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Estudos Históricos e Epistemológicos da Ciência da Informação O GTI 1 aborda Estudos Históricos e Epistemológicos da Ciência da Informação. Constituição do campo científico e questões epistemológicas e históricas da Ciência da informação e seu objeto de estudo - a informação. Reflexões e discussões sobre a disciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, assim como a construção do conhecimento na área.

SUMÁRIO
INFORMAÇÃO SEGUNDO NIKLAS LUHMANN: BASE TEÓRICA PARA UMA “CIÊNCIA DO INFORMAR-SE” Marcos Gonzalez Souza .......................................................................................................................4 INTEGRAÇÃO EPISTEMOLÓGICA DA ARQUIVOLOGIA, DA BIBLIOTECONOMIA E DA MUSEOLOGIA NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: POSSIBILIDADES TEÓRICAS Carlos Alberto Ávila Araújo ..............................................................................................................20 O CAMPO DA INFORMAÇÃO Angelica Alves Marques.....................................................................................................................39 O IMPERATIVO MIMÉTICO: A FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO E O CAMINHO DA QUINTA IMITAÇÃO Gustavo Silva Saldanha ....................................................................................................................56 RUÍDO, PERTURBAÇÃO E INFORMAÇÃO: NOTAS PARA UMA TEORIA CRÍTICA DOS SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS. Antonio Saturnino Braga ...................................................................................................................72 RELAÇÕES OU “SEMELHANÇAS DE FAMÍLIA” EM CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA JULGAMENTO DE INFORMAÇÕES NA WEB Márcia Feijão de Figueiredo, Maria Nélida González de Gómez.....................................................88 A INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: ESTRATÉGIAS DO DISCURSO CONTEMPORÂNEO INTEGRADOR Edivanio Duarte de Souza, Eduardo José Wense Dias ....................................................................104 SOCIEDADE, INFORMAÇÃO, CONDIÇÕES E CENÁRIOS DOS USOS SOCIAIS DA INFORMAÇÃO Francisco das Chagas de Souza ......................................................................................................122 ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: QUESTÕES E DESAFIOS NO CENÁRIO DA PESQUISA José Mauro Matheus Loureiro, Maria Lúcia Niemeyer Matheus Loureiro, Sabrina Damasceno Silva, Daniel Maurício Vianna Souza ............................................................137 MIGRAÇÃO CONCEITUAL ENTRE SISTEMAS DE RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO E CIÊNCIAS COGNITIVAS: UMA INVESTIGAÇÃO SOB A ÓTICA DA ANÁLISE DO DISCURSO Fernando Skackauskas Dias, Monica Nassif Erichsen ...................................................................150 ANTES DA GESTÃO DE DOCUMENTOS: PROSPECÇÃO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Renato Pinto Venancio .....................................................................................................................170 A PRESENÇA FRANCESA E O DESENVOLVIMENTO DA LEITURA: ORIGENS DA GT1 2

DIFUSÃO E MEDIAÇÃO DE SABERES NO BRASIL Katia Carvalho.................................................................................................................................183 ENTRE VALORES E VERDADES: ANÁLISE SOBRE A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO NAS CONCEPÇÕES DA ARQUIVÍSTICA SOBRE DOCUMENTOS Raquel Luise Pret .............................................................................................................................194 O CONCEITO ONTOLÓGICO FENOMENOLÓGICO DA INFORMAÇÃO: UMA INTRODUÇÃO TEÓRICA Marcos Luiz Mucheroni, Robson de Andrade Gonçalves ................................................................211 DOCUMENTO “SENSÍVEL” E INFORMAÇÃO (IN)ACESSÍVEL? Icléia Thiesen ...................................................................................................................................226 AS DUAS CULTURAS E OS REFLEXOS NO MUNDO ATUAL NAS CIÊNCIAS E NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO* Valeria Gauz, Lena Vania Ribeiro Pinheiro .....................................................................................240 A IDENTIDADE DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO BRASILEIRA NO CONTEXTO DAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS DA PÓS-GRADUAÇÃO: ANÁLISE DOS CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS DOS PPGCI’S Jonathas Luiz Carvalho Silva, Gustavo Henrique de Araújo Freire ...............................................255 CARACTERÍSTICAS NATURAIS DA INFORMAÇÃO: VISÃO INTERDISCIPLINAR DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO COM A FÍSICA E A BIOLOGIA Marcelo Stopanovski Ribeiro, Rogério Henrique de Araújo Júnior ................................................275 BREVES REFLEXÕES ACERCA DA INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: UM OLHAR ATRAVÉS DA FORMAÇÃO ACADÊMICA DO CORPO DISCENTE DO PPGCI IBICT / UFRJ – 2009 E 2010 Leandro Coelho de Aguiar, Renata Regina Gouvea Barbatho ........................................................283 A TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO E A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO William Guedes ................................................................................................................................290 CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: RELAÇÃO INTERDISCIPLINAR COM AS DISCIPLINAS INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO Simone Alves da Silva, Simone Faury Dib, Neusa Cardim da Silva................................................295 DO DOCUMENTO CONTÁBIL ELETRÔNICO ENQUANTO PROVA: ANÁLISE INTERDISCIPLINAR ENTRE O DIREITO E A ARQUIVÍSTICA. Rúbia Martins, João Batista Ernesto Moraes..................................................................................302 A VERDADE, A INFORMAÇÃO E O ARQUIVO: PRIMEIRAS IMPRESSÕES NA BUSCA POR UMA FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO Aluf Alba Elias .................................................................................................................................307

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COMUNICAÇÃO ORAL

INFORMAÇÃO SEGUNDO NIKLAS LUHMANN: BASE TEÓRICA PARA UMA “CIÊNCIA DO INFORMAR-SE”
Marcos Gonzalez Souza Resumo: No âmbito de sua oniabarcadora teoria de sistemas, Niklas Luhmann (2010 [1995]) recusou a “metáfora da transferência de informação”, conceito hegemônico desde a “teoria da comunicação” de Claude Shannon (1948), o que o colocou em uma “posição minoritária” em relação à pesquisa acadêmica de sua época. No esforço de erigir “um edifício suficientemente complexo, capaz de servir de contraste ao que foi obtido pela tradição”, Luhmann propôs então um conceito de informação substitutivo, que é aqui interpretado à luz de argumentos linguísticos. Concluímos que, para Luhmann, informação é tanto a própria “ação de informar-se” quanto o “resultado ou efeito” dessa ação, que deve ser compreendida no sentido de “instrução de processos”. Consideramos, por fim, que seus conceito e teoria são capazes de expandir os horizontes epistemológicos da Ciência da Informação. Palavras-chave: Teoria de sistemas, Autopoiesis, epistemologia da Ciência da Informação Abstract: In the context of his encompassing systems theory, Niklas Luhmann (2010 [1995]) rejected the “metaphor of information transfer”, an hegemonic concept since the “theory of communication” of Claude Shannon (1948), which put him in a “minority position” in relation to the academic research of his time. In an effort to erect “a building complex enough to serve as a contrast to what was obtained by tradition”, Luhmann then proposed a surrogate concept of information, which is here interpreted in the light of linguistic arguments. We conclude that, for Luhmann, information is either “action of self information” or “a result or effect” of this action, which must be understood in the sense of “instruction of processes”. We consider, in the end, that his concept and theory are able to expand the epistemological horizons of Information Science. Keywords: Systems theory, Autopoiesis, epistemology of Information Science. 1. Introdução Tendo como ponto de partida a mesma pretensão oniabarcadora dos “sistemas veteroeuropeus”, o sociólogo Niklas Luhmann ambicionou ir além da tentativa de renovar em profundidade as categorias GT1 4

do modo ocidental de pensar o homem e a sociedade, a que a tradição chamou “filosofia prática”, ou mesmo as categorias do pensar enquanto tal, que seriam igualmente as do ser, e que a tradição tematizou sob o nome de “ontologia” (SANTOS, 2005b, p. 8-9). Sua obra insere-se no domínio da sociologia de Talcott Parsons, sua principal referência, mas insere um leque muito significativo de novos contributos, de grande originalidade e ainda maior radicalidade, desenvolvidos no âmbito da “Teoria Sistêmica de Segunda Geração” (ESTEVES, 2005, p. 281-282). Na década de 1920, Ludwig von Bertalanffy havia introduzido a “Teoria Geral de Sistemas”, definindo sistemas como um “conjunto de elementos de interação” (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 63). Naquele tempo, a física convencional tratava dos sistemas fechados, isto é, isolados de seu ambiente. O segundo princípio da termodinâmica, por exemplo, enuncia num sistema fechado uma certa quantidade chamada “entropia”. Sendo entropia uma medida da probabilidade, um sistema fechado tende para o estado de distribuição mais provável, ou seja, um estado de equilíbrio. Von Bertalanffy dá como exemplos “uma mistura de contas de vidro vermelhas e azuis ou de moléculas com velocidades diferentes”, em um estado de completa desordem. Uma situação altamente improvável é “encontrar todas as contas vermelhas separadas de um lado e de outro todas as contas azuis ou ter em um espaço fechado todas as moléculas rápidas, isto é, uma alta temperatura do lado direito, e todas as moléculas lentas, numa baixa temperatura, do lado esquerdo”. Ao contrário, a tendência para a máxima entropia ou a distribuição mais provável é a tendência para a máxima desordem.
No entanto, encontramos sistemas que por sua própria natureza e definição não são sistemas fechados: todo organismo vivo, por exemplo, é essencialmente um sistema aberto. Para esses, as formulações convencionais da física são em princípio inaplicáveis; von Bertalanffy, porém, observou que concepções e pontos de vista gerais semelhantes surgiram em várias disciplinas da ciência moderna para lidar com os sistemas:

Enquanto no passado a ciência procurava explicar os fenômenos observáveis reduzindo-os à interação de unidades elementares investigáveis independentemente umas das outras, na ciência contemporânea aparecem concepções que se referem ao que é chamado um tanto vagamente “totalidade”, isto é, problemas de organização, fenômenos que não se resolvem em acontecimentos locais, interações dinâmicas manifestadas na diferença de comportamento das partes quando isoladas ou quando em configuração superior, etc. (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 61-62) Concepções e problemas desta natureza surgiram em todos os planos da ciência quer o objeto de estudo fossem coisas inanimadas quer fossem organismos vivos ou fenômenos sociais. Aparecem os “sistemas de várias ordens”, que não são inteligíveis mediante a investigação de suas respectivas partes isoladamente. Os sistemas abertos responderam, conforme resgate histórico de Luhmann (2010 [1995], p. 203)1, a essa referência teórica, na medida em que os estímulos provenientes do meio podiam
1 Doravante neste texto, faremos referências a essa edição citando-lhe apenas a página

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modificar a estrutura do sistema: uma mutação não prevista, no caso do biológico; uma comunicação surpreendente, no social:
Mantém-se em um contínuo fluxo de entrada e de saída, conserva-se mediante a construção e a decomposição de componentes, nunca estando, enquanto vivo, em um estado de equilíbrio químico e termodinâmico, mas mantendo-se no chamado estado estacionário, que é distinto do último. Isto constitui a própria essência do fenômeno fundamental da vida, que é chamado metabolismo, os processos químicos que se passam no interior das células (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 65).

As categorias de variação, seleção, estabilização, consolidaram o modelo dos sistemas abertos na teoria geral dos sistemas, mas para Luhmann, ainda era preciso enfrentar o conceito de causalidade (acaso), que colocava a relação entre sistema e meio “no terreno dos impulsos de variação que se situam fundamentalmente na parte relativa ao meio”. Segundo essa teoria, tais impulsos levam a mutações no sistema (mudanças químicas operadas no meio, seleção de formas de sobrevivência que não estão de modo algum visíveis no sistema), tratando-se, portanto, de uma determinação externa da estrutura do sistema. Com efeito, desde Darwin, era preciso explicar a multiplicidade das espécies biológicas: como é possível que de um acontecimento único fundador da vida (a célula) se tenha chegado a tão distintas formas orgânicas? No âmbito do social, poder-se-ia estabelecer uma inquietação equivalente: partindose do pressuposto de que a consciência é um programa praticamente em branco com uma estrutura biológica mínima, no sentido de estruturas inatas chomskyanas, competentes para a linguagem, ou com alguns instintos biológicos ancorados, como é possível explicar que, uma vez que a linguagem emerge como fenômeno universal de socialização, tenha se desenvolvido tamanha diversidade de culturas e de linguagens? (p. 62) Dispondo de um arquivo acumulado durante quarenta anos, contendo, segundo ele próprio, “cerca de umas cem mil anotações bibliográficas” (p. 203), Luhmann realizou um meticuloso trabalho de “ajuste” dos conceitos relevantes, para que pudessem comportar um corpo teórico coerente: “não se trata de introduzir, nem de dispor a contento dos conceitos”, dizia ele, “sem levar em conta as tradições teóricas que os acompanham e, caso necessário, substituí-los” (p. 292). Uma preocupação teórica de Luhmann consistia em articular a ideia de que a evolução não podia ser prognosticada, uma vez que a admiração pela complexidade do mundo sempre acarretou “o recurso às teorias da criação” e, finalmente, “à admiração por Deus”. Aí, “a ordem era a execução de um plano, porque o mundo não podia ser explicado sem que houvesse uma intencionalidade por detrás” (p. 143-144). Se não há intencionalidade, porque intencionalidade implicaria a volta a um sistema de causa e efeito, Luhmann não podia admitir qualquer tráfego de mensagens do meio para o sistema, muito menos informação: “Em outros preceitos teóricos”, explica Luhmann, “a informação é entendida como um transfer a partir do meio; no contexto do acoplamento estrutural [em sua teoria de sistemas autopoiéticos], trata-se de um acontecimento que se realiza por uma operação efetuada no próprio sistema”. Luhmann associa essa metáfora do transfer à Segunda Cibernética, com seus GT1 6

E não constitui um avanço substancial – prossegue o sociólogo – a afirmação de que isso se dá “mediante processos de ensino-aprendizagem. portanto. A dúvida fundamental de Luhmann é “se a teoria da socialização pode ser entendida a partir do modelo da transmissão” (p. no período de 1972-2002. mas. A “teoria da comunicação” (SHANNON. sistemas sociais. que destaca o fato de que os seres vivos são unidades autônomas. muito embora um de seus mais proeminentes seguidores. Surgiu. 125). em intercâmbio de informação (p. Em ambos os casos. “basear a socialização na teoria da transmissão”. Maturana seria. essa situação foi constatada empiricamente. postulou que “o que caracteriza o ser vivo é sua organização autopoiética” (MATURANA e VARELA.. Desde os anos 1950. No Brasil. e são capazes de transferir esses modelos de socialização aos demais”: isto seria. quando orientou. p. mostra que. somente uma cópia que se desenvolve no campo amplo da diferenciação cultural”. diz o sociólogo. conduzidos por pessoas que desempenham o papel social de professor. de maneira bastante inovadora. 148). sem. O termo foi inicialmente cunhado pelo biólogo chileno Humberto Maturana que.). contudo. 55): seres vivos diferentes se distinguem porque têm estruturas distintas. 1948) é uma que fala em que “os meios de comunicação transmitem informação”. 294). denotar algum esforço em atingir clareza conceitual” (p. opôs-se ao emprego da metáfora da transferência”. caindo aí no problema de “ter de afirmar que a individualidade é. seja o autor estrangeiro mais citado. na categoria de análise “Complexidade”. uma nova ênfase no modelo: o intercâmbio. assim. na GT1 7 . Francelin (2004) cita o sociólogo entre os autores que formam as “bases do pensamento pós-moderno”. a entropia faz com que os sistemas estabeleçam um processo de troca entre sistema e meio: Abertura significou comércio com o meio. embora sejam iguais em organização. para os sistemas de sentido. há apenas 10 artigos. educador – como sendo os que entendem o comportamento adequado –. confirmam a ausência de Luhmann entre os autores que mais influenciam a área. por ele qualificada de “mudança de paradigma” ou “refundação da teoria” (p. “verifica-se um ápice no emprego do conceito de informação. com Francisco Varela. A Ciência da Informação. segundo Luhmann.“sistemas que interpretam o mundo (sob o preceito da energia ou da informação) e reagem conforme esta interpretação”. 139-140). 61). que abarca “teoria de sistemas” e “relações de complexidade”. Arboit et al. sua conceptualização dos sistemas sociais em torno do conceito de “autopoiesis”. um estudo que analisa a configuração epistemológica da CI brasileira com base na análise de citações da produção periódica da área entre 1972 e 2008. “um dos poucos que. 221). Para os sistemas orgânicos se pensa em intercâmbio de energia.. tanto para a ordem biológica como para os sistemas voltados para o sentido (sistemas psíquicos. como resultado de sua análise de 258 volumes de oito revistas de CI no Brasil. p. apesar dos esforços em aprimorar abordagens teóricas alternativas. 2010 [1984]. novamente. (2010). Aí reside a ruptura nas elaborações teóricas de Luhmann (GUIBENTIF. Rafael Capurro. 2005. decididamente. não conseguiu. ponto de vista que os colocou “numa posição minoritária” no meio acadêmico (p.

GT1 8 . capaz de servir de contraste ao que foi obtido pela tradição” (p. eventos. ou o resultado dessa ação. 2000. da formação de palavras novas por determinada Regra de Formação de Palavras. A princípio. desenvolver um corpo teórico que fosse reconhecido como uma teoria mais geral da informação. estabelecendo-se com ela uma caracterização genérica”. As nominalizações em -ção costumam ser interpretadas como uma “ação ou resultado da ação” expressa pela base verbal correspondente. como dizem Capurro e Hjørland (2007 [2003]). 2. que a produtividade dessa RFP só se aplica a verbos. que acredita ter erigido “um edifício suficientemente complexo. e não a qualquer lexema (ROSA. a um padrão derivacional. Não devemos nos esquecer. é previsível uma relação lexical entre este verbo e um nome”. porém. sobretudo. “dada a existência de um verbo no léxico do Português. informar-se. Afirma-se que. FREITAS. mas sim. informação também é a nominalização da ação informar-se (informar-se → informação). estaremos satisfeitos se pudermos apontar. “derivação” é o nome do processo formador de novas palavras. que obedeceria. O que pretendemos é analisar o papel que o conceito de informação tem nesse “edifício”. em princípio. 2004). Há. processos. Já a nominalização denotativa tem uma função de designação de “seres. produtos da derivação sufixal em -ção. As nominalizações deverbais possuem duas funções reconhecidas pelos estudiosos das línguas: de mudança categorial e designadora (ou denotativa). sendo uma construção transparente e sem objetivos designadores. A primeira obedece. ainda. ou RFP. mas a relação geral verbo/nome. 2007). Sabemos que.opinião de Hofkirchner (2011) e outros. situações” específicos (BASILIO. segundo o qual. como informação. É comum em algumas línguas como o português e o japonês encontrarmos termos com o mesmo étimo que muito frequentemente extrapolam os limites das suas famílias linguísticas. que nos diz que se pode formar um nome em -ção a partir de um verbo (representado pela variável X) e. a motivações de estruturação textual. informação pode então ser interpretada como a nominalização da ação informar (informar → informação) “ou resultado dessa ação”. quem não considere relevante a origem da base das nominalizações. Método Na Morfologia linguística. portanto. Para nosso fins. e concordamos com Basilio (1999) quando ela diz que “o conjunto de objetos do mundo externo designado por uma palavra não é suficientemente especificado pela estrutura morfo-semântica. com base em um sistema de categorias suficientemente robusto (descrito na próxima seção). Por essa regra geral. “as definições não são verdadeiras ou falsas. a essência da diferença entre as teorias de sistemas de Luhmann e daquelas que ele refuta. que o verbo em estudo admite reflexividade. para o significado original. 203). mais ou menos produtivas”. Daí nosso interesse em Luhmann. e “produtividade”. Eis porque é chamada “nominalização deverbal”. uma palavra como informação é formada por uma regra que pode ser representada como em [X]V → [[X] V -ção] N. ademais.

sob esse paradigma. estabeleceu quatro significados fundamentais para o verbo. Quanto à semântica. e informação. que projetam. Por último. o que faz dela o sentido default para o verbo em galego. no “mito do objetivismo” identificado por Lakoff e Johnson (2002 [1980]. entenderíamos como um “objeto”. então. ainda. a acepção 2 é “a estrutura mais documentada de informar”. informare. pode ser referir a animais. destinatário e tema. necessariamente. algo com propriedades independentes de quaisquer pessoas ou outros seres que os experienciem. p. mesmo “eventos. azeite ou escudo. no galego moderno aparece quase exclusivamente em textos de caráter filosófico. seguimos aqui as categorias de Salgado (2009). conceitos como pedra. sintaticamente. mas o mesmo não vale. notícia”. a hipótese de que informação é que deu origem aos verbos (informação → informar. coração. No dicionário Houaiss (2001). aproximando o termo daquilo que. atividades e estados” são metaforicamente conceptualizados como “objetos”. o concreto veio antes do sentido abstrato. e a prova está na língua: existe no tempo e no espaço (“você vai à corrida?”). p. como se pode interpretá-la: como (i) “ação de informar”. na acepção 4. tem demarcações bem definidas (“você viu a corrida?”) e contém participantes (“você está na corrida no Domingo?”). vamos buscar. âncora. informação está associada à “recepção de um conhecimento ou juízo” ou um “conhecimento obtido por meio de investigação ou instrução”. isto é. “dar forma”. que. Tomando como corpus o último livro Luhmann (2010 [1995]).referem-se basicamente a “seres abstratos”. “a menos que tenha tido algum significado abstrato inicial que não podemos restaurar” (VIARO. 295-297). essa acepção é registrada como “fazer saber” ou “cientificar”. 2011. “modelar”. (ii) “ação de informar-se”. informação → informar-se). por exemplo. os papéis de emissor. Essa acepção está lexicografada no Houaiss como sinônimo de “instruir (um processo)”. informar é um “verbo de transferência” que seleciona três argumentos potestativamente. é um evento compreendido como uma entidade discreta. “(iii) “resultado ou efeito da ação de informar” ou (iv) “resultado ou efeito GT1 9 . informar aparece sempre em construção pronominal (informar-se). informar especializou-se no meio jurídico-administrativo como “[um organismo. nos seguintes termos: (A) Informação é uma “ação” ou “objeto”? (B) se denota “ação”. corpo consultivo] emitir informes da sua competência”. que no Houaiss é o informar-se (“tomar ciência de” ou “cientificar-se”). A acepção 1 é “continuadora do significado etimológico do verbo” (lat. por exemplo. em estudo sobre as regências de informar em galego. Não podemos descartar. para as demais acepções da palavra. em suma. 117-122). “formar no ânimo”) que. uma “caracterização genérica” para seu conceito de informação. então. Com o significado 2. que podem estar expressos ou não. Segundo Salgado. Admite-se. que podem ser concretas: criação (“ato de criar”). é a “comunicação de um conhecimento ou juízo” ou um “acontecimento ou fato de interesse geral tornado do conhecimento público ao ser divulgado pelos meios de comunicação. aparentemente. perito. No significado 3. ações. Uma corrida. que informação pode ser usada ignorando-se completamente a base verbal. Segundo esses autores.

para Luhmann só há “auto-organização”. a Teoria dos Sistemas não começa sua fundamentação com uma unidade. Cada organismo. 183-184). “o que se disse por último é o ponto de GT1 10 . Poder-se-ia dizer: “o sistema é a diferença resultante da diferença entre sistema e meio” ou. Mas a estrutura luhmanniana não é o fator produtor. em relação aos avanços alcançados nos anos 1950 e 1960. então. deve-se entender por autopoiesis. diz Luhmann. 2010 [1995]. O sistema dispõe de um campo de estruturas delimitadas. a origem da autopoiesis: trata-se de um processo circular interno de delimitação. “numa conversa”. “que o sistema se produz a si mesmo. para que seja possível reconhecê-lo como membro de uma classe específica”. e oferece mais possibilidades do que aquelas que o sistema pode aceitar. “dentro do sistema não existe outra coisa senão sua própria operação” (p. expressa qual dos significados fundamentais de Salgado (2009)? 3. 53) entendem “organização” como “as relações que devem ocorrer entre os componentes de algo. Enquanto Maturana e Varela entendem por “estrutura de algo” os “componentes e relações que constituem concretamente uma unidade particular e configuram sua organização”. tem sempre um meio que é mais complexo. que o autor enxerga como um sistema (o sistema “comunicação”). além de suas estruturas”. ou ainda com a categoria do ser. Por exemplo (de Luhmann). processar. “autopoiesis significa que um sistema só pode produzir operações na rede de suas próprias operações. A “metateoria” de Niklas Luhmann Em Luhmann. Os dois têm como base um princípio teórico sustentado na diferença e um mesmo princípio de operação: cada um acentua aspectos específicos do axioma.da ação de informar-se”? (C) ainda. “a fundação da unidade está colocada junto da diferença” (p. p. sendo que a rede na qual essas operações se realizam é produzida por essas mesmas operações”. A “afirmação mais abstrata” que se pode fazer sobre um sistema – e que é válida para qualquer tipo de sistema – é que a diferença que há entre sistema e meio pode ser descrita como diferença de complexidade: o meio de um sistema é sempre mais complexo do que o próprio sistema (p. 112). ou legitimar. Na definição de Maturana. mas o sistema só pode dispor de suas próprias operações (p. ou com uma “cosmologia que represente essa unidade. 113). máquina e formação social. Como os sistemas estão enclausurados em sua operação. Se Maturana e Varela (2010 [1984]. Ao tomar como ponto de partida esse “encerramento de operação”. que determinam o espectro de possibilidades de suas operações. ainda. no sentido de uma “construção de estruturas próprias dentro do sistema”. O axioma do “encerramento operativo” leva aos dois pontos mais discutidos na atual Teoria dos Sistemas: a) auto-organização. ademais. b) autopoiésis. mas sim com a diferença”. 81). p. 304). 119-120). Assim. o que mudou com a apropriação do conceito de autopoiesis. se denota uma “ação”. foi a definição de sistema como “a diferença entre sistema e meio” (LUHMANN. eles não podem “conter” estruturas. eles mesmos devem construí-las. Luhmann diz que “uma estrutura constitui a limitação das relações possíveis no sistema” (p.

na operação atual. Os acoplamentos estruturais podem admitir uma diversidade muito grande de formas. As causalidades que podem ser observadas na relação entre sistema e meio situam-se exclusivamente no plano dos acoplamentos estruturais – o que significa dizer que estes devem ser compatíveis com a autonomia do sistema. o que lhe é indiferente. por outro lado. Portanto. A linha de demarcação que divide o meio. Autopoiesis significa para Luhmann a determinação do estado posterior do sistema. o conceito de autoorganização deve ser entendido. sobreviver é ainda mais fundamental que viver. a autopoiesis determina o que é possível. 2010 [1995]. resguardando-se precisamente de que o meio a destrua. O molde das estruturas pré-condiciona o que é passível de ser examinado. entre aquilo que estimula ao sistema e aquilo que não o estimula – e que se realiza mediante o acoplamento estrutural – tende a reduzir as relações relevantes entre sistema e meio a um âmbito estreito de influência. de fato. principalmente na estratégia teórica. assim como o que se percebe no último momento constitui o ponto de partida para o discernimento de outras percepções”. Um exemplo de acoplamento estrutural. Assim. conforme as próprias estruturas. Donde se deduz que. do contrário. Mediante o acoplamento estrutural. que é condizente com a força da gravidade. “a distinção sistema/meio faz referência ao fato de que o sistema já contém a forma meio” (p. uma vez que. p. primeiramente. já que.apoio para dizer o que se deve continuar dizendo. 120). deve sê-lo (LUHMANN. Entende-se por “autonomia” a propriedade que os sistemas têm de somente a partir da operação ser possível determinar o que lhe é relevante e. 128). mas não está. Ele não determina. é a musculatura dos organismos. Ao transferir seu centro de gravidade para o conceito de autopoiesis. embora restrita a âmbitos de possibilidades de movimentos. Os sistemas luhmannianos são “autônomos no nível das operações”. um campo de indiferença e. por um lado. faz com que haja uma canalização de causalidade que produz GT1 11 . por sua vez. um sistema adquire a suficiente direção interna que torna possível a autorreprodução. 130). o sistema desenvolve. Por conta da “teoria do encerramento operativo”. Faz-se necessário mais um conceito fundamental da metateoria. “chegando a interromper o processo da evolução” (p. Luhmann conclui que “a diferença sistema/meio só se realiza e é possível pelo sistema”. realmente. daí que a autopoiesis é construída de maneira altamente seletiva. mediante operações específicas. a Teoria dos Sistemas defronta-se com o problema de como estão reguladas as relações entre sistema e meio. mas deve estar pressuposto. a autopoiesis se deteria e o sistema deixaria de existir. desde que sejam compatíveis com a autopoiesis. 280) se necessário. o que acontece no sistema. principalmente. pois acoplamento estrutural exclui que dados existentes no meio possam definir. condicionado a responder a todo dado ou estímulo proveniente do meio ambiente (p. 138). As estruturas condicionam o espectro da possibilidade no sistema. só pode produzir efeitos destrutivos no sistema se conseguir irromper na operação da autopoiesis. O meio. e a autopoiesis determina o que. Somente por meio de uma estruturação limitante. segundo Luhmann. por outro. a partir da limitação anterior à qual a operação chegou. dado pelo autor. como produção de estruturas próprias. o sistema não pode importar nenhuma operação a partir do meio. o conceito de “acoplamento estrutural” (p.

construir sua própria irritabilidade: Ele pode inserir a distinção sistema/meio de ambas as partes. e não de perda. ainda que dentro do raio de ação que lhes é conferido eles tenham todas as possibilidades de se comportar de um modo não adaptado (p. de acordo com Luhmann. GT1 12 . deixando assim que umas possibilidades caiam no esquecimento.efeitos que são aproveitados pelo sistema (p. colocando-lhe à prova uma distinção. segundo Luhmann. que se efetua com ela” (p. Luhmann não quer se aproximar de um ideal. Um sistema pode. o transmissor deixa de possuir algo. subentende uma mudança radical na teoria do conhecimento e na ontologia que lhe serve de pressuposto. e tampouco da autorrealização de um espírito objetivo ou subjetivo. nem de uma justiça maior. diz Luhmann. Também não se trata de atingir a unidade: a racionalidade do sistema significa expor-se à realidade. ao se comunicar. reflexo. Diferentemente das concepções próprias da tradição. ou então. 200). “a essência da comunicação no ato da transmissão. entre sistema e meio (p. 2 Luhmann fala em “dois aspectos”. assim como em uma transação econômica. mas elenca três. “fica evidente que se trata de um rompimento com a tradição ontológica do conhecimento. A radicalidade desses princípios teóricos. 294): dar-se conta de que na comunicação não se trata de desfazer-se de algo – por exemplo. “reagir à frequência das irritações”. todos os sistemas estão adaptados ao seu meio (ou não existiriam). assim como em alguns processos de pesquisa das ciências. mediante ulteriores distinções e. os sistemas se tornam. por meio da qual um proprietário se desfaz de um imóvel. Com a ajuda de modelos de seletividade. em “dois aspectos”2. 132). seja como representação. portanto. 294-295) As objeções feitas a esse conceito usual de comunicação concentram-se. imitação. no ato de partilhar a comunicação”. dessa forma. ampliar suas possibilidades de observação. sendo que o primeiro é “relativamente superficial e sempre foi conhecido” (p. 131). Ele pode recordar e esquecer e. mais capacitados para processar os dados – ou. que. ou em uma venda. na qual um pagamento pressupõe desfazer-se de uma quantidade de dinheiro. 4. Essa metáfora coloca. como prefere Luhmann. 125). Quando se aborda a teoria da autopoiesis tendo em conta o encerramento de operação. para Luhmann. ou simulação” (p. Ela dirige a atenção e os requisitos de habilidade para o emissor e acentua “o caráter de multiplicação. segundo o autor. ou de uma construção superior. Objeções à “metáfora da transferência” Na vida cotidiana. condensar referências. “o conceito de comunicação se baseia na metáfora da transferência (transmissão)”. Também pode utilizar indicações e. não fazê-lo. na qual algo pertencente ao meio pode ser transportado ao ato de conhecer. com isso. no entanto. as “irritações provenientes do meio” – o que proporciona “a possibilidade de aproximar-se da racionalidade”. como veremos. Em suma.

dois.Luhmann discorda: “a comunicação é uma sucessão de efeitos multiplicadores”. isto é. ou reage negativamente.” (p. Para ele. como se poderá dizer que houve um acontecimento de comunicação? (p. a socialização “é sempre autossocialização”. que possui também uma elevada “cota de esquecimento” ou “desatualização”: “aquilo que se soube ontem já não interessa mais”. torna-se mais compreensível que tanto a estruturação da consciência.. e de principalmente pensar que. frases e modos de ser específicos. “o fenômeno da comunicação serve para a elaboração de redundâncias”. Se o que se existe em A for diferente do que existe em B. no fundo. torna-se. a aceitação normativa somente mediante a coação. Tomando-se como ponto de partida a autopoiesis. é necessário conhecer o que existe em A e em B. dar e receber. A metáfora do possuir. mais que isso. 297). a individualidade se reafirma mais. Luhmann não admite um programa cultural para a individualidade. Trata-se de uma sobreprodução de excedentes. para afirmar que A e B sabem a mesma coisa. sob a forma de rejeição. a metáfora da transmissão não é útil. 296-297). mas de maior peso” – é se o modelo de transmissão não pressupõe. o desconhecimento das normas. no sentido de perder algo”. e logo ela pode ser estendida a milhões. “pode saber algo que foi transmitido pela televisão”. Enfim. uma sugestão: somente quando se retoma essa sugestão e se processa o estímulo é que se gera a comunicação” (p. como a da própria memória. “é possível explicar a enorme diversidade individual”. A metáfora sugere que o emissor transmite algo que é recebido pelo receptor. Quando se entende a individualidade a partir da possibilidade radical do indivíduo de dizer sim ou não. simplesmente porque o emissor não dá nada. Somente assim. portanto. afirma Luhmann. Ou seja. a identidade do que se transmite. “mas este não é o caso. Uma terceira ressalva à metáfora da transmissão se dirige contra a tese de que o processo GT1 13 . pois implica “demasiada ontologia”. 148-149). O mesmo individuo cumpre com os requisitos determinados no comércio social. 295) A metáfora da transferência exagera. ter. palavras. na qual o conhecimento se multiplica a si mesmo. e depois. primeiramente. Embora “possa haver algo de verdade nisso”. reflitam para enfrentar os oferecimentos de cultura sob a dupla disposição de aceitação ou rejeição. compreensível a origem das particularidades individuais: “a repulsa secreta a assimilar os costumes. “não serve para compreender a comunicação” (p. para a criação de um excedente comunicacional a serviço de todo aquele que se interesse por ele: “todo mundo”.. enfim. que pensava que a produção de redundâncias é a manifestação primordial da comunicação. a televisão). dependendo da rede comunicacional na qual se pense (por exemplo. “o ato de partilhar a comunicação não é mais do que uma proposta de seleção. que se tenha conhecimento do estado interno dos que participam. A segunda objeção ao “conceito usual de comunicação” – “menos difundida. O sociólogo apóia-se aí em Gregory Bateson (1972). na medida em que se orienta conforme expectativas. um a tem. Cada sistema de consciência desenvolve suas próprias estruturas. admite Luhmann. então. segundo o autor.

sempre há uma interpretação limitada da percepção de um odor inabitual de queimado” (p. um campo de indiferença e. antes de tudo. 296). Mas. ilusão da simultaneidade do não-simultâneo.comunicacional está “disposto na simultaneidade do ato de comunicar e de entender”. o sistema desenvolve. 136-137). Tratando-se de sistemas autopoiéticos. a comunicação oral se torna dependente do presente” (p. posterior a influxos provenientes do meio” (p. que consistem. 142). diz Luhmann. Informação é seleção que só acontece uma vez. No plano dos acoplamentos estruturais. para Luhmann. na escala das possibilidades. não existe transfer de irritação do meio ao sistema assim como não existe irritação do sistema no meio: informação é sempre “informação de um sistema” (p. não são corpos (coisas). expectativas. ou quando se pressupõe que aquele que escuta também está localizado nesse tempo e espaço da simultaneidade”. a metáfora da transmissão ligada à ideia da simultaneidade – na qual não se deixa terreno para analisar a relação entre espaço e tempo –não é suficiente para explicar o fenômeno constitutivo da comunicação (p. como um conceito com dois lados”: a) o caráter de surpresa que traz implícita a informação. na compreensão básica do processo de comunicação. 138). segundo Luhmann. para Maturana) o sistema”. com a escrita se realiza uma presença completamente nova do tempo. trata-se da constante capacidade de ressonância: “a ressonância do sistema se ativa incessantemente. e que. deve ser imediatamente compreendido (simultaneamente). não se sabe se são as batatas ou algo que se incendeia na casa. 296). 5. que podem ser transformadas pelo sistema. não há extensão de espaço nem de tempo: “o que se diz. faz com que haja uma “canalização de causalidade”. porém. num primeiro momento) entre eventos do sistema e possibilidades próprias. portanto. As irritações surgem de uma confrontação interna (não especificada. assim como quando alguém fala e vai paralelamente compreendendo a si mesmo. ser concebido “no marco de referência da forma. mediante o acoplamento estrutural. e simultaneamente. já que consiste em uma organização totalmente nova da temporalidade da operação comunicacional. há possibilidades armazenadas (ruídos) no meio. Mas. O efeito da escrita consiste. b) o fato de que a surpresa só existe se as expectativas já estiverem pressupostas no sistema. Informação em Luhmann O que o sistema experimenta no meio. “na separação espacial e temporal entre o ato de transmissão e o de recepção”. isto é. Portanto. por um lado. sempre “uma autoirritação. em todo o caso. como vimos. Ao estar ligada a um espaço delimitado pelas presenças individuais. e se já estiver delimitada a margem de possibilidades dentro da qual a informação pode optar. Diz-se: “a metáfora da transmissão pressupõe simultaneidade. Por exemplo: “no momento em que surge um odor cheirando a queimado. Os acoplamentos estruturais não determinam os estados do sistema. segundo Luhmann. do ponto de vista do sistema. sua função consiste em “abastecer de uma permanente irritação (perturbação. 132). por outro. mas elementos constantes. O advento da escrita rompeu. A escrita também acontece no presente. mas. O conceito de informação precisa. 140). em estruturas estabilizadas. mediante os acoplamentos estruturais” (p. quando é GT1 14 . “que são canalizados desse meio até o sistema” (p. com essa concepção espacial.

acontecimentos que delimitam a entropia. mesmo que tenha desaparecido como acontecimento. continuamente. sem determinar necessariamente o sistema. Informação. Nesse contexto.repetida. 84). 300). seu conceito de informação “toma o lugar do conceito encarregado da finalidade GT1 15 . seu suceder temporal identifica-os. diz Luhmann. Portanto. de forma quase imperceptível. um período em que “estados do sistema” são selecionados (p. É uma diferença que leva a mudar o próprio estado do sistema: “tão somente pelo fato de ocorrer. 300). que o máximo que toda mudança estrutural produz. Uma informação cujo caráter de surpresa se repita já não é informação. por conseguinte. A influência exterior se apresenta como “uma determinação para a autodeterminação” e. O fundamental é que a informação “tenha realizado uma diferença” (p. a formulação clássica de Bateson: informação é a “diferença que faz diferença” para o sistema. por exemplo. colocam a saúde em risco”. Todo acontecimento do processamento de informação fica sustentado por uma diferença e se orienta precisamente para ela. perde o caráter de surpresa. Por isso. portanto. o sistema “reage apenas quando pode processar informação e transformá-la em estrutura”. Uma vez que existem estruturas que limitam e pré-selecionam as possibilidades. como informação: “esta modifica o contexto interno da autodeterminação. Uma notícia desportiva. Portanto. a título de processo de seleção. A informação. assim. É a diferença que engendra a informação posterior (p. ou evoluem. exemplifica Luhmann. 142). ocorrendo apenas uma vez e somente no lapso mínimo necessário para sua aparição. informação pressupõe estrutura. Modificou-se o estado do sistema e deixou-se. “tanto da vida como da comunicação”. opere-se nele outra diferença. conserva seu sentido na repetição. “e passa-se a ser outro – quer se acredite. é o “acontecimento que antecede e sucede a irritação”. 140). mas perde o valor de informação. sem ultrapassar a estrutura legal com a qual o sistema deve contar” (p. Cada sistema produz sua informação. Essa seleção é efetuada em um contexto de expectativas. servem como “elementos de unidade dos processos”. consequentemente. mas sim a seleção de uma diferença que leva a que o sistema mude de estado e. um efeito de estrutura: o sistema reage perante essas estruturas modificadas e muda com elas (p. Como os “acontecimentos” são elementos que se fixam pontualmente no tempo. Luhmann adota. A autopoiesis. Por outro lado. figura necessariamente dentro de um contexto (expectativa): “o futebol não pode ser confundido com o tênis”. 83). já que cada um constrói suas próprias expectativas e esquemas de ordenação. São. Segundo Luhmann. o álcool. prossegue o teórico. na informação”. é mais diversidade. a carne congelada. e eles são. os horizontes de seleção já estão predefinidos (p. portanto. ou não. não se perde a informação. diz Luhmann. é um fenômeno tão forte. Os sistemas autopoiéticos se diversificam. há uma seleção sobre essa margem de possibilidades. A informação se realiza “por uma operação efetuada no próprio sistema” (p. não é a exteriorização de uma unidade. pois “somente aí a informação constitui uma surpresa” (p. a manteiga. embora não seja em si mesma nenhuma estrutura. já transforma”: “lê-se que o fumo. irrepetíveis. 140-141). 140). 140). mas sim “um acontecimento que atualiza o uso das estruturas” (p. enfim.

“acaba por reforçar o equilíbrio. Cada sistema está voltado para as expectativas possíveis. 184-185). ao especificá-lo”: não é possível predizer como o sistema se comportará. 132). quando se tenta atingir uma ordem”. “eventos” ou “situações” reais. como o proposto por Luhmann. portanto. 6. com isso. Por eliminação. acatar ou negar a ocorrência ou existência de “objetos”. mas elementos constantes. concluímos que a informação luhmanniana denota um “processo”. A identidade de uma informação deve ser pensada paralelamente ao fato de que seu significado é distinto para o emissor e para o receptor. dentre os “significados fundamentais” identificados por Salgado (2009). pois “o que o sistema experimenta no meio não são corpos (coisas). Tal seletividade pode ser observada no fluxo da comunicação habitual. podemos afirmar que. conforme procuramos expor. como no dos processos. possibilidades. Envolve a seleção de uma diferença. para ele. é uma “operação” efetuada no próprio sistema. por sua vez. A informação reduz complexidade. como nos círculos de vizinhos: “não é possível comunicar-se com todos. Com isso. No entanto. se orienta “conforme expectativas. “que já trazem impresso um sentido de avaliação”. para um conceito de comunicação que se baseie na “metáfora da transferência (transmissão)”. “a redução de complexidade é condição para o aumento de complexidade” (p. Informação. O ponto fundamental da reflexão acerca dessa problemática consiste em Luhmann “ter compreendido que o estado de equilíbrio pressupõe uma situação de demasiada fragilidade para que possa ser estável”. ele se torna complexo. Interpretação Na teoria de sistemas de Niklas Luhmann não há espaço. excluindo. Em Luhmann. A consequência é que. que são canalizados desse meio até o sistema”. Portanto. na medida em que permite conhecer uma seleção. informação também pode aumentar a complexidade. “já que se obriga a fazer uma seleção da relação entre seus elementos” (p. “seres”. dão continuidade à comunicação” (p. 137-138). tanto no plano das estruturas. frases e modos de ser específicos” e pode. mas na estabilidade. A ênfase de sua pesquisa “não reside no equilíbrio. 184). ou podem sê-lo” (p. Operando de maneira seletiva. para ordens quantitativamente grandes. Informação não pode ser interpretada nem como a nominalização da “ação de informar” nem como o resultado ou efeito dessa ação. Luhmann claramente descarta a acepção de informar como um “verbo de transferência”. O conceito de autopoiesis. Precisamente porque o sistema seleciona uma ordem. que. uma vez que há sistemas que não estão em equilíbrio. e são estáveis. “sempre há outras possibilidades que podem ser selecionadas. enquanto “processo”. reflexos de uma metáfora que implica “demasiada ontologia”. 143). mas somente com determinadas pessoas. pois ambas são. uma vez que a informação é um estado que surge de dentro dele mesmo (p. também não se pode conceber informação como um “objeto”. um “acontecimento” que se fixa pontualmente no tempo: eles antecedem e GT1 16 . palavras.de equilíbrio” na Teoria dos Sistemas. os elementos podem se conectar somente sob a condição de que este acoplamento se realize de maneira seletiva.

What we have is Information Science. informação também é o resultado. A influência exterior se apresenta como “uma determinação para a autodeterminação”. 4 Mantivemos o texto no original. however. pois. servem como “elementos de unidade dos processos”. ou seja. social and technological systems and thus have a broader scope. p. assim. pois cada sistema constrói suas próprias expectativas e “esquemas de ordenação”. Por tudo isso. como vem propondo Hofkirchner (2011. em português. a Science of Information does not exist. tanto Science of Information como Information Science são traduzíveis para Ciência da Informação. A informação. em Luhmann. parece cumprir um papel didático eficaz o suficiente para contemplar outros horizontes epistemológicos como o desenvolvimento de uma Science of Information. Information Science is commonly known as a field that grew out of Library and Documentation Science with the help of Computer Science: it deals with problems in the context of the so-called storage and retrieval of information in social organizations using different media. A seleção leva o sistema a mudar de estado e. eles são irrepetíveis – eis porque. parece ser hegemônico na Ciência da Informação. operar-se nele outra diferença. perito. Considerações finais A teoria dos sistemas de Niklas Luhmann nos leva a compreender a CI como uma “ciência do informar-se”. and it might run under the label of Informatics as well. ou efeito. Os sistemas instruem-se (= informam-se) continuamente. GT1 17 . 7. corpo consultivo] competência”. diz o sociólogo. na medida em que exclui possibilidades. Essa mudança de perspectiva.4 A informação ocupa. Como os “acontecimentos” ocorrem apenas uma vez e somente no “lapso mínimo necessário para sua aparição”. um efeito de estrutura”. em algum momento – caso a proposta de Hofkirchner se consolide como paradigma emergente – será preciso encontrar uma solução terminológica para a questão. é tanto a própria “ação de informar-se” quanto o “resultado ou efeito” dessa ação. um papel que nos parece central na epistemologia da 3 Luhmann estudou direito na Universidade de Freiburg entre 1946 e 1949.sucedem a irritação. da “ação de informar-se”. selecionando “estados do sistema”. would be a discipline dealing with information processes in natural. mesmo que tenha desaparecido como acontecimento: “modificou-se o estado do sistema e deixou-se. A Science of Information. para Luhmann. Conclusão: informação. assim. Mas a informação luhmanniana também é “um estado que surge de dentro” do próprio sistema. consequentemente. embora reducionista. Não se perde a informação. o que permite que as informações de um sistema possam ser “recuperadas” por um sistema-observador. 372): Currently. conceito que. De qualquer forma. reduz complexidade. quando obteve seu doutorado e começou uma carreira na administração pública. Argumentos como esses nos permitem postular que informação em Luhmann nominaliza a “ação de informar-se”. diz Luhmann. e cada instrução (= informação) fixa-se na própria estrutura. o que confere “valor de informação” a toda experiência. que deve ser entendida com um sentido que tem grande produtividade no Direito (formação originária de Luhmann3): a de instrução de processos. ainda hoje. observa-se que “o resultado ou efeito da ação de informar-se” aproxima-se de uma informação que nominaliza a acepção 3 de Salgado (2009). e não como uma “ciência do informar”. aquela em que informar significa “emitir informes da sua [organismo.

A.1.18-43. 2005a. para isso “exploram” seus meios ambiente.47. p. Bibliografia ARBOIT. v. New York: Ballantine. S. possibilitando possíveis futuros. Em sistemas de baixa complexidade. por exemplo) mas em sistemas complexos ela pode surgir exatamente como na memória de um ser humano. BASILIO. Covilhã: LusoSofia/Universidade da Beira Interior. Aqui recorremos a Günter Uhlmann (2002. 533 p. L. BUFREM e J. Steps to an ecology of mind. M. como a entendemos. P. porém. O autor cita como exemplos a água que o camelo absorve para sobreviver uma travessia de um deserto. a gordura que o urso acumula antes da Hibernação. 199) e considerado uma das “mais ambiciosas e potentes reformulações da sociedade tardo-moderna” (FARÍAS e OSSANDRON. O conceito de informação. A morfologia no Brasil: indicadores e questões. um complexo processo cerebral e celular.15. gerando o que Uhlmann chama de “função memória” do sistema. D. BATESON. 2007 [2003].. ______.281-320 GT1 18 .148-207. os estoques acabam por ter um caráter histórico.Ciência da Informação: a autonomia do sistema. p. A memória mais marcante em biologia é sem duvida aquela do código genético. 15) – “talvez mesmo a mais plausível” (SANTOS. M. O resultado. social and technological systems”. ESTEVES. 2005. 2004. 1972. SANTOS (Ed. p.. DELTA [online]. n. Além de garantirem alguma forma de permanência ou sobrevivência sistêmica. HJØRLAND. Sua “Teoria Sistêmica de Terceira Geração”. sob a imposição da termodinâmica universal. ser apropriada pela Ciência da Informação.spe. v. n. que não deve ser apresentada como instrução da base metodológica da pesquisa empírica. já foi equiparado à Fenomenologia do Espírito de Hegel (MOELLER. mas sim como uma orientação geral” (p. na nossa opinião. 57ss). a memória é simples (como o caso do fenômeno da histerese em sistemas físicos ou o que é descrito por uma “função de transferência” em um circuito elétrico. In: J. p. G. n. p. p. Sistemas “necessitam” sobreviver. 2006. J. E. v. o conhecimento. P. e B. p. v. no sentido de exigir-lhe prognósticos estruturais. p. propriedade já reconhecida ortogonalmente entre os “natural. 2006. Configuração epistemológica da Ciência da Informação na literatura periódica Brasileira por meio de análise de citações (1972-2008) Perspectivas em Ciência da Informação. FREITAS. L.12. 8. 125). CAPURRO.1. Ilha do Desterro. 1999. Perspectivas em Ciências da Informação. M. como em Luhmann.). 2010. oferece de fato “um edifício suficientemente complexo” capaz de servir de contraste “ao que foi obtido pela tradição” e merece. 161). que permite ao homem “sobreviver” em ambientes competitivos. R. Luhmann descreve sua obra como “uma espécie de metateoria.53-70. Polissemia sistemática em substantivos deverbais.49-71. Uma função memória conecta o sistema presente ao seu passado. Ta Pragmata.15. que nos explica que a autonomia do sistema é obtida a partir da memória do “estoque”. Legitimação pelo procedimento e deslegitimação da opinião pública. p. “trabalhando” os “estoques” adequados a essa permanência.

v.). Humberto Mariotti e Lia Diskin). 623-656. São Paulo: Contexto. Francisco M. LAKOFF. 371 p. 331 p. Recontextualizando Luhmann: lineamientos para una lectura contemporánea. 2006. Introdução à teoria de sistemas: aulas publicadas por Javier Torres Nafarrante (trad. A. e F. v. 156 p. O direito na obra de Niklas Luhmann: etapas de uma evolução teórica. FREITAS. p. A mathematical theory of communication. A. In: J. Petrópolis: Vozes.2. G. 2010 [1995]. 1948. Princípios de morfologia:visão sincrônica. 288 p. C. 414 p. 2010 [1984]. OSSANDRON. 2004. e J.209-223. GUIBENTIF. In: J.). L. C. ROSA. p. p. Dicionário Eletrônico Houaiss da língua Portuguesa. LUHMANN. versão 1. 2005. Sobre o réxime do verbo informar en galego. Rio de Janeiro: Lucerna. Petrópolis: Vozes. F.123-164 ______. W. VARELA. JOHNSON. 4 jul 2011. Ana Cristina Arantes Nasser). Santiago de Chile: RIL. J. p. M. 299 p. Introdução à Morfologia. Toward a new Science of Information. M. 360 p. Covilhã: LusoSofia/Universidade da Beira Interior. Ta Pragmata.FARÍAS. GT1 19 . p.0. 2005a. X. Maria Sophia Zanotto). Instituto Siegen. 2011. e M. VON BERTALANFFY. Illinois: Open Court Publishing. P. W. Teoria geral dos sistemas: do Atomismo ao Sistemismo (Uma abordagem sintética das principais vertentes contemporâneas desta Proto-Teoria) . 360 p. G. OSSANDÓN e I. Etimologia. VIARO.379-423. 223 p. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana (trad. 2009. N. I. J. H. FARÍAS (Ed. R.-G. M. trad. São Paulo: Palas Athena. 2005b. UHLMANN. 2006.2. SANTOS. Configuração epistemológica da ciência da informação no Brasil em uma perspectiva pós-moderna: análise de periódicos da área. M.). Ta Pragmata. Teoria geral dos sistemas: fundamentos. 2007. n.17-54 FRANCELIN. Information. 2000. SHANNON. v. O pensamento de Niklas Luhmann.49-66. SALGADO. Guimarães). H. Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss/Editora Objetiva 2001. M. HOUAISS. Estudos de Lingüística Galega.versão Pré-Print. desenvolvimento e aplicações (trad. Ciência da Informação. M.185-252 HOFKIRCHNER. MOELLER.27. Luhmann explained: from souls to systems. v. São Paulo: Contexto. Covilhã: LusoSofia/Universidade da Beira Interior.3. Observando sistemas: nuevas apropiaciones y usos de la teoría de Niklas Luhmann. v. p. 2002 [1980]. R. Bell System Technical Journal. In: J. MATURANA. SANTOS (Ed. Campinas/São Paulo: EDUC/Mercado de Letras.372-382. 2011. p. Metáforas da vida cotidiana (coord. 2002. A complexidade do mundo.1. M. Peru. 2009 [1967]. Covilhã: LusoSofia/Universidade da Beira Interior. H. E.33. SANTOS (Ed.

Os resultados encontrados apontam fortes evidências e argumentos em defesa da ideia de que é possível promover a integração epistemológica entre as áreas da Arquivologia. 1 INTRODUÇÃO O objetivo deste texto é apresentar os resultados de uma pesquisa de pós-doutoramento junto à Universidade do Porto. dadas certas condições teóricas. Pretende-se demonstrar que a evolução teórica das três áreas (e alguns desdobramentos práticos). A pesquisa aqui relatada insere-se nesse segundo tópico. analisa-se a origem e evolução da Ciência da Informação. GT1 20 . A seguir. Biblioteconomia e Museologia. Museologia. em Portugal. sendo identificado um paradigma custodial-tecnicista e teorias que apontam para sua superação. Biblioteconomia. A intenção da escola desde o início foi promover uma integração entre esses três cursos na Ciência da Informação (CI). Desde então.COMUNICAÇÃO ORAL INTEGRAÇÃO EPISTEMOLÓGICA DA ARQUIVOLOGIA. na Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (ECI/UFMG). uma série de esforços vêm sendo realizados. tanto para a consolidação das condições institucionais como para o avanço das aproximações teóricas. Arquivologia e Museologia”. Para tanto. no campo da CI. buscando problematizar aspectos relacionados com possíveis aproximações e diálogos entre as três áreas e destas com a Ciência da Informação. que serão aqui analisadas e tensionadas. propondo-se que o conceito de informação tal como estudado recentemente pode favorecer o avanço das perspectivas teóricas nas três áreas e possibilitar sua integração epistemológica. A pesquisa nasceu de uma questão bastante concreta: a criação. que passaram a conviver com o já existente curso de Biblioteconomia. dos cursos de graduação em Arquivologia e Museologia. tem apontado frequentemente para a superação das distinções disciplinares entre elas – e. Palavras-chave: Ciência da Informação. da Biblioteconomia e da Museologia na Ciência da Informação. Arquivologia. DA BIBLIOTECONOMIA E DA MUSEOLOGIA NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: POSSIBILIDADES TEÓRICAS Carlos Alberto Ávila Araújo Resumo: O objetivo deste artigo é apresentar as conclusões de uma pesquisa que buscou problematizar e discutir as possibilidades de integração epistemológica da Arquivologia. ao longo do século XX. é analisada a origem e evolução teórica das três áreas. realizada de junho de 2010 a maio de 2011. intitulada “Ciência da Informação como campo integrador para as áreas de Biblioteconomia.

filosóficas e científicas – tanto as da Antiguidade GrecoRomana como aquelas que se desenvolviam no próprio momento. A produção simbólica humana. as bibliotecas e os museus eram apenas instituições a serviço dos campos de estudo da Literatura. bibliotecas e museus frequentemente listam algumas instituições que se tornaram paradigmáticas (como os arquivos de Ebla. é com a invenção da escrita e do estabelecimento das primeiras cidades. nos mundos árabe e chinês do primeiro milênio e na Idade Média na Europa. embora distinções muito rígidas do que seria arquivo. pelas ações de acúmulo de documentos por motivos administrativos ou comerciais nos primeiros coletivos humanos. ergueram-se diversos arquivos. Nesse cenário. é com o Renascimento. jurídicos. por sua vez. 2 O LONGO CAMINHO ATÉ A CONSOLIDAÇÃO Os campos de conhecimento hoje conhecidos como Arquivologia. que surgem os primeiros espaços específicos voltados para a guarda e a preservação de acervos documentais. para as regras de preservação e conservação física dos materiais. a Biblioteca de Alexandria. entre outros). entre outros. surgiram há milênios e se configuraram de maneiras muito diferentes. Contudo. a partir do século XV. a CI e o conceito de informação surgem como possíveis aglutinadores e potencializadores dos desenvolvimentos futuros destas três áreas. políticos. GT1 21 . Biblioteconomia e Museologia têm raízes em atividades práticas ligadas ao funcionamento das instituições arquivo. Nesta época. sua preservação. Não se constroem. a ser guardado e repassado para as gerações futuras). Autores que tratam da história dos arquivos. com a publicação dos primeiros tratados relativos a estas instituições. tornou-se objeto de uma visão patrimonialista (o conjunto da produção intelectual e estética humana. humana. das Artes. portanto. para as estratégias de descrição formal das peças e documentos. até chegar aos modelos existentes atualmente. Os arquivos. pelas obras artísticas. Todas elas. de uma forma ou de outra (seja pelas atividades de colecionismo que deram origem aos primeiros museus. da História e das ciências. No Egito Antigo. abrem caminho para a possibilidade de sua integração. biblioteca e museu. nos séculos XV a XVII. bibliotecas e museus. compreendida como um “tesouro” que precisaria ser devidamente preservado. procedência e características. conhecimentos arquivísticos. renasce o interesse pela produção humana. na Grécia Clássica. há mais de cinco milênios. Assim. no Império Romano. o foco do interesse fixou-se no conteúdo dos acervos. pela sua guarda. 2006).portanto. têm estreita relação com as distintas atividades culturais humanas – entendendo aqui cultura como a ação simbólica. tratados e manuais voltados para as regras de procedimentos nas instituições responsáveis pela guarda das obras. econômicos. Proliferaram. neste momento. biblioteca ou museu se revelem infrutíferas (SILVA. Estas. que aparecem os primeiros traços efetivos daquilo que se poderia chamar de um conhecimento teórico específico nas três áreas. o Mouseion alexandrino). Salientou-se o interesse pelo culto das obras. de interpretar o mundo e de produzir registros materiais dessas ações em qualquer tipo de suporte físico. relacionados com os mais diversos fins – religiosos. artísticos. incluindo aspectos sobre sua legitimidade. Contudo. ligam-se aos registros materiais do conhecimento humano e.

ideal matemático e intervenção na natureza por meio de processos técnicos e tecnológicos. Ao mesmo tempo. “Museu Nacional”. da Biblioteconomia e da Museologia. relativo ao coletivo dos nascentes Estados modernos) sua marca distintiva. catalogação. que privilegia os procedimentos técnicos de intervenção: as estratégias de inventariação. bibliotecas e museus. E a fundamentação positivista prioriza as técnicas particulares de cada instituição a serem utilizadas para o correto tratamento do material custodiado. voltado para a busca de regularidades. há já alguma distinção entre arquivos. com a consolidação da ciência moderna como forma legítima de produção de conhecimento e de intervenção na natureza e na sociedade. seguindo a tradição anterior. diversos manuais que buscaram estabelecer o projeto de constituição científica da Arquivologia. ressaltando a importância da produção simbólica humana. os assuntos dos acervos guardados). “Biblioteca Nacional”. a História. para conhecimentos gerais em Humanidades (ou seja. que devem ter estruturas organizadas e rotinas estabelecidas para o exercício da custódia. GT1 22 . O modelo de ciência então dominante. Os três movimentos acima destacados se somam. oriundo das ciências exatas e naturais. que marcam a transição do Antigo Regime para a Modernidade. bibliotecas e museus. voltados essencialmente para regras de administração das rotinas destas instituições e. descrição. em alguns casos a quase totalidade do conteúdo dos nascentes campos disciplinares. Ocorreu uma profunda transformação em todas as dimensões da vida humana e. Esse é o modelo que inspira as pioneiras conformações científicas das três áreas.biblioteconômicos ou museológicos consistentes . também. se expande para as ciências sociais e humanas através do Positivismo. Biblioteconomia e Museologia tornaram-se as ciências (positivas) voltadas para o desenvolvimento das técnicas de tratamento dos acervos que custodiam. Constituem-se assim. O passo seguinte na evolução destas áreas se deu com a Revolução Francesa e as demais revoluções burguesas na Europa. Por fim. Opera-se um verdadeiro “efeito metonímico”: aquilo que antes era uma parte do processo (operações técnicas para possibilitar o uso das coleções) se torna o núcleo. Surgiram. A necessidade de se ter pessoal qualificado levou à formação dos primeiros cursos profissionalizantes. A perspectiva patrimonialista volta-se para os “tesouros” que devem ser custodiados. Surgem os conceitos modernos de “Arquivo Nacional”. nos arquivos.exceto algumas regras operativas muito próximas do senso comum. no século XIX. A entrada na Modernidade enfatiza as especificidades das instituições arquivos. que têm no caráter público (no sentido de “nacional”. estabelecimento de leis. também o campo das humanidades se viu convocado a constituir-se como ciência. Formaram-se as grandes coleções. com amplos processos de aquisição e acumulação de acervos – o que reforçou a natureza custodial destas instituições. o movimento de consolidação positivista destas áreas promove sua “libertação” de outras áreas das quais eram apenas campos auxiliares (como as Artes. a Literatura) e a sua autonomização científica. nas bibliotecas e nos museus. Ainda que preservado em parte o sincretismo verificado nos séculos anteriores. Arquivologia. classificação e ordenação dos acervos documentais.

a Pedagogia. nas primeiras décadas do século XX. em instituições diferentes. e o início dos primeiros cursos universitários). de biblioteca e de museu. em seguida as instituições que as guardam e finalmente as técnicas operadas para seu tratamento. optou-se por um arranjo que privilegia a discussão aqui empreendida. conduzindo a iniciativas práticas que também evidenciavam mudanças no paradigma dominante. Para os fins deste artigo. bibliotecas e museus. torna extremamente difícil apresentar ou mapear essa produção. Um dos efeitos mais sensíveis deste modelo é que. o desenvolvimento das tecnologias digitais. os vários limites desse modelo. disciplina de origem. a Literatura. bibliotecas e museus. custodial e tecnicista (SILVA. 2006) para as três áreas. novos fatores surgidos neste século (a crescente importância da informação nos setores produtivos da sociedade. com uma proposta de cientificidade capaz de acolher e potencializar os diferentes aspectos da produção teórica das três áreas – como se pretende demonstrar a seguir. dos movimentos profissionais e associativos. ele efetivamente promove e incentiva a separação das três áreas e sua constituição como campos científicos autônomos. Profissionais diferentes. etc) mas optou-se por agrupar as variadas contribuições pelos aspectos que apontaram elementos de superação do paradigma custodial e tecnicista predominante. pouco a pouco. entre outros). com muita freqüência. contudo. os elementos que marcam a consolidação de um paradigma patrimonialista. utilizando técnicas diferentes para o tratamento de acervos específicos – tal é a resultante da soma das ações ocorridas no plano teórico (com o paradigma custodial) e prático (com o fortalecimento das instituições. 3 O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO A diversidade de conhecimentos científicos e teóricos produzidos sobre arquivos. Tal fato se complementa com as ações. Tais aspectos foram organizados em cinco eixos. Ao contrário. o incremento das práticas interdisciplinares e a importância da especificidade das ciências sociais e humanas) também exerceram importante papel na mudança do cenário de atuação de arquivos. o desenvolvimento de reflexões e teorias nas três áreas não conduziu ao fortalecimento do paradigma dominante. ressaltando diversos aspectos que. foram conduzindo à necessidade de sua superação. surgiu ainda a Ciência da Informação. No século XX. das associações profissionais em prol do estabelecimento das distinções entre os profissionais de arquivo. ao privilegiar a dimensão física das coleções. inspiração filosófica. Seria possível agrupar as diversas teorias e autores sob uma variedade imensa de aspectos (região geográfica.nos finais do século XIX e início do século XX. a vasta produção científica que se seguiu identificou. época histórica. Além disso. foram considerados tanto a vinculação dos estudos a diferentes correntes de pensamento (dentre aquelas existentes de uma forma ampla nas ciências sociais e humanas) quanto relacionados a diferentes objetos de pesquisa e formas de abordagem desses objetos. tanto nos próprios campos científicos como em outras áreas (como a História. Assim. Em meio a tudo isso. Para a composição desses eixos. dentro de cada eixo GT1 23 .

1 Os estudos de inspiração funcionalista Já no final do século XIX. e principalmente de Schellenberg. que um pensamento pragmatista mais efetivo começou a formular-se. misturam-se teorias e perspectivas construídas a partir de aspectos analíticos de diferentes ordens – tendo-se portanto o seu agrupamento em eixos relacionados. “museu dinâmico”. No campo da Arquivologia. buscassem atuar ativamente nos contextos sociais em que se inseriam. assumindo para o campo a tarefa de eliminação dos documentos. Mas é com o desenvolvimento da subárea de Avaliação de Documentos. essas várias manifestações têm como fundamento o Funcionalismo. das bibliotecas e dos museus). Tais proposições visavam conservar o máximo de informação preservando um mínimo de documentos – priorizando a funcionalidade em oposição aos aspectos de arranjo e valor histórico dos documentos. as primeiras manifestações deste pensamento se encontram nos manuais de Jenkinson. Por todo o raciocínio encontra-se a ideia de eficácia: a investigação científica como fator para impulsionar o funcionamento adequado das instituições e. 2000). Em comum. em meados do século XVIII surgem as primeiras manifestações em prol das bibliotecas efetivamente públicas (MURISON. ao propor isso. ensaios. dos arquivos. e de Casanova. cada um. que apontavam para a necessidade de os arquivos terem um impacto efetivo no aumento da eficácia organizacional. E. A sociedade humana é entendida como um todo orgânico. que também provocou a busca por uma maior “dinamização” destas instituições (ALBERCH I FUGUERAS et al. “biblioteca viva”.apresentado a seguir. Sua maior expressão se deu com a chamada “escola norte-americana” da primeira metade do século XX. Na Biblioteconomia. é a que prioriza a ação cultural dos arquivos e suas funções pedagógicas. 1988). com os trabalhos de Warren (a partir dos quais formalizou-se uma associação que seria o embrião da American Records Management Association). de Brooks. também funcionalista. sobre as três categorias de valor. para a determinação das funções (no caso. O termo “efetivamente” ressalta que as GT1 24 . o desenvolvimento e o progresso das sociedades. Estudos funcionalistas se voltam. entre outras. de 1922.. para verificar se as funções estão ou não sendo cumpridas (e para a identificação e eliminação dos obstáculos que impedem seu cumprimento). Uma outra vertente arquivística. a um aspecto específico de crítica/superação do modelo custodial. consequentemente. para a identificação de disfunções que possam estar ocorrendo e a formulação de estratégias para superá-las. provocaram também mudanças consideráveis nas formulações teóricas. bibliotecas e museus. 3. manifestos e iniciativas vinham reivindicando mudanças nos arquivos. sugerindo que elas se “mexessem”. Trata-se de uma perspectiva que se sustenta numa visão da realidade humana a partir da inspiração biológica do organismo vivo. por meio de expressões como “arquivo efetivamente útil”. pois. composto de partes que desempenham funções específicas necessárias para a manutenção do equilíbrio do todo. sobre o valor primário e secundário dos documentos arquivísticos (DELSALLE. Criticava-se o fato de estas instituições estarem voltadas apenas para seus acervos e suas técnicas. 2001). de 1928.

No Canadá. Diversas parcerias foram realizadas com o setor privado para o incremento de atividades industriais e comerciais. numa clara perspectiva funcionalista. Já em 1876. liderados por bibliotecários como Mann e Barnard.primeiras bibliotecas modernas. aproximações foram feitas entre os museus e o conceito de “comunicação” a partir dos trabalhos de Cameron. para o estudo do papel do conhecimento na sociedade. Green defendia inovações práticas nas bibliotecas para aumentar a acessibilidade física e intelectual. Desenvolvimentos posteriores de leis ou princípios da Biblioteconomia. embora “públicas” no nome. e do Centro Pompidou. o fundamento da biblioteca se encontra no fato de ela ir ao encontro de certas necessidades sociais. resultando em inovações museográficas. voltada não para os processos técnicos mas para o cumprimento de suas funções sociais – ou seja. por meio do atendimento a cada um de seus componentes. Na França. Essa perspectiva manifestou-se em outros contextos. com as GT1 25 . Mukhwejee e Usherwood. sendo o precursor dos posteriormente chamados serviços de referência (FONSECA. com as tecnologias digitais. desenvolveu as cinco “leis” da Biblioteconomia. erigida em oposição à tradição “nominalista”. o maior destaque é a área de Museum Education. buscando otimizar o papel da biblioteca e dinamizar o uso de seus recursos. manifestos e iniciativas práticas no campo das bibliotecas públicas (Public Library Movements). em Beaubourg. e para oferecer à sociedade um “retorno” dos investimentos feitos. voltada para a posse e a descrição dos objetos. buscaram romper com o isolamento destas e atrair cada vez mais pessoas para seu espaço. atraindo-os para os museus por meio da eliminação de barreiras e da busca por acessibilidade. o atendimento às necessidades da sociedade. principalmente nos EUA do final do século XIX e início do século XX. Atos. Shera. voltada para a ação. A consolidação científica dessa vertente se deu na Universidade de Chicago. como aplicação prática. 2002). Recentemente. ativa. Goode. Buonocore. houve uma revitalização da corrente funcionalista. defendendo o efetivo uso da biblioteca e de seus recursos e. trata-se de uma museologia “verbal”. a “Epistemologia Social”. Dana e Rea marcavam a especificidade dos museus como instituições que teriam como valor não a contemplação mas o uso. Autores como Flower. ao mesmo tempo. seguiram essas orientações. destaca-se o pioneirismo do “museu imaginário” de Malraux. também priorizaram as funções sociais e a necessidade da biblioteca ser dinâmica e ativa. seriam demasiadamente auto-centradas e elitistas. mas iriam “buscá-los”. Danton e Williamson defendiam uma Biblioteconomia científica. tais como Lasso de la Vega. A partir da década de 1980. Litton. e não como depósito de livros (LÓPEZ CÓZAR. 1992). e que não esperariam pelos visitantes. Na Índia. Shera chegou a propor um novo espaço de reflexão científica. Conforme Gómez Martínez (2006). uma Museologia voltada para a eficácia dos museus. Teóricos de diferentes países. estudos sobre as tipologias de bibliotecas e sobre os impactos das tecnologias audiovisuais e digitais de informação também se inserem nesta perspectiva. Ranganathan. como os de Thompson e de Urquhart. para uma efetiva difusão de certos valores junto à população. No campo da Museologia. Autores como Butler. ao defender o conceito de biblioteca como instituição democrática. no plano teórico. onde em 1928 foi criado o primeiro doutorado em Biblioteconomia. Zeller (1989) aponta que floresceu.

contestadas e confirmadas – numa virada de ênfase das coleções para os contextos. Hooper-Greenhill. e não a integração. debates sobre as políticas nacionais de informação promovidos pela Unesco tematizaram o papel dos arquivos. 3. nas quais buscava-se distinguir os diferentes tipos de ideologias culturais e propor que o bibliotecário deveria identificá-las e atuar perante elas. 1995). Harris e Montgomery. por exemplo. autores como Colombo argumentaram contra a obsessão das sociedades contemporâneas com o arquivamento e o registro das atividades humanas. a questão do direito à informação e a necessidade de transparência por parte do Estado (JARDIM. Com origem nos trabalhos de Terry Cook. não numa perspectiva de “domesticação” mas sim de GT1 26 . as manifestações críticas denunciavam o caráter histórico da realidade. sobre os interesses ideológicos que motivaram critérios usados pelos arquivos ainda no início da era Moderna. entre outros) e. vinculadas aos processos de redemocratização após ditaduras militares. com manifestações em várias escolas e correntes como. que se desenvolvem as principais perspectivas críticas contemporâneas. feita por autores como Caswell. no grupo de pesquisadores ligados à Universidade de Leicester (Merriman. Na Biblioteconomia. Numa linha diferente. Onde as recentes ciências humanas e sociais buscavam estabelecer padrões e regularidades.2 A perspectiva crítica Abordagens críticas sobre os fenômenos humanos e sociais se desenvolveram intensamente desde o século XIX como reação ao pensamento positivista. Em oposição ao Funcionalismo. manifestações de um pensamento crítico surgiram principalmente em países de terceiro mundo. No âmbito da Arquivologia. 1998). com a “Nova Museologia” defendida por Vergo e outros. Anos depois. foram formuladas teorias relacionadas a essas práticas no escopo das reflexões sobre “ação cultural” e “animação cultural”. tais manifestações foram de caráter prático (com a criação de novos serviços bibliotecários de extensão. É na Arquivologia canadense. reivindicando o estudo dos contextos históricos para a compreensão dos fenômenos. buscando ver o papel dos arquivos. ainda no contexto inglês. constitui o principal fundamento explicativo da realidade humana. desenvolveram-se abordagens críticas em praticamente todas as ciências sociais e humanas – e. analisando em que medida os arquivos constituem espaços em que relações de poder são negociadas. a partir da denúncia de suas ações ideológicas. Num primeiro momento. Nas décadas de 1960 e 1970. interatividade e design de exposições. com o objetivo de aumentar o acesso ao conhecimento por parte de populações socialmente excluídas. as teorias críticas argumentavam que o conflito. como o carro-biblioteca). que almejava o bom funcionamento do social. Outros estudos relacionam-se com a questão do poder de posse dos documentos em várias ocasiões. os primeiros traços de pensamento crítico encontram-se em análises de pesquisadores como Bautier. como no caso dos processos de descolonização da África e da Ásia (SILVA et al. Pearce. tal corrente buscou superar os pressupostos de neutralidade e passividade das práticas arquivísticas. Biblioteconomia e Museologia. também. bibliotecas e museus nas dinâmicas de poder e dominação. nos campos da Arquivologia. contudo. A partir de uma postura epistemológica de suspeição.possibilidades de acesso remoto.

“emancipação” (FLUSSER, 1983). As bibliotecas deveriam ser dinâmicas e ativas, mas contra os processos de alienação - num sentido bem diferente da perspectiva funcionalista (MILANESI, 2002). Estudos críticos diferentes também se desenvolveram em outros países, como na França, em que autores como Estivals, Meyriat e Breton se uniram em torno de uma abordagem marxista para estudar os circuitos do livro e do documento impresso (ESTIVALS, 1981). Na Museologia, as manifestações pioneiras de pensamento crítico se encontram na obra de artistas e ensaístas como Zola, Valéry e Marinetti (BOLAÑOS, 2002), que viam o museu como “mausoléu”, instituição que degradava a arte, instrumento de poder de alguns povos sobre outros. Na década de 1960, uma nova onda de críticas provocou o aparecimento de formas de “antimuseu” (BOLAÑOS, 2002), com importantes inovações museológicas. Porém, é na aproximação com a sociologia da cultura que estão as manifestações mais consolidadas da perspectiva crítica, com Bourdieu inspirando toda uma geração de pesquisadores. Bourdieu aliou as dimensões material e simbólica, analisando como diferentes grupos sociais têm relações distintas com a cultura (e inclusive com os museus). Abordagens atuais utilizam-se desse referencial e do conceito de “capital cultural” para o estudo de distintas práticas museológicas (LOPES, 2007). Outros estudos buscam correlacionar o papel que os museus tiveram (e ainda têm) na construção ideológica da idéia de nação, a partir do trabalho pioneiro de Anderson. Há ainda uma área recente, a “Museologia Crítica”, voltada para a crítica das estratégias museológicas intervenientes nos patrimônios naturais e humanos (SANTACANA MESTRE; HERNÁNDEZ CARDONA, 2006).

3.3 Os estudos a partir da perspectiva dos sujeitos Arquivos, bibliotecas e museus tiveram historicamente relações muito diferentes com a questão dos públicos (usuários ou visitantes). Há relatos de coleções privadas, cujo acesso era restrito a pouquíssimas pessoas, e mesmo acervos proibidos e secretos ligados a interesses políticos, militares ou religiosos. Na Era Moderna, em que passou a vigorar as ideias de universalização, cidadania e de arquivos, bibliotecas e museus “públicos”, a questão tomou uma nova dimensão. Contudo, durante a vigência do paradigma custodial, se formalmente buscou-se abertura e acolhida para os diferentes públicos, conhecê-los nunca chegou a constituir uma prioridade. Foi nos primeiros anos do século XX que as abordagens funcionalistas começaram a se preocupar com o público, tentando obter dados sobre índices de satisfação para a melhoria dos serviços. Aos poucos, a importância de se conhecer a visão dos sujeitos concretos que se relacionam com estas instituições foi aumentando, a ponto de acabar se tornando uma área de estudos autônoma. Os usuários e visitantes deixaram de ser vistos apenas como alvo dos processos arquivísticos, biblioteconômicos e museológicos, sendo compreendidos como seres ativos, construtores de significados e interpretações, com necessidades e estratégias diversas. A compreensão dessas novas questões trouxe relevantes impactos para a teoria e para a prática. No campo da Arquivologia, o tema da relação entre os usuários e os arquivos começou a ser discutido na década de 1960 (SILVA et al, 1998), dentro das reflexões sobre o acesso aos arquivos GT1 27

nas reuniões do Conselho Internacional de Arquivos (CIA). Contudo, a temática sempre foi pouco expressiva no campo. Conforme Jardim e Fonseca (2004), estudos pioneiros são os de Taylor, Dowle, Cox e Wilson, voltados para o entendimento das necessidades informacionais de diferentes tipos de usuários. Há também estudos de usuários no campo de dinamização cultural, principalmente sobre tipologia de usuários e sobre cidadãos e seus interesses em história familiar e em atividades de ensino (COEURÉ; DUCLERT, 2001). Na Biblioteconomia, as primeiras manifestações foram os “estudos de comunidade” realizados por pesquisadores da Universidade de Chicago, que tinham como foco os grupos sociais tomados em seu conjunto. Foram realizadas diversas pesquisas empíricas, nas décadas seguintes, sobre hábitos de leitura e fontes de informação mais usadas. Aos poucos, o interesse foi se deslocando para a avaliação dos serviços bibliotecários, convertendo os estudos de usuários em estudos de uso para diagnóstico de bibliotecas. Situando-se na temática de Avaliação de Coleções, tais estudos impulsionaram várias inovações técnicas, tais como a disseminação seletiva de informações. Na década de 1970, pesquisadores como Line, Paisley e Brittain deslocaram o foco de interesse para as necessidades de informação, que se converteram na principal linha de pesquisa sobre os usuários (FIGUEIREDO, 1994). Recentemente, destacam-se as pesquisas de autores como Kuhlthau e Todd no ambiente da biblioteca escolar, numa perspectiva cognitivista, identificando o uso da informação nas diferentes fases do processo de pesquisa escolar. Na Museologia, como parte da grande mudança nos museus, de depósitos de objetos para lugares de aprendizagem, operou-se uma alteração do foco, das coleções para os públicos – surgindo desse movimento a subárea de Estudos de Visitantes (HOOPER-GREENHILL, 1998). No começo do século XX foram realizados os primeiros estudos empíricos, com Galton seguindo os visitantes pelos corredores dos museus e Gilman estudando a fadiga e os problemas de ordem física na concepção de exposições. Na década de 1940, proliferaram estudos sobre os impactos nas exposições junto aos visitantes, realizados por autores como Cummings, Derryberry e Melton. Outros estudos, conduzidos por autores como Rea e Powell na mesma época, tiveram como objetivo traçar perfis sócio-demográficos dos visitantes e mapear seus hábitos culturais. Na década de 1960, Shettel e Screven inauguraram uma nova perspectiva com as medidas de aprendizagem nos estudos de visitantes. Nas décadas seguintes, desenvolveram-se abordagens de base cognitivista, sobre a efetividade das exposições (Eason, Friedman, Borun), e de natureza construtivista – como o modelo tridimensional de Loomis, a teoria dos filtros de McManus, o modelo sociocognitivo de Uzzell, a abordagem comunicacional de HooperGreenhill e o modelo contextual de Falk e Dierking. Em comum, essas várias abordagens buscaram ver como os usuários interpretam as exposições museográficas, construindo significados diversos, imprevisíveis, relacionados com suas distintas vivências, experiências e contextos socioculturais (DAVALLON, 2005).

3.4 Estudos sobre representação GT1 28

Se em sua origem os arquivos, as bibliotecas e os museus se constituíram como instituições de coleta e guarda de acervos, há registros de que, desde muito cedo (há pelo menos dois milênios), estas instituições desenvolveram técnicas específicas com o fim de inventariar suas coleções para fins de controle e guarda, catalogá-las e classificá-las para fins de recuperação, descrevê-las para facilitar o acesso e o uso. Ao longo dos séculos tais técnicas foram sendo criadas, adaptadas, recriadas, de forma a se produzir um grande acúmulo de conhecimentos sobre formas de organização dos materiais custodiados nestas instituições. Tal conjunto de conhecimento, contudo, sempre foi historicamente concebido como uma questão eminentemente técnica – encontrar as formas mais adequadas para atingir os objetivos. Nos séculos XVIII e XIX, o enciclopedismo, o historicismo e o positivismo marcaram fortemente as tarefas de representação com a proposição de esquemas universais de representação. Ao longo do século XX, contudo, diferentes teorias buscaram problematizar esses processos, conformando aos poucos uma subárea de estudos com forte influência das ciências da linguagem. De tarefa técnica, as questões da representação se converteram em importante campo de investigação científica. A temática relativa a princípios de organização e descrição de documentos arquivísticos surgiu e foi debatida durante todo o período de consolidação do paradigma custodial. A partir de 1898, com a publicação do manual de Muller, Feith e Fruin, ela ganhou um estatuto diferente, com a construção de um espaço reflexivo sobre as normas e técnicas arquivísticas. Diversas aplicações práticas de instrumentos de classificação, inclusive de sistemas de classificação bibliográfica, foram testados nos anos seguintes, embora sem uma significativa reflexão teórica – o que só aconteceu em manuais posteriores, como os de Tascón, de 1960, e de Tanodi, em 1961, e em obras teóricas de pesquisadores como Schellenberg. Nas décadas de 1970 autores como Laroche e Duchein problematizaram os princípios de ordenamento confrontando o conceito de record group surgido nos EUA com o princípio da proveniência europeu, e autores como Dollar e Lytle inseriram a questão dos registros eletrônicos e a recuperação da informação (SILVA et al, 1998). Os aspectos relacionados com preservação e autenticidade também estiveram no centro dos debates sobre os documentos digitais, envolvendo pesquisadores como Duranti e Lodolini, que buscaram confirmar o valor do princípio de proveniência e o respeito aos fundos como critério fundamental da Arquivologia. O impacto dos suportes digitais motivou o crescimento da pesquisa na área de normalização arquivística, principalmente a partir da ideia de interoperabilidade de sistemas e possibilidade de ligação em rede. A temática da indexação dos documentos arquivísticos também ganhou espaço nos últimos anos (RIBEIRO, 2003). As questões relacionadas com a descrição e a organização estão na origem mesma da fundação da Biblioteconomia como campo autônomo de conhecimento. A Catalogação, relacionada com a descrição dos aspectos formais dos documentos, teve seus primeiros princípios formulados no século XIX. A partir da década de 1960, padrões internacionais de descrição bibliográfica foram formulados e envolveram diversos grupos de estudo. Também nesta época surgiram os primeiros modelos de descrição pensando-se na leitura por computador, gerando padrões que, anos depois, conformariam o GT1 29

campo conhecido como Metadados. Paralelamente, a área de Classificação teve início com a criação dos primeiros sistemas de classificação bibliográfica gerais e enumerativos, como os de Dewey, Otlet, Bliss e Brown. Na primeira metade do século XX, os trabalhos de Ranganathan sobre classificação facetada revolucionaram o campo, propondo formas flexíveis e não-hierarquizadas de classificação. Suas teorias tiveram grande impacto na ação do Classification Research Group, fundado em Londres em 1948, que congregou pesquisadores como Foskett, Vickery e Pendleton, empenhados na construção de sistemas facetados para domínios específicos de conhecimento e problematização dos princípios de classificação (SOUZA, 2007). Nos anos seguintes, diversos campos e setores de pesquisa estabeleceram diálogo ou se apropriaram dos princípios da classificação facetada, tais como os tesauros facetados de Aitchison, os estudos de bases de dados facetados de Neelameghan, a abordagem dos boundary objects de Albrechtsen e Jacob e o mapeamento de sentenças para a evidenciação de facetas por Beghtol. O espírito nacionalista e historiográfico dos primeiros museus modernos foi decisivo para a configuração de critérios de ordenamento, descrição, classificação e exposição dos acervos (MENDES, 2009). A subárea de Documentação Museológica surgiu no início do século XX, a partir do trabalho de autores como Wittlin, Taylor e Schnapper (MARÍN TORRES, 2002). Nas décadas de 1920 e 1930 houve grandes debates sobre os critérios de classificação adotados nos museus, mas a temática só se converteu em campo de investigação décadas depois. Entre as várias abordagens desenvolvidas, encontram-se aquelas que buscaram problematizar aspectos classificatórios dos museus, como a questão da representação dos gêneros, dos diferentes povos do mundo, das diferentes culturas humanas, numa linha marcada pelos cultural studies (PEARCE, 1994). Os aspectos envolvidos no trabalho de ordenamento também foram estudados por Bennett numa perspectiva foucaultiana. No campo das aplicações práticas, Bolaños (2002) apresenta vários exemplos históricos de inovações em métodos de representação, como o historicismo radical de Dorner, os period rooms do Museu do Prado, o enfoque multidisciplinar do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, a postura antiracista do Museu Trocadero e o modelo dinâmico do Museu de Etnografia de Neuchâtel, merecendo destaque, ainda, a criação de edifícios que em si mesmos constituem peças museológicas, numa linha inaugurada pelo Museu Guggenheim de Bilbao.

3.5 Abordagens contemporâneas: fluxos, mediações, sistemas Os avanços mais recentes nos campos da Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia têm buscado agregar as várias contribuições das últimas décadas. Novos tipos de instituições, serviços e ações executadas no âmbito extra-institucional conferiram maior dinamismo aos campos, que passaram a se preocupar mais com os fluxos e a circulação de informação. Buscando superar os modelos voltados apenas para a ação das instituições junto ao público, ou para os usos e apropriações que o público faz dos acervos, surgiram modelos voltados para a interação e a mediação, contemplando as ações reciprocamente referenciadas destes atores. Modelos sistêmicos também apareceram na GT1 30

tentativa de integrar ações, acervos ou serviços antes contemplados isoladamente. A própria ideia de acervo, ou coleção, foi problematizada, na esteira de questionamentos sobre o objeto da Arquivologia, da Biblioteconomia e da Museologia. Somado a tudo isso, desenvolveram-se as tecnologias digitais com um impacto muito mais profundo, reconfigurando tanto o fazer quanto a teorização destes três campos. Na Arquivologia, na década de 1960, houve uma maior teorização sobre o objeto do campo (destacando-se o pioneirismo de Tanodi que, em 1961 definiu o objeto como sendo a “arquivalia”); uma ampliação de seus domínios (como os arquivos administrativos, os arquivos privados e de empresas); e ainda o surgimento de campos novos (os arquivos sonoros, visuais e o uso do microfilme). Tais avanços tiveram como consequência a criação, na década seguinte, do Programa de Gestão dos Documentos e dos Arquivos (RAMP), estrutrurado pelo CIA e pela Unesco, no âmbito de seu Programa Geral de Informação (PGI) criado em 1976. Tal programa assegurou a publicação de trabalhos em diferentes áreas da Arquivologia, tais como os de Kula (arquivos de imagens em movimento); de Naugler (registros eletrônicos); de Guptil (documentos de organizações internacionais); de Harrison e Schuurma (arquivos sonoros) e de Cook (documentos contendo informações pessoais). Contudo, a maior inovação teórica, a Arquivística Integrada, surgiu no começo dos anos 1980 com o artigo inaugural de Ducharme e Rousseau, que apresenta uma visão sistêmica do fluxo documental. Dois anos depois, Couture e Rousseau formalizaram a busca de uma síntese dos records management e da archives administration, a partir de uma visão global dos arquivos, considerando a gestão de documentos no campo de ação da Arquivologia, isto é, abarcando as tradicionalmente chamadas três idades dos documentos numa perspectiva integrada. Tal abordagem passou a desenvolver-se de formas específicas por autores de variados contextos, tais como Cortés Alonso e Conde Villaverde na Espanha, Menne-Haritz na Alemanha, Cook na Inglaterra e Vásquez na Argentina. Pouco depois, surgiu a expressão “pós-custodial” para designar uma nova fase da Arquivologia (COOK, 1997). Nessa mesma linha desenvolveu-se a perspectiva sistêmica em torno da ideia de “arquivo total” em Portugal, congregando pesquisadores como Silva e Ribeiro (SILVA et al, 1998). Outras temáticas contemporâneas são as que relacionam os arquivos com as atividades de registro da história oral, e o campo dos arquivos pessoais e familiares (COX, 2008). Dentro das abordagens contemporâneas em Biblioteconomia, destacam-se três grandes tendências que, embora possam ser separadamente identificadas, possuem vários elementos em comum. A primeira delas é a que se apresenta contemporaneamente sob a designação de “Mediação”. Tal vertente foi primeiramente trabalhada por Ortega y Gasset, em 1935, num sentido de ponte, filtro, sendo o bibliotecário um orientador de leituras dos usuários. Anso depois, expressou-se numa alteração estrutural do conceito de biblioteca, sendo esta considerada “menos como ‘coleção de livros e outros documentos, devidamente classificados e catalogados’ do que como assembléia de usuários da informação” (FONSECA, 1992, p. 60). Assim, a ideia de mediação sofreu uma mudança, enfatizando menos o caráter difusor (de transmissão de conhecimentos) e mais o caráter dialógico da GT1 31

biblioteca (ALMEIDA JR., 2009). A segunda vertente também pode ser entendida como parte dos estudos sobre mediação, embora tenha se desenvolvido de modo mais específico. Trata-se do campo da Information Literacy, surgido nos EUA em 1974, voltado para a identificação e a promoção de habilidades informacionais dos sujeitos, que não são mais entendidos apenas como usuários portadores de necessidades informacionais (Campello, 2003). Por fim, a terceira vertente é a dos estudos sobre as bibliotecas eletrônicas ou digitais, com todas as implicações em termos de acervos, serviços e dinâmicas relativas a essa nova condição (ROWLEY, 2002). Na Museologia, merece destaque o desenvolvimento dos ecomuseus e da chamada Nova Museologia. Conforme Davis (1999), o conceito de “ecomuseu” surgiu no começo do século XX, sob o impacto das ideias ambientalistas, de conceitos relativos à ecologia e ecossistemas, com a criação dos “museus ao ar livre”, que, numa perspectiva ampliada de museu, incorporavam sítios geológicos ou naturais ao seu “acervo”. Um outro sentido para o termo foi dado, a partir das ideias de Rivière, Hugues de Varine e Bazin, pela Nova Museologia, que propôs repensar o significado da própria instituição museu. Nessa visão, os museus deveriam envolver as comunidades locais no processo de tratar e cuidar de seu patrimônio. Tal proposta foi apresentada pela primeira vez em 1972, numa Mesa Redonda organizada pelo International Council of Museums (ICOM), sendo formalizada na Declaração de Quebec, em 1984. Do ponto de vista teórico, tal noção propõe que a Museologia passe a estudar a relação das pessoas com o patrimônio cultural e que o museu seja entendido como instrumento e agente de transformação social – o que significa ir além das suas funções tradicionais de identificação, conservação e educação, em direção à inserção da sua ação nos meios humano e físico, integrando as populações. Defendendo a participação comunitária no lugar do “monólogo” do técnico especialista, tais ideias colocaram no lugar do tradicional tripé edifício/coleções/público da Museologia uma nova rede de conceitos, composta por território, patrimônio e comunidade. Deve-se distinguir, porém, essa Nova Museologia dos recentes estudos com a mesma designação, propostos por Vergo e Marstine, entre outros, que representam, antes, uma revitalização do pensamento funcionalista. Soma-se a isso a recente ênfase nos estudos sobre a musealização do patrimônio imaterial. Por fim, o fenômeno contemporâneo dos museus virtuais representa uma dimensão com variados desdobramentos práticos e teóricos. Para Deloche (2002), a chegada da tecnologia digital à realidade dos museus acarreta a reformulação da própria concepção de instituição museal. Sem edifício ou coleções, marcos institucionais tradicionais definidores do próprio campo, o museu se vê na condição de oferecer novos serviços, por meio de novas práticas e funções, a usuários que também ganham novas condições de ação. A adoção de tecnologias tanto para o tratamento como para o planejamento de exposições aproxima também o museu do conceito de sistema de informação, tal como apontam os estudos da área de Museum Informatics, que trata das interações sociotécnicas (entre as pessoas, a informação e a tecnologia) nos espaços museais (MARTY; JONES, 2008).

GT1

32

GT1 33 .

a Cibernética de Wierner e as contribuições de Vannevar Bush. o que viria a ser a CI nos anos seguintes ultrapassou em muito o imaginado nos primeiros anos. Foram estudados. nas décadas seguintes a CI desenvolveu-se por meio de subáreas relacionadas a diversos “programas de pesquisa”: os fluxos da informação científica. entre outros. os autores desenvolveram o conceito de “documento”. criada por Otlet e La Fontaine no início do século XX. Silva (2006) também expressou essa ampliação por meio da definição das seis “propriedades” da informação como conceito científico. Foi justamente neste espectro de atuação. tornando-se a primeira instituição científica específica da CI. deu-se a base para a criação da nascente “Ciência da Informação”. Embora tratando de arquivos. os estudos métricos da informação. a recuperação da informação. Os fundamentos teóricos imediatamente adotados foram a Teoria Matemática da Comunicação de Shannon e Weaver. reprodutível e quantificável (pode-se dizer que correspondem ao conceito “físico” de Capurro). Preocupados com a disponibilização de registros sobre a totalidade do conhecimento humano (mais do que com o armazenamento destes registros). os estudos de usuários. o “conhecimento tácito”. consolidaram um conceito “científico” de informação e uma agenda de pesquisa da área. possui pregnância de sentido GT1 34 . realizada em Washington. STURGES. O objeto de estudo do campo ampliou-se para além dos registros físicos em sistemas de informação.4 A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO As raízes da CI se encontram na área de Documentação. as políticas de informação. Segundo Capurro (2003). as diferentes teorias e subáreas acabaram por consolidar três amplos modelos de estudo do fenômeno informacional: o físico (que privilegia a idéia de informação como “coisa” a ser transferida de um ponto a outro). Juntos. as necessidades de informação e as competências informacionais dos sujeitos. o American Documentation Institute (ADI) mudou sua designação para American Society for Information Science (ASIS). expressa num artigo de Borko. de 1968. Na esteira das tentativas de institucionalização das atividades destes profissionais. entre as quais a realização da International Conference on Scientific Information. a área acabou se desenvolvendo como uma atividade profissional distinta. Contudo. por exemplo. atuando principalmente no campo da informação científica e tecnológica. a gestão do conhecimento e as possibilidades trazidas com o hipertexto e a interconectividade digital. resgatando a idéia de construção intersubjetiva). que começaram a atuar aqueles que primeiramente ficaram conhecidos como “cientistas da informação” (FEATHER. o cognitivo (inspirado na filosofia de Popper e que enfatiza a informação como elemento alterador dos modelos mentais dos usuários) e o social (que busca entender o que é informação por parte de comunidades de usuários. Poucos anos depois. os “colégios invisíveis” (processos de troca de informação em ambiente informal). do registro e fornecimento de informações para campos específicos de ciência e tecnologia. A informação é algo comunicável. 2003). em 1958. Conforme González de Gómez (2000). paralela. alargando o campo de intervenção para além dos livros e demais registros impressos. bibliotecas e museus numa perspectiva integradora. em 1966.

constituindo-se desde o início como ciência. dentro dela. etc). e na Biblioteconomia com o próprio conceito de “informação” (como vem sendo feito desde a década de 1980. buscando superar o caráter eminentemente prático. inventários. ao focar o ponto de vista dos sujeitos. apreendendo-o por meio do simbólico. criando objetos que passa a utilizar (instrumentos com diversas finalidades). ainda. a composição dos acervos. a dinâmica mais ampla dos processos passou a ser contemplada. conforme Capurro (2008). é capaz de proporcionar o efetivo espaço de reflexão e problematização. Informação. O conceito de informação também é relevante. Além disso. A CI aparece. como uma ciência interdisciplinar (SARACEVIC. visuais. ao problematizar os aspectos relacionados ao significado nas representações e ao pensar os fluxos e as mediações. GT1 35 . e capaz de permitir a convivência de diferentes escolas e correntes teóricas. biblioteca e museu trazem de sua origem. integra-se de forma dinâmica a seu contexto e é estruturada pela ação humana (corresponde à dimensão “social” de Capurro). que. na Arquivologia com o conceito de “arquivalia” ou o de “arquivo total” (SILVA et al. as competências dos usuários no uso e apropriação dos acervos. sonoros) e criando ainda registros destes registros (catálogos. 1998). Tais características a têm credenciado como um campo flexível. as teorias desenvolvidas no século XX tensionaram os limites das áreas de conhecimento. remonta aos conceitos gregos de eidos (ideia) e morphé (forma). então. é preciso retornar à própria origem do termo. Na Museologia. 5 CONCLUSÕES Os avanços teóricos na Arquivologia. 1993) e pertencente ao campo das ciências humanas e sociais (GONZÁLEZ DE GÓMEZ. que as disciplinas de arquivo. de aplicação de regras. até as diferentes camadas de significação criadas com a intervenção profissional e os instrumentos de descrição e classificação. quando as pós-graduações em Biblioteconomia começaram a mudar sua denominação para CI). índices. capaz de fazer dialogar e interagir. o imaterial). A CI tem sido caracterizada. pós-moderna (WERSIG. Assim. 2002).(corresponde à dimensão “cognitiva” identificada por Capurro). se inscreve no âmbito da ação humana sobre o mundo (“in-formar”). 1996). Ao propor o estudo das relações entre essas instituições e a sociedade (tanto na perspectiva funcionalista como na crítica). portanto. Biblioteconomia e Museologia apontam para a efetiva superação do modelo custodial consolidado no final do século XIX. nomeando e classificando os objetos que conhece (objetos da natureza). significando “dar forma a algo”. crítico aos limites do Positivismo e ao mesmo tempo sensível às especificidades da atual “sociedade da informação”. 2000). tal passagem pode ser caracterizada com a mudança do objeto “museu” para a “musealidade” ou a “musealização” (STRÁNSKÝ apud DELOCHE. produzindo registros que constituem novos objetos (textos impressos. campos disciplinares distintos. com objetos que vão desde a produção dos registros (e até mesmo o que ainda não possui existência física. para que ele propicie essa integração. como campo profícuo para os avanços reivindicados pela evolução das várias teorias desenvolvidas e para fazer dialogarem dentro dela as três áreas. mas.

n. Keywords: Information Science. pode proporcionar o diálogo necessário para a construção de um conhecimento científico que não se reduz ao estudo e à prática das instituições que cada área contempla. potencializa também uma parcial dissolução das rígidas fronteiras disciplinares (sem perda de identidade e de especificidade de cada uma) em benefício de reflexões teóricas e aplicações práticas mais ricas – como demonstram. p. 28-37. Ao fazer isso. R. Library Science.. n. O.Informação é portanto um conceito que perpassa todo esse processo. REFERÊNCIAS ALBERCH I FUGUERAS. O movimento da competência informacional: uma perspectiva para o letramento informacional. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação. La memoria del mundo: cien años de museología: 1900-2000. Mas é ainda mais ampla do que isso. chega às instituições e procedimentos técnicos criados especificamente para intervir junto a estes registros e os ultrapassa nos mais diversos usos. BOLAÑOS. Gijón: TREA./dez. 2. Gijón: TREA. v. GT1 36 . set. surge com grande potencial de tratar os variados processos arquivísticos. it reviews the origin and evolution of the three theoretical areas. v. é tudo aquilo que envolve essa ação humana a partir do primeiro registro. de apreender o mundo e produzir registros materiais desse processo. jan. sem se impor sobre as três áreas. “a ciência da biblioteca” e “a ciência do museu” – e ainda se enriqueçam mutuamente. 2001. A CI. do primeiro ato de “in-formar”. Mediação da informação e múltiplas linguagens. proposing that the concept of information as studied recently can foster the advancement of theoretical perspectives in three areas and enable their epistemological integration. p. biblioteconômicos e museológicos como sendo muito mais do que os procedimentos técnicos definidos pelo paradigma custodial/tecnicista. entre outros. cotidiana. et al. Abstract: The aim of this paper is to present the findings of a research about the possibilities of epistemological integration of Archival Science./dez. 2003. Dada sua amplitude. M. museológicas) sobre esses registros. Museum Studies. Tem origem na produção de registros materiais e se prolonga nas atividades humanas (arquivísticas. CAMPELLO. Parte da ação humana comum. it explores the origin and evolution of Information Science. contextos. apropriações. biblioteconômicas. 2009. fluxos. Library Science and Museum Studies in the Information Science. Next. A CI pode possibilitar que as três áreas sejam mais do que “a ciência do arquivo”. B. 1. 2002. 3. Archivos y cultura: manual de dinamización. Ciência da Informação. 32. uma biblioteca e um museu de acervos da cultura europeia) ou a fusão do Arquivo Nacional e da Biblioteca Nacional no Canadá. os recentes exemplos de construção da Europeana (um amplo sistema digital que constitui ao mesmo tempo um arquivo. Archival Science. ALMEIDA JR. and identified a custody and technical paradigm and theories that point to overcome. To this end. 89-103. aberta às especificidades e contribuições de cada uma.

