saída do trabalho. freqüentemente. Ora. Uma única resposta desagradável pode acabar com um dia de trabalho. Temos uma verdadeira sensação de estar acorrentadas. respondemos: 'o que o senhor deseja?'. as portas automáticas começam a fechar depois de um ruído. para que as reclamações dos assinantes possam identificar a responsável. sabemos de cor uma informação. de modo que. se reduz o número de pessoal." "Por outro lado. repetir: 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando'. na cidade de Paris. Ha homens trabalhando durante a noite. no começo de cada comunicação. e com a outra orelha ouvimos os ruídos da sala de trabalho e as outras colegas falando. Por exemplo. Ficamos amarradas.000 ao todo. e a telefonista pergunta-lhe se ele tem o número de seu correspondente." "Ficamos ligadas ao posto de trabalho por um equipamento munido de um fio bem curto. no momento do 'clic' . elas são Jevadas a dizerem coisas estúpidas. recebem insultos racistas. Muitas funcionárias são das Antilhas e têm um sotaque bastante forte. achamos um jeito. A pessoa se irrita e pergunta se estão "gozando da cara dele". "Estas brigas só nos causam tensão. pois as mulheres nãt> têm o direito de trabalhar. Às vezes.No centro telefônico em questão há 400 telefonistas. mas não ousamos acreditar nisso. resmungar de modo incompreensível o número do posto em que estamos. semelhante ao do telefone: dizemos então o número do posto de trabalho. manhã ou tarde. 99 . Devemos. Mas repetir tudo isso três vezes. só temos um único ponto de escuta no fone. são 1. no trabalho. no interior daquele estado. um assinante pede um numero de telefone do interior. 'deixa qualquer um completamente idiota'. A noite." "As vezes. antes. sobretudo quando se trata de uma mulher. que consiste.

E ao descer uma escada. Depois. Tudo é cinzento. O exemplo seguinte demonstra-o: o plural de "Aux Fleurs" (Às Flores). sistematicamente. constatamos que quando estamos nervosas. as questões relativas à hierarquia." As exigências de tempo e ritmo terminam por permear toda a vida. a finalidade da informação telefônica. repensamos nos números que são freqüentemente citados com letras. por exemplo.e verificamos tudo. De maneira que começamos a responder mais depressa. O ambiente me parece sem cor. destacando cada sílaba. Assim." b) Discussão Três elementos principais ressaltam dessas entrevistas: — primeiro. assim. BUS 84. nome de uma loja. nos acostumamos com uma certa forma de pronunciar as palavras. Enfim. — segundo. mais depressa trabalhamos e mais chamadas respondemos. que desligue. Por exemplo: "durante as pausas no trabalho a gente olha o relógio três vezes mais do que durante o trabalho. mal ele desligou e já há um outro chamado. E menos cansativo falar assim do que falar normalmente. — finalmente. A finalidade da informação telefônica As informações telefônicas existem porque o catálogo é incompleto ou incompreensível." "Ao sair do trabalho. sem gosto. para encontrar essa informação no 100 . ê preciso armar uma estratégia especial em relação às chefias. não é levado em conta na ordem alfabética. que fiquemos livres dele. por exemplo. se 'a caixa está aberta'. a forma e o conteúdo do trabalho. Há jeito para se perguntar. quanto mais nos enervamos. pois somos então melhor compreendidas e não precisamos estar repetindo. ao tipo de comando e à organização do trabalho. ou durante as pausas. na saída do trabalho. continuamos a falar com essa voz nasal como naquelesketch de Yves Montand ("O telegrama"). Mas aí. Depois. só atravesso as ruas nos pontos marcados. eu seguro o cor-rimão. com medo de cair. o que mais queremos é que o assinante desapareça. Não tenho mais confiança. o quê nunca fazia antes. "Do ponto de vista do ritmo de trabalho." "Para se ter pausas maiores ou suplementares.

depurando-o. É preciso mencionar o nome "P. nas palavras do outro. a telefonista reprima suas intenções.T. pelo fato de se poder ser controlado a qualquer momento. de algum modo. na conversa dirigida ao silêncio: "Há alguém na linha? Há alguém? Desligando. Deve-se substituir seu enunciado por uma tradução. — O terceiro aspecto diz respeito à hierarquia." é.T.T. É nesse duplo sentido que tanto a forma como o conteúdo do trabalho impedem qualquer relacionamento. Do discurso do outro deve-se extrair apenas a informação solicitada. Não se deve perceber seu tom desagradável. e não em A. suas iniciativas. Em outras palavras. de bom-humor ou de cansaço. ridículo e estereotipado como a forma. dando-lhe a forma e o conteúdo P. sucessivamente. Não se admite nenhuma variação no vocabulário. do interlocutor." repetida três vezes. tudo aquilo que é próprio. Isso chega às raias do absurdo. Falar "P.T. a mínima parcela de desejo próprio. ao comando. nem no tempo utilizado para pronunciá-las! É obrigatório que. transformando-o. em resposta a um insulto. de agressividade.T.U X. Não somente é probido se expressar e passar. sem mesmo saber em que mo101 .F. é preciso ir procurando. individualizante. a cada instante.T. Há uma contradição fundamental entre um serviço destinado à comunicação e a proibição de qualquer relação psico-afetiva.U. Não se deve prestar atenção aos detalhes do que ele fala. Podemos compreender como deve ser horrível passar 8 horas por dia sendo uma espécie de prolongamento do catálogo A forma e o conteúdo do trabalho Aqui. ao controle e à organização do trabalho O eixo central dessa violência do poder baseia-se no estado permanente de poder ser controlado.catálogo.". sua personalidade.F. na* letras A. de prazer. forma e conteúdo são quase sinônimos: o conteúdo fica tão limitado. sua linguagem. no número de frases. Não se deve escutar a maneira como se apresenta o discurso do outro. Não se pode imaginar uma disciplina mais eficaz ou perfeita que a existente. uma proibição de ser ela mesma. nas respostas ao interlocutor. por ocasião de uma conversa em que se comunicou com simpatia. Não se deve ouvir suas hesitações. Mas também é necessário que não se ouça.

Este exemplo traz uma ilustração do que acabamos de descrever. A exploração do sofrimento O trabalho de telefonistas propicia a ocasião de tratarmos da relação existente entre a "tensão nervosa" e a produtividade. aparece a ansiedade: agir conforme as ordens recebidas. As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor. No primeiro plano. mais se sente agressiva e mais deve intensificar a auto-repressão. nesse caso. obedecer e proteger-se da ansiedade originada pelo risco de ser pego em erro. a sintomatologia da neurose marcada pela organização do trabalho. pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. uma agressividade reativa. provocando. E esta agressividade que vai ser explorada pela organização do trabalho. Na impossibilidade de se encontrar uma saída direta. A auto-agressào tem formas múltiplas. Diante da necessidade de respeitar a realidade (salário e disciplina da fome). é implantado um círculo vicioso. um papel muito importante. Pois ter medo de ser vigiado é vigiar-se a si mesmo. qual pode ser o destino dessa agressividade? Uma análise. e a propósito dos comportamentos condicionados. permitiria mostrar que a única saída é de voltar a agressividade contra si mesmo (40). onde a frustração alimenta a disciplina — base do comportamento condicionado. de certa maneira. O condicionamento constitui. Mas a amplitude da organização do trabalho tem. O medo e a ansiedade sâo os meios pelos quais se consegue fazer respeitar os preceitos hierárquicos. De certo modo. A telefonista transforma-se na artesã do seu pióprio condicionamento. A frustração e as provocações acumulam seus efeitos. discutido no Capítulo II. que não teremos como objetivo detalhar aqui. em conjunto. Devido a um processo que transforma a agressividade em culpa. a telefonista tem interesse de orientar essa energia para uma adaptação à tarefa. 102 . é a construção artificial de um autocontrole. a propósito do trabalho repetitivo como protótipo de um sistema disciplinar.mento esse controle é exercido. Quanto mais a telefonista se enerva. por intermédio de um retorno contra si mesma (41). Há um compromisso entre um "bem-estar" (em relação ao esforço requerido pela auto-repressão consciente) e um "bem-estar menor" (em relação à vida psíquica espontânea). a propósito do sofrimento resultante do conteúdo vazio de sentido da tarefa.

não por excesso de zelo. Proibição de responder agressivamente. os limites e as capacidades de cada um. proibição de desligar. O sistema de avaliação por notas e o modo de calcular a produção só fazem agravar esse estado de coisas (Bégoin. são "as mais nervosas" que têm os melhores rendimentos. sem exagero. crises de nervos. basta puxar a rédea do sofrimento psíquico. por exemplo. nesse trabalho de informações telefônicas. longe de ser um epifenômeno. É O SOFRIMENTO QUE PRODUZ O TRABALHO. através de. exasperando as telefonistas. Podemos dizer. Para aumentar a produção. "Algumas das telefonistas chegam a rendimentos excepcionais. e quanto mais nervosa ficam. o trabalho não causa O SOFRIMENTO." Via de regra. a irritação e a tensão nervosa como meios de provocar um aumento de produção. a única solução autorizada ê reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa.. senão arrisca-se fazer descompensar uma ou outra. mas porque o trabalho — dizem — as enerva. Contra o assinante desagradável. o controle das telefonistas aparece como uma tecnologia de poder mediada pelo sofrimento psíquico. oferecida à agressividade reativa e à frustração. que conduz a fazer aumentar a produtividade. que o sofrimento psíquico. para a realização de suas tarefas profissionais. P 146). No posto de trabalho. proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente. de outro. Mostra-se então. menos pacientes etc. aliás bem restrita. 103 . especificamente. pode implantar-se um circuito semelhante. Mais do que uma verdadeira organização do trabalho.Essa é a primeira saída possível. precisamente por causa do controle exercido. e consideramos "mais nervosas" aquelas que são mais facilmente irritáveis. Essa constatação já havia sido feita por Bégoin. mais rápido trabalham. Eis aí um fato extraordinário. também. mas respeitando-se. a reação agressiva não tem mais chances de se exteriorizar do que contra a controladora. é o próprio instrumento para obtenção do trabalho. é trabalhar mais depressa. nas condições atuais. De um lado. De modo que não é tanto exortando-as a trabalhar rápido mas provocando irritação e a tensão nervosa nas telefonistas. temos a angústia como correia de transmissão da repressão e. De maneira que a única saída para a agressividade. que o "nervosismo" das telefonistas (um dos elementos essenciais no quadro de sua neurose) é uma doença necessária.. mas não encontrava explicação na teoria pavloviana. que a controladora pode obter melhor rendimento.

reina a ignorância sobre os processos e seus incidentes. Colocadas num trabalho que era particularmente intensivo. sobretudo. A frustração e a agressividade resultantes. uma tendência hipertireoidiana. No caso das telefonistas. por um nervosismo extremo. os trabalhadores ignoram o funcionamento exato do processo industrial. A ignorância dos trabalhadores: na maioria dos casos. que requeria uma habilidade profissional superior. Podemos relacionar essa utilização do hipertireoidismo1 em mecanógrafas à da loucura narcísica nos pilotos de caça. como fonte de aumento da produção.)• Numa empresa." (p. avaliados como manifestações de hipertireoidismo.. A direção não pode fornecer um organograma das tarefas. em si mesmo. para um trabalho delicado. que expulsa o desejo próprio do sujeito. Concluiu-se que a seleção profissional. o nome da insta1 O hipertireoidismo corresponde a uma hiperatividade da glândula tireóide. aceleração do ritmo cardíaco c. haviam selecionado.. A sintomatologia é dominada por tremores nas extremidades. 104 . ÍJma anamnese detalhada. O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento. entre tantos outros mecanógrafos. são utilizadas especificamente para aumentar o ritmo de trabalho. mostrou que elas já apresentavam certos sintomas. pouco tempo depois todas foram obrigadas a parar de trabalhar devido a problemas graves. com vistas a um trabalho difícil. 196). antes de começar o trabalho. em razão da própria natureza do trabalho. um certo número dentre as "melhores mecanógrafas" da firma. 1 2. simultaneamente e por uma espécie de coincidência. e é tão ilustrativo que dispensa qualquer comentário: "Um médico do trabalho trouxe-nos um exemplo impressionante (. o sofrimento resulta da organização do trabalho "robotizante". Têm apenas "dicas" de um saber descontínuo: o nome do produto de entrada e de saída. dos diferentes equipamentos etc. assim como a tensão e o nervosismo. mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento.Um exemplo extraordinário da utilização do nervosismo é dado pelo próprio Bégoin. E esse nervosismo que foi aqui selecionado. espontaneamente. A exploração da ansiedade Nas indústrias químicas. que se estrutura em função dos incidentes que se deve enfrentar. tinha selecionado sujeitos que apresentavam.

como entre os artesões. Os operários aprendem. que são a forma pragmática e operatória do saber do trabalhador. Não existe nenhuma formação. destinada aos trabalhadores. mas. outro tipo de barulho significa que o P. Existem apenas algumas instruções dadas pela direção: a temperatura de tal reservatório não deve ultrapassar 70°C. A transmissão desses conhecimentos é puramente oral. O conjunto de "macetes" assim acumulados e coletivamente partilhados pelos trabalhadores é o que faz a fábrica funcionar. ao contrário do que postula a Organização Científica do Trabalho. o operário associa os comentários dos colegas.V. sua data de instalação.C. mas não representam nem uma profissão com seu knowhow desenvolvido completamente. a esse respeito. Não há saber contínuo. Não nos enganemos. o fluxo de produção não deve descer abaixo de tantas toneladas por hora etc. de pressão etc. Eles aprendem. quando existe um ambiente de trabalho onde há companheirismo. sobre a qualidade final do produto. da matriz na capital etc. do mesmo modo. não se formaliza. nem sobre o próprio processo. dos escritórios de projetos. ainda assim. em tal nível. Entretanto. é claro. sem intervenção da direção da fábrica. aos barulhos da máquina. a interferir nas etapas intermediárias do processo de produção: para que a temperatura não ultrapasse tal nível. pela instalação de um novo equipamento de exaustão ou de novas autoclaves. uma série de "dicas". Ao longo de sua experiência e tempo de trabalho. (cloreto de poli-vilina. nem uma verdadeira formação ou uma 105 . aos poucos. produto que entra na fabricação de certas matérias plásticas) que está indo bem. Na realidade. nem sobre o funcionamento das instalações. ao longo do tempo e por hábito.iaçào. alguns dados quantitativos relativos aos limites de temperatura. deve-se manter um volume inicial que "retire o calor". os trabalhadores detêm conhecimentos consideráveis sobre a empresa. um certo barulho corresponde a um P.C. sua tonelagem. Os macetes funcionam. não se trata aqui de detalhes secundários! O essencial do saber é veiculado e utilizado de operário a operário. pois é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho.V. seus rendimentos globais. fornecidos pelo painel da sala de controle. espontaneamente. não está indo bem e "faz bolhas". esse saber pragmático é incompleto e pouco tranqüilizador. não deve ultrapassar 25 atmosferas: em tal ponto. Mas não existe conhecimento coerente. Entretanto. O saber circula a nível dos engenheiros. mas simplesmente circula entre os trabalhadores. estas instruções são bastante insatisfatórias. Este saber não está escrito. há um saber próprio. a pressão.

"ninguém a tinha previsto". mais do que 106 . reina a maior ignorância: "Quando há um acidente. mas a soma das lacunas nesse saber pragmático produz um grande mistério sobre o andamento da produção. os acidentes sempre novos e. as instalações da fábrica. Desse modo. depois. A ignorância das chefias técnicas: os trabalhadores sabem que os técnicos de nível universitário desconhecem o funcionamento da empresa e de suas instalações. que são pobres em relação ao que representam os macetes dos operários. aparece uma ordem nova". O conjunto de "macetes" permite o funcionamento da fábrica.formalidade de domínio completo sobre o instrumento de trabalho. implicitamente. mas há também os incidentes estranhos e imprevisíveis. e que podem se repetir. O conhecimento teórico de que dispõem é insuficiente para tal prática industrial. Os procedimentos oficiais avançam passo a passo. nós dicutimos as possíveis reduções de produção que não afetariam as instalações. em setores inteiros. quando viramos as costas. de um lado e do outro. "No início. A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos. dura vários dias. chama-se de "interpretação das ordens". escutam-nos educadamente e. Quando houve uma explosão." E "depois de alguns dias dessa brincadeira. únicos. Constata-se que os técnicos de nível universitário. eles percebem que não chegam a lugar nenhum. E nessas discussões que a direção se mostra. que não se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem. por ocasião da introdução de um novo catalisador. então nós lhes damos 'dicas' que nada querem dizer. Existem os problemas comuns. São detentores de um conhecimento teórico e formaram-se em grandes faculdades. E o que. a direção da fábrica manda-os visitar as instalações. a direção pede aos operários para elaborar uma nova regra de trabalho. Isso. Nós percebemos então que eles não sabem até onde se pode ir. tão insólita. Freqüentemente. não saberiam fazer funcionar. E quando a direção autoriza-os a terminarem com as visitas. a própria ignorância: "Quando um de nós dá uma ordem. refugiam-se em seus escritórios e nós não os vemos mais". implicitamente. por seu lado. Foi assim que diminuímos o ritmo. cada um faz como pode". "Durante as greves. às vezes. sozinhos. O pessoal de nível universitário admite. às vezes. mas chegam na fábrica sem nenhum conhecimento prático. O'único conhecimento prático se reduz às instruções oficiais.

haviam dito que seria possível, e nada explodiu. Uma outra vez. um colega antigo me disse que ja lhe acontecera de descer, uma vez, aíê 22%, e a esse nível tudo degringolou na produção, de vez." "Uma outra vez, eles nos disseram que era perigoso parar, porque reiniciar depois provocaria uma explosão. Eles sabiam disso porque houve uma explosão, na Inglaterra, com 15 mortos. Mas nós, a gente bem que começou a primeira vez, e eles não sabiam que havia um risco." "Todo mundo sabe que não se sabe." Quando acontece um acidente que não era previsível, na maioria das vezes, não é por falta de precaução, mas porque ninguém tinha antes nenhuma experiência a respeito. Essa ignorância, que permeia o funcionamento da empresa, tem um papel fundamental na constituição do Risco e no Medo dos Trabalhadores. Ignorância, medo e angústia O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/ trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em conseqüência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda conhecem os "macetes". O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que "a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes". Afirmação paradoxal! Pois poderíamos esperar que o trabalhador polivalente, tendo maior acesso aos "macetes", conseguiria um domínio maior do próprio instrumento de trabalho. Na verdade, acontece o contrário. Em sua própria função, o trabalhador — mesmo sabendo vagamente que ninguém sabe tudo — conforta-se com a divisão do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis desconhecidas. Quando se torna polivalente, descobre que as outras funções de trabalho são como a sua, e que a incerteza do colega vizinho é tão grande quanto a sua. O polivalente, na veidade, conhece um grande número de "macetes", mas acumula também zonas de ignorância, e assim está confrontado a uma extensão do risco. Cresce seu medo, e é freqüente, então, que assistamos a uma descompensação, conduzindo à licença médica, ao repouso forçado e a um tratamento medicamentoso "por depressão". 107

