r Dedos Internacionais de Catalogação na Publicação (OP) (Câmara Brasileira do Uvro, SP, Brasil) Dejours, Chhstophe, 1949D373I A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia

do tratelho/Christophe Dejours; tradução de Ana Isabel Paraguay e Ltf-cia Leal Ferreira. - 5! ed. ampliada São Paulo : Cartaz — Oboré, 1992. Bibliografia. ISBN 85-249-0101-2 1. Estresse do trabalho 2. Trabalho - Aspectos psicológicos 3. Trabalho e classes trabalhadoras Doenças 4. Trabalho e classes trabalhadoras - Saúde mental I. Título. II. Estudo de psicopatologia do trabalho. CDD-158.7 -362.2 -616.9803 87-1748 NLMWA400 índices para catálogo sistemático: 1. Estresse do trabalho: Medicina 616.9803 2. Loucura do trabalho: Medicina 616.9803 3. Psicologia do trabalho 158.7 4. Trabalhadores: Distúrbios mentais: Patologia soeU 3622 5. Trabalhadores: Saúde mental: Patologia social 362.2 6. Trabalho: Aspectos psicológicos 158.7 7. Trabalho: Doenças: Medicina 616.9803 Christophe Dejours, 38 anos, nasceu e vive em Paris. É doutor em medicina, especialista em medicina do trabalho, psiquiatra, psicanalista, ergonomista e ex-professor da Faculdade de Medicina de Paris. Hz pesquisas sobre temas situados nas fronteiras da psicopatologia: psicossomática e psicopatologia do trabalho. Trabalha no Centro Hospitalar de Orsay. E casado com uma psiquiatra e tem duas filhas. Além deste A loucura do trabalho, editado na França em 1980 e agora traduzido para o português com um anexo metodológico inédito em seu país de origem, publicou em 1986 Les corps entre biologie etpsychanaiyse, participou nas obras coletivas Corps malade et corps érotique (1983) e Psycliopatologie du travatí (1985), tendo editado 67 artigos nas mais diversas publicações especializadas entre 1973 e 1986. Foi o organizador do Primeiro Colóquio sobre Psicopatologia do trabalho, realizado em Paris, em setembro de 1984. Já esteve no Brasil, em São Paulo, em 1983, participando do / Colóquio franco-brasileiro sobre divisão do trabalho, divisão dos riscos e saúde k

Christophe Dejours A loucura do trabalho estudo de psicopatologia do trabalho Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira 5a edição ampliada 4a reimpressão OBORÍ

© Édiuons du Centurion, 1980. Direitos de tradução e edição em língua portugvett reservados por OBORÉ Editorial Ltda. Rua Vergueiro, 727, 7° andar - 01504-001 São Paulo, Brasil. Telefone: (011) 278.6100. Fax: (011) 277.2749 Capa, projeto gráfico e produção: Sônia Rangel e Cerifa. BC/BIBLIOTECA DE CIflNCIAS HUMANAS E EDUCA60 ^ HOÍSS LIMONAD y ^ # R$ Terio No. 22/02/99 9.60 131/99 Registro:289,666 © da tradução, 1987, de Ana Isabel Paraguay (capítulos 3, 5, 6 e Anexo) e de Lúcia Leal Ferreira (introdução, capítulos 1, 2,4 e conclusões). Publicação e comercialização CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 387 - Tel.: (OU) 864-0111 05009 -São Paulo -SP Impresso no Brasil - Abnl de 1998

...............Sumário Apresentação...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 27 As "ideologias defensivas" (o caso do subproletariado) .......................................... 69 ° medo em tarefas submetidas a ritmos de trabalho...................... 9 Introdução ................................................................ 37 \~*»Capítulo 2 — Que sofrimento?.............. 63 Os sinais diretos do medo........................ 53 •* Capítulo 3— Trabalho e medo ................................................................. 27 Os mecanismos de defesa individual contra a organização do trabalho: o exemplo do trabalho repetitivo .............................. 48 "**O Insatisfação e conteúdo significativo da tarefa.. 18 Terceiro período: após 1968 ... 22 Capítulo 1 — As estratégias defensivas ............................... 75 > As diferentes formas de ansiedade..... 77 I ........ 73 ■ A ansiedade e as relações de trabalho....................................... 65 Os sinais indiretos do medo: a ideologia ocupacional defensiva................................................................... 14 Da Primeira Guerra Mundial a 1968.............. 11 O século XIX e a luta pela sobrevivência.............................................................. 48 Insatisfação e conteúdo ergonômico do trabalho...................................

..........................Capítulo 4— Um contra-exemplo: a aviação de caça ................................................................... 104 Capítulo 6 — A organização dó trabalho e a doença .. 126 Conclusões ............................................................................................................................. 133 Anexo: A metodologia em psicopatologia do trabalho .......................................... .......... 141 Bibliografia .................. 159 Entrevista ......................................................................................................................... 80 Capítulo 5 — A exploração do sofrimento ... I 164 ......... 97 \ A exploração da ansiedade............................... 96 / A exploração da frustração......... 122 A doença somática ...................................................................................................................................................................................................................... 119 A doença mental......................................

começou com a presença do autor aqui no Brasil para o lançamento da 1! edição. A receita deste sucesso está na reunião de três ingredientes básicos: o fascínio do tema abordado . Várias teses de mestrado e doutorado brasileiras apoiaram-se na abordagem de psicopatologia do trabalho de Dejours. o seu método de investigação e a forma pelo qual Dejours os trata. Que. ou os trabalhadores por elas atingidos. mas o sofrimento no trabalho. Em várias regiões do Brasil formaram-se grupos de estudo informais para ler e discutir o livro. "A Loucura do Trabalho" passou a ser uma referência básica.as relações entre trabalho e saúde mental -. administração e até engenharia de produção. Todo este trabalho de divulgação deu frutos. Usure Mentale" de Christophe Dejours é um atestado de sucesso. "um estado compatível com a normalidade mas que implica numa série de mecanismos de regulação". psicologia. Não se trata de estudar as doenças mentais descompensadas. nas usinas. mas sim todos os trabalhadores.Apresentação A 5* edição brasileira de "A Loucura do Trabalho". não a loucura. medicina social. aliás. nos escritórios e é submetida a pressões no seu dia a dia. Este livro faz avançar uma disciplina que tem permanecido até agora muito embrionária: a psicopatologia do trabalho. recomendada por professores das mais diversas áreas acadêmicas: sociologia. a população real e "normal" que está nas fábricas. tradução de "Travail. amplia-se notavelmente o próprio objeto de estudo da psicopatologia do trabalho. _O mais estimulante no trabalho de Dejours é exatamente a questão que ele se propõe a responder: como fazem os trabalhadores para resistir aos ataques ao seu funcionamento psíquico provocados pelo seu trabalho? O que fazem para não ficarem loucos? Com esta questão. em 1987 e sua incansável e brilhante participação em inúmeras reuniões e debates acadêmicos e sindicais^ as entrevistas que concedeu a vários órgãos de imprensa. . O objeto de estudo passa a ser.

Aí. numa relação de intersubjetividade entre eles e os pesquisadores. então emerge um sofrimento patogênico. Um assunto apaixonante que pode ser a chave para a compreensão de vários pontos ainda obscuros do comportamento humano. isto é. Implica. as noções de prazer no trabalho. Leda Leal Ferreira Ergonomista 10 . os sujeitos criam estratégias defensivas para se proteger. Tudo então se passará em torno da interpretação da fala e dos silêncios dos trabalhadores. É na organização do trabalho que devem ser procuradas estas forças. E este é o terceiro ponto da teoria de Dejours: explicar no que consistem estas estratégias. a falta das quais pode representar uma insuportável violação do equilíbrio psíquico dos trabalhadores. na realidade exige vários requisitos da parte dos pesquisadores e tem de seguir regras deontológicas bem estritas. a divisac dos homens para garantir esta divisão de tarefas. Quando a organização do trabalho entra em conflito com o funcionamento psíquico dos homens. Ele tem o mérito fundamental de tratar corajosamente de um assunto que é ainda muito pouco explorado: as relações entre o trabalho e a vida psíquica. Trabalhadores e pesquisadores formam um grupo de trabalho com o objetivo explícito de entender as relações que podem eventualmente se estabelecer entre organização do trabalho e sofrimento psíquico. representada pelas hierarquias. os ritmos impostos e os modos operatórios prescritos mas também. Este método aparentemente simples. com os quais vem trabalhando mais recentemente . Ele tem uma linguagem ao mesmo tempo precisa e sem tecnicismos que cativa os leitores. aparece outro conceito base na teoria de Dejours: o papel da organização do trabalho. antes de tudo. um estado de luta do sujeito contra forcas que o estio empurrando em direção à doença mental.A noção de sofrimento é central para Dejours. "'A Loucura do Trabalho" é um livro que abre a cabeça para novas idéias e novas interpretações sobre o homem. "quando estão bloqueadas todas as possibilidades de adaptação entre a organização do trabalho e o desejo dos sujeitos". Seus exemplos são eloqüentes. E ele esclarece que entende por organização do trabalho não só a divisão do trabalho. Os conceitos e o método ganham uma coloração especial pelo modo como são expostos por Dejours. Os conceitos que estão na base da teoria de psicopatologia do trabalho de Dejours foram elaborados e continuam sendo enriquecidos -por exemplo. e sobretudo. a divisão das tarefas entre os operadores.a partir de um material empírico obtido através de um método de investigação também novo. Mas como isto tudo é um processo dinâmico. as repartições de responsabilidade e os sistemas de controle. ou de sofrimento criativo e sofrimento patogênico. como elas surgem e evoluem.

cada um tivesse em si experiência suficiente para falar do inferno e nunca do paraíso. à Vivência alguns passos de vantagem sobre a Palavra. nós procuraremos divulgar aquilo que. poderíamos nos satisfazer com as inumeráveis descrições que foram dadas sobre a violência na fábrica. no afron-lamento do homem com sua tarefa. das telefonistas etc. a exemplo de Dante. por causa das paixões que ele desencandeia. da linha de produção. em contrapartida. Como se. para revelar certos sofrimentos que. Curioso paradoxo. Evocar o sofrimento e a doença é. Assunto dentre os mais perigosos. para usar um truísmo. Mais precisamente. apesar de alguns trabalhos importantes dos anos 50 (57-59). assunto que suscita. a critica social e levanta a questão explosiva das escolhas políticas. tanto da parte dos trabalhadores quanto da parte dos dirigentes e dos especialistas. mais fácil: todo mundo o faz. no escritório. sempre há o que descobrir neste domínio. Em se tratando do trabalho.Introdução Falar da saúde é sempre difícil. definitivamente. ficou no estado embrionário. Apesar de tudo o que se pôde dizer e escrever sobre a infelicidade. infalivelmente. Quando se conhece o desenvolvimento de que se . das indústrias de processo. falaremos dos serviços públicos. no entanto. na verdade. Sabe-se que a psicopatologia do trabalho. na oficina. que dá. põe em perigo sua vida mental. foram negligenciados até hoje pelos especialistas do homem no trabalho. das fábricas.

Nós deixaremos de lado. têm por objetivo encontrar. Seu objetivo não é. de aparição muito mais recente. O campo da psicanálise é centrado sobre a vida de relação e. há vários anos. a três. A primeira seria atribuí-lo à imaturidade da psicologia. é notável o lugar privilegiado que essas disciplinas ocupam. na dinâmica dos pequenos grupos. a própria vida mental. que deixa à margem. que sempre dariam conta das experiências concretas. na arte e na medicina. Olhando-se de perto. o dasein — para 12 . no máximo.. oporemos. a vivência hic et nunc. da psiquiatria e da psicanálise. desejamos fazer com que apareçam vivências diferenciadas e irredutíveis umas às outras. deliberadamente. Podemos propor várias explicações para este fenômeno. essas disciplinas. o de evidenciar o que há de único. de uma vez por todas.beneficiaram as ciências humanas. a psicossociologia não procura apenas evidenciar os pontos comuns a todos os grupos. a angústia. ou um conselho de administração. os fantasmas. as características postas em evidência pela análise dual. em outras palavras. os esquemas de padrões comportamentais. as observações quantitativas. ou. a raiva. na literatura. Ao contrário. a psicanálise de grupo e a psicossociologia. de um século para cá. jamais. na medida em que estas são regidas por regras que não se deixam reduzir ao jogo das relações chamadas de "objetais". ou de'irredutível. E não de uma vivência operária que seria um denominador comum a todas as situações de trabalho. mais precisamente. o sonho.. no sentido de Politzer(86). o amor. É inegável que a posição de destaque ocupada pela psicanálise não deixa de ocultar o que não pode ser articulado com sua teoria. os questionários abertos ou fechados. as falhas do comportamento produtivo. a essa asserção. a emoção. ou o aumento das performances. Entretanto. podemos nos espantar com a lentidão da psicopatologia do trabalho. sobre a vida a dois. a economia dos gestos repetidos. em conquistar seu lugar de distinção. Mais aceitável seria a interpretação que atribuiria o subdesenvolvimento da psicopatologia do trabalho ao superdesenvolvimento das disciplinas tradicionais. Assim. a psicanálise é imprópria para dar conta das relações de trabalho. Evidentemente. Num caso ou no outro. num grupo de operários de uma fábrica automobilística em relação a um grupo de pessoas em férias. O ponto de vista dinâmico. tanto no espírito do público quanto nos meios de comunicação de massa. as estatísticas. É precisamente sobre a especificidade da vivência operária que queremos chamar a atenção. toda a psicologia abstrata. e dos dramas. todos os sentimentos experimentados que escapam à observação chamada de "objetiva"..

ao contrário do que acontece agora. que aparecem disciplinas novas. portanto. essas disciplinas fornecem um quadro de referências teóricas e conceituais que perturbam a elaboração de concepções diferentes. assim. Mas não há a? nada de excepcional e. pela psicanálise. é sempre vencendo tais situações. A evolução das condições de vida e de trabalho e. entenderemos não só a história dos operários. É apenas graças a uma leitura especializada da história que se podem enumerar os elementos necessários à reconstrução da história da'' frente pela saúde''. que não retomaremos aqui. apesar de nem sempre conseguirmos escapar à tentação metapsicológica. antes de mais nada. patrões e Estado.) "A história da saúde dos trabalhadores" aparece. Além de não conseguirem dar conta da unicidade do drama existencial vivido pelos trabalhadores. o subdesenvolvimento prolongado da psicopatologia do trabalho se explica. pois as melhorias das condições de trabalho e de saúde foram raramente oferecidas graciosamente pelos parceiros sociais. onde o interesse econômico se reuniu momentaneamente ao dos trabalhadores. 13 . Além do mais.de saúde dos trabalhadores não pode ser dissociada do desenvolvimento das lutas e das reivindicações operárias em geral. mas principalmente a história do movimento operário e da correlação de forças entre trabalhadores. por fenômenos de ordem histórica. O campo potencial da psicopatologia do trabalho é ocupado.retomar os autores existencialistas alemães — teráv prioridade. Esse ponto é de tal importância que não poderemos evitar voltar um pouco atrás e narrar "a história da saúde dos trabalhadores". (Exceto em certos períodos. é porque as condições para seu crescimento ainda não estavam reunidas. a "frente pela saúde" só progrediu graças a uma luta perpétua. psicossociologia e psicologia abstrata. Por história. Se a psicopatologia do trabalho não foi mais estudada. afinal. as guerras. coiri dissemos. durante as quais foram tomadas medidas especiais para proteger uma mãode-obra que se tornava preciosa. como um subcapítulo da história popular. Assim.

a um pardieiro. (11 p. de certa forma. O salários são muito baixos e. descrito na literatura da época sob o nome de miséria operária. que atinge correntemente 12. Disso decorrem condições de vida que foram descritas em pesquisas como as de Parent du Chatelet (83). 72. a duração do trabalho. Antes. A luta pela saúde. aos acidentes. e. Benoiston de Chateauneuf (ver in 98). independentemente da doença. nos reportaremos aos autores de então.O século XIX e a luta pela sobrevivência Para o que nos interessa aqui. freqüentemente. para o operário. eram precisos 153 inscritos das classes privilegiadas para obter 100 homens aptos para o serviço militar. Nessa época. pauperizandose. por volta de 1830. (50) No que concerne às condições de trabalho da época. 14 ou mesmo 16 horas por dia. subalimentação. Villermé demonstra sem dificuldade que "a mortalidade cresce em razão inversa ao bem-estar". Os períodos de desemprego põem imediatamente em perigo a sobrevivência da família. insuficientes para assegurar o estritamente necessário. Concebida como um flagelo. (29. o período de desenvolvimento do capitalismo industrial caracteriza-se pelo crescimento da produção. Alguns elementos marcantes podem ser retidos. dramáticos por sua gravidade e número. com freqüência. Villermé (99). A gravidade da situação se revela no serviço militar: "Em Amiens. mas 383 nas classes pobres". promiscuidade. pontecializam seus respectivos efeitos e criam condições de uma alta morbidade. sobretudo. é preciso que seja assegurada a subsistência. identifica-se com a luta pela sobrevivência: "viver. acusa riscos de sofrimento específico. o emprego de crianças na produção industrial. Como sublinhamos (29). ela é. 43) Falta de higiene. A moradia se reduz. 14 . O movimento higienista é. pelo êxodo rural e pela concentração de novas populações urbanas. esgotamento físico. comparável a uma doença contagiosa. 91) A intensidade das exigências de trabalho e de vida ameaça a própria mão-de-obra que. nesta época. mais freqüentemente. Guépin (49). Penot (85). a resposta social ao perigo. e. algumas vezes a partir dos 3 anos. acidentes de trabalho. (11) Em vista de tal quadro. é não morrer". no espírito dos notáveis. de uma alta mortalidade e de uma longevidade formidavelmente reduzida (99). a partir dos 7 anos (98). não cabe falar de "saúde" em relação à classe operária do século XIX.

além das preocupações com saúde. que informa os meios da salubridade pública. A higiene designa os meios a serem postos em prática para preservai a saúde das classes privilegiadas e não a da classe operária. Ela trata da qualidade e da limpeza dos comestíveis e das bebidas. as influências dos climas. ds erradicação da drenagem etc. que é preciso trabalhar para curar ou. Ela pode.a miséria assimilada a uma doença "permite a introdução da linguagem do isolamento. de uma certa eficácia". (98) Quando a burguesia perde sua credibilidade e sua imagem de >■**. aos hospícios. 15 . aos presídios." (83) Este texto faz com que apareçam. Com efeito. a autoridade da ciência. As faltas e os crimes são as doenças da sociedade. os fatos morais e políticos. Ela faz sentir a necessidade das leis sanitárias. se um papel importante for conferido à Academia de Ciências Morais e Políticas. promiscuidade e fome associam-se para criar condições favoráveis ao desenvolvimento da delinqüência. que é a arte de conservar a saúde dos homens em sociedade. Questionar a religião e a família representa séria ameaça à ordem social. É ela que observa as variedades. e concorrer para a nobre tarefa de diminuir o número de enfermidades sociais. numa época onde os movimentos sociais e sindicais são ainda limitados. os objetivos concernentes à restauração da ordem moral e da ordem social nas aglomerações operárias. Mas ela ainda tem pela frente um outro futuro. exercer uma grande influência na marcha do espírito humano. Vê-se quanto. Eis como ela é definida pelos autores do primeiro número dos Annales: "â higiene pública. ela deduz reflexões e conselhos que não deixam de influir na força e na riqueza dos Estados. por sua associação com a filosofia e a legislação. das profissões. E os meios de cura serão mais poderosos quando inspirarem seu modo de ação nas revelações do homem físico e intelectual e quando a fisiologia e a higiene emprestarem suas luzes à ciência do governo. na ordem moral. deve receber um grande desenvolvimento e fornecer numerosas aplicações ao aperfeiçoamento de nossas instituições. miséria. Ela deverá "restabelecer. aos hospitais. Ela deve esclarecer o moralista. do regime dos soldados. da violência e da prostituição. do banditismo. resta por empreender e por realizar nesta parte da ciência. pelo menos diminuir. enfim. às inumações. aos cemitérios etc. dos marinheiros. Da investigação dos hábitos. Ela se estende a tudo o que diz respeito às endemias. apenas nesses limites. às epidemias. de todas as nuanças de posições sociais. as oposições. nesse domínio. do direito e da razão". Não há nada de espantoso nessa situação. aos cabarés. às zo-onoses. enfim.

nos movimentos de luta e no desenvolvimento de uma ideologia operária revolucionária. Mas o desenvolvimento do movimento operário conduz a greves mais amplas. Pinei. .jyfojlej!]^^ positiva da atividade médicaLjí sobre ela que se apoia a resposta social à explosão da miséria operária. é preciso encontrar novas soluções. Seu papel será o de estudar a situação e propor soluções para restabelecer a ordem moral e. Os conflitos entre trabalhadores e empregadores eram. a autoridade da família. mais respeitáveis e mais neutros do que os patrões. Mas a medicalização do controle social não seria suficiente. regulados localmente. Paralelamente ao "movimento" das Ciências Morais e Políticas. constituídos pelos "desvios" e atentados individuais à ordem social. A este segundo perigo é dada uma resposta específica: a repressão estatal. O desenTOMmentij. até aí. etapa necessária para a formação de operários disciplinados. devido ao seu comportamento em relação à classe operária. de fato. do atentado à propriedade privada.d^Jiigjejie^js^ejco^ejtaijie PasiejirJ_uj3ij3Quco___ maisTãraeTasjjÊSQuisas em ps^a^mtria. O Estado torna-se o árbitro necessário. Por outro lado. e que reencontraremos. Três correntes. sobretudo.cunho humanista. enquanto uma outra forma de atentado à ordem moral e social vai ganhar corpo na solidariedade operaria. no qual o Estado aparece como ator estratégico. uma força que pode derrotar o poder do empregador isolado. e. mais tarde. o movimento das ciências morais e políticas e o movimento dos grandes alienistas. moralistas e alienistas só podem responder ao desvio. forjando um utensílio que terá grandes destinos. Higienistas. Inicia-se então um movimento complexo. a organização dos operários confere. unicamente. por sua amplitude. onde os médicos ocupam uma posição de destaque. onde o Estado é depositário de uma missão mais importante. 16 . o representante do Estado agia em nome. é aos próprios operários que se devem as principais melhorias materiais da condição operária. portanto: o movimento higienista. sob a imagem do "trabalhosocial". para reprimir uma greve. apela-se para os especialistas e cientistas. O Estado é chamado a intervir cada vez mais freqüentemente. O patrão era livre para escolher as soluções que quisessse e. ao movimento de revolta. quando apelava para a polícia ou para o exército. O médico faz sua entrada triunfal no arsenal do controle social. Orfila etc) suscitado pela curiosidade pelos fenômenos insólitos. Frente à amplitude do movimento de organização da classe operária. aparece o movimento dos "grandes alienistas" (Esquirol.

não sem resistência da parte desta última (90). vê-se emergir uma palavra de ordem que vai. os tra£^. por assim dizer. Apesar dos verdadeiros discursos de defesa de Villermé. o debate está praticamente fechado. Entre um projeto de lei e sua votação é preciso. das federações nacionais e dos partidos políticos dá ao movimento operário uma dimensão significativa. das associações. vinte anos. principalmente a partir da Comuna. progressivamente. a proteção das mulheres. de delegados de segurança.Laliberdade de organização. especificamente. A aparição das câmaras sindicais. cobrir todo o século XIX: a redução da jornada de trabalho. As lutas operárias marcarão todo o século. muitas vezes. treze anos para o projeto de lei sobre a redução do tempo de trabalho das mulheres e crianças (1879-1892). No que concerne ão que se poderia chamar de "pré-história da saúde dos trabalhadores". esperar dez. vinte e cinco anos para a jornada de 8 horas (1894-1919). nas minas. em sua tutela patronal. As reivindicações operárias chegam a um nível propriamente político. Nove anos para a supressão da caderneta operária (1881-1890). vinte e sete anos para o repouso semanal (1879-1906). Sob o Segundo Império. quarenta anos para a jornada de 10 horas (1879-1919). permitindo ao Estado tornar-se autônomo. em seguida. vinte e três anos para a jornada de 8 horas nas minas (1890-1913) (8). à saúde dos trabalhadores: 1890: criação. 3e_subjneler certas pessqas^o^rgpojiso semanal^_. Compreende-se facilmente que asJutas operáriasjie_s_te período histórico tenham essencialmente dois objetivos: o diteitp à vida (ou à~~ sobrevivência) e a construção çLo instrumento necessário à sua corr^ /. 1893: lei sobre a higiene e a segurança dos trabalhadores da indústria (61). com freqüência.qiusia. Ajpressãp retorna. 1898: lei sobre os acidentes de tra17 . quinze anos para a lei sobre acidentes de trabalho (1883-1898) (11 p. a duração do trabalho propriamente dito. durante quase 50 anos.Concentrações operárias criadas em funçAo das necessidades da produção emergem das novas relações sociais. 93). sob diferente^ formas: o limite de idade abaixo do qual as crianças nScíterãii^ mãislo direito de serem postas a trabalhar. não haverá praticamente nenhum progresso na limitação do tempo de trabalho. Só a partir do fim do século são obtidas leis sociais pertinentes. As conquistas serão. As discussões governamentais serão intermináveis. onze anos para a lei sobre a higiene e a segurança (1882-1893). balhps particularmente penqso&rNaos^uais não se terá mais o direito^. questionadas por leis que voltam ao statu quo ante por inumeráveis derrogações e por recusas de aplicação. ó trabalho noturno.

os esforços da reconstrução. especialmente no setor terciário. q esforço de produção para / as necessidades da guerra. Para esquematizar. o taylorismo será objeto de um estudo particular. poder-se-ia dizer que a organização dos trabalhadores traduziu-se na conquista primordial do direito de viver. dizem os sindicatos. Mas. 1910: apo-" sentadoria para o conjunto dos trabalhadores após 65 anos ("aposentadoria para os mortos". Nova tecnologia de submissão. Entre elas se manifesta uma frente específica. prevenir as doenças profissionais e as intoxicações por produtos industriais. o movimento operário adquiriu bases sólidas e atingiu a dimensão de uma força política que iria crescendo no tabuleiro de xadrez das relações de força. dos quais se beneficiavam até então sobretudo as classes abastadas. 1905: aposentadoria dos mineiros. A partir daí. onde a proteção do corpo é a preocupação dominante. re-1 sultante do número de mortos e feridos de guerra. O desfalque. a organização científica do 18 .balho e sua indenização. formam as condições de uma reviravolta na relação (jjojnem-trabalho. a reinserção dos inválidos na produção. concernente a suas conseqüências sobre a saúde mental. de disciplina do corpo. é preciso assinalar as repercussões do sistema Taylor na saúde do corpo. ainda hoje. as experiências insólitas de redução da ^i duração de trabalho nas indústrias de armamento. Sendo. Da Primeira Guerra Mundial a 1968 A partir de então. mesmo se as condições de existência estavam longe de serem unificadas para o conjunto da classe operária. Há um vasto programa. uma modalidade de organização do trabalho que continua ganhando terreno. esse é o eixo em torno do qual se desenvolvem as lutas na frente pela saúde. Um lugar particular deve ser dedicado à introdução do taylorismo. Salvar o corpo dos acidentes. que concerne à proteção da saúde. focalizaremos sobretudo o / salto qualitativo na produção industrial. podem aparecer reivindicações mais diversificadas. assim mesmo. jà que nesta época apenas 15 % dos franceses atingem essa idade). no reservatório de \ mão-de-obra. assegurar aos trabalhadores cuidados e tratamentos convenientes. j Por que tomar a guerra de 14-18 como (Jata de referência? Entre \ os elementos que presidem esta escolha.

isto é. Corpo doente. Em razão do desenvolvimento do movimento operário a nível nacional. ti. especialmente as exigências de tempo e ritmo de trabalho. progressivamente. como a empresa Renault. O movimento operário tenta obter melhorias da relação saúde-trabalho e mudanças aplicáveis ao conjunto dos trabalhadores. As performances exigidas são absolutamente novas. quando a proporção de trabalhadores estrangeiros é importante. A partir da guerra. que substituirão a proteção natural do "instinto de conservação". pode-se encontrar. o trabalho intelectual do trabalho manual. etapas importantes vão ser transpostas. Ao separar. nas regiões pouco industrializadas. Corpo sem defesa. Deste modo. que se tornará. onde o trabalho tem um valor econômico estratégico (setores de ponta ou centros vitais da economia nacional) que a evolução da relação saúde-trabalho é mais rápida. *™ 19 . o sistema Taylor neutraliza a atividade mental dos operários. sem obstáculos. Às vezes consegue. Não há nada de espantoso. definitivamente relegado à categoria de instrumento inútil. mas ao conjunto dos operários da produção de massa. O esgotamento físico não concerne somente aos trabalhadores braçais. onde os efetivos são pouco numerosos e pouco sindicalizados. sobretudo. mas sobretudo o corpo dócil e disciplinado. onde os trabalhadores são suficientemente numerosos (grandes empresas). É. onde ele é mais poderoso. o movimento operário não é ainda capaz de controlar sua aplicação por toda parte. e fazem com que o corpo apareça como principal ponto de impacto dos prejuízos do trabalho. e do papel do Estado como interlocutor privilegiado. Apesar da votação de leis de caráter geral. não é o aparelho psíquico que aparece como primeira vitima do sistema. ao engenheiro de produção e à direção hierarquizada do comando. mas muitas vezes leva a um aumento das diferenças. corpo fragilizado pela privação de seu protetor natural. muito mais facilmente do que no período precedente. Ao contrário. que é o aparelho mental. no surgimento de lutas enérgicas para arrancar leis. as condições de trabalho são incomparavelmente piores do que nas grandes empresas. portanto. radicalmente. nessas condições. a ligação de causa e efeito entre tal luta operária e tal lei social. a empresa-piloto das vitórias operárias. entregue. adequação não dissociada pela inércia do tempo que passa.trabalho gera exigências fisiológicas até então desconhecidas. ao mesmo tempo em que se perfila uma diversificação das condições de trabalho e de saúde. ou que corre o risco de tornar-se doente. corpo explorado. à injunção da organização do trabalho. nas empresas isoladas. por exemplo.

A guerra favorece as iniciativas em favor da proteção de uma mão-de-obra gravemente desfalcada pelas necessidades do front. Os principais progressos cristalizam-se em torno da jornada de trabalho» da medicina do trabalho e da indenização das anomalias contraídas no trabalho: Albert Thomas, em 1916, reduz a jornada de trabalho para 8 horas por dia e constata o efeito paradoxal desta medida, sobre a produção... que aumenta! A lei de 1898 sobre os acidentes de trabalho previa a criação de ambulatórios de fábricas a cargo dos seguros privados. Os decretos de 1913 levam certas empresas a organizar exames pré-admissionais e de controle, em período de trabalho. Em 1915, aparecem as bases de uma verdadeira medicina do trabalho, com a inspeção médica das fábricas de guerra, organizada por A. Thomas (61). Após a Grande Guerra essa tendência acentua-se, com a institucionalização da medicina do trabalho em certos setores, especialmente nas minas, enquanto certos empregadores contratam um médico, a título individual, para fazer seleção na contratação, e para se protegerem de certos riscos que, a partir de então, estão ligados a penalidades financeiras (indenizações, etc) (61). Pouco a pouco, elabora-se uma doutrina implícita da medicina do trabalho. No que concerne à indenização das doenças e aos cuidados com os doentes, é sobretudo no fim da guerra que leis importantes são votadas: reconhecimento das doenças profissionais, em 1919; criação de uma.comissão de higiene industrial, em outubro de 1919; criação de um comitê consultivo de seguros contra os acidentes de trabalho. Uma tendência aparece, a partir da lei de 1903, em favor da atenuação dos perigos e da insalubridade, isto é, da supressão das causas de acidente e de doença. Ela só ganhará corpo, verdadeiramente, na lei de 1919, modificada em 1951, que prevê que as máquinas ou partes de máquinas perigosas, para as quais existam dispositivos de proteção de eficácia reconhecida, não possam ser desprovidas destes dispositivos. (61) Após este período, fecundo para a melhoria da relação saúde-tra-balho, não haverá progresso significativo até o Front Populaire, que dá momentaneamente vantagem aos operários. A semana de 40 horas é votada em 1936, assim com as férias pagas, e os acordos Matignon instituem as convenções coletivas e os delegados de pessoal, reconhecendo o direito à livre adesão aos sindicatos e o direito à greve, Pode-se dizer que em 1936 as condições de trabalho tornam-se 20

reaimente um tema específico do movimento operário, mesmo se a fórmula só veio à moda mais recentemente, aliás com um conteúdo um poucu diferente. A última onda de medidas sociais relativas à saúde dos trabalhadores data da Segunda Guerra Mundial .e resulta da relação de forças recém-conquistada na Resistência O programa da Resistência, parcialmente aplicado, faz nascerem novas esperanças, com a institucionalização da Medicina do Trabalho (1946), da Previdência Social (1945), dos Comitês de Higiene e de Segurança (1947). Durante todo esse período, que começa em 1944, o movimento operário continua a desenvolver sua ação para a melhoria das condições de vida (duração do trabalho, férias, aposentadorias, salários) mas, simultaneamente, se destaca uma frente própria, concernente à saúde. Olhando-se de perto, as palavras de ordem neste domínio concernem à prevenção de acidentes, a luta contra as doenças, ao direito aos cuidados médicos, isto é, à saúde do corpo. Pode-se dizer que esse segundo período da "história da saúde dos trabalhadores" caracteriza-se pela revelação do corpo como ponto de impacto da exploração. Essa noção é fundamental, na medida em que leva as análises, tanto provenientes dos sindicatos quanto dos especialistas, a se preocuparem com um aspecto da saúde que consideramos, hoje em dia, indevidamente limitado. O alvo da exploração seria o corpo, e só o corpo. Também as análises econômicas críticas do sistema capitalista argumentam suas teses sobre a exploração a partir do corpo lesado, do corpo doente, da mortalidade crescente dos operários em relação ao resto da população. A proposição é exata, e seria um erro pô-la em dúvida. Mas é muito limitada. Como se os mecanismos invisíveis da exploração exigissem, para serem evidenciados, uma demonstração dos seus efeitos visíveis no corpo. Estamos talvez autorizados, hoje, a revisar o ponto de vista segundo o qual a exploração teria por alvo, diretamente, o corpo. E a inverter a problemática, insistindo nas mediações em jogo no exercício das exigências corporais. Tudo se daria como se as condições de trabalho nocivas só atingissem o corpo após tê-lo submetido, domes-ticado e adestrado como a um cavalo de tração. Docilidade que, como vamos ver, depende de uma estratégia inicialmente concernente ao aparelho mental, para dele anular as resistências que ele opõe, espontaneamente, à exploração. Seja como for, se o corpo aparece durante este período da história como primeira vítima do trabalho industrial, resta saber o que lhe é especificamente prejudicial. A periculosidade das máquinas, os produtos industriais, os gases 21

e os vapores, as poeiiab tóxicas, os parasitas, os vírus e as bactérias são, progressivamente, designados e estigmatizados como causa do sofrimento físico. De 1914 a 1968, é progressivamente o tema das condições de trabalho que se depreende das reivindicações operárias na frente pela saúde. A luta pela sobrevivência deu lugar à luta pela saúde do corpo. A palavra de ordem da redução da jornada de trabalho deu lugar à luta pela melhoria das condições de trabalho, pela Segurança, pela Higiene e pela Prevenção de doenças. "Melhoria das condições de trabalho!" Palavra de ordem que chegou à maturidade em 1968; revelação, denominação, formulação tardia do tema que, no entanto, já animara durante cinqüenta anos todas as lutas operárias na frente pela saúde. Não há nada de surpreendente nisso, como mostram muitos outros fatos históricos, que falam de coisas quando elas já estão ultrapassadas, quando já se desenha uma nova etapa: neste caso, as lutas pela proteção da saúde' mental. Miséria operária, luta pela sobrevivência, redução da jornada de trabalho, corrente das ciências morais e políticas, corrente higienista e corrente alienista deram lugar, respectivamente, ao corpo doente, à luta pela saúde, à melhoria das condições de trabalho, e à corrente contemporânea da medicina do trabalho, da fisiologia do trabalho e da ergonomia. li Ü Terceiro período: após 1968 O desenvolvimento desigual das forças produtivas, das ciências, das técnicas, das máquinas, do processo de trabalho, da organização e das condições de trabalho culmina numa situação muito heterogênea para que se possa fazer uma análise global da relação saúde-trabalho. No centro deste mosaico de fenômenos diversificados, só se pode reconhecer um novo material e tendências que ampliam a problemática tradicional das questões da saúde. Nós designamos aqui & saúde mental. Apesar da existência de uma literatura, a bem dizer restrita, de psicopatologia do trabalho (Girardon Amiel - Sivadon - Veil - Leroy...) é preciso reconhecer que o conflito que opõe o trabalho à vida mental é um território quase desconhecido. É verdade que os especialistas do homem no trabalho se concentraram, em matéria de psicologia, em definir métodos de seleção psicológica. Especialistas do homem, sua atividade, que entretanto é bem real, se desdobra fora das questões de saúde mental. 22

principalmente pelos operários. o sofrimento psíquico permanece praticamente não analisado. A isso é preciso somar as vozes dos operários de linha de produção. sente-se por todas as partes uma nova força: a luta operária pela saúde mental está hoje iniciada. Hoje em dia. E entretanto.C. (N. a rotatividade. de uns anos para cá.C. o desperdício. onde este sistema organizacional não garante mais sua superioridade. como alternativa para a O. P«H' silêncio é testemunha da dificuldade do movimento operário em levai. onde as greves. como mostraremos mais adiante. é assim que se designa uma série de contestações da sociedade. No terreno ideológico. Primeiramente. a sabotagem da produção e a "alergia ao trabalho" (89) levam a procurar soluções alternativas.T. O desenvolvimento destas indústrias confronta os operários a novas condições de trabalho e fazem-nos descobrir sofrimentos insuspeitos. as paralisações de produção. no terreno do controle social. Denunciado de maneira exageradamente estereotipada.Do lado dos trabalhadores. Em seguida. A primeira diz respeito ao esgotamento do sistema Taylor. a discussão sobre um terreno que é particularmente complexo. onde o sistema Taylor é denunciado como desumanizante e acusado de todos os vícios. faz nascerem amplas discussões sobre o objetivo do trabalho. as operações padrão. sobre a relação homem-tarefa. sobre a inexistência de greve nas fábricas que adotaram a O. cimenteiras. O mesmo se dá com os operários que têm uma fraca carga física. que cresceu com a desilusão do após-guerra e se O. testemunha preocupações aparecidas com a nova onda". no terreno econômico. dos trabalhadores do setor terciário e das novas indústrias.T. — Organização Científica do Trabalho.T. A sensibilidade às cargas intelectuais e psicossensoriais de trabalho preparam o terreno para as preocupações com a saúde mental.C. as tarefas de escritório tornam-se cada vez mais numerosas. estamos longe das afirmações de Taylor.)' 23 . e acentua a dimensão mental do trabalho industrial. o absenteísmo.* (96). como a de processo e a indústria nuclear. etc). o discurso operário não é mais prolixo sobre este assunto. nuclear. Para este fenômeno podemos encontrar várias razões. A "crise de civilização". do T. mas também por uma parte do patronato. efetivamente. que são operadores das indústrias de processo (petroquímica. na medida do desenvolvimento do setor terciário. mesmo se sua elaboração continua balbuciante. A reestruturação das tarefas. Reputadas como isentas de exigências físicas graves. enfim.

acabam numa contestação do modo de vida como um todo. provavelmente. inclusive pelos estudantes. dificilmente redutível. da necessidade de levar em conta as reivindicações qualitativas da classe operária (2. A perda de confiança na capacidade da sociedade industrial em trazer a felicidade. muitas vezes. maio de 68 é uma referência fundamental. No centro do discurso de maio de 68 encontramos a luta contra a sociedade de consumo e contra a alienação. Simultaneamente. o trabalho foi reconhecido como causa principal da alienação. Do relatório patronal de 1972 ao relatório Sudreau (94). Estes diferentes elementos concorrem para fazer pensar que. Numerosas publicações confirmam que esta data marca o reconhecimento. que mergulha o patronato e o Estado numa verdadeira confusão. (30-80) O avanço da psiquiatria. o exercício maciço das práticas psicote-rapêuticas nas escolas. é primeiramente em razão do desencadeamento verbal ocorrido durante os acontecimentos de maio de 68. o prazer de viver. dot período atual. à margem das iniciativas sindicais. pnmeiro como tema de reflexão das organizações operárias. são testemunhas de uma nova procura. exprimiam este tema nos muros da capital. por parte do patronato. e que diz respeito tanto aos filhos da burguesia quanto aos da classe operária. para designar as novas tendências nos conflitos sociais. palavra de ordem fundamentalmente original. nem mesmo os trabalhadores. o desenvolvimento de um inegável cinismo. em escala das massas. Maio de 68 é também a referência utilizada. Greves selvagens e greves de operários não-qualificados eclodem espontaneamente. representam um papel na formulação das dificuldades existenciais sentidas. é preciso lembrar. pelo patronato e pelo Estado. a psicologia não poupa mais ninguém. no cinema.88). 3. sobretudo. hoje em dia. na publicidade e no marketing. As greves selvagens confirmam a escolha de 1968 como referência histórica. Passada à força nos meios de comunicação de massas. A droga e as toxicomanias.52. A "libertação da palavra": se 1968 aparece como uma data representativa na história da relação saúdetrabalho. Elas rompem a tradição reivindicativa e marcam a eclosão de temas novos: "mudar a vida". Milhares de cartazes. a nível dos órgãoi dirigentes.ampliou com a contestação da "sociedade de consumo". onde interessa. as prisões e todas as instituições. temas privilegiados da "crise de civilização". pelo menos até a atual crise econômica. deveria emergir o tema da relação saúde mental-trabalho.31. o mundo do trabalho. em segundo I 24 . que tende a atenuar todas as reivindicações qualitativas.

Palavras de ordem como "abaixo as cadências infernais". números e quantificações devem ser abandonados por não serem capazes de dar conta do processo. Seu objetivo é o de explicar o campo não-comportamental. ambiente químico (produtos manipulados. barulho. poeiras. concretizado pela organização do trabalho. * fjtr A psicopatologia do trabalho Geralmente. irradiação. A luta pela saúde do corpo conduzia à denúncia das condições de trabalho. ele resulta da organização do trabalho. fumaças etc). 25 . pode-se perguntar o quê. Testes.e. cadências e comportamentos produtivos. Por organização do trabalho designamos a divisão do trabalho. a vontade e o desejo dos trabalhadores e o comando do patrão. Quanto ao sofrimento mental. que se coloca esta pesquisa. "mudar a vida" atacam diretamente a organização do trabalho. as relações de poder. o sistema hierárquico. simplesmente.como objeto de trabalhos científicos. em psicopatologia do trabalho. gestos. todavia. pesquisas. fungos). Seu caráter qualitativo não pode ser traduzido. é acusado como fonte específica de nocividade para vida mental. as modalidades de comando. bactérias. questionários abertos ou fechados. as condições de higiene. no trabalho. A partir de então se confrontam. A luta pela sobrevivência condenava a duração excessiva do trabalho. ocupado — do mesmo modo Que um inimigo ocupa um país — pelos atos impostos: movimentos. pressão. a exemplo do que se pode observar sobve as condições de trabalho com a medicina do trabalho eaergonomia. sem intermediário. aparentada do behaviorisrho. de segurança. o ambiente biológico (vírus. ambiente físico (temperatura. as questões de responsabilidade etc. o conteúdo da tarefa (na medida em que ele dela deriva). "abaixo a separação trabalho intelectualtrabalho manual". Por condição de trabalho é preciso entender. . E na contracorrente desta inspiração. parasitas. tste tema está efetivamente presente há uma década-. vibração. ritmos. e as características antropométricas do posto de trabalho. antes de tudo. altitude etc). A questão é de uma importância crucial. acentuam-se os comportamentos humanos. vapores e gases tóxicos. em termos de custo ou de itens orçamentários. estatísticas.

em psiquiatria. sobre essas coisas. Esta é tarefa do militante político que pretende. A anulação é muda e invisível. E. Para conhecê-la. isto é. nem mesmo iraduzir-lhes o conteúdo. Por comportamento livre nós não entendemos a liberdade metafísica. Dominação da vida mental do operário pela organização do trabalho. desencadear a tempestade. alucinações. descobrir o sofrimento operário. Livre. As relações de um e de outro são primeiramente de dominação. mas também mal conhecido pelos próprios operários. qualifica uma orientação na direção do prazer. 26 . operação mais difícil do que a observação direta de um comportamento abertamente patológico ou desadaptado. De nossa parte. nós tentaremos desalojar o sofrimento no que ele tem de empobrecedor. nesse caso. e depois de ocultação. de apoiar a descrição do louco em seus comportamentos aberrantes e prolíficos (delírio. mas um padrão comportamental que contém uma tentativa de transformar a realidade circundante conforme os desejos próprios do sujeito. o processo de exclusão do desejo se faz sem prejuízo para o operário? Tem-se o costume.A física gestual e comportamental do "operârio-massa" (18) está para sua personalidade assim como o aparelho administrativo do ocupante está para as estruturas do país invadido. Revelar as aspirações não é nosso projeto. ocupados que estão em seus esforços para garantir a produção. A questão fundamental aqui colocada diz respeito à localização do processo de anulação de um comportamento livre. Ocultação e coarctação de seus desejos no esconderijo secreto de uma clandestinidade imposta. de anulação dos "comportamentos livres". impulsões). O comportamento produtivo estereotipado do operário-massa não ocupa o lugar de um comportamento livre? Comportamento livre que podemos perceber em outros trabalhadores ou em operários libertos da organização autoritária do trabalho. Nosso projeto diz respeito à elucidação do trajeto que vai do comportamento livre ao comportamento estereotipado. não somente desconhecido fora da fábrica. aquecendo os desejos hibernados. possuir luzes. Projeto temerário. e quer. é preciso ir à sua procura. talvez. mais que um estado.

mas não dá conta da vivência partilhada pelos homens do subproletariado. As "ideologias defensivas" (o caso do subproletariado) O subproletariado de que vamos falar é aquele que habita as zonas periurbanas. nesse universo do subúrbio. Entretanto. Não se trata de desDE CIÊNCIAS H(. traduz antes de tudo o pensamento social dominante na época. que nós descrevemos sob o nome de '(ideologia defensiva") O que vai prender nossa atenção é a vivência ctessa populaçao-em relação a saúde. por exemplo. poderia parecer insólito tomá-la como exemplo num estudo de psicopatologia do trabalho. Não se trata aqui de uma classe social no sentido que os homens políticos italianos. Mas da fração da população que ocupa as favelas ou os cortiços. as contradições aparecem ainda mais gritantes do que em qualquer outro lugar. Mais do que em outros lugares.. mais precisamente em relação à doença. pode-se ver então-trm ceno tipe-fte defesa. A miséria "descrita pelos acadêmicos do século XIX". a miséria operária concebida como uma doença epidêmica (13). Esta população não se caracteriza pela participação comum em uma mesma tarefa industrial. Ao contrário. O sofrimento aí aparece maciço e evidente.as E EDUCAÇÃO . se procedemos desta maneira é porque.'M>. Mas sua natureza pede para ser decifrada. geralmente jogados na periferia das grandes cidades. entendem. o que a une é mais o não-trabalho e o subemprego. Por isso.As estratégias defensivas 1.

pouco escolarizados. mora em conjuntos que ficam no meio termo entre a favela. a carne é rara. no conjunto.decrever as condições reais de saúde. Como veremos. 20% estão abaixo de dois desvios-padrão. Esies trabalhos mostram que o subproletariado é vítima de uma taxa de morbidez muito superior à da população em geral. por razões de ordem não só sócioeconômica e cultural. as carroças e os H. O alcoolismo é freqüente. quando fizermos referência aos importantes trabalhos publicados pelo Dr. Mais significativo ainda é o fato notório de que. aos cuidados pós-operatórios e à reeducação fisioterápica.*. e a estrutura familiar é. (N. Por outro lado. podemos citar a incidência importante de doenças infecciosas. a maior parte do orçamento familiar. de vários milhares de habitantes. com um atraso de crescimento que chega às vezes a —14% (limite do nanismo). formam muitas vezes os futuros contingentes de marginais e. muitas doenças continuam desconhecidas ou escondidas. banheiros. se 80% das crianças estão nos limites de dois desviospadrão quanto ao desenvolvimento de estatura e peso (contra 95% na região parisiense).L M. depósitos de lixo caseiro) formam também condições favoráveis à doença e às contaminações coletivas. de La Gorce (47) e pelo Dr. a promiscuidade favorece a transmissão de doenças infecciosas. 60% se encontram na camada inferior. os casais são freqüentemente separados. um dia alguns conhecem a prisão. e da tuberculose. poços d'água. quebrada.L. Galland (44). Conjuntos habitacionais populares. — Habitation a Loyer Moderée. logo. esgotos. que continua a ser ainda um flagelo na população adulta.M. particularmente nas crianças. Esta população. à assistência médica subseqüente a uma doença grave ou um acidente). Elas so serão lembradas como informação. às vezes. A comida è pobre. do T. Os jovens. A estrutura familiar caracteriza-se pelo grande número de filhos: a maioria das famílias tem de 8 a 10 filhos.) 28 . A título de exemplo significativo. há um deslocamento global *H. A pobreza dos meios sanitários (canalizações. aliás. Pode-se notar também a importância das seqüelas de acidentes e doenças: elas são testemunhas de tratamentos mal conduzidos ou incompletos e. mas por razões de ordem material (impossibilidade de acesso às convalescenças. e a maior parte da morbidade continua mal conhecida. de uma menor eficácia das técnicas médico-cirúrgicas sobre uma população que não pode aproveitar delas como o resto da população. e a alimentação consome.