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das pesquisas desenvolvidas na graduação e na pós-graduação com temas arquivísticos e. dos quadros docentes dos cursos. sem. objetos de pesquisa. dos cursos de graduação. especialmente da Arquivologia. Ciência da Informação. para o delineamento do campo da informação. o estudo tangenciou a trajetória de outras disciplinas que têm por objeto a informação e que. Palavras-chave: Arquivologia. a Arquivologia. comungando. institucionalmente. da sua epistemologia.COMUNICAÇÃO ORAL O CAMPO DA INFORMAÇÃO Angelica Alves Marques Resumo: Esta comunicação apresenta. justificam tal vinculação e. contudo. dissertação e tese). ou seja. a partir do estudo das suas práticas. Identificamos aspectos comuns que facilitam os seus diálogos e que. Desenvolvida em três fases (projeto de iniciação científica. entendido como o espaço de alianças e conflitos entre essas disciplinas. o histórico de algumas iniciativas internacionais e nacionais voltadas para a harmonização do ensino das disciplinas da informação. perder de vista suas relações extradisciplinares e seus diálogos com as demais disciplinas que lhe são próximas. da Documentação e da Ciência da Informação (CI). Objetiva apreender as convergências e peculiaridades dessas disciplinas. o último estágio da pesquisa voltou-se para a investigação das interlocuções entre a Arquivologia internacional e a nacional. Museologia. tendo em vista o desenvolvimento da disciplina no Brasil. Defende a autonomia da Arquivologia como disciplina científica. pontos específicos que as individualizam. considerando a sua vinculação academicoinstitucional. Evidentemente. comunicação e recuperação da informação. GT1 39 . inclusive. Museologia. das associações de arquivistas e da configuração atual da área. 1 INTRODUÇÃO Há alguns anos. parte da tese dedicou-se à apreensão dos marcos históricos da Museologia. da Biblioteconomia. restringimo-nos a essas quatro áreas (como afins à Arquivologia). de certa forma. Partindo da definição de campo científico de Bourdieu e de jurisdição no sistema de profissões de Abbott. Biblioteconomia. Desse modo. também. buscamos compreender a trajetória da Arquivologia como disciplina no Brasil. organização. compartilham o mesmo espaço acadêmico dos cursos de Arquivologia. Biblioteconomia. Documentação e Ciência da Informação são entendidas como disciplinas independentes que têm por objeto a gênese. Embora outras disciplinas também tenham por objeto a informação. a partir de uma revisão bibliográfica e análise documental. em parte. da história dos arquivos.

1973 e 1974 (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION. No relatório apresentado à IFLA e à FID. o histórico de algumas iniciativas internacionais e nacionais voltadas para a harmonização do ensino das disciplinas da informação. os paradigmas da Arquivologia alinhar-se-iam àqueles dessas disciplinas no campo da informação? Inspirados e inquietados por essas questões. e com a realização da Conferência Intergovernamental sobre a Planificação das Infraestruturas de Documentação. 1974). CUNHA. Kampala (Uganda. com a aproximação entre a Fédération Internationale de Documentation (FID) e a International Federation of Library Associations (IFLA). que marca um “pacto” entre as bibliotecas e os arquivos (MATOS. comunicação e recuperação de documentos/informações. no âmbito da UNESCO. 2 EM BUSCA DE PONTOS COMUNS As preocupações em torno das relações de cooperação entre as disciplinas que têm por objeto a gênese. por Paul Otlet. Foram declarados os princípios. 1967). da American Library Association e do Council on Library Resources. acerca do inquérito sobre a formação profissional dos bibliotecários e documentalistas. 1974). bibliotecas e arquivos: em Quito (Equador. além de estímulo para o delineamento do campo da informação. a Ciência e a Cultura (UNESCO) as valida com a criação do International Council on Archives (ICA). poderia ser considerada Ciência da Informação ou uma das Ciências da Informação? Se existem profissões e. 1970) e Cairo (Egito. A Organização das Nações Unidas para a Educação. ainda que não objetivemos respondê-las. Bibliotecas e Centros de Documentação na América Latina e no Caribe. consequentemente. Em 1972 é realizado. disciplinas que estão envolvidas com a gênese. retomamos. são realizados alguns eventos internacionais com foco na integração dos serviços de documentação. bibliotecários e curadores de museus como especialistas na preservação e divulgação dos acervos (UNESCO. do Departamento de Estado e Comissão Nacional dos Estados Unidos para a UNESCO. lembrando o papel dos arquivistas. 1966). 1951). organização. Nessa perspectiva. no Traité de Documentation (OTLET. organização. Suzanne Briet retoma o problema dessa formação. 1934). o Seminário Interamericano de Integração dos Serviços de Informação de Arquivos. A partir da década de 1960. em Washington. 1972. em 1948. DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES. a Arquivologia teria uma identidade disciplinar própria? Ou sua identidade limitar-se-ia às suas aplicações e. da Organização dos Estados Americanos (OEA). ponto de partida para a conjugação das suas convergências e especificidades. considerando-se a responsabilidade do Estado em promover o GT1 40 . Colombo (Sri Lanka. são também feitas consultas sobre a planificação. as conclusões e as recomendações aos governos dos países americanos. apresentado nesta comunicação. os métodos aplicáveis e a formação de pessoal desses serviços – Paris. comunicação e recuperação da informação são sistematizadas em 1934. mais recentemente.Afinal. mediante uma revisão de literatura e análise documental. 2003).

em Paris. 1977a). o mesmo documento inclui os arquivos nos serviços de comunicação. p. p. p. 1974. no ano de 1974. no sentido de “estabelecer uma forma mais eficaz e flexível. Nesse sentido. Para facilitar a permuta e a transferência internacional de informação. Alinhado às propostas dessas iniciativas. 1976a. é criado. 28. 16). que proporcionarão assim informação a todos os setores da comunidade e a todas as categorias de usuários” (ARQUIVO NACIONAL. 1974). o movimento pela integração das instituições voltadas para a organização e disponibilização de documentos (inicialmente os arquivos. além da microfilmagem e autenticação de documentos (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION. Exemplo desse esforço é a realização da Intergovernmental Conference on the Planining of National Documentation. ao qual caiba o comando normativo da política arquivística GT1 41 .acesso à informação (ARQUIVO NACIONAL. tradução nossa). em 1973. nos anos 1970. por sua vez. base da cooperação e assistência em apoio aos esforços dessas organizações” (INTERGOVERNMENTAL CONFERENCE ON THE PLANNING OF NATIONAL DOCUMENTATION. tradução nossa). DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES. 1975) tenha cogitado apenas os problemas relacionados às bibliotecas (ASSOCIAÇÃO DOS ARQUIVISTAS BRASILEIROS. “O conceito NATIS objetiva ação nacional e internacional como base para uma estrutura geral que abrangerá todos os serviços. 1977). Library and Archives Infrastructures. liderado pela UNESCO. isto é. LIBRARY AND ARCHIVES INFRASTRUCTURES. 2. o UNESCO’s World Scientific Information Programme (UNISIST) no âmbito da UNESCO (CARNEIRO. 1977). Em relação aos arquivos. O ICA. 1976b). 1974. LIBRARY AND ARCHIVES INFRASTRUCTURES. “num Sistema Nacional de Documentação. as preocupações centram-se na gestão dos documentos administrativos. reconhece a necessidade de organização das estruturas de arquivos e de gestão de documentos como responsabilidade do Governo e se coloca à disposição da UNESCO para colaborar em seus esforços para a execução do Programa (ARQUIVO NACIONAL. com o objetivo de proporcionar o compartilhamento de experiências sobre o planejamento coordenado de bibliotecas e arquivos (INTERGOVERNMENTAL CONFERENCE ON THE PLANNING OF NATIONAL DOCUMENTATION. como um sistema relacionado às ações da UNESCO voltadas para o entrosamento entre os arquivos e bibliotecas nas infraestruturas nacionais (CARNEIRO. no qual é proposto o National Information System (NATIS). parte da justificativa de criação do Sistema Nacional de Arquivos brasileiro é amparada na recomendação dessa Conferência. Bibliotecas e Arquivos. Embora a reunião de especialistas para estudar a aplicação desse Sistema no Brasil (Rio de Janeiro. intermediários (com destaque para a avaliação) e nos arquivos nacionais. as bibliotecas e os institutos/centros de documentação) se fortalece. 1974). O Brasil participa desse evento.

notariais. Tendo em vista um tronco comum para o ensino de Documentação. cartas. pelo então diretor do Arquivo Nacional. evolução dos conceitos) Materiais Formas de documentação: periódicos. Sistemas de registro (organização dos arquivos intermediários) A biblioteca na sociedade Sociologia da História das informação bibliotecas e História da Informação educação a esse respeito Científica Teoria da comunicação Legislação relativa às bibliotecas Métodos de pesquisa Estudos de usuários Métodos de pesquisa Formas de documentação: publicações. livros. manuscritos. É importante ressaltar que o Brasil participa dessa Conferência como estado-membro. dossiês legíveis por máquinas. 2). bibliotecários e arquivistas Documentação Biblioteconomia Arquivologia Organização administrativa (passado e presente): geografia histórica História dos arquivos Legislação relativa aos arquivos Teoria da Arquivologia Métodos de pesquisa Formas de documentação: dossiês. registros. etc. novas mídias. Categorias de dossiês: públicos. Biblioteconomia e Arquivologia. relatórios. representado por seu embaixador e delegado na UNESCO. periódicos. material audiovisual. pelo ministro dos Negócios Exteriores e pelos consultores técnicos do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) e do Ministério das Minas e Energia (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION. DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES. 1975a. privados. novas mídias Ferramentas bibliográficas História das artes do livro Fundamentos (histórico. é apresentado o seguinte quadro: Quadro 1: Proposta de tronco comum nos estudos de documentalistas. desenvolvimento.no País” (ARQUIVO NACIONAL. etc. bases de dados Serviços de informação GT1 42 . 1975). p.

1980). instrumentos de pesquisa Operações e serviços destinados aos usuários Gestão (fixação de objetivos e métodos) Gestão e administração Pessoal Tipos de operações Organização de sistemas Aplicações informáticas Reprografia Conservação e restauração Gestão e administração Pessoal Aspectos jurídicos Organização e planificação de sistemas Tecnologia Aplicações informáticas Reprografia Conservação e restauração Fonte: adaptação do quadro apresentado na Conférence Intergouvernementale sur la Planification des Infrastructures Nationales en matière de Documentation. reforçada pelo movimento para a harmonização das formações nessas áreas de informação. análise de conteúdo. ocorre o Seminaire International sur les stratégies pour le devélopment des archives dans le Tiers Monde. armazenamento. MARTINEAU. nas sessões plenárias. interpretação. linguagens documentárias e sistemas de pesquisa documentária Organização de bases de dados Difusão de informação Serviços destinados aos usuários Gestão e administração Pessoal Aspectos jurídicos Planificação de sistemas Aplicações informáticas Reprografia Processos de consulta Organização do conhecimento Indexação. a UNESCO ratifica essa proposta de harmonização por meio do General Information Programme (PGI). resumos analíticos. de Bibliothèques et d’archives (1974. que ganha fôlego com a multiplicação dos estudos e dos encontros (COUTURE. A partir desse quadro. Em 1976. 1979 – contemplaria. complementada com cursos de aperfeiçoamento. resumos analíticos. que. 1999). atualização e reciclagem. avaliação e utilização dos materiais) Indexação.Métodos (organização. DUCHARME. Depois disso. organizado pelo ICA em cooperação com a UNESCO (Berlim. GT1 43 . há a recomendação de uma formação regular comum. 1979). reconhece a importância da integração parcial das disciplinas e dos profissionais do domínio da informação e documentação. a integração dos arquivos nos centros de informação (ARQUIVO NACIONAL. a partir de uma terminologia geopolítica. análise de conteúdo Serviços de leitores Análise sistêmica Gestão de dossiês e depósitos intermediários Triagem Classificação e inventário. Sintonizado a essas preocupações. tradução nossa). o IV Congresso Brasileiro de Arquivologia (CBA) – Rio de Janeiro.

1979). são de interesse para pesquisadores e administradores. consignam a gestão dos assuntos públicos e a facilitam.No mesmo ano é realizada a Reunión d’experts sur l’harmonisation des programmes de formation en matière d’archives (Paris. cuidadosamente conservados. a implementação de uma base tecnológica comum às três disciplinas e o fortalecimento GT1 44 . Além dessa reunião. a FID. então. Por sua vez. o ICA e a IFLA se reúnem na Itália para definir as ações e os programas comuns viáveis. 1984). (RIGTH REPORT ON SUCCESSION OF STATES IN RESPECT OF MATTERS OTHER THAN TREATICES. 1976. preservação e comunicação da informação registrada e. 35). Essas instituições voltam a se reunir em Viena (1983) em torno do tema Gestion des professions de l’information: incidences sur l’enseignement et la formation. a preparação dos estudantes para um mercado flexível. A relevância dos arquivos é. a UNESCO. consideradas suas peculiaridades. São. Nessa mesma perspectiva. por meio do programa Records and Archives Management Program (RAMP). infraestrutura de desenvolvimento. quando discutem questões teóricas e práticas que o perpassam (WASSERMAN. realiza uma consulta junto aos especialistas da área (também em Paris. como o próprio nome indica. p. a UNESCO organiza. que. em grande medida. o Colloque International sur l’harmonisation des programmes d’enseignement et de formation en Sciences de l’Information. pela origem e natureza dos materiais tratados. por conseguinte. constituem um patrimônio e uma propriedade por cuja existência pública inalienável e imprescritível. com o fim de se estudar os programas de formação em Arquivologia e as suas relações com os programas de formação teórica e prática em Biblioteconomia e CI. Dentre as vantagens dessa integração estariam: os benefícios econômicos. 1979). formação e treinamento de profissionais (EXPERT CONSULTATION ON THE DEVELOPMENT OF A RECORDS AND ARCHIVES MANAGEMENT PROGRAMME (RAMP) WITHIN THE FRAMEWORK OF THE GENERAL INFORMATION PROGRAMME. reconhecida: Os arquivos públicos. a redução de barreiras psicológicas e sociais entre os grupos. em Paris. que discutem o tema num seminário da IFLA (Filipinas. são o instrumento indispensável para administração de uma comunidade. Quer sejam secretos ou públicos. considerando que os seus serviços têm em comum a aquisição. As recomendações decorrentes dessa consulta voltam-se para a implementação de políticas e planos. 1980). 1984b). Bibliotheconomie et Archivistique (1984a. a análise e difusão das informações contidas em seus fundos e coleções. normas e padrões. Em 1980. com o objetivo de melhorar a gestão de documentos (além da sua preservação como herança cultural). em graus variados. em nível nacional e regional. zela o Estado. também. em geral. ao mesmo tempo que descrevem as vicissitudes da história humana. determinadas. focaliza a integração do ensino dessas áreas. 1979). Esses estudos também recebem a atenção dos profissionais e estudiosos da Biblioteconomia.

mas todos colaborando para uma mesma causa – a aquisição. A criação do ICA. GT1 45 . representando o Brasil no âmbito dessas preocupações (COLLOQUE INTERNATIONAL SUR L’HARMONISATION DES PROGRAMMES D’ENSEIGNEMENT ET DE FORMATION EN SCIENCES DE L’INFORMATION. (MUELLER. Outro exemplo das relevantes contribuições da UNESCO é o fundo internacional para o desenvolvimento de arquivos. é realizado o Colóquio Internacional sobre Harmonização de Programas de Ensino e Treinamento de Pessoal de Biblioteca. Ao relatar as discussões e conclusões do evento. 2000). e mais especificamente em relação à valorização dos arquivos. também ocorre no seu âmbito. BIBLIOTHECONOMIE ET ARCHIVISTIQUE. 243-246. ainda. na tentativa de auxiliar os países em desenvolvimento a adotar sistemas nacionais de arquivos eficazes (INTERNATIONAL COUNCIL ON ARCHIVES. 14. 1992). já no seu primeiro programa. 16). desde a sua criação em 1946. em Londres (MENDES. o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). em cada estado membro. organização e difusão de material informacional em vários formatos e suportes. Miriam. de um centro de informação sobre os seus arquivos. o mais importante órgão de cooperação internacional da área. cabe-nos destacar. Informação e Arquivo no ano de 1987. 1984b). a padronização. No plano politicoinstitucional. information and archival personnel: a repport of the colloquium held in London. então chefe do Departamento de Biblioteconomia da Universidade de Brasília (UnB). Mueller reflete sobre uma possível reunião em um só conselho profissional [de] todos esses setores envolvidos com serviços de informação. bibliotecas e museus: naquele ano. podemos perceber que a atuação da UNESCO. Esses eventos propiciam a elaboração de alguns documentos que sintetizam suas preocupações em torno da harmonização das profissões e disciplinas da informação e propõem programas comuns nesse sentido. 1992. a agência brasileira de fomento que faz a classificação das áreas do conhecimento com finalidades práticas. v. p. a Biblioteca Nacional e o Museu Histórico Nacional abrem inscrições para o Curso Técnico.do status representativo das profissões diante do Governo (TEES5 apud MENDES. Complementarmente. 3. desde 1923 já existiam preocupações explícitas quanto à necessidade de cooperação entre os profissionais de arquivos. a presença da Profª Susana Mueller. já contemplava a CI. IFLA Journal. propõe um projeto de criação. a instituição. Em relação a esse evento. Devemos lembrar que. 9-15 August 1987. sempre foi de grande relevância para o desenvolvimento. n. Harmonisation of education and training programmes for library. a organização. resguardadas a identidade e a especialidade de cada um. p. 1984. como uma subárea da Comunicação na sua 5 TEES. 1974). Por todas as iniciativas descritas. desde 1976. p. No Brasil. 164). comum a essas duas instituições e ao AN (CASTRO. além dessas ações. preservação. o estudo e a reflexão das disciplinas da informação. 1988.

de 2 de março de 2005. a CI aparece como área. Essa classificação demonstra a emancipação da CI no campo científico e o seu “domínio” sobre as subáreas que a compõem. estudar as profissões com base na Organização Internacional do Trabalho (OIT). nos dias 30 e 31 de maio de 2005. Além disso. segundo o qual O campo científico é sempre o lugar de uma luta.cnpq. Já na TAC em vigor6. Nas universidades. 7 Portaria conjunta do CNPq. 2011.memoria. Na TAC de 1984.cnpq. o CNPq. na sede da Academia Brasileira de Ciências. em sintonia com as tendências internacionais e com a comunidade científica. com outras áreas. CAPES e FINEP. de forma a agregar as áreas que têm por objeto a informação. mais ou menos desigual. Em 2005. 1978a). MARQUES. nitidamente.Tabela de Áreas do Conhecimento (TAC). a UnB e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) começaram a estudar e a implementar (no caso da UFMG) a integração dos currículos dos três cursos no escopo mais amplo da CI (ARAÚJO. Nessa classificação. Em decorrência dos trabalhos da comissão. a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) compõem uma comissão especial de estudos para propor uma nova TAC7.br/areas/cee/proposta. a Teoria da Informação. 2008). desigualmente capazes de se apropriarem do produto do trabalho científico que o conjunto dos concorrentes produz pela sua colaboração objetiva ao colocarem em ação o conjunto dos meios de produção científica disponíveis. p. Considerando a defasagem da tabela em vigor e a “forte tendência de interdisciplinaridade das áreas do conhecimento”.htm>. denominada “Ciência da Informação. 8 Informações disponíveis em: <http://www. (BOURDIEU. a grande área das Ciências Sociais Aplicadas e tem como subáreas. a CI compõe. 136). No entanto. 1983a. entre agentes desigualmente dotados de capital específico e. essa proposta ainda não foi aprovada8. Acesso em 19 jul/2011. VANZ. GT1 46 .br/areas/cee/proposta. portanto. Acesso em 19 jul. parece ir ao encontro da proposta internacional de conceber a Ciência da Informação no plural. embora a comissão tenha previsto a conclusão dos trabalhos para dezembro do mesmo ano9. Biblioteconomia e Arquivologia”. 2011).memoria. 9 Memória da 2ª reunião da comissão especial de estudos das áreas do conhecimento realizada no Rio de Janeiro. a CI tinha duas especialidades: 1) os Sistemas da Informação e 2) a Biblioteconomia e Documentação (CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO. essa comissão deveria. 6 As informações quanto à atual TAC encontram-se disponíveis em: <http://www. a Arquivologia da CI. 3 PARTICULARIDADES DA ARQUIVOLOGIA Um dos principais autores que constituíram nossos referenciais teóricos foi Pierre Bourdieu. já observamos a concretização de algumas iniciativas quanto à integração da Arquivologia. da Biblioteconomia e da Museologia na CI: a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). o CNPq propõe uma classificação que diferencia.htm>. mapear os problemas das grandes áreas e definir as bases epistemológicas para a nova tabela. a Biblioteconomia e a Arquivologia (FERNANDEZ.

Para compreender as relações entre essas disciplinas. num primeiro momento. entendido. não distinguimos os (sub)campos definidos por essas disciplinas (o que exigiria um estudo epistemológico mais profundo). mais especificamente. retomamos. exigindo um savoir-faire especializado. a profissão de arquivista tornou-se reconhecida como uma atividade distinta. Gradualmente. isto é. ideia que parece ser compatível com a proposta de campo transcientífico de Knorr-Cetina (1981)10 e com Bourdieu (1983a). e. sua formação em sistemas na sua busca por “jurisdição no sistema de profissões”. a partir daí. simultaneamente. 81-82. Nesse sentido. buscamos situar e compreender a formação e configuração da Arquivologia no âmbito das disciplinas da informação que comungam paradigmas comuns em torno da gênese. como profissões que passaram por processos de profissionalização e institucionalização até conquistarem seu espaço e estatuto científico. do campo da informação. sua produção de registros cresceu em importância. pudemos compreender a trajetória da profissão de arquivista e a sua formação acadêmica. A partir do século XVII. o campo transcientífico “remete a redes de relacionamentos simbólicos que em princípio vão além dos limites de uma transcientífico comunidade científica ou do campo científico” (KNORR-CETINA. Assim vamos. O estudo de Abbott (1988) mostrou-se valioso na apresentação e análise da história das profissões. Silva et al (1999) explicam que. a profissão de arquivista começa a ser regulamentada. como subcampo. mas procuramos entender suas relações de parceria.Considerando a luta concorrencial que perpassa o campo científico. É assim que a profissão de arquivista. p. a unidade existente na ciência e as diversas posições que as diferentes disciplinas ocupam no espaço. num segundo momento. quanto às lutas internas ao campo científico. entrecruzado com os daquelas disciplinas que lhe são próximas e que também lidam com a informação (a Arquivologia. Observamos que a concentração dos documentos em arquivos centrais a partir do século XVI demandou profissionais especializados para gerir as grandes massas documentais acumuladas. Duchein lembra que: Como as administrações locais e centrais multiplicaram e se tornaram mais especializadas. Bourdieu (2001). tradução nossa). em alguns casos. com normas que. A partir das reflexões desses autores. Para ele. a Documentação e a Museologia). 16. ao encontro do campo científico e profissional da CI. (DUCHEIN. cooperação e conflitos. uma prática tão antiga. novamente. passa por distintas configurações de 10 Para a autora. p. O que acontece no campo depende dessas posições e este pode ser descrito como um conjunto de campos locais (disciplinas). 1992. sua hierarquização. numa abordagem mais ampla. Tornou-se necessário criar sistemas de conservação. a Biblioteconomia. comunicação e recuperação da informação. já contemplariam os postulados da disciplina que desenvolver-se-ia mais tarde. 1981. que têm em comum interesses e princípios mínimos. organização. descrição e gestão geral em larga escala para as novas massas de pergaminhos e papéis. a noção de campo científico contempla. que congrega essas disciplinas. GT1 47 . arranjo. O autor considera as influências de forças internas e externas ao sistema de profissões. tradução nossa).

sobretudo a partir do século XIX: a criação dos grandes depósitos dos arquivos nacionais. essas correntes. difundidas sobretudo a partir dos anos 1980 por meio da proposta da “Arquivística Integrada”. Essa tendência de integração da Arquivologia tradicional com a gestão de documentos configuraria a natureza da profissão do arquivista. com a criação de instituições cada vez mais especializadas e de escolas de formação em vários países a partir da segunda metade daquele século. o surgimento dos documentos eletrônicos e os desafios quanto ao seu acesso (DUCHEIN. Para Duchein (1993). 1992). À frente da especialização da profissão do arquivista estariam. ROUSSEAU. fiéis aos arquivos históricos. 2005. além da maior sensibilização em torno dos princípios básicos da Arquivologia (DUCHEIN. 1993). 2) e aquela de fora da Europa. p. 51. duas correntes de formação: 1) aquela liderada pelos países europeus. Decorrentes dessa valorização. DUCHARME. a Arquivologia. se por um lado as associações profissionais distinguiam os arquivos em dois segmentos. Entretanto. o aumento da produção e acumulação de documentos. tradução nossa). como conservadores da memória histórica e como elementos da informação corrente. teve de inventar novos métodos e pensar novas intervenções para canalizar e racionalizar o fluxo incessante. submissa às pressões exercidas pela criação massiva de documentos pelas administrações. sintetizam de forma complementar dois papéis dos arquivos. (COUTURE. agravado com o aparecimento da fotografia que favoreceu a multiplicação das cópias. aguçariam os problemas de identidade da área. segundo Couture. Ducharme e Rousseau (1988). e outro para dar conta das demandas de pesquisas históricas. pessoa ou família não deve ser misturado aos de outras entidades produtoras” (ARQUIVO NACIONAL. as instituições e a legislação arquivística não o faziam. mais voltadas para a gestão de documentos. são verificadas lacunas na organização de documentos administrativos. quando se verifica uma tendência geral de valorizar os arquivos como recursos de informação vitais nas instituições. aparentemente antagônicas. Essa divisão apresenta-se de forma mais clara nos Estados Unidos. cuja formação dá-se independentemente da Biblioteconomia. que desprezavam o Princípio da Proveniência11 em nome de uma centralização. 136). que. A área então se divide em dois segmentos: um para atender às demandas administrativas. 1988. esses estudiosos lembram que. Segundo o mesmo autor. uma das consequências dessa evolução foi a crescente especialização e autonomia dos arquivistas. embora a partir da Segunda Guerra Mundial tenha se repercutido no mundo. Essa constatação parece ir ao encontro das reflexões canadenses. Couture. GT1 48 . p. que estão as bases da profissionalização do pessoal da Arquivologia: Tributária de um estatuto de ciência auxiliar que lhe fora atribuído pela História positivista do século dezenove. por meio de um programa 11 “Princípio básico da arquivologia segundo o qual o arquivo produzido por uma entidade coletiva. que tende a conceber a formação do arquivista mais próxima à do profissional da informação (principalmente do bibliotecário/ documentalista). a Arquivologia tradicional. Nessa perspectiva. na primeira metade do século XX.acordo com as mudanças ocorridas. grosso modo. Ducharme e Rousseau (1988) lembram que é um pouco mais tarde.

CI e outras disciplinas especializadas que auxiliam a área na organização de tipos específicos de arquivos. o seu reconhecimento social (COUTURE. por outro. as diferenças se dão em razão da tradição arquivística nacional. como o foi nas suas origens. uma profissão de praticantes” (SCHAEFFER. a informação orgânica registrada. como aqueles oriundos da Administração. GT1 49 . sejam elas públicas ou privadas. EICHENLAUB. 32). Jean-Luc. 9). É nesse sentido que os autores defendem a perspectiva integrada da área. e a informação arquivística. a Arquivologia teve contribuições relevantes da História na formação dos seus profissionais. 12 MARÉCHAL. a prática arquivística é antiga. em parte. como afirma Moreno: Considerando-se que a informação estratégica é aquela capaz de apoiar às principais atividades de uma organização. estas não foram exclusivas: como afirmam esses autores. uma imagem mais forte da área e. passa a contribuir. bem como suas definições internas estratégicas e suas alianças com outras disciplinas. A configuração integrada da Arquivologia (considerando o valor administrativo e o valor histórico dos arquivos). É nessa perspectiva que Schaeffer afirma que “O campo arquivístico hoje é. (MORENO. ainda. Assim. 2007. ou seja. 1994. In: Les archives françaises à la veille de l’intégration européene: actes du XXXIe Congrès National des Archives Français. mais ou menos próxima da História ou da CI (MARÉCHAL. é essencial para a tomada de decisão. podem ter uma parcela significativa de informações com característica e natureza arquivística. objeto do olhar arquivístico. Há que se acrescentar. também apresenta características similares. permite. consequentemente. A partir desse século e. Essa afirmação pode. a formação em Arquivologia desenvolve-se em razão das demandas das instituições arquivísticas e do mundo do trabalho. EICHENLAUB12 apud LIMON. além de propiciar a unidade das intervenções arquivísticas nos documentos. embora não seja a única definidora das decisões tomadas pelas instituições. por sua vez. segundo os canadenses. a formação especializada. 1990. Michel. que as percepções acerca da profissão de arquivista variam conforme o país ou região. 1999-2000). ROUSSEAU. para a organização de documentos. se por um lado. de forma a ampliar a definição de arquivo.centrado na missão institucional e integrado à sua política de gestão da informação. como uma das mais recentes tendências. 1992. a profissionalização. p. La formation des archivists en Europe. de forma particular. Informática. Ao analisar a trajetória da área. a articulação e estruturação das atividades arquivísticas sob uma política organizacional. outros elementos de formação lhe foram indispensáveis. preocupadas com a gestão de grandes volumes documentais. contribui valiosamente para tal. De fato. 1999-2000). sobretudo a partir das duas guerras mundiais. Paris: Archives Nationales. Se. reduzindo incerteza. então é possível afirmar que as informações estratégicas ou gerenciais amplamente utilizadas pelos administradores para a tomada de decisão nas organizações. observamos que. consolida-se a partir das escolas europeias do século XIX e dos cursos universitários (de graduação e pós-graduação) que se espalham no mundo ao longo do século XX (LIMON. ao longo da sua trajetória. DUCHARME. p. 1988).

como afirma Bourdieu. reconhecemos suas relações extradisciplinares. nos lembra que a especificidade e autonomia da Arquivologia em relação a outras áreas aparecem nuançadas nos diferentes países. “Não há ‘escolha’ científica [. Esse distanciamento. Talvez. Todavia. Afinal. como locais reservados para o estudo que. que o arquivista pode avaliar os documentos e disponibilizá-los ao pesquisador ou ao administrador. Evidentemente. por sua vez. mais tarde. consequentemente. não se deve dispensar a prática. E é assim que esse profissional pode distinguir-se dos demais que lhe cercam no campo da informação: com a regulamentação da profissão. Todavia. Vale lembrar que a prática arquivística ocorre em instituições variadas e em situações de compartilhamento de experiências com diversos profissionais. sendo frequentes as relações com os demais profissionais da informação. avaliação e descrição documental. isto é. por sua vez. dê um novo rumo à configuração científica da Arquivologia no Brasil. diferentemente das profissões consolidadas há mais tempo. permeadas por encontros e desencontros. mesmo vagarosamente. acompanhada da formação profissional. como novamente pontua Schaeffer (1994. 126-127). como espaços voltados para a guarda de documentos. em alguns casos. isto é. esse viés abriga necessidades e desafios teóricos e metodológicos. demandando uma aproximação entre as duas vertentes. retoma as questões iniciais. independente da CI e diretamente ligada à nova grande área Ciências Socialmente Aplicáveis – ainda que seja questionável esta última denominação –. 1983a.. bibliotecários e museólogos). sua produção/acumulação é orgânica. seus objetos. que na maioria dos países resume-se nas demandas por classificação. 50 • GT1 . essa associação acontece tardiamente e acaba desencadeando um distanciamento entre a teoria e a prática. Embora não exista consenso entre os estudiosos das disciplinas da informação sobre a definição de fronteiras entre essas disciplinas. 4 O CAMPO DA INFORMAÇÃO: CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta do CNPq de separação da CI e da Arquivologia nos instiga à reflexão. Delsalle (1998).. a partir da base teórica. Como vimos. que. devemos realçar que. a Arquivologia não tem uma tradição que associe formação universitária com a profissionalização. bibliotecas e museus. a nova concepção dessa disciplina como uma área do conhecimento. sobretudo a partir do século XIX. a obtenção do reconhecimento dos pares-concorrentes” (BOURDIEU. teriam suas práticas estudadas por disciplinas que tornar-se-iam científicas e regulamentadas por leis que demarcariam a jurisdição das diferentes profissões – arquivistas. Nessa perspectiva. têm se desenvolvido assimetricamente no mundo. embora os arquivos tenham funções culturais e sociais. que têm naturezas e objetivos distintos e.justificar o viés técnico assumido pela área. Schaeffer complementa que é. o autor lembra que.] que não seja uma estratégia política de investimento objetivamente orientada para a maximização do lucro propriamente científico. p. 27): mesmo no âmbito da formação acadêmica. considerando: • suas trajetórias (no caso dos arquivos. conforme os interesses de cada um. gostaríamos de destacar suas particularidades. p. a preservação da memória e. organização diferenciada segundo métodos específicos. desde a Antiguidade.

um campo comum. ligadas às práticas administrativas próprias de cada instituição e de cada país. por sua vez. por um lado. a Biblioteconomia. No final daquele século. Conjugando esses fatores. A partir do século XIX. descritos. estão entrecruzadas as trajetórias da Arquivologia. os documentos de arquivo devem ser classificados. as características gerais do objeto propiciam a interação das diferentes profissões e disciplinas. propomos. como estrutura estruturada e produzida por toda uma série de aprendizagens comuns ou individuais (BOURDIEU. modelos. 1983b. mas também de conflitos. comunicação e disponibilização da informação. alguns estudiosos afirmam que essas obras datam do século XVI. portanto. 13 Segundo Fonseca (2004). afirmam 14 Ao explicitar a noção de habitus. avaliados. defendemos a autonomia da Arquivologia como disciplina. aparecendo os grandes manuais que consubstanciariam as bases teóricas da Arquivologia (DUCHEIN. seus traços específicos as individualizam. correntes. organização. com base em Bourdieu. a Museologia e a Arquivologia. na medida em que evoluía a concepção da natureza dos documentos que deveriam ser conservados e o tipo de informação que se procurava. Museologia. 1993). práticas e avanços científicos. Biblioteconomia. o campo da informação é entendido como o campo científico e profissional que abriga as disciplinas que têm por objeto a gênese. passaram a caracterizar paradigmas. Nele. por outro. Nessa perspectiva. 2001). Mediante a combinação desses aspectos. bibliotecário e documentalista. as técnicas de gestão de arquivos começam a dar espaço a um corpo teórico. A profissão de arquivista desenvolveu-se ao longo do tempo nas diversas sociedades. podemos observar que. que se considerar a amplitude e a complexidade do objeto (informação) nos seus desdobramentos comuns e específicos. Considerando seus pontos comuns e singulares. mas que combine suas particularidades. a partir da sua busca por autonomia científica. perpassados por habitus (BOURDIEU. o pesquisador articula passado (reprodução de estruturas objetivas) e futuro (objetivos contemplados num projeto): a estrutura objetiva que define as condições sociais de sua produção é conjugada com as condições de exercício desse “habitus como transcendental histórico”. uma abordagem que não hierarquize a Documentação. ajudante de notário. Aos poucos. espaço de parcerias. conservados/preservados e difundidos tendose em vista a manutenção de informações relativas ao seu contexto de criação. no qual ele está a priori. portanto. bem como as iniciativas de diálogo e cooperação entre as disciplinas da informação (ver ações da UNESCO nesse sentido) e as tentativas de delimitação de fronteiras profissionais e científicas (legislação de regulamentação das profissões e tabelas de áreas do conhecimento). respeitando suas trajetórias. os estudiosos e profissionais da área começam a redigir obras sobre a sua prática. escrivão. na tentativa de consolidar os princípios gerais13.decorre das atividades de uma instituição ou pessoa e. tradições e tendências do pensamento arquivístico internacional. Há. que. verificamos discursos mais ou menos homogêneos/articulados. Sua especialização diante de outras profissões parte de uma origem mais ou menos indistinta entre as profissões de notário. 2001)14 decorrentes de contingências históricas. Assim. as regras vão se formando. Dos primeiros registros humanos formadores dos arquivos até a inserção da Arquivologia nas universidades e sua atual configuração como campo científico-transcientífico-discursivo. então. acreditamos que as disciplinas que têm por objeto a informação constituem. a CI. GT1 51 .

Documentation and Information Science are understood as independent disciplines that purport information genesis. considerando que os arquivos são decorrentes de atividades institucionais e pessoais diversas. Library Science. sobretudo. mas único. Ducharme e Rousseau (1988). GT1 52 . VANZ. 15 É válido lembrar que o valor de prova dá-se. É dessa forma que se dá a construção do conhecimento pela preservação não fragmentada dos registros de memória. o documento de arquivo é prova porque é produzido. Museology. The system of professions: an essay on the division of expert labor. singularmente. Carlos Alberto Ávila. The goal hereunder is to apprehend the convergences and peculiarities of these disciplines. Ou seja. Samile Andréa Souza. contudo. naturalidade. mais recentemente. Andrew. Evidentemente. organization. sem. isto é. Chicago/ Londres: Universidade de Chicago. autenticidade. vislumbramos relações de parceria. and retrieval. Afinal. Assim como o faríamos com a biblioteca. Museology. conflitantes. REFERÊNCIAS ABBOTT. o centro de informação/documentação. MARQUES. pela conjugação das características do documento apontadas por Duranti (1994) no contexto da organização: imparcialidade. Keywords: Archival Science. a interdisciplinaridade (e suas variações) parece ser uma característica intrínseca à Arquivologia. 1988. Information Science. Library Science. podemos apreender o singular papel do arquivo no contexto organizacional: na contribuição do documento arquivístico como prova que apoia a administração e auxilia a preservação da memória15. Abstract: This communication presents. notwithstanding. interrelacionamento e unicidade. seen as the space for alliances and conflicts among these disciplines. a exemplo de Couture. This work also supports the autonomy of Archival Science as scientific discipline. permite o registro da sua memória como processo. não completo. especially of Archival Science.Documentação e. without. beginning with a bibliographical review and a documental analysis. disregarding its extra-disciplinary relations and its dialogues with the other proximate disciplines. cooperação (e por quê não de conflito?) entre a Arquivologia e essas disciplinas. da CI. para a gestão da informação nas organizações: como um auto-retrato institucional. recebido e acumulado no desenvolvimento das atividades de uma instituição/pessoa e. cooperativos. que Derrida (1997) chama de “blocos mágicos do passado”16. Angelica Alves da Cunha. o museu. the history of some international and national initiatives aimed at harmonizing the teaching of information disciplines. É como informação orgânica registrada que o documento de arquivo contribui. communication. concebê-las como de subordinação desta a qualquer outra área. como (sub/inter)campos simultaneamente parceiros. ARAUJO. 16 Referência de Derrida à maneira pela qual Freud pensava representar a sua memória. por meio dos seus escritos. portanto. relativamente comuns e singulares. Starting with Bordieu’s definition of scientific field and Abbott’s definition of jurisdiction in the system of professions. Archival Science. for outlining the information field.

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esta genealogia conceitual toca diretamente na mimese como unidade estrutural da organização dos saberes – OS. No campo informacional. Palavras-chave: Filosofia da Ciência da Informação – Epistemologia . no mínimo. antes da “revolução informacional”. ao discutir uma “filosofia da informação”. Percebendo o surgimento dos traços semânticos da CI enquanto arte de um organizador de saberes. mas. outra-mundanidade e esta-mundanidade. Recentemente. Floridi (2002). surgida na Antiguidade. A condição da mimese no contexto de formalização de discursos institucionalizados em terminologias que abrangem as noções de bibliologia.Filosofia da Informação Mimese 1 INTRODUÇÃO Remota. representação e educação. Otlet e o livro. demarcando a rejeição à imitação manifestada por Platão e a abordagem aristotélica sobre as representações. pode ser tomada como. de biblioteconomia. de bibliografia.COMUNICAÇÃO ORAL O IMPERATIVO MIMÉTICO: A FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO E O CAMINHO DA QUINTA IMITAÇÃO Gustavo Silva Saldanha RESUMO O texto desenvolve uma análise filosófica do conceito de mimese inserido na filosofia da organização dos saberes como uma unidade fundamental para o pensamento histórico da Ciência da Informação. como espaço privilegiado de produção de um domínio distinto. respectivamente. a preocupação com o discurso sobre a mimese atravessa os séculos e pode ser observada como uma das questões que conferem vida à própria reflexão filosófica em seus primórdios. fundamental em nosso discurso epistemológico. É revisada a noção de mimese no contexto da Antiguidade. é “perfeitamente legítimo” falar em uma “filosofia da informação” no passado. quando aparecem os primeiros instrumentos que transcendem a GT1 56 . a saber. Em seu olhar. Três abordagens são investigadas neste contexto: Gutenberg e a prensa. Em nossa visão. de documentação e de ciência da informação. esta reflexão se apresenta não apenas como objeto importante. É sobre a abordagem da imitação que Platão se debruça para distinguir o mundo inteligível do mundo corruptível – no léxico de Lovejoy (2005). O trabalho conclui demarcando a dupla significação de uma fundamentação mimética para o campo. aponta que é possível reconstituir a “história do conceito informação” muito antes de seu significante se tornar legitimado. Os fundamentos dos estudos informacionais são revisados a partir da presença determinante deste conceito em sua formalização. Bush e o Memex. muita das vezes.

o reconhecimento do conceito de mimese nos estudos da informação pode ser interligado ao próprio leit motiv da travessia da história das ideias acerca da noção e da instrumentalização da informação enquanto um meta-discurso – a meta-informação que leva ao meta-conhecimento transversal da OS (GONZÁLEZ DE GÓMEZ. o desenvolvimento do discurso da OS acompanha um percurso que desdobrase em uma cadeia de compreensão da mimese iniciada por Platão em diálogos como Górgias. censura. GT1 57 . naturalmente. em conceitos como informação e conhecimento. como acesso. Recuperação da Informação – RI . c) análise da presença de um imperativo mimético na sedimentação dos estudos informacionais. b) identificação da mimese nos fundamentos da OS. em práticas como o mencionado serviço de referência e os estudos de usuários. No entanto. Nosso percurso observa a seguinte linha de reflexão: a) reconhecimento da conceituação platônica de mimese e da revisão aristotélica do conceito. como Reprografia. 1996). principalmente em sua face cognitiva. observado como uma sombra que perpassa a linha de atuação da prática da OS. afirmamos a relevância do conceito para a própria filosofia da CI. como o catálogo. o conceito pode ser. No entanto. Preservação. tecnologia da informação. Procuramos aqui demonstrar que a reflexão sobre a mimese é um terreno fértil de discussão. Fedro e Sofista. representada em ferramentas como tesauros e ontologias. a prática meta-informacional se desenvolve. apesar de reduzida. o coração do campo. que se desdobra em setores cruciais do desenvolvimento do discurso científico da CI. Temos aqui a “questão do registro” – de onde deriva a “questão do livro” – como essencial para o fazer/refletir do artífice da OS. Seguimos neste estudo a trilha filosófica aberta pela meta-reflexão de Nitecki (1995) sobre a filosofia da OS. para e pelo conceito de mimese. está ainda fundado na influência da metafísica de Platão. De uma maneira mais clara. ganhando a formalização de “ciência” nos séculos XIX e XX. teórica e prática. Mais do que isto. o autor reconhece filósofos ocidentais como Francis Bacon e Karl Popper. para o autor. e. O epistemólogo aponta que. À primeira vista. tratamos. Ao tratar de mimese. desde Aristóteles. a reflexão filosófica no campo permite a identificação de algumas influências estruturais. Classificação.e Comunicação Científica. capaz de ampliar as possibilidades de interpretação de nossas análises histórica. na verdade. apesar da longa tradição profissional. Esta cadeia conduz à constituição da meta-informação como objeto da epistemologia da CI. este conceito é fundamental quando chegamos até a noção de informação elaborada na epistemologia da CI a partir dos anos 1960. por um lado. Catalogação. Explicitamente aplicado em disciplinas fundacionais da CI.prática irreflexiva. identificando-o como motor diferencial para reflexão da filosofia da informação. que procuramos construir nossa argumentação. de aprendizagem – apropriação de significado esta que recai em toda tentativa novecentista de formalização de uma ciência para a informação. direitos autorais. preservação. e na abordagem empírica de Aristóteles. a questão que se coloca ao campo está envolvida com a noção de cópia. Sob. É a partir de uma análise interpretativa entre ambos. tendo continuidade na República. Dentre elas.

atualizada pelo artífice que. por outro. há três formas de cama: a “natural” (o conceito). da cama do artífice. 449). abrindo margens para a interpretação dos “povos imitadores” como inferiores aos “povos que negam a imitação”. Na cadeia de distribuição da alma divina detalhada no diálogo. p. este não realiza a verdade da cama a partir da ideia. encontramos sua condenação. Aristóteles pergunta-se pela capacidade mimética presente no homem – “pelo mimeisthai no qual se enraíza a poietiké. a do artífice e aquela do pintor. Porém. Para conceituar a expressão mimética. 597d . como também para inúmeros saberes deste oriundo. em Aristóteles.2 O IMITADO PELO IMITADOR Podemos destacar a mimese como tema estrutural para a Filosofia. reconhecemos a readmissão do conceito no debate filosófico – ou sua afirmação como elemento potencial para a reflexão que se afirma verdadeira. A tradução da noção de mimese do grego para as línguas latinas pode apresentar os significados de imitação. e apenas reconhece/ reproduz aparências. A estrutura do olhar de Platão sobre a mimese está na crítica da noção a partir da acusação de falsidade – a mimese como conceito que se apresenta como negação da verdade. História. Há uma ideia de cama. Contra a mimese o pensamento ocidental viria se constituir. o imitador. como um “fabricante” de “camas”. 596a-597b . representação. 2008. tomado como construtor de imitações. p. para criticar a imitação em uma dupla significação: tanto na capacidade de reprodução oral dos discursos. 595a. O estagirita determina uma relação fundamental para compreensão das representações na atualidade: a aproximação entre mimese e aprendizagem. Se. p. valor GT1 58 . 450-453). ou seja. 2008. produz o móvel doméstico. um distanciamento claro sobre a noção. na tentativa de cura da cidade. 2008. Na Grécia platônica. em um futuro cada vez mais afastado do “conhecimento verdadeiro”. atribuindo. afirmando que aquele que expõe suas regras por escrito conduzirá um outro ouvinte a tomar o escrito como verdade. dista da “verdadeira cama” – a “cama natural” – no mínimo três pontos (PLATÃO. Encontramos um ponto de vista que toma a imitação como recurso negativo. quando Fedro é interpelado. dentre outros. Literatura e Psicanálise. 454). reprodução. ocupa apenas o sexto patamar o poeta – este. no discurso sobre a arte. Entre Platão e Aristóteles. reconhecemos este conceito aplicado à ideia de representação artística. Temos também. baseado nesta ideia. Assim. No Fedro. separando “ser” e “imagem do ser”. Platão (2000) emprega a ironia. porém. postula a doutrina de negação da poesia de caráter mimético (PLATÃO. como Ciência Política. p. nada entende. (GAGNEBIN. o pintor. ele atua pelas aparências. Menos atento ao que deve ou não ser imitado – postura platônica -. Platão recorre ao clássico exemplo da cama (PLATÃO. ou seja. Para o filósofo da Academia. na abertura do diálogo. Nesta cadeia mimética. Esta última. entendida como criação de uma obra artística”. 1993. É sob esta avaliação que Platão conclui que a arte de imitar está longe da verdade e que o criador de representações. como na capacidade mais distante ainda da verdade do discurso escrito – imitar a imitação do manuscrito. Aristóteles reabilita a mimese afastada da relação com o conhecimento lançada por seu mestre. 70) Platão. por um lado. há. A visão contrária à mimese é sintetizada ao final do diálogo. mas da cópia da ideia. os imitadores que atuam sob a estratégia da mimese são destruidores da inteligência dos ouvintes.

]. ou quais deveriam ser.. comporta múltiplas alterações. pois possibilita perceber as semelhanças. mas atenta para a faculdade de reproduzir. b) a mimese pressupõe reconhecer a imitação enquanto forma – eidos que também leva ao conhecimento. p. artificial. da “arte da imitação das coisas sensíveis ou dos acontecimentos que se desenrolam no mundo sensível. 1993. pois. caracteriza em particular o aprendizado humano. fruto do discurso inserido na dialética. ele as representa mediante uma elocução que compreende palavras estrangeiras e metáforas. o poeta é imitador.. Está evidenciada no diálogo a preocupação platônica com os riscos de uma memória ampliada. Para Gagnebin (1993. p. Segundo Aristóteles. Aristóteles insiste na sua característica de “reconhecimento”. podemos chegar aos seguintes apontamentos: a) a mimese pressupõe aprendizagem. Fragmentos de gestos históricos na Antiguidade e no período medieval podem desvelar a relação entre mimese e OS como experiência intrínseca de uma arte distinta. 2010. No Sofista. que efetivamente consentimos ao poeta. por isso. c) a mimese é uma ferramenta para classificar o mundo. A atividade intelectual aqui remete ao logos. Em resumo. 1966. além disso. a recusa de ultrapassar a aparência sensível em direção à realidade e aos valores” (ABBAGNANO. sinônimo do discurso morto.. Aristóteles não se preocupa com a questão moral da “reprodução do modelo”. Os homens olham para as imagens e reconhecem nelas uma representação da realidade.]. característica essencial do homem. ou. p. 426. p. 99) A Poética. capaz de transportar os discursos no tempo. duas inovações elementares na Poética de Aristóteles referentes à mimese são destacáveis: a) a mímesis faz parte da natureza humana. Tais coisas. Segundo o estagirita. por imitação.maior ao escrito que às “essências” que estariam em sua forma. mas não repousa sobre uma relação de causa e efeito. 1966. p. ou. de todos. 71). dizem: “esse é tal”. (ARISTÓTELES. representava a arte produtiva. a partir do olhar aristotélico sobre os efeitos da mimese. 53): a mimese nada mais é que uma fabricação (poíesis) de imagens (éidolon). Em sua Poética. ainda. [. constituindo. À palavra escrita. Tratava-se. sua imitação incidirá num destes três objetos: coisas quais eram ou quais são. 3 A IMITAÇÃO DO MUNDO IMITADO A partir da breve exploração do conceito de mimese. e que. e. “o imitar é congênito no homem (e nisso difere dos outros viventes. é ele o mais imitador. ciência da produção. quais os outros dizem que são ou quais parecem.. pois. enraíza-se muito mais no reconhecimento de “semelhanças”. (GAGNEBIN. aprende as primeiras noções) e os homens se comprazem no imitado” (ARISTÓTELES. 2000). opor-se-ia a palavra viva. d) a mimese é fonte de prazer (é um jogo). esta racionalidade que se interpõe contrária à mimese é afirmada como uma “demiurgia das imagens” (VERNANT. 71). entre os gregos. p. arte que produz imagens. b) ao descrever esse ganho de conhecimento. como o pintor ou qualquer outro [. porém. 71) O caminho da representação à aprendizagem aberto por Aristóteles em sua reflexão sobre a mimese intensifica as possibilidades de reflexão do conceito no âmbito da OS. antes. GT1 59 . podemos conceber uma genealogia de sua aplicação na filosofia da CI.

o homem se abre para um reconhecimento gradual da mimese. educação. De um modo geral. mas para buscar nela possibilidades de apreensão crítica e de transformação do homem. as imitações começam a serem tomadas como expressões não mais nocivas ao saber. Por sua vez. Os GT1 60 .Naquilo que nos é mais claro no Ocidente no âmbito da OS. Neste sentido. bibliológicas -. É contemporâneo a este fato. esta cópia desenvolvida em um ambiente próprio de reprodução – a scholae scribendi -. o conjunto de regras que orientavam a prática da cópia de manuscritos – ars scribendi . As galáxias “de Gutenberg” e “da Internet”. em si já sustenta a fundamentação de uma escola mimética em curso no passado. Correlacionadas com estas “galáxias”. demarcada por esta recepção aristotélica dois séculos antes da adaptação de Gutenberg. para utilizarmos as noções comuns de McLuhan e Castells. prazer. Paul Otlet e Vannevar Bush na contextualização das transformações na prática do organizador dos saberes foi. podem ser identificadas como frutos de grandes crises da OS. não para negá-la. Não representa. Encontramos ainda neste contexto a apropriação aristotélica de Santo Tomás de Aquino e a grande recepção do estagirita no ocidente. A mimese agora é também reconhecimento. principalmente a partir desta última evidência. instaura-se a vigência de um regime de pensamento que se debruçará sobre a imagem. a reprodução manuscrita dos textos de Aristóteles nos séculos anteriores ao XV revela mais do que uma (re)apropriação filosófica e uma demanda filológica: com a “chegada” do estagirita ao Ocidente e a leitura tomista sobre a empiria. temos aqui a transformação do olhar do homem sob a mimese. pois. Dentre diferentes avaliações – como as análises sociológicas. A partir do início da era da reprodutibilidade bibliográfica. neste momento. encontramos o significado da Biblioteca da Alexandria como um centro clássico de cópia & exegese (reprodução de meta-informação) e educação. a presença de Johannes Gutenberg. demarcada na imitação que abarca as demais imitações do mundo: o livro. identificada para a análise do conceito de mimese e a construção epistemológica da OS. demarcada pelo Renascimento. exigindo diferentes modelos de teorização para uma prática remota. uma coincidência a identificação de “crises” nos regimes epistemológicos do campo quando as transformações técnicas impulsionam saberes miméticos como as artes reprográficas. 3. Acompanha a apropriação do livro a afirmação da mimese como pressuposto da OS. políticas.no Medievo. o aparecimento das universidades e a demanda de novas “classes” como a de professores e a de alunos por cópias de documentos para o ensino e a aprendizagem. a invenção da prensa está atrelada a uma profunda travessia filosófica. Diferentes são os territórios histórico-teóricos da OS que permitem uma reflexão sobre a questão.1 A mimese gutenbergiana: o mundo engolido por um só livro A edição prensada da Bíblia como manifestação primeira da nova técnica de reprodução de artefatos no século XV coincide com a síntese do Medievo realizada pela Baixa Idade Média: encontro do “Platão poeta” e do “Aristóteles físico”. A manifestação da prensa de Gutenberg permite-nos encontrar o indício final da reabilitação aristotélica da noção de mimese. Antes disso.

e uma das primeiras grandes obras de Bibliografia. Destacamos a relação confusa. não apenas o reconhecimento da mimese como ferramenta para responder às demandas da passagem do Medievo para a Modernidade. seriam tão diretamente atingidas pela prensa como aquela do organizador dos saberes. por vezes tratada como naturalista. será diretamente movido por este imperativo. de Richard de Bury. A prática da reprodução dos textos nos fins da Idade Média. ora como compartilhamento) que se dá na categorização conceitual do léxico epistemológico da CI. O século XIX. o início da leitura silenciosa – como se fosse possível adquirir conhecimento através do contato com um livro. principalmente. Com a invenção consagrada no nome de Gutenberg. Merece esta última uma caracterização pormenorizada. mais do que isto. que abrigará a formalização dos primeiros cursos de Biblioteconomia e o surgimento da Documentação. Otlet concebia as possibilidades de construção da paz mundial baseada no progresso proporcionado pela ciência positivista: a concepção mimética otletiana vai da reprodução de fichas à aplicação de tecnologias como telégrafo para a organização e a transmissão da informação intensivamente imitada.2 A mimese otletiana: o livro-signo e a máquina bibliológica A partir dos fins do oitocentos. uma declarada obra de Bibliofilia. A principal virtualidade bibliológica estaria na capacidade irrestrita de reprodutibilidade. ainda no contexto pré-Gutenberg. um imperativo. É através do reconhecimento da mimese como fragmento da filosofia da OS que podemos perceber as razões que ocasionaram a afirmação que a representação (a imitação) é uma espécie de “tradução” do conhecimento. estabelece-se a compreensão de que a mimese é sustentáculo de uma “razão bibliográfica” e que a OS depende da mesma: tem-na como um dever e. mesmo que impossível de ser explorada neste espaço. Paul Otlet percebe nas novas tecnologias algo que está fundado na filosofia da OS: sua potência mimética. mimese-classificação e. menos identidade. pode ser identificada na reflexão sobre a mimese como conceito fundacional do itinerário das ideias bibliológicas. Diferentes autores apontam como diferença entre a Documentação otletiana e outros discursos interessados na organização dos saberes entre o século XIX e o século XX sua preocupação com GT1 61 . entre informação (representação) e conhecimento (tomado ora como abstração. por vezes. de Conrad Gesner -. Esta relação. no platonismo do Fedro e do Sofista. 3. demarcam. em tese. as relações mimese-aprendizagem. mimese-conhecimento. e com ele se assemelha. Poucas categorias profissionais. junto do desdobramento técnico oriundo da invenção da prensa. Orientado pela mimese. mas também a reapropriação afirmativa do conceito como parte da estrutura de um saber que inicia os passos de sua autonomia: uma epistemologia para OS lança os primeiros marcos de sua formalização. poderia ser interpretada como absurdo -. como lembra Peter Burke (2002). principalmente.elementos desdobrados da Poética de Aristóteles são recuperados. e um mundo sustentado pela racionalidade mimética não existe sem esta arte. questão que. E esta crise pode ser tomada como a definitiva margem para um auto-reconhecimento: só existe este artífice em um mundo sustentado pela racionalidade mimética. ainda que com o mesmo não se identifique – mais verossimilhança.

A hipérbole consagrada do olhar sobre a mimese em seu caráter de representação icônica pode ser encontrada em Shera & Cleveland (1977). De fato. ainda que a própria história já tenha significado esta condição de sentido do livro. Em outras palavras. Otlet estabelece uma “função mimética” original para o livro. 14). Especificamente. uma ênfase na “integração utilitarista da tecnologia e da técnica para fins sociais específicos” (DAY. Registra-se. este. Segundo Day (2010. por sua vez. Ao voltar-se para a “relação todo-parte orgânica das funções do livro” (DAY. Na visão do advogado belga. 2001. p. 10). o livro otletiano deveria ser nada mais do que uma reprodução. que permite a acumulação dos dados escritos. A visão otletiana do livro como organismo aberto confere ao significado do artefato bibliográfico uma noção múltipla e inovadora. o documentalista belga postula a passagem da mimese do conhecimento para a mimese do artefato – sua razão icônica. por vezes.a tecnologia que potencializaria o fluxo informacional e com os sistemas sociais de produção e de disseminação dos conteúdos. mimese “por excelência” (na medida que trata-se de uma “assinatura do conhecimento”). e em profundidade. Encontramos aqui a Documentação significada. três grandes resultados ou leis bibliográficas dominam o enorme crescimento dos documentos do nosso tempo: a) existe. como um engenho de imitações. 425). 2001. GT1 62 . Em seguida. A visão otletiana tem simultaneamente uma integração com o pensamento de Platão sobre a mimese (uma física da OS emanada de uma metafísica do livro) e as possibilidades atentadas por Aristóteles em sua apropriação do conceito. uma encarnação concreta da história. b) esta ‘duplicação documental’ (‘doble documental’) restará cada vez mais distanciada de seus criadores. o livro como modalidade dinâmica de energia. desta maneira. ferramenta mimética compacta fundamental para a história da OS. Em suas palavras. p. o conceito de livro estabelece a relação direta entre o pensamento documentalista e a mimese. 2001. por isto. tendo este como modelo” (OTLET. o livro como máquina de (re) produção. (DAY. uma cópia do mundo. sendo. o livro é tanto um objeto físico como um conceito cultural que se estabelece como forma de um conhecimento positivo – um “reflexo natural” do mundo social traduzido nos “fatos”. através do desenvolvimento cada vez maior da abstração e da generalização das ideias que são possibilitadas pelo documento. ela atua distante de seus criadores e produz um efeito em extensão. Otlet percebe neste artefato um organismo autosuficiente. pois. Esta imagem é determinada a partir de três modelos: o livro como organismo. p. o livro aí está para proporcionar uma reprodução. já uma espécie de imitação. sustentação objetiva no conceito de mimese. um sumário. uma síntese de tudo de melhor que a humanidade pudesse produzir. 1996. os escritores. ainda. 13) Interessa-nos aqui objetivamente o terceiro modelo de reconhecimento da noção de livro. o livro representa a materialização objetiva do pensamento. graças aos livros. p. o ‘duplo da humanidade’ (‘doble da la humanidad’). um desdobramento dos espíritos. o livro. Uma epistemologia documentalista tem. Através dele. a cadeia platônica da mimese é descrita no imaginário otletiano: “como o pensamento é uma imagem das coisas. p. Para Otlet. atua. 10). como a prática de desenvolvimento e de uso do microfilme. ou. Ao conceituar o livro como recipiente do conhecimento.

grifo nosso) Como partes de um processo. um parágrafo. “os textos são tanto veículos como incorporações de repetição dinâmica. um outro livro. tradução nossa. tradução nossa. p. 201. como códices. seis orelhas. um outro documento. 18. o livro-signo de Paul Otlet pressupõe a máquina-livro: a máquina mimética que se funda como prolongamento do homem – a imitação da imitação da imitação. munido de uma complexa noção de rede – reséau -. 2001. (DAY. três olhos. O documento tanto pode figurar-se como “o” livro – em seu modelo códice -. formando conjuntos sistêmicos na conservação e transformação de energia mental ao longo da história. e mais para suas possíveis relações. dentro daquele contexto. e o signo pelo livro. estruturalmente.c) por todas as direções. o livro-máquina está ligado a outros livros e outras “máquinas” orgânicas. esta pelo signo. Isto fica claro na noção proposta de documento como substituto do significante livro. coleções de museu. O livro otletiano é. A rede interna produzida por este emaranhado é. ou ainda.uma máquina que. pois. um de seus capítulos ou uma de suas páginas. na visão do criador do Mundaneum. tudo aquilo que ganha a configuração de registro devido a algum processo de apropriação. pode representar outro documento. quatro narizes). (DAY. 1996. p. Em seu desenvolvimento. Esta expansão sugere “que há uma mudança de escala para a natureza e valor do conhecimento”. 425. grifo nosso) Day (2001. 1996. bibliografias. levando a uma expansão do conhecimento e também uma mudança na forma do conhecimento”. apenas. segundo Day (2001). tradução nossa. o conceito otletiano de livro aponta para uma característica fundada na mimese: a repetição. Desta maneira. ou seja. novos órgãos (por exemplo. percebe o desenvolvimento de seu cérebro por abstração. uma máquina mimética . que se desdobra em interpretações múltiplas. Análogo a um organismo que está sendo analisado em termos da sua agência no âmbito de um sistema ecológico. 426. mas como um princípio que toma o repetir como amplificação – esta. em vez de adquirir novos sentidos. Otlet explica no Traité de que as máquinas são extensões [prolongement] do corpo humano. mas o complexo de desdobramentos que a ideia de livro pode conter em um só conceito-matéria que se pressupõe livro. conduz à expansão universal do conhecimento. passível de conduzir um leitor a. p. inspirado. a condição humana é modificada. o documentalista volta-se para o potencial criado pelos nós existentes entre todos os “acidentes” do livro. não como a possibilidade de duplicação de um resultado único. ele se desenvolve em detrimento de si próprio. (OTLET. como pode ser tomado como a capa deste livro. uma palavra que. A conclusão da razão mimética como sustentáculo de uma filosofia bibliológica está descrita na visão do “livro como a própria extensão do livro”: um livro não é um livro. O mecanismo do livro permite que sejam formadas as reservas das forças intelectuais: é um acumulador. em si. A ideia da repetição aparece em Otlet. p. como os instrumentos se desenvolvem em detrimento do corpo. 14) nos chama a atenção para o fato de que o conceito de livro de Otlet aponta menos para o objeto. p. grifo nosso) GT1 63 . Para Otlet. conserva uma força intelectual em permanente expansão/replicação. 14) Nesta dinâmica. Enquanto uma externalização do cérebro. (OTLET. o homem. ou sua folha de rosto. produzir todo um novo livro.

pela ordem alfabética (BUSH. Afora as diferentes abordagens críticas sobre a verdadeira contribuição do projeto de Bush para o futuro da engenharia das telecomunicações. duas décadas depois. discutidas em Houston & Harmon (2007). como a de Eugene Garfield (1968). importa-nos aqui os traços filosóficos deixados sobre a reflexão conceitual da mimese na OS. recuperação da informação e comunicação científica. oferecido. explorado no artigo “As we may think”. que aparecerá em sua primeira face no currículo de Farradane. (HOUSTON. em 1958. ligada principalmente a três conceitos: rede. apresentava-se aqui a semente de uma disciplina específica do discurso da CI.o World Brain -. O foco estava na procura pela otimização da informação científica dentro de bibliotecas especializadas – em outras palavras.. Em sua visão. Bush propôs o desenvolvimento de um certo mecanismo que teria a capacidade de relacionar documentos pré-existentes com outros conjuntos de documentos gerados tanto particularmente como por terceiros. a incapacidade humana de acessar um documento estava diretamente ligada aos entraves dos sistemas de indexação então em vigência. HARMON. 2007) Bush preocupava-se com o atraso nas possibilidades de acesso à informação decorrido dos esquemas tradicionais adotados pelas bibliotecas. Seu conhecido conceito de Memex. O Memex – a máquina anti-platônica de extensão da memória – era centrado na experiência individual de um pesquisador e em seu processo cognitivo de busca e de percepção da informação. vinculadas ao pensamento de Otlet e lançadas como pontos de inflexão a partir da invenção da prensa no âmbito do que chamamos hoje de filosofia da informação. ou seja. que realimenta a apropriação da mimese na OS. dentro do Governo dos Estados Unidos no contexto da 2a Guerra Mundial. Um problema crucial o incomodava: a linearidade como percurso necessário para obtenção de um determinado dado nos sistemas bibliográficos. ainda. estabelece outro foco sobre a ideia da máquina mimética. Importante também é perceber que estas três noções estão enraizadas em uma epistemologia informacional de cunho fisicalista que conceberia o neologismo “ciência da informação”. e as análises comparativas. A metáfora está diretamente relacionada. Wells ..É relevante perceber que esta ideia da máquina mimética em Otlet se irrompe como uma das principais metáforas do século XX. agora orientada para as possibilidades de um fluxo ainda mais dinâmico que aquele arquitetado por Otlet e possibilitado séculos atrás pela prensa. ou seja. G. 1945). por exemplo. respectivamente vinculadas às ideias de interdisciplinaridade. manifestada em termos objetivos no projeto comunicacional de Vannevar Bush. a uma formulação matemática para a informação. Bush procurava (re)constituir o processo de RI a partir da imitação da prática do pesquisador.3 A mimese bushiana: o Memex e a hiperimitação da grande máquina mimética. a partir da “busca por associações”. Estão presentes na visão de Bush as noções de memória ampliada e de extensão do homem. tecnologia e comunicação. a RI no âmbito da comunicação científica. que atravessam as noções de hipertexto e de Internet chegando até Tim Berners-Lee. entre o projeto bushiano e aquele de H. Estas associações. 3. À visão conceitual de Paul Otlet de uma máquina bibliológica na constituição de uma cadeia mimética se soma o projeto de Vannevar Bush. diferentemente de um processamento GT1 64 .

e que poderá ser consultado com grande velocidade e flexibilidade. 2007). A “principal função” do projeto de Bush seria replicar – no sentido de reproduzir – a mente humana. guardadas as nuances de tempo. HARMON. É esta visão do associativismo cognitivo que deflagra a hipérbole das comparações do pesquisador como pai e/ou grande inspirador dos sistemas multimídia. a proposta mecânica de Bush (1945) concentra-se no uso da imitação como possibilidade de desenvolvimento do homem e. Na verdade. No entanto. dos hiperlinks. da Internet. (HOUSTON. tradução nossa. indica Bush (1945). inserir GT1 65 . mas certamente deve ser capaz de aprender com ele. verificadamente de cunho positivista. e comunicações. por exemplo. em Otlet e em Bush. que toma o Livro e o Memex como ferramentas para a “evolução” do homem. arquivos. grifo nosso) Orientado para uma procura de “amplificação” da memória humana. um profícuo debate no terreno dos estudos cognitivos da informação na OS. seguindo o percurso contrário de Platão e seguindo as margens abertas por Aristóteles. os princípios miméticos do projeto do Memex estão fundados ainda naquilo que o fim do século XX passou a tratar como fundamental para o desenvolvimento humano. principalmente. Utilizando uma noção “positiva” da mimese.linear. a partir da imitação. expandida em ferramentas de replicação (HOUSTON. 2007). o projeto de Vannevar Bush. Bush buscava reconhecer a mente humana em sua experiência de raciocínio no processo de seleção da informação. mas podemos supera-la. Preocupa-nos aqui a relação com o profícuo conceito de mimese no discurso da CI. espaço e foco. permitindo com que todo o conhecimento edificado pelo homem não se perdesse na impossibilidade de armazenamento. o chamarei de MEMEX. Esta coprodução leva Bush a apontar uma “total liberdade” do usuário para alimentar o Memex. (BUSH. seria um suplemento ampliado [enlarged] e particular de sua memória. Já que é importante um nome. a otimização e a evolução dos sistemas de recuperação de informação. [. ampliar a mente humana. decididamente.. Ambas as visões se aproximam e se interpenetram em uma instância: a compreensão da mimese como noção fundamental para o desenvolvimento da OS. Outras aproximações podem ser aqui observadas: há. postula-se como complemento ao conceito de livro oriundo de Paul Otlet. HARMON. é através de uma mimese mecanizada que chegaremos até a recuperação “ideal” dos dados disponíveis na massa de publicações científicas. Ao atentar para os estudos cognitivos em seu processo de associação de ideias. Seria facultativo a ele.. Se a mente funciona por meio de associações. em parte.] Não se pode contar com a mesma velocidade e flexibilidade associativa da mente humana. Consideraremos um dispositivo futuro de uso individual que é uma espécie de arquivo-biblioteca mecanizado. uma perspectiva civilizatória e progressista. inspirado na Web: a produção coletiva e aberta do conhecimento. inaugurando. O Memex seria capaz de imitar e. da Web e das bibliotecas digitais. permitiria ao especialista de uma determinada área do conhecimento chegar até a informação procurada sem necessitar percorrer longos canais de informação. determinando possíveis atalhos para localização da informação. O homem não pode sonhar em duplicar este processo artificialmente. Um MEMEX é um dispositivo que permitirá a uma pessoa armazenar todos os seus livros. Conceito fundamental dentro da ideia de Memex é oriundo da noção de “replicador”. 1945. em relação à permanência e clareza dos elementos recuperados dos acervos.

mas também as bases que sustentarão seus discípulos. o legado dele passará a ser não apenas suas contribuições ao acervo mundial. Luciano Floridi (2002) estabelece que a epistemologia da OS circula em torno do conceito de informação. ao mesmo tempo. 1945. que poderiam se associar com um conjunto indefinido de novos elementos. de um país. tradução nossa). ele usa uma enciclopédia para encontrar um breve. de um estado. mas nas fontes de informação que podem levar até este possível conhecimento. Depois.comentários/notas no sistema. Presumivelmente o espírito humano se elevaria se fosse capaz de rever o obscuro passado e analisar mais completamente e objetivamente os problemas atuais. o usuário. Ele edificou uma civilização tão complexa. E continua criando atalhos com vários itens” (BUSH. são sustentáculos para a epistemologia fundacional da CI. 1945. por sua vez. ciclos de vida da GT1 66 . o Memex e a teoria de Shannon e Weaver. na visão antecipada de Bush (1945). À medida que procura o item desejado. “A princípio. Ambas as abordagens. estabelecer em definitivo a importância do conceito de mimese para o pensamento na OS. tradução nossa. desta maneira. mas interessante artigo. ao invés de meramente bloquear-se por estar sobrecarregando sua limitada memória. Este. nos registros de História. criaria atalhos. O epistemólogo reconhece que nosso saber original não está no conhecimento em si – via platônica de conceituação da verdade -. repassa para o usuário o papel de reprodutor/construtor mimético e colaborador direto da infra-estrutura de organização dos saberes de uma estação local. partindo de uma visão da informação como um dígito. grifo nosso) A proposta de Vannevar Bush estará relacionada com a Teoria Matemática da Comunicação. Para os discípulos de qualquer mestre. que agora precisa mecanizar inteiramente seus registros caso almeje levar a uma conclusão lógica seus experimentos. de um município. pessoas que terão a tarefa de estabelecer atalhos entre o enorme volume de registros correspondentes. a possibilidade de uma indexação associativa e instantânea. que levou o campo a se apresentar como uma escola da quinta imitação. como a seguir procuramos demonstrar a partir de uma síntese entre a genealogia de nossas ideias e de nossas práticas. Esta. Quando postula a visão de que a Filosofia da Informação deve percorrer três destinos – a saber. Sua vida poderia ser desfrutada melhor se ele pudesse ter o privilégio de esquecer as múltiplas coisas que não necessitasse imediatamente às mãos. com a certeza de poder encontra-las quando fosse preciso. representaria a grande inovação a possibilidade de relacionar dois elementos diferentes entre si por usuários distintos. Sua visão é mais ampla e chega a postular um futuro com o novo ofício na OS: Haverá a nova profissão de criador de atalhos. ele encontra algo interessante para relacionar com o material encontrado na enciclopédia. tomada por Bush como “característica essencial” do Memex. Ambas permitem. Soma-se a isto. Vannevar Bush. aponta-nos uma vinculação objetiva à ideia de representação. constituição e modelização de ambientes de informação. 4 A ESCOLA DA QUINTA IMITAÇÃO E A ÉTICA DO MÍMEMA Ao tomar a CI como um campo aplicado da filosofia da informação – ou uma filosofia aplicada da informação -. capaz de ser operacionalizada. (BUSH.

ícones (3a imitação). esta. apesar do olhar empirista sobre a aplicação do conceito informação realizado pela CI. Enquanto cópia. mais focada no sujeito. o Mundo da linguagem oral – discursos (2a imitação). o meta-conhecimento. que ocupa-se em construir representações das representações. para o filósofo da Academia. Inaugura-se na filosofia da OS uma escola de reprodutibilidade muito antes da Idade Moderna. de maneira inconsciente.informação e computação – Floridi (2002. No entanto. trata-se de um domínio científico que não só toma a representação como imagem do conhecimento. as meta-informações – onde se encontram a prática e o produto das linguagens documentárias – que se sedimentam como o objeto. Desta unidade é que pode ser reconhecida a aplicabilidade – a funcionalidade – da práxis do profissional da informação. Explicitada de outra forma. o Mundo das cópias dos ícones – reproduções (4a imitação). p. e menos no conceito. ou das imagens gestadas em representação plana. a prática do registro pode ser tomada como a representação (imitação da linguagem) da representação (imitação do pensamento) da representação (imitação do mundo inteligível). o livro-signo de Otlet é aquele ausente de ser – a imitação icônica. significativo e verdadeiro. O epistemólogo esclarece isto ao contrapor sua visão à Epistemologia Social de Jesse Shera. De certo modo. Não responde pela essência do conhecimento. da CI (GONZÁLEZ DE GÓMEZ.46) assume que o objeto principal da filosofia da CI é a informação não em seu sentido forte. ou apenas. como a imagem poética ou plástica. mas em um sentido tratado como fraco e específico. poderíamos conceber a cadeia mimética da seguinte maneira: • Mundo inteligível/Outramundanidade (o “grau zero da imitação”) • Mundos miméticos/Estamundanidade (espaço das imitações) o Mundo do pensamento – estados mentais (1a imitação).. um artefato que é gerado entre o pensamento que se dá pela linguagem e a linguagem que o manifesta. Retomando. a visão de Floridi permite-nos integrar idealismo platônico – “existe” uma filosofia da informação – e empirismo aristotélico – a CI fundamenta-se como uma “filosofia aplicada da informação”.o foco no conceito. GT1 67 .estabelecendo a informação como unidade metafísica. A visão filosófica floridiana aproxima-se das abordagens de Otlet e Bush. o Mundo das meta-linguagens – meta-representações (5a imitação). a mimese da prática da OS vai ao extremo de determinar um quinto momento imitativo como fundacional em sua constituição: o mundo das metalinguagens. o Mundo das inscrições da linguagem . apresenta-se como 3a imitação. Em outras palavras. como a aborda como objeto-conhecimento. não guarda a forma da sabedoria e se reproduz. Na leitura platônica. 1996). que transcende a própria prática profissional. para além do sujeito . Floridi busca uma filosofia tradicional . e da própria construção moderna da noção de registro duplicado de informação a partir da invenção da prensa. oriundo do sentido dos dados gravados (documentos). No entanto.

travestida no conceito de informação. pode ser bom em ato. por contextos de significação. o organizador dos saberes já. c) microdescrição do “ícone original” em meta-linguagens (5a imitação) – representada por disciplinas como Classificação. e explora nela as possibilidades do bom enquanto ferramenta de autoreplicação imagética. ou apenas “línguas de especialidade”. 2010) -. e mais próximas de uma verossimilhança contextual de viés aristotélico.discursos – e desta para a 1a imitação – pensamento -. construtos de uma cadeia mimética circular e aberta. significada por metodologias/produtos como tesauros e ontologias. sob um imperativo mimético. Em outras palavras. Trata-se de um fazer que estabelece a relação preponderante com a ética que se sustenta na imagem como juízo bom. A partir da apreensão de domínios lingüísticos em comunidades discursivas especializadas. a mimese se torna um imperativo: trata-se de um dever do organizador dos sabres não apenas cuidar da cadeia mimética. procura insistentemente demonstrar que o mímema. principalmente aquela que procura demarcar a cientificidade de uma ciência para a informação nos GT1 68 . Antes de se perguntar se a imagem existe. meta-mímemas. Funda-se uma agenda de pesquisa. expressões distantes de uma verdade essencialista de viés platônico. atualiza sua arte na replicação da imagem. quarta e quinta imitações. em linhas gerais. ou. A quinta imitação. independente de ser ou não bom em essência. que toma a poesia (construção) como ciência. procurando fundar nela as semelhanças possíveis. Recuperação da Informação. tomando por base a cadeia mimética platônica. o principal foco desta epistemologia está no trânsito entre a terceira. Apesar de dialogar permanentemente com a 1a imitação – os estados mentais – e a 2a imitação – os discursos -. O conhecimento é por vezes tomado aqui como sinônimo do próprio saber representado. para a a) preservação do “ícone original” (3a imitação) – representada por disciplinas como Biblioteconomia de Obras Raras.uma vez determinada a mimese como nuclear para a constituição desta arte. Conservação. é na tentativa de um deslocamento da 3a imitação – artefatos – para a 2a . Arqueologia. orientada em seu núcleo. em linhas gerais. tamanha a dimensão do imperativo que se estabelece como ética primeira da relação entre indivíduo e objeto nos estudos informacionais. Indexação e Catalogação. sintetiza um ideal permanente do organizador dos saberes: simultaneamente mimetizar e educar pela mimese. ainda. Bibliotecas digitais. 5 OS DESTINOS DO IMPERATIVO MIMÉTICO Apesar de seu destino voltar-se para a 5a imitação. com o conhecimento. b) reprodução do “ícone original” (4a imitação) – representada por disciplinas como Reprografia. Esta agenda se sedimenta no século XX como campo científico orientado pela/para mimese. mas também construir ferramentas passíveis de amplificação desta cadeia. o artífice da OS manipula mímemas de mímemas – imitações do produto da arte de imitar (VERNANT. Este artífice. que reconhecemos a produção da epistemologia da OS no século XX. se ela responde pela verdade.

Por vezes.conhecimento como algo que é registrado ou que é apresentado em um sentido objetivo. pois. por hora.e/ou a partir da cognição – paradigma cognitivo. pode atingir nossa reflexão: a CI. não apenas reconhecer este imperativo. em sua experiência histórica. pode ser determinada como um espaço discursivo dos mais remotos e dos mais profícuos de conciliação entre mimese e saber. afastada de uma argumentação que é. este artífice atua com meta-mímemas. principalmente munido das leituras contemporâneas da informação. enfoque semântico. Nitecky (1995) observou esta aproximação comum no discurso filosófico do campo entre a CI e o conceito de conhecimento.os estudos informacionais se debruçam sobre a informação como uma entidade objetiva . Direitos Autorais. como a de um imitador que coleciona e produz imitações. em sua base. finalmente. é a crença de que há a “crença na imitação” – donde provém seu ofício/mistério. 2a imitação . para este organizador. pela aproximação entre as noções de informação (um outro nome do mímema) e conhecimento. traduzida. Em outras palavras. anti-essencialista: aquela que reconhece a mimese como solo desta relação. para o organizador dos saberes. no entanto. 2004). O mímema apresenta-se como seu objeto primeiro. educação. Sua crença no saber está no reconhecimento de que. mas. antes. Cumpre-nos. Introdução à cultura filosófica e artística. portuguesa e dos documentos nacionais até século XIX). no discurso novecentista do campo. muito distante da essência. 1a imitação ou ainda concepção tradicional de conhecimento como conteúdo de estados mentais (FURNER. Comunicação Científica. não é o conhecimento. Paleografia (que envolvia o estudo geral da origem dos alfabetos. jogo. Como observação final. 2004) . tratamos aqui das imagens. cabe-nos destacar o horizonte mais distante que. estabelecer uma distinção importante: a mimese. por exemplo. Cabe ao epistemólogo da CI. entre os homens. Logo. o conhecimento é fundamentalmente potencializado pela relação mimética estabelecida como ferramenta de representação e de educação. Documentação e Ciência da Informação entre o oitocentos e novecentos. GT1 69 . o que existe. como Introdução à cultura histórica e sociológica. Biblioteca digital são elementos conceituais que se estabelecem na fronteira de reconhecimento da mimese e de construção de uma virtude no organizador dos saberes que deve perceber a imitação como fundamental. A prática histórica do organizador dos saberes pode ser reconhecida. a partir da (re)produção permanente de metalinguagens. criticá-lo – a crítica do mímema como fazer epistemológico da CI. E que esta imitação pode também ser conhecimento. público (FURNER. Disciplinas comuns na formalização dos currículos das escolas de Biblioteconomia. mas também como questão-problema. Recuperação da Informação. prazer. esta conciliação ganha uma análise naturalista – a informação leva ao conhecimento -.anos 1960. medieval. externo. Cabe-nos aqui reconhecer que a CI não conseguiu escapar – se era este o seu intuito – da chamada 3a imitação. Mesmo quando se propõe a encarar a informação a partir da linguagem – paradigma social. pois. nesta revisão. assim como Chaim Zins (2006) apontou como objeto estrutural do campo o mesmo conceito. de cunho pragmatista e pós-estruturalista. da paleografia greco-latina. Reprografia. sem dúvida. enfoque pragmático.