Segundo os próprios trabalhadores, são numerosos os companheiros que descompensam. De que maneira? Pode-se recuperar, nessa semiologia, os estigmas do trabalho? E bem provável que os trabalhadores vítimas desses episódios invoquem — mas nem sempre ; — o trabalho. Muitas vezes, na verdade, o que tentam é esconder o medo, que lhes parece vergonhoso, ou disfarçá-lo, tanto dos outros como de si mesmos. E mesmo quando acusam o trabalho, em contrapartida, nunca incriminam o risco, nem o medo. A descompensação^ | aparece então como um quadro misto, associado à angústia, à irritaI bilidade e à depressão. Para o médico, externo à empresa, não há aí nada de específico, pois a cristalização de todos os conflitos familiares, financeiros, sociais, acaba por conferir ao episódio um caráter mais pessoal do que específico do trabalho. Isso se explica, se admitirmos que, a partir de um certo nível, o f medo e a apreensão sofrem uma verdadeira dissolução na angústia; isso quer dizer que, transbordando, as defesas individuais deixam surgir conflitos intrapsíquicos, inevitavelmente reativado:, pela situação permanente de risco. Nenhum operário, como nenhum outro homem, está a salvo de uma explosão de angústia. Embora seja esquemática a separação entre medo e angústia, na prática, essa ligação é bem anterior, e, freqüentemente, não basta ao trabalhador sair da fábrica para ficar completamente confiante e calmo. Sobretudo se seus períodos de recuperação somatopsicológica forem cortados pela ruptura de seus ritmos de descanso (trabalho em turno alternado). A maioria dos operários precisa de remédios para dormir, mas também para se agüentar durante a jornada de trabalho. Os hipnóticos e ansiolíticos são largamente consumidos. Quando volta para casa, o trabalhador acorda de noite, angustiado, pois não sabe mais se fechou direito tal válvula. Será que pode explodir? Só ficará tranqüilo no dia seguinte, quando voltar ao posto de trabalho. E, pouco a pouco, toda a vida do operário é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho. Quanto maior for a ignorância sobre o trabalho, mais fácil será ultrapassar a fronteira entre o medo e a angústia. Na realidade, a ignorância consciente sobre o processo de trabalho aumenta o medo, porque torna o risco cada vez maior. Por outro lado, a ignorância facilita o aparecimento do medo. Sabemos que a atividade profissional, a qualificação, o know-how e o saber, em geral, representam um dos mecanismos de defesa fundamentais para a economia psíquica. O trabalho — uma das modalidades de resolução de certos conflitos e de regulação da vida psíquica e somática — é, para certas pessoas, um modo privilegiado de equilíbrio. Nas indústrias petroquí108

micas, o trabalho que traz em si riscos, gera o medo e destrói certas defesas contra a angústia, submete, assim, a vida psíquica dos trabalhadores a duras provas. As defesas coletivas contra o medo: "as condutas perigosas". Às vezes, a atividade dos trabalhadores em indústrias petroquímicas é interrompida por práticas insólitas; é verdade que o trabalho tem vários momentos de pausa, como já havíamos assinalado; esses tempos livres são utilizados para conversas entre os trabalhadores, mas são também oportunidade para jogos lúdicos, que vão dos jogos de cartas aos jogos perigosos, que põem em perigo a vida dos operários, passando pelas competições esportivas no próprio local de trabalho. Há verdadeiros jogos "olímpicos" no interior da usina; há rallyes, corridas e jogos de bola que duram a noite inteira. Há concursos, às vezes perigosos, que se prolongam por vários dias, como há também brincadeiras e gozações de dimensões inusitadas, que se prolongam por dias e às vezes semanas, constituindo-se verdadeiros cenários de ação, com regras absurdas e inventadas, de todos os tipos. Entre estas, as mais freqüentes dizem respeito aos "jogos relativos à segurança". Faz-se correr o boato de que é preciso vestir uma roupa especial de proteção contra certos riscos imaginários; durante muitos dias um bom número de trabalhadores crédulos seguem essa norma. Exagerando um pouco mais, induz-se os "patos" a se dirigirem à direção, para pedir novos equipamentos, de modo que a enganação seja descoberta. Freqüentemente, praticam-se jogos verdadeiramente perigosos. Atrás de uma pilastra, um trabalhador usa o extintor de incêndio dirigindo seu jato, bastante forte, contra os colegas que passam, com o risco de feri-los. De tempos em tempos acontecem acidentes. Foi assim que nos contaram que um operário negro, fugindo da brincadeira, teve a perna presa numa proteção de máquinas. Ainda caído por terra, um grupo de operários jogou-se sobre ele, começando a praticar uma série de massagens musculares na perna machucada, com o dorso das mãos. Durante algum tempo, e em meio aos risos e a uma folia geral, simularam gestos médico-ci-rúrgicos, até o momento em que se aperceberam que a perna estava fraturada. O operário negro foi levado embora, em ambulância, e nunca mais foi visto na fábrica. Foi indenizado e a direção pagou até suas dívidas, sem que nenhuma punição ou repreensão tivesse sido feita aos colegas responsáveis pelo incidente. A direção quis, manifestamente, enterrar este episódio. Os trabalhadores chamam tais I 109

"Se a chefe do controle estiver de'mo u .?! que da notas que ficam registradas „ ""^ ^ controladora' telefonistas são. . Consta — contadores para o númrrn h ■_ 120 para funções específicas) chamadas (45 a 50. ainda é preciso esperar 10*° dlzert'ueo PTT naoa P°ssui. As traram aí seu primeiro trabalho PofJ'01" (QUaSe 90% delas)' e encon" detestado mesmo. ■_ quer coisa para comentar. Há um controle exercido sní. geralmente do int relatório.S Vamos receber' e uma vem explicadas ou não mais validas I u'' Sã° aS informacões mal longa.— "Não temos o direito de h* ■ desligar primeiro." ° assir>ante tenha acabado de — "Durante nosso treinamento ™. indestrutível. Seja falso ou verdadeiro oV Para dar a resposta a uma Per" mação não consta neste itern' na'ra 5m°s resPonder que 'Esta infor-Depois. J*"1 ° saber a «lualcluer m°-de: obre dez a quinze pessoas. onde o 'rah n! -pera para serem tranS" onde se reencontram com suas cidart ? C men0S sobrecarregado e das notas. em geral. Todas elas estão errfrTJrabalho mal conceituado-feridas para o interior.S. Não temos o direito de fa^V ° ga a uma Pesc»uisa mais proibido fazer mais de três nesáukL "^ de três fichas (quer dizer> e gunta).. das quais depende a «Sií ^"gem. jnão devemos ser muito amáveis noi aprendlzagem nos ensinam que a recorrerem às informações telefôn * pT^lso desencorajar as pessoas existe porque o catálogo telefônico é tacoSS^'^ Ínf°rmaçOeS a) Controle e hierarquia As telefonistas podem ser escutaHo mento.!1 d° controle-" controladora' 98 . O Que é m* . nào temn ^ ° assinante 1ue deve locutor." os nenhum poder sobre o inter— "Não sabemos quantas cha™ em seguida a anterior.contadores do tempo dè cada chamada. reclamaredesligado.mau-humOT havera sempre qualseja que a resposta foi muito dem^jf1*86"1 COTreta nã° foi USada' Acabamos com torcicolo de tanto Háum verdadeiro terVor por ca.e 1 . Seia ni. Assim.Dai a imPortância no interior P^sibihdade de conseguir uma vaga f ' ' Seja que foi muito curta.

as portas automáticas começam a fechar depois de um ruído. é preciso anunciar o número do posto receptor. Temos uma verdadeira sensação de estar acorrentadas. isso provoca um efeito de ruído. no começo de cada comunicação. recebem insultos racistas." "Trocamos de posto a cada período de trabalho." "Ficamos ligadas ao posto de trabalho por um equipamento munido de um fio bem curto. Devemos." "As vezes. Há homens trabalhando durante a noite. 99 . no metrô. "Estas brigas só nos causam tensão." "Quando alguém na rua nos diz bom-dia. pois as mulheres não têm o direito de trabalhar. antes. 'deixa qualquer um completamente idiota'. repetir: 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando'. mas não ousamos acreditar nisso. só temos um único ponto de escuta no fone. elas são Jevadas a dizerem coisas estúpidas. no momento do 'clic' . A noite.No centro telefônico em questão há 400 telefonistas. Por exemplo. para que as reclamações dos assinantes possam identificar a responsável. Ficamos amarradas. no interior daquele estado. que consiste. de maneira a se manter o mesmo ritmo de trabalho do dia." "Por outro lado. 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando' — e este é o único caso em que se pode desligar primeiro. Ora. Uma única resposta desagradável pode acabar com um dia de trabalho. e a telefonista pergunta-lhe se ele tem o número de seu correspondente. de modo que. resmungar de modo incompreensível o número do posto em que estamos. quando se sabe muito bem que não há ninguém. freqüentemente. semelhante ao do telefone: dizemos então o número do posto de trabalho. Mas repetir tudo isso três vezes. Na realidade. e com a outra orelha ouvimos os ruídos da sala de trabalho e as outras colegas falando." "Só podemos desligar se não há nenhum assinante do outro lado do fio. se reduz o número de pessoal. na cidaae de Paris. Muitas funcionárias são das Antilhas e têm um sotaque bastante forte. Às vezes. de interferência com a voz do interlocutor. são 1 000 ao todo. pois se a gente se vira é detida pela extensão do fio. A pessoa se irrita e pergunta se estão "gozando da cara dele". Então. a pesquisa de informações pode referir-se ao número do estado ou ao número do assinante." "Na saída do trabalho. um assinante pede um número de telefone do interior. sobretudo quando se trata de uma mulher. achamos um jeito. respondemos: 'o que o senhor deseja?'. não confiamos em nossa memória. manhã ou tarde. no trabalho. sabemos de cor uma informação.

a finalidade da informação telefônica. — finalmente. destacando cada sílaba. O exemplo seguinte demonstra-o: o plural de "Aux Fleurs" (Às Flores). as questões relativas à hierarquia. "Do ponto de vista do ritmo de trabalho. com medo de cair." As exigências de tempo e ritmo terminam por permear toda a vida. A finalidade da informação telefônica As informações telefônicas existem porque o catálogo é incompleto ou incompreensível. Depois. Há jeito para se perguntar. Por exemplo: "durante as pausas no trabalho a gente olha o relógio três vezes mais do que durante o trabalho. não é levado em conta na ordem alfabética. a forma e o conteúdo do trabalho. eu seguro o cor-rimão. o que nunca fazia antes. assim. E ao descer uma escada. O ambiente me parece sem cor. nos acostumamos com uma certa forma de pronunciar as palavras. o que mais queremos é que o assinante desapareça. ao tipo de comando e à organização do trabalho. na saída do trabalho. só atravesso as ruas nos pontos marcados. sem gosto. BUS 84. É menos cansativo falar assim do que falar normalmente. pois somos então melhor compreendidas e não precisamos estar repetindo." "Para se ter pausas maiores ou suplementares. por exemplo. que desligue. — segundo. ou durante as pausas. que fiquemos livres dele. nome de uma loja. por exemplo. Tudo é cinzento. De maneira que começamos a responder mais depressa. Enfim. Não tenho mais confiança. mal ele desligou e já há um outro chamado. para encontrar essa informação no 10G . repensamos nos números que são freqüentemente citados com letras." b) Discussão Três elementos principais ressaltam dessas entrevistas: — primeiro. constatamos que quando estamos nervosas.e verificamos tudo. quanto mais nos enervamos. continuamos a falar com essa voz nasaí." "Ao sair do trabalho. como naquelesketch de Yves Montand ("O telegrama"). é preciso armar uma estratégia especial em relação às chefias. Mas ai. mais depressa trabalhamos e mais chamadas respondemos. se 'a caixa está aberta'. Depois. sistematicamente. Assim.

Não se deve prestar atenção aos detalhes do que ele fala.T.U. Não se admite nenhuma variação no vocabulário. tudo aquilo que é próprio. pelo fato de se poder jer controlado a qualquer momento. dando-lhe a forma e o conteúdo P. na conversa dirigida ao silêncio: "Há alguém na linha? Há alguém? Desligando. uma proibição de ser ela mesma. do interlocutor.". Deve-se substituir seu enunciado por uma tradução.T. Não se deve ouvir suas hesitações." repetida três vezes. Não se deve escutar a maneira como se apresenta o discurso do outro.T. Não somente é probido se expressar e passar. de agressividade. ao controle e à organização do trabalho O eixo central dessa violência do poder baseia-se no estado per-manente de poder ser controlado.catálogo.F. Do discurso do outro deve-se extrair apenas a informação solicitada. ridículo e estereotipado como a forma. É preciso mencionar o nome "P. suas iniciativas. de prazer. nas palavras do outro.X. Não se deve perceber seu tom desagradável. Mas também é necessário que não se ouça. forma e conteúdo são quase sinônimos: o conteúdo fica tão limitado. transformando-o. É nesse duplo sentido que tanto a forma como o conteúdo do trabalho impedem qualquer relacionamento. Não se pode imaginar uma disci-Püna mais eficaz ou perfeita que a existente. por ocasião de uma conversa em que se comunicou com simpatia." é. Isso chega às raias do absurdo. sua personalidade. sem mesmo saber em que mo101 . a cada instante.U. e não em A. a mínima parcela de desejo próprio. Em outras palavras.F. no número de frases. nas letras A. sucessivamente. sua linguagem. Podemos compreender como deve ser horrível passar 8 horas por dia sendo uma espécie de prolongamento do catálogo. de algum modo. — O terceiro aspecto diz respeito à hierarquia. é preciso ir procurando.T. de bom-humor ou de cansaço. individualizante. depurando-o.T. Há uma contradição fundamental entre um serviço destinado à comunicação e a proibição de qualquer relação psico-afetiva.T. nas respostas aõ interlocutor. A forma e o conteúdo do trabalho Aqui. ao comando. a telefonista reprima suas intenções. nem no tempo utilizado para pronunciá-las! É obrigatório que. em resposta a um insulto. Falar "P.

onde a frustração alimenta a disciplina — base do comportamento condicionado. Devido a um processo que transforma a agressividade em culpa. E esta agressividade que vai ser explorada pela organização do trabalho. pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. e a propósito dos comportamentos condicionados. A frustração e as provocações acumulam seus efeitos. obedecer e jproteger-se da ansiedade originada pelo risco de ser pego em erro. Quanto mais a telefonista se enerva. De certo modo. Há um compromisso entre um "bem-estar" (em relação ao esforço requerido pela autp-repressão consciente) e uns "bem-estar menor" (em relação à vida psíquica espontânea). a propósito do sofrimento resultante do conteúdo vazio de sentido da tarefa. No primeiro plano. As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor. provocando. A auto-agressão tem formas múltiplas. qual pode ser o destino dessa agressividade? Uma análise. A telefonista transforma-se na artesã do seu próprio condicionamento. Pois ter medo de ser vigiado é vigiar-se a si mesmo. é implantado um círculo vicioso.mento esse controle é exercido. discutido no Capítulo 11. A exploração do sofrimento O trabalho de telefonistas propicia a ocasião de tratarmos da relação existente entre a "tensão nervosa" e a produtividade. permitiria mostrar que a única saída é de voltar a agressividade contra si mesmo (40). O condicionamento constitui. 102 . por intermédio de um retorno contra si mesma (41). Mas a amplitude da organização do trabalho tem. a propósito do trabalho repetitivo como protótipo de um sistema disciplinar. nesse caso. uma agressividade reativa. Este exemplo traz uma ilustração do que acabamos de descrever. de certa maneira. é a construção artificial de um autocontrole. Diante da necessidade de respeitar a realidade (salário e disciplina da fome). que não teremos como objetivo detalhar aqui. aparece a ansiedade: agir conforme as ordens recebidas. um papel muito importante. em conjunto. a telefonista tem interesse de orientar essa energia para uma adaptação à tarefa. Na impossibilidade de se encontrar uma saída direta. a sintomatologia da neurose marcada pela organização do trabalho. mais se sente agressiva e mais deve intensificar a auto-repressão. O medo e a ansiedade são os meios pelos quais se consegue fazer respeitar os preceitos hierárquicos.

menos pacientes etc. que o sofrimento psíquico. senão arrisca-se fazer descompensar uma ou outra.146). proibição de desligar. pode implantar-se urr circuito semelhante. 103 .. através de. mais rápido trabalham. Mostra-se então. mas respeitando-se. temos a angústia como correia de transmissão da repressão e. sem exagero. Contra o assinante desagradável. que o "nervosismo" das telefonistas (um dos elementos essenciais no quadro de sua neurose) e uma doença necessária. P. Mais do que uma verdadeira organização do trabalho. é o próprio instrumento para obtenção do trabalho. proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente. que a controladora pode obter melhor rendimento. não por excesso de zelo.Essa é a primeira saída possível." Via de regra. a reação agressiva não tem mais chances de se exteriorizar do que conira a controladora. "Algumas das telefonistas chegam a rendimentos excepcionais. especificamente. nas condições atuais. exasperando as telefonistas. oferecida à agressividade reativa eà frustração. que conduz afazer aumentar a produtividade. Essa constatação já havia sido feita por Bégoin. Proibição de responder agressivamente. É O SOFRIMENTO QUE PRODUZ O TRABALHO. mas porque o trabalho — dizem — as enerva. De maneira que a única saída para a agressividade. Para aumentar a produção. De modo que não é tanto exortando-as a trabalhar rápido mas provocando irritação e a tensão nervosa nas telefonistas. o controle das telefonistas aparece como uma tecnologia de poder mediada pelo sofrimento psíquico. aliás bem restrita. longe de ser um epifenômeno. de outro. a única solução autorizada é reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa. mas não encontrava explicação na teoria pavloviana. No posto de trabalho. O trabalho não causa O SOFRIMENTO. e consideramos "mais nervosas" aquelas que são mais facilmente irritáveis. Podemos dizer. O sistema de avaliação por notas e o modo de calcular a produção só fazem agravar esse estado de coisas (Bégoin. De um lado. e quanto mais nervosa ficam. crises de nervos. basta puxar a rédea do sofrimento psíquico. por exemplo. Eis aí um fato extraordinário.. é trabalhar mais depressa. são "as mais nervosas" que têm os melhores rendimentos. também. para a realização de suas tarefas profissionais. precisamente por causa do controle exercido. nesse trabalho de informações telefônicas. os limites e as capacidades de cada um. a irritação e a tensão nervosa como meios de provocar um aumento de produção.

e é tão ilustrativo que dispensa qualquer comentário: "Um médico do trabalho trouxe-nos um exempio impressionante (. A direção não pode fornecer um organograma das tarefas.. Colocadas num trabalho que era particularmente intensivo. assim como a tensão e o nervosismo. A frustração e a agressividade resultantes. que requeria uma habilidade profissional superior. E esse nervosismo que foi aqui selecionado. reina a ignorância sobre os processos e seus incidentes. O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento. antes de começar o trabalho. que se estrutura em função dos incidentes que se deve enfrentar.. em razão da própria natureza do trabalho. 1Ü4 . são utilizadas especificamente para aumentar o ritmo de trabalho. No caso das telefonistas. mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. Uma anamnese detalhada. 1%).Um exemplo extraordinário da utilização do nervosismo é dado pelo próprio Bégoin. Têm apenas "dicas" de um saber descontínuo: o nome do produto de entrada e de saída. os trabalhadores ignoram o funcionamento exato do processo industrial. tinha selecionado sujeitos que apresentavam. Podemos relacionar essa utilização do hipertireoidismo1 em mecanógrafas à da loucura narcísica nos pilotos de caça. Concluiu-se que a seleção profissional. entre tantos outros mecanógrafos. pouco tempo depois todas foram obrigadas a parar de trabalhar devido a problemas graves. em si mesmo.)■ Numa empresa. 2. A exploração da ansiedade Nas indústrias químicas. sobretudo. com vistas a um trabalho difícil. por um nervosismo extremo. haviam selecionado. espontaneamente. dos diferentes equipamentos etc. um certo número dentre as "melhores mecanógrafas" da firma. A ignorância dos trabalhadores: na maioria dos casos. como fonte de aumento da produção. avaliados como manifestações de hipertireoidismo. aceleração do ritmo cardíaco e. que expulsa o desejo próprio do sujeito. simultaneamente e por uma espécie de coincidência. o sofrimento resulta da organização do trabalho "robotizante". para um trabalho delicado. o nome da insta1 O hipertireoidismo corresponde a uma hiperatividade da glândula tireóide. A sintomatologia é dominada por tremores nas extremidades. mostrou que elas já apresentavam certos sintomas. uma tendência hipertireoidiana." (p.

sobre a qualidade final do produto. Entretanto. Este saber não está escrito. Mas não existe conhecimento coerente. dos escritórios de projetos. hà um saber próprio. Os operários aprendem. sua tonelagem. aos poucos. o operário associa os comentários dos colegas. Não há saber contínuo. Eles aprendem. deve-se manter um volume inicial que "retire o calor".V. Entretanto. fornecidos pelo painel da sala de controle. aos barulhos da máquina. que são a forma pragmática e operatória do saber do trabalhador. ao contrário do que postula a Organização Científica do Trabalho. Não existe nenhuma formação.lação. como entre os artesões. O saber circula a nível dos engenheiros. produto que entra na fabricação de certas matérias plásticas) que está indo bem. outro tipo de barulho significa que o P. sem intervenção da direção da fábrica.C. Existem apenas algumas instruções dadas pela direção: a temperatura de tal reservatório não deve ultrapassar 70°C. espontaneamente. ainda assim. pois é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho. (cloreto de poli-vilina. alguns dados quantitativos relativos aos limites de temperatura. O conjunto de "macetes" assim acumulados e coletivamente partilhados pelos trabalhadores é o que faz a fábrica funcionar. o fluxo de produção não deve descer abaixo de tantas toneladas por hora etc. Ao longo de sua experiência e tempo de trabalho. mas simplesmente circula entre os trabalhadores. não se formaliza. a esse respeito. não está indo bem e "faz bolhas". os trabalhadores detêm conhecimentos consideráveis sobre a empresa. a interferir nas etapas intermediárias do processo de produção: para que a temperatura não ultrapasse tal nível. Na realidade. a pressão. esse saber pragmático é incompleto e pouco tranqüilizador. mas não representam nem uma profissão com seu knowhow desenvolvido completamente.V. estas instruções são bastante insatisfatórias. nem sobie o próprio processo. seus rendimentos globais. é claro. pela instalação de um novo equipamento de exaustão ou de novas autoclaves. destinada aos trabalhadores. mas. uma série de "dicas". nem uma verdadeira formação ou uma 105 . não deve ultrapassar 25 atmosferas: em tal ponto. da matriz na capital etc. de pressão etc. Não nos enganemos. sua dam de instalação. quando existe um ambiente de trabalho onde há companheirismo.C. ao longo do tempo e por hábito. em tal nível. um certo barulho corresponde a um P. A transmissão desses conhecimentos é puramente oral. do mesmo modo. Os macetes funcionam. nem sobre o funcionamento das instalações. não se trata aqui de detalhes secundários! O essencial do saber é veiculado e utilizado de operário a operário.