Do ponto de vista médico-sanitário. é porque é preguiçoso". própria ao meio. (47) Mais que a morbidade. em particular de assistentes sociais e de enfermeiras). de uma carência . de vários trabalhadores sociais. entretanto. A reticência maciça em falar da doença e do sofrimento. e podemos ainda encontrá-las nos países do Terceiro Mundo e.para baixo. de higiene e de educação. em seguida. sempre difícil de ser avaliada (23). Quando se está doente. já que algumas destas crianças provêm de pais de pequena estatura. emerge uma verdadeira concépçIcTdirdoença. na maioria dos casos das crianças estudadas. võTün-tana: se a gente está doente. acusação pelo grupo social no seu conjunto. se sente julgado pelos outros."Concepção dominada pela acusação. os meios de que dispõem essas populações são bastante rudimentares: pouco ou nenhum ambulatório local. e se ele se afunda mais na doença e no sofrimento. como se fosse preciso se desculpar. com uma porcentagem inferior a -6 Poderíamos ser tentados a invocar fatores genéticos. Não se trata da culpa no sentido próprio que refletiria uma vivência individual. É somente após longas voltas que se chega." Acusação cuja origem não se conhece claramente. A associação entre doença e vaga29 . "Quando a gente está doente. o subdesenvolvimento de estatura e de peso dessa população é particularmente significativo das más condições de saúde. concentra uma população de vários milhares de indivíduos (inserção. a atingir a vivência da doença. em particular. mas não íeria o caso de pensar que os próprios pais tiveram seu desenvolvimento entravado pelas carências? O estudo das condições de vida parece bastante significaiivo.nutricional devida tanto a fatores econômicos quanto a fatores culturais (hábitos alimentares). na América Latina. uma primeira observação se impõe de imediato. Seja em relação à prática médica ou à pesquisa a respeito da saúde. dè~ãtguma torma. Tais observações lembram as descrições do século XIX. é porque ele quer e porque ele cede à passividade. com efeito. e sim de um sentimento coletivo de vergonha: "Não é de propósito que a gente está doente". venham numerosas justificativas. Maciçamente. que se confirma como vergonhosa: bastou uma doença ser evocada para que. acusam esse cara de passividade"."Toda doença sêfíã. às vezes. Essa atitude em relação à doença pode ir muito longe: "Quando um cara está doente. E nós somos levados a pensar que o atraso da estatura observado provém. tenta-se esconder o fato dos outros. concernentes à população masculina submetida ao exame de admissão ao serviço militar. mas também da família e dos vizinhos. no entanto. nenhum médico instalado na região que.

a gente não pode sarar". Não tanto por causa da vergonha experimentada face a um personagem de um outro mundo mas porque tem-se medo que ele descubra "um monte de coisas que a gente prefere não saber".bundagem è característica do meio. mantidas à distância pelo desprezo. em seguida ao exame. o trabalho das mulheres não é comparável ao que encontramos nas outras classes sociais e nem mesmo na classe operária. no caso dos homens.' Seja que o sintoma de enfermidade desapareça ou que se consiga 30 . muitas infecções crônicas desconhecidas. tudo é organizado. seja das atividades domésticas e familiares. o problema é domesticá-la. caso se trate de um homem ou de uma mulher: "Um homem que está doente é realmente um vagabundo''. As mulheres. Para que uma doença seja reconhecida. ao pé da letra. Pois. ela nunca tem um sentido tão forte quanto aqui. Finalmente. Mas mesmo nestes casos. tudo é estruturado. no subproletariado. de imediato. Mas uma noção implícita vem. é antes dejtudo_um problema de ânimo. Üm verdadeiro consenso social se depreende assim. para que se resigne a consultar um médico. no subúrbio. que : "vlsã à~con3êhar a doença e o doente. no julgamento. Seria mais tolerável que uma mulher estivesse doente. não se gosta de ir procurar o médico. Cuidar de oito ou dez filhos nas condições materiais que foram citadas representa uma carga de trabalho e de angústia muito maior do que em qualquer outra parte. um enfraquecimento fisiológico que signifique uma síndrome deficitária grave. de alguma maneira. viver com ela. então o ânimo se abate e como se diz no subúrbio "quando a gente está sem ânimo. a cura não deve ser compreendida como desaparecimento do processo patogênico. são todas doentes. às vezes. Uma nuança aparece. na medida em que isso não significasse. Entretanto. É preciso compreender esta fórmula tomando-a palavra por palavra. uma ruptura do trabalho profissional. controlá-la. é preciso que a doença tenha atingido uma gravidade tal que ela impeça a continuidade seja da atividade profissional. Aqui. Quando se é mulher não se pode permitir estar doente. dizem. e voltaremos adiante sobre a sua "significação. Somente são reconhecidas aquelas que se exprimem por sintomas muito evidentes para serem escondidos: uma tosse com hemoptise. infalivelmente. por causa dos filhos. Apesar de tudo. não se trata de evitar a doença. nota-se uma atitude um pouco mais flexível em relação à doença das crianças. Se o médico mencionar. mas essas doenças são. tudo converge para a salvaguarda da vida da criança. Sarar. "Sarar esomente não sofrer. Podemos reencontrar esta mesma fórmula em outros lugares além do subproletariado. contê-la. um emagrecimento evidente. para que se aceite ir ao hospital. corrigir essa asseiváo. no caso das mulheres. Aliás.

uma mulher nunca se afasta do lugar que eles "elegeram como domicílio". apesar de tudo. das semanas. é com uma vizinha de relações privilegiadas que se decide pelo tratamento a ser dado a um filho.) 31 . É o caso extremo"■qliè~slTprÒcura~êvRàr"'cüTte_o que custãFTÉ isso siT compreende se peris~"ánríos"qüTã"hospifalízaçltoT. é. a doença eqüivale à paralisação do trabalho. supõe adiantar quantias algumas vezes importantes. muito mais prosaica. É preciso ir rápido. o ato médico acaba na consulta. Para estes últimos. na prática. Mas o verdadeiro problema. Nós dissemos que. O mais freqüente é oferecerem-se medicamentos que foram anteriormente prescritos para um outro filho. não se gosta dos médicos: "Os doutores não escutam a gente. Certas fórmulas de caráter proverbial têm ainda aqui uma função real que foi esquecida para não reter senão seu caráter humorístico ou poético. Isto conduz às práticas médicas "selvagens". do T. neste contexto. de fato. restrições alimentares para toda a família até a hora do reembolso. de alguma maneira. Uma estadia no hospital é. logo: a dor de dentro é a dor do amor. da "vivência do sofrimento. levar um filho. Às vezes. à vaga* Em francês. Freqüentemente. pode-se considerar como sarado. é o do dinheiro. Um lugar à parte deve ser dedicado ao discurso sobre a mulher. Num grau "menor. é o ponto de irreversibílidade que marca a Brecha do sistema coletivo de defesa contra ¥ doença. Quando se está mal de saúde se diz: "Temos problemas". mas o que fazer dos oito ou nove outros durante este tempo? Esta realidade é tão forte que. dos meses e dos anos. consultar um médico "consiste igualmente num non-sens. no subúrbio. Administra-se o tratamento com o bom-senso possível. sobre a vida sexual e sobre as crianças. isso supõe. se estaria mais inclinado a falar das doenças que atingem as mulheres do que das doenças que atingem os homens. de dent (de ciente) tem a mesma sonoridade de dedans (dentro). É assim que "a dor de dente é a dor do amor"*. isto é. A gente tem a impressão de que eles não acreditam em nós". face à prática médica. Comprar medicamentos. a ruína de todo o sistema de contenção da doença. o que mais se teme. ou este dinheiro não está disponível. Ir até o consultório do médico na cidade já representa um certo número de dificuldades materiais: está certo." õTrãcassõ. ao longo dos dias. mas não o do medicamento. Todo ato médico termina infalivelmente por uma receita. Adiantar o preço de uma consulta é possível.domesticar a dor. (N. ou se estiver. Além do mais.

como justificar cuidados ou tratamentos quando se atingiu a idade da "aposentadoria" do trabalho familiar? Com bastante freqüência. tudo deve ser recoberto de silêncio. para que pensar em si?" Quando esta missão social fundamental esfá cumprida. Mais do que em qualquer outro meio. é levada a um processo implacável de marginalização pelo endividamento. a gravidez ou a doença. origem das condenações. Além da própria gravidez. Quando se fica sabendo que uma mulher espera um filho. As famílias de oito. até proibida. Se ainda teria sido justificável tratar-se quando havia filhos a educar. não há medicina do trabalho". dar à luz e fazer filhos". Para a mulher a doença nâo pode autorizar aj?aralisacjip 3õlrãbaIho.'' A ideologia da vergonha: dessas atitudes e desses comportamentos em relação à doença.bundagem. todos os esforços são feitos em vista de assegurar seu desenvolvimento. fonte de vergonha. a própria gravidez aparece como uma vergonha. Neste contexto. O corpo só pode ser aceito no silêncio "dos órgãos". isto é. a gente se deixa levar". A gravidez. quando se tem muitos filhos._Não sò~põrquFbs filhos não podem ficar sem os cui-Hãdos de suas mães mas também porque. após ter tirados os filhos das dificuldades^ após ter trabalhado toda sua vida para eles. somente o corpo que trabalha. o corpo produtivo do homem. escandalosa. doze filhos são freqüentes. é situada no mesmo registro que a doença. Mas quando os filhos chegam. podemos extrair duas características: a primeira diz respeito ao corpo. para as mulheres não há "paralisação do trabalho. como se diz nesses lugares. Uma mulher grávida esconde dos outros seu estado o quanto ela pode. mais características ainda. vê-se que é toda a vida sexual que é vergonhosa. uma vez que os filhos cresceram. dez. o corpo trabalhador da mulher são 32 . alimentação. reprimida. que termina no círculo vicioso da doença. são as atitudes em relação ao estado de gravidez. "Chega uma hora em que a gente não terr mais vontade de sarar. Mas. das despesas etc. no subproletariado. bastam alguns meses para levar a mulher a uma doença fatal. Um dos caminhos pelos quais se desemboca no subúrbio é precisamente a família. diz-se em cochicho: "Ela só sabe fazer isso. "A partir de uma certa idade. não há mais nenhuma justificativa para viver. "A gente não é mais útil. os filhos ocupam o centro da vida da mãe. freqüentemente de origem operária. vestuário com um só salário (pois a mulher é inteiramente ocupada em cuidar dos filhos). a família. quando elas atingiram a idade de 40 ou 50 anos. Seja a sexualidade. Incapazes de enfrentar as despesas de moradia.

"A gente não conhece o corpo. somente entào se decide consultar um médico mas "que falta de sorte. quando a gente chega a dor passa". uma Ideologia defensiva contra uma ansiedade precisa. tanto mais. é _som'o~se ele estivesse doente". Em primeira aná-lise^pode-se considerar que a vergonha instituida aqui como sistema constitui uma verdadeira ideologia elaborada coletivamente. particularmente crítico em período de crise econômica. Mas mesmo fora dessa situação. Doençae trabalho! Estepar indissoluvelmente ligado guarda um conteúdo específico: a ideologia da vergonha erigida pelo subproleta33 . que exagera a importância numérica dos habitantes do subúrbio. Vê-se que o trabalho atravessa profundamente a vivência da doença: doença-avesso-do-tra-jbajho. A atitude em reíaçâo à dor é. em si. é preciso que haja uma dor." Quando esta dor torna-se insurpotável ou torna impossível o trabalho. é porque a gente está inventado história". os benefícios de invalidez concedidos não são suficientes para assegurar a sobrevivência da família. neste sentido. sobre o medo de que o médico descubra efetivamente alguma coisa. Mas é também uma auto-acusação. de estar num corpo incapaliltãdo. a tal ponto que i~7alti~dê~trabalho torna-se. Não se sabe o que significa sentir-se bem no corpo. Nós dissemos que um dos modos de acesso ao subúrbio é uma família muito numerosa.aceitos. Homem ou mulher. um sinôJnimõde doença: "Quando ãlgüerncfiz para um cara que ele está muito ^lh bl l é i d ^glho para trabalhar ou que ele não é mais capaz de continuar. a de estar doente ou. 5~"sègunda característica desses comportamentos relativos à doença diz respeito à relação existente entre doença e trabalho. Para o homem a doença corresponde sempre à ideologia da vergonha de parar de trabalhar. às vezes começa o processo inelutável que conduz ao subproletariadó. Um operário até então eficaz no seu trabalho sofre de uma doença crônica que o invalida ou das conseqüências de um acidente de trabalho. exemplar. aceitos quanto menos se tiver necessidade de falar deles. Para a mulher. logo. para falar dele. Então. mais exatamente. todo estado anormal do corpo traz infalivelmente de volta a questão do trabalho ou do emprego. E isso lembra bem o que foi dito anteriormente. são as gestações e as doenças que põem em questão o trabalho colossal da educação dos filhos e as cargas domésticas. sempre existe um contingente de mão-de-obra subempregada marginalizado. O corpo? Não exisie nem palavra nem linguagem para falar do corpo no subnroletariado. O outro mecanismo mais freqüente é o da doença ou do acidente. O conjunto dessa população sofre q subemprego. A vergonha transparece desta maneira: "se a dor passou. As compensações materiais.

às vezes. da doença ou da morte. a doença ou à morte. e eventualmente avaliar seu custo social. que atinge um certo número de indivíduos. O alcoolismo é uma saída individual e gravemente condenada pelo grupo social. como nós vimos. De coletiva. falta compreender como* ele funciona. Curar é trabalho do médico ou do especialista. Ela está possivelmente oculta pela questão relativa à sobrevivência a exemplo do que foi descrito a propósitõlfo século XIX e da história da relação saúde-trabalho antes da guerra de 1914. A doença é vivida como um fenômeno totalmente exterior resultante do destino e dependente da intervenção exterior: o médico. quando ele tenta negar seu sofrimento. no decurso do subproletariado. a ansiedade relativa à sobrevivência transformar-se-ia em problema individual. Aparecem então comportamentos individuais específicos: a principal saída frente à ansiedade concreta da morte é o alcoolismo. Com efeito. conseqüentemente. fracassos isolados da ideologia da vergonha. através da doença. a ideologia da vergonha consiste em manter à distância o risco de afastamento do corpo ao trabalho e. a destruição do corpo enquanto força capaz de produzir trabalho.riado não visa a doença enquanto tal.A angústia contra a qual é dirigida a ideologia da vergonha não é a do sofrimento. Mas o alcoolismo não reveste jamais uma forma nem coletiva nem "epidêmica". Vêem-se. Esta situação não é somente uma hipótese. Quando as condições de sobrevivência são tão precárias quanto as que observamos no subproletariado ou nas populações dos países subdesenvolvidos. não há lugar pai a a ansiedade face à doeüçã enquanto tal (o que não significa que tal angústia não exista!). uma angústia específica relativa à saúde. à subalimentação e à morte. Além da doença. Função da ideologia defensiva: além da finalidade desse sistema defensivo. o hospital. Esta observação e importante na medida em que ela é praticamente específica do subproletariado e em que não a encontramos em nenhuma outra classse social. a angústia que ele ataca é. em razão da utilização rápida do 34 . Pode-se perguntar o que aconteceria se essa ideologia defensiva viesse a fracassar. Quando ele luta contra a dor. o homem do subproletariado não pretende ter uma atitude terapêutica relativa ao processo patogênico Ele sabe que procura somente fazê-lo calar. à miséria. O alcoolismo nesta situação corresponde a uma fuga em direção a uma decadência mais rápida e a um destino mental e somático particularmente grave. nem mesmo no proletariado. não se encontra nunca. por que ele é posto em jogo e em que consiste sua positividade. mas a doença enquanto impedimento ao trabalho.

dinheiro que não permite mais assegurar uma alimentação conveniente. A segunda saida é representada pela emergência de atos de violência "anti-social", em geral desesperados e individuais. A terceira saída é a loucura com todas as formas de descompensação, psicóticas, caracteriais e depressivas. Enfim, sem poder usar estas diferentes "portas de saida", o risco é a morte. Mortalidade por subnutrição agravando a evolução de uma doença intercorrente. Nota-se, a esse respeito, a freqüência de mortes precoces nos jovens entre 35 e 50 anos (44). Confrontados individualmente ao perigo de não poder sobreviver por razões materiais, poucos resistem. O esforço material e econômico fornecido pelas famílias do subproletariado para sobreviver seria incompreensível se ele não fosse sustentado por um sistema mental muito sólido. Este sistema funciona porque é coletivamente elaborado e alimentado. Tal é a positividade da ideologia da vergonha. Resta apreciar seu custo. O silêncio que envolve as questões de saúde, doença, vida sexual, gravidez e medicina conduz esta população a agravar mais ainda os efeitos do precário sistema médico-sanitá-rio. Calar sobre a doença e o sofrimento leva, de maneira coerente, a recusar os cuidados, a evitar as consultas médicas, a temer as hospita-lizações. É assim que muitas pessoas do subproletariado poderiam beneficiar-se de proteções sociais tais como a gratuidade dos cuidados e as assistências gratuitas. Não é tanto por ignorância que os homens do subproletariado não se beneficiam com essas medidas. A presença de trabalhadores sociais seria suscetível de paliar esta dificuldade. Mas, pela própria experiência desses trabalhadores sociais vê-se que existe uma verdadeira resistência da parte do subproletariado em tomar ou mandar tomar as providências necessárias. Poder-se-ia, numa tal situação, acusar o subproletariado de complacência para com o sofrimento e a miséria. Mas não é possível, se se levar em conta a coerência necessária da ideologia da vergonha: manter a doença, a miséria e a fome à distância é também manter tudo o que pode lembrá-la, direta ou indiretamente, à distância. Assim, a aproximação de toda medida médico-sanitária ou de higiene reativa uma ansiedade fundamental, ansiedade esta que não é suscetível de ser acalmada. A partir do exemplo do subproletariado, podemos propor algumas características do que sei a uma ideologia defensiva. Em primeiro lujar> a ideologia defensiva funcional tem por objetivo mascarar, conter e ocultar uma ansiedade particularmente grave. Em segundo jugarreli nivel da ideologia defensiva, enquanto mecanisrricTde defesa jãbõrado por um grupo social particular, que devemos procurar JÍ

uma especificidade. Encontraremos, a respeito dos trabalhadores da ^construção civil, tais ideologias defensivas. Neste caso. os caracteres específicos deverão ser relacionados à natureza da organização do trabalho. No caso do subproletariado, não se pode falar em organização do trabalho enquanto tal. Seria mais uma questão de sub-emprego e de desemprego. A especificidade da_ ideologia defensiva da vergonha resulta, por um lado, da~natureza da ansiedade a conter e, por outro lado, da população que participa na sua vTaboração^, Em terceiro Tugar, o que caracteriza uma ideologia defensiva é o fato de ela ser dirigida não contra uma angustia proveniente de conflitos intra-psíquicos de natureza mental, e sim ler destinada a lutar contra um perigo e um risco reais. Em quarto lugar, aideologia defensiva, para ser operatória, deve obter ã participação de todos oTTnteres-sados. Aquele que não contribui ou que não partilha do conteúdo da ideologia é, cedo ou tarde, excluído. No caso da construção civil, é ser mandado embora do canteiro de obras; no caso do subproletariado, é o isolamento progressivo que conduz à morte nor intermédio das doenças físicas ou mentais. Em quinto lugar, uma ideo-logia defensiva, para ser funcional, deve ser dotada de uma certa coerência. O que supõe certos arranjos relativamente rígidos com a realidade. Daí os riscos que decorrem em conseqüências mais ou menos graves no plano prático e concreto (resistência às proteções médico-sanitárias, recusa da contracepção). Veremos, a propósito da construção civil, que o custo de elaboração do funcionamento da ideologia defensiva profissional ;é igualmente grande (resistência frente às campanhas de segurança). Em sexto lugar, a ideologia defensiva tem sempre um caráter vital, fundamental, necessário. Tão inevitável quanto a própria realidade, a ideolõgTa defensiva tor-^ na-se obrigatória. Ela substitui os mecanismos de defesãlndivíduais. Ela os torna impotentes ."Esta observação é de uma grande importância clínica na medida em que é a partir dela que se pode compre^" ender porque um indivíduo isolado de seu~grupo social se encontra ürutalménte desprovidoi 5ê~ defesas"fãce"5"'fèãMã'de ã"que ele é con-~ frontado. À participação na ideologia defensTvTcoletiva exige que õsí mecanismos He" defesa ajam em surdihãT mecanismos estes que só teriam razão de ser frente a conflitos de ordem mental, os quais só podem aparecer quando um ^domínio mínimo da fealidade^perigosa está assegurado. Nós veremos que todas essas características da ideologia da vergonha podem ser encontradas nas ideologias defensivas profissionais, seja dos trabalhadores da construção civil ou dos operadores das indústrias de processo. 36

I 2. Oj mecanismos de defesa individual contra a organização do trabalho: o exemplo do trabalho repetitivo. í de uma situarão totalmente diferente que vamos tratar agora: o trabalho repetitivo, seja na linha de produção, no trabalho por peças ou em certos trabalhos de escritório de informática, de seguro ou nos bancos. Trabalho "taylorizado" cuja organização é tão rígida que domina não somente a vida durante as horas de trabalho, mas invade igualmente, como vamos ver, o tempo fora do trabalho. Para introduzir o ponto de vista da psicopatologia neste domínio, não podemos evitar de retomar certos aspectos da Organização Cien-tífica do Trabalho concebida por Taylor. (96) Õ objetivo deste sistema, pode-se advinhar caso ainda não se saiba, é o aumento da produtividade. Taylor, que, durante seus estudos, teve uma aprendizagem de operário, formulava contra os operários a reprimenda de "vadiagem" (op. cít. pg. 230). A "vadiagem no local de trabalho" não eram tanto os momentos de repouso que se intercalavam no trabalho, mas as fases durante as quais os operários, pensava ele, trabalhavam num ritmo menor do que aquele que poderiam ou deveriam adotar. A vadiagem foi assim denunciada como perda de tempo, de produção e de dinheiro. O que Taylor condena, este vício da classe" trabalhadora, é talvez outra coisa bem diferente. Nós tentaremos mostrar que, além de uma simples freada da produção, este tempo, aparentemente morto, é na realidade uma etapa do trabalho durante a qual agem operações de regulagem do binômio homem-trabalho, destinadas a assegurar a continuidade da tarefa e a proteção da vida mental do trabalhador. Assim, o projeto de Taylor indentifica-se à redução, nçLsentjdo. radical, poderíamos dizer ortopédico, da vadiagem operária. O principal obstáculo que ele encontra no seu projeto é a vantagem indiscutível do operário-artesão sobre o empregador na discussão dos tempos e dos ritmos de trabalho. O conhecimento da tarefa e do modo operatório faz parte do campo do operário e traem cruelmente a argumentação do engenheiro. Experiência profissional e know-how técnico são ainda complexos numa época em que o operário continua, em muitos casos, sendo um artesão qualificado. O saber operário emerge, então, na luta como segredo coletivamente detido pela corporação operária. (62) saber — segredo — chave das relações de força de que Taylor vai apoderar-se. Ele 37

Ela amordaça a liberdade de organização. Trata-se de uma inventividade fundamenta! que autoriza cada operário a adaptar intuitivamente a organização de seu trabalho às necessidades de seu organismo e às suas aptidões fisiológicas. Resta. As variedades de modos operatórios.C. A O. Taylor escolhe o mais rápido e. 80). operatório. Ele sistematizou este mtuodo e o instituiu em princípio: vários gestos 38 . evidentemente.T. Adaptação i que. Originalidade que não se poderia comprazer em reconhecer como qualidade estética ou valor moral. cit. não se limita a uma desapropriação do saber. é testemunha da originalidade de cada operário em relação à sua tarefa. p. cada seqüência. A questão tornava-se então: como verificar o respeito ao modo operatório e sua execução no tempo fixado? Em outras palavras. chamaram pouca atenção. o que. mas também desapropriação da liberdade de invenção. sexo ou estrutura mental. Pois ela diz respeito. à integridade do aparelho psíquico e. cit. Erro ou cegueira intencional? Uma vez coligidos os diferentes modos operatórios. certo. de fato. sobre este critério. exige uma atividade intelectual e cognitiva que será proibida pelo trabalho taylorizado/ ^" Mais grave ainda é a dimensão psicológica e psicoeconômica desta liberdade de organizaçãoreorganização-modulação do modo. vê-se logo. à saúde do corpo através do processo de "so-matização". Pois esta diversidade. Adaptação espontânea do trabalho ao homem que não esperou os especialistas para inscrever-se na tradição operária. daí para frente. de reorganização ou de adaptação do trabalho. de que hierarquia. como veremos. de que vigilância. Insistiu-se com justiça sobre a desapropriação do know-hon coletivo (62) pela organização científica do trabalho.empreende a análise sistemática dos modos operaíórios em uso (op. cada movimento na sua forma e no seu ritmo. Desapropriação de um saber. idade. impô-io a todos os operários sem distinção de altura. Ele só-se deièmaa^djversidade insólita destes modos opera-tórios para^condenar os mais lentos sem se interrogar sobre as razões desta variabili3adc atiibuida implicitamente à burrice ou a má vontade dos menos rápidos (op. A estratégia de Taylor não poderia se limitar à designação do "modo operatório cientificamente estabelecido". p. do que o processo no seu conjunto. ao contrário. declara-o "modo operatório cientificamente estabelecido". de que comando devia-se dotar a nova organização do trabalho? Taylor imaginou então um meio de vigiar cada gesto. 82). dividindo o modo operatório complexo em gestos elementares mais fáceis de controlar por unidades. mais aiém. Nós voltaremos detalhadamente a esta questão (Capitulo II). Era preciso ainda pô-lo em prática. não é coisa fácil.

as oanon '.Ultrapassado pelas nacorenr °H°peran0 1ue "atra«a" atrapalha os que estão atrás dele na corrente dos gestos produtivos. o operário está desesperadamente só. divisão dos homens. cria o anonimato e o intercâmbio enquanto individualiza os homens frente ao sojrimento. o anonimato das relações de trabalho. divisão do organismo entre órgãos de a^o Sm í C°nf PÇà°intelectua!.T. compar t a mStres *£ f™! ^^-^ ^^^"lente incha/a de SiÍSSS í u . racãoT^ a°i° P°r PCÇaS' à imagem dos prêmios. artesão. por exemplo. o controle.«fim.Z um tífica SoTríhíhnW P«col*toIàW«>. da cadência do tríhSíí ' ° C QUe' Pda própria estrut«ra desta organização men e e na^rH-OPeranO^SaO confrontados um por um. mais divisões mdn?duos. o "truque" que lhe permitirá ganhar . o intercâmbio dos operários 39 . ^ O. o . as exigências temporais.Às vezes é até Pior> P™ o a"10 em Oposição aos outros. ^^^-H0 taí°rÍZado enSendra. ele deverá assumi-los individualmente. desapareceu para dar a luz a um abortcr um corpo instrumentalizado-operário de massa (18) . O homem no trabalho. (Organização Cientifica do Trabalho) traduz-se por uma tripla divisão: divisão do modo operatório.ÍS de equipe' re8ulad°res. as violências da produtividade. Tal é o paradoxo do sistema que dilui as diferenças.do 9ue P°ntos ^ união. A ansiedade.segundos no ciclo operatório. cronometristas etc. Além do T^è OPeT° 11S°lad° d°S Outros. mesmo se exHníHoT~-----Uma colméia> Porque as comunicações estão mak f f 3S VCZeS aíC Proibidas.despossuído de seu equipamento mtelectual e de seu aparelho mental.C.No trabalho taylorizado não há rivin r? C°mUm> "em Obra coletiva' como e ° caso da construção civil ou da pesca marítima. definitivamente. Mesmo se eles partilham co-f d° 1OCal dC trabalho' do barulho. cadêit£ÍdeZ dauor8anizacao do trabalho. individualmente e na solidão. SwmblftCS de trabalho' ° estüo decomando. à aceleração das cadências. É ele que encontrar a ajuda.

A repetividade dos gestos. paradoxal-mente. à mesma oficina. Não há mais lugar praticamente para as defesas coletivas. no caso do trabalho taylorizado. a robotização não poupam nenhum operário de base. a uma diferenciação do sofrimentó"d~e~iim trabalhador e de outro. a indivicTualizáçâo conduz. Todavia. A divisão do trabalho conduz — os operários não deixam de afirmar— a um non-sens: a maioria dos trabalhadores ignora o sentido do trabalho e o destino de sua tarefa. porque ela apaga as iniciativas espon-_ tâneas. ~~A falta de sentido da tarefa individual e o desconhecimento do sentido da tarefa coletiva só tomam a sua verdadeira dimensão psicológica na divisão e na separação dos homens.tudo parece rigorosamente partilhado pelos numerosos trabalhadores ligados à mesma linha de produção. em certos 40 . Ao empregar uma abordagem deste tipo. e reduz a dor a um reflexo simples da luta de classes. Parece-nos. a psicopatologia do trabalho corre o risco de reatar com a interpretação sociológica da vivência psíquica que atribui somente às condições materiais e econômicas as causas do sofrimento. O trabalho em equipe e a participação num grupo de operação cujo sentido e compreendido pelo conjunto dos operários tornam possível a realização de defesas coletivas. Por causa do fracionãmêrito Ha coletividade operária. mesmo se ela é_ antes de tudo uniformizante. Os resíduos das defesas coletivas No caso do trabalho de caráter coletivo (construção civil e obras públicas) trata-se de tarefas de grande envergadura que exigem vários dias ou mesmo várias semanas ou meses para sua realização. porque ela quebra as responsabilidades êlTsaber. Além do mais. uma tal opção parece coerente com as análises sociológica e política. Armadilha teórica considerável que provavelmente bloqueou qualquer elaboração sobre a vivência do operário taylorizado. o sofri-mento que a organização do trabalho engendra exige respostas defen-sivas fortemente personalizadas. Aqui. A uniformização aparente das exigências do trabalho parece indicar a direção que a observação psicopatológica deveria usar: privilegiar o que há de comum e de coletivo na vivência ao invés de se ater ao que separa os indivíduos. porque ela anula as defesas coletivas. que a individualização. nada parecido com isso ocorre. ao contrário. a monotonia da tarefa.

Em outros casos. como perigo real. Mas nós também não podemos deixar passar em silêncio seu modesto valor funcional e sua dimensão estreita face à imensidão do sofrimento. unidos por sua nacionalidade comum. ser mais forte do que a organização do trabalho. assiste-se ã uma "aceleração coletiva" dos operários da linha de produção de tal modo que dois ou três operários do começo da linha conseguem deixar seu posto durante alguns minutos que eles-usam a seu bel prazer. Aliás. como descreve Linhart. é até mesmo vivido com intensa alegria. um dos três pode então deixar a linha e fumar ostensivamente um cigarro enquanto o conjunto dos outros trabalhadores continua indefinidamente a repetir os mesmos gestos. na medida em que esta atitude tomada coletivamente contra o sofrimento só dura alguns momentos. Nós vemos que a realidade dos riscos no trabalho taylorizado não é tanto devida às cadências em si mas à violência que esta organização do. Este momento. Não seria justo subestimar o benefício mental de uma operação "de caráter simbólico. Graças à realização de táticas operatórias espontâneas. como uma espécie de vitória coletiva sobre a rigidez e a violência da organização do trabalho._ trabalho exerce no funcionamento mental. Não. Pode-se então falar realmente de defesa coletiva? Sim. desafiar as cadências. podem-se ver ressurgir traços de defesa coletiva. a propósito do subpro-letariado. Neste caso. 41 . eles estabelecem entre si um sistema de convivência e de solidariedade. Estes poucos minutos arrancados do tempo e do ritmo da linha são aproveitados coletivamente. dominar o tempo. o ritmo. sua eficácia é muito limitada. Limitada em relação ao que nós caracterizamos. que eficácia real contém uma tal atitude? Em contrapartida. se o que é coletivamente desafiado com este comportamento é o tempo. eles conseguem ganhar alguns minutos do ritmo imposto pela organização do trabalho. se podemos considerá-lo assim. Com efeito. Em número de rês. mais acima. tira suas virtudes de seu caráter simbólico. No grupo. E nós não temos condições de admitir que estes mecanismos sejam suficientes na luta contra a angústia e a dor mental.momentos privilegiados. o jogo. é o conjunto dos trabalhadores que participa do acontecido. as cadências e a organização do trabalho. É preciso admitir que é sobretudo individualmente que çaçte operário deve se defender dos efeitos penosos da organização do trabalho. É assim que em L 'Éiabü (63) é descrito um grupo de operários iugoslavos da linha de produção da? indústrias Citroen.

p. Aliás. o operário consegue encontrar o melfíõT rendimento de que é capaz respeitando seu equilíbrio fisiológico e que^ desta forma. não restam senão corpos isolados e dóceis. é conhecida a famosa resposta de Taylor à Corte Suprema dos Estados Unidos quando ele teve que prestar contas. ele Têvà em conta não somente o presente más também o Futuro. 100). esta idéia é diretamente contrária à velha idéia segundo a qual cada operário é a pessoa mais qualificada para determinar seu modo pessoal de execução do trabalho.O operário-macaco de Taylor Uma vez conseguida a desapropriação do know-how. via" de regra. A última peça do sistema pode então ser introduzida sem obstáculos: é preciso adestrar. 100). "a multiplicação das relações operário-empregador vem acompanhada de uma simplicidade em conceber o homem ao trabalho": o homem-macaco de Taylor nasceu (Taylor." Taylor estava errado. 42 . Se nos debruçarmos sobre as conseqüências da O. Mesmo se seu modo operatório não é ~sêmpré~ ò~^iãís~êfTcaz do ponto lie vista do rendimento em gera^jo estudo do trabalho artesanal mostra que. "A idéia de treinar os operários um após o outro.C. desprovidos de toda iniciativa.T. considerado desumano na época. è o que anuncia o próprio Taylor. o próprio Taylor comparou o novo operário ao chipanzé como argumento convincente para conseguir a adesão do júri (Taylor [96] p. sob a condução de um professor competente. sobre o aparelho mental. uma vez desmantelada a coletividade operária uma vez quebrada a livre adaptação da organização do trabalho às necessidades do organismo. uma maneira científica de trabalhar (método que foi realizado por outra pessoa). Aliás. uma vez realizada a toda poderosa vigilância. frente aos juizes. do seu sistema. condicionar esta força potencial que não tem mais forma humana. E para justificar suas inovações. para que executem seu trabalho seguindo novos métodos até que eles apliquem de uma maneira contínua e habitual. constataremos que desordens ignoradas pelo autor do sistema aparecem no funcionamento físico. treinar. Poisj^operário ^efjt|vamerUejo_rna^indicado para saber o que é compatível com a sua saúde. O que parece correto do ponto de vista da produtividade é falso do ponto de vista da economia do corpo.

modulada. bruscamente. tudo se passava como se o trabalho físico. por subtração do estágio intermediário. lugar da atividade cognitiva e intelectual. isto é. Poder-se-ia dar desta imagem uma representação espacial: o primeiro andar e a base da Torre Eiffel seriam o corpo. Imagine-se o que aconteceria se.: É necessário. que dá à torre sua coerência e sua finalidade. Neste edifício hierarquizado. repartida e equilibrada em função das aptidões e do cansaço do trabalhador pór intermédio da programação intelectual espontânea do trabalho. Um raciocínio matemático é diferente de um fantasma. a atividade motora. para a seqüência do texto. que por sua vez era controlado pelo aparelho psíquico." Não chegou ao fim o debate sobre o que se passa na cabeça de « um operário que trabalha por peças. da-imaginação e dos afetos1. emergem uma vivência e um sqfrimento_quej>odeníõlTèhtar esclarecer. O segundo andar seria a sede da atividade intelectual. A clínica psicanalitica mostra que há casos em que uma atividade intelectual pode desenvolver-se independentemente de produção fantasmática (69). o que acontece com a vida psíquica do trabalhador desprovido de sua atividade intelectual pelã^organizacãò científica do trabalho! ~ Dó choque entre um indivíduo. ou de um digitador num serviço de informática. dotado de uma história personalizada. o corpo obedecia ao pensamento. Se nos referirmos a certas concepções patronais. de alguma maneira. O último andar. I 43 . Com efeito. O sistema Taylor age. portadora de uma injunção despersonalizante.efeitos do trabalho repetitivo sobre a atividade fmtjuic Entre a organização do trabalho e o aparelho mental desapareceu o amortecedor que constituía até aí a responsabilidade de conceber e de realizar a tarefa em função do know-how. que fique bem clara a diferença entre atividade intelectual e vida psíquica (ou mental). a atividade intelectual engajada pelo operàrio-artesão no seu trabalho. O desastre arquitetônico viria acompanhado de uma alteração significativa da qualidade das emissões de televisão! É precisamente isto que deve ser estudado pela psicopatoí logia do trabalho. com seu emissor de televisão seria o aparelho psíquico. à. lugar do desejo e do prazer. não há dúvida sobre a existência de uma atividade mental que acompanha o tra' Ij so áx. fosse regulada. isto é. o segundo andar fosse retirado. e a organização do trabalho. para o operário-artesão pré-tayioriano.

no presente caso. parece evidente que o espírito é totalmente absorvido pela dificuldade em realizar as quotas exigidas pelo salário e pelos prêmios. não seria possível admitir que as duas situações são possíveis? Por exemplo. A primeira é de ordem individual: a possibilidade de fantasiar não é dada a todas as pessoas de maneira idêntica e o valor funcional do fantasma é desigual de uma pessoa para outra (10). que a organização científica do trabalho não autoriza nenhuma evasão mental. Segundo certos autores (105) até os devaneios aos quais o operário se livra são nefastos para a produção e seria conveniente um fim a isso através de um meio que falta determinar Não só o espírito entregue à deriva distrai o operário de sua tarefa arriscando uma alteração na qualidade e quantidade do trabalho mas também a imaginação liberta alimenta ilusões insensatas. sempre lembrando a cadência. Olhando de mais perto. 44 . a evasão fantas-mátia domina seu livro e sua vivência. entfêgãm-se^brutalmente a uma cadência desêriireãfla para esquecer ãs~3ificuldades durante o "tempo de trabalho. ao contrário. evitaria devaneios impróprios. Ao contrário. acham. Ao invés de adotar uma opinião categórica sobre esse assunto. constata-se que o uso da válvula fantas-mática está submetida a duas condições. Segu balho repetitivo. Em Boyadjiam.o. colocada no posto de trabalho dos assentos do modelo "2 CV" descrita por Linhart (63) parece funcionar como um autpmato desumanizado. Numerosos casos pessoais mostram que certos trabalhadores^desgastados por problemas pessoais. o poder de descarga e de alívio que possui por vezes o fantasma. Mas o gesto repetido não é regularmente ritmado como no trabalho por peças. As tarefas repetitivas deixam espaço para a emergência das lembranças da véspera ou do fim-de-semana (101)? Se alguns são bastante afirmativos na resposta. familiares Fmateriais. podemos tomar como referência dois livros-teste-munhas da condição operária: Le salaire aux pièces (52 bis) e La nuit des machines. outros apoíando-se em testemunhos operários. A operária.(9) Para Haraszti. A segunda condição é relativa à organização do trabalho. Os especialistas do homem no trabalho estão também divididos neste assunto. Em La nuit des machines o trabalho é monótono (trata-se sempre de amarrar os fios quebrados do material a ser tecido). Outros autores propuseram introduzir no local de trabalho uma música à base de percussões ritmadas que. Por "valor funcional" nós entendemos. mesmo na fábrica. ao contrário. outros só sobrevivem ao trabalho repetitivo jraças à ãutonòmIã~Hentãl ju£des^cõnseguem conservar.

cultura. de maneira a contrabalançar os efeitos mais nocivos da O. Esta eventualidade é perigosa no plano da saúde como mostraremos mais para frente (Capitulo V). Mesmo aí.Alguns momentos são ocupados numa tarefa de vigilância feita sem exigência direta de tempo. relativas às equipes esportivas de empresa. Certos trabalhadores enfrentam a monotonia da tarefa com possibilidades defensivas individuais muito menos eficazes (defesas íompòftámêntãisje seu sofrimento é. o tempo fora do trabalho não traz para todos as vantagens que poderíamos esperar. o uso do tempo fora do trabalho é muitas vezes situado à distância da coletividade dos trabalhadores. 45 . formação profissional) e do tempo absorvido pelas atividades inelásticas (tarefas domésticas. às vezes possível. A evasão fantasmática é. e permanece enquanto sistema defensivo. ao contrário. e. Nós voltaremos ulteriormente a este ponto que nos parece fundamental: até indivíduos dotados de uma sólida estrutura psíquica podem ser vítimas de uma paralisia mental induzida pela organização do trabalho. uma organização do trabalho do tipo daquela apresentada em La nuit des machines não implica automaticamente que todos os operários se defendam individualmente tão bem quanto o autor. O uso do tempo fora do trabalho Compensação aparentemente natural das violências do trabalho. com isso.C. (despersonalização e formação profissional em cursos noturnos — exigências posturais dos empregados e esporte etc).T. assim. N~5s~véíèmõs áTcohsèqüênciás~deste sofrimento sobre o estado 5e saúde destes trabalhadores. deslocamentos). Em Le sataire aux pièces.Ao contrário. poucos são os trabalhadores e as trabalhadoras que podem organizar o lazer de acordo com seus desejos e suas necessidades fisiológicas: todavia. Se levarmos em conta o custo financeiro das atividades fora do trabalho (esporte. . o espírito interinamente voltado para a performance psicomotora não é nunca livre.nã" há escapatória fantasmática possível. fortemente individualizado. mesmo nas práticas paternalistas em vigor no começo do século. notoriamentT agravado. alguns dentre eles conseguem usá-lo harmoniosamente.