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the informational process can be associated with the luhmannian concept of autopoietic social systems. dado incorreto e perturbação. uma teoria crítica dos sistemas informacionais de tendência autopoiética. defender a hipótese de que o conceito de informação oriundo desta teoria pode ser associado a uma interpretação segundo a qual o processo informacional tem caráter circular e envolve três sentidos do conceito complementar de ruído: dado informacionalmente irrelevante. Abstract. defender a hipótese de que. Perturbação. when seen as a circular process. 1 A TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO E O CARÁTER CIRCULAR DO PROCESSO INFORMACIONAL. Critical Theory. Autopoiese. No primeiro capítulo de seu livro Knowledge & the Flow of Information (DRETSKE 1981. In this article. First. incorrect datum and perturbation. p. I turn to Dretske’s commentary on the mathematical theory of communication to pursue three goals. recorremos ao comentário de Dretske sobre a teoria matemática da comunicação para perseguir três objetivos.339). Keywords: Information. to defend the hypothesis that.COMUNICAÇÃO ORAL. Secondly. Teoria Crítica. Terceiro. to defend the hypothesis that the concept of information derived from this theory may be associated with an interpretation according to which the informational process is circular and involves three senses of the complementary concept of noise: informationally irrelevant datum. Segundo. to support the hypothesis that the concept of perturbation allows to fit the concept of autopoiesis in the logical framework of a critical theory: in this case. PERTURBAÇÃO E INFORMAÇÃO: NOTAS PARA UMA TEORIA CRÍTICA DOS SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS. RUÍDO. defender a hipótese de que o conceito de perturbação permite encaixar o conceito de autopoiese no quadro lógico-conceitual de uma teoria crítica: no caso. o processo informacional pode ser associado ao conceito luhmanniano de sistemas sociais autopoiéticos. Ruído. Noise. ao ser visto como processo circular. Palavras-chave: Informação. Neste artigo. Primeiro. Autopoiesis. Fred Dretske faz uma apresentação bastante elucidativa da teoria matemática da comunicação. Antonio Saturnino Braga Resumo. GT1 72 . a critical theory of the informational systems of autopoietic tendency. Thirdly. Perturbation.

intimamente relacionados: redução da incerteza e ocorrência de uma novidade (Dretske usa o termo “surpresa”. nesse caso. E a informação é. Com base na exposição de Dretske. simplesmente. exatamente. mais precisamente. mas suas explicações evidenciam claramente que este último termo também pode ser usado. a quantidade de informação seria a mesma). como um evento que se define pela quantidade de redução de incerteza que ele representa. o passo fundamental consiste na formulação de um procedimento para a determinação dessa quantidade visada no conceito de informação. ele é mais conveniente. a redução dessas oito possibilidades iniciais à possibilidade efetivamente selecionada (no nosso exemplo. um deles é selecionado. Do ponto de vista da teoria matemática da comunicação. Oito empregados encontram-se numa situação em que um deles deve ser selecionado para desempenhar uma desagradável tarefa determinada pelo chefe. Ao final do procedimento. A característica mais interessante da exposição de Dretske é o fato de ela ser relativamente independente dos aspectos mais técnicos do trabalho de Shannon. recorrerei ao exemplo que o próprio Dretske apresenta. Tal como apresentada até aqui. o evento no qual se consubstancia a redução da incerteza (Herman sendo selecionado) representa uma novidade – entendida. a informação ainda não é a indicação de qual foi. Os oito empregados GT1 73 . Herman. Neste exemplo.associada ao trabalho pioneiro de Claude Shannon (SHANNON & WEAVER 1949). mais precisamente. Para nossos propósitos. teríamos o seguinte processo na fonte de geração da informação. pode-se afirmar que. Para esclarecer essas idéias. justamente. as oito possibilidades iniciais (oito funcionários podendo ser selecionados) equivaliam a uma certa incerteza. em termos essencialmente quantitativos. a possibilidade selecionada foi Herman) equivale a uma certa redução da incerteza. E o procedimento adotado é o das decisões binárias: a quantidade de redução de incerteza gerada pela seleção de uma possibilidade equivale ao número de decisões binárias envolvidas na redução das possibilidades iniciais à possibilidade efetivamente realizada. preocupando-se preferencialmente com o esclarecimento das intuições e conceitos fundamentais da teoria da informação a que ele dá origem. informação é. equivale a uma certa quantidade de redução da incerteza (se houvesse inicialmente maior número de possibilidades. Os empregados decidem efetuar a escolha por meio de um procedimento de sorteio do tipo cara ou coroa. na teoria matemática da comunicação. a incerteza seria proporcionalmente maior). e esta característica irá definir esta primeira seção de nosso artigo. cujo nome é escrito num memorando imediatamente enviado ao escritório do chefe. o processo informacional é situado no contexto das relações humanas e sociais. Por fim. informação tem dois sentidos fundamentais. No nosso exemplo. e por isso vamos preferi-lo). o fato de que uma possibilidade foi selecionada dentre um conjunto de possibilidades iniciais: trata-se da quantidade de redução de incerteza associada à seleção de uma possibilidade (se a possibilidade realizada tivesse sido Maria em vez de Herman. equivaliam a uma certa quantidade de incerteza (se houvesse inicialmente maior número de possibilidades. a possibilidade selecionada. a novidade. em vez de novidade. De modo correspondente. Antes da seleção efetuada pelos funcionários. a redução da incerteza seria proporcionalmente maior).

embora negligencie os aspectos semânticos. Para ser utilizada por um usuário na situação-recepção. o esforço de Dretske consiste justamente em encaminhar a discussão semântica a partir da visada essencialmente quantitativa da teorização de Shannon. a teoria matemática não é incompatível com eles. Mais precisamente. Isso só é possível porque Dretske se enquadra no movimento de naturalização da semântica. Ao contrário. jogando a moeda para efetuar uma primeira decisão binária. pressupõe-se que a mensagem recebida na situação-recepção seja confiável. Este aspecto até aqui negligenciado corresponde ao conteúdo semântico da informação. a ser utilizada por um usuário (da informação) na situação-recepção. e desconsideramos o fato de que a novidade ali ocorrida pode ser tomada como uma indicação que vai ser utilizada por um usuário em outra situação. por outro lado. Na teoria matemática da comunicação. precisamente. a fidelidade à situação-fonte é elaborada em termos essencialmente quantitativos: se não há perda quantitativa da informação gerada. a possibilidade realizada. que procura depurar os conceitos de significado e verdade de todas as associações com noções irredutivelmente GT1 74 . evitando “equivocação”). ou se a perda é minimizada na maior medida possível. Pode-se por outro lado afirmar que. evitando qualquer perda na informação gerada (no vocabulário da teoria. limitamo-nos à consideração do que sucedeu na sala dos empregados (situaçãofonte). Ao conceber a confiabilidade da informação em termos essencialmente quantitativos. a informação precisa ser transmitida da situação-fonte para a situação-recepção. de modo a finalmente selecionar a novidade na qual se consubstancia a redução da incerteza. Até agora. fidelidade ao que ocorreu na situação-fonte. Como o processo envolve três decisões ou escolhas binárias.(oito possibilidades) inicialmente se dividem em dois grupos de quatro. sendo que a eficiência nela aparece como uma espécie de combinação e equilíbrio entre a fidelidade e a economia: por um lado. e. os dois empregados restantes se submetem a uma terceira e última decisão binária. concebendo a confiabilidade do mesmo em termos de minimização das perdas na quantidade de informação transmitida da fonte. pressupõe-se que tenha sido preservado o conteúdo informacional do sinal emitido na situação-fonte. a teoria visa a minimização da perda puramente quantitativa da informação gerada na situação-fonte. Em outras palavras. a sala do chefe (situação-recepção). ele gera três bits de informação: cada decisão binária equivale a um bit de informação (supondo que a cada etapa do processo as possibilidades em jogo são igualmente prováveis). A teoria matemática da comunicação focaliza este processo de transmissão de um ponto de vista essencialmente quantitativo. evitando o que a teoria chama de redundância. a teoria matemática da informação negligencia os aspectos semânticos do processo informacional: em vez de preocupar-se com o significado da mensagem para o usuário na situação-recepção. Os quatro empregados restantes se dividem em dois grupos de dois. ou seja. após uma segunda decisão binária. economia nos sinais através dos quais se dá a transmissão à situação-recepção. e. desconsideramos o fato de que a informação pode ser considerada como uma indicação de qual foi. o que caracteriza a teoria em tela é a preocupação com a eficiência no processo de transmissão.

tal evento tem não apenas a mesma quantidade de informação (quantidade de redução da incerteza) que teria o evento do memorando com o nome Herman. podese afirmar que a informação é. Considerada como mensagem. por um lado. podemos continuar recorrendo a Dretske para desenvolver a questão da conexão entre o conceito de informação e. do memorando com o nome Herman é um evento que deve ser tomado.mentalistas. um conjunto de possibilidades iniciais. a informação é tomada como novidade oriunda da situação-fonte. e. a situação-fonte. da novidade ocorrida em outra situação. indicação precisa e fiel da novidade oriunda da sala dos GT1 75 . no escritório do chefe. No exemplo. que vai utilizar essa indicação nas atividades que lhe são próprias. e. assim como Dretske recorre a Shannon para desenvolver seu projeto de uma semântica naturalizada. Mas o aparecimento. Entretanto. indicação de uma novidade para um usuário. uma novidade. tomada como mensagem. O memorando representa uma mensagem – outro nome que se dá à informação como indicação a ser utilizada na situação-recepção. na medida mesmo em que há uma necessidade ou interesse nessa utilização. neste contexto. do qual resulta a novidade Maria. situação-recepção. mente se opõe a cérebro). a informação é a indicação precisa e fiel. o aparecimento. como representação. Em primeiro lugar. uma indicação da novidade ocorrida na situação-fonte. aspectos irredutivelmente semânticos e pragmáticos da dinâmica dos sistemas sociais. essencialmente. O processo informacional constitui-se a partir de duas relações. por um lado. justamente. o memorando com o nome Herman representa. o chefe. precisamos do conceito de ruído. do memorando com o nome Maria. mas antes como mensagem. processamento) dessa novidade. por outro lado. mas a mesma natureza de indicação para um usuário. Suponhamos agora que a pessoa encarregada de levar o memorando até o escritório do chefe perca o envelope no meio do caminho. Mais precisamente. do memorando com o nome Maria. como novidade. como situação na qual se dá o conhecimento e utilização (assimilação. ou seja. um evento cuja emergência equivale à realização ou seleção de uma dessas possibilidades. que é então codificada em papel timbrado e envelope-padrão que o encarregado de transmissão tinha de reserva. e resolva proceder por conta própria a outro processo de eliminação de possibilidades. por outro lado. situação-fonte. pode ser tomado também como mensagem. alguém que vai de algum modo assimilar e utilizar essa novidade. a relação entre. ou utilizável pelo usuário. indicação precisa e fiel da novidade ocorrida em outra situação. O aparecimento. no escritório do chefe. razões para crer e justificação (destacando que. Ora. retornemos ao exemplo acima referido. a situação-fonte. a relação entre. por outro lado. ou seja. na situação-recepção. para um usuário. no escritório do chefe. como situação na qual emerge ou ocorre a novidade constitutiva do processo informacional. Em segundo lugar. A partir dessas duas relações. pode ser tomado. não tanto como novidade em sentido estrito. estritamente. Tomado estritamente como novidade. Para elaborar esse tópico. ou seja. para obtê-lo. ou seja. Mas o papel da relação entre situação-fonte e situação-recepção na constituição do processo informacional vai além dessa conexão (de resto essencial) entre indicação de uma novidade e utilização dessa indicação.

qualquer novidade sobre esse tópico ocorrida na situaçãorecepção é totalmente dependente e fiel em relação à novidade sobre o mesmo previamente ocorrida na situação-fonte: por um lado. e que nesse sentido equivalem a novidades) geradas na situação-fonte podem não chegar à situação-recepção. mas que terão grande importância na seqüência deste trabalho. o conceito de ruído vai ganhar outros sentidos. no caso o canal de transmissão. mas. ou seja. no tipo de processo informacional ilustrado pelo exemplo com que estamos trabalhando. o foco e interesse do usuário).15-16). p. do ponto de vista das exigências contidas no conceito de mensagem. o processo informacional passa a aparecer como um processo essencialmente circular: a partir da focalização efetuada pelo usuário na situação-recepção. Mas algumas observações que ele faz a respeito das noções de equivocação e ruído permitem direcionar seu comentário no sentido de uma ênfase oposta.funcionários. De acordo com Dretske (DRETSKE 1981. nenhuma perda da novidade gerada na situação-fonte (não há equivocação). Se há mensagem sobre um determinado tópico. a saber. tomado como mensagem. pode-se afirmar o seguinte. garantidamente. sem que isso implique equivocação no sentido mais estrito do termo. tal evento é informacionalmente nulo: ele é puro ruído. Ele admite que muitas informações (eventos que equivalem a “eliminação de possibilidades”. garantidamente. não há na situação-recepção.19-21). Ele não carrega nenhuma informação (indicação precisa da possibilidade realizada) sobre a situação-fonte. independente em relação à novidade previamente gerada na situação-fonte (não há ruído). é dessa forma que ele é usualmente tomado. Por exemplo. antes disso. Comecemos com algumas observações que o próprio Dretske faz a respeito das noções de equivocação e ruído (DRETSKE 1981. a informação passa a aparecer. relativamente distantes do sentido original. Nesta elaboração. justamente por isso. ele é puro ruído. ele carrega uma indicação sobre a novidade ocorrida numa situação externa à situação-fonte. Na verdade. não apenas como novidade para um usuário. antes disso. mas. a dependência da situação-fonte (como situação na qual ocorre a geração das novidades para o usuário) em relação à situação-recepção (como situação na qual se dá não apenas o uso das informações pelo usuário. geram-se na situação-fonte as novidades que podem ser assimiladas e usadas pelo mesmo usuário na situação-recepção. A ênfase de Dretske recai sobre a dependência da situação-recepção em relação à situaçãofonte. Nesta elaboração. não há na situação-recepção. a mensagem é uma expressão da dependência e fidelidade da situação-recepção em relação à situação-fonte. Ora. como novidade possibilitada pelo interesse e foco do usuário situado na situação-recepção – visão que vai além dos comentários de Dretske. nenhuma novidade nova. p. Para este autor. por outro lado. mas. Nessa elaboração por assim dizer não-dretskiana dos comentários de Dretske sobre a teoria matemática da informação. para enfatizar uma dependência informacional oposta à que ele enfatiza. o lugar e posição que cada um dos funcionários assume na sala dos funcionários no momento do processo de seleção – eventos na situação-fonte – podem tecnicamente ser tomados GT1 76 . O que caracteriza a informação como mensagem é o fato de ela ser dependente e fiel em relação à novidade ocorrida na situação-fonte.

não chegam à situação-recepção. Cabem aqui as observações feitas por Floridi sobre a noção de entropia informacional (FLORIDI 2005. Mas este sentido amplo distingue-se do sentido mais estrito do termo. conseqüentemente. levando nesse caso às seguintes afirmações. qualquer informação. e por isso o lugar e posição efetivamente assumidos por cada um deles representam eliminação de possibilidades. Com efeito. indisponível. As observações de Dretske levam então à seguinte constatação. É a focalização efetuada pelo usuário na situação-recepção que permite distinguir a informação relevante da irrelevante. nem. o lugar da sala do chefe (situação-recepção) em que o encarregado da transmissão coloca o memorando é uma novidade. ou seja. a qual pode ser chamada de informação relevante – a equivocação relevante é. Mas este sentido amplo distingue-se do sentido mais estrito do termo. Do mesmo modo. mas que nem por isso constituem ruído no sentido mais estrito do termo. segundo o qual equivocação consiste em perda apenas daquela informação que se liga ao ponto focalizado no processo informacional. O que a focalização do usuário permite não é apenas a distinção entre informação relevante e irrelevante. é essa operação de focalização. sem a focalização do usuário a situação-fonte retrocede à dimensão de continuum caótico de infinitas possibilidades. essas novidades. Maior entropia equivale a maior incerteza na situação-fonte. p.como novidades (havia possibilidades alternativas. a entropia informacional designa a quantidade de incerteza própria da situação-fonte. no sentido amplo do termo ela é mero ruído. no sentido amplo do termo elas constituem equivocação. a própria identificação da informação como dado operacionalmente utilizável no processo informacional. Esta novidade na situação-recepção não é oriunda nem dependente dos eventos ocorridos na situação-fonte. Mas tais observações ainda podem ser radicalizadas. que permite distinguir a equivocação relevante da irrelevante. elas são informação perdida. ou seja. a informação irrelevante é informação potencial mas inidentificável. no qual não é possível identificar qualquer conjunto de possibilidades iniciais. segundo o qual ruído – o ruído relevante – consiste apenas naquela informação independente que se liga ao ponto focalizado no processo informacional. qualquer evento realizador de uma possibilidade identificada. Na teoria matemática da comunicação. equivale. então. qualquer evento redutor de incerteza – em outras palavras. inutilizável. mas. pois havia várias possibilidades alternativas. a maior potencial informacional nessa situação. conseqüentemente. portanto. novidade). Essas novidades não são sinalizadas no memorando com o nome do funcionário selecionado. cada um deles poderia ter assumido lugares e/ou posições diferentes. ou seja. há muitas novidades ocorridas na situação-recepção que não são oriundas ou dependentes dos eventos ocorridos na situação-fonte.22-25). assim como o ruído relevante do irrelevante. e o evento de ele colocar o envelope em um determinado lugar equivale à realização de uma determinada possibilidade dentre um conjunto de possibilidades iniciais. que representa ao mesmo tempo o potencial informacional presente na situação-fonte. Mas a entropia máxima corresponde ao GT1 77 . a informação relevante que é perdida. portanto. No limite. nesse continuum não é possível identificar qualquer novidade. ou seja. Por exemplo. mais radicalmente.

só há ruído. esta dimensão é constituída pelas capacidades sensoriais dos homens. ou seja. mero potencial informacional. Distinguimos acima dois sentidos de ruído. sem a qual não há informação. a informação propriamente dita. a informação disponível e utilizável. ao quadro de expectativas: mesmo que se trate de uma mancha de tinta facilmente identificável do ponto de vista físico. mero ruído (no segundo sentido de ruído). no sentido de informação operacionalmente indisponível e inutilizável. entendida como nutriente de que se sustenta o processo informacional. ainda não é informação disponível e utilizável. A segunda dimensão refere-se. ou seja. No processo informacional que estamos focalizando. E aqui podemos introduzir um novo conceito de ruído. informações – como dito acima. A transformação da informação potencial em informação disponível e utilizável exige uma operação de observação que. justamente. se o quadro de expectativas não incluir essa possibilidade. etc. porque a informação irrelevante em última instância ainda não é informação.continuum caótico das infinitas possibilidades. do ponto de vista informacional. no qual a incerteza é tão grande que qualquer evento redutor da incerteza se torna inidentificável. uma informação absolutamente alheia ao quadro de expectativas constitutivo do processo. o grão de poeira é identificável – talvez seja preciso uma poderosa lente. a uniformidade. se o quadro de expectativas incluir a possibilidade de um grão de poeira colado ao envelope (podemos pensar no quadro de expectativas de um detetive). permite identificar novidades. embora a informação potencial seja máxima. O elemento gerado pela operação de focalização do usuário pode também ser intitulado de quadro de expectativas. Sem esse quadro de expectativas. mas é mero potencial informacional. por outro lado. a mancha permanece sendo. eventualmente amplificadas por instrumentos como lentes. No continuum caótico de infinitas possibilidades. quer dizer. O ruído apareceu. inutilizável. anterior a qualquer operação de focalização) e. em primeiro lugar. Assim. quer dizer. permite identificar eventos realizadores de possibilidades relevantes. ao focalizar e com isso constituir um âmbito de possibilidades relevantes. como dado relevante que não é oriundo ou dependente da fonte informacionalmente estruturada pela focalização GT1 78 . que ainda não é informação. só há ruído. Nesse caso. E aqui importa distinguir duas dimensões da operação de identificação da informação. É somente nesse quadro que a incerteza se torna solo da informação utilizável. inidentificável como informação. mas informacionalmente inutilizável e. Nesta primeira dimensão. nesse sentido. microscópios. ou fora dele. esta necessidade em princípio não impede a identificação da informação. que ocorre quando o quadro de expectativas se estreita tanto que chega a abolir a incerteza (o “podia ser diferente”). Suponhamos que haja um grão de poeira colado ao memorando que chega ao escritório do chefe. sempre se situa entre o ruído (mero potencial informacional. mas. o adjetivo relevante aposto à informação é em última instância redundante. uma informação não identificada: um dado fisicamente identificado. a informação é indisponível. embora a informação potencial seja máxima. A primeira é a dimensão física: nos processos informacionais propriamente humanos. este dado representa uma informação inidentificável. equivalendo a um quadro das possibilidades relevantes.

portanto. a noção de ruído é independente da questão da origem. É importante destacar que se trata aqui de um sentido distinto daquele que o termo “perturbação” GT1 79 . por encaixar-se perfeitamente no quadro de expectativas constitutivo do processo informacional. Ver FLORIDI 2005. No memorando que chega ao escritório do chefe.do usuário na situação-recepção. por outro lado. se o nome Maria é ruído no sentido de dado incorreto. A preocupação com a correção ou incorreção dos dados situa-se na dimensão semântica do processo informacional: até que ponto os dados recebidos correspondem fielmente às informações geradas na fonte? Em outras palavras. inutilizável. Exemplo desse tipo de ruído é a novidade “Maria” (memorando com o nome Maria) oriunda da pessoa encarregada da transmissão – em vez de oriunda da sala dos funcionários como situação-fonte. por serem anteriores à focalização constitutiva do processo informacional (operação que Floridi elabora sob o conceito de “nível de abstração”. . informação potencial mas inidentificável. a informação como dado que. Ver FLORIDI 2005. uma vez que. No caso da frase.27-28). transplantando-o da categoria de informação meramente potencial para a categoria de informação disponível e utilizável. Nesse sentido. até que ponto os dados recebidos respondem corretamente à pergunta embutida no quadro de expectativas do usuário da informação? Ruído apareceu. é imediatamente utilizável nas operações próprias do mesmo. por designar uma informação meramente potencial. Neste segundo sentido. Neste último caso. em contrapartida. E aqui podemos introduzir um terceiro sentido de ruído. como mero potencial informacional. É fácil perceber a diferença entre este dado e. que transforma esse evento (o grão de poeira que podia não estar lá). Ilustração desse tipo de ruído é o grão de poeira colado ao memorando que chega à sala do chefe.7 e p. p. quer dizer. perceberemos que a frase não é tão alheia ao quadro quanto a mancha o é. Neste primeiro sentido.mas só relativamente. por outro lado.6-7): dados informacionalmente inidentificáveis e inacessíveis. uma “perturbação”. p. abaixo do nome Herman. a frase acima imaginada é ruído no sentido de dado que. o dado Herman inscrito no memorando – ou mesmo o dado (enganador) Maria. Somente a partir da focalização do detetive. ou mero ruído (no primeiro sentido)? Equivale ela a um dado correto e confiável ou a um dado enganador (ruído no primeiro sentido)? Imaginemos agora um outro evento. se o compararmos à mancha de tinta no envelope do memorando. é ainda assim relevante para o mesmo – trata-se de um dado perturbador. enganador. indisponível. apesar de relativamente alheio ao quadro de expectativas do usuário da informação. Se a mancha é ruído no sentido de dado informacionalmente inidentificável e. irrelevante. usando este termo para indicar um meio-termo entre o dado irrelevante e. aparece a seguinte frase: “repudiamos essa tarefa e esse procedimento da empresa”. ou seja. tanto o dado correto quanto o incorreto se encaixam perfeitamente no quadro de expectativas do usuário da informação. ruído é aquilo que Floridi chama de “dedomena” (dado em grego. e também da correção ou incorreção. dado que não responde corretamente à pergunta embutida no quadro de expectativas do usuário da informação. pode surgir a questão sobre a origem dessa novidade – é ela mensagem da situação-fonte estruturada pela focalização do detetive. o ruído é o dado incorreto. em segundo lugar. o dado recebido é relativamente alheio ao quadro de expectativas.

por exemplo. MATURANA & VARELA 1984. Tais GT1 80 . o que tentaremos fazer é. A partir do que foi visto na seção 1. tal como exposta nos trabalhos de Maturana e Varela (MATURANA & VARELA 1984) e. A justificativa para este uso será apresentada mais à frente. e a teoria dos sistemas autopoiéticos. principalmente Luhmann. principalmente. na qual. tentaremos relacionar este ato primordial de diferenciação ao quadro conceitual da teoria dos sistemas autopoiéticos. não à relação do usuário com a realidade por ele interpelada.exibe na teoria dos sistemas autopoiéticos. Niklas Luhmann (LUHMANN 1984 e LUHMANN 1995).107-116). pp.67-68 e LUHMANN 1995. estabelece-se uma distinção entre o âmbito das possibilidades relevantes e. tende a ser identificado à informação em sentido estrito. Enquanto o dado enganador é um ruído que se situa na dimensão semântica do processo informacional. a partir de uma seleção prévia. aproveitar os resultados obtidos na seção anterior para traduzir a conexão afirmada por Luhmann. tal como exposta na primeira seção. tal como exposta nos trabalhos desses autores.140-142). ver CAPURRO & HJORLAND 2003). Por outro lado. Assim. a uma seleção e focalização do âmbito das possibilidades relevantes. tentaremos elaborar uma conexão lógico-conceitual entre a teoria da informação. p. p. o restante das possibilidades. mas a interpretação que se deve dar a um dado que perturba o quadro de expectativas do usuário. por exemplo. em Luhmann tal conexão é explicitamente afirmada em diversas passagens da obra (ver.138. pode-se afirmar o seguinte. a perturbação representa uma forma de ruído que se situa na dimensão pragmática do mesmo. simplesmente. mas à sua relação com outros sujeitos. 188 e 218). no continuum caótico das infinitas possibilidades. e que diz respeito. o que está em jogo não é o significado unívoco que o dado ganha a partir do quadro de expectativas que o usuário aplica à realidade em sentido amplo. Embora a informação por um lado consista na seleção de uma possibilidade. ao contrário do que ocorre em Maturana e Varela. pelo menos quando considerada como informação relevante. p. usado como sinônimo de “irritação” (LUHMANN 1995. ela por outro lado só existe. com relação às críticas de Maturana e Varela ao conceito de informação (ver. Mais precisamente. que é a seleção do âmbito das possibilidades relevantes. Na verdade. anterior à seleção que propriamente a constitui como novidade. 2 A PERTURBAÇÃO E OS SISTEMAS INFORMACIONAIS DE TENDÊNCIA AUTOPOIÉTICA. o que origina e caracteriza qualquer processo ou sistema informacional é um ato primordial de diferenciação: no continuum caótico das infinitas possibilidades. No caso da perturbação. Nesta segunda seção do trabalho. MATURANA & VARELA 1984. pode-se afirmar o seguinte. outros quadros de expectativa. LUHMANN 1984. por outro lado. Trata-se de proceder. outros processos e sistemas informacionais (sobre a crescente importância que a dimensão pragmática tem adquirido nos estudos da informação. que constituem o espaço dos dados informacionalmente irrelevantes. p.

ele tem antes o caráter de uma estrutura lógica altamente abstrata. Se se leva em consideração este caráter circular. sistemas biológicos. e tem o sentido de dado operacionalmente utilizável na dinâmica autopoiética do sistema. Como já foi dito. ou seja. com efeito.críticas decorrem de uma interpretação representacionista da informação. conforme se esclarecerá logo a seguir. o que a torna praticamente idêntica à informação em sentido estrito. perturbação tem o sentido de um meio-termo entre o dado informacionalmente irrelevante e. o caráter circular do processo informacional revela justamente que. ver MOELLER 2006 e SEIDL 2005). 146-154): elaborar uma terceira via entre o representacionismo (formação/modelagem do receptor por instruções oriundas e dependentes apenas do ambiente externo) e o solipsismo (total independência das respostas do receptor em relação a qualquer entidade externa). não começaremos com a definição de autopoiese apresentada pelos autores com que iremos trabalhar. determinando as respostas que ocorrerão neste. nesta teoria. através das quais eventos meramente externos são transformados em eventos operativamente utilizáveis na dinâmica autopoiética do sistema (descartando assim o representacionismo). segundo a qual autopoiese é a autoprodução de certos tipos de sistema. tentaremos estabelecer uma relação entre o conceito de perturbação. Tampouco abordaremos as diferenças entre os três tipos de sistemas autopoiéticos que Luhmann admite. subjacente a estes diferentes tipos de sistema. sistemas psíquicos e sistemas sociais (para uma boa apresentação dessa questão e da teoria de Luhmann em geral. por outro lado. o conceito de perturbação com que iremos trabalhar difere daquele que comparece na teoria da autopoiese. nem a discutiremos no restante do artigo. Com efeito. tais novidades são por outro lado dependentes de operações de observação e focalização efetuadas pelo próprio sistema. a saber. O quadro geral faz abstração das especificidades que concretamente caracterizam sistemas biológicos. Depois de apresentar esta estrutura lógica geral. o conceito de informação se ajusta perfeitamente ao projeto geral de Maturana e Varela (ver MATURANA & VARELA 1984. psíquicos e sociais. e a dinâmica autopoiética específica dos sistemas sociais. Partiremos de uma noção bastante vaga e genérica. é importante enfatizar o seguinte. Com relação à estrutura e limites da nossa argumentação. (in)formando-o e modelando-o. No nosso trabalho. embora as atividades de autoprodução que ocorrem no sistema autopoiético (tomado como situação-recepção) sejam dependentes das novidades ocorridas no seu ambiente (descartando assim o solipsismo). o dado imediatamente utilizável nos processos informacionais de caráter circular e auto-referente GT1 81 . importa destacar os seguintes pontos. Com relação a este objetivo. trata-se apenas de apresentar um quadro geral do conceito de autopoiese. a noção de perturbação é equivalente à de irritação. Tendo em vista nossos propósitos. Trata-se de uma interpretação que não leva em conta o caráter circular do processo informacional. tal como introduzido na seção anterior. p. No presente artigo. ao contrário. segundo a qual informação equivaleria a uma instrução externa que se impõe ao receptor (passivo). e tentaremos fazer com que o conteúdo e sentido dessa noção venham à tona a partir da elaboração dos conceitos e intuições da teoria da informação apresentados na seção anterior. em associação com os conceitos e intuições da teoria da informação apresentados na seção anterior.

Ao introduzir aspectos pragmáticos na dinâmica dos sistemas sociais. o restante das possibilidades. O que origina e caracteriza qualquer sistema informacional é um ato primordial de diferenciação: no continuum caótico das infinitas possibilidades e dos infinitos eventos realizadores de possibilidades. a perturbação abre espaço. Adotando-se o quadro teórico de Luhmann. que atenuam sua tendência autopoiética. o espaço das possibilidades e eventos em geral também deve ser concebido como uma espécie de lugar lógico: trata-se de um outro lugar. Trata-se de conceber X como uma espécie de lugar. possibilidades relevantes para um X. a saber. ao menos a uma “pragmática local”. o restante das possibilidades e eventos. Trata-se de conceber um ato (operação) de diferenciação sem sujeito ou substrato: estabelece-se e mantém-se uma distinção – uma distinção entre o âmbito das possibilidades e eventos relevantes e. que é. A justificativa para este uso é que. estabelece-se uma distinção entre o âmbito das possibilidades e eventos relevantes e. que as duas distinções estão mutuamente implicadas: as operações que se desenvolvem em X só mantêm a distinção entre o lugar “X” e o lugar “espaço das possibilidades e eventos em geral” à medida que mantêm a distinção entre o âmbito das possibilidades relevantes para X e. ou seja. o lugar de operações para o qual destacam-se e existem possibilidades e eventos relevantes. Mais uma vez. ele (as operações que nele se realizam) só o faz na medida em que focaliza (observa) neste espaço o âmbito das suas possibilidades e eventos relevantes. Embora X (o lugar de operações) se distinga do espaço em geral. por fim. não se deve conceber X como um sujeito. em nosso trabalho.(informação em sentido estrito). por outro lado. ao se estabelecer a distinção acima referida estabelece-se simultânea e paralelamente uma segunda diferenciação. o continuum caótico das infinitas possibilidades e dos infinitos eventos realizadores de possibilidades. do outro lado. no qual e do qual destacam-se as possibilidades e eventos relevantes para X. simultaneamente. Cabe enfatizar. à qual se contrapõe a perturbação como dado capaz de desencadear uma reconfiguração da dinâmica do sistema. tomado como um substrato previamente estabelecido ao qual o ato por assim dizer pertence. um lugar diferente. constituindo dessa forma o seu GT1 82 . Comecemos então com a afirmação acima feita. por outro lado. por definição. como um substrato previamente estabelecido ao qual pertence o interesse nas respectivas possibilidades relevantes. se não para uma “pragmática universal” (veja HABERMAS 1976). o espaço (continuum) das possibilidades e eventos em geral. um lugar lógico. intra-sistêmica. mantém e reproduz a operação de diferenciação acima referida. o restante das possibilidades e eventos. a distinção entre o X para o qual destacam-se ou existem possibilidades relevantes e. do outro lado. não se deve pensar aqui num sujeito do ato de diferenciação. mas para indicar apenas uma tendência dos mesmos. e não tanto físico: X é o espaço lógico no qual se desenvolve. no qual e do qual destacam-se as possibilidades e eventos relevantes para X. Correspondentemente. quer dizer. não usaremos o conceito de autopoiese para descrever a essência dos sistemas sociais. na qual procuramos retomar e resumir os resultados obtidos na seção anterior. correspondendo a relações mais comunicativas dentro dos sistemas e entre eles. Ora. considerando-se que “possibilidades relevantes” são.

a distinção sistema-meio é intra-sistêmica. que produzem os elementos e estruturas de que se compõe X (situação-recepção) à medida mesmo que processam. é importante enfatizar o seguinte tópico. o meio do qual se sustentam as operações de assimilação e uso através das quais se mantêm sua (de X) individualidade e identidade. intimamente relacionados. o sistema é distinção e unidade entre sistema e meio. ela é estabelecida e mantida por X. Mais precisamente. do outro lado. Assim. embora seja verdade que. mas é intra-sistêmico. como esse uso depende por sua vez de operações de focalização e codificação que se efetuam a partir dos elementos e estruturas do sistema. Do ponto de vista dessa apresentação. focalização e codificação que são realizados em X – nosso lugar de operações. que criam o meio-ambiente (situação-fonte) de X à medida mesmo que elevam os dados difusos do continuum das infinitas possibilidades e eventos ao patamar de dados operacionalmente utilizáveis no lugar de operações X (situação-recepção). operações de observação. do ponto de vista do processo informacional. Neste momento da exposição. ou seja. A dinâmica autopoiética de X envolve dois tipos fundamentais de operações. Dando continuidade à apresentação que estamos tentando fazer da conexão teórica entre o conceito de informação e o conceito de sistema autopoiético. quer dizer. ora. no seu âmbito de possibilidades e eventos relevantes. a distinção entre situação-recepção (sistema) e situaçãofonte (meio do sistema) é dependente de operações de observação e focalização que estabelecem a distinção entre o âmbito das possibilidades e eventos relevantes (meio do sistema) e. mediante assimilação e uso das novidades que se tornam disponíveis em seu meio a partir das suas próprias operações de focalização e codificação. Assim. focalização e codificação. os elementos e estruturas (re)produzidos em X (situação-recepção) sejam de algum modo dependentes das novidades ocorridas no meio de X (situação-fonte). essa exterioridade é intra-sistêmica. Embora o meio-ambiente (situaçãofonte) seja num certo sentido externo a X. Em outras palavras. É nesse sentido que o meioambiente é meio-ambiente de X.meio-ambiente. lugar de eventos meramente externos. Em segundo lugar. operações de assimilação e uso. que pode ser chamado de espaço meramente externo. e sempre de acordo com as sugestões propiciadas pelo quadro teórico luhmanniano. quer dizer. tomado como componente fundamental das GT1 83 . podemos afirmar o seguinte. O meio é externo ao sistema. sistemas autopoiéticos podem ser definidos como sistemas que assimilam e usam as novidades do seu meio-ambiente para produzir os elementos e estruturas de que se compõem. X é um sistema autopoiético. que se autoproduz na medida mesmo em que se constitui como situaçãorecepção das novidades ocorridas no seu meio-ambiente. o qual se constitui então como situação-fonte. a distinção entre situação-recepção e situação-fonte é por sua vez dependente de atos de observação. pelas operações que se realizam em X. conectam e organizam os dados operacionalmente utilizáveis que se apresentam no meio-ambiente (situação-fonte) de X. o espaço contínuo das infinitas possibilidades e eventos. pode-se afirmar que tais sistemas usam seus elementos e estruturas para (re)produzir seus elementos e estruturas. Em primeiro lugar.

operações de assimilação e uso (processamento. fundamentalmente. Partindo deste quadro lógico geral. é a partir do meio. através de operações de observação e focalização que estabelecem a distinção entre o âmbito das possibilidades e eventos relevantes (meio do sistema) e. conexão e organização) das novidades ocorridas no meio do sistema. possibilidade de ser situação-recepção em outro evento comunicativo. Com efeito. o processo informacional é essencialmente circular. até o presente momento da exposição. Como pólo estritamente interno ao sistema. recorramos ao exemplo apresentado na seção anterior. o fato de os sistemas sociais serem sistemas de comunicação implica que. passemos agora a uma análise da dinâmica autopoiética específica dos sistemas sociais. que se estabelecem as novidades de que se sustentam as operações de autoprodução do sistema. Em outras palavras. Aplicando os conceitos da teoria da autopoiese. e um pólo que se caracteriza pela reversibilidade: nas comunicações constitutivas de um determinado sistema social. no caso deles. as operações de autoprodução do sistema são. Tais sistemas. a situaçãofonte de uma comunicação pode perfeitamente ser situação-recepção em outra comunicação. com efeito. essa identificação pode gerar equívocos. a sala dos funcionários pode ser situação-recepção de uma outra comunicação. No segundo momento do círculo. e uma situação-fonte que se caracteriza por aquela exterioridade intra-sistêmica típica do meio do sistema. como pólo estritamente interno ao sistema a sala dos funcionários é uma situaçãofonte definida pela reversibilidade. um dos pólos envolvidos nos eventos comunicativos constitutivos do sistema social em tela. Num primeiro momento do círculo. sala dos funcionários e sala do chefe são. codificação e assimilação próprias desse tipo de sistema. Ora. do outro lado. ou seja. Para ilustrar essa questão. entretanto. No caso dos sistemas sociais. que teria por situação-fonte a sala do chefe como outro pólo interno. Essa reversibilidade é impossível no caso da situação-fonte como meio do sistema: nesse caso. E como pólo estritamente interno ao sistema. que não pode ser identificada ao meio do sistema. pólos em torno dos quais se desenvolvem os eventos comunicativos constitutivos da identidade e individualidade do sistema social em tela. A situação-fonte estritamente interna ao sistema é. Em princípio. é preciso diferençar uma situação-fonte estritamente interna ao sistema. a sala dos funcionários é situação-fonte de uma comunicação que tem por situação-recepção a sala do chefe como pólo igualmente interno ao mesmo sistema. são sistemas de comunicação. sistemas cujos elementos são eventos comunicativos como cristalizações das atividades de observação. Importa antes de tudo destacar que. é a partir do sistema X que se estabelece a distinção entre o sistema (constituído como situação-recepção de novidades) e o meio (constituído como situação-fonte de novidades). o contínuo das infinitas possibilidades e eventos (espaço meramente externo). simplesmente. estivemos identificando “meio de X” e “situação-fonte de X”. em nenhum momento a situação-fonte pode tornar-se situação-recepção (o meio do sistema nunca pode tornar-se sistema). ou seja. simplesmente. configurado pelo sistema como situação-fonte. pode-se afirmar que o sistema a que pertencem GT1 84 .operações autopoiéticas de X.

ainda inscrita no quadro teórico da autopoiese. Neste caso. tais dados podem decerto ser utilizados nas operações comunicativas que constituem o sistema. ou transformá-lo em dado operacionalmente utilizável pelo sistema. o sistema em princípio tem duas alternativas: ou descartá-lo como informacionalmente irrelevante (não focalizá-lo). por outro lado. o dado constituído por essa frase será provavelmente descartado como informacionalmente irrelevante. e veiculada no médium da opinião pública (que é o médium do sistema da mídia. é a divisão do sistema em tela em dois subsistemas. Retomemos o exemplo da frase “repudiamos esta tarefa e este procedimento da empresa”. Dentro deste sistema. o que significa que eles podem ser considerados “informações para o sistema” – ainda que se trate de informações que só serão utilizadas nas comunicações mercadológicas da organização. dirigidas exclusivamente à opinião pública e desvinculadas das comunicações estritamente internas do sistema. permitindo que este lhes dê um encaminhamento adequado à sua auto-reprodução. Isso não exclui a possibilidade de que o encaixe na autopoiese do sistema equivalha a uma forma de processamento que responde a certos dados com comunicações meramente mercadológicas. GT1 85 .sala dos funcionários e sala do chefe constitui uma unidade que se autoproduz à medida mesmo que assimila e usa as novidades que ocorrem em seu meio externo (exterioridade intra-sistêmica) para reproduzir os elementos e estruturas nos quais se cristalizam as atividades comunicativas que lhe são próprias. Para transformar eventos meramente externos em informações assimiláveis e utilizáveis na sua auto-(re)produção. É neste momento da exposição que se pode perceber o sentido e relevância do conceito de perturbação como meio-termo entre o dado informacionalmente irrelevante e. ou informação para o sistema. o sistema precisa submeter tais eventos às suas operações de focalização e codificação. assim como o dinheiro é o médium do sistema econômico). Poderíamos imaginar que no ambiente externo ao sistema surja uma comunicação produzida pelo programa de um partido político voltado para a defesa dos trabalhadores. que vão ou simplesmente descartar tais eventos como dados informacionalmente irrelevantes. Diante deste dado. Suponhamos que o sistema do nosso exemplo seja estruturado segundo um código econômico rigidamente técnico. e segundo este código. tendo por resultado comunicações do tipo “a empresa respeita e valoriza seus colaboradores”. Neste caso. Tomados como sistemas autopoiéticos. é razoável conjecturar que a informação seria assimilada e processada no plano das comunicações meramente mercadológicas. os sistemas sociais são impermeáveis a dados que não podem ser reconfigurados e encaixados segundo o código próprio do sistema – tais dados tendem a ser ignorados. gerada na sala dos funcionários como pólo estritamente interno ao sistema estruturado segundo um código econômico rigidamente técnico. o que exige que o dado seja reconfigurado segundo o código próprio do sistema. centrado na noção de maximização da produtividade e da eficiência. a informação como dado operacionalmente utilizável na dinâmica autopoiética dos sistemas sociais. ele será tratado praticamente do mesmo modo que a mancha de tinta no envelope do memorando. ou reconfigurá-los segundo o código próprio do sistema. descartados como informacionalmente irrelevantes. Outra possibilidade.

GT1 86 . dado operacionalmente utilizável pelo sistema – mas sua assimilação e processamento exigiriam uma reconfiguração conforme o código específico do subsistema técnico. mas apenas para indicar uma tendência dos mesmos (que não pode ser negligenciada. justificação. alterações no código tendem a ser vistas como nascimento de outro sistema. Tudo depende do modo como se entende essa noção de “dinâmica autopoiética”. meramente mercadológica (do tipo “somos uma comunidade de colaboradores”). não para descrever o que os sistemas sociais “são”. na teoria da autopoiese. No quadro lógico-conceitual da teoria da autopoiese. mas o que eles “tendem a ser”. Isto significa que ela poderia ser tomada como informação do meio. neste caso. Deste ponto de vista. Se não usarmos o conceito de autopoiese para descrever a essência dos sistemas sociais. um fator capaz de forçar o estabelecimento de comunicações menos autopoiéticas (ou seja. Isto ocorre porque a perturbação assim entendida representa no fundo uma perturbação para o código do sistema. o subsistema político passaria a ser meio do técnico. poderemos unir os conceitos de autopoiese e perturbação (como meio-termo entre o dado informacionalmente irrelevante e a informação em sentido estrito) no quadro lógico de uma teoria crítica que interpreta os sistemas sociais como sistemas informacionais de tendência circular e auto-referente. desvinculada das comunicações estritamente internas do subsistema (técnico) e por isso mesmo inofensiva para as mesmas e para o código que as define. e vice-versa. a frase apareceria no subsistema técnico como dado gerado no subsistema político. discussão. Mas o fato de não haver lugar para nosso conceito de perturbação na teoria da autopoiese não implica que não se possa estabelecer uma relação entre este conceito e a dinâmica autopoiética dos sistemas sociais. estruturadas segundo um código inflexível) e mais comunicativas. entendimento. ao passo que a teoria da autopoiese inclina-se antes para a concepção da rigidez e inflexibilidade do código que define o sistema. o que provavelmente levaria a uma comunicação com a marca “para o ambiente externo”. como parece ocorrer em Habermas). como argumentação. informação em sentido estrito. Se usarmos o conceito de autopoiese. que aponta para a possibilidade de uma flexibilização relativamente intencional do mesmo. não há lugar para o conceito de perturbação como meio-termo entre o dado informacionalmente irrelevante e a informação em sentido estrito. mais abertas às competências e realizações dos sujeitos racionais. poderemos usar o conceito de perturbação para indicar um fator capaz de atenuar esta tendência. ou seja. ou seja.um técnico e outro político.

Francisco. Malmö: Liber AB & Copenhagen Business School Press. Niklas Luhmann and Organization Studies. Semantic Conceptions of Information. Stanford: Stanford University Press. 1995. Jürgen. Kai Helge (eds. La Salle. Disponível em http:// www. 1984. 2001. Que Significa Pragmática Universal? In Teoría de la Acción Comunicativa: complementos y estudios prévios. Niklas. Social Systems. Introdução à Teoria dos Sistemas – Aulas publicadas por Javier Torres Nafarrate. Birger. 1981.de/infoconcept. 1989.html DRETSKE. IL: Open Court. SHANNON. Luciano. As bases biológicas da compreensão humana. Tradução de Ana Cristina Arantes Nasser. Hans-Georg. MA: MIT Press. David. Urbana: University of Illinois Press. e WEAVER. Niklas.). GT1 87 . 1976. The Mathematical Theory of Communication. W. 1984. 1995. From souls to systems. São Paulo: Palas Athena. SEIDL. 1980. LUHMANN. Tradução de Humberto Mariotti e Lia Diskin. LUHMANN. Petrópolis: Vozes. 2005. 2009.capurro. Luhmann Explained. Stanford Encyclopedia of Philosophy. David e Becker.stanford. 2006. Madrid: Cátedra.edu HABERMAS.4 REFERÊNCIAS CAPURRO. Rafael e HJORLAND. Fred. 1949. FLORIDI. The Concept of Information. Humberto e VARELA. 2003. A Árvore do Conhecimento. Knowledge and the Flow of Information. MATURANA. Disponível em http://plato. 2005. C. Cambridge. MOELLER. The Basic Concepts of Luhmann’s Theory of Social Systems. In Seidl. p.21-53. Tradução de John Bednarz Jr e Dirk Baecker.

Maria Nélida González de Gómez Resumo: Esse trabalho tem por objetivo apresentar possíveis critérios de julgamento de informações na web e categorias que os compõem. Julgamento da informação. e os critérios utilizados pelos usuários no julgamento das informações encontradas durante o processo de busca. Porém. na literatura da Ciência da Informação. Autoridade Cognitiva. Todavia. procedeu-se em realizar um levantamento mapeando os principais conceitos que lhe são atribuídos. tais critérios são descritos pelos mais diversos conceitos. ao mesmo tempo. foram identificadas num primeiro momento três grandes categorias: Qualidade da Informação (em geral referente ao objeto informacional ou à fonte de informação). Credibilidade. Autoridade Cognitiva e Credibilidade dentro da Ciência da Informação e em seguida criou-se quadros descritivos de categorias para organizar e verificar o seu uso dentro de cada critério. Palavras-chave: Qualidade da Informação. o que oferece mais oportunidades e facilidades para acessar informações. Autoridade Cognitiva (a qual remete a autoria e os contextos de legitimação da informação) e a Credibilidade (que implica na aceitação de uma informação como válida pelo usuário). Algumas observações a respeito de cada critério foram feitos e sugere-se estudos empíricos para confirmar ou confrontar os trabalhos teóricos utilizados para a realização desse estudo. Em seguida verificou-se que tais categorias são apontadas por diferentes autores como tendo relações ou funções semelhantes. dentre outros. um volume significativo de literatura tem como tema os modos de selecionar informações na web. Para a realização desse análise. assim como podem GT1 88 . tal como ocorre com fontes de informação no meio impresso. 1 INTRODUÇÃO O advento da web como meio para o compartilhamento de informações é recente e. sem que possa identificar definições consensuais. não dispõe de recursos que auxiliem na discriminação e seleção das informações disponibilizadas. Na última década. Para reconstruir o que se entende como validade da informação. evidenciando as relações ou ‘semelhanças de família’ apresentadas na literatura de modo confuso para o pesquisador.COMUNICAÇÃO ORAL RELAÇÕES OU “SEMELHANÇAS DE FAMÍLIA” EM CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA JULGAMENTO DE INFORMAÇÕES NA WEB Márcia Feijão de Figueiredo. levantou-se na literatura trabalhos que possuem conceitos e definições da Qualidade da Informação. com cruzamentos de significados e de relações. A partir dos trabalhos de autores como RIEH e METZGER.

uma análise exploratória dos critérios e categorias vinculadas e as “relações ou semelhanças de famílias” que o constituem. a divisão desse trabalho está em apresentar. Essa análise é relevante para a compreensão do estado atual da definição e uso de critérios seletivos.ser igualmente vinculadas a outros termos. 2 CONCEITOS ACERCA DOS CRITÉRIOS DE JULGAMENTO DAS INFORMAÇÕES 2. apud RIEH. seu contexto de uso é diversificado e não há um consenso do conceito dentro da Ciência da Informação. p. Nehmy e Guimarães (1996. Em seguida é demonstrado. Deste modo. tem servido assim de matriz metodológica para a reconstrução da rede de conceitos. 112) “a qualidade da informação é considerada uma categoria multidimensional. Os pesquisadores utilizam a Qualidade da Informação sem situar de forma clara a definição ou extensão. os critérios escolhidos para análise através dos conceitos e definições difundidos principalmente na literatura da Ciência da Informação.1 Qualidade da Informação A Qualidade da informação é um dos critérios mais citados nos estudos empíricos de julgamentos de informações. Deve-se notar. Contudo. ao mesmo tempo em que a questão validade da informação é convertida em tema de muitos estudos e publicações. 280). Para desenvolver estudos sobre julgamento preditivo e avaliativo na web. sendo que. viabilizando estudos teóricos mais profundos e proporcionado conceitos para o desenvolvimento de estudos empíricos de informações disponíveis na web. por meio de quadros. Para Paim. Finaliza-se essa análise avaliando esses quadros e qual seria sua finalidade nos julgamentos de informação na web. p. O objetivo neste trabalho foi tornar mais evidente o papel que cada critério possui para estudar como o usuário pode realizar um processo de validação de informações imagéticas disponíveis na web. 2000). 1998. em um primeiro momento. no entanto. A evidenciação das relações torna possível a aplicação dos critérios e das categorias em estudos empíricos sobre o julgamento realizado por usuários. possivelmente desenvolvido em um próximo artigo. 1990. e de sua agregação por semelhanças de família. Rieh e Belkin (1998) utilizam o conceito de Qualidade da informação apresentado no modelo de valor agregado de Taylor (1986) entendido como uma das categorias de critérios utilizados pelos usuários e detentor de cinco valores: precisão GT1 89 . de acordo com o trabalho de Rieh e Belkin (1998. a literatura apresenta uma vasta e complexa rede de significados flutuantes: isto mostraria tanto o caráter contingente dos critérios como as incertezas que ainda encontramos na busca de informação em ambientes eletrônicos. por vezes. que não há consenso na literatura sobre definições teóricas e operacionais da qualidade da informação”. Acredita-se que a descrição das relações pode favorecer novos estudos sobre esses critérios. O principio wittgenstiano da construção de significados pelos usos. tornando perceptível a estreita e. O resultado é a ocorrência de interpretações ambíguas ou conflituosas do conceito de Qualidade da informação (WORMELL. BELKIN. confusa inter-relação entre os conceitos. usados como critérios de seleção e aferimento da validade da informação.

(accuracy), abrangência (comprehensiveness), informação corrente/ informação atualizada (currency), confiabilidade (reliability) e validade (validity). Os cincos valores apresentados por Taylor, além de outros valores encontrados na literatura, são chamados por Paim Nehmy e Guimarães (1996, p. 115) de “atributos intrínsecos” em um modelo multidimensional que desenvolveram, se referindo “aos valores inerentes ao dado, ou ao documento enfim, à informação. [...] Na verdade, a integridade da noção de Qualidade da informação pressupõe, necessariamente, a presença do conjunto dos atributos intrínsecos”. As outras classificações de atributos utilizados no modelo multidimensional com “o objetivo de ressaltar os atributos de responsabilidade do provedor da informação, evitando o excessivo subjetivismo de definições usuais de qualidade da informação” (PAIM, NEHMY E GUIMARÃES, 1996, p. 115). Rieh (2002, p. 146) é a única autora na Ciência da Informação que apresenta dois níveis de definição para a Qualidade da Informação: no nível conceitual utiliza o argumento de Taylor ao afirmar que é “um critério do usuário que tem a ver com a excelência ou, em alguns casos a veracidade da rotulagem” (TAYLOR, 1986, p. 62 apud RIEH, 2002, 146, tradução nossa) e no nível operacional, compreende que é a extensão do que os usuários pensam da informação, se é útil (useful), excelente (good), atualizada (current) e precisa (accurate). Paim, Nehmy e Guimarães (1996, p. 115) descrevem as características da fonte de informação a partir do caráter contingencial do meio, ou seja, se é eletrônico, impresso, oral ou microforma, integral ou sintético, se formal ou informal, entendendo que seus atributos se relacionam com a forma de apresentação do produto. Rieh (2002, p. 146) observa que, no meio impresso, os indicadores de qualidade se encontram consolidados, como: a reputação das editoras, os processos de arbitragem, além de opiniões sobre a fonte. Nesse processo de julgamento, as pessoas possuem menos dificuldades porque acumularam também conhecimentos e experiências com os recursos de informação tradicionais de qualidade, como é o caso da seleção editorial. Compreende-se que a Qualidade da Informação se aplica na avaliação da informação enquanto fonte documental. Seus aspectos enquanto documento podem trazer ao usuário pistas que resultem em filtros no processo de seleção das fontes de informação encontrada durante a busca, como a apresentação da página, e, no caso da web, a velocidade de carregamento da página (download) e a qualidade da resolução das imagens.

2.2 Autoridade Cognitiva O conhecimento adquirido pelo homem ocorre de duas maneiras: através da experiência em primeira mão, ou seja, o que as pessoas adquirem através de um estoque de idéias adquirido sozinho, levando-a a interpretar e compreender o mundo e; em grande parte, o conhecimento que se adquire através das idéias e informações fornecidas por outras pessoas, o que Wilson (1983) denomina

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“conhecimento de segunda mão”17. Patrick Wilson (1983) introduz o conceito de “Autoridade Cognitiva” para explicar esse tipo de conhecimento adquirido através de uma autoridade que influencia pensamentos e que as pessoas conscientemente reconhecem como apropriado (RIEH, 2003). Wilson (1983, p.13) utiliza o termo Autoridade cognitiva para o fenômeno que aborda, apesar de “autoridade epistêmica” (epistemic authority) ser, em seu entendimento, uma alternativa melhor. A Autoridade cognitiva difere da Autoridade Administrativa (administrative authority), que é a pessoa que se encontra em posição de dizer a outros o que fazer, um direito reconhecido de comandar, dentro de certos limites prescritos. Wilson (1983, p. 18 apud SAVOLAINEN, 2007) observa que a Autoridade cognitiva não é valorizada apenas pelo seu estoque de conhecimentos (respostas para perguntas fechadas), mas também pelas suas opiniões (perguntas abertas). As Autoridades cognitivas não se limitam ao domínio da produção científica, mas se estendem a todo tipo de área: moral, religiosa, política, estética, técnica, filosófica, e em áreas que possuam questões abertas indefinidamente. (WILSON, 1983, p. 18). Assim, nos apresenta algumas pontuações sobre a Autoridade cognitiva: a. Autoridade cognitiva requer um relacionamento que envolve pelo menos duas pessoas; a autoridade de alguém é reconhecida por aquele individuo, o constitui num especialista, embora outra pessoa possa não reconhecê-lo como tal; é logo uma atribuição social de competência; b. Autoridade cognitiva é uma questão de formação (degree), podendo-se ter muita ou pouca sobre o assunto; c. Autoridade cognitiva é relativa à esfera de interesse e experiência de um indivíduo, em algumas questões pode-se falar como autoridade, enquanto que em outras situações pode não ter autoridade nenhuma; d. Autoridade cognitiva implica o exercício de um tipo de influência, que não está relacionada a autoridade administrativa ; e. Autoridades cognitivas são aquelas consideradas fontes credíveis de informação. (WILSON, 1983, p. 13-15). Com relação às fontes de informação, Wilson (1983, p. 166) afirma que a base para o reconhecimento de uma autoridade cognitiva é o autor. Rieh (2003) apresenta algumas considerações sobre o reconhecimento de autoridade através de testes externos: a) A Autoridade cognitiva está relacionada ao reconhecimento da autoria, onde o texto é confiável se o indivíduo ou grupo de indivíduos que o produziram são confiáveis18;
17 Para algumas linhas de pensamento, em todo conhecimento novo se parte de um conhecimento previamente existente, de modo que não se poderia diferenciar tão claramente um “conhecimento de segunda mão”. 18 “We can trust a text if it is the work of an individual or group of individuals whom we can trust”. [�]The second consideration is that cognitive authority can be associated with a publisher: a publishing house, a single journal, publication sponsorship, and published reviews, all can acquire this authority. The third consideration is found in document type. For example, a standard dictionary has authority in its own right; people do not concern themselves about the names of compilers in reference books. The fourth and final consideration is the recognition of a text’s contents as plausible or implausible and bestows or withholds authority accordingly. (RIEH, 2003);

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b) a Autoridade cognitiva pode estar associada, também, ao editor (publisher): editoras (publishing house), um periódico singular, publicações patrocinadas (publication sponsorship) e publicações que possuem revisão realizada por pares possuem e transmitem autoridade; c) um determinado tipo de documento pode impor Autoridade cognitiva. Por exemplo, um dicionário renomado para as pessoas é mais importante do que os compiladores da obra; d) o reconhecimento do conteúdo de um texto como plausível ou não. O uso das redes e das Tecnologias de Comunicação e Informação (TIC’s) no meio científico demonstra a interdependência entre os produtores de conhecimento, que aceitam e reconhecem os estudos desenvolvidos em outras disciplinas como fontes de consulta, e entendem que especialistas não conseguiriam produzir sozinhos todo o conhecimento requerido numa pesquisa. Para Pierre Levy (1999, p. 135) “o pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam” e o resultado são as novas formas de produção do conhecimento. Gonzalez de Gómez (2007) propõe reformular o conceito Autoridade Cognitiva, que estaria assentada em contextos centralizados de autorização, e não se aplicaria adequadamente a produção de conhecimentos em redes colaborativas, ou a empreendimentos transdisciplinares e intertemáticos, onde as questões e os julgamentos de validade requerem o julgamento participativo de mais de um especialista e modos de saber.
[...] autoridade epistêmica distribuída - não só entre diversos especialistas e áreas do conhecimento científico, mas também entre diversos atores econômicos e socioculturais, implicados nas novas configurações relacionais de conhecimento e ação (GONZALEZ DE GÓMEZ, 2007, grifo da autora).

A Autoridade cognitiva como um critério para julgamento de informações é, como a Qualidade da informação, amplamente citado tanto em estudos empíricos como nas revisões de literatura. A sua contribuição estaria em avaliar a fonte enquanto origem, verificando os tipos de autoria e suas afiliações, e reconhecendo também as colaborações desenvolvidas em rede, por diferentes atores e autores, “autoridade epistêmica distribuída”. De fato, um dos critérios de avaliação da autoridade cognitiva é o conhecimento prévio que o usuário já possui sobre o assunto investigado. 2.3 Credibilidade A Credibilidade na literatura científica começou a ser estudada na década de 50, principalmente nas áreas de psicologia e comunicação. Os estudiosos concordam que a Credibilidade é uma qualidade percebida que não se encontra no objeto ou na pessoa: o que deve se discutir é a percepção humana de avaliar a credibilidade de um objeto. Existem diversas dimensões que contribuem para a avaliação da Credibilidade, mas a grande maioria identifica a confiabilidade (trustworthiness) e a perícia (expertise) como essenciais. O uso conjunto desses dois conceitos permite avaliar tanto a idoneidade GT1 92

como a experiência, permitindo uma avaliação global (TSENG; FOGG, 1999, p. 40, grifo nosso). Metzger (2007, p. 2078), além de reconhecer as perícia e a confiabilidade como as principais dimensões da Credibilidade, observa que dimensões secundárias afetam a percepção, como é o caso da atratividade da fonte (source attractiveness) e o dinamismo (dynamism), todos como parte do julgamento baseado no receptor. Tseng e Fogg (1999) observaram que na literatura se utilizam duas palavras em inglês que, em boa parte dos casos encontrados na pesquisa, são sinônimas quanto a seu significado e diferentes do idioma: credibilidade (credibility) e credibilidade (believability). “Pessoas credíveis (credible) são pessoas credíveis (believable) e informação credível é informação crível (believable)”. Porém, ressaltam que a definição de Credibilidade foi originada do termo believability. O conceito de Credibilidade tem aplicação em diversas disciplinas, como a Ciência da Informação, comunicação, psicologia, sociologia, marketing, ciências da saúde e administração, além das abordagens interdisciplinares, como os estudos de interação entre o homem e o computador (human-computer interaction – HCI) (WALTHEN, BURKELL, 2002, p. 135; RIEH, DANIELSON, 2007, p. 1). Rieh e Danielson (2007, p. 11-22) propõem o uso a Credibilidade em estudos que o relaciona as áreas de busca e recuperação da informação, comportamento do consumidor, ciências da saúde, e avaliação de recursos da web. Tseng e Fogg (1999, p. 41-43) especificam os tipos de Credibilidade, e uma avaliação global pode incluir todos os tipos simultaneamente: Credibilidade Presumida (Presumed credibility). Descreve o quanto um observador acredita em alguém ou algo por causa de pressupostos gerais de sua mente. Suposições e estereótipos contribuem para a percepção da Credibilidade. Ex.: As pessoas assumem que seus amigos falam a verdade, então vêem seus amigos como credíveis (credible), e o oposto é a visão negativa que existe dos vendedores de automóveis. Credibilidade Reputada (Reputed credibility). Descreve o quanto o observador acredita que alguém ou alguma coisa por causa do que terceiros relataram. Ex.: prêmios de prestígio (como o Prêmio Nobel), ou títulos oficiais (como Doutor ou Professor) concedidos por terceiros, tendem a tornar as pessoas que os receberam mais credíveis. Credibilidade da Superfície (Surface credibility). Descreve o quanto um observador acredita que alguém ou algo baseado em uma simples inspeção, como o julgamento de um livro pela capa. Ex.: uma página da web pode aparentar Credibilidade por causa de seu projeto visual. Credibilidade Experimentada (Experienced credibility). Refere-se a quanto uma pessoa acredita em alguém ou algo baseado em sua experiência em primeira mão. Interagindo com as pessoas ao longo do tempo, podemos avaliar sua competência (expertise) e confiabilidade (trustworthiness). Ex.: advogados tributaristas que se provam justos e competentes com o tempo ganham a percepção de seus clientes de que possuem Credibilidade. Rieh e Danielson (2007, p. 307-308, tradução nossa, com grifo do autor) conseguem sintetizar os estudos na Ciência da Informação e sua relação com a Credibilidade: GT1 93

Dentro da Ciência da Informação, o foco é na avaliação da informação, tipicamente instanciado em documentos e demonstrações. Aqui, a credibilidade tem sido visto principalmente como um critério relevante para julgamento (Barry, 1994; Bateman, 1999; Cool, Belkin, Frieder, & Kantor, 1993; Park, 1993; Schamber, 1991; Wang & Soergel, 1998), com pesquisadores focando como as pessoas que buscam informações avaliam um provável nível de qualidade de um documento. (Liu, 2004; Rieh, 2002; Rieh & Belkin, 1998).

Rieh e Danielson (2007, p. 22), ao abordar a avaliação da Credibilidade na web observaram que, em diversas vezes o objeto avaliado não está definido na literatura, e se torna incompreensível o tipo de avaliação realizada. Para os autores, a avaliação de credibilidade na web se divide em três tipos: a avaliação da web enquanto mídia, a avaliação de web sites, ou páginas na web; e avaliação da informação na web. Essa divisão encontra confirmação de alguns trabalhos na literatura, e abaixo segue a definição de Rieh e Danielson (2007, p. 22-24) de cada tipo de avaliação, seguido de observações feitas por outros autores. Avaliação da web: avalia a web enquanto mídia, equiparando-a a outros meios, como televisão e periódicos e verificando se os participantes dos estudos de Credibilidade a percebem como uma fornecedora de recursos credíveis de informação. Algumas observações sobre esse tipo de avaliação foram feitas durante o levantamento: a) os usuários mais experientes com a web são mais propensos a verificar a Credibilidade da informação (FLANAGIN, METZGER, 2000; GRAHAM, METAXAS, 2003); b) as percepções das pessoas variam conforme o tipo de informação que buscam e o contexto na qual será utilizada (notícia, entretenimento, comercial). (FLANAGIN; METZGER, 2000). Avaliação de web sites: tipo de avaliação mais utilizada em pesquisas, o site é visto como a fonte de informação disponibilizada na web. Fallis e Frické (2002, p.75) são alguns dos autores que abordam a avaliação desse tipo de fonte. Eles publicaram um artigo sobre indicadores de precisão (accuracy) para consumidores das informações em saúde na Internet e, para essa avaliação, levantaram algumas categorias que agrupavam esses indicadores de Credibilidade em sua pesquisa: domínio comercial (.com, .org, .edu); atualização de dados e da página; HONcode (site que certifica as páginas sobre saúde que voluntariamente aderem ao Health On the Net Foudation’s Code of Conduct); espaço de publicidade; autor reconhecido; erros ortográficos; uso de pontos de exclamação; citação de literatura médica; e se há uso elevado de in-links. Avaliação da informação na web: avaliação individualizada informação na web. A questão levantada nesse item é se as pessoas podem confiar naquilo que encontraram em suas buscas, pressupondo que o nível de Qualidade das informações pode variar até mesmo dentro de um web site. No mesmo texto, os autores apontam duas abordagens possíveis dessa questão: a primeira seria identificar algumas diretrizes acerca dos critérios que poderiam influenciar as percepções dos usuários sobre a Qualidade das informações que obtêm; a segunda, tratar de compreender as avaliações dos usuários através de suas próprias declarações, conforme for desenvolvida por esses autores, em 2000. (RIEH; DANIELSON, 2007, p. 26). GT1 94

As avaliações utilizando a Credibilidade como critério se aplicam a qualquer mídia, pois divide-se em mídia (web), a fonte (websites) e a informação. Acredita-se que a credibilidade é um critério que não se baseia na fonte, enquanto documento ou autoria, mas nos conhecimentos do usuário que os avaliam. 3 ANÁLISE DOS CRITÉRIOS E DIMENSÕES COM “RELAÇÕES OU SEMELHANÇAS DE FAMÍLIA” A literatura científica que estuda o uso de critérios para avaliar informações na web identifica, além da Qualidade da informação, Autoridade cognitiva e Credibilidade, categorias que se encontram dentro de cada critério e, por diversas vezes, de forma simultânea em mais de um critério, tendo por função descrever as facetas apresentadas durante o julgamento. Um conceito que pode explicar a relação entre os critérios e as categorizações levantadas é o que Wittgenstein chama de semelhanças de família.
Semelhanças de família (Familienänhlichkeiten) (I. F. 67, 77, 108) são, assim, as semelhanças entre aspectos pertencentes aos diversos elementos que estão sendo comparados, mas de tal forma que os aspectos semelhantes se distribuem ao acaso por esses elementos. [...] A semelhança não envolve uma propriedade comum invariável. Ao dizer que alguma coisa possui semelhanças de família com outra, não se está de forma alguma postulando a identidade entre ambas, mas apenas a identidade entre alguns aspectos de ambas (CONDÉ, 2004, p. 53-54).

Para dar visibilidade as relações ou “semelhanças de família” estabelecidas entre essas três categorias-âncora, segue abaixo um quadro que apresenta os critérios com as categorias utilizadas por diferentes autores. Num segundo momento, listou-se esses conceitos qualificadores das categorias e seus autores, para cada uma dos critérios principais. Diversos autores e trabalhos não foram inseridos nesse trabalho por dois motivos: apenas citaram a dimensão relacionada ao critério sem, no entanto, utilizar alguma definição; não foram utilizadas expressões ou descrições que fossem pertinentes a esta pesquisa ou se prestaram a alguma confusão.
Principais categorizações Qualidade da Informação Autoridade Cognitiva Credibilidade Precisão (accuracy) (1996); Taylor (1986 apud RIEH, BELKIN, 1998); Rieh (2002) Paim, Nehmy e Guimarães Paim, Nehmy e Guimarães (1996); Rieh (2002) Rieh (2002) Metzger (2007) Qualidade da Informação Autoridade Cognitiva Metzger (2007) Credibilidade Tseng e Fogg (1999); Savolainen (2007) Metzger (2007);

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Rieh (2002). Nehmy e Guimarães (1996). Por exemplo. como. confiável. Hilligoss. 1998) Marchand (1990 (apud PAIM. Savolainen (2007) Savolainen (2007). confiabilidade. etc.Abrangência (comprehensiveness) (1996). entre os atributos precisão e a validade. a integridade da noção de qualidade da GT1 96 . que têm significados muito próximos. atualidade. 1998) Taylor (1986 apud RIEH. Nehmy e Guimarães Taylor (1986 apud RIEH. Nehmy e Guimarães Taylor (1986 apud RIEH. BELKIN. 1996). para que a informação tenha valor real. Belkin Tseng e Fogg (1999). Taylor (1986 apud RIEH. 1998) Relevância (relevance) (1996). precisa. BELKIN. Paim. ela deve também ser válida. Na verdade. 1998) (2007) (2000). Metzger (2007). BELKIN. significado através do tempo.. [.1 Qualidade da Informação Dimensões como validade. pertinência. Rieh e Belkin (1998) Rieh (2002) Paim. Nehmy e Guimarães Taylor (1986 apud RIEH. 1998) Confiabilidade (trustworhiness/ reliability) 1 Paim. completeza. Rieh Validade (validity) (1996). Nehmy e Guimarães Rieh (2002) Paim. BELKIN. as quais mantêm entre si uma estreita interrelação. Paim..] Deve-se notar que a relação entre os diferentes atributos intrínsecos da qualidade da informação é extremamente forte. BELKIN. Rieh. NEHMY E GUIMARÃES. novidade. Taylor (1986 apud RIEH. BELKIN. por exemplo. Excelência (goodness) BELKIN. precisão. abrangência. 1998) Atualidade (currency) (1996) Taylor (1986 apud RIEH. dificultando o estabelecimento de fronteiras entre um e outro. 1998) Quadro 1 – termos com “relação de família ou semelhanças” 3.

a idéia de autoridade cognitiva remete a “prestígio. Rieh (2002) Precisão (accuracy) A precisão tem o sentido aproximado de exatidão. Nehmy e Guimarães (1996) O valor agregado pelo sistema de processos que asseguram a transferência de dados e informações serem livre de erros. nem muito. 1998) Atualidade (currency) A atualidade implica consonância com o ritmo de produção da informação. 116). Rieh (2002) GT1 97 . respeito. apud RIEH. Taylor (1986. opõe-se à obsolescência. BELKIN. Paim. autor ou instituição”. e (b) pela capacidade do sistema (capability of system) em refletir os modos correntes de pensamento em seus acessos aos vocabulários. correção. Nehmy e Guimarães (1996) O valor agregado pela integralidade (completeness) da cobertura de um determinado assunto ou disciplina (química. Taylor (1986. GUIMARÃES. p. Categorias Autoridade Cognitiva Descrição e autoria Relacionado com a confiabilidade. Paim. reputação da fonte. por exemplo). ou seja. Rieh (2002) A b r a n g ê n c i a A abrangência diz respeito ao volume de dados necessários para que (comprehensiveness) a informação se torne eficaz. 1998) Se o documento está atualizado (up-to-date). Nehmy e Guimarães (1996) O valor agregado: (a) pela atualidade (recency) dos dados adquiridos pelo sistema. apud RIEH. apud RIEH. BELKIN. 1996. NEHMY. o que nos remete à ‘forma de registro fiel ao fato representado’.informação pressupõe necessariamente a presença do conjunto dos atributos intrínsecos. Paim. 1998) Se a informação no documento é precisa (accurate). (PAIM. nem pouco. Taylor (1986. BELKIN. Paim. Nehmy e Guimarães (1996) É um dos componentes do controle de qualidade na recuperação da informação. por exemplo) ou de uma forma particular de informação (patentes.

BELKIN. Belkin (1998) Uma das facetas primárias da qualidade da informação. 112). BELKIN. Nehmy e Guimarães (1996) Reliability . Paim. Paim. “medida do contato eficaz entre uma fonte e um destinatário”. apud RIEH.C o n f i a b i l i d a d e A confiabilidade significa credibilidade no conteúdo e na fonte da (trustworhiness/reliability) informação. 1996) Em geral. Nehmy e Guimarães (1996) Até que ponto os dados ou informações apresentadas aos usuários são julgados como válido. NEHMY E GUIMARÃES. Rieh (2002) Excelência (goodness) A qualidade. Taylor (1986. Paim. é extra-temporal e permanente. o atributo relevância significa para Saracevic (1970. pode-se afirmar que o conceito validade pressupõe integridade da fonte de informação e forma de registro fiel ao fato que representa. portanto com as mesmas características através dos tempos e nos diversos lugares. Qualidade nesse sentido aproxima-se da idéia de excelência. apud RIEH. p. pessoas reconhecem qualidade e autoridade em publicações impressas porque foram acumulados padrões para publicações que julgam ter excelência (goodness) para a informação. 1998) Relevância (relevance) Próximo à eficácia. GT1 98 . Rieh. Belkin (1998) Julgamento na qual as pessoas tomam a decisão de aceitar ou rejeitar itens específicos se baseando no item ser relevante ou não. apesar das mudanças de gostos e estilos. 1990 apud PAIM.. mantendose. (MARCHAND. Rieh. considerada sob a ótica transcendente. Taylor (1986. 1998) Validade (validity) Embora a literatura não registre definição satisfatória. Rieh (2002) Quadro 2 – conceitos de “Qualidade da Informação” e relação com categorias Fonte: O autor. implica o reconhecimento do valor da informação como absoluto e universalmente aceitável.A confiança (trust) que um usuário possui na consistência da qualidade do sistema (quality of the system) e dos seus resultados ao longo do tempo. Nehmy e Guimarães (1996) As facetas de qualidade também são consideradas consistentes para os estudos de usuários sobre critérios de relevância (user relevance criteria). Seu uso aparece quando uma informação sobressai ou é superior..

Tseng e Fogg (1999) Credenciais. Rieh (2002) Credibilidade C o n f i a b i l i d a d e Reliability – componente principal da noção de credibilidade. 3. Rieh (2002) Os dois conceitos são facetas da autoridade cognitiva. e a confiabilidade (trustworthiness) foi percebida como uma faceta primária. Belkin (2000) Uma das facetas da autoridade cognitiva. Metzger (2007) Uma das seis facetas de autoridade cognitiva.3 Credibilidade Categorias Qualidade da Informação Descrição e autoria A credibilidade é uma qualidade percebida que não reside em um objeto. Rieh. Belkin (1998) Pessoas reconhecem a qualidade e autoridade em publicações impressas porque foram acumulados padrões para publicações que julgam ter excelência (goodness) para a informação. Metzger (2007) O conceito de autoridade cognitiva e credibilidade da mídia são similares. (trustworthiness/reliability) Rieh. Belkin (1998) Excelência (goodness) Quadro 3 – conceitos de “Autoridade Cognitiva” e relação com categorias Fonte: O autor. se o site é recomendado por uma fonte confiável. Rieh. uma pessoa ou um pedaço de informação. Savolainen (2007) Relevância (relevance) A autoridade cognitiva se encontra dentro do julgamento dos critérios de relevância. Savolainen (2007) Autoridade Cognitiva GT1 99 . qualificações a afiliações do autor.3. sendo o primeiro utilizado em pesquisas da Ciência da Informação e o segundo nos estudos da comunicação.2 Autoridade cognitiva Categorias Qualidade da Informação Descrição e autoria Julgamento objetivo que faz parte dos julgamentos baseados no receptor sobre a credibilidade de uma fonte ou mensagem.

(trustworthiness/reliability) verdadeiro e imparcial. Paim e Guimarães (1996) apresentaram. enquanto que a Autoridade cognitiva e a Credibilidade se mantiveram com cinco relações cada. Os autores que mais apresentam definições para as relações descritas foram Rieh e Belkin (1998) com nove relações e Rieh (2002) com sete.Precisão (accuracy) O nível em que o site é isento de erros. Tseng e Fogg (1999) Trustworthiness: dimensão primária credibilidade. sete relações definidas com as categorias. Savolainen (2007) três. A dimensão confiabilidade da credibilidade captura a excelência percebida ou a moralidade da fonte. e a confiabilidade das informações no site. Metzger (2007) do conceito de A confiabilidade (trustworthiness) da fonte afeta significantemente a aceitação da mensagem em pesquisa de opinião. Hilligoss e Rieh (2007) Quadro 5 – conceitos de “Credibilidade” e relação com categorias Fonte: O autor. Metzger (2007) A informação é atualizada (up-to-date) Metzger (2007) Atualidade (currency) C o n f i a b i l i d a d e Trustworthiness: é definido como bem intencionado. GT1 100 . A informação é confiável (trustworthy) quando aparenta ser fidedigna (reliable). a precisão remete “forma de registro fiel ao fato representado”. NEHMY E GUIMARÃES. 3. se a informação pode ser verificada on line. Pesquisas que não tinham como critério principal as categorias citadas não foram incluídas em nossos estudos. Diversas categorias conceituadas por autores e que fazem parte da Qualidade da Informação propõem julgamentos que se remetem ao próprio documento: a Autoridade Cognitiva teria o autor como faceta confiável de qualidade. conceito quase igual ao utilizado pelos autores para a validade (PAIM. dentro de Qualidade da informação. imparcial (unbiased) e justa (fair).4 Resultados e discussões A Qualidade da informação foi o critério que apresentou maior número de relações com as categorias apresentadas na literatura (oito). Nehmy. Metzger (2007) apresentou cinco relações. nos critérios de Qualidade da informação e Autoridade cognitiva. Tseng e Fogg (1999) duas e Hiligoss e Rieh (2007) uma relação. Savolainen (2007) Trustworthiness: elemento chave para avaliação da credibilidade.

como se observou. podendo preceder ou incluir algumas das outras categorias. Observou-se durante o levantamento dos critérios e categorias que a Qualidade da Informação é o critério que permite o julgamento da informação enquanto fonte documental. apresentam indícios que podem confirmar esse entendimento. Paim e Guimarães (1996) para a qualidade da informação. A confiança na autoridade cognitiva pode ser o princípio para a aceitação de alguém sobre o conhecimento adquirido em segunda mão. p. Autoridade cognitiva e a Credibilidade. aonde se entende que seja uma terceira pessoa. 4 CONCLUSÕES Os trabalhos utilizados nos quadros não aplicaram o uso dos critérios em pesquisas empíricas de uma determinada área de conhecimento. Tseng e Fogg (1999) ressaltam que a Credibilidade não reside no documento ou autor. Por exemplo. O termo que se sobressai no quadro que analisa a Autoridade Cognitiva é a confiabilidade: enquanto tradução de Reliability. Se a Credibilidade é uma percepção que reside no homem. mas na percepção. A preocupação de alguns autores consistiu em conceituar e delimitar o uso dos critérios. Sobre as relações existentes entre as categorias e os critérios. para precisão e atualidade. (SAVOLAINEN. Os dois critérios são fatores que determinam a seleção e utilização das fontes de informação. como Nehmy. são considerados em alguns trabalhos sub-categorias de outros critérios. a Credibilidade é considerada uma importante característica da Autoridade cognitiva (WILSON. Metzger (2007) complementa essa afirmação ao indicar que a Credibilidade é recomendada por uma fonte confiável. a tradução de Trustworthiness é percebida por Metzger (2007) por faceta primária. 1983. Wilson (1983) em autoridade cognitiva e Rieh e Danielson (2007) para a credibilidade. como é o caso da validade e da relevância. a confiabilidade é compreendida por Rieh e Belkin (2000) por componente principal de uma autoridade. criando um quadro conceitual próprio. São conceitos intimamente relacionados que se torna difícil dissociar de maneira inequívoca. incluindo a web. o conhecimento de um domínio pode se apresentar como fator de julgamento que atribui a credibilidade a algo ou alguém. Observou-se que os três conceitos escolhidos. 2007). GT1 101 . Algumas categorias. alguns termos têm um caráter genérico. Essa abordagem não permite que um critério seja soberano sobre outro a ponto de se tornar uma dimensão. 116). Rieh (2002) utiliza o termo diretamente com a palavra documento duas vezes. Outra observação diz respeito à relação igualitária estabelecida entre os critérios Credibilidade e Autoridade cognitiva nos estudos de Savolainen (2007). que é a Qualidade da informação. a Autoridade Cognitiva seria critério para julgar informações se baseando na autoria e a Credibilidade utilizaria os conhecimentos do usuário como modo de realizar o julgamento das informações encontradas na web. p.1996. 15). com exceção de Savolainen (2007) que aborda a credibilidade da informação ambiental nos meios de comunicação.

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1990. dois elementos que apontam para a constituição de um campo epistemológico interdisciplinar: a complexidade do objeto de estudo e a multiplicidade de formações que caracterizam sua comunidade científica. que buscou a delimitação do espaço em que se inscrevem a construção do objeto e do processo discursivos. que mascaram seu posicionamento ideológico. mesmo. Esse discurso é permeado de estratégias naturalizantes e generalizantes. O discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação é permeado por mais de uma formação discursiva. essas constatações têm por base pontos estabilizados. Epistemologia Interdisciplinar. nenhuma pessoa tivesse o poder de escapar totalmente. que tem como vetor as determinações do modo de desenvolvimento informacional. Resumo: A epistemologia interdisciplinar vem sendo reconhecida como um dos principais fundamentos da Ciência da Informação. 1 INTRODUÇÃO GT1 104 . tomando como referência. que abarca suas condições de produção. vir a se realizar de um modo ou de outro (PÊCHEUX. Para tanto. Pêcheux. e talvez sobretudo. p. aqueles que acreditam “não-simplórios”: como se esta adesão de conjunto devesse. Palavras-chave: Ciência da Informação. Epistemologia da Ciência da Informação. Eduardo José Wense Dias Esta “cobertura” lógica de regiões heterogêneas do real é um fenômeno bem mais maciço e sistemático para que possamos ver aí uma simples impostura construída na sua totalidade por algum Príncipe mistificador: tudo se passa como se. Com efeito. mas se encontra ancorado no discurso dominante. A seleção dos artigos foi realizada com base em fase anterior da pesquisa. face a essa falsa-aparência de um real natural-social-histórico homogêneo coberto por uma rede de proposições lógicas. pelo menos. que se traduz em dificuldade na constituição da identidade e na consolidação epistemológica da Ciência da Informação. O pluralismo constitutivo do campo informacional promove a fragilidade no processo de integração disciplinar. Procura compreender o funcionamento do discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação a partir da perspectiva da Análise do Discurso da escola francesa fundada por M. 32).COMUNICAÇÃO ORAL A INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: ESTRATÉGIAS DO DISCURSO CONTEMPORÂNEO INTEGRADOR Edivanio Duarte de Souza. desconsiderando o processo discursivo. Discurso da Interdisciplinaridade. foram analisados artigos da produção científica brasileira que discutem a integração disciplinar. por imperiosas razões.

Além disso. é condicionada pelo modo de produção capitalista e pelo modelo de desenvolvimento informacional vigentes. Além GT1 105 . possibilita o entendimento das implicações da epistemologia interdisciplinar que vem sendo nela desenvolvida. da relação sujeito-objeto e da insuficiência do modelo de analiticidade desenvolvido sob a égide da ciência moderna. A Ciência da Informação. desenvolve-se numa dinâmica de movimentos convergentes de forças centrípetas e centrífugas.A Ciência da Informação apresenta a epistemologia interdisciplinar como um dos seus principais pressupostos de origem. que corresponde atualmente ao ponto máximo da integração disciplinar. que tem como principais características o reconhecimento da complexidade da natureza. sejam elas multi. A rigor. a um só tempo. é indispensável considerar o modelo de desenvolvimento científico contemporâneo. A interdisciplinaridade. histórico-ideológicas dessa estrutura capitalista. políticas. evidenciem e fundamentem as práticas interdisciplinares realizadas no seu interior. desenvolvimento e consolidação epistemológica. 2009) e White e McCain (1998). alguns autores. Documentação. Torna-se cada vez mais evidente a necessidade de pesquisas que procurem. a dinâmica da integração disciplinar em direção à construção de sua autonomia se dá a partir das relações estabelecidas entre seus elementos constituintes e outros campos de conhecimento com os quais mantêm relações disciplinares. entre outras. em sentido amplo. pluri. Nos últimos anos. no interior da Ciência da Informação. Biblioteconomia. inter ou transdisciplinares. econômicas e. Linguística. grande parte deles adotam como procedimentos a construção de indicadores bibliométricos. ao mesmo tempo. O conhecimento da formalização da integração disciplinar. apresenta como condição ampla de origem e de desenvolvimento as determinações sociais. promovendo. numa perspectiva de construção da autonomia do campo científico. A prática científica é essencialmente uma prática social e. em última instância. portanto. a exemplo de Saracevic (1999. vêm apontando a existência de preocupação centrada nas inter-relações com outras áreas do conhecimento e a dificuldade de integração dos elementos internos que a compõem. tais como Administração. Comunicação. O fato é que a proposta de desenho do campo da Ciência da Informação negligencia alguns elementos que permitem ir além da constatação do compartilhamento de temáticas com outras áreas do conhecimento. No que se refere às condições restritas de produção da interdisciplinaridade. considerando suas condições de produção sócio-histórica. quando desenvolvidos. Se por um lado a interdisciplinaridade é tomada como pressuposto. Assim. esse campo de conhecimento ainda não dispõe de estudos e pesquisas que caracterizem. dedicar-se à compreensão da integração disciplinar externa e interna. Ciência da Computação. por outro. Trata-se de olhar para as construções interdisciplinares a partir da ótica formal. faz-se necessário compreender a base desse pressuposto interdisciplinar da Ciência da Informação com vista ao entendimento das implicações deste nos processos de constituição e de consolidação epistemológicas. a definição de identidade disciplinar e a participação ativa no movimento amplo de integração do conhecimento. visando a apresentar o desenho epistemológico a partir de temáticas que se constituem em objeto de estudos de diversas áreas do conhecimento.

que se dedicaram respectivamente à descrição dos ditos e à descrição e à interpretação de montagens ou arranjos dos enunciados sobre a interdisciplinaridade. grifo do autor). esse desenvolvimento GT1 106 . A Análise do Discurso francesa de Pêcheux permite que se alcancem os meandros do discurso. 2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E CIÊNCIA CONTEMPORÂNEA: CONTEXTOS DA INTEGRAÇÃO DISCIPLINAR A compreensão da constituição e do progresso do conhecimento científico. sobretudo. bem como suas implicações no processo de consolidação epistemológica do campo. 2000. políticos. sociais e ideológicos. 33). é imprescindível compreender os elementos que fazem parte da formação do campo científico da Ciência da Informação no mundo e no Brasil. portanto. é possível atingir o não-dito por intermédio dos implícitos e silenciamentos. p. A concepção da sociedade como um todo funcional e a concepção da sociedade composta por duas partes que tem como base na luta de classes a dialética como fundamento da unidade social. “a perspectiva teórica que fundamenta essa abordagem postula que as sociedades são organizadas em processos estruturados por relações historicamente determinadas de produção. 33. ainda. pelo menos. pode se dar. experiência e poder”. Aliando-se à segunda concepção de sociedade e ao pensamento de Castells (2000. inclusive os controles. que foi gestado em fins do século XIX e vem sendo desenvolvido. Por outro lado. partindo do dito presente na materialidade discursiva para o não-dito. no contexto e ponto de partida dos elementos amplos e restritos que integram as condições de produção da interdisciplinaridade na Ciência da Informação.disso. conforme Lyotard (2000). Essa pesquisa foi realizada em duas fases (exploratória e focalizada). que “as instituições sociais são constituídas para impor o cumprimento das relações de poder existentes em cada período histórico. p. a partir das duas últimas décadas do século XX. Esses entendimentos condicionam e particularizam as bases teórico-metodológicas de estudos e pesquisas que procuram compreender as condições da prática científica. produto e processo do desenvolvimento técnico-científico. E. atendo-se à compreensão das estratégias discursivas que permeiam o processo discursivo da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. A revolução informacional e a ciência contemporânea são. O presente artigo expõe parte da pesquisa de doutoramento que busca compreender a formação do processo discursivo da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. A revolução informacional ocorrida a partir de fins da primeira metade do século XX se constitui. limites e contratos sociais conseguidos nas lutas pelo poder” (CASTELLS. 1990). econômicos. Os resultados aqui apresentados correspondem à parte da segunda fase da pesquisa. que além de evidenciar os efeitos de sentido construídos estão além das proposições lógicas aparentemente estabelecidas (PÊCHEUX. portanto. bem como de suas respectivas condições materiais. dois entendimentos de sociedade que influenciam o funcionamento dos setores. Assim. a partir de. que é também constitutivo do sentido.

a acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processo informacional. processos que não se esgotam na partição de um mesmo objeto entre disciplinas diferentes. à frequentação exploratória de outros territórios. no mundo ocidental. que vem sendo desenvolvido desde a década de 1980. nas palavras de Castells (2000. incomunicados” (SILVA. o fator histórico decisivo para essas transformações foi e continua sendo o processo de reestruturação do capital. Com efeito. para a maximização da produção. ao diálogo modificador com o diverso e o de outra forma. conforme destacaram Domingues (2004) e Pombo (2003). Embora graus mais altos de conhecimentos geralmente possam resultar em melhores níveis de produção por unidade de insumos. Esse modelo. pelo esfacelamento do objeto e a segmentação da ciência em áreas e/ou campo do conhecimento cada vez mais especializado. Assim.. isto é. estanques. 2004. também. resultando em um novo sistema econômico e tecnológico denominado de capitalismo informacional. Na esfera científica. processos que incitam à migração de conceitos. irredutíveis. para além de questões epistemológicas. é fundamental considerar que. p. a partir de fins do século XIX. contudo. da relação sujeito-objeto e da insuficiência do modelo de analiticidade moderno diante daquela constatação.técnico-científico é responsável pela constituição e manutenção do novo modo de desenvolvimento informacional. Essa prática científica contemporânea representa não somente uma nova forma de estudar e compreender a natureza. o alargamento das fronteiras em diversos campos do conhecimento. à acumulação de conhecimento e à obtenção da complexidade do processo informacional.. econômicas. é a busca por conhecimentos e informação que caracteriza a função da produção tecnológica no informacionalismo. Assim. o projeto transdisciplinar “[. segundo Castells (2000). resultaria nas bases da atual ciência contemporânea. científicas sedimentadas no capital informacional. De acordo com Castells (2000). um novo modelo de cientificidade. grifo nosso): Cada modo de desenvolvimento tem. considera que. p. GT1 107 . que vinha sendo desenvolvido no interior da ciência moderna. que visa. caracterizado. 36-37). o informacionalismo visa o desenvolvimento tecnológico. um princípio de desempenho estruturalmente determinado que serve de base para a organização dos processos tecnológicos: o industrialismo é voltado para o crescimento da economia. é caracterizado pelo reconhecimento da complexidade da natureza. sobretudo. ou seja. segundo Santos (2003). no horizonte da compreensão da base material do processo integrativo característico da ciência contemporânea. mas essencialmente o estabelecimento de novas relações políticas. prisioneiras de pontos de vista singulares. Considerase ainda que este estado de coisa se faz mais presente naqueles campos e/ou áreas científicos que têm a informação e o conhecimento como objetos de estudo. 35. no início do século XX. começa a se esboçar. sociais e.] remete a processos de conhecimento que concebem a fronteira como espaço de trocas e não como barreira. tem por base os princípios do modo de desenvolvimento informacional. consequentemente. A ciência contemporânea é resultado de dois movimentos convergentes: a insatisfação com o modelo de analiticidade. que.

p. uma vez que se encontra no ponto de conflito existente e ainda não resolvido “[. notadamente ao processo de consolidação epistemológica. ao passo que. mas tão logo reconhecido como interdisciplinar. 2007). principalmente a interdisciplinaridade. na segunda metade do século XX. esse campo de conhecimento nasce no epicentro dos principais elementos constituintes do novo modelo de desenvolvimento. nesse espaço. a superação do modelo de desenvolvimento industrial e do outro. diversas áreas interessadas nos processos de informação e com ele já envolvidas. Nesse sentido. O processo de consolidação epistemológica ou de autonomia do campo. segundo Domingues (2004). considerando os diversos contextos em que essas relações se realizam. respectivamente.. constituiu nas condições para a conformação de um campo de conhecimento de difícil organização e compreensão. segundo Bourdieu (1983). constitui-se. mas como parte integrante daquele. fundamentase numa nova topa de conhecimento reticular (DOMINGUES. 2004. de acordo com Le Coadic (1996). Numa vertente político-econômica. resultante de esforços conjuntos de diversas áreas e profissionais a elas ligados. As condições amplas de produção da prática científica da Ciência da Informação se inserem na nova ordem técnico-científica. que procura corresponder às exigências do mercado capitalista e atender às demandas ou às necessidades sociais. deve ser objeto de constante vigilância epistemológica. a correspondente superação do modelo de analiticidade construído e estabelecido durante toda a era moderna. Esse contexto. A palavra de ordem.] entre ‘o generalista’ (que se esforça para alargar e unificar o conhecimento) e o ‘especialista’ (que se esforça por aprofundá-lo)” (DOMINGUES. buscar as múltiplas facetas que compõem os objetos de estudo da ciência (MORIN. na esfera científica. a Ciência da Informação é. 3 CONDIÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO Nascida sob a influência da Revolução Informacional. em obstáculo epistemológico. De um lado. essa nova ordem se sustenta. GT1 108 . 2005). associado a diversos fatores tais como múltiplas necessidades de informação. a tecnologia da informação e o campo científico. coloca-se em um movimento de alargamento crescente da área ou campo de conhecimento que. da ciência. ao mesmo tempo. nessa nova fase do capitalismo e.. que. portanto. implica. 2000). do período em que foi criada aos dias atuais. A prática da integração disciplinar. Esse contexto amplo referencia todo o desenvolvimento da Ciência da Informação. naquele período. resultado da valorização convergente da informação por três setores da sociedade: a indústria da informação. que se localiza nas proximidades do ponto transdisciplinar. na política neoliberal e na globalização dos mercados (CASTELLS. e atuação de profissionais de diferentes formações técnico-científicas. 14). significa re-ligar. em termos teórico-metodológicos. é complexificar.A produção científica realizada. tal como o aprofundamento especializado. baseada na integração dos saberes. na integração dos elementos constituintes do campo e no estabelecimento de relações com áreas e/ou campos do conhecimento circunvizinhos.

mas segundo pontos de vista diferentes por diversos campos e/ou áreas do conhecimento. ou seja. Ela [Ciência da Informação] não poderia desenvolver um método específico por causa da obscuridade do suposto objeto. coleta. 1968. 1992. entre outros. Por outro lado. no que concerne ao objeto de estudo..Ao longo de sua recente história epistemológica. ou em alguma parte daquele. Para balizar a postura epistemológica vigilante necessária. recuperação. diferenciadas construções em torno do objeto de estudo. O problema é que algumas leituras sobre Borko (1968) consideram o conceito na sua completude. contudo. sobretudo. 2005). trata-se mais de um compartilhamento de objeto de estudo ou de alguns aspectos deste. transmissão. parece não ter contribuído de forma significativa para definição do domínio epistemológico. isso se constitui em um entrave. devem ser mencionadas e refletidas. Para o desenvolvimento do domínio epistemológico. consequentemente. 210). principalmente.” (WERSIG. na literatura especializada. uma vez que as propriedades – principalmente elas –. Recuperação da Informação. Apesar de a Ciência da Informação se encontrar na fase de consolidação epistemológica e de aprofundamento das relações interdisciplinares (PINHEIRO. ao domínio epistemológico e às relações interdisciplinares. focam na segunda parte deste. àquilo que mais se aproxima do vetor de integração epistemológica da Ciência da Informação. algumas constatações feitas. do campo profissional. o comportamento da informação e as forças que governam seu fluxo correspondem.. pelo menos neste momento. a integração de seus elementos internos e os desdobramentos de relações interdisciplinares. de relações interdisciplinares. O conceito de Borko (1968) pode ser considerado amplo. Esses últimos. grifo da autora). Ele possibilita. o conceito amplo que fez parte da institucionalização da Ciência da Informação parece acompanhar os períodos de sua evolução: [.. Esse entendimento sobre a Ciência da Informação vem possibilitando diversas leituras e. pode-se observar que a sua prática interdisciplinar se aproxima daquilo que Domingues et al (2004) denominaram de vício de origem. Comunicação. o contexto e os problemas que vêm orientando o desenvolvimento da Ciência da Informação. GT1 109 . as forças que governam seu fluxo e os meios de processamento para otimizar sua acessibilidade e utilização. p. interpretação. tais como Biblioteconomia.] ninguém aceita ‘informação’ como objeto porque ninguém sabe o que ela é (se alguém sabe parece ser um tema de alguma disciplina já existente).. transformação e utilização da informação (BORKO. dos profissionais da informação e. que corresponde à base de todas aquelas definições. a partir das construções teórico-metodológicas em torno do conjunto de processos que compõem a segunda parte do conceito de Borko (1968). Relaciona-se com o corpo de conhecimentos relativo à produção. no entanto. Há uma grande possibilidade de os conceitos posteriormente desenvolvidos se localizarem no seu todo. “[. Segundo González de Gómez (2000. ao mesmo tempo. armazenagem. Considerando. Documentação.] disciplina que investiga as propriedades e o comportamento da informação. organização. 3). mas se constitui em um projeto eficiente para o desenvolvimento epistemológico da Ciência da Informação. p.

dentre eles. a construção de seu objeto de estudo e o modelo contemporâneo de desenvolvimento científico correspondem a um conjunto de elementos que condicionam a sua prática científica. Saracevic (2009) destaca a dificuldade de integração dos elementos internos que compõem o campo. Além da diversidade de especialistas que compõem a comunidade científica da Ciência da Informação no Brasil e em vários países. Se. as que definem o que não poderia ser considerado objeto do conhecimento da Ciência da Informação. Alguns autores. que vêm se dedicando aos estudos. Bibliotecários. leis e teorias próprios dessa nova ciência”. p. por pesquisadores de diversas partes do mundo. dez anos. No que concerne ao campo. não possuem bases sólidas. foram suficientemente delimitados. condição diferencial que facilita e propicia as relações de reconhecimento e complementaridade com outras disciplinas. pelo menos. Documentalistas. MCCAIN. E. as que definem as estratégias metodológicas de construção do objeto e que permitem a estabilização acumulativa do domínio. após alguns anos de discussão sobre a origem. 1995. no entendimento desse autor. De modo geral. desvinculação entre essas (LE COADIC. 1992. pesquisas e atividades relacionados à informação. a comunidade científica corresponde ao grupo de profissionais que se dedicam à pesquisa científica e tecnológica (LE COADIC. métodos. por vezes. seus processos e suas tecnologias. maior é a dificuldade para estabelecer as heurísticas negativas. por um conjunto de profissionais originários de diferentes áreas do conhecimento. segundo Dias (2000). 1996. ou os que aí já estão. esse processo se deu. Cientistas da Computação. o objeto de estudo e os problemas fundamentais de pesquisa. a Ciência da Informação apresenta ritmos de desenvolvimento diferenciados entre teoria e prática. 1996). GT1 110 . que é apontada ao lado da Administração como fonte de maior exercício dessa prática (PINHEIRO. o seu campo de conhecimento. foram sendo elaborados conceitos. No campo da Ciência da Informação. “pouco a pouco. este é pouco desenvolvido no interior e muito povoado nas encostas (WHITE. a evolução e as relações interdisciplinares da Ciência da Informação (SARACEVIC. Há pelo menos duas possibilidades: os pesquisadores que estão ingressando no campo não estão fazendo os necessários movimentos de interiorização e integração. A multiplicidade da formação básica dos profissionais que constituem essa comunidade é uma característica que interfere diretamente nas suas produções e. 2005). 56). deve ser considerada nas questões do domínio epistemológico do campo. desde sua origem. parece necessário encontrar um fio condutor para algumas discussões. numa ânsia interdisciplinar. esta se compõe. a exemplo de Le Coadic (1996. 1996). num apanhado de conceitos. Engenheiros e Tecnólogos. 1998). esquecem de interligar os nós que constituem a rede de seu campo. 1997. grosso modo. As relações interdisciplinares com a Biblioteconomia. e. em que pese esse conjunto de condições de desenvolvimento. Considerando a recente história da Ciência da Informação e as observações realizadas. 1999). Além disso.A pesquisa em Ciência da Informação apresentaria um problema particular que podemos identificar de modo quase imediato: Se existe grande diversidade na definição das heurísticas afirmativas. entendem que. cujas composições se dão na correlação com o respectivo arcabouço teórico-metodológico. portanto. fechando o quadro. Administradores. em um período de.

uma teoria ou conjunto de teorias que permita interpretar. áreas e campos do conhecimento correspondem a uma importante fonte da prática do conhecimento. o autor cita os conhecidos métodos de catalogação. no âmbito dos outros dois níveis metodológicos apontados por Domingues (2004). o autor destaca que “a Ciência da Informação não possui ainda. leis e teorias advindos de outras áreas ou campos de conhecimento que também têm no campo amplo da informação seus problemas e objetos de pesquisa. Sociologia. a teoria dos meios de comunicação de massa e a teoria da comunicação interativa. e outros derivados. Além da importação de conceitos sem a devida fundamentação teórico-conceitual. sem os devidos processos de tradução. Embora não se possa elencar. manipulação de dados. GT1 111 . As necessárias e devidas importações de conceitos. mas que carecem serem aprofundados. tais como aqueles por ele citados: Biblioteconomia. essas leis e esses modelos empíricos. sobretudo. Os modelos do campo são sintetizados nos processos de comunicação e recuperação da informação (vetorial. Le Coadic (1996). controle de fila. como a análise de co-citação e análise de termos associados. de forma científica. Brandão (2005) discute as práticas de importação e de tradução de conceitos em perspectivas transdisciplinares. a prática precedeu a teoria. Mesmo assim. faz-se também necessário observar as características dos métodos e das técnicas de pesquisa utilizados no campo. todos aqui. indexação. e muito menos discutir. p. Psicologia. ressaltando sua característica nomotética. hipertexto. teorias e leis de outras ciências. é importante citar alguns a título de ilustração. gerenciamento de transações. o autor cita três abordagens teóricas que dizem respeito à informação – a teoria matemática da informação. principalmente se considerar a abertura e a sua correlata integração disciplinar na ciência contemporânea. Concluindo. cita as leis bibliométricas e as leis epidemiológicas. Ciências Cognitivas e Comunicação. tesauro e catálogo). métodos.7677). obsolescência e classificação) e técnicos (referências. citação. Informática. que se caracterizam pela dificuldade do rigor metodológico. Le Coadic (1996) cita alguns científicos (descrição de dados. lamentavelmente. isto é. há desconexão entre os dois” (LE COADIC. No que concerne aos métodos. Museoconomia. O pluralismo epistemológico decorre da contínua e crescente importação de conceitos de outras ciências ou campos de conhecimento. A teoria corre atrás dos fatos para compreendê-los. Em matéria de informação. 1996. Ainda no exercício de destacar as construções próprias da Ciência da Informação. da explicação e da interpretação. No conjunto de “conceitos próprios” dessa nova ciência. muitas vezes. racional.métodos. que têm sua importância e devido lugar na produção científica. A flutuação teórico-metodológica é uma porta aberta aos estudos exploratórios e descritivos. Aqui duas questões merecem atenção. é uma porta aberta às práticas ligeiras que não são frutíferas ao processo de consolidação. probabilístico e linguístico). em função do movimento de expansão. Jornalismo. elaboração de resumos e clustering. da inexistência de limites precisos e de objetos claramente configuráveis e passíveis de serem visados. contudo. A teoria está atrasada em relação ao empírico e. Documentação.

sobre aqueles elementos. alguns compromissos teórico-metodológicos e. a compreensão do não-dizer. 4 CONSTITUIÇÃO DO CORPUS E ANÁLISES DAS ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS A análise do discurso se processa a partir da composição de um dispositivo de interpretação. condições de produção. pelo menos. considerar as pistas e os vestígios naquele inscritos. mas. 2001). Este. que.Além disso. que compõem e/ou comporão o seu domínio. utilizam-se os implícitos e os silenciamentos como fios condutores da compreensão do processo discursivo. Algumas noções possibilitam. quais sejam. a epistemologia define suas bases analíticas. em multiplicar as relações entre o que é dito aqui (em tal lugar). embora numa proposta não nomotética. Nesse movimento. As condições de produção correspondem ao conjunto de elementos estruturais que engendram os discursos e se classificam em amplas e restritas. é preciso lembrar e considerar que os critérios epistemológicos de escolhas e utilização de determinados conceitos. nesse espaço. na construção do seu domínio. na construção do lugar da interpretação. e dito assim e não de outro jeito. ao passo que estas correspondem às condições imediatas que possibilitam o acontecimento discursivo. A necessidade da integração disciplinar. Embora outras ciências ou disciplinas trabalhem de forma indireta com a informação e. distinguem-se duas formas de não-dito: o pressuposto e o subentendido. 44). a partir daí. como se sabe. em última análise. As primeiras expressam a relação do discurso com o contexto sócio-histórico. estando necessariamente presente no dito.] consiste.. esse dispositivo tem como característica desenvolver novas práticas de leitura que “[. Aquele deriva propriamente da instância da linguagem. 1990. ou seja. que implica na correlação entre um referencial teórico e os procedimentos de análise. que caracteriza o silêncio. formação ideológica. estabelecerem relações com suas respectivas áreas de origem. que promove a relação entre língua e história. aponta para o desenvolvimento de pesquisas e práticas consilientes. não podendo ser necessariamente relacionado ao dito. na relação com o conjunto de áreas ou ciências que trabalham com a informação. p. é dever dos pesquisadores delas originários fazer movimentos de deslocamento e aproximação do conjunto integrado do campo da Ciência da Informação e. deriva do contexto. possuem um estatuto “periférico” do fenômeno informacional. interdiscurso e formação discursiva. 19 Ducrot (1972) citado por Orlandi (1992. só interessam na relação destes com a materialidade discursiva. teorias e metodologias. a relação línguaexterioridade.. por isso. em sendo marcas formais para o analista. segundo Orlandi (2001). Dessa forma. a comunicação entre os pesquisadores. ou seja. Nesse sentido. GT1 112 . mas o que se diz ou se pode dizer – e em que condições . têm por base não o conjunto desses elementos enquanto tal. a fim de se colocar em posição de ‘entender’ a presença de não-ditos no interior do que é dito” (PÊCHEUX. na Ciência da Informação. De acordo com Ducrot (1972)19. Partir do dito ao não-dito significa. por sua vez. com o que é dito em outro lugar e de outro modo. define também certo nível normativo que possibilita.

por sua vez. por intermédio das mobilizações das noções e dos dispositivos teóricos. Data Grama Zero – Revista de Ciência da Informação. “a Ciência da Informação tem sua origem em diversas disciplinas. independente da autoria dos textos que compõem a base material. e “a comunidade científica da Ciência da Informação é constituída por profissionais oriundos de diversas áreas do conhecimento. a natureza do material a ser analisado e as probabilidades de análise. seguem-se ainda as orientações amplas de Orlandi (2001). multi-. procurando estabelecer os processos discursivos. Este constitui o espaço do pré-construído (FLORÊNCIO et al. Nesse conjunto. publicados nos periódicos científicos Ciência da Informação.e/ ou transdisciplinar”).As formações ideológicas se referem a um conjunto de atitudes e representações de caráter regional que concerne às posições de classe em um conflito. 5 ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS NO DOMÍNIO INTERDISCIPLINAR DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO O discurso da integração disciplinar. donde decorre sua prática interdisciplinar”) quanto disjuntivas (“ciência moderna” x “ciência contemporânea ou pós-moderna”. “conhecimento disciplinar” x “conhecimento interdisciplinar” e “prática disciplinar” x “prática inter-. e a constituição do sujeito do discurso nas relações entre formações discursivas e formações ideológicas. Esses dados não são considerados meras ilustrações. o interdiscurso corresponde à relação entre os sentidos anteriormente constituídos e uma formulação atual. numa formação ideológica dada. que versam sobre a integração disciplinar na Ciência da Informação. GT1 113 . sua materialidade-discursiva. Nos procedimentos de análise do discurso. conforme destaca Orlandi (2001). Sua constituição teve como base as orientações de Orlandi (2001). ou seja. 2001). que interferem nas análises de primeira aproximação. da interdisciplinaridade se encontra fundamentado numa rede de proposições lógicas aparentemente homogêneas. notadamente. o problema da pesquisa. então o conhecimento sobre esta é necessariamente interdisciplinar”. foram analisadas as estratégias discursivas. a constituição do objeto de-superficializado. A formação discursiva. As análises desenvolvidas a partir desses indicadores da materialidade discursiva possibilitam. determina o que pode ser dito (ORLANDI. e Transinformação. Perspectivas em Ciência da Informação. Encontros Bibli – Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação. Assim. sua espessura semântica. procurando remeter os textos ao discurso e esclarecer as relações deste com as formações discursivas e as relações destas com a ideologia. mas como fatos da linguagem com sua memória. Caracterizado por uma reconfiguração constante. pluri. podem-se destacar tanto proposições lógicas positivas (“a informação é um objeto complexo. resultando em um campo interdisciplinar”. define aquilo que. Informação & Sociedade: Estudos. na perspectiva da definição do dispositivo analítico. Na definição do corpus discursivo foram extraídas as sequências discursivas (SD) veiculadas em 28 (vinte e oito) artigos. 2009).

é característica do discurso autoritário.] característica da interdisciplinaridade como um traço típico das ciências contemporâneas” (SD 1. Essas constatações se encontram centradas basicamente no movimento de formação do campo científico. Assim. de acordo com Orlandi (2001). as construções discursivas e os efeitos de sentidos por elas produzidos. A análise desses implícitos e dos silêncios presentes na formação do processo discursivo possibilita a compreensão desse processo e das implicações dele decorrentes. na perspectiva epistemológica. a um só tempo. ser considerados para compreender os efeitos de sentido presentes na produção científica. contudo. embora a prática interdisciplinar se caracterize pela constante tensão. seja a partir da constituição de seu campo de conhecimento. conforme Pêcheux (1990). Por outro lado.. apesar da multiplicidade de proposições lógicas. pode-se dizer que. Assim. O discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação é constituído por uma heterogeneidade discursiva e atravessado por uma rede interdiscursiva que traz as marcas dos discursos da política neoliberal e do processo de globalização da economia. ainda não existe exemplo preciso de práticas transdisciplinares. Essas formações discursivas solidificam suas bases no novo modelo de desenvolvimento capitalista denominado por Castells (2000) de informacionalismo. A marca do apagamento das diferenças. na diversidade de formação dos pesquisadores do campo e no novo modelo de cientificidade proposto pela ciência contemporânea. o discurso da interdisciplinaridade se apresenta como aparentemente homogêneo e se fundamenta em constatações também aparentemente lógicas. partindo das evidências já esboçadas nos resultados da pesquisa exploratória. disputa e negociação entre disciplinas. a nova topologia da sociedade da informação e o novo modelo de desenvolvimento informacional (CASTELLS. na complexidade do objeto de estudo.10). Assim. que evidenciam. 2003).O fato é que. SANTOS. as implicações do discurso no processo de consolidação epistemológica. conforme Domingues (2004). 2000). pode-se dizer que a interdisciplinaridade se apresenta como elemento fundamental à constituição e à consolidação do campo da Ciência da Informação. Partindo dessas constatações aparentemente estabilizadas. é preciso considerar que. da complexidade do seu objeto de estudo ou do novo modelo de cientificidade. No conjunto da primeira estratégia. estas se constituem em espaços estabilizados ligados por evidências lógico-práticas. 2004. o discurso interdisciplinar na Ciência da Informação é ancorado numa rede de estratégias discursivas que pretende se revelar de ordem natural. pode-se observar algumas SD que evidenciam a procura da naturalização da prática interdisciplinar na Ciência da Informação. com base nessa materialidade lógica. apresenta a “[. considerando as condições de produção desse discurso e. a interdisciplinaridade corresponde atualmente ao instrumento teórico-metodológico mais exequível da integração interna e externa dos campos científicos. não se trata de uma questão específica da GT1 114 . esses espaços são atravessados por uma série de não-ditos (implícitos e silenciamentos).. Assim. uma vez que. Os ditos presentes nas SD sobre a integração disciplinar da/na Ciência da Informação têm por base o novo modo de fazer ciência (DOMINGUES. geral e substancial. por conseguinte. áreas e/ou campos do conhecimento.1. Outros elementos precisam. Além disso.