formalidade de domínio completo sobre o instrumento de trabalho. O conjunto de "macetes" permite o funcionamento da fábrica, mas a soma das lacunas nesse saber pragmático produz um grande mistério sobre o andamento da produção. A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos, que nãu se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem, e que podem se repetir. Existem os problemas comuns, mas há também os incidentes estranhos e imprevisíveis, os acidentes sempre novos e, às vezes, únicos. I A ignorância das chefias técnicas: os trabalhadores sabem que os técnicos de nível universitário desconhecem o funcionamento da empresa e de suas instalações. São detentores de um conhecimento teórico e formaram-se em grandes faculdades, mas chegam na fábrica sem nenhum conhecimento prático. "No início, a direção da fábrica manda-os visitar as instalações, então nós lhes damos 'dicas' que nada querem dizer. Isso, às vezes, dura vários dias." E "depois de alguns dias dessa brincadeira, eles percebem que não chegam a lugar nenhum. E quando a direção autoriza-os a terminarem com as visitas, refugiam-se em seus escritórios e nós não os vemos mais". Constata-se que os técnicos de nível universitário, por seu lado, não saberiam fazer funcionar, sozinhos, as instalações da fábrica. O conhecimento teórico de que depõem é insuficiente para tal prática industrial, tão insólita. O único conhecimento prático se reduz às instruções oficiais, que são pobres em relação ao que representam os macetes dos operários. O pessoal de nível universitário admite, implicitamente, a própria ignorância: "Quando um de nós dá uma ordem, escutam-nos educadamente e, depois, quando viramos as costas, cada um faz como pode". E o que, implicitamente, de um lado e do outro, chama-se de "interpretação das ordens". Desse modo, em setores inteiros, reina a maior ignorância: "Quando há um acidente, aparece uma ordem nova". Os procedimentos oficiais avançam passo a passo. Freqüentemente, a direção pede aos operários para elaborar uma nova regra de trabalho. Quando houve uma explosão, por ocasião da introdução de um novo catalisador, "ninguém a tinha previsto". "Durante as greves, nós dicutimos as possíveis reduções de produção que não afetariam as instalações. E nessas discussões que a direção se mostra, Nos percebemos então que eles não sabem até onde >e pode ir. Foi assim que diminuímos o ritmo, mais do que 106

haviam dito que seria possível, e nada explodiu. Uma outra vez, um colega antigo me disse que já lhe acontecera de descer, uma vez, até 22%, e a esse nível tudo degringolou na produção, de vez." "Uma outra vez, eies nos disseram que era perigoso parar, porque reiniciar depois provocaria uma explosão. Eles sabiam disso porque houve uma explosão, na Inglatena, com 15 mortos. Mas nós, a gente bem que começou a primeira vez, e eles não sabiam que havia um risco." "Todo mundo sabe que não se sabe. " Quando acontece um acidente que não era previsível, na maioria das vezes, não é por falta de precaução, mas porque ninguém tinha antes nenhuma experiência a respeito. Essa ignorância, que permeia o funcionamento da empresa, tem um papel fundamental na constituição do Risco e no Medo dos Trabalhadores. Ignorância, medo e angústia O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/ trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em conseqüência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda conhecem os "macetes". O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que "a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes". Afirmação paradoxal! Pois poderíamos esperar que o trabalhador polivalente, tendo maior acesso aos "macetes", conseguiria um domínio maior do próprio instrumento de trabalho. Na verdade, acontece o contrário. Em sua própria função, o trabalhador — mesmo sabendo vagamente que ninguém sabe tudo — conforta-se com a divisão do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis desconhecidas. Quando se torna polivalente, descobre que as outras funções de trabalho são como a sua, e que a incerteza do colega vizinho é tão grande quanto a sua. O polivalente, na verdade, conhece um grande número de "macetes", mas acumula também zonas de ignorância, e assim está confrontado a uma extensão do risco. Cresce seu medo, e é freqüente, então, que assistamos a uma descompensação, conduzindo à licença médica, ao repouso forçado e a um tratamento medicamentoso "por depressão". 107

Segundo os próprios trabalhadores, são numerosos os companheiros que descompensam. De que maneira? Pode-se recuperar, nessa semioíogia, os estigmas do trabalho? E bem provável que os trabalhadores vítimas desses episódios invoquem — mas nem sempre — o trabalho. Muitas vezes, na verdade, o que tentam é esconder o medo, que lhes parece vergonhoso, ou disfarçá-lo, tanto dos outros como de si mesmos. E mesmo quando acusam o trabalho, em contrapartida, nunca incriminam o risco, nem o medo. A descompensação aparece então como um quadro misto, associado à angustia, à irritabilidade e à depressão. Para o médico, externo à empresa, não há ai nada de específico, pois a cristalização de todos os conflitos familiares, financeiros, sociais, acaba por conferir ao episódio um caráter mais pessoal do que específico do trabalho. Isso se explica, se admitirmos que, a partir de um certo nível, o . medo e a apreensão sofrem uma verdadeira dissolução na angústia; isso quer dizer que, transbordando, as defesas individuais deixam surgir conflitos intrapsíquicos, inevitavelmente reativadoi pela situação permanente de risco. Nenhum operário, como nenhum outro homem, está a salvo de uma explosão de angústia. Embora seja esquemática a separação entre medo e angústia, na prática, essa ligação é bem anterior, e, freqüentemente, não basta ao trabalhador sair da fábrica para ficar completamente confiante e calmo. Sobretudo se seus períodos de recuperação somatopsicologica forem cortados pela ruptura de seus ritmos de descanso (trabalho em turno alternado). A maioria dos operários precisa de remédios para dormir, mas também para se agüentar durante a jornada de trabalho. Os hipnóticos e ansiolíticos são largamente consumidos. Quando volta para casa, o trabalhador acorda de noite, angustiado, pois não sabe mais se fechou direito tal válvula. Será que pode explodir? Só ficará tranqüilo no dia seguinte, quando voltar ao posto de trabalho. E, pouco a pouco, toda a vida do operário é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho. Quanto maior for a ignorância sobre o trabalho, mais fácil será ultrapassar a fronteira entre o medo e a angústia. Na realidade, a ignorância consciente sobre o processo de trabalho aumenta o medo, porque torna o risco cada vez maior. Por outro lado, a ignorância facilita o aparecimento do medo. Sabemos que a atividade profissional, a qualificação, o know-how e o saber, em gerai, representam um dos mecanismos de defesa fundamentais para a economia psíquica. O trabalho — uma das modalidades de resolução de certos conflitos e de regulação da vida psíquica e somática — é, para certas pessoas, um modo privilegiado de equilíbrio. Nas indústrias petroquí108

Freqüentemente. de todos os tipos. Durante algum tempo.micas. constituindo-se verdadeiros cenários de ação. que põem em perigo a vida dos operários. Exagerando um pouco mais. um grupo de operários jogou-se sobre ele. que se prolongam por dias e às vezes semanas. Ainda caído por terra. com o dorso das mãos. como há também brincadeiras e gozações de dimensões inusitadas. Às vezes. Atrás de uma pilastra. As defesas coletivas contra o medo: "as condutas perigosas". e em meio aos risos e a uma folia geral. de modo que a enganação seja descoberta. e nunca mais foi visto na fábrica. começando a praticar uma série de massagens musculares na perna machucada. em ambulância. como já havíamos assinalado. durante muitos dias um bom número de trabalhadores crédulos seguem essa norma. com o risco de feri-los. com regras absurdas e inventadas. a vida psíquica dos trabalhadores a duras provas. teve a perna presa numa proteção de máquinas. passando pelas competições esportivas no próprio local de trabalho. submete. enterrar este episódio. às vezes perigosos. as mais freqüentes dizem respeito aos "jogos relativos à segurança". praticam-se jogos verdadeiramente perigosos. gera o meuo e destrói certas defesas contra a angústia. que vão dos jogos de cartas aos jogos perigosos. Os trabalhadores chamam tais 109 . corridas e jogos de bola que duram a noite inteira. manifestamente. há rallyes. fugindo da brincadeira. a atividade dos trabalhadores em indústrias petroquímicas é interrompida por práticas insólitas. bastante forte. A direção quis. o trabalho que traz em si riscos. esses tempos livres são utilizados para conversas entre os trabalhadores. Há verdadeiros jogos "olímpicos" no interior da usina. até o momento em que se aperceberam que a perna estava fraturada. contra os Colegas que passam. simularam gestos médico-ci-rúrgicos. um trabalhador usa o extintor de incêndio dirigindo seu jato. Faz-se correr o boato de que é preciso vestir uma roupa especial de proteção contra certos riscos imaginários. induz-se os "patos" a se dirigirem à direção. De tempos em tempos acontecem acidentes. Foi assim que nos contaram que um operário negro. Há concursos. mas são também oportunidade para jogos lúdicos. que se prolongam por vários dias. O operário negro foi levado embora. é verdade que o trabalho tem vários momentos de pausa. assim. sem que nenhuma punição ou repreensão tivesse sido feita aos colegas responsáveis pelo incidente. Entre estas. para pedir novos equipamentos. Foi indenizado e a direção pagou até suas dívidas.

inúteis e simbólicas ("trotes"). obscuro. em inventar novas regras de segurança. ao mesmo tempo. a temática da ansiedade e a encenação da segurança. em transgredir às vezes as regras mais elementares de salvaguarda (assar costeletas). E desse modo. na verdade. mas. Perguntam-se porque aqueles que trabalham em turnos comem tanto. Quando falam desse hábito. até mesmo em criar novos perigos. Essas condutas perigosas aparecem. para ridicularizar aquelas já existentes (liberar vapor).òoT. a champanhe e outras bebidas alcoólicas. são queimadas 380 toneladas de combustível.). sobretudo à noite. e também como uma tentativa de domínio simbólico * Estamos na França' (N. ao acidente ou fim de uma carreira. Tais banquetes são também ocasião para uma teatralização da segurança.dol. a provocar pânico entre os engenheiros que. adivinhando que esconda algo importante. freqüentemente.' como de festas.** Se prestarmos atenção nas associações de idéias que permeiam o discurso dos operários.000 francos. exigiram que a direção mandasse um novo filtro de compressor. acabam mal.. liberaram vapor. que não têm nenhuma outra relação.* Os trabalhadores têm o hábito de falar de seus "banquetes". em alguns instantes. como um enorme desafio ao risco. então. as válvulas e liberar vapor sob pressão nos telhados da usina. com os perigos próprios ao processo de produção (os jogos perigosos que terminam em acidentes). são acordados pelos alarmes no meio da noite. tudo consiste.000. prática que todos reconheciam. que utilizaram como gr/7/ para assar pizzas! Nesse mesmo sentido. inutilmente. largamente "regado" a vinho. para assar costeletas em um segundo. Uma vez.00(N. eles riem.brincadeiras de "trotes e admitem que. entretanto. reconheceremos facilmente o elo entre a situação de risco. conduzindo às vezes à depressão nervosa.) ** CetcadeUS$25. em suas casas. a 800"C. senão simbólica. As encenações. ou seja. interrogam-se sobre seu significado. a ponto das vítimas descompensaiem. Na verdade. como perigosa. tendo "depressões nervosas". exprimindo um certo mal-estar sobre a quantidade de obesos que conhecem.. assim. acabam mal. à noite. Isso significa que são voluntariamente levadas longe demais. 110 . Uma outra prática freqüente é a dos janrares grandiosos. muitas vezes. isto destina-se. cerca de 170. dado seu caráter estrondoso. que reúnem os trabalhadores para um verdadeiro festim. Outra prática inútil e perigosa é de abrir.

Ao contrário. outros operários. mostrou-se que o medo atingia um nível menor: — Retivemos aí. assim. para nós. o tempo parece ter um papel essencial em relação à luta contra o medo. as "dicas" e a participação na vida coletiva irão aliviar seus esforços. das fábricas em que trabalham (monstro feroz e misterioso etc). são como marmitas". Em contrapartida. para todos os outros que delas participam. um dia ou outro será a vítima. a implantação de novas usinas e a substituição dos velhos equipamentos. E a este preço que funciona o sistema defensivo. Porém. aquele que fica de lado nessas práticas. a multiplicidade de tarefas. quando a comparamos com a representação que têm.do medo. ele deverá enfrentar. para ser eficaz como defesa contra a ansiedade e o medo. De maneira que essas condutas perigosas funcionam. de regulação e manutenção diferentes. um clima de cumplicidade protetora. — A idade da fábrica. sua ansiedade. como um sistema de seleção — pela exclusão dos vacilantes. que encontramos também junto aos trabalhadores da construção civil. Parece que. numa fábrica onde fizemos uma de nossas pesquisas. o medo criado pelo clima psicológico do qual não participa. o hábito. Fica difícil avaiiar com exatidão os efeitos dessas defesas coletivas sobre a população operária como um todo. além do medo criado pelos riscos do processo de trabalho. por outros de capacidade superior. instalada há várias décadas na região (desde a Primeira Guerra Mundial) e que conhecera todas as gerações de equipamentos e processos. efetivamente. — O tempo de serviço dos trabalhadores dessa fábrica: freqüen- . O recurso surpreendente a uma comparação com um objeto familiar não poderia deixar de espantar. Mas uma mudança de posto de trabalho. dentro de um esquema já clássico. provavelmente. Na realidade. Se o jovem operário supera com sucesso seu teste de início do trabalho. fazem reaparecer ainda mais a relação de ignorância que o operário tem para com seu trabalho e. Mas. a cada dez anos. a encenação deve ser levada aos extremos e chegar a provocar vítimas. como defesa contra o medo. expressões significativas como "as caldeiras e cubas. funcionando então. cria uma intensa coesão. "O costume" E o último elemento a ser considerado nas defesas contra o medo. no discurso dos operários. a polivalência ou a instalação de um equipamento novo reativam a ansiedade.

Ficam atentos e ativos. do interior de um país da África do Norte. os operários estão especialmente sensíveis e atentos a qualquer anomalia. e nesse caso é impensável "deixar o barco afundar" (como numa linha de montagem). já haviam trabalhado nela. A fábrica já "entrou nos costumes". com o tempo. e confrontados brutalmente a um modo de trabalho que lhes é completamente estranho. não há passado. em comparação com as refinarias modernas. O risco diz respeito a todo mundo. O medo é utilizado pela direção como uma verdadeira alavanca para fazer trabalhar. de modo que em caso de quebra. a qualquer incidente no desenvolvimento do processo de produção. nas gerações. na familia. e mesmo o avô. e que a produção principal ficou sempre a mesma. Quanto melhor estiver o processo de produção. implantada no pós-guerra. Pois toda a população local vive dela. pois com esse tipo de atmosfera de trabalho. a mina. intervém imediatamente. nas conversas. mais do que o perigo do momento. não poderia dar. A fábrica tem um aspecto vetusto. 112 . por exemplo. o hábito venceu. O risco cria. na vida. E. a iniciativa. Mas o medo foi substituído por uma tensão menor. O exemplo dessa empresa. Nas novas fábricas ainda não há tradição. no Norte da França. direta ou indiretamente. O contraste existente entre os operários dessa fábrica e aqueles que vivem a ansiedade permanente das novas fabricas lembra o contraste entre operários de países industrializados e os trabalhadores imigrantes. ou desejar uma deterioração do instrumento de trabalho. recentemente deslocados de seu campo. que a direção. Efetivamente. mesmo se a ocorrência não for diretamente ligada a suas atribuições diretas. espontaneamente. O medo partilhado cria uma verdadeira solidariedade na eficiência. conhece-se a empresa e o processo. favorece a multiplicidade de tarefas e permite a economia de uma formação verdadeira. a direção mantém voluntariamente os trabalhadores num estado de alerta permanente. Lembrandp sem parar as diversas modalidades dos riscos. leva a pensar que o tempo talvez tenha um papel importante na evolução do sofrimento psíquico dos operários em indústrias de processo contínuo. — A estabilidade do pessoal. A fábrica mata tanto como. Deve-se ressaltar também o fato de que os próprios prédios da fábrica não se modificaram em várias décadas. a ameaça não poupa ninguém. o medo serve à produtividade. o pai ou a mãe. aliás.temente. na própria cidade. vazamento ou qualquer outro incidente. Todos esses elementos favorecem o desenvolvimento de uma espécie de tradição local estabelecida por diversas gerações. mais tranqüilos estarão.

se no começo essas normas são respeitadas. 1 113 . por parte da direção. é sempre a segurança. em suas duas faces inseparáveis: — Como resultado. conscientemente. Entretanto. permite a diminuição do ritmo do processo. A paralisação da produção acarretaria não somente prejuízos para o instrumento de trabalho mas. por meio de processo e de uma técnica ainda não dominados. inevitável. para pressionar os trabalhadores e fazê-los trabalhar. por assim dizer. e em torno do qual todos os movimentos reivindicatórios se organizam. Quer se trate de salários. e a sabotagem fica definitivamente excluída. vê-se bem que. o mais freqüente é que a direção force sua ultrapassagem permanente). Para funcionar. mas que fazem parte de uma escolha consciente. E fundamental que avaliemos a articulação: Ignorância-Risco-Medo-Segurança. ■O melhor exemplo e dado pela forma extraordinária que tomam os Bconflitos. segundo cotas que são objeto de negociações intermináveis entre a direção e os trabalhadores. da produção.. Nesse mesmo sentido. a greve só pode começar em uma data fixada. fixado previamente pelo construtor (na realidade. e que o mito repousa sobre a ignorância que reina. Nesse sentido. sobretudo. — Como instrumento de produtividade e de controle social. instrumentalizado pela direção. de qualificação profissional ou Ide condições de trabalho. por isso. arriscaria provocar acidentes. demonstram o uso abusivo que dela faz a direção. de ambos os lados.O medo e a ordem social na empresa à O medo è também um instrumento de controle social na empresa. esse tipo de processo não deve nem ultrapassar um volume final máximo. sozinho. a elevação perigosa de certas temperaturas. as lutas têm um papel importante na desdramatização do cenário da segurança. a prática demonstra que. aqui ou ali. completa e original de exploração. em alguns pontos. O medo é. desativando parcialmente a ansiedade. nem cair aquém de uma produção mínima. as greves selvagens muito raras. O argumento usado pela direção. A paralisação repentina. os trabalhadores em luta transgridem as regras de uma segurança que atingiu o estatuto de um mito indiscutível. ou durante certa campanha relativa a um produto que. é impossível. quando certa instalação está em fase de manutenção ou quando se atingiu uma certa fase do processo. bloquear o fluxo de rea-gentes em certas canalizações etc. De modo que o mais freqüente é que a greve seja feita sob forma de uma redução da produção. Através disso. sobre os limites exatos que não se deve ultrapassar. sob pena de provocar. as greves clássicas são raras e mesmo impossíveis em certas usinas petroquímicas.. representando uma forma total.

mas são fragmentados e não bastariam para fazer funcionar a empresa. Por outro lado. de rápida obsolescência e grande capacidade de tratamento do produto colocasse a direção em posse de um material que poderia render muito dinheiro sob a condição de saber usá-lo e conserválo. que puderam elaborar e desenvolver um know-how. eles estão desarmados de um saber pragmático. Vemos. simul114 . A descoberta e a produção dos "macetes" da profissão são. no que concerne ao processo de produção. de algum modo. em relação a tudo aquilo que diz respeito ao funcionamento e controle. que não são nada comparáveis. nesse confronto entre equipamentos monstruosos e ameaçadores e operários sem nenhuma preparação ou formação efetiva. Freqüentemente. è preciso encontrar "macetes" ao longo de um tempo que se mede. projetistas e construtores não sabem onde pisam. O estado de medo e de alerta que não abandona o trabalhador durante todo o tempo. como já mostramos. dotada de instalações sofisticadas. fruto das potencialidades criadoras e inventivas dos operários. às vezes. Mas. que um operário descobre a seqüência de variações. depois de uma série de incidentes que se reproduzem ao longo de dois anos. Não se trata de afirmar que tanto direção quanto engenheiros. arrancada dos trabalhadores pelo medo. Não nos enganemos: os "macetes" não são simples truques. a descoberta das "dicas" é. São os trabalhadores que. Assim. transmitem oralmente seus "macetes". nesse caso. A implantação de uma fábrica é a prova de um certo conhecimento. segundo os casos. mas o operário detectou dois ou três sinais. pressionados pela situação ansiógena a se adaptarem o mais depressa possível. são fruto de muitos anos de observações cotidianas. "macetes" têm. através de séculos de prática. descobrem e. de certo modo. formulados em instruções de uso. espicaça a imaginação e excita a curiosidade. ao longo de sua prática. de flutuações e de alarmes que levam ao incidente em questão. um caráter vital. É lógico que detêm certos conhecimentos técnicos. então. diferentemente dos artesãos. pois é graça a eles que os trabalhadores conseguem controlar ou dominar o processo. modernas. entre alguns dias e alguns anos. ao contrário. É neste corpo-a-corpo violento que se elabora o saber operário. graças à descoberta e à produção de conhecimentos pragmáticos sobre o próprio instrumento de trabalho. Mas. É assim que. Não há nenhuma ligação lógica entre os diferentes elementos dessa seqüência.Medo e imaginação Tudo se passa como se a instalação de uma usina petroquímica.