"Não há ninguém. ele permanecerá despersonalizado em sua casa. As telefonistas (6) sofrem de estereótipos fora do trabalho (dizer "alô" ao puxar a descarga. e os estereótipos comportamentais não seriam testemunhas apenas de alguns resíduos anedóticos. o barulho das portas automáticas) descritos por Bégoin sob o nome impróprio de "lapso". e tora da fábrica. Saindo da fábrica. Ao contrário. toda a concentração. é cTfasedV treino que a precede. Uma vez süpèrãclãs as dificuldades. E bem possíveTque as atividades feitas às pressas em casa não sejam o resultado de uma atitude passiva. ele conserva a mesma pele e a mesma cabeça. por exemplo. Despersonalizado no trabalho. desligo" ao ouvir. mas que exijam também um esforço. todos os esforços são dirigidos para o escore produtivo. reconhecemos os loucos de Thomson pela maneira de dirigir nas estradas. e é disso que se queixam os operários (15). tempo de trabalho e tempo fora do trabalho formariam uma continuum dificilmente dissociável. (21) A maioria dos autores concorda ao interpretar estgs fatos como uma contaminação involuntáriadol&npo fora do trabalho. A produção esperada exige um total engajamento da personalidade físi46 . O que quer dizer isso senão que "o homem não pode ser dividido em uma metade produtora e uma metade consumidora"? É o homem inteiro que é condicionado ao comportamento produtivo pela organização do trabalho. Em todo caso. Será queTüãcT seríaTpossível tirar daí a unidade estrutural do tempo na fabrica e fora da fábrica? O tempo fora do trabalho não seria nem livre e nem virgem. Numerosos são os autores que insistem sobre a contradição I entre divisão dos tempos de trabalho/tempo livre de um lado. As mulheres se queixam de executar os trabalhos domésticos com um ritmo acelerado que só faz prolongar o tempo entrecortado do trabalho na fábrica. Nada é mais penoso do que a adaptação a uma tarefa repetitiva (92 p. no trabalho põr peças. Maisdifícil'que a manutenção da própria performance produtiva. e / unidade da pessoa (28). é isso que se observa. 50 e 100) nova. resta_ manter a performance. como se eles continuassem a observar as cadências aprendidas no trabalho.A "contaminação" do tempo fora do trabalho Mais complicada é a questão das estruturas do tempo fora do trabalho. Como nós já ressaltamos. no metrô.

um novo aprendizado. é a adaptação do condicionamento mental à cadência. encontram às vezes este fenômeno que não é excepcional e que se traduz pela recusa de certos operários em aceitar as paralisações de trabalho prescritas pelo médico que o está tratando. eles conservam presente a preo "cupação ininterrupta do tempo permitido a cada gesto. " Ãülm. Os médicos do trabalho. inevitavelmente. a partir de então. li 47 . para evitar algo_ ainda "pior. Este "presenteísmo" pode ter outras origens (de ordem salarial) mas há casos em que a causa é a luta individual para preservar um condicionamento produtivo arduamente adquirido. formam umá verdadeira síndrome psicopatológica que o operário. que mantêm ativamente. mas antes uma estratégia.merojos_são_os_Qperários_e empregados. jecqrtãdo sob as medidas da organizaçãõ"do trabaífiõ. um programa onde atividades e repouso são verdadeiramente coman-Hados pelo~cfõnómetro.Ç.T. o ritmo do tempo fora do trabalho não é somente uma contaminação. fora do trabalho e durantej» dias de folga.Tsè Vê obrigado a reforçar também ele. para o operário. adaptação que exigirá. destinada a manter eficazmente a^pj^ãoTosjçm^oj^ag^tos^sjj^n^ânejosj que marcariam i ^pj^jç^j^g^^j^^ uma brecha no condicionamento produtivo. Aparece nesta atitude o círculo vicioso sinistro da alienação pelo sistema Taylor~ onde cT comportamento condicionado e o tempo. no fim.submetidos à O.ca e mental. Assim. uma espécie de vigilância permanente para não deitar apagar q ccuidicionamenío mental ao comportamento produtivo. na prática da fábrica. _Nu. o próprio operário torne-se o artesão de seu sofrimento. A injustiça quer que. O mais perigoso.

infelizmente é preciso ser esquemático. Na vivência operária. descreveremos provisoriamente dois sofrimentos fundamentais organizados atrás de dois sintomas: _a_ iasalisfaçãq e_a ansiedade. Se nos referirmos aos trabalhos sobre este assunto constataremos que a maioria dos autores. no discurso dos trabalhadores. sob 48 . o sofrimento operário é dividido em dois componentes isso não significa que existam dois tipos distintos de sofrimento. Existe uma vivência global cuja deci-fração leva à descoberta de vários aspectos.Que sofrimento? 1. embora implicitamente designada em numerosos trabalhos. Se. ipsta d^rf>hrir Tmfrfl " qiip plp': construídos. na verdade. bem pouco estudada. sua finalidade^Para ser claro. Do discurso operário podem-se extrair vários temas que se repetem obstinadamente como um refrão obsessivo. Não há um só texto. como sua coerência interna e a extensão de seu campo de aplicação poderiam indicar. uma só entrevista. uma só pesquisa ou greve em que não apareça. interessa-se mais pela questão da satisfação da motivação do que pela da insatisfação. Isso resulta de uma preocupação em esclarecerem-se os indicadores dos comportamentos operários (88). foi. A insatisfação. Insatisfação e "conteúdo significativo"da tarefa Uma vez que os sistemas defensivos individuais e coletivos não são supérfluos. para fins expositivos. isto é.

riscos. Cansaço que se origina não só dos esforços musculares e psicossensoriais. o tema àa. mas que resulta sobretudo do estado dos trabalhadores taylorizados . podem-se considerar.í suas múltiplas variantes. suficiente em relação às aspirações. de estar desper-/sonaiizado etc. humanista ou político. No que diz respeito à relação do homem com o conteúdo "significativo" do trabalho. condicionamento ao comportamento produtivo. de inutilidade e de desqualificação. tanto mais honroso se a tarefa é complexa. elevam-se queixas sobre adesqualificação. sua tarefa não tem significação humana. o sentimentQjie. Trata-se mais da imagem de si que repercute do trabalho. nem para os amigos. ciclo por ciclo. Sentimento \ experimentado maciçamente na classe üperária. isto é. de não ter mais imaginação ou inteligência. de paralisia da imaginação e marca o triunfo do. ampliando-os. do narcisismo: O nível de qualificação. miserável. às vezes de jser sujo. mais do que isso. dois componentes: o conteúdo significativo em relação ao Sujeito e o conteúdo significativo em relação ao Objeto. tanto mais admirada pelos outros se ela exige um know-how. altruísta. A vivência depressiva condensa de alguma maneira os sentimentos de indignidade. inutL Udãde remete. Raros são aqueles que ainda creêm no mito do progresso social ou na participação à uma obra útil.i §ànte que nasce uma jmagejn de mdigrudad&jV falta de significação^ a" frustração narcísica. esquematicamente. O sofrimento começa quando a evolução desta relação é bloqueada (22). indignidade operária. Cor^ relativamente. primeiramente^àJalta de qualificação e de finalidade do trabalhgjQ operário da linha de produção como o escriturário de üm serviço de contabilidade muitas vezes não conhecem a própria significação de seu trabalho em relação ao conjunto da atividade da empresa. via de regra. não menos presente do que a da indignidade. Esta depressão é dominada pelo cansaço. vários elementos contam na formação da imagem de si. formam. a inutilidade dos gestos. Ela não significa nada para a família.JxficutajLjima tarefa sem investimentojnateriaí ou afetivo exige a produção de esforço e de voHfã3êí"«ni-QUtras çlr^ cjtimtâncjã£j^ vivência depressivã~ãíimenta-se da sensação de adormecimento intelectual. Durante o trabalho. feia. nem para o grupo social e nem para o quadro de um ideal social. responsabilidade. É do contato forçado com uma tarefa. de anquilose mental. Outra vivência. 49 . Mas. uma imagem narcísica pálida. de não ser mais que um apêndice da máquina. de formação não é. o da vergonha de ser / robotizado. Desqualifi-cação cujo sentido não se esgota nos índices e nos salários.

A significação em relação ao Objeto põe em questão a vida passada e presente do sujeito. sua vida íntima e sua história pessoal. Objeto exterior e real por um lado. Sucesso ou fracasso de um trabalho obrigatório: sucessos reais. entra a dificuldade prática da tarefa. do que ele põe. ao Objeto. isto é. Separar assim conteúdos significativos em relação ao sujeito e ao objeto é naturalmente arbitrário. do que ele introduz de sentido simbólico no que o rodeia e no que ele faz. veicula um certo número de símbolos. isto é. ao mesmo tempo. ela pode suportar investimentos simbólicos e materiais destinados a um outro. Todas estas significações concretas e abstratas organizam-se na dialética com o Objeto. No conteúdo significativo do trabalho em relação ao sujeito. De fato. Acontece inevitavelmente que o interlocutor interior e os personagens reais que o trabalhador encontra opõem-se. na medida em que as regras de troca de investimento não se deixam assim separar. O investimento narcísico só pode renovar-se graças ao investimento objetai e vice-versa. em situação muito complexa. pelos instrumentos que ela movimenta. esta parte não é mais do que a ponta do iceberg. A complexidade do problema provém do fato de que o essencial da significação do trabalho é subjetivo. objeto interiorizado por outro. Estender-se mais sobre este assunto conduziria a mergulhar em generalidades. o sujeito pode encontrar-se em situação de subemprego de suas capacidades ou. não implica necessariamente em responder simultaneamente ao outro. ou contra alguém. A atividade do trabalho. pelo material tratado. cujo papel é decisivo na vida. A significação profunda do trabalho para cada indivíduo só pode ser revelada por técnicas parti50 . esta dialética do Objeto é específica e única. da vida interior do sujeito. Se uma parte desta relação é consciente. para cada trabalhador. toda atividade contém os dois termos. O conteúdo significativo do trabalho em relação ao objeto: ao mesmo tempo que a atividade de trabalho comporta uma significação narcisica. ao contrário. A tarefa pode também veicular uma mensagem simbólica para alguém.li Na adaptação do conteúdo da tarefa às competências reais do trabalhador. pelos gestos que ela implica. pela atmosfera na qual ela opera. a significação da tarefa acabada em relação a uma profissão (noção que contém ao mesmo tempo a idéia de evolução pessoal e de aperfeiçoamento) e o estatuto social implicitamente ligado ao posto de trabalho determinado. A natureza e o encadeamento destes símbolos dependem. correndo assim o risco de um fracasso. socialmente reconhecidos ou efetivamente desconhecidos não causam o mesmo impacto sobre o narcisismo. Responder a um. De maneira que.

Sabemos também que a decifração desta relação com as camadas pro-fundis da vida mental não pertence à psicopaioiogia do trabalho. de seu suor nos quais o produto elimina-se. mais precisamente. O próprio posto de trabalho tem assim uma significação em relação aos conflitos da oficina ou da fábrica. Tal posto eqüivale a "ser protegido do chefe" ou. com 51 . pagar as dívidas) mas também mais abstratas na medida em que o salário contém sonhos. Fadiga. choca-se frontalmente com a vida mental e. não só do ponto de vista da produção mas também do ponto de vista da ordem e da disciplina na empresa. que contém numerosas significações: primei ramente concretas (sustentar a família. ganhar as férias. ele pode falar de sua tarefa ou deve calar-se. Ao invés de fazer referência à noção de carga psíquica do trabalho. a produção como função social. fantasias e projetos de realizações possíveis. concebida por um serviço especializado"da empresa. pode pôr em jogo relações complicadas. à preocupação em apresentar uma concepção coerente com a ergonomia contemporânea. carga de trabalho e insatisfação. antes de tudo. fonte de vergonha e obstáculo para a vida afetiva e sexual. ■Entra em consideração. Receber uma peça bem preparada. mesmo se só podemos apreendê-la através de seus efeitos i*idireitos e concretos. é preciso esconder dos outros o conteúdo de seu trabalho: por exemplo. Mesmo se o engajamento pessoal no objetivo social da produção não é possível. estranho aos trabalhadores. da mesma maneira que as mudanças de posto. "ser sua vítima". Até no leito conjugai. o salário.culares (psicanálise individual). no conteúdo significativo do trabalho em relação ao Objeto. o salário pode veicular todas as s ignificações negativas que implicam as limitações materiais que ele inxpõe. confiá-la bem montada ao operário que a receberá em seguida. então. a reconhecer o lugar importante da vida interior e subjetiva. econômica e política. não há jamais neutralidade dos trabalhadores em relação ao que eles produzem. enfim. ao contrário. é melhor interrogar-se sobre o custo humano da insatisfação. às vezes. o cheiro permanece ligado ao corpo como uma sombra impossível de ser mascarada. os trabalhadores que inalam o hexaclorocicloriexano não podem livrar-se do cheiro nauseabundo dè seu hálito. pagar as melhorias da casa. No caso inverso.-A coletividade operária sabe quais são os postos mais duros e quais os mais tranqüilos. Ser colocado em um posto de trabalho particularmente duro tem uma significação em relação aos colegas. Resta. Th organização do trabalho. que corresponde. Resta a significação das relações do trabalho fora da fábrica. Nós nos limitairmos. têm um valor em relação às lutas atuais ou latentes'. A tarefa não é nunca neutra em relação ao meio afetivo do trabalhador.

o sofrimento aumenta. psicoafetivas. à discreção do trabalhador. podemos perceber um movimento consciente de luta contra a insatisfação ou contra a indignidade. uma parte da organização do trabalho provém do própTio operador. a desqualificaçãff e a depressão. rege as tarefas muito qualificadas. quanto mais a organização do trabalho é rígida. adaptar o trabalho às suas aspirações e às suas competências. mais a divisão do trabalho é acentuada. graças aos privilégios de uma organização do trabalho deixada. menor é o conteúdo significativo do trabalho e menores são as possibilidades de mudá-lo. Mesmo as más condições de trabalho são. de aprendizagem e de adaptação. As frustrações resultantes de um conteúdo significativo inadequado às potencialidades e às necessidades da personalidade podem ser uma fonte de grandes esforços de adaptação. dentro de certos limites é claro. O sofrimento proveniente do pouco conteúdo significativo do trabalho taylorizado não é mais um mistério e é denunciado não só pelos operários mas também pelos ergonomistas e por certos meios do patronato "progressista". em grande parte. Quando um trabalhador usou de tudo de quf dispunha de saber e de poder na organização do trabalho e quando ele não pode mais mudar de tarefa: isto é. Ao contrário. Via de regra. ao emprego e à experimentação de um compromisso entre os desejos e a realidade. menos temíveis do que uma organização de trabalho rígida e imutável. a escolha das técnicas operatórias. mesmo se ele não for muito dividido. esta adaptação esponiânea do trabalho ao homem corresponde à procura. parcelado. A organização temporal do trabalho. no conjunto. Num trabalho rigidamente organizado. a inutilidade. A certeza de que o nível atingido de insatisfação não pode mais diminuir marca o começo do sofrimento. No trabalho artesanal que precedia a organização científica do trabalho e. Da análise do conteúdo significativo do trabalho. O sofrimento começa quando a relação homem-organização do trabalho está bloqueada. nenhuma adaptação do trabalho à personalidade é possível. das motivações e dos desejos. Correlativamente. Não são tanto as exigências mentais ou psíquicas do trabalho que fazem surgir o sofrimento (se bem que este fator seja evidentemente importante quanto à impossibilidade de toda a evolução em direção ao seu alívio). à descoberta. Em termos de economia psíquica.a esfera das aspirações. os instrumentos e os materiais empregados permitem ao trabalhador. Em tais condições. ainda hoje. quando foram esgotados os meios de defesa contra a exigência física. existe um segundo compo52 . é preciso reter a antinomia entre satisfação e organização do trabalho. quando o trabalhador usou o máximo de suas faculdades intelectuais.

uma positividade da ação ergonômica: diminuição do custo cardiovascular. uma posição fundamental na problemática da relação saúde-trabalho. o custo das medidas corretivas propostas pode ser discutido com a direção da empresa e é adotado um compromisso que constituirá a base dos trabalhos de mudança do posto. poeiras. cadência etc). Num segundo momento. vibração. temperatura. Se se procurar. entretanto. iluminação. Diferentes técnicas são utilizadas para este efeito: observação direta do especialista. ou as que são propostas pelo laboratório de sociologia do trabalho de Aix-enProvence) (48) etc. Este balanço é às vezes limitado pelos especialistas a uma análise comparativa relativa a critérios de ambiente. 2. Muitas vezes negligenciada ou desconhecida. segundo pensamos. chega-se ao balanço da intervenção. a insatisfação resultante de uma inadaptação do conteúdo ergonômico do trabalho ao homem está na origem não só de numerosos sofrimentos somáticos de determinismo físico direto. são às vezes reconhecidas e classificadas as principais exigências do posto de trabalho. encontra-se. Uma vez terminada a realização dos trabalhos aconselhados pela equipe ergonômica. num último momento. registro das diversas variáveis fisiológicas do operador. intensificação da iluminação etc. Se tal é a perspectiva do balanço. observação clínica. resposta às "fichas de posto" estabelecidas de antemão segundo um modelo estandardizado (tais como as que são utilizadas nas Empresas Renault (95). destinadas a aliviar os males detectados (73). Para situar o problema. são esclarecidas as sugestões de modificação do posto. Num terceiro momento. eventualmente a critérios de fisiologia ou de produtividade. mas também de outras doenças do corpo mediatizadas por algo que atinge o aparelho mental. medidas do ambiente físico (barulho. atenuação do barulho.nentc da insatisfação no trabalho que é totalmente desconhecido: o que resulta da inadequação da relação homem-tonteúdo ergonômico do trabalho. fazer o balanço não mais dos elementos da análise do I 53 . umidade. geralmente. Insatisfação e conteúdo ergonçmico do trabalho Esta segunda vertente da satisfação do trabalho ocupa. A intervenção ergonômica começa no "campo" pelo que se chama de "análise do posto" (102). melhoria da posição do trabalhador no posto. o mais simples é talvez recorrer ao estudo da eficácia da ergonomia. Enfim.

alguns autores sublinharam a dificuldade em avaliar a eficácia da ergonomia e das disciplinas do homem no trabalho (97). para a observação sobre uma tela de visualização (60). mas sua atenção teria sido chamada da mesma forma se os trabalhadores não se tivessem queixado? Numerosos exemplos similares na pratica mostram que não é sempre muito fácil 54 . acima de tudo. Sob esta ótica conta. fazendo desaparecer a dor. como veremos. A atenuação do barulho que reina numa oficina por dispositivos de insonorização eficazes leva. Uma comparação tomada da patologia médica poderia ilustrar este ponto de vista. o ergonomista ou o engenheiro de produção. Se se limitar o balanço da intervenção médica à comparação de um elemento da análise da situação. A pesquisa de um indicador global de melhoria das condições do trabalho teria uma utilidade que nem é necessário demonstrar. a entrar em contradição com os especialistas das condições de trabalho. No estado atual desta questão. precipitou um homem na morte. se se tomar um ponto de vista global. a intervenção médica é nefasta pois o alívio dado ao doente. Voltemos à intervenção ergonômica: o indicador global de melhoria das condições de trabalho que permitiria julgar a eficácia da ergonomia não existe até hoje (74). de fato. um doente hospitalizado com urgência com uma dor abdominal aguda. isto é. por exemplo. Por exemplo. ao contrário. às vezes. Para os psicopatologistas do trabalho. a vivência subjetiva é um objeto privilegiado de análise que nos leva. do desaparecimento de um estímulo sensorial (barulho) útil à manutenção da vigilância necessária. Nossa perspectiva aqui é citada somente pelo interesse que nós conferimos à relação saúde-trabalho. parece-nos fundamental não negligenciar a apreciação dos trabalhadores sobre a intervenção ergonômica e de nos pôr à escuta de sua "vivência subjetiva" antes e depois da intervenção.nosto (comparados um a um antes e apu» a intervenção) mas sobre a situação global. Por que escolher a vivência subjetiva dos trabalhadores? Esta escolha não pretende resolver a questão de um indicador global de melhoria das condições de trabalho. mas ele morre algumas horas mais tarde de uma hemorragia interna por perfuração de úlcera duodenal. este balanço é positivo. a condição do trabalhador. a resultados curiosos: os trabalhadores exprimem seu descontentamento acusando as novas condições de trabalho de aumentar seu cansaço. a dor. a avaliação e muito mais complexa. Por falta deste indicador. não varia sempre no mesmo sentido que as condições do trabalho. como para o trabalhador. elemento necessário ao diagnóstico de úlcera perfurada. Esta. Isto resulta. muitas vezes. Este fenômeno foi com certeza estudado pelos ergonomistas. Após administração de morfina a dor desaparece enquanto o doente parece aliviado.

Estas. é porque precisamente ele está melhor. pode-se recorrer à vivência subjetiva coletiva. Ao contrário. a nossos olhos. no começo. mas mais freqüentemente em algumas semanas. num primeiro momento. De maneira que se referir à "vivência subjetiva" tem sempre o risco de induzir também em certos erros. do grupo emana. de um doente queixar-se mais de seu estado quando sua saúde está melhorando. Assim. o interesse que o médico ou o psicopatologista deve ter pela "vivência subjetiva" dos trabalhadores. até. muitas vezes. às vezes. uma apreciação "global dos efeitos da iniervenção ergonômica que vai direto ao objetivo" Mas há também casos em que a avaliação subjetiva dos trabalhadores opõe-se ao ponto de vista médico-sanitário. 93). facilitação de um trabalho de precisão através de uma iluminação mais racional etc. os operários experimentem um benefício real da intervenção ergonômica: melhoria da postura de trabalho. convém distinguir vivência subjetiva a curto prazo e vivência subjetiva a longo prazo: é bastante freqüente que. Com efeito. de várias causas concorrentes: — o hábito — a revelação de outros prejuízos até então mascarados — o fato de que. Para levantar este obstáculo. quando um doente começa a protestar. 55 . no fundo. Em matéria de intervenção ergonômica. diminuição das lombalgias. A revolta assinala uma melhoria de seu estado. nada mudou. uma vivência subjetiva coletiva que envolve as variações individuais. vantagens que são inegáveis contituem o que poderíamos chamar de "positividade da prática ergonômica". em geral. Esta erosão do poder benéfico da "melhoria das condições de trabalho" resulta. Ao contrário. A sensação subjetiva de alívio é mais intensa se a melhoria da situação for mais substancial. Com efeito. e se esta mudança produzir-se mais rapidamente. 36. Se acreditarmos nos mestres da psicofísica (35. a discordância "vivência subjetiva"—"estado de saúde" é observada sobretudo na economia individual de um sujeito. a substituição de um banco por um assento de encosto regulável é. um operário que utiliza o tricloroetileno para dissolver a graxa escondida nas dobras cutâneas acha que é vantajoso conservar este hábito enquanto que o médico do trabalho sabe a nocividade deste produto para o organismo. às vezes em alguns dias. esta última reflete.prever os efeitos de uma "melhoria objetiva" das condições de trabalho. Entretanto. Em certos casos. os fenômenos observados em matéria de ergonomia de correção seriam coerentes com os resultados da psicologia da sensação. o mais freqüente é que o sentimento de melhoria e de alívio desfaz-se bastante rapidamente. na verdade. Isto confirma. Assim. acontece. a defender-se e a queixar-se.

poder-se-ia dizer que a intervenção ergonômica não atinge a situação de trabalho em profundidade pois ela permanece aquém da organização do trabalho. conteúdo da tarefa. O inconveniente da intervenção ergonômica é sua ação limitada. a correção ergonômica é às vezes irrisória face à enormidade das exigências organizacionais (salários. o limite último da ação ergonômica. Em todo caso. Além do mais. A intervenção ergonômica. referente aos pilotos de caça). Admite-se correntemente. Esta questão fundamental é a questão do valor relativo das melhorias ergonômicas em relação à economia global da relação homem-trabalho. Todavia. há casos em que não se observa uma tal diminuição da sensação. Assim somos levados a admitir a existência de uma espécie de edifício estra-tifiçado de prejuízos hierarquizados.apreciada pelo operador. simultaneamente. E o esgotamento psicofísico da sensação não e suficiente para dar conta do fenômeno observado. consideravelmente bem toleradas (conforme Capítulo III. faz-se às vezes aparecerem os de um nível inferior e assim por diante. as dores lombares atingiam um tal nível de intensidade que ocultavam as dores da nuca. Há casos muito conhecidos onde as condições de trabalho são terríveis e. a apreciação ambivalente dos trabalhadores em relação à ergonomia. anteriormente. subjacente. pois esta melhoria não é mais perceptível atualmente. Quando se faz desaparecerem os prejuízos que ocupam o alto da hierarquia sintomática. bonificações. Aliviado deste mal. É que. Assim. ela só consegue aliviar parcialmente os trabalhadores e este é. o alívio trazido pela correção ergonômica é recuperada pela organização do trabalho. Isto pode explicar. por exemplo. em relação com a posição da cabeça e a distância olho-tarefa. Para o operário que trabalha com peças. prêmios. A toda esta análise poderíamos opor "a ergonomia de concepção" (102). Mas após um mês de trabalho. a conhecer uma outra dor que tomou lugar da precedente: cervicalgia. ele aprende. ele nâo tem mais consciência desta melhoria e. em muitos casos. ele tem que evocar a lembrança do momento desta substituição do assento. apesar do que afirmam os psicofísicos. Para utilizar outra fórmula. provavelmente. em parte. O alívio da carga de trabalho permite a intensificação da produtividade. pode libertar um operador de lombalgias relativas a uma tòrsão da coluna por defeito de postura. a subtração de uma exigência do trabalho pode revelar uma violência mascarada. O que foi ganho de um lado é perdido do outro. pouco a pouco. hoje em dia a distinção entre "ergo56 . Este elemento de "habituação" desempenha certamente um papel na obsolescência da vivência da melhoria e do alívio. para faiar ao interlocutor. trabalho repetitivo etc). com efeito.

o que são estes agravamentos da relação saúde-trabalho ocasionados por correções ergonômicas limitadas? Estas questões vão permitir-nos introduzir um novo ponto de vista na insatisfação do trabalho. seu estado melhora rapidamente. outras questões foram levantadas: o que é este sentimento de satisfação experimentado. tratado com fortes doses de neurolépticos e de ansiolíticos. só poderá trazer alívio limitado. mas seu estado mental dominado pela ansiedade. Mas.nomia de correção" e "ergonomia de concepção". mais ainda. químicas. Levado a Paris por um serviço especializado. após ter apresentado uma ilustração clínica. a exemplo da insatisfação em relação com o conteúdo significativo do trabalho. após uma correção ergonômica? E. Mais para frente nós voltaremos a este conceito de economia psicossomática. permanece muito preocupante. sua glicemia é rapidamente controlada. Este segundo componente da insatisfação no trabalho não é de ordem "significativa". um sofrimento que são de natureza mental e não física. Esta insatisfação não está. Na noite anterior ele apresentava alguns sinais de agitação e no próprio dia seu estado se tinha agravado: ele mantinha diálogos incoerentes. alucinações terríveis e vozes ordenavam certos comportamentos particulares como andar de quatro e comer flores e plantas verdes presentes na casa. mas de ordem "econômica". Mas é então preciso cuidar de seus problemas metabólicos. do que de projetos elaborados pelos especialistas ou ergonomistas. determinantes na apa57 . a ergonomia de concepção só excepcionalmente é posta em prova na realidade e parte mais do direior de uma empresa e de seu? conselheiros diretos. Um homem de aproximadamente trinta anos é conduzido ao hospital psiquiátrico de uma cidade do interior. que fora chamado às pressas pela família em pânico frente ao estado do paciente. biológicas) e a estrutura da personalidade pode emergir uma insatisfação e. Trata-se desta vez. uma vez que o paciente sofre de uma diabete insulino-dependente. Movimentos de agressividade alternavam-se com frases de ansiedade evidente. No hospital. de insatisfação é de frustração antes de tudo concretas. A ergonomia de que falamos até aqui é uma ergonomia de "correção" mas. cor-relativamente. a bem dizer. quando da construção de novas instalações. havia batido com violência no médico. De uma relação desarmoniosa entre o conteúdo ergonômico do trabalho (exigências físicas. mesmo brevemente. situada no registro simbólico. A investigação permite o esclarecimento de alguns elementos recentes. Esta digressão pela ergonomia prática poderia traduzir-se em termos de psicopatologia do trabalho pela seguinte fórmula: enquanto a ergonomia não trouxer satisfação suplementar ao nível do conteúdo significativo do trabalho.

nada mudava. esportivas ou os trabalhos de forte carga física são as úricas defesas verdadeiramente funcionais para assegurar o equilíbrio. com seu marido para que ele abandonasse seu emprego por uma profissão mais "respeitável". sua função era de organizar e de controlar o trabalho de uma equipe de uma dúzia de operários. deixando o hospital.rição do episódio agudo. gerente de um salão de beleza. as atividades psicomotoras. Foi decidido com o paciente e a família que. ele punha "a mão na massa" e. impotente à acumulação de autos sobre sua mesa. ele assistia. a seu trabalho na fábrica para aceitar um emprego numa companhia de seguros. Esta solução favorável não é excepcional. Entretanto. Muito mal adaptado a este trabalho sedentário. ele deveria retomar seu antigo posto de chefe de armazém. ele deveria logo sucumbir à fadiga e ao esgotamento. compensar os efeitos nocivos de seu novo emprego. Este homem ocupava há cerca de dez anos um posto de chefe de armazém numa fábrica de sua região. Procurando. Diante do esforço conjugado de sua mulher e de seus amigos. (23) Este exemplo ilustra bastante bem como uma adequação entre o conteúdo ergonômico do trabalho e a estrutura da personalidade pode 58 . Lá. Esta simples decisão foi suficiente para acalmar a angústia do paciente e para permitir um controle rigoroso do metabolismo após a suspensão dos tratamentos psicofarmacológicos. seu trabalho consistia em ler autos policiais de seguro e verificar sua conformidade. numa fuga desenfreada fora do trabalho. as dificuldades profissionais continuavam. assumia um trabalho equivalente ao dos operários que ele dirigia. insistia. havia vários meses. Jogador de futebol. ele tinha se tornado em algumas semanas presidente do clube municipal e esta atividade secundária particularmente intensa lhe proporcionava o relaxamento que não lhe ofereciam suas horas no escritório. No fim de dias de trabalho particularmente esgotantes. Foi neste momento de hipogli-cemia provocada por um esforço físico não compensado por um suporte alimentar suficiente que o precipitou na descompensação psiquiátrica de que falamos. Contramestre. o paciente havia finalmente renunciado. Como é o caso com esse tipo de sujeito. ele havia encontrado um meio de gastar sua energia e de descarregar sua tensão. Uma "investigação psicossomática" precisa (69) deveria mostrar que se tratava de uma descompensação sob forma de síndrome con-fusional ocorrida num sujeito que apresentava uma neurose de comportamento. a contragosto. além de suas funções de vigilância. Vários meses após ter retomado seu trabalho na fábrica ele não tinha tido nenhuma recaída e nem consumia mais medicamento. Sua esposa. Entretanto.

estes sujeitos ficam não só insatisfeitos mas muitas vezes em posição delicada em relação à saúde. Eles conseguem às vezes manter o equilíbrio recorrendo. toda uma pa-nóplia de tarefas de alto grau de violência psicossensorial é. dos carros de corrida aos aviões. se for aplicada cegamente. colocando o sujeito em face de uma organização do trabalho e de um conteúdo ergonômico radicalmente diferentes. Mas este período de compensação é pouco.levar a um sofrimento e até a uma síndrome psicopatológica caracterizada. menos monotonia e rotina. músicas a volume alto. estímulos psicossensoriais etc. com diminuição da carga física. a atividades que possuam as mesmas características: longos percursos noturnos de carro. neste exemplo. Outras hipóteses explicativas do caso deste paciente poderiam ser propostas. Outras personalidades têm aptidões para tarefas que comportem fortes exigências psicossensoriais. (24) Apoiando-nos nestas conclusões. em direção a uma doença somática em virtude das regras da economia psíco-somática. O que outros não poderiam suportar. O importante aqui é compreender a simultaneidade do prazer e da necessidade. consumo impressionante de espetáculos onde as aventuras são o assunto de predileção. ao mesmo tempo. melhor se sentem. como uma "melhoria" das condições de trabalho. barulho. estimada por estas personalidades e necessárias ao seu equilíbrio. atividades musicais mais apreciadas por sua riqueza sonora do que pelo tema musical etc. Do carro à moto. Nós não as discutiremos aqui. corridas desenfreadas de moto. imagens visuais. eles querem avidamente. Fora de um relaxamento e de um prazer trazidos por tais atividades. o mais freqüentemente. fora do trabalho. Pode-se ver bem.77) Na vivência dos trabalhadores. sem levar em conta as necessidades da personalidade. elucidadas há cerca de vinte anos.67. dos pesos pesados aos guindastes. ou até mesmo 59 . E a curto ou a médio prazo a evolução faz-se. (64. a inadaptação entre as necessidades provenientes da estrutura mental e o conteúdo ergonômico da tarefa traduz-se por uma insatisfação ou por um sofrimento. admitiremos que o papel determinante na descompensação psiquiátrica deste doente foi desempenhado pela neutralização das defesas compor-tamentais na ocasião de uma mudança de posto de trabalho. pode conduzir a uma catástrofe a nível da economia geral do indivíduo com suas traduções clínicas patológicas. Estas pessoas têm necessidade de um trabalho variado. Quanto mais mudanças. Estas aptidões são às vezes acompanhadas de uma verdadeira necessidade de alimentação de impressões sonoras. uma sez que o debate foi concluído em outro lugar. Uma tarefa muitas vezes apreciada por tais personalidades é a de condutor e de piloto de máquinas.

mas que existe. podemos tomar. a contabilidade etc. O primeiro é relativo às exigências de ordem física e psicomotora. a rhaioria dos sujeitos que apresentam um tal perfil de carreira são. inventivas ou criativas. é que a insatisfação com o trabalho não corresponde só ao conteúdo significativo do trabalho nem ao seu conteúdo simbólico. tiva ou reumatológica. toda carga de trabalho supõe uma composição específica de cargas elementares dependentes de cada um destes setores. relativamente frágeis. (75. paralelamente na profissão. uma predileção pelas atividades mentais de tipo matemático. no trabalho. em conseqüência de um acidente. Contrariamente ao que se poderia crer. uma satisfação em relação com o exercício do corpo. mental e somaticamente. A atividade intelectual não escapa ao esquema de que falamos. Estes sujeitos têm. Outras são de ordem psicossensorial e as últimas são de ordem intelectual. Tais personalidades se fazem notar. rara* mente precisada. a atividade intelectual na base de sua tarefa profissional toma um caráter de necessidade para seu equilíbrio mental. Certos sujeitos apresentam aptidões particulares no campo do raciocínio intelectual lógico e racional. desde muitos jovens. a econometria. Se. (68. 78) Estes casos não são mais excepcionais do que os de trabalhadores que apresentam defesas situadas essencialmente no setor da atividade motora que. Alguns dentre estes encontram nas atividades intelectuais deste tipo e. raramente explicitada pelo próprio trabalhador. eles não têm aptidão particular para a produção de fantasias o devaneio e a imaginação. se forem vítimas de um afastamento ou se se aposentarem. três componentes principais. Tais personalidades foram estudadas por certos autores. diges-. nas profissões de caráter social geralmente elevado. O ponto de im- . não é raro que seu organismo seja vítima de uma doença coronária ou um infarto do miocárdio após um prazo de alguns dias ou de algumas semanas. Se lhe interditarem o trabalho. encontram-se imobilizados num emprego sedentário e apresentam.76. Para esquematizar esta relação sutil entre o conteúdo ergonômica1 do trabalho e a estrutura da personalidade. no sentido físico e nervoso. antes de tudo. não apenas por suas aptidões para os estudos. ao mesmo tempo. uma doença somática. mas igualmente pela ausência de fracasso ao longo de um curso que parece poder se desenvolver sem nenhum incidente. no fim de alguns meses. pelo cálculo. portanto.por um estado de ansiedade raramente traduzido em palavras.79) Neste estudo da insatisfação com o trabalho relacionado ao conteúdo ergonômico da tarefa é preciso tirar duas conclusões: Primeiro. uma via privilegiada para descarregar suas necessidades de atividade. mais do que por atividades intelectuais que necessitem de faculdades imaginativas.

Por outro lado. igualmente. com efeito. uma entidade psiquiátrica um pouco à parte do limite entre a desorganização mental e a desorganização somática. A carga de trabalho psíquica representada pelo sofrimento proveniente de um desconforto do corpo coloca 61 . primeiro. ela aparece particularmente importante no caso da insatisfação com o conteúdo ergonômico do trabalho. (A síndrome confusional é. a carga de trabalho é chamada astreinte) (73). por intermédio de uma descompensação e de complicações do diabetes insulino-depen-dente. Aparece. a evolução do processo de desorganização teria terminado na morte. A insatisfação proveniente de um conteúdo ergonômico inadaptado à estrutura da personalidade não é outra coisa do que uma carga de trabalho psíquica. a partir da estrutura da personalidade de cada indivíduo. sofrimento mental resultante de uma frustração a nível do conteúdo significativo da tarefa pode. Presente em todos os tipos de sofrimento. não são equivalentes às doenças diretamente infligidas ao organismo pelas condições de trabalho. o que representa para ele o confronto com esta tarefa. é preciso considerar. Todavia.pacto do sofrimento proveniente da inadequação do conteúdo ergonômico da tarefa às aptidões e as necessidades do trabalhador é. como já o mostravam os ergonomistas. As articulações psico-dinâmicas e psicoeconômicas serão retomadas ulteriormente em outro capítulo. um custo individual da tarefa notoriamente diferente daquele que revela o estudo objetivo das exigências: é a carga de trabalho. As exigências da tarefa são o que nós descrevemos sob o nome de conteúdo ergonômico. mental. levar a doenças somáticas. em oposição ao sofrimento resultante do conteúdo ergonômico da tarefa. o corpo e não o aparelho mental (o exemplo dü trabalhador diabeúco mostrou que uma descompensação mental poderia provir da inadaptação homem-tarefa). Analisar o conteúdo do trabalho em termos de exigências ou obrigações é insuficiente. as exigências da tarefa são chamadas contraintes. antes de tudo. Esta carga de trabalho não é idêntica à carga de trabalho física ou psicossensomotora.) (33) A insatisfação em relação com o conteúdo significativo da tarefa engendra um sofrimento cujo ponto de impacto é. A síndrome confusional isolada artificiaJ-mente nesta observação mostrava a existência de uma etapa no processo de "desorganização psicossomática" (67) Se uma terapêutica conveniente não tivesse sido rapidamente proposta. A segunda conclusão diz respeito à introdução da estrutura da personalidade na relação homemtrabalho. Os efeitos desta carga e o sofrimento estão no registro mental e se ocasionam desordens no corpo. assim. (Na nomenclatura internacional e segundo as normas Afnor.

num arranjo da realidade suscetível de produzir. Assim. Não é mais questão das necessidades como no caso do corpo. Isto é: fornecer atividades físicas. separar os dois setores da satisfação com o trabalho é uma necessidade de exposição. sensoriais e intelectuais segundo proporções que estejam em concordância com a economia psicossomática individual. trata-se da vivência qualitativa da tarefa. como levar em conta estes diferentes elementos numa aproximação global e mais sintética da relação homem-trabalho. Mas compreenderemos facilmente que as coisas intrincam-se de maneira muito mais complexa na realidade de cada caso. satisfações concretas e simbólicas. simultaneamente. Estas satisfações concretas analizam-se em termos de economia psicossomática. ao bem-estar físico. As satisfações concretas dizem respeito à proteção da vida. Isto depende do que a tarefa veicula do ponto de vista simbólico. Nós veremos. à saúde do corpo. O conflito não é outro senão o que opõe o homem à organização do trabalho (na medida em que o conteúdo ergonômico do trabalho resulta da divisão do trabalho). num capítulo ulterior. É o sentido. a significação do trabalho que importam nas suas relações com o desejo. mas dos desejos ou das motivações. isto é. I 62 . biológico e nervoso. de alguma maneira encarregado de representar e de fazer triunfar as aspirações do sujeito. segundo duas linhas diretrizes: subtrair o corpo à nocividade do trabalho e permitir ao corpo entregar-se à atividade capaz de ofercer as vias melhor adaptadas à descarga da energia. a vivência do trabalhador ocupa um lugar particular que lhe é conferido pela posição privilegiada do aparelho psíquico na economia psicossomática. primeiramente. O aparelho psíquico seria. No centro da relação saúde-trabalho. As satisfações simbólicas: desta vez.inteiramente o trabalhador e sua personalidade à prova de uma realidade material.

O que vamos tentar mostrar é que o medo está presente eni todos os tipos de ocupações profissionais. (39) A investigação da angústia só deve ser realizada pela psicanálise. onde parece ocupar um papel modesto.Trabalho e medo O medo constitui uma das dimensões da vivência dos trabalhadores quase sempre ignorada por todos os estudos em psicopatologia do trabalho. Pode tratar-se de uma oposição entre duas pulsões. Mas nosso assunto aqui é o medo. A angústia é uma produção individual. A psicopatologia do trabalho encontra-se muito bem colocada para ressaltar esta problemática nova. Faz-se necessário uma precisão semiológica: a angústia resulta de um conflito intrapsíquico. entre dois sistemas (por exemplo: consciente e inconsciente). um conceito que não é propriamente psicanalítico — e que responde por um aspecto concreto da realidade e exige sistemas defensivos específicos. Algumas categorias profissionais são expostas a riscos relacio63 . inclusive nas tarefas repetitivas e nos trabalhos de escritório. essencialmente mal conhecidos até hoje. não de angústia. isto é. de uma contradição entre dois impulsos inconciliáveis. cujas características só podem ser esclarecidas pela referência contínua à história individual. na medida em que constitui uma abordagem específica da relação do homem çom a realidade. à estrutura de personalidade e ao modo específico de relação objetai. entre dois desejos. Falaremos aqui de medo. entre duas instâncias (ego e super-ego).

Mas mesmo nestes casos. se atingido por um choque elétrico deixa cair a carga sobre um grupo de trabalhadores que trabalha no solo. freqüentemente (mas nem sempre) o risco é coletivo: numa indústria química um escapamento de gás pode provocar a intoxicação ou morte de vários trabalhadores. que podem ter um caráter material (dispositivos de proteção) ou um caráter psicológico (regras de segurança).que operam em fluxo contínuo. Por outro lado. De qualquer maneira. por tabela. A causa material do dano físico pode ser um incêndio. é que deve ser assumido individualmente. por exemplo.asfixia. dos trabalhos em profundidade. 64 . então. fratura. São eficazes apenas as medidas de proteção chamadas de "proteções coletivas" — por exemplo: as telas de proteção ao longo dos andaimes. da pesca em alto-mar. seja devido à limitação dos investimentos necessários. onde muito freqüentemente é um acidente que revela a existência de um risco até então desconhecido. um escapamento de gás tóxico. É o caso das indústrias. irregularidades no funcionamento de um instrumento ou de uma máquina. Podemos descrever diversas características destes riscos: o risco é exterior e na maioria das vezes. É o que se observa muitas vezes neste tipo de acidente. um acidente de descompres-são. da construção civil. os riscos estão relacionados ao corpo do indivíduo. o próprio risco continua. É o caso. inerente ao trabalho. muitas vezes o acidente que acontece com o operário pode. via de regra. Em todos estes casos. ele quase sempre conta com uma prevenção incompleta pela organização do trabalho.nados à integridade física. por exemplo. queimadura. afogamento. ferimento. Quase sempre propõe-se aos trabalhadores apenas medidas preventivas individuais. coletivo. Ao lado do risco real precisamos mencionar ainda o risco suposto. independente. o risco è mais personalizado. morte violenta. o que caracteriza o risco residual que não é completamente eliminado pela organização do trabalho. das indústrias de preparação de produtos tóxicos etc. uma explosão. É com um passo falso que o operário cai dos andaimes. Às vezes. Enfim. na maioria das situações de trabalho onde vários operários colaboram na mesma tarefa. seja porque o risco ou suas manifestações são mal conhecidos. acidente. O problema do medo no trabalho surge desta oposição entre a natureza coletiva e material do risco residual e a natureza individual e psicológica da prevenção a cada instante de trabalho. sem que nenhuma prevenção seja colocada à disposição dos operários. Às vezes. circunstâncias atmosféricas. mesmo se o risco é combatido por medidas e regras de segurança. atingir outros: um operador de grua. da vontade do trabalhador. Pode tratar-se de . O risco é.

Temos ainda as mortes por inalação de fosgênio. em vez de beneficiar do regime de "doença profissional". as numerosas úlceras de duodeno. Quando são muito eficazes. é preciso procurar pelos sinais indiretos que são justamente estes sistemas defensivos. O risco confirmado pelos acidentes. Uma oficina ficou assim denominda de "oficina da sarna". inteiramente a cargo do trabalhador. teria causado a morte de vários trabalhadores. cujo caráter imprevisível e ressaltado pelas pesquisas a respeito. è fonte de uma ansiedade específica. os infartos de miocárdio entre 30 e 40 anos. provocado pelo cloreto de vinila. o trabalho administrativo é considerado limpo. para esiudá-la. Os sinais diretos do medo Na indústria química. como também as lesões por fricção e os pruridos.conhecido em seus detalhes. Comra este medo e a impressão dolorosa de que deve ser. Os trabalhadores evocam as "doenças profissionais" e as "afecções de caráter profissional" — cuja origem está bem situada no trabalho mas que não estão inscritas no quadro oficial das doenças profissionais. l. onde o trabalho é organizado em . O trabalhador doente é coberto pela Previdência Social por causa da doença.. os riscos de complicação com o menor ferimento.. Ou quatro operários mortos numa oficina onde se lidava com desfo-lhantes. os mal-estares. a notável diminuição da longevidade (a média é de 57 anos). constatamos inevitavelmente a extensão das preocupações relativas à saúde física. os infartos do miocárdio. Em outro caso. As lesões eczematiformes dos dedos não são raras. assumida individualmente. Assim. ao ouvirmos os operadores de sala de controle. os doentes hospitalizados com urgência (18 operários de uma só vez.fluxo contínuo. como para todo e qualquer problema médico que não tenha nenhuma relação com o trabalho. numa das fábricas pesquisadas). bem ou mal. que dá direito ao complemento salarial e às eventuais indenizações por invalidez. o câncer do fígado. 65 . Entretanto. os problemas sexuais na oficina de«bromato de isopropila. o envelhecimento precoce. pois os operários que nela trabalhavam manipulavam pentaclorofenol e sofriam quase todos de um prurido. praticamente não se encontra mais nenhum traço de medo no discurso do trabalhador. dele temos somente um quadro difuso. os trabalhadores elaboram defesas específicas.