. ao se colocar nessa esfera. cada vez mais interdisciplinares” (SD 1. numa perspectiva mais restrita ao campo informacional.4. como pode ser observada na seguinte SD 1.” (SD 1. a seguir. esconde as tensões e lutas que se desenvolvem.] como resultante do seu próprio objeto de GT1 115 ..7).]” (SD 1. a Ciência da Informação é invocada a se desenvolver a partir de uma perspectiva que se coloque a serviço da nova ordem. E ainda.1: “[. área do conhecimento tipicamente interdisciplinar. como bem esclarece Bourdieu (1983). está presente na gama de disciplinas que compõem o universo da informação” (SD 1. A construção do discurso interdisciplinar.23... pode-se constatar que “[. A ciência da informação definitivamente deveria unir esses campos..9.. naturalmente. permite compreender que “[.” (SD 1. por extensão.1.8.6).] a interdisciplinaridade que.] trocas significantes estão acontecendo entre vários campos científicos que abordam os mesmos problemas de informação..6).] a sua natureza interdisciplinar como ‘. De forma ampla. O generalismo corresponde à outra estratégia discursiva utilizada na ligação dos espaços aparentemente estabilizados do discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. conforme demonstrado pelos pesquisadores em Ciência da Informação [. [. através da busca da unidade de uma área.7. uma vez que “essa concepção de interdisciplinaridade nasceu.. Ademais o discurso destaca “[. trazem reflexos para as ciências humanas e sociais. [.. nesse sentido.4... Esse projeto de interligação do conhecimento deve ser desenvolvido a partir de um “diálogo intermediado por uma ciência tipicamente interdisciplinar: a ciência da informação.. está lá. da unidade do homem.4).. Essa postura está implícita na literatura sobre interdisciplinaridade.5). base fundamental para se investigar os Sistemas de Informação.28. da unidade do universo” (SD 1.] A informação por si só. Isso pode ser observado na SD 1.8. o discurso interdisciplinar na Ciência da Informação encontra repouso em um metadiscurso da ciência contemporânea.Ciência da Informação.12). no campo científico.. da crise da fragmentação do saber e se constitui num procedimento que visa à superação dessa crise.]”. de formas bastante diferentes. é objeto de interesse de diversas áreas do conhecimento.. embora não explícita.4). Outra porta de acesso às estratégias substancialistas e generalistas está vinculadas ao objeto informação que. no âmago do próprio campo científico. É oportuno ainda destacar que.2). ao destacar que “[.. Isso fica bastante patente ao observar que “‘os avanços científicos mais recentes vêm colocando objeções ao paradigma da objetividade e universalidade da Ciência’ e. Para tanto..9. pode oferecer” (SD 1. refletir a respeito da contribuição que a ciência da informação. de forma ampla.. ou semelhantes.]’” (SD 1. “cabe. Ainda.] existe uma forte característica de interdisciplinaridade nas mais diversas ciências. desconsiderando o processo de construção do objeto científico com suas definições teórico-metodológicas.. É preciso ter em mente que o discurso autoritário interdisciplinar não considera as particularidades da informação como objeto de estudo de uma ciência específica.] a característica interdisciplinar da ciência da informação não precisa ser procurada. pode-se destacar: “[. atrelado ao modelo de desenvolvimento da ciência contemporânea. disciplina que surge de uma ‘fertilização cruzada’ de ideias [... na Ciência da Informação.6..

. disciplinas. a SD 1. nesse sentido. permitem montagens ou arranjos de enunciados assim como os seguintes: “A característica interdisciplinar dos Sistemas de Informação deve-se também ao fato de que [..a informação .. na esfera científica. o que.1. a existência de diferentes disciplinas e profissionais de diferentes formações. que procuram estabelecer uma visão distorcida das determinações política e econômica postas pelo modo de produção capitalista e pelo modelo de desenvolvimento informacional. GT1 116 . apontando para uma aparente cooperação natural.2: “[. De forma mais precisa. tais como diversidade de informação.7. “Como área emergente e interdisciplinar. E. Portanto.6). “[. Dessa forma.. tal como ocorre 20 Pêcheux (2002) apud Florêncio et al (2009).7 “[.4). A rede conceitual do discurso interdisciplinar é construída a partir de uma multiplicidade de constatações lógico-práticas. engenheiros.. como se pode observar na SD 1.23. Pode se observar uma sequência lógica da interdisciplinaridade nas SD seguintes. “[.]”.” Trata-se da mesma lógica da política neoliberal e da economia global..] a complexidade e multidimensionalidade do sujeito da ciência da informação [. no novo modelo de cientificidade mascara as lutas que são travadas no campo científico. E ainda a SD 1. ou seja.] quase toda disciplina científica usa o conceito de informação dentro de seu próprio contexto e com relação a fenômenos específicos” (SD 1. com seus conceitos. portanto de diferentes disciplinas.estudo . de modo geral.] muitos dos atores da CI integram o campo desta ciência oriundo de outras formações. um grupo interdisciplinar se compõe de pessoas com diferentes formações..8) e ainda “A existência e necessidade da informação para quase todas as profissões.presente em todas as áreas do conhecimento humano. tanto no que concerne ao objeto de estudo quanto ao sujeito conhecedor. dados e linguagens.. Acrescente-se a isso que a interdisciplinaridade é utilizada. matemáticos e cientistas do comportamento” (SD 1. como esclarece Pêcheux (2002.11 esclarece que “na prática..]” (SD 1. lógicos.] a Ciência da Informação apoia o seu caráter interdisciplinar na Documentação. a ciência da informação deve beneficiarse com a exploração da complexidade” (SD 1.. Comunicação e Pesquisa Linguística e atua como uma verdadeira ciência interdisciplinar ao envolver esforços de bibliotecários. 1990)20. A complexidade é também reivindicada como ponto de estabilidade no discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. de sistemas de informação.4. ciências e culturas [..4. A diversidade de formação dos profissionais envolvidos na composição do campo científico da Ciência da Informação é também utilizada como ponto de estabilidade das construções discursivas. apenas reforça a característica interdisciplinar da área de conhecimento” (SD 1. como instrumento de controle das relações de poder aí estabelecidas.23. que.3.5. de profissionais e de necessidades de informação..8).] a subjetividade e a interdisciplinaridade com componentes dessa nova ordem que se esboça ou prenuncia. linguistas. que produzem um efeito de sentido lógico-prático nas condições e na prática efetiva da interdisciplinaridade.3). na visão dos autores. métodos... a CI assume caráter interdisciplinar e transdisciplinar”. O discurso interdisciplinar fundamentado. reunidas com um só objetivo de trabalho”.

Ao contrário do discurso ancorado na formação ideológica dominante. naturalmente. seja no desenvolvimento científico. questiona as estabilidades pautadas na naturalização. O discurso com GT1 117 . contribuir com a acumulação de conhecimento e maiores níveis do processo informacional (CASTELLS. para quem a Ciência da Informação “[. revelando uma inconsistência teórica.1. os conflitos e tensões que se instalam no processo discursivo. seja no desenvolvimento técnico. deixam escapar a relação tensa pela disputa de sentido. é possível observar também alguns deslizes na constituição do processo discursivo que evidenciam o discurso polêmico que.15: “A interdisciplinaridade. desde os primórdios. É necessário considerar que a revolução informacional e a ciência contemporânea são. E ainda a SD 1. essa postura é camuflada por enunciados aparentemente inocentes tais como das SD seguintes. esse discurso apresenta. a dividirem suas dúvidas. 2000).] associa a propalada interdisciplinaridade da área a uma reunião de diferentes disciplinas.4.4. ao colocá-la como instrumento científico que visa. como meio para superação do individualismo.” Assim. “Esta nova ciência tem sido caracterizada. associando à área uma abordagem a-histórica”. da unidade do homem.9. portanto. em benefício de um todo. seja mesmo no ensino” (SD 1. Esse desenvolvimento é responsável pela constituição do novo modelo de desenvolvimento informacional que busca formas de manutenção na nova ordem global. formada por proposições naturalizantes e generalizantes.” Apesar dos espaços existentes entre aquela multiplicidade de proposições lógicas. o discurso interdisciplinar da Ciência da Informação traz. de modo geral. que camuflam os efeitos de sentidos dela decorrentes. conforme destaca Pêcheux (1990). a estabilidade do discurso interdisciplinar. é oportuno observar que os discursos logicamente estabilizados tornam opacos os fundamentos da construção da autonomia de um campo científico. Tálamo e Kobashi (2004). no substancialismo e no generalismo. ao mesmo tempo.4. através da busca da unidade de uma área. através do trabalho em parceria.. por uma abordagem interdisciplinar de problemas e uma visão social da informação. de acordo com Orlandi (2001). ganha maior fôlego numa rede de evidências lógico-práticas. produto e processo do desenvolvimento técnico-científico que vem sendo gestado desde fins do século XIX. Contudo. segundo Orlandi (2001). na Ciência da Informação.12. da crise da fragmentação do saber e se constitui num procedimento que visa à superação dessa crise. apresenta-se na sociedade atual como uma proposta de procedimentos que busca levar os homens. Assim. Isso pode ser observado em Smit. pelo menos. o processo discursivo rompe ou.com a ótica do processo de globalização. “A interdisciplinaridade se coloca. suas descobertas. Na heterogeneidade discursiva. embora que implicitamente. a proposta de servir ao novo modelo de desenvolvimento do informacionalismo. no imbricado dessa rede discursiva. Nesse sentido. que ilustra a composição dessa rede: “Essa concepção de interdisciplinaridade nasceu. da unidade do universo. suas angústias. pois. de acordo com a SD 1. o que permite propor como responsabilidade social do novo campo: facilitar a comunicação do conhecimento científico”.14). o processo interdisciplinar liga e desliga os centros das zonas periféricas conforme as exigências do capital. pode-se observar na SD 1.. Nessa formação discursiva da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. pois.

TÁLAMO. na Ciência da Informação. apresenta algumas dificuldades na identificação e na definição de suas práticas científicas. que “[.] seja qual for a designação a ela atribuída [a Ciência da Informação]. contudo. políticas. na Ciência da Informação.formação polêmica destaca. KOBASHI. uma vez que. é permeado por mais de uma formação discursiva. econômicas e histórico-ideológicas. que estão centradas basicamente no metadiscurso da ciência contemporânea e da complexidade. a interdisciplinaridade que vem sendo construída na Ciência da Informação se constitui em entrave ao processo de consolidação epistemológica. O discurso interdisciplinar. Nessa perspectiva.] sem examinar com clareza sua própria trajetória disciplinar autônoma” (SMIT. Contudo. há certa fragilidade nos processos de integração disciplinar. A partir das análises das SD. longe de se constituir em fundamentos de práticas integradoras. de forma ampla. na Ciência da Informação. encontra-se ancorado num discurso dominante. embora a formação ideológica que sustenta esse discurso pareça apagar a heterogeneidade e camuflar os conflitos presentes por intermédio de estratégias discursivas lógico-práticas de ordem naturais. na Ciência da Informação. ao mesmo tempo em que a assume. em detrimento de efetivas contribuições teórico-metodológicas orientadas à construção de sua autonomia. tem por base um metadiscurso contemporâneo homogeneizador que camufla o seu compromisso com a tecnociência e o controle dos fluxos de informação e conhecimento. do ponto de vista epistemológico. é possível observar as lacunas e marcas da distância discursiva. afirmou-se na interdisciplinaridade [. disputas e negociações que existem no campo de lutas e forças que as constituem. sobretudo interno. 2004). Nesse contexto. é apresentada em um espaço logicamente estabilizado. ela se constitui na prática exequível de integração dos elementos internos e externos dos campos de conhecimento específicos. com toda a carga de determinações sociais. conforme sugere Pêcheux (1990).. e na compreensão da constituição do campo de conhecimento da Ciência da Informação. Assim.. a Ciência da Informação. de modo específico. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A integração disciplinar tem atualmente na interdisciplinaridade o seu principal instrumento teórico-metodológico. pode-se dizer que o discurso da integração disciplinar. desconsiderando as tensões. Compreende-se que. contudo. uma vez que. desde a sua origem na segunda metade do século XX.. o discurso interdisciplinar.. A interdisciplinaridade. que tem por base as determinações do modo de desenvolvimento informacional. substanciais e gerais. é construído a partir de um conjunto de constatações e proposições lógicas aparentemente estabilizadas. vem adotando a interdisciplinaridade como um de seus pressupostos. embora a ciência contemporânea tenha como proposta o desenvolvimento de estudos transdisciplinares. da formação da comunidade científica e da construção do objeto de estudo. na medida em que esta se disciplina em torno de um jogo subversivo da tecnociência em detrimento das necessidades teórico-metodológicas de seu GT1 118 .

2. discussing the disciplinary integration. Cap. Information science: what is it? American Documentation. com o novo modelo de desenvolvimento econômico e com a ciência contemporânea. desconsiderando as particularidades de seu campo de conhecimento e de seu objeto de estudo específico.campo epistemológico. C. v. p. Keywords: Information Science. Indeed. pode-se dizer que o seu forte vínculo com a revolução informacional. p. R. Essa postura colabora. The constitution of pluralism informational field promotes the fragility in the process of disciplinary integration. which is the vector determinations informational mode of development. 1983. A traduzibilidade dos conceitos: entre o visível e o dizível. the articles of the Brazilian scientific production. p. representa a aceitação acrítica das proposições gerais e aparentemente estabilizadas. with reference to at least two elements that point to the epistemological constitution of an interdisciplinary field: the complexity of the subject matter and the multiplicity of formations that characterize the community scientific. This discourse is permeated by naturalizing strategies and generalizing that mask their ideological stance. n. por um lado. Pêcheux. Pierre Bourdieu: Sociologia. REFERÊNCIAS BORKO. 2.). ignoring the discursive process. P.). 2005.1. teórica. GT1 119 . O campo científico. bem como das teorias e metodologias. (Org. Chicago. São Paulo: Ática. metodológica e prática presente no campo da Ciência da Informação e. To do so. BRANDÃO. Interdisciplinary Epistemology. Epistemology of Information Science. Cap. De forma mais precisa. Belo Horizonte: Editora da UFMG. Jan. H. In: ORTIZ. 1968. BOURDIEU. but is anchored in the dominant discourse. Try the operation of the discourse of interdisciplinarity in information science from the perspective of Discourse Analysis of the French school founded by M. The discourse of interdisciplinarity in information science is permeated by more than a discursive formation. I.3-5. Conhecimento e transdisciplinaridade II: aspectos metodológicos. 41-100. com a flutuação conceitual. com a dificuldade de construção de sua identidade. (Org. por outro.19. which covers their production conditions. L. The selection of articles was based on previous phase of research that sought to delimit the space in which are inscribed the construction of the object and discursive process. these findings are based on stable points. which translates into difficulty in the formation of identity and epistemological consolidation of Information Science. 122-155. em um movimento de busca incessante de relações interdisciplinares. Discourse of Interdisciplinarity. Abstract: The interdisciplinary epistemology has been recognized as one of the cornerstones of Information Science. A. In: DOMINGUES.

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Uso social da informação. para dar prevalência a enfoques econômicos ou conformadores/normalizadores da existência humana e das relações e interações que a fariam configurar-se como sociedade. Para a reflexão. em face do predomínio da submissão humana aos dispositivos tecnológicos empregados. um quadro de análise constituído por dois focos que vêm se desenhando nos anos recentes. Essa parceria. tais como associações científicas. por isso. que parte de uma discussão dos conceitos de sociedade e informação. portanto. em detrimento de quaisquer outros aspectos constituidores dessa existência. estão em processo. nem sempre sem conflitos. toma como referência teórica fundamentalmente a sociologia do conhecimento e uma filosofia de feição fenomenológica. acesso à riqueza. Epistemologia. representa para o Estado a responsabilidade de oferecer meios para que o trabalho científico produza respostas para a população. alimentação. etc. 1 INTRODUÇÃO O trabalho que se desenvolve em um campo de investigação. Coloca em exame. dentre outros a ele relacionados. visa na parceria com o Estado. programas de pós-graduação.COMUNICAÇÃO ORAL SOCIEDADE. editores de livros e periódicos especializados. que sejam eficazes no sentido de melhorar seu padrão de educação. ao se realizarem como construtos históricos. sem pauta e sem indicação de frente e de verso. INFORMAÇÃO. grupos de pesquisadores. Por fim. núcleos de pesquisa. se modificam enquanto se constroem. estão em transformação e. saúde. CONDIÇÕES E CENÁRIOS DOS USOS SOCIAIS DA INFORMAÇÃO Francisco das Chagas de Souza Resumo Objetiva expor uma reflexão epistemológica sobre a Ciência da Informação. expõe o entendimento de que os conceitos de sociedade e informação seriam representáveis como duas páginas de uma folha de papel. a título de aceleração das comunicações e melhoria da produtividade econômica. são inacabadas. idealmente. Isso implica que o Estado deverá constituir organismos que sejam dotados de fundos econômicos e regulações apropriadas às GT1 122 . a partir da ideia de usos sociais da informação. É apresentado um conceito de informação que tenciona ser representativo para a Ciência da Informação e que leva em conta os fundamentos teóricos empregados. Parte da concepção de que as comunidades humanas e as comunidades de ciência. oferecer respostas às demandas da população que constitui esse Estado e das pessoas que constituem essa comunidade científica. Informação. pelo esforço contínuo dos integrantes das diversas organizações que compõem a sua comunidade. Palavras-chave: Sociedade.

missões que lhes forem atribuídas. com as demandas do Estado. quanto ao uso do conhecimento e os resultados que sua aplicação pode produzir. quando assimiladas ao Brasil. a partir da ideia de usos sociais da informação. Igualmente. em 1970 e que a acompanha desde então.IBBD. históricos e econômicos. dos mais distintos campos. a atuação da comunidade científica. em face do predomínio da submissão humana aos dispositivos empregados. gerando outras sociedades. a título de aceleração das comunicações. Isso tem como finalidade sua participação na orientação da tomada de decisões que tornem efetivas as estratégias que esses agentes do Estado seguirão. há uma tradição iniciada nos anos que antecedem à criação do Curso de Mestrado em Ciência da Informação. e coloca em exame. para a prevalência dos enfoques econômicos ou conformadores/ GT1 123 . Assim. se faz em consonância com as necessidades manifestas da população. chegam com vieses de dominação. informação e uso social da informação. Na relação com a comunidade científica. de um lado. além de seu quadro burocrático. Parte desses conceitos advém de respostas intelectuais e de conhecimento científico produzido pelas Ciências Sociais. ao participarem dos vários comitês de especialistas científicos e ao proporem os instrumentos pelos quais se realizarão os fomentos à investigação. no antigo Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação . de outro e. Uma face marcante dessa tradição é a assimilação por essa comunidade. esses representantes da comunidade científica estão colocando em andamento ações de política científica. Dentro dessa tradição estão inseridas concepções de sociedade e de informação. manipulação ou tendendo a impor falsas ideias sobre esses mesmos conceitos. de conceitos hegemônicos sobre sociedade. das linhas de estudos pertinentes. No caso da comunidade de Ciência da Informação no Brasil. em quaisquer dos campos científicos constituídos em dado país. que revelam visões do que se deve organizar. esses organismos. propor e executar a fim de atender às sempre mutantes características das demandas apresentadas pelas distintas camadas econômicas e sociais da população brasileira. abrigam a presença dos representantes da comunidade científica. partindo desta percepção rapidamente esboçada nos parágrafos anteriores. como parte da responsabilidade profissional dessa comunidade. Começa pela discussão dos conceitos de sociedade e informação. Dessa maneira. dos incentivos aos eventos científicos. da quantificação de bolsas e recursos a serem alocados para o desenvolvimento da pesquisa no país. com significativa aceitação de seus membros. é expor uma proposta de reflexão epistemológica sobre a Ciência da Informação. por isso. para executar as ações de políticas a que se propõem a fim de propugnar a formulação e execução das ações definidas como parte da política desse mesmo Estado. um quadro de análise constituído por dois focos que vêm se desenhando nos anos recentes. em resposta a proposições anteriormente transformadas em legislação pelo Poder Legislativo e em planos de ação pelo Poder Executivo. e que. etc. produzem outro quadro de relações ou interações individuais ou coletivas que. contribuem na definição das ações prioritárias. O objetivo desta comunicação. em outros contextos populacionais. por fim.

na essência da sociedade. quanto ao seu sentido visado pelo agente ou os agentes. ad hoc. entendido como uma entidade autônoma. Por essa perspectiva. GT1 124 . o mesmo autor afirma que sociedade é então: “[�] um complexo de relações [�] suficientemente complexo para ser analisado em si mesmo. 37) a sociedade se define como “[�] um grande complexo de relações humanas ou. 1994. as modificam e as destroem naquilo que não mais respondem às necessidades de seus componentes. são sempre inacabados. 3). p. portanto. para usar uma linguagem mais técnica. orientando-se por este em seu curso”. por isso. ao se realizarem como construtos históricos. Para Berger (1994. p. navio. avião ou a população que assiste presencialmente a um espetáculo ou o público reunido em um cinema. querendo reforçar a noção de encontros ocasionais. está a própria informação em ação. estão em transformação e. em nenhuma dessas. Isso. Esta reflexão toma por referência teórica fundamentalmente a sociologia do conhecimento e uma filosofia de feição fenomenológica. Entretanto. Reforçando esse conceito. se refere ao comportamento de outros. trem. mas. ou do conceito de sociedade. 2 CONCEPÇÕES DE SOCIEDADE A noção ou concepção do que seja sociedade resulta de construção histórica. que é Sociedade. Para Weber (2009. É no âmbito desse sistema de interação que se dá a ação social. que é Informação. 37). 1994. constroem os conceitos que as constroem. mesmo nos ambientes de maior intensificação não gráfica. Considerando essa percepção. Berger se manifesta sobre o significado que tem o termo social. Dentre os conceitos chaves explorados nesta reflexão estão. estão em processo. mas não. reciprocidade” (BERGER. constituem uma sociedade. dentre outros. o social é a “qualidade de interação. 1. (BERGER. e mesmo por isso. se modificam enquanto se constroem. Para conceituar grupos de indivíduos as Ciências Sociais desenvolveram também o conceito de massa. p. Nesse sentido. em um evento científico. De um lado. parte-se da concepção de que as comunidades humanas e as comunidades de ciência. Segundo ele. onde não há organização pré-estabelecida. comparada com outras da mesma espécie”. ultrapassa a noção de sociedade como resultado da simples presença de indivíduos em dado lugar. que sendo ação social mobiliza o agente conforme o que espera ser a reação do interlocutor. 37).normalizadores sobre quaisquer outros aspectos constituidores da existência humana e das relações e interações que a fariam se configurar como sociedade. Essa essência vitalizadora é Sociedade. a sociedade não são grupos de indivíduos. necessariamente. deixa de representar circunstância que ocorre imaterialmente num dado ambiente do qual participam dois ou mais indivíduos humanos. Grupos de indivíduos podem constituir a lotação de um ônibus. interrelação. ação social é “uma ação que. então. portanto. que pode manifestar nuances. para provocar sempre a percepção e a indução de uma construção permanente. p. em que se reúne a reflexão de Weber à de Berger. v. um sistema de interação”. os conceitos de Sociedade e de Informação na medida em que estes seriam essencialmente as duas faces de uma mesma moeda que vitaliza a própria existência da Humanidade.

mas é um “meio”. dizia: O que nos falta são modelos conceituais e uma visão global mediante os quais possamos tornar compreensível. que se esforçou em construir uma distinção entre os conceitos de sociedade e de indivíduos. Porém antes de chegar-se à discussão das concepções de informação. há um chamamento à atenção sobre a necessidade de melhor se captar a definição de sociedade. de tendência à cooperação. ligadas efetivamente por um elemento de relação. A palavra é passada de uma pessoa para outra como uma moeda cujo valor fosse conhecido e cujo conteúdo já não precisasse ser testado.Mas em Elias. que a sociedade é um sistema de interação. assim. cooperação. E é justamente no conjunto dessas manifestações que se formulam todas as bases para se conceber que isso é a informação. em grande parte. após resgatar o pensamento de Aristóteles sobre a relação entre as pedras (partes) e a casa (todo). sobre as operações comunicativas dos indivíduos na GT1 125 . 1993). de grande expressão na segunda metade do século XX. quando produziu esse texto. 2008) vem no intuito de esmiuçar o sentido que tem essa polarização conceitual: indivíduo e sociedade. elas se entendem sem dificuldade. Elias. 1994. especialmente para os esforços direcionados a produzir um conhecimento que seja válido para expor uma compreensão sobre os cenários e condições de usos sociais da informação. Todo o esforço que Elias (1994) vai empregar neste texto e em outros (ELIAS. ele expunha. sobretudo quando trata das ações sociais que se deram no último milênio no ocidente e que foram. Mas será que realmente nos entendemos? (ELIAS. pode-se passar. comunicação e. 1994. nesse mesmo texto. objeto de sua análise no estudo O Processo Civilizador (ELIAS. originalmente escrito em 1939. um pensador das Ciências Sociais. que a casa não seria tal pela simples acumulação de pedras. ter uma história que segue um curso não pretendido ou planejado por qualquer dos indivíduos que a compõem. isto é. Quando uma pessoa diz sociedade e outra a escuta. a própria essência da sociedade. ele inicia afirmando: Todos sabem o que se pretende dizer quando se usa a palavra sociedade. p. A sua discussão apontava para a concepção de sociedade no mesmo rumo mais tarde expresso por Berger (1994) e acima citada. É preciso considerar que essa questão continua a ser muito relevante. p. aquilo que vivenciamos diariamente na realidade. essa relação não é em si nem as partes (pedras) e nem o todo (casa). mediante os quais possamos compreender de que modo um grande número de indivíduos compõem entre si algo maior e diferente de uma coleção de indivíduos isolados: como é que eles formam uma sociedade e como sucede a essa sociedade poder modificar-se de maneiras específicas. Ora. Em seu ensaio “A sociedade dos indivíduos”. pela reflexão de Flusser (1983). a argamassa. em 1939. por isso. ainda que rapidamente. 13). no pensamento. (ELIAS. O vir a ser casa seria explicável pela relação que se dava entre essas partes. seriam essas manifestações que advém desses modos de compreender e comunicação e. Pode considerar-se que sendo os indivíduos humanos não simplesmente partes fechadas como pedras. mas sim os seus próprios modos de compreensão. 16) Mais adiante. ou pelo menos todos pensam saber.

O diálogo tem uma relação mais imediata com a sociedade informal. 1994. 2011). ou multiprojetos de informações. o que tem de materialidade instrumental ou não. em que o corpo do indivíduo supõe portar uma mente capaz de criar e comandar de fora de seu próprio corpo o conhecimento. de acordo com Barreto (2007) a Gestão da Informação. ágrafa. o que se quer afirmar quando se fala o termo informação? 3 CONCEPÇÕES DE INFORMAÇÃO Os estudiosos da Ciência da Informação têm desenvolvido grande esforço para “agarrar” conceitualmente as várias noções que poderiam ser atribuídas para o todo que constitui o teor do que se chama sociedade nas concepções acima expostas. quando se fala de informação também se pode aplicar a questão que Elias levantara para o conceito de sociedade. conhecimento tácito/conhecimento explícito. historicamente a humanidade construiu dois processos de comunicação: o diálogo e o discurso. em que os participantes estão em ação comunicacional presencial. em que o debate está condicionado a um meio exterior aos corpos dos participantes. Trata-se de uma relação mediada. na medida em que o debate se faz iminente e concreto. É ilusório porque o cientista dessa informação está subordinado pelo aparelho: pelas potencialidades e limites desse. se estabelece a relação de troca face a face. a relação comunicacional não é direta. GT1 126 . bem como do conhecimento como vivência. na medida em que está condicionado às condições do equipamento ou recurso que o transmite. Pode-se dizer que ao telefone sua voz é a mesma que se dá no ponto de emissão? Que na televisão a imagem do corpo que chega ao telespectador é a mesma que foi captada pelo aparelho de filmagem? Que o discurso impresso é o mesmo que se faria de viva voz? Então esse discurso. pois situa o corpo do indivíduo como o recurso último de comunicação. num dado quadro de realidade criada nas relações entre indivíduos humanos. não é o mesmo que o diálogo. já o discurso tem uma relação mais consistente com a sociedade formal. Notoriamente. Pelo diálogo. Isto é. isto é. Nesse sentido. o que lhes permite uma real relação de troca. da escrita. todos os conceitos de informação que têm sido apresentados tendem a levar em conta. pode-se dizer: corporal.sociedade. feito como produto do processamento informacional. etc. estão condicionadas pelos aparelhos ou pelos pensamentos que os constituem e que lhes permitem operar. tornando-se complexos de informações. transformada num dispositivo ou aparelho (FLUSSER. nos parâmetros de discussão propostos por Flusser (1983. Por que ilusória? Porque todas as possibilidades de trabalhar com o fenômeno das relações dos indivíduos humanos. com base em Berger (1994) e em Elias (1993. 2011) está na base do conceito tomado pela Ciência da Informação como etapa histórica em que começou a predominar e que permanece como um fenômeno da realidade atual. mas não só com esta. Pelo discurso. Esse discurso é forma condicionada por outras formas. o que está presente nesses conceitos se reporta às noções de diálogo e discurso. 2008). Essa atitude ilusória. sendo configurado um movimento que tende a se objetivar através de conceitos como: conhecimento de senso comum/conhecimento especializado. uma expressão que corre sobre outra. Segundo este filósofo tcheco.

a constituição social das necessidades dos usuários. isto é. Capurro (2003.) e “A construção social dos processos informativos. em particular. no campo da ciência da informação. essa teoria refere-se a um receptor (receiver) da mensagem. essa diversidade de possibilidades de afirmação do que seja a Ciência da Informação vai GT1 127 . após analisar o que lhe deu base.Considerando seus aspectos históricos. dos arquivos de conhecimentos e dos esquemas de produção. 25). s/p) detalha. Para ele. p. s/p) vai entender que representa a reação imediata e necessária ao paradigma físico. Capurro (2003. Não por acaso. como apresentados por Barreto (2007) ou epistemológicos. bem como em todo processo informativo e comunicativo. a information theory de Claude Shannon e Warren Weaver associada com a cibernética de Norbert Wiener. Em relação ao chamado paradigma físico. s/p). esses momentos estão marcados no tempo. então. no processo de recuperação da informação científica. distribuição.. ou seja. há uma identificação de três momentos no discurso do primeiro ou de três concepções no discurso do segundo em que surgem ou se definem concepções do que seja a Ciência da Informação. 2003. entendido em primeiro lugar como sujeito cognoscente possuidor de “modelos mentais” do “mundo exterior” que são transformados durante o processo informacional. s/p) Em relação ao chamado paradigma social. a quem se refere. como apresentados por Capurro (2003). (CAPURRO. ressalta a importância de se considerar na ação da Ciência da Informação os “processos sociais de produção. o que entende sobre o alcance de cada uma dessas concepções ou paradigmas. sobrepondo-se ao (ou convivendo com o) perfil instalado socialmente como predominante no momento subsequente. afirma: Minha tese é que a ciência da informação nasce em meados do século XX com um paradigma físico. s/p) Sobre o paradigma cognitivo. do usuário. distribuição e consumo de imagens” Ora. s/p) tece uma discussão. São eles: • Tempo gerência da informação de 1945 – 1980 • Tempo relação informação e conhecimento de 1980 – 1995 • Tempo do conhecimento interativo de 1995 Capurro (2003. Nesse mesmo texto. por isso. sendo este por sua vez substituído por um paradigma pragmático e social. que.. de forma mais concreta. o autor vai concluir: Torna-se evidente que. mas sustentando a sua permanência e seus efeitos e práticas sociais e. Capurro (2003. o que esse paradigma exclui é nada menos que o papel ativo do sujeito cognoscente ou. intercâmbio e consumo de informação” (. em geral. 2003. Em Barreto (2007. com o paradigma cognitivo se: Trata de ver de que forma os processos informativos transformam ou não o usuário. (CAPURRO. transmissão. partindo de Frohmann. considerando o período de sua predominância. questionado por um enfoque cognitivo idealista e individualista.

Com mais detalhe. (. mediante algum tipo de codificação. a noção de informação em contraste com divisão científica do trabalho. Ele está no início da reflexão de Capurro e Hjorland (2007). isto é. verificam os usos modernos e pós-modernos. p. o conceito de informação em contraste com a noção de coletânea de fatos. uma entidade física. de fato.) mas somente quando extraída da mente e codificada. 60-61) Nessa linha de reflexão. p. ao fazer reflexão sobre tal questão. gravado. (. hermenêutica. um objeto tangível. pois. Então.. Observe-se que isso somente se aplica ao conhecimento já existente na mente. mediante um código de representação. que: a distinção mais importante é aquela entre informação como um objeto ou coisa e informação como um conceito subjetivo.desembocar em uma discussão que provoca como questão a formula exposta por Robredo (2007): Existe uma filosofia da Ciência da Informação? Esse autor. HJORLAND. vê-se uma predisposição para situar objeto e ação da Ciência da Informação em torno do fenômeno comunicacional. semiótica e análise de domínio. (CAPURRO. No final desse longo percurso. discorrem sobre o uso do conceito nas ciências naturais. sintaxe) próprios de cada língua. Os autores vão às suas raízes latinas e gregas. as diferentes manifestações sobre as teorias da informação em Ciência da Informação. se vê ou se ouve é o ‘documento’ escrito. examinam o seu caráter interdisciplinar. em longo texto de 59 páginas. que visa formular uma compreensão do objeto informação. fórmula escolhida por Barreto (2007) para tratar da Ciência da Informação como campo. duplicada. (ROBREDO.. O que se toca. 193). Considerando a discussão acima. um processo de transformação do conhecimento (dentro da mente) em ‘informação’ fora da mente. recuperada. iniciamno com a afirmação de que no inglês cotidiano informação significa “conhecimento comunicado”.. se expande quando de sua reflexão epistemológica feita por Capurro (2003) e guarda sentido com a historicidade da Ciência da Informação. informação como signo.. ‘informação’ seria o conhecimento ‘externalizado’. transmitida. contendo conhecimento registrado. em geral. que também têm suas gramáticas e sintaxes). em acurada análise do conceito de Informação. E seguem o estudo. Quando se chega à reflexão de Robredo (2007) fica ainda mais evidente essa perspectiva comunicacional pela sua afirmação de que “informação seria o GT1 128 . audível. repassando os vários sentidos dados historicamente ao termo. como dependente da interpretação de um agente cognitivo. seguindo normas e padrões (gramática. concluem que há muitos conceitos de informação e que esses estão inseridos em estruturas teóricas mais ou menos explicitas. a visão cognitiva da Ciência da Informação. examinam já no campo da Ciência da Informação: o conceito de recuperação da informação em confronto com informação. organizada. armazenada. Capurro e Hjorland (2007). processada. pela linguagem natural (falada ou escrita). visível. 2007. a informação como coisa e outras perspectivas associadas ao sociocognotivismo. nas ciências humanas e sociais e chegam à sua análise do ponto de vista da Ciência da Informação. etc. 2007.) A informação não é. Há. o que resulta no entendimento de que: A ‘informação’ pode ser: registrada. inevitavelmente chega à necessidade de discutir um conceito de informação. ou de outras linguagens criadas pelo homem (linguagens de programação.

vivência e relação dos indivíduos dentro de sua circunstância. torna-se possível apresentar-se nesta comunicação a proposição de uma concepção de informação. 2011). o que daria sentido aos conceitos de sociedade propostos por Berger (um sistema de interação). informação só adquirem todo o sentido na medida em que estão situadas. Desse modo. em que se objetiva a presença do documento. e tornado fluente pelos dispositivos continuamente criados para assegurar a realização dos processos de comunicação. como: Que função social tem o telescópio? Quais resultados decorrem do exercício dessa função ou de seu uso. 2008) e Berger (1994) e as noções de comunicação de Flusser (1983. como expressão dos papéis que exercem. 1994. reproduzir e transformar a sociedade. coerente com a discussão até agora exposta. mediante algum tipo de codificação”. quando de sua aplicação inicial por Galileu Galilei. e que se destina a instituir. Isto coloca como inicial o saber sobre o que vem a ser o objeto material ou o objeto do pensamento que está diante do indivíduo. de signos ou de símbolos construídos pela intelecção humana. insere as noções de sociedade de Weber (2009). dessa assimilação de um conteúdo. pode-se compreender que a informação é o elo que “liga” os indivíduos dando-lhes a condição de existirem em sociedade.conhecimento externalizado. Confrontando essas concepções com o pensamento de Flusser (1983. vê-se que essa informação como pensada no campo da Ciência da Informação não está no âmbito do diálogo. Isto viria a exame ao se considerar que “uso social” é equivalente à “função social” que o objeto cumpre. Elias (1993. originados das sensações ou idealizados. por exemplo. entram em cena as noções de cenários e condições da realidade em que os indivíduos estavam situados ou para falar a partir do campo da Ciência da Informação. estão em jogo as condições de uso social da informação. virão outras questões. É por essa razão que sofrem os efeitos dos fatores de tempo e espaço. por Elias (conjunto de relações) e Weber (a ação social parte de um indivíduo e está sempre orientada ao outro). E decorrente desse saber. como enfatizado por Robredo. Nessa concepção. especialmente quando considerado o paradigma físico. de Brecht (1991). então. mas no plano do discurso. tem implicações com uma ou mais funções a eles atribuídas pelos indivíduos que constroem e vivem a sociedade. tendo em vista a finalidade pretendida? Essa função social é unidirecional ou tem múltiplo foco? As mesmas GT1 129 . Diante disso. 2011). pode ser vista na peça teatral A vida de Galileu. de Stille (2005). é gerado e utilizado pelos indivíduos em suas múltiplas relações. depende do emprego direto da energia humana ou de fontes de energia construídas pelo engenho humano. Mesmo quando o cotidiano entra em consideração. como refletia Ortega y Gasset (2010). Tal proposição se expressa pelo seguinte teor: Informação é o conteúdo exposto por meio de sinais. quando se leva em conta as narrativas como as apresentadas no livro Destruição do passado. Uma exemplificação (elaborada artisticamente) do uso ou função social do telescópio. para uso no campo da Ciência da Informação que. Pode-se considerar que o uso social de um objeto material (um telescópio) ou do pensamento (o conceito de informação). 4 CONDIÇÕES E CENÁRIOS DOS USOS SOCIAIS DA INFORMAÇÃO As concepções de sociedade. ele deverá ser entendido como o quadro de existência.

força jurídica. ao qual se vincula apenas um cenário e b – de foco conformador ou de normalização. se sabe claramente pelas diferenças visíveis entre os caracteres mandarins. é que a informação subsume a comunicação. isto é. etc. se saiba conceituar informação nos dias atuais e no campo da Ciência da Informação. etc. signos e símbolos são instrumentos que a informação utiliza para se realizar como um objeto do pensamento. toda a realidade material ou imaterial que é constituída pelos fatores que podem ser tomados como fontes de distinção. de signos ou de símbolos construídos pela intelecção humana com o propósito de dar eficácia ao processo de comunicação. na produção social e econômica. por isso. de escassez e objeto de disputa entre indivíduos-pessoas (EU) ou indivíduos-sociedades (NÓS) em torno desta distinção. Abaixo estão destacados oito cenários que cabem em dois extratos: a – de foco econômico. A segunda função tem como foco a Conformação ou Normalização dos indivíduos-pessoas (EU) ou indivíduos-sociedades (NÓS) em torno de compromissos pactuados conscientemente pelas partes envolvidas ou impostos pelos detentores dos meios e/ou discursos materiais e imateriais de regulação: Igreja (religião). Sinais.perguntas podem ser feitas para o conceito de informação.). a) Extrato de FOCO ECONÔMICO: GT1 130 . Numa aproximação inicial. o que se vislumbra é a impossibilidade de quaisquer uns desses cenários serem tornados ativos pela exclusiva participação de um único indivíduo. sobretudo. etc. exigindo do leitor o letramento necessário para “receber” a informação que carregam. em Elias e em Weber. ao qual se vinculam seis cenários. Mas que função social tem a Informação nos distintos campos em que ela se aplica? Quais resultados decorrem do exercício dessa função ou de seu uso. Qualquer um deles requer a presença de indivíduos-pessoas (EU) em relação ou interação num ambiente de indivíduossociedades (NÓS). em uma grande dimensão. Dessa distinção. Empresa (força econômica). supostamente. não menos forte. competem entre si e também se distinguem em sua visualidade conforme a origem do grupo humano que lhe formulou. está exposta a discussão no tópico anterior deste texto. transformando esta última em um dos vetores de sua realização. A primeira função tem foco na Economia. Estado (força bélica. é que a Informação tem uma dupla função ou uso social. força tributadora. pode-se investigar sua presença em alguns cenários construídos como recurso analítico para se apreciar dois aspectos apontados na concepção de sociedade em Berger. signos e símbolos. isto é. latinos. tendo em vista a finalidade pretendida? Essa função social é unidirecional ou tem múltiplo foco? Um primeiro aspecto que se pode considerar. com seus distintos níveis de dificuldades para decodificação. objetivante. árabes. em sendo resultado de produção histórica para comunicar a informação proporcionam impactos. mesmo que. Consideradas essas condições de uso social da informação. relação e interação entre os indivíduos como fenômenos de efetivação da sociedade. A informação se faz por meio de sinais. quando organizados em unidades lingüísticas sob o plano sintático e semântico. Um segundo aspecto. Por isso. E esses sinais.

disponibilidades de instrumentos. em torno dos objetos materiais-fins (mercadorias palpáveis pelo tato. etc. b) Extrato de FOCO CONFORMADOR OU DE NORMALIZAÇÃO: 1 – Cenário: Governo e regulação da cidadania 2 – Cenário: Cultura e valoração estética 3 – Cenário: Religião e apaziguamento da consciência 4 – Cenário: Desportos e sublimação guerreira 5 – Cenário: Infraestrutura energética 6 – Cenário: Acessibilidade e uso do conhecimento Nesse conjunto de cenários verificam-se fenômenos da mesma ordem dos manifestados no Cenário: Produção Econômica e controle da escassez. ainda quando possam ter um peso aparentemente muito significativo. Num estágio mais avançado ou complexo das relações estabelecidas pelos indivíduos. a orientação sobre seu uso ou consumo. Normas essas que são executadas a partir de conteúdos comunicados por objetos de pensamentosGT1 131 . objetos de pensamentos-pró-meios adquirem características de objetos imateriais-fins. a instrução sobre sua conservação. há necessidades de objetos ou bens de terceira produção. Quer dizer que o produtor econômico desenvolve sua ação de produção. A produção econômica em si responde às necessidades de consumo. As relações e interações ai estabelecidas forjam modos de. Por mais linear e imediato que possa ser esse raciocínio. em um mercado de produção-consumo de informação científica. O que há aí? Se for tomado para a reflexão o pensamento de Flusser (2011). que é social. mesmo em uma relação de escambo. por exemplo). mesmo em um contexto extrativista. etc. em parte determinado também pelas disponibilidades que estariam naturalmente limitadas pelas especificidades de solo. Considere-se o Cenário: Governo e regulação da cidadania. se comunicarem conteúdos como objetos de pensamentos-pró-meios (o nome da mercadoria. Mas o que passa a predominar são especificidades em que o fator econômico ou razões que se impõem ao argumento da escassez sejam prevalentes. por exemplo). subordinados a um projeto de política pública de desenvolvimento e inovação de conhecimento. Esses têm seus conteúdos comunicados por objetos de pensamentos-pró-meios (um tratado sobre o conceito de informação. há aí a manifestação do aparelho. isto é um conjunto de normas que regulam a atuação dos indivíduos partícipes das relações que aí se desenvolvem.). sobretudo quando se projeta a ideia de que objetos imateriais-fins têm seus conteúdos comunicados por objetos de pensamentos-pró-meios. flora. porque está mirando uma fonte de necessidade do produto criado e a ser distribuído.1 – Cenário: Produção Econômica e controle da escassez – Desse cenário participam: quem produz e troca bem ou bens num ambiente de mercado. Aqui estaria presumida a ideia de diferentes vocações produtivas. ou de mercado sem moeda. como uma primeira referência do outro apontado na discussão de Weber (2009). numa relação interativa entre pesquisadores/ docentes de Ciência da Informação e seus alunos ou financiadores de projetos de pesquisa. fauna.

sem a possibilidade de estes intervierem enquanto se dá a execução original do espetáculo. totalizando mais de 700 bilhões até o ano de 2030. se impõem como inescapáveis. grandes investimentos realizados no aproveitamento maciço das diversas fontes energéticas. p. As fontes energéticas variam desde a força animal (incluída a força do homem). a Legislação estabelecida para a mediação das relações entre os indivíduos. transformação. em que o artista tem o poder discricionário de realizar suas escolhas. Eles totalizam bilhões de dólares anuais. os equipamentos utilizados. os Cenários: Infraestrutura energética e Acessibilidade e uso do conhecimento. considerando estimativas do ano de 2010. Essa possibilidade da intervenção de uma plateia sobre o artista não elimina. somente em fontes renováveis de energia. GT1 132 . por exemplo. De outro lado. a análise de cada um desses cenários apontará para o acento do efeito de conformação ou de normalização que se argumenta ao considerar a relação discurso/diálogo. Essa discussão impõe duas direções. do vento. em que a transferência do conteúdo se dá por uma mediação instrumental tecnológica. as técnicas empregadas. etc. sem a intenção de dar menor importância aos demais. Mas. contudo. fica patente o efeito de conformação ou de normalização empregado para a geração do conteúdo realizado neste cenário. conforme sejam as arenas de suas manifestações. sem acesso à eletricidade e a meios de uso de combustíveis para uso doméstico (INTERNATIONAL ENERGY AGENCY). se pode enfatizar. Há. Poder-se-á abrir a discussão se caberia ao Cenário: Cultura e valoração estética aplicar o entendimento que o enquadra como parte do foco conformador ou de normalização.pró-meios. Quando da execução da atividade fim. por exemplo. até às forças que vêm dos cursos d`água. outras facetas relacionadas ao próprio modo de organização do conteúdo. pois supriria milhões de pessoas. Certamente. os conhecimentos que sabem empregar para explorá-los. de várias fontes de biomassa. que dispõe o produto artístico simultaneamente para grupos diversos. ou a execução musical em pequenas salas ou espaços que facilitem a interação “direta” entre executante e audiência. mercadorização e distribuição dos produtos finais derivados e apropriados ao uso. do sol. decorrente de um crescimento contínuo de demanda (ENERGY developments. Dá para dizer que a infraestrutura energética disponível nos dias atuais é surpreendentemente modeladora – conformadora e normalizadora – das ações humanas nos distintos lugares e regiões em que as pessoas habitam. 2) e da progressiva inclusão anual de milhões de pessoas de todos os continentes do planeta. um espetáculo teatral. no caso da cultura distribuída por canais de comunicação de massa. que ainda não dispõem da provisão regular de eletricidade ou decorrente do crescimento da atividade industrial e da aceleração do uso de dispositivos de comunicação e transferência eletrônica de dados. atualmente e nos próximos anos. em locais distintos. hoje. em função do crescimento tido como necessário. Isso atenderia à oferta de melhoria de qualidade de vida no planeta. tendo em conta os recursos naturais de que dispõem. conforme o conhecimento e informações de que dispõe. investimentos anuais de aproximadamente 36 bilhões de dólares. os capitais financeiros a que têm acesso para investimento na captura. sempre está potencializada a relação comunicacional dialógica. do átomo. Mas.

Nas mídias sociais havia: 152 milhões de blogs. uso. em relação ao número anterior. 25 bilhões de tweets. 600 milhões de pessoas no Facebook. 79. 13 milhões e 200 mil sites com domínio . 480 milhões o número de novos usuários a mais que em 2009. 294 bilhões o número médio de e-mails emitidos por dia. Se o olhar dirige-se à quantidade e tipo de transações realizadas em 2010 conforme o recurso empregado. 35 horas de vídeo são enviados ao YouTube a cada minuto. havia 255 milhões de sites em dezembro desse ano..6 milhões de sites com final . então os números tendem a ser estarrecedores. três mil fotos foram enviadas por minuto para o Flickr. mais de dois bilhões de vídeos foram assistidos no Facebook. O Facebook deverá ter recebido 36 bilhões de fotos no final de 2010. 25% das contas de e-mails são corporativas. A fonte Internet 2010 in numbers arrola o seguinte: de E-mails foram: 107 trilhões de mensagens enviadas.Mas não há somente pessoas sem combustíveis necessários para o seu dia a dia. isto é.org. De sites: surgiram 21 milhões e 400 mil novos sites em 2010. 1 bilhão e 880 milhões o número de usuários de e-mail ao redor do mundo. parece impossível deixar de imaginar que está aí uma confirmação da inevitabilidade da conformação dos indivíduos ao aparelho e a conseqüente subordinação à normatividade. havia perto de um bilhão de pessoas usuárias da internet. De domínios havia: 88 milhões e 800 mil sites com final .). essa conformação e essa subordinação constituem a informação que faz da relação das pessoas que aí interagem. Alemanha. 175 milhões de novas contas registradas de setembro ao final do ano. nos sete primeiros países por quantidade de usuários (China. 84% é a chance dos usuários da web assistir vídeos online nos EUA. 2 bilhões e 900 milhões o número de contas de e-mail. Nesse caso. 8. Em Vídeos: dois bilhões de vídeos foram vistos só no YouTube. disponibilização e custos. 70% de usuários do Facebook fora dos Estados Unidos.net. Índia e Reino Unido). 186 é o número médio de vídeos visto por um usuário americano comum. 250 milhões de novas contas no Facebook. de um total de 216 países. o que vem sendo chamado GT1 133 . Brasil. 100 milhões de novas contas no Twitter.. 20 milhões foi o número de vídeo enviados ao Facebook por mês. 130 milhões de fotos foi a média que o Flickr recebeu por mês. Diante desse volumoso fluxo de operações que compõe o Cenário: Acessibilidade e uso do conhecimento. Japão. Estados Unidos. passando a ser conformados pelos limites técnicos desses instrumentos e pela sua normalização quanto ao acesso. status). 14% dos usuários americanos têm vídeos postados na web.com. foi de 7% o aumento no número de novos domínios. 30 bilhões de itens de conteúdo compartilhado no Facebook (links. Em Imagens: cinco bilhões de fotos foram postados no Flickr do seu início até setembro de 2010.2 milhões de códigos de domínios de países. 262 bilhões o número de spam enviado por dia. fotos. o qual para ser funcional é totalmente dependente das condições asseguradas pelas disponibilidades oferecidas pelo Cenário: Infraestrutura energética. desse número. Segundo registros feitos em 2010 pelo site INDEX MUNDI (NÚMERO DE . Há nesse dia a dia um crescimento vertiginoso das demandas de energia que advém da presença cada vez maior de indivíduos envolvidos com o uso dos instrumentos de comunicação e transferência eletrônica de dados e conteúdos e deles tornando-se dependentes. 20 milhões de aplicativos para o Facebook instalados por dia.

nesse momento de relações mútuas. Este debate se impõe como parte de um movimento dialógico que envolve a todos na direção de uma resignificação do lugar do humano. em sendo assim. sem pauta e sem definição a priori de frente e de verso. Talvez uma imagem ainda mais representativa seja a de informação e de sociedade figurando-se como as páginas que constituem uma folha de papel. numa imagem. que se tornam ambos. no interesse majoritariamente econômico. com Estado constituído e com suas distintas comunidades. aí. chega-se a compreender que há um debate em aberto. ao ser considerado o olhar teórico empregado no desenrolar desta discussão. dominam as relações humanas assimilando as pessoas a funções complementares ao mero. Assim. transformam as transações de máquinas em discursos que. Considerando essa perspectiva o que se chama de sociedade da informação não seria tão somente um conjunto de mundos humanos interagentes ou em relação pelo uso de conteúdos com fins econômicos e de conformação em torno da existência? E. em torno dos conceitos de informação e sociedade. ainda que não possa ser tomado como sinônimo imediato do conceito de informação. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao final desta reflexão. as faces indistintas da mesma. quanto à essência própria. continuamente em aberto. que se estabelece a sociedade. também designadas indivíduos interagem é. Uma perspectiva surpreendente é que o conceito de sociedade. denominar tais mundos de sociedade da informação não seria uma forma de escamotear interesses de dominação e mando que. para ser tida como receptora de políticas de informação. tem tanta similaridade com aquele. o conceito de sociedade não está dotado da autonomia necessária para representar as populações de uma dada nação. Quando as pessoas humanas. naquilo que concerne ao campo da Ciência da Informação. incluídos os profissionais da ciência. se dando pela relação dos contatos dialógicos de núcleos muito concentrados de poder. mas não menos significativo funcionamento esterilizante das máquinas? GT1 134 . representáveis na figura de uma moeda.de sociedade da informação.

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from the idea of social uses of information. Keywords: Society. and places under review.Abstract It aims to expose an epistemological reflection on the Information Science. Epistemology. a framework for analysis consists of two out breaks that have been drawing in recent years. to develop as historical constructs are unfinished. The reflection begins of a discussion of concepts society and information. to give effect to economic approaches or compliance/standard of human existence and relationships and interactions that would set as society. as an acceleration of communications and improving economic productivity. Information. It presented a concept of information that will be representative for Information Science and that takes into account the theoretical foundations employees. given the predominance of human submission to technological devices used. are in the process. It starts with the assumption that human communities and communities of science. Social use of information. For the reflection takes as a reference mainly theoretical sociology of knowledge and a phenomenological philosophy of feature. are changing and. GT1 136 . sets forth the understanding that the concepts of society and information would be representable as two pages of a sheet of paper with no lines and no indication of front and back. therefore. to the detriment of other aspects of this existence. Finally. therefore. are modified as they build.

COMUNICAÇÃO ORAL

ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: QUESTÕES E DESAFIOS NO CENÁRIO DA PESQUISA
José Mauro Matheus Loureiro, Maria Lúcia Niemeyer Matheus Loureiro, Sabrina Damasceno Silva, Daniel Maurício Vianna Souza

Resumo: O texto apresenta uma síntese sobre Fenomenologia, refletindo sobre sua relação possível com a Ciência da Informação. Enfoca aspectos relacionados à metodologia da pesquisa, à interdisciplinaridade e à busca de novos objetos e campos de aplicação pela Ciência da Informação. A partir da análise fenomenológica de Martin Heidegger sobre a obra de arte, reflete sobre questões relacionadas às pesquisas no campo da Informação em Arte. Palavras-chave: Ciência da Informação; Fenomenologia; Metodologia da Pesquisa; Informação em Arte. Abstract: The text presents a synthesis of phenomenology, reflecting on its possible relationship with Information Science. It focuses on aspects related to the research methodology, interdisciplinarity and the search for new objects and fields of application for Information Science. From the phenomenological analysis of Martin Heidegger on the artwork, it raises questions related to the field of Information in Art. Keywords: Information Science; Phenomenology; Research methodology; Information in art. 1. INTRODUÇÃO As características que singularizam a Ciência da Informação e o vasto território teóricoconceitual que envolve sua inter-relação possível com a Fenomenologia estimulam reflexões e desafios no cenário da pesquisa. O presente texto aborda a Fenomenologia por meio de uma síntese que privilegia as perspectivas essenciais desse universo complexo e heterogêneo, discute seus reflexos no âmbito de Metodologia da Pesquisa e propõe questões relacionadas à pesquisa na área de Ciência da Informação, enfatizando novos objetos e campos de aplicação e reflexão, como a Informação em Arte. GT1 137

2. ALGUMAS PALAVRAS SOBRE FENOMENOLOGIA Etimologicamente o termo fenomenologia significa estudo ou ciência do fenômeno. Contudo, a categoria fenômeno, entendida “como tudo o que aparece” (DARTIGUES, 1973, p.11), confere grande abrangência ao termo levando a considerar como fenomenólogo todo estudioso dedicado ao estudo de algum fenômeno. Ricoeur (1987, p.87) adverte, entretanto, que “se nos atemos à etimologia, qualquer um que trate da maneira de aparecer do que quer que seja, qualquer um, por conseguinte, que descreva aparências ou aparições, faz fenomenologia”. Sem desconhecer, portanto, os empreendimentos anteriores que empregaram tal termo21, a Fenomenologia que influenciará de maneira indelével o pensamento do século XX se dá a partir das noções e conceitos propostos por Husserl que se diferenciou dos pensadores precedentes ao afirmar que os sentidos do ser e do fenômeno são indissociáveis. A gênese da fenomenologia ocorre em um ambiente filosófico caracterizado, principalmente na Alemanha, pela perda da tradição idealista, pelo questionamento dos sistemas filosóficos tradicionais e a preponderância da perspectiva neo-kantiana. A esses elementos soma-se, ainda, a falência dos modelos metafísicos e o questionamento do panorama positivista. Esse ambiente de crise é constatado por Husserl (1996, p.13) ao denunciar o estado de decadência em que se encontrava a filosofia ocidental desde meados do século XIX, além da “falta de unidade na determinação de objetivos, colocação dos problemas e no método”. Foi nesse contexto que Husserl procurou primordialmente estruturar uma filosofia que reunisse em si o universo metafísico e o rigor da ciência. O elemento central dessa perspectiva filosófica, descartando as reflexões metafísicas, volta-se para a análise do fenômeno tomado no sentido do vocábulo grego phainesthai – do qual deriva o particípio phainomenon, aparecer, aquilo que se apresenta ou que se mostra. A tentativa de Husserl, que se opunha ao psicologismo e ao subjetivismo, foi desenvolver a fenomenologia como filosofia primeira apta a prover uma sólida base para todas as demais ciências. O grande objetivo da obra husserliana foi configurar a filosofia como ciência do rigor e prover sólidos fundamentos à ciência refletindo acerca dos elementos da experiência em sua totalidade, considerando sua natureza e as diferenciações que apresenta. O que o levou a empreender tal indagação foi a percepção de que “o fenômeno está penetrado no pensamento, isto é, de logos; este por sua vez revela-se, mas somente no fenômeno. É apenas a partir daí que se torna factível a ‘fenomenologia’ ”. (DARTIGUES, 1973, p. 20) A fenomenologia volta-se, assim, para o estudo e as reflexões dos fenômenos absolutos ou puros, por meio de procedimentos descritivos ou analíticos, descartando a atividade dedutiva. Fenômeno é compreendido como algo apreendido pelos sentidos e portador de uma essência. Por não se tratar
21 Como exemplos, podemos citar Lambert, Kant e Hegel cuja ‘Fenomenologia do Espírito’ torna a palavra de uso freqüente na Filosofia.

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de uma construção, mas de alguma coisa sempre acessível aos sujeitos, Husserl conclui que o logos (pensamento racional) também o é, o que o leva a propor “uma filosofia nova que realizaria enfim o sonho de toda filosofia: tornar-se uma ciência rigorosa”. (DARTIGUES, 1973, p. 20) A Fenomenologia não se apresenta como uma doutrina unificada, mas como um universo de reflexão que pode ser sintetizado por três diferentes tradições, as quais se ancoram em suas perspectivas originárias: a “fenomenologia transcendental” ou “descritiva”, desenvolvida por Husserl; a “interpretativa” ou “hermenêutica”, iniciada por Heidegger e uma fenomenologia “integrativa” desenvolvida a partir da década de 90 do século XX – que pretende inter-relacionar as duas primeiras.22
Do ‘horizonte’ husserliano, entendido como ‘mundo da vida’, à linguagem na filosofia de Martin Heidegger, e daí à tradição ou à ‘história-eficaz’ na obra de Hans Georg Gadamer, há muitas rupturas, tensões, muitos atalhos sinuosos, além da pura continuidade intelectual. De todo modo, preserva-se a idéia básica: pré-compreensões atuam inevitavelmente nos bastidores inconscientes em que se engendram as proposições, mesmo as científicas (...). (SOARES, 1994, p.12)

Quanto às abordagens hermenêuticas, é imprescindível diferenciá-las ainda que de modo conciso. Inicialmente desenvolvida por Heidegger, a “hermenêutica-ontológica” teve sua continuidade no “acontecer lingüístico na tradição” proposto por Gadamer. Em um diálogo com ambos os autores, Ricoeur privilegia, mais tarde, uma “fenomenologia orientada lingüisticamente”. As críticas e debates contemporâneos trazidos por autores pós-modernos sobre os diversos rumos hermenêuticos, destacam-se por enfocar diferentes atividades em estruturas específicas de interpretação objetivando fomentar a interação comunicativa. Todas essas fenomenologias, entretanto, possuem como traços basilares as obras iniciais de Husserl. Ainda que submetida a diferentes interpretações, é possível sublinhar a preeminência de alguns aspectos essenciais que integram suas abordagens analíticas até a atualidade. Prevalece, em linhas gerais, a oposição primordial ao Positivismo, a exclusão das abordagens metafísicas, as reflexões acerca dos fenômenos puros, o acionamento da experiência intuitiva como elemento apto para a apreensão do mundo exterior e o primado da análise descritiva dos fenômenos que se apresentam no âmbito da consciência transcendental. A análise fenomenológica, por princípio acrítica e, portanto, isenta de juízos oriundos de valores subjetivos, não se volta para fatos, mas para essências (eidos) e a percepção da essência dos atos (epoché).
Resgatar o pathos próprio da filosofia é a grande motivação da fenomenologia. Chamamos aqui de fenomenologia não só a filosofia de Edmund Husserl e Heidegger, mas a de todos aqueles que pensaram sob a inspiração do fenômeno. A fenomenologia tem o sentido amplo de uma busca não só de fundamento, mas, essencialmente, de ‘correspondência’. Por isso, o lógos do fenômeno é, no fundo, uma ‘homologia do fenômeno’. Se, na tradição, costumou-se traduzir o nome filosofia por amor à sabedoria, a fenomenologia é, propriamente, o amor à correspondência. Sua questão é mais saber-corresponder (homologia) do que saber. (SCHUBACH, 1996, p.32)
22 Com essa síntese, buscamos traçar um panorama radicalmente sucinto do universo da Fenomenologia. Cabe ressaltar a coexistência de outras correntes de pensamento fenomenológico nos âmbitos da Filosofia, Ciências Humanas e Sociais.

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À pergunta “o que é fenomenologia?” corresponde uma heterogênea gama de respostas que contemplam distintas linhagens e mediações. É necessário, assim, estar atento à sua assimetria constitutiva e à multiplicidade de seus pressupostos. Abordar a Fenomenologia, como sublinha Giddens (1996, p. 37), não constitui a descrição de um pensamento simples e unificado. 3. A ESTREITA RELAÇÃO FENOMENOLOGIA-METODOLOGIA Ao fazer referências aos princípios fenomenológicos adotados no âmbito da Metodologia da Pesquisa nas várias áreas do conhecimento, emergem dificuldades advindas de sua heterogeneidade. Desse modo, adotamos uma visada a partir da qual são focalizadas as metodologias oriundas da fenomenologia em seus princípios gerais, que vêm permeando de maneira transversal e singular as várias esferas dos saberes em concorrência com diferentes domínios epistemológicos. Ao fazermos referências às premissas da fenomenologia, encontramo-nos concomitantemente aludindo à sua metodologia e vice-versa – ambas são, portanto, consubstanciais. Essa afirmativa é confirmada pelo próprio Husserl que, em um verbete publicado em 1929 na Enciclopédia Britânica, define a Fenomenologia como um método.23 Merleau-Ponty (1999, p. 7) afirma igualmente que a fenomenologia compreende “o ensaio de uma descrição direta de nossa experiência tal como ela se processa e sem qualquer preocupação com sua gênese psicológica ou com suas explicações causais que o sábio, o historiador ou o sociólogo lhe podem fornecer”. A metodologia da pesquisa ocupa-se sistematicamente com os princípios lógicos que balizam a pesquisa científica e filosófica. Quando implicada nas análises e descrições fenomenológicas caracterizam-se, principalmente, pela renúncia às abordagens hipotético-dedutivas ancoradas no solo positivista e a elaboração e experimentação de hipóteses. Contrariamente aos horizontes metodológicos cartesianos e positivistas cujos instrumentos propiciam o enquadramento dos fenômenos em perspectivas quantitativas vinculadas a leis e princípios, a metodologia fenomenológica encaminha o pesquisador para a descrição interpretativa do fenômeno. Volta-se, assim, à construção de uma dinâmica racional centrada na experiência humana contada na primeira pessoa (CAVEDON, 2001). Considerando o existencial, que não pode ser decomposto em uma realidade natural, as análises fenomenológicas não buscam verdades definitivas, mas a possibilidade de interpretações diferenciadas dos fenômenos, razão pela qual não parte de métodos previamente definidos. Como metodologia da pesquisa, a abordagem fenomenológica passa a ser, conseqüentemente, a análise/estudo dos fatos vividos da consciência na sua pura generalidade essencial e não como fatos realmente experimentados e apreendidos empiricamente por seres conscientes. Os estudos e análises fenomenológicos partem de um cogito transcendental na busca de uma perspectiva em que um indivíduo (sujeito) extramundano se dirija ao mundo. O caminho que conduz ao universo
23 O verbete, intitulado “Phenomenology”, foi produzido originalmente para a Encyclopaedia Britannica. 14th Ed. Vol. 17 (1929): 699-702.

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específico da fenomenologia é o processo de redução. Destacam-se aqui a redução eidética e a redução fenomenológica. Na primeira, procuram-se essências ou significados através da busca do “significado ideal e não empírico dos elementos empíricos” (Husserl, 1985, p. xii). A redução fenomenológica, por sua vez, opera uma redução transcendental que se dirige à essência da própria consciência “enquanto constituidora ou produtora das essências ideais” (FRAGATA, 1959, p. 135). Não se trata, entretanto, de negar a existência do mundo, mas de colocá-lo entre parênteses, em uma perspectiva de relativização do conhecimento. A constituição de um objeto de pensamento é a essência (ou eidos). Baseado em Brentano, Husserl propõe a consciência como intencionalidade - conceito proveniente da Escolástica e essencial para a Fenomenologia, e que significa “dirigir-se para, visar alguma coisa” (HUSSERL, 1985, p. ix). A consciência tomada como intencionalidade distingue-se sempre como consciência de. É a intencionalidade, propõe Husserl, que caracteriza em sentido pleno a consciência, ensejando, ainda, entender o curso da vivência como curso consciente e unidade de consciência. A intencionalidade se encontra qualificada como imanência pura, possuindo como ponto de partida o eu puro cujos elementos não possuem configuração psicológica. Para Husserl (1996, p. 48), “a palavra intencionalidade significa apenas esta particularidade intrínseca e geral que a consciência tem de ser consciência de qualquer coisa, de trazer, na sua qualidade de cogito, o seu cogitatum próprio”. Para os fenomenólogos, a metodologia da pesquisa parte do pressuposto de que o mundo que pretendem abordar é intersubjetivamente construído por significados. Para sua compreensão, priorizase a experiência do indivíduo no mundo aplicando-se métodos nos quais predominam análises conceituais, análises lingüísticas, abordagens hermenêuticas e lógica formal. Há que se abandonar qualquer hipótese prévia acerca do mundo adotando uma perspectiva reflexiva. A metodologia da pesquisa de base fenomenológica volta-se para o questionamento da experiência do fenômeno na consciência procurando entender como os agentes constroem os significados. Considera-se que a experiência de mundo dos Sujeitos ocorre com e por meio do Outro, modo pelo qual convencionamos nossa visão do mundo; todo e qualquer significado por nós criado encontra-se vinculado às ações humanas. A fenomenologia busca apreender a essência da natureza humana e os significados conferidos pelos Sujeitos às suas experiências. Para tanto, o pesquisador deve colocar o mundo externo entre parênteses detendo-se unicamente na percepção do mundo a ser analisado. 4. CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO E INTERDISCIPLINARIDADE A afirmação do estatuto científico da Ciência da Informação e sua posição nos quadros da ciência moderna vêm sendo objeto de estudo da disciplina desde sua institucionalização24. Estudos e reflexões sobre a área são marcados pelo empenho em confrontá-la com as ciências clássicas, assinalando
24 Exemplos dos esforços voltados para a afirmação da cientificidade da Ciência de Informação podem ser percebidos nas tentativas de sua incorporação ao universo das Ciências Humanas ou Sociais. (PINHEIRO, 1999)

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suas características singulares e marcas distintivas. Wersig (1993), por exemplo, qualifica a Ciência da Informação como “ciência pós-moderna” para enfatizar as mudanças no papel do conhecimento no mundo contemporâneo e a inexistência de método único. Assim como a Ecologia, a disciplina integraria um grupo de ciências de um novo tipo, que lidam com os problemas trazidos pelas ciências clássicas, e desempenharia um papel estratégico na articulação de interconceitos, o que contribuiria para minimizar o problema da fragmentação do conhecimento, ou seja, de sua pulverização em disciplinas autônomas. A construção da Ciência da Informação encontra-se associada às transformações ocorridas nas sociedades contemporâneas, nas quais conhecimento, Comunicação, Sistemas de Significado e uso de linguagens tornaram-se objetos de pesquisa científica e domínios de intervenção tecnológica (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2000, p. 3). A informação, considerada fenômeno mais amplo tratado pela Ciência da Informação, vincula-se a diversas camadas ou estratos de realização.
Formam parte desses estratos a linguagem, com seus diversos níveis sintáticos, semânticos e pragmáticos e suas plurais formas de expressão – sonoras, imagéticas, textuais, digitais/ analógicas -; os sistemas sociais de inscrição de significados – a imprensa e o papel, os meios audiovisuais, o software e o hardware, as infra-estruturas das redes de comunicação remota; os sujeitos e organizações que geram e usam informações em suas práticas e interações comunicativas. (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2000, p. 5)

Esse contexto é permeado ainda por crises nas estruturações epistemológicas da Ciência Moderna, levando a área a assumir parte dos discursos construídos a partir dos resultados formalizados da produção de conhecimentos. Desse modo, a Ciência da Informação constitui-se como uma nova demanda de cientificidade e sintoma de mudanças que afetaram a produção de conhecimento no Ocidente. A fim de fazer frente aos desafios trazidos por esse contexto a área desenvolve-se tendo como um dos vetores canônicos de sua natureza o conceito de interdisciplinaridade. Esse aspecto tem sido afirmado como elemento distintivo da Ciência da Informação, provendo-a de um perfil peculiar diante das rígidas fronteiras disciplinares e atendendo, concomitantemente, aos novos pressupostos científicos contemporâneos. Para Tefko Saracevic (1992, p.1), três características permitiriam estudar a Ciência da Informação no passado, presente e futuro: 1) sua natureza interdisciplinar, as mudanças nas suas relações com outras disciplinas e perspectivas de longa duração da evolução à interdisciplinaridade; 2) conexão à tecnologia da informação; e 3) participação ativa na sociedade da informação. Outro aspecto importante destacado pelo autor é de que a base da disciplina relaciona-se aos processos de comunicação humana, sendo então um
campo devotado à investigação científica e prática profissional que trata dos problemas de efetiva comunicação dos conhecimentos e de registros do conhecimento entre seres humanos, no contexto de usos e necessidades sociais institucionais e/ou individuais de informação. No tratamento desses problemas tem interesse particular em usufruir, o mais possível, da moderna tecnologia da informação. (SARACEVIC, 1992, p. 1)

Como característica essencial da área, a interdisciplinaridade facultou ainda a incorporação e GT1 142

e uma heurística negativa. as que definem o que não poderia ser considerado objeto do conhecimento da Ciência da Informação. e.ampliação progressiva de diferentes objetos de estudo. pela referência intrínseca de seu objeto a todos os outros modos de produção 25 Um programa de pesquisa é constituído por um núcleo firme e uma heurística. Observase nas Ciências Sociais e Humanas uma discussão constante sobre os marcos filosóficos que reflitam adequadamente a natureza complexa do fenômeno humano e social. que indica direções a seguir.conceitos. infra-estruturais. institucionais. NOVOS OBJETOS. enunciados e teorias . condição diferencial que facilita e propicia as relações de reconhecimento e complementaridade com outras disciplinas. tanto interna como externamente. além da existência de uma comunidade científica marcada pela diversidade de escolas e correntes sem que estas rompam com sua unidade. Gonzalez de Gómez enfatiza ainda o “caráter poli-epistemológico” da disciplina: Se existe grande diversidade na definição das heurísticas afirmativas. sua validação como conhecimento científico. marcados por forte componente interdisciplinar e pelas especificidades de uma gama diversificada de instituições sócioculturais.buscando proporcionar uma justificação desse corpus teórico (RENDÓN ROJAS. NOVOS DESAFIOS: A INFORMAÇÃO EM ARTE Tendo a informação como elemento estruturante e objeto de estudo. irrefutáveis e não testáveis. ainda. o que se deveria ao “caráter estratificado” da informação. na medida em que este se vê obrigado a trabalhar na articulação das dimensões plurais do objeto informacional: semânticas. resultante de uma “orientação interdisciplinar ou transdisciplinar do campo. p. As heterogêneas abordagens que caracterizam o horizonte interdisciplinar acrescido dos diferentes sentidos e empregos no território da Ciência da Informação facultam reflexões baseadas na Fenomenologia acerca das diversas metodologias estruturantes de seus planos teóricos e analíticos. 5. sintáticas. recorre-se à interdisciplinaridade para a construção de uma estrutura teórica . 13) ressalta o permanente questionamento da área. a Ciência da Informação concentra-se em práticas. A partir do conceito de ‘programa de pesquisa’ proposto por Imre Lakatos25. E isto acontece na Ciência da Informação por um lado. Para que se possa melhor estudar esses objetos. A reflexão epistemológica sobre a Ciência da Informação se faz instrumental em sua interdisciplinaridade para seu entendimento disciplinar. 5. teorias e metodologias advindas de diferentes campos científicos. González de Gómez (2001. as que definem as estratégias metodológicas de construção do objeto e que permitem a estabilização acumulativa do domínio. por decisão metodológica. consequentemente. que indica caminhos a serem evitados a fim de preservar o núcleo firme e impedir que o mesmo seja refutado. a tendência atual para reconhecer o “pluralismo metodológico próprio das ciências sociais e de um campo interdisciplinar”. maior é a dificuldade para estabelecer as heurísticas negativas. processos e fluxos informacionais complexos. GT1 143 . 2005) e. entre outras”. Observa. O núcleo é um conjunto de proposições convencionalmente aceitas. A heurística é um corpo de regras metodológicas integrado por uma heurística positiva.

145) destaca a relevância do problema para diversas disciplinas e campos de atuação profissional. Há cor no quadro. Obras de arte teriam um caráter de coisa . Trata-se. Esta. entretanto. 1992. para a qual “é essencial a compreensão do processo de criação artística”. que se manifestaria pela criação de um grupo de interesse em Arte e Humanidades na ASIS . por sua vez. 217-218) enfatiza o caráter estratégico da transferência da informação. A escultura está na madeira. Há som na obra falada. que se convencionou chamar “Informação em Arte”. 4). p. não seria mais que “uma palavra a que nada de real corresponde”. para a autora. (HEIDEGGER. 13) 26 Desde 1999. distribuição e uso”. Vickery (1986.. (GONZÁLEZ DE GÓMEZ. observou-se nas últimas décadas do século XX uma tendência para a busca de novos objetos e domínios de aplicação. a Sociedade adotou o nome “American Society for Information Science and Technology” e a sigla ASIST. Na obra. apresentamos de modo sintético a reflexão proposta por Martin Heidegger (1992. que devíamos até dizer antes ao contrário: o monumento está na pedra. 11) em “A origem da obra de arte”. e que teria recebido forte impulso com a criação do “The Getty Art History Information Program” pela Fundação Getty. Embora a disciplina tenha privilegiado tradicionalmente os domínios da Ciência e Tecnologia (em virtude da propalada urgência em recuperar a informação científica e tecnológica). O novo campo de estudo. que também necessitam representar informações com fins instrumentais. O caráter de coisa está tão incontornavelmente na obra de arte. p. Pinheiro (1996.. Há madeira na escultura talhada. para a autora.American Society for Information Science26. enfatiza a complexidade da tarefa de “representar e interpretar a obra de arte. As práticas voltadas à transferência da informação seriam. gerando constantemente novas treliças interdiscursivas.ou um “caráter coisal” . p. pela natureza estratificada e poli-epistemológica dos fenômenos ou processos de informação. 2000) Essa condição confere à Ciência da Informação uma configuração dinâmica e um caráter multidimensional que se manifestam pela incorporação de novos objetos.de saberes. que se apresenta como “um conjunto de ações sociais com que os grupos e as instituições organizam e implementam a comunicação da informação através de processos seletivos que regulam sua geração. Há sonoridade na obra musical. orientadas por valores que devem ser examinados à luz de um contexto de ação social. Entre estes.impossível de ser contornado ou ignorado: Há pedra no monumento. Pinheiro (1997. de uma nova área de pesquisa cuja origem estaria ligada às bibliotecas de arte. González de Gómez (1993. e por outro lado. p. está estreitamente ligado à área de representação do conhecimento e às questões teóricas a ela relacionadas. GT1 144 . O quadro está na cor. o filósofo se propõe a desvelar a essência da Arte. A questão da representação de obras de arte (vistas como documentos) em sistemas de representação de informação é apresentada a título de exemplo. p. resultante de conferências realizadas em 1936 e publicadas em 1950. trata-se de uma idéia à qual corresponderiam como coisas reais apenas as obras e os artistas. Para permanecermos na esfera da fenomenologia. p. no tempo e no espaço”. 255) ressalta a Arte.

A obra de arte. algo de outro. assim. mais. Esta última. 24) é a descrição de um par de sapatos de camponês. p. a meio caminho entre a coisa e a obra”. porque não tem a autosuficiência da obra de arte”. Neste sentido. o que não é feito diretamente. apresentada na figura 1. Figura 1 Figura 1 . na obra de arte. predominante no Ocidente. 1992. GT1 145 . portanto. porquanto determinado pela coisidade. é “meio coisa. que residiria em seu “caráter instrumental”.Par de sapatos. mas por meio de uma representação pictórica: uma pintura de Van Gogh. Vincent Van Gogh. menos. a segunda a define como “o que é perceptível nos sentidos da sensibilidade através das sensações”. (. 13-14) Na Modernidade ocidental predominariam três diferentes interpretações sobre o que é uma coisa: a primeira a interpreta como uma soma de características. 1992. “uma peculiar posição intermediária. teria sua origem na essência do útil. 1986. a seguir. (HEIDEGGER. uma coisa à qual adere esse algo a mais. distingue-se da mera coisa (como um bloco de granito) e do apetrecho ou utensílio (como um par de sapatos)..5 x 45)cm. o procedimento adotado por Heidegger (1992. Para buscar a essência do utensílio. e todavia. para Heidegger (1992. Amsterdam. Óleo sobre tela (37. p 20-21).) A obra é símbolo”. (HEIDEGGER. entretanto. ao mesmo tempo é obra de arte e. p. Ocupa. na medida em que é algo material em uma forma definida.. ela é sempre reveladora de alguma coisa a mais: “à coisa fabricada reúne-se ainda. ou daquilo que é fabricado expressamente para ser utilizado. e também com a obra de arte. 16-19) A obra de arte. p. não é apenas uma mera coisa. Este último revela afinidade com a mera coisa. ou como “aquilo em torno do qual se agrupam propriedades”. todavia. e a terceira concentra-se em sua materialidade: “a coisa é uma matéria enformada”. Museu Van Gogh. Ela seria. na medida em que é feita pelo homem.

portanto.Na escura abertura do interior gasto dos sapatos. pelo campo. A investigação em história da arte transforma as obras em objetos de uma ciência. substituído por aquele que leva da obra de arte à coisa. sempre iguais. Adverte. p. impossível de ser expresso por meio de escalas objetivas. insinua-se a solidão do caminho do campo. p. de modo geral. p. 600. 605) ao refletir sobre a indexação de obras de arte. Stam e Giral (1988) destacam o que chamam “dilema conceitual”. é certo. sobra o qual sopra um vento agreste. mesmo que se faça um esforço para evitar essa transferência. observando que só se pode expressar parcialmente aquilo que é comunicado pela arte. ou não estarão antes aqui como objetos do funcionamento das coisas no mundo da arte (Kunstbetrieb)? As obras tornam-se acessíveis ao gozo artístico público e privado.. O comércio de arte zela pelo mercado. As autoridades oficiais tomam a cargo o cuidado e a conservação das obras. São elas mesmas. Mas estarão elas porventura aqui em si próprias. e de seu “espaço essencial”. (HEIDEGGER. mas são aquelas que já foram (die Gewesenem). que é inútil buscar a essência da arte a partir do isolamento e descrição de sua coisidade. como as obras que elas mesmas são. pela noite que cai. que se nos deparam. a transferência para uma coleção retirou-as de seu mundo. GT1 146 . sugerindo que o caminho que conduz da coisa à obra de arte. A autora questiona a capacidade das palavras para expressar o assunto de uma entidade não verbal como a obra de arte. (HEIDEGGER.31) Por melhores que sejam a conservação e interpretação das obras. No couro. afirma o filósofo. Autores que se debruçaram sobre a questão levantaram alguns pontos que podem servir para dimensionar a complexidade da tarefa.. p. está a umidade e a fertilidade do solo. Scott (1988) enfatiza a própria natureza da obra de arte. ou sua verdade. Como aquelas que foram. estão perante nós. representar uma obra de arte em um sistema de recuperação de informação implica em ir ao encontro de algo que já não é mais. e advertindo para a existência de uma “realidade indizível” impossível de ser traduzida por palavras-chave. fracassou”. No entanto. deve ser invertido. Na gravidade rude e sólida dos sapatos está retida a tenacidade do lento caminhar pelos sulcos que se estendem até longe. p. aceito como de apreensão intuitiva e. 25) Com esse procedimento descritivo e interpretativo. 30-31) atinge a essência do utensílio sapato. As obras não são mais o que foram. permanecem apenas enquanto tais objetos. no âmbito da tradição e da conservação. vêm as próprias obras ainda ao nosso encontro? (HEIDEGGER. Críticos e conhecedores de arte ocupam-se delas. 1992. através dos conceitos habituais da coisa. 1992.31-32) Do ponto de vista fenomenológico. A partir daqui. cujo valor é. Essa intradutibilidade é enfatizada por Svenonius (1994. Mas no meio de toda essa manipulação. Sob as solas. Heidegger (1992. ou seja. fita-nos a dificuldade e o cansaço dos passos do trabalhador. entretanto. 1992. “A tentativa de apreender o caráter coisal da obra. o mundo das obras já não existe mais: A subtração e a ruína do mundo não são reversíveis. O filósofo ressalta a impossibilidade de tornar as obras acessíveis em si: As próprias obras encontram-se e estão penduradas nas coleções e exposições. e que consistiria em traduzir para uma linguagem verbal uma entidade de natureza não verbal.

principalmente quando se voltam para a descrição de fenômenos e comportamentos em diferentes configurações sociais. em um confronto inevitável com as limitações inerentes aos modelos técnicos. cujo caráter reducionista torna-se ainda mais evidente diante da singularidade do objeto em questão. CONSIDERAÇÕES FINAIS A adoção de métodos fenomenológicos na Ciência da Informação. é preciso cotejá-las com os diferentes momentos do campo em sua existência formal. via de regra. As premissas e metodologias fenomenológicas encontram-se infletidas nesses campos quando. são acionados os referenciais da relação noética-noemática. significativo e permeado pela intersubjetividade contemplando. para a compreensão de um dado fenômeno. 1996. da redução transcendental e da empatia. Suas transformações. e são acionadas principalmente quando nos dedicamos a questões que privilegiam a essência dos fenômenos no âmbito da linguagem. o fenômeno informacional sob diferentes abordagens e priorizando as descrições da experiência de vida (Erlebnis) no mundo da vida cotidiana (Lebenswelt). 1978) e. quando nos GT1 147 . uma abertura do ser humano para entender a vivência a partir do outro. aparentemente duas vertentes fenomenológicas são exploradas com maior freqüência: aquelas pautadas nas metodologias desenvolvidas para e nas ciências sociais e as abordagens hermenêuticas. Há que se voltar para a essência construindo uma descrição significativa do fenômeno objetivado tal como vivenciado no mundo da vida. Trata-se de privilegiar a análise dos modos por meio dos quais os agentes sociais vivenciam a cotidianidade e impregnam de significados suas ações. da intencionalidade. (cf. p. constitui-se “uma postura diante do mundo” (BOEMER. GIDDENS. das propostas desenvolvidas por Berger e Luckmann (1998). reformulações e relação intrínseca com diferentes campos científicos ao longo do tempo sugerem que as metodologias fenomenológicas encontram-se presentes em diferentes momentos da disciplina. utiliza-se de procedimentos interpretativos e relativistas privilegiando um “real” subjetivo e o social como construção que enseja o emprego dos procedimentos fenomenológicos. sobretudo. A pesquisa qualitativa. 87). Sob este ângulo e sem desconhecer as distintas visões que integram as metodologias no ambiente da Ciência da Informação. posteriormente. Essa face fenomenológica encontra-se. assim como nas Ciências Humanas e Sociais. 1994. 6. Quanto às premissas e metodologias fenomenológicas no seio da Ciência da Informação. da informação no mundo da vida e. 1998) Os estudos e pesquisas que privilegiam metodologias inerentes às ciências sociais derivam da influência da sociologia compreensiva iniciada por meio das reflexões de Schutz (1967. isto é: a adoção do viés fenomenológico é um debruçar-se sobre o vivido dos sujeitos efetuando uma reflexão sobre as coisas tal como elas se manifestam no mundo da vida.Estudos no âmbito da Informação em Arte implicam ainda. desse modo. essencialmente indutiva. Distingue-se um Lebenswelt já constituído. nas pesquisas de cunho qualitativo que balizam estudos interpretativos e exploratórios.

M. Novas Regras do Método Sociológico. n. alerta para os elementos axiais das premissas e metodologias que adotam de modo apropriado o ponto de vista fenomenológico. Datagramazero . 22. DERRIDA. BOEMER. Petrópolis: Vozes. GT1 148 . Para Derrida (1994. DARTIGUES. Para uma reflexão epistemológica acerca da Ciência da Informação. 1994.5. Perspectivas em Ciência da Informação. Anais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. aquilo que simultaneamente nos une e separa teórica e conceitualmente: o fenômeno Informação. p. p. 286 p. Rio de Janeiro: ANPAD. Neusa Rolita. LUCKMANN. 1. 2000. “a fenomenologia só tem sentido se uma apresentação pura e originária for possível e original”.6. Revista Latino Americana de Enfermagem. 283-296. Thomas. 35). 2001. _____________________ . 83 – 94. v. 1994. CAVEDON. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERGER. André. IN: ENCONTRO DA ANPAD. 1973. Enfim. 1. A Representação do Conhecimento e o Conhecimento da Representação: Algumas Questões Epistemológicas. Tal como Heidegger. A condução de estudos segundo a metodologia de investigação fenomenológica.Revista de Ciência da Informação. Anthony. p. A voz e o fenômeno. _____________________ . Ribeirão Preto. Júlio. Ciência da Informação. M. 6. 1998. Brasília: IBICT. GONZÁLEZ DE GÓMEZ.. p. A Construção Social da Realidade: tratado de Sociologia do Conhecimento. 25. 1996. n. 1. A adoção das premissas e métodos fenomenológicos pode ser um ponto de partida privilegiado para a configuração das essências e das origens em um contexto sócio-cultural que valoriza cada vez mais o contingente e o secundário em detrimento do essencial e originário. se é que é possível. A fenomenologia de Husserl como fundamento da filosofia. Recursos Metodológicos e Formas Alternativas no Desenvolvimento e na Apresentação de Pesquisas em Administração. 2001. Jacques. FRAGATA. p. ________________.. 217-222. Peter L. 70) destaca que o essencial da fenomenologia “não é ser uma ‘corrente’ filosófica real. Lisboa: Gradiva.3. A metodologia da pesquisa no campo da Ciência da Informação. Mais elevada do que a realidade está a possibilidade. 5-18.1.N. Campinas. n. p. v. set/dez 1993. ao ir de encontro a tudo aquilo que advém do território fenomenológico devemos estar atentos a sua fonte primordial expressa nas palavras de Husserl: “às próprias coisas!”27 7. Sociologia e Teoria Social: encontros com o pensamento social clássico e contemporâneo. v. jan.encaminhamos em um plano transcendentalista a reflexões destinadas a descrever significativamente. A compreensão da fenomenologia depende unicamente de se apreendê-la como possibilidade”. 1959. Braga: Livraria Cruz. 2001. p.. São Paulo: Fundação Editora da UNESP. n. 27 “Zu den Sachen selbst!” no original. Heidegger (1988. O que é a fenomenologia? Rio de Janeiro: Eldorado. GIDDENS. In: Política. etnometodologia e hermenêutica. 1998. Garfinkel. 2. v. CD ROM.

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utilizando-se. Durante a migração de um conceito. quando um determinado conceito é migrado por pesquisadores distintos. From the results it is clear that. there is no one definition that reduce its GT1 150 . não permite que o autor adote uma postura teórica e metodológica clara. especially when researchers in Information Retrieval Systems appropriating concepts from Cognitive Science. Due to its long border discipline. Monica Nassif Erichsen Resumo: Este artigo discute a dinâmica e o impacto da migração conceitual no âmbito da Ciência da Informação sob a ótica da análise discursiva. is proposed to investigate the migration of concepts between the areas of Information Retrieval Systems and Cognitive Sciences. deformations occur in the direction of the same concept as we migrated by different researchers. especialmente quando os pesquisadores em Sistemas de Recuperação da Informação se apropriam de conceitos das Ciências Cognitivas. tem-se como proposta investigar a migração de conceitos entre as áreas de Sistemas de Recuperação da Informação e Ciências Cognitivas. from the perspective of discourse analysis. os princípios da Análise do Discurso. Partindo da hipótese de que a migração é realizada sob a égide de diversas formações discursivas que se imbricam para estruturar o conceito migrado. conseqüentemente. Palavras-chave: Sistemas de Informação.COMUNICAÇÃO ORAL MIGRAÇÃO CONCEITUAL ENTRE SISTEMAS DE RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO E CIÊNCIAS COGNITIVAS: UMA INVESTIGAÇÃO SOB A ÓTICA DA ANÁLISE DO DISCURSO Fernando Skackauskas Dias. Ciências Cognitivas. não havendo uma definição que reduza a sua ambigüidade. Information Science is often seen struggling with concepts that migrate between their adjoining areas. Assuming that migration is performed under the umbrella of various discursive formations that overlap the concept migrated. ocorrem deformações no seu sentido. During the migration of a concept. as a methodological tool. the principles of Discourse Analysis. a Ciência da Informação se vê frequentemente às voltas com conceitos que migram entre as suas áreas limítrofes. não é possível saber a qual de vários domínios possíveis ele está associado e. Devido à sua extensa fronteira disciplinar. As corpora research was analyzed articles published in national and international Information Science journals. como ferramental metodológico. Análise do Discurso Abstract: This article discusses the dynamics and impact of conceptual migration on the area of Information Science from the perspective of discourse analysis. using. Como corpora de investigação foram analisados artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais da Ciência da Informação. Pelos resultados é possível constatar que.

DIAS & NASSIF. Como exemplo. verifica-se. Contudo. O que é possível identificar é que. em vários momentos. quando ElHani & Queiroz (2007) discutem sobre o conceito de “emergência” no estruturalismo da semiose computacional.] Tendo em vista os debates e as confusões sobre o tema ao longo do século XX. Portanto. conseqüentemente. Discourse Analysis 1 INTRODUÇÃO Em um cenário amplo é possível constatar que as ciências evoluem numa determinada dinâmica que.ambiguity. invariavelmente. os estudos sobre Sistemas de Recuperação da Informação e Ciências Cognitivas têm se sobressaído pela forte influência de uma sobre a outra (DIAS. pouca discussão é encontrada sobre o significado de ‘emergência’. Cognitive Science. outra característica inerente ao desenvolvimento das pesquisas científicas GT1 151 . 2007. uma forte migração de conceitos. it is not possible to know which of several possible areas it is associated.. a informação é objeto de interesse de diversas ciências e. a migração conceitual é inevitável e necessária para a evolução das ciências. 2007. Oliveira Filho (1995) explica que. pg. Sendo assim. comprometendo a transmissão do conhecimento. Ou seja. Segundo Morin (2007) haveria pouca evolução das ciências se não fosse a “circulação clandestina da viagem dos conceitos”. como Vida Artificial e Robótica Cognitiva. transcendendo fronteiras e transbordando conceitos. Keywords: Information Systems. embora segmentos destes campos cheguem a ser descrito como ‘computação emergente’ [.94). podendo interferir na comunicação das ciências...]. 2008) e.entre outras formas de “ecletismo” da produção científica . a Ciência da Informação. a pergunta desta pesquisa é: como se formam as migrações conceituais realizadas pelos pesquisadores de Sistema de Recuperação da Informação quando estruturam suas teorias com base nas Ciências Cognitivas? Por outro lado. and consequently does not allow the author adopts a clear theoretical and methodological approach. devido à sua extensa fronteira disciplinar. 2006. ‘emergente’. uma forte migração de conceitos entre elas. entre as áreas que circundam a Ciência da Informação. O autor explica que existe uma “patologia metodológica” . observa-se uma ruptura entre os seus limites. mesmo que estas migrações paguem certo preço ao comprometer a comunicação do conhecimento. os pesquisadores procuram agrupar teorias advindas de diversas áreas para desenvolverem suas investigações. [. criando novas implicações e alterando abordagens.. eles citam: O termo ‘emergência’ (e derivados) tem sido largamente usado em diversos campos de pesquisa. Por outro lado. (EL-HANI & QUEIROZ. Nesse sentido. Como mostram os estudos de Le Coadic (1993). o fluxo de informações e conceitos entre áreas científicas é intenso e transforma teorias. a partir do momento em que se utiliza um determinado conceito entre uma ciência e outra pode haver uma alteração do seu significado.que ocorre quando os cientistas formulam suas teorias e migram conceitos. carrega fortemente em si a influência de diversas áreas do conhecimento que tem como interesse o fenômeno informacional ocorrendo. é fundamental ter clareza sobre o conceito”. nestes campos.

como ocorre em qualquer área da atividade humana. a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva. pg. é justamente neste espaço discursivo28 que ocorre a formação de conceitos entre áreas científicas. entendida no seu sentido amplo de instrumento de comunicação verbal ou não-verbal. o fazem sob determinadas “condições ideológicas” e não são destituídos de intencionalidade. de idéias que revelam a compreensão que uma dada classe tem do mundo.é que. mas também ao recorrerem a conceitos oriundos de outras ciências. que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma data visão de mundo. a análise do espaço de trocas entre discursos se apresenta como um aparato metodológico que pode dar conta de penetrar no espaço de circulação e troca de conhecimento e compreender a estrutura da migração conceitual. Nesta perspectiva. portanto. o fazem regidos por diversas condições ideológicas existentes em um espaço discursivo advindo de diversas áreas. quando os pesquisadores da Ciência da Informação investigam sobre Sistema de Recuperação da Informação e migram conceitos das Ciências Cognitivas. um conjunto de discursos que se imbricam para construir um conceito formado da interação entre as ciências. Os conceitos analisados foram: Rizoma e Redes Neurais. essa visão de mundo não existe desvinculada da linguagem.32) descreve: Uma formação ideológica deve ser entendida como a visão de mundo de uma determinada classe social. cria-se um “espaço discursivo”. Considerando que toda ideologia cria um discurso. o princípio do “interdiscurso”. Inicialmente foram agrupados pares de artigos que utilizam o mesmo conceito central na estrutura da metodologia da pesquisa. Partindo do exposto. foram selecionados oito artigos. Processo Cognitivo. ao reformularem conceitos entre uma ciência e outra. As possíveis ideologias a que se submetem os pesquisadores não ocorrem somente na escolha do objeto de análise ou nas mais diversas metodologias de investigação. 2007). Para a construção do corpus de investigação foram selecionados artigos nacionais e internacionais publicados em periódicos científicos da Ciência da Informação. GT1 152 . e que a partir do momento em que a migração conceitual advém de diversas áreas. estabelecido por Maingueneau (2008). sendo quatro internacionais e quatro nacionais. Fiorin (2007. O critério de seleção baseou-se na identificação dos artigos que tem como característica central pesquisar sobre Sistema de Recuperação da Informação e estruturarem suas metodologias utilizando-se de conceitos oriundos das Ciências Cognitivas. ou seja. no conjunto dos discursos que interagem em uma dada conjuntura. Como não existem idéias fora dos quadros da linguagem. Maingueneau (2008). tem-se como recorte os “espaços discursivos” que é um conjunto de formações discursivas que estão em relação de concorrência no sentido amplo. Carga Cognitiva. 28 Dentro do no universo discursivo existe o espaço discursivo. O que se pode considerar. tem-se como hipótese que. um conjunto de representações. que tem como alvo a compreensão da interdiscursividade constitutiva. Considerando esse princípio. Por isso. os pesquisadores são levados por ideologias (FIORIN. é que os pesquisadores. ou seja. isto é. Ao final do processo. isto é.

tem sido permeada por pesquisas de diversas origens (De Mey. Inicialmente. quando os pesquisadores investigam e publicam suas teorias adotando e adaptando vários conceitos. hermenêuticas ou dialéticas. Como ferramental metodológico será utilizado os princípios da teoria da Análise do Discurso de Maingueneau (2008). conforme definido por Oliveira Filho (1995). (OLIVEIRA FILHO. 3 OBJETIVO O objetivo deste trabalho é realizar uma análise comparativa entre artigos de Sistemas de Recuperação da Informação que realizam a migração de um mesmo conceito advindo das Ciências Cognitivas procurando identificar a existência de uma forma de ecletismo conceitual.. Portanto. busca-se investigar se.. alterando os seus significados. 1995. GT1 153 . o ecletismo dá uma função teórica a expressões descritivas ou o oposto. como Oliveira Filho (1995) cita: A metodologia das ciências sociais apresenta algumas dificuldades que não são exclusivas de determinadas correntes.] O ecletismo como patologia metodológica pode ser definido pelo uso de conceitos fora dos seus respectivos esquemas conceituais e sistemas teóricos. Por fim.263). caracterizando como patologia metodológica. incorrem no risco de “deformarem” a idéia inicial. O fenômeno tem três aspectos estruturais. Estas migrações entre áreas impactam na comunicação das pesquisas desenvolvidas. pg. não permitiria saber a qual de vários conceitos possíveis está associado [. 1995.] sem que o cientista social perceba que a sua linguagem pode dificultar a comunicação” (OLIVEIRA FILHO. no ecletismo têm-se termos vazios de significado e que não podem funcionar como instrumental de reconstrução teórico-metodológica. sejam analíticas. como ele cita: “A ocorrência do termo sem definição que reduzisse ou eliminasse a sua ambigüidade.263). Oliveira Filho (1995) explica o ecletismo como “patologia metodológica” como sendo o uso de conceitos fora dos seus respectivos esquemas. 4 SISTEMAS DE RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO E CIÊNCIAS COGNITIVAS A história da relação entre Ciências Cognitivas e Sistemas de Recuperação da Informação. mas estão presentes em todas elas. pois essa “adaptação” pode gerar “distorções” na idéia central do conceito e toda a comunicação científica pode ser comprometida. Isto se trata de uma das conseqüências mais notórias do uso inadequado dos conceitos. alterando os seus significados. pg. no âmbito da Ciência da Informação. Em seguida.. o ecletismo impede que o autor adote claramente uma postura teórico-metodológica forte. existe uma deformação do seu sentido central. o reducionismo e o dualismo. Estas patologias metodológicas são o ecletismo. no momento da estruturação de determinado conceito migrado entre artigos distintos. [.. tendo grande dificuldade em apreender diferenças entre posições adotadas por autores e escolas com respeito às estratégias gerais de investigação.2 PROBLEMA O problema reside em que.