pede aos trabalhadores para eles mesmos "bolarem uma fórmula" destinada a evitar sua repetição. evidentemente. para simplesmente reduzir a carga de trabalho. o medo. testemunham. e evitá-lo. sua articulação. que consegue criar pontes na descontinuidade do saber do pessoal de nível superior. é que não se trata de simples "truques". Do mesmo modo. de agora em diante. a mobilização dos operários. É puramente pragmático e resulta da experiência e da observação *. De qualquer modo. nas quais ainda não são eficazes. já havíamos mostrado que. * Grifo da tradução. mas é exatamente esse saber que faz a fábrica funcionar. isto é. quando o sofrimento é útil à produtividade. ''As dicas" constituem um saber operacional e seu conjunto compõe um modo operatório. Este tipo de saber não se articula com nenhum conhecimento teórico. pode ser estimulado pelas chefias. 115 . "dicas". a descoberta e a invenção de modos operatórios eficazes. prever o incidente que se produzirá alguns minutos mais tarde. que somente os operários conhecem de verdade.lâncos ou sucessivos. O que é fundamental nesse "sistema de "macetes". só que restam ainda muitas zonas obscuras. O mesmo vale para a ansiedade. sua colocação em prática e seu campo de extensão. cujo valor "funcional" para produtividade pode conduzir à sua utilização como técnica organizacional de comando. Por ocasião do relato sobre o trabalho das telefonistas. a direção sabe muito bem a importância desse saber prático quando. depois de um incidente. pedir ao colega do posto vizinho para diminuir um outro parâmetro. aumentar a saída ali. que vão lhe permitir. quando aparecia certa anomalia. indispensáveis ao funcionamento da empresa. um outro operário descobriu uma espécie de receita para responder a ela: diminuir um pouc a pressão aqui. Em resumo. exerce uma pressão no sentido da ordem social e estimula o processo de produção de "macetes". a temperatura lá. Por outro lado. inegavelmente. a rapidez de desenvolvimento destes "macetes". a exploração do medo aumenta a produtividade. como vemos em outras situações de trabalho. Mobilização cujo motor principal ainda é.

descrito no Capítulo 11]-c.A participação dos psicólogos — A exploração pelo medo No caso em questão. "encheram-lhes" a cabeça com teorias sobre a complexidade da causalidade em matéria de acidentes: 3. é apenas o encadeamento.. devido ao envelhecimento da empresa e do pessoal. foram culpados pela noção de "poliacidentado predisposto". à aparente negligência dos operários. em relação a outras fábricas. FICHA M. a direção implantou uma "formação" interna sobre a segurança. trata-se. da empresa matriz. como subtítulo: "a predisposição nunca é acidental. E numa das fábricas pesquisadas onde melhor apareceu o papel dos especialistas." Estudaremos uma ficha de poliacidentado e politraumatizado. Quem dirigia os estágios tinha se especializado em técnicas psicos-sociológicas nos Estados Unidos. os operários relatam que: 1. Trata-se justamente da fábrica onde elaborou-se uma espécie de tradição operária em relação ao processo de produção. inevitável. 11 dos quais com paralização do trabalho. constatamos que seus acidentes distribuem-se em: 116 i . de longas digressões em torno da seqüência de causalidades que intervém no determinismo dos acidentes. não tiraram nada de útil nem de prático. mais recentes. forneceram-lhes uma apostila onde se reproduzia um exemplo de acidente. que reproduziremos por extenso. demonstrando-se "que um acidente. o manual intitula uma página inteira com "Os poliacidentados predispostos são uma minoria de 1 a 2% que sofrem acidentes graves" e. Simultaneamente ao "costume". Sobre o conteúdo desses estágios. 2... enquanto fenômeno. podemos afirmar a equivalência entre a exploração do medo e a exploração pelo medo. de causas preexistentes"! Com relação ao item 3. 13 acidentes declarados. na realidade. acrescentava-se uma íreqüência de acidentes julgada bastante elevada pela direção central. em dez anos de trabalho..2 Esse "mecânico polivalente" sofreu. Se começarmos o estudo de sua ficha pelos gráficos iniciais. Para responder à questão. pode-se sofrer 15 acidentes sem aí haver nenhum grave. Com relação ao item 2.

rue Ed. Isso explicava a maioria das lesões sofridas do lado esquerdo. podemos verificar que basta transferir o operário de seção. contusão. — 3 acidentes oculares: — ponto vermelho. queimaduras. — no mês. — em quatro horas. picadas. 13006 Marseille.— 9 acidentes são da categoria de base: — cruz vermelha. Primeira constatação: a categoria de base e dominante. entorse. Rostand. Por ocasião do 13'. Esses exames mostraram que o operário em questão era portador de uma deficiência oriunda de um "acidente nervoso" sofrido quinze anos antes. Segunda constatação: os acidentes distribuemse regularmente no tempo. não há razão para que não o seja também num outro posto! O que aparece. os dedos indicador e médio da mão esquerda foram amputados pelo equipamento em movimento. grafismos e palavras sublinhadas são do autor da apostila.. para que diminua seu "índice de acidentes". Somente após esse acidente se elaborou a ficha individual. sem nenhum agrupamento: — em quatro dias.' acidente. Transferido para uma oficina de "montagem de pequenas peças". Cada vez que "comandava uma ação" com seu lado esquerdo. Service Prévention Incendie.. Ao retornar ao trabalho.) (Apave Marseille. Esta dupla constatação indica que encontramos um poliacidenTADO PREDISPOSTO. NOTA: "A tomada de consciência desse caso só ocorreu a partir do acidente grave". seu índice de acidentes melhorou sensivelmente. (Todos os títulos. 32. não o trabalhador. O efeito í 117 . tinha reflexos particularmente lentos.) Concluindo. para evitar o trabalho em máquinas. ocorrido em uma prensa. — / acidente da categoria intermediária: — triângulo preto. é a idéia de "poliacidentado predisposto" e sua associação a uma deficiência psicológica. o médico do trabalho submeteu-o a toda uma bateria de exames. e com seu consentimento. estiramento muscular. entre os quais alguns testes psicotécnicos. Se ele fosse realmente predisposto. fraturas. acima de tudo. — feridas. o que eqüivale a dizer que o que mudou na situação foram exatamente as condições de trabalho. — dores.

não funcionam mais do que alguns meses por ano. idênticas às que são operacionais na França. onde o essencial do trabalho consiste em intervir nos incidentes. são insensíveis às ameaças industriais e aos riscos.principal obtido — e do qual testemunham os operários —. Um outro exemplo do papel representado pelo estímulo do medo nas indústrias petroquímicas encontra-se na entrevista de uin diretor de manutenção argelino. por séculos de civilização industrial. pensaram imediatamente: "poliacidentado predisposto". alguns deles. as estatísticas indicaram uma redução dos acidentes. Desse modo. 118 [li .. o mesmo acidente teria provocado a intervenção precipitada de vários operadores. ao se acidentarem em trabalho. as fábricas. Segundo o diretor. As refinarias importadas pela Argélia e completamente montadas no local. mesmo posteriormente. ninguém intervém quando sobrevém um acidente. e só foram declará-lo na enfermaria quando não havia gravidade evidente. Não tendo sido preparados. estimulados pelo medo de ver a pane desencadeando uma espiral de catástrofes. è que se sentem culpados no final do estágio e. Dessa maneira. ficam sempre paradas. Nessa instalação. se não estiver diretamente ligado à sua tarefa específica. Na França. a causa é a mentalidade dos operários argelinos. aos ritmos de trabalho intenso e ao medo..

Vamos mostrar. justificável até agora por motivos didáticos. do mesmo modo que podemos observar com a exploração da força física. A questão é saber se a exploração do sofrimento pode ter repercussões sobre a saúde dos trabalhadores. cuja reputação é a de serem estritamente manuais. como funcionam os diversos sistemas de defesa colocados em prática para contê-la. a organização do trabalho como sua causa principal. Para encontrar. 119 . podem ser utilizadas pela organização do trabalho para aumentar a produtividade. na abordagem psicopatológica da organização do trabalho. por sua vez. Talvez o mais insólito. em seguida. Nas páginas seguintes não manteremos mais a separação entre insatisfação e medo.A organização do trabalho e a doença Até agora. faremos referência à economia psíquica e somática global. provocado pela organização do trabalho. necessitamos recorrer a noções de psicopatologia mais clássicas. nosso esforço de pesquisa e interpretação foi no sentido de revelar um sofrimento nãoreconhecido. Para avaliar os efeitos da exploração mental sobre a saúde. é que a exploração mental seja fonte de mais-valia nas tarefas desqualificadas. As estratégias defensivas. mas mais especializadas. em algumas doenças.

Toda descompensação psiconeurótica fraduz-se. as neuroses e psicoses descompensadas são imediatamente detectadas através dos critérios de rendimento na produção. indubitavelmente. Resta saber se as descompensações são sempre evitáveis ou evitadas. a mínima. Agitada. Basta acrescentar. toda uma seção de trabalho. para impedir que se transforme em patologia. para compreender que a seção de trabalho deve assegurar uma verdadeira "assepsia mental". que atingem. a esse mecanismo de exclusão. provavelmente. Alguns momentos depois. então.O sofrimento invisível Com raras exceções. no escritório. uma outra tem uma crise de choro e abandona sua função. Veremos a seguir como a organização do trabalho é. Mesmo intenso. As neuroses. a contraventora é conduzida à enfermaria. basicamente feminino. precisamente. na oficina. Os autores de um relatório sobre a análise do trabalho nesse ramo industrial mostram que o aumento da cadência. o sofrimento ê razoavelmente bem controlado pelas estratégias defensivas. o 120 . descompensa em crises de choro. em duas circunstâncias. quase que regularmente. "uma série de descompensações". a aceleração dos tempos e a exigência de desempenhos produtivos de rendimento crescente conduzem a descompensações rápidas. O pessoal. Enquanto esse incidente fica isolado. a chefia direta intervém. O outro exemplo será extraído de uma pesquisa com operários da fábrica Renault. dos nervos e desmaios. A primeira concerne ao aumento dos ritmos de trabalho na indústria eletrônica (101). que nos servirão aqui como exemplos. pela utilização dos sistemas defensivos descritos anteriormente. que se desencadeiam como epidemias. Segue-se. Nos fins de semana. por uma queda no desempenho produtivo. A punição sistemática é a exclusão imediata do trabalho. Assim. uma operária começa. geralmente com uma diminuição dos ritmos de trabalho! Basta diminuir a pressão organizacional para fazer desaparecer toda manifestação do sofrimento. psicoses e depressões em situação de trabalho são compensadas. em cadeia. num quadro psicopatológico. certas técnicas de seleção de pessoal. Esse fenômeno pode ser observado. Mas se diversas operárias descompensam. Se admitimos a possibilidade de descompensação. todas as situações de que trataremos a seguir não deixam entrever nenhuma doença mental caracterizada. freqüentemente os primeiros que aparecem. de repente. a tremer e a gritar. devemos nos perguntar porque não vemos nenhum vestígio dela na fábrica. como uma doença contagiosa. a causa de certas descompensações.

Este exemplo mostra que se os ritmos de trabalho são mantidos no nível máximo da tolerância. Os carros do começo da semana e do fim de semana. os carros que saem da fábrica naqueles dias têm muito mais defeitos do que os que saem no começo da semana. Mas. Só a doença é admissível. quebram-se ferramentas. Mesmo sabendo que não está propriamente doente. 121 . Duas soluções lhe são possíveis: largar o trabalho. ressoam gritos. muito mais defeituosos do que os carros do meio da semana. provocam irrupções coletivas de agressividade. isoladamente. ainda assim. até mesmo a parada da produção. as chefias esforçam-se para manter os ritmos de trabalho num nível tolerável pela maioria dos trabalhadores. qualquer anomalia ou irregularidade. É assim que se define a norma. a desquaHficação do sofrimento. o trabalhador deverá apresentar um atestado médico. Forçosamente. A segunda solução é representada pelo absen-teísmo. A consulta médica termina por disfarçar o sofrimento mental: é o processo de medicalização (53). diretamente. via de regra. mas na mesma semana. o operário esgotado e á beira da descompensação psiconeurótica não pode abandonar a fábrica sem maiores explicações. mas a medicalização visa. Os trabalhadores que têm problemas com seus carros próprios costumam dizer. aumentam as peças quebradas durante a produção. Voam parafusos pelo ar. Explode. Por isso. e rejeitadas ao fina!. seus efeitos se farão sentir não-somente à distância. a saída será individual. É geralmente nesses momentos que se vê também algumas brigas de socos. Com a desordem instalada. apesar do barulho das máquinas. é lógico. O sofrimento mental e a fadiga são proibidos de se manifestarem numa fábrica. além disso. No fim. não consiga manter os ritmos de trabalho ou manter seu equilíbrio mental. Quando o limiar coletivo de tolerância não é ultrapassado. no que este pode ter de mental. entre o começo e o fim dela. que se distingue bastante do processo de psiquiatrização (14). geralmente acompanhado de uma receita de psicoestimulantes ou analgésicos. entre si: "é um carro de sexta-feira". mas também uma norma mental. muitas vezes a linha de produção pára. Uma norma de produção. e até mesmo entre o começo e o fim do dia. são. a agressividade contra as chefias. São as fórmulas encobertas pela rotatividade. pode acontecer que um trabalhador. trocar de posto ou mudar de empresa.ambiente da seção fica bem especial. na medida em que se procura não-somente o deslocamento do conflito homem-trabalho para um terreno mais neutro.

Mas não é suficiente para explicar o momento "escolhido" pela descompensação. em última instância. Apenas algumas interpretações simplistas atribuem à sociedade a causa de todas as doenças mentais (4). Mesmo que a realidade tratada nas descompensações psicóticas e neuróticas não tenha nenhum poder patogênico. da estrutura (42) das personalidades. nem neuroses do trabalho. Não existem psicoses de trabalho. Certos trabalhos (19) consagraram-se ao estudo e à caracterização das situações reais que influenciam as descompensações psicóticas.1. Ilustraremos tais afirmações com um caso clínico. não se pode evidenciar nenhuma afecção somática. que se opõe aos investimentos das pulsões e às sublimações. A doença mental Contrariamente ao que se poderia imaginar. O defeito crônico de uma vida mental sem saída mantido pela organização do trabalho. Isso significa que a organização do trabalho não tem nenhuma importância nas doenças mentais? (5) As descompensações psicóticas e neuróticas dependem. O surgimento de uma descompensação psiconeurótica não deixa de colocar alguma^ questões que ainda não foram resolvidas. tem provavelmente um efeito que favorece as descompensações psiconeuróticas. a organização do trabalho. Depois de uma pesquisa detalhada. A estrutura de personalidade pode explicar a forma sob a qual aparece a descompensação e seu conteúdo. a não ser pelo conteúdo que veicula. Um trabalhador de 26 anos é encaminhado a um serviço especializado de um hospital parisiense e hospitalizado por mal-estares cada vez mais freqüentes. que faz com que o aparelho mental perca sua versatilidade. II 122 . adquirida muito antes do engajamento na produção. que deixa sem saída uma parte importante da energia pulsional. o sistema frustraçãoagressividade reativa. como correia de transmissão de uma vontade externa. mesmo sem nenhuma ocorrência específica. clínica e paraclínica. do que em seu determinismo. Até os maiores e mais ferrenhos críticos da nosologia psiquiátrica não conseguiram provar a existência de uma patologia mental decorrente do trabalho. a exploração do sofrimento pela organização do trabalho não cria doenças mentais específicas. admitamos que a realidade. Deve-se levar em consideração três componentes da relação homem-organização do trabalho: a fadiga. pode favorecer o surgimento de uma descompensação. A organização do trabalho talvez inscreva seus efeitos mais nas possibilidades de tratamento de uma doença mental.

a consolidação de uma fratura ou a cura de uma intoxicação aguda. subseqüente ao recente nascimento do primeiro filho. Essa síndrome aparece. Seria uma situação absurda na ausência de outras qualificações profissionais. em especial nas tarefas de pouca qualificação profissional. No momento em que numerosas psicoterapias e psicanálises são reembolsadas pela Previdência Social. era contraindicado em razão dos efeitos desses medicamentos sobre a vigilância. efeitos esses susceptíveis de favorecer acidentes de trabalho. devia participar da ideologia defensiva da profissão. podemos nos perguntar se essa contradição entre o trabalho psicoterápico e a organização do trabalho não é questionada pela raridade de operários que se beneficiam de tais tratamentos. sem substrato orgânico. uma entidade. ou seja. Trata-se da "síndrome subjetiva pós-traumática". psicopatológica. poderia talvez encontrar assim uma explicação original. uma demonstração. pedreiro de profissão. sem dúvida. como foi descrita no Capítulo III. Caracteriza-se por uma grande variedade de problemas "funcionais". A análise das defesas fóbicas implicava simultaneamente no questionamento de um sistema defensivo necessário à continuação do trabalho (em virtude de uma semelhança de estruturas entre defesa fóbica e ideologia defensiva da profissão). Entretanto. em geral. O recurso a terapêuticas psicofarmacológicas. não se mantém mais de pé os argumentos de ordem financeira como a única explicação capaz de dar conta da discriminação social no que concerne ao tratamento psicoterápico e psicanalítico. poderia ter um papel importante no que chamamos atualmente de casos inanalisáveis (87). em 100%.Uma anamnese psiquiátrica permite afirmar que se trata de uma descompensação de uma neurose histerofóbica. após a cicatrização de uma ferida. não apresentava nenhum problema no trabalho. ou pela persistência anormal de um sintoma que apa123 . como conseqüência primeira. parar de trabalhar. O operário. Esse exemplo mostra como o tratamento de alguns doentes entra em contradição com a organização do trabalho. Em geral. entretanto. em si mesmo. com a crise econômica impedindo qualquer esperança de reciclagem profissional. se a organização do trabalho não pode ser considerada como fonte de doença mental. aliás pouco úteis nesse caso. a psicoterapia foi impossível e deixada de lado por interferências de cunho profissional: trabalhador em construção civil. Esse exemplo não é. Continuar a psicoterapia acarretaria então. A organização do trabalho. uma psicoterapia era tratamento do qual poderia se beneficiar qualquer paciente No entanto. A técnica psicoterápica estava desde o início condenada ao fracasso. Estando resolvidas as questões materiais.