Mesmo sendo incontestável tal realidade. Se a relação corpo-condições de trabalho muitas vezes é estudada corretamente. nunca se faz menção das repercussões do perigo real a nível mental. os vapores e poeiras. de explosão ou de incêndio. Mencionam-se igualmente fraturas.. são as condições de trabalho que são acusadas: os vapores. (N. Ora. Além de ser um coeficiente de * Astreinte — significa limitação.. o ruído a 80-90 decibéis de algumas oficinas. os gases tóxicos. e mesmo em algumas fábricas são claramente majoritárias as questões relativas à saúde física.) 66 . o ruído. A limpeza dos refratários é perigosa: é preciso entrar nas caldeiras ou fornos para se descascar as paredes com um martelo. ou seja. entretanto. até mesmo no posto de controle: "muitas vezes a gente começa e já temos vapores quase até a cintura". Acontece também de o tempo de começar uma reação já ser suficiente para se ter vapores acumulando-se em toda a oficina. É possível ter concentrações importantes de vapores tóxicos. quando esperaríamos encontrar basicamente reclamações que dizem respeito à saúde mental. as pressões. Os riscos relativos à integridade física têm ainda uma grande importância. é muito comum se colocar a ênfase analítica no que está mais imediatamente expresso. negligenciamos em geral a própria palavra. as temperaturas. faz parte do desgaste do organismo (astreinte)*. antes de tudo. frio ou calor contínuos.Poderíamos citar ainda as condições de temperatura. corpos estranhos nos olhos etc. da carga (de trabalho) psíquica inerente ao trabalho perigoso que. de que as condições de trabalho são prejudiciais para o corpo. assim como seus efeitos que se fazem sentir sobretudo a nível da vida mental. sujeição no sentido mais amplo. Aos prejuízos físicos. esta palavra é uma palavra carregada de ansiedade. o momento em que é pronunciada e o tom no qual se expressa. é necessário acrescentar os riscos de acidente.doT. O medo relativo ao risco pode ficar sensivelmente amplificado pelo desconhecimento dos limites deste risco ou pela ignorância dos métodos de prevenção eficazes. T Saúde física e condições de trabalho: estas são claramente apontadas pelos trabalhadores como fonte de perigo para o corpo. ao contrário. queimaduras. estreitamento.em resumo: as condições/ís/cas e químicas de trabalho. A propósito deste discurso trabalhador sobre a saúde física.

em noites. presença de capacetes. sem exceção. da memorização etc. alarmes sonoros e visuais. máscaras. da tensão de concentração. e não como se poderia pensar. é claro. ou como os trabalhos de certos especialistas (6 bis) instigam a considerar a questão: isto é. pois um só acidente é susceptível de desorganizar a hierarquia estatística. os efeitos da vigilância. cuspindo fogo e vapores. isto não seria suficiente. mas freqüentemente cobertas de poeira). fala-se da ansiedade justamente quando se fala da "tensão nervosa". por exemplo. que compreende. Imaginemos estas fábricas que se estendem por muitos quilômetros. mergulhadas no barulho das máquinas e iluminadas sombriamente por luzes que dão às formas do prédio e das chaminés uma silhueta estranha. mas não quantificável Sobre que bases podemos afirmar que tal empresa apresenta mais riscos do que outra? Sobre seu número de feridos? Sem dúvida. justamente — mais do que constituir uma verdadeira proteção. manifestam durante uma discussão. No discurso trabalhador em indústrias químicas.multiplicação do medo. destinadas principalmente a estimular a atenção — provocando medo. "Medo" e "tensão nervosa" No discurso de trabalhadores da indústria petroquímica. com "os nervos à flor de pele" etc. existem outros componentes do medo que vamos estudar a seguir. a questão principal evocada espontaneamente. Aliás. ele gera um estado de medo quase permanente que todos os trabalhadores. em relação à qual se estrutura tudo o que diz respeito ao sofrimento mental dos trabalhadores. Qualquer que seja sua amplitude. 67 . banhadas por uma atmosfera poluida de cheiros horríveis e sufocantes! Risco real. tudo lembra a possibilidade de ocorrência de um acidente ou incidente: cartazes. Na empresa. luvas (ao alcance das mãos. pois o risco real existe em todo lugar. de ficar uma pilha". sinais luminosos. Mas ao lado deste medo "diretamente determinado". O próprio aspecto exterior da fábrica não é indiferente para os trabalhadores. isto pouco importa. É por aí. a ignorância aumenta também o custo mental ou psíquico do trabalho. é a ansiedade. pelos efeitos da "carga psicos-sensorial". mesmo se esta carga existe e contribui parcialmente para o sofrimento sentido.

a todos os riscos que não são controlados pela prevenção coletiva. até durante o tempo que passam no posto de trabalho. pois sem esforço aparente os operadores continuam a identificar os ruídos específicos de certos alarmes). os trabalhadores jamais abandonam a "tensão nervosa". "Enquanto estamos na fábrica. definitivamente. organizarem jogos. sei» saber em que momento ele pode entrar em erupção." "Medo"e "representação" . Uma prova a mais da intensidade deste medo é fornecida pelos problemas de sono e. pelo consumo de medicamentos psi-cotrópicos pela maioria do pessoal trabalhando numa fábrica: ansiolíticos durante o dia. sem saber o que se passa no interior de seu corpo. fazerem palavras cruzadas etc. sobretudo. mesmo durante as atividades onde a carga de trabalho é pouco elevada (mas nunca eliminada. estas representações mostram a extensão do medo que responde. 68 . Há tempo suficiente para discutirem entre si. no discurso dos trabalhadores. estão pouco ocupados por suas atribuições e longe de serem sobrecarregados. muito freqüentemente — e este não é o aspecto menos paradoxal das pesquisas — 05 trabalhadores não hesitam em esclarecer que. Sobretudo. — O sentimento penoso de que a fábrica é susceptível de. escapar ao controle dos operadores. nunca ficamos descontraídos.Na realidade. e que pode a qualquer momento ficar furioso e destruir tudo o que está construído à sua volta. Raramente constaia-se um estado de sofrimento resultante de uma sobrecarga de trabalho ou de uma carga psicossensório-motora muito elevada. soníferos à noite e psicoestimulantes pela manhã." Todas estas representações da fábrica no discurso operário enfatizam os seguintes pontos: — A ignorância dolorosa em que se encontram os trabalhadores do que se produz efetivamente nas "reações químicas". é primeiramente a ansiedade que domina. a qualquer momento. explosiva e mortal. — A convicção de que a fábrica oculta uma violência própria.1 "Todo mundo sabe que trabalhamos sobre um barril de pólvora™ "A fábrica é um vulcão em cujas encostas nós batalhamos. ao nível psicológico. Ao contrário. bem ou malt faz andar. mesmo quando não estamos trabalhando.'' I "A fábrica é como um animal enorme que a gente. Entretanto.

ausência de disciplina. os conselhos relativos ao levantamento manual de carga: ajoelhar-se. Os sinais indiretos do medo: a ideologia ocupacional defensiva Mesmo existindo nas indústrias químicas uma ideologia defensiva específica. ou seja. O que foi acima descrito corresponde a uma certa realidade. de incons-ciência diante da realidade. a ignorância e a inconsciência em relação ao risco são apenas uma fachada. lombalgia e ciáticas. Entretanto. os mais ignorantes sobre os riscos que eles próprios enfrentam. segurar a carga no chão e levantar-se utilizando os quadríceps. Tais conselhos suscitam freqüentemente respostas do trabalhador do tipo "não sou uma mocinha e não vou fazer como você diz". tomaremos o caso da construção civil para ilustrar a questão da ideologia defensiva contra o medo. até mesmo encontrando nisto um certo prazer. Aliás. dorsalgia. utilizando os ossinhos móveis que são as vértebras e ocasionando assim "mal jeito nas costas". tendência ao individualismo etc. É como se os trabalhadores da construção civil não estivessem conscientes dos riscos a que se submetem. até mesmo respostas de desprezo são freqüentes. Por exemplo. mas também de temeridade. Este fato levou alguns autores a dizerem que a "psicologia dos operários da construção civil" caracterizava-se por um gosto pronunciado pelo perigo e pela performance física através de traços caracteriais dominados pelo orgulho. bravura. nossas pesquisas mostraram que esta fachada pode desmanchar-se e deixar emergir uma ansiedade imprevista e dramática. São bem conhecidas as atitudes com relação ao risco de acidentes. existe um insólito conhecido por resistência dos trabalhadores às normas de segurança. como acontece muitas vezes. os perigos têm um peso real e uma importância que é inútil sublinhar. disto são testemunhas os numerosos acidentes mortais ou com invalidez que. os da construção civil perfazem a metade. como também a recusa de certas regras de segurança. Esta atitude de desprezo pelo risco não pode ser tomada ao pé da letra. de algum modo. Não podemos admitir sem questionar que os operários da construção civil sejam. no conjunto geral dos acidentes mortais. Na verdade. O desprezo. valores ligados a sinais exteriores de virilidade. é preferível a inclinar-se o tronco e aprumar-se acionando a musculatura dorsal mais frágil. Nesta categoria profissional. Depois que o momento de desafio já passou. rivalidade. que são os músculos mais poderosos do corpo. os trabalhadores con69 .2.

Nestes testes rivalizam entre si. de um sistema defensivo destinado a controlar o medo. A. e não mais o perigo que se abate sobre todos. Aliás. obrigaria o trabalhador a tomar tantas precauções individuais que ele se tornaria ineficaz do ponto de vista da produtividade. Falam dos amigos mortos ou feridos no trabalho. neste caso os trabalhadores não poderiam continuar suas tarefas por muito tempo mais. afirmamos que se o medo não fosse assim neutralizado. mas ao fazê-lo. impotências funcionais diversas — bem conhecidas dos médicos clínicos e médicos do trabalho (84). A consciência aguda do risco de acidente. na realidade. Este sistema defensivo é partilhado por todas as categorias profissionais da construção civil. em matéria de interpretação de psico-patologia do trabalho. É por isto que os trabalhadores as vezes acrescentam ao risco do trabalho o risco das performances pessoais e de verdadeiros concursos de habilidade e de bravura. para funcionar. Criar uma situação ou agravá-la é. Estes são absolutamente necessários. de certo modo. independentemente de suas vontades. mesmo sem maiores envolvimentos emocionais. no mínimo. a avaliação correta do risco impediria completamente o trabalho na construção civil. domina Ia. Apesar do risco de crítica. Na verdade. não deixam dúvida alguma pelo tom da expressão e da emoção. A primeira característica desta fachada — a pseudoinconsciência do perigo — resulta. mas só raramente aparece à superfície. este sistema necessita de 70 . não o inverso. Conjurar o risco exige sacrifícios e provas das mais absolutas. este caso é freqüente: o medo é uma causa importante da "inadaptação profissional" na construção civil.-segunda especificidade é seu caráter coletivo. pois encontra-se contida. Mas mesmo fora da situação de trabalho o medo só aparece camuflado: é a ladainha dos sintomas medicalizados da ansiedade sob forma de vertigens. E o risco? Melhor que os outros. Para outras pessoas. pelos mecanismos de defesa. tudo se passa se fossem eles que criassem cada risco. Este estratagema tem um valor simbólico que afirma a iniciativa e o domínio dos trabalhadores sobre o perigo. Assim que tais revelações aparecem. A vivência do medo existe efetivamente. se pudesse aparecer a qualquer momento durante o trabalho. Evocam também as famílias dos feridos. As atitudes de negação e de desprezo pelo perigo são uma simples inversão da afirmação relativa ao risco. Não discutiremos aqui sua justificativa do ponu> de vista da finalidade destes mecanismos. e não existe sempre sem motivos.tam os acidentes a que assistiram ou dos quais foram vitimas. cefaléias. os trabalhadores é que o conhecem e vivenciam no dia-a-dia. Mas esta estratégia não é suficiente.

Os trabalhadores nâo gostam de ser lembrados do que tão penosamente procuram exconjurar. Ninguém pode recusar sua contribuição individual para o sistema de defesa. E estas instruções implícitas são respeitadas. A eficácia simbólica da estratégia defensiva somente é assegurada pela participação de todos. elimina aquele que não 71 . será obrigado a parar de trabalhar. Além disso. a ideologia defensiva tem um valor funcional em relação à produtividade. se não consegue superar a própria apreensão. acidente. ao mesmo tempo. de uma conduta deliberada visando a suportar justamente um risco que não seria completamente atenuado por medidas de segurança ridículas em relação à importância do risco. relembrar-lhes que o perigo existe mesmo e. Seu grupo profissional. Na verdade. mas isto permite sobretudo que os outros pensem que não querer é suficiente para não ser vítima. Obrigar a que as coloquem é. A exploração do sofrimento mental e dos mecanismos de defesa que são colocados em prática para lutar contra este sofrimento serão tema de um capítulo posterior. tornar-lhes as tarefas ainda mais difíceis. Esta ideologia necessita seus sacrifícios e seus mártires. se um trabalhador não conseguiu incorporar a ideologia defensiva de sua profissão por conta própria. Sem dúvida. tem igualmente um valor no que concerne aos trabalhadores que não participam do trabalho. uma fórmula altamente capaz para se acalmar o medo. Do mesmo modo.encontrar sua confirmação. Exagerou. pois mais carregadas de ansiedade. Esta é uma das i azoes pelas quais as campanhas de segurança encontram tanta resistência. Ninguém pode ficar à margem deste código profissional. ou seja. Os trabalhadores" bem sabem que as rédeas da segurança não evitarão todos os acidentes. Vemos que o sistema de defesa requer uma grande coesão e uma solidez a toda prova. mas. é por este motivo que este sistema chega a ser uma tradição da profissão. procurou isto. sim. risco. de uma verdadeira "ideologia defensiva" característica da profissão. nem do medo." Talvez seja correto. a recusa e as resistências encontradas na construção civil não são feitas de uma suposta inconsciência ou imaturidade. Se a ideologia defensiva da profissão tem um valor funcional para os trabalhadores de um canteiro de obras. antes de tudo. Designamos com isto o que poderíamos chamar de exploração da ansiedade. É exato que certos acidentes resultam destas condutas perigosas e destas competições desafiando o risco. Ninguém pode ter medo. Nunca se deve falar de perigo. Ninguém deve demonstrá-lo. E que se possa avaliar o que trazem estes sacrifícios: "Se ele morreu é porque queria. armado da ideologia defensiva.

recém-chegados a uma equipe. Desta maneira. Se são aprovados. de sua coragem. o que acontece de tempos em tempos. Na verdade.. e é funcional também a nível do trabalho.consegue suportar o risco. reencontramos assim sistemas defensivos que estão profundamente estruturados pela natureza do risco em questão. Se. será eliminado deste. Na realidade. a aguardente. deverão demitir-se. A última característica da ideologia defensiva é a seguinte: para 72 . em outros casos são notoriamente diferentes e específicos por profissão. É o caso da indústria química. O vinho. por outro lado. o que se mostrar mais frágil será objeto dos riscos dos outros.. O papel do vinho e do álcool articula-se com esta ideologia. que ajuda a enfrentar as condições de trabalho. O grupo não somente efetua uma verdadeira seleção que garante o valor operacional de cada trabalhador que está no canteiro de obras mas. pois constitui o preço que devem pagar para superar a carga de medo que pressupõe o trabalho. a importância da ideologia-defesa na continuidade do trabalho. em alguns casos. exigem-se certas proezas físicas. farão parte do grupo de modo integral. de sua coesão. são submetidos ao teste da ideologia-defesa. harmoniza-se com a sede provocada pelo esforço físico. do mesmo modo que incorporarão os elementos constitutivos da defesa coletiva. são uma dose de energia nem tanto física mas psicológica. defende-se do medo reavivado ao nível individual e ao nível coletivo pelo discurso e comportamento do "medroso". estes sistemas possuem certa analogia. Um outro exemplo pode ser fornecido neste mesmo sentido. Antes de retornar ao trabalho. E o que poderíamos chamar de "enquadramento" dos jovens trabalhadores. é a garantia da produtividade. Em numerososas profissões. não é raro que sejam submetidos a um verdadeiro teste: São "gozados" durante as refeições com respeito à própria virilidade. a aparente "inconsciência" dos trabalhadores muda de significada. são observados. O papel psicológico emprestado ao vinho reencontra de maneira não fortuita a tradição e os hábitos de vida dos trabalhadores. Além disto. uma dose de álcool ajuda por seu valor simbólico e por sua atividade psicofarmacológica. mais cedo ou mais tarde. assim. Se não renunciar a esta posição ousada em relação ao grupo. A ideologia defensiva é funcional a nível do grupo. Se não suportarem este ambiente de trabalho. Constitui-se. onde a ideologia defensiva é radicalmente diferente da ideologia defensiva na construção civil. Após estes esclarecimentos.

às bonificações. mas com um trabalho que exija uma divisão de tarefas entre os membros de uma equipe. o resultado obtido é sempre colocado em xeque pelo aumento da cadência imposta que surgirá um dia ou outro. Mesmo quando este jeito habilidoso já foi adquirido. ao contrário do que observamos nas profissões onde o trabalho se faz em grupo. não apenas uma comunidade que trabalhe num mesmo local. participa do mesmo modo que a carga física do trabalho. Entretanto. ao esgotamento progressivo e ao desgaste dos trabalhadores. esta ansiedade permeia todos os textos escritos por trabalhadores e todas as suas falas espontâneas. ou seja. ao salário. Entretanto. ao preço de esforços e de ansiedade ao longo do tempo e da experiência de trabalho. Com a diferença de que. Esta ansiedade aparece especialmente em trabalhadores que começam num novo posto. à velocidade e. isto é. Esta ansiedade de que raramente se fala. do ritmo. há pouco espaço para a elaboração de ideologias defensivas (Vide Capitulo 1). naquele caso não há senão possibilidades mínimas de produzirem II 73 . onde há pouca comunicação entre os trabalhadores e onde a organização do trabalho é muito rigida. mesmo quando um certo hábito foi incorporado. De onde provém esta ansiedade? Provém muito menos das condições fisicoquímicas do trabalho. estas exigem um jeito e uma habilidade que são conquistas de um aprendizado (56 bis). do que do rendimento exigido. A situação de trabalho por produção é completamente impregnada pelo risco de não acompanhar o ritmo imposto e de "perder o trem". por menor atenção que se lhes dê. da cadência e das cotas de produção a serem respeitadas. de produção. 3. O medo em tarefas submetidas a ritmos de trabalho Os especialistas do homem em situação de trabalho nunca sequer mencionaram a ansiedade dos trabalhadores em linha de montagem ou na produção por peças. através destes aspectos. ou em razão das súbitas mudanças de posto de trabalho impostas pela hierarquia. No caso do trabalho parcelado e repetitivo. aos prêmios. A ansiedade responde então aos ritmo de trabalho. para "quebrar um galho" onde faltam trabalhadores por licen-ça-saúde ou acidente. pois há pouca ou nenhuma formação para as tarefas desqualificadas.sua elaboração é preciso a participação de um grupo trabalhador.

então. podia sempre parar de trabalhar durante alguns minutos. degradada. os trabalhadores falam sem disfarces dos riscos à sua integridade física que estão implicados nas condições físicas. Em L'Eíabli (63). as velocidades e os tempos impostos. simbolicamente. O essencial da ansiedade deverá então ser assumido individualmente. sobretudo. Sabem que apresentam um nível de morbidade superior ao resto da população e.defesas coletivas. como o carvão que asfixia os pulmões do mineiro com silicose. Mas. desmanchada. Podemos. 74 . Este medo patente é expresso desta maneira direta pela maioria dos trabalhadores das indústrias. tanto em relação à vitória sobre a hierarquia como em relação à solidariedade que une os trabalhadores neste instante. em relação à psicopatologia do trabalho. em rodízio. não é grande coisa parar de trabalhar alguns minutos numa jornada de trabalho de dez horas diárias. tenha-se passado ao largo deste medo massivo. nestas condições. Robert Li-nhart conta como um grupo de trabalhadores conseguiu organizar-se e dividir as tarefas de tal maneira que um deles. de modo a não perder tais vantagens através de uma troca de posto. espantar-nos que. corroída. Justificada pelos fatos. Prática e concretamente. que a longevidade da categoria é de dez a quinze anos inferior à dos professores primários (54). químicas e biológicas de seu trabalho. a agarrarem-se a este. A única defesa coletiva que pudemos observar é a chamada "reestruturação coletiva da linha de montagem''. É o que alguns psicólogos chamam de "resistência à mudança"! (92) Ao lado do medo dos ritmos de trabalho. O medo. o grupo de trabalhadores venceu o ritmo. que a ansiedade da luta ininterrupta contra os tempos impostos conduza o trabalhador. não está usufruindo sozinho pois todos aproveitam. destrói a saúde mental dos trabalhadores de modo progressivo e inelutável. este medo é parte integrante da carga de trabalho. Compreendemos. assim que tiverem adquirido um certo hábito e rendimentos de controle de seu posto de trabalho. usada ou intoxicada. participando também desta brincadeira simbólica de grande valor significativo. Já contamos anteriormente um exemplo. Quando um deles pára. seja proveniente de ritmos de trabalho ou de riscos originários das más condições de trabalho. A grande maioria tem a impressão de ser consumida interiormente.

No caso de indústrias onde o trabalho é submetido a um ritmo imposto. à produtividade. são habilmente mantidas. Não podemos considerar como epifenômeno ou como questão acessória a discriminação que opera a hierarquia com relação aos trabalhadores. podemos obsemfTTma técnica-espeçífica de Y comando. de maneira que à ansiedade relativa à produtividade. A desigualdade na divisão do trabalho (100) ê uma arma terrível de que se servem os chefes a bel-prazer da própria agressividade. com os outros trabalhadores — e que são. Nos serviços de contabilidade. hostilidade ou perversidade. acrescenta-se então a ansiedade resultante do que chamaríamos de "cara feia do chefe".4. muitas vezes não conseguem encontrar uma saída. se bem que possamos presumir sua importância na relação saúde/trabalho. de rendimento.-* 75 . A ansiedade e as "relações de trabalho " Entendemos por "relação do trabalho" todos os laços humanos criados pela organização do trabalho: relações com a hierarquia. sobretudo sobre promoções. Mas a frustração. Falsas esperanças. de avaliação de tarefas. nas grandes administrações. até insuportáveis. mesmo que não seja explicitamente incluída no papel da hierarquia. O chefe da equipe e o contramestre utilizam freqüentemente repreensões e favoritismos para dividir os trabalhadores.às vezes desagradáveis. mais particularmente de(técnicas de discriminação\A avaliação do chefe influencia os p^nt^^r-*^ sâo r1f"Vs para-^s rálmin do salário. Conhecemos muito mal os efeitos da repressão desta agressividade sobre o funcionamento mental dos trabalhadores. com a supervisão. aos prêmios e bonificações. como veremos a seguir. a revolta e a agressividade reativas. As mulheres são as principais vítimas deste sistema de . podemos considerar que as relações hierarquias são fonte de uma ansiedade que se superpõe àquela que mencionamos com relação ao ritmo. com as chefias. É preciso fazer uma observação particular no que diz respeito às táticas de lideranças empresariais. sempre que o trabalho não é organizado de maneira taylorista. às cotas de produção. É uma ansiedade superposta na medida em que a supervisão tem por encargo especificico manter esta ansiedade com relação ao rendimento de cada trabalhador. Ela faz parte integrante das táticas de comando. nos serviços. Temos o hábito de apresentar estas relações de trabalho em termos políticos ou em termos de poder. A situação mais exemplar a este respeito é a do setor terciário e dos funcionários de escritórios. do atraso autorizado ou punido etc. nos bancos.

Esta atmosfera de trabalho tem como efeito principal envenenar as reiações entre os empregados. criar suspeitas. Assim. a permanência do controle deve ser relembrada_j3gx_outrps meios: assim. onde todos os trabalhadores estão ligados à mesma cadência pela velocidade da própria linha de montagem. acaba extor-quindo dos colegas maí-intencionados. a direção e os chefes de seção procuram meticulosamente as causas das licenças de trabalho e a natureza dos tratamentos seguidos. os chefes freqüentemente recorrem a uma convocação individual dos empregados. è muito mais a regra nos serviços de escritório. serviremse do segredo como alavanca de manipulação psicológica. A partir do momento que existem tais rivalidades. No trabalho de escritório não se consegue efetivar o controle mediado pelo cronômetro da fábrica. Fica assim escamoteada a questão do trabalho. as contradições passam a se dar então no plano horizontal. _e_o_que não consegue obter diretamente do interessado. Nesta mesma perspectiva. nos serviços. a rivalidade e a discriminação ass^^ramjanLgrande poder à supervisão^ O chefe tenta também que os empregados falem de seus colegas. À falta de inte-resse pelo trabalho soma-se a ansiedade resultante das relações humanasjrojundjimenté Trm^^ 76 J . benevolência e paternalismo. Uma trama assim jelaborada é bastante densa e coerente. assim. Podemos nos perguntar porque a manipulação psicológica tem esta extensão no setor terciário. Em algumas administrações. Constitui-se então todo um sistema de relações de suspeita e de espionagem. Encoraja-se o funcionário a falar de suas dificuldades familiares e materiais. certas confidencias provocadas serão em seguida usadas para uma manipulação psicológica. o chefe tem interesse de nelas participar. ativando ou reativando os conflitos e as rivalidades entre empregados. Fica assim deslocado o conflito do poder. cujo debate se desloca para questões pessoais. tornando difícil afuga ou_até _a não-participação ao sistema.comando. No escritório da chefia as ameaças são substituídas por uma mudança de atitude. a vergonha e a culpa são provocadas em qualquer ocasião. E não somente as informações assim obtidas são depois utilizadas como meio de pressão. Este clima psicológico não é nada excepcional. mas às vezes também são tornadas públicas. Apenas considerar as exigências de posturas ou a carga psicossensória é um erro enorme. com o poder que lhe é conferido por sua posição hierárquica. Então. uma vez mais. De um conflito no sentido vertical. Os tempos e os ritmos de trabalho são aí mais difíceis de se fazer respeitar que numa linha de montagem. rivalidades e perversidade de uns para com os outros. o que lhes permite.

ou seja. um francês. Um exemplo caricatural desta desestruturação da linha de montagem é dado por certas fábricas automobilísticas da região parisiense. de não limitar a investigação cientifica ás relações individuais ou coletivas com a organização do trabalho. não podemos buscar as repercussões nas relações interindividuais. Trata-se. No caso das profissões expostas a uma forte carga de medo. de algum modo. numa modificação das relações espontâneas que poderiam existir entre os empregados? No caso do trabalho taylorizado. 5. como por exemplo a construção civil. onde se constrói uma linha segundo a seqüência seguinte: um operário árabe. um português etc. de seu envenenamento pela discriminação e suspeita. eles têm consciência deste 77 . depois um iugoslavo. na realidade. As diferentes formas de ansiedade Podemos agrupar esquematicamente os diferentes componentes da ansiedade em três itens: a) ansiedade relativa à degradação do funcionamento mental e do equilíbrio psicoafetivo: do que foi dito no parágrafo anterior podemos extrair dois tipos de ansiedade. A desorganização dos investimentos afetivos provocada pela organização do trabalho pode colocar em perigo o equilíbrio mental dos trabalhadores. aumentando-as ainda mais. um italiano. Em geral. um espanhol. A produção das relações afetivas no terciário e sua desestru-turação no trabalho em linha de montagem são também fonte suplementar de sofrimento.O exemplo do setor terciário é especialmente próprio à introdução de uma nova questão. A partir da organização do trabalho e das exigências a que ela submete o funcionamento mental (insatisfação e ansiedade). um turco. Assim. A primeira resulta da desestruturação das relações psico-afetivas espontâneas com os colegas de trabalho. de modo a impedir toda e qualquer comunicação durante o trabalho. fica dissolvida. e a própria rede relacionai que. ou de sua implicação forçada nas relações de violência e de agressividade com a hierarquia. relativa às relações da vida mental e trabalho. a frustração e a ansiedade serão vivenciadas no isolamento e na solidão afetiva. pudemos constatar os efeitos acumulados da ideologia ocupa-cional defensiva.

os trabalhadores continuam em seus postos de trabalho expondo seu equilíbrio e seu funcionamento mental à ameaça contida no trabalho. para enfrentar uma exigência ainda mais imperiosa: sobreviver. As más condições de trabalho colocam o corpo em perigo de duas maneiras: risco de acidente de caráter súbito e de grave amplitude (queimaduras. aumento do índice de morbidade.risco. Mesmo se parcialmente oculta na classe operária. como também para o espírito. ferimentos. condições de trabalho é o corpo que recebe o impacto. Precisamos acrescentar ainda que as más condições de trabalho não somente trazem prejuízos para o corpo. No capítulo sobre a insatisfação no trabalho dissemos que as exigências da tareía terminam numa auto-repressão do funcionamento mental individual e num esforço para manter os comportamentos condicionados. A necessidade de descarregar a agressividade provoca a contaminação das relações fora da fábrica. diminuição do período de vida. doenças "psicossomáticas". A esta ansiedade alguns autores deram o nome de "'disciplina da fome" (27). Ansiedade da morte. b) Ansiedade relativa à degradação do organismo: a segunda forma de ansiedade resulta do risco que paira sobre a saúde física. de regressão intelectual. doenças profissionais ou de caráter profissional. o consumo dos psicotrópicos destinados a um melhor controle da agressividade e da tensão interna constitui um último recurso. Enfim. a disciplina da fome não faz parte direta78 . Às vezes. A partir dos efeitos específicos da organização do trabalho sobre a vida mental dos trabalhadores resulta uma ansiedade particular partilhada por uma grande parte da população trabalhadora. e em particular. O segundo tipo de ansiedade diz respeito à desorganização do funcionamento mental. de paralisia da imaginação. o recurso às bebidas alcoólicas é uma maneira de atenuar a tensão interna. Dissemos anteriormente que nas . morte). É de natureza mental a ansiedade resultante das ameaças à integridade física. A ansiedade é a seqüela psíquica do risco que a nocivi-dade das condições de trabalho impõe ao corpo. enquanto que na organização do trabalho o alvo é o funcionamento mental. em contrapartida está particularmente explícita no subproletariado (Vide Capítulo 1). de despersonalização. Em todo caso. é o sentimento de esclerose mental. fraturas. De certo modo. das relações familiares. c) Ansiedade gerada pela "disciplina da fome": apesar do sofrimento mental que não pode mais passar ignorado.

sua condição. Veremos então que. acima de tudo. mas é. Havíamos esclarecido antes que a distinção entre estes dois aspectos da carga psiquica era arbitrária e adotada por necessidades didáticas. Antes de retomar a insatisfação e a ansiedade para analisarmos seus efeitos sobre a saúde. Este resultado mental insólito no que diz respeito ao perigo resulta de relações complexas entre satisfação e ansiedade. O capítulo seguinte destina-se a mostrar que a análise dos detalhes não deve superar a observação do conjunto. 79 . citaremos um caso particular da relação homem-trabalho onde se acumula uma quantidade impressionante de prejuizos. no lugar de suscitar uma ansiedade equivalente.mente da relação homem-organizaçào do trabalho. estas condições de trabalho são origem de uma excepcional adequação homem-tarefa.

Um contra-exemplo: a aviação de caça Apresentação da situação Uma base de aviação de caça apresenta-se como uma imensa coletividade reunindo vánQs milharem de pessoas engajadas num trabalho comum como os operários de uma colméia. O piloto de caça não gosta de íalar de si com um estranho em termos pessoais. aliás um corte ativamente apoiado p&ios próprios pilotos. interessam-se voluntariamente pelas questões médicas 80 . para tornar possível a missão dos pilotos que sao apenas algumas dezenas. nem mesmo das razões que o levaram «* escolher tal profissão ou de seu trabalho. como veremos mais adiante. Esta ideologia não é Kim efeito secundário do trabalho mas. mais uma vez. de insolência e de agressividade. como poderíamos mostrar. destinada a evitar as discussões impor-mnas que poderiam questionar seu orgulho de "cavaleiros do céu". a existência de um sistema defensivo específico. Cada uma destas características §. a ideologia da profissão". Para esta atitude psicológica poderiam dar-se várias explicações entre as quais encontraria lugar. indispensável para enfrentar as condições de trabalho. que mostram ter um contato mais fácil. Aparece assim um corte entre o pessoal da navegação e o resto da coletividade. ^ma verdadeira necessidade para manter um moral feito de orgulha. Em comparação com os pi fotos de transporte.

deixa-lhe apenas o lugar para que se sente desconfortavelmente sobre um assento metálico (cuja rigidez é justificada por argumentos de segurança em relação à ejeção). Parece que os pilotos de caça têm com seu trabalho uma relação muito mais tensa que os pilotos de transporte. sobre a cabeça. As condições de trabalho Num avião de caça. e talvez seja conveniente respeitar este afastamento sem o qual uma conversa deslocada poderia traduzir-se. Representemos um piloto de caça na sua cabine: sua situação não tem nada de invejável. o que ocasiona desordens no sistema cardiovascular. O espaço de que dispõe. o nariz e a boca são cobertos com uma máscara ligada por tubo às reservas de oxigênio do avião. o capacete é bastante justo para não se soltar em caso de ejeção. na pressão arterial. hipóxia.lhe imobilizam o peito e as coxas. nas mãos luvas e mais luvas são indispensáveis para lutar contra o frio. Amarrado por múltiplos cintos que. ele quase não pode mexer-se. Às vezes. podem ser consideradas difíceis de suportar e podem expor o piloto a riscos de aeroembolismo. que o equilíbrio psicológico realizado individualmente e em grupo (nas esquadrilhas) a respeito da vivência do trabalho è muito mais custoso e exige ser protegido de olhares indiscretos e sobretudo de qualquer conversa ou discussão que versassem sobre as questões de segurança e de acidente. o trabalho exige que se empregue uma grande força física (para acionar o cabo que fica temivelmente rígido em certas posições do aparelho).. O barulho é às vezes muito intenso (em certos aviões. hiperbarismo. por acidentes durante os vôos seguintes. leva até mesmo à surdez profissional: aeronaval). sem media-tização. reduzido ao mínimo. As variações de temperatura assim como as mudanças de pressão. encontra-se reunida uma quantidade impressionante de exigências relativas ao ambiente.. os pilotos de caça têm uma atitude verdadeiramente diferente. As acelerações positivas ou negativas podem atingir 7g. O grupo de pilotos de caça vive à margem para proteger seu modo de funcionamento. As vibrações de baixa freqüência. e até a desmaios. as trepidações do aparelho são muito penosas e o capacete não é útil para Proteger a cabeça das batidas contra o vidro.e abrem-se com boa vontade sobre a natureza de seu trabalho e de suas condições. As condições de ilumimÜ 81 . nos ligamentos suspensores das vísceras etc.

se soubermos que os acidentes graves não são excepcionais. das cefaléias.nação mudam com a meteorologia. enquanto ofuscação e penumbra alternam-se. dos suores. Apesar das dores de ouvido. os sinais luminosos coloridos ou alternativos. riscos de explosão e de queimadura. vapores. o controle aéreo terrestre e isto em duas línguas (francês e inglês) segundo cada interlocutor. das dores abdominais. Além disso. das perturbações da pressão arterial — portanto. as informações visuais ou sonoras. ou gases tóxicos. se ele hesitar em um procedimento em caso de incidente. em uma fração de segundo. das dificuldades respiratórias nas grandes acelerações. O meio químico. se estiver um pouco "tenso" em razão de algum acontecimento familiar. se o horizonte artificial desviar lentamente. pode ser poluído por inalações de gases queimados. se sua vigilância for neutralizada por um segundo por causa de uma aceleração mal tolerada. o que torna particularmente fastidiosa a leitura dos instrumentos de bordo. ele tem que vigiar o exterior e manter comunicação com os companheiros. significar a morte. se o piloto sucumbir a urn instante de distração. Há. A justa apreciação destas enormes exigências de trabalho só é possível para aqueles que fizeram a experiência do aviào de caça. a hora do vôo. apesar de todos esses prejuízos —. os controles de alarme. qualquer um destes elementos pode levá-lo à morte. Desta proximidade permanente com a morte. enfim. enfim. se aparecer um escapamento de óleo. físicas ou psíquicas emerge uma ansiedade que só tem equivalente na dimensão fora do comum dos riscos que comporta uma missão aérea. e durante um mesmo vôo em função da altitude. e sobretudo sofrem algumas variações de um aparelho a outro. A menor falha neste mecanismo complexo pode. podemos nos perguntar por que ainda há gente para enfrentar tais condições de trabalho.. apesar das perturbações neurovegetativas. Se o altímetro der uma indicação errada. visão negra.. Os argumentos de ordem material são de pouco peso se considerarmos que uma parte importante dos pilotos de caça è recrutada 82 . da interdição das falhas materiais. apesar das náuseas. das perturbações visuais (diminuição do campo visual. se ele se perturbar com uma ordem mal anunciada pelo chefe de patrulha. Se acrescentarmos a essa descrição o fato de que certos instrumentos de navegação. de tiro ou de pilotagem nem sempre são precisos. das hiperssiaiorréias. O funcionamento homem-máquina exige a perfeição. o piloto tem que conservar intactas toda sua vigilância e suas faculdades psicossensoriais para observar o painel. as telas do radar. diplopia).

Portanto. climatização. Podemos. A operacionalização da aviação de caça depende das performances dos pilotos e da boa adaptação homem-máquina.) de maneira que sua própria vida é objeto de todas as atenções. automatização dos cálculos. pres-surização. pela sua formação (avião. petróleo destinados à instrução etc. mas também se dedica inteiramente a favorecer o trabalho dos pilotos. um piloto custa caro. apontar três eixos principais em torno dos quais orientam-se os esforços de melhoria das relações homem-máquina. iluminação. constata-se que. apresentação racional dos instrumentos. pilotos e comando concordam geralmente em melhorar a relação saúde-trabalho. Eis porque a organização do trabalho preocupa-se não com o progresso técnico. meios de telecomunicação. na organização do trabalho.entre os subof iciais cujo salário é quase igual ao de um empregado de escritório. duplicação dos instrumentos para servir à segurança. Foi bem antes da recente campanha de melhoria das condições de trabalho que foram feitos progressos consideráveis na insonorização. concepção do posto de trabalho. que conduziram aos aviões de transporte que conhecemos e que não são "mais seguros ao que os ônibus". 83 . será preciso procurar em outra parte as explicações. Além do mais. base-escola. Cada avião representa uma verdadeira fortuna e para assegurar o retorno à base é preciso que o piloto esteja "em boa saúde". Adaptação do trabalho ao homem As técnicas utilizadas para adaptar o trabalho ao homem não conhecem maiores realizações do que na aeronáutica. Posição original da relação saúde-organizaçâo do trabalho Diferentemente do que se observa na produção industrial ou na construção civil. na aviação de caça. divisão do trabalho entre os operadores etc.

organização do trabalho. Toda melhoria das performances do avião ou de suas potencialidades permite ao piloto correr ainda riscos. utilizar a reserva de combustível. considerar profissionalismo e seriedade como as melhores qualidades. Aqui. Certamente seria mais prudente construir aparelhos bimotores. O fim prima sobre os meios. nós não somos motoristas de ônibus". a desprezar a segurança. tudo é centrado na agressividade. A primeira característica da relação do homem com seu trabalho e da ansiedade ao risco. não fazer nenhuma proeza. pois este incidente muito freqüente acontece muitas vezes na carreira de um piloto de caça. Também numerosos são os que tiveram que se jogar em seguida de um desligamento do cotnpressor. Aqui também a situação é diferente da que se observa na indústria. pronto a correr todos os riscos. Por outro lado. segurança demais leva à transformação da aeronáutica em uma vasta escola e não em um instrumento operacional. uma palavra vazia. por exemplo.. e a aprendizagem não é. na aviação de caça. isto é. Só conta o resultado. aventureiras são proscritas e sancionadas. um esforço considerável é feito pela hierarquia para que os pilotos adquiram um verdadeiro domínio sobre o risco. temerárias. neste caso.. no sucesso a qualquer preço. Logo. ou na petroquímica. na coragem. o que não é o casb numa indústria. O que é preciso é ser operacional. mas isso custaria mais caro. mas também a nível dos aparelhos. ser rigoroso no incidente. respeitar as regras de tiro não tem importância.correr riscos inúteis. 86 . etc. na proeza. Eles efetivamente sabem fazê-lo. Na caça. é seu destino radicalmente diferente daquele que observamos na construção civil. Portanto. no heroísmo. limitação da segurança a nível dos homens. Fazer uma acrobacia a mais ou a menos. hierarquia e pilotos estão de acordo em melhorar a segurança. é preciso que os pilotos aprendam a repor em funcionamento seu único motor em caso de pane durante o vôo. e é preciso prever a perda de aparelhos em caso de guerra. "Aqui. na ação. Apesar da manutenção minuciosa de um risco residual. voar em altitude mais baixa que a prevista. As atitudes levianas. O fim integra os meios.

— Primeiramente. A admiração de que eles são objeto e o orgulho inigualável em relação às outras profissões são precisamente fundados na confrontação com este perigo exemplar da profissão. os riscos permanecem grandes. Elite no seio do exército. eles representam o ideal de potência total que encontramos em todas as crianças e que está adormecido em muitos adultos. e da caça. Poucas profissões realizam uma tal unidade teórico-prática e poucas situações pedem tantas capacidades de um só sujeito. simultaneamente. eles encaram a síntese da coragem individual e da competência técnica. Elite da aeronáutica. O interesse do trabalho: a tarefa do piloto de caça é efetivamente de uma complexidade incomum e necessita. cultivado. Ele é procedente de várias origens: A ideologia dos caçadores: o piloto de caça toma para si os objetivos do exército. as condições de trabalho continuam sendo de uma dureza excepcional. incidentes e acidentes não são excepcionais. psicológicas e físicas. Enfim. como já sublinhamos. e os pilotos de caça têm um profundo desprezo por todo o resto da humanidade. A valorização do corpo e do espírito pela situação de trabalho é exemplar da síntese trabalho intelectual-trabalho manual. É entre eles que se recruta o estado-maior da aeronáutica. a nível da seleção. façanha e domínio da angústia são indissoluvelmente ligados e tiram seu valor um do outro. orgulho. primeiramente. e a marinha mais que o exército. elite em relação à nação e admirada por todo mundo: heróis. em seguida. a motivação é objeto de uma atenção exemplar da parte da hierarquia. pois eles são os "cavaleiros do céu".A questão da satisfação no trabalho-*Apesar da adaptação do trabalho ao homem e da adaptação do homem ao trabalho. dá-se importância especial aos jogos de infância: 87 . Admiração. O jogo da satisfação no trabalho permite eliminar este desvio. Os pilotos de caça pensam formar uma elite. pois a aeronáutica é mais respeitada que a marinha. a perfeita associação de todas às qualidades intelectuais. da aviação. r O lugar excepcional da motivação Na profissão de piloto de caça. onde entre os critérios de escolha de candidato. O eli-tismo é admitido. miseravelmente reduzida ao seu estado terrestre.

A diversidade do trabalho. a multiplicidade dos prejuízos. — Enfim. a complexidade da tarefa. durante toda a formação. se ele não tiver mais vontade de voar. o lugar ocupado pela motivação.. radicalmente os dados relativos à psicopatologia do trabalho en|| relação ao que se observa na classe operária. a desqualificação não tardará. sividade" do aluno piloto. leitura de aventuras. não ocupam uma posição de mesmo nível na dinâmica psicopatológica. — Em seguida. gosto pela mecânica. A importância acordada neste trabalho à motivação modifica. queda de motivação são minuciosamente observados. basta que ele não queira trabalhar para ser automaticamente dispensado. Pois.! Hesitação. é preciso estar motivado a todo instante sem o que o afron-tamento com o perigo corre o risco de terminar em catástrofe. o aperfeiçoamento permanente. e a quantidade de aptidões e de qualidades psicomo88 .. durante toda a vida do piloto de caça. particularmente. j A estrutura mental dos pilotos de caça A propósito deste exemplo é fácil observar-se a dificuldade em distinguir na insatisfação no trabalho o que é proveniente do conteúdo significativo e o que é proveniente do conteúdo ergonômico do trabalho. tudo isto sob o titulo de "dinamismo". à procura de missões perigosas. o exercício simultâneo de todas as potencialidades físicas. nesta profissão. psicossensoriais e intelectuais coloca a aviação de caça numa oposição em relação ao que descrevemos na indústria e. isto» é. a hierarquia concede um valor ao desejo de voar.gosto pelo aeromodelismo. A aviação de caça mostra que um medo de uma intensidade considerável pode ser perfeitamente tolerada contanto que ela seja contrabalanceada pelo jogo do sistema motivação-satisfação. histórias de piloto. Em outras palavras. experiência em aeroclubes etc. Se seu desejo abater-se durante alguns dias ou algumas semanas. os efeitos do medo ocasionados pela organização do trabalho são sujeitos ao multiplicador ou ao divisor que depende da satisfação do trabalho. a qualificação requerida. à "agres. desânimo. a livre escolha da tarefa. Este exemplo ao contrário mostra que os dois sofrimentos principais provenientes da relação homemorganização do trabalho. nas tarefas repetitivas. prevenidos e levados em consideração. de um lado o medo e do owtro a insatisfação. Dada a diversidade das exigências da tarefa.