56). é fundamental que o fator “humano” ocupe um lugar de destaque nas mais diversas pesquisas realizadas sobre Sistema de Informação. for the information processing device. GT1 154 . O que acontece é que. o que reflete na modificação no seu estado “anômalo” de conhecimento. a informação que se percebe no primeiro momento é fundamental na definição de uma categoria.5). (MAIMONE & SILVEIRA.1992. pg. Diante desse quadro. Na etapa de indexação ocorre um acoplamento dos sistemas aos aspectos cognitivos no momento da compreensão do texto e a composição da representação do documento. Como descreve Maimone & Silveira (2007): A Ciência da Informação definida como ciência interdisciplinar propõe diversos pontos de intersecção com outras áreas do conhecimento que lhe são correlatas. Os paradigmas da Ciência da Informação são descritos a partir das concepções teóricas de cada época. Portanto. Nas três etapas pela qual o processo de indexação é realizado (análise do documento. se as atividades pudessem simular processos cognitivos ou percepções sensoriais”. Como citado por Lima (2003. 1996. pg. Neste sentido. mas não contido em si mesmo. cita duas características fundamentais da sua importância: a incerteza está presente na interação em um Sistema de Recuperação da Informação associada com a interpretação tanto do usuário quanto do sistema e as pressuposições e intencionalidade entre as mensagens trocadas são vitais para a percepção e o entendimento de tais mensagens. o conhecimento do usuário sofre alterações diante a interação com a informação extraída dos Sistemas de Recuperação da Informação. independente de qualquer estrutura que envolva um Sistema de Recuperação da Informação. atualmente. Ingwersen (1996). constituted a world model. Lima (2003) descreve que. Segundo o autor. (INGWERSEN. Ou seja. as áreas de Sistemas de Recuperação da Informação e Ciências Cognitivas têm estágios diferentes de evolução. Ingwersen (1996) cita: The cognitive point of view in Information Sciences implies that each act of information processing – whether perceptual or symbolic – is mediated by a system of categories and concepts witch.83): “As habilidades intelectuais poderiam ser harmonizadas de uma maneira mais eficiente. 2007). passando de um “processo cognitivo individual a um processo cultural e social de construção da realidade. o modelo cognitivo dos usuários pode ser dinâmico. 2006. entre as diversas referências sobre Sistemas de Recuperação da Informação e as Ciências Cognitiva. Neste sentido. Ingwersen. há uma interação com os aspectos cognitivos do profissional da informação. ocorre um interesse renovado por ambos os temas (Dias. 2003. pg. Mas. pg. com o desenvolvimento dos estudos das Ciências Cognitivas. que organiza conceitos baseando-se parcialmente na psicologia do pensamento” (LIMA. a maneira como são categorizadas as informações sofreu forte modificação.82). De acordo com Ingwersen (1996). pois a categorização leva em conta as informações do mundo a que pertencem aqueles que organizam a informação e aqueles que a buscam. identificação dos conceitos e tradução em indexação). aspectos informacionais tangenciam com processos da psicologia cognitiva a fim de desvendar os “mecanismos” da mente humana sob o ponto de vista social ao qual se apresentam. não ocorrendo necessariamente de forma simultânea. 2007. ou seja. 1996).

Portanto. Ou seja. O que Maingueneau denomina. as regras de formação dos enunciados produzidos pelos sujeitos. Portanto. A análise de um discurso pelos diversos discursos que instalam (dialogismo). intertextualidade. (MAINGUENEAU. 5 METODOLOGIA Maingueneau (2008. sabendo o que pode ou não ser dito ai. A análise se baseia em três tipos de decomposição: inicialmente no discurso indireto. Dado que o interdiscurso precede o discurso no sentido de que “o discurso introduz o outro no seu interior. pg. pode ser disposto em uma mesma formação discursiva: seria igualmente necessário compreender como. Estes planos determinam em que nível do texto deve ser realizado a análise do discurso. ou seja. enunciação).22). A análise se operacionaliza pela decomposição do texto em suas partes constitutivas. a abordagem de Maingueneau apresenta-se como apropriada ao objetivo da pesquisa. partilhar um conhecimento tácito das fronteiras de uma formação discursiva. pois procura compreender a formação de um dado discurso (intradiscurso) – discurso científico predominante – pela relação “entre” discursos (interdiscurso) – Sistema de Recuperação de Informação e Ciências Cognitivas – e as suas relações como “sistema de regras” (interincompreensão). com o objetivo de perceber o valor e o relacionamento que guardam entre si e no interior do texto. usa de suas próprias palavras para remeter a outra fonte do “sentido”. Um dos principais fundamentos da teoria de Análise do Discurso de Maingueneau (2008) é a “interincompreensão”. pg. pg. em determinado lugar. com base em certas hipóteses. para melhor compreender e interpretar o sentido da obra como um todo completo e significativo. a competência discursiva permite esclarecer a articulação do discurso e da capacidade dos sujeitos de interpretar e de produzirem enunciados que decorram dele. então. no interior de um discurso. temas. no momento em que GT1 155 . a primeira etapa é definir os planos do discurso contidos no artigo que servirão de referência. 2008. quando o autor do texto se posiciona como tradutor. instâncias. discurso é a junção de um sistema de restrições de formação semântica (formação discursiva) e um conjunto de enunciados produzidos de acordo com um sistema (superfície discursiva). apresenta-se como uma maneira de fazer compreender a migração conceitual entre Sistema de Recuperação de Informação e Ciências Cognitivas. Como forma de operacionalização da análise dos artigos. de competência discursiva são os sistemas de restrição única – a semântica global – que determina. 19) salienta que Discurso é um “sistema de regras que define a especificidade de uma enunciação”. Em seguida quando se trata de um discurso direto. 22). a interincompreensão é a “forma” com que os discursos se estabelecem no seu corpo. traduzindo enunciados nas próprias categorias” (Maingueneau.mais e mais pesquisadores em Sistemas de Recuperação da Informação têm desenvolvido suas investigações recorrendo a conceitos das Ciências Cognitivas. ele considera formação discursiva como um conjunto de coerções semânticas globais (vocabulários. Seguindo sua estrutura teórica. 2008. Como ele cita: Não basta constatar que um conjunto de textos. uma população de autores pôde produzir enunciados similares.

inicialmente foram selecionados os editores que publicam periódicos da Ciência da Informação. Além do filtro realizado. Por fim.br. Por fim. negrito e representado como elipse.periodicos. Para tal. seguindo as regras estipuladas acima. onde os documentos retidos devem ser homogêneos. sem que haja interrupção do transcorrer discursivo. também foi usado como parâmetro somente os arquivos que estão disponíveis em “texto completo” no formato PDF. A linha que une o conceito central aos termos adjacentes é unida pela descrição “utiliza termo”.capes. onde a amostragem diz-se rigorosa se a amostra for parte representativa do universo inicial. no caso de uma conotação autonímica o autor do texto inscreve as palavras do outro no seu discurso. As regras utilizadas para estruturar o mapa seguem as diretrizes: O conceito central está escrito em letras maiúscula. “Cognition” e “Cognitive” para as editoras internacionais e “Sistemas de Informação”. mostrando.http://www. a “regra de pertinência”. A seguir a “regra da representatividade”. foram utilizados os princípios estabelecidos na “Análise de Conteúdo. de uma entonação específica ou por um comentário. uso do itálico.gov. uma glosa. a cada área estão conectados quais foram os autores. A fonte de obtenção dos trabalhos foi o Portal CAPES . A primeira seleção dos artigos inicia-se com a procura daqueles que investigam Sistemas de Recuperação da Informação e Cognição. fez-se uma busca na opção “Textos Completos” utilizando-se as palavras-chave “Information Science” e “Ciência da Informação”. As regras gerais de Bardin (1977) seguem as seguintes etapas: Leitura flutuante: primeiro contato com os documentos a analisar e em conhecer o texto. Para esse filtro. O critério de escolha do conceito considera o conceito como o mais significativo e que sustenta a investigação proposta. onde os documentos retidos devem ser adequados. A segunda etapa da seleção dos artigos baseia-se na busca por aqueles que concentram suas investigações em Sistemas de Recuperação da Informação e se apropriam de conceitos das Ciências Cognitivas. é descrita a formação conceitual sob forma gráfica de Mapa Conceitual. A seguir é feita a escolha dos documentos pela “regra da exaustividade”. em cada editora foi realizada a busca por artigos usando como filtro as palavras-chave: “Information Retrieval System”. A seguir a “regra da homogeneidade”. recortando as palavras do outro e citando-as. foram selecionados pares de artigos que estruturam suas metodologias utilizando como eixo central o mesmo conceito.o autor do texto coloca-se como “porta-voz”. “Cognição” e “Cognitivo” para as editoras nacionais. Em torno do conceito central estão distribuídos os termos utilizados para sua formação. 6 PROCESSO DE SELEÇÃO DOS ARTIGOS Para se estruturar o corpus de investigação. Cada conceito ou termo adjacente ao conceito central está associado a uma “Área de origem” e representa de que área foi migrado o conceito. que desconsidera os artigos que não abordam o objetivo da análise. Para a realização da pesquisa no Portal. Como apoio para investigação. Artigo GT1 156 Conceito . seja por aspas. A partir da seleção dos artigos. Por fim. No Quadro 1 estão descritos os artigos nacionais e Quadro 2 estão descritos os artigos internacionais.

Nigel. 65. Genevieve. Eaglestone. No. Vol. pp 2167–2187. 9-30. Dez/2003. jan./abr. Andrew./abr. 2005 Distribution of Cognitive Load in Web Search Jacek Gwizdka Journal of the American Society for Information Science and Technology.. 4. 37. 1. Madden. os fundamentos da Biologia GT1 157 . 3. 2007 Towards Metacognitively Aware IR Systems: An Initial User Study Gorrell. 2008 A Organização Virtual do Conhecimento no Ciberespaço MONTEIRO. 6 ANÁLISE Conceito Processo Cognitivo Carga Cognitiva 6. Volume 61. Liliane Vieira & SILVA. Edberto.1 Análise do conceito Rizoma O conceito “rizoma” estruturado no artigo “As redes cognitivas na ciência da informação brasileira: um estudo nos artigos científicos publicados nos periódicos da área” de Pinheiro & Silva (2008). v. n. centraliza-se. n. Holdrige. 2006 Rizoma Rede Neural Artigo Human Perception And Knowledge Organization: Visual Imagery Barat. 25-30. pg. Inf. Ci. Pg. Agnes Hajdu Library Hi Tech. agregando. Brasília.As redes cognitivas na ciência da informação brasileira: um estudo nos artigos científicos publicados nos periódicos da área PINHEIRO. Issue 11. Silvana Drumond. 3. 35. v. Ford. set. Journal of Documentation. n. 25. 446-469. fundamentalmente. n.. 3. pg. pg. DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação. Brasília. 38. . 2009. v. Inf. Redes neurais e sua aplicação em sistemas de recuperação de informação FERNEDA. Ci.. Pg. jan. No.824-833. O poder cognitivo das redes neurais artificiais modelo ART1 na recuperação da informação CAPUANO. 6. v. Edna Lúcia da Ci. no sentido de “Redes Egocêntricas”. 2009 Testing User Interaction With A Prototype Visualization-Based Information Retrieval System Koshman./dez. Vol. Peter. Ethel Airton. também a este termo. Sherry Journal of the American Society for Information Science and Technology. 338-351. Inf. Brasília. Barry. “Redes Cognitivas” e “Redes de Citação” como alusão ao princípio de rizoma fundado na botânica e migrado por Deleuze e Guattari (1997) para a filosofia. 2010. 38-50. 1.

A estruturação central para se construir a idéia de redes de citações (cognitivas). e sim de dimensões. ou seja. neste caso. originados das áreas da Ciência da Informação (abordagem cognitivista). as autoras estruturam a idéia de Cognição acoplando ao conceito de Rizoma. Ou seja. utilizada por Maturana e Varela (1995) e Maturana (2001). visão predominantemente contemporânea da Biologia do Conhecer. a Filosofia e a Ciência da Informação. A teoria da autopoiese tem como idéia básica que os seres vivos produzem-se continuamente a si mesmos e que seus componentes estão dinamicamente relacionados em uma rede contínua de interações (PINHEIRO & SILVA. Portanto. Já o artigo “A Organização Virtual do Conhecimento no Ciberespaço” de Monteiro (2003) fundamenta o mesmo conceito com base nos princípios de “virtualidade” e “materialidade”. ele se constrói no âmbito do interdiscurso. Considerando que o Discurso é produto e conjunção de diversos discursos que o precedem (ou sucedem). “Circularidade Cognitiva” e “Densidade”. que conectam qualquer ponto independentemente da sua natureza. “Redes Egocêntricas”. 2008.39). não tem começo nem fim. conforme citado: O virtual é o principal atributo do ciberespaço e que melhor o descreve. da Filosofia e da “Unidade Autopoiética” advinda da Biologia do Conhecer. o qual é formulado a partir dos conceitos de “Redes de Citação”. acrescentando o fato de que “o conhecimento de um Sistema de Informação produz-se continuamente a si mesmo e que seus componentes estão dinamicamente relacionados em uma rede contínua de interações”. e se reportam à teoria da autopoiese. para explicar a cognição. Ele dispõe o conhecimento e a informação em um espaço e estado contínuos de modificação. havendo uma deformação do conceito central da metodologia entre os artigos.do Conhecer de Maturana (1998). comprovando a heterogeneidade que está na base mesma do discurso. não é feito de unidades. a adoção do mesmo termo em ambos os artigos são direcionados por discursos distintos que se agregam para formar o mesmo conceito. as redes de citação podem ser denominadas redes cognitivas. Portanto. a formação discursiva do principal conceito estruturado pelas autoras advém dos discursos conexionistas e da Biologia do Conhecer. em função GT1 158 . é formada pela idéia de circularidade do conhecimento de Maturana (1998). a formação do conceito é “atravessada” por outros conceitos no sentido de adaptá-lo à pesquisa em questão. que tem como objetivo mapear as Redes de Publicação em forma de Sistemas de Informação. sendo que agrega ao conceito central estabelecido um sentido de “fluidez” na acepção de “continuidade”. mas possui um meio pelo qual cresce e se estende” é um simulacro sobre as Ciências Cognitivas. diferentemente do primeiro.tendo como objetivo final o mapeamento das comunidades estabelecidas pelas citações. pois são nós e relações que possibilitam representar o conhecimento. Inicialmente. pois é uma rede que continuamente cria a si mesma. pg. e não mais de “circularidade” como no primeiro. conforme citação: Dessa forma. formulou-se o conceito de “Redes Cognitivas” a partir do paradigma da complexidade – filosofia . No primeiro. O discurso cognitivista predominante é o uso de metáfora para Redes que “constitui-se de nós interligados. servindo a filosofia de “ponte” entre as duas linhas de formações discursivas da cognição. quando associa essa noção de rede aos conceitos de “unidade Autopoiética” e “circularidade cognitiva”. são utilizadas três áreas: a Biologia do Conhecer.

pg. O mapa cognitivo da Figura 1 e Figura 2 mostra a formação do conceito Rizoma em ambos os artigos. Neste sentido. a autora utiliza como “ponte” entre virtualidade do ciberespaço e a representação materializada os princípios do Cognitivista. Tal fato reforça o princípio de ecletismo como patologia metodológica de Oliveira Filho (1995).de sua plasticidade e fluidez. FIGURA 1: Mapa conceitual do conceito Rizoma do artigo “As Redes Cognitivas na Ciência da Informação Brasileira: Um Estudo nos Artigos Científicos Publicados nos Periódicos da Área” GT1 159 . (MONTEIRO. permitindo a interatividade e organizando o conhecimento em forma de rizoma. é possível constatar que o conceito é estruturado diferentemente por força de imbricação de discursos distintos na sua base.1). um novo tipo de escritura. descrita por Deleuze e Guattari. Portanto. No segundo artigo a autora aplica sua perspectiva à Ciência da Informação pela “materialidade” que a virtualidade entendida em Rizoma com os documentos dispersos pelo ciberespaço. 2003.

2009) e “Redes Neurais Artificiais e sua Aplicação em Sistemas de Recuperação da Informação” (Ferneda. conforme citado: GT1 160 . 2006). como também agrega os fundamentos do conexionismo associando as camadas de neurônios aos termos de busca.FIGURA 2: Mapa conceitual do conceito Rizoma no artigo do artigo “A Organização Virtual do Conhecimento no Ciberespaço” 6. O primeiro artigo procura estruturar a concepção de Rede Neural acoplando a ele os princípios da Biologia do Conhecer de Maturana e Varella (1998). é possível constatar que ele é estruturado diferentemente em ambos os artigos. recorrendo fundamentalmente aos princípios da Biologia do Conhecer em forma de conotação autonímica. indexação e documentos.2 Análise do conceito Redes Neurais Analisando a utilização do conceito “Redes Neurais” nos artigos “O poder cognitivo das redes neurais artificiais modelo ART1 na recuperação da informação” (Capuano.

[. adaptando-se ao ambiente. GT1 161 . Ciência da Informação e Ciências Cognitivas. Esse paradigma se contrapõe ao tradicional. No primeiro artigo. recorrendo aos princípios próximos ao de acoplamento e poder cognitivo de Maturana e Varella (1998). 2009. o autor deste artigo agrega um sentido mais forte do conexionismo adaptativo quando articula aos termos como “nó” e “conexão” o sentido de “ativação”. (CAPUANO. Pg 2). Para reconhecimento automático de padrões. considerando um aspecto dinâmico das Redes Neurais.Tendo como principal característica sua similaridade com os processos de aprendizado humano... Isto caracteriza fortemente a noção de interdiscurso estabelecido por Maingueneau (2008). pg. uma rede neural artificial pode ser vista como um grafo onde os nós são os neurônios e as ligações fazem a função das sinapses. baseado na lógica de primeira ordem e na heurística. caracterizando o interdiscurso. 2006. Portanto. entendendo que os seres vivos sobrevivem porque aprendem a se adaptar continuamente ao ambiente mutante. adaptando esse termo para o conceito de Redes Cognitivas. No segundo artigo utiliza o termo Rede Neural para estruturar a sua metodologia de pesquisa. fundamentalmente aos princípios da Biologia do Conhecer em forma de conotação autonímica. como sendo um ponto de entrada da Rede Neural. o autor utiliza o conceito de Neurônio. o autor estrutura sua teoria pelo paradigma de Rede Neural. quando o autor propõe o conceito de “Redes Cognitivas” recorre. O autor associa o termo à representação e relevância da informação à busca de um Sistema de Recuperação da Informação através da sua capacidade de “adaptar” aos seus parâmetros específicos. que tem como objetivo a simulação computacional de um Sistema de Recuperação da Informação composto por uma base de índices textuais. A estruturação conceitual é próxima ao do artigo analisado anteriormente. conforme mostrado abaixo: A habilidade de um ser humano em realizar funções complexas e principalmente a sua capacidade de aprender advém do processamento paralelo e distribuído da rede de neurônios do cérebro.17). O mapa cognitivo da Figura 3 e Figura 4 mostra a migração do conceito Rede Neural em ambos os artigos. que tem similaridade com os processos de aprendizagem humana. (FERNEDA.] De uma forma simplificada. o autor retoma igualmente aos princípios da Ciência da Computação. pois há uma imbricação de discursos distintos que se estabelecem em forma de aliança pelo simulacro que criam entre si. diferentemente do primeiro artigo. porque busca na própria natureza os processos de aprendizado. porém.

FIGURA 3: Mapa conceitual do conceito Rede Neural do artigo “O poder cognitivo das redes neurais artificiais modelo ART1 na recuperação da informação“ GT1 162 .

é possível constatar que ele é estruturado diferentemente em ambos os artigos. caracterizando. agrega a este conceito os princípios da Biologia do conhecer de Maturana (1998) referindo-se à assimilação da linguagem. 2007) e “Towards metacognitively aware IR systems: an initial user study” (Gorrell et al. O autor do artigo estrutura toda a sua metodologia em torno do conceito Processo Cognitivo. Tal fato corrobora com o princípio de interdiscurso estabelecido por Maingueneau (2008). No primeiro artigo.4 Análise do conceito Processo Cognitivo Analisando a utilização do termo Processo Cognitivo nos artigos “Human Perception and Knowledge Organization: Visual Imagery” (Barat. que significa a efetividade da similaridade lógica das características inferidas como relevantes no desenvolvimento do Sistema. Das CC. o autor estrutura o conceito “processo cognitivo” como um evento baseado nos princípios da psicologia clássica dos processos lingüísticos. 2008). o autor recorre aos termos Processos Cognitivos definindo a relação entre o tópico da pesquisa e o tópico da informação avaliada acoplando o termo Processos Lingüísticos. Para tal se faz recorrência a três áreas do conhecimento no sentido de “formar” o conceito advindo diretamente das CC. pois as suas formações advêm de discursos diferentes e modos diferentes de utilização do termo. portanto. Mas.FIGURA 4: Mapa conceitual do conceito Rede Neural do artigo “Redes Neurais Artificiais e sua Aplicação em Sistemas de Recuperação da Informação“ 6. como uma formação interdiscursiva. visual. conforme citado: GT1 163 .

Perceptual and linguistic symbols are in theory constituted differently. quando determinam o “processo cognitivo” em um Sistema de Recuperação da Informação. No segundo artigo o conceito “processo cognitivo” é considerado como um processo inferencial de natureza inconsciente. sendo então considerado uma estratégia cognitiva de leitura. que o que importa não é diretamente o reforço ao processo. 3). pg. inputs. language as a phenomenon of life participates in human evolutionary history. Portanto. há uma referência ao psicologismo clássico. such as level of search experience. caracterizando uma forma de interdiscurso. (BARAT. (BARAT. e/ou também analisar a relação entre a forma de regular a própria atividade e a resolução dada a ela. O mapa cognitivo da Figura 5 e Figura 6 mostra a migração do conceito Processo Cognitivo em ambos os artigos. in the immediate dimension of reacting to external reality – that which happens to us – and second (unique to humans and perhaps some other primates) in the dimension of explanation. Other symbols come from different modes. se Fez necessário agregar a ele uma perspectiva tanto do psicologismo clássico das Ciências Cognitivas quando aos fundamentos contemporâneos.3). conforme citado: Cognitive factors relating to individual searchers have also been found to be influential in affecting searching. [�]Osman and Hannafin (1992) suggest that metacognition is “awareness of one’s own knowledge and the ability to understand. control. Em ambas as situações. o autor se remete aos princípios da Biologia do Conhecer de Maturana. For Maturana. pg. Humans (and arguably some other primates) are animals characterized by living simultaneously in two dimensions of experience: first. Portanto. os conhecimentos e as atividades metacognitivas se referem à cognição do mesmo sujeito e não a cognição em geral ou a cognição de outras pessoas. Linguistic symbols are transmitted as encoded. 2008. The linguistic model suggests that knowledge organization is itself language-based generally. domain knowledge and cognitive style. para a formação do conceito. os autores se apóiam na possibilidade de analisar a relação entre os conhecimentos do sujeito e a resolução efetiva da tarefa. os autores estruturam o termo “processo cognitivo” associando a ele os princípios do psicologismo clássico e recorrendo aos fundamentos do conexionismo. [�] The visual experience connects with visual symbols primarily. Portanto. and manipulate individual cognitive processes. which utilizes language. pg. mas sim o que o individuo faz com o estímulo recebido. (GORRELL et al. Portanto. 2007. Perceptually received symbols are input directly. Os autores. or language-based. 2007. GT1 164 . the hearing experience connects with auditory symbols. 2). conforme descrito abaixo: One of the most important contributions of Humberto Maturana is his theory of language. Para completar a estruturação do termo Processo Cognitivo.

FIGURA 5: Mapa conceitual do conceito Processo Cognitivo do artigo “Human Perception and Knowledge Organization: Visual Imagery” GT1 165 .

FIGURA 6: Mapa conceitual do conceito Processo Cognitivo do artigo “Towards metacognitively aware IR systems: na initial user study” GT1 166 .

autor. Para acoplar à estrutura de informação visual. já que o autor recorre aos fundamentos da psicologia Gestalt associando aos conceitos de proximidade. Esta perspectiva coloca o termo sob uma determinada ótica. No primeiro artigo os autores consideram que a carga cognitiva e formada índices textuais sintagmáticos distribuídos em rede. Porém. o autor considera a memória de longo prazo como as informações que são disponíveis de maneira permanente na busca da informação. Portanto. os autores acoplam os fundamentos da psicologia Gestalt e da Biologia do Conhecer. 2). fundamentalmente aos fundamentos da Ciência da Informação baseando-se em Belkin quando ele insere os termos processo cognitivo e busca da Informação de Belkin. pg. O primeiro artigo estrutura o termo “carga cognitiva” fundamentalmente na perspectiva da psicologia Gestalt em forma de aliança com os fundamentos da ciência da informação quando se refere aos conceitos de retenção da informação e nível de satisfação do usuário no processo de busca. o conceito de carga cognitiva se baseia não somente na perspectiva do psicologismo. que considera a relação da criação de estratégias desenvolvidas pelo usuário no processo de busca da informação com um Sistema de Recuperação da Informação conforme citado: Here. Portanto. pg. adaptando ao ambiente No segundo artigo. os autores estruturam o conceito por uma visão predominantemente conexionista. 2005. 2010. (KOSHMAN. 2010). workload is understood as the relation between the demand for mental resources imposed by a task and the person’s ability to supply those resources. como forma de estruturação do conceito. O princípio utilizado pelo autor para tratar a carga cognitiva recorre. 1). [�] The concept of cognitive load is closely related to the notion of limited mental resources. demonstrando a similaridade com os processos de aprendizagem humanos. utilizando os termos “proximidade” e “terminalidade” e “continuidade”. terminalidade e continuidade conforme citado: Although the Gestalt laws for visual processing are well suited for understanding better the user’s overall perceptual pattern building when using VIBE and other visualization based.6. 2005) e “Distribution of Cognitive Load in Web Search” (Gwizdka. Neste caso. recorre aos princípios do psicologismo para tratar a carga mental. IR interface displays. these principles do not help with the deciphering and decoding of the interface’s icons or symbols. mas também com referência aos fundamentos do conexionismo e da Ciência da Informação. GT1 167 . (GWIZDKA. São articulados os termos informação visual e memória de longo prazo ao termo de carga cognitiva através do processo de aquisição onde são considerados os aspectos icônicos da informação disponível.7 Análise do conceito Carga Cognitiva O conceito “Carga Cognitiva” foi utilizado pelos autores dos artigos “Testing User Interaction with a Prototype Visualization-Based Information Retrieval System” (Koshman. é possível determinar a interdiscursividade em forma de aliança na formação do conceito neste artigo pela imbricação de termos oriundos da ciência da informação e da teoria de gestáltica.

Portanto. portanto. DE MEY. como uma “patologia metodológica”. o fazem recorrendo a diversas áreas do conhecimento para alicerçarem suas construções teóricas. O mapa cognitivo da Figura 7 e Figura 8 mostra a relação interdiscursiva na migração do conceito Carga Cognitiva em ambos os artigos. conforme foi descrito por Oliveira Filho (1995). Análise de Conteúdo. o segundo artigo articula o termo “carga cognitiva” apropriando-se do conexionismo e não da teoria gestáltica conforme o primeiro. Portugal: Edições 70. o fazem regidos por diversas condições ideológicas existentes em um espaço discursivo advindo de diversas áreas. confirmando a hipótese geral da pesquisa de que. assumindo uma posição de “aliança”. Portanto. 1977. conexionismo e Biologia do Conhecer. a transformação obedece ao princípio de “simulacro”. alterando consideravelmente a estruturação teórica da pesquisa. Laurence. que tratam do assunto de Sistemas de Recuperação da Informação e Cognição. calcada nos trabalhos de Maingueneau (2008) se mostrou como um aparato metodológico capaz de elucidar a estruturação dos conceitos e termos migrados em pesquisas de Sistemas de Informação e Cognição. Ou seja. Chicago: The University of Chicago Press. Marc. REFERÊNCIAS BARDIN. A Análise do Discurso. Félix. 1997 GT1 168 . agregando conceitos da ciência da informação – busca da informação – e do psicologismo. os pesquisadores apropriam-se de ternos “aglutinando” fundamentos do Cognitivismo Clássico e de vertentes mais contemporâneas. alterando consideravelmente o sentido do conceito ou termo migrado entre uma pesquisa e outra dentro do mesmo “campo” de produção. Mil Platôs. Ou seja. 1992. em forma de aliança e não em forma de confronto. contêm transformações conceituais consideráveis. DELEUZE. configurando-se. no caso desses artigos. The Cognitive Paradigm. quando os pesquisadores da Ciência da Informação investigam Sistemas de Informação e “migram” conceitos oriundos das Ciências Cognitivas. criada ao recorrerem aos fundamentos das principais linhas das Ciências Cognitivas: o cognitivismo. quando os pesquisadores da Ciência da Informação investigam sobre Sistema de Recuperação da Informação e migram conceitos das Ciências Cognitivas. 7 CONCLUSÕES Foi possível constatar que. o fazem por diversos “vieses” paradigmáticos. Gilles & GUATTARI. as pesquisas científicas publicadas em periódicos da área da Ciência da Informação. Essa “alteração” pode ser compreendida pela “competência discursiva” assumida pelo autor e pela “interincompreensão regrada”. os pesquisadores da área de Sistema de Informação. Foi possível constatar que neste “discurso” de que se apropria o pesquisador no momento da “migração conceitual”. São Paulo: Editora 34. A interdiscursividade aparece no segundo artigo pelo acoplamento ao conceito “carga cognitiva” oriundos de termos como estrutura e recurso mental do conexionismo. ao se “apropriarem” de conceitos oriundos das Ciências Cognitivas.

Semiose. Santiago: Editorial Universitaria. 32. 2003 MAIMONE. v.. Semiose e Emergência. FIORIN. 2008 EL-HANI. 1. 1. Ricardo. 14. LIMA. 13 n. 2006. Revista Perspectivas em Ciência da Informação. 2007. Avaliação de Sistemas de Informação: Revisão de Publicações Científicas no Período de 1985-2005. VARELA. n. Edgar. DIAS. OLIVEIRA FILHO. n. Curitiba: Criar Edições.55-67.1. A Ciência da Informação. H. 263-268. F. Investigations on the boundaries of information retrieval systems and cognitive sciences. v. Brasília: Briquet de Lemos. Patologia e regras metodológicas. 3-50. In: IST GRADUATE SYMPOSIUM. pg. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) Escola de Ciência da Informação. Cognição. El arbol del conocimiento. 52. Peter .DIAS. Journal of Documentation. Giovana Deliberali & SILVEIRA. INGWERSEN. Monica Erichsen Penn State University United States. Interfaces entre a ciência da informação e ciência cognitiva. pg. (Org) EDUFBA. Dominique. Salvador.Cognitive perspectives of information retrieval interaction: elements of a cognitive IR theory. v. 2007. LOULA. João. Ciência da Informação. 2007. 1996. São Paulo: Editora Ática.(1984). Fernando Skackauskas. 2008. v. Fernando Skackauskas. José Jeremias de. Charbel & QUEIROZ. QUEIROZ. GUDWIN. MAINGUENEAU. Ângelo. MATURANA. 1998. 2007. Análise das relações interdisciplinares das pesquisas científicas em sistemas de informação. MORIN. João. Anais� GT1 169 . Porto Alegre: Editora Sulina. Inf. Universidade Federal de Minas Gerais. In Computação. Naira Christofoletti Cognição humana e os Paradigmas da Ciência da Informação Revista Elet. 2007. Gênese dos Discursos. Yves-François. ed. Cognição. José Luiz. Pg..6 n. 1996. 1995. Linguagem e Ideologia. Gercina Ângela Borém. Revista de Estudos Avançado. ________________________. Introdução ao Pensamento Complexo. 1. 2006. LE COADIC. NASSIF. Estruturalismo Hierárquico.

html Acesso em: 20 jun 2011. as práticas arquivistas servem para fortalecer o Estado autoritário. GT1 170 .br/media/legarquivos_2011_fevereiro. no Decreto nº 11. porém. no entanto. como marco legal regulador da gestão arquivística contemporânea.159).gov.br/legin/fed/decret/1940-1949/decreto-11840-29dezembro-1945-573650-publicacaooriginal-96951-pe. Parece.29 A prospecção proposta não se restringe às políticas arquivísticas. é necessário que tais práticas visem assegurar o acesso à informação e à transparência das ações governamentais. a grafia “archivo” foi empregada pela última vez em 1945. tendo em vista que é anterior à Lei de arquivos de 1991 (Lei 8. Dá novo regulamento ao Corpo de Marinheiros Nacionaes.arquivonacional. O conceito que norteia a presente pesquisa é o de que as práticas arquivísticas são um elemento central na constituição da “esfera pública”. empreendemos um levantamento da incidência dos termos “archivo/arquivo”30 nas leis promulgadas entre 1889 e 1990. a “esfera pública” pode ser compreendida como uma instância mediadora entre Estado e Sociedade. procurando também identificar toda e qualquer prática arquivística registrada na documentação legislativa federal. 30 Na legislação federal brasileira. dificultando a constituição de uma “esfera pública” na sociedade. considerada. Através do levantamento da recorrência das expressões “archivo/arquivo”. em relação ao Brasil. período que geralmente é alvo de pouco interesse. Trata-se de um estudo que visa ampliar os levantamentos existentes em relação ao tema. no que diz respeito às práticas arquivísticas.camara. nos textos legislativos promulgados entre 1889 e 1990. procura-se identificar os temas tratados pela administração pública federal. Em situações nas quais esse direito não é assegurado. tornando-se um elemento chave na organização da opinião 29 Este é o caso da publicação eletrônica do CONARQ.conarq. ter sido um erro ortográfico. pois a grafia “arquivo” predominou nas leis sancionadas neste período. registradas na legislação federal brasileira. intitulada Legislação arquivística brasileira (2011). Disponível em: http:// www. Para tanto. Para Jurgen Habermas.pdf Acesso em: 20 jun 2011. Disponível em: http://www2. Administração.840.gov. Legislação arquivística INTRODUÇÃO A presente pesquisa procura identificar as práticas arquivísticas da esfera pública. Para que isso ocorra. Palavras-chave: Arquivo.COMUNICAÇÃO ORAL ANTES DA GESTÃO DE DOCUMENTOS: PROSPECÇÃO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Renato Pinto Venancio Resumo: O presente texto tem por objetivo apresentar o resultado de uma pesquisa na legislação federal brasileira.

história. além disso. Em tais pesquisas têm sido enfatizado os seguintes aspectos: . p. 91). 32). nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados.o reconhecimento da informação governamental como um recurso fundamental para o Estado e a sociedade civil. p. .. associada à tomada de decisão (CAPURRO . assegura a relação entre representantes e eleitores como partes do mesmo público. (JARDIM. com certeza. problematizá-los e dramatizá-los de modo convincente e eficaz. uma rede adequada para a comunicação de conteúdos. Portanto. tematizálos. sensíveis no âmbito de toda a sociedade. a “esfera pública” torna possível a emergência da política enquanto campo racional. .pública. 2003. desempenha um papel chave: Como consequência da definição constitucional da esfera pública e das suas funções. 1999. Nesse sentido. pedagogia etc) – também proporciona importantes contribuições no campo da arquivística.. não é um déficit conjuntural... a informação. 2008). A esfera pública constitui principalmente uma estrutura comunicacional do agir orientado para o entendimento.o livre fluxo de informação entre Estado e sociedade civil é essencial para uma sociedade democrática . mas um problema estrutural.. direito. A seguir veremos GT1 171 . a esfera pública tem que reforçar a pressão exercida pelos problemas. HJORLAND. a qual tem a ver com o espaço social gerado no agir comunicativo não com as funções. 1999. sociologia. gerando uma subcidadania e constituindo fator impeditivo à democracia. ela não pode limitar-se a percebê-los e a identificá-los. porém. facilitando ao governo administrar suas diversas funções sociais. 2003. ou seja. sendo definida como: . Nesse universo. O caráter público das deliberações parlamentares garante à opinião pública sua influência.. INDOLFO. a ponto de serem assumidos e elaborados pelo complexo parlamentar (HABERMAS. 2007). a publicidade tornou-se o princípio organizacional dos procedimentos dos próprios órgãos do Estado.. devendo. Na perspectiva de uma teoria da democracia. tomadas de posição e opiniões. nem com os conteúdos da comunicação cotidiana. o conceito de “esfera pública” – cuja aplicação tem se estendido aos mais diversos campos (ciência política. em suas conexões com a história e a ciência da informação (JARDIM. a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. .a informação governamental contempla a sociedade civil com o conhecimento do Estado e da própria sociedade civil – passado e presente. 1995.a informação assegura transparência ao Estado. A ausência da “esfera pública”.. A esfera pública é um sistema de alarme dotado de sensores especializados..

intensifica-se a produção legislativa referente às práticas arquivísticas. Um número bastante elevado de textos legais registrou as práticas vigentes nas instituições federais. que fazem referência aos termos “archivo/arquivo” . na amostragem abarcando um século. Uma primeira aproximação em relação à evolução constatada consiste em sublinhar que. 1.algumas conexões entre essa situação e as práticas arquivísticas registradas na legislativa federal brasileira. resoluções etc).esse banco de dados se encontra disponível no Portal da Câmara de Deputados do Congresso Nacional. LEGISLAÇÃO ARQUIVÍSTICA NO BRASIL As primeiras referências à legislação arquivística brasileira datam do século XIX. O Gráfico 1 tem por objetivo apresentar essa evolução.405 atos legislativos (leis. GT1 172 . Cabe destacar que. O período imediatamente posterior à proclamação da República foi uma dessas épocas. 2011. Uma primeira visualização dos dados consiste em sua apresentação em ordem cronológica.gov.br/atividade-legislativa/legislacao/pesquisa/avancada Acesso em: 20 jun. Gráfico 1 -Legislação nacional: número absoluto de menções aos termos “archivo/arquivo“.camara. O levantamento da legislação de 1889 a 1990 revela a existência de 2. 1889-1990 Fonte: http://www2. em apenas um ano não se observa a promulgação de resolução legal a respeito do tema em questão. decretos-leis. nos períodos de rupturas políticas.

como a década de 1950. no quadro de implantação do Estado Novo (1937-1945). como também de autoritarismo político. aprovadas pelo Congresso Nacional. foram fecundos em termos dessa produção legislativa. Em outras palavras. parece ocorrer principalmente nos períodos antidemocráticos da história brasileira. nada menos que 60 resoluções legais. O mesmo pode ser afirmado em relação ao período de implantação da ditadura militar. nos períodos não ditatoriais. Dessa forma. foi elevada a incidência de aprovação de atos legislativos em relação ao tema. deve ser evitada a equivalência entre o aumento da preocupação arquivística e autoritarismo político.camara. fazem referência ao termo.Entre 15 de novembro de 1889 e 31 de dezembro de 1894. No entanto. Outra sugestão interessante deste levantamento diz respeito à identificação de conjunturas.br/atividade-legislativa/legislacao/pesquisa/avancada Acesso em: 20 jun. Dessa forma. uma primeira interpretação dos dados seria a de associá-los não só aos períodos de ruptura. Quanto a isso. A Tabela 1 também confirma que períodos de normalidade democrática. nas décadas de 1930 e 1960. mencionando a palavra “archivo” foram aprovados. Tal constatação revela uma das dificuldades da constituição da “esfera pública” no Brasil. 121 novos decretos e leis. GT1 173 . respectivamente.gov. a preocupação do Estado. basta citar que. por exemplo. em relação à organização e implementação de práticas arquivísticas. quando então o Congresso Nacional aprovou 75 normas legais relativas às práticas arquivísticas. a intensificação da promulgação de leis reflete o aparelhamento autoritário do Estado e não o aumento da transparência da informação pública. foram aprovadas 58 textos legais nas quais são registradas menções à palavra “arquivo”. Tabela 1 Legislação nacional: número absoluto de menções aos termos “archivo/arquivo” Período 1889-1899 1900-1909 1910-1919 1920-1929 1930-1939 1940-1949 1950-1959 1960-1969 1970-1979 1980-1990 Número absoluto de ocorrências 218 112 243 141 367 377 276 372 169 116 Fonte: http://www2. Aliás. Nesses períodos. apenas no ano de 1938. o ápice da curva do referido gráfico diz respeito ao ano de 1946. Outros dois momentos de intensificação dessa produção legislativa ocorreram. No Gráfico 1 também podemos observar que. 2011. Em 1966.

item por item. A adoção desses procedimentos. A primeira é a dos arquivos correntes.é interessante observar que a Lei de Arquivos (Lei n° 8. com implicações bem mais profundas (SCHELLENBERG. a esta lei consistiu no esforço da implementação. um século de legislação federal brasileira. 2005. 2004. A Lei de Arquivos – quando corretamente implementada – estabelece os pré-requisitos para a transparência da informação pública. Brooks (1940. 1973. jurídico. de acordo com a idade arquivística em questão. Conforme é sabido. Ao passo que a segunda ferramenta. O primeiro instrumento é definido como: Esquema de distribuição de documentos em classes. administrativo. várias etapas. no entanto. primeiramente nos Estados Unidos.. a reprodução xerográfica. de 1991..] A segunda fase – a do arquivo intermediário – é aquela em que os papéis já ultrapassaram seu prazo de validade jurídico-administrativo.31 A Gestão de Documentos abrange. estado ou município). tanto nas organizações públicas quanto nas privadas. 21 e 132). Essa mudança tecnológica foi acompanhada por diversas outras (por exemplo. assim como resultou do avanço tecnológico que viabilizou a produção crescente de cópias de documentos. sua tramitação legal. 1943). para a terceira idade (BELLOTTO. GT1 174 . Permanecerão em um arquivo que já centraliza papéis de vários órgãos. dos princípios norteadores de Gestão de Documentos. Quais seriam. registrada na primeira metade do século XIX. Sua origem está relacionada ao extraordinário aumento da produção documental. elaborado a partir do estudo das estruturas e funções de uma instituição e da análise do arquivo por ela produzido (DICIONÁRIO. p. nos quais se abrigam os documentos durante seu uso funcional. contados a partir da data de produção do documento ou do fim de sua tramitação.. Os carbonos permanentes só começaram a aparecer depois de 1905.] Abre-se a terceira idade aos 25 ou 30 anos (segundo a legislação vigente no país. Conforme sublinha Schellenberg: Os primeiros papéis carbonos eram oleosos e não fixavam bastante. no Brasil. nas duas décadas que a antecederam. tendo como referência os trabalhos de Philip C. preside a passagem da primeira idade (arquivos correntes) para a segunda (arquivos intermediários). Como ferramenta de controle desse processo foram desenvolvidos o Plano de Classificação de Documentos e a Tabela de Temporalidade. é obviamente impossível apresentar e discutir. Tal perspectiva se baseou na noção de “ciclo vital” dos documentos administrativos: O ciclo vital dos documentos administrativos compreende três idades. conforme foi mencionado. p. 65 e 119). A origem dessa conceituação data da década de 1940. de acordo com métodos de arquivamento específicos. tanto quanto presidirá a passagem seguinte.159). A operação denominada recolhimento conduz os papéis a um local de preservação definitiva: os arquivos permanentes (BELLOTTO. pelo prazo aproximado de 20 anos [. consistiu em uma vigorosa reação da área. surgida nos Estados Unidos dos anos 1940). porém sem misturá-los ou confundi-los. condição fundamental para a constituição da “esfera pública”. as questões presentes na legislação anterior a sua promulgação? Tendo em vista os limites do presente texto. sua utilização ligada às razões pelas quais foram criados [. 117). p. Uma alternativa consiste em fazer aproximações frente a esse corpo documental a partir de chave interpretativa baseada nas preocupações da época. mas ainda podem ser utilizados pelo produtor. 23-24).. representou uma revolução na arquivística. 2004. p. frente a um declínio da preocupação com o tema. que distinguiam 31 Tal fenômeno decorreu da expansão da burocracia.

embora bastante recente. O referido decreto identificou os documentos fundadores da nova ordem política.terá de ora em deante o nome de . camara. de 31 de Outubro de 1893. de Reforma o Archivo Publico Nacional. o foco da legislação ora se volta à questão dos arquivos como um elemento de aumento da eficiência administrativa.32 Dessa forma.dois tipos de acervos: o indispensável para a administração e aquele que. dos actos legislativos das 32 Decreto nº 10. impressas ou manuscriptas. As mudanças propostas resultaram no Decreto nº 1. da Constituição da Republica.html Acesso em: 29 jul. referentes às décadas de maior produção legislativa em relação ao tema.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-10-21-novembro-1889-518583-publicacaooriginal-1-pe. Os originaes de todas as leis. equiparando-os aos da época de formação da nação independente. VI. Disponível em: http://www2. p. III. O estabelecimento designado até ao presente com a denominação de . Por essa época foi dado início a um processo de reforma do regimento do Arquivo Nacional (HEYNEMANN.gov. 1999. 10. resoluções. um dos primeiros decretos teve por objetivo alterar a designação do Arquivo Nacional. de 25 de março de 1824. a instituição arquivística federal transitou para um novo período. portanto. 2. decretos. IV. de 24 de fevereiro de 1891 e do projecto de Constituição offerecido pelo Governo Provisorio ao Congresso Constituinte. Os originaes da Constituição politica do extincto Imperio. Marechal Deodoro da Fonseca sancionou o Decreto n. GT1 175 . Contudo.Archivo Publico do Imperio . Por isso mesmo cabia ao Archivo Público Nacional preservar: I. de 12 de agosto de 1834. quando o novo regime ainda não havia completado uma semana de existência. Altera a denominação do Archivo Publico do Imperio. de 21 de Novembro de 1889. ora como um repositório dos vestígios documentais da memória nacional. 210). Em 21 de novembro de 1889. ARQUIVOS ADMINISTRATIVOS E ARQUIVOS HISTÓRICOS Após o golpe militar que implantou a República no Brasil. A leitura desse documento releva o quanto o governo republicano. sendo desnecessário a esta. e hoje do Congresso Nacional. 2009.Archivo Publico Nacional. do respectivo acto addicional. bem assim os documentos relativos á elaboração desses actos. Em razão disso. apenas conserva mero interesse histórico-cultural (SILVA. Os originaes de todos os actos legislativos da mesma Assembléa Constituinte. Cópias authenticas. esses dois universos arquivísticos raramente estabelecem diálogos. 101-102) Em outras palavras. dos do Governo Provisorio da Republica e dos do Congresso Nacional Constituinte. p. se preocupou em perenizar as mudanças políticas em curso. que continha: Artigo unico. 2011.580. Talvez a melhor forma de compreender essa questão seja através da apresentação de três exemplos. da Assembléa Geral Legislativa. a legislação em questão refletiu a divisão baseada na dicotomia entre “arquivos administrativos” e “arquivos históricos”.

html Acesso em: 20 jul.33 Os documentos serviriam para a escrita da história. licenças e penas dos empregados. VIII. O official archivista é responsavel pelo extravio de quaesquer papeis. 2011. Incumbe-lhe ainda extrahir cópia dos actos da directoria e dos do Ministerio relativos ao serviço telegraphico que tenham de ser transcriptos no boletim da Repartição dos Telegraphos de que trata o art. 320. é aprovado o Decreto 193. Art.580.gov. que estabelece as bases para reorganisação da Repartição Geral dos Telegraphos. seria perenizada. organisando o indice destas. VII. A versão dos republicanos vencedores. Disponível em http://www2. Approva o regulamento da Repartição Geral dos Telegraphos. de 30 de Janeiro de 1894. quer vigentes. as nomeações. quer anteriores. commissões. para corresponder às exigencias do desenvolvimento do serviço telegraphico no paiz e no exterior.663. livros ou documentos que tenham dado entrada no archivo. de Reforma o Archivo Publico Nacional. de 31 de Outubro de 1893. html Acesso em: 29 jul. br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-1580-31-outubro-1893-517576-publicacaooriginal-1-pe. dessa forma. Cópias authenticas das Constituições dos Estados. auxiliado por um continuo designado pela directoria. O capítulo XXXVI do decreto tem como título a expressão “Archivo”. GT1 176 .camara. § 3º Escripturar alphabeticamente nos livros apropriado e de accordo com os assentamentos existentes e com as notas fornecidas pela secretaria. 2011.gov. 553 e cuidar da sua publicação por cuja regularidade é responsavel. Ao official archivista compete: § 1º Colleccionar por ordem chronologica e providenciar sobre a encadernação das minutas originaes do expediente da directoria. sobre assumptos que depois passaram a ser regulados pelos Congressos Estadoaes. Cópias authenticas dos actos dos governadores provisorios dos Estados e das Juntas governativas.Assembléas Provinciaes e das Assembléas ou Congressos dos Estados da Republica. § 2º Velar pela boa organisação do archivo para que sejam regularmente catalogados todos os documentos nelle entrados e dispostos de modo a facilitar a sua consulta. 319. Em 1894. por exemplo. Art. Nele podemos ler as atribuições desse serviço e sua estrutura de funcionamento: Art. são implementadas mudanças nas instituições públicas. O archivo da repartição ficará a cargo de um official archivista. Art. Disponível em: http:// www2. fazer o protocollo geral dos papeis que lhe forem remettidos inventariados pelas diversas divisões da administração. Paralelamente à preservação dos vestígios documentais da nova ordem política. relatando do ponto de vista oficial o surgimento e implantação da República. 34 Decreto nº 1.34 33 Decreto nº 1. 317. 318.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-1663-30-janeiro-1894-540570-publicacaooriginal-40996-pe.camara.

no Estado brasileiro. de 12 de Dezembro de 1942. Igualmente devem as contadores providenciar para que sejam queimados os talões que tenham mais de 18 mezes de archivo. arquivo. Nesse período se recorre à idéia de eficiência burocrático-administrativa. cuja finalidade era: I. também é observada quando da implantação do Estado Novo. como um contraponto ao domínio oligárquico-coronelístico. 247. Esse acto será assistido por empregado de confiança. Terminado esse prazo regulamentar. material. deveria adotar procedimentos arquivísticos visando maior eficiência administrativa. relativa aos serviços públicos. em 1938. p. por exemplo. uma racionalidade burocráticoadministrativa. em fins do século XIX. Seu regulamento previa a criação de uma Divisão de Organização e Coordenação. estatística e outras. devem os contadores proceder mensalmente á incineração dos originaes dos telegrammas que tenham entrado no 7º e 13º mezes. segundo forem interiores ou exteriores. Essa instituição representou a tentativa de implantar. Essa perspectiva. elaborar ou rever os regimentos de tais orgãos. 2000.Como se vê. com todas as precauções necessarias no que diz respeito ao segredo. Entre 1937 e 1945. consultar: (COX. e III. inclusive prevendo prazos de guarda e eliminação de séries documentais. compreendia uma Secção de Serviços Gerais. 325 textos legislativos federais mencionam o termo “arquivo”. contabilidade. 2010. por sua vez. Para os telegrammas internacionaes o prazo de conservação no archivo é de doze mezes. Paragrapho unico.101. II. biblioteca. há tempos. através da instituição do DASP . comunicações. Essa última. orçamento. elaborar ou rever planos e sugestões que visem ao aperfeiçoamento progressivo da organização e funcionamento dessas repartições. 246. documentação.35 É o que lemos nos artigos abaixo: Art. Noutro capítulo do referido decreto há determinações detalhadas a respeito de outros serviços arquivísticos. Art. Aprova o Regimento do Departamento Administrativo do Serviço GT1 177 . em arquivos locais e regionais. Talvez o pioneirismo de Philip Brooks tenha sido o de registrar e sistematizar práticas que estavam ocorrendo. p.36 35 Cabe sublinhar que questão da autoria dos procedimentos de “Gestão de Documentos” é questionada. 2-14) 36 Decreto nº 11. a Repartição Geral dos Telégrafos. Um exemplo desse esforço ficou cristalizado. Paragrapho unico. estudar a organização e funcionamento das repartições e serviços incumbidos das atividades de pessoal. de sorte que fique assegurado não haver extravio de qualquer documento. Os exemplos acima citados estão longe de ser excepcionais. Para um histórico da questão. A dicotomia “arquivos administrativos”/“arquivos históricos” é uma constante na legislação brasileira. Os originaes dos telegrammas e os documentos a elles relativos serão conservados nos archivos das sub-contadorias durante seis mezes contados da sua data. 75-80). obras. bem como projetos de legislação que digam respeito à organização e funcionamento dos mesmos. comuns a todos os orgãos da Administração.Departamento Administrativo do Serviço Público (SANTOS. pelo menos do ponto de vista normativo. numa vertente autoritária.

1º Fica o Poder Executivo autorizado a GT1 178 . No Brasil essa aproximação também parece ter ocorrido. Uma pista explorada para se identificar a origem dessa perspectiva é a de vinculá-la à recepção das teorias da Documentação no Brasil.html Acesso em: 29 jul. ORTEGA. em uma perspectiva comparativa. 1938. Essa interpretação sugere temas de pesquisa interessantes. na sua preponderante função protetora. por Del Vecchio. por vezes.. conforme foi observado em pesquisas da área.br/legin/fed/decret/1940-1949/decreto-11101-12-dezembro-1942467206-publicacaooriginal-1-pe. 2009.. inspirou-se no modelo tailorista da “administração científica” (FALCONE. empregando os métodos científicos de investigação para obter a solução de qualquer problema. Em editorial de volume publicado quatro anos mais tarde. cabendo. durante o Estado Novo observa-se a ampliação das preocupações arquivísticas. p. o DASP reconheceu que arquivo. podendo ser complementada por outras abordagens. (ODDONE. Uma delas consiste em recuperar. Taylor citado até mesmo em discursos de Getúlio Vargas (VARGAS. incumbe atender. sendo F. Disponível em: http://www2.gov. aferição e depuração da experiência esparsa . p. diga-se de passagem. na conceituação do Estado fascista. o periódico institucional do DASP relaciona essa perspectiva às questões arquivísticas: . 37 Em relação a esse segmento. [ a documentação administrativa] é ‘meio’ quando serve de instrumento à administração para que esta possa manter continuidade e coerência em seus atos. como fonte de racionalização da administração pública. concebida não como um conjunto de documentos sistematicamente arquivados. Em relação a essa instituição. o tailorismo consistiu em uma das fontes teóricas do DASP. Essa mudança. afirma-se: Não obstante. os termos em que o faz são praticamente os mesmos que os usados. inclusive. Tal postura. em 1940. cabe salientar. 2011.. 27). serviu de inspiração aos construtores do Estado Novo37 – a preocupação com os serviços arquivísticos. na Itália (MEDEIROS. 116 e 146).. 2010. 1978. um Público. levantar a hipótese de que esse filtro de entendimento levou à recepção superficial e. conforme consta no texto da lei: Art. 38 Tratava-se de recolher e publicar a documentação. o debate arquivístico da época. relacionadas a uma perspectiva de serviços de documentação nos órgãos da administração pública. ocorreu paralelamente a ação do Arquivo Nacional. Na Itália – cujo modelo de governo fascista. Vários indícios documentais confirmam a aproximação do DASP em relação ao tailorismo. é ‘fim’ quando satisfaz necessidades coletivas que vivem dentro da órbita de ação do Estado e que a este. 2010).. 43). no Brasil. procurar definir o Estado Novo. Portanto. tal como elas vinham sendo desenvolvidas internacionalmente por Paul Otlet (ODDONE. a necessidade de recolhimento dos arquivos pessoais de heróis nacionais. abrange todos os aspectos de uma indústria. documentação e biblioteca consistiam em elementos fundamentais da administração pública. 2006. por exemplo. ficou legalmente registrada em relação a Bejamin Constant38. como algo de específico e de “nacional”. assim como da publicação desses documentos.. p. por exemplo. o Estado Novo reafirma sua dimensão histórica. p.Como é possível observar. 72).camara. equivocada da proposta de Otlet. lemos: Atualmente o tailorismo não mais se limitando às questões exclusivamente de fabricação. inclusive. W. sublinhando. mas como um laboratório de fusão. Como seria de esperar. Num texto publicado pela daspiana Revista do Serviço Público. Quanto a isso é importante mencionar a experiência italiana. é o papel da documentação administrativa.

html Acesso em: 20 jun. seleção e microdocumentação dos materias arquivados. que será o seu dirigente. II .camara. III . 2011.Um representante da Presidência da República.não subordinado aos grupos oligárquicos. e que se refiram à existência e à ação de Benjamin Constant Botelho de Magalhães. mandar publicar. que será o Secretário Geral do órgão. histórico ou legal. de 28 de Outubro de 1937. Marta Melgaço pela lembrança da importância desse período histórico.o Diretor do Arquivo Nacional. aproveitando nessa publicação os que forem entregues pela família ou pelos amigos. na referida década houve intensa promulgação de leis referentes às práticas arquivísticas. 39 Sou grato à profa. um Grupo de Trabalho com a finalidade de propor as medidas necessárias à seleção e preservação dos documentos que. quanto a espaço. Tal equipe ficaria encarregada das seguintes tarefas: I . GT1 179 . IV . Em 1960-1961. inéditos ou não. Art. A seleção desse período também serve para identificar reformas em períodos não ditatoriais. II . pelo valor administrativo.estudar a situação dos arquivos das diferentes repartições públicas componentes do Poder Executivo.elaborar os planos de organização.br/legin/fed/lei/1930-1939/lei-558-28-outubro-1937-555666-publicacaooriginal-75008-pl. material e pessoal. Conforme pode ser observado no Gráfico 1.39 O texto legal aponta para a necessidade de superação da ação desconectada entre “arquivos administrativos” e “arquivos históricos”.um representante do Departamento Administrativo do Serviço Público. diretamente subordinado à Presidência da República. os documentos. Segundo o primeiro decreto que regulou a questão: Art.verificar as necessidades do Arquivo Nacional. sejam considerados de relêvo para o País. dois decretos estruturam um Grupo de Trabalho com a finalidade de estudar os problemas de arquivo no Brasil e sua transferência para Brasília. Manda publicar. sob a direção do Arquivo Nacional. 2º O Grupo de Trabalho será constituído dos seguintes membros: I . Disponível em: http://www2.um representante de cada Ministério. como patrimônio do Estado. III . 1º Fica criado. IV .gov.dos principais líderes da proclamação da República e – de forma semelhante a Getúlio Vargas . documentos inéditos de Benjamin Constant. a fim de que seja aparelhado para a execução das medidas propostas que vierem a ser aprovadas. Lei nº 558. O terceiro momento selecionado em nossa pesquisa diz respeito à década de 1960.determinar quais os arquivos que deverão ser transferidos imediatamente para Brasília.

88). Em 1978. cabendo ao Conselho Nacional de Arquivos (Conarq). a existência de leis não significa a efetiva implantação de políticas arquivísticas. que dispõe sobre a política nacional de arquivos públicos e privados. 2007. de 14 de Setembro de 1960. De acordo com a nova proposta.40 Em 1960. de 29 de junho de 1994. Finalmente. Tal fragmentação refletia um quadro que se reproduzia desde o início do período republicano. e n° 1. p.propor a incineração dos documentos que forem considerados sem valor. devido a razões circunstanciais a proposta nem mesmo chega a ser votada. definir essa política como órgão central do Sistema Nacional de Arquivos (Sinar). CONCLUSÃO Os exemplos apresentados sugerem a importância das fontes legislativas. p. VI . instrumentos indispensáveis da boa e eficiente organização administrativa (RODRIGUES. sua 40 Decreto nº 48. Schellenberg.159.br/legin/fed/decret/1960-1969/decreto48936-14-setembro-1960-388357-publicacaooriginal-1-pe. Cria um Grupo de Trabalho com a finalidade de estudar os problemas de arquivo finalidade no Brasil e sua Transferência para Brasília. tenta-se novamente a criação desse sistema. o Arquivo Nacional também patrocina a vinda. 161). 1995. Por outro lado. uma proposta melhor estruturada abre caminho para a implantação destes procedimentos: Após três décadas de tentativas de dotar o Brasil de uma lei de arquivos. GT1 180 . Disponível em: http://www2. em 1962. não só porque tentávamos empreender uma larga reforma da instituição. como órgão central do Sistema Nacional de Arquivos.461. situação reforçada a partir da criação do DASP: Este fracionamento do ciclo vital dos documentos em dois sistemas inviabilizaria. na década de 1990.936. Esse último produziu um relatório intitulado Problemas arquivísticos do governo brasileiro. é elaborado um anteprojeto propondo a criação de um Sistema Nacional de Arquivos. ambos criados por força de seu artigo 26 e regulamentados pelos decretos n°1.html Acesso em: 29 jul. cabendo ao Arquivo Nacional. 2011. Nas palavras do então diretor do Arquivo Nacional: Sua visita e sua lição autorizada chegaram-nos na hora exata.elaborar o plano de funcionamento para o projeto do Edifício do Arquivo Nacional em Brasília. 1973. como porque a transferência para Brasília e o desenvolvimento econômico exigiam cuidadosa atenção pelo problema da avaliação documental e da eficiência e boa organização dos arquivos.camara. Por um lado. Como resultado dessa experiência. o desenvolvimento de uma política de gestão de documentos no Governo Federal (JARDIM.gov.173. de 25 de abril de 1995 (PAES. foi finalmente promulgada. 16-17). em 8 de janeiro de 1991. p. R. No entanto.V . a Lei n° 8. por princípio. os arquivos intermediários e permanentes federais. ao Brasil. órgão vinculado ao Arquivo Nacional. de T. o DASP continuou com a competência de órgão central no que se referia aos arquivos correntes.

DICIONÁRIO brasileiro de terminologia arquivística. Os testemunhos registrados nos textos legais também servem para que se compreenda melhor os processos de acumulação da documentação da administração pública federal. 1940. v. p. conforme observamos. Heloísa Liberalli. Arquivos permanentes: tratamento documental. HJORLAND. Closing an Era: historical perspectives on modern archives and records Management.12. n. oct. enabling the verification of the topics covered by the federal government administration concerning archival practices at the time. v. Outro aspecto importante consiste em avaliar o impacto do surgimento dos serviços de documentação – funcionando paralelamente aos arquivos administrativos . ______Current aspects of records administration: the archivist’s concern in records administration. Keywords: archive. administration. 2011. GT1 181 . Na ausência . pdf Acesso em 03 jan. 2ª Ed. n. Richard J.br/pdf/pci/v12n1/11. The Selection of Records for Preservation. Rio de Janeiro: FGV Editora. desde fins do século XIX. v..do Sistema Nacional de Arquivos. The recurrence of the expressions “archivo/arquivo” (archive) in texts enacted between the years 1889 and 1990 was collected. Rafael. das mesmas. COX.1. Disponível em: http://archivists. a identificação das práticas arquivísticas é um fio condutor para se conhecer as possibilidades de acesso à informação por parte dos cidadãos. Perspectivas em Ciência da Informação. American Archivist. n. 2000.. O conceito de informação. 2011. jul. há referência a legislação regulando processos de eliminação de documentos. Aliás. Birger. 5. 148-207. cabendo a realização de estudos de casos para avaliar a implementação. CAPURRO.com/content/m22613816894k064/?p=9fd7991ec6544ba3af90b358fe59b 18c&pi=4 Acesso em: 29 jul.metapress. Enfim. 4. Disponível em: http://archivists.promulgação indica que parcela importante dos dirigentes públicos se preocupou em projetar reformas. 1943.scielo. Philip C. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional.na fragmentação de fundos documentais. 158-164. é possível vislumbrar o lento processo de constituição da “esfera pública” no Brasil. pp. 6. 2011. archive legislation REFERÊNCIAS BELLOTTO. as leis permitem que se compreenda parte dos procedimentos previstos neste campo. p. ABSTRACT: The present text aims to present the results of a research on the Brazilian federal legislation. Disponível em: http://www.com/content/u77415458gu22n65/?p=a76ba87dde95415191cd04e6cacec 137&pi=10 Acesso em: 29 jul. Através dessa pesquisa. 2007. Greenwood Press. 2004. BROOKS.metapress. 2005. 3. American Archivist. ou não. mas não menos importante. 221-234.ou implantação tardia .

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tema central da Ciência da Informação e da Biblioteconomia. of great relevance to library and information science. Leitura. Studies on information as a central theme of information science.influência francesa. Palavras-chave: Leitura e cultura. 1 INTRODUCÃO Pretende-se com este projeto investigar a informação visando contribuir para a história da ciência da informação e desta maneira para a história dos saberes. O objetivo deste artigo é o desenvolvimento da leitura. ReadingFrench influence. Abstract: The French presence and the development of reading in the roots and mediate the diffusion of knowledge in Brazil. Dissemination of information. focuses on information as a central theme of the area. aprofundando questões basilares da área.COMUNICAÇÃO ORAL A PRESENÇA FRANCESA E O DESENVOLVIMENTO DA LEITURA: ORIGENS DA DIFUSÃO E MEDIAÇÃO DE SABERES NO BRASIL Katia Carvalho Resumo: Os estudos sobre informação. Justified the proposal to be reading the information inherent in the process of mediation and to extend the frontiers of information science aims to develop research and contribute to the ownership of information. Mediação e leitura. a presença francesa e as raízes da difusão e mediação de saberes no Brasil. Difusão da informação. contribui-se para a apropriação da informação e para a pré-história da Ciência da Informação. Mediation and reading. librarianship by then. privilegiando uma abordagem histórica e epistemológica. The proposal aims to explore issues of reading. A intenção é buscar fundamentos GT1 183 . By minimizing the role of reading that is inherent to information creates a gap in the study area and consequently influences the mediation. A proposta é exploratória e abre caminhos que levam ao fortalecimento da área. Keywords: Reading and culture. It is intended to contribute to the pre-history of information science with historical and epistemological approach. instead of reading. since the reading is intrinsic to information. Justifica-se o trabalho por ser a leitura inerente à informação e ao ampliar as fronteiras da Ciência da Informação e da Biblioteconomia. privilegiam a informação em detrimento da leitura e criam uma lacuna ao minimizar o seu papel. The proposed exploratory opens new avenues to strengthen the area.

Viviane Couzinet. Para penetrar nesse passado de maneira a compreender a formação do pensamento social brasileiro escolheu-se como locus da pesquisa. do século XIX. cidade de importância cultural para investigar o papel da informação no país. ampliando as fronteiras epistemológicas que podem fortalecer as teorias. l972). Nesse espaço urbano práticas culturais se desenvolvem confirmando a presença de instituições e arquivos. difusão e apropriação social do conhecimento. Um interessante estudo da historiadora Kátia Mattoso (1992) oferece importante contribuição para a história econômica e social da Bahia. Assim sendo. Salvador. no Laboratoire d’Etudes et de Recherches Apliquées en Sciences Sociales (LERASS). no país e no exterior. Desta maneira. como também as Aulas Médicas isoladas. resgatar o papel da informação. João VI. processos. D. um olhar crítico sobre idéias. destacando-se a criação da primeira biblioteca pública brasileira. mediante pedido enviado à sua Alteza Real. apresentou-se o projeto de pesquisa para ser desenvolvido no estágio pós-doutoral realizado na Universidade Paul Sabatier. Trata-se de um período de mudanças importantes no plano político. Nesse sentido. intitulada A idade D’Ouro do Brasil com circulação no país entre 1811 a 1821. para estabelecer novas fronteiras sendo a sociedade brasileira. no Rio de Janeiro (VIANNA. o Conde dos Arcos. para Couzinet (2000) é necessário entender o que representa informação no processo de mediação. cultural econômico e social de grande relevância para a história brasileira.que possam apoiar e ampliar o quadro de referências da área. os alunos das classes menos favorecidas enfrentavam maiores dificuldades no próprio país. simbolizando o início da vida cultural a implantação da Biblioteca Nacional e a criação da Gazeta do Rio de Janeiro. deputados provinciais. A intenção é constatar o que é informação. pretende-se realizar recortes históricos e epistemológicos do tema. Enquanto no exterior a Universidade de Coimbra formava os filhos das famílias abastadas. orientado pela Profª. O projeto intitula-se: Desenvolvimento da leitura e influência das elites cultas: pesquisa sobre a presença francesa nas origens da difusão e mediação de saberes no Brasil. todos atuantes. a liberdade de comércio e a entrada de embarcações estrangeiras no país. Nesse período. crenças e práticas institucionais é necessário levando a compreender o espaço urbano e assim. Assim. cria-se em 1808 o primeiro estabelecimento de ensino superior no país. Convém esclarecer que a pesquisa trata de questões relativas à vida cultural quando a Corte Portuguesa deixa a Europa conturbada pelas perseguições de Napoleão e se transfere para o Brasil. idéias. por intermédio do Presidente da Província. deputados gerais e senadores. o ambiente da pesquisa. impressa pelo português Manuel Antonio da Silva Serva. como a abertura dos portos a todas as nações amigas. GT1 184 . fundada a partir do apelo da população. a Escola Médico-Cirúrgica da Bahia. produção documental e no ambiente da comunicação reconhecer estratégias. destacando a organização política baiana e os seus representantes. Recuando no tempo. Drª. Ainda em Salvador ocorre a primeira publicação periódica editada pela iniciativa privada. Essa decisão acarretou contribuições positivas e estratégicas para a condução da política.

trazer do passado conhecimentos que no presente. busca-se recuperar em vivências passadas a memória brasileira resgatando as raízes culturais fortalecidas pela reprodutibilidade técnica e. ao ser introduzida no Brasil. Robert Darnton (1992) afirma ser necessário estimular o aprofundamento de temas de pesquisa que contribuem para a história das mentalidades. Portanto. Deste modo. Desta maneira. como se fossem hipertextos. Pelo exposto. sob a influência das elites cultas. arte. Desta maneira. Busca-se assim um saber resultante de um processo de reflexão e de pesquisa.a abordagem sobre informação. os leitores tem acesso às correntes do pensamento europeu pelas obras que liam e desta maneira o Iluminismo é introduzido no país mediante a difusão pelos periódicos. métodos e técnicas que ampliem o acesso ao pensamento brasileiro. justifica a sua escolha. história social ou das idéias ou simplesmente história cultural da humanidade. O Laboratoire d’Études et Recherches Apliquées en Sciences Sociales (LERASS) por ser formado por pesquisadores reconhecidos no meio universitário da França e que desenvolve o campo de estudo em questão. estética e arquitetura das cidades. Deste modo é importante buscar processos de difusão e mediação. a influência francesa difunde-se nesse âmbito cultural e é reconhecida nos acervos da biblioteca pública e nas bibliotecas privadas. considerando a relevância do tema e a necessidade de interagir com um centro de pesquisa voltado para a área. a presença francesa nas suas raízes conduz à investigação em um ambiente cultural favorável. Por isto. pela produção de sentidos. um estágio pós-doutoral pode oferecer as condições de interlocução necessárias para o desenvolvimento da pesquisa. circulação e mediação proporciona uma contribuição valiosa para a ciência da informação. tendo a leitura como pólo central. tornou-se relevante. sendo a leitura desejada pela população. nasceu este projeto que contempla as raízes da vida cultural brasileira e o desenvolvimento da leitura. tipografias e editoras e também. Com a vinda da Corte portuguesa para a colônia a vida cultural local ganhou novos contornos. O desenvolvimento do tema é um desafio e visa à inovação de conceitos procurando pela interlocução ampliar e sedimentar conhecimentos. sendo Paris a referência maior. Os livros que vinham de Portugal para o Brasil passavam pelo controle da Inquisição ou vinham da Europa nas malas dos estudantes. Nesse sentido a produção bibliográfica europeia. possam levar a compreender o futuro e pela leitura e escrita entender a passagem da sociedade gutenberguiana para a sociedade eletrônica. estabelece uma espécie de processo de mediação entre as duas culturas. pela moda emergente. na época. Convém lembrar que em Portugal reinava. Por isto a importância GT1 185 . uma forte retração econômica com graves conseqüências para o parque tipográfico local. atrofiando a circulação e difusão do conhecimento com prejuízos para o comércio editorial e para a vida cultural do país. no século XIX. Justifica-se o projeto por investigar o desenvolvimento da leitura que. bibliotecas. 1999). para compreender a influência das elites cultas brasileiras no âmbito cultural impregnado de uma acentuada influência francesa. viajantes e imigrantes (CARVALHO.

circulação. Busca-se as origens da difusão da informação e da mediação de saberes para obter resultados. mediação e difusão da leitura. Nesse contexto. Os objetivos visam pesquisar no Brasil. o papel das elites cultas influenciadas pela cultura européia. privilegiando as obras que vinham para o Brasil. na primeira metade do século XIX. Os procedimentos metodológicos utilizados visam organizar o imaginário da sociedade para perceber a informação materializada pelo registro documental. contribuindo para a construção da memória social brasileira. Toulouse 3. com apoio do CNPq e bolsa de produtividade e estagiários. O projeto tem o objetivo de pesquisar o desenvolvimento da leitura sendo o primeiro meio de comunicação a permitir o acesso ao conhecimento. também apoiado. diretora do LERASS onde se desenvolve sob sua liderança estudos sobre Médiations en Information et Communication Scientifique. ressaltando os aspectos epistemológicos inerentes à leitura e mediação. destaca-se o livro Travessia das Letras que contempla a vinda do livro para o Brasil. do Instituto de Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia e se insere na linha de pesquisa Produção.do estágio pós-doutoral na Universidade Paul Sabatier. c) identificar pela mediação e difusão fatos que levem a compreender a passagem da cultura baseada na literatura impressa para a cultura em que predomina a ciência. circunscrita ao século XIX. conhecimento e GT1 186 . outras percepções. b) buscar a influência francesa nas origens. onde surgiu a primeira atividade econômica açucareira. assegurando a interlocução necessária para desenvolver o projeto. O LERASS acolheu a nossa proposta. principalmente pela cultura francesa. Nesse percurso. informação. A motivação para o tema teve origem em um longo processo de amadurecimento intelectual e evidenciado na produção científica declarada no CV. destaca-se o livro/coletânea intitulado O ideal de disseminar: novas perspectivas. entrando no país por via marítima. e que se enquadra no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI). pretende-se: a) identificar a contribuição das elites cultas brasileiras em relação ao desenvolvimento da leitura. a circulação e mediação da informação levam a compreender a passagem de uma cultura fundamentada na literatura para a cultura apoiada no conhecimento cientifico. pesquisa desenvolvida nas bibliotecas que pertenceram aos senhores de engenho do Recôncavo baiano. e entre outras publicações. o interesse pela leitura resulta do reconhecimento da sua importância para a informação. A abrangência da pesquisa. tendo a leitura como elemento central. A abordagem é histórica e social e na ciência da informação procura apoiar questões que se relacionam com a área. econômico e social de grande relevância. e no grupo de pesquisa Disseminação e uso da informação. sob nossa coordenação. O aprofundamento do assunto teve continuidade no projeto Leitura e Memória. tendo como interlocutora da proposta a professora doutora Viviane Couzinet. constata muitas mudanças. se insere na evolução da oferta cultural. contemplando estudos sobre processos de apropriação e uso da informação. com resultados importantes para explicar a entrada do conhecimento científico no Brasil. sendo também um período político. circulação e mediação da informação.

utilizando-se técnicas e métodos utilizados pela ciência da informação. reconhecidos nos seus campos de atuação. Redação final do texto: privilegiando a análise documentária. no domínio social com os meios de comunicação. entre eles. pesquisa de campo e redação do texto a partir do projeto. o fortalecimento da GT1 187 . entrevistas e análise dos dados visando resultados. bibliografias. sob um olhar mais qualitativo em relação ao uso da informação. Barthes. Desta maneira.fundamentação teórica com base na integração de áreas afins. Pesquisa bibliográfica: visando o levantamento seletivo das obras sobre o tema. assim. por se tratar de um movimento de renovação que abrange todo o saber. Pesquisa documental: a) leitura de fontes sobre o tema. emerge a relação dissociada do conflito. negligencia a presença humana e o contexto. 2000). articula-se com a tecnologia e. biblioteconomia. entre outros. Pesquisa de campo: a) análise das informações obtidas pesquisadas segundo critérios que levam á construção de um texto crítico sobre o tema. Nesse período. Utiliza-se ainda literatura complementar necessária para a compreensão do tema. a ciência. Couzinet. que possibilita reunir áreas afins. Os autores que apóiam a argumentação são citados nas referências e alguns deles incorporados nas discussões que integram o texto. Nos anos 50 e 60 estudos enfatizam a necessidade de uso da informação e a aproximação da ciência da informação com as ciências sociais. prevalecendo a necessidade de abordar as relações de poder. levantamento e estudo das fontes de informação a serem analisadas. 1979). segundo as normas vigentes adotadas pela ABNT. Thiesen (2007) reconhece a importância dos estudos históricos de Couzinet e Boure desenvolvidos no LERASS que analisam processos de mediação na formação de redes de pesquisadores e profissionais e efeitos das revistas científicas como meio de disseminação do conhecimento oriundo das pesquisas apropriadas nas práticas profissionais (COUZINET. O acesso aos documentos históricos permite recorrer a correntes que influenciaram a leitura. valorizando a atividade intelectual e mediante fontes de informação tais como. sempre consultados durante a construção do texto para garantir a coerência desejada. Darnton. vislumbra-se o diálogo entre disciplinas. trazendo o usuário para o centro de interesse. Ressalta-se questões relativas ao contexto. como a ciência da informação (organização do conhecimento. Os primeiros estudos sobre a ciência da informação ressaltam a preferência da pesquisa centrada nos sistemas de desempenho e eficácia. periódicos e enciclopédias que documentam a produção humana. análise das fontes de informação que se entrecruzam para revelar o pensamento social da época. tendo o livro como principal meio de comunicação (MORAES. análise. em plena expansão. utilizando uma abordagem mais qualitativa. Assim são relevantes: pesquisa documental. sendo o usuário um elemento passivo. fortalecendo a identidade da área sob influencia positivista e funcionalista provenientes das ciências exatas. atores sociais e instituições representativas. na década de 80 e 90. história. Capurro. Vakkari. Por isso. a exemplo das idéias iluministas que difundiam a ascensão do homem com a missão de transformar o mundo. Nesse sentido. Alguns autores são interlocutores. epistemologia). Chartier. sendo o princípio da doutrina iluminista o processo de humanização da sociedade.

Nesse caso. pelas expressões culturais. Marteleto acrescenta a relação entre sociedade e conhecimento. sociologia e suas relações. Assim. 2003). Reconhecese a necessidade de bases conceituais sólidas e por isto a relevância das interfaces com áreas afins. escola e biblioteca com papéis definidos em que a primeira apresenta o livro.produção social coletiva. com o sujeito na centralidade do problema e passa a valorizar os processos de informação em diferentes contextos. 2007). o processo de leitura é uma interação dinâmica entre o texto e o leitor e acentua o papel do receptor. Para Barthes e Compagnon a leitura também é um método. Por isto. a proposta apresentada visa colaborar para pensar esta vertente. a partir do momento em que a informação ocupa a centralidade dos estudos e pesquisas da área. biblioteca e família. 1992). Ao compreender a função da leitura é possível GT1 188 . inclusive o conhecimento cientifico e o conhecimento produzido social e historicamente (MARTELETO. Para Iser (1999). 1999). Ressaltase assim. Convém lembrar que a fundamentação teórica da pesquisa apóia-se também na leitura. Ler é uma forma de sabedoria e assim a leitura pode ser entendida como acesso aos conhecimentos produzidos pelo pensamento humano. Esse hiato na literatura da área precisa ser minimizado e. pela intimidade da vida privada. aspectos teóricos e metodológicos que ampliam o avanço das idéias partilhadas com a ciência da informação. A leitura passa a usufruir espaços de sociabilidade que sugerem outros comportamentos e novas formas alternativas de utilização de tecnologias. é preciso consolidar as raízes da área e fortalecer estudos teóricos da ciência da informação e da biblioteconomia apoiando a pesquisa de natureza prática. refletindo-se na informação e sua função social. COMPAGNON. estabelece a relação entre o ser humano e o mundo (ALMEIDA JUNIOR. que ensina a ler. sendo a mediação direcionada para o usuário em relação ao contexto social e cultural (CABRAL. 1992). resultante de uma cultura compartilhada. assim. Convém lembrar que a leitura inerente à apropriação da informação que ocorre no processo de mediação. Percebe-se na atualidade os prejuízos resultantes que prejudicam o fortalecimento da área no plano teórico. a leitura é uma via de acesso para a aquisição de novos conhecimentos e que pode conduzir à cidadania que é própria da esfera privada e depende do campo social onde se insere e se articulam escola. Em diferentes planos. A literatura desse universo é relevante e. a ciência da informação estrutura-se e emerge a necessidade de alargar os limites disciplinares da área. difusão e mediação. VAKKARI. 1987). história. mediante segmento epistemológico esquecido pela biblioteconomia e também pela ciência da informação deixando uma lacuna. para aprofundar questões que levam a potencializar o acesso à informação e conhecimento na sociedade. Capurro reconhece que a informação e o conhecimento tratam da criação humana sendo que a informação perpassa a convivência social (CAPURRO. permitindo a assimilação do texto e o desenvolvimento da inteligência de maneira crítica (BARTHES. reitera-se que a leitura sendo uma relação entre o homem e o texto estabelece diferenças. enquanto a segunda representa o lugar das práticas de leitura. por isto. sendo responsável pela difusão e uso do texto (CARVALHO.

no âmbito da cultura. elle permet de requalifier socialement les dynamiques et regimes de la culture [�]. 2008). ou seja. por este motivo a informação não pode prescindir da leitura. a biblioteca.” Couzinet acrescenta aos estudos a expressão “mediations mosaïques”. Nesse ambiente urbano.compreender a informação como objeto da ciência da informação e da biblioteconomia e isto ocorre quando se faz uso da leitura. A propósito. de um novo senso comum em que aspectos sociais e culturais passam a ser relevantes à transmissão da informação. presente nos processos de mediação. Desta maneira. Desta maneira o espaço urbano representa o ambiente adequado para favorecer o desenvolvimento da leitura e a relação com GT1 189 . Para Lamizet (1995) a mediação é um processo: “[. as formações (as práticas e usos) e as formas de acesso à informação (tratamento. Araujo (2008) defende os estudos culturais. A mediação no espaço da ciência da informação consiste em exercer um poder mediador. reconhecendo a necessidade de enfatizar os sujeitos e as relações sociais. um processo pelo qual se instaura no campo social uma dialética entre o individuo e o coletivo. Assim. lugar onde ocorre a mediação sendo ela marcada pela pluralidade e sentido multidirecional (COUZINET. para exprimir que temáticas e gêneros discursivos se complementam (COUZINET. Portanto uma realidade empírica pode ser apreendida de diferentes maneiras. primeiro sistema de informação que se tem notícia desde a Antiguidade. pode-se contribuir para compreender as práticas informacionais que estimulam as formas de socialização da informação e conhecimento.. 2000). da linguagem e poder. 2000). sendo a mediação humana essencial no processo que se institui no ambiente urbano onde pode ocorrer a confluência de saberes. tendo.] le processus par lequel s’instaure dans le champ social. Assim sendo.. isto é. a contextualização oferece as condições de produção dos sentidos sociais. reforça a importância da cidade e expressa o desejo humano de registrar e fazer circular a informação e conhecimento. o saber registrado. Lamizet (1995) e Régimbeau (2006) contribuem significativamente para explicar a relevância da mediação no âmbito das ciências sociais aplicadas. Faz-se necessário perceber os movimentos sociais produtores de informação e conhecimento. esta última. A mediação na ciência da informação é vista em três planos por Jeanneret (2008) quando afirma que “elle fournit des outils pour décrire avec une certaine précision le processus d’informationcommunication”.. une dialectique entre le singulier et le collectif [. destacando Paris. da recepção e do discurso. no contexto da relação entre pesquisa científica e atividade profissional.. as cidades européias se notabilizaram como centros de informação e produção do conhecimento culto a partir do século XVII. a ciência da informação direciona-se para analisar os objetos. Londres. a função de porto e capital ao mesmo tempo. Couzinet (2009). destacando a cultura coletiva característica de uma identidade. análise automática e tecnologia numérica) (JEANERET. Para Almeida Junior (2007) a mediação é o processo que vai comunicar pelo documento e. porém para que isto aconteça é necessário que haja uma articulação entre o que é da esfera individual e o que é do domínio do coletivo. transformandose em outra realidade.]”. sendo relevante para a ciência da informação.

um público leitor em formação cresceu cada vez mais exigindo livros (MORAES. Em virtude da presença majoritária de obras em língua francesa que integram a lista de obras do núcleo inicial do acervo da Biblioteca Pública da Bahia é de se supor que pelo livro o conhecimento chegava ao Brasil (MORAES. Burke (2003) afirma que a distribuição do conhecimento espacial denominado a geografia do conhecimento pode ser vista em dois níveis: o macro que foca as cidades e são relevantes para as redes de longa distância. 1979). seguidas da implantação de tipografias e instituições culturais. Constata-se a influência das idéias liberais na comunicação. elite representativa na Bahia. e o micro. Por este motivo. escritórios.as elites cultas. favorecendo cidades como espaços públicos que facilitam encontros entre pessoas. As bibliotecas privadas que pertenceram aos senhores proprietários de engenhos de canade-açúcar. laboratórios. 1974. Este fato destaca o papel social da biblioteca sendo um dos caminhos para investigar uma sociedade preocupada com o acesso à informação e conhecimento. Também encontrou motivos de admiração na biblioteca de 7. tais como as academias. hospitais e ainda. Esta vertente GT1 190 . 8º Conde dos Arcos. cafés e bibliotecas porque proporcionam a possibilidade de encontros interpessoais. 1999). observou várias reformas urbanas. que visitou Salvador em 1816. quando a governava D. ressaltam-se aspectos relevantes para explicar as origens do pensamento francês e o desenvolvimento da leitura no país. galerias de arte.000 volumes que o Conde dos Arcos fizera organizar e instalar na antiga igreja dos jesuítas. interligando-as por serem representativas para a difusão da informação e conhecimento. com a colaboração de Francisco Agostinho e Alexandre Gomes Ferrão (TAVARES. Príncipe de Wied-Neuwide. universidades. Conseqüentemente. econômico e social e possuíam propriedades rurais e residências na capital (VERGER. 1969). sendo esses lugares significativos para a história do conhecimento. A biblioteca é assim comentada por Tavares: Maxiliano. grifos do autor). livrarias. Marcos de Noronha e Brito. 1979). composto de sedes do conhecimento: mosteiros. A criação da Biblioteca Pública evidencia a existência de uma classe culta de baianos. no final do século XVIII e a bibliotecas pertencentes a Cipriano Barata e Pantoja documentam a presença francesa pelos livros que integram as suas bibliotecas. 166. instituição central para o apoio e estímulo à leitura e acesso a novos conhecimentos. proporcionando um ambiente adequado para a criação de uma biblioteca de caráter público. A pesquisa de campo tem continuidade mediante duas vertentes: a) a primeira biblioteca publica brasileira e seu acervo inicial. Em primeiro lugar a importância da Revolução dos Alfaiates. b) as bibliotecas privadas pertencentes aos senhores de engenho do Recôncavo baiano. A difusão de conhecimentos para outras culturas faz com que o documento ultrapasse fronteiras geográficas. em 1798. movimento social e político que ocorre na Bahia e que abre a discussão sobre as idéias que pulsam na França e que chegam ao Brasil no período que antecede a instalação da Família Real no Rio de Janeiro (MATTOSO. p. Deste modo a primeira biblioteca pública em Salvador bem como o primeiro curso de medicina do Brasil são instituições pioneiras. tinham o controle do poder político.

ainda. no Rio de Janeiro. a censura controlava o comércio emergente. A influência francesa no Brasil permeia os segmentos sociais em diferentes níveis e esta é outra vertente da pesquisa. Os primeiros resultados aqui expressos constam. por sinalizar. uma vez que. literalmente. a entrada do conhecimento científico no país. Na virada do século XVIII. entre outros membros integrantes das elites cultas e possuidores de livros. estudantes e viajantes que os traziam entre os seus pertences quando viam para o Brasil. 2007). tipógrafo francês. informação e mediação ampliando caminhos que levam ao GT1 191 . ao ser criada em Salvador tem um papel significativo e de caráter social relevante para a história das mentalidades. Os estudos históricos e epistemológicos são de grande relevância para o projeto uma vez que ampliam as fronteiras da ciência da informação. Portanto. para o século XIX iniciativas de comercialização de livros aparecem com os editores e livreiros franceses. (ARAGÃO. De outra maneira a entrada de livros ocorria clandestinamente. membros da elite urbana e rural que contribuíram. e também exigia dos tipógrafos o domínio da língua portuguesa para garantir a qualidade das obras editadas (CAIEIRO. o projeto pretende contribuir para os estudos sobre leitura. sob o olhar atento da Inquisição. através dos imigrantes. O acesso a novas idéias e o empenho dos membros das elites cultas e dos representantes da população. ao mesmo tempo. Convém salientar que entre as principais obras que registram a história baiana o livro intitulado Memórias sobre a Bibliotheca Publica da Província da Bahia reproduz uma retrospectiva de fatos marcantes ocorridos na sociedade brasileira e destaca a criação da primeira tipografia responsável pela publicação do periódico A Idade D’Ouro do Brasil e finalmente a inauguração da Biblioteca Pública da Bahia que. Na Bahia destaca-se a tipografia do editor português Manuel Antonio da Silva Serva e a Associação Tipográfica da Bahia (ATB). 1990). do Relatório final da pesquisa intitulado Rapport Final: Développement de la lecture. além do interesse cultural indicavam a importância social e intelectual dos seus proprietários. As bibliotecas particulares. a doação de obras por membros da população reuniu a coleção de cerca de 3. imbuídos dos mesmos ideais motivam o encaminhamento do pedido de criação de uma biblioteca de caráter pública em Salvador. influence des élites cultivées et présence française: premiers résultats de recherche sur les origines de la diffusion et de la médiation des savoirs au Brésil. Nesse cenário. para a implantação da primeira biblioteca pública em Salvador (CARVALHO. Presidente da Província e do Padre Agostinho Gomes. da biblioteconomia. Assim sendo. formada por tipógrafos radicados em Salvador afirmando uma importante liderança local em relação ao trabalho tipográfico de qualidade que utilizava o livro de Fourier. senhores de engenho.500 livros e que teve a contribuição do acervo do próprio Conde dos Arcos.permitiu conhecer as preferências de leitura de natureza privada. 1878). o aparecimento de um público leitor influenciou um mercado editorial (tipografias e editoras) que surge com as primeiras casas tipográficas e editoras instaladas na capital do país.

b) identificar processos de mediação nas suas origens e que fortaleçam a relevância da leitura no plano cultural. Salvador: Constitucional. R. cultura e sociedade.). 308-324. (Org. a cultura e a sociedade informacional. 1999. Uma história social do conhecimento. COMPAGNON. 1987. 1878. mediações e produção de sentidos. Jussara P. O regime de informação e as mediações no uso social do conhecimento no contexto inovativo do Arranjo Produtivo.. 33-45. e. A ordem dos livros. Livros e livreiros franceses em Lisboa em fins de setecentos e no primeiro quartel do século XIX. CAPURRO. Rio de Janeiro: Bertrand Russel. 1989. mediação e apropriação da informação. p. A. (Org.). Roger. v. In: COLLOQUE MÉDIATIONS ET USAGES DES SAVOIRS ET DE L’INFORMATION FRANCE-BRÉSIL (RESEAU MUSSI). A pesquisa continua seguindo rumos imprevisíveis que tem como desafio a constatação de estar diante de uma realidade fecunda de importância para o país. Rio de Janeiro. conseqüentemente das idéias e das mentalidades. 184-206 BURKE. argumentação. BARTHES. 139-168. 2007. Leitura. Ana M. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. 11. GT1 192 . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Inesita Soares de. R. Adriane M. p. Travessia das letras. portanto para a história cultural. 35. 29-48. CHARTIER. REFERÊNCIAS ALMEIDA JUNIOR. 1990. 2008. F.. In: SANTOS.fortalecimento da área. da Gama. Belo Horizonte: Novatus. CABRAL. 2003. R. 151-166. Osvaldo Francisco de. CARVALHO. Brasília: UNB. No plano científico: a) consolidação da experiência necessária para a compreensão do uso de técnicas e tecnologias e suas formas mediadoras inerentes à informação. A leitura como prática pedagógica na formação do profissional da informação. 5. Antoine. Ana M. p. 1. ARAUJO. n. In: Enciclopédia Einaudi: oral/escrito. 2007. Katia de. CARVALHO. Alcenir. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. p. Epistemologia e Ciência da Informação. ARAGÃO. Peter. A ciência da informação. Antonio Muniz Sodré de. Rio de Janeiro: Zahar. p. 1. Lisboa: Difel. Memórias sobre a Bibliotheca Pública da Província da Bahia. CAIEIRO. p. Informação. A história cultural entre práticas e representações. Leitura. 2008. b) identificação da produção cientifica relativa às obras vindas para o Brasil e existentes nas bibliotecas públicas e nas bibliotecas privadas. In: REIS. Rio de Janeiro. Belo Horizonte. ______. 1999. CABRAL. Roland. Finalmente pretende-se contribuir no plano cultural para a história da leitura no Brasil e a influência francesa. Entre o Centro e a periferia: contextos. In: COLLOQUE MÉDIATIONS ET USAGES DES SAVOIRS ET DE L’INFORMATION FRANCE-BRÉSIL (RESEAU MUSSI). Boletim Bibliográfico da Universidade de Coimbra. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO-ENANCIB. 2003.

Library and information science: its contents and scope. 1979. p. 1972. 2010. e atual. Rio de Janeiro: ECO/ UFRJ. 1. THISEN. MATTOSO.). de Queirós. Luis Henrique Dias. 1969. MATTOSO. 19-30. 2009. Edição e sedição. 2008. Rio de Janeiro. Livros e bibliotecas do Brasil colonial. Le sens inter-médiare: recherches sur les médiations informationnelles des images et de l’art contemporain. p. Icléia. TAVARES. P. ed. London. culture et societé. de Queirós. Actes. In: COUZINET. ed. Regard panoramique sur les Sciences de l’information au Brésil: médiations hybrides. São Paulo: Editora 34. Hélio. Martha. rev. Salvador: Itapuã. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA. Salvador: Corrupio. ISER. Médiations documentaires: entre réalités et imaginaires. Université Toulouse-leMirail-Toulouse 2. Dispositifs infocommunicationnels: contribuitions à une definition. Bernard. 1995. ______. La relation entre médiation et usage dans la recherche en informationcommunication. MORAES. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1992. Wolfgang. Katia M. História do Brasil. Presença francesa no movimento democrático baiano de 1798. actes de la première Journée scientifique internationale du Réseau MUSSI. Paris: Lavoisier. 1992. Rio de Janeiro. educação e campo social: discursos e práticas de educação. 1999. LAMIZET. Gérard. Rubem Borba de. Yves. Médiations hibrydes: le documentaliste et le chercheur en Science de l’information. Viviane. VIANNA. DARNTON. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Melhoramentos. 1999. Regina Maria. In: ______. Viviane. Dispositifs intercommunicationnels: questions des mediations documentaires. Regina Maria (dirs.. Katia M. História da Bahia. MARTELETO. 1974. Cultura. São Paulo: LTC. In : Introduction aux sciences de l’information et de la communication. 129-138. 1992. Notícias da Bahia de 1850. JEANNERET.). São Paulo: Companhia das Letras. RÉGIMBEAU. In: COLLOQUE MÉDIATIONS ET USAGES DES SAVOIRS ET DE L’INFORMATION: UN DIALOGUE FRANCE-BRÉSIL (RESEAU MUSSI). Secretaria do Estado de São Paulo.COUZINET. Bahia. MARTELETO. VAKKARI. KERR PINHEIRO. Médiation. VERGER. p. Paris: ADBS. 2007 (Projeto de pesquisa). Paris: Les editions d’organization. Taylor Graham. Introduction. Sous la direction de Viviane Couzinet. UNIRIO. Rio de Janeiro. (dir. Pierre. 2. 2006. 2000. Robert. A concepção de informação no contexto político social dos oitocentos no Rio de Janeiro: elementos para a memória institucional e a pré-história da Ciência da Informação. 37-59. GT1 193 . 9. 1992. século XIX: uma província no Império.

sobretudo pelos estudos elaborados por Hilary Jenkinson (1965) e Luciana Duranti (1994). coerções. a GT1 194 . Archival and Information Studies. com os métodos positivistas de investigação de fenômenos sociais. camuflando as manipulações. Esses valores. Postura semelhante ao método positivista proposto por Auguste Comte no século XIX. Positivismo. a naturalidade. atua como membro ativo da Society of American Archivist e coordena o International Research on Permanent Authentic Records in Electronic Systems (InterPARES). A verdade por essa abordagem seria algo natural e verificável nos documentos. criados pelos agentes sociais que atuam na Arquivística. Arquivística. ações. imparcialidade e naturalidade nos documentos. Campo Disciplinar 1 INTRODUÇÃO Luciana Duranti. acordos e exclusões realizados pelos arquivistas nas suas ações de seleção. Essa prática do campo inscreve-se na busca da disciplina em estabelecer a verdade por meio do documento. a autenticidade. Nosso estudo parte desta observação para repensarmos a categoria documento no campo da Arquivística e os próprios princípios indicados por Duranti (1994) como partes constituintes da natureza do documento arquivístico. Canadá. em seu artigo. Luciana Duranti professora do Programa de Estudos Arquivísticos (MAS) da School of Library. da University of British Columbia. transações e fatos que foram gerados ou recebidos no curso das atividades pessoais e institucionais. são artificialmente camuflados e transformados em atributos. Registro documentais contemporâneos como provas de ação (1994). No entanto. juízos de valor.COMUNICAÇÃO ORAL ENTRE VALORES E VERDADES: ANÁLISE SOBRE A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO NAS CONCEPÇÕES DA ARQUIVÍSTICA SOBRE DOCUMENTOS Raquel Luise Pret Resumo: Análise das características documentais defendidas pela Arquivística. Palavras-chave: Documento. sobretudo. chama a atenção sobre a necessidade de refletir-se sobre a natureza dos documentos considerados arquivísticos na contemporaneidade. como autenticidade. Tais atributos seriam verificados a partir de observações. em função do grande desenvolvimento social e tecnológico que estamos atravessando desde a Segunda Guerra Mundial. estudos e amparados por modelos que permitiriam ser identificados. os documentos que poderiam ser considerados dessa forma necessitariam possuir cinco características que fariam parte de sua natureza: a imparcialidade. Abordagem sobre as possíveis relações existentes na construção de valores pela Arquivística. sobretudo. O documento. partes componentes dos documentos. avaliação e descarte dos documentos. seria prova de ação. classificação. registro de intenções. o inter-relacionamento e a unicidade. Seu nome tornou-se um expoente na área Arquivística por seus estudos sobre preservação dos documentos arquivísticos contemporâneos e. na concepção de Jenkinson (1965) e Duranti (1994).