No final da estória. Para esta síndrome. não chegam a nenhuma conclusão. Seria. A referência à ideologia defensiva das profissões da construção civil permite estabelecer uma explicação psicopatológica: tudo se passaria como se o aeidente comprovasse. As pesquisas clínicas e paraclínicas. freqüentemente conduzindo q paciente a um estado misto. A coragem. Ao mesmo tempo. a partir de então. compreende-se que o trabalhador acidentado recuse energicamente retomar o trabalho. uma ferida no couro cabeludo provocada pela queda de uma pedra. o doente não se beneficia de um tratamento realmente eficaz. Já mostramos (Capítulo III) que a consciência exata do risco presente durante o trabalho torna impossível a continuidade da tarefa. Somente uma doença mental caracterizada permitiria a aquisição de um status de ínvalidez. feito de reivindicação e de depressão. reconhecer sua falência. recusar-se a retomar o trabalho. O papel do acidente é. automaticamente. cefaléias. não têm o direito de existir no local de trabalho. até então. aí também. somente o sofrimento físico pode ser reconhecido pela organização do trabalho. depois da raspagem e cura. geralmente. Assim. a ansiedade. enfrentar individualmente o perigo e o medo. sua impotência. limitado àquele de "fator reativo" ou "elemento desencadeador". seu medo. Muitas vezes. Instaura-se então um diálogo de surdos entre o operário. a virilidade e o desafio ao medo teriam mostrado sua fragilidade através do acidente e de sua impotência para proteger o operário. vertigens etc. nenhuma explicação psicopatológica foi até hoje proposta (1). Nessas condições. o trabalhador acidentado deverá. longe de ser inadequado. Assim. impressões estranhas na cabeça. O estudo de numerosos casos clínicos mostra que esta síndrome atinge essencialmente os operários da construção civil e os trabalhadores com tarefas perigosas. partilhava da ideologia ocupacional defensiva. Ora. a ineficácia da ideologia ocupacional. continua durante meses a produzir pruridos na superfície do crânio. dissemos anteriormente. é interpretada como descompensação hipocron-dríaca de uma estrutura neurótica subjacente e preexistente ao acidente. em particular. enquanto que o sofrimento mental e. eqüivaleria à demissão. não pode absolutamente ser 124 . Por outro lado. o médico e a Previdência Social. sem indenização nem pensão. Às vezes. ao ser colocado em mãos de um psiquiatra. por ansiedade. esses sintomas subjetivos impedem o retorno ao trabalho. tal comportamento é difícil de ser assumido por um operário que. A evolução da síndrome subjetiva póstraumática é de uma cronicidade terrível.receu depois do acidente. de algum modo. de algum modo. Convencido da realidade do risco e excluído da ideologia ocupacional. o medo. deste ponto de vista.

ela é reconhecida com pouca freqüência. assim. anualmente. Não conhecemos nenhuma publicação de sucesso psico-terápico nessa patologia. é preciso notar que. de seu determinismo. de reclassificação profissional ou de admissão da condição de invalidez. 125 . diferente dos outros domínios da psicopatologia das neuroses. Há casos. residem. gradualmente. que só permite que o sofrimento mental deixe sua máscara no final de sua evolução: a doença mental caracterizada. uma "medi-calização" (vet parágrafo precedente) do medo. É essa a lógica da organização do trabalho. A síndrome subjetiva pós-traumática é. essa síndrome revela uma resistência excepcional ao tratamento psiquiátrico. Seu sentido e seu significado não podem ser desvelados pela história passada do sujeito.considerado uma doença mental. Seja porque a cronicidade de problemas sine matéria não justificaria um tratamento médico. depois de alguns meses ou alguns anos de evolução. vertigens. milhares de trabalhadores acidentados (11). A invalidez e as pensões. e não psicoafetivo. constituise uma verdadeira afecção psiquiátrica. são concedidas apenas devido ao status reconhecido da doença mental. A única saída é. e não uma estrutura neurótica única. num círculo vicioso de incompreensões. a única entidade clínica reconhecidamente de origem bem limitada à organização do trabalho. A persistência de cefaléias. Na prática. Como regra geral. seja porque. Dois argumentos vão no mesmo sentido de nossa hipótese etiológica. os doentes são tratados por psiquiatras. tanto mais modestas quanto mais jovem for o acidentado. provavelmente. problemas visuais. antes de tudo sociopro-fissional. na natureza das condições e da organização do trabalho. pré-formada e característica dessa síndrome. A investigação psicossomática Os pacientes com síndrome subjetiva pós-traumática mostram que encontramos entre eles uma grande variedade de estruturas mentais. servindo de ponto de apoio e de apelo ao processo de medicaJização. então. embora atinja. Mesmo se médicos e psiquiatras costumam atribuir à síndrome subjetiva pós-traumática uma hipotética estrutura neurótica. de equilíbrio sine matéria é bem adequada. A impossibilidade de analisar essa síndrome resulta. que conseguiram redirecionar a sintomatologia. ao contrário.

de neurose de comportamento (69) ou de estruturação edeestado-limite(7). Havíamos então insistido. Não apresentaremos aqui uma demonstração dessas afirmações. pode conduzir à desorganização. Por causa disso. Para caracterizar esse tipo de estrutura mental. para que compreendamos os efeitos da organização do trabalho na economia psicossomática: — As doenças somáticas aparecem sobretudo em indivíduos que apresentam uma estrutura mental caracterizada pela pobreza ou ineficácia das defesas mentais (Çalta de vida onírica ou de atividades fantasmáticas. Para ser mais exato. que tomaram corpo numa teoria conhecida pelo nome de Teoria da Escola Psicossomática de Paris (64. ausência de sintomas psiconeuróticos.2. — As defesas que não são psiconeuróticas. nos efeitos possíveis da inadequação entre a estrutura da personalidade e o conteúdo ergonômico do trabalho. que não consegue se descarregar. os sujeitos que apresentam esse tipo de estrutura são mais frágeis diante dos acontecimentos da vida e das situações conflituais do que os sujeitos que apresentam uma estrutura neurótica. má qualidade do funcionamento mental: ineficácia funcional do pré-consciente) (78). as defesas de caráter e de comportamento são menos flexíveis que as defesas mentais. — Quando as defesas caracteriais e comportamentais não conseguem conter a gravidade dos conflitos ou a realidade. O efeito principal da neutralização das defesas caracteriais e comportamentais é o aparecimento de uma doença somática. A doença somática No Capítulo II nós apresentamos a observação sobre uma desorganização psicossomática num operário diabético. mas pelo aparecimento de uma doença somática (67). ou seja. tais sujeitos não descompensam de um modo neurótico. que deve ser lembrado. basicamente. 71). nem de um modo psicótico. a maioria das doenças somáticas aparece em 126 . Quando as defesas caracteriais e comportamentais não conseguem se exercer durante o trabalho. há o risco de uma acumulação de energia pulsional. fala-se de neurose de caráter. A desorganização à qual sucumbe o doente não se traduz por sintomas mentais. é preciso saber que o inverso também é possível: a contribuição exagerada de uma defesa comportamental ou de um sistema defensivo caracterial. em detrimento de outros mecanismos de defesa não colocados em prática. — Ao contrário. Há um ponto fundamental nessa teoria.

espontaneamente. quando seu funcionamento mental é. 24. organização (N. a postura e os ambientes físicos e químicos que. Isso é válido para todas as doenças. colocado fora de circuito (65). vai se aperfeiçoando em função de critérios que não são nada ao acaso. protege o corpo contra uma sobrecarga comporta* Aménagement. então. — Mas a somatízaçâo — processo pelo qual um conflito que não consegue encontrar uma resolução menial desencadeia.). o trabalhador. os gestos. realizada por diferentes trabalhadores. são extremamente personalizados. A somatização é encontrada. momentaneamente.sujeitos que já apresentavam uma estrutura caractcrial ou compor-tarnental. 127 . inversamente.66. executando de certa maneira uma organização de trabalho de compromisso. escolhendo os instrumentos adequados. onde cada gesto harmoniza-se espontaneamente com as defesas com-portamentais e caracteriais. que leva em consideração. A livre organização do trabalho é apenas uma estruturação* do modo operatório. A elaboração de um modo operatório espontâneo. numa seqüência de gestos. ao longo de sucessivas modificações. visam à economia toda do corpo em situação de trabalho. 89 bis. as necessidades da personalidade. que aparecem espontaneamente. a observação demonstra que os diferentes modos operatórios. as atitudes individuais. no corpo. enfim. Não somente o conteúdo significativo (mais restrito quanto mais profunda for a divisão do trabalho). do T. Ao contrário. de certo modo. quer dizer. desordens endócrino-metabólicas. mas também o conteúdo ergonômico. os sujeitos portadores de doenças somáticas graves estão relativamente protegidos das neuroses e psicoses) (26). Basta enfatizar que a organização do trabalho determina o conteúdo da tarefa através da divisão do trabalho. Quando se ocupa de uma tarefa. A referência a essa teoria facilita compreender como a organização do trabalho age sobre a economia psicossomática. nem sempre é realizada segundo um mesmo e único protocolo. no original: arrumação. 56). em sujeitos com estrutura psiconeurótica. Essa situação é bastante rara nesse tipo de sujeito (mostrou-se que os neuróticos e os psicóticos apresentam uma resistência excepcional à doença somática e. ponto de partida de uma doença* somática (25) — pode atingir um sujeito com estrutura neurótica ou psicótica verdadeira. procura arrumá-la numa ordem. A organização do tempo em fases de> trabalho e em fases de descanso respeita as necessidades da economia psicossomática. quaisquer que sejam sua origem ou natureza (76. A mesma tarefa.

como um obstáculo à livre estruturação da tarefa. que poderia ser prejudicial. aos trabalhadores que apresentam uma estrutura caracterial ou comportamental de pouca flexibilidade. pode. químicas e biológicas do trabalho. não foi até este momento bem elaborada. fixada externamente pelas chefias. As mesmas observações aplicam-se à diminuição da longevidade dos trabalhadores à medida que se desce na hierarquia socioprofissional. mais rigidamente determinada é a organização do trabalho que os trabalhadores.mental. menos ela facilitará estruturações favoráveis à economia psicossomática individual. 'É provável que uma parte não négligenciável da morbidade somática observada entre os trabalhadores tenha sua origem numa organização do trabalho inadequada. em certos casos. e a acreditar nos psiquiatras e psicanalistas contemporâneos. pois — via de regra — quanto mais se desce no status social. Deste modo. na medida em que o conflito entre a economia psicossomática e a organização do trabalho potencializa os efeitos patogênicos das más condições físicas. A organização do trabalho. Às piores condições de trabalho dos operários desqualificados somam-se não somente uma resposta médico-social de qualidade inferior à das profissões mais favorecidas (noção clássica. a livre organização do trabalho torna-se uma peça essencial do equilíbrio psicossomático e da satisfação. A organização do trabalho é causa de uma fragilização somática. neste sentido. entrar em choque com o compromisso operatório favorável. pode comprometer imediatamente o equilíbrio psicossomático. as ver128 . Ao inverso da livre estruturação do modo operatório. enfrentam. inicialmente. antes cie tudo. Talvez tenhamos uma tripla explicação para o aumento do nível de morbidade e para a diminuição da longevidade nas classes sociais desfavorecidas. e possibilita ao sujeito meios de canalizar suas pulsões durante o trabalho. que caracteriza a maior parte das tarefas industriais. atualmente). em relação às duas outras causas. Mas nossa experiência clínica nos leva a pensar que seu papel não é nem um pouco négligenciável. A proposição que acaba de ser formulada di/ respeito. mas também os efeitos nefastos da organização do trabalho. Quanto mais rígida for a organização do trabalho. a organização do trabalho rígida e imposta. A organização do trabalho. aparece. que o trabalhador teria instituído espontaneamente. que caracteriza o trabalho artesanal. A avaliação do papel da organização do trabalho na morbidade operária. na medida em que ela pode bloquear os esforços do trabalhador para adequar o modo operatório às necessidades de sua estrutura mental. Esses casos não são raros.

O que acontece ao sujeito que apresenta uma estrutura neurótica autêntica. aumentando as estruturas caracteriaís e comportamentais (64). novamente. uma das maiores causas da doença somática é o bloqueio contínuo que a organização do trabalho — e. o primeiro passo para uma desorganização psicossomática experimental. o sujeito retomasse contato com o próprio corpo. * "Fantasmas" no sentido psicanalítico (N.). parcialmente liberado. investimentos afetivos. seus desejos. seu posto de trabalho na indústria têxtil deixa um pouco de espaço e de tempo para a vida fantasmática. de fazer projetos. o autor mostra os efeitos imediatos do desemprego parcial (imposto pelas dificuldades econômicas da empresa) sobre a retomada de um trabalho mental de uma outra envergadura: tudo acontece como se. lesado em suas potencialidades neuróticas e obrigado a funcionar como uma estrutura caracterial ou comportamental. Nós propomos a seguinte hipótese: a organização do trabalho e. na situação descrita. Ainda assim.dadeiras estruturas neuróticas tenderiam a tornar-se muito raras. Mesmo não sendo precisamente ortodoxa. essa proposição parece ter sido pressentida de longe por alguns autores (34). Entretanto. do T. pelo desemprego. o trabalhador encontra-se. em particular. com Boyadjian (9) que. da luta individual contra a organização do trabalho (com a respectiva redução de fadigas). sendo então capaz. e aí está um dos pontos mais interessantes de seu livro. * Grifo da tradução. as doenças somáticas são extraordinariamente mais raras do que em sujeitos com menor capacidade de mentalizar. em especial. Efetiva-se assim. de certo modo. em relação à teoria psicossomática. Vimos. preocupações. 129 Jt . é preciso que a organização do trabalho facilite o livre jogo do funcionamento mental. o sistema taylorista — pode provocar no funcionamento mental. Nesse sentido. em situações semelhantes. artificialmente. na situação de contradição que o opõe à organização do trabalho? Parece-nos que as aptidões ligadas à mentalização e à produção de fantasmas* constituem a melhor válvula de escape à tensão imposta à economia psicossomática. pelo choque com a organização do trabalho. Em nossa opinião. sua caricatura no sistema taylorista e na produção por peças é capaz de neutralizar completamente a vida mental durante o trabalho*. Numerosos casos clínicos comprovam que.

É psíquica porque corresponde a um obstáculo para o psicossomático. Não há nenhuma necessidade.Clinicamente. A fadiga não provém somente da sobrecarga de um órgão ou de um aparelho. sobretudo. Essa inatividade é fatigante porque não é um simples repouso mas. caracteriais e mentais. não há nada mais surpreendente do que observar essa vivência subjetiva tornar-se uma queixa somática. nesta perspectiva. Contrariamente a certas afirmações. ao contrário. O que pode parecer estranho é que não corresponde a um esforço muito grande dos órgãos do corpo. A maioria das pessoas. Essa vivência exprime-se. de se ter um desempenho físico excessivo para justificar a sensação de fadiga. ou seja. somática porque sua origem está claramente no corpo. Por ser uma vivência subjetiva. Vários autores já debateram a fisiopatologia dessa fadiga misteriosa. os operários não reivindicam o direito à ociosidade permanente. porque à fadiga não corresponde sempre uma excessiva carga física de trabalho. aparece uma vivência de insatisfação. as secretárias I3u .concreta (12. Essa afirmação é. Tal concepção é fortemente influenciada pela herança histórica da biologia. na realidade. sobretudo. A fadiga pode encontrar sua origem também na inatividade. mas a uma repressão da atividade espontânea desses órgãos (motores e sensoriais). cuja expressão é específica e distingue-se da insatisfação em relação ao conteúdo significativo da tarefa. a exemplo das crianças. mesmo não havendo uma doença autêntica. falsa e verdadeira. para sua energia pulsional. na qual a redução da atividade tinha provocado o repouso forçado de uma seção inteira. não tem prazer nenhum com a inatividade duradoura. pela fadiga. A fadiga é simultaneamente psíquica e somática. está incompleta. Na realidade. já mencionada no Capitulo II. uma repressão — inibição da atividade espontânea. Primeiro. ao mesmo tempo. errada. o fracasso do funcionamento mental e a inadequação da organização do trabalho (conteúdo ergonômico) às necessidades da economia psicossomática não se traduzem. quase uma simulação. Quando a organização do trabalho entra em choque com a economia psicossomática. Mas é também. e também por ser uma vivência subjetiva. que não corresponde a nenhuma fisiopatologia . mas. em uma doença somática. 51). e principalmente. Talvez fosse mais correto dizer mesmo que não há ainda uma doença somática. da fisiologia e das experiências clássicas sobre energética e esforço muscular. Compreendemos melhor. Um exemplo caricatural foi-nos dado por uma empresa. imediatamente. Entretanto. vários autores desqualificam a fadiga como se ela fosse "psicogênica". o trabalhador deve desenvolver todos os recursos de que dispõe para compensar o estreitamento — pela organização do trabalho — de todos os canais comportamentais.

A fadiga física não se manifestou de maneira muito clara. À aplicação dos mesmos métodos de produtividade seguiu-se uma recrudescência nítida de sinais sangüíneos ligados à intoxicação por chumbo Essas observações parecem demonstrar que se. a fadiga caracterizou-se por uma predisposição maior à intoxicação por chumbo ou por uma eliminação menos eficaz dos tóxicos que tinham absorvido (. aparentemente. no interior.. então. retrospectivamente. foi possível constatar.. transcrevemos trechos de um artigo que apareceu há cerca de vinte anos (31): "Havíamos feito uma organização dos ritmos de trabalho e de fabricação que correspondia a uma produção muito mais elevada.estavam submetidas à disciplina dos horáros e ao controle de uma chefia. na região central da França. foi-lhes proibido terem atividades não-profis-sionais (proibição de tricotar. A fadiga dos operários traduziu-se de outra maneira.. resultam* dessa "organização do trabalho" foi o aparecimento de uma fadiga considerável que levou a . Esse poderia ser um caso isolado.. um outro fator susceptível de explicar essa recrudescência da intoxicação. Ao mesmo tempo. para um bom número de operários. ue era até fácil situar. quase nenhum trabalho lhes foi dado.. Nas fichas do pessoal pertencente a novas linhas de fabri-ção. fazer palavras cruzadas etc). qual tinha sido a data da modificação do ritmo de trabalho. Durante alguns meses. além da diferença dos métodos de trabalho. Mas o problema apareceu novamente numa fábrica da mesma sociedade. ocorreu uma indiscutível recrudescência de intoxicação por chumbo. pelo menos do ponto de vista dos tóxicos." 131 ÈÍ . que a fadiga e a difícil adaptação a um ritmo de produção elevado provocaram perturbações passageiras nas defesas do organismo.. Mas pudemos constatar que. havendo sobrecarga.. para saber se não havia.. Podemos supor. O trabalho de diferentes pesquisas e estudos realizados mostrou que as condições de trabalho eram praticamente as mesmas. "licenças de trabalho"! Para ilustrar nossa proposição relativa aos possíveis efeitos da organização do trabalho sobre a economia psicossomática.). pelo menos inicialmente. onde os métodos de trabalho eram diferentes e comportavam uma certa margem de liberdade na produção. os operários não reagiram clara e visivelmente ao esforço exigido. O efeito principal. pelos resultados anormais do exame de sangue. Estudei atentamente a questão. seis meses depois. Mas a única modificação ocorrida relacionava-se ao ritmo de rabalho. por um simples olhar.

o aumento da morbidade em questão não poderia ser atribuída a causas físiço-químicas. em função de necessidades de sua economia psicossomâtica. desorganizou seus sistemas defensivos espontâneos e favoreceu o aparecimento de doenças somáticas. Em outras palavras. 132 . sem evocar os efeitos da mudança da organização do trabalho sobre a economia psicossomâtica? Podemos supor que a passagem dos métodos de trabalho que deixavam "certa margem de liberdade na produção" para uma organização rígida (sistema taylorista) teve como conseqüência o bloqueio da "livre estruturação do modo operatório". de cadência e de fragmentação do trabalho.Na fábrica de acumuladores de que trata o artigo em questão. Como explicar esse fenômeno. pelos operários. nessas fábricas. tendo como ponto de impacto o funcionamento mental dos trabalhadores. O aumento de casos de saturnismo e a gravidade de intoxicação por chumbo não decorria. Exceto. a introdução da organização científica do trabalho nessa fábrica. como bem enfatiza o autor. Desse modo. de um aumento da poluição pelo chumbo. a única mudança fora a implantação de uma linha de produção com seu conjunto de ritmos de trabalho. as modificações das condições de trabalho.

começa quando o homem. de esperanças e de desejos. e uma encruzilhada que se abre para as descompensações mentais ou doenças somáticas. o sofrimento só pode ser revelado 133 . havíamos extraído uma hipótese em torno da qual esse livro foi construído: a organização do trabalho exerce. As tarefas perigosas. executadas na maioria das vezes em grupo. de natureza mental. cujas conseqüências não se limitam a um desgosto particular. Esse sofrimento. em grande parte. no trabalho. Contra a angústia do trabalho. de maneira que o sofrimento não é imediatamente identificável. sobre o homem. emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual. A forma de que se reveste o sofrimento varia com o tipo de organização do trabalho. assim como contra a insatisfação. os operários elaboram estratégias defensivas. uma ação específica. quando a relação\ homem-trabalho é bloqueada. já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais conforme às suas necessidades j fisiológicas e a seus desejos psicológicos — isso é. portadora de projetos. Assim disfarçado ou mascarado. dão origem a um medo específico. e uma organização do trabalho que os ignora. em virtude de regras que foram. O trabalho repetitivo cria a insatisfação. Em certas condições. elucidadas.Conclusões Da abordagem histórica. cujo impacto é o aparelho psíquico. Ela é de certa forma uma porta de entrada para a doença.

a bem dizer. dissemos nós? Mas a relação entre organização do trabalho e aparelho mental não é tão unívoca. nos empregos de escritório). Nesse sentido. A vida psíquica é. apoiado por uma análise precisa da psicodinâmica da relação homem/ trabalho. Uma boa adequação entre a organização do trabalho e a estrutura mental do operário é possível. uma hipótese utilizável (26 a). de "síndrome subjetiva da fadiga nervosa" ou de "síndrome de contaminação pelos comportamentos condicionados". aos órgãos sensoriais e às vísceras. encontrada em circunstâncias privilegiadas. especificamente. é porque pelo menos uma das duas condições seguintes é realizada: — As exigências intelectuais. Sua desestruturação reper-curte sobre a saúde física e sobre a saúde mental. ao contrário. rtalvez. e há casos em que o trabalho é. /34 . que constitui de certa forma sua sintomatologia. motoras ou psicossensoriais da tarefa estão. Quando a relação com a organização do trabalho é favorável. de acordo com as necessidades do trabalhador considerado. é rara em comparação com a maioria das tarefas. onde a con1 Isto é. nas tarefas taylorizadas. favorável ao equilíbrio mental e à saúde do corpo. isso impõe. condições físicas. simplesmente justaposto à musculatura. O ponto de vista da economia psicossomática aparece.através de uma capa própria a cada profissão. O sofrimento do trabalhador dá lugar a uma semiologia que é chamada de "ideologia defensiva de profissão". de tal maneira que o simples exercício da tarefa está na origem de uma descarga e de um "prazer de funcionar". Sofrimento e doença. um patamar de integração do funcionamento dos diferentes órgãos. na construção civil ou nas indústrias químicas. os vírus e as condições climáticas. a noção de carga psíquica de trabalho é. desse modo. — O conteúdo do trabalho é fonte de uma satisfação sublimató-ria: situação que. em cada caso. como instrumento crucial da investigação em psicopatologia do trabalho. contra os tóxicos industriais. também. ao invés de ser conflituosa. criar doenças somáticas e não apenas psíquicas. é porque o aparelho mental não é um "compartimento" do organismo. Se a violência da organização do trabalho pode. mesmo na ausência de nocividade dos ambientes de trabalho1 (poj exemplo. químicas e biológicas de trabalho. Pode até acontecer que ele confira ao organismo uma resistência maior contra a fadiga e a doença. um ponto de vista detalhado.