é fácil constatar que não se pode impor estas. é uma verdadeira reconciliação entre o eu adulto e as aspirações arcaicas de ideal (ideal do ego). A homossexualidade latente. o ideal do eu fica sendo o principal motor da atividade profissional: se ele for capaz de desprezar o perigo que enfrenta quotidianamente é porque o piloto de caça é levado por aspirações essencialmente viradas para a auto-superação. tarefas a qualquer trabalhador. Voar quer dizer libertar-se das leis da física. o que se opõe à divisão do trabalho presente nas equipes de vários homens dos aviões de transporte. Tomado por seu narci-sismo. as motivações do piloto de caça? O desejo de voar condensa as aspirações de superpotência. é uma das características do piloto de caça. Quais são. é fácil constatai que este trabalho só pode convir a um número limitado de indivíduos. encontramos às vezes alunos que não conseguem conciliar seu ideal com a realidade. das limitações de distância e de velocidade. ele indubitavelmente procura ser par em seus colegas. Eis porque devemos insistir um pouco mais detalhadamente no jogo significativo e no prazer da missão do piloto de caça.toras e psicossensoriais requeridas. e o prazer que delas provém. O ideal do ego representa ainda um outro papel na vida do piloto de caça: o fato de pertencer ao grupo de pilotos. 89 . Em seguida. portanto. A aplicação das aptidões físicas e psicossensoriais. O piloto de caça aspira libertar-se das amarras. Entre os dois componentes da satisfação no trabalho (em relação ao conteúdo ergonômico e ao conteúdo significativo). de ultrapassagem e de libertação em relação aos limites do homem: livrar-se do peso. O desejo de receber uma confirmação narcísica de seus semelhantes leva o sujeito a exibir-se na frente deles. Após vários fracassos em vôo. Este comportamento é evidente nas esquadras. Nós dissemos que o medo relativo ao risco que supõe uma tarefa pode ser modulado de alguma maneira pela relação com a satisfação. ao esquadrão. não tanto psíquicas quanto materiais. Em alguns instantes privilegiados. Voar sozinho é uma situação muito estimada pelo pilotos de caça. o aluno-piloto. e só é capaz de identificação e de amor por objetos que possam ocupar um lugar estimado por seu ideal do ego. de vitória e de exaltação. à esquadra. a exemplo do que se passa nos outros ramos de atividade. fonte de um sentimento de bem-estar. Voar sozinho é o supremo prazer em que o piloto deixa-se levar pelo gozo narcísico. Dados os riscos materiais e estratégias. é suspenso. só podem contribuir se existir de antemão um engajamento fundado sobre o prazer oriundo da relação com o conteúdo significativo da tarefa. existe igualmente uma relação hierárquica. assim. Durante a formação. fogoso geralmente.

em uma outra situação: freqüentemente casados com mulheres bonitas. A agressividade. pouco a pouco. Esta observação faz pensar que a moderação necessária das aspirações do ideal do ego é assegurada pelo reforço exterior (a ordem militar) das necessidades da realidade. a profissão de piloto de caça exige simultaneamente um bom controle da realidade e sérias raízes no campo do conhecimento e da disciplina científica e técnica. Este ponto é essencial: a formação no solo relativamente longa e repetitiva continua durante toda a carreira. nunca se vê um único traço de remorso. ela está estreitamente ligada à vida militar. Mas as relações conjugais nunca abalam o investimento libidinoso principal. homossexualidade mais contemplativa. estoura um conflito entre a vida profissional e o engajamento familiar que termina muitas vezes na angústia durante uma missão e. Outra característica. Seja um combate aéreo ou a morte infligida ao adversário. muito valorizada. a desvalorização narcísica. que se encontra no trabalho. mas chega também à pessoa física e ao vestuário. Pode-se perceber a potência do ideal do ego nos pilotos de caça.onde o exibicionismo não se atem às qualidades profissionais. representativas. isto é. hipertrofia do ideal do ego em detrimento do superego. a transgressão permanente que o trabalho supõe. comparativa e exibicionista do que realizada na prática. é uma exigência fundamental da profissão. atraentes. Parece que todas estas disciplinas são ensinadas no solo num ambiente muito hierarquizado e muito militarizado. caso contrário. interrupção do desenvolvimento mental no meio do caminho entre o estágio fálico e o estágio genital. nâo traz nenhuma culpa. eles estabelecem com elas relações onde elas devem testemunhar aos olhos de todos sua virilidade e sua potência. Ao lado da formação técnica. num questionamento da atividade de trabalho. o que domina não é tanto a culpa mas a perda de confiança em si. também de maneira demonstrativa. Assim. Nestes casos. da disciplina e das proibições. Entretanto. a formação militar ocupa um lugar importante. do superego. As características da personalidade dos pilotos de caça podem se enunciar assim: imaturidade. Quando um investimento mais importante aparece na vida familiar. ela só encontra uns poucos obstáculos e. O conflito mais característico opõe o ego ao ideal do ego e a angústia que 90 . narcísico. ao mesmo tempo em que nasce uma sintomatologia de tipo depressivo. a profissão de piloto de caça parece ligada a uma fixação a um estágio pré-edipiano e prégenital do desenvolvimento da personalidade. importância do nar-cisismo relativa às relações objetais. ela leva inevitavelmente à incapacidade psíquica de voar.

de dever reconhecer a existência do outro e de suas diferenças. a própria motivação do vôo. projetar-se numa situação de risco não representa para a personalidade do piloto a mesma performance que para um neurótico médio. e de não ser suficiente para si-mesmo. o acidente. situação que para todas as outras estruturas de personalidade pareceria temível. com efeito. Esta descrição da personalidade do piloto de caça é menos caricatural do que poderíamos pensar. e é neste combate. ele estima.disso resulta situa-se. mutação ou acidente. de ser obrigado à modéstia. ela é uma saída para o conflito narcísico que opõe o piloto à sua imagem. um sistema de motivação não insólito? 91 . a de ser limitado. A vida profissional é uma resposta grandiosa para esta desmesurada angústia. de sua orientação. o que significa. no espaço do narcisismo. Estas personalidades sâo do tipo das que foram descritas por Kohut (55). insustentável e monstruosa. A angústia fundamental cio piloto de caça seria. então. que todos os pilotos de caça operacionais apresentam características psicológicas verdadeiramente padronizadas. antes de tudo. de ser comparável ao comum dos mortais. No piloto de caça. simultaneamente. Estas constatações conduzem naturalmente a uma pergunta: como se consegue recrutar indivíduos que apresentem ao mesmo tempo aptidões em qualidade e em quantidade excepcionais e. o perigo. Assim. que ele ultrapassa sua angústia. Ao contrário. Somos levados. sua situação de piloto solitário. de algum modo. num avião monoplano. Isso se compreende se levarmos em conta o fato de que a menor queda da motivação. desafiar os elementos. de suas escolhas. no entusiasmo ou na agressividade podem imediatamente comprometer a qualidade da performance. portanto. a tal ponto que sua vida profissional aparece como uma resposta. mas. uma espécie de exutório para sua angústia fundamental. Quando ele desafia a natureza. acima de tudo. Enfrentar a adversidade. neste caso. de ser levado a investir seus desejos em outra pessoa que não ele mesmo. Repetidas pesquisas mostram. e sobretudo no sucesso.. esta "angústia dos limites" está no centro da vida mental.a concluir que a "angústia dos limites" não é apenas reativada pelo vôo. Qualquer variação em relação a este modelo leva cedo ou tarde a uma desquali-ficação. desafiar a natureza. na verdade é a ele mesmo que está desafiando.

a participação também à sua elaboração coletiva e ao seu reforço. assim como o número de missões e seu conteúdo. A adaptação É a modalidade mais sutil e mais finamente psicológica da seleção dos pilotos de caça. Neste nível. feita sem coerência. Em última instância. os critérios implícitos da "adaptação" modificar-se-ão. esquadra). antes de tudo. de certa maneira. ela resulta do jogo oculto das relações que acompanham a progressão do aluno desde os testes de entrada até a qualificação de piloto operacional. isto é. De maneira que o nó principal da seleção psíquica dos pilotos de caça è. não é menos eficaz. . a tudo o que foi definido acima como o sistema defensivo produzido coletivamente pelo grupo de pilotos (esquadrilha. intelectuais e técnicas não estão mais em jogo. Diferente da tripla seleção física. nervosa e intelectual (freqüentemente qualificada como objetiva) a "seleçãopsíquica" não é. através do desenvolvimento de uma relação de identificação. nervosas. os monitores vindos das esquadras mudarão. os excluídos e os fracassados da progressão e da adaptação não serão mais os mesmos. E durante a formação que se faz a orientação nas diferentes carreiras em função das características da personalidade de cada piloto. entretanto. Se amanhã os Mirage III forem modificados. Muito pelo contrário. a orientação para os diferentes ramos da aviação militar de um mesmo aluno mudará. A adaptação representa. as competências físicas. o funcionamento da corrente seletiva é superdeterminado pelas condições de trabalho. Apesar de não ser objetiva. mas lambem da sua representatividade psicçlógica em relação às qualidades psíquicas requeridas pelo trabalho que ele é encarregado de representar junto a seus alunos. mas também aos valores morais e à ideologia da esquadra. apesar de ser dependente das características próprias do mestre ou do monitor. a adesão do jovem piloto não apenas às condições de trabalho propriamente ditas. a adesão aos valores existentes. imediatamente o comando mudará. esta orientação-seleção. Deduz-se facilmente desta análise que a qualidade de um monitor não depende só de seu valor pedagógico. a relação monitor-aluno na parte prática da formação aeronáutica.vias já descritas de seu narcisismo e de sua capacidade identifícatória. O que conta é precisamente a qualidade das relações com os camaradas.

A boa qualidade da relação motivação-satisfação e. ao fim. conseqüentemene. não acontece em nenhuma outra situação de trabalho. nós devemos dar uma volta pela análise de um ponto crucial: a exploração do sofrimento e dos mecanismos de defesa destinados a contê-lo. E. Aparece. ao nível de angústia a tolerar e. Para ser perfeita. Fica aberta a questão para saber se. à escolha da natureza das relações interpessoais do grupo. assim como o corpo dos pilotos de caça. repercutem sobre toda a corrente que íeva ã escolha das qualidades psíquicas necessárias ao piloto de caça designado para o novo tipo de avião. antes de estudar as conseqüências do sofrimento assumido pelos trabalhadores. sua loucura não é racionalmente explorada pelo comando e pela organização do trabalho. à agressividade indispensável. não deixa de ser de uma eficácia notável. uma seleção psíquica dos pilotos de caça que. A estrutura mental muito particular dos pilotos de caça contém talvez um "grão de loucura" que não é inútil para ousar desafiar assim a morte a cada dia. particularmente. apesar de subterrânea.As condições objetivas de trabalho determinam o nível e o conteúdo da adaptação e. assim. que seja do nosso conhecimento. o prazer proveniente do conteúdo significativo e simbólico do trabalho são absolutamente necessários à manutenção da performance "ergonômica" e à atenuação do medo. 95 . pela organização do trabalho. a excepcional adaptação do prazer tirado do trabalho ao desejo do piloto de caça permite-lhe enfrentar a cada dia as condições de trabalho particularmente nocivas e a tolerar um medo que. a adequação homem-trabalho exige não apenas um conteúdo excepcionalmente interessante da tarefa mas também uma seleção rigorosa entre os candidatos à profissão.

não deixará de levantar dúvidas e suspeitas no leitor. nos capítulos precedentes. ligados à produtividade. Na aviação de caça. já havíamos assinalado o valor funcional da ideologia ocupacional defensiva. O sofrimento mental aparece como intermediário necessário à submissão do corpo. A atitude espontânea consiste em tomar como referência o sofrimento físico. Na construção civil. uma vez mais. a exploração de uma loucura bem específica 96 . deste modo. alguns aspectos "funcionais" do sofrimento. Toda doença física só pode ser prejudicial à produtividade e à rentabilidade da empresa. como no tocante à seleção de pessoal. A erosão da vida mental individual dos trabalhadores é útil para a implantação de um comportamento condicionado favorável à produção. que funda a oposição entre a medicina e a psicanálise. Mas eis que o sofrimento mental.A exploração do sofrimento Chegamos agora ao capítulo mais insólito. os comportamentos condicionados não são unicamente conseqüências da organização do trabalho. tanto no que diz respeito à continuidade do trabalho com alto risco. Nas tarefas repetitivas. que depois de ter suscitado nossa própria incredulidade. não se deixa encerrar por esquemas explicativos forjados fora de sua coerência. Já mencionamos. Mais do que isso. para submeter os trabalhadores aos critérios de produtividade. estruturam toda a vida externa ao trabalho. Esta é a diferença essencial. contribuindo.

numa linguagem codificada. Quando eu saio do trabalho. depois de tê-la obtido." * Postes." — "Em seguida. é preciso guardar a informação e procurá-la nas microfichas.I permite encontrar homens capazes de se lançarem num desafio mortal com os elementos naturais." — "As frase que a gente tem que dizer são: '496. Para ilustrar nossa afirmação. é preciso enquadrar a informação. do T. — "O trabalho nos deixa idiotas. faremos referência a dois exemplos tirados da indústria. no caso de agradecimento do assinante. na França é a empresa estatal que agrupa os correios. é a única situação em que temos o direito de dar uma resposta livremente escolhida. Com as telefonistas." — "O trabalho é completamente falso. ou seja. não publicada). Télégrames et Télecommunication . telégrafos e telefonia (N. veremos como o sofrimento proveniente da insatisfação pode ser utilizado para aumentai a produtividade. deseja?" Não podemos dizer. Mas as coisas não param por aí." — "Enfim." — "Por último. devemos repetir a informação pedida sob forma de pergunta.." — "De tanto ficarmos sentadas. Sobretudo no início." — "Depois. Depois.). por exemplo. quer?" — "Em seguida. A exploração da frustração Apresentamos a seguir notas tiradas de uma pesquisa com telefonistas (de Dominique Dessors. a indústria petroquímica facilitará nossa demonstração de como o medo pode ser uma engrenagem determinante da organização do trabalho. é o PTT* que fala. terminamos tendo uma bunda horrível. informações'. falo com as pessoas com as frases do PTT. Quando falamos. "o que o Sr.. esse esforço de memória não énada fácil. 97 . na linguagem codificada do PTT. reformulá-la. ficamos com o traseiro achatado. devemos dar a informação sob forma de 'resposta'. 1." — "O que o Sr. não podemos dizer 'bom dia'.

geralmente. haverá sempre qualquer coisa para comentar. onde o trabalho é menos sobrecarregado e onde se reencontram com suas cidades de origem." — "Não sabemos quantas chamadas vamos receber. Seja que a linguagem correta não foi usada. 120 para funções específicas). Todas elas estão em fila de espera para serem transferidas para o interior. que dá notas que ficam registradas num relatório. è proibido fazer mais de três pesquisas para dar a resposta a uma pergunta). seja que a resposta foi muito demorada. É o assinante que deve desligar primeiro. Seja falso ou verdadeiro. seja que foi muito curta. em geral. detestado mesmo. Daí a importância das notas." a) Controle e hierarquia As telefonistas podem ser escutadas sem o saber a qualquer momento. Assim. "Se a chefe do controle estiver de 'mau-humor'. pois é preciso desencorajar as pessoas a recorrerem às informações telefônicas. Acabamos com torcicolo. Pois é um trabalho mal conceituado.— "Não temos o direito de desligar. 98 ." — "Durante nosso treinamento ou aprendizagem nos ensinam que não devemos ser muito amáveis. para não dizer que o PTT não a possui. e encontraram aí seu primeiro trabalho." Há um verdadeiro terror por causa dessa escuta da controladora. Há um controle exercido sobre dez a quinze pessoas." "O serviço de informações existe porque o catálogo telefônico é incompreensível. do interior (quase 90% delas). O que é mais difícil são as informações mal explicadas ou não mais válidas. Não temos o direito de fazer mais de três fichas (quer dizer. Isso obriga a uma pesquisa mais longa. ainda é preciso esperar que o assinante tenha acabado de reclamar e desligado. das quais depende a possibilidade de conseguir uma vaga no interior. Depois. e uma vem em seguida a anterior. As telefonistas são. Consta de: ' — contadores para o número de chamadas (45 a 50. de tanto controlar a chefe do controle. não temos nenhum poder sobre o interlocutor. — contadores do tempo de cada chamada. devemos responder que 'Esta informação não consta neste item'. indestrutível.

semelhante ao do telefone: dizemos então o número do posto de trabalho. pois se a gente se vira é detida pela extensão do fio." "Na saída do trabalho. Uma única resposta desagradável pode acabar com um dia de trabalho." "Trocamos de posto a cada período de trabalho. no trabalho. resmungar de modo incompreensível o número do posto em que estamos. sobretudo quando se trata de uma mulher. são 1. um assinante pede um numero de telefone do interior. Devemos. no momento do 'clic' . elas são Jevadas a dizerem coisas estúpidas. e com a outra orelha ouvimos os ruídos da sala de trabalho e as outras colegas falando. para que as reclamações dos assinantes possam identificar a responsável." "Por outro lado. A pessoa se irrita e pergunta se estão "gozando da cara dele". Por exemplo. isso provoca um efeito de ruído. Muitas funcionárias são das Antilhas e têm um sotaque bastante forte. repetir: 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando'. pois as mulheres nãt> têm o direito de trabalhar. Na realidade. e a telefonista pergunta-lhe se ele tem o número de seu correspondente. de maneira a se manter o mesmo ritmo de trabalho do dia. no metrô. no interior daquele estado. que consiste. no começo de cada comunicação. 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando' — e este é o único caso em que se pode desligar primeiro. manhã ou tarde. 'deixa qualquer um completamente idiota'. de interferência com a voz do interlocutor. na cidade de Paris. se reduz o número de pessoal. as portas automáticas começam a fechar depois de um ruído. Ha homens trabalhando durante a noite. Mas repetir tudo isso três vezes. recebem insultos racistas.No centro telefônico em questão há 400 telefonistas. "Estas brigas só nos causam tensão. Ficamos amarradas. quando se sabe muito bem que não há ninguém. Às vezes. de modo que. sabemos de cor uma informação." "Quando alguém na rua nos diz bom-dia. não confiamos em nossa memória. Temos uma verdadeira sensação de estar acorrentadas. Então. 99 . antes. é preciso anunciar o número do posto receptor. só temos um único ponto de escuta no fone." "Só podemos desligar se não há nenhum assinante do outro lado do fio. achamos um jeito. mas não ousamos acreditar nisso. freqüentemente. Ora.000 ao todo." "As vezes. a pesquisa de informações pode referir-se ao número do estado ou ao número do assinante. respondemos: 'o que o senhor deseja?'." "Ficamos ligadas ao posto de trabalho por um equipamento munido de um fio bem curto. A noite.

as questões relativas à hierarquia. Há jeito para se perguntar. BUS 84. que desligue. ao tipo de comando e à organização do trabalho. o que mais queremos é que o assinante desapareça. continuamos a falar com essa voz nasal como naquelesketch de Yves Montand ("O telegrama"). mais depressa trabalhamos e mais chamadas respondemos. a forma e o conteúdo do trabalho. o quê nunca fazia antes. De maneira que começamos a responder mais depressa. Assim. por exemplo. ou durante as pausas. assim. não é levado em conta na ordem alfabética. constatamos que quando estamos nervosas." "Ao sair do trabalho. repensamos nos números que são freqüentemente citados com letras. E ao descer uma escada. Depois. pois somos então melhor compreendidas e não precisamos estar repetindo. só atravesso as ruas nos pontos marcados. Enfim. Tudo é cinzento. E menos cansativo falar assim do que falar normalmente. por exemplo. sem gosto. a finalidade da informação telefônica. com medo de cair." As exigências de tempo e ritmo terminam por permear toda a vida. nome de uma loja. Não tenho mais confiança. sistematicamente. ê preciso armar uma estratégia especial em relação às chefias. destacando cada sílaba. eu seguro o cor-rimão. se 'a caixa está aberta'. mal ele desligou e já há um outro chamado. nos acostumamos com uma certa forma de pronunciar as palavras. para encontrar essa informação no 100 . quanto mais nos enervamos. — finalmente. Depois. na saída do trabalho. — segundo. que fiquemos livres dele. O ambiente me parece sem cor." "Para se ter pausas maiores ou suplementares. Por exemplo: "durante as pausas no trabalho a gente olha o relógio três vezes mais do que durante o trabalho. O exemplo seguinte demonstra-o: o plural de "Aux Fleurs" (Às Flores). Mas aí." b) Discussão Três elementos principais ressaltam dessas entrevistas: — primeiro. "Do ponto de vista do ritmo de trabalho.e verificamos tudo. A finalidade da informação telefônica As informações telefônicas existem porque o catálogo é incompleto ou incompreensível.

de algum modo.F. ridículo e estereotipado como a forma. na conversa dirigida ao silêncio: "Há alguém na linha? Há alguém? Desligando." repetida três vezes. do interlocutor. Não somente é probido se expressar e passar. dando-lhe a forma e o conteúdo P. por ocasião de uma conversa em que se comunicou com simpatia. Do discurso do outro deve-se extrair apenas a informação solicitada.". Isso chega às raias do absurdo. de bom-humor ou de cansaço. Em outras palavras. Não se deve prestar atenção aos detalhes do que ele fala. Mas também é necessário que não se ouça." é. É preciso mencionar o nome "P. é preciso ir procurando. Há uma contradição fundamental entre um serviço destinado à comunicação e a proibição de qualquer relação psico-afetiva.T.F. ao controle e à organização do trabalho O eixo central dessa violência do poder baseia-se no estado permanente de poder ser controlado. Deve-se substituir seu enunciado por uma tradução. em resposta a um insulto. Não se deve perceber seu tom desagradável. e não em A.T.T. transformando-o. Não se deve escutar a maneira como se apresenta o discurso do outro.T. nas respostas ao interlocutor. Falar "P. ao comando.T. de prazer. nem no tempo utilizado para pronunciá-las! É obrigatório que. Não se admite nenhuma variação no vocabulário. forma e conteúdo são quase sinônimos: o conteúdo fica tão limitado. Não se pode imaginar uma disciplina mais eficaz ou perfeita que a existente. uma proibição de ser ela mesma.catálogo. de agressividade. sua linguagem.U. É nesse duplo sentido que tanto a forma como o conteúdo do trabalho impedem qualquer relacionamento. nas palavras do outro. tudo aquilo que é próprio. sem mesmo saber em que mo101 . na* letras A. pelo fato de se poder ser controlado a qualquer momento. suas iniciativas. sua personalidade. a cada instante. Não se deve ouvir suas hesitações.T. depurando-o. individualizante. Podemos compreender como deve ser horrível passar 8 horas por dia sendo uma espécie de prolongamento do catálogo A forma e o conteúdo do trabalho Aqui. a mínima parcela de desejo próprio. a telefonista reprima suas intenções. sucessivamente. — O terceiro aspecto diz respeito à hierarquia.U X. no número de frases.

A telefonista transforma-se na artesã do seu pióprio condicionamento. obedecer e proteger-se da ansiedade originada pelo risco de ser pego em erro. é a construção artificial de um autocontrole. nesse caso. provocando. Diante da necessidade de respeitar a realidade (salário e disciplina da fome). A exploração do sofrimento O trabalho de telefonistas propicia a ocasião de tratarmos da relação existente entre a "tensão nervosa" e a produtividade. a sintomatologia da neurose marcada pela organização do trabalho. um papel muito importante. que não teremos como objetivo detalhar aqui. 102 . mais se sente agressiva e mais deve intensificar a auto-repressão. Pois ter medo de ser vigiado é vigiar-se a si mesmo. em conjunto. qual pode ser o destino dessa agressividade? Uma análise. a propósito do sofrimento resultante do conteúdo vazio de sentido da tarefa. aparece a ansiedade: agir conforme as ordens recebidas. A auto-agressào tem formas múltiplas. onde a frustração alimenta a disciplina — base do comportamento condicionado. por intermédio de um retorno contra si mesma (41). Este exemplo traz uma ilustração do que acabamos de descrever. De certo modo. discutido no Capítulo II. uma agressividade reativa. permitiria mostrar que a única saída é de voltar a agressividade contra si mesmo (40). O medo e a ansiedade sâo os meios pelos quais se consegue fazer respeitar os preceitos hierárquicos. de certa maneira.mento esse controle é exercido. a telefonista tem interesse de orientar essa energia para uma adaptação à tarefa. Devido a um processo que transforma a agressividade em culpa. Mas a amplitude da organização do trabalho tem. a propósito do trabalho repetitivo como protótipo de um sistema disciplinar. No primeiro plano. Quanto mais a telefonista se enerva. e a propósito dos comportamentos condicionados. E esta agressividade que vai ser explorada pela organização do trabalho. Há um compromisso entre um "bem-estar" (em relação ao esforço requerido pela auto-repressão consciente) e um "bem-estar menor" (em relação à vida psíquica espontânea). A frustração e as provocações acumulam seus efeitos. O condicionamento constitui. pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. Na impossibilidade de se encontrar uma saída direta. é implantado um círculo vicioso. As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor.

sem exagero. Mais do que uma verdadeira organização do trabalho. precisamente por causa do controle exercido. O sistema de avaliação por notas e o modo de calcular a produção só fazem agravar esse estado de coisas (Bégoin. mas não encontrava explicação na teoria pavloviana. é trabalhar mais depressa.. nas condições atuais. aliás bem restrita. e quanto mais nervosa ficam. por exemplo. longe de ser um epifenômeno. são "as mais nervosas" que têm os melhores rendimentos. que o sofrimento psíquico. que o "nervosismo" das telefonistas (um dos elementos essenciais no quadro de sua neurose) é uma doença necessária. Para aumentar a produção. especificamente. mais rápido trabalham. através de. que conduz a fazer aumentar a produtividade. No posto de trabalho. também. "Algumas das telefonistas chegam a rendimentos excepcionais. basta puxar a rédea do sofrimento psíquico. Proibição de responder agressivamente." Via de regra. a reação agressiva não tem mais chances de se exteriorizar do que contra a controladora. não por excesso de zelo. mas respeitando-se. De um lado. que a controladora pode obter melhor rendimento. pode implantar-se um circuito semelhante. os limites e as capacidades de cada um. senão arrisca-se fazer descompensar uma ou outra. nesse trabalho de informações telefônicas. P 146). Eis aí um fato extraordinário. de outro. Mostra-se então. crises de nervos. é o próprio instrumento para obtenção do trabalho. o trabalho não causa O SOFRIMENTO. Podemos dizer. proibição de desligar. 103 . temos a angústia como correia de transmissão da repressão e. Essa constatação já havia sido feita por Bégoin.. mas porque o trabalho — dizem — as enerva. De modo que não é tanto exortando-as a trabalhar rápido mas provocando irritação e a tensão nervosa nas telefonistas. É O SOFRIMENTO QUE PRODUZ O TRABALHO. a irritação e a tensão nervosa como meios de provocar um aumento de produção. e consideramos "mais nervosas" aquelas que são mais facilmente irritáveis. menos pacientes etc. a única solução autorizada ê reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa. para a realização de suas tarefas profissionais. De maneira que a única saída para a agressividade. o controle das telefonistas aparece como uma tecnologia de poder mediada pelo sofrimento psíquico.Essa é a primeira saída possível. proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente. exasperando as telefonistas. oferecida à agressividade reativa e à frustração. Contra o assinante desagradável.

ÍJma anamnese detalhada. pouco tempo depois todas foram obrigadas a parar de trabalhar devido a problemas graves. Colocadas num trabalho que era particularmente intensivo. são utilizadas especificamente para aumentar o ritmo de trabalho. entre tantos outros mecanógrafos. A ignorância dos trabalhadores: na maioria dos casos. Têm apenas "dicas" de um saber descontínuo: o nome do produto de entrada e de saída. simultaneamente e por uma espécie de coincidência. No caso das telefonistas. como fonte de aumento da produção. A sintomatologia é dominada por tremores nas extremidades. Podemos relacionar essa utilização do hipertireoidismo1 em mecanógrafas à da loucura narcísica nos pilotos de caça. A exploração da ansiedade Nas indústrias químicas. com vistas a um trabalho difícil. o sofrimento resulta da organização do trabalho "robotizante"." (p. E esse nervosismo que foi aqui selecionado. que requeria uma habilidade profissional superior. avaliados como manifestações de hipertireoidismo.. espontaneamente. por um nervosismo extremo. A direção não pode fornecer um organograma das tarefas. antes de começar o trabalho. 196). dos diferentes equipamentos etc. assim como a tensão e o nervosismo. um certo número dentre as "melhores mecanógrafas" da firma. e é tão ilustrativo que dispensa qualquer comentário: "Um médico do trabalho trouxe-nos um exemplo impressionante (. tinha selecionado sujeitos que apresentavam. sobretudo. em razão da própria natureza do trabalho. os trabalhadores ignoram o funcionamento exato do processo industrial. reina a ignorância sobre os processos e seus incidentes. mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento. que se estrutura em função dos incidentes que se deve enfrentar. A frustração e a agressividade resultantes. Concluiu-se que a seleção profissional. haviam selecionado. que expulsa o desejo próprio do sujeito. 104 . aceleração do ritmo cardíaco c. uma tendência hipertireoidiana. 1 2.. para um trabalho delicado.)• Numa empresa. em si mesmo. o nome da insta1 O hipertireoidismo corresponde a uma hiperatividade da glândula tireóide.Um exemplo extraordinário da utilização do nervosismo é dado pelo próprio Bégoin. mostrou que elas já apresentavam certos sintomas.

O conjunto de "macetes" assim acumulados e coletivamente partilhados pelos trabalhadores é o que faz a fábrica funcionar. em tal nível. a interferir nas etapas intermediárias do processo de produção: para que a temperatura não ultrapasse tal nível. o operário associa os comentários dos colegas. alguns dados quantitativos relativos aos limites de temperatura. Ao longo de sua experiência e tempo de trabalho. espontaneamente. não está indo bem e "faz bolhas". seus rendimentos globais. esse saber pragmático é incompleto e pouco tranqüilizador. mas simplesmente circula entre os trabalhadores. ao contrário do que postula a Organização Científica do Trabalho. Eles aprendem. há um saber próprio. ainda assim. mas não representam nem uma profissão com seu knowhow desenvolvido completamente. Os operários aprendem. Mas não existe conhecimento coerente. fornecidos pelo painel da sala de controle. que são a forma pragmática e operatória do saber do trabalhador. do mesmo modo. aos barulhos da máquina. nem sobre o próprio processo. a esse respeito. destinada aos trabalhadores.V.C. produto que entra na fabricação de certas matérias plásticas) que está indo bem. Existem apenas algumas instruções dadas pela direção: a temperatura de tal reservatório não deve ultrapassar 70°C. a pressão. os trabalhadores detêm conhecimentos consideráveis sobre a empresa. é claro. da matriz na capital etc. outro tipo de barulho significa que o P. não se trata aqui de detalhes secundários! O essencial do saber é veiculado e utilizado de operário a operário. não se formaliza. um certo barulho corresponde a um P. sua tonelagem. Não existe nenhuma formação. Na realidade. aos poucos. Não há saber contínuo. ao longo do tempo e por hábito. (cloreto de poli-vilina. mas. nem uma verdadeira formação ou uma 105 . Este saber não está escrito. quando existe um ambiente de trabalho onde há companheirismo. A transmissão desses conhecimentos é puramente oral. não deve ultrapassar 25 atmosferas: em tal ponto. nem sobre o funcionamento das instalações. sem intervenção da direção da fábrica. Não nos enganemos. o fluxo de produção não deve descer abaixo de tantas toneladas por hora etc. como entre os artesões.C. dos escritórios de projetos. sobre a qualidade final do produto. pois é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho. deve-se manter um volume inicial que "retire o calor". Entretanto. estas instruções são bastante insatisfatórias. sua data de instalação. pela instalação de um novo equipamento de exaustão ou de novas autoclaves. uma série de "dicas".V. Entretanto. Os macetes funcionam. de pressão etc. O saber circula a nível dos engenheiros.iaçào.

que não se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem. E nessas discussões que a direção se mostra. Os procedimentos oficiais avançam passo a passo. mais do que 106 . Constata-se que os técnicos de nível universitário. aparece uma ordem nova". Freqüentemente. refugiam-se em seus escritórios e nós não os vemos mais". às vezes. cada um faz como pode". O conjunto de "macetes" permite o funcionamento da fábrica. as instalações da fábrica. depois. O conhecimento teórico de que dispõem é insuficiente para tal prática industrial. e que podem se repetir. então nós lhes damos 'dicas' que nada querem dizer. às vezes. implicitamente. O pessoal de nível universitário admite." E "depois de alguns dias dessa brincadeira. tão insólita. a própria ignorância: "Quando um de nós dá uma ordem. Foi assim que diminuímos o ritmo. não saberiam fazer funcionar. que são pobres em relação ao que representam os macetes dos operários. E quando a direção autoriza-os a terminarem com as visitas. a direção da fábrica manda-os visitar as instalações. escutam-nos educadamente e. Isso. "ninguém a tinha previsto". chama-se de "interpretação das ordens". por ocasião da introdução de um novo catalisador. Desse modo. nós dicutimos as possíveis reduções de produção que não afetariam as instalações. mas há também os incidentes estranhos e imprevisíveis. "Durante as greves. O'único conhecimento prático se reduz às instruções oficiais. mas a soma das lacunas nesse saber pragmático produz um grande mistério sobre o andamento da produção. A ignorância das chefias técnicas: os trabalhadores sabem que os técnicos de nível universitário desconhecem o funcionamento da empresa e de suas instalações. sozinhos. em setores inteiros. Quando houve uma explosão.formalidade de domínio completo sobre o instrumento de trabalho. reina a maior ignorância: "Quando há um acidente. eles percebem que não chegam a lugar nenhum. "No início. implicitamente. dura vários dias. E o que. únicos. Nós percebemos então que eles não sabem até onde se pode ir. São detentores de um conhecimento teórico e formaram-se em grandes faculdades. A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos. quando viramos as costas. os acidentes sempre novos e. a direção pede aos operários para elaborar uma nova regra de trabalho. de um lado e do outro. mas chegam na fábrica sem nenhum conhecimento prático. Existem os problemas comuns. por seu lado.

haviam dito que seria possível, e nada explodiu. Uma outra vez. um colega antigo me disse que ja lhe acontecera de descer, uma vez, aíê 22%, e a esse nível tudo degringolou na produção, de vez." "Uma outra vez, eles nos disseram que era perigoso parar, porque reiniciar depois provocaria uma explosão. Eles sabiam disso porque houve uma explosão, na Inglaterra, com 15 mortos. Mas nós, a gente bem que começou a primeira vez, e eles não sabiam que havia um risco." "Todo mundo sabe que não se sabe." Quando acontece um acidente que não era previsível, na maioria das vezes, não é por falta de precaução, mas porque ninguém tinha antes nenhuma experiência a respeito. Essa ignorância, que permeia o funcionamento da empresa, tem um papel fundamental na constituição do Risco e no Medo dos Trabalhadores. Ignorância, medo e angústia O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/ trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em conseqüência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda conhecem os "macetes". O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que "a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes". Afirmação paradoxal! Pois poderíamos esperar que o trabalhador polivalente, tendo maior acesso aos "macetes", conseguiria um domínio maior do próprio instrumento de trabalho. Na verdade, acontece o contrário. Em sua própria função, o trabalhador — mesmo sabendo vagamente que ninguém sabe tudo — conforta-se com a divisão do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis desconhecidas. Quando se torna polivalente, descobre que as outras funções de trabalho são como a sua, e que a incerteza do colega vizinho é tão grande quanto a sua. O polivalente, na veidade, conhece um grande número de "macetes", mas acumula também zonas de ignorância, e assim está confrontado a uma extensão do risco. Cresce seu medo, e é freqüente, então, que assistamos a uma descompensação, conduzindo à licença médica, ao repouso forçado e a um tratamento medicamentoso "por depressão". 107

Segundo os próprios trabalhadores, são numerosos os companheiros que descompensam. De que maneira? Pode-se recuperar, nessa semiologia, os estigmas do trabalho? E bem provável que os trabalhadores vítimas desses episódios invoquem — mas nem sempre ; — o trabalho. Muitas vezes, na verdade, o que tentam é esconder o medo, que lhes parece vergonhoso, ou disfarçá-lo, tanto dos outros como de si mesmos. E mesmo quando acusam o trabalho, em contrapartida, nunca incriminam o risco, nem o medo. A descompensação^ | aparece então como um quadro misto, associado à angústia, à irritaI bilidade e à depressão. Para o médico, externo à empresa, não há aí nada de específico, pois a cristalização de todos os conflitos familiares, financeiros, sociais, acaba por conferir ao episódio um caráter mais pessoal do que específico do trabalho. Isso se explica, se admitirmos que, a partir de um certo nível, o f medo e a apreensão sofrem uma verdadeira dissolução na angústia; isso quer dizer que, transbordando, as defesas individuais deixam surgir conflitos intrapsíquicos, inevitavelmente reativado:, pela situação permanente de risco. Nenhum operário, como nenhum outro homem, está a salvo de uma explosão de angústia. Embora seja esquemática a separação entre medo e angústia, na prática, essa ligação é bem anterior, e, freqüentemente, não basta ao trabalhador sair da fábrica para ficar completamente confiante e calmo. Sobretudo se seus períodos de recuperação somatopsicológica forem cortados pela ruptura de seus ritmos de descanso (trabalho em turno alternado). A maioria dos operários precisa de remédios para dormir, mas também para se agüentar durante a jornada de trabalho. Os hipnóticos e ansiolíticos são largamente consumidos. Quando volta para casa, o trabalhador acorda de noite, angustiado, pois não sabe mais se fechou direito tal válvula. Será que pode explodir? Só ficará tranqüilo no dia seguinte, quando voltar ao posto de trabalho. E, pouco a pouco, toda a vida do operário é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho. Quanto maior for a ignorância sobre o trabalho, mais fácil será ultrapassar a fronteira entre o medo e a angústia. Na realidade, a ignorância consciente sobre o processo de trabalho aumenta o medo, porque torna o risco cada vez maior. Por outro lado, a ignorância facilita o aparecimento do medo. Sabemos que a atividade profissional, a qualificação, o know-how e o saber, em geral, representam um dos mecanismos de defesa fundamentais para a economia psíquica. O trabalho — uma das modalidades de resolução de certos conflitos e de regulação da vida psíquica e somática — é, para certas pessoas, um modo privilegiado de equilíbrio. Nas indústrias petroquí108

micas, o trabalho que traz em si riscos, gera o medo e destrói certas defesas contra a angústia, submete, assim, a vida psíquica dos trabalhadores a duras provas. As defesas coletivas contra o medo: "as condutas perigosas". Às vezes, a atividade dos trabalhadores em indústrias petroquímicas é interrompida por práticas insólitas; é verdade que o trabalho tem vários momentos de pausa, como já havíamos assinalado; esses tempos livres são utilizados para conversas entre os trabalhadores, mas são também oportunidade para jogos lúdicos, que vão dos jogos de cartas aos jogos perigosos, que põem em perigo a vida dos operários, passando pelas competições esportivas no próprio local de trabalho. Há verdadeiros jogos "olímpicos" no interior da usina; há rallyes, corridas e jogos de bola que duram a noite inteira. Há concursos, às vezes perigosos, que se prolongam por vários dias, como há também brincadeiras e gozações de dimensões inusitadas, que se prolongam por dias e às vezes semanas, constituindo-se verdadeiros cenários de ação, com regras absurdas e inventadas, de todos os tipos. Entre estas, as mais freqüentes dizem respeito aos "jogos relativos à segurança". Faz-se correr o boato de que é preciso vestir uma roupa especial de proteção contra certos riscos imaginários; durante muitos dias um bom número de trabalhadores crédulos seguem essa norma. Exagerando um pouco mais, induz-se os "patos" a se dirigirem à direção, para pedir novos equipamentos, de modo que a enganação seja descoberta. Freqüentemente, praticam-se jogos verdadeiramente perigosos. Atrás de uma pilastra, um trabalhador usa o extintor de incêndio dirigindo seu jato, bastante forte, contra os colegas que passam, com o risco de feri-los. De tempos em tempos acontecem acidentes. Foi assim que nos contaram que um operário negro, fugindo da brincadeira, teve a perna presa numa proteção de máquinas. Ainda caído por terra, um grupo de operários jogou-se sobre ele, começando a praticar uma série de massagens musculares na perna machucada, com o dorso das mãos. Durante algum tempo, e em meio aos risos e a uma folia geral, simularam gestos médico-ci-rúrgicos, até o momento em que se aperceberam que a perna estava fraturada. O operário negro foi levado embora, em ambulância, e nunca mais foi visto na fábrica. Foi indenizado e a direção pagou até suas dívidas, sem que nenhuma punição ou repreensão tivesse sido feita aos colegas responsáveis pelo incidente. A direção quis, manifestamente, enterrar este episódio. Os trabalhadores chamam tais I 109

das quais depende a «Sií ^"gem. indestrutível. reclamaredesligado. Não temos o direito de fa^V ° ga a uma Pesc»uisa mais proibido fazer mais de três nesáukL "^ de três fichas (quer dizer> e gunta).e 1 .S Vamos receber' e uma vem explicadas ou não mais validas I u'' Sã° aS informacões mal longa. O Que é m* .S.!1 d° controle-" controladora' 98 . Todas elas estão errfrTJrabalho mal conceituado-feridas para o interior." os nenhum poder sobre o inter— "Não sabemos quantas cha™ em seguida a anterior.mau-humOT havera sempre qualseja que a resposta foi muito dem^jf1*86"1 COTreta nã° foi USada' Acabamos com torcicolo de tanto Háum verdadeiro terVor por ca.." ° assir>ante tenha acabado de — "Durante nosso treinamento ™. jnão devemos ser muito amáveis noi aprendlzagem nos ensinam que a recorrerem às informações telefôn * pT^lso desencorajar as pessoas existe porque o catálogo telefônico é tacoSS^'^ Ínf°rmaçOeS a) Controle e hierarquia As telefonistas podem ser escutaHo mento.Dai a imPortância no interior P^sibihdade de conseguir uma vaga f ' ' Seja que foi muito curta. nào temn ^ ° assinante 1ue deve locutor. Seia ni.— "Não temos o direito de h* ■ desligar primeiro. Consta — contadores para o númrrn h ■_ 120 para funções específicas) chamadas (45 a 50. J*"1 ° saber a «lualcluer m°-de: obre dez a quinze pessoas. geralmente do int relatório. As traram aí seu primeiro trabalho PofJ'01" (QUaSe 90% delas)' e encon" detestado mesmo. . "Se a chefe do controle estiver de'mo u . em geral. Há um controle exercido sní.?! que da notas que ficam registradas „ ""^ ^ controladora' telefonistas são. ■_ quer coisa para comentar. onde o 'rah n! -pera para serem tranS" onde se reencontram com suas cidart ? C men0S sobrecarregado e das notas. Seja falso ou verdadeiro oV Para dar a resposta a uma Per" mação não consta neste itern' na'ra 5m°s resPonder que 'Esta infor-Depois. Assim.contadores do tempo dè cada chamada. ainda é preciso esperar 10*° dlzert'ueo PTT naoa P°ssui.

99 . Na realidade. no trabalho. Mas repetir tudo isso três vezes. manhã ou tarde. sobretudo quando se trata de uma mulher. repetir: 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando'." "Por outro lado. é preciso anunciar o número do posto receptor. de modo que. na cidaae de Paris." "Trocamos de posto a cada período de trabalho. freqüentemente. elas são Jevadas a dizerem coisas estúpidas. a pesquisa de informações pode referir-se ao número do estado ou ao número do assinante.No centro telefônico em questão há 400 telefonistas. Há homens trabalhando durante a noite. antes. são 1 000 ao todo. de maneira a se manter o mesmo ritmo de trabalho do dia. que consiste." "Ficamos ligadas ao posto de trabalho por um equipamento munido de um fio bem curto." "Quando alguém na rua nos diz bom-dia." "Só podemos desligar se não há nenhum assinante do outro lado do fio. mas não ousamos acreditar nisso. se reduz o número de pessoal. só temos um único ponto de escuta no fone. Então. resmungar de modo incompreensível o número do posto em que estamos. no metrô. pois as mulheres não têm o direito de trabalhar. 'deixa qualquer um completamente idiota'. sabemos de cor uma informação. Ora. Ficamos amarradas. Às vezes. Devemos." "Na saída do trabalho." "As vezes. pois se a gente se vira é detida pela extensão do fio. no começo de cada comunicação. no momento do 'clic' . Muitas funcionárias são das Antilhas e têm um sotaque bastante forte. e com a outra orelha ouvimos os ruídos da sala de trabalho e as outras colegas falando. 'Há alguém na linha? Há alguém? Desligando' — e este é o único caso em que se pode desligar primeiro. A pessoa se irrita e pergunta se estão "gozando da cara dele". para que as reclamações dos assinantes possam identificar a responsável. Uma única resposta desagradável pode acabar com um dia de trabalho. um assinante pede um número de telefone do interior. A noite. quando se sabe muito bem que não há ninguém. semelhante ao do telefone: dizemos então o número do posto de trabalho. as portas automáticas começam a fechar depois de um ruído. isso provoca um efeito de ruído. respondemos: 'o que o senhor deseja?'. Temos uma verdadeira sensação de estar acorrentadas. "Estas brigas só nos causam tensão. Por exemplo. recebem insultos racistas. achamos um jeito. não confiamos em nossa memória. de interferência com a voz do interlocutor. no interior daquele estado. e a telefonista pergunta-lhe se ele tem o número de seu correspondente.

na saída do trabalho. por exemplo. o que mais queremos é que o assinante desapareça. mais depressa trabalhamos e mais chamadas respondemos. com medo de cair. É menos cansativo falar assim do que falar normalmente. BUS 84. se 'a caixa está aberta'. não é levado em conta na ordem alfabética. Por exemplo: "durante as pausas no trabalho a gente olha o relógio três vezes mais do que durante o trabalho. só atravesso as ruas nos pontos marcados." b) Discussão Três elementos principais ressaltam dessas entrevistas: — primeiro. ao tipo de comando e à organização do trabalho. por exemplo. Assim. "Do ponto de vista do ritmo de trabalho. o que nunca fazia antes. a forma e o conteúdo do trabalho. De maneira que começamos a responder mais depressa. A finalidade da informação telefônica As informações telefônicas existem porque o catálogo é incompleto ou incompreensível. Depois. sem gosto.e verificamos tudo. continuamos a falar com essa voz nasaí. Não tenho mais confiança. — segundo. constatamos que quando estamos nervosas. nome de uma loja. a finalidade da informação telefônica. Enfim. é preciso armar uma estratégia especial em relação às chefias. que desligue. que fiquemos livres dele. repensamos nos números que são freqüentemente citados com letras. O ambiente me parece sem cor. mal ele desligou e já há um outro chamado. quanto mais nos enervamos. O exemplo seguinte demonstra-o: o plural de "Aux Fleurs" (Às Flores). Há jeito para se perguntar. Depois. E ao descer uma escada. ou durante as pausas. Tudo é cinzento. para encontrar essa informação no 10G . sistematicamente. destacando cada sílaba. nos acostumamos com uma certa forma de pronunciar as palavras. eu seguro o cor-rimão. — finalmente." "Para se ter pausas maiores ou suplementares. como naquelesketch de Yves Montand ("O telegrama")." As exigências de tempo e ritmo terminam por permear toda a vida. as questões relativas à hierarquia. Mas ai. assim." "Ao sair do trabalho. pois somos então melhor compreendidas e não precisamos estar repetindo.