1988. Para o positivismo. (JENKINSON. A autora. fossem eles sociais obedeciam a lógicas inatas. Nossa proposta de análise parte do entendimento que a concepção de Luciana Duranti (1994) sobre documento mostra grande afinidade com os métodos de investigação dos fenômenos sociais defendidos pela Ciência Positivista de Auguste Comte. Duranti (1994) estabelece como princípios de classificação para documentos arquivísticos critérios metodológicos da Diplomática e os fundamenta com argumentos da doutrina positivista do século XIX. p. construções de modelos que chegassem à comprovação de suas regularidades. o arquivista precisaria garantir a inviolabilidade dos mesmos. em sua natureza. Igualmente. 1996) No entanto. 1994. aproximando o conceito de documento arquivístico ao de prova documental. seus regimentos operativos. experimentos. 1994. 50). ações e relações construídas pelo campo da Arquivística. ações. leis universais que poderiam ser identificadas e compreendidas por seus pesquisadores a partir de observações. análises. p. à autenticidade e à naturalidade é feita a partir de valores. o julgamento. 23) No entanto. quanto por Auguste Comte (1988) para analisar fenômenos sociais estão repletos da subjetividade tão criticada pelos mesmos. fariam GT1 195 . p. Caberia ao pesquisador o papel de intérprete de tais leis. pois o que importava à Ciência Positiva era a compreensão dos fenômenos tal como eles eram. influenciada pelos estudos de Hilary Jenkinson (1965) sobre a autenticidade dos documentos. as regularidades observadas por Comte em seus estudos são construções artificiais. defendida pelo mesmo em 1852. e amplia seu conceito descrevendo o documento como registro de intenções. p. invenções humanas que servem para interpretar e compreender o mundo. 50) Por essa capacidade de registro dos documentos. costumes. p. violências. 1965. os fatos fossem eles naturais. os mecanismos funcionais. de descobridor das leis que regiam o fato abordado. 1988. seriam componentes. o registro documental seria o nosso “remédio para a lembrança” e por esse motivo os arquivistas seriam guardiões incumbidos da “proteção física e moral dos arquivos” (DURANTI. 114) (DURANTI. 51). (COMTE.respeito da preservação de suas características no meio digital. 23) Não haveria espaço para a crítica. retoma a qualificação atribuída pelo arquivista inglês sobre o registro documental como prova de ação. Eles necessitariam possuir cinco características que. nem todos os documentos poderiam ser considerados registros de ação. Os documentos deveriam ser preservados de acordo com procedimentos claramente estabelecidos e consolidados pelo campo da Arquivística. a atribuição de certas características aos documentos que seriam pertinentes à imparcialidade. A verdade dos fatos se revelaria a partir do estudo minucioso de sua formação e regularidade. as adjetivações. (DURANTI. poderes. (FOUCAULT. As leis sociais. Segundo a autora. seus funcionamentos. crenças. as normas e os padrões estipulados tanto por Luciana Duranti (1994) para afirmar o que é um registro documental. Caberia ao arquivista proteger a autenticidade dos registros documentais sob sua responsabilidade. portanto. segundo Duranti (1994). transações e fatos que foram gerados ou recebidos no curso das atividades pessoais e institucionais. sem a interferência externa. (COMTE. 1994. eles seriam dignos de confiança e. p. coerções. os critérios.

uma forma de aquisição artificial (DURANTI. Não pode haver documentos completamente idênticos em uma estrutura. A nossa análise está focada nas três primeiras características dos registros documentais defendidas por Luciana Duranti (1994) que vêm sendo adotadas por diversos cursos de Arquivologia no Brasil como princípios que classificam documentos como arquivísticos ou não-arquivísticos. rotinas processuais. a autenticidade. Curso de Filosofia Positiva (1852). ou seja. 1994. Os registros documentais seriam conjuntos indivisíveis de relações intelectuais que perderiam seu sentido se fossem analisados separadamente. que assegurassem uma promessa de fidelidade dos fatos e das ações. ou seja. de acordo com as necessidades de agir. pois sofreria distorções que o fariam perder a sua essência (DURANTI. (DURANTI. A última característica do registro documental apontada por Luciana Duranti (1994) seria a unicidade. A imparcialidade do documento residiria no fato deste ser produzido para desenvolver uma ação e sob circunstâncias. o inter-relacionamento e a unicidade. 1994. no curso de suas transações. na qual defende métodos cientificistas para o estudo de fenômenos sociológicos. Já a autenticidade estaria associada à capacidade do documento ter mantido a sua integridade apesar das possíveis manipulações sofridas. “Cada documento está intimamente relacionado com outros tanto dentro quanto fora do grupo no qual está preservado e seu significado depende de suas relações. 51). 52).” (DURANTI. pois essa atitude quebraria uma série de cadeias de relacionamentos (DURANTI. A autora os compara com formações geológicas que se formam progressivamente de acordo com a coesão espontânea da natureza. 1994. 1994. De acordo com Duranti (1994). 52). p. mantido e arquivado de acordo com normas e padrões autorizados. Ele precisaria ser produzido. p. 52) Nesse sentido. p.parte de sua natureza: a imparcialidade. 52). Qualquer alteração fora deste contexto faria o documento perder seu caráter autêntico. Elegemos os três primeiros princípios por entendermos que estes se assemelham sensivelmente com princípios positivistas defendidos por Auguste Comte em sua obra do século XIX. O inter-relacionamento seria a quarta característica dos registros documentais que consistiria na forma destes estabelecerem relações entre si no desenvolvimento das ações ou das transações que os produziram. GT1 196 . 1994. O complexo de relações desencadeado por cada registro é concebido por Duranti (1994) como único. selecionando o que deveria ou não pertencer as suas coleções. Essa terceira característica diferenciaria os arquivos dos museus e bibliotecas que escolheriam seus acervos. p. ele perderia sua capacidade probatória. os documentos arquivísticos acumulam-se naturalmente. um único documento não poderia se constituir em um testemunho suficiente dos fatos e dos atos passados. cada registro documental ocuparia um lugar único na estrutura documental do universo documental ao qual pertenceria. p. a naturalidade.

(SCHELLENBERG. A busca de maior rigor nos estudos diplomáticos se deu após a iniciativa dos jesuítas. liderados por Jean Bolland. objetivando descobrir o que era verdadeiro ou falso na vida dos santos. p. GT1 197 . até o século XIX. No entanto. Os arquivos são reflexos da sociedade que os produziram e o modo de interpretá-los também acompanha as mudanças que ocorreram ao longo dos séculos. 2009). como Schellenberg (1978) e Rabello (2009) mostram. O método aplicado por Mabillon e os critérios utilizados tornaram-se fundamentos da Diplomática e passaram a ser utilizados para validarem os documentos ou os considerarem falsos. desde 1821. abreviação. pontuação. A linguagem. com base nos estudos elaborados pela École des Chartes. segundo a própria ata da Assembléia Nacional que o funda. em 1672. os Archives Nationales de Paris. (RABELLO. A Diplomática surgiu como método de análise empírica de documentos oficiais ainda no século XIV para atestar a veracidade dos registro de terras. Seu alcance limitava-se aos documentos antigos e medievais de caráter jurídico. para realizarmos uma análise mais ampla do desenvolvimento desses princípios na Arquivística contemporânea precisamos compreender a própria formação do campo arquivístico. os Arquivos foram criados junto à Administração Estatal e a formação de seu campo disciplinar. Ademais. datas. seria salvaguardar os documentos relativos às glórias e às conquistas da Nova França.Nossa proposta é refletir sobre a influência positivista comteana na formação dos princípios defendidos por Duranti (1994) de registros documentais como provas de ação. a Diplomática firmou-se como ciência capaz de comprovar a autenticidade ou a falsidade dos documentos. o tipo de escrita. No final do século XIX. Tanto que a missão dos primeiros arquivos nacionais criados em 1790. com a publicação De re diplomatica libri VI. esteve associada e influenciada pelos campos do Direito. sob a influência dos estudos filosóficos e científicos do Renascimento. que resolveram publicar a história dos santos em um documento denominado Acta Sanctorun. dividida em seis volumes. Portanto. não eram todos os documentos submetidos a sua análise. 1973) Os arquivos procuraram aproximar-se da disciplina Diplomática para desenvolver suas formas de tratar e classificar os documentos sob sua custódia. No entanto. a partir do século XVII tornou-se uma disciplina científica. a conceituação de arquivo mudou em conformidade com as mudanças políticas e culturais em que as sociedades ocidentais viveram. da Diplomática e da História. (RABELLO. responderam à obra dos jesuítas. desde seu surgimento como instituição autônoma ainda no século XVIII. para a História e para a Arquivística no século XIX. por meio de Jean de Mabillon. entre outros elementos do documento serviam de parâmetros para conceder a chancela de verdadeiro ou falso. 2009. No entanto. selos. Os beneditinos considerados especialistas na crítica documental e na análise textual. 105). após o Período Feudal. a Diplomática firmou-se como disciplina que fornecia técnicas e metodologias capazes de “verificar” e “atestar” a verdade dos documentos tão fundamentais para o Direito. a tinta. 2 O DOCUMENTO E O CAMPO ARQUIVÍSTICO Ao longo da história.

é a publicação. A partir de então. p. do célebre “manual dos arquivistas holandeses” que constitui o marco a partir do qual a Arquivística deixa de se configurar como um auxiliar da ciência histórica para inserir uma progressiva afirmação como disciplina de caráter marcadamente técnico. mas todo o conjunto de documentos decorrentes de uma ação. que trabalhavam dentro dos arquivos. os primeiros a assumirem as funções de arquivistas – seleção. 2. o importante não era o documento enquanto peça individual. de todo o processo que produziu o registro e continuou desencadeando outros registros. Ademais. (RIBEIRO. no final do século XIX. mas de uma totalidade de documentos.1. e sim para a pesquisa dos historiadores. A autonomização disciplinar da Arquivística só podemos situar em finais do século XIX. procurando criar sistemas que facilitassem a busca dos documentos históricos a serem pesquisados. como anteriormente. A Diplomática não foi abandonada como técnica de aferição de verdade dos documentos arquivísticos. 26) Por mais que os arquivos nacionais guardassem os documentos referentes à Administração Pública. SIM À GESTÃO: O RITUAL DE PASSAGEM DA ARQUIVÍSTICA Segundo Theo Thomassen (2006). uma estrutura. Os arquivos nacionais franceses do governo do Diretório do século XIX corroboram essa afirmativa (SCHELLENBERG. (THOMASSEN. 54) O importante para os arquivos deixou de ser a informação histórica ou cultural que cada documento apresentava. mas também instituiu o princípio da inter-relação entre os documentos. a partir da publicação do Manual dos Holandeses (1898). 1973. levou a Arquivística a aproximar-se mais da Administração Pública e do Direito em detrimento da História. Essa mudança não somente fundou o princípio arquivístico do respeito aos fundos e o princípio do respeito à proveniência. mas a sua ordenação para melhor atender a rotinas administrativas das instituições a que estavam subordinados e às demandas do judiciário no tratamento das provas documentais em seus processos. uma instituição. classificação e organização – . NÃO À DISCIPLINA AUXILIAR.(SCHELLENBERG. 2006) Essa ruptura com o campo da História veio GT1 198 . 99) No entanto. a Arquivística somente mudou a forma de analisar o documento no tocante à quantidade. Todavia. até o final da Segunda Guerra Mundial. a análise não se dava apenas dos itens em separado. 1973). 2002. esse importante rompimento no final do século XIX. 1987. (JARDIM. a racionalidade de suas classificações não estava voltada para o atendimento prioritário deste campo. p. foram os historiadores. em 1898. que trabalhavam em causa própria. embora sem deixar de continuar marcada pela matriz historicista. a Arquivística passou a desprender-se da tradição diplomática no que se refere a analisar os itens individualmente e passou a aproximar-se da tradição administrativa de considerar o conjunto de documentos pertencente à determinada estrutura ou ação. pensando a própria prática da arquivística. p. Com efeito. quarta característica apontada por Duranti (1994) como essencial aos documentos arquivísticos.

conciliações. 1987) A severa crítica ao conceito de documento produzida pela École des Annales. 1974. promoveu uma profunda transformação no campo da História no que se refere à concepção de documento e ao tratamento dado pelos historiadores. Segundo Bloch (2001). rituais religiosos. e outras variáveis que influenciariam qualquer conjuntura histórica. monumentos. denunciando abusos. coerções. as crenças. ou instituição. mostraram a fragilidade da imparcialidade dos documentos e da autenticidade contida neles. quer de um conjunto de condições GT1 199 . após a Segunda Guerra Mundial. emprego ‘estado’. o método defendido pelo historicismo alemão e pelo positivismo comteano era precário. sobretudo. as classes. entre outros.” (VAN GENNEP apud TURNER. na primeira metade do século XX. Esta prática. em seu livro póstumo Apologia da História ou o ofício do historiador (2001). Van Gennep (1969) mostrou que todos os ritos de passagem ou de “transição” caracterizam-se por três fases: separação. posição social”. o historiador deveria analisar não somente o que o documento registrava. os costumes. os modos de vida. do grupo. p. culturalmente reconhecida. a economia. denunciando a intenção de seus produtores e a força política de seus registros. significando “limiar” em latim) e agregação. É um conceito mais amplo do que ‘status’ ou ‘função’. segundo Van Gennep (1969 apud TURNER. 1974). pois ao conceber somente os documentos históricos como registros do passado desconsideravam uma infinidade de outros indícios importantes para a análise histórica como os hábitos. não existindo assim mais a condição de pertencimento anterior. (JARDIM. Os estudos dos Annales.a consolidar-se no século XX. ou de uma instituição. da segunda geração da École des Annales. incluindo todos os seus outros termos. objetos do cotidiano. sobretudo na figura do historiador Marc Bloch que em 1949 propôs o abandono do método cientificista do positivismo e colocou em xeque os documentos e as suas verdades. de grande repercussão no campo historiográfico. A primeira fase (de separação) abrange o comportamento simbólico que significa o afastamento do indivíduo. quer de um ponto fixo atrelado à estrutura social. 2001. acordos e silenciamentos. omissões. os interesses políticos ocultados e revelados. estado. a formação. Segundo March Bloch. p 115). ou clã. as lutas. 58) Essa concepção de documento se consolidou na historiografia ao longo do século XX. mas também o que ele deixava de registrar. O antropólogo definiu os rites de passage como “ritos que acompanham toda mudança de lugar. Essa postura da História provocou um distanciamento da Arquivística que continuou a preservar a Diplomática como disciplina que legitimava e autorizava suas práticas de seleção e classificação de documentos arquivísticos e procurou no Direito positivista e na Administração Pública bases para a sua consolidação enquanto campo disciplinar. inscreve-se em um ritual de passagem onde um determinado indivíduo. e não somente os documentos textuais salvaguardados em arquivos. procura desvincular-se das suas relações de afinidade e parentesco a fim de alterar ou extinguir a sua identidade e familiaridade. depois dos artigos de Jacques Le Goff. margem (ou “limen”. quando a Arquivística assumiu uma vertente mais tecnicista em seus estudos sobre documentação. (BLOCH. “Para indicar o contraste entre ‘estado’ e ‘transição’. Memória e Documento/Monumento (1984). que passou a considerar diversas outras formas como registros documentais a exemplo de narrativas orais. e refere-se a qualquer tipo de condição estável ou recorrente.

culturais (um “estado”). as características do sujeito ritual (o “transitante”) são ambíguas. com o objetivo de melhor compreender os processos de criação dos documentos da burocracia moderna”. p. A partir do século XX. permanece num estado relativamente estável mais uma vez. na verdade. silenciamentos e conciliações. da reinvenção da Diplomática pela Arquivística. voltada à Administração e à Gestão de Documentos. oriundos da burocracia da Administração Pública. a Arquivística realizou um ritual de passagem. sobretudo. e em virtude disto tem direitos e obrigações perante os outros de tipo claramente definido e “estrutural”. seja na análise dos documentos. (TURNER. Já a transição. onde houve a preocupação com a racionalidade do trabalho arquivístico voltado à Administração. esperando-se que se comporte de acordo com certas normas costumeiras e padrões éticos.] trata-se. ou ainda de ambos. 2. pela ação dos seus sujeitos. considera-se figuração uma estrutura social em transformação contínua operada pelo tempo. Por fim. concluiu-se o rito com a reagregação e a reincorporação total da Arquivística a uma nova estrutura. num sistema de tais posições. pois se separou de uma estrutura social e das condições sociais em que se encontrava. após a Segunda Guerra Mundial quando a Arquivística passou a sofrer grandes demandas dos campos da tecnologia e da comunicação por informações precisas. Uma maneira diferente de proceder de um desses agentes contribuirá para modificar toda a figuração da estrutura. desastres naturais.2 AUTONOMIA E FORMAÇÃO DO CAMPO DISCIPLINAR Segundo Nobert Elias (1994). no entanto ainda era forte o trabalho dos arquivistas junto às demandas dos historiadores. “[. o segundo estágio do ritual de passagem. eficientes e organizadas para o desenvolvimento de seus campos que estavam GT1 200 . enfim todos os agentes presentes nos seus contextos. Durante o período “limiar” intermédio. relações. ocorreu na primeira metade do século XX. p. seja ele individual ou coletivo. impedimentos. Esse pensamento ganhou força. (ELIAS. a partir da Segunda Guerra Mundial. ou quase nenhum. 1994. Enquanto campo disciplinar a Arquivística procurou desvincular-se do status de disciplina auxiliar da história e firmar-se como campo autônomo e de excelência no tratamento da informação arquivística e do documento como registro de ação. 45). Segundo Rondinelli (2002. p. tensões. dos atributos do passado ou do estado futuro. a Arquivística apropriouse da Diplomática para analisar não somente os documentos históricos custodiados pelos arquivos. 1974. crenças. passa através de um domínio cultural que tem poucos.. pelas coerções.. 116) Ao procurar romper com a História e a sua concepção de documento no século XX. 146) Os sujeitos que procuravam afirmar a Arquivística enquanto campo disciplinar autônomo viramse levados a desprenderem-se da figuração que oferecia a sua área um papel secundário seja no tratamento dos documentos. Na terceira fase (reagregação ou reincorporação). O sujeito ritual. consuma-se a passagem. que vinculam os incumbidos de uma posição social. Houve a separação no final do século XIX com o aparecimento do “Manual dos Arquivistas Holandeses” (1898). mas para o tratamento dos documentos contemporâneos.

novas relações foram construídas com a Diplomática e com o Direito. o campo começou a crescer a partir da Segunda Guerra Mundial com a demanda do campo da administração e da tecnologia pela racionalização do tratamento documental. sobretudo da Administração Científica proposta por Frederick Taylor (1911). ou seja. a Arquivística. (JARDIM. no Direito e na Administração discursos que a autorizavam e a legitimavam enquanto campo disciplinar autônomo. cultural e simbólica.(JARDIM. Igualmente. A mudança de paradigma na Arquivística a partir da segunda metade do século XX. p. autonomia que exige um público de consumidores virtuais cada vez mais extenso. estados que possuam administrações científicas. sendo possível a elaboração de uma espistemologia e uma metodologia próprias. 1987) Segundo Pierre Bourdieu (1987). Essa nova figuração do campo da Arquivística transformou profundamente a sua identidade. 58) A partir de então. físicas. onde suas relações passaram a ser com grupos distintos: a Administração e a Tecnologia. surgindo assim o conceito de Gestão de Documentos. ainda que seus laços com essas duas áreas sejam mais antigos em comparação com a Administração e a Tecnologia. A preocupação da Arquivística passou a ser a produção de critérios. como observou Theo Thomassen (2006) ocasionou o distanciamento deste campo disciplinar com a História e o aproximou das teorias administrativas. econômica. organizar e avaliar os documentos de acordo com as exigências específicas do campo tecnológico.em plena ascensão e desfrutavam de grandes recursos devido à Guerra Fria. 2003). na formação de um campo existe um processo de automização. órgãos. e produtores. havia uma crescente demanda de áreas diversificadas pelo trabalho da Arquivística. Os documentos classificados e organizados pelos arquivos deveriam disponibilizar informações autênticas e legítimas que possibilitassem o desenvolvimento pleno das ciências tecnológicas. na segunda metade do século XX. 1987. entre outras que buscavam exatidão e eficiência. arquivistas. voltada a organizar as ações e informações produzidas por instituições. reagregando-se. nucleares. socialmente diversificado e capaz de propiciar aos produtores de bens simbólicos não somente as condições mínimas de independência social. Portanto. Retomando Van Gennep. mas também um princípio de legitimação paralela. buscando selecionar. que procuravam criar saberes próprios da área e buscavam na Diplomática. No entanto. No caso da Arquivística. classificar. de mais de três séculos. metodologias e classificações de documentos que atendessem prontamente com o máximo de eficiência e rapidez às demandas das GT1 201 . passando a ser reconhecida como uma área de gestão de documentos. A Arquivística e seus agentes sociais perceberam que tal demanda figurava-se como oportunidade de ruptura com status de disciplina auxiliar e de mudança para uma estrutura que permitisse maior autonomia e identidade com o seu próprio campo. (RABELLO. consumidores na ótica bourdesiana. teria concluído o seu ritual de passagem. não deixou de alicerçar-se na Diplomática e no Direito como disciplinas que autorizavam as suas práticas. a Arquivística voltou-se a atender tais demandas. como estabelecia a doutrina taylorista (1911). reincorporando-se a uma nova estrutura social.

sociológica e política que levaria ao desenvolvimento pleno do espírito humano. concepções que os positivistas rotulavam como metafísicas (GIDDENS. Havia assim a positividade da ciência e a divinização do fato. a física. A partir da segunda metade do século XX. 2005). quer dos GT1 202 . (BOURDIEU. criando seus imperativos técnicos e suas normas que restringiam o acesso ao seu campo de atuação. pois o único método de conhecimento advinha das ciências naturais. 9) De acordo com Comte. No entanto. onde há um corpo de produtores e instituições de bens simbólicos cuja profissionalização faz com que estes passem a se reconhecer exclusivamente. ainda que algumas correntes teóricas dessas áreas que influenciaram sua constituição tenham criticado e se afastado do positivismo comteano. Pois os fenômenos sociais também seriam fatos lógicos e somente a partir da observação aprofundada de tais fatos que se poderia atingir o conhecimento de suas leis. (COMTE. sejam primeiras. alguns autores como Hilary Jenkinson (1965) e Luciana Duranti (1994) ao procurarem legitimar seu campo por meio do Direito e da Diplomática. postura que levava à mentalidade positivista a combater as concepções idealistas e espiritualistas da realidade. ciência e comunicação. caracteriza o que o antropólogo chamava de constituição do campo simbólico. Influenciado pelos avanços tecnológicos oriundos da Revolução Industrial e o cientificismo das consideradas ciências naturais. 3 O POSITIVISMO NA ARQUIVÍSTICA E SUAS INFLUÊNCIAS O positivismo surgiu na segunda metade do século XIX.áreas da tecnologia. considerando como absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós a investigação das chamadas causas. Retomando Bourdieu (1987). Todos os conhecimentos deveriam ser fundados em observações. sejam finais. classificadas e disponibilizadas aos seus consumidores por meio de seus documentos custodiados. os fenômenos sociais deveriam ser estudados com a mesma metodologia de ciências como a astronomia. 100) Ao produzir informações tratadas. quanto de demanda por informação. p. normas e metodologias que formam um conjunto de determinações que passam a definir as condições de acesso à profissão e participação no meio. com os pressupostos defendidos por Auguste Comte com o objetivo de fundar uma doutrina filosófica. O caráter fundamental da filosofia positiva é tornar todos os fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis. os arquivistas delimitaram seu campo. p. Comte defendia que o único conhecimento possível era o que as ciências permitiam conhecer. tanto de produção de documentos. o crescimento do campo arquivístico com o boom informacional no período da Guerra Fria. 1988. 1987. a matemática e a fisiologia. consolidam-se na Arquivística imperativos técnicos. cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços. construíram uma concepção positivista da Arquivística.

p. proposição de teses. em seu embate com o positivismo. para fazer reverter. quer dos princípios aos fatos. para. modelos. enfim. possuindo uma relação íntima com a fisiologia propriamente dita. alguns elementos modificadores que. 1988. 29) A Teoria Crítica do Direito que surgiu na década de 1930. a jurisprudência. em nosso proveito. a sua ciência positiva. p. bastam. No próprio campo do Direito. 1988. (COMTE. 1986. em certos casos. pois julgariam subjetivamente. 23) Comte afirmava que somente a partir do conhecimento aprofundado das leis relativas ao indivíduo seria possível estudar os fenômenos sociais. os resultados definitivos do conjunto das causas exteriores. O positivismo comteano. observação. (COMTE. 33) A proposta metodológica de Comte (1988) para as ciências sociais consistia no estudo dos fenômenos sociais a partir da investigação. estabelecia que o conhecimento se explicaria por si mesmo. deveriam se distanciar de seus juízos e assumir uma postura neutra baseada em provas produzidas pelas partes litigantes num processo. p. Isto é. a elaboração de leis sociais. entre as circunstâncias determinadas sob a influência das quais se realizam os diversos fenômenos. 15) Todas as vezes que chegamos a exercer uma grande ação. p.fatos aos princípios. 2003). a matemática e a física para consolidar a sua física social. (COMTE. A teoria positivista ganhou força num momento em que se acreditava ser a verdade um fim atingível e somente possível por meio dos métodos científicos como a investigação. que tanto influenciou a Arquivística. Os juristas seriam intérpretes das leis. Nesse sentido. as lacunas estariam nas leis ou na falta de compreensão destas. havia a corrente positivista que defendia não haver lacunas no direito do homem. é somente porque o conhecimento das leis naturais nos permite introduzir. Comte procurava legitimidade em áreas como a medicina. e quaisquer outros aforismos parecidos. a astronomia. A física social baseava-se num corpo de observações diretas que lhe era próprio. a sentença e outros atos de poder decisório dos juristas seriam atos soberanos. necessitando apenas o estudioso recuperá-lo e colocá-lo à mostra. (NEUMAN. mas nas ações “político-jurídicas” dos agentes do campo do Direito. utilizando o aparelho coercitivo do Estado para impor suas sentenças transformadas em obrigações de fazer e deixar de fazer aos que se submetessem GT1 203 . uma transposição das técnicas e metodologias utilizadas pelas ciências naturais que haviam se consolidado como campos disciplinares conceituados e legitimados socialmente no século XIX. usado como arcabouço teórico nas ciências humanas no século XIX. a observação e comprovação das leis do mundo – princípios naturais que regiam as coisas e que estavam no universo prontos a serem descobertos assim como foram as leis newtoneanas (LÖWY. afirmava que as lacunas não estariam nas leis. em que pese a sua própria fraqueza. 1988.

Os problemas de avaliação. mas uma ciência pura (.. preocupações de nova ordem caracterizaram a Arquivística.às regras e aos critérios criados pelo poder judiciário. pois qualquer juízo de valor na pesquisa e análise alteraria o sentido e a verdade própria dos fatos.1. especialmente sobre o ofício do arquivista. (NEUMAN. seleção e eliminação. modificando a própria História. 1986. quanto o Direito com a Teoria Crítica do Direito a partir dos anos de 1930 procuraram repensar seus campos. abandonando a doutrina positivista. 2003). sem caráter científico. a minuciosidade. responsável por mediar tal questão. o detalhe e a dedicação impessoal. p. em consequência do aumento considerável da produção de documentos levou a uma reflexão da própria práxis do campo. Já a Arquivística. na interpretação das leis e nos valores preservados pelo jurista. A concepção arquivística. 32) Portanto. da mesma maneira que o químico encontra os seus em experiências minuciosamente conduzidas” (COULANGES. fez o caminho inverso. A objetividade. No período entre as duas guerras mundiais. ao aproximar-se do campo da Administração e das Ciências Tecnológicas e tecer novas relações com o Direito e com a Diplomática. Essas decisões seriam atribuições de valores baseadas nos discursos apresentados pelas partes. a cientifização que marcou a época também se espalhou para o campo dos estudos humanos. a partir dos estudos. alinhou-se com os pressupostos positivistas de método científico e documento para legitimar o seu campo e as suas práticas. influenciado por Comte. 3. Entretanto. ou o próprio julgamento da justiça que deveria ser imparcial. Análises subjetivas e parciais tornariam os saberes falhos. Numa sociedade européia que buscava seu próprio desenvolvimento e avançava rumo a grandes descobertas na ciência e na tecnologia. primeiramente de Hilary Jenkinson. reduzindo o papel do profissional das ciências humanas a um mero coletor de informações (LÖWY. tanto a História com a École des Annales e a Nova História. a doutrina positivista do século XIX criou a necessidade de se utilizar na pesquisa e na análise dos fenômenos sociais o máximo de documentos possíveis com o objetivo de se obter a totalidade sobre os fatos. em 2001. chegou a afirmar que: “a História não é arte. e posteriormente de Luciana Duranti. Fustel de Coulanges. O PRIMADO DA ARQUIVÍSTICA: TRATAMENTO DOCUMENTAL POSITIVISTA A Arquivística no século XX continuou a defender os princípios positivistas como arcabouço teórico para suas práticas mesmo que as áreas que haviam legitimado o seu campo como a História e o Direito já tivessem abandonado tal filosofia. portanto. em 1965. sendo aprofundados pelo grupo InterPARES. a partir desses nomes da área. destituídos assim de valor e validade. A década de 50 caracterizou-se pelas preocupações de caráter pragmático do campo da GT1 204 . 2003). mas também na subjetividade. A busca desses fatos deveria ser feita por mentes neutras.. historiador do século XIX. foram as grandes lições da escola positivista para o estudo de áreas que influenciaram o campo da Arquivística como a História e o Direito no século XIX.) a busca dos fatos é feita pela observação minuciosa dos textos. a partir do final da década de 1980. na subjetividade dessas.

são exemplos da procura de sistematização teórica que envolveu a Arquivística. Influenciados pela teoria de Hilary Jenkinson (1965) sobre documentos. modelos e leis. As revistas Archives e Archivaria produzidas no Canadá tiveram grande influência neste campo. Esse posicionamento denuncia o caráter positivista dos estudos elaborados por Duranti e por seu grupo InterPARES (2001). num período em que a acentuada evolução tecnológica criou e agudizou problemas práticos de vulto. sobre o princípio do respeito aos fundos. sobretudo os estudos de Luciana Duranti sobre as características dos registros documentais a partir da década de 1980. Luciana Duranti afirma que a imparcialidade. inerentes a eles. a autenticidade e a naturalidade seriam atributos verificáveis nos documentos que comprovam ações. e passassem a atuar de forma mais pragmática. A verdade por essa abordagem é algo natural e verificável nos documentos. camuflando GT1 205 .Arquivística. valores atribuídos por seus produtores. Nas décadas de 1960 e 1970 a Arquivística preocupou-se com o debate de questões de ordem técnica envolvendo a classificação e o armazenamento dos documentos custodiados pelos arquivos como. Caso não fosse possível a observação destes atributos. Todavia. a problematização dos fundamentos da Arquivística no Canadá. uma vez que impõem aos documentos características naturais. por meio de observações. por exemplo. não deveriam ser analisados pela Arquivística. avaliar e excluir documentos. acentuando-se a tendência tecnicista na forma de encarar a disciplina. teses. o estudo já referido de Theodore Schellenberg. o motivo seria por se tratarem de documentos ilegítimos e. Essa prática do campo inscreve-se na busca da disciplina em estabelecer a verdade por meio do documento. embora a componente teórica não tenha estado ausente por completo. sendo significativo o artigo que Louis Garon publicado no primeiro número da revista Archives (1969) sobre o princípio da proveniência e a problematização de Michel Duchein em 1977. a partir dos anos de 1980. que deveriam ser observadas e extraídas destes. Obras como o manual do alemão Adolf Brenneke (1953). os estudos da autora aproximam-se da Diplomática e do método positivista de Auguste Comte ao estabelecer como características inerentes aos documentos. sob o título Modern archives: principles and techniques (1956). classificar. procurando atender às demandas de informação com metodologias semelhantes às utilizadas pelas ciências exatas. valores atribuídos pela própria Arquivística ao selecionar. que são invenções. A Arquivística ao aproximar-se dos saberes exatos procurou utilizar de seus métodos para obter a sua legitimação entre seus consumidores. na França. a Arquivistica procurou legitimar-se enquanto campo científico com métodos e epistemologia próprios. portanto. Em seu artigo Registros documentais contemporâneos como provas de ação (1994). ou seja. A necessidade de se controlar a produção documental fez com que os arquivos deixassem de prioritariamente servir à pesquisa histórica e ao desenvolvimento cultural. classificadores e arquivistas.

segundo determinados códigos socioculturais. p.as manipulações. fará parte de outra esfera. esses princípios defendidos por Luciana Duranti (1994) mascaram o trabalho dos arquivistas procurando apagar sua responsabilidade e seu poder ao selecionar e atribuir o que deve ser ou não documento que registre uma ação. defendida por Hilary Jenkinson (1965) e Luciana Duranti (1994). Ao imputar aos documentos atributos e funções como se fossem de sua natureza. De acordo com Michel Foucault (1996). 35) A disciplina torna-se um princípio de controle da produção do discurso. discursos em trânsito e formas de conhecimento disponíveis. um processo GT1 206 . caso contrário. relações e ações possíveis e permitidas dentro do campo disciplinar firmado. sendo sua tarefa disponibilizar as informações tal como o documento revela. o documento para ser considerado um registro de ação deverá conter as características defendidas pela Arquivística. juízos de valor. (FOUCAULT. (ARAÚJO. sendo “a própria realidade” que se manifestaria nos documentos. avaliação e descarte dos documentos. mas não da gestão documental arquivística. Assim. para se encontrar o verdadeiro é necessário obedecer às regras de uma polícia discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos. Ao definir “imparcialidades” e “autenticidades”. não validadas. criadas pelos agentes sociais da Arquivística. sua classificação. acordos e exclusões realizados pelos arquivistas nas suas ações de seleção. São ações muito complexas e que denunciam o grande poder exercido pela Arquivística ao operar com memórias. não disponíveis ou descartadas. sua forma de acesso. seu tempo de vida. não pertencerá ao campo por ela limitado. seguindo e comprovando seu discurso. a Arquivística. têm conseqüências em termos de práticas sociais que delimitam e circunscrevem sujeitos. Ao afirmar que os registros documentais são imparciais. p. Os fatos e as ações descritos pelos documentos são apresentados como uma “realidade” cuja existência independeria do arquivista. 1996) A verdade que se diz revelada pelos documentos é construída por valores e critérios criados. objetos. Os documentos permitidos e considerados pelos arquivos são aqueles ligados ao fazer da Administração que sigam padrões e critérios legitimados pelo campo – aqueles relacionados ao campo da Diplomática e do Direito positivo. coerções. pois as razões por que eles foram produzidos e as circunstâncias de sua criação (rotinas processuais) não possuem outra finalidade que não seja o registro dos fatos e das ações. 1988). (BOURDIEU. Há nessa teoria defendida por Hilary Jenkins (1965) e Luciana Duranti (1994). talvez da História. relações reatualizadas e revisitadas. institucionalizados e legitimados pela Arquivística e forjada como dado disponível e observável nos documentos. talvez do Direito. Essas definições sobre documentos. excluídas. (FOUCAULT. O lugar de fala do arquivista e de ação permanece invisível. mostra quais os enunciados são autorizados e os que não são autorizados em seu campo disciplinar. os arquivistas o fazem com propósitos políticos. pensamento semelhante ao positivismo comteano do século XIX. Ela fixa os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de reatualização permanente de regras. 1987. classificação. 1996. 102) Os documentos tornam-se entidades que possuem estatutos próprios independentes de ações humanas.

de comprovação. 1989. submetendo as coisas colecionadas a uma hierarquia. de ritual social. o ato de acumular distingue-se do ato de colecionar. 111) Nessa perspectiva. Um possível desdobramento de pesquisa deste trabalho seria aprofundar o estudo da busca pela legitimidade da Arquivística. não revela a seleção e manipulação feitas pelo arquivista como sujeito classificador.ilusório. a organização complexa de tais documentos. na escolha pelo método positivista de análise documental. p. o amontoamento. Como afirma Jean Baudrillard (1989). ou mesmo fonte de benefícios. incluem nesse jogo uma exterioridade social de relações humanas. 2001). é um seqüestro onde tudo que é alvo de interesse. Procurar perceber como esse ritual de passagem pode ter influenciado a escolha dos agentes que procuraram refletir sobre seu campo a partir da década de 1980. 4 CONCLUSÕES Destarte. GT1 207 . esconde-se para que ninguém tenha acesso. as formas de seleção e coleção são completamente distintas das áreas da Biblioteconomia e Museologia – de que são sempre comparados – no entanto. somente o acumulador. (BAUDRILLARD. Sem cessar. O acúmulo. Na acumulação há o caos. 1998. Certamente. o que procuramos realizar nesse trabalho foi um exercício de reflexão sobre as possíveis relações da Arquivística com a Doutrina Positivista de Auguste Comte (1988) a partir dos conceitos sobre registro documental elaborados por Luciana Duranti (1994). a partir do rito de passagem de Van Gennep (1969). 106) A coleção. isto é sobre a Arquivística. a partir dos estudos baseados em Bourdieu (1987) e Foucault (1996. enquanto disciplina. há um tratamento colecionista a estes registros. o acúmulo natural que afirmam estes autores existir na formação do acervo dos arquivos. imparcialidades e naturalidades que permitem a Arquivística não somente atestar a verdade. remetem-se uns aos outros. o ordenamento em séries. Igualmente. (BAUDRILLARD. pois. 1989. É um ato passional de ciúmes onde o acumulador torna-se um neurótico narcisista que opera num sistema de exclusão sobre as coisas acumuladas. de valor de comércio. que produz autenticidades. com o distanciamento da História e a aproximação das Ciências Tecnológicas. ao contrário. a singularidade absoluta de cada registro documental no acervo e as complexas relações construídas entre eles são elementos que constituem o caráter colecionista dos arquivos. tudo é retido. apesar de haver um processo de guarda de grandes massas documentais. foi perceber como essas relações configuraram-se a partir da constituição do campo Arquivístico e as suas implicações na práxis dos arquivistas. mas chancelar os documentos que podem ser considerados como verdadeiros ou ilegítimos. Esses objetos colecionáveis são acompanhados de projetos. Nossa proposta. seleciona e classifica. Retira-se de circulação o objeto de desejo. p. Ela visa objetos diferenciados. de acordo com Baudrillard. de exibição. os documentos assumem uma característica de coleção e não de acúmulo.

Rio de Janeiro. Adolf. exclusions and agreements made by archivists in their stock selection. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. ou seja. é de um modo singular que não poderia se confundir com outros conjuntos de signos alheios às suas relações. procuraremos em uma pesquisa futura conceber o documento como enunciado. p. Estudos Históricos. esta análise será retomada em um momento posterior. pois foge a nossa proposta inicial. 1987. Archival. em seu livro Arqueologia do Saber (1998). it would be something natural and verifiable documents. 1988. São Paulo: Perspectiva. by this approach. 28-54. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. in this way. A economia das trocas simbólicas. um sobrevôo em teorias complexas com a intenção de que sirva de ponto de partida para desdobramentos futuros mais aprofundados. Ricardo B. Leipzig: Wolfgang Leesch. n. aquilo que faz com que existam conjuntos de signos e permite com que regras e formas de construção desses conjuntos de signos se atualizem.1.” (FOUCAULT. Should the archivist investigate. Marc.Outra questão suscitada por este estudo foi procurar pensar uma proposta conceitual para a abordagem dos documentos no campo da Arquivística que não esteja tão alinhada com o pensamento positivista. authenticity. Archivkunde: ein Beitrag zur Theorie Geschichte des europäischen Archivwessens. impartiality. Seguindo os apontamentos feitos por Michel Foucault. 1953. p. observe and verify the existence of such attributes. Sistema dos Objetos. If they are not identified in the documents is because there is no archival documents. oneness and interrelatedness are natural features present the documentary record. 2001. sugestão. BAUDRILLARD. ABSTRACT Analysys about the characteristics of documents approached by the Archivist. 1998. BLOCH. The truth. seguir. 69) Todavia. naturalness. classification. GT1 208 . value judgments. This Archival pratice shows the search for establishing the discipline that would be possible from the verification of the truth contained in the documents. constraints. em outro momento. Positivism. “Mas se os faz existirem. hiding the manipulations. Portanto. 1989. que iremos. Pierre. According to Hilary Jenkinson (1965) and Luciana Duranti (1994). apenas registrada aqui para servir de orientação. BOURDIEU. The values and criteria for assessment of the documents established by the archivists are artificially camouflaged and transformed into transformed into features of the documents. Jean. Method similar to the positivism of Auguste Comte in the nineteenth century that sought to analyze social phenomena as universal laws that are present in the world. BRENNEKE. este trabalho trata-se de um breve exercício. Disciplinar Area REFERÊNCIAS: ARAÚJO. Ronda Noturna. evaluation and disposition of documents. São Paulo: Perspectiva. Keywords: Document.

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Rio de Janeiro.RANKE. 1974. The Rites of Passage. 5. GT1 210 . p. TURNER. VAN GENNEP. 1. Uma primeira introdução à arquivologia. v. TAYLOR. Tese (Doutorado em Arquivística) Faculdade de Letras. Cândida. Leopold Von. São Paulo: Editora Atlas S. RONDINELLI. Rio de Janeiro: FGV. 1973. Theo. Universidade do Porto. Roseli C. Revista Arquivo & Administração. Gerenciamento eletrônico de documentos: uma abordagem diplomática arquivística contemporânea. Frederick W. SCHELLENBERG. Indianapolis: Bobbs-Merril Company Inc. Theodore Roosevelt. The Theory and Practice of History. London: Routledge Library Editions.ed. Rio de Janeiro: FGV. n. Victor. Arquivos modernos: princípios e técnicas. 1998. Porto. 1969. Arnold. 2006. 2. Petrópolis: Vozes.. THOMASSEM.A. 2002. Acesso à Informação nos Arquivos. 1973. 1995. O processo ritual. 5-16. Princípios da administração científica.. RIBEIRO. Estrutura e Antiestrutura.

a temporalidade e a peculiaridade de cada indivíduo pensado como ser. da historicidade do conceito de GT1 211 . O caminho da definição mostra-se insuficiente e a análise crítica das ciências. above all. sobretudo. cultura. Ciência da Informação. incidem diretamente na discussão da informação que em suas interpretações pelas ciências abandona o seu papel essencial de fundo que premedita a ação de cada ser e faz no seu ato de informar algo no qual é impressa sua visão de mundo. Informação Ontológica-Fenomenológica. Os conjuntos dos conceitos e fatores contingentes que tornaram aportes sobre a informação e. além das objetivações científicas e métodos aplicáveis. the act of informing concerns the historicity of the concept of information and in particular. Epistemology. The criticism of Lukacs and Adorno in the face of classical ontology that separates subject and object falls directly in the discussion of the information in their interpretations by science that abandons its essential role that premeditates background of every action and makes the act of informing its something in the which is printed their worldview. beyond the scientific quantification and applicable methods. numa urgente mudança de visão de mundo que a incorpora condicionada a cultura. o ato de informar-se diz respeito à historicidade do conceito de informação e.) tem como objeto de estudo a Informação. Ontological-Phenomenological Information. A multiplicidade de definições e a divergência entre tais relatam um quadro de inconsistência epistemológica na área nos fazendo questionar a relação entre informação e ciência. Abstract: The concept of information is taken in its uniqueness to the point that definitions do not converge on a consensus. Keywords: Information Ontology. The sets of concepts and contingent factors that have made contributions over the information and. um conceito complexo que não satisfaz a compreensão com definições. em especial.COMUNICAÇÃO ORAL O CONCEITO ONTOLÓGICO FENOMENOLÓGICO DA INFORMAÇÃO: UMA INTRODUÇÃO TEÓRICA Marcos Luiz Mucheroni. A crítica de Lukács e Adorno perante a ontologia clássica. que separa sujeito e objeto. da existência da Ciência da Informação enquanto disciplina especializada. ética. etc. Thus this paper explores the return of the ontological concept of information from the philosophy of Heidegger in his appearance and phenomenological critique of the forgetfulness of being. 1 INTRODUÇÃO Informação é antes uma questão. the existence of Information Science as a discipline expert. A Ciência da Informação (C. Assim este trabalho explora o retorno ontológico do conceito de informação a partir da filosofia de Heidegger no seu aspecto fenomenológico e de crítica ao esquecimento do ser. Ontologia da Informação. sociedade. temporality and the peculiarity of each be thought of as individuals. Palavras-chave: Epistemologia. I. Robson de Andrade Gonçalves Resumo: O conceito de informação é tomado em sua peculiaridade ao ponto em que definições não convergem em um consenso. in urgent change of worldview that incorporates the conditioned culture.

1996). esta é a lógica militar. como também. o Outro. mais distante estaremos de vislumbrar as possibilidades de compreender. a informação. de relação de poder. Na Royal Empire Society Scientific Conference a intenção era de entender a informação e sua importância nas comunidades científicas criando linhas de pesquisa e impulsionando a discussão da informação científica para o uso político desta. outros remetem ao início da C. O que se usa se Ideologia – uma questão de contexto discursivo. 41 GT1 212 . Otlet tinha em mente a visionária. sentir o mundo de múltiplas maneiras. destruir. informação como coisa. regiões. dos EUA e Europa (SARACEVIC. Aqueles que manipulam as ferramentas constroem e modificam-nas. independentemente de questionamentos quanto a quem detém o nascimento da ciência. a partir de outras lentes. mais comprimidas estiverem as teorias sobre informação. o conceito de informação é pertinente tanto quanto a documentação e biblioteconomia e tanto a C. A C. ou seja. Entre o nascimento dos estudos em informação científica e o pensamento de Otlet há uma clara divergência. Nesta crítica colocamos em cheque a razão de existência de uma ciência social que deveria pensar realmente a sociedade. sendo que em essência são um saber. infelizmente ingênuo) de que a ciência existe para o progresso humano e para o bem-estar comum.informação. de criticar e consequentemente. porém. 2004). mais se manipula a tecnologia a favor daquele que detém o poder monetário e de investimentos. são ferramentas na sua materialidade. nasceu em uma gama de interesses. É sabido que esse nascimento é crítico e mantém-se em uma crise de mutagênese. (EAGLETON.I. sustentamse na sociedade que tem poder de consumo. como uma ciência autônoma. 1997).I. para que a crítica vá além da simples análise de teorias e paradigmas e fundamentese no ser. no idealismo (para alguns. Questões surgem. Uns relatam a gênese na biblioteconomia/documentação (com Otlet). sendo que as interpretações e textos que discorrem a “História da Ciência da Informação” divergem quanto ao seu começo. de fomentar a crítica e de valorar o que nos afirma como ser. o livro. As tecnologias nos permitem visualizar. como: o bem-estar de quem é a meta das ciências? Realmente quer-se democratizar a informação para todos? Todos os governos desejam investir em pesquisas que expandam a capacidade de conhecer. confundindo documentação com informação (eis a visão materialista42) (LE COADIC. pois aderiu a si um conceito peculiar. sendo direcionada à promoção ou legitimação de uma ideia correspondente a uma visão de mundo. etc. como conhecemos o mundo. de que modo podemos apontar os interesses escusos de pequenos grupos. Consumir deriva de consumar. O contexto histórico é díspare. assim como a crisis da visão de mundo atual faz-se urgente. de transformar? É importante que não nos esqueçamos destas questões. Não nos referimos ao Materialismo Histórico ou a qualquer doutrina marxista neste ponto. culturas e ideologias41 diferentes. Quanto mais simplificadas.I. ou crenças situadas em relações vivenciadas. Quanto mais se estuda e compreende a informação. com as conferências citadas acima. 42 Materialista aqui é retratada como uma visão objetivada do conceito de informação. ou não passível de definição. porém eurocentrista ideia de acesso aos documentos e a importância do estudo destes. confundindo-se com o documento. a condição histórica do afastamento ontológico das ciências e o conceito de informação nesse contexto histórico e crítico.

A Internet e a Rede inauguraram um novo mundo do agir. A tecnologia do descartável nos leva a uma discussão mais profunda e ao questionamento do papel da ciência na sociedade. olhando de modo crítico as teorias classicamente estudadas da filosofia e como ele mesmo diz com uma acidez digna. ou seja. e replicar praticamente no mesmo momento. A questão do conceito de informação e seu problema epistemológico movimentam as GT1 213 . de tempo-espaço. e no agir da sociedade. Do mesmo modo que o filósofo. que não crêem. A noção cronotópica. Nunca antes na História foi possível escrever uma opinião sobre qualquer assunto e compartilhar com o mundo rapidamente. este trabalho não se fecha em nenhuma categoria definidora geralmente tendenciosa e a posteriori das intenções do autor. ou modificarmos o nosso pensar sobre as fendas atuais. “confrontando o espírito colonialista passivo de muitos brasileiros. produzem em uma interação possível de modo aberto e horizontalizado. Para assim. Suas considerações sobre a Teoria do Conhecimento contribuem para um esclarecimento do pensamento grego e as raízes do pensamento ocidental sobre o conhecer. 16). sendo que o tempo nesse processo é condensado e o espaço configurado a perder as distâncias.I. É acima de tudo um fazer crítico concatenando logicamente as ideias que melhor possam mostrar o quanto é profunda a fenda epistemológica da Ciência da Informação e o quanto são peculiares o conceito que esta toma de objeto. está distante da sua queda e vê-se nova sua nascente. não em todas as culturas. Seu papel é importante e discutível. ter comentários do Japão. esse quadro é confrontado com novas possibilidades nunca antes vistas. O que difere de outros processos de revolução tecnológica é que na Internet acontecem mudanças em curtos espaços de tempo. 1956. O centro está por toda parte. ler e ser lido. O criticismo neste trabalho está em primeira vista muito além de alguma intenção de seguir doutrinariamente categorizações e posições filosóficas quaisquer. por nós de rede. acharmos outras fendas. mas essa realidade não é possível para todos. por exemplo.descarta. Com as novas mídias. Frente a ideologias e a hierarquização do poder do Estado. o modelo emissor-receptor de comunicação (no sentido ontológico) tem sua insuficiência demonstrada na relação intersubjetiva da Rede. Um brasileiro pode reivindicar no seu blog próprio. e como ciência evolui perante o criticismo e a proposição de outros caminhos a seguir. p. A hierarquização. Claramente esta revolução das comunicações trouxe uma mudança no viver. que ao tornarem-se ativos. da participação e da comunicação. Pode-se criar um blog. interagir. Porém ainda se mostra como processo. buscou uma própria forma de pensar. não admitem e não toleram que algum de nós tenha a petulância de formular pensamentos próprios” (SANTOS. situa-se mais uma ciência que é a C. comentar. foi completamente transformada. 2 UM PRESSUPOSTO TEÓRICO PARA O CONCEITO ONTOLÓGICO DA INFORMAÇÃO Mário Ferreira dos Santos foi um filósofo notável.

o objetivo foi o de fornecer uma definição que seja útil no sentido físico. isto quer dizer que há uma meta. A C. uma concepção própria da C. direitos.I. 2005). e então se faz conhecimento neste ato.I.I.I. A busca pela definição é clara. a partir destas. porém sempre remetendo ao meio e à rede emaranhada de relações científicas. ao indivíduo em sociedade. porém as divergências ainda apontam para maiores e contínuos conflitos. Uma materialista: “O padrão de organização da matéria e energia”44. com uma epistemologia única. Não há possibilidade para se pensar numa ciência estanque. a partir do ponto de vista de diversas áreas. uma ciência do conflito de ideias per se. epistemológico. por sua vez. Mas como é possível desenvolver tal ambição se a ciência tem um problema congênito em sua epistemologia e recorre a conceitos de outras ciências? Como podemos pensar informação sem uma relação com o conhecimento. em que esta ciência tenha sua própria visão dos casos humanos e desenvolva seus próprios princípios e técnicas. 1 e 2. Este é um sinal do estágio de construção epistemológica da C. porém de que modo são entendidos. sobre o leitor ser informado no ato da leitura. além de segregar informação em duas concepções distintas. do positivismo. 44 Tradução nossa de: “The pattern of organization of matter and Energy” 45 Tradução nossa:“Some pattern of organization of matter and energy given meaning by a living being” 6 Tradução nossa de: “In this essay.I. uma discussão sobre as teorias predominantes em uma ciência. São definições e. política. axiológico. tornar-se clara a si. mais recentemente do logicismo neopositivista e do reducionismo cartesiano ainda perduram nas teorias da C. para que então esta consiga delinear-se. Uma maior atenção ao aspecto semântico da informação causou uma reconsideração na teoria de Shannon. A posição de Brookes (1991) mostra a necessidade de uma unificação teórica. “Neste ensaio. tal como visto em Bates (2005). uma teleologia. que identificou mais de 700 definições no contexto da C. Bates constrói sua linha de pensamento sob a visão de mundo reducionista e mesmo declara. Especulações sobre uma C. p. pelo viés ontológico.I. E outra complementar e semântica: “Algum padrão de organização de matéria e energia cujo sentido é definido a partir de um dado ser vivo”45 (BATES. significado e indivíduo social? Resquícios do behaviorismo. como sublinhamos. 2005. biológico e social do termo”46 (BATES. emergindo o Paradigma Cognitivo da Informação que considera o significado e não somente o sinal. que não necessariamente convergem quanto ao significado do termo informação. Significado está intrínseco à linguagem e esta. comunicação. grifo nosso). mas sim numa ciência comunicativa e permeadora. sendo que as definições são demasiadamente gerais. linguagem.. Metateoria é a discussão teórica frente a teorias e paradigmas de uma ciência. 26.. Se nos referimos à construção.I. como no exemplo do trabalho de Schrader (1983). ou seja. the objective has been to provide a definitionthat is usable for the physical. concreta e produtiva são meros vôos ideais. Há um claro esforço na construção de uma epistemologia da C. 2005).publicações científicas sobre metateorias43.. Talvez o que se pode dizer de lúcido em Brookes é a construção de uma nova visão de mundo. biological and social meaning of the term” 43 GT1 214 . afirma-se uma ciência social de fato. ética? Sua junção com outros correlatos de outras áreas é inevitável. teleológico e ideológico (TALJA.

dados e métodos aplicáveis. sob a visão de mundo predominante e não somente na simples ação humana da subjetividade pura ou mesmo em face do dado. a fonte de uma existência. positivistas. já presente desde o Renascimento: Não se trata mais de saber se cada momento singular da regulação linguística científica resultados práticos imediatos mas. Essa condição GT1 215 . Santos (1956). Ela busca captar a realidade internamente num ato de viva participação em vez de nos dar um espetáculo do qual nós mesmos estaríamos ausentes. behavioristas criticando não somente a prática. por isso há o trabalho crítico. ou mero idealismo. ou seja.As estruturas são construídas na complexidade das relações sociais. Objetivar em análises esse aspecto fenomênico seria uma contradição. p. assim como. 1984. 9). no fundo de nós mesmos. a filosofia é a consciência crítica da questão presente em todos e necessária para toda ciência. corrompendo o conceito em seu cerne. de refletir sobre a nossa condição na sociedade e na existência.. esta visão se reorganizou no pensamento neopositivista. e como pode encontrar caminhos para um melhor esclarecimento da sua epistemologia. em um tempo. (LAVELLE. que parece ter-nos sido imposta [. as teorias da complexidade. Como Lavelle diz. do fato de que o inteiro sistema do saber é elevado à condição de instrumento de uma manipulabilidade geral de todos os fatos relevantes [. Este afastamento ontológico nos leva diretamente às ideologias do sistema socioeconômico atual. 1935 apud SANTOS. que taxam a metafísica como ilusão. sempre considerando os fatores adversos que se situam na manifestação entre sujeito e objeto. em especial as ciências naturais. pensa sobre a tarefa da filosofia: A filosofia não inventa nada. sendo assim. A compreensão aqui de epistemologia é o caminho do conhecimento. instrumentalizadoras do conceito de informação.. a formatação objetivadora e meramente calculista que se acha em uma posição de instrumentalização e voltada à práxis. ideológicas. Pensar a estrutura de uma ciência é pensar na visão de mundo que ela fora construída e de que modo (a partir das considerações políticas. p. mas o ato de filosofar. numa suposta objetividade pura. 1956. Ela é em cada um de nós a consciência do ser e da vida. como objeto. à filosofia como profissão. nos faz seres presentes na realidade.] É evidente que a vanguarda desta concepção dirigese. como tecer. cita o que Lavelle. Não nos referimos como também Lavelle. filósofo francês metafísico. pelo contrário.. O criticismo aqui empregado deseja apreender o fenômeno e sua manifestação nessa complexidade de existência.31). como seres pensantes dotados de voz ativa e viva. sociais e particularidades) ela se molda no tempo. Lukács aborda a condição da ciência moderna na sua instrumentalidade e do afastamento ontológico das ciências neopositivistas. aos números. Ela é esse esforço de reflexão pelo qual ensaiamos atingir. mas a visão de mundo tomada pelas ciências. sobretudo contra a teoria e a práxis da filosofia da natureza desde o Renascimento até o século XIX (LUKÁCS. que permite o diálogo e cria possibilidades de construir e propor novos caminhos para o vislumbramento. como cargo acadêmico. À luz de novas descobertas científicas no campo da física.. Neste sentido. as ciências sociais e do espírito.]. ausente de determinações e condições objetivadoras.

p. vai ao cerne de questões filosóficas do ser. Essa situação remonta à nossa discussão perante a condição epistemológica da C. Pois ambas as significações necessitam-se reciprocamente. dentro de uma sociedade complexa. sendo que a partir desta crítica do esquecimento do ser nas ciências. A pluralidade das verdades se dá no fenômeno quando a coisa (ente) manifesta-se aos nossos sentidos (não de modo unilateral ou hierárquico). podemos ampliar a compreensão do conceito de informação e consequentemente propor uma mudança de visão de mundo direcionada para uma visão ontológica. que iria além da análise da época de Marx. Em momentos turbulentos de uma Europa assolada pela mais genocídica guerra da história. 62). Adorno atenta para a questão social não considerada nas discussões filosóficas da teoria do conhecimento. Ob-jeto. Nos caminhos permeados pela Teoria do Conhecimento na história da filosofia sempre houve o grande questionamento da natureza do sujeito e do objeto. na sociedade. ao sujeito. pro-jeta. BERGSON. Porém. é entendido como aquilo que está fora da consciência de um indivíduo. recebendo críticas de ser um idealista e desconsiderar a materialidade do mundo. 3.I. assim assinala-se a concepção clássica. no Renascimento e perdura nos nossos dias mesmo no momento crítico científico. e do modo de produção capitalista infiltrado na cultura e nas artes. Não nos cabe entrar nessas discussões sobre o Idealismo ou Realismo. o conceito de indivíduo não pode fechar em si mesmo. mal podemos apreender uma sem a outra” (ADORNO. em ambos os pensamentos extremistas que caíram por terra nas discussões filosóficas47 e se mostraram insuficientes ao tempo. do homem. GT1 216 . que em suas teorias e visões de mundo encontra-se nesta condição histórica. que por sua vez. ser que se faz. O CONCEITO DE INFORMAÇÃO ONTOLÓGICA-FENOMENOLÓGICA Kant foi o responsável por uma revolução copernicana na filosofia. sobre a clássica ambiguidade e oposição entre os dois conceitos quando afirma que “A ambigüidade não pode ser eliminada simplesmente mediante uma classificação terminológica. 1984. Nesse contexto. e cria 47 Cf. microcosmo. nasceu de acordo com Lukács. Adorno faz uma reflexão crítica sobre o sujeito e objeto. atualiza-se no outro. se pensarmos em uma atualização da crítica de Lukács. o pensamento crítico seria a única saída válida para transformar a visão de mundo e aprofundar as fendas no sistema capitalista. quando postulou a dependência do pensar aos sentidos. Não há indivíduo fora de uma sociedade e a alteridade é uma determinante para o conceito de homem. aquilo que se opõe ao sujeito. A Teoria Crítica de Adorno e Max Horkheimer alertam-nos sobre a condição objetivadora do espírito na sociedade industrial.é histórica. 1995. que vai além de sabermos onde se forma a realidade. estes passíveis à pluralidade e à infinitude das interpretações. Temos de primeiramente compreender a relação sujeito-objeto para então abordarmos com mais clareza o conceito ontológico-fenomenológico de informação. O homem é um ser social. político e econômico de hoje. e se constroem como tais dialeticamente. porém o isolou de certo modo.

alvos da persistente ideia categorizadora e definidora da Teoria do Conhecimento. Adorno nos esclarece: “Definir é o mesmo que capturar – objetividade. pois o olhar objetivador não se identifica com este conceito. Daí a resistência de sujeito e objeto a se deixarem definir. p. perdura na memória. sendo que na sua etimologia já existe como conceito plural. Abordar um conceito informacional é tomar a consciência imediata de um conceito do conhecer. 1995. onde pôs o sujeito à frente dele mesmo. nesta medida. Adorno. situa-se na história e na própria efetivação do ser. o universal só existe como determinação do particular e. Ambos são e não são. eis o indivíduo vivente. um conceito peculiar. Salienta essa relação indissociável. sempre em movimento e indeterminação. 70). e isso nos conduz à historicidade deste fazer. o particular só existe como determinado e. é universal. A condição histórica e social do homem é o viés que deve ser abordado quando se questiona filosoficamente sujeito e objeto. suas variantes. e percebe em sua manifestação os interesses ideológicos dessa cisão. distintos em concepção. indivíduo de fato. nesta medida. porém idênticos em conceituação. no ato e relação. Este é um dos motivos mais fortes de uma dialética não-idealista (ADORNO. e emergencial construímos os argumentos da hipótese deste trabalho que sugere outro olhar perante esse conceito “que não se deixa definir”. Nenhum dos dois existe sem o outro. político. mediante o conceito fixado. mas não podemos igualar informação e conhecimento. O afastamento ontológico creditado às ciências naturais. e nos afastam da ilusão do poder absoluto da objetividade e da analítica. Ao descentrarmos sujeito e objeto podemos refletir no seu fazer. pois informação e conhecimento estão intrinsecamente ligados. Há. que resultou em uma construção de uma visão de mundo cientificista e fisicista taxa quaisquer questionamentos que vá considerar as GT1 217 . metafísico.” (ADORNO. A partir desse pensamento crítico. Informar e conhecer são o mesmo no seu sentido ontológico. Uma intenção de crítica à Ciência da Informação e uma investigação filosófica sobre o conceito de informação permeia também uma crítica do conhecimento. na sua revolução copernicana da filosofia. suas definições modificadas e reestruturadas pela história construindo uma epistemologia. 62). uma íntima relação entre sujeito e objeto e nessa relação um complexo movimento ideológico. é particular. Adorno questiona a veracidade dos postulados da Teoria do Conhecimento sobre a separação sujeito-objeto. o movimento complexo entre sujeito e objeto.deste modo. questionando sua origem como tal e a cognoscência dos objetos. p. este último termo vai além da ação. e interesses condicionantes que vão além de qualquer análise restrita à metafísica. O sujeito é objeto tanto quanto o objeto é sujeito em níveis variantes. 1995. Podemos dizer que o ato de informar é um ato de conhecer. em outras palavras. e requisitado para os olhos do filosofar que não se restringe totalmente à visão de mundo objetiva. O mesmo se dá com o conceito de informação. que foge a qualquer definição reducionista. principalmente em Kant. não importa o que isto seja em si. para Adorno. porém ao mesmo tempo distintos como concepção. algo objetivo. pode-se dizer que são semelhantes. Sobre definir. O pensar filosófico faz o caminho do questionar à pluralidade conceitual de “Informação”. atual.

pensador marxista tece uma crítica fundamentada na historicidade do aparecimento dessa visão de mundo quantificadora.pretenso . podendo o resto ser certamente reduzido a ela” (CARNAP. Avenarius. 1984. 557). como a informação se dá. (LUCÁKS. p. de libertação e escravidão. justamente nesta neutralidade. espaços e gestos. 59). A tendência à homogeneização das concepções e dos métodos aplicáveis afasta o fazer científico da visão ontológica e quando pensamos nas chamadas ciências do espírito a questão complica a sua gravidade. O principal tradutor e estudioso da obra heideggeriana. Estes tópicos são cruciais para se pensar a informação pelo âmbito do ser. por uma ótica ontológica que se presta ao fenômeno para ampliar a compreensão do como da informação. A lógica da ontologia e fenomenologia de Heidegger está na hermenêutica. o que assim se mostra em si mesmo (DUBOIS. no ser. quais são suas peculiaridades existenciais. descreve numa síntese a condição da fenomenologia em Heidegger e também da sua ontologia no posfácio da edição brasileira de Ser e Tempo: A necessidade de um esquematismo espacial. Abrange. principalmente perante a ciência e à condição histórica que esta se coloca.. 1938 apud LUCÁKS. mas com a pretensão de criar um meio filosófico que extradita do campo do conhecimento toda visão de mundo. tomando a si o método não determinante de análise do como. da biologia e da física. um homem fora do seu contexto. nem na complementaridade recíproca de sujeito e objeto. 6). pode oferecer garantia de um conhecimento científico puro. de lutas e fracassos. a historicidade e a impossibilidade de neutralidade de uma observação de devaneio metafísico. sempre incluída a linguagem-objeto. E ainda nesse sentido surge a questão ontológica da informação. Emmanuel Carneiro Leão. cria um . Lukács. que se desenvolve num mundo de interesses e explorações.. Os momentos iniciais desta tendência remontam à Mach. seu ser reduzido à lógica e à relação instrumental da linguagem.contingências. (HEIDEGGER. como se manifesta a coisa investigada. processa como tal. chamada Neopositivismo: Tanto desvaneceu o idealismo kantiano no curso do século XIX que surgiu uma corrente idealista no positivismo dirigida não apenas contra o materialismo. ou. 1984. 2004). onde todas as pesquisas sobre o homem são feitas em termos da psicologia. Este é o fundamento e a síntese do pensamento logicista ou neopositivista. todas as peripécias de uma co-presença originária que se realiza através de uma história de tempos. 2009. Frente essa questão propomos o caminho fenomenológico que considera a historicidade e as contingências. p. no pensar da informação em concatenação com a fenomenologia heideggeriana.terreno gnosiológico que nem materialista-objetivo e que. temporal e gestual para dizer e compreender todos os modos de ser e agir mostra à sociedade que a presença fundadora de nossa existência não se dá na órbita de consciência de um cogito sem mundo. igualmente. a partir do viés filosófico. para Carnap: “Muitos termos podem ser definidos sobre esta base. GT1 218 . toda ontologia e. sendo assim possível a manipulação da pretensa neutralidade científica. A distinção entre o indivíduo subjetivo e o ser social são concepções claramente behavioristas. p. Poincaré etc. ao contrário. ou seja. na interpretação das sentenças e na relação do ser com a linguagem e na intencionalidade do ser.

dar a formação no interior. Diversos fatores tornam a discussão mais complexa e a interpretação pode ir além. pensamos em matéria. instruir. “uma representação. significante. pois esse carrega uma definição insuficiente. O sujeito é. pensamos numa sociedade em que esse sujeito está inserido. imaginar”49. esboçar. Se há um sujeito há um objeto. matéria e forma. formar. e. formar. é uma ação informativa. 219 . daí a interpretação de in-formar. O caminho a se percorrer é a própria questão. esquema. no conteúdo desta forma. se pensamos em forma. que considerou o sujeito como cognoscente e primordial no processo do conhecer. assim como o termo fora usado pelos escolásticos (Idade Média). em que meio e de que forma. em essência. Na busca fenomenológica fomos à origem do conceito informação para então refletirmos a sua historicidade e transformação. pensamos no processo em sua totalidade na relação entre sujeito e objeto. Tradução nossa de: “Sketch (in words). filosofar sobre este conceito. Deste modo escapamos dos estanques metodológicos de análise positivista. tal qual o cartesiano. na apreensão das coisas. e também em Glare (1982). O fenômeno é a própria questão e o método para se pensá-lo se dá nele mesmo. to form and idea of (something). afeiçoar. Informação. dar forma a algo. Nessa pretensão fenomenológica podemos clarear e expandir as possibilidades de compreender o que é informar-se. Informatio. imóvel e infalível. É preciso pensar como o processo se dá. Quantificar a informação é criar enunciados sem um fundamento ontológico. sketch. Informatione que significa. abstrata e idealista de informação. em consenso com os dicionários consultados vem do latim. Dentre os verbetes é consenso a origem da palavra informação. Em alguns dicionários em inglês encontramos a etimologia em Scheller (1835). todos os dicionários consultados remetem para “formar no espírito”. “Dar forma. é destituir do 48 49 imagine”..A fenomenologia de Heidegger como método. no contexto histórico.. ideia. delinear. Do mesmo modo. segundo Machado (1990). no intelecto. de certa forma. se molda a partir da coisa mesma. que através do próprio caminho se descobrem as possibilidades de caminhar. um conceito chave para se compreender o conceito de informação. imerso e vivo no mundo. É a origem da palavra que permite diversas interpretações em dependência da visão de mundo. portanto. além disto. Dar sentido ao ser no ato informativo. não se acaba como método próprio. “modelar. to frame in the mind. representar idealmente [.] formar no espírito”. No aspecto figurativo. imaginar. para formar a ideia de (algo). ou no sujeito cognoscente. formar no espírito. “esforço (em palavras). que vai se clareando à medida que se caminha. formas na mente. GT1 Tradução nossa de: “a representation. pensamos também sujeito e objeto. na sua cultura. sendo que in – dentro. mas ainda mostra limitações. isto é. educar”. se pensamos um sujeito cognoscente. Pensar informação. de acordo com Saraiva (1924). na sua linguagem. um fenômeno e logo temos que adentrar na sua ação através do questionamento de como o informar-se se dá. e de qualquer outra universalização totalizante. e formatio – deriva de forma. idea. para enquadrar na mente” 48. ou seja. Se informação é um processo. to form in the mind. ou algo que se forma no espírito. diferentemente depois das ideias de Descartes e mais precisamente Kant.

. outro ser. Se. [. nas coisas. A visão de mundo determina a forma.123). a planta que provém da semente. o informar. justamente para sabermos o quão longe nosso cérebro pode ir fisicamente. de modo que é a atração da forma que causa o movimento e a forma é realmente causa motora. assim. nas teorias atuais. quantas formas pode se desprender e desenvolver dos objetos e do real. A forma está em potência no objeto. já que pode ser visto em diversas realidades formais. ou compreensão dos objetos. logo. um copo contém água num recipiente no estado líquido.] esse devir tem sua causa na necessidade de realizar a forma. etc. esta outra visão que experimentalmente é um sucesso. no ente. A matemática permite. (BERGSON. Para Aristóteles. macroscópica. p. 9 dimensões. pode ver o mundo em 4. pois independe de nós para essencialmente ter a forma. GT1 220 . o movimento de organização das coisas. o ato. quantas realidades. a forma. [. 5. por isso sua importância. fato que a neurociência estuda. também conhecida como hilemorfismo. pois não é possível pensarmos o informar-se sem considerarmos o homem que pensa e seu meio. Apesar de estar além da ciência. mítica. A complexidade desta realidade se dá nas contingências que a permeiam e a determinam naquilo que a ciência não atinge. mas sim as moléculas de água.. que in-forma. A prova está no microscópio. vejo não mais a forma líquida. Nossa percepção cognitiva efetiva-se em quatro dimensões (três dimensões espaciais e uma temporal). A realidade está em partes no subjetivo e no objetivo. é uma relação fenomênica entre ambos que dá a forma. pensa-se o sentido de processo no movimento que existe nessa relação. o ser em sua afirmação de si é crucial para compreendermos a magnitude do conceito de informação. seres de uma percepção em quatro dimensões. apenas quantifica e abstrai. Como ele veria? E em duas dimensões? A partir da percepção. como a física atual já pensa. o interior do núcleo e outro mundo físico com outras leis mecânicas. Temos uma limitação fisiológica. Henri Bergson. exemplifica o pensamento do hilemorfismo de Aristóteles. o fim que o desenvolvimento da semente persegue. como agiria esse ser? Parece aceitável que esse ser agiria completamente diferente de nós. quântica. logicamente falando. através da sua linguagem. Os labirintos da mente e do fenomênico não são quantificáveis ainda. pois assim é logicamente permitido haver mais de uma visão. A semente é a matéria.. 2005. Essa forma é o objetivo. “vejo” a molécula de H2O. 50 Aristóteles foi o filósofo grego que estudou a relação entre matéria e forma. se pode manipular alguma forma de pensamento. hipotético. na necessidade de tornar-se planta. Eles podem ter múltiplas formas. por conseguinte. microscópica. ao mesmo tempo em que causa final.. a forma está (em potência) nos objetos. assim como se pode usar uma “lente quântica” e “ver” o quantum. por exemplo. É o que chamamos de Meio Elucidativo. a planta. filósofo francês. afirma-se que se pode manipular a informação. cuja complexidade 50 Reditum ad absurdum. Para o filósofo.] a árvore. Quando olho com olhos microscópicos. a relação de existência entre matéria e forma constrói a realidade.conceito de informação sua essência.

A experiência viva. Nesse sentido podemos pensar a Internet como outra realidade. É a partir da diferença do Outro (alteridade) que devemos refletir o conceito de informação e como a prática desse pensamento se dá na educação. num contexto político. e esta ação é causada por um ser. é compreendido como ao mesmo tempo único em cada ser 51 Nous depende do contexto filósofo. dá movimento ao espírito. por isso o “informar-se sob um ponto de vista”. ou seja. em uma forma de discurso. na epistemologia da C. ou “nous” 51 em grego. há o processo. linguagem. assim como uma possível horizontalização dessas relações. O potencial de informar torna-se ato no Meio Elucidativo. o movimento. existe uma virtualidade. ou documento.. ao invés da consciência pura. na diferença. a informação. A partir dessa hipótese. virtual e não irreal. Na relação comunicativa. na linguagem. ou numa leitura de análise a um documento. e exige o questionar. assim como a semente tem em potência a árvore e seus frutos. o meio deve organizar-se de uma maneira em que estes fatores estejam consoantes no ato de informar-se e distinguível para aquele que está se comunicando. ainda que mesclada com o ser e os outros entes. e neste sendo do ser. O pensamento se faz atento. atualizando-se com o outro e nesse movimento de pensamento. as coisas têm a potencialidade de informar. ou seja. o pensamento. de possibilidades técnicas. se dá unicamente em cada um de nós. cultura e individualidades existe o ato de informar. porém não se fecha em uma redoma em nossa consciência ou subconsciência.é explícita na linguagem. com direitos e deveres. na configuração das bibliotecas. Logo. mas este ato dependerá dos fatores de linguagem. uma atenção do indivíduo para aquilo que se estabelece comunicação. em uma cultura. Elucidar vem de esclarecer. Um livro tem a potencialidade de informar. da cultura. portanto. seja entre pessoas. deriva do latim elucidativus (BUENO. Uma horizontalidade é possível nesse processo comunicativo e o ato de informar-se movimenta em sua temporalidade afirmada pelo potencial de informar. tornar lúcido. aqui é a noção qualitativa de estar ligado ao ser e o todo. no sentido de remeter ao mundo. quando nos referimos à informação. ao ponto que os objetos tomam forma no espírito. deste modo. ação em que se informa. que se atualiza e informa. somente uma posição (dentro da interpretação de espacialidade que este conceito remete) que tem sua unidade de posicionamento e não de completude. distinguimos o que é registro. está em nós em ato. está culturalmente vivo e formado em nós. intencional. a forma se dá em nós. que neste caso especial estuda a organização dos documentos e principalmente para quem organizar. existe uma conexão cognitiva. fundamento desta experiência viva e do humano. É a forma que se dá no espírito. na cultura. Há de se superar o pensamento isolado do cartesianismo e pensar o “nós”. 1963). pois a solidão do cogito não é mais tomada como verdade. por isso é um ponto de vista. ao pensamento.I. o ponto de vista é por si relativo. pois um ponto se dá num espaço. em nossas opiniões. GT1 221 . Todavia. de compartilhamento de saberes e de relações humanas. de informação. do sujeito que é informado. Quando nos informamos. e este é mais abrangente. É importante usar o pronome nós. da temporalidade. na Documentação. Para se tornar elucidado. Documentos não existem sem uma ação. e este o modifica. numa temporalidade.

pelo espírito de um tempo. e Anschauung . o informar-se se amplia ao ponto em que questionamos mais a natureza e a historicidade do conceito de informação e da existência da Ciência da Informação.. na sua universalidade. ontológica. O nosso tempo deve sempre perguntar-se da essência do saber do informar-se na sua cultura. intuição. A essência do informar-se está em cada ente que transcende no seu ser. assim como descobrimos a nós mesmos criando identidade na diferença. sua história e cultura. pensar informação é um pensar de geração. como dito.] a transformação do mundo. é condicionada pela cultura. ao mundo. não presa a um sujeito. a visão de mundo premedita a ação de cada ser. e afirma o diálogo. Questionamento: ou podemos considerar que o informar-se vai além. 2009) está além do informar-se53. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS: MUDANÇA DE VISÃO DE MUNDO. juntamente com o conflito de outras visões emergentes. a cultura. Informação é essencialmente o questionar-se. Pensa-se em educação. tal qual Heidegger. Esta mudança de visão gera o conflito. na história52.] exige. UM NOVO FAZER CIENTÍFICO E SOCIAL Como visto. pelo pensamento que temos em nossa subjetividade e ao mesmo tempo. para então pensarmos como o agir há de se modificar. 2007). antes. mas o próprio informarse no seu processo de atualização é o questionar. é sintetizada a partir da palavra alemã Weltanschauung deriva de. A visão de mundo da ciência atual encontra-se em uma crise. Informação é antes uma característica existencial. dialeticamente. portanto.. daí se deriva a sua essência. não somente como uma dúvida a ser sanada. o educar de uma sociedade. welt – mundo. nem mesmo ao objeto.visão. assim como já se oculta uma modificação do pensamento atrás da Deve-se entender história dentro da historicidade experimentável do ser. Regularmente usada na filosofia. este termo sintetiza o ser-no-mundo. O que propomos é uma substancial mudança de visão de mundo. mesclada ao objetivo. pela temporalidade. “[. em que nasce o questionar. sobretudo. É uma busca particular incutida nos mistérios da mente e do pensar. ou visão da vida. nos fazemos ser. O mundo é descoberto. Existir é compreender. Geralmente traduzida por visão de mundo. e no pensamento. que o pensamento se transforme. que relê a famosa frase de Marx. pois a nossa busca pela essência varia. Informação nos remete à relação de diferença e identidade. no fenômeno.. portanto. é antes o fundamento deste. [. tendo em vista o ôntico. nos diferenciamos. Informar. a cultura e o tempo. Todo ato de informar-se remete a uma questão. portanto.(pode-se dizer de consciência) e total para o ser (pode-se dizer a existência do Outro). tal qual o ser-aí? Ter uma dúvida sanada. Pensar a informação é debruçar-se sobre o questionar-se.. às relações que mantemos em sociedade e a cultura como determinante na formação de cada um. e pode ser interpretada como a nossa posição no mundo e o modus do nosso agir (HEIDEGGER. fazer parte do processo do conhecer a si e ao outro (ser-no-mundo. isto é. a complexidade de conceitos conjuntos e fatores de contingência que abordam a informação e. o histórico. ou o Dasein de Heidegger) é questionar-se. satisfazer a necessidade do saber é existir? 52 53 GT1 222 . pelo tempo. não se informa sem uma dúvida. Esta complexidade. mas na relação entre o ser e o mundo. do ser. de modo que o conceito de ser-aí (HEIDEGGER. conhecer.

que enfrenta a realidade da ciência no Brasil. a sociedade. cai por terra. na ação e educação de seus cientistas e profissionais. O pesquisador da informação irá relatar e estudar os problemas sociais sobre a informação. o que nos faz humanos e nos afirma o ser-no-mundo. se mostra como a mais lúcida maneira de atingir o transformar. do questionar. Há um diálogo entre professor e aquele que quer aprender. a educação e o saber principalmente. que até então. no avanço tecnológico da Internet e na reestruturação das formas e possibilidades de comunicação e de conhecimento. mas aquele que pode alcançá-la a partir da própria reflexão. pesquisas com novas mídias direcionadas para o serviço público. a ética do diálogo e do convívio com o diferente devem ser levadas em consideração não somente nas teorias de uma ciência. sendo que o importante é transformálo. GT1 223 . profunda e cultural. ao ponto de reestruturarmos a nossa visão de mundo como uma possibilidade de transformação. ou a informação. podem ser germinadas sob o ditar da temporalidade e das contingências.aludida exigência. o acesso. da busca conjunta. Informar-se é um vir a ser da transformação. onde este último critica os filósofos de somente interpretar as maneiras do mundo. o uso de novas tecnologias. é antes um ser. uma mudança essencial. a visão crítica. p. No método de ensino. É necessário construir uma prática profissional a partir de um ensino e pesquisa que não consideram primordialmente aquele que detém o conhecimento. a ética. daquele que ob-jeta o sujeito e também pode ser sujeito. mas na sua construção epistemológica. ou além. e não mais o aluno. da crítica.I. A tecnologia é um fenômeno cultural e a Internet nos mostra como essa cultura age. Heidegger refere-se à provocação de Marx na Ideologia Alemã de 1846. 1983. e não fadados ao esquecimento do ser. do sistema político atual e da crise do sistema socioeconômico capitalista. o sem luz. O questionamento. O transformar está fadado à historicidade do ser. 236). ou seja. a cultura.” (HEIDEGGER. e fadadas à latência. ou de uma base de dados. A busca é incessante e este trabalho representa esta necessidade do questionar e do conflito crítico. é uma ação derivada de um sujeito. ou um distanciamento dissimulado do que somos de fato. está neste momento de mudança. sob um capitalismo senil. A transformação só é possível com uma mudança de visão de mundo. Esta é a mudança de Visão de Mundo. O informar é um processo que depende do outro. a-luminum. da consideração do outro. a educação. se atualiza. a democratização. Dar forma ao espírito é o conceito primário de informação que ao ser retomado. o professor que supostamente detém o conhecimento e articula todas as informações em si. nos apresenta uma nova forma de se desvelar o conceito de informação. se transforma e se movimenta na sociedade. A C. que nos permite explorar outras maneiras de vivência e novas possibilidades de existir mais próximos de um conceito de humanidade. Analogicamente tal como o usuário da biblioteca. um indivíduo. assim como para o profissional do mercado de trabalho que encontra uma possibilidade de pensar o contexto político e prático em que o mercado se situa e nos atinge diretamente. podem vir a ser. aquele que a controla. As ideias são sementes. Informação permeia a tecnologia (technè). tais quais as ideias deste trabalho. E transformar necessita da crise.

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Objeto de estudo de várias disciplinas. in its relationship with society. para em seguida se transformarem em “miragem”. is reinserted it in the process of building science. memory and history. Abstract: Information sources for scientific research are fundamental to the expansion/evolution of knowledge. face aos diferentes interesses em jogo. This paper aims to describe and discuss the nature of the “sensitive documents” produced by the “intelligence community” during the 1964-1985 Brazilian dictatorship. generating facts and representations. besides being an information carrier. comunidade de informações. da Ciência da Informação. da Diplomática e. Partial results of the analysis of the production conditions of such documents serve as a warning to the illusion that these “treasures” raise. Este trabalho visa caracterizar e discutir a natureza dos chamados “documentos sensíveis” produzidos pela comunidade de informações. knowledge organization.COMUNICAÇÃO ORAL DOCUMENTO “SENSÍVEL” E INFORMAÇÃO (IN) ACESSÍVEL? Icléia Thiesen Resumo: A existência de fontes de informação para a pesquisa científica é fundamental para o avanço do conhecimento. mas também no imaginário social. mais recentemente. by its materiality. o documento primário ou documento de arquivo não é mero portador de informações e. especially Archives. the document. memória e história. intelligence community. Diplomatics and. Palavras-chave: documento “sensível”. Documento “sensível” e informação (in)acessível? 1 Introdução O conhecimento é sempre uma certa relação estratégica em que o homem se encontra situado. razão pela qual encontra lugar de destaque nos estudos acadêmicos. the Information Science.” Key-words: “sensitive documents”. gerando fatos e representações. that´s why it is prominent in academic studies and in the social imaginary. The document . as well as the conflicts generated in the struggle for opening up the documents by those responsible for their permanent custody. an illusion that becomes a “mirage. organização do conhecimento. O documento enquanto material da memória coletiva e da história constitui matériaprima dos pesquisadores.the element of collective memory and history ─ is the raw material of the researchers. Os resultados parciais da análise das condições de produção de tais documentos servem de alerta para a ilusão do real que esses “tesouros” suscitam. more recently. em suas relações com a sociedade. possui uma materialidade que o reinscreve no processo de construção da ciência. sobretudo da Arquivística. The primary document or file is object of study of various disciplines. É essa relação estratégica que vai definir o efeito de GT1 226 . bem como os conflitos gerados na luta pela abertura total dos arquivos responsáveis por sua guarda permanente. due to so many interests at stake. durante a ditadura de 1964-1985.

segundo a ABNT. p. perspectivo. entre outras áreas afins às chamadas Ciências Sociais Aplicadas. mas também que há fronteiras teóricas e metodológicas a serem demarcadas. da Arquivística e da Diplomática.conhecimento e por isso seria totalmente contraditório imaginar um conhecimento que não fosse em sua natureza obrigatoriamente parcial.. no exercício de suas atividades. Michel Foucault A teoria do conhecimento. (OLIVA: 2011. Biblioteconomia. a epistemologia ou o conhecimento do conhecimento.) Pode-se falar do caráter perspectivo do conhecimento porque há batalha e porque o conhecimento é o efeito dessa batalha. conforme Pierre Nora.trata do fenômeno do conhecimento sob os prismas os mais diversos. também conhecidos como documentos de arquivo. sem esquecer os estudos da Memória Social e da História. racionalismo. em suas principais correntes . Muitos são os pensadores que trataram do tema dentro da história da ciência e de seus campos fronteiriços. p.85) Trata-se. ainda. Documentação. para caracterizar os que “apresentam uma informação original. mas objetivamos no horizonte deste estudo a “modalidade de investigação na qual o conhecimento examina a si mesmo”. cujo conteúdo informacional contém segredos de Estado e/ou expressam polêmicas e contradições envolvendo personagens da vida pública ou seus descendentes”. (. à memória e à história. particularmente documentos “sensíveis” produzidos durante o período da Ditadura militar no Brasil (1964-1985)55.139) GT1 227 . Diálogos interdisciplinares indicam algum nível de independência entre si. constitua elemento de prova ou de informação”. os chamados documentos de arquivo54. Qual a natureza desses documentos? Sabemos que o documento encontra-se nas bases históricas e epistemológicas da Ciência 54 Trataremos como sinônimos os documentos primários. idealismo. vale dizer. Comunicação. Organização do Conhecimento. (BOULOGNE: 2005. tendência mundial das pesquisas informacionais preocupadas com aspectos históricos e epistemológicos do campo de estudos da Ciência da Informação. PIMENTA: 2011. (RODRIGUES: 2007. etc. p. Este trabalho visa contribuir para essas reflexões trazendo para o centro das discussões a especificidade dos documentos primários ou de primeira mão. NBR 9578.14) No presente trabalho levantaremos a questão do conhecimento científico construído a partir de fontes primárias para a indagação acerca da natureza da informação extraída de documentos com vistas aos trabalhos da memória e da história. mais recentemente aproximando-se da Museologia. obliquo. O historiador assinala “uma tensão entre dois tipos de memória (histórica e vivida)”. ou seja. de documento que. o que nos remete à epistemologia. “produzido ou recebido por uma instituição pública ou privada. Seria possível identificar padrões de registro documental que configurassem comunidades de sentido (BACZKO: 1984)? Como se constroem os processos de apropriação da informação e como se instituem no âmbito da sociedade? Na esteira desses processos como a materialidade do documento marca o imaginário social nas relações de força? Pensar sobre a natureza da informação e do documento que dá sustentação à construção do conhecimento tornou-se uma questão premente da Ciência da Informação. (THIESEN. campo do conhecimento que tem suas origens e suas bases sustentadas pelas experiências do conhecer acumuladas no fio da história pela Bibliografia. lida ou vista pelo leitor no estado em que o autor a escreveu ou concebeu”. . p.empirismo. 231) Rodrigues explica que a noção de “arquivos sensíveis” remete. de caráter histórico ou permanente.. Aqui interessa abordar os aspectos da natureza do conhecimento. 55 Trata-se de “documentos produzidos ao longo do tempo.

já que este último considera esse tipo de documento como básico para suas pesquisas? De que maneira o profissional arquivista utiliza as ferramentas teórico-metodológicas do seu campo para lidar com seu objeto de estudo. interessa também aos propósitos deste estudo enfocar a problemática do documento no horizonte da Organização do Conhecimento. é importante ressaltar que o documento. a Epistemologia. Enquanto material da memória coletiva e da história seu papel nos estudos contemporâneos é incontestável. p. assim como os sistemas de organização do conhecimento usados para organizar documentos. segundo HJØRLAND. Natureza da Informação (o que). Abordagens histórica. ora como superfície de inscrição de traços e signos. ganha especificidades apenas quando responde a questões formuladas pelo pesquisador sobre sua natureza. enquanto campo de pesquisa amplo e interdisciplinar. vale dizer. em outro trabalho. etc. 92).86). Dando especial ênfase aos documentos e aos usuários. enquanto fonte. sua intencionalidade (THIESEN. para o “papel especial dos profissionais de informação no estudo ou manipulação da informação” (HJØRLAND: 2003. Ao discutir os fundamentos da Organização do Conhecimento. Souza recupera parâmetros básicos de análise da informação. PIMENTA: 2011. em diálogos frutíferos com a História. p. cultural e social do conhecimento vêm se impondo como uma tendência das pesquisas em Organização do conhecimento. entre outras. para a história das ciências. Trata-se de antigas discussões que retornam de tempos em tempos já que questões pertinentes à organização e recuperação da informação. dedicado aos fundamentos científicos que norteiam “os processos de organização do conhecimento. 229). por via de consequência. Recuperação da Informação (para que). tanto no contexto da Ciência da Informação.da Informação. apesar das diferentes concepções teóricas que o definem ora como suporte de informação a ser comunicada. representações de documentos. ou seja. GT1 228 . representação e recuperação do conteúdo informacional de documentos custodiados por instituições-memória. seu contexto de produção. Contudo. trabalhos e conceitos” (HJØRLAND: 2008. especialmente no que se refere à análise. Por outro lado. a Filosofia da Ciência. vale dizer. p. Em suas dimensões teórica e aplicada. Entretanto. quanto no âmbito das demais Ciências Sociais e Humanas. O que representa um documento não publicado para um bibliotecário ou cientista da informação e para um historiador. o mesmo autor chama a atenção para o processamento da informação na divisão social do trabalho. A problemática ultrapassa aspectos técnicos e demanda mais pesquisas sobre como as pessoas pensam e buscam informação e sobretudo como esta se encontra organizada. cabe à primeira desenvolver quadro referencial teórico e procedimentos metodológicos interdisciplinares no processo de produção e organização da informação. não foram resolvidas nem mesmo com o apoio das tecnologias de rede implementadas desde a década de 1990. o documento? Sabe-se que a informação registrada e institucionalizada constitui insumo fundamental para a construção do conhecimento. a organização da informação é fundamental para a construção do conhecimento científico e. Tratamento e Processamento da Informação (como).

p. por via de consequência.118) Contudo. memória e espaço prisional no Rio de Janeiro ». bem como pelos organismos criados com a função de repressão. com valor de inteligência. episteme” (THIESEN: 2009-2012). de onde nasceu a concepção de Inteligência Informacional. em estágio de pós-doutoramento no LERASS (Laboratoire d’Études et de Recherches Appliquées en Sciences Sociales) da Université Paul Sabatier. mas a impossibilidade temporária de inscrição de experiências na memória coletiva e. Nosso foco está centrado prioritariamente – mas não exclusivamente – nas condições de produção dos documentos que viram a luz do dia no contexto histórico da Ditadura militar de 1964. Poderíamos utilizar metáforas para a 56 Os “arquivos da repressão” ou “da Ditadura” são os que foram produzidos pelos órgãos da repressão. 2 Tesouros e miragens: escritas do Estado Em pesquisas anteriores57 detectamos singularidades que dizem respeito à natureza dos documentos produzidos nesse período da História do Brasil contemporâneo. na corte imperial do Brasil. Paralelamente. problemas de recuperação da informação não são exclusivos no que se refere aos propósitos que norteiam este estudo. Onde se encontra essa especificidade que precisa ser elucidada? Nosso campo empírico de análise diz respeito aos chamados “arquivos da repressão”56. enfocamos a experiência prisional no período da chamada Ditadura civil-. verticalizando tais problemáticas no projeto “A informação na pré-história da Ciência da Informação: pré-conceito. sob a orientação de Viviane Couzinet. da Aeronáutica (CISE) e da Marinha (CENIMAR). razão pela qual compreender como foram produzidos e em quais condições torna-se fundamental. a memória nacional (POLLAK: 1989). O dilema atual se apresenta entre o direito à memória e a vontade de esquecimento (THIESEN: 2011). em sua última etapa. como os centros de informação do Exército (CIE). ou seja. Demos prosseguimento a esses “achados”. além dos DOI-CODIs Destacamentos de Operações de Informações-Centros de Operações de Defesa Interna que existiam em alguns estados (COSTA. 2004). disciplina que tem as questões documentais como sua marca de batismo. A criação de uma Comissão Nacional da Verdade ainda não se efetivou no Brasil. estudamos elementos da pré-história da Ciência da Informação. na sua forma mais aprimorada. Os procedimentos teóricometodológicos constituem a crítica às fontes selecionadas e sua confrontação com o referencial teórico da Ciência da Informação. A pesquisa foi encerrada com a recente publicação “Imagens da clausura na Ditadura de 1964: informação. memória e história”. o que nos permitiu verificar a sua existência já bastante aprimorada no período da Ditadura de 1964. verificamos a existência de um sistema de informações de natureza jurídica e caráter identificatório. no âmbito da terceira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) cujo Eixo Orientador VI diz respeito ao Direito à Memória e à Verdade. editada pela 7Letras. sofrendo diversos entraves de setores a quem não interessa recompor o passado recente do país e. Problematizar a natureza dos chamados “documentos sensíveis” é o objetivo central deste trabalho.O papel social da informação (contexto de uso). social e institucional. natureza. Aqui está o cerne da questão que aponta para os cuidados da análise documentária. configurado no século XIX. 57 No projeto de pesquisa « Imagens da clausura: informação. GT1 229 . No âmbito dessa pesquisa. promover a reconciliação nacional. em fase final e com apoio do CNPq (PQ-2). desenvolvido no Departamento de História da UNIRIO (2003-2011).militar de 1964-1985. (SOUZA: 2007. Objeto de disputas políticas e jogos de poder esses arquivos guardam documentos com informações de interesse público e privado. pelas polícias políticas. em 2008-2009. Toulouse 3. Tarefa urgente a ser realizada. Sabemos que o silêncio não significa esquecimento. no momento em que se discute na sociedade brasileira a mudança na legislação de acesso aos arquivos da repressão.

Na realidade. In: JULIA.170).exe/sys/start. do excesso de documentos depositados nos arquivos. há. poderíamos tomar essas fontes como a expressão dos fatos e acontecimentos que marcaram a história recente do país. se “é aquilo que é capaz de produzir conhecimento e uma vez que o conhecimento requer verdade. assim como seu ciclo vital. HJØRLAND: 2007. constatamos que.htm) 59 Ao defrontar-se com a abertura dos arquivos da STASI. pode se estabelecer um fosso e muitas armadilhas. Entretanto. mas especialmente pelo Arquivo Nacional (APÊNDICE I)58.br/cgi/cgilua. Há processos de produção. etc. a questão que hoje se coloca diz respeito ao acesso a esses documentos. Isso porque. Mas. p. contextos sociopolíticos e dispositivos institucionais que definem a formação dos arquivos acumulados nas atividades administrativas em questão.90). há uma grande quantidade de documentos e arquivos da repressão recolhidos e custodiados por arquivos públicos estaduais. gerando fatos e representações (FROHMANN: 2011).arquivonacional.gov. verificamos a existência de verdadeiro “tesouro” sobre a experiência histórica do período mencionado. os arquivos do CIE (Centro de Informações do Exército) e do CENIMAR (Centro de Informações da Marinha) nunca foram localizados. prevê mudanças quanto ao caráter sigiloso dos arquivos e.163). Henri Rousso lembra que todos os arquivistas sabem que “perto de nove décimos dos documentos são destruídos para um décimo conservado” (ROUSSO: 1996. estes “tesouros” podem ser verdadeiras “miragens”. entre outras alterações. Jean. entre os quais o da Ciência da Informação. BOUTIER. Os “tesouros” da STASI ou a miragem dos arquivos.). Ver Legislação Arquivística Brasileira. secretos. meias-verdades e verdades estão depositadas nesses arquivos (THIESEN.definição de nossa problemática e hipóteses preliminares – o tesouro e a sua miragem. PIMENTA: 2011). CONARQ. condicionado a exigências da legislação de arquivos em vigor. Dominique. torna-se imprescindível conhecer os processos e o contexto de produção dos referidos documentos. a informação também a requer” (DRETZKE apud CAPURRO. Localização e Acesso (Apêndice I). diferentemente do que é divulgado na imprensa. 1998. O documento possui uma materialidade que o reinscreve no processo de construção da ciência. Como chegar a ela? Além das dificuldades de acesso. acaba com a renovação indefinida da classificação de documentos (ultrassecretos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. p. (http://www. Contudo. não é disso que se trata. entre os fatos e as representações que eles expressam e suscitam. GT1 230 . então a equação deve incluir a verdade.conarq. O PLC-41/10. que poderia ser definida. como “aquilo que não pode ser mudado”. Acervos. HJØRLAND: 2007. Étienne. Arquivo Nacional. Ao examinarmos alguns documentos que constituem fontes de pesquisa para diversos campos do conhecimento. Passados recompostos: campos e canteiros da história. Em levantamento realizado no sentido de conhecer e analisar os referidos arquivos. Se a informação é um “conceito contextual” (MAHLER apud CAPURRO. Este é o ponto de intersecção dessas ideias com nova proposta de pesquisa em fase de definição. a temível polícia política dos tempos da Guerra Fria na Alemanha. Mentiras. FRANÇOIS. no âmbito dessa temática. ainda. não se conhecendo suas condições de produção. percebeu as contradições existentes entre a quantidade de documentos ali depositados e as inúmeras armadilhas que eles suscitam. p. 58 Conforme pode ser verificado no Quadro Instituições. para usar expressão a que Étienne François se refere em seu estudo59. da ausência de arquivos tidos como desaparecidos/destruídos. outras lacunas constituídas de forma intencional ou não. em tramitação no Senado. Como discernir tudo isso? Com quais ferramentas teórico-metodológicas? Para que possamos responder tais indagações. Editora FGV.