para alguns. censuram a montagem do filme. que esperam Esses fatos sugerem uma certa reserva e suscitam um pessimismo em relação ao futuro da maioria das profissões. TnH Tnte Um eXCdente guia na Protecão da homeostasia. Parece que o sofrimento mental que tentamos mostrar não poder ser considerado apenas como uma conseqüência deplorável ou um epilenômeno lamentável. Nao ha nada de espantoso. sobre o qual se exerce a chantagem do afastamento e aa^substituição pelas centenas de colegas sem trabalho. A pnon. por exemplo. os sacrifícios materiais sejam fáceis. rígida e parcelizante. que grandes dificuldades concretas do trabalho sejam facilmente aceitas. ele se revela propício à 135 . nesse quadro. Mas é preciso reconhecer que a tendençia geral a divisão crescente do trabalho . nas pro-L I entreí0S resP°nsáveis de alto nível: trabalho livree organizado ou deliberadamente escolhido e conquistado. então. onde as decisões administrativas impõem a escolha dos atores e do argumento. endócrinos e psicoafe-tivos segumdo para isso sua vivência subjetiva que. entre cs pilotos de caça) e pode oferecer uma ocasião única de sublimação. a ponto de o diretor não ser mais do que um excecutante como os outros.E** Pode. mesmo em profissões até agora poupadas. podemos mostrar. oLS^T 3 a° ffalhador.da qual o sistema laylor e a caricatura — compromete as possibilidades ao mesmo dTtarefT QUe dimmUÍ 3 eSC°lha C a margem deixada ao livre arranJ° Aliás. Em certos casos. toda tarefa é suscetível de servir.em nartt H° ü ' d° ritm° de trabalho * do modo operatório é. equivalente (por exemplo. na realidade. em relação às quais a resistência cresce. São testemunhas disso os artistas e os pesquisadores. como a todo o mundo. para a maioria dessas categorias. de suporte"' num processo de sublimação. Exigências materiais assim como salariais. Essa ul ima formula e. Basta pensarmos no trabalho dos enfermeiros nos hospitais por exemplo. pois seria falso imaginar que. ou nas condições espantosas do trabalho de criação na televisão. essa evolução é sensível. Eles os fazem sofrer. modificar â sTdades nn ASCUHtrabalhO ?°nf°rme SCU deseJ° ou suas n^-menfe Vnm * CaS°S> de P°de até fazê"la variar' espontaneaZ™hSCUS PrOP"OS ritm°s bioIóg'^s. Sh S° Se encontram nas Profissões de artesão. determinam os horários de trabalho. mas o prazer do trabalho lhes permite uma melhor defesa. ditam as seqüências a serem suprimidas e a reiazer etc.. atravessadas progressivamente por uma organização do trabalho cada vez mais auto-ntana.

mas também dos próprios trabalhadores). em certas condições.produtividade. somos levados a evidenciar que. Tornar dócil um corpo não é coisa simples. cujas peças podem ser desmontadas. Assim. a "carga psíquica" de trabalho não seria apenas um efeito acessório do trabalho. ou. ao lado dos aspectos clássicos da exploração da força física. pois ele. chamado "personalidade". como a ansiedade. A desapropriação do corpo só é possível graças a uma operação específica sobre a estrutura da personalidade. Apesar de vivenciado. Contra o sofrimento. etapa fundamental. exatamente. duráveis ou reversíveis segundo o caso. Se não fosse sua especificidade. seu poder de ocultação volta-se contra seus criadores. por um efeito paradoxal. por intermédio de um sistema sutil. Na maioria das tarefas. Pois sem 136 . o sofrimento não é reconhecido. Assim. da qual dependeria a submissão do corpo. servem para a manutenção da produtividade. que se opõe ao saber-poder. no caso das telefonistas. mesmo as mais desqualificadas. a exploração passa também pela profundeza do aparelho mental. A ponto de o sofrimento. na maior parte dos casos. a dor permanece desconhecida não apenas dos observadores. mas os mecanismos de defesa empregados contra ele. como as defesas coletivas da profissão. De maneira que o sofrimento pode. que permite adivinhai que as defesas escondem alguma coisa. se constróem sistemas defensivos. certamente. A submissão dos corpos só seria possível por meio de uma ação específica sobre os processos psíquicos. elas seriam totalmente opacas. tornar-se um instrumento de exploração e de rendimento. pois. pois ela é de natureza a fazer reconsiderar as teorias econômicas da força de trabalho. uma grande importância. Essa observação tem. mas resultaria. Não tanto o sofrimento em si. Se a função primeira dos sintomas de defesa é aliviar o sofrimento. etapa cujo sucesso seria assegurado pela própria organização do trabalho. cujos efeitos. está submetido a seu chefe natural. a ansiedade e a insatisfação. dissemos. e este é. Vimos na construção civii. desse modo. normalmente. parece que a exploração do corpo passa sempre e necessariamente por uma neutralização prévia da vida mental. Forma caricatural do saber-vivência. provavelmente. esquivar-se à verdade (invisibilidade cheia de conseqüências. descrito por Foucault (37-38). por exemplo. contribui para a aceleração das cadências. de uma etapa primordial. existe uma vertente do trabalho humano ignorada até agora. através da organização do trabalho. :~ Com efeito. fazem parte integrante da carga de trabalho. um dos aspectos mais insólitos da pesquisa em psicopatologia do trabalho.

a etapa necessária e primeira. é a fadiga que assegura sua perenidade. A alienação é uma verdade clínica que. opõem-se a uma evolução que poderia levar a uma estabilidade. as escratégias defensivaá. A investigação que propomos. suas necessidades e sua saúde. de substituição da vontade própria do Sujeito pela do Objeto. Instalado o circuito. da alienação. isso não quer dizer que ele não seja válido no nível subjetivo e vivido. No fim. sem transtorná-la. em psicopatologia do trabalho. Alienação no sentido psiquiátrico também. Podemos nos perguntar em que medida a prevalência concedida à mudança das relações de produção arrisca passar por cima da alienação. _J A fadiga. tão controvertida. a tolerância graduada segundo os trabalhadores de uma organização do trabalho. a propósito da sujeição do corpo. traz de volta a questão. necessária para fechar o cadeado do círculo vicioso. trata-se de uma alienação. a tal ponto poderosa que. no caso do trabalho. Nesse caso. o esgotamento do corpo (mesmo sem considerar as fortes exigências físicas provenientes das regras da economia psicos-somática) são uma peça necessária. que vai contra seus desejos. e mais durante a semana do que perto do fim de semana. Se deve haver uma luta por novas relações sociais. de modo que o trabalhador acaba por confundir com seus desejos próprios a injunção organizacional que substituiu seu livre arbítrio. da alienação pela organização do trabalho. no fim. toma a forma de um conflito onde o desejo do trabalhador capitulou frente à injunção patronal. ■sto é. espécie de chave. embora insuficiente. que passa pelas ideologias defensivas. Podemos também nos perguntar se o desmantelamento dos mecanismos da alienação não é uma condição 137 . ele acaba por usar todos os seus esforços para tolerar esse enxerto contra sua natureza. Alienação no sentido em que Marx a compreendia nos manuscritos de 1844. a alienação r jrre o risco — a experiência histórica o mostra — de ser transposta tal qual. da qual falamos. e difícil lutar eficazmente contra ele. Por não ter sido objeto de um trabalho específico. Vencido pela vontade contida na organização do trabalho. a alienação é mais fácil de ser obtida com os operários cansados. mais fácil no fim do ano do que após as férias. ela deveria passar por um processo de desalie-lação. Se o conceito de alienação não for pertinente a nível da análise econômica. num nível menos medíocre. ao invés de fazer triunfar sua própria vontade. A alienação seria.conhecer a forma e o conteúdo desse sofrimento. Assim. em razão da sua própria eficácia em relação ao equilíbrio mental. A organização do trabalho aí aparece como veículo da vontade de um outro. talvez. o trabalhador se sente habitado pelo estranho.

Deve-se. em estado de segredo selado na vivência. Isso quer dizer necessidade de uma interpretação. É na palavra. que é preciso ler o sofrimento operário. a psicanálise e a psicos-sociologia anglo-saxônia. admitir que a análise da exploração não exclui a da vivência operária. Segredo que. como para toda vivência. a psicanálise não poderia ser de nenhuma valia. é um método que não pertence propriamente à psicopatologia do trabalho. Tratando-se de uma vivência coletiva. talvez. Mas as interrogações sobre esse tema são redibitoriamente suspeitas? A exemplo de André Theret (96 bis). Nós ressaltamos várias vezes a função mascaradora dos sistemas defensivos contra o sofrimento. e â modalidade particular de existência do saber. deformada pelas estratégias defensivas específicas. o recurso à palavra ou. a passagem de um conteúdo manifesio a um conteúdo latente. 13?. para ser abordado. à positividade da História a revelação. seguido pela psiquiatria contemporânea. . não objetivo) a libertação da vida mental? E. por meio dos avatares que ela sofre na sua interiorização coletiva. a ser decodificada. Qual projeto nâo deixaria um lugar conseqüente para essa discussão? Que felicidade seria essa. antes de mais nada. para um projeto de transformação social. libertação de seu exercício no trabalho e na atividade produtiva? Questões que talvez tenham sido negligenciadas por razões históricas. requer. no século XIX. Coloca-se aqui a questão do esquema interpretativo. Segredo que tem a particularidade de só existir na vivência coletiva do trabalho e de dissolver-se assim que há interesse pela vivência individual. os partidários da Organização do Trabalho atual tiveram um certo avanço. De outra ordem é a tradicional desconfiança para com as questões da vida psíquica. louvada por uma sociedade que não teria por fundamento (fundamento. e através dos sistemas defensivos. Nós usamos um esquema de interpretação que é a própria organização do trabalho. como se diz hoje em dia. de questões novas e fecundas. mesmo na ausência de mudança social. embora insuficiente. em comparação à prioridade que era preciso dar à análise da exploração do corpo físico. O terreno da psique sempre foi ocupado por especialistas denunciados por uma posição ambígua na evolução social. leva a considerar esta última como lugar privilegiado do drama onde se atualiza o conflito entre o Trabalhador e o Podfer. em relação a um projeto que não pode permanecer sem evoluir.necessária. De resto. O projeto revolucionário nasceu numa época em que a relação saúde mental-trabalho era invisível. o discurso operário. É verdade que desde o movimento dos alienístas.

É provável que não exista solução ideal e que. as ideologias coletivas de profissão. "A liberdade não se dá" dizem "ela se conquista". absolutamente. 139 il . O mesmo acontece com relação à organização do trabalho. aqui como em tudo mais. precisamente. o problema não é. Em outras palavras. no centro das quais se encontram. que pode nascer uma evolução da relação saúde mental-trabalho. estamos talvez em condições de examinar o que é obstáculo não à felicidade coletiva — noção suspeita — mas de examinar o que constitui um obstáculo coletivamente experimentado por cada grupo de trabalhadores. mas encontrar soluções que permitiriam pôr fim à desestruturação de um certo número deles pelo trabalho. à qual se opõe ponto por ponto. mas pelos rneios que ele usa para fazê-la evoluir em direção a um estado de menor tensão. de transformação da organização do trabalho e de dissolução dos sistemas defensivos. Assim. Não apenas de levá-la em conta. na medida em que ele pretende superar os obstáculos socioeconômicos à "felicidade". E de um duplo movimento. deverá ser julgado por sua capacidade de levar em conta a relação conflituosa entre a organização do trabalho e o aparelho mental. Considerando o lugar dedicado ao trabalho na existência. Qualquer que seja o regime político considerado. a questão é saber que tipo de homens a sociedade fabrica através da organização do trabalho. no acesso a um trabalho mais satisfatório. seja sobretudo a evolução a portadora de esperança. Entretanto. é preciso compreender que as resistências individuais ao prazer acompanham resistências coletivas. criar novos homens.\ interpretação limilada ao conteúdo e não a uma transferência coloca a psicopatologia do trabalho nos antípodas da psicossocio-logia.

i .

comissão de fábrica ou C.* — Comissão de Higiene. que tanto pode vir de um grupo não institucionalizado de trabalhadores. Posteriormente.C.ANEXO: A Metodologia em Psicopatologia do Trabalho Uma pesquisa em Psicopatologia do Trabalho desenrola-se em várias fases: 1. ou de um grupo sindical. Segurança e Condições de Trabalho.H. A pesquisa inicial Para poder começar. de trabalhadores inicialmente isolados. Em outras palavras. A pesquisa propriamente dita 3. uma pesquisa deve basear-se numa solicitação. O método de interpretação 7. em substituição às antigas Comissões de Higiene e Segurança — C.S. Metodologia e teoria em psicopatologia do trabalho 1.H. no original. implantada na França em julho de 1985. * C.S.T. No momento. Validação e refutação dos dados 8. Segurança e Condições de Trabalho.G. vamos nos ater a este ponto: uma solicitação só pode ser considerada se for proveniente dos próprios trabalhadores.T.) 141 . o grupo homogêneo e o coletivo 4. A pesquisa inicial 2.S. ou Comissão de Higiene. A solicitação. voltaremos à questão de como trabalhar a solicitação formulada. do T. (N. O material da pesquisa 5. não aceitamos nenhuma solicitação que não seja formulada pelos próprios interessados. A observação clínica 6.H.

a segurança. as inovações tecnológicas etc. não deixa de ser uma etapa interessante. e ter à disposição uma representação. o que se passa. depois do trabalho de documentação e da visita do local. Em seguida. ao perigo. e pelo menos um deles não é psicopatologista. é preciso preparar a pesquisa. Geralmente. quantos são e se estão disposto a acompanhai o trabalho até o fim. como pesquisador. isto é.2. é necessário definir quem participará da pesquisa. o ambiente sensorial tem um papel importante na expressão do sofrimento e do prazer no trabalho. ergonomista ou economista. Na verdade. Ter acesso à empresa. há dois ou três pesquisadores. devemos precisar quem participará. do ponto de vista humano. podendo ser sociólogo. pois a pesquisa fundamenta-se num coletivo constituído ad hoc. Vários objetivos devem ser atingidos durante esta fase de preparação da pesquisa: 1. O objetivo dessa fase de documentação sobre o processo de trabalho e das visitas não é chegar a uma descrição objetiva da relação homem/trabalho.1. e não em indivíduos tomados isoladamente. 1. como é o objetivo. tendo por guia um trabalhador que participe da pesquisa. em imagens. econômicos e científicos. Reunir informações sobre o processo de trabalho e sua transformação ou mutações. O que se visa é obter a base concreta necessária para compreender do que falam os trabalhadores que participam da pesquisa. a produtividade. poder visitá-la em funcionamento e ter uma representação relativamente precisa das seções. Entendemos por esta não aquela elaborada pelo serviço de organização e métodos. de uma investigação ergonômica clássica sobre a análise do trabalho. isto é.. cerca de vários meses. pelos trabalhadores. das máquinas e dos locais correspondentes aos locais de trabalho dos operadores pesquisados.Assim que a solicitação é recebida. Isto pressupõe o acesso a documentos técnicos. começamos uma abordagem da organização do trabalho. mas principalmente a que coloca em relevo o aspecto conflitual entre traba142 . o que geralmente toma bastante tempo. Essas são questões importantes. das condições ambientais do sofrimento. Num terceiro momento. mas é importante também poder ter acesso aos locais de trabalho. de que também necessitaremos. Teremos diferenças significativas entre as duas visitas: enquanto que a visita patronal ressalta sobretudo o aspecto técnico. Primeiro. 1. a visita com os operadores enfatiza as questões relativas ao esforço. às exigências do trabalho. Pode-se fazer uma visita oficial organizada pelo empregador.3. por exemplo.

Desse modo. de outro. anunciando sua formação e área de trabalho: psiquiatra ou psicanalista. etc. a hierarquia. o que pensam das insônias e dos problemas relativos ao sono. ou seja. — O tema da pesquisa também é claramente enunciado: trata-se de estudar quais relações podem eventualmente se estabelecer entre a organização do trabalho. — Os pesquisadores apresentam-se claramente. que geralmente levanta questões de sofrimento. as divisões e contradições entre os trabalhadores ou grupos sindicais etc. o comentário verbal feito pelos trabalhadores a propósito do conteúdo de sua solicitação. que não estamos basica143 . Depois de haver formulado o tema aos trabalhadores. o restaurante da empresa. do prazer associados ao trabalho. e o sofrimento psíquico. o que pensam dessas doenças profissionais? Etc. o que pensam de tal problema de intoxicação alcoólica.. sobre o que nos interessa em psicopatologia do trabalho.. um grupo de trabalhadores que está a par do trabalho inicial e do objetivo da pesquisa. greves. as solidariedades explícuas. ou psico-patologista. pelos trabalhadores. pedimo-lhes para darem suas explicações e interpretações dos fatos que provocaram a solicitação: qual é sua opinião sobre tais suicídios. incidentes. raramente. A pesquisa propriamente dita Desenrola-se num local identificado com o trabalho: a sala da comissão de fábrica. 2. qual é sua opinião sobre as circunstâncias ligadas aos trabalhadores que foram hospitalizados como pacientes psiquiátricos.lhadores e hierarquia. trabalhando em geral com doentes numa prática clínica hospitalar. A pesquisa reúne. o salão da associação cultural que reúne habitualmente os trabalhadores etc. então. de produção. desde o início. a supervisão. Nós partimos sempre de uma reformulação do que nos foi colocado na solicitação do contexto. qual a interpretação desse consumo maciço de aspirina. insistimos. mas participando da pesquisa enquanto pesquisador da possível relação entre o trabalho e sofrimento não como psiquiatra clínico ou especialista. e situações conflitantes para entrarmos numa dimensão dinâmica dessas estórias e comprendermos bem as nego ciações concretas sobre o» ritmos de trabalho. o Sindicato.Isto também permite esclarecer. desde o começo. E importante conhecermos a história das lutas. por um lado. e.

inadequada ou falsa. todo o trabalho da pesquisa trata justamente de identificar as modificações trazidas sucessivamente ao comentário inicial. À medida que se desenrola o estudo. do que é relatado. se novamente não interessa ao grupo. pois é preciso. pouco importa quem seja o locutor. geralmente deturpada. o que é importante é o que é objeto de um consenso ou pelo menos. Nada impede que o pesquisador. 144 . novamente submetida à crítica do grupo. A interpretação correta desencadeia material novo. é possível reformulá-lo e devolvê-lo ao grupo. A técnica consiste então em detectar esse contraste ou paradoxo. contribuindo para a elaboração coletiva do tema.1. inspiramo-nos na psicanálise. 2. mais do que pela realidade. sobretudo por dois tipos de fatos: 2. Pode ser que certos comentários ou hipóteses explicativas propostas por um dos participantes possa parecer-nos — a nos. durante a pesquisa. O trabalho dos pesquisadores confirma-se não tanto pelo reconhecimento da hipótese ou da interpretação. anedotas ou comentários novos que ampliam as idéias e encadeiam-se à interpretação — associam-se a esta-. Se identificamos tais relações. Na verdade. Os pesquisadores efetuam um esforço especial. para ver se desta vez será objeto de discussão e de que modo. retome essa hipótese abandonada pelo caminho. ou. e vemos que não são retomados ou discutidos pelo grupo. as expressões positivas ou os silêncios claramente respeitados quanto a certos temas. às vezes muito tempo depois. num segundo momento. inicialmente. de uma discussão contraditória entre os participantes do grupo de trabalhadores. ou seja. retomando-a e modificando-a. A interpretação correta mantém e relança à discussão. e as características da organização do trabalho. Nesse sentido. Nesse caso. e que o grupo não as percebe. Em seguida. que preconiza o interesse acima de tudo pelo que é dito pelo paciente. o que é essencial detectar. ao invés de provocar uma diminuição ou parada da discussão — o que ocorre quando se trata de uma interpretação inoportuna. para detectar as relações existentes entre as expressões de sofrimento (ou de prazer). pesquisadores — como especialmente convincentes. então.2. Mas retoma-a num momento posterior. apesar da tentativa feita pelos pesquisadores. é possível propô-las como uma interpretação. certificar-se de que o tema não é espontaneamente retomado pelo grupo.mente preocupados com a objetividade dos fatos. investigamos particularmente o comentário formulado pelo grupo de trabalho. pelo grupo. mas. novos temas de discussão.

z3 f--:r em relação ao objeto da pesquisa as interpretações que fizessem 145 .paralisaria o J0"' "1ade"uada.

em termos de posições ou de posturas diferenciadas. que mostram que existem coletivos de defesa estruturados segundo modalidades diferentes no interior de uma mesma empresa ou seção de trabalho. seja devido aos turnos de trabalho ou às urgências do mesmo. Por exemplo.eclodir as problemáticas individuais. 3. não sobre outro grupo. Quem formula a solicitação? Repetimos aqui que a solicitação só é aceita se a pesquisa for sobre aqueles que a solicitam. ou seja: 3. por exemplo. Já disse que a fonte. a origem da solicitação deveria ser bem esclarecida desde o início.1. se conseguimos nos manter no plano das defesas coletivas. que têm geralmente um valor heurístico em relação aos sistemas defensivos. poderemos constatar que quase não há inconveniente quando. por condicionar. A solicitação. a análise da solicitação constitui uma fase importante da pesquisa. Em resumo. Para terminar. Nem sempre é possível dar continuidade ao que é pedido. onde podemos fazer uma analise a partir dos documentos que pertencem a uma pessoa que eventualmente até mesmo ignora como sua correspondência está sendo tratada. não podemos fazer o que se faz. é muito interessante ressaltar e respeitar essas contradições. não atiapalham e nem são combatidas pelos pesquisadores. em grafologia. o grupo homogêneo e o coletivo Em psicopatologia do trabalho. as "viabilidades" desta. 3. O que se solicita? Essa questão diz respeito ao conteúdo da solicitação. Ao contrário. para reformulá-las em seguida. seja porque o problema está formulado em termos inaceitáveis e não negociáveis — por exemplo. ao contrário. as substituições ocasionais do pessoal não prejudicam o andamento da pesquisa. na realidade. durante a pesquisa. seja porque a 146 . acrescentarei que as posições contraditórias que aparecem entre os trabalhadores. E. em relação ao consumo do álcool nos canteiros de obras ou em certas oficinas de fabricação de produtos em série não é raro registrarem-se posições contraditórias. quando se pede aos pesquisadores para provar que o uso de bebidas alcoólicas não é prejudicial aos trabalhadores cujas tarefas decorrem em condições de 'emperatura elevada —. de uma sessão à outra. Em psicopatologia do trabalho.2. varia o grupo que participa da pesquisa.