Em outras palavras. Mas também é necessário que não se ouça. sem mesmo saber em que mo101 . do interlocutor. Não se deve ouvir suas hesitações.". — O terceiro aspecto diz respeito à hierarquia. Não se admite nenhuma variação no vocabulário. É preciso mencionar o nome "P. de bom-humor ou de cansaço.T. Não se pode imaginar uma disci-Püna mais eficaz ou perfeita que a existente.U. sua personalidade. e não em A. tudo aquilo que é próprio. suas iniciativas.U. sua linguagem. pelo fato de se poder jer controlado a qualquer momento. A forma e o conteúdo do trabalho Aqui. ridículo e estereotipado como a forma.F.T.F. a mínima parcela de desejo próprio. Não se deve perceber seu tom desagradável. na conversa dirigida ao silêncio: "Há alguém na linha? Há alguém? Desligando. Não se deve prestar atenção aos detalhes do que ele fala. Deve-se substituir seu enunciado por uma tradução. nas palavras do outro. ao comando. transformando-o. em resposta a um insulto. é preciso ir procurando. Podemos compreender como deve ser horrível passar 8 horas por dia sendo uma espécie de prolongamento do catálogo.X. de prazer. Não se deve escutar a maneira como se apresenta o discurso do outro. de algum modo. a telefonista reprima suas intenções. Do discurso do outro deve-se extrair apenas a informação solicitada. nem no tempo utilizado para pronunciá-las! É obrigatório que.T. depurando-o. nas respostas aõ interlocutor. individualizante. nas letras A." repetida três vezes. Falar "P.T. Isso chega às raias do absurdo. ao controle e à organização do trabalho O eixo central dessa violência do poder baseia-se no estado per-manente de poder ser controlado. a cada instante." é.T.T. forma e conteúdo são quase sinônimos: o conteúdo fica tão limitado. por ocasião de uma conversa em que se comunicou com simpatia.catálogo. É nesse duplo sentido que tanto a forma como o conteúdo do trabalho impedem qualquer relacionamento. sucessivamente. no número de frases. de agressividade. uma proibição de ser ela mesma. Há uma contradição fundamental entre um serviço destinado à comunicação e a proibição de qualquer relação psico-afetiva. dando-lhe a forma e o conteúdo P. Não somente é probido se expressar e passar.

obedecer e jproteger-se da ansiedade originada pelo risco de ser pego em erro. O medo e a ansiedade são os meios pelos quais se consegue fazer respeitar os preceitos hierárquicos. um papel muito importante. De certo modo. A exploração do sofrimento O trabalho de telefonistas propicia a ocasião de tratarmos da relação existente entre a "tensão nervosa" e a produtividade. Na impossibilidade de se encontrar uma saída direta. A frustração e as provocações acumulam seus efeitos. que não teremos como objetivo detalhar aqui. a propósito do sofrimento resultante do conteúdo vazio de sentido da tarefa. As reações agressivas são provocadas pelo interlocutor. a sintomatologia da neurose marcada pela organização do trabalho. uma agressividade reativa. discutido no Capítulo 11. a telefonista tem interesse de orientar essa energia para uma adaptação à tarefa. pelo controle e pelo conteúdo inadequado da tarefa. permitiria mostrar que a única saída é de voltar a agressividade contra si mesmo (40). a propósito do trabalho repetitivo como protótipo de um sistema disciplinar. mais se sente agressiva e mais deve intensificar a auto-repressão. Este exemplo traz uma ilustração do que acabamos de descrever. Há um compromisso entre um "bem-estar" (em relação ao esforço requerido pela autp-repressão consciente) e uns "bem-estar menor" (em relação à vida psíquica espontânea). Diante da necessidade de respeitar a realidade (salário e disciplina da fome). e a propósito dos comportamentos condicionados. provocando. Pois ter medo de ser vigiado é vigiar-se a si mesmo. E esta agressividade que vai ser explorada pela organização do trabalho. é implantado um círculo vicioso. aparece a ansiedade: agir conforme as ordens recebidas. A auto-agressão tem formas múltiplas. Devido a um processo que transforma a agressividade em culpa. Quanto mais a telefonista se enerva. Mas a amplitude da organização do trabalho tem. é a construção artificial de um autocontrole. por intermédio de um retorno contra si mesma (41). em conjunto. O condicionamento constitui. A telefonista transforma-se na artesã do seu próprio condicionamento. nesse caso. onde a frustração alimenta a disciplina — base do comportamento condicionado. 102 . de certa maneira. No primeiro plano.mento esse controle é exercido. qual pode ser o destino dessa agressividade? Uma análise.

. P. pode implantar-se urr circuito semelhante. especificamente. a irritação e a tensão nervosa como meios de provocar um aumento de produção. e consideramos "mais nervosas" aquelas que são mais facilmente irritáveis. para a realização de suas tarefas profissionais. De um lado. Mais do que uma verdadeira organização do trabalho. que o "nervosismo" das telefonistas (um dos elementos essenciais no quadro de sua neurose) e uma doença necessária. através de. a reação agressiva não tem mais chances de se exteriorizar do que conira a controladora. menos pacientes etc. sem exagero. basta puxar a rédea do sofrimento psíquico. temos a angústia como correia de transmissão da repressão e. Eis aí um fato extraordinário. de outro. Contra o assinante desagradável. não por excesso de zelo. O sistema de avaliação por notas e o modo de calcular a produção só fazem agravar esse estado de coisas (Bégoin. o controle das telefonistas aparece como uma tecnologia de poder mediada pelo sofrimento psíquico.. senão arrisca-se fazer descompensar uma ou outra. Essa constatação já havia sido feita por Bégoin. No posto de trabalho. É O SOFRIMENTO QUE PRODUZ O TRABALHO. mas respeitando-se.Essa é a primeira saída possível. oferecida à agressividade reativa eà frustração. a única solução autorizada é reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa. Mostra-se então. 103 . também. "Algumas das telefonistas chegam a rendimentos excepcionais. é o próprio instrumento para obtenção do trabalho. longe de ser um epifenômeno. os limites e as capacidades de cada um. são "as mais nervosas" que têm os melhores rendimentos. De maneira que a única saída para a agressividade." Via de regra. que o sofrimento psíquico. proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente. Proibição de responder agressivamente.146). proibição de desligar. e quanto mais nervosa ficam. Podemos dizer. precisamente por causa do controle exercido. que a controladora pode obter melhor rendimento. O trabalho não causa O SOFRIMENTO. mais rápido trabalham. exasperando as telefonistas. por exemplo. Para aumentar a produção. nesse trabalho de informações telefônicas. é trabalhar mais depressa. crises de nervos. mas porque o trabalho — dizem — as enerva. De modo que não é tanto exortando-as a trabalhar rápido mas provocando irritação e a tensão nervosa nas telefonistas. nas condições atuais. mas não encontrava explicação na teoria pavloviana. que conduz afazer aumentar a produtividade. aliás bem restrita.

simultaneamente e por uma espécie de coincidência. em si mesmo. A direção não pode fornecer um organograma das tarefas. A ignorância dos trabalhadores: na maioria dos casos. haviam selecionado. espontaneamente. com vistas a um trabalho difícil. em razão da própria natureza do trabalho. para um trabalho delicado. avaliados como manifestações de hipertireoidismo. O que é explorado pela organização do trabalho não é o sofrimento. A frustração e a agressividade resultantes. reina a ignorância sobre os processos e seus incidentes. pouco tempo depois todas foram obrigadas a parar de trabalhar devido a problemas graves. E esse nervosismo que foi aqui selecionado.Um exemplo extraordinário da utilização do nervosismo é dado pelo próprio Bégoin. dos diferentes equipamentos etc. Uma anamnese detalhada.. Têm apenas "dicas" de um saber descontínuo: o nome do produto de entrada e de saída. mostrou que elas já apresentavam certos sintomas. 1Ü4 . e é tão ilustrativo que dispensa qualquer comentário: "Um médico do trabalho trouxe-nos um exempio impressionante (. que requeria uma habilidade profissional superior. como fonte de aumento da produção. por um nervosismo extremo. 1%). A sintomatologia é dominada por tremores nas extremidades. assim como a tensão e o nervosismo. sobretudo. 2. Colocadas num trabalho que era particularmente intensivo. os trabalhadores ignoram o funcionamento exato do processo industrial. são utilizadas especificamente para aumentar o ritmo de trabalho. uma tendência hipertireoidiana. aceleração do ritmo cardíaco e. entre tantos outros mecanógrafos. A exploração da ansiedade Nas indústrias químicas. No caso das telefonistas. antes de começar o trabalho. Podemos relacionar essa utilização do hipertireoidismo1 em mecanógrafas à da loucura narcísica nos pilotos de caça. Concluiu-se que a seleção profissional.)■ Numa empresa." (p. mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. que expulsa o desejo próprio do sujeito. tinha selecionado sujeitos que apresentavam. o nome da insta1 O hipertireoidismo corresponde a uma hiperatividade da glândula tireóide.. o sofrimento resulta da organização do trabalho "robotizante". um certo número dentre as "melhores mecanógrafas" da firma. que se estrutura em função dos incidentes que se deve enfrentar.

do mesmo modo. pois é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho. fornecidos pelo painel da sala de controle. aos barulhos da máquina. Os macetes funcionam. pela instalação de um novo equipamento de exaustão ou de novas autoclaves. produto que entra na fabricação de certas matérias plásticas) que está indo bem. Ao longo de sua experiência e tempo de trabalho. sua tonelagem. aos poucos. o operário associa os comentários dos colegas. Na realidade. ao longo do tempo e por hábito. sua dam de instalação. hà um saber próprio. um certo barulho corresponde a um P. nem sobre o funcionamento das instalações. outro tipo de barulho significa que o P. que são a forma pragmática e operatória do saber do trabalhador. é claro. da matriz na capital etc. mas. Eles aprendem. esse saber pragmático é incompleto e pouco tranqüilizador. Existem apenas algumas instruções dadas pela direção: a temperatura de tal reservatório não deve ultrapassar 70°C. destinada aos trabalhadores.lação. não se formaliza. a esse respeito. deve-se manter um volume inicial que "retire o calor". O conjunto de "macetes" assim acumulados e coletivamente partilhados pelos trabalhadores é o que faz a fábrica funcionar. a interferir nas etapas intermediárias do processo de produção: para que a temperatura não ultrapasse tal nível. Este saber não está escrito. não deve ultrapassar 25 atmosferas: em tal ponto. Mas não existe conhecimento coerente. Não há saber contínuo.C. dos escritórios de projetos. sem intervenção da direção da fábrica. nem sobie o próprio processo. O saber circula a nível dos engenheiros. Não existe nenhuma formação. os trabalhadores detêm conhecimentos consideráveis sobre a empresa. seus rendimentos globais.V. uma série de "dicas". mas simplesmente circula entre os trabalhadores. A transmissão desses conhecimentos é puramente oral. ainda assim. Entretanto. quando existe um ambiente de trabalho onde há companheirismo. Não nos enganemos.C.V. ao contrário do que postula a Organização Científica do Trabalho. Os operários aprendem. sobre a qualidade final do produto. como entre os artesões. alguns dados quantitativos relativos aos limites de temperatura. mas não representam nem uma profissão com seu knowhow desenvolvido completamente. o fluxo de produção não deve descer abaixo de tantas toneladas por hora etc. Entretanto. não se trata aqui de detalhes secundários! O essencial do saber é veiculado e utilizado de operário a operário. de pressão etc. estas instruções são bastante insatisfatórias. não está indo bem e "faz bolhas". a pressão. espontaneamente. nem uma verdadeira formação ou uma 105 . (cloreto de poli-vilina. em tal nível.

formalidade de domínio completo sobre o instrumento de trabalho. O conjunto de "macetes" permite o funcionamento da fábrica, mas a soma das lacunas nesse saber pragmático produz um grande mistério sobre o andamento da produção. A prova disso está na ocorrência de incidentes não previstos, que nãu se poderia prever ou que nunca se conseguiu compreender bem, e que podem se repetir. Existem os problemas comuns, mas há também os incidentes estranhos e imprevisíveis, os acidentes sempre novos e, às vezes, únicos. I A ignorância das chefias técnicas: os trabalhadores sabem que os técnicos de nível universitário desconhecem o funcionamento da empresa e de suas instalações. São detentores de um conhecimento teórico e formaram-se em grandes faculdades, mas chegam na fábrica sem nenhum conhecimento prático. "No início, a direção da fábrica manda-os visitar as instalações, então nós lhes damos 'dicas' que nada querem dizer. Isso, às vezes, dura vários dias." E "depois de alguns dias dessa brincadeira, eles percebem que não chegam a lugar nenhum. E quando a direção autoriza-os a terminarem com as visitas, refugiam-se em seus escritórios e nós não os vemos mais". Constata-se que os técnicos de nível universitário, por seu lado, não saberiam fazer funcionar, sozinhos, as instalações da fábrica. O conhecimento teórico de que depõem é insuficiente para tal prática industrial, tão insólita. O único conhecimento prático se reduz às instruções oficiais, que são pobres em relação ao que representam os macetes dos operários. O pessoal de nível universitário admite, implicitamente, a própria ignorância: "Quando um de nós dá uma ordem, escutam-nos educadamente e, depois, quando viramos as costas, cada um faz como pode". E o que, implicitamente, de um lado e do outro, chama-se de "interpretação das ordens". Desse modo, em setores inteiros, reina a maior ignorância: "Quando há um acidente, aparece uma ordem nova". Os procedimentos oficiais avançam passo a passo. Freqüentemente, a direção pede aos operários para elaborar uma nova regra de trabalho. Quando houve uma explosão, por ocasião da introdução de um novo catalisador, "ninguém a tinha previsto". "Durante as greves, nós dicutimos as possíveis reduções de produção que não afetariam as instalações. E nessas discussões que a direção se mostra, Nos percebemos então que eles não sabem até onde >e pode ir. Foi assim que diminuímos o ritmo, mais do que 106

haviam dito que seria possível, e nada explodiu. Uma outra vez, um colega antigo me disse que já lhe acontecera de descer, uma vez, até 22%, e a esse nível tudo degringolou na produção, de vez." "Uma outra vez, eies nos disseram que era perigoso parar, porque reiniciar depois provocaria uma explosão. Eles sabiam disso porque houve uma explosão, na Inglatena, com 15 mortos. Mas nós, a gente bem que começou a primeira vez, e eles não sabiam que havia um risco." "Todo mundo sabe que não se sabe. " Quando acontece um acidente que não era previsível, na maioria das vezes, não é por falta de precaução, mas porque ninguém tinha antes nenhuma experiência a respeito. Essa ignorância, que permeia o funcionamento da empresa, tem um papel fundamental na constituição do Risco e no Medo dos Trabalhadores. Ignorância, medo e angústia O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/ trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em conseqüência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda conhecem os "macetes". O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que "a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes". Afirmação paradoxal! Pois poderíamos esperar que o trabalhador polivalente, tendo maior acesso aos "macetes", conseguiria um domínio maior do próprio instrumento de trabalho. Na verdade, acontece o contrário. Em sua própria função, o trabalhador — mesmo sabendo vagamente que ninguém sabe tudo — conforta-se com a divisão do trabalho, que reduz as responsabilidades e as variáveis desconhecidas. Quando se torna polivalente, descobre que as outras funções de trabalho são como a sua, e que a incerteza do colega vizinho é tão grande quanto a sua. O polivalente, na verdade, conhece um grande número de "macetes", mas acumula também zonas de ignorância, e assim está confrontado a uma extensão do risco. Cresce seu medo, e é freqüente, então, que assistamos a uma descompensação, conduzindo à licença médica, ao repouso forçado e a um tratamento medicamentoso "por depressão". 107

Segundo os próprios trabalhadores, são numerosos os companheiros que descompensam. De que maneira? Pode-se recuperar, nessa semioíogia, os estigmas do trabalho? E bem provável que os trabalhadores vítimas desses episódios invoquem — mas nem sempre — o trabalho. Muitas vezes, na verdade, o que tentam é esconder o medo, que lhes parece vergonhoso, ou disfarçá-lo, tanto dos outros como de si mesmos. E mesmo quando acusam o trabalho, em contrapartida, nunca incriminam o risco, nem o medo. A descompensação aparece então como um quadro misto, associado à angustia, à irritabilidade e à depressão. Para o médico, externo à empresa, não há ai nada de específico, pois a cristalização de todos os conflitos familiares, financeiros, sociais, acaba por conferir ao episódio um caráter mais pessoal do que específico do trabalho. Isso se explica, se admitirmos que, a partir de um certo nível, o . medo e a apreensão sofrem uma verdadeira dissolução na angústia; isso quer dizer que, transbordando, as defesas individuais deixam surgir conflitos intrapsíquicos, inevitavelmente reativadoi pela situação permanente de risco. Nenhum operário, como nenhum outro homem, está a salvo de uma explosão de angústia. Embora seja esquemática a separação entre medo e angústia, na prática, essa ligação é bem anterior, e, freqüentemente, não basta ao trabalhador sair da fábrica para ficar completamente confiante e calmo. Sobretudo se seus períodos de recuperação somatopsicologica forem cortados pela ruptura de seus ritmos de descanso (trabalho em turno alternado). A maioria dos operários precisa de remédios para dormir, mas também para se agüentar durante a jornada de trabalho. Os hipnóticos e ansiolíticos são largamente consumidos. Quando volta para casa, o trabalhador acorda de noite, angustiado, pois não sabe mais se fechou direito tal válvula. Será que pode explodir? Só ficará tranqüilo no dia seguinte, quando voltar ao posto de trabalho. E, pouco a pouco, toda a vida do operário é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho. Quanto maior for a ignorância sobre o trabalho, mais fácil será ultrapassar a fronteira entre o medo e a angústia. Na realidade, a ignorância consciente sobre o processo de trabalho aumenta o medo, porque torna o risco cada vez maior. Por outro lado, a ignorância facilita o aparecimento do medo. Sabemos que a atividade profissional, a qualificação, o know-how e o saber, em gerai, representam um dos mecanismos de defesa fundamentais para a economia psíquica. O trabalho — uma das modalidades de resolução de certos conflitos e de regulação da vida psíquica e somática — é, para certas pessoas, um modo privilegiado de equilíbrio. Nas indústrias petroquí108

submete. com o risco de feri-los. Há verdadeiros jogos "olímpicos" no interior da usina. corridas e jogos de bola que duram a noite inteira. bastante forte. mas são também oportunidade para jogos lúdicos. que vão dos jogos de cartas aos jogos perigosos. as mais freqüentes dizem respeito aos "jogos relativos à segurança". teve a perna presa numa proteção de máquinas. em ambulância. durante muitos dias um bom número de trabalhadores crédulos seguem essa norma. esses tempos livres são utilizados para conversas entre os trabalhadores. como há também brincadeiras e gozações de dimensões inusitadas. Foi assim que nos contaram que um operário negro. As defesas coletivas contra o medo: "as condutas perigosas". Foi indenizado e a direção pagou até suas dívidas. o trabalho que traz em si riscos. Os trabalhadores chamam tais 109 . Exagerando um pouco mais. Entre estas. constituindo-se verdadeiros cenários de ação. que põem em perigo a vida dos operários. e nunca mais foi visto na fábrica. praticam-se jogos verdadeiramente perigosos. passando pelas competições esportivas no próprio local de trabalho. Há concursos. e em meio aos risos e a uma folia geral. assim. para pedir novos equipamentos. com o dorso das mãos. De tempos em tempos acontecem acidentes. simularam gestos médico-ci-rúrgicos. induz-se os "patos" a se dirigirem à direção. Ainda caído por terra. a vida psíquica dos trabalhadores a duras provas. manifestamente. a atividade dos trabalhadores em indústrias petroquímicas é interrompida por práticas insólitas. Às vezes. contra os Colegas que passam. começando a praticar uma série de massagens musculares na perna machucada. é verdade que o trabalho tem vários momentos de pausa. Atrás de uma pilastra. de todos os tipos. O operário negro foi levado embora. com regras absurdas e inventadas. há rallyes. às vezes perigosos. Durante algum tempo. que se prolongam por dias e às vezes semanas. gera o meuo e destrói certas defesas contra a angústia. como já havíamos assinalado.micas. de modo que a enganação seja descoberta. sem que nenhuma punição ou repreensão tivesse sido feita aos colegas responsáveis pelo incidente. enterrar este episódio. um trabalhador usa o extintor de incêndio dirigindo seu jato. até o momento em que se aperceberam que a perna estava fraturada. Faz-se correr o boato de que é preciso vestir uma roupa especial de proteção contra certos riscos imaginários. Freqüentemente. que se prolongam por vários dias. fugindo da brincadeira. um grupo de operários jogou-se sobre ele. A direção quis.

000 francos. para assar costeletas em um segundo. e também como uma tentativa de domínio simbólico * Estamos na França' (N. Tais banquetes são também ocasião para uma teatralização da segurança. tendo "depressões nervosas". com os perigos próprios ao processo de produção (os jogos perigosos que terminam em acidentes).brincadeiras de "trotes e admitem que.òoT. em alguns instantes. são queimadas 380 toneladas de combustível.' como de festas. senão simbólica.00(N.** Se prestarmos atenção nas associações de idéias que permeiam o discurso dos operários. que não têm nenhuma outra relação. Uma outra prática freqüente é a dos janrares grandiosos.* Os trabalhadores têm o hábito de falar de seus "banquetes".). freqüentemente. em inventar novas regras de segurança. a provocar pânico entre os engenheiros que. a ponto das vítimas descompensaiem. assim. a 800"C. exprimindo um certo mal-estar sobre a quantidade de obesos que conhecem. acabam mal. Na verdade. dado seu caráter estrondoso. Uma vez. 110 . então. cerca de 170. liberaram vapor. Perguntam-se porque aqueles que trabalham em turnos comem tanto. inúteis e simbólicas ("trotes"). reconheceremos facilmente o elo entre a situação de risco.. exigiram que a direção mandasse um novo filtro de compressor. como um enorme desafio ao risco. eles riem. largamente "regado" a vinho. a champanhe e outras bebidas alcoólicas. como perigosa. As encenações. à noite. isto destina-se. para ridicularizar aquelas já existentes (liberar vapor). prática que todos reconheciam. as válvulas e liberar vapor sob pressão nos telhados da usina. muitas vezes. inutilmente. acabam mal.dol. entretanto. que utilizaram como gr/7/ para assar pizzas! Nesse mesmo sentido.000. interrogam-se sobre seu significado. em suas casas. na verdade. obscuro. adivinhando que esconda algo importante. em transgredir às vezes as regras mais elementares de salvaguarda (assar costeletas). Outra prática inútil e perigosa é de abrir. que reúnem os trabalhadores para um verdadeiro festim.) ** CetcadeUS$25. tudo consiste. mas. Isso significa que são voluntariamente levadas longe demais. até mesmo em criar novos perigos. sobretudo à noite. Essas condutas perigosas aparecem. ao mesmo tempo. Quando falam desse hábito. ao acidente ou fim de uma carreira. são acordados pelos alarmes no meio da noite. E desse modo. ou seja. a temática da ansiedade e a encenação da segurança.. conduzindo às vezes à depressão nervosa.

para nós.do medo. "O costume" E o último elemento a ser considerado nas defesas contra o medo. Ao contrário. outros operários. Na realidade. assim. O recurso surpreendente a uma comparação com um objeto familiar não poderia deixar de espantar. um dia ou outro será a vítima. para ser eficaz como defesa contra a ansiedade e o medo. o tempo parece ter um papel essencial em relação à luta contra o medo. Porém. Parece que. cria uma intensa coesão. são como marmitas". a encenação deve ser levada aos extremos e chegar a provocar vítimas. que encontramos também junto aos trabalhadores da construção civil. das fábricas em que trabalham (monstro feroz e misterioso etc). a polivalência ou a instalação de um equipamento novo reativam a ansiedade. instalada há várias décadas na região (desde a Primeira Guerra Mundial) e que conhecera todas as gerações de equipamentos e processos. além do medo criado pelos riscos do processo de trabalho. aquele que fica de lado nessas práticas. fazem reaparecer ainda mais a relação de ignorância que o operário tem para com seu trabalho e. efetivamente. no discurso dos operários. o hábito. Fica difícil avaiiar com exatidão os efeitos dessas defesas coletivas sobre a população operária como um todo. Mas uma mudança de posto de trabalho. — O tempo de serviço dos trabalhadores dessa fábrica: freqüen- . De maneira que essas condutas perigosas funcionam. um clima de cumplicidade protetora. funcionando então. dentro de um esquema já clássico. para todos os outros que delas participam. Se o jovem operário supera com sucesso seu teste de início do trabalho. — A idade da fábrica. a implantação de novas usinas e a substituição dos velhos equipamentos. mostrou-se que o medo atingia um nível menor: — Retivemos aí. ele deverá enfrentar. Em contrapartida. expressões significativas como "as caldeiras e cubas. por outros de capacidade superior. E a este preço que funciona o sistema defensivo. sua ansiedade. o medo criado pelo clima psicológico do qual não participa. quando a comparamos com a representação que têm. Mas. a multiplicidade de tarefas. a cada dez anos. provavelmente. numa fábrica onde fizemos uma de nossas pesquisas. como defesa contra o medo. de regulação e manutenção diferentes. como um sistema de seleção — pela exclusão dos vacilantes. as "dicas" e a participação na vida coletiva irão aliviar seus esforços.

e confrontados brutalmente a um modo de trabalho que lhes é completamente estranho. não há passado. O exemplo dessa empresa. intervém imediatamente. mesmo se a ocorrência não for diretamente ligada a suas atribuições diretas. A fábrica já "entrou nos costumes". e nesse caso é impensável "deixar o barco afundar" (como numa linha de montagem). Deve-se ressaltar também o fato de que os próprios prédios da fábrica não se modificaram em várias décadas. a iniciativa. a mina. Mas o medo foi substituído por uma tensão menor. leva a pensar que o tempo talvez tenha um papel importante na evolução do sofrimento psíquico dos operários em indústrias de processo contínuo. e mesmo o avô. com o tempo. pois com esse tipo de atmosfera de trabalho. os operários estão especialmente sensíveis e atentos a qualquer anomalia. conhece-se a empresa e o processo. recentemente deslocados de seu campo. direta ou indiretamente. A fábrica tem um aspecto vetusto. — A estabilidade do pessoal. ou desejar uma deterioração do instrumento de trabalho. favorece a multiplicidade de tarefas e permite a economia de uma formação verdadeira. não poderia dar. A fábrica mata tanto como. 112 . mais do que o perigo do momento. Lembrandp sem parar as diversas modalidades dos riscos. o medo serve à produtividade. do interior de um país da África do Norte. Efetivamente. na própria cidade. Nas novas fábricas ainda não há tradição. em comparação com as refinarias modernas. que a direção. por exemplo. a ameaça não poupa ninguém.temente. Todos esses elementos favorecem o desenvolvimento de uma espécie de tradição local estabelecida por diversas gerações. de modo que em caso de quebra. a direção mantém voluntariamente os trabalhadores num estado de alerta permanente. nas gerações. O medo é utilizado pela direção como uma verdadeira alavanca para fazer trabalhar. nas conversas. Pois toda a população local vive dela. no Norte da França. E. Quanto melhor estiver o processo de produção. mais tranqüilos estarão. já haviam trabalhado nela. o hábito venceu. O contraste existente entre os operários dessa fábrica e aqueles que vivem a ansiedade permanente das novas fabricas lembra o contraste entre operários de países industrializados e os trabalhadores imigrantes. e que a produção principal ficou sempre a mesma. a qualquer incidente no desenvolvimento do processo de produção. o pai ou a mãe. O risco cria. vazamento ou qualquer outro incidente. Ficam atentos e ativos. na familia. na vida. O risco diz respeito a todo mundo. espontaneamente. implantada no pós-guerra. O medo partilhado cria uma verdadeira solidariedade na eficiência. aliás.

A paralisação da produção acarretaria não somente prejuízos para o instrumento de trabalho mas. por parte da direção. representando uma forma total. vê-se bem que. os trabalhadores em luta transgridem as regras de uma segurança que atingiu o estatuto de um mito indiscutível. Entretanto. por isso. arriscaria provocar acidentes. demonstram o uso abusivo que dela faz a direção. instrumentalizado pela direção. E fundamental que avaliemos a articulação: Ignorância-Risco-Medo-Segurança. desativando parcialmente a ansiedade. a elevação perigosa de certas temperaturas. nem cair aquém de uma produção mínima. — Como instrumento de produtividade e de controle social. se no começo essas normas são respeitadas. e a sabotagem fica definitivamente excluída. esse tipo de processo não deve nem ultrapassar um volume final máximo. fixado previamente pelo construtor (na realidade. as greves clássicas são raras e mesmo impossíveis em certas usinas petroquímicas. de ambos os lados. Nesse sentido. sob pena de provocar. conscientemente. as lutas têm um papel importante na desdramatização do cenário da segurança. Nesse mesmo sentido. Através disso. A paralisação repentina. a greve só pode começar em uma data fixada. ■O melhor exemplo e dado pela forma extraordinária que tomam os Bconflitos. 1 113 . aqui ou ali. O argumento usado pela direção. por meio de processo e de uma técnica ainda não dominados. mas que fazem parte de uma escolha consciente. em alguns pontos.O medo e a ordem social na empresa à O medo è também um instrumento de controle social na empresa.. ou durante certa campanha relativa a um produto que. é impossível. segundo cotas que são objeto de negociações intermináveis entre a direção e os trabalhadores.. da produção. as greves selvagens muito raras. sobre os limites exatos que não se deve ultrapassar. e em torno do qual todos os movimentos reivindicatórios se organizam. inevitável. é sempre a segurança. Para funcionar. em suas duas faces inseparáveis: — Como resultado. bloquear o fluxo de rea-gentes em certas canalizações etc. completa e original de exploração. a prática demonstra que. sozinho. sobretudo. Quer se trate de salários. O medo é. o mais freqüente é que a direção force sua ultrapassagem permanente). para pressionar os trabalhadores e fazê-los trabalhar. de qualificação profissional ou Ide condições de trabalho. por assim dizer. quando certa instalação está em fase de manutenção ou quando se atingiu uma certa fase do processo. e que o mito repousa sobre a ignorância que reina. permite a diminuição do ritmo do processo. De modo que o mais freqüente é que a greve seja feita sob forma de uma redução da produção.

projetistas e construtores não sabem onde pisam. às vezes. fruto das potencialidades criadoras e inventivas dos operários. Assim. è preciso encontrar "macetes" ao longo de um tempo que se mede. mas o operário detectou dois ou três sinais. então. de flutuações e de alarmes que levam ao incidente em questão. graças à descoberta e à produção de conhecimentos pragmáticos sobre o próprio instrumento de trabalho. Não se trata de afirmar que tanto direção quanto engenheiros. A descoberta e a produção dos "macetes" da profissão são. Não há nenhuma ligação lógica entre os diferentes elementos dessa seqüência. um caráter vital. São os trabalhadores que. ao longo de sua prática. em relação a tudo aquilo que diz respeito ao funcionamento e controle. como já mostramos. pois é graça a eles que os trabalhadores conseguem controlar ou dominar o processo. Vemos. O estado de medo e de alerta que não abandona o trabalhador durante todo o tempo. É assim que. eles estão desarmados de um saber pragmático. são fruto de muitos anos de observações cotidianas. de rápida obsolescência e grande capacidade de tratamento do produto colocasse a direção em posse de um material que poderia render muito dinheiro sob a condição de saber usá-lo e conserválo. depois de uma série de incidentes que se reproduzem ao longo de dois anos. É neste corpo-a-corpo violento que se elabora o saber operário. arrancada dos trabalhadores pelo medo. Mas. entre alguns dias e alguns anos. que puderam elaborar e desenvolver um know-how. ao contrário. a descoberta das "dicas" é. que não são nada comparáveis. dotada de instalações sofisticadas. através de séculos de prática. mas são fragmentados e não bastariam para fazer funcionar a empresa. transmitem oralmente seus "macetes". Mas. nesse confronto entre equipamentos monstruosos e ameaçadores e operários sem nenhuma preparação ou formação efetiva. A implantação de uma fábrica é a prova de um certo conhecimento. espicaça a imaginação e excita a curiosidade. Por outro lado. modernas. "macetes" têm. de certo modo. que um operário descobre a seqüência de variações. pressionados pela situação ansiógena a se adaptarem o mais depressa possível. simul114 .Medo e imaginação Tudo se passa como se a instalação de uma usina petroquímica. no que concerne ao processo de produção. Não nos enganemos: os "macetes" não são simples truques. de algum modo. segundo os casos. Freqüentemente. É lógico que detêm certos conhecimentos técnicos. formulados em instruções de uso. descobrem e. nesse caso. diferentemente dos artesãos.

O que é fundamental nesse "sistema de "macetes". de agora em diante. a direção sabe muito bem a importância desse saber prático quando. Do mesmo modo. aumentar a saída ali. para simplesmente reduzir a carga de trabalho. um outro operário descobriu uma espécie de receita para responder a ela: diminuir um pouc a pressão aqui. a temperatura lá. como vemos em outras situações de trabalho. pedir ao colega do posto vizinho para diminuir um outro parâmetro. só que restam ainda muitas zonas obscuras. inegavelmente. a exploração do medo aumenta a produtividade. depois de um incidente. É puramente pragmático e resulta da experiência e da observação *. e evitá-lo. já havíamos mostrado que. indispensáveis ao funcionamento da empresa. isto é. Em resumo. que somente os operários conhecem de verdade. que vão lhe permitir. Por ocasião do relato sobre o trabalho das telefonistas. que consegue criar pontes na descontinuidade do saber do pessoal de nível superior. Por outro lado. cujo valor "funcional" para produtividade pode conduzir à sua utilização como técnica organizacional de comando. a rapidez de desenvolvimento destes "macetes". evidentemente. "dicas". quando o sofrimento é útil à produtividade. nas quais ainda não são eficazes. O mesmo vale para a ansiedade. sua colocação em prática e seu campo de extensão. sua articulação. exerce uma pressão no sentido da ordem social e estimula o processo de produção de "macetes". 115 . mas é exatamente esse saber que faz a fábrica funcionar. testemunham. Mobilização cujo motor principal ainda é. é que não se trata de simples "truques". quando aparecia certa anomalia. ''As dicas" constituem um saber operacional e seu conjunto compõe um modo operatório. o medo. Este tipo de saber não se articula com nenhum conhecimento teórico. De qualquer modo. pode ser estimulado pelas chefias. a descoberta e a invenção de modos operatórios eficazes. * Grifo da tradução.lâncos ou sucessivos. prever o incidente que se produzirá alguns minutos mais tarde. pede aos trabalhadores para eles mesmos "bolarem uma fórmula" destinada a evitar sua repetição. a mobilização dos operários.

Trata-se justamente da fábrica onde elaborou-se uma espécie de tradição operária em relação ao processo de produção.2 Esse "mecânico polivalente" sofreu. em relação a outras fábricas.. trata-se. "encheram-lhes" a cabeça com teorias sobre a complexidade da causalidade em matéria de acidentes: 3. devido ao envelhecimento da empresa e do pessoal.. como subtítulo: "a predisposição nunca é acidental. 2. 13 acidentes declarados. Com relação ao item 2. demonstrando-se "que um acidente. podemos afirmar a equivalência entre a exploração do medo e a exploração pelo medo. Simultaneamente ao "costume". Sobre o conteúdo desses estágios. Para responder à questão. 11 dos quais com paralização do trabalho.A participação dos psicólogos — A exploração pelo medo No caso em questão. enquanto fenômeno. E numa das fábricas pesquisadas onde melhor apareceu o papel dos especialistas. a direção implantou uma "formação" interna sobre a segurança. constatamos que seus acidentes distribuem-se em: 116 i . na realidade. o manual intitula uma página inteira com "Os poliacidentados predispostos são uma minoria de 1 a 2% que sofrem acidentes graves" e. os operários relatam que: 1. à aparente negligência dos operários. que reproduziremos por extenso. de causas preexistentes"! Com relação ao item 3." Estudaremos uma ficha de poliacidentado e politraumatizado. da empresa matriz. inevitável.. mais recentes. descrito no Capítulo 11]-c. de longas digressões em torno da seqüência de causalidades que intervém no determinismo dos acidentes. é apenas o encadeamento. forneceram-lhes uma apostila onde se reproduzia um exemplo de acidente. Quem dirigia os estágios tinha se especializado em técnicas psicos-sociológicas nos Estados Unidos. não tiraram nada de útil nem de prático.. Se começarmos o estudo de sua ficha pelos gráficos iniciais. em dez anos de trabalho. foram culpados pela noção de "poliacidentado predisposto". pode-se sofrer 15 acidentes sem aí haver nenhum grave. FICHA M. acrescentava-se uma íreqüência de acidentes julgada bastante elevada pela direção central.

Primeira constatação: a categoria de base e dominante. não há razão para que não o seja também num outro posto! O que aparece. Rostand. o médico do trabalho submeteu-o a toda uma bateria de exames. Esses exames mostraram que o operário em questão era portador de uma deficiência oriunda de um "acidente nervoso" sofrido quinze anos antes. — em quatro horas. ocorrido em uma prensa. estiramento muscular. não o trabalhador.) Concluindo. acima de tudo. Se ele fosse realmente predisposto. podemos verificar que basta transferir o operário de seção. — dores. tinha reflexos particularmente lentos.— 9 acidentes são da categoria de base: — cruz vermelha. picadas. Somente após esse acidente se elaborou a ficha individual. Esta dupla constatação indica que encontramos um poliacidenTADO PREDISPOSTO. e com seu consentimento.) (Apave Marseille. sem nenhum agrupamento: — em quatro dias. — feridas. entorse. NOTA: "A tomada de consciência desse caso só ocorreu a partir do acidente grave". (Todos os títulos. o que eqüivale a dizer que o que mudou na situação foram exatamente as condições de trabalho. O efeito í 117 . — / acidente da categoria intermediária: — triângulo preto. os dedos indicador e médio da mão esquerda foram amputados pelo equipamento em movimento. fraturas. queimaduras. é a idéia de "poliacidentado predisposto" e sua associação a uma deficiência psicológica.. Ao retornar ao trabalho. Service Prévention Incendie. para que diminua seu "índice de acidentes". grafismos e palavras sublinhadas são do autor da apostila. rue Ed. contusão. entre os quais alguns testes psicotécnicos. 13006 Marseille. Cada vez que "comandava uma ação" com seu lado esquerdo. Transferido para uma oficina de "montagem de pequenas peças".' acidente. 32. Isso explicava a maioria das lesões sofridas do lado esquerdo. Segunda constatação: os acidentes distribuemse regularmente no tempo.. — 3 acidentes oculares: — ponto vermelho. Por ocasião do 13'. para evitar o trabalho em máquinas. seu índice de acidentes melhorou sensivelmente. — no mês.

o mesmo acidente teria provocado a intervenção precipitada de vários operadores. ficam sempre paradas. as fábricas. são insensíveis às ameaças industriais e aos riscos. Dessa maneira. aos ritmos de trabalho intenso e ao medo. pensaram imediatamente: "poliacidentado predisposto". Na França. 118 [li . idênticas às que são operacionais na França. e só foram declará-lo na enfermaria quando não havia gravidade evidente. Um outro exemplo do papel representado pelo estímulo do medo nas indústrias petroquímicas encontra-se na entrevista de uin diretor de manutenção argelino.. As refinarias importadas pela Argélia e completamente montadas no local. mesmo posteriormente. as estatísticas indicaram uma redução dos acidentes.principal obtido — e do qual testemunham os operários —. onde o essencial do trabalho consiste em intervir nos incidentes. estimulados pelo medo de ver a pane desencadeando uma espiral de catástrofes. Não tendo sido preparados. a causa é a mentalidade dos operários argelinos. não funcionam mais do que alguns meses por ano.. se não estiver diretamente ligado à sua tarefa específica. alguns deles. è que se sentem culpados no final do estágio e. ninguém intervém quando sobrevém um acidente. por séculos de civilização industrial. Desse modo. Nessa instalação. Segundo o diretor. ao se acidentarem em trabalho.

Talvez o mais insólito. mas mais especializadas. faremos referência à economia psíquica e somática global. em algumas doenças. do mesmo modo que podemos observar com a exploração da força física. a organização do trabalho como sua causa principal. As estratégias defensivas. justificável até agora por motivos didáticos. podem ser utilizadas pela organização do trabalho para aumentar a produtividade. Para encontrar. como funcionam os diversos sistemas de defesa colocados em prática para contê-la. cuja reputação é a de serem estritamente manuais. Vamos mostrar. em seguida. na abordagem psicopatológica da organização do trabalho. Para avaliar os efeitos da exploração mental sobre a saúde. 119 . A questão é saber se a exploração do sofrimento pode ter repercussões sobre a saúde dos trabalhadores. por sua vez. Nas páginas seguintes não manteremos mais a separação entre insatisfação e medo. provocado pela organização do trabalho.A organização do trabalho e a doença Até agora. necessitamos recorrer a noções de psicopatologia mais clássicas. nosso esforço de pesquisa e interpretação foi no sentido de revelar um sofrimento nãoreconhecido. é que a exploração mental seja fonte de mais-valia nas tarefas desqualificadas.