Mais adiante. como se deu o processo de passagem dos documentos de uma idade para outra até alcançarem o status de “fundo”. Tais procedimentos passam por definições prévias constantes de tabelas de temporalidade que determinam o recolhimento dos documentos. encaminharam diversas resoluções. passando pelo trabalho de arranjo e descrição. quando atingem o valor histórico. poderá contribuir para a história do passado recente ainda encoberta pelas batalhas da memória definidas por Michael Pollak como trabalho de enquadramento (POLLAK: 1989. Étienne François nos lembra que “nada é mais enganador que a aparência da evidência” (1998. o que não dizia. no sentido de contribuir para elucidar os dispositivos institucionais ou regimes de verdade que marcaram a origem e o ciclo desses documentos e para que. Outro aspecto a ser analisado é o fluxo dos documentos em sua fase corrente. tais documentos passam por uma fase intermediária. é necessário o conhecimento sobre o ciclo de vida desses documentos. Com base na teoria das três idades. no contexto desta proposta. Em cada uma de suas “idades” fica estabelecido seu percurso de tramitação. Antes de atingirem a idade permanente ou histórica. No caso dos arquivos das polícias políticas como isso ocorreu? É importante identificar. especialmente. em suas fases corrente. 158). p. Analisar o circuito informacional nos processos de produção e apropriação da informação por setores da sociedade. em 2002. Diversas mediações ocorrem nesse processo. Com a finalidade de assegurar a preservação e o acesso aos arquivos. ainda sendo utilizados por seus produtores. a elaboração de um programa de identificação e de salvaguarda dos arquivos policiais na América Latina. Conferência Internacional da Mesa Redonda de Arquivos (CITRA). sistematizada pelos norte-americanos na década de 1970. É relevante saber o que o regime dizia de si mesmo mas. os diretores de arquivos nacionais ali presentes declararam que “os arquivos estão no coração da sociedade da informação”. dentro do campo de possibilidades. p. se dissipem as “miragens”. mas detendo-se na “análise qualitativa em que se insere a interpretação/explicitação e a formulação de hipóteses/ teorias” RIBEIRO apud RODRIGUES: 2009. Já na ultima fase.Um novo desafio que vem ao encontro de preocupações de muitas nações. guarda e uso. THIESEN & PIMENTA: 2011). no sentido de entender sua natureza e produzir conhecimento sobre o conceito de documento em questão. examinando-se não apenas as suas características orgânico-funcionais e exógenas. Por ocasião da 36ª. objetivo. assim como as instituições que integraram o regime e produziram informações sobre ele. que corresponde ao seu uso. Outras mediações são necessárias. temporalidade. passam à responsabilidade das instituições arquivísticas. quando eram produzidos pelas instituições GT1 231 . eles recomendam à UNESCO e ao Conselho Internacional de Arquivos (CIA). no interesse desta pesquisa. intermediária e permanente ou histórica. Na primeira fase sua responsabilidade se deve aos seus produtores. A oportunidade da presente pesquisa poderá constituir uma contribuição para a análise dos aspectos teóricos e metodológicos que definem o estatuto desses documentos desde a sua gênese. entre as quais a que “convida os governos dos países em transição democrática a se engajarem ou a perseguirem ativamente o processo de liberação do acesso aos arquivos”. ocorrida em Marselha.5).

O desaparecimento dos arquivos do CIE e do CENIMAR permanece misterioso até hoje. cujo acesso se restringia ao alto escalão militar. assim como os crimes cometidos diuturnamente nos centros de tortura. provocou a demissão do Comandante do II Exército e do Chefe do CIE. mar. no caso. conhecido também por Bacuri. A noticia de sua morte foi transmitida à imprensa pela polícia política: “ofereceu tenaz resistência a tiros” (GASPARI apud Relatório Direito à Memória e à Verdade. embora os autores se refiram a outros períodos e episódios da História. de documentos supostamente “autênticos” produzidos. O título do documentário se refere a Manuel Fiel Filho. no DOI-CODI de São Paulo. Pedro. Trata-se. p. que ele viu a manchete de sua própria morte ainda com vida (TIERRA: 1998)61. como se sabe. Outra prática desses agentes do Estado era a de publicar matérias em jornais da grande imprensa sobre mortes de pessoas que ainda estavam vivas.1-130. em 1976. A verdadeira causa de sua morte somente foi esclarecida após a abertura dos arquivos do DOPS de Pernambuco. ao término do último governo militar. com a intenção de inculpar militantes que participavam ou eram acusados de participar da resistência ao regime militar. n. Entre uma frase e outra afirma que.1. Isso poderia explicar as lacunas existentes em tais arquivos. O mesmo fato havia ocorrido com o jornalista Vladimir Herzog. desde a origem. Retirado da carceragem do DEOPS (SP) pelo delegado de plantão. p. o cruzamento de fontes analisadas nos dá algumas pistas nesse sentido. por exemplo. como os DOICODI.que integravam o SISNI (Sistema Nacional de Informações e Contra-Informações). um ex-agente de informação a serviço do regime militar. É a conhecida “escrita do Estado”. Jorge. assumiam a expressão da verdade. sabidamente contrários à abertura política que se iniciava. por essa e outras razões demandavam justificativas documentadas.1. após assinar uma confissão de que era comunista. 95min. confirma-se que parte considerável dos prontuários produzidos por esses organismos e hoje existentes nos fundos das policias políticas de instituições arquivísticas compreende informações incriminatórias produzidas 60 OLIVEIRA. muitos anos depois. p.45). Eduardo foi levado mais tarde ao Forte dos Andradas. p. Um dos casos mais emblemáticos – entre inúmeros outros – diz respeito a Eduardo Collen Leite (1945-1970). embora não afirme se cumpriu ou não as ordens superiores60. para que ficasse longe do olhar dos demais presos. Diversas testemunhas presenciaram tais atos que se repetiam sistematicamente em todas as prisões. Eram documentos fabricados sob a chancela do Estado e. quando “se comprovou a falsidade de sua suposta fuga” (Relatório. documentário premiado em 2009. conta em detalhes o modus operandi da polícia política para a extração forçada de confissões. um imenso aparelho de vigilância constituído por 16 instituições. Em pesquisas antes realizadas e/ou na literatura memorialística publicada. Perdão. torturado e morto três meses antes. v. Mister Fiel”. um fluxo seletivo de documentos. até que fossem cotejados com testemunhos e outros documentos da mesma natureza. 61 Tierra.. em sua rígida hierarquia./agosto 1998.139). Consta. 2009.139). foi convocado para destruir documentos e arquivos. no Guarujá. Contudo. Brasília. assinalada por Chartier (1993) e analisada por Jardim (1999. Apresentação. onde foi executado. É fácil supor que a natureza dessas organizações determinava. ainda. Mister Fiel. JCV Produções. GT1 232 . Ambos foram fotografados e a divulgação das respectivas mortes fez constar que se deu por “suicídio”. cujas prisões eram realizadas sem respaldo legal e. Os arquivos da repressão: do recolhimento ao acesso. A repercussão desses crimes. Quadrilátero – Revista do Arquivo Público do Distrito Federal. Em “Perdão. operário metalúrgico morto sob tortura. Todos os documentos não correspondiam aos fatos.

). mas também para a sua confrontação com o referencial teórico da Ciência da Informação. 1984. não podem. com seus atributos. assim como as informações que veiculam e nele se encontram materializadas. ser validados sem que haja tratamento analítico que preceda seu uso público. Usos & abusos da história oral. Esses documentos. BOULOGNE. Paris : Éditions Payot & Rivages. 4 Referências AGAMBEN. considerando-se o conhecimento restrito sobre esse tema. por essa razão.em sessões de tortura sistemática. GT1 233 . especialmente os que atingiam a esfera do Superior Tribunal Militar. recontextualizar a produção documental é uma estratégia de pesquisa central para a organização do conhecimento. sua produção. Entretanto. Paris : Payot. Paris : ADBS Éditions. além dos prejuízos computados em períodos de clausura. pensamos em contribuir para a produção de conhecimento sobre a especificidade dos documentos “sensíveis”. 3 Considerações finais Os registros informacionais realizados por agentes do Estado. As ideias esboçadas neste trabalho encontram-se na bifurcação de duas pesquisas. a marca da suspeita. Isso requer o conhecimento não apenas do funcionamento do regime e das instituições que lhe deram suporte. Dessa forma. suas lacunas. tortura e mortes. A. BACZKO. é preciso que os processos de identificação dos fundos arquivísticos considerem seu contexto de produção e a intencionalidade que lhes era pressuposta. Hoje. (dir. Les imaginaires sociaux: mémoire et espoirs collectifs. na medida em que se tratava de construir provas mediante métodos de constrangimento. sua natureza. típicas de regimes de exceção e de ações de inteligência.). FERREIRA. mas especialmente as implicações que representam quando manuseados enquanto fontes de informação para a pesquisa. muitos dos sobreviventes enfrentam outro tipo de prisão – a presentificação ritualizada de um passado que não passa. Janaína . Giorgio. mas do ciclo informacional dessa documentação. portanto. as implicações sociais extrapolam os limites dos acontecimentos contemporâneos a essa produção documental. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas. da memória e da história. Carregam. Numa palavra. Bronislaw. Vocabulaire de la documentation. suas contradições. uma em vias de finalização e outra buscando verticalizar o tema utilizando tais documentos sensíveis como corpus de pesquisa. com valor jurídico e identificatório. como vimos. suscitando consequências desastrosas para os que se encontram retratados e representados nesses documentos e sofreram as penalidades que lhes foram impostas à época. Marieta de Moraes (orgs. 2005. entre os quais. a tortura. Qu’est-ce qu’un dispositif ? Traduit de l’italien par Martin Rueff. Parte considerável dessa documentação instruía processos que tramitavam na justiça militar. Do ponto de vista da informação. 2007. possuem o caráter justificador do regime. seu uso e sua apropriação. 1996. AMADO.

n. COSTA. FAJARDO. Roger. Michel. Georgete Medleg.86101. In: WORKSHOP EM CIENCIA DA INFORMAÇÃO: POLITICAS E ESTRATEGIAS DE PESQUISA E ENSINO NA PÓS-GRADUAÇÃO. 12-12 de novembro de 2004. v.2. 2009. Birger. 1993. S.). Acervo. Rio de Janeiro: Zahar. n.L. n. CHARTIER. 1999. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. A história cultural entre práticas e representações.br/pdf/pci/v12n1/11. SECRETARIA ESPECIAL DOS DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. jul. Diplomática contemporânea como fundamento metodológico da identificação de tipologia documental em arquivos. O conceito de informação. José Maria. Passados recompostos: campos e canteiros da história. HJØRLAND. Porto Alegre: UFRGS. Teoria do conhecimento. In: JULIA.2008.. François (dirs. Emilio Delgado. 2011. In : SEMINÁRIO 40 ANOS DO GOLPE DE 1964. Ana Célia.. 2007.pdf Acesso em 08 out. Perspectivas em Ciência da Informação. Alberto. Acervos e repressão.. Maria Nelida.scielo. GONZALEZ DE GOMEZ. ISHAQ. Actes. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos. FROHMANN. p. 2004. Os acervos dos órgãos federais de segurança e informações do regime militar no Arquivo Nacional.538-646. Reference. Célia. Anais. Toulouse. La investigación em biblioteconomia y documentación. LOPEZ-COZAR. In: DEFERT. Birger.. Espionagem política: instituições e processo no Rio Grande do Sul. v. Pablo E. RODRIGUES. 1998. EWALD. Disponível em: http://www. Étienne.21. Michel. 2002.. João Pessoa – PB. 30 (2003). p. Os “tesouros” da STASI ou a miragem dos arquivos. p.2. 1989. Arquivos. 35 (2008).1. 1964-2004. Birger. FRANCO. 29-42. A pesquisa em Ciência da Informação: da epistemologia institucional à política do conhecimento. In: COLLOQUE SCIENTIFIQUE INTERNATIONAL DU RÉSEAU MUSSI. In: Estudos Históricos. Sinara Porto. Anais… Niterói: UFF. X. p. representation. 2007. Dits et écrits: 1954-1988. Toulouse – FRANCE. JARDIM. Org. 2009.3. La vérité et les formes juridiques. O príncipe de Maquiavel e seus leitores : uma investigação sobre o processo de leitura. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Sociologia). esquecimento. HJORLAND.113-125. 148-207. Niterói: EdUFF. P. Rio de Janeiro: 7Letras. 500p. silêncio. 1990.. CORTINA.2/3. Vivian. Fundamentals of Knowledge Organization. and the materiality of documents. BRASIL. anistia politica e justiça de transição no Brasil: onde os GT1 234 . II. Jean. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Knowl. Université Paul Sabatier. Org./dez. Memória. Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.87111. Rio de Janeiro. FRANÇOiS. OLIVA.CAPURRO. 2011. São Paulo: Editora UNESP. Rio de Janeiro. HJØRLAND.. Rafael. BOUTIER. p. FOUCAULT. Arnaldo. Transparência e opacidade do estado no Brasil: usos e desusos da informação governamental. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. RODRIGUES. n. POLLAK. tome II. n. 2000. 2010. What is Knowledge Organization (KO)? Knowl. Bernd. João Pessoa: UFPB. Dominique.12. España: Ediciones TREA. Editora FGV. Daniel. 2011.

2* Aberto. Brandão (org. THIESEN.21. Inteligência informacional: revisitando a informação na história.23. 2010. 2009-2012. p. Icléia (org. Rosali Fernandez de. São Paulo – SP.. semântica geral e biblioteconomia.nexos? Revista anistia politica e justiça de transição. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO.1 COREG Coordenação Regional do Arquivo Nacional no Distrito Federal.). 6(1): 9-12. 2007. Inteligência informacional : dialogando com a informação. VEYNE. Paul.. p. a memória e a história. 243p. SOUZA. sendo o SNI seu órgão central. v. episteme. PIMENTA. memória e história. sa personne. Foucault. Rio de Janeiro: 7Letras. APÊNDICE I Instituições. THIESEN. Icléia. São Paulo: USP./dez. Rio de Janeiro. 136-151. jul.. 2011. ARQUIVOS E ACESSO LOCALIZAÇÃO Ver acervos dos 16 orgãos do Sistema. Arquivos. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO.2. sa pensée. THIESEN. O Centro de Referências das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985): Memórias Reveladas. n. 2008. Icléia./dez. Contém cerca de 220 mil microfichas e outros documentos do período de 1964 a 1990. v. 2011. Toulouse. Icléia. 1. Rio de Janeiro. Imagens da clausura na Ditadura de 1964: informação. 2010. Icléia. Sistema de Espionagem CRIAÇÃO E LEGISLAÇÃO FUNÇÕES Composto por 16 orgãos especializados. 2010. A informação na pré-história da Ciência da Informação: pré-conceito. Silva. Rio de Janeiro: UNIRIO. Paris: Éditions Albin Michel. SHERA. jul. 2008.193-200. alguns dos quais ___ aqui mencionados. Jaime Antunes da.06. Icléia. Rio de Janeiro – RJ.21. THIESEN. 2008. Epistemologia social. 1977.B. Jesse. 2008. Localização e Acesso SIGLA INSTITUIÇÃO Sistema Nacional de Informações e Contra-Informações. In: THIESEN. de Órgão central do Informações 13. v. Salvador: EDUFBA. arquivo e memória: os documentos da ditadura militar no contexto da redemocratização no Brasil.. Organização do conhecimento. Anais. p. ACERVOS.1964 SISNI GT1 235 . SPINOLA. Acervo.). Anais. Inf. Lidia M. 4341.13-28. jul. natureza. Vera. Cláudia. p. n./dez.. In: TOUTAIN. n. SISNI SNI Serviço Nacional de Decreto-lei n. Comissão especial e mortos e desaparecidos políticos. Toulouse – FRANCE. Para entender a Ciência da Informação. Rio de Janeiro. 2008. A preservação de documentos do DOPS no APERJ. IX. XI. ROTTA.2. Ricardo Medeiros. Ive. SILVA. Informação. Ci. Rio de Janeiro. THIESEN. Université Paul Sabatier. Acervo.. Actes. 115-124. v. 2011.. Acervo. In: COLLOQUE SCIENTIFIQUE INTERNATIONAL DU RÉSEAU MUSSI.2. Projeto de pesquisa. Inteligência informacional e Ciência da Informação: um esboço de trajeto. II. 2009. Rio de Janeiro: UNIRIO.

SISSEGIN Sistema de Segurança Interna Ver CODI-DOI ___ GT1 236 . de órgãos como CONDI. em cada comando militar de área. empresas privadas e instituições. fichas e pastas 29. COREG Ministérios. CODI E DOI.987 dossiês e a existência de 249 DSI ou ASI específicas”.Contém Criado pelo artigo 162 90 metros lineares de da Constituição de Assessoramento documentos . AESI Assessorias de Segurança e Informações criadas nos ministérios Decreto n.10. Produção de informações nos ministérios civis.1975. Aberto. Aberto. investigações Decreto-lei n. Criado com a institucionalização da OBAN. de civis. Especiais de Segurança e Informações. Acervos de alguns órgãos estão sob a custódia do Arquivo Nacional que identificou no fundo SNI “6. 67. em diversos de funcionários.07.640. foi recriado com direto ao Presidente sobre cassações de direitos Segurança Nacional outras funções pelo da República políticos e mandatos Decreto-lei n. de 27.325. COREG Processos de investigação (1964-1979). de 04. 53.1964 Promover investigações sumárias para o confisco de bens. totalizando 264 metros lineares de documentos. COREG .SNI/CADA CSN DSIs 308. Orgãos entidades e Decreto n.09.000 prontuários com a identificação e qualificação de Banco de dados Cadastro Nacional cidadãos brasileiros COREG produzido pelo SNI e estrangeiros.940. através de diretrizes para uma política de segurança interna. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. órgãos públicos. em janeiro de 1970. Comissão Geral de Investigações (Ministério da Justiça) Decreto n. Faziam Informações.1967.04. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN.164 dossiês complementares do pessoas que 02.1969.processos Conselho de 1937.1970. organismos e empresas federais.897. Consultar acervos órgãos dos governos militares no AN. A mantinham relações partir de então estão profissionais com os ligadas ao SNI. Assessorias 22. CSN até 1970. 900. através da criação. Aberto. Aberto. 75. de eletivos. de Há 22. CGI ASI. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN Aberto. 60. individuais (1964 a 1980) Divisões de Combate à Segurança e corrupção. Promover a segurança interna. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN.04.

Existente antes do Golpe. MG.) no período de 1960 a extinção da DCDP. Estaduais e CE. em 1988” (ISHAQ. Delegacias/ departamentos de Ordem Política e Diversas leis Social.1970 tem inicio subordinado ao as suas operações. Centro de Informações da Marinha (existia Reformulado pelo desde 1955 Decreto 68. Bandeirantes da 8ª Região Militar OBAN/SP. Arquivos Públicos estaduais Consultar os respectivos Arquivos.1971 Informação da Marinha) Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica Decreto n. movimento estudantil etc.1970 Os CODI eram órgãos de planejamento e coordenação de defesa interna e os DOI efetuavam investigações. prisões. executava também operações de segurança Produção de informações. letras de músicas. do IV Exército (Recife). vinculadas às secretarias estaduais de segurança Centro de Informações do Exército.. 20.07. Aberto. novelas (. da 6ª da Operação Região (Salvador). RS (Centro de condições de Tradições Gaúchas) acesso. criada (Belém). interrogatórios e torturas. da 10ª Região em 01. Em 1974 a DCI de Porto Alegre é substituída pelo CODI-DOI do III Exército.05. Em – Destacamento 1971 criados os da de Operações 5ª Região (Curitiba). Centro de Operações e do Comando Militar de Defesa Interna do Planalto (DF).05. filmes. de 20. assume funções de censura política Não se conhece o paradeiro dos arquivos ___ Não se conhece o paradeiro dos arquivos ___ CISA COREG Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN.. de como Serviço de 30. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. executava também operações de segurança Produção de informações. respectivo Ministro e esse ao CODI. PR. Produção de informações.608. GO. “atividades subversivas”. executava também operações de segurança Investigava lideres comunistas. CDI/DPF Divisão de Inteligência da Polícia Federal ____ COREG Divisão de Censura DCDP do DPF de Diversões Públicas ____ “Contém processos sobre peças teatrais. do II Exército (SP). Polícias políticas nos estados Ver Arquivos Arquivos públicos estaduais Públicos (RJ. ES.CODI-DOI DOPS CIE CENIMAR Criados em 1970 os do RJ (I Exército). FRANCO.03.447.1969) Militar (Fortaleza). “congressos de terroristas”. de Informações da 4ª Divisão do (desdobramento Exército (BH). SP. 2008) GT1 237 . 66. Aberto Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN.

Coleção Brasil Nunca Mais (1964-1979) – Arquivo Edgard Leuenroth. entregues à CEMDP. Produção de informações nos ministérios civis. passou a constituir novo fundo no AN. In: Portal do Acervo da Luta Contra a GT1 238 . ASI. UNICAMP. hoje vinculada à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. A2. AESI Assessorias de Segurança e Informações criadas nos ministérios civis Consultar acervos dos Acervos de alguns órgãos do órgãos dos sistema estão sob a custódia governos do Arquivo Nacional. para o cumprimento de seus objetivos. Imagens da clausura na ditadura de 1964: informação. COREG Documentos oriundos dos acervos recolhidos pelo Arquivo Nacional sobre mortos e desaparecidos políticos. Rio de Janeiro: 7Letras. Contém cópia de 700 processos de presos políticos reproduzidos dos arquivos do STM e do STF. Originalmente parte do acervo da DSI do Ministério das Relações Exteriores. organismos e empresas federais. M2. E2. FRANCO: 2008) COREG Acervo constituído de cerca de mil folhas de documentos que estiveram sob a guarda da jornalista e pesquisada brasiliense Taís Morais sobre a Guerrilha do Araguaia.000 documentos (19661985). ___ ___ ___ ___ Aberto a consulta Fonte : THIESEN. foram recolhidos ao AN em 06.12. da Marinha. Aberto a consulta. (ISHAQ.1995 “Reconhecer formalmente caso a caso. ASIs. Icléia. memória e história. CIE. P2.2009. aprovar a reparação indenizatória e buscar a localização dos restos mortais que nunca foram entregues para sepultamento”. Ver Portal do AN. In: __. CISA. CENIMAR. S2.CIEX Centro de Informações do Não há legislação Exterior (Ministério própria das Relações Exteriores) Monitoramento de brasileiros exilados pelos governos militares.3 Aberto a consulta Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. as DOPS e os Serviços Secretos das Polícias Militares. CIE. a memória e a história. cujos originais estão sob a guarda do GTNM da Bahia. DSIs. denominadas F2. ___ ___ ___ ___ Aberto a consulta Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN.140. os CODI-DOIs. 2011. (SILVA: 2008) COREG Reproduções digitais de documentos da Força Aérea incendiados na base aérea de Salvador. segundas seções do EMFA (Estado Maior das Forças Armadas). COREG Contem cerca de 8. Inteligência informacional : dialogando com a informação. do Exército. 9.08. Lei n. (Footnotes) 1 SNI. Serviços Secretos da Polícia Federal. de 04. CISA. militares no Portal do AN. da Aeronáutica. Informações destinadas ao SNI. (SILVA:2008) ___ ___ ___ ___ Aberto a consulta e reprodução ___ CEMDP Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. dos 3 ministérios militares.

Rio de Janeiro. Com o compromisso de recuperar a memória da luta pela democracia durante o período do regime militar e suas consequências para o Rio Grande do Sul. no conjunto do acervo do SNI. Acervo. Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. de 24 de agosto de 1999. p. cuja Comissão “foi criada por ocasião das comemorações dos 20 anos da Anistia no Brasil através do Decreto n.757 dossiês produzidos pelo Centro de Informações do Exército – CIE.193-200. jul. * “.. GT1 239 .29) 3 ROTTA.Ditadura. p. Disponível em: www. Acesso em 08.2010.br.21./dez. 39. a Comissão está vinculada à Secretaria da Cultura através do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul”.2..acervoditadura. FRANCO: 2008. (ISHAQ. A relação de órgãos acima listada e disponível nesse Portal é um fragmento de FAJARDO (1993).gov.10. encontram-se 3. v.680. 311 pelo Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica – CISA e 220 pelo Centro de Informações da Marinha – CENIMAR”. Vera. n. 2008.

2009). A tônica de sua apresentação foram as diferenças entre as áreas das Ciências Naturais e das Humanidades. Ciência da Informação. no Brasil. com as aproximações epistêmicas da interdisciplinaridade. História. Palavras-chave: Duas Culturas. na íntegra. uso de livros raros digitalizados na Comunicação Científica e a produção do conhecimento. sob a ótica dos modelos educacionais e seu impacto no progresso desse país. GT1 240 . Apesar do afastamento ocorrido dentro das próprias disciplinas das Ciências Naturais e entre estas e as Humanidades. ainda que as Ciências tenham passado por significativas transformações. As idéias de Snow são uma contribuição para a História da Ciência e a Ciência da Informação. 2006 apud HANSON. Na História. Lena Vania Ribeiro Pinheiro Resumo: Diferenças entre as Ciências Naturais e as Humanidades a partir da palestra de Charles Snow na University of Cambridge. a industrialização se constituía em única solução para o avanço dos países menos favorecidos. defendida em junho 2011 no IBICT. da Literatura e da Arte (Keith Ward. As Duas Culturas. Em breves palavras. detectou que as comunicações de pesquisadores da área de História do Brasil Colonial apresentam aspectos que até a década de 1980 eram relacionados às investigações das Ciências Naturais. História da Ciência. mas também as Artes. Snow condenava os literatos pela falta de familiaridade com a Segunda Lei da Termodinâmica . 1 Introdução O abismo entre as Ciências e as Humanidades pode ser conciliado por meio de um conhecimento profundo da poesia da Ciência e do caráter de revelação da verdade da Música. como a autoria múltipla em artigos. também existem interseções entre as duas Ciências. por formar hábitos de reflexão. 1995-2009. aqui. Duas Culturas é termo cunhado por Charles Snow para sua palestra na University of Cambridge. com as devidas citações. Alguns parágrafos constam. Ciências e Humanidades. a participação em projetos colaborativos e o uso regular das tecnologias de informação e comunicação. onde as Ciências desempenhariam papel importante. as aproximações se manifestam por meio das práticas da produção científica. Rio de Janeiro. cuja tradução brasileira data de 1995. O assunto já havia sido debatido nos Estados Unidos em outras oportunidades. Para esse cientista e escritor de Literatura. em 1959.COMUNICAÇÃO ORAL AS DUAS CULTURAS E OS REFLEXOS NO MUNDO ATUAL NAS CIÊNCIAS E NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO 62* Valeria Gauz. Comunicação Científica. Pesquisa recente em Ciência da Informação. por exemplo. publicada no mesmo ano de 1959.o 62 * Pesquisa originada da tese de doutorado História e Historiadores de Brasil Colonial.

nas quais é tênue o limite entre quem descreve um determinado acontecimento e o próprio acontecimento. e a crise vivida na ciência. 2008). divisão geralmente encontrada no ambiente acadêmico. uma pesquisa em Ciência da Informação que traduz esses padrões reveladores de comunicação e informação e sua evolução da áreea de História. simultaneamente. embora cada vez mais se aproximem. assim como as mudanças de paradigmas. “A pesquisa. no qual as Ciências Naturais e a Tecnologia estariam enquadradas como hard e as Humanidades como soft (e as Ciências Socias entre uma e outra). Dentre as divergências entre as Duas Culturas. p. Meadows aponta a que se passa nas Humanidades e Ciências Sociais. para o autor. não se enquadra totalmente num ou noutro caso” (MEADOWS. pode haver – como pesquisas mais recentes demonstram cientificamente – mais pontos em comum entre as Ciências do que sugeriu a nossa vã filosofia até o século XX. foram abordadas pelo pensador português Boaventura de Sousa Santos (2002.. em geral. da mesma forma. Nestas Ciências. de acordo como são tratadas. lamentando o abismo entre os intelectuais e os cientistas. quando há mudança de paradigma. A imagem de água e álcool. a segunda conhecimento flexível. ilustrativamente. 60). marcada pelas “condições teóricas e as condições sociológicas [. nas Humanidades. saberes sem interseção.]”. proferida na Universidade de Coimbra. assim como a “imagem distorcida” que um grupo tinha do outro. A alteridade existente entre Duas Culturas também é apontada por autores citados por GT1 241 . reflete as disciplinas caracterizadas como hard e soft. a primeira significando conhecimento quantitativo e rigoroso. Desde então. As Duas (ou múltiplas) Culturas. as suas especificidades ou singularidades. na sua versão ampliada da “Oração da sapiência”.. os conceitos e conteúdos informacionais antigos não são mais empregados. apud Pinheiro. As transformações das Ciências. Este autor considera “não só profunda como irreversível” a revolução científica iniciada com Einstein e a mecânica quântica. 1999. 2 As Múltiplas Culturas A expressão Duas Culturas sugere distância entre conhecimentos. todas as áreas apresentam aspectos hard e soft. numa “nova ordem científica” emergente [. desde o final do século XX.. ao contrário do que ocorre nas Ciências Naturais. intensificadas nos últimos anos. há mais de 20 anos. tanto os paradigmas antigos quanto os novos coexistem (MEADOWS. como domínios paralelos. De fato. muitas são as distinções possíveis entre as Ciências.]” .equivalente científico a conhecer a obra de Shakespeare -. Analogias e assimetrias estão presentes nas pesquisas sobre o tema. trazida por Meadows.. causas e consequências de sua existência são analisadas no presente texto. além de examinar. cuja abordagem histórica pretende lançar um olhar sobre as confluências entre as Ciências e. 1999). em geral. Entretanto.

em especial após o século XIX. ao mesmo tempo. fazer as coisas funcionarem. Embora a palestra de Snow sobre as Duas Culturas não apresente bibliografia. o autor cita que. cada um dirigido por um professor. a sabedoria requerida para lidar com seus resultados se torna sempre mais crítica para o nosso futuro (BARASH. em 1977 (apud TIMMONS. Aspectos dessa cisão também aparecem a partir da visão de Snow. assuntos anteriores a Snow e temas de debate nos Estados Unidos. 9). interessaria refletir sobre a precariedade da condição humana e sobre o drama do indivíduo no mundo. ao afirmar que [. patriotismo. Ao dividir a University of Virginia em dez grupos.] o progresso nas Humanidades não ameaça a Ciência. de línguas antigas às Ciências. na realidade. nas palavras de Frederick Rudolph. 2007. cultivar os costumes e “ensinar Matemática e Física. 2005 apud TIMMONS. Disciplinas voltadas para a exploração dos recursos dos Estados Unidos e a diminuição do estudo de línguas mortas já ocupavam a pauta de discussão porém. como a daquele país então... 2007). em 1828. para os responsáveis pelo relatório de Yale College. como o ritmo por meio do qual cada cultura evolui (as Ciências [Naturais] mais rapidamente). O interesse dos cientistas. seria o ensino de literatura antiga para jovens estudantes o que os imbuiria dos princípios da liberdade. Enquanto artistas tenderiam ao pessimismo. tornou a educação mais prática – e mais departamentalizada. professor de Psicologia da University of Washington. as quais contribuem para o avanço das Artes e formar os hábitos de reflexão [�]” (TIMMONS. mas quanto mais a Ciência avança. Esse autor menciona as idéias de David Barash. Em Yale College. GT1 242 . se possível.Timmons (2007). aprofundada ao longo dos tempos e institucionalizada nas universidades. Comparações. seria decifrar os segredos do mundo natural e. p. p. similaridades e diferenças entre as Ciências são. interesses da agricultura. Como frequentemente obtinham sucesso. Assim. ampliar horizontes. por sua vez. por meio das palavras do documentarista de cinema Salles (2010. 2007. com a separação das disciplinas acadêmicas. não viam nenhum despropósito na noção de progresso. cientistas seriam otimistas. mais os humanistas parecem estar em risco. A verticalização do conhecimento no Ocidente. o terceiro presidente a governar os norte-americanos. a fim de atender às necessidades de uma nação em vias de mercantilização. estudantes questionariam o sistema educacional. trabalhou para construir um modelo de educação superior que contemplasse juristas. nobreza e generosidade. manufaturas. de 1801 a 1809. comércio e pudesse. Thomas Jefferson. Aos artistas. p. 21). um currículo único era o apropriado para a adequada educação dos alunos. ocasionou certa “cisão” entre as Ciências (e entre estas e as Humanidades). na medida em que a Ciência avança. [2]): As características de cada grupo seriam bem peculiares. observada principalmente a partir do século XVIII.

da energia atômica. a observação de England (2009) sobre a palestra Two Cultures. Faz sentido. 2007. 19). essas duas revoluções. Conant registrou que a principal diferença entre as duas culturas (embora não tenha utilizado esse termo) é que o mérito relativo das peças de Shakespeare tem sido debatido e continuará a sê-lo no futuro. de Snow. os mais diversos sentimentos entre autores que estudam o assunto. a agrícola e a científico-industrial.antes de meados do século XIX. 1995. se fazia necessário o treinamento em Ciências (principalmente as Aplicadas) para a produção de riqueza. participar de uma reunião científica. A polarização entre os mundos “soft” e “hard”. em especial a Ciência Aplicada. p. Snow também pareceu desconsiderar a Revolução Científica do século XVII como etapa significativa do processo de desenvolvimento das Ciências (que. mais tarde. a alavanca que impulsionou a sociedade ao Iluminismo. “mas que o conflito entre as Duas Culturas. quando do uso de partículas atômicas na indústria. Na palestra original de Snow. Não obstante o entendimento que temos do contexto de Snow. graças ao conhecimento já institucionalizado. Timmons (2007. à Razão. Claro que ela era – ou pelo menos estava destinada a ser. p. 16) relata que Snow. sobre a pouca preocupação com a inclusão da Ciência na educação inglesa e a falta de importância da elite literária com relação ao entendimento da Ciência (a não ser que fosse um cientista ou um engenheiro). falou sobre as mesmas dificuldades reportadas no relatório de Yale de 1828. houve ênfase maior na valorização nas Ciências. De fato. parecia não existir em 1828”. cremos que foram justamente os cem anos que antecederam a Revolução Industrial o que permitiu que esta ocorresse. essencialmente. mas que era impossível. Sua GT1 243 . são as únicas mudanças qualitativas na vida social do homem (SNOW. e na verdade em todo o Ocidente. p. para nós. James Bryant Conant. sob os nossos próprios olhos e em nosso próprio tempo – de longe a maior transformação na sociedade desde a descoberta da agricultura. Além disso. Igualmente. como forma de diminuir o sofrimento das populações dos países pobres. nomeará de “primeira onda da revolução científica”): Nos dois países [Inglaterra e Estados Unidos]. Conant salientou que não era comum para um cientista participar de uma discussão literária. aparentemente repetido por Snow. enquanto ninguém admira ou condena os metais ou o comportamento dos sais (TIMMONS. essencialmente. da automação. a primeira onda da Revolução Industrial rebentou sem que ninguém percebesse o que estava acontecendo. que Snow tão desesperadamente alegou que deveria acabar. A Revolução Científica do século XVII foi. A “revolução” de Snow está situada no século XX. conforme nos traz Timmons. 41-42). representando mais um conflito entre ideologias do que propriamente entre disciplinas. dois anos antes da palestra de Snow foi publicado comentário do então presidente da Harvard University. que proporcionou o avanço de Ciência organizada e das especializações manifestadas de várias maneiras no processo produtivo econômico e social inglês do século XVIII. o vácuo entre as Duas Culturas. a não ser para um cientista. da sociedade industrial da eletrônica.

p. como a construção de uma hipótese. fosso este também assinalado por Vickery (2000). admite a abundância de comentários adversos. registraria que publicações anteriores à sua palestra (e dele desconhecidas na época) tocaram nos mesmos assuntos. crítico literário inglês. Em 1963. apesar de sua origem humilde -. sem dúvida. Frank Raymond Leavis. 1962). A análise de Yudkin sobre o discurso de Snow também aponta para a falta de explicações sobre as causas da polarização entre as culturas e os conflitos em cada disciplina. críticos mas educados. Snow se arrependeria da imagem utilizada na palestra original e avançaria na ideia da existência de mais do que duas culturas. Snow via as Ciências como solução para o fosso criado entre as nações (as desenvolvidas e outras nem tanto). desferiu ataque pessoal repleto de ironia sobre Snow. ao mesmo tempo em que convida Michael Yudkin para compor. Apesar do tom descortês. a industrialização era “a única esperança do pobre”. GT1 244 . Lembra. No contexto do pós-guerra em que viveu. dedica muitas linhas às Humanidades. 1962. As palavras de Sir Charles Snow suscitaram reação favorável por parte de muitos. “Não faz sentido lamentar a falta de conhecimento científico em especialistas de outro campo” (LEAVIS. por transitarem entre as duas culturas mais facilmente. seus comentários previamente publicados no The Spectator sobre a palestra de Snow e que Leavis desconhecia na ocasião de sua própria – os de Yudkin. que o mesmo não parece ter acontecido com os soviéticos. ele próprio beneficiado pelas bibliotecas frequentadas. 1962. no mesmo volume. sua “péssima escrita e falta de conteúdo intelectual”. aliás. 36) que a questão não se prende ao conhecimento de leis científicas por literatos. p. seus “numerosos clichés”. E nessa mesma ocasião – na qual. mas não apenas. sem oferecer alternativas para solucioná-las.preocupação com as disparidades socias entre países é. que daria à Ciência algum valor como campo disciplinar para um nãocientista. no prefácio do folheto. 39). ao contrário da primeira palestra -. A contundência foi tamanha que. p. igualmente. A crítica de Leavis se prendeu. sua natural inclinação para as Ciências (apesar de transitar nas duas culturas) na verdade refletia grande preocupação com o sistema educacional inglês. dentro das Ciências Naturais e entre esta e as Ciências Humanas e Sociais. e que os primeiros talvez sejam os mais afastados das questões sociais. “frases pomposas” e “banalidades sentimentais” e o fato de ser “pretensiosamente ignorante” (LEAVIS. ao fato de Snow apenas levantar questões. Snow (1995) admite que cientistas das Ciências Puras e Aplicadas fazem parte da mesma cultura científica. o pano de fundo de seus dois textos e o leitmotif que o faz crer na necessidade premente de encurtar as brechas entre os ricos e os pobres. mas sim o valor do “entendimento do processo do pensamento científico”. Lembra esse autor (apud Leavis. 45). Leavis não incorre em erro ao afirmar que o avanço da Ciência e da Tecnologia aconteceria tão rapidamente que a humanidade precisaria ter total controle de sua condição de ser humano. mas o abismo entre esses é grande. isto é. A mencionada brecha entre as Ciências ocorreu interna e externamente. ainda. em palestra proferida e impressa na mesma University of Cambridge em 1962. talvez. Para Snow (1995.

quando outras faculdades. utilizada para a confecção de azeite e vinho. manifestadas na Enciclopédia de Diderot e D´Alembert. Também as Artes/Humanidades se relacionam com as Ciências e a Tecnologia. 2001 apud CRIPPA. as distâncias entre esses e seus movimentos correspondiam a certas notas. 5). 2010) . p. em 1648. os números eram a chave para o universo e a música era inseparável dos números . em 1665. adaptada e aprimorada para fabricar livros.como sistemas estabelecidos com suas próprias regras e normas . GT1 245 . A quase simbiose – algumas vezes aplicação – entre as Ciências há muito existe. Este é o momento da criação.). por meio da prensa de Gutenberg.. Claudio Ptolomeu (fl. as mesmas Ciências . com o uso da perspectiva nas pinturas renascentistas (e outras) e muitas situações em que a interação claramente se revela e cuja figura emblemática é Leonardo da Vinci. por exemplo. intervalos e escalas musicais (ENGLAND. da Académie Royale de Peintures et de Sculptures e. não são consideradas autênticas na assimilação do conhecimento (DARNTON. quando ressalta uma certa aversão inglesa pelas Ciências Aplicadas. No entanto. Em editorial da Ciência da Informação. da Revolução Científica. como na presente citação: Para Pitágoras e seus seguidores. como a da Memória e da Imaginação. no número comemorativo dos 25 anos dessa revista. p. Crippa também discorre sobre a construção do campo das Ciências Humanas. Leis e proporções matemáticas eram consideradas a sustentação tanto dos intervalos musicais quanto dos corpos celestes e acreditava-se que certos planetas. desconhecimento mútuo e incompreensões nem sempre marcaram a História da Ciência. semânticos e a natureza social da área. 5). passando pela Idade Média e pela Renascença. tecnologia já existente. sobre estrutura e principais características da informação científica. cujo conhecimento. diferente do entendimento anglo-saxão. 2009. o principal astrônomo da Antiguidade. Esses teóricos reconheciam os aspectos lingüísticos. Dicotomicamente. considerado “cientificamente inválido” é visto como oposto ao das Ciências Naturais. fica evidente a visão mais ampla de ciência pelos soviéticos. as contraposições. como se fossem mais vulgares que as Ciências Puras. 127-48 AD. afastamentos. a escrita em 1975 e publicada no Brasil em 1980. mostrando os lugares de teoria e prática no século XVIII (CRIPPA. Pinheiro (1996) ressalta a simultaneidade da institucionalização da Ciência e das Artes no século XVII.Nas relevantes pesquisas em Ciência da Informação (em russo Informatika) de Mikhailov e colaboradores. época de acentuação da razão. antes mesmo de se pensar nas diversas Ciências na era moderna. Outro ponto de tensão entre as ciências é apontado por Medawar (2008). Ao lançarmos nosso olhar para a Antiguidade. uma vez que “estuda fenômenos e regularidades inerentes apenas à sociedade humana”.. era também notável compositor. 2010. berço do Iluminismo. percebemos o conhecimento abrangente que se expressa por meio de muitos matizes.“se opõem” às Artes – “técnicas à espera de uma teorização”. por exemplo. dos primeiros periódicos considerados científicos.

Em um dos campos das Humanidades. naturalmente. onde situamos as Artes/Humanidades como forma de conhecimento? Para o autor. alguns indígenas norte-americanos – poderiam ser respeitados a ponto de negociar tratados. que creem nas emoções. 2007) anteriormente. Humanidades/Artes e Religião. como o poeta.]. a Oxford University organizou evento em homenagem aos 50 anos da palestra de Snow. A eugenia não se referia à Darwin. naturalista e meio-primo do primeiro. passando por Bacon. sobretudo por meio da Química. England expressa a existência de um contraste entre o pragmatismo das Ciências Naturais e as “Ciências das Artes”. as convergências entre Ciência e Arte se fortaleceriam. Embaixo na lista. na intuição e nos sentimentos refletidos pela literatura. criada há menos de 10 anos63. por vezes resultaram em discursos e práticas inapropriadas. [s.html GT1 246 . no passado. apesar de (ainda?) não serem considerados científicos. acima apenas dos animais. por assim dizer. Kant. p. o estudo da (assim denominada) Ciência da Felicidade.não construída sobre a base da observação e aceita sem muitos questionamentos -. interpretações e aplicações de uma Ciência em outra.o Journal de Sçavans e o Philosophical Transatictions. 2009). Afinal. foram usadas para justificar um capitalismo incontido e expansão territorial. Eugenia. mas a Francis Galton. Bacon desconsiderou a contemplação desinteressada como fator de criação. desde o pensamento de Aristóteles. o relevante papel das Humanidades na construção e análise do conhecimento produzido também se atém à necessidade dessas Ciências pensarem as Naturais. pergunta Hanson no mesmo artigo. guerra e genocídio se tornaram necessidades biológicas” (HANSON.d. pintor e impressor William Blake e o filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel. abrangências e consequências para a sociedade. 8). estavam os hotentotes e os aborígenes australianos (HAECKEL apud BARTA. 2009. como disciplina específica no departamento de Psicologia e conferências na subárea de Positive Psychology. mais perto de serem selvagens os povos estariam. a fim de analisar em que proporção as brechas entre essas áreas eram positivas e em qual extensão a reconciliação se fazia necessária. assumindo a existência de três culturas: Ciências. pela música e por outras áreas como canais de transmissão de conhecimento (England. e outros nomes que tentaram unir as diferentes culturas. Conforme assinalado por Barash (2005 apud Timmons. 46). na Harvard University. Quanto mais escura a pele. ou os também poetas John Keats e William Wordsworth. Descartes. como é o caso das teorias de seleção natural do darwinismo e do darwinismo social: “ao serem empregadas em esferas que não a Biologia. Hanson (2009) faz um histórico do início dessa divisão. se apenas podemos saber aquilo que observamos com o nosso juízo. até recentemente. Guerreiros de pele mais clara – Maori. Muto tempo depois. no Impressionimo. Não se imaginaria.com/2007/01/the-science-of-happiness. Em 2009. de contribuição 63 The Science of Happiness: http://harvardmagazine. Francis Bacon (1561-1626) inaugurou a era da Ciência fundamentada na observação e na indução mas. seus avanços. as Artes. p.

o próprio Snow pensava que os cientistas sociais se constituiriam na terceira cultura (DIZIKES. no âmbito da Comunicação Científica. Para este autor. mas outros pesquisadores sugerem classificações diferentes. de 1995 a 2009. ainda que a humanidade não perceba todos os pontos de interseção entre as Ciências. Da mesma maneira. as investigações realizadas especificamente na área de História existem em número reduzido. as Artes/Humanidades unem. Em decorrência disso. se e como esses causaram impacto na pesquisa nos primeiros 15 anos de existência dos projetos de digitalização de acervo raro em bibliotecas. que “dão um profundo significado às nossas vidas” e. ou seja. integram o processo da Comunicação Científica da área citada. 2009. como se daria a interseção entre a Ciência da Informação e a História. as práticas de cientistas das áreas da Física. 2-3). Humanidades/Artes e Religião. nos movendo para a anagnorisis – aquele momento da descoberta crítica que produz conhecimento sobre algo. em especial por meio da interdisciplinaridade que norteia hoje as Ciências. No século XX. segundo a sua visão. 3 Estudos de Informação em História e as Duas Culturas: evidências de aproximação Pesquisa com historiadores de Brasil Colonial neste país (GAUZ. psicólogos e neurocientistas. p. GT1 247 . suplantam artistas literários em suas habilidades de moldar os pensamentos de sua geração (HANSON. Química etc. A Ciência da Informação. criador do romance experimental. p. Artistas do movimento Realista também fizeram aproximações com as Ciências ao criar uma arte de observação objetiva: “enciumados do método científico. há duas décadas. 5-6). 2009). preferimos pensar em um mundo com múltiplas culturas científicas em constante interligação. “A brecha estava aberta”. o editor John Brockman considerou a noção de terceira cultura para descrever certos cientistas – principalmente os biológos evolucionários. Em 1960. além dos impressos. os filósofos do Círculo de Viena e o movimento do positivismo lógico afirmavam que apenas o verificável poderia ser considerado Ciência (HANSON. Os fatos e proposições dividem. 2009. que empregava o método experimental científico como reflexo da evolução científica do século XIX. como Emile Zola.para o aprimoramento da condição humana. 2011) teve por objetivo analisar em que dimensão o conteúdo dos livros raros digitalizados e disponibilizados na internet. o mesmo fazendo com a fé – que considerava apenas um “caminho discreto para a Verdade” (HANSON. teve como foco inicial de estudo as Ciências Naturais. conforme citado. Esse fato acarretou um crescente ceticismo. é nas Humanidades que as disciplinas adquirem força. Muitas das pesquisas desenvolvidas nos últimos 50 anos contemplam. vislumbravam imitar a natureza materialista”. mais do que as de cientistas sociais ou (menos ainda) os humanistas. O evento de Oxford se referiu às três culturas como Ciências. 2009). até mesmo por seu histórico. A escolha do tema ocorreu em decorrência do interesse em averiguar as práticas de produção científica desses pesquisadores das Humanidades. ultrapassando nossas defesas. Sobre esse assunto.

por outro. a história dos eruditos. vemos surgir o nacionalismo em vários [hoje] países europeus que. p. p.Ziman considera a História como uma “zona fronteiriça” entre as atividades científicas e as não-científicas. uma sociedade)”. eliminando hipóteses diferentes. 77). p. No século XIX. p. 18). que o método utilizado pela Ciência para estudar o mundo natural foi aplicado ao estudo do homem. sejam nacionais ou universais. já que “os conhecimentos [podem] ser adquiridos tanto sob a forma de fatos isolados quanto sob a de explicações já aceitas pelo consenso” (ZIMAN. Apesar do cruzamento eventual entre essas. um “processo de mudança e desenvolvimento”. para Chartier (2009. então. uma instituição. Dificilmente essa área do conhecimento é aceita de forma universal. posteriormente era interpretado pelos cientistas. 29). príncipes e das nações. os objetivos dessa área diferem daqueles das Ciências Naturais. p. de mãos GT1 248 . é “uma área em que o principal objetivo não é alcançar um consenso científico” (ZIMAN.. Se. que já se apóia em investigações governamentais. “como uma espécie de limite” (ARAÚJO. mas foi no início do século XIX. arqueológicas etc. “esta [última] estabeleceu. A História clássica predominou na Europa do Renascimento ao Iluminismo – ainda que não tenha desaparecido de forma abrupta em 1800. . não podemos dizer que as Ciências Naturais e as Humanas jamais se aproximam. 1997. Os assuntos se fragmentariam e especializariam cada vez mais. substituiria a Religião na compreensão do social. 36). pois não pode ser explicada de uma maneira clara em termos de causa e efeito. Como o autor registra. e se aproxima dos costumes sociais.. Florescano também expõe sobre a natureza do historiador: A função da História não é a de produzir conhecimentos passíveis de comprovação ou refutação pelos métodos da Ciência experimental. por um lado. assim como cresceria o número de sociedades científicas. o historiador. segundo Carr (1978. 390): “A História continua sendo uma ciência interpretativa e não possui linhas de demarcação do tipo supostamente existentes em algumas ciências sociais”. dos reis. a forma de fazer Ciência. no geral. p. p. Coube à Darwin. conforme dito anteriormente. 1988. data do final do século XVIII a preocupação com a História como Ciência. 52). primeiramente o fato era coletado. de um lado. pois as ações humanas estão inextricavelmente vinculadas ao conjunto social que as conforma. até hoje. Entre os séculos XVI e XVIII temos. essa definição se afina com as palavras do historiador Robert Darnton (2002. era inserida a área). 35). (FLORESCANO. sabe que não pode isolar hermeticamente seu objeto de estudo. trazer para a Biologia a História a partir da ideia da sociedade como um organismo. com uma simbiose entre essas partes. a coexistência ou a concorrência entre as histórias gerais. como o etnólogo e o sociólogo. Essa supremacia deve ser entendida pelo menos até meados do século XVIII. 1979. Ao contrário do cientista. com clara independência dos interesses governamentais. De certa maneira. 1979. de outro. e os trabalhos históricos dedicados ao estudo de objetos em particular (um território. Assim como o método científico. a história oficial. Para Edward Carr (1982). base de todas as verdades na época. A Ciência. com as Ciências Sociais (na qual.

Com a fundação da revista dos Annales. A linha do pensamento historiográfico da geração da École des Annales introduziu uma abordagem nova à área. 2010). daí a desqualificação dos testemunhos diretos nesse período.. M. 1976. Se “a historiografia de um país pode ser um dos melhores sintomas do amadurecimento ou não de sua ciência histórica” (LAPA. mas na Itália e na Alemanha – países carentes de unidade. o econômico e o social. A reconstrução. quase como uma Ciência Natural. então podemos dizer que a História. teve início na Alemanha no final do século XIX. se colocaram à frente da produção da memória daquele país. e graças à Revolução Francesa do século anterior. até o final do século XIX. construía-se ´a verdade` (FIERING. os estudos contemporâneos ficariam para os amadores. a pesquisa histórica na França era regida por eruditos tradicionais. A primeira escola de pós-graduação em História nos Estados Unidos foi a Johns Hopkins. principalmente. mais elitista (FERREIRA. “Só o recuo no tempo poderia garantir uma distância crítica” (FERREIRA. Para a autora. 1976). a partir de 1870. no início dos anos de 1920. Fiering menciona que ainda não havia consciência sobre a impermanência dos fatos. não apenas na França. M. por cada geração. 2002. 1992). Vários norte-americanos foram para esse país estudar com os grandes mestres. hostis à República e era uma disciplina sem autonomia. demonstrando crescente interesse por parte dos pesquisadores. em que se incluíam. os progressos na Educação (básica e avançada) permitiram a difusão de uma cultura histórica também para as massas (LE GOFF. Esse fato se reflete no aumento do número de cursos de pós-graduação oferecidos em universidades e no número de periódicos científicos criados. 2002). de domínios do passado e a interpretação singular de todo historiador são constantemente reconstruídas “como resultado de suas experiências presentes e aspirações futuras”. Em decorrência dessa situação. de acordo com o autor. deflagra a ideia de pátria.dadas com a História. Do ponto de vista qualitativo. com visão retrospectiva dos fatos. a fundação da História acadêmica. uma Ciência. amadureceu significativamente nas últimas décadas. Essas também são as palavras do historiador norte-americano: A profissionalização. isso GT1 249 . diferentemente da visão anterior. até 1950. Assim. De acordo com Ferreira. os professores de pós-graduação tinham um plano geral e designavam temas de tese aos seus alunos (que não tinham liberdade de escolha). (2002). como Leopold von Ranke. haveria uma profunda transformação na História. realmente. 13). p.. ou científica. em um determinado conhecimento. e através do uso de uma nova metodologia de pesquisa e crítica seria construído um corpo de pesquisa permanente e cumulativo sobre o passado. de construção de novos objetos de pesquisa e novos enfoques a antigos temas (LAPA. 315). M. Por essa razão. A Sociologia e a Antropologia seriam fundamentais na transformação ocorrida no século XX nesse campo do conhecimento. no Brasil. Essa geração trouxe novos olhares às investigações. p. É nesse momento que surge uma história científica. A concepção que então prevalecia era que a História seria. Dessa forma. as novas elites da Terceira República. a concepção de que a História era uma Ciência cumulativa ruiu. A par disso. em 1929.

na qual há uma revisão factual e ideológica por parte do historiador – confirmada pela produção científica em História mais recente e exemplificada pela publicação de pesquisas realizadas por ocasião das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Até a década de 1980. 1992. Barbatho.UFRJ). 2006). os periódicos nessa área são um instrumento de disseminação da produção científica legitimamente aceitos pela comunidade. assim como baixo uso de computadores para pesquisa histórica (McCrank. GT1 250 . 2011). A pesquisa com historiadores de Brasil Colônia. somado ao surgimento de periódicos científicos e a outros aspectos da área aproximou esse humanista do cientista natural. 2011). teses e dissertações surgidos na academia e no mercado editorial (BOSCHI. os historiadores brasileiros publicavam em periódicos de outras áreas. Lapa previu algumas tendências para a historiografia brasileira que se concretizaram. Até a década de 1980 e conforme exposto por Ferrez (1981).USP). 2010). até a década de 1980. assim como tratamento de fontes. Varia História (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG). após o surgimento dos programas de pós-graduação e a rapidez das comunicações através da internet. 1976). aproximando pesquisadores. a publicação de artigos e projetos em colaboração não é incomum (GAUZ. hoje. é compreensível se levarmos em conta que só mais recentemente projetos cooperativos em História têm sido elaborados. Também os projetos de pesquisa interdisciplinares de historiadores com [então] outros cientistas sociais são hoje uma realidade. quando historiadores dão a conhecer novos assuntos e investigam perspectivas diferentes de antigas questões. 2000. 1999. pela quantidade de livros. Tempo (Universidade Federal Fluminense . a autoria única de artigos era preponderante (Ziman.UFF). Alguns resultados encontrados na investigação mencionada com historiadores de Brasil Colonial tornam clara a mudança de algumas práticas na produção científica desses pesquisadores. muitos avaliados pelos pares (apesar de a monografia continuar a ser o instrumento mais importante). Revista de História (Universidade de São Paulo . Ferrez. Vickery. 1981. imaginadas na década de 1970 (LAPA.acarretou o crescimento da produção científica da área. guardadas as características próprias de cada Ciência. O fato de haver poucos trabalhos cooperativos e comunicações eletrônicas. Meadows. devido à quase inexistência desses instrumentos especificamente para a História. todos de acesso aberto e existentes nos formatos impresso e eletrônico (GAUZ. e Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB). 1979. A segunda tendência está relacionada com inovações metodológicas e técnicas de pesquisa. No final do século XX. A diminuição das distâncias entre cientistas por meio do uso das tecnologias de informação e comunicação (TICs) e a abordagem científica da pesquisa em História. 1995). Brasil. já citada. identificou os seguintes periódicos: Revista Brasileira de História (Associação Nacional de História .ANPUH). por exemplo. periódicos especializados. A primeira foi a reinterpretação permanente do passado e do presente. Topoi (Universidade Federal do Rio de Janeiro . Outro historiador se refere a esse período como um de novos contornos da historiografia brasileira e de grande revisão do conhecimento histórico.

manifestadas na verticalização (e fragmentação) do conhecimento. a partir de pesquisas cada vez mais frequentes nas Humanidades. citado no decorrer deste texto. porém o desejo de unificação é antigo e expressado.4 Considerações temporárias Conforme dito. GT1 251 . em 1984. com o objetivo de reunir o conhecimento fragmentado e transformá-lo em algo que faça mais sentido no mundo atual. Afinal. para onde converge o conhecimento de cada disciplina em área mais próxima daquela que idealmente as reúne. 17). pode tanto gerar uma pesquisa científica quanto uma bela poesia. ainda. ou a Informação em Arte. Este retorno está em harmonia com os tempos atuais e se expõe. estão se tornando menos especializados” (MEDAWAR. como o Nobel de Medicina e autor inglês nascido no Brasil. Yudkin (citado no presente texto na publicação de Leavis) era de opinião de que uma única cultura não tardaria. veem uma verdade além do conhecimento objetivo. por representantes das Humanidades (os que. na Ciência da Informação. assimilados e aceitos. o fazer. Religião e Mitologia não tinham fronteiras. Pode ser que o abismo entre as culturas seja menor atualmente. desde a segunda metade do século XX e paulatinamente. Teatro. igualmente. os que pensam as culturas). basta lembrar a Antiguidade Clássica. 2008. ambas ricas fontes de progresso intelectual. a poeisis. em geral. Pode-se dizer que existe uma zona de aproximação das Ciências. quando Filosofia. talvez se referindo a essa aproximação hoje mais visível. p. mas também por cientistas de praticamente todos os campos. Os esforços perpetrados para diminuição das distinções entre as culturas (aquelas necessárias. O caminho da aproximação pode ser moderno. ao registrar. Peter Medawar. novos olhares são lançados sobre os conhecimentos produzidos e. essas mesmas Ciências reiniciaram um caminho de aproximação pelas profundas mudanças paradigmáticas e de metodologias e ações interdisciplinares nas pesquisas. como a que une o estudo de Comunicação Científica de historiadores à análise das duas (ou mais) culturas. lentamente. A direção contrária à verticalização do conhecimento e o movimento interdisciplinar tornam as culturas mais próximas e na direção do seu ponto de origem para concretizar o que Japiassu (1976) denomina “diálogo entre disciplinas”. a necessidade de fazer com que os cientistas se tornassem mutuamente compreensíveis: “os cientistas. tema de muitas discussões. O movimento de retorno ao que talvez seja a essência de todas as Ciências. Qualquer consideração sobre o assunto é temporária. . um todo talvez semelhante ao que tenha correspondido à sua origem. Mais recentemente. mas o afastamento se deu de tal ordem que a necessidade de re-união se impôs. o criar. Literatura. afastaram as Ciências em geral. além de outras áreas do conhecimento. não são todas as distinções que devem ser abolidas) será. História. as especializações ocorridas nas Ciências na era moderna. Na medida em que as Ciências se aproximam. na verdade. em especial.

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Identity. PPGCI’s conclusion that undergo large and rapid changes of identity in your body providing academic and scientific identity marks in their various areas of concentration and research lines. Palavras-chave: Ciência da Informação. The problem of this work can be summarized in the following interpolations: What are the characteristics of identity information science. Metodologicamente. Gustavo Henrique de Araújo Freire Resumo: Aborda a identidade da Ciência da Informação brasileira por meio das perspectivas históricas da pós-graduação. contemplating their theoretical perspectives. GT1 255 . research areas and disciplines? The main objective of the work is to investigate the epistemological construction of identity in the field of information science through an analysis of the syllabus of PPGCI’s. Identidade. sendo de nível exploratório e quanto aos meios. Conclui que os PPGCI’s passam por grandes e rápidas modificações identitárias no seu corpo acadêmico-científico apresentando marcas identitárias diversas em suas áreas de concentração e linhas de pesquisa. Epistemologia. Pós-Graduação. linhas de pesquisa e disciplinas? O objetivo central do trabalho é investigar a construção da identidade epistemológica do campo da Ciência da Informação por meio de uma análise dos conteúdos programáticos dos PPGCI’s. as they will be analyzed documents in the websites of PPGCI’s and the method of analysis is deductive and evidentiary acting procedures “hunting “to characterize the identity of information science in the context of post-graduation. História. with regard to its historical context of post-graduate in Brazil? How is the reality of the syllabus of PPGCI’s Brazilians who have masters and doctorate degrees from its focus areas. and bibliographic and documentary. Epistemology. contemplando suas perspectivas teóricas. uma vez que serão analisados documentos que constam nos sites dos PPGCI’s e o método de análise é dedutivo e indiciário que delibera procedimentos de “caça” para caracterizar a identidade da Ciência da Informação no contexto da pós-graduação. Abstract: Covers the identity of the Brazilian Information Science through the historical perspectives of postgraduate students. a pesquisa é classificada quanto aos fins. Keywords: Information Science. no que se refere ao seu contexto histórico das pós-graduações no Brasil? Como se apresenta a realidade dos conteúdos programáticos dos PPGCI’s brasileiros que possuem mestrado e doutorado a partir de suas áreas de concentração. History. the research is classified according to purpose. and level exploratory and as to means. sendo bibliográfica e documental. Graduate. Methodologically.COMUNICAÇÃO ORAL A IDENTIDADE DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO BRASILEIRA NO CONTEXTO DAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS DA PÓS-GRADUAÇÃO: ANÁLISE DOS CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS DOS PPGCI’S Jonathas Luiz Carvalho Silva. A problemática do presente trabalho pode ser sintetizada nas seguintes interpelações: Quais as características identitárias da Ciência da Informação.

o Mestrado em Ciência da Informação (o primeiro da América Latina). Os objetivos específicos foram identificar os programas de pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil e analisar o processo historiográfico (histórico-social) do campo científico da pós-graduação da Ciência da Informação no Brasil. políticos e econômicos. 14-15) relata que: 3. assim como os investimentos em profissionais e materiais para o desenvolvimento das atividades profissionais de organização do conhecimento. [. 2 A pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil: dimensões educativas e científicas na busca de sua identidade 1. Escolher o Brasil como delimitação desse trabalho se justifica por dois motivos: o primeiro visa saber como as teorias da Ciência da Informação em nível global têm sido absorvidas e interpretadas em nível nacional e o segundo ocorre em face da necessidade de verificar como se dá a configuração dos estudos em Ciência da Informação entre os Programas de Pós-Graduação (PPGCIs) brasileiros. 4. UNESP e USP). considerando-se que o interesse principal reside nos profissionais não bibliotecários..1 Introdução O presente trabalho apresenta o resultado de pesquisa de mestrado que investigou a identidade da Ciência da Informação. p. Ao mesmo tempo verifica-se uma mudança no panorama bibliotecário de nosso país: engenheiros GT1 256 . o IBBD instaura. o IBBD identificou no final da década de 60 a necessidade de mudanças. A identidade é fruto de uma “marca estampada” no percurso histórico de qualquer área do conhecimento. Esta pesquisa apresenta como procedimentos metodológicos um nível exploratório com abordagem bibliográfica e documental e utiliza os métodos dedutivo e indiciário que são de fundamental importância para análise dos PPGCI’s que possuem mestrado e doutorado (IBICT/ UFRJ. convergências. educacionais. as opiniões diversas dos indivíduos e grupos sociais. técnicas. O curso de Documentação Científica promoveu significativos resultados. Hagar Espanha Gomes (1974. UnB. Contudo. verificando suas relações. em 1970. tendo como enfoque as pós-graduações. especialização ou reciclagem? Provavelmente será reestruturado para servir de base para o mestrado. divergências. UFBA. a fim de verificar a situação dessa área do conhecimento em nível nacional. científicas e tecnológicas. percebe-se que os desafios dos quais a Ciência da Informação está incumbida. Assim. O final da década de 1960 é marcante para o IBBD pelas suas mudanças políticas. contemplando suas perspectivas teóricas..] O curso de Documentação Científica está necessitando de uma redefinição: extensão aperfeiçoamento. porém. 2. O presente trabalho teve como objetivo geral investigar a construção da identidade epistemológica do campo da Ciência da Informação por meio de uma análise dos conteúdos programáticos dos PPGCI’s. não são fáceis de serem concretizados por diversos motivos. UFBA. tais como: a diversidade de conteúdo.

a reforma universitária vem pressionando professores no sentido de procurarem cursos de mestrado. bem como da mudança de direção. Foram feitas novas alterações no regulamento.e técnicos começam. O mestrado em Ciência da Informação do IBBD pode ser entendido como inovador e experimental. Ciência e Tecnologia (IBICT). e por sua vez. p. Abigail de Oliveira Carvalho (1978. 292) fala que com a criação do IBICT: O curso de mestrado passou a ser uma das atribuições da Coordenadoria de Treinamento. a automação começou a ser a palavra de ordem e a maioria dos profissionais não tem condições de dialogar com os homens do computador. mas também uma mudança nas competências e nas finalidades. 8) “A clientela visada pelo curso não se restringia aos bibliotecários. aprovadas em abril de 1977 pela UFRJ. especialmente durante a década de 1970. Em 1976. esses serviços têm deixado a desejar. Pesquisa e Desenvolvimento. Como afirma Mueller (1985. houve também uma relativa mudança na pós-graduação em Ciência da Informação do IBICT a partir de 1977. fonte de recursos. nas áreas de atuação. 5. a estes carece suficiente conhecimento de biblioteconomia e/ou documentação para elaborar eficientes desenhos de sistemas. por não terem uma base sólida nesta parte. visando a dar ao curso melhores condições de atendimento de seus objetivos. por outro lado. por outro lado. ocorre uma mudança de nomenclatura no IBBD que passaria a se chamar Instituto Brasileiro de Informação. o que propiciava a participação de vários profissionais de diversas áreas do conhecimento. É importante ressaltar que não ocorre apenas uma substituição de nomenclatura. a sentir necessidade de desenvolver serviços de informação especializados e sofisticados e. além da mudança de direção que passou a ser de José Adolfo Vencovsky. O curso de mestrado surge como alternativa para o desenvolvimento das atividades voltadas para a informação científica e tecnológica no Brasil. (CNPQ/IBICT. dentro das normas universitárias e levando-se em consideração os recursos realmente disponíveis. 1976). p. É preciso considerar que a noção de experimental aponta as dificuldades iniciais que o IBBD teve de enfrentar para construir o mestrado em Ciência da Informação. Uma síntese da pós-graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação na década de 1970 que se deu em nível de mestrado pode ser visualizada no quadro que segue: Quadro 1: Pós-graduações em Biblioteconomia/Ciência da Informação na década de 1970 Universidade Programa Especialidade Área(s) de concentração Ano de criação Finalidade GT1 257 . 6. Seguiu-se o critério de maior flexibilidade através de programação de estudos que compreendesse um elenco de disciplinas optativas. mas sim a formados em áreas diversas com interesse na área de informação”. vendas de produtos e serviços do Instituto. Como corolário das mudanças institucionais do Instituto.

UFMG mestrado Administração de Bibliotecas (Biblioteconomia) 1976 PUC mestrado UnB mestrado Biblioteconomia Biblioteconomia e Documentação “Metodologia do Ensino em Biblioteconomia” “Planejamento. Organização. como iremos observar a partir do quadro abaixo: GT1 258 . Esses cursos como afirma Mueller (1985. “Administração de Sistemas de Informação/ Documentação” e “Transferência de Informação” “Biblioteca e Educação” E “Biblioteca e Informação Especializada” 1970 Formas professores e pesquisadores para atuar com sistemas de informação especializados e informação científica Formar lideranças profissionais para atuar em sistemas de informação especializada para organização e disseminação da informação Qualificar bibliotecários para atuação na docência Qualificar profissionais para atuação em planejamentos de sistemas e informação científica. especialmente a CAPES. cada novo curso busca preencher um vazio identificado. Administração de Sistemas de Informação” e “Recursos e Técnicas de Documentos e Informação Científica”. de pessoal qualificado para gerir as bibliotecas universitárias que davam suporte àqueles cursos”. p. organização e usuários Comunicação com área de concentração em Biblioteconomia e Documentação Fonte: Adaptado de Mueller (1988) USP mestrado e doutorado 1972 1980 A década de 1970 tem grande enfoque na abertura de mestrados em Biblioteconomia realçando que os mestrados desta década foram criados entre 1976 e 1978 (UFMG. p. em 1972. mas.IBBD/IBICT UFRJ Ciência da Informação “Usuários”. 11) “Talvez tenham sido impulsionados não apenas pela pressão exercida pela classe. mas pela necessidade sentida pêlos órgãos financiadores dos cursos de pós-graduação. com exceção da USP. De acordo com Carvalho (1978. 294) a fragmentação dessa identidade ocorre em virtude de que “A criação dos cursos de mestrado em Biblioteconomia e Ciência da Informação não obedeceu a uma coordenação geral. Na década de 1980 surgem novas e/ou contínuas concepções identitárias a partir do aperfeiçoamento dos programas. PUC DE CAMPINAS. “Sistemas de Bibliotecas Públicas” 1977 1978 UFPB mestrado Biblioteconomia 1978 Qualificar bibliotecários para atuação no planejamento e gerenciamento de bibliotecas públicas Formar pesquisadores e professores para atuar com tomadas de decisões. Embora haja uma efetiva contigüidade entre a Biblioteconomia e a Ciência da Informação no Brasil. UnB e UFPB). os mestrados tiveram perspectivas diferentes. Acredita-se que as histórias da Biblioteconomia e da Ciência da Informação compõem um espectro de identidade fragmentada. de alguma forma.

da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (ANCIB). Análise Documentária e 3. não houve a criação de novas pós-graduações em Biblioteconomia e Ciência da Informação. seus êxitos. regionais e locais percebidas no contexto da informação e da biblioteca. abertura de outras pós-graduações e criação. teorias e dos pesquisadores estrangeiros na conduta de elaboração e disciplinarização dos cursos. sua história. 2. Geração e Uso da Informação. essa afirmação de uma identidade nacional. A década de 1990 foi significativa para a consolidação da Ciência da Informação. Cultura e Sociedade. Ação Cultural e Biblioteca (linhas de pesquisa) Permaneceu Situação das áreas de concentração Modificou Modificou Permaneceu Modificou (ampliou) Modificou as linhas de pesquisa Fonte: Adaptado de Mueller (1988) A pós-graduação brasileira nas décadas de 1930 a 1970 construiu seus pressupostos baseados em uma identidade não-essencialista em face da comumente incorporação dos estudos. características. Na década de 80. enquanto a identidade não-essencialista busca valorizar as diferenças. mas sim o aperfeiçoamento das pós-graduações já existentes com a sua mudança de conteúdo (área de concentração.Quadro 2: Pós-graduações em Biblioteconomia e Ciência da Informação na década de 80 Universidade Programa IBICT UFRJ mestrado Especialidade Ciência da Informação Áreas de concentração Entre maio de 1983 e outubro de 1986 o mestrado do IBICT/UFRJ esteve inserido como área de concentração da Pós-Graduação da ECO/UFRJ A partir de outubro de 1986 torna-se novamente um mestrado independente com as seguintes áreas: 1.). a partir da década de 1980 começou a ganhar força. Até 1987 – “Sistemas de Bibliotecas Públicas” A partir de 1988 – ”Biblioteca e sociedade” Biblioteconomia e Documentação 1. Biblioteca e Educação 2. Como afirma Woodward (2000) a identidade essencialista vai buscar enaltecer o contexto nacional. principalmente pelo olhar atento das potencialidades e problemáticas nacionais. econômicas. a fragilidade no estabelecimento de fronteiras sociais. No caso da Ciência da Informação. especialmente pela substituição das pós-graduações em Biblioteconomia para pós-graduação em Ciência da Informação. em 1989. O quadro a seguir sintetiza a realidade GT1 259 . Estrutura e Fluxo de Informação e 3. Processamento de Informação. políticas e científicas. 2. culturais. Planejamento e Administração de Sistemas Organização e Administração de Sistemas de Informação Científica. etc. Informação. UFMG mestrado PUC mestrado UnB mestrado UFPB mestrado USP mestrado e doutorado Administração de Bibliotecas (Biblioteconomia) Biblioteconomia Biblioteconomia e Documentação Biblioteconomia Comunicação 1. Biblioteca e Informação Especializada. disciplinas.

Comunicação e Educação. Organização e Utilização da Informação (a partir de 1997) “Planejamento e Administração de Sistemas de Informação” Planejamento e Gestão da Informação e do Conhecimento Linhas de pesquisa IBICT UFRJ 1. Informação e tecnologia 2. Informação e cidadania 2. Gestão da informação 1. tecnologia e conhecimento GT1 260 . Informação para o Desenvolvimento Regional 1. arquivos e informação 2. Planejamento. 2. Ação Cultural e Biblioteca 4. avaliação de bibliotecas e sistemas de informação 4. Tratamento da informação e bibliometria (a partir de 1997) PUC CAMP Biblioteconomia e Ciência da Informação (a partir de 1995) Ciência da Informação e Documentação (a partir de 1991) Ciência da Informação (a partir de 1997) Mestrado 1977 1. 3. Processos e linguagens de indexação 1. Formação profissional e mercado de trabalho. epistemologia e interdisciplinaridade 1. Administração de serviços. Geração e Uso da Informação 2. 1. processos de comunicação e informação” “Política e gestão do conhecimento e da informação” UFMG Ciência da Informação (A partir de 1991) Mestrado 1976 Doutorado 1997 “Organização da Informação (1992/96)” Produção. 1.das pós-graduações na década de 90: Quadro 3: Situação das pós-graduações em Ciência da Informação na década de 1990 Universidade Especialidade Ano da modificação Ciência da Informação (Não houve modificação) Ano de criação do Programa Mestrado 1970 Doutorado 1994 Área(s) de concentração “Conhecimento. 1. Informação para indústria e negócios. Informação gerencial e tecnológica 2. Filosofia/história da biblioteconomia e 4. gerência. Análise Documentária 3. Teoria. Informação para o desenvolvimento científico e tecnológico 2. Desenvolvimento e administração de programas de leitura 3. bibliotecas. Configurações sociais e políticas da informação 2. Informação e cidadania. Comunicação Científica. Informação. Processamento e tecnologias da informação 2. Informação e sociedade 3. Organização da informação UnB Mestrado 1978 Doutorado 1991 UFPB Mestrado Biblioteca e Sociedade (1988-1996) Informação e Sociedade (1997-2001) USP Comunicação (não houve modificação) Ciência da Informação (não houve modificação) Mestrado 1972 Doutorado 1980 Mestrado 1998 Biblioteconomia e Documentação UNESP Informação.

o segundo refere-se a abertura de doutorados ampliando a margem produtiva da pós-graduação e o terceiro implica na abertura de novos cursos de pós-graduação. Esses momentos podem ser considerados relevantes e responsáveis pelos desafios da Pós-Graduação em Ciência da Informação do século XXI na busca pela construção de uma identidade de projeto. diante do crescente número de pesquisas sobre o termo informação e suas nuances. as faculdades. houve a modificação da nomenclatura dos cursos da UFMG e da UNB. Estruturas e linguagens de informação 2. 2002) UFBA Estratégias de disseminação da informação 1. Población e Noronha (2003) destacam dois momentos da história da Ciência da Informação que caracterizam a expansão dos Programas de Pós-graduação: 1. Por isso. GT1 261 . Finalmente.Ciência da Mestrado Informação 1998 (não houve modificação) Fonte: Adaptado de Smit (1999. O mesmo fato (mudança de paradigma) ocorreu com relação à evolução do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação. 2008) ao refletir sobre o posicionamento da Ciência da Informação (seus atores sociais) na busca de construir uma nova identidade a fim de promover um novo posicionamento na sociedade e modificações na estrutura social. Ambiente que propicia a demanda pelos sistemas de informação iniciado na sociedade brasileira nas décadas de 70 e 80 e 2. p. 2.1 O início do século XXI para a Ciência da Informação: a busca da construção de uma identidade de projeto O título dessa seção fala em construção da identidade de projeto (CASTELLS. Em 1991. Paim (2000. institutos e escolas de pós-graduação. A explosão tecnológica que culmina no final do século XX. Informação e contextos Dando destaque a pós-graduação em Ciência da Informação. é preciso verificar três quesitos fundamentais para seu desenvolvimento no Brasil na década de 90: o primeiro é referente a substituição do nome pós-graduação em Biblioteconomia para pós-graduação em Ciência da Informação. assim como do crescimento da Ciência da Informação em nível global perceberam a necessidade de mudança. 105) destaca com relação a UFMG que também foi partilhado em outras instituições: A mudança do nome da Escola reflete transformações em nível macro decorrentes do deslocamento do paradigma anterior (ênfase na instituição biblioteca) em direção ao novo paradigma que enfatiza o fenômeno informação. crê-se que há uma visão latente de identidade modificada para todos os programas que precisaram adequar suas linhas de acordo com as necessidades nacionais e locais que compõem a realidade científica e acadêmica da Ciência da Informação.

organização informação (desde 1997) e utilização da Informação. Conhecimento e Sociedade (a partir de 2007) Doutorado: Transferência da Informação Mestrado: Planejamento e Gerência de Unidades de Informação (até 2009) Gestão da informação (a partir de 2010) 7 . outros programas irão surgir. O próximo quadro apresenta as linhas de pesquisa atualmente: GT1 262 .O quadro que segue mostra um conjunto de transformações nas áreas de concentração: Quadro 4: Área de concentração da Pós-Graduação em Ciência da Informação no Brasil na primeira década do século XXI PROGRAMAS/CURSOS IBICT 1 Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação – IBICT-UFF 2 Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação – IBICT-UFRJ 3Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação – USP 4Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação – UFMG 5 . tecnologia e conhecimento (a partir de 2005) Informação e Conhecimento na Sociedade Contemporânea (a partir de 2006) Gestão da Informação (a partir de 2003) Informação. Memória e Tecnologia (a partir de 2009) A identidade de projeto propalada por Castells (2008) pode ser concebida a partir da idéia de que a Ciência da Informação tem um papel produtivo na construção de estudos investigativos que busquem resolver problemas de informação (PINHEIRO. 2008) ainda é embrionária em virtude de que muitos programas ainda estão iniciando suas atividades e. provavelmente.UFPE Fonte: Adaptado de Pinheiro (2007) Administração da Informação (a partir de 2001) Informação.UnB ÁREAS DE CONCENTRAÇÃO/ANO Informação e Mediações Sociais e Tecnológicas para o Conhecimento (20042008) Informação e Mediações Sociais e Tecnológicas para o Conhecimento. Essa identidade de projeto (CASTELLS.Curso de Mestrado em Ciência da Informação – UFSC 11 – Curso de Mestrado em Ciência da Informação .Mestrado em Ciência da Informação – UFPB 6 – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação e Documentação .Curso de Mestrado em Ciência da Informação –PUCCAMP 8 Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – UNESP 9 Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – UFBA 10 . (a partir de 2009) Cultura e informação (a partir de 2006) Produção. 2007). bem como no seio das relações regionais entre alguns programas de pós-graduação e para a sociedade em um contexto mais lato.

Quadro 5: Linhas de pesquisa das Pós-Graduações em Ciência da Informação na primeira década do século XXI
LINHAS DE PESQUISAS DAS PÓS-GRADUAÇÕES EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO Apropriação Social da Informação Comunicação e Mediação da Informação Comunicação e Visualização da Memória Comunicação, Organização e Gestão da Informação e do Conhecimento Configurações Socioculturais, Políticas e Econômicas da Informação Ética, Gestão e Políticas de Informação Fluxos de Informação Fluxos e Mediações Sóciotécnicas da Informação Gestão da Informação Gestão da Informação e do Conhecimento Gestão de dispositivos da informação Gestão, Mediação e Uso da Informação Informação e Tecnologia Informação, Cultura e Sociedade Memória, Organização, Produção e Uso da Informação Memória da Informação Científica e Tecnológica Organização da Informação Organização da Informação e do Conhecimento Organização e Uso da Informação Políticas e Tecnologias da Informação Produção, Circulação e Mediação da Informação Produção e Organização da Informação Profissionais da Informação Fonte: Adaptado de Pinheiro (2007). IBICT U F R J P U C C A M P UFF U F B A U F M G U F P B UFPE U F S C UnB U N E S P USP

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Portanto, notifica-se que a Ciência da Informação está começando a desenvolver sua identidade de projeto (CASTELLS, 2008) ampliando suas pós-graduações e fortalecendo sua estrutura acadêmico-curricular. 3 Procedimentos metodológicos 3.1 Caracterização do estudo Para a classificação da pesquisa, tomou-se como base a taxonomia apresentada por Vergara (2003), que qualifica a pesquisa em dois aspectos: fins e meios. Quanto ao nível de pesquisa é de cunho exploratório, haja vista que busca discutir a realidade da Ciência da Informação e delinear os aspectos que caracterizam a sua identidade. Para corroborar com o pensamento da pesquisa exploratória, Gil (1999, p. 43) afirma que as pesquisas exploratórias são realizadas “Especialmente quando o tema escolhido é pouco explorado e torna-se difícil sobre ele formular hipóteses precisas e operacionalizantes”. Em nível documental foram utilizados essencialmente os documentos virtuais dos PPGCIs para análise da pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil e caracterizar sua identidade. No que concerne ao método de análise de acordo com Gil (1999) pode-se dividi-lo em dois aspectos: métodos técnicos de investigação e métodos lógicos de investigação. Quanto ao primeiro tipo foi adotado o método dedutivo como forma de analisar as características teóricas e gerais da Ciência da Informação. Quanto ao segundo tipo apresenta o método de análise indiciário também chamado de paradigma indiciário que foi desenvolvido por Ginzburg (1989) no contexto das ciências humanas, especialmente da semiótica. Embora seja fundamentado por Ginzburg na década de 1980 considerando a realidade a partir do final do século XIX, tem raízes históricas desde a Antiguidade. Como afirma Freire (2001, p. 63) “Esse paradigma, que Ginzburg chama de indiciário, tem raízes muito antigas, que remontariam à própria evolução da humanidade”. Em suma, o método indiciário se aplica a presente pesquisa em virtude da busca por indícios nos sites dos PPGCI’s que contemplassem as áreas de concentração, linhas de pesquisa e as disciplinas dos Programas. 3.2 Técnicas de coleta de dados É de fundamental importância estabelecer uma conexão entre a análise dos PPGCI’s e a fundamentação teórica do presente trabalho, especialmente no que tange a contextualização históricosocial da pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil. Vale ressaltar que a análise dos PPGCI’s foi efetuada a partir do site de cada programa (IBICT/UFRJ, USP, UFMG, UnB e UNESP) contemplando os seguintes enunciados de seu conteúdo programático: área de concentração e linhas de pesquisa, seguindo as discussões desenvolvidas no referencial teórico do presente trabalho. A escolha desses Programas deve-se ao fato de que possuem mestrado e doutorado, o que GT1 264

possibilita uma análise mais completa da pós-graduação em Ciência da Informação em nível nacional. A importância em contemplar estes enunciados é referente ao fato de que compõem a base da estrutura acadêmico-curricular dos programas de pós-graduação. 4 Análise e interpretação dos dados A seguir, são apresentados e analisados os dados da pesquisa, sendo estabelecido, ao longo do texto, com os pressupostos levantados na introdução, no referencial teórico e nos procedimentos metodológicos que compõem o presente trabalho. 4.1 Das áreas de concentração A área de concentração de um Programa de Pós-Graduação atenta para significados gerais do que o programa pretende abordar. Por isso, é interessante observar que a análise do presente trabalho em torno das áreas de concentração dos PPGCI’s considera aspectos gerais que definem sua política de atuação acadêmico-científica, visando estabelecer algumas marcas identitárias genéricas. Para adentrar na análise sobre as áreas de concentração dos PPGCI’s faz-se necessário expor sua estruturação, conforme mostra o quadro. Quadro 6: Área de concentração dos PPGCI’s no Brasil atualmente
PROGRAMAS/CURSOS Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação IBICT/UFRJ Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação UFBA Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação UFMG Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação UnB Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação UNESP Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação USP ÁREAS DE CONCENTRAÇÃO/ANO Informação e Mediações Sociais e Tecnológicas para o Conhecimento. Informação e Conhecimento na Sociedade Contemporânea Produção, organização e utilização da informação Gestão da informação Informação, tecnologia e conhecimento Cultura e informação

Partindo para a área de concentração do PPGCI do IBICT/UFRJ intitulada Informação e Mediações Sociais e Tecnológicas para o Conhecimento, observa-se uma variedade de interpretações conceituais. Com efeito, considera-se uma primeira marca identitária da área de concentração do IBICT/UFRJ que é a identidade subjetiva. Isso ocorre em virtude de que pensar interdisciplinaridade e sociedade da informação implica em concepções diversas (opostas, convergentes ou complementares) de como avaliar o fenômeno da sociedade da informação pelo viés da interdisciplinaridade. A ação de informação (GONZÁLEZ, 2004) no contexto da geração, organização, preservação, disseminação, acesso e recuperação convencional e eletrônica e usos socialmente significativos da informação GT1 265

indicam outra marca identitária da Pós-Graduação do IBICT/UFRJ que é a identidade afirmativa. A identidade afirmativa é necessária por dois motivos: o primeiro para enfatizar a Pós-Graduação do IBICT em termos de pesquisa, ciência e percepção acadêmica em Ciência da Informação. O segundo é para mostrar as particularidades do referido PPGCI. O PPGCI da UFBA tem como área de concentração Informação e Conhecimento na Sociedade Contemporânea. Percebe-se que o PPGCI da UFBA enfatiza já em sua ementa a relação entre a área de concentração e as linhas de pesquisa. Compreende-se que a área de concentração do PPGCI da UFBA destaca a possibilidade de estudos sobre a informação como fenômeno social, econômico e cultural para o desenvolvimento da nação. Destarte, notifica-se que o PPGCI da UFBA possui uma identidade social no contexto da informação. Silva (2000, p. 89) afirma que “A identidade é um significado – cultural e socialmente atribuído”. Com relação ao PPGCI da UFMG a sua área de concentração intitulada Produção, organização e utilização da informação pode ser destacada como reconhecidamente consolidada em virtude de ter sido constituída desde 1997 e se perpetua até os dias de hoje. Não foi encontrado ementa ou qualquer outro texto que especifique os estudos referentes a área de concentração do PPGCI da UFMG. Podese definir a área de concentração do PPGCI da UFMG a partir de uma identidade interseccional. Essa identidade pode ser configurada quando há uma relação efetiva entre determinados fenômenos que possuem ampla complementaridade e, principalmente, quando não é possível claramente identificar o início de uma e o término de outra. No caso da identidade interseccional entre produção, organização e utilização da informação, é possível aferir que são processos interligados de tal modo que torna-se muito difícil separá-los e identificá-los de forma isolada, pois o sentido efetivo ocorre quando são avaliados de forma conjunta. No que se refere ao PPGCI da UnB a sua área de concentração em Gestão da informação apresenta um caráter peculiar. Não foi encontrada uma ementa ou qualquer outro texto que especifique a área de concentração. Compreende-se, no caso do PPGCI da UnB (chamado de PPGCInf) que a Gestão da Informação compreende os processos de organização da informação; comunicação e mediação da informação que constituem as linhas de pesquisa do Programa. Entende-se que a área de concentração do PPGCInf da UnB toma como base um procedimento de estudos sobre identidade profissional, dado que é muito comum o pensamento da gestão da informação como estudo voltado para questões informacionais que envolvam estratégias, planejamentos e processos relacionados a diferentes espaços de informação voltados para profissionais, usuários e meios de organização, comunicação e mediação da informação. O PPGCI da UNESP apresenta como área de concentração Informação, Tecnologia e Conhecimento. Observa-se que a área de concentração do PPGCI da UNESP atenta para um diálogo específico em dois ambientes: ambiente interno e ambiente externo. O primeiro ambiente indica as discussão e pesquisa no âmbito da organização, gestão e uso da informação, tendo as tecnologias papel fundamental nesse processo. O segundo ambiente indica o diálogo do PPGCI com órgãos como GT1 266

a ANCIB e a ABECIN a fim de fortalecer a base acadêmico-científica do PPGCI, assim como contribuir para as pesquisas sobre Ciência da Informação no Brasil. Assim como no PPGCI da UFMG, o PPGCI da UNESP prioriza as reflexões sobre organização, gestão e uso da informação de forma integrada atestando a necessidade de pensar a informação, a tecnologia e o conhecimento em uma perspectiva gerencial, organizacional e mediacional. Isso mostra mais uma vez a constatação de uma identidade interseccional que compõe a necessidade de uma relação direta entre os termos atribuídos nos estudos da área de concentração (gestão, organização, mediação e uso da informação). O PPGCI da USP possui como área de concentração Cultura e Informação. Percebe-se que esta área de concentração é uma das mais peculiares dos PPGCI’s, haja vista que dedica enfaticamente espaço para estudos culturais atrelados a informação. A área de concentração do PPGCI da USP pode ser basicamente dividida em dois fatores: a primeira atenta para a relevância da informação como instrumento propositivo no enfoque organizacional, de preservação e circulação (coleta, seleção, organização, acesso) em equipamentos culturais inferindo que informação e cultura possuem um entrelaçamento que pode produzir novos sentidos sociais para indivíduos e grupos. Pode-se afirmar que a área de concentração do PPGCI da USP apresenta uma identidade subjetiva, de sorte que cultura e informação, tanto isolada como conjuntamente podem abarcar estudos em diversas perspectivas sociais, educacionais, políticas e econômicas. 4.2 Das linhas de pesquisa As linhas de pesquisa especificam a abordagem geral definida nas áreas de concentração. Isso significa afirmar que o conceito de área de concentração pode apresentar certas inconsistências, pois como afirma Menandro (2003, p.180) “o conceito de área de concentração padece de “frouxidão”. Por isso, a área de concentração ganha caráter elucidativo mais sólido quando se define as linhas de pesquisa do Programa. O PPGCI do IBICT/UFRJ está articulado em duas linhas de pesquisa: Quadro 7: Linhas de pesquisa do PPGCI do IBICT/UFRJ
PPGCI/IBICT/UFRJ Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Nome da linha de pesquisa Comunicação, Organização e Gestão da Informação e do Conhecimento Configurações socioculturais, políticas e econômicas da informação

Na primeira linha de pesquisa verifica-se que possui grande diversidade de assuntos, tornando-a eminentemente densa e dispersiva. Pode-se dividir esta linha de pesquisa em vários quesitos: o primeiro está relacionado aos estudos históricos e epistemológicos. O segundo quesito é uma conseqüência do primeiro, pois insere as questões sobre comunicações científicas e tecnológicas e a aplicação de estudos métricos da informação. O terceiro quesito está relacionado aos sistemas de organização e GT1 267

representação do conhecimento, ontologias, web semântica e contribuições da lingüística. A segunda linha de pesquisa pode ser desenvolvida em três eixos: ética, políticas e tecnologias da informação e da comunicação; estudos socioculturais e econômicos da informação, ciência e tecnologia no contexto das transformações do trabalho no sistema capitalista; conhecimento, informação e linguagem no contexto sociocultural e tecnológico relativo ao uso, colaboração, produção e competência em informação. Dessa maneira, verifica-se que as linhas de pesquisa do PPGCI do IBICT/UFRJ configuramse em uma identidade fragmentada em virtude de que há uma densidade muito ampla de assuntos. Assim, é possível identificar como vantagem a possibilidade de investigação sobre assuntos variados. O PPGCI da UFBA se articula em duas linhas de pesquisa, como mostra o quadro: Quadro 8: Linhas de pesquisa do PPGCI da UFBA
PPGCI/UFBA Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Nome da linha de pesquisa Políticas e tecnologias da informação Produção, circulação e mediação da informação

A primeira linha de pesquisa anuncia uma perspectiva relativa a política de informação como objeto voltado para o acesso e controle da informação considerando a importância das tecnologias intelectuais. A política deve ser entendida em dois aspectos: a partir de um discurso extrinsecamente compartilhado e uma condição interna que prevê a execução de ações. Assim, a política de informação, seria uma proposta de transição de um discurso para uma ação que visa transformar uma determinada realidade de produção, comunicação, geração, organização e/ou acesso à informação. Já a segunda linha de pesquisa centra seus estudos na produção, disseminação, transferência, mediação e apreensão da informação contemplando três aspectos: processos, fluxos e comportamentos informacionais; redes sociais e humanas no uso da informação; e competências informacionais e programas de inclusão digital. Desse modo, a mediação da informação fundamenta os pressupostos que dão vazão aos três aspectos estabelecidos na linha de pesquisa: processos, fluxos e comportamentos informacionais, pois a mediação da informação será vital para entender como a informação é produzida, assim como os comportamentos informacionais envolvidos. Percebe-se nas linhas de pesquisa do PPGCI da UFBA uma marca identitária muito latente que é a identidade estrutural. A identidade estrutural ocorre de acordo com a afirmação de Dubar (1998) quando as categorias dos discursos de determinados fenômenos definem-se pelo ponto de vista de outros fenômenos. Aplicando ao caso do PPGCI da UFBA cumpre ressaltar que as linhas de pesquisa e suas ementas são compostas de elementos que são interdependentes e necessitam de uma relação direta a fim de que possam coexistir. O PPGCI da UFMG apresenta as seguintes linhas de pesquisa, como dispõe o quadro:

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o terceiro é que a organização da informação necessita de estudos sobre políticas e planejamentos relacionados a espaços de informação diversos. Entende-se que as linhas de pesquisa do PPGCI da UFMG apresentam uma identidade em uma tessitura de subjetividade. Isto mostra uma preocupação da linha de pesquisa em promover perspectivas de estudos acadêmicos e científicos sobre gestão da informação e do conhecimento voltados para questões mercadológicas. políticas. abrange a informação em diversas condições teóricas e aplicativas nos desdobramentos sociais. O PPGCI da UnB apresenta as linhas de pesquisa descritas no quadro abaixo: Quadro 10: Linhas de pesquisa do PPGCInf da UnB PPGCInf/UnB Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Nome da linha de pesquisa Organização da Informação Comunicação e Mediação da informação A primeira linha de pesquisa três fatores chamam atenção: o primeiro se refere ao fato de que refletir sobre organização da informação implica em avaliar um processo que vai desde a produção até o uso da informação identificando a importância da recuperação e tratamento da informação.Quadro 9: Linhas de pesquisa do PPGCI da UFMG PPGCI/UFMG Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Linha de pesquisa 3 Nome da linha de pesquisa Gestão da Informação e do Conhecimento – GIC Informação. visando a concretização de objetivos e finalidades previamente estabelecidas. culturais. A subjetividade da identidade no PPGCI da UFMG está nas múltiplas possibilidades de investigação que o pesquisador pode se ocupar através dos seus estudos. tecnológicas. A terceira linha de pesquisa segundo o site do PPGCI da UFMG pode ser considerada como um instrumento que aproximam Ciência da Informação como campo do conhecimento e Biblioteconomia como disciplina em virtude da valorização da biblioteca através de dois vieses: sistemas de recuperação de informação. Na segunda linha de pesquisa vale GT1 269 . sociais. seja no setor público. Cultura e Sociedade – ICS Organização e Uso da Informação – OUI A primeira linha de pesquisa apresenta um enfoque claro e objetivo que é investigar a gestão da informação e do conhecimento no contexto organizacional. políticos. organização e uso da informação. em segundo lugar. seja no setor privado. governamentais e tecnológicos (ênfase nos estudos sobre sociedade da informação). institucionais. empresariais e organizacionais. Com relação a segunda linha de pesquisa destaca-se dois fatores: aborda o campo da Ciência da Informação em seu construto epistemológico que envolve uma gama de estudos teóricos sobre este campo do conhecimento. o segundo atenta que a investigação sobre organização da informação remete a reflexão de que recuperação e tratamento da informação em diferentes formatos devem ser estudados observando o usuário e suas necessidades.

principalmente no que toca à geração. representação e recuperação do conteúdo informacional). síntese. utilização e preservação da informação e de documentos nos ambientes científico. além de perspectivas de investigação sobre a formação e atuação profissional sobre produção e organização da informação. condensação. o segundo inclui estudos sobre políticas de comunicação nos desdobramentos sociais. comunicação. mediação. Com efeito.considerar dois pontos: o primeiro é referente aos processos de comunicação em diversos setores da sociedade. políticos. tecnológicos. política e mediação da informação aplicados em organizações. conforme mostra o quadro: Quadro 11: Linhas de pesquisa do PPGCI da UNESP PPGCI/UNESP Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Linha de pesquisa 3 Nome da linha de pesquisa Informação e Tecnologia Produção e Organização da Informação Gestão. tendo como enfoques a mediação da informação e a apropriação da informação. transferência. por outro lado. representação. culturais e econômicos da comunicação e acesso à informação levando em consideração estudos de algumas profissões ligadas a esse processo de comunicação. O PPGCI da UNESP apresenta três linhas de pesquisa. GT1 270 . armazenamento. recuperação. A partir da segunda linha pode-se conceber duas dimensões: a primeira relativa a produção que é de nível teórico-epistemológico e envolve a produção científica e a produção documental (teoria da ciência e organização do conhecimento). os atores e canais utilizados nesse fluxo. gestão. produção. Identifica-se como marca do PPGCInf da UnB a identidade profissional. Essa identidade profissional ocorre por dois motivos: por um lado pelo fato de que existe uma valorização muito grande nas linhas de pesquisa do Programa concernente a discursos profissionais e ênfase em investigações sobre profissões e mercado de trabalho ligado a informação e. procedimentos para organização da informação (análise. pela valorização sobre estudos referentes a gestão. Essa identidade organizacional acontece em virtude da tonalidade de pesquisa essencialmente voltada para gestão. Mediação e Uso da Informação Na primeira linha de pesquisa observa-se uma atenção especial as tecnologias como instrumento vital para o desenvolvimento dos estudos da linha de pesquisa. Isso significa dizer que as tecnologias assumem um papel primordial nas pesquisas destinadas a investigar os sistemas de informação. vê-se como principal marca das linhas de pesquisa do PPGCI da UNESP identidade organizacional. Com relação a terceira linha de pesquisa Fadel et al (2010) entende que os estudos relacionados às competência em informação preocupam-se fundamentalmente com o desenvolvimento do usuário. apropriação. especialmente no contexto da comunicação científica que está atrelado aos fluxos de informação. empresarial e da sociedade em geral. a outra de nível aplicativo e profissional voltada para os estudos métricos da informação.