Em psicopatologia do trabalho. é importante podermos estar de acordo com os interlocutores no fato de que a relação de causalidade ou da efetiva carga psicopatogênica de uma tarefa possam ser formuladas em termos de hipótese. Dirige-se a um pesquisador. até mesmo desestabilizadores. que o rigor do trabalho 147 . deve-se manter o ponto de interrogação. que não haja nada a ser pesquisado. à violência. que a solicitação se baseie em uma resposta prática: por exemplo. Enfim. desmobilização em caso de luta). pois nosso trabalho em psicopatologia do trabalho limita-se à análise das situações. quer dizer.resposta já é dada de antemão aos problemas colocados pela solicitação — exemplo demonstrai que os suicídios não se devem a problemáticas individuais. enquanto que as soluções concretas pertencem aos próprios trabalhadores. 3. 3.tais solicitações concretas "com caráter terapêutico" não podem ser aceitas. muito menos a um militante ou simpatizante. com relação às práticas coletivas e aos mecanismos de "adaptação" à situação de trabalho. necessariamente. — pode ser que não encontremos nada do que esperávamos. os trabalhadores devem saber.4. Para que a pesquisa seja viável. de maneira a afastar qualquer solicitação pessoal de tratamento. crises de nervos. — ao se efetuar esse tipo de pesquisa. tentativas repetidas de suicídio etc. disfarçada. a de encontrar uma solução concreta para os problemas decorrentes de certos comportamentos aberrantes em relação ao álcool. é necessário que este ponto esteja bem claro anteriormente. De maneira também a afastar toda conivência ou complacência em relação ao ponto de vista oficial ou sindical daqueles que formulam a solicitação. mas outras coisas.3. ou de medicamentos e seus usos. o que não quer dizer. e qualquer pedido do mesmo tipo que venha a surgir no desenrolar da pesquisa. ao medo. que poderiam ter efeitos posteriores (por exemplo. a solicitação não é dirigida a um psicanalista. ou de doentes trabalhando no setor de pessoal. Ao "o que?" da solicitação. O terceiro aspecto importante do trabalho sobre a solicitação recebida concerne à explicitação dos riscos que estão implicados na pesquisa. Ao dirigirem-se a pesquisadores e não a simpatizantes.. à segurança. A quem a solicitação é dirigida? Esse é o quarto ponto relativo à solicitação. nem a um psiquiatra. e que são três: — pode ser que nada encontremos. há os riscos de colocarmos o dedo em aspectos desagradáveis.. mas às más condições de trabalho. de antemão. ou de problemas do sono..

de pesquisa pode levar a resultados contraditórios com as posições sindicais oficiais. mas sobretudo pelas categorias subjetivas*: são a solicitação e seu conteúdo que definem o coletivo pesquisado. Em todo caso. Nesse sentido. sobre a solicitação. Esta operação trata do que foi dito. mesmo se não for sempre justificada. no plano científico. A fonte das remunerações deverá ser sempre esclarecida. a pesquisa é sempre uma "pesquisa-ação". pois esse trabalho. è necessário reunir condições que. somadas. concerne à definição do que constitui o material da pesquisa. sexo. pela qual são remunerados. a parte mais difícil de ser formulada. 3. a impossibilidade de se efetuar pesquisas sobre qualquer grupo-controle (que não solicitaria nada). devido à sua formação. 4. 1 Ou seja. 148 . não se trata de uma obra beneficente e isto deve ser dito claramente..). tem seus efeitos: para que a solicitação seja aceitável e viável. O material da pesquisa Na metodologia da psicopatologia do trabalho. uma parte das questões que serão objeto da pesquisa já estarão esclarecidas na fase incial da pesquisa. um coletivo que se constitua em função das necessidades da pesquisa. De fato. sobretudo em economia ou em epidemiologia. seja através de um contrato de pesquisa ou pela posição de pesquisador.. as categorias que reúnem os indivíduos apresentando uma posição subjetiva comum. que consiste em sustentar uma solicitação (a de análise e compreensão de sua relação psíquica com o trabalho). do que pode ser reconhecido como "palavra". relativa a esse aspecto metodológico. O material é o resultado de uma operação efetuada naquilo que foi antes discutido pelo coletivo.5. Resta o como da pesquisa. provoque efeitos sobre a situação. até mesmo sobre as relações sociais na empresa. Vemos que a solicitação exige um trabalho específico de expli-citação. Em relação às pesquisas clássicas. mas que. ou seja. A independência do pesquisador é uma condição especifica do trabalho de pesquisa. Isto é importante. as questões materiais: os pesquisadores são pagos por esse trabalho. status social ou profissional etc. é. cheguem à formação de um coletivo ad hoc. sem dúvida. vemos que o "grupo homogêneo" não é definido pelas categorias objetivas (idade. A maior limitação.

viva. o modo operatório e as instruções de utilização que são divulgadas pelos enge-nheiros. que visa ser objetiva e operatória. como. mas fica faltando um comentário que nos indicaria algo sobre a vivência desses riscos. esque-maticamente. Nesse caso. por exemplo. não nos interessamos pela realidade dos fatos na situação de trabalho. por exemplo. vinda de grupo de trabalhadores. de seus trabalhos. citaremos o que se passa quando abordamos a questão do perigo no trabalho. Às vezes. da dimensão subjetiva da vivência desses riscos. Descreve-se a situação exterior ou. teremos uma listagem. como Catherine Teiger e François Daniellou. pelos trabalhadores. interpretações e até mesmo citações. Freqüentemente. A título de exemplo. que nos toca. Há nele um aspecto de distanciamento em relação ao que vem do exterior. uma descrição ou um recenseamento dos riscos observados na situação de trabalho. seremos inclinados a reconhecer a expressão de um investimento maior. Diferentemente da abordagem de cenos ergonomistas. Nosso objetivo não é a exposição da realidade do trabalho humano. Não existe então o comentário. de certo modo. quer dizer. Em um outro momento da investigação. esse comentário é marcado por uma ênfase interpessoal. como "comentário". em suas dimensões físicas e cognitivas. os comentários que são objeto de discussão e de posições contraditórias no grupo. O comentário seria. Ora. de modo que nos interessamos sobretudo pela dimensão do comentário: comentário que inclui concepções subjetivas. o de informar o outro sobre a maneira pela qual o coletivo estrutura sua relação com o trabalho. O comentário é o material por excelência para se tomar contato com a subjetividade dos trabalhadores. o que se poderia chamar de "exigências da tarefa" ("contraintes"). subjetiva.isto è. na discussão. Nossa pesquisa visa essencialmente a vivência subjetiva. hipóteses sobre o porquê e o como da relação vivência-tra-balho. tem um objetivo — o de convencer. identificamos a prevalência da descrição operatória em relação ao comentário... Além do mais. o que é uma formulação original. engajada. o comentário nem sempre é contínuo. ou seja. nem pela descrição efetuada. sobretudo.e a hierarquia (até mesmo sindicatos). tipo piadas etc. Possui uma finalidade explicativa. a palavra sobre "o esforço despendido nas tarefas" ("astreinte"). tende a dissolver-se numa descrição da realidade. do que constitui 149 . nem possui um caráter de permanência absoluta. Buscamos detectar o que tem valor de comentário e. a formulação do pensar dos trabalhadores sobre sua própria situação. não há a introdução. E por isso que damos um valor específico ao que já avaliamos anteriormente.

em outra parte. se temos como referência esse dado fundamental que estrutura toda nossa investigação ou seja. aparece concerne à tática utilizada para lutar contra a percepção. somos levados à interpretação devido à existência de uma clivagem entre o risco e o perigo.. aliás. eqüivaleria à posição de ocultação da relação entre realidade do risco epercepção do risco. mas as palavras utilizadas não são palavras subjetivas. é porque há um dispositivo defensivo estabelecido para lutar contra a percepção. se há um conhecimento "teórico" dos riscos. É precisamente a partir desses dados que postulamos que haveria no silêncio de um comentário uma postura tão ativa e específica quanto na sua presença. ou seja.. a negação de seu contrário etc. A abordagem coletiva visa. parecenos que falar do risco. em termos impessoais ou oficiais. um discurso padronizado ou estereotipado. mecânicas ou biológicas das exigências da tarefa. ou contra o sofrimento. entre descrição operatória e comentário subjetivo. ao contrário. introduz no comentário a problemática do perigo. pertence à categoria da descrição científica. ou o discurso sindical. contra o patético. A percepção. são palavras e descrições pouco personalizadas: reconhecemos nelas o discurso oficial da segurança e da prevenção. Descobrí15Q . ou o discurso da hierarquia etc. ao contrário. esclarecem as instituições oficiais. a ausência de comentários na discussão e expressão do grupo pode ter um valor expressivo. somos logo levados a procurar. Mas. Nós postulamos que se o comentário desaparece. Encontramo-lo facilmente nas formas classicamente reconhecidas em psicopatologia.itão. os sinais de um dispositivo defensivo. por essa razão. ■ . No mínimo. ou seja. Supõe-se assim que o risco pertence à realidade exterior objetiva e. em si. o risco definiria as características físicoquímicas.. entre realidade e percepção da realidade. Observamos assim que. o desafio. quando identificamos essa ausência de comentário. Como. um comentário sobre o perigo.a realidade extenor percebida. Ou seja. não há a correlação que se poderia esperar. A questão que. a percepção do risco.. Nesse caso. inevitavelmente. Essa realidade é conhecida dos trabalhadores e é devolvida a eles pela pesquisa. que remeteria especialmente para o lado humano os efeitos potenciais do risco na saúde. Em outras palavras. em geral. De maneira que. tais como a bravata. o discurso oficial nem mesmo menciona o perigo. A "negação da percepção" desdobra-se numa inversão da proposição relativa à percepção e ao sofrimento: teremos uma série de formações reativas contra o medo. relativa especificamente à percepção dos riscos. a relação sofrimento/defesa. a conjuração. então.

No lugar de uma resposta direta podemos ter. que desvia a questão colocada. 331-359. ou por Abramowitch** a propósito da construção civil*** Segundo esses autores. a discussão dirige-se para anedotas relativas às condutas paradoxais e às condutas chamadas perigosas Estamos novamente num discurso personalizado. A ideologia defen* BOUCHARD. até mesmo de gozo. mais ou menos rapidamente. "Etude éthnographique du vécu des taches de couver-ture dans le bâtiment" in C. afetivo. a relacionar cada comentário ou ausência de comentário ao contexto e ao que se inscreve como contradição em relação ao tema principal. DEJOURS.M. 1985. engajado. no Colóquio Nacional de Psicopatologia do Trabalho. Voltaremos a esse aspecto mais tarde. 151 . CHANLAT e M. É aqui que seria importante articular "defesa coletiva" com "ideologia defensiva". Ed. Paris. o que não é a mesma coisa.remos assim a defesa coletiva especifica do trabalho. os conhecimentos e a experiência. EME. C. 1985. subjetivo. o know how. um começo de comentário. Trata-se de um sistema defensivo. Organization. em torno dos riscos (segue-se uma listagem do que foi ditd>: "Então. Se nos atemos somente ao discurso direto ou a um só aspecto. DUFOUR: A ruptura entre a empresa e os homens. •** Ver relatório de APEC para o Ministério da Construção e o resumo fornecido por Abramowitch. do tipo proposto por Bouchard* com relação aos caminhoneiros. após uma breve hesitação. Tais dados são colocados pelo grupo como sendo suficientes para escapar à dimensão do perigo e do medo. VEIL. *♦ ABRAMOWITCH. pois o que queremos situar é: onde se localiza a passagem da interpretação antropo-etno-lógica à interpretação psicopatológica? Em psicopatologia do trabalho. há alguw tempo. que é imediatamente verbalizada e íormulada em resposta à solicitação grupai sobff a relação entre risco e perigo. Edit. podemos ser levados a interpretações por demais uní-vocas. os trabalhadores em questão teriam uma relação de prazer com o risco. lançamos a hipótese de que o desafio ao risco é unia manobra de ridicularização e de conjuração da percepção do perigo e do medo. J. pp. in A. não dialético. Psychopatho-logiedu travail. Paris. que tem valor de comentário. da temática proposta. A seguir. Por exemplo: a discussão gira. fixando se em considerações sobre a habilidade. S Être truckeur (routier)". pp. WISNER. quais são os perigos que ameaçam fisicamente sua saúde?". Toda a metodologia de coleta e recenseamento do material consiste em fazer aparecer o paradoxo. 102-104. um movimento do grupo como um todo. A.

contrabalançá-los ou contradizê-los. Em outras palavras. O gozo indicaria aqui uma dimensão de descarga compulsiva. à medida que se apresentam. trata-se não somente de restituir os comentários dos trabalhadores sobre o sofrimento. A confrontação com o risco aparece como uma escolha deliberada. num primeiro momento psicopatologico. "prova judicial através dos elementos naturais. de certo modo. principalmente sob o domínio da pulsão de morte. p. julgamento de Deus pela água ou pelo fogo" (Littré. Isso é conhecido em psicopatologia — e. Para voltarmos ao que constitui o "material" da investigação em psicopatologia do trabalho. os movimentos existentes entre o grupo de trabalhadores e o grupo de pesquisadores. A redação da obser152 . e não de prazer. como se tratasse de uma expressão do desejo. Parece-me que essa é a corrente interpre-tativa utilizada no artigo sobre os caminhoneiros. e não sob a pulsão de vida. em etnologia -. resumindo. como são rotulados nas ciências naturais. A partir desse ponto. 1318). a seguir. Erige-se então em valor e funciona. Como os fatos observados são subjetivos. procurando justamente o que vem. Esse par de contrários é interpretado em relação ao binômio sofrimento/ defesa. é apenas uma defesa. a defesa mascara-se em ideologia e oculta todo mecanismo intermediário. facilitando assim o acesso à dinâmica específica da pesquisa. como uma operação que consiste em construir aquilo que.siva seria elaboração afirmativa de um procedimento defensivo. 5. Se nos referimos à noção de ordália. com o comentário subjetivo do pesquisador. por exemplo. segundo Littré. Surge por último. Isso já foi particularmente argumentado no caso das toxico-manias.sob o nome de conduta ordálica. Não se trata apenas da descrição dos "fatos observados". diríamos que esse material se constitui nos comentários (e nas falhas ou faltas de comentários) completados e relacionados ao contexto. poderemos compreender que a confrontação com os riscos pode ter valor de gozo. A observação clínica A observação clínica é um material essencial para a elaboração e a discussão psicopatológicas. creio eu. que deve ser distinto do binômio sofrimento/prazer. o que nos interessa é colocar por escrito o que foi detectado pelos pesquisadores durante o desenrolar da pesquisa. literalmente. mas de ilustrá-los e articulá-los.

A observação clínica ocupa-se. as interpretações formuladas. que será entre153 . Esse resumo de pesquisa. tanto de um lado como do outro. para encontrar a formulação mais correta de um participante ou de um pesquisador. O objetivo da observação é mostrar o encadeamento. há dois procedimentos diferentes: ou um dos pesquisadores redige a observação que será depois submetida aos outros pesquisadores. as idas e vindas. seja porque decorrem da multiplicidade de observações ou da discussão sobre uma única observação. com os instrumentos subjetivos da observação. Se existem contradições que permanecem entre as diversas versões interpretativas. durante a pesquisa e o contato com os trabalhadores. Uma observação é ainda mais interessante e útil se consegue mostrar os caminhos percorridos pelo pesquisador. elas serão então registradas no relatório. na mesma seqüência daquelas que não o foram. ou então cada pesquisador redige sua observação. ainda mais que com os fatos observados. a experiência mostra que o texto literal do que foi dito não nos permite um trabalho muito rico de interpretação. geralmente realizada por vários pesquisadores. subjetivo. Numa pesquisa desse tipo. quando se trabalha sistematicamente umas contra as outras. é necessariamente de natureza muito diferente de um resumo visando a objetividade. excepcionalmente. os desvios. Esta redação é feita imediatamente após o término de cada encontro ou reunião de pesquisa. podemos nos basear nas notas tomadas durante a reunião ou visita e. trata-se de fazer aparecerem as idéias e comentários. os pesquisadores — e os trabalhadores. O mérito desse segundo método é o de fazer aparecerem imediatamente. O que fica invisível é o trabalho psíquico do investigador e os efeitos do que restitui ao grupo sobre o desenvolvimento dos comentários e da discussão. na situação concreta de pesquisa. Ficam assim evidentes a movimentação. durante a pesquisa. em fitas gravadas. as "interações" dos protagonistas da pesquisa entre eles — ou seja. interpretações divergentes. as reações que surgem. facilitando depois. e que são provenientes do pesquisador que redige a observação. Nessa ocasião. A observação clínica não tem nada a ver com um resumo ou uma decodificaçâo de fitas gravadas. E lógico que nessa observação escrita há uma parte substancial dedicada à palavra dos trabalhadores. E um trabalho que consiste em evidenciar e explicitar o caminho tomado pelo pensamento do pesquisador. o resumo comentado de um pesquisador é muito mais interessante para uma discussão. a partir da própria pesquisa. basicamente a partir da memória do pesquisador. nem de discussão. Muito pelo contrário. Na realidade.vação vai sendo feita depois. comentado. Em psieopatologia do trabalho. insitu. vivo.

ou seja. o trabalho de objetivação afasta-se da oòjetivação do dizer dos trabalhadores. A observação clínica tem. buscaremos saber se. Assim. baseados nas próprias pesquisas. as intervenções do pesquisador no grupo podem ser inadequadas. o material de interpretação em psicopatologia do trabalho é uma observação comentada. Se assim for. O interesse da observação também fundamenta-se por tornar transparentes as bases sobre as quais foram propostas as interpretações. dentro da nova interpretação proposta. só podem ser recolhidos através da subjetividade de um receptor do discurso. Conhecemos exemplos famosos. A nova interpretação. é possível que nasça a idéia de uma outra interpretação diferente daquela formulada pelo redator. observações essas que continuam a alimentar as dis154 . porque essa intervenção teve os efeitos em questão sobre a dinâmica intersubjetiva. a vantagem de poder ser submetida à discussão com pesquisadores que não participaram diretamente da pesquisa. apesar de aspectos contraditórios. esse material clínico. sob a nova interpretação. em geral. para a objetivação da intersubjetividade. como também é possível mostrar. isto é uma prática freqüente em psicopatologia. o homem dos ratos e o pequeno Hans. Nesse caso. Se acontecer que diversas versões sejam simultaneamente mantidas pelo grupo. Como se dá então uma contestação científica? A intersubjetividade implica em originalidade e unidade absolutas? Torna impossível qualquer argumentação ou contestação? Não. apresenta a vantagem de poder ser retomado por outros pesquisadores que poderão. Aliás. propor novas interpretações para esta observação. mas é preciso levarmos em consideração que o sofrimento. fórmulas defensivas múltiplas. e não apenas em psicopatologia do trabalho. a vivência. é possível argumentar porque a intervenção parece inadequada. para ser aceita. Uma das versões obterá um consenso e as outras serão rejeitadas. no interior desse coletivo de trabalhadores. como já indiquei acima. Isto é verdadeiro. Portanto. assim como o prazer.gue aos trabalhadores. principalmente. existem subgrupos que produziriam relatos diferenciados em relação à situação de trabalho. A partir da leitura de uma observação. que trata fundamentalmente da relação do grupo com o observador. principalmente a respeito das observações de Freud com o homem dos lobos. deve ter um valor heurístico superior à primeira e ser mais econômica do que esta. Dessa maneira. o afeto e a dimensão subjetiva. ou aparecerão neste sob forma de perguntas. Pode-se objetar que com esse tipo de material distanciamo-nos do contato objetivo com a palavra e a vivência dos trabalhadores.

rein-terpretação essa que elabora uma nova concepção das fobias e. as objeçòes e reconstruções ou reinterpretaçôes tratam sempre do relato literal fornecido da palavra do paciente por Freud. Ed. e a posição do pesquisador. de sua^ respostas ou interpretações. seja essa psiquiátrica. mas também da atitude de Freud. o pesquisador só pode * ABR/VHAM. 155 . Ed.. surpreendente. Enfim.cussões e as interpretações. por Nicolas Abraham e Maria Torok*. de não estar numa posição semelhante à dos trabalhadores com os quais se realiza a pesquisa. Paris. na verdade. uma posição terceira em relação aos trabalhadores que participam da investigação e análise da situação de trabalho. Esses dados passam pela subjetividade do pesquisador. individual. segundo a opinião da maioria dos psicanalistas atuais ò de grande interesse. a reinterpietação do caso do pequeno Hans e do homem dos lobos. baseada em sua prática clínica. O que é importante considerar é a defasagem existente entre a palavra dos trabalhadores e a experiência do pesquisador. incompreensível. objetivamente. pressupomos que o pesquisador possa manter uma posição estrita de pesquisar. N. ou seja. "Lécorce et le noyau". de levar em conta a tensão que surge. Em todo caso. No encontro com os trabalhadores temos por objetivo formalizar o que. para o pesquisador. Trata-se. também. Observamos que. parece ser espantoso. subjetivos e seria ilusório querer objetivá-los. tanto no plano da orientação da cura e da técnica de interpretação. psicanalítica ou de psicopatologia do trabalho em outras áreas. M. Paris. TOROK. Em nossa opinião. em relação à experiência que possui. essencialmente. Aubier-Montaijgne. por exemplo. em relação ao conjunto do saber em psicopatologia. Aubier-Montaigne. Não se trata pois de um trabalho acadêmico. "Le verbier de 1'homme aux loups". tanto na descrição como na identificação e formulação dos mesmos. como no da própria teoria psicanalítica. angustiante. como testemunham. 6. mas de um trabalho de interpretação. O método de interpretação O sofrimento e o prazer são. agressor etc. desgastante. devido à distância entre a posição baseada no fato de ser trabalhador numa empresa.