O pessoal. a esse mecanismo de exclusão. Toda descompensação psiconeurótica fraduz-se. num quadro psicopatológico. Enquanto esse incidente fica isolado. quase que regularmente. para compreender que a seção de trabalho deve assegurar uma verdadeira "assepsia mental". a aceleração dos tempos e a exigência de desempenhos produtivos de rendimento crescente conduzem a descompensações rápidas. A punição sistemática é a exclusão imediata do trabalho. que atingem. A primeira concerne ao aumento dos ritmos de trabalho na indústria eletrônica (101). uma outra tem uma crise de choro e abandona sua função. por uma queda no desempenho produtivo. descompensa em crises de choro. que se desencadeiam como epidemias. o sofrimento ê razoavelmente bem controlado pelas estratégias defensivas. geralmente com uma diminuição dos ritmos de trabalho! Basta diminuir a pressão organizacional para fazer desaparecer toda manifestação do sofrimento. certas técnicas de seleção de pessoal. pela utilização dos sistemas defensivos descritos anteriormente. Veremos a seguir como a organização do trabalho é. a causa de certas descompensações.O sofrimento invisível Com raras exceções. então. a chefia direta intervém. as neuroses e psicoses descompensadas são imediatamente detectadas através dos critérios de rendimento na produção. Basta acrescentar. a mínima. uma operária começa. que nos servirão aqui como exemplos. indubitavelmente. freqüentemente os primeiros que aparecem. Se admitimos a possibilidade de descompensação. Nos fins de semana. a tremer e a gritar. Esse fenômeno pode ser observado. o 120 . Os autores de um relatório sobre a análise do trabalho nesse ramo industrial mostram que o aumento da cadência. Mas se diversas operárias descompensam. basicamente feminino. na oficina. Mesmo intenso. provavelmente. psicoses e depressões em situação de trabalho são compensadas. Segue-se. Alguns momentos depois. Resta saber se as descompensações são sempre evitáveis ou evitadas. Agitada. no escritório. como uma doença contagiosa. em cadeia. de repente. devemos nos perguntar porque não vemos nenhum vestígio dela na fábrica. dos nervos e desmaios. Assim. O outro exemplo será extraído de uma pesquisa com operários da fábrica Renault. toda uma seção de trabalho. precisamente. a contraventora é conduzida à enfermaria. "uma série de descompensações". todas as situações de que trataremos a seguir não deixam entrever nenhuma doença mental caracterizada. As neuroses. em duas circunstâncias. para impedir que se transforme em patologia.

apesar do barulho das máquinas. não consiga manter os ritmos de trabalho ou manter seu equilíbrio mental. que se distingue bastante do processo de psiquiatrização (14). Uma norma de produção. a agressividade contra as chefias.ambiente da seção fica bem especial. são. ainda assim. e até mesmo entre o começo e o fim do dia. aumentam as peças quebradas durante a produção. O sofrimento mental e a fadiga são proibidos de se manifestarem numa fábrica. entre o começo e o fim dela. Forçosamente. mas na mesma semana. mas também uma norma mental. Mesmo sabendo que não está propriamente doente. até mesmo a parada da produção. o operário esgotado e á beira da descompensação psiconeurótica não pode abandonar a fábrica sem maiores explicações. seus efeitos se farão sentir não-somente à distância. via de regra. diretamente. as chefias esforçam-se para manter os ritmos de trabalho num nível tolerável pela maioria dos trabalhadores. A consulta médica termina por disfarçar o sofrimento mental: é o processo de medicalização (53). quebram-se ferramentas. 121 . qualquer anomalia ou irregularidade. geralmente acompanhado de uma receita de psicoestimulantes ou analgésicos. Explode. Voam parafusos pelo ar. pode acontecer que um trabalhador. muitas vezes a linha de produção pára. o trabalhador deverá apresentar um atestado médico. No fim. na medida em que se procura não-somente o deslocamento do conflito homem-trabalho para um terreno mais neutro. São as fórmulas encobertas pela rotatividade. mas a medicalização visa. e rejeitadas ao fina!. a saída será individual. os carros que saem da fábrica naqueles dias têm muito mais defeitos do que os que saem no começo da semana. além disso. isoladamente. ressoam gritos. é lógico. Duas soluções lhe são possíveis: largar o trabalho. É geralmente nesses momentos que se vê também algumas brigas de socos. Com a desordem instalada. Este exemplo mostra que se os ritmos de trabalho são mantidos no nível máximo da tolerância. provocam irrupções coletivas de agressividade. Os carros do começo da semana e do fim de semana. entre si: "é um carro de sexta-feira". muito mais defeituosos do que os carros do meio da semana. Mas. Os trabalhadores que têm problemas com seus carros próprios costumam dizer. Quando o limiar coletivo de tolerância não é ultrapassado. A segunda solução é representada pelo absen-teísmo. no que este pode ter de mental. É assim que se define a norma. a desquaHficação do sofrimento. Por isso. Só a doença é admissível. trocar de posto ou mudar de empresa.

da estrutura (42) das personalidades. clínica e paraclínica. Mesmo que a realidade tratada nas descompensações psicóticas e neuróticas não tenha nenhum poder patogênico. adquirida muito antes do engajamento na produção. que se opõe aos investimentos das pulsões e às sublimações. Mas não é suficiente para explicar o momento "escolhido" pela descompensação. Depois de uma pesquisa detalhada. a exploração do sofrimento pela organização do trabalho não cria doenças mentais específicas. Certos trabalhos (19) consagraram-se ao estudo e à caracterização das situações reais que influenciam as descompensações psicóticas. não se pode evidenciar nenhuma afecção somática. que faz com que o aparelho mental perca sua versatilidade. O surgimento de uma descompensação psiconeurótica não deixa de colocar alguma^ questões que ainda não foram resolvidas. pode favorecer o surgimento de uma descompensação. A organização do trabalho talvez inscreva seus efeitos mais nas possibilidades de tratamento de uma doença mental. a organização do trabalho. do que em seu determinismo. O defeito crônico de uma vida mental sem saída mantido pela organização do trabalho. Não existem psicoses de trabalho. Ilustraremos tais afirmações com um caso clínico. em última instância. Apenas algumas interpretações simplistas atribuem à sociedade a causa de todas as doenças mentais (4). A estrutura de personalidade pode explicar a forma sob a qual aparece a descompensação e seu conteúdo. o sistema frustraçãoagressividade reativa. Isso significa que a organização do trabalho não tem nenhuma importância nas doenças mentais? (5) As descompensações psicóticas e neuróticas dependem. como correia de transmissão de uma vontade externa. A doença mental Contrariamente ao que se poderia imaginar. que deixa sem saída uma parte importante da energia pulsional.1. Até os maiores e mais ferrenhos críticos da nosologia psiquiátrica não conseguiram provar a existência de uma patologia mental decorrente do trabalho. tem provavelmente um efeito que favorece as descompensações psiconeuróticas. Um trabalhador de 26 anos é encaminhado a um serviço especializado de um hospital parisiense e hospitalizado por mal-estares cada vez mais freqüentes. nem neuroses do trabalho. a não ser pelo conteúdo que veicula. Deve-se levar em consideração três componentes da relação homem-organização do trabalho: a fadiga. admitamos que a realidade. II 122 . mesmo sem nenhuma ocorrência específica.

em 100%. sem substrato orgânico. A organização do trabalho. era contraindicado em razão dos efeitos desses medicamentos sobre a vigilância. No momento em que numerosas psicoterapias e psicanálises são reembolsadas pela Previdência Social. ou seja. poderia ter um papel importante no que chamamos atualmente de casos inanalisáveis (87). Seria uma situação absurda na ausência de outras qualificações profissionais. A análise das defesas fóbicas implicava simultaneamente no questionamento de um sistema defensivo necessário à continuação do trabalho (em virtude de uma semelhança de estruturas entre defesa fóbica e ideologia defensiva da profissão). Em geral. sem dúvida. devia participar da ideologia defensiva da profissão. subseqüente ao recente nascimento do primeiro filho. efeitos esses susceptíveis de favorecer acidentes de trabalho. uma psicoterapia era tratamento do qual poderia se beneficiar qualquer paciente No entanto. Esse exemplo não é. em geral. como conseqüência primeira. psicopatológica. Estando resolvidas as questões materiais. uma entidade. O recurso a terapêuticas psicofarmacológicas. poderia talvez encontrar assim uma explicação original. entretanto. parar de trabalhar. não apresentava nenhum problema no trabalho. Entretanto.Uma anamnese psiquiátrica permite afirmar que se trata de uma descompensação de uma neurose histerofóbica. ou pela persistência anormal de um sintoma que apa123 . com a crise econômica impedindo qualquer esperança de reciclagem profissional. uma demonstração. Caracteriza-se por uma grande variedade de problemas "funcionais". O operário. em si mesmo. como foi descrita no Capítulo III. Esse exemplo mostra como o tratamento de alguns doentes entra em contradição com a organização do trabalho. pedreiro de profissão. não se mantém mais de pé os argumentos de ordem financeira como a única explicação capaz de dar conta da discriminação social no que concerne ao tratamento psicoterápico e psicanalítico. podemos nos perguntar se essa contradição entre o trabalho psicoterápico e a organização do trabalho não é questionada pela raridade de operários que se beneficiam de tais tratamentos. em especial nas tarefas de pouca qualificação profissional. se a organização do trabalho não pode ser considerada como fonte de doença mental. após a cicatrização de uma ferida. a consolidação de uma fratura ou a cura de uma intoxicação aguda. A técnica psicoterápica estava desde o início condenada ao fracasso. a psicoterapia foi impossível e deixada de lado por interferências de cunho profissional: trabalhador em construção civil. Trata-se da "síndrome subjetiva pós-traumática". Continuar a psicoterapia acarretaria então. aliás pouco úteis nesse caso. Essa síndrome aparece.

não têm o direito de existir no local de trabalho. No final da estória. longe de ser inadequado. aí também. Seria. automaticamente. ao ser colocado em mãos de um psiquiatra. sua impotência. freqüentemente conduzindo q paciente a um estado misto. continua durante meses a produzir pruridos na superfície do crânio. partilhava da ideologia ocupacional defensiva. Convencido da realidade do risco e excluído da ideologia ocupacional. não chegam a nenhuma conclusão. A coragem. Somente uma doença mental caracterizada permitiria a aquisição de um status de ínvalidez. até então. nenhuma explicação psicopatológica foi até hoje proposta (1). enquanto que o sofrimento mental e. não pode absolutamente ser 124 . A referência à ideologia defensiva das profissões da construção civil permite estabelecer uma explicação psicopatológica: tudo se passaria como se o aeidente comprovasse. cefaléias. Ora.receu depois do acidente. geralmente. Por outro lado. impressões estranhas na cabeça. Instaura-se então um diálogo de surdos entre o operário. Assim. o médico e a Previdência Social. a ansiedade. é interpretada como descompensação hipocron-dríaca de uma estrutura neurótica subjacente e preexistente ao acidente. O papel do acidente é. depois da raspagem e cura. de algum modo. sem indenização nem pensão. Assim. de algum modo. Às vezes. esses sintomas subjetivos impedem o retorno ao trabalho. Nessas condições. Muitas vezes. o doente não se beneficia de um tratamento realmente eficaz. deste ponto de vista. O estudo de numerosos casos clínicos mostra que esta síndrome atinge essencialmente os operários da construção civil e os trabalhadores com tarefas perigosas. enfrentar individualmente o perigo e o medo. eqüivaleria à demissão. seu medo. o medo. a ineficácia da ideologia ocupacional. reconhecer sua falência. Ao mesmo tempo. feito de reivindicação e de depressão. limitado àquele de "fator reativo" ou "elemento desencadeador". Para esta síndrome. compreende-se que o trabalhador acidentado recuse energicamente retomar o trabalho. tal comportamento é difícil de ser assumido por um operário que. Já mostramos (Capítulo III) que a consciência exata do risco presente durante o trabalho torna impossível a continuidade da tarefa. a partir de então. a virilidade e o desafio ao medo teriam mostrado sua fragilidade através do acidente e de sua impotência para proteger o operário. por ansiedade. somente o sofrimento físico pode ser reconhecido pela organização do trabalho. As pesquisas clínicas e paraclínicas. o trabalhador acidentado deverá. vertigens etc. dissemos anteriormente. recusar-se a retomar o trabalho. uma ferida no couro cabeludo provocada pela queda de uma pedra. A evolução da síndrome subjetiva póstraumática é de uma cronicidade terrível. em particular.

então. Há casos. e não psicoafetivo. constituise uma verdadeira afecção psiquiátrica. servindo de ponto de apoio e de apelo ao processo de medicaJização. seja porque. são concedidas apenas devido ao status reconhecido da doença mental. A única saída é. e não uma estrutura neurótica única. Seu sentido e seu significado não podem ser desvelados pela história passada do sujeito. essa síndrome revela uma resistência excepcional ao tratamento psiquiátrico. embora atinja. É essa a lógica da organização do trabalho. A invalidez e as pensões. que só permite que o sofrimento mental deixe sua máscara no final de sua evolução: a doença mental caracterizada. depois de alguns meses ou alguns anos de evolução. A persistência de cefaléias. A síndrome subjetiva pós-traumática é. ela é reconhecida com pouca freqüência. num círculo vicioso de incompreensões. problemas visuais.considerado uma doença mental. ao contrário. que conseguiram redirecionar a sintomatologia. Dois argumentos vão no mesmo sentido de nossa hipótese etiológica. Mesmo se médicos e psiquiatras costumam atribuir à síndrome subjetiva pós-traumática uma hipotética estrutura neurótica. milhares de trabalhadores acidentados (11). de seu determinismo. residem. de equilíbrio sine matéria é bem adequada. Como regra geral. de reclassificação profissional ou de admissão da condição de invalidez. diferente dos outros domínios da psicopatologia das neuroses. uma "medi-calização" (vet parágrafo precedente) do medo. A impossibilidade de analisar essa síndrome resulta. antes de tudo sociopro-fissional. vertigens. Seja porque a cronicidade de problemas sine matéria não justificaria um tratamento médico. 125 . pré-formada e característica dessa síndrome. Na prática. A investigação psicossomática Os pacientes com síndrome subjetiva pós-traumática mostram que encontramos entre eles uma grande variedade de estruturas mentais. tanto mais modestas quanto mais jovem for o acidentado. é preciso notar que. a única entidade clínica reconhecidamente de origem bem limitada à organização do trabalho. gradualmente. provavelmente. Não conhecemos nenhuma publicação de sucesso psico-terápico nessa patologia. na natureza das condições e da organização do trabalho. anualmente. assim. os doentes são tratados por psiquiatras.

em detrimento de outros mecanismos de defesa não colocados em prática. — Ao contrário. Havíamos então insistido. basicamente. nos efeitos possíveis da inadequação entre a estrutura da personalidade e o conteúdo ergonômico do trabalho. as defesas de caráter e de comportamento são menos flexíveis que as defesas mentais. há o risco de uma acumulação de energia pulsional. Há um ponto fundamental nessa teoria. ou seja. de neurose de comportamento (69) ou de estruturação edeestado-limite(7). — Quando as defesas caracteriais e comportamentais não conseguem conter a gravidade dos conflitos ou a realidade. pode conduzir à desorganização. a maioria das doenças somáticas aparece em 126 . Para caracterizar esse tipo de estrutura mental. mas pelo aparecimento de uma doença somática (67). 71). que não consegue se descarregar. fala-se de neurose de caráter. A desorganização à qual sucumbe o doente não se traduz por sintomas mentais. é preciso saber que o inverso também é possível: a contribuição exagerada de uma defesa comportamental ou de um sistema defensivo caracterial. tais sujeitos não descompensam de um modo neurótico. que tomaram corpo numa teoria conhecida pelo nome de Teoria da Escola Psicossomática de Paris (64. A doença somática No Capítulo II nós apresentamos a observação sobre uma desorganização psicossomática num operário diabético. que deve ser lembrado. nem de um modo psicótico. para que compreendamos os efeitos da organização do trabalho na economia psicossomática: — As doenças somáticas aparecem sobretudo em indivíduos que apresentam uma estrutura mental caracterizada pela pobreza ou ineficácia das defesas mentais (Çalta de vida onírica ou de atividades fantasmáticas. O efeito principal da neutralização das defesas caracteriais e comportamentais é o aparecimento de uma doença somática. Não apresentaremos aqui uma demonstração dessas afirmações. Para ser mais exato. Por causa disso.2. ausência de sintomas psiconeuróticos. — As defesas que não são psiconeuróticas. Quando as defesas caracteriais e comportamentais não conseguem se exercer durante o trabalho. má qualidade do funcionamento mental: ineficácia funcional do pré-consciente) (78). os sujeitos que apresentam esse tipo de estrutura são mais frágeis diante dos acontecimentos da vida e das situações conflituais do que os sujeitos que apresentam uma estrutura neurótica.

realizada por diferentes trabalhadores.66. o trabalhador. a observação demonstra que os diferentes modos operatórios. quando seu funcionamento mental é. ponto de partida de uma doença* somática (25) — pode atingir um sujeito com estrutura neurótica ou psicótica verdadeira. quaisquer que sejam sua origem ou natureza (76. A organização do tempo em fases de> trabalho e em fases de descanso respeita as necessidades da economia psicossomática. são extremamente personalizados. executando de certa maneira uma organização de trabalho de compromisso. 56). 89 bis. 24. espontaneamente. A somatização é encontrada. visam à economia toda do corpo em situação de trabalho. de certo modo. os gestos. escolhendo os instrumentos adequados. as atitudes individuais. as necessidades da personalidade. desordens endócrino-metabólicas. 127 . A livre organização do trabalho é apenas uma estruturação* do modo operatório. no original: arrumação. do T. momentaneamente. numa seqüência de gestos. então. inversamente. os sujeitos portadores de doenças somáticas graves estão relativamente protegidos das neuroses e psicoses) (26). protege o corpo contra uma sobrecarga comporta* Aménagement. quer dizer.). ao longo de sucessivas modificações. Essa situação é bastante rara nesse tipo de sujeito (mostrou-se que os neuróticos e os psicóticos apresentam uma resistência excepcional à doença somática e. em sujeitos com estrutura psiconeurótica. Ao contrário. Isso é válido para todas as doenças. Quando se ocupa de uma tarefa. que aparecem espontaneamente. procura arrumá-la numa ordem. mas também o conteúdo ergonômico. enfim. colocado fora de circuito (65). a postura e os ambientes físicos e químicos que. Não somente o conteúdo significativo (mais restrito quanto mais profunda for a divisão do trabalho). vai se aperfeiçoando em função de critérios que não são nada ao acaso. A elaboração de um modo operatório espontâneo. Basta enfatizar que a organização do trabalho determina o conteúdo da tarefa através da divisão do trabalho. organização (N. A referência a essa teoria facilita compreender como a organização do trabalho age sobre a economia psicossomática. — Mas a somatízaçâo — processo pelo qual um conflito que não consegue encontrar uma resolução menial desencadeia. no corpo. que leva em consideração. onde cada gesto harmoniza-se espontaneamente com as defesas com-portamentais e caracteriais. A mesma tarefa. nem sempre é realizada segundo um mesmo e único protocolo.sujeitos que já apresentavam uma estrutura caractcrial ou compor-tarnental.

em certos casos. químicas e biológicas do trabalho. enfrentam. 'É provável que uma parte não négligenciável da morbidade somática observada entre os trabalhadores tenha sua origem numa organização do trabalho inadequada. neste sentido. Às piores condições de trabalho dos operários desqualificados somam-se não somente uma resposta médico-social de qualidade inferior à das profissões mais favorecidas (noção clássica. Deste modo. Quanto mais rígida for a organização do trabalho. que o trabalhador teria instituído espontaneamente. entrar em choque com o compromisso operatório favorável. Ao inverso da livre estruturação do modo operatório. e a acreditar nos psiquiatras e psicanalistas contemporâneos. A avaliação do papel da organização do trabalho na morbidade operária. aos trabalhadores que apresentam uma estrutura caracterial ou comportamental de pouca flexibilidade. a organização do trabalho rígida e imposta. Talvez tenhamos uma tripla explicação para o aumento do nível de morbidade e para a diminuição da longevidade nas classes sociais desfavorecidas. como um obstáculo à livre estruturação da tarefa. pois — via de regra — quanto mais se desce no status social. na medida em que o conflito entre a economia psicossomática e a organização do trabalho potencializa os efeitos patogênicos das más condições físicas. mais rigidamente determinada é a organização do trabalho que os trabalhadores. A organização do trabalho. não foi até este momento bem elaborada. na medida em que ela pode bloquear os esforços do trabalhador para adequar o modo operatório às necessidades de sua estrutura mental. Mas nossa experiência clínica nos leva a pensar que seu papel não é nem um pouco négligenciável.mental. fixada externamente pelas chefias. antes cie tudo. e possibilita ao sujeito meios de canalizar suas pulsões durante o trabalho. inicialmente. menos ela facilitará estruturações favoráveis à economia psicossomática individual. pode. aparece. A organização do trabalho é causa de uma fragilização somática. A proposição que acaba de ser formulada di/ respeito. mas também os efeitos nefastos da organização do trabalho. Esses casos não são raros. As mesmas observações aplicam-se à diminuição da longevidade dos trabalhadores à medida que se desce na hierarquia socioprofissional. que caracteriza o trabalho artesanal. em relação às duas outras causas. A organização do trabalho. a livre organização do trabalho torna-se uma peça essencial do equilíbrio psicossomático e da satisfação. as ver128 . atualmente). que poderia ser prejudicial. pode comprometer imediatamente o equilíbrio psicossomático. que caracteriza a maior parte das tarefas industriais.

da luta individual contra a organização do trabalho (com a respectiva redução de fadigas). * Grifo da tradução. uma das maiores causas da doença somática é o bloqueio contínuo que a organização do trabalho — e. pelo desemprego. em relação à teoria psicossomática. 129 Jt . lesado em suas potencialidades neuróticas e obrigado a funcionar como uma estrutura caracterial ou comportamental. novamente. na situação descrita. o sujeito retomasse contato com o próprio corpo. é preciso que a organização do trabalho facilite o livre jogo do funcionamento mental. o primeiro passo para uma desorganização psicossomática experimental. e aí está um dos pontos mais interessantes de seu livro. seu posto de trabalho na indústria têxtil deixa um pouco de espaço e de tempo para a vida fantasmática. Entretanto. Vimos. preocupações. artificialmente. Efetiva-se assim. O que acontece ao sujeito que apresenta uma estrutura neurótica autêntica. * "Fantasmas" no sentido psicanalítico (N. aumentando as estruturas caracteriaís e comportamentais (64). Ainda assim. na situação de contradição que o opõe à organização do trabalho? Parece-nos que as aptidões ligadas à mentalização e à produção de fantasmas* constituem a melhor válvula de escape à tensão imposta à economia psicossomática. Em nossa opinião. com Boyadjian (9) que. o sistema taylorista — pode provocar no funcionamento mental. seus desejos. do T. as doenças somáticas são extraordinariamente mais raras do que em sujeitos com menor capacidade de mentalizar. o autor mostra os efeitos imediatos do desemprego parcial (imposto pelas dificuldades econômicas da empresa) sobre a retomada de um trabalho mental de uma outra envergadura: tudo acontece como se. investimentos afetivos. de fazer projetos. em especial. em situações semelhantes. em particular. Mesmo não sendo precisamente ortodoxa.). Nesse sentido. de certo modo. sua caricatura no sistema taylorista e na produção por peças é capaz de neutralizar completamente a vida mental durante o trabalho*.dadeiras estruturas neuróticas tenderiam a tornar-se muito raras. pelo choque com a organização do trabalho. o trabalhador encontra-se. Numerosos casos clínicos comprovam que. sendo então capaz. parcialmente liberado. Nós propomos a seguinte hipótese: a organização do trabalho e. essa proposição parece ter sido pressentida de longe por alguns autores (34).

os operários não reivindicam o direito à ociosidade permanente. para sua energia pulsional. A fadiga é simultaneamente psíquica e somática. ao mesmo tempo. nesta perspectiva. Por ser uma vivência subjetiva. A fadiga pode encontrar sua origem também na inatividade. não há nada mais surpreendente do que observar essa vivência subjetiva tornar-se uma queixa somática. em uma doença somática. O que pode parecer estranho é que não corresponde a um esforço muito grande dos órgãos do corpo. falsa e verdadeira. É psíquica porque corresponde a um obstáculo para o psicossomático.concreta (12. cuja expressão é específica e distingue-se da insatisfação em relação ao conteúdo significativo da tarefa. Quando a organização do trabalho entra em choque com a economia psicossomática. aparece uma vivência de insatisfação. Compreendemos melhor. porque à fadiga não corresponde sempre uma excessiva carga física de trabalho. já mencionada no Capitulo II. uma repressão — inibição da atividade espontânea. 51). Essa afirmação é. Contrariamente a certas afirmações. pela fadiga. Entretanto. Essa vivência exprime-se. sobretudo. e também por ser uma vivência subjetiva. Vários autores já debateram a fisiopatologia dessa fadiga misteriosa. na qual a redução da atividade tinha provocado o repouso forçado de uma seção inteira. na realidade. A fadiga não provém somente da sobrecarga de um órgão ou de um aparelho. o trabalhador deve desenvolver todos os recursos de que dispõe para compensar o estreitamento — pela organização do trabalho — de todos os canais comportamentais. quase uma simulação. da fisiologia e das experiências clássicas sobre energética e esforço muscular. caracteriais e mentais. Primeiro. mas a uma repressão da atividade espontânea desses órgãos (motores e sensoriais).Clinicamente. Na realidade. Mas é também. ou seja. somática porque sua origem está claramente no corpo. de se ter um desempenho físico excessivo para justificar a sensação de fadiga. o fracasso do funcionamento mental e a inadequação da organização do trabalho (conteúdo ergonômico) às necessidades da economia psicossomática não se traduzem. vários autores desqualificam a fadiga como se ela fosse "psicogênica". não tem prazer nenhum com a inatividade duradoura. Um exemplo caricatural foi-nos dado por uma empresa. as secretárias I3u . A maioria das pessoas. que não corresponde a nenhuma fisiopatologia . mesmo não havendo uma doença autêntica. ao contrário. Essa inatividade é fatigante porque não é um simples repouso mas. Talvez fosse mais correto dizer mesmo que não há ainda uma doença somática. a exemplo das crianças. e principalmente. está incompleta. Não há nenhuma necessidade. Tal concepção é fortemente influenciada pela herança histórica da biologia. imediatamente. errada. sobretudo. mas.

qual tinha sido a data da modificação do ritmo de trabalho. aparentemente. O efeito principal. na região central da França.. retrospectivamente. O trabalho de diferentes pesquisas e estudos realizados mostrou que as condições de trabalho eram praticamente as mesmas. Ao mesmo tempo.. A fadiga dos operários traduziu-se de outra maneira. pelo menos do ponto de vista dos tóxicos. pelo menos inicialmente. que a fadiga e a difícil adaptação a um ritmo de produção elevado provocaram perturbações passageiras nas defesas do organismo.estavam submetidas à disciplina dos horáros e ao controle de uma chefia. seis meses depois. no interior. ocorreu uma indiscutível recrudescência de intoxicação por chumbo. Esse poderia ser um caso isolado. havendo sobrecarga. um outro fator susceptível de explicar essa recrudescência da intoxicação. além da diferença dos métodos de trabalho... os operários não reagiram clara e visivelmente ao esforço exigido. foi possível constatar.. transcrevemos trechos de um artigo que apareceu há cerca de vinte anos (31): "Havíamos feito uma organização dos ritmos de trabalho e de fabricação que correspondia a uma produção muito mais elevada.." 131 ÈÍ . A fadiga física não se manifestou de maneira muito clara. Mas o problema apareceu novamente numa fábrica da mesma sociedade. pelos resultados anormais do exame de sangue. Mas pudemos constatar que. "licenças de trabalho"! Para ilustrar nossa proposição relativa aos possíveis efeitos da organização do trabalho sobre a economia psicossomática. então. para um bom número de operários. foi-lhes proibido terem atividades não-profis-sionais (proibição de tricotar. resultam* dessa "organização do trabalho" foi o aparecimento de uma fadiga considerável que levou a .). onde os métodos de trabalho eram diferentes e comportavam uma certa margem de liberdade na produção. fazer palavras cruzadas etc). Estudei atentamente a questão. À aplicação dos mesmos métodos de produtividade seguiu-se uma recrudescência nítida de sinais sangüíneos ligados à intoxicação por chumbo Essas observações parecem demonstrar que se. Nas fichas do pessoal pertencente a novas linhas de fabri-ção. Mas a única modificação ocorrida relacionava-se ao ritmo de rabalho. Podemos supor. Durante alguns meses. por um simples olhar. a fadiga caracterizou-se por uma predisposição maior à intoxicação por chumbo ou por uma eliminação menos eficaz dos tóxicos que tinham absorvido (. para saber se não havia... quase nenhum trabalho lhes foi dado. ue era até fácil situar.

a única mudança fora a implantação de uma linha de produção com seu conjunto de ritmos de trabalho. Desse modo. Em outras palavras. as modificações das condições de trabalho. de um aumento da poluição pelo chumbo.Na fábrica de acumuladores de que trata o artigo em questão. pelos operários. como bem enfatiza o autor. 132 . O aumento de casos de saturnismo e a gravidade de intoxicação por chumbo não decorria. a introdução da organização científica do trabalho nessa fábrica. tendo como ponto de impacto o funcionamento mental dos trabalhadores. Como explicar esse fenômeno. Exceto. sem evocar os efeitos da mudança da organização do trabalho sobre a economia psicossomâtica? Podemos supor que a passagem dos métodos de trabalho que deixavam "certa margem de liberdade na produção" para uma organização rígida (sistema taylorista) teve como conseqüência o bloqueio da "livre estruturação do modo operatório". de cadência e de fragmentação do trabalho. em função de necessidades de sua economia psicossomâtica. desorganizou seus sistemas defensivos espontâneos e favoreceu o aparecimento de doenças somáticas. o aumento da morbidade em questão não poderia ser atribuída a causas físiço-químicas. nessas fábricas.

As tarefas perigosas. havíamos extraído uma hipótese em torno da qual esse livro foi construído: a organização do trabalho exerce. Ela é de certa forma uma porta de entrada para a doença. A forma de que se reveste o sofrimento varia com o tipo de organização do trabalho. já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais conforme às suas necessidades j fisiológicas e a seus desejos psicológicos — isso é. o sofrimento só pode ser revelado 133 . Contra a angústia do trabalho. no trabalho.Conclusões Da abordagem histórica. em grande parte. portadora de projetos. e uma organização do trabalho que os ignora. começa quando o homem. uma ação específica. emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual. de maneira que o sofrimento não é imediatamente identificável. e uma encruzilhada que se abre para as descompensações mentais ou doenças somáticas. sobre o homem. quando a relação\ homem-trabalho é bloqueada. O trabalho repetitivo cria a insatisfação. de esperanças e de desejos. assim como contra a insatisfação. dão origem a um medo específico. Em certas condições. Esse sofrimento. elucidadas. de natureza mental. executadas na maioria das vezes em grupo. em virtude de regras que foram. cujas conseqüências não se limitam a um desgosto particular. cujo impacto é o aparelho psíquico. Assim disfarçado ou mascarado. os operários elaboram estratégias defensivas.

os vírus e as condições climáticas. A vida psíquica é. de acordo com as necessidades do trabalhador considerado. motoras ou psicossensoriais da tarefa estão. nas tarefas taylorizadas. simplesmente justaposto à musculatura. mesmo na ausência de nocividade dos ambientes de trabalho1 (poj exemplo. Quando a relação com a organização do trabalho é favorável. Pode até acontecer que ele confira ao organismo uma resistência maior contra a fadiga e a doença. é rara em comparação com a maioria das tarefas. contra os tóxicos industriais. também. ao invés de ser conflituosa. O ponto de vista da economia psicossomática aparece. e há casos em que o trabalho é. como instrumento crucial da investigação em psicopatologia do trabalho. condições físicas. a bem dizer. na construção civil ou nas indústrias químicas. desse modo. de tal maneira que o simples exercício da tarefa está na origem de uma descarga e de um "prazer de funcionar". especificamente. apoiado por uma análise precisa da psicodinâmica da relação homem/ trabalho. rtalvez. favorável ao equilíbrio mental e à saúde do corpo. /34 . Se a violência da organização do trabalho pode. — O conteúdo do trabalho é fonte de uma satisfação sublimató-ria: situação que. é porque o aparelho mental não é um "compartimento" do organismo. de "síndrome subjetiva da fadiga nervosa" ou de "síndrome de contaminação pelos comportamentos condicionados". dissemos nós? Mas a relação entre organização do trabalho e aparelho mental não é tão unívoca. é porque pelo menos uma das duas condições seguintes é realizada: — As exigências intelectuais. ao contrário. um ponto de vista detalhado. encontrada em circunstâncias privilegiadas. químicas e biológicas de trabalho. aos órgãos sensoriais e às vísceras. O sofrimento do trabalhador dá lugar a uma semiologia que é chamada de "ideologia defensiva de profissão". Nesse sentido. um patamar de integração do funcionamento dos diferentes órgãos. Sofrimento e doença. que constitui de certa forma sua sintomatologia. nos empregos de escritório). isso impõe. criar doenças somáticas e não apenas psíquicas. Uma boa adequação entre a organização do trabalho e a estrutura mental do operário é possível. uma hipótese utilizável (26 a). onde a con1 Isto é.através de uma capa própria a cada profissão. Sua desestruturação reper-curte sobre a saúde física e sobre a saúde mental. a noção de carga psíquica de trabalho é. em cada caso.

E** Pode. para alguns. na realidade. equivalente (por exemplo. Sh S° Se encontram nas Profissões de artesão. toda tarefa é suscetível de servir. Basta pensarmos no trabalho dos enfermeiros nos hospitais por exemplo.da qual o sistema laylor e a caricatura — compromete as possibilidades ao mesmo dTtarefT QUe dimmUÍ 3 eSC°lha C a margem deixada ao livre arranJ° Aliás. rígida e parcelizante. de suporte"' num processo de sublimação. Exigências materiais assim como salariais. que grandes dificuldades concretas do trabalho sejam facilmente aceitas. essa evolução é sensível. Parece que o sofrimento mental que tentamos mostrar não poder ser considerado apenas como uma conseqüência deplorável ou um epilenômeno lamentável. mesmo em profissões até agora poupadas. sobre o qual se exerce a chantagem do afastamento e aa^substituição pelas centenas de colegas sem trabalho. determinam os horários de trabalho. Nao ha nada de espantoso. então. entre cs pilotos de caça) e pode oferecer uma ocasião única de sublimação. como a todo o mundo. endócrinos e psicoafe-tivos segumdo para isso sua vivência subjetiva que. nesse quadro. ditam as seqüências a serem suprimidas e a reiazer etc. pois seria falso imaginar que. Eles os fazem sofrer. Essa ul ima formula e. atravessadas progressivamente por uma organização do trabalho cada vez mais auto-ntana. nas pro-L I entreí0S resP°nsáveis de alto nível: trabalho livree organizado ou deliberadamente escolhido e conquistado. TnH Tnte Um eXCdente guia na Protecão da homeostasia. ou nas condições espantosas do trabalho de criação na televisão. podemos mostrar. censuram a montagem do filme. para a maioria dessas categorias. onde as decisões administrativas impõem a escolha dos atores e do argumento. São testemunhas disso os artistas e os pesquisadores.. em relação às quais a resistência cresce. modificar â sTdades nn ASCUHtrabalhO ?°nf°rme SCU deseJ° ou suas n^-menfe Vnm * CaS°S> de P°de até fazê"la variar' espontaneaZ™hSCUS PrOP"OS ritm°s bioIóg'^s. por exemplo. Em certos casos.em nartt H° ü ' d° ritm° de trabalho * do modo operatório é. oLS^T 3 a° ffalhador. os sacrifícios materiais sejam fáceis. a ponto de o diretor não ser mais do que um excecutante como os outros. mas o prazer do trabalho lhes permite uma melhor defesa. ele se revela propício à 135 . A pnon. que esperam Esses fatos sugerem uma certa reserva e suscitam um pessimismo em relação ao futuro da maioria das profissões. Mas é preciso reconhecer que a tendençia geral a divisão crescente do trabalho .

descrito por Foucault (37-38). a exploração passa também pela profundeza do aparelho mental. Na maioria das tarefas. pois. Assim. e este é. :~ Com efeito. existe uma vertente do trabalho humano ignorada até agora. um dos aspectos mais insólitos da pesquisa em psicopatologia do trabalho. através da organização do trabalho. a ansiedade e a insatisfação. normalmente. Não tanto o sofrimento em si. exatamente. da qual dependeria a submissão do corpo. de uma etapa primordial. a "carga psíquica" de trabalho não seria apenas um efeito acessório do trabalho. por exemplo. duráveis ou reversíveis segundo o caso. De maneira que o sofrimento pode. cujas peças podem ser desmontadas. a dor permanece desconhecida não apenas dos observadores. Pois sem 136 . ou. A submissão dos corpos só seria possível por meio de uma ação específica sobre os processos psíquicos. somos levados a evidenciar que. provavelmente. mas também dos próprios trabalhadores). A ponto de o sofrimento. que se opõe ao saber-poder. desse modo. está submetido a seu chefe natural. tornar-se um instrumento de exploração e de rendimento. no caso das telefonistas. se constróem sistemas defensivos. que permite adivinhai que as defesas escondem alguma coisa. etapa fundamental. mas os mecanismos de defesa empregados contra ele. pois ela é de natureza a fazer reconsiderar as teorias econômicas da força de trabalho. fazem parte integrante da carga de trabalho. mas resultaria. contribui para a aceleração das cadências. o sofrimento não é reconhecido. Se não fosse sua especificidade. Assim. na maior parte dos casos. cujos efeitos. etapa cujo sucesso seria assegurado pela própria organização do trabalho. Contra o sofrimento. como a ansiedade. em certas condições. Vimos na construção civii. mesmo as mais desqualificadas. A desapropriação do corpo só é possível graças a uma operação específica sobre a estrutura da personalidade. pois ele. esquivar-se à verdade (invisibilidade cheia de conseqüências. por intermédio de um sistema sutil. Se a função primeira dos sintomas de defesa é aliviar o sofrimento.produtividade. elas seriam totalmente opacas. chamado "personalidade". Forma caricatural do saber-vivência. uma grande importância. dissemos. servem para a manutenção da produtividade. Essa observação tem. por um efeito paradoxal. parece que a exploração do corpo passa sempre e necessariamente por uma neutralização prévia da vida mental. como as defesas coletivas da profissão. Tornar dócil um corpo não é coisa simples. certamente. ao lado dos aspectos clássicos da exploração da força física. Apesar de vivenciado. seu poder de ocultação volta-se contra seus criadores.

e mais durante a semana do que perto do fim de semana. ele acaba por usar todos os seus esforços para tolerar esse enxerto contra sua natureza. da qual falamos.conhecer a forma e o conteúdo desse sofrimento. traz de volta a questão. mais fácil no fim do ano do que após as férias. Se o conceito de alienação não for pertinente a nível da análise econômica. Alienação no sentido em que Marx a compreendia nos manuscritos de 1844. Nesse caso. ao invés de fazer triunfar sua própria vontade. A alienação seria. da alienação. em psicopatologia do trabalho. Assim. a alienação r jrre o risco — a experiência histórica o mostra — de ser transposta tal qual. no caso do trabalho. a alienação é mais fácil de ser obtida com os operários cansados. as escratégias defensivaá. Podemos também nos perguntar se o desmantelamento dos mecanismos da alienação não é uma condição 137 . que passa pelas ideologias defensivas. ■sto é. sem transtorná-la. num nível menos medíocre. trata-se de uma alienação. Podemos nos perguntar em que medida a prevalência concedida à mudança das relações de produção arrisca passar por cima da alienação. Se deve haver uma luta por novas relações sociais. no fim. toma a forma de um conflito onde o desejo do trabalhador capitulou frente à injunção patronal. suas necessidades e sua saúde. da alienação pela organização do trabalho. embora insuficiente. _J A fadiga. Vencido pela vontade contida na organização do trabalho. talvez. tão controvertida. em razão da sua própria eficácia em relação ao equilíbrio mental. a tolerância graduada segundo os trabalhadores de uma organização do trabalho. a propósito da sujeição do corpo. e difícil lutar eficazmente contra ele. a etapa necessária e primeira. isso não quer dizer que ele não seja válido no nível subjetivo e vivido. o esgotamento do corpo (mesmo sem considerar as fortes exigências físicas provenientes das regras da economia psicos-somática) são uma peça necessária. é a fadiga que assegura sua perenidade. de modo que o trabalhador acaba por confundir com seus desejos próprios a injunção organizacional que substituiu seu livre arbítrio. No fim. que vai contra seus desejos. Por não ter sido objeto de um trabalho específico. de substituição da vontade própria do Sujeito pela do Objeto. A investigação que propomos. o trabalhador se sente habitado pelo estranho. A organização do trabalho aí aparece como veículo da vontade de um outro. Alienação no sentido psiquiátrico também. Instalado o circuito. A alienação é uma verdade clínica que. espécie de chave. opõem-se a uma evolução que poderia levar a uma estabilidade. ela deveria passar por um processo de desalie-lação. a tal ponto poderosa que. necessária para fechar o cadeado do círculo vicioso.

De outra ordem é a tradicional desconfiança para com as questões da vida psíquica. Isso quer dizer necessidade de uma interpretação. o recurso à palavra ou. Coloca-se aqui a questão do esquema interpretativo. 13?. seguido pela psiquiatria contemporânea. mesmo na ausência de mudança social. Qual projeto nâo deixaria um lugar conseqüente para essa discussão? Que felicidade seria essa. não objetivo) a libertação da vida mental? E. Segredo que. para um projeto de transformação social. embora insuficiente. como se diz hoje em dia. É verdade que desde o movimento dos alienístas. em estado de segredo selado na vivência. talvez. requer. O projeto revolucionário nasceu numa época em que a relação saúde mental-trabalho era invisível. louvada por uma sociedade que não teria por fundamento (fundamento. no século XIX.necessária. a ser decodificada. à positividade da História a revelação. Mas as interrogações sobre esse tema são redibitoriamente suspeitas? A exemplo de André Theret (96 bis). leva a considerar esta última como lugar privilegiado do drama onde se atualiza o conflito entre o Trabalhador e o Podfer. de questões novas e fecundas. em relação a um projeto que não pode permanecer sem evoluir. O terreno da psique sempre foi ocupado por especialistas denunciados por uma posição ambígua na evolução social. libertação de seu exercício no trabalho e na atividade produtiva? Questões que talvez tenham sido negligenciadas por razões históricas. a psicanálise e a psicos-sociologia anglo-saxônia. De resto. e â modalidade particular de existência do saber. É na palavra. Nós ressaltamos várias vezes a função mascaradora dos sistemas defensivos contra o sofrimento. Segredo que tem a particularidade de só existir na vivência coletiva do trabalho e de dissolver-se assim que há interesse pela vivência individual. em comparação à prioridade que era preciso dar à análise da exploração do corpo físico. o discurso operário. Nós usamos um esquema de interpretação que é a própria organização do trabalho. deformada pelas estratégias defensivas específicas. e através dos sistemas defensivos. a psicanálise não poderia ser de nenhuma valia. como para toda vivência. antes de mais nada. para ser abordado. por meio dos avatares que ela sofre na sua interiorização coletiva. a passagem de um conteúdo manifesio a um conteúdo latente. . Tratando-se de uma vivência coletiva. que é preciso ler o sofrimento operário. Deve-se. admitir que a análise da exploração não exclui a da vivência operária. os partidários da Organização do Trabalho atual tiveram um certo avanço. é um método que não pertence propriamente à psicopatologia do trabalho.

no acesso a um trabalho mais satisfatório. criar novos homens. "A liberdade não se dá" dizem "ela se conquista". precisamente.\ interpretação limilada ao conteúdo e não a uma transferência coloca a psicopatologia do trabalho nos antípodas da psicossocio-logia. que pode nascer uma evolução da relação saúde mental-trabalho. deverá ser julgado por sua capacidade de levar em conta a relação conflituosa entre a organização do trabalho e o aparelho mental. Assim. é preciso compreender que as resistências individuais ao prazer acompanham resistências coletivas. Em outras palavras. a questão é saber que tipo de homens a sociedade fabrica através da organização do trabalho. de transformação da organização do trabalho e de dissolução dos sistemas defensivos. as ideologias coletivas de profissão. Não apenas de levá-la em conta. mas pelos rneios que ele usa para fazê-la evoluir em direção a um estado de menor tensão. E de um duplo movimento. absolutamente. Qualquer que seja o regime político considerado. no centro das quais se encontram. seja sobretudo a evolução a portadora de esperança. É provável que não exista solução ideal e que. O mesmo acontece com relação à organização do trabalho. na medida em que ele pretende superar os obstáculos socioeconômicos à "felicidade". mas encontrar soluções que permitiriam pôr fim à desestruturação de um certo número deles pelo trabalho. aqui como em tudo mais. estamos talvez em condições de examinar o que é obstáculo não à felicidade coletiva — noção suspeita — mas de examinar o que constitui um obstáculo coletivamente experimentado por cada grupo de trabalhadores. Entretanto. à qual se opõe ponto por ponto. Considerando o lugar dedicado ao trabalho na existência. 139 il . o problema não é.

i .

comissão de fábrica ou C.T.C. (N.G. O material da pesquisa 5. uma pesquisa deve basear-se numa solicitação. o grupo homogêneo e o coletivo 4. A observação clínica 6.H. no original. ou Comissão de Higiene.) 141 .T. Metodologia e teoria em psicopatologia do trabalho 1. Segurança e Condições de Trabalho. Posteriormente. A solicitação. Validação e refutação dos dados 8. Em outras palavras. que tanto pode vir de um grupo não institucionalizado de trabalhadores. de trabalhadores inicialmente isolados. do T. A pesquisa inicial 2.S.S. não aceitamos nenhuma solicitação que não seja formulada pelos próprios interessados.H. voltaremos à questão de como trabalhar a solicitação formulada. vamos nos ater a este ponto: uma solicitação só pode ser considerada se for proveniente dos próprios trabalhadores. * C. A pesquisa inicial Para poder começar.* — Comissão de Higiene.S. Segurança e Condições de Trabalho. ou de um grupo sindical.H.ANEXO: A Metodologia em Psicopatologia do Trabalho Uma pesquisa em Psicopatologia do Trabalho desenrola-se em várias fases: 1. em substituição às antigas Comissões de Higiene e Segurança — C. A pesquisa propriamente dita 3. No momento. implantada na França em julho de 1985. O método de interpretação 7.

poder visitá-la em funcionamento e ter uma representação relativamente precisa das seções. isto é. isto é. e ter à disposição uma representação. pelos trabalhadores. cerca de vários meses. é necessário definir quem participará da pesquisa. das condições ambientais do sofrimento. por exemplo. tendo por guia um trabalhador que participe da pesquisa. as inovações tecnológicas etc. Em seguida. Pode-se fazer uma visita oficial organizada pelo empregador.2. Teremos diferenças significativas entre as duas visitas: enquanto que a visita patronal ressalta sobretudo o aspecto técnico. Na verdade. ao perigo. quantos são e se estão disposto a acompanhai o trabalho até o fim. é preciso preparar a pesquisa. de uma investigação ergonômica clássica sobre a análise do trabalho. o ambiente sensorial tem um papel importante na expressão do sofrimento e do prazer no trabalho. Geralmente. e pelo menos um deles não é psicopatologista. em imagens.. Vários objetivos devem ser atingidos durante esta fase de preparação da pesquisa: 1. Ter acesso à empresa. pois a pesquisa fundamenta-se num coletivo constituído ad hoc. mas é importante também poder ter acesso aos locais de trabalho. podendo ser sociólogo. econômicos e científicos. Reunir informações sobre o processo de trabalho e sua transformação ou mutações. devemos precisar quem participará. não deixa de ser uma etapa interessante.1. do ponto de vista humano. de que também necessitaremos. começamos uma abordagem da organização do trabalho. a produtividade. depois do trabalho de documentação e da visita do local. 1. ergonomista ou economista. 1. há dois ou três pesquisadores. Entendemos por esta não aquela elaborada pelo serviço de organização e métodos. como é o objetivo. das máquinas e dos locais correspondentes aos locais de trabalho dos operadores pesquisados. a segurança. como pesquisador. Primeiro. a visita com os operadores enfatiza as questões relativas ao esforço. o que geralmente toma bastante tempo. às exigências do trabalho. Essas são questões importantes. o que se passa. O que se visa é obter a base concreta necessária para compreender do que falam os trabalhadores que participam da pesquisa. Isto pressupõe o acesso a documentos técnicos. e não em indivíduos tomados isoladamente.Assim que a solicitação é recebida.3. mas principalmente a que coloca em relevo o aspecto conflitual entre traba142 . Num terceiro momento. O objetivo dessa fase de documentação sobre o processo de trabalho e das visitas não é chegar a uma descrição objetiva da relação homem/trabalho.