A segunda linha de pesquisa possui grande complexidade em virtude de relacionar assuntos de naturezas diversas. Pode-se GT1 271 . estudos de comunidades virtuais e de usuários. onde diferentes produtos ou serviços são propostos para um público ou clientela. um centro de informação (biblioteca. além dos seus contextos gerenciais. museu. Vale destacar na linha de pesquisa a infoeducação (união epistêmica entre informação e educação) no sentido de mostrar que mais importante do que simplesmente transmitir informações é observar o usuário como sujeito do processo de aprendizagem.uso e organização da informação e do documento em uma tessitura tecnológica64. a organização pode ser entendida como uma empresa. circulação e acesso à informação em ambientes virtuais. o segundo é relativo a ação cultural de criação. uma indústria. estudos métricos da informação. Como a proposta do PPGCI da UNESP envolve amplamente aspectos organizacionais. 65 É preciso conceber uma diferenciação entre a identidade subjetiva da USP e a identidade subjetiva da UFMG. dessa obra. na qual a proposta é fazer a ponte entre as pessoas e a obra de cultura ou arte para que. lançando mão de atividades de divulgação. Com efeito. possam as pessoas retirar aquilo que lhes permitirá participar do universo cultural como um todo. epistemologia da organização do conhecimento. afere-se que o PPGCI da USP. entendida mais como uma animação cultural. etc.) e seus suportes documentais e informacionais. web. 64 Entenda-se organização aqui como objeto de pesquisa a ser construído e investigado. assim como foi caracterizado em sua área de concentração. A terceira linha de pesquisa agrega alguns eixos (construção de linguagens documentárias. entre outros. arquivo. O PPGCI da USP apresenta três linhas de pesquisa de acordo com o quadro: Quadro 12: Linhas de pesquisa do PPGCI da USP PPGCI/UNESP Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Linha de pesquisa 3 Nome da linha de pesquisa Apropriação social da informação Gestão de dispositivos de informação Organização da informação e do conhecimento A primeira linha de pesquisa estuda a ação cultural que pode ser vista no discurso de Coelho (2004) a partir de dois fundamentos: o primeiro é referente a ação cultural de serviços. produção. cujo objetivo é vender/aproximar produto e cliente. Caldas e Wood Jr (1997) afirmam que a identidade organizacional está preocupada na forma como a organização é percebida pelo meio e como a própria organização percebe a si mesma (autopercepção). mediacionais e tecnológicos que se constituem como objeto de pesquisa de docentes e discentes. políticas de informação em uma perspectiva organizacional) a fim de que as pesquisas sobre organização da informação e do conhecimento possam conquistar efetivo amadurecimento epistemológico. tais como: serviços de informação. que estão atrelados a gestão de dispositivos de informação. possui uma identidade marcadamente subjetiva pelo fato de que o Programa possui três linhas com grande densidade epistemológica atentando para as múltiplas possibilidades de investigação que o pesquisador pode se ocupar através dos seus estudos com relação a informação65.

mas também na perspectiva de ampliar as atividades com informação em seus Programas. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG . A década de 1990 é um marco para a Pós-Graduação em Ciência da Informação no Brasil. WOOD JR. 289-309. Abigail de Oliveira. Finalmente./Mar. A primeira década do século XXI continua com um conjunto de mudanças ao qual pode-se chamar do início da construção de uma identidade de projeto (CASTELLS. 7. Identidade organizacional. Jan. Criação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Pós-Graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. v. pois as mudanças ocorreram em contextos formais. o início da formação de uma autonomia em Ciência da Informação. Revista de Administração de Empresas. entre outros. CASTELLS. Miguel Pinto. 2008. Manuel. 1978. 37.. quanto de nível acadêmico. utilização. organização. reflexões. São Paulo. experiências. v. Essas mudanças acadêmicas promoveram uma marca chamada de identidade institucionalmente modificada. gestão que são inerentes aos processos de informação. afirmar que a identidade subjetiva da USP é extrínseca em virtude da informação poder ser associada a outra gama de assuntos denso.. sociedade e cultura. A partir da análise das áreas de concentração constata-se que os PPGCI’s possuem características identitárias específicas. n. Já a identidade subjetiva da UFMG é intrínseca em virtude de a informação é acompanhada de instrumentos como produção. tanto foi de nível institucional. especialmente pelo fato de que as Pós-Graduações em Biblioteconomia passaram a se chamar Ciência da Informação (PPGCI’s). 6-17. tais como: cultura. espera-se que o presente trabalho possa contribuir com as discussões referentes a epistemologia da Ciência da Informação no Brasil em suas perspectivas históricas. p. tecnológicas. científicas. Verifica-se. v. n. São Paulo: Paz e Terra. Thomaz.5 Considerações finais Percebe-se que a Pós-Graduação em Ciência da Informação tem seu início no ano de 1970 que se firmou como a primeira Pós-Graduação em Ciência da Informação no Brasil e na América Latina idealizada pelo IBBD em parceria com a UFRJ. educação. Essa mudança de Biblioteconomia para Ciência da Informação. 2008) para a Pós-Graduação em Ciência da Informação no Brasil. p. sociais e institucionais. No que se refere as linhas de pesquisa constatou-se marcas identitárias nos PPGCI’s considerando a realidade específica de cada Programa.2. 2. 1997. Referências CALDAS. O poder da identidade – A era da informação: economia.1. sugestões. É importante frisar que esta foi a única PósGraduação que já foi criada com o nome Ciência da Informação. set. GT1 272 . a partir do início da concentração de docentes e pesquisadores nacionais. CNPq/IBICT. CARVALHO. na década de 1980.

(Doutorado em Ciência da Informação) . da (org.. COELHO. Daisy Pires. Brasília. Revista de Administração Contemporânea. 73102. mar. Ciência da Informação. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB). Linha de pesquisa: possibilidades de definição e tipos de utilização do conceito. n. Gestão. Salvador. v.. UFRJ. GIL. 1976.. 2003. 1. n. 13-32. A ciência da informação na UFMG: a trajetória do programa de pós-graduação. mediação e uso da informação. Marta (Org. 1999. 3a edição São Paulo: Iluminuras. p. p. Campinas.Ciência da Informação. São Paulo: Cultura Acadêmica. 11-112. jan. p. 8. 177-182. 2004. PINHEIRO. Cenário da pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil. p. Isa Maria. Anais. Educação e Sociedade. A responsabilidade social da ciência da informação e/ou o olhar da consciência possível sobre o campo científico. A produção social da identidade e da diferença. 2001. 2003.). Ciência da Informação.. 1-2. mediação e uso da informação. Trajetórias sociais e formas identitárias: alguns esclarecimentos conceituais e metodológicos.1. p. SILVA. 5. 2000. Hagar Espanha. Dicionário Crítico de Política Cultural. 5. DUBAR.1. n. POBLACIÓN. Tese. MUELLER. Isis. 1998. Brasília. Belo Horizonte. FREIRE. Perspectivas em Ciência da Informação. Belo Horizonte. Tomaz. Tomaz. 62. Belo Horizonte. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB). 2010. p. Cultura e imaginário.2.. Maria Nélida. Experiência do IBBD em programas de pósgraduação Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG. Antonio Carlos. MENANDRO.. FADEL.17. vol. In: VALENTIM. 2007. 1988. 105-110. 71-81. especial. Lena Vania Ribeiro. GT1 273 ./jun./jun.IBICT. pp. 3.33 n. Dinah Aguiar. GONZÁLEZ DE GÓMEZ. v. v. MÜELLER. Belo Horizonte. 55-67. 1985.13-26. Tadeu. 1974. Rumos da comunidade brasileira de pesquisadores brasileiros em Ciência da Informação: desafios do século XXI. 1.). Claude. 2004. 2000. v. São Paulo: Atlas. Avaliação do estado da arte da formação em biblioteconomia e ciência da informação. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Rio de Janeiro. GOMES. NORONHA. Suzana Pinheiro Machado. ed. 14. v. Tadeu. 3-15. Suzana Pinheiro Machado. n. 5. p. Petrópolis: Vozes. Novas fronteiras tecnológicas das ações de informação: questões e abordagens. Teixeira. Ciência da Informação. 5. O Ensino de Biblioteconomia no Brasil. Bárbara et al.7. p. 2001. influências e tendências. nov. n. Rio de Janeiro. jan. PAIM. n. v. Métodos e técnicas de pesquisa social. In: SILVA. 2003. Paulo Rogério Meira. Anais. 19. v. Gestão. n.

2011. GT1 274 .br/ojs2/index. 3. 1999. 9.dgz. WOODWARD. Johanna Wilhelmina. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Disponível em:<http://www.). SMIT. 2000. São Paulo: Atlas. Disponível em <http://www. Kathryn. SOUZA.ufpb.php/ies/article/view/398/319> Acesso em: 27 jan. v. Tomás Tadeu da (org. 2.br/ dez02/Art_04. 2002.org. Petrópolis: Vozes. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Johanna Wilhelmina. p. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. In: SILVA. DIAS.6. 2011.3. dez. DataGramaZero: Revista de Ciência da Informação. Eduardo Wense. n. VERGARA. Rosali Fernandez de. Contribuição da Pós-graduação para a Ciência da Informação no Brasil: uma visão.ies. v. n.htm> Acesso em: 27 jan. ed. Informação & Sociedade: Estudos. 7-72. A política governamental para a pós-graduação em ciência da informação noBrasil.SMIT. Rio de Janeiro. 2000. João Pessoa. Sylvia Constant.

which outlines the progress of a doctoral thesis that has these questions as its starting point and that intends to apply them in practical examples of the understanding of data analysis tools in the world of Information Science. mais precisamente em junho de 2011. na forma como é discutida e compreendida nas ciências naturais. recentemente. has equal relevance to information science? It would be possible . No entanto. obviously. seria possível afirmar que a categoria “informação”. Características da Informação nas Ciências Naturais.transportar interdisciplinarmente as características da informação encontradas na natureza para o campo de interesse da Ciência da Informação? Eis o ponto de inquietação do relato que segue. in the way it is discussed and understood in the natural sciences. pois o argumento era de que a Teoria da Informação usou a entropia da Termodinâmica como uma analogia da organização da informação com a das moléculas.PÔSTER CARACTERÍSTICAS NATURAIS DA INFORMAÇÃO: VISÃO INTERDISCIPLINAR DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO COM A FÍSICA E A BIOLOGIA Marcelo Stopanovski Ribeiro. o qual esboça o andamento de uma tese de doutorado que possui estas perguntas como seu ponto de partida e que pretende as aplicar em exemplos práticos do entendimento de ferramentas de análise de informação no mundo da Ciência da Informação. um artigo publicado na revista Nature descreveu que apagar (deletar) dados poderia esfriar os computadores em nível quântico! Uma clara e esmiuçada comprovação de que as duas entropias eram a mesma. Palavras-chave: Conceito de Informação. Key-words: Information concept. is it possible to say that the category “information”. Interdisciplinary. “‘Nós demonstramos agora GT1 275 . However. por óbvio. Abstract: Information is one of. Pois bem. implicando que a categoria entropia descrita nessas duas teorias seria a mesma. ou o.and convenient – to interdisciplinarly transfer characteristics of information found in the nature to the field of Information Science? This is the point of interest of the following report. ramo da Física. or the object of Information Science. Information characteristics on Natural Sciences. Interdisciplinaridade. Rogério Henrique de Araújo Júnior Resumo: A informação é um dos. tem igual relevância para a Ciência da Informação? Seria possível – e conveniente . 1 INTRODUÇÃO Há alguns anos a pergunta se a informação descrita na Teoria Matemática da Informação de Shannon seria a mesma informação da Termodinâmica. objeto da Ciência da Informação. This written communication aims at being criticized towards the valid transport of interdisciplinary concepts. seria vista como imprópria. Este escrito é uma comunicação de pesquisa visando à crítica dos pares na construção válida do transporte interdisciplinar de conceitos.

que. 2 A TESE O trabalho monográfico consubstanciado na tese de doutoramento propõe um quadro de referência teórica para ferramentas de análise de informações probatórias jurídicas. do Instituto de Tecnologia de Zurique”. b) artigos em revistas de Ciência da Informação brasileiras e em inglês que incluam os termos Física ou Biologia. c) artigos em bases de pesquisa abertas que apresentem os termos Ciência da Informação e Física ou Biologia. A metodologia para a construção do quadro inicia pela identificação na literatura de características da informação na natureza. E informação é um dos. na questão das partículas quânticas e sua possibilidade de transmitir informação independente do espaço e do tempo ou na pergunta cosmológica de Stephen Hawking se a informação escapa ou é destruída por um buraco negro. vide as tabelas 1 e 2 a seguir: 66 Large Hadrons Colisor (Grande Colisor de Hádrons). GT1 276 . mas nem tanto assim. cita a notícia sobre a novidade [INOVAÇÃO.’ explica Renato Renner. a Biologia pensa em informação. a Física fala sobre informação. em ambos os casos. Isso só para citar alguns exemplos de como as ciências naturais se interessam pela informação. mas ela não figura sozinha na discussão cotidiana das ciências naturais sobre a informação. seria a categoria informação discutida nas ciências naturais de interesse da Ciência da Informação? Seria possível transportar interdisciplinarmente as características da informação encontradas na natureza para o campo de interesse da Ciência da Informação? Eis o ponto de inquietação do relato que segue. sem citar o LHC66 como o maior coletor de informações da humanidade. Interessante constatação. o qual esboça o andamento de uma tese de doutorado que possui as perguntas acima como seu ponto de partida e que quer as aplicar em exemplos práticos do entendimento de ferramentas de análise de informação no mundo da Ciência da Informação. sem falar na genética. Como exemplo do volume coletado nas revistas de Ciência da Informação. e d) artigos em revistas de Física e Biologia em inglês que apresentem termos como propriedade ou característica da informação. construído com base em características naturais da informação. acelerador de partículas considerado a maior experiência científica da humanidade e que colhe 15 Petabytes (15 milhões de Gigabytes) por ano [CERN. Essa fase concentra-se em quatro estratégias para a revisão de literatura: a) livros de divulgação científica de Física e Biologia. escolhidos com base na sua popularidade e destaque do autor. o termo entropia está de fato descrevendo a mesma coisa. por óbvio. Este escrito é uma comunicação de pesquisa visando à crítica dos pares na construção válida do transporte interdisciplinar de conceitos. objeto da Ciência da Informação. Diariamente. 2011]. 2011]. ou o. na transmissão da informação por feromônios ou na evolução dos seres vivos vista como o aprimoramento da capacidade de processar informação. Diariamente. mesmo no regime da mecânica quântica.

Tabela 1: Artigos de revistas brasileiras. Revista 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 BIBLOS CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO DATAGRAMAZERO EM QUESTÃO ENCONTROS BIBLI INFORMAÇÃO & INFORMAÇÃO INFORMAÇÃO & SOCIEDADE: ESTUDOS PERSPECTIVAS EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO PONTO DE ACESSO REVISTA ACB REVISTA BRASILEIRA DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO REVISTA DIGITAL DE BIBLIOTECONOMIA E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO LIINC EM REVISTA TRANSINFORMAÇÃO EXTRA LIBRIS Total Fonte: Autores. Tabela 2: Artigos de revistas em língua inglesa. Termos Física 1 68 0 66 5 3 1 7 2 5 1 2 2 2 12 177 Biologia 1 21 0 13 4 0 0 1 0 1 0 0 1 0 3 45 As informações que constam nas tabelas referem-se ao início do ano de 2011. trata de assuntos ligados a fontes de informação e Bibliometria sobre Física e Biologia ou à utilização dos termos em contextos diferentes dos procurados. Revista 1 2 3 AMERICAN LIBRARY ASSOCIATION ASLIB PROCEEDINGS NEW INFORMATION PERSPECTIVES CURRENT CITES Termos Physics 6 375 5 Biology 1 175 5 GT1 277 . Período do levantamento: jan-fev/2011. No estado atual da pesquisa pode-se verificar que uma parte significativa dos artigos. com números ainda não fechados. O resultado parcial do levantamento indica pouca literatura nacional sobre questões de fundo a respeito das características ou propriedades da informação nas ciências naturais escolhidas.

por duas unidades de análise de informações para o campo jurídico delimitadas no governo federal com base na excelência de suas atividades. 1 77 2 103 29 25 5 287 235 89 1238 241 66 116 4 120 3024 0 31 7 86 32 9 5 184 131 42 819 176 46 113 5 92 1959 Após a leitura do material coletado a metodologia definida para a tese propõe agregar as características da informação encontradas em um quadro conceitual. O ponto específico da tese descrito neste artigo é o quadro de características da informação nas ciências naturais que será submetido aos especialistas visando o transporte interdisciplinar dessas propriedades para fenômenos de interesse da Ciência da Informação. ou não. 3 CARACTERÍSTICAS DA INFORMAÇÃO NAS CIÊNCIAS NATURAIS O presente estudo está ligado à Teoria Geral da Informação e usa como base para esta GT1 278 . utilizadas ou prospectadas. Período do levantamento: jan-fev/2011. Ferramentas. notadamente a análise de informações. estas. o qual deve ser utilizado em entrevistas com especialistas das áreas naturais para a validação do entendimento da categoria e de sua proposta de aplicação na Ciência da Informação.4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 ETHICS AND INFORMATION TECHNOLOGY IFLA JOURNAL IN THE LIBRARY WITH THE LEAD PIPE INFORMATION RESEARCH INFORMING SCIENCE INTERNATIONAL INFORMATION AND LIBRARY REVIEW INTERNATIONAL REVIEW OF INFORMATION ETHICS JOURNAL OF DOCUMENTATION JOURNAL OF INFORMATION SCIENCE JOURNAL OF LIBRARIANSHIP AND INFORMATION SCIENCE JOURNAL OF THE ASIS&T NEW LIBRARY WORLD PROGRESSIVE LIBRARIAN RESOURCESHELF SRRT NEWSLETTER THE INDEXER Total Fonte: Autores. dessas características em ferramentas de análise de informações probatórias jurídicas. A última fase da construção da tese é a identificação.

cunhada em um contexto de entendimentos com biólogos que acrescentavam a categoria informação como um complemento nos seres vivos da dualidade matéria-energia da Física moderna. p 3]. 1995. explica em seus ensaios sobre física atômica e conhecimento humano que a essência de sua argumentação “é que. como um evento que faz a conexão entre diferenças. não matéria. Outra abordagem existente na Biologia é a que considera a capacidade de processamento da informação como: a) um dos diferenciais entre o que está vivo ou não. “particularmente na Física e Biologia” [CAPURRO E HJØRLAND. A importância das duas ciências (Física e Biologia) foi. nem energia” [WIENER e colaboradores. disciplinas ou ciências citadas. essa abordagem também é comum entre os cibernéticos. um físico renomado e candidato ao Prêmio Nobel conclui em um capítulo inteiro sobre informação que “realidade e informação são a mesma coisa” [ZEILINGER. inclusive. logo na parte introdutória os autores já avisam que a discussão epistemológica desse conceito põe em jogo processos de informação não-humanos. em seu livro “A Árvore do Conhecimento”. No artigo de vasta revisão da literatura escrito por Capurro e Hjørland sobre o conceito de informação. 1970]. 2007]. explicam a construção dos seres vivos em relação a sua capacidade de autonomia pela busca da sobrevivência e perpetuação reprodutiva. e b) um fator fundamental GT1 279 . Esse mesmo conceito foi absorvido interdisciplinarmente por Niklas Luhman que definiu informação. A questão do paradigma cognitivo é baseada na abordagem biológica da informação. Os filósofos e biólogos chilenos Maturana e Varella. Em um artigo recente sobre cognição. 2005. segundo Capurro e Hjørland. a exemplo da frase de Norbert Wiener: “informação é informação. mecanismo denominado autopoiese. Tais aspectos encontram resumo no livro A Face Oculta da Natureza. comunicação e mediação nas organizações do conhecimento disponível na revista Documentación de las Ciencias de la Información da Universidade Complutense de Madri. prestar atenção às circunstâncias em que os dados são obtidos” [BOHR. para uma descrição objetiva e uma compreensão harmoniosa. p 267]. em quase todos os campos do conhecimento. das 47 (quarenta e sete) áreas. assim como desafia a Psicologia e a Sociologia a usarem parâmetros objetivos ou situacionais. segundo os últimos autores citados. dentre as ciências da informação. Niels Bohr. Ao descreverem os fenômenos de interesse da Ciência da Informação. esquecida no artigo dos autores citados. revelando uma relatividade extrema apoiada no contexto de coleta e indicando que a questão central da física passaria a ser uma questão de informação.classificação o referencial texto de Wersig e Neveling (1975). é necessário. No livro o autor. Morillo (2006) aponta para a classificação dos mundos de Popper como base para entender o lócus do conhecimento e da cognição. Já no início da abordagem da Física Quântica. Ainda. no qual os autores prescrevem que qualquer estudo dito de Ciência da Informação deve de pronto identificar a área em que se está trabalhando. campos. a Teoria Geral da Informação e a própria Ciência da Informação. nenhuma foi a Biologia ou a Física. que descreve impactos da física quântica no entendimento do mundo.

2005]. Um exemplo da abordagem biológica na Ciência da Informação é um artigo no qual é proposto um quadro conceitual de referência para a Ciência da Informação baseado em concepções da informação advindas da Teoria da Evolução [BATES. A coluna sobre entendimento coloca a maneira como o conceito foi entendido no campo de origem. até chegar aos seres que usam ferramentas (coisas externas ao corpo) para o processamento da informação.na evolução . Ciência Fonte 1 Física Categoria Entendimento Tendência dos sistemas para “desorganizarem” informações Aplicação Menor entropia pode significar maior possibilidade de entendimento Entropia 2 Física Incerteza Impossibilidade de coleta Ciência de que a total de informações sobre um informação nunca será fenômeno completa Ligação profunda entre as informações de dois elementos Decaimento de todas as possibilidades para a informação que foi medida Uma informação pode levar ao entendimento de outra Organizar significa perder parte da informação 3 Física Emaranhamento 4 Física Decoerência 5 Física Relatividade O contexto do A dependência do observador usuário transforma o só não ocorre em relação à luz entendimento Partículas são múltiplos de alguma coisa. muitas vezes não apenas características ou propriedades. conforme Maynard Smith e Szathmáry (1999). pois o que se elenca são partes teóricas das ciências estudadas que versam sobre a informação. A alcunha “categoria” foi escolhida para a coluna C. mais evoluído o ser. O Quadro 1 apresenta as características da informação levantadas até o momento da pesquisa. em complementaridade com a coluna sobre aplicação que versa sobre a hipótese de como o conceito pode ser aplicado na Ciência da Informação. A coluna B lista a ciência natural de onde a característica foi colhida.quanto maior a capacidade de processar informação. não ocorrem em pedaços Tendência de melhor processamento de informações nos organismos mais evoluídos Informação é um conjunto Avançar envolve processar melhor a informação 6 Física Quanta 7 Biologia Evolução GT1 280 .

Física Atômica e Conhecimento Humano: Ensaios 1932-1957. URL: http://public. Social Epistemology. INOVAÇÃO TECNOLÓGICA. 16. acesso em 05/08/2011.cern. CAPURRO.br/noticias/noticia. v. CERN. p 248) afirmando que “Amanhã teremos aprendido como entender a Física inteira na linguagem da informação e como expressá-la nessa linguagem. REFERÊNCIAS BOHR. Deletar dados pode resfriar computadores.ch/public/en/LHC/Computing-en.8 Biologia Autopoiese Autonomia do processamento de informações nos organismos Visão de cada usuário é única 9 Biologia Gene Possibilidade de variação Unidade de informação de um significativa com poucas organismo fontes As partes possuem informações do todo e viceversa Entendimento de uma parte pode significar compreensão do todo e vice-versa 10 Física e Biologia Holos x Meros Quadro 1: Categorias sobre informação nas Ciências Naturais Fonte: Autores 4 CONCLUSÕES PARCIAIS John Wheeler.php?artigo=conhecimento-quantico-resfriarcomputadores. 2002. L. Para o filósofo. Essa compreensão da informação parece ser a que mais se aproxima do entendimento encontrado nas abordagens atuais das duas ciências aqui em foco. Worldwide LHC Computing Grid. FLORIDI. 148-207. 1. um elemento que somente se manifesta quando dois lados se encontram e por essa categoria são mediados. GT1 281 . a Física e Biologia.inovacaotecnologica. HJØRLAND. p.12.html. acesso em 01/08/2011. The European Organization for Nuclear Research. URL: http:// www. 37-49.com. 1995. p. a informação estaria no encontro do ser humano com o registro em um suporte. O conceito de informação.. n.web. N. é citado por Zeilinger (2005. Perspectivas em Ciência da Informação. físico que cunhou o termo “buraco negro”. Rio de Janeiro: Contraponto. Belo Horizonte.” Na Filosofia da Informação de Floridi (2002). n. a categoria informação aparece conceituada como uma interface. no entendimento próprio do autor da tese: “a interface entre os seres vivos com a matéria e a energia”. On defining library and information science as applied philosophy of information. B. R. v.1.2007. abr. Já que informação parece ser.

A. v. Rio de Janeiro: Paz e Terra. J. H. P. Perspectivas teóricas de los procesos de mediación en las organizaciones de conocimiento.. E. Rio de Janeiro: Globo. 2005. MORILLO. G. p. 1975. MAYNARD SMITH. Os fenômenos de interesse da ciência da informação. Colóquios Filosóficos Internacionais de Royanmont. and SZATHMÁRY. p. WIENER. 69-89. WERSIG. 2006. J. et al.MATURANA. F. NEVELING. Campinas: Psy II. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano . 1999. A face oculta da natureza: O novo mundo da física quântica. Documentación de las Ciencias de la Información. The Origins of Life. Oxford Press. 1995. 127-140. N. ZEILINGER.4. 29.9. e VARELA. 1970. GT1 282 . New York. U. n. Dec. v. From the birth of life to the origin of language. Information Scientist. De la comunicación documental informativa a la comunicación cognoscitiva. O conceito de informação na ciência contemporânea..

convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCI do IBICT / UFRJ) que ingressaram no curso em 2009 e 2010. é que a interdisciplinaridade como característica marcante da Ciência da Informação. Renata Regina Gouvea Barbatho Resumo: O objetivo deste trabalho é refletir acerca da interdisciplinaridade da Ciência da Informação através da análise da formação acadêmica e no nível de graduação do corpo discente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. A hipótese que norteia este trabalho é que a interdisciplinaridade. Palavras-chave: Epistemologia da Ciência da Informação. Borko. 2 A INTERDISCIPLINARIDADE NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA GT1 283 . A hipótese que norteia este trabalho. O objetivo deste trabalho é refletir acerca da interdisciplinaridade da CI através da análise da formação acadêmica. do corpo discente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCI do IBICT / UFRJ) ingressante nos anos de 2009 e 2010. mesmo de forma inconsciente. baseada nas obras clássicas de Wersig. pesquisadores dos mais diversos campos disciplinares convergem para a atmosfera da Ciência da Informação numa conjunção de saberes que. em nível de graduação. Interdisciplinaridade. no que diz respeito às múltiplas formações acadêmicas dos seus discentes. Saracevic e Pinheiro.PÔSTER BREVES REFLEXÕES ACERCA DA INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: UM OLHAR ATRAVÉS DA FORMAÇÃO ACADÊMICA DO CORPO DISCENTE DO PPGCI IBICT / UFRJ – 2009 E 2010 Leandro Coelho de Aguiar. PPGCI IBICT UFRJ. influencia e reflete na composição do corpo discente do programa de pós-graduação da área. se reflete na composição do corpo discente do programa de pósgraduação da área com múltiplas formações acadêmicas. como uma característica marcante da Ciência da Informação. Corpo discente. 1 INTRODUÇÂO A natureza interdisciplinar da Ciência da Informação (CI) atrai indivíduos de diversas áreas do conhecimento. evidencia a natureza interdisciplinar da área.

metodologias e características distintas. o que introduz a noção de finalidade. 2009) a Interdisciplinaridade caracteriza-se pela presença de pressupostos comum a um grupo de disciplinas conexas e definidas no nível hierárquico imediatamente superior. Deste a década de 1960 teóricos que apresentaram formulações conceituais sobre a CI. com abordagens. Destes traços é que nascem as novas formas de conhecimento e práticas que propõem resoluções a problemas decorrentes destas novas relações sociais (WERSIG. a sua utilização. Teoria Matemática da Comunicação. onde estas mudanças tornam-se cada vez mais aparentes. (2) a crença no conhecimento. como por exemplo. finalmente (4) a racionalização do conhecimento. devido principalmente às características e problemas fecundos na sociedade moderna. O autor definia CI como uma disciplina interdisciplinar que investiga as propriedades e o comportamento da informação. GT1 284 . de processos da informação para armazenagem. as forças que o governam e o seu fluxo. a proliferação da informação. Diz que na interdisciplinaridade há cooperação e diálogo entre as disciplinas do conhecimento. e as suas técnicas. As formas de conhecimento pós-modernas não devem ser comparadas aos paradigmas das ciências tradicionais. Borko defendia que a área deriva de outras áreas além da Biblioteconomia e Documentação. Lingüística e Semiótica Cibernética. o crescimento da especialização das diferentes áreas de conhecimento e a necessidade de ligações entre estas áreas especializadas – e de certa forma fragmentadas. observando sua natureza interdisciplinar da área e enumerando as áreas de relacionamento. Muito se discuti acerca do papel da interdisciplinaridade. mas entendidas como um conjunto de novas formas de produção de conhecimento. mas principalmente para a sociedade. a sua natureza interdisciplinar. Saracevic (1995) descreve três características da CI: (1) sua conexão com a Tecnologia da Informação. Mais recentemente Tefko Saracevic abordou as razões interdisciplinares com a Ciência Cognitiva. Reprografia e Teoria do Conhecimento automático. e Mikahilov et all. Merta. e. (3) e. recuperação e disseminação. (3) a fragmentação do conhecimento. 1993). reconhecida como um dos princípios fundamentais da construção do conhecimento contemporâneo. tanto manuais como mecânicas. expuseram a relação da CI com a Semiótica e a Psicologia. (2) o entendimento de que ela é parte da evolução da sociedade da informação. (WERSIG. e a Engenharia de Sistemas. destacou a Matemática. A construção e uso do conhecimento social vêm se modificando ao longo do tempo.Para Japiassú (1976 apud PINHEIRO. 1993). não apenas refletindo na vida do indivíduo. 3 INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO “O que é a Ciência da Informação? O que faz o cientista da informação?” São com estes questionamentos que Borko inicia seu texto “Information science: what is it?” (1968). Tais mudanças conotam quatro traços relevantes na produção do conhecimento: (1) a despersonalização do conhecimento. sendo de forte ligação com a Ciência e Tecnologia.

nesta relação interdisciplinar. Pinheiro mapeou as disciplinas ou subáreas da CI com suas respectivas áreas interdisciplinares. tendo como fonte os artigos do ARIST – Annual Review for Information Science and Technology – referentes ao período de 1966 a 2004. observando uma rede de relacionamento interdisciplinar com pelo menos vinte outras áreas de conhecimento. como resultado ressaltou mais uma vez o caráter interdisciplinar da área. 4 ESTUDO DE CASO DA INTERDISCIPLINARIDADE NA CI – ANÁLISE DO CORPO DISCENTE DO PPGCI DO IBICT / UFRJ 2009 -2010. com predominância da Ciência da Computação. Saracevic. Biblioteconomia. CORPO DISCENTE 2009 e 2010 do PPGCI IBICT / UFRJ POR FORMAÇÃO (Graduação) ÁREA DE FORMAÇÃO DOUTORANDOS MESTRANDOS TOTAL Administração Agronomia Arquivologia Biblioteconomia Ciência da Computação Comunicação Direito Engenharia Civil 0 1 4 5 1 2 1 0 2 0 6 17 1 4 0 1 2 1 10 22 2 6 1 1 GT1 285 . chamando atenção a formação e a trajetória acadêmica. 1969.Comunicação e a Ciência da Computação. (1997 apud 2009). e Merta. contribuindo para entendimento das formas com que estas trocas interdisciplinares estão acontecendo no campo da pesquisa acadêmica. Mikahilov et all. e vise-versa. Uma interessante forma de refletir acerca do caráter interdisciplinar da CI é estudar seu corpo discente dentro dos programas de pós-graduação da área. 1968. O que levaram estes alunos a procurarem os caminhos da CI? Quais são as perspectivas e necessidades. 1992 apud PINHEIRO 2009). Administração e Lingüística. Por isso que esta análise propõe a identificar quais são estas áreas de conhecimento originária dos pesquisadores stricto-sensu do IBICT. (Borko. tanto destes pesquisadores quanto da própria área a qual eles representam? A análise da trajetória acadêmica destes discentes pode ajudar a compreender o papel da CI na produção do conhecimento e a identificar quais as possibilidades de contribuições da mesma às outras áreas.

** São 68 alunos no PPGCI IBICT / UFRJ entre os anos de 2009 e 2010. *** O campo “Não identificados” corresponde aos discentes que não responderam ao questionário.Fonte: *Dados extraídos através de questionário respondido pelo corpo discente. História. Comunicação com 6 formações (9%). com 22 formações (32%) é a Biblioteconomia. com 10 formações (14%). Na tabela 1. de mestrado e doutorado do PPGCI UFRJ IBICT dos anos de 2009 e 2010. Museologia e Matemática. seguida a distância pelas áreas de Arquivologia. al. assim como a Bibliografia e Documentação. principalmente no que diz respeito ao seu nascimento em meados do século passado. 1997) GT1 286 .Engenharia Mecânica Estatística Filosofia História Letras Matemática Medicina Museologia Pedagogia Relações Internacionais Não identificado*** TOTAL 1 0 1 1 1 1 1 3 0 0 4 23 0 1 0 2 0 2 1 0 1 1 3 39 1 1 1 3 1 3 2 3 1 1 7 69** Tabela 1 . Todavia foram contabilizados mais de uma vez aqueles que tinham mais de uma graduação. Tal fato corrobora o entendimento acerca da característica interdisciplinar da área. no que diz respeito a sua trajetória acadêmica até chegar ao programa de CI. pode-se observar que a área de conhecimento que mais aparece. pois dos 68 pós-graduandos. Este amplo destaque da Biblioteconomia é explicado talvez pela aproximação histórica. o que provocou uma maior aproximação entre estas áreas (BARBOSA et. e as outras áreas que somadas resultam em 4%. pode observar-se a diversificação da formação dos discentes que ingressaram no curso. Outro fator ocorrido nas últimas décadas foi a mudança da nomenclatura de alguns departamentos de graduação e de programas de pós-graduação em Biblioteconomia e Documentação para o nome de DCI e PPGCI respectivamente.. Pelo Gráfico 1 (abaixo). existem pelo menos 18 áreas de conhecimento diferentes. empatadas com 3 formações cada (4%). tendo em vista que seu corpo discente reflete esta diversificação.

7 Biblioteconomia. 1 Pedagogia. 1 Direito. 2 Ciência da Computação. a entrada de áreas que historicamente não são mencionadas pelos teóricos da CI. 2 Administração. 6 Museologia. 1 Letras. 1 0 5 10 Quantidade 15 20 25 Gráfico 1 . neste caso os limites da Tabela de Áreas de Conhecimento do CNPq. se observa que a interdisciplinaridade extrapola para outras Grandes Áreas de conhecimento. as Engenharias (neste caso. CORPO DISCENTE 2009 E 2010 do PPGCI IBICT / UFRJ POR ÁREA E GRANDEÁREA DE CONHECIMENTO DE FORMAÇÃO (Graduação) ÁREAS* Administração / Arquivologia Biblioteconomia / Comunicação Direito / Museologia Agronomia Engenharia Civil / Engenharia Mecânica Ciência da Computação Estatística / Matemática Filosofia / História Pedagogia / Relações Internacionais Letras Medicina GT1 287 GRANDES ÁREAS* Ciências Sociais Aplicadas Ciências Agrárias Engenharias Ciências Exatas e da Terra Ciências Humanas Lingüística. Letras e Artes Ciências da Saúde TOTAL*** 44 1 2 6 6 1 2 FORMAÇÃO (GRADUAÇÃO) . 1 Engenharia Mecânica Engenharia Civil. 1 Agronomia. surpreende a entrada da Engenharia Civil e a ausência da Engenharia de produção. 22 Arquivologia. 10 Comunicação. 3 Medicina. como a pedagogia. 3 História. 1 Filosofia.Dados extraídos através de questionário respondido pelo corpo discente Uma característica importante a ser observada na questão do relacionamento interdisciplinar nas áreas de conhecimento é se estas relações extrapolam os limites pré-determinados de áreas afins. Na tabela 2. 2 Relações Internacionais. como o caso da Ciência da Saúde e algumas áreas das Ciências Humanas. 1 Estatistica. 3 Matemática.CORPO DISCENTE 2009 e 2010 DO PPGCI do IBICT / UFRJ POR ÁREA DE FORMAÇÃO (GRADUAÇÃO Não identificado***. por exemplo). como as Ciências Exatas e da Terra.

principalmente na produção de conhecimento científico e tecnológico. no qual cada uma tem 3% e. como afirmou Wersig.Tabela 2 . Em seguida. Borko. is reflected in the composition of the student body of the program graduate with multiple formations of the area academic. finalmente. The hypothesis that guides this work. GT1 288 . vêm as Ciências Exatas e da Terra – elevadas pela participação da Ciência da Computação e da Matemática – e as Ciências Humanas. Saracevic and Pinheiro. Letras e Artes. Letras e Artes (1) 3% Ciências Sociais Aplicadas (44) Gráfico 2 . em melhorias sociais. Keywords: Epistemology of Information Science. com 1 % do corpo discente oriundos. CORPO DISCENTE 2009 e 2010 do PPGCI do IBICT por Área e Grande Área de Conhecimento de formação acadêmica (Graduação) 2% 2% 3% 10% Ciências Humanas (6) Ciências Exatas e da Terra (6) 10% Engenharias (2) Ciências da Saúde (2) 70% Ciências Agrárias (1) Lingüística. ** Tabela de Áreas de Conhecimento (TAC) do CNPq. Interdisciplinarity. *** Estão excluídos desta contagem os discentes cuja formação não foram identificadas. as Ciências Agrárias e a Lingüística.Fontes: * Questionário preenchido pelo corpo discente. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo buscou contribuir na visualização e no entendimento de uma pequena parte dos relacionamentos de interdisciplinaridade na CI em que se pôde observar que de fato esta possibilita a existência de atuações envolvendo múltiplas áreas. No gráfico 2 ratifica-se a superioridade das Ciências Sociais Aplicadas no relacionamento com a CI. pelo menos na teoria. is the hallmark of interdisciplinary and Information Science. Abstract: The aim of this paper is to reflect on the interdisciplinarity of Information Science through the analysis of academic and graduate level of the student body of the Graduate Program in Information Science from the Brazilian Institute of Information Science and Technology agreement with the Federal University of Rio de Janeiro (PPGCI IBICT / UFRJ) who entered the course in 2009 and 2010.Fontes: * Questionário preenchido pelo corpo discente. E reconhecendo a importância da interdisciplinaridade na sociedade contemporânea. cerca de 70 % do corpo discente é oriundo desta Grande Área. ** Tabela de Áreas de Conhecimento (TAC) do CNPq. based on classic works Wersig. onde cada uma tem 10 % de freqüência. As Engenharias e a Ciências da Saúde. tendo em vista sua característica de ciência pósmoderna. The student body PPGCI IBICT UFRJ. pode-se concluir que esta área permite. *** Estão excluídos desta contagem os discentes cuja formação não foram identificadas.

n. In: BORGES. 1993. 1997. 1993. Gernot. Marcello Peixoto. 24.ufmg. pp. Information Processing & Management. CASADO. Belo Horizonte. e CENDÒN. “Epistemologia e Ciência da Informação”. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Salvador: [s.n. Anais. University Press. pp. 1. Elias Sanz (Orgs. SARACEVIC. Ribeiro.br/ escoladebiblioteconomia. Tefko.. Information Science: what is it? American Documentation. 2. A interdisciplinaridade da Ciência da Informação determinando a formação de seus profissionais. Paulo da Terra . 3:5. 7. 29. Beatriz Valadares. 229-239. BARBOSA. CAPURRO. Belo Horizonte: UFMG. Revista Ciência da Informação – vol. A Ciência da Informação criadora de conhecimento.].. 19 (1). PINHEIRO. Configurações disciplinares e interdisciplinares da Ciência da Informação no ensino e pesquisa no Brasil. BAX. 1995. Ricardo Rodrigues. n. 2007. A natureza interdisciplinar da Ciência da Informação. BORKO. 1968. GT1 289 . 10 de Novembro de 2003. 99-111. 2009. 2007. janeiro. Acessado no endereço <www. In: Encontro Nacional de Ciência da Informação. CALDEIRA. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. v.REFERÊNCIAS BARBOSA. R. Maria Manuel. et all. Lena V. WERSIG. Salvador.). V.pdf> Acessado em 14 de julho de 2010. Proposta apresentada à UFMG para mudança de nome da Escola de Biblioteconomia. H.00123. Information Science: the study of postmodem knowledge usage.

Palavras-chave: informação. Key words: information. premissas e conclusões que têm sido usados pela Ciência da Informação. a relação entre informação e redução da incerteza e o próprio entendimento sobre o que é informação têm sido os temas de maior divergência. ABSTRACT This paper emphasizes the conceptual differences that common terms to information science and the mathematical theory of Communication have in each of its contexts. meaning. entropia e canal. Foi uma resposta aos problemas de transmissão de sinais por meio de canais físicos de comunicação. Ela considera as condições reais de transmissão. significado. como a presença de ruído e a distribuição estatística da mensagem a ser transmitida. ela contém conceitos. As conclusões foram fortemente baseadas em estatística e em teoremas matemáticos com aplicação direta em sistemas telegráficos. Introdução A Teoria da Matemática da Comunicação foi desenvolvida por Claude Shannon (1948) e Warren Weaver (1949). Information Science 1. Resultados provisórios indicam que o significado. assim como foram discutidas expressões como liberdade de escolha. teoria da matemática da comunicação. Ciência da Informação. GT1 290 . e sua contribuição fundamental foi provar que existe um limite para a transmissão de sinais em um canal físico de comunicação. Apesar desse foco ligado às ciências exatas. Provisional results indicate that the meaning. and discusses the limits of application of this theory in IS.PÔSTER A TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO E A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO William Guedes RESUMO Este trabalho ressalta as diferenças conceituais que termos comuns à Ciência da Informação e à Teoria Matemática da Comunicação possuem em cada um de seus contextos e discute os limites da aplicação dessa teoria na CI. O emprego da palavra informação foi estabelecido de forma rigorosa. the relationship between information and reduction of uncertainty and their own understanding of what information is have been the subjects of greater divergence. e que este limite pode ser calculado. the mathematical theory of communication.

Um ponto crucial para a compreensão da teoria é que a mensagem a ser transmitida é uma dentre várias possíveis. Toda a teoria está baseada nessa probabilidade de uma mensagem ser a escolhida para a transmissão.O uso dessa teoria em trabalhos da Ciência da Informação tem sido possível pela interpretação de seus postulados. A essência da Teoria Matemática da Comunicação e a Ciência da Informação Preliminarmente à apresentação da teoria. viii) receptor. v) fonte de ruído. Sendo uma escolha. ilustrados na figura 01: i) fonte da informação. p. e definiram os seguintes elementos. ii) mensagem. e são os limites para essa interpretação que este trabalho visa discutir. A fonte da informação é quem escolhe a mensagem. 1948. A irrelevância dos aspectos semânticos da comunicação para a engenharia tem uma razão muito simples: um canal de comunicação deve funcionar igualmente. Frequentemente as mensagens têm significado. Shannon (1948) afirma que O problema fundamental da comunicação é o de reproduzir em um ponto ou exatamente ou aproximadamente uma mensagem selecionada em outro ponto. (SHANNON. A compreensão desses elementos permitirá discutir sua aplicação na Ciência da Informação. iv) sinal. qualquer que seja o significado da mensagem que transmite. e ix) destinatário. iii) transmissor. vii) sinal recebido. selecionando-a do conjunto de possibilidades e enviando-a ao transmissor. isto é. Estes aspectos semânticos da comunicação são irrelevantes para o problema de engenharia. elas se referem a ou são correlacionadas com algum sistema com certas entidades físicas ou conceituais. Shannon e Weaver descreveram simbolicamente um sistema de comunicação. GT1 291 . vi) canal de comunicação. há associada a cada mensagem uma probabilidade de ser escolhida e enviada ao transmissor. 1). Figura 01: Diagrama esquemático de um sistema geral de comunicação Fonte: Shannon (1948) – tradução do autor Logo no início de seu trabalho. 2.

Na verdade. em matéria de informação. citando autores brasileiros e estrangeiros. p. 58). nessa teoria. é usada em um sentido especial que não deve ser confundido com seu uso comum. podem ser exatamente equivalentes. duas mensagens. e não em sua definição. e é explicitamente diferenciada de significado. tais como informação e redução de incerteza. mensagem. mas não necessariamente representando os mesmos fenômenos. uma medida da própria liberdade de escolha na seleção de uma mensagem. A informação está relacionada nem tanto ao que diz. Em particular. 1949). trabalharam com conceitos de informação e de redução de incerteza que lhes foram úteis. ao invés de uma definição universalmente verdadeira (BELKIN. e ressaltando que não deve ser confundida com significado. p. a informação não deve ser confundida com significado. 4) A propósito do modo como a palavra informação foi utilizada pela Teoria Matemática da Comunicação. Todos esses são termos usados na CI e que também estão presentes na Teoria Matemática da Comunicação. maior informação andam de mãos dadas (WEAVER. semântica. (Weaver. mas ao que se pode dizer (WEAVER. enquanto que um conceito é um modo de olhar para. informação é uma medida da liberdade de escolha que se tem ao se selecionar a mensagem que será transmitida. a informação tem relação direta com a incerteza: A informação é. A influência da Teoria Matemática da Comunicação na Ciência da Informação Alguns termos presentes na Teoria Matemática da Comunicação são encontrados na literatura da Ciência da Informação. Além disso. ou de interpretar o fenômeno” (BELKIN. do presente ponto de vista. 1978). devemos constantemente lembrar. e isso tem causado mal-entendidos. receptor. 1978. aceitando-se essa ideia. conceituando-a como uma medida da liberdade de escolha ao se selecionar uma mensagem. maior a informação. Shannon (1948) e Weaver (1949) fizeram isso. e este limite é calculado dividindo-se a capacidade do canal pela entropia da fonte de informação. 8). 2008). Esses conceitos de informação e incerteza diferem do uso corriqueiro dessas palavras no diaa-dia. Assim. maior é a incerteza de que a mensagem realmente selecionada é alguma em particular. O trabalho de Pinheiro e Loureiro (1995) é uma coletânea de pensamentos. maior incerteza. definições.1949. maior liberdade de escolha. Shannon (1948) e Weaver (1949) alertaram para o uso peculiar da palavra informação em seu trabalho. fica-se livre para procurar um conceito de informação que seja útil. 1949. portanto. Na Teoria Matemática da Comunicação. O teorema fundamental da Teoria Matemática da Comunicação é que há um limite para a transmissão de sinais em um canal. significado. sem a pretensão de criarem definições. A palavra informação.Informação. Sobre Shannon e Weaver escreveram: GT1 292 . propostas e registros históricos sobre a ciência da informação. uma das quais fortemente carregada de significado e outra que seja puro disparate. A CI tem há muito discutido o conceito de informação (ZINS. Ele diz que seu interesse está no conceito de informação. convém lembrar a distinção entre definição e conceito proposta por Belkin (1978): “uma definição presumivelmente diz o que o fenômeno definido é. p. 3. Quanto maior essa liberdade de escolha e. Argumenta que.

“informação é uma redução de incerteza oferecida quando se obtém resposta a uma pergunta”. Afirma que Medidas de informação – de informação objetiva – foram propostas 50 anos atrás e são usadas na teoria de Shannon aplicada aos sistemas de telecomunicações e computadores. O uso da expressão “redução da incerteza” vinculada a informação aparece em outros trabalhos. relacionou-se a informação como redutora da incerteza. (BROOKES. Ingwersen (1992) aponta a dificuldade de uma conceituação para informação que sirva a todos os propósitos. influenciado pelo senso comum sobre a palavra incerteza. p. e todas as razões porque deveriam. informação pode ser facilmente entendida como aquilo que vai aumentar a certeza. p. mas não vejo razão porque não deveriam ser. incluindo não só os técnicos.46) O conceito de informação usado na Teoria Matemática da Comunicação é específico e sua extensão a outros contextos deve ser cuidadosamente avaliada – afinal. em geral. que vai eliminar a dúvida. 26). quando o colocado por Shannon foi precisamente o oposto. Tal desenvolvimento não pareceu revolucionário.1980 p. Shannon mede a quantidade de informações passando por um fio de telefone.A teoria da informação ou Teoria Matemática da Comunicação. é um conceito. significado está relacionado a informação (INGWERSEN. 1047) Novamente. Exemplifica que “uma abordagem adere à semiótica. por exemplo.1992). 1949). LOUREIRO. 133) Em sua obra. p. não uma definição. Até onde sei. e ressalta que o conceito de medida da informação de Shannon não pode ser aplicado a todo o contexto da ciência da informação onde. traz importante contribuição ao conceito da informação. Brookes (1980) aborda essa teoria de forma diferente. abstrato. mas o legado de um sentido novo. (PINHEIRO. porque sua teoria foi abstrata e aparentemente aplicável a muitos ambientes. mas foi. Os limites da teoria de Shannon para as ciências humanas tornaram-se evidentes. Bates (1999) parece fazer essa interpretação da relação entre informação e incerteza: O primeiro trabalho a ter impacto mais eletrizante foi a teoria da informação de Claude Shannon (Shannon e Weaver. Brookes (1980) estabelece relação entre o que chama de informação objetiva GT1 293 . de informação como redutora da incerteza em quantidades mensuráveis. atentando-se para os conceitos de ambos os termos na Teoria Matemática da Comunicação. 1995. (BATES. mas também linguagem humana e psicologia. manteve-se. ainda que sua origem esteja na solução de problemas técnicos de transmissão de sinais. a outra vê informação como um meio de redução da incerteza” (INGWERSEN. tais medições ainda não foram aplicadas ao conhecimento objetivo. Para Shannon. na comunicação. de Shannon e Weaver. Talvez havido um equívoco na interpretação. isto é. Quando se considera significado. Capurro (2003) também fez a ressalva de que a informação não reduz a incerteza. essencialmente ao significado. A citação sobre a redução da incerteza relacionada à resposta a uma pergunta é contrária à relação que Shannon (1948) e Weaver (1949) apresentam entre incerteza e informação. atribuindo essa capacidade ao que entende como mensagem.

1991. Acesso em: 28 jun./abr. O significado está no conhecimento. 351-360. Warren. 2011. ao menos em parte. não foi estruturada em conhecimento.belllabs. Acesso em: 28 jun.pdf>.2. Conclusão A Teoria Matemática da Comunicação tem sido citada pela CI basicamente nas discussões sobre conceitos de informação. 1. v. v. n. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. Recent Contributions to The Mathematical Theory of Communication. 1995. Journal of Documentation. CAPURRO.htm>. 50. p:1043-1050. p. Conceptions of information science. 2011..capurro. 1978. ZINS. Referências BATES. v. Acesso em: 28 jun.2. Disponível em: <http://ada. Vol. V Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. n.dk/pi/iri>. Information as thing. Brasília. 4. Jun. Peter. p. Feb. José M. 58. v. portanto. 1.3-4. 133). 42.e de conhecimento objetivo. BROOKES. A Mathematical Theory of Communication. 42-53. 335-350. ele afirma que “a informação que ela usa é simplesmente uma sequência programada de sinais. Isso é curioso. apesar de.. B. p.evergreen. Nov.1980. Claude E. p. 1999. London: Taylor Graham Publishing. BELKIN.1-14. Disponível em: <www. Disponível em: <http://cm. Acesso em: 28 jun. 2011. p. n. 24. 2007.1. pode ou não ter significado. cap. PINHEIRO. A relação entre informação e redução da incerteza feita pela CI tem sido diferente daquela presente na Teoria Matemática da Comunicação. The foundations of Information Science: Part I. WEAVER. supostamente. Information Retrieval Interaction. Michael K. Journal of the American Society for Information Science and Technology. n.125-133. A informação objetiva.de/enancib_p. Belo Horizonte. aquelas conclusões. N. Chaim. 1992. Journal of American Society of Information Science. Information Science in context.db. Lena Vania R. Traçados e limites da ciência da informação. que requer interpretação da informação. Journal of the American Society for information Science. SHANNON. v. DF. Peter. 2003. 5. Information Concepts for Information Sciense. R. pois em algum momento parece ter havido um intercâmbio entre os termos comunicação e informação. o que é compatível com o que foi definido na Teoria Matemática da Comunicação. n. 1948. n. 3. essa teoria suportar. Marcia J.C. Epistemologia e ciência da informação.com/cm/ms/what/shannonday/shannon1948.pdf>. 5. INGWERSEN. Ciência da Informação. p. p. Referindo-se à informação que comanda uma máquina. Philosophical aspect. O trabalho de Shannon e Weaver trata da transmissão de sinais e explicitamente desconsidera o significado que eles carregam. I. 2011. BUCKLAND. Mar. J. Disponível em: <http://www. Journal of information Science. M. Permanece informação objetiva” (BROOKES. Sep 1949.. 55-85. In: INGWERSEN. 34. GT1 294 . The invisible substrate of information science. jan. LOUREIRO.edu/~arunc/texts/cybernetics/weaver.

no período analisado. A metodologia compreende a pesquisa bibliográfica e a coleta de dados sobre essa produção no portal da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). que se destaca como elemento primordial da característica interdisciplinar da CI e condição epistemológica essencial à integração com outras disciplinas. a pesquisa foi feita no portal da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). com base no mapeamento da produção científica da pós-graduação stricto sensu brasileira. Simone Faury Dib. oriunda das Instituições de Ensino Superior (IES) e GT1 295 . com o objetivo de coletar dados sobre essa produção. sociais e políticas entre as nações. Palavras-chave: Ciência da Informação. O presente estudo objetiva abordar a relação interdisciplinar entre a área Ciência da Informação (CI) e as disciplinas IC e GC. dinâmica e competitiva. do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). a competitividade entre as organizações determinou um novo modelo de atuação baseado nos conceitos de Inteligência Competitiva (IC) e de Gestão do Conhecimento (GC). no período de 2008 a 2010. do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Com isso. realizou-se pesquisa bibliográfica para contextualizar as temáticas abordadas. mapeando a produção científica da pós-graduação stricto sensu brasileira. A opção pela BDTD/IBICT deveu-se ao fato de ser um repositório de teses e dissertações (TDEs) que reúne a produção científica citada. Mostra que a interdisciplinaridade entre a CI e as disciplinas IC e GC se manifesta no objeto de estudo que partilham – a informação. Gestão do Conhecimento. Inteligência Competitiva. Interdisciplinaridade. disciplinas que fornecem instrumental teórico e prático para captar e utilizar as informações externas e internas em benefício da própria organização.PÔSTER CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: RELAÇÃO INTERDISCIPLINAR COM AS DISCIPLINAS INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO Simone Alves da Silva. tornando-a mais produtiva. Na segunda etapa. A metodologia utilizada no estudo compreendeu duas etapas. no período de 2008 a 2010. 1 INTRODUÇÃO A transição da Sociedade Industrial para a Sociedade da Informação culminou com mudanças econômicas. Na primeira. Neusa Cardim da Silva Resumo: Aborda a relação interdisciplinar entre a Ciência da Informação (CI) e as disciplinas Inteligência Competitiva (IC) e Gestão do Conhecimento (GC). .

no final do processo interativo.de pesquisa brasileiras. a abrangência do conceito não assegura um sentido epistemológico único e estável. de tal forma que. cada disciplina saia enriquecida. Este pensamento corrobora o conceito elaborado por Japiassu (1976..] a fim de fazê-los integrarem e convergirem.. que apenas 50% das 102 universidades públicas brasileiras participam do projeto BDTD/IBICT e. os dados transformam-se em informações. É importante ressaltar que a amostra. isto é. pode ser compreendido como o [. que Japiassu (1976) denomina epistemologia da complementaridade ou da convergência. desse contingente. em sua pesquisa. que implica entender a diferença entre dado. GT1 296 . Os dados referem-se aos fatos objetivos acerca de eventos e registros organizados de transações. Pombo ([2000?]) considera que a melhor noção de interdisciplinaridade está relacionada aos valores da convergência. avaliado e testado e que é continuamente atualizado e enriquecido pela permanente confrontação entre novas informações e aquelas previamente armazenadas em uma memória (que pode ser humana. não deve ser considerada como um retrato fiel do cenário brasileiro. Quando contextualizados.. 1999-2000). não há unanimidade entre os teóricos sobre a significação de interdisciplinaridade. No entanto. depois de terem sido comparados e julgados. Este fato é ratificado por Silva (2011) quando relata. fazendo o uso de esquemas conceituais [. analisado. A discussão sobre a relação interdisciplinar da CI com outras áreas do conhecimento perpassa pela compreensão do conceito de conhecimento. INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO: VISÃO INTERDISCIPLINAR No início da década de 70.. cuja principal proposta era atender à emergência de uma nova epistemologia. Conhecimento.] estoque de informação que foi processado. por sua vez. informação. 75): [. apenas 17 incluíram na base um quantitativo superior a 1. a expansão da especialização da ciência. havendo visões diferenciadas para o seu papel. por essa razão.. DOU. induz ao debate sobre a interdisciplinaridade nos espaços das instituições acadêmicas e das grandes organizações internacionais. 2 CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. conhecimento e inteligência. uma vez que apenas parte das IES brasileiras participam da BDTD/IBICT e as que participam podem não ter disponibilizado toda a sua produção.. embora representativa. há uma certa reciprocidade nos intercâmbios. da complementaridade e do cruzamento. categorizados ou condensados.] a colaboração entre as diversas disciplinas ou entre os setores heterogêneos de uma mesma ciência [que] conduz a interações propriamente ditas. tomar de empréstimo a outras disciplinas certos instrumentos e técnicas metodológicos. provocada pela fragmentação das áreas de conhecimento. (COELHO.000 TDEs. p. Possibilita incorporar os resultados de várias especialidades. eletrônica ou a experiência de uma instituição).

por sua condição de artefato e substrato de todas as ciências. resultando em mudanças econômicas. juntamente com a consolidação de sua denominação. para tomada de decisão e solução de problemas. p. como o social. O aprofundamento da discussão sobre a relação interdisciplinar da CI com cada campo do conhecimento ocorreu na década de 90. Saracevic (1995). Verificou que. introduzido na rede interna de circulação. da Biblioteconomia. classificação. na discussão conceitual entre IC e GC. O mesmo acontece com a IC e a GC em relação a áreas como Administração. Gestão da Informação. implementar ações e tomar decisões. Políticas de Informação. A informação. da Tecnologia de Computadores.Na visão de Jequier e Dedijer (1987 apud COELHO. a inteligência representa a soma dos demais conceitos – que possibilita ao ser humano utilizar todo o tipo de informação e conhecimento para planejar estratégias. Pinheiro (2006). mapeou o campo interdisciplinar da área e constatou sua constante mutação. Engenharia e Ciência da Computação. Quanto à IC.] a Gestão do Conhecimento promove a codificação e a circulação do conhecimento internamente. o institucional e o organizacional. da globalização do mercado e ao acirramento da competitividade entre as empresas. aumentando o valor agregado. 236) [. Pinheiro (2006) ressalta que. demonstra a plasticidade e o caráter interdisciplinar da área ao mencionar que ela é devotada à investigação científica e prática profissional que trata dos problemas de comunicação de conhecimentos e registros. A autora atribuiu o surgimento da IC e da GC ao advento da Sociedade da Informação. da Lingüística. Borko (1968) também destaca o caráter interdisciplinar da CI. bem como do uso da informação em diversos contextos. para desenvolver análises GT1 297 . a Administração mantém uma estreita relação interdisciplinar com a CI. 1999-2000).. organização e disseminação de conhecimento relevante para áreas da organização. como a IC e a CG. ao afirmar que a área deriva da Matemática. métodos e teorias (PINHEIRO. Na visão de Canongia et al. enquanto a Inteligência Competitiva fornece meios para adquirir conhecimento sobre o ambiente externo.. da Lógica. da Administração entre outras. com as quais também se relaciona. 2006). Gestão do Conhecimento e Inteligência Competitiva. em pesquisa empírica. tanto externamente como internamente à organização. (2004. Alves (2008) estabelece uma delimitação de âmbito e escopo ao considerar que a GC se concentra na identificação. uma vez que os campos nem sempre são descritos com claras delimitações. sociais e políticas entre as nações. desde a década de 90. Alves (2008) afirma que a disciplina se concentra na recuperação de recursos informacionais. em seu conceito de CI. das novas tecnologias da informação e comunicação. é importante estabelecer algumas distinções. DOU. conhecimento esse que pode ser. pela utilização de conceitos comuns. em grande parte. como Sistemas de Informação. Nesse sentido. princípios. destaca-se como elemento primordial da característica interdisciplinar da CI e condição epistemológica essencial à integração com outras disciplinas.

Foram recuperados 164 documentos. o que pode ser observado no levantamento da produção científica. não foram computados. As TDEs depositadas na BDTD/IBICT. e com outras áreas do conhecimento. em 2008. O período analisado indica crescimento. é no Centro-Oeste do Brasil que se encontra a IEs com o maior percentual de TDEs em IC – a Universidade Católica de Brasília. nas duas temáticas.. em TDEs. a produção em GC ainda é superior à em IC. na temática IC. p. sendo o ano de 2010 o mais produtivo. realizado na BDTD/IBICT. 1976. contribuindo. favorecendo as “[. pois possibilita. Em comparação com os anos posteriores. Constatase que 83% dessa produção corresponde às dissertações e apenas 17% às teses. Assim. que a perspectiva interdisciplinar torna-se fundamental ao desenvolvimento científico e à produção de inovação. “[. No entanto. enquanto. respectivamente. portanto.estratégicas que irão subsidiar a tomada de decisão e assegurar o caráter competitivo da organização. 3 INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO: PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA BDTD/IBICT Os dados coletados foram reunidos por ano. Embora alguns programas de pós-graduação tivessem nomenclatura parecida. no período de 2008 a 2010. regiões do país e programas de pós-graduação. foram mantidos individualmente. em virtude de suas especificidades. constata-se que a maioria das universidades (75%) que tem produção científica em IC apresenta produção em GC. 14). se pública ou privada. p. instituições em que foram elaborados os trabalhos acadêmicos e as respectivas regiões do Brasil e Programas de pós-graduação que originaram as TDEs.] trocas generalizadas de informações e de críticas. A análise dos dados baseou-se nas variáveis: quantitativo de TDEs produzidas em IC e GC. instituição de origem. com percentuais de 42% e 33%. revelam a sua natureza interdisciplinar. verificase que as TDEs em GC foram produzidas em 29 instituições. dessa forma. Verifica-se.] tocar zonas do objeto de investigação que o olhar disciplinar especializado não permitia ver”. 32). sendo que 74% são dissertações e 26% são teses e.” (JAPIASSU. A produção em GC foi a mais representativa. as relações da IC e GC com a CI. Ao comparar esses dados. Os dados referentes à classificação das instituições. O quantitativo da produção.. compreendendo 26 universidades e três centros de pesquisa. Este fato também ocorre em relação à GC: a região Sudeste concentra a maioria das instituições com GT1 298 . registrou-se o maior quantitativo de dissertações produzidas no tema. segundo a concepção de Pombo ([2000?]... percebe-se que houve diminuição dessa produção. totalizaram 24 documentos. para uma reorganização do meio científico. posto que todas utilizam conceitos e ferramentas comuns no trato da informação. Embora a maioria das universidades com produção científica em IC fique localizada nas regiões Sudeste e Sul. indica a elevação da produção em IC e o decréscimo em GC. As TDEs que abordam IC foram produzidas em 12 universidades do país. tipo de publicação.

entre elas a de Ciência da Informação e a de Administração. A produção científica em IC indica as diversas áreas com as quais mantêm relações interdisciplinares. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A literatura indica que a interdisciplinaridade da IC e da GC manifesta-se no objeto de estudo que partilham – a informação –. uma vez que o seu objeto de estudo perpassa as diversas áreas do conhecimento. tanto em IC quanto em GC. tendo em vista que apenas em dois programas de CI esse tipo de produção foi encontrada.essa produção (45%). No caso da GC. como também pela incidência de programas de pós-graduação que abordam as temáticas. o de Ciência da Informação. seguido pelos programas de Gestão do Conhecimento e da Tecnologia da Informação (25%) e. Com isso. a CI tem papel fundamental. conhecimento e tecnologias. Ainda que o estudo seja representativo apenas da produção nacional depositada na BDTD/ IBICT. com apenas 9% do conjunto. portanto sujeito a limitações. tal como o da IC e da GC. O mapeamento realizado revelou as instituições que investem no desenvolvimento das temáticas no país. Engenharia e Gestão do Conhecimento (23%). informação. Observa-se que a GC envolve um quantitativo expressivo de programas e de instituições. Há diversas áreas do conhecimento que possuem produção científica. na temática GC. Acredita-se que este fato esteja relacionado à busca GT1 299 . apesar da interdisciplinaridade da IC com a CI. sendo que os PPGs em Administração lideraram as áreas com 42% do universo pesquisado. nas duas temáticas. revela o interesse dos pesquisadores nas temáticas IC e GC. Neste cenário interdisciplinar. são representativos do que se produziu no Brasil de 2008 a 2010. Os dados apresentados. Os quatro programas com maiores percentuais foram Gestão do Conhecimento e da Tecnologia da Informação (23%). É interessante observar que. Cabe destacar a importante participação das instituições localizadas no Nordeste (24%). o que é evidenciado não apenas pela produção de TDEs. O estabelecimento de relações estreitas com a CI poderá se consolidar tendo em vista as relações interdisciplinares que essas disciplinas mantêm com áreas de conhecimento comuns. como a Administração e a Ciência da Computação. os resultados sugerem que a temática começa a ocupar espaço timidamente na agenda dos PPGCIs. Administração (15%) e Ciência da Informação (10%). o que ratifica o seu caráter interdisciplinar com diversas áreas do conhecimento. com cinco programas tratando da temática. há um número elevado de PPGs produtores. no Norte do país. e que há contribuições mútuas para o aperfeiçoamento dos processos que a envolvem. embora restritos à produção disponível na BDTD/IBICT. embora nas regiões Sul e Centro-Oeste estejam as universidades com maior produção de TDEs em GC. e registrar a ausência dessa produção. observa-se a relação estreita entre IC e GC e as áreas que tratam de gestão. No caso da GC. no período delimitado. a representatividade da CI foi maior.

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7. 2006. 2011. Ci. Rio de Janeiro. Inf. 2011. Interdisciplinary nature of informations science.PINHEIRO. mar. Olga. Brasília. Marília. 1995. Interdisciplinaridade e integração dos saberes. Disponível em: <http://dici. SILVA.pdf>.br/liinc. Repositório digital na universidade pública: o caso da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Universidade Federal do Rio de Janeiro em convênio com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia.ibict.ibict. Anais. 3-15.br/archive/00000598/01/natureza_interdisciplinar. 2011. Marília (SP). Acesso em: 06 jun. p. Disponível em: http://www. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Faculdade de Administração e Ciências Contábeis. 24. n. SARACEVIC. Acesso em: 15 ago. 141 f. Neusa Cardim da.. 2005.. Liinc em Revista. Tefko. Orientadora: Rosali Fernandez de Souza..1. POMBO. GT1 301 . SP.1. Movimentos interdisciplinares e rede conceitual na Ciência da Informação. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. v. v. 1. 2010. 2006. n.. Lena Vania Ribeiro.

e o impacto de tais normas nos arquivos. já que no ordenamento jurídico brasileiro há diferentes interpretações a respeito dos mecanismos previstos por este quanto à segurança das informações contábeis armazenadas em meio digital. 2004). Para tanto. 1 INTRODUÇÃO Apesar de não haver em nosso ordenamento jurídico hierarquia quanto aos meios de prova. fundamentando-a em autores como: Bellotto (2004). Palavras-chave: Documento. Para o desenvolvimento do presente trabalho.PÔSTER DO DOCUMENTO CONTÁBIL ELETRÔNICO ENQUANTO PROVA: ANÁLISE INTERDISCIPLINAR ENTRE O DIREITO E A ARQUIVÍSTICA. documento eletrônico e a validade destes como meio de prova legítima no processo judicial. Tais mudanças fazem emergir no cenário jurídico brasileiro discussões acerca do que vem a ser documento. legislação vigente. Nos processos judiciais que versam sobre a questão contábil. autenticidade e integridade dos documentos eletrônicos contábeis. mister se faz a análise a respeito das semelhanças e diferenças entre a arquivística e o direito no que tange ao próprio conceito de documento e à segurança. o documento é. Marion (2004). Otlet (1996). Ou seja. Arquivística. o documento é considerado a prova mais importante possível de ser apresentada pelas partes em uma lide processual. o único modo de que dispõem as partes para provarem os fatos alegados. Greco Filho (2006). verificamos em que medida a legislação brasileira prevê e legitima a utilização de documentos eletrônicos na contabilidade das instituições. Direito. Além disso. Analisamos a maneira mediante a qual o ordenamento jurídico brasileiro e a arquivística concebem o próprio conceito de documento e consequentemente o de documento eletrônico. João Batista Ernesto Moraes Resumo: O principal objetivo do presente trabalho gira em torno do estudo comparativo entre o direito brasileiro e a arquivística no que diz respeito ao documento contábil eletrônico enquanto prova. jurisprudência. na maioria das vezes. Ortega e Lara (2010). públicas e privadas. Rúbia Martins. Petrenco (2009). Documento contábil eletrônico. Assim. foram analisadas as mudanças ocorridas na legislação brasileira durante a década de 2000 no que concerne à legitimação do uso de documentos contábeis eletrônicos e seu impacto nos arquivos. Santos (1994). Houve consideráveis mudanças na legislação brasileira quanto aos documentos contábeis eletrônicos principalmente a partir de 2007. com o advento do Sistema Público de Escrituração Digital – Sped. (MARION. GT1 302 . a documentação contábil é considerada a “rainha das provas”. quando se trata de fatos contábeis controvertidos. utilizamos eminentemente a pesquisa teórica bibliográfica (análise de doutrinas. periódicos e sites especializados no assunto).

que é aquele quem recebe as informações do documento. GRECO FILHO. 2 O CONCEITO DE DOCUMENTO CONTÁBIL Para analisarmos o conceito de documento contábil mister se faz apresentarmos breve explanação a respeito do próprio conceito de documento. No entanto. Ou seja. ensino. extratos bancários. o conceito de documento deriva da necessidade de transmitir informações dos mais diversos modos possíveis e pressupõe a existência de um receptor. 13). Ortega e Lara (2010). cultura e lazer. há intensa discussão entre juristas e representantes do Poder Judiciário pátrio a respeito da segurança. p. comprovantes de débitos/ 67 Para explicarmos a concepção da documentação no âmbito da arquivística é de fundamental importância o estudo das obras de YEPES (1995) e LOPES (1998). também ressaltam essa condição de informatividade presente na noção de documento e citam Paul Otlet como o principal documentalista e teórico da Documentação. fônico (etc). “a proposta de Otlet pode ser resumida na noção de documento como registro do pensamento individual que permite o transporte de idéias. nas lides processuais que versam sobre questões contábeis o documento contábil é elemento fundamental no quesito provas. define documento como “a coisa representativa de um fato e destinada a fixá-lo de modo permanente e idôneo. Segundo Bellotto (2004). comprovantes de despesas e custos. autenticidade.” (ORTEGA. 2010).Nos últimos anos. Houve nos arquivos contábeis. O ordenamento jurídico brasileiro passou a prever instrumentos normativos com relação à validade probatória de tais documentos. duplicatas pagas. 387). Importante salientarmos que os documentos possuem valor probante variável no âmbito jurídico na medida em que apresentam em seu conteúdo elementos que os indiquem como equivalentes à verdade fática. Conforme indicamos em nossa introdução. GT1 303 . p. na medida em que satisfaçam às características de autenticidade (procedência) e de integridade (conteúdo original). como por exemplo: notas de compra e venda de serviços. 67 Já no âmbito jurídico. 2002. plástico. reproduzindo-o em juízo”. (RAMIRES. evidenciaram-se profundas mudanças quanto ao suporte material desses documentos. servindo como instrumento de pesquisa. há enorme abrangência quanto ao que pode ser considerado documento. 2006). 2010. Moacyr Amaral Santos (1994. (MARQUES. Para as autoras. integridade e valor probante dos documentos contábeis eletrônicos. iconográfico. Seria a informação registrada em um suporte material. LARA. a introdução dos documentos contábeis eletrônicos. busca-se conceituar o documento como o meio através do qual objetivase a provar a existência de algum fato. através do qual o homem manifestaria o seu pensamento. Por documento contábil entende-se toda e qualquer informação proveniente do conhecimento contábil registrada em um suporte material. Este seria qualquer elemento gráfico. Dessa forma.

pela Resolução 1. Existem outros suportes de fixação da informação e. Esses documentos são utilizados para a realização da escrituração contábil. 2009). 3 O DOCUMENTO CONTÁBIL ELETRÔNICO COMO MEIO DE PROVA Como sabemos o papel não é o único suporte material possível do documento. papéis.1). estabelecendo normas para a escrituração contábil em meio digital (BRASIL. 3) documentos administrativos. percebemos que a adoção de uma política de preservação de documentos contábeis deverá estabelecer uma Tabela de Temporalidade mediante a qual todos os documentos estejam discriminados individualmente com suas respectivas fundamentações legais. e a sua eliminação deve respeitar. 2009). inclusive.020.1 todos os documentos. período que corresponde a 1 (um) ano.]. (FRANCO. etc. Dessa maneira.200-2.. os documentos contábeis digitais devem estar GT1 304 . Cada um desses tipos de documentos contábeis possui prazos diferentes quanto à transferência. No início dos anos 2000 a publicação da Medida Provisória nº 2. Os prazos prescricionais dos documentos utilizados na contabilidade são analisados e fundamentados em lei quando estes se encontram no arquivo intermediário. que apóiam ou compõem a escrituração contábil [.. Existem quatro tipos de documentos contábeis: 1) documentos financeiros e fiscais de transações de entradas e saídas. Segundo a Norma Brasileira de Contabilidade Técnica 2 (NBCT 2). Haja vista. 1985. 1997). a gestão dos documentos contábeis eletrônicos. registros e outras peças. Tais normas permitem aos contabilistas e às entidades contábeis a digitalização de livros e documentos contábeis e fiscais.] 2. 4) documentos de informações de empregados e previdência social e demais tributos. 2) documentos de registros das transações. Os livros contábeis mantidos em meio digital devem ser protegidos contra fraudes através da assinatura digital. o Conarq.. as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Arquivos. eliminação e recolhimento em arquivos. Dessa maneira. pois os prazos prescricionais desses documentos são diferentes conforme o tipo e a função que apresentam. No dia 02 de março de 2005. 2001). p..2. entre eles. Tal política de preservação de documentos contábeis vem encontrando. o Conselho Federal de Contabilidade publicou a Resolução 1. Os documentos que possuem o meio digital como suporte material são chamados de documentos eletrônicos. Além disso. alterada em 23 de dezembro de 2005. que os documentos contábeis permanecem no arquivo corrente durante todo o exercício social da entidade contábil. mediante a qual se registram em livros próprios todos os atos e fatos ocorridos com a finalidade de construir e relatar o histórico patrimonial da entidade contábil. de 24 de agosto de 2001.créditos bancários. (RIBEIRO. criou a ICP-Brasil através da qual determinou-se a validade de documentos assinados digitalmente (BRASIL. o meio digital. os documentos contábeis devem ser analisados caso a caso conforme legislação vigente. livros. (BRASIL.063. nos últimos tempos. 2001).” (BRASIL. (PASA. a documentação contábil compreende “ [. 2005). um novo desafio.

Assim. Dessa forma. H. O Sistema Público de Escrituração Digital – Sped. O fato é que ainda existem muitas dúvidas no ordenamento jurídico brasileiro quanto à manutenção da autenticidade e da integridade dos documentos contábeis eletrônicos faltando ao magistrado subsídios normativos para valorar esta tipificação documental enquanto meio legítimo de prova documental. 4 CONCLUSÕES A figura do documento contábil eletrônico em nosso sistema jurídico é extremamente recente. (PASA. merece destaque nesta seara.022.2007 e açambarcado pelo Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC 2007-2010). e para que tais documentos sejam capazes de provar a verdade fática discutida no processo. instituído formalmente pelo Dec. Arquivos permanentes: tratamento documental. Dentre tais requisitos. 156). – Rio de Janeiro: Editora FGV. p.autenticados por um tabelião. L. – 2. REFERÊNCIAS BELLOTO. 1995). ed. de modo que não possa ser adulterado sem deixar vestígios localizáveis. e segurança. Tais requisitos estão extremamente vinculados à idéia de valor probatório dos documentos eletrônicos. 2009). identificar a sua procedência. torna-se fundamental a profunda análise a respeito do que vem a ser o documento e o documento eletrônico enquanto prova sob as concepções arquivística e jurídica para que possamos desenvolver um quadro teórico de referência sobre o documento contábil eletrônico como meio de prova lícito e legítimo. Podemos afirmar que o ordenamento jurídico pátrio vem produzindo vários instrumentos normativos a fim de legitimar e atribuir valor probante aos documentos contábeis eletrônicos. que objetiva a substituição gradual da emissão de livros e documentos contábeis e fiscais em papel por seus correspondentes eletrônicos. 2004. 2001. de 22. podemos citar que o documento eletrônico deve: possuir carcacterísticas que possibilitem sua posterior consulta. Segundo Ramalho e Pita (2009. e garantir a consistência de seu conteúdo original. SOUZA. GT1 305 . eles devem apresentar: descrição dos fatos que se quer registrar. 6. (SANTOLIM.01. identificação das partes de maneira inequívoca. ao analisarmos o documento eletrônico como meio de prova devemos trazer à baila duas características apontadas pela doutrina jurídica e pela arquivística como fundamentais à prova documental: a autenticidade (procedência) e a integridade (conteúdo original). Devemos lembrar que a alteração de suporte dos documentos e livros contábeis e fiscais deve satisfazer a todos os requisitos de validade probatória dos quais estão investidos os documentos contábeis registrados em papel.

A.portaldecontabilidade. A. 2001. Formação e eficácia probatória dos contratos por computador. Contratos eletrônicos e validade da assinatura digital. S. GRECO FILHO. 02 mar. RIBEIRO. Teoria e historia.11 n. G. J. de 2010. A imagem e a sombra da arquivística. – São Paulo: Saraiva.planalto. ORTEGA. Dispnível em: <http:// lib.datagramazero.gov. YEPES. S. O uso de documentos eletrônicos na contabilidade. _______________. ed. 2010. 2010. . ed. C. A prova documental na internet.CONARQ. Acesso em: 12 dez.. Contabilidade geral fácil. 2010. Primeiras linhas de direito processual civil. Disponível em: <http://www. São Paulo. MARION. 2009. 72-83. Curitiba: Juruá. – São Paulo: Saraiva. Diário Oficial da União. 2002. Diário Oficial da União. de 24 de agosto de 2001.cfc. As provas como instrumentos de efetividade no processo civil. jan. SANTOS. Acesso em: 12 fev. maio . . V.CFC.jun. In: DataGramaZero . – 2. C. Conselho Federal de Contabilidade . A nota fiscal eletrônica e sua validade jurídica como meio de prova no processo civil tributário. H.gov. L. org.abr. LOPES. Rio de Janeiro (Brasil). L. RAMALHO. Trad. Montreal. Quebec (Canadá): Arquivo Público. Contabilidade e seu valor probante. 2001.2 abr. L. 2009. – 5. 2. v.ugent. SOUZA. 2011. Disponível em: < www. 2011. O. ampl. Acesso em: 10 fev. de 18 de fevereiro de 2005. ed. – Curitiba: Juruá. MARQUES. 431 p. C.htm>. – 5ª reimpr. Bruxelles: Mundaneum.São Paulo: Saraiva. Revista Tributária e de Finanças Públicas . 1. 86. M. e atual. Legislação arquivística brasileira. M. V. 2009. T. E.pdf>. 14. Acesso em: 07 fev. V. L. Acesso em: 14 jan. OTLET.. Disponível em: <http:// www. Brasília. 2005. A. 597 de 14 de junho de 1985.Curitiba: Juruá.br/ccivil_03/MPV/ Antigas_2001/2200-2. D. Disponível em: < http://www.br>.htm>. 14 jun. P. Acesso em: 18 out. 1998. 2006. Resolução Conselho Federal de Contabilidade – CFC nº. P. G. 1997. PETRENCO. – São Paulo: Atlas. Medida Provisória nº. 1985. Murcia: Universidad de Murcia. 2010. Juarez de Oliveira. La documentacion como disciplina. FIPECAFI – FEA – USP. Resolução nº. 2004. – Pamplona: Ediciones Universidad de Navarra. 1934.Revista de Ciência da Informação .br>. Conselho Nacional de Arquivos . _______________. PASA. ed. D. 25. por Maria Dolores Ayuso García.200-2.br>. Disponível em: <http://conarq. R. L. H. ed. com. ed. p. 1995. Poder Executivo. – 2. A noção de documento: de Otlet aos dias de hoje. 2009.19. C. M. V.org. RAMIRES. n. PITA. GT1 306 . Contabilidade básica. 27 ago.arquivonacional. São Paulo: Ed. São Paulo: Saraiva. ed. (EUNSA). DF. J. S. Contabilidade geral. _______________. 1996. n.RTRIB. LARA.020. – São Paulo: Atlas. A. A. Tradução de: Traité de Documentation: le livre sur le livre: théorie et pratique. FRANCO..v. 1995. L. – 7.BRASIL. 1994. C. /2009. 2009. Direito processual civil brasileiro. Revista Contabilidade e Finanças. F.br/nbc/index. SANTOLIM. M. El tratado de documentación: el libro sobre el libro: teoría y práctica.. Ano 17. 2 – 16. Diário Oficial da União.be/fulltxt/handle/1854/5612/Traite_de_documentation_ocr. vol. – 23.

de apreensão do pensamento desenvolvido por Foucault ao longo dos anos. INTRODUÇÃO A noção de Verdade é algo caro à filosofia e. Na busca da apreensão deste desígnio. arquivo 1. 1999) através do viés de seu caráter seletivo desdobrando na questão da formação do Arquivo enquanto indício. na intenção de estabelecer um arcabouço teórico que pudesse sustentar a argumentação que se pretende desenvolver. donde. (ibidem). mas os GT1 307 . Jacques Le Goff (Documento/Monumento. p. partindo para a noção de arquivo enquanto lugar de memória. subjaz uma vontade de verdade e justificação. Iniciase então. Entretanto. as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos. geralmente de forma inconsciente. 2006 [1951])). Assim. prova (Briet. de forma breve. Microfísica do Poder. a noção de verdade. 1969. 1985 e González de Gómez. Nisto estaria presente. A partir da definição da perspectiva apreendida. verificar-se-á a abrangência do conceito de Ação de Informação (Wersig.2. dada a amplitude de sua possibilidade. possivelmente. 1977). informação . estabelecerse-á um inter-relacionamento entre os pensamentos dos franceses Pierre Nora (Lugares de Memória. as imagens. não poderia deixar de ser para a Ciência da Informação e a Arquivística em geral. numa reflexão sobre as práticas documentárias (Frohmann. A arqueologia busca definir não os pensamentos. 2003. são o modo de pensar que afeta todos os indivíduos pensantes daquela época”. “Tais coisas são essencialmente distintas da inclinação subjetiva ou até da ignorância coletiva – pelo contrário. 1993). 2001) e Michel Foucault ( A Arqueologia do Saber. toda gama de pré-supostos e preconceitos. que estrutura e põe limites no modo de pensar de um determinado espaço de tempo. apreender a totalidade que esta noção implica é uma tarefa que por si só justificaria inúmeras teses. 1970. 2004) em busca de uma filosofia da informação. Segue: Ao tratar do termo arqueologia Foucault “pretende a exumação das estruturas de conhecimento ocultas que dizem respeito a um período histórico particular” (STRATHERN. Palavras-chave: verdade -1 .36). A Ordem do Discurso. como tal. os temas. Jacques Derrida (O mal de Arquivo. definiu-se utilizar como recurso para este fim a noção de verdade empreendida por Michel Foucault. 1979). A INFORMAÇÃO E O ARQUIVO: PRIMEIRAS IMPRESSÕES NA BUSCA POR UMA FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO Aluf Alba Elias Resumo: Investiga-se através da contextualização do pensamento filosófico contemporâneo. um esforço ainda preliminar. as representações. Entretanto.PÔSTER A VERDADE. para o exercício de extração desta noção faz-se necessário a imersão no significado de alguns termos que são centrais em sua metodologia de investigação.

p.158) Por episteme.próprios discursos. preconceitos e tendências que estruturam e delimitam o pensamento de qualquer época”. 1991. A épistémè é o ‘aparato’ que torna possível a separação. enquanto práticas que obedecem a regras. 37). 68 Epistemologia (do gr. tendo em vista alcançar seu valor objetivo –.) não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo. aquilo que é o objeto do desejo”. (FOUCAULT. declarações e crenças produzidas por uma determinada episteme”. atingindo inclusive sua noção de verdade. Colocando nestes termos.36). que Foucault convencionou chamar de discurso que é “a acumulação de conceitos. Foucault determina “todo o conjunto de pressupostos. p. 2003. c) a história das ciências. (.). tudo indica que jamais se poderá lograr uma verdade. p. Não se trata de uma disciplina interpretativa: não busca um “outro discurso” mais oculto. Recusa-se a ser “alegórica”. Ela não trata o discurso como documento. 2008. foi mais tarde ampliada dando origem à noção de saber/poder. Estaria relacionada à determinação dos limites das experiências vividas em um período. 2007.82-83) GT1 308 . como signo de outra coisa (. leva a indagar que.. Como salienta Paul Strathern (2003). na extensão de seu conhecimento. mas entre o que pode ou não pode ser caracterizado como científico. p. (JAPIASSU e MARCONDES. Ainda sim.(ibidem.. é. ela se dirige ao discurso em seu volume próprio. Segundo Foucault (1996. 2003. pode originar uma forma de conhecimento. o poder do qual nos queremos apoderar. se o modo de pensar será sempre determinado por uma episteme. na qualidade de monumento.) “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação. episteme: ciência. pois ajuda a compreender a inaplicabilidade da verdade absoluta.. p. mas de um campo de cientificidade. pelo que se luta. “pois toda verdade é relativa e só depende de como as coisas são vistas”. Eu definiria épistémè retroativamente como o aparato estratégico que permite a separação – entre todas as afirmações possíveis – aquelas que serão aceitáveis dentro de não de uma teoria científica específica. 247) A episteme. [Essa separação] torna possível dizer que algo é verdadeiro ou falso. não entre verdadeiro ou falso. o conceito de episteme desdobrou-se para a formulação da primeira noção de discurso. (STRATHERN. p. E perfaz-se: se todas as epistemes são contingentes. que como um estopim de investigação. a questão da episteme foucaultiana é cara a esta intenção de pesquisa.44). p.. mas aquilo por que. práticas.. b) a filosofia das ciências – empirismo. e logos: ciência) Disciplina que toma as ciências como objeto de investigação tentando reagrupar: a) a crítica do conhecimento científico – exame dos princípios. neste molde. 10): O discurso (. (FOUCAULT. como se pode provar que uma é melhor que a outra? Impossível. também. ralacionismo etc –. das hipóteses e das conclusões das diferentes ciências.. cuja palavra deriva “da mesma raiz grega que o ramo da filosofia conhecido como epistemologia”68. (STRATHERN.

(p. ensinar. o saber/poder e a questão da verdade ou Regimes de Verdade. Não existe possibilidade de desvinculação entre a verdade e sistema de poder. validação. 526). (ibidem. 1999. Documento.. “a verdade está circularmente ligada a sistemas de poder.)”. Isso envolve a questão das inscrições. Para o autor. “E essa vontade de verdade apoiada sobre um suporte e uma distribuição institucional tende a exercer sobre os outros discursos uma espécie (. Não há dúvida de que há uma seleção do que servirá como informação. dos livros. Talvez resida aí o fundamento da colocação de Jacques Le Goff (2010 [1977]): “todo documento é mentira”. de certa forma. se origina de documentum. pois isso “seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder”. (p. p. 18). fornece a essa intenção de pesquisa possibilidade de estender o diálogo entre outros autores.14) A vontade de verdade se apoiou. p. Observar a relação entre a vontade de verdade e o suporte institucional. voluntária e involuntária das sociedades históricas. Emerge a questão da disciplina induzida pelos jogos de verdade e a vontade de poder. Até a palavra de lei parece não ser mais autorizada. No “séc XVII se difunde na linguagem jurídica francesa a expressão tritres et documents.( FOUCAULT. A ação implica na vontade de verdade. insistiram na ampliação da noção de GT1 309 . quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa (. que a produzem e a apóiam.) e de mostrar em que medida o documento é um instrumento de poder (. em um suporte institucional.. (p. um desejo de materializar algo. trata-se de por à luz as condições de produção (.. os fundadores da revista Annales d`Histoire Économique et Sociale (1929). mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade. Para Le Goff à memória coletiva aplica-se a dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos e neste sentido “o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado.” (Le Goff. senão por um discurso de verdade. em relação ao caráter seletivo das ações de informação. sendo reforçada e reconduzida por um conjunto conciso de práticas: sistemas de pedagogia. p. levar em conta o “fato que todo documento é ao mesmo tempo verdadeiro e falso.) de poder de coerção”. e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem (. prova e isso inclui a problemática do discurso que se deseja. 525).. evoluindo posteriormente para o significado de prova. “significa um sinal do passado e liga-se ao poder de perpetuação.. como os outros sistemas de exclusão.. Monumento deriva da palavra latina monumentum. Ou seja. (p. através de González de Gómez (1999). em nossa sociedade.. mas não unicamente..)”. 17). de bibliotecas.. Na década de 20 do séc. Aqui se pode notar uma zona de convergência com os estudos empreendidos pela CI.)”. ou seja..Deste modo fica mais evidente o inter-relacionamento entre o discurso. da mesma forma. 2008. quer dizer. Essa materialidade seria uma espécie de conceito social. documenta-se para fora a fim de dar durabilidade. documento. 525). tratando mais especificamente da questão da ação de documentar. que deriva de docere. como a sociedade dos sábios de outrora. pois apesar destas serem dotadas de intencionalidade sua legitimidade está no valor indicial. Documentar sugere. XIX com a advento do movimento da história nova. 19).

.7) talvez isso explique o fato de “nenhuma época foi tão voluntariamente produtora de arquivos como a nossa” (p. “há que se tomar a palavra documento no sentido mais amplo. Nas palavras de Samaram apud Le Goff. O valor documental (prova/testemunho) não seria mais uma exclusividade do documento escrito. nos vimos obrigados a acumular (. Fazendo um paralelo com o que Pierre Nora (1993) definiu como lugares de memória que. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo”. numa acepção tríplice.] rituais de uma sociedade sem ritual.. Estamos com mal de arquivo. a imagem ou qualquer outra maneira”. que deve ser desmistificado em seu aparente significado. Le Goff desconsidere que isto decorra da explosão documental. um ensinamento. pode significar outra coisa que não sofrer de um mal. transmitido pelo som.. lugares funcionais (um testamento) pois possuem ou adquiriram a função de subsidiar memórias coletivas.) para impor ao futuro determinada imagem de si própria”. “O documento é um monumento na medida em que é o resultado do esforço das sociedades históricas (. estar com mal de arquivo. (p.15).. “Há locais de memória.. antes de tudo restos [. Trazendo Jacques Derrida (2001) para o diálogo vemos que “a perturbação de arquivo deriva do mal de arquivo. documento escrito.)” e é “impossível prejulgar aquilo que se deverá lembrar. Como objetos de uma construção histórica. e lugares simbólicos (um minuto de silêncio) por onde a memória coletiva (uma espécie de identidade) se expõe e manifesta.” (p.. 538). 531).documento.15). assim como Paul Otlet alguns anos mais tarde. a constituição de tudo em arquivo. a própria CI.) vestígios. pois “à medida em que desaparece a memória tradicional. Daí a inibição em destruir. (. do seu valor como documento e monumento capazes de revelar os processos sociais. ou seja..12-13). pois não existe mais meios de memória” (p. Corroborando com as idéias de Foucault. “O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado... Jacques Le Goff conclui que “qualquer documento é ao mesmo tempo verdadeiro e falso.) começar a demolir essa montagem.” (p. inclusive. são alinhavados como lugares materiais (um depósito de arquivo. Escutando o idioma francês e nele.. Cita Paul Zumthor para revelar que o que transforma o documento em monumento seria sua utilização pelo poder. o atributo em mal de. muito embora. uma montagem.. (p. por exemplo) onde se aporta a memória social e pode ser alcançada pelos sentidos.536). Mas os lugares de memória estão distantes de ser uma entidade natural e espontânea. Houve a simbiose dos termos documento/monumento. o interesse pelo seu exame vem. um testemunho. os conflitos. pois o monumento é uma roupagem. os revestem de uma função icônica. o que deu origem.. A ampliação desta noção foi a mola propulsora para a explosão documental a partir dos anos 60 (p.) documentos (. É preciso (. lugares carregados de uma vontade de memória. justamente. Efetivamente o documento é a coisa que fica. ilustrado. os interesses e as paixões e que de forma conscientemente ou não. “são. é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de força que aí detinham o poder. É arder de GT1 310 . uma aparência enganadora. desestruturar essa construção e analisar as condições dos documentos-monumento” (ibdem). sacralidades passageiras em uma sociedade que dessacraliza.

paixão. portanto. que um documento é “a base de conhecimento fixado materialmente”. No âmbito da problemática do arquivo enquanto memória.397) e 4) a historicidade. podem ser ressignificadas seletivamente a partir do resgate das redes de jogos de verdade e significação. que ao tratar das práticas documentárias evoca quatro propriedades desta ação: 1) a materialidade. levam a crer que através deles GT1 311 . like most others. “of documentary practices is how deeply embedded they are in institutions. o desejo de lembrar a origem e decifrar o que nos comanda. o próprio caráter contingente abre para a possibilidade de pensar os arquivos comos inscrições. Portanto. develop. indício. é incessantemente. não se pode desconsiderar o caráter probatório das inscrições e tudo que se desdobra em seu entorno. rastro. require training. ou seja. como comando. Como baliza de abstração. CONCLUSÕES Discutir de forma crítica o fenômeno que levou e leva as mais diversas sociedades a produzirem documentos. ainda é o modus operandi pelo qual a sociedade trava seu diálogo em busca da verdade. convoca-se ao diálogo Bernard Frohmann (2004). “since documents exist in some material form. criando arquivos para que estes sirvam. todo “signo (índice) concreto ou simbólico. 118). É preciso arquivo para lembrar. resgata-se Suzanne Briet ([1951] 2006) que atesta que “um documento é uma prova suporte de um fato” (p. do que foi dito e do que não foi dito e a intenção que subjaz. ainda. da ação de documentar e da própria formação do arquivo. and vanish-all tinder specific historical circumstances. “documentary practices. 396 ). É não ter sossego. “practices arise. como forma de materialização de uma ação ou atestado de um fato. revestidas (ou não) de autoridade. Sendo um estímulo para continuar a investigação. and other disciplinary measures. ou seja. aquilo que direciona e. 396). a fim de finalizar as primeiras orientações teórico-instrumentais necessárias ao alcance dos objetivos propostos. teaching. the point is reinforced by the role of training in many of Wittgenstein’s language-games and emphasized by Foucault’s link between disciplinary apparatus and the field of documentation” (p. preservado ou registrado com o fim de representar. o mal de arquivo. ou o comando. 2) a institucionalização. reconstruir ou provar um fenômeno físico ou intelectual”.397). 9-10) e. Por tanto.” (p.” (p. prova e toda fragilidade que estes atributos constituem. é preciso arquivo para se ter indícios e também para provar. E de certa maneira. interminavelmente procurar o arquivo onde ele se esconde” ( p. their materiality configures practices with them” (p. essas quatro idéias constituem um caminho útil para a investigação de uma filosofia da informação cujo ponto de partida é o conceito de práticas documentárias. 3) a disciplina social. Na acepção de Bernard Frohmann. decline. esta forma de defrontar a questão do documento. correction. O documento. é efeito da ausência originária e estrutural da memória. Logo. confabulando nas idéias de Jacques Derrida. corroborava e alinhava todo o esforço que se depreendeu para sustentar esta intenção de pesquisa.

it will establish an interrelationship between the thoughts of the French Pierre Nora (Places of Memory. proof (Briet. História da Sexualidade – A Vontade de Saber. não se pode esquecer o valor de pesquisar a construção dos diversos discursos sociais através da formação dos arquivos e principalmente o que subjaz aos discursos. 2000.uwo. FOUCAULT. O mal de arquivo: uma impressão freudiana. Acesso em 19 de junho de 2011. 1996. Rio de Janeiro: Forense Universitária. ______________. 2009. 2007. A arqueologia do saber. a Filosofia e a Arquivística. São Paulo: Loyola. RJ: Graal. Acesso em: 15 de novembro de 2010. Pierre. REFERÊNCIAS BRIET. 1969. Disponível em: http://www. Bernard. Documentation Redux: Prolegomenon to (Another) Philosophy of Information. DERRIDA. 35 ed.ca/people/ faculty/frohmann/selected%20papers. a reflection on the documentary practices (Frohmann. possibly. S. Utilizar a CI como um medium para a discussão e envolver no diálogo outras suas áreas de conhecimento.fims. Library Trends 54 (2004): 387-407. Investigate through the contextualization of contemporary philosophical thought. 2006 [1951])). Petrópolis. M. 1993. fazendo prevalecer o próprio estatuto científico que prima por devolver a sociedade uma reflexão crítica mais elaborada das questões que a cercam. São Paulo. São Paulo: Graal. dez. 2. there would be the scope of the concept of Action Information (Wersig. information – 2. 7. 2001) and Michel Foucault (the Archaeology of Knowledge. an underlying will to truth and justification.pucsp. ed. FROHMANN. Informare (Rio de Janeiro).pode-se encontrar sempre uma resposta é algo que poderá ser realmente significativo para a Ciência da Informação e a sociedade em geral. 1999) through its selective bias in the unfolding issue of training file as evidence. 2001. Trad. A ordem do discurso. Disponível em: http://www. I. Microfísica do poder.pdf. 1993). the Order of Discourse.pdf. 1985 and González Gómez.indiana. Jacques. 1970. O caráter seletivo das ações de informação. 1951. N. 2004) in search of a philosophy of information. Vigiar e Punir. 7-28. 1979). NORA. Entre memória e história: a problemática dos lugares.br/projetohistoria/downloads/ revista/PHistoria10. Vol. parece ser uma forma enriquecedora de ampliar o próprio campo da CI. hence. GT1 312 .slis. Keywords: true – 1. n. v. Da mesma forma. Rio de Janeiro: Relume Dumará. RJ: Vozes. de: Qu’est-ce que la documentation? Paris: Édit. Disponível em: http://www. Rio de Janeiro. Jacques Derrida (Evil File. nº 10. 1977). archive – 3. What is documentation? Lanham: Scarecrow. the notion of truth. p. Jacques Le Goff (Document / Monument. GONZÁLEZ DE GÓMEZ. quiçá a intenção de verdade e justificação. ______________. p. 2006. ______________. 7-31.htm.edu/faculty/roday/ what%20is%20documentation. 2008b. From the perspective of the definition seized. ______________. M. 5. Microphysics of Power. In: Projeto História. Acesso em 10 de janeiro de 2011. Abstract:. from concept to file as a place of memory. 2003. In the search for understanding of this area.

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