O trabalho de formulação. Essa postura é fecunda quando vemos que os trabalhadores acabam dizendo ao pesquisador coisas que não sabiam. geralmente. de verbalização. uma reunião especificamente organizada para devolver-lhes uma síntese dos resultados. Em outras palavras. ' Grifo da tradução. com outros que se juntaram a ela. Há. A validação faz-se. explicar as coisas e fazer compreender o que ele desconhece. e que seja passível de uma escuta e interpretação. eventualmente até aprofundados. temas e comentários são feitos à medida que a discussão se desenrola. durante a própria pesquisa. justamente porque fica claro que o pesquisador é diferente deles. e não como especialista. do mesmo modo que falamos a uma terceira pessoa. Uma nova discussão pode eventualmente acontecer. geralmente. dessa vez claramente dirigida para a relação sofrimento/organização do trabalho. eventualmente. como já dissemos a respeito do desenvolvimento da investigação.situar-se como interlocutor. Se é possível um trabalho que emane de um coletivo de pesquisa. com novo material de análise. alguém a quem se aceita. é também porque — numa posição diferente dos trabalhadores — o pesquisador é alguém que não sabe*. eventualmente. de expressão e de elaboração é potencialmente viável. ou seja. Primeiro. a própria continuidade da investigação e seu seguimento. observações e interpretações. interpretações. hipóteses. 156 . as elaborações. mais tarde. com os trabalhadores que participaram da pesquisa e. quando temos. após a entrega do relatório-anterior-mente enviado aos trabalhadores para uma análise crítica. como também o investimento mantido pelos interessados. acreditamos que essa terceira posição é que torna possível a abertura para uma "palavra" que fale do sofrimento. trabalhadores. em dois momentos. sendo então rejeitados ou retomados. um segundo momento. 7. do prazer. formam o primeiro momento da validação das interpretações. Em nossa opinião. essa é a questão fundamental. Podemos assim avaliar as reações dos trabalhadores e modificar ou corrigir o relatório final. Validação e refutação Evidentemente. ou seja.

originárias de disciplinas ou de metodologias diferentes daquelas utilizadas em psicopatologia do trabalho. abrindo assim um caminho direto para debates teóricos internos. em psicopatologia do trabalho. Temos boas razões para pensar que uma crítica seja possível a partir de outras disciplinas. Nesse jogo entre pré-consciente e inconsciente é que se negociam as relações de prazer. aprisionado. Esse modelo permanece subjacente à pesquisa e ao trabalho de interpretação. provenientes de uma relação específica com o inconsciente. Um dos eixos da interpre tação está. 8. Parece-nos que a crítica possa se dar. o que não deixa de ser importante. no que se encontra expresso e representado pelo sujeito na cena do trabalho e no que parece estar excluído ou contido. pela comunidade científica. justamente. Resta ainda a questão da reiutação a nível estritamente cientifico. Na ótica objetiva só podemos conhecer as desregulações e as reequilibrações. Resta saber se uma refutação seria possível a partir de outras disciplinas ou de outras pesquisas. de análise de interpretação é que essas noções só podem ser elaboradas através das relações intersub157 . Temos. A outra idéia de base de nossa metodologia é que não conhecemos sofrimento ou prazer objetivos. na exposição das contra dições e anomalias detectadas na clínica do coletivo de trabalha dores. entre outros. de desejo e de saúde mental e até de saúde física. como idéia central. em relação ao que temos de experiência do homem pela prática psiquiátrica. teremos uma validação ou invalidações provenietues do coletivo dos trabalhadores. em suas origens. que o sofrimento e o prazer são. emaranhado ou reprimido desta cena. principalmente. Metodologia e teoria em psicopatologia do trabalho E claro que a psicopatologia do trabalho baseia-se num modelo de homem e de subjetividade emprestado da psicanálise. psicoterápica e psicanalítica.I Com tai procedimento. Nosso princípio de investigação. mas essa perspectiva não nos ensina muita coisa sobre a vivência subjetiva qualitativa. se nos referimos também à psicossomática. a nível teórico e metodológico. mas raramente sobre o material clínico propriamente dito. de sofrimento. Essa refutação é basicamente possível através de uma contra-pesquisa que possa fornecer outros resultados e interpretações. ou seja. na medida em que este se apoia.

158 . que é preciso distinguir da atividade de pensar. através de uma pesquisa em psicopatologia do trabalho. não como uma série de palavras. a palavra é o mediador privilegiado dessa relação e ê sobre ela que trabalha psicopatologia do trabalho. Ato que implica um ato de pensar. estudar os obstáculos que o trabalho coloca para essa ressonância metafórica e que parecem-nos ser um elemento determinante do poder estruturador ou desestruturador do trabalho em relação à economia psíquica dos trabalhadores.jetivas. mergulhar na dialética ator-sujeito. O que visamos. Ao fazê-lo. as conseqüências dessa relação na vida fora do trabalho e na vida em geral. devemos entender a fala. mas como um ato. o espaço possível do sujeito para utilizar-se do trabalho como "ressonância metafórica" na cena da angústia e do desejo. o que tratamos de estudar é a posição dos sujeitos na relação de trabalho e. Enfim. Ou. Nesse sentido. ainda. A psicopatologia não é nem um pouco assimilável à etologia. é a possibilidade dos autores da mesma pensarem sua situação em relação ao trabalho. mais precisamente. ou seja. no sentido que lhe dão os cognitivistas.

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CRP-06 . e outra relativa à relação entre saúde e normalidade. O cônjuge. Toda a família é requisitada pelo trabalhador em seu esforço em enfrentar as dificuldades no trabalho. como teríamos a considerar há dez anos nas pesquisas de psicopatologia do trabalho. seja a saúde. isto é. O termo trabalho deveria figurar na própria definição de saúde. o prazer no trabalho e os benefícios provenientes da relação de trabalho no registro da saúde também têm repercussões favoráveis na economia das relações da família e no desenvolvimento psíquico e afetivo dos filhos). 1) O trabalho nem sempre aparece.Houve mudanças na definição do conceito de saúde a partir de 1982? Dejours . aos trabalhadores. o trabalho não é nunca neutro em relação à saúde. Sob este aspecto. De modo que o trabalho deveria aparecer na própria definição do conceito de saúde. mas torna-se totalmente inconsistente a partir do momento em que se trata das relações sociais e das questões de saúde. De qualquer maneira. Tradução de Lúcia Leal Ferreira. é importante.Estão surgindo duas tendências uma relativa ao papel do trabalho na saúde. como disse acims. como uma fonte de doença ou de infelicidade. Trabalho e Cidadania Três aspectos presentes no novo conceito de saúde discutido por Christophe Dejours Entrevista concedida à Comissão de Saúde do Conselho Regional de Psicologia — & Região e publicada no "Cadernos CRP -06" de Outubro de 1991.Normalidade. Com efeito. mas também fortemente. figurando na definição da Organização Mundial da Saúde. e particularmente no que concerne à definição do ideal do "bem estar social". pelos efeitos dassituação do trabalho sobre aquele que nela se encontra exposto (uma parte da violência comum nas relações conjugais. ressaltar que a relação saúde/trabalho não diz respeito apenas à pessoas diretamente engajadas no processo de trabalho. mas acontece que as condições em função das quais o trabalho age como gerador de doença ou de saúde são muito contrastantes. ele é as vezes operador de saúde e de prazer. uma parte do alcoolismo e das doenças têm relação com as dificuldades no trabalhe e tocam todos os membros da família. e favorece seja a doença. por exemplo sob 164 . No sentido inverso. ao contrário. a divisão entre espaço de trabalho e espaço privado só é eventualmente pertinente na análise econômica. Por outro lado. o trabalho ocupa um lugar muito mais importante na luta contra a doença do que se supunha até agora nas concepções cientificas. os filhos e às vezes até os pais do trabalhador são atingidos indiretamente. Finalmente. ocorrem importantes desigualdades entre os trabalhadores de um mesmo país e de um mesmo período histórico.

por um lado. analisar e elucidar as estratégias que eles mesmos elaboram para lutar contra a doença. senão a maioria delas. mais somos levado a nos espantar com o interesse exclusivo dedicado às pesquisas sobre a doença. para onde submerge uma parte do sofrimento que não consegue encontrar soluções adequadas. Somente a partir destas estratégias inventadas pelos doentes teremos chances de não mais preconizar esta orientação dos técnicos de tratamento como um ideal ou uma utopia. e já há muito tempo é bastante preconizado em diferentes grupos de clínicos e de pesquisadores. a loucura e a morte. Mas o que ainda não foi suficientemente enfatizado é que. dos acidentes e de todas as formas de atentado à integridade física e mental. Quanto mais avançamos nos estudos em psicopatologia do trabalho. Imediatamente descobrem-se a habilidade. isto é. a astúcia inacreditável dos homens e das mulheres em inventar estratégias defensivas que lhes permitem permanecer dentro da normalidade. uma luta incessante para reconquistar o que se perde. por um lado. reestabilizar o que se desestabiliza. Esta maneira de apreender as coisas é determinante em tudo o que diz respeito à prevenção das doenças. a inteligência. sem compreender-lhes a razão. para poder partir da mobilização da inteligência dos doentes. nos tratamentos médicos mobiliza o sujeito em seu tratamento. Falar de "bem-estar social" sem dar a essas referências ao trababo um conteúdo preciao aparece hoje em dia como um erro. dar mais ênfase à parte que. I 165 . e de obter em troca um reconhecimento social equivalente. a loucura ou a morte. Nas abordagens terapêuticas. A normalidade é fundamentalmente enigmática. Seria necessário. apesar de condições de vida tão duras e desestabilizantes. conseguem resistir. 2) As relações entre saúde e normalidade. Isto não é nada original. deveria-se diminuir um pouco a parte dedicada às condutas prescritas ou ordenadas a sujeitos que devem executá-las pacientemente e com disciplina. assim como à inteligência do sujeito em relação à luta contra as dificuldades desestabilizantes e patogênicas.a forma do direito fundamental de contribuir para a saúde e o trabalho social. Normalidades e saúde não são exatamente equivalentes. notadamente patologias somáticas. Um novo problema científico emerge. refazer o que se desfaz. Ela nunca é dada como um presente da natureza: ela supõe uma construção feita por cada um dos sujeitos. A referência à normalidade e às estratégias defensivas. e até conquistar um pouco de felicidade? O novo problema que se coloca hoje é o da "normalidade". cuja amplitude é ao menos comparável: como compreender que. * '£«. é preciso antes conhecer. ao contrário. e em psicopatologia e em psicosaomática por outro. soluções que passem pela transformação da situação concreta de maneira a adequá-la melhor às necessidades e aos desejos do sujeito. A normalidade é freqüentemente conquistada a custo de certas patologias crônicas. tantas pessoas. sem dúvida daria à concepção dos tratamentos uma orientação diferente da que prevalece nas abordagens médicas e psiquiátricas clássicas. sobreviver.

Sim. a seus próximos. de vantagens materiais. à sua própria evolução ou i emancipação de seus próximos ou de seus filhos. Em outras palavras. mas que pediriam desenvolvimento complexos demais para o contexto desta conversa. a ausência de um sentido socialmente construído capaz de substituir o sofrimento vivido 166 . que são mediatizadas pelas soluções elaboradas pelas pessoas para enfrentar o sofrimento. por um lado. o sujeito tende a voltar-se para uma posição dita "individualista". que as condições sociais e éticas do par contribuição/retribuição são determinantes na construção do sentido do sofrimento e no engajamento dos sujeitos nas questões da cidade. pode ser considerado ou interpretado como o preço a ser pago por fazer sua contribuição à evolução das relações sociais. de reconhecimento de identidade e de originalidade. Enfim. e de reconhecimento social. de sofrimento e de doença adquirem um sentido nas relações sociais. A retribuição em forma de salário. Algumas dessas soluções direcionam-se diretamente para o espaço público. Ora.Existem relações entre saúde e engajamento cívico? Dejours . está à altura da contribuição que o sujeito dá à sociedade. portanto. não há nenhuma chance de o sofrimento levar à formulação de opiniões enunciáveis no espaço público e na cidade. chegamos à conclusão que existem relações preciosas entre saúde e civismo. Na falta de retribuição suficiente no espaço das relações sociais para o sofrimento de cada sujeito. Em contrapartida. tio denunciada como um mal específico da atual "crise de civilização" Mu nío é nada disso. então os problemas de saúde. O sofrimento pode também ser considerado uma provação divina. portanto. mas falar de engajamento nas relações sociais é insuficiente para dar conte da interpretação que cada sujeito dá de seu sofrimento. enquanto outras levam as pessoas a voltarem-se para o espaço público e as responsabilidades cívicas. o que contribui para mobilizar o sujeito em direção às coisas da cidade. A questão crucial reside no par contribuição/retribuição. àqueles que encontra em suas relações sociais? Se esta retribuição é conveniente em relação à contribuição e às implicações dela provenientes em termos de sofrimento ou até de doença. Em contrapartida.CRP-06 . por outro. a resposta que cada um dá individualmente ao sentido do seu sofrimento depende fundamentalmente da maneira pela qual está engajado nas relações sociais. o sofrimento só encontra sentido no espaço privado e na deliberação interior. na medida em que seus próprios interesses identificam-se com as grandes questões tratadas no espaço público. quando a retribuição. existem relações extremamente precisa. Na falta de uma construção do sentido do sofrimento nas relações sociais. Sofrimento e doença podem ser vividos e interpretados pelas pessoas como golpes do destino ou como fatalidades. esta retribuição. Nas pesquisas que realizamos no Conservatoire National des Arts e Métiers. em relação à contribuição individual. a questão coloca-se fundamentalmente em relação à construção do sentido ou da significação do sofrimento e da doença. é irrisória ou muito decepcionante. Vê-se. à empresa. de reconhecimento do mérito.

Em nossos países. as causas dessa ineficiência são "naturalizadas". concernentes à relações entre saúde e civismo. Hoje. CRP-06 . sobretudo da saúde mental. fora de uma construção social do sentido do sofrimento o risco principal é o non-sense da doença. mental e somática do doente. a restrições orçamentárias importantes no campo da saúde. Hí outras dimensões a tratar. passa.individualmente. da psiquiatria e da assistência social. como parece testemunhar uma indubitável crise de doutrinas e da pesquisa clínica em psiquiatria em países como a França. que "toleram". A conseqüência disso e o desânimo. notadamente. o engajamento das pessoas na melhoria da saúde mental dos outros era considerado uma virtude. Podemos temer que esta evolução leve a uma estagnação dos progressos e das pesquisas em matérias de melhoria da saúde mental. se houver uma. o maior risco é que sejam cometidos enganos quanto à natureza e às causas do fracassos da medicina. colocam-se problemas muito sérios que dizem respeito não apenas à medicina.O psicólogo pode fazer alguma coisa em favor da saúde dos profissionais da saúde? Dejours . Trata-se precisamente de técnicas de tratamentos. transformando-a em vocação de "guardião". pior ainda. por uma abordagem da prática terapêutica como se tratasse de um trabalho. A solução. acusam-se uns aos outros pelos fracassos técnicos*.Quando não há mais debates públicos sobre os problemas da saúde mental. Rapidamente nascem conflitos entre os próprios profissionais que. Será 167 . do desenvolvimento da medicina e das bio-íecnologias. existem problemas importantes que aparecem e que transtornam a paisagem. Isto ocasiona uma preocupante regressão na vocação de tratar. da psiquiatria e das técnicas de tratamento. são atribuídas à incompetência e à falta de senso de responsabilidade dos profissionais. & decepcio. que vivem dela e dela se aproveitam. Pouco a pouco. Até recentemente. isto é. que sabemos que muito contribuem para acelerar o curso dos processos mórbidos. Aqui. sem poder remontar até às condições sociais de extinção dos debates sobre saúde. CRP-06 . O resultado é um grande desânimo entre as pessoas responsáveis pela saúde mental na França. Os que resistem melhor são os que suportam bem a doença. a situação seleciona entre os que sofiem desta evolução e desta desvalorização uma população de pessoas que nem sempre é a mais motivada para a luta contra a doença. mas sobretudo ao modelo do homem que serve de referência ética e política à organização de nossas sociedade.Como é a saúde mental dos profissionais responsáveis pela melhoria da saúde mental dos outros? Dejours . Por causa disso. assistimos a uma degradação das condições de trabalho. que eu não poderei «desenvolver aqui. ou. segundo nosso ponto de vista. e do que na Europa é chamado de "instrumentação dos corpos". às vezes até o desespero. pouco a pouco. tem conseqüências na evolução efetiva.

mostram que o debate coletivo sobre a organização do trabalho de tratamento mobiliza a coordenação entre as pessoas e pode atenuar consideravelmente os antagonismos intenndividuais que. na realidade. profissional. O profissional tem que se haver com problemas de duração de estadia. sua inseivão social. Estes espaços de discussão não seriam exatamente destinados a fazer emergirem os problemas pessoais dos profissionais. problemas ligados ao seu sofrimento singular.necessário proceder a verdadeiras pesquisas de psicopatologia do trabalho sobre o trabalho dos profissionais da saúde. até então. As experiências feitas neste sentido. V • ♦ • tr^ÍÊf$ í O papel do psicólogo poderia-wrtáo' consistir em organizar espaços de discussão no próprio local de trabalho. O profissional tem que se haver com as demandas e com t> sofrimento da família do doente. o sofrimento dos profissionais da saúde pode ganhar um sentido pela ação de transformação do trabalho real e tratamento. com a aceitação ou a recusa pelo doente do tratamento que lhe é proposto etc. de acordos e de desacordos entre os membros de uma equipe. Assim. ^agtogg uwversioadefeobuldomsm* §H2 SISTEMA DE BIBLIOTECAS 168 00051442 . a loucura e a morte. mas pelo conjunto das equipes encarregadas dos doentes. apenas agravaram o sofrimento inevitavelmente produzido nos profissionais pelo confronto com a doença. Descobrimos também que. teremos condições de descobrir em que consiste a irredutível deiasagem entre a organização' prescrita do trabalho de tratamento e os problemas realmente encontrados. Eles lidam com sua inserção familiar. os tratamentos dos cancerosos. Assim. : Assim. Os problemas a serem abordados nestes espaços de discussão diriam respeito à arbitragem em matéria de organização do trabalho de tratamento. Os profissionais lidam com problemas relativos às condições materiais c pecuniárias do doente. Assim. os tratamentos dos doentes crônicos aparecem como muito mais problemáticos do que supWm»^mrtfjleK referência à doutrina médica. sua dificuldade em manter seu próprio equilíbrio mental ou somático. ou seja. afinal. no momento de arbitrar em meio a essas numerosas dificuldades concretas da realização do tratamento tal como ele é prescrit" pela ordem médiHr/aparecem opiniões divergentes entre os diferentes profissionais. mas da construção de consensos. com autorizações ou proibições de saídas dos doentes. uma grande quantidade de problemas é gerada não pelos médicos individualmente. o psicólogo pode contribuir não mais tratando os profissionais e sim ajudando-os a elaborar sua relação com o trabalho e a catalisar a transformação e até melhoria da organização do trabalho. tanto na França quanto no Canadá. Percebemos então que. De" maneira que'. Perceberemos então que tratar não consiste simplesmente em executar as prescrições elaboradas ou prdBcritas em uma lógica estritamente médica. com a condição de aprender a decifrar a fala dos profissionais da saúde em relação ao esquema de organização do trabalho e não mais ao esquema da psicopatologia individual. a conduta terapêuticas depende não somente de um indivíduo. os tratamentos dos doentes mentais.

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