Isto também permite esclarecer. 2. Desse modo. A pesquisa propriamente dita Desenrola-se num local identificado com o trabalho: a sala da comissão de fábrica. de outro. e. o comentário verbal feito pelos trabalhadores a propósito do conteúdo de sua solicitação. o Sindicato. anunciando sua formação e área de trabalho: psiquiatra ou psicanalista. ou psico-patologista. então. um grupo de trabalhadores que está a par do trabalho inicial e do objetivo da pesquisa. que não estamos basica143 . o que pensam das insônias e dos problemas relativos ao sono. Depois de haver formulado o tema aos trabalhadores. qual é sua opinião sobre as circunstâncias ligadas aos trabalhadores que foram hospitalizados como pacientes psiquiátricos. por um lado.. pelos trabalhadores. o que pensam dessas doenças profissionais? Etc. e situações conflitantes para entrarmos numa dimensão dinâmica dessas estórias e comprendermos bem as nego ciações concretas sobre o» ritmos de trabalho. do prazer associados ao trabalho. raramente. insistimos. as divisões e contradições entre os trabalhadores ou grupos sindicais etc. — O tema da pesquisa também é claramente enunciado: trata-se de estudar quais relações podem eventualmente se estabelecer entre a organização do trabalho. e o sofrimento psíquico. a hierarquia. qual a interpretação desse consumo maciço de aspirina. E importante conhecermos a história das lutas. Nós partimos sempre de uma reformulação do que nos foi colocado na solicitação do contexto. de produção. que geralmente levanta questões de sofrimento. as solidariedades explícuas.lhadores e hierarquia. pedimo-lhes para darem suas explicações e interpretações dos fatos que provocaram a solicitação: qual é sua opinião sobre tais suicídios. o restaurante da empresa. desde o início. greves. ou seja. trabalhando em geral com doentes numa prática clínica hospitalar. incidentes. A pesquisa reúne. mas participando da pesquisa enquanto pesquisador da possível relação entre o trabalho e sofrimento não como psiquiatra clínico ou especialista. desde o começo.. — Os pesquisadores apresentam-se claramente. o salão da associação cultural que reúne habitualmente os trabalhadores etc. o que pensam de tal problema de intoxicação alcoólica. a supervisão. etc. sobre o que nos interessa em psicopatologia do trabalho.

se novamente não interessa ao grupo. Nesse caso. de uma discussão contraditória entre os participantes do grupo de trabalhadores. e as características da organização do trabalho.mente preocupados com a objetividade dos fatos. todo o trabalho da pesquisa trata justamente de identificar as modificações trazidas sucessivamente ao comentário inicial. então. retome essa hipótese abandonada pelo caminho. inicialmente.1. Nada impede que o pesquisador. certificar-se de que o tema não é espontaneamente retomado pelo grupo. Nesse sentido. O trabalho dos pesquisadores confirma-se não tanto pelo reconhecimento da hipótese ou da interpretação. anedotas ou comentários novos que ampliam as idéias e encadeiam-se à interpretação — associam-se a esta-. novos temas de discussão. sobretudo por dois tipos de fatos: 2. Mas retoma-a num momento posterior. pouco importa quem seja o locutor. A técnica consiste então em detectar esse contraste ou paradoxo. contribuindo para a elaboração coletiva do tema. do que é relatado. mas. o que é importante é o que é objeto de um consenso ou pelo menos. Em seguida. o que é essencial detectar. inspiramo-nos na psicanálise. pois é preciso. pelo grupo.2. às vezes muito tempo depois. A interpretação correta desencadeia material novo. que preconiza o interesse acima de tudo pelo que é dito pelo paciente. pesquisadores — como especialmente convincentes. Pode ser que certos comentários ou hipóteses explicativas propostas por um dos participantes possa parecer-nos — a nos. ou. e que o grupo não as percebe. e vemos que não são retomados ou discutidos pelo grupo. 144 . Os pesquisadores efetuam um esforço especial. ao invés de provocar uma diminuição ou parada da discussão — o que ocorre quando se trata de uma interpretação inoportuna. é possível propô-las como uma interpretação. Se identificamos tais relações. ou seja. À medida que se desenrola o estudo. Na verdade. 2. para ver se desta vez será objeto de discussão e de que modo. as expressões positivas ou os silêncios claramente respeitados quanto a certos temas. é possível reformulá-lo e devolvê-lo ao grupo. inadequada ou falsa. para detectar as relações existentes entre as expressões de sofrimento (ou de prazer). investigamos particularmente o comentário formulado pelo grupo de trabalho. geralmente deturpada. apesar da tentativa feita pelos pesquisadores. durante a pesquisa. mais do que pela realidade. num segundo momento. novamente submetida à crítica do grupo. A interpretação correta mantém e relança à discussão. retomando-a e modificando-a.

z3 f--:r em relação ao objeto da pesquisa as interpretações que fizessem 145 .paralisaria o J0"' "1ade"uada.

E. 3. O que se solicita? Essa questão diz respeito ao conteúdo da solicitação. em termos de posições ou de posturas diferenciadas. que têm geralmente um valor heurístico em relação aos sistemas defensivos. é muito interessante ressaltar e respeitar essas contradições. Para terminar. poderemos constatar que quase não há inconveniente quando. a origem da solicitação deveria ser bem esclarecida desde o início. o grupo homogêneo e o coletivo Em psicopatologia do trabalho. onde podemos fazer uma analise a partir dos documentos que pertencem a uma pessoa que eventualmente até mesmo ignora como sua correspondência está sendo tratada.1. Quem formula a solicitação? Repetimos aqui que a solicitação só é aceita se a pesquisa for sobre aqueles que a solicitam. não sobre outro grupo. a análise da solicitação constitui uma fase importante da pesquisa. durante a pesquisa. seja devido aos turnos de trabalho ou às urgências do mesmo. Nem sempre é possível dar continuidade ao que é pedido. na realidade. acrescentarei que as posições contraditórias que aparecem entre os trabalhadores. por exemplo. ao contrário. Ao contrário. não podemos fazer o que se faz. não atiapalham e nem são combatidas pelos pesquisadores. as "viabilidades" desta. Em psicopatologia do trabalho. Por exemplo. Já disse que a fonte. em grafologia. A solicitação. as substituições ocasionais do pessoal não prejudicam o andamento da pesquisa. 3. de uma sessão à outra. para reformulá-las em seguida.eclodir as problemáticas individuais. se conseguimos nos manter no plano das defesas coletivas. em relação ao consumo do álcool nos canteiros de obras ou em certas oficinas de fabricação de produtos em série não é raro registrarem-se posições contraditórias. seja porque a 146 . quando se pede aos pesquisadores para provar que o uso de bebidas alcoólicas não é prejudicial aos trabalhadores cujas tarefas decorrem em condições de 'emperatura elevada —.2. por condicionar. Em resumo. ou seja: 3. varia o grupo que participa da pesquisa. que mostram que existem coletivos de defesa estruturados segundo modalidades diferentes no interior de uma mesma empresa ou seção de trabalho. seja porque o problema está formulado em termos inaceitáveis e não negociáveis — por exemplo.

O terceiro aspecto importante do trabalho sobre a solicitação recebida concerne à explicitação dos riscos que estão implicados na pesquisa. que a solicitação se baseie em uma resposta prática: por exemplo. enquanto que as soluções concretas pertencem aos próprios trabalhadores. disfarçada. ou de doentes trabalhando no setor de pessoal. nem a um psiquiatra. Em psicopatologia do trabalho. Para que a pesquisa seja viável. a solicitação não é dirigida a um psicanalista. deve-se manter o ponto de interrogação.4. tentativas repetidas de suicídio etc. de antemão.. a de encontrar uma solução concreta para os problemas decorrentes de certos comportamentos aberrantes em relação ao álcool. e que são três: — pode ser que nada encontremos. necessariamente. mas às más condições de trabalho.tais solicitações concretas "com caráter terapêutico" não podem ser aceitas. muito menos a um militante ou simpatizante. quer dizer. o que não quer dizer. ou de medicamentos e seus usos.. De maneira também a afastar toda conivência ou complacência em relação ao ponto de vista oficial ou sindical daqueles que formulam a solicitação. Enfim. que não haja nada a ser pesquisado. Dirige-se a um pesquisador. pois nosso trabalho em psicopatologia do trabalho limita-se à análise das situações. Ao dirigirem-se a pesquisadores e não a simpatizantes.3. crises de nervos. Ao "o que?" da solicitação.resposta já é dada de antemão aos problemas colocados pela solicitação — exemplo demonstrai que os suicídios não se devem a problemáticas individuais. e qualquer pedido do mesmo tipo que venha a surgir no desenrolar da pesquisa. há os riscos de colocarmos o dedo em aspectos desagradáveis. de maneira a afastar qualquer solicitação pessoal de tratamento. é importante podermos estar de acordo com os interlocutores no fato de que a relação de causalidade ou da efetiva carga psicopatogênica de uma tarefa possam ser formuladas em termos de hipótese. A quem a solicitação é dirigida? Esse é o quarto ponto relativo à solicitação. até mesmo desestabilizadores. — ao se efetuar esse tipo de pesquisa. ou de problemas do sono. 3. os trabalhadores devem saber. que poderiam ter efeitos posteriores (por exemplo. com relação às práticas coletivas e aos mecanismos de "adaptação" à situação de trabalho. ao medo. mas outras coisas. à violência. 3. — pode ser que não encontremos nada do que esperávamos.. que o rigor do trabalho 147 . à segurança. desmobilização em caso de luta). é necessário que este ponto esteja bem claro anteriormente.

Nesse sentido. è necessário reunir condições que. De fato. concerne à definição do que constitui o material da pesquisa. Resta o como da pesquisa. A maior limitação. 4. A independência do pesquisador é uma condição especifica do trabalho de pesquisa. Em todo caso. não se trata de uma obra beneficente e isto deve ser dito claramente. O material é o resultado de uma operação efetuada naquilo que foi antes discutido pelo coletivo. relativa a esse aspecto metodológico. ou seja. sobre a solicitação. mas que. Vemos que a solicitação exige um trabalho específico de expli-citação. Em relação às pesquisas clássicas. seja através de um contrato de pesquisa ou pela posição de pesquisador. uma parte das questões que serão objeto da pesquisa já estarão esclarecidas na fase incial da pesquisa. sem dúvida. as questões materiais: os pesquisadores são pagos por esse trabalho. O material da pesquisa Na metodologia da psicopatologia do trabalho. 148 . a impossibilidade de se efetuar pesquisas sobre qualquer grupo-controle (que não solicitaria nada). a pesquisa é sempre uma "pesquisa-ação". um coletivo que se constitua em função das necessidades da pesquisa. vemos que o "grupo homogêneo" não é definido pelas categorias objetivas (idade. Esta operação trata do que foi dito. pela qual são remunerados. que consiste em sustentar uma solicitação (a de análise e compreensão de sua relação psíquica com o trabalho). mas sobretudo pelas categorias subjetivas*: são a solicitação e seu conteúdo que definem o coletivo pesquisado. provoque efeitos sobre a situação. do que pode ser reconhecido como "palavra". somadas. no plano científico. até mesmo sobre as relações sociais na empresa. 1 Ou seja. Isto é importante. a parte mais difícil de ser formulada. tem seus efeitos: para que a solicitação seja aceitável e viável. sexo. sobretudo em economia ou em epidemiologia. é.. status social ou profissional etc. devido à sua formação.de pesquisa pode levar a resultados contraditórios com as posições sindicais oficiais. mesmo se não for sempre justificada. cheguem à formação de um coletivo ad hoc. A fonte das remunerações deverá ser sempre esclarecida. 3. as categorias que reúnem os indivíduos apresentando uma posição subjetiva comum.. pois esse trabalho.5.).

Não existe então o comentário. na discussão. o que se poderia chamar de "exigências da tarefa" ("contraintes"). que visa ser objetiva e operatória. Possui uma finalidade explicativa. interpretações e até mesmo citações. Diferentemente da abordagem de cenos ergonomistas. Nossa pesquisa visa essencialmente a vivência subjetiva. nem possui um caráter de permanência absoluta. Além do mais. tipo piadas etc. por exemplo. engajada.isto è. vinda de grupo de trabalhadores. sobretudo. o modo operatório e as instruções de utilização que são divulgadas pelos enge-nheiros. uma descrição ou um recenseamento dos riscos observados na situação de trabalho. O comentário seria. A título de exemplo. tende a dissolver-se numa descrição da realidade. nem pela descrição efetuada. mas fica faltando um comentário que nos indicaria algo sobre a vivência desses riscos.. não nos interessamos pela realidade dos fatos na situação de trabalho. Descreve-se a situação exterior ou. o de informar o outro sobre a maneira pela qual o coletivo estrutura sua relação com o trabalho. Nosso objetivo não é a exposição da realidade do trabalho humano.. em suas dimensões físicas e cognitivas. Em um outro momento da investigação. como. subjetiva. O comentário é o material por excelência para se tomar contato com a subjetividade dos trabalhadores. o comentário nem sempre é contínuo. o que é uma formulação original. de modo que nos interessamos sobretudo pela dimensão do comentário: comentário que inclui concepções subjetivas. a formulação do pensar dos trabalhadores sobre sua própria situação. teremos uma listagem. os comentários que são objeto de discussão e de posições contraditórias no grupo. que nos toca. viva. Há nele um aspecto de distanciamento em relação ao que vem do exterior. esse comentário é marcado por uma ênfase interpessoal. identificamos a prevalência da descrição operatória em relação ao comentário. quer dizer. citaremos o que se passa quando abordamos a questão do perigo no trabalho. da dimensão subjetiva da vivência desses riscos. Às vezes. seremos inclinados a reconhecer a expressão de um investimento maior. do que constitui 149 . pelos trabalhadores. Freqüentemente.e a hierarquia (até mesmo sindicatos). E por isso que damos um valor específico ao que já avaliamos anteriormente. hipóteses sobre o porquê e o como da relação vivência-tra-balho. como "comentário". a palavra sobre "o esforço despendido nas tarefas" ("astreinte"). Ora. tem um objetivo — o de convencer. não há a introdução. de seus trabalhos. por exemplo. de certo modo. Nesse caso. como Catherine Teiger e François Daniellou. ou seja. Buscamos detectar o que tem valor de comentário e. esque-maticamente.

parecenos que falar do risco. tais como a bravata. em outra parte. que remeteria especialmente para o lado humano os efeitos potenciais do risco na saúde. mas as palavras utilizadas não são palavras subjetivas. Ou seja. ao contrário. os sinais de um dispositivo defensivo. A percepção. inevitavelmente. somos logo levados a procurar. Como. é porque há um dispositivo defensivo estabelecido para lutar contra a percepção. um discurso padronizado ou estereotipado. se temos como referência esse dado fundamental que estrutura toda nossa investigação ou seja. a conjuração. ou o discurso da hierarquia etc. No mínimo. a ausência de comentários na discussão e expressão do grupo pode ter um valor expressivo.a realidade extenor percebida. se há um conhecimento "teórico" dos riscos. ou seja. ou o discurso sindical.. pertence à categoria da descrição científica. eqüivaleria à posição de ocultação da relação entre realidade do risco epercepção do risco. Em outras palavras. A "negação da percepção" desdobra-se numa inversão da proposição relativa à percepção e ao sofrimento: teremos uma série de formações reativas contra o medo. em geral. ao contrário. ■ . aparece concerne à tática utilizada para lutar contra a percepção. introduz no comentário a problemática do perigo. são palavras e descrições pouco personalizadas: reconhecemos nelas o discurso oficial da segurança e da prevenção. Supõe-se assim que o risco pertence à realidade exterior objetiva e. o desafio. o risco definiria as características físicoquímicas. não há a correlação que se poderia esperar. Descobrí15Q . por essa razão. mecânicas ou biológicas das exigências da tarefa. Essa realidade é conhecida dos trabalhadores e é devolvida a eles pela pesquisa. aliás.itão. Nós postulamos que se o comentário desaparece. Encontramo-lo facilmente nas formas classicamente reconhecidas em psicopatologia. entre descrição operatória e comentário subjetivo. Nesse caso. somos levados à interpretação devido à existência de uma clivagem entre o risco e o perigo. o discurso oficial nem mesmo menciona o perigo. De maneira que. É precisamente a partir desses dados que postulamos que haveria no silêncio de um comentário uma postura tão ativa e específica quanto na sua presença. Mas. ou contra o sofrimento. A abordagem coletiva visa.. entre realidade e percepção da realidade. quando identificamos essa ausência de comentário.. A questão que. em si. esclarecem as instituições oficiais. ou seja. relativa especificamente à percepção dos riscos. contra o patético.. a relação sofrimento/defesa. Observamos assim que. a negação de seu contrário etc. em termos impessoais ou oficiais. então. a percepção do risco. um comentário sobre o perigo.

*♦ ABRAMOWITCH. VEIL. Por exemplo: a discussão gira. Voltaremos a esse aspecto mais tarde.M. o que não é a mesma coisa. Paris. do tipo proposto por Bouchard* com relação aos caminhoneiros. da temática proposta. que desvia a questão colocada. Trata-se de um sistema defensivo. ou por Abramowitch** a propósito da construção civil*** Segundo esses autores. WISNER. "Etude éthnographique du vécu des taches de couver-ture dans le bâtiment" in C. Ed. DUFOUR: A ruptura entre a empresa e os homens. EME. afetivo. engajado. 102-104. Tais dados são colocados pelo grupo como sendo suficientes para escapar à dimensão do perigo e do medo. A. 151 . A ideologia defen* BOUCHARD. •** Ver relatório de APEC para o Ministério da Construção e o resumo fornecido por Abramowitch. os trabalhadores em questão teriam uma relação de prazer com o risco. pp. quais são os perigos que ameaçam fisicamente sua saúde?". pois o que queremos situar é: onde se localiza a passagem da interpretação antropo-etno-lógica à interpretação psicopatológica? Em psicopatologia do trabalho. no Colóquio Nacional de Psicopatologia do Trabalho. Edit. Organization. lançamos a hipótese de que o desafio ao risco é unia manobra de ridicularização e de conjuração da percepção do perigo e do medo. que é imediatamente verbalizada e íormulada em resposta à solicitação grupai sobff a relação entre risco e perigo. após uma breve hesitação. 1985. os conhecimentos e a experiência. Paris. não dialético. que tem valor de comentário. in A. em torno dos riscos (segue-se uma listagem do que foi ditd>: "Então. há alguw tempo. até mesmo de gozo. pp. Se nos atemos somente ao discurso direto ou a um só aspecto. Toda a metodologia de coleta e recenseamento do material consiste em fazer aparecer o paradoxo. C. A seguir. CHANLAT e M. 331-359. 1985. DEJOURS. podemos ser levados a interpretações por demais uní-vocas. É aqui que seria importante articular "defesa coletiva" com "ideologia defensiva". J. a relacionar cada comentário ou ausência de comentário ao contexto e ao que se inscreve como contradição em relação ao tema principal. S Être truckeur (routier)". um começo de comentário. fixando se em considerações sobre a habilidade. mais ou menos rapidamente. subjetivo. a discussão dirige-se para anedotas relativas às condutas paradoxais e às condutas chamadas perigosas Estamos novamente num discurso personalizado. No lugar de uma resposta direta podemos ter. o know how. um movimento do grupo como um todo. Psychopatho-logiedu travail.remos assim a defesa coletiva especifica do trabalho.

Isso é conhecido em psicopatologia — e. "prova judicial através dos elementos naturais. A redação da obser152 . num primeiro momento psicopatologico. 1318). diríamos que esse material se constitui nos comentários (e nas falhas ou faltas de comentários) completados e relacionados ao contexto. e não sob a pulsão de vida. a defesa mascara-se em ideologia e oculta todo mecanismo intermediário. segundo Littré. poderemos compreender que a confrontação com os riscos pode ter valor de gozo. resumindo. Erige-se então em valor e funciona. Não se trata apenas da descrição dos "fatos observados". O gozo indicaria aqui uma dimensão de descarga compulsiva. 5. julgamento de Deus pela água ou pelo fogo" (Littré. Surge por último. por exemplo. mas de ilustrá-los e articulá-los. p. Isso já foi particularmente argumentado no caso das toxico-manias. e não de prazer. o que nos interessa é colocar por escrito o que foi detectado pelos pesquisadores durante o desenrolar da pesquisa. como se tratasse de uma expressão do desejo. os movimentos existentes entre o grupo de trabalhadores e o grupo de pesquisadores. literalmente. Em outras palavras. de certo modo. Como os fatos observados são subjetivos. a seguir. principalmente sob o domínio da pulsão de morte. com o comentário subjetivo do pesquisador. procurando justamente o que vem. facilitando assim o acesso à dinâmica específica da pesquisa.siva seria elaboração afirmativa de um procedimento defensivo. contrabalançá-los ou contradizê-los. Esse par de contrários é interpretado em relação ao binômio sofrimento/ defesa. A confrontação com o risco aparece como uma escolha deliberada. como uma operação que consiste em construir aquilo que. é apenas uma defesa. como são rotulados nas ciências naturais. trata-se não somente de restituir os comentários dos trabalhadores sobre o sofrimento. que deve ser distinto do binômio sofrimento/prazer. creio eu. Se nos referimos à noção de ordália. em etnologia -. Para voltarmos ao que constitui o "material" da investigação em psicopatologia do trabalho. Parece-me que essa é a corrente interpre-tativa utilizada no artigo sobre os caminhoneiros.sob o nome de conduta ordálica. à medida que se apresentam. A observação clínica A observação clínica é um material essencial para a elaboração e a discussão psicopatológicas. A partir desse ponto.

basicamente a partir da memória do pesquisador. E um trabalho que consiste em evidenciar e explicitar o caminho tomado pelo pensamento do pesquisador. Em psieopatologia do trabalho. com os instrumentos subjetivos da observação. interpretações divergentes. e que são provenientes do pesquisador que redige a observação. na mesma seqüência daquelas que não o foram. ou então cada pesquisador redige sua observação. os desvios. é necessariamente de natureza muito diferente de um resumo visando a objetividade. E lógico que nessa observação escrita há uma parte substancial dedicada à palavra dos trabalhadores. que será entre153 . ainda mais que com os fatos observados. as interpretações formuladas. A observação clínica não tem nada a ver com um resumo ou uma decodificaçâo de fitas gravadas. para encontrar a formulação mais correta de um participante ou de um pesquisador. O mérito desse segundo método é o de fazer aparecerem imediatamente. as reações que surgem. Se existem contradições que permanecem entre as diversas versões interpretativas. Na realidade. em fitas gravadas. Esta redação é feita imediatamente após o término de cada encontro ou reunião de pesquisa. as "interações" dos protagonistas da pesquisa entre eles — ou seja. O que fica invisível é o trabalho psíquico do investigador e os efeitos do que restitui ao grupo sobre o desenvolvimento dos comentários e da discussão. Nessa ocasião. subjetivo. quando se trabalha sistematicamente umas contra as outras. há dois procedimentos diferentes: ou um dos pesquisadores redige a observação que será depois submetida aos outros pesquisadores. podemos nos basear nas notas tomadas durante a reunião ou visita e. Esse resumo de pesquisa. Uma observação é ainda mais interessante e útil se consegue mostrar os caminhos percorridos pelo pesquisador. trata-se de fazer aparecerem as idéias e comentários. na situação concreta de pesquisa. as idas e vindas. excepcionalmente. elas serão então registradas no relatório.vação vai sendo feita depois. comentado. a partir da própria pesquisa. tanto de um lado como do outro. Numa pesquisa desse tipo. nem de discussão. durante a pesquisa e o contato com os trabalhadores. geralmente realizada por vários pesquisadores. O objetivo da observação é mostrar o encadeamento. durante a pesquisa. vivo. a experiência mostra que o texto literal do que foi dito não nos permite um trabalho muito rico de interpretação. os pesquisadores — e os trabalhadores. insitu. o resumo comentado de um pesquisador é muito mais interessante para uma discussão. seja porque decorrem da multiplicidade de observações ou da discussão sobre uma única observação. Ficam assim evidentes a movimentação. facilitando depois. A observação clínica ocupa-se. Muito pelo contrário.

é possível que nasça a idéia de uma outra interpretação diferente daquela formulada pelo redator. sob a nova interpretação. existem subgrupos que produziriam relatos diferenciados em relação à situação de trabalho. Se assim for. a vivência. dentro da nova interpretação proposta. isto é uma prática freqüente em psicopatologia. fórmulas defensivas múltiplas. Como se dá então uma contestação científica? A intersubjetividade implica em originalidade e unidade absolutas? Torna impossível qualquer argumentação ou contestação? Não. o homem dos ratos e o pequeno Hans. só podem ser recolhidos através da subjetividade de um receptor do discurso. Se acontecer que diversas versões sejam simultaneamente mantidas pelo grupo. porque essa intervenção teve os efeitos em questão sobre a dinâmica intersubjetiva. esse material clínico. baseados nas próprias pesquisas. para ser aceita. principalmente. e não apenas em psicopatologia do trabalho. Dessa maneira. Nesse caso. observações essas que continuam a alimentar as dis154 . assim como o prazer. deve ter um valor heurístico superior à primeira e ser mais econômica do que esta. Portanto. A nova interpretação. no interior desse coletivo de trabalhadores. o trabalho de objetivação afasta-se da oòjetivação do dizer dos trabalhadores. O interesse da observação também fundamenta-se por tornar transparentes as bases sobre as quais foram propostas as interpretações. A partir da leitura de uma observação. Conhecemos exemplos famosos. ou aparecerão neste sob forma de perguntas. A observação clínica tem.gue aos trabalhadores. como também é possível mostrar. propor novas interpretações para esta observação. Uma das versões obterá um consenso e as outras serão rejeitadas. Aliás. apesar de aspectos contraditórios. apresenta a vantagem de poder ser retomado por outros pesquisadores que poderão. em geral. buscaremos saber se. as intervenções do pesquisador no grupo podem ser inadequadas. ou seja. principalmente a respeito das observações de Freud com o homem dos lobos. o afeto e a dimensão subjetiva. o material de interpretação em psicopatologia do trabalho é uma observação comentada. que trata fundamentalmente da relação do grupo com o observador. Isto é verdadeiro. Assim. para a objetivação da intersubjetividade. como já indiquei acima. Pode-se objetar que com esse tipo de material distanciamo-nos do contato objetivo com a palavra e a vivência dos trabalhadores. é possível argumentar porque a intervenção parece inadequada. a vantagem de poder ser submetida à discussão com pesquisadores que não participaram diretamente da pesquisa. mas é preciso levarmos em consideração que o sofrimento.

devido à distância entre a posição baseada no fato de ser trabalhador numa empresa. essencialmente. para o pesquisador. Paris. incompreensível. M. "Lécorce et le noyau". agressor etc. 155 . baseada em sua prática clínica. Em todo caso. uma posição terceira em relação aos trabalhadores que participam da investigação e análise da situação de trabalho. tanto no plano da orientação da cura e da técnica de interpretação. subjetivos e seria ilusório querer objetivá-los. O que é importante considerar é a defasagem existente entre a palavra dos trabalhadores e a experiência do pesquisador. Aubier-Montaijgne. Trata-se. desgastante. de sua^ respostas ou interpretações. Em nossa opinião. segundo a opinião da maioria dos psicanalistas atuais ò de grande interesse. objetivamente. surpreendente. mas de um trabalho de interpretação. o pesquisador só pode * ABR/VHAM. a reinterpietação do caso do pequeno Hans e do homem dos lobos. N. como no da própria teoria psicanalítica. psicanalítica ou de psicopatologia do trabalho em outras áreas. individual. também. Não se trata pois de um trabalho acadêmico. ou seja. por Nicolas Abraham e Maria Torok*. Esses dados passam pela subjetividade do pesquisador. No encontro com os trabalhadores temos por objetivo formalizar o que. mas também da atitude de Freud. parece ser espantoso. tanto na descrição como na identificação e formulação dos mesmos. O método de interpretação O sofrimento e o prazer são.cussões e as interpretações. de não estar numa posição semelhante à dos trabalhadores com os quais se realiza a pesquisa. "Le verbier de 1'homme aux loups". como testemunham. Aubier-Montaigne. em relação à experiência que possui. Observamos que. angustiante. por exemplo. TOROK. na verdade. 6. de levar em conta a tensão que surge. rein-terpretação essa que elabora uma nova concepção das fobias e. em relação ao conjunto do saber em psicopatologia. Enfim. e a posição do pesquisador. Paris. as objeçòes e reconstruções ou reinterpretaçôes tratam sempre do relato literal fornecido da palavra do paciente por Freud. seja essa psiquiátrica. pressupomos que o pesquisador possa manter uma posição estrita de pesquisar. Ed.. Ed.

com os trabalhadores que participaram da pesquisa e. do prazer. A validação faz-se. Podemos assim avaliar as reações dos trabalhadores e modificar ou corrigir o relatório final. ou seja. Em outras palavras. 7. justamente porque fica claro que o pesquisador é diferente deles. de expressão e de elaboração é potencialmente viável. O trabalho de formulação. essa é a questão fundamental. acreditamos que essa terceira posição é que torna possível a abertura para uma "palavra" que fale do sofrimento. de verbalização. como também o investimento mantido pelos interessados. é também porque — numa posição diferente dos trabalhadores — o pesquisador é alguém que não sabe*. 156 . hipóteses. com outros que se juntaram a ela. Essa postura é fecunda quando vemos que os trabalhadores acabam dizendo ao pesquisador coisas que não sabiam. um segundo momento. Há. em dois momentos. com novo material de análise. geralmente. dessa vez claramente dirigida para a relação sofrimento/organização do trabalho. ou seja. quando temos. eventualmente. alguém a quem se aceita. do mesmo modo que falamos a uma terceira pessoa. a própria continuidade da investigação e seu seguimento. temas e comentários são feitos à medida que a discussão se desenrola. mais tarde. eventualmente. interpretações. após a entrega do relatório-anterior-mente enviado aos trabalhadores para uma análise crítica. Uma nova discussão pode eventualmente acontecer. Se é possível um trabalho que emane de um coletivo de pesquisa. eventualmente até aprofundados. e não como especialista. observações e interpretações. trabalhadores. as elaborações. formam o primeiro momento da validação das interpretações. durante a própria pesquisa. Validação e refutação Evidentemente. geralmente. e que seja passível de uma escuta e interpretação. como já dissemos a respeito do desenvolvimento da investigação. Em nossa opinião. sendo então rejeitados ou retomados.situar-se como interlocutor. uma reunião especificamente organizada para devolver-lhes uma síntese dos resultados. Primeiro. ' Grifo da tradução. explicar as coisas e fazer compreender o que ele desconhece.

emaranhado ou reprimido desta cena. mas raramente sobre o material clínico propriamente dito. justamente. pela comunidade científica. em relação ao que temos de experiência do homem pela prática psiquiátrica. Essa refutação é basicamente possível através de uma contra-pesquisa que possa fornecer outros resultados e interpretações. A outra idéia de base de nossa metodologia é que não conhecemos sofrimento ou prazer objetivos. 8. de análise de interpretação é que essas noções só podem ser elaboradas através das relações intersub157 . Na ótica objetiva só podemos conhecer as desregulações e as reequilibrações. Nosso princípio de investigação. que o sofrimento e o prazer são. no que se encontra expresso e representado pelo sujeito na cena do trabalho e no que parece estar excluído ou contido. como idéia central.I Com tai procedimento. na exposição das contra dições e anomalias detectadas na clínica do coletivo de trabalha dores. aprisionado. na medida em que este se apoia. Temos. entre outros. abrindo assim um caminho direto para debates teóricos internos. a nível teórico e metodológico. de desejo e de saúde mental e até de saúde física. psicoterápica e psicanalítica. Resta ainda a questão da reiutação a nível estritamente cientifico. Esse modelo permanece subjacente à pesquisa e ao trabalho de interpretação. Um dos eixos da interpre tação está. em suas origens. Resta saber se uma refutação seria possível a partir de outras disciplinas ou de outras pesquisas. provenientes de uma relação específica com o inconsciente. se nos referimos também à psicossomática. ou seja. de sofrimento. Parece-nos que a crítica possa se dar. teremos uma validação ou invalidações provenietues do coletivo dos trabalhadores. o que não deixa de ser importante. principalmente. Temos boas razões para pensar que uma crítica seja possível a partir de outras disciplinas. mas essa perspectiva não nos ensina muita coisa sobre a vivência subjetiva qualitativa. Nesse jogo entre pré-consciente e inconsciente é que se negociam as relações de prazer. Metodologia e teoria em psicopatologia do trabalho E claro que a psicopatologia do trabalho baseia-se num modelo de homem e de subjetividade emprestado da psicanálise. originárias de disciplinas ou de metodologias diferentes daquelas utilizadas em psicopatologia do trabalho. em psicopatologia do trabalho.

A psicopatologia não é nem um pouco assimilável à etologia. 158 . Ato que implica um ato de pensar. mais precisamente. Nesse sentido. estudar os obstáculos que o trabalho coloca para essa ressonância metafórica e que parecem-nos ser um elemento determinante do poder estruturador ou desestruturador do trabalho em relação à economia psíquica dos trabalhadores. Ao fazê-lo. ainda. o espaço possível do sujeito para utilizar-se do trabalho como "ressonância metafórica" na cena da angústia e do desejo. Ou. não como uma série de palavras. através de uma pesquisa em psicopatologia do trabalho. O que visamos. o que tratamos de estudar é a posição dos sujeitos na relação de trabalho e. as conseqüências dessa relação na vida fora do trabalho e na vida em geral. ou seja. devemos entender a fala. mergulhar na dialética ator-sujeito. mas como um ato. Enfim.jetivas. a palavra é o mediador privilegiado dessa relação e ê sobre ela que trabalha psicopatologia do trabalho. no sentido que lhe dão os cognitivistas. que é preciso distinguir da atividade de pensar. é a possibilidade dos autores da mesma pensarem sua situação em relação ao trabalho.

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Estão surgindo duas tendências uma relativa ao papel do trabalho na saúde. Finalmente. isto é. aos trabalhadores. Trabalho e Cidadania Três aspectos presentes no novo conceito de saúde discutido por Christophe Dejours Entrevista concedida à Comissão de Saúde do Conselho Regional de Psicologia — & Região e publicada no "Cadernos CRP -06" de Outubro de 1991. Sob este aspecto. Toda a família é requisitada pelo trabalhador em seu esforço em enfrentar as dificuldades no trabalho.Normalidade. o trabalho ocupa um lugar muito mais importante na luta contra a doença do que se supunha até agora nas concepções cientificas.Houve mudanças na definição do conceito de saúde a partir de 1982? Dejours . O termo trabalho deveria figurar na própria definição de saúde. Por outro lado. ao contrário. é importante. por exemplo sob 164 . e favorece seja a doença. o trabalho não é nunca neutro em relação à saúde. o prazer no trabalho e os benefícios provenientes da relação de trabalho no registro da saúde também têm repercussões favoráveis na economia das relações da família e no desenvolvimento psíquico e afetivo dos filhos). figurando na definição da Organização Mundial da Saúde. ocorrem importantes desigualdades entre os trabalhadores de um mesmo país e de um mesmo período histórico. a divisão entre espaço de trabalho e espaço privado só é eventualmente pertinente na análise econômica. e particularmente no que concerne à definição do ideal do "bem estar social". De modo que o trabalho deveria aparecer na própria definição do conceito de saúde. uma parte do alcoolismo e das doenças têm relação com as dificuldades no trabalhe e tocam todos os membros da família. seja a saúde. mas também fortemente. Com efeito. ele é as vezes operador de saúde e de prazer. como uma fonte de doença ou de infelicidade. e outra relativa à relação entre saúde e normalidade. mas acontece que as condições em função das quais o trabalho age como gerador de doença ou de saúde são muito contrastantes. como disse acims. De qualquer maneira. pelos efeitos dassituação do trabalho sobre aquele que nela se encontra exposto (uma parte da violência comum nas relações conjugais. CRP-06 . Tradução de Lúcia Leal Ferreira. como teríamos a considerar há dez anos nas pesquisas de psicopatologia do trabalho. O cônjuge. os filhos e às vezes até os pais do trabalhador são atingidos indiretamente. mas torna-se totalmente inconsistente a partir do momento em que se trata das relações sociais e das questões de saúde. ressaltar que a relação saúde/trabalho não diz respeito apenas à pessoas diretamente engajadas no processo de trabalho. No sentido inverso. 1) O trabalho nem sempre aparece.

dar mais ênfase à parte que. nos tratamentos médicos mobiliza o sujeito em seu tratamento. por um lado. a astúcia inacreditável dos homens e das mulheres em inventar estratégias defensivas que lhes permitem permanecer dentro da normalidade. Somente a partir destas estratégias inventadas pelos doentes teremos chances de não mais preconizar esta orientação dos técnicos de tratamento como um ideal ou uma utopia. refazer o que se desfaz. Quanto mais avançamos nos estudos em psicopatologia do trabalho. Imediatamente descobrem-se a habilidade. conseguem resistir. Ela nunca é dada como um presente da natureza: ela supõe uma construção feita por cada um dos sujeitos. 2) As relações entre saúde e normalidade. sobreviver. tantas pessoas. reestabilizar o que se desestabiliza. dos acidentes e de todas as formas de atentado à integridade física e mental. para onde submerge uma parte do sofrimento que não consegue encontrar soluções adequadas. Um novo problema científico emerge. assim como à inteligência do sujeito em relação à luta contra as dificuldades desestabilizantes e patogênicas. é preciso antes conhecer. por um lado. e já há muito tempo é bastante preconizado em diferentes grupos de clínicos e de pesquisadores. senão a maioria delas. e em psicopatologia e em psicosaomática por outro. Esta maneira de apreender as coisas é determinante em tudo o que diz respeito à prevenção das doenças. A normalidade é freqüentemente conquistada a custo de certas patologias crônicas. analisar e elucidar as estratégias que eles mesmos elaboram para lutar contra a doença. Nas abordagens terapêuticas.a forma do direito fundamental de contribuir para a saúde e o trabalho social. I 165 . Falar de "bem-estar social" sem dar a essas referências ao trababo um conteúdo preciao aparece hoje em dia como um erro. a inteligência. * '£«. uma luta incessante para reconquistar o que se perde. a loucura ou a morte. isto é. A normalidade é fundamentalmente enigmática. Normalidades e saúde não são exatamente equivalentes. Mas o que ainda não foi suficientemente enfatizado é que. notadamente patologias somáticas. e até conquistar um pouco de felicidade? O novo problema que se coloca hoje é o da "normalidade". Seria necessário. para poder partir da mobilização da inteligência dos doentes. a loucura e a morte. cuja amplitude é ao menos comparável: como compreender que. apesar de condições de vida tão duras e desestabilizantes. mais somos levado a nos espantar com o interesse exclusivo dedicado às pesquisas sobre a doença. Isto não é nada original. sem compreender-lhes a razão. sem dúvida daria à concepção dos tratamentos uma orientação diferente da que prevalece nas abordagens médicas e psiquiátricas clássicas. A referência à normalidade e às estratégias defensivas. soluções que passem pela transformação da situação concreta de maneira a adequá-la melhor às necessidades e aos desejos do sujeito. e de obter em troca um reconhecimento social equivalente. ao contrário. deveria-se diminuir um pouco a parte dedicada às condutas prescritas ou ordenadas a sujeitos que devem executá-las pacientemente e com disciplina.

por outro. a ausência de um sentido socialmente construído capaz de substituir o sofrimento vivido 166 . à empresa. a resposta que cada um dá individualmente ao sentido do seu sofrimento depende fundamentalmente da maneira pela qual está engajado nas relações sociais. o que contribui para mobilizar o sujeito em direção às coisas da cidade. a seus próximos. Enfim. está à altura da contribuição que o sujeito dá à sociedade. então os problemas de saúde. de sofrimento e de doença adquirem um sentido nas relações sociais.Sim. àqueles que encontra em suas relações sociais? Se esta retribuição é conveniente em relação à contribuição e às implicações dela provenientes em termos de sofrimento ou até de doença. Vê-se. esta retribuição. de vantagens materiais. Sofrimento e doença podem ser vividos e interpretados pelas pessoas como golpes do destino ou como fatalidades. em relação à contribuição individual. a questão coloca-se fundamentalmente em relação à construção do sentido ou da significação do sofrimento e da doença. chegamos à conclusão que existem relações preciosas entre saúde e civismo.Existem relações entre saúde e engajamento cívico? Dejours . quando a retribuição. Ora. por um lado. O sofrimento pode também ser considerado uma provação divina. Nas pesquisas que realizamos no Conservatoire National des Arts e Métiers. é irrisória ou muito decepcionante. na medida em que seus próprios interesses identificam-se com as grandes questões tratadas no espaço público. A questão crucial reside no par contribuição/retribuição.CRP-06 . Em outras palavras. que são mediatizadas pelas soluções elaboradas pelas pessoas para enfrentar o sofrimento. Na falta de uma construção do sentido do sofrimento nas relações sociais. tio denunciada como um mal específico da atual "crise de civilização" Mu nío é nada disso. e de reconhecimento social. não há nenhuma chance de o sofrimento levar à formulação de opiniões enunciáveis no espaço público e na cidade. o sujeito tende a voltar-se para uma posição dita "individualista". pode ser considerado ou interpretado como o preço a ser pago por fazer sua contribuição à evolução das relações sociais. portanto. de reconhecimento de identidade e de originalidade. existem relações extremamente precisa. Algumas dessas soluções direcionam-se diretamente para o espaço público. Na falta de retribuição suficiente no espaço das relações sociais para o sofrimento de cada sujeito. mas falar de engajamento nas relações sociais é insuficiente para dar conte da interpretação que cada sujeito dá de seu sofrimento. Em contrapartida. enquanto outras levam as pessoas a voltarem-se para o espaço público e as responsabilidades cívicas. de reconhecimento do mérito. à sua própria evolução ou i emancipação de seus próximos ou de seus filhos. que as condições sociais e éticas do par contribuição/retribuição são determinantes na construção do sentido do sofrimento e no engajamento dos sujeitos nas questões da cidade. Em contrapartida. A retribuição em forma de salário. o sofrimento só encontra sentido no espaço privado e na deliberação interior. mas que pediriam desenvolvimento complexos demais para o contexto desta conversa. portanto.

às vezes até o desespero. mental e somática do doente.Em nossos países. A solução. Podemos temer que esta evolução leve a uma estagnação dos progressos e das pesquisas em matérias de melhoria da saúde mental. & decepcio. se houver uma. são atribuídas à incompetência e à falta de senso de responsabilidade dos profissionais. Será 167 . isto é. CRP-06 . o engajamento das pessoas na melhoria da saúde mental dos outros era considerado uma virtude. assistimos a uma degradação das condições de trabalho. do desenvolvimento da medicina e das bio-íecnologias. pior ainda. Os que resistem melhor são os que suportam bem a doença. da psiquiatria e das técnicas de tratamento. como parece testemunhar uma indubitável crise de doutrinas e da pesquisa clínica em psiquiatria em países como a França. colocam-se problemas muito sérios que dizem respeito não apenas à medicina. A conseqüência disso e o desânimo. existem problemas importantes que aparecem e que transtornam a paisagem. que "toleram". segundo nosso ponto de vista. concernentes à relações entre saúde e civismo. notadamente. a restrições orçamentárias importantes no campo da saúde.Quando não há mais debates públicos sobre os problemas da saúde mental. as causas dessa ineficiência são "naturalizadas". sem poder remontar até às condições sociais de extinção dos debates sobre saúde. Hí outras dimensões a tratar. tem conseqüências na evolução efetiva. que eu não poderei «desenvolver aqui. O resultado é um grande desânimo entre as pessoas responsáveis pela saúde mental na França. acusam-se uns aos outros pelos fracassos técnicos*. CRP-06 . Isto ocasiona uma preocupante regressão na vocação de tratar. da psiquiatria e da assistência social. pouco a pouco. Até recentemente. por uma abordagem da prática terapêutica como se tratasse de um trabalho. Rapidamente nascem conflitos entre os próprios profissionais que. que sabemos que muito contribuem para acelerar o curso dos processos mórbidos. fora de uma construção social do sentido do sofrimento o risco principal é o non-sense da doença. mas sobretudo ao modelo do homem que serve de referência ética e política à organização de nossas sociedade. sobretudo da saúde mental. ou. e do que na Europa é chamado de "instrumentação dos corpos". que vivem dela e dela se aproveitam. o maior risco é que sejam cometidos enganos quanto à natureza e às causas do fracassos da medicina. passa. Aqui. Hoje. transformando-a em vocação de "guardião". Por causa disso. Pouco a pouco.O psicólogo pode fazer alguma coisa em favor da saúde dos profissionais da saúde? Dejours . a situação seleciona entre os que sofiem desta evolução e desta desvalorização uma população de pessoas que nem sempre é a mais motivada para a luta contra a doença.individualmente. Trata-se precisamente de técnicas de tratamentos.Como é a saúde mental dos profissionais responsáveis pela melhoria da saúde mental dos outros? Dejours .

mas pelo conjunto das equipes encarregadas dos doentes. Eles lidam com sua inserção familiar. com a condição de aprender a decifrar a fala dos profissionais da saúde em relação ao esquema de organização do trabalho e não mais ao esquema da psicopatologia individual. de acordos e de desacordos entre os membros de uma equipe. Assim. ou seja. O profissional tem que se haver com as demandas e com t> sofrimento da família do doente. O profissional tem que se haver com problemas de duração de estadia. o sofrimento dos profissionais da saúde pode ganhar um sentido pela ação de transformação do trabalho real e tratamento. Estes espaços de discussão não seriam exatamente destinados a fazer emergirem os problemas pessoais dos profissionais. Percebemos então que. De" maneira que'. sua dificuldade em manter seu próprio equilíbrio mental ou somático. até então. os tratamentos dos cancerosos. Os profissionais lidam com problemas relativos às condições materiais c pecuniárias do doente. com autorizações ou proibições de saídas dos doentes. afinal. a loucura e a morte. mostram que o debate coletivo sobre a organização do trabalho de tratamento mobiliza a coordenação entre as pessoas e pode atenuar consideravelmente os antagonismos intenndividuais que. apenas agravaram o sofrimento inevitavelmente produzido nos profissionais pelo confronto com a doença. com a aceitação ou a recusa pelo doente do tratamento que lhe é proposto etc. Assim. tanto na França quanto no Canadá. sua inseivão social. o psicólogo pode contribuir não mais tratando os profissionais e sim ajudando-os a elaborar sua relação com o trabalho e a catalisar a transformação e até melhoria da organização do trabalho. : Assim. ^agtogg uwversioadefeobuldomsm* §H2 SISTEMA DE BIBLIOTECAS 168 00051442 . na realidade.necessário proceder a verdadeiras pesquisas de psicopatologia do trabalho sobre o trabalho dos profissionais da saúde. teremos condições de descobrir em que consiste a irredutível deiasagem entre a organização' prescrita do trabalho de tratamento e os problemas realmente encontrados. os tratamentos dos doentes crônicos aparecem como muito mais problemáticos do que supWm»^mrtfjleK referência à doutrina médica. os tratamentos dos doentes mentais. problemas ligados ao seu sofrimento singular. V • ♦ • tr^ÍÊf$ í O papel do psicólogo poderia-wrtáo' consistir em organizar espaços de discussão no próprio local de trabalho. a conduta terapêuticas depende não somente de um indivíduo. As experiências feitas neste sentido. profissional. Descobrimos também que. uma grande quantidade de problemas é gerada não pelos médicos individualmente. Assim. Perceberemos então que tratar não consiste simplesmente em executar as prescrições elaboradas ou prdBcritas em uma lógica estritamente médica. Os problemas a serem abordados nestes espaços de discussão diriam respeito à arbitragem em matéria de organização do trabalho de tratamento. no momento de arbitrar em meio a essas numerosas dificuldades concretas da realização do tratamento tal como ele é prescrit" pela ordem médiHr/aparecem opiniões divergentes entre os diferentes profissionais. mas da construção de consensos.